XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 MARIANA: UMA ANÁLISE DA FIGURA FEMININA EM “AMOR DE PERDIÇÃO” Carina Pereira de Paula (G-CLCA-UENP/CJ) Cristina Monteiro da Silva (G-CLCA-UENP/CJ) Juliana Aparecida Chico de Morais (G-CLCA-UENP/CJ) Rita de Cassia Lamino Araújo (Orientadora- CLCA-UENP/CJ) Resumo: Camilo Castelo Branco em “Amor de Perdição” nos apresenta o amor em uma atitude combativa perante os obstáculos sociais que leva os enamorados a um destino fatal. Além do mais, atribui destaque a figura feminina apresentando-a como um ser superior, ora semelhante a um anjo ora mulher real. Partindo desse pressuposto, pretende-se no presente artigo fazer algumas reflexões sobre as características que o autor atribuiu a uma das protagonistas dessa novela: Mariana, a camponesa que nunca ouviu a palavra amor dos lábios de Simão. Opta-se por analisar essa personagem por ela fugir, em alguns pontos, do padrão essencialmente romântico e em outros por representá-lo fielmente, sendo sofredora, possuindo um amor inocente e grandioso por Simão, embora não correspondido. Portanto, para evidenciar a essência do romantismo presente na vida dessa mulher, serão utilizados como base teórica os estudos de Coelho (1946/1960), Lopes e Saraiva (2001) e Vechi (1998), os quais nos ajudam a compreender melhor como é construída a imagem feminina na obra camiliana. Palavras-chave: Camilo Castelo Branco. Amor de Perdição. Mariana. INTRODUÇÃO O Romantismo foi inserido em Portugal em 1825, tendo três fases. A segunda geração romântica, também conhecida como Ultrarromantismo, teve em Camilo Castelo Branco seu principal representante. Camilo nos apresenta, muitas vezes, em suas novelas o amor em uma atitude de combate perante os obstáculos sociais que leva os enamorados a um destino fatal. Além do mais, consagra a imagem da mulher apresentando-a como um ser superior, ora idealizada e portadora de atitudes angelicais, ora real e possuidora de atitudes concretas. A partir dessa concepção, intenciona-se, neste artigo, enfocar essa questão da mulher dentro da obra camiliana. Uma das grandes obras escritas por Camilo foi Amor de Perdição, obra essencialmente romântica que trata de um triângulo amoroso e gira o tempo todo em torno do amor impossível de se concretizar. Nesta obra, encontramos duas mulheres que se diferenciam: a mulher-anjo, delicada, pura e frágil, opondo-se à mulher independente e madura. (CEREJA e MAGALHÃES, 2010, p. 47). 249 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Assim, de acordo com Saraiva e Lopes (2001, p. 784), na novela camiliana “à mulher confere-se sempre um papel da mais nobre dignidade, geralmente angélica, por vezes demoníaca”. Em Amor de Perdição há a presença de duas mulheres que refletem essa percepção admitida por Saraiva e Lopes, na narrativa elas se relacionam com Simão, o protagonista da história: Tereza, a jovem fidalga e Mariana, a mulher do povo. Ambas amam Simão, porém, trata-se de amores impossíveis uma vez que se choca com as normas ditadas pela sociedade. Tereza ama Simão que a ama, apesar disso, a rivalidade existente entre a família Albuquerque e Botelho, juntamente com o desejo do pai da moça de vê-la casada com o primo, Baltasar, impossibilita a concretização desse amor. Por outro lado, Mariana, além de pertencer a uma classe social inferior a de Simão, tem a convicção de que este nunca a amará, já que dedica todo o seu sentimento à jovem fidalga. Ao ponderar sobre estas mulheres, Jacinto do Prado Coelho (1946, p.327), sugere que Tereza, a menina fidalga e Mariana, a mulher do povo formam “um díptico, em que pelo contraste se acentua a delicadeza frágil da primeira e o desembaraço viril da segunda”. Nesse sentido, o amor das duas mulheres pelo jovem fidalgo se completa pelas diferenças existentes entre elas, o modo como amam e são amadas por Simão: “Uma morrendo amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 91-92). Partindo desse pressuposto, pretende-se no presente artigo fazer algumas reflexões sobre as características que o autor atribuiu a uma das protagonistas dessa novela: Mariana, a camponesa que nunca ouviu a palavra amor dos lábios de Simão. Optamos por analisar essa personagem por ela fugir em alguns pontos do padrão essencialmente romântico e, em outros, o representarem fielmente, sendo sofredora, possuindo um amor inocente e grandioso por Simão além das dificuldades que ela tem em realizá-lo. Portanto, tem-se o intuito de evidenciar a essência do romantismo presente na vida dessa mulher e para isso, serão utilizados como base teórica os estudos de Coelho (1946/1960), Lopes e Saraiva (2001) e Vechi (1998), os quais nos ajudam a compreender melhor como é construída a imagem feminina na obra Camiliana. BREVE RESUMO DA OBRA Amor de Perdição trata de amores impossíveis que levam os protagonistas à ruína, ou seja, a morte. A novela tem como personagens principais, Simão um jovem fidalgo rebelde, 250 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Teresa, a donzela inacessível e Mariana, a pobre sofredora. A novela inicia-se descrevendo como Teresa e Simão se conhecem e, logo, se apaixonam. Simão que, até então, era arruaceiro e de gênio explosivo, agora, motivado por essa paixão, procura se regenerar e estudar para poder oferecer um futuro digno ao lado da moça. Ambos nutrem um amor proibido porque suas famílias são grandes inimigas. Os enamorados enfrentam muitos obstáculos na tentativa de ficarem juntos: o pai de Simão manda-o para Coimbra e o pai de Teresa lhe dá a opção de casar-se com o primo Baltazar ou enclausurar-se em um convento. No decorrer dos acontecimentos, aparece Mariana, a camponesa que, também, alimenta uma paixão por Simão, mas a mantém em segredo; e mesmo sabendo que nunca será retribuída ela permanece o tempo todo ao lado do fidalgo fazendo de tudo para ajudá-lo, até mesmo, renunciando sua própria felicidade. Passam-se três anos, e, durante esse tempo, Teresa vai para o convento, e por não conseguir se encontrar com Simão eles começam a trocar cartas; logo, o pai dela a muda de convento a fim de impossibilitar o contato entre os dois apaixonados. Nessa situação, o jovem tenta raptá-la, mas sem sucesso, acabando por matar o primo de Teresa, Baltasar Coutinho, com quem seu pai queria casá-la contra sua vontade e, por isso, ele é condenado à forca. Após todos os percalços sofridos pelos protagonistas, a história encaminha-se para um final trágico: Simão é condenado ao exílio, Teresa não suporta a ideia de viver separada dele e morre; ao saber da morte da amada Simão, que estava no navio a caminho do degredo, adoece e, também, morre. Mariana, que via como única razão de sua vida Simão, ao vê-lo ser jogado ao mar já morto, joga-se também ao mar. Como fica evidente, o livro todo pode ser muito bem resumido pela célebre frase do próprio autor, logo, na introdução: “Amou, perdeuse e morreu amando”. Destino fatal que se aplica aos três personagens centrais. MARIANA: A MULHER SOLITÁRIA E SOFREDORA Segundo Jacinto do Prado Coelho (1946, p. 333), Mariana é a personagem “mais humana e mais complexa da obra”, ainda que o autor não explicite de modo minucioso o que se passa no íntimo da jovem, sugere suas qualidades através de seus atos colocando-a diante de nossos olhos e fazendo com que nos sensibilizemos com a sua singela vida que revela uma grande alma. Trata-se, pois de uma personagem diferente e rara, pois no decorrer da trama nos comove com sua dedicação e amor a um homem, Simão Botelho, mesmo sabendo de sua 251 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 extrema paixão por outra jovem, Tereza, configurando-se, assim, como uma amante silenciosa, e, talvez, a personagem que mais sofre no romance, já que nunca se realiza sentimentalmente, sendo capaz de renunciar sua própria felicidade em nome da felicidade de Simão e morrer por amor tendo um final trágico. Moça humilde, de vinte e quatro anos, possuía olhos azuis e uma grande beleza. Sendo conforme atribui Coelho, “fisicamente, mais insinuante que Teresa” (1946, p. 333). Dela o narrador apenas nos diz que tem: “formas bonitas, um rosto belo e triste” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 41). Porém, evidencia seus encantos, através da fala de outros personagens, expondo que fisicamente era mais favorecida em beleza que Teresa, como no momento em que ela vai visitar Simão na prisão e o carcereiro a compara à jovem fidalga atribuindo a Mariana maior graça, destacando a superioridade de sua beleza: “Esta é bem mais bonita que a fidalga!” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 86). Além do mais, suas ações demonstram que se trata de uma mulher corajosa, concreta e forte; possuidora de um coração puro e honesto. Dona de casa muito cedo, por ter perdido sua mãe quando criança, ela vive com o pai, o ferrador João da Cruz, nas vizinhanças de Viseu. Sua relação com ele reflete respeito mútuo e companheirismo. Mariana é uma filha dedicada e seu pai a admira por sua determinação e caráter: “Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas têm Viseu!” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 72). O pai orgulha-se da rebeldia e determinação da moça: exibindo-a como mulher de fibra: “A Mariana!... Aquilo é d’a pele de Satanás!” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 107). Contrária aos preceitos sociais fecha-se aos galanteios dos conquistadores da aldeia, mesmo tendo vários pretendentes recusa-se a casar. Diferente do que acontece a Teresa, Mariana tinha liberdade para escolher e o casamento não era imposto por seu pai. Este confiava na filha, pois ela cuidava dele e o protegia mantendo-o longe de encrencas: Maridos não lhe faltam; [...] o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a falar a verdade, sou só e mais ela, e também não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ela, fidalgo, muitas asneiras tinha eu feito! (CASTELO BRANCO, 1996, p. 61) No entanto, toda essa robustez se desfaz no momento em que conhece Simão Botelho, o protegido de seu pai, por quem se apaixona. Mariana amava em absoluto o jovem rapaz e, ao lado do pai, estava sempre pronta a auxiliá-lo no que fosse necessário. Cuidou de suas feridas causadas no confronto com os criados de Baltasar; arrumou-lhe dinheiro fazendoo aceitar sem que soubesse que na verdade eram suas economias; torna-se sua confidente, 252 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 amiga e cúmplice da paixão proibida por Teresa e, até mesmo, abandona o pai para estar ao lado dele e prestar-lhe serviços na prisão. Símbolo da mulher romântica que renuncia da própria vida para o bem do homem que ama, Mariana passa a viver exclusivamente para Simão, estando sempre ao seu lado quando este necessita de cuidados e companhia; transformando-se em sua serva sem pedir nada em troca: “Não me quer aqui? Irei, e voltarei quando vossa senhoria chamar. Dissera isto Mariana com os olhos a verterem lágrimas. Simão notou as lágrimas, e pensou um momento na dedicação da moça; mas não lhe disse palavra alguma” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 64). Mesmo quando Simão diz a ela que só pode retribuir seu amor com amizade, sua reação causa surpresa, já que suas atitudes permanecem fiéis a esse amor, ela continua a ajudá-lo e servílo sem nunca medir sacrifícios, embora soubesse que não seria correspondida: - Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora? - E daí? Quem lhe diz menos disso?! - Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade. -E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?! - Nada me pediu, Mariana; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz o peso da obrigação. (CASTELO BRANCO, 1996, p. 118) Pelo fato de possuir um nobre caráter e grandioso amor por Simão, quando este não tem mais como se comunicar com Teresa, Mariana se dispõe a ajudar chegando ao ponto de abnegar seus próprios sentimentos por compaixão da situação do fidalgo: “- Se o senhor Simão quer, eu vou à cidade e procuro no convento a Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça duma freira, e dou-lhe uma carta sua para entregar à fidalga” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 71). Por amar intensamente Simão, Mariana adota uma posição compassiva e sobrehumana, sendo capaz de controlar seu ciúme, para ajudar Simão a aproximar-se de Teresa, o que é uma contradição um tanto inexplicável, pois seria de se esperar que ela tentasse, na verdade, separá-los. Todavia, ela levou as cartas de Simão a Teresa sem qualquer interesse, ou mesmo, sem esperar por recompensas; firme rejeita a quantia que Simão lhe oferece para levar o recado a Teresa, assim como, recusa o anel que Teresa lhe dá em agradecimento por levar-lhe o recado respondendo ao questionamento da fidalga: “- Porque não fiz algum favor a vossa excelência. A receber alguma paga há de ser de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja feliz” (CASTELO BRANCO, 1996, p.74). Essa última fala de Mariana deixa bem claro que o que ela fez não foi pensando no bem de Teresa, mas sim, no do seu amado Simão, todas as suas atitudes eram na tentativa de 253 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 deixar mais ameno o sofrimento do fidalgo. Agindo sem esperar reciprocidade, em desprendimento e renúncia total de sua felicidade, Mariana mostra-se paciente diante dos acontecimentos; se sacrifica tanto por amor que se torna uma personificação do espírito de Sacrifício, uma simbologia de caráter perfeito e assim caracteriza-se como uma personagem ultrarromântica sublime por seus sentimentos e ações que chegam a despertar a comoção do narrador: O que tu sofrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pai, que rara virtude a tua! Se o amas, se por lhe dar alívio às dores, tu mesma lhe desempeces o caminho por onde te ele há de fugir para sempre, que nome darei ao teu heroísmo?! Que anjo te fadou o coração para a santidade desse obscuro martírio?! (CASTELO BRANCO, 1996, p.71) Tão grande era o amor de Mariana por Simão que em certos momentos, apesar de ser forte e destemida, vacila e exibe seu lado frágil: “Mariana, [...], quando viu seu pai pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. [...] e o acadêmico achou estranha sensibilidade em mulher afeita a curar as feridas com que seu pai vinha laureado de todas as feiras e romarias. [...]” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 60). Do mesmo modo, assim que fica sabendo que Simão, seu amor, fora condenado à forca, fica abalada psicologicamente, chegando a endoidecer e quase morrer, o que faz com que Simão, por um momento, deixe de pensar apenas em Teresa e comece a pensar também na dor de Mariana, demonstrando preocupação por ela: [...] Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via delirante a falar em forca e a pedir que a matassem primeiro. Agudíssima foi então a dor do acadêmico ao compreender, como se instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Mariana o amava até o extremo de morrer. (CASTELO BRANCO, 1996, p. 91) Ao analisar as virtudes de Mariana, Vechi explica que: O amor que sente por Simão está ligado à existência e não à transcendência; por isso, Mariana se comporta como mulher e não como o anjo idealizado em que acaba se transformando Teresa. Seu amor oscila entre o desejo da mulher que almeja ser correspondida no seu sentimento e a comoção de mãe que deseja minorar os sofrimentos do filho. Diante da impossibilidade de concretizar o seu desejo de mulher, realiza-se na expectativa de gozar da companhia de Simão Botelho, num estado de êxtase em que paixão e amor maternal se confundem. (VECHI, 1998, p. 71) 254 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Como ressalta o crítico, por mais que Mariana amasse Simão e desejasse que seu amor fosse correspondido, ela sabia que isso era algo impossível. Contudo, essa falta de reciprocidade não diminuía em nada seu amor pelo jovem, ao contrário, ela o amava tanto que seu amor de mulher era, por vezes, até confundido com um amor maternal, devido à dedicação com que a camponesa cuidava de Simão parecida com a de uma mãe por um filho, querendo protegê-lo de tudo e de todos. Quando Mariana se depara com a fidalga, a pobre moça passa a pensar nas feições de Teresa e a fazer comparações, confessando nunca ter visto outra mulher tão linda como ela. Esse é um dos momentos em que fica perceptível o ciúme que a camponesa sente, no fundo de seu coração, por Teresa: “Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 75). A respeito desse sentimento, o próprio narrador nos revela que apesar de tudo o coração de Mariana era de mulher, amava com fantasia e, como tal, inevitavelmente sentia ciúmes, porém se esforçava obstinadamente para controlá-lo: Amava, e tinha ciúmes de Teresa, não ciúmes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em labareda aos lábios, porque os olhos se abriam prontos em lágrimas para apagá-la. Sonhava com as delícias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer a cabeceira do desgraçado. (CASTELO BRANCO, 1996, p. 119) Entretanto, apesar de notar a beleza de sua “rival” constata também, que o fato de ela ser camponesa e, portanto, mulher do povo, a torna mais forte, saudável, corajosa e determinada, enquanto Teresa, criada sempre dentro de casa, se apresenta mais frágil e angelical: “E mais a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os trabalhos; e, se fosse preciso meter uma lanceta no braço e deixar correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz” (CASTELO BRANCO, 1996, p. 118). De acordo com Pavanelo (2011, p.146) Mariana vê no degredo a única chance de ser feliz ao lado de Simão, pois numa terra distante talvez ele não pensasse tanto em Teresa e como só teria Mariana por perto, haveria uma leve possibilidade de sentir pela camponesa não mais esse sentimento fraternal e sim o mesmo amor que sentia por Teresa. Porém, Simão tinha uma visão pessimista do degredo, já que ficaria afastado da jovem fidalga; enquanto Mariana tinha expectativas de realização do amor e vê o degredo como um lugar de oportunidades, e se necessário fosse trabalharia para sustentar a ela e ao jovem fidalgo. Sua esperança era tanta que quando Simão lhe pergunta se ela sabe o que é degredo e o quão tal lugar é insuportável, a mesma responde: 255 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 - Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra mais quente que a nossa; mas também há lá pão, e vive-se... [...] - Não há de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso à mulher dum preso, que cumpriu dez anos de sentença na Índia, e viveu muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma tenda; e, se não fossem as saudades, diz ela que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida que por cá. [...] Verá como eu amanho a vida. Afeita ao calor estou eu; vossa senhoria não está; mas não há de ter precisão, se Deus quiser, de andar ao tempo. (CASTELO BRANCO, 1996, p. 117) Por sua vez, Mariana encara a vida de forma mais madura, mais prática e sem tantos sonhos, demonstrando ser ligada ao mundo real, diferente de Teresa que é mulher idealizada. Por isso, ou seja, por ser mulher real, Mariana tem suas fraquezas, e, em alguns momentos, deixa transparecer o desejo de ser amada por Simão, o ciúmes que sentia secretamente de Teresa e a esperança de que, no degredo, pudesse ter seu amor retribuído. Portanto, Mariana vivia ao mesmo tempo um amor real e ideal por Simão, em que se entende por real a dedicação que tinha por Simão e amor ideal é aquele que a camponesa nutria por meio do sonho e fantasia de um dia poder viver uma história de amor com Simão no degredo, longe de todos. Simão e Mariana até chegaram a partir para o degredo, todavia, o fidalgo não aguentou a dor de saber que sua amada havia falecido e acabou adoecendo e morrendo no caminho, deixando Mariana sozinha e acabando, dessa forma, com seu sonho de felicidade. Ao contrário de Teresa que via na morte a possibilidade de realização plena do amor em outra dimensão, Mariana não a via como uma forma de realização do amor, por isso, ela queria mesmo era viver para estar perto de Simão que era a razão de sua vida. Assim, quando o jovem fidalgo faleceu, não havia mais sentido para a camponesa continuar vivendo, como ela já havia declarado em um momento anterior: - Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu ponho muito em me matar? Não tenho pai, não tenho ninguém, a minha vida não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão pode viver sem mim? Paciência!... Eu é que não posso... (CASTELO BRANCO, 1996, p. 119) Logo, tendo em vista a impossibilidade de viver sem Simão e de concretização de seu sonho, Mariana firmemente opta pelo suicídio. Assim, quando comparada à Teresa, Mariana representa uma figura bem mais real e complexa que a fidalga, pois ama Simão acima de tudo, e se dedica totalmente a ele sem 256 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 requerer nada em troca, porém, como mulher romântica, em seu íntimo reserva uma doce esperança de um dia ser amada. Como argumenta Coelho: A plebéia Mariana, pela fidalguia da sua alma, coloca-se no plano dos nobres apaixonados, Teresa e Simão; enquanto João da cruz é bem real e Teresa quase apenas ideal, Mariana é ao mesmo tem real e ideal, tem um pé no mundo terreno e outro no mundo da poesia. (COELHO, 1946, p. 335) CONSIDERAÇÕES FINAIS Dessa forma, ao examinar os traços definidores de Mariana, percebe-se que os sentimentos da jovem por Simão são demasiadamente intensos, mesmo diante de um amor impossível. É pertinente destacar que o amor se engrandece com as dificuldades: amor obsessivo, que reflete com perfeição as principais características do romantismo. Por sua vez, o amor de Mariana pelo fidalgo possuía dois impedimentos: o fato de ela ser de classe social inferior à dele e, principalmente, por Simão amar Teresa incondicionalmente. Além do mais, também merece destaque, a forma como ela encarava a morte: a via simplesmente como o fim e nada mais. Consequentemente, Mariana a seu modo, simboliza uma heroína romântica; sendo uma mulher real, mais madura, prática e sem tantos sonhos, que abdica da própria vida para o bem do seu amado Simão. REFERÊNCIAS CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 22ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1996. CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Livro didático - Português Linguagens. 2º ano do ensino médio, 7º edição reformulada, volume 2, São Paulo: Editora Saraiva, 2010. COELHO, Jacinto do Prado. Introdução ao Estudo da Novela Camiliana. Coimbra: Imprensa Nacional, 1946. ______.Raízes e sentido da obra camiliana. Obra Seleta. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1960. LOPES, Oscar; SARAIVA, Antônio José. História da Literatura Portuguesa. 17ª ed. Porto: Porto Editora, 2001. PAULA, Carina Pereira de; SILVA, Cristina Monteiro da; MORAIS, Juliana Aparecida Chico de. Teresa e Mariana: o mesmo sentimento representado de diferentes formas em “Amor de 257 XI I I C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI O N EI RO Ed uc aç ão e m p ers p e ct iv a: c a mi nh os p a ra a t ra ns f o r m açã o d os p a rad i g mas ed u ca ci on ais U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO A N AI S – 2 0 1 3 I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9 Perdição”. In: XII CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2012. Anais. .. UENP - Universidade Estadual do Norte do Paraná. Jacarezinho, 2012. p. 558 – 569. PAVANELO, Luciene Marie. O que fazem as mulheres: as personagens femininas de Camilo Castelo Branco. In: Antares: Letras e Humanidades. vol.3, nº6, jul./dez. 2011, p.144-160. Disponível em<www.ucs.br/etc/revistas/index.php/antares/article/download/.../947>Acesso em 06 fev.2012. SANTOS, Indiaíra Rios dos. Mariana, a mais Romântica personagem em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Disponível em <http://www.webartigos.com/artigos/mariana-a-mais-romantica-personagem-em-amor-deperdicao-de-camilo-castelo-branco/67083/> Acesso em 18 jan. 2012. VECHI, Carlos Alberto. Roteiro de Leitura: Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco. São Paulo: Editora Ática, 1998. Para citar este artigo: PAULA, Carina Pereira de; SILVA, Cristina Monteiro da; MORAIS, Juliana Aparecida Chico de. Mariana: uma análise da figura feminina em “Amor de Perdição”. In: XIII CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2013. Anais...UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná – Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de Letras Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2013. ISSN – 18083579. p. 249 – 258. 258