PROFESSORAS,
MÃES
E
MULHERES:
EXPLORANDO
TESSITURAS
NOS
ESCRITOS DE ALUNAS DO COLÉGIO DO CARMO, NAS DÉCADAS DE 1940 E 1950
Regina Helena Silva Simões – PPGE/UFES 1
Maria Alayde Alcântara Salim – PPGE/UFES 2
Nos anos 1940 e 1950, 3 a revista estudantil Excelsior, publicada pelo Grêmio Lítero
Esportivo Carmo (GLEC), 4 veiculou escritos de alunas do Colégio Nossa Senhora
Auxiliadora (mais conhecido como Colégio do Carmo), instituição católica, fundada em 1900,
na cidade de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo. Administrado por freiras da
Associação São Vicente de Paulo, o colégio foi equiparado, em 1910, à Escola Normal do
Estado. Em 1935, havia formado 650 normalistas, além de abrigar turmas de ensino primário e
ginasial, atendendo a alunas matriculadas em regime de externato, internato e orfanato. Na
década de 1940 e início dos anos 1950, quando foram produzidas as publicações estudadas, o
Carmo destacava-se como centro formador de mulheres da elite capixaba.
Do ano de 1942, tivemos acesso aos números do jornal O Excelsior, publicados em
maio, agosto e outubro. As temáticas abordadas nesses três números foram: a) textos literários
e poéticos (26); b) civismo (14); c) religião (11); d) vida estudantil (5); e) a escola, seus
sujeitos e seus valores (4); f) Biografias ilustres (3) g) outros (9). Por meio de duas ex-alunas,
acessamos também seis números da revista Excelsior (agora com essa denominação),
publicados entre 1946 e 1952. Nessas revistas, identificamos os seguintes focos de interesse:
a) textos literários e poéticos (59); b) religião (48); c) temas culturais (20); d) vida estudantil
(13); e) a escola, seus sujeitos e seus valores (14); f) ensino-aprendizagem e profissão docente
(13); g) biografias ilustres (7); h) comportamento e etiqueta (6); i) língua portuguesa (5); j)
outros (10).
Nesses escritos estudantis, buscamos explorar visões discentes acerca da tessitura
professora-mãe-mulher, analisando-as no cruzamento com outras fontes documentais e
1
Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo.
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo.
3
Embora não tenham sido foco específico das nossas análises, os contextos de produção do jornal e
posteriormente da revista Excelsior (respectivamente Estado Novo e pós-guerra) repercutem claramente nos
temas abordados.
2
bibliográficas relativas: ao Colégio do Carmo (SIMÕES; FRANCO, 2004); à inserção
feminina no mundo da leitura e da escrita (LAJOLO; ZILBERMAN, 2003; CAVALLO;
CHARTIER, 2OO2; LYONS, 2002); e à formação e ao exercício da profissão docente por
mulheres no Brasil (ALMEIDA, 2004). No desenvolvimento da pesquisa, interrogamos as
fontes na tentativa de compreender tessituras entre maternagem, formação docente e o
exercício do Magistério.
Ao analisarmos manifestações da escrita de alunas do Colégio do Carmo, partimos do
pressuposto de que
O que podemos fazer na história da leitura [e da escrita] não é restituir a leitura
[ou a escrita] de cada leitor do passado ou do presente, como se tratássemos de
chegar à leitura do primeiro dia do mundo, mas sim, organizar modelos de leitura
[e escrita] que correspondam a uma dada configuração histórica em uma
comunidade particular de interpretação. Desta maneira, não se consegue
reconstruir a leitura [ou a escrita], mas descrever as condições compartilhadas que
a definem, e a partir das quais o leitor pode produzir esta criação de sentido que
está presente em cada leitura [ou escrita] (CHARTIER, 2001, p. 33).
Se a escola, em geral, tem se constituído um espaço privilegiado para a realização de
estudos e pesquisas sobre práticas culturais diretamente associadas aos processos de
escolarização (BOURDIEU; CHARTIER, 2001), como a leitura, a escrita, a circulação e
apropriação dos livros, no Brasil, esse vínculo entre a escola e mundo da leitura, da escrita e
do livro revela-se muito mais estreito. 5 Devemos considerar ainda que, no caso do Colégio do
Carmo, tratava-se de uma escola católica, na qual, “[...] resguardadas dos ventos da
modernidade e das idéias emancipatórias, as famílias tradicionais mantiveram as jovens
atreladas ao poder do catolicismo, que veiculava a mesma visão de mundo de sua classe
social” (ALMEIDA, 2004, p. 69).
Em linhas gerais, portanto, as nossas análises transitam pelas esferas da política, da
religião e da moral, na tentativa de compreender as relações tecidas entre a condição feminina,
a maternidade e o exercício do Magistério, nos textos produzidos por alunas do Colégio do
Carmo.
4
Naquele momento, a existência de grêmios e publicações estudantis decorria de exigências legais instituídas
pelo Ministério da Educação.
5
Sobre a questão, ver Lajolo e Zilberman, ( 2003)
Espaços escolares, práticas de leitura, escrita de mulheres e o exercício da docência:
tecendo relações
Na Europa Ocidental, as últimas décadas do século XIX foram marcadas pelo processo
de alfabetização em massa, 6 criando um número de novos leitores, dentre esses, as mulheres.
Acompanhando o crescimento desse novo segmento de público leitor, o mercado editorial
investiu de forma crescente na produção de revistas destinadas ao público feminino. Essas
publicações veiculavam matérias relacionadas com comportamento, boas maneiras, cozinha e
moda.
No campo literário, o romance liderava as publicações, passando a constituir-se como
expressão literária clássica da sociedade burguesa. 7 As mulheres eram o público- alvo, ainda
que não exclusivo, da ficção romântica e popular. Segundo Lyons (2002), a feminização do
público leitor de romances reforçava preconceitos existentes ao final do século XIX, na
medida em que reafirmava características atribuídas às mulheres em um imaginário social, no
qual elas apareciam como “[...] criaturas em que prevalecia a imaginação, com capacidade
intelectual limitada, frívolas e emotivas” (p.171).
Em meados do século XX, a “orientação” das leituras femininas ecoa na seguinte
questão proposta pelas alunas do Colégio do Carmo, na coluna intitulada Que livros devemos
ler? A resposta a essa indagação parecia às alunas [...] um tanto difícil de se dar, pois quase
tôdas as grandes obras da literatura mundial estão, infelizmente no ‘index’ por êsse ou por
aquêle senão deprimoroso (REVISTA EXCELSIOR, 1947, n. 152, p. 10).
Ao final, as estudantes respondem cautelosamente, recomendando a Coleção Menina e
Moça, descrita pelo Pe. A. Negromonte como: “[...] uma coleção mimosa de pequenas
histórias interessantes, de bem acentuadas lições morais, de um discreto perfume religioso ás
6
Segundo Lyons (2002, p. 164) por volta da última década do século XIX, na Europa Ocidental, tinha sido
alcançada, de maneira quase uniforme, a taxa de 90% de alfabetização, desaparecendo a discrepância entre os
dados referentes a homens e mulheres.
7
A analise do Romance, como expressão literária da burguesia, de sua concepção individualista do mundo e a
constatação do declínio do gênero narrativa, que nasce do compartilhar de uma tradição cultural comum, são
temas tratados por Georg Lukács no livro A teoria do romance e Walter Benjamin nos ensaios O narrador e
experiência e pobreza.
vezes, que pode estar na mão de todas as adolescentes (REVISTA EXCELSIOR, n. 152, 194,
p. 10).
Por outro lado, ao mesmo tempo em que o público leitor feminino ganhava espaço, a
transição do século XIX para o século XX caracterizou-se também pela interdição do mundo
da escrita às mulheres (CHARTIER, 2001). Segundo o autor, a interdição da escrita às
mulheres pode ser analisada a partir da tradição cultural ocidental, que autorizava o acesso à
leitura, que, por estar revestida de autoridade, transmitiria aos leitores noções de ordem,
disciplina e coerção, mas negava-lhes a possibilidade da escrita, a qual representaria o espaço
da liberdade, uma vez que, ao instituir a comunicação e a troca de idéias, abriria veios de
contestação e escape à “[...] ordem patriarcal, matrimonial ou familiar” (p. 24).
No Brasil, as condições estruturais de colônia tornavam ainda mais inacessível para o
conjunto da população o ingresso no mundo da leitura e da escrita (VILLALTA, 2002). As
atividades de imprensa, iniciadas com a transferência da corte portuguesa para terras
brasileiras, manteve-se como monopólio estatal até o ano de 1820, quando tipografias vão,
paulatinamente, sendo instaladas nas províncias (ALGRANTI, 2002).
Além das dificuldades técnicas para a reprodução de obras literárias, havia o problema
crônico do alto índice de analfabetos. Contrastando com o processo de alfabetização em massa
ocorrido nas principais cidades européias que atenuara a disparidade entre os números de
homens e mulheres alfabetizados, o Brasil, até o final do século XIX, contava com mais de
70% de analfabetos. 8 Nas primeiras décadas do século XX, de cada grupo de mil habitantes
em idade para cursar o ensino primário, somente 137 estavam matriculados e, desses, apenas
96 freqüentavam efetivamente as aulas. Obviamente, a construção do leitor e as práticas de
leitura e escrita sofreram as conseqüências desse quadro crônico de carência do sistema
escolar e da vida cultural do País. O que dizer, então, da possibilidade do ingresso da mulher
no mundo da leitura e da escrita?
No princípio do século XIX, o pintor Debret (1989 p.21) registrou as seguintes
impressões sobre a educação de mulheres no Brasil:
Desde a chegada da corte ao Brasil, tudo se prepara, mas nada de positivo se fizera
em prol da educação das jovens brasileiras. Esta, em 1815, se restringia, como
antigamente, a recitar preces de cor e a calcular de memória, sem saber escrever
8
De acordo com Lajolo e Zilberman (2003) de cada cem brasileiros apenas dezesseis sabiam ler. Esses números
ainda poderiam ser piores nas regiões periféricas do país.
nem fazer operações. Somente o trabalho com a agulha ocupava os seus lazeres,
pois cuidados relativos ao lar são entregues a escravas. Os pais e os maridos
favoreciam essa ignorância a fim de destruir pela raiz os meios de correspondência
amorosa.
Na visão do artista, as atividades na área de educação teriam começado a expandir-se
em 1820 e, como resultado,
[...] não é raro encontrar um senhora capaz de manter uma correspondência em
várias línguas e apreciar a leitura, como na Europa. A literatura francesa contribui
bastante para isso mediante uma seleção agradável de nossas obras morais, esses
livros ornam o espírito e formam o coração das jovens alunas brasileiras. (1989, p
.22, grifo nosso)
Além dessas obras morais destacadas por Debret, as poucas editoras atentas ao
aumento do público leitor feminino intensificam a edição de folhetins e romances de leitura
ligeira. Como observam Lajolo e Zilberman (2003, p. 259), ainda que, no final do século XIX,
mulheres exercessem atividades na imprensa, principalmente em jornais e revistas destinados
ao público feminino, a defesa da importância da educação da mulher não chegava a romper
com o rígido papel social tradicionalmente a ela atribuído.
No Brasil, as primeiras décadas do século XX foram marcadas pelo avanço da
burguesia, pelo processo de urbanização e pelo fortalecimento das classes médias urbanas. O
anseio de ingressar na chamada modernidade constituía a tônica dos discursos de políticos e
intelectuais. Nesse contexto, a educação era percebida como o caminho “natural” para atingir
o almejado progresso que, por sua vez, demandava a instrução a mulheres, educadoras em
potencial do novo homem anunciado. Educadora “natural” da família, a mulher tornou-se,
naquele momento, presença predominante no Magistério. Ainda nas décadas de 1940 e 1950,
textos escritos por alunas do Colégio do Carmo fazem ecoar essas idéias:
Um curso havia. atraente em parte, cujo fim principal era a formação da
professora. Isto bastava para colocá-lo entre os menos apetecíveis.
Assim pensava eu. Este, possivelmente, deve ser o pensamento, a impressão de
vocês.
No entanto, agora que o sigo e o amo, vejo quanto é sublime, pois não se limita
apenas à formação da mestra, mas principalmente ao plasmar da juventude que
deve tornar-se amanhã o sustentáculo da Pátria.
Jovens que terminam, este ano, o curso ginasial, atentem bem e contemplem o
panorama do Brasil necessitado de educadoras (VELLO, 1947, p. 8).
É mister que se lembrem de que a criança tem também uma alma pela qual Jesus
derramou o seu sangue, e foi destinada à vida eterna. Educar, pois, é preparar o
homem completo para a sociedade, e mais ainda, para a eternidade. É formar a sua
inteligência pela educação intelectual e o corpo pela educação física; espírito e
coração pela educação moral e religiosa, principalmente religiosa [...] (COSTA,
1952).
Dessa forma, como analisam a destinação de mulheres ao Magistério representava a
“solução” para diferentes problemas: justificava pragmaticamente a necessidade de educá-las;
provia mão-de-obra para o Magistério, profissão pouco procurada, porque mal remunerada;
desobrigava o Estado a melhorar o provento dos professores, porque o salário da mulher, em
tese, não precisaria ser superior ao do homem. As autoras ressaltam ainda o caráter ideológico
da feminização do Magistério, na medida em que
[...] idealizava a professora, chamando-a de mãe, sugerindo assim que lecionando, ela
continuava fiel à sua natureza maternal. Negava-se o elemento profissional da docência,
porque a sala de aula convertia-se em segundo lar. O exercício do magistério não
escandalizava as bases machistas da sociedade patriarcal, permanecendo intocada, e
também idealizada, a associação mulher-esposa –mãe - professora. (Lajolo e
Zilberman, 2003, p. 262)
No Espírito Santo, a inserção feminina no Magistério traduz contradições da sociedade
local de tradição agrária, coronelista e patriarcal. 9 Portanto, analisados nos marcos acima
explicitados, os textos de alunas do Colégio do Carmo sugerem pistas para a compreensão, na
moldura local, da tessitura mulher-mãe-professora. Por se tratarem de publicações de uma
instituição católica, os textos estudantis sinalizam também aspectos do atravessamento dessa
tessitura pela religião católica, sob cujo manto se identificavam mulheres, mães, a Virgem
Maria e a sagrada missão de ensinar.
9
Nas primeiras décadas do século XX, o Estado do Espírito Santo apresentava baixa densidade demográfica e a
população habitava principalmente as regiões litorâneas. A elite agrária controlava as diversas esferas do poder e
a vida urbana era incipiente.
Que glória imensa é seguir na terra o mesmo caminho do Divino Mestre, ensinando e
amando as criancinhas, formando corações inteligências [...].
E como seria bom se todos que se dedicam à educação das crianças compreendessem
o verdadeiro significado dessas palavras e soubessem realmente sacrificar-se pelos
pequeninos, amando-os como filhos, dedicando-se a êles de corpo e alma, procurando
cultivar as virtudes [paciência, serenidade e justiça] que tornam esta missão ainda
mais bela [...] (COSTA, 1952).
Mulher-mãe-professora: explorando tessituras nos textos produzidos por alunas do
Colégio do Carmo
O marasmo econômico que caracterizou o Espírito Santo ao longo de sua formação, na
medida em que se ligou tardiamente à economia de exportação, refletiu-se na vida cultural
capixaba, especialmente no que diz respeito à circulação de livros e à produção literária. A
primeira tipografia, instalada em 1840, subordinava-se diretamente ao governo provincial.
Somente no final de século XIX, a produção cafeeira guindou o Estado a um lugar
mais destacado na economia nacional, uma vez que a riqueza advinda da exportação do café e
o fluxo de empréstimos externos fomentaram a industrialização, estimulando as relações
comercias, promovendo o desenvolvimento dos meios de transporte, o surgimento de bancos e
novas ofertas de emprego. Nas décadas iniciais do século XX, a cidade de Vitória passou por
um processo de remodelação, acompanhado pela implementação de políticas educacionais
influenciadas pelo Movimento da Escola Nova, ao mesmo tempo em que a instalação de
novos estabelecimentos de ensino evidenciava um certo esforço para expandir a escolarização.
Lideranças políticas locais, formadas em centros irradiadores do positivismo do Rio de
Janeiro e Recife, faziam repercutir o discurso modernizador nacionalmente difundido. Na
visão desses homens, a valorização da educação representava o caminho para a modernização
do País, mas, principalmente, uma via de afirmação da frágil identidade local. Caso
emblemático foi o primeiro governador Afonso Cláudio (1889-1890) que, obstinado em
constituir uma identidade histórica e cultural para o Estado, publicou, em 1907, o livro
História da Literatura Espírito-Santense, no qual registrou o resultado de minuciosa pesquisa
sobre as manifestações literárias do Estado desde a colonização. Contudo, nessa antologia da
literatura capixaba, não aparece o registro da produção de Adelina Tecla Correia Lyrio (1863-
1938), considerada a primeira mulher escritora/poeta do Estado. Adelina era professora e sua
obra consistiu em poemas publicados nos jornais da época e em peças de teatro infantil
utilizadas por ela como instrumento pedagógico.
Em estudos sobre a literatura feminina capixaba, entre os anos 20 e 50 do século XX,
Ribeiro (2003, 2005) observa que as escritoras capixabas, em sua maioria, atuavam como
professoras, ou pelo menos tinham essa formação. 10 O depoimento de Haydée Nicolussi, aluna
do Colégio do Carmo, entre 1918 e 1921, cujo trabalho alcançou repercussão fora do Espírito
Santo, expressa desafios e afinidades que atravessavam a docência e o exercício da escrita fora
de espaços acadêmicos:
[...] eu vivia de Herodes para Pilatos, sem saber se devia utilizar meu diploma de
professora de um colégio religioso, ou indo para a Metrópole do Rio de Janeiro, onde
a fachada dos grandes intelectuais intimidava ainda mais minha falta de credencias.
Procurei ganhar dinheiro com a imprensa para viver de vales ou prêmios literários
[...]. A imprensa capixaba se compunha de ex-professores nossos que se interessavam
em estimular os discípulos conhecidos desde os bancos de escola, e, apesar de
ninguém ser profeta na própria terra, forcei os estímulos para que fossem além dos
elogios verbais[...]. (RIBEIRO, 2005, p. 36)
Nas páginas da revista Excelsior, encontramos um texto poético escrito por Nicolussi,
quando jovem. 11 De que falava? Reminiscências estudantis, saudades já anunciadas de “Elisa,
que me salvaste na Guerra dos Trinta Anos, em troca de frases bonitas dando-me datas
gloriosas [e de] Irmã Hosanh, que nos daveis a recitar Lamartine”. Nos versos finais, a autora
desenha horizontes:
[...] Adolescência... (saudade) – mãos ao ar, estouvamento,
alma no céu, pés no chão, boca e ouvidos ao vento.
E o olhar?
O olhar sempre longe,
Na frente dos pensamentos[...]
10
Por exemplo: Maria Eugênia Celso, Maria Antonieta Siqueira Tatagiba, Judith Castelo, Lydia Besouche,
Guilly Furtado Bandeira (primeira mulher capixaba a publicar um livro, em 1925).
11
Nicolussi escreveu para a Revista Excelsior, m 1947, na condição de ex-aluna do Colégio do Carmo.
Os textos de Haydée na adolescência e na vida adulta remetem-nos a dimensões
políticas, sociais e culturais da leitura e da escrita que, associadas à educação, ganham
contornos e possibilidades tanto anunciados como insuspeitados (portanto fora de controle).
Como observa Ribeiro (2002, p.17),
Pensar por conta própria, expressar as idéias que temos, eis uma das chaves de um regime
democrático. Mas essa chave – digamos “racional” – não se constituirá se não lhe tiver sido
aberto lugar por um aprendizado bem menos sujeito à razão, e que na verdade é a primeira
grande aventura da fantasia, ou seja, a aventura que consiste em imaginar, gerar fantasmas,
idear o que não é [...].
Em síntese, podemos ler, nos escritos das alunas do Colégio do Carmo, tanto as grades da
interdição à leitura e à escrita, como fantasmas, sonhos e utopias capazes de reinventar
mundos, criando espaços de inserção de mulheres que ultrapassam os limites, aparentemente
singelos, das páginas escritas, nas quais se podem encontrar, simultaneamente, cerceamentos
sociais, políticos, culturais e campos de possíveis alimentados pela imaginação.
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Download

Regina Helena Silva Simoes e Maria Alayde Alcantara Salim