Saude19.book Page 7 Monday, August 7, 2006 9:07 AM MARIA JACIRA SILVA SIMÕES, ET AL. ORIGINAL /ORIGINAL Ocorrência de Hipertensão Arterial em Gestantes no Município de Araraquara/SP Arterial Hypertension Occurrence in Pregnant Women in Araraquara/SP RESUMO A hipertensão arterial é a intercorrência clínica mais freqüente na gravidez, afetando a evolução da gestação, elevando os índices de interrupção e de mortalidade perinatal por motivo do inadequado desenvolvimento intra-uterino do concepto. Este estudo foi realizado com o objetivo de conhecer a freqüência da hipertensão arterial na gravidez, em 47 gestantes moradoras do bairro Parque Residencial São Paulo, em Araraquara/SP, no período de janeiro a junho de 2004. Para isso, coletaram-se os dados por meio de prontuários das gestantes, compilados pela Secretaria Municipal de Saúde. Com o estudo, observou-se que a hipertensão arterial constitui a principal complicação na gestação, com incidência de um maior número de recém-nascidos com baixo peso, maior freqüência de parto tipo cesariana e óbito fetal, apesar de não ter sido constatada nenhuma morte materna. Palavras-chave RECÉM-NASCIDO – HIPERTENSÃO – COMPLICAÇÕES NA GRAVIDEZ. MARIA JACIRA SILVA SIMÕES* Professora adjunta do Departamento Ciências Biológicas – Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara (Unesp/SP) MILENA CRISTINA BELON SOARDE Enfermeira-chefe do Serviço Municipal de Saúde de Araraquara/SP * Correspondências: Rod. Araraquara-Jaú, km 1, 14801-902, Araraquara/SP [email protected] ABSTRACT Arterial Hypertension is the most frequent clinical irregularity during pregnancy, affecting gestation evolution, increasing the number of interruption and perinatal mortality because of unsuitable development of the intra-uterine concept. This study was done with the goal of knowing the frequency of Arterial Hypertension in 47 pregnant women that live at Parque Residencial Sao Paulo in Araraquara/SP, from January to June of 2004. For this, information was collected from the promptuaries of these women compiled by the public health service. With this study, it was observed that Arterial Hypertension during pregnancy is the main complication with a great number of newborn babies with low weight, a great number of cesareans and fetal death as well, although no maternal death was verified. Keywords NEWBORN – HYPERTENSION – PREGNANCY COMPLICATIONS. Saúde em Revista OCORRÊNCIA DE HIPERTENSÃO ARTERIAL EM GESTANTES NO MUNICÍPIO DE ARARAQUARA/SP 7 Saude19.book Page 8 Monday, August 7, 2006 9:07 AM MARIA JACIRA SILVA SIMÕES, ET AL. INTRODUÇÃO Por definição, a hipertensão na gravidez é o aumento da pressão arterial durante a gestação, com valores superiores a 140 por 90 milímetros de mercúrio (mmHg), ou também quando a gestante apresenta uma pressão diastólica igual/superior a 110 mmHg em qualquer medida ou 90 mmHg em duas medidas tomadas num intervalo de quatro horas, encontrando-se a mulher sentada em repouso.1, 2, 3 A hipertensão arterial na gravidez é considerada uma gestação de risco. Para o Ministério da Saúde, o conceito de risco associa-se à possibilidade e ao encadeamento entre um fator de risco e um dano nem sempre explicado. A noção de risco gravídico surge para identificar graus de vulnerabilidade nos períodos de gestação, parto, puerpério e vida da criança em seu primeiro ano. Na assistência pré-natal, a gestação de alto risco diz respeito às alterações relacionadas tanto à mãe quanto ao feto.4, 5 Principal complicação na gravidez e maior causa de morbimortalidade, a hipertensão ocorre em torno de 12% a 22% das gestações, sendo responsável por 35% de mortes maternas no Brasil e 17,6%, nos EUA.6 Os fatores de risco para a hipertensão arterial na gravidez são: gestação múltipla, diabetes, histórico familiar com casos entre mãe e irmã ou mesmo em gestação anterior, doença vascular, raça negra e idade maior ou igual a 35 anos.6, 7 Complicação encontrada apenas na espécie humana,6, 7 a hipertensão arterial na gestação constitui também a intercorrência mais freqüentemente observada nesse estado, podendo causar morbimortalidade materna, mortalidade perinatal, prematuridade e baixo peso do recém-nascido. Justifica-se, assim, a importância deste estudo, que pretende conhecer melhor suas causas e conseqüências, tanto para mãe quanto para o neonato, valendo lembrar que não foi encontrado trabalho científico sobre esse tema na cidade de Araraquara/SP. Os objetivos deste estudo foram: determinar a freqüência da hipertensão arterial durante a gravidez, em mulheres atendidas no bairro do Parque Residencial São Paulo, em Araraquara/SP, no período de janeiro a junho de 2004, como também conhecer a distribuição da freqüência das variáveis peso e sexo do RN, paridade, raça, aborto, 8 tabagismo e número de consultas de pré-natal nas gestantes hipertensas. METODOLOGIA Local do Estudo A cidade de Araraquara, também conhecida como “Morada do Sol”, está localizada na região central do Estado de São Paulo. Fundada em 22 de agosto de 1817, possui 16 unidades básicas de saúde, 10 equipes de Programa de Saúde da Família e dois Programas de Agentes Comunitários de Saúde, acoplados em unidades básicas de saúde na periferia da cidade. O estudo foi feito no Centro Municipal de Saúde – Parque Residencial São Paulo (CMSPRSP), situado a leste da cidade, que abrange os seguintes bairros: Parque Residencial São Paulo, Santa Clara, Santa Júlia, Santa Adelaide, Condomínio Satélite e Estrada do Ouro. O CMS-PRSP atende 4.183 famílias, 1.446 delas pertencentes ao bairro do Parque Residencial São Paulo. População e Período do Estudo A população estudada abrangeu 47 gestantes moradoras do bairro Parque Residencial São Paulo, em Araraquara, no período de janeiro a junho de 2004. Levantamento dos Dados O levantamento de dados realizou-se por meio dos prontuários das gestantes atendidas no CMSPRSP, entre janeiro e junho de 2004, compilados pela Secretaria Municipal de Saúde. Foram organizados e analisados de acordo com as informações disponíveis das gestantes e dos recém-nascidos com base na notificação do serviço de saúde. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os dados estão apresentados na forma de tabelas e gráficos, conforme as variáveis em estudo. Pode-se observar, nos gráficos 1 e 2, que a ocorrência de gestantes apresentando hipertensão arterial na gravidez, no bairro Parque Residencial São Paulo e em toda a cidade de Araraquara, revelou-se semelhante: 15% e 14%, respectivamente. Segundo Cordovil e Vasconcellos,6 a hipertensão arterial ocorre em torno de 12% a 22% nas gestações, mostrando, assim, que os resultados aqui encontrados estão de acordo com a literatura. SAÚDE REV., Piracicaba, 8(19): 7-11, 2006 Saude19.book Page 9 Monday, August 7, 2006 9:07 AM MARIA JACIRA SILVA SIMÕES, ET AL. Gráfico 1. Distribuição das gestantes com e sem hipertensão arterial (HA) durante a gravidez, PRSP, Araraquara/ SP, 2004. Gráfico 2. Distribuição das gestantes com e sem hipertensão arterial (HA) durante a gravidez, no período de janeiro a junho de 2004, na cidade de Araraquara/SP. Gráfico 3. Freqüência de nascidos vivos e de óbitos fetais entre as gestantes hipertensas, PRSP, Araraquara/SP, 2004. Segundo dados apresentados no gráfico 3, pode-se observar que 29% das gestantes com hipertensão arterial tiveram comprometimento grave, ou seja, óbito fetal. Como atesta Tavares,3 a elevação da pressão arterial em gestante é sinal de alerta para complicações do binômio materno-fetal, podendo colocar em risco a vida de ambos. Para a Organização Mundial da Saúde, o conceito de recém-nascido a termo refere-se a toda criança nascida viva, com tempo de gestação igual ou superior a 37 semanas completas até 41 semanas incompletas. O recém-nascido pré-termo é aquele que nasce antes disso, ou seja, com idade gestacional inferior a 37 semanas. Rezende e Montenegro7 comentam que a gestação deve durar 10 meses lunares, nove meses solares, 40 semanas, 280 dias, sendo a média de 266 dias, 38 semanas, nove e meio meses lunares ou 8 meses solares e 26 dias. O gráfico 4 traz a distribuição das gestantes segundo a duração da gestação associada à hipertensão. Observa-se que cerca de 70% das gestantes com hipertensão arterial tiveram idade gestacional entre 32 e 36 semanas; já 90% das gestantes sem hipertensão arterial na gravidez apresentaram idade gestacional no intervalo de 37 a 41 semanas. Portanto, a gestante com hipertensão arterial durante a gravidez corre um risco maior de ter o recém-nascido prematuro.7 Na associação entre mulheres com hipertensão arterial na gravidez e o sexo dos recém-nascidos, percebe-se maior freqüência do sexo feminino (gráfico 5). O recém-nascido a termo com peso de 2.500 g ou menos é considerado de baixo peso, portanto, de alto risco. O peso médio da criança brasileira, ao nascer, é de 3.350g para o sexo masculino e 3.280 g para o feminino.8 Gráfico 4. Freqüência da duração da gravidez das gestantes com e sem hipertensão arterial, PRSP, Araraquara/ SP, 2004. Gráfico 5. Distribuição segundo o sexo dos recém-nascidos das gestantes com hipertensão arterial, PRSP, Araraquara/SP, 2004. Saúde em Revista OCORRÊNCIA DE HIPERTENSÃO ARTERIAL EM GESTANTES NO MUNICÍPIO DE ARARAQUARA/SP 9 Saude19.book Page 10 Monday, August 7, 2006 9:07 AM MARIA JACIRA SILVA SIMÕES, ET AL. O peso do recém-nascido de uma gestante que apresentou hipertensão arterial na gravidez é influenciado na maioria das vezes, especialmente por ser prematuro. O baixo peso ao nascer constitui um dos fatores mais importantes na determinação da mortalidade neonatal, podendo o baixo peso derivar tanto da prematuridade quanto do retardo do crescimento intra-uterino.9 Observou-se que 64% dos recém-nascidos do sexo feminino das gestantes com hipertensão arterial apresentaram peso inferior a 2.500 g, ao passo que, entre os do sexo masculino, 96% tiveram peso de 2.500 g e mais (gráfico 6). Em relação à idade materna, verificou-se que 57% das gestantes com hipertensão arterial possuíam idade igual ou acima de 35 anos; já 95% das gestantes sem hipertensão arterial tinham menos de 35 anos de idade (gráfico 7). De acordo com Rezende e Montenegro,7 a gestante apresentar idade igual ou maior que 35 anos é um dos fatores de risco para desencadear a hipertensão arterial durante a gravidez. A maioria das gestantes hipertensas, ou não, passaram por seis ou mais consultas de pré-natal (gráfico 8). O Ministério da Saúde preconiza no mínimo seis consultas durante esse período. A assistência pré-natal permite detectar o diagnóstico e o tratamento de complicações no decorrer da gestação e também a redução ou a eliminação de fatores de risco passíveis de serem corrigidos.9 Quanto ao tipo de parto, prevaleceu a cesariana nas gestantes com hipertensão arterial, ao passo que nas gestantes sem hipertensão arterial o índice de parto normal revelou-se mais elevado. A comprovação de vitalidade fetal comprometida exclui a indicação da indução para obtenção do parto vaginal nas gestantes com hipertensão arterial. Nessa eventualidade, a indicação da cesárea deve ser liberal.1, 3 Já no que diz respeito ao número de gestações, a maioria das gestantes com hipertensão arterial era multípara, ou seja, tinha mais que um filho (gráfico 9). O presente estudo constatou ainda que, das gestantes com hipertensão arterial, 72% são brancas, 14% pardas e 14% negras. Além disso, nenhuma das gestantes que apresentaram hipertensão arterial durante a gravidez era fumante. Por fim, 43% das gestantes hipertensas disseram ter tido aborto em gestações anteriores. Gráfico 6. Distribuição segundo o sexo e o peso ao nascer dos recém-nascidos das gestantes hipertensas, PRSP, Araraquara/SP, 2004. Gráfico 8. Freqüência de consultas durante o pré-natal das gestantes, PRSP, Araraquara/SP, 2004. Gráfico 7. Freqüência da idade materna das gestantes com e sem hipertensão arterial (HA) na gravidez, PRSP, Araraquara/SP, 2004. Gráfico 9. Freqüência da paridade nas gestantes com hipertensão arterial, PRSP, Araraquara/SP, 2004. 10 SAÚDE REV., Piracicaba, 8(19): 7-11, 2006 Saude19.book Page 11 Monday, August 7, 2006 9:07 AM MARIA JACIRA SILVA SIMÕES, ET AL. CONCLUSÃO A ocorrência de hipertensão arterial nas gestantes atendidas no bairro do Parque Residencial São Paulo mostrou-se semelhante à da população total da cidade de Araraquara. Com relação ao sexo dos recém-nascidos, prevaleceu o feminino. A prevalência da prematuridade, quanto à duração da gestação, e do baixo peso do recémnascido revelou-se nos filho de mães que apresentaram hipertensão arterial na gravidez, levando a óbito fetal os casos mais graves. A hipertensão arterial na gravidez foi mais prevalente nas mulheres que já tinham hipertensão anteriormente à gravidez. No estudo em questão, as mulheres com hipertensão arterial na gravidez, em sua maior parte, pertenciam à raça branca, eram multíparas e nenhuma delas disse ser tabagista. É importante ressaltar que todas essas gestantes com hipertensão arterial realizaram o pré-natal corretamente, proporcionando, assim, maior segurança de vida tanto a elas quanto aos bebês, pois é por meio de tal assistência nesse período que se podem detectar várias patologias capazes de afetá-los. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. Botelho RA. Hipertensão arterial na gestação. [Acesso: 14/jan./04]. Disponível em: <www.medsara.hpg.ig.com.br/hasgest.htm>. Martins CA, Rezende LPR, Vinhas DCS. Gestação de alto risco e baixo peso ao nascer em Goiânia. Rev. 49 Eletrônica Enf 2003;5(1):49-55. Tavares A. Urgências e emergências hipertensivas. Rev. Bras. Hipertensão 2002;9(4):351-70. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Assistência pré-natal: manual técnico. 3 ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2000a. Gomes R, Cavalcanti LF, Marinho ASN, Silva LGP. Os sentidos do risco na gravidez, segundo a obstetrícia: um estudo bibliográfico. Rev. Latino-amer. 2001;9(4):62-7. Cordovil I, Vasconcelos M. Hipertensão na gravidez. In: Couto AA, Kaiser SE. Manual de hipertensão arterial da sociedade de hipertensão do estado do Rio de Janeiro. São Paulo: Lemos; 2003;13:132-42. Rezende J, Montenegro CAB. Obstetrícia fundamental. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2003. Orlandi OV, Sabra A. O recém-nascido a termo. In: Rezende J. Obstetrícia. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002;17:369-75. Kilzztain S, Rossbach AC, Carmo MSN, Sugahara GTL. Assistência pré natal, baixo peso e prematuridade no estado de São Paulo, 2000. Rev. Saúde Pública 2003;37(3):303-10. Submetido: 7/nov./2005 Aprovado: 27/abr./2006 Saúde em Revista OCORRÊNCIA DE HIPERTENSÃO ARTERIAL EM GESTANTES NO MUNICÍPIO DE ARARAQUARA/SP 11