O DISCURSO RELATADO E SEUS EFEITOS DE SENTIDO NA COBERTURA JORNALÍSTICA
DE UM ACONTECIMENTO POLÍTICO
Marcelo Eduardo da Silva
(PG-UEMS) – [email protected]
Aline Saddi Chaves
(PG-UEMS) – [email protected]
Resumo
O presente artigo investiga os efeitos de sentido de uma prática linguístico-discursivas recorrente no
jornalismo para noticiar fatos: o discurso relatado. O corpus de estudo compõe-se de textos veiculados nos
sites noticiosos Campo Grande News e Midiamax, quando da cobertura dos embates políticos que
culminaram na cassação do mandato do prefeito Alcides Bernal, em março de 2014, um fato inédito no
município de Campo Grande. As bases teóricas e metodológicas que fundamentam este estudo inscrevem-se
na análise do discurso francesa, em particular a partir dos trabalhos de Authier e Maingueneau sobre a
heterogeneidade discursiva. Os resultados das análises apontam o uso das modalidades direta e indireta do
discurso relatado, na transmissão de outros dizeres que não os do jornalista, como estratégias para criar
efeitos de sentido de imparcialidade, acarretando a não responsabilização enunciativa.
Palavras-chave: análise do discurso francesa; discurso relatado; jornalismo.
Introdução
O fazer jornalístico demanda alguns procedimentos para a transmissão de informações ao público
leitor. Dentre os procedimentos linguísticos empregados pelos profissionais da área, está o discurso relatado,
particularmente os discursos direto e indireto. Em consonância com as normas editoriais internas dos
veículos de comunicação, o jornalista procede dessa maneira para buscar um efeito de neutralidade em seu
dizer, trazendo dizeres de outros (outras vozes) para referendar seu próprio discurso.
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Entendendo, em um primeiro momento, que o discurso1 é uma organização situada além da frase
(MAINGUENEAU, 2013), ele está submetido a determinadas regras. Essas regras estão ligadas a condições
de produção, que podem ser compreendidas em sentido restrito – em que temos as circunstâncias imediatas
do momento da enunciação – e em sentido amplo – em que há um contexto sócio-histórico e ideológico
presente (ORLANDI, 2007).
Portanto, essas finalidades estão relacionadas à formação discursiva do Jornalismo, ou seja, aos
fundamentos que determinam “o que pode e deve ser dito” (PÊCHEUX; FUCHS, 1990, p. 167) pelo
jornalista.
Tais regras também estão alinhadas à finalidade pragmática a que se destina o texto. Assim, além do
discurso relatado, também integram as práticas discursivas do Jornalismo a seleção dos gêneros discursivos
que irão se materializar em textos. Existem duas famílias de gêneros discursivos no interior do jornalismo:
os gêneros informativos e os gêneros opinativos. Existem, portanto, essencialmente, duas finalidades: por
um lado, informar; por outro, comunicar um ponto de vista claro, geralmente, perante um assunto polêmico.
Na primeira família, dos gêneros da informação, o jornalista (ou veículo de comunicação) deve
evitar transmitir opiniões próprias. São gêneros como a notícia, a reportagem, entre outros. Já nos gêneros
opinativos, como o editorial e o artigo de opinião, o jornalista (ou veículo de comunicação) tem liberdade
para emitir seu ponto de vista de forma explícita.
Neste artigo, propomos-nos a analisar os gêneros de ordem informativa, especificamente
materializados em notícias veiculadas nas editorias de Política e/ou Geral de dois sites noticiosos do
município de Campo Grande (MS): o Campo Grande News e o Midiamax.
1
A palavra discurso é polissêmica. Ao nos referirmos a discurso (destacado em itálico), estamos aludindo ao discurso vinculado
aos sujeitos de forma histórica e ideológica. Ao nos referirmos a discurso direto, ou discurso indireto ou simplesmente discurso
(sem destaque em itálico), estamos aludindo àqueles conceitos mais próximos de um saber gramatical, relacionado a mecanismos
linguísticos de transposição de dizeres outros. Nesse sentido, por exemplo, o jornalista emprega discursos diretos e indiretos
(procedimentos linguísticos) para auxiliar na manutenção de seu discurso (marcado histórica e ideologicamente) de tentar ser
isento ao transmitir uma informação por meio de uma notícia.
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Os pressupostos teóricos mobilizados aqui estão relacionados às novas tendências da análise do
discurso francesa2, a partir dos trabalhos de Maingueneau (1997; 2006) sobre o discurso relatado, e aos de
Authier (1998; 2004) sobre a heterogeneidade discursiva.
2. Sobre o corpus
Os textos aqui analisados referem-se à veiculação, nos referidos sites, de um acontecimento
discursivo recente: a cobertura da cassação do prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal (doravante,
Bernal). Por esse motivo, refere-se ao período que compreende alguns meses antes do processo terminado,
em que havia um embate político entre a Câmara de Vereadores e o Executivo. Um embate que culminou no
processo de impeachment do prefeito em março de 2014.
A respeito dos veículos de onde foram extraídos os textos do corpus, tanto Campo Grande News
quanto Midiamax se propõem credíveis e isentos. Esses são seus posicionamentos históricos e ideológicos.
De acordo com o sócio-diretor do Midiamax, o veículo traz “notícia de qualidade e de credibilidade” e
“pratica o jornalismo sério” (MIDIAMAX, 2012). Com relação ao Campo Grande News, uma jornalista que
já atuou no site afirma que ele traz a “essência de informar com qualidade e profissionalismo” (CAMPO
GRANDE NEWS, 2012).
O prefeito cassado, Bernal, é radialista e advogado. Foi eleito vereador de Campo Grande em 2004,
sua primeira eleição. Depois, foi reeleito e também se tornou deputado estadual (pelo PP). Em 2012, venceu
a disputa de segundo turno contra Edson Giroto (PMDB) para a Prefeitura de Campo Grande. Em março de
2014, torna-se o primeiro prefeito cujo mandato foi cassado em Campo Grande.
Devido ao espaço reduzido de um artigo, optamos por analisar enunciados que demonstram os
dizeres de outros na forma de discurso relatado, e que apresentam efeitos de sentido de neutralidade.
2
Resumidamente, essa expressão é trazida por Maingueneau (1997) para designar uma análise do discurso que implementa teorias
enunciativas às teorias dos primeiros franceses a estudar o discurso para além da língua em seu sentido estrutural (ou seja, para
além de num sistema fechado em si mesmo), como Michel Foucault e Michel Pêcheux, por exemplo. É também, por isso,
chamada por ele de análise do discurso francesa da segunda geração.
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A seguir, reunimos explicações sobre nosso referencial teórico e metodológico, ao mesmo tempo
em que procedemos às análises.
3. Referencial teórico e procedimentos de análise
De acordo com o Manual de Redação e Estilo d’O Estado de S. Paulo, obra considerada um guia
em diversas redações jornalísticas em todo o país – inclusive no webjornalismo –, o jornalista deve manterse imparcial e objetivo: “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o
leitor tire deles as próprias conclusões.” (MARTINS, 1997, p. 17).
Em razão disso, uma das formas mais usuais de manter-se num efeito de isenção é dar voz a todos
os envolvidos. E isso se faz, por exemplo, por meio do procedimento de reportar discursos (ditos) de outros.
Maingueneau (2013, p. 59) explica que o discurso se “constrói, com efeito, em função de uma
finalidade”. E mais, o discurso é uma forma de demonstrar ação, é contextualizado e é assumido por um
sujeito (MAINGUENEAU, 2013). Desse modo, é possível depreender que o jornalista (ou o veículo de
comunicação), ao assinar o texto, assume-se como locutor/enunciador daquele dito, mas, ao mesmo tempo,
em determinadas situações, reparte ou delega a autoria daquilo que diz a outro, por meio do discurso
relatado. Essa é, de certa forma, uma manobra que visa a uma finalidade de neutralidade (vinculada à seu
discurso histórico e ideológico, mais amplo que o discurso, que o dito enunciativo), que permite ao
enunciador não assumir a responsabilização por seus dizeres3.
Com relação à ação, o estudioso francês refere-se à teoria dos atos de fala, em que a enunciação
constitui-se num ato de prometer, de ordenar, de revelar, de sugerir, por exemplo. Quanto à afirmação de que
o discurso é contextualizado, esta deve ser compreendida como a relação entre o dizer e a anterioridade do
dito: “[...] o ‘mesmo’ enunciado em dois lugares distintos corresponde a dois discursos distintos”
(MAINGUENEAU, 2013, p. 61).
Nesse caso, não importa a “intenção” buscada pelo jornalista (ou veículo) que formulou o texto – eximir-se de uma opinião que
não poderia aceitar; ou mostrar outra com a qual intimamente compactua, mas sua posição de jornalista não lhe permite tal
posicionamento de forma explícita – mas, sim, os efeitos de sentido que tal procedimento provoca: uma não responsabilização por
parte desse jornalista (ou veículo).
3
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O discurso, por outro lado, só se faz discurso a partir do momento em que um sujeito se posiciona
como um “eu” propondo-se como fonte de sua fala4. Mas, no Jornalismo, esses conceitos ficam, de certa
maneira, um tanto embaralhados. O jornalista praticaria a ação de somente repassar a notícia? Ou o simples
fato de selecionar o que seria notícia já remonta a outra ação, outra intencionalidade? O jornalista extrai falas
de outras pessoas e as coloca no texto na ordem em que ele (jornalista) determina, e não necessariamente
quando do momento da fala original. Como fica a questão do contexto (situacional, nesse caso), então? O
jornalista escreve e assina seu texto, mas, a partir do momento em que expõe outras vozes (apontando outras
fontes), como fica sua responsabilidade sobre o que escreve? E como fica a responsabilidade daquelas outras
vozes?
A essas perguntas é que pretendemos responder a partir das análises a seguir.
O primeiro trecho a ser observado é parte da notícia intitulada Campo Grande estava “judiada” e
agora vive a “alegria”, diz Mario Cesar, veiculada pelo Campo Grande News em 5 de abril de 2014. O
referido texto apresenta falas do presidente da Câmara de Vereadores proferidas em meio a uma cerimônia
da Prefeitura (já sob o comando de Gilmar Olarte, até então vice de Bernal), chamada Ação Comunitária.
O trecho é o seguinte:
Na gestão passada, de Bernal, segundo o presidente da Câmara, a cidade morena sofreu muito.
“A morena estava judiada e já estava indo pedir aplicação da Lei Maria da Penha”, afirmou ele,
entendendo que o prefeito cassado agredia a cidade com a paralisação de obras e do
desenvolvimento. (CAMPO GRANDE NEWS, 2014)
A “morena” a que o texto alude é um dos cognomes de Campo Grande. Mario Cesar “brinca” com
essa referência fazendo analogia com a Lei Maria da Penha, e impondo, desse modo, um sentido de que a
cidade (humanizada) era vítima de violência na administração anterior, de Bernal.
Como a comparação pode ser considerada exagerada, o jornalista a coloca entre aspas num discurso
direto, numa tentativa de transmitir ao leitor ipsis litteris o discurso que teria ouvido do outro (de Mario
Cesar, no caso). Dessa forma, pretende causar um efeito de sentido de neutralidade.
4
Aparece, aqui, uma aproximação possível entre a teoria do discurso e questões enunciativas.
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Trata-se de um ‘discurso segundo’, assim explicado por Authier (1998, p. 135-136): [“...] é uma
afirmação [...] modalizada porém por remeter a um outro discurso, ou seja, caracteriza-se ela mesma como
‘segunda’, dependente desse outro discurso.” Por conseguinte, qualquer afirmação que o jornalista queira
fazer nesse caso está dependente de outro discurso. É uma responsabilização pelo dito que está sendo
transmitida ao parlamentar pelo jornalista.
Conforme Authier (1998, 2004), essa coexistência, num mesmo texto (no fio do discurso), de duas
vozes explicitadas pelo locutor/enunciador, é um exemplo de heterogeneidade mostrada marcada, pois
existe mais de um discurso (o do jornalista apresentando, “abrindo” e “fechando”, o do vereador). Essa
heterogeneidade marca enunciados proferidos por outros sujeitos, que não o jornalista. E ela é marcada
justamente pelo discurso relatado e mostrada por meio de aspas, que evidenciam esses outros dizeres
visualmente dentro de um texto escrito, por exemplo.
Maingueneau (1997) alerta para o fato de que, ao observarmos os enunciados destacados por meio
de discursos relatados, devemos prestar atenção aos verbos que introduzem as citações. No referido trecho, o
jornalista diz que o vereador “afirmou” e que este estava “entendendo que o prefeito cassado agredia a
cidade com a paralisação de obras e do desenvolvimento” (CAMPO GRANDE NEWS, 2014).
Existem gradações de isenção nos verbos introdutórios de citações 5: “De fato, em função do verbo
escolhido (sugerir, afirmar, pretender...), toda a interpretação da citação será afetada. [...] excetuando-se
dizer, aparentemente neutro [...]” (MAINGUENEAU, 1997, p. 88, grifos do autor). Como afirmar pode ser
encarado no trecho citado (conjugado na notícia no tempo do modo Indicativo) com o sentido de atestar a
veracidade de que o enunciado proferido pelo vereador foi dito dessa maneira e não de outra, é possível,
então, correlacionar esse verbo a outras formas de introduções de citação (como “julgar” e “estar seguro”),
incluídas, segundo Maingueneau, nos critérios que apontam para quando “o locutor mostra-se seguro quanto
à opinião expressa” (MAINGUENEAU, 1997, p. 88).
Entretanto, para continuar seu texto e buscar contextualizar o assunto e o dito, além de transcrever a
citação, o jornalista precisa repassar mais informações. Assim, ele explica que a fala teria sido emitida para
referir-se à “paralisação de obras e do desenvolvimento” (CAMPO GRANDE NEWS, 2014). Mas, isso não
5
Gradações essas que Maingueneau (1997, p. 88) relata serem baseadas numa classificação proposta por Ducrot.
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é o vereador que diz, e, sim o jornalista. O jornalista é quem diz que o vereador disse isso, por meio do
discurso indireto.
Esse discurso indireto possui também um verbo de introdução, empregado no gerúndio:
“entendendo”. Ao escolher esse verbo, o jornalista mantém-se num efeito de neutralidade, na medida em que
o verbo entender é vago: pode demonstrar tanto uma percepção pela inteligência, quanto pela experiência ou
intuição, ou mesmo impor juízo.
Vejamos algumas definições de uso do verbo “entender” segundo o dicionário:
1. Perceber, usando inteligência, memória, intuição etc., captar o significado de (texto, o que foi dito,
situação, problema, processo etc.) [td. : Nada foi dito, mas só de olhar as fisionomias ela entendeu que
tudo fora resolvido.: Não sabia inglês, e não entendeu o que o turista lhe perguntara.]
2. Ter conhecimento, experiência, sapiência em relação a; CONHECER; SABER [td. : Você entende
código Morse?] [tr. + de : Pode confiar nele, ele entende de eletrônica.]
3. Perceber (intenção, situação, motivo), intuir, inferir, deduzir [td. : Pelo rumo da conversa
entenderam que era hora de se despedir e ir embora.: Examinando a lista dos aprovados, pôde
entender o critério da classificação.]
4. Crer, pensar, achar, ter como verdade, como certo [td. : Entendo que é necessário prorrogar os
prazos deste projeto.] [...] (AULETE, 2008).
E mais, por estar no gerúndio, o verbo pode demonstrar uma situação momentânea, ou seja, mais
indefinida ainda.
Note-se que o contexto situacional real, relativo ao momento da enunciação dos dizeres pelo
vereador, é abalado, pois não está dito diretamente pelo discurso direto, mas incorporado à fala do jornalista,
no discurso indireto. O que poderia remeter ao “entendimento” não do vereador, mas do jornalista. É nesse
sentido que afirmamos que há um efeito de neutralidade, mas que não se sustenta sob uma análise mais
rigorosa.
O segundo texto a ser analisado é o trecho da notícia intitulada Prefeito visita pontos críticos de
Campo Grande e destaca urgência em obras paradas. Veiculado pelo Midiamax em 16 de março de 2014, o
texto diz respeito à primeira atuação de Olarte como prefeito de Campo Grande, mas também alude ao ex,
Bernal. Olarte visitava obras pela cidade. Andava a pé seguido de diversos vereadores. Transcrevemos o
trecho a seguir:
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O ponto de encontro foi a Avenida Guaicurus, cujo recapeamento não sai do papel desde o ano
passado. Para o prefeito, se não houver nenhuma incorreção no cadastramento das empresas
vencedoras da licitação, o contrato será analisado e homologado em uma semana.
“Vou verificar o contrato. Não posso falar que há suspeita de irregularidade se nem olhei ainda. Se
estiver tudo certo, vamos homologar e as obras começam em 14 dias. Se não, outra licitação será
feita”, afirmou Olarte. (MIDIAMAX, 2014)
Novamente, aparece o verbo afirmar. Como vimos, segundo Maingueneau (1997) esse verbo pode
envolver um critério de segurança por parte do locutor.
Em uma relação do trecho transcrito com o título da notícia, é possível notar que a “urgência” tem a
ver com o atraso na obra de recapeamento. Vemos então que a compreensão do fato transmitido como uma
situação de “urgência” é introduzida pelo jornalista, e não pelo prefeito, tanto mais porque tal urgência não é
sequer mencionada na fala do prefeito. Na realidade, ela pertence ao discurso do jornalista, pois não há um
termo que corrobore que o prefeito “destaca” a “urgência” (MIDIAMAX, 2014).
Além disso, o verbo destacar demandaria ênfase, quando o próprio prefeito não parece ter pressa,
ter urgência, pois ele diz, na modalidade direta do discurso relatado: “Se estiver tudo certo, vamos
homologar e as obras começam em 14 dias. Se não, outra licitação será feita [...]” (MIDIAMAX, 2014). O
emprego do conectivo “se” orienta o sentido para uma condição: se há ainda brecha para condições, talvez
não fosse tão urgente assim.
Vemos, então, que no texto (superficialidade, aparência) está mantido o efeito de neutralidade,
propiciado pelo emprego do mecanismo linguístico-discursivo do discurso relatado, nas modalidades direta e
indireta. Mas, ao mesmo tempo, uma análise mais profunda revela que os referidos trechos ocasionam
brechas para outras interpretações, o que remonta a outros efeitos de sentido, a outras intencionalidades.
Vale lembrar Maingueneau (2013, p. 59), quando este autor explica que o discurso se “constrói,
com efeito, em função de uma finalidade”.
Considerações finais
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A partir de enunciados oriundos de dois veículos de webjornalismo (Campo Grande News e
Midiamax) de Campo Grande, analisamos o discurso jornalístico tentando mostrar efeitos de sentido
advindos desses textos. O corpus foi constituído de textos noticiosos veiculados nas editorias de Política
e/ou Geral, que são parte do gênero jornalístico informativo – que se pressupõe isento, neutro.
Os textos fazem parte da cobertura feita pelos veículos mencionados durante o período de cassação
de Bernal, confirmada em março de 2014, fato repercutido por toda a imprensa, local e nacional.
Fundamentando-nos nas novas tendências da análise do discurso de linha francesa, pudemos
observar que o efeito de neutralidade do discurso jornalístico existe na forma aparente do texto, mas,
transposta a opacidade desse texto, a neutralidade idealizada pelo Jornalismo torna-se mais fragilizada,
revelando a relação íntima entre o dito e as condições históricas e ideológicas do dizer.
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