UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – CFCH FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO VALORES E USOS DO TEMPO DOS PROFESSORES: A (CON)FORMAÇÃO DE UM GRUPO PROFISSIONAL AMANDA MOREIRA DA SILVA RIO DE JANEIRO 2014 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – CFCH FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO VALORES E USOS DO TEMPO DOS PROFESSORES: A (CON)FORMAÇÃO DE UM GRUPO PROFISSIONAL AMANDA MOREIRA DA SILVA Dissertação apresentada ao Programa de pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Educação. ORIENTADORA: LIBÂNIA NACIF XAVIER RIO DE JANEIRO 2014 2 AGRADECIMENTOS Agradeço e dedico este trabalho à minha família que, desde sempre, mostrou-se uma inesgotável fonte de apoio e incentivo. Agradeço em especial a minha mãe, a meu pai e meu irmão por ajudar a guiar os meus caminhos. Ao Victor, que neste período esteve junto a mim, com paixão, amor e humor, renovando minhas forças, alegrando meus dias e pacificando minhas angústias. A todos os meus amigos e amigas, presentes em todos os momentos importantes de minha trajetória profissional e acadêmica. Aos meus camaradas de lutas estudantis e sindicais. Aos alunos, professores e técnicos administrativos do Programa de pósgraduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE/UFRJ). Aos amigos do Grupo de Pesquisa – Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade(PROEDES/UFRJ). Muito obrigada a cada um de vocês pelos debates e pelos momentos de orientação coletiva. À minha querida orientadora Libania Nacif Xavier pelo respeito às minhas ideias, pelo companheirismo, dedicação e amizade. Aos professores Roberto Leher e Amália Dias pelas sábias orientações no exame de qualificação desta dissertação. Agradecemos com todo carinho, aos professores e professoras da Rede Pública Estadual do Rio de Janeiro. Pessoas generosas que disponibilizaram o seu tempo, falando sem reservas sobre suas vidas, desejos e frustrações, contribuindo para a realização desta pesquisa. Ao povo brasileiro por financiar meus estudos nos mais de 10 anos de formação dentro da Universidade Pública. À vida. 4 Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente. (Carlos Drummond de Andrade - Cortar o tempo) 5 RESUMO SILVA, Amanda Moreira. Valores e usos do tempo dos professores: a (con)formação de um grupo profissional. Rio de Janeiro, 2014. Dissertação (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014. O presente trabalho se insere na área de estudos sobre a história da profissão docente. O cerne desta pesquisa é o conceito de tempo, a partir do qual subsidiaremos grande parte de nossas análises, tendo-o como instrumento para pensar os valores e usos do tempo dos professores: a expropriação do tempo, a sua relação com o tempo de trabalho, com o “tempo livre”, com o tempo de deslocamento, entre outros tempos sociais. Resgatamos a relação entre a legislação e os sujeitos, observando como o poder público lida com o tempo do professor, tendo como marco principal as reformas educacionais brasileiras iniciadas na década de 1990 e seus impactos nas políticas estaduais fluminenses, que interferiram nas condições de trabalho dos professores no período de 1990 a 2013. Desenvolvemos nossas análises por meio da pesquisa empírica em que teoria e evidência interagem segundo a lógica metodológica da própria história. Nossa referência central foi o autor inglês E.P. Thompson. Seus estudos foram de grande valia para analisarmos a categoria tempo, a legislação, o papel dos sujeitos e suas apropriações, revelando o “fazer-se” de um grupo profissional docente. Para compor tal cenário, foi indispensável a observação dos agentes individuais e coletivos de modo a perceber as suas experiências vividas no tempo e no espaço em sua dimensão histórica. Analisamos as percepções que os professores expressam a respeito dos impactos de determinadas políticas educacionais com as quais eles tenham lidado e observamos que a adesão ao Programa Automomia, da Fundação Roberto Marinho/FIESP, é uma forma por meio da qual os sujeitos têm se mobilizado no sentido de preservar sua integridade física e psíquica, buscando fugir dos problemas insurgidos no trabalho, tais como a fragmentação do tempo, o desgaste ao ter que lidar com diversas turmas, a dificuldade em trabalhar longe de suas residências e/ou em diversas instituições de ensino. Muitas vezes essa mobilização não reflete em buscar soluções mais amplas e, assim, acaba sendo uma resistência individual, onde os sujeitos se defendem de um ambiente que os agride. Palavras-chave: Tempo do professor, trabalho docente, políticas educacionais. 6 ABSTRACT The current paper puts in the area of study about the teacher profession history. The girder of this research is the time concept, on the basis of if we will subsidize great part of our analysis, having it as instrument to think about values and uses of teacher’s time: the time expropriation, its relation with time of work, with free time, with the time of movement to work, among other kinds of social time. We have got the relation between legislation and subjects, observing how government authorities deal with the teacher time, having as main mark the Brazilian educational reforms which started in the 1990s and their impacts on politics of Rio de Janeiro state that interfered in the employment conditions of teachers from 1990 to 2013. We have developed our analysis by means of empirical research which theory and evidence interact according to methodological logic of proper history. Our main reference was the English author E. P. Thompson. His studies were valuable for us to analyze the category time, legislation, the role of subjects and their appropriations, revealing what a group of teachers do. To construct such scenery, it was indispensable the observation of individual and collective agents in order to perceive their experience in time and space in their historical dimension. We have analyzed the perceptions that teachers show concerning the impacts of some educational politics which they have dealt and we observed the fact they join in with the Programa Autonomia of Fundação Roberto Marinho/FIESP, is a way that subjects have mobilized in the sense on preserving their physical and psychic integrity, searching for running away from problems emerged at work, such as fragmentation of time, fatigue because teachers work with many classes, the difficult because they work far from their home and/or work at many schools. For many times this mobilization does not ponder on searching for wider solutions, thus in the end it is an individual resistance, where subjects protect themselves from an environment that attacks them. Keywords: teacher’s time, teacher’s work, educational politics. 7 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEB – Câmara de Educação Básica CECIERJ – Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro CIEP – Centros Integrados de Educação Pública CPF – Cadastro de Pessoas Físicas CNE – Conselho Nacional de Educação DIESP – Diretoria Especial de Unidades Escolares Prisionais e Socioeducativas DOC – Docente EJA – Educação de Jovens e Adultos ENCCEJA – Exame Nacional para Certificação de Jovens e Adultos ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio FIES – Fundo de Financiamento Estudantil FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FRM – Fundação Roberto Marinho GLP – Gratificação por Lotação Prioritária IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica IDERJ – Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado do Rio de Janeiro INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação MTE – Movimento todos Pela Educação NEJA – Nova Educação de Jovens e Adultos OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OMC – Organização Mundial do Comércio PAR – Plano de Ações Articuladas PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes PL – Projeto de Lei PREAL – Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina PRELAC – Projeto Regional de Educação para a América Latina e o Caribe PROUNI – Programa Universidade Para Todos SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica SAERJ – Sistema de Avaliação do Estado do Rio de Janeiro SBHE – Sociedade Brasileira de História da Educação SEEDUC – Secretaria de Estado de Educação SEPE – Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação STF – Supremo Tribunal Federal UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura 8 LISTA DE TABELAS TABELA Nº1 – Cálculo da duração da jornada de trabalho dos professores da rede estadual do Rio de Janeiro de acordo com cada função, segundo a lei 11.738/2008....166 TABELA Nº2 – Número de escolas por Regional.......................................................166 TABELA Nº3 – Número de escolas por modalidade de ensino...................................167 TABELA Nº4 – Número de alunos e escolas por Regional.........................................167 TABELA Nº5 – Número de alunos matriculados nas diversas modalidades de ensino.............................................................................................................................168 TABELA Nº 6 – Número de docentes na Rede Estadual.............................................168 TABELA Nº 7 – Motivos de afastamentos de docentes da Rede Estadual..................169 TABELA Nº 8 – Escolaridade dos docentes da Rede Estadual....................................169 TABELA Nº 9 – Remuneração dos docentes da Rede Estadual com os salários aplicados em 2011 e 2012.............................................................................................169 TABELA Nº 10 – Carência de professores da Rede Estadual em novembro de 2011...............................................................................................................................170 TABELA Nº 11 – Identificação dos professores do Programa Autonomia (Regional IV)..................................................................................................................................170 TABELA Nº 12 – Painel dos professores entrevistados com os respectivos nomes fictícios..........................................................................................................................172 9 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 1. 2. 3. 4. 5. 6. Tempo pensado Tempo vivido Tempo do professor Trajetória Aproximações de ordem teórico-metodológicas A estrutura 12 15 17 18 22 24 CAPÍTULO 1: O TEMPO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE 27 PARTE 1 1.1.1. O tempo, o passar do tempo, a utilização do tempo 1.1.2. O tempo como experiência 1.1.3. Tempo, trabalho e vida 1.1.4. O controle e a luta sobre o tempo 28 29 32 35 PARTE 2 1.2.1. O tempo como instrumento para pensar a docência 1.2.2. A regulação do tempo: segundos, minutos e horas na legislação 1.2.3. Tempo para se preparar, aprender e refletir 1.2.4. Tempo de ir e vir: o deslocamento 1.2.5. Tempo fragmentado: uma matrícula, várias escolas 1.2.6. O direito à preguiça: o “tempo livre” dos professores 39 40 47 50 52 55 CAPÍTULO 2: A DOCÊNCIA NO TEMPO E NO CONTEXTO DAS LEIS 60 PARTE 1 2.1.1. A legislação como um campo de batalhas 61 PARTE 2 2.2.1. Condições de trabalho docente e as dimensões quantitativas do ensino 2.2.2. Marcos das políticas públicas para a educação no estado do Rio de Janeiro 2.2.3. Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro: contexto de ação professores estudados 2.2.4. O contexto institucional da SEEDUC: dados recentes 2.2.5. A rede estadual e suas escolas 2.2.6. O fechamento de escolas 2.2.7. Alunos e professores 66 73 dos 76 77 78 81 82 10 PARTE 3 2.3.1. Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação e o Compromisso Fluminense 84 2.3.2. As metas da SEEDUC 87 2.3.3. O Índice de Desenvolvimento da Educação do Rio de Janeiro (IDERJ) 89 2.3.4. Remuneração variável 90 CAPÍTULO 3: O FAZER-SE DOS PROFESSORES DO PROGRAMA AUTONOMIA FRUTO DE UMA EXPERIÊNCIA NA PROFISSÃO DOCENTE 94 3.1. Tempo de pensar a formação e a experiência 95 3.2. Teorias sobre a profissão docente 99 3.3. Professores do Programa Autonomia da Metropolitana IV 105 3.4. Os usos do tempo pelo professor ao longo de sua trajetória profissional 107 3.5. Tecendo diferenças de gênero no uso do tempo 110 3.6. Fazer-se professor(a) do Programa Autonomia: diversos caminhos para um mesmo fenômeno 112 3.7. A classe (professoral) na classe: a relação com os alunos 116 3.8. De uma realidade peculiarmente agressiva surgem diferentes estratégias 120 3.9. A (con) formação dos professores: características de um grupo profissional 122 3.10. Costumes em comum: alienação, adaptação e pertencimento 126 CAPÍTULO 4: TEMPOS E CAMINHOS PERCORRIDOS: UMA DISCUSSÃO METODOLÓGICA 131 4.1. Pontos de ancoragem da análise 4.2. O mosaico de estratégias mobilizadas 4.3. Itinerário de pesquisa: a escolha do grupo de depoentes 4.4. Sujeitos e sujeições: a variação do zoom 131 132 138 144 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICES 147 153 159 11 APRESENTAÇÃO “O tempo é roído por vermes cotidianos. As vestes poeirentas de nossos dias, cabe a ti, juventude, sacudi-las.” (Maiakovski) 1. Tempo pensado Este trabalho de pesquisa foi realizado em meio ao “olho do furacão1”. O ano de 2012 e, especialmente, o de 2013 trouxeram novos elementos para a história do nosso município, do nosso estado e do nosso país. Vivemos um período em que a indignação tomou conta do povo brasileiro e isso se expressou de forma explosiva. Não é a primeira vez que isso acontece na história. Aconteceu agora, em nosso tempo. Vimos milhões de pessoas nas ruas levantando bandeiras múltiplas, novas formas de organização política e um aparato militar do Estado pronto a reprimir qualquer tipo de manifestação. Um período em que a juventude foi às ruas como protagonista de diversos levantes, inicialmente recusando o aumento das passagens de ônibus, movimento que foi se ampliando para o famoso “não é só por 0,20 centavos2”, e que caracterizou o período conhecido como as “jornadas de junho”. Governantes, políticos de todos os partidos, imprensa, cronistas políticos e até mesmo cientistas sociais foram pegos de surpresa pelas manifestações de massa que mudaram a face e o cotidiano de nossas cidades em junho. Pela rapidez com que se espraiaram, pelas multidões que mobilizaram, pela diversidade de temas e problemas postos pelos manifestantes, elas evocam os grandes e raros momentos da história em que mudanças e rupturas que pareciam inimagináveis até a véspera se impõem à agenda política da sociedade e, em alguns casos, acabem transformando em possibilidade algumas mudanças sociais e políticas que pareciam inalcançáveis (VAINER, C., 2013, p. 35). 1 Adotamos a expressão por entender que se trata de uma alegoria ilustrativa do contexto singular em que se deu a escrita desta dissertação. 2 Nas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana, como o tema dos megaeventos esportivos sediados pelo país (em especial a Copa das Confederações, ocorrida naquele momento) e suas lógicas de gentrificação e limpeza social. 12 Poucas e incipientes são as tentativas de balanço, por se tratar de elementos tão novos de um fenômeno tão recente, porém, uma das análises muito interessantes que ajudam a entender tal fenômeno é aquela encampada por Ruy Braga, que faz uso do conceito de “precariado3”. O autor caracteriza o “precariado” como uma juventude que tem dificuldade em se organizar e que fica de fora dos gastos sociais, diferenciado analiticamente do pauperismo (e do lumpemproletariado4), entende que “os trabalhadores precarizados são uma parte da classe trabalhadora em permanente trânsito entre a possibilidade da exclusão socioeconômica e o aprofundamento da exploração econômica”. (BRAGA, 2012, p.19). Tal conceito ajuda ao analisar o fenômeno que ficou conhecido como as “jornadas de junho”, pois grande parte do setor que se levantou teve a característica comum de demonstrar insatisfação perante o mundo da exclusão em que vivem. Deste modo: se os grupos pauperizados que dependem do programa Bolsa Família e os setores organizados da classe trabalhadora que em anos recentes conquistaram aumentos salariais acima da inflação ainda não entraram na cena política, o “precariado” – a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que entram e saem rapidamente do mercado de trabalho, por jovens à procura do primeiro emprego, por trabalhadores recém-saídos da informalidade e por trabalhadores subremunerados – está nas ruas manifestando sua insatisfação com o atual modelo de desenvolvimento (BRAGA, R. 2013, p. 82). Essa análise pode não dar conta de explicar a complexidade do fenômeno que teve um forte impulso através das redes sociais, e englobou diversos outros setores sociais com pautas difusas e confusas, que se expressaram numa multifacetada manifestação de elementos de bom senso contra a ordem ao lado de representações de conteúdos conservadores e mesmo preocupantes do senso comum – como o nacionalismo exacerbado, o antipartidarismo, a retomada da extrema direita (IASI, M., 2013, p.46). 3 Uma parte do subproletariado, mas também uma massa latente de jovens que são atingidos pelo emprego informal e que por ter qualificações escassas enfrentam uma rotatividade no mercado de trabalho. 4 Por lumpemproletariado, Marx compreendia “o lixo de todas as classes” formados por indivíduos arruinados e aventureiros egressos da burguesia, vagabundos, soldados desmobilizados, malfeitores recém-saídos da cadeia, batedores de carteiras, rufiões, mendigos. Para mais detalhes, ver Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte (São Paulo, Boitempo, 2011). 13 Estes setores entraram, mas saíram. A massa popular continuou nas ruas. Os protestos que chacoalharam o Brasil foram resultado em boa parte da inquietação social do “jovem precariado pós-fordista” (BRAGA, 2012, p.187), um proletariado urbano acantonado no setor de serviços, ou seja, jovens incorporados aos milhões ao mercado de trabalho nos últimos anos, mas de forma precária. Todos esses novos elementos da luta de classes exigem uma análise muito cautelosa e criteriosa para entender o que gerou tal levante e o que ocasionará no futuro. O tempo dirá. Um fator extremamente importante a ser destacado é que até o fim de junho nenhuma greve importante acompanhou os protestos de rua – é preciso lembrar que em 2012 houve 58% mais greves do que em 2011. Os movimentos sociais e os grupos da periferia das grandes cidades ficaram em compasso de espera. Na primeira onda de manifestações encerradas em junho, as centrais sindicais, o MST e os partidos de esquerda não lograram polarizar a vida política. Enquanto os protestos desmaiavam nas ruas já cansadas no fim do mês, algo se insinuava no ar. O roteiro previsível do teatro da polícia brasileira se tornou incerto (SECCO, L., 2013, p.78). Após uma onda mais amena de protestos, vimos o furor da juventude atingir em cheio os profissionais da educação do Rio de Janeiro, que também tomaram as ruas cansados da progressiva degradação salarial e de suas condições de trabalho, iniciando uma greve unificada das redes municipal e estadual no dia oito de agosto de 2013, que apesar do trato oferecido pelos poderes executivo, legislativo e judiciário, conseguiu se manter firme por dois meses, contando com amplo apoio da população e culminando no 15 de outubro de 2013, um dia do professor, que definitivamente entrou para a história como um dia de vitória por colocar milhares de pessoas nas ruas, desta vez com uma pauta muito bem demarcada: uma educação pública de qualidade para todos. Assim composto o quadro, é possível definir o espaço-tempo de nossa investigação, situando-o no interior dessa moldura, pois foi nessa conjuntura de novas perspectivas políticas mobilizadas em nível nacional, associado a diversos movimentos de contestação que se desenvolveu a escrita deste texto e a vivência dos sujeitos participantes da pesquisa. Integrando essa realidade, a profissão docente, mostrou-se um terreno privilegiado para a observação das atuais transformações. 14 2. Tempo vivido Dois anos de pesquisa. Tempo curto e diluído em meio a tantos desafios acadêmicos, profissionais e militantes. Diversos fatores vivenciados poderiam ser considerados desfavoráveis para uma boa escrita, tais como: trabalhar mais de 40 horas semanais, morar longe do local de trabalho e estudo ou viver numa conjuntura nacional de manifestações que “desnorteiam” qualquer um que não tem apenas o individual como foco de vida. Todo o tempo vivido foi utilizado de forma positiva, servindo como elementos de reflexão, análise ou mesmo incorporação ao texto. Portanto, esta dissertação não poderia ter sido escrita em momento mais propício. Foram anos marcantes, anos em que entrei e me consolidei na profissão docente, anos em que me indignei ainda mais com as políticas públicas da educação, anos em que muitos se indignaram. Anos em que passei a atenuar o ritmo de militante para dar conta das tarefas das disciplinas do mestrado, dos congressos, da pesquisa, das leituras, da escrita, do trabalho como professora da rede estadual e municipal do Rio de Janeiro; mas que, ao mesmo tempo, em alguns momentos, não me abstive em secundarizar as tarefas do mestrado para me dedicar a uma greve, fazer trabalho de base nas escolas, ir às assembleias, ocupar a câmara de vereadores, estar permanentemente nas ruas junto aos movimentos sociais enfrentando as forças repressoras do Estado para garantir o direito elementar das pessoas que vivem num estado democrático, o direito à livre manifestação. Tempos difíceis, mas prazerosos. Estas pressões enfrentadas refletem diretamente na construção desta dissertação. De momentos de angústia, de incertezas, de alegria e de esperança em ver a categoria dos profissionais da educação protagonizar uma greve histórica é que nasceram os momentos de grande prazer e de muita emoção, pois cada novo elemento dessa luta era uma injeção de ânimo para a escrita deste texto. Manifestei muita alegria em pesquisar o tema, o espaço encontrado para desenvolver uma pesquisa sobre a profissão docente no atual contexto é, de certa forma, um privilégio. Embora os trabalhos sejam autorais, e seja natural que quem escreve coloque sua forma/concepção, essa imersão também impõe muitas dificuldades, pois cada dia foi uma superação a fim de separar as diferentes esferas de atuação, como pesquisadora, professora e militante. Neste sentido, como mestranda e professora, pretendo realmente 15 oferecer contribuições que possam vir a ser aprofundadas, fomentando o processo de discussão da profissão docente. Muitas coisas são necessárias para mudar o mundo: Raiva e tenacidade. Ciência e indignação. A iniciativa rápida, a reflexão longa, A paciência fria e a infinita perseverança, A compreensão do caso particular e a compreensão do conjunto, Apenas as lições da realidade podem nos ensinar como transformar a realidade. (Bertold Brecht) 16 3. Tempo do professor Dia primeiro de fevereiro de 2012, iniciou-se o ano letivo na Rede Pública Estadual do Rio de Janeiro. Os professores que perderam sua lotação com o processo de otimização/fechamento de turmas tiveram que comparecer à Diretoria Regional5 para escolher novas escolas. Esse processo foi massivo e aconteceu em todas as regiões do estado, onde centenas ou mesmo milhares de professores viveram esta situação. Apresentando-se em suas respectivas diretorias metropolitanas, os professores tinham que escolher seus doze tempos de aula a partir da carência atual das escolas que lhes eram apresentadas, se discordassem, seriam alocados à revelia. Ao chegar à Diretoria Regional, encontrei professores que, assim como eu, tinham acabado de ingressar na rede e também professores mais antigos, muitos com mais de dez anos de magistério, que passavam pelo mesmo processo de ruptura com seu cotidiano de trabalho, num clima de decepção, insegurança e incerteza perante aquela situação imposta. Frente à falta de uma orientação sobre o quê fazer, somada à impotência e ao medo de ficar com um horário inviável, os professores acabaram se submetendo àquela situação, tendo que ir várias vezes à diretoria regional para tentar modificá-la. Este foi o meu caso, que durante o mês de fevereiro, fui ao setor de quadro de horários na Diretoria Regional diversas vezes, a fim de escolher um horário minimamente compatível. Meu horário final se diluiu em três escolas nos bairros de Maria Paula, Colubandê e Sacramento, localidades bem distantes do município de São Gonçalo, que totalizam cerca de 25 km de distância de uma para as outras. Esse percurso entre as escolas somava-se ao fato de eu já ter que percorrer cerca de 90 km de minha residência até o local de trabalho, entre os bairros de Campo Grande no município do Rio de Janeiro e o bairro Sacramento no município de São Gonçalo 6. Nas escolas em que atuei durante o ano de 2012, dava aulas de dois ou quatro tempos, tendo que fazer constantes deslocamentos longos no mesmo dia, acarretando um grande cansaço físico, que 5 As Diretorias Regionais são unidades subordinadas à SEEDUC (Secretaria Estadual de Educação), responsáveis por atender às necessidades pedagógicas e administrativas da educação em áreas geográficas específicas do estado. São 14 Regionais, cada qual com uma Diretoria Pedagógica e outra Administrativa. Das 14 Regionais, sete são atuantes em municípios da Região Metropolitana e sete em municípios do interior fluminense. A atual disposição foi regulamentada pelo Decreto nº 42.837, de 04 de fevereiro de 2011, que transformou a estrutura básica da SEEDUC e deu fim à antiga organização, que possuía 30 Coordenadorias Regionais. Fonte: Secretaria do Estado de Educação. SEEDUC em números: transparência na educação. 2011 6 A distância entre os bairros dos referidos municípios podem ser vistas em https://maps.google.com.br/ 17 interferia diretamente na qualidade do meu trabalho. Situações parecidas e até piores se colocaram, pois havia professores com a carga horária diluída em quatro e até cinco escolas e que precisavam fazer esse trajeto de transporte público, geralmente escasso nos bairros do referido município. Com isso, nós, professores, tivemos o nosso tempo ainda mais fracionado, e passamos a ter que lidar com uma referência espaço-tempo que inviabiliza a criação de vínculos pessoais, institucionais e profissionais indispensáveis à realização de um trabalho consistente, consciente e pertinente. Com essa rotina desagregada, durante o ano letivo, fica quase inviável a criação de vínculos com a comunidade escolar, pois não resta tempo para interagir com os colegas, com os alunos, com os pais, ou mesmo com a Direção da Escola, tendo em vista a necessidade de ganhar tempo para estar em tantos lugares diferentes. Chegar às escolas, dar os tempos de aula e imediatamente partir para a outra escola, a fim de chegar no horário para cumprir os tempos de aula previstos na jornada de trabalho, passou a ser a tarefa imposta aos professores. Isso reflete num cotidiano desgastante, levando a relações superficiais com a comunidade escolar, esta que, possivelmente, o professor irá abandonar no próximo ano letivo, quando buscará uma nova escola mais próxima ou com mais tempo concentrado. Considerando esta situação vivida, observamos que a experiência pedagógica dos professores tem sido ligada à vivência de um tempo corrido, tarefeiro e mal remunerado. Os dias da semana se tornam verdadeiros martírios, pois as condições de trabalho os fazem ter uma relação extremamente extenuante com a profissão. E a cada início de ano letivo que se aproxima, há inseguranças e dúvidas, pois a situação vivenciada provavelmente irá modificar mais uma vez, com mais um processo de otimização/fechamento de turmas fazendo com que os professores fiquem sujeitos a novas alterações, fazendo com que a vida funcional desses profissionais seja permanentemente permeada de incertezas. É da vida, do tempo perdido, que estamos tratando. 4. Trajetória O estudo percebe as consequências das condições de trabalho como contribuição ao campo de estudos sobre a profissão docente e toma como tema, preferencial de reflexão e análise, a questão da precarização do trabalho. Para tanto, define como base empírica as condições de trabalho a que estão sendo submetidos os professores das escolas 18 públicas do estado do Rio de Janeiro. A escolha do tema está diretamente ligada à minha atuação como professora desta rede e ao meu inconformismo para com as orientações políticas dirigidas aos professores pela Secretaria Estadual de Educação. Tendo em vista o evidente envolvimento da pesquisadora com as questões de pesquisa que pretendemos desenvolver, resolvi iniciar a apresentação do problema de estudo a partir do relato de minha própria experiência profissional já anunciada e que será detalhada a seguir, com vistas a demonstrar que este relato não é meramente pessoal, mas reflete as condições a que estão submetidos muitos outros professores. A minha7 trajetória como professora do ensino público tem início em 2010 quando, ao terminar a graduação em Educação Física, fui convocada no concurso público para professor da Educação Básica do Estado do Rio de Janeiro. A minha entrada no magistério começa um pouco conturbada, pois eu havia feito concurso para a região da zona oeste que fica próxima da minha residência e acabei sendo convocada, junto a outros professores, para escolher uma vaga em outros municípios, nos quais havia carência de vagas. A escolha não era obrigatória, mas deixar de tomar posse naquele momento significaria perder a chance do primeiro emprego público, pois o concurso perderia a validade e a convocação não mais aconteceria. Dentre as opções apresentadas pela Secretaria de Educação, foi difícil escolher um caminho geograficamente mais curto entre os apresentados, pois todos representariam uma verdadeira viagem para o trabalho. Porém, recém-formada, encarei o desafio e aceitei a vaga no município de São Gonçalo, no qual iniciei trabalhando em uma escola de ensino fundamental e médio, lecionando em doze turmas diferentes e dando um tempo de 50 minutos em cada uma, com uma disciplina para a qual eu não havia sido graduada. Esta disciplina era intitulada “Projeto definido”. Eram muitas as piadas que relacionavam a disciplina a um Projeto indefinido8 devido à inexistência de objetivos apresentados para aquela mais nova invenção9 da Secretaria Estadual de Educação, demonstrando que a disciplina não tinha nenhum valor para os alunos, pois não tinha nenhuma implicação para a sua vida escolar. 7 É válido esclarecer que optamos por escrever este tópico da apresentação com ênfase na primeira pessoa do singular, pois entendemos que a narrativa descrita trata fundamentalmente do contexto em que se insere a autora. O texto será redigido, em algumas partes, na primeira pessoa do plural, criando a cumplicidade entre orientanda e orientadora, produzindo um vínculo entre nossas ideias, que acabaram por convergir na escrita desta dissertação. 8 Título da disciplina utilizado pelos alunos e alguns membros da comunidade escolar. 9 Resolução SEEDUC nº 4359 de 19 de outubro de 2009 que fixa diretrizes para a implantação das matrizes curriculares para a educação básica nas unidades escolares da rede pública e dá outras providências. 19 A criação desta disciplina revelou, por um lado, a falta de planejamento da Secretaria e das escolas, servindo apenas de carga horária complementar para os professores que já estavam nas escolas ou para a alocação de professores dos concursos que estavam para perder a validade. Por outro lado, enfrentou um descrédito dos alunos e dos próprios profissionais da educação: dos primeiros, por não verem um propósito na disciplina, que tinha matrícula optativa e não resultava em nenhum tipo de avaliação; dos segundos, por enfrentarem uma resistência dos alunos e não terem uma proposta de trabalho definida a ser feita naqueles 50 minutos em sala de aula. No ano de 2011, o Projeto Definido extingue-se e, devido à licença médica de um dos professores de Educação Física, provisoriamente, conquisto as vagas em seis turmas, cumprindo minha carga horária de 12 tempos na mesma escola. Apesar da distância que continuava enfrentando e das condições de trabalho extremamente precárias, meu horário estava adequado às atividades a que passei a me dedicar e, finalmente, me sentia uma professora da escola, começando a ter uma relação maior de pertencimento àquele ambiente de trabalho. Essa relação durou pouco, pois no início do ano de 2012, durante as férias de janeiro, eu e mais seis professores da escola fomos comunicados via telefone, pela direção, que precisaríamos deixar a mesma e buscar lotação em outras escolas, pois estávamos excedentes no quadro de horários. Fato lamentado pela direção da escola, que nos informou que havia recebido a informação da Secretaria, às vésperas, e que não tinham outra opção a não ser cumprir as ordens recebidas. Isso não foi um processo isolado, ele se deu em todo o estado do Rio de Janeiro, que além de sofrer a extinção de diversas escolas públicas de ensino noturno, que atendiam jovens e adultos em prédios compartilhados com o município, ainda contou com a otimização/fechamento de turmas regulares nas escolas existentes e a abertura de novas turmas do Programa Autonomia10, que existe desde 2009 e utiliza a metodologia do 10 O Programa Autonomia é o resultado de uma parceria entre o Banco Mundial, a Fundação Roberto Marinho e a SEEDUC. Se propõe a acelerar a formação dos alunos que se encontram em defasagem em relação ao fluxo idade-série, levando a que estes sejam agrupados em turmas “de aceleração”, que levarão apenas um ano para completar o ensino fundamental e 18 meses para terminar o ensino médio. Assim, o “Autonomia” diminui a distorção idade-série e a repetência escolar, elevando consequentemente o IDEB. A partir da análise dos indicadores do IDEB, o MEC ofereceu apoio técnico ou financeiro aos municípios com índices insuficientes de qualidade de ensino. O aporte de recursos se deu a partir da adesão ao Compromisso Todos pela Educação e da elaboração do Plano de Ações Articuladas (PAR). A adesão a projetos como o Autonomia, está inserido no Compromisso Todos pela Educação que propõe diretrizes e estabelece metas para o IDEB das escolas e das Redes Municipais e Estaduais de Ensino. 20 Telecurso FRM-FIESP11 para aceleração da aprendizagem dos alunos com distorção idade-série. Atualmente, o programa atende mais de 47 mil alunos dos níveis fundamental e médio da rede pública do estado12. A resolução nº 4295 de 04 de junho de 2009 da SEEDUC, afirma em seu artigo 2º que O Projeto Autonomia é implementado por meio da instalação de Telessalas, utilização do material do Novo Telecurso, professores capacitados pela Fundação Roberto Marinho, alunos regularmente matriculados e espaços existentes na escola, integrando a unidade escolar e a Rede Estadual de Educação. É importante enfatizar a ingerência do Banco Mundial na política educacional dos países considerados em desenvolvimento, definindo a agenda geral dos rumos que a educação deve seguir, sendo esta, em geral, recontextualizada. Além disso, outro importante fato é a participação em número crescente de empresas privadas na educação pública brasileira. O Programa Autonomia é lançado dentro desse contexto de aumento da participação do empresariado em um governo de perfil administrativo neoliberal, de uma verdadeira evasão de professores e de um discurso de inserção de tecnologias novas na Educação do Estado do Rio de Janeiro. Diferentemente da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que conta com um professor para cada disciplina, as telessalas do Programa Autonomia utilizam apenas um professor por turma. O resultado é que vários professores simplesmente não têm mais turmas para lecionar e precisam mudar de escola, dividir seu tempo entre várias unidades, encaixar-se em horários já estabelecidos, etc. Em algumas escolas da Rede ocorreram fechamentos de turmas do ensino regular para que em seu lugar fossem abertas turmas do Programa Autonomia, o que gerou forte crítica do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE), pelo fato de apenas um professor ser responsável por todas as disciplinas, sendo “reduzido a um mero 11 O Telecurso é uma iniciativa conjunta da Federação das Indústrias do estado de São Paulo (FIESP) e da Fundação Roberto Marinho. Atualmente o programa é adotado nos estados do Acre, Amazonas, Minas Gerais (na Rede Municipal de Ensino) Pernambuco e Rio de Janeiro (nas Redes Municipal e Estadual de Ensino). O índice de aprovação do Telecurso, que chega a mais de 90%, é um dos principais motivos que levam governos estaduais a adotarem este programa como política pública de ensino. (Disponível em: www.telecurso.org.br acesso em 27 de outubro de 2012) 12 Método diferenciado de ensino conquista jovens. O Fluminense. Niterói, 30/03/2013. Nacional/Mundo, p.2. 21 entregador de conhecimentos prontos” (SEPE, 2012) e pela falta de comunicação entre a SEEDUC e as escolas, que só foram informadas que possuiriam turmas do Programa depois do final do ano letivo anterior, quando os professores já estavam de férias13. Com a implantação de Programas como o Autonomia, com o fechamento de turmas e escolas, a cada início de ano letivo, muitos professores da rede estadual precisam mudar de local de trabalho e dificilmente conseguem concentrar seu horário em apenas uma instituição, precisando desdobrar-se em diversas escolas a fim de completar a sua carga horária. Não encontrando palavras para descrever tal sensação de insegurança perante essas situações, busquei a partir daí entender a fragmentação do tempo do professor, como os profissionais lidam com essas inseguranças e frustrações de não poder manter um vínculo institucional que exige a atividade docente. Afinal, como os professores têm lidado com tudo isso? 5. Aproximações de ordem teórico-metodológicas As páginas que seguem são resultado de três anos de trabalho, estudo e pesquisa, que permitiram o amadurecimento das ideias aqui contidas. Ora trabalhando dentro de uma perspectiva histórico-conceitual, ora fazendo pesquisas exploratórias e de campo, pude acumular experiências e uma tímida ousadia que me impulsionou a escrever algo a respeito do que vivencio e observo no cotidiano dos professores. Sem o objetivo de cair no ecletismo, buscaremos não fazer uma conciliação entre autores de diversas matizes teóricas, e sim buscar uma confluência, afirmando uma complementaridade sem contudo expressar uma diferença ou oposição de ideias. Traremos insights interpretativos a partir das intervenções no campo empírico e das vivências expostas pelos sujeitos. Desenvolveremos nossas análises14 por meio da pesquisa empírica em que teoria e evidência interagem segundo a lógica metodológica da própria história. Nossa referência central foi o autor inglês E. P. Thompson, que consegue extrair de suas fontes uma leitura perspicaz, que revela com sua escrita mordaz, críticas a linhas de pensamento e escolas teóricas que são, a seu ver, falhas em reconhecer as nuances do processo histórico. Buscarei a motivação para estudar a profissão docente com profunda 13 Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação. Nota oficial do SEPE sobre o Programa Autonomia da SEEDUC: Autonomia para quem? Disponível em: http://www.seperj.org.br/ver_noticia.php?cod_noticia=2758 acesso em 28 de novembro de 2013. 14 Para mais detalhes sobre os procedimentos metodológicos utilizados na pesquisa, ver o último capítulo: “Tempos e caminhos percorridos: uma discussão metodológica”. 22 simpatia, muito inspirada naquela que Thompson nutria pelos plebeus ingleses do século XVIII e pela forma com que se organizavam enquanto grupo social em oposição a outros que os queriam subalternizar. O resgate de E. P. Thompson e de sua lógica histórica, assim como de sua trajetória intelectual e política adquire relevância nos dias de hoje e nos ajuda a analisar a categoria docente. A presença de Thompson como referência nas obras dos historiadores da Educação tem crescido e/ou tem sido mantida, embora ainda não seja dos mais citados. Uma boa amostra pode ser buscada nas referências ao historiador inglês presentes em artigos da principal revista brasileira da área, a Revista Brasileira de História da Educação publicada pela Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). Acompanhando todos os números publicados da revista, pude constatar a presença de referências a E. P. Thompson em apenas oito artigos, num total de 224 artigos, em 32 edições do periódico acadêmico, entre os anos de 2001 e 2013. Numa apreciação geral, pode-se dizer que, se esse autor não é um dos “campeões de citações” entre os artigos da revista15, mas encontramos referências que demonstram a importância do autor para a história da educação. Não é ocioso lembrar que noções tão frequentadas pela historiografia educacional mais recente, tais como tempos e espaços sociais, disciplina e controle, costumes/hábitos, ritos, sociabilidades, histórias de vida, entre outros, foram objetos das preocupações de Thompson desde os anos 50 do século XX pelo menos, justamente na tentativa de conferir aos marginalizados pela história oficial o seu lugar na construção da história. Na graduação, durante a iniciação científica, tive um contato inicial, porém profundo, especificamente com uma das obras de Thompson: os três tomos de “A formação da classe operária inglesa16”. Esse contato inicial, já me fez nutrir pelo autor uma profunda admiração, seja por sua simpatia pelos “esquecidos”, seja por sua prática historiográfica. Retomar as leituras de Thompson hoje no mestrado, em especial leituras 15 Poucos estudos de história da educação tomam a obra de Thompson e da chamada história social inglesa, mesmo como referência marginal. Pelo menos aqueles que têm circulado no Brasil. Podemos identificar o estudo de Taborda (2008) como uma das publicações recentes que trabalha diretamente com os conceitos de Thompson e faz um estudo mais sistemático sobre as contribuições do autor para a pesquisa em história da educação. Disponível em: http://www.rbhe.sbhe.org.br/index.php/rbhe/article/view/112 acesso em 11 de novembro de 2013. 16 FORTES, Alexandre. SILVA, Amanda Moreira. Revisitando um clássico da história social: a estrutura narrativa de A Formação da Classe Operária Inglesa. Rev. Univ. Rural, Sér. Ciências Humanas. Seropédica, RJ, EDUR, v.29, n.2, jul-dez, p.01-24, 2007. Disponível em: http://www.editora.ufrrj.br/revistas/humanasesociais/rch/rch29n2/01-24.pdf 23 que não tive contato anteriormente, entendendo sua crítica ativa ao materialismo histórico, seu conceito de experiência, de costumes e modos de vida, sua polêmica com o estruturalismo de Althusser, e seus escritos sobre cultura17 popular, me fizeram perceber a riqueza que o autor da “Formação” poderia me oferecer. Ao descrever a “consciência de classe” e a compreensão das experiências em termos culturais, Thompson percebe que grande parte dessa experiência se encontra condicionada às relações produtivas dentro das quais os homens nascem e são inseridos a ela involuntariamente. Seus estudos atenderam às diversas partes da história, da história do trabalho à história da cultura, principalmente da história social e inspirou pesquisas originais sobre temas que vem afligindo a nossa sociedade. Tomaremos como base seus escritos para analisar a categoria tempo, a legislação, o papel dos professores e suas apropriações, constituindo o “fazer-se” de um grupo profissional. Portanto, suas obras permearão todos os capítulos dessa dissertação. 6. A estrutura O trabalho não respondeu apenas a um plano de pesquisa rigidamente definido, mas foi movido pelo contato com as fontes, pois o material acabou levando a novas direções. A situação das páginas que seguem fugiu parcialmente do projeto que lhes deu origem. Inicialmente pretendíamos fazer um estudo sobre as condições de trabalho dos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Imaginamos um trabalho que incluísse um capítulo introdutório sobre a profissão docente e suas atuais condições de trabalho; outro que trouxesse análises documentais baseadas em fontes Secretaria de Educação e por fim; um capítulo que desse voz aos professores da rede estadual e que se inserem numa lógica precarizada de trabalho. De certa forma, tal proposta ainda está presente nesta dissertação, porém um novo horizonte da pesquisa começou a se delinear a partir do exame de qualificação, quando, junto à orientadora e à banca examinadora do projeto, pudemos reformular questões e delimitar o referencial teórico-metodológico. Quando comecei a escrever sobre as condições de trabalho docente e observar as fontes orais, percebi que surgiram novas categorias de análise que foram confirmadas com a observação empírica. A partir 17 Sobre o conceito de cultura em Thompson, é preciso fazer duas ressalvas. A primeira, lembrada pelo próprio Thompson, de que cultura é um conceito muito impreciso (como economia ou política), sendo mais uma noção geral que um conceito. A segunda, lembrada por Badaró (2012, p. 118), de que, ao contrário de classe social, o conceito de cultura não teve como campo privilegiado de emprego a tradição do materialismo histórico. 24 daí, o que era para ser introdutório se tornou praticamente o conjunto do trabalho e a questão do tempo demonstrou ser realmente central para o entendimento do nosso objeto de pesquisa. Então, a guinada para estudar o(os) conceito(os) de tempo se deu de forma mais enfática, despertando a vontade de dar mergulhos mais profundos na temática, embora o tempo da conclusão da dissertação e o tempo exíguo restante das minhas atividades laborais só tenham me permitido ficar na superfície. Como se vê, a centralidade do tempo extrapola o objeto estudado, estabelecendo limites ao próprio estudo que pretende compreender a sua ação sobre a vida social. Pretendemos permear todo o texto com narrativas sobre a experiência vivida pelos professores, cuidando para que esta seja entrelaçada com a reflexão teórica. O estudo terá como base relatos e problemas. Chamamos de relatos, aquela história construída pelos viventes a partir de seus depoimentos, com base nas memórias e nas percepções produzidas pelos professores sobre o vivido e vivenciado. E de problemas chamaremos o estudo dos processos históricos que engendram os acontecimentos destacados como relevantes, sobre os quais nós empreenderemos uma análise e a verificação de suas causas. Esta dissertação está organizada em quatro capítulos que tratam de temas diferentes nas suas raízes, embora sejam convergentes na problemática. No capítulo um, começaremos pelo cerne desta pesquisa, o conceito a partir do qual subsidiaremos grande parte de nossas análises: a noção de tempo, tendo-a como instrumento para pensar as condições de trabalho dos professores. No capítulo dois, dividido em três partes, consideramos dois níveis de análise: na parte um, trataremos da relação entre legislação e sujeitos; na parte dois, abordaremos os objetivos gerais da educação, tal como são definidos pelas autoridades escolares. Interessa, também, perceber como o poder público lida com o tempo dos professores, definindo por fim, quais serão os recortes espaciais e temporais para os quais esta pesquisa se volta. Neste capítulo, investigaremos as reformas educacionais brasileiras dirigidas aos professores das escolas públicas fluminenses, no período de 1990 a 2013. Além disso, recolhemos indícios (documentos/dados) que permitiram caracterizar as políticas atuais da SEEDUC em sua interferência na rotina dos professores, buscando assim, demonstrar através dos dados oficiais, a intensidade das mudanças na organização e funcionamento da rede escolar que o estado tem provocado. No terceiro capítulo resgatamos as experiências de um grupo de professores que me parece ter especial relevância: os professores do Programa Autonomia. Destacamos as 25 ações cotidianas a fim de precisar de que modo os professores respeitam, adaptam e transformam tanto os objetivos gerais da educação quanto os programas escolares no seu processo concreto de trabalho. Buscaremos observar as condições de trabalho docente na rede pública estadual, assim como a construção da profissão de acordo com os relatos dos próprios professores em entrevistas concedidas para este estudo. Analisamos as percepções que os professores expressam a respeito dos impactos de determinadas políticas educacionais com as quais eles tenham lidado, destacando as condições de trabalho, o grau de autonomia no desenvolvimento de seu trabalho, além de outras questões enfatizadas nos depoimentos colhidos. E por fim, no último capítulo arremataremos com algumas palavras sobre a metodologia adotada e o trato com as fontes utilizadas na pesquisa. Certamente escolher uma instituição para a pesquisa facilitaria nosso trabalho, porém, nosso foco não foi institucional. Nós optamos, sim, por uma abordagem sócioprofissional que não se furta em compreender as experiências dos professores e professoras em relação às políticas educacionais e suas condições de trabalho, assim como por meio da observação de suas formas de lidar com a realidade e de produzir respostas aos constrangimentos a que estão submetidos. Ora, quando se trata de procurar pontos comuns entre os indivíduos, convém restringir um tanto o alcance das situações. Assim, escolhemos a profissão docente; uma só rede de ensino, a estadual do Rio de Janeiro; um só nível de ensino, o ensino secundário; e um só Programa: o Autonomia; numa região geográfica limitada. Optamos por três gerações de professores (os com menos de cinco anos de atuação, outros com mais de cinco e menos de 15 anos de magistério e outros com mais de 20 anos de profissão) que viveram estruturas institucionais e acontecimentos históricos diferentes e que lecionam disciplinas diferentes. Especificamente nossa pesquisa de campo teve como objetivo: identificar as estratégias utilizadas pelos professores antes e depois deles aderirem ao Programa Autonomia. Trata-se de considerar o que fizeram, o que fazem e como lidam com o próprio tempo. Esta dissertação é minha oportunidade de explicar o que aprendi sobre o trabalho docente e também de sugerir, com um expressivo grau de modéstia e total reconhecimento de minhas próprias limitações e erros, os resultados da pesquisa e o resultado do teste das hipóteses que nortearam todo o percurso. Deixo claro, e assumo, tão conscientemente quanto possível, todo o ardor que emprego na discussão do tema. Resguardando as dificuldades de análise ao fazer a 26 história do tempo presente, estar imersa na realidade da pesquisa e passar diretamente pela experiência que origina o objeto do estudo; foi muito bom ter a oportunidade de trabalhar um tema tão presente na minha experiência profissional. Certamente, isso fez do tema de pesquisa algo mais apaixonante. CAPÍTULO 1: O TEMPO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE Cada (tic-tac) es un segundo de la vida que pasa, huye, y no se repite. Y hay en ella tanta intensidad, tanto interés, que el problema es sólo saberla vivir. Que cada persona lo resuelva como pueda. Frida Kahlo Teremos no presente capítulo o objetivo de ensaiar uma análise do conceito de tempo como categoria central, somado às noções de experiência, cultura, indivíduo e sociedade, estando atentos a como essas categorias podem nos ajudar a analisar as condições atuais do trabalhador docente. Para isso optamos por dialogar com autores como Thompson, Marx, Elias, entre outros, que nos oferecem um aporte teórico capaz de lançar luz sobre essas temáticas. A escolha do referencial se deu pelo fato de serem teóricos que direta ou indiretamente se debruçaram sobre o tema central do tempo, assim como os conceitos adjacentes citados e por considerar a forma tão sublime, real e crítica com que tratam as referidas questões na história de nossa sociedade em suas diferentes formas de abordagem. Discutiremos as potencialidades de algumas ideias contidas em determinadas obras dos referidos autores, especialmente tentando encontrar nas produções teóricas o lugar de onde cada autor está lendo e escrevendo para, a partir daí, dialogar com cada um deles. Assim, buscaremos resgatar de forma crítica e reflexiva, conceitos e contextos nos quais as relações entre tempo, trabalho, experiência, cultura, indivíduo e sociedade foram sendo construídas e transformadas. Portanto, o objetivo deste capítulo é desenvolver um aporte teórico mais conceitual, que ajude no discorrer da dissertação, orientando a análise empírica que pretendemos desenvolver. Desta forma, não objetivaremos fazer um capítulo teórico inicial puro e outros baseados apenas na parte empírica, mas, ao contrário, pretendemos estabelecer uma relação dialética, colocando a teoria em diálogo com a empiria, todo o tempo, de forma que os conceitos ajudem na interpretação, refutação ou contestação das hipóteses apresentadas e do material empírico levantado. Assim, todo o trabalho estará 27 permeado de questionamentos e a interpretação será buscada a partir do que os sujeitos da pesquisa apresentarem. PARTE 1 1.1.1. O tempo, o passar do tempo, a utilização do tempo... Na busca por compreendermos qual a relação dos professores com o seu tempo, antes nos questionamos sobre a relação do indivíduo e da sociedade com o tempo, fomos buscar algumas definições que pudessem ajudar a analisar o tempo na trajetória profissional dos docentes. Ao discorrer “Sobre o Tempo”, Nobert Elias (1998) trouxe uma contribuição fundamental que servirá de pontapé inicial para a discussão a qual nos propomos. Em sua importante obra, nos limitaremos ao quesito que tange à observação da função social do tempo como meio de orientação e de regulação social. Observamos que ele desenvolve uma teoria sociológica de vasto alcance, porém, não versa nem sobre o tempo de trabalho nem sobre o tempo livre. Para dar conta desses tempos que nos interessam mais diretamente ao analisar a profissão docente, recorreremos a outros autores que se apresentarão no decorrer do texto. A concepção de tempo social, de Elias, servirá de base para a exposição que seguirá no presente capítulo. O tempo de que falaremos não é o tempo dicotomizado, que didaticamente se costuma separar, numa tentativa de compreendê-lo: os tempos social e físico. Concordamos com o autor, quando afirma que estes dois tempos, separados no tempo da intimidade de nosso ser, não fazem sentido. Elias propõe uma alternativa de superação da dicotomia das ciências, prefere analisar o tempo num contexto sociológico e, para isso, traz uma ideia básica e necessária para entender o tempo: não se trata do homem e da natureza, como fatos separados, senão do homem na natureza. Com isso, fica facilitado o empenho de investigar o que significa o tempo, por entender que a dicotomia do mundo em natureza (área de estudo das ciências naturais) e sociedades humanas (área de estudo das ciências humanas e sociais) conduzem a uma cisão de mundo, que segundo o autor é produto artificial de um desenvolvimento científico dicotômico. Trouxemos esta contribuição de Elias porque não se trata aqui de compreender o tempo de forma isolada, pois este há de ser considerado no contexto da sociedade. Se a 28 sociedade não é formada por homens independentes do mundo exterior, o tempo deve ser produzido em interação com outros elementos da vida social, em articulação. Foi graças a Elias, que argumentando sobre o “tempo físico” o articulou ao “tempo social” e se posicionou diante dessa nova faceta, podendo assim trazer importantes contribuições para a historiografia da educação. Nesse empenho, traremos Thompson (2011), que nos ajuda a compreender até que ponto, e de que maneira, a mudança no senso de tempo afetou a disciplina de trabalho, e até que ponto influenciou a percepção interna de tempo dos trabalhadores. Ao analisar a transição para a sociedade industrial madura, o autor observa a reestruturação rigorosa dos hábitos de trabalho e de que forma isso se relaciona com a mudança da noção interna do tempo. O que Thompson examina não são apenas as mudanças na técnica de manufatura, que exigem maior sincronização do trabalho e maior exatidão nas rotinas do tempo em qualquer sociedade, mas como essas mudanças são experienciadas na sociedade capitalista industrial nascente. O autor se preocupa simultaneamente com a percepção do tempo em seu condicionamento tecnológico e com a medição do tempo como meio de exploração da mão de obra, o que nos interessa bem de perto. 1.1.2. O Tempo como experiência O tempo é um instrumento criado pelo ser humano, capaz de coagir os indivíduos a se orientarem de acordo com as noções criadas, “uma instituição cujo caráter varia conforme o estágio de desenvolvimento atingido pelas sociedades” (ELIAS, 1998, p.15). A partir da fundamental contribuição de Thompson (2011) ao analisar a cultura europeia, entendemos que a transição para a sociedade industrial foi acompanhada de mudanças na percepção do tempo, acarretando uma reestruturação rigorosa dos hábitos de trabalho e a adoção de uma nova disciplina de trabalho que culminou numa mudança na percepção e numa nova experiência do tempo. Tal como Elias, Thompson considera o aspecto cultural que perpassa a noção de tempo, trazendo exemplos de como diferentes povos atuam na organização de sua temporalidade, utilizando-se de elementos recorrentes em sua cultura para medir e dividir o tempo. Para exemplificar as diversas formas de aferição do tempo nas diversas sociedades e buscar a noção de tempo desvinculada de nossa realidade ocidental 29 capitalista, traremos a contribuição da etnologia de Evans-Pritchard (1978) que faz uma análise da estrutura social Nuer18, na qual o sistema social é um sistema dentro do sistema ecológico, ou seja, as relações sociais deste povo nilota são diretamente influenciadas por limitações ecológicas. Evans-Pritchard demonstra com vários exemplos como os Nuer têm maior facilidade em falar do tempo em relação às atividades que executam, em vez de falarem abstratamente ou em números. Ao observar esse povo na década de 1930 a 1950, culminando em uma conhecida trilogia, o autor analisa, entre outros fatores, o senso de tempo dos Nuer: Os Nuer não possuem uma expressão equivalente ao ‘tempo’ de nossa língua e, portanto, não podem, como nós podemos, falar do tempo como se fosse algo de concreto, que passa, pode ser perdido, pode ser economizado, e assim por diante. Não creio que eles jamais tenham a mesma sensação de lutar contra o tempo ou de terem de coordenar as atividades com uma passagem abstrata do tempo, porque seus pontos de referência são principalmente as próprias atividades, que, em geral, têm o caráter de lazer. Os acontecimentos seguem uma ordem lógica, mas não são controlados por um sistema abstrato, não havendo pontos de referência autônomos aos quais as atividades devem se conformar com precisão. Os Nuer têm sorte (EVANS-PRITCHARD, 1978, p.116). Para efeito de compreensão, podemos perceber que os Nuer pensam com muito mais facilidade em função das tarefas que realizam do que em unidades puras de tempo, há um verdadeiro descaso pelo tempo dos relógios, sua relação é muito maior com os ritmos naturais. Não há unidades de tempo dentro do mês, dia e noite. As pessoas indicam a ocorrência de um acontecimento há mais de um dia ou dois fazendo referência a algum outro acontecimento que tenha ocorrido ao mesmo tempo ou contando o número dos “sonos” ou dos “sóis”. Existem termos para hoje, amanhã, ontem, etc., mas não possuem qualquer precisão (IBIDEM, p.113). Elias também traz exemplos de tipos primitivos de determinação do tempo, baseados no sol e na lua, que segundo ele “representam um nível de síntese ou de abstração relativamente baixo” (ELIAS, 1998, p.75). Essas modalidades de determinação do tempo que repousam sobre um acontecimento pontual, como na observação de uma lua nova, por exemplo, representam uma determinada forma de experiência do tempo. 18 Grupo de povos africanos que falam línguas nilóticas e habitam a região sul do vale do rio Nilo. 30 É preciso destacar, que ao analisar o tempo há sempre o risco de cair no etnocentrismo 19 ou no anacronismo20, neste caso, como em muitos outros, produzimos e reproduzimos o conhecimento em função de nossa sociedade e de nosso tempo. É sempre bom resgatar que em outros contextos a naturalização do tempo como conhecemos causaria estranhamento. Fabian (1983), referência importante para os debates teóricos e epistemológicos sobre os limites e as possibilidades da interpretação antropológica, se dedica em “Time and the other” a fazer uma análise histórica para demonstrar a criação, transformação, e diferenciação dos usos do tempo. Para Fabian, o conhecimento produzido possui uma contradição fundamental: de um lado a Antropologia está baseada na pesquisa de campo, que consiste em uma prolongada interação como outro, mas a construção do conhecimento utiliza-se de um discurso sobre “o Outro” fundado em uma distância espacial e temporal. Para Fabian, o que se produz é uma situação em que o outro é colocado em temporalidade alguma. Afirma que é preciso imaginação e coragem para imaginar o que iria acontecer com o Ocidente se sua fortaleza no tempo fosse subitamente invadida pelo tempo do Outro. (FABIAN, 1983) Assim sendo, trazemos exemplos de outras atitudes que se aproximam ou afastam de nós em termos de compreensão de tempo, entendendo não como ausência de tempo, mas como o “tempo do Outro”. Sem objetivar aqui superar os limites de uma temporalidade linear, ou de problematizar mais a fundo a característica de nosso modelo de cientificidade e de representação/percepção do tempo, trouxemos outros exemplos de construções sociais nas quais a utilização do tempo tem sido realizada. Antes da sociedade industrial havia uma irregularidade característica dos padrões de trabalho, onde percebemos o tempo organizado por tarefas. Conforme exemplificou Thompson: Em Madagáscar, o tempo podia ser medido pelo “cozimento do arroz” (cerca de meia hora) ou pelo “fritar de um gafanhoto” (um momento). Registrou-se que os nativos de Cross River que dizem: “o homem morreu em menos tempo do que leva o milho para assar” (menos de quinze minutos). [...]. No Chile do século XVII, o tempo era medido em “credos”, um terremoto (1647) como tempo de “dois credos”, e o cozimento de um ovo, por uma “ave Maria” rezada em voz alta (THOMPSON, 2011, p. 269-270). 19 Etnocentrismo: atitude emocional que sustenta o grupo, a raça ou a sociedade a que uma pessoa pertence, superiores a outras entidades raciais, sociais ou culturais. Esta atitude encontra-se associada ao desprezo pelo estrangeiro ou pelo forasteiro, assim como pelos seus costumes. Disponível em: http://chafic.com.br/chafic/moodle/file.php/1/Biblioteca_Virtual/Temas_educacionais/Dicionario_de_Soc iologia.pdf 20 Anacronismo: erro que consiste em situar numa época personalidades, acontecimentos, costumes ou estilos próprios de outra. Disponível em: Dicionário enciclopédico ilustrado. São Paulo: Larousse, 2007. 31 Sobre a orientação por tarefas que surge nesses contextos, sejam eles primitivos, em alguns contextos rurais e vilarejos, Thompson propõe três questões: Primeiro, há a interpretação de que é mais humanamente compreensível do que o trabalho de horário marcado. O camponês ou o trabalhador parece cuidar do que é uma necessidade. Segundo, na comunidade em que a orientação pelas tarefas é comum parece haver pouca separação entre “o trabalho” e “a vida”. As relações sociais e o trabalho são misturados – o dia de trabalho se prolonga ou se contrai segundo a tarefa – e não há grande senso de conflito entre o trabalho e “passar o dia”. Terceiro, aos homens acostumados com o trabalho marcado pelo relógio, essa atitude para com o trabalho parece perdulária e carente de urgência (THOMPSON, 2011, p.271272). 1.1.3. Tempo, trabalho e vida Certamente, as mudanças na complexidade das sociedades, a divisão do trabalho e a diferenciação funcional dos indivíduos fazem com que a operação de determinação do tempo tome uma direção específica. A experiência do tempo é vivida, sentida e percebida de diversas formas em cada momento histórico e varia de acordo com cada cultura. Formularemos aqui, unicamente, uma problematização prévia, um ponto de partida sobre a concepção do tempo e sua utilização em nossa sociedade. Elias (1998) afirma que as mudanças que afetam a operação de determinação do tempo tomam uma direção específica quando as sociedades incorporam um número cada vez maior de indivíduos, e quando se orientam para uma crescente diferenciação funcional. Na mesma linha, porém num outro viés de análise, Thompson (2011) afirma que quando o tempo começa a “se transformar em dinheiro, o dinheiro do empregador”, e se contrata a mão de obra real, fica “visível a transformação pelas tarefas no trabalho de horário marcado” (p.272), ainda que essa regulação do tempo de trabalho preceda a difusão do mecanismo do relógio. Nesse sentido, o tempo e as medidas temporais decorrem dos processos de urbanização, comercialização e mecanização da produção, provocando profundas alterações na sociedade. E por isso trazem maior dependência dos instrumentos criados para medir o tempo e menor dependência de medidas baseadas nos fenômenos da natureza. Pelo que se pode observar, o tempo passa a ser elemento imprescindível na coordenação e integração das relações sociais, isto porque as atividades a serem 32 sincronizadas na modernidade são maiores e em redes mais complexas. Com a maior dependência das medidas temporais, há uma ênfase excessiva na temporalidade, ocasionando a sensação de escassez do tempo. Nesse contexto, resgatamos o questionamento: “Como pode um conceito geralmente considerado decorrente de um altíssimo nível de síntese exercer uma coerção tão intensa nos homens?” (ELIAS, 1998, p.39) O autor retrata como o tempo adquire novos contornos e novas concepções são introduzidas na vida dos seres humanos, como por exemplo, os relógios e os calendários que passam a determinar o tempo numa continuidade evolutiva, acarretando uma reestruturação rigorosa de hábitos de trabalho e uma nova vida para o trabalhador é exigida. Conforme expõe Elias, os calendários já passaram por inúmeras reformas até chegarem aos modelos atuais, dias e meses do calendário se constituem em um modelo repetitivo da não repetição da sequência de fatos. Tais formas de se medir tempo trouxeram uma certa previsibilidade e padronização diante da irreversibilidade do mundo. Para avançar na compreensão do tema, Elias traz uma nova contribuição para a discussão a respeito da medição do tempo. Assim ele expressa: O que chamamos de “tempo” nada mais é do que o elemento comum a essa diversidade de processos específicos que os homens procuram marcar com a ajuda de relógios ou calendários. Mas, como a noção de “tempo” pode servir para determinar, de acordo com o antes e o depois, processos muito variados, os homens têm facilmente a impressão de que o “tempo” existe independentemente de qualquer sequência de referência socialmente padronizada ou de qualquer relação com processos específicos. “Estamos medindo o tempo” dizem eles, quando se esforçam por sincronizar, por datar alguns aspectos apresentados por processos específicos e tangíveis, em termos potenciais ou efetivos (ELIAS,1998, p.84). Antes da revolução industrial “o padrão de trabalho sempre alternava momentos de atividade intensa e de ociosidade quando os homens detinham o controle de sua vida produtiva” (THOMPSON, 2011, p. 282). Ao analisar a aferição do tempo como meio de exploração da mão de obra, afirma: O que estamos examinando neste ponto não são apenas mudanças na técnica de manufatura que exigem maior sincronização de trabalho e maior exatidão nas rotinas do tempo em qualquer sociedade, mas essas mudanças como são experienciadas na sociedade capitalista industrial nascente. Estamos preocupados simultaneamente com a percepção do tempo em seu condicionamento tecnológico e com a medição do tempo como meio da exploração da mão de obra (THOMPSON, 2011, p.289). 33 É importante destacar nesta discussão, ainda que sumariamente, a revolução teórica de Marx: a questão do tempo-mercadoria. Ainda que Marx não tenha se indagado diretamente a respeito da questão “o que é o tempo?”, ou melhor, mesmo não tendo situado a questão nestes termos, incontestavelmente Marx trouxe muitas contribuições para o conhecimento científico do tempo. Rejeitando a concepção de tempo abstrato, linear e dissociado dos acontecimentos concretos, fez sobressair o seu caráter político, econômico e cultural, descobertas que culminaram com o conceito de sobrevalor (mais-valia). Marx descobriu que o tempo é a realidade quantitativa do trabalho, base do processo de extração da mais-valia (o trabalhador é concebido como tempo de trabalho personificado, determinação quantitativa do trabalho), metamorfoseada como fetiche na mercadoria. Rompendo com os preceitos da economia clássica de Smith e Ricardo, Marx examinou a teoria do valor trabalho em uma perspectiva inteiramente nova. Com efeito, em sua formulação, o trabalho é a única fonte capaz de produzir valor, por meio do sobrevalor, isto é, pelo excedente de valor produzido pelo assalariado durante seu tempo de trabalho global, uma vez que ele tenha reproduzido o valor de sua força de trabalho (salário) (J-P. LEFEBVRE, 1985, apud LEHER 2008, p.150). Recorrendo ao próprio Marx, partimos da premissa fundamental de que o tempo de trabalho se subdivide em tempo de trabalho necessário e tempo de trabalho excedente. O tempo de trabalho necessário seria aquela fração de tempo de trabalho que é necessária à própria manutenção do próprio trabalhador. Já o tempo de trabalho excedente existe quando o trabalhador não detém mais os meios de produção e a outra fração do seu tempo total de trabalho é dedicada ao detentor desses meios, o capitalista. O que Marx aponta é que nas diversas formações sociais que antecederam o capitalismo, o trabalho excedente correspondia às necessidades dos homens, predominando apenas o valor de uso dos produtos, sem que haja cobiça por trabalho excedente, como no capitalismo. Para exemplificar, recorremos ao exemplo de trabalho de um camponês, citado por Marx: O trabalho necessário do camponês valáquio para sua própria manutenção está fisicamente separado de seu trabalho excedente para o boiardo. Executa o primeiro em seu próprio terreno e o segundo na terra senhorial [...]. Na corvéia, o trabalho excedente está claramente separado do trabalho necessário (MARX, 2003, p. 275). 34 Isso não ocorre no modo de produção capitalista, uma vez que “o trabalho excedente e o trabalho necessário se confundem” (MARX, 2003, p. 275), ou seja, encontram-se atrelados durante a jornada de trabalho. Ao comprar a força de trabalho do trabalhador, o capitalista o faz por um determinado período de tempo, que configura a jornada diária de trabalho. Entretanto, o tempo necessário para que este trabalhador produza a quantidade de mercadorias que corresponde, em valores de mercado, ao suficiente para sua subsistência e de sua família (assegurando a reprodução da força de trabalho, também ela uma mercadoria), não esgota toda a jornada de trabalho contratada pelo empregador. Ele continua trabalhando e produzindo até o final de sua jornada. Este excedente de trabalho gera mercadorias, que contém, em si, uma determinada quantidade de valor. A este valor a mais, que é apropriado pelo capitalista, Marx chamou de “mais-valia”. No caso da sociedade industrial, que se complexificava durante o século XIX, o relógio assumiu um papel de destaque, na medida em que permitia uma sincronização do trabalho. Deparamos aqui com o problema específico da relação entre o tempo e os novos instrumentos de aferição do tempo. Para Thompson (2011, p.354), o tempo e as medidas temporais formaram a disciplina necessária para o desenvolvimento do capitalismo industrial. Revolução industrial, ascensão da burguesia ao poder, ressignificação de tempo e espaço na vida urbana e expansão do capitalismo, suscitaram a necessidade de maior sincronização e integração entre tempo e trabalho. Isso favoreceu a difusão e o desenvolvimento mais intenso dos relógios que, por sua vez, provocaram mudanças nos tempos dos trabalhadores e da sociedade. Na cultura da Europa Ocidental do século XIX, o relógio aos poucos vai tomando o espaço do temponatureza. 1.1.4. O controle e a luta sobre o tempo O tempo tende a exercer a sua função de dominação, seja pelo controle do passado, por meio da memória social, seja pelo controle do futuro, através de profecias e de promessas de redenção após a morte, ou, ainda para beneficiar a produção capitalista. O que importa destacar é que o (controle do) tempo é historicamente utilizado pelas classes dominantes. 35 Nos estágios primitivos, essa função é comumente exercida por certas figuras dominantes, como sacerdotes ou reis. Em particular, a atividade de coordenação, que pressupõe o conhecimento do “momento favorável” em que convém fazer as coisas, foi, durante muito tempo, a função social específica dos sacerdotes. Estes não têm que trabalhar para produzir seu próprio alimento e, desse modo, dispõem de mais tempo para observar os movimentos e mudanças dos corpos celestes. (...) Durante a longa história do desenvolvimento das sociedades humanas, os sacerdotes quase sempre foram os primeiros especialistas da determinação ativa do tempo. Numa fase posterior, quando surgiram as sociedades-Estado, mais vastas e mais complexas, os sacerdotes passaram, de um modo geral, a dividir com as autoridades leigas a função de fixação do momento das grandes atividades sociais e, em muitos casos, essa partilha deu margem a tensões múltiplas. Depois, quando a luta entre sacerdotes e reis pela supremacia deu vantagem a estes últimos, o estabelecimento do calendário tornou-se, tal como a cunhagem da moeda, um monopólio do Estado (ELIAS, 1998, p.45). Elias (1998) destaca que a necessidade de uma cronologia unitária e ordenada variou conforme o crescimento e o declínio das unidades políticas, conforme o tamanho e o grau de integração de seus povos e seus territórios, e também conforme o grau correspondente de diferenciação e extensão de suas redes comerciais e industriais. “As instituições jurídicas dos Estados exigiam sistemas unificados de mensuração do tempo, adaptados à diversidade e à complexidade dos negócios que eles tinham que regular.” (p.46) A apropriação do tempo regulado, o conhecimento sobre o tempo e as possíveis interferências diretas sobre a modificação dele, seja através da modificação dos calendários ou através dos relógios, primordialmente, pertenciam aos setores que gozavam de maior status social. Percebemos claramente como as autoridades eclesiásticas e políticas eram detentoras do monopólio da determinação do tempo. Foi certamente Carlos IX, rei da França, quem decidiu, em 1563, após alguma discussão, impor uma única data – ou seja, o dia 1º de janeiro – para o começo do ano. O edito entrou em vigor em 1566 e rompeu com a tradição mais ou menos oficial, que associava o começo do ano com a festa da Páscoa. O ano de 1566, que começou em 14 de abril e terminou em 31 de dezembro, teve apenas oito meses e 17 dias. Os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, que até então haviam designado – em função do calendário romano, que fazia o ano começar em março, e como seu nome indica – o sétimo, oitavo, nono e décimo meses do ano, transformaram-se, de maneira bastante absurda, no nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo meses. Essa inovação deparou com viva resistência, embora, hoje em dia, mal cheguemos a notar seu caráter incongruente (ELIAS, 1998, p.46). A igreja era encarregada da administração do tempo na Idade Média. Concebia-o como propriedade restrita a Deus e, portanto, qualquer forma de apoderação do tempo 36 pelo homem, com o propósito de obter lucros, era condenável. Mas, posteriormente, verificamos que essa dominação do tempo realizada pela Igreja veio se chocando com as transformações nas relações econômicas. Nesse contexto: Da mesma forma que o camponês, o mercador está submetido, na sua atividade profissional, em primeiro lugar ao tempo meteorológico, ao ciclo das estações, à imprevisibilidade das intempéries e dos cataclismos naturais. Neste aspecto, e durante muito tempo, ele só necessitou de submissão à ordem da natureza e de Deus e só teve como meio de ação, a oração e as práticas supersticiosas. Mas quando se organiza uma rede comercial, o tempo torna-se objeto de medida. (LE GOFF, 1979, p. 51) Thompson (2011b) ao analisar a apropriação do tempo pelos empresários capitalistas no século XVIII, relaciona essa apropriação ao controle da medição do tempo. Quando surgiram, na metade do século XVIII, os relógios, pertenciam majoritariamente às classes dominantes: “a gentry, aos mestres, aos fazendeiros e aos comerciantes”, “talvez a complexidade do formato e a preferência pelo metal precioso fossem uma maneira deliberada de acentuar o seu simbolismo de status.” (THOMPSON, 2011b, p.277). A classe dos possuidores de tempo, de dinheiro e de relógios encontrava diversos mecanismos para expropriar os trabalhadores do conhecimento do tempo e assim burlar o andamento do tempo aferido, adiantando e atrasando os ponteiros dos relógios das fábricas a fim de extrair mais tempo de trabalho dos trabalhadores, conforme Thompson exemplificou através do relato de uma testemunha anônima. Na realidade não havia horas regulares: os mestres e os gerentes faziam conosco o que desejavam. Os relógios nas fábricas eram frequentemente adiantados de manhã e atrasados à noite; em vez de serem instrumentos para medir o tempo, eram usados como disfarces para encobrir o engano e a opressão. Embora isso fosse do conhecimento dos trabalhadores, todos tinham medo de falar, e o trabalhador tinha medo de usar relógio, pois não era incomum despedirem aqueles que ousavam saber demais sobre as ciências das horas. (Chapters in the life a Dundee factory boy, 1887, p.10 apud Thompson, p. 294, 2011) Com o advento da Revolução Industrial e uma maior sincronização do trabalho, esta elitização do domínio do tempo mudou, “a ênfase estava mudando do “luxo” para a “conveniência”. “O pequeno instrumento que regulava os novos ritmos da vida 37 industrial era ao mesmo tempo uma das mais urgentes dentre as novas necessidades que o capitalismo industrial exigia para impulsionar o seu avanço.” (IBIDEM, p.297). O que Thompson se detém a analisar em relação a maior exatidão nas rotinas do tempo, maior sincronização do trabalho na sociedade industrial nascente, o leva a se preocupar simultaneamente com a percepção do tempo em seu condicionamento tecnológico e com a medição do tempo como meio de exploração da mão de obra. Em função disso, o operário perde completamente o controle sobre seu dia de trabalho. Há uma supressão total do trabalho orientado por costumes, tradições, ou experiências para aumentar a eficiência e produtividade. Toda essa disciplina industrial do tempo atuou como uma pressão externa, e foi fortemente acompanhada de uma disciplina moral dos capitalistas a fim de internalizar nos trabalhadores os novos hábitos, fazendo uma forte investida contra os antigos hábitos de trabalho. Por meio de tudo isso – pela divisão do trabalho, supervisão do trabalho, multas, sinos e relógios, incentivos em dinheiro, pregações e ensino, supressão das feiras e dos esportes – formaram-se novos hábitos de trabalho e impôs-se uma nova disciplina de tempo (THOMPSON, 2011, p.297). A interiorização da disciplina em relação ao tempo ditada pela Igreja e pelos patrões partia de uma verdadeira retórica moral. Tratava da disposição incondicional para o trabalho e do desprezo ao ócio. Esse era o receituário que deveria ser seguido pelos trabalhadores na vida individual e coletiva. Compreendido como uma mercadoria, o tempo não deveria sofrer “desperdícios”, o tempo deveria ser todo “empregado para o dever”. Em contraposição a moralização do tempo de trabalho, Lafargue dizia em 1880: Mas para que tenha consciência de sua força, é preciso que o proletariado pisoteie os preconceitos da moral cristã, econômica e livre – pensadora; é preciso que volte a seus instintos naturais, que proclame os Direitos a Preguiça [...] (Lafargue, 2000, p. 84). O grande erro para Lafargue era os proletários quererem infligir aos capitalistas as dez horas de trabalho, anunciava que um regime de preguiça seria necessário para matar o tempo que mata o trabalhador, fazendo-se necessário que a classe operária não levantasse para reclamar os Direitos do Homem ou o Direito ao Trabalho, mas para forjar uma lei que proibisse todos os homens de trabalhar mais de três horas por dia. Denunciou que a produtividade vinha para empobrecer os homens, que os tempos livres 38 não vieram com o advento da indústria e que a redução da jornada de trabalho realizada pelo governo da Inglaterra, que proibiu por lei trabalhar mais de dez horas por dia, serviu para aumentar a produção inglesa mantendo a Inglaterra como a primeira nação industrial do mundo. Contudo, observamos que com o advento da nova disciplina de trabalho, os trabalhadores passaram a lutar não contra o tempo, mas sobre ele. Segundo Thompson (2011), a primeira geração de trabalhadores nas fábricas aprendeu com seus mestres a importância do tempo; a segunda geração formou os seus comitês em prol de menos tempo de trabalho no movimento pela jornada de dez horas; a terceira geração fez greves pelas horas extras ou pelo pagamento de um percentual adicional (1,5%) pelas horas trabalhadas fora do expediente. “Eles tinham aceito as categorias de seus empregadores e aprendido a revidar os golpes dentro desses preceitos. Haviam aprendido muito bem a sua lição, a de que tempo é dinheiro.” (THOMPSON,2011, p.294). PARTE 2 1.2.1. O tempo como instrumento para pensar a docência21 A partir da discussão feita até o momento no presente capítulo, argumentaremos a partir de agora a respeito da apropriação do tempo pelos detentores do poder político e econômico, assim como do padrão de organização do tempo de trabalho dos professores, destacando as estratégias mobilizadas pelos professores para lidar com a fragmentação do tempo ao longo de suas trajetórias profissionais. Podemos indagar como o poder público lida com o tempo dos professores, buscando compreender os objetivos de tal fragmentação, assim como os efeitos gerados nas condições de trabalho da categoria docente e as suas estratégias na luta sobre o controle do tempo. 21 Toda a discussão será feita em relação ao tempo do professor. Nos dedicaremos ao tempo de trabalho (sala de aula e planejamento), tempo de descanso, tempo de deslocamento citadino, tempo de transeunte, tempo de lazer, entre outros tempos sociais com os quais os professores estão envolvidos. Considerando que existe toda uma discussão em torno do tempo e espaço escolar (disciplinas, horários de aulas, tempo pedagógico), estes não serão focos de análise. Para ver mais sobre esse tema, existe o artigo de FARIA FILHO e VIDAL “Os tempos e espaços escolares no processo de institucionalização da escola primária no Brasil”. Revista Brasileira de História da Educação, nº14, 2000. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n14/n14a03 acesso em 16 de novembro de 2012. 39 Thompson nos trouxe a contribuição a respeito da reestruturação do tempo na sociedade industrial. Para ele, essa reestruturação não era uma questão de técnicas novas, mas de uma percepção mais aguçada dos capitalistas quanto ao uso minucioso do tempo. Em relação à disciplina do trabalho, Thompson cita o Law Book [Livro de leis] da Siderurgia Crowley, uma unidade manufatureira de grande escala, observando que: “Já em 1700, estamos entrando na paisagem familiar do capitalismo industrial disciplinado, com a folha de controle do tempo, o controlador do tempo, os delatores e as multas.” (p.291). O capitalista “achava necessário projetar todo um código civil e penal, que chegava a mais de 100 mil palavras para governar e regular a sua força de trabalho rebelde.” (p.289). Mais de trezentos anos depois da criação do Livro de leis de Crowley, vale um esforço teórico para nos aproximarmos do nosso objeto de estudo: os professores. Trabalhadores não fabris, com suas particularidades, regidos pelo poder público, com estatutos e leis específicas, mas com um tempo regrado, regulado e minuciosamente calculado em seu cotidiano de trabalho, com minutos, segundos e horas presentes na legislação, que sofrem constantes mudanças em busca de uma regulação e que enfrentam de um lado, a resistência dos governantes ao implementá-las, buscando expropriar o tempo do professor; e do outro, dos próprios professores ao encontrar mecanismos que lhes permitam não seguir à risca as condutas impostas pelas normas legais. Fazendo um paralelo com essa discussão, observamos um uso regrado do tempo, minuciosamente calculado pelo poder público, a fim de extrair do professor o máximo de aproveitamento de sua carga horária de trabalho. Ao mesmo tempo, observamos que o professor cria suas próprias estratégias para lidar com esses mecanismos de regulação. 1.2.2. A regulação do tempo: segundos, minutos e horas na legislação Quando se estipula que vai se pagar certa quantia por determinado trabalho dos professores, há que se explicitar qual é a quantia e qual é o trabalho. O trabalho é tanto a quantidade de horas de exercício do ofício como é também a descrição dessas mesmas horas, ou seja, de como elas se dividem, dentro ou fora da sala de aula. 40 A Lei nº 11.738/200822 (art.2º) - na alínea “e”, inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal sancionada no dia 16 de julho de 2008, - regulamenta as normas unificadas para o salário base de todos os professores, em todos os entes federados, bem como uma regra única para a composição da jornada de trabalho docente em todo o país. Segundo a referida Lei “na composição da jornada de trabalho deve-se observar o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos”. Logo, 1/3 da jornada será dedicado à preparação de aulas e às demais atividades fora da sala da aula. Esta lei encontrou resistência dos governos e foi questionada judicialmente por alguns governadores de estado23, por meio de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4.16724). Foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011 e na decisão, os ministros declararam a Lei constitucional, deixando claro no julgamento que "é constitucional a norma geral federal que reserva o percentual mínimo de 1/3 da carga horária dos docentes da Educação Básica para dedicação às atividades extraclasse". São consideradas como atividades extraclasse aquelas destinadas à preparação e avaliação do trabalho didático, à colaboração com a administração da escola, às reuniões pedagógicas, à articulação com a comunidade e ao aperfeiçoamento profissional, de acordo com a proposta pedagógica de cada escola. Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 25 em seu Artigo 67º no inciso V, prevê “período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho”. Posteriormente, no inciso VI, prevê: “Condições adequadas de trabalho”, dentro da orientação geral de que “os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público”. 22 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11738.htm acesso em 22 de outubro de 2012. 23 A lei que fixa a carga horária e um piso nacional para os professores foi questionada na Justiça pelos estados do Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os cinco estados que questionaram a constitucionalidade da lei 11.738/ 2008 alegam que ela fere o princípio de autonomia das unidades da federação prevista na Constituição. Também argumentam que a lei não leva em consideração o orçamento e a quantidade de trabalhadores de cada unidade da federação. 24 ADI 4.167, disponível para consulta na página do STF. 25 Lei 9394/96. Disponível em http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf acesso em 21 de abril de 2013. 41 Com base na Constituição Federal e na LDB, o CNE26 (Conselho Nacional de Educação) estudou a concepção e implantação da Lei nº 11.738/2008 e expôs por meio do parecer CNE/CEB nº 1827, uma tabela28 com a composição da jornada de trabalho dos professores, dela extraímos o cálculo da jornada dos professores de 40 horas, 30 horas, 24 horas, 16 horas, referentes às carreiras docentes DOC I existentes no estado do Rio de Janeiro no ano de 2012/2013. De acordo com a lei, a jornada de trabalho dos docentes deveria ser composta conforme exposto na tabela nº 1 (ver apêndice B, tabela nº1, p. 166). Observamos que para o cumprimento de uma jornada de 40 horas semanais, o professor deve realizar 26,66 horas de atividades com educandos e 13,33 horas de atividades extraclasse. Para a carreira de 30 horas esse número fica em 20 para atividades com os educandos e 10 para atividades extraclasse. Porém, essa regulação do tempo de trabalho do professor é diferente no Programa Autonomia. Neste, os professores29 têm uma carga horária de 24 horas semanais, sendo quatro horas de planejamento. Conforme a lei, 16 horas deveriam ser destinadas às atividades em sala de aula e 8 de atividades extraclasse. Para a carreira Docente I, as 16 horas de trabalho deveriam se dividir em 10,66 de atividades em sala de aula e 5,33 de atividades extraclasse. Hoje os profissionais da rede estadual que ocupam as 75.170 funções docentes ativas, nas 1.447 escolas da Rede30, a maioria faz parte da carreira DOC I, com carga horária de 16 horas semanais, destes 53.370 docentes são exigidos, 12 tempos em sala de aula e 4 horas de atividades extraclasse. A figura abaixo, publicada pelo jornal Folha de São Paulo, em 16 de novembro de 2011, mostra uma tabela com a situação de implementação da lei nº 11.738/2008 nos estados: 26 O Conselho Nacional de Educação é um órgão independente, com funções consultivas, cujo(a) presidente é eleito(a) pela Assembleia da República. Disponível em: Site do CNE, http://www.cnedu.pt/cne/default.htm, acesso em 21 de julho de 2013. 27 Existem outros pareceres do CNE que tratam da questão do tempo. Estão disponíveis em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12868, visitado em 21 de julho de 2013. 28 Tabela completa disponível no parecer CNE/CEB nº 18/2012, em www.portal.mec.gov.br 29 Esses professores não possuem uma carreira específica, assim como não há concurso específico para o quadro de docentes do Programa Autonomia. Para participar do programa basta ser professor da Rede. Podem se inscrever para desempenhar a função de professor regente do programa: professores docentes I com carga horária de 16h semanais; professores docente I e II com carga horária de 40h semanais, desde que complemente 6 tempos no Ensino Regular / Educação de Jovens e Adultos; professores Docentes II com carga horária de 22h e de 40h semanais, desde que estejam em regime de aproveitamento conforme Decreto 42.883/2011 e Resolução SEEDUC n° 4.686/2011. Disponíveis em: Site da SEEDUC, http://www.rj.gov.br/web/seeduc, visitado em 15 de agosto de 2013. 30 Dados citados a partir do último relatório anual da SEEDUC de 2011, a ser analisado no próximo capítulo. 42 Figura 1: Situação dos professores no país de acordo com a lei 11.738/2008 (Folha de São Paulo, 2011). Segundo a tabela, formada a partir dos dados das respectivas secretarias de educação, no que se refere à jornada fora de sala de aula, o estado do Rio de Janeiro aparece como um estado que cumpre a lei e garante os 33% da jornada fora de sala de aula. Porém, o que se manifesta como realidade na rede estadual é o descumprimento da lei federal nº 11.738 que estipula 1/3 da carga horária do professor para atividades extraclasse – e que também cria o piso nacional do magistério. Não está sendo 43 respeitado o 1/3 do trabalho do professor fora da sala de aula para estudos, formação, preparação das tarefas, correção de provas, trabalhos e todas as outras atividades essenciais ao exercício do magistério. Observamos como o Estado burla a lei no tempo de planejamento, onde se contabiliza todos os resquícios de tempo para chegar a 1/3 de planejamento e justificar com as 4 horas (em relação aos docentes de 16 horas). Para chegar ao cálculo, a Secretaria de Educação contabiliza no tempo de planejamento os 10 minutos que restam de cada aula (que tem tempos de 50 minutos), o tempo de recesso ou mesmo o horário do recreio, admitindo ser possível planejar durante os intervalos das aulas ou em outros momentos em que o tempo diminuto não oferece condições para planejamento. De acordo com a legislação, a jornada de trabalho deve ser composta com 2/3 de carga horária para atividades em sala de aula e 1/3 para atividades extraclasse, independentemente do tempo de duração de cada aula, definido pelos sistemas de ensino. O que vale é a hora-aula31 e não se a aula possui 45, 50, 60 minutos, ou qualquer outra unidade de tempo. Além disso, períodos do tempo de aula podem ser usados para outras funções como preenchimento de chamadas, ordem e silêncio necessários em sala de aula, enfim, tudo depende da dinâmica que o professor estabelece com seus estudantes, em cada aula. A rigor, nem mesmo uma definição temporal é necessária para uma hora-aula, pois a aprendizagem do conteúdo pode se dar em 30 minutos ou em três horas. Portanto, para cumprir seus objetivos, a base da jornada de trabalho do professor necessita de diferentes ritmos e prazos, exigindo, para exibir eficácia, uma margem de longo prazo e certa flexibilidade aliada à persistência e continuidade. A garantia do tempo mínimo foi legalmente estabelecida como direito do aluno e dever do estabelecimento de ensino. Essa questão foi objeto do Parecer CNE/CEB nº 8/200432 formulado pelo Conselheiro Carlos Roberto Jamil Cury, que esclarece o seguinte: (...) as 800 horas na Educação Básica, os 200 dias e as horas de 60 minutos na carga horária são um direito dos estudantes e é dever dos estabelecimentos cumpri-los rigorosamente. Este cumprimento visa não só equalizar em todo o território nacional este direito dos estudantes, como garantir um mínimo de 31 A fim de desfazer uma possível sinonímia entre os vocábulos hora e hora-aula, a partir da nova LDB, Lei 9.394/96 e do Parecer CNE/CEB 05/97 é definido com clareza que o conceito de hora responde ao padrão nacional e internacional de 60 minutos distinguindo-a do de hora-aula que é de competência do projeto pedagógico do estabelecimento de ensino. 32 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB08.pdf acesso em 22 de julho de 2013. 44 tempo a fim de assegurar o princípio de padrão de qualidade posto no artigo 206 da Constituição Federal e reposto no Art. 3º da LDB. Dentro do direito dos estudantes, o projeto pedagógico dos estabelecimentos pode compor as horas-relógio dentro da autonomia escolar estatuindo o tempo da hora-aula. Assim a hora-aula está dentro da hora-relógio que, por sua vez, é o critério do direito do estudante, que é conforme ao ordenamento jurídico. Por outro lado, diz o Parecer: O direito dos estudantes é o de ter as horas legalmente apontadas dentro do ordenamento jurídico como o mínimo para assegurar um padrão de qualidade no ensino e um elemento de igualdade no país. Já a hora-aula é o padrão estabelecido pelo projeto pedagógico da escola, a fim de distribuir o conjunto dos componentes curriculares em um tempo didaticamente aproveitável pelos estudantes, dentro do respeito ao conjunto de horas determinado para a Educação Básica, para a Educação Profissional e para a Educação Superior. O Parecer citado aqui, que é corretíssimo e continua atual, não disciplina a forma como os sistemas de ensino devem organizar as jornadas de trabalho de seus professores, mas apenas e tão somente qual é a quantidade de tempo que garante aos estudantes os direitos que lhes são consagrados pela LDB. Sendo assim, não há qualquer problema que determinado sistema componha jornadas de trabalho de professores com duração da hora-aula em 50 ou 40 minutos, desde que as escolas e a própria rede estejam organizadas para prestar aos estudantes a totalidade da carga horária a qual eles fazem jus. Poderá, então, haver redes que necessitem de mais professores do que outras para ministrar a mesma disciplina, porque em determinados sistemas, licitamente, diga-se de passagem, a lei garante aos docentes uma jornada composta de horas-aula cuja unidade é menor do que a hora; em outros pode ocorrer justamente o contrário. Um raciocínio simplista, que se queira emprestar ao parecer do Conselheiro Carlos Roberto Jamil Cury, não levaria em conta que a hora-aula precisa ter uma unidade de tempo menor do que a hora porque, senão, fatalmente, haveria menos disciplinas lecionadas a cada ano. Este modo de pensar apresenta mais serventia à lógica da diminuição de gastos estatais com educação do que à lógica da promoção de uma educação de qualidade para as classes menos favorecidas, que é quem se utiliza, com maior preponderância, da educação pública em nosso país. Então, com base na lei e na aplicação dos governantes, concluímos que há uma expropriação do tempo de planejamento do professor, consequentemente mais tempo 45 lhe é exigido em sala de aula, o que reduz a contratação de novos professores e sobrecarrega os professores em exercício da função. Muito tempo de trabalho deixa de ser pago aos professores na forma de planejamento, obrigando-os a cumprirem essas horas em sala de aula. Levando em conta que o tempo de planejamento exige que o professor esteja fora da sala de aula, o cumprimento da lei exigiria um grande número de novos contratados para dar conta da grade de horários das escolas, o que por si só, é um argumento forte para que os governantes não cumpram a referida lei. O sistema de ensino do Rio de Janeiro, assim como outros do país, fazem uma interpretação enviesada da Lei nº 11.738/2008, no que se refere à composição da jornada de trabalho. Esta interpretação, nitidamente, está mais calcada em questões de ordem financeira do resultado de sua aplicação do que propriamente da análise e atendimento ao conteúdo do texto jurídico normativo. Pois bem, se previsto na lei, caberia aos trabalhadores da educação exigirem dos gestores públicos a efetivação do 1/3 de hora-atividade33, uma vez que está vigente e obrigatória para todo o país. O Estado do Rio de Janeiro não cumpre a lei do piso, entre outros aspectos, no que se refere a 1/3 de planejamento, devido a isso, em maio de 2013, o Departamento Jurídico do Sindicato dos Profissionais da Educação (SEPE-RJ), obteve uma decisão favorável da justiça sobre o 1/3 de planejamento, que discute o cumprimento de um terço da carga horária para atividades fora da interação com os alunos na Rede Estadual. Abaixo um trecho da sentença: No caso em tela, o argumento do Estado de que dez minutos de cada aula seriam destinados ao planejamento, bem como as semanas nas quais não há aula, poderiam compensar eventual carga horária faltante para completar o 1/3 exigido, não merece prosperar. A lei exige a destinação de 1/3 da carga horária semanal. Isso é adequado e fundamental para a preparação das aulas daquela semana e atualização dos professores. Assim, as semanas sem aulas, nas quais os professores não estão de férias não podem ser computadas para esse fim. A lei também exige 1/3 da carga horária. O fato da hora-aula ter cinquenta minutos não se pode admitir que os dez minutos restantes sejam considerados como tempo de planejamento, principalmente, porque este planejamento exige do professor um tempo maior e contínuo para ser efetivo. Assim, é o caso de precedência do pedido para condenar o réu a adequar a carga horária dos seus professores às exigências da Lei. Esta sentença não pode servir de carta branca para contratações sem licitação, nem para contratações em regime de urgência. Assim, é o caso de conferir ao Estado o prazo de um ano para se adequar às normas descritas na fundamentação desta 33 Em 15 de agosto de 2013 foi deflagrada uma greve dos profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro, um dos pontos da pauta de reivindicações é o cumprimento de 1/3 da carga horária para planejamento. 46 sentença. Em face do exposto, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO para condenar o Estado a regularizar a distribuição da jornada de trabalho do todos os professores do quadro de educação básica no ensino público para o exercício de no máximo 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos, sendo resguardado o mínimo de 1/3 para as atividades complementares de planejamento, estudo e avaliação, para o início do ano letivo e seguintes, bem como, para aplicar a Lei do Piso Salarial Nacional aos profissionais da rede de ensino estadual, nos termos previstos na Lei nº 11.738/2008, no prazo de um ano, sob pena de configuração de ato de improbidade administrativa, na forma do art. 11, inc. II, da Lei 8.429/1992. (...)” (13ª Vara de Fazenda Pública no processo 0006850-48.2012.8.19.0001). Como a decisão é desfavorável ao estado, por força da lei, houve o chamado duplo grau de jurisdição obrigatório, que significa a remessa do processo à 2ª instância para avaliação da sentença pelo Tribunal (independentemente de interposição de recurso). Com relação ao prazo de um ano concedido pela sentença, o SEPE enviou recurso para que fosse melhor esclarecido que a decisão seria para o início do ano letivo de 2014. 1.2.3. Tempo para se preparar, aprender e refletir Não resta dúvida de que, quotidianamente, a lei é utilizada pelas autoridades ligadas ao executivo, em suas várias instâncias, na tentativa de realizar a partir dela, algumas funções. Os secretários de educação, as direções de escola e as coordenações sempre fazem cobranças, baseados na lei com um discurso, que por vezes, chega a ser extremamente legalista. Cobrar sobretudo dos professores, o cumprimento da lei é parte fundamental da prática e da retórica dos ocupantes dos cargos de fiscalização. No mesmo movimento, joga-se, na ilegalidade, boa parte das atividades e práticas dos professores. Isso é muito comum em relação ao tempo de planejamento pedagógico. São inúmeras denúncias de que os professores recorrem a ilegalidades quando não cumprem o seu tempo de planejamento, ignorando que o cumprimento da lei seja praticamente impossível nas condições de exercício da função. Na verdade, esta é uma via de mão dupla: tanto os legalistas e diretores querem impor a legalidade nos atos dos professores, quanto estes utilizam dos artifícios da lei como estratégias para obter resultados que atenuem o desgastante cotidiano de trabalho. 47 Para além da discussão técnica que se faz necessária em relação às horas destinadas ao planejamento, podemos observar de acordo com alguns depoimentos a dificuldade dos professores em destinar tempos de suas jornadas profissionais para pensar sua prática, refletir e realmente planejar. Isso exigiria um ritmo de trabalho menos desgastante e uma remuneração adequada para que o tempo fora da sala de aula realmente pudesse ser colocado em prática para os devidos fins. O ritmo natural de tempo do trabalho de um professor deveria ser bem diferente do que assistimos hoje. Entre os professores da Rede Estadual de Ensino, diversas pressões tem incidido para que esse ritmo seja cada vez mais alterado de uma forma que precariza cada vez mais o trabalho docente. A hora-atividade não pode ser tratada como uma questão trabalhista, dissociada de uma dimensão pedagógica. O tempo do professor poderia ser considerado de forma diferenciada, mas ultimamente o trabalho docente se encontra cada vez mais inserido numa lógica fechada de produção e resultados, com cronogramas precisos (datas de provas, conselhos de classe, dias letivos, metas a serem atingidas), que impedem uma maior flexibilidade na busca do conhecimento e na qualidade do trabalho. Por hora, tomaremos como base trechos de depoimentos de alguns professores que nos trazem pistas de como a ausência do tempo para o planejamento influencia a qualidade de seu trabalho e o desenvolvimento de uma boa aula: Muitas vezes, isso (o tempo de planejamento) não funciona, aí que eu falo da demanda ser muito pesada, pois isso requer muito tempo, para haver um planejamento de qualidade seria necessária a dedicação exclusiva do professor (em uma escola). E isso não acontece, muitas vezes ele está aqui nessa escola, mas daqui a duas horas, meia hora ele está em outra, trabalhando com outro tipo de aluno, outra escola diferente (Antônio, 30 anos de idade, seis anos de magistério). É muito complicado você parar para planejar uma aula, porque te falta tempo. Você trabalha muito pra conseguir um rendimento legal pra sua vida. O que interfere no trabalho do professor é a falta de dinheiro mesmo, para você seguir na área do magistério é a maior dificuldade, eu acho... (Fábio, 29 anos de idade, 12 anos de magistério). Quando dá eu faço (o planejamento). Mas vou ser sincera que eu não faço muito não. As aulas do Autonomia já são planejadas, e assim, numa forma muito fácil de lidar. Por mais que seja Química, Física ou coisas que 48 desconheço, que não são da minha área, mas tem a teleaula que é bem explicadinha, então dá pra levar. Planejar aula eu não planejo não. Planejo prova, quando tem que fazer; agora aula em si, eu não planejo não. Não planejo porque não dá certo. Planejamento é fictício, tudo que você faz não dá tempo, acontece alguma coisa. Agora quando dá tempo, que é muito difícil, ainda assisto a teleaula antes, dou uma lida no que é a matéria, quando dá. Mas é muito difícil (Christiane, 32 anos, seis anos de magistério). Quando você consegue se adaptar à metodologia (do Programa Autonomia) e você leva isso para as outras turmas, você acaba até descansando nas outras. Então, de uma certa forma você aproveita e você acaba usufruindo disso. Você acaba usufruindo positivamente e creio eu que os alunos também (Janete, 49 anos de idade, 27 anos de magistério). Ao observarmos que o tempo de planejamento é reivindicado na lei e descumprido pelo governo, ao mesmo tempo, os depoimentos dos professores nos alertam que a utilização do tempo de planejamento hoje existente não tem sido usado necessariamente para planejar. O tempo destinado ao planejamento se coloca como insuficiente para os professores, pois o tempo em que deveriam planejar está sendo destinado muitas vezes a outros trabalhos, em outras escolas, sejam públicas, privadas ou mesmo em outras ocupações fora do magistério. O que ocorre é que resta pouco, ou nenhum tempo do professor destinado a essa prática e o fator forte de influência seria a baixa remuneração, onde todo o tempo que possuem é utilizado ao máximo “dando aulas” a fim de obter uma remuneração um pouco melhor. O Programa Autonomia já possui sua metodologia pronta, sendo suficiente que o professor implemente-a; as teleaulas já vem planejadas, sendo necessário que o professor execute-as, apresentando e debatendo (ou não) as questões propostas com os seus alunos. Esse tipo de metodologia é um fator de forte influência para que os professores deixem de fazer o planejamento, uma prática inerente e fundamental à docência. Desse modo, o professor é dispensado do trabalho de elaboração, tornando-se mero executor de um plano traçado por outrem. Muitos professores não parecem seguir completamente todo o tratado advindo do Programa, outros, porém, seguem-no à risca, sem reflexões anteriores. Conforme o depoimento de Christiane, que assume que não faz o planejamento, o considera fictício, e o faz quando dá, o planejamento é algo secundário, ela diz que assiste à teleaula junto com o aluno em sala e que por considerar as teleaulas didaticamente inteligíveis ela dificilmente assiste as aulas anteriormente ou prepara os seus conteúdos e estratégias didáticas previamente. 49 Os professores que trabalham com mais de uma modalidade de ensino, como Janete que trabalha no Programa Autonomia, no ensino regular de nível médio e no Nova EJA34, ou seja, em três modalidades bem distintas, a ausência de tempo para o planejamento é latente. No caso em questão, seria necessário planejar inúmeras aulas semanalmente para diversas turmas dentro das diferentes modalidades e, apesar de preparar materiais nos finais de semana, conforme ela mesma afirmou em seu depoimento, na prática, acaba usufruindo das aulas prontas, da metodologia do Programa Autonomia para as outras modalidades, descansando e assim evitando a preparação de algumas aulas, segundo ela, trabalhando de forma positiva e proveitosa também para os alunos. A menos que haja uma dedicação exclusiva do professor a uma escola ou a uma modalidade de ensino, o tempo de planejamento acaba sendo uma prática esporádica, ineficiente, insuficiente e que não condiz com os objetivos do que seria um tempo necessário para pensar, refletir e preparar boas aulas, sendo assim o trabalho docente não se realiza de forma autônoma, plena e eficiente. A definição de uma jornada de trabalho compatível com a especificidade do trabalho docente está diretamente relacionada à valorização do magistério e à qualidade do ensino, uma vez que a utilização do tempo fora da sala de aula para realizar outras atividades ligadas ao planejamento do ensino interfere positivamente na qualidade das aulas e no desempenho do professor. 1.2.4. Tempo de ir e vir: o deslocamento É um fator comum na Rede Estadual de ensino encontrarmos professores que trabalham muito distante de suas residências. Isso se dá pelo fato dos concursos nem sempre oferecem vagas para todos os municípios, fator que gera um grande contingente de professores aprovados para regiões distantes, que acabam sendo convocados e aceitando essas vagas. Outro fator, menos comum, mas que também ocorre, é o professor fazer o concurso para a região onde mora, e na data convocação, na inexistência de vagas este professor ser convidado para atuar em outra região mais distante. Geralmente este último caso ocorre quando o concurso está perto de perder a 34 Segundo a SEEDUC, o NovaEJA é uma nova política de Educação de Jovens e Adultos, com metodologia e currículo específicos, material didático próprio, recursos multimídia e aulas dinâmicas e metodologia para ser trabalhada com alunos em defasagem idade-série em parceria com a Fundação CECIERJ. Fonte: http://projetoseeduc.cecierj.edu.br/principal/nova-eja.php 50 validade, sendo assim, não aceitar a vaga oferecida, significa perder a matrícula conquistada. Devido à estabilidade do emprego público, muitos professores fazem concurso para áreas distantes de suas residências ou acabam aceitando a proposta da Secretaria de Educação de assumir sua matrícula em outra região, esperando, mais tarde, poder atuar próximo de sua residência, o que acaba provocando um grande desgaste em sua vida profissional. O relato de Janete nos desperta neste ponto, quando afirma que no seu décimo ano de atuação no magistério, já atuando com uma matrícula no estado, em Seropédica, foi convocada para assumir a sua segunda matrícula na rede estadual do Rio de Janeiro e foi trabalhar no município de Pinheiral, no Sul Fluminense, localidade para a qual não havia feito o concurso. Eu fiz o concurso para Piraí. Aí só tinha vaga para Pinheiral, que era uma cidade mais pra perto de Volta Redonda. Longe de Piraí e mais perto de Volta Redonda. (pausa). Eu ia terça e quarta, foram os horários que eu consegui. Então eu ia terça e voltava, que eu tinha um filho menor, né?! Aí depois ia quarta e voltava. Então realmente era muito cansativo. Aí eu comecei a conhecer pessoas lá e eu comecei a dormir. Então eu ia na terça, dormia lá e voltava na quarta feira, e isso foram dois anos e meio (Janete, 49 anos de idade, 27 de magistério). Tendo em vista que as referidas cidades são bem distantes uma das outras e que, além disso, Janete naquele momento morava no município de Itaguaí, a entrevistada nos conta as dificuldades encontradas em relação ao deslocamento: Nossa! De Pinheiral eu gastava... Eu saia da minha casa cinco (horas) da manhã pra chegar lá oito e meia, oito e quarenta. Era três horas e quarenta (minutos). Só tinha uma condução. Então eu saia de Itaguaí às cinco horas em ponto, pegava um ônibus... Porque eu morava na reta de Itaguaí. Da reta ia até Itaguaí, de Itaguaí eu ia até o Belvedere, que sete e dez em ponto passava um ônibus pra Pinheiral. Só tinha aquele. Aí o outro ônibus só tinha depois das dez horas, se eu perdesse, não adiantava, eu não conseguiria chegar mais na escola (IDEM). Por ser muito distante de sua residência, Janete acabou desistindo da matrícula ao não conseguir pedir remoção para outra localidade. Continuou com sua primeira matrícula em Seropédica e dois anos depois fez um novo concurso, onde posteriormente foi chamada para trabalhar no bairro de Campo Grande, próximo ao local onde passara a morar. Em relação ao deslocamento, a entrevistada afirma que sua vida só ficou 51 tranquila em 2006, ou seja, dezoito anos depois de entrar no magistério, quando finalmente conseguiu concentrar suas duas matrículas em uma escola e ir a pé para o trabalho. Neste caso, observamos que, na docência, antiguidade pode ser posto para uma melhor colocação em relação a locais de trabalho e para uma carga horária mais concentrada. 1.2.5. Tempo fragmentado: uma matrícula, várias escolas É de comum acordo que para um trabalho pedagógico se realizar de forma consistente é preciso que haja dedicação do professor a um número pequeno de turmas e que ele atue preferencialmente em uma única instituição. Isto porque só desta maneira é possível criar uma relação de conhecimento, pertencimento e interação, fundamentais à prática pedagógica. Porém, a realidade é que um professor da educação básica dificilmente tem uma única matrícula e geralmente acumula vários empregos na esfera pública ou privada a fim de alcançar uma remuneração razoável. Nesse sentido, a fragmentação do tempo de trabalho de um professor pode ser alvo de infinitos estudos e discussões35. No inciso XVI do art. 37 da Constituição Federal, onde há as disposições gerais da administração pública, afirma-se que é vedada a acumulação remunerada de cargos públicos, excetuando, entre outros casos, a de dois cargos de professor quando houver compatibilidade de horários. Deste modo, de acordo com o texto constitucional, os professores do ensino básico não podem acumular mais de dois cargos em esferas públicas, sejam elas, federal, estadual ou municipal. Observamos que ao mesmo tempo que a Lei maior impede que o professor tenha mais de duas matrículas públicas, estados e municípios permitem que os professores façam horas extras dupla ou triplamente. Na rede estadual do Rio de Janeiro, através do regime de GLP (Gratificação por Lotação Prioritária)36, é permitido que o professor 35 Em busca realizada no banco de teses da CAPES com a combinação das palavras chave: “Condições de trabalho, tempo de trabalho e trabalho docente” foram encontrados 25 estudos no ano de 2007, 32 em 2008, 31 em 2009, 28 em 2010, 37 em 2011 e 46 em 2012, resultando numa média crescente ao longo dos anos. Muitas dissertações e teses se referem ao mal estar docente, qualidade de vida e burnout. 36 A GLP é uma gratificação que o professor pode perder a qualquer momento, pois as vagas ocupadas são de professores licenciados e/ou afastados. O dinheiro da gratificação não vai para a aposentadoria e demais benefícios aos quais o professor tem direito na matrícula. 52 amplie até 24 tempos37 da sua carga horária em sala de aula, alcançando 36 tempos de atividade de interação com os educandos. Percebemos então que a restrição ao acúmulo de mais de duas matrículas não se dá, necessariamente, para que o professor obtenha mais tempo fora de sala de aula para planejar seus cursos, pois ele pode, legalmente, ficar a semana toda em sala de aula fazendo “hora extra” ou GLP, ou mesmo ter outros empregos na rede privada de educação tanto quanto a sua disponibilidade permita. Observamos através deste fator que existem várias formas de o poder público aproveitar as lacunas na Lei que acabam gerando práticas extremamente prejudiciais como essas. Relembremos o relato exposto na apresentação desta dissertação, onde expusemos a fragmentação do tempo de acordo com a experiência da autora enquanto professora da Rede estadual do Rio de Janeiro. Aquela realidade apresentada é bem parecida com a de muitos professores que, além de trabalharem em mais de uma matrícula, seja ela no estado, em outro município ou em escolas particulares, ainda têm sua carga horária de uma única matrícula dividida em várias escolas. Essa irregularidade geral situada no âmbito de um ciclo irregular da semana de trabalho é um fator que provoca muitas lamentações por parte dos professores. No depoimento abaixo, de um professor que só atua na rede estadual, observamos a fragmentação do tempo de trabalho e os gastos com deslocamento, fator que o levou a aderir ao Programa Autonomia recentemente. Nos primeiros três anos de trabalho eu saia de casa e pegava um ônibus e um trem para Queimados, dava aula durante o dia todo no Colégio (Estadual) São Cristóvão, depois pegava dois ônibus pra ir pra Manguariba onde dava aula a noite no Colégio (Estadual) Gandhi, depois eu pegava mais um ônibus para ir pra casa. (Nesse período) Também trabalhei no (Colégio Estadual) Cesarão38. Isso trabalhando dois dias no estado. Com a compra do carro eu vi que andava 200 km por semana para trabalhar. Hoje trabalho só em Cosmos, no (Colégio Estadual) Jornalista Artur da Távola, com o Programa Autonomia. Trabalho cinco dias por semana e faço 100 km por semana (Professor Fábio, 29 anos, 12 anos no magistério). O depoimento da professora Christiane também nos revela a mesma situação: 37 Tabela completa com a carga horária permitida aos professores através de GLP, disponível no manual de alocação de professores da SEEDUC, disponível em: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/736278/DLFE-45111.pdf/manualQHI_05DEJANEIRO.pdf 38 Nome fictício da escola, por solicitação do professor, que afirmou ter saído desta escola não só pela distância mas por divergências com o diretor. 53 Trabalhei no CIEP 188, que fica localizado numa área totalmente rural, sua rua de acesso não possui asfalto. Levava um tempo médio de 40 minutos para chegar nesta escola, já o CIEP 354, se localiza numa área de risco eminente e era longe, eu levava cerca de 1 hora e 20 (minutos) para chegar lá. Hoje nesta escola que atuo com o (Programa) Autonomia, utilizo carro com um tempo médio de viagem de 15 minutos (Professora Christiane, 32 anos, seis anos de magistério). A divisão da matrícula em várias escolas tem sido um fator muito presente na Rede Estadual do Rio de Janeiro que tem se dado devido ao fechamento de turmas, escolas ou implementação de novas modalidades de ensino, onde muitos professores perdem turmas, consequentemente a lotação e acabam tendo que dividir sua carga horária de uma única matrícula em várias escolas, ou seja, seus doze tempos em sala de aula passam a ser diluídos em duas, três, quatro ou mais escolas. Considerando esta uma realidade muito presente na Rede Estadual, a emenda de 39 nº17 , de autoria dos deputados Marcelo Freixo, Robson Leite e Inês Pandeló, acrescentava ao PL 2200/1340, que concedeu novo reajuste aos profissionais da educação, que “a matrícula do profissional da educação deverá corresponder à lotação em apenas uma escola”. O objetivo proposto pela emenda era superar um fator de precarização existente hoje na rede: a fragmentação do tempo do professor que precisa trabalhar em três, quatro ou mais escolas, muitas vezes fora do município em que reside. Logo após a proposta ter sido colocada, o veto à emenda foi solicitado pelo secretario de educação Wilson Risolia e a emenda foi vetada pelo governador Sérgio Cabral em 18 de junho de 2013. Toda essa fragmentação do tempo, além de levar o professor a um intenso desgaste físico, ainda gera um tempo maior de deslocamento que não é remunerado, pois, o auxílio transporte41 pago pela Secretaria de Educação, além de ter critérios pouco claros, desconsidera o fato de o professor trabalhar em uma ou mais escolas, ou ter uma ou duas matrículas na rede estadual. A fragmentação da matrícula na rede têm levado muitos professores a aderirem ou optarem por atuar junto ao Programa Autonomia quando lhes é oferecida esta oportunidade, pois este Programa lhe garante a 39 40 Emenda aditiva nº37, em regime de urgência, em discussão única ao Projeto de Lei nº2200/2013. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, publicado em 15 de maio de 2013 41 A partir de fevereiro de 2013, de acordo com o decreto nº 42788 de 06 de janeiro de 2011, a SEEDUC passou a pagar o auxílio transporte no valor que varia de R$ 57,00 a R$ 110,00 aos servidores da secretaria estadual de educação. O valor é pago por CPF e não por matrícula, portanto o docente que possua duas matrículas na Rede Estadual recebe apenas por uma matrícula. 54 concentração da matrícula numa única escola, além de uma gratificação decorrente do aumento da carga horária. 1.2.6. O direito à preguiça: o “tempo livre42” dos professores Conforme vimos anteriormente, o estudo do tempo é bastante enriquecedor para a compreensão das sociedades e dos modos de vida humana, na medida em que vida e tempo mesclam-se, relacionam-se, determinam-se. A história do lazer – ocupação de um “tempo livre” ou disponível – está inegavelmente associada à história dos tempos sociais, seus usos, suas percepções, representações, bem como às lutas travadas para medi-los e controlá-los. O direito à preguiça, obra panfletária que já nos referimos, tem uma clara mensagem política: fazer a crítica materialista do trabalho assalariado ou do trabalho alienado. A preguiça seria, então, uma condição para que o proletariado se libertasse ao mesmo tempo em que se desenvolvesse física, psíquica e politicamente. Lafargue (2000) reivindicou em 1880, o direito à preguiça porque ele queria estender um espaço de lazer que era disponível apenas para alguns privilegiados. A redução da jornada de trabalho aparece já no final do século XIX, como uma das propostas para atenuar a alienação do trabalho. O desenvolvimento tecnológico e o uso racional das máquinas pareciam, então, uma solução para que os trabalhadores se livrassem da exploração que sofriam do trabalho, na medida em que teriam suas jornadas reduzidas, ao menos potencialmente, a três horas diárias. Para Lafargue (2000), essa drástica redução da jornada de trabalho poderia fazer o trabalho voltar a ser uma fonte de prazer para o homem. A redução da jornada de trabalho era vista, tanto por Lafargue como por Marx, como saída para aumentar o “tempo livre” dos trabalhadores. Fica claro que o trabalhador durante toda a sua existência nada mais é que força de trabalho, que todo seu tempo disponível é, por natureza e por lei, tempo de trabalho a ser empregado no próprio aumento do capital. Não tem 42 A expressão “tempo livre” foi utilizada entre aspas para sinalizar que é preciso relativizar o uso da palavra “livre”. Quando se usa a palavra “livre” para qualificar um tempo, presume-se que algo precisa ser pensado como seu oposto. Seria um tempo livre liberto do quê? De uma prisão? De um inimigo? De uma obrigação social? De normas ou regras? Quando se pensa com mais profundidade nessas “oposições” sociais à liberdade, chega-se a conclusão que é preciso entender o sentido de liberdade. O que é liberdade? O que é ser livre ou o que significa ter um tempo específico para ser livre? Essa discussão, por demais abrangente, não será feita nesta dissertação, utilizaremos a expressão “tempo livre” para o tempo disponível fora das obrigações e do trabalho. 55 qualquer sentido o tempo para educação, para o desenvolvimento intelectual, para preencher funções sociais, para o convívio social, para o livre exercício das forças físicas e espirituais, para o descanso dominical [...]. Mas, em seu impulso cego, desmedido, em sua voracidade por trabalho excedente, viola o capital os limites extremos, físicos e morais, da jornada de trabalho. Usurpa o tempo que deve pertencer ao crescimento, ao desenvolvimento e à saúde do corpo. Rouba o tempo necessário para se respirar ar puro e absorver a luz do Sol. Comprime o tempo destinado às refeições para incorporá-lo sempre que possível ao próprio processo de produção, fazendo o trabalhador ingerir os alimentos [...] como se fosse mero meio de produção. [...] O capital não se preocupa com a duração da vida da força de trabalho (Marx, K. 1989, p.3001). Partindo dessas reflexões, acreditamos ser necessário analisar criticamente como tem se dado as formas de utilização do “tempo livre43” por parte dos professores. Os depoimentos que apresentaremos a seguir demonstram uma mistura de concepção do que seria o “tempo livre” e diferentes formas de apropriação desse tempo. Um fator comum nos depoimentos foi associar o final de semana ao “tempo livre”. Visto que, são dias que o trabalhador docente não está em sala de aula, embora alguns afirmem planejar aulas, estudar ou se aperfeiçoar nestes dias. O depoimento de Nilda, que está próxima de se aposentar, parece emblemático neste ponto: Eu não tenho mais lazer. Eu gosto só de ficar na internet. Mas geralmente, final de semana eu planejo aula de toda a semana, da semana inteira, e durante a semana não dá tempo, tem que cuidar de casa é complicado. O lazer acabou (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). A professora associa diretamente o final de semana a um período que deveria ser reservado ao “tempo livre” com atividades de lazer, porém com a vida atarefada que possui, incluindo as tarefas domésticas, este tempo tem sido negligenciado em função de um cotidiano, durante a sua semana de trabalho, que não permite que ela faça o planejamento de suas aulas. Ao dizer que gosta só de ficar na internet, associa as navegações na rede como uma forma de distração e ocupação do “tempo livre”, se referindo como um “lazer” menor ou um não-lazer, pois, como ela mesma afirma, não possui mais formas de lazer em sua vida. Outro depoimento que chama a atenção neste ponto é de uma outra professora que também está próxima de se aposentar. Neste caso, ela afirma não possuir muito 43 Nas entrevistas, geralmente ao final, a pergunta feita foi “Como você utiliza o seu tempo livre?” Alguns professores associaram a questão ao tempo de lazer, ao tempo sem trabalho, ao tempo fora da sala de aula ou demarcaram o final de semana como sinônimo de “tempo livre”. 56 “tempo livre”, que tem ocupado, praticamente, todo o seu tempo com o trabalho, mas que almeja o “tempo livre”, assim que deixar a docência, embora afirme que não irá deixar de ter uma vida produtiva, mesmo que seja atuando em outras áreas, associando desta forma que a sua realização pessoal após a aposentadoria será através da realização de atividades que até então não pôde colocar em prática. Esse ano tá complicado. Ano que vem eu vou me aposentar. Então nessa reta final eu tô realmente ocupando o meu tempo. [...] Ultimamente tô sem horário livre. Esse ano eu peguei bastante turmas, então agora eu tô trabalhando mais um pouco. Meu ritmo sempre foi acelerado, sempre foi forte, batidão. Parei durante muito tempo, fiquei afastada, readaptada e agora voltei ao ritmo normal, que é não ter lazer. Como eu vou me aposentar ano que vem eu tô me dedicando mais esse ano. É o último ano. Aí sim, eu vou pra minha casa em Mangaratiba, ficar lá, vou fazer o curso que quero, de costura... Eu sempre fui muito agitada. Parar não! (Professora Janete, 50 anos, 26 anos de magistério). O meu lazer por enquanto é ficar em casa... internet, televisão... Entendeu? Quero ir ao cinema mas eu não consigo, tô tão cansada fim de semana que, sabe, acabo nem indo. Eu falo “Ah, vou sair”, mas eu prefiro dormir por conta do cansaço (IBIDEM). Esta professora que sempre teve um ritmo acelerado de trabalho ficou de licença médica por sete meses, recentemente, segundo ela devido a carga de trabalho muito pesada que tinha. Quando voltou ficou readaptada de função por um ano, trabalhando na biblioteca da escola. Quando voltou para a sala de aula, Janete parece seguir o mesmo ritmo anterior, mas segundo ela, por um curto período, visto que irá se aposentar em breve. Janete associa o “tempo livre” ao tempo destinado ao ócio ou a outras atividades como assistir televisão ou ficar na internet, diz que gosta de ir ao cinema, mas que não tem conseguido fazer isso atualmente, preferindo dormir por conta do cansaço. Exemplos semelhantes de utilização do “tempo livre” encontramos no depoimento de Christiane. Tenho tempo livre porque eu faço o meu tempo livre. Não abdico de ter sábado e domingo em casa. Durmo, vou ao cinema, vou no shopping, saio para tomar uma cerveja. [...] Eu trabalho de segunda a sexta. Faço com que o meu final de semana seja para mim, de descanso para poder aguentar a semana, porque durante a semana eu estou em cinquenta lugares ao mesmo tempo. Hoje eu já dei aula em Valqueire, já dei aula no Pechincha, tô em 57 Paciência e vou voltar pra Valqueire. Amanhã eu tô lá dentro de Jacarépagua, tô no Pechincha de novo, tô no Valqueire e tô em Paciência. Então, dia de semana eu rodo que nem louca, mas final de semana é pra mim. Eu faço o meu tempo livre pra ter esse tempo pra mim, se não, não dá. Dinheiro né? A Gente ganha pouco, então a gente acaba tendo que trabalhar assim, então eu prefiro não trabalhar final de semana, eu prefiro descansar. Eu faço o meu tempo livre, me dou esse prazer (Professora Christiane, 32 anos, 5 anos de magistério). Ir ao shopping, ir ao cinema (geralmente nos Shoppings) foram citados coincidentemente por essas duas professoras. Christiane cita determinadas atividades em seu tempo livre nas quais busca uma atividade de lazer que lhe renove as energias para aguentar o intenso ritmo semanal. Tudo isso nos remete a uma reflexão realizada por Padilha (2006), quando faz uma análise dos espaços de lazer da sociedade contemporânea, vasculhando o espaço e os meandros do bazar cultural mundializado que seriam os Shopping Centers e nos sugere importantes reflexões. De um lado o capitalismo de hoje impõe à classe média uma ditadura do lazer, ou seja, faz-se necessário ocupar o tempo livre de qualquer maneira, uma vez que o ócio – no sentido de não fazer nada ou de simplesmente contemplar – é condenado num sistema que depende da produtividade acelerada. Assim, as atividades de lazer entram no mesmo ritmo da produção e são oferecidas prontas aos seus consumidores, sob o pretexto de que o ser humano moderno, não preparado para desfrutar do seu tempo livre, possibilitado pelo avanço do capitalismo, seria incapaz de inventar o seu próprio lazer. Dessa relação entre trabalho e lazer nasce a concepção compensatória, ou seja, se o trabalho aliena e cansa, deve-se oferecer aos trabalhadores uma atividade de lazer que supostamente compense tal alienação, de forma a recuperá-lo para o trabalho no dia seguinte. Gera-se um círculo fechado na lógica do capital do qual não escapam nem o tempo de trabalho nem o tempo de não-trabalho. Por isso, viver a plenitude de um tempo livre numa sociedade controlada pela racionalidade econômica do mercado fica cada vez mais difícil (PADILHA, V. 2006, p.27-8). Bruno é professor, mas também possui atividades paralelas num programa de rádio, afirma que o seu “tempo livre” é nesta ocupação, associando essa atividade mais como um lazer do que com um trabalho. Além disso, afirma utilizar o “tempo livre” para estudar e fazer outras atividades que o trabalho de professor exige. Meu tempo livre atualmente é na rádio. Eu tenho um programinha de música, informações e serviços. Outra parte do tempo fico em casa estudando porque esses projetos, tanto o Autonomia, quanto o Nova EJA requerem que você se desdobre nos estudos. Você tem que preparar aula, você tem que participar de reunião. Então meu tempo livre, não é muito livre não. Durante a semana eu 58 tiro pelo menos duas horas, até três horas no computador, entendeu? É... Participando das atividades propostas, estudando as questões que eles colocam... Então livre mesmo só sábado e domingo. Mas mesmo final de semana eu tenho que prestar conta aos meus tutores e a plataforma que me cobra atividades (Professor Bruno, 53 anos, 15 anos de magistério). Mais uma vez, observamos o “tempo livre” associado quase que obrigatoriamente ao final de semana, porém, mais uma vez o vemos ocupados por diversas atividades realizadas pelos professores. Bruno ressalta que os projetos nos quais ele trabalha lhe exigem muito. Ele precisa preparar aulas, participar de reuniões e pela primeira vez, dentre os depoimentos, vimos a associação da utilização da internet não para lazer mas para trabalho, embora continue com a mesma percepção de que a utilização da internet faz parte do “tempo livre” ou seja, se dá fora do trabalho, dissociando as atividades de planejamento e estudos das atividades laborais. Sobre o necessário tempo de descanso, trouxemos mais uma vez para essa discussão trechos do depoimento de Janete, pois sua trajetória, ao longo dos 27 anos de magistério, nos oferece elementos que evidenciam um percurso com um tempo bastante regrado em seu cotidiano de trabalho. Com uma rotina de trabalho difícil, e já ter tirado licença por depressão, já passou por diversas escolas, já foi readaptada, e hoje novamente em sala de aula, próxima de sua aposentadoria afirma que trabalha muito, prepara aulas e corrige provas em seu único tempo disponível que é aos fins de semana, mas ultimamente vem proclamando o seu “direito à preguiça”. O único dia que eu tiro pra descansar é quarta feira. O dia todo. Eu não faço nada. É meu dia de nada. Eu trabalho a noite, mas durante o dia é o dia que eu tiro pra dormir e descansar. Domingo depois das quatro (horas) da tarde também, mas domingo de manhã eu ainda trabalho. Domingo agora eu trabalhei por causa do conselho de classe, fechando nota... Direto! Ontem, hoje também... Hoje ainda tirei uma folga porque amanhã tem conselho, então eu tirei minha folga à tarde hoje, mas eu trabalho bastante. A semana toda eu conto bastante horas (de trabalho), sem contar as horas na escola. As tardes, algumas tardes, eu tirei para descansar. Então eu trabalho de manhã, a noite, só terça que eu trabalho a tarde. Então, segunda, quarta, quinta, sexta, sábado, passo praticamente o dia todo, dando ou preparando aula... Algumas noites de sábado também viro a madrugada até tarde, aí domingo engreno e a noite paro pra ver minha televisão que eu gosto (Janete, 49 anos de idade, 27 de magistério). É bom lembrar que entre as possibilidades de ocupação deste tempo disponível, os professores, na maioria das vezes e em proporções diferentes, acabam optando ou por 59 lazeres programados e direcionados ao consumo de bens e serviços ou pela passividade de entregar-se ao mundo divertido e mágico da televisão ou da internet. CAPÍTULO 2: A DOCÊNCIA NO TEMPO E NO CONTEXTO DAS LEIS No presente capítulo buscaremos analisar o contexto material/econômico e as condições objetivas de trabalho dos professores. Para isso tomaremos como base as reformas educacionais da década de 1990, as políticas que têm como marco o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), o Compromisso Todos Pela Educação e o que chamamos de “Compromisso Fluminense” com as novas políticas educativas e suas interferências no trabalho docente. Nosso objetivo aqui foi lançar um olhar sobre as condições às quais os professores estão submetidos, analisando a relação entre as políticas educacionais vivenciadas por eles e a dinâmica de seus processos de trabalho, que podem ter gerado a adesão de diversos sujeitos a Programas educacionais como o Autonomia. O contexto que teve como marco as reformas educacionais da década de 1990 foi fortemente marcado pela meritocracia 44 e por mudanças muito amplas no âmbito do trabalho docente. Localizaremos os professores dentro desse contexto político/social mais amplo, buscando mostrar a intensidade com que o Estado provocou mudanças na organização e funcionamento da rede escolar, para novamente explicitar como isso interfere no tempo do professor e na “con(formação)” de um grupo profissional. Partindo do entendimento de uma concepção ampla da legislação, por meio da qual, pretendemos explorar documentos oficiais, dados estatísticos e programas educativos. O presente capítulo pretende analisar a legislação educacional - Decretos, Leis, Regulamentos, Programas de ensino e o contexto material/econômico, ou seja, as condições objetivas de trabalho dos professores, a fim de expor as políticas educacionais vivenciadas pelos sujeitos da pesquisa. Mostraremos a intensidade com 44 A palavra meritocracia é definida no nível ideológico, “como um conjunto de valores que postula que as posições dos indivíduos na sociedade devem ser consequência do mérito de cada um. Ou seja, do reconhecimento público da qualidade das realizações individuais”. (BARBOSA 2003, p.22). Segundo a autora, a palavra meritocracia aparece diluída nos debates sobre desempenho e avaliação, justiça social, reforma administrativa do Estado e o neoliberalismo. Na realidade, o termo se refere a uma das mais importantes ideologias e critérios de hierarquização social das sociedades modernas, atinge as diferentes dimensões de nossa vida social e no âmbito do espaço público. No entanto, seu uso científico no campo educacional vem sendo cada vez mais frequente (KREIMER, 2000). Para mais detalhes, ver: VIEIRA, C. M. et al. Reflexões sobre a meritocracia na educação brasileira. Revista Reflexão e Ação, Santa Cruz do Sul, v.21, n. esp., p.316-334, jan./jun.2013. Neste artigo, os autores analisam o sentido etimológico do termo mérito, buscando compreender o significado atribuído aos termos meritocracia e meritocracia escolar no contexto da Reforma do Aparelho do Estado. 60 que o Estado provoca mudanças na organização e funcionamento da rede escolar e como isso interfere no trabalho docente e no tempo do professor. A escolha do período, que engloba as últimas décadas, foi muito influenciada pela recorrente referência a este na literatura sobre a precarização do trabalho docente e por considerarmos que os anos 1990 no Brasil são caracterizados como um marco da implementação de políticas marcadamente neoliberais, acarretando perdas consideráveis para a educação e também para o trabalho docente. No Rio de Janeiro, nas escolas públicas estaduais, observamos que o trabalho docente foi submetido a mudanças significativas, principalmente em decorrência das políticas baseadas na meritocracia e na remuneração por resultados. Os efeitos dessas políticas são inúmeros, e atinge desde aspectos relacionados à pressão emocional e ao estresse, até aspectos que ocasionam alterações nas relações sociais, tais como uma maior competição entre os professores, a redução da sociabilidade na vida escolar, o aumento do trabalho burocrático e ações profissionais cada vez mais individualizadas. É bem verdade que o conhecimento prévio de algumas dessas políticas orientou nossa seleção de depoimentos, mas o conjunto de políticas a serem consideradas no estudo foi composto, também, a partir dos depoimentos dos professores, já que este será o fio condutor de nossa análise. Recorreremos mais uma vez as análises de Thompson, pois, entendemos que o historiador inglês nos instiga a contextualizar o papel da legislação sobre os rumos da educação e do trabalho docente a partir da análise das políticas governamentais e das reformas educacionais que incidem sobre os sujeitos que as vivenciam no seu tempo de atuação profissional. PARTE 1 2.1.1. A legislação como um campo de batalhas A legislação educacional está intimamente ligada a determinadas formas de concepção de educação, concepções estas que emanam das instâncias governamentais, e que são apropriadas, de maneiras as mais diversas, seja pelos diferentes sujeitos ligados à produção das leis, seja por aqueles que serão os executores da mesma. Diversas são também, as maneiras de se enquadrar, desviar ou contestar as leis por quem se encontra sob a órbita de determinadas normas legais em seu cotidiano. Talvez esta seja uma boa chave de leitura para uma aproximação das inúmeras Leis e Reformas de ensino como 61 estratégias governamentais de intervenção e de como os diferentes grupos delas se apropriam no campo educativo. Em relação às leis, tem sido comum encontrar análises que se baseiam em duas perspectivas: uma que pretende uma análise por demais particularizada e diacrônica, que acaba centrando o foco no presente, se esquecendo que as leis são construções humanas, eivadas de disputas entre forças e interesses divergentes, portanto, o seu caráter oficial, representa apenas uma parte do processo histórico que a engendrou; outra que propõe um sobrevôo e se enquadra num mesmo esquema interpretativo experiências diversas da relação dos indivíduos com as leis. A fecundidade da obra de Thompson reclama o zelo permanente com o diálogo entre as duas perspectivas e mais uma vez é na perspectiva thompsoniana que iremos nos debruçar. A seguinte passagem de Thompson nos abre o caminho: Ao investigar a história não estamos passando em revista uma série de instantâneos, cada qual mostrando um momento do tempo social transfixado numa única e eterna pose: pois cada um desses instantâneos não é apenas um momento do ser, mas também um momento do vir-a-ser: e mesmo dentro de cada seção aparentemente estática, encontrar-se-ão contradições e ligações, elementos subordinados e dominantes, energias decrescentes ou ascendentes. Qualquer momento histórico é ao mesmo tempo resultado de processos anteriores e um índice da direção de seu fluxo futuro (THOMPSON, 1981, p.59). Ao situar o debate sobre a legislação educacional no tempo presente, resgatamos a fundamental concepção teórica de Thompson a respeito da forma com que se deve encarar o debate sobre a lei. Podemos afirmar que desde A formação da classe operária inglesa, a lei aparece nos trabalhos do Thompson, simultaneamente como problema político e teórico. Desde então, a lei não aparece como puro arbítrio, ou simples mecanismo de domínio direto de uma classe sobre outra; ela surge como um campo de batalhas. É verdade que, na história, pode-se ver a lei a mediar e legitimaras relações de classe existentes. Suas formas e seus procedimentos podem cristalizar essas relações e mascarar injustiças inconfessas. Mas essa mediação, através das formas da lei, é totalmente diferente do exercício da força sem mediações. As formas e a retórica da lei adquirem uma identidade distinta que, às vezes, inibem o poder e oferecem alguma proteção aos destituídos de poder. Somente quando assim são vistas é que a lei pode ser útil em seu outro aspecto, a ideologia. Além disso, a lei em ambos os aspectos, isto é, enquanto regras e procedimentos formais e como ideologia, não pode ser proveitosamente analisada nos termos metafóricos de uma superestrutura 62 distinta de uma infraestrutura. Embora isso abarque uma grande parcela evidente de verdade, as regras e categorias jurídicas penetram em todos os níveis da sociedade, efetuam definições verticais e horizontais dos direitos e status dos homens e contribuem para a autodefinição ou senso de identidade dos homens. Como tal, a lei não foi apenas imposta de cima sobre os homens: tem sido um meio onde outros conflitos sociais têm se travado (THOMPSON, 1987, p.358). É possível afirmar que Thompson esteja operando com dois modos diferentes, e muitas vezes antagônicos, de apreensão do universo da lei. Ora a lei aparece como mediação dos conflitos de classe, ora aparece como expressão da dominação de uma classe sobre a outra. Essa variação depende do contexto. De todo modo, o tão pequeno quanto denso item intitulado “O domínio da lei” incluído nas conclusões de seu livro Senhores e caçadores se consagrou como uma profunda mudança de abordagem sobre esta questão em relação às tendências até então predominantes no interior da tradição marxista estruturalista, pois nele Thompson analisa os atores sociais envolvidos e nos revela a dimensão da dinâmica social do domínio da lei. Por isso, a lei não pode ser vista simplesmente como ideologia ou como aparato do Estado, ou mesmo como instrumento da classe dominante. Enfim, ela deve ser vista, também, como mediação dessas mesmas relações, de paternalismo e deferência, de domínio e subordinação. Assim, a lei tem suas características próprias, sua história própria e sua própria lógica de desenvolvimento. A linha geral da argumentação de “O domínio da lei” é polemizar com o marxismo estruturalista, para o qual a lei “como tal é nitidamente um instrumento da classe dominante de facto.” (Thompson, 1987, p. 349). Ao adensar a polêmica com os estruturalistas, Thompson reafirma que seu interesse pelos direitos e transgressões à lei por uns poucos homens no início do século XVIII é antes de tudo um interesse por trivialidades. Critica a tradição marxista mais antiga que acredita que: O domínio da lei é apenas uma outra máscara do domínio de uma classe. O revolucionário não precisa ter nenhum interesse pela lei, a não ser como um fenômeno do poder e da hipocrisia da classe dominante: seu objetivo deveria ser o de simplesmente subvertê-la (THOMPSON, 1987, p.350). Ao criticar essa visão do reducionismo estrutural que joga fora toda a luta pela lei, e dentro das formas da lei, Thompson afirma que essa visão lançaria homens e mulheres “num perigo imediato” (p.358) e trazendo o debate para o século XX, diz que 63 “negar ou minimizar esse bem, neste século perigoso em que continuam a se ampliar os recursos e as pretensões do poder, é um erro temerário de abstração intelectual.” (p.357). Thompson insiste no ponto negligenciado por alguns marxistas estruturalistas e não chega “a uma conclusão simples (lei = poder de classe), mas a uma conclusão complexa e contraditória” (p.356), na qual a Lei, por um lado, torna-se um instrumento que realmente mediava relações de classe existentes, para proveito dos dominantes; por outro, mediava essas relações de classe através de formas legais, que impunham restrições às ações dos dominantes. Sendo assim: A lei (concordamos) pode ser vista instrumentalmente como mediação e reforço das relações de classe existentes e, ideologicamente, como sua legitimadora. Mas devemos avançar um pouco mais em nossas definições. Pois de dizemos que as relações de classe existentes eram mediadas pela lei, não é o mesmo que dizer que a lei não passava da tradução dessas mesmas relações em termos que mascaravam ou mistificavam a realidade. Muitíssimas vezes isso pode ser verdade, mas não é toda a verdade (IBIDEM, p.353). Thompson aceita parte da crítica marxista-estrutural, confirmando as funções classistas e mistificadoras da lei, porém, rejeita seu reducionismo inconfesso. Ao analisar o século XVIII e a Lei Negra45 questiona a validade de se separar a lei como um todo e colocá-la em alguma superestrutura tipológica: A lei, considerada como instituição (os tribunais, com seu teatro e procedimentos classistas) ou pessoas (os juízes, os advogados, os Juízes de Paz), pode ser muito facilmente assimilada à Lei da classe dominante. Mas nem tudo o que está vinculado “a lei” subsume-se a essas instituições. A lei também pode ser vista como ideologia ou regras e sanções específicas que mantém uma relação ativa e definida (muitas vezes um campo de conflito) com as normas sociais; e, por fim, pode ser vista simplesmente em termos de sua lógica, regras e procedimentos próprios – isto é, simplesmente enquanto lei. E não é possível conceber nenhuma sociedade complexa sem lei (IBIDEM, p.351) Além de ver a lei como um campo de disputas, de conflitos e de interesse de diferentes setores da sociedade, Thompson também lembra que fazer a lei ser/parecer 45 Lei 9 George I c. 22, que veio a ser conhecida como “A Lei Negra”, decretada em maio de 1723. Uma lei para a punição mais eficaz de pessoas perversas e mal-intencionadas usando armas e disfarces, e praticando agressões e violências às pessoas e propriedades dos súditos de Sua Majestade, e para o encaminhamento mais rápido dos infratores à justiça. (Caput da Lei 9 George I. C.22) 64 justa é de certa forma e em determinadas conjunturas, de interesse dos setores dominantes, pois: A maioria dos homens tem um forte senso de justiça, pelo menos em relação aos seus próprios interesses. Se a lei é manifestamente parcial e injusta, não vai mascarar nada, legitimar nada, contribuir em nada para a hegemonia de classe alguma. A condição prévia essencial para a eficácia da lei, em sua função ideológica, é a de que mostre uma independência frente a manipulações flagrantes e pareça ser justa (IBIDEM, p.354). O que parece fundamental nas sugestões de Thompson, é perceber a relação entre costume e lei. E essa relação é sempre instável e mutável. Exemplo disso é dado pelo fato de que registrar os costumes, às vezes oralmente herdados, era uma maneira de garantir, na lei, os direitos costumeiros. E, para assegurar a manutenção dos direitos, o costume podia se tornar muito complexo e sociologicamente sofisticado. Ou seja, não havia nada estático nem no costume nem, tampouco, na lei. Exatamente por isso, a lei não aparece como um instrumento de domínio de uma classe sobre outra, mas como um campo de lutas, aberto e indefinido, em que a complexidade dos costumes desempenha um papel decisivo. Para analisar as influências da lei de ambos os lados, dos dominados e dominantes, Thompson partiu da experiência de humildes moradores das florestas e seguiu através de evidências contemporâneas, as linhas que ligavam-nos ao poder. “Em certo sentido as próprias fontes me obrigaram a encarar a sociedade inglesa em 1723 tal como elas mesmas a encaravam, a partir de ‘baixo’.” (THOMPSON, 1987, p.17). A validade dessas reflexões certamente lançaram um novo olhar sobre a Inglaterra de 1723, mas o que um debate sobre a Inglaterra do século XVIII nos ajuda a pensar os professores do século XXI? Thompson nos mostrou neste estudo, que ao forjarem leis duras e opressivas, a classe dominante buscava servir aos seus próprios interesses, mas ao mesmo tempo, a lei também impunha restrições ao poder, forçando “os dominantes a agir apenas por vias permitidas pelas suas formas jurídicas.” (p.359). Ao lançar essa luz sobre o debate, faremos o movimento de compreender a legislação educacional na forma como são colocadas pelos órgãos oficiais, mostrando a intensidade com que o Estado provoca mudanças na organização e funcionamento da rede escolar e como isso interfere no trabalho docente e no tempo do professor, como o poder público busca implementar a 65 lei visando servir aos seus próprios interesses, e ao mesmo tempo, colocamos como a lei também impõe restrições ao poder. A partir da perspectiva dos de “baixo” veremos as apropriações desse universo da “lei” na educação do estado do Rio de Janeiro. PARTE 2 2.2.1. Condições de trabalho docente e as dimensões quantitativas do ensino As variáveis que nos permitem caracterizar certas dimensões quantitativas do ensino, como: o tempo de trabalho diário, semanal, o número de horas em classe, o número de alunos por turma, o salário, o número de escolas que um professor precisa atuar, etc., geralmente servem para definir o quadro legal no qual o ensino é desenvolvido; elas são utilizadas pelos estados e municípios para contabilizar o trabalho docente, avaliá-lo e remunerá-lo. Organismos como a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico) ou UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) utilizam destas mesmas variáveis para fazer comparações entre professores de diferentes países. O Proyecto Regional de Educación para América Latina y El Caribe (Prelac), definiu, em 2005, o docente como protagonista na mudança educacional. Isso baseado nas inúmeras mudanças que a sociedade vem sofrendo e que passa a exigir da educação diferentes papéis antes assumidos por outras organizações, como a família, a igreja e a própria vizinhança. O que o documento indica é que se espera, a partir de todas essas mudanças, que a escola desempenhe outra função e, para tanto, faz-se necessário que os profissionais que nela atuam sejam preparados diferentemente, tendo em vista que deverão atuar em uma realidade multicultural, na qual a heterogeneidade e a diferença passam a ser a grande tônica. Nesse contexto, exige-se do trabalho docente muito mais do que as tarefas restritas aos aspectos didáticos e pedagógicos. Espera-se, segundo a lógica do Prelac, que, em face dessas transformações sociais e políticas, o papel dos docentes vá além do espaço antes ocupado por ele. Além da função de ensinar em classes multiculturais, de assumir as tarefas de enfermeiro, psicólogo e assistente social, é esperado desse profissional que se envolva nas tarefas de gestão e de planejamento em uma tarefa coletiva que inclua seus pares, os alunos e a própria comunidade. Além da defesa do protagonismo docente, advoga-se ainda a tese de que as reformas educacionais 66 implantadas na América Latina, nos anos de 1990, não vingaram no seu todo em função do não-envolvimento dos docentes nas mesmas. Ao longo das últimas décadas, a maior parte dos países – tanto da América Latina como de outras regiões do mundo – empreendeu46 profundos processos de transformações educacionais. O relatório da UNESCO de 2004, busca fazer um Perfil dos Professores do Brasil levantando características dessa categoria profissional em todo o país. Ao reconhecer os importantes avanços da expansão quantitativa da oferta escolar, em todos os níveis, as mudanças nos estilos de administração e gestão, “destinados a conceder maiores níveis de autonomia aos estabelecimentos escolares e maiores níveis de responsabilidade pelos resultados (accountability)” (UNESCO, 2004, p.11), os novos conteúdos curriculares e as novas tecnologias de informação nas escolas, temos a seguinte ponderação logo no prefácio do documento: Contudo, os resultados não são tão satisfatórios quando se observa o desempenho de aprendizagem dos alunos. As medições nacionais e internacionais confirmam que os progressos são muito lentos e que existem desigualdades muito significativas nos resultados de aprendizagem dos alunos de diferentes origens sociais. Embora seja verdade que o êxito da aprendizagem é consequência de fatores muito diversos e complexos, é aceitável sustentar que uma das explicações do baixo impacto das reformas nos processos de ensino-aprendizagem tenha sua raiz no “fator docente”, entendido como o conjunto de variáveis que definem o desempenho dos mestres, professores e diretores das escolas: condições e modelos de organização do trabalho, formação, carreira, atitudes, representações e valores (IBIDEM, p.11). Embora reconheçam que o êxito da aprendizagem dos alunos dependem de fatores diversos e complexos, que não chegam a ser explicitados, observamos uma atribuição ao “fator docente” como raiz de explicação para o baixo impacto das reformas educacionais na educação básica. Conforme observou Dalila Oliveira: Após o ciclo das orientações e diretrizes educacionais, dos anos de 1980 e de 1990, voltadas para a gestão, o currículo, a avaliação e o financiamento, dentre outras, advindas dos organismos multilaterais47, observa-se, em muitos estudos e pesquisas realizados por esses agentes internacionais, uma tese recorrente de que os ‘professores fazem a diferença’ e que devem assumir certo ‘protagonismo’ nas reformas educacionais. A partir de então, os 46 Utilizamos propositalmente a palavra “empreendeu”, para fazer uma alusão ao termo “empreendedorismo”, pois as reformas implementadas tiveram um forte caráter da lógica empresarial. 47 OCDE, Banco Mundial, OMC, UNESCO, PREAL. 67 professores se tornaram alvo das políticas de inspiração neoliberal, mediante surgimento de diretrizes, programas e ações orientadas para a regulação e o controle profissional por meio da aferição e remuneração por desempenho, bem como a definição de competências e de certificações profissionais (OLIVEIRA, J. F. 2010, p.67). É nesse cenário de mudanças na sociedade e na educação, com reflexos diretos na escola, que as políticas educacionais passam a ser pensadas e implementadas no Brasil. Políticas que colocam no professor, cada vez mais, a responsabilidade sobre o sucesso ou o fracasso escolar dos estudantes nos exames, nos índices e nas metas de qualidade estabelecidas em âmbito nacional e internacional. A avaliação do rendimento escolar é uma das atribuições da União no processo de coordenação da política nacional, o que não impede que estados e municípios também possam ter iniciativas de avaliação do desempenho escolar em seus respectivos sistemas de ensino, o que já vem ocorrendo na última década, mesmo que a União tenha criado e implantado exames e indicadores de abrangência nacional. Nessa direção, destacam-se os seguintes exames implantados pelo governo federal para a Educação Básica – SAEB (1994), Exame Nacional do Ensino Médio – Enem (1998), Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos – Encceja (2002), Prova Brasil (2005), Provinha Brasil (2007). [...] Todos esses exames sofreram alterações ao longo do processo de execução, nos diferentes governos, mas estão todos sendo realizados em conformidade com sua periodicidade. Os resultados desses exames, sobretudo externos, ensejaram os governos a voltarem sua atenção para a qualidade do ensino, colocando o docente como elemento chave desse processo e definindo ações que pudessem contribuir para uma melhor atuação desses profissionais, “o que vem incluindo mudanças na formação (inicial e continuada), no ingresso da profissão e na carreira, dentre outros”. (OLIVEIRA, D. A. e VIEIRA, L. F., p.69, 2012) Observamos que com a inclusão dos testes padronizados, aprofundam-se os processos de controle e regulação do trabalho docente agora vinculado ao desempenho dos estudantes nos exames nacionais e concessão de bônus e avaliação de caráter meritocrático. Como assinalou Freitas (2012): Pautadas unicamente em resultados de avaliação de rendimento dos estudantes, tais políticas tendem a reforçar o caráter de mera instrução do ensino e a concepção meritocrática, hierárquica, subordinada e tutorial do 68 trabalho docente ainda presente na grande maioria das propostas de formação continuada oferecidas aos educadores. As ações indicadas no âmbito do apoio ao trabalho docente são extremamente tímidas, para não dizer equivocadas, para fazer face aos imensos desafios postos para a escola e a educação pública na atualidade (FREITAS, H. C. L., 2012, p.97-98). Para o estabelecimento de uma política de profissionalização e valorização dos educadores, que defina os caminhos e que fortaleçam a construção da identidade profissional dos docentes da educação básica, Tardif e Lessard (2011) destacam, entre outros pontos, a recuperação da dignidade do trabalho docente pela implementação da Lei do Piso Nacional Salarial Profissional, na sua integralidade, prevendo-se a concentração do professor com dedicação integral e exclusiva a uma escola e o estabelecimento de 1/3 das horas para as atividades de preparação e avaliação do trabalho docente. Os autores afirmam a importância de que essas condições não sejam vistas unicamente como exigências que determinam unilateralmente a atividade docente; elas são do mesmo modo recursos utilizados pelos atores para chegar a seus fins. Nesse sentido, a análise do trabalho docente não pode limitar-se a descrever condições oficiais, mas deve também empenhar-se em demonstrar como os professores lidam com elas, se as assumem e as transformam em recursos em função de suas necessidades profissionais e de seu contexto cotidiano de trabalho com os alunos. (TARDIF, M., LESSARD, C., 2011, p.112). A análise sobre as condições de trabalho deve se situar no tempo e no espaço, ou seja, no contexto histórico-social e econômico que as engendram. Considera-se, dessa maneira, de acordo com o referencial marxiano de análise, que as condições de trabalho são derivadas da forma determinada de organização do trabalho no capitalismo. Diversos trabalhos acadêmicos48 procuram demonstrar as condições de trabalho docente seja na perspectiva da proletarização (ENGUITA, 1991; APPLE e TEITELBAUN, 1991; KREUTZ, 1986; WENZEL, 1994); da ambivalência, apresentando características de proletarização e profissionalismo (HYPÓLITO, 1991); em relação à carga de trabalho (LESSARD et al, 2010); ou mesmo considerando as condições de saúde dos docentes que traduzem em síndrome de bournout e exaustão profissional (ESTEVE et al, 2004). Estes estudos listam certo número de fatores associados ao “mal estar” no ensino demonstrando que as ambiguidades são permanentes e que os enfoques são 48 Fizemos uma breve recuperação dos conceitos sem qualquer pretensão à originalidade. 69 diversos a fim de encontrar diferentes perspectivas. O aumento da carga de trabalho, a insatisfação no trabalho devido a sua precarização, a perda de autonomia, entre outros fatores, incidem sobre a vontade de deixar a profissão ou em sua manutenção sem satisfação profissional. No dicionário Trabalho, profissão e Condição Docente (2010) dois verbetes tratam do tema. Assunção e Oliveira (2010) ao tratarem da condição de trabalho docente partem do conceito de condições de trabalho em geral, presente na obra de Marx que trata sobre o processo de trabalho e observam que o conceito de condições de trabalho está intimamente vinculado às condições de vida dos trabalhadores. No segundo verbete, de Migliavacca (2010), a expressão condições de trabalho do professor se refere a aspectos sociais, políticos, culturais e educacionais que, em um período histórico dado, delimitam o marco estrutural em que se desenvolve o processo de trabalho do professor, portanto, segundo a autora, está muito distante da “identificação de uma suposta essência universal imanente ao trabalho docente”, já que depende de uma contextualização histórica particular. As condições de trabalho docente se referem à forma como está organizado o processo de trabalho nas unidades educacionais. Tais condições compreendem aspectos relativos à forma como o trabalho está organizado, ou seja, a divisão das tarefas e responsabilidades, a jornada de trabalho, os recursos materiais disponíveis para o desempenho das atividades, os tempos e espaços para a realização do trabalho, até as formas de avaliação de desempenho, horários de trabalho, procedimentos didáticopedagógicos, admissão e administração das carreiras docentes, condições de remuneração, entre outras. A divisão social do trabalho, as formas de regulação, controle e autonomia no trabalho, estruturação das atividades escolares e a relação do número de alunos por professor, também podem ser compreendidas como componentes das condições de trabalho docente. Ball (2005; 2008) analisa tal processo desde uma perspectiva do caráter performático e regulador das políticas educativas que, ao alcançar os docentes, por meio de um endereçamento interpelativo das reformas gerencialistas, visam a um controle da subjetividade para forjar identidades docentes. Oliveira (2007) também desenvolve o tema da autointensificação do trabalho docente, demonstrando como os processos de intensificação, pela crescente precarização do trabalho e pelo aumento das funções e atividades docentes, advindos das novas formas de organização do trabalho impostas pelas reformas, vão se transformando em processos de autointensificação. (DUARTE, 2010). 70 A temática é retomada nos artigos de Garcia e Anadon (2009). As autoras tratam de demonstrar relações entre as reformas educativas e a autointensificação do trabalho docente, indicando que a precarização do trabalho na educação básica, as novas demandas nos modos de gestão do trabalho escolar, envolvendo o currículo e o ensino, juntamente com as políticas oficiais de formação e profissionalização, estimulam uma nova moral, que impõe, por sua vez, uma nova identidade docente, baseada na responsabilização e na culpa. É um processo de subjetivação que, associado à intensificação, atinge as emoções docentes, resultando num processo de intensificação. Este processo liga-se a outra questão fundamental para análise do trabalho docente, que é a jornada de trabalho. Ao abordar o tema, Sady Dal Rosso nos oferece algumas pistas importantes. Segundo o sociólogo, Nos dias de hoje, a questão da duração da jornada transformou-se num problema social e de pesquisa de primeira ordem, por causa do impacto sobre a saúde dos trabalhadores. Há profissionais da educação que realizam jornadas entre 60 e 70 horas semanais. Com isso, avolumam-se os problemas de saúde física e emocional na categoria. Muitos docentes também se submetem a horas de trabalho não pago na preparação de aulas, correção de provas, no atendimento a familiares dos alunos e em atividades coletivas nas escolas. A jornada é uma questão relevante por uma razão adicional, a saber, a luta pelo tempo livre. Dispor de tempo livre significa alargar o espaço de escolhas e de decisão para realizar atividades edificantes. Retomar a elaboração da teoria do valor trabalho, de modo que a classe trabalhadora tenha em mãos um princípio para a ação crítica é uma iniciativa desejável e necessária aos dias de hoje (DAL ROSSO, S. 2010. CDROM). A jornada de trabalho se expressa primeiramente pelo componente de duração, que compreende a quantidade de tempo que o trabalho consome das vidas das pessoas, mas também se caracteriza pela intensificação do trabalho que tem a ver com o investimento das energias das pessoas com o trabalho. Refere-se ao desgaste com o trabalho. Neste caso, Assunção e Oliveira (2009), afirmam que a ampliação da jornada de trabalho pode ser analisada como um elemento que resulta na intensificação do trabalho, seja por meio da extensão da jornada diária, seja pela redução das porosidades49 na jornada de trabalho. Trata-se de um aumento das horas e da carga de trabalho sem qualquer remuneração. 49 A porosidade na jornada de trabalho é um conceito típico do fordismo, sendo considerada como buracos contidos na jornada de trabalho que se referem aos momentos em que o trabalhador vai ao sanitário, os tempos nos quais conversa com um colega pelos corredores, o tempo de descanso, etc. 71 Deve-se considerar que, no caso dos docentes, o número de horas semanais efetivamente trabalhadas costuma ultrapassar o número de horas-aula informadas. Segundo Souza (2008), trata-se do diferencial entre tempo de ensino e tempo de trabalho, este último maior, englobando também o tempo empregado em preparação das aulas, correção de provas, estudos, realizados fora do horário escolar, que deveriam ser acrescidos ao tempo de ensino para melhor dimensionar a jornada de trabalho dos docentes. A intensificação do trabalho que ocorre no interior da jornada remunerada é bastante preocupante por se tratar, em geral, de estratégias mais sutis e menos visíveis de exploração. Um fator indicativo de jornada ampliada de trabalho e intensificação do trabalho se refere ao número de unidades educacionais em que o sujeito docente trabalha. Nesses casos, o professor não se identifica com uma escola em particular, assume um número de aulas que não lhe permite conhecer e gravar o nome da maioria de seus alunos e acaba sem tempo para preparar aulas, estudar e se atualizar, dedicando boa parte de seus finais de semana a cuidar de questões do trabalho sobre as quais se encontra impedido durante a semana. Observamos este aspecto muito presente entre os professores do Ensino Médio, que costumam ter menos tempo concentrado em uma única escola. Segundo Oliveira e Vieira (2012), em base aos dados do Survey50 que envolveu investigação simultânea em sete estados da federação envolvendo 664.985.280 sujeitos docentes, quando questionou a quantidade de unidades educacionais que os sujeitos trabalham, observou-se: Na educação infantil e, sobretudo, na creche, encontramos a frequência mais alta entre os que trabalham em apenas uma unidade educacional: 81% estão na creche, 66% na pré-escola, 51% no ensino fundamental e 37% no ensino médio. Por outro lado, é no ensino médio que observamos a frequência mais alta, 20,9%, dos que trabalham em três ou mais unidades educacionais (OLIVEIRA, D. A.; VIEIRA, L. F. 2012, p.175). 50 O Survey refere-se aos dados da pesquisa Trabalho Docente na Educação Básica no Brasil, em cooperação técnica com o Ministério da Educação – Secretaria de Educação Básica, realizados por equipes locais de professores que lideram grupos de pesquisas. A pesquisa foi orientada por quatro grandes hipóteses: a ocorrência de ampliação da jornada de trabalho real dos docentes, sem o reconhecimento formal; ampliação de funções e responsabilidades docentes; intensificação e autointensificação do trabalho e a emergência de nova divisão técnica do trabalho nas unidades educacionais. O livro “Trabalho na educação básica: a condição docente em sete estados brasileiros” organizado por Oliveira e Vieira, analisam os resultados obtidos nas três metas pretendidas pelo projeto de pesquisa, sendo elas: a organização de um panorama dos docentes da educação básica no Brasil, a partir de dados disponíveis em fontes oficiais (INEP, IBGE, e MTE); a revisão de literatura sobre o tema e o survey. 72 Além disso, no que diz respeito aos professores do ensino médio, “verificou-se correlativamente que são esses os sujeitos que informam com maior frequência trabalhar em duas ou mais unidades, como também são esses que apresentaram mais alta frequência de licenças médicas.” (IBIDEM, p.177) Segundo informações da pesquisa coordenada por Codo (1999) com trabalhadores em educação básica, a carga mental elevada no trabalho, preponderante em profissionais com mais de um vínculo empregatício e que trabalham em mais de um nível de ensino, o que provavelmente “implica em mais deslocamento, maior esforço de adaptação entre ambientes diferentes, preparação de atividades distintas” (IBIDEM, p.285) aparece associada a sintomas como exaustão emocional e despersonalização, ou seja, sentimentos de desânimo e desligamento afetivo, que se retroalimentam. Ações de diversas naturezas em relação à profissionalização docente necessitariam evidenciar melhorias nas perspectivas de carreira e alterar o imaginário coletivo relativo a esta profissão, tanto na sociedade em geral, como entre os próprios professores, o que passa, segundo Vaillant (2007), “por devolver a esses profissionais a confiança em si mesmos, o que pode ser conseguido com políticas adequadas que perdurem no tempo” (p.8-9). É preciso considerar aqui o que Fanfani (2005) destaca: “docentes não são autômatos sociais cujas ações obedecem unicamente a estímulos externos, tais como as leis, decretos, circulares e regulamentos” (p.270-80). As políticas públicas não podem ignorar este fato, pois mudanças de perspectivas e valores se constroem em vasos comunicantes e não meramente por um regulamento. 2.2.2. Marcos das políticas públicas para a educação no estado do Rio de Janeiro A análise histórica da educação não deve sobrevalorizar as possibilidades de ação governamental ou de determinados momentos históricos. As questões são bem mais complexas e necessitam ser esclarecidas através de uma multiplicidade de perguntas e de olhares. Ao abordar o processo de construção social da profissão docente em múltiplos contextos, Xavier (2013) afirma que: Ao refletirmos sobre o processo de construção social da profissão docente, somos impelidos a buscar captar os atributos que configuram aquilo que se 73 poderia considerar central na definição do “ser professor”. As entradas para tal são múltiplas, tendo em vista a variedade de espaços institucionais, de níveis de ensino e de conhecimentos disciplinares que delineiam os espaços de atuação, assim como as habilidades e os conhecimentos que configuram o exercício da profissão. (XAVIER, 2013, p.13) A autora afirma que muitos estudiosos da “condição docente” procuram “delimitar os cortes institucionais e disciplinares ou os segmentos de ensino específicos nos quais os docentes atuam, de modo a estabelecer os limites, nem sempre generalizáveis, de suas análises”. (IBIDEM, p. 13) Contudo, há algumas questões gerais que afetam os “profissionais do ensino” de modo mais amplo. “Nós nos referimos aos condicionantes históricos que interferem nas relações laborais, em particular aqueles que se encontram associados às relações estabelecidas entre os docentes e a política.” (IBIDEM, p.13-4). A autora refere-se, também, à política em sentido amplo, entendida em termos de relações de poder. Estivemos atentas à observação da política cotidiana, mas neste capítulo, enfatizaremos, também, as políticas governamentais e seus rebatimentos no trabalho cotidiano dos professores. Tendo feitas essas ressalvas, há de se destacar que o critério político não pode ser ignorado. Deste modo, quando se estudam as políticas educativas no estado do Rio de Janeiro51, nas últimas três décadas, é possível identificar três momentos principais, que contém especificidades próprias, nos quais se detectam importantes linhas demarcatórias que nos ajudam a delimitar as políticas específicas de cada período. Poderíamos classificar numa análise um tanto superficial, três marcos nas políticas públicas da educação fluminense nas últimas décadas: 1) A implantação dos CIEP’s (Centros Integrados de Educação Pública), no final da década de 1980 e início dos anos 1990; 2) O Programa Nova Escola e a primeira tentativa de inserção da meritocracia nos início dos anos 2000; e 3) O Plano de Metas, política educacional dos anos 2010, que se insere na lógica do Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação, período que denominaremos aqui de Compromisso Fluminense. Na verdade, o segundo e o terceiro marco, não devem ser vistos como o término e início de um novo ciclo na política educacional fluminense, mas antes como um processo em andamento 51 Este tema já foi previamente analisado em SILVA, A.M (2012) na monografia de especialização intitulada “A precarização do trabalho docente numa microrrealidade de Educação Pública Fluminense”. Por hora, nos limitaremos a sugerir algumas reflexões gerais, evitando as referências excessivamente técnicas ou teóricas sobre o tema. 74 que tem sua gênese nos anos 2000 e que, no Brasil, encontrou sua mola propulsora no Compromisso Todos Pela Educação. O momento fundador do período recortado pertence à implementação dos CIEPS idealizados por Darcy Ribeiro e implementados pelo governador Leonel Brizola. Há aqui uma maior tendência de abertura e de democratização da escola, com importantes medidas no sentido do prolongamento da escolaridade obrigatória e do ensino em tempo integral que são marcas da reforma escolar após a abertura democrática. A arquitetura da escola fluminense no final da década de 1980 e início dos anos 1990 foi em grande medida, traçada por estes “engenheiros”, além disso, o programa deixou marcas profundas na educação fluminense, inclusive na memória dos profissionais que viveram àquela época, conforme constatamos em estudo anterior numa pesquisa empírica com professores da rede estadual do Rio de Janeiro: O programa dos CIEPs imprimiu uma forte marca na memória dos professores. [...] Ao serem questionados a respeito de um programa de governo do qual se recordavam nos últimos anos, pareceu não haver muita clareza em relação aos planos (governamentais), onde não houve nenhuma citação direta a alguma política educacional, exceto o programa dos CIEPS, que foi bastante lembrado por alguns professores, sem mencioná-lo de uma forma positiva ou negativa e sim como uma política educacional da qual se recordavam. (SILVA, A.M. 2012, p. 59) Na década de 2000, poderíamos destacar como um momento marcante a implementação do Programa Nova escola 52. Vale notar que este é o primeiro sistema de avaliação no Brasil que aponta um responsável para o sucesso ou fracasso da escola, isto porque ao criar um incentivo (gratificação) para o professor, este se torna o principal responsável, na ótica do poder público, pelo desempenho dos estudantes em testes cognitivos de avaliação educacional. O Programa Nova Escola, além de atribuir as gratificações aos professores e funcionários das instituições, é muito mais que um projeto de avaliação, é uma política pública de educação que abrange as questões de aprendizado, fluxo escolar e gestão escolar com que o Estado do Rio de Janeiro 52 Decreto Estadual nº. 25.959 de 2000, sob a coordenação da Secretaria de Estado de Educação, foi instituído com o objetivo de “melhorar de forma contínua a qualidade da educação com a racionalização de recursos financeiros, materiais e humanos envolvidos no desenvolvimento do processo educacional”. Para fins do Decreto, o Programa Nova Escola deveria compreender o Sistema Permanente de Avaliação das Escolas da Rede Pública Estadual de Educação, devendo abranger a gestão escolar e o processo educativo. A partir dos resultados, o programa concederia aos professores e demais profissionais gratificações proporcionais às suas realizações educacionais. 75 abandona o discurso de escola integral. São os incentivos destinados aos professores e demais profissionais das escolas, ou seja, gratificações proporcionais às suas realizações educacionais53 que dão a tônica à educação fluminense. Ressalte-se que, a avaliação externa realizada, tem como objetivos a utilização de indicadores de eficiência e de associar a remuneração do professorado e demais integrantes da equipe escolar ao rendimento dos alunos em testes de aprendizagem. Nestes moldes, a avaliação (de desempenho com gratificação por produtividade) baseiase num sistema punitivo com máscara de estimulante e incentivador. Infelizmente, este modelo não pretende acabar com os problemas, pretende apenas responsabilizar a equipe escolar pelo insucesso. Pautadas unicamente em resultados de avaliação de rendimento dos estudantes, tais políticas tendem a reforçar o caráter de mera instrução do ensino e a concepção meritocrática e hierárquica. Uma vez que, podemos considerar, que a política educacional deste estado, nos últimos 30 anos, tem três momentos marcantes: um na década de 80, onde foram formulados e implementados os CIEPS, o outro no ano 2000, quando o Nova Escola foi implantado no estado tendo por objetivo realizar a avaliação externa das Escolas Estaduais; objetivamos por hora, trazer a discussão do momento mais recente, localizando o contexto situado iniciado nos anos 2010, quando implementa-se o Plano de Metas; deste modo, buscaremos as influências de tais aspectos sobre o trabalhador docente. 2.2.3. Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro: contexto de ação dos professores estudados Neste tópico, fizemos uma apresentação das recentes políticas para a educação no estado do Rio de Janeiro e uma caracterização do contexto de ação ao qual os professores estão submetidos. Os dados e fontes de pesquisa utilizados para traçar este panorama foram relatórios, documentos oficiais e dados disponibilizados pela Secretaria de Educação do Rio de Janeiro 54, Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro 53 Podemos destacar como estudo importante sobre o Programa Nova Escola o trabalho de Souza (2007) com a dissertação intitulada “Avaliação X relações de poder: um estudo do Projeto Nova Escola/ Rio de Janeiro”, defendida em Juiz de Fora/2007. 54 Em 2009, foi sancionada a Lei de Responsabilidade Educacional (Lei 5.451/09), a partir da qual, o Poder Executivo, através da Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC), deve apresentar anualmente à Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro relatório com todos os indicadores educacionais da rede pública estadual até 120 dias após o término de cada ano letivo. Portanto, os dados 76 (ALERJ), entre outros órgãos governamentais, estaduais e nacionais, como os dados obtidos no site do INEP. Com isso traçamos um perfil da rede estadual de ensino e buscamos, a partir daí, entender em quais condições os professores atuam. A partir dessa exposição, nós analisamos as políticas dirigidas a estes grupos de professores para, no próximo capítulo, identificar as respostas que eles estão dando aos desafios impostos no seu contexto de trabalho. Procuramos captar as características do contexto oficial (objetivo) dos professores, estabelecidas pela Secretaria de Educação (SEEDUC), de acordo com a sua situação funcional. Para isso fizemos uma descrição e análise da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro dialogando com as recentes reformas educacionais, com o objetivo de observar o contexto de ação estipulado pelos órgãos governamentais, no qual se inserem os sujeitos que pretendemos estudar. A partir desta caracterização55, verificamos, com base nas entrevistas, por meio das quais eles nos informam sobre as suas percepções em relação aos constrangimentos e oportunidades que circulam em seu ambiente de trabalho, as suas perspectivas futuras e os recursos/instrumentos que trazem de suas trajetórias pregressas - formação, histórias de vida e trajetórias profissionais, ou seja, da sua experiência individual e coletiva. Contamos assim, com a observação do modelo que a SEEDUC e o MEC desejam impor aos professores; para observar as possibilidades de negociação encontradas nos contextos onde eles executam o seu trabalho, interagindo com seus alunos, com seus pares e com a equipe de direção dessas escolas. 2.2.4. O contexto institucional da SEEDUC: dados recentes Antes de apresentar os dados, é preciso destacar que todos eles são baseados em documentos oficiais que foram produzidos com determinada intenção ou sob determinadas condições legais. Nós optamos por reproduzir esses dados estatísticos sobre o sistema educacional do Rio de Janeiro, sem buscar a comparação com outras fontes estatísticas, como por exemplo, as do sindicato, tendo em vista que a ordem de grandeza que interessa para a análise aqui empreendida é justamente aquela noticiada pelos órgãos oficiais. obtidos, em sua maioria, foram até o ano de 2011, quando saiu o último relatório. De acordo com a lei, estes dados poderão ser obtidos anualmente. Lei disponível em: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/374647/DLFE33105.pdf/LeiN5451de22demaiode2009.pdf 55 Esta caracterização foi a primeira parte realizada desta pesquisa, nosso ponto de partida. 77 Os dados foram verificados e novamente ressignificados, pois em alguns momentos ficou claro o objetivo da SEEDUC em evidenciar alguns dados e ocultar outros. Antes de tudo, é necessário fazer uma crítica a essas fontes, analisar as suas especificidades, considerar os seus limites e analisar a sua origem. Contudo, estas não deixaram de ser importantes fontes que lançaram luz à nossa investigação e ao nosso tema de pesquisa, pois os dados foram selecionados e destacados com o objetivo de permitir uma descrição mais abrangente do nosso objeto de estudo. 2.2.5. A Rede estadual e suas escolas De acordo com o relatório divulgado pela secretaria de educação, ao final de 2011 existiam 1.447 escolas, e um total de 17.108 salas de aula56 em efetiva utilização na rede estadual e cada diretoria regional57 abrangia de 5% a 10% das escolas. As maiores regionais58, considerando o número de unidades escolares sob sua responsabilidade, são aquelas localizadas na capital, dentro disso a Metropolitana IV, que abrange 9% do total das escolas (127 escolas59). Esta diretoria perde em número de escolas apenas para a Metropolitana III com 143 escolas. O ensino na rede é ofertado em cinco turnos diferentes: manhã, tarde, noite, ampliado e integral. As modalidades de ensino 60 na rede estadual são agrupadas em nove categorias: (1) Ensino Fundamental Regular, (2) Ensino Médio Regular (3) Projeto Autonomia, (4) Ensino Médio Integrado, (5) Ensino Técnico, (6) Curso Normal, (7), EJA Ensino Fundamental, (8) EJA Ensino Médio e (9) Outros. Essa última categoria inclui as subdivisões Ensino Infantil, Cursos e Qualificações.61 Considerando que uma mesma escola pode oferecer diversas modalidades de ensino, em uma análise dessa natureza, é possível que uma unidade escolar seja contada 56 Fonte: Censo escolar de 2011 – MEC/INEP/SEEDUC. As diretorias regionais são unidades subordinadas à SEEDUC, responsáveis por atender às necessidades pedagógicas e administrativas da educação em áreas geográficas específicas do estado. São 14 Regionais, cada qual com uma Diretoria Pedagógica e outra administrativa. Há ainda uma décima quinta unidade, denominada Diretoria Especial de Unidades Escolares Prisionais e Socioeducativas (Diesp). Das 14 regionais, sete são atuantes em municípios da Região Metropolitana e sete em municípios do interior fluminense. 58 Na tabela nº 2 (ver apêndice B, tabela nº 2, p. 166) podemos observar o número de escolas por regional. 59 Fonte: Superintendência de Planejamento e Integração de Redes. 60 Na tabela nº 3 (ver apêndice B, tabela nº 3, p. 167) podemos observar o número de escolas por modalidade, com destaque para a metropolitana IV (grifado) onde ocorreu nossa pesquisa. 61 Essas categorias estão presentes no sistema Conexão Educação, uma ferramenta de gestão da secretaria de educação, através do qual acompanha o desenvolvimento das atividades docentes e de gestão no cumprimento de suas metas. 57 78 mais de uma vez, caso ela ofereça, simultaneamente, diferentes modalidades. O somatório das modalidades de toda a rede é igual a 3797, o que significa que, em média, cada unidade escolar oferece entre duas e três modalidades. Observamos através dos dados que o estado ainda concentra muito de sua atenção no Ensino Fundamental, sendo que a participação do Ensino Fundamental Regular no total de modalidades (26%) é muito próxima à fatia que cabe ao Ensino Médio Regular (28%). A EJA (Educação de Jovens e Adultos) representa metade do percentual do Regular. Essas três modalidades juntas respondem por 80% do total. Nos 20% restantes, a modalidade que mais se destaca é o Projeto Autonomia62, com 9% de participação. Além de representar uma parceria público-privada e contratar apenas um professor para cada turma, esse tipo de Projeto tem o potencial de melhorar dos indicadores que compõem o IDEB ao acelerar a formação dos alunos, que levarão apenas um ano para completar o ensino fundamental e 18 meses para terminar o ensino médio. O Projeto Autonomia diminui a distorção idade-série e a repetência escolar, elevando consequentemente o índice. Baseado na dinâmica dos acontecimentos, estes seriam fatores que tornam bem possível o crescimento da oferta desta modalidade de ensino nos próximos anos, pois ano a ano observa-se o alto investimento do poder público em ampliar projetos dessa natureza. Em 2012, o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disponibilizou mais de 12 milhões de reais63 para a Fundação Roberto Marinho, que desenvolve o Projeto Autonomia nas escolas estaduais. Ao receber esse tipo de recurso adicional de seus patrocinadores, esse tipo de parceria permite inclusive que se ofereçam turmas menores e percebe-se que esse modelo de “pedagogia” tem ganhado força e investimento, especialmente no Estado do Rio de Janeiro. No que diz respeito ao trabalho docente, as observações de Hypólito, abaixo reproduzidas são de grande valor para nosso estudo. O autor observa que, Os efeitos sobre o trabalho docente em termos de trabalho pedagógico e de ensino têm sido devastador e muito preocupante. [...] Com a contratação de consultorias privadas, aquisição de pacotes pedagógicos, sistemas de ensino, cursos para treinamento de professores, programas contratados de gestão – terceirização de modelos de gestão, o trabalho docente passa a ser mais diretamente controlado, do ponto de vista técnico e ideológico, por 62 No relatório analisado o “Autonomia” ainda era denominado de Projeto e não de Programa como a partir de 2013. 63 Diário Oficial de 07/03/12, p.22. 79 instituições que, além de exercerem o controle sobre o que ensinar e sobre como ensinar, obtêm lucro com a venda de seus produtos e com a execução de seus métodos e conteúdos. Esse lucro, embora não seja obtido diretamente com a contratação de docentes, é extraído a partir do trabalho de docentes de escolas públicas – contratados, concursados ou efetivos – que recebem do Estado um salário fixo por um trabalho que tem sido intensificado com esses métodos e cujo excedente acaba ficando com as empresas privadas. Há necessidade de se retomar a discussão da mais-valia, já que estamos vivendo outra realidade no serviço público escolar, em que o Estado atua diretamente para a acumulação de capital agenciando o trabalho que será imediatamente explorado. Trata-se de acumulação imediata do capital (HYPÓLITO, A. M., 2012, p. 218-19). O autor expõe dois modelos de mercantilização da educação pública escolar, baseados em relações econômicas por muito caracterizadas como quase-mercado, em que aparecem dois tipos de privatização: endógena e exógena. A endógena se caracteriza pelo modelo no qual o setor público mimetiza o modo de gestão do setor privado, assume tal modelo de governança e adere à filosofia da lógica administrativoempresarial do mercado. Esse modelo de privatização está cada vez mais presente na administração pública e penetra com muita profundidade e abrangência na administração escolar e educacional. Perpassa as escolas e todo o sistema educacional, com os sistemas de controle e avaliação, desempenho por competências, descentralização adminstrativo-financeira, pagamento por desempenho, modelos de gestão baseados na eficiência, contrato de metas e outras formas de gestão que muito se distanciam dos avanços da gestão democrática alcançados por algumas escolas públicas. A privatização exógena é aquela que transfere serviços públicos para instituições privadas, seja por intermédio das parcerias público-privadas, pelos modelos de terceirização de serviços, pela contratação de trabalhadores temporários, ou seja, pela contratação e/ou aquisição de sistemas de ensino. Em ambos os casos o modo de gestão que se consolida visa a naturalização de conceitos caros à história da democratização da escola e da educação, tais como qualidade, avaliação, desempenho escolar. Atribui a esses conceitos um sentido único e universal que, de fato, é um sentido muito particular que se universaliza por meio de um processo de hegemonia e de articulação de sentidos (IBIDEM, p.217-218). 80 2.2.6. O fechamento de escolas Nos últimos anos, a Rede Estadual tem passado por um amplo processo de fechamento de turmas e escolas, devido à “racionalização” dos custos. Nos relatórios oficiais não foi possível encontrar o número exato de escolas fechadas por outros motivos que não devido ao processo de municipalização. Seguindo a municipalização prevista no Plano Estadual de Educação, a SEEDUC apresenta em relatório oficial um balanço atual do desfecho das escolas estaduais que funcionam em prédios da prefeitura do Rio de Janeiro e compartilham espaço com outras unidades. No início de 2011, haviam 268 escolas da rede estadual nessa situação. Ao longo do ano, 17 unidades foram descompartilhadas, com seus alunos e servidores transferidos para unidades estaduais. Durante o ano de 2012, mais 21 escolas foram descompartilhadas e 48 repassadas à administração municipal. A municipalização diz respeito apenas aos alunos do Ensino Fundamental. Os alunos do Ensino Médio que estudam em prédios compartilhados e os servidores lotados nessas escolas estão sendo transferidos para unidades estaduais próximas e de fácil acesso, à distância de 70 a 1.500 metros das unidades de origem, ou para novas unidades inauguradas (SEEDUC em números, p.20). Esta declaração da SEEDUC, apesar de contida no papel, na prática não procede, pois o fechamento de escolas está gerando um amplo processo de alunos estudando em escolas distantes de suas residências, funcionários que precisam mudar de escola e professores perdendo sua lotação. Com esse processo, os docentes precisam procurar novas escolas a fim de encaixar-se na grade horária estipulada, precisando se desdobrar em três ou mais escolas, que dificilmente são tão próximas conforme a distância estipulada pela secretaria de educação. Segundo o relatório, o ano de 2011 iniciou-se com 268 escolas da rede estadual funcionando em prédios da prefeitura do Rio de Janeiro e compartilhando espaço com outras unidades. Ao longo do ano, 17 unidades foram descompartilhadas, com seus alunos e servidores transferidos para unidades estaduais. Até o início de 2012, segundo a SEEDUC, mais 21 escolas terão seu processo de descompartilhamento concluído nos mesmos moldes e 48 serão repassadas à administração municipal. 81 Em relação à área de competência de Estados e Municípios, cabe citar as disposições da LDB (Lei nº 9.394/96), art.10, no qual define que os estados incumbirse-ão de: “definir, com os municípios, formas de colaboração na oferta do ensino fundamental, as quais devem assegurar a distribuição proporcional das responsabilidades, de acordo com a população a ser atendida e os recursos financeiros disponíveis em cada uma dessas esferas do poder público.” Além de “assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio a todos que o demandarem.” A SEEDUC tem a meta de municipalizar os anos iniciais do Ensino Fundamental até 2015. A partir dos dados apresentados acima, observamos que apesar de o estado ainda ofertar grande parte do ensino fundamental, há um processo acelerado de municipalização, baseado no critério da desresponsabilização que não tem se dado de forma coerente e tem gerado um processo arbitrário de remanejamento de professores e funcionários. 2.2.7. Alunos e professores Em novembro de 2011, existiam 1.043.555 alunos matriculados na rede estadual de ensino. As regionais com maior número de escolas não são, necessariamente, as que possuem mais alunos. Considerando as cinco regionais com maior número de alunos e as cinco com maior quantidade de escolas, nota-se que apenas duas aparecem em ambos os grupos: Metropolitana IV e VII64. Dados que evidenciam a precarização do trabalho docente, não ganham destaque nos documentos oficiais. Não foi possível encontrar dados como carga horária de professores, número de escolas que um professor atua com uma única matrícula, turmas fechadas para implantação do Programa Autonomia, escolas extintas, processo de enturmação65 e aumento da carga burocrática ao trabalho do professor. Neste sentido, levantamos, a seguir, alguns pontos que possam contribuir para a nossa análise. Em outubro de 2011, a rede contava com 75.170 funções docentes ativas.66 A maioria (71%) faz parte da carreira DOC I com carga horária de 16 horas semanais. Outros 21% são da carreira DOC II e têm carga horária de 22 horas semanais. Além desses, 8% dos professores ativos possuem carga horária de 40 horas semanais. 64 Estes dados podem ser encontrados na tabela nº 4 (ver apêndice B, tabela nº 4, p. 167). Constituição de novas turmas a partir do enxugamento e extinção de outras. 66 O total de docentes nesse caso refere-se ao total de matrículas e não de pessoas.Vale lembrar que um docente pode ter mais de uma matrícula. 65 82 Há um grande número de docentes na rede estadual, conforme evidenciado na tabela nº 7 (ver apêndice B, tabela nº 7, p.169), porém, muitos destes docentes encontram-se afastados por diversos motivos, correspondendo a 9,6% do total de docentes ativos67. Os motivos das licenças são diversos, dentre os docentes afastados em 2011, num total de 7204, 78% encontram-se afastados para tratamento ou prorrogação de tratamento de saúde.68 Ao analisar as tabelas nº 2 e nº 5 (ver apêndice B, tabelas nº 2, p. 166 e nº 5, p. 168), observamos que apesar de a metropolitana IV não ser a regional que concentra o maior número de escolas com o Projeto Autonomia, é a que possui o maior número de alunos matriculados nesta modalidade de ensino. O que reflete em salas de aulas mais cheias para os professores que atuam com esta modalidade, na região. Em relação à formação, conforme podemos observar na tabela nº 8 (ver apêndice B, tabela nº8, p.169), a maioria dos professores da rede (78,9%) tem graduação, outros 15,7% possuem pós-graduação.69 Contudo, o percentual com mestrado ou doutorado é muito baixo (cerca de 2,7%). Isso nos leva à hipótese que os docentes que atingem uma formação em nível de pós-graduação acabam deixando o magistério estadual. Poucos, inclusive, permanecem na educação básica, em grande parte devido a pouca atratividade dos salários. Na tabela nº 9 (ver apêndice B, tabela nº 9, p. 169), podemos observar a remuneração dos docentes, com os salários aplicados em 2011 e 2012. Embora tenha sido propagandeado pelo governo como aumento salarial, o aumento em 2012 foi referente à incorporação do Programa Nova Escola70, um direito adquirido desde 2009. Porém, ao invés dessa incorporação terminar em 2015, como previsto inicialmente pelo governo do estado, na forma de parcelas anuais; houve várias reivindicações e manifestação dos professores para que a incorporação acontecesse de uma única vez, o que acabou acontecendo como resultado da greve dos profissionais da educação de 2011. 67 Cálculo efetuado com os dados apresentados pela SEEDUC, em base ao número de matrículas docentes. Considerando a quantidade de docentes que possuem duas matrículas, a porcentagem de professores de licença em relação ao número total, seria ainda maior. 68 Maiores detalhes na tabela nº 7 (ver apêndice B, tabela nº 7, p. 169). 69 A escolaridade dos docentes é auto-declarada no Sistema Conexão Educação. 70 Programa que analisamos anteriormente, concebido e implantado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 2000. 83 Outro aspecto historicamente presente na rede é a carência de profissionais. Conforme as estatísticas da SEEDUC, a carência real71 medida em número de docentes, em 30 de novembro de 2011, era de 106872. Uma estratégia para reduzir a carência é a ampliação da carga horária dos professores que já atuam na rede para cobrir as turmas com carência de professores. O pagamento de Gratificação por Lotação Prioritária (GLP) é pago aos profissionais que optam por aumentar a sua carga horária e se responsabilizar por novas turmas. Os professores recebem essa gratificação pelas horas extras, mas esse valor não tem validade para efeitos de aposentadoria e demais benefícios aos quais o professor tem direito na matrícula. PARTE 3 2.3.1. Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação e o Compromisso Fluminense A lógica em que se insere o Compromisso Todos Pela Educação é parte de uma recente reforma educacional no Brasil que foi se consolidando, por meio da implementação da legislação educacional, em conformidade com as proposições da reforma administrativa, pois, ambas tiveram como foco a avaliação periódica, externa e interna, da qualidade dos serviços prestados pela administração pública, como dimensão das formas de participação dos usuários nesses serviços. De acordo com Barroso (2003), essas medidas adotadas no âmbito das reformas estavam articuladas ao modelo gerencial introduzido a partir da reforma administrativa do Estado e que vai influir na redefinição do modo de organização, financiamento e gestão dos sistemas públicos de ensino e das unidades escolares. Nesse sentido, essas reformas se efetivaram por meio do processo de descentralização, na direção de transferir poderes e funções da esfera nacional e regional para a local, reforçando a representação da escola como uma unidade de gestão e de mudanças e o discurso de participação da comunidade nesse processo. Nessa lógica, a direção, os docentes e os funcionários, devem ser os responsáveis por suas decisões no interior da escola, pelo seu sucesso ou fracasso. 71 A carência real em novembro de 2011, segundo a SEEDUC, pode ser vista na tabela nº 10 (ver apêndice B, tabela nº 10, p. 170). 72 Segundo o SEPE (Sindicato Estadual de Profissionais da Educação), a SEEDUC tenta mascarar a carência de profissionais com dados distorcidos sobre os profissionais cedidos a pedido de outros órgãos. Segundo o sindicato, esta estimativa se aproxima dos 10 mil. Fonte: www.sepe.org.br 84 As reformas na administração pública, segundo Abrúcio (1997), introduziram a descentralização na oferta de serviços como forma de aumentar a sua eficiência e eficácia, princípios importados das empresas privadas, impondo uma administração mais racional e centrada em resultados. Na perspectiva gerencial, Carvalho (2009) considera que a busca por resultados leva os governos a orientar suas decisões, alcançar as metas estabelecidas, levantar indicadores para o repasse de verbas públicas, recorrer mais a incentivos e menos à imposição de regulamentos. O autor acredita que esse padrão de gestão permite dar voz aos clientes no controle dos serviços públicos, revitalizando a participação da comunidade. Nesse sentido, ganham reforço as políticas de accountability, ou seja, medidas de prestação de contas “que permitam aos usuários e gestores responsabilizar os ‘prestadores’ de determinado serviço por aquilo que é oferecido à sociedade” (ADRIÃO e GARCIA, 2008, p.781). Os resultados dessas políticas têm levado “à adoção de mecanismos de premiação ou ‘punição’ às instituições-fim, gestores públicos ou funcionários que não tenham atingido o padrão estabelecido” (IBIDEM, p. 781). Nesta lógica, cresceu e se consolidou no Brasil uma concepção de avaliação do trabalho escolar que tem o seu foco na verificação do desempenho dos alunos, medidos por meio de testes padronizados, o seu foco. Segundo Souza (2010), pode-se demarcar dois momentos em relação à avaliação de larga escala no Brasil, antes e depois da criação da Prova Brasil em 2005 e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB em 2007. Na análise desta autora, com a criação desse instrumento e desse índice de avaliação se tem o controle de resultados por escolas e redes, o que possivelmente tem gerado mobilização das diferentes instâncias do sistema educacional que, por sua vez, podem impactar a gestão das redes de ensino e a gestão do trabalho escolar. Anterior a eles, os resultados eram pouco utilizados contrariando os propósitos anunciados pelos entes federativos para as avaliações e as intervenções propagadas a partir dos problemas que fossem apontados. Segundo Adrião e Garcia (2008) as escolas consideradas como instituições-fim passam a ser vistas como lócus privilegiado para as intervenções corretivas dos sistemas e os dirigentes escolares e os professores, responsabilizados pelos resultados das avaliações. Nas palavras das autoras, As novas formas de regulação encontradas no Estado avaliador estão apegadas em uma autoridade assentada no conhecimento adquirido a partir 85 das evidências reveladas pelos resultados das avaliações. Nesse sentido, o Estado regula os atores sociais e legitima a tomada de decisões políticas. Há, dessa forma, o domínio da racionalidade técnica a partir da ênfase dada à eficácia, ao rendimento e ao desempenho (IBIDEM, p.239-40). Observamos que os resultados das avaliações, inicialmente pouco utilizados pelos gestores escolares, passam a ter impacto na administração das escolas com a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, em 2007. Esse índice se transformou em uma ferramenta estratégica de gestão, pois tem sido com base nele que se traçam as metas que a escola deve atingir. Nessa perspectiva, a direção da escola assume o papel central de mobilizar os professores para o cumprimento das metas e dos objetivos, tornando-os co-responsáveis pelos resultados. Em abril de 2007, o governo federal baixou o Decreto nº 6.09473, cujo objetivo é de implementar o Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação, “visando a mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica”. No artigo 2º desse Decreto, nos incisos de XII a XVII estão postas as diretrizes que o governo federal, em regime de colaboração com os estados, municípios e o distrito federal, traçou no tocante aos docentes. No artigo 2º, inciso XIII, deixa claro que é preciso “implantar plano de carreira, cargos e salários para os profissionais da educação, privilegiando o mérito, a formação e a avaliação do desempenho”. Essas diretrizes envolvem a realização de programas de formação inicial e continuada; a implantação do plano de carreira, cargos e salários, nos quais o mérito, a formação e a avaliação de desempenho devem ser privilegiados; a valorização do profissional da educação através do mérito que inclui o desempenho, a dedicação, a assiduidade e a pontualidade, responsabilidade, cursos de atualização e desenvolvimento profissional; o envolvimento do professor na discussão e elaboração do projeto político pedagógico da escola; etc. Nesse mesmo decreto, em seu artigo 3º, indica-se a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que passou a ser, junto com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), o grande indicador do desempenho escolar e o parâmetro indireto da avaliação dos docentes, na medida em que os resultados desse indicador passaram, na ótica dos governantes, a representar também a eficácia ou não do desempenho docente. 73 Decreto nº 6094, de 24 de abril de 2007, disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6094.htm 86 Sintonizando ao tempo das reformas implementadas nos países da América Latina desde final da década de 1980, nosso país implementou, nos anos de 1990, um conjunto de mudanças no sentido de adequar o sistema educacional ao processo de reestruturação produtiva decorrente das mudanças no mundo do trabalho em curso e à nova configuração do papel do Estado. O processo de ajuste estrutural, com o enxugamento dos recursos públicos para a educação e para as políticas sociais, bem como a privatização, no contexto das reformas do Estado da década de 1990, criaram, em nosso país, novas formas de direcionamento dos recursos públicos: sua distribuição, centralização e focalização para as experiências que promovessem os princípios das reformas sociais então em pleno desenvolvimento (FREITAS, 2012, p.91). 2.3.2. As metas da SEEDUC Desde meados dos anos 2000, a educação pública em todo o território nacional é avaliada com base no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que combina dois resultados: proficiência dos alunos e taxa de aprovação. A proficiência em português e matemática é aferida por exames padronizados criados pelo Governo Federal, aplicados a cada dois anos, que são a Prova Brasil e o SAEB. Essas avaliações devem ser feitas, no final do ano, pelos alunos que frequentam a última série/ano do segmento (5º ano ou 9º ano do Ensino Fundamental Regular e 3ª série do Ensino Médio). Com isso, tem-se um retrato do nível de aprendizado na saída dos segmentos. O segundo resultado que forma o IDEB é a média das taxas de aprovação em cada série/ano que compõe o segmento, o que nos oferece uma idéia do tempo médio gasto para completar o segmento. O IDEB é calculado para cada escola e com isso podemos ter uma visão dos municípios e dos estados. A rede pública estadual de Ensino fluminense, responsável por um contingente significativo de estudantes de Ensino médio, atinge o auge do fracasso em 2009, quando o estado do Rio de Janeiro teve o segundo pior IDEB do país: 2,8. Ficando atrás apenas do Piauí e sendo a média nacional 3,674. Após a constatação do IDEB abaixo dos parâmetros estipulados pelo Governo Federal, houve novas orientações para a política educacional fluminense, propostas pelo novo secretário de educação Wilson Risolia, que, ao assumir o cargo, anuncia o Plano de Metas para a Educação, cabendo frisar que o Plano se insere na política do estado brasileiro voltada para o campo da educação – o 74 Dados disponíveis no site do INEP: http://sistemasideb.inep.gov.br/resultado/ 87 Compromisso Todos pela Educação – que, conforme já destacamos, propõe diretrizes e estabelece metas para o IDEB das escolas e das redes municipais e estaduais de ensino. Ao assumir o cargo, Risolia anunciou um “plano de metas” visando colocar o Rio de Janeiro “numa posição relevante na Educação”. Tratando a educação como um “negócio”, definiu medidas de premiação em dinheiro para professores e diretores que atingissem as metas, isto é, bonificação para os méritos alcançados e adequando o ensino das escolas estaduais às demandas do estado. Em 2009, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o Rio de Janeiro ocupava a 17ª posição no ranking do IDEB e sua principal dificuldade estava no indicador de fluxo. A posição do estado em taxa média de aprovação era 21ª, enquanto que, em proficiência, era 14ª. Já o IDEB em 2009 para os Anos Finais do Ensino Fundamental, rendeu ao estado a 20ª posição. Em ambas as dimensões, de fluxo e proficiência, a rede estadual do Rio de Janeiro apresentou desempenho fraco (22ª e 20ª posição, respectivamente). Para o Ensino Médio, a situação fluminense é ainda mais preocupante: 26ª colocação e, nesse caso, o principal problema está no fluxo, uma vez que a taxa média de aprovação coloca o estado na última posição (SEEDUC em números, 2011, p.55). Segundo dados da SEEDUC e a ampla divulgação feita na mídia, o Rio de Janeiro passou do penúltimo lugar para o 15º no ranking do IDEB 2011. Juntamente com o estado de Goiás, foi o estado que apresentou a maior evolução. Além disso, o Estado do Rio teve a 2ª maior variação de IDEB de 2011; a 2ª maior variação de Fluxo Escolar do Ensino Médio; a 1ª maior variação da Taxa de Proficiência no Ensino Médio; e a 3ª maior variação da Taxa de Rendimento Escolar no Ensino Médio. (IBIDEM) O que observamos neste ponto é que as estatísticas oficiais anunciam e propagandeiam o salto que a educação estadual obteve no último cálculo do IDEB, porém não destacam os mecanismos através dos quais se chegou a tal resultado. Tornase bastante questionável um salto qualitativo na educação de um ano para o outro, além do mais, para saltar tantas posições no ranking da educação é preciso mais investimentos no setor, o que não há nenhuma evidência que tenha ocorrido na rede estadual no referido período. O objetivo da SEEDUC é levar o Rio de Janeiro à 5ª posição em 2014. Para acompanhar essa evolução, a Secretaria definiu metas, com as 88 quais se pretende chegar a cada biênio, metas que são mais ousadas do que as definidas pelo próprio Inep75. 2.3.3. O Índice de Desenvolvimento da Educação do Rio de Janeiro (IDERJ) As metas do IDEB permitem acompanhar o efeito das novas ações implementadas; porém, são verificadas apenas de dois em dois anos, uma vez que essa é a periodicidade das provas organizadas pelo Governo Federal. Para acompanhar o nível geral de proficiência da rede a cada ano, a secretaria conta também com exames estaduais que seguem a mesma metodologia da Prova Brasil e do SAEB. O Rio de Janeiro, desde 2008, aplica anualmente em toda a rede os exames do SAERJ (Sistema de Avaliação do Estado do Rio de Janeiro). Todas as escolas da rede estadual participam da avaliação, por meio de aplicação de testes respondidos por todos os alunos que estejam cursando o ensino regular, matriculados no 5º ou 9º ano do Ensino Fundamental e na 3ª série do Ensino Médio. Também participam os alunos matriculados nas fases equivalentes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e pelos alunos concluintes do Programa Autonomia. Juntando a proficiência medida pelo SAERJ e as taxas de aprovação obtidas após o encerramento do ano letivo, constrói-se um índice estadual, semelhante ao IDEB, denominado IDERJ (Índice de Desenvolvimento da Educação do Rio de Janeiro). Com base nesse índice, são definidas também metas anuais para a educação do estado. O Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ) existe desde 2008 e foi criado com o objetivo de promover uma análise do desempenho dos alunos da rede pública do Rio de Janeiro nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática. Nos apoiando na análise de Assunção e Oliveira (2009), observamos que o controle exercido sobre os docentes tem se dado em formas cada vez mais sutis por parte da gestão dos sistemas educativos; os “pacotes educacionais”, as tecnologias pedagógicas, os livros didáticos; os calendários, horários e as diversas modalidades de supervisão de seu tempo e trabalho, inclusive com o emprego de novas tecnologias. O docente deve responder a instâncias hierárquicas de gestão e também a pressões internas por parte da direção e coordenação de sua unidade, bem como ao controle externo que é exercido pelos pais de alunos e pela comunidade em geral. Os mecanismos de controle 75 O INEP estipula as metas para cada unidade da federação com projeções até 2021. Disponível em : http://portal.inep.gov.br/web/portal-ideb/planilhas-para-download. Acessado em 08/12/2012. 89 se constituem em critérios para avaliação de desempenho institucional e individual. Os resultados das avaliações, em alguns casos, têm determinado os salários ou outras formas de remuneração (bônus e premiações), as progressões na carreira e até mesmo a dispensa de pessoal contratado. 2.3.4. Remuneração variável O sistema nacional de avaliação é bastante recente. Foi em meados da década de 1980 que o governo começou a discutir programas de implantação do sistema de avaliação. Numa época em que se debatia o processo de democratização do país, as questões que naquele momento eram focalizadas diziam respeito ao acesso à escola e a qualidade do ensino oferecida pelos diferentes sistemas, tanto na esfera pública quanto na privada. A partir desses debates, o MEC, por meio do INEP, foi incentivado a desenvolver processos de avaliação sistêmica no âmbito federal, na perspectiva de oferecer diretrizes para as políticas de educação no país. Da mesma forma alguns Estados Brasileiros seguiram implementando programas de avaliação educacional. Esses programas apontaram então a necessidade urgente de construção de uma nova cultura de avaliação nos meios educacionais, de modo que os processos deixassem de ser encarados como meios de classificação de alunos e de escolas e passassem a atuar como diagnóstico das situações de aprendizagem e otimização das possibilidades de melhoria da qualidade de ensino. Dentro da atual dinâmica das metas foi criado o Programa de Bonificação por Resultados. Segundo relatório da SEEDUC, o programa permitiu “beneficiar” com até três vencimentos base os servidores que alcançaram ou superaram as metas definidas para 2011. Em 2011 (ano de referência), o programa “beneficiou 342 escolas e mais de 14.500 matrículas76.” A rede conta com 75.170 funções docentes e o Programa de bonificação “beneficiou” 14.500 matrículas (levando em consideração que diversos servidores possuem duas matrículas), sendo que neste número também estão incluídos os funcionários77 em geral. Sem a possibilidade de analisar dados concretos, quando 76 Neste número estão incluídos funcionários em geral e não apenas professores. 77 No relatório divulgado não foi divulgado o número de funcionários de apoio, levando em conta que esse setor conta com um grande número de funcionários terceirizados, talvez não seja de interesse da SEEDUC divulgar esses dados em um relatório. 90 inexistentes, supomos com base nos números, que se exclui da folha de pagamento mais de 50 mil profissionais, portanto, o número de pessoas beneficiadas se torna ínfimo perto do total de servidores. Tendo em vista a quantidade de escolas e a quantidade de servidores, o acréscimo salarial “beneficiou” poucos e já começa a acontecer o previsto numa política baseada na meritocracia: competição e desigualdade. Além disso, consolidam-se maneiras de pensar e de agir que irão delimitar as fronteiras de ação política, pois temos por um lado, a continuidade de uma visão meritocrática e por outro a atomização dos profissionais da educação em busca de suas gratificações individuais. Esse é o resultado da gratificação por produtividade acoplada a avaliação por desempenho. Somado a isso, a premiação pelo desempenho da escola através do IDEB leva os professores ao estresse. São cobranças e ameaças de todos os lados – dos colegas para alcançar as metas impostas de cima para baixo, pensando no salário extra78 no ano seguinte; da direção da escola que tem o cumprimento das metas como principal objetivo; dos gerentes das regionais de ensino que, através das ameaças de corte do salário, de notificações e de abertura de inquérito administrativo, tentam impor a forma gerencial na condução das políticas educacionais e no processo de ensino e aprendizagem; das Secretarias de Educação que, de forma autoritária, e muitas vezes camuflada, ditam as regras que são aplicadas, ferindo os direitos dos trabalhadores da educação conquistados nas legislações. A bonificação ou remuneração variável foi a forma encontrada pelo capitalismo para reconhecer o mérito na realização do trabalho, aumentar a exploração e o controle sobre o trabalhador. Para o capital, aqueles com maior capacidade de trabalho e de gerar resultados, merecem as glórias e mais dinheiro. Para os que “fracassam”, o esquecimento e baixos salários. De acordo com Araújo (2012), a política de pagamento de bônus, através do 14º salário, tem como base o seguinte princípio capitalista: Quanto mais resultados, melhor, independente dos riscos para o futuro das crianças, jovens e adultos. O vírus do imediatismo atacou a construção consistente e progressiva da qualidade social da educação. Aplicar os critérios do setor financeiro, que sempre atuou priorizando o salário fixo baixo, com alto potencial de ganho variável, é um grande equívoco (IBIDEM, p.337). 78 Chamado de 14º salário, geralmente pago em meados do ano. 91 Concordamos com o autor, e acreditamos que os governos precisam fazer uma autoavaliação, refletir sobre suas práticas, para evitar que o “sucesso” de algumas unidades escolares não comprometa todo o sistema público de ensino e o direito social do conjunto da população a uma escola pública com qualidade social em todas as etapas e em qualquer canto do país. Ao mesmo tempo em que padroniza critérios de avaliação, o governo abraça a retórica da diversidade e da inclusão de todos na escola. Essa “autoavaliação” foi feita por Diane Ravich que analisa detalhadamente as mudanças em seu pensamento educacional ao longo de sua vida acadêmica e de sua atuação como formuladora de políticas públicas no interior do aparelho de Estado americano. Como doutora e pesquisadora da Universidade de Nova York, e tendo assumido em 1991, o cargo de secretária adjunta da Secretaria Nacional de Educação do governo George H. W. Bush, a pesquisadora reforça o caráter ideológico dessas concepções e seus vínculos com as ideias privatizantes trazidas pela ascensão neoliberal. Os novos reformadores corporativos demonstram sua precária compreensão da educação construindo falsas analogias entre a educação e o mundo empresarial. Eles pensam que podem consertar a educação aplicando princípios de negócios, organização, administração, lei e marketing e pelo desenvolvimento de um bom sistema de coleta de dados que proporcione as informações necessárias para incentivar a força de trabalho – diretores, professores e estudantes – com recompensas e sanções apropriadas (RAVICH, 2011, p.13). A autora demonstra ao longo do texto as evidências que a levaram a mudar de posição e afirmar a falência de um projeto decantado por gestores, fundações empresariais e editoriais da mídia e evidencia com rigor acadêmico como essas políticas estão corrompendo os valores educativos. Em Vida e morte do grande sistema escolar americano a autora expõe o fracasso da educação americana baseada nos parâmetros do mercado e a tentativa de economização da educação. A responsabilização, agora um senso comum que todos aplaudiam, havia se tornado mecanicista e até mesmo contrária à boa educação. A testagem, eu percebi com desgosto, havia se tornado uma preocupação central nas escolas e não era apenas uma mensuração, mas um fim em si mesma. Eu comecei a acreditar que a responsabilização, conforme estava escrito na lei federal, não 92 estava elevando os padrões, mas imbecilizando as escolas conforme os estados e distritos lutavam para atingir metas irrealistas (IBIDEM, p.27-28). E prossegue seu relato: Eu via minhas esperanças por uma melhor educação se convertendo em uma estratégia de mensuração que não tinha visão educacional subjacente alguma. No fim, eu percebi que as novas reformas tinham tudo a ver com mudanças estruturais e com a responsabilização, e nada que ver com a substância do aprendizado. A responsabilização não faz sentido quando ela sabota os objetivos maiores da educação (IBIDEM, p.31-32). Dentro do aparato de estado, testando e acreditando inicialmente nas políticas de responsabilização implementadas, a autora percebeu que “os professores sentiam que estavam sendo avaliados com base não em quão bem eles ensinavam, mas em quão bem eles estavam seguindo as regras do jogo.” (IBIDEM, p.71) Desta forma, percebeu que os incentivos e sanções não eram as alavancas adequadas para melhorar a educação; “incentivos e sanções podem ser bons para empresas, para quem o lucro é a prioridade absoluta, mas não são bons para escolas” (IBIDEM, p.122) e começou a ver a cultura da testagem que estava se espalhando em cada escola de cada comunidade, cidade ou estado, de uma forma totalmente negativa. As nossas escolas não irão melhorar se nós esperarmos que elas ajam como empresas privadas buscando o lucro. Escolas não são negócios; elas são um bem público. O objetivo da educação não é produzir maiores escores, mas sim educar as crianças para que elas se tornem pessoas responsáveis com mentes bem desenvolvidas em um bom caráter. As escolas não deveriam ter que apresentar lucros na forma de escores com valor agregado. O incessante foco nos dados que se tornou lugar-comum nos últimos anos está distorcendo a natureza e a qualidade da educação. Existem muitos exemplos de competição saudável nas escolas, com as feiras de ciências, concursos de redação, debates, torneios de xadrez e eventos esportivos. Mas a competição entre escolas para obter maiores escores é de uma natureza diferente; no atual clima, é certo que isso fará com que os professores gastem mais tempo preparando os estudantes para os testes estaduais, e não para um escrita rica, uma leitura crítica, experimentos científicos ou estudos históricos (IBIDEM, p.254). 93 CAPÍTULO 3: O FAZER-SE DOS PROFESSORES DO PROGRAMA AUTONOMIA FRUTO DE UMA EXPERIÊNCIA NA PROFISSÃO DOCENTE No capítulo anterior, analisamos a forma com que se tem configurado as condições de trabalho docente, as políticas nacionais dirigidas aos professores nos últimos anos, assim como suas influências em âmbito estadual e como estas são dirigidas ao conjunto de professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Após expor o contexto de ação dos docentes, buscamos olhar o professor dentro das políticas a fim de compreender o fazer-se do grupo de professores que atua junto ao Programa Autonomia no contexto educacional do Rio de Janeiro. Ao observar a dinâmica de trabalho e as formas que as justificam, verificamos que tais aspectos, principalmente o que concerne à fragmentação do tempo de trabalho, têm levado muitos professores do ensino médio regular a se tornarem professores do referido Programa. Demonstramos nos capítulos anteriores o contexto pelo qual passam esses professores e o processo que acaba transformando-os em professores que aplicam a metodologia da Fundação Roberto Marinho/Fiesp. Nosso objetivo no presente capítulo foi identificar as respostas que os profissionais estão dando aos desafios impostos no seu contexto de trabalho a partir de sua própria experiência e assim buscamos trazer à tona elementos que serviram para a formação de um contingente de professores que hoje atuam junto ao Programa Autonomia. Ao pautar nossas análises no historiador inglês que guiou nossos caminhos ao longo de toda a dissertação, por hora nos deteremos mais especificamente em suas análises sobre o fazer-se da classe, utilizando as categorias de consciência de classe e experiência. Com o risco de abusar dos conceitos usados pelo autor para um fenômeno específico, talvez possamos dizer que tratamos do fazer-se dos professores do Programa Autonomia fruto da expressão de uma experiência na profissão docente. Procuramos ver a questão do fazer-se dos sujeitos históricos, como eles se constituíram e como as mudanças e padrões, índices do IDEB, metas, meritocracia e toda essa recente dinâmica educacional têm mudado a experiência, os costumes, o comportamento e o relacionamento dos professores com as políticas, suas formas de lidar com o trabalho e como essas mudanças influenciam nas suas opções profissionais. Para tanto, neste capítulo buscamos compreender a experiência dos professores nos novos Programas e modalidades de ensino dando ênfase ao modo com que esses profissionais enxergam e lidam com o Programa Autonomia. 94 Iniciaremos o capítulo com as discussões teóricas a fim de situar o leitor e a leitora de acordo com as visões propostas. Dentro dos procedimentos metodológicos adotados, nos baseamos principalmente na observação junto aos professores e professoras, nos questionários aplicados e nas entrevistas semi-estruturadas. Buscamos, a partir dos dados da pesquisa, observar as estratégias que os sujeitos têm utilizado para contornar a fragmentação do tempo de trabalho, fator que tem sido enfatizado pelas políticas atuais. Analisamos também como tem se dado os usos/contornos do tempo pelos docentes e como isso interfere no seu modo de vida. A partir do olhar do professor, destacamos as estratégias que eles utilizam para contornar as políticas e como se dá a resistência às políticas governamentais. Percebemos que essas atitudes, muitas vezes, passam a ser individualizadas e o processo de resistência a um desgastante cotidiano de trabalho acaba estimulando adesões a determinados projetos ou programas, que servem de estratégia de sobrevivência entre os professores, ao mesmo tempo em que canaliza as metas governamentais em relação à educação fluminense. Entre a determinação e a apropriação, entre a estrutura e o processo, entre a singularidade e a generalização, sobressai a experiência. Portanto, buscamos articular os relatos e ênfases dos professores ao contexto das políticas educacionais citadas. Estas serão analisadas como dispositivos de controle e de cumprimento de metas governamentais, por um lado, mas também serão consideradas em suas relações e, sobretudo, com os modos pelos quais os professores se relacionam com essas políticas no exercício de sua profissão. Para isso continuaremos a utilizar, especialmente, os depoimentos de seis profissionais que acompanhamos durante o percurso desta pesquisa, pois abrindo espaço para narrativas pessoais, pretendemos ver, com mais tranquilidade, as estratégias pessoais que os professores utilizam. 3.1. Tempo de pensar a formação e a experiência Os estudos de E. P. Thompson que resultaram no clássico “A formação da classe operária inglesa79”, dão ênfase na dimensão cultural da classe e à reconstituição de 79 O título original do livro é The Making of the English Working Class e o título brasileiro tornou-se A formação da classe operária inglesa. No entanto, conforme alertado em nota na 6ª edição: “A palavra ‘formação’ perde em muito o conteúdo subjetivo e processual de “making”: ao substantivar o gerúndio de ‘to make’, o autor pretende, efetiva e conscientemente, ressaltar esse movimento de “autofazer-se” das classes sociais ao longo da história. 95 importantes aspectos da vida comunitária dos trabalhadores “pré-industriais”. A discussão sobre a noção de classe social que foi resumida no prefácio de “A formação” traz o conceito de classe como processo e relação e não como uma categoria estática; que se define a si mesma tanto quanto é definida; cuja consciência se constrói na identificação de interesses comuns e opostos aos de outra classe. Ao criticar a definição de classe social utilizada por escolas teóricas que o antecederam, Thompson traz importantes contribuições para o entendimento de classe social, baseado em novos aspectos que ficam explícitos na “Formação da classe operária inglesa”. Em estudos anteriores, foi possível perceber que Thompson critica as formas de definição de classe mais comumente utilizadas por várias escolas teóricas até então e diz que “a classe é uma relação, e não uma coisa”, sendo definida pelos próprios homens enquanto vivem a história. Portanto, “a intenção do livro é oferecer uma contribuição para compreender a classe como uma formação social e cultural.” (FORTES, A.; SILVA, A.M. 2007, p.2). Ao criticar a história feita de cima, onde apenas os vitoriosos (no sentido daqueles cujas aspirações anteciparam a evolução posterior) são lembrados, Thompson ao analisar a classe operária inglesa do início do século XIX, tenta resgatar: O pobre tecelão de malhas, o meeiro luddita, o tecelão do ‘obsoleto’ tear manual, o artesão ‘utópico’ e mesmo o iludido seguidor de Joanna Southcott, dos imensos ares superiores de condescendência da posteridade. Seus ofícios e tradições podiam estar desaparecendo. Sua hostilidade diante do novo industrialismo podia ser retrógrada. Seus ideais comunitários podiam ser fantasiosos. Suas conspirações insurrecionais podiam ser temerárias. Mas eles viveram nesses tempos de aguda perturbação social, e nós não. Suas aspirações eram válidas nos termos de sua própria experiência; se foram vítimas acidentais da história, continuam a ser, condenados em vida, vítimas acidentais (THOMPSON, 2011a, p.14). Ao resgatar os sujeitos históricos comuns, Thompson busca dar importância às ações dos sujeitos sem secundarizar as estruturas sociais às quais estão submetidos, desta forma, o autor nunca se afastou da tradição marxista do materialismo histórico dialético. Recorremos à MATTOS (2012) que percorreu em seu livro um caminho de discussão da obra de E. P. Thompson centrado na relação do historiador inglês com o marxismo, ou melhor, com a tradição de “crítica aberta e razão ativa” do materialismo histórico. O autor afirma que o fundamental na obra de Thompson é a busca por definir classe social como processo e relação. “Para Thompson a classe tanto faz quanto é feita, 96 pois em nenhum momento o historiador inglês nega o papel determinante das relações de produção sobre a experiência de classe”. (MATTOS, 2012, p.224) Tratava-se de um lado, da rejeição às teses da história econômica de matriz liberal, pautada pelo quantitativismo a-histórico, pela definição da capacidade de consumo como centro da dimensão econômica da classe, pela ênfase nas escolhas individuais e pela recusa a admitir a exploração de classes. (...) De outro lado, apresentava-se a recusa ao marxismo vulgar, que derivava diretamente, sem qualquer mediação, a consciência e a ação coletiva da classe de seu lugar nas relações de produção – algo que Thompson procurará superar pela ênfase no conceito de experiência (MATTOS, 2012, p.24-25). Por isso, as definições de Thompson ajudavam a pensar a situação objetiva das classes, ainda que rejeitando determinismos, tal como se vê na seguinte passagem de Sader (1988), que ao tomar o conceito de experiência de Thompson como central para sua reflexão sobre a emergência dos movimentos sociais em fins dos anos 1970, afirma: Embora as pessoas se encontrem, de saída, numa sociedade estruturada já de determinada maneira, a constituição histórica das classes depende da experiência das condições dadas, o que implica tratar tais condições no quadro das significações culturais que as impregnam. E é na elaboração dessas experiências que se identificam interesses, constituindo-se então coletividades políticas, sujeitos coletivos, movimentos sociais. (SADER, 1988, p.45) Em suas obras A miséria da teoria ou um planetário de erros (1981) e A formação da classe operária inglesa (2011a), Thompson critica as posturas historiográficas positivista e o marxismo ortodoxo. O historiador inglês centraliza seus estudos na realidade empírica, recuperando as experiências dos sujeitos (em seu caso, as classes operárias inglesas) para entender as suas ações em determinados contextos. Em suas análises, Thompson procura promover o retorno dos homens e mulheres concretos como sujeitos da história, pois: homens e mulheres também retornam como sujeitos, dentro deste termo – não como sujeitos autônomos, “indivíduos livres”, mas como pessoas que experimentaram suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida “tratam” essa experiência em sua consciência e sua cultura [...] das mais complexas maneiras [...] e em seguida (muitas vezes, mas nem sempre, através das 97 estruturas de classe resultantes), agem, por sua vez, sobre sua situação determinada (THOMPSON, 1987, p. 182). Thompson critica a redução do conceito de classe social a uma categoria estática, não-histórica e afirma que: Nenhuma categoria foi mais incompreendida, atormentada, transfixada e deshistorizada do que a categoria de classe social; uma formação histórica autodefinidora, que homens e mulheres elaboram a partir de sua própria experiência de luta, foi reduzida a uma categoria estática, ou a um efeito de uma estrutura ulterior, das quais os homens não são os autores mas os vetores (IBIDEM, p. 57). Em A miséria da teoria ou um planetário de erros, o autor tece sua crítica ao pensamento de Althusser e aos modelos teóricos que abstraem sem descer a nenhuma experiência concreta. Para Thompson, é preciso levar em consideração o agenciar80 humano e trazer, à narrativa, os sujeitos da história. Esses sujeitos são homens e mulheres, indivíduos que, nas experiências do cotidiano, constroem identidades sociais, a exemplo da classe. Não são sujeitos abstratos e homogêneos, sem rosto e com vontades determinadas por estruturas como queiram os estruturalistas com seu “economicismo vulgar” (IBIDEM, p.186). Para realizar tal mediação entre determinação das relações de produção e a consciência característica da agência de classe, Thompson valorizou o conceito de experiência. Por meio de tal conceito, a análise de Thompson buscava um nexo entre o modo de produção e a consciência. “Experiência” seria o termo ausente nas teses em que a teoria autoproclamada marxista assumia tons mais próximos do idealismo e do determinismo. Com o conceito de experiência, Thompson acreditava ser capaz de realizar a mediação entre a determinação das relações de produção e a consciência característica da agência da classe. Em todos os seus estudos sobre a classe, Thompson procurou apresentar uma relação complexificada entre a determinação das relações sociais de produção e a dimensão cultural da consciência de classe, em que os homens aparecem 80 O termo “agenciar” provém de “agência”, tradução comumente adotada no Brasil para o termo agency, associado à noção de que os homens são sujeitos de sua própria história, embora em condições que não escolhem, seria uma das mais fortes influências historiográficas que a obra de Thompson legou. (MATTOS, 2012, p. 27) 98 como ‘sujeitos de sua própria história’, mas nunca como sujeitos individuais, livres ou autônomos (MATTOS, 2012, p. 195). As análises de Thompson em relação à constituição da classe operária inglesa no século XIX – que deve ser entendida no seu fazer-se, no acontecer histórico – nos fornecem elementos que podem ajudar a entender a “formação” de um grupo de professores e professoras. Sendo assim, seguimos novos caminhos da análise thompsoniana para entender o fazer-se de um grupo profissional, compreendendo a dinâmica que gerou a formação de uma parcela de professores que atuam junto a Programas como o Autonomia. Nosso caminho de pesquisa foi trilhado a partir de tais análises, pois, como nos coloca Thompson (1981), deve-se compreender o contexto no qual os sujeitos produzem sua consciência de classe, para compreender as ações empreendidas por estes. Assim, não se pode desvincular as práticas de um (a) professor (a) que leciona em um Programa como o Autonomia do movimento/contexto que o condiciona. Assim, em comum acordo com tais análises, partiremos da perspectiva de que o que as pessoas comuns fazem é digno de interesse e atenção. A metodologia utilizada por Thompson na análise histórica refere-se às situações reais, contextos históricos reais e pessoas reais, ou seja, é uma discussão que busca analisar e sistematizar uma dada realidade, levando em conta seus atores, aqueles que vivenciam a realidade enquanto se fazem dentro de uma classe. Somente assim é possível analisar os processos. Isso quer dizer que, para que compreendamos o fazer-se professor (a) do Autonomia, devemos levar em conta o que estes sujeitos entendem de sua prática, como sentem, agem, e nesta perspectiva, procuramos dar voz aos professores. 3.2. Teorias sobre a Profissão Docente É fecunda a proposição thompsoniana de que é tarefa do pesquisador explicar um evento em como e por que ele se moveu em uma determinada direção e também os princípios e tendências fundamentais deste processo. Tendo como acordo esta proposta, serão somadas aos nossos argumentos as principais tendências teóricas que tentam explicar a condição docente e traremos alguns depoimentos para ilustrá-los. Entender a formação de um grupo profissional exige antes, expor em que condições gerais se 99 inserem esses trabalhadores no contexto profissional, considerando que o trabalho docente ainda é um grande enigma, pois não há uma unanimidade social em torno de expectativas viáveis sobre o seu ofício. Acreditamos que um estudo sobre professores que aderem a determinado Programa educacional, poderia desvendar algo desse enigma. Assistimos, na última década, a um esforço crescente dos pesquisadores em mapear a problemática da profissão docente. Em comum, existe a percepção de que o trabalho do professor se caracteriza hoje pela intensificação e complexidade do próprio trabalho. Com relação ao primeiro aspecto, não se trata apenas de aumento de tempo do trabalho, mas também da ampliação das tarefas as quais os professores são chamados a desempenhar, seja pelas mudanças na composição social do público escolar, seja pela implementação de reformas educacionais com visíveis impactos no cotidiano do trabalho em sala de aula. O depoimento de Fábio ilustra bem este aspecto, quando fala das suas amplas funções, que estão para além da tarefa de instruir e ensinar. Este professor, apesar da pouca idade, já tem uma longa carreira no magistério e afirma que: A questão hoje se trata de ver a escola não como aprendizado, mas de educação do aluno, onde o aluno deve ser educado, como se nós professores fossemos os pais, mães, tios e tias deles. E isso não é nossa posição. A função do professor não é essa! Apesar de contribuir, isso não é a nossa essência. Isso é função do pai e da mãe. Mas em função da carga horária muito grande desses pais, eles nem encontram os seus filhos. Então acaba caindo na nossa conta, o que atrapalha o nosso trabalho e a própria formação desse jovem, desse cidadão, dessa criança (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Este aspecto citado pelo professor expõe as respostas amplas, às quais são induzidos o trabalhador docente, que, para além de ensinar, precisa ser um pouco psicólogo, assistente social, pai, mãe, ou seja, uma sobrecarga de funções que somada às muitas exigências e ao aumento do tempo de trabalho têm tornado o trabalho do professor ainda mais intensificado, atribuindo responsabilidades que não são necessariamente suas. De acordo com Tardif e Lessard (2011), se tomarmos especificamente, por exemplo, o tempo de trabalho, a literatura internacional vem chamando a atenção para a ampliação do número de horas comparativamente a outras categorias profissionais em função da diversificação das atividades dos professores. Entendemos que com o emprego das reformas educacionais pelo governo brasileiro, nos anos 1990, o vínculo da educação à lógica produtiva e ao mercado retornou mais visível ainda, implicando na transferência de conceitos da área 100 empresarial para a educação escolar. O modelo por competências, gerado no campo jurídico, estendeu-se ao mundo empresarial e mais uma vez provoca mutações na prática pedagógica escolar. Essa lógica das competências instiga a concorrência, a meritocracia e o individualismo, e dentro disso, o gerencialismo tem sido, segundo Ball (2005), o principal mecanismo utilizado nas reformas educacionais em todo o mundo, responsável pela criação de uma estrutura empresarial competitiva que acaba expondo a vida emocional e o comportamento dos professores, além de fazê-los se sentirem responsáveis pelo sucesso ou fracasso do aluno. Assim, afirma Ball (2005) que o professor, assim como o pesquisador e o acadêmico estão sujeitos a uma miríade de julgamentos, mensurações, comparações e metas; informações que são coletadas continuamente, registradas e publicadas com frequência na forma de rankings. Além dessa concorrência e incentivo a uma melhor performance do professor, assistimos, ainda, a um amplo processo de intensificação do trabalho, de uma quantidade maior de horas trabalhadas, intensificada pelo achatamento dos salários desses profissionais. Mais uma vez, traremos o depoimento do jovem e experiente professor, que retrata essa relação da falta de tempo com o nível salarial: O que mais falta hoje é uma boa estrutura dentro das escolas, material para trabalhar... Toda a estrutura a nível físico da escola e um bom incentivo para o professor. O salário do professor hoje é muito defasado. É muito complicado você parar para planejar uma aula, por que te falta tempo. Você trabalha muito pra conseguir um rendimento legal pra sua vida. A falta de dinheiro, para você seguir na área do magistério, é a maior dificuldade. O salário defasou muito de dez anos pra cá. Minha família é toda de professores. O meu pai ingressou na rede estadual e tinha uma história que se ganhava cinco ou seis salários mínimos como professor. Meu pai sustentava a gente muito bem com duas matrículas no estado. E isso não acontece hoje. O salário do professor é muito defasado, muito aquém de uma pessoa formada no ensino superior. É muito menos do que ganha um arquiteto, um médico, um engenheiro... A valoração do professor é muito baixa. E isso piorou muito (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Segundo Apple (1995), a intensificação representa uma das formas mais tangíveis pelas quais as conquistas dos trabalhadores docentes são degradadas. Ela tem vários “sintomas”, do trivial ao mais complexo – desde não ter tempo sequer para ir ao banheiro, tomar uma xícara de café, até ter uma falta total de tempo para conservar-se em dia com sua área. Além disso, é possível perceber, também, professores e professoras completamente envolvidos com suas atividades fora de seu horário de 101 trabalho e, com muita frequência, durante sua hora de lanche. Em muitos momentos, chegam à escola antes do horário de início e saem depois do horário de término, além de, muitas vezes, gastarem horas de trabalho em casa, durante a noite. Alguns autores, dentre eles o próprio Apple (1995), afirmam que um dos efeitos mais significativos da intensificação do trabalho docente pode estar relacionado à questão da redução da qualidade do trabalho, consequentemente, da educação. Diante das inúmeras tarefas impostas às escolas pelos atuais processos descentralizadores, os professores se vêem face a uma situação onde não há tempo para se problematizar o que se está sendo produzido e nem a forma como está sendo produzido. Existe tanta coisa a fazer que simplesmente cumprir o que é especificado exige quase todos os esforços do professor, executando uma intensa quantidade de tarefas que na maior parte das vezes não foi elaborado ou decidido por ele, não existindo tempo para se parar para pensar e discutir sobre essas tarefas. Outro fator que tem sido apontado nos estudos é o sentimento de perda de prestígio do qual reclama o professor, que o faz se sentir desvalorizado diante da constante responsabilização pelo baixo rendimento escolar dos alunos. Com a massificação do ensino e a falta de perspectivas para a grande maioria dos alunos, o professor acaba se sentindo perdido, pois se sente tolhido em sua função de formar as novas gerações para o futuro. Antônio ao refletir sobre esta questão, afirma: Os alunos de hoje têm um entendimento de escola como um espaço ampliado da casa dele, da rua deles. Eles não reconhecem o professor como alguém que pode ajudá-los, que pode acrescentar algo à sua vida. Eu me pergunto o tempo inteiro como eles percebem a escola para formação deles, o que vai acontecer com eles depois de terminar o ensino médio... Eles não têm perspectivas de melhorias após a formação. E o professor estaria meio perdido nesse espaço (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). Aferidos por avaliações internas e externas, e pela decantada má qualidade da escola pública, os professores se sentem controlados e, muitas vezes ignorados pelas políticas educacionais. Tudo isso, segundo Ball (2005), consequência da aplicação de duas importantes tecnologias da política de reforma educacional: a performatividade e o gerencialismo. Para o autor, tais tecnologias utilizam técnicas e artefatos para controlar o professor, aumentar sua produtividade e estabelecer parâmetros de comparação entre eles. 102 A performatividade é uma tecnologia, uma cultura e um método de regulamentação que emprega julgamentos, comparações e demonstrações como meios de controle, atrito e mudança. Os desempenhos de sujeitos individuais ou de organizações servem de parâmetros de produtividade ou de resultado, ou servem ainda como demonstrações de “qualidade” ou “momentos” de promoção ou inspeção. Eles significam ou representam merecimento, qualidade ou valor de um indivíduo ou organização dentro de uma área de julgamento, tornando os “silêncios audíveis”. A questão de quem controla a área a ser julgada é crucial e um dos aspectos importantes do movimento da reforma educacional global são as disputas localizadas para se obter o controle e introduzir mudanças na área a ser julgada e em seus valores.[...] A performatividade é alcançada mediante a construção e publicação de informações e de indicadores, além de outras realizações e materiais institucionais de caráter promocional, como mecanismos para estimular, julgar e comparar profissionais em termos de resultados: a tendência para nomear, diferenciar e classificar. (BALL, 2005, p. 543) Entre as críticas de inspiração marxista, os autores vêm advertindo para o perigo das reformas estarem contribuindo para a desqualificação dos professores e para sua proletarização, pois a natureza do trabalho passa a ser estreitamente controlada e os programas definidos em termos de objetivos, estratégias de ensino, etc. Nessa revisão de literatura, nota-se uma censura à pressão crescente que se vem fazendo sobre a performatividade da atividade docente e seus corolários, o estabelecimento de escolas eficazes e aos bônus pagos aos professores das classes com alto desempenho. Todos esses processos acabam por desvalorizar competências pedagógicas construídas ao longo de trajetórias duráveis e consistentes, mas que são frequentemente desqualificadas pela “mudança da hora”. Com as políticas de avaliação e responsabilização, os professores cada vez mais têm um sentimento de fragmentação identitária ligado às tensões entre propostas oficiais e suas concepções pessoais. Essa tensão alimenta o que Oliveira (2010) denomina desprofissionalização. Na perspectiva de pensar a construção da profissão docente no Brasil, a autora insiste na ideia de que quanto mais variadas são as funções a que o professor é chamado a responder, mais cresce o sentimento de desprofissionalização, de perda de identidade, na constatação de que ensinar às vezes não é o mais importante. Segundo a autora, situações como essa contribuem para que uma parcela da sociedade passe a suspeitar do professor, como alguém sem a competência esperada e necessária para ensinar. “A própria busca permanente de mensuração do desempenho dos alunos acaba levando a um sentimento de que é preciso fiscalizar a escola e o trabalho dos professores.” (OLIVEIRA, 2010, p.24). 103 Assistimos com muita ênfase nos últimos anos, as políticas de um Estado avaliador, que valoriza os instrumentos de medição quantitativa como indicadores de rendimento do sistema educativo, expressos em testes para medir a aprendizagem dos alunos e a formação de professores. Todo esse quadro ajuda a entender por que tanto tem se discutido a proletarização do magistério, caracterizada pela perda de controle do trabalhador (professor) do seu processo de trabalho, contrapondo-se “à profissionalização como condição de preservação e garantia de um estatuto profissional que leve em conta a autorregulação, a competência específica, rendimentos, licença para atuação, vantagens e benefícios próprios, independência.” (OLIVEIRA, 2004, p. 1138). Em relação à discussão de proletarização, observamos adesões ao termo por alguns pesquisadores (APPLE, 1991; ENGUITA, 1991; JAÉN, 1991; LAWN, 2001) e também críticas (HYPÓLITO, 1991; SAVIANI, 1984). A proletarização no ensino seria o processo pelo qual o trabalhador não tem controle sobre o trabalho que executa: muitas vezes não participa da sua concepção e avaliação e desenvolve o que outros estabeleceram para ele apenas cumprir. Além disso, o trabalho se realiza sem as condições necessárias e o trabalhador não recebe a remuneração devida. Na proletarização, o professor não domina o processo de trabalho, isto é, apenas cumpre ordens, como é o caso da simples aplicação de pacotes de ensino, controlando mais e cada vez instruindo menos. Apple e Teitelbaun (1991) destacam a separação entre concepção e execução, onde a pessoa que está realizando o trabalho perde a visão do processo global e perde o controle sobre seu próprio trabalho, uma vez que alguém fora da situação imediata tem agora maior controle tanto sobre o planejamento quanto sobre o que deve ser realmente realizado. Afirmam ainda que esta perda de autonomia direta ou indiretamente, acaba refletindo em alienação do trabalho, e diz que não há nenhuma fórmula melhor para a alienação e o desânimo que a perda de controle do próprio trabalho. Observamos que diversos autores buscam analisar a discussão sobre a adequação (ou não) do emprego das mesmas categorias utilizadas na análise do processo de trabalho na fábrica para uma interpretação das relações de trabalho na escola. Estas diferentes formas existentes de análise do trabalho escolar são baseadas muito em conceitos desenvolvidos por Marx na questão do trabalho produtivo/improdutivo, para afirmar se há uma proletarização da categoria docente. Em relação a isso, recorremos ao próprio Marx, que afirma que não é nem o conteúdo do trabalho desempenhado nem o setor da economia em que desempenha esse trabalho que definirá o caráter produtivo do 104 trabalho ou do trabalhador. Para isso, Marx faz questão de exemplificar o trabalho produtivo com figuras como a do artista ou a do professor: Uma cantora que entoa como um pássaro é um trabalhador improdutivo. Na medida em que vende seu canto, é assalariada ou comerciante. Mas a mesma cantora, contratada por um empresário, que a faz cantar para ganhar dinheiro, é um trabalhador produtivo, já que produz diretamente capital. Um mestreescola que é contratado com outros, para valorizar, mediante seu trabalho, o dinheiro do empresário da instituição que trafica com o conhecimento, é trabalhador produtivo (MARX, 1978, p.76). Se o caráter produtivo do trabalho e do trabalhador não se define pelo emprego na fábrica, tampouco a classe trabalhadora aparece como restringida aos que exercem trabalho produtivo. Pelo contrário, é a condição proletária e o assalariamento que a definem. Marx lembra, neste mesmo livro, que nem todo trabalhador assalariado é produtivo, mas que mesmo os que exercem profissões antes associadas a uma auréola de autonomia (como os médicos, advogados, professores, etc.) cada vez mais se viam reduzidos ao assalariamento e caíam – “desde a prostituta até o rei” (MARX, 1978, p.73) – sob as leis que regem o preço do trabalho assalariado. 3.3. Professores do Programa Autonomia da Metropolitana IV81 A tabela nº 11 (ver apêndice B, tabela nº 11, p. 170) expõe os dados dos questionários passados aos professores no curso de formação do Programa Autonomia da Metropolitana IV. O instrumento de pesquisa foi entregue para 63 professores; destes, 62% são mulheres, 20,6% homens e 17,4% não se identificaram. Dentre eles, havia apenas um professor com mais de 60 anos; 17,4% dos professores estão na faixa etária entre 50 e 60 anos, 30,1% estão na faixa etária dos 40 a 49 anos, 35% estão na faixa dos 30 a 39 anos e 12,6% dos professores estão na faixa etária de 20 a 29 anos. Entre os questionados, situamos 6,3% de professores com mais de 30 anos de magistério; 20,6% dos professores possuem entre 20 e 29 anos no exercício da profissão; 28,5% possuem entre 10 e 19 anos no magistério e 44,4% dos professores possuem menos de 10 anos de exercício da docência. 81 A regional Metropolitana IV abrange as seguintes localidades: Jabour, Realengo, Inhoaíba, Santa Cruz, Bangu, Jardim Bangu, Anchieta, Ricardo de Albuquerque, Magalhães Bastos, Pedra de Guaratiba, Barra de Guaratiba, Paciência, Padre Miguel, Vila Kennedy, Jardim Palmares, Senador Camará, Vila Aliança, Sepetiba, Santíssimo, Deodoro, Santa Margarida, Vila Militar, Cosmos, Costa Barros, Barros Filho, Benjamim Dumont, Campo dos Afonsos, Campo Grande, Grumari, Guadalupe, Guilherme da Silveira, Honório Guegel, Jardim Maravilha, Jardim Sulacap, Mallet, Padre Anchiete, Parque Columbia, Pavuna, São Fernando, Senador Augusto Vasconcelos. (Fonte: Site da SEEDUC). 105 Visto que o Programa Autonomia admite professores de qualquer disciplina, foi solicitado que os professores informassem a sua área disciplinar. Sendo assim, constatamos que a maioria dos professores presentes pertence à área de Letras: Língua Portuguesa/ Português- Literatura e Língua estrangeira (Português-inglês ou portuguêsespanhol); representando 46% dos professores do Projeto Autonomia dessa região. A segunda área disciplinar de maior incidência entre os professores foi a Educação Física, contemplando 15,9% de professores desta área de atuação, seguida de 14,2% de professores de matemática, 12,6% de ciências biológicas, 8% de geografia, 4,7% de história e apenas uma professora de química. Em relação à instituição de formação dos professores do Programa Autonomia desta região, a grande maioria teve sua formação em instituições privadas, sendo 63,5% dos professores formados por essas instituições de ensino superior. Outros 30% tiveram sua formação em instituições de ensino superior públicas e 6,3% afirmaram terem concluído sua formação em ambas, parte em uma instituição pública e parte em instituição privada. A docência sempre carregou um diferencial em relação às horas de trabalho, onde em geral, professores deveriam ter uma carga horária reduzida, em comparação a outros trabalhadores, devido à peculiaridade do ensino, a necessidade de planejamento, aperfeiçoamento, formação, etc. No entanto, a situação mais denunciadora da precarização da situação do trabalho do docente em anos recentes se dá no número de horas semanais trabalhadas. O trabalho dos docentes que atuam junto ao Programa Autonomia é de 24 horas semanais, sendo quatro horas diárias em sala de aula, cinco dias por semana com mais quatro horas de planejamento. Para atender às exigências do Programa, o docente de 16 horas deve complementar a carga horária com GLP (Gratificação por Lotação Prioritária), que são as horas-extras.82 No entanto, dentre os sujeitos da pesquisa, que atuam junto ao Programa Autonomia, 42,9% reportaram trabalhar 40 horas semanais ou mais, outros 22,2% disseram trabalhar entre 25 e 39 horas e apenas 15,8% disseram que trabalham 24 horas semanais (tempo equivalente a carga horária semanal necessária ao Programa e que, portanto, só desenvolvem esta atividade). Um fato curioso é que 17,5% dos professores afirmaram trabalhar menos de 24 horas semanais, ou seja, disseram que 82 Fonte: Site da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, no link Conexão Professor. Visitado em 21/03/2013. 106 trabalham 20 horas, desconsiderando a sua carga horária de trabalho destinada ao planejamento e fora de sala de aula. Um dos objetivos do questionário foi buscar identificar a localidade em que o professor mora e a proximidade com a escola em que atua, buscando verificar a hipótese de pesquisa na qual os professores que atuam junto ao Programa Autonomia, em geral residem próximo das escolas; partindo do pressuposto de que muitas vezes à adesão desses professores ao Programa é a possibilidade de transferência de uma escola mais distante para uma escola mais próxima de sua residência. A hipótese se confirmou neste caso, pois dentre os professores entrevistados, apenas sete 11,1% atuam na metropolitana IV e moram em outras regiões do estado, 41,2% dos professores trabalham em escolas nos próprios bairros em que residem e todos os demais professores trabalham e moram em bairros vizinhos que fazem parte da mesma metropolitana. Neste caso, devemos ter cuidado, em termos razoáveis, em como encarar a generalização. O fato de dizer, por exemplo, que 89% dos professores da referida amostra trabalha em escolas próximo às suas residências devido a uma possibilidade de atuar junto ao Programa Autonomia, pode ser válido, mas camufla o fato de que essas adesões são objetivamente de natureza diferente, têm antecedentes diferentes e são percepcionadas de forma muito diversa pelos professores. No mesmo sentido, a adesão ao Programa comporta uma constelação de facetas que varia de uma pessoa para outra, mesmo que várias pessoas dêem uma resposta parecida quando questionadas ao que diz respeito a sua adesão ao Programa. Pois bem, a partir desses dados iniciais levantados, buscamos os sujeitos da pesquisa, entrando em contato com professores e professoras que se dispuseram a conceder as entrevistas83. Buscaremos através das narrativas destes professores e professoras situar o contexto de atuação, assim como as condições de trabalho e a referência espaço-tempo aos quais eles estão submetidos na rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Esse procedimento ajudará, também, a conhecer como os professores justificam a sua adesão ao Programa, como avaliam esse novo lugar profissional e como eles concebem a estruturação do tempo em sua profissão. 3.4. Os usos do tempo pelo professor ao longo de sua trajetória profissional 83 Na tabela nº 12 (ver apêndice B, tabela nº 12, p. 172), encontramos um resumo da identificação dos sujeitos entrevistados, com seus respectivos nomes fictícios. 107 A fase inicial, marcada pela entrada na profissão, para muitos autores (HUBERMAN, 1995; CAVACO, 1995; ESTEVE, 1999), é um momento bastante difícil para o professor. Cabe a tais professores, na maioria das vezes, trabalharem com as turmas consideradas mais difíceis, cumprir os horários menos atrativos e se deslocar aos lugares mais distantes. “Os primeiros anos parecem efetivamente deixar marcas profundas na maneira como se pratica a profissão” (CAVACO, 1995, p.114). Conceitualmente, há diversas maneiras de estruturar o ciclo de vida profissional dos professores. Huberman (1992) opta por uma perspectiva clássica, a da “carreira”. Considera, como exemplo, as sequências ditas “de exploração” e “de estabilização”, que supostamente se verificam no início de uma carreira. O desenvolvimento da carreira é, assim, um processo e não uma série de acontecimentos. Para alguns, este processo pode parecer linear, mas, para outros, há patamares, regressões, becos sem saída, momentos de arranque, descontinuidades. Iniciamos nossas observações com depoimentos de seis professores a respeito de sua fase inicial de carreira e sua relação com o tempo, mas antes há uma dificuldade na metodologia a ser destacada, por exemplo: agarrar-se a um docente de 30 anos, através de um grupo que tem realmente 30 anos; e a um outro grupo com docentes de 50 anos de idade ou mais, que recria a época dos seus 30 anos e cuja capacidade de rememoração pode ser nitidamente menos precisa do que aqueles que estão atuando nesta etapa da docência. Considerando esta ponderação, trouxemos alguns depoimentos que traduzem essa fase inicial de carreira. Quando questionados a respeito de sua atuação profissional desde sua entrada no magistério até os primeiros cinco anos de carreira, os professores apresentam as seguintes percepções: Comecei em 90... Só que eu trabalhava sem vínculo nenhum. Eu já dava aula, mas sem vínculo. Quando eu entrei para o magistério oficialmente, eu fui para escola particular. Trabalhei em Santa Cruz, Barra (da Tijuca), Campo Grande84... Ah e detalhe! Complementando a faculdade pra fazer o curso de bacharel. Às vezes eu vinha da Barra direto pra faculdade em Padre Miguel... Foi muito complicado, foi muito difícil. Diria que até 95 foi assim. De 90 a 95 foi essa confusão toda. Às vezes eu chegava da Barra (da Tijuca) pra trabalhar em Santa Cruz no pré-vestibular, entrava comendo um sanduíche dentro da sala, já dando aula e comendo (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). 84 A professora refere-se a bairros da zona oeste do Rio de Janeiro distantes uns dos outros. 108 A professora Nilda, ao falar de sua trajetória inicial no magistério, destaca que essa fase foi a mais difícil de sua carreira, diz que não possuía vínculo ao afirmar que só trabalhava em escolas particulares. Essa professora associou a falta de vínculo empregatício a ausência de carteira assinada, estando assim, fora das leis trabalhistas. Percebemos aqui uma fase inicial de carreira bastante conturbada, onde trabalhar em muitas instituições de ensino é, também, ter vínculos superficiais com os ambientes de trabalho. A entrada de Nilda no ensino público se deu depois deste período retratado por ela como uma confusão, na qual precisava fazer amplos percursos de ônibus de uma escola para outra, todas distantes de sua casa e ainda precisava conciliar com os estudos. Já a trajetória inicial de Janete pareceu um pouco menos conturbada, neste caso, os seus primeiros cinco anos de atuação como professora se desenvolveram na rede pública estadual do Rio de Janeiro e também em escolas particulares. Assim como Nilda, Janete classificou o seu trabalho no ensino privado como um período mais difícil de sua atuação profissional, dizendo que deixou de atuar nas escolas particulares quando passou no concurso para a rede estadual. Quando eu passei para o Estado em 1988 eu saí dos colégios particulares, então, nos primeiros cinco anos foi uma coisa assim bem tranquila. O colégio particular é bem mais difícil, acho bem mais exigente. O (Colégio) Belisário era um colégio particular de referência aqui né, era um grande colégio aqui em Campo Grande e existia uma cobrança muito grande do professor. Quando eu passei para o Estado foi uma coisa mais tranquila, foi um concurso muito disputado na época e eu gostei de onde eu fui, eu fui trabalhar em Seropédica. Eu morava no centro de Campo Grande e trabalhava em Seropédica. A princípio eu ia de ônibus e a condução era difícil, mas o colégio era muito grande, muito bom. Como era um colégio que tinha ensino fundamental e ensino médio, na época segundo grau, os alunos eram bem adaptados à escola, então eu gostava desse tipo de coisa, a convivência na escola era grande, então os alunos não tinham muito problema de comportamento porque eles já tinham resolvido isso no ensino fundamental, então já tinha uma adaptação ao espaço e era bem mais fácil trabalhar (Janete, 50 anos, 26 anos de profissão). Ao tratar do mal-estar docente, Esteve (1999) propôs três grupos distintos de professores que, segundo ele, são típicos do início da carreira: os denominados insatisfeitos com conduta flutuante, que vão trabalhando e se desviando dos problemas na tentativa de protegerem-se; os que se realizam na profissão docente e aqueles que procuram se envolver minimamente com as tarefas inerentes à profissão. Dentro desses 109 aspectos iniciais da carreira docente, o depoimento de Antônio, um professor em início de carreira, nos traz a seguinte percepção: O que mudou desde a minha entrada no magistério, foram as decepções, os problemas. À medida que você vai passando a ser um profissional, você vai percebendo algumas coisas que no início você achava que deveria modificar, que deveria fazer intervenção, mas depois você vê que o problema é muito mais complexo (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). Huberman (1992), estudando o ciclo de vida dos professores, observou que o início da carreira representa o momento de entusiasmo, da descoberta e do encantamento, embora marcado por dificuldade e insegurança. Observamos isso no depoimento de Antônio que, ao ingressar no magistério, disse que se identificava muito com a profissão, que almejava uma intervenção social através do seu trabalho, fator que junto à estabilidade era o seu principal objetivo. Ao dizer que o problema é muito mais complexo, Antônio expressa a sensação de que os professores hoje se encontram perdidos em meio a um espaço que não lhe dá condições de promover uma prática transformadora. 3.5. Tecendo diferenças de gênero no uso do tempo Neste tópico daremos destaque a uma trajetória marcada e influenciada diretamente pela tríade mulher-mãe-trabalhadora, portanto não destacaremos depoimentos de homens, pois não será o objetivo fazer comparações. Sabemos que a utilização do tempo das mulheres é diferenciada, pois, na maioria das vezes precisam dar conta de uma dupla ou tripla jornada. Thompson afirma que o tempo das mulheres mães é diferenciado, muito orientado pelas tarefas – especialmente ao que se refere aos cuidados com os filhos - pois “parte do trabalho com as crianças e em casa se revelava naquele momento como necessário e inevitável, e não uma imposição externa”. (THOMPSON, 2011b, p.288) Nesse caso, o autor se referia a mães do século XVII, mulheres do trabalhador rural, que além dos afazeres domésticos, tinham que cuidar dos filhos, da volta dos homens ao lar, das crianças que choravam na madrugada, numa intensa labuta cotidiana; ao contrário do marido, que podia descansar durante a noite, elas não podiam, não tinham o mesmo tempo para descansar. 110 Podemos corroborar com a ideia do autor quando ele mesmo afirma que aquela realidade continua sendo verdade até os dias de hoje, e que a forma de lidar com o tempo pelas mulheres mães é muito mais orientado pelas tarefas: Apesar do tempo da escola e do tempo da televisão, o ritmo do trabalho feminino em casa não se afina totalmente com a medição do relógio. A mãe de crianças pequenas tem uma percepção imperfeita do tempo e segue outros ritmos humanos. Ela ainda não abandonou de todo as convenções da sociedade “pré-industrial” (IBIDEM, p.288). É verdade que o que Thompson falava em relação ao século XVII não fica muito distante do cotidiano de muitas mulheres do século XXI, pois com a entrada massiva das mulheres no mundo do trabalho, as cobranças em relação aos cuidados com a família e filhos não mudaram, ainda são tidos como um trabalho fundamentalmente feminino e que, portanto, exigem das mães trabalhadoras uma rotina muito mais desgastante e um uso do tempo muito mais fracionado e destinado aos cuidados dos filhos e da casa. O depoimento desta professora, ao relatar o início de sua trajetória no magistério, nos traz elementos importantes para compreender não só o fenômeno da dupla jornada na categoria docente, mas também da variedade de escolas em que atuava e portanto da intensificação do trabalho que promove uma aceleração de tempo da professora, que é levada a abrir mão do descanso semanal para poder sustentar o seu filho. Olha, quando eu comecei, foi quando meu filho nasceu... Nessa época eu trabalhava em nove escolas particulares. Dando mamar no peito... (sorriso e pausa) Peguei uma anemia braba, perdi 28 kgs, foi muito cansativo... Dava aula de geografia, inclusive eu trabalhei em pré-vestibular e ritmo de prévestibular, sabe como é... Então às vezes eu não trabalhava só dia de semana. Teve uma das escolas, em Itaguaí, que eu trabalhava sábado o dia inteiro, domingo o dia inteiro no Projeto (de vestibular da) UERJ, pra ganhar mais um dinheiro né? Porque eu criava o meu filho sozinha. Então era o (único) dinheiro que entrava dentro de casa pra dar qualidade de vida (Professora Nilda, 51 anos, 24 anos de magistério). E prossegue relatando: Depois de passar esse momento difícil, aí eu passei no município (do Rio de Janeiro) em 1995. Fiquei dois anos trabalhando, aí eu perdi a minha mãe e 111 meu filho manifestou uma hiperatividade, pirou mesmo com a hiperatividade de eu chegar ao ponto de dizer: “ele tá me pedindo socorro, eu vou parar.” Aí parei. Todo mundo me condenou, por eu largar a matrícula, mas... era eu ou meu filho e eu tinha que tá junto com ele. E valeu a pena ter largado. Aí nesse período que eu fiquei em casa eu dava aula em casa, só em casa... A diretora dessa escola mandava muito aluno pra mim. Aí vinha aluno do (Colégio) Rosário, aluno do (Colégio) Santa Isabel, do (Colégio) Santa Mônica85, eu tinha várias turmas separadas, por escolas, que eram metodologias diferentes. Ainda tinha isso... Modalidades totalmente diferentes! Fiquei praticamente uns oito anos desempregada, dando aula em casa... (pausa com emoção). Aí em 2004 eu entrei na primeira matrícula do estado, e em 2007 entrei na outra. Hoje as minhas duas matrículas estão no Autonomia (IDEM). O depoimento desta professora nos revela uma trajetória profissional dificultada e com interferências diretas pelo fato ser mãe e ter criado seu filho sozinha, pois isso a levou a se desdobrar em várias escolas para conseguir o sustento da casa e abandonar uma matrícula pública para se dedicar aos cuidados de seu filho. Nilda só se estabilizou dezessete anos depois de sua entrada no magistério, quando conquistou suas duas matrículas na rede estadual. Por fim, a professora se refere ao trabalho no Programa Autonomia como uma grande realização pessoal, pois permitiu concentrar seu tempo e sua dedicação a apenas uma modalidade de ensino e em apenas uma escola, fator que não havia conseguido em toda a sua trajetória profissional. 3.6. Fazer-se professor(a) do Programa Autonomia: diversos caminhos para um mesmo fenômeno Quando os professores e professoras foram questionados a respeito dos motivos que os levaram a aderir ao Programa Autonomia, encontramos diversos caminhos, dos mais simples aos mais complexos. Muitos desses confirmaram a hipótese de que a adesão ao Programa tem se dado para fugir da fragmentação do tempo de trabalho, trabalhar mais próximo de casa e/ou para concentrar a matrícula em apenas uma escola. Neste caso, a adesão ao Programa evidencia: 1) fuga ao fracionamento do tempo e dos espaços em que atuavam; 2) a perspectiva de ter aumento salarial; 3) a crença de que o Programa contribui para melhorar a qualidade do ensino; 4) outros faotres. Dentre todos os professores entrevistados, observamos a confirmação destes pontos, embora os caminhos para essa adesão tenha se dado das mais diferentes formas possíveis. Dentre os professores em início de carreira, em meados ou no fim de carreira, 85 Escolas particulares localizadas na região. 112 um fator se faz comum: eles desejam encontrar mecanismos de fuga à precarização que se reflete na busca de um maior tempo concentrado (preferencialmente em uma única escola) e um aumento da remuneração. Isso também é visto por todos os professores entrevistados como um elemento primordial para um ensino de qualidade. Sendo assim, elencamos a partir dos depoimentos dos seis entrevistados um pouco de sua trajetória anterior e os motivos que os levaram a aderir ao Programa: O meu ingresso no Projeto86 foi devido a ser novo na rede estadual de ensino e estar trabalhando só com o ensino regular o que me dava uma remuneração muito baixa. Com o Projeto houve um aumento de carga horária e esse aumento de carga horária daria uma certa estabilidade87. Depois mudou, mas no início foi essa a minha intenção de ingressar no projeto (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). Eu entrei com as duas matrículas (no Programa Autonomia). A primeira matrícula eu entrei por que ganhava muito pouco. Eu queria aumentar a questão salarial e aqui a gente ganha uma gratificação. Na segunda matricula já foi pra trabalhar num local mais próximo de casa, onde eu trabalhava antes eu gastava muito com passagem. Então, acabou sendo uma questão salarial, foi pra diminuir meu gasto com deslocamento e passagem (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Eu entrei dando aula pro 6º, 9º e 8º ano, no primeiro ano. No segundo ano eu peguei duas turmas de 3º ano e uma de 7º ano. [...] No início eram oito tempos aqui e quatro numa escola em Bangu, aí surgiram os 12 tempos aqui e eu optei por ficar aqui. Por mais que Bangu fosse mais perto, a escola era mais violenta, era à noite e eu fui assaltada dentro da escola. Aí eu desisti. Eu optei por ficar aqui em Paciência que era mais longe, mas tinha os 12 tempos. [...] Depois com o fechamento de turma e falta de vagas a gente ia perder vaga na escola aí implantaram no colégio o Autonomia, a diretora para não me perder me encaixou no Autonomia aqui nessa escola (Professora Christiane, 32 anos, cinco de magistério). Trabalhei em três escolas. Porque quando você entra, você pega o horário que tá pronto, você não consegue fazer teu horário, então na primeira matrícula quando eu entrei, entrei em três escolas, em 2004, já no final do ano. Peguei três escolas, uma inclusive era conveniada com a Igreja lá em Itaguaí e aí essa minha matrícula na verdade é da (Diretoria) Metropolitana de lá, só que aí eu já mudei minha origem porque eu vim pra cá pelo projeto. (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). 86 Alguns professores ainda se referem ao Programa Autonomia como Projeto Autonomia, geralmente por atuarem no Programa desde o início, quando ainda era um Projeto. 87 O professor cita o aumento salarial como algo positivo, embora reconheça que o aumento (gratificação) proveniente da adesão ao Programa não seja compatível com o aumento da carga horária exigida. 113 Observamos nesse conjunto de depoimentos que fatores comuns são colocados em função da adesão ao Programa Autonomia, nenhum dos entrevistados afirmou ter aderido ao Programa por acordo com a metodologia ou por acreditar que trabalhar com o Programa seria importante profissionalmente. Ao contrário, todas as adesões se deram pelos motivos já elencados, além disso, todos os professores entrevistados gostariam de trabalhar em menos escolas, talvez em uma somente, o que demonstra que a condição anterior não era desejável. Antônio e Fábio, jovens professores, disseram que um dos pontos para a adesão foi a questão salarial, visto que a remuneração anterior com a carga horária de 16 horas era muito baixa88. Embora ambos reconheçam que a gratificação proporcionada não é compatível com a carga horária dedicada, destacam o “aumento” salarial como algo necessário e oportuno para suas vidas. Fábio ainda destacou a questão dos gastos com deslocamento, pois trabalhava longe de casa e assim gastava muito tempo e dinheiro com locomoção, e até então a SEEDUC não pagava sequer um auxílio para transporte. Fábio e Nilda têm em comum o fato de terem conseguido mudar o local de trabalho através do Programa Autonomia, trazendo sua matrícula ou sua origem de um local mais distante para uma escola mais próxima de suas casas. Outro fator presente e muito comum é a adesão ao Programa devido ao fechamento de turmas nas escolas em que atuam os professores. O depoimento de Christiane nos serve como ilustração deste aspecto. Esta professora afirmou que perdeu tempos na escola em que trabalha e isso acarretaria na fragmentação do tempo de trabalho, pois passaria a ter que atuar em duas ou mais escolas; no entanto, a diretora da escola lhe ofereceu a oportunidade de trabalhar com o Programa Autonomia, o que foi aceito pela professora que, somente desta forma, conseguiu permanecer na mesma escola até os dias de hoje. O único professor que apresentou elementos que divergem do conjunto de entrevistados foi Bruno. Este professor apresenta outro tipo de relação com o magistério, pois sempre teve outras atividades complementares e a profissão docente durante grande parte de sua vida não foi sua ocupação principal. A relação dele com a profissão é bem diferente das expostas pelos outros professores e professoras, manifestando condutas e percepções particulares. Durante a sua atuação, Bruno foi mais seletivo nas escolhas, fez concursos apenas para regiões próximas de sua residência, 88 Conforme a tabela nº 9 (ver apêndice B, tabela nº 9, p. 169), o vencimento base para um professor de 16h em início de carreira, no ano de 2011, era de R$ 877, 91. 114 sempre se locomoveu de transporte particular até as escolas e nunca apresentou problemas em relação ao trabalho, pois nunca teve uma carga horária extenuante em sala de aula. Conforme podemos observar em seu depoimento: Sempre trabalhei próximo de casa, nunca fiz concurso para longe de casa, justamente pensando nessa questão da locomoção. Sempre fiz concurso para metro IV, que é a área que eu moro. Nunca tive problema de locomoção para ir pra escola trabalhar, dar aula. Essa questão da locomoção nunca atrapalhou as minhas atividades como professor (Professor Bruno, 53 anos, 15 de magistério). Em relação ao paralelo feito entre sua atuação no ensino regular e no Programa Autonomia, o professor afirma: Olha, no regular ensino médio eu trabalhava muito menos, ia duas vezes na escola. Seis horas (tempos) num dia, seis horas (tempos) num outro dia qualquer, de manhã ou à tarde. A carga horária de língua portuguesa e matemática sempre foram maiores, então, a gente pegava poucas turmas. Eu pegava duas turmazinhas só, então eu trabalhava muito menos. Eu passei a trabalhar mais, a estudar mais, quando eu entrei no Projeto... (corrige) Programa Autonomia. Aí a minha carreira, o meu magistério, exigiu mais de mim, porque eu, atrelado a esses programas, às novas pedagogias, eu tive que estudar mais, eu tive que me formar mais, eu tive que participar mais de atividades fora de sala de aula, eu tive que levar muito trabalho pra casa, né? E o Programa Autonomia são todos os dias, quatro horas por dia... [...] Então quer dizer, minha carga horária aumentou expressivamente em relação ao início da minha carreira como professor no regular, que eu ia duas vezes por semana na escola e nem levava serviço pra casa, eu não tinha outras atividades além de dar minha aula de língua portuguesa e literatura, corrigir minhas provas, lançar minhas notas, ir no conselho e acabou. Agora não, agora eu me empenho muito mais, eu trabalho muito mais, eu estudo muito mais, e eu prefiro! Porque eu sempre gostei de estudar, eu sempre gostei de me embrenhar nessas novas tecnologias, nessas novas pedagogias, pra mim é muito interessante esse tipo de atividade. [...] No ensino no regular eu ia na escola, dava minhas aulinhas e depois ia pra casa... Eu tinha comércio, então nessa época eu me dedicava mais ao meu comércio... Que é o contrário de hoje. Hoje eu me dedico mais a minha profissão de professor (IDEM). Bruno, em seu início de carreira, expressou outro tipo de relação com o magistério. Devido ao fato de a profissão docente não ser sua ocupação principal ele deixou de passar por muitas situações, quase obrigatórias para os professores em fase inicial, como fragmentação do tempo de trabalho, trabalhar longe de casa, enfrentar dificuldades com locomoção, etc. Por ter outra ocupação, se permitia esperar um melhor momento e uma melhor condição para ingressar na carreira. Ao afirmar que hoje em dia se empenha muito mais e dedica mais o seu tempo a profissão de professor devido a não 115 possuir mais sua atividade de comerciante, acaba atribuindo essa maior dedicação ao fato de atuar junto ao Programa Autonomia, afirmando inclusive que prefere trabalhar com essa modalidade de ensino. 3.7. A classe (professoral) na classe: a relação com os alunos No ensino médio regular, os turnos são tantos e as turmas são tão cheias que os professores dificilmente chegam a conhecer seus próprios alunos. Além de executar diversas tarefas que nem sempre têm relação entre si, observa-se, ainda, um crescimento da burocracia dentro das próprias tarefas do dia a dia e nesse contexto a relação professor-aluno é prejudicada. O que sobressai no trabalho dos professores do Programa Autonomia, contrariando as expectativas, é a sua relação com os alunos. Tal relação é tão decisiva que sobrepõe os próprios conteúdos no processo de ensino. Por outro lado, as estruturas de organização do trabalho docente, nos diferentes contextos escolares em que os professores do Programa Autonomia atuam, revelam condições sob as quais se percebem aspectos positivos e negativos. Eu vejo como o maior ponto positivo do projeto, o fato de conhecer os alunos. Como atuo nos dois setores, eu consigo mensurar as diferenças entre o projeto e o regular, no dia a dia, no cotidiano. As dificuldades às vezes mudam de aspecto, porém o fato de conhecer o seu aluno, isso muda bastante. No regular, os alunos passam o ano numa escola e terminam chamando a professora de “aquela mulher”. Coisa que no Projeto não acontece, você vê o aluno todos os dias na sala de aula. Os alunos conhecem bem o professor, é um vínculo que se estabelece e às vezes se torna até perigoso porque às vezes se confundem e o professor acaba ampliando esses laços de amizade para fora do colégio. É perigoso, mas mantenho o discernimento. Isso é muito positivo, é muito importante para a educação. [...] No projeto você percebe para onde o seu aluno vai caminhar após o ensino médio, você percebe as dificuldades da turma e do aluno; melhor do que no ensino tradicional (regular) onde muitas vezes o conteúdo é jogado. Alguns dizem que no Projeto o conteúdo é jogado, é ensinado por alguém que não tem o conhecimento da disciplina, isso é um pouco de verdade, mas no regular, acaba que no fim das contas, o aluno tem um contato de uma hora e meia, duas horas com o professor que joga o conteúdo para a turma, não conhece muito bem a turma, a turma não conhece o professor, não tem aquele vínculo que torna possível o aprendizado e aí (neste caso) acaba tendo mais valor o projeto (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). Um dos pontos que os professores destacam em relação a atuação no Programa Autonomia é a relação professor-aluno, que, devido ao contato cotidiano com a mesma turma, conhecem-se pelo nome, numa relação recíproca. Além da questão da vivência e de um maior contato pessoal, os professores também destacaram outros pontos que 116 consideram positivos ou negativos numa comparação entre o contato com os alunos no ensino regular e no Programa Autonomia. Eu levo muito vídeo, muito filme, propaganda, algumas coisas da internet que eu pego... O Facebook eu utilizo como um meio de comunicação com os alunos... Então eu fui me adaptando às modernidades e eu achei que foi positivo, o resultado tem sido bom. Os alunos do Autonomia eles têm deficiência, mas com o auxílio, com um pouco de atenção que a gente acaba dando, que são cinco dias por semana, a gente consegue suprir bastante coisa. [...] Aqui você fica muito tempo com o aluno. Você tem uma doação muito grande. O (ensino) regular você tem aqueles dois tempos por semana, aqueles dois dias por semana né? E a aula acaba mais rápido. Aqui como você fica cinco dias com o aluno, você acaba doando mais, mas também exige muito mais de você. Você tem que tá todo dia criando coisas, montando coisas diferentes (Professora Janete, 50 anos, 26 de magistério) Nunca tive problema com aluno não. Mas no Projeto Autonomia, por você ficar mais tempo com o aluno, dar aula de todas as disciplinas, tá todo dia com eles, a relação é mais afetiva mesmo. A relação é bem íntima porque a gente tá muito tempo junto, né? A gente passa uma maior parte do tempo junto. A relação é afetiva mesmo. Não que o regular não seja, mas o Autonomia faz com que fique mais junto. Em questões de aluno, o Autonomia é melhor, em questões de horário o regular é melhor por não trabalhar todo dia (Professora Christiane, 32 anos, cinco de magistério). O aluno tem uma dinâmica de aula muito melhor do a que a dinâmica do regular. Todas as aulas são temáticas, então o aluno começa com um problema naquela aula e até o final daquela aula ou de outras aulas ele tem que resolver aquele problema. Então o ensino passa a ter um significado pra ele. O significado, a curiosidade aflora e esses alunos começam a buscar mais aquilo que a gente quer propor que eles aprendam. Outra questão também é o uso de materiais didáticos que temos aqui que são melhores e em maior quantidade do que temos no ensino regular. Isso ajuda muito também... [...] isso se dá por conta do Projeto. As turmas (do Autonomia) têm um amparo para isso. Elas vão ter um acesso mais facilitado à sala de informática. Todas as aulas elas vão poder usar aquilo não como um momento especifico pra recreação, mas para o próprio estudo. [...] Pontos negativos do Projeto é que você fica engessado. Um professor dinamiza todas as áreas do conhecimento. Eu como professor de Educação Física tenho que dinamizar aula de matemática, biologia, física... Em alguns momentos isso inviabiliza um conhecimento maior por parte do aluno. Acho que esse é o principal ponto negativo (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Nós pegamos alunos que, desde o regular, passaram muitas vezes três anos com professores especialistas nas disciplinas e que não conseguiram passar pra ele aquele conteúdo. Eu já tive aulas, por exemplo, de biologia, matemática, onde os alunos que vieram do regular eram maus alunos e com o Projeto não eram mais maus alunos, passaram a respeitar um pouco mais a escola e o professor. Todos os dias ali com ele sem ele saber aquele conteúdo e eu pude contribuir para ele. Agora em relação ao mercado de trabalho, o ENEM, vestibular, aí é outra história... (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). 117 Eu acho que eu trabalho melhor no Autonomia do que no Regular. O trabalho é melhor, é mais compensador. O tempo que eu tenho dentro da sala de aula é maior, eu posso buscar qualidade pra eles. No regular eu não via essa possibilidade, apesar de tentar, muitas vezes. Mas é mais complicado, até porque as turmas são maiores, é mais difícil (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). Além de tudo que você desenvolve, sempre tem um projeto complementar, né? E você pode desenvolver trabalhos manuais pra que eles possam ganhar um trocadinho, entendeu? Porque eu fui muito levada, minha mãe sempre me botou em aula disso, aula daquilo, e eu aprendi um pouquinho de cada coisa, e tudo isso eu consigo passar pra eles no Projeto... E aquilo que eles vêem, vão crescendo, têm condições de ganhar dinheiro. Enquanto não chega lá no ápice, que é a proposta, porque eu crio essa visão de que eles podem chegar a uma universidade... Não é difícil, ainda mais hoje que o governo oferece tanta proposta de facilidade... Entendeu? Eu acho que dá pra eles serem alguém na vida... Enquanto isso não acontece, vende um imãzinho de geladeira aqui, vende um bordadinho ali, vende uma telinha pintada, alguma coisa assim, sei lá... [...] Tudo tem uma finalidade porque você trabalha em comunidade, com poder aquisitivo baixo... A vida não tá fácil pra ninguém. De alguma forma ele vai se virar, ele vai dar os pulos dele pra conseguir tirar um dinheirinho... (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). Conforme os depoimentos, observamos que os professores afirmam que o Programa Autonomia é uma modalidade melhor para trabalhar, não só devido ao maior contato com os alunos e mais tempo com a mesma turma, mas também devido ao maior acesso a materiais didáticos e recursos. Conforme afirmou Fábio, as turmas do Autonomia têm mais acesso ao laboratório de informática, onde podem “usar não como um momento específico para recreação, mas para o próprio estudo”. Essa declaração nos traz algumas indagações. Se o Programa é uma Parceria Público Privada, por que os alunos acabam usufruindo mais dos recursos e do espaço escolar do que os alunos do ensino regular? Por que existem maiores facilidades aos recursos e turmas menos cheias no Programa Autonomia? Todas as respostas para essas perguntas encontramos no dia a dia das escolas, baseadas nas prioridades governamentais das políticas privatistas. As expectativas dos professores em relação aos alunos são bem diferenciadas, porém, o que observamos é uma extração calculada do que pode ser minimamente conseguido dentro das condições de trabalho e ensino que eles se encontram. Ao afirmar que foi se adaptando às modernidades, a professora Janete coloca uma visão de que o Programa Autonomia é uma inovação, uma prática diferenciada que exige muito mais dela enquanto professora, pois precisou se adaptar as novas tecnologias dentro e fora de 118 sala de aula. Fábio fala das dificuldades em ministrar todas as disciplinas; Antônio diz que os alunos aprendem apenas o elementar e que têm muitas dificuldades em entrar no “mercado de trabalho”, fazer o ENEM ou vestibular; ou seja, as aulas do telecurso na visão deste professor não dão preparo suficiente para o aluno conseguir um bom emprego ou ingressar no ensino superior. Já na visão de Nilda, os alunos podem sim ter uma perspectiva de futuro, esta professora defende claramente a visão liberal de que é “possível chegar lá” caso se esforcem o suficiente. Porém, ela mesma impõe limitações quando afirma que eles podem conseguir ingressar no ensino superior nas “propostas de facilidade” oferecidas pelo governo, fazendo referência a programas assistenciais como o PROUNI (Programa Universidade Para Todos) que oferece bolsas de estudo nas universidades privadas ou FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), que se destina a financiar a graduação dos estudantes mediante pagamento após conclusão dos estudos. Além disso, Nilda destaca uma visão assistencial, muito característica do Programa Autonomia, onde afirma que incentiva os alunos a fazerem trabalhos artesanais para “conseguir tirar um dinheirinho” já que vivem em comunidades carentes, têm pouca perspectiva profissional e pouca ou nenhuma qualificação. Nilda reafirma sua posição e seu olhar sobre o Programa e a respeito de seus alunos quando, em seu depoimento, afirma uma visão missionária de sua profissão e uma visão assistencial do Programa: Minha primeira turma de projeto foi dentro de uma comunidade que era cercada por três facções diferentes... E eu fui buscar aluno dentro da boca de fumo, dei varada nas pernas... dei varada! E disse pras pessoas: _Pode me denunciar! Pode, eu não quero nem saber! E hoje esse aluno faz direito... Essa turma não gostava de estudar. Antigamente o Projeto Autonomia focava só nesses alunos que as diretoras ficavam meio assim de formar as turmas, aí pegavam aquele refugo da escola, aluno de porta, aluno de fundo de sala e formava a turma... E eu dizia: _Pode mandar! Pode mandar que eu to esperando. E assim eu formei 17 alunos. De 35 eu formei 17. Peguei três na boca de fumo, uma na prostituição, e fui conseguindo. Eu gosto de ensinar no projeto porque você tem essa chance... (Professora Nilda, 51 anos, 24 anos de magistério). Visão que diverge bastante da exposta por Christiane, que adota medidas mais pragmáticas para suas escolhas profissionais. Esta professora optou por trabalhar longe de casa, pois o mais importante para ela é que o colégio seja longe de qualquer zona de 119 conflito e área de risco, apesar das implicações que isso gera, tais como um maior gasto com transporte e um maior dispêndio de tempo. Minha rotina é estressante sim. O trânsito estressa, dirigir estressa. Agora tem duas vertentes, às vezes eu penso em trabalhar mais perto de casa, porque a metro IV é grande, poderia trabalhar até em Bangu porque é perto da minha casa, mas esse colégio aqui não é ruim. A direção não é ruim, a clientela não é ruim, o local também não é ruim. Meu medo é esse, ir pra outra escola, por mais que seja perto... Trabalhar numa escola dentro de uma comunidade violenta também não dá. Tanto é que eu fui assaltada dentro do colégio, botaram uma arma na minha cabeça, dentro do colégio. Então eu penso muito nisso... Entendeu? Largar aqui e cair num colégio super perigoso às vezes não compensa. Às vezes o dinheiro também não compensa. O estado não paga o valor que deveria pagar de transporte. No projeto autonomia essa é uma questão que os professores levantam. Eles não pagam pra gente os cinco dias trabalhados. O auxílio transporte é o mesmo valor, recebemos como se trabalhássemos dois dias na semana. Entendeu? 50 e poucos reais. Eles fazem uma base de cálculo como se o professor viesse dois dias. Só que eu trabalho cinco (Professora Christiane, 32 anos, cinco de magistério). Os depoimentos de Nilda e Christiane nos trazem um aspecto muito presente na realidade das escolas públicas fluminenses: a violência. A universalização do ensino e a localização das escolas públicas em áreas violentas acabem trazendo diversos riscos para alunos e professores, e estes últimos encaram o problema de diversas maneiras, conforme observamos. O fator a ser considerado é a ausência de políticas públicas eficazes de combate a violência estrutural no estado do Rio de Janeiro. 3.8. De uma realidade peculiarmente agressiva surgem diferentes estratégias O relato de um cotidiano desgastante foi feito pela professora Janete de Literatura e Língua Portuguesa que atua no Programa Autonomia, no Nova EJA e no ensino regular, portanto em três modalidades de ensino diferentes e que exigem diferentes esforços. Ao lidar com diferentes contextos e com diferentes disciplinas e, no caso da atuação junto ao Programa Autonomia, ela expõe algumas estratégias de aproveitamento do tempo ao lidar com os conteúdos lecionados. Isto põe em pauta uma necessidade sentida e expressa por diversos professores, mas que, ao nosso ver, acaba transgredindo os princípios que fundamentam cada um desses programas pedagógicos. No ano passado, como eu só tinha o (Programa) Autonomia e eu tava vindo de uma readaptação eu gostei bastante, foi bem tranquilo. Apesar de alguns probleminhas, no início, para a adaptação, com uma metodologia diferente da que eu tava acostumada. Como eu sou muito jurássica, no meu tempo de 120 magistério o aluno ainda fazia concurso para entrar no ensino médio... Mas eu gostei da metodologia, foi diferente. Como eu já tava parada durante algum tempo e retornei pra sala de aula, foi bom, eu gostei. Foi inovador! Esse ano como tenho o Nova EJA e tenho o regular eu peguei um pouco do Autonomia, pego um pouco do Nova EJA e levo isso para o regular, então hoje as coisas ficaram bem mais dinâmicas (Professora Janete, 50 anos, 26 de magistério). Essa “autonomia” ao lidar com os diferentes conteúdos pode ser boa para a professora, ou até mesmo para os alunos, porém não é indicada pela secretaria de educação que desenvolve materiais, dinâmicas e currículos mínimos específicos para cada nível e modalidade de ensino. A estratégia da professora de tornar as coisas mais dinâmicas significa uma atitude de aproveitamento de materiais, aulas e consequentemente de economia do tempo a fim de enfrentar o cotidiano de trabalho de uma forma menos desgastante, reduzindo o tempo de planejamento para as diferentes turmas e modalidades de ensino com as quais lida. Essa mistura de princípios, atividades e conteúdos demonstram, a nosso ver, como os professores recriam, de acordo com suas idiossincrasias, as propostas pedagógicas com as quais se envolve, recriando, incessantemente, as metodologias e conteúdos de ensino. Santos (2009) buscou identificar em sua pesquisa, estratégias que professores constroem frente ao exercício da docência. Busca refletir de que modo os docentes enfrentam adversidades como a não aprendizagem, o comportamento indisciplinado dos alunos, a falta de material didático-pedagógico e o cansaço ou a indisposição para ministrar as aulas. Essas estratégias – denominadas de enfrentamento e de fuga –são atividades que reduzem o desgaste dos professores, o que leva à banalização do processo educacional. As estratégias são criativas, pois os professores têm de construir alternativas procurando superar as dificuldades. Instituir estratégias de fuga não significa algo menos criativo. Significa uma necessidade de “afastamento” da dinâmica escolar visando ao menor esforço. Ambos os movimentos se dão a partir de uma luta estabelecida pelo sujeito buscando encontrar o bem-estar e o equilíbrio frente à atividade realizada. No movimento de convivência com as adversidades do cotidiano escolar, o que está em jogo é o que provoca maior ou menor desgaste, maior ou menor bem-estar ao professor, ainda que isso comprometa o desempenho do processo educativo. Sai de cena a ideia de que o mais importante é o processo de educação e entra em cena o que oferece melhores possibilidades de equilíbrio biopsicoafetivo ao professor. Todo indivíduo opta pelo seu bem estar. Se a escola não oferece as condições mínimas adequadas de educação, a luta será pela sobrevivência e pelo bemestar. Cabe ao professor cumprir o prescrito ou, então, criar um modelo paralelo de gestão (SANTOS, 2009, p.301). 121 Muitas vezes os professores e professoras citam meios de atuação cotidianos que segundo eles mesmos caracterizariam, possuem uma maior flexibilidade. Neste caso, caracterizando a docência como trabalho flexível, Tardif e Lessard (2011) afirmam que: Ensinar, de certa maneira, é sempre fazer algo diferente daquilo que estava previsto pelos regulamentos, pelo programa, pelo planejamento, pela lição, etc. Enfim, é agir dentro de um ambiente complexo e, por isso, impossível de controlar inteiramente, pois, simultaneamente, são várias as coisas que se produzem em diferentes níveis de realidade: físico, biológico, psicológico, simbólico, individual, social, etc. Nunca se pode controlar perfeitamente uma classe na medida em que a interação em andamento com os alunos é portadora de acontecimentos e intenções que surgem da atividade ela mesma (TARDFIF, M., LESSARD, C. 2011, p.43). Chamam atenção desse modo, para um componente do “fazer-se” professor que é dada pelo estilo pessoal de cada um e, também, pela relação, sempre dinâmica e subjetiva entre os professores e seus alunos/turma. Cabe destacar, ainda, a operação de apropriação e recriação dos programas pedagógicos que, ainda que standartizados, muitas vezes são resignificados pelos professores, no contexto da aplicação prática. 3.9. A “(con)formação” dos professores: características de um grupo profissional Ao tratar da situação dos professores como “executantes”, Tardif e Lessard (2011) relacionam diretamente com a organização social do trabalho nas sociedades modernas, típicas das economias capitalistas, na qual a posição dos trabalhadores se define globalmente pela ausência de controle sobre o processo de trabalho, seus conteúdos e seu desenvolvimento. Contudo, os autores destacam que mesmo no trabalho industrial especializado ao extremo, essa ausência de controle nunca chega a ser completa, pois os trabalhadores assumem concretamente a realização do processo de trabalho e podem, portanto, atuar de diversas maneiras sobre ele: torná-lo mais lento, resistir a ele, etc. Portanto, a margem de manobra dos professores seria ainda maior, pois eles gozam de uma certa autonomia para realizar o seu trabalho. Neste sentido, sua posição de executantes não se confunde com a dos trabalhadores industriais, “atomizados” sobre a esteira de produção. Apesar disso, essa dupla posição – ao mesmo tempo de executantes e autônomos – se traduz também em tensões e dilemas, podendo, 122 conforme os professores invistam em um ou outro pólo (execução ou autonomia), desbocar em diferentes maneiras de assumir e viver sua identidade profissional. Mesmo quando os docentes utilizam instrumentos já elaborados por outros – manuais, programas, material didático, etc. – eles o retrabalham, os interpretam, os modificam a fim de adaptá-los aos contextos concretos e variáveis da ação cotidiana às suas preferências. Isto permite compreender, entre outras coisas, por que os professores são tão ávidos por novos materiais pedagógicos, novas habilidades, novos procedimentos, pois seus instrumentos se gastam na medida em que são usados, perdem sua força de impacto e precisam, portanto, ser remodelados, substituídos, adaptados. Enquanto o martelo continua intacto depois do golpe, o livro, o filme, o exercício, o desenho, uma vez passados aos alunos, normalmente têm seu valor de uso reduzido a nada e tornam-se obsoletos. Esse fenômeno de amortização das ferramentas ainda é mais exacerbado pelas inúmeras mudanças que, de acordo com os professores, têm afetado os alunos ao longo dos últimos anos (TARDIF, LESSARD, 2011, p.175). Segundo os mesmos autores, os programas, na verdade, não são utilizados e aplicados mecanicamente, pois dependem da margem de manobra e da experiência dos professores que os utilizam. Na realidade, um programa, por mais preciso que seja, é sempre apenas um programa, ou seja, um projeto; sempre haverá uma distância entre o programa e a sua realização concreta em classe, as diferenças entre os alunos, os recursos disponíveis, o tempo que passa... “Os professores, queiram ou não, são obrigados a interpretar os programas e adaptá-los continuamente às situações cotidianas.” (IBIDEM, 2011, p.208) Dentro desta perspectiva, poderíamos considerar os professores do Programa Autonomia, executores dotados de autonomia? As linhas que estruturaram o presente tópico seguem com os depoimentos concedidos pelos professores entrevistados em relação às estratégias pessoais que encontraram para lidar com o Programa, assim como as suas percepções sobre a metodologia utilizada: (O Programa Autonomia) melhorou o meu nível de conhecimento... Eu hoje me considero capacitada em (sic) desenvolver muita coisa porque de uma certa forma como mediador eu não tenho necessidade de ser o professor porque você não tem habilidade pra isso. Mas aí, você vê o teu aluno com aquela necessidade, você trouxe ele pro lado de cá, ele agora quer estudar... O que vou oferecer pra ele se eu for só mediador? Não! Eu vou buscar ajudar e vou pro quadro ajudar ele a resolver as coisas. Entendeu? Porque se aquela oportunidade que ele teve no regular ele não conseguiu se adaptar, mas ele se adaptou a essa modalidade, então cabe a mim fazer o melhor que eu puder. E o que eu passar, para eles já é muita coisa... O mínimo para eles é máximo. [...] Eu me empenho, eu busco livros, eu estudo e venho desenvolver e se 123 tenho dificuldades eu chamo o professor da disciplina e falo “me ajuda aqui!” (Professora Nilda, 51 anos, 24 de magistério). Eu fiz um curso de informática educativa pela plataforma (CECIERJ), atrelada a UERJ, que também me trouxe bastante conhecimento em relação a essa questão. Eu já cheguei aqui no programa autonomia já na frente de muita gente... Do próprio NEJA também. Na época eu fiz muitos cursos de extensão, então, de uma certa forma, eu trabalho e estudo muito mais hoje, com esses novos projetos. [...] E agora nesse programa novo que é o NEJA, eu pretendo me dedicar mais ainda à carreira de professor. Porque esse projeto ele te obriga a estudar. Você tem que estudar para você alcançar a pontuação para que você possa receber mais tarde o certificado de pós graduado, então ele é 99% online, através da plataforma CECIERJ e uma vez por mês nós nos encontramos. [...], pra gente colocar algumas questões práticas, porque tem algumas coisas que não dá pra fazer online, né? (Professor Bruno, 53 anos, 15 de magistério). Dentro do Projeto Autonomia, nessa relação de poder ou não poder fazer em sala de aula, eu sou muito livre para fazer qualquer coisa, que num colégio tradicional não era tanto, em colégio privado eu era proibido de fazer, em colégio regular do estado eu já tive direção pedindo para não fazer por que iria criar uma polêmica muito grande na escola. Então, dentro de sala de aula, no Projeto Autonomia, é possível fazer qualquer tipo de invenção pedagógica, desde que seja com a ideia que o aluno tenha que aprender alguma coisa, um significado pedagógico (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Bom, eu tenho autonomia na forma de abordar como eu quiser os conteúdos. Agora, ao mesmo tempo que tenho autonomia na forma de abordar os conteúdos como quero, eu tenho os conteúdos já previamente selecionados para trabalhar com os alunos. Os conteúdos das disciplinas, eu escolho como e o quê oferecer para os alunos. Por exemplo, ao abordar um conteúdo de história, você tem várias formas de abordar aquele conteúdo, você pode dar um viés político, um viés meramente informativo, você pode passar aquele conteúdo e não fazer intervenção, não gerar uma reflexão sobre aquele assunto. [...] Tem que haver adaptação. (O Programa) Não é bem adequado à idade-série, à turma especificamente. O professor tem que adequar (Professor Antônio, 30 anos, cinco de magistério). Entre os professores abordados na pesquisa, a maioria deles segue o programa. Por outro lado, alguns professores admitem não seguir todo o programa: eles consideram os objetivos principais, mas definem eles mesmos seu próprio caminho, muitas vezes baseando-se em seu conhecimento anterior, cuidando de adaptá-lo a nova metodologia. Os conhecimentos curriculares, ou seja, os conhecimentos relativos às matérias, não parecem ser problemáticos para a grande maioria dos professores interrogados na pesquisa, pois afirmam que são “mediadores”, portanto não precisariam 124 necessariamente dominar os conteúdos que são apresentados pelo Programa. Mas destacam alguns casos problemáticos que se relacionam ao ensino de uma matéria nova ou para a qual o professor teve pouca formação. Em geral, afirmam que todo conhecimento, por mais elementar que seja, já é muito para aquele aluno. Conforme disse a professora Nilda: “o mínimo pra eles é máximo”. Podemos propor várias hipóteses para explicar esse fenômeno. 1) os professores têm, realmente, a certeza de saber mais do que seus alunos, em todas as áreas do conhecimento; 2) eles não duvidam de sua competência disciplinar; 3) as relações com os alunos e a gestão das classes ocupam de tal modo a visão pedagógica que os saberes a transmitir são deixados de lado em relação aos problemas realmente urgentes, como os de relações humanas e de realização de objetivos pedagógicos num contexto, na maioria das vezes, muito difícil. 4) os professores preferem dedicar-se mais ao programa que à sua competência disciplinar. A maneira de transmitir a matéria é própria de cada um deles. Enquanto alguns seguem o programa à letra, outros experimentam diversas formas de transmissão, nem sempre respeitando todo o programa, mas sem perder de vista o essencial das noções a transmitir e das habilidades a desenvolver. Manter o interesse e, assim a atenção dos alunos é uma das tarefas centrais dos professores. Ora, esse interesse é afetivo, e traduz a capacidade, o desejo dos alunos para envolver-se e continuar numa tarefa. Saber ajustar a matéria para que os alunos compreendam é também ser capaz de abordar temas em função de seus interesses. Como já dissemos antes, os professores nunca aplicam total e perfeitamente os programas, mas os adaptam e os transformam de acordo com as situações concretas do trabalho cotidiano. Para realizar os objetivos do Programa é preciso lidar com o imprevisto, fazer outra coisa, algo fora do que está previsto. O Programa Autonomia tem o peso de uma roupagem burocrática mas, ao mesmo tempo, exige que os professores tenham habilidades de verdadeiros profissionais, capazes de desviar-se de rotinas para improvisar conforme a complexidade das situações. No âmbito dos objetivos do Programa Autonomia, o seu desenvolvimento revela duas coisas: os professores fazem tudo que está ao seu alcance para realizar os objetivos oficiais, mas ao mesmo tempo, improvisam constantemente os meios e os processos que levem a isso. Para os professores interrogados e observados, o programa é exigente, pois determina objetivos a atingir, objetos de aprendizagem e de avaliação sendo, portanto, necessário respeitá-los e atingi-los. Nesse sentido, os professores seguem o 125 programa concebido como um quadro geral de ações formais que definem objetivos. Mas, ao mesmo tempo, eles improvisam constantemente, não necessariamente por prazer, mas porque o processo de realização dos objetivos é impreciso e deixado à sua responsabilidade. Fundamentalmente, temos visto que essa atividade está fortemente envolvida por um conjunto de objetivos definidos, enquadrada e planejada em programas que exigem de seus executores, ao mesmo tempo, uma grande autonomia, ou seja, uma capacidade de trabalho suscetível de modificar o programa e adaptá-lo às diversas exigências das situações cotidianas. Os professores são levados a encarar dilemas fundamentais: respeitar e realizar um programa, sem afastar-se de suas atividades cotidianas; seguir um programa padronizado, considerando as diferenças entre os alunos. 3.10. Costumes em comum: alienação, adaptação e pertencimento Neste tópico, partimos de algumas perguntas iniciais: aqueles que entram no programa têm mais chances de oferecer resistência ou têm mais chances de abraçar o programa? Estariam os professores do Autonomia fazendo um trabalho alienado por executarem um programa pré-defindo? Qual a relação desses professores com o Programa? Eles seriam professores adaptados e estariam cumprindo o papel de meros executores? Ou, ao contrário, se sentem estimulados pelos desafios e/ou condições de trabalho que o Autonomia proporciona? Devido a separação entre concepção e execução, onde o Programa vem concebido e aos professores (mediadores) cabe implementá-los, partiremos da concepção do que seria um trabalho alienado ou estranhado89 de acordo com a visão marxista. Ao discutir o complexo conceito marxiano de “alienação”, MATTOS (2012) destaca que: É na própria materialidade das relações de trabalho (e de exploração) que os homens perdem o controle sobre o que produzem, sobre como produzem e sobre porque produzem. E, enquanto não recuperarem esse controle, não poderão atribuir sentido pleno ao trabalho – que medeia suas relações com a natureza e os outros homens – e, portanto, a vida (MATTOS, 2012, p.132). 89 Trataremos alienação e estranhamento como sinônimos, sabendo que, embora exista uma distinção entre esses termos nos Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844, escritos por Marx, o entendimento de alienação terá como base o conceito de estranhamento: prevalece a ideia da perda da identidade em relação a si mesmo. 126 Recorrendo ao próprio Marx, damos destaque a seguinte constatação: A alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência externa, mas ainda que existe independentemente, fora dele mesmo, e a ele é estranho, e que com ele se defronta como uma força autônoma. A vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil (Marx, 1970, p.91). Marx considera a alienação do trabalhador sob dois aspectos: o da relação com os produtos do seu trabalho e no processo de produção, sendo assim: A alienação aparece não só como resultado, mas também como processo de produção, dentro da própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador ficar numa relação alienada com o produto de sua atividade se não se alienasse a si mesmo no próprio ato da produção? O produto é, de fato, apenas a síntese da atividade, da produção. Consequentemente, se o produto do trabalho é alienação, a própria produção deve ser alienação ativa – alienação da atividade e a atividade da alienação. A alienação do objeto do trabalho simplesmente resume a alienação da própria atividade do trabalho (IBIDEM, 1970, p. 104). Não por acaso Marx utilizou por mais de uma vez o exemplo do trabalho artístico para explicar a distinção entre trabalho produtivo – submetido ao domínio do capital, e, portanto, gerador de trabalho não pago – e o trabalho improdutivo. Produtivo e improdutivo sob o ângulo do capital, não do operário, deve-se ressaltar. Isso se esclarece em suas Teorias da mais-valia, quando explica, utilizando exemplos muito semelhantes aos já citados no primeiro capítulo, na discussão do conceito de tempo, que: O mesmo tipo de trabalho pode ser produtivo ou improdutivo, Quando Milton, por exemplo, escrevia O paraíso perdido, recebendo por ele cinco libras, era um trabalhador improdutivo. Em troca, é um trabalhador produtivo o escritor que trabalha para o seu editor ao modo de trabalho fabril. Milton produziu O paraíso perdido como o bicho-da-seda produz a seda: por um impulso da natureza. Depois vendeu a sua obra por cinco libras. Mas o literato-proletário que, por encomenda de seu editor, produz livros (por exemplo, manuais de economia política), é um trabalhador produtivo, pois a sua produção se encontra, desde o começo, subsumida ao capital e é realizada exclusivamente para aumentar seu valor (MARX E ENGELS apud MATTOS, 2012, p.137). Podemos caracterizar a alienação com relação ao processo de trabalho e em relação aos meios de produção. A alienação com relação ao próprio processo de 127 trabalho, característica do modo de produção capitalista industrial, radica na carência de poder, por parte do trabalhador, para determinar o procedimento pelo qual obterá os objetivos fixados para seu trabalho. Representa a perda do controle sobre a própria atividade durante o tempo de trabalho. Marx situou a alienação do trabalho assalariado também na ausência de posse por parte do trabalhador dos meios de produção. Da mesma forma, podemos afirmar que os professores não possuem seus meios de trabalho, quando seu trabalho fica subordinado a uma teleaula em uma telesala. Um caminho para compreender tal processo foi aberto pelas análises de Antonio Gramsci. De início, podemos atentar para aquela distinção observada por Gramsci entre a operação e a função intelectual nas sociedades capitalistas. Criticando a tentativa de encontrar o que seria intrínseco à atividade intelectual, Gramsci defendeu que o correto seria analisá-la no interior do conjunto das relações sociais. Por isso, afirmou que “todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais.” (GRAMSCI, 2001, p.18). Com isto posto, podemos perceber que a lógica implementada através da metodologia da Fundação Roberto Marinho/Fiesp favorece e induz a que os professores sejam adaptados e alienados. Observamos isso desde a separação entre concepção e execução, intrínseca a metodologia das teleaulas; até a forma com que os professores abraçam o programa e criam nele uma relação de pertencimento a algo que lhe é estranhado. Os depoimentos que seguem nos trazem algumas percepções a respeito dessa discussão: Eu não tenho dificuldades, porque tem uma capacitação. Como você assistiu. Tem a capacitação... No início foi um pouco difícil né? Você pular de paradigma é complicado. Mas depois quando você se adapta, quando você vai se adaptando àquilo ali, a coisa vai fluindo numa boa. Os alunos também estão adaptados dentro da metodologia né e a coisa vai fluindo, vai acontecendo e eu acabo levando isso, como eu já disse, para os meus outros alunos (Janete, 50 anos, 26 anos de profissão). Os alunos do regular eu tô vendo hoje com outros olhos. O Autonomia me deu essa possibilidade, então o resultado tem sido bem mais positivo do que antes. Quando eu não tinha o Autonomia, quando eu não tinha as capacitações, não tinha todo esse trabalho... Então, eu sentiria muita falta disso. Acho que se eu sair do Autonomia e perder as capacitações, não tiver mais nenhum tipo de curso, eu vou sentir bastante falta (IDEM). 128 É muito prazeroso você mostrar uma visão de qualquer coisa para alguém que não a tinha anteriormente. Você ver uma pessoa aprendendo o que quer que seja é muito legal. E eu descobri isso não foi nem na época que eu me formei, foi agora a pouco no (Projeto) Autonomia, onde você pega alunos com uma defasagem idade-série muito grande, alunos que não conheciam matérias básicas de matemática, de raciocínio lógico, de português. E mesmo eu sendo da Educação Física eu consigo dinamizar e eles começam a entender que eles podem aprender qualquer tipo de assunto que eles queiram... Aí isso, assim... Me apaixonou muito. Saber que eu posso fazer alguém aprender alguma coisa (Professor Fábio, 29 anos, 12 de magistério). Um fator curioso que se soma à discussão sobre a alienação do trabalho docente tem relação com a carga horária de trabalho declarada. Conforme exemplificado na tabela nº 12 (ver apêndice B, tabela nº 12, p. 172), os professores declararam suas cargas horárias excluindo o tempo de planejamento semanal de diversas formas. O professor Antônio declarou trabalhar 32 horas semanais, sendo que possui uma matrícula no estado (Programa Autonomia) com 24 horas e outra no município do Rio de 16 horas, o que totaliza 40 horas e não 32 conforme declarou. Caso parecido aconteceu com a professora Janete que ao possuir duas matrículas no estado, sendo uma delas no programa autonomia e uma no ensino regular, afirmou trabalhar 36 horas, contabilizando 16 horas no ensino regular mais 20 horas no Programa Autonomia, excluindo as quatro horas destinadas ao planejamento. O Professor Fábio e a professora Nilda também omitiram oito horas de planejamento de suas duas matrículas enquanto professores do Autonomia, declarando trabalhar 40 horas e não 48 conforme deveria ser. Apenas um professor, que atua no Programa Autonomia, declarou trabalhar 24 horas quando questionado a respeito de sua carga horária de trabalho semanal no Programa. Este fator da perda de percepção do que é o trabalho docente e todo o tempo destinado a ele pode nos trazer elementos reveladores no que diz respeito a perda do controle do trabalho e do tempo por parte dos professores. Dentro de todas as percepções expostas, podemos observar que, ao mesmo tempo em que ser professor do Programa Autonomia impõe uma série de adaptações, insere os professores numa lógica de execução e alienação, também coloca novos parâmetros para que se possam refletir sobre suas práticas, produzir novos significados, bem como novas exigências sobre o seu trabalho e o seu desenvolvimento profissional. Podemos perceber através dos depoimentos dos seis professores e professoras alguns mecanismos encontrados para utilizar os modelos que lhes são impostos e os materiais didáticos que lhes são distribuídos. A análise dos relatos e a vivência, neste contexto, 129 permitem-nos concluir que a participação destes docentes no Programa Autonomia transforma sua atividade docente, assim como sua consciência enquanto professor (a). Seu grau de pertença, tão bem elucidado na fala da professora Nilda, e o seu orgulho de ser professora do Autonomia são fundamentais neste processo de constituição desse novo grupo profissional. Percebemos que, no seu fazer-se, esses docentes estão criando um forte sentimento de pertencimento e de naturalização das práticas propostas. Como se pode ver no depoimento que segue, num cenário em que as oportunidades de crescimento profissional são reduzidas – sobretudo em função da urgência na qual os professores tem trabalhado – a participação em um Programa coerente em termos de suas metas, ainda que os professores não tenham participado de sua formulação, produzem um sentimento que a professora Janete expressa como sendo de crescimento, ainda que de modo lateral e alienado de sua concepção. Eu senti necessidade de me reciclar. Tudo mudou, né Amanda? Ontem a gente conversou justamente sobre isso... O tempo que eu era criança a televisão era com válvula, hoje em dia é de LED, então não tem como eu pegar a metodologia que eu aprendi em 1983/4 e usar em 2013, são 30 anos depois, né... Tá muito estagnado. Então a metodologia do Autonomia ajudou, ajudou a ter uma reciclagem. [...] Eu espero mais alguma coisa para eu poder saltar. Se eu vou continuar mais algum tempo eu tenho que acompanhar (Professora Janete, 50 anos, 26 de profissão). Conforme nos coloca Thompson (2011), esta consciência não é externa a este profissional, concordamos e afirmamos que em relação ao nosso objeto de estudo, esta consciência se produz neste processo de fazer-se professor (a) do Programa Autonomia fruto de uma experiência na profissão docente. Os caminhos percorridos pelos professores, as escolhas, as imposições, as adesões, as fugas, as estratégias de acomodação, conformidade e enfrentamento deixam marcas que não podem ser ignoradas para a compreensão de suas escolhas profissionais. 130 CAPÍTULO 4: TEMPOS E CAMINHOS PERCORRIDOS: UMA DISCUSSÃO METODOLÓGICA Elegendo como objeto de estudo a problemática da profissão docente hoje no estado do Rio de Janeiro, nosso primeiro movimento, para efeito desta dissertação, foi fazer uma discussão a respeito da metodologia e fontes empregadas com a intenção de demonstrar que é possível entrelaçar as fontes sem tomá-las como verdade absoluta. Documentos, leis, entrevistas, estudos sobre a temática foram utilizados, complementando-se, entendendo que todas as fontes estão permeadas de subjetividade e que todas têm o mesmo patamar de importância. Evitamos o discurso da autoridade com as citações de autores, utilizamos estudos que nos ajudaram a analisar o corte temporal e o problema de pesquisa, sem perder de vista as características daquele presente em que as obras foram escritas. Da mesma forma, os depoimentos, e os documentos, não foram utilizados como autoexplicativos. Utilizamos os autores, as entrevistas, os questionários e os documentos, de modo exploratório, sem esgotar nenhum ponto da análise. Analisamos programas e ações de governo, expressas na legislação estadual e federal, procurando não apagar as ações dos sujeitos sociais e as estruturas às quais eles estão submetidos. Assim, tivemos a legislação, os estudos teóricos e empíricos, e a voz dos sujeitos, em permanente diálogo. 4. 1. Pontos de ancoragem da análise Pode-se analisar as condições de trabalho dos professores de um ponto de vista administrativo, ou seja, definida em função das normas oficiais (decretos, leis, propostas pedagógicas) emanadas geralmente da secretaria de educação ou de órgãos federais. Pode-se também partir de uma análise do cotidiano, ou seja, como se realiza no processo concreto do trabalho. As análises aqui contidas procuraram considerar estas duas perspectivas complementares, sobretudo registrando o ponto de vista dos professores sobre seu próprio trabalho e como eles lidam com o tempo90. Analisamos as condições de trabalho dos docentes e sua relação com o tempo, considerando que uma grande parte dos professores tem mais de um emprego e precisa 90 A discussão teórica em torno da categoria tempo foi feita no primeiro capítulo. 131 cumprir dois ou três contratos de trabalho para receber um salário razoável. Nos interessou a dificuldade e a diversidade da carga de trabalho e as tensões que ela gera nos professores. Ao evitar o discurso de autoridade de um autor e transpor este mesmo cuidado para o uso das entrevistas, a dissertação foi construída mesclando a discussão teórica com as entrevistas. Procuramos também fazer um uso menos ingênuo da abordagem da história oral, pois como todo e qualquer documento, os depoimentos precisam ser problematizados. A natureza de nossas fontes implicam, pois, não apenas a necessidade de referilos constantemente, ao “lugar” a partir do qual foram produzidas, mas também, e fundamentalmente, buscar entendê-las em suas dinâmicas e materialidades próprias. Não tivemos por objetivo elaborar um tratado de história oral, porém é preciso expor os fatores que influenciaram o contexto da entrevista. O ritmo da fala, da pausa, as condições da entrevista, podem expressar um clima, uma lembrança ou até mesmo um desconforto que interfere e modifica o discurso do entrevistado e uma descrição mais cuidadosa deste aspecto é fundamental, pois os depoimentos orais envolvem a subjetividade do entrevistado e do entrevistador. Além disso, as fontes orais são produzidas para atender os objetivos da pesquisa e, desse modo, tendem a enfatizar os objetivos da mesma. Outro aspecto que nós levamos em consideração foi a relação prévia com alguns professores e a problematização do cenário para que a análise se desse de uma forma menos ingênua, levando a que os depoimentos não aparecessem ao longo do texto, como se fossem neutros, isentos de constrangimentos e de intencionalidades. A intenção, também, não foi homogeneizar as falas, pois não tivemos como objetivo perder o múltiplo, ao contrário, cada experiência foi citada de forma a corroborar ou refutar nossas hipóteses, sempre com o objetivo ampliar os possíveis ângulos de análise da questão. 4. 2. O mosaico de estratégias mobilizadas As análises e discussões aqui propostas tiveram como objetivo compreender as redes de relações, destacando as estratégias que os professores e professoras constroem para lidar com a fragmentação do tempo de trabalho e o modo como contornam as dificuldades. O material de análise foi construído a partir de entrevistas, diário de campo, e análise de documentos. Assim, buscamos nas falas dos sujeitos e nas 132 observações no seu cotidiano de trabalho, novos elementos para a pesquisa. Ao mesmo tempo, aprofundamos nas entrevistas, questões relacionadas à investigação, no contexto da observação e da análise documental, fazendo dos nossos estudos uma permanente reflexão dialética91. A análise do material foi feita, portanto, em base a: entrevistasteste, questionários, documentos, observação, diário de campo, novos questionários, novas entrevistas, não necessariamente nessa exata ordem. Foram idas e vindas em busca de fontes. Começamos por entrevistas-teste, depois utilizamos questionários objetivos, buscando a identificação de um grupo maior de professores e professoras, seguimos com novas entrevistas e novos questionários mais específicos e mais ligados à temática do tempo de trabalho dentro da trajetória profissional. O fato de algumas entrevistas terem sido realizadas primeiramente, possibilitou o confronto entre as informações nelas contidas e as informações nos documentos, o que permitiu que novamente fossem confrontados com as entrevistas posteriores. Todas essas fases tiveram suas diferenças e podemos afirmar que nesse percurso, houve um processo de amadurecimento da pesquisadora, o que não nos dá margem para excluirmos a importância de nenhuma delas. As informações extraídas a partir da análise dos documentos que organizam o trabalho pedagógico foram: relatório anual da SEEDUC, LDB, site do INEP, dados do estado do Rio de Janeiro disponibilizados na imprensa oficial, constituição federal, entre outros documentos e leis92. Utilizamos diversos documentos de origem legal, com base na lei ou sob seu raio de influência, neste caso, nos inspiramos na concepção ampla de legislação que Faria Filho (1998) defende. “Não posso deixar de compreendê-los como a realização e a expressão dos imperativos legais, ou seja, como lei.” (p.94). No nosso caso, aplicamos esta concepção quando utilizamos os documentos e relatórios da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, pois “são produzidos em obediência à legislação em vigor, ou, em outros casos, representam a própria legislação” (p.95). Ao utilizar essa concepção ampla de legislação, vimos os documentos como fontes construídas por sujeitos, que carregam marcas de intencionalidades, que não são neutras e que não têm mais valor por serem de natureza oficial, isto é, governamental, ou por ser uma fonte escrita, contrapondo a concepção de que os documentos se 91 Na perspectiva da dialética marxista, sugerimos que, em vez de nos inquirirmos sobre qual a fonte de maior valor em absoluto, deveríamos perguntar-nos como diferentes fontes poderão articular-se no estudo de um determinado objeto. 92 A análise documental de como a legislação e as políticas educacionais implementadas pós-IDEB alteraram as condições de trabalho dos professores, assim como o poder público lida com o tempo do professor, foram fatores aprofundados no segundo capítulo. 133 impõem por si próprios, como acreditam os embebidos no mais pueril espírito positivista. Neste ponto, resgatamos Le Goff quando diz que “o documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder.” (LE GOFF, 1996, p. 07). Nas primeiras décadas do século XX, os pioneiros de uma nova história, ampliam a concepção de documento: Esta revolução é, ao mesmo tempo, quantitativa e qualitativa. O interesse da memória coletiva e da história já não se cristaliza exclusivamente sobre os grandes homens, os acontecimentos, a história que avança depressa, a história política, diplomática, militar. Interessa-se por todos os homens, suscita uma nova hierarquia mais ou menos implícita dos documentos (IBIDEM, p.4). Portanto, o que ficou de resgate para nossa discussão, foi não hierarquizar os documentos, não ver as fontes documentais como mais ou menos importantes e perceber que dados produzidos pelo governo, por si só, já impõem muitos limites. Precisamos enxergar além do que está colocado nos documentos, pois para a análise histórica, suas lacunas e omissões são tão importantes quanto o seu conteúdo explicito. Ao buscar uma análise que não excluísse a influência de dominação da legislação nem o papel dos sujeitos sociais, resgatamos Thompson (1987), que ao analisar o contexto inglês do século XVIII, nos alerta para a importância de relacionar a prática legislativa e os produtos da mesma, ou seja, ver as leis com as relações sociais mais amplas nas quais elas se inserem e as quais elas contribuem para produzir. O historiador inglês nos lembrou a importância do costume, portanto, era o conjunto de práticas estabelecidas e experiências coletivas compartilhadas que moldava o equilíbrio das relações sociais, pois o costume antecedia à lei e acabava por determinar tanto a sua forma quanto o seu conteúdo final. O que parece fundamental, nas sugestões de Thompson, é perceber a relação entre o costume e a lei. Thompson de maneira alguma nega que haja uma função classista na lei, porém, ela não pode ser reduzida a apenas isso ou a uma mera tipologia de estruturas e superestruturas. Voltando ao nosso objeto, uma questão para a qual nós atribuímos importância foi a relação tensa, instável e mutável entre os imperativos legais e os aspectos próprios da prática pedagógica. Neste caso, as políticas em vigor na educação nos permitiram ao mesmo tempo perceber a disposição de uma lógica de controle sobre o professor e de produção de dados estatísticos, porém também nos permitiram perceber as questões de 134 interesse do professor que criam estratégias de sobrevivência em meio ao desgastante cotidiano de trabalho 93. Ou seja, quando um professor adere ao Programa Autonomia, ele certamente está fazendo parte de uma engrenagem, aderindo a uma metodologia que lhe retira a autonomia pedagógica. Mas até que ponto essa adesão não tem se dado para escapar de certos limites impostos em seu trabalho cotidiano, parte de uma lógica educacional que lhe desgasta e lhe condiciona? Seguindo a mesma concepção de Faria Filho (1998) demos ênfase “aos vários aspectos ligados às formas quotidianas de uso da legislação pelos sujeitos, enquanto indivíduos ou grupos”. (p.116). Tendo em vista que a análise da legislação isoladamente não foi suficiente, ou seja, foi preciso um intenso trabalho de cruzamento de fontes. Neste aspecto, inserimos em conjunto a discussão da história oral, pois “entrevistas sempre revelam eventos desconhecidos ou aspectos desconhecidos de eventos conhecidos: elas sempre lançam nova luz sobre áreas inexploradas da vida diária das classes não hegemônicas.” (PORTELLI, 1997, p.31). Ao abordar a importância das fontes orais para o conhecimento científico, o autor problematiza também a supervalorização das fontes orais: Na realidade, as fontes escritas e orais não são mutuamente excludentes. Elas têm em comum características autônomas e funções específicas que somente uma ou outra pode preencher (ou que um conjunto de fontes preenche melhor que a outra). Desta forma, requerem instrumentos interpretativos diferentes e específicos. Mas a depreciação e a supervalorização das fontes orais terminam por cancelar as qualidades específicas, tornando estas fontes ou meros suportes para fontes tradicionais escritas, ou cura ilusória para todas as doenças (IBIDEM, p.26). Os depoimentos não são neutros, nem auto-explicativos. As fontes orais são produzidas em circunstâncias que influenciam o depoente. Portelli (1997) nos ajuda a pensar como os sujeitos são influenciados pelas pretensões do pesquisador, assim como o pesquisador controla o discurso histórico, pois há uma seleção de pessoas que serão entrevistadas, um forma e contexto ao testemunho, uma seleção e publicação que não são isentas de intencionalidades. Os discursos são apropriados e o pesquisador que determina o que entra ou não no texto de forma a corroborar ou não as suas hipóteses, portanto, infere, seleciona e conclui, buscando sentido nas falas dos depoentes. 93 Esse “fazer-se” da categoria docente, os mecanismos que eles mobilizam para lidar com o tempo e com as políticas governamentais foram aprofundados no terceiro capítulo desta dissertação. 135 Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que faz. Fontes orais podem não adicionar muito ao que sabemos, por exemplo, o custo material de uma greve para os trabalhadores envolvidos; mas contam-nos bastante sobre seus custos psicológicos. Emprestando uma categoria literária dos formalistas russos, podemos dizer que fontes orais, especialmente de grupos nãohegemônicos, são uma integração muito útil de outras fontes tão distantes quanto a fábula – a sequência lógica, casual da história – alcança, mas elas se tornam únicas e necessárias por causa do seu enredo – o caminho no qual os materiais da história são organizados pelos narradores de forma a contá-la. A construção da narrativa revela um grande emprenho do relator com a sua história (IBIDEM, p.31). Quando nos propusemos a utilizar as entrevistas como fonte de pesquisa, nos remetemos à história oral com consciência de que esta opção requer extremo cuidado por parte do pesquisador. Foi preciso ter em mente que a entrevista é um documento e como tal deve ser alvo de análises criteriosas. Suas informações não aspiram ao estatuto de verdades absolutas. De fato as distorções e falhas de memória nos relatos do depoente devem ser investigadas tomando em consideração um conjunto de reflexões mais amplas, levando o pesquisador a se perguntar o motivo pelo qual esse concebe o passado ou o presente de uma determinada maneira, e o quanto esta “versão” se aproxima ou não da de outros entrevistados. Para esta pesquisa foram elaborados diversos roteiros de entrevista94. Os primeiros foram muito extensos, e a fraqueza das perguntas acabaram não gerando uma boa dinâmica para o entrevistado. Após idas e vindas, transcrições e redefinições dos objetivos do trabalho, a ida a campo foi feita com outra mentalidade. As perguntas foram feitas das formas mais amplas possíveis, pois a intenção era que os professores refletissem a respeito de sua trajetória profissional e com isso nos oferecessem depoimentos plausíveis para sustentações a respeito das dinâmicas de suas trajetórias que nos dessem suporte para analisar a relação desses sujeitos com o tempo. Ao construir e reconstruir o roteiro de entrevistas foi de grande valia as orientações de Paul Thompson em seu “manual’ de história oral. Pois, esta leitura aliada às práticas da entrevista, ajudou a perceber que quanto menos o testemunho fosse moldado pelas perguntas do entrevistador, melhor. Contudo, a entrevista completamente livre também não pode existir. 94 Os roteiros de entrevista estão no Apêndice A. 136 Apenas para começar, já é preciso estabelecer um contexto social, o objetivo deve ser explicado, e pelo menos uma pergunta inicial precisa ser feita; e tudo isso, juntamente com os pressupostos não expressos, cria expectativas que moldam o que vem a seguir (THOMPSON, 2002, p.258). Portanto, o caminho da fala passaria a ser dado pelo próprio entrevistado. Neste caso, ficou visível o amadurecimento da pesquisadora, das primeiras entrevistas até as últimas, que passava a ir disposta somente a ouvir e não forçava um rumo. Ao avançar nesse aspecto: Podemos dizer que a postura envolvida com a história oral é genuinamente hermenêutica: o que fascina numa entrevista é a possibilidade de tornar a vivenciar as experiências do outro, a que se tem acesso sabendo compreender as expressões de sua vivência. Saber compreender significa realizar um verdadeiro trabalho de hermeneuta, de interpretação. (...) No caso de entrevistas de história oral, ele também requer uma preparação criteriosa, que nos transforme em interlocutores à altura de nossos entrevistados, capazes de entender suas expressões de vida e de acompanhar seus relatos (ALBERTI, p.19). Mais uma vez resgatamos E. P. Thompson, que em seus estudos, revelou como a classe operária inglesa formou-se, revelando, desta forma, que explicações generalizantes nem sempre correspondem às situações específicas. Essa concepção, ao ser tomada para o presente estudo, nos levou a utilizar as entrevistas de história oral para ver as formas pelas quais as pessoas ou grupos efetuaram e elaboraram experiências, incluindo situações estratégicas e decisões individuais. Neste ponto, poderíamos incluir como ocorre a adesão a certos Programas Educacionais como o “Autonomia”. “Em linhas gerais, essas noções significaram o seguinte: entender como pessoas e grupos experimentaram o passado torna possível questionar interpretações generalizantes de determinados acontecimentos e conjunturas.” (ALBERTI, p.26) Assim sendo, o objetivo era que a entrevista se desse de forma livre, tomando-se sempre o cuidado de não induzir o entrevistado a uma resposta esperada. As entrevistas foram gravadas com durações que variaram de 30 a 40 minutos e foram cuidadosamente transcritas, levando em conta as expressões espontâneas que foram citadas. Considerando que não seria possível falar de todo o conteúdo das entrevistas, foram extraídas partes dos depoimentos a fim de dialogar com as referências bibliográficas, destacando os temas e as questões mais diretamente ligados aos interesses de pesquisa. Problematizações foram feitas a partir de trechos de falas dos 137 entrevistados, buscando um diálogo com fontes documentais, numa permanente e interminável reflexão dialética entre as fontes. Por fim, cabe registrar que, apesar de considerarmos que as trajetórias dos professores, sua relação com o tempo e como se deu a adesão a determinado Programa educacional sejam parte importante da história da educação no Rio de Janeiro, nós optamos por usar nomes fictícios para os depoentes, de modo a não expor os indivíduos e acentuar, na medida do possível, as trajetórias de pessoas que protagonizaram as experiências aqui relatadas. 4. 3. Itinerário de pesquisa: a escolha do grupo de depoentes A primeira etapa da pesquisa se deu através de entrevistas, nelas busquei fazer um primeiro contato com professores que atuam no Programa Autonomia na região escolhida. Realizei duas entrevistas-teste em 2012, ainda antes do exame de qualificação e, portanto, com ideias ainda não muito bem elaboradas. Minha intenção era apenas ouvir os professores a respeito de seu cotidiano de trabalho, me aproximar e obter informações a respeito das datas do curso de formação do Programa e outras atividades em que pudesse encontrar todos os professores reunidos e fazer um mapeamento geral daqueles sujeitos. Da mesma forma que fui a campo95 com algumas impressões dos entrevistados, após um contato mais próximo, os professores entrevistados certamente também criaram impressões sobre mim, seja como professora, como pesquisadora, com outras atuações profissionais ou como militante. Todos esses fatores não podem ser ignorados como fatores de influência na hora de um relato ou mesmo ao responder a um questionário de pesquisa. A primeira entrevista foi realizada com um professor que já conhecia previamente, desde a graduação. Ele passou a atuar no Programa Autonomia para fugir da fragmentação do tempo de trabalho, concentrar uma matrícula em apenas uma escola e para trabalhar mais próximo de casa, portanto, um sujeito que confirmava a minha hipótese inicial: a de que a adesão ao Programa Autonomia não tem se dado por uma questão meramente econômica devido à incorporação da gratificação, ou por uma crença na metodologia do projeto, e sim que essa adesão estaria se dando 95 Neste subtópico o pronome utilizado também será a primeira pessoa do singular, visto que foi uma experiência partilhada da pesquisadora com os entrevistados. 138 fundamentalmente para fugir da fragmentação do tempo de trabalho e distância geográfica entre trabalho e residência a qual os professores têm sido submetidos na Rede Estadual do Rio de Janeiro. Estabeleci contato com esse professor, marquei uma entrevista, fui até a sua escola e lá busquei as informações a partir de um primeiro roteiro, amplo, mas que não deixou de ser importante naquele momento. A partir desse primeiro contato, marquei uma nova entrevista com outro professor, realizando-a posteriormente. Após esses dois contatos iniciais, fui convidada a participar de um curso de formação do “Programa Autonomia” da metropolitana IV e tendo em vista que lá estariam todos os professores reunidos, fiz um questionário 96 curto que buscasse a identificação daqueles professores. Finalmente, na semana de quatro a oito de fevereiro de 201397, aconteceu o curso de formação98 do Programa Autonomia com professores e professoras da Metropolitana IV. O curso aconteceu num espaço privado que oferece cursos preparatórios para concursos no bairro de Campo Grande, no município do Rio de Janeiro. Ocorreu de segunda a quinta-feira nos turnos manhã e tarde e foi organizado em três turmas, com cerca de 30 professores (ou orientadores de aprendizagem) cada uma. Dentre os presentes, havia professores novos e antigos no Programa Autonomia, porém, conforme se faz necessário, todos atuantes na rede estadual. Os professores da rede pública e participantes do Programa foram capacitados segundo a metodologia proposta pela FRM. Cada sala contou com a presença de dois facilitadores da Fundação, que faziam as dinâmicas e davam as orientações a respeito do módulo a ser trabalhado. Além da exposição dos módulos, o curso teve uma dinâmica bem informal e um clima bem descontraído, com vídeos, brincadeiras e até bailes de carnaval, visto que aconteceu em vésperas deste feriado. Compareci ao curso na quinta feira, o último dia. Assim que cheguei expus os motivos da pesquisa e me apresentei à responsável local, que imediatamente ligou para a responsável geral para pedir a autorização para que eu pudesse fazer a pesquisa. Neste momento, pensei que fosse haver algum tipo de impedimento por parte dos organizadores, porém a responsável voltou com a notícia positiva, dizendo que eu poderia passar os questionários, com a condição de entrar na sala, me apresentar e explicar aos professores os motivos da pesquisa. 96 Os questionários utilizados na pesquisa estão no apêndice A. Informações registradas em diário de campo (04 a 08 de fevereiro de 2013). 98 A cada módulo os professores do Programa Autonomia passam por um curso de formação, geralmente semestral. 97 139 Depois da autorização, ela pediu que eu aguardasse o turno da tarde, pois assim permitiria que eu entrasse nas salas para falar com os professores. Aguardei o horário estipulado e entrei nas três salas, me apresentando e explicando rapidamente os motivos da pesquisa. A recepção foi ótima, os facilitadores do curso foram muito solícitos, me concederam o espaço, entrei em cada sala, me apresentei e expus os objetivos da pesquisa sobre o tempo dos professores e as condições de trabalho docente dos professores da rede estadual, tudo de forma muito objetiva. Os professores e professoras em geral, se mostraram interessados e satisfeitos em poder participar e contribuir com a pesquisa. Muitos professores já me conheciam previamente, seja como professora da Rede Estadual99, seja como militante100, seja como Promotora Cultural101. Desta forma, passei os questionários de pesquisa nas três salas e solicitei que aqueles que pudessem gentilmente me conceder a entrevista deixassem seu contato no final do questionário. Os professores responderam o questionário naquele momento, o que levou menos de dez minutos em cada sala. Por fazer parte de um primeiro contato com aqueles sujeitos, o questionário era composto de apenas uma página que continha perguntas como: Nome (opcional), tempo de serviço na profissão, curso de licenciatura/área disciplinar, instituição de formação, se possuíam pós-graduação, a carga horária de trabalho semanal, o bairro/município onde reside e a escola/bairro que atua com o Programa Autonomia. Lembrei a todos que poderiam colocar nomes fictícios para as escolas, caso não quisessem expô-las. Isso não aconteceu, todos os professores e professoras colocaram os nomes reais das escolas, alguns apenas deixaram o próprio nome, que era opcional, em branco. Ao final desse curto questionário, eu pedia que os professores deixassem seu contato (email e telefone), caso se dispusessem a me conceder uma entrevista futura. Minha ideia foi conhecer os sujeitos102 para posteriormente partir para as entrevistas com alguns dos professores que se dispuseram a colaborar com a pesquisa. Trabalhamos com os números dos questionários, mas não de uma forma homogênea e 99 Embora esteja lotada na Metropolitana II, já atuei na metropolitana IV fazendo GLP. Alguns me conheciam da atuação no movimento estudantil ou do movimento sindical. 101 Atuei como promotora cultural do Programa “Cinema Para Todos” de 2009 a 2012, uma parceira da Secretaria de Cultura com a Secretaria de Educação. Através do Programa visitei inúmeras escolas da Região Metropolitana IV, o que me fez ter contato com diversos professores de inúmeras escolas. Considero este fator importante, por ter facilitado a pesquisa em alguns momentos, inclusive a entrada nas escolas. Porém, para a entrevista, busquei professores que não tive contato enquanto promotora cultural, por julgar que isso pudesse ser um fator de influência nos discursos, devido à ligação do Programa “Cinema Para Todos” com a Secretaria de Educação e Cultura. 102 Tabela com a identificação dos sujeitos (ver apêndice 4, tabela nº10, p.170). 100 140 explicativa, e sim a partir deles, selecionamos e buscamos alguns sujeitos para um contato mais próximo. Após um espaço de tempo, de cerca de dois meses, enviei email para todos os professores que haviam deixado o contato, avisando que enviaria um novo questionário para que me respondessem também por email. Dos 41 email enviados, 15 foram respondidos, afirmando que responderiam ao questionário assim que eu enviasse. Neste novo questionário103 um pouco mais extenso, procurei ver de forma mais detalhada a trajetória profissional desses docentes durante seu tempo de atuação no magistério, buscando ver a sua relação como tempo de trabalho e se minha hipótese inicial poderia ou não se confirmar: que os professores estão aderindo a Programas como o “Autonomia” para fugir da fragmentação do tempo de trabalho. Muitos professores disseram que responderiam o questionário assim que eu o enviasse, porém, ao enviar, apenas dois questionários retornaram preenchidos. Esse não retorno pode ter se dado devido ao momento que enviei, ao esquecimento dos professores, ao desânimo com tamanho e quantidade de páginas que continha, à insegurança em revelar os dados (embora eu tivesse deixado claro que não precisariam se identificar ou colocar os nomes). Enfim, vários fatores podem ter levado os professores e professoras a não efetuarem o preenchimento. As expectativas não eram muito grandes, eu não esperava realmente que por email os professores respondessem questões a respeito de sua trajetória profissional para alguém desconhecido, foi apenas uma tentativa de economizar tempo. Porém, uma pesquisa qualitativa, a meu ver, não se faz com contatos frios por telefone ou email e sim com contatos pessoais, onde se podem deixar os sujeitos mais à vontade e mais confiantes em dar um depoimento ou expor sua trajetória profissional. Não quis insistir no correio eletrônico, pois considerei uma forma ineficiente para meus objetivos e visto que os professores e professoras se mostraram o tempo todo disponíveis para a entrevista, resolvi procurá-los pessoalmente. Restabeleci contato com alguns professores, liguei para alguns deles agendando uma visita e fui até as escolas em que atuam para conversar com os mesmos e entregar-lhes pessoalmente o segundo questionário e marcar a entrevista. Expliquei como poderiam responder e dei a eles o tempo que julgassem necessário para me entregar, não pedi que respondessem na hora justamente porque buscava uma reflexão dos professores a respeito de sua trajetória. 103 Apêndice A (Modelo de questionário enviado por email a todos os professores). 141 Apesar de ser um questionário com questões fechadas, havia partes onde eu pedia que o professor fizesse um resumo de determinado período de sua atuação profissional, nos primeiros cinco anos, entre dez e quinze anos e nos últimos anos. Levaram para casa e propus o prazo de uma semana para retornar nas escolas para buscar o questionário. Ao voltar às escolas, nenhum professor havia respondido, demonstrando mais uma vez não a falta de interesse ou de compromisso, mas a falta de tempo para refletir. Todos fizeram o preenchimento104 na hora em que cheguei, o que pode ter comprometido a reflexão que eu buscava que eles tivessem ao respondê-los. Para esta etapa os professores não foram escolhidos aleatoriamente, busquei dois professores com menos de cinco anos de magistério, um professor e uma professora entre dez e quinze anos de atuação e duas professoras com mais de vinte anos de magistério e nenhum deles me conhecia previamente, a não ser como pesquisadora. Com esses professores foram marcadas entrevistas, com o objetivo de aprofundar o que já haviam exposto no questionário. A coerência argumentativa teve por base esse recorte e consideramos que justificá-lo é sempre tão importante quanto chegar a algumas conclusões. A heterogeneidade em relação ao tempo de serviço na escolha dos depoentes não objetivou alcançar a um resultado previamente traçado dos depoimentos, visou apenas um olhar sobre diferentes concepções. Ao estabelecermos parâmetros de seleção relacionados com o tempo de serviço e o envolvimento desses professores em políticas específicas (tais como o Programa Autonomia), o corte temporal abrangeu professores que ingressaram no magistério público estadual no final dos anos 1980, durante os anos 1990 e aqueles que ingressaram mais recentemente, a partir dos anos 2010. Realizou-se, na verdade, um estudo que correspondeu ao gênero dos "falsos estudos longitudinais", na terminologia de Huberman (1995: 57), ou seja, "um estudo transversal (utilizando grupos diferentes) de um fenômeno longitudinal (uma carreira profissional)". Entrevistei professores após a entrega dos questionários porque na fala eles tendiam a expor muitas questões relevantes que no papel não colocavam, ao mesmo tempo, o questionário deu uma impressão do que eu esperava da entrevista e de certa forma os preparava e também me preparava para tal. Muitas circunstâncias da trajetória profissional foram lembradas na entrevista e não foram expostas no questionário, 104 Apesar da aparente clareza do instrumento de pesquisa, alguns professores, ao responder o questionário, me fizeram perguntas sobre o que seriam nível e modalidade de ensino, além de outras dúvidas. 142 inclusive algumas escolas trabalhadas foram omitidas no questionário e na fala foram colocadas com ênfase. Essas memórias, esquecimentos, omissões também nos remetem a Portelli (1997) quando afirma que “essas modificações revelam o esforço dos narradores em buscar sentido no passado e dar forma às suas vidas, e colocar a entrevista e a narração em seu contexto histórico.” (p.33) Outro autor que contribui muito para esse debate a respeito da memória é Pollack (1992) quando reconhece que falar sobre a própria vida nada tem de natural. “Uma pessoa a quem nunca ninguém perguntou quem ela é, de repente ser solicitada a relatar como foi a sua vida, tem muita dificuldade para entender esse súbito interesse. Já é difícil fazê-la falar, quanto mais falar de si.” (p.213) Ao perceber que nos depoimentos os professores expuseram e enfatizaram questões que não foram ditas num primeiro momento. Para efeitos de compreensão, recorreremos mais uma vez a Portelli quando analisa as narrativas: Um informante pode relatar em poucas palavras experiências que duraram longo tempo ou discorrer minuciosamente sobre breves episódios. Estas oscilações são significativas, embora não possamos estabelecer uma norma geral de interpretação: apoiar-se em um episódio pode ser um caminho para salientar sua importância, mas também pode ser uma estratégia para desviar a atenção de outros pontos mais delicados (PORTELLI, 1997, p.29). Paul Thompson se refere a esses temas relacionados à subjetividade de forma exaustiva em seu livro. Ao exemplificar como uma entrevista deve ser na prática, traz vários aspectos relacionados aos cuidados com as fontes orais e afirma que: Muitas vezes os depoimentos orais são tidos como fontes subjetivas por nutrirem-se da memória individual, que às vezes pode ser falível e fantasiosa. No entanto, a subjetividade é um dado real em todas as fontes históricas, sejam elas orais, escritas ou visuais. O que interessa em história oral é saber porque o entrevistado foi seletivo, ou omisso, pois essa seletividade com certeza tem o seu significado (THOMPSON, 2002, p.18). Após as entrevistas, veio a etapa das transcrições, que foram realizadas sem perder de vista que: 143 A transcrição transforma objetos auditivos em visuais, o que inevitavelmente implica mudanças e interpretação. (...) A expectativa da transcrição substituir o teipe para propósitos científicos é equivalente a fazer crítica de arte em reproduções, ou crítica literária em traduções. A mais literal tradução é dificilmente a melhor, e uma tradução verdadeiramente fiel sempre implica certa quantidade de invenção. O mesmo pode ser verdade para a transcrição de fontes orais (PORTELLI, 1997, p.27). Os sinais de alerta que o autor nos dá, evidentemente que, se seguidos à risca, o uso de depoimentos se tornaria quase insustentável, porém, é importante destacar os aspectos que influenciam o fazer-se das fontes e é isso que tentamos expor aqui. 4.4. Sujeitos e sujeições: a variação do zoom105 Em todas as ocasiões procuramos ficar atentos, para que pudéssemos, a exemplo do que preconiza Alberti (2002), buscar o estabelecimento de relações entre o geral e o particular. Para isso, fizemos com que nossas análises procurassem comparar testemunhos diferentes, tomando a forma como nossos entrevistados apreendem e interpretam o passado e o presente como um dado objetivo para compreendermos melhor o objeto cuja análise propomos. Com o movimento de ir do “oficial” ao “não-oficial”, das estruturas que cercam o trabalho docente ao relato dos próprios docentes que vivenciam em seu cotidiano as políticas implementadas pelos governos de turno, buscamos observar objetivamente como o governo do Estado do Rio de Janeiro vem construindo as identidades dos professores, compartilhando da concepção de Lawn (2001), que defende que as alterações na identidade são manobradas pelo Estado, através do discurso, traduzindo-se num método sofisticado de controle e numa forma eficaz de gerir a mudança e o desenvolvimento do ensino público e estatal. Paralelamente, vimos como os professores vêm resistindo e implementando estratégias próprias (individuais e coletivas) em busca de sua própria identidade. Observamos quais estratégias os professores têm mobilizado para contornar as políticas e como tem se dado a resistência, olhando assim o professor imerso na implementação da política educacional e não a política pura e simplesmente. Fizemos na presente dissertação uma variação do foco de análise, aproximamos e afastamos, fizemos uma variação da escala analítica com a sensibilidade necessária 105 Tipo de lente fotográfica e cinematográfica de distância focal variável. 144 para balizar a argumentação. Analisamos o macro (as políticas) e como isso interfere no dia a dia do professor no estado do Rio de Janeiro, sempre “variando as escalas” (REVEL, 1998). Não buscamos trazer respostas definitivas e sim questionamentos, aspectos novos, que vão além do que já é dito. Mostramos a lei, a reforma, os projetos, sem excluir as diferentes apropriações realizadas pelos professores. A escolha do individual não é vista aqui como contraditória a do social: ela deve tornar possível uma abordagem diferente deste, ao acompanhar o fio de um destino particular – de um homem, de um grupo de homens – e, com ele, a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais ele se inscreve (IBIDEM, 1998, p.21). Observamos todos os limites de um “individualismo metodológico” e do encolhimento do campo de observação, já que este é parte de uma estrutura social – ou de uma “experiência” coletiva que é sempre preciso procurar definir as regras de definição e funcionamento. Com isso, não fizemos desse debate uma oposição e sim buscamos a sua complementaridade. Seguindo o trajeto aberto por E. P. Thompson, buscamos na noção de experiência o caminho a ser trilhado, construindo-o com contextos e indivíduos. Reconhecendo que, “em meio a conjunturas, em meio a estruturas, há pessoas que se movimentam, que opinam, que reagem, que vivem.” (ALBERTI, p.14). Esse olhar mais “micro” estabelece conexões entre trajetórias profissionais específicas com questões extremamente amplas como as políticas educacionais. Buscamos resgatar duas dimensões: a da legislação e a dos sujeitos responsáveis pela intervenção social. Procuramos ver as fontes como um produto social, sem excluir a tensão social da produção de documentos oficiais, nem supervalorizar sejam os documentos, sejam as fontes orais. Fomos a essas fontes para conversar com elas, pois nosso objetivo não foi necessariamente “encontrar” e sim criar um diálogo que confirmasse e, se fosse o caso, que inclusive refutasse nossas hipóteses. Passamos pelas condições de trabalho estabelecidas, sem negá-las ou deixar de questioná-las, mas demos margem para constatar além do que já sabemos, vendo como a manifestação das políticas interfere na realidade do professor. Não fomos aos professores do Programa Autonomia considerando que são todos “alienados”, que aceitaram passivamente uma metodologia que retira sua autonomia pedagógica, nem tampouco, considerando que esses professores sempre atuam como sujeitos plenamente 145 racionais no que tange aos seus interesses e necessidades individuais. Estivemos dispostas a entender o sujeito, sem esperar extrair de seus depoimentos, apenas aquilo que queríamos ouvir. Vimos como os sujeitos criam estratégias de sobrevivência em meio às estruturas que são submetidos. Buscamos demonstrar como os professores encontram mecanismos de sobrevivência em meio às suas condições de trabalho. Alertamos para que os relatos não sejam tomados à letra, como se a soma dos múltiplos descritores que utilizamos para descrever a educação estadual e as respectivas percepções constituíssem um retrato fiel dessas realidades. Esses depoimentos são, com efeito, outra coisa: um instrumento de reflexão sobre as políticas educativas e um exercício de construção de vínculos possivelmente idênticos ou parecidos em todo o estado do Rio de Janeiro, ou mesmo em todo o território nacional. Partimos de uma reflexão dialética, fomos da realidade encontrada para o diálogo com as fontes documentais e com as teorias da mesma forma que procuramos respostas novamente nos relatos, comparando a partir de diferentes perspectivas, interfaces e condicionantes das dimensões temporais, dos ritmos cotidianos, próprios as temporalidades da docência. Nesta pesquisa houve uma angústia em colocar o ponto final, isso se deu na relação com a empiria todo o tempo. Acompanhamos professores desde o início do mestrado, e isso se deu até momentos bem próximos a escrita da dissertação. O trabalho nunca foi considerado concluído, se houvesse mais tempo, seriam feitas não só mais entrevistas, como uma maior quantidade de encontros com os mesmos professores a fim de aprofundar questões a respeito de suas respectivas trajetórias. Porém, cientes da impossibilidade de falar de tudo buscamos sensibilizar o contexto a fim de que certezas anteriores não impedissem uma análise que também pudesse jogar por terra, hipóteses pré-estabelecidas. E assim caminhamos para a conclusão destes passos. 146 CONSIDERAÇÕES FINAIS O instante da conclusão é um tanto ou quanto inquietante. Afinal, quando nos sentimos mais confiantes para renovar hipóteses e especular acerca de investigações futuras, somos forçados a abandonar o palco a fim de inventariar nossos muitos dilemas ou sumariar nossos parcos achados. Ao finalizar este trabalho, reafirmamos algumas convicções e colocamos outras em suspeita. O que ficou disso tudo é dialético, pois surgiram a todo o tempo outras possibilidades: novas fontes, novos documentos, novos sujeitos que se somavam aos nossos objetivos centrais. A estrutura dos escritos aqui contidos refletiu diretamente a dinâmica como foram produzidos. Um texto fragmentado, com capítulos divididos em partes pareceu revelar na forma da dissertação o próprio conteúdo de pesquisa: a fragmentação do tempo do professor. Assim, trouxemos nestas considerações as problemáticas pontuadas no processo de pesquisa e algumas modestas conclusões. Ao percebermos que hoje há um processo de fragmentação do tempo do professor levando a uma descaracterização do trabalho docente, nos indagamos como tem se dado a utilização do tempo pelo poder público e como os professores têm enfrentado um cotidiano de trabalho que se torna ainda mais desgastante devido ao fato de ter que trabalhar em diversas escolas. A hipótese central, que deu início a pesquisa, era que muitos professores do ensino médio têm aderido ao Programa Autonomia para fugir da precarização e fragmentação do tempo, pois, com este Programa, o professor pode trabalhar com apenas uma turma, numa única escola e, além disso, pode conseguir mais facilmente uma transferência para uma escola mais próxima de sua residência, deixando assim de ser um professor itinerante. Essa hipótese central se confirmou, porém, veio permeada de diversas nuances, muitas contrárias às nossas expectativas. Tomamos, primeiramente, o tempo como categoria de análise para assim percebê-lo como um instrumento para pensar o trabalho dos professores. Vimos, neste ponto, que historicamente o tempo é utilizado como uma forma de controle e dominação pelas classes dominantes. Quem detém o poder político-econômico controla o tempo e isso se evidencia na expropriação do tempo dos trabalhadores. Nesse sentido, vimos a forma com a qual o poder público lida com o tempo do professor, tendo em vista os professores no tempo presente e no contexto das leis, considerando estas como um verdadeiro campo de batalhas entre o governo e os trabalhadores. Não negamos as imposições do poder público, mas também mostramos como os professores resistem e 147 se apropriam da legislação para encontrar uma melhor forma de resistência e sobrevivência em seu cotidiano. Assim, demonstramos como se dá a tensão entre a implementação da legislação pelo poder público e a execução das mesmas pelos professores. Vimos como a legislação tem o papel de condicionar os indivíduos, mas ao mesmo tempo observamos como os professores podem se apropriar do universo das legislações, programas educacionais ou propostas pedagógicas e contorná-las de acordo com os seus objetivos. Não negamos o aspecto estrutural, por isso realizamos um levantamento de dados “oficiais”, que implicam nas condições de trabalho dos professores. Ao mostrar em que condições de trabalho os docentes vem sendo submetidos nas últimas décadas, levantamos alguns marcos das políticas públicas para a educação no estado do Rio de Janeiro e algumas dimensões quantitativas do ensino na rede estadual que nos ofereceram um panorama do contexto de ação em que se inserem os docentes pesquisados. Desta forma, observamos como se dá a relação entre o Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação e o que chamamos de Compromisso Fluminense, ou seja, as metas estipuladas pela Secretaria de Educação, os mecanismos para atingilos e como isso reflete no cotidiano dos professores por meio da busca por resultados. Observamos que as últimas décadas foram marcadas pela degradação profissional para o magistério. Foram muitos os estudos que mostraram a perda de autonomia dos docentes pelos processos de massificação do ensino trazida pela expansão da escolaridade, o arrocho salarial combinado à deterioração das condições de trabalho, em muitos casos afetando a saúde dos trabalhadores. Os estudos explicitam a precarização das condições de trabalho, a angústia dos docentes em ver a distância dos conhecimentos escolares em relação às experiências vividas pelas crianças e adolescentes na sociedade atual, o desgaste de ter que trabalhar em várias instituições para manter o poder aquisitivo, a intensificação do trabalho, a falta de tempo para descanso, a ausência do privilégio do “tempo livre” e a clareza de que poderiam fazer muito mais do que fazem. A diferença entre uns e outros está nas estratégias de reação que cada grupo adota. Nesta pesquisa, encontramos uma série de contradições entre as demandas das políticas educacionais oficiais e as práticas/concepções desenvolvidas pelos professores no seu cotidiano de trabalho. Os professores não se viam totalmente apartados das funções conceptuais do seu trabalho, como defendem alguns teóricos da “proletarização” (ENGUITA, 1991; APPLE e TEITELBAUN, 1991; KREUTZ, 1986; 148 WENZEL, 1994), ao contrário, garantem um relativo controle sobre o ensino que desenvolvem, limitando as tentativas do Estado e do capital em conformar o trabalho escolar às suas demandas. O “simples” fato de que o poder público deseja encontrar formas “mais eficientes” de organizar o ensino não garante que isto será efetivado sobre um professorado que tem uma história de práticas de trabalho e de autoorganização. Os efeitos reais dessas tentativas para reter o controle do trabalho pedagógico podem levar a resultados ideológicos bastante contraditórios. Ao revelarmos como se deu o fazer-se de um grupo profissional fruto de uma experiência no exercício da profissão docente, demonstramos os usos/contornos do tempo pelos professores ao longo de sua trajetória profissional, elegendo para isso alguns docentes com diferentes tempos de atuação profissional. Assim percebemos diferentes estratégias para lidar com a fragmentação do tempo, as quais podem culminar na adesão ao Programa Autonomia como uma forma de fuga à precarização. Antônio, Christiane, Fábio, Bruno, Nilda e Janete foram protagonistas. Esses professores, por meio de seus depoimentos, nos ofereceram, qualitativamente, elementos para analisar as condições de trabalho de um grupo profissional. Evidentemente que, uma análise com um número reduzido de professores não nos permite generalizações, porém este não era mesmo o nosso objetivo. Buscamos demonstrar a formação de um grupo profissional parte de uma categoria complexa, dinâmica e diversificada que é a dos professores. Para tanto, demonstrar suas trajetórias anteriores, suas apropriações e ressignificações do Programa com o qual lidam em determinada etapa de sua vida profissional foi de fundamental importância, inclusive para refutar a hipótese de que ser professor do Autonomia é ser um professor totalmente adaptado e que não tem nenhum controle sobre o seu trabalho. O Programa Autonomia contribui sim para a alienação do trabalho docente, pois há uma clara separação entre concepção e execução. Para a Fundação responsável pelo Programa, o professor é visto como um entregador de pacotes de ensino, ou em outros termos, um mediador da aprendizagem, ou seja, dentro dessa lógica educacional, o professor deixa de ser um formulador de conhecimentos e de metodologias de ensino, elemento central no processo ensino-aprendizagem. Eles recebem materiais prontos, vindos da Fundação Roberto Marinho e ministram de forma generalista todas as disciplinas escolares, mesmo aquelas para as quais não tem formação específica. O planejamento das aulas, função inerente à docência, é relegado a segundo plano, pois a proposta pedagógica já vem pronta por meio dos módulos do Programa que tem como 149 material prioritário as tele-aulas, levando, ao nosso ver, a uma descaracterização do que seria o trabalho docente. No entanto, apesar de todos esses aspectos que condicionam os professores, ao mesmo tempo, eles têm uma relativa autonomia dentro de sala de aula no processo de construção do conhecimento, o que ficou evidenciado em alguns depoimentos. Isso só foi possível perceber porque não buscamos informações ou evidências que valessem por si mesmas, mas sim fazer um registro subjetivo de como um professor ou professora, olha para trás e enxerga a própria vida profissional, seja ela longa ou curta, e assim compreender as estratégias de um grupo profissional que adere a determinado programa educacional. Desta forma, os dados obtidos foram de encontro a algumas ideias préconcebidas, pois a impressão anterior, antes de entrevistar os professores do Programa Autonomia, era de professores “executores”, apenas; com nenhuma margem de autonomia pedagógica. Porém, vimos que dentro de todas as limitações impostas, os sujeitos ainda conseguem e ou/necessitam adaptar os programas à realidade que estão inseridos. Vimos que o trabalho é controlado, porém requer, ao mesmo tempo, uma boa dose de autonomia e de responsabilidade pessoal. A própria imprecisão dos programas e objetivos exige que os professores os interpretem, e lhes dêem, eles mesmos, um sentido. O Programa Autonomia, primeiramente, determina sua identidade profissional, fazendo deles executantes de programas concebidos e definidos por outros. Porém, mesmo como executores, eles gozam de certa dose de autonomia pedagógica, embora esta seja bastante limitada e dificultada. Além disso, observamos que a adesão a determinado Programa Educacional, é uma forma por meio da qual os sujeitos têm se mobilizado no sentido de preservar sua integridade física e psíquica, buscando fugir dos problemas insurgidos no trabalho, tais como a fragmentação do tempo, o desgaste ao ter que lidar com diversas turmas, a dificuldade em trabalhar longe de suas residências e/ou em diversas instituições de ensino. Muitas vezes essa mobilização não reflete em buscar soluções mais amplas que reflitam na luta sindical ou política, sendo assim, acaba se tornando uma resistência individual, onde os sujeitos se defendem de um ambiente que os agridem. Vimos a (con)formação de um grupo profissional, justamente neste contexto, de dúvidas, de incertezas, de precarização, onde muitos docentes buscam uma alternativa individual de mudança de suas condições de trabalho, baseado numa relação de conformidade, pois 150 não se busca modificar os aspectos estruturais que estão gerando a situação que vivenciam. O conjunto de depoimentos sobre as trajetórias individuais de professores que partilham a experiência de atuar junto ao Programa Autonomia revelou algumas estratégias comuns que nos permitem perceber a dimensão coletiva das escolhas. Mostrou não só os limites e constrangimentos a que foram expostos anteriormente durante sua trajetória profissional, mas também o campo de possibilidades que se lhes apresentou e no qual eles traçaram as suas estratégias pessoais. Os professores entrevistados não foram vistos apenas como depoentes, mas sim como interlocutores na busca por compreender as questões postas. Seus depoimentos foram tratados como relatos de colegas de profissão que a partir de uma observação sistemática da realidade empírica, fizeram a pesquisadora rever certezas anteriores. O interesse central foi observar os impactos da experiência da fragmentação do tempo e os mecanismos de fuga encontrados pelos professores; como os professores se relacionam, organizam e percebem o seu próprio tempo; e como os usos do tempo se apresentam na cultura docente, definindo posições, valorando contribuições, facilitando ou dificultando o trabalho, acrescentando ou subtraindo a autonomia profissional. Muitos professores, ao aderirem ao Programa Autonomia encontram nele uma forma de reinventar o seu trabalho, criando uma relação de pertencimento àquela nova metodologia, pois ao comparar com as condições de trabalho anteriores, em diversas turmas e em diversas escolas, as novas condições, apesar das limitações colocadas, seriam consideradas muito melhores do que aquelas que outrora vivenciaram. Sendo assim, podemos finalizar com algumas considerações e indagações baseadas em um trecho do depoimento de Fábio que afirmou que suas condições de trabalho no Autonomia são melhores do que no ensino regular porque as turmas do referido Programa têm mais acesso aos espaços da escola, aos materiais didáticos, as turmas são menos cheias, e por ser assim, o trabalho se torna menos desgastante. Ora, se as condições de trabalho no Programa Autonomia são consideradas melhores pelos professores, se muitos professores optam por atuar no Programa devido a facilidade de concentrarem sua matrícula em uma única escola, se trabalham com turmas menores, ou seja, em condições ainda não ideais, porém, menos desgastantes do que as vivenciadas em sua trajetória profissional anterior; por quê estas mesmas condições não são dadas ao ensino regular? Por quê os professores não podem ter melhores condições de trabalho na escola pública, inclusive criando os programas que 151 consideram pertinentes ao seu contexto de trabalho sem a intervenção das parcerias público-privadas? As respostas a estas perguntas são reveladas cotidianamente nas prioridades governamentais baseadas em políticas privatistas e na desvalorização do ensino público. Por fim, destacamos que o objetivo central deste trabalho não foi mostrar o grau de alienação ou autonomia dos professores e sim uma forma com a qual estes profissionais têm lidado com a fragmentação do tempo a fim de minimizar o processo de proletarização que, a nosso ver, se encontra em curso. Por isso, não discutimos a fundo o Programa Autonomia em suas implicações didáticas ou político-ideológicas, e sim mostramos como esse Programa tem sido apropriado pelos professores de forma a fugir de condições de trabalho que o agridem física e emocionalmente. Por mais que o Programa Autonomia separe as funções de concepção e execução, devido ao fato dos materiais serem idealizados por uma Fundação e os professores-mediadores não participem da elaboração de tais materiais, alguns profissionais não seguem à risca e conseguem encontrar formas próprias de trabalhar com seus alunos. Portanto, a relação mecânica entre Programa Autonomia e alienação do trabalho docente não dá conta de explicar a complexa realidade da sala de aula e o contato entre alunos e professores. Com isso, não negamos os aspectos estruturais, ao contrário, ressaltamos os aspectos que condicionam o professor dentro da lógica colocada pelo poder público em parceria com o privado, porém, não paramos neste ponto as nossas análises. Tendo em vista nossas limitações (no tempo) para a conclusão deste trabalho, podemos dizer que abrimos portas para análises futuras sobre a profissão docente e os valores e usos do tempo dos professores: a expropriação do tempo, a sua relação com o tempo de trabalho, com o “tempo livre”, com o tempo de deslocamento, entre outros tempos sociais, além das trajetórias profissionais e das características de determinado grupo profissional dentro da categoria docente. Análises estas que, independentemente de sua proporção, nunca se darão por completas. Em tempo, o número de entrevistas poderia ter sido maior, as buscas em documentos mais amplas, o tema mais ambicioso, porém, confundir os desejos com o seu fim é esquecer que o seu trabalho examina apenas uma fração da complexa realidade que é o trabalho docente. 152 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRÚCIO, F.L. O impacto do modelo gerencial na administração pública: um breve estudo sobre a experiência internacional recente. Cadernos ENAP, n.10, Brasília, DF, 1997. ADRIÃO, T. e GARCIA, T. Oferta educativa e responsabilização no PDE: o plano de ações articuladas. São Paulo, Cadernos de Pesquisa, vol.38, n.135, set./dez. 2008. ALBERTI, V. Ouvir e contar: textos em história oral. 1ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2002. APPLE, M. W. Trabalho Docente e Textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. APPLE, M.; TEITELBAUN, K. Está o professorado perdendo o controle de suas qualificações e do currículo? Teoria & Educação. 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SECRETARIA DO ESTADO DE EDUCAÇÃO, Lei de responsabilidade educacional, 2011. 158 APÊNDICES APÊNDICE A: QUESTIONÁRIOS E ROTEIROS DE ENTREVISTAS 1. Modelo de questionário entregue no primeiro contato com os professores: Prezado(a) professor (a), Sou professora do Colégio Estadual Dr. Rodolpho Siqueira (metro II) e, no momento, estou cursando mestrado em Políticas e Instituições Educacionais na UFRJ. O questionário abaixo é referente à minha pesquisa sobre as condições de trabalho docente no estado do Rio de Janeiro. Gostaria de contar com a colaboração dos colegas presentes na obtenção dos dados. Agradeço desde já a colaboração de todos e informo que o resultado da pesquisa será divulgado em 2014 para os interessados. Professora Amanda Moreira NOME (OPCIONAL): IDADE: TEMPO DE SERVIÇO NA PROFISSÃO: CURSO DE LICENCIATURA/ÁREA DISCIPLINAR: INSTITUIÇÃO DE FORMAÇÃO: PÓS-GRADUAÇÃO ( ) Sim ( ) Não CARGA HORÁRIA DE TRABALHO SEMANAL: BAIRRO/MUNICÍPIO ONDE RESIDE: ESCOLA/BAIRRO ONDE ATUA COM O PROJETO AUTONOMIA: Minha pesquisa será qualitativa, logo os dados serão obtidos através de depoimentos concedidos gentilmente por professores e professoras da rede. A entrevista não será longa, levará de 20 a 30 minutos. Se puder concedê-la, irei à sua escola em seu horário de trabalho. Se tiver interesse em participar, deixe aqui seu contato. TELEFONE: E-MAIL: Obrigada! 159 2. Modelo de questionário enviado por email a todos os professores: Prezado (a) Professor (a), esta é a segunda parte da pesquisa que venho desenvolvendo, da qual você já contribuiu com os dados fornecidos em um questionário distribuído no curso de formação do Projeto Autonomia em fevereiro deste ano. Neste momento busco compreender os usos do tempo pelos professores e conto com a sua participação. Para isso apresento as questões que seguem. Desde já agradeço, mais uma vez, a sua colaboração. Amanda Moreira Professora da Rede Estadual e Municipal do Rio de Janeiro Mestranda UFRJ Identificação Nome (opcional): Idade: Sexo: [ ] F []M Nível / Modalidade de Ensino em que atua: Disciplina que ensina: Formação Profissional: [ ] Normal [ ] Pedagogia [ ] Superior [ ] Pós-graduação Instituição de formação: Tempo de serviço na profissão: Possui outro vínculo empregatício? [ ]Sim [ ]Não Qual? Bairro que reside: Carga horária de trabalho semanal: Esta parte do questionário tem por objetivo analisar a rotina de trabalho de um professor nos dias de hoje, para isso peço que elenque as escolas em que você atua: Escolas em que atua Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra_____________ Nível: Modalidade de Ensino: Localização: 160 Nesta última parte do questionário tenho por objetivo entender os espaços e tempos na docência, analisando os deslocamentos geográficos e o tempo dos professores ao longo de sua trajetória profissional. Assim, buscarei a possibilidade de fazer um roteiro - geográfico e cronológico - das escolas em que você já trabalhou. Escolas que atuou nos primeiros cinco anos de trabalho (início de carreira) Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ] Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? É possível fazer um resumo da sua rotina de trabalho nesse período? Cite a distância aproximada entre a sua residência e as escolas que você atuava neste período e o tipo de locomoção (a pé, carro, ônibus, trem, metrô, outros). 161 Resumo da sua rotina de trabalho nos primeiro cinco anos: Em meados de sua carreira (entre cinco e quinze anos de magistério) você atuava em quantas escolas? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? 162 É possível fazer um resumo da sua rotina de trabalho nesse período? Cite a distância aproximada entre a sua residência e as escolas que você atuava neste período e o tipo de locomoção (a pé, carro, ônibus, trem, metrô, outros). Resumo da sua rotina de trabalho entre 10 e 15 anos: No final de carreira (do vigésimo ano de trabalho em diante) você tem atuado em quantas escolas? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? Nome: Tipo: [ ]Estadual [ ]Municipal [ ]Particular [ ]Confessional [ ] Outra Nível: Modalidade de Ensino: 163 Localização: Período em que lá atuou: Permanece nesta escola? Sim [ ] Não [ ] Por que saiu da escola? É possível fazer um resumo da sua rotina de trabalho nesse período? Cite a distância aproximada entre a sua residência e as escolas que você atua e o tipo de locomoção (a pé, carro, ônibus, trem, metrô, outros). Resumo da sua rotina de trabalho nos últimos anos: A partir desta etapa de pesquisa, iremos partir para a contribuição com relatos orais de professores e professoras do Projeto Autonomia da metropolitana IV. Se você tiver disponibilidade, irei até a escola onde trabalha para entrevistá-lo (a). Você quer contribuir com a terceira e última etapa da pesquisa? [ ]SIM [ ]NÃO 164 3. Primeiro roteiro de entrevista semi-estruturada Para você quais as principais características de uma boa escola e de um bom professor? Quais as razões te levaram a ingressar no magistério? Como você se tornou professor? Essas razões ainda continuam as mesmas? Quais as dificuldades que você enfrenta no exercício da sua profissão? Durante sua atuação na rede estadual você destacaria alguma mudança positiva ou negativa? Como você aderiu ao Programa Autonomia? O que te levou a participar? Quais os pontos positivos e negativos no Programa? O Programa tem dificultado ou facilitado o seu trabalho? Como que é a preparação para atuar no Programa? O Programa tem contribuído para a aprendizagem dos alunos? O Programa é adequado ao aluno? Quais as diferenças que você destaca na sua prática docente como professor da sua disciplina e hoje no Programa Autonomia? Você considera ter autonomia pedagógica? Você esta satisfeito com o seu trabalho? Se você pudesse citar algumas medidas básicas que melhorassem as suas condições de trabalho, quais seriam? 4. Segundo roteiro de entrevista semi-estruturada Professor (a), fale um pouco de sua trajetória no magistério, dos primeiros anos até a atualidade. Tente recordar as escolas em que atuou, como fazia o trajeto entre elas e como era sua atuação profissional. Se você pudesse fazer um resumo da sua rotina no ensino regular e no Projeto Autonomia, o que destacaria? Como você utiliza o seu tempo de trabalho e de lazer? 165 APÊNDICE B: LISTA DE TABELAS TABELA Nº 1: Cálculo da duração da jornada de trabalho dos professores da rede estadual do Rio de Janeiro de acordo com cada função, segundo a lei 11.738/2008 Função / duração total da jornada Docente 40 horas Docente 30 horas Docente 24 horas Docente 16 horas Interação com estudantes 26,66 (*) 20,00 16,00 10,66 Atividades extraclasse 13,33 10,00 8,00 5,33 (*) Observe-se que são 26,66 unidades, de acordo com a duração definida pelo sistema ou rede de ensino (60 minutos, 50 minutos, 45 minutos ou qualquer outra que o sistema ou rede tenha decidido). Esta tabela foi elaborada, efetuando-se o cálculo matemático das jornadas de trabalho das funções docentes existentes na SEEDUC, dentro da lei 11.738/2008. A lei ainda não é cumprida pelo governo estadual. TABELA Nº 2 - Número de escolas por regional: Regionais Baixadas Litorâneas Centro Sul DIESP Médio Paraíba Metropolitana I Metropolitana II Metropolitana III Metropolitana IV Metropolitana V Metropolitana VI Metropolitana VII Noroeste Fluminense Norte Fluminense Serrana I Serrana II Total geral Número de escolas por regional 103 102 19 97 105 93 143 127 85 121 111 67 107 75 92 1447 % de escolas por regional 7% 7% 1% 7% 7% 6% 10% 9% 6% 8% 8% 5% 7% 5% 6% 100% Fonte: Superintendência de Planejamento e gestão/SEEDUC. Disponível em SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE-47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf 166 TABELA Nº 3 - Número de escolas por modalidade de ensino. Regional Baixadas Litorâneas Centro Sul Ensino Fundamental Regular 92 Ensino Médio Regular 81 Projeto autonomia Ensino Médio Técnico 10 Curso Normal EJA (Ensino Fundamental) 28 Ensino Médio Integrado 0 93 82 Outros 50 EJA (Ensino Médio) 47 9 25 0 12 11 46 45 26 23 DIESP 2 1 0 0 0 0 23 18 Médio 82 76 29 0 11 8 31 23 Paraíba Metropolitana 104 84 24 0 4 6 30 21 I Metropolitana 88 53 19 2 2 5 36 28 II Metropolitana 14 100 29 0 5 3 45 16 III Metropolitana 21 96 25 2 6 1 38 29 IV Metropolitana 82 68 5 0 2 5 19 14 V Metropolitana 23 81 21 3 8 2 43 19 VI Metropolitana 105 89 37 0 11 4 24 27 VII Noroeste 59 59 22 0 20 11 26 32 Fluminense Norte 96 80 22 0 6 12 51 53 Fluminense Serrana I 65 62 16 2 6 8 31 27 Serrana II 80 65 23 1 9 12 33 27 Total geral 1006 1077 331 10 112 97 526 426 Participação 26% 28% 9% 0,3% 3% 3% 14% 11% geral da modalidade Fonte: Superintendência de Planejamento e Integração de Redes/SEEDUC. Grifo nosso. . Disponível em SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf. 0 25 18 13 3 6 7 6 15 25 20 6 19 212 6% TABELA Nº 4 – Número de alunos e escolas por regional: Regional Baixadas Litorâneas Centro Sul DIESP Médio Paraíba Metropolitana I Metropolitana II Metropolitana III Metropolitana IV Metropolitana V Metropolitana VI Metropolitana VII Noroeste Fluminense Norte Fluminense Serrana I Serrana II Total Alunos Número por regional 79.983 63.500 5.454 66.795 100.999 76.622 76.174 97.144 78.941 74.502 110.896 31.685 72.369 70.074 38.367 1.043.555 Escolas % por regional 8% 6% 1% 6% 10% 7% 7% 9% 8% 7% 11% 3% 7% 7% 4% 100% Número por regional 103 102 19 97 105 93 143 127 85 121 111 67 107 75 92 1447 % por regional 7% 7% 1% 7% 7% 6% 10% 9% 6% 8% 8% 5% 7% 5% 6% 100% Fonte: Superintendência de Planejamento e Integração de Redes/SEEDUC. Grifo nosso. . Disponível em SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf 167 TABELA Nº 5 - Número de alunos matriculados nas diversas modalidades de ensino: Regional Baixadas Litorâneas Centro Sul DIESP Médio Paraíba Metropolitana I Metropolitana II Metropolitana III Metropolitana IV Metropolitana V Metropolitana VI Metropolitana VII Noroeste Fluminense Norte Fluminense Serrana I Serrana II Total geral Participação geral da modalidade Ensino Fundamental Regular 30.033 (8%) 25.454 (7%) 353 (0,1%) 24.462 (7%) 52.660 (14%) 40.749 (11%) 2.016 (1%) 10.153 (3%) 38.468 (11%) 5.030 (1%) 53.467 (15%) 13.845 (4%) 28.574 (8%) 20.257 (6%) 18.732 (5%) 364.253 (100%) 35% Ensino Médio Regular Projeto Autonomia 25.986 (6%) 19.211 (5%) 4 (0,0%) 24.249 (6%) 31.418 (8%) 17.758 (4%) 48.439 (12%) 62.889 (15%) 27.950 (7%) 45.811 (11%) 37.321 (9%) 8.552 (2%) 21.440 (5%) 27.117 (7%) 9.744 (2%) 407.889 (100%) 39% 1063 (7%) 936 (6%) 0 (0,0%) 1163 (8%) 1200 (8%) 1026 (7%) 1542 (10%) 1870 (12%) 307 (2%) 1473 (10%) 1600 (11%) 540 (4%) 426 (3%) 1210 (8%) 863 (6%) 15.219 (100%) 1% Ensino Médio Integrado 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 326 (19%) 0 (0,0%) 710 (41%) 0 (0,0%) 489 (28%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 158 (9%) 38 (2%) 1.721 (100%) 0,2% Ensino Médio Técnico Curso Normal 1.026 (10%) 928 (9%) 0 (0,0%) 1140 (11%) 545 (5%) 247 (2%) 348 (3%) 1381 (13%) 133 (1%) 944 (9%) 1829 (17%) 696 (7%) 435 (4%) 607 (6%) 349 (3%) 10.068 (100%) 1% 2455 (8%) 2187 (7%) 0 (0,0%) 1937 (6%) 3294 (11%) 1856 (6%) 3069 (10%) 2323 (7%) 1898 (6%) 1314 (4%) 2932 (9%) 1308 (4%) 2254 (7%) 2866 (9%) 1314 (4%) 31.007 (100%) 3% EJA Ensino Fundamental 9346 (9%) 7786 (7%) 4619 (4,4%) 6749 (6%) 5064 (5%) 6772 (6%) 13152 (12%) 5594 (5%) 5135 (5%) 10539 (10%) 5601 (5%) 3424 (3%) 9113 (9%) 8661 (8%) 3982 (4%) 105.537 (100%) 10% EJA Ensino Médio Outros Total 9950 (9%) 6899 (7%) 478 (0,5%) 6998 (7%) 6614 (6%) 7688 (7%) 7608 (7%) 12224 (12%) 4972 (5%) 8842 (8%) 8125 (8%) 2944 (3%) 9458 (9%) 9190 (9%) 3262 (3%) 105.252 (100%) 10% 124 (6%) 149 (7%) 0 (0,0%) 97 (5%) 204 (10%) 200 (10%) 0 (0,0%) 0 (0,0%) 78 (4%) 60 (3%) 21 (1%) 376 (18%) 669 (32%) 8 (0,0%) 83 (4%) 2069 (100%) 0,2% 79.983 63.550 5.454 66.795 100.999 76.622 76.174 97.144 78.941 74.502 110.896 31.685 72.369 70.074 38.367 1.043.55 5 100% Fonte: Superintendência de Planejamento e Integração de Redes/SEEDUC. Grifo nosso. Disponível em SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE-47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf TABELA Nº 6 – Número de docentes da Rede estadual: Cargos DOC I 16 horas 40 horas DOC II 22 horas 40 horas Total geral Outubro de 2011 Ativos % de ativos 54.680 65% 53.258 64% 1.422 90% 20.490 50% 15.677 50% 4.813 50% 75.170 60% Fonte: Superintendência de Gestão de Pessoas/SEEDUC. Extraída da tabela nº15 de SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. . Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf 168 TABELA Nº 7 – Motivos de afastamento dos docentes da Rede Estadual: Afastamentos 2011 Total 7204 2521 3133 1139 411 Número de Docentes afastados Tratamento de saúde Tratamento de saúde – prorrogação Maternidade Outros % 100% 35,0% 43,5% 15,8% 5,7% Fonte: Superintendência de gestão de pessoas, extraída da tabela 18 do relatório SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE-47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf TABELA Nº 8 – Escolaridade dos docentes da Rede Estadual: Escolaridade Ensino Médio Superior Especialização Mestrado Doutorado Não declarado Total 1035 40.922 6733 1244 155 1710 % 2,0% 78,9% 13% 2,4% 0,3% 3,3% Fonte: Superintendência da tecnologia da informação, extraído do gráfico 13 do relatório SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf TABELA Nº 9 - Remuneração dos docentes da Rede Estadual com os salários aplicados em 2011 e 2012: Cargo Referência Professor DOC I 16 horas 3 4 5 6 7 8 9 3 4 5 6 7 8 9 3 4 5 6 7 8 9 3 4 5 6 7 8 9 Professor DOC II 22 horas Professor EX-FAEP DOC II 40h Professor EX-FAEP DOC I 40h Set/2011 Maio/2012 Vencimento base em reais 877,91 1001,82 983,26 1122,03 1001,25 1256,67 1233,40 1407,16 1381,41 1576,38 1547,18 1765,54 1732,84 1977,40 877,91 1001,82 938,26 1122,03 1.101,25 1256,67 1.233,40 1407,16 1381,41 1576,32 1547,18 1765,54 1732,84 1977,40 1755,82 2003,63 1966,51 2244,06 2202,50 2513,35 2466,80 2814,96 2762,81 3152,75 3094,35 3531,08 3465,67 3954,80 2194,77 2504,53 2458,14 2805,09 2753,12 3141,69 3083,50 3518,70 3453,52 3940,93 3867,94 4413,85 4332,09 4943,52 Fonte: Lei nº 6026/2011 e Lei 1.423/2012. Tabela composta a partir dos dados extraídos de SEEDUC: lei de Responsabilidade Educacional, disponível online em http://download.rj.gov.br/documentos/10112/714869/DLFE54518.pdf/LEIDERESPONSABILIDADEEDUCACIONAL.pdf 169 TABELA Nº 10 - Carência de professores em novembro de 2011: Disciplinas Carência em número de professores Número de professores que recebem GLP 201 114 255 Número de professores habilitados para a disciplina 7793 4720 6560 Número de professores regentes habilitados para a disciplina (???) 2560 3130 3928 Artes Biologia Ciências Físicas e biológicas Educação Física Filosofia Física Geografia História Língua estrangeira Língua Portuguesa/ Literatura Matemática Química Sociologia Atividades integradas (anos iniciais) Formação profissional e curso normal Total 186 28 82 65 226 100 123 73 186 54 111 395 533 581 264 222 321 5213 3225 4855 6104 6747 18329 16058 4100 2065 3006 4527 4829 5255 9485 98 84 176 31 659 347 371 66 12070 3675 3362 25837 9714 2636 2283 2050 95 236 76348 2269 1608 4675 200896 61810 Fonte: Superintendência de Tecnologia da Informação/SEEDUC. Reproduzida na íntegra. Disponível em SEEDUC em números: transparência em educação, 2011. Disponível online: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/912504/DLFE-47638.pdf/LIVRODEGOVERNANCA2.pdf TABELA Nº 11: Identificação dos professores do Programa Autonomia (Regional IV) Nome Idade - 63 Tempo de serviço na docência 40 Área disciplinar - 58 38 Núbia Andrade Aline M. Rodrigues André F. de Oliveira Líllian Greice - 30 57 30 52 27 47 26 Anna Cláudia de Castro - 46 26 Ciências Biológicas 46 25 Educação Física Marilene 52 25 Geografia Sandra Gomes 46 25 Língua Portuguesa Gisela Cruz 49 25 Alcenira Vitoriana 48 23 Lingua Portuguesa/ Literatura Português/ Literatura Instituição de Formação Pósgraduação Matemática FEUC Sim Carga horária de trabalho semanal 20h Português – literatura Língua Portuguesa Portuguêsliteratura Geografia e História Língua Portuguesa UFF Sim 20h UFRJ Sim Estácio de Sá FEUC Bairro onde mora Escola/ bairro que trabalha com o Projeto Autonomia 32h Santa Cruz Campo Grande Bangu CIEP 392 Mário de Andrade /Santa Cruz CE Barão do Rio Branco/ Santa Cruz - / Bangu Não 24h Cosmos Sim 40h Faculdade de Filosofia de Campo Grande UFRRJ/ UNIG Não 10h Campo Grande Bangu CE Jornalista Artur da Távola / Cosmos CE Rainha Vitória / Campo Grande CE Marechal Alcides Etchgoyen/ Bangu Sim 56h Campo Grande CE Liberdade/ Santa Cruz Universidad e Castelo Branco UEPB Sim 40h Marechal Hermes CE Guadalupe/ Guadalupe Sim 40h CE Leopoldina da Silveira/ Bangu Faculdades Integradas Simonsem FEUC Sim 40h Campo Grande/B angu Realengo Sim 36h Inhoaíba CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos FEUC Sim 20h Inhoaíba CE Rosária Trotta/ Campo Grande CIEP 382 Brizolão Aspirante Francisco Mega/ Vila Militar 170 Rodrigues Lourdes Lira C. D. Coelho Carla Andréa Bastos 47 22 Português/ Inglês Faculdades Integradas Simonsem Faculdade de Filosofia de Campo Grande Sim 60h Realengo - / Realengo 40 22 Luciana C. V. Dutra Isabel Cristina 37 21 52 20 Ciências com habilitação em matemática Português/ Inglês Português/Li teratura Sim 36h Campo Grande CIEP 433 Togo Renan Soares Kanela/ Santa Margarida FEUC Não 38h CE Jorge Zarur/ Vila Kennedy Universidad e Castelo Branco UERJ/ Castelo Branco UFRRJ Sim 20h Jacarepag uá Campo Grande Maria Clara 50 20 Letras Não 60h Senador Camará CE Stuart Edgard Angel Jones/ Senador Camará Sandra 37 18 Matemática Sim 32h - Universidad e Castelo Branco Faculdade de Filosofia de Campo Grande UFRJ Sim 36h Guaratiba CIEP 225 Mário Quintana / Campo Grande CIEP 362- Roberto Burle Marx/ Guaratiba Raquel F. de Queiroz 35 18 Ciências Biológicas Juciara de Abreu 45 18 Língua Portuguesa Sim 50h Campo Grande CAIC Nações Unidas/ Inhoaíba Célia Zarot 49 16 Tadeu de Freitas 53 16 15 Lingua Portuguesa/ Literatura Letras Lingua portuguesa Não 56h Tijuca CE Prof. Manuel Maurício de Albuquerque/ Anchieta UERJ Universidad e Gama Filho UFRRJ Não Não 24h 24h Realengo Santa Cruz CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos Edna Pêzego Katia Papera 42 15 Sim 40h Universidad e Castelo Branco FEUC Sim 24h Santa Cruz Santíssim o CE Barão do Rio Branco/ Santa Cruz CIEP 223- Olympio Marques dos Santos/ Campo Grande 50 15 Luciana Consoli 40 14 Sim 20h Campo Grande CE Profº Vilma Atanázio/ Campo Grande Juliana S. Lemgrube - 35 12 UFRRJ Não 40h CE Agostinho Neto / Realengo UERJ Sim 40h Português/ Língua estrangeira Português/ Literatura Matemática UFRJ Não 48h Vila Valqueire Campo Grande Praça da Bandeira 39 11 - 37 10 Willian 36 10 Gama Filho Não 75h Bangu FEUC Sim 40h 10 PortuguêsInglês Sim 60h 38 10 Química Sim 48h Campo Grande CE Profº Ozéas Gomes Laranjeira/ Santa Cruz Maria Luíza F. Kassab Elton Cunha 43 10 Sim 50h 29 10 Sim 48h - 30 9 35h 34 9 Moacir Bastos FEUC Sim - PortuguêsLiteratura Educação Física PortuguêsInglês Matemática Universidad e Castelo Branco UFRRJ/ Souza Marques UERJ/ FEUC UFRRJ Campo Grande Vila Valqueire CE Madre Tereza de Calcutá/ Realengo CIEP 165 Brigadeiro Sérgio Carvalho/ Campo Grande CIEP 312 Raul Ryff/ Paciência Leila 48 10 Luciane Paixão 32 Valéria Ribeiro Sim 20h Campo Grande Campo Grande Campo Grande - Eliane 49 9 FEUC - 24h João Paulo 32 8 Unisuam Sim 24h Simone 38 8 Ciências/ Matemática Educação Física Letras UNESA Não 20h CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos CE Profº Alba Cañizares/ Inhoaíba CE Profº Diuma Madeira / Parque Anchieta CIEP 362 Roberto Burle Marx/ Guaratiba CE Escultor Heitor Leão Velloso/ Pavuna CE João Proença/ Campo Grande Renata P. Almeida 34 8 Biologia Sim 30h Keli 32 8 Matemática Não 24h Bangu Christian 35 33 7 7 Português Matemática Universidad e Castelo Branco Moacyr Bastos UFF Moacyr Não Sim 32h 50h - Ciências Biológicas Educação Física Lingua Portuguesa/ Inglês Educação Física História Campo Grande Madureira Campo Grande Santíssim o CE Irineu José Ferreira/ Campo Grande CE Jeannatte C. Mannarino CIEP 312 Raul Ryff / Paciência CE Barão do Rio Branco/ Santa Cruz CE Marieta Cunha da Silva/ Bangu CE Collecchio/ Bangu CE Cora Coralina/ Campo 171 Simon Rafael Moraes Marcio Fernandes Luciano Marcio de Paula Ricardo 32 7 40 7 Educação Física Geografia 43 6 Geografia 40 6 Goegrafia Isabela T. Arruda Tonia F. Godoi Maria de Fátima Paulo F. Marinho Marcelo Mendes Leonardo Tinoco Alessandra Germano 29 6 26 6 Educação Física Matemática 59 5 26 Bastos UFRRJ Grande CE Amazonas/ Campo Grande Sim 72h Moacyr Bastos Simonsen Sim. 40h Campo Grande Guaratiba Sim 40h Bangu CIEP 362 Roberto Burle Marx/ Guaratiba CE Milton Campos/ Bangu Moacyr Bastos UFRRJ Não 36h Paciência CE Daltro Santos/ Bangu Sim 40h Sim 36 Matemática Moacyr Bastos FEUC Não 36h CE Coelho Neto/ Ricardo de Albuquerque CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos CE Venezuela/ Campo Grande 5 História UERJ Sim 60h 26 5 UFRRJ Sim 32h 27 5 UFRRJ Não 40h 40 5 Educação Física Educação Física Educação Física Sim 24h Gelvanete V. da Rocha Lucilea 33 5 Universidad e Castelo Branco Unisuam Campo Grande Campo Grande Campo Grande Santa Cruz Campo Grande Campo Grande Jabour Sim 24h Bangu 50 5 Sim 20h Mára Regina M. de Souza - 54 5 Moacyr Bastos FEUC Sim - Campo Grande Campo Grande CE Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochón/ Bangu CE Jornalista Artur da Távola/ Cosmos CE Raja Gabaglia/ Campo Grande 39 4 Não 40h Thaís de Mello 25 4 Sim 32h Pedra de Guaratiba - CIEP 305 Heitor dos Prazeres/ Pedra de Guaratiba CE Nações Unidas/ Bangu Angela Leite Lopes Jéssica Costa de Andrade - 30 4 Sim 24h 23 2 Estácio de Sá Universidad e Castelo Branco Estácio de Sá Gama Filho Sim 20h Campo Grande Campo Grande CE Engenheiro João Tomé/ Padre Miguel CE Profº Felipe dos Santos Reis/ Campo Grande 38 2 PortuguêsEspanhol Lingua Portuguesa PortuguêsInglês Ciências biológicas PortuguêsInglês Portuguêsliteratura Ciências biológicas CE Vânia do Amaral/ Santa Cruz CE Vinicius de Moraes/ Pavuna CE Profº Daltro Santos/ Bangu CE Stuart Edgard Angel Jones/ Senador Camará PortuguêsFEUC 20h Cosmos CE Jornalista Artur da Távola/ espanhol Cosmos * Os dados desta tabela foram compostos pelos dados dos professores do Programa Autonomia da metropolitana IV presentes no curso de formação, excetuando os faltosos. Os dados contidos foram reproduzidos na íntegra, exatamente como foram escritos pelos professores e os espaços em branco significam que os professores e professoras não responderam determinado trecho do questionário. TABELA Nº 12: Painel dos professores entrevistados com os respectivos nomes fictícios: Professores entrevistados Idade Tempo de magistério Graduação Instituição Carga horária de trabalho semanal declarada* Antônio 30 anos 5 anos Educação Física32 horas ((uma matrícula UFRRJ no estado - Autonomia e uma no município) Christiane 32 anos 5 anos Letras – Universidade 60 horas (uma matrícula Castelo Branco no estado – Autonomia e aulas particulares) Fábio 29 anos 12 anos Educação Física – 40 horas (duas UFRRJ matrículas no estado, ambas no Autonomia) Bruno 53 anos 15 anos Letras – Universidade 24 horas (uma matrícula Gama Filho (UGF) no estado - Autonomia) Nilda 51 anos 24 anos Geografia - SIMONSEN 40 horas (duas matrículas no estado, ambas no Autonomia) Janete 50 anos 26 anos Letras – Fundação 36 horas (duas Educacional Unificada matrículas no estado, Campograndense sendo uma no (FEUC) Autonomia e uma no ensino regular) *Em relação à carga horária de trabalho semanal a tendência dos professores é desconsiderar o tempo de planejamento, só contabilizando como carga horária de trabalho aquele tempo gasto em sala de aula em interação com os alunos. 172