C O M U N I T Á R I O Comunidades preparadas e envolvidas na solução de seus desafios Fios de inclusão Número 3 • Julho de 2008 Ao lado da Tavex, o programa Futuro Ideal mobiliza parceiros para tecer uma rede de geração de renda para jovens Capa_Aprov_ED3.indd Sec1:3 1/15/70 1:39:38 AM NESTA EDIÇÃO Número 3 | Julho de 2008 3 Editorial 4 Entrevista O pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa defende uma educação profissional focada no mercado de trabalho 10 Panorama Social Nova seção reúne informações sobre educação e desenvolvimento comunitário 12 Primeira Infância Debate aponta capacitação e melhoria da infra-estrutura das escolas como prioridades da Educação Infantil 18 Educação Básica Encontros com a comunidade local definem os quatro focos de atuação do Escola Ideal na Paraíba 22 Juventude A Tavex e o Futuro Ideal mobilizam parceiros em torno de um projeto de negócios inclusivos para jovens 28 Voluntariado Em São Paulo, voluntários da Cauê complementam a formação de moças e rapazes em comunidade vizinha à empresa 32 Ações&Parcerias ICC atua em Angola em uma ação cooperada com o Senai e a Organização dos Salesianos de Dom Bosco 34 Inovações Sustentáveis Alpargartas inclui matérias-primas alternativas em suas linhas de produtos 36 Cartas Leia comentários sobre a edição anterior, como os da diretora de Sustentabilidade do grupo Camargo Corrêa, Carla Duprat 37 Artigo O secretário-geral do GIFE, Fernando Rossetti, diz que o investimento social privado é um diferencial na atuação das empresas 2_Sumario_Expediente.indd 2 1/14/70 11:24:15 PM EDITORIAL “A aliança na base da ética da co-responsabilidade é a esperança do Brasil para o século XXI”, diz o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, em entrevista exclusiva à revista Ideal Comunitário. Segundo ele, nenhum dos problemas brasileiros pode ser resolvido sem as chamadas ações intersetoriais, que abrangem os setores público e empresarial, além de organizações da sociedade civil, incluindo institutos e fundações. O Instituto Camargo Corrêa trabalha nessa lógica e, de acordo com o especialista, é nesse sentido um pioneiro. Afinal, exemplos da importância dessas alianças não faltam. Nesta edição da revista, você conhecerá alguns deles. O programa Futuro Ideal, destaque da capa deste número, vem, junto com a Tavex, costurando uma verdadeira rede para colocar em prática o projeto Tecendo a Inclusão. Com a Infra-estrutura Brasil, Divisão Engenharia e Construção, estamos desenvolvendo o projeto Eco-empreendimentos, que conta com a parceria da empresa Foz do Chapecó Energia e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Em Angola, o Futuro Ideal, desenvolvido em conjunto com a Infra-internacional, tem o apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de São Paulo e dos Salesianos de Dom Bosco, em Luanda, para a capacitação de jovens. Na Paraíba, gestores escolares, professores, pais, representantes do poder público de Alagoa Nova, Araruna, Campina Grande, Guarabira, Ingá, Mogeiro e Serra Redonda também se uniram. O objetivo é melhorar a qualidade da educação em suas cidades. Em junho, outra parceria com a Secretaria de Educação e o governo do estado foi oficializada, estendendo o programa a 85 unidades estaduais, atingindo, assim, 100% de cobertura no Ensino Fundamental nos sete municípios do Escola Ideal. No Ideal Voluntário, as alianças também vêm sendo feitas. Desta vez, com os profissionais do grupo. Neste número, você vai conhecer a atuação de voluntários da Cauê de São Paulo em uma comunidade vizinha à empresa. Uma de nossas crenças e valores é que as parcerias e as redes de colaboração constituem importantes mecanismos para o desenvolvimento social. São valores oriundos dos princípios da confiança, da mútua complementação, da igualdade das relações, do respeito e da transparência presentes em cada um de nossos programas. Para o Instituto Camargo Corrêa, o capital social é a base do desenvolvimento comunitário, e a base do capital social é a colaboração. Por isso, se queremos promover a transformação social precisamos construir cada vez mais novas e profícuas parcerias. FOTO: RICARDO BENICHIO Parcerias: uma união necessária “A transformação social depende da construção de novas e profícuas parcerias ” Francisco de Assis Azevedo, diretor executivo do Instituto Camargo Corrêa IDEAL COMUNITÁRIO 3 3-Editorial.indd 3 1/14/70 11:28:59 PM ENTREVISTA Antonio Carlos Gomes da Costa O futuro do trabalho No Novo Dicionário Aurélio profissão é sinônimo de carreira. Para o pedagogo Antonio Carlos Gomes da Costa, logo não será mais assim. “Uma carreira será feita de várias profissões” , prevê o especialista. Em entrevista à Ideal Comunitário, o professor defende uma educação que dê conta desse desafio e vê na aliança entre governo, empresas e terceiro setor a grande chance de o Brasil entrar de cabeça erguida no século XXI Com mais de 40 livros publicados, Antonio Carlos Gomes da Costa foi um dos autores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e é referência nacional e internacional em educação e juventude. Defensor do chamado “protagonismo juvenil”, que propõe, entre outras coisas, a participação ativa do adolescente na solução de problemas na escola, na comunidade e na sociedade, o pedagogo mineiro aceitou, com prazer, o nosso desafio. A convite da Ideal Comunitário, jovens da revista Viração e do Programa de Educação e Defesa Ambiental Ângela de Cara Limpa, da Sociedade Santos Mártires, enviaram suas dúvidas para o especialista. Ao todo, foram quase duas dezenas de perguntas. E Antonio Carlos fez questão de responder todas elas, mesmo sabendo que não teríamos espaço suficiente para publicá-las. Discutiu-se a construção do Estatuto da Juventude, o papel da educação e alternativas para reverter o desinteresse dos jovens pelo conhecimento (veja as respostas do professor às principais questões formuladas pelos jovens na página 8). 4 IDEAL COMUNITÁRIO Entrevista.indd 4 1/14/70 11:45:18 PM FOTO: LEO DRUMOND/AGÊNCIA NITRO FOTO: RICARDO BENICHIO REFLEXÕES SOBRE A JUVENTUDE No Centro de Educação Presencial, em Lagoa Santa (MG), Antonio Carlos Gomes da Costa com um de seus livros, Protagonismo Juvenil – Adolescência, Educação e Participação Democrática IDEAL COMUNITÁRIO 5 Entrevista.indd 5 1/14/70 11:45:36 PM ENTREVISTA Fulano tal e tal Antonio Carlosde Gomes da Costa Um novo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é 3,5 vezes maior do que a dos adultos. Segundo a pesquisa, os jovens que enfrentam mais dificuldade para arranjar trabalho são os de baixa escolaridade, as mulheres e os moradores da periferia. O que fazer para reverter esse quadro? caminho desse tipo para o Brasil. Nos próximos anos, muitas profissões vão acabar, como aconteceu com a de datilógrafo ou de linotipista, e outras profissões que não existem hoje vão aparecer. Vivemos, portanto, um momento interessante na educação profissional. O ensino técnico, que preparava a pessoa para ocupar um posto de trabalho (torneiro-mecânico, eletricista etc), agora prepara para o mundo do trabalho, para que a pessoa possa mudar de profissão ao longo da vida. Talvez as profissões dos jovens que estão ingressando hoje no mercado de trabalho acabem antes que a carreira deles. O que vai acontecer? Eles terão de mudar de profissão duas, três, quatro, cinco vezes. Uma carreira será feita de várias profissões. Infelizmente, a educação brasileira não está conseguindo acompanhar esse desafio. Passamos por uma nova etapa do processo civilizatório da humanidade. Estamos saindo da Era do Capital, da Era Industrial, para a Era do Conhecimento. O trabalho está sendo cada vez mais condicionado pelas tecnologias da comunicação e da informação. Por outro lado, temos uma geração de jovens que deve fazer a travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. E, além disso, também terão de fazer a travessia do mundo industrial para o pós-industrial. A educação brasileira O que, então, deveria ser feito? não deu conta dessa tarefa. Uma política de juventude deve basear-se num tripé: edu- As empresas não podem resolver sozinhas nenhum dos problecação de qualidade, educação profissional focada no mercado mas brasileiros. Mas podem contribuir para a sua resolução fade trabalho e aproveitamento construtivo do tempo livre dos zendo o que no mundo empresarial é chamado de P e D, Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos. A função do Instituto jovens com atividades de cultura, esporte e lazer. É natural que nas periferias urbanas e nas zonas rurais pau- Camargo Corrêa (ICC) na área de educação, por exemplo, é deperizadas essas oportunidades sejam escassas e de má qualidade, senvolver soluções que não sejam alternativas às políticas públie muitas vezes sequer são oferecidas. Considero que a grande cas, mas sim alterativas, como um software replicável, que altere ação a ser realizada é formular uma política de juventude que o funcionamento das políticas públicas. O desafio é desenvolver pesquisa e novas soluções para os problemas seja fortemente direcionada para os segmendo país. Para isso, as ONGs precisam de ações tos mais vulneráveis dessa faixa etária. Traintersetoriais, que abranjam o primeiro setor ta-se de uma ação que deve ser redistributiva, (o poder público), o segundo setor (o munmas também autopromotora, pois do contráTrata-se da do empresarial) e o terceiro setor (organizario estaremos formando recorrentes crônicos maior geração de ções da sociedade civil, institutos e fundações das ações assistenciais do Estado. jovens da nossa empresariais). A aliança na base da ética da história. Portanto, Investir na profissionalização dos jovens co-responsabilidade entre esses três setores é ajudaria a reverter esse quadro? a esperança do Brasil para o século XXI. Se hoje o grande O cientista pernambucano José Leite Lopes tivermos essa sinergia, vamos caminhar com desafio é ajudar foi aluno do cientista Albert Einstein na unibotas de gato, andando sete léguas em cada essa geração versidade americana de Princeton e um dos passo. Se não fizermos isso, entraremos de cana travessia maiores físicos do Brasil. Em um de seus libeça baixa no século XXI. O Francisco Azedo mundo da vros, Ciência e Libertação (Ed. Paz e Terra), vedo, diretor executivo do Instituto Camargo ele relacionou a soberania e a independênCorrêa, é um dos líderes dessa nova mentalieducação para cia de um país à ciência e à tecnologia. Foi o dade no país. Nesse sentido, o ICC é um pioo mundo do que a Coréia e o Japão fizeram e se tornaram neiro. Faz parte das organizações que querem trabalho grandes potências mundiais. Ele traçava um operar na lógica da co-responsabilidade. “ ” 6 IDEAL COMUNITÁRIO Entrevista.indd 6 1/14/70 11:46:14 PM O tema Jovens Negros e Negras foi colocado trução de um marco legal que viabilize o como prioridade na Conferência Nacional cooperativismo, a economia solidária e o de Juventude. Segundo o estudo do Ipea, o empreendedorismo. Como o senhor avalia jovem negro é o que enfrenta mais dificul- as propostas? Estamos vivendo uma mudança profunda no processo civilizatório da humanidade e, Nos anos 60, o presidente americano portanto, no mundo do trabalho. A globaLyndon Johnson criou uma série de ações lização dos mercados e o advento das noafirmativas voltadas para a população negra. vas tecnologias levarão a um processo que OBRA DE REFERÊNCIA Um dos Os resultados, a meu ver, não foram exataa Organização das Nações Unidas para a livros mais famosos do pedagogo mente os esperados em termos de impacto Educação, a Ciência e a Cultura (Unesna promoção econômica, na ascensão social co) vem chamando de desmaterialização e na libertação cultural. As ações afirmativas devem ser nuvens do trabalho. Diante disso, o ideal de pleno emprego torpassageiras. Não são, portanto, a verdadeira solução, mas sim nou-se algo praticamente inalcançável na nova economia. o reconhecimento do nosso fracasso em fazer o que deveria O caminho, então, deverá ser criar alternativas de trabalho ser feito. Em minha opinião, o grande caminho deve ter como sem a criação de emprego. Nesse caso as opções discutidas centro a educação de qualidade para todos seguida de educa- na Conferência são o caminho que educadores, sociólogos e ção profissional, de oportunidades culturais e outras maneiras economistas têm vislumbrado para garantir trabalho e geconstrutivas de utilização do tempo livre. Penso que o assis- ração de renda para a juventude no mundo do trabalho, no tencialismo é uma solução emergencial e que só deve ser usado qual o emprego tende a se tornar cada vez mais escasso. em curtíssimo prazo, quando não houver outra alternativa. As reivindicações dos jovens (oportunidades de protagonismo, empreeendedorismo, educação profissional e utilização A solução para a inclusão desses jovens é, portanto, melhorar construtiva do tempo livre, entre outras) são justas e concretas. a educação? Hoje, no Brasil temos de fazer isso para entrar de cabeça erguiÉ preciso melhorar a Educação Infantil, o Ensino Fundamen- da no século XXI. tal e o Ensino Médio para todo mundo chegar à universidade em condição de disputar de igual para igual. Os jovens negros Como preparar os jovens para esse novo mundo do trabalho? precisam de ações afirmativas não porque são negros, mas por- Com a queda da taxa de natalidade da mulher brasileira, nunque a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino ca mais o Brasil terá um percentual de jovens na sua população Médio não os prepararam adequadamente para o Ensino Su- como temos hoje. Trata-se da maior geração de jovens da nossa perior. O que um ser humano se torna ao longo da vida depen- história. Portanto, hoje o grande desafio é ajudar essa geração na de das oportunidades que teve e das escolhas que fez. Temos travessia do mundo da educação para o mundo do trabalho. O artigo 2 da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) fala que de preparar as novas gerações para aproveitar as oportunidades e para fazer as escolhas certas. Não adianta ter as oportunida- a educação é direito de todos e dever da família e do Estado des e fazer escolhas erradas ou fazer escolhas certas e não ter e terá como base os princípios de liberdade e os ideais de oportunidade. Temos de dar para os nossos jovens a oportuni- solidariedade humana. E quais são os fins da educação brasileira? O artigo 2 da LDB responde: a formação plena do edudade de ter oportunidade e de fazer a escolha certa. cando, a sua preparação para o exercício da cidadania e a sua Um dos pontos discutidos na Conferência Nacional de qualificação para o trabalho. Ou seja, queremos formar um joJuventude foi o jovem e o trabalho. Entre as prioridades vem que seja autônomo como pessoa, solidário como cidadão apontadas nesta área estão crédito para a juventude e conse competente como profissional. Esse é o marco direcional dade para arranjar trabalho. O que pode ser feito para acabar com essa desigualdade? IDEAL COMUNITÁRIO 7 Entrevista.indd 7 1/14/70 11:47:31 PM ENTREVISTA Fulano tal e tal Antonio Carlosde Gomes da Costa da nossa política de juventude. E como você trabalha para formar pessoas, cidadãos e profissionais? Precisamos construir um banquinho de três pernas. A primeira perna é Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio de qualidade. A segunda é a educação profissional, que deve preparar o jovem para ingressar no mundo do trabalho, para ter uma ocupação, serviço ou profissão que lhe permita obter emprego e renda. Por último, precisamos formá-lo para ser um cidadão solidário. Esse é o desafio da juventude. De acordo com dados do Censo 2005-2006 do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), a faixa etária que mais recebe investimento social privado dos associados do grupo é a dos 15 aos 24 anos. O que falta para conseguirmos eficiência e eficácia nos projetos voltados para esse público? No Brasil, não temos tradição de fazer políticas em conjunto para a juventude. Nossas ações, até aqui, têm sido fragmentárias e pontuais. Isso diminui a relevância e o impacto em face da magnitude da problemática a ser enfrentada. Hoje, o Brasil possui mais adolescentes e jovens do que crianças. A composição etária da nossa população mudou muito nos últimos dez anos. Portanto, o que eu recomendo são ações intersetoriais desenvolvidas dentro de uma ética de co-responsabilidade, abrangendo o poder público, o mundo empresarial e o terceiro setor. O investimento social privado, representado pelos integrantes do GIFE, é insuficiente para fazer frente a um desafio dessas dimensões. PARA SABER MAIS Livros v Dirigida para os jovens, a publicação O Mundo, o Trabalho e Você (Instituto Ayrton Senna, 2002), organizada por Antonio Carlos Gomes da Costa, aborda um tema ainda pouco discutido: a cultura da trabalhabilidade. Mais do que procurar e encontrar um emprego, o desafio, hoje, de acordo com o livro, é inserir-se no mundo do trabalho. v Segundo Antonio Carlos Gomes da Costa, o protagonismo juvenil é um laboratório da educação para a cidadania. Um de seus livros, Protagonismo Juvenil – Adolescência, Educação e Participação Democrática (FTD, 2006), discute o assunto e é referência sobre o tema. Links úteis v www.modusfaciendi.com.br v www.famj.org.br v www.revistaviracao.com.br Com a palavra, os jovens Antes de responder sim ao nosso convite para participar desta entrevista, a equipe da revista Viração quis saber mais sobre o professor Antonio Carlos Gomes da Costa, o grupo Camargo Corrêa e o próprio Instituto. A decisão de aceitar o convite foi tomada pelos próprios jovens, que se entusiasmaram com a proposta e elaboraram uma série de questões para o especialista. Sem fins lucrativos, a Viração é um projeto social da organização não-governamental Associação de Apoio a Meninas e Meninos da Região Sé, de São Paulo. Mais que uma publicação, a revista é uma ferramenta de incentivo ao protagonismo juvenil. Além de produzir toda a publicação, os jovens participam do Conselho Editorial, o Virajovem, presente em 22 capitais. O projeto conta com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), entre outras. A equipe, composta por Ubirajara Barbosa, Vitor Massao, Vivian Ragazzi, Gisella Hiche, Rassani Costa, Carol Lemos, Paulo Lima e Sálua Oliveira, participou da elaboração da pauta da entrevista com o professor Antonio Carlos. O tema predominante foi o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a construção do Estatuto da Juventude. Abaixo, os principais destaques: VIRAÇÃO O que está no ECA não contempla os jovens. Como você avalia a construção do Estatuto da Juventude? Por que ele ainda não saiu? Falta a mesma mobilização dos anos 80 que gerou o ECA? O processo de construção do Estatuto da Juventude é mais complexo do que a elaboração do ECA porque tem como pré-requisito a produção de uma Emenda Constitucional introduzindo na Carta Magna um capítulo sobre juventude. A mobilização em favor do ECA era menos complicada. Ela só envolveu os partidos políticos na reta final 8 IDEAL COMUNITÁRIO Entrevista.indd 8 1/14/70 11:47:58 PM de tramitação no Congresso. O Estatuto da Juventude envolve juventudes partidárias, ligadas a movimentos religiosos e vários tipos de movimentos sociais. tro da atividade escolar passou a ser quase que única e exclusivamente o conhecimento. Ou seja, as disciplinas intelectuais do currículo. Pouca importância se deu à dimensão da corporeiVIRAÇÃO O que fazer em termos prátidade, da sentimentalidade e da espiricos para que os direitos e as garantias tualidade. Hoje, os jovens reivindicam EXEMPLO PRÁTICO Revista feita pelos jovens protagonistas contidas no ECA sejam assegurados a uma educação mais interdimensional todas as crianças e adolescentes? que contemple os aspectos desprezaEm termos práticos são necessárias três ações básicas: dos até aqui pelo exclusivismo acadêmico na educareordenar as instituições públicas e não-governamentais, ção. Por isso, hoje se registra uma certa indiferença pemelhorar as formas de atenção direta pela capacitação do los conteúdos intelectuais em favor de uma visão mais pessoal dirigente, técnico e operacional que atua na área completa e complexa do processo educativo. e articular as redes locais de atendimento. ÂNGELA DE CARA LIMPA A educação é a principal ferVIRAÇÃO O que você acha do trabalho desenvolvido pe- ramenta para a reversão do quadro da pobreza. Vive- las empresas que adotam a política de responsabilidade mos, no entanto, num sistema público em que o aluno social com foco em jovens? Eles ajudam ou só trazem passa de ano mesmo que não tenha aprendido nada. mais visibilidade à empresa? A escola deixou de ser sinônimo de conhecimento e A maioria das empresas e fundações ligadas ao GIFE realiza trabalhos junto aos jovens. Considero a grande maioria deles de qualidade elevada e merecedores de respeito por parte da sociedade e do Estado. passou a ser um lugar onde muitos professores fingem Além dos jovens da Viração, o grupo do Programa de Educação e Defesa Ambiental Ângela de Cara Limpa, da Sociedade Santos Mártires, parceira do Instituto Camargo Corrêa no programa Futuro Ideal, enviou questões para o professor Antonio Carlos Gomes da Costa. Abaixo, os principais trechos da entrevista elaborada por Ariane, Leila e Gabriel Menezes, Gilberto Rocha Silva, Nathalia de Almeida Campos e Sirlene de Lima. ÂNGELA DE CARA LIMPA Há um grande desinteresse dos jovens pela área do conhecimento. Quais são, em sua opinião, as alternativas para reverter esse quadro? Desde o Iluminismo, que criou o ideal da educação pública, universal, gratuita, laica e obrigatória, o cen- que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Como mudar esta situação? Para alterar essa situação é preciso introduzir mudanças fundamentais de conteúdo, método e gestão em nossas comunidades escolares. Os conteúdos não devem se limitar aos conhecimentos acadêmicos, mas também a crenças, valores, atitudes, sentimentos, competências e habilidades. Os métodos devem ser mais ativos e participativos, valorizando o protagonismo dos jovens. E, finalmente, no que diz respeito à gestão das escolas, a administração deve ser democrática, isto é, colegiada, abrangendo a participação de educadores escolares, familiares, comunidades e dos próprios educandos. Por outro lado, o sistema de avaliação deve ser profundamente revisto, criando condições de recuperação dos educandos ao longo de todo o processo educativo. É necessário enfatizar a avaliação formativa de modo a assegurar o ingresso, o regresso, a permanência e o sucesso na escola. IDEAL COMUNITÁRIO 9 Entrevista.indd 9 1/14/70 11:48:22 PM DIVULGAÇÃO MEC PANORAMA SOCIAL BOAS PRÁTICAS Os diretores apontam que o respeito à criança, equipes comprometidas e o gerenciamento participativo garantem o direito de aprender Documentário que vale por uma lição Um vídeo encomendado pelo Ministério da Educação registrou o encontro dos 27 gestores das escolas públicas com os melhores desempenhos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2006 com autoridades governamentais. O documentário As Escolas do Sim Vão a Brasília mostra as estratégias dessas instituições para ter alunos com rendimento escolar acima da média nacional, apesar da alta vulnerabilidade social. “O resultado está relacionado com a gestão, com pessoas utilizando sua inventividade e inteligência para superar adversidades”, aponta o cineasta Toni Venturi, responsável pela produção do vídeo. 300 milhões de reais, o equivalente a 16% do PIB, é quanto o Brasil deve deixar de ganhar em 40 anos em virtude do número de jovens que não concluem o Ensino Médio. A estimativa é do Banco Mundial. GLAIR Quatro décadas de balanço social Um estudo lançado pelo Instituto de Altos Estudos (Inae) traça o panorama das condições de vida da população brasileira entre 1970 e 2007. Os pesquisadores montaram o Índice de Desenvolvimento Social (IDS), que leva em conta dados de saúde, educação, trabalho, rendimento e habitação. Em quatro décadas, o IDS do Brasil cresceu 2,1% ao ano. A análise mostra que o maior crescimento social ocorreu na década de 70, seguido por um período de duas décadas de anemia. O final dos anos 90 marca a tendência de recuperação do desempenho social – o que tem relação direta com a trajetória da economia. “A melhoria observada a partir de 2000 não foi suficiente para aumentar a renda de todos os grupos sociais”, observa o economista Roberto Cavalcanti de Albuquerque, diretor técnico do Inae. Segundo ele, o caminho para lidar com a contradição entre desempenho econômico alto e evolução social modesta é focar a atuação em geração de trabalho e renda. 10 IDEAL COMUNITÁRIO PanoramaSocial.indd 10 1/15/70 12:02:10 AM JOÃO BITTAR/DIVULGAÇÃO MEC PROTEÇÃO INTEGRAL 9 milhões de crianças da Amazônia Legal serão beneficiadas pelo programa, que une poder público, sociedade civil organizada, empresários e cidadãos Compromisso amazônico Os governadores dos nove estados que compõem a Amazônia Legal assinaram o Agenda Criança Amazônia. Trata-se de um compromisso com o Unicef pela criação de um plano de integração e de cooperação que garanta os direitos de crianças e adolescentes da região. O pacto estabelece o cumprimento de 20 objetivos, entre eles a melhoria nos índices de mortalidade infantil e evasão escolar, no número de escolas municipais oferecendo educação contextualizada e de professores das redes municipais habilitados em Educação Infantil. Até 2011, pretende-se envolver todos os 750 municípios de Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins em políticas públicas que estimulem a interação entre os governos federal, estaduais e municipais e atores locais. “A situação do Brasil só será resolvida com o diálogo permanente com a comunidade”, afirma a oficial de Comunicação do Unicef Belém, Ida Oliveira. O programa deve começar a ser aplicado em 2009. Competimos para ganhar mais, quando deveríamos competir para servir melhor a sociedade Oscar Motomura, presidente da Amana-Key, centro de excelência em gestão, na Conferência Internacional Empresas e Responsabilidade Social, do Instituto Ethos Direto ao ponto Que obstáculos o Brasil enfrenta para cumprir as metas educacionais internacionais? “Para melhorar a qualidade de sua educação, o Brasil precisa primeiro colocá-la como prioridade do poder público em todas as instâncias da federação. Em seguida, deve melhorar a qualidade de seus professores e profissionalizar a gestão das escolas, de forma a assegurar que todas as instituições de ensino tenham condições de proporcionar a seus alunos as aprendizagens fundamentais do nosso tempo.” Vincent Defourny, representante da Unesco no Brasil “Garantir a alfabetização das crianças brasileiras até, no máximo, os 8 anos e trabalhar para que elas aprendam os conteúdos de cada série são as grandes tarefas do país. A alfabetização é condição de aprendizagem em todas as matérias e a promoção automática ignora o ponto central de que não existe aprendizado sem esforço.” Viviane Senna, coordenadora da Comissão Técnica do movimento Todos pela Educação e presidente do Instituto Ayrton Senna (IAS) “Prioritariamente, os obstáculos são decorrentes da complexidade do sistema educacional brasileiro. Municípios, estados e União são sistemas autônomos, o que já constitui um problema na essência. Uma das questões em que podemos avançar é a organização de um sistema nacional de educação que centralize as informações e que revele as demandas locais.” Cleuza Repulho, consultora da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para o MEC IDEAL COMUNITÁRIO 11 PanoramaSocial.indd 11 1/15/70 12:02:40 AM P R I M E I R A I N FÂ N C I A GLAIR Creches e pré-escolas em pauta Debate entre comunidades envolvidas no Infância Ideal aponta os investimentos em capacitação e em infra-estrutura como fundamentais para melhorar a Educação Infantil Ninguém melhor para discutir a Educação Infantil do que quem trata do assunto diariamente. Ideal Comunitário convidou para um debate quatro profissionais envolvidos com o programa Infância Ideal em Apiaí (SP), Bodoquena (MS), Juruti (PA) e Pedro Leopoldo (MG) – o quadro na página 12 mostra quem são eles. Em uma conferência telefônica, os participantes concluíram ser urgente investir na formação dos profissionais da área e na estrutura de creches e pré-escolas. Avaliaram também que é necessária uma mudança cultural para que os pais vejam as creches como um ambiente para o desenvolvimento de seus filhos. Dois estudos comprovam o quanto garantir esse direito é primordial para a criança e para o país. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma criança pobre que freqüente dois anos de Educação Infantil tem um poder de compra 18% superior em sua fase adulta. O Banco Mundial avalia que cada dólar aplicado na primeira infância gera um retorno de 17 dólares. Os cuidados nessa faixa etária diminuem a pobreza, as taxas de repetência e de evasão escolar. A troca de idéias teve ainda a participação da pedagoga Cinthia Manzano, formadora do Instituto Avisa Lá, e da coordenadora do Infância Ideal, Juliana Di Thomazo. Após 1 hora 12 IDEAL COMUNITÁRIO 12_17_Primeira Infancia.indd 12 1/15/70 12:08:39 AM FOTO: LUCIANA DE FRANCESCO DE MÃOS DADAS Participantes do Infância Ideal em Apiaí (SP), Bodoquena (MS), Juruti (PA) e Pedro Leopoldo (MG) trocam informações e experiências sobre a Educação Infantil em suas cidades IDEAL COMUNITÁRIO 13 12_17_Primeira Infancia.indd 13 1/15/70 12:09:06 AM P R I M E I R A I N FÂ N C I A Luciana Bispo da Silva Psicóloga, é integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente Pedro Leopoldo (MG) Na região metropolitana de Belo Horizonte, Pedro Leopoldo tem 6.623 crianças menores de 6 anos. O município está capacitando seus profissionais de Educação Infantil e desenhando um projeto de educação sexual para a prevenção da gravidez na adolescência por meio do Infância Ideal. Também está formatando um projeto para a melhoria do atendimento à gestante e há a intenção de trabalhar outro em prol do lazer. Bodoquena (MS) Localizada a 251 quilômetros da capital, Campo Grande, Bodoquena tem 8.168 habitantes, sendo 1.108 menores de 6 anos. A transição das creches da Assistência Social para a Educação foi implementada em 2002. É o município em que o Infância Ideal foi implantado há menos tempo. O grupo pretende desenvolver atividades de capacitação para os profissionais, melhorar a infra-estrutura de creches e pré-escolas e fortalecer a atuação dos conselhos Tutelar e Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. Para isso, está pesquisando boas práticas nessas instituições. Apiaí (SP) No Vale do Ribeira, no sul de São Paulo, conta com 3.582 crianças menores de 6 anos. Esse público é atendido nas três Escolas Municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental, no Centro Municipal de Atendimento Especializado e nos cinco Centros Municipais de Educação Infantil. No Infância Ideal, a cidade vai trabalhar a capacitação dos profissionais, a melhoria dos espaços físicos de creches e pré-escolas e a humanização do atendimento à gestante. Cynthia Alessandra Terra Professora do curso Normal Superior e de Pedagogia das Faculdades Integradas de Pedro Leopoldo FOTO: LUCIANA DE FRANCESCO FOTOS: JULIANA DI THOMAZO Rosineide Barroso Pimentel Professora aposentada e coordenadora-geral da Pastoral da Criança Juruti (PA) Está a 848 quilômetros de Belém. Tem 31.198 habitantes, entre eles 7.448 crianças com menos de 6 anos. O município não tem nenhuma creche e o atendimento aos menores de 3 anos é feito apenas pelo acompanhamento que a Pastoral oferece às famílias. Por meio do Infância Ideal, pretende-se fortalecer o Conselho Tutelar e o Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente. FOTO: VICTOR SCHWANER Conheça os participantes do debate e suas cidades José Manoel Costa Hernandez Secretário municipal de Educação e Esportes Fontes: Sites das prefeituras das cidades, relatórios da Acesso Consultoria e do ICC 14 IDEAL COMUNITÁRIO 12_17_Primeira Infancia.indd 14 1/15/70 12:09:29 AM e meia de conversa, a sensação era que os desafios nos quatro municípios são semelhantes. Confira os principais pontos do debate. DA ASSISTÊNCIA PARA A EDUCAÇÃO Em sua primeira intervenção, a professora Cynthia Terra, de Pedro Leopoldo, lembrou que duas redes paralelas de atendimento à primeira infância foram criadas no Brasil: uma de creches, ligada à Assistência Social, e outra de pré-escolas, jardins da infância e maternal, vinculada à Educação. “Isso gerou um atendimento menos qualificado para as classes populares”, pontuou. “Não havia um olhar voltado para a o desenvolvimento integral das crianças. Pensava-se apenas no acolhimento e nos cuidados com alimentação e higiene”, lembrou a psicóloga Luciana Bispo da Silva, do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Bodoquena. A Constituição de 1988, regulamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) em 1996 propôs uma nova forma de organização do sistema, trazendo uma identidade educacional para as creches. Hoje, todas as instituições organizam-se pelas regras e normas da Educação. “Consideramos que a criança passa por um processo educativo dos 3 meses de idade ao final do Ensino Médio”, afirmou José Hernandez, secretário de Educação de Apiaí. Mas Cynthia ponderou que o que foi construído pela Assistência Social não pode ser jogado fora. “Precisamos qualificar o cuidar e o educar, para construir um atendimento de qualidade às crianças do nosso país”, avaliou. Ela é uma das responsáveis pelo projeto de formação em serviço para profissionais da Educação Infantil em Pedro Leopoldo, uma das iniciativas do Infância Ideal na cidade (veja mais na página 14). UNIVERSALIZAÇÃO DO ATENDIMENTO Segundo os debatedores, a oferta de vagas para crianças menores de 6 anos foi deixada de lado no Brasil porque o único nível de ensino obrigatório é o Fundamental. Como a Educação Infantil não era valorizada, a sociedade não se mobilizava para reivindicar a garantia desse atendimento. Preferia discutir o acesso ao Ensino Fundamental, a permanência do aluno na escola e a qualidade dessa etapa de formação. A partir dos anos 70, o cenário mudou e a educação na primeira infância entrou na agenda pública de discussão. No ano passado, outro passo significativo foi dado, com a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). Para Hernandez, no entanto, há um longo caminho a percorrer. As comunidades ainda não sabem exatamente o que é o educar nas creches. “A formação é diferente da que ocorre na alfabetização”, esclarece. PRINCIPAIS DESAFIOS DAS CIDADES O secretário de Educação de Apiaí disse que os desafios comuns aos municípios representados pelos debatedores são: “Melhoria do espaço físico, capacitação dos profissionais e mudança cultural sobre o que é Educação Infantil”. Cada local, porém, tem particularidades. Juruti convive com a inexistência de creches. Por isso, o principal objetivo da cidade, segundo Rosineide Pimentel, da Pastoral da Criança, é PONTO PARA O FUTURO Crianças que freqüentam creches e pré-escolas melhoram seu desempenho escolar Nova identidade Em 1988, a Constituição Federal determinou que a Educação Infantil fosse reconhecida como primeira etapa da educação no Brasil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) ratificou essa identidade em 1996, determinando que os municípios passassem a oferecer o atendimento aos menores de 6 anos. Assim, o assunto saiu da área da Assistência Social e foi para a Educação. Hoje, o ensino infantil não é uma etapa obrigatória da educação. Por isso, os pais não precisam necessariamente matricular seus filhos em creches e pré-escolas. Mas, se o desejarem, o Estado deve garantir a existência de vagas. IDEAL COMUNITÁRIO 15 12_17_Primeira Infancia.indd 15 1/15/70 12:10:11 AM P R I M E I R A I N FÂ N C I A Longe do ideal O Brasil está prestes a universalizar o atendimento nos ensinos Fundamental e Médio. Em creches e pré-escolas, a realidade é outra. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, apenas 13% das crianças de zero a 3 anos freqüentavam creches. Na faixa dos 4 aos 6 anos, 72% das crianças estavam na escola. a formação dos profissionais. “Quando houve a implantação das pré-escolas, foi um processo doloroso porque as professoras não estavam preparadas”, relembrou. Cynthia Terra lamentou a falta de estatísticas para avaliar os dados e planejar as metas ao mencionar que Pedro Leopoldo passou pela municipalização do ensino em 2007. Na avaliação dela, a cidade deve atuar na integração de creches e pré-escolas ao sistema educacional. Em Bodoquena, o foco central é a ampliação do acesso, pois a única creche e a única pré-escola da cidade não dão conta da demanda. Luciana destacou também que os profissionais e o poder público locais devem abandonar a perspectiva assistencialista. Cinthia Manzano, do Avisa Lá, completou que é importante reduzir a diferença entre o que foi consolidado na legislação e a realidade cotidiana das unidades, a fim de que esses espaços contribuam para o desenvolvimento integral da criança. POTENCIALIDADES DOS MUNICÍPIOS Os pontos positivos de cada cidade, por outro lado, são tão variados quanto sua localização. Bodoquena é um município pequeno. “Isso facilita o diálogo entre os atores para a elaboração de projetos”, diz a integrante do CMDCA. Localizado na floresta Amazônica, Juruti vive a situação oposta. Rosineide disse que é difícil conversar com o poder público porque o município tem grande extensão territorial. Mas ela considera que as pessoas hoje estão mais confiantes nas parcerias com as empresas. Já em Pedro Leopoldo, a professora Cynthia Terra aponta a existência de uma rede de atendimento e a experiência dos profissionais da cidade como potencialidades. “A parceria entre instituições de atendimento à infância e o poder público também pode ser aproveitada ”, afirma. Capacitação na faculdade No município de Pedro Leopoldo (MG), o espírito é de troca de experiências, qualificação e envolvimento entre os participantes do Infância Ideal. O Conselho de Desenvolvimento Comunitário (CDC) apontou quatro demandas prioritárias para a melhoria da Educação Infantil: formação dos profissionais, ampliação de esporte e lazer, prevenção da gravidez na adolescência e acompanhamento da gestante. O primeiro passo está sendo a capacitação continuada e em serviço dos profissionais que atuam nos dez Centros Municipais de Atenção à Infância (Cemais) e nas 12 préescolas municipais locais. Lançado em 21 de junho, o projeto tem duração prevista de dois anos e conta com o apoio das Faculdades Integradas de Pedro Leopoldo. O objetivo é preparar 338 profissionais, entre diretoras e vices, coordenadoras, pedagogas, professoras, educadoras e auxiliares de serviços e administrativos. Foco no brincar – A formação de todos eles valoriza elementos centrais da cultura infantil, como as brincadeiras. Mas aborda temas específicos, conforme a área de atuação de cada profissional. Os participantes foram divididos em quatro grupos: • Equipe de Formadoras Locais – Composto de pessoas que já trabalham com a formação de educadores. Pensa a Educação Infantil de forma ampla, articulando-a com políticas públicas. Esse grupo 16 IDEAL COMUNITÁRIO 12_17_Primeira Infancia.indd 16 1/15/70 12:10:35 AM FOTO: VICTOR SCHWANER • • • fará o acompanhamento das ações e práticas pedagógicas a ser implantadas. Por ora, realizou um perfil do quadro de servidores municipais em Educação Infantil. A equipe tem assessoria técnica do Instituto Avisa Lá. Equipe de Coordenação das Instituições de Ensino Infantil – Formado por diretoras, vices-diretoras, coordenadoras pedagógicas e pedagogas. Os profissionais vão se apropriar da identidade educativa dessa etapa de formação e entender como desenvolver projetos institucionais. Equipe de Apoio – Integrado por auxiliares de serviços, recebe informações sobre o acolhimento dos alunos e das famílias, bem como cuidados com a alimentação e com o armazenamento dos brinquedos. Equipe de Administração – Constituído por auxiliares administrativos, aprende conceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente para identificar se os direitos das crianças estão sendo respeitados. “A proposta de formação dos profissionais é inédita na cidade”, afirma a secretária municipal de Educação (Smed), Sara Helena Ferreira. Ela comenta que, até 2007, as creches eram atendidas pela Secretaria de Assistência Social, o que dificultava ações conjuntas. “É a primeira vez que se pensa a Educação Infantil articulada”, diz. Para a chefe da Divisão de Ensino da Smed, Denise Botelho, a capacitação é a melhor forma de contribuir para a Educação Infantil. “Não adianta ter uma escola bonita se os funcionários não estão motivados e preparados para realizar suas funções.” Experiência – Tânia de Oliveira Armond faz parte do Grupo de Formadoras Locais e é coordenadora do Centro Solidário de Educação Infantil, no bairro Teotônio Batista de Freitas, mais conhecido como bairro da Lua. Ela supervisiona o trabalho de 13 educadores que cuidam de 168 crianças do berçário à pré-escola. “Todos estão ávidos por informação, especialmente porque as atividades serão baseadas na prática, no nosso dia-a-dia”, conta. Vera Lúcia de Souza, que também trabalha na creche há dois anos, diz que sempre cobrava de sua coordenadora a capacitação. Agora, ela se mostra muito feliz. “O curso será uma ótima chance de aprendermos e para promover a integração com outras categorias”, afirma. ATENÇÃO TOTAL Crianças participam do lançamento do primeiro projeto do Infância Ideal em Pedro Leopoldo (MG), ocorrido em 21 de junho PARA SABER MAIS Livros v Situação Mundial da Infância 2008, Unicef. Disponível em: www.unicef.org/brazil/pt/ sowc2008_br.pdf v Early Child Development: From Measurement to Action - A Priority for Growth and Equity (Desenvolvimento da Primeira Infância: da Mensuração à Ação – uma Prioridade para o Crescimento e a Eqüidade), Banco Mundial, 2007. Disponível em: web.worldbank.org v Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil, Ministério da Educação. Disponível em: portal.mec.gov.br Link útil v Instituto Avisa Lá www.avisala.org.br IDEAL COMUNITÁRIO 17 12_17_Primeira Infancia.indd 17 1/15/70 12:10:57 AM EDUCAÇÃO BÁSICA B la pra frente FOTOS: GUSTAVO MOURA Incentivo ao esporte é uma das quatro ações do programa Escola Ideal para aprimorar a Educação Básica em sete cidades da Paraíba DE BICICLETA No centro de Alagoa Nova, o lago é cenário para as atividades físicas dos estudantes 18 IDEAL COMUNITÁRIO 18_20_Educacao Basica_v2.indd 18 1/16/70 3:43:14 AM De passe em passe, o Escola Ideal avança para atingir sua meta de aperfeiçoar a Educação Básica em sete municípios paraibanos. Quatro ações foram traçadas para orientar o time de gestores escolares, professores, pais, representantes do poder público, da iniciativa privada e de organizações da sociedade civil participantes do programa. São elas o aprimoramento da gestão escolar como um todo, a ampliação do programa Educação por Meio do Esporte, do Instituto Alpargatas, mutirões para melhoria da estrutura física das unidades de ensino e a implantação de hortas voltadas ao fornecimento da merenda escolar em Campina Grande. As iniciativas começam a ser colocadas em prática em agosto. As ações foram traçadas com base em um amplo processo de diagnóstico, que teve início com o preenchimento de um questionário detalhado nas 305 escolas municipais de Ensino Fundamental de Alagoa Nova, Araruna, Campina Grande, Guarabira, Ingá, Mogeiro e Serra Redonda. O levantamento permitiu mapear as demandas e potencialidades e apurar como são semelhantes suas necessidades. A capacitação dos profissionais e o aprimoramento da gestão e do planejamento foram apontados por seis cidades. A implantação do reforço escolar foi destacada por cinco delas. E o desenvolvimento de práticas e materiais pedagógicos inovadores por quatro. Os dados foram sistematizados em relatórios analíticos e devolvidos a cada uma das unidades de ensino. Durante oficinas de trabalho realizadas entre abril e junho, os participantes avaliaram esses documentos, comparando a situação de sua escola com a média de seu município e de todo o programa. Em conjunto, eles também discutiram e complementaram as informações e elegeram temas prioritários. Segundo a secretária municipal de Educação de Serra Redonda, Nadja Machado Corrêa Lima, o procedimento envolveu toda a cidade e por isso teve boa receptividade. “Esperamos que o projeto aprimore as ações que as escolas já desenvolvem, tornando-as instituições de ensino com altos padrões e fazendo com que os professores lutem para formar cidadãos críticos”, afirma. Metodologia única Os diagnósticos de cada escola foram construídos com base em uma ferramenta criada especialmente para o programa, os Indicadores de Gestão para Escola Ideal. Cada estabelecimento de ensino preencheu um questionário, dividido em seis dimensões: profissionais da educação, condições de ensino, políticas e práticas pedagógicas, desempenho escolar, ambiente educativo e gestão escolar. AO LADO DA LAGOA Aproveitando a experiência do Instituto Alpargatas, o programa Educação por Meio do Esporte será estendido para 70 escolas, dez em cada município, até o final do ano. As institui- 100% de cobertura no Ensino Fundamental Após ter implantado seu plano de ação nas 305 escolas municipais, o Escola Ideal foi estendido a 85 unidades estaduais, atingindo 100% do Ensino Fundamental dos sete municípios do programa. A ampliação foi oficializada em 12 de junho, durante solenidade no Colégio Estadual Elpídio de Almeida, em Campina Grande. O evento teve a presença do secretário de Educação do Estado, Neroaldo Pontes. Para ele, a iniciativa vai proporcionar uma melhoria técnica, pedagógica e estrutural às instituições de ensino. “A escola hoje tem de estar cada vez mais antenada com o mundo do trabalho”, afirma, defendendo que a formação de futuros trabalhadores é responsabilidade do governo e da sociedade. “A consciência social dos empresários se traduz em uma maneira muito concreta e correta de participação da sociedade na vida escolar, ampliando as possibilidades de maior êxito dos alunos na escola e em seu futuro profissional”, completa. IDEAL COMUNITÁRIO 19 18_21_Educacao Basica.indd 19 1/15/70 12:14:15 AM EDUCAÇÃO BÁSICA Infra-estrutura negligenciada Em 2006, segundo números do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), cerca de 10% das creches e escolas brasileiras de ensinos Fundamental e Médio não tinham banheiros. A falta de toaletes diminuiu. Em 2002, 12% das escolas não contavam com sanitários. ções receberão kits com materiais esportivos e os professores serão capacitados para aproveitá-los da melhor maneira possível. Em Alagoa Nova, a 148 quilômetros de João Pessoa, por exemplo, nenhuma das oito escolas urbanas tem quadra esportiva. A solução encontrada pelo professor Samuel de Vasconcelos Sales foi transferir as atividades físicas para uma quadra em más condições ao lado da lagoa localizada no centro. O educador observa que, por ser um espaço aberto e não coberto, é preciso atenção e esforço redobrados para controlar os alunos. “Além disso, nós perdemos tempo para nos deslocar e, ao sair da escola, deixamos de ter contato com outros professores”, lamenta, sem deixar de apontar o lado positivo. “Agentes comunitários voluntários ajudam a realizar oficinas de esporte, cultura e lazer, como de desenho e de pintura. A partir dessas atividades, queremos criar uma prática constante de esporte e lazer na cidade.” VIDA NO CAMPO A maioria das unidades de ensino participantes do Escola Ideal localiza-se na zona rural. Em geral, são instituições de pequeno a médio porte, com pouca infra-estrutura. Muitas estão sem salas de aulas e dependências administrativas adequadas. Esperamos que o projeto torne as escolas instituições de ensino com altos padrões Nadja Machado Corrêa Lima, secretária municipal de Educação de Serra Redonda Outras não têm banheiros, como a Escola Municipal Presidente Vargas, em Serra Redonda, onde o único toalete fica fora da escola. “Em dia de chuva, complica”, diz a diretora, Lúcia Marinho do Nascimento Silva. As escolas precisam de reparos Encontro da teoria com a prática em Mato Grosso Educadores das redes municipal e estadual de Mato Grosso reuniram-se em Nortelândia (MT) para apresentar experiências de projetos pedagógios direcionados ao incentivo à leitura no 2º Seminário de Práticas Quantitativas de Educação. O encontro também serviu para o lançamento do Escola Ideal no município. O trabalho começou há três anos, quando a Secretaria Municipal de Educação passou a receber consultoria do ICC para capacitar os professores. As escolas aprimoraram o planejamento pedagógico e implantaram atividades diárias de leitura. “Os índices de rendimento escolar melhoraram”, diz a secretária Municipal de Educação, Marlene Julia de Oliveira. “Meu filho está na 2ª fase do 1º ciclo e está bem avançado na leitura”, comemora a mãe, Claudiana Rodrigues. Novo aliado – A chegada do Escola Ideal vai permitir novos avanços. No início deste ano, a comunidade escolar encontrou-se com gestores e diretores do ICC para preparar o diagnóstico da educação na cidade. Os resultados foram analisados e quatro prioridades foram definidas: melhoria da infra-estrutura das escolas; programa de apoio à aprendizagem; atividades culturais e esportivas; e continuidade do processo de capacitação. “Esperamos que o Escola Ideal nos oriente a aproveitar o que já temos, a resolver dificuldades e a acrescentar práticas novas”, diz a coordenadora pedagógica, Edileusa Rosa. O diretor da Fazenda Camargo, Laércio Trentino, diz que o município já deu um salto de qualidade. “Esse é um projeto abrangente, o que deve trazer ótimos resultados. “ 20 IDEAL COMUNITÁRIO 18_20_Educacao Basica_v2.indd 20 1/16/70 3:43:48 AM EQUILÍBRIO Programa Educação por Meio do Esporte, do Instituto Alpargatas, será ampliado para 70 escolas na pintura nas paredes, nos telhados, nas lousas, nas instalações elétricas e na área externa. Para melhorar a estrutura de 21 escolas dos sete municípios, o programa vai estimular a realização de mutirões. As Secretarias Municipais de Educação definirão quais unidades serão atendidas. Terão prioridade as que estiverem em área rural e em prédios públicos, com até 200 alunos e de três a cinco salas de aula. Essas escolas serão visitadas por técnicos, que apontarão os materiais mais indicados para as obras. Está prevista a participação dos profissionais das fábricas da Alpargatas nos municípios e de seus familiares, das comunidades escolares, dos comerciantes, de clubes e de associações locais. Os alunos também serão sensibilizados sobre a importância da preservação do patrimônio público, para que mantenham tudo em ordem. Em Campina Grande, a partir de uma proposta de parceria da Fundação Banco do Brasil (FBB), ainda serão implantadas cerca de 30 hortas circulares, de maneira piloto. A ação está baseada no projeto Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais), uma tecnologia social da FBB, que atualmente é reaplicada em conjunto com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Ministério da Integração Nacional. Até hoje, o cultivo de hortaliças foi incentivado para gerar renda de até 400 reais para uma única família. A idéia agora é levá-lo para as escolas. Parte das hortas deve ser semeada em terrenos internos, de forma que as verduras e os legumes sejam utilizados na merenda. Outras ficarão sob a responsabilidade de uma família que se comprometa a vender a produção para as unidades. Segundo Jorge Streit, gerente de Articulação, Parcerias e Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil, a proposta cria por um lado um desafio de gestão e por outro uma resposta de comercialização. “Há particularidades novas nesse piloto. Na escola, precisaremos pensar em quem será o responsável pela horta e como será organizado o período de férias. Mas como as escolas colocarão a produção na merenda, já contaremos com um mercado cativo.” Ele ainda aponta que a parceria entre a FBB e o ICC pode crescer, de forma a unir os esforços das equipes em torno de articulações mais amplas. PARA SABER MAIS Documentos v O Plano de Desenvolvimento da Educação – Razões, Princípios e Programas, Ministério da Educação. Disponível em: portal.mec.gov.br/arquivos/ livro/index.htm v A Educação Básica no Brasil, Carlos Roberto Jamil Cury. Disponível em: www.scielo.br/ pdf/es/v23n80/12929.pdf Filme v Pro Dia Nascer Feliz (2006). Documentário dirigido por João Jardim que retrata a situação das escolas no Brasil. Assista ao trailer em www. copacabanafilmes.com.br/ prodianascerfeliz Links v ideb.inep.gov.br/Site v www.edudatabrasil.inep.gov.br v www.todospelaeducacao.org.br Ideb na PB tem espaço para crescer Confira o resultado das redes municipais participantes do Escola Ideal na Paraíba no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2007. A média paraibana é de 3,5 para os anos iniciais do Ensino Fundamental (1ª a 4ª séries) e de 2,8 para os anos finais (5ª a 8ª séries). A média nacional é de 4,2 para 1ª a 4ª, e de 3,8 para 5ª a 8ª. IDEB 2007 1ª a 4ª 5ª a 8ª Alagoa Nova 3,0 2,8 Araruna 2,6 2,4 Campina Grande 3,3 2,6 Guarabira 3,3 2,9 Ingá 3,8 2,3 Mogeiro 3,1 - Serra Redonda 2,8 - IDEAL COMUNITÁRIO 21 18_21_Educacao Basica.indd 21 1/15/70 12:15:02 AM JUVENTUDE 22 IDEAL COMUNITÁRIO 24_27_Juventude_z.indd 22 1/15/70 12:18:33 AM FOTOS: RICARDO BENICHIO A teia da união O programa Futuro Ideal e a Tavex reúnem parceiros para criar negócios inclusivos para jovens em três cidades brasileiras Em seu poema Tecendo a Manhã, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto diz que um galo sozinho não tece uma manhã. Ele precisará do grito de muitos outros galos para que isso aconteça. Assim é também o esforço para promover ações focadas em geração de renda. É preciso união, parcerias, trabalho conjunto. Um bom exemplo é toda a teia que o programa Futuro Ideal e a Tavex estão articulando para colocar em prática o projeto Tecendo a Inclusão. O Instituto Camargo Correa (ICC) buscou a colaboração do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Instituto Realice para implantar a ação, de forma piloto, nos arredores de três fábricas da Tavex no Brasil: Americana (SP), Paulista (PE) e Nossa Senhora do Socorro (SE). Posteriormente, a intenção é ampliar a iniciativa para outras unidades da empresa no país e no exterior. IDEAL COMUNITÁRIO 23 24_27_Juventude_z.indd 23 1/15/70 12:19:00 AM JUVENTUDE Nos passos do fundador A Camargo Corrêa tem seu nome relacionado a grandes empreendimentos ligados ao desenvolvimento econômico do Brasil. De uma pequena construtora estabelecida em São Paulo, em 1939, tornou-se um dos maiores conglomerados da América Latina. Aproveitando a simbologia, o Instituto Camargo Corrêa (ICC) e a Construtora Camargo Corrêa apresentam oficialmente o Futuro Ideal no canteiro de obras da hidrelétrica que está sendo construída em Águas do Chapecó (SC). A cerimônia será no dia 5 de agosto e vai marcar também o início do programa Novo Rumo, da Foz do Chapecó Energia. A iniciativa do ICC pretende gerar emprego e renda e promover o desenvolvimento dos municípios de Água do Chapecó (SC), São Carlos (SC) e Alpestre (RS). O Futuro Ideal vai orientar seu trabalho nessa região em torno dos negócios rurais. O diagnóstico feito para o programa aponta como vocação da região projetos nas áreas de olericultura (cultura de legumes), fruticultura e agregação de valor para a cadeia produtiva do leite. A idéia é criar negócios inclusivos, que estejam em sinergia com a atuação da empresa. “Negócios inclusivos são iniciativas empresariais que, mesmo com o objetivo de gerar retorno econômico, contribuem para a superação da pobreza a partir da inclusão de pessoas de baixa renda na cadeia de valor”, explica Tiago de Angeli Dalvi, professor do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getulio Vargas (veja entrevista na página 26). Os integrantes da aliança estratégica montada para concretizar o Tecendo a Inclusão têm papéis bem definidos. O ICC faz a coordenação-geral, orquestrando todos os atores envolvidos, além de ser responsável pela multiplicação da iniciativa para outras unidades. A Tavex entra com a transferência de conteúdos técnicos. O Instituto Realice está encarregado da pesquisa de diagnóstico. O Sebrae possui um papel mobilizador do público-alvo, além de articular outros parceiros para esse fim. “Recebemos com muita satisfação a proposta de atuação conjunta com o ICC para somar esforços na promoção do fortalecimento de pequenos grupos de produção na área de confecção”, diz o diretor técnico do Sebrae Nacional, Luiz Carlos Barbosa. INCLUSÃO PROFISSIONAL O objetivo da iniciativa é tecer uma rede de geração de renda e trabalho para moças e rapazes de 16 a 24 anos e mulheres desempregadas que morem ou atuem no mercado informal no entorno das fábricas. O projeto prevê sua capacitação com cursos de inclusão digital, formação empreendedora e técnica, conceitos gerenciais e cidadania. No caso da Tavex, os empreendimentos envolvem atividades de confecção, corte e aviamentos. Para os jovens é uma porta valiosa que se abre para o mercado de trabalho. Sua participação no contingente de desempregados nas seis maiores regiões metropolitanas do país era de 45,7% em março 2002 e pulou para 46,8% no mesmo período deste ano. Essas estatísticas não estão relacionadas com a falta de interesse. “Embora as diferentes mídias os apresentem como um tanto irresponsáveis, os jovens têm grande preocupação com seu futuro profissional”, afirma Tania Zagury, autora do livro O Adolescente por Ele Mesmo (Ed. Record). Para escrever a publicação, ela entrevistou mil adolescentes de 14 a 18 anos, de todas as classes sociais. Constatou Os jovens têm grande preocupação com seu futuro profissional Tania Zagury, pesquisadora e autora do livro O Adolescente por Ele Mesmo que, além de um meio de subsistência, muitos deles buscam a satisfação pessoal na vida produtiva: 41,7% afirmaram querer uma oportunidade com foco na realização profissional, 27,9% querem um emprego que pague bem, mesmo que trabalhem muito, e 14,9% desejam um trabalho com o qual se sintam úteis à sociedade. DE AGULHA EM AGULHA Para embarcar os jovens nessa onda, o projeto foi dividido em quatro etapas. Iniciada em junho, a primeira fase inclui um amplo diagnóstico das comunidades de Paulista (PE), Nossa Senhora do Socorro (SE) e Americana (SP). O trabalho segue a metodologia do Desenvolvimento Local Integrado Sustentável (DLIS). “O método visa detectar as vocações da população local para 24 IDEAL COMUNITÁRIO 24_27_Juventude_z.indd 24 1/15/70 12:19:22 AM POR CONTA PRÓPRIA Jovens participantes do Futuro Ideal aprendem a elaborar produtos de material reciclável e a comercializá-los Reciclagem, economia solidária e cidadania Ficou pronto em junho o ateliê do projeto Arte Reciclagem, em que os jovens participantes do Futuro Ideal aprendem a confeccionar produtos artesanais feitos de resíduos sólidos e outros materiais recicláveis. O projeto está capacitando jovens do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo. Realizada pelo Instituto Camargo Corrêa, CAVO, Centro Empresarial Camargo Corrêa e Sociedade Santos Mártires, a iniciativa teve início em março, com cursos de formação básica sobre cidadania, política e economia solidária. Agora, os jovens estão aprendendo a desenvolver produtos com materiais recicláveis, a fazer o planejamento estratégico para implantar uma linha de produção, a colocar os produtos no mercado e a organizar um sistema de gestão e administração financeira e comercial do empreendimento. “Estamos na fase de conhecer os materiais com os quais eles vão trabalhar e novas linguagens”, diz o arte-educador Edi Cavalcante, responsável pela capacitação no ateliê. Alta disposição – Gabriel Menezes, educador da Sociedade Santos Mártires, explica que a proposta do Arte Reciclagem era formar um grupo de 20 participantes entre 16 e 24 anos. O interesse da comunidade foi grande e foram feitas 55 inscrições. Jovens como Débora Silva, 17, estudante da 8ª série do Ensino Fundamental, e Lígia Amaral da Silva, 17, que acabou de concluir o Ensino Médio, viram ali uma oportunidade de profissionalização. “Aqui estou estou descobrindo que, para montar meu próprio negócio, só dependo da minha capacidade”, afirma Débora. Com planos de fazer faculdade de Gastronomia, Lígia bateu muita perna nos últimos meses atrás de emprego. “Sem experiência, é difícil conseguir uma colocação. Acho que deveria ter mais projetos como esse para dar oportunidade aos jovens”, defende. Os cursos do primeiro mês serviram como filtro de seleção dos jovens e para introduzi-los na proposta do projeto. “Permaneceram apenas os 25 que se identificaram com o projeto”, afirma Gabriel, que deu os cursos iniciais. Nas aulas de economia solidária, ele procurou passar aos garotos conceitos sobre o histórico do movimento de organização coletiva e democrática do trabalho. Para quebrar a sisudez dos temas, a teoria foi entremeada com vídeos, debates e jogos cooperativos. “Esses jogos desenvolvem laços afetivos e solidários, o que contribui para a parte de formação produtiva e organização do trabalho”, destaca. Em política e cidadania, foram discutidas questões como a origem da democracia, seus fundamentos e desenvolvimento; democracia e capitalismo; direitos humanos; movimentos populares; e participação, auditoria e fiscalização popular na gestão dos serviços e equipamentos públicos. “Desenvolver esses conceitos com essa turma é fundamental, pois o projeto não visa apenas colocar dinheiro no bolso dos jovens, mas formar cidadãos capazes de atuar nos processos estruturais de transformação social”, explica o educador. IDEAL COMUNITÁRIO 25 24_27_Juventude_z.indd 25 1/15/70 12:19:46 AM JUVENTUDE Uma porta de acesso ao mercado e à renda FOTO: DIVULGAÇÃO O administrador de empresas Tiago de Angeli Dalvi é professor em uma especialização universitária sobre negócios inclusivos do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getulio Vargas, em Curitiba. Lá, ele ajuda a entender a força da população de baixa renda. Seu trabalho atual é como coordenador da área de acesso a mercado e negócios inclusivos da Aliança Empreendedora, organização da sociedade civil focada no apoio ao empreendedorismo, geração de trabalho e renda e desenvolvimento local. Com a experiência de quem trata diariamente do tema, Dalvi acredita que a adoção de negócios inclusivos traz benefícios para todos os envolvidos. E defende a construção de um ambiente favorável para que o conceito se dissemine no Brasil. GANHA-GANHA Para o administrador de empresas Tiago de Angeli Dalvi, os negócios inclusivos geram benefícios tanto para as pessoas de baixa renda quanto para as empresas Como podemos definir os negócios inclusivos? Esse tipo de iniciativa tem como objetivo melhorar as condições de vida de homens e mulheres em situação de pobreza mediante o aumento da renda, a transferência de conhecimento e tecnologia, e a possibilidade de acesso a financiamento, bens, serviços e infra-estrutura de qualidade. Além disso, visa incrementar a rentabilidade da empresa por meio da redução de custos nas transações, riscos compartilhados, acesso a um novo mercado, aumento no valor da marca e posicionamento com foco no futuro crescimento do mercado. O desenvolvimento de um negócio inclusivo deveria se encaixar na cadeia produtiva da empresa que o patrocina? É essencial que a atividade esteja diretamente relacionada ao ramo do negócio e gere retorno econômico para a organização. Caso contrário, caracteriza-se apenas por uma ação de filantropia ou responsabilidade social. Quais os principais desafios para que esse tipo de iniciativa prospere? Fazer negócio com pessoas de baixa renda e abrir novos mercados implica procurar determinar o potencial oculto que existe em um mercado inexplorado, significativo e tradicionalmente ignorado em favor de uma minoria de clientes com maior renda. Para ser um negócio inclusivo, a empresa deve se comprometer com pactos sociais e setoriais, como a erradicação do trabalho infantil? Claro. Esses negócios surgem como uma prática de responsabilidade social e ambiental alinhada ao foco da empresa e a outras práticas e princípios, como comércio justo, redução das desigualdades socioeconômicas, erradicação do trabalho infantil, dentre outros. Quais as perspectivas de futuro para essa prática? Acredito que muitas organizações ainda estão se familiarizando com o tema. Para que este novo modelo de negócio prospere é fundamental a criação de um ambiente favorável. 26 IDEAL COMUNITÁRIO 24_27_Juventude_z.indd 26 1/15/70 12:20:12 AM então definir as atividades de geração de renda que permitam a inclusão social”, explica a coordenadora nacional da carteira têxtil e confecção do Sebrae, Francisca Pontes Costa. O Instituto Realice já apurou os dados secundários. O estudo foi feito com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Índice Paulista de Qualidade Urbana e outros. Agora, seus pesquisadores estão em campo colhendo informações por meio de entrevistas individuais e com grupos focais. “Vamos conhecer mais os funcionários da fábrica, a população que mora no entorno e fazer um levantamento dos profissionais para traçar um perfil sobre a vocação de cada lugar”, explica Alice Freitas, coordenadora executiva do Instituto Realice. DIVERSOS SOTAQUES As unidades da Tavex escolhidas para a primeira fase de implementação estão animadas com as possibilidades. “O potencial de nossa região é grande. Há 30 anos o município era um dos maiores pólos têxteis de Pernambuco”, diz o gerente da unidade de Paulista (PE), José Matheos de Lima. “Hoje, as pessoas de nossa comunidade têm de sair para buscar emprego a 50 ou 60 quilômetros.” Os desafios em Nossa Senhora do Socorro (SE) são diferentes. “Aqui, falta mão-de-obra qualificada”, diz a gerente da fábrica, Lilia Maria Gualda Coelho. “Nossa vocação é o artesanato. Podemos usar nessa produção uma matéria-prima barata, comoretalhos de tecidos ou refugos”, sugere. Seu colega em Americana (SP), Ibsen Nogueira Borges, avalia que, para ser sustentável, a ação deve ser construída em conjunto com a comunidade. “Ela deve se apropriar do projeto”, aponta. E assim o Tecendo a Inclusão será costurado. Os negócios inclusivos mais adequados a cada localidade serão definidos com base no panorama traçado por essas experiências. Após essa etapa, os parceiros vão se reunir para traçar as estratégias e colocar em prática as idéias. Assim, em sintonia com os versos do poeta, “...os fios de sol de seus gritos de galo; para que a manhã, desde uma teia tênue; se vá tecendo, entre todos os galos”. PARA SABER MAIS Pesquisa v Creating Value for All: Strategies for Doing Business wiht the Poor (“Criando Valores para Todos: Estratégias para Fazer Negócios com os Pobres”), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2008. Disponível em: www.undp.org/gimlaunch/ index.shtml Livros v Juventude e Políticas Sociais no Brasil, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, Jorge Abrahão de Castro e Luseni Aquino, Brasília, 2008 v Galera em Movimento – Uma Turma que Agita o Brasil, de Daniele Próspero e Laura Giannecchini, 2007. Disponível em: www.revistaviracao.com.br/ galeraemmovimento Fundado em 2003, o Instituto Realice é uma organização sem fins lucrativos que se especializou em criar, potencializar e estimular projetos de geração de renda em comunidades populares. Faz pesquisa diagnóstica, capacitação e ajuda a estabelecer pontes entre a comunidade e o mercado para garantir sustentabilidade às iniciativas. O projeto MãosBrasil é seu principal cartão de visita. Teve início em 2004, no bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, com a capacitação de mulheres para a produção de objetos artesanais de jornais. Logo, evoluiu para a proposta de formar turmas de artesãos empreendedores de baixa renda, com chances de inserir no mercado seus produtos ecossociais, feitos de reciclados. Atualmente, o MãosBrasil conta com mais de 30 grupos, que produzem artigos para brindes corporativos, varejo e exportação. FOTOS: IERÊ FERREIRA Construindo pontes PARCEIRO IDEAL O Instituto Realice, que atua com geração de trabalho e renda em comunidades, faz o diagnóstico do Futuro Ideal IDEAL COMUNITÁRIO 27 24_27_Juventude_z.indd 27 1/15/70 12:20:27 AM V O LU N TA R I A D O CO R P O R AT I V O Para além das próprias fronteiras Voluntários da Cauê de São Paulo vão até a comunidade vizinha para ajudar na capacitação profissional de jovens participantes do Futuro Ideal Ter uma profissão, conseguir um bom emprego, vencer na vida. Os sonhos dos participantes do projeto Arte Jovem de Bem Servir, da comunidade Vila Nova Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, parecem com os de muitos outros jovens brasileiros. Mas, para transformálos em realidade, eles contam com um aliado a mais. São os voluntários da Cauê do Jaguaré, que acompanham seu desenvolvimento nos cursos profissionalizantes de Gastronomia Básica, Capacitação de Garçons e Garçonetes e Recepção de Hotel, e ainda oferecem palestras complementares a essa formação. A iniciativa é uma parceria entre o Instituto Camargo Corrêa (ICC) e a Congregação de Santa Cruz, e faz parte do programa Ideal Voluntário, que estimula os profissionais do grupo Camargo Corrêa a participar dos três programas estruturantes do ICC: o Infância Ideal, o Escola Ideal e o Futuro Ideal. No caso da Cauê do Jaguaré, a articulação deu-se em torno do Futuro Ideal, que promove a geração de trabalho e renda para jovens de 16 a 24 anos por meio do empreendedorismo (leia mais na página 22). O Serviço FUGA DO TRÂNSITO As colegas Ana Paula Borba e Sandra dos Santos incentivaram os profissionais da Cauê a atuar na comunidade vizinha à empresa, em vez de perder tempo nos congestionamentos Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) São Paulo também participa, como responsável pelo conteúdo e pela metodologia do curso. LOGO ALI A sede da Cauê fica a poucos metros da entrada da comunidade, o que facilita a integração. “O que custa ir até a rua de trás? Nada! Posso um dia vir mais cedo, sair 1 hora mais tarde. Em vez de ficar parada no trânsito, ajudo no que for preciso”, afirma a secretária da diretoria Ana Paula Borba. Outro ponto que ajuda nesse intercâmbio entre empresa e comunidade é o foco na juventude. “O Arte Jovem lida exatamente com a faixa etária com a qual conversamos o tempo todo, 28 IDEAL COMUNITÁRIO 28 Voluntariados_v2.indd 28 1/16/70 2:29:25 AM Recursos reaproveitados FOTOS: RICARDO BENICHIO O Arte Jovem de Bem Servir tem o apoio do programa de coleta seletiva da CAVO, que funciona ao lado da Cauê, e da Unidade de Tratamento de Resíduos (UTR). Os voluntários das três empresas do grupo Camargo Corrêa e da companhia de segurança da informação Iron Mountain podem deixar materiais recicláveis no Posto de Entrega Voluntária (PEV). O valor arrecadado com a venda desses artigos será revertido para ações complementares ao projeto (veja na nota Coleta Voluntária da página 35). seja recrutando funcionários, seja almoçando em restaurantes”, destaca o gerente corporativo de Desenvolvimento de Gestão da Divisão Cimento do grupo Camargo Corrêa, Marco Túlio de Lima Nessralla. Os voluntários podem contribuir de duas maneiras. Uma delas é oferecendo palestras sobre sua área de conhecimento. A outra é tornando-se “padrinho” de um ou mais jovens, o que implica dar conselhos profissionais e dicas para elaborar currículos e participar de encontros mensais para acompanhar o seu desempenho. Esse apoio é essencial para atingir o objetivo de incluir no mercado de trabalho pelo menos 70% dos 30 jovens beneficiados nesta primeira fase. COM BASE NA REALIDADE LOCAL Lançado no início de junho, o Arte Jovem de Bem Servir tem duração de seis meses e foi planejado após a realização de um diagnóstico que mostrou grande demanda por capacitação e oportunidades profissionais no bairro. Um levantamento feito em 2004 pela Secretaria Municipal da Habitação apontou que o desemprego atinge 15% da população economicamente ativa local. O índice entre os jovens pode ser maior. Embora o estudo não faça essa conta, a Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundação Seade mostra que, em abril de 2008, 24% das pessoas de 18 a 24 anos da região metropolitana de São Paulo estavam desempregadas, diante de uma média de desemprego de 14,2%. IDEAL COMUNITÁRIO 29 28_31_Voluntariados_v1.indd 29 1/15/70 12:23:26 AM V O LU N TA R I A D O CO R P O R AT I V O O passo seguinte foi identificar um parceiro local que pudesse ajudar a planejar o curso, mobilizar os jovens e disponibilizar o espaço para as atividades. A Congregação de Santa Cruz foi escolhida por sua atuação social há 28 anos no bairro. Então, o Senac São Paulo foi chamado para elaborar o conteúdo profissionalizante. Nosso papel é levar conhecimento. Se fizermos apenas uma doação, não teremos garantia de continuidade. Mas, com a participação de profissionais capacitados, a continuidade está garantida Ricardo Lima, diretor-superintendente da Cauê A opção por serviços de alimentação e hospedagem foi feita por causa da localização da Vila Nova Jaguaré, próxima a bares, restaurantes e hotéis. As moças e os rapazes aprendem, de segunda a sexta, das 14 às 17 horas, noções de marketing pessoal, atendimento ao cliente e informática. Parte das tarefas será realizada numa cozinha profissional, montada pela Congregação na comunidade, como contrapartida ao projeto. As palestras dos voluntários acontecem nesse período. As famílias também serão envolvidas, por meio de reuniões mensais para discutir o desenvolvimento do curso e dos jovens. FORMAÇÃO ABRANGENTE A iniciativa prevê que os participantes desenvolvam ações em grupo para melhorar a vida da comunidade. Eles também vão realizar 30 horas de vivência em empresas parceiras e dois tipos de visita: as orientadas – a bares, restaurantes e hotéis – e as culturais – a museus, teatros e cinemas. “Trata-se de uma metodologia de ensino exclusiva, capaz de mobilizar o educando para o fortalecimento de sua autonomia e participação cidadã, alêm de prepará-lo para construir uma carreira na área de serviços de alimentação e hospedagem”, explica o responsável pelo curso, Lusimar Guimarães Pereira, técnico de Desenvolvimento Profissional do Senac São Paulo. “Tudo isso é importante por oferecer essa abordagem globalizada aos jovens da Vila Nova Jaguaré”, acredita o padre Roberto Grandmaison, presidente da Congregação de Santa Cruz. Para os alunos, o clima é de expectativa. “Achei muito interessante ter vários temas num só curso. Vai ajudar no currículo. Hoje é difícil De praças a comunidade de migrantes A Vila Nova Jaguaré começou a se formar há cerca de 50 anos em áreas planejadas para serem praças do pólo industrial do Jaguaré, na zona oeste paulistana. Em 2004, uma pesquisa realizada pela Secretaria Municipal da Habitação antes do início do processo de urbanização da comunidade apontou 12.212 pessoas morando na comunidade, em sua maioria migrantes ou filhos de nordestinos, que vieram a São Paulo em busca de emprego em armazéns e fábricas da região. O levantamento mostra que são altos os índices de analfabetismo entre jovens e adultos e de gravidez precoce – tanto que muitos dos participantes do Arte Jovem de Bem Servir são pais. Maria das Dores Pereira, gerente do Centro da Criança e do Adolescente, ligado à Congregação de Santa Cruz, conta que, inicialmente, as áreas foram ocupadas sem infra-estrutura, saneamento básico e educação. “A maior parte das carências permanece até hoje”, diz. 30 IDEAL COMUNITÁRIO 28_31_Voluntariados_v1.indd 30 1/15/70 12:23:53 AM para um jovem conseguir emprego registrado”, diz Pryscila Alves de Souza, 18. “Tem muita concorrência”, acrescenta. Sua colega, Mayara Augusto Aleixo, 18, diz que se interessou pelo caráter inovador do curso. “Informática todo mundo faz, mas as aulas têm um diferencial”, diz ela. Outro participante, Rodrigo Moura de Assis, 19, comenta que gostaria de desenvolver novas habilidades. “Não sei nem fritar um bife”, confessa. José Aureliano Alves, 23, que é empregado na cozinha de um grande hotel paulistano, pretende ir além. “Meu desejo é um dia abrir meu próprio negócio.” FORÇA MOBILIZADORA O envolvimento de profissionais da Cauê promete ser decisivo para o resultado. Seu diretorsuperintendente, Ricardo Lima, ressalta a sintonia do projeto com os conceitos corporativos de sustentabilidade e os avanços da relação da indústria com a vizinhança. “Nosso principal papel é levar conhecimento. Se fizermos apenas uma doação, não teremos garantia de continuidade”, diz. “Mas, com a participação de profissionais capacitados, a continuidade estará garantida.” O plano é alinhar o voluntariado corporativo às iniciativas do ICC para otimizar esforços e recursos. Daniel Tanaka, analista de recursos humanos da Cauê, lembra que, no caso do curso na Vila Nova Jaguaré, a idéia é que os funcionários interessados às vezes encerrem sua jornada 1 hora mais cedo para dar as palestras. Individualmente ou em grupo, os profissionais de recursos humanos farão, por exemplo, simulações de entrevistas de emprego. Outros conversarão sobre segurança no trabalho, qualidade de vida ou temas com os quais têm familiaridade. A convocação dos voluntários da Cauê foi feita por meio de banners, impressos e alertas nos computadores. Ao lado de Ana Paula Borba, a assistente de vendas da área comercial Sandra Paula Silveira dos Santos vestiu touca e avental de cozinha para motivar os colegas. “Quero me dedicar 100%”, afirma ela, há 12 anos voluntária num asilo, mas pela primeira vez em uma atividade similar promovida pela empresa. O desafio de todos será multiplicar histórias como a do colega Leandro Castro Ribeiro. Aos 23 anos, o estudante de Administração de Empresas vive na comunidade Vila Nova Jaguaré e trabalha há quase quatro anos na Cauê. Ribeiro foi contratado após fazer um curso profissionalizante. Conhecedor das dificuldades de seus vizinhos, o rapaz transformou-se numa espécie de porta-voz da proposta. “Há muitos jovens sem emprego e sem incentivo aqui”, garante. “Esse programa certamente será uma oportunidade para eles progredirem”, resume. SERVIÇO COMPLETO Jovens da Vila Nova Jaguaré, como Rodrigo, Pryscila e Mayara, dispõem de todos os ingredientes para uma boa inserção no mercado: capacitação em área promissora, aulas de cidadania e acompanhamento de profissionais experientes PARA SABER MAIS Filme v Construindo um Projeto de Voluntariado. Vídeo do Instituto Faça Parte explica como montar uma ação estruturada de voluntariado. Disponível em: www.youtube.com/watch? v=sAw1MbcaPIE IDEAL COMUNITÁRIO 31 28_31_Voluntariados_v1.indd 31 1/15/70 12:24:18 AM AÇÕES&PARCERIAS Muito empenho por Angola Com apoio do Senai e da Organização dos Salesianos de Dom Bosco, o Instituto Camargo Corrêa e a Camargo Corrêa Angola investem em programa de capacitação de jovens para contribuir com o desenvolvimento do país Em uma das línguas bantas faladas em Angola, o kimbundu, “Kidimacaji” quer dizer “trabalhador”. E é justamente essa a palavra escolhida para dar nome ao projeto de capacitação de jovens para o mercado de trabalho desenvolvido pela Camargo Corrêa Angola e pelo Instituto Camargo Corrêa (ICC). A iniciativa é resultado de uma ação cooperada com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Organização dos Salesianos de Dom Bosco, da paróquia São José de Nazaré, no Cazenga, município nas proximidades da capital angolana, Luanda. O objetivo é suprir o déficit de formação técnica em um país em fase de recuperação econômica (veja boxe abaixo). O trabalho de transferência dos conhecimentos evitará que o Uma nação de jovens Em Angola, mais de 2/3 da população economicamente ativa (69%) não têm qualificação profissional, segundo o livro População e Mercado de Trabalho em Angola, de João Baptista Lukombo. O país tem 46% dos habitantes com menos de 15 anos, conforme mostra o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O mesmo documento revela que a taxa anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita foi de 1,5%. Nesse contexto, os jovens são peças fundamentais. Mas, como adverte o diretor executivo do ICC, Francisco Azevedo, ”eles só poderão participar desse processo de crescimento se estiverem devidamente capacitados e preparados para o mercado de trabalho”. país africano crie uma relação de dependência. “Vamos fortalecer a comunidade com a qual interagimos, levando conhecimento e ajudando com projetos auto-sustentáveis”, afirma o diretor geral da Camargo Corrêa Angola, Amauri Rodrigues Pinha. O projeto está em fase de estruturação e, desde já, tem o suporte de técnicos do Senai, entidade com ampla experiência em capacitação. Profissionais da instituição visitaram o país e realizaram um mapeamento das demandas locais nos segmentos produtivos mais carentes e de maior relevância. Assim, definiu-se a implementação de nove cursos, nas áreas de Eletricidade, Informática, Culinária e Confecção. “As questões de infra-estrutura, educação básica e as diferenças culturais são os desafios para a realização do projeto ”, diz Alexandre Barreto, da gerência de tecnologia industrial do Senai. As tarefas dos educadores da instituição incluem a preparação do currículo, o levantamento dos equipamentos necessários e o treinamento de professores angolanos. Também está sob sua responsabilidade a preparação do material didático, 32 IDEAL COMUNITÁRIO Acoes_v2.indd 32 1/15/70 12:26:31 AM FOTOS: FERDINANDO CASAGRANDE que receberá as devidas adaptações lingüísticas, técnicas e normativas. “O importante foi determinar que, ao concluir os cursos, os angolanos do Cazenga e região tenham condições de gerar renda própria”, afirma Luis Carlos de Souza Vieira, diretor regional do Senai São Paulo. As aulas devem começar em fevereiro de 2009. Em dois anos, a expectativa é capacitar cerca de 1.800 jovens com mais de 16 anos. O foco principal são os residentes das regiões onde a construtora realiza obras de infra-estrutura, como o Cazenga e a cidade vizinha de Sambizanga. A população ali é estimada em 2 milhões de habitantes, muitos deles refugiados de guerra. VIDA NOVA, CASA NOVA A sede do projeto Kidimacaji vai ser o Centro Social Santa Bakhita, que já oferece cursos profissionalizantes. O local foi um armazém de cereais na época colonial. Ele foi recuperado a partir de 2002, com apoio do governo português. As obras continuam para transformar o prédio, administrado pela Organização dos Salesianos de Dom Bosco, em um espaço de formação de mão-de-obra especializada. Estão sendo reformados laboratórios, salas de aula, dois vestiários e o setor administrativo. Uma quadra de esportes será construída. A renovação do prédio tem tudo para trazer uma nova dinâmica para o entorno. Por isso, o projeto também prevê investimentos em infraestrutura básica. O cronograma de obras abrange melhorias na rua de acesso ao centro, perfuração de um poço artesiano que garanta o abastecimento de água e mudanças nas instalações elétricas, hidráulicas e no sistema de iluminação. “A formação desses profissionais vai facilitar sua inserção no mercado de trabalho”, espera o padre Marcelo Ciavatti, diretor-geral da paróquia São José de Nazaré. “Nosso objetivo é dar à juventude esperança e ferramentas para enfrentar o futuro.” O conteúdo também vai envolver temas relativos à cidadania e à qualidade de vida. “A intenção é estimular a percepção dos alunos sobre questões que afetam a comunidade onde eles vivem, sensibilizando a juventude sobre seu papel na reconstrução do país”, afirma a assistente social Rosana Góis, da Camargo Corrêa Angola. FORMAÇÃO TÉCNICA Centro Social Santa Bakhita oferecerá cursos nas áreas de Eletricidade, Informática, Culinária e Confecção IDEAL COMUNITÁRIO 33 Acoes_v2.indd 33 1/15/70 12:26:51 AM INOVAÇÕES SUSTENTÁVEIS A força dos ecoprodutos Calçados e camisetas produzidos dentro de conceitos sustentáveis. A Alpargatas tem investido para incluir matérias-primas alternativas em suas linhas de fabricação. Os ecoprodutos são desenvolvidos de forma a gerar o menor impacto possível no meio ambiente. “A empresa caminha para uma convergência de interesses alinhados com necessidades da sociedade e do planeta em relação a produtos cada vez mais sustentáveis”, afirma o gerente de comunicação interna e sustentabilidade da Alpargatas, Carlos Parente. A coleção 2008 da Rainha Autêntico Eco, por exemplo, utiliza uma série de materiais inovadores. Modelos como o Bullit, o VI 1979 e o F-7 possuem etiqueta de fibra de bambu, forro de tecido de garrafas PET, palmilhas de borracha natural, solado com materiais reciclados, lona e cadarço de juta e de algodão orgânico. Os couros sulino (sem cromo) e vegetal AmazonLife (feitos de látex extraído por seringueiros da floresta Amazônica, no Acre) também estão nos calçados. Suas camisetas são de algodão orgânico, cultivado sem o uso de agrotóxicos e naturalmente colorido. Tecidos sustentáveis também são utilizados nos modelos Mizuno Runcycle, feitos de garrafas PET. Cada unidade é produzida utilizando dois recipientes. Para elaborar o tecido, as garrafas são lavadas e moídas. Os pedaços são então fundidos e passam por máquinas que os convertem em fibras. Depois, elas são transformadas em fios, que são entrelaçados. A linha 2008 inclui a Runcycle Performance, a primeira tela ecológica para a prática esportiva. O material garante melhor performance ao atleta porque absorve mais o suor, seca mais rápido e tem proteção UV. Outra novidade da Mizuno é o tecido Repreve, elaborado com 100% de matéria reciclada, vinda de refugo de produção ou de artigos usados. Sua fabricação poupa energia. Meio quilo de pano evita o consumo de 18 kWh ou de 1,9 litro de gasolina. Em 500 toneladas, isso seria suficiente para abastecer, em média, 18 mil lares durante um mês ou 1.800 carros por ano. E, tão importante quanto, uma economia significativa dos recursos naturais. VESTUÁRIO ECOLÓGICO As camisetas da Rainha Autêntico Eco são produzidas com algodão orgânico, naturalmente colorido. As da Mizuno Runcycle são feitas de garrafas PET 34 IDEAL COMUNITÁRIO 34-35_InovacoesSust_1.indd 34 1/15/70 3:03:39 AM Boas idéias e práticas sustentáveis As inscrições para o Prêmio Idéias e Práticas Sustentáveis estão abertas até 25 de agosto. A premiação foi lançada no final de maio, em um encontro do fundador da consultoria inglesa SustainAbility, John Elkington, com acionistas, membros do Conselho e executivos do grupo Camargo Corrêa. A intenção do concurso é ser uma ferramenta educativa e mobilizadora de sustentabilidade, que estimule a construção de uma cultura interna sobre o assunto. Por isso, a participação é restrita aos profissionais da Camargo Corrêa. O prêmio está dividido em duas modalidades: Práticas Sustentáveis, com foco em ações implantadas nas empresas entre janeiro de 2007 e março de 2008; e Idéias Sustentáveis, que reconhece sugestões inéditas apresentadas por grupos de profissionais. Em cada uma delas, há três categorias: Econômica, Social e Ambiental. Inovação e criatividade são os dois principais critérios de classificação. O resultado final será divulgado na festa de confraternização do grupo, marcada para 11 de dezembro. CNEC no Programa Brasileiro do GHG Protocol A CNEC Engenharia, da Divisão de Engenharia e Construção do grupo Camargo Corrêa, tornou-se a primeira empresa brasileira de seu setor de atuação a se comprometer com a quantificação e o gerenciamento de suas emissões de gases de efeito estufa. O compromisso veio após a assinatura como membrofundador do Programa Brasileiro de Inventário Corporativo de Gases de Efeito Estufa. Também são signatários do documento a Anglo American, o Banco do Brasil, o Boticário, o Bradesco, a Copel, a Natura, a Nova Petroquímica, a Petrobras, a Sadia, a Votorantim e o Wal-Mart. A contabilização das emissões será feita com base na ferramenta internacional do Greenhouse Gas (GHG) Protocol. O gerente de Estudos e Projetos Ambientais da CNEC Engenharia, Kalil Farran, diz que o processo se insere na estratégia de sustentabilidade do grupo. “Estamos preocupados com a diminuição das emissões e com o tratamento adequado de gases , o que pode gerar valor para a Camargo”, diz. A assinatura deve acelerar a implantação do inventário e a elaboração de pogramas de controle nas demais empresas do conglomerado. CARTAZ PARA REFLETIR Semana incentiva debate sobre o tema Coleta voluntária Os profissionais da CAVO da Vila Nova Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, estão participando de um projeto piloto de destinação de resíduos sólidos recicláveis – metais, plásticos, papéis e vidros. É o Posto de Entrega Voluntária (PEV), que trabalha a conscientização ambiental na empresa e na comunidade do entorno. A iniciativa foi lançada em 5 de junho, durante a semana interna de Meio Ambiente. Lixeiras de 240 litros foram instaladas na unidade local. Com o objetivo de ampliar sua atuação, o PEV conseguiu a adesão de três empresas vizinhas: a Unidade de Tratamento de Resíduos (UTR) e a Cauê, do grupo Camargo Corrêa, e a Iron Mountain. A parceria fez com que as outras três companhias também se mobilizassem para a implantação e a reativação da coleta seletiva em suas instalações. O potencial de mobilização é de mais de 800 pessoas. Os materiais serão vendidos para empresas especializadas em reciclagem. Os recursos arrecadados serão investidos em projetos sociais para a comunidade. IDEAL COMUNITÁRIO 35 34-35_InovacoesSust_1.indd 35 1/16/70 2:22:15 AM CARTAS Este espaço está aberto a opiniões, sugestões e debates a respeito de temas relativos à atuação do Instituto Camargo Corrêa. O e-mail de contato é idealcomunitario@ institutocamargocorrea.org.br Novamente a revista superou as expectativas em termos de abrangência e profundidade dos temas tratados. A matéria sobre a parceria inédita entre o Instituto Camargo Corrêa e o Instituto Alpargatas para a implantação do programa Escola Ideal na Paraíba acena para caminhos inovadores no campo da transformação da educação pública. Aliar os valores que unem os institutos e somar suas capacidades em prol do Ensino Fundamental nesse estado concretiza a aspiração do grupo rumo ao futuro. Parabéns às equipes dos institutos por inspirar-nos neste novo desafio. Carla Duprat diretora de Sustentabilidade do grupo Camargo Corrêa São Paulo A revista está linda e completa. As ações do Instituto Camargo Corrêa em parceria com as Unidades de Negócio têm feito diferença nas comunidades onde atuamos. Realmente podemos dizer que o trabalho é diferenciado e está sendo reconhecido de forma abrangente. Maurício A. Queiroz gerente industrial da unidade de Pedro Leopoldo (MG) e Santana do Paraíso (MG) da Cauê Para a Associação Difusora de Treinamento e Projetos Pedagógicos (Aditepp), foi importante entrar em contato com os conteúdos da revista. Especialmente com as informações sobre redes, um tema em destaque na área social. Esse aprofundamento conceitual é fundamental para que as organizações aprimorem suas ferramentas de articulação comunitária. Lilian Romão responsável pela Articulação Estratégica de Recursos da Aditepp Curitiba Agradecemos à Ideal Comunitário por divulgar os projetos sociais do Ângela de Cara Limpa, da Sociedade Santos Mártires. Aparecer ao lado do Instituto Camargo Corrêa aumenta a nossa credibilidade. Enviamos uma cartinha a nossos potenciais parceiros com a primeira edição da revista e, sem dúvida, isso nos abriu portas e facilitou o estabelecimento de novas alianças. Sulália Souza coordenadora do programa Ângela de Cara Limpa São Paulo O número 2 da revista Ideal Comunitário está muito interessante. Gostei, sobretudo, da abordagem dos temas, que mostra, com exemplos claros e práticos, projetos que geram transformação social e oportunidades em diferentes comunidades. É inovadora a forma de trabalho do Instituto Camargo Corrêa e a maneira como os colaboradores do grupo estão participando por meio do programa Ideal Voluntário. A entrevista com a socióloga Rosa Ter acesso à revista Ideal Comunitário é muito importante para mim, que atuo na área de consultoria. Boas iniciativas como as do Instituto Alpargatas na Paraíba e as ações do grupo Camargo Corrêa devem servir de estímulo para que outras empresas se preocupem não só com o capital econômico, mas também com o social e o ambiental. Juciara Joyce Silva Vasconcelos consultora em Responsabilidade Social Campina Grande (PB) Maria Fischer está muito boa. Concordo com a importância do trabalho em rede realizado com os diferentes setores para tratar as questões sociais e alcançar mudanças sustentáveis. Florência Cafferata gerente da Fundação Loma Negra Buenos Aires, Argentina 36 IDEAL COMUNITÁRIO 36_37_Cartas_Artigo.indd 36 1/15/70 12:40:48 AM ARTIGO Fernando Rossetti DIVULGAÇÃO Pensar e agir global e local FERNANDO ROSSETTI é secretário-geral do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE). É cientista social e Jornalista Amigo da Criança, título concedido pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) aos profissionais de comunicação comprometidos com os direitos da criança e do adolescente. Nos últimos 20 anos, o conceito de franquia social se disseminou. A idéia era sistematizar metodologias que pudessem provocar a transformação social e aplicá-las em diferentes contextos. Os críticos se mobilizaram, defendendo que o que funcionava em uma determinada realidade não servia necessariamente para outro cenário. Assim, levantaram a bandeira do “pensar global e agir local”. A necessidade de os projetos sociais estarem alinhados às especificidades de cada comunidade tornou-se referência para a atuação social e, sobretudo, para o investimento social corporativo. Era preciso que os projetos sociais desenvolvidos pelas empresas levassem em conta a globalização econômica, a revolução das telecomunicações e dos meios de transporte, sem ignorar o contexto local. Mas a economia mundial mudou, as empresas nacionais estão cada vez mais se internacionalizando e é hora de refletir se o modelo do “pensar global e agir local” ainda é suficiente para pautar as ações sociais das grandes empresas. No cenário atual, países emergentes, como o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, possuem quase a metade da população mundial. São economias importantes, que têm potencial para atuar de igual para igual com as das nações desenvolvidas. Hoje, o hemisfério Norte depende do hemisfério Sul, tanto quanto o Sul depende do Norte. E a participação das corporações brasileiras no âmbito internacional é fundamental para o enriquecimento sustentável do país. Algumas empresas, como a Petrobras, a Vale, a Gerdau, a Odebrecht e o grupo Camargo Corrêa, despontam no mundo glo- balizado e estão alinhando mundialmente seus produtos, serviços e marcas. Elas sabem que o investimento social privado, feito de forma séria e com conteúdo, traz um importante valor intangível para a marca. Por isso, aproveitam para aplicar ações sociais em cada lugar em que desenvolvem suas atividades econômicas. Se as empresas quiserem se tornar sustentáveis, devem priorizar, além da qualidade, sua relação com a comunidade e com o meio ambiente E caminham no sentido certo. O investimento social privado está se tornando um elemento de fundamental importância para diferenciar o produto ou serviço que as grandes companhias comercializam. Isso porque os artigos são cada vez mais parecidos entre si. Se as empresas quiserem se tornar sustentáveis e reconhecidas por isso no plano internacional, devem priorizar, além da qualidade, sua relação com a comunidade e com o meio ambiente. E principalmente entender que, na atualidade, a identidade das pessoas é criada local e globalmente. Portanto, mais que “pensar global e agir local” ou “pensar local e agir global”, o ideal é pensar e agir, ao mesmo tempo, global e local. Porque é isso o que determina a vida no século XXI. IDEAL COMUNITÁRIO 37 36_37_Cartas_Artigo.indd 37 1/15/70 12:41:15 AM Quando pensamos no futuro, nosso compromisso é estar lá. Grupo Camargo Corrêa Divisão Engenharia e Construção Divisão Cimento Divisão Calçados, Têxteis e Siderurgia Divisão Concessões Divisão Incorporação, Meio Ambiente e Corporativa Infra-estrutura Brasil Cauê Alpargatas Camargo Corrêa Investimentos em Infra-estrutura CCDI Construção, projetos e gestão de obras de infra-estrutura. Líder na construção de hidrelétricas. Com sede no Brasil, produz cimento cinza, cimento branco e concreto. Calçados (Havaianas, Dupé, Timberland), artigos esportivos (Mizuno, Rainha, Topper) e tecidos industriais (Locomotiva, Night & Day). Loma Negra Infra-estrutura Internacional Construção, projetos e gestão de obras de infra-estrutura e desenvolvimento imobiliário na América Latina e na África. Tavex Com sede na Argentina, produz cimento, concreto (Lomax), argamassas especiais e cal. Controla a Ferrosur, concessionária de ferrovias de carga. Produtora de denim, nascida da fusão entreTavex Algodonera e SantistaTêxtil. Construções e Edificações Usiminas Edificações residenciais, comerciais, industriais, hospitalares e de segurança. Participação no bloco de controle da siderúrgica. Concessões nos setores de transporte rodoviário e de geração e distribuição de energia, por meio de participações no controle da CPFL Energia e da Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR). Controla a A-port, empresa de gestão aeroportuária, e desenvolve negócios em infra-estrutura. Desenvolvimento de negócios imobiliários residenciais e comerciais. Controla a HM Engenharia, especializada no segmento econômico. CAVO Serviços e Meio Ambiente Gestão ambiental de resíduos, águas e efluentes. Participa do controle da Essencis, da Loga e da UTR. Área Corporativa e Serviços Compartilhados Itaúsa e Alcoa Inc. Construção Naval Participações na Itaúsa e Alcoa Inc. Construção de navios e plataformas marítimas. Participa do Estaleiro Atlântico Sul, instalado em Suape (PE). Engenharia Estudos e projetos de engenharia, gerenciamento completo de empreendimentos e obras, consultoria e assessoria técnica. O grupo Camargo Corrêa tem sua origem em 1939, em uma pequena empresa de construção, que cresceu com o Brasil e diversificou seus negócios. Estruturado em cinco divisões, atua em 19 países e emprega 51 mil pessoas. E, porque olha para o futuro e quer estar lá, é um grupo comprometido com a inovação e a sustentabilidade. www.camargocorrea.com.br AnúncioCamargo.indd 36 1/15/70 12:42:13 AM EXPEDIENTE CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA CAMARGO CORRÊA S.A. Presidente: Vitor Hallack Vice-presidentes: A.C. Reuter, Carlos Pires Oliveira Dias e Luiz Roberto Ortiz Nascimento Conselheira: Flavia Buarque de Almeida ARTE Cristiano Rosa e José Dionísio Filho (editores) e Ricardo Benichio (foto da capa) CONSELHO DELIBERATIVO DO INSTITUTO CAMARGO CORRÊA Presidente: Rosana Camargo de Arruda Botelho Vice-presidente: Renata de Camargo Nascimento Conselheiros: Antonio Miguel Marques, Carla Duprat, Daniela Camargo Botelho de Abreu Pereira, Flavia Buarque de Almeida, Gabriella Camargo Nascimento Palaia, José Édison Barros Franco, Luiza Nascimento Cruz, Márcio Utsch, Maria Regina Camargo Pires Ribeiro do Valle, Maria Tereza Pires Oliveira Dias Graziano, Raphael Antonio Nogueira de Freitas e Vitor Hallack IMPRESSÃO Litokromia INSTITUTO CAMARGO CORRÊA Presidente do grupo Camargo Corrêa e do Instituto: Vitor Hallack Diretor executivo: Francisco de Assis Azevedo Superintendente: João Teixeira Pires Coordenador Administrativo: Leonardo Giardini Coordenadora de Comunicação: Clarissa Kowalski Coordenadores de Programas: Jair Resende, Juliana Di Thomazo, Lorenza Longhi e Maria Eugênia Franco Analista de projetos: Paula Freitas Apoio: Bárbara da Silva Gomes e Denise Jaqueline de Moura REVISTA IDEAL COMUNITÁRIO COMITÊ EDITORIAL Andréia Peres, Antonio Miguel Marques, Carla Duprat, César Nogueira, Clarissa Kowalski, Flavia Buarque de Almeida, Francisco de Assis Azevedo, José Édison Barros Franco, Luiza Nascimento Cruz, Sunara Avamilano e Veet Vivarta PRÉ-IMPRESSÃO Firstpress ASSESSORIAS DE COMUNICAÇÃO DO GRUPO CAMARGO CORRÊA CAMARGO CORRÊA S.A. César Nogueira e Sunara Avamilano ALPARGATAS Carlos Parente e Cássia Navarro CAMARGO CORRÊA CIMENTOS Fernanda Guerra e Daniel Tanaka ENGENHARIA & CONSTRUÇÃO Tuca Figueira TAVEX Jaqueline Soares ENTRE EM CONTATO Opiniões, dúvidas e sugestões sobre a revista Ideal Comunitário: Rua Funchal, 160, São Paulo, CEP 04551- 903 Tel. (11) 3841-5631 Fax: (11) 3841-5894 e-mail: [email protected] PRODUÇÃO EDITORIAL Cross Content Comunicação DIRETORA Andréia Peres TEXTO Eduardo Lima (editor executivo), Laura Giannecchini (editora), Camila Lopes, Déborah Oliveira, Iracy Paulina, Rachel Sciré e as jornalistas Amigas das Crianças Ellen Cristie, Henriqueta Santiago e Luciana Santos. Revisão: Regina Pereira 2_Sumario_Expediente.indd Sec1:39 Realização Parceiro 1/14/70 11:25:37 PM Meada de algodão usada para fabricar o tecido denim, matéria-prima do jeans Capa_Aprov_ED3.indd Sec1:2 1/15/70 1:39:05 AM