UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E CULTURA CONTEMPORÂNEAS FERNANDA MAURICIO DA SILVA A CONVERSAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE PROGRAMAS JORNALÍSTICOS TELEVISIVOS Salvador 2010 FERNANDA MAURICIO DA SILVA A CONVERSAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE PROGRAMAS JORNALÍSTICOS TELEVISIVOS Tese de doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, como requisito para obtenção do grau de Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Orientadora: Profa. Dra. Itania Gomes Salvador 2010 Sistema de Bibliotecas - UFBA Silva, Fernanda Mauricio da. A conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos / Fernanda Mauricio da Silva. - 2010. 294 f. : il. Orientadora: Profª Drª Itania Maria Mota Gomes. Tese (doutorado) - Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Comunicação, Salvador, 2010. 1. Telejornalismo. 2. Conversação. 3. Estudos culturais. 4. Democracia. 5. Entretenimento. I. Gomes, Itania Maria Mota. II. Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Comunicação. III. Título. CDD - 070.195 CDU - 070:654.19 A Itania Gomes, minha orientadora, testemunha da minha vida acadêmica. AGRADECIMENTOS A meus pais, pelos esforços - em todos os sentidos – em me dar uma boa formação. A Mauricio, pela paciência em ouvir minhas idéias mais entusiasmadas e minhas queixas mais desanimadas. A minhas irmãs, Carla, Paula e Renata, por terem formado meu caráter. A Felipe Pichler, meu refúgio. A minha orientadora, Itania Gomes, a quem admiro a vontade, coragem, persistência, disciplina e tantas outras características. Aos colegas do Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo (os que estão e os que já passaram), pelas críticas e contribuições. Um agradecimento especial para Jussara Maia, Juliana Gutmann e Karina Araújo. Aos alunos que passaram por mim. Até hoje não sei foram eles que aprenderam comigo, ou o contrário. Agradeço especialmente a Lindiwe Aguiar pelo auxílio com a parte técnica. A Ivã Márcio e Maria Helena Gomes pela ajuda na finalização da tese. Ao Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pelo suporte nessa formação acadêmica. À Capes, pelo financiamento desta pesquisa e pela bolsa de estágio doutoral. A François Jost e Evelyne Cohen, pela receptividade durante o delicioso período do sanduíche na Paris III. A Deus, sem o qual nada disso seria possível. Entender o jornalismo como parte da cultura contemporânea requer perceber a maneira como ele funciona como ambos: um conjunto de instituições sociais concretas e um repertório de práticas literárias historicamente forjados. Michael Schudson, 2003 SILVA, Fernanda Mauricio. A conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos. 342f. il. 2010. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010. RESUMO Cada vez mais, as emissoras de televisão apostam na transmissão de informações por meio dos diálogos entre jornalistas e convidados: programas de entrevistas, de debates e telejornais, que modificaram a tradicional função dos apresentadores de ler as notícias, para transmiti-las através de uma conversa. A presente tese propõe-se a compreender os lugares, papéis e configurações da conversação nos programas jornalísticos televisivos que a utilizam como principal estratégia na relação com a audiência. Este estudo ancora-se nas formulações dos Estudos Culturais ingleses e latino-americanos como instrumento teórico-metodológico para pensar: primeiro, na conversação como estratégia de construção dos programas individualmente, o que foi feito por meio do conceito de modo de endereçamento, que diz respeito ao tom e estilo dos programas. Em segundo lugar, na relação entre o uso da conversação e estruturas mais amplas que norteiam os modos de leitura e escritura. Para isso, foi utilizado o conceito de gênero televisivo (e suas variantes, os subgêneros), concebido como uma estratégia de comunicabilidade histórica e socialmente formada. Por fim, foi necessário considerar que os recentes papéis da conversação no telejornalismo devem ser compreendidos a partir de uma dimensão processual, o que foi feito através do conceito de estrutura de sentimento, conceito dá conta dos movimentos de construção de um modelo dominante de telejornalismo e das possíveis alternativas que o tencionam. Para as análises foram selecionadas dez edições de seis programas da televisão brasileira: Observatório da Imprensa (TV Brasil), Roda Viva (TV Cultura), Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia Brasil (Rede Globo), Sem Censura (TV Brasil) e Marília Gabriela Entrevista (GNT), gravados durante um período variado de 2006 a 2009. Por meio das análises, foi possível constatar pelo menos duas dimensões mais evidentes sobre a conversação no telejornalismo. Primeiro, o emprego da conversação como estratégia para que o jornalismo efetue seu papel na democracia promovendo uma arena de discussão de temas de interesse público. Associadas a esta dimensão, é recorrente o uso de expressões como “discussão” e “debate”, que ratificam um lugar discursivo de aprofundamento das informações, participação e busca pela verdade. Em segundo lugar, a conversação é apresentada à audiência como a forma verbal por meio da qual o jornalismo televisivo se aproxima do campo do entretenimento, possibilitando novas formas de recepção de seus produtos, baseadas na informação aliada à diversão e ao prazer. Nesse caso, a conversação provoca um efeito de espontaneidade, uma vez que a conversação em cena busca assemelhar-se às conversas casuais da vida cotidiana. A conclusão aponta três modelos em que a conversação se mostra mais evidente no telejornalismo - a conversa informativa, argumentativa e testemunhal – e o modo como essas práticas conversacionais empregadas pelos mediadores provocam transformações no telejornalismo: a retomada da matriz opinativa; a valorização dos testemunhos pessoais como prova de veracidade das informações; e uma inclinação do telejornalismo a uma temática voltada para o cotidiano. Palavras-chave: telejornalismo; conversação; estudos culturais; democracia; entretenimento. SILVA, Fernanda Mauricio. The conversation as a strategy for the television journalism. 342f. il. 2010. Doctoral thesis - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010. ABSTRACT Increasingly, television broadcasting seeks to transmit information through the dialogue between journalists and guests: talk shows, debates and news programs, which changed the traditional role of the presenters reading the news, to transmit them through a conversation. This thesis seeks to understand the recent forms of appropriation of conversation in television news programs that use it as the main strategy in their configuration. This study is based on the formulation of british and latin-american Cultural Studies as a tool for theoretical and methodological approach to understand: first, conversation as a strategy of building individual program, which was done through the concept of mode of address, which relates to the tone and style of programs. Secondly, the relationship between the use of conversation and wider structures that guide the ways of reading and writing. To reach that goal, it was used the concept of genre (and its variants, i.e., subgenres), a communicative strategy formed historically and socially. Finally, it was necessary to consider that recent conversation roles in TV journalism should be understood from a procedural dimension, which was done through the concept of structure of feeling, concept that gives an account of the movement to build a dominant model of journalism and of possible alternatives that intend to. For the analysis, ten editions of six brazilians TV shows were chosen for this study: Observatório da Imprensa (TV Cultura), Roda Viva (TV Brasil), Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia Brasil (Rede Globo), Sem Censura (TV Brasil), and Marília Gabriela Entrevista (GNT), recorded between 2006 and 2009. Through analysis, it was possible to see at least two dimensions that are most relevant on the conversation in journalism. Firstly, the use of conversation as a strategy for promoting the role of journalism in democracy: promoting an arena for debate on subjects of public interest. Associated with this aspect, the use of terms such as “discussion” and “debate” are recurrent, supporting its discursive role of widening information and the search for truth. Secondly, conversation is presented to the audience as a verbal means through which television journalism enters the field of entertainment, giving way to new forms of reception of its products, based on informativity, together with fun and pleasure. In this case, conversation is used by the programs as a way of attributing authenticity to the mediators‟ discourse, as a result of the spontaneity seen in the relations established through conversation in the programs. The conclusion indicates three models in which conversation is more evident in telejournalism - informative, argumentative, and testimonial – and the way in which these models used by mediators have incited transformations in journalism: the use of personal opinions as the source of relevant and detailed information; the valuing of testimonies as proofs of the truth (as they allow the audience to identify with situations lived by others); and a tendency for telejournalism to deal with everyday themes. Key-words: telejournalism, conversation, cultural studies, democracy, entertainment. SILVA, Fernanda Mauricio. La conversation comme une stratégie pour la construction des programmes de journalism télévisées. 342f. il. 2010. Thèse de doctorat - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010. RÉSUMÉ De plus en plus, les chaînes de télévision transmetent l'information à travérs un dialogue entre les journalistes et les invités : des talk-shows, des débats et des émissions de nouvelles, qui ont changé le rôle traditionnel des présentateurs lecture des nouvelles, de les transmettre à travers une conversation. Cette thèse vise à comprendre les lieux, les rôles et les paramètres de la conversation dans les programmes de journalism télévisé qui l'utilisent comme une stratégie principale par rapport à l'audience. Cette étude est ancrée dans les formulations des études culturels de l‟Anglaterre et d'Amérique latine comme un outil de réflexion théorique et méthodologique: d'abord, dans la conversation comme une stratégie de construction de chaque programme, qui a été fait par l'intermédiaire du concept de mode d'adressage, qui dit ce qui concerne le ton et le style de programmes. Deuxièmement, la relation entre l'utilisation de la conversation et plus large des structures qui guident les moyens de lecture et d'écriture. Pour ce faire, nous avons utilisé le concept de genre (et ses variantes, les sous-genres), conçu comme une stratégie de transmissibilité historiquement et socialement constitué. Enfin, il est nécessaire de considérer que les rôles récente conversation dans le journalisme de télévision devrait être comprise à partir d'une dimension procédurale, qui a été fait par l'intermédiaire du concept de structure du sentiment, concept que rend compte du mouvement pour construire un modèle dominant du journalisme et de des alternatives possibles qui ont l'intention. Pour l'analyse, nous avons sélectionné dix éditions de six programmes de la télévision brésilienne: Observatório da Imprensa (TV Cultura), Roda Viva (TV Brasil), Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia Brasil (Rede Globo), Sem Censura (TV Brasil), and Marília Gabriela Entrevista (GNT), constaté pendant une période allant de 2006 à 2009. Grâce à l'analyse, il était possible de voir au moins deux dimensions qui sont plus évidents sur la conversation dans le journalisme. Premièrement, l'utilisation de la conversation comme une stratégie visant à faire du journalisme leur rôle dans la démocratie par la promotion d'une arène pour les débats sur des sujets d'intérêt public. Associé à cette dimension est l'utilisation récurrente des termes tels que «débat» qui confirment un lieu d'approfondissement de l'information discursive, la participation et la vérité. Deuxièmement, la conversation est présenté auxspectateurs comme la forme à travers lequel le journalisme de télévision se trouve à proximité du domaine du divertissement, permettant à de nouvelles façons de recevoir vos produits basés sur l'information associée à l'amusement et le plaisir. Dans ce cas, la conversation conduit à un effet de spontanéité, acause de le ressemblement aux conversations informelles de la vie quotidienne. La conclusion expose trois modèles dans lesquels la conversation est plus évidente dans les programmes de journalism - la conversation informative, argumentative et des témoignages - et comment ces pratiques conversationnelles employées par les médiateurs causer des changements dans le journalisme de télévision: le retour de la matrice de jugement, la reprise de témoignages personnels la preuve de la véracité de l'information, et une inclinaison de journalisme à un thème axé sur le quotidien. Mots-clés: journalisme télévisé, conversation, études culturelles, démocratie, divertissement. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Alberto Dines e o cenário do programa ..................................................... Figura 2: Imagens da vinheta do Observatório da Imprensa ................................... Figura 3: Locução no Observatório da Imprensa ..................................................... Figura 4: enquadramento dos participantes no mesmo plano ................................... Figura 5: resultado da enquete do Observatório da Imprensa .................................. Figura 6: cenário atual do Roda Viva ........................................................................ Figura 7: seqüência de imagens da vinheta ............................................................... Figura 8: charges de Paulo Caruso durante o Roda Viva .......................................... Figura 09: construção narrativa da conversação pelos recursos da linguagem televisiva ................................................................................................................... Figura 10: o público no Roda Viva ........................................................................... Figura 11: página de abertura do site do Roda Viva ................................................. Figura 12: vinheta do Jornal das Dez ....................................................................... Figura 13: escalada do Jornal das Dez ..................................................................... Figura 14: expressões faciais e gestualidade no Jornal das Dez .............................. Figura 15: cenário para interação com jornalistas especializados ............................ Figura 16: repórter no local do acontecimento ......................................................... Figura 17: Bancada do Bom Dia Brasil antes e depois da reforma em junho de 2006 ........................................................................................................................... Figura 18: diálogo entre apresentadores ................................................................... Figura 19: cenário da sala de visitas ......................................................................... Figura 20: conversação articulada com jogo de enquadramentos ............................ Figura 21: vinheta do Bom Dia Brasil ...................................................................... Figura 22: recursos gráficos explicativos sobre o julgamento de Suzane von Ritchtofen e dos irmãos Cravinhos ........................................................................... Figura 23: duas versões do cenário do Sem Censura ................................................ Figura 24: disposição dos convidados no cenário e suas interações ....................... Figura 25: vinheta do Sem Censura........................................................................... Figura 26: locomoção de Leda Nagle no cenário ..................................................... Figura 27: clipe ......................................................................................................... Figura 28: vista geral do cenário do Marília Gabriela Entrevista............................. Figura 29: enquadramentos do Marília Gabriela Entrevista..................................... Figura30: seqüência de imagens da vinheta .............................................................. Figura31: “twitteira” do Roda Viva........................................................................... Figura 32: as jornalistas Carla Amorim (Roda Viva) e Cláudia Tisato (Observatório da Imprensa) ..................................................................................... Figura 33: gestos expressivos dos entrevistados ....................................................... 81 82 83-85 89 98 102 107 108 120-122 125 126 131 135-137 142 144 148-149 153 155 156 160-162 165 167-168 171 172 173 177 197 200 201 202 223 224 250 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 12 PARTE I: PONTO DE PARTIDA: conversação e jornalismo....................................... 22 1. CONVERSAÇÃO, SOCIEDADE E TELEVISÃO...................................................... 24 1.1. A conversação como forma cultural.................................................................... 25 1.2. Aproximações entre conversação e telejornalismo ............................................. 31 2. O JORNALISMO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA......................................... 39 2.1. O jornalismo e as esferas públicas.................................................................... 40 2.2. Qual o público do interesse público?................................................................ 44 2.3. Jornalismo político no Brasil e o “poder moderador”...................................... 49 2.4. Os rituais de construção de objetividade.......................................................... 52 PARTE II: CONVERSAÇÃO E MODOS DE ENDEREÇAMENTO: premissas para análises dos programas............................................................................ 55 1. CONCEITOS BALIZADORES PARA A ANÁLISE ................................................. 57 1.1. A natureza processual do (tele)jornalismo: estrutura de sentimento................... 57 1.2. Gêneros televisivos ............................................................................................. 62 1.3. Modo de endereçamento .......................................................................... 66 1.4. Operadores de análise de modo de endereçamento ................................. 69 2. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA E OS ARAUTOS DO JORNALISMO ....................................................................................................... 79 2.1. As disposições discursivas em torno do consenso ................................... 80 2.2. O jornalismo enquanto metalinguagem ................................................... 90 2.3. Os arautos do jornalismo ......................................................................... 95 3. RODA VIVA: REFLEXÃO E DEBATE NA ARENA .................................... 100 3.1. Tomada de posição .................................................................................. 101 3.2. Debate público na democracia ................................................................. 110 2.3. Posicionamento da audiência ................................................................... 117 3.4. Transformações na arena ......................................................................... 122 4. ANÁLISE DO JORNAL DAS DEZ: 24 HORAS DE NOTÍCIA NO AR....... 128 4.1. As notícias no fim da noite ...................................................................... 129 4.2. Polifonia e unicidade ............................................................................... 134 4.3. Jornal às dez ............................................................................................. 147 5. AS NOTÍCIAS NO INÍCIO DO DIA: ANÁLISE DO BOM DIA BRASIL..................................................................................................................... 152 5.1. Dispositivos audiovisuais para a construção de posições discursivas...... 152 5.2. A interação e as posições discursivas ...................................................... 157 5. 3. O Bom Dia Brasil e a legitimidade no campo jornalístico ..................... 163 6. O SEM CENSURA E A CONSTRUÇÃO DE SOCIABILIDADE ................ 169 6.1. Palavra quase franqueada......................................................................... 170 6.2. Jornalismo e possibilidades de socialização ............................................ 179 6.3. Uma comunidade geograficamente situada.............................................. 188 7. MARÍLIA GABRIELA ENTREVISTA: INFORMAÇÃO, CELEBRIDADES E INTIMIDADE..................................................................... 191 7.1. O status dos participantes e as relações estabelecidas ............................. 192 7.2. A personalização como meio para a informação ..................................... 196 7. 3. Pauta e modo de conversar ..................................................................... 203 PARTE III: A CONVERSAÇÃO NO TELEJORNALISMO: valores democráticos e estratégias de entretenimento...................................................... 210 1. CONVERSAÇÃO, TELEJORNALISMO E DEMOCRACIA ...................... 212 1.1. As perspectivas sobre a relação entre jornalismo, conversação e democracia ...................................................................................................... 213 1.2. Níveis de participação da audiência na conversação dos programas ...... 218 1.3. A dimensão política reivindicada ............................................................ 228 1.4. Papel político do jornalismo .................................................................... 234 2. TELEJORNALISMO, CONVERSAÇÃO E ENTRETENIMENTO ........... 240 2.1. A conversação informal e o entretenimento ............................................ 241 2.2. Os efeitos de espontaneidade e a autenticidade do jornalismo ................ 243 2.3. A partilha de experiências e a construção de afetividade ........................ 256 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 267 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 277 GLOSSÁRIO............................................................................................................ 292 INTRODUÇÃO O telejornalismo brasileiro surgiu em 1950 tendo como exemplar o telejornal Imagens do Dia, exibido pela TV Tupi de São Paulo (REZENDE, 2000). O primeiro programa jornalístico televisivo do país constava de uma sequência de filmes com locução em off que narrava o que era exibido pela imagem. Posteriormente, o Repórter Esso, exibido pela mesma emissora, consagrou um modelo de telejornalismo baseado na locução em estilo radiofônico de Gontijo Teodoro. Poucos recursos visuais compunham o noticiário televisivo que ainda perdia em audiência para o rádio. Somente após os avanços tecnológicos, que permitiram a transmissão via satélite, o arquivo em videotape, o uso das cores e a formatação de um cenário sem estar baseada no patrocinador, foi que o telejornalismo se dinamizou criando novos formatos e ampliando a cobertura jornalística. Ao longo de seus sessenta anos, o telejornalismo nacional passou por intensas modificações de modo a validar as premissas do jornalismo que se desenvolveram historicamente. A migração de repórteres da mídia impressa para a televisão valorizou o trabalho de apuração e constituiu uma tradição de cobertura baseada na presença do jornalista e do cinegrafista no local do acontecimento, a fim de oferecer à audiência um relato que se pretendia mais preciso e verdadeiro sobre os fatos. Aliado a isso, o telejornalismo explorou as potencialidades do meio audiovisual para ratificar valores de instantaneidade e simultaneidade, valorizando a transmissão dos acontecimentos e do próprio produto jornalístico ao vivo. A concorrência entre as emissoras impulsionou a criação de formatos1 jornalísticos diferenciados dos telejornais e permitiu a validação de novas narrativas televisivas. Essa breve descrição salienta a natureza processual do telejornalismo, aqui compreendido sob a perspectiva dos Estudos Culturais ingleses, que o concebem como forma cultural e instituição social (WILLIAMS, 1997) que se reconfigura a partir das transformações sócioculturais efetuadas no contexto que o insere. O cenário político e econômico, bem como as transformações tecnológicas e a sociedade promovem transformações tanto no modo de fazer o telejornalismo, quanto na relação com os telespectadores, que criam novas preferências, novos critérios de avaliação dos produtos e novos usos dos programas. 1 Neste trabalho, o conceito de formato aproxima-se ao de subgênero, compreendido como estratégia de comunicabilidade que indica os modos como um texto midiático deve ser usado pelos receptores, bem como as possibilidades de construção do campo de produção. Esses e outros conceitos serão melhor explicados mais adiante. 12 Tal perspectiva sobre o telejornalismo se deu a partir da relação desta autora com os Estudos Culturais, sobretudo as matrizes inglesa e latino-americana, que vem se construindo desde a graduação. Se num primeiro momento a aproximação com os Estudos Culturais se deu em função de uma necessidade de compreender os hábitos de consumo televisivo – e, por conseguinte, os lugares que a recepção ocupa no processo comunicativo – mais recentemente as questões centrais dos Estudos Culturais, especificamente a relação entre comunicação, cultura e poder, encontraram-se com preocupações que concernem ao jornalismo. A experiência como docente da disciplina “Teorias do Jornalismo” permitiu levar os Estudos Culturais a questões tais como a institucionalização do jornalismo, a constituição de valores e premissas do campo, as práticas dos jornalistas nas redações. Se por um lado as “teorias do jornalismo” buscam fixar padrões para explicar as práticas jornalísticas formadas historicamente na Europa e Estados Unidos nos século XIX, os Estudos Culturais permitem olhar o jornalismo a partir de sua relação com a sociedade e todas as tensões que envolvem essa relação. É a partir desse lugar que o jornalismo, e mais especificamente o telejornalismo, é compreendido neste trabalho, levando em conta suas transformações a partir de uma relação que se estende à sociedade e à cultura. Recentemente, percebe-se uma tentativa dos programas jornalísticos de se fazerem mais próximos aos hábitos cotidianos da audiência, tanto na abordagem temática quanto na própria estruturação dos programas. Assim, alguns telejornais propõem a redução do uso do teleprompter e apostam numa forma de apresentação “mais espontânea, mais conversada2”. É nesse sentido que se observa um alargamento do uso da conversação pelo telejornalismo, construindo-se como lugar tanto de aprofundamento das notícias, quanto de sua informalização. Se a conversação televisiva, historicamente, está relacionada ao debate de assuntos provenientes da esfera pública, ela também esteve vinculada aos formatos e temas reconhecidos como mais leves e informais, como é o caso das mesas redondas de futebol. Na dissertação de mestrado desta autora, foi demonstrado que o programa Bate-Bola com o Assinante, exibido pela ESPN Brasil, transmite as informações jornalísticas com base nas 2 Em entrevista ao programa Vídeo Show da TV Globo, a apresentadora do telejornal local carioca RJTV, Ana Paula Araújo afirmou que o novo modelo do programa reforçaria a informalidade na apresentação das notícias. 13 formas dialógicas estabelecidas no interior do programa3 (SILVA, 2005). Paralelamente às notícias exibidas como matéria, reportagem, nota coberta ou nota ilustrada4, a apresentadora Sônia Francine evocava tanto comentaristas, que assumiam o papel de especialistas para analisar os acontecimentos do mundo dos esportes, quanto convidados representantes do campo esportivo, que davam um caráter testemunhal às notícias, com informações que superavam as partidas esportivas. Além disso, o programa abria espaço para a participação intensa dos telespectadores por meio de fax e e-mails com perguntas e comentários sobre os esportes, promovendo, assim, um “bate-bola” com o telespectador assinante da ESPN Brasil. Com base nos diálogos dos participantes, que ora provocavam um debate, ora se apresentavam como uma conversa casual, o programa buscava uma diferenciação com relação aos demais noticiários esportivos diários: além dos assuntos factuais relacionados aos esportes, no Bate-Bola o telespectador poderia encontrar uma discussão sobre os temas, ultrapassando a dimensão de informatividade característica dos programas esportivos diários e consolidando um lugar de autoridade para tratar dos assuntos ligados ao cotidiano dos clubes de futebol e das demais modalidades esportivas. Por estar numa emissora segmentada, o BateBola propunha um jornalismo baseado na opinião e no aprofundamento das notícias veiculadas por meio de informações adicionais provenientes dos jornalistas especializados e dos testemunhos dos representantes de clubes de futebol, atletas e técnicos. Pensando nas formas como o telejornalismo é praticado hoje, as observações alcançadas por meio da análise do Bate-Bola conduziram a um olhar sobre os papéis que a conversação pode assumir nos diversos produtos jornalísticos, o que foi ratificado pela disseminação de programas que a utilizam durante sua apresentação, seja nos diálogos efetuados entre repórteres e apresentadores, seja pela presença de convidados no estúdio. 3 O objetivo daquela pesquisa era comparar os modos de construção de dois subgêneros televisivos: os programas temáticos (representados pelos programas esportivos) e os telejornais. Assim, analisamos, além do Bate-Bola com o Assinante, o Globo Esporte (Globo), o Esporte Total (Band), o Jornal Nacional (Globo) e o Jornal da Band (Band). 4 “Nota ilustrada” foi o termo criado por mim em minha dissertação de mestrado para designar um formato de apresentação da notícia que consta de uma seqüência de imagens acompanhada pela voz de um narrador em off. A voz em off não é da apresentadora e as imagens que aparecem não são do evento que está sendo tratado. São imagens que se relacionam ao acontecimento de forma mais distanciada ou imagens de arquivo. O aspecto central desse formato é o texto verbal do narrador, cabendo às imagens aparecerem apenas como ilustração. Este aspecto é um dos diferenciais do programa com relação a outros do mesmo subgênero. 14 Aliado a isso, é notável a quase absoluta ausência dessa temática na bibliografia sobre telejornalismo nacional5, a qual tem se empenhado muito mais em compreender os telejornais e suas relações com outros campos – mais especificamente o político e econômico – a partir de abordagens contextuais. Tal postura das pesquisas em comunicação no Brasil contrasta com as inclinações de pesquisa no restante do mundo, que têm demonstrado crescente interesse nas relações entre conversação, televisão e jornalismo (CLAYMAN E HERITAGE, 2004; CORNER, 1999; ËKSTROM, 2001; JONES, 2008; LUNT E STENER, 2005; MARTINEZ, 2003; MATEU, 1998; ÖNEBRING, 2003; TIMBERG e ERLER, 2004; TOLSON, 2001). A partir de diferentes perspectivas, os autores empenham-se em compreender o lugar da conversação na televisão a partir de formatos específicos, a exemplo dos talk shows, e a forma como esses programas constroem esferas públicas e legitimam-se a partir de um modo específico de conversar. A presente tese tem como objetivo investigar as recentes formas de apropriação da conversação nos programas jornalísticos televisivos, a fim de compreender, de maneira mais ampla, os lugares, papéis e configurações que a conversação ocupa no telejornalismo brasileiro hodiernamente. A hipótese é que a conversação no telejornalismo faz referência a modelos calcados na vida cotidiana, mas alia-se a valores do jornalismo, a fim de configurar tanto seriedade, quanto leveza. Considera-se que a conversação no ambiente televisivo institucionaliza-se em modelos já reconhecidos pela audiência - a entrevista e o debate – mas não se limita a eles, prometendo constituir-se como uma reprodução verossímil às conversas espontâneas da vida cotidiana, o que se traduz por expressões como “um bate-papo informal” ou “uma conversa com quem está em casa”. Por conta disso, a conversação neste trabalho será tomada como uma estratégia empregada pelos programas para a construção de sua relação com a audiência. Para tanto, foi necessário compreender as diferentes concepções que a conversação pode possuir na vida ordinária, a fim de chegar às apropriações efetuadas no campo jornalístico e as aproximações com as premissas que o constituem enquanto instituição social. Este é o tema da primeira parte desta tese, na qual assume-se que a conversação é um tipo de interação 5 À exceção disso, merecem destaque os trabalhos de José Luiz Braga (1994, 2006a); Cárlida Emerim Jacinto Pereira (2004), França e Trindade (2009). 15 marcada por elementos verbais e não verbais (como gestos, tom de voz, etc) efetuada por dois ou mais participantes, que adapta-se a partir de variações culturais e situacionais. As contribuições de Erving Goffman (1986, 2005) sobre a organização das experiências cotidianas efetuadas pelos indivíduos permitiram compreender que as práticas, inclusive a conversação, estão sujeitas a diferentes usos a depender das condições contextuais que a cercam. Sendo assim, o presente trabalho rejeita uma análise da conversação calcada em paradigmas restritos à linguagem, que buscam encontrar padrões permanentes para as diferentes interações verbais. Nesse rastro, são inúmeras as perspectivas analíticas que observam os rituais, a utilização de expressões de abertura e encerramento, o uso de pronomes de tratamento entre outras formalizações da linguagem para se compreender como as trocas entre os indivíduos se dão, principalmente as correntes derivadas da matriz lingüística sobre a conversação. Tais análises, apesar de indicarem modalizadores eficazes para o olhar do analista, dizem muito pouco das dinâmicas e envolvimentos dos participantes durante as trocas. Ao contrário, assume-se, aqui, a conversação como uma forma cultural e o objetivo do analista é compreender as variações permitidas pelo cenário cultural e situacional que abriga as diferentes interações. Ao migrar para a televisão, a conversação obedece a certos pré-requisitos impostos pelo meio, tais quais demarcações temporais, limites do número de participantes, o controle efetuado por um representante do campo televisivo, a relação com os jogos de câmera. Desta maneira, este trabalho pretende observar, a partir das pesquisas já realizadas, de que modo a conversação institucionaliza certas formas de conversar que se transformam em formatos televisivos específicos, criando hábitos de audiência e tradições nas práticas produtivas televisivas. A consideração da conversação no campo midiático impõe uma reflexão central para este trabalho: de que forma a conversação se aproxima das premissas e valores do jornalismo. Sendo assim, a primeira parte prossegue com uma demarcação do lugar de fala adotado neste trabalho tratando o jornalismo como instituição social e a televisão como forma cultural (WILLIAMS, 1997). O jornalismo é aqui pensado como resultado de um processo histórico que implicou numa construção de seu significado na vida social. Deste modo, mesmo as premissas e valores que constituem o jornalismo – objetividade, valores-notícia, verdade e relevância, atualidade, vigilância, interesse público – que foram concebidas a partir de um 16 modelo muito específico de sociedade anglo-americana do século XVIII, não se cristalizaram em significados fixos, admitindo novas configurações a partir de novas expectativas sociais sobre a objetividade no jornalismo (SCHUDSON, 1978), de modelos distintos de democracia que impõem diferentes formas de vigilância (ALBUQUERQUE, 1999), da influência das tecnologias multimídias no procedimento jornalístico e do consumo televisivo a partir de um público multicultural que redefine a noção de interesse público (DEUZE, 2005). A apropriação da conversação pelo telejornalismo se percebe mais nitidamente nas materializações que produtos concretos fazem dela. Assim, a segunda parte desta tese é dedicada à análise de programas jornalísticos televisivos que têm a conversação como estratégia de sua construção e apresentação da audiência. Seguindo a proposta do Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo6, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, o escopo teórico-metodológico que norteia este trabalho reside em três conceitos fundamentais, que, articulados, demonstram os possíveis usos da conversação no telejornalismo brasileiro. A noção de estrutura de sentimento, conceito formulado por Raymond Williams (1979) para uma análise da cultura, foi apropriado para dar conta dos movimentos de construção de um modelo dominante de telejornalismo e das possíveis alternativas que tencionam o modelo hegemônico. Por meio das noções de dominante, residual e emergente, o conceito de estrutura de sentimento permite analisar o telejornalismo a partir de sua natureza processual, identificando elementos formados no passado ainda em uso no presente, e os elementos que aparecem atualmente como prescrições para usos futuros. Por meio da observação dos programas jornalísticos, pode-se chegar à formação de uma tradição de programas de entrevistas e debates que tinham como foco a discussão de temas ligados à política, rechaçando do campo jornalístico os programas que dialogavam mais diretamente com a indústria do entretenimento. O segundo conceito balizador deste trabalho é o de gênero televisivo ou midiático e suas variantes, os subgêneros (ou formatos), por meio dos quais se pode alcançar os limites que a conversação pode possuir em um programa. Logo, se o telejornalismo é um gênero televisivo, os telejornais, programas de entrevistas, programas de debate, programas de jornalismo temático, documentários são seus subgêneros. Os gêneros televisivos são concebidos como uma estratégia comunicativa que insere tanto os aspectos de escritura, quanto os de leitura 6 Grupo de pesquisa coordenado pela professora Dra. Itania Gomes, com financiamento do CNPq. 17 (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 302). Abandonando o tratamento dos gêneros televisivos como uma “receita de fabricação”, Jesus Martín-Barbero entende que uma abordagem do gênero a partir do ponto de vista cultural se constitui numa “chave para análise dos textos massivos e, em especial, dos televisivos” (1997, p. 302). Assim, seguindo as pistas deixadas por Williams (1979), Martin-Barbero concebe a análise dos gêneros televisivos quando colocada em relação à sociedade. O terceiro conceito, modo de endereçamento, foi operacionalizado a partir das contribuições de David Morley e Charlote Brunsdon (1999), pensado como tom ou estilo que se traduz na “orientação de um programa para o seu receptor e de um modo de dizer específico” (Gomes, 2007, p. 17). Assim, é na construção do seu estilo que um programa se diferencia dos demais do mesmo subgênero e estabelece uma relação própria com os telespectadores. As análises neste trabalho serão realizadas com base na operacionalização de quatro operadores de modo de endereçamento: mediadores, temática, contexto comunicativo e pacto sobre o papel do jornalismo. Inicialmente pensados para telejornais, os operadores de análise dos modos de endereçamento propostos pelo Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo visam contemplar a variedade de produtos jornalísticos televisivos. Esses operadores não possuem uma hierarquização – como se um fosse mais importante que outro – nem tampouco aparecem com a mesma incidência nos programas. Assim, é o próprio programa que levará à observação dos operadores que se destacam nos textos. Os operadores de análise não são, portanto, um fim, mas um meio que conduz ao estilo dos programas e à relação proposta para/com a audiência. A fim de contemplar uma diversidade de possibilidades sobre a conversação, foram selecionados programas de diferentes subgêneros jornalísticos, desde que a conversação possuísse um papel central na construção de seu tom e estilo. Como o meio televisivo permite uma imbricação muito forte do jornalismo com outras esferas – ficção, drama, humor –, não se pode considerar que existem produtos puros na televisão, mas sim o resultado de múltiplas hibridizações. Sendo assim, o presente trabalho efetua a análise de programas que se vinculam ao jornalismo a partir de uma relação histórica com o campo e do reconhecimento pelos agentes do campo e pela sociedade enquanto tal. Também se procurou priorizar programas que estivessem inseridos num cenário comunicativo diverso. Assim, programas da TV aberta comercial, da TV pública e da TV fechada entraram no corpus analítico aqui proposto, que é 18 composto por seis programas: entre os telejornais, o Bom Dia Brasil (Rede Globo), um dos mais antigos que utilizam a conversação em sua estrutura, e Jornal das Dez7 (Globo News), que traz a conversação atrelada a uma proposta de aprofundamento das informações, como é típico dos telejornais do fim de noite. Entre os programas de entrevista, fazem parte deste corpus o Roda Viva (TV Cultura), por representar o momento de consolidação e disseminação dos programas de entrevistas na grade de programação televisiva brasileira desde os anos 1980, e o Marília Gabriela Entrevista (GNT), principalmente por ter como mediadora a jornalista Marília Gabriela, com reconhecida trajetória no telejornalismo brasileiro por suas entrevistas. Entre os programas de debate, subgênero pouco tratado na bibliografia nacional, foram selecionados o Observatório da Imprensa (TV Brasil), programa que propõe um debate sobre a mídia por meio da construção de uma mesa redonda, e o Sem Censura (TV Brasil), um dos programas mais antigos da televisão brasileira, que tem como objetivo a troca de informações por agentes de diversos campos sociais que podem interagir sob mediação da apresentadora Leda Nagle. Os programas foram gravados aleatoriamente de 2006 a 2009, mas, para efeito de exemplificação nas análises, foram selecionadas dez edições de cada programa. A partir das análises efetuadas e da bibliografia consultada, foi possível alcançar pelo menos duas dimensões mais claras sobre a conversação no telejornalismo: primeiro, a conversação é apresentada aos telespectadores como um fundamento do modelo dominante de jornalismo que a utiliza para repercutir os assuntos provenientes da esfera pública habermasiana. Associado a esta dimensão da conversação, é recorrente o uso de expressões como “discussão” e “debate”, que ratificam um lugar discursivo de aprofundamento das informações e busca pela verdade. Com isso, a conversação é vista como uma forma de o jornalismo efetuar seu papel na democracia, promovendo, ele mesmo, uma esfera pública, uma arena de discussão de temas de interesse público. Em segundo lugar, a conversação é apresentada à audiência como o espaço em que a informalidade prevalece no telejornalismo, permitindo uma aproximação com a audiência. O sistema de referência (WILLIAMS, 1969) utilizado pelos produtos televisivos para salientar esse aspecto é “bate-papo” e “conversa”, como se remetendo às práticas cotidianas entre amigos. Deste modo, o telejornalismo reconfigura as expectativas da audiência sobre seu 7 Telejornal noturno exibido pelo canal jornalístico da Globo, a GloboNews. O telejornal possui um âncora e traz especialistas para o estúdio para comentar os assuntos. 19 papel social e a reposiciona como cúmplice das posições trocadas em cena. A conversação é a forma verbal por meio da qual o jornalismo televisivo mais se aproxima do campo do entretenimento, possibilitando novas formas de recepção de seus produtos, baseadas na informatividade aliada com à diversão. Estes são os assuntos discutidos na terceira parte desta tese que aponta para elementos da cultura jornalística dominante e as formas emergentes que brotam nos modos de endereçamentos dos programas analisados. Não se pretende separar essas duas possibilidades – a conversação como aprofundamento ou como informalidade - em esferas distintas, como se cada programa se utilizasse apenas de uma dessas dimensões. Ao contrário, os dois sentidos são vistos em todos os programas em maior ou menor grau, o que permite afirmar que já não se pode conceber, na cultura contemporânea, um telejornalismo isolado de outras esferas – como o entretenimento - ainda que os programas salientem isso para legitimarem-se no campo. Como desdobramento, conclui-se que o telejornalismo contemporâneo tem se inclinado para dois aspectos emergentes. O primeiro diz respeito a uma temática voltada para o cotidiano, ou pelo menos, para uma abordagem das questões mais amplas da sociedade – política e economia – a partir de um enquadramento voltado para o vivido e experienciado no dia-a-dia. A própria redefinição da esfera pública apara abarcar debates de outras naturezas – religiosos (BURKE, 2006), feministas (FRASER, 2007), de classes sociais (SILVERSTONE, 2003) – contribui para um tratamento dos assuntos pautados pelo jornalismo voltados para a cotidianidade. Temas vinculados à esfera pública habermasiana não foram excluídos do cenário da conversação televisiva, mas aparecem sob novo enfoque. Com isso, há uma redefinição da noção de interesse público, demonstrada por meio do pacto sobre o papel do jornalismo que os programas pretendem estabelecer com a audiência (GOMES, W., 2003). Como desdobramento, aponta-se o testemunho como forma narrativa privilegiada no telejornalismo contemporâneo, por permitir que os indivíduos em cena, inclusive os jornalistas, relatem suas experiências, confessem, partilhem com o telespectador emoções e sentimentos. Ao invés de direcionar-se para dados estatísticos que confirmem os acontecimentos relatados e provas auxiliares que complementem as informações, a fim de convencer a audiência sobre a veracidade das informações trocadas na conversa, o 20 telejornalismo contemporâneo, sobretudo o que utiliza a conversação como estratégia, se apropria do testemunho, do depoimento pessoal sobre as experiências cotidianas e o simples relato serve como prova de veracidade, uma vez que permite à audiência identificar-se com as questões vividas. Nesses casos, a autoridade do mediador se desloca de um saber instituído para um viver compartilhado e é nesse sentido que ele recebe credibilidade. O acirramento da concorrência entre as emissoras e o surgimento de novos gêneros impõem aos modelos tradicionais do telejornalismo uma reformulação, e a conversação se apresenta como uma delas. Os elementos aqui apontados sobre os lugares da conversação no telejornalismo não se pretendem, em nenhuma hipótese, exaustivos e definidores do campo jornalístico. Indicam, porém, algumas reflexões válidas a se fazer sobre o jornalismo na televisão e as múltiplas formas que ele pode assumir. 21 PARTE I PONTO DE PARTIDA: Perspectivas sobre a conversação e o jornalismo A compreensão dos lugares da conversação no telejornalismo impõe a consideração de dois fatores cruciais: as premissas e valores do jornalismo enquanto instituição social e os constrangimentos impostos pelo ambiente televisivo. No que diz respeito ao primeiro aspecto, o telejornalismo está ancorado sobre paradigmas historicamente formados no campo jornalístico, premissas estas que lhe atribui legitimidade face a seus consumidores. Valores como objetividade, interesse público, vigilância, atualidade, verdade e relevância se estabeleceram como parâmetros para a consolidação do jornalismo enquanto instituição responsável por nutrir a sociedade com informações relevantes para sua vida cotidiana. O segundo quesito põe em causa os dispositivos de som e imagem que operam discursivamente na lógica interna dos programas. Assim, não se pode dispensar as possíveis articulações entre o conteúdo e os aspectos visuais (enquadramentos de câmera, recursos de edição e montagem, imagens gráficas, imagens captadas pela câmera, postura dos sujeitos, etc) e sonoros (entonações, trilhas musicais, efeitos sonoros, som ambiente, etc). A televisão brasileira herdou do rádio uma estruturação que se baseia na possibilidade de interação entre o sujeito representante midiático e os agentes externos ao campo televisivo, interação esta que pode ser captada diretamente pela audiência, quando não, partilhada por ela. Este capítulo tem como objetivo apresentar a concepção de conversação adotada neste trabalho, bem como a de jornalismo, que permite a introdução da conversação como estratégia de construção dos programas. Para tanto, será efetuada uma discussão sobre as abordagens mais recentes que têm a conversação como foco de estudo e as apropriações que os pesquisadores fazem da conversação para pensar a relação com a televisão. Num segundo momento, discute-se o jornalismo enquanto instituição social formada num contexto específico que produziu as premissas que ainda são empregadas como balizadoras do campo profissional e da relação com a sociedade. Esfera pública, interesse público, quatro poder e objetividade serão, portanto, discutidos a partir da dimensão cultural que permite reconfigurações dessas premissas. 23 1. CONVERSAÇÃO, SOCIEDADE E TELEVISÃO Segundo John Corner (1999), embora a televisão se diferencie dos demais meios de comunicação pelo tratamento das imagens que dão substância aos conteúdos, é principalmente por meio do verbal que a TV efetiva uma relação com a audiência. Não obstante, para o autor, a fala, em suas mais variadas formas, é a característica mais marcante da televisão e a conversação aparece como um significativo desdobramento das múltiplas formas de falar que a televisão pode empregar. A conversação está presente desde a proposta estrutural da televisão, até formatos específicos de programas e, por isso, ela está no centro das atenções de pesquisadores que consideram desde o poder dos discursos efetivados por meio da conversação transmitida pela TV (LIVINGSTONE e LUNT, 1994; LUNT e STENNER, 2005) até os aspectos modais das conversações institucionalizadas (CLAYMAN e HERITAGE, 2004; MARTÍNEZ, 2003; MATEU, 1998) e os formatos televisivos que nela se baseiam (JONES, 2008; TIMBERG e ERLER, 2004). A observação da conversação num meio institucionalizado, como a televisão, não impede considerar, porém, que ela carregue regras e padrões das conversações experienciadas na vida cotidiana das pessoas comuns e é justamente nessa aproximação entre a instituição televisiva e a vida ordinária que a conversação ganha significado em programas jornalísticos. Segundo Clayman e Heritage (2004), a conversação, ainda no ambiente radiofônico, era a maneira preferencial de se dirigir aos ouvintes, uma vez que permitia certa espontaneidade (ou a simulação dela) na transmissão das informações. Para John Corner (1999), a coloquialidade permitida pela conversação tornou-se o veículo por meio do qual o rádio tratava seus ouvintes como consumidores e a televisão contemporânea ratifica valores de informalidade e espontaneidade por meio das conversações postas em cena. Por outro lado, a conversação também pode ser apropriada nos programas fazendo referência ao debate público e ao aprofundamento dos temas. Para uma abordagem da conversação como aspecto constituinte de programas jornalísticos na televisão, é relevante observar os marcos das conversações cotidianas e sua migração para o campo jornalístico televisivo, assimilando certas propriedades e reconfigurando outras para adaptar-se ao contexto midiático que a insere. Este capítulo parte de uma breve abordagem sobre diferentes perspectivas acerca da conversação na vida cotidiana, enfatizando aquelas 24 que tratam a conversação enquanto prática social assimilada nos contextos da vida ordinária. Parte-se do pressuposto de que a conversação é uma forma cultural sujeita a mudanças a partir de macrovariações culturais, ou microvariações situacionais. Em seguida, o capítulo trata de recentes pesquisas que têm a conversação institucionalizada no ambiente televisivo como foco de investigação, especialmente as que se expressam como forma de entrevista e debate. 1.1. A conversação como forma cultural Conquanto a conversação seja uma prática antiga, que se formou juntamente com o desenvolvimento da linguagem8, as pesquisas acadêmicas que se destinam a compreendê-la em seus múltiplos aspectos são mais recentes. Peter Burke (1995) afirma que somente após a década de sessenta do século XX é que surgiram as disciplinas interessadas em compreender a fala, e mais recentemente ainda é que elas vincularam a fala à vida cotidiana. Antes disso, a conversação era tema de ensaístas que buscavam definir regras sociais a partir dos hábitos instituídos nas formas de conversar. Do século XVI ao XVIII, a compreensão que se tinha da conversação nas sociedades européias – mais especificamente Itália, França e Inglaterra – era de uma prática desenvolvida pelas elites, bastante regradas por meio de convenções sociais como polidez, delicadeza, silêncio e humor para tornar a conversa agradável. Nessa perspectiva, os textos sobre a conversação eram mais uma descrição sobre a “arte de conversar”, tomada como parâmetro normativo de conduta, ao invés de constituir-se propriamente numa fonte de investigação sobre a sociedade e a cultura. Tal preocupação se deu apenas com a emergência da sóciolinguística, da etnometodologia e da história social da linguagem, na segunda metade do século XX, que trouxeram um método científico que busca identificar nas trocas verbais cotidianas as normas por meio das quais as pessoas interagem. Dois autores foram fundamentais para que a conversação fosse tratada sob o ponto de vista acadêmico. Mikhail Bakhtin (1999), ao tratar do diálogo enquanto gênero do discurso, promoveu uma aproximação dos pesquisadores com as interações verbais e não simplesmente com os textos e monólogos. As proposições de Erving Goffman (1986) sobre o contexto, por sua vez, parecem ter inspirado boa parte das pesquisas que se desenvolveram a posteriori tratando a conversação como objeto central. Sendo assim, percebem-se duas 8 Segundo Stephen Miller (2006), a conversação surgiu há 50 mil anos, quando os povos primitivos começaram a desenvolver a fala. Para Gabriel Tarde (1992), um importante impulso para a conversação foi o advento da agricultura, que conferiu às pessoas mais tempo livre, “variedade de vida” (1992, p. 103) e ocasiões de reunião para os indivíduos, que permitiu o desenvolvimento da língua e, por conseguinte, da conversação. 25 orientações para a abordagem da conversação. A primeira regulada paradigmas linguísticos que se supõem universais, a segunda orientada para a compreensão da conversação no contexto. No que diz respeito ao primeiro aspecto, Catherine Kerbrat-Orecchioni (2006) faz uma compilação de estudos dedicados à conversação, pondo ênfase, sobretudo, naqueles que se aproximam da perspectiva lingüística. De acordo com a autora, a análise da conversação se dá por meio de modalizadores, tais quais o sistema de turnos de fala, a função dos elementos não-verbais e paraverbais, os quadros temporais e espaciais que envolvem a conversação, os participantes envolvidos e seus objetivos. Embora considere o contexto como elemento fundamental para a análise das interações verbais, o objetivo da análise da conversação é encontrar marcadores operacionais que se apliquem aos diversos contextos em que as trocas acontecem, limitando as múltiplas possibilidades que tem a linguagem de modificar-se e adaptar-se. O trabalho de Paul Grice (1979), cujo propósito era encontrar, nos diálogos, as ambigüidades da linguagem, traz uma perspectiva sobre a conversação que a isola do ambiente no qual acontece. Sendo assim, Grice (idem) aposta no princípio de cooperação como pedra angular da prática conversacional, por meio do qual Grice (idem) afirma que “cada participante reconhece entre seus interlocutores (sempre até certo ponto) um objetivo comum ou um conjunto de objetivos, ou ao menos uma direção aceita por todos” (1979, p. 60). Esse objetivo pode aparecer no início ou durante a troca, pode ser bem definido ou vago e é em torno dele que a interação entre os participantes se processa. Para Grice (idem), um participante irá contribuir com a conversa no limite em que for solicitado pelo objetivo ou pela direção aceita. Como desdobramento, Grice (idem) estabelece quatro categorias nas quais há regras e subregras mais específicas: quantidade, qualidade, relação e modalidade. A quantidade referese ao aspecto numérico que indica quanto de informação deve ser concedido. A qualidade está relacionada à veracidade do que é dito e exige dos participantes duas posturas: não afirmar algo que creia ser falso e não afirmar algo que não tenha provas. A relação traz em si apenas uma regra: a da relevância, por isso o participante deve estar atento às mudanças do que pode ser relevante, os procedimentos normais numa troca. A modalidade, ao contrário das outras categorias, diz respeito ao como dizer e a regra deve prezar pela clareza: evitar ser obscuro, evitar a ambiguidade, ser breve, ser metódico. Assim, Grice propõe um conjunto de regras 26 que devem se fazer presentes no ato conversacional. Não ocorrendo uma dessas regras ou obliterando-as, ficam visíveis as ambiguidades envolvidas na troca. Na contramão das perspectivas que se voltam para uma análise interna da linguagem, Erving Goffman (1986) voltou-se à sociologia da vida cotidiana trazendo a idéia de que a realidade social não deve ser limitada a regras definidas. Embora ele mesmo proponha normas para o tratamento das situações cotidianas, as regras por ele estabelecidas não se propõem exaustivas: “atores normalmente aparecem com cinco ou dez regras (assim como eu), mas há não fundamento para pensar que milhares de outras considerações não possam ser listadas em conjunto9” (GOFFMAN, 1986, p. 6). Sendo assim, a abordagem conceitual sobre a conversação proposta por Goffman e os desdobramentos que se originaram de suas pesquisas mostram-se bastante profícuos no que diz respeito ao relevo dado ao contexto em que a conversação se processa. A proposta goffmaniana recai sobre uma descrição dos princípios de organização das interações nos diversos ambientes a partir de parâmetros como o sistema de réplicas e respostas. Assim, o autor efetua exercícios analíticos da conversação em ambientes específicos como as conversas espontâneas da vida cotidiana e a institucionalização das conversas radiofônicas. Em seu trabalho mais clássico, Frame Analysis (1986), Erving Goffman congrega boa parte de suas formulações sobre as relações sociais na vida cotidiana, tema de suas investigações, apropriando-se do conceito central de frame, um quadro interpretativo segundo o qual os indivíduos interagem e atuam ordinariamente. Os frames são princípios organizativos que definem um evento social e o envolvimento subjetivo dos indivíduos neles, a fim de perceberem o que está acontecendo ali. Assim, quando os indivíduos se colocam numa situação, eles promovem um trabalho interpretativo que os ajuda a estabelecer os limites do comportamento apropriado, o marco que distingue o episódio e seus conteúdos de outras realidades sociais próximas ou parecidas, qualificar os sujeitos segundo o tipo de papel que desempenham e o personagem que encarnam na cena (WOLF, 1994, p. 35). É por meio da interpretação dos frames que os indivíduos se apresentam na vida cotidiana (GOFFMAN, 2005) e estabelecem parâmetros individuais que lhes permite efetuar uma interação bem sucedida. A não interpretação das situações ou a exposição a eventos nunca 9 No original: “players usually come up with 5 or 10 rules (as I will), but there are no grounds for thinking that a thousand additional assumptions might not be listed by the others”. 27 antes partilhados – como o morador rural numa grande cidade – provoca deslocamentos de sentido que exigem a aquisição de uma nova gramática a fim de que os participantes possam interagir adequadamente. Daí decorre que há uma competência cultural adquirida para efetuar as interações de maneira pertinente Tal pensamento de Goffman (idem) inspirou o desenvolvimento de uma corrente de investigação voltada exclusivamente para a análise das situações interacionais que têm como base a conversação na vida cotidiana. A Análise da Conversação10 apresenta um conjunto de operadores analíticos que outorgam ao analista identificar os processos que compõem a conversação, seja na sessão terapêutica, seja nas conferências de imprensa. Sendo assim, as conversas na vida cotidiana se dariam com base na articulação dos turnos de fala11, fechamento e pares adjacentes, propriedade dos pares adjacentes, seqüências laterais e correções, que permitiriam encontrar padrões ritualizados e deslocamentos, transgressões e desvios na fala. Assim, ao analisar uma sessão de terapia em grupo, Harvey Sacks (1974) atenta para o funcionamento das sequências laterais como procedimento ritualizado segundo o qual novas informações podem ser dadas pelos participantes, seja no início, no final ou durante a troca. A questão contextual, nesse caso, considera o ambiente criado pela terapia em grupo, que traz em si mesmo os pressupostos que regem o comportamento dos indivíduos naquela situação específica: a intimidade, a troca de segredos. A mudança do ambiente comunicativo traria como conseqüência uma mudança no modo de falar, o que provocaria novos padrões de comportamento e de conversação. Assim, Sacks defende que o contexto que envolve os participantes durante as interações define o uso da conversação e traz implicações diretas sobre o modo de organização das falas em seu interior: “para a noção de 10 A Análise da Conversação é uma corrente de investigação variante da etnometodologia e da sociologia de Goffman, que visa analisar tanto as interações interpessoais institucionais quanto as casuais. O objetivo é ver como a conversação funciona em diferentes ambientes (settings). Assim, essa corrente considera como ajustes convencionais os seguintes contextos: entrevistas, audiências, conversas telefônicas e jogos de cartas. Os autores que fundaram essa corrente (por volta da década de 1960) foram Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson. 11 Os turnos de fala pressupõem certos marcos gerais, mas estes são negociados à medida que a situação de comunicação muda. As regras gerais são: troca dos locutores; cada locutor possui uma vez de falar; podem haver sobreposições de fala, mas elas são de curta duração; os locutores passam a palavra de um para outro, podendo haver tanto a sobreposição quanto o silêncio nessa passagem; a ordem dos turnos não é estabelecida; a amplitude do turno também não é estabelecida; a duração da conversação não é especificada; o que as partes dizem não está especificado; a distribuição dos turnos não é fixa; o número de participantes é variável; o locutor pode escolher o próximo locutor dirigindo-lhe uma pergunta; os turnos podem ser compostos por apenas uma palavra ou podem ter duração mais longa; existem procedimentos para tratar os erros e violações (quando alguém vai interromper, normalmente pede desculpas). 28 „conversação‟, assim como para a ampla gama de outras noções, seu locus conversacional é relevante para qual uso se pretende fazer dele12” (1974, p. 37). Na tentativa de trazer uma contribuição relevante, os autores da Análise da Conversação apresentam-se demasiadamente normativos, configurando padrões muito específicos sobre cada uma das etapas que envolve as trocas. Embora os critérios analíticos apresentados sejam importantes para a verificação dos procedimentos conversacionais em situações reais, eles não devem limitar as múltiplas possibilidades que os participantes possuem no uso da fala quando estão em interação. Sendo assim, neste trabalho, a conversação é analisada como procedimento ritualizado nas interações entre os falantes, mas também como forma cultural praticada por meio da linguagem verbal e dos elementos performáticos que a ela se associam (gestos, mímicas, expressões faciais, tom de voz, etc). Enquanto forma cultural, a conversação está sujeita a alterações provenientes das variações culturais: novas formas de relações interpessoais, influência dos meios de comunicação massivos e não-massivos, constrangimentos políticos e econômicos (que permitem ou inibem os encontros interpessoais), que se reconfiguram histórica e socialmente13. Assumindo a conversação como “um tipo específico de ato de fala, evento de fala ou gênero de fala”, Peter Burke (1995, p. 121) observa os diferentes modos de conversar estabelecidos historicamente a partir de uma noção flexível da língua e da fala. Propondo uma história social da linguagem, reconhece que a conversação só pode ser compreendida no interior da cultura e a partir de elementos culturalmente forjados, como relações entre diversos grupos sociais, os parâmetros sociais que regulam os temas sobre os quais se é permitido conversar, entre outros. Burke (idem) chama atenção para os diversos usos que a conversação pode 12 No original: “(…) for the notion of conversation, as for an enormous range of other notions, its conversational locus is relevant to what use you want to make of it”. 13 Por conta dessa relação com o contexto, certas modalidades conversacionais foram tomadas como paradigma normativo. A conversação civil praticada nos café,s sociedades, clubes, por exemplo, deve ser compreendida a partir da relação com a cultura européia dos séculos XVII, XVIII e XIX, momento de reconfiguração política das nações assumindo a democracia como modelo de governo. A conversação era, portanto, assumida como uma prática que deveria envolver todos os indivíduos a fim de discutissem assuntos de interesse geral e formulassem opiniões melhor consolidadas. A partir disso, formou-se uma tradição de pesquisa na área de política e comunicação baseando-se, principalmente, nos pressupostos da conversação como formadora da opinião pública. Essa abordagem da conversação sob o ponto de vista político e a relação com a democracia será melhor explicitada na parte III, no ítem “Jornalismo, conversação e democracia”. Por ora cabe apenas salientar que essa perspectiva contempla uma dimensão cultural da conversação social. 29 possuir no interior da cultura. Por isso, o autor defende a conversação como uma forma cultural presente na vida cotidiana que obedece às variações culturais que a cercam. Ainda que aponte certos elementos dominantes nas formas de conversar, sobretudo nas sociedades européias do século XVIII, Burke não ignora que tais procedimentos são resultado de um processo histórico e estão relacionados aos hábitos das classes privilegiadas econômica e politicamente. Sendo assim, o autor está atento às possibilidades de transformações das normas conversacionais e por isso a idéia de “arte da conversação”, calcada no modelo inglês de conversação esclarecida, pode ser negociada e atualizada a partir de outros referenciais. O autor admite, igualmente, que tais normas não são nem fixadas no tempo, como se fosse um eterno modelo a ser buscado, nem no espaço, considerando que outras sociedades, no mesmo período, criam suas próprias regras de trato. A questão do tom da voz, por exemplo, é para Burke um fator diferencial, uma vez que a concepção de “tom de voz baixo” é cultural. Quando comparados aos finlandeses, os ingleses são muito menos tácitos do que aqueles. No entanto, com relação aos latino-americanos, os ingleses podem ser vistos como frios e taciturnos. Assim, a abordagem de Peter Burke nos permite fundamentar a conversação como forma cultural que se modifica a partir dos processos sócio-históricos14. São essas variações históricas e culturais que formatam certos tipos de fala praticados na vida cotidiana e em ambientes específicos, como a televisão. Neste trabalho, associa-se a conversação ao contexto do telejornalismo que por si só já impõe certos limites ao passo em que estende a possibilidade de certos usos. Assim, a conversação será tratada no interior dos programas que a instituem como estratégia de sua construção, considerando as diferenças entre eles, mas também a partir de marcos culturais que se transferem da sociedade para a cena televisiva. Segundo José Luis Braga, “para diversas atividades sociais – às quais é possível fazer corresponder certos tipos de conversação – pode-se constatar regras de procedimento que definem essas atividades, desde que elas sejam suficientemente repetidas” (BRAGA, 1994, p. 293). O objetivo, aqui, não é tanto estabelecer regras de uso como se 14 A não consideração da conversação como uma forma cultural, mas como um elemento normativo da sociedade, é o que leva a afirmações de que hoje já não existe mais conversação entre os indivíduos. Stephen Miller (2006), também numa historiografia da conversação nas sociedades européias, aponta as práticas conversacionais dos séculos XVIII e XIX como parâmetro rígido de todas as práticas posteriores. Por não encontrar nas sociedades contemporâneas os mesmos elementos que no passado, o autor aponta para o declínio da arte de conversar. 30 fossem válidas para qualquer programa jornalístico televisivo, mas identificar procedimentos – temáticas, forma de obtenção da informação, relações estabelecidas entre os participantes que, pelo uso constante, configuram características do telejornalismo contemporâneo. 1.2. Aproximações entre conversação, televisão e telejornalismo Segundo a Análise da Conversação, certos marcos contextuais impõem limites e modos de fazer específicos sobre a conversação e criam formatos institucionalizados que obedecem mais ou menos aos mesmos princípios. Segundo Marianthi Makri-Tsilipakou (2004), a conversação institucionalizada na televisão é orientada a um objetivo específico, os participantes conduzem sua conduta com base nesse objetivo, que envolve constrangimentos particulares. Na televisão, a conversação tem-se institucionalizado como entrevista ou debate. O precedente histórico para isso é o advento dos talk shows, inicialmente na televisão norteamericana, e após os anos1990, pelo resto do mundo. Segundo François Jost (2006), a nomenclatura do gênero15 oferece uma promessa ontológica por meio da qual os telespectadores estabelecem suas expectativas com relação aos produtos nele inseridos. Nesse caso, portanto, a expectativa seria consolidada em torno da conversação (“talk”) e do entretenimento (“show”). Como a maior parte da bibliografia que se dedica ao tema da conversação na televisão é de língua inglesa, o termo “talk show” funciona como um “guarda-chuva” que insere tanto os programas direcionados ao debate de assuntos públicos, quanto aqueles que exibem apresentações musicais, anedotas e piadas. Assim, a mesma nomenclatura envolve produtos de natureza distinta, que despertam expectativas diferentes na audiência16. Bernard Timberg e Robert Erler (2004) ressaltam que tanto a proposta quanto a natureza dos talk shows norte-americanos se distinguem em função da faixa horária. Os programas do início da madrugada, chamados late-night entertainment shows, tornaram-se o modelo dominante de talk show a partir dos anos 1950 e exibem entrevistas ao lado de shows de comédia estrelados pelo apresentador. Os programas vespertinos, denominados pelo autor como daytime audience-participation shows, ou “audience participation debate” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994) se basearam em programas radiofônicos e tinham como 15 O conceito de gênero televisivo será abordado detalhadamente no próximo capítulo. Por ora, cabe defini-lo como “formas reconhecidas socialmente a partir das quais se classifica um produto midiático” GOMES, I., 2007, p. 19). 16 Uma análise um pouco mais detalhada sobre o tema encontra-se em SILVA, 2009. 31 finalidade colocar a platéia em contato direto com celebridades e especialistas. Por fim, os matutinos, também herdados da tradição de rádio, promoviam uma mistura entre notícias e entrevistas, sendo conhecidos como early-morning news talk magazines. Apesar da nomenclatura generalizante, autores mais vinculados ao jornalismo efetuaram uma separação do modelo de entrevista desempenhado no jornalismo e fora dele, visando destituir do cerne do campo jornalístico qualquer diálogo com o mundo do entretenimento. Manuel Mateo (1998) distingue o caráter das entrevistas jornalísticas das que são voltadas para o entretenimento, por exemplo, a partir do papel dos entrevistadores, lugar discursivo concedido à fonte, temática abordada e a construção da cena televisiva que abarca a troca. Sendo assim, nas entrevistas jornalísticas, o apresentador é o condutor de perguntas que visam transmitir o conhecimento do entrevistado para a audiência, que é posicionada enquanto aprendiz. Sua função no programa é dar visibilidade à fonte, um especialista ou representante oficial, que concede informações relevantes e atuais. O cenário discreto visa colocar ênfase apenas na conversa entre os participantes, dando destaque às informações trocadas. A entrevista “diversional”, por sua vez, estrela um apresentador-celebridade notadamente conhecido pelo público pela performance humorística. Geralmente, essas personalidades têm sua trajetória construída no stand-up comedy, e levam para o programa piadas, anedotas, sketches e paródias. Os entrevistados pertencem ao mundo midiático e comparecem ao programa para servir de pretexto para as piadas do apresentador. Mesmo os representantes políticos que comparecem a esses programas são enquadrados nessa perspectiva, como se toda a cena fosse um grande show de comédia. No que diz respeito ao tratamento de informações, por vezes a entrevista assume um teor sarcástico ou irônico sobre os fatos e os representantes dos poderes públicos. O amplo cenário que envolve a troca compreende uma platéia, que interage por meio de aplausos, risos, vaias, etc, um espaço para apresentação musical, e uma banda responsável pela musicalidade do programa. Clayman e Heritage (2004) afirmam que, embora as fronteiras entre esses formatos jornalísticos e não-jornalísticos sejam “frouxas”, é possível efetuar uma distinção que isola a entrevista jornalística das demais, associando-a ao campo político e a parâmetros do jornalismo. Deste modo, é por meio das entrevistas que os assuntos referentes ao interesse público geral são discutidos com os representantes das esferas de poder, configurando um 32 papel social relevante na formação de uma esfera pública contemporânea. Assim, segundo os autores, a entrevista jornalística é um locus de encontros diretos e essencialmente espontâneos entre jornalistas e uma ampla variedade de figuras públicas, incluindo oficiais do governo nos mais altos cargos. É uma arena na qual jornalistas representam certas funções democráticas: solicitando declarações sobre políticas oficiais, mantendo os políticos responsáveis por suas ações, e controlando os parâmetros do debate público, tudo isso sob o escrutínio da cidadania17 (CLAYMAN e HERITAGE, 2004, p. 2). Sendo assim, é possível identificar, entre os autores que buscam compreender a conversação em suas formas institucionalizadas, primeiro uma distinção rígida entre o jornalismo e o entretenimento; segundo uma concepção de jornalismo a partir de sua vinculação com a política e seu papel enquanto serviço público. Como conseqüência, esses autores oferecem, por um lado, descrições detalhadas sobre a conversação jornalística, marcadamente no formato de entrevista, a partir de parâmetros provenientes do campo: credibilidade, autenticidade, objetividade. Se hoje a entrevista é uma prática por excelência do jornalismo para a obtenção das informações, é verdade, também, que essa aproximação se deu historicamente a partir do advento do jornalismo informativo no século XIX. Segundo Michael Schudson (2003), a obtenção de informações é uma prática dispersa nas atividades cotidianas que se caracteriza pela sua não-especialização, espontaneidade e mutualidade. No entanto, a obtenção de informações por meio do binômio pergunta/ resposta tem sido associada à prática dos jornalistas baseadas no modelo da entrevista que, ao contrário das interações cotidianas, é sistematizado e bastante regrado. A emergência da entrevista como prática legítima do jornalismo aconteceu paralelamente à profissionalização dos repórteres e sua busca por autonomia. Embora fosse vista com desconfiança por parte de jornalistas mais experientes e das fontes – que temiam por uma invasão de privacidade - a entrevista instituiu-se como prática jornalística quando o repórter ganhou o atributo de intérprete privilegiado da realidade, já no início do século XX. 17 No original: “it is a locus of direct and essencially unscripted encouters between journalists and a wide range of public figures, including government officials at the highest levels. It is an arena in which journalists perform certain core of democratic functions: soliciting statements of official policy, holding officials accontable for their actions, and managing the parametres of public debate, all this under the immediate scrutinity of citizenry”. 33 Como ainda era uma novidade, não havia regras muito bem definidas sobre como executar e publicar uma entrevista. No final do século XIX, os repórteres conversavam com as pessoas públicas e usavam suas declarações para escreverem textos ensaísticos sobre os assuntos. Não havia referência à fonte ou citações que confirmassem suas declarações. Segundo Schudson (2003), o jornalista Horace Greeley, do New York Tribune, foi o primeiro a publicar uma entrevista, no modelo hoje conhecido como “pingue-pongue”, em 1859. Como o formato ainda era novo tanto para seus pares quanto para seus leitores, o jornalista precisou esclarecer seu procedimento para o público: “isso é a substância de quase duas horas de conversa, na qual muito foi dito incidentalmente, sem merecer ser reportado, ainda que eu pudesse lembrar e reproduzir18” (2003, p. 74). Entretanto, não se deve desconsiderar que, justamente pelas reconfigurações históricas, tanto a entrevista quanto o jornalismo receberam novos significados. Segundo Erler e Timberg (2004), o acirramento da concorrência das TVs públicas e comerciais norte-americanas com o novo sistema de telecomunicações – composto, também, pela internet, por vídeo-games e pelas TVs a cabo – levou a uma reconfiguração dos modelos já consagrados de talk shows. A comédia, a sátira e a ironia pareciam novos caminhos adotados pelos programas para o tratamento dos assuntos, inclusive, e principalmente, os que se referiam ao campo político. Os autores resumem a década de 1990 como um período caracterizado por três tendências: a institucionalização de talk shows, a experimentação de novas formas em antigos formatos e a criação de programas híbridos ainda não consolidados. As distinções entre os talk shows voltados para o entretenimento e os programas jornalísticos de conversação foram se estreitando cada vez mais19. Segundo os autores, “no início dos anos 1990 muitos apresentadores de talk shows televisivos ganharam projeção nacional pela combinação de notícias, assuntos públicos (public affairs) e entretenimento em formatos de talk show novos ou reciclados20” (2004, p. 158). 18 No original: “such is, as nearly as I can recall, the substance of nearly two hours of conversation, wherein much was said incidentally that would be not be worth reporting, even if I could remember and reproduce it”. 19 Nesse cenário, o programa Politically Incorrect, exibido pelo canal Comedy Central, levou ao ar uma conversação bem humorada, desempenhada por não-especialistas, sobre assuntos provocativos: pena de morte, discriminação, etc. Com isso, o Politically Incorrect rompeu os parâmetros para a conversação política, baseada no consenso e no conhecimento especializado dos participantes, e inaugurou um novo modo de fazer que demandava da audiência alto nível de sofisticação política e cultural. 20 No original: “in the early 1990s a number of television talk-shows hosts rose to national prominence by combining news, public affairs, and entertainment in new or recycled talk-show formats”. 34 As mesmas observações podem ser vistas na bibliografia referente aos programas de debates. Também inseridos na nomenclatura “talk show”, os programas de debate se propõem a um espaço de diálogo com uma platéia que participa do programa podendo tirar dúvidas, fazer comentários, etc. Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) afirmam que nesses programas o conhecimento especializado é substituído pelo conhecimento leigo, que interpela a audiência a partir do que é vivido. O participante do programa, portanto, não possui credibilidade pelo saber instituído, mas pela experiência. Nesse caso, o que definiria a dimensão de “debate” é a participação e a pluralidade de vozes. A contradição de idéias não é um critério rigoroso para a existência de um debate nesses programas. Arquembourg, Lochard e Soulages (2006) possuem uma perspectiva diferenciada, percebendo na televisão francesa modelos diferentes de debates, que migraram de uma abordagem mais informativa para uma mais vinculada à lógica do entretenimento: Esses programas, que estavam inscritos inicialmente numa filiação informativa, escaparam, hoje, do controle das redações das emissoras. Eles são produzidos, como a quase totalidade dos programas de fluxo (entretenimento, jogos), por sociedades de produção privada, dirigidas por apresentadores de forte notoriedade que se constituem na figura de proeza e a essência do valor mercadológico21 (ARQUEMBOURG, LOCHARD e SOULAGES, 2006, p. 43). Os autores consideram que, historicamente, os programas de debate possuem abordagens distintas: uma, mais tradicional, vinculada aos debates da sociedade e da política a partir de um ideal de serviço público que as televisões francesas públicas buscavam cumprir, e um modelo mais próximo do entretenimento, que se formou a partir da privatização das redes televisivas. Seguindo uma abordagem semelhante, Henrik Örnebring (2003) apresenta uma caracterização histórica dos programas de debate que permite compreender as modificações do gênero ao longo dos anos. Segundo o autor, os programas de debate suecos se distribuem em três fases. A primeira, denominada por ele como “debate cortês”, se desenvolveu de 1956 a 1968, e era 21 No original: “Ces programmes, qui éteint inscrit initialement dans une filiation informative, ont aujourd‟hui pour l‟essentiel échappé au contrôle des rédactions des chaînes. Il sont produit, comme la quasi-totalité des programmes de flux (divertissement, jeux), par des societés de production privées, dirigées par des animateurs à forte notorieté que en constituent les figures de proue et l‟essentiel de la valeur de merchande ». 35 caracterizada pela presença de uma elite intelectualizada – políticos, professores, jornalistas, representantes de organizações - a fim de educar a população. A função do mediador era organizar o debate, garantindo que todos os participantes pudessem falar e replicar, funcionando de forma semelhante aos debates parlamentares. A cordialidade era a marca central das conversas e não havia pretensão de confrontar opiniões diferentes, mas de complementá-las, a fim de firmar um consenso e apresentá-lo à audiência. De 1968 a 1984 a televisão viveu uma nova fase. O ano de 1968, com as manifestações estudantis, a luta por direitos igualitários, os movimentos em defesa das minorias, criou uma audiência mais combativa e crítica e, por conseguinte, modificou as expectativas com relação aos meios de comunicação. A postura consensual do período anterior deu lugar a uma atitude questionadora e confrontadora por parte do público. Desta forma, os programas televisivos também precisaram se reconfigurar para levar à audiência um “debate crítico”. Como a finalidade era o confronto de idéias, os convidados, obrigatoriamente, possuíam pontos de vista diferentes. O público ganhou maior participação e os jornalistas destacavam-se no papel de levar informação e esclarecimento sobre as instâncias de poder. Nesse período, era possível notar uma variedade de modelos de construção dos programas. Os programas consensuais do período anterior sobreviviam com o objetivo de educar a audiência. No entanto, eles dividiam espaço com duas programações distintas: um jornalismo mais crítico, que tratava de problemas sociais, e programas mais relacionados ao entretenimento, em decorrência do surgimento de um segundo canal televisivo na Suécia que precisava prender a atenção da audiência. A presença de artistas como convidados e a postura de apresentadores que intervinham mais na entrevista figuraram uma nova gramática desses programas, que se consolidou no período posterior. O acirramento da concorrência entre a TV pública e a TV comercial na Suécia provocou novas formas de atrair a atenção da audiência. O avanço da tecnologia, que permitiu o uso de novos recursos da linguagem televisiva (como a edição de matérias em formatos de clipe, a utilização de recursos visuais e sonoros), e a cópia de modelos televisivos norte-americanos (como o programa The Phil Donahue Show) levaram a uma fase denominada por Örnebring (idem) como “debate popular”, que transcorreu de 1984 a 1996. A pornografia, as brigas entre maridos e esposas, a fidelidade entre os casais tornaram-se a temática privilegiada dos 36 programas. A abertura para a participação da pessoa comum e a elevação dos apresentadores ao nível de celebridades também se tornaram a marca dos debates, que abandonavam o ponto de vista especializado para adotar uma versão do mundo a partir do conhecimento popular. A falta de registros históricos sobre programas de debates, no Brasil, inviabiliza a compreensão das transformações ocorridas no subgênero. Sabe-se que, nos anos 1950, os programas de debates surgiram no formato de mesa redonda com a proposta de oferecer aos telespectadores um debate sobre assuntos de interesse público. Esse “interesse público” se cumpria na apresentação de “crianças aleijadas e seu arrimo, a muleta” (JORNAL DO BRASIL apud FREIRE FILHO, 2004, p. 92). Além desses, eram comuns as mesas redondas esportivas para discutir sobre o último jogo e os placares da rodada22. Como a televisão, no Brasil, já nasceu comercial, era comum que a programação se dirigisse a áreas ligadas ao entretenimento. Ao mesmo tempo, o momento político brasileiro, com uma democracia ainda instável, não permitiu que esse subgênero se consolidasse por meio do debate entre candidatos, ou pela discussão de melhores propostas de governo. Assim, se se pode efetuar uma comparação dos programas de debate brasileiros com os europeus, é possível notar uma inversão: a vinculação com o âmbito do entretenimento se deu originalmente e, apenas com o processo de redemocratização do país, é que ele passou a ser um subgênero vinculado a assuntos que fomentassem discussão pública. É muito comum, tanto na bibliografia disponível sobre o tema, quanto nos programas e na crítica televisiva, um imbricamento dos sentidos de entrevista e debate: toma-se um pelo outro, como se debate se referisse ao modo como a conversação é praticada. Assim, as entrevistas são usadas como gancho para engendrar um debate. Nesses casos, é possível perceber que o que melhor caracterizam um debate é: a troca de idéias, independentemente de onde se pretende chegar, e a contradição de idéias, quando as posições de um são colocadas contra outro interlocutor. Assim, os programas de debate põem em prática uma das duas formas. No Brasil, o desenvolvimento de programas que usam a conversação como estratégia central de construção se deu de modo a valorizar ainda mais as distinções entre os gêneros 22 O primeiro registro que se tem sobre esse formato no jornalismo esportivo é o programa Mesa Redonda, exibido pela TV Record, em 1954. Segundo André Ribeiro (2007), esse programa foi o “precursor das atuais mesas de debates esportivos exibidas nos finais de semana” (2007, p. 158). 37 jornalísticos e os que se vinculam ao entretenimento. Tanto que a importação da designação “talk show”, aqui, é mais recente, a partir dos anos 1990 e da estréia do programa Jô Soares Onze e Meia, pelo SBT. A disseminação do uso do termo se deu por conta da proximidade visual que o programa brasileiro efetuava com o The Late Show with David Letterman, talk show criado nos anos oitenta. Até então, a designação mais comum era “programas de entrevistas”, formato cuja ascendência remete ao período final da ditadura militar, no qual o telejornalismo se abriu a novas possibilidades de emprego da gramática audiovisual, criando novos produtos. Do ponto de vista do conteúdo, prevaleceu a abordagem política e o desempenho da função política do jornalismo de cobrar mudanças – naquele contexto, essas mudanças se referiam ao retorno à democracia. Outros programas que tinham a conversação como estratégia foram excluídos da narrativa sobre a história do telejornalismo e encerrados em gêneros distintos, mais vinculados ao entretenimento. É nesse sentido que se faz necessário reconstruir uma noção de jornalismo que abarque essas transformações a partir de sua processualidade. A conversação, portanto, quando associada ao telejornalismo, recebe diferentes contornos do que normalmente é apresentado pelos autores. Reposicionar o jornalismo, enquanto instituição social em formação, é o primeiro passo para a compreensão das configurações possíveis que a conversação pode receber no telejornalismo, seja a partir de uma atualização dos formatos de entrevista e debate, seja pela instauração de novos usos. É nesse sentido que o capítulo seguinte se encaminha, propondo uma perspectiva de jornalismo que dê conta de suas configurações na contemporaneidade. 38 2. O JORNALISMO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA Considerando as revoluções burguesas (marcadamente a revolução industrial e as revoluções político-sociais da França e da Inglaterra), o Iluminismo e a formação das democracias européias como fatores contextuais determinantes para a institucionalização do jornalismo, boa parte dos estudos do jornalismo assume as premissas formadas nesse cenário, há dois séculos, como parâmetro normativo para o exercício do jornalismo contemporâneo. Assim, o jornalismo teria a função de informar a sociedade sobre os fatos de interesse público de maneira objetiva. As práticas jornalísticas calcadas nesses parâmetros são tomadas como o modelo de referência, o discurso auto-legitimador do jornalismo ou ainda o modelo dominante. O que aqui se pretende desenhar é um olhar culturalista sobre o jornalismo, que traz implicações relevantes sobre a forma como ele é concebido ao se articular com a cultura. Reconhece-se que as premissas formadas nos séculos XVIII e XIX existem ainda hoje definindo as expectativas sociais sobre seu papel. No entanto, elas não se constituem da mesma maneira, oferecendo releituras em função de adaptações nas sociedades que as incluem. Assumir, portanto, que o jornalismo é uma instituição social, na concepção dos Estudos Culturais, significa reconhecê-lo como prática cultural em permanente transformação, enquanto processo23. Segundo Peter Dalhgren, com os Estudos Culturais testemunhamos um esforço teórico mais ambicioso e sistemático para examinar a natureza do jornalismo, freqüentemente colocando em questão as demarcações que o jornalismo faz entre ele próprio e outras formas de produções mediáticas24 (DALHGREN, 2003, p. 3). Deseja-se efetuar essa abordagem em torno de quatro aspectos que parecem centrais para a concepção do jornalismo hodierno. O primeiro é a noção de esfera pública, tal como pensada por Jürgen Habermas (1984) como “categoria da sociedade burguesa”, que permite pensar o jornalismo na relação com os campos político e econômico, mas abre-se para incluir versões alternativas, voltadas para o sensível e emocional. A consideração da esfera pública traz como desdobramento a redefinição de outra premissa fundamental: o interesse público e, com ele, a 23 Ver PARTE II, “A natureza processual do telejornalismo”. No original: “[...] with cultural studies we witness more ambitious and systematic theoretical efforts to examine the nature of journalism, often putting into question the demarcations which journalism draws between itself and other forms of media output”. 24 39 própria noção de público, que passa a considerar a multiculturalidade. O terceiro aspecto tratado é a questão do quarto poder e do exercício de vigilância efetuado pelo jornalismo, que agrega valores de independência e autonomia profissional. Em quarto lugar, a própria função assumida pelo jornalismo para representação dos fatos cotidianos para o público e os rituais usados para isso, especialmente a objetividade. 2.1. O jornalismo e as esferas públicas Desde a publicação do livro “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, em 1964, até hoje, o conceito de esfera pública, formulado por Jürgen Habermas, já foi criticado, ampliado, negado e reconfigurado para se adaptar às recentes condições da política e das comunicações de massa contemporâneas25. Tais críticas provêm da origem do conceito de esfera pública que, para Habermas, estava concretizado na sociedade inglesa do século XVIII. O autor define a esfera pública como a esfera das pessoas privadas reunidas em um público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela leis gerais da troca na esfera fundamentalmente privada, mas publicamente relevante, as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social (HABERMAS, 1984, p. 42). Nesse fórum público de debates, os indivíduos possuíam apenas duas armas: o argumento e a discursividade. Assim, era por meio das conversações que argumentos racionais eram formulados e trocados. Só poderia haver deliberação por meio da argumentação. O conceito de esfera pública está estritamente ligado à formação do Estado moderno e também ao Iluminismo, uma vez que era pelo exercício da ratio que todos os indivíduos poderiam ter acesso ao debate público. A finalidade última era a formação da opinião pública, um conjunto de vontades consensuais, obtido por meio do debate argumentativo racional. Duas instituições emergem como instrumentos da esfera pública: o Parlamento é a concretização e institucionalização da esfera pública que se dá entre agentes profissionais e não mais com o público; e a imprensa, com o papel de informar, criticar e educar, fornecendo os temas que entrarão no debate público. 25 Apenas para citar alguns autores, Peter Burke e Asa Briggs (2006) mostram que, ainda no século XV, a população de Florença se reunia em praça pública para discutir questões políticas fomentando uma esfera pública; Nancy Fraser (2007) afirma uma ampliação da noção de esfera pública para incluir o feminino; Roger Silverstone (2003) aponta para a “suburbanização” da esfera pública. 40 O próprio Habermas, quando aponta para uma mudança estrutural, afirma o esvaziamento da esfera pública, sua encenação na vida pública por conta de transformações nas condições que permitiram sua origem. Três mudanças foram significativas para reconfiguração desse cenário no século XX: 1) mudança de mercado - que passou a incorporar grandes empresas e alcançou-se maior nível de competitividade; 2) acessibilidade – o debate público passou a representar interesses de classe e não mais dos indivíduos reunidos num público; 3) esfera privada – as ações do Estado passam a se desenvolver para o indivíduo e não mais para a família. Ora, se o contexto que permitiu o surgimento da esfera pública mudou a tal ponto que reconfigurou suas características básicas – a acessibilidade, a discursividade e a racionalidade – já não pode mais existir esfera pública, conclui Habermas. O que existe, segundo o autor, é algo muito semelhante a ela, apenas como valorização de índices que ainda dão sustentação ao Estado democrático de direito, a opinião pública seria o principal deles. Num texto um pouco posterior, Habermas resume a falência da esfera pública: a idéia de esfera pública, preservada no Estado de bem estar da democracia de massa, uma idéia que reclama a racionalização do poder através do intermédio da discussão pública entre indivíduos privados, ameaça se desintegrar com a transformação estrutural da própria esfera pública26 (1974, p. 55). A questão que se apresenta como pano de fundo é: a esfera pública, compreendida como “o âmbito da vida social em que se realiza, em várias arenas, por vários instrumentos e em torno de variados objetos de interesse específico, a discussão permanente entre pessoas privadas reunidas num público” (GOMES, W., 2005, p. 16), deixou de existir ou ela pode se reconfigurar para incluir outras práticas? A formulação de Habermas apresenta-se demasiadamente fechada a qualquer outro contexto em que a troca de argumentos sobre quaisquer assuntos poderia se dar. Assim, o conceito de esfera só se aplicaria, de fato, na Inglaterra do século XVIII, o “caso modelo” adotado pelo autor. Quando Peter Burke e Asa Briggs (2006) afirmam que desde o século XVI, em países como Alemanha, França e Holanda, houve a formação de uma esfera pública por conta das 26 No original: “The idea of the public sphere, preserved in the social welfare state mass democracy, an idea which calls for a rationalization of power through the medium of public discussion among private individuals, threatens to disintegrate with the structural transformation of the public sphere itself”. 41 lutas religiosas da Reforma, eles procuram deslocar a existência da esfera pública de um âmbito tão restrito, e passam a incorporar o conceito, praticado nos mesmos moldes, a uma situação que não era propriamente política, necessitando de outras instituições. Os autores apontam, inclusive, o papel da mídia que, por meio de panfletos, cumpria uma função semelhante à dos jornais opinativos no século XVIII. Para se compreender a validade do conceito de esfera pública na cultura contemporânea, é necessário apontar as transformações sociais, políticas e econômicas como um novo contexto que implica em novas formas de argumentação e novas estratégias discursivas – não somente o argumento – para asseverar o debate público. Uma dessas transformações diz respeito ao papel da imprensa que, segundo Habermas, está no centro das modificações da esfera pública. Fazendo uma leitura do texto clássico de Habermas, Wilson Gomes resume essa mudança de papel dos meios de comunicação e sua interferência do enfraquecimento da esfera pública: No modelo liberal, a imprensa era ao mesmo tempo um lugar, uma ocasião e um meio da pública comunicação. Nela, por ela e com ela se estabelecia o debate aberto e racional acerca de quaisquer objetos de interesse comum levado a termo por um público de pessoas privadas aptas para o uso público da razão. A opinião pública emerge desse debate como a sua meta alcançada. Na contemporaneidade, a imprensa finda por ser o lugar, ocasião e meio pelo qual aquilo que se quer que se torne opinião pública deve circular para obter assentimento dos privados. Não é um meio de debate do qual se espera emergir uma opinião, mas um meio de circulação de opiniões estabelecidas às quais se espera uma adesão, o mais amplamente possível, de um público reduzido a uma massa chamada de tempos em tempos a agir plebiscitariamente9. Uma esfera pública constituída dessa arte não passa de um meio de propaganda (GOMES, 2005a, p. 24). A compreensão de Habermas sobre o papel da imprensa ressalta os modelos de jornalismo que se sucederam nos século XVIII e XIX: o opinativo e o informativo, respectivamente. Assume o autor que pelo jornalismo opinativo, o público poderia se inserir num debate fornecendo, ele mesmo, suas opiniões. Por conta disso é que os jornais desse século passam a trazer a seção de carta dos leitores, como forma de dar visibilidade a problemas e queixas públicas. A imprensa informativa, por outro lado, era responsável por nutrir a sociedade com informações concernentes à vida pública e ao interesse público. Habermas adverte que “só existe uma imprensa em sentido estrito a partir do momento em que a transmissão da informação regularmente torna-se pública, ou seja, torna-se por sua vez acessível ao público em geral” (1984, p. 30). Ao efetuar uma crítica à nova “esfera pública”, afirmando-a como uma encenação, Habermas considera o papel dos mass media (não mais a imprensa 42 exclusivamente) em fornecer opiniões já formuladas e apenas transmiti-las ao público, que adere a elas sem envolver-se num debate racional, critério primeiro para a existência da esfera pública. A crítica efetuada por Habermas e a postulação do declínio da esfera pública na contemporaneidade permite pensar em dois elementos: a compreensão do lugar da recepção; a inclusão de outras formas comunicativas que não apenas o jornalismo e, consequentemente, perceber-se-á uma transformação no sentido de esfera pública, pois já não se trata da imprensa e seu papel, mas da mídia em geral. Sobre o lugar da recepção, Habermas a destitui de qualquer possibilidade de reação ou mesmo da formação espontânea, na vida cotidiana, de conversas privadas em ambientes privados. Na contemporaneidade, os indivíduos seriam seduzidos pelas estratégias midiáticas de convencimento, chegando a um consenso formulado previamente: este convencimento prescinde da discussão e da racionalidade, porque não quer conseguir convicção lógica: precisa, sim, da simpatia, da boa vontade, da adesão não importando se a sua origem é racional ou meramente emocional – por isso serve-se da sedução (GOMES, 2005a, p. 24). Parece, porém, que os procedimentos do jornalismo continuaram os mesmos: fornecer informações para que, num segundo nível, os indivíduos engajem-se em conversações a fim de formar uma opinião consensual. Isso porque o discurso dominante do jornalismo assume, ainda, a fomentação de uma esfera pública racional como seu papel político. A dimensão habermasiana de esfera pública, portanto, permanece enquanto ideal do jornalismo e, consequentemente, qualquer atividade que não ratifique a racionalidade e a argumentação é considerada externa ao campo jornalístico. Örnebring e Jönsson (2001) afirmam que concepção da esfera pública exclui outras práticas de jornalismo, como o tablóide, acusado de sensacionalismo, de enfatizar a emotividade e de simplificar questões complexas. A tabloidização se transfere da imprensa, local onde surgiu, para as mais variadas formas de jornalismo, em especial o televisivo. O jornalismo tablóide é tomado, pelo discurso dominante, como “mau jornalismo” por se opor à seriedade, responsabilidade, atividade crítica que o “bom jornalismo” deve possuir. Posto que o jornalismo tablóide sempre existiu, acompanhando o modelo dominante, os autores propõem a consideração de uma esfera pública alternativa, na qual o jornalismo tablóide se coloca como instância de mediação para dar espaço a públicos marginalizados do discurso dominante. 43 O mesmo argumento é dado por Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) ao tratarem os talk shows como espaço de visibilidade de assuntos e pessoas que normalmente não aparecem no jornalismo. Os autores chegam a afirmar essa esfera pública alternativa, que pode se formar em diversos espaços, como uma esfera pública oposicional, oferecendo resistência ao padrão dominante. Nisso, a televisão pode oferecer uma importante contribuição ao se constituir, ela mesma, numa arena de debates, levando ao estúdio pessoas que não têm acesso aos representantes públicos que podem direcionar suas questões e pautar assuntos que são de interesse privado27. 2.2. Qual o público do interesse público? A idéia de que o jornalismo deve agir como formador de uma esfera pública dá relevo à dimensão social da prática jornalística, ou seja, de uma atividade voltada para a esfera civil. O jornalismo foi-se configurando como instituição direcionada para o público e para todos os seus derivados: “opinião pública”, “interesse público”, e as expressões que são tomadas, muitas vezes, como seus sinônimos: “cidadão comum”, “bem comum”, etc. Todos esses termos têm sido traduzidos pela expressão “interesse público” e é ela que, segundo Wilson Gomes (2005a), está no coro da institucionalização do jornalismo e na fundamentação de seu papel social. Nelson Traquina (2004) aborda o “interesse público” a partir de um olhar idealista do jornalismo, como se esta fosse sua missão: “interesse público” refere-se ao papel da mídia de representar a sociedade e seus interesses, à defesa dos cidadãos contra um governo autoritário que destitua a ordem social e roube as liberdades individuais, à função de levar ao público as informações que precisam para exercerem sua atividade política na vida cotidiana. Assim, a idéia de “interesse público” também se alia fortemente à da formação de uma esfera civil politicamente ativa, não apenas no voto, mas na deliberação dos assuntos comuns. Mais do que uma orientação prática, “interesse público” está no núcleo do discurso social do jornalismo ou, noutros termos, de sua ideologia profissional. De maneiras semelhantes, Wilson Gomes (2005a) e Mark Deuze (2005) vão abordar o “interesse público” como valor que colabora tanto para formar o ideário profissional, quanto como uma espécie de contrato 27 A efetivação dessa esfera pública participativa por meio da conversação nos programas jornalísticos brasileiros será abordada na Parte III, “Jornalismo, conversação e democracia”. 44 social acerca do jornalismo. Considerando um discurso social como um conjunto de locuções, textos e falas em circulação que visa, primeiro, construir a identidade de um grupo e promover o engajamento de seus participantes nesse discurso, e, segundo, legitimar o grupo socialmente apontando a importância de sua existência para a própria sociedade, Wilson Gomes (2005) explica que o “interesse público” está no centro do discurso social do jornalismo, parâmetro usado pelos jornalistas para justificarem suas reportagens, para a estruturação dos produtos jornalísticos e para o cumprimento de seu papel social. Mark Deuze (2005) entende o discurso dominante sobre a ideologia profissional jornalística como um conjunto de valores, estratégias e códigos que caracterizam o jornalismo e são partilhados pelos profissionais. No entanto, em sua perspectiva, a ideologia é uma prática ativa e está em constante negociação. Não é um conjunto estabelecido, mas está em formação a partir de modificações históricas da concepção do que é o jornalismo e como ele pode legitimar-se na sociedade. Assim, os dois autores partem do senso comum do que seria o “interesse público”, expressado por Gomes como “o direito que o público tem de saber determinadas coisas de seu interesse” (2005, p. 67), ou, conforme Deuze, o sentido de fazer algo pelo público (2005, p. 447). Para ambos, o jornalismo assume o papel de vigilante (watchdog) do status quo em nome do público, ou seja, age como seu representante28. Tal como apontado por Traquina (2004), foi no contexto das revoluções burguesas do século XVIII que o jornalismo se apropriou da noção de “interesse público” para fundamentar sua função social. Segundo Gomes (op.cit.), a imprensa assumiu propriedades que remetem às transformações sociais e políticas daquele momento. Assim, a imprensa opinativa é, primeiro, burguesa e seu combate é contra o Estado e a favor da esfera civil. Segundo, a imprensa é iluminista, o que implica considerar o peso da argumentação e do debate, da racionalidade de homens livres para a decisão sobre o bem comum. O debate público visa tirar os assuntos do segredo e torná-los aptos para o escrutínio público. A argumentação e a racionalidade são as maneiras pelas quais os assuntos comuns devem ser discutidos, o que também configurava as práticas jornalísticas (Guerra, 2003, p. 37). Em terceiro lugar, a imprensa nasce liberal, o que enraíza os valores de liberdade individual, liberdade de imprensa e de opinião. 28 Neste momento, pretende-se fazer uma abordagem mais direcionada ao caráter público do jornalismo, ou seja, sua vocação para a sociedade. A questão da vigilância será abordada mais detalhadamente no próximo parágrafo, associado-a ao conceito de “quarto poder”. 45 O autor argumenta, porém, que essas características, mais evidentes no jornalismo opinativo, se esvaziaram quando da democratização das sociedades, pois a esfera pública, antes associada à esfera civil nas conversações cotidianas, se institucionalizou nas assembléias e parlamentos, espaços oficiais onde há debate e tomada de decisão. Nisso reside o problema de que o público não é mais interpelado como cidadão, mas como audiência: no modelo mercadológico do jornalismo – que se estabeleceu com a penny press – sua nova missão seria servir ao interesse de um público consumidor de notícias e não somente direcionar-se a sua vocação política. Suprir o mercado de informações num estado de enorme concorrência, para um conjunto de consumidores com a maior quota de tempo livre e com o maior poder de escolha da história da humanidade, num ritmo de produção cada vez mais acelerado (chegamos, com a internet, ao estágio dos estoques informativos renovados a cada minuto) e para atrair uma audiência distraída, dotada dos interesses os mais diversos e cada vez mais distanciada da vida política – eis o propósito, a meta e a razão de ser do jornalismo empresarial contemporâneo (GOMES, W., 2005a, p. 69). Apesar disso, ainda hoje, o discurso dominante do jornalismo emprega o “interesse público” como valor legitimador essencial29, referenciando-se ao mesmo sentido que o originou na época das Revoluções burguesas do século XVIII, constituindo-se “vozes de outro tempo e de outro jornalismo”, como afirma Wilson Gomes (2005a, p. 70). Refutando a idéia de que o interesse público deve ser tomado como valor absoluto do jornalismo, Gomes (2005a) argumenta que para a compreensão das reais práticas jornalísticas contemporâneas, deve-se manter a dimensão de público a partir da perspectiva da cidadania, ou seja, o interesse público diz respeito, ainda, às questões políticas. Mas dever-se-iam encontrar outros valores que, em diálogo com o interesse público, explicariam outras práticas e formas jornalísticas, como o jornalismo esportivo, cultural, rural, etc. O autor conclui que o jornalismo oferece basicamente instantâneos de eventos, fatos, fenômenos socialmente relevantes e circunstâncias. Uma parte apenas desses instantâneos, dessas fotografias, consiste em informações imediatamente importantes para a tomada de posição política e para a orientação política do 29 Para Gomes, o interesse público é um valor que supera os demais e funciona como critério decisivo para as práticas jornalísticas: “a prescrição é precisa e vale como determinação moral: nos casos em que dois valores morais entram em conflito, o jornalista deve obedecer àquele valor que se relacionar diretamente à satisfação do interesse público” (GOMES, 2005a, p. 67). 46 cidadão. O resto satisfaz todo o tipo de demandas de informação, que vai desde os últimos lançamentos em home theater até a última conquista do ator do momento, do novo filme do nosso diretor preferido até as novas tendências na criação de caprinos (GOMES, 2005a, p. 76). Mark Deuze (2005) também reconhece uma mudança na dimensão de público, o que, por conseguinte, deveria levar a novas formulações sobre a idéia de “interesse público” e do próprio público. Para Deuze (idem), duas questões problematizam o jornalismo contemporâneo: 1) a relação com a tecnologia, que permite uma produção de notícias multimidiática e interativa; e 2) a multiculturalidade que marca as sociedades contemporâneas e a redefinição do “público”. Sobre esse segundo aspecto, Deuze afirma que, para o jornalismo cumprir seu papel de porta-voz da sociedade, ele precisa conhecer que sociedade é essa que está se formando a partir de amplos movimentos migratórios entre pessoas e culturas distintas. Assim, a dimensão de “público” deve-se ampliar para incorporar indivíduos com tradições, visões de mundo, rituais distintos dos já conhecidos. Para atingir o público como cidadão é preciso conhecer suas necessidades e atuar de forma inclusiva a partir de demandas específicas que surgem dessa nova configuração. Como conseqüência, o jornalismo tem-se reestruturado de modo a incluir diferentes representações do público multicultural e tem adotado um novo papel social. Segundo Deuze (idem), o serviço ao interesse público não está mais relacionado somente à transmissão de informação dos fatos para o público, mas ao incentivo das conversações sociais (2005, p. 455). Para Mark Deuze (idem), o público deve ser interpelado em seu papel como cidadão, pois o que se transforma, na verdade, são as estratégias jornalísticas para isso: contratação de profissionais que representem esses grupos sociais, levar ao estúdio especialistas para tratar desses assuntos, buscar novas vozes na comunidade. Assim, o autor não problematiza o “interesse público”, mas amplia a dimensão do público e o novo papel que o jornalismo deve assumir. Ainda tomando como parâmetro a idéia de público-cidadão que originou a noção de “interesse público”, é necessário ampliar essa dimensão a fim de incluir outras interpelações do público que não apenas pela cidadania, conforme apontado pelo modelo liberal de jornalismo. Freqüentemente, os jornalistas assumem seu papel como servidores do interesse público referindo-se ao tratamento de questões como violência urbana, saúde, transporte, índices sociais (desemprego, analfabetismo, etc) entre outros assuntos que fazem parte do cotidiano 47 dos indivíduos, mas que não necessariamente fazem referência à cidadania, traduzida como o direito ao voto. Sendo assim, as notícias que divulgam novas pesquisas para a cura do câncer de mama, o tiroteio entre policiais e traficantes nas favelas, tendências do mercado imobiliário, nem sempre são enquadradas30 como questões de política (saúde pública, segurança pública, moradia), mas como informações que o público precisa saber para orientar sua vida cotidiana. Deste modo, se no discurso dominante do jornalismo o interesse público deve referir-se à cidadania e ao papel político dos indivíduos, a dimensão de política deve ser ampliada o suficiente para incluir essas questões que ganham relevância na vida cotidiana. Nas recentes perspectivas deliberacionistas31 sobre a democracia e o papel da mídia é possível constatar que “é difícil definir o que seria uma informação política ideal, já que materiais de naturezas diversas podem tornar-se relevantes para a ação dos indivíduos em seus múltiplos papéis como cidadãos, e não apenas como eleitores” (MAIA, 2008, p. 172). Sendo assim, os deliberacionistas ampliam a dimensão de política afastando-a de uma dimensão puramente institucional, ou seja, vinculada a questões de Estado, mas que inclua educação, segurança, cuidados com a saúde física e mental, riscos no ambiente do trabalho, ou seja, questões que ganham relevo no cotidiano. Sendo assim, o cotidiano é, ao mesmo tempo, o lugar da afetividade e da tomada de consciência (Martin-Barbero, 1997, p. 289), o espaço onde os indivíduos dão significados à suas experiências e partilham esses significados, criando formas de sociabilidade. Ao considerar que o interesse público deve estar articulado com valores outros para dar significado ao jornalismo, Wilson Gomes (2005) acaba postulando uma redefinição do papel do jornalismo contemporâneo: o jornalismo serviria para “orientar escolhas, basear 30 Assume-se aqui o conceito de enquadramento tal como formulado por Erving Goffman (1985) – discutido no capítulo anterior – e adaptado ao jornalismo por Robert Entman (1993), para quem “enquadrar significa selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular de um problema, uma interpretação casual, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito” (ENTMAN, 1993, p.52; grifo do autor). 31 O deliberacionismo é uma corrente que, juntamente com a tradição liberal e a republicana, procura compreender a política e a democracia a partir de sua relação com a comunicação. No deliberacionismo, a legitimidade do estado democrático depende da relação entre o centro de tomada de decisões políticas e a esfera civil, esferas que devem permanecer num fluxo de comunicação contínuo e o papel da mídia seria, justamente, nutrir esse fluxo. Para os autores do deliberacionismo, as conversações cotidianas são fundamentais para que os cidadãos tenham capacidade de deliberar racionalmente sobre as decisões coletivas que os afetam (GOMES e MAIA, 2008, p. 16). Os postulados do deliberacionismo serão melhor abordados na Parte III, “Jornalismo, conversação e democracia”. 48 planejamentos, formar a própria opinião, montar perspectivas, selecionar pessoas, instituições e posições, formar afetos e disposições internas, construir sonhos e esperanças” (GOMES, 2005a, p. 76). Na perspectiva que aqui se pretende adotar, ao cumprir com essas funções, o jornalismo estaria exercendo seu serviço ao interesse público, uma vez que aparelha o indivíduo para a vida social, permite que ele formule opiniões sobre o mundo e dê significado à suas experiências. Assim, o jornalismo e a dimensão de interesse público devem ser pensados a partir de questões que envolvem sociabilidade, ou seja, daquilo que é compartilhado por um grupo ou sociedade, que gera partilha de afetos e permite troca de opiniões na vida cotidiana. 2.3. Jornalismo político no Brasil e o “poder moderador” Segundo Nelson Traquina (2004), a expressão “quarto poder” (traduzido do inglês Fourth State) foi utilizada pela primeira vez em 1828 pelo deputado inglês McCaulay, ao referir-se à galeria onde se sentavam os jornalistas que cobriam os debates parlamentares. A idéia de uma mídia que vigiasse os três poderes constitucionais logo penetrou no discurso autolegitimador do jornalismo, que se apresentava na dupla função de representar a opinião pública e vigiar o poder. Pensando o modelo liberal de jornalismo atrelado ao sistema democrático de governo recém instalado, Traquina (idem) considera que foi no contexto da democracia que o papel de vigilância e a designação que incorpora essa atribuição – “quarto poder” – se consolidou no jornalismo e passou a ser reconhecido socialmente. Segundo o autor, “os pais fundadores da teoria democrática [...] reservaram ao jornalismo não apenas o papel de informar os cidadãos, mas também, num quadro de check and balances (a divisão de poder entre poderes), a responsabilidade de ser o guardião (watchdog) do governo” (2004, pp. 22-23). Assim, à imprensa cabia o papel de fiscalizar as ações dos três poderes a fim de evitar uma “recaída” para sistemas autoritários de governo e assegurar as liberdades individuais e a autonomia do público-cidadão na sociedade. A dimensão de “quarto poder” é, talvez, uma das expressões mais evidentes da relação entre jornalismo e política, pois envolve diretamente a forma como os jornalistas compreendem seu papel diante das instituições governamentais. Ratificando o valor de independência e autonomia, o jornalismo compreende que parte de sua função social é fornecer aos cidadãos o instrumental informativo necessário para suas ações cívicas. Por conta disso, o “quarto poder” é um termo considerado universal para o jornalismo liberal contemporâneo. 49 Afonso de Albuquerque (1999, 2008, 2009) demonstra, porém, que a efetivação do papel de “quarto poder” não se dá de maneira evidente e semelhante, mas possui variações culturais que decorrem das relações construídas, em países diversos, entre a comunicação e a política. Assim, os textos de Albuquerque apontam para dois fenômenos: 1) a relação entre jornalismo e política em diferentes contextos culturais; 2) a compreensão da cultura política e como ela afeta a relação com a mídia. No que diz respeito ao primeiro aspecto, Albuquerque (2009) demonstra as apropriações da idéia de “quarto poder” a partir de três tradições mais explícitas. A primeira refere-se ao Fourth State, de tradição liberal britânica e fortemente ligado à publicização dos temas políticos, permitindo um engajamento do público no debate político em âmbito nacional, e estendendo as questões para vários locais. Os poderes, aqui, não são os institucionalizados, mas as três classes feudais: primeiro estado (clero), segundo estado (nobreza), que se reuniam na câmara dos Lords, e o terceiro estado (comuns), que se reunia na câmara dos comuns, onde a imprensa tinha seu lugar. O Fourth Branch, mais vinculado à perspectiva norte-americana, diferentemente do anterior, diz respeito à divisão de poderes. Esta matriz aposta no equilíbrio e na interdependência dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – para reger a sociedade. É justamente aí que a mídia encontra seu lugar: promovendo esse equilíbrio e transformando-se em um “ramo” (branch) do governo. Assim, o poder da mídia reside no controle de selecionar as notícias, promovendo a interligação dos três poderes com a sociedade. A terceira perspectiva é a de Poder Moderador, que expressa a relação entre jornalismo e política no Brasil. A formulação do conceito de “poder moderador” remete à formação do Estado brasileiro, desde os tempos monárquicos, até a ditadura militar. A Constituição brasileira de 1824 previa o poder moderador centrado na figura do monarca que lhe permitiria exercer uma autoridade sobre os outros três de forma neutra, com interesse em preservá-los. Afonso de Albuquerque afirma que três concepções acerca do Poder Moderador, enfatizadas durante a Constituinte, concorreram para definir as suas atribuições. A primeira o caracterizava como um lugar privilegiado ocupado pelo chefe do Estado, que se situaria acima da “política” e seria merecedora de um respeito incondicional; a segunda o definia o Imperador [sic] como a suprema 50 autoridade vigilante da nação e ao Poder Moderador como um poder de exceção, que deveria ser acionado na defesa da ordem constitucional de modo a impedir a perturbação da ordem pública; a terceira percebia o Poder Moderador como um recurso de centralização política. De modo concreto, os termos da adoção do Poder Moderador possibilitaram à Coroa brasileira atuar de duas maneiras distintas: como Executivo forte, governando acima das facções políticas (como aconteceu no Primeiro Reinado) ou como árbitro do jogo político entre os partidos (como ocorreu no Segundo Reinado) (ALBUQUERQUE, 2009, p. 9). Após esse episódio, em diversos outros momentos da vida política nacional formou-se a idéia de moderação: no início da República, em 1889, percebia-se a necessidade de manter o papel do poder moderador a fim de estabilizar os outros três; a Política dos governadores do início da República é descrita como um equivalente ao poder moderador; no breve período de democracia no fim do Estado Novo, foram as forças armadas que reivindicaram um lugar de ordem institucional, para arbitrar os conflitos entre o governo e a sociedade civil, até o golpe de 1964; no processo de redemocratização do país, em 1985, foi a imprensa que reivindicou o papel de fiadora da democracia e de suas instituições: “não se trata de dizer que o jornalismo brasileiro opera de fato como um Poder Moderador, uma vez que não existe qualquer tipo de amparo constitucional para isso, mas de sugerir que, em boa medida, é este papel que ele se propõe a desempenhar” (2009, p. 10). Vinculada muito fortemente a um elemento da cultura política nacional, a noção de poder moderador revela a forma como o jornalismo se relaciona com o campo político. Ampliando a proposta de Daniel Hallin e Paolo Mancini32, Albuquerque (2008) compreende a cultura política nacional a partir de duas variantes: 1) o nível de estruturação partidária, tendo em vista o grau de influência que as clivagens exercem junto ao governo e à vida política como um todo; 2) o grau de intervenção dos meios de comunicação nos assuntos políticos (2008, p. 11). Assim, no Brasil, encontra-se um sistema partidário fracamente estruturado, mas uma mídia politicamente ativa: os partidos não têm muita influência na forma de governo, mas há “desconfiança generalizada quanto à maturidade e o bom funcionamento das instituições políticas, e a percepção de que é imperativo agir para modificá-las ou, pelo menos, corrigir o seu funcionamento (2008, pp. 13-14). Como os partidos são pouco enraizados na sociedade, outras instituições reivindicam esse papel. 32 Segundo Albuquerque, os autores promovem uma ampla pesquisa sobre diferentes culturas políticas tendo como referencial quatro variáveis: 1) o nível de desenvolvimento dos mercados de mídia nestes países; 2) o grau de paralelismo entre os sistemas midiáticos e políticos; 3) o nível de profissionalismo no jornalismo; 4) o nível e a natureza da intervenção do Estado junto aos meios de comunicação. 51 É por conta do reconhecimento da fragilidade das instituições políticas que a mídia brasileira se assume como intérprete privilegiada dos interesses e árbitro dos três poderes constitucionais. Diferentemente da política norte-americana, que já possui uma dimensão de consenso mais ou menos estabilizada33, a sociedade brasileira não é consensual sobre verdades fundamentais. Assim, no exercício de seu compromisso político, os jornalistas brasileiros dividem-se numa postura adversativa ao governo, defendendo um jornalismo direcionado à divulgação de ideologias de uma forma mais direta, ou preconizam um jornalismo independente-objetivo para sustentar sua postura governista. Ao desempenhar o papel de poder moderador, a imprensa brasileira reivindica autoridade para colocar um poder contra o outro a fim de manter a ordem pública. 2.4. Os rituais de construção de objetividade “O meu trabalho é comunicar fatos”, dizia um jornalista da Associated Press, em 1856, “as minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentários sobre os fatos, sejam eles quais forem” (apud TRAQUINA, 2004, p. 51). A afirmação expressava um padrão emergente da produção noticiosa que viria a tornar-se o paradigma do jornalismo nos anos seguintes. A separação entre fatos e opiniões marcava o início de um modelo de jornalismo que buscava distinguir-se dos anteriores – o opinativo e o literário – a partir do relato dos fatos. Assim, surge o conceito de objetividade para designar um ritual de cobertura jornalística que tinha nos acontecimentos sua matéria-prima. Juntamente com o conceito de objetividade veio o próprio conceito de notícia e a profissionalização dos repórteres. No modelo de jornalismo político-partidário, os jornalistas escreviam teses e defendiam seus pontos de vista, especialmente sobre assuntos políticos. Com a chegada do paradigma informativo, surgiu a figura do repórter, que deveria ir em busca das informações, apurá-las e transmiti-las à audiência. Ante as afirmações da necessidade de se praticar e consumir um jornalismo que seja espelho dos acontecimentos – noção cara à idéia do jornalismo como uma espécie de mediação 33 O argumento do autor no texto é que, ao contrário do que preconizam alguns autores, o jornalismo político brasileiro não copiou o modelo norte-americano tal e qual. A dimensão de quarto poder e sua efetividade na mídia se dá formas distintas nos dois países, adaptando-se aos referenciais democráticos de cada um. 52 transparente entre a realidade e os indivíduos – o século XX trouxe novas formas de compreender a realidade, a linguagem e, por conseguinte, o papel do jornalismo. Se durante o período do Iluminismo acreditava-se que a linguagem refletia o mundo, com o desenvolvimento da semiologia e da semiótica, passou-se a considerar que: a produção de significados ocorria a partir dos contextos que inserem as falas e sua interpretação; que os signos são ideológicos e, portanto, não são neutros e transparentes (cf. BAKHTIN, 1999). No que diz respeito ao jornalismo, a partir dos anos 1950, ganhou força nos Estados Unidos uma corrente de pesquisa vinculada às perspectivas construcionistas sobre a realidade. Assim, as notícias não seriam um espelho, mas uma construção, uma imagem que os jornalistas apresentam sobre o mundo. Voltados para a sociologia da produção, os autores vinculados ao construcionismo tinham como finalidade demonstrar os rituais de produção noticiosa, não apenas levando em conta seu valor simbólico, mas sua inserção na lógica comercial das empresas jornalísticas. Nesse contexto, Gaye Tuchman (1999) demonstrou que a noção de objetividade é empregada pelos jornalistas como uma maneira de defender-se contra possíveis acusações. Assim, os jornalistas empregam estratégias formais – apresentação de lados conflituais, uso de provas auxiliares, aspas e sequência apropriada – a fim de construir um texto que pretende demonstrar o distanciamento entre o repórter e o acontecimento descrito. Seguindo uma perspectiva semelhante, mas mais voltada à história da imprensa, Michael Schudson (1978) revela que “a objetividade no jornalismo parece ter sido destinada a ser tanto um bode expiatório quanto uma crença, e ainda uma defesa mais desajustada do que uma afirmação sincera34” (SCHUDSON, 1978, pp. 157-158, tradução nossa). Afirma o autor que a objetividade não era um paradigma essencial ao jornalista até o período posterior à I Guerra Mundial, quando os jornalistas precisavam legitimar seu trabalho. Apesar dessas ressalvas, a noção de objetividade ainda se apresenta como um alicerce do jornalismo, definindo tanto as práticas dos jornalistas, quanto o reconhecimento da audiência e a atribuição de credibilidade às coberturas. Não se pretende defender, neste trabalho, que a objetividade deve ser pensada como maneira de espelhar a realidade e os fatos. No entanto, é preciso considerar, também, que os produtos jornalísticos fazem referência a um sentido de 34 No original: “Objectivity in journalism seems to have been destinated to be as much a scapegoat as a belief and more an awkward defense than a forthright affirmation”. 53 objetividade a fim de legitimar-se socialmente. No que diz respeito à conversação, a concretização da idéia de objetividade obedece aos parâmetros dos programas, podendo ser negociada um objetivo mais amplo de provocar reflexão, formação de opinião e cidadania. Estes aspectos deverão ser observados nas análises dos programas, assunto desenvolvido na parte seguinte. 54 PARTE II CONVERSAÇÃO E MODOS DE ENDEREÇAMENTO: premissas e as análises dos programas 55 Como foi visto na parte anterior, tanto o jornalismo quanto a conversação se modificam a partir de transformações no contexto sócio-histórico. A análise de um produto jornalístico televisivo que tenha a conversação como principal estratégia deve levar em conta essas transformações e a dinâmicas que envolvem a concepção dos produtos. Por conta disso, os Estudos Culturais, em especial o de filiação inglesa e latino-americana, aparecem como uma profícua ferramenta teórico-metodológica. Considerar o telejornalismo dentro de uma perspectiva culturalista significa compreendê-lo como produto cultural que está em permanente relação com a sociedade e, portanto, sujeito a novas configurações e novos usos a partir das transformações políticas, econômicas, sociais, tecnológicas. Este trabalho esteia-se sobre três conceitos forjados e apropriados na matriz culturalista. O conceito de modo de endereçamento (MORLEY e BRUNSDON, 1999; GOMES, 2007) se apresenta como uma ferramenta teórico-metodológica importante para a compreensão do uso da conversação como estratégia de configuração dos programas. A noção de gênero televisivo (MARTIN-BARBERO, 1997; GOMES, 2002, 2007) permite reconhecer a relação entre a conversação e o subgênero no qual o programa se insere, oferecendo parâmetros analíticos que ajudam a reconhecer dentro de quais limites (formais, estruturais, temáticos) a conversação pode se dar. O conceito de estrutura de sentimento (WILLIAMS, 1979) permite olhar para os fenômenos sob o ponto de vista processual, indicando os usos do presente a partir das reconfigurações de elementos do passado e apontando para o futuro. Segundo Itania Gomes (2007), as três noções surgiram a partir do esforço de uma análise cultural e de uma preocupação com a atividade da audiência na produção de sentido. É nessa conjunção da atividade jornalística com passado, presente e futuro que a conversação encontra seu lugar de destaque. Se, ao longo dos anos, a quantidade de programas que utilizam a conversa entre participantes como elemento condutor de sua relação com a audiência se multiplicou; se cada vez mais os telejornais lançam mão desse recurso; se as formas de conversar tendem mais à informalidade e a personalização é sinal de que o telejornalismo atual passa por transformações que permitem incorporar e pôr ênfase em elementos antes pouco assimilados tanto pelo campo da produção quanto pela esfera da recepção televisiva. 56 1. CONCEITOS BALIZADORES PARA A ANÁLISE 1.1 A natureza processual do (tele)jornalismo: estrutura de sentimento Segundo Raymond Williams (1997), a televisão é uma forma cultural que está em permanente processo de construção e apropriação, e o jornalismo uma instituição social que, na relação com a cultura, ganha diferentes significados a partir de seus usos pela sociedade, usos estes condicionados ao contexto histórico. Assim, para os Estudos Culturais, um olhar para a cultura e seus produtos deve trazer, juntamente, uma observação sobre o caráter histórico que os configura. As obras iniciais dos Estudos Culturais já apontavam para a necessidade de averiguar o passado a fim de compreender o presente. “As Utilizações da Cultura” (Hoggart, 1974 [publicado em 1957]), “A Formação da Classe Operária Inglesa” (Edward Thompson, publicado em 1963) e “Cultura e Sociedade” (Williams, 1969 [publicado em 1958]) indicam a preocupação central dos Cultural Studies – de reformular o conceito de cultura de modo que contemplasse a classe operária – mas também revelavam um pressuposto axial: a cultura enquanto processo. Foi com Raymond Williams, porém, que a questão processual ganhou contornos teóricos mais definidos. Em “Marxismo e Literatura” (1979), Williams revisita conceitos básicos do marxismo – tais como infra-estrutura e superestrutura, ideologia, determinação, hegemonia – e os discute a partir de suas próprias reincorporações para formular uma teoria cultural que dê conta dos processos que envolvem sociedade, economia e cultura. Rejeitando um olhar para o social a partir de uma cristalização das relações, formações, instituições e posições, Raymond Williams (1979) sustenta sua teoria cultural numa dimensão flexível e mutável dos processos sociais. Desde a redefinição do conceito de cultura como modo integral de vida, apontado em “Cultura e Sociedade”, Williams já pensava nas formações culturais como um espaço de tensão onde as relações de dominação são construídas. Assim, os grupos sociais (mais especificamente, para ele, as classes) estariam em permanente disputa visando conquistar a hegemonia. Sob esse ponto de vista, Williams não poderia conceber uma teoria cultural que se baseasse em modelos fixos e explícitos, mas formula seu pensamento calcado nas mobilidades do social que podem ser verificadas nas estruturas de sentimento. 57 Para William (idem), a análise cultural baseada em produtos acabados da cultura tende a tomar esses produtos como fixos e estáveis, descartando tanto as transformações que se efetuaram no passado de modo a levar até aquele produto, quanto suas apropriações contemporâneas. Sendo assim, Williams só concebe as obras como abertas e processuais, resultado de um investimento feito no passado e das reapropriações no presente. Assim, as modificações que se percebem concretamente na vida social – como mudanças na língua, no comportamento, nas formas de vestir – são uma questão aberta – isto é, uma série de questões históricas específicas – se em qualquer dessas modificações, este ou aquele grupo predominou ou foi influente, ou se elas são resultado de uma interação muito mais geral. O que estamos definindo é uma qualidade particular da experiência social e das relações sociais, historicamente diferente de outras qualidades particulares, que dá o senso de uma geração ou período (WILLIAMS, 1979, p. 133). As estruturas de sentimento, para Williams, indicam os processos que ainda não estão cristalizados socialmente e que, portanto, estão em solução. “Sentimento” foi o termo encontrado pelo autor para dar destaque tanto ao presente quanto ao vivido ativamente, ao contrário de “visão de mundo” ou “ideologia”, que focaliza mais na consciência, destituindo-a de seu aspecto mais prático, como o autor pretende salientar. “Sentimento” se refere aos “significados e valores tais como são vividos e sentidos ativamente” e ainda às “relações entre eles e as crenças formais ou sistemáticas [que] são, na prática, variáveis (inclusive historicamente variáveis), em relação a vários aspectos” (WILLIAMS, 1979, p. 134). Com a palavra “estrutura”, Williams (idem) quer definir as “relações internas específicas, ao mesmo tempo engrenadas e em tensão” (idem, p. 134). Assim, “estrutura” engloba algo que já se formou e entrou no uso social, mas que permanece sujeito a variações e tensões. Estrutura de sentimento é, para Williams, uma hipótese cultural que permite compreender o contemporâneo a partir de suas múltiplas relações com os diversos elementos do social e, portanto, inclui pensar tanto o passado – e as formas que engendraram os elementos do presente – quanto o futuro – ressaltando aquilo que é novo. Para operacionalizar analiticamente o conceito de estrutura de sentimento, o próprio autor propõe três outros conceitos que permitem identificar, na sociedade, seus elementos processuais. Lançadas desde “Cultura e Sociedade” (1969), as noções de emergente, dominante e residual permitem reconhecer os movimentos e tendências dos fenômenos sociais 58 e as relações dinâmicas que efetuam. Williams (1979) formula sua teoria cultural com base na compreensão daquilo que conquistou a hegemonia e se constituiu enquanto prática mais comum, o que configura os aspectos dominantes da sociedade. Considerando o conceito de hegemonia a partir da releitura gramsciana, para Williams (1979) o hegemônico não é simplesmente o que se institui como forma de poder e dominação, mas significa uma complexa rede de forças políticas, sociais e culturais ativas que prevaleceram sobre as outras. Assim, a análise da cultura contemporânea é a análise daquilo que se configurou historicamente como dominante, juntamente com suas instituições35 e formações36, e seus processos de imposição sobre outras forças desenvolvidas em paralelo. No entanto, para Williams (idem), presente, passado e futuro devem estar conectados na análise cultural de modo a esclarecer o todo do processo social e destacar as características do dominante. Na análise histórica autêntica, é necessário, em todos os pontos, reconhecer as inter-relações complexas entre movimentos e tendências, tanto dentro como além de um domínio específico e efetivo. É necessário examinar como estes se relacionam com a totalidade do processo cultural, e não apenas com o sistema dominante selecionado e abstrato (WILLIAMS, 1979, p.124). O residual diz respeito aos aspectos forjados no passado, mas que permanecem em uso no processo cultural por meio de uma reconfiguração no presente. Williams (idem) não se refere ao residual como arcaico – “aquilo que é totalmente reconhecido como elemento do passado” (idem, p. 125) – mas como um elemento que se formou no passado e que permanece ativo37, podendo, inclusive, oferecer resistência aos padrões da cultura dominante. Certas experiências, significados e valores que não podem se expressar, ou verificar substancialmente, em termos de cultura dominante, ainda são vividos e praticados à base do resíduo – cultural bem como social – de uma instituição ou formação social e cultural anterior (WILLIAMS, 1979, p. 125). Os aspectos residuais evocam uma certa tradição, compreendida por Williams não como a sobrevivência do passado, mas como uma tradição seletiva, ou seja, “uma versão intencionalmente seletiva de um passado modelador e de um presente pré-modelado, que se 35 O autor considera as instituições formais como responsáveis pela socialização de valores, conceitos e práticas que se relacionam diretamente com o hegemônico. No entanto, Para Williams, essas instituições não são estanques no tempo, mas são tensionadas por outras que emergem valores alternativos. Assim, as instituições não são fixas no tempo e nem traduzem todo o pensamento de uma sociedade, mas apenas a consciência de uma parcela dominante. 36 Para Williams, formações são as tendências conscientes que se materializam em “produções formativas” (como tendências literárias, musicais, etc). 37 O autor exemplifica com três características da sociedade inglesa: a religião, a comunidade rural e a monarquia. 59 torna poderosamente operativa no processo de definição e identificação social e cultural” (1979, p. 118). O residual permite observar as práticas e valores que foram incorporados na cultura como hegemônicos e os que foram negligenciados. Portanto, falar sobre uma tradição televisiva brasileira, ou mais especificamente, uma tradição do telejornalismo, implica reconhecer, em sua história, os aspectos absorvidos e os que foram deixados ao longo do caminho, os que provocaram avanços e os que se apresentaram como formas alternativas ao modelo dominante. Os elementos residuais que apontam para as tradições seletivas permitem, igualmente, identificar algumas direções para o futuro: as rupturas, os cruzamentos e as incorporações que se efetuaram no passado permitem observar quais delas ainda podem ser integradas no futuro. Para observar esse movimento para além do presente, Williams (idem) postulou o conceito de emergente, referindo-se àquilo que está presente na sociedade de forma ainda virtual. São os “novos valores, novas práticas, novas relações e tipos de relação [que] estão sendo continuamente criados” (idem, p. 126) e que, por vezes, resistem à cultura dominante. Williams não está falando simplesmente dos elementos emergentes em uma cultura, mas da emergência de uma nova cultura, como foi o surgimento da classe operária inglesa no século XIX. Embora nunca tenha se colocado como cultura dominante, a classe operária oferece sempre resistência à dominante. Para se entender a cultura emergente é preciso “descobrir novas formas ou adaptações da forma” (idem, p. 129) que começam a se fomentar socialmente. Deste modo, para Williams (1979), conhecer os elementos da cultura que estão em prática no presente requer um movimento para o reconhecimento dos aspectos residuais, que ratificam ou tensionam os dominantes, e para os emergentes que estão se forjando no presente e podem se mostrar como uma alternativa ao modelo em dominação. Postos em relação, esses conceitos possibilitam ao analista um olhar que relaciona presente e passado (dado pelo conceito de residual), presente e presente (que indicam as formas dominantes), e presente e futuro (englobadas pela noção de emergente). Embora sua proposta seja muito mais ampla, os conceitos formulados por Williams sugerem um olhar sobre o (tele)jornalismo que indique as tensões e lutas pela hegemonia que se efetuam no campo jornalístico. Se o modelo do jornalismo informativo, formado nas sociedades anglo-americanas a partir do século XVIII38, 38 Ver CHALABY, 2003. TRAQUINA, 2004, 2005. 60 hoje se estabelece como dominante tanto para as atividades práticas, quanto para os modos de recepção, é porque, historicamente, esse foi o discurso que se consagrou como legítimo socialmente. No rastro, o jornalismo panfletário, desenvolvido pouco antes, e o sensacionalismo, prática que se desenrolou e se desenrola ainda hoje lado-a-lado com o modelo dominante, escaparam daquilo que se instituiu e se reconhece como o jornalismo de referência. O que a história permite ver são os momentos de tensão e dominação, as disputas efetuadas no interior do campo em sua constituição e na busca por uma legitimação. A validade dos conceitos de residual e emergente, juntamente com o dominante, é ressaltar o fato de que nenhum cultura dominante “inclui ou esgota toda a prática humana, toda a energia humana e toda a intenção humana” (Williams, 1979, p. 128), o que significa que, na compreensão do que se legitima como dominante no contemporâneo, é preciso considerar as formas alternativas e resistentes que se desenvolveram em paralelo. Na análise do telejornalismo é possível localizar certos elementos que se configuraram no passado e se estabeleceram como dominantes ou alternativos no presente, o que fica visível na própria apresentação dos programas. No caso das entrevistas televisivas, por exemplo, o modelo face-a-face se forjou num período em que a proximidade física, juntamente com os efeitos de edição e montagem que simulam essa proximidade, sugeria uma ruptura na formalidade que a televisão tinha com relação às fontes oficiais. Assim, o fato de o apresentador poder chegar perto de um representante político indicava que o povo se aproximava deste a fim de obter esclarecimentos. Esse modelo de entrevista acabou tornandose dominante, embora hoje possua um novo uso: o de intimidade entre entrevistado e apresentador, e por meio deste, com a audiência. Por meio de uma história sócio-cultural da televisão e do telejornalismo é possível encontrar elementos como esses e compreender os modos de produção e leitura contemporâneos. Numa análise histórica da imprensa, Michael Schudson afirma que entender o jornalismo como parte da cultura contemporânea requer verificar como ele funciona tanto como um conjunto de instituições sociais concretas, quanto como um repertório de práticas literárias historicamente forjadas39 (SCHUDSON, 2003, p. 2). 39 No original: “(...) understand journalism as a part of contemporary culture requires seeing how it works as both a set of concrete social institutions and a a repertoire of historically fashioned literary practices”. 61 A incorporação da história sócio-cultural na análise do telejornalismo permite reconhecer elementos como esses e formar uma compreensão mais ampla sobre suas características contemporâneas. Seguindo essa proposta, Peter Burke40 e Asa Briggs (2006) alvitram uma história social da mídia partindo desde a revolução da imprensa até as formas digitais de comunicação. Segundo os autores, o olhar para o passado permite mostrar as mudanças de técnicas como catalisadores das mudanças sociais, e não agentes que promovem transformações radicais nas antigas formas de fazer. Os autores defendem que as mudanças sociais e as novas técnicas acontecem concomitantes e acarretam modificações graduais em seus usos e apropriações. Assim, compreender o processo histórico – articulando a história sócio-cultural com a noção de estrutura de sentimento - permite averiguar as práticas contemporâneas e os movimentos em direção ao futuro a partir das relações contextuais que o jornalismo efetua. 1.2. Gêneros televisivos A questão dos gêneros televisivos ainda se apresenta como um problema para os pesquisadores da televisão. Se por um lado há um esforço de certos autores em definir como se configura um gênero televisivo e seus produtos, por outro a hibridização dos formatos, os deslocamentos efetuados de um gênero a outro muitas vezes se apresentam como um entrave para sua compreensão. No universo televisivo, os gêneros – jornalismo, publicidade, ficção seriada e outros – estão em permanente diálogo, agregando elementos de um e de outro, se reconfigurando e se reestruturando. Associando-se a perspectiva dos cultural studies aos estudos de linguagem, os gêneros são formas culturais sujeitas às alterações histórico-culturais. É de Raymond Williams (1979) a idéia de que, para que haja reconhecimento de um gênero (no caso dele, literário), é preciso levar em conta dois fatos: primeiro, a existência de relações sociais e históricas claras entre determinadas formas literárias e as sociedades e períodos nos quais foram originadas ou praticadas; segundo, a existência de continuidades indubitáveis nas formas literárias através e além de sociedades e períodos com os quais os produtos têm essas relações (WILLIAMS, 1979, p. 182). 40 Noutro momento, Peter Burke (2005) estabelece parâmetros e reflexões para a realização de uma história cultural que contemple as diversas atividades humanas. Assim, o autor põe ênfase nos processos de interpretação e produção de sentido da linguagem, do corpo, da religião, das festas populares ao longo do tempo. 62 Para além da questão da rotulação dos programas no interior de categorias fixas, Williams (idem) chama atenção para o caráter móvel, mutante e flexível dos gêneros que se articulam com a cultura e a sociedade. Segundo Itania Gomes (2007), tomar os gêneros como parâmetros de análise de produtos jornalísticos implica “reconhecer que o receptor orienta sua interação com o programa e com o meio de comunicação de acordo com as expectativas geradas pelo próprio reconhecimento do gênero” (GOMES, 2007, p. 14). Sendo assim, o gênero televisivo (ou midiático) oferece tanto os limites para o campo da produção, quantos parâmetros para reconhecimento e produção de sentido por parte da audiência. Tratando dos gêneros midiáticos, Jeder Janotti afirma que os gêneros seriam, então, modos de mediação entre as estratégias produtivas e o sistema de recepção, entre os modelos e os usos que os receptores fazem desses modelos através de estratégias de leitura dos produtos midiáticos (JANOTTI JÚNIOR, 2005, p. 60). Os gêneros televisivos são, portanto, concebidos como uma estratégia comunicativa que insere tanto os aspectos de escritura, quanto os de leitura (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 302). Se o telejornalismo é um gênero televisivo, os telejornais, programas de entrevistas, programas de debate, programas de jornalismo temático, documentários são seus subgêneros. Jesus Martín-Barbero (1997) entende que uma abordagem do gênero a partir do ponto de vista cultural se constitui numa “chave para análise dos textos massivos e, em especial, dos televisivos” (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 302). Assim, seguindo as pistas deixadas por Williams (1979), Martin-Barbero concebe a análise dos gêneros televisivos quando colocada em relação à sociedade. Propondo um diálogo entre os cultural studies e os estudos de linguagem, Itania Gomes explica que os gêneros são formas reconhecidas socialmente a partir das quais se classifica um produto midiático. Em geral, os programas individualmente pertencem a um gênero particular, como a ficção seriada ou o programa jornalístico, na TV, e é a partir desse gênero que ele é socialmente reconhecido (GOMES, 2007, p 14). Por não se constituírem numa estrutura rígida que se perpetua ao longo do tempo, os gêneros televisivos sofrem deslocamentos em sua forma de construção, misturando-se com outros gêneros ou com outros elementos da cultura. É por conta desses deslocamentos que se torna possível, hoje, que telejornais utilizem encenações com atores nas notícias sobre crimes, 63 saindo dos parâmetros reconhecidos do jornalismo e se apropriando de elementos mais característicos da teledramaturgia. Janotti (2005) conclui que analisar um produto midiático através dessa perspectiva pressupõe perceber as relações entre esse produto e outros de diferentes gêneros, compará-los com expressões canônicas ou similares dentro do mesmo paradigma. Os gêneros são dinâmicos justamente porque respondem a determinadas condições de produção e reconhecimento, indicativos das possibilidades de produção de sentido e de interação entre os modos de produção/ circulação/ consumo dos produtos midiáticos (JANOTTI JÚNIOR, 2005, p. 59). Numa perspectiva mais ligada à semiótica, François Jost (2004; 2009) pensa os gêneros televisuais como etiquetas que ajudam o telespectador a se situar na programação. Para o autor, “nós temos necessidade de saber para determinar nossa atitude: aceitação, recusa, cólera41” (JOST, 2009, p. 39) e é para satisfazer essa necessidade de trazer o desconhecido ao conhecido que as emissoras - e também os veículos especializados em TV e em sua programação - criam etiquetas que tentam agrupar o conjunto de produtos com características semelhantes. Embora o conceito de gênero televisivo pensado enquanto estratégia de comunicabilidade entre a esfera da produção e da recepção englobe e ultrapasse a questão da nomenclatura, François Jost (idem) propõe uma abordagem sobre os gêneros que inclui o conceito de promessa que, para ele, se estabelece em todo material que circula sobre o produto: entrevistas com produtores, publicidade, chamadas na programação. Além disso, a promessa se efetiva nos produtos pela aproximação com pelo menos um dos três mundos: o mundo real, que procura dar conta dos objetos existentes por meio de um discurso sobre a realidade; o mundo fictício, que se refere à realidade numa perspectiva de verossimilhança, ou seja, como uma simulação do mundo através de estereótipos; e o mundo lúdico, que trata dos jogos e das interações com os telespectadores. Embora um programa possua um mundo que o ancora com mais propriedade, ele pode acessar mais de um mundo para se construir discursivamente, promovendo deslocamentos e migrações entre os gêneros. É com base nessa promessa que os telespectadores irão orientar suas expectativas com relação ao produto. Assim, aproximando as contribuições de Jost (idem) ao referencial dos cultural studies aqui levantados, a promessa também faz parte do horizonte de escritura e de expectativas que os gêneros televisivos carregam. 41 No original: « nous avons besoin de savoir, pour déterminer notre attitude : acceptation, refus, colère » (grifo do autor). 64 Como desdobramento dos gêneros televisivos, a televisão oferece variações mais específicas que encerram características semelhantes tanto no modo de apresentação, quanto na produção de sentido por parte da audiência. Esses subgêneros (ou formatos) devem ser abordados a partir de sua relação com a linguagem televisiva, com o campo jornalístico e com os processos comunicacionais que os põe em relação com a recepção. Assim, se o telejornalismo é um gênero televisivo – assim como a teledramaturgia, a publicidade ou os programas de auditório – os telejornais, programas de entrevistas, programas de debates são subgêneros que se articulam de alguma maneira com a esfera mais ampla do telejornalismo. O uso da conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos se estabeleceu de maneira dominante nos programas de entrevistas e debates, que a trazem como eixo da própria estruturação dos programas, sem o qual o subgênero deixa de existir. Nos programas de entrevistas, o telespectador já espera que as informações venham por meio do diálogo estabelecido por um mediador com algum representante da própria mídia e/ou de outros campos sociais. Faz parte da promessa do subgênero um maior aprofundamento das informações, uma vez que são os próprios atores ou testemunhas oculares dos assuntos pautados que irão fornecer os dados e informações que normalmente não aparecem nas reportagens televisivas. Os programas de debate, por sua vez, são marcados pela troca de comentários acerca de um tema determinado. Poucas são as pesquisas que se destinam à compreensão desse subgênero e, sob o ponto de vista que aqui se pretende definir, a análise de programas de debate é relevante pela vinculação com a dimensão de esfera pública habermasiana e, por isso, o uso da conversação visa reproduzir a retórica do debate público. No entanto, a conversação tem-se modificado, migrando para outros subgêneros, como os telejornais, que impõem novas possibilidades construídas historicamente nas transformações do subgênero e na relação deste com a sociedade. Os telejornais se constituem no subgênero pioneiro do jornalismo praticado na televisão. Buscando inspiração no rádio e nos jornais impressos, foram os telejornais que se encarregaram de instituir um padrão de telejornalismo, que carrega a credibilidade atribuída ao veículo. Ao longo dos anos, esse subgênero sofreu inúmeras modificações em sua estruturação: o cenário deixou de comportar o nome dos patrocinadores para ser construído num espaço mais amplo compreendendo, muitas vezes, a 65 redação da emissora; os apresentadores, que anteriormente eram locutores e tinham a função de simplesmente relatar os acontecimentos, passaram a ser jornalistas por formação, podendo incluir comentários aos seus relatos. Atualmente, alguns telejornais colocam em sua estrutura um espaço de diálogo no qual os mediadores podem trocar comentários e opiniões. É nesse sentido que o conceito de gênero televisivo e suas variantes – os subgêneros – encontram relevo no presente trabalho. Em primeiro lugar, é preciso destacar uma relação conversação/ gênero, ou seja, as relações possíveis entre a prática conversacional e o telejornalismo, levando em conta os valores do jornalismo e a gramática televisiva que o sustenta. Depois, é preciso considerar como a conversação pode variar em função do subgênero a partir de aspectos mais restritos que indicam as possibilidades e limites que pode possuir. Se, num programa de entrevista, o tempo para a conversa é mais amplo, nos telejornais há um limite temporal rígido para conciliar a apresentação das notícias com o debate sobre elas. É nos programas que essas possibilidades e limites dos gêneros e subgêneros se concretizam fazendo perceber as expectativas da audiência sobre eles. Para dar conta da análise de produtos, propõe-se o conceito de modo de endereçamento. Segundo Gomes, “a análise do modo de endereçamento associada ao conceito de gênero televisivo deve nos possibilitar entender quais são os formatos e as práticas de recepção solicitadas e historicamente construídas pelos programas jornalísticos televisivos” (GOMES, 2007, p. 15). Sendo assim, se o gênero é um conceito que visa dar conta das propriedades de um conjunto de produtos que possuem semelhanças, o conceito de modo de endereçamento se volta ao produto, a compreender seus aspectos internos articulados com questões contextuais que auxiliam o analista a desvendar suas engrenagens. 1.3. Modo de endereçamento Desde 2002, o Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo tem se dedicado à formulação de uma metodologia para análise de programas jornalísticos televisivos considerando seus múltiplos formatos na grade de programação. Além de estrutura de sentimento e gênero televisivo, o conceito que dá sustentação a esta proposta metodológica, com o qual este trabalho dialoga fortemente, é o de modo de endereçamento, conforme indicado por David Morley e Charlotte Brunsdon (1999) como o tom ou estilo dos programas. Segundo Itania 66 Gomes, “o conceito de modo de endereçamento tem sido apropriado para ajudar a pensar como um determinado programa se relaciona com sua audiência a partir da construção de um estilo, que o identifica e que o diferencia dos demais” (2007, p. 15). Sendo assim, é por meio de uma forma específica de direcionar-se à audiência que os programas estabelecem uma relação com ela, distinguindo-se de outros do mesmo subgênero. No entanto, a questão do tom de programas tem se apresentado recentemente como um desafio para análise de diversos pesquisadores, suscitando diferentes formas de compreensão de seu conceito42. Na perspectiva dos Estudos Culturais, a aproximação do tom com o estilo ajuda a compreender a amplitude que o conceito pode adquirir para análise de produtos específicos. Ao afirmar que o modo de endereçamento se define enquanto tom e estilo dos programas, David Morley e Charlote Brunsdon (1999) utilizam uma nomenclatura proveniente do campo literário para referir-se a formas comunicativas específicas e práticas de um programa. O tom ou estilo são tomados como algo geral que define o produto como um todo e, por se diferenciar de outros produtos semelhantes, estabelece uma relação própria com uma audiência concebida. Raymond Williams (1979), ao tratar das estruturas de sentimento, afirma que as mudanças que ocorrem nas práticas culturais, na língua, por exemplo, são conseqüência de modificações em alguma coisa bastante geral, numa ampla gama, e a descrição que com freqüência melhor se aplica a essa transformação é o termo literário “estilo”. É uma modificação geral e não uma série de escolhas deliberadas, e não obstante se podem fazer escolhas nelas, bem como se podem escolher os efeitos (WILLIAMS, 1979, p. 133). Sendo assim, o estilo (ou tom, como o autor vai associar noutro momento) refere-se a um conjunto geral de características que define as práticas e as obras, permitindo que haja um efeito sobre e um reconhecimento por parte do leitor, ou seja, como uma forma do produto endereçar-se a seus consumidores. A “série de escolhas deliberadas”, no dizer de Williams, seria parte de uma estratégia mais ampla que se alia com o estilo e tom da obra, por isso é que os programas televisivos, enquanto unidades televisivas, possuem apenas um estilo, uma única proposta de relação com a audiência e os elementos do programa (cenários, mediadores, assuntos tratados, recursos visuais, gráficos e sonoros, posição na grade de programação, 42 Uma abordagem sobre o tom dos programas a partir dessas perspectivas encontra-se em Duarte (2004, 2006, 2007) e Jost (2009). 67 relação com a concorrência) são escolhas estratégicas que vão dar sustentação a esse modo de endereçamento. Desse modo, o conceito de modo de endereçamento ultrapassa a adjetivação do produto (dinâmico, sério, formal etc) assim como se afasta da análise de posicionamentos sociais dos sujeitos, conforme proposto pela análise fílmica da teoria Screen43, e recai sobre as relações construídas entre programa e audiência por meio de estratégias múltiplas, dentre as quais, a conversação. Numa perspectiva um pouco diferenciada, Mats Ekström (2000) traz uma abordagem sobre o telejornalismo que se aproxima da dimensão de tom e estilo, uma vez que concebe as estratégias construídas pelos programas e as intencionalidades para atingir a audiência. Segundo Ekström (idem), as estratégias comunicativas variam em função de três fatores: as intenções dos produtores, os modos de produção e formas comunicativas usadas para preencher essas intenções; as bases para o envolvimento da audiência e as expectativas que pretende suprir; os papéis oferecidos aos atores no evento ou processo comunicativo. A partir disso, Ekström (idem) chegou a três formas comunicativas principais que definem de maneira mais apropriada um programa telejornalístico. A informação incorpora as definições mais tradicionais do jornalismo e é usada como estratégia para ensinar os telespectadores sobre algo que eles ainda não conhecem. Por isso é que o texto das reportagens deve ser compreensível, a estrutura deve levar ao telespectador uma certa compreensão do mundo e o programa deve cercar-se de estratégias para dizer que aquela informação é confiável e referese ao mundo real. A expectativa da audiência é ampliar seus saberes para orientar seu comportamento e seus papéis sociais. Efetua-se, consequentemente, um pacto que tem o jornalismo como guia da sociedade. Segundo Ekström, o jornalismo “é fortemente orientado para as histórias, planejando um enredo e utilizando o potencial dramático do meio44” (EKSTRÖM, 2000, p. 473) e por isso o “jornalismo que conta histórias” (storytelling) é o modelo que mais se desenvolve 43 Segundo Elizabeth Ellsworth (1999), os filmes são construídos visando alcançar um grupo social específico e reconhecer os modos de endereçamento de um filme, implica decifrar a idade, a classe social, o gênero, o nível de escolaridade, etc dos espectadores pensados pelo produto. Para uma análise ainda nessa perspectiva, ver Gomes et. al., 2004. 44 No original: “(...) a journalism which is strongly oriented toward telling stories, devising a plot and utilizing the medium‟s dramaturgical potential”. Segundo o autor, o enredo se constrói com base em cinco estratégias narrativas: uma sequência que indica uma relação de causalidade na narrativa e aponta para seu desfecho, a construção de personagens, elementos dramáticos que orientam como a história deve ser interpretada, desfecho, múltiplas possibilidades de explorar mitos sobre a sociedade e seus valores morais. 68 ultimamente, despertando na audiência os sentidos de empatia, identificação, empolgação e o desejo de saber o final da história. Para Ekström (idem), a conversação no estúdio, em muitos casos, se enquadra nesse modo de comunicação, reforçando o enredo narrado e criando personagens, permitindo que o telespectador assuma um lugar de proximidade à história narrada. Sobre o jornalismo de atrações, Ekström (idem) trata desde as imagens sensacionais de acidentes aéreos aos debates políticos que são exibidos pelas emissoras televisivas como espetáculo. Normalmente, as atrações põem em relação três fatores - o agente (o jornalista), o objeto exposto (o convidado) e o espectador (a platéia) – que se empenham em mostrar imagens, acontecimentos e personagens que sejam surpreendentes, chocantes e singulares, escapando da rotina noticiosa. A estética das atrações, portanto, constitui-se de imagens dramáticas que são preferidas no lugar da informação. O modo de recepção que se espera nesse modelo de jornalismo é voltado para emoções mais imediatas suscitadas por situações extraordinárias. Informação, storytelling e atração não são formas excludentes e podem estar presentes num único produto jornalístico televisivo. No entanto, há uma que melhor define seu estilo e submete as demais para se articularem e fazerem sentido na proposta à audiência. A informação, o storytelling e as atrações não esgotam todas as possibilidades comunicativas de um programa, mas ajudam, do ponto de vista analítico, a identificar as intenções das emissões em direção a sua audiência. 1.4. Operadores de análise Para compreender a construção do modo de endereçamento dos programas televisivos, o Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo elaborou quatro operadores de análise que guiam o olhar do analista sobre o produto sem, no entanto, prendê-lo aos mesmos. Os operadores ajudam o analista a compreender aquilo que é específico do programa, por isso a aplicabilidade desses operadores se modifica: num programa, um operador pode ser mais produtivo que outro, o que desobriga o analista a explorar todos os operadores de igual modo. Para análise dos programas que têm a conversação como principal estratégia, porém, foi necessário recorrer a operadores que tratam dos mecanismos conversacionais a fim de 69 observá-los nas trocas televisivas. Sendo assim, serão incorporados aos operadores de análise do Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo critérios provenientes da Análise da Conversação (SACKS, 1992) - que dizem respeito aos mecanismos de troca, como abertura e encerramento das falas, passagem da palavra - e de José Luiz Braga (1994) – que trata especificamente a conversação na televisão - para pensar os procedimentos que envolvem a conversação televisiva na construção do modo de endereçamento do programa. 1.4.1. Papel dos mediadores Os mediadores de programas jornalísticos televisivos são figuras essenciais para o sucesso ou fracasso de um programa diante de seu público. Apresentadores fazem o intermédio entre o mundo das notícias e a audiência. São responsáveis por dar cara ao programa e pelo carisma que irá atrair os espectadores. Os repórteres correm atrás da notícia, obtêm informações exclusivas, acessam diretamente as fontes envolvidas nos acontecimentos e são os responsáveis por relatar os fatos do dia-a-dia por meio de uma linguagem atraente e imagens interessantes. Comentaristas e cronistas oferecem as interpretações dos fatos, os julgamentos morais, condenam e elogiam os atos e personalidades que estão no foco da mídia. Editores e produtores, ainda que não apareçam diretamente, possuem uma forte influência na construção do programa, deixando transparecer os mecanismos de produção. A relação que cada um desses atores propõe à audiência, porém, varia de um programa para outro e, em boa medida, concretizam o tom e estilo dos programas. Para a análise do papel dos mediadores faz-se necessário empreender atenção sobre o modo como esses sujeitos desempenham suas funções no interior do programa e como eles dialogam com as premissas do campo jornalístico. A recente mudança no papel de apresentadores de telejornais (cf. SQUIRRA, 1990; PORTO, 2002; FECHINE, 2002, 2008; HAGEN, 2008), por exemplo, evidencia uma alteração na própria concepção do telejornalismo e na expectativa do público sobre ele. Os apresentadores dos programas jornalísticos televisivos possuem um lugar de destaque na construção do programa, uma vez que são eles que vão estabelecer o contato direto com a audiência - por meio do olhar para a câmera e do discurso direto (com o “boa noite”, “você verá ainda nessa edição”) - e ganhar seu respeito por meio da credibilidade que inspiram e 70 empatia. No caso dos programas que fazem parte do corpus desta tese, são os apresentadores os condutores da conversação posta em cena e, portanto, possuem um papel essencial na construção da cena. Contemporaneamente, é possível notar uma mudança significativa no que diz respeito a sua postura diante das câmeras, que permitiu que os apresentadores abandonassem a postura de meros ventríloquos (VERÓN, 1983), e assumissem uma posição mais ativa, apropriando-se do cenário e fornecendo comentários, função que tem sido comumente designada “âncora” (SQUIRRA, 1990). De locutores que possuíam uma boa voz, os apresentadores hoje interpretam as notícias, conversam e interagem entre si e com sua equipe, orquestram a transmissão dos programas a partir de estúdios dispersos em diferentes cidades. Repórteres, comentaristas e fontes de informação interagem no programa por meio da mediação dos apresentadores, que define os parâmetros que regem a conversação. Segundo José Luiz Braga (1994), para compreender a conversação posta em cena nos programas, é necessário compreender os papéis que os atores desempenham no interior do produto e os papéis que levam de situações externas às conversas, da vida social. Assim, é necessário compreender, por um lado, as performances dos agentes em interação, por outro, o modo como enquadram as situações. Numa análise mais específica sobre a construção de papéis em situações da vida cotidiana, Goffman (2005) afirma que, ao se colocarem em interação, os indivíduos disponibilizam um conjunto de informações sobre si mesmos, a fim de delimitar as maneiras que os demais interlocutores podem agir diante dele. Nisso consiste a formação de um quadro narrativo (frame) que indica os modos pelos quais os indivíduos irão interagir. Sua postura, expressões faciais, gestos mais ou menos espontâneos, como salientou Fechine (2008) são marcos dos frames que ele pretende construir e caracterizam sua performance durante a interação. Por outro lado, é necessário considerar, também, que as informações iniciais que os mediadores e fontes disponibilizam quando entram em contato nas interações do programa decorrem da trajetória construída no campo jornalístico ou fora dele, quando a legitimidade do discurso construído pelo mediador se dá pela relação com outros campos. Nesse sentido, o conceito de trajetória, formulado por Pierre Bourdieu (2005) é uma ferramenta de análise da 71 construção da performance dos mediadores e dos quadros de sentidos construídos por eles45. Avaliando a obra de Bourdieu, Erik Neveu (2005) afirma que qualquer explicação das atitudes, discursos, comportamentos etc deve levar a uma análise de ambos: a posição estrutural (no interior do campo, a posição do campo vis-à-vis outros campos, etc) e a trajetória histórica particular por meio da qual um agente alcança aquela posição (habitus)46 (NEVEU, 2005, p. 3). No que tange aos programas que utilizam a conversação, o papel dos mediadores deve ser pensado a partir das relações que propõem com os interlocutores, sejam eles internos ou externos ao programa. Nos programas de entrevistas e debates é o apresentador que recebe maior destaque, pois é quem inicia a conversa e propõe uma relação com a audiência. Entretanto, mesmo nesses subgêneros os apresentadores partilham a mediação com outros personagens que podem, simplesmente, ler perguntas enviadas pelos telespectadores pela internet, fazer enquetes ao vivo, dar notícias breves, etc. Assim, repórteres, comentaristas, cartunistas também são considerados como parte da cena conversacional. 1.4.2. Pacto sobre o papel do jornalismo Os programas jornalísticos televisivos dialogam continuamente com os valores e premissas do jornalismo enquanto instituição social, atualizando-os de maneira específica de modo a estabelecer um acordo tácito com os espectadores. Segundo Itania Gomes, a relação entre programa e telespectador é regulada, com uma série de acordos tácitos, por um pacto sobre o papel do jornalismo na sociedade. É esse pacto que dirá ao telespectador o que deve esperar ver no programa. Para compreensão do pacto é fundamental a análise de como o programa atualiza as premissas, valores, normas e convenções que constituem o jornalismo como instituição social de certo tipo (GOMES, 2007, p. 19) As premissas indicam o modo como cada programa se relaciona com o jornalismo enquanto instituição social47. Deste modo, os produtos podem fazer referência mais direta ao discurso autolegitimador do jornalismo ou flexibilizá-lo de modo a incluir novas práticas. De todo 45 Ressalta-se que não é intenção deste trabalho efetuar uma análise sociológica dos meios de comunicação conforme a teoria dos campos formulada pro Bourdieu. O conceito de habitus, aqui, é utilizado de maneira estritamente instrumental, com o objetivo único de levar à compreensão da construção de trajetórias dos jornalistas no campo profissional e de sua conseqüente apropriação pelos programas. 46 No original: “[...] any explanation of attitudes, discourses, behavior, etc must draw on an analysis of both structural position (within the field, the field‟s position vis-à-vis other fields, etc) and the particular historical trajectory by which an agent arrived at that position (habitus)”. 47 As premissas de interesse público, quarto poder e objetividade foram discutidas no segundo capítulo da parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”. 72 modo, o operador do pacto sobre o papel do jornalismo visa compreender quê jornalismo cada programa propõe à audiência. A idéia de atualidade, por exemplo, deve ser observada a partir das estratégias internas de construção do efeito de “aqui-agora” instauradas internamente: os dispositivos de transmissão direta, a valorização de temas que se dirigem ao que aconteceu ou está acontecendo, ou ainda a tentativa de atualizar certas discussões aparentemente atemporais vinculando-as com fatos do presente. Segundo Carlos Franciscato (2003), o jornalismo lida com a atualidade a partir de cinco dimensões: 1) instantaneidade, que coloca produção e recepção no mesmo tempo do evento a partir de tecnologias que permitem maior velocidade de transmissão. A exibição de programas ao vivo visa construir legitimidade por meio dessa estratégia. Os programas que usam a conversação, quando são transmitidos ao vivo, propõem uma relação de cumplicidade com o telespectador que “participa” da conversa e é inserido na mesma prática. 2) A simultaneidade leva o receptor para o tempo do evento sugerindo um sincronismo entre o fato, a produção e a recepção. 3) Periodicidade significa produzir e disponibilizar notícias com regularidade, fornecendo um acompanhamento do desenrolar dos fatos. 4) Novidade, um dos valores mais importantes do jornalismo, diz respeito ao que é novo, recente. A novidade, ao passo que supre a necessidade dos indivíduos do que está acontecendo no momento, dá também um sentido de continuidade e familiaridade, já que não há acontecimentos completamente novos todos os dias. 5) Revelação pública, explica o autor, é a habilidade de trazer ao público um assunto que seja de seu interesse, mas que ele ainda não conhece. Nesse caso, não necessariamente o fato acabou de acontecer, pelo contrário, ele pode ter ocorrido num período de tempo mais longo, mas não ser de conhecimento da sociedade. A objetividade também é freqüentemente empregada pelos jornalistas de modo a consolidar procedimentos em busca da obtenção da verdade. Por conta disso, objetividade e verdade são duas premissas que caminham juntas na construção do pacto sobre o papel do jornalismo. Josenildo Guerra (2003) redefine a objetividade jornalística, já não mais pensada enquanto imparcialidade, como se o repórter pudesse se isentar de suas emoções e opiniões na observação da realidade, e passa a considerá-la como “o procedimento através do qual o jornalista opera as matrizes interpretativas48 próprias da área temática objeto da cobertura” 48 O autor explica que os jornalistas possuem um certo horizonte interpretativo que eles acionam ao se depararem com um fato. O que ele define como matriz interpretativa são as delimitações feitas pelos jornalistas para compreenderem o fato.”A partir do seu horizonte, o intérprete pode ou deve buscar, a depender das condições de aplicação, um lugar mais preciso a partir do qual irá situar sua interpretação: este lugar mais preciso é o que aqui 73 (GUERRA, 2003, p. 216). Sendo assim, os jornalistas precisam dominar a área temática sobre a qual pretendem tratar e fazer uma série de opções sobre o procedimento adequado para tratá-la. É nesse sentido que as opiniões dos jornalistas são evitadas: “interdição das opiniões e conjecturas pessoais se dá exatamente através do uso das matrizes interpretativas, o modo como se torna possível conhecer os fatos no interior da área temática” (GUERRA, 2003, p. 216). As dimensões de interesse público e vigilância dependem das estratégias discursivas empregadas pelos programas para se mostrarem à audiência como um serviço, uma instituição dotada de responsabilidade social. A vigilância diz respeito ao modo como o jornalismo se constrói como cão de guarda da sociedade, especialmente do campo político. Por conta disso, a idéia de vigilância está relacionada à de poder moderador (ALBUQUERQUE, 1999, 2008, 2009), que demonstra o modo como o jornalismo se relaciona com as instâncias de poder. A idéia de interesse público está relacionada à de relevância, que, segundo Josenildo Guerra, define parâmetros de avaliação do jornalismo por parte da sociedade. Segundo o autor “relevância significa que (a) as informações são importantes no interior da área temática objeto da cobertura e (b) as informações são adequadas a uma expectativa da parte dos indivíduos” (GUERRA, 2003, p. 11). Sendo assim, cabe perceber, nos programas analisados, que informações atendem a uma expectativa dos telespectadores e porque ela se destaca dentro de uma área temática. Freqüentemente, o uso da conversação no telejornalismo se associa de modo mais evidente ao sentido de verdade do jornalismo, uma vez que o acesso direto às fontes de informação e a transmissão de sua fala diretamente à audiência permitem que o conteúdo chegue diretamente ao telespectador, com pouca ou sem intervenção da edição. Vinculado ao sentido de verdade, a conversação permite, retoricamente, o aprofundamento das informações, daí seu uso nos telejornais se tornar cada vez mais comum, em especial quando permite que especialistas se tornem os porta-vozes de um saber que não compete aos apresentadores e repórteres. Assim, a televisão cria seus próprios especialistas e os investe de autoridade para tratar sobre temas específicos. se está chamando de matriz interpretativa” (GUERRA, 2003, pp. 173-174). Assim, a matriz interpretativa é uma escolha consciente do intérprete para dar significado ao objeto. 74 Nos programas que têm a conversação como estratégia de construção, o pacto sobre o papel do jornalismo se articula com as formas por meio das quais os jornalistas vão abordar os assuntos através de um sistema pergunta/ resposta ou interpelação/ resposta. A natureza da pergunta, portanto, é uma chave relevante para a compreensão do tipo de informação que o entrevistado deve fornecer, de modo a construir o jornalismo de um certo tipo no programa. O enquadramento que os jornalistas oferecem aos assuntos, no programa, permite observar certos padrões que, ainda que não sejam estanques e independentes, ajudam a compreender o fluxo conversacional e, por meio dele, o pacto que o programa propõe à audiência sobre o jornalismo. A partir das análises dos programas, foi possível encontrar oito modalidades de pergunta: a) Avaliativa – demanda uma opinião pessoal do entrevistado, uma visão de mundo, a sua verdade sobre o assunto. Por vezes, essa modalidade de pergunta se traduz na forma “qual é a sua opinião sobre...?”, ou “o que você pensa sobre...?”. b) Biográfica – busca informações sobre a vida pessoal ou profissional de um participante. O objetivo é dar destaque a experiências significativas que ajudem a audiência a compreender melhor a vida pública do personagem, ou simplesmente oferecer informações curiosas sobre seus ídolos: “como você começou sua carreira?”, “de onde veio essa característica?”, “seus pais influenciaram nessa decisão?”. c) Confirmação de hipóteses – visa comprovar hipóteses formuladas pelos jornalistas por meio da fala do entrevistado. Essas perguntas aparecem, normalmente, após a formulação de uma idéia por parte do entrevistador e a pergunta colocada em seguida: “você não acha que...?”, “diante desse quadro é possível afirmar ....?”. d) Comprobatória – tem como finalidade provar uma informação já existente ou um senso comum. É comum os entrevistadores formularem essas perguntas como “é verdade isso?”, “é isso ou não?”. e) Informativa – busca o conhecimento de algo que ainda não se sabe, ou tirar uma dúvida. É o que melhor caracteriza o subgênero da entrevista e confere à conversa um caráter educativo. As perguntas “o que”, “quem”, “para quem”, “quando”, “por que” caracterizam bem esse modelo de pergunta que visa extrair do entrevistado uma informação direta. f) Intimista – procura levar o convidado à confissão de segredos, à partilha de emoções. O objetivo dessas perguntas é criar um ambiente de intimidade no qual os assuntos podem ser 75 abordados. É um desdobramento das perguntas informativas, mas direcionadas aos sentimentos: “foi difícil passar por isso?”, “o que você sentiu quando...?”, “você tem medo?”. g) Investigativa – busca examinar, perscrutar diligentemente as informações e falas do entrevistado. A pergunta investigativa se constrói como um contra-argumento: ela se opõe ao que o entrevistado está falando, por conta disso, normalmente ela é formulada com a oração adversativa: “mas será que...?”. A pergunta investigativa resume o sentido de inquérito e está relacionada especialmente aos debates mais tensos. h) Solução de problemas – diz respeito a dicas práticas para o dia-a-dia, a modos de evitar um problema ou reduzir seus efeitos. Procura levar ao público a informação necessária para que ele desempenhe seu papel cívico ou organize os problemas da vida cotidiana: “para o telespectador que está em casa, o que é possível fazer para resolver essa situação?”, “existe alguma medida prática que a gente possa adotar?”. Ressalta-se que essa lista não possui intenção tipológica ou exaustiva. Visa, apenas, operacionalizar o fluxo conversacional engendrado no programa a partir de uma relação entre os turnos de fala na conversação e as premissas do jornalismo que são costuradas durante a emissão. 1.4.3. Organização temática Os temas pautados nos programas jornalísticos televisivos são organizados de modo a construir um encadeamento das informações, seja pela proximidade das editorias, isto é, notícias da mesma editoria são colocadas no mesmo bloco, seja pela diversidade de assuntos num fragmento do programa, colocando uma variedade editorial no mesmo bloco. Segundo Itania Gomes, “a arquitetura dessa organização implica, por parte do programa, a aposta em certos interesses e competências do telespectador” (GOMES, 2007. p. 20). Assim, a concepção dessa organização temática visa manter o telespectador cativo à emissão e, muitas vezes, interessado no que vem a seguir. Nos programas que utilizam a conversação, a organização dos assuntos se efetua sobre diversos níveis: 1) o campo de especialidade dos participantes envolvidos na troca que impõe o tratamento de certos assuntos em lugar de outros; 2) o estabelecimento, por parte do mediador, de “subtemas” que são desdobramentos do tema principal – assim, a entrevista de um político em campanha num programa pode abordar as estratégias eleitorais, a trajetória no 76 campo político, as polêmicas e discussões em que já se envolveu, etc; 3) o encadeamento desses “subtemas” de modo que não haja interrupções abruptas de um assunto para outro, simulando uma conversa cotidiana; 4) a distribuição de temas em editorias que se especializam em produtos específicos. Fundamental para a organização temática dos programas que usam a conversação é o papel dos apresentadores para conduzir a conversa de modo a prender o telespectador e incluí-lo na troca. Assim, nesses programas, a temática se articula com o operador do mediador, responsável por manter a audiência informada sobre os processos internos que irão reger a troca. Igualmente relevante é a função do mediador de enquadrar (GOFFMAN, 1986) os assuntos a fim de levar o participante a falar o que ele espera. São os enquadramentos efetuados pelo mediador durante a conversa que vão fornecer os “subtemas” que emergem na troca e que podem despertar maior interesse por parte da audiência. 1.4.4. Contexto Comunicativo Para José Luiz Braga (1994, pp. 300-301), outro elemento importante a se considerar para a análise da conversação é o local onde a conversação ocorre, já que ele confere maior ou menor grau de formalidade no tom da conversa. Para o autor, “uma conversa na televisão se aparentaria a essa situação „em cena‟ – mas o território que é o estúdio, e o meio de longa distância, impõem outras características” (BRAGA, 1994, 301). Essa “situação em cena” referida pelo autor é o contexto comunicativo. Este operador visa analisar a situação de comunicação que insere os enunciadores e o enunciatário propondo um lugar para o telespectador. Os recursos da linguagem televisiva, tais como cenários, recursos gráficos, recursos sonoros participam dessa cena reconstruída pelo programa. É necessário considerar sempre que a situação encenada propõe um lugar para o telespectador que faz parte do contexto mediático (cf. GUTMANN, 2006). Segundo Itania Gomes (2007), [...] isso pode ser melhor explicado pelo recurso à noção de instruções de uso de um texto, ou seja, aqueles princípios reguladores da comunicação – os modos como os emissores se apresentam, como representam seus receptores e como situam uns e outros em uma situação comunicativa concreta (GOMES, 2007, p. 19). 77 Por meio do texto verbal, os programas consolidam uma posição atribuída aos participantes por meio de expressões como “você amigo que está chegando agora”, “nossa equipe de reportagem obteve informações exclusivas para você”, que indicam uma forma de posicionar a audiência de maneira distante, como se apenas observasse a conversação posta em cena, ou por meio de uma proximidade, estabelecendo uma relação de cumplicidade. Deste modo, apresentadores e telespectadores se unem como se fossem participantes de um mesmo ato numa relação de intimidade mediada pela gramática televisiva. Como conseqüência, os programas jornalísticos televisivos acabam consolidando um lugar de fala (BRAGA, 1997), ou seja, um lugar socialmente reconhecido para tratar de determinados assuntos a partir de uma posição construída. O conceito de lugar de fala refere-se ao espaço social e discursivo em que uma fala adquire sentido num determinado contexto. Segundo Braga, sendo um lugar construído ou ocupado pelo discurso específico no tecido da inter/extra-discursividade, o lugar de fala não corresponde ao “contexto”, mas ao lugar construído pelo discurso nesse contexto - o ângulo proposto estruturalmente pela fala para “ver” a realidade - ou mais exatamente, segundo o qual a realidade se constitui em sentido (BRAGA, 1997, p. 113). Com base nesses operadores, foram analisados seis programas – Observatório da Imprensa, Roda Viva, Jornal das Dez, Bom Dia Brasil, Sem Censura e Marília Gabriela Entrevista tendo como objetivo compreender os papéis que a conversação possui na construção de seu modo de endereçamento e o lugar da prática conversacional no telejornalismo contemporâneo, o que será feito na PARTE III. 78 2. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA E OS ARAUTOS DO JORNALISMO “Observatório da Imprensa. Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”. É desta forma que o site do Observatório da Imprensa se apresenta ao público49. Alinhado com os princípios internacionais do media criticism, o Observatório da Imprensa é uma organização50 que representa nacionalmente a vigilância aos meios de comunicação e concretiza uma missão existencial que está explícita no site: O Observatório da Imprensa funcionará como um fórum permanente onde os usuários da mídia – leitores, ouvintes, telespectadores e internautas –, organizados em associações desvinculadas do estabelecimento jornalístico, poderão manifestar-se e participar ativamente num processo no qual, até há pouco, desempenhavam o papel de agentes passivos (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 24 jun. 2009). Para efetivar essa missão, o Observatório da Imprensa disponibiliza, desde 1996, um site com seções diversas onde a mídia e os acontecimentos que dela fazem parte são analisados por diversos agentes: jornalistas, professores, estudantes de jornalismo, etc. Em 1998, o Observatório migrou para a televisão cursando o sentido inverso da maioria dos programas (que vão da TV para a internet, e não o contrário), mas mantendo o mesmo espírito do site que, de acordo com José Luiz Braga (2006b), baseia-se na militância em torno de valores consensuais sobre o jornalismo, efetuada através da crítica especializada. Segundo o autor, a idéia do site é constituir-se num fórum onde as opiniões são trocadas livremente, de modo a construir um jornalismo mais ativo na mediação entre os poderes públicos e os interesses dos cidadãos51, o que se replica também no programa televisivo. No entanto, o produto audiovisual recebe contornos próprios que o distinguem das características do site e efetua um deslocamento entre a promessa e sua efetivação, no que tange à proposta de debate. Em todo o programa vigora um teor de conformidade e consenso que o Observatório da Imprensa deseja construir na relação com seu telespectador, oferecendo algumas pistas sobre seu modo de endereçamento. Liderado pelo jornalista Alberto Dines, que possui ampla trajetória na crítica da mídia, o programa Observatório da Imprensa vai ao ar todas as terças, a partir das 49 Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/, acesso em 24/06/09. O Observatório da Imprensa foi criado pelo Instituto Nacional de Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) e pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 51 O referido autor destaca elementos que nem sempre ratificam esse ideal. Sendo assim, segundo Braga (idem, p. 131) não é qualquer pessoa que tem acesso ao fórum de debate, mas apenas os iniciados, fornecendo ao leitor os elementos para que ele seja, também, um iniciado. 50 79 22h30 pela emissora pública TV Brasil. As edições analisadas compreendem um amplo período que vai de maio de 2006 a novembro de 200952. 2.1. As disposições discursivas em torno do consenso Para exercer a função de “fórum permanente”, lugar onde idéias são trocadas continuamente, o Observatório da Imprensa televisivo adotou a conversação como estratégia central para sua construção. A conversação se concretiza guardando características visuais e estruturais semelhantes às de programas de debate: um mediador e seus interlocutores, dispostos em cena lado-a-lado, formando uma espécie de mesa redonda, configuram uma forma de apresentação reconhecida pela audiência como espaço de discussão de idéias. Além disso, em quase todas as edições o apresentador Alberto Dines reforça a vocação do programa por meio do discurso: “[...] este Observatório não pode perder de vista a sua função básica e a sua razão de ser: levar aos telespectadores uma discussão contínua e constante sobre a mídia, onde quer que essa discussão possa se dar” (30 mai. 2006). O Observatório da Imprensa busca uma articulação entre um fato social que gerou a notícia e o tratamento dado a ela dentro de padrões que fazem referência direta ao modelo dominante de jornalismo. Assim, ao tratar de objetividade, o programa a aborda a partir da referência de espelho da sociedade; ao se relacionar com o ideal de interesse público, remete ao público enquanto cidadão inserido na democracia pelo voto, e assim por diante. O diálogo com o modelo dominante do jornalismo extrapola a abordagem da discussão e migra para os elementos visuais e sonoros, pouco explorados no programa. A preocupação central do Observatório da Imprensa é com o conteúdo e não com os aspectos plásticos que a televisão permite, que promovem distração das mensagens, fazendo o telespectador perder a substância do que é dito. Tal perspectiva se inscreve nos discursos proferidos pelo apresentador na abertura do programa, como foi o caso da edição de 06 jun. 2006, quando ressaltou o “compromisso que uma emissora pública deve ter com o conteúdo dos programas”. Por conta disso, o Observatório da Imprensa rejeita ao limite qualquer negociação com a estética televisiva: o cenário de fundo azul só permite ver de modo fragmentado o nome do programa escrito em branco; os microfones freqüentemente apresentam ruídos; os planos e enquadramentos praticamente não variam ao longo da conversa. 52 Para efeito de simplificação foram selecionadas dez edições: 23 mai. 2006, 30 mai. 2006, 06 jun. 2006, 13 jun. 2006, 21 jun. 2006, 22 ago. 2006, 29 ago. 2006, 05 set. 2006, 18 ago. 2009. 80 Figura 1: Alberto Dines e o cenário do programa Fonte: edição de 23 mai. 2006 O programa se restringe a utilizar imagens e sons externos à conversa apenas no momento de abertura do programa, quando um VT é exibido, contendo entrevistas, imagens de páginas de jornais e revistas, etc. Nesse caso, a imagem entra como fator que complementa a informação que se pretende fornecer53. Nesse caso, o texto da narradora é costurado para casar com as imagens que aparecem: quando diz que “a polícia decidiu partir para a revanche”, a imagem que aparece na tela é de uma reportagem da revista Isto É que tem como manchete: “Revanche: polícia militar teve licença para matar”. Todo o momento de abertura do programa – da vinheta até que se inicie a conversa – visa, primeiro, posicionar a audiência no tema e no enfoque que o programa dará a ele, e em seguida, convocá-la a um lugar de aprendizado sobre o jornalismo e a problemática que despertou os comentários. Pela vinheta, que simula uma página de jornal de onde emergem as palavras-chave que guiarão o programa – e que deveriam guiar a prática dos jornalistas –, o telespectador conhece algumas características basilares em torno das quais o jornalismo será avaliado no Observatório da Imprensa: “público”, “ética”, “fato”, “cidadania”, “realidade”. Há, também, palavras que reforçam a missão do programa: “participação”, “observação” e “crítica”. Mantendo a metáfora do jornal, após um movimento semelhante ao de uma virada de página, o programa exibe sua marca, indicando o lugar de observação que pretende consolidar, o que é reforçado pelo olho que configura seu logotipo. 53 Ver exemplo na página 99. 81 Figura 2: Imagens da vinheta do Observatório da Imprensa Fonte: edição de 23 mai. 2006 É, no entanto, por meio de sua fala inicial que Alberto Dines levanta as posições defendidas pelo programa acerca do jornalismo. Motivado pela cobertura de um acontecimento, Dines promove uma análise preliminar da apuração jornalística por meio de uma reflexão sobre os valores do jornalismo já exibidos na vinheta e o modo como eles se fizeram visíveis, ou não, na imprensa. Dines: Marcola, o bandido, mudou tudo. Os cadernos de cidade finalmente foram valorizados, os repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que não podem continuar dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola desarrumou as rotinas das redações. Mostrou que os jornais diários devem também trabalhar em igual intensidade todos os dias da semana e que não adianta fingir que está tudo bem quando, na realidade, quase tudo anda muito mal. Marcola mostrou que eleições não são os únicos instrumentos de mudança. A quatro meses do próximo pleito, percebe-se que a mudança deve ocorrer agora, imediatamente, antes que seja tarde. Marcola mostrou que a violência não se concentra no Rio de Janeiro. É um fenômeno nacional que envolve não apenas os presídios e as favelas, mas também o Congresso. A corrupção não é um ministro isolado, confinado ao caixa dois dos partidos. A corrupção deixa seqüelas em todas as esferas da sociedade. Marcola apenas juntou tudo. Marcola mostrou que para entender o Marcola é preciso ir um pouco além das frases feitas e das posturas politicamente corretas. O bandido nos acordou para as conquistas democráticas que já havíamos esquecido. Marcola relembrou a repressão e a justiça sumária dos tempos escusos. O fenômeno Marcola tem apenas nove dias de vida, 82 mas será difícil, muito difícil, interromper o seu curso. (Edição de 23 mai. 2006) É por meio desse editorial, feito nos mesmos moldes do site, que o assunto do dia será apresentado, o que converge para o levantamento de questões como fez Cláudia Tisato, a outra mediadora do programa: “quando o assunto é violência urbana e crime organizado, a imprensa noticia, denuncia e cobra uma providência das autoridades. Mas será que o que vai ser feito é suficiente? A mídia poderia ter uma ação mais efetiva?” (07 jun. 2006). Para finalizar esse momento de enquadramento temático, o Observatório da Imprensa apresenta um vídeo no qual o assunto que norteará a edição é exibido de maneira mais aprofundada. É nítido o uso de imagens coletadas da própria mídia54, de palavras- chave que ratificam as posições já assumidas por Dines, e as falas de jornalistas, especialistas e fontes diretamente relacionadas ao acontecimento. Figura 3: Locução no Observatório da Imprensa Narradora: As ações começaram dia doze de maio logo após a decisão da transferência dos líderes do PCC para penitenciárias no interior do estado. Teve início uma série de ataques a delegacias e rebeliões em presídios que se espalharam pelo interior de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. A ordem da onda de atentados partiu da principal facção criminosa do país, através de celulares, alguns deles passados através de advogados. Em pouco tempo, a revolta chegava às ruas de São Paulo. Os alvos foram policiais, agências bancárias e ônibus. Mais de oitenta coletivos foram incendiados. A segunda-feira amanheceu sem transporte coletivo, sem shopping centers e poucos carros. A população estava acuada. Medo reforçado por uma avalanche de boatos. A polícia decidiu partir para a revanche e o número de mortos se multiplicou. Na terça-feira da semana passada, a violência chegou ao auge: foram trinta e três mortes em doze horas. Luiz Eduardo Soares (sociólogo): A grande vitória do crime é a discussão nas instituições democráticas e nos marcos legais. Se a polícia se antecipar ao crime rasgando os compromissos legais, nós teríamos justamente a rendição ao crime e a vitória do terror [...]. 54 Numa prática próxima da clipagem no jornalismo que ratifica a posição de observação. 83 Narradora: Surgia na mídia um suspeito acordo entre as autoridades do governo de São Paulo e o chefe do PCC, o Marcola, para acabar com as rebeliões nos presídios. Também era veiculada a explicação para o começo de tudo. A facção criminosa teria pago pela informação sobre a transferência dos membros do PCC. Em um ano eleitoral, o terror instalado em São Paulo também atingiu em cheio os políticos. Houve uma lamentável troca de acusação entre oposição e governo. Fernando Rodrigues (colunista/ FSP): Tenho segurança absoluta de que esse tema de segurança pública vai ser usado durante a campanha eleitoral como já foi usado em campanhas anteriores. Até porque neste ano, por conta desse episódio de São Paulo, é um assunto que vai ficar em evidência, os políticos vão se aproveitar e é um desafio para os jornalistas identificarem, nos discursos, as promessas dos políticos, se é um debate verdadeiro, se é a verdadeira intenção de resolver o problema ou se é apenas demagogia eleitoreira [...]. Narradora: Colunas e editoriais analisaram a maior onda de violência no país. As revistas semanais fizeram reportagens de até trinta páginas. Tentavam traduzir o caos em que a cidade se transformou. [...] Em meio a tanta violência, uma questão ética: como falar sem glamourizar os líderes do crime organizado? Marina Maggessi (Chefe Delegacia de Repressão Entorpecentes): da Todo mundo acessa a imprensa de alguma maneira, inclusive a os bandidos, né. Eles vivem muito... eles tiram muito da autoestima deles, das coisas que eles ganham de alguém. Uma pessoa normal, uma pessoa honesta tem pavor de ver a sua cara estampada no jornal dizendo: “este é um ladrão”, “este é um assassino”. Mas eles não. Isso para eles é maravilhoso. Isso é o 84 marketing deles. Foi veiculada uma entrevista do Marcola dentro da cadeia de Presidente Bernardes sem checar se aquilo é verdade! Então, teve uma rede de televisão que colocou no ar uma entrevista de um suposto Marcola dizendo: “olha só, isso é só café. Vem pior por aí”. Então, a quem serve isso? A quem interessa isso? Narradora: Outro ponto controverso da cobertura jornalística da semana de terror em São Paulo foi a nítida diferença de enfoque entre as mídias paulista e a carioca. Marina Maggessi: Teve gente que ligou para mim dizendo: “meu editor falou que não era possível, que vocês estão escondendo o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Tem que ter alguma coisa acontecendo no Rio de Janeiro. Não acredito. Isso não é possível”. Eu falei: “ué, manda ele inventar. Ou ele inventa, ou manda você vir aqui, ou ele vem. O que é que eu posso fazer para você?” A gente consegue esconder assim? Que imprensa é essa que tem no Rio de Janeiro? (Edição de 23 mai. 2006) A aparente abertura do Observatório da Imprensa para o questionamento, para a discussão dos assuntos e para o debate diverge, porém, do modo como o programa consolida essas propostas. O que se percebe por meio de seu acompanhamento é a defesa veemente de certos valores do jornalismo e da preservação das instituições democráticas, e todos os elementos do programa servirão para ratificar as posições defendidas naquela emissão. Não há de fato uma discussão ou um debate, mas uma complementaridade que converge para a defesa de uma hipótese sustentada pelo Observatório e atualizada por seu mediador principal, Alberto Dines. O momento inicial do programa transmite “o que há de mais importante”, o que o telespectador precisa saber antes de mudar de canal ou dispersar-se com outra atividade. É ali que se enquadra o assunto e o consenso que se pretende produzir naquela edição. Como o 85 programa se propõe a um debate, a abertura põe muito mais ênfase no “como”, “por que” e “com que efeito55” dos eventos sociais e das formas como os jornalistas os interpretaram. É em torno desses elementos apresentados desde o início que o programa irá se construir sem efetuar muitas reviravoltas. Todo o restante do texto converge para a reafirmação do que foi dito inicialmente, ainda que haja posições contrárias dispersas na conversa. Nas edições analisadas foi possível localizar um momento em que as posições de Dines foram negadas por seus entrevistados. O Observatório da Imprensa, em 06 jun. 2006, propunha a formação de um pacto nacional da mídia contra o crime organizado, pregando que os meios de comunicação deveriam unir forças para mobilizar ações políticas em prol da segurança pública antes das eleições, que aconteceriam meses depois. Os três jornalistas convidados do programa, Tereza Cruvinel, Carlos Marchi e Lúcia Hippólito, posicionaram-se contrariamente à proposta do pacto, afirmando não ser o momento ideal para tal ação. Durante a edição, Alberto Dines não defendeu seu argumento, não questionou mais profundamente os demais participantes sobre suas convicções, nem trouxe dados que ampliassem o debate. Ele deixou que os convidados expressassem seu ponto de vista livremente, constituindo a cena do programa como um espaço de livre expressão de idéias. No entanto, ao final da edição, após cada participante concluir seu discurso com uma breve fala sobre suas convicções, Dines reforçou o aspecto inicial de sua proposta: Dines: Eu queria dizer apenas o seguinte: eu insisto. Eu acredito que a imprensa tem um papel antecipador. É vanguarda. Tem papel afirmativo, não apenas passivo. [...] A imprensa tem o papel de transmitir... receber da sociedade os seus impulsos, e transmitir para ela algumas, algumas coisas da sua vocação. Porque sem esse papel, vamos ter eleições, vamos ter posse e a coisa vai continuar, e a imprensa a reboque dos fatos. (Edição de 06 jun. 2006) O adiamento do posicionamento do apresentador do programa acerca das novas questões que foram levantadas durante a troca promoveu uma ruptura na disputa pela argumentação que deve se construir ao longo da conversação. Alberto Dines favoreceu-se de sua posição enquanto mediador para dar a “última palavra”, sem devolver aos participantes o direito de reformular suas idéias, incluir novos argumentos. Assim, há um deslocamento na construção de autoridade por meio do discurso, pois o mediador não fez o turno de fala retornar aos 55 A estruturação do Observatório da Imprensa segue o paradigma do lead no jornalismo, que afirma que o primeiro parágrafo da notícia deve conter as informações principais sobre os fatos respondendo às perguntas: “o que”, “quem”, “quando”, “como”, “onde”, “por que” e “com que efeito”. 86 parceiros de debate. Desta forma, ele confirma o caráter consensual: os participantes são livres para se expressar, mas a palavra final é a do apresentador. Variando entre três e quatro participantes por edição, além dos mediadores, o Observatório da Imprensa elege os convidados a partir de uma posição no campo em que atuam, que pode ser interna ao jornalismo, para dar um olhar “a partir de dentro”, ou externa, para esclarecer os fatos cobertos. Assim, jornalistas dos principais veículos informativos do país – Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, TV Cultura, etc – posicionam-se ao lado de especialistas, professores, pesquisadores. Cada um dos blocos do programa contém uma rodada de perguntas a cada um dos participantes, garantindo-lhes o mesmo tempo de fala. As perguntas feitas por Dines se estruturam de modo a introduzir a posição dele (e consequentemente do programa) sobre o assunto e em seguida busca o aval do convidado para confirmar essa posição. O modelo de confirmação de hipóteses das perguntas de Dines prevalece no programa e conduz os diálogos travados na cena. Com isso, o Observatório apresenta uma “verdade” sobre a imprensa, a sociedade e/ou o governo e pretende confirmar essa verdade por meio das fontes. Sobre a proposta de um pacto nacional contra a violência promovido pela mídia, Alberto Dines questionou a jornalista Tereza Cruviel, colunista do jornal O Globo: Dines: Tereza Cruvinel, alguns eleitores de nosso site, o assunto foi lançado já há, se não me engano, duas semanas no nosso site, alguns eleitores comentaram que os jornalistas não gostam de trégua. Eles precisam é de grandes confrontos que rendem notícias. Eu acho que não se está propondo uma trégua, quer dizer, o confronto político continua, mas há uma área demarcada onde deveria haver um esforço comum. Como é que você vê essa questão? O jornalista realmente gosta de botar um pouquinho de lenha na fogueira? (Edição de 06 jun. 2006) O “debate” do Observatório da Imprensa se apresenta como resíduo das antigas práticas de debate polido (ÖRNEBRING, 2003) que se encontravam nos diálogos com representantes políticos nos primeiros anos da televisão, especialmente a norte-americana e européia, cujo objetivo era o ensino e a formação de um consenso. No Observatório da Imprensa, essa característica fica evidente no tratamento dado às questões que envolvem o Estado e suas instituições, questões que são pautadas em boa parte da agenda do programa. Nas dez edições que compõem este corpus, o programa fez referência ao Estado em sete, à exceção daquelas que trataram de esportes. Mesmo fora do período eleitoral, o Observatório evidencia uma 87 vinculação com o campo político que perpassa boa parte de seus discursos, ainda que os assuntos tratados não se dirijam exatamente a esse assunto. Por assumir a passividade do receptor como pressuposto do modo de consumo dos produtos jornalísticos, o Observatório da Imprensa reivindica um lugar de fala de doutrinamento desse telespectador e da construção de sua atividade crítica. Assim, o Observatório, por meio do site e também da televisão, promove freqüentes medições do “nível de atividade da audiência” através de uma seção denominada “Urna Eletrônica”, uma enquete com perguntas que evidenciam os valores do jornalismo defendidos no programa. O objetivo é verificar se a emissão está de fato cumprindo sua função de incutir nos telespectadores os cânones para a crítica do jornalismo e quando a resposta se apresenta positiva, isso é celebrado pelo apresentador. Dines: A votação da Urna Eletrônica da semana passada não bateu o record, mas registrou um número muito expressivo de votantes: 2401 no total. O assunto era matéria de capa da Revista Veja no fim da semana anterior. Daqui a pouco você saberá os resultados exatos. Mas uma coisa ficou clara: o eleitor brasileiro desenvolveu o olhar crítico. Já não recebe passivamente tudo que a imprensa leva até ele. A nossa sondagem não tem validade estatística, mas reflete uma tendência inquestionável: nosso cidadão eleitor não aceita o que a imprensa lhe oferece. Nosso eleitorado aprendeu a julgar, principalmente àqueles que querem fazê-lo de tolo. (Edição de 23 mai. 2006) Conforme explica José Luiz Braga (2006, pp. 121-122), a pergunta feita na enquete, sempre relacionada ao tema do programa, apresenta um confronto: postura crítica versus a postura conformista da audiência, e os resultados revelam a adesão dos telespectadores (e internautas) aos valores do programa, oferecendo a “resposta certa”, que vai ao encontro das premissas do Observatório. Algumas perguntas realizadas no período analisado foram: “as denúncias vazias de Veja colocam a credibilidade da imprensa em xeque?” (15 mai. 2006), “a mídia consegue mostrar a real dimensão da violência em São Paulo? Sim ou não?” (23 mai. 2009), “a mídia deve liderar um pacto contra o terror?” (21 jun. 2006), “o que esclarece mais o eleitor: o horário eleitoral gratuito ou a cobertura da mídia?” (28 jun. 2006). As possibilidades interativas entre os participantes do programa também evidenciam o deslocamento entre a promessa de debate e a efetivação de um consenso. Embora estejam lado-a-lado, eles não se dirigem uns aos outros, não fazem perguntas, não complementam a palavra do outro e praticamente comportam-se como ouvintes do pequeno discurso que os parceiros proferem em seu tempo de fala. Esse distanciamento dos participantes é ratificado 88 pelos enquadramentos que se fecham em apenas um falante, isolando-o da cena que ali se instaura. Embora se dirijam uns aos outros pelo olhar, o Observatório da Imprensa raramente os mostra em conjunto no mesmo quadro, isolando o telespectador da conversa ali estabelecida. Quando o faz, o programa deixa transparecer uma formação que, como já foi dito, remete às mesas redondas, espaço já estigmatizado pelo debate. Figura 4: enquadramento dos participantes no mesmo plano. Fonte: edição de 06 jun. 2006 A distribuição dos turnos de fala no programa da TV Brasil é bastante regulada, inclusive com relação ao tempo, sendo que cada participante tem o seu momento de falar, que varia três a cinco minutos para concluir sua elocução. Há uma temática comum que conduz todas as perguntas de um mesmo bloco a fim de criar uma coesão interna, mas Dines não busca relacionar as falas, colocar um convidado contra o outro ou solicitar explicações maiores sobre sua posição. Ele segue um script pensando anteriormente sem encorajar a intervenção das falas de uns sobre os demais. A iniciativa de replicar, responder, concordar ou discordar dos demais participantes parte dos próprios falantes, que aguardam o seu momento de falar para corrigir ou ampliar às colocações de seus pares. Tereza Cruviel: [...] Aproveito a deixa para dizer ao querido Marchi que eu não disse que o ato de hoje [a manifestação do MLST na Câmara dos Deputados, que destruiu o Salão Verde] foi um ato político. Eu estive lá e tive medo, né. Foi um ato, sim, de vandalismo. Mas foi um ato de motivação política. Não foi um ataque do PCC [Primeiro Comando da Capital], mas de um movimento político, né? É um movimento organizado, um movimento social organizado com forma de luta errada, sim, mas não é o PCC. (Edição de 06 jun. 2006) 89 É por meio da formação de um consenso sobre o jornalismo, e não propriamente de um debate sobre ele, que o Observatório da Imprensa irá construir uma relação com a audiência calcada na crítica ao jornalismo praticado nos grandes veículos nacionais de comunicação. Boa parte do programa se estrutura em torno de um certo conceito de jornalismo, apregoado pelos participantes. É com base nessa noção que o Observatório da Imprensa formula suas considerações sobre o “bom jornalismo” - identificado com o paradigma dominante e a idéia de espelho da sociedade - e o “mau jornalismo” - o tendencioso, manipulador, etc. Assim, para a compreensão da construção do tom e estilo deste programa, cabe uma análise mais detida do lugar que o jornalismo ocupa. 2.2. O jornalismo enquanto metalinguagem Enquanto proposta de oferecer à audiência uma crítica à mídia e às coberturas jornalísticas, o jornalismo no Observatório da Imprensa é tanto conteúdo quanto modo de fazer: assume-se que o programa irá tratar sobre o jornalismo de maneira jornalística. A abordagem do jornalismo enquanto temática do programa implica pensar quais enfoques são dados ao jornalismo, sob que circunstâncias ele é pautado, que aspectos ele procura salientar. O jornalismo como modo de construção indica, por sua vez, a forma como o próprio programa atualiza as premissas do jornalismo que procura evidenciar no conteúdo, configurando o pacto sobre o papel do jornalismo. No caso do Observatório da Imprensa, destaca-se a qualidade de vigilância, que consolida a promessa de observação, a dimensão de serviço público e a construção de uma objetividade ritualizada na omissão de um enfrentamento das opiniões. O jornalismo enquanto temática aparece como uma crítica ao assunto que ocupa as primeiras páginas dos principais jornais, revistas e televisões do país. Nesse movimento, o Observatório institucionaliza certos veículos, principalmente a mídia situada no sudeste, como condutores dos cânones da profissão ou seus corruptores. Assim, duas abordagens sobre o jornalismo são possíveis: a primeira diz respeito às premissas, aos valores que precisam ser assegurados pela imprensa; a segunda refere-se aos procedimentos jornalísticos que devem estar de acordo com a ética e o interesse público. É nesse dupla articulação que o programa vai construir sua temática. Os procedimentos jornalísticos dizem respeito às técnicas empregadas pelos jornalistas para a obtenção da informação e sua divulgação. Assim, valoriza-se o repórter que efetuou boa 90 investigação, ouviu os diversos lados que envolvem a questão sem agir de maneira tendenciosa, que tem o melhor acervo de provas que evidenciam os fatos. Além disso, são ressaltados aspectos que dizem respeito à rotina produtiva: reuniões de pauta, processo de edição, o tempo dedicado às coberturas, etc. Desta maneira, o Observatório da Imprensa aproxima a audiência não-especializada dos rituais do jornalismo, introduzindo, ao menos, um vocabulário próprio para que o telespectador se aproprie e efetue críticas melhor embasadas. A proposta do programa não é discutir propriamente esses rituais rotineiros dos repórteres, mas explicitá-los como causa ou conseqüência das coberturas e os efeitos por ela produzidos. As premissas do jornalismo referem-se aos valores do jornalismo como instituição social que, muitas vezes, remete a uma concepção do jornalismo enquanto mediação entre a sociedade e os fatos, como um reflexo direto do que acontece na vida cotidiana. Assim, a objetividade, o serviço público, a independência, a autonomia, a verdade aparecem como critérios pelos quais a mídia deve ser criticada, como se pode ver na pergunta de Alberto Dines a Juca Kfouri, jornalista esportivo: Dines: Juca, você falou sobre a quantidade de jornalistas que foram cobrir [a Copa do Mundo] mas tem muito “para-jornalista” também, né? O esporte, e sobretudo o futebol, Copa do Mundo, tem muito penetra e a celebridade vira mais importante do que o jornalista que está ali no dia-a-dia, fazendo o feijão-com-arroz. Como é que você vê essa confusão celebridade/ Copa do Mundo/ imprensa? (Edição de 30 mai.2006) O valor em questão é a legitimidade profissional, marcada por uma distinção entre “nós”, os jornalistas que reivindicam um lugar especializado no campo, e “eles”, os agentes de outras esferas, os “penetras” que impedem o exercício do jornalista. A legitimidade em si não é discutida nessa edição do programa em nenhum momento, é tomada como valor universal na prática da mídia informativa. A naturalização desses valores visa levar aos telespectadores uma ideologia profissional que reserva aos jornalistas profissionais o direito legítimo de representar o público nas diversas esferas da vida cotidiana. Alguns procedimentos e premissas aparecem mais vezes, indicando a concepção de “bom jornalismo” para o programa. Apuração é o procedimento jornalístico mais abordado durante o Observatório da Imprensa, não tanto para explicar técnicas da boa apuração jornalística, mas para destacar o papel político dos jornalistas: a boa apuração enfrenta a auto-censura e os poderes públicos, caminha em nome do interesse público e da liberdade de expressão, como 91 ficou evidente na abordagem sobre o seqüestro ao jornalista Guilherme Portanova, da Rede Globo, e a necessidade dos jornalistas não restringirem suas práticas de apuração por conta de atos terroristas (21 jun. 2006). No que diz respeito à concretização das premissas do jornalismo, o Observatório da Imprensa assume uma postura bipolar quanto à missão de “vigilante do quarto poder56”. Se por um lado o programa efetua a crítica da mídia por meio de um ataque veemente ao “mau jornalismo”, por outro, ele parte em defesa da mídia quando o que está em jogo são valores mais amplos como a liberdade de expressão, a democracia e a autonomia do campo profissional. A militância do Observatório por um “bom jornalismo” permite ao programa ora a condenação dos veículos de comunicação, ora sua advocacia ostensiva quando outros poderes interferem no cerne de sua existência. Quando o que está em jogo é a liberdade de imprensa, o Estadão, criticado em algumas edições, tornou-se vítima e os vilões eram os representantes do judiciário que impediram o exercício do jornalismo-verdade, das denúncias e do interesse público. No editorial da edição de 18 ago. 2009, Dines reforçou o princípio da liberdade de imprensa: Dines: 56 Durante a ditadura militar, os censores eram fardados. Agora, em plena vigência do regime democrático, somos confrontados com essa aberração: a censura togada. Está virando moda. Alguns magistrados não sentem o menor pudor em determinar a supressão de informações. Não impõe sanções pelo que já foi publicado. Agora rogam-se ao direito de atuar preventivamente para evitar a circulação daquilo que não consideram apropriado. A nova mania aparentemente começou em 2002, quando o juiz do TRT de São Paulo impediu a publicação de notícias sobre ele mesmo num caso de assédio sexual. Este Observatório já tratou sobre a censura togada em cinco edições, a última em julho passado, quando o Ministério Público Eleitoral proibiu que a Veja de São Paulo publicasse entrevistas com os a candidatos à prefeitura da cidade alegando que tratava-se de propaganda política. A nova investida da censura togada foi determinada pelo desembargador de Brasília, Dácio Vieira, que atendeu a uma ação do filho do Senador José Sarney e proibiu o jornal O Estado de São Paulo de continuar a publicação de notícias sobre o inquérito sigiloso que corre contra ele na Polícia Federal. O Senador Sarney alega que o pedido de embargo não partiu dele, mas a essa altura é difícil dizer quem é quem no crime Sarney. No patético discurso ontem no plenário, o Senador Sarney reclamou contra os supostos métodos nazistas que estariam sendo aplicados contra o jornalão paulista e pediu a volta da lei de imprensa e do direito de resposta recentemente extinto pelo STF. Então, por que razão Sarney não protestou na ocasião? Simplesmente porque a administração da justiça no Brasil transformou-se numa sucessão de injustiças. Gilmar Mendes, atual presidente do STF, tem parte da culpa neste pandemônio judicial. Indagado sobre a validade do embargo noticioso imposto ao Estadão, alegou que era uma decisão judicial e que por isso não configurava censura. Agora, diante celeuma, impacienta-se e cobra celeridade no Tribunal de Justiça de Ver TRAQUINA, 2003. 92 Brasília em definir a questão. A crise, que parecia circunscrita ao Senado, esfera legislativa, agora estendeu-se ao âmbito do judiciário. Não é por acaso que a mídia não gosta de agosto. [...] O direito à liberdade de expressão, garantido pela Constituição, foi alvo, mais uma vez, da censura togada. Desta vez, a vítima foi o jornal O Estado de São Paulo. A decisão foi do desembargador Dárcio Vieira do Tribunal de Justiça de Brasília. (Edição de 18 ago.2009) Nesse caso, a condenação migra para as esferas de poder, que também são o alvo da crítica jornalística. O Observatório da Imprensa atualiza a função de poder moderador de forma muito particular, não apenas transitando entre os três poderes para arbitrar sobre suas ações e interpretar os fatos, mas principalmente intercedendo em nome seus pares, quando estes querem exercer suas atribuições jornalísticas. Assim, o programa exerce a função de moderação entre as esferas de poder e a própria mídia, servindo de trincheira dos jornalistas contra as ações que ameaçam sua autonomia, e porta-voz da classe, formando uma espécie de corporativismo profissional. Por estar distanciado da prática jornalística cotidiana, o Observatório da Imprensa assume um lugar acima das instituições de mídia de modo que pode falar em nome dela para exigir uma atitude positiva das instâncias de poder público em relação à prática jornalística. Nesse sentido, o caráter de militância recebe contornos ainda mais definidos, pois o programa fala em nome da corporação. Por meio dessa dupla postura, ora contra, ora a favor da imprensa, é que o Observatório consolida um pacto sobre o papel do jornalismo calcado no serviço público do jornalismo e em sua atividade política. A missão de crítica se alia, portanto, à de cidadania: por meio do arsenal oferecido pelo programa sobre os valores do jornalismo, a sociedade poderá compreender melhor a mídia e cobrar dela atitudes proativas em direção às instâncias de poder. A crítica estende-se aos limites do jornalismo e recai sobre valores “universais” que devem ser assegurados para o funcionamento de uma sociedade madura, principalmente os que confirmam índices da democracia. A vigilância exercida pelo Observatório da Imprensa, portanto, abarca todas as esferas sociais que dizem respeito à mídia – política, esporte, economia, e a própria mídia – visando dirigirse a um público, compreendido pelo programa em seu papel político-cívico. O programa fala majoritariamente para o telespectador eleitor e legitima-se no contexto midiático por oferecer uma crítica especializada da mídia que poderá servir de instrumento para que o eleitor forme um repertório crítico que lhe permita votar melhor. 93 Uma premissa significativa no programa é a atualidade, que busca inserir o Observatório no momento das principais discussões do país, de modo que o telespectador seja, logo, iniciado nos assuntos a fim de conduzir suas conversas em espaço privado. Assim, na época da Copa do Mundo, o programa pautou a prática do jornalismo esportivo, assunto que em poucas oportunidades entram na temática do programa. A periodicidade semanal permite que a equipe de produção do programa colete informações diversificadas sobre o assunto que será abordado, o que se demonstra no VT que abre o programa por meio de imagens de reportagens e colunas de jornais impressos e revistas, além de pequenos vídeos retirados de programas jornalísticos. Associado a isso, há uma valorização do “hoje”, a fim de que o programa não perca o tempo do acontecimento que gerou a crítica. Essa simultaneidade entre tempo do evento e tempo de transmissão do programa é buscada ao ponto de mudar as pautas já programadas. Na edição de 06 jun. 2006, Alberto Dines explica: Dines: [após apresentar Tereza Cruvinel, convidada do programa] A nossa pauta de hoje é um pacto nacional convocado pela mídia para enfrentar o crime organizado. Mas hoje é um péssimo dia para discutir isso, porque houve aquela violência, aquele vandalismo na “Casa do Povo”, na Câmara dos Deputados como nunca vimos [...]. Assim, a imediaticidade e a periodicidade se unem no programa para consolidar uma relação dos telespectadores com o presente, a fim de que diferentes atores sociais movimentem-se em simultaneidade dentro do corpo social a fim de construir suas ações públicas (debates, contestações, reforço ou produção de novos eventos) dentro de marcadores e intervalos comuns aos oferecidos pela instituição jornalística.” (FRANCISCATO, 2003, p. 174). O valor de objetividade do jornalismo é muito marcado no programa pela figura de Alberto Dines. Na tentativa de exercer o jornalismo que defende, Dines intervém muito pouco nas colocações dos convidados. O binômio pergunta/ resposta funciona de maneira simplista: o apresentador coloca uma questão para o convidado que retruca e finaliza a troca. Passa-se, então, outra questão para outro convidado que introduz novas idéias sobre o assunto. Dessa forma, o programa aparenta destinar ao momento inicial – especialmente o editorial e o VT – a possibilidade de transmissão de opinião direta por parte de seu mediador. 94 O Observatório da Imprensa não se assume, enquanto conjunto, como um programa objetivo, uma vez que a crítica e análise da mídia constituem sua proposição primeira. A postura de seu apresentador durante o momento de “debate” indica que ele mesmo não irá conceder mais opiniões do que o que já foi oferecido. No entanto, as perguntas formuladas pelo apresentador indicam as teses sobre a imprensa que o programa busca sustentar com o aval do convidado, que a aprofunda a partir de sua área de atuação. Deste modo, além das perguntas de confirmação de hipóteses, o Observatório da Imprensa utiliza também perguntas avaliativas: “Doutor Maierovitch, nós estávamos tratando do crime com uma designação de crime organizado. Mas de repente nós vimos que é um crime politizado, organizado e politizado. E não é mais localizado, é nacional. Como é que o senhor vê essa transformação, essas avaliações diferentes que hoje passamos a ter sobre o crime no Brasil, o crime e a violência no Brasil?” (23 mai. 2006). O doutrinamento exercido pelo Observatório é liderado por Dines, mas se dispersa para os outros convidados, mantendo a mesma característica do site, que permite que colaboradores diversos cooperem para a formação de um discurso monofônico sobre o jornalismo. Sendo assim, a objetividade é usada como ritual para validar o consenso que se pretende formar, excluindo vozes dissidentes da cena do programa. 2.3. Os arautos do jornalismo Boa parte do contexto comunicativo que o programa pretende instaurar se consolida pelo papel desempenhado pelo mediador principal do Observatório da Imprensa, o jornalista Alberto Dines. A trajetória de Dines revela não apenas a passagem em veículos importantes da história do jornalismo brasileiro, mas sua influência deixou marcas no próprio processo produtivo. Alberto Dines foi um dos responsáveis pela profissionalização do jornalismo, criando práticas de reportagem específicas e rotinas de produção. Atuando como diretor de jornalismo nos diários Última Hora, Diários Associados e Jornal do Brasil, Alberto Dines buscava formas criativas de trazer inovações ao jornalismo impresso, que se consagraram como dominantes: em seu período de doze anos no Jornal do Brasil, Dines e sua equipe institucionalizaram a prática da reunião de pauta, o que ainda não era uma rotina nas redações. Segundo seu próprio depoimento57, sua presença nas redações aprimorou um olhar crítico para o jornalismo e para perceber mudanças que começavam a se enraizar na atividade 57 Entrevista concedida por Alberto Dines ao site do Observatório da Imprensa, 21/08/02. Disponível em http://www.tvebrasil.com.br/observatorio/sobre_dines/memoria.htm, acessado em 08/12/09. 95 profissional. Assim, Dines percebia a necessidade de refletir sobre o jornalismo, o que o levou às salas de aula da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1963. Anos mais tarde, recebeu um convite para dar aula como professor visitante na Columbia Universtity, coincidindo com o período de renúncia do presidente Nixon. Foi então que entrou em contato com o conceito de media criticism, uma atividade de crítica ao jornalismo realizada no ambiente acadêmico. Ao voltar para o Brasil, Dines recebeu o convite para escrever uma coluna sobre política no jornal Folha de São Paulo que ainda não havia se consolidado entre os principais veículos informativos do país. Além de efetuar os comentários políticos, Dines ofereceu ao dono do jornal, Otávio Frias, uma coluna para discutir a imprensa, uma experiência pioneira no país. Com sua demissão da Folha de São Paulo, a coluna de Alberto Dines foi para o Pasquim, onde recebeu um olhar mais satírico. A partir dessas experiências que inauguraram a crítica jornalística no Brasil e os contatos com jornalistas de outras partes do mundo, Alberto Dines foi convidado para abrir um curso de especialização, no nível de pós-graduação, para a crítica à imprensa na Universidade de Campinas. Em seguida, juntamente com Carlos Vogt, o jornalista criou o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na mesma instituição, que foi o que acabou originando o Observatório da Imprensa, primeiramente na internet, e dois anos depois, a convite de Alexandre Machado, na TV Cultura. Segundo o apresentador, o ingresso na televisão se deu porque a proposta do Observatório era atuar em três frentes: “na frente acadêmica, que é a da formação, vamos atuar dentro da universidade; na frente do mercado, junto às empresas e a outras instituições; e junto à sociedade também, para lembrá-la de exigir mais dos seus veículos de comunicação” (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 08 dez. 2009), mas, segundo ele mesmo, somente as duas primeiras se concretizaram inicialmente. Segundo o apresentador, hoje, o programa é uma instituição. O conceito foi lançado, e o conceito é de que a crítica da mídia só se legitima quando ela é feita voltada para o público que consome a informação, para o cidadão que lê, que precisa ser informado corretamente. Porque, caso contrário, vira conversa de botequim entre profissionais (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 08 dez. 2009). A trajetória de Alberto Dines aponta para o pioneirismo da atividade crítica do jornalismo, o que lhe garante atributos para colocá-lo num lugar de destaque no campo jornalístico. Embora não faça referência a sua carreira no programa, Dines ocupa um lugar essencial que lhe 96 permite um olhar mais crítico e distanciado, uma vez que se destacou na construção de um jornalismo mais qualificado em práticas institucionalizadas – como a reunião de pauta – e também na reflexão acadêmica sobre a atividade profissional. Sendo assim, a crítica é feita “de fora para dentro” num caráter de observação, mas a partir de um lugar de fala construído “de dentro para fora”. Esse duplo movimento presentifica-se no conjunto do programa por meio da migração do discurso de um lugar a outro - interno e externo ao jornalismo – conferindo-lhe credibilidade: do lado de dentro do jornalismo, os convidados jornalistas estão ainda em atividade, permitindo o olhar a partir da prática e dos desafios que se impõem; do lado de fora, os agentes de outros campos orientam a prática jornalística para o social. Dines, por sua trajetória, é a figura que congrega as duas esferas e por isso mesmo está acima dos demais. Em boa medida, é por esse distanciamento de Dines, aliado aos olhares internos e externos sobre o jornalismo, que o Observatório da Imprensa constrói-se como um arauto do jornalismo e de seus valores. Já foi evidenciado que o Observatório da Imprensa busca constituir um consenso acerca do jornalismo, consenso este que deve guiar as práticas dos agentes do campo no exercício de sua profissão. Os editoriais de Dines, as perguntas que visam confirmar as teses formuladas pelo programa, a postura não adversarial dos participantes da troca, a ausência de vozes divergentes são indícios do tom consensual adotado pelo programa e do encaminhamento de um certo conformismo às posições ali defendidas. A ênfase em valores tidos como universais, como interesse público, autonomia, ética, entre outros, são balizas utilizadas pelo programa para definir a qualidade do jornalismo desempenhado no Brasil. É pela formação desse consenso e por assumir-se na missão de transmiti-lo à população que o Observatório da Imprensa coloca-se num lugar especializado para a crítica. A construção do programa busca evidenciar os problemas que concernem a imprensa e os poderes públicos, configurando o lugar de porta-voz do “bom jornalismo”, o que muitas vezes se faz por meio de um discurso moralizante sobre o jornalismo na forma de “dever ser” (cf. BRAGA, 2006, p. 129). Por isso é que algumas das perguntas de Dines se traduzem pela busca da solução de problemas (“Assaf, você acha que há soluções para criar uma pluralidade, uma diversidade, um confronto? Afinal de contas, cada brasileiro é um técnico de futebol. Como é que a gente pode equilibrar a cobertura esportiva, sobretudo a de televisão?”, 30 mai. 2006) e a posição dos convidados se efetua numa direção quase profética, prevendo possíveis resoluções para o futuro: “eu acho que agora, a partir dessa lição [do PCC], vai dar uma lição para as redações, para as 97 autoridades” (Renato Lombardi, 23 mai. 2006). Formulações como essas evidenciam que o Observatório ocupa uma posição destacada do restante da mídia, permitindo-lhe agir como porta-voz. Ao passo que se consolida nesse lugar de arauto do jornalismo, o Observatório posiciona seus telespectadores como potenciais agentes de transformação social, mas carente de parâmetros para julgar a imprensa. Assim, o programa completa sua missão ao oferecer à audiência os critérios por meios dos quais poderá avaliar o jornalismo. Segundo José Luiz Braga (2006), enquanto o “debate” se dá entre iniciados, o Observatório da Imprensa dá “acesso a esse debate, para que o leitor possa se tornar, ele também, um iniciado” (BRAGA, 2006, p. 131). A divulgação do resultado da enquete funciona, nesse contexto, como uma prova retórica de que o programa está cumprindo seu papel e convoca o telespectador a acompanhar o Observatório da Imprensa pelo site, pela televisão e pelo rádio, como interpela seu apresentador ao final de cada edição. Figura 5: resultado da enquete do Observatório da Imprensa. Fonte: edição de 23 mai. 2006 A concessão de um espaço ao telespectador visa reiterar os lugares discursivos assumidos na constituição da cena televisiva enquanto o programa se posiciona como serviço público. Assim, Alberto Dines abre uma pequena concessão para que os telespectadores enviem suas questões diretamente para os participantes no estúdio, oferecendo a possibilidade de participação deles também. Os telespectadores são representados por Cláudia Tisato, mediadora localizada no estúdio do programa no Rio de Janeiro que não possui autonomia para construir seu próprio discurso no Observatório, mas dá conta de aspectos como a narração em off dos VTs, a apresentação dos convidados, a divulgação dos canais de participação e a leitura das perguntas. É Cláudia que dá voz ao público no interior do 98 programa, possibilitando o diálogo com os participantes: “L.A., de Petrópolis, Rio de Janeiro, pergunta para a Tereza: é possível que a grande mídia faça campanha contra a corrupção, a má distribuição de renda, moralização dos políticos com resultados práticos?”, “será que hoje os meios de comunicação estão distantes da sociedade civil?”, 06 jun. 2006. Audiência e programa, portanto, interagem através de telefone, fax e e-mail cumprindo retoricamente o papel de fazer daquela cena uma arena para discussão. No entanto, a conversação que ali se estabelece se dá muito mais nos termos de uma entrevista, por meio da simples colocação pergunta/ resposta sem direito a réplicas. Ali, as posições não são confrontadas no sentido de indicar aos telespectadores outras perspectivas sobre o jornalismo. Se é pelo acompanhamento constante do Observatório que o telespectador irá formar seu repertório para análise crítica da imprensa e dos poderes públicos, a ausência de disputas no interior da cena televisiva inclina os olhares para valores supostamente universais, naturalizados nos discursos de seus agentes. Assim, se o programa traz o mérito de iniciar telespectadores em questões que estão em pauta entre os diversos agentes da mídia, e oferecer um lugar diversificado para olhar os fatos sociais, ele o faz de maneira ideológica, a partir de valores pouco discutidos que dificultam ao público “nunca mais ler jornal no mesmo jeito”. 99 3. RODA VIVA: REFLEXÃO E DEBATE NA ARENA No ar desde setembro de 1986, o programa de entrevistas Roda Viva se estabeleceu como um lugar privilegiado de debate sobre assuntos públicos na televisão brasileira. Estreado um ano após o movimento das Diretas Já no Brasil, alinhado com os ideais de democracia participativa, e transmitido por uma TV pública, a TV Cultura de São Paulo, o Roda Viva, desde suas origens, tem se empenhado em colocar no centro de seu cenário, constituído em forma de arena, as principais personalidades nacionais e internacionais das áreas da política, artes, economia, cultura, esportes, educação e ciência, a fim de construir-se como um locus de discussão social. A revista Veja de 25 de fevereiro de 1987 atribuiu o sucesso do programa ao equilíbrio entre sobriedade e informalidade nos debates, diferentemente do que ocorria nos concorrentes do período, a exemplo do Canal Livre (TV Bandeirantes) e do Programa Ferreira Netto (TV Gazeta de São Paulo), que oscilavam entre “o ambiente de bate-papo entre amigos” e os “debates freqüentemente tumultuados”, respectivamente (DEBATE VIVO, 1987, p. 113). Exibido desde a estréia todas as segundas-feiras58, o Roda Viva assume como ideal “realizar jornalismo público de qualidade ao oferecer aos telespectadores a possibilidade de conhecer o pensamento e o trabalho de personalidades nacionais e estrangeiras com profundidade” (informações do site oficial do programa, acessado em 20 abr. 2009). A promessa de um jornalismo de qualidade se concretiza por meio da proposta de reflexão e aprofundamento dos assuntos que o programa discute em seus cinco blocos de exibição. Por conta disso, o Roda Viva pressiona o subgênero que o insere – programa de entrevistas – a partir de imbricações constantes com os programas de debates, já que é seu objetivo promover uma troca de idéias, opiniões e argumentos sobre os assuntos que concernem o entrevistado e sua área de atuação. O tempo prolongado, a performance dos participantes, o estatuto dos interlocutores em cena, os enquadramentos temáticos e a abertura para a interatividade com o público são marcas do programa que parecem dar a tônica do modo de endereçamento do Roda Viva e justificarem seu sucesso e longevidade na história televisiva nacional59. 58 O que variou ao longo do tempo foi o horário de exibição: inicialmente o programa ia ao ar às 21hs20. Durante o período analisado, o Roda Viva entrava em cena das 22hs10 às 23hs40. Ainda assim, a opção pela faixa horária do fim da noite se mantém estável ao longo do tempo. 59 A presente análise leva em conta o período de 2006 a 2008, mas para efeito de exemplificação foram selecionadas dez edições: 12/06/06 (com a senadora então candidata à presidência da República Heloísa Helena), 21/08/06 (com o escritor, ativista político e cineasta paquistanês Tariq Ali), 4/09/06 (com o físico Mário Novello), 2/10/06 (debate sobre as eleições), 16/10/06 (com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva), 19/06/06 (debate sobre o universo dos deficientes físicos), 8/09/08 (com o cineasta Fernando Meirelles), 24/11/08 (com o 100 3.1. Tomada de posição A história dos programas de entrevistas e debates no Brasil se inscreve no declínio da ditadura militar, no final da década de setenta e início dos anos oitenta. A morte do jornalista Wladmir Herzog60, em 1975, tornou-se um marco histórico para que a sociedade começasse a se manifestar contrariamente à censura, às perseguições e às torturas aos inimigos políticos, aos artistas de esquerda e à imprensa. Aproveitando o clima de tensão e protesto que se instalava no período, a programação televisiva se abriu para o formato da entrevista e do debate, antes limitado a poucos exemplares61. Com o governo militar enfraquecido, os programas televisivos se encarregaram de suscitar o debate público e dar visibilidade aos temas e personalidades antes pouco discutidos, ocupando, portanto, a função de porta-voz da sociedade e galvanizaram uma esfera pública. Nesse rastro, Abertura (TV Tupi), Vox Populi (TV Cultura), Encontro com a Imprensa (TV Bandeirantes), Diário Nacional (TV Record), Canal Livre (TV Bandeirantes) e TV Mulher (TV Globo) atuaram como fomentadores da discussão sobre cultura, economia e política. Foi nesse contexto que o programa Roda Viva encontrou seu lugar na grade de programação brasileira e se justificava socialmente pela proposta de um debate de alto nível dos assuntos que concerniam à vida pública. Seguindo a tendência dos programas de sua época, o Roda Viva privilegiava a política, mas não se restringia a ela, abrindo espaço para representantes das artes, cultura, esportes, economia e do próprio campo televisivo. Esses aspectos, construídos historicamente pelo programa, sofreram pequenas alterações ao longo do tempo, mas não perderam sua essência, de modo que ainda hoje a proposta de jornalismo de qualidade por meio da reflexão sobre os assuntos públicos é o elemento central da construção do estilo do Roda Viva e o principal motivo para sua credibilidade entre a audiência e os críticos televisivos (TARAPANOFF, 2004). Esse pacto sobre o papel do jornalismo se mostra ao telespectador na própria estrutura cênica do estúdio: uma arena, no centro da qual o entrevistado da rodada se posiciona e ao seu redor, numa arquibancada num nível acima, seus entrevistadores formam um círculo interrompido por três televisores. ator Wagner Moura), 1º/12/08 (com o professor de ciência da computação da Universidade de São Paulo, Valdemar Setzer), 24/11/08 (com o economista Nicholas Stern). 60 Herzog era diretor de A Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que denunciava os problemas da comunidade. 61 Mesa Redonda do Vídeo (1952), Hebe (1966) e Globo Gente (1973) são alguns exemplos de programas no formato de entrevista e debate que fizeram a história da televisão antes da década de oitenta. 101 Através dessa estrutura, todos podem se entreolhar e o entrevistado pode se dirigir a qualquer lado. Essa constituição do cenário62, que o programa carrega desde a sua estréia efetuando algumas variações, sugere que o centro do programa, ocupado pelo entrevistado, será o foco do debate. É para ele que todas as questões convergem e é ele que deverá responder à sabatina de perguntas formuladas pelo apresentador do programa, pelos demais mediadores convidados e pelos telespectadores que podem participar por e-mail ou por telefone. Figura 6: cenário atual do Roda Viva Fonte: edição de 24 nov. 2008 Para asseverar o alto nível do programa, o Roda Viva investe, principalmente, no estatuto dos participantes, selecionados rigorosamente pela equipe de produção do programa, e na qualidade das perguntas feitas, elementos que, em seu conjunto, dão um caráter tenso e muitas vezes acirrado à conversa. As múltiplas vozes que constituem o Roda Viva possuem funções bem definidas que se complementam para costurar o estilo do programa. Em primeiro lugar e ocupando uma posição de destaque, o Roda Viva conta com um apresentador que faz a mediação entre a esfera da produção e o interesse público que representa e busca assegurar. Inúmeros jornalistas renomados já passaram por essa função, incluindo Rodolpho Gamberini, apresentador no período inicial do Roda Viva, Augusto Nunes, Matinas Suzuki, Heródoto Barbeiro, Jorge Escosteguy, jornalistas renomados e com um perfil vinculado aos cargos de chefia do jornalismo televisivo e impresso. De 1998 até o início de 2008, o jornalista Paulo Markun foi responsável pela mediação do Roda Viva, quando deixou a emissora para se tornar presidente da Fundação Padre José de Anchieta. Após sua saída, o programa viveu um período de instabilidade contando com diversos apresentadores até chegar a Lílian Witte Fibe, 62 O cenário do Roda Viva foi concebido pelos jornalistas Marcos Weinstock, que se incumbiu da formatação, Roberto de Oliveira, coordenador da programação e Valdir Zwetsch, diretor de jornalismo da emissora. Quem assina a versão atual do cenário é João Baptista da Costa Aguiar e Célio Inada. 102 jornalista que construiu sua carreira na TV como apresentadora do Jornal do Globo e do Jornal Nacional (ambos da TV Globo), com uma passagem pelo SBT e, posteriormente, pela apresentação do Jornal da Lílian no portal do Terra e, em seguida, no UOL News63. A passagem da apresentação do Roda Viva de Markun para Lílian Witte Fibe, que se concretizou em abril de 2008, trouxe algumas modificações no próprio papel da apresentação. Paulo Markun evitava expressar algum tipo de emoção nas questões que levantava a seus entrevistados, aproximando-se de uma postura mais objetiva. Tal postura mantinha o apresentador no controle do programa que poderia chegar aos mais altos níveis de tensão, sem que ele se envolvesse de maneira intensa, nem com o conteúdo da conversação, nem com a postura do entrevistado. Lílian Witte Fibe, por sua vez, assume uma postura mais controladora da cena, determinando a passagem da palavra a fim de assegurar que todos os entrevistadores tenham espaço para suas intervenções. Por conta disso, é comum observar no discurso da apresentadora uma tentativa de organizar o debate: “o professor Armando ainda não abriu a boca” (1º dez. 2008), “Nós precisamos fazer mais um intervalo e a gente volta já já com a entrevista do professor e economista Nicholas Stern” (24 nov. 2008). A apresentadora também não esconde uma afetação emocional quando coloca suas questões. A depender do assunto, Fibe pode se mostrar irritada, indignada, revoltada, variando o tom de voz para dar ênfase àquilo que pretende denunciar: Lílian Witte Fibe: Ministro, eu confesso... A Declaração [dos Diretos Humanos] tem 60 anos, mas a lei da abolição da escravatura tem 120 anos. Eu morro de vergonha de saber, como brasileira, que a gente não conseguiu nem abolir a escravidão. Muito menos conseguir resgatar os diretos humanos. Se ainda tem escravidão no Brasil, e tem, né, o que a gente pode fazer, o que se pode fazer também a curtíssimo prazo, senão para ontem, para acabar com isso? [aumentando o tom de voz] (Edição de 08 dez. 2008) Embora cada apresentador traga sua marca pessoal, alguns atributos são típicos de quem ocupa a função de apresentação do Roda Viva. É o apresentador que se dirige diretamente ao telespectador por meio do eixo olho-a-olho (VERÓN, 1983) a fim de convocá-lo a acompanhar o debate que ali se passa. Além disso, cabe a ele fazer as interrupções para os 63 Atualmente, Heródoto Barbeiro, reconhecido jornalista da TV Cultura, ocupa o cargo de apresentador do Roda Viva, no entanto, esta análise irá se referir apenas ao período em que o programa foi comandado por Paulo Markun e Lílian Witte Fibe. 103 comerciais (por meio de expressões como “a gente volta já”, “nós vamos para um intervalo e voltamos num instante com o Roda Viva”), controlar o tempo do programa (“professor, nosso tempo acabou”, “a gente tem trinta segundos para sua pergunta e a resposta dele”), convocar os telespectadores para enviarem perguntas via e-mail ou telefone (“para você participar, ligue para... Pela internet você pode acessar o site do programa e mandar o seu e-mail”), vender os produtos do programa (“lembrando que a entrevista desta noite poderá ser encomendada em DVD a partir de amanhã...”), apresentar os demais mediadores e o convidado da rodada e, principalmente, direcionar os assuntos a serem debatidos. O apresentador representa uma autoridade institucional, tanto que é a ele que os entrevistados se reportam para pedir direcionamentos como: “posso contar uma anedota?” (Mário Novello, 04 set. 2006), “eu posso só complementar a pergunta do Oscar?” (Roberto Lameirinhas, 21 ago. 2006). As distinções entre Lílian e seu antecessor revelam diferenciações não apenas no modo de condução, mas principalmente na construção do tom do programa em relação ao subgênero. Paulo Markun parecia mais comprometido com a função de, por meio das entrevistas, promover um debate dos assuntos a partir da troca de opiniões. Assim, “debate”, “discussão”, “entrevista” e “conversa” apareciam como termos intercambiáveis no discurso do antigo apresentador do Roda Viva. Lílian Witte Fibe, por sua vez, não possuía tanta desenvoltura da condução do programa nos termos de um debate, procurando sempre encerrá-lo no subgênero das entrevistas, limitando a conversa ao sistema de perguntas e respostas. Tome-se como exemplo as entrevistas com Lula, conduzida por Paulo Markun (16 out. 2006), e com o economista Nicholas Stern, por Lílian (24 nov. 2008). Paulo Markun, ao apresentar seu convidado esclarece: “em contrapartida aos debates programados, duas entrevistas destinadas a aprofundar a discussão de questões que devem pesar nesta definição eleitoral”, já Lílian refere-se à prática no programa sempre como entrevista: “o Roda Viva está entrevistando Nicholas Stern, consultor do governo inglês para assuntos climáticos e autor do Relatório Stern, primeiro no mundo sobre impactos ambientais na economia global”. A rigidez da apresentadora para a distribuição dos turnos de fala e para a inclusão de todos os entrevistadores convidados na conversa não correspondeu à proposta de debate que o programa pretende trazer ao telespectador64. 64 O modo como o Roda Viva constrói a conversação como um debate será abordado mais adiante. 104 Compartilhando a função de mediação, mas a partir de outro lugar de fala, o Roda Viva convida para ocuparem o primeiro andar da arquibancada quatro jornalistas65 de veículos de comunicação reconhecidos pela qualidade da cobertura, especialidade dos assuntos ou mesmo pelos índices de audiência. É deles o papel de levantarem questões de interesse do telespectador e é por conta de sua performance que muitas vezes o programa adquire um caráter tenso e o debate chega ao acirramento desejado e compactuado com o telespectador. Podem fazer parte, também, do grupo de entrevistadores especialistas, representantes de instituições ou outras pessoas cujo cargo se relacione de algum modo com a área de atuação do entrevistado. Na entrevista com o escritor paquistanês Tariq Ali (21 ago. 2006), foram seus entrevistadores Demétrio Magnoli, geógrafo, especialista em relações internacionais e editor do jornal Mundo, Geografia e Política Internacional; Roberto Lameirinhas, repórter da editoria internacional do jornal O Estado de São Paulo; Vicente Adorno, comentarista de internacional da Rádio Cultura FM; Samuel Feldberg, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco e membro do Gacint, Grupo de Análise e Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo; Emir Sader, sociólogo e escritor; Oscar Pilagallo, editor da revista Entrelivros. Ao abrir as portas do programa para profissionais de fora da TV Cultura, o Roda Viva sustenta a proposta de um jornalismo de qualidade, pois parece dizer à audiência que o debate ali será no nível dos mais importantes jornalistas e especialistas no assunto tratado, ainda que não façam parte do quadro da emissora. Retoricamente, o programa se reveste do discurso do jornalismo público, que desconhece fronteiras empresariais em nome do interesse público. Juntamente com o apresentador, são eles que perscrutam, investigam e tentam extrair do entrevistado a verdade que não é dita nos veículos convencionais do jornalismo diário informativo, efetivando sua função de vigilância e se posicionando como guardiões sociais da democracia. Do lado oposto, encontra-se o entrevistado, o “dono” das idéias, opiniões, conhecimentos que estão guardados e devem tornar-se públicos na arena do Roda Viva. O programa privilegia personalidades de destaque no cenário nacional ou internacional, seja pelo cargo que ocupam, seja pelas convicções, seja pelas polêmicas em que estão envolvidas, de modo que há nelas 65 No seu surgimento, eram oito os entrevistadores que compareciam ao programa. Em 2006, esse número já havia caído para seis. Após as recentes reformulações, o programa reduziu o número de entrevistadores convidados para quatro por edição. 105 um diferencial e algo que as conecte com a atualidade: publicação de um livro, filme recémlançado, inserção no momento social. Embora não possua limites nas esferas de abrangência da especialidade do convidado – podendo ir dos esportes à ciência – há limites no status desse personagem para a vida pública, de modo que não é qualquer ator, cineasta ou político que se sentam no centro do Roda Viva, mas é Wagner Moura, aclamado pela crítica após o filme Tropa de Elite; Fernando Meirelles, indicado ao Oscar pelo filme Cidade de Deus e reconhecido pelo trabalho mais recente, a adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; e os candidatos à corrida presidencial no ano de 2006, respectivamente. Sua posição solitária no centro da arena o deixa exposto a todo tipo de questionamento que pode vir de qualquer lado, insinuando um lugar de fragilidade e desvantagem em relação aos entrevistadores que se impõem como autoridade estando um nível acima do convidado. Se, por um lado, a disposição do cenário em dois níveis força o entrevistado a olhar sempre para cima para se dirigir a seus interlocutores, por outro, a situação de submissão é contrabalanceada pelo tempo mais alongado disponível para o desenvolvimento de suas idéias, mantendo-o no lugar central do programa. É essa dinâmica que envolve entrevistados e entrevistadores que cria um sentido de “roda viva”, sugerindo que tudo está mudando, se construindo, se reconfigurando. Desde a vinheta de abertura, o programa convoca o telespectador a “entrar na roda” e acompanhar, pelo Roda Viva, as transformações que acontecem ao seu redor por meio de um “debate vivo”, como sugeriu a reportagem de Veja (25 fev. 1987). Ao som da música de Chico Buarque que lhe empresta o nome66, imagens do mapa do mundo em tons de branco e cinza servem de fundo às letras que formam o nome do programa. Ao final de uma seqüência de imagens, o quadro finalmente se completa e forma-se, sobre um fundo branco, o nome do programa em cinza e vermelho, sendo que o “O” que forma da palavra “RODA” é o globo terrestre que gira continuamente até se fundir com o globo que está no piso do cenário onde o entrevistado do dia se posiciona. 66 A canção “Roda Viva” (1967), de Chico Buarque, só passou a constituir a trilha sonora do programa da TV Cultura em 2008, 21 anos após sua estréia, quando o compositor cedeu os direitos da música à emissora. Anteriormente, a vinheta de abertura contava a assinatura musical de John Naschling. Independentemente dos direitos de uso da música na abertura, o nome do programa convocava ao imaginário do telespectador que continha a música, atualizando a idéia de que “o mundo roda num instante”, se transforma, se modifica e, por isso, o programa trata daquilo que é atual, o que é novo. 106 Figura 7: seqüência de imagens da vinheta Fonte: edição de 24 nov. 2008 O programa sugere, por meio da vinheta, que, ali, os assuntos e as personalidades que “estão no centro do mundo” serão abordados de maneira viva, ativa e vigilante. No centro dessa roda, o convidado se vê acuado, sem ter outra alternativa, senão responder às questões dos entrevistadores. Além desses enunciadores, o Roda Viva conta ainda com uma repórter da TV Cultura para servir como porta-voz das perguntas enviadas pelos telespectadores, uma platéia disposta no segundo nível da arquibancada, que participa do programa partilhando suas impressões por meio do Twitter, ferramenta que permite a troca de mensagens instantâneas pela internet, e o cartunista Paulo Caruso, presente desde a estréia do programa, que faz suas interpretações do debate por meio de charges. A função de Caruso é perceber os momentos mais interessantes, as falas de maior repercussão, as idéias discutidas ressignificando-as para a audiência. 107 Figura 8: charges de Paulo Caruso durante o Roda Viva Charge representando um dos momentos mais acirrados do programa, quando a deputada Ideli Salvatti (PT) e o deputado José Carlos Aleluia (antigo PFL67) discutiam sobre a atuação do governo Lula. (Edição de 02 out. 2006) Caruso captura momentos dos entrevistadores durante o programa, o que é exibido por meio de uma conjugação entre os enquadramentos de câmera e seus desenhos. (Edição de 1º/12/08) Fonte: edições de 02 out. 2006 e 1º dez. 2008 As charges de Caruso são captadas pela câmera durante todo o programa ainda em seu processo de produção, e revelam um olhar individual sobre os assuntos à baila no Roda Viva. São flagrados pelos desenhos de Caruso os entrevistadores, os convidados e personagens externos ao programa que possuem relação com o que está sendo debatido no momento. Segundo Jair Santos, as charges de Caruso possuem três funções mais evidentes: a) ilustram, com carga humorística, o diálogo que se dá diante das câmeras; b) fornecem um determinado enfoque para a análise da cena, sugerindo um viés para a análise das declarações dos convidados; e c) como conseqüência desta última característica, conferem a Paulo Caruso um privilegiado lugar de fala no Roda Viva, uma vez que seus desenhos emitem opinião sobre a entrevista sem contestação (SANTOS, 2005, p. 78). 67 Na época de exibição do programa, o deputado era membro do PFL (Partido da Frente Liberal), hoje denominado Democratas. 108 O distanciamento físico entre os participantes aventa uma relação estritamente profissional e momentânea entre os enunciadores, ou seja, ela se dá no contexto da transmissão e se esvazia em seguida. Como os entrevistadores são, na maioria das vezes, jornalistas setorizados, é comum que eles e os convidados se conheçam de outras coberturas jornalísticas, o que transparece algumas vezes por meio do texto verbal: Luiz Inácio Lula da Alexandre [referindo-se ao jornalista da TV Cultura presente no programa], você me conhece há muito tempo e você sabe que a minha Silva: relação política com as pessoas, com qualquer que seja a pessoa, de qualquer partido político, sempre foi uma relação de muita democracia, sabe, de muita diplomacia. (Edição de 16 out. 2006) Engraçado, porque o Aderbal Freire-Filho, diretor da peça, é totalmente Wagner Moura: avesso a essas coisas tecnológicas em espetáculos. E vocês viram os espetáculos dele, são sempre muito básicos, atores ali e pronto. E ele é que veio com essa história da câmera. (Edição de 29 set. 2008) Os jornalistas empregam, majoritariamente, cinco tipos de pergunta para abordarem os assuntos no Roda Viva: 1) biográfica – “E você teve a infância na cidade de Rodelas. Eu soube que nessa cidade tem muito mármore... E você ficou lá os quinze anos, não é?” (Jefferson Del Rios a Wagner Moura, 29 set. 2008); 2) confirmação de uma hipótese – “o senhor disse, já, que a questão do terrorismo emana muito mais da fraqueza do que propriamente da força. É uma colocação que eu acho que é aceita por muita gente, na verdade. Agora, eu não tenho certeza se é uma definição que possa ser aplicada de maneira geral ao terrorismo ou a um específico tipo de terrorismo que é aquele que vem exatamente de grupos que estão sendo esmagados por poderes maiores. Ou é uma definição que vale de uma maneira mais ampla. Como é que o senhor vê essa questão?” (Oscar Pilagallo a Tariq Ali, 21 ago. 2006); 3) solução de problemas – “o senhor poderia relacionar algumas medidas simples, além da economia de água, do movimento pelo uso de produtos ecologicamente corretos dentro de casa, domésticos, etc, que a população poderia adotar imediatamente para fazer a sua parte também?” (Lílian Witte Fibe a Nicholas Stern, 24 nov. 2008); 4) informativa – “a cosmologia não tem uma fronteira com outros ramos do conhecimento, ou - não sei bem se a palavra se aplica -, de um lado, a filosofia e, do outro, a religião... não tem um meio-de-campo aí que é meio embolado?” (Paulo Markun a Mário Novello, 04 set. 2006); 5) investigativas – “a gente vive hoje em um Universo, segundo as versões dos próprios cosmólogos, em que 109 95% de todo conteúdo do Universo, energia e matéria, a gente não tem a menor idéia do que seja. Por que, na opinião do senhor, alguém aqui deveria acreditar em uma versão cosmológica com base em 5% do que a gente conhece de todo o Universo? Por que cinco por cento iriam contar a história inteira?” (Salvador Nogueira a Mário Novello, 04 set. 2006). Por meio desta última é que os jornalistas desempenham melhor o papel de fiscalização, de cães de guarda dos interesses do público e consolidam o pacto sobre o papel do jornalismo de efetivar um debate público a partir de critérios democráticos. 3.2. Debate público na democracia O Roda Viva se assume, retoricamente, como um espaço aberto a todo tipo de idéia e concepção de mundo ao pôr em diálogo personalidades em lados opostos na vida social. A excitação do momento eleitoral no ano de 2006 e os escândalos que envolviam o governo Lula foram bastante profícuos para a construção de uma arena supostamente neutra em termos de política partidária, uma vez que o programa levou para o centro de seu cenário os principais candidatos à corrida presidencial. Corroborando com essa postura, a edição de 02 out. 2006, que se configurou como uma mesa redonda68, promoveu um debate sobre o momento eleitoral com representantes dos principais partidos políticos do país, formando “duas bancadas: uma governista e outra de oposição”, como destacou o apresentador Paulo Markun na abertura do programa69. Saindo da esfera da política, o Roda Viva com o professor Valdemar Stezer (1º dez. 2008) – que defende o abandono das mídias eletrônicas por parte das crianças e jovens alegando um prejuízo de seu desenvolvimento intelectual e social - teve, como entrevistadores a neuropsicóloga infantil Ana Olmos, para fundamentar cientificamente as posições do entrevistado, e José Armando Valente, professor do departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes da Unicamp; Caio Túlio Costa, jornalista e presidente do IG; Beth Carmona, presidente da Ong Midiativa - Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes, pessoas que, pelo cargo e instituição, se credenciam para uma abordagem contrária à posição central defendida pelo entrevistado. Portanto, é na 68 Em certas edições, o Roda Viva muda seu formato de apresentação configurando-se como uma mesa redonda. Nesses casos, não há um entrevistado no centro da arena, mas convidados com diferentes pontos de vista são convidados para trocarem idéias sobre um tema comum. 69 Os convidados do programa nessa edição foram: Arlindo Chinaglia, deputado federal pelo PT de São Paulo, líder do governo na Câmara; Álvaro Dias, senador pelo PSDB no Paraná; Ideli Salvatti, senadora pelo PT de Santa Catarina e líder do partido no Senado; José Carlos Aleluia, deputado federal pelo PFL da Bahia; Eunício Oliveira, deputado federal pelo PMDB do Ceará, parte da base de apoio do governo, e Osmar Serraglio, deputado federal pelo PMDB do Paraná. 110 busca pelos múltiplos lados de uma mesma questão que o Roda Viva constrói sua proposta de debate, atualizando aquilo que configura, do modo mais tradicional, o subgênero: o confronto de idéias. Essa postura evoca um papel de vigilância exercido pelo programa, que permite à sociedade formular melhor suas opiniões por meio do tratamento diversificado das questões trazidas ao estúdio. Assim, o binômio pergunta/resposta funciona como alavanca para as trocas de argumentos entre entrevistadores e entrevistados. A entrevista com Heloísa Helena permite perceber como o programa efetua essa transição por meio da conversação: Luiz Carlos Azedo: Heloísa Helena: Paulo Markun: Heloísa Helena: Fernando Rodrigues: Heloísa Helena: Fernando Rodrigues: Heloísa Helena: Paulo Markun: Heloísa Helena: Tereza Cruvinel: Heloísa Helena: Mas não respondeu a pergunta que eu fiz, com quem a senhora vai governar? Quem são as pessoas, os partidos? Com todas as pessoas, todos esses setores. Agora, se você quer que eu reproduza a visão de governabilidade tradicional, eu não compartilho com ela. Eu vou respeitar o Congresso Nacional como manda a Constituição do país. O Congresso Nacional, embora enquanto promíscuo, represente a promiscuidade do Palácio do Planalto, ele foi eleito pelo povo, então vou respeitar. Agora, estarei no Congresso Nacional, como em vários estados do país, debatendo com o Congresso Nacional. Por que não posso debater com o Congresso Nacional? Por que essa mania e visão de governabilidade tem que ser governabilidade de distribuição de cargos, prestígio e poder? Eu preciso do Congressos Nacional para fiscalizar os atos do executivo, para estar sendo parceiro da sociedade e da construção coletiva. E a senhora acha que o Congresso vai embarcar nessa? Não tenho dúvida. Vai [balançando a cabeça positivamente]! [...] Senadora, a senhora vai colocar para correr o deputado que for lá na base da fisiologia exigir cargo para aprovar projeto? Mas, meu amor, ele nem vai. E você acha que alguém vai? Já disse várias vezes, não vão. Aí alguém não vota, o que a senhora faz? Que projetos? Quais? O governo agora, nem o Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica] passou. Meu amor, o Fundeb... O governo é tão descarado, tão farsante economicamente que tem ousadia de dizer isso. Se o governo quisesse... Veja uma coisa, primeiro que o Fundeb, é sempre importante relembrar, é um mecanismo importante, conquista da sociedade, e significa apenas 2% do dinheiro do governo federal, é dinheiro de estados e municípios. Se o governo quisesse disponilibilizar recursos para educação básica do país, era só aumentar em 2% o repasse do fundo de participação e, junto com o Ministério da Educação, fazia tudo, não precisava que aprovasse aquilo ali. Isso pode ser feito, é execução orçamentária. Pode ser feito. Desculpe, mas se ele apenas aumentar a transferência de estados e municípios não terá garantia de ter aquilo aplicado em educação, agora, tem uma emenda lá de 1%... [sobreposição] [interrompendo] Garantia não tem nem com o Fundo, a garantia não tem nem 111 com Fundo, porque governo federal... Nem com Fernando Henrique nem o governo Lula... Tereza Cruvinel: Heloísa Helena: Fernando Rodrigues: Heloísa Helena: Fernando Rodrigues: Heloísa Helena: Tereza Cruvinel: Heloísa Helena: [interrompendo] O Fundeb já tem vinculação com matrículas, então tem uma forma de controle da aplicação daqueles recursos. [...] Vamos dizer que o Fundeb, independente dos méritos ou não do Fundeb, a senhora disse que o governo foi... nem sei que palavra a senhora usou. Me explique qual desses projetos, desses que eu falei aqui, qual o projeto que eu precisarei mandar para o Congresso Nacional? Veja, em relação à reforma tributária, você acha que o Congresso Nacional não será capaz de votar um projeto de reforma tributária que impeça essa brutal e avassaladora transferência de renda do pobre da favela, da classe média assalariada e do setor produtivo para o capital financeiro? Eu acho. Por quê? Não votou até hoje, senadora. Não votou até hoje porque o governo não quis. [interrompendo] Não, senadora, porque os estados também tiveram seus conflitos. Mas, meu bem, os estados têm seus conflitos [...]. (Edição de 12 jun. 2006) O sistema de perguntas e respostas é usado para iniciar a troca de argumentos, que acontece no momento em que a entrevistada fornece opiniões contrárias às que a bancada possui. Os entrevistadores se unem contra a Heloísa Helena, deixando-a acuada em meio a contestações que vêem de todos os lados: de Fernando Rodrigues, de Paulo Maukun, de Tereza Cruviel. A dimensão de debate permite, inclusive, uma troca de papéis: quando o jornalista Fernando Rodrigues responde a uma pergunta retórica feita pela entrevistada que era uma das bases de seu argumento. Diante da contra-argumentação, a entrevistada precisa recomeçar e buscar novos argumentos que validem sua posição. Para além da informatividade das perguntas feitas (a que abre essa sessão de debate é “com quem a senhora vai governar? Quem são as pessoas, os partidos?”), o Roda Viva propõe à audiência o tratamento de questões relevantes num nível argumentativo, partindo do pressuposto de que a audiência já possui as informações básicas para se integrar à conversa encenada. Sendo assim, os três modos de comunicação propostos por Ekström (2003) não dão conta de um programa como o Roda Viva, cujo papel não é simplesmente conceder informações, contar histórias ou apresentar assuntos como atrações. 112 O Roda Viva, pela sua proposta de oferecer ao telespectador um debate, retoma um papel mais característico do jornalismo opinativo70 que consolidou os parâmetros que ainda hoje são tomados como definidor do campo: é opinativo porque permite a troca livre de opiniões que se consolidam em argumentos. Segundo Josenildo Guerra, a matriz opinativa do jornalismo está relacionada à esfera política e compreende o jornalismo como “uma grande esfera de debate de idéias” (GUERRA, 2003, p. 36). “Nesta modalidade”, continua o autor, “não são os fatos o eixo em torno do qual o discurso se estrutura, mas a tese pela qual o autor busca explicá-los” (GUERRA, 2003, p. 36). Guerra explica que foi nos momentos de maior instabilidade política que esse modelo de jornalismo se desenvolveu, atuando no processo de formação e convencimento dos indivíduos para abraçarem as causas liberais71. Para o autor, esse modelo de jornalismo se caracteriza pelo estilo polêmico e argumentativo dos textos, o engajamento político dos atores em um projeto de sociedade e o domínio dos princípios que norteiam as formas de governo e as alternativas desejadas (GUERRA, 2003, p. 37). Assim, o Roda Viva se apropria de um modelo residual de jornalismo para construir sua legitimidade, efetuando hibridizações no subgênero que o concerne. O cenário político eleitoral do momento e as diversas carências sociais do país, tema da edição de 19 jun. 2006 sobre as dificuldades de acessibilidade dos portadores de deficiência física, tornam-se um ambiente profícuo para a existência desse programa e sua função social. Se por um lado o programa semanal da TV Cultura se constrói para a audiência como um espaço aberto a qualquer visão de mundo, por outro, a postura dos entrevistadores não se mostra tão isenta de concepções preestabelecidas. A função que os mediadores assumem no programa é de contradição das idéias apresentadas pelos entrevistados e cobrança por esclarecimentos que ainda não foram prestados. Através de perguntas investigativas e de confirmação de hipóteses, os jornalistas, e, por conseguinte, o Roda Viva, se colocam como cães de guarda do interesse público e vigilantes das ações políticas. A entrevista com o 70 Não se pretende efetuar uma análise com base em gêneros jornalísticos como postulado por José Marques de Melo (1985), mas apenas retomar outra função do jornalismo que se constituiu anteriormente ao paradigma informativo, como aponta Josenildo Guerra (2003). O que está em jogo no Roda Viva não é a dimensão panfletária do jornalismo, mas sua constituição como espaço de troca de opiniões. 71 Segundo Marialva Barbosa (2007), o jornalismo brasileiro viveu um período semelhante na passagem do sistema de governo monárquico para a República. A autora aponta o uso de novas tecnologias de comunicação – telégrafo, linotipo, cinematógrafo, etc – como catalisador da transformação do modelo opinativo para o informativo no jornalismo brasileiro: “a opinião é, assim, gradativamente separada de uma idéia de informação isenta e, neste processo, os novos artefatos tecnológicos desempenham papel fundamental” (2007, p. 24). 113 presidente Lula trouxe situações em que os jornalistas buscavam elucidar os escândalos que ainda envolviam sua administração: Presidente, o senhor tem, ao falar dessa questão do dossiê [em setembro de 2006, “vazou” um DVD com vídeos e fotos do candidato à presidência da República, Geraldo Alckmin, e do candidato ao governo de São Paulo, Joée Serra, ambos do PSDB, em cerimônias de entrega de ambulâncias vinculadas à Planam, ápice do escândalo dos Sanguessugas, com o objetivo de prejudicar as candidaturas dos opositores ao presidente], tem insistido muito em dizer que o senhor acabou sendo o maior prejudicado com isso, porque o senhor tinha a chance de fechar a eleição no primeiro turno e isso acabou não acontecendo. Agora, o senhor não acha que tem um problema nesse raciocínio, presidente, porque a gente também pode pensar o seguinte: o senhor só acabou sendo prejudicado porque essa operação deu errado, presidente. Porque se essas pessoas não tivessem sido presas, se os vendedores tivessem comparecido com um dossiê de verdade e se os compradores, alguns deles ligados à sua campanha, não tivessem sido presos antes, o senhor não teria sido prejudicado e a oposição sim teria sido bastante prejudicada. O senhor não acha que tem um problema nesse raciocínio, presidente? Luiz Inácio Lula da Então, deixa eu te fazer uma pergunta: No que a minha candidatura precisava do dossiê... Silva: [interrompendo] Interessava ao senhor, porque o governador... Lourival Sant’Anna: [interrompendo] A gente pode alegar o seguinte: O senhor tinha uma Renata Lo Prete: situação muito confortável nas pesquisas. Mas também se pode argumentar o seguinte: Se essa operação tivesse dado certo, a oposição como um todo teria sido bastante prejudicada, inclusive na questão de São Paulo, onde a vitória estava bastante encaminhada. Luiz Inácio Lula da Bobagem, Renata, pelo amor de Deus, Renata, uma bobagem, Renata. Uma bobagem. Se o dossiê é o que as pessoas dizem que é... ele está na Silva: internet, a Polícia Federal passou investigando aquilo dois anos. Então, meu Deus do céu, eu fico me perguntando como é que uma pessoa vai comprar um dossiê que está na internet? Eu fico me perguntando como é que a Polícia Federal passou dois anos investigando, tem todos os resultados sobre esse tal de Vedoim [referindo-se a Luis Antônio Vedoin, apontado como chefe da máfia das sanguessugas], sabe, e já tinha havido investigação dele, então a minha pergunta, Renata, é simples [sendo interrompido], minha pergunta é o seguinte, a minha pergunta é curiosidade, sabe, de quem gosta de filme de detetives: Eu queria saber quem é o arquiteto desse plano? Eu gostaria de saber. (Edição de 16 out. 2006) Renata Lo Prete: As perguntas da jornalista da Folha de São Paulo que iniciaram o debate sobre o dossiê Vedoim continham argumentos e formulações suas que eram averiguadas sob o ponto de vista do entrevistado. Nesse momento, os argumentos foram trocados de modo a obter do entrevistado uma confissão ou uma resposta mal argumentada, que revele que as acusações contra ele estão corretas. Assim, o jornalismo no Roda Viva assume um papel que, nas palavras de Afonso de Albuquerque (2009), se configura como um superpoder, acima dos outros três e contra eles a fim de contribuir com a democracia. 114 O debate no Roda Viva muitas vezes assume um caráter tenso, o que confere dinâmica, agilidade e vivacidade ao programa. Um indício de que a conversação atingiu o clímax é que os participantes apresentam um comportamento mais passional – deixando transparecer irritação, desconcerto, revolta – e o ritmo das perguntas aumenta, provocando uma série de interrupções e sobreposições da fala. A sobreposição, portanto, é desejável e faz parte do jogo de poder que o Roda Viva põe em cena, uma vez que quando todos falam ao mesmo tempo estão competindo pelo direito à palavra e, por conseguinte, pelo poder do discurso. Interpelações pelo nome ou cargo no convidado, além de expressões como “deixa eu entrar nessa discussão aí”, “desculpe um momentinho”, “só um pouquinho, senadora” são formas que os enunciadores encontram para invadir o discurso do entrevistado, que se defende dizendo “deixa só eu terminar aqui”, “agora eu quero responder a pergunta de ...”. Entrevistadores e audiência compactuam com uma postura mais controladora do jornalista, o que permite que comportamentos como aumento do tom de voz, aproximação corporal ao entrevistado, interrupção da resposta e monopólio da palavra se justifiquem retoricamente e indiquem para o telespectador que o debate é intenso e aprofundado, como se pode ver no exemplo mais acima da entrevista com a senadora Heloísa Helena (12 jun. 2006). Para legitimarem seu papel de vigilância, os jornalistas chegam ao Roda Viva bem preparados, dispondo de dados estatísticos, declarações de fontes oficias divulgadas pela mídia, declarações do próprio entrevistado e informações adicionais a fim de entrarem na arena com argumentos suficientemente convincentes para a batalha discursiva que irá se travar ali. Por isso, muitas vezes os jornalistas se credenciam ao mostrar para a audiência que sua reivindicação diante do entrevistado é embasada numa apuração anterior à cena, por meio de enunciados como “nós conversávamos aqui, antes do programa,..” (Alexandre Machado, edição de 16 out. 2006). A TV Cultura corrobora com essa atitude fornecendo previamente aos entrevistadores convidados um material contendo os principais aspectos do assunto e do entrevistado da rodada, o que permite que eles entrem no debate munidos de informações adicionais e com perguntas já elaboradas, o que desequilibra a conversa e põe os entrevistadores em posição de vantagem. O professor Valdemar Setzer chamou atenção para essa desigualdade no ingresso à conversação ao responder “a pergunta do jornalista Caio Túlio Costa: “Caio, você está numa situação de vantagem em relação a mim: eu não li os seus trabalhos e você se baseou nos meus [risos] que, aliás estão na internet”, ao que o jornalista 115 retruca dizendo “sim, eu citei tudo que o senhor falou aqui”, como se o acesso a informações anteriores pusesse os dois em desigualdade. O Roda Viva deixa transparecer o trabalho da equipe de produção do programa, cuja função é fornecer aos entrevistadores convidados informações suficientes para que eles ocupem o lugar de vigilância. O inquérito é o veículo pelo qual a verdade pode ser trazida à luz e, na “roda viva” da TV Cultura, o apresentador possui um lugar privilegiado no contexto comunicativo do programa para assegurar que as informações trocadas sejam verídicas, o que também reforça o trabalho da equipe de produção que dá sustentação a seu papel. Durante o período analisado, o único momento em que o apresentador prestou algum esclarecimento foi quando o deputado federal José Carlos Aleluia (então PFL, atual Partido Democratas) forneceu informações inverídicas para sustentar suas opiniões enquanto discutia com a deputada Ideli Salvatti (PT): José Carlos Aleluia: Imagino o que é que a dona Vilma de Castro está pensando. Ela e os pais daquele eletricista brasileiro que foi metralhado lá em Londres [referindo-se a Jean Charles de Menezes (1978 – 2005), imigrante brasileiro confundido com um homem-bomba e morto no metrô de Londres pela polícia britânica], o eletricista foi para Londres porque não tinha emprego, senadora. Ele foi ser eletricista lá porque aqui não tem emprego. Ideli Salvatti: [interrompendo] Ele foi quando? José Carlos Aleluia: No teu governo. Ideli Salvatti: No meu governo? José Carlos Aleluia: Como estão indo os jovens brasileiros. O único lugar em que jovem brasileiro encontra emprego é no aeroporto [...]. [No início do quinto bloco] Queria antes de mais nada registrar aqui que Jean Charles de Menezes estava em Londres desde o governo Fernando Henrique Cardoso [...]. Paulo Markun: (Edição de 02 out. 2006) No Roda Viva, o apresentador concede sua opinião como argumento para a formulação de perguntas. Assim, há uma aparente objetividade que se contrasta com o caráter adversativo das questões direcionadas ao entrevistado. Na dinâmica conversacional, o controle da distribuição dos turnos de fala ocorre, apenas, no início e encerramento dos blocos. Sendo assim, cabe ao apresentador abrir e fechar as trocas, deixando o restante do processo de construção da conversa aos entrevistadores e entrevistados que possuem liberdade de tempo para formular seus argumentos. A intervenção dos demais mediadores na conversação do Roda Viva permite a mudança de assuntos e a inclusão de aspectos novos imprevistos pelo 116 apresentador. Assim, o programa distribui o papel de construção do debate entre todos os entrevistadores. Ao apresentador, cabe o papel de enquadrar a temática e a própria entrevista por meio da pergunta de abertura72, que visa destacar os aspectos que irão conduzir a conversa naquele bloco, ao menos inicialmente, permitindo que o entrevistado formule idéias a partir de argumentos fornecidos pelo apresentador: Paulo Markun: (a Tariq Ali) Eu queria começar pelo seguinte. O senhor acha que é possível conciliar literatura e militância política? Porque é uma longa discussão no mundo. Houve época que era muito valorizado, momentos em que se considerava que não havia ligação possível - uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa - e o senhor faz ambas. É possível haver essa conciliação? (Edição de 21 ago. 2006) A pergunta de Paulo Markun a Tariq Ali não apenas diz sobre o que os participantes devem falar durante a conversa, mas indica o modo como Tariq Ali é inserido no programa: a partir de sua militância política, e não apenas na sua atividade como escritor. Sendo assim, não interessa ao programa o estilo textual de Ali, a construção de narrativas, o processo de distribuição dos livros – embora sua vinda ao Brasil esteja vinculada à Festa Literária Internacional de Parati -, mas sim às questões contextuais que estão no fundo nas suas obras – o terrorismo, a política externa norte-americana, o convívio entre judeus e muçulmanos – e será esse o assunto abordado durante a conversa. A preferência do programa pela atuação política do convidado demonstra o tom do Roda Viva no cumprimento do papel de vigilante e de formador de opiniões. 2.3. Posicionamento da audiência O Roda Viva lança mão de um contexto comunicativo que visa colocar o telespectador numa posição de permanente atenção à conversação. Pelo seu horário de exibição, o programa concorre com filmes, programas de auditório e telejornais, e seu diferencial no fluxo televisivo é se constituir uma alternativa a uma programação voltada majoritariamente ao entretenimento. Para atrair o telespectador e mantê-lo preso durante toda a transmissão do programa sem ceder ao zapping, o Roda Viva exige que o telespectador acompanhe todos os meandros do debate para que não haja prejuízo de sua compreensão e ele possa formular sua própria opinião de maneira mais consistente. 72 A formulação da pergunta de abertura cabe, exclusivamente, ao apresentador. Ele só abdica desse papel quando é para introduzir uma pergunta dos telespectadores. 117 As estratégias de captura da audiência se dão desde o início do programa, quando o apresentador fornece, no primeiro bloco, algumas informações contextuais sobre o convidado do dia, apresentando-o como uma atração (EKSTRÖM, 2003): Paulo Markun: Boa noite. Ela nasceu em Alagoas, num lugar chamado Pão de Açúcar que de doce só tem o nome. Criada no sertão alagoano, foi trabalhadora rural, sindicalista e fez carreira política no Partido dos Trabalhadores. Com marca pessoal forte, tornou-se uma das mais aguerridas mulheres a chegarem ao Congresso Nacional. Rompida com o PT há dois anos, agora se lança à corrida presidencial. O Roda Viva, que vem entrevistando os principais pré-candidatos à eleição presidencial deste ano, conversa esta noite com Heloísa Helena, pré-candidata à Presidência da República pelo PSOL, Partido Socialismo e Liberdade. O Roda Viva começa em um instante. (Edição de 12 jun. 2006) Após a inserção dos patrocinadores do programa, o Roda Viva apresenta novamente o convidado da rodada e introduz um VT com narração em off contendo os principais elementos sobre a carreira e a vida pública do entrevistado: Narrador: Sempre envolvida no movimento sindical, popular, rural e indigenista, Heloísa marcou carreira não só pela postura, como pela disposição para enfrentar qualquer polêmica. Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 44 anos, nasceu em Pão de Açúcar, sertão de Alagoas, onde começou a trabalhar como bóia-fria com a família. Mais tarde, na capital, em Maceió, se formou em enfermagem com pós-graduação em epidemiologia. Começou a carreira política em 1990, no Partido dos Trabalhadores. Foi eleita viceprefeita de Maceió em 1992 e deputada estadual dois anos mais tarde. Em 1998, tornou-se a primeira mulher eleita para o Senado por Alagoas, durante o mandato destacou-se no combate à política neoliberal do presidente Fernando Henrique Cardoso. Manteve a oposição ao governo Lula e acabou sendo expulsa do antigo partido. O primeiro grande confronto aconteceu quando recusou-se a apoiar a indicação de Henrique Meirelles para o Banco Central. Pouco depois, rejeitou o nome de José Sarney para a presidência do Senado, confrontando mais uma vez a direção petista. Fez críticas à política econômica do governo e criou nova crise quando se opôs ao projeto de reforma previdenciária. Foi punida e, finalmente, expulsa do PT em 2003, mas não deixou a política. Em 2004, ao lado de outros parlamentares também afastados, ajudou a fundar PSOL e é pelo novo partido que Heloísa Helena disputa a presidência. (Edição de 12 jun. 2006) No início de cada bloco, o programa recria estratégias para situar o telespectador na emissão, seja pelo texto verbal do apresentador, que relembra quem é o entrevistado do dia, seja por um VT com narração em off ou com imagens dos trabalhos mais significativos do personagem central do programa. Com exceção desses momentos, o Roda Viva pouco fornece informações contextuais sobre os assuntos que surgem na conversação, cabendo ao telespectador completar as lacunas deixadas pelo programa com informações que já possui através do 118 acompanhamento constante da grande imprensa. Deste modo, o programa requer um amplo repertório cultural, uma vez que pressupõe que o telespectador já conhece os assuntos que surgem nas falas dos participantes. Mesmo as charges de Caruso promovem esse tipo de interpelação da audiência, uma vez que solicitam que a audiência esteja atenta ao programa para interpretar os desenhos que capturam momentos específicos do debate. Muitas vezes as charges tratam de uma situação extramidiática, com personagens que estão fora da cena, mas que se relacionam com os assuntos abordados. O processo de edição do programa, que utiliza quadros longos, de aproximadamente trinta segundos, podendo chegar a um minuto, sugere que o telespectador assuma uma postura de reflexão e atenção irrestrita à fala dos enunciadores. Enquanto o convidado ou o jornalista desenvolve seu pensamento, as três câmeras do Roda Viva, situadas no nível da arquibancada, o capturam em plano americano, deixando visíveis as mãos, a fim de mostrar a gesticulação que complementa a fala73, e a bancada, que exibe as anotações e documentos dos entrevistadores. O quadro fechado no falante e o corte seco do enunciador para o enunciatário criam um efeito de proximidade entre os falantes e o telespectador. Poucas vezes a câmera do Roda Viva não focaliza o enunciador que está com a palavra, mas quando o faz é sempre para mostrar atividades que evoquem uma postura de atenção e reflexão: o interlocutor assentindo com a cabeça enquanto o convidado fala, a platéia registrando a entrevista no twitter, as charges de Paulo Caruso. Por meio desse jogo de enquadramentos, o Roda Viva cria, por meio dos recursos da linguagem televisiva, um discurso do programa, discurso este que envolve o uso da imagem articulado com o que está sendo dito. A equipe de edição e os diretores aparecem, também, como mediadores na construção do programa para a audiência, usando a articulação imagem/som, característica do telejornalismo, para elaborar um discurso próprio do programa. Quando o entrevistado afirma que as crianças são ingênuas para discernirem o conteúdo da internet, uma charge de Paulo Caruso, que ilustra uma criança na frente de um computador, satiriza as posições do convidado, mostrando-a como uma marionete. Quando Valdemar Setzer fala sobre impedir o acesso aos sites, a câmera do Roda Viva mostra uma twitteira, em primeiro plano, digitando um texto na internet. A câmera vai abrindo o quadro e fazendo uma pan até que se veja todo o cenário do programa a partir do ponto de vista da participante 73 A exibição da gesticulação confere maior autenticidade à conversa pois remete às práticas da vida cotidiana. 119 conectada à internet. A imagem demonstra o lugar privilegiado que ela possui para observar aquela cena e relatá-la aos demais participantes que não estão presentes no programa, o que lhe confere legitimidade para construir suas idéias. Sendo assim, o Roda Viva apresenta, nesse momento, um contra-discurso ao do entrevistado, de que a internet pode ser usada com fins produtivos, como o programa busca fazer. Figura 09: construção narrativa da conversação pelos recursos da linguagem televisiva Lílian Witte Fibe: Professor, o senhor então falava, antes do intervalo, e a sua resposta foi abruptamente interrompida pela nossa necessidade de intervalo, sobre internet. E eu queria só acrescentar: assim como tudo na vida, não dá para fazer da internet... separar o que é bom nela do que é ruim? Como, por exemplo, nos canais de televisão? Como, por exemplo, entre os bons e os maus professores? As escolas péssimas que a gente sabe que tem e as boas escolas? Não dá para fazer isso? Valdemar Setzer: Claro! Claro que dá! Mas para isso é preciso ter discernimento. É preciso ser adulto. Se uma criança tem discernimento, se os adultos acham: “não, vamos colocar a criança pra ver televisão, para usar a internet porque assim ela vai desenvolver o senso crítico...” [...] Eu disse antes do intervalo que a internet é extremamente perigosa. Por quê? Porque a criança sendo ingênua está sujeita a depredadores, a fornecer informações pessoais dela e da família... [...] 120 Vai sair um livro no ano que vem, se não me engano é da editora Nova Fronteira, com a tradução que eu dei um parecer muito favorável, a editora me pediu, de Gregory Smith, traduzindo a português se diria: “Como proteger seus filhos na internet”. Aí eu peguei e escrevi um artigo: “Como proteger seus filhos da internet”! Ele [...] não tem coragem de ir até as últimas consequências e dizer: “Olha, a internet simplesmente não é para criança”. E lhe dá uma porção de recomendações que eu posso passar para os pais. Primeiro lugar: internet não é para criança. Na minha opinião, ele não chega a tanto. De modo que a minha recomendação – e eu já dou a minha logo de cara – é que, se um pai acha necessário, e eu acho que não é, mas se um pai acha que a internet é útil para uma criança ou pra um adolescente, ele tem que ficar ao lado. Não pode deixar usar sozinho porque é extremamente perigoso. A quantidade de crimes que tão acontecendo... São enormes... Apareceu há pouco... Ah! Houve no Rio de Janeiro um congresso agora e eu tenho um artigo emitido pelo ministério alemão, que foi me mandado pela minha amiga Rute propondo que todos os países se ajudem para proteger as crianças da internet. Como? Filtrando. Impedindo acesso aos sites. Esse ministério não teve coragem de chegar e dizer: “Internet não é pra criança! E se for, o pai tem que ficar junto porque vai dar problema”! 121 Não em todos os casos, evidentemente, mas a quantidade de problemas que tá dando é muito grande. O Gregory Smith chama atenção da ingenuidade de todas as crianças e adolescentes [...]. Fonte: edição de 1º dez. 2008 3.4. Transformações na arena Em seus mais de vinte anos, o Roda Viva orgulha-se pelas mais de mil entrevistas realizadas que retratam “momentos e fatos importantes das mais diversas áreas do conhecimento: artes, política, economia, cultura, esportes, educação e saúde” (TV CULTURA, 20 abr. 2009). Essa história e a credibilidade alcançada ao longo dos anos não permitiram, porém, que o programa se estabilizasse numa estrutura perene. Ao contrário, o próprio Roda Viva, enquanto espaço midiático, promove modificações com vistas a acompanhar as transformações sociais e as expectativas do público. Nesse sentido, duas mudanças significativas têm implicações na construção do programa e merecem ser enfatizadas: a exploração dos aspectos pessoais do entrevistado e a ênfase na interatividade por meio das novas tecnologias. O Roda Viva sempre se calcou nos aspectos relacionados à vida pública de seus entrevistados, rechaçando uma construção de sua credibilidade por meio de um vínculo íntimo entre os participantes da conversação posta em cena. No entanto, quando o centro da arena é ocupado por um personagem que tem boa aceitação popular, o Roda Viva explora certos elementos de sua vida pessoal que não necessariamente têm a ver com a carreira e a atuação social que o levou para o programa. Contrariamente ao que acontece com a esfera política, a qual o programa trata com desconfiança, quando os personagens que ocupam o centro da roda são agentes promotores da cultura e da cidadania, agentes que fazem o país melhor, que promovem uma projeção positiva do Brasil no mundo, eles são tomados como parâmetro de conduta e de ação social, e sua biografia é usada como exemplo para os telespectadores. Lillian Fibe: Witte Wagner, falando em família, um assunto que a gente acabou não abordando aqui é a tua admiração pelo teu pai. Queria que você contasse a história dele. Você fez um filme por causa dele e, para minha surpresa, lendo aqui sobre tua vida, o teu pai, uma pessoa simples como é, fez questão de se formar em 122 Wagner Moura: direito e ficou preocupado com a educação. Você tem uma irmã médica? Tenho uma irmã médica. Lillian Witte Os dois são formados em curso superior? Conta isso? Fibe: Meu pai era um desses sertanejos que vêm em pau-de-arara, aquele caminhão Wagner Moura: que tem as tábuas, do sertão até o Rio, fazer essas coisas que os nordestinos fazem: garçom, porteiro e tal. A história dele foi essa, fez essas coisas todas, entrou para as forças armadas, virou sargento da Aeronáutica. Casou-se com minha mãe, que também é sertaneja, de Rodelas. Eu e minha irmã nascemos e ele estudava direito, sempre foi um homem inteligente [...]. Lillian Witte Vocês estudaram em escola particular? Fibe: Lillian Witte Sua irmã é médica de que especialidade? Fibe: Minha irmã é uma louca, porque ela trabalha na UTI pediátrica. Wagner Moura: Lillian Witte Onde? Fibe: Em Salvador. Wagner Moura: Lillian Witte Hospital privado? Fibe: Ela dá plantões em vários hospitais diferentes em UTI pediátrica, é uma coisa Wagner Moura: muito louca. Às vezes, ela me liga do plantão e eu digo: "e aí, como estão as crianças?”. E ela diz: “As crianças nunca estão bem”. [...] Nina Lemos: Como foi para sua família - uma filha médica, seu pai advogado - o filho que tinha uma banda de rock e virou ator? Wagner Moura: Eu não acredito que, na época, tenha sido o sonho da vida do meu pai. Fui criado para ser um garoto incrível, era bom aluno, tirava boas notas, mas não estava nos sonhos dele eu ser ator. Mas, por outro lado, ele é um homem muito sensível e nunca se opôs. Quando eu resolvi fazer jornalismo, já vi que para ele não era... [risos]. Ele queria que eu fosse um médico, um advogado. No interior tem muito essa mentalidade de que a carreira é a de engenheiro, dentista e tal. Aí eu não fui um bom moço [risos]. (Edição de 29 set. 2008) A insistência da apresentadora para que o ator fale sobre sua biografia revela uma mudança no enfoque do programa, que passa a usar a vida pessoal dos entrevistados para estreitar laços de proximidade com a audiência. Por outro lado, enfraquece o programa do ponto de vista da promoção de um debate, pois a vinculação com a biografia do ator não pretende a formulação de um argumento, ela entra como dado curioso. Embora o emprego de perguntas intimistas possa direcionar o programa ao tratamento de questões sociais mais amplas (“durante, praticamente, toda sua vida política, a senhora apostou num projeto do PT, e na candidatura do presidente Lula, na eleição do presidente Lula como, vamos dizer assim, forma de 123 viabilizar tudo isso que a senhora está defendendo hoje. E, há dois anos, houve este rompimento. Eu não acredito que tenha sido unilateral, quer dizer, a senhora não saiu, foi expulsa, mas não foi unilateral, foi expulsa porque se insubordinou à orientação do PT. Mas esse processo deve ter sido uma coisa longa, dolorosa. A senhora poderia falar um pouco disso, como foi esse rompimento, essa decepção?”, Luiz Carlos Azedo para Heloísa Helena, em 12 jun. 2006), no caso da biografia de Wagner Moura, ela se esgota em si mesma, não servindo nem mesmo para levar o público a compreender suas opções como ator. Para Mark Deuze, o jornalismo contemporâneo caminha para o confronto com dois aspectos emergentes que podem modificar sua forma de produção: o multiculturalismo74 e a multimidialidade. Segundo o autor, a combinação das técnicas de controle do conjunto de notícias e transmissão das histórias em todos os formatos midiáticos [...], assim como a integração de tecnologias digitais de transmissão combinadas com a reconcepção da relação entre produtor e consumidor das notícias tende a ser um dos maiores desafios encontrados pelos estudos do jornalismo e seu ensino no século XXI75 (DEUZE, 2005, p. 451). É notável, contemporaneamente, que boa parte dos programas televisivos possui um site na internet que fornece informações básicas sobre pauta e programação, permite a recuperação de vídeos e, em alguns casos, possibilita a interação com a audiência. Assim, o ato de assistir a um programa televisivo não se restringe à recepção televisiva, mas envolve a relação com outras mídias que o complementam. No Roda Viva, o uso de tecnologias tem ampliado as possibilidades receptivas para, cada vez mais, incluir o público na conversa. Uma das características mais marcantes do Roda Viva, desde seu surgimento, foi a possibilidade de constituir-se num fórum público dos assuntos permitindo que a audiência tivesse voz no interior do programa. Segundo a revista Veja de 25 fev. 1987, além de perguntas gravadas previamente, o Roda Viva permitia que os telespectadores fizessem perguntas ao vivo por telefone. Assim, o semanário da TV Cultura sempre possibilitou que os telespectadores também tivessem acesso aos atores sociais presentes em sua arena por meio 74 Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”. No original: “The combination of mastering newsgathering and storytelling techniques in all media formats […], as well as the integration of digital network technologies coupled with a rethinking of the news producerconsumer relationship tends to be seen as one of the biggest challenges facing journalism studies and education in the 21st century”. 75 124 de telefone, fax e e-mail, à medida que as tecnologias de comunicação progrediam. Na versão anterior a 2008, o público era representado no programa por meio da platéia, formada por estudantes universitários, jornalistas, advogados, representantes de partidos e de sindicatos que assistiam ao debate, sem direito à palavra. Ao final de cada bloco, a platéia era apresentada e exibida à audiência. Além disso, o programa gravava um VT com perguntas de pessoas comuns em locais públicos, de modo que a audiência, de fato, tivesse voz e lançasse suas preocupações aos convidados do programa. A representação do povo incluía taxistas, cabeleireiras, professores, representantes comunitários que apareciam creditados durante a transmissão do Roda Viva. Essa tentativa de representação popular no interior do contexto discursivo do programa visava sustentar a proposta de um jornalismo público, mas também obedecia uma seleção por parte da produção do programa. Sendo assim, não era qualquer pessoa que entrava na platéia do Roda Viva, mas aquelas que possuíam alguma relação com o convidado. Na entrevista com Heloísa Helena, um dos participantes da platéia foi o deputado federal pelo PSOL de São Paulo, e uma dos entrevistados que falavam do exterior do programa era o líder comunitário de São Paulo, Vanildo Moreti. Embora não tenha visibilidade midiática, os interesses do líder comunitário convergem para as propostas da entrevistada do dia. Sendo assim, há um processo seletivo de quem participa e quem não tem direito a voz no Roda Viva. Os membros da platéia não se engajam no debate, cabendo-lhes o papel de espectadores da conversa. Figura 10: o público no Roda Viva Fonte: edição de 12 jun. 2006 Em 2008, as formas de inserção da audiência no programa sofreram modificações que, se por um lado foram otimizadas, por outro ampliaram a lacuna existente entre a emissão e seu público. Ao invés de exibir as próprias pessoas fazendo suas perguntas, o Roda Viva adicionou à bancada de mediadores uma repórter da TV Cultura responsável por ler as 125 perguntas que os telespectadores enviam por e-mail ou fax. Sendo assim, o programa midiatiza a voz da audiência, que não possui acesso direto à conversa. Na edição de 1º dez. 2008, a jornalista Carmem Amorim foi responsável pelo contato do público com o programa: “eu tenho uma pergunta aqui, aliás duas, do C.H., de Anápolis, Goiás, que pede para o senhor fazer um comentário sobre o impacto da lan house na vida das crianças e adolescentes, né. E o que o senhor acha das redes sociais: orkut, por exemplo, qual é o impacto que essas redes podem ter na vida dessas crianças e adolescentes” (a Valdemar Setzer). Assim, não é a pessoa comum que se engaja no debate promovido pelo programa, mas um representante do campo jornalístico que lhe dá voz. Por outro lado, o site do Roda Viva na internet permite aos usuários acessar os bastidores do programa – reportagens feitas com os entrevistadores sobre suas expectativas do debate -, assistir ao programa na web, enviar perguntas, participar de um bate-papo durante a transmissão e acompanhar a produção das charges. Assim, o próprio telespectador do programa pode obter mais informações sobre os assuntos e o convidado, o que lhe coloca numa posição mais autorizada no debate, buscando informação para formar sua opinião por vários canais. As mensagens partilhadas via twitter pelos participantes na platéia do estúdio corroboram para promover um debate no âmbito social, fora dos limites televisivos, embora fomentado por eles. Sendo assim, o Roda Viva amplia sua atuação e permite que se crie uma comunidade de interesses aduzida pela conversação que o programa põe em cena. Figura 11: página de abertura do site do Roda Viva Fonte: http://www.iptvcultura.com.br/rodaviva/index.html, capturado em 11 mai. 2009 126 Desta maneira, o Roda Viva aposta na convergência para alcançar uma audiência mais vasta e confirmar o lugar de debate público que reivindica na construção de seu estilo. Os ideais de participação e inclusão do público, que reforçam aspectos democráticos, são lançados para o espaço virtual, que permite liberdade de acesso para participantes diversos, mas com alcance reduzido. O privilégio pelo uso da internet em detrimento da transmissão televisiva se manifesta, também, na mudança do horário de transmissão do programa, que acontece às 17 horas, ao vivo, pela internet, sendo a versão televisionada exibida no horário habitual, mas gravado, rompendo com um dos padrões de legitimidade do jornalismo: a transmissão direta. Essas mudanças na arena apontam para transformações que o programa efetua no subgênero. O Roda Viva é o programa de entrevistas há mais tempo em exibição no país. Por conta disso, ele preserva certos elementos ao mesmo tempo que inova outros, efetuando um avanço no subgênero. A exibição, desde sua estréia, às segundas-feiras na faixa horária noturna, a conservação do cenário nos mesmos moldes, a proposta de um “debate vivo”, como salientou a revista Veja de 25 fev. 1987, são elementos que criam familiaridade do programa com a audiência e, de certo modo, dão um sentido de estabilidade, conservando os aspectos que asseguram a qualidade do programa em todos esses anos. Por outro lado, o Roda Viva não deve ser compreendido como se estivesse estático, pelo contrário: ele adapta-se para incorporar o novo: a nova tecnologia, as novas formas de incluir a audiência, os novos personagens da cena pública. Essas inovações promovem um retorno ao nome do programa, à vivacidade da roda, que permanece ativa, se reconfigurando em torno do novo. 127 4. ANÁLISE DO JORNAL DAS DEZ: 24 HORAS DE NOTÍCIAS NO AR Em 1996, o Brasil assistiu à estréia do seu primeiro canal voltado inteiramente para notícias. Inspirado, principalmente, no modelo da norte-americana CNN (Cable News Network), o grupo Globosat estreou no dia 15 de outubro de 1996 a programação da Globo News, “o primeiro canal de notícias 24 horas no ar”, como salienta o site da emissora. A idéia de formar a primeira emissora de jornalismo do país encontrou um cenário favorável no mercado nacional de televisão por assinatura que, na década de noventa, estava em crescimento. A Globosat já possuía os canais Telecine (de filmes), GNT (de assuntos gerais), Multishow (de música) e Sportv (de esportes) quando os diretores da rede Globo reuniram a equipe que cuidaria de formar o novo canal das organizações Globo. Segundo a então superintendente-executiva da rede Globo, Marluce Dias da Silva, a primeira equipe responsável pelo novo canal, que ainda não possuía nome ou programação, definiu em primeiro lugar as bases do que deveria ser o jornalismo da emissora: “quando se pensava em canal de notícias, o modelo era o hard news. Uma de nossas primeiras decisões indicava que nosso produto seria diferente: o telespectador teria análises profundas e debates” (GLOBONEWS, 2006, p. 31). Assim, o canal de notícias da Globo intercalava telejornais de meia em meia hora (o Em Cima da Hora) com reprises dos programas da TV Globo (Jornal Hoje, Bom Dia Brasil, Globo Rural, Fantástico, Globo Repórter, Pequenas Empresas & Grandes Negócios, Jornal Nacional) e um programa de entrevistas diário que “constituiria o fórum de discussão diário de temas variados” (GLOBONEWS, 2006, p. 45), o Espaço Aberto. Também se definiu, nesse momento, o telejornal que seria o carro-chefe da emissora no final da noite: o Jornal das Dez. Ainda na fase de concepção da Globo News, o nome dado ao telejornal era Nacional News, cuja proposta era efetuar análises, comentários e entrevistas a partir das reprises das matérias do Jornal Nacional. O grande diferencial do Jornal das Dez, porém, parecia ser as entrevistas, que tinham como objetivo “discutir o principal assunto do dia com o principal personagem” (GLOBONEWS, 2006, p. 224). E foi com essa proposta que o Jornal das Dez foi ao ar na estréia da Globo News, no dia 15 de outubro de 1996, levando para o estúdio o então Ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan. A entrevista versava sobre seu pacote de 128 medidas econômicas para reduzir o défict público que não havia sido discutido pelo Congresso Nacional, anunciado quatro dias antes da exibição do telejornal. O uso das entrevistas para aprofundar os assuntos dos telejornais já vinha sendo praticado desde os anos 1980. O Jornal das Dez, porém, oferece mais tempo para a discussão dos assuntos com os convidados e com jornalistas especializados que respondem às perguntas dos apresentadores. Com cinquenta e cinco minutos de exibição, o telejornal da Globo News possui estúdios no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Nova Iorque, locais de onde as notícias são transmitidas e comentadas por apresentadores, repórteres e especialistas. O horário avançado de exibição o coloca numa posição privilegiada para fazer a avaliação dos principais fatos do dia e, ao mesmo tempo, oferecer um prognóstico do que será notícia no dia seguinte. É com base nessas características que o Jornal das Dez efetua seu modo de endereçamento que será analisado neste capítulo a partir das edições de 17 a 22 de novembro de 2008. 4.1. As notícias no fim da noite Desde a estréia do Jornal das Dez, sua promessa é apresentar à audiência “um jornal de fim de noite com notícias mais aprofundadas” (GLOBONEWS, 2006, p. 226). Por conta disso, a abordagem do telejornal carro-chefe da Globo News não se resume a um panorama das principais notícias do país e do mundo, mas elas passam por uma seleção a partir da qual será possível promover o aprofundamento prometido na proposta de jornalismo da emissora. Inicialmente, buscava-se uma unidade temática entre os dois telejornais carros-chefes da rede Globo – o Jornal Nacional e o Jornal das Dez - dando um sentido de continuidade da programação e aprofundamento, uma vez que o Jornal Nacional se propunha a uma abordagem panorâmica dos assuntos, enquanto o Jornal das Dez efetuava os comentários e entrevistas com especialistas. Entretanto, com o passar do tempo, o Jornal das Dez foi, não apenas estabelecendo uma pauta própria, como também especializou sua equipe de reportagem, buscando construir uma identidade temática independente do telejornal do horário nobre da Globo. Assim, o Jornal das Dez aproveita pouco do que é agendado pelo Jornal Nacional e, quando o faz, é a partir de um enquadramento próprio que diferencia os dois telejornais e oferece ao telespectador um pacto sobre o papel do jornalismo diferenciado. Na edição de 19 nov. 2008, por exemplo, 129 apenas oito assuntos foram semelhantes nos dois telejornais: ameaça da Al-qaeda a Barak Obama, reconstituição do seqüestro de Eloá, aprovação da reforma tributária, a posição contrária do Senado quanto à medida provisória que ajuda instituições filantrópicas, a defesa do banqueiro Daniel Dantas à Justiça, o indiciamento de dez pessoas pelo acidente com a empresa aérea TAM, a morte de uma mulher em Guarulhos, a semana do empreendedorismo e a astronauta que perdeu uma mala de ferramentas no espaço. Ao mesmo tempo que o Jornal das Dez se pauta pelo Jornal Nacional para o estabelecimento de sua agenda, ele procura diferenciar-se oferecendo ao telespectador um produto novo, reconfigurado a partir da proposta de aprofundamento. Apesar de trazer notícias sobre diversos assuntos, normalmente apresentadas por André Trigueiro nos últimos blocos, a marca central do Jornal das Dez e o aspecto que define sua relação com a audiência é o tratamento que o telejornal oferece às notícias provenientes da esfera pública habermasiana e a conversação é a estratégia empregada para constituir essa relação. A vinheta do programa exibe imagens representativas dos principais assuntos que podem ser encontrados no programa: ciência e tecnologia (imagem de um DNA), economia (pessoas trabalhando e um trator arando a lavoura), política (o Congresso Nacional), meio ambiente (um animal em seu habitat). Essas imagens são exibidas como se estivessem numa tela, e passam rapidamente uma após a outra, sendo acompanhadas por uma trilha musical também acelerada, sugerindo que o programa acompanha a velocidade dos acontecimentos. Ao final da vinheta, o telespectador vê que as telas que trazem esses assuntos na vinheta é a tela que compõe o zero do “J10”, logotipo do programa, como se o Jornal das Dez fosse o lugar de interpretação das notícias para o telespectador. A ênfase, portanto, não é tanto no acontecimento em si, em levar o público a conhecer algo que ele ainda não sabe, mas na releitura dos acontecimentos que o telejornal busca promover. As “notícias mais aprofundadas” transitam entre as duas editorias centrais do Jornal das Dez: política e economia. São esses temas que recebem informações complementares por meio da interpretação dos especialistas e é por esse aprofundamento que o Jornal das Dez se diferencia dos demais telejornais e o posiciona na grade de programação como espaço privilegiado para a interpretação dos acontecimentos. A promessa do aprofundamento busca materializar-se por meio de duas estratégias: a exploração do mesmo assunto a partir de pontos de vista e implicações diferenciados, e os comentários dos especialistas e de jornalistas 130 dispersos em diversas regiões, que se justificam no programa pelo tratamento de uma área temática específica. Figura 12: vinheta do Jornal das Dez Fonte: edição de 17 nov. 2008 Sobre o primeiro aspecto, o Jornal das Dez não oferece o simples relato dos acontecimentos em uma matéria ou reportagem, mas busca tratá-lo a partir das diversas dimensões que o envolvem. No período analisado, um dos principais assuntos foi a crise econômica mundial. Na edição de 17 nov. 2008, por exemplo, foram desdobramentos da crise econômica a reunião de Barak Obama, presidente recém-eleito dos Estados Unidos, com seu principal rival, o republicano John McCain, propondo uma ação conjunta de combate à crise; as decisões do secretário do tesouro norte-americano; a experiência de um brasileiro que morava nos Estados Unidos durante a crise; o aumento dos pedidos de falência; a crise econômica na Europa e no Japão e a posição do governo brasileiro sobre a economia local durante a crise. O telejornal buscava levar ao telespectador os elementos factuais, marcados por um relato que busca descrever o que estava acontecendo, fazer o telespectador compreender o problema econômico a partir de uma dimensão pessoal através da experiência de alguém que viveu o problema abordado, e as complementações realizadas pelos especialistas. 131 Os aspectos factuais vinculam o Jornal das Dez ao subgênero telejornal a partir das convenções tradicionais que definem os modos de escritura e de leitura, permitindo que a audiência o reconheça e o interprete a partir da familiaridade com a gramática deste subgênero. O programa da Globo News busca levar ao telespectador informações básicas e atualizadas que lhe permitam compreender o fenômeno narrado: Lília Teles (nota coberta): O futuro presidente Barak Obama disse que os dois [ele e John McCain] iam conversar sobre como trabalhar juntos para o país. Obama foi cordial e disse que McCain merece agradecimentos pelos serviços prestados à nação. John McCain garantiu que pretende ajudar o presidente eleito, tom bem diferente do usado no fim da campanha para atacar o então candidato democrata. Obama foi acusado pelos republicanos de ser um socialista envolvido com terroristas de esquerda e até de agir como uma celebridade e não estar preparado para governar (...). No fim do encontro de hoje os dois disseram que planejam trabalhar juntos para superar os grandes desafios atuais, como a crise financeira, a necessidade de criar uma nova política energética e defender o país do terrorismo. (Edição de 17 nov. 2008) A humanização do relato, por sua vez, aciona uma dimensão de storytelling (EKSTRÖM, 2003), por meio da qual o telespectador é capturado pela emoção, promovendo uma vinculação da audiência com a temática por meio do sentimento de partilha e de se colocar no lugar do outro. O uso da humanização do relato no Jornal das Dez, porém, tem uma finalidade explicativa que se complementa à emocional despertada pela história de vida de uma pessoa comum. Sendo assim, o telejornal efetua uma ampliação da proposta de Ekström (idem) ao buscar a instrução do telespectador sobre algo que ele não conhece, mas por meio da empatia, da identificação e da empolgação com a história. A edição de 17 nov. 2008 trouxe uma reportagem realizada pelo correspondente Jorge Pontual com um brasileiro que foi para os Estados Unidos em busca de melhor qualidade de vida e acabou falindo por conta da crise econômica. Para relatar a experiência de Edson João, o repórter Jorge Pontual escolheu uma estrutura dramática para orientar sua reportagem: a) Apresentação do personagem: Jorge Pontual (off): Edson João Malanski veio do Paraná para os Estados Unidos há oito anos para tentar a sorte como músico. Chegou a lançar um CD com o pseudônimo de Ed John. Mas foi no mercado imobiliário que ele buscou o sonho americano: ficar rico em pouco tempo [...]. b) Introdução do conflito: 132 Jorge Pontual (off): Com a mulher, brasileira de Goiânia que ele conheceu aqui, Edson deu entrada numa casa pagando apenas quinze mil dólares. Era 2002, o ano em que começou a bolha do mercado imobiliário. Era fácil conseguir financiamento. O casal continuou a comprar casas aqui e numa cidade vizinha, Elizabeth. Em pouco tempo, Edson e a mulher comandaram um império imobiliário. Sem desembolsar um tostão e em muitos casos com financiamento de 100% dos bancos, tornaram-se proprietários de trinta casas. Nelas, alugaram setenta apartamentos e chegaram a ter renda mensal de cem mil dólares, o que dava para pagar as prestações das trinta casas e ficar com o lucro [...]. c) Clímax: Jorge Pontual (off): Em 2006, as coisas começaram a complicar. Os impostos subiram e os juros também. Edson tentou vender algumas das casas, mas os preços entraram em queda. Edson João (sonora): O primeiro problema que eu percebi foi quando eu quis vender algumas propriedades. Eu percebi que para você vender não era da mesma maneira que eu tinha comprado [...]. Aí eu percebi que alguma coisa não estava certa. Jorge Pontual (off): Este ano, eles pararam de pagar as prestações e os bancos, por falta de pagamento, pegaram algumas casas de volta [...]. Há dois meses, o casal, já separado, entrou na justiça com pedido de concordata. Eles já perderam metade do patrimônio e o resto irá a leilão para pagar as dívidas. Edson, que entrou no mercado imobiliário com quase nada, agora deve oito milhões de dólares. d) Solução: Jorge Pontual (off): Mas ele está confiante. Vai passar os próximos meses renegociando a dívida para limpar o nome da praça. Edson João (sonora): Eu não sou o primeiro. Se fosse só comigo que estivesse acontecendo eu ia pensar: “o que é que eu fiz de errado?”. Mas como a gente vê, a história é de milhões e milhões de pessoas [...]. e) Desfecho: Jorge Pontual (off): A história de Edson é emblemática do delírio que tomou conta do mercado imobiliário nos Estados Unidos nos últimos anos e terminou com a quebra do sistema financeiro armado em cima desse castelo de cartas. O cassino imobiliário permitiu que um brasileiro quase sem recursos se tornasse dono de setenta imóveis. O sonho durou apenas quatro anos, mas Edson aprendeu muito. Descobriu que leva jeito para os negócios e quer começar de novo. (Edição de 17 nov. 2008) A promessa de aprofundamento das notícias se complementa pela inserção de jornalistas especialistas, cujo papel é fornecer uma interpretação dos principais acontecimentos da edição. A fala dos especialistas é relacionada a uma área específica de atuação, em especial, 133 política, economia e internacional (que oferece uma leitura sobre os principais acontecimentos do exterior, mas também a partir de um enquadramento que valoriza o político e o econômico) e é por meio da conversação que eles são acionados no programa. Ainda sobre o tema “crise econômica”, o Jornal das Dez contou com a participação de Carlos Alberto Sardenberg, especializado em economia, para levar dados estatísticos e explicações mais amplas sobre a economia brasileira e a relação com outros países: Carlos Alberto Sardenberg, Estados Unidos, Europa e Japão em recessão. A gente vai exportar para quem ano que vem, hein Sardenberg? Carlos Alberto Pois, é. É um problema, né? Você sabe que, por exemplo, 40% das exportações brasileiras vão para Estados Unidos e para o conjunto da Europa. Mais um tanto Sardenberg: para o Japão. Então você vê que mais da metade da exportação brasileira está afetada pela crise nos países... desenvolvidos. Esse é o problema e esse é o modo pelo qual a crise chega ao Brasil, pela via do comércio. Um dos modos. O outro é pela via do crédito. Mas esse pela via do comércio é muito importante porque nos últimos anos, de 2002 para cá, especialmente, as exportações brasileiras cresceram muitíssimo. Tiveram um crescimento muito forte. O Brasil cresceu não apenas em mercados tradicionais, como se ampliou para outros mercados. Hoje, por exemplo, a notícia dizendo da queda das exportações para a Rússia, que se tornou um freguês... é... importante. Então, esse é o modo... esse é um dos modos principais como a crise internacional chega ao Brasil: pela queda no ritmo das exportações. Carla Lopes: (Edição de 17 nov. 2008) A participação do especialista, portanto, não está tão vinculada à sua opinião - embora ela possa ser emitida quando fundamentada em dados mais concretos -, ou ao um julgamento moral da sociedade e das instituições. A credibilidade do jornalista especialista presente nos estúdios do Jornal das Dez se constrói pelo acesso a informações privilegiadas estabelecido em sua trajetória. Para compreender o papel dos especialistas no Jornal das Dez é preciso pensar sua relação com os demais mediadores do programa. 4.2. Polifonia e unicidade Os mediadores do Jornal das Dez são apresentadores, especialistas - mais diretamente envolvidos com as conversações - e repórteres. Apesar das distinções de papéis, fica evidente a construção de um trabalho em equipe, que é ressaltado desde a escalda do programa. Num jogo de imagens que intercalam os mediadores e os assuntos tratados, o Jornal das Dez convoca o telespectador a reconhecer os lugares discursivos dos principais agentes e a criar uma expectativa sobre o que será abordado com devido destaque pelo telejornal, como se pode ver na escalada abaixo: 134 Figura 13: escalada do Jornal das Dez André Trigueiro: Boa noite! Eu sou André Trigueiro e o Jornal das Dez está começando com os seguintes assuntos em destaque: André Trigueiro: A inflação despenca nos Estados Unidos. O índice de preços ao consumidor teve a maior queda mensal em mais de sessenta anos. André Trigueiro: E em tempo de crise, aumenta a procura por cupom de desconto. André Trigueiro: Pesquisas indicam que 90% dos consumidores americanos estão usando cupons para economizar. [...] 135 André Trigueiro: O governador de São Paulo esteve hoje em Brasília reunido no Palácio do Planalto. Carlos Monforte. Carlos Monforte: Mas o conteúdo do encontro virou segredo de estado por causa das pressões da Comissão de Valores Mobiliários. João Borges. João Borges: O principal assunto da reunião do governador José Serra com o presidente Lula e o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi também o mais evitado na entrevista do governador e o Ministro: a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. Carlos Monforte: A gravação da reunião entre o delegado Protógenes Queiroz e diretores da Polícia Federal já está com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Mônica Carvalho. 136 Mônica Carvalho: A defesa do banqueiro, que chegou a ser preso na operação Satiagraha da Polícia Federal em julho, quer que o coordenador da investigação, o delegado Protógenes Queiroz, e o diretor geral da Agência Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda, sejam ouvidos novamente pelo juiz Fausto Decentes.[...] André Trigueiro: Você vai acompanhar uma reportagem especial sobre os dez anos da Estação Espacial Internacional. Na véspera do aniversário, um pequeno acidente: a astronauta deixou escapar das mãos uma maleta com ferramentas, que foi para o espaço. [...] André Trigueiro: Daqui a trinta segundos. Fonte: edição de 19 nov. 2008 A escalada é o primeiro contato da audiência com o Jornal das Dez. Antecede, inclusive, a vinheta, e é por meio dela que o programa busca atrair sua atenção e criar familiaridade com os atores responsáveis por levar as informações para os telespectadores. Em alguns casos, os apresentadores anunciam a presença dos jornalistas especialistas ou de convidados externos ao programa para comentar os assuntos, como se fosse uma atração (EKSTRÖM, 2003): “Merval Pereira comenta” (19 nov. 2008), “Será que esses nomes são bons para o Brasil [a 137 indicação de Timothy Geithner e Hillary Clinton para os cargos de secretário do tesouro americano e secretária de Estado, respectivamente]? O embaixador Roberto Abdenur responde” (22 nov. 2008). Ao exibir, desde o início da emissão, os mediadores responsáveis pela construção da informação, o Jornal das Dez permite notar uma complementaridade no trabalho da equipe do telejornal que se compromete em levar ao telespectador uma unicidade entre os mediadores que se traduz, durante todo o programa, nas interações entre eles. São três os apresentadores do Jornal das Dez: do Rio de Janeiro, André Trigueiro é o condutor principal do programa, que estabelece contato com o telespectador na abertura e encerramento do jornal; de São Paulo, fala a jornalista Carla Lopes e, de Brasília, o jornalista Carlos Monforte, responsável pelas notícias de política. Segundo Henrique Lago, um dos primeiros editores-chefe do programa, os apresentadores não são leitores de notícias. Eles são âncoras com participação ativa nas entrevistas. Discutimos os assuntos antes de o jornal ir ao ar, mas eles têm liberdade para fazer as próprias perguntas. Eventualmente, o convidado está falando, o Trigueiro me avisa „quero contestar‟ e eu sei que posso abrir o microfone para ele. (GLOBONEWS, 2006, p. 229) André Trigueiro ocupa a função de mediador principal, diferenciado-se dos demais pelo contato inicial com a audiência. Desde a estréia do telejornal, Trigueiro é o rosto do Jornal das Dez e é quem distribui a palavra inicialmente, organizando os assuntos no programa. Antes de sua atuação no programa, André Trigueiro era repórter da editoria Rio, da rede Globo. É também apresentador do programa Cidades e Soluções, estreado na Globo News em 2006, que tem como objetivo discutir iniciativas para problemas urbanos sem a intervenção de políticas públicas. É na questão ambiental, porém, que Trigueiro possui maior atividade, sendo autor dos livros “Meio ambiente no século 21”, “Mundo sustentável” e “Manual de comunicação e meio ambiente”. O estúdio de São Paulo do Jornal das Dez já foi comandado por Lílian Amarante, Guto Abranches, Zelda Mello, Veruska Donato. Durante o período analisado, a jornalista Carla Lopes76 fez as vezes de apresentadora, sendo responsável, também, pelos diálogos com os jornalistas especialistas presentes no estúdio. Carla Lopes também apresenta notícias que se 76 A jornalista Mônica Waldvogel é quem faz a ancoragem do Jornal das Dez em São Paulo atualmente. 138 passam em São Paulo, ainda que não haja vinculação com economia, como as informações sobre violência urbana, meteorologia entre outras. Um dos mediadores mais importantes do Jornal das Dez é o jornalista Carlos Monforte, apresentador situado em Brasília que introduz os assuntos de política, remetendo à sua trajetória no telejornalismo. Monforte iniciou sua carreira no jornal A Tribuna, de São Paulo, passando, posteriormente, para a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras do Estado de São Paulo. Entre 1973 e 1978, foi repórter especial do jornal O Estado de São Paulo, de onde saiu para trabalhar na TV Globo, como repórter dos programas Jornalismo eletrônico, Jornal Nacional e Fantástico. Em 1982, assumiu a editoria de política do Jornal da Globo e, no mesmo ano, tornou-se editor e apresentador do Bom Dia São Paulo. No ano seguinte, Monforte estreou o telejornal Bom Dia Brasil, onde ficou por nove anos e estabeleceu boa parte de sua credibilidade na cobertura política. Incorporando a inovadora proposta do Bom Dia Brasil, Carlos Monforte não apenas apresentava as notícias, mas realizava entrevistas com representantes do campo político, que possuíam mais tempo para construir seu raciocínio77. Foi nesse momento que Carlos Monforte ganhou reconhecimento dos pares do campo jornalístico e entre os políticos que entrevistava. Segundo a revista Veja de 18 de fevereiro de 1987, o ex-senador Afonso Camargo (governo José Sarney) definiu o apresentador como um “entrevistador muito ágil” e o ex-Ministro da Fazenda, Dilson Funaro, o caracterizou como “competente e seguro”. Ainda como apresentador do Bom Dia Brasil, Monforte cultivou o hábito de freqüentar o Palácio do Planalto e o Congresso a fim de encontrar notícias e convidados para seu programa. Por conta disso, Monforte ganhou credibilidade para tratar de assuntos dessa esfera, o que faz, atualmente, no Jornal das Dez. Carlos Monforte é responsável pela apresentação de notícias de política - voltada para o centro de decisões e as instituições correlacionadas aos poderes institucionais - no estúdio em Brasília. As notícias apresentadas por Monforte dizem respeito a CPIs, reforma tributária, encontro do G20, aumento de crédito pela Caixa Econômica Federal, posição do governo federal frente à crise econômica. Outros assuntos da capital federal, como o Festival de Cinema, não passam pela mediação de Monforte, mas de André Trigueiro, o que sugere uma especialização inclusive nos assuntos tratados no programa. A presença de Carlos Monforte no Jornal das Dez assegura a função de 77 Ver capítulo “As notícias do início do dia: análise do Bom Dia Brasil”. 139 vigilância que o programa pretende cumprir, como se estivesse atento a todas as ações do governo federal, o que se expressa também pelos repórteres setorizados do programa que cobrem apenas os acontecimentos do Congresso e do Palácio do Planalto, como é o caso de Mônica Carvalho e João Borges, no período analisado. As interações que marcam a conversação no Jornal das Dez são conduzidas pelos apresentadores, independentemente de qual seja seu local geográfico. Há distinções, porém, no controle dos turnos de fala. André Trigueiro atua sempre como interpelador, convocando os demais mediadores do programa, embora nunca haja como respondente. No Jornal das Dez há uma permissão da condução da conversa pelos demais mediadores, no entanto, André Trigueiro possui o papel de regente da condução da palavra, como se ocupasse um lugar privilegiado com relação aos demais. Enquanto Carla Lopes e Carlos Monforte atuam dos dois lados do binômio interpelação/ resposta (seja por meio de pergunta ou comentário), Trigueiro ocupa-se apenas com a primeira função. Quando a intenção é convocar a participação de outro apresentador, podem ser feitas perguntas informativas (“Carla, e para enganar o porteiro do condomínio, os bandidos simularam uma blitz?”, André Trigueiro, 17 nov. 2008), avaliativas (“Monforte, boa noite. Essa operação desencadeou uma série de vazamentos de informações de todos os lados. O caso está cada dia mais complicado?”, Carla Lopes, 17 nov. 2008), comprobatórias (“E com este aumento de crédito, muita gente se endividou e agora está com a corda no pescoço. E foi pensando nessas pessoas que o governo de São Paulo lançou um novo serviço, não é isso Carla Lopes? Boa noite. A iniciativa, bom, vem em boa hora, já que nessa semana as empresas começam a pagar o décimo terceiro salário, que muita gente usa, justamente, para quitar dívidas”, André Trigueiro, 18 nov. 2008) ou confirmação de hipóteses (“a seriedade da crise econômica nos EUA colocou de lado a rivalidade política entre Barak Obama e John McCain. No primeiro encontro depois da disputa presidencial, as duas maiores lideranças republicana e democrata do momento deixaram claro que é hora de dar as mãos para enfrentar os desafios que passam pela frente, e que não são poucos. Vamos a Nova Iorque com Lília Teles. Lília, boa noite. O que não falta é abacaxi gigante [gesto que indica tamanho] para descascar nos EUA, né?”, André Trigueiro, 17 nov. 2008). Em todo caso, a finalidade da passagem da palavra de um a outro apresentador visa confirmar informações já existentes e partilhadas por eles, legitimando a informação por meio da proximidade à área de cobertura – 140 economia, internacional, política. Por conta disso, a resposta do outro apresentador é de reforço à fala do anterior e de concordância convocando um sentido de unicidade, apesar da pluralidade de vozes que compõem o jornal: “passou por aqui sim, André” (Carla Lopes, 17 nov. 2008), “complicadíssimo mesmo, Carla” (Carlos Monforte, 17 nov. 2008). As interpelações de um apresentador a outro no Jornal das Dez seguem o modelo comentário/ resposta, suprimindo a interrogação de quase todas as falas. Sobre a CPI dos grampos, André Trigueiro solicitou a participação de Carlos Monforte por meio desse recurso: André Trigueiro: Carlos Monforte: Carlos Monforte, a temperatura não para de subir na investigação desses supostos vazamentos de informações sigilosas. Está feia a coisa! É, as coisas estão se complicando, né, André. Ninguém sabe onde isso vai parar. As investigações revelam um emaranhado de escutas ilegais e legais. E também mostram a troca de acusações desencadeadas pela operação Satiagraha, que prendeu por duas vezes o banqueiro Daniel Dantas. (Edição de 18 nov. 2008) A fim de provocar esse sentido consensual entre os apresentadores do Jornal das Dez, as falas são previamente pensadas e há momentos específicos para as interações entre os participantes, como relata a correspondente Heloísa Vilela: Na hora de responder a uma pergunta do Trigueiro [André Trigueiro , apresentador do programa], me dei conta de que a página não estava no teleprompter. A pergunta veio. Eu não tinha resposta e nem podia inventar... Fiquei congelada! E o Trigueiro saiu pela tangente. Ele mesmo chamou a matéria e, depois, conseguiu „restabelecer‟ o contato comigo (GLOBONEWS, 2006, p. 230). Essa unicidade dos apresentadores do Jornal das Dez e a liberdade para comentários e adjetivações sobre o conteúdo divulgado os afasta de uma dimensão de objetividade que os apresentadores de telejornal costumam prezar. As interpretações dos jornalistas que ocupam o lugar de apresentação do telejornal da Globo News complementam as informações divulgadas e constroem um efeito de reflexividade, como se quisessem efetuar uma discussão dos assuntos e não a simples divulgação deles, o que é feito, na Globo News, pelos blocos de notícias do Em Cima da Hora. Assim, os apresentadores do Jornal das Dez enfatizam um efeito de espontaneidade na construção de seu discurso por meio da gestualidade e de expressões faciais que indiquem seu envolvimento com o tema abordado. 141 Figura 14: expressões faciais e gestualidade no Jornal das Dez Fonte: edição de 17 nov. 2008 As interações conduzidas pelos apresentadores possuem como alvo a participação de jornalistas especializados que, por sua trajetória no campo jornalístico ou nas esferas a que se vinculam – política, economia -, são vozes reconhecidamente autorizadas para tratar dos assuntos. No período analisado, um tema bastante evidente foi a crise econômica, o que solicitou a participação de Carlos Alberto Sardenberg, comentarista de economia do Jornal das Dez. Antes de especializar-se no jornalismo econômico, Sardenberg atuou em diversas editorias, entre esportes, política e geral. Desde a década de 1970, trabalhou em alguns dos principais veículos impressos do país: as revistas Veja e Isto É, os jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil. Além disso, de 1985 a 1987 foi coordenador de Comunicação Social do Ministério do Planejamento, em seguida foi assessor da reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atuou na área econômica na gestão de Franco Montoro em São Paulo (de 1983 a 1987). Na televisão, foi comentarista da TV Cultura e diretor de jornalismo da TV Bandeirantes78. Sardenberg, além da Globo News, é comentarista de economia na rádio CBN. Para os comentários sobre política, o Jornal das Dez conta com a participação da jornalista Cristiana Lôbo, que aproximou-se da vida política em 1982, quando começou a acompanhar os governos de João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Em 1984, tornou-se setorista dos deputados federais em Brasília, o que lhe garantiu o acompanhamento próximo da política nacional. No jornalismo, foi repórter do jornal O Globo, onde trabalhou ao lado de Tereza Cruvinel e Ricardo Boechat, também colunistas de política. Em 1992, ganhou sua própria coluna sobre política no jornal O Estado 78 Informações disponíveis em http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Sardenberg, capturado em 04/04/10. 142 de São Paulo, onde atuou até 1998, quando foi para a Globo News para ser comentarista do programa Fatos e Versões. A função do especialista no Jornal das Dez é contribuir para o enquadramento temático construído pelo programa salientando os aspectos considerados pelo programa como mais relevantes. Parte de sua credibilidade está no próprio engajamento na conversação. Enquanto o apresentador se mostra previamente preparado para efetuar as perguntas, os especialistas demonstram que suas respostas são construídas no momento da emissão, o que se pode notar pela manutenção do eixo olho-a-olho entre especialista e apresentador e pelas hesitações em seu discurso. Tal performance salienta um efeito de espontaneidade, como se as falas ali encenadas não estivessem presas a um roteiro. Jornalisticamente, essa forma de posicionar o especialista visa dar-lhe mais credibilidade, uma vez que precisa recorrer a seus conhecimentos sobre os assuntos abordados nas interações para construir, ao vivo, sua fala. Assim, há um conjunto de saberes que o especialista recorre para formular suas respostas durante o Jornal das Dez. Após a exibição de uma matéria contendo as declarações do presidente Lula sobre as alterações no ministério, o Jornal das Dez convocou a participação da comentarista de política, Cristiana Lôbo: Carlos Monforte: Cristiana Lôbo: Nós vamos conversar agora com a jornalista Cristiana Lôbo que está no estúdio do Jornal das Dez lá em São Paulo. Boa noite, Cristiana. Bom, o presidente Lula disse que o PMDB é um parceiro preferencial. Será que ele esqueceu o PT ou está querendo de uma forma, assim, acintosa, esquecer o mais rapidamente o PT? Boa noite, Monforte. Boa noite a todos. Não, a declaração do presidente Lula foi entendida pelo próprio PMDB como uma declaração protocolar. O presidente Lula não pode abrir mão do PMDB, que é a maior bancada na Câmara e a maior bancada no Senado. Se perder esse apoio fragiliza a sustentação do governo no Congresso. Então ele disse isso como uma forma de “olha, amigos, amigos”. Mas no final, ele disse o seguinte: “não é habitual que um partido comande as duas casas”. O presidente Lula, ele quer o PMDB na base, mas quer também ao mesmo tempo, dividir os espaços no Legislativo entre o PMDB e o PT. Na Câmara, o PMDB já está ajeitado no acordo com o PT, um acordo de 2006, e que o Arlindo Chinaglia foi eleito presidente para, em 2008, ter a contra-partida do PMDB.... ter a contra-partida do PT [ corrigindo-se], elegendo um nome do PMDB, que é o Michel Temer. Mas no Senado, os próprios peemedebistas, eles reivindicam a vaga. Mas sevocê conversa com os ministros, por exemplo, eles acham que o PMDB não tem um nome pronto no Senado para ser presidente do Senado, já que o senador Sarney já disse que não quer. Então, a declaração do presidente agrada a bancada do PMDB, mas abre espaço para essa negociação que ele tem dito para os petistas que vai fazer: que vai querer um petista no comando do Senado. [...] (Edição de 18 nov. 2008) 143 A fala de Cristiana Lôbo não se legitima por dados e informações que a mediadora possui, mas por sua análise do campo político a partir do trânsito entre os partidos e o governo federal. Seu papel no programa é dar sentido à situação política do país, levando ao telespectador uma interpretação já formulada e mais ferramentas para a compreensão das instituições federais. Essa compreensão visa formar no telespectador um capital cultural que lhe permite ser, também, um analista de política e tomar melhores decisões em sua atuação cívica. No Jornal das Dez, a ênfase na cobertura dos três poderes institucionais posiciona o público como eleitor e é para melhor equipar esse eleitor que o Jornal das Dez efetua suas análises. O cenário que cerca esses jornalistas é diferenciado com relação ao restante do telejornal. Distanciados da bancada, os especialistas são posicionados num ambiente composto por duas poltronas colocadas lado a lado, permitindo que os participantes se olhem e possam, também, olhar para a câmera. As poltronas, entretanto, não remetem ao ambiente aconchegante do lar, ou da sala de estar, mas de um ambiente institucionalizado como uma sala de espera ou um consultório, um local de passagem onde se estabelecem relações profissionais. Figura 15: cenário para interação com jornalistas especializados Fonte: edição de 17 nov. 2008 O contexto comunicativo construído pelo Jornal das Dez faz referência à institucionalização das relações ali estabelecidas. Os mediadores se encontram com um propósito definido e pactuado previamente: a obtenção de informações que não se encontram nas matérias e reportagens exibidas pelo telejornal, as interpretações dos fatos e avaliações sobre os acontecimentos a partir de um relato especializado. A própria conversação demonstra a institucionalização das trocas que se dão nesse ambiente: o tempo é limitado entre três e cinco 144 minutos para a participação do especialista, que, normalmente, responde a três perguntas dos mediadores; a passagem da palavra de um mediador para outro é regulada pelo diretor do programa, que amplia o enquadramento de câmera para mostrar a mudança de um falante a outro e depois fecha em quem possui a palavra; o objetivo da troca é estabelecido anteriormente ao encontro e essa definição prévia permite um melhor preparo dos participantes envolvidos na troca que não estão completamente numa situação de espontaneidade. A supressão da bancada pretende colocar os participantes em igualdade durante a conversação, no entanto, nota-se uma atribuição de papéis bem construída: o apresentador possui autoridade para fazer as perguntas, enquanto o especialista constrói-se como autoridade por possuir os conhecimentos para respondê-las. Além dos jornalistas especializados, o Jornal das Dez efetua um aprofundamento das informações por meio de entrevistas com agentes externos ao campo jornalístico. Marca do telejornal desde sua estréia, as entrevistas do Jornal das Dez demonstram o lugar privilegiado que o programa possui entre os pares do campo jornalístico, uma vez que entram em seu estúdio professores, pesquisadores, embaixadores, ministros, ou seja, representantes dos mais altos cargos oficiais do Estado e/ ou os especialistas das principais instituições do país. Nesse caso, o cenário para a entrevista pode ser qualquer um dos estúdios do programa, sendo que o do Rio de Janeiro é o espaço preferencial para a realização desses diálogos. A participação dessas figuras no Jornal das Dez remete a seu papel social que migra para a cena televisiva, e toda a conversa se passa em torno disso. Para tratar dos conflitos entre o Brasil e o Equador, o programa convidou o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Francisco Teixeira: Carlos Monforte: Francisco Teixeira: Carlos Monforte: Francisco Teixeira: No estúdio do Jornal das Dez no Rio de Janeiro está o professor de história contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Francisco Carlos Teixeira para quem eu vou fazer a primeira pergunta. Boa noite, professor. Boa noite, Monforte. O que a gente gostaria de saber é o seguinte: é...o que... quais os próximos passos dessa novela que não é nova, já desde o ano passado que ela vem acontecendo, o que é que pode acontecer agora com o retorno do embaixador ao Brasil? Bom, tem duas ordens de acontecimentos aqui. A primeira é do nível da relação Estado/ Estado. Nós já tínhamos cancelado uma missão, liderada pelo Ministério dos Transportes: o grande projeto... o projeto fundamental de integração continental, uma ferrovia e hidrovia nesse sentido. Então, paralisando investimentos e relacionamentos com o Equador. Mas mais grave que isso é que a ação do Equador, do governo Correia está mostrando que há uma fragilidade muito grande do marco regulatório no nosso continente. As regras básicas sobre 145 Eduardo Grillo: Francisco Teixeira: Eduardo Grillo: Carla Lopes: Francisco Teixeira: investimento, sobre capitais, sobre contratos, inclusive contratos de banco para banco, banco central para banco de fomento estatal, como o BNDES, podem ser transformados numa peça de nacionalismo em praça pública. Isso é muito ruim para o conjunto do continente. Professor, a impressão que fica é que na verdade o que o presidente Rafael Correia está fazendo... ele faz porque acha que pode. Na verdade, se tivesse alguma... algum controle sobre isso... Como seria feito esse controle? Já aconteceu antes com Evo Morales na Petrobrás. Como as empresas podem se garantir, como se garante o investimento se não se sabe o que vai acontecer depois? Uma situação um pouco difícil. Tem uma forma? O senhor falou em marco regulatório. Tem se como fazer isso? Olha, sem dúvida nenhuma. Quer dizer, o Mercosul tem um marco regulatório no seu interior. Quer dizer, os investimentos, os capitais, a circulação de mercadorias são garantidos. No caso do Equador, como ele não está no interior do Mercosul e também ele acabou de pleibiscitar uma nova Constituição cuja aplicação nem se sabe bem, né, como vai ser feita. A Suprema Corte de Justiça do Equador foi demitida e está sendo montada uma outra agora pelo partido majoritário que apóia Rafael Correia. Tudo isso mostra que na verdade o Equador escapa a uma capacidade da gente considerar um lugar saudável, seguro, para fazer investimentos. Não se trata de maneira alguma do caso Odebrecht, porque a ameaça é muito grande contra a Petrobrás e agora o BNDES. O que acontece é que está transformando o nacionalismo bastante panfletário numa forma do Rafael Correia se manter à frente dos movimentos sociais. Porque os movimentos sociais, principalmente os movimentos indígenas, eles estão muito radicalizados. E ele tenta liderar e se manter na crista da onda fazendo esse discurso nacionalista. Professor, a Carla Lopes tem uma pergunta lá de São Paulo, Carla. Boa noite, professor. Professor, essa não é a primeira que o Brasil se vê numa saia justa com os países vizinhos. Todo mundo vem acompanhando aí, há dois anos a gente viu o governo de Evo Morales invadir as refinarias da Petrobrás e também nacionalizar o setor de gás e petróleo. E o Brasil acabou colocando panos quentes. Será que essa política de condescendência com os países vizinhos não é equivocada e acaba sendo a raiz dos problemas? Abre um precedente para que os países vizinhos tenham uma atitude como essa, uma atitude mais radical? Veja, aí a gente tem dois problemas: o caso da Bolívia e do Equador são exatamente países que não estavam integralmente no âmbito do Mercosul. Então, portanto, as regras, o marco regulatório não estava vigente para eles, não é vigente para eles. Se esses países estivessem dentro do Mercosul, seria muito difícil tomar essa atitude. Por exemplo, nós não temos nenhum problema desse tipo com a Argentina, né. Ao contrário, temos uma relação rica e complementar com a Argentina. A segunda coisa é que a América do Sul está passando por um processo de mobilização de grupos sociais que eram grupos totalmente afastados de qualquer decisão política, eu não vou dizer há quinhentos anos, mas pelo menos desde o início do século XX. Nesse sentido, esses grupos estão muito radicalizados e as regras gerais das relações internacionais não estão sendo levadas em conta. Essa linguagem não está sendo entendida. Eu acho que o Brasil, ele tem que, nesse momento – e é isso que o Itamaraty fez hoje – é falar muito claramente aonde está alinha vermelha. Se ultrapassar essa linha vermelha, esses países vão ter prejuízo, como o Equador hoje. O Equador é um país com uma comódite única, como é o petróleo, que agora está desabando, né. Políticas desse tipo só vai isolar o país. (Edição de 22 nov. 2008) 146 Não há rigor, por parte do Jornal das Dez, sobre quem irá iniciar a troca. Neste caso, como o tema da entrevista girava em torno de política, Carlos Monforte deu início à conversação apresentando o convidado e enquadrando os objetivos da conversa. Também é possível notar que todos os mediadores podem participar da conversação, oferecendo um franqueamento da palavra, o que corrobora, também, com a unicidade que o programa busca construir. 4.3. Jornal às dez Com uma programação voltada para o jornalismo, a Globo News tem no controle do tempo um aliado para a oferta do conteúdo. Com o slogan “a vida em tempo real”, a emissora por assinatura dá destaque à atualidade dos assuntos, o que é reforçado pelos blocos de notícias exibidos a cada hora cheia no Em Cima da Hora. Por meio dessa estratégia, os assuntos são repetidos ao longo da programação, permitindo que o telespectador que acompanha o canal esteja atualizado a todo o momento sobre os desdobramentos dos fatos. A ênfase da emissora no tempo é uma marca sobre sua proposta de jornalismo, que se estende aos demais programas informativos, como é o caso do Jornal das Dez. O destaque ao horário de exibição do telejornal carro-chefe da Globo News não é aleatório. O Jornal das Dez é como se fosse o ponto de chegada de todas as informações transmitidas durante o dia. É dessa maneira que o telejornal se diferencia dos blocos de notícias e procura envolver a audiência numa atitude de continuidade no acompanhamento da programação, mas uma continuidade dinâmica, que acrescenta novos olhares aos assuntos. Uma inovação do Jornal das Dez com relação ao uso do tempo é que é um dos poucos telejornais do país com exibição sete dias por semana. Para a equipe do Jornal das Dez, não há folga na divulgação e interpretação dos assuntos que marcam o dia, não há descanso para os jornalistas, que estão sempre em busca do novo e do que pode ser marcante para a semana. Oferecendo uma alternativa à programação televisiva de domingo, que se volta mais aos produtos da esfera do entretenimento79 – programas de auditório, cobertura esportiva, filmes, reality shows, etc – o Jornal das Dez mantém, no domingo, o mesmo padrão de jornalismo do restante da semana, ampliando, inclusive, a cobertura para levar ao programa convidados que contribuam na interpretação dos assuntos que irão pautar a semana. 79 Mesmo os programas jornalísticos exibidos ao domingo enfatizam uma imbricação entre informações e entretenimento, como é o caso do Fantástico (rede Globo) e do Domingo Espetacular (TV Record). 147 Para concretizar esse sentido de atualidade atrelado ao de busca pela informação, o Jornal das Dez conta com o trabalho de uma equipe de repórteres cujo discurso e cobertura se validam pelo “aqui” e “agora” que a cobertura pretende demonstrar. O “aqui” se evidencia pela presença no local do acontecimento, que o coloca numa posição privilegiada para relatar os fatos. Aliado à retórica que convoca a presença do repórter no local, o telejornal insere imagens que confirmem essa posição privilegiada para o detalhamento dos fatos. Além disso, como o repórter não acompanhou a ação dos assaltantes, o telejornal utiliza recursos gráficos que reconstituem o acontecimento, aproximando a audiência da ação e criando um efeito de “aqui-agora”: Figura 16: repórter no local do acontecimento. César Galvão: Os assaltantes fizeram uma falsa blitz aqui na rua de acesso ao condomínio. Era para facilitar a invasão. César Galvão: Depois, para que aquele portão [locomovendo-se até que o portão apareça no quadro] fosse aberto, eles convenceram o porteiro de que precisavam entrar para prender um suposto traficante. César Galvão (off): Enquanto a rua estava bloqueada, parte do grupo se aproximou da portaria em dois carros. 148 César Galvão (off): Eles estavam armados e usavam coletes da Polícia Civil. César Galvão (off): Depois que o portão foi aberto, mais sete carros entraram com o restante da quadrilha. Fonte: Edição de 17 nov. 2008 A presença do repórter no local do acontecimento é reforçada pelos apresentadores, que chamam atenção para sua localização para levar à audiência informações mais completas. Sobre a votação da reforma tributária, o apresentador Carlos Monforte convocou a participação do repórter Rafael Mônaco chamando atenção para essa relação espacial: “o repórter Rafael Mônaco está lá [no Congresso] e tem outras informações ao vivo” (Carlos Monforte, 19 nov. 2008). O relato do repórter se legitima pelo acompanhamento completo do acontecimento a partir de sua presença no local, o que lhe permite fornecer maiores detalhes sobre o caso: Rafael Mônaco: Olha, a Comissão Especial de Reforma tributária se reuniu hoje no início da tarde, e logo no início o presidente da comissão, o deputado Antônio Palocci, disse que a idéia era voltar, sim, o texto base da reforma ainda hoje. O presidente... a idéia do deputado Palocci era de que as emendas e os destaques fossem só discutidos no plenário. A reunião foi suspensa no meio da tarde, por causa da sessão ordinária em plenário, e retomada às oito e quinze da noite. E aí ficou decidido que os destaques vão ser votados sim pela comissão junto com o texto base. Desde então, até agora, a oposição vem apresentando requerimentos para tentar adiar a votação. E os deputados de oposição têm dito 149 que se foram precisos oito meses de discussão do texto da reforma que seria um tempo insuficiente votar o texto em apenas cinco horas. Os deputados governistas disseram que, se for preciso, vão ficar aqui até cinco da manhã. (Edição de 19 nov. 2008) Os destaques temporais efetuados pelo repórter indicam, retoricamente, sua presença no local desde o início das discussões, o que lhe confere credibilidade para levar ao telespectador as informações mais atualizadas, empregando um sentido de novidade. O horário avançado na grade de programação posiciona o telejornal num lugar privilegiado para a cobertura de certos assuntos, que são apresentados no momento de sua resolução. Assim, o Jornal das Dez busca exibir notícias em primeira mão, reduzindo o tempo entre o acontecimento e o da recepção. Outra estratégia para isso é o uso de expressões que ratifiquem o tempo presente, mesmo que o assunto se refira a um passado muito próximo: “Arnaldo Bloch lançou o livro agora à noite” (18 nov. 2008), “o time de Dunga, que chegou agora há pouco a Brasília, tenta quebrar um tabu de vinte anos” (18 nov. 2008). A instantaneidade, modo pelo qual o Jornal das Dez busca construir um sentido de atualidade, ganha ainda mais relevo pela transmissão direta do programa, que busca levar o telespectador para o momento da emissão. No início das transmissões da Globo News, as entrevistas do Jornal das Dez eram gravadas previamente e levadas ao ar durante a exibição do programa. Atualmente, as interações entre os mediadores acontecem ao vivo, o que garante maior autenticidade para a abordagem dos assuntos, uma vez que é no momento da exibição que os mediadores constróem sua fala. Para manter o telespectador preso à narrativa, o Jornal das Dez salienta os aspectos mais relevantes do assunto tratado por meio de legendas que não apenas situam o telespectador na emissão, mas também indicam o que o telejornal pretende destacar como mais relevante. Para isso, o telejornal cria rubricas que resumem o assunto (“Mundo em crise”, “Acidente da TAM”) e muda o texto na sublegenda a depender do texto do repórter. Na reportagem sobre a investigação do acidente da companhia aérea TAM, em 2007, a reportagem de Graziela Guardiola trouxe as seguintes sublegendas: “polícia apresenta as conclusões do inquérito”, “inquérito não aponta falha no equipamento”, “outros fatores também contribuíram”, “10 pessoas indiciadas”, “Airbus também deve ser indiciada”, “inquérito segue para o Ministério Público” (19 nov. 2008). Com isso, o telejornal cria uma narrativa paralela à apresentada pelo texto da repórter e o vídeo, conduzindo o telespectador na interpretação das notícias e promovendo a saliência dos assuntos no texto, ou seja, “uma parte da informação mais notável, significativa ou memorável para a audiência” (ENTMAN, 1993, p. 53). 150 Se por um lado o papel dos apresentadores permite a construção de uma interpretação própria que representa a instituição, por outro, o dos repórteres busca reforçar uma naturalização do discurso sobre os acontecimentos por meio do privilégio aos rituais que garantem objetividade do discurso. Dentre esses rituais, os repórteres do Jornal das Dez utilizam com mais freqüência a abordagem dos “dois lados” envolvidos. Sobre a restrição ao direito à meia entrada para os estudantes, o Jornal das Dez do dia 22 de novembro de 2008 procurou ouvir os diversos lados que envolveram a questão: a) dos produtores de cultura: “na medida em que todo mundo tem carteirinha de estudante, os produtores acabam majorando o valor da inteira para cinquenta [reais] e a meia é vinte e cinco [reais], mas na verdade, a gente sabe que o custo de produção do evento está contando com aqueles vinte e cinco” (Ivan Diniz, produtor cultural); b) representação estudantil: “restringir o direito à meia entrada, hoje, no país como está, é acabar com a meia entrada do estudante. O que a gente tem que colocar hoje é a emissão, a padronização nacional e evitar que sejam falsificadas as carteirinhas estudantis, e permitir que somente estudantes de verdade tenham acesso à carteira” (Márvia Scárdua, diretora de relações institucionais da União Nacional dos Estudantes); c) governo: “o fato das entidades estudantis terem proposto que a Casa da Moeda emita as carteiras para dar garantia e segurança já é um avanço enorme.nós precisamos encontrar as medidas complementares que deverão fazer parte dessa lei” (Juca Ferreira, Ministro da Cultura); d) estudantes: “tem que incluir, né? Tem que facilitar e não repreender o acesso à cultura do próprio estudante” (Daniel França, estudante). Isso indica uma diferenciação nos papéis discursivos construídos no programa. Enquanto o relato dos acontecimentos leva informações ao telespectador por meio de uma abordagem “isenta” de posicionamentos por parte dos atores discursivos, a mediação realizada no estúdio posiciona a audiência como intérprete da realidade social relatada nas reportagens. Com isso, o Jornal das Dez reforça o papel de um apresentador-comprometido (FECHINE, 2008), ou seja, o que exprime posicionamentos, mas sem defender posições político-ideológicas, mas não tanto do ponto de vista pessoal, mas de uma voz institucional, que corrobora com a unicidade construída pelos apresentadores. Do ponto de vista da construção do subgênero, o Jornal das Dez se coloca como um representante das características mais emergentes do telejornalismo e o faz a partir de uma dimensão de aprofundamento das informações, principal marca da relação estabelecida com a audiência. 151 5. AS NOTÍCIAS NO INÍCIO DO DIA: ANÁLISE DO BOM DIA BRASIL No site Memória Globo, a antiga apresentadora do telejornal Bom Dia Brasil, Leilane Neubarth, ressaltou a qualidade inovadora do programa a partir da introdução da conversa entre os apresentadores na estrutura do programa, “levando-os a uma maior interação entre si, com os colunistas e as praças” (MEMÓRIA GLOBO, 06 dez. 2009). Quebrando o paradigma dos telejornais de seu tempo, o Bom Dia Brasil efetuou algumas rupturas com relação ao padrão consolidado da época: do ponto de vista do formato, o telejornal possui um cenário amplo que se distribui em dois espaços - o da bancada e o de uma reprodução de uma sala de visitas, do ponto de vista do conteúdo, o programa matinal da Rede Globo não se propunha a oferecer um panorama de notícias diversas, mas o tratamento mais detalhado de assuntos relacionados às editorias de política e economia preferencialmente, por meio da entrevista no estúdio. Ainda hoje o Bom Dia Brasil guarda as características centrais de sua proposta inicial, atualizando os elementos a partir de inovações tecnológicas e da participação num cenário político e midiático diferenciado daquele que formatou seu surgimento. Deste modo, o Bom Dia Brasil oferece continuidades e rupturas que fornecem significados sobre a relação que o programa pretende estabelecer com a audiência. Passados mais de vinte e cinco anos, o telejornal que abre a programação jornalística em rede da Globo criou um padrão de apresentação das notícias durante a faixa horária matutina como um espaço duplo voltado para o aprofundamento das questões que deverão pautar a mídia durante o dia e para a leveza que as notícias pela manhã supostamente devem possuir. O Bom Dia Brasil é exibido pela Globo de segunda a sexta das sete e dez às oito horas da manhã. 5.1. Dispositivos audiovisuais para a construção de posições discursivas Em 05 de junho de 2006, o Bom Dia Brasil apresentou seu novo cenário, que mantém a mesma essência do formato introduzido dez anos antes: a divisão do espaço do estúdio em duas partes com características distintas: a bancada e a sala de visitas. Com uma aparência mais moderna que a anterior, o cenário do Bom Dia Brasil é o elemento que mais chama a atenção do telespectador ao se colocar diante dele. 152 Figura 17: Bancada do Bom Dia Brasil antes e depois da reforma em junho de 2006. Fonte: edições de 05 jun. 2006 Um dos ambientes representa a dureza do telejornalismo sério – a bancada, lugar tradicionalmente construído como espaço de autoridade; o outro, sua flexibilidade – a sala de visitas, composta por duas poltronas e uma mesinha de centro. Esses dois ambientes resumem bem o modo como o programa apresenta-se para a audiência por meio de uma relação entre os assuntos mais duros do interesse público geral e a abordagem de assuntos mais vinculados à esfera diversional: moda, culinária, música. Além disso, a disposição de duas poltronas sugere ao telespectador que aquele espaço será destinado à interação entre os participantes da cena. A construção do cenário antecipa boa parte do modo de endereçamento do Bom Dia Brasil: um telejornal sério o suficiente para tratar dos assuntos vinculados duros e flexível o suficiente para abrir espaço para o bate-papo entre os apresentadores e para a apresentação de “colunas” sobre cultura e comportamento, aproximando-se do formato de revista, como afirma o site do programa na internet80. Mais do que um espaço para a exibição das notícias, o cenário do Bom Dia Brasil indica diferentes formas de posicionar a audiência na cena, estabelecendo com o telespectador um vínculo de autoridade ou de cumplicidade. O uso dos diferentes espaços do Bom Dia Brasil não deve ser visto de maneira simplista numa relação causal entre o local de apresentação das notícias e assunto tratado. Via de regra, o espaço da bancada é o lugar que confere autoridade para tratar de temas mais vinculados ao paradigma dominante do jornalismo, trazendo um sentido de interesse público relacionado a temas como segurança pública, decisões políticas, denúncias, etc. Essa relação do programa com o campo político é histórica e foi o motivo inicial que motivou sua criação. De acordo com o site Memória Globo, o Bom Dia Brasil foi ao ar pela primeira vez em 1983 trazendo 80 Disponível em http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MRP746686-16020,00.html, acesso em 6/12/09. 153 como características centrais a cobertura voltada para política e economia, e a entrevista com personalidades públicas. De acordo com seu primeiro mediador e editor-chefe, Carlos Monforte, o telejornal tinha como foco a transmissão de notícias da área de política ancoradas na capital federal. Como em Brasília não havia um estúdio com infra-estrutura suficiente para sediar a exibição do telejornal, Carlos Monforte e sua equipe montaram o cenário no Rio de Janeiro e mudaram-se para a sede do governo a fim de ficar mais próximos do local de tomada de decisões. O contexto de maior abertura política no início dos anos oitenta permitiu o enquadramento do telejornal a partir da relação estreita com o campo político. Para ratificar essa posição, o jornalista Marcello Netto fazia comentários sobre economia, enquanto Antônio Brito e Álvaro Pereira comentavam os assuntos de política, estabelecendo, desde seu nascimento, o caráter colunista do telejornal. A abordagem desses temas ainda hoje faz referência à familiaridade que os telespectadores possuem com o telejornal e dizem respeito ao lugar de fala que o programa adquiriu nos campos jornalístico e político. Quando aborda essa temática a partir da bancada, o Bom Dia Brasil assume sua função social de defesa dos interesses do cidadão e ratifica essa postura por meio de um texto verbal que tanto o coloca como observador privilegiado da realidade e detentor das informações, através de formulações como “você conhece o novo golpe?”, quanto aproxima o enunciador dos telespectadores por meio de expressões inclusivas, como “a gente não sabe mais em quem acreditar”. O espaço da sala de visitas, porém, é o lugar da conversa, do bate-papo e dos assuntos amenos. É de lá que os apresentadores introduzem as notícias de cultura e esportes e é quando as interações se pretendem mais espontâneas, livres do teleprompter. Conquanto essa distribuição temática em espaços específicos pareça um padrão do telejornal, é nas exceções que se observa o verdadeiro lugar de fala do Bom Dia Brasil no telejornalismo. Em certos casos, as notícias de cultura são ancoradas a partir da bancada e os comentários amenos sobre o tema são feitos a partir desse local, como se pôde ver na edição de 07 jun. 2006. Após a exibição de uma matéria sobre a exposição de múmias da era pré-colombiana no Museu Arqueológico do Rio de Janeiro, A apresentadora Renata Vasconcellos observou “que múmia esquista!” e seu colega de bancada, Renato Machado, completou “não tem como não deixar de olhar, né?”. 154 Figura 18: diálogo entre apresentadores Fonte: Edição de 07 jun. 2006 Por outro lado, o espaço dos comentários sobre economia é a sala de visitas. A disposição das poltronas frente-a-frente permite uma identificação com os formatos dos programas de entrevistas, acionando a competência televisiva do telespectador para reconhecer o tipo de narrativa que será estabelecida ali. A arrumação das poltronas no cenário permite que os mediadores se coloquem de frente para o outro, mas não numa posição face-a-face que isola o telespectador da cena. Ao contrário, as poltronas estão levemente inclinadas em direção às câmeras de modo a inserir, também, a audiência na interação, o que se ratifica pelo olhar do comentarista diretamente para a câmera, assumindo um teor professoral ao discurso. Renato Machado e Renata Vasconcellos interpelam os mediadores por meio de perguntas que tragam explicações para o telespectador leigo. Sendo assim, o espaço em si não traz um significado imediato, mas é o uso que os apresentadores dão a ele que permite posicionar a audiência. São as mudanças e reposicionamentos de um espaço para outro que definem o telejornal como uma mistura entre o jornalismo sério e o entretenimento, atributo que começou a se construir com a chegada de Renato Machado ao cargo de editor-chefe e apresentador. Desde seu surgimento em 1983, a vocação principal do Bom Dia Brasil era a abordagem de política e economia, o que ainda se mantém como se pode ver na presença diária de Míriam Leitão e Alexandre Garcia como comentaristas dessas esferas. No entanto, foi a partir de 1996, com Renato Machado, que o programa passou a se estruturar em dois cenários e colocar mais ênfase em cultura e esportes. Os deslocamentos dos mediadores pelo estúdio e a mudança do lugar de apresentação de notícias demonstra que o telejornal já não pretende fazer distinção rígida entre os temas 155 vinculados ao jornalismo dominante e área de lazer. Assim, esporte e economia são apresentados a partir do mesmo lugar: a sala de visitas. Figura 19: cenário de sala de visitas Renato Machado: [...] São dias cinzentos na economia mundial, Míriam. Cada declaração de Barnank Bank [diretor do banco central norteamericano] um novo sobressalto? Míriam Leitão: Eu não falei que não está agradando em nada? Cada vez que Barnank Bank, o mercado despenca. As palavras dele foram traduzidas assim: para Bank, não está havendo todo o risco de desaquecimento e está muito preocupado com o índice inflacionário, ou seja, os juros vão subir mesmo. Aí o mercado piorou. Isso só acontece porque os economistas não sabem o que está acontecendo na economia mundial. Tudo é motivo para susto. E um bom susto foi dado pelo presidente do Irã. Ele disse que pode dificultar o trânsito do petróleo no Golfo Pérsico. Imagina se isso acontece mesmo! Por lá, passam 40% de todo o petróleo negociado no mundo. Aqui no Brasil, o mercado ficou confuso. Queda na bolsa mostrando pessimismo, mas queda no risco país mestrando otimismo. O pessimismo vem de fora, o otimismo daqui de dentro. É que ontem o governo anunciou mais conta de dívida externa. São papéis de longo prazo, mas com parcelas do principal vencendo agora, nos próximos três anos. O tesouro vem diminuindo a dívida aos poucos, aproveitando cada chance. Uma das formas de medir a dívida externa do governo é descontar as reservas em dólar. Nessa medida, a dívida era de 80 bilhões de dólares em 2003, e agora é de 2º bilhões de dólares. O país está tentando evitar alguma gripe ou coisa pior que venha com os maus ventos externos. Fonte: edição de 06 jun. 2006 O uso do cenário, articulado com esferas de jornalismo e entretenimento, demonstra uma característica da faixa horária que o Bom Dia Brasil ocupa na grade de programação, que cada vez mais tem sido composta por revistas eletrônicas que trazem informação e debate ao lado 156 de receitas de culinária e reality shows. O Bom Dia Brasil, para firmar-se na grade de programação, legitima-se recorrendo aos temas vinculados ao jornalismo sério, mas também efetua sua flexibilidade, incorporando as propriedades da faixa de programação. Tanto que o programa que o sucede na Globo, o Mais Você, estende ainda mais essa relação entre jornalismo e entretenimento. Se no Bom Dia Brasil a sala de visitas permite a flexibilidade do jornalismo, no programa comandado por Ana Maria Braga a sala incorpora a cozinha e o jardim, situando o telespectador no confortável ambiente doméstico. No fluxo televisivo, o telespectador é transportado de uma sala a outra, permitindo uma continuidade na forma como recebe as informações. 5.2. A interação e as posições discursivas Pela estrutura do programa, que interliga diversos mediadores espalhados em diferentes territórios, o Bom Dia Brasil costura os discursos por meio de uma forma de apresentação calcada na permanente interação dos agentes. O programa se apresenta à audiência como se fosse uma longa conversação entre todos os mediadores. Esse efeito se verifica pela forma como os assuntos são encadeados e pelas relações estabelecidas entre os participantes. O Bom Dia Brasil possui sete mediadores com funções que se distinguem por meio do controle dos turnos de fala, da relação com a audiência e do engajamento no discurso jornalístico. Desde 2003, o par apresentador que “dá a cara” do telejornal é composto por Renato Machado, que também é editor-chefe do programa, e Renata Vasconcellos. Além desses, o Bom Dia possui mais três mediadores responsáveis pela apresentação das notícias: Mariana Godoy, no estúdio de São Paulo; Cláudia Bomtempo, localizada em Brasília; e Tadeu Schmidt81 responsável pelas notícias esportivas no próprio estúdio do Rio de Janeiro. Esses cinco têm em comum o papel de apresentar as notícias ao telespectador. Míriam Leitão e Alexandre Garcia, por sua vez, fazem as vezes de especialistas, comentaristas, aparecendo em momentos específicos do telejornal (pode ser uma ou mais vezes, mas nunca durante a emissão inteira) para tecer comentários valorativos sobre os acontecimentos. Embora sejam parceiros na apresentação do Bom Dia Brasil, Renato e Renata não estão em condição de igualdade na cena. É Renato Machado que abre todas as edições do programa, é 81 Tadeu Schmidt saiu do Bom Dia Brasil para apresentar o Fantástico. Como no período analisado ainda era Tadeu Schmidt o apresentador, nossas análises se voltam para seu trabalho. 157 ele que introduz as notícias de maior relevância social e, por vezes, é quem dá a última palavra sobre os assuntos. Foi após a chegada de Machado no telejornal que o Bom Dia rompeu a vinculação estreita com a política e economia, instaurando um modelo mais parecido com o de uma revista, “com matérias variadas e de comportamento” (MEMÓRIA GLOBO, 06 dez. 2009). Assim, diversas seções especiais estrearam no programa, como “Arte na Mesa” (produzida pela repórter Sandra Moreyra) sobre culinária, “Rasgando Seda”, uma homenagem de um convidado do programa a qualquer personalidade, “Perfil” – posteriormente rebatizada como “Abrindo o Jogo”, uma entrevista conduzida por Leilane Neubarth com personalidades de diferentes áreas, entre outras. Essa abertura do programa para outras abordagens temáticas está relacionada à própria personalidade de Renato Machado que demonstra interesse e conhecimento sobre a cultura erudita. Assim, o apresentador assume um lugar de sofisticação pelo apreço e conhecimento sobre música clássica, alta culinária francesa, vinhos, ópera, literatura clássica. Sua presença como apresentador do programa de culinária Menu Confiança, do canal GNT, juntamente com o chef francês Claude Troisgot, fornece ao apresentador atributos de sofisticação e requinte, que migram para o Bom Dia Brasil na opção por temas vinculados à cultura erudita. Renata Vasconcellos, por sua vez, entrou no Bom Dia Brasil no ano 2003 para substituir Leilane Neubrath após rápidas passagens pelos programas de fim de ano da Globo, pelo Jornal Hoje (1971) e pelo Fantástico (1973), além de atuar na Globo News (1997). Renata encaixa-se muito bem à proposta do programa de afastar-se do modelo enrijecido das hard news e assumir a coloquialidade como parâmetro para a condução das notícias. Seu papel no telejornal é, além da apresentação as notícias, efetuar as interações com os demais mediadores do programa. Mariana Godoy e Cláudia Bomtempo82 são as apresentadoras dos estúdios da Globo em São e Brasília, respectivamente. As duas possuem a função de apresentar o telejornal a partir de seu local geográfico, sendo que Cláudia tem ainda a atribuição de conversar com Alexandre Garcia. Tadeu Schmidt possui um papel um pouco distinto: sua participação no programa se dá pela vinculação com o tema que aborda: esporte. Assim, o apresentador é responsável, 82 No período analisado, era Cláudia Bomtempo que mediava o telejornal em Brasília. Hoje, essa função é de Zileide Silva. As descrições aqui efetuadas serão, apenas, do trabalho de Cláudia Bomtempo. 158 tanto pela introdução das notícias esportivas, quanto pelos comentários feitos após a exibição das matérias. Alexandre Garcia e Míriam Leitão possuem a função de comentaristas, fornecendo uma interpretação sobre as áreas de política e economia, respectivamente, mas não apenas elas. Recentemente, os dois colunistas do programa têm se dedicado ao comentário de qualquer tema que seja de seu interesse, mas na configuração de seu papel discursivo, é nessas áreas de especialidade que os dois se legitimam. Míriam conduziu sua carreira no jornalismo econômico desde que começou a trabalhar no jornal Gazeta Mercantil, onde ficou durante seis anos. No Jornal do Brasil, Míriam foi colunista e editora de economia. Atualmente, além de exercer a função de comentarista de economia do Bom Dia Brasil, onde trabalha desde a década de 1990, Míriam Leitão é colunista de economia do jornal O Globo e apresenta o programa Espaço Aberto Economia, da Globo News. A trajetória de Alexandre Garcia na cobertura política também lhe conferiu autoridade para exercer a função de comentarista no programa. Sua carreira é marcada por atuações no rádio, no jornalismo impresso e na televisão, sendo que seu ingresso na Globo aconteceu apenas em 1988 e foi a partir daí que se efetivou uma trajetória na cobertura política. Alexandre Garcia cobriu todas as eleições presidenciais e também se destacou no campo do jornalismo político pelo acompanhamento constante das decisões do Congresso. É pela diferenciação de papéis entre os mediadores que o Bom Dia Brasil constrói uma forma de apresentação baseada nas interações constantes entre eles, como todo o texto fosse uma grande conversação. Seguindo a proposta de oferecer as notícias a partir de uma perspectiva mais aprofundada sobre os assuntos por meio da entrevista, o Bom Dia Brasil traz pouca diversidade temática, mas investe em diferentes olhares sobre o mesmo fato. Deste modo, todos os mediadores estão concatenados na emissão, passando a palavra de um a outro, deslocando o lugar da audiência de aprendiz, a fim de contribuir para a formação de uma informação mais ampla para preparar o telespectador para suas atividades e interações cotidianas. A estrutura utilizada para a condução dos assuntos do telejornal é por meio da interpelação dos mediadores, chamando sua atenção para a tomada de posição na cena. Assim, parece que 159 a narrativa possui elos que unem as partes que cada mediador vai apresentar. Renato Machado e Renata Vasconcellos introduzem as notícias e interpelam seus colegas por meio de uma pergunta ou do simples chamamento que indica uma deixa para a participação do outro: O irmão de Suzane, Andréas, vai participar do julgamento e ele foi Mariana Godoy: (no estúdio em São Paulo, por convocado, Renato, como testemunha tanto pela defesa, quanto meio de um telão) pela acusação. É, e a Suzane foi presa também porque foi considerada uma Renato Machado: (na sala de visitas) ameaça para o irmão. Vamos agora para o novo estúdio de Brasília onde está a repórter Cláudia Bomtempo. Cláudia, a Justiça proibiu a transmissão ao vivo do julgamento? Isso mesmo Renato. O pedido feito pela Associação dos Cláudia Bomtempo: (em Brasília, por meio de um Advogados Criminalistas de São Paulo foi negado pelo Ministro do telão) Superior Tribunal de Justiça, Milton Naves. Só vão ser permitidas imagens do início do julgamento e do momento em que a sentença for anunciada. Alexandre Garcia, não deixa de ser um julgamento público. É, portas abertas, mas sem TV. Enfim, o país parece mais Alexandre Garcia: (em Brasília, ao lado de interessado na Copa. No limiar desse julgamento, há uma Cláudia) desconfiança de que alguns sejam mais iguais que outros, embora a teoria constitucional seja de que “todos são iguais perante a lei”. Alguns eleitos, por exemplo, não são iguais aos seus eleitores porque, afinal, têm foro especial, embora sendo “sanguessugas”. Depois de tantas absolvições de mensaleiros confessos, a decepção se tornou grande em relação aos julgamentos políticos na Câmara. Bem, resta a confiança na Polícia Federal e no Ministério Púbico. E quanto ao Judiciário, neste caso, julga-se também um pouco se os ritos da lei e da justiça são justos. Renato. (Edição de 05 jun. 2006) Essa aparente continuidade, porém, é de ordem estrutural, fazendo o telespectador crer que aquele modelo de apresentação das notícias é mais coloquial ou informal, assim como as conversas da vida cotidiana. No entanto, na passagem de um mediador para outro, percebe-se que sua interpelação serve coordenar as participações dos mediadores, mostrando-se bastante regrada. A aparente conversação estabelecida visa chamar a atenção do diretor de TV para as mudanças de enquadramentos que devem ser efetuadas para que o telespectador não se perca na distribuição dos turnos de fala. Os planos e enquadramentos reforçam a qualidade regrada das conversas, efetuando cortes precisos para inserir os participantes durante a cena, como se pode ver no exemplo a seguir: Figura 20: conversação articulada com jogo de enquadramentos Renato Machado: Quase quatro anos depois do crime, os assassinos do casal von Ritchtofen vão a julgamento. A filha Suzane está no banco dos réus e ao lado dela, os 160 cúmplices, Renata. Renata Vasconcellos: O ex-namorado, Daniel, e o irmão, Renato, Cristian Cravinhos. Renata Vasconcellos: Suzane quer contar em detalhes como era o namoro dela para o juíz e para os jurados. A estratégia é mostrar que ela foi induzida a planejar o crime pelo ex-namorado. Renata Vasconcellos: Vamos então até o estúdio novo do Bom Dia em São Paulo falar com a Mariana Godoy. Mariana, há alguma chance de adiamento? Mariana Godoy: 161 Essa é uma possibilidade muito pequena, Renata. Mas ainda não se sabe se Suzane e os irmãos Cravinhos serão julgados juntos. O repórter Rodrigo Boccardi está na Barra Funda. Rodrigo, este é um julgamento que pode ser desmembrado? Rodrigo Boccardi: A chance de desmembramento é grande e isso pode acontecer logo no início da tarde quando começar o julgamento. [...]. Fonte: Edição 05 jun. 2006 Se do ponto de vista estrutural as interações entre os mediadores aparecem como construção de um efeito de espontaneidade e fluidez na condução dos assuntos no programa, do ponto de vista do engajamento dos participantes durante a emissão, o Bom Dia Brasil parece atualizar o formato das entrevistas para evocar a participação dos comentaristas. Desde seu início o programa aposta na entrevista como narrativa principal para a abordagem dos assuntos. Essa opção não foi aleatória, pois indicava a emergência desse formato de apresentação das notícias na história do telejornalismo brasileiro. Foi no início dos anos oitenta que programas de entrevistas se disseminaram na grade de programação nacional, consolidando uma prática legítima na obtenção das notícias. Assim como nos programas de entrevista, no Bom Dia Brasil os diálogos entre mediadores e fontes eram usados para tratar de assuntos referentes à esfera pública habermasiana, configurando um lugar legítimo na consolidação de um novo referencial para os telejornais nacionais. O Bom Dia Brasil foi o primeiro telejornal nacional a adotar essa narrativa como preferencial na construção de sua relação com a audiência. Naquele momento, as entrevistas se davam no estúdio e fora dele, por meio de uma seção na qual um jornalista tomava café da manhã com um representante político. Na estréia do 162 quadro, o convidado foi o então Presidente da República, João Figueiredo. Durante o ano de 1984, o programa entrevistou cerca de 700 representantes dos altos cargos oficiais, angariando credibilidade junto ao campo político para o tratamento dos assuntos de interesse nacional (MEMÓRIA GLOBO, 06 dez. 2009). O formato da entrevista é utilizado pelo Bom Dia Brasil de maneira diferenciada atualmente. A presença de uma figura pública no estúdio é restrita a momentos específicos da conjuntura política e social (as prévias eleitorais, por exemplo, como aconteceu em 2006). No entanto, o programa mantém comentaristas especializados em áreas específicas como política, economia e esportes e a interpelação feita a esses mediadores se dá por meio do binômio pergunta/ resposta característico das entrevistas. Assim, a participação de comentaristas não promove uma ruptura na narrativa, como se fosse uma seção especial, mas é costurada na narrativa do telejornal por meio de perguntas efetuadas pelos apresentadores que solicitam sua competência profissional. As perguntas elaboradas pelos apresentadores para os comentaristas evidenciam uma postura de “querer saber”. 5. 3. O Bom Dia Brasil e a legitimidade no campo jornalístico O pacto sobre o papel do jornalismo no Bom Dia Brasil vincula-se a dois elementos: o horário de exibição e a extensão do estúdio para diversos locais: do Rio de Janeiro, o programa estabelece contato com os estúdios em São Paulo e Brasília, e conecta-se, também, com os correspondentes internacionais da Globo. A estrutura jornalística da emissora é composta por quatro telejornais nacionais exibidos após os noticiários locais: Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo. Retoricamente, essa disposição dos telejornais ocupando as principais faixas horárias do dia (manhã, início da tarde, noite e fim de noite) produz um sentido de que a emissora está o dia inteiro voltada aos principais acontecimentos do dia e os exibirá de forma diversa em seus telejornais. A Globo constrói um lugar privilegiado no jornalismo nacional por apresentar-se em permanente acompanhamento dos assuntos. Nesse contexto, o Bom Dia Brasil posiciona-se numa faixa horária que faz a transição entre o encerramento das atividades do dia anterior e as possíveis repercussões ao longo da jornada. O telejornal efetua uma ponte entre os desfechos apresentados pelo Jornal da Globo na véspera e as agendas ainda abertas no presente, que serão apresentadas num primeiro 163 momento, pelo Jornal Hoje. Assim, o telejornal matinal articula o ontem e o hoje, promovendo uma interpretação de fatos passados e seus potenciais desfechos no presente. Por meio dessa estrutura encadeada dos telejornais, a Globo institui não apenas valores jornalísticos, mas organiza a vida cotidiana em torno de seus programas, como se as atividades se estruturassem em torno das notícias. No Bom Dia Brasil essa dimensão organizativa dos rituais diários ganha relevo pela constante informação do horário ao final de cada bloco do programa. Assim o programa parece dizer à audiência que o telejornal não o convoca à simples assistência televisiva, mas à organização de seu dia em torno das notícias. A vinheta do programa ilustra bem essa passagem de um telejornal a outro, indicando que acompanhou os desdobramentos dos acontecimentos durante a noite inteira para oferecer ao telespectador um repertório qualificado para suas tomadas de decisão e para as conversas na esfera pessoal. A vinheta exibe um globo terrestre em movimento giratório até culminar com o amanhecer. A exibição do nascer do sol acompanhada do nome do programa transcrito sobre o globo terrestre ratifica valores jornalísticos de prontidão e vigilância, como se os jornalistas estivessem ocupados durante toda a madrugada para saudar a audiência com um prognóstico especializado dos assuntos que poderão ter desdobramentos significativos durante o dia, como ficou claro no texto da apresentadora Renata Vasconcellos para apresentar a notícia sobre a invasão do Plenário por manifestantes do Movimento de Libertação dos SemTerra (MLST): “de madrugada, todos os detidos prestaram depoimento” (07 jun. 2006). O globo terrestre da vinheta também traduz a prontidão do programa em estar atento ao que acontece nas diversas partes do mundo. É também pelo fato de ir ao ar pela manhã que o Bom Dia Brasil é privilegiado no tratamento de certos assuntos, especialmente no que diz respeito à cobertura internacional e à economia. O fato de ir ao ar algumas horas depois da abertura das Bolsas de Valores dos principais mercados europeus e asiáticos permite que o telejornal ofereça ao telespectador informações bem embasadas sobre o que esperar dos mercados econômicos. Daí a importância de Míriam Leitão como colunista do programa, levando à audiência, quase todos os dias, as explicações sobre os impactos das variações nas economias internacionais sobre a economia nacional. É na cobertura de economia que o Bom Dia Brasil melhor oferece os prognósticos sobre a agenda do dia, indicando o que poderá acontecer no Brasil, as prováveis medidas adotadas pelo governo ante as crises internacionais. O telejornal 164 prepara os repórteres da emissora para a cobertura das instâncias de decisão, as possíveis declarações e os posicionamentos dos agentes no campo político. Figura 21: vinheta do Bom Dia Brasil Fonte: edição de 06 jun. 2006 Na cobertura dos jogos da Copa do Mundo de 2006, o Bom Dia Brasil também saiu em vantagem na transmissão das informações sobre a seleção. Como a sede do evento foi na Alemanha, o horário de exibição dos jogos era próximo ao do telejornal, o que levou o programa a explicitar a estrutura montada pela Globo para a cobertura do evento. No dia que marcou o início da cobertura da Copa, quatro repórteres enviados à Alemanha fizeram teasers na escalada a partir de locais diferentes mostrando os diversos olhares que a emissora ofereceria sobre o evento esportivo. Além disso, ficava muito nítida a dispersão dos repórteres em cidades diferentes para acompanhar os jogos da Seleção, mas também dos adversários e das principais seleções de futebol. Assim, pelo horário de transmissão do telejornal o telespectador possuía as informações mais recentes sobre o esporte, ao mesmo tempo em que se preparava para assistir às partidas. A proximidade temporal entre o tempo do evento e o da 165 recepção atribui ao telejornal a posição de legitimidade em sua função de relatar os fatos. Assim, expressões como “a seleção brasileira acaba de fazer o primeiro treino” (06 jun. 2006), “vamos às últimas notícias sobre a Seleção com Tadeu Schmidt” (07 jun. 2006) posicionam o telejornal numa posição sempre alerta aos acontecimentos que possam interessar ao telespectador, posição esta valorizada pelo trabalho dos repórteres que recebem, no programa, um lugar relevante na obtenção da informação. Essa dispersão dos repórteres para cobrir os jogos da Copa, embora sua ênfase tenha se dado por conta da notoriedade do evento, segue uma tendência do Bom Dia Brasil de construir sua credibilidade por meio da proximidade com o local do acontecimento, o que demonstra um traço do estilo do programa que desde sua estréia optou por essa abordagem, transferindo-se para Brasília para falar sobre política. O retorno ao Rio de Janeiro foi precedido por recursos técnicos que permitissem o contato entre mediadores em diferentes locais. A proximidade entre o jornalista e o local do acontecimento como uma forma de melhor observar a realidade é vista no campo jornalístico como fator essencial para a melhor apuração dos fatos e, por conseguinte, a construção de credibilidade dos jornalistas. Os repórteres encarnam essa função e adquirem legitimidade pública para construir seus discursos a partir do que é visto. Essa é uma propriedade do subgênero que os programas específicos atualizam constantemente na consolidação de uma posição de distinção no campo. Assim, colocações como “eu estive lá” (Tadeu Schmidt, 07 jun. 2006) ou “o repórter Mauro Naves, que sempre acompanha a seleção, viu como é que era a estrutura lá” (Tadeu Schmidt, 06 jun. 2006) são freqüentes nos programas jornalísticos para estabelecer sua autenticidade. No Bom Dia Brasil, porém, a proximidade ao local do acontecimento ganha contornos muito específicos, pois o programa apresenta-se polifônico no momento de ancoragem. Se são os apresentadores que dão a cara dos programas jornalísticos televisivos, a dispersão que Bom Dia Brasil efetua na apresentação poderia provocar um estranhamento por parte da audiência, já que em certos momentos, é Mariana Godoy que aparece mais vezes no vídeo para introduzir as notícias. Entretanto, pela própria estrutura conversacional, os mediadores do Bom Dia Brasil cedem a autoridade uns aos outros de modo a construir um discurso mais autêntico para o telespectador. No entanto, os estúdios em São Paulo e Brasília não são independentes, mas funcionam a partir do controle e da coesão dados por Renato Machado 166 que, normalmente, é quem dá a última palavra sobre os principais assuntos. Assim, ao passo em que o programa dispersa as vozes e a autoridade, ele também converge para Renato Machado e Renata Vasconcellos que mantêm os privilégios de estabelecer o contato inicial com a audiência e o controle na distribuição dos turnos de fala. Como a proposta do programa é oferecer os fatos a partir de uma abordagem mais detida sobre eles, as coberturas jornalísticas no Bom Dia Brasil são mais longas e evidenciam uma proposta do jornalismo de explicar minuciosamente o funcionamento das instituições sociais a fim de que o telespectador compreenda os prognósticos feitos pelos comentaristas posteriormente. A cobertura do julgamento de Suzane von Ritchtofen e dos irmãos Cravinhos demonstrou o papel do telejornal em acompanhar o caso detidamente. Desde o dia 25 de maio de 2006 o programa ofereceu uma cobertura do assunto, sendo que o julgamento só iria acontecer dez dias depois. Cumprindo com o papel de oferecer ao telespectador a bagagem necessária para compreender os desdobramentos do fato durante o dia, a reportagem de Alan Severiano apontou as possibilidades da anulação do julgamento de Suzane, os argumentos da defesa dela e dos outros réus, os irmãos Cravinhos, e trouxe explicações sobre o funcionamento de um processo criminal, indicando, inclusive, as posições que os acusados teriam no espaço. Figura 22: recursos gráficos explicativos sobre o julgamento de Suzane von Ritchtofen e dos irmãos Cravinhos. 167 Fonte: edição de 05 jun. 2006 O Bom Dia Brasil oferece distinções em relação ao subgênero dos telejornais que se expressam desde a vinheta do programa até sua estrutura. O telejornal matinal da TV Globo criou uma forma específica de direcionar-se à audiência, envolvendo-a na interação dos mediadores, de modo que o telespectador sinta-se instruída com as avaliações ali estabelecidas. No cenário comunicativo que envolve o programa, nota-se uma tentativa do Bom Dia Brasil de unir sua vocação histórica com os campos político e econômico a assuntos mais vinculados à esfera do lazer, o que diz muito de seu apresentador principal, Renato Machado. Ainda assim, quando trata de “amenidades”, o telejornal o faz a partir de um enquadramento da alta cultura e da sofisticação, o que não contrasta com o jornalismo sério, mas o ratifica. Deste modo, o telejornal oferece uma transição entre a esfera do jornalismo e do entretenimento para manter o telespectador preso ao fluxo televisivo. 168 6. O SEM CENSURA E A CONSTRUÇÃO DE SOCIABILIDADE A grade de programação televisiva vespertina conta com programas de diferentes gêneros: filmes e telenovelas concorrem, principalmente, com talk shows direcionados a testes de fidelidade e resolução de casos amorosos, além de seriados norte-americanos. A TV Brasil, porém, destina seu horário vespertino a um programa surgido em 1985, ainda no calor das discussões pela redemocratização do país. Com nome emblemático, o Sem Censura era apresentado inicialmente por Lúcia Leme, que, no centro de uma mesa-redonda, direcionava perguntas a seus convidados de diversas áreas. A fórmula do programa parecia inovadora: dispostos lado-a-lado, os convidados podiam interagir e debater, sob o comando da mediadora, sobre os assuntos do dia. A participação da audiência era também fundamental, uma vez que, segundo a própria apresentadora do período inicial, no Sem Censura, “não fazemos um monólogo. O público participa. Se damos uma informação errada, o telespectador liga para corrigi-la” (COM a língua solta, 22 jul. 1992). Produzido inicialmente pela TV Educativa do Rio de Janeiro e retransmitido pela TV Educadora, o Sem Censura já obteve 14 pontos no IBOPE83 na década de 1990 e foi segundo lugar em audiência em 198784 seguindo a fórmula de debate público proposta em seu surgimento. No entanto, a mudança de gestão da TVE carioca durante os anos 1990 impôs uma série de transformações na emissora, que já não se propunha a oferecer uma programação alternativa às grandes redes comerciais de televisão. Ao ser nomeado diretor da TVE, José Aurélio Barbosa, o “Leleco”, assumiu suas posições políticas, quebrando a regra número um das emissoras públicas: o serviço público, rejeitando o partidarismo. Também colocou em crise a folha de pagamentos da organização contratando um número desnecessário de profissionais que tinham vínculos familiares com os funcionários do canal. Além disso, interferiu nos programas já existentes, impondo convidados e assuntos. Com o Sem Censura não foi diferente. No início dos anos 1990, toda a equipe inicial do programa, responsável pelo seu sucesso e credibilidade junto à audiência, foi desligada da emissora. Segundo Lúcia Leme, Leleco “impingiu uma lista de trinta pessoas que deveriam ser convidadas para o programa” (A TV do absurdo, 20 fev.1991), o que tirava a liberdade dos jornalistas de produzirem suas próprias pautas baseados num ideal de interesse público. 83 Revista Veja, 20/02/1991. Informações extraídas do site http://www.museudatv.com.br/historiadasemissoras/tve.htm, acesso em 09/03/2010. 84 169 As interferências do diretor da emissora promoveram mudanças na estrutura do programa, que passou a equilibrar o debate dos assuntos com apresentações musicais. “Antes, batalhávamos muito para conseguir colocar um cantor no Sem Censura. Depois do Leleco, houve uma espécie de loteamento entre as gravadoras e cada uma coloca no programa o artista que quiser”, afirmou o divulgador de uma gravadora de discos (A TV do absurdo, 20 fev.1991). As transformações ocorridas no Sem Censura coincidem com um período em que o número de programas de entrevistas e debates se multiplicou na televisão brasileira. Se nos anos 1980 programas dessa natureza apareceram na grade de programação para suscitar o debate público, dez anos mais tarde os programas eram apontados como um “falatório” no qual “o telespectador se aborrece, aprende pouco e assiste a um autêntico desfile arroz-de-festa” (COM a língua solta, 22 jul. 1992). Apesar da mudança de sua proposta inicial, o Sem Censura continuou sendo um programa respeitado pela audiência e pela crítica televisiva. Longe dos quatorze pontos no IBOPE, mantendo-se na faixa de dois pontos atualmente, o programa de debates diário da TV Brasil mantém-se como alternativa à programação vespertina para quem deseja obter informações. Os dois momentos da história do programa – o surgimento, baseado no debate público, e o desenvolvimento, acompanhado por entrevistas com celebridades - apontam para as marcas de seu modo de endereçamento tal como se configura hoje. A promessa de um debate sem censura já não remete ao caráter político do programa, mas guarda a legitimidade que rendeu seu sucesso em meados dos anos 1980. Apresentado por Leda Nagle desde 1996, o Sem Censura é exibido pela TV Brasil de segunda a sexta-feira, das 16hs às 17hs3085. 6.1. Palavra quase franqueada Segundo Guilherme Rezende (2000), os programas de entrevista e de debates tinham baixo custo, pois não dependiam de uma ampla infraestrutura para sua produção. Segundo a revista Veja de 22 de julho de 1992, os custos de um mês de programa não passam de U$ 25000, enquanto um episódio de telenovela chega a U$ 35000. Ainda segundo a reportagem de Veja, foi essa relação custo-benefício que impulsionou a produção de uma diversidade de programas de entrevistas e debates nos anos noventa. A fórmula, porém, foi descoberta anos antes e adotada em larga escala pelas emissoras da TV aberta, especialmente as públicas, 85 Para esta análise, serão utilizadas dez edições do Sem Censura com fins ilustrativos. As edições foram escolhidas aleatoriamente e referem-se ao período entre os dias 27 de abril de 2009 e 15 de maio do mesmo ano. 170 justamente pela possibilidade de tratar assuntos com mais profundidade e baixo custo. Atualmente, a TV Brasil, emissora pública criada em 2007, leva ao ar cinco programas de conversação (considerando entrevista e debate) com diferentes temáticas: música, literatura, política ou temas gerais, como é o caso do Sem Censura. Com um cenário simplista que pouco se alterou ao longo dos anos, exceto por uma tentativa de modernização que lhe dá profundidade, o Sem Censura estrutura-se como uma mesa redonda, na qual convidados de diversas áreas posicionam-se lado-a-lado formando um semicírculo. Ao centro, encontra-se a apresentadora, Leda Nagle, que comanda a conversação do programa a partir de uma pequena bancada, semelhante a uma tribuna, que lhe confere um lugar de destaque em cena. Ao longo da conversa, os enquadramentos são longos – em torno de um minuto - e se mantêm no plano americano na maior parte do tempo. Figura 23: duas versões do cenário do Sem Censura Fonte: edições de 15 mai. 2009 e 04 out. 1993 (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=KqzVoJYSb4g, acesso em 09 mar. 2010) Se por um lado o programa utiliza pouco os recursos da linguagem televisiva para se atrelar à conversação, por outro é no aspecto visual do cenário que se encontram boa parte das estratégias do programa que se relacionar com a audiência. Em primeiro lugar, a distribuição dos convidados no semicírculo não é aleatória, mas obedece a critérios de notoriedade no cenário cultural nacional. O Sem Censura, propositadamente, coloca os convidados famosos no centro do semicírculo, de modo que os enquadramentos de câmera os posicionem em lugar privilegiado em relação aos demais participantes, ou seja, ao lado da apresentadora. Assim, praticamente todas as vezes em que a mediadora aparece, um dos dois está presente em segundo plano. 171 Figura 24: disposição dos convidados no cenário e suas interações Fonte: edições de 29 abr. 2009 e 28 abr. 2009. Os famosos ocupam lugar de destaque, nem tanto pela vinculação temática, nem pelo tempo destinado à entrevista, mas para prender a audiência durante o programa. A organização temática do Sem Censura durante seus quatro blocos segue o critério de atualidade e interesse público, que, no programa, aparecem articulados, e se expressam por pautas vinculadas a problemas individuais que podem ser ampliados para o social, como saúde, violência, acidentes de trânsito, entre outros. Assim, são os especialistas e fontes oficiais que, normalmente, abrem o programa, ocupando o primeiro bloco da emissão. Os representantes das esferas culturais aparecem apenas no terceiro bloco, o último dedicado a entrevistas. Mas, tendo aparecido desde a abertura do programa, o posicionamento dos convidados famosos do programa funciona como um atrativo para que a audiência se mantenha engajada à conversa que ali se passa. O Sem Censura, com isso, apela para a já conhecida estratégia dos programas televisivos de usar o fluxo como estratégia de captura: o telespectador tem que assistir toda a emissão para ver/ ouvir o assunto de seu interesse. Além disso, em cada bloco são concedidos em torno de quinze minutos de entrevista para cada entrevistado, buscando uma igualdade de acesso à palavra por parte de todos os participantes. Portanto, nem sob este ponto de vista os representantes culturais podem ser considerados mais relevantes que os demais na construção do Sem Censura, mas interpelam o telespectador a assistir o programa a partir do olhar – dispositivo cênico – e do reconhecimento de sua condição de notoriedade. Um segundo aspecto que o dispositivo visual permite compreender é a relação interna dos interlocutores do programa e aquilo que parece ser a marca mais evidente do Sem Censura desde seu surgimento: a interação supostamente livre e igualitária. Colocados no mesmo nível e lado-a-lado, todos os participantes podem se ver e interagir, interferindo na fala uns dos outros. A promessa do programa sustenta-se sobre o franqueamento da palavra e que todos podem participar “sem censura”, ou seja, sem a regulação rígida de um mediador. Essa 172 construção sugere que todos os participantes são responsáveis pela construção do conhecimento e, aliados à apresentadora, irão trazer contribuições que escapam à produção, por meio de perguntas que a apresentadora não faz, ou de opiniões e idéias a partir de um repertório cultural adquirido em experiências distintas. A não censura já não representa um manifesto contra o governo autoritário que limitava as conversações, mas expressa a liberdade que o programa busca construir nas interações entre participantes. A ênfase do programa na interação aberta entre participantes orienta a relação que o programa propõe à audiência desde a vinheta de abertura, que não faz qualquer referência a assuntos tratados, temáticas ou problemáticas que se pretende discutir. É a conversação, demonstrada na vinheta por uma sequência de quadros que mostram duas ou mais pessoas interagindo, que configura o aspecto central do Sem Censura. Figura 25: vinheta do Sem Censura. Fonte: edição de 08 mai. 2009 Na maioria dos quadros, dois ou mais participantes aparecem como se estivessem dialogando, o que se pode notar pelos gestos, aplausos, risos que aparecem de forma estilizada por meio de recursos gráficos. O último quadro, porém, põe a apresentadora em primeiro plano, o que evidencia que, ao contrário de sua promessa, há uma hierarquia durante a conversação. É 173 possível notar, tanto na estruturação do cenário, quanto na distribuição dos turnos de fala, um controle exercido pela mediadora. Do centro do programa, Leda Nagle pode se deslocar, em sua cadeira giratória, para outros pontos do cenário, buscando maior proximidade física com os entrevistados. Sua posição central permite que ela tenha controle da situação e conceda aos participantes a palavra nos momentos em que achar conveniente. Sendo assim, o franqueamento da palavra, no Sem Censura, é relativo, obedecendo aos critérios da apresentadora, que se coloca como autoridade no controle dos turnos de fala. A entrevista com a juíza do trabalho Luciana Neves, sobre os direitos das empregadas domésticas para regularização da atividade profissional, exemplifica aposição de superioridade que a apresentadora demonstra: Luciana Neves: [...] O que é que normalmente o juiz vem fazendo, que a gente chama “jurisprudência”, as decisões vêm sendo: se aquela trabalhadora faz isso acima de três dias na semana, ela já é uma doméstica... Acima de três dias, quatro dias, cinco dias? Leda Nagle: Luciana Neves: É, de três para cima. Se ela vai lá duas... Três também? Leda Nagle: Luciana Neves: É. Três para cima. Então você tem que ter duas pessoas para ter dois dias. Leda Nagle: Luciana Neves: Não. Por que é que você não tem uma só e assina a carteira dela como doméstica? Não, porque não encontra, né. Não é todo mundo que encontra para trabalhar Leda Nagle: todos os dias. Luciana Neves: E tem.... Elas moram longe. Elas querem voltar para casa e é também sacrificado às vezes. Leda Nagle: Luciana Neves: Mas tem... No Rio de Janeiro, por exemplo, da Baixada para a Zona Sul são duas, três horas Leda Nagle: de ônibus. Então tem empregada que não quer trabalhar todo dia porque tem filho, tem marido, entendeu? Luciana Neves: Mas olha como a própria... E as pessoas também, por conta do seu próprio orçamento doméstico, às vezes não Leda Nagle: podem ter uma empregada todos os dias. Luciana Neves: Mas aí... Porque é muito caro, então acaba tendo duas vezes por semana, três vezes por Leda Nagle: semana. Não é? Ou terça e quinta, ou segunda, quarta e sexta. Luciana Neves: Mas você fala assim: “a empregada...”. Você mesma já reconhece como empregada. A diarista é muito típica, muito clara para você dizer que é diarista. Ela vai lá cumprir uma tarefa e vai embora. [...] Ela pode ir lá para lavar e passar uma roupa. Pode ser para fazer a faxina. Pode ser para fazer o almoço e ir embora. Ela vai lá, faz o seu almoço da semana e vai embora. Ela é uma diarista. [...]. (Edição de 30 abr. 2009) Esta conversa foi iniciada como continuidade à entrevista com Luci Pereira, atriz que representava uma empregada doméstica na telenovela da TV Globo, Caminho das Índias. Por meio de perguntas informativas, Leda Nagle buscou obter da entrevistada informações que, na verdade, esclarecessem os patrões sobre seus deveres e, por conseguinte, sua condição e seus 174 deveres. Por estar pessoalmente interessada no assunto, a apresentadora inicia uma série de interrupções para obter informação que revelam certa ansiedade em obter uma resposta desejável. Como essa resposta não veio, Leda Nagle iniciou uma tentativa, também ansiosa, de justificar sua posição sem deixar que a juíza contra-argumentasse ou complementasse as informações. As interrupções promovidas pela apresentadora a fim de esclarecer suas dúvidas e comprovar seu ponto de vista “rouba” da entrevistada a autoridade de oferecer explicações sobre um assunto que é de sua especialidade. A autoridade construída fora do campo jornalístico, nesse caso, se esvai diante da autoridade da apresentadora, que já está em condição de vantagem sobre o entrevistado por ali ser o “seu espaço”. Por isso é que, quando os convidados se vêem em situações como essas, eles reivindicam seu direito de resposta dizendo “calma”, “deixa só eu concluir...”, ou por meio de gestos que indiquem um pedido de espera. Essa disputa pela autoridade recai sobre dois aspectos vinculados ao papel de Leda Nagle como mediadora. O primeiro diz respeito a sua função no programa que, além de apresentadora, é editora-chefe. Isso lhe atribui certa autonomia para pautar assuntos, retomar questões, expor suas idéias. O papel como editora remete ao processo de produção jornalística, àquilo que se inicia antes da entrevista e se estende durante. Assim, Leda Nagle deixa transparecer essa condição quando afirma “eu já fiz essa pauta várias vezes com você mesmo, você sabe disso” (13 mai. 2009) ou “a gente vai fazer um programa sobre gravidez e assuntos ligados a grávidas, tá. Segunda-feira” (29 abr. 2009). Muitas vezes, os assuntos pautados no Sem Censura parecem responder a um interesse particular da mediadora, ou seja, o programa orienta sua dimensão de interesse público a partir dos interesses privados de Nagle. Ainda na entrevista com a juíza do trabalho, Leda Nagle aparece tomando nota dos esclarecimentos da advogada e afirma seu interesse particular pelo tema: “o que eu queria esclarecer hoje é aquela que trabalha... Porque eu estou achando que essa é uma grande tendência. Eu tenho conversado muito, tenho visto muita gente que, ou trabalha terça e quinta, ou segunda, quarta e sexta [...]. Quem trabalha três vezes por semana, tem que assinar a carteira?” (30 abr. 2009). Assim, a temática parte das situações vividas pela apresentadora que podem representar um interesse coletivo. Essas experiências entram no programa para remeter a situações cotidianas que fundamentam a relevância do assunto: “doutor, eu tive duas amigas que, teoricamente, morreram depois do uso, do mal uso, 175 digamos assim, da bombinha. Ainda chamava bombinha. É... isso procede ou foi uma coisa impensada?” (pergunta para o médico especialista em alergia respiratória, Fábio Kuschnir, edição de 07mai. 2009). Um outro aspecto que reforça a autoridade da mediadora é a construção de sua trajetória no campo jornalístico televisivo e o reconhecimento da audiência sobre seu lugar de fala para realizar as entrevistas. Foi como entrevistadora do Jornal Hoje (TV Globo) que Leda Nagle ganhou reconhecimento pelas suas entrevistas. O quadro comandado por ela no telejornal ia ao ar todo sábado à tarde e durante o período de 1977 a 1989 entrevistou diversas personalidades da cultura, como Glória Menezes, Chico Buarque, Cazuza, Rita Lee. Após doze anos, Nagle foi para a TV Manchete num período em que a emissora buscava assegurar o segundo lugar em preferência da audiência. O investimento no telejornalismo – para concorrer com o já estabelecido Jornal Nacional – foi a estratégia adotada por Mauro Costa, ex-diretor de jornalismo da Manchete, para dinamizar a programação. Na nova emissora, Leda Nagle foi apresentadora do Jornal da Manchete – Edição da Tarde, concorrente direto de seu antigo anfitrião. As entrevistas, que se tornaram sua marca, foram mantidas no horário de sábado à tarde e se estenderam para terça e quinta à tarde. Assim, Leda Nagle consolidava um lugar no cenário televisivo nacional como entrevistadora que a levou, em 1996, ao comando do Sem Censura. Foi principalmente a passagem pelo Jornal Hoje que criou familiaridade entre a apresentadora e o público e que aparece constantemente como referência em suas entrevistas no Sem Censura. Na entrevista com o cantor Moraes Moreira, após ter cantado a música “Pombo Correio”, Leda comenta: “Faz parte da trilha sonora da minha vida essa música. Era essa música que era do Hoje?” (29 abr. 2009). Além de a própria mediadora convocar essa trajetória, seus convidados se referem a ela a partir de uma relação de admiração e credibilidade: Fábio Jorge Inclusive, eu só queria, antes de cantar, queria dizer que anos atrás eu tinha um (cantor): ídolo que era você na televisão [...]. É verdade. Eu via você na TV e eu achava o máximo nas entrevistas do Jornal Hoje. [...] Eu imaginava você sempre aquela mulher forte, né. Aquela figura feminina forte da TV. (Edição de 27 abr. 2009) 176 É na referência a essa trajetória e a conseqüente familiaridade que o público demonstra ter com a apresentadora que ela constrói sua credibilidade em seu programa, onde está há mais de dez anos. A credibilidade se concretiza também quando ela demonstra se informar sobre os assuntos em outros veículos e manter-se atualizada para provocar uma conversa melhor embasada: “hoje eu vi na BBC” (29 abr. 2009), “eu li na imprensa de hoje” (13 mai. 2009), ou quando demonstra um sistema de produção que envolve uma preparação prévia para o programa: “quando eu estava vindo aqui para o estúdio, a gente estava comentando...” (28 abr. 2009). O terceiro elemento que os dispositivos visuais do programa permitem observar é a dimensão de debate assumida pelo Sem Censura, que remete ao modelo de mesa redonda já conhecido do público. Do ponto de vista genérico, o Sem Censura impõe um dilema, tendo em vista que mistura entrevistas e discussão na mesma edição. A apresentadora, ao mesmo tempo que se referencia ao ato de entrevistar como parte de sua atividade no programa (“eu entrevistei, até essa semana, o doutor Paulo Müller”, 30 abr. 2009), também afirma que aquele é um espaço de debate que incluiria, também, os telespectadores, os “debatedores fixos” do programa, como Leda Nagle salienta a cada abertura. O Sem Censura mistura entrevistas com a troca de opiniões, que caracteriza o modelo de mesa redonda. Consequentemente, a conversação do programa se estrutura em torno de dois pares adjacentes mais evidentes: o binômio pergunta/ resposta, definidor da entrevista, e o binômio interpelação/ resposta, caracterizado pela sucessão de comentários justapostos, o que seria mais típico do debate. Figura 26: locomoção de Leda Nagle no cenário Fonte: edição de 07 mai. 2009 177 A cada tema abordado, Leda Nagle inicia e encerra um ato conversacional, constituindo, a cada emissão, uma seqüência desses atos que não necessariamente remetem uns aos outros. Tomando como exemplo a edição de 07 de maio de 2009, é possível encontrar quatro abordagens distintas que inauguram e encerram conversações na cena: meteorologia, alergias respiratórias, divulgação de uma peça de teatro, lançamento do DVD do grupo Revelação. Enquanto trata de cada um desses assuntos, Leda Nagle se aproxima do entrevistado que o aborda e se dirige, inicialmente, apenas a ele. Essa questão do debate posiciona o telespectador em um lugar muito específico no programa. Ser chamado de “debatedor fixo” o convoca a uma posição de fidelização, além de abrir espaço para sua intervenção na conversa televisiva. A cada edição, o programa escolhe um tema sobre o qual os telespectadores devem refletir e enviar suas observações: perguntas, comentários, experiências. O site do Sem Censura na internet possui um canal em que o telespectador pode votar numa enquete e um espaço para o envio de mensagens, e é na concessão da palavra à audiência que o programa o posiciona como participante da conversa. O resultado da enquete é lido no final do programa, mas as mensagens enviadas ao programa, que podem ser sobre o tema do dia ou sobre qualquer outro, colocam o telespectador na cena, como se ele fechasse o círculo do cenário. O tema do dia é proposto à audiência como uma pergunta que convoca a formulação de idéias e a partilha de testemunhos, configurando o debate que o Sem Censura inaugura. Na edição de 29 de abril de 2009, o tema foi alcoolismo e a pergunta que norteou a participação da audiência foi: “você conhece algum caso de alcoolismo? A pessoa que você conhece aceita se tratar ou é um problemão para a família?”. Como nem todas as perguntas solicitam apenas respostas diretas, do tipo sim/ não, esse espaço concedido pelo Sem Censura para a participação da audiência permite a expressão de suas angústias, visões de mundo, manifestações de indignação ou preocupação. Identificando os interlocutores pelo nome e local, Leda Nagle relata os pareceres que são compartilhados no programa, como se pode ver na mesma edição: Leda Nagle: Hoje a gente perguntou aqui se você conhece algum caso de alcoolismo, se a pessoa aceita se tratar ou se é um problema. Não conhece nenhum caso, o J.P.R., dezoito anos, Belo Horizonte [...]. P.R., do Flamengo, conhece um alcoólatra. Os familiares o julgam apenas como uma pessoa alegre, que bebe apenas por adorar ver os amigos em noitadas regadas a copos e copos. A família não o vê como alcoólatra [...]. 178 “Gostaria de falar de uma situação de alcoolismo que tem acontecido aqui na minha cidade – a cidade é São João Del Rei: são as festas universitárias para jovens com idade entre vinte e trinta, que fazem suas propagandas a partir da quantidade de bebida a ser consumida no open bar. Numa dessas festas que houve aqui, foi propagado que teria duzentos litros de caipirinha, trezentos litros de vodca e inúmeras caixas de cerveja. Vale ressaltar que o ingresso para essas festas dá direito a uma caneca de chop e a galera vai de carro, porque elas são realizadas em sítios fora da cidade”. Perigo absoluto, né [...]. A H., de Sete Lagoas, conheceu o primo que morreu mês passado muito jovem, com quarenta anos. Já bebia desde adolescente. Vítima da bebida e do cigarro, já tentou várias vezes deixar a bebida e nunca conseguiu e isso foi um problema para a família e depois para ele mesmo. (Edição de 29 bar. 2009) A leitura das mensagens enviadas pela audiência ocorre em momentos específicos, geralmente no final dos blocos, e não interfere no momento em que o assunto está sendo tratado pelas entrevistas de Leda. Há, portanto, uma distinção entre a conversa no estúdio e o momento em que o telespectador pode dar sua contribuição. Espaço, também, para perguntas e elogios (ao programa e/ ou ao convidado), o momento em que as mensagens são lidas pode fazer retornar certos temas ou suscitar comentários por parte dos convidados e da apresentadora, como aconteceu com o depoimento sobre as festas universitárias no exemplo acima. As enquetes apelam para questões do cotidiano (“você tem sogra?”, “se você fosse fazer um consórcio, o que escolheria?”, “que tipo de alergia você tem? Ou é um superprivilegiado sem alergia alguma?”) e não têm validade demonstrativa, ou seja, o resultado numérico (se mais ou menos pessoas conhecem um alcoólatra) não é o que mais importa, mas sim o que é compartilhado, a visibilidade a problemas que, vividos no nível pessoal, ganham, no programa, relevância coletiva. Deste modo o Sem Censura cria um sentido de sociabilidade, de partilha de um mundo comum que se vincula com o pacto sobre o papel do jornalismo. 6.2. Jornalismo e possibilidades de socialização Os diálogos travados no programa Sem Censura remetem, sobretudo, a um sentido da conversação que não se limita apenas à divulgação de informações, mas essas informações devem servir à vida cotidiana e unir os indivíduos em torno de interesses comuns. A informação (EKSTRÖM, 2003) é uma propriedade evidente do programa, mas é negociada com valores outros que lhe dão sentido de partilha e troca. No Sem Censura, a conversação visa o cumprimento do papel do jornalismo de servir como unificador de interesses, valores e 179 sentidos socialmente partilhados. O programa da TV Brasil promove essa função a partir de dois referenciais: A) A construção de uma comunidade afetiva em torno do presente compartilhado. Segundo Carlos Franciscato (2003), o discurso jornalístico apropria-se do presente a partir da identificação de expectativas dos receptores que lidam com os conteúdos divulgados. O sentido de atualidade, tratado pelo autor a partir de uma relação de conteúdo e também como construção cultural, se traduz na função do jornalismo de identificar, no fluxo de experiências vividas no cotidiano, aquelas que, pela sua relevância, merecem tornar-se notícia. Para o autor, o jornalismo “fabrica” um tempo presente através do uso de tecnologias que criem um efeito de “aqui-agora”, unindo os indivíduos a partir da recepção da notícia e da percepção do acontecimento num fluxo de experiências. A temporalidade não é percebida, portanto, sob o plano individual, mas coletivo, referindo-se ao momento ou instante em que as pessoas estão interagindo. O “ao vivo” no telejornalismo, por exemplo, permite esse efeito de contato instantâneo entre o momento do acontecimento, o da produção e o da recepção. Buscando uma aproximação da exibição do programa com o fluxo de experiências vividas e compartilhadas no presente, o Sem Censura procura tematizar aquilo que está em evidência no momento, o que está em pauta na mídia e o que faz parte das relações sociais cotidianas. Esse tempo do evento é fundamental para a construção da atualidade do jornalismo do Sem Censura, uma vez que o programa pauta os assuntos vinculando-os ao presente experienciado no cotidiano. Torna-se tema do programa, portanto, o dia da sogra e o dia das mães, o lançamento de novos CDs, o desempenhos dos atores da novela das oito86, etc. Assim, a temática do Sem Censura se articula com a atualidade, elemento fundamental para a compreensão do pacto sobre o papel do jornalismo, configurando dois processos que ocorrem concomitantemente: os temas provêm das experiências cotidianas e as experiências cotidianas e representações de mundo são pautadas pela mídia em geral. Esse ciclo temático que envolve mídia, programa e vida cotidiana pode ser percebido de duas formas. A edição de 28 de abril de 2009 tratou do tema cirurgia plástica, que, aparentemente, é um tema “frio”, podendo ser abordado em qualquer edição. No entanto, o enquadramento dado pela apresentadora buscou 86 Eliane Giardini, Stephan Necessian, Luci Pereira foram alguns atores da telenovela Caminhos da Índia, presentes no Sem Censura no período analisado. 180 capturar e dar relevância ao assunto a partir da vinculação com o presente: “doutor, é tempo de cirurgia plástica?”. A parte inicial da troca foi marcada por perguntas que indicassem o melhor momento para fazer as cirurgias: o fim do verão, momento em que foi exibido o programa, é de fato o melhor momento para procedimentos cirúrgicos? As questões abordadas no Sem Censura, e que, em muitos casos, abrem o programa, emergem do que é discutido e vivido no cotidiano, como salienta a apresentadora Leda Nagle: “só se fala em gripe suína” (29 abr. 2009), “eu vou começar esse programa falando daquilo que a gente mais fala nesses dias assim: que o tempo está maluco” (07 abr. 2009). Essas colocações apontam para o tema que está repercutindo na vida social e a presentificação desses assuntos no programa valorizam o “agora”: o que se fala agora, nestes dias, neste momento. Por outro lado, o programa procura estar engajado num sistema comunicativo que envolve outras mídias e espera o mesmo do telespectador. Os temas que surgem no Sem Censura ganham sentido de atual a partir de uma vinculação com o que está em pauta em outros meios de comunicação. No dia 30 de abril de 2009, a entrevista com o oncologista Daniel Herchenhorn, presente no estúdio para falar sobre o linfoma, tipo de tumor que atinge o sangue, teve como gancho a doença que acometeu a então Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Foi acessando um saber compartilhado coletivamente, pautado pelos meios de comunicação, que o programa tratou do assunto. Sobre as mudanças nas condições climáticas do país, Leda Nagle, para fundamentar sua opinião, fez referência a uma imagem que circulou nos telejornais, mesmo sem citar nome do veículo ou data. A complementação da fala da apresentadora, num momento de hesitação, por outro participante demonstra que o mesmo repertório é compartilhado socialmente: Luiz Austin: Leda Nagle: [outra pessoa]: Leda Nagle: [...] Quem olha para as imagens, na bacia amazônica, as casas já são feitas sobre palafitas. As pessoas já sabem que as bacias, as grandes bacias hidrográficas, elas têm épocas de ano que aumentam a sua capacidade [...]. Mesmo nas grandes cidades tem essa coisa de... muitas comunidades em cima dos morros. Vendo aquela imagem daqueles dois operários naquele carrinho de limpar [faz gesto como se estivesse limpando um vidro]... Andaime [complementando]. Andaime, né. Eles passaram um perrengue ali. Coitados, né. Não sei como não se machucaram mais. A gente fica com medo do prédio da gente, porque nada no Brasil foi construído pensando nisso. (Edição de 07 mai. 2009) 181 O programa da TV Brasil retoma, com isso, o conceito de onipresença da mídia, segundo o qual “o saber público – o conjunto de conhecimentos, opiniões, atitudes, difundidos pela comunicação de massa – possui uma qualidade particular: é sabido publicamente que ele é publicamente conhecido” (WOLF, 2006, p. 142). Articulando temporalidade e temática, o Sem Censura constrói o processo de presentificação e circulação dos temas a partir de um ciclo contínuo no qual o cotidiano pauta a mídia e vice-versa. Como afirma Rousiley Maia, “em condições contemporâneas, as pessoas tendem a mesclar o material dos media com suas próprias experiências87” (MAIA, 2008, p. 204). É nessa “mixagem” que o Sem Censura concretiza a atualidade jornalística em sua dimensão de simultaneidade, ou seja, o sincronismo entre o tempo de transmissão e o tempo de recepção. Segundo Franciscato, “o momento presente em que a conversação se realiza (na maioria das vezes, uma simulação de interlocução) produz uma dimensão temporal que é fundamental para o próprio sentido de integração entre interlocutores” (FRANCISCATO, 2000, p. 4). Embora o autor esteja tratando a conversação como uma simulação de contato (Martin-Barbero, 1997), é possível pensar nas conversações efetivas que o Sem Censura põe em cena, como estratégia de integração entre público e representante midiático, de modo a criar um sentido de comunidade. As enquetes e os momentos de troca de mensagens por emails visam incluir participantes televisivos e audiência na mesma prática ao mesmo tempo, reforçando a idéia de socialização, e estendendo a possibilidade de contato do plano olho-aolho para interlocuções mais efetivas: os telespectadores podem se dirigir, de fato, para os participantes em cena e, de certo modo, para outros que estão ouvindo naquele momento – por isso é que há pedidos, como “manda um beijo para ....”. Como afirma Franciscato sobre a imprensa, “este ato [de ler jornal] ganha sentido não somente pela busca individual de conhecimento sobre assuntos diversos, mas porque ele leva as pessoas a se sentirem integradas em uma comunidade cujas ações e o próprio destino lhes competem estar cientes e, mesmo, intervir” (FRANCISCATO, 2003, p. 162, grifo meu). O que o Sem Censura promove, através do jornalismo, é o reconhecimento do indivíduo como membro de um grupo mais amplo, dando visibilidade a questões comuns e promovendo espaço para compartilhar problemas. Como afirma Rousiley Maia, apenas quando convicções comuns emergem, os cidadãos podem agir em concerto, desenvolvendo uma perspectiva autocrítica e auto-reflexiva, 87 A autora está tratando, mais especificamente, do modo como a mídia pode interferir das falas cotidianas e em ações políticas, mas ajuda a explicar este fenômeno no Sem Censura. 182 traduzindo suas experiências do particular para o geral, do institucional para o civil e vice-versa. É isso que permite uma definição compartilhada do problema e, assim, uma constatação pública de sofrimentos ou danos comuns (MAIA, 2008, p. 87). Embora esteja tratando das conversações políticas na vida cotidiana, Maia traz a idéia de que há uma “definição compartilhada de problemas”, o que explica a sociabilidade que o Sem Censura pretende gerar a partir do compartilhamento de experiências. À oposição dos problemas que são relatados no programa, e, em geral, o convidado nunca vai ao programa para falar sobre seus problemas, quem faz isso é o público, os personagens que participam da conversação do Sem Censura trazem suas soluções a partir do que já aprenderam: Maria Mariana: Eu acho, assim, que a única maneira de a gente proteger o nosso filho é sendo amiga. Eu acho que esse investimento na amizade, eu acho que é a única forma. Porque, como vai proteger de um mundo tão violento? De um mundo tão absurdo? Eu procuro acreditar que o tempo que eu dedico a eles, e tudo, é querendo proteger, porque eu quero chegar neles adolescentes e que eles confiem em mim, e ser amiga para poder saber o que eles estão pensando, poder orientar. (Edição de 08 abr. 2009) B) A construção de uma comunidade a partir de uma dimensão cívica Ao unir os indivíduos em torno de questões de interesse comum, o Sem Censura identifica os assuntos que possuem maior relevância para a audiência. A própria conversação em cena demonstra maiores níveis de engajamento quando os participantes começam a interferir nas falas uns dos outros, fazendo perguntas, trocando opiniões e argumentos, e colaborando com a construção de um conhecimento para o telespectador que, por sua vez, também tem espaço para a contribuição. Nesses momentos, a conversação fica marcada por uma série de sobreposições que indicam a disputa pela palavra, exigindo que Leda Nagle coloque ordem na troca através de expressões como “espera aí, espera aí”. O primeiro bloco da edição de 13 de maio de 2009, que abordou os acidentes rodoviários provocados por animais soltos nas estradas, exemplifica essa característica do programa. O inspetor da Polícia Rodoviária Federal, André Luiz Azevedo, foi questionado pelo cantor Toni Garrido, pelo escritor Flávio Carneiro e pelo médico Fernando Dias: Toni Garrido: Quando você tem ações, como por exemplo essa do bafômetro, né, novas blitz instaladas por causa do bafômetro, isso é mudança de lei ou isso é algum adendo, alguma medida tomada... Porque quando você fala isso, quando você diz: “não existe luz no fim do túnel”, eu fico pensando numa que está 183 André Azevedo: Fernando Dias: André Azevedo: Fernando Dias: André Azevedo: Flávio Carneiro: André Azevedo: Flávio Carneiro: André Azevedo exatamente na frente do túnel que é: [...] as estradas deveriam ser também de certa forma legisladas pela União e pela Polícia Rodoviária Federal. Você não tem como obrigar o cercamento, mesmo que fosse com cercas baixas, por todo o redor de toda a estrada, que isso evitaria completamente tudo? Na verdade, as rodovias concedidas que são privatizadas, boa parte delas recebe esse tipo de sinalização e esse tipo de impedimento. Não só em relação aos animais, mas também em relação aos pedestres, que também é outro problema grave nosso. Nós temos 40% do nosso número de vítimas fatais é de pedestres [...]. Existe, então, um sistema de vigilância permanente dessas rodovias por algum veículo da Polícia Rodoviária Federal buscando identificar esses animais que estão na preferia das estradas? Sim. Todos os animais que estão à margem da rodovia dentro da nossa faixa de domínio são... são capturados e? Aciona-se um veículo da Polícia. Eu moro em Teresópolis e subo direto a serra e a estrada passa dentro do Parque Nacional, né. [sobreposição] Encontra animais. Encontra não muitos ali, né, porque acho que o IBAMA tem uma forma de controle, mas às vezes aparece. E é uma estrada que não pode ser iluminada justamente para não atrapalhar o modo de vida dos animais. A estrada passa dentro do Parque. E aí você está falando das mortes, e também no Nordeste, de vários outros tipos de animais que não estão exatamente em extinção. A minha dúvida era só a seguinte: existe alguma instituição, algum órgão de defesa de animais envolvido em alguma campanha? Alguém se manifestou? Tem algum órgão que esteja envolvido nisso de alguma maneira ou não? Na verdade, eu posso dizer, não a Polícia Rodoviária, mas uma determinada concessionária que administra uma das vias do Rio foi procurada por uma dessas entidades porque havia um número grande de atropelamentos de animais de pequeno porte e trazia risco inclusive para a extinção de algumas espécies. E aí a concessionária foi procurada. Saiu, inclusive, alguma matéria em alguns jornais sobre essa questão. Exatamente por isso que surgiu essa idéia entre os engenheiros lá de promover essa passagem por baixo da rodovia e cercar, botar grade, para evitar o acesso do animal à rodovia e nos traria um outro alento: que seria evitar também o acesso do pedestre [...]. (Edição de 13 mai. 2009) Certos assuntos despertam mais o engajamento e envolvimento dos participantes do que outros. Embora Leda Nagle tente incluir todos os participantes por meio de interpelações diretas que se referem ao tema do dia (“Vander Lee tem sogra?”, 28 abr. 2009; “doutor Leonardo já teve alguma experiência com ciganos?”, 15 mai. 2009), em certos casos os participantes começam a interagir espontaneamente, procurando tirar dúvidas pessoais ou partilhar suas idéias sobre o assunto. Os assuntos que mais convocam a participação são aqueles que os interpelam enquanto agentes de transformações sociais: os direitos e deveres enquanto membros da sociedade. A dimensão de cidadania instaurada pelo programa ressalta seu papel social de fornecer informações que habilitem as pessoas para a vida cotidiana e promovam mudanças para os problemas que atingem a sociedade. Deste modo, o Sem 184 Censura põe em operação outro aspecto do pacto sobre o papel do jornalismo: o serviço ao interesse público e a atribuição de relevância aos assuntos. Segundo Josenildo Guerra (2003), a relevância se processa a partir de três parâmetros: a expectativa da audiência; a importância relativa do fato no interior da área temática; e o interesse público ou a função social do jornalismo. Logo, a atribuição de relevância está relacionada não apenas aos procedimentos jornalísticos de seleção, mas principalmente à relação dos produtos com os receptores. A relevância se estabelece em função do público e para ele, por isso a idéia de interesse público está imbricada nesse conceito. É considerado interesse público tudo aquilo que aparelha o indivíduo para a vida cotidiana, ainda que não haja referência direta à dimensão político-partidária da qual o termo se originou88. No Sem Censura, é relevante aquilo que atinge a saúde física e mental, os direitos e deveres, os problemas públicos, etc. Na conversação posta em cena no programa, os assuntos são enquadrados como relevantes a partir do tipo de pergunta feita, sobretudo, pela apresentadora. Assim, destacam-se três modalidades de pergunta que constroem um sentido de comunidade entre participantes e telespectadores e assume o caráter cívico do público: as perguntas informativas, comprobatórias e de solução de problemas. A pergunta informativa é a mais empregada no programa e confere o estilo do Sem Censura: o programa é voltado para a informatividade, ou seja, para levar ao público um conhecimento que ele ainda não possui (cf. EKSTRÖM, 2003). É comum a conversa iniciar com dados básicos para criar um repertório comum a todos: “a contaminação [da gripe suína] se dá como na gripe comum” (para Edimilson Migowisky, 29 abr. 2009), “a catarata é o que? É uma névoa?” (para Leonardo Akaishi, 15 mai. 2009), “o linfoma é um câncer muito comum?” (para Daniel Herchenhorn, 30 abr. 2009). O exemplo supracitado – sobre os acidentes nas rodovias – demonstra o engajamento dos participantes em obter um conhecimento que ainda não possuem, o que é feito por meio das perguntas informativas direcionadas ao representante oficial responsável pela abordagem do assunto: “Existe, então, um sistema de vigilância permanente dessas rodovias por algum 88 Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”. 185 veículo da Polícia Rodoviária federal buscando identificar esses animais que estão na preferia das estradas?” (Fernando Dias a André Luiz Azevedo); “existe alguma instituição, algum órgão de defesa de animais envolvida em alguma campanha? Alguém se manifestou? Tem algum órgão que esteja envolvido nisso de alguma maneira ou não?” (Flávio Carneiro a André Luiz Azevedo). Deste modo, o Sem Censura parece democratizar a palavra, oferecendo acesso à conversação a todos os participantes que queiram contribuir para a formação do conhecimento. Retomando a questão da simultaneidade, no Sem Censura há uma sincronia na obtenção de informação entre os participantes, o que inclui Leda Nagle e o público. Nagle não se apresenta como detentora do conhecimento e nem de mais conhecimento do que os não-especialistas. Ela se coloca numa posição de igualdade, permitindo que outras contribuições sejam adicionadas à conversa. Na entrevista sobre os problemas de memória, o cantor dos Detonautas, Tico Santa Cruz, acrescentou à discussão com seu repertório adquirido sobre o assunto: Tico Cruz: Santa Saiu uma matéria agora na Superinteressante falando sobre a questão da memória. Porque também, quanto mais informação a gente absorve no dia-adia, e a internet hoje em dia é um poço infinito de informação, vai acumulando, vai acumulando, vai acumulando. Então você tem que abrir espaço no teu cérebro também para poder entrar com informações novas e não reter também as coisas desnecessárias [...]. (Edição de 11 mai. 2009) Também em busca de informações mais precisas sobre os assuntos, Leda Nagle utiliza perguntas comprobatórias a fim de esclarecer algo que seja do senso comum: “a gente vai falar de alcoolismo, uma doença crônica que se inicia freqüentemente na juventude. Os jovens estão bebendo mais mesmo? Há dados estatísticos ou é um achismo generalizado?” (para o médico José Luiz Galvão, 29 abr. 2009); “[...] vivem me dizendo coisas tipo: „ah, antes de tomar um iogurte, toma uma proteína. Antes de comer um carboidrato, se você comer uma proteína, você minimiza o efeito do carboidrato‟. É verdade?” (para a nutricionista Laura Sampaio, 12 mai. 2009). Mas mais do que isso, a dimensão de interesse público e as informações fornecidas em função desse interesse visam promover uma atitude individual que resulte em mudanças sociais. Por isso, os temas trazidos pelos especialistas – coeficiente nutricional, gripe suína, acidentes 186 rodoviários, alcoolismo, alergias – são enquadrados pelo programa visando uma finalidade educativa. À seqüência de perguntas informativas e comprobatórias, o programa emprega as de solução de problemas, como se fosse o desfecho do assunto que leva a um valor moral. A conversa funciona, portanto, dessa forma: a busca de um repertório comum por meio de perguntas informativas ou comprobatórias, seguidas de perguntas de solução de problemas a fim de alertar a população sobre seu papel enquanto agente de transformação e o conseqüente desfecho em um discurso moral que, na maioria das vezes, recai sobre a educação, por meio de locuções como “alguma coisa precisa ser feita” (Leda Nagle, 13 mai. 2009), “a prevenção [ao alcoolismo] tem que ir para a cultura e a partir da cultura, educar. (Julieta Guevara, 29 abr. 2009). Esse discurso está presente tanto no texto verbal da apresentadora, quanto no dos convidados que também buscam, por meio da conversação, dar visibilidade às instituições que representam. Edimilson Migowisky: [...] a gripe é um doença muito contagiosa. A gripe, essa gripe tranqüila que todo mundo tem todos os anos, acomete cerca de 10% da população mundial. E uma gripe como a gripe suína, como é um vírus muito novo e todo mundo é vulnerável a ele, espera-se que o percentual de pessoas acometidas seja muito maior. Por isso é que a gente tem que redobrar a atenção e tentar cada vez mais divulgar as formas de prevenção: evitando o contato com pessoas contaminadas, utilizando a máscara se tiver contato com pessoas contaminadas, utilizar a máscara correta, fazer uma boa higiene das mãos e, Leda, fazer a vacinação que está disponível na rede pública [gesticula enumerando com as mãos o que deve ser feito para a prevenção]. (Edição de 29 abr. 2009) Assim, a conversação no Sem Censura adquire um caráter cívico de modo que os assuntos ali tratados dão visibilidade a questões sociais e convoca a população a uma ação efetiva, ainda que parta de atitudes individuais. Ao tratar sobre acidentes rodoviários provocados por animais soltos nas estradas, o Sem Censura deu a dimensão de serviço público que cumpre o pacto sobre o papel do jornalismo direcionando o assunto para o que a população pode fazer: Leda Nagle: E se criasse um “disque-denúncia” para animais em rodovias? André Azevedo: A Polícia Rodoviária tem o telefone 191 que é gratuito, vinte e quatro horas por dia e serve também para essa finalidade. O usuário identifica o animal solto na rodovia, ele pode imediatamente ligar e informar o local que a Polícia Rodoviária mobiliza uma viatura para tirar aquele animal de lá. 187 Toni Garrido: André Azevedo: Leda Nagle: Toni Garrido: Leda Nagle: André Azevedo: Leda Nagle: André Azevedo: 191 é? 191. Bom saber. Isso é bom. Isso é bom. É fácil, rápido [...]. A população denuncia? A participação da população é pequena. Nós precisávamos interagir mais com a população. [sobreposição] é preciso fazer umas campanhas para conscientizar a população [...]. O motorista, se ele participa mais dessa fiscalização, certamente ele faz a polícia trabalhar de maneira mais objetiva, atendendo exatamente onde as demandas estão. (Edição de 13/05/09) O público é posicionado como parceiro das instituições para reduzir os problemas sociais e o Sem Censura cumpre um papel de vigilância, não tanto da política institucional, mas da sociedade e daquilo que une os indivíduos enquanto comunidade. Por conta disso, às perguntas informativas de Leda Nagle sucedem as de solução de problemas, que visam complementar a informação atualizando-a na vida privada dos telespectadores: “como um serviço, de um modo geral, para as pessoas, se você num auto-exame achar um caroço, vamos chamar assim, que você não sente dor quando você aperta, é melhor sair correndo para o médico?” (para Daniel Herchenhorn, 30 abr. 2009). 6.3. Uma comunidade geograficamente situada Os assuntos trazidos pelo Sem Censura visam interpelar qualquer telespectador em qualquer parte do país. Mas nota-se que a partilha de experiências ocorre mais no sudeste e, especialmente, no Rio de Janeiro, local onde o programa é rodado. Referências geográficas como o “show em Olaria”, “a peça em Bangu”, “os ciganos do Largo do Machado” aparecem nas falas dos entrevistados sem serem acompanhadas por explicações do que esses locais representam. Por outro lado, qualquer referência externa a esse espaço geográfico é visto com curiosidade pela apresentadora, que utiliza perguntas biográficas a fim de trazer esse “outro” para o interior do programa: “você é de onde? [...] E você começou a fazer teatro lá [na Paraíba]?” (Leda Nagle a Luci Pereira, 30 abr. 2009), “você é goiano?” (Leda Nagle a Flávio Carneiro, 13 mai. 2009), “[você] se transformou em bailarino em Teresina?” (Leda Nagle a Marcelo Evelin, 15 mai. 2009). As perguntas biográficas se dirigem mais marcadamente aos atores da cultura, mas não com o objetivo de fazer o público conhecer algo curioso sobre eles. A expectativa do programa não é estreitar laços de intimidade entre celebridade e audiência, mas ratificar o sentido de sociabilidade que o programa engendra, fornecendo informações 188 sobre a cultura, o urbanismo e a geografia das cidades, como se pode ver na entrevista com o coreógrafo Marcelo Evelin: Leda Nagle: Marcelo Evelin: Leda Nagle: Marcelo Evelin: Leda Nagle: Marcelo Evelin: agora, me diz uma coisa, você é piauiense? eu sou, nasci em Teresina. e essa comunidade de Dirceu é uma periferia? é uma periferia, a maior periferia da cidade. Tem quase um terço da população de Teresina e tem só 31 anos. É um conjunto de casas populares por isso chama Dirceu, porque o governador que criou esse conjunto chamava Dirceu Arcoverde. E em 31anos ele se tornou uma comunidade enorme, com uma identidade própria, também marcada pela violência, por um estigma de periferia, como toda periferia. são casas? são casas que perderam essa cara de um conjunto, uma vila e hoje tem universidades, maternidades, um teatro, um mercado próprio, todas as maiores lojas. E tem uma maneira de ser bem particular. Bem... uma identidade bem precisa [...]. Tem um certo orgulho de ser dali, tem uma qualidade, assim, periférica, isso não é depreciativo, assim. É uma qualidade de saber que não são parte de um centro, mas que estão ali, que são presentes, que querem construir uma maneira de estar, de ser. É muito interessante. Na verdade, eu estou convivendo nessa periferia há três anos. Fiquei 20 anos fora do Brasil, muito tempo fora do Brasil, e voltei porque aceitei esse trabalho nesse teatro que foi um teatro que a comunidade pediu à prefeitura para construir. Eles me convidaram para dirigir o teatro. Eu aceitei o teatro já tinha acabado de ser aberto fazia três meses [...]. (Edição 15 mai. 2009) Essa tentativa do programa de incluir o espaço fora do locus carioca para seu interior visa ampliar o território da comunidade de partilha criada pelo e através do Sem Censura. Por isso também é que os telespectadores que enviam suas mensagens são identificados pelo nome e local de onde falam, criando um sentido de que a sociabilidade ultrapassa limites geográficos e que, mesmo em locais diferentes dos que mais são representados no programa, as experiências podem ser vividas e compartilhadas. **** O Sem Censura negocia com o subgênero programa de debate promovendo uma atualização da tradição: a estrutura em mesa redonda remete aos primeiros programas de debate e a um reconhecimetno da audiência. A tentativa de obter uma verdade consensual que auxilie os brasileiros a construirem uma sociedade melhor também se articula a essa dimensão da tradição do subgênero, conforme apontada por Örnebring (2003), que remete ao início da televisão. No entanto, o programa da TV Brasil transforma o subgênero a partir da relação 189 com a temática, que negocia com aspectos de entretenimento: a exibição de trechos de peças de teatro, de música, de poesia. Assim, há uma continuidade no formato, mas uma ruptura no conteúdo do subgênero: o Sem Censura permanece com o objetivo de promover um debate público sobre assuntos que interessam à população – saúde física e mental direitos e deveres, etc – mas permite a abordagem de outras temáticas que não se encerram no conteúdo político. 190 7. MARÍLIA GABRIELA ENTREVISTA: INFORMAÇÃO, CELEBRIDADES E INTIMIDADE Desde os anos 1980, o nome de Marília Gabriela tem sido associado a programas de entrevistas. De estagiária da TV Globo, Marília Gabriela passou pelos cargos de repórter, correspondente internacional, apresentadora de telejornais, do Fantástico e do programa temático TV Mulher. Em meados dos anos oitenta, após sair da Globo, onde tornou-se notadamente conhecida, Marília Gabriela voltou para a rede Bandeirantes, onde já havia trabalhado como entrevistadora do programa Canal Livre, na década de setenta. Dispondo da familiaridade do público, Gabriela se estabeleceu no telejornalismo como entrevistadora no estilo cara-a-cara, primeiramente com o programa de entrevistas Marília Gabi Gabriela (1985) e pouco depois, na mesma emissora, com o Cara-a-Cara com Marília Gabriela, além de ter sido mediadora de debates entre os candidatos à presidência da República em 1989. Em 1997 foi contratada pelo SBT para apresentar o SBT Repórter e o De Frente com Gabi89, programa de entrevistas que mantinha o modelo já estabelecido na Band. Por meio dessa trajetória, Marília Gabriela construiu um lugar privilegiado no telejornalismo. Em sua lista de entrevistados, figuram nomes como Yasser Arafat, Fidel Castro, Madona, além de outros importantes artistas nacionais e internacionais da música, teatro, literatura e televisão. A adjacência ao ambiente cultural e o casamento de oito anos com o ator e modelo Reynaldo Gianecchini foram um trampolim para que a apresentadora se lançasse à carreira como atriz após a gravação do filme Ed Mort (1997). A partir daí seguiram-se trabalhos no mundo da ficção, como as telenovelas Senhora do Destino (Globo, 2004) e Duas Caras (Globo, 2007), além da minissérie JK (Globo, 2006) e de gravações musicais. Por essa trajetória, que concilia a indústria do entretenimento e do jornalismo, Marília Gabriela leva para seu programa a proximidade que possui com a indústria cultural nacional, assim como as estratégias jornalísticas para extrair de seus entrevistados algo que seja relevante para o telespectador. Este parece ser o caso do Marília Gabriela Entrevista, programa de entrevistas que vai ao ar em edição inédita aos domingos, às vinte e duas horas, pelo canal fechado da Globosat GNT. O modelo cara-a-cara sugere proximidade e intimidade, marcas do tom que o Marília Gabriela Entrevisto que propõe ao telespectador. A análise que se segue irá focar nas entrevistas realizadas com a atriz Letícia Sabatella (15 mai. 2006), o psiquiatra Jair de Jesus 89 Em junho de 2010, este programa voltou ao ar, exibido aos domingos, à meia noite. 191 Mari (28 mai. 2006), o ator e ex-marido da apresentadora, Reynaldo Gianecchini (12 jun. 2006), a dupla formada pela jornalista e atleta Cynthia Howlett e o psiquiatra Joel Rennó Junior (05 nov. 2007), as cantoras Roberta Sá e Fabiana Cozzo (18 nov. 2007), os atores Ingrid Guimarães e Paulinho Vilhena (25 nov. 2007), o economista Oscar Motomura (02 dez. 2007), a jornalista Fátima Bernardes (13 jan. 2008), o cantor Zeca Pagodinho (20 jan. 2008) e o repórter Caco Barcellos (07 set. 2008). 7.1. O status dos participantes e as relações estabelecidas Durante aproximadamente uma hora de exibição, o Marília Gabriela Entrevista convida o telespectador a participar, ainda que de forma indireta, de “uma boa prosa90” entre sua apresentadora, a jornalista Marília Gabriela, e um ou dois convidados, geralmente apresentados ao público pelo site do programa, pelas chamadas dispersas na programação do GNT ao longo da semana ou pela imprensa. Uma das estratégias mais evidentes para convocar o telespectador, portanto, é o reconhecimento social do entrevistado, que pode se dar pela fama, no caso das celebridades, ou pelo prestígio que possui numa área de atuação, no caso dos especialistas que possuem os saberes que o programa promete explorar ao longo de sua transmissão Enquanto apresentadora-celebridade, Marília Gabriela divide a bancada de seu programa com seus entrevistados, personalidades bem-sucedidas qualquer que seja sua área de atuação. Por isso, o programa valoriza o estatuto de seus convidados realçando os prêmios ganhos, livros publicados, críticas positivas feitas. Durante as edições analisadas, o programa destacou, por exemplo, o jornalista Caco Barcellos pelo prêmio Jabuti de Literatura91 que recebeu em 2004 pelo livro Abusado, o dono do morro Dona Marta e as cantoras Fabiana Cozzo e Roberta Sá (18 nov. 2007), que foram apresentadas como “as melhores promessas da nova safra de cantoras da MPB”. A primeira pergunta feita por Marília Gabriela a Fabiana Cozzo visava legitimá-la ainda mais no meio musical: “Fabiana, você se preparou bastante para seguir a carreira de cantora. Você estudou canto, teoria musical, piano e violão, o que é um investimento grande, consistente. Você se considera recompensada já?” (18 nov. 2007). 90 Informação extraída do site oficial do programa, http://globosat.globo.com/gnt/programas/oprograma.asp?gid=20, acesso em 17 jun. 2009. disponível em 91 Premiação criada em 1959 pelo presidente da Câmara Brasileira do Livro, Edgard Cavalheiro, é hoje um dos principais prêmios literários do Brasil, contemplando romances a livros didáticos, livros de ilustração a projeto gráficos. 192 O programa procura construir-se como um lugar onde a celebridade tem liberdade para falar espontaneamente sobre suas emoções, suas impressões sobre um novo trabalho, seus medos e inseguranças, seus desafios pessoais. Para deixar seus convidados à vontade para confessarem segredos, contarem histórias sobre sua vida pessoal e mostrarem “a pessoa por trás do ídolo”, Marília Gabriela dialoga com eles como se estivessem numa situação de igualdade, ressaltando que ela própria faz parte do campo midiático posto em questão. Quando a cantora Fabiana Cozzo afirma que gostaria de receber uma música do compositor Gilberto Gil para cantar, Gabriela retruca: “eu já recebi”, tentando colocar-se como parte do métier. Retoricamente, entrevistadora e entrevistado estão em igualdade no cenário cultural e é por essa posição que Marília Gabriela aposta num enquadramento intimista das conversas, esperando que seu entrevistado irá encontrar um terreno livre para dividir suas emoções com a apresentadora. Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Você já fez análise? Eu fiz durante um tempo pequeno, uns dois anos, e fiz muito motivada, inicialmente, por uma fobia imensa de avião que surgiu depois do nascimento das crianças. Ah, que loucura! E dizem que não passa quando vem assim na maturidade, vamos dizer. É, foi uma fobia... Acho que ela surge porque... Todo mundo nasce sabendo que vai morrer, né. E é como se eu tivesse perdido esse “direito de morrer”, sabe [faz sinal de aspas com as mãos]. A criança nasce, você tem três filhos pequenos... Sempre a analista, a gente conversa assim: eu tenho os pais vivos, o William tem os pais vivos, eu tenho irmã, ele tem irmãs, então, quer dizer, as crianças não estariam sozinhas no mundo. Mas mesmo assim me deu um pânico de faltar imenso. Não sei se por elas ou por mim, pelo medo de não poder vê-las crescer e de algo que eu quis tanto. Foi logo depois do nascimento que você teve isso? Piorou. Assim, eu antes, se eu te disser que eu amava viajar de avião, eu nunca amei. Mas eu sempre andei profissionalmente, você sabe, toda hora, e sempre fiz isso sem impedimento. Depois do nascimento delas, quando elas iam fazer dois anos nós [a entrevistada e seu marido, o apresentador e editorchefe do Jornal Nacional William Bonner] resolvemos fazer uma viagem meio de lua-de-mel. Só nós dois [...]. Fomos para Nova Iorque. Na volta foi desesperador dentro do avião. [Interrompendo] O que é que dá? Olha, me deu como se fosse, não foi a síndrome do pânico, mas foi uma crise de pânico. Ou seja, eu tinha como se fosse uma febre. Aqui [tocando o rosto] eu ficava vermelha, o tremor que me dá [...], salta a musculatura do corpo inteiro. Um descontrole motor mesmo. Um descontrole motor. [...] A partir daquele momento eu fiquei dois anos e quatro meses sem voar. (Edição de 13 jan. 2008) 193 A própria Marília Gabriela abre sua vida para dar informações, opiniões e experiências pessoais, permitindo que a audiência conheça também as suas próprias fragilidades e dramas: “eu já fui assaltada três vezes no trânsito com revólver na cabeça [...] e eu fico ainda, e ainda, e ainda mais assustada quando, ao contrário disso, vejo uma carnificina que diz que estamos na lei de talião” (28 mai. 2006). A exploração de sua vida pessoal chegou ao ponto máximo quando levou para o estúdio seu então marido, Reynaldo Gianecchini, para comemorar o dia dos namorados (12 jun. 2006). A entrevista era sobre a carreira do ator, mas o casal não se furtou de deixar claro que vivia uma situação de maior intimidade. Durante a entrevista, Marília Gabriela se privilegiou do fato de morar com ele para lembrá-lo de alguma situação inusitada que ele viveu (“eu vou te lembrar uma coisa”), além de deixar para claro para o telespectador a condição dos dois (“meu convidado de hoje é um ator que fala particularmente ao meu coração”). A entrevista foi encerrada com um beijo do casal, ratificando a posição de intimidade que o programa visa construir. O vínculo de intimidade que se estabelece no Marília Gabriela Entrevista se confirma pelo tratamento pessoal no interior da cena. É comum a apresentadora tratar seus convidados pelo primeiro nome, pelo apelido, ou ainda usar expressões carinhosas, como “minha linda” e “querido”. Em resposta, os entrevistados a chamam de “Gabi”, apelido que ficou marcado em sua trajetória televisiva. Toda essa situação de intimidade se mistura com os atributos jornalísticos do programa, que pretende extrair das fontes uma informação relevante para o telespectador. Por isso, em certas situações, os entrevistados célebres participam do programa para dar seu depoimento pessoal sobre uma temática mais ampla que envolve sua atividade profissional ou uma experiência pessoal. A atriz Letícia Sabatella falou sobre sua atuação na série JK (Globo, 2006), mas o gancho que a levou para o programa foi a comemoração do dia das mães, o que lhe deu oportunidade para tratar sobre seu relacionamento com a filha, a separação do ator Ângelo Antônio e sua posição sobre novos relacionamentos (15 mai. 2006). O Marília Gabriela Entrevista também convida um especialista que possa partilhar seu conhecimento com a audiência. Dividindo ou não o espaço com uma celebridade, o papel do especialista no programa é levar ao público a interpretação de um fenômeno, seja sobre os 194 riscos da depressão pós-parto (28 out. 2007), seja sobre os efeitos psicológicos da violência nas grandes cidades (28 mai. 2006), seja sobre a formação das lideranças do país (02 dez. 2007). Nesses casos, Marília Gabriela busca posicionar-se como alguém que não possui conhecimento sobre o tema e precisa da posição do especialista para obter informações: Marília Gabriela: Oscar Motomura: Eu gostaria que você definisse uma palavra que é muito usada com bode expiatório mais do que a palavra... mas, a princípio é apenas uma palavra para os leigos: “ sistema”. Tudo é jogado em cima do sistema. O sistema faz de pobres, os ladrões, do empresário, o cruel. O sistema faz adolescentes ricos baterem numa empregada doméstica que espera o ônibus. Que raio de sistema é esse? O sistema pode ser visto sob vários ângulos. Mas é... vou pegar um deles: o sistema político-econômico-social do país. Se a gente olha um pouco aquilo que acontece, primeiro que existe um desenho e que não foi um desenho feito de uma tacada só, aquele negocinho que você vai fazendo aos pouquinhos, um pouco aqui, um pouco ali, e num certo sentido você tem um “frankstein” e que constitui uma instituição. O sistema político-econômico-social é o sistema que vigora no país. Agora, uma coisa é a instituição formal, outra coisa é como ele é usado. Então quando eu digo: “como é que a realidade da nossa sociedade efetivamente funciona?” na verdade significa que certas leis, que estão lá, que foram criadas com boas intenções, funcionam para alguns, mas não funciona para outros. Isso é uma distorção que a gente vê. A pergunta é a mesma: “por que isso?”. É uma distorção. [...]. (Edição de 02 dez. 2007) Dotado de autoridade e credibilidade pelo cargo que ocupa, pela formação ou pela instituição que dirige, o especialista é responsável pelo conhecimento técnico sobre os assuntos e por isso são fontes constantemente acessadas pelos jornalistas. No entanto, segundo Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994), na atual fase da televisão, o conhecimento técnico ou científico tem dado lugar à contribuição leiga sobre os assuntos, pois expressam de forma mais apropriada as experiências da vida cotidiana. Segundo os autores, nos talk shows a pessoa comum tem aparecido “para ilustrar questões públicas92” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, p. 97), ganhando atributo de autoridade por expressar tais questões numa linguagem mais acessível ao telespectador comum. O Marília Gabriela Entrevista não leva para o estúdio pessoas comuns, mas transforma as situações vivenciadas pelas celebridades em questões ordinárias com as quais o público pode se identificar. Na edição de 28 de outubro de 07, o programa levou para o estúdio a jornalista e atleta Cynthia Howlett e o psiquiatra Joel Rennó Junior, para tratar do tema “gravidez: antes 92 No original: “[...] to ilustrate public issues”. 195 e depois”, buscando levar ao telespectador informações médicas sobre a depressão pós-parto, o que justifica a presença do psiquiatra, que é coordenador do Pró-Mulher – Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher, e de Cynthia Howlett que, além de ser a nova atração do GNT, acabara de tornar-se mãe de uma menina. Com o testemunho de Cynthia Howlett, o programa validou uma estratégia que busca levar a audiência a se identificar com o tema aprendendo com sua vida pessoal. As perguntas de Marília Gabriela eram biográficas e intimistas, direcionadas para sua vida pessoal e sua experiência como mãe: “você estranhou amamentar?”, “ser mãe é parecido com o que você imaginava?”, “você nunca teve uma insegurança durante a gravidez?”. Como a entrevista não se bastava na experiência pessoal de Cynthia, a apresentadora colocou, para o psiquiatra Joel Rennó, perguntas informativas que valorizavam seu conhecimento técnico sobre a maternidade: “quando a melancolia se torna uma doença?”. Quando não há outro convidado, o próprio especialista torna-se alvo de perguntas pessoais que ilustrem o caráter testemunhal que a entrevista adquire. A entrevista com o psiquiatra especializado em medo e fobia Jair de Jesus (28 mai. 2006) visava levar esclarecimentos psicológicos sobre o impacto que os ataques realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), em maio de 2006, poderiam surtir nos moradores de São Paulo. Assim, Jair Mari foi para o Marília Gabriela Entrevista explicar sobre o processo de formação de um quadro de pânico e fobia que poderia resultar dessa situação de crise. No entanto, além das informações técnicas e conceitos, Marília Gabriela tirou o médico da posição de especialista e o colocou como indivíduo comum - ao perguntar se ele também sentiu medo naquela situação - e como cidadão - ao solicitar seu parecer sobre a questão da segurança pública. 7.2. A personalização como meio para a informação A personalização é a característica mais evidente do Marília Gabriela Entrevista, estando presente desde a abertura do programa até seu encerramento. Por personalização compreendese a ênfase do programa na vida pessoal do entrevistado e em seu olhar subjetivo sobre o mundo partilhado com o telespectador. Para apresentar seu convidado de cada edição, Marília Gabriela pronuncia uma frase ou um pensamento que represente o entrevistado do dia. Na edição de 13 de janeiro de 2008, Marília Gabriela abriu o programa dizendo “existem coisas que o olho feminino vê com maior precisão do que cem olhos masculinos” para apresentar a jornalista Fátima Bernardes. Enquanto diz à audiência quem é o seu convidado, um 196 movimento de câmera abre o plano de modo a inserir a apresentadora e seu entrevistado no mesmo quadro. Logo após a apresentação do convidado, o programa exibe um pequeno clipe com o resumo dos aspectos de sua vida pessoal e de sua carreira, motivos pelos quais ele está presente no programa. No caso de Bernardes, sabemos o dia e local de seu nascimento, com quem é casada, os nomes de seus filhos, a paixão pelo balé, sua formação acadêmica, seu cargo e instituição onde trabalha. Figura 27: clipe Fonte: edição de 13 jan. 2008 O programa sugere que o telespectador não está diante do representante de uma instituição, mas de uma pessoa e é seu olhar subjetivo sobre o mundo que será explorado naquela conversa. De certa maneira, o clipe antecipa os assuntos que serão abordados ao longo do programa e familiariza o telespectador de forma superficial sobre a vida pessoal e pública do convidado. O Marília Gabriela Entrevista compactua com a audiência um modelo de jornalismo calcado no depoimento pessoal que se legitima pela autenticidade de seus protagonistas e pela proximidade com o mundo experienciado na vida cotidiana. No Marília Gabriela Entrevista, a personalização se dá nas formas de conversar instituídas. Pressupondo que a conversação, nesse programa, é uma troca de idéias entre pessoas que querem parecer íntimas, os 197 participantes e os telespectadores compactuam que a troca de idéias, opiniões e informações seja livre e subjetiva. É constante o interesse de Marília Gabriela pelas origens da carreira, as motivações que levaram à música, às artes cênicas ou à literatura, as pessoas que influenciaram a decisão e que deram as primeiras oportunidades, ou interesse por uma área diversa da profissão. Assim, a apresentadora geralmente conduz suas entrevistas a partir de questões biográficas como “como surgiu esse ser político” (para Letícia Sabatella, 15 mai. 2006), “quando a música começou a fazer parte da sua vida?” (para Roberta Sá, 20 jan. 2008), buscando as motivações que levaram à profissão: Marília Gabriela: Caco Barcellos: [o jornalismo policial] foi uma escolha desde sempre ou você foi escolhido? eu acho que foi uma coisa natural. Veio, acho, meio herdada da minha família, dos meus pais, dos meus tios, principalmente irmãos da minha mãe, que eram pessoas muito inquietas, muito indignadas. Eu lembro de um tio, motorista de caminhão que me ensinou a dirigir [...]. Mas eu lembro, assim, de percorrer a cidade com ele e de repente a gente cruzava numa esquina, tinha dois indivíduos, ou três indivíduos batendo lá em alguém. Ele descia, brecava o caminhão, descia correndo e voava em cima para ajudar porque achava uma covardia. Ele ficava todo alterado e voltava dirigindo na maior tranqüilidade. Tinha cumprido o papel dele. É um exemplo. (Edição de 10 set. 2007) Como o foco do Marília Gabriela Entrevista é no relato subjetivo de alguém que esteja muito próximo a uma realidade, o programa não busca construir um consenso e uma verdade absoluta sobre os assuntos que levanta. A finalidade é a troca de idéias e é nessa troca que o conhecimento se constrói. No Marília Gabriela Entrevista o papel do testemunho não se esgota na experiência pessoal, mas pode servir como referencial para a vida cotidiana dos telespectadores. Tratando da conversação nos programas de debate, Sonia Livingstone e Peter Lunt afirmam que os aspectos privados serviriam como forma de conhecimento para a vida cotidiana: [...] os programas de discussão ou de participação da audiência não são sobre assuntos cotidianos ou assuntos de consumo, embora eles lidem com assuntos cotidianos à medida que afetam a vida ordinária. [...] Eles trazem questões além do domínio privado do ambiente doméstico e do local, já que o telespectador é também construído 198 como cidadão, com um dever de ser informado acerca do mundo e de agir sobre ele93 (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, pp. 38-39). Em suas entrevistas, Marília Gabriela busca conciliar os relatos de simples experiências com reflexões de temas mais amplos que sirvam para estimular a reflexão da audiência. Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Eu vou te fazer uma pergunta quase delicada. Você é uma jornalista, uma jornalista de renome no, talvez ou seguramente, jornal de maior importância do país, da televisão brasileira, que é o Jornal Nacional. Aí você vive uma situação dessa [o assalto a sua residência por um menor de idade] e você se ressente, evidentemente, de todas as formas, dessa violência. A sua objetividade como jornalista se perde nesse momento ou você consegue fazer uma análise crítica do que aconteceu e do que acontece todos os dias, particularmente, ou onde é mais noticiado, no Rio de Janeiro? Não, eu consigo fazer uma análise, acho, muito mais crítica. Eu consigo fazer uma análise de que, por exemplo, é impossível uma pessoa passar por um reformatório e sair do jeito que esse menino saiu. Eu acho que é impossível uma pessoa que já teve passagem pela polícia, como era o caso dele, estar solto na rua. Eu acho que é impossível o acesso que as pessoas têm a arma com uma facilidade. Eu fiquei muito mais crítica e percebendo que a coisa está muito perto. Mas não no sentido de querer algo em termos de uma vingança pessoal ou de uma ação pessoal ou coletiva... Não, mas uma ação política e como ação política o que você acha que deveria acontecer? Bom, embora não seja uma medida de curto prazo, pode parecer bobagem, tem que ser educação. Sem isso a gente não vai chegar a lugar nenhum. Em outro momento, eu acho que a gente tem que ter as prisões realmente cumprindo pena. As pessoas hoje, elas não são tementes a Deus, elas não são tementes à lei. Porque hoje em dia é quase como se você tivesse o direito de matar uma pessoa, é só escolher bem quem. Porque a primeira pessoa que você matar vai te dar o que? Quatro anos de cadeia? Talvez. E a penalização de menor de idade? Eu acho que dezesseis anos, se você pode furtar, você pode responder pelos seus atos. Eu acho que a partir daí... se você pode escolherem quem você vai votar, você pode responder pelo que você faz. (Edição de 13 jan. 2008) 93 No original: “The audience discussion or participation programme is not quite current affairs or consumer affairs though it deals with current issues as they affect ordinary lives. […] It takes issues beyond the private domain of the domestic and local, for the viewer is also constructed as citizen, with a duty to be informed about and act upon the wider world”. 199 A aposta do programa no compartilhamento de elementos pessoais é uma estratégia para garantir que as informações ali trocadas sejam verídicas e expressem a verdadeira essência dos entrevistados para além de sua vida pública e dos diversos papéis que devem desempenhar na vida social. Assim, o entrevistado transige com o estilo do programa em oferecer informações pessoais, com mais ou menos desenvoltura. Marília Gabriela não força o entrevistado a abrir sua vida a fim de manter a entrevista leve e o canal aberto para que o diálogo suceda. Na entrevista com o cantor Zeca Pagodinho, ao perceber que suas respostas estavam ficando lacônicas, a apresentadora preferiu mudar de assunto (20 jan. 2008). Para criar um ambiente propício para a conversa entre mediadora e convidado, o cenário do Marília Gabriela Entrevista é formado apenas por um fundo de madeira, três colunas iluminadas e uma mesa em formato de S onde os participantes se posicionam frente-a-frente. A simplicidade do cenário visa chamar a atenção do telespectador para o elemento central do programa: a conversa. A iluminação do estúdio favorece essa referência, tendo em vista que fica mais concentrada no convidado e na apresentadora. Figura 28: vista geral do cenário do Marília Gabriela Entrevista Fonte: edição de 18 nov. 2007 O efeito de “cara-a-cara” é construído por meio de recursos de edição e montagem que valorizam os planos fechados e cortes secos de um falante para outro, ratificando sua proximidade física. O enquadramento de câmera que prevalece no Marília Gabriela Entrevista é o plano americano, que captura os falantes a partir da altura da bancada, de modo a deixar as mãos enquadradas para valorizar a gestualidade e os movimentos do entrevistado e da entrevistadora durante a troca. Uma variante desse enquadramento é o primeiro plano, no qual os personagens são mostrados dos ombros para cima, como forma de salientar as reações dos participantes à fala uns dos outros, seja de atenção, seja de divertimento. Para situar o 200 telespectador na cena, o Marília Gabriela Entrevista varia os quadros, mostrando os enunciadores a partir de diversos ângulos. Figura 29: enquadramentos do Marília Gabriela Entrevista Fonte: edição de18 nov. 2007 Nas entrevistas de Marília Gabriela, o efeito do “cara-a-cara” é o que ajuda a conferir a intimidade que o programa visa construir, como se a aproximação física autorizasse o entrevistado a compartilhar certos segredos e confidências dos quais apenas a apresentadora e o telespectador irão tomar parte. Deste modo, o programa constrói um contexto comunicativo no qual os participantes no estúdio compartilham de um vínculo de intimidade que extrapola a cena ali exibida e o telespectador espia e tenta tomar uma posição. Marília Gabriela deixa clara sua relação pessoal com os entrevistados afirmando que já trabalhou com eles noutras ocasiões, ou simplesmente que os conhece para além da cena: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Bom, o futebol? [risos] Um sonho frustrado. Eu tinha que mandar essa, ele adora futebol [olhando para a câmera]. Um sonho frustrado. É? Queria ser jogador, você sabe. Mas você bate bola ainda? Sim, na esperança do Dunga [técnico da seleção brasileira de futebol] reconhecer meu talento. Você se acha melhor jogador do que o Chico Buarque se acha ou não? Ah, não quero polemizar com o Chico [risos]. (Edição de 10 set. 2008) O lugar dado à audiência é diferenciado, pois ela se encontra fora do circuito das celebridades da mídia e dos saberes especializados e, portanto, não pode ter acesso direto à cena. O contato com o telespectador é feito por meio do eixo olho-a-olho (VERÓN, 1983) na abertura e no 201 encerramento dos blocos e em momentos específicos do programa em que a apresentadora olha para a câmera para prestar algum esclarecimento. O lugar da audiência é tão diferenciado que Marília Gabriela apenas coloca os óculos para olhar para a câmera, como se com esse gesto estivesse construindo um outro lugar: o de apresentadora de um produto televisionado. Após esse breve contato, Marília Gabriela tira os óculos, volta-se para seu entrevistado e foca apenas nele. Desde sua vinheta, o Marília Gabriela Entrevista posiciona a audiência como espectadora de uma conversa animada e eloqüente na qual sua protagonista principal, a apresentadora, pretende rir, divertir-se e trocar confidências. As imagens da vinheta dispostas num gráfico alaranjado abordam apenas a mediadora e seus principais gestos: o tirar e colocar dos óculos, a gestualidade, os risos. Figura 30: seqüência de imagens da vinheta Fonte: edição de 02 dez. 2007 202 7. 3. Pauta e modo de conversar A ascensão de Marília Gabriela no telejornalismo se inscreve no contexto de transformações sociais que passavam a incluir a sexualidade, o corpo e o papel da mulher na sociedade como fenômenos a serem discutidos no ambiente midiático. Como apresentadora do programa TV Mulher, Gabriela direcionava suas entrevistas aos novos papéis que a mulher desenvolveria na sociedade. Segundo a Revista Imprensa, Marília Gabriela é uma das mulheres mais admiradas pelo público e “representa o ideal da mulher madura, elegante e inteligente” (VIEIRA, agosto de 2002). Sua chegada no GNT - emissora que privilegia a referência ao feminino através de imagens de mulheres relacionadas à marca do canal, do privilégio às mulheres na apresentação da maioria dos programas (Patrícia Travassos, Fernanda Young, Mônica Waldvogel são algumas) e dos nomes dos programas que se dirigem ao feminino (Superbonita, Supernanny, Saia Justa) – ratificou essa vinculação com temas femininos ao colocá-la na apresentação do programa Aquela Mulher (1996-1998), direcionado às “personalidades femininas que se destacavam em suas áreas” (GNTMIDIA, acessado em 02 out. 2010). Os homens passaram a ter lugar no programa após 1998 e seu nome mudou para Marília Gabriela Entrevista, que possui o formato que vai ao ar atualmente. É esse repertório que lhe dá autoridade e desenvoltura para encontrar em seus entrevistados – ainda que sejam atores da esfera midiática – o relato de algo relevante para o telespectador, mostrando que as personalidades célebres do cenário midiático nacional desempenham também seus papéis como cidadãos. Quando entrevistou a atriz Letícia Sabatella (14 mai. 2006), Marília Gabriela não apenas buscou levar ao telespectador informações sobre a vida pessoal da atriz, mas também procurou sua versão sobre os acontecimentos que a atingiram de forma mais direta. Ao tratar sobre sua militância no PT, Marília Gabriela busca sair da esfera privada, para uma discussão sobre política, sob o ponto de vista da atriz: Marília Gabriela: Você se engajou nas campanhas do PT com o coração. O escândalo do mensalão deixou você desapontada? Mudou alguma coisa na sua cabeça ou nada? Letícia Sabatella: Me deixou em estado de choque. Mas a gente ainda está olhando essa história recente, analisando o que significa [...]. Logo quando eu li [as primeiras denúncias], me veio logo aquela máxima de que os fins justificam os meios. Porque não é o caso de uma pessoa que fez para enriquecer, ou que fez para si mesma. Fez em nome de uma causa, mas fez. Foi cooptado por um sistema de fazer política. Um sistema muito combatido pelo próprio PT. Marília Gabriela: Letícia Muito combatido pelo próprio PT . Mas ao mesmo tempo eu acompanhei a 203 Sabatella: campanha do PT desde oitenta... desde estudante. Depois eu não fiz campanha diretamente. E as campanhas que eu fazia, eu não dizia “vote no fulano”, “vote no Lula”. Eu me preocupava com as campanhas cinematográficas de outros candidatos, campanhas com roteiro de marketing, diretor de marketing. E o PT não tinha isso, o Lula não tinha isso antes. Então eram campanhas em que eles pediam apoio (...). Para o Lula ser eleito, ele precisou aderir a isso, entrar nesse esquema todo. E foi se construindo uma imagem de um Lula domesticado para poder ser aceito, para poder entrar. Eu lembro de uma reunião que teve lá em casa e tinha várias pessoas da classe e o Lula dizendo “o que eu faço para competir?”. (Edição de 14 mai. 2006) A pauta do Marília Gabriela se estabelece por uma vinculação com a dimensão de atualidade prezada pelo jornalismo tradicional. Embora sua periodicidade seja semanal, o programa busca manter-se atualizado com relação aos principais acontecimentos, discussões e datas comemorativas do país, e conserva os temas em pauta durante a semana toda por meio das reprises do programa disponíveis na grade de programação. A atriz Ingrid Guimarães foi para o programa a fim de falar sobre a estréia de seu novo programa no GNT, Mulheres Possíveis, enquanto o ator Paulinho Vilhena, na mesma edição, foi falar sobre o filme O Magnata, no qual atuou como protagonista (25 nov. 2007). Deste modo, o programa tanto divulga os novos projetos dos famosos, para o público acompanhe seus ídolos na mídia, quanto espera que o telespectador esteja atento às produções culturais recentes. A seleção dos convidados obedece a um calendário midiático, ainda que o motivo da pauta seja o término ou início de uma nova atração, ou um evento criado pela emissora, como a semana de música do GNT. Durante o verão, a gravação do programa mudou-se para o Rio de Janeiro94, “cidade que é a cara do verão”, como ressaltou sua apresentador e fez edições especiais fora do ambiente do estúdio. O sentido de novidade é significativo na construção do pacto sobre o papel do jornalismo no Marília Gabriela Entrevista e parece ser motivo de atração da audiência, já que as informações culturais são dadas diretamente pelo seu ator. A novidade é ressaltada freqüentemente pela apresentadora por meio de seu texto verbal, quando diz “o novo filme”, “o novo CD”, “o último trabalho”. Ao mesmo tempo, o sentido de novidade no Marília Gabriela Entrevista diz sobre aquilo que é cotidiano, que é familiar ao telespectador, como a maternidade, o medo e a fobia, a falta de 94 O Marília Gabriela Entrevista é gravado na cidade de São Paulo. 204 segurança pública. Assim, o Marília Gabriela Entrevista cumpre o que o foi dito por Carlos Eduardo Franciscato: [...] como não é possível apostar que a inovação, originalidade ou singularidade ocorram todos os dias, é perceptível que a notícia fale de um cotidiano que nos é familiar, não tão diverso da nossa realidade e compreensão (FRANCISCATO, 2003, p. 178). A atualidade no Marília Gabriela Entrevista se constrói também num efeito de simultaneidade, não entre a emissão e o fato, mas entre os acontecimentos divulgados na imprensa diária e a reflexão sobre os mesmos no contexto do programa. Por isso, as entrevistas de Marília Gabriela não perdem o tempo do evento, aproximando-se ao máximo de sua ocorrência, a fim de levar ao telespectador algo que não tenha sido discutido ainda, ou uma visão particular que acrescente algo ao conhecimento sobre os fatos. Destaca-se, nesse caso, a entrevista com o psiquiatra Jair de Jesus Mari (28 mai. 2006), que teve como gancho os atentados do PCC aos policias civis de diversas cidades paulistas em maio de 2006, resultando em queima de ônibus, ataques a delegacias e a postos da polícia. O tema foi amplamente discutido na mídia nacional, mas no Marília Gabriela Entrevista recebeu um enquadramento voltado para os danos emocionais que situações traumáticas e violentas podem provocar, tornando a entrevista interessante para os telespectadores por sua aplicabilidade na vida cotidiana. O enquadramento que Marília Gabriela dá às entrevistas é no posicionamento do personagem sobre os assuntos que estão dentro do seu repertório. O programa busca as versões dos entrevistados sobre a temática proposta para discussão, por isso, o acirramento de opiniões, a discussão, a contradição são evitados naquela situação comunicativa. Marília Gabriela, quando discorda de seu convidado, lança-lhe sua posição em forma de pergunta, como se estivesse buscando nele uma aprovação, mantendo, de alguma forma, uma dimensão de objetividade em sua função. As opiniões de Marília Gabriela, assim, são dadas para fundamentar a posição do entrevistado, mas não para contradizê-las. Marília Gabriela: Caco Barcellos: Vou fazer uma coisa quase irresponsável. Mas você, diante disso que você diz e que, nessa relação pobre/ polícia, você está resumindo ou concluindo que pobre é sempre bom e polícia é sempre ruim? Absolutamente que não. Não tenho essa ilusão e o dia-a-dia mostra isso que os pobres, aliás, os brasileiros, a sociedade em geral no Brasil, me desculpe a franqueza, mas tem uma vocação pelo ilícito e pela ilegalidade que é uma 205 Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: coisa preocupante. Seja pobre ou seja rico. Você acha que viria de que isso? Ah, acho que é herança do nosso passado. Nosso caráter de colonizado,digamos, para driblar o colonizador? Talvez. Acho que a gente poderia estudar melhor isso. Eu observo nas favelas, respondendo bem o que você perguntou, tem pessoas que são aliadas do crime sem achar que estão cometendo um crime. Um exemplo: uma senhora que vende cachorro-quente na área do asfalto, como eles chamam, freqüentemente uma senhora que eu conheci emprestava sua “towerzinha”, que levava cachorro-quente à venda na Zona Sul do Rio de Janeiro, para servir de receptáculo do malote de assalto a banco. Os assaltantes, amigos da favela... [interrompendo] Pagavam a ela alguma coisa... Jogavam o malote ali e ela saía, fechava seu botequim ambulante e aí saía rodando, levando o dinheiro para outro destino. Que polícia vai desconfiar de uma senhora com toda aparência de uma trabalhadora? E de fato é uma trabalhadora. Faz isso sem achar que isso é um crime. É um favorzinho para o filho da vizinha. E você observa em todos os segmentos sociais posturas assim. Eu acho que as elites... por exemplo, o que é a sonegação, por exemplo? É um crime gravíssimo, né? é um crime gravíssimo que as pessoas cometem. (Edição de 07 set. 2008) A fluidez com que os assuntos são abordados no Marília Gabriela Entrevista é mérito de sua apresentadora e denota que clareza e transparência são valores do jornalismo caros para o programa. A organização dos temas nos blocos e o encadeamento dado pela mediadora de um assunto para outro evitam os ruídos e garantem que a informação chegue ao telespectador de modo claro e em continuidade com os demais assuntos. Para isso, Marília Gabriela deixa transparecer uma preparação prévia à entrevista a fim de alcançar as informações desejadas. Ela sempre se mostra informada sobre o trabalho do entrevistado e sobre a temática mais ampla que pretende levantar a partir de seu ponto de vista e suas experiências. No caso da entrevista com Caco Barcellos (07 set 2008), Marília Gabriela usou um pouco de sua bagagem no jornalismo para explorar o papel do entrevistado no campo e mostrou-se ciente sobre as principais discussões sobre segurança pública e os principais assuntos repercutidos na mídia nacional: “em várias entrevistas suas, Caco, você disse que nunca viu a polícia entrar esculachando em casa de rico. Agora nós vimos isso acontecer com a prisão do Daniel Dantas, do Nagi Nahas há um tempo atrás. Eu queria saber: chegamos à igualdade, isso é suficiente, a polícia esculachar todo mundo, pobre e rico?”. Sendo assim, a fase de preparação para a entrevista é essencial para que a conversa estabelecida não perca a dinâmica e solicita do telespectador um conhecimento sobre esses assuntos que serão trazidos à baila na entrevista, a fim que preencha as lacunas deixadas pelos protagonistas da cena. 206 O roteiro de perguntas formulado previamente, característico de apresentadores de programas de entrevistas, permite à mediadora distribuir os temas ao longo do programa. Além disso, os protagonistas deixam transparecer um diálogo anterior à gravação do programa - por meio de expressões como “a gente estava conversando antes aqui” – que põe a conversação num fluxo, como se a transmissão fosse apenas o recorte de alguns momentos de uma conversa mais ampla. A preparação prévia dos participantes do programa consolida a proposta de clareza das informações e garante que os temas relevantes serão, seguramente, abordados dentro de uma lógica concebida ao longo da edição do programa, uma vez que o Marília Gabriela Entrevista não é ao vivo e, portanto, se permite recortar os momentos mais produtivos da conversação. Para evitar o excesso de sobreposições que impedem a compreensão das falas e os desvios de assunto, Marília Gabriela chama atenção de seu entrevistado, dizendo “mas nós estávamos falando sobre...”, “continuando nesse assunto...”, “eu quero falar sobre isso com você daqui a pouco, agora vamos continuar falando de...”. Apesar de possuir um roteiro, um certo improviso é permitido, de modo que os textos não se apresentem como se estivessem decorados pela apresentadora, nem haja respostas prontas por parte do entrevistado. Além disso, Marília Gabriela insere perguntas a partir da fala do entrevistado, deixando a entrevista mais aberta a intervenções sem seguir à risca o roteiro. Ao questionar Caco Barcellos sobre o jornalismo de celebridades, encontramos um exemplo dessas rápidas intervenções: Marília Gabriela: Caco Barcellos: [...] Você é um jornalista tão qualificado, tão premiado, tão reconhecido e isso pode fazer, já vi fazendo em várias pessoas, pode torná-lo um... não devo dizer arrogante, mas pelo menos uma pessoa muito definida no seu gosto, no que é permissível e no que não é. O que eu quero saber é: o que você acha desse jornalismo que é comum hoje em todo o mundo, que cresce e que vende e que enriquece grandes empresários da mídia e todos os setores que é o jornalismo de fofoca. Quem namora quem, quem dá para quem, quem levou o pé onde. E até num assunto sério como a criminalidade dentro da elite, isso pode virar uma fofoca, como nós já vimos. O que é que você acha? Isso te incomoda ou você aceita isso também? Eu só aceito porque eu não gosto de criticar o trabalho alheio. Mas é claro que eu gostaria que as celebridades brasileiras fossem pessoas que mereceriam esse título por coisas maravilhosas que fizeram pelo país. Não é sempre isso que a gente observa. Muita gente ganha notoriedade, vira até uma referência nacional sem ter feito nada muito além do que namorar com uma outra pessoa muito famosa. Acho que é um pouquinho de perda de tempo e um foco desvirtuado, eu acho, da nossa função, já que também são veículos de imprensa que fazem isso. Mas eu prefiro também observar e continuo achando graça das coisas. 207 Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Você ainda acha graça das coisas? Eu acho, lógico. Eu acho muito curioso. O que te faz rir? Leio também essas revistas [de fofoca]. Ah, você lê essas revistas, Caco Barcellos! No mínimo eu folheio vendo as fotografias. Não vem com essa. Abriu, olhou, está vendo, está sabendo das fofocas. Você faz fofoca? (Edição de 07 set. 2008) Como o destaque está no entrevistado, a apresentadora passa a palavra para ele geralmente utilizando o binômio pergunta/resposta, já que se trata de uma entrevista, mas nem sempre. Às vezes ela introduz a fala do entrevistado por meio de um comentário: “O que eu quis dizer que [o jornalismo policial] não era para todo mundo no sentido de que você precisa ser destemido para encarar esse desafio. Você mesmo passou por algumas dificuldades no exercício da sua profissão” (07/09/08). Para regular os turnos de fala, Marília Gabriela faz um gesto, inclina-se para frente ou para trás, indica que quer fazer uma colocação, ou toma para si a palavra final e introduz um novo assunto. Com isso, a conversa não perde a dinâmica, não é interrompida por silêncios e sempre tem aspectos a explorar. Na condução da temática, Marília Gabriela explora diversos assuntos sem que se perca a unidade da conversa. Preferencialmente, o programa busca concentrar-se, em cada bloco, num aspecto temático e seus desdobramentos. Na entrevista com Caco Barcellos, o primeiro bloco foi destinado ao jornalismo e ao jornalismo policial; o segundo continuou tratando de jornalismo policial e falou sobre o Profissão Repórter; no terceiro bloco, o programa explorou mais o assunto da segurança pública e as políticas de segurança; por fim, o quarto bloco tratou da vida pessoal de Caco Barcellos. Para manter o telespectador e o convidado situados na condução da conversa, Marília Gabriela explica como pretende manter a conversa: “Caco, antes de falar mais sobre o Profissão Repórter, eu queria fazer mais algumas perguntas relacionadas ao nosso primeiro bloco...”. Esse cuidado do programa em manter uma divisão de assuntos também ratifica o caráter mediatizado da conversação, que precisa manter uma ordem para não ultrapassar o tempo estabelecido sem tratar dos assuntos centrais. Há, também, um cuidado em manter o telespectador situado na forma de condução do programa, uma vez que ele pode dispersar-se para outro canal. Assim, Marília Gabriela, no início e no final de cada bloco relembra à audiência quem é o entrevistado do dia. Quando o programa recebe dois convidados, a mediadora explica como o programa irá se estruturar: 208 uma conversa a três no primeiro bloco, no segundo e no terceiro ela irá receber cada um dos entrevistados individualmente, e no último bloco os três estarão justo mais uma vez para encerrar o programa. Por meio dessa estratégia, o programa visa capturar o telespectador com quem pretende estabelecer uma relação de proximidade. A proposta de intimidade e familiaridade permite que o programa efetue transgressões no que é convencionado como padrão de entrevista informativa, não tanto do ponto de vista da estrutura do programa – que apresenta-se bastante conservadora no uso do modelo cara-a-cara – mas da forma como a conversação é conduzida no interior na cena. É exibindo as celebridades como pessoas comuns e as explicações dadas pelos especialistas que o Marília Gabriela Entrevista busca levar ao telespectador uma informação útil para sua vida cotidiana e permitir que ele se reconheça nas trocas postas em cena. 209 PARTE III A CONVERSAÇÃO NO TELEJORNALISMO: valores democráticos e estratégias de entretenimento A partir dos ensaios e manuais sobre a conversação, Michael Schudson (1997) efetua uma distinção em dois modelos. O primeiro diz respeito às práticas de sociabilidade baseadas no prazer da conversação. Nesse caso, há uma dimensão estética que, pela sua simples existência, provoca nos participantes sensações de apreciação, diversão e prazer. Há, por outro lado, um modelo de conversação que reivindica sua existência atrelada à resolução de problemas. A conversa serve aos participantes para alcançar um objetivo exterior à interação e que, comumente, aponta para índices democráticos: o voto, a deliberação, a formulação de argumentos. No primeiro caso, a forma de ingresso dos participantes é pela sensibilidade, pela capacidade de entreter, pela sociabilidade; no segundo, é pelo argumento e pela razão. Embora esteja tratando da conversação desempenhada na vida cotidiana, os modelos trazidos por Schudson (idem) ajudam a iluminar as questões que norteiam este trabalho a fim de pensar os lugares da conversação no telejornalismo a partir do que foi demonstrado nas análises dos modos de endereçamento dos programas. A observação das conversações efetuadas pelos participantes permitiu a verificação de que há, pelo menos, duas relações postas em causa pelos produtos audiovisuais. A primeira alinha-se com o discurso dominante do jornalismo e com o modelo de resolução de problemas de Schudson (idem). Nesse caso, é evidente que o jornalismo coloca-se como mediador das questões de interesse público direcionando a conversação para a fiscalização e promoção de um bom governo. A segunda perspectiva apropria-se do modelo social de conversação de Schudson (idem) que a vincula ao prazer e entretenimento dos participantes e da audiência. Nesse caso, os programas se apresentam como um bate-papo entre os interlocutores, que imediatamente estabelecem laços de intimidade, costurados antes ou durante a cena. Essa dimensão dos diálogos põe em questão a relação entre conversação, jornalismo e entretenimento, questão que se afasta do paradigma dominante do jornalismo, mas que permite, justamente por isso, perceber seus aspectos emergentes. A forte tendência dos programas jornalísticos a se construírem de maneira informal acaba reproduzindo as conversas cotidianas espontâneas entre pessoas privadas e se ancora em reformulações de valores do jornalismo como verdade e autenticidade. A discussão que se segue nesta terceira parte reflete sobre essas duas articulações efetuadas entre o telejornalismo e a conversação. Os programas analisados dialogam, à sua maneira, com os dois modelos, ora encenado um jornalismo que se propõe a resolver problemas, ora criando vínculos entre os participantes e a audiência. 211 1. CONVERSAÇÃO, TELEJORNALISMO E DEMOCRACIA Quando se pensa na relação entre jornalismo e conversação, freqüentemente inicia-se uma discussão sobre o papel político do jornalismo, uma vez que os modelos institucionalizados de conversação dentro do campo jornalístico – a entrevista e o debate – se desenvolveram originalmente nessa vinculação entre as esferas política e comunicativa. Clayman e Heritage (1999) afirmam que os primeiros programas televisivos de entrevista dos Estados Unidos emergiram baseados no modelo das entrevistas coletivas já praticadas pelos representantes da Casa Branca. Bernard Timberg e Robert Erler (2004) apontam para a tensa entrevista que o jornalista Edward Murrow realizou com o senador Joseph McCarthy no programa See It Now como asseguradora de seu lugar na história da televisão norte-americana. Henrik Örnebring (2003) relata que no período que ele designou como “debate cortês”, os programas de debate da Suécia assemelhavam-se às sessões oficiais do Parlamento Nacional, o que se expressava pelos nomes dos programas: The Little House, The New House, Evening Plenary. Essa aproximação das modalidades conversacionais com o campo político se dá por meio de uma alusão freqüente que se faz ao papel da conversação na democracia. As sociedades européia e norte-americana dos séculos XVIII e XIX consolidaram um sistema de governo baseado no papel político que cada cidadão, investido de razão e de sua parcela de poder, poderia exercer na sociedade. Juntamente com o governo democrático, formaram-se instituições novas que exercessem e assegurassem o novo modelo de sociedade, dentre elas, as Assembléias, onde o público era representando pelos agentes escolhidos por ele por meio de um processo também institucionalizado e ritualizado de eleição. A participação, portanto, é um dos esteios da democracia ocidental, introduzindo dois valores centrais que caracterizam essa forma de governo para essas sociedades: a liberdade dos indivíduos para a expressão de idéias e opiniões, e a igualdade de condições entre eles para a deliberação das ações em vistas do bem comum. Foi nesse contexto que o jornalismo encontrou a justificativa para sua existência social, consolidando-se como instituição mediadora entre o público e as decisões políticas 95. Para consolidar esse papel, os jornais passaram a dedicar um espaço para que os leitores manifestassem sua opinião sobre os assuntos que diziam respeito ao seu papel como cidadão 95 Ver PARTE I, “O jornalismo na cultura contemporânea”. 212 (BRAGA, 2006b, p. 134). Assim, o próprio jornalismo pretendia constituir-se como um fórum de debate aberto para os cidadãos igualitários expressarem-se livremente. É por conta dessa aproximação entre a formação do modelo democrático e a institucionalização da imprensa que democracia, conversação e jornalismo apareceram atrelados em boa parte dos escritos sobre a comunicação (HABERMAS, 1984; MAIA, 2008b; MAIA E MARQUES, 2008; MAIA, MARQUES E MENDONÇA, 2007; SCHEUFELE, 2000; SCHUDSON, 1997; TARDE, 1992; WYATT, KATZ, KIM, 2000). O século XIX assistiu a uma expansão desse modelo de imprensa, o que atraiu o interesse dos autores da época para a sociedade que se reorganizava em torno da comunicação de massa, representada tanto pela imprensa, quanto pela propaganda. Desde as remotas definições de “público” e “massa” ao refinamento do conceito de esfera pública, a conversação aparece num sentido iluminista que a vincula à ação política na democracia. O que se pretende neste capítulo é observar como a relação entre telejornalismo, conversação e democracia se constrói nas estratégias discursivas dos programas analisados. Nas tradicionais perspectivas sobre o trinômio conversação/ jornalismo/ democracia desconsiderase que a democracia é uma construção social e que essa relação não se processa nos mesmos termos no Brasil, que possui um modelo democrático de governo ainda em formação, e nos países centrais da Europa e os Estados Unidos. Sendo assim, o capítulo parte de uma consideração geral sobre a relação entre conversação, jornalismo e democracia, tendo como ponto de chegada as recentes perspectivas deliberacionistas, que têm na conversação social praticada na vida cotidiana o centro do exercício da democracia. A partir disso, pretende-se observar de que maneira o telejornalismo reforça, amplia ou rejeita os índices democráticos por meio de três parâmetros observados nos programas analisados: os níveis de participação da audiência, a dimensão de política atualizada pelos programas e o modo como o programa pretende exercer seu papel político. 1.1. As perspectivas sobre a relação entre jornalismo, conversação e democracia Um dos textos mais clássicos sobre o trinômio conversação/ jornalismo/ democracia é “A opinião e as Massas”, de Gabriel Tarde (1992). Escrito no final do século XIX, o autor celebra a formação do Estado democrático e suas instituições por meio de um discurso que evidencia que tudo melhorou após a destituição do modelo de Estado aristocrático: as pessoas se 213 tornaram mais livres, o exercício político era controlado e voltado para o público, os assuntos públicos eram mais amplos e havia mais espaços para as conversações. Na democracia, o público exercia sua parcela de poder pelos rituais de escolha de seus representantes e pela conversação na vida cotidiana, que é o foco da atenção de Tarde (idem). Mais do que a conversação que se dá nas Câmaras, interessa ao autor os diálogos que acontecem nos cafés, clubes e salões, no âmbito privado, pois esses possuem validade cívica de transformação social. Salientando o papel político dessas conversações, Tarde afirma que os déspotas “vigiam com desconfiança os contatos de seus súditos, impedindo-os ao máximo de conversar entre si” (Tarde, 1992, p. 96). No regime democrático, porém, esse controle é substituído pela liberdade dos indivíduos em se encontrarem e conversarem sobre qualquer assunto. A conversação, para Tarde (idem), é o veículo de formação da opinião pública e, enquanto expressão do interesse do público, o termômetro para a ação dos governantes. A conversa livre e racional nos cafés, clubes, associações era aberta a todos e tinha como resultado uma ação política efetiva. É possível, portanto, mensurar a intensidade da conversação pela formação da opinião: Há um vínculo estreito entre o funcionamento da conversação e as mudanças de opinião, de que dependem as vicissitudes do poder. Onde a opinião muda pouco, lentamente ou permanece quase imutável, as conversações costumam ser raras, tímidas, girando num círculo estreito de mexericos. Onde a opinião é móvel, agitada, onde passa de um extremo a outro, as conversações são freqüentes, ousadas, emancipadas. Onde a opinião é fraca, é porque se conversa sem animação; onde ela é forte, é porque se discute muito; onde é violenta, é porque há paixão em discutir; onde é exclusiva, exigente, tirânica, é porque os participantes estão às voltas com alguma obsessão coletiva; onde é liberal, é porque os assuntos da conversa são variados, livres, alimentados inteiramente por idéias gerais (TARDE, 1992, p. 134). Os jornais possibilitaram o surgimento de assuntos gerais em detrimento do “entrelaçamento de monólogos” dos séculos anteriores, em que cada indivíduo falava sobre sua própria vida, sobre seus interesses pessoais. O jornalismo colocou na pauta do dia os temas das conversas cotidianas, assuntos comuns que interessavam a todos e poderiam, assim, contribuir para a formação da opinião pública e de um repertório de questões que constituiriam o interesse público. Uma perspectiva semelhante encontra-se na formulação do conceito de esfera pública formulado por Jürgen Habermas em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1984). Para Habermas, era na esfera pública que os indivíduos privados se transformavam num público, 214 agindo ativamente na construção política96. A própria definição de esfera pública trazia a igualdade e a conversação como princípios fundamentais para sua formação: esfera pública, segundo o autor, é o domínio da nossa vida social no qual algo próximo à opinião pública pode ser formado. O acesso é garantido a todos os cidadãos. Uma porção da esfera pública vem a existir em cada conversação na qual cada indivíduo privado agrupa-se para formar um corpo público97 (HABERMAS, 1974, p. 49). O argumento era a única credencial para o engajamento nos diálogos, de modo que qualquer cidadão, independentemente de classe, faixa etária, poderia interagir. Na relação entre “democracia” e “conversação”, “igualdade” é um referente constantemente empregado como propriedade essencial para que as duas instâncias se efetuassem de maneira saudável. Assim, o exercício da democracia deveria estar enraizado na livre participação de indivíduos igualitários que, por meio do argumento e do debate público, tomam decisões e são capazes de agir politicamente. Tais perspectivas esbarram, porém, no sistema de governo escolhido para pôr em prática os ideais de uma sociedade democrática. A representação, ao invés da livre participação, confinou a espaços e personalidades distintas o dever de debater e tomar decisões. Como ressalta Wilson Gomes, a consolidação da experiência democrática moderna, principalmente através dos modelos de democracia representativa, findou, entretanto, por configurar uma esfera da decisão política apartada da sociedade ou esfera civil. O âmbito da decisão política é constituído, então, por agentes em dedicação profissional e por membros de corporações dedicadas ao controle e distribuição do capital circulante nesta esfera – os partidos –, dotando-se de altíssimo grau de autonomia em face da esfera civil. Constitucionalmente, as duas esferas precisam interagir apenas no momento da renovação dos mandatos, restringindo-se o papel dos mandantes civis à decisão, de tempos em tempos, sobre quem integrará a esfera que toma as decisões propriamente políticas (GOMES, 2005, p. 216). Como conseqüência dessa separação entre a esfera civil e as instâncias de tomada de decisão, a participação tornou-se algo pouco tangível, apesar de ainda estar no cerne do pensamento democrático. O próprio Wilson Gomes (idem) afirma que a dimensão de participação precisa existir, ainda que retoricamente, para que o governo atue a partir de um direcionamento da opinião pública. Por conta disso, novas perspectivas sobre a democracia procuram inserir no modelo democrático representativo uma gradação de níveis de participação que, ainda que 96 Ver “O jornalismo na cultura contemporânea”, na parte I. No original: “a realm of our social life in which something approaching public opinion can be formed. Access is guarantee to all citizens. A portion of the public sphere comes into being in every conversation in which private individuals assemble to form a public body”. 97 215 não atuem diretamente na tomada de decisões, pode reforçar valores democráticos mais amplos. O deliberacionismo surgiu nos anos 1990 como oposição às tradicionais correntes de pensamento sobre a comunicação e a política – a tradição liberal e a republicana – colocando no centro do debate a formação de uma arena discursiva entre o Estado e a sociedade, arena esta que seria a própria esfera pública forte e atuante. Assim, as tomadas de decisão ocorridas periodicamente nas eleições não são suficientes para assegurar a democracia, que deve estender-se para a conversação e discussão cotidianas que permitem maior reflexão sobre os problemas sociais. Sendo assim, para os autores afiliados a essa perspectiva, deliberar não é apenas o ato de tomar decisões, o que afastaria boa parte da sociedade dos processos democráticos, como explicou Wilson Gomes (2005), mas envolve todo o processo argumentativo e o “intercâmbio de razões feito em público” (MAIA, 2008a, p. 166). Nesse contexto, a conversação informal cotidiana é um forte elemento para a concretização da democracia. Tomando a política num sentido mais amplo, que não se limita às questões que estão no centro do poder, mas estende-se aos contextos práticos da vida cotidiana e às configurações da sociedade civil, os deliberacionistas afirmam que a conversação cotidiana também é fundamental para a vitalidade da democracia, já que ela provê tópicos e configura valores para serem defendidos na esfera pública e, ainda, prepara os cidadãos para que se engajem em trocas argumentativas exigentes (MAIA, 2008, p. 203). Tanto em Tarde (1992), quanto para Habermas (1984) e para os deliberacionistas (MAIA 2008a, 2008b), é possível notar que a relação jornalismo/ conversação/ democracia se dá no âmbito da influência de um sobre o outro na vida cotidiana. A formação da opinião e o caráter democrático da conversação, nesses estudos, expressam-se e ganham valor nas interações sociais ordinárias. Como afirma Tarde, “politicamente, não são tanto as conversações e discussões parlamentares, e sim as conversações e discussões privadas, que importa considerar” (1992, p. 136). Sendo assim, a dimensão democrática da conversação ocorre na vida cotidiana e não no âmbito da comunicação de massa. A formação de uma esfera pública forte e ativa se dá pela ação da mídia, mas não a tem como palco para a fomentação das conversações políticas relevantes entre indivíduos comuns. 216 Segundo Maia, Marques e Mendonça (2007), há pelo menos três níveis no sistema de deliberação. Um primeiro nível é o “central” (ou “oficial”), representado pelas Câmaras, Parlamento, judiciário, etc. Esse primeiro elemento diz respeito aos representantes políticos e suas ações diretas de tomada de decisão. Numa segunda perspectiva, tem-se o “institucional”, que envolve outras instituições que lidam com a política e a sociedade, mas não ocupam os lugares administrativos oficiais: partidos políticos, grupos de interesse, a mídia, entre outros. Em terceiro lugar, estão as conversações de indivíduos privados, ativistas políticos, etc. Os dois primeiros grupos, segundo os autores, atraem boa parte da atenção dos estudos deliberacionistas, o que demonstra uma preocupação com o que acontece no centro e não na periferia. O que aqui se pretende investigar é de que modo a conversação encenada nos programas analisados ratifica ou rechaça elementos democráticos, que propriedades democráticas podem ser encontradas (ou não) nesses programas. A partir da bibliografia sobre democracia, conversação e comunicação, foi possível encontrar um quadro de referências com valores que, segundo os autores, promovem e fortalecem a democracia. O objetivo deste capítulo é verificar, nos programas que compõem o corpus desta tese, a presença ou ausência desse quadro de referências e como ele é empregado no interior dos programas. Espera-se, com isso, chegar ao papel da conversação para ratificação ou enfraquecimento da democracia através do telejornalismo. O quadro de referências é composto por três matrizes que funcionarão como guia para as análises. A primeira delas é o nível de participação da audiência, ou seja, as possibilidades que o programa concede aos telespectadores de interagir com os interlocutores no estúdio. “Participação” é a palavra-chave para compreender o papel democrático da conversação posta em cena, pois pressupõe-se que, no sistema democrático, o público seja responsável pelas tomadas de decisão e deliberações. Outra matriz referencial é a compreensão de política que o programa deixa transparecer, ou seja, se política diz respeito somente às questões de Estado – que envolvem gestão, legislação, corrupção, etc – ou se essa concepção de política se identifica com questões mais amplas, envolvendo o domínio do cotidiano, como já se tem discutido neste trabalho98. A terceira matriz referencial envolve a relação entre jornalismo e democracia a partir da compreensão do próprio programa sobre seu papel político. Aqui, 98 Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”. 217 entram em jogo as questões vinculadas, principalmente, ao jornalismo como vigilante, cão de guarda e poder moderador. A materialização desse quadro referencial nos programas deverá ser observada, além das próprias estratégias discursivas dos mesmos, por um sistema de referências, tal como pensado por Raymond Williams (1969), que permite olhar o uso dos termos a partir da vinculação com outros que também configuram seu sentido. Muitas vezes, os mediadores dos programas utilizam a palavra “conversa” para referir-se a “debate” ou “discussão” e, atreladas a esses sentidos, outras expressões são utilizadas para fazer compreender seu caráter democrático. Interpelar, por exemplo, a audiência como “participante” ou de “debatedores fixos” indica uma forma do programa se construir como um espaço aberto, uma arena que envolve a sociedade. 1.2. Níveis de participação da audiência na conversação dos programas A idéia de participação e inclusão na democracia é defendida por Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994), segundo quem, há duas concepções de democracia que levam em conta o envolvimento do público. Na “democracia elitista”, a relação entre o poder estabelecido e os cidadãos comuns é disseminada com base na idéia de que as crenças individuais disseminamse como crenças coletivas, ratificando uma dimensão de consenso na sociedade. Na “democracia participativa”, o poder instituído está engajado com a discussão e o diálogo com o público. Nessa perspectiva, as pessoas comuns têm o direito de participar politicamente por meio do voto, do lobby, do inquérito aos membros de partidos políticos e empresas comerciais. Esse modelo de democracia participativa proposto pelos autores seria inclusivo e permitiria a efetiva tomada da palavra pelos diversos grupos que compõem a rede social, gerando esferas públicas alternativas. Os meios de comunicação de massa teriam um papel central na inclusão dos membros desses grupos. Rejeitando um olhar pessimista sobre os meios de comunicação, Sonia Livingstone e Peter Lunt (idem) afirmam que os media podem ocupar um lugar social relevante para a construção de uma esfera pública alternativa, em que os cidadãos assumam ativamente seu papel político por meio do discurso. A perspectiva adotada pelos autores ingleses amplia a dimensão de esfera pública burguesa tal como foi postulada por Jürgen Habermas (1984), sobretudo no que tange ao papel dos meios de comunicação na construção da esfera pública e na concepção de 218 “público”. Para Livingstone e Lunt (idem), as relações entre media, poder e sociedade são explicadas pelas possibilidades de tensão que os públicos podem oferecer na cultura. A televisão, portanto, se consolida não como veículo reducionista dos papéis políticos que os indivíduos podem exercer na democracia, mas como forma de “facilitar e legitimar a negociação pública – através do compromisso e não do consenso – dos significados entre os grupos oposicionais e marginalizados99” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, pp. 10-11). Nesse sentido, para Livingstone e Lunt (idem), a televisão e seus programas apresentam-se como uma possibilidade de se exercer a inclusão, a pluralidade e a democracia participativa gerando novos fóruns de debate, novas esferas públicas a partir interesses de “grupos sociais especiais”, cujo debate estimularia a contestação e a negociação, revelaria as tensões que envolvem a sociedade, ao invés do consenso que marca boa parte das instituições. As observações de Livingstone e Lunt (idem) estão orientadas para o que eles denominam “programa de participação da audiência” (“audience participation programmes”), um tipo específico de talk show que leva para o estúdio pessoas comuns para falarem sobre problemas que normalmente não são pautados pela mídia tradicional - problemas familiares, distúrbios psíquicos – ou vitórias sobre os desafios da vida cotidiana – doenças, desemprego, vícios, etc. O conhecimento especializado, que sempre marcou os debates públicos efetuados pelos media até os anos 1990, cede lugar ao conhecimento leigo que se constrói pela experiência vivida e partilhada com a audiência. A presença da platéia no estúdio assegura ainda mais o lugar que esses programas pretendem construir para si: um locus onde as questões vividas e sentidas pelo telespectador ganham relevância e dúvidas podem ser esclarecidas ao vivo. É em função dessa tentativa de incluir o público na cena do programa a fim de cumprir seu papel político que os programas que tomam a conversação como marca de sua construção e relação com a audiência procuram inseri-la em algum nível. Tome-se como exemplo o programa Roda Viva. A participação do público é tão relevante para o programa que quando a edição é gravada, o apresentador salienta que os telespectadores não poderão participar diretamente, mas busca não perder o contato com a audiência: “o programa de hoje está sendo gravado e, portanto, não permite a participação direta do telespectador. Mas você pode mandar a sua crítica, sua sugestão, sua proposta, pelo site do programa” (21 ago. 2006). 99 No original: “media could facilitate and legitimaze the public negotication – through compromise rather than consensus – of meanings among oppositional and marginalized groups”. 219 Desde seu surgimento, o programa traz como atributo a possibilidade de interação dos telespectadores com os entrevistados de cada edição pelas ligações para o estúdio. Como ressalta a matéria de Veja, “Muitas vezes as melhores perguntas são dos telespectadores”, diz Gamberini [primeiro apresentador do programa]. Na entrevista de Meneguelli [presidente da Central Única dos Trabalhadores], por meio de uma centena de telefonemas, o público queria saber coisas bem mais concretas – se o sindicalista trabalhava, qual o seu salário, quem pagou suas viagens a Cuba e à União Soviética. -, enquanto a bancada de entrevistadores fazia perguntas sobre a Assembléia Constituinte e a dívida externa brasileira (DEBATE VIVO, 1987, p. 113). Hodiernamente, outras tecnologias de comunicação têm sido empregadas para incentivar a participação dos telespectadores nos programas, em especial a internet. Segundo Wilson Gomes (2005b), num momento em que se discute os baixos níveis de participação do público na democracia, a internet desponta como um ambiente que permite acesso dos indivíduos às esferas de tomada de decisão, possibilitando a multiplicação de fóruns de debate ou mesmo de ações democráticas - governo eletrônico, voto eletrônico, voto online, transparência do Estado e outros. “Democracia digital”, “ciberdemocracia”, “e-democracy” são termos comumente empregados pelos autores mais otimistas que vêm na internet uma “luz no fim do túnel” para o problema da falta de atividade cívica da sociedade contemporânea. Gomes (idem) conclui apontando vantagens significativas no uso da internet para a democracia mais participativa, mas que isso não significa que as atuais práticas políticas serão inteiramente modificadas por causa da internet. Pelo contrário, o que se vê é justamente a manutenção das mesmas práticas: o não acesso, o desinteresse pelo debate político. Segundo Gomes, as “discussões políticas são freqüentemente dominadas por poucos” (2005b, p. 221). Todos os programas analisados possuem um site na internet onde os assuntos do dia (ou os convidados) são divulgados. Alguns programas, porém, procuram oferecer um uso convergente ao dispositivo digital permitindo que, pela internet, a audiência seja inserida na conversa. A questão que aqui se impõe é como o público é representado nos programas, como ele pode participar da conversação e se essa participação de fato colabora para a inclusão na democracia. Nos programas analisados, os níveis de envolvimento da pessoa comum na 220 conversação100 foram três: aparece e participa (pleno); aparece, mas não participa (oculto); não aparece, mas participa (representativo). No nível pleno, a própria pessoa aparece no televisor dirigindo sua pergunta ou comentário ao convidado e aos demais participantes da conversação. Essa forma representa a inclusão do público na cena do programa, dando-lhe o direito à palavra, o que reforçaria, plenamente, os ideais democráticos. O membro do público, nesse caso pode aparecer ao vivo no programa como convidado, como parte de uma platéia101, ou num VT gravado. Dentre as edições analisadas, isso aconteceu apenas na entrevista do Roda Viva com Heloísa Helena (12/06/06), que trouxe cinco pessoas - uma professora, um líder comunitário, um estudante, um taxista e uma esteticista, todos identificados pelo nome e profissão - que apareceram no programa por meio de um VT feito anteriormente à exibição do Roda Viva, o que demonstra um preparo prévio da equipe de produção do programa. Esse trabalho prévio também se evidencia na tentativa de agrupar as perguntas das pessoas comuns e inseri-las no programa num momento em que os assuntos tratados apareçam durante a conversa, como ressalta o apresentador: “já que estamos falando com uma socialista, eu queria encerrar o programa com duas perguntas de telespectadores curiosos a respeito da sua forma de ser, do seu comportamento e marca pessoal, vamos lá”; “senadora, a respeito das manifestações e das reivindicações dos trabalhadores sem-terra, nós temos aqui as perguntas de duas pessoas ouvidas pelo Roda Viva em São Paulo. Vamos ver” (Paulo Markum, 12 jun. 2006). As perguntas dirigidas pelo público buscam obter informações, mas também confrontam os participantes no estúdio para um posicionamento claro sobre suas posições como governante. Assim, perguntas condicionais – trazidas pelo público – são feitas para aparelhá-lo na escolha dos representantes que devem ocupar os altos cargos de chefia do Estado: Maria Teodora de Senadora Heloísa Helena, diante da gravidade dos fatos da semana passada, ou seja, da invasão dos sem-terra na Câmara dos Deputados [invasão promovida Azevedo pelo Movimento pela Libertação dos Sem Terra em junho de 2006. 497 (professora): integrantes do movimento foram presos e 41 pessoas ficaram feridas], o que a 100 Excluem-se dessa análise as humanizações do relato, nas quais pessoas comuns transformam-se em modelos para ilustrar a situação narrada na reportagem. O que interessa a este capítulo é a participação do público na conversação. 101 É o caso dos programas analisados por Livingstone e Lunt (1994). No Brasil, o apresentador Serginho Groisman (Rede Globo) construiu sua trajetória na televisão em programas como Matéria Prima (TV Cultura) e Programa Livre (SBT), no qual concedia a palavra à platéia que comparecia ao estúdio. Pelo bordão “fala garoto” e pela cessão do microfone à platéia, Groisman procura construir seu estúdio como um espaço de participação no qual perguntas e comentários podem ser feitos. 221 senhora, como presidente, faria? Valnildo Moreti Pergunto o seguinte, no seu governo haverá reforma agrária? (líder comunitário): Gilmar da Silva Você que tem gênio tão forte, está se candidatando à presidência do Brasil, o que você vai fazer pela gente com esse gênio todo que você tem? Santos (estudante): Eliezer (taxista): Lopes Se ela se visse lá sentada, administrando o país, se ela não teria o mesmo comportamento do Lula, de mudar de perfil e fazer o jogo que os demais sempre fizeram? Sandra Augusta Queria perguntar à Heloísa Helena, como seria um governo com a mulher na presidência? Será que a gente realmente poderia conseguir colocar a marca da Carvalho mulher, usar toda a sensibilidade, não é, toda essa intuição e fazer a diferença? (esteticista): (Edição de 12 jun. 2006) As respostas a essas perguntas, inclusive, são um dos poucos momentos em que a convidada olha para a câmera, reforçando o caráter dialógico que pretende manter com o público, que logo se dispersa após a introdução de uma nova pergunta formulada por um dos entrevistadores no estúdio. Embora permita que a própria pessoa formule sua pergunta ao entrevistado, o Roda Viva concede um espaço reduzido no acesso à conversação, uma vez que a troca se dá num único turno de fala: a pergunta é dirigida e a resposta concedida apenas na emissão do programa. Não há possibilidade de retrucar a resposta, reivindicar uma explicação mais ampla, discordar, complementar a pergunta e promover um debate. Assim, o nível pleno, no Roda Viva, é mais uma estratégia retórica do programa para fazer-se uma cena de debate público do que uma ação que efetivamente permite o acesso igualitário aos participantes na troca. A ocultação permite que o público assista à conversa in loco, mas não lhe é permitido o direito à palavra. A pessoa comum aparece – geralmente numa platéia - mas não possui voz, servindo apenas como espectadora dos diálogos ali travados, mas ausente da conversação. Novamente, cabe voltar ao Roda Viva para observar de que formas a ocultação é construída no programa. Até a entrada de Lílian Witte Fibe, o Roda Viva tinha uma platéia, situada no segundo andar da arquibancada, que assistia à cena, interagia com os convidados nos 222 intervalos do programa, tomava nota dos assuntos tratados, mas não possuía acesso à conversação, não era permitido fazer perguntas ou comentários102. Em 2008, porém, o programa mudou as formas de transmissão e de recepção, reconfigurando o envolvimento da audiência. A platéia também foi repensada para possibilitar novas maneiras de engajamento. Ela ainda não possui espaço para interação no programa, mas tem lugar privilegiado como espectadora da cena e pode partilhar suas impressões pela internet com outros “seguidores” do Roda Viva no twitter. Nesse sentido, “participar”, para a platéia do Roda Viva, significa “acompanhar ativamente”, colocando impressões e comentários e divulgando-os no twitter, com a criação de um fórum externo ao programa onde outras pessoas também podem participar. Figura 31: “twitteira” do Roda Viva Fonte: edição de 1º dez. 2008 A democratização, aqui, acontece no ambiente externo à cena televisiva, mas busca convocar o telespectador a um debate noutro fórum, que complementa a audiência televisiva. O fato de exibir os “twitteiros” escrevendo suas mensagens é uma tentativa do programa de provocar essa discussão num veículo que oferece mais possibilidade de acesso, uma vez que o número de participantes para a conversação ali encenada é limitado. A forma representativa é a maneira mais comum pela qual os programas televisivos permitem o acesso do público à conversação. Nesse modelo, os telespectadores participam por meio do envio de perguntas e comentários por e-mail, fax ou telefonema, respondendo a enquetes que são comentadas durante a emissão do programa. Sua voz é representada por um jornalista da 102 Ver “Roda Viva: reflexão e debate na arena”, na Parte II. 223 emissora, responsável por selecionar as perguntas que devem ir ao ar e lê-las ao vivo. Por vezes, é o próprio apresentador que faz isso, como ocorre com Alberto Dines nas edições mais recentes do Observatório da Imprensa e com Leda Nagle na condução do Sem Censura. Em momentos específicos do programa, ela introduz as falas da audiência, que chegam a sua mesa através da equipe de produção do programa. A apresentadora atua como porta-voz das perguntas e comentários da audiência e depois as distribui aos destinatários presentes na bancada do programa. Há momentos específicos em que as falas da audiência são levadas ao ar, o que é controlado pela apresentadora e a direção do programa. Mas há também uma tentativa permanente de inclusão, o que se traduz pela interpelação aos telespectadores como “debatedores fixos”, como se eles, também, construíssem a conversação do programa. Roda Viva e Observatório da Imprensa, porém, atribuem o papel de representar o público a uma jornalista que não possui participação direta na conversação posta em cena no programa. Ela não faz perguntas nem comentários durante a transmissão, interagindo para dar voz à audiência, como se assegurasse um lugar específico aos telespectadores. Figura 32: as jornalistas Carla Amorim (Roda Viva) e Cláudia Tisato (Observatório da Imprensa) Fonte: edições de 1º/12/08 e 13/06/06, respectivamente O Roda Viva não possui um responsável permanente para exercer essa função, oferecendo um rodízio de jornalistas que cumprem esse papel. Assim, não há familiaridade entre os telespectadores e seu representante na cena do programa. Para inserir as perguntas dos telespectadores no programa, a jornalista que os representa busca manter a fluidez das conversas, aproveitando as “deixas” de outros entrevistadores para incluir as questões levantadas pelo público: “E por falar em Rodelas, a gente já tem a pergunta de um dos 224 telespectadores: durante esse período em que você esteve no sertão da Bahia, quais os traços culturais que você percebeu lá que diferenciam esse lugar do resto do país? O que mais te marcou? O que você observa de diferente no resto do país e por outros lugares por onde andou? Pergunta de A.A.C., de Sergipe” (ao ator Wagner Moura, 29/09/08). O Observatório da Imprensa, por sua vez, atribui à jornalista Cláudia Tisato, além do papel de narração, abertura e encerramento dos blocos, leitura da pergunta da enquete e dos resultados, o de ler as perguntas efetuadas pelos telespectadores. Ausente da conversação do programa, Tisato não possui controle sobre o momento que deve falar e interfere pouco nas falas dos telespectadores. Do ponto de vista da construção de uma conversação democrática e das possibilidades de participação, a abordagem representativa reproduz o modelo de democracia representativa: há alguém que interage no lugar do público. A exclusão é tão evidente que o próprio jornalista que representa a audiência não participa do restante da conversa. O tratamento do público como “eleitor” no Observatório da Imprensa e o uso de outras expressões que remetem à democracia representativa – “urna”, “voto” – salientam o mesmo lugar do sistema representativo: o de agente externo às conversações, que se institucionalizam em ambientes específicos e com atores autorizados. É possível observar que no que tange às estratégias de inclusão da audiência na conversação, programas que dialogam mais estritamente com uma dimensão de debate atribuem mais ênfase à questão da participação. Sem Censura e Observatório da Imprensa estão incluídos no subgênero programas de debates, enquanto o Roda Viva, como a análise do modo de endereçamento demonstrou, procura legitimar-se a partir da construção de um fórum de debates, o que se pode notar pela construção de uma arena. Esses programas buscam agir como representantes da democracia a partir do reforço do debate público, ainda que apresente limitações na garantia de igualdade de acesso e de pluralidade. Jornal das Dez e Marília Gabriela Entrevista possuem sites na internet nos quais os telespectadores podem acompanhar as novidades dos programas, mas não há qualquer referência ao ambiente virtual durante a emissão televisiva. É como se fossem dois espaços distintos que não convergem para uma mesma prática receptiva. Assim, os dois programas 225 apostam mais no aparelhamento da audiência fora da transmissão do programa para a vida democrática. Eles permitem que as discussões ali efetuadas tenham visibilidade e sirvam para fundamentar as opiniões dos telespectadores, sem que as pessoas de fato tenham voz no interior dos programas. No Bom Dia Brasil, há uma tentativa de levar a audiência televisiva ao veículo na internet sugerindo um aprofundamento nas questões levantadas durante o programa. Assim, os apresentadores afirmam que “você poderá encontrar mais informações sobre isso na página do Bom Dia Brasil na internet”, onde também se pode ter acesso aos blogs dos comentaristas, chats com especialistas, etc103. Michael Schudson (1997) põe em questão o princípio de igualdade da conversação democrática, uma vez que não há nada em sua natureza que sugira isso. Os autores que abordam e/ou analisam a conversação – Goffman (1984), Sacks (1979), Schegloff (2001), Burke (1995), Tarde (1992), Grice (1998) – afirmam a necessidade de uma competência cultural adquirida para participarem das trocas cotidianas. Se essa partilha de um background precisa existir para que a conversação se efetive, é necessário pensar, de acordo com Schudson (1997), sobre quem está incluído e quem não está, quem é efetivamente membro da conversação na democracia e quem está excluído. Os escritos sobre a conversação democrática descrevem as formas de conversar presentes numa elite européia muito específica. Michel de Montaigne (1961) afirma que a “arte da conversação” caracteriza-se pela busca da verdade por meio do debate. O contrário disso, a conversação vulgar, primitiva, indelicada e interrompida, é praticado pelos “espíritos inéptos e mal formados104” identificados como uma “ordem que subsiste entre pastores e caixeiros, mas não entre nós” (1961, p. 227). Freqüentemente, a “arte de conversar” nesses escritos é identificada com a classe burguesa, destituindo de qualquer abordagem as práticas populares de conversação. Peter Burke (1995) destaca as clivagens hierárquicas que marcaram as conversações ao longo da história, determinando certos usos da linguagem por parte de empregados em relação aos seus patrões, mulheres em relação aos homens: uso de pronomes de tratamento, tom de voz, etc. Assim, a suposta igualdade entre os indivíduos na conversação cotidiana, tomada como 103 Recentemente, a sessão de esportes do telejornal busca maior proximidade com a audiência, que responde a enquetes comentadas pelo apresentador Alex Escobar durante a transmissão do programa. “Bolão do campeonato brasileiro”, “desafios”, e outras formas de convocar a participação dos telespectadores na emissão, embora não possuam o caráter político 104 O autor faz referência utilizada por Platão na República. 226 princípio regulador das trocas, aplicava-se apenas aos grupos específicos sobre os quais se falava e não para toda a sociedade. Para Schudson (op.cit.), a atenção deve estar nas regras que tornam a conversação homogênea ou pluralista. Levando-se em conta a disseminação de diferentes estilos de vida na cultura pós-moderna, a dimensão de igualdade deve ser revista para pensar a multiculturalidade. Assim, Schudson defende que é na heterogeneidade, antes da igualdade, que a conversação democrática adquire seu caráter público, permitindo reconhecer as tensões que envolvem a democracia e a verdadeira promoção do debate público. Schudson conclui, portanto, que o que faz a conversação na democracia não é a livre, igualitária e espontânea expressão, mas o acesso igualitário ao palco, a participação igualitária no estabelecimento das regras básicas para a discussão, e um conjunto de regras desenhadas para encorajar a fala pertinente, a escuta atenta, as simplificações apropriadas e a ampla porção de direitos de falar105 (1997, p. 307). Sobre as possibilidades de participação do que denominou “públicos fracos” – as pessoas que estão excluídas do centro de tomada de decisões -, Rousiley Maia (2008a) afirma que estabelecendo-se um paralelo das desigualdades políticas e comunicativas no terreno dos media, podemos dizer que os públicos fracos possuem desvantagem de assimetria de poder, a qual afeta a oportunidade de acesso aos canais e meios de comunicação de massa; desigualdade comunicativa, que dificulta a utilização efetiva das oportunidades de expressão (por exemplo, a posse de vocabulário específico para expressar suas necessidades e perspectivas conforme a gramática dos veículos); de pobreza política, que diz respeito à falta de capacidades públicas desenvolvidas (por exemplo, a habilidade de articular argumentos politicamente relevantes, a fim de serem considerados pelos demais (MAIA, 2008a, p. 183). Por conta disso é que a representação aparece de forma tão naturalizada nos meios de comunicação. É notável o esforço dos programas em convocar a participação da audiência, especialmente com o uso de recursos digitais, na conversação posta em cena nos programas. No entanto, ainda não é a própria pessoa comum que aparece ao lado dos jornalistas e dos convidados expondo-se e oferecendo seus argumentos. O público delega aos jornalistas as possibilidades expressivas para que ele, que detém o controle da situação comunicativa, insira as opiniões do público no momento adequado, de modo a fazer sentido durante a conversa. Na construção da gramática da conversação televisiva, especialmente quando esta se apresenta 105 No original: “what makes conversation democratic is not free, equal and spontaneous expression but equal access to the floor, equal participation in setting the ground rules for discussion, and a set of ground rules designed to encourage pertinent speaking, attentive listening, appropriate simplifications, and widely apportioned speaking rights”. 227 mais argumentativa, o que a tradição seletiva do telejornalismo demonstra é a construção de uma autoridade baseada no domínio de uma linguagem específica que vincula os participantes ao campo político, a compreensão de assuntos que se ligam mais à máquina de governo do que ao que é vivido pela audiência, o que invalida a presença de representantes do público na conversação. Tais proposições se relacionam mais com uma construção do que deve ser a conversação nos programas que se vinculam ao modelo dominante do jornalismo, do que propriamente com a falta de habilidade de público em formular idéias sobre os assuntos políticos. Assim, os limites de participação da audiência não podem ser vistos como uma falta de interesse cívico, mas um constrangimento trazido pelos meios de comunicação aos modos de conversar sobre política das pessoas comuns, que não estariam desvinculados dos critérios televisivos. 1.3. A dimensão política reivindicada Reconhecido enquanto instituição social, o jornalismo validou sua existência pela vinculação com o campo político. A noção de “quarto poder”, uma das premissas básicas do jornalismo, salienta essa posição, que vem sendo construída culturalmente: ao jornalismo, cabe vigiar as ações dos três poderes institucionais. A relação com o campo político, portanto, se consolidou a partir da proximidade com os assuntos de governo. Por conta disso, Executivo, Legislativo e Judiciário são foco dos assuntos pautados pelo jornalismo que se aproxima do discurso dominante. Sendo assim, o jornalismo tem tomado a política, na construção de seu discurso autolegitimador, como questão que envolve governança: as instituições do poder e suas ações. Na apropriação da conversação, essa postura se evidencia ainda mais, uma vez que os jornalistas especialistas com quem se conversa nos programas são reconhecidos pelo trânsito nessas instituições, pela proximidade profissional com agentes do campo político, e daí decorre sua autoridade para tratar de assuntos políticos. As questões políticas, no entanto, têm-se dirigido para um sentido mais amplo, que abarca as questões do cotidiano, dos problemas enfrentados pela população, de seus direitos e deveres. É nesse sentido que se busca construir uma informação política que favoreça a democracia: fornecendo ao público não apenas um relato da semana presidencial, mas de como as decisões 228 do governo afetam sua vida cotidiana e o contrário: como os problemas vividos no cotidiano pautam agendas políticas. Problemas de saúde pública, falta de infra-estrutura urbana, segurança, etc são agendados pelos meios de comunicação a fim de suscitar um debate público que inclua as esferas de tomada de decisão. Segundo Rousiley Maia e Ângela Marques, afirmar que tanto as conversações em contextos cotidianos quanto as discussões políticas contribuem para a ampla deliberação significa adotar uma definição de política que abrange também a luta cotidiana pela sobrevivência e desafiar as relações de poder existentes em nossa sociedade (MAIA e MARQUES, 2008, p. 168). Em primeiro lugar e de maneira mais evidente encontra-se a política institucional que se apresenta pela presença de jornalistas especialistas e das fontes entrevistadas. Jornal das Dez e Roda Viva procuram levar fontes oficiais para o estúdio a fim de debater diretamente com eles os assuntos referentes à política. Nos dois programas, a presença de representantes oficiais é marca de sua relação com a audiência desde sua estréia. O telejornal da Globo News já levou à bancada ministros, embaixadores, e outras personalidades diretamente vinculadas ao campo político. O Roda Viva, ao longo de sua trajetória, já levou ao centro da arena Luís Carlos Prestes, criador do Partido Comunista Brasileiro (1986), Fernando Collor de Melo (1987), Fidel Castro, presidente de Cuba (1990), Luís Inácio Lula da Silva (1995, 1999, 2006), entre outros. No período eleitoral, o Bom Dia Brasil também levou para o estúdio os principais candidatos à presidência da República para debaterem com os jornalistas suas propostas de governo. Os modos pelos quais os programas acionam a dimensão institucional da política são múltiplos. Uma dessas abordagens é a discussão sobre escândalos que envolvem os atores do campo, o que caracteriza uma forma mais polêmica de tratar a política. A presença da então senadora Heloísa Helena no Roda Viva (12 jun. 2006), por exemplo, teve como um dos pontos principais do debate sua saída do Partido dos Trabalhadores e a atual situação com o antigo partido. A postura dos jornalistas, nesse caso, é de investigar o que aconteceu, levar o entrevistado à contradição, solicitar esclarecimentos. Outro modo de tratar questões institucionais é levando ao estúdio pessoas autorizadas para avaliar uma situação política nacional ou internacional atual. Os entrevistados, nesses casos, não necessariamente precisam ser fontes ligadas ao Estado, mas pessoas reconhecidas 229 socialmente para analisar conflitos e decisões políticas. É o caso da entrevista do escritor Tariq Ali ao Roda Viva (21 ago. 2006) e do embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Roberto Abdenur, para comentar a nomeação de Timothy Geithener como secretário do tesouro norte-americano e de Hillary Clinton como secretária de Estado no Jornal das Dez (22 nov. 2008). O enquadramento dado à entrevista de Tariq Ali privilegiou sua posição política sobre o Oriente Médio, em detrimento de uma abordagem sobre suas obras literárias, seu estilo como escritor, etc. As questões que nortearam a entrevista não se ligaram exatamente a atitudes de governo, mas trataram de problemas da política internacional norteamericana para resolver conflitos ao redor do mundo, em especial, do terrorismo. Demétrio Magnoli: Eu queria propor uma questão sobre não-ficção. Na recente tentativa de atentados em Londres, o senhor disse que a responsabilidade deveria ser atribuída também à política de Tony Blair [primeiro-ministro do Reino Unido de 1997 a 2007]. No ano passado, em 7 de julho de 2005, nos atentados terroristas contra Londres [foram atingidos três trens do metrô e um ônibus; houve 52 mortos e cerca de 700 feridos], o senhor escreveu que "os londrinos” - vou citar entre aspas - “pagaram um preço pela reeleição de Blair e pela continuação da guerra". Ou seja, se eu li direito essa passagem, a responsabilidade aí não é nem de Tony Blair, mas dos eleitores, do povo de Londres. Eu queria saber, do ponto de vista moral e político, se o senhor é capaz de oferecer uma condenação incondicional do terror global, ou é incapaz? Tariq Ali: Não tenho problema nenhum com isso. Sempre fui contra o terrorismo incondicionalmente, quer seja o terrorismo praticado por indivíduos, quer seja o terrorismo praticado por Estados. O terrorismo de Estado mata mais gente que qualquer grupo de terroristas individuais na história da humanidade. Faça o balancete do século XX e você verá isso bem de perto. Com relação à Grã-Bretanha, quando explodiram as bombas, há um ano, denunciei as explosões e as descrevi em meu livro Rough music [de 2005] como uma carnificina sem sentido, mas eu disse que era preciso entender as causas. Explicar as causas não significa justificar as conseqüências. Demétrio Magnoli: Tariq Ali: Mesmo se se diz que a culpa é dos eleitores que reelegeram Blair? As pessoas que o elegeram eram contrárias à guerra. A maioria do público inglês era contrária à guerra no Iraque. Há duas semanas, 63% do público inglês declarou-se incomodado com a proximidade entre Blair e os EUA. Demétrio Magnoli: Justamente por isso, eu lhe pergunto se não é o caso de dizer que toda a responsabilidade pelo terror é dos terroristas, que toda a responsabilidade pelos atos de terror em Londres, como os da Indonésia [em Bali, local turístico, em 2002 e 2005], como os atos de terror na Índia [em 2006], porque a Al Qaeda não faz terror só em Londres, como os atos de terror em Taaba [em 2005], no Egito, se toda a responsabilidade por esses atos integralmente não cabe aos terroristas, assim como a responsabilidade pela invasão do 230 Iraque cabe integralmente aos Estados Unidos... Tariq Ali: Você não pode isolar atos de terror que acontecem das razões que são a sua causa. Por que os terroristas atacaram a Inglaterra e não a França, a Alemanha, a Escandinávia? [...] Essa é a pergunta que se deve fazer. E digo mais. Meu modo de ver isso não é tão estranho quanto você imagina. Quando escrevi, no dia seguinte às explosões, no [jornal britânico] The guardian - que é um jornal liberal - que a causa era a guerra do Iraque, fui denunciado por gente do governo. Em duas semanas, uma comissão especial criada pelo Ministério das Relações Exteriores disse exatamente a mesma coisa. Dez dias depois, foi feita uma pesquisa de opinião. 66% dos ingleses disseram que os motivos dos ataques em Londres eram a política externa de Blair e a guerra no Iraque. Isso não significa justificar o terror, significa explicar suas causas. Se não for assim, a posição que você defende significaria que essas pessoas são totalmente malucas, que esses jovens do norte da Inglaterra são loucos. Eles não são loucos. Alguma coisa os deixa loucos e essas causas nós devemos evitar. (Edição de 21 ago. 2006) As decisões políticas e projetos de governo também são pauta das conversações dos programas analisados. Nesse caso, os agentes do governo aparecem como figuras ativas na tomada de decisão que podem promover o bem estar da sociedade ou o contrário: adotar medidas que estorvam os direitos da população. A conversação pode se dar com os agentes diretamente envolvidos nas tomadas de decisão e na formulação de projetos ou com jornalistas especialistas que possam oferecer uma interpretação daquilo que está na esfera do poder para a vida cotidiana do cidadão comum. Outra forma como a política pode aparecer nos programas é como instituição responsável por resolver os problemas sociais. A conversação, nesse sentido, caminha em busca de levar o público a conhecer seus problemas mais graves e como os políticos se posicionam diante deles. No Observatório da Imprensa, por exemplo, esse papel político é evidenciado na relação da imprensa com a política, propondo formas de parceria para uma ação conjunta de combate a grupos sociais que ameacem a ordem social. É o caso da edição que propunha um pacto da imprensa contra o crime organizado como forma de coagir o governo a tomar providências mais imediatas (06 jun. 2006). No Bom Dia Brasil, assuntos de segurança pública, como os atentados do PCC a São Paulo, são problemas que concernem ao Estado resolver. O público é interpelado a partir de uma dimensão de quem sofre as ações e está fora das decisões democráticas. Sobre as 231 manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra na Câmara, Míriam Leitão, que é comentarista de economia, deslocou-se de sua área de especialidade, para colocar-se como especialista em instituições políticas: Renata Vasconcellos: Mírian, foi um ataque a um dos mais importantes símbolos da democracia brasileira. Míriam Leitão: Exatamente, Renata. A democracia brasileira tem vinte e um anos e até agora, muitos políticos, líderes, governantes, não conseguem entender que um poder constituído legitimamente pelo voto tem o direito e o dever de usar a força quando necessário para evitar excessos e exigir o cumprimento da lei. Ontem, os primeiros momentos mostraram a mesma confusão de sempre. O deputado Emílio Teixeira disse que era a direita infiltrada. Uma asneira do tempo da ditadura. O líder do PT, Henrique Fontana, foi ao microfone do Plenário para dizer que o país não pode criminalizar o movimento social. Essa ladainha é sempre repetida pelo próprio governo Lula. Ninguém está fazendo isso, criminalizando o movimento social. Um certo movimento social está, sim, cometendo crimes impunemente e tem que ser punido. (Edição de 7 jun. 2006) Sendo assim, a conversação nos programas analisados busca exercer seu papel democrático ao dar visibilidade aos problemas sociais e chamar a atenção dos políticos sobre sua função de asseverar a ordem social. O Marília Gabriela Entrevista efetua tentativas de se aproximar da política institucional a partir das temáticas tratadas. Na entrevista com o administrador Oscar Motomura, que foi ao programa para tratar de liderança, Marília Gabriela pediu que o convidado analisasse a postura do presidente Lula enquanto líder: Marília Gabriela: Oscar Motomura: Como você avaliaria o Lula enquanto líder? [...] Vamos supor que ele vá fazer o curso da Amana Key [organização presidida por Oscar Motomura que tem como finalidade prestar consultoria a líderes de diversas áreas], o que você aperfeiçoaria, ou reeducaria, ou levaria a se reeducar em que? Primeiro, qual é o papel dele lá. E aí talvez encontre várias opções. Talvez um dos papéis mais importantes do líder seja a educação. E se ele dedicar dez horas por dia só para reeducar ou mudar a cultura da sociedade, se ele tiver uma bandeira nesse sentido, ele terá feito um trabalho fantástico. Esses despertar será importante [...]. (Edição de 02dez. 2007) Na entrevista com o psiquiatra Jair de Jesus Mari (28/05/06), Marília Gabriela perguntou a seu entrevistado “o que é que tem que mudar? A partir daí você espera que mude em que? Onde? Quem vai fazer o que? Ou quem deveria fazer o que?” para melhorar o quadro de falta de segurança nas grandes cidades. A resposta do convidado, porém, evidencia um outro 232 direcionamento sobre a forma como a política pode ser tratada nos programas. Ao dizer que a solução para o problema de segurança pública no país é “um trabalho de todos nós”, Jair Mari convoca uma dimensão de cidadania, de que os problemas não dependem apenas das instituições, mas da ação individual de cada brasileiro. No Marília Gabriela Entrevista, a política aparece mais a partir de um traço do entrevistado – de sua profissão, suas preferências, seu engajamento em instituições – do que do programa em si. As entrevistas de Marília Gabriela não privilegiam atores políticos que ocupam os altos cargos, embora às vezes estes apareçam em seu cenário. A apresentadora procura reforçar valores democráticos e de gestão pública quando os convidados os inserem em seu discurso ou em sua história de vida. Explorando os elementos pessoais dos entrevistados, a política aparece como uma forma de legitimar o programa no campo jornalístico. Essa dimensão voltada para a convocação da audiência enquanto cidadã e responsável pela construção de uma sociedade melhor se pode ver por uma extensão dos temas que abarcam a política, que deixam de ser exclusivos das instituições e passam a se voltar para o cotidiano. A forma de educação dos filhos, por exemplo, é um tema freqüente nos programas analisados, que o tratam a partir de uma discussão sobre experiências pessoais de maternidade (Marília Gabriela Entrevista com Letícia Sabatella, 15 mai. 2006 e Cínthia Howllet, 05 nov. 2007; Sem Censura, 08 mai. 2009) ou de formas adequadas de expor as crianças aos conteúdos dos mass media (Roda Viva com Valdemar Setzer, 1º dez. 2008). Nesse caso, o jornalismo reivindica um papel de educar a sociedade, ao invés de cobrar das autoridades por resolução de problemas. Os poderes públicos são mencionados nos discursos dos participantes a partir de uma perspectiva que indica morosidade, lentidão e corrupção e que apenas quando a sociedade cuida de si mesma é que se pode alcançar seus direitos. Sendo assim, o público é convocado a participar das conversações a fim de dar uma dimensão ampla aos problemas, tirando-os do nível individual e levando-os para o plano social. O jornalismo cria, a partir disso, um sentimento de pertencimento a uma comunidade em que todos os cidadãos partilham dos mesmos problemas e oferece uma extensão do sentido de esfera pública, uma vez que passa a abarcar não apenas a política convencional e a economia, mas os diferentes modos de vida. 233 1.4. Papel político do jornalismo Se desde os escritos de Gabriel Tarde (1992) a imprensa possui papel fundamental para fomentar a democracia por meio da oferta de assuntos comuns sobre os quais os indivíduos poderiam conversar, as perspectivas deliberacionistas aprofundam a função dos media na construção da democracia. Segundo Gomes e Maia (2008), a mídia possui um papel essencial na formação de uma esfera cívica forte através da competição argumentativa dos veículos, do aumento de intensidade da visibilidade do debate público, da transmissão da informação política qualificada, da mobilização de questões sociais relevantes, da visibilidade a argumentos apropriadamente construídos e da construção de uma opinião política racionalmente motivada. Além disso, a mídia teria a função de transferir a agenda pública para a agenda política – como ocorre na cobertura da Parada Gay, por exemplo – permitindo a entrada da vontade pública no sistema político. Tomando-se esses parâmetros como referenciais, é possível observar o papel dos programas analisados na condução de uma conversação que reforce valores democráticos. À exceção da competição argumentativa dos jornais, que é uma característica do jornalismo da Europa do século XVIII, e da geração de posições e opiniões públicas racionalmente motivadas, que só pode ser averiguada por meio de uma pesquisa empírica de recepção, os demais fatores apontados pelos autores podem ser verificados na condução das conversas encenadas nos programas. Em primeiro lugar e de maneira mais evidente, os programas analisados buscam oferecer ao público uma informação política de qualidade. Isso é o que caracteriza boa parte do pacto sobre o papel do jornalismo e salienta uma das marcas primeiras do jornalismo enquanto instituição social: prover a sociedade com informações. Os programas apostam na exaustividade para construir uma dimensão de qualidade da informação divulgada e a política aparece freqüentemente como veículo para atribuir legitimidade ao programa, seja na vinculação com a política institucional, seja na que se volta para um sentido de cidadania. A conversação aparece, portanto, como complemento às reportagens e matérias que circulam na mídia diária e associa-se a qualificadores como “aprofundamento”, “reflexão”, “seriedade”. Ressalta-se, nesse quesito, a participação do jornalista especializado em política como intérprete dos acontecimentos que se dão nas esferas de poder. Com um tempo para a 234 conversação um pouco mais estendido (em torno de cinco minutos nos telejornais), o especialista aparece como autoridade por demonstrar conhecimento sobre os meandros internos das instituições políticas e ter acesso privilegiado a fontes de informação. Alexandre Garcia (Bom Dia Brasil) e Cristiana Lôbo (Jornal das Dez) podem oferecer suas interpretações sobre o quadro político nacional por conta de sua trajetória construída no campo jornalístico e da familiaridade que construíram durante a carreira com a audiência. No caso de Cristiana Lôbo, sua presença em outros programas que também se propõem a discutir política reforça seu lugar de fala no telejornalismo. A presença de apresentadores conhecedores do campo político - como Carlos Monforte (Jornal das Dez) – e de repórteres setorizados visam reforçar a especialização e o cuidado da informação política divulgada pelos programas. No Roda Viva, há uma relação diferenciada com a construção de autoridade dos especialistas: eles são provenientes de outros veículos de comunicação com os quais o telespectador já possui familiaridade. Assim, participam da conversação jornalistas já reconhecidos pela atuação na política, o que se evidencia pela proximidade profissional que demonstram com seus entrevistados. No Roda Viva, o especialista é o entrevistador convidado, que não faz parte da equipe permanente do programa. O especialista político, no entanto, não possui espaço nos programas que se aproximam da política voltada para o cotidiano e para os direitos e deveres da audiência, o que demonstra que o jornalismo ainda está consolidado sobre parâmetros do modelo dominante que trata a dimensão política a partir de uma relação com o Estado e suas instituições. Quando tratam de assuntos que concernem à cidadania, os programas acabam enquadrando as conversas em torno de decisões que precisam ser tomadas pelos agentes no centro do poder. Marília Gabriela Entrevista e Sem Censura não possuem especialistas em sua constituição e buscam deslocar a autoridade para oferecer esse tipo de informação política para agentes externos ao campo jornalístico que possuem vinculação com o tema tratado, ou pelo que é vivido e sentido por pessoas célebres que tiveram seus direitos obliterados. Parte da construção da informação de qualidade a fim de provocar uma conversação democrática, remete a um segundo papel dos meios de comunicação: a visibilidade a 235 argumentos apropriadamente construídos. Uma dimensão dessa transmissão de argumentos é a contradição de idéias que visam fortalecer posições distintas. Assim, quando há um debate, ainda que seja num momento específico, a tentativa dos jornalistas que conduzem a conversa é oferecer perguntas investigativas ou mesmo opiniões pessoais que desestabilizem a posição do interlocutor. Por conta disso, as formulações iniciam, geralmente, com “mas você não acha que...”, trazendo o caráter adversativo que, ainda que não seja tenso, busca extrair do falante um posicionamento melhor consolidado sobre a realidade relatada. Um exemplo disso pode ser encontrado na entrevista de José Jesus Mari a Marília Gabriela (28 mai. 2006): Marília Gabriela: José Jesus Mari: Marília Gabriela: José Jesus Mari: Marília Gabriela: José Jesus Mari: Marília Gabriela: [...] Você se acostuma com a violência? Você passa a dar... Existe uma complacência com a violência? [sobreposição] Eu acho que nós criamos uma casca, né. Porque não é comum você andar na rua e passar assim e ver um policial com o revólver na mão. Ou o pessoal entregando dinheiro nos lugares, eles descem armados, eles estão ali com armas. Nós vivemos numa cidade onde está ocorrendo uma guerra civil. Agora, a nossa situação, ela é particular. Ela não é fruto do terrorismo, ela não é fruto de desastre natural. Ela é fruto de uma situação muito particular do país que tem suas raízes na desigualdade, em todos os problemas que nós temos como sociedade. Então é fruto nosso. [interrompendo] Mas não é muito simplista dizer que é... Por exemplo, vamos dar um exemplo a grosso modo. Eu poderia interpretar o que você disse como uma verdade que passou a ser apregoada de que a criança vê na televisão um objeto de desejo, um objeto de consumo. Não pode adquirir, então ela, provavelmente, vai estar facilitando... isso vai estar facilitando a entrada dessa criança para o crime porque vai assaltar, vai tentar conseguir. Não é uma forma simplista de resolver essa violência urbana? Olha, a violência é muito complexa. São vários fatores e talvez esse seja um pequeno fator, né? O que nós temos em relação aos dados, aos estudos, não há uma relação simples, direta da pobreza com a violência. Mas há uma relação do seguinte tipo: por exemplo, a violência está concentrada nos centros urbanos. E a violência, ela não vai estar, não se desenvolve nos centros rurais, ou nas cidades de médio e pequeno porte, onde não há muito desenvolvimento. Então muito provavelmente, a chegada do desenvolvimento... Então, numa sociedade onde ela é capitalista, onde ela tem um estímulo – você tem que ter um Nike, tem que ter um Porche, você tem que ter ... – sofre um bombardeio muito forte e uma pressão muito forte pelo consumo capitalista. E ao mesmo tempo você não tem serviços básicos, né. Você não tem saúde. Você não tem educação, você não tem moradia, você não tem transporte. E ao mesmo tempo, você tem uma parte da população vivendo superbem e o resto sofrendo para caramba e querendo tudo, ter o mesmo estilo de vida. Eu acho que um pouco isso pode ocorrer. Um pouco. Porque eu acho injusto... [interrompendo] Não pode reduzir, né, Gabi. Não, porque todos os dias você pode acordar de madrugada e ver milhões, ou saber de milhões, ou ver milhares de trabalhadores, pessoas honestas, que vão para o trabalho e têm tanto medo da violência quanto as pessoas que estão sujeitas a assaltos. (Edição de 28 mai. 2006) 236 Desta forma, o entrevistado pode rever sua posição e fornecer bases melhores para sustentar sua opinião: “os dados”, “os estudos”. Segundo o deliberacionismo, as formulações dos falantes num diálogo não servem apenas para tentar convencer o ouvinte, mas serve para que o próprio falante explicite explicações e justificativas sobre seus pontos de vista (MAIA, 2008, p. 182). Por conta disso, as interrupções dos apresentadores na fala do interlocutor são justificadas, uma vez que permite que os argumentos sejam melhor formulados e suas idéias fiquem mais claras para o interlocutor e, principalmente, para a audiência que, presume-se, também irá refletir sobre aquela elocução. No exemplo acima, é notável que a apresentadora permanece com uma postura adversa à do entrevistado até se chegar a um consenso e as opiniões convergirem para o mesmo sentido. O aspecto consensual parece mais evidente na construção dos programas. O Observatório da Imprensa privilegia uma postura dos convidados semelhantes à de seu mediador principal, Alberto Dines, como se demonstrou na análise do modo de endereçamento do programa. Para discordar de Dines, os convidados se desculpam, pedem licença e agem com extrema polidez a fim de evitar confrontos. A argumentação, nesse programa, visa confirmar uma tese defendida pelo programa e tentar convencer o telespectador a acatá-la também. Uma das funções mais importantes para a criação de uma conversação democrática no telejornalismo é a mobilização de questões sociais relevantes e a transferência da agenda pública para a agenda política. Isso demonstra que os meios de comunicação estão agindo em função de um interesse público que deve promover transformações políticas e pressionar as esferas centrais do poder. Se por um lado há uma desigualdade no acesso do público à conversação em cena no telejornalismo, por outro, cabe perceber quem os jornalistas representam, que interesses e que questões sociais recebem maior visibilidade nas trocas. Rousiley Maia (2008) chama atenção para a omissão dos atores periféricos das representações políticas midiáticas. Sendo assim, “os meios de comunicação não oferecem um espaço equinâme para os atores sociais divulgarem suas causas” (MAIA, 2008, p. 180). Por conta disso, a organização da sociedade em associações tem papel cada vez mais relevante para valorizar parâmetros democráticos na construção de argumentos, na criação de sociabilidade política, na revisão de suas idéias sobre problemas comuns à comunidade. 237 Cabe perceber, portanto, em que medida a conversa encenada pelos jornalistas e suas fontes durante os programas tematizam os aspectos que concernem a problemas sociais. Nesse sentido, é possível notar que o apego dos programas à política institucional inibe a inserção de outras temáticas na conversação, corroborando com uma posição de invisibilidade de certos problemas e questões sociais. No Observatório da Imprensa, por exemplo, o interesse do cidadão aparece, apenas, como o direito a obter informações bem apuradas, a partir de instituições éticas e livres para transmitir conhecimentos. Os problemas do cidadão comum giram em torno da censura efetuada aos meios de comunicação. Bom Dia Brasil e Jornal das Dez tratam dos problemas sociais a partir do enquadramento da política institucional, como foi visto no item anterior. A questão da crise econômica, por exemplo, no Jornal das Dez entrou na conversação dos participantes com o parecer de Carlos Alberto Sardenberg sobre as saídas do governo norte-americano para a resolução dos problemas e os desafios do governo brasileiro. O Roda Viva, porém, busca validar um discurso de responsabilidade social ao levar ao programa as principais problemáticas sociais no momento em que elas estão em discussão. Nas edições analisadas, o programa levou ao ar um debate sobre deficientes físicos e os problemas de acessibilidade que enfrentam (19 jun. 2006). Preconceito, falta de políticas públicas, ausência de outros fóruns de debate na sociedade para dar visibilidade a esse tema foram alguns dos aspectos tratados durante essa edição. Para a discussão, o programa levou para o estúdio pessoas que convivem com a falta de acessibilidade, como Leonardo Mattos, deputado federal pelo Partido Verde de Minas Gerais e Presidente da Comissão Especial para o projeto de lei do estatuto das pessoas com deficiência; Lars Grael, velejador; Ronaldo Correia Júnior, autor do site Dedos dos pés; Marcos Frota, ator, criador e diretor da Unicirco, Universidade Livre do Circo, com programa de inclusão de deficientes; e Clodoaldo Silva, atleta paraolímpico da natação. O assunto foi tratado a partir de duas perspectivas: levar a questão da deficiência física para a agenda pública, ou seja, torná-la interesse de todos, independentemente da condição física, e transformá-la em questão de governo. Por conta disso, os participantes do Roda Viva buscaram dar relevo ao aspecto social do problema, tirando a responsabilidade de promover ações de transformação apenas dos grupos que sofrem com a questão e torná-la um papel de 238 cada um: “nós iniciamos esse movimento de pessoas com deficiência na década de 80 e ele sofreu uma série de defecções ao longo dessa mobilização e estou vendo este momento raro, oportuno da confecção do Estatuto dos Deficientes, no Senado e na Câmara, da Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência, mais uma oportunidade de recuperarmos esse movimento e, finalmente, pautarmos o Brasil sobre a necessidade de políticas verdadeiramente públicas e de pautarmos o Brasil sobre um plano diretor voltado exclusivamente ao processo de inclusão de deficientes” (Leonardo Mattos). Além disso, ressalta-se o papel dos meios de comunicação em pautar essa temática: “eu acho que o debate está extremamente interessante para o Brasil todo. Aliás, o Roda Viva tem cumprido esse papel ao longo da sua existência com pessoas e temas extremamente importantes” (Célia Leão). Marília Gabriela Entrevista e Sem Censura buscam representar diversos grupos sociais, problematizando questões que o jornalismo convencional não trata. A maternidade é um tema constantemente pautado por esses programas e tratado a partir de um enquadramento que visa dar às mães as ferramentas necessárias para exercerem bem esse papel. Os problemas da depressão pós-parto, a culpa das mães que possuem um ritmo de vida acelerado, as formas de ensino aos filhos são problemas contemplados no programa e tratados a partir da dimensão do vivido. Alcoolismo, obesidade, depressão, prostituição são temas que também compõem a pauta desses programas a partir de uma dimensão que salienta os aspectos da vida cotidiana que problematizam as experiências. Assim, esses programas partem de uma experiência pessoal para um problema social, e do social para o visível, que ganha na conversação jornalística uma forma de criar relações afetivas entre os telespectadores, como será visto no capítulo seguinte. 239 2. TELEJORNALISMO, CONVERSAÇÃO E ENTRETENIMENTO “Espontaneidade”, “informalidade” e “coloquialidade” são expressões cada vez mais encontradas nas definições dos produtos jornalísticos televisivos106. A promessa de levar ao telespectador informação de qualidade associada ao prazer de consumi-la, muitas vezes, encontra na conversação a estratégia verbal preferencial para a construção de uma espécie de “telejornalismo light” em oposição ao modelo consagrado dos hard news. O que parece ser uma tendência irrevogável do telejornalismo para alguns, é motivo de grande preocupação para outros, pois implicaria a substituição de características centrais ao jornalismo enquanto instituição social – o serviço ao interesse público, a seriedade, a racionalidade – por propriedades vinculadas à esfera do entretenimento. Tal visão negativa provém de uma distinção histórica entre as duas esferas: o jornalismo, na formação de seu discurso dominante, se apresentaria como área da racionalidade; do lado oposto, o entretenimento estaria vinculado ao prazer, diversão e distração das coisas sérias. Na televisão, a discussão ganha contornos ainda mais radicais, pois seria um meio que, por excelência, estaria voltado ao entretenimento pela conjugação de som e imagem (GOMES, W., 2004). O casamento entre jornalismo e entretenimento provocaria hibridações funestas como o infotainment. No que diz respeito à apropriação da conversação no telejornalismo, nota-se que, conquanto não seja usada com fins democráticos, ela é vista como prática meramente diversional, voltada ao prazer dos participantes. Entretanto, o uso da conversação nos programas jornalísticos televisivos pode oferecer algumas pistas para a compreensão das formas receptivas da sociedade contemporânea que alia a crítica ao prazer. Sendo assim, tratar a conversação a partir do entretenimento não significa apreendê-la a partir de temas vinculados à esfera do lazer e diversão, ou tampouco de um modo de conversar marcado expressões coloquiais, mas como uma forma de os programas convocarem os receptores a uma atitude prazerosa enquanto assistem as trocas, prazer este que remete às 106 O site do telejornal Bom Dia Brasil ressalta o “tom informal” e a “espontaneidade” que o telejornal visa oferecer (disponível em http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MRP746686-16020,00.html, acesso em 6/12/09); o programa Estúdio I, da Globonews, se apresenta como “informação com inteligência e informalidade” (disponível em: http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,JOR319-17665,00.html, acesso em 6/12/09); o Jornal Hoje, por sua vez, aposta numa “linguagem coloquial, sem perder a seriedade” na apresentação das notícias (disponível em: http://g1.globo.com/jornalhoje/0,,TLI1028-16025,00.html, acesso em 6/12/09). 240 conversações desempenhadas na vida cotidiana. Este capítulo procura abordar a relação entre telejornalismo, conversação e entretenimento iniciando com uma discussão mais ampla sobre essa temática a partir de referenciais teóricos que demonstram a conversação como prática aprazível desempenhada no tempo livre e na vida privada. Considera também o modo como o modelo dominante de jornalismo rejeitou essa concepção e como o telejornalismo contemporâneo retoma essa perspectiva a partir da dimensão de prazer para obtenção das informações. O capítulo prossegue demonstrando, nos programas que compõem o corpus desta tese, a articulação entre essa dimensão de prazer e a autenticidade das conversações televisiva, tendo como parâmetro a construção de um efeito de espontaneidade durante as conversas. Por fim, o capítulo ressalta o modo como a apropriação da conversação no telejornalismo pode provocar formas de sociabilidade entre agentes do campo televisivo e audiência, reduzindo a distância entre as duas esferas por meio do relato de experiências pessoais que buscam fazer o telespectador identificar-se com os assuntos narrados. 2.1. A conversação informal e o entretenimento Para além das questões que envolvem a prática política e a troca racional de idéias, os autores que tratam da conversação ressaltam o caráter aprazível das trocas entre os participantes. Gabriel Tarde define a conversação como “todo diálogo sem utilidade direta e imediata, em que se fala, sobretudo, por falar, por prazer, por distração, por polidez” (TARDE, 1992, p. 95, grifo meu). Em busca de origens possíveis da conversação, Tarde (idem) retorna ao período anterior ao surgimento da linguagem escrita para descrever as práticas dos homens em seu tempo livre. Na Grécia antiga, após passarem por um processo civilizatório, os indivíduos mantiveram a prática de dialogar para se comprazer enquanto passam o tempo “sob os álamos que margeiam o Ilisso” (TARDE, 1992, p. 107). Apropriando-se das idéias de David Hume, Stephen Miller (2006) afirma que antes de obter conhecimento, homens e mulheres cultivam o hábito de conversar, contribuindo para o prazer e entretenimentos uns dos outros (Hume apud MILLER, 2006, p. 62). Na reconstrução da história social da conversação, portanto, os dois autores apontam elementos semelhantes que compõem a compreensão sobre a prática conversacional: o prazer e o tempo livre. Por conta disso, é que boa parte dos escritos que se dedicam à caracterização da conversação em momentos históricos específicos destinam-se à conversação praticada em ambiente privados, como os cafés, salões, clubes e sociedades na Europa moderna. Segundo Jürgen 241 Habermas (1984), na primeira década do século XVIII, Londres já contava com mais de três mil cafés com fregueses habituais que falavam sobre temas específicos e com regras de comportamento características de cada um: Os juristas discutiam sobre Direito ou assuntos eruditos... no café Nando`s ou no Grecian... As pessoas da City se encontravam no Garraway`s ou no Jonathan`s para discutir a alta e a baixa das ações e verificar a taxa de seguros. Os religiosos conversavam no Trusy`s ou no Child`s sobre as fofocas da Universidade... (National Review, apud HABERMAS,1984, pp. 299-300). Na vida privada e enquanto prática da vida cotidiana, a conversação é abordada a partir de sua dimensão mais aprazível: a conversa permite o deleite, a distração e a formação de vínculos de amizade por meio de laços emocionais que são partilhados durante a troca. É o fato de colocar os indivíduos em conjunto, unidos por interesses comuns que a conversação atua como catalisador de formas de sociabilidade especialmente quando é praticada no tempo livre, como forma de entretenimento. As perspectivas iluministas sobre a conversação, porém, impuseram um discurso dominante do que deveria ser uma conversação racional, voltada para a troca de idéias e de opiniões, para a argumentação e para o papel cívico dos indivíduos na democracia107. Isso é conseqüência de uma distinção na Europa moderna entre a esfera da racionalidade e da emoção. A compreensão do “entretenimento” como distração das coisas sérias também faz parte de um discurso dominante que se estabeleceu no século XVIII a partir do Iluminismo. Richard Shusterman (2003) afirma que desde seus usos mais remotos, o termo “entretenimento” esteve associado à distração, ao lazer, ao prazer. No século XVIII, autores como Heidegger e principalmente Hegel, na discussão sobre a estética, separaram a racionalidade embutida na fruição da arte, da distração provocada pela arte popular. Os autores da Escola de Frankfurt também são responsáveis por essa cisão ao discernirem a alta da baixa cultura, cabendo à primeira o exercício intelectual e à segunda a distração e o prazer. Foi essa perspectiva que acabou se disseminando como dominante e influenciou a forma como as pessoas entendem e lidam com o entretenimento. Schusterman (idem), porém, afirma que historicamente, “entretenimento” designava “capturar a atenção”, “ficar absorto”, “pensar”. No século XVII, Michel de Montaigne afirmou que para 107 Essa perspectiva da conversação já foi desenvolvida no capítulo anterior, “Conversação, telejornalismo e democracia”. 242 o exercício da mente, era necessário haver um momento de distração. Deste modo, o entretenimento: 1) pode envolver não apenas o mero prazer, mas também o exercício superior da mente; 2) deveria levar ao prazer; 3) não é um fator negativo que empobrece a mente, pelo contrário, fortalece o trabalho intelectual providenciando alívio e um exercício alternativo (SCHUSTERMAN, 2003, p. 295). A distinção, portanto, entre seriedade e diversão, intelecto e prazer, razão e sensibilidade se deu na ordem da cultura, na formação de um discurso iluminista que valorizava a razão e reproduzia nas instituições sociais a separação entre as duas esferas. Em oposição às formulações frankfurtianas sobre o entretenimento na relação com os mass media, Walter Benjamin (1982) afirma que a recepção no cinema é marcada por uma relação com as obras culturais nas quais razão e sensibilidade convergem. Para ele, o divertimento é uma característica da sociedade contemporânea que traz uma forma de recepção progressista e superior às antigas. Esta forma de recepção mediante o divertimento, cada vez mais evidente hoje em todos os domínios da arte, e que em si mesma é um sintoma de importantes modificações nos modos de percepção, encontrou no cinema seu melhor campo de experiência [...]. Se ele rejeita basicamente o valor cultural da arte, não é apenas porque transforma cada espectador em especialista, mas porque a atitude deste especialista não exige de si nenhum esforço de atenção. O público das salas escuras é indubitavelmente um examinador, mas um examinador que se distrai (BENJAMIN, 1982, p. 238). Considera-se, portanto, a partir de Benjamin, que o entretenimento é um valor das sociedades contemporâneas que se expressa nos produtos culturais como uma forma de recepção, utilizando estratégias diversas, dentre as quais encontra-se a conversação. Na relação com o telejornalismo, as práticas conversacionais ultrapassam a perspectiva dominante, que a associa à democracia, e efetua rupturas nas marcas genéricas, permitindo que a audiência receba as informações a partir do sensível e não apenas do racional. Ao pôr em cena conversações, os programas procuram aproximar-se das práticas informais cotidianas, buscando interpelar o telespectador para assumir a mesma postura que adota nas conversações privadas. 2.2. Os efeitos de espontaneidade e a autenticidade do jornalismo Dentre as propriedades estéticas da conversação, a mais ressaltada entre os autores é a espontaneidade. Segundo Peter Burke (1995), a conversação possui quatro regras básicas: o 243 princípio de cooperação (GRICE, 1979), a distribuição igualitária entre os falantes, a adequação à situação e a espontaneidade e informalidade das trocas. Burke vai além, afirmando que a espontaneidade não é uma propriedade contemporânea, mas faz parte das regras dos manuais franceses do século XVII. Segundo esses escritos, a espontaneidade deveria ser mantida ainda que de maneira performática, evidenciando a deselegância e a hesitação como parte da encenação de uma conversa espontânea. A fala deveria ser livre, natural e fácil, evitando mostrar-se demasiadamente forçada e estudada. A espontaneidade diz respeito à naturalidade e as formas voluntárias que os indivíduos se encontram na vida cotidiana e suscitam uma conversa. Nas interações casuais da vida cotidiana, as normas sociais que regulam as conversas são apagadas a fim de construir-se como uma prática que emerge naturalmente, sem objetivo definido e sem papéis estabelecidos. Makri-Tsilipakou (2004) afirma que boa parte dos estudos contemporâneos sobre a conversação trata de uma distinção entre a conversação casual mundana e as trocas que se passam em ambientes específicos. A autora afirma que no segundo caso, que inclui as conversações televisivas, constrangimentos formais prevalecem sobre a casualidade e espontaneidade das interações cotidianas. Durante os anos 1980, quando o Brasil começou a assistir um processo de redemocratização e a televisão procurou levar ao ar políticos de diversos partidos e cargos, iniciou-se uma fase de construção de uma gramática para performance dos agentes do campo político nos produtos televisivos. A revista Veja de 13 de janeiro de 1982 traz regras sobre como os políticos deveriam portar-se para conquistar a atenção da audiência, tais como boa postura, serenidade (evitar atitudes que indiquem nervosismo como engolir a seco, piscar várias vezes), informalidade (falar como quem conversa), olhar para a câmera a fim de dirigir-se ao telespectador, demonstrar segurança, entre outros. A influência dos assessores de imprensa se multiplicou nesse período para reeducar os políticos a lidar com o veículo. Com isso, a televisão reforçou padrões de comportamento que deveriam ser buscados durante as conversações, demonstrando as condutas ideais que os entrevistados deveriam ter para conquistar a audiência: uma conduta regrada, calculada e performática. Recentemente, porém, o que se nota é a construção de uma autenticidade do telejornalismo por meio da espontaneidade na divulgação das notícias. A liberdade com relação ao 244 teleprompter, por exemplo, marca uma transformação do papel dos apresentadores que, agora, legitimam-se pela habilidade verbal: clareza na construção e transmissão das mensagens, desenvoltura para lidar com improvisos, possibilidade de construção de um discurso próprio. No caso da conversação, espera-se que os entrevistadores apresentem-se munidos de conhecimentos sobre a área do entrevistado e, ao mesmo tempo, conduzam a conversa com liberdade de um roteiro, buscando, na própria interação, os elementos que visam levar informações, avaliações, argumentos e pontos de vista ao telespectador. Como conseqüência, o uso do termo “conversa” ou “bate-papo”, como sinônimos de “entrevista” e “debate”, visa salientar esse aspecto espontâneo, fazendo referência a uma prática da vida cotidiana. Essa construção, baseada numa suposta improvisação, faz refletir sobre o lugar que a espontaneidade possui na autenticação do discurso jornalístico atual. Clayman e Heritage (2003) afirmam que a entrevista era o veículo preferencial de transmissão das notícias pelo rádio justamente pela sua espontaneidade e informalidade. Quando foi para a televisão, porém, era difícil para os jornalistas parecerem espontâneos, pois eles apareciam lendo os roteiros de perguntas de forma artificial. O teleprompter foi um dispositivo que contribuiu para a construção dessa espontaneidade, pois com ele os textos eram lidos diretamente para a câmera, exigindo que os apresentadores utilizassem performances cênicas que os fizessem parecer espontâneos. A atribuição do caráter de autenticidade aos programas televisivos se modificou ao longo do tempo, indicando novas formas de recepção televisiva. Quando se vêem diante das conversações nos programas jornalísticos televisivos, os telespectadores as balizam a partir de suas experiências na vida cotidiana, pela espontaneidade e naturalidade com que os assuntos emergem. Segundo Jeffrey Jones (2003), a audiência tem desenvolvido um interesse por uma relação menos mediada com a conversação televisiva e mais centrada na realidade. O sucesso que os talk shows fizeram no período de campanha eleitoral norte-americana, levando para os estúdios os candidatos à presidência, demonstrou que enquanto a retórica calculada, ensaiada e manipulada das performances políticas tornaram-se uma desconfortável realidade da vida política no início dos anos 1990, esses novos fóruns para a conversação política aparentemente ofereceram um olhar mais genuíno e acessível sobre os candidatos108 (JONES, 2003, p. 166). 108 No original: “whereas the calculated, rehearsed, and manipulative rhetoric of political performance and spin had become an uncomfortable reality of political life by the early 1990s, these new forums for political talk seemingly offered a more genuine and accessible look at the candidates”. 245 Essas novas formas de recepção televisiva são conseqüência das hibridações dos gêneros televisivos cada vez mais comuns contemporaneamente. Realidade e ficção, por exemplo, misturaram-se formando gêneros que confundem as duas esferas, o que provoca novas formas de interpretação dos programas109. Segundo Timberg e Erler (2004, pp. 183-184), “os telespectadores tornaram-se altamente sofisticados sobre os modos de funcionamento da televisão e responderam crescentemente a programas que misturavam formatos ou criavam fronteiras entre informação e entretenimento, ficção e realidade110”. Assim, uma nova competência é requerida para a distinção entre o real e o ficcional. Como parâmetro, a audiência utiliza como referência o seu próprio mundo para atribuir autenticidade aos produtos televisivos. François Jost, tratando sobre o “mundo real”, afirma que “o primeiro reflexo do telespectador é de determinar se, sim ou não, as imagens falam do nosso mundo ou não, qualquer que seja a idéia que ele tem desse mundo111” (JOST, 2009, p. 42). Por conta disso é que a espontaneidade emerge como critério para validação de autenticidade das conversações postas em cena nos programas jornalísticos televisivos, como uma tentativa de aproximar-se das práticas cotidianas. Ao passo que buscam alcançar os novos modos de recepção televisiva, os agentes do campo televisivo e a audiência reconhecem que os constrangimentos impostos pelo meio permanecem em operação: tempo regrado, distinção de papeis pré-estabelecida, roteiro de perguntas para dirigir as respostas do entrevistado a fim de alcançar o objetivo da troca, etc. Sendo assim, a espontaneidade aparece como um efeito desejado pelo campo da produção, uma estratégia para fazer crer que aquela conversa é natural e voluntária. Assim, os programas procuram efetuar um apagamento das marcas televisivas para inserir o telespectador como participante de uma conversa. Quanto mais os programas conseguem esconder os elementos da gramática televisiva ou naturalizá-los, maior o efeito de espontaneidade e, por conseguinte, maior autenticidade. Essas estratégias dizem respeito, 109 Como conseqüência, alguns formatos se estabeleceram com base na mistura entre ficção e realidade. O talk show The Daily Show, apresentado por John Stweart, por exemplo, faz uma paródia dos talk shows inserindo elementos ficcionais, personagens que parecem estar desenvolvendo uma ação já conhecida: um falso repórter imita quadros de previsão do tempo, notícias inventadas são dadas como verdadeiras, etc. 110 No original : “ viewers had become increasingly sophisticated about how televisivon worked and were responding increasingly to shows that blended forms or crossed the boundaries between news and entertainment”. 111 No original: “(…) le premier réflexe du téléspectateur est de déterminer si, oui ou non, les images parlent de notre monde ou non, quelle que soit l‟idée qu‟il se fait de ce monde”. 246 sobretudo, à performance dos participantes e a forma de lidar com o tempo, com a introdução dos assuntos durante a troca, com as atitudes dramáticas para reconstruir experiências. Para compreender as performances dos participantes que interagem nos programas, é necessário entender o modo como controlam suas ações durante a troca e que impressões pretendem provocar no outro, que pode ser o interlocutor ou o telespectador. Segundo Erving Goffman (2005), os encontros entre os indivíduos na vida cotidiana são marcados por operações básicas que denotam um modo de agir específico naquela situação. Por conta disso, os indivíduos partilham certas informações básicas uns sobre os outros, informações que podem ser fornecidas antes do encontro ou durante a interação. Como conseqüência, Goffman (idem) afirma que, a todo momento, quando estão em contato uns com os outros, os indivíduos estão representando um papel diante de uma platéia e o que varia é a crença que se tem sobre esse papel, seja a crença do interlocutor, seja a do próprio falante em si mesmo. Quando há uma coincidência entre a crença pessoal e a crença dos demais interlocutores nas atitudes e palavras proferidas por um indivíduo, ocorre o que o autor denomina fachada, ou seja, um padrão de comportamento do indivíduo em diversas situações. A fachada representa o “verdadeiro eu”, um conjunto de ações que caracterizam o indivíduo e, por isso, permite que os demais participantes saibam como agir diante dele. É essa correspondência entre a impressão que pretende provocar e a crença que os demais possuem sobre o interlocutor, entre o “verdadeiro eu” e as atitudes do falante que atribui autenticidade ao indivíduo. Quando essas esferas não são correspondentes, há uma impressão de falseamento e, como conseqüência, acontece a perda da credibilidade no indivíduo. Essas idéias básicas de Goffman (idem) permitem pensar em três maneiras pelas quais os participantes constroem ou perdem a autenticidade durante a conversação: o “desvendamento do eu” compactuado pelos participantes; o reforço ao papel social; o falseamento da fachada. O “desvendamento do eu” do entrevistado evoca um sentido de mostrar a pessoa “real” para além de seu papel social. João Freire Filho (2009) analisa os reality shows e programas de estilo de vida não a partir de uma perspectiva que supervaloriza a atitude de voyerismo dos telespectadores, mas do prazer que a audiência encontra nesses programas ao buscar marcas de sinceridade e espontaneidade na performance dos indivíduos na cena televisiva. Freire Filho (idem) relata o trabalho de Adrejevic, segundo quem a aferição de valor a esses programas reside, não no prazer de espiar a vida alheia (concepção típica dos autores que 247 afirmam o voyerismo como uma patologia da sociedade contemporânea), mas na busca por “vislumbres objetivos (não roteirizados ou arquitetados) do subjetivo” (FREIRE FILHO, 2009, p. 7). É nos momentos de fragilidade emocional que o “verdadeiro eu” se manifesta e é nessa atribuição de veracidade ao papel desempenhado na tela que se constrói o prazer da recepção desses programas. Somos sensibilizados, através de narrativas e explanações emocionalmente persuasivas, para a importância da elaboração da autenticidade, da configuração de uma identidade e de uma imagem distintiva e fiel ao nosso eu interior. A autenticidade é exaltada como motor de uma vida significativa, psicologicamente satisfatória e socialmente recompensadora, tornando-nos, ao mesmo tempo, sujeitos mais confiantes e confiáveis (FREIRE FILHO, 2009, p. 11). É no sentido de mostrar à audiência a “pessoa real” que está ao fundo de seu atributo como celebridade ou personalidade pública que a conversação desempenha um papel central nos programas. As perguntas biográficas e intimistas têm como finalidade disponibilizar para os telespectadores informações que não aparecem no desenvolvimento das atividades profissionais dos entrevistados. Em certos casos, o objetivo da conversa é justamente negar imagens estabelecidas sobre os indivíduos em outras esferas midiáticas e mostrar o indivíduo como “gente comum”, como foi o caso da entrevista de Fátima Bernardes a Marília Gabriela: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Fátima, me pediram para fazer uma coisa na abertura do programa. Sim. Para você me dizer um defeito que você tenha de fato. Que você considere ter, porque você é a imagem da mulher perfeita, o que para a gente é meio terrível [sobreposição]. Ah, eu tenho vários. Vou começar dizendo um: que eu com fome sou insuportável [...]. E eu sou muito ansiosa. Eu acho isso um grande defeito [...]. Você já fez análise? Eu fiz durante um tempo pequeno, uns dois anos e fiz muito motivada, inicialmente, por uma fobia imensa de avião que surgiu depois do nascimento das crianças [...]. Mas olha, você sabe que é muito legal você falar disso, porque você sabe também que tem essa imagem de mulher perfeita. Aliás, isso é uma imagem que te incomoda às vezes ou não? Não... é uma imagem que eu não vejo...Quer dizer, eu não sei porque essa imagem de tanta perfeição. Acho que ela está muito associada à imagem da apresentadora do jornal, que tem que estar com o cabelo que não pode cair no olho, e que a maquiagem está correta, e que a roupa é discreta. [interrompendo] E que parece que está tudo bem. As pessoas imaginam aquilo ali como a nossa sala de visitas, embora a gente exercite diariamente aquilo que não seja. E...então elas têm uma imagem de que tudo funciona na nossa vida. Elas vêem trinta e oito minutos de jornal, né. E aí elas não vêem toda a correria para chegar ali [...]. 248 (Edição de 13 jan. 2008) Como uma de suas marcas centrais, o “desvendamento do eu” no Marília Gabriela Entrevista busca estabelecer uma relação de proximidade com a audiência, que reconhece, em seus relatos, experiências, gostos, problemas e características aspectos comuns com os quais pode identificar-se. Para evidenciar a integridade entre a vida privada e a vida pública do entrevistado, os programas buscam salientar as histórias de vida, experiências e características pessoais a fim de reforçar os comportamentos congruentes ou confrontar os entrevistados com posturas paradoxais entre o discurso defendido e o vivido, como se pôde perceber na entrevista com Heloísa Helena no Roda Viva: Alexandre Machado: Heloísa Helena: Tereza Cruvinel: Heloísa Helena: Tereza Cruvinel: Heloísa Helena: A quem mais a senhora tem horror, ao PT ou ao PSDB? Não, não, não, a ninguém, nadinha, nadinha. Eu não tenho horror pessoal por ninguém, eu sou um poço de ternura [leva as mãos ao peito], uma fofa [risos]. Só não gosto de cinismo. E nesse poço de ternura, a senhora acha mesmo necessário usar linguagem tão pesada, contrária a sua ternura na vida privada? Na vida privada? Todo mundo sabe que a senhora é uma pessoa terna, mas a senhora enche a boca com palavras mais pesadas, acha necessário isso? É porque, veja só, se fosse na minha casa, eu aceitava? Se fosse com a minha filha ou o meu filho, eu aceitava? Então, eu sou desse tipo de jeito, aliás, sou da turma de Jesus Cristo ou quente ou frio, era ele quem dizia, não sou eu não, entendeu? [...] Eu estou dizendo que cada pessoa tem seu jeito, tem gente que faz a luta implacável bem serena e tem gente que faz a luta implacável um pouco mais abusada. (Edição de 12 jun. 2006) Nessa operação de desvendamento, a conversa mostra-se autêntica pela liberdade gestual dos participantes e expressões faciais que coloquem ênfase em momentos relevantes da narrativa. A gestualidade aparece na composição do discurso do entrevistador a fim de inserir-se na troca a partir de uma dimensão pouco roteirizada e mais próxima às atitudes cotidianas. O jogo de enquadramentos de câmera durante a conversação busca conduzir o olhar do telespectador para os aspectos expressivos que os falantes empregam enquanto constroem seu discurso, por isso o enquadramento preferencial é o plano americano, que procura mostrar as mãos do entrevistado e consequentemente seus movimentos mais imediatos. Para dar maior 249 ou menor ênfase ao gestual, os planos podem abrir ou fechar nos entrevistados, a fim de evidenciar a espontaneidade dos falantes enquanto interagem. Figura 33: gestos expressivos dos entrevistados Fonte: Sem Censura (27 abr. 2009), Marília Gabriela Entrevista (18 nov. 2007; 28 mai 2006) Segundo Goffman (op.cit.), há fachadas que são culturalmente estabelecidas para guiar certos papeis sociais, e por isso, os indivíduos vão agir num encontro com base num consenso sobre o que é ser médico, advogado, político, jornalista. É nesse sentido que os participantes da conversação reforçam o papel social que carregam anteriormente à interação, acionando conhecimentos prévios sobre sua função ou sua personalidade. A performance dos atores, quando pretendem reforçar seu papel social, é controlada, a fim de mostrar equilíbrio e segurança para tratar dos assuntos que autorizam sua presença no programa. Quando os telejornais, por exemplo, convocam os jornalistas especialistas, sua participação no programa limita-se a seu campo de atuação, por conta disso, eles não fazem parte da transmissão inteira do programa, mas aparecem em momentos específicos para levarem sua contribuição. A construção de trajetórias no campo jornalístico atribui relevância ao papel social que desempenham e levam para a conversação as informações prévias que os demais participantes devem possuir sobre ele. O destaque que os apresentadores dão ao papel do 250 comentarista nas chamadas dos programas – “Merval Pereira comenta”, “com os comentários de Míriam Leitão” – visa atribuir maior autoridade ao seu discurso. Durante a troca, reforçam a construção de sua fachada por meio de expressões como “eu estive com...”, “eu conversei com...”, que indicam seu acesso profissional ao acontecimento que pretendem interpretar. O destaque ao papel social é compactuado pelos programas jornalísticos, pois a finalidade da conversação é a transmissão de informações e/ou a reflexão sobre fenômenos sociais. Sendo assim, há um objetivo específico para a conversação e, por vezes, ela é pautada a partir desse papel social. No Observatório da Imprensa e no Sem Censura os convidados são apresentados à audiência a partir de sua profissão e de seu propósito na cena: “para debater esse tipo de censura que vem dos tribunais, estão conosco Ricardo Gandu, diretor de conteúdo do grupo Estado, e Aloísio Maranhão, diretor de Opinião do jornal O Globo” (Alberto Dines no Observatório da Imprensa, 18 ago. 2009), “será que a „abusante112‟ Undira reclama seus direitos? Undira é vivida pela atriz Luci Pereira. É uma das empregadas domésticas da novela Caminhos das Índias” (Leda Nagle no Sem Censura, 30 abr. 2009). Os convidados não são inseridos na conversa apenas pela profissão – diretor de conteúdo, atriz, etc – mas a partir de um tema específico que lhe autoriza a tratar sobre os assuntos. No Roda Viva e no Marília Gabriela Entrevista a apresentação dos entrevistados mescla aspectos da vida pública com informações de sua vida pessoal que podem servir para levar o telespectador a conhecer a trajetória do entrevistado em sua área de atuação ou estabelecer uma relação de proximidade com a audiência: “Tariq Ali costuma se definir como um „muçulmano não-muçulmano‟. Ao mesmo tempo em que se posiciona contra o império americano, também é contra o fundamentalismo religioso. Escritor, roteirista e cineasta, Tariq nasceu no Paquistão e estudou na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde vive. Escreveu biografias, romances, obras de história e política internacional, muitas obras já traduzidas para o português e lançadas no Brasil. Recentemente, na Flip, a Festa Literária Internacional de Parati, Tariq lançou sua última publicação, Um sultão em Palermo - o quarto livro do Quinteto Islâmico, série que enfoca a grandeza da contribuição do islã e seus confrontos com o Ocidente [...].” (Paulo Markum, 21 ago. 2006). No Marília Gabriela Entrevista os aspectos pessoais são fornecidos no início do programa num clipe com fotografias do personagem a ser entrevistado. 112 Expressão utilizada pela atriz na construção de sua personagem durante a telenovela. 251 Quando a performance dos participantes se volta mais diretamente para o reforço ao papel social, pode ocorrer uma disputa na construção de autoridade e pelo domínio do discurso, especialmente quando o objetivo do programa é oferecer um debate marcado pela contradição de idéias. Segundo Michael Schudson (2003), em cada entrevista, há uma construção de autoridade, tanto pelo jornalista quanto pela fonte. O inquérito não visa apenas obter informações, mas destaca uma das partes no domínio discursivo. É uma disputa de poder de quem tem a melhor resposta, o melhor argumento. Schudson (idem) afirma que “em qualquer conversação existe potencialmente uma tensão entre a fala como forma de solidariedade que estabelece ou reforça uma relação de igualdade entre duas pessoas, e a fala como afirmação de poder, estabelecendo ou restituindo uma hierarquia113” (SCHUDSON, 2003, p. 75). Sendo assim, o ato de perguntar e responder não é neutro, mas promove disputas pelo poder da palavra, quem dá a palavra final, quem transmite a verdade. De um lado, os jornalistas procuram assegurar seu lugar social na obtenção das informações, assumindo, muitas vezes, uma postura dura – que se traduz no uso de perguntas investigativas, na interrupção das respostas, na sobreposição, na ironia. Do outro lado, encontra-se a fonte, que possui legitimidade em outras esferas sociais, mas está desligada do campo jornalístico. Em função disso, a fonte ocupa uma posição de desvantagem na conversação, uma vez que a troca se passa num ambiente já identificado com os apresentadores e, por isso, naquele espaço, é o apresentador que controla a situação. As disputas pelo poder da palavra durante a conversa se dão de maneiras diversas. Marília Gabriela prefere manter o clima cordial da conversa a fim de assegurar a relação de intimidade que constrói com seus entrevistados. Por conta disso, a apresentadora procura dar mais espaço às falas do entrevistado e deixar com ele a palavra final quando o assunto tratado provoca oposição de idéias: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Você não acha curioso que o país tenha um presidente eleito duas vezes, um retirante, um migrante nordestino, um homem que saiu da ... Uma trajetória incrível. Uma trajetória fantástica e que, apesar disso, apesar de ele estar lá, as classes 113 No original: “in any conversation, there is potencially a tension between talk as a form of solidarity that establishes or reinforces an egalitarian relationship between two people and talk as an assertion of power, establishing or restating hierarchy”. 252 Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: Marília Gabriela: Caco Barcellos: privilegiadas continuam cada vez mais privilegiadas? É, e é um lado do governo dele, né. Porém... Explica porque isso acontece... Do outro lado, ele tirou muita gente da pobreza, né. Eu não sei... quem sou eu para estar analisando um governo e a figura do Lula. Não sou a pessoa mais indicada para isso. Mas me parece que ele sempre foi muito hábil e importante na liderança dos trabalhadores em busca de melhores salários, tanto que o ABC hoje tem um salário diferenciado em relação à média nacional. Porém, nos outros segmentos eu acho que ele não tinha um grupo muito efetivo para ajudá-lo e tocar os assuntos, questões nacionais como meio ambiente e outras. E no caso da justiça que mais recentemente tem me impressionado? É a equipe dele. Mas são poderes independentes, né, são independentes, Marília. Mesmo nessa questão da violência, que é um pouco menor do que da justiça, você tem um governador que é radicalmente contra essa política do extermínio e é justamente na gestão dele que esse extermínio aumenta, porque quem manda nessa questão do extermínio é o coronel, o chefe do batalhão. O soldado sabe que a ordem vem do chefe que vai continuar ali quando o governador for embora. Ele tem que obedecer a esse coronel. É uma questão, parece particular, mas que ajuda a explicar muito. sim, há uma teia... Eu acho que hoje o presidente não consegue governar por iniciativa própria. Há toda uma circunstância que faz que ele obedeça os seus limites de ação. Os governantes sempre se queixam disso: “eu tento fazer, mas eles não deixam”. [...] Eu acho que quanto mais evoluída a sociedade, menor o poder de dependência, eu diria, de exercício da vontade própria do presidente e tem que ser assim, a sociedade que define os rumos. (Edição de 07 set. 2008) O Roda Viva constrói posições adversárias entre entrevistadores e entrevistado quando leva para a arena representantes políticos, independentemente do cargo que ocupam, exercendo sua função de poder moderador. Em muitos casos, todos os entrevistadores se unem contra o entrevistado, ou são formados “partidos” entre os mediadores favoráveis às idéias do entrevistado e os contrários a ele. No Observatório da Imprensa, é visível o domínio que Alberto Dines oferece à construção de autoridade durante a conversação. Embora ofereça aos participantes o mesmo tempo para desenvolverem suas idéias, quando os convidados se mostram contrários, ele usa seu lugar como condutor do programa para dar a palavra final, como se pôde ver na proposta de um pacto da imprensa contra o terrorismo114. É o mesmo mecanismo que permite a Leda Nagle, no Sem Censura, interromper a fala da juíza do trabalho, Luciana Neves (30 abr. 2009) e a 114 Ver “O Observatório da Imprensa e os arautos do jornalismo”, na parte II. 253 Renato Machado, no Bom Dia Brasil, superar os demais mediadores encerrando seus comentários: Cláudia Bomtempo: Renato Machado: Bom, em caso de vitória do PT nas eleições para presidente, há compromisso de coalizão com o PMDB, afinal, um eventual governo petista precisa de uma base de sustentação no Congresso, Renato. Mas é preciso deixar bem claro que esse PMDB é a ala governista do partido. Sim, Cláudia. O PMDB está dividido. E por exemplo, o PMDB de Santa Catarina já disse que vai apoiar o candidato da oposição. (Edição de 06 jun. 2006) A atitude demasiadamente controlada dos participantes em função da construção de seu papel social tem como conseqüência um terceiro aspecto sobre a performance dos participantes. Para desestabilizar o domínio que os entrevistados possuem sobre as impressões que pretendem causar, os entrevistadores buscam capturar os elementos que escapam ao controle: as expressões de indignação e raiva, os sinais de nervosismo, as hesitações e deslizes durante as respostas. Goffman (2005) chama a atenção de que pequenos deslizes podem desconfigurar a impressão que se pretende causar. Esses deslizes são involuntários, como o gaguejar, uma tosse, uma crise de risos e outras manifestações físicas que põem em cheque o papel que se pretende incorporar. Por isso, para Goffman (idem), a manutenção de uma representação controlada não se sustenta por muito tempo. Face a essa possibilidade de desfigurar a representação, é possível também, falseá-la, ou seja, demonstrar para a plateia algo que não é verdadeiro. Ao considerar a veracidade e a falsidade das representações, Goffman (idem) afirma que as fachadas verdadeiras são uma resposta involuntária do indivíduo à situação, enquanto as falsas são previamente planejadas. Durante as conversações mais tensas, os jornalistas procuram levar o entrevistado ao desequilíbrio e evidenciar uma reação espontânea que revele seu “verdadeiro eu”, que escapa do controle da ação durante a conversa. Ao mesmo tempo em que a demonstração do falseamento da performance revela uma falta de espontaneidade do entrevistado e, por conseguinte, a perda da autenticidade de seu discurso, é justamente nos momentos em que os entrevistados permitem ver pequenas deixas de seu “eu real” que o debate atinge o clímax, pois indica o nível máximo de tensão. É o caso de expressões de irritação como “meu filho, pelo amor de Deus, não seja ingrato” (Lula no Roda Viva, 16 out. 2006), “não é suspender minha Nossa Senhora” (Heloísa Helena no Roda Viva, 12 jun. 2006). 254 Outra forma de falseamento da conversa diz respeito não tanto à performance dos personagens, mas aos recursos técnicos que visam direcionar o olhar da audiência para as interações. Para criar um efeito de espontaneidade, os programas empregam esses recursos – enquadramentos, edição, sonorização – de modo preciso, dirigindo o olhar do telespectador de um falante ao outro. Os telejornais Bom Dia Brasil e Jornal das Dez são bons exemplos dessa configuração. Com mediadores espalhados em diversos estúdios, os telejornais contam com um telão por meio do qual podem interagir e presentificar-se durante a conversa. No Jornal das Dez, a interpelação de um mediador a outro ocorre nos momentos iniciais do programa, quando trata especialmente de política e economia. No restante do programa, é o apresentador André Trigueiro que introduz as notícias sem buscar interlocução com os demais mediadores presentes nos estúdios. O Bom Dia Brasil se costura por meio de interpelações constantes de um mediador a outro, como se eles mesmos apresentassem as notícias numa conversa que abarca todos os mediadores e a audiência. A passagem da palavra de Renato Machado para Renata Vasconcelos, para Mariana Godoy e assim por diante evidencia uma aparente fluidez de um tema a outro, como se os assuntos puxassem novas abordagens. O corte abrupto de um assunto a outro, marcado pelo recurso do corte seco, nesse telejornal, dá lugar a uma forma de apresentação em que os diversos enfoques sobre os temas são agrupados em blocos interligados pelo chamamento de um mediador a outro. Essa estrutura conversacional é da ordem do “fazer crer” que aquela conversa é espontânea, uma reprodução das trocas que ocorrem na vida cotidiana. No entanto, essa construção é nitidamente regrada por um script que indica, inclusive, os momentos em que os mediadores podem oferecer um comentário “espontâneo”, livre do teleprompter. A sincronia da passagem da palavra com o trabalho de direção de imagens demonstra o rigor técnico do programa em conjugar a fala de cada um com os enquadramentos que os inserem na cena, tornando evidente o rígido controle que o programa efetua na condução da estrutura conversacional. O telespectador é inserido na conversa por meio de um jogo de enquadramentos que se fecha no mediador falante, abre-se para mostrar a transição de um para outro e fecha-se novamente para aproximar a audiência do novo mediador. Esse “fazer crer” que simula espontaneidade permite que a audiência seja posicionada não como espectadora distanciada, mas engajada na conversa. 255 Quando ocorre uma falha, porém, nesses recursos técnicos e os mediadores se vêem em reais possibilidades de agir espontaneamente, percebe-se quão regrada é a troca, o que revela seu falseamento e a perda da autenticidade. Da Alemanha, o apresentador Tadeu Schmidt dirigiuse a seus colegas presentes no estúdio do Rio de Janeiro provocando um momento em que a participação era livre: Tadeu Schmidt: Renata Vasconcellos: Tadeu Schmidt: Renato Machado: [...] O que parece que não vai mudar por aqui é o frio, viu, gente, porque quando começou o Bom Dia estava um pouquinho mais de dez graus, agora está um pouquinho menos. Mas com certeza teremos dias quentíssimos, se Deus quiser, dias muito felizes aqui na Königstein. Estava com saudade de vocês, viu, Renato, Renata. [os dois respondem ao mesmo tempo] A gente também, Tadeu. [breve silêncio] Estava aqui olhando o cenário novo. É bonito, viu. é, pois é. Mas a gente vai ficar se vendo, Tadeu. Todos os dias. (Edição de 05 jun. 2006) Quando a conversa se mostra muito roteirizada, há, para o telespectador, um desconforto provocado pela apresentação demasiadamente regrada e controlada. Pela competência cultural adquirida, o telespectador sabe que existem limites que configuram uma conversação televisiva – limites referentes ao tempo, por exemplo – mas atribui maior ou menor autenticidade pela forma como os participantes lidam com esses constrangimentos impostos pelo meio. Assim, a atribuição de autenticidade à conversação se dá pela proximidade com a prática cotidiana e pela habilidade dos mediadores em lidar com o improviso. 2.3. A partilha de experiências e a construção de afetividade Numa análise da história da conversação, Peter Burke salienta que o significado do termo latino para conversação, “conversatio”, aproximava-se de “intimidade”, uma vez que ressaltava relações sociais entre pessoas próximas. João Freire Filho (2009, p. 2) lembra que o termo latino “intimus” é o superlativo do adjetivo “interior”, significando, portanto, “o mais afastado”, “o mais recôndito”, “o mais secreto”, “o âmago”. Sendo assim, a esfera da intimidade está ligada ao lar, os sentimentos, aos pensamentos e sensações, enfim, a tudo que diz respeito ao “mundo interior do indivíduo” (FREIRE FILHO, 2009, p. 2). Na esfera íntima residem os segredos e confidências que culminam no sentido de “confiança”, uma amizade estreita entre duas pessoas. Sendo assim, a conversação aparece enquanto prática da vida 256 cotidiana na qual os indivíduos podem despir-se emocionalmente, revelar seus segredos, encontrar interesses comuns e compartilhá-los. Consequentemente, a conversação é um meio de os indivíduos se reconhecerem mutuamente e interagirem no mundo social. A propriedade socializante da conversação tem sido ressaltada por diversos autores. David Hume afirmava que a conversação promove tanto o desenvolvimento intelectual quanto a saúde emocional por criar e fortalecer relações de amizade (apud MILLER, 2006, p. xi). Para Gabriel Tarde, quando dois indivíduos se encontram, “a conversação que mantêm é apenas um complemento de seus olhares recíprocos, através dos quais se exploram e buscam saber se pertencem à mesma espécie social, ao mesmo grupo social” (TARDE, 1992, p. 130) e segundo Diane McWhother, “conversar é o que nos ata enquanto povo” (MCWHOTHEr apud MILLER, 2006, p. 12). Mesmo nas conversações institucionalizadas no ambiente televisivo, a conversação possui um valor emocional relevante para a criação de afetos: “há um lugar no espectro televisivo para conversas se elas são realmente boas, se são informativas, espirituosas e sentimentais115” (ROSE apud MILLER, 2006, p. 20). Embora a questão da intimidade na televisão seja abordada nos estudos acadêmicos a partir de um olhar funesto sobre a relação entre público e privado, pretende-se, neste momento, apresentá-la a partir de uma perspectiva mais positiva, capaz, inclusive, de associar-se a parâmetros jornalísticos para o tratamento dos assuntos. Conquanto o jornalismo tenha se construído socialmente como instituição responsável por prover a sociedade com informações que ampliem seu capital cognitivo, a abordagem da vida alheia já existia nas páginas dos jornais desde o século XVII, o que permitiu o surgimento de um jornalismo tablóide, identificado com notícias sensacionais sobre crimes, escândalos morais sobre as elites, contos humorísticos (ÖRNEBRING; JÖNSSON, 2004, p. 10). A aproximação com a o modelo iluminista, porém, destituiu das páginas dos jornais “sérios” essa abordagem, valorizando, apenas, a função política da imprensa e a narrativa ideal que valoriza o relato objetivo. 115 No original: “I believe that there is a place in the spectrum of television for really good conversation, if it is informed, spirited, soulful”. 257 A noção habermasiana de esfera pública atribui ao jornalismo a função de alcançar a audiência a partir de seu papel cívico, ignorando interesses outros que envolvem o indivíduo enquanto pessoa comum: [...] a audiência midiática não é apenas formada por cidadãos, mas também por indivíduos privados com amplo espectro de pensamentos e, não menos importante, sentimentos. O jornalismo tablóide, por outro lado, é freqüentemente direcionado mais ao sentimento e sensibilidade do que à razão e racionalidade, e é, a esse respeito, próximo ao modelo ideal de narrativa jornalística. Para motivar os cidadãos a assumirem seu lugar no discurso político, é necessário para as notícias midiáticas tentar alcançar e apelar a ambos: a mente humana racional e às emoções. Atrair o interesse da audiência é um dos principais objetivos da seleção e apresentação das notícias116 (ÖRNEBRING; JÖNSSON, 2004, pp. 8-9, tradução nossa). É nessa vinculação com o sensível e emocional que a abordagem da vida privada dos indivíduos se mostra pertinente para pensar papeis outros do jornalismo que corroboram com sua dimensão democrática. Considerar a audiência a partir de seus sentimentos envolve menos uma abordagem jornalística direcionada a uma temática voltada para o emocional, do que às formas narrativas que valorizam os aspectos vividos como forma de legitimar a informação. Sendo assim, o “relato objetivo dos fatos” – modelo identificado com o discurso dominante do jornalismo – pode dialogar com testemunhos pessoais partilhados pelas pessoas que vivem determinada situação. A conversação pode ser um veículo para isso uma vez que, nos programas, é notável o esforço dos mediadores em utilizar perguntas biográficas ou intimistas para solicitar dos convidados uma explicação de suas idéias ou de suas escolhas de vida a partir de experiências pessoais. Buscando caracterizar a experiência estética a partir do prazer gerado pela socialização dos indivíduos, George Mead (1926) chama atenção para o fato de que as experiências, quando vividas em conjunto, são apreendidas a partir de uma dimensão de deleite, que envolve o simples fato de colocar as pessoas em contato em direção a uma finalidade comum. Para Mead (idem), a experiência estética parte da necessidade de interpretar as complexidades da 116 No original: “The media audience are not only citizens, but also private individuals with a great spectra of thoughts and, not least important, feelings. Tabloid journalism on the other hand is often directed more towards sensibility and feelings than sense and rationality and is in this respect closer to a narrative model of journalism. To motivate the citizens to take part in the political discourse, it may be necessary for the news media to try to reach and appeal to both the human rational minds and emotions. To attract the interest of the audience is one of the main goals of news selection and presentation”. 258 vida social em termos dos objetivos e dos esforços dos indivíduos em alcançá-los. Por conta disso, o autor se opõe às perspectivas que afirmam que a divisão de trabalho na sociedade industrial impediu as formas de socialização e contato entre os indivíduos. Ao contrário, é justamente no emprego do esforço conjunto para alcançar uma finalidade que os trabalhadores de uma indústria encontram prazer na experiência. Com base nisso, Mead (idem) reconhece no cinema e no jornalismo formas novas de obter prazer pela recepção coletiva do produto. Para o autor, a simples leitura dos jornais e o contato com assuntos comuns provocam uma recepção prazerosa, uma vez que ultrapassa o nível do pessoal e une os indivíduos em torno de questões vividas socialmente. Sendo assim, o caráter generalizante dos assuntos pautados pelo jornalismo permite uma experiência comunitária e a identificação do grupo social ao qual o indivíduo faz parte. Se essa forma de resultado prazeroso possui uma função estética ou não depende de se a história da notícia, após ser lançada em seu formato aceitável, serve para o leitor interpretar sua experiência como uma experiência partilhada pela comunidade à qual pertence. Essas formas, no final das contas, são as formas determinantes que interpretam sua experiência social117 (MEAD, 1926, p. 390, tradução nossa). O relato de uma experiência pessoal, quando levada a público pela televisão permite que o acontecimento individual ganhe relevo para a sociedade e, assim, formem-se grupos de interesses a partir dos assuntos levantados. Objetiva-se neste momento tratar de quatro finalidades dos testemunhos na conversação encenada em programas jornalísticos televisivos e uma conseqüência. O relato das experiências no telejornalismo pode servir para criar interesses comuns entre os participantes em cena e os telespectadores, fortalecer argumentos, provocar uma discussão de aspectos relevantes para a sociedade e dar sentido às experiências vividas de modo que ajude outras pessoas que passam por situação semelhante. A conseqüência do relato de experiências é a formação de vínculos afetivos que permitem pensar em formas de sociabilidade. 117 No original: “Wheather this form of the enjoyed result has an aesthetic function or not depends upon whether the story of the news, after being thrown into this acceptable form, serves to interpret to the reader his experience as the shared experience of the community to which he belongs These forms are after all the determining forms which interpret his social experience”. 259 A) Criação de interesses comuns Ângela Marques (2009, p. 8) a firma que a “a conversação é uma dinâmica comunicativa que se desenvolve com maior freqüência entre indivíduos que partilham as mesmas idéias, hábitos e experiências”, ou seja, indivíduos semelhantes desenvolvem laços afetivos, por meio da conversação, embasados em interesses comuns compartilhados. Ao se porem em contato pela primeira vez uns com os outros, os indivíduos podem iniciar a interação por meio da busca por informações – a fim de suprir uma necessidade específica – ou pela identificação de algo que seja partilhado por ambos, o que poderá provocar uma repetição de interações e a formação de uma amizade. Nos programas jornalísticos televisivos, embora o privilégio seja a busca pela informação, não se pode obliterar a tentativa dos apresentadores em identificar em seu entrevistado aspectos comuns que os integrem durante a conversa. Esse aspecto comum pode ser um gosto (Renato Machado em relação à música erudita), a profissão (Marília Gabriela em relação ao jornalismo nas entrevistas com Caco Barcellos e Fátima Bernardes), um relacionamento, experiências semelhantes, idéias coincidentes sobre um assunto ou qualquer outro elemento que ponha os participantes em uma situação de partilha: Marília Gabriela: Ingrid Guimarães: Marília Gabriela: Ingrid Guimarães: Marília Gabriela: Ingrid Guimarães: Marília Gabriela: Ingrid Guimarães: Marília Gabriela: Ingrid Guimarães: Quando você disse que tem a insegurança, você disse assim: “ah, tem o meu ego”, que você vai resolver lá com a minha homônima, a Marli [terapeuta da atriz, que, num ato falho, trocou o nome da apresentadora pelo da sua psicóloga]... Marli, eu já resolvo muita coisa com a minha Marli. Por que? Qual é o problema do ego? Primeiro, assim, como a minha vida foi muito ralada para conseguir tudo, eu sempre acho que alguma coisa vai desaparecer. A Marli fala: “Ingrid, mas a sua carreira é mais que consolidada”. Eu falo: “não...”. E depois, se ver é muito complicado, né? Se ver eu acho... Eu odeio me ver. Que bom. Bem-vinda ao clube [apertando as mãos]. Eu sei, eu sei porque eu tenho várias coleguinhas que concordam comigo. É um problema. Porque eu nunca acho bom. Eu nunca acho bom. Eu tenho que perguntar para o outro: “- é bom? – é ótimo – ah, então tá”. (Edição de 25 nov. 2007) Como conseqüência, espera-se que o telespectador também encontre nos assuntos em comum algo que o faça sentir-se parte da conversa. O apresentador busca enquadrar a conversa a 260 partir de elementos gerais que podem alcançar a todos. No Marília Gabriela Entrevista, o foco em “questões da alma” visa incorporar o telespectador na intimidade que se busca durante a conversa. Por conta disso, Marília Gabriela procura tratar de sonhos, frustrações, defeitos, qualidades, medos, ou seja, emoções que podem ecoar nas experiências cotidianas da audiência. A esfera íntima, aqui, tem como finalidade criar essa proximidade entre os participantes no estúdio e os telespectadores e, para isso, a apresentadora empenha-se em criar um ambiente propício à troca de aspectos da vida privada. A cumplicidade entre os participantes se estabelece por meio pela habilidade do apresentador em mostrar-se compreensivo com as questões compartilhadas pelo entrevistado e em destacar apenas os aspectos que têm um objetivo definido. Sendo assim, quando Leda Nagle pergunta a Moraes Moreira sobre o rompimento do cantor com o grupo Novos Baianos, a apresentadora não busca polemizar um assunto do passado, mas destacar esse elemento como uma aspecto relevante para a carreira do músico (Sem Censura, 29 abr. 2009). Por conta desse ambiente, o cantor sente-se à vontade para revelar a verdade sobre o assunto: “dizer que foi tudo tranqüilo é mentira”. Assim, a cumplicidade, ao contrário da dureza, pode ser usada pelo jornalismo como forma de buscar a verdade, que é compartilhada livremente pelo interlocutor. B) Fundamentação de um argumento Discutiu-se no capítulo anterior que uma das formas de construir uma conversação democrática nos programas é a visibilidade a argumentos pertinentes e bem construídos. O argumento, normalmente, aparece fundamentado em dados concretos, provas, relatórios. No entanto, o relato de experiências pessoais pode provocar a formulação de um argumento que se baseia não em dados externos ao indivíduo, mas àquilo que está impregnado em sua vida cotidiana. Pelo testemunho, os indivíduos constroem seus pontos de vista de modo mais inteligível e permitem que o outro seja incluído na situação narrada. A experiência de vida busca efetuar uma reflexão sobre uma condição mais ampla e cumpre o que George Mead (1926) apontou sobre o papel do jornalismo de fazer questões individuais ganharem relevância social. É nesse sentido que se pode compreender a pergunta que Marília Gabriela fez a Fátima Bernardes: 261 Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Fátima, você teve uma experiência traumática, eu imagino. Vocês foram assaltados. O assaltante... Era um assaltante? Um assaltante. Que entrou no seu quarto armado. Você estava dormindo, as crianças ao lado. Não foi isso? [...] É uma situação que eu sequer consigo imaginar. Já fui assaltada na rua, mas quando você é invadido na sua casa, imagino que seja uma experiência insuperável ou você superou e de que forma? Olha, ela é... a superação é muito lenta. Eu acho assim que ela foi um marco, ela é definitiva na forma... Porque ali na sua casa é a área em que você acha que está protegido, né? [...] Eu acreditava que estava. Tanto que a minha casa não tinha grades, não tinha alarme, não tinha nenhum tipo de segurança. A casa estava lá. E eu era tão tranquila que a gente dormia com as janelas embaixo abertas. Não as janelas da sala, que são janelas maiores, mas as janelas da cozinha que são janelas de mais de um metro, e da área de serviço. E foi por ali que ele entrou. Então, você está dormindo e... Eu escutei o barulho da porta. A gente deixa ela encostada por causa das crianças e aquele “tac” abrindo a porta. E eu já olhei... estava de bruços e eu já olhei na altura que chegam os meus filhos, geralmente o Vinícius ou Beatriz. E aí... lembro que tive que olhar para cima porque a gente deixa a luz da sala íntima acesa para as crianças terem o caminho facilitado, e aí eu vi uma sombra alta. Ele acendeu a luz, eu já vi a arma. É assim, você imagina que não é possível, que em algum momento você vai acordar. [...] Ele não nos reconheceu inicialmente. Ah, ele não sabia em casa de quem estava entrando? Não, não. Depois nós... a ficha dele foi toda levantada. Ele é um rapaz que tinha dezenove anos. Como outros menores de idade, com passagem pela Febem, e que começou a assaltar. Já era o terceiro assalto e sempre sozinho, descalço e armado. E você não entende como é que aquela situação está acontecendo. Ele queria dinheiro, ele queria jóias que a gente tinha. A gente foi rapidamente tentando dar. E num determinado momento... A gente percebia que era tão inexperiente. Eu quase não olhei para ele porque ele pediu que eu ficasse de bruços. Mas o William esteve mais com ele. Ele botou a arma na cintura para abaixar porque queria procurar uma bolsa para botar as jóias. Em vez de pegar qualquer coisa, ele foi escolher. Nessa hora o William achou que poderia tirar a arma dele [...]. Quando o William reagiu, eu escutei um barulho que era uma luta dentro do closet, eu achei que era uma criança entrando. Nossa! Então aí foi uma gritaria... A minha babá acordou, ainda foi na janela do quarto do Vinícius, que ela estava dormindo ali. Pensou que fosse algum barulho e voltou a dormir, graças a Deus. Porque se alguém vem até o quarto, aí era uma tragédia. [...] Eu vou te fazer uma pergunta quase delicada. Você é uma jornalista, uma jornalista de renome no, talvez ou seguramente, jornal de maior importância do país, da televisão brasileira, que é o Jornal Nacional. E você se ressente, evidentemente, de todas as formas, dessa violência. A sua objetividade como jornalista se perde nesse momento ou você consegue fazer uma análise crítica do que aconteceu e do que acontece todos os dias, particularmente, ou onde é mais noticiado, no Rio de Janeiro? Não, eu consigo fazer uma análise, acho, muito mais crítica. Eu consigo fazer uma análise de que, por exemplo, é impossível uma pessoa passar por um reformatório e sair do jeito que esse menino saiu. Eu acho que é impossível uma 262 Marília Gabriela: Fátima Bernardes: Marília Gabriela: Fátima Bernardes: pessoa que já teve passagem pela polícia, como era o caso dele, estar solto na rua. Eu acho que é impossível o acesso que as pessoas têm a arma com uma facilidade. Eu fiquei muito mais crítica e percebendo que a coisa está muito perto. Mas não no sentido de querer algo em termos de uma vingança pessoal... Não, mas uma ação política e como ação política o que você acha que deveria acontecer? Bom, embora não seja uma medida de curto prazo, pode parecer bobagem, tem que ser educação. Sem isso a gente não vai chegar a lugar nenhum. Em outro momento, eu acho que a gente tem que ter as prisões realmente cumprindo pena. As pessoas hoje, elas já não são tementes a Deus, elas não são tementes à lei. Porque hoje em dia é quase como se você tivesse o direito de matar uma pessoa, é só escolher bem quem. Porque a primeira pessoa que você matar vai te dar o que? Quatro anos de cadeia? Talvez. E a penalização de menor de idade? Eu acho que dezesseis anos, se você pode furtar, você pode responder pelos seus atos. Eu acho que a partir daí... se você pode escolherem quem você vai votar, você pode responder pelo que você faz. (Edição de 13 jan. 2008) O testemunho, nesse caso, entra na conversa com o peso de um argumento que fundamenta a idéia da entrevistada sobre o sistema penal e a segurança pública. Foi a partir de uma experiência pessoal que Fátima Bernardes pôde rever suas idéias e formular uma opinião mais consolidada sobre o assunto. Além disso, Marília Gabriela busca da entrevistada uma postura crítica com relação a sua atividade profissional e as implicações dessa experiência sobre seu papel como jornalista. A abordagem do tema no programa pretende levar o telespectador à reflexão a partir de uma experiência real que, no momento da emissão, torna-se próxima a ele também. C) Revelar um problema social Se por um lado o testemunho pode contribuir para fortalecer argumentos, por outro, ele pode ser usado para iniciar um debate sobre um problema social. Nesse caso, a conversação faz o sentido contrário da anterior: parte de um problema coletivo para o que é vivido individualmente. O debate do Roda Viva sobre deficientes físicos representa essa dimensão: Paulo Markum: [...] Eu queria, antes de mais nada, colocar uma questão preliminar, que é a seguinte: o que o país precisa fazer para que a nossa bandeira aqui, digamos, estilizada [referindo-se à imagem colocada no centro do cenário com o símbolo dos cadeirantes], se torne uma realidade, ou seja, para que os deficientes estejam definitivamente incluídos? E eu queria pedir isso, reclamando, digamos, solicitando, a experiência de cada um de vocês, porque se a gente for discutir a 263 Célia Leão: questão pura e simplesmente no plano geral, existem inúmeras questões a serem resolvidas. E eu acho que até o grande público, alguma parte delas identifica: educação, emprego, acessibilidade, condições da sociedade. Mas eu queria que cada um puxasse pela sua vivência e dissesse assim: “Pela experiência que eu tenho, o mais importante, ou mais urgente, ou mais essencial, é isso”. Começando pela Célia Leão. [...] Está aqui bem o símbolo da pessoa deficiente no Brasil, que é uma causa de todos nós. Eu diria uma frase em que a gente vai vivendo 31 anos numa cadeira de rodas e vai aprendendo: “Ter uma deficiência, com certeza absoluta não é a melhor coisa do mundo”. Lógico que tem outras situações mais fáceis e mais agradáveis, mas também posso dizer, afirmar que não é a pior coisa do mundo. (Edição de 19 jun. 2006) O objetivo dessa forma de interpelar a participação dos convidados é inserir numa reflexão sobre o tema – e todos os convidados mostraram-se bem informados sobre os principais assuntos referentes à deficiência física – aquilo que é vivido, a fim de levar o telespectador a uma compreensão do problema a partir de quem o vive. Com isso, permite-se que a audiência reexamine suas posições através do acesso aos aspectos da vida privada. D) Dar sentido às experiências vividas e ajudar as pessoas que passam pelo mesmo problema Muitas vezes, os programas jornalísticos televisivos empregam os testemunhos para levar ao público uma reflexão pessoal sobre um problema vivido. O relato da experiência é extremamente focado no subjetivo, mas busca levar a pessoa que vivenciou, ou vivencia o problema a uma formulação mais madura a respeito do assunto. Sobre a questão da maternidade, o programa Sem Censura levou ao ar o depoimento da cantora Preta Gil: Leda Nagle: E a maternidade de Preta? Preta teve filho cedíssimo, né? Vinte anos? Preta Gil: [...] Eu tive filho muito cedo, não tão cedo, mas com dezenove anos eu engravidei do Francisco. Eu acho o Francisco... ele foi assim, naquele momento da minha vida, ele foi a salvação da minha vida. Essa época da adolescência é uma época crucial na vida de qualquer adolescente, enfim, mulher, homem, de você ter que optar, saber o que você vai ser quando crescer e você já estando grande, enfim. A coisa de ingressar na vida profissional... entrar na faculdade. Eu não queria essas coisas para mim. Eu estava... eu estava muito em dúvida do que eu queria ser. Eu não sabia se eu queria cantar, se eu queria representar, se eu queria ser atriz, se eu queria ser modelo, se eu queria ser cozinheira e isso me angustiava muito. Aí eu 264 comecei a namorar o Otávio, pai do Francisco, e eu fiquei grávida. Eu digo que foi um “sem querer querendo”. Eu deixei que acontecesse. Foi uma surpresa para todo mundo porque eu não dividi com todo mundo a minha angústia. E aí, quando eu descobri que estava grávida do Francisco, eu falei: “agora eu tenho um motivo para viver. Agora eu não preciso ficar nessa dúvida do que eu vou ser, se eu vou ingressar na carreira como o meu pai, de cantora e seguir meus dons, se eu vou continuar representando. Não. Vamos parar com isso tudo, porque agora eu tenho uma outra história aqui, que é o meu filho”. Então, não que seja uma fuga. Eu acho que ele foi exatamente isso: eu encontrei a razão da minha vida e decidi construir e me descobrir profissionalmente, afetivamente, em todos os sentidos, com ele do meu lado. (Edição de 08 mai. 2009) O testemunho de uma experiência visa fortalecer os vínculos de intimidade que o programa pretende construir, ao mesmo tempo em que propõe para o telespectador um tipo de recepção que não está calcado na informatividade, mas no prazer de ouvir o outro falando sobre si mesmo. Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) demonstram que um dos prazeres encontrados pelos receptores nesse tipo de programa é ouvir pessoas comuns falando sobre si mesmas e, consequentemente, poderem reorientar suas práticas cotidianas a partir desses depoimentos: “alguns pensam que podem aprender algo sobre o mundo social através desses programas118” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, p. 83, tradução nossa). Sendo assim, há uma interpelação do lugar que os programas oferecem ao telespectador quando suscitam a troca de experiências pessoais para fundamentar as idéias partilhadas. Na entrevista com Fátima Bernardes (13 jan. 2008), o principal assunto do primeiro bloco foi o processo de fobia que a apresentadora do Jornal Nacional entrou após o nascimento de seus três filhos119. Fátima Bernardes relatou com detalhes a história do medo de avião, as conseqüências físicas, o tratamento que buscou para se livrar do problema e os resultados obtidos. A entrevistada não apenas confessa seus medos e os descreve à audiência, como também indica sua cura, o que acaba se tornando um momento de auto-ajuda e de incentivo a que pessoas que passam por problemas tenham força de vontade para livrar-se deles. A superação do medo de avião de Fátima Bernardes foi resumido por ela como “eu sou capaz de não ter esse descontrole que eu tive físico, desde que eu me cuide antes”. 118 119 No original: “[...] some feel they can learn about their social world through these programmes”. Ver “Marília Gabriela Entrevista: interseção entre jornalismo e entretenimento”, na Parte II. 265 Ser testemunha, portanto, não é apenas presenciar um acontecimento, mas vivê-lo e transmitilo a partir das sensações que desperta. Se os relatos jornalísticos baseiam-se, historicamente, numa descrição dos fatos a partir do apagamento das opiniões e emoções do repórter, com os testemunhos pessoais fornecidos nos programas o telespectador é convocado a ocupar um lugar não tanto de quem pretende conhecer algo novo, mas de quem partilha de um mesmo mundo. O relato de experiências pessoais captura o telespectador pela sensibilidade e pela emoção, que não necessariamente se manifesta pelo exagero de imagens chocantes ou de descrições do mundo cão, mas pelo que é vivido pela pessoa comum e o modo como ela consegue, pelo discurso, dar sentido às experiências e transmiti-las a outros. São esses significados que, segundo Mead (1926), permitem a percepção do mundo “real” e a socialização dos indivíduos a partir de um imaginário que gera um sentimento de apreciação e prazer pelo simples fato de ser compartilhado com outros. É nesse sentido que a conversação pode oferecer um alargamento ao modelo dominante de jornalismo, ao redimensionar a centralidade de seu papel político. O acesso à sensibilidade do telespectador não precisa ser compreendido como uma ameaça à qualidade do jornalismo, mas como uma tentativa de permitir que os indivíduos se interliguem pela afetividade que o relato jornalístico também proporciona. A conversação catalisa essas possibilidades de socialização através do acesso à vida íntima dos entrevistados e dos entrevistadores que não visa a exploração gratuita do privado, mas insere-o num contexto relevante para a formação de argumentos, a denúncia a problemas sociais, a reflexão e partilha da solução de problemas, e à criação de vínculos afetivos que permitem que os representantes da cena televisiva e os receptores partilhem dos problemas uns dos outros e atribuam novos significados ao seu mundo. Quando o relato de experiências é usado para esses fins, os próprios entrevistados compactuam com os programas num ambiente de cumplicidade e cordialidade. A conversação posta em cena nos programas pode fornecer informações relevantes através da construção de uma relação prazerosa com a audiência, que se vê convidada a partilhar a mente de outros indivíduos e ressignificar o social. 266 CONSIDERAÇÕES FINAIS A conversação no telejornalismo não é um fenômeno novo. Embora não fosse o objetivo principal desta tese, foi possível resgatar parte da história dos programas de entrevistas e debates no Brasil a partir de sua vinculação com a conversação. Por conseguinte, o contexto – político, econômico, cultural, tecnológico, social - que permitiu a consolidação de um modelo dominante de conversação, que coincide com o período posterior à ditadura militar - também foi brevemente descrito a partir das análises de modo de endereçamento dos programas. A articulação da análise dos programas com as críticas que circulam sobre eles, tanto as de hoje quanto as do passado, permite levar para a observação do programa as expectativas e as promessas que se formam em torno dele. Ao mesmo tempo, essa articulação revela uma lacuna na pesquisa em comunicação no que diz respeito a uma história cultural da televisão e do telejornalismo120. No entanto, chama atenção seu uso cada vez mais freqüente nos programas revelando, especialmente, as tensões sofridas pelo campo jornalístico e as novas estratégias para atrair a audiência. A revista Veja apresentou um quadro bastante ilustrativo sobre a televisão e os programas baseados na conversação: nos anos 70, viveu-se a explosão dos enlatados. Na década de oitenta, foi a vez das grandes telenovelas, dos programas infantis, do investimento no telejornalismo e das cenas de nudez e violência em cascata. Agora vive-se no reinado do blá-blá-blá. Nunca se falou tanto sobre tudo em todos os canais da televisão (COM A LÍNGUA SOLTA, 22 jul. 1992, p. 92). Apesar da postura nefasta de Veja com relação aos talk shows, hoje é possível pensar nas interseções desses modelos, que oferecem uma certa pluralidade na programação televisiva. Tal perspectiva foi possível a partir da noção de estrutura de sentimento, que concedeu um olhar voltado não apenas para o interior dos programas, mas para os diálogos efetuados entre estes e o cenário jornalístico e televisivo que o cerca. O cruzamento entre os modos de endereçamento dos programas analisados, as premissas do jornalismo e as características da conversação resultou em três formas por meio das quais a conversação aparece mais evidentemente como estratégia de construção no telejornalismo, que foram sistematizadas no quadro abaixo: 120 Os trabalhos de João Freire Filho e Ana Paula Goulart são algumas exceções. 267 Quadro 1: modalidades conversacionais no telejornalismo brasileiro contemporâneo Modalidades de Conversação Informativa Argumentativa Característica da conversação Mais direcionada de um falante a outro, poucas sobreposições, mas quando elas ocorrem é para tentar esclarecer melhor, tirar uma dúvida, fornecer um dado novo. Pergunta informativa, solução de problemas, avaliativa. Pouco controle dos turnos de fala pelo mediador. Os participantes criam dinâmicas próprias para passar a palavra uns para os outros. Muitas sobreposições para a construção de autoridade. Pergunta investigativa, comprobatória ou confirmação de hipóteses. Turnos de fala bem marcados para deixar que o testemunho fique claro. Aspectos jornalísticos ressaltados Atualidade. Interesse público. Valor-notícia. Interesse público. Finalidade e expectativa da audiência Aprofundamento de informações específicas: a gripe suína, o novo álbum. Estar melhor equipado para promover mudanças do ponto de vista individual que, em seu conjunto, podem efetuar mudanças sociais. Aprofundamento de opiniões sobre problemáticas gerais. Construção de uma esfera pública. Vigilância e poder moderador. Contar Histórias. Partilha de um mundo comum a partir da troca de experiências. Socialização. Testemunhal A dimensão de continuidade ocorre pela repetição e reforço da última fala para a tomada da palavra. Socialização. Informações curiosas sobre celebridades. Pergunta biográfica ou intimista. Longe de possuir uma pretensão de fixar padrões rígidos, o quadro acima é uma sistematização dos aspectos mais evidentes encontrados nos programas e uma interpretação deles, tendo em vista a apropriação da conversação pelo telejornalismo. O mais comum é que ocorra a justaposição desses modelos durante a emissão de um programa, ou seja, que dois modelos apareçam como preferenciais, possibilitando formatos como informativotestemunhal, quando o programa mescla informações sobre uma área específica e 268 testemunhos que exemplifiquem essas informações - é o caso da edição do Marília Gabriela Entrevista com Cynthia Howlett e Joel Rennó - ou argumentativo-informativo, como a maior parte das entrevistas do Roda Viva. O que aqui se pretende demonstrar é de que formas os subgêneros televisivos analisados se ancoram nessas práticas conversacionais. Assim, identificando a conversa é possível perceber as marcas do subgênero e aquilo que os permite avançar. A conversação informativa ratifica os parâmetros já conhecidos pela audiência e pelos produtores da entrevista enquanto prática jornalística para obtenção dos conteúdos. Duas são as formas como essa conversação pode ser empregada. A primeira faz referência ao padrão do subgênero de programas de entrevistas e concerne às conversas com especialistas ou representantes de órgãos oficias a fim de prestar à população esclarecimentos que lhes ajude orientar sua vida cotidiana e cumprir seu papel na democracia. A conversação informativa se ancora no papel do jornalismo de nutrir a sociedade com informações e, pelo tempo estendido para a abordagem dos assuntos, ela é muitas vezes definida pelos próprios jornalistas como um “aprofundamento”, em oposição à superficialidade dos telejornais diários. Jornal das Dez e Bom Dia Brasil apropriam-se da conversação numa extensão do subgênero que os concerne, a fim de superar os limites historicamente estabelecidos pelos telejornais enquanto formato. Entretanto, os papeis discursivos dos mediadores nos programas, embora se pareçam retoricamente, são bastante distintos. Enquanto o Jornal das Dez busca levar ao telespectador informações e comentários adicionais, o Bom Dia Brasil assume uma postura mais doutrinária e leva ao telespectador uma avaliação moral sobre os assuntos. Em todos os programas se pode perceber essa forma de conversação em função da relação com o modelo dominante de jornalismo. Sendo assim, a conversação no telejornalismo mantém o padrão dominante, que está além das distinções de subgêneros. Os modos de endereçamento, porém, denunciam finalidades distintas para o uso dessa informação. O Sem Cesura, por exemplo, utiliza a conversação informativa para convocar o telespectador a assumir seu papel como cidadão. O Roda Viva, por sua vez, visa favorecer uma reflexão sobre os fenômenos abordados na conversa. Além da entrevista, a conversa informativa caracteriza os debates classificados por Örnebring (2003) como corteses, nos quais se busca um consenso e a instrução da população com relação a determinado assunto. Por conta disso é que perguntas informativas se mesclam com 269 as de solução de problemas ou avaliativas, a fim de se chegar num ponto comum que é defendido pelo programa, como ocorre no Observatório da Imprensa. Outra prática recorrente à conversa informativa está ligada a este momento de celebrização da televisão que usa como fontes seus próprios agentes. Assim, participam dos programas convidados ilustres para divulgar um novo trabalho e as conversas giram em torno dele. Freqüentemente, porém, essa modalidade de conversação se relaciona com as testemunhais, como será mostrado mais à frente. A informação biográfica sobre celebridades tem-se estendido para diversos programas. No corpus analisado, ela aparece mais marcadamente no Marília Gabriela Entrevista, mas também no Sem Censura e, em momentos pontuais, no Roda Viva, nas entrevistas com Wagner Moura e Fernando Meirelles. Remetendo a um modelo de jornalismo que se baseia na opinião e na troca de idéias, a modalidade argumentativa põe em contato agentes de diferentes esferas sociais. A argumentação se articula mais visivelmente com o subgênero dos programas de debate em sua forma crítica (ÖRNEBRING, 2003), uma vez que promove a argumentação e contraargumentação sobre questões diversas da vida social. A conversação argumentativa faz referência a uma forma residual de jornalismo: o opinativo. Este modelo de jornalismo entra em vigor historicamente a partir de uma vinculação estrita com a política e, em especial, com valores democráticos. Fazendo referência ao jornalismo liberal do século XVIII nas sociedades européias, o jornalismo opinativo, segundo Josenildo Guerra (2003), busca “oferecer à sua audiência uma chave de leitura do mundo real, a partir da exposição de suas teses sobre os problemas abordados” (idem, p. 37). Apesar de ter dado espaço ao paradigma informativo, o jornalismo opinativo nunca deixou de existir, presente em colunas, artigos, editoriais, no caso do jornalismo impresso. Na televisão, esse modelo de jornalismo encontra na conversação um instrumento para sua prática, uma vez que, por meio dela, é possível dar visibilidade ao debate público e, supostamente, estimular a formação de uma esfera pública fora do ambiente midiático. O jornalismo opinativo é, portanto, um resíduo de antigas práticas jornalísticas, mas que permanecem em uso, em especial pela vinculação com o campo político. Tanto Josenildo Guerra (2003), numa análise do jornalismo mais voltada para a formação européia e norte-americana, quanto Marialva Barbosa (2007), numa história cultural da 270 imprensa brasileira, afirmam que momentos de instabilidade são mais suscetíveis à adoção desse modelo de jornalismo, o que justifica que, historicamente, esse modelo tenha surgido na Europa na passagem do absolutismo para a democracia e, no Brasil, da monarquia para a República. A própria história do surgimento de programas de debate e entrevistas no Brasil aponta para um momento de transição política: da ditadura para a democracia. No entanto, essa instabilidade não necessariamente está presente, apenas, na transição de um governo para outro, mas em crimes contra o Estado, escândalos envolvendo parlamentares, abusos de poder, etc. A apropriação da conversação pelo telejornalismo brasileiro representa, em certa medida, uma liberdade para fornecer opiniões quando o contexto político exige e, como os problemas do governo são freqüentes no sistema político nacional, há sempre espaço no fluxo televisivo para programas que promovam debates sobre essas questões. Os programas jornalísticos fazem um jogo entre informatividade e opinião, que é consentido pela audiência, uma vez que visa promover o fortalecimento da democracia. Segundo Afonso de Albuquerque (1999), é essa instabilidade política que leva o jornalismo brasileiro ao papel de poder moderador, função que, nos programas de debate e de entrevistas, é cumprido pelo inquérito aos representantes das esferas sociais. Como esse modelo de jornalismo não é exclusivo do Brasil e de países com baixa estabilidade política, e como esses programas não deixam de existir quando não há nenhuma questão política em discussão no momento, é preciso considerar que outros desequilíbrios – sociais, culturais, ambientais, etc – também são alvo do jornalismo opinativo. É nesse sentido que a conversação nos programas jornalísticos assume um caráter de denúncia e adota um papel de cobrar das autoridades explicações calcadas em bons argumentos. No Roda Viva, a argumentação é o veículo privilegiado por meio do qual os participantes interagem. Busca-se, no programa, construir um clima de tensão por meio da postura adversarial dos jornalistas em relação ao entrevistado. Nesse programa, a conversa argumentativa é o que confere o pacto sobre o papel do jornalismo por meio do caráter investigativo que as perguntas elaboradas pelos entrevistadores possuem. A conversação argumentativa dispersa-se em outros programas analisados neste corpus de maneira mais pontual. No Marília Gabriela Entrevista, por exemplo, a argumentação pode existir quando o convidado busca discutir um assunto de interesse geral. Sendo assim, as entrevistas com Caco Barcellos, com Jair de Jesus Mari, com Oscar Motomura, em certos momentos, atingiram o 271 modelo argumentativo, a fim de obter uma avaliação dessas pessoas sobre o assunto debatido: segurança pública e liderança. Os três modos de comunicação formulados por Mats Ekström (2003) não incluem essa perspectiva do telejornalismo. Portanto, propõe-se uma ampliação desse modelo a partir dos mesmos referenciais empregados pelo autor para formulação das formas comunicativas de informação, storytelling e atrações: a intenção dos produtores, as bases para envolvimento da audiência e os papéis oferecidos aos atores do processo comunicativo. Do ponto de vista da intencionalidade das esferas produtivas, os programas evidenciam um amplo trabalho da equipe de produção não apenas para a seleção das temáticas abordadas e dos convidados, mas do preparo dos participantes para se envolverem na troca. O Roda Viva, por exemplo, disponibiliza aos entrevistadores um resumo sobre o convidado para fomentar o debate e impedir que haja um esvaziamento da conversa, ou que ela seja marcada por silêncios. Leda Nagle, no Sem Censura, também se apresenta munida de informações iniciais para iniciar os diálogos. O objetivo dos programas é oferecer à audiência uma troca de argumentos que demonstre a defesa de um projeto de sociedade (GUERRA, 2003, p. 37). A audiência é envolvida a partir da necessidade de formar uma opinião própria sobre as problemáticas tratadas durante a conversa. Assim, espera-se que ela já possua informações básicas sobre o tema posto em debate e engaje-se na troca de argumentos a fim de obter perspectivas diferentes das suas e que as leve a formular sua visão de mundo. O contato com a argumentação televisionada dos agentes dos programas leva ao reforço dos argumentos dos telespectadores sobre o assunto, seja para encontrar respaldo para o que já pensam, seja para reconfigurar e encontrar novos argumentos, o que fortalece a deliberação na democracia. Os atores no processo comunicativo argumentativo possuem a função de fornecer argumentos que corroborem com seu ponto de vista ou negue os outros, dando um sentido de disputa pela visão de mundo vencedora. Há um mediador que funciona como debatedor, estimulando a troca e propondo as questões que devem ser abordadas durante a conversa. A terceira modalidade conversacional é testemunhal, marcada pela troca de experiências e de idéias que as expliquem e dêem significado. Perguntas biográficas e intimistas são mais freqüentes para suscitar essa modalidade conversacional, que tem como objetivo oferecer um 272 sentido de partilha e sociabilidade entre os participantes da conversa em cena e os telespectadores. A conversação testemunhal dá relevo ao papel do depoimento e seu significado para o jornalismo contemporâneo. Segundo François Jost (2003), o testemunho é a forma preferencial dos jornalistas na atualidade, uma vez que substitui as informações fornecidas por especialistas pela autenticidade de experiências vividas de qualquer pessoa. O testemunho envolve duas perspectivas: algo que se viu e algo que se viveu. No primeiro caso, o jornalismo valida-se pelo relato de alguém que presenciou um acontecimento e, por isso, possui autoridade para contá-lo aos outros. No segundo, o que está em jogo é a experiência, o sentimento que pode ser relatado por alguém que viveu uma situação e, por isso, pode ser exemplo de questões mais amplas e servir de exemplo para outros. Essa é a forma mais comum pela qual os testemunhos são tratados nos programas analisados. Opondo a conversa informativa à testemunhal, Daniel Dayan (2006) relaciona os testemunhos ao pouco aprofundamento da televisão contemporânea: [...] um especialista pode contradizer outro. Mas ao contrário, um especialista não pode contradizer o testemunho de alguém já que se refere a sua própria experiência. Ele não pode dizer a esse testemunho: „essa não é a sua experiência, essa não é a sua vivência, você não sabe exatamente do que está falando, eu conheço sua experiência melhor que você‟ (DAYAN, 2006, p. 180). Para o autor, os testemunhos entram na televisão com o peso de um argumento contra o qual ninguém pode refutar. Segundo Dayan (idem), certos programas televisivos promovem uma publicização da vida privada, sem que haja um debate mais amplo que insira os testemunhos pessoais concedidos. Deste modo, os programas levam seus convidados para o estúdio apenas para falar sobre algo que viveram, e não para usar a experiência pessoal como argumento sobre uma temática. Entretanto, a perspectiva de Dayan (idem) contrasta com o que se pode ver nos programas, quando as experiências são relatadas a fim de sustentar uma visão de mundo. O testemunho participa da conversa como prova de uma realidade percebida pelo falante que pode servir de exemplo para outros. Quando um programa põe em cena conversações sobre maternidade, na qual as participantes relatam suas dificuldades, ele está contribuindo para que outras mães sejam informadas ou se sintam confortadas por experiências semelhantes às suas. Quando os 273 entrevistadores utilizam experiências pessoais para fundamentar suas perguntas, o relato transforma-se em ilustração para obter uma informação que se aplique ao caso. Tratando das conversas na vida cotidiana, Ângela Marques (2009) afirma que [...] o testemunho pode ser visto como um procedimento prático empregado pelos indivíduos para tornar seus pontos de vista mais inteligíveis e passíveis de serem aceitos como válidos. Ao assumir uma forma narrativa, o testemunho retira as experiências do locus de sua ocorrência particular e lhe confere um valor de ilustração, exemplo, prova ou argumento. [...] O emprego do testemunho em situações de conversação informal oferece a oportunidade de perceber a situação a partir da perspectiva do outro, o que pode contribuir para a mudança de modos de pensar e de compreender as histórias individuais e coletivas (MARQUES, 2009, pp. 11-12). Do ponto de vista narrativo, o testemunho ganha o formato daquilo que os autores comumente denominam storytelling, o ato de contar histórias. Ao tratar sobre o storytelling, Mats Ekström (2003) refere-se a uma estratégia narrativa construída em torno de aspectos dramáticos: seqüência narrativa, construção de personagens, elementos dramáticos que enquadram as interpretações a serem feitas, o desfecho da história e as possibilidades de explorar mitos da sociedade e valores morais. Capturando a audiência a partir de um vínculo emocional, o ato de contar histórias, para Ekström (idem), é o que melhor caracteriza o jornalismo contemporâneo. Segundo Makri-Tsilipaku (2004), a conversação pode ser voltada para o relato de “como as coisas são”, fornecendo informações, análises e a verificação da verdade – o que se enquadra aos modelos de conversação informativa e argumentativa –, ou pode voltar-se à reprodução de algo que aconteceu, relacionando-se à subjetividade e à afetividade (2004, p. 844), o que caracteriza os testemunhos. Para essa recriação da experiência, os participantes utilizam recursos dramáticos, como é o caso do assalto de Fátima Bernardes (Marília Gabriela Entrevista), a história de Moraes Moreira nos novos baianos (Sem Censura), etc. Por outro lado, o testemunho pode servir como fonte de aprendizado, como partilha de uma experiência que serve de exemplo para outras pessoas e, para isso, os falantes empregam relatos emocionais para engajar a audiência e despertar nela o interesse a partir da partilha de sentimentos. Sendo assim, a experiência de uma pessoa pode representar a de muitas, o que denota um caráter social das experiências vividas. 274 Erving Goffman (1986) já tratava a conversação cotidiana a partir de uma proximidade como atos teatrais, pois, ao contar o que se passou, ao relatar uma experiência, o falante precisa recuperar a cena de forma dramática. O drama, para Goffman (idem), está mais presente nas conversas cotidianas do que a informação: “estou sugerindo que freqüentemente, o que os falantes afirmam fazer não é fornecer informação ao receptor, mas apresentar dramas a uma audiência. De fato, parece que passamos a maior parte do tempo engajados não em dar informações, mas em dar shows121” (GOFFMAN, 1986, p. 508, tradução nossa). Por conta disso, é que se pode apontar o testemunho como elemento narrativo emergente no telejornalismo. Harvey Sacks (1992) chama atenção de que, ao contar uma história sobre algo que vivencia, um falante procura provocar no ouvinte os mesmos sentimentos que ele teve para que a experiência seja, também, do interlocutor. Assim, a partilha de problemas ou alegrias pode fazer referência a algo que foi vivenciado ou que poderia ter sido vivenciado pelo ouvinte, retirando a experiência do plano individual e levando-a para o coletivo. Para George Mead (1926), o jornalismo permite que os indivíduos, ao entrarem em contato com questões de interesse geral, ultrapassem a experiência pessoal de obter informações, para ter uma recepção prazerosa das informações veiculadas por representar uma recepção coletiva e compartilhada. Essas “questões de interesse geral”, concernentes à política partidária ou não, são aquelas percebidas na vida cotidiana e que integram os indivíduos enquanto grupo. Por conta disso, cresce, no telejornalismo, o tratamento de assuntos vinculados à vida ordinária, ao cotidiano: maternidade, problemas familiares, mercado imobiliário, etc. Segundo Roger Silverstone (2003), há duas abordagens dicotômicas sobre o cotidiano. A primeira, que se vincula aos primeiros escritos de Marx, compreende o cotidiano como espaço de dominação capitalista onde ocorre a reificação da cultura e a alienação. A segunda envolve uma teorização do popular e de questões como prazer e resistência que se dão no cotidiano. Fazendo referência à mesma dicotomia, Martin-Barbero (1997) afirma que “as práticas que constituem o viver cotidiano, juntamente com aquelas que dão cabo da subsistência e dão sentido à vida – [foram] consideradas mais como obstáculo à tomada de consciência do que 121 No original: “I am sugesting that often what talkers undertake to do is not to provide information to a recipient but to present dramas to an audience. Indeed, it seems that we spend most of our time not engaged in giving information but in giving shows”. 275 como ação política conseqüente” (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 289). Assim, ao propor um mapa noturno para explorar o campo da comunicação e cultura, Martin-Barbero recoloca o povo numa dimensão ativa e não dominada pelas esferas de produção. Assim, para o autor, o cotidiano e as práticas que dele fazem parte podem tornar-se o lugar de tomada de consciência, de produção de sentidos e de resistência: O espaço da reflexão sobre o consumo é o espaço das práticas cotidianas enquanto lugar de interiorização muda da desigualdade social, desde a relação com o próprio corpo até o uso do tempo, o habitat e a consciência do possível para cada vida, do alcançável e do inatingível. Mas também enquanto lugar de impugnação desses limites e expressão dos desejos, subversão de códigos e movimentos de pulsão e do gozo (MARTINBARBERO, 1997, p. 290). Por conta desse reposicionamento do cotidiano é que os programas que utilizam a conversação como estratégia inserem perguntas de solução de problemas, buscando convocar a audiência a partir de seu papel como transformadora de problemas sociais. Assim, os indivíduos são integrados, por meio do jornalismo, enquanto participantes do mesmo cotidiano, das mesmas práticas e agentes da mesma produção de sentidos. A conversação televisiva permite evocar o papel de construtor da sociabilidade que o jornalismo possui e que, pelo predomínio do discurso voltado ao intelecto e à racionalidade do modelo dominante, muitas vezes é obliterado. A conversação permite alcançar esse sentido de sociabilidade, uma vez que envolve, na mesma prática, os agentes midiáticos e a audiência, reforçando o sentido de partilha que a conversação pode oferecer. Não se pretende, aqui, defender o fim do modelo informativo ou opinativo de jornalismo, voltado para a política e para a racionalidade. O modelo dominante possui um lugar importante na sociedade contemporânea. O objetivo é, apenas, incluir a dimensão do sensível, da afetividade e do prazer à noção que se tem sobre o papel do jornalismo. 276 REFERÊNCIAS: A FÁBRICA de votos. A caminho das urnas, políticos tentam desvendar os segredos da maior vitrina eleitoral do país. Revista Veja. 13 jan. 1982, pp. 60-61. A GUERRA da notícia. Com a estreia de Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, a TV Manchete esquenta a corrida entre os telejornais. Revista Veja. 23 ago. 1989, pp. 90-94. A TV DO ABSURDO. Boa no empreguismo e péssima nos programas, a TVE do Rio debocha do contribuinte. Revista Veja. 20 fev. 1991, pp. 70-71. ALBUQUERQUE, Afonso de. Um outro quarto poder. Imprensa e compromisso político no Brasil. In Revista Fronteiras – estudos midiáticos, vol. 1, dezembro de 1999. ALBUQUERQUE, Afonso de. As três faces do quarto poder. Texto apresentado no XVIII Encontro Nacional da Compós, Belo Horizonte, 2008. ALBUQUERQUE, Afonso. A mídia como poder moderador: uma perspectiva comparada. Texto apresentado no XVII Encontro Nacional da Compós, São Paulo, 2009. ALBUQUERQUE, Afonso; LADEIRA, João Damasceno Martins; SILVA, Marco Antônio Roxo. Media criticism à brasileira: o Observatório da Imprensa. Texto apresentado para a seleção do GT “Estudos do Jornalismo” - X Encontro Anual da Compós, Brasília, 2001. ALGO DE NOVO NO AR. A Rede Manchete entra em cena armada de jornalismo e filmes de primeira linha, em busca de um espaço num apertado mercado. Revista Veja. 25 mai. 1983, pp. 114-120. ARQUEMBOURG, Jocelyne; LOCHARD, Guy; SOULAGES, Jean-Claude. La permanence d‟um ideal de service public. In: LOCHARD, Guy (org). Les débats publics dans les télévisions européennes. Paris, L‟Harmattan, 2006, 268p. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão Gomes; revisão Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1992. coleção ensino superior. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem, 9ª, São Paulo: Hucitec, 1999. BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil, 1900-2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2007, 262p. 277 BAYM, Geoffrey. The Daily Show and the reinvention of political journalism. Paper apresentado no 3rd annual pre-APSA conference on political communication, Chicago, Illinois, september 2004. BEK, Mine Gencel. Research Note: Tabloidization of News Media. An Analysis of Television news in Turkey, in European Journal of Communication, Vol. 19(3), 2004, 371–386. BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica. In: LIMA, Luiz Costa (org). Teoria da Cultura de Massa, 3ª, Rio de Janeiro: Ed. Terra e Paz, [1936] 1982, pp. 209-240. BENSON, Rodney; NEVEU, Erik. Bourdieu and the Journalistic Field. Cambridge: Polity Press, 2005. BERKOWITZ, Dan; LIMOR, Yehiel; SINGER, Jane. A cross-culture look at serving the public interest. American and Israeli journalists consider ethical scenarios. In: Journalism, 2004, vol. 5 (2), pp. 159-181. BOM Dia Brasil. Conheça a história do Bom Dia Brasil desde a estréia. Disponível em http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MRP746686-16020,00.html, acesso em 06 dez. 2009. BRAGA, José Luiz. Roda Vida – uma encenação da esfera pública. Texto apresentado no Encontro Anual de Núcleos de Pesquisa da Intercom, PJO – Núcleo de Jornalismo. 4-9 de setembro de 2006a, Brasília, DF. BRAGA, José Luiz. A sociedade enfrenta a sua mídia: dispositivos sociais de crítica midiática. São Paulo: Paulus, 2006b. BRAGA, José Luiz. „Lugar de fala‟ como conceito metodológico no estudo de produtos culturais e outras falas. In FAUSTO NETO, Antonio & PINTO, Milton (Orgs.) Mídia e Cultura, Rio de Janeiro, Diadorim/Compós, 1997, p. 105-120. BRAGA, José Luiz. Sobre a conversação. In: FAUSTO NETO, Antonio, Sérgio Dayrell porto e José Luiz Braga (orgs.) Brasil – Comunicação, Cultura e Política. Rio de Janeiro: Diadorim, 1994, p. 289-308. 278 BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma História Social da Mídia: de Gutemberg à Internet. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006. BURKE, Peter. A arte da conversação. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995. BURKE, Peter. O que é história cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2005, 191p. CLAYMAN, Steven; HERITAGE, John. The News Interview. Journalists and Public Figures o the Air. Londres, Cambrige University Press, 2004, 372pp. CHALABY, Jean. O jornalismo como uma invenção anglo-americana. Comparação entre o desenvolvimento do jornalismo francês e anglo-americano (1830-1920). In: Media & Jornalismo, Vol. 1, no 3, 2003, pp. 29-50. Capturado em http://revcom.portcom.intercom.org.br/scielo.php?script=sci_arttext$pid=S1645. CHANDLER, Daniel: Modes of Adress. Disponível em < http://www. Aber.ac.uk/media/documents/intgenre/intgenre.html>, capturado em setembro 2003. COM A LÍNGUA SOLTA. Com poucas idéias e pouco dinheiro, as emissoras entram na onda do falatório com imagens. Revista Veja. 22 jul. 1992, pp. 92-93. CORNER, John. Talk. In: Critical ideas in television studies. Oxford, Oxford University Press, 1999, pp. 37-46. DALHGREN, Peter. Journalism as popular culture. In: Journalism and popular culture. London, Sage, 2000, p. 1-23. DAYAN, Daniel. Quand montrer c‟est faire. In: La terreur spetacle. 2006, pp. 165-184. DEBATE vivo. Inovações nas entrevistas do programa Roda Viva. Revista Veja, 25 de fevereiro de 1987. DEUZE, Mark. What is journalimsm? Professional identity and ideology of journalists reconsidered. in Journalism, London: Sage Publications, 2005, Vol. 6(4): 442–464. DUARTE, Elizabeth Bastos. Televisão: ensaios metodológicos. Porto Alegre: Sulina, 2004. 279 DUARTE, Elizabeth Bastos. Dos telejornais: entre temporalidades e tons. Texto apresentado no XV Encontro Anula da Compós, Bauru, São Paulo, junho, 2006. DUARTE, Elizabeth Bastos. Telejornais: a ruptura tonal com as expectativas do subgênero. In: Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em comunicação, E-compós, abril, 2007, 16p. EKSTRÖM, Mats. Information, storytelling and attractions: TV journalism in three modes of communication. In: Media, Culture & Society, 2000, Vol. 22, 465-492. EKSTRÖM, Mats. Politicians interviewed on television news. In: Discourse and Society. SAGE publications, London, Thousand Oaks, CA and New Delhi, 2001, v. 12 (5), pp. 563584. ELLSWORTH, Elizabeth. Modos de Endereçamento: uma coisa de cinema; uma coisa de educação também. In Silva, Tomaz Tadeu da (Org.). Nunca fomos humanos – nos rastros do sujeito, Belo Horizonte, Autêntica, 2001; ENTMAN, Robert. Framing: toward clarification of fractured paradigm. Jornal of Communication, 43 (4), pp. 51-58, 1993. FAVERO, Leonor Lopes et. all.. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino da língua materna. São Paulo: Cortez, 2002. Pp. 126. FECHINE, Yvana. Estratégias de personalização dos apresentadores de TV: um estudo em um telejornal brasileiro. In: Revista DeSignis, N.2, Barcelona, Gedisa, 2002, disponível em http://www.pucsp.br/pos/cos/cps/pt-br/arquivo/Biblio-Yvana2.pdf, acesso em 17 jun. 2009. FECHINE, Yvana. Uma proposta de abordagem do sensível na TV. In: XV Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação, 2006, Bauru (SP). FECHINE, Yvana. A nova retórica dos telejornais. Uma discussão sobre o éthos dos apresentadores. In: XVII Encontro Anual da COMPÓS, 2008, São Paulo. Anais do XVII COMPÓS. São Paulo : Edição da COMPÓS/ UNIP, 2008. v. 1. FISKE, John. Popularity and the politics of information in DAHLGREN, Peter & SPARKS, Colin. Journalism and Popular Culture, London, Sage, 2000, 45-63. 280 FRANÇA, Vera (Org.). Narrativas televisivas: programas populares na TV, Belo Horizonte, Autêntica, 2006. FRANÇA, Vera. Contribuições de GH Mead para pensar a comunicação. Texto apresentado no GT Epistemologia da Comunicação no XVI Encontro da Compós, Curitiba, junho/ 2007, disponível em http://www.compos.org.br/data/biblioteca_219.pdf, acesso em dezembro de 2009. FRANÇA, Vera; TRINDADE, Vanessa Costa. Televisão e quadros de sentido: o trabalho de enquadramento em programas de entrevista. Revista FAMECOS, Porto Alegre, 38, abril, 2009. FRANCISCATO, Carlos Eduardo. A atualidade no jornalismo: bases para sua delimitação teórica. 2003. Tese (Doutorado em Comunicação) - Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2003. FRANCISCATO, Carlos Eduardo. A atualidade no jornalismo. Disponível em: http://www.facom.ufba.br/Pos/gtjornalismo/doc/2000/franciscato2000.doc, acesso em 15 nov. 2008. FRASER, Nancy. Transnacionalizing the public sphere: on the legitimacy and efficacy of public opinion in a post- westphalian world. In: Theory, Culture and Society, 24(7), 2007, 7-30. FREIRE FILHO, J. A vida privada, modos de usar: revelações e restaurações televisivas. Texto apresentado no GT “Comunicação e Sociabilidade”, do XVIII Encontro da Compós, na PUC-MG, Belo Horizonte, MG, em junho de 2009. Disponível em http://www.compos.org.br/data/biblioteca_1077.pdf, acesso em 20 jan. 2010. FREIRE FILHO, João. A celebrização do ordinário na TV: democracia radical ou neo populismo midiático? In FREIRE FILHO, João & HERSCHMANN, Micael. Novos rumos da cultura da mídia: indústrias,produtos, audiências, Rio de Janeiro, Mauad X, 2007, 59-82. FREIRE FILHO, João. „Notas históricas sobre o conceito de qualidade na crítica televisual brasileira‟. Galáxia, 2004, número 7, pp. 85-110. GLOBONEWS: 10 anos, 24 horas no ar.São Paulo, Globo, 2006. GNTMIDIA. Marília Gabriela Entrevista. Disponível em http://gntmidia.wordpress.com/2008/10/29/programas-da-gnt-e-sua-introducao/, acesso em 02 out. 2010. 281 GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana (trad. Maria Célia Santos Raposo). Petrópolis: Vozes, 2005. GOFFMAN, Erving. Frame Analysis. Na essay on the organization of experience. Boston, Northeastern University Press, 1986, 577pp. GOMES, Itania Maria Mota. O embaralhamento de fronteiras entre informação e entretenimento e a consideração do jornalismo como processo cultural e histórico, in Em torno das Mídias: práticas e ambiências, Porto Alegre: Sulina, 2008, p. 95-112. GOMES, Itania. Questão de método na análise do telejornalismo: premissas, conceitos, operadores de análise. In E-compós, 2007, vol. 2. GOMES, Itania. A noção de gênero televisivo como estratégia de interação: o diálogo entre os cultural studies e os estudos da linguagem”, in Revista Fronteiras, São Leopoldo, Programa de Pós Graduação em Comunicação da UNISINOS, dezembro de 2002. GOMES, Itania Maria Mota et alii. Modo de endereçamento no telejornalismo no horário nobre brasileiro: o Jornal Nacional da rede Globo de Televisão. Rio de Janeiro, Intercom, 2005. (texto apresentado no NP 07 – Comunicação audiovisual, do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom). GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley. Prefácio. In: Comunicação e democracia. Problemas & perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008, pp. 11-27. GOMES, Wilson. Internet e participação política. In: GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley. Comunicação e democracia. Problemas & perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008, pp. 293325. GOMES, Wilson. Comunicação e democracia de massa: problemas e perspectivas. Salvador, 2005a. GOMES, Wilson. A democracia digital e o problema da participação civil na decisão política. In: Revista Fronteiras – estudos midiáticos, VII (3), pp. 214-222, setembro/ dezembro 2005b. GOMES, Wilson. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004. GRICE, Paul H. Logique et Conversation. In: Communicatios, n.30, 1979, p. 57-72. 282 GUERRA, Josenildo Luiz. O percurso interpretativo na produção da notícia. 2003. 258f. Tese (Doutorado em Comunicação) - Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005. GUTMANN, Juliana Freire. O contexto comunicativo como estratégia de mediação musical – uma análise da situação discursiva criada pelos apresentadores do Jornal da MTV. ECompós: Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, agosto/2006, http://www.compos.org.br/ecompos/adm/documentos/ecompos06_agosto2006_julianagutmann.pdf, capturado em 30 out. 2006. HABERMAS, Jürgen; LENNOX, Sara; LENNOX, Frank. The Public Sphere. An Encyclopedia Article (1964). New German Critique, 3, 1974, pp. 49-55. Disponível em http://links.jstor.org/sici?sici=0094033X%28197423%290%3A3%3C49%3ATPSAEA%3E2.0.CO%3B2-Z, acesso em 20 nov. 2009. HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. HAGEN, Sean. A construção do sentido simbiótico entre o Jornal Nacional e William Bonner. FAMECOS/ PUCRS, Porto Alegre, número 18, dezembro de 2007. HARTLEY, John. Understanding News, London: Routledge, 2001. HOGGART, Richard. As Utilizações da Cultura. Aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. Lisboa: Editora Presença, v. I e II, 1973. JACOBS, Ronald N. On television, and the Death of News (and why I am not in mourning), paper presented at the annual meeting of the American Sociological Association, San Francisco, California, aug., 2004. www.allacademic.com/p108476_index.html. JANOTTI JUNIOR, Jeder Silveira. Dos gêneros textuais, dos discursos e das canções: uma proposta de análise da música popular massiva a partir da noção de gênero midiático. In: André Lemos; Christa Berger; Marialva Barbosa (org). Narrativas Midiáticas Contemporâneas, 1 ed. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006, v. 1, pp. 55-68. JONES, Jeffrey P. Beyond Genre: Cable's Impact on the Talk Show. In: EDGERTON, Gary R. & ROSE, Brian G. (Eds.) Thinking outside the box. A Contemporary Television Genre Reader, The University Press of Kentucky, 2008. 283 JAMBEIRO, Othon; SANTOS, Suzy; RIBEIRO, Andréa et. al. Regulação da Radiodifusão: a concessão de freqüências no governo provisório Vargas (1930-1934). Revista Eletrônica Internacional de Economia de las Tecnologias de la Informacion y de la Comunicacion, v. II, n. 3, p. 97-113, 2000. JOST, François. As metamorfoses da criação televisiva. In: Cadernos da televisão, Rio de janeiro: Instituto da Televisão, maio/ 2007. JOST, François. “Le Journal Télévisé” in Introduction à l’analyse de la television, 2ª, Ellipses Édition Marketing, 2004a, 75-102. JOST, François. Seis Lições sobre Televisão. Porto Alegra: Sulina, 2004b. JOST, François. Comprendre la télévision e ses programmes. Paris, ArmandColin Éditeur, 2009, 127p. KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. Análise da conversação: princípios e métodos. São Paulo: Parábola Editorial, 2006, 143p. LIVINGSTONE, Sonia M.; LUNT, Peter. Talk on Television: audience participation and public debate. London and New York: Routledge, 1994. LUNT, Peter; STEANNER, Paul. The Jerry Springer Show as an emotional public sphere. In: media Culture & Society, Sage Publications, London, Thousand Oaks and New Delhi, vol. 27, número 1, pp. 59-81. MACHADO, Arlindo. Pode-se falar em gêneros na televisão?. Revista FAMECOS, nº 10, junho de 1999. MACHADO, Ida Lúcia. Análise Discursiva de um gênero televisual: a entrevista no talk show Jô Soares 11 e Meia. In: CARNEIRO, Agostinho Dias (org.). O Discurso da Mídia. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996. MAIA, Jussara Peixoto. Jornalismo temático televisivo no Brasil. 2005. 227f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005. MAIA, Rousiley. Visibilidade midiática e deliberação pública. In: GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley. Comunicação e democracia. Problemas & perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008a, pp. 165-194. 284 MAIA, Rousiley. Conversação cotidiana e deliberação. In: GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley. Comunicação e democracia. Problemas & perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008b, pp. 195-219. MAIA, Rousiley; MARQUES, Angela. A conversação sobre temas políticos em contextos comunicativos do cotidiano. In: Política & Sociedade, abril 2008, número 12, pp. 143-175. MAIA, Rousiley; MARQUES, Angela; MENDONÇA, Ricardo. O sistema deliberativo e seus espaços discursivos. A articulação entre diferentes modos de comunicação. Trabalho apresentado no Gt Comunicação e Política, no XVI Encontro da Compós, Curitiba, junho de 2007. Disponível em http://www.compos.org.br/data/biblioteca_135.pdf, acesso em 23 dez. 2009. MAKRI-TSILIPAKOU, Marianthi. The reiforcement os telleability in Greek televisio eyewitnessing. In: Media, Culture and Society, London, Thousand Oaks and New Delhi, 2004, vol. 26 (6), pp. 841-859. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da Conversação. São Paulo: Ática, 1998, 94p. MARINHO, Roberto. Julgamento da Revolução. Memória Globo, disponível em http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/upload/concessoes_foto1.html, acessado em agosto 2008. MARQUES, Ângela. A conversação informal na internet: aspectos afetivos e políticos. Texto apresentado Grupo de Trabalho “Comunicação e Sociabilidade”, do XVIII Encontro da Compós, na PUC-MG, Belo Horizonte, MG, em junho de 2009. MARQUES DE MELO, José. A Opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes. 1985. MARTIN-BARBERO, Jesus. América Latina e os anos recentes: o estudo da recepção em comunicação social. In: SOUSA, Mauro Wilton (org.). Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995, 39-68. MARTÍNEZ, Esperanza Rama. Accomplishing closings in talk shows interviews: a comparison with news interviews. In: Discourse Studies, SAGE publications, London, Thousand Oaks, CA and New Delhi, 2003, vol. 5, pp. 283-302. 285 MATEU, Manuel. La entrevista en televisión. In: BALSEBRE, Armand; MATEU, Manuel; VIDAL, David. La entrevista em radio, televisión y prensa. Madrid, Ediciones Cátedra, 1998, pp. 149-244. MEAD, George Herbert. Tha nature of aesthetics experience in International Journal of Ethics, vol. 36, nº4, 1926, p.382-393. MEMÓRIA GLOBO. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro, Zahar, 2004. MEMÓRIA GLOBO. Bom Dia Brasil. Disponível em http://memoriaglobo.globo.com/TVGlobo/Comunicacao/Institucional/memoriaglobo/CD., acesso em 06/12/09. MILLER, Stephen. Conversation – a history of a declining art. New York: Vail-Ballou Press, 2006. MONTAIGNE, Michel. Da arte de conversar. In: Ensaios 52, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo: Editora Globo, 1961, pp224-239. MORLEY, David & BRUNSDON, Charlott. The Nationwide Television Studies, London: Routledge, 1999. NO café da manhã. Bom Dia Brasil chega ao circuito do poder. Revista Veja. 1º jun. 1983. OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. Objetivos. Disponível http://www.observatoriodaimprensa.com.br/objetivos.asp, acesso em 24 jun. 2009. em: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA. Alberto Dines. Disponível em: http://www.tvebrasil.com.br/observatorio/sobre_dines/memoria.htm, acesso em 08 dez. 2009. ÖRNEBRING, Henrik & Jönsson, Anna Maria. Tabloid journalism and the Public Sphere, 15:e Nordiska konferensen för medie- och kommunikationsforskning, Reykjavik, 11-13 augusti 2001, Arbetsgrupp: Mediehistoria (capturado em http://www.nordicom.gu.se/mr/iceland/papers/five/AMJonsson.doc, em 26 jan. 2008) ÖRNEBRING, Henrik. Televising the Public Sphere. Forty years of current affairs debate programmes on Swedish television, in European Journal of Communication Vol 18 (4), 2003, 501-527. 286 ORTIZ, Renato (2006). A Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense. PARK, Robert E. A notícia como forma de conhecimento in STEINBERG, Charles S. (Org). Meios de Comunicação de Massa, São Paulo: Cultrix, 1970. PATERNOSTRO, Vera Iris. O Texto na TV. Manual de telejornalismo. São Paulo: Brasiliense, 1991. PEREIRA, Cárlida Emerim Jacinto. Produção televisiva: as diferentes funções estratégicas da entrevista na configuração discursiva da notícia. 2004. 254f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio Sinos, São Leopoldo, 2004. POLÍTICA dá Ibope. Debate de Delfim Netto teve audiência de novela. Revista Veja. 27 ago. 1980, p. 114. PORTO, Mauro. Novos apresentadores ou novo jornalismo? O Jornal Nacional antes e depois da saída de Cid Moreira. In: Comunicação & Espaço Público, Brasília, 2002, números 1 e 2, pp. 9-31. RAMOS, José Mário Ortiz; BORELLI, Sílvia Helena Simões. A telenovela diária. In: ORTIZ, Renato; BORELLI, Sílvia Helena Simões; RAMOS, José Mário Ortiz. Telenovela: história e produção. São Paulo, Brasiliense, 1989. REZENDE, Guilherme Jorge de. Telejornalismo no Brasil. Um perfil editorial, SP, Summus Editorial, 2000. RIBEIRO, André. Os Donos do Espetáculo. História da imprensa esportiva no Brasil. São Paulo, Terceiro Nome, 2007. SACKS, Harvey. Lectures on conversation. Oxford, T.J. Press, 1992. SACRAMENTO, Igor. Da celebração à punição: a televisão de João Batista de Andrade. Revista PJ: BR- Jornalismo Brasileiro, São Paulo, edição 7, 2006. Disponível em http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/ensaios7_a.htm, acesso em agosto 2008. SANTOS, Jair Fernandes de Melo. Modos de endereçamento em dois programas de entrevista brasileiros. Um estudo do Roda Viva e do Gordo a Go-Go. Monografia de 287 graduação apresentada à Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005, 101p. SCHEGLOFF, Emanuel A. On Possibles. In: Discourse Studies, SAGE publications, London, Thousand Oaks, CA and New Delhi, 2006, vol 8 (1), pp. 141-157. SCHEGLOFF, Emanuel A. Discourse, Pragmatics, Conversation, Analysis. In: Discourse Studies, SAGE publications, London, Thousand Oaks, CA and New Delhi, 1999, vol 1 (4), pp. 405-435. SCHUDSON, Michael. Autonomy for what? in Rodney Benson and Erik Neveu, eds., Bourdieu and the Journalistic Field. Cambridge: Polity Press, 2005. SCHUDSON, Michael. Introduction: news as public knowledge. The Power of News. Cambrige, Londres, Harvard University Press, 2003a, pp.1-33. SCHUDSON, Michael. Question of authority: a history of the news interview. The Power of News. Cambrige, Londres, Harvard University Press, 2003b, pp.72-93. SCHUDSON, Michael. Why conversation is not the soul of democracy. In: Critical Studies in Mass Communication, vol 14, 1997, pp. 297-309. Disponível em: http://verbalperambulation.files.wordpress.com/2007/02/schudson-michael-whyconversation-is-not-the-soul-of-democracy.pdf. Acesso em 31 mar. 2009. SCHUDSON, Michael. Discovering the news: a social history of American Newspaper. USA: Basic Book, 1978. SHUSTERMAN, Richard. Enterteinment: a question for aesthetics, British Journal of Aesthetics, vol 43, no. 3, julho 2003, 289-307. SEATON, Jean. Broadcasting history. in: CURRAN, James & SEANTON, Jean. Power without responsability. The press, broadcasting and new media in Britain, 6a ed., London/ New York, Routledge, 2003, 107-234. SILVA, Fernanda Mauricio. Conversa leve e embate intelectual: o infotainment no Marília Gabriela Entrevista. Eco-pós, v. 12, no 2, maio-agosto 2009, pp. 190-205, disponível em http://www.pos.eco.ufrj.br/ojs-2.2.2/index.php/revista/article/view/109. 288 SILVA, Fernanda Mauricio. Os usos da conversação em programas jornalísticos brasileiros: uma abordagem histórica. Texto apresentado no VIII Lusocom, Lisboa, Abril/ 2009. Disponível em: http://conferencias.ulusofona.pt/index.php/lusocom/8lusocom09/paper/viewFile/68/45. SILVA, Fernanda Mauricio. Talk show: um gênero entre o jornalismo e o entretenimento. Ecompós, Brasília, vol. 12, no 1, jan/abr 2009, disponível em http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/289/315. SILVA, Fernanda Mauricio. Consideração sobre a conversação no telejornalismo. Ecompós, abril de 2007, vol. 2. SILVA, Fernanda Mauricio. Dos telejornais aos programas esportivos: gêneros televisivos e modos de endereçamento. 2005. 205f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005. SILVERSTONE, Roger. Television and everyday life. London, Routlegde, 2003. SPARKS, Colin. Popular Journalism: Theories and practice in DAHLGREN, Peter & SPARKS, Colin. Journalism and Popular Culture, London, Sage, 2000, 24-44. SQUIRRA, Sebastião. Aprender telejornalismo: produção e técnica. São Paulo: Brasiliense, 1990. TV CULTURA. Site oficial da TV Cultura. http://www2.tvcultura.com.br/rodaviva/sobreoprograma.asp, acesso em 20 abr. 2009. TARAPANOFF, Fabíola. Roda Viva: a arena da notícia. Revista Imprensa, 19 out. 2004. Disponível em: http://portalimprensa.uol.com.br/portal/ultimas_noticias/2004/10/19/imprensa5243.shtml. Acesso em 02 mai. 2009. TARDE, Gabriel. A opinião e a conversação. In: A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992, pp. 79-154. TIMBERG, Bernard M.; ERLER, Robert J. Television Talk: a history of the TV talk show, Texas, University of Texas, 2004. 289 TODOROV, Tzvetan. A origem dos gêneros. Os gêneros do discurso. São Paulo: Martim Fontes, 1980, pp. 43-58. TOLSON, Andrew. Television Talk Shows. Discourse, performance,Spectacle. London, Lawrence Erlbaum Associates, Publishes, 2001. TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo, porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, vol. 1, 2004, 224p. TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo. A tribo jornalística – uma comunidade interpretativa transnacional. Florianópolis: Insular, vol.2, 2005, 216p. TRAQUINA, Nelson. O Estudo do Jornalismo no Século XX. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2005b. TRINDADE, Andréia Araújo. Modo de endereçamento do telejornal francês Le 20 Heures, da TF1. Salvador, BA. Monografia de graduação. Universidade Federal da Bahia, 90p, 2008. TUCHMAN, Gaye. A objetividade como ritual estratégico. In: TRAQUINA, Nelson (org). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Vega, 1993. VALVERDE, Monclar. Comunicação e experiência estética. Trabalho apresentado no XVII Encontro da Compós, na UNIP, São Paulo, SP, em junho de 2008. VERÓN, Eliseo. Esta ahí lo veo, me habla. Tradução Maria Rosa Del Coto. In: Enunciacion et cinema, Revista Comunicativa, n. 38, Seul, Paris, 1983. VIEIRA, Márcia. A vencedora e a inteligente. Por que Adriane Galisteu e Marília Gabriela são adoradas pelas brasileiras. In: Veja Mulher, edição especial. Disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/mulher2/p_058.html, acesso em 17 jun. 2009. VIGOR matutino. Agitação com as entrevistas do Bom Dia Brasil. Revista Veja. 18 de fevereiro de 1987. WILLIAMS, Raymond. The technology and the society. In: Television. Technology and cultural form, 2a, London: Routledge, 1997, pp. 9-31. 290 WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971, pp. 179-184. WILLIAMS, Raymond. Cultura e sociedade: 1780-1950. São Paulo: Editora Nacional, 1969, 356p. WOLF, Mauro. Teorias das Comunicações de Massa. São Paulo, Martins Fontes, 2005, 295 pp. WOLF, Mauro. Sociologia de la vida cotidiana. Madri: Cátedra, 1994, p. 184-216. 291 GLOSSÁRIO Formatos de apresentação das notícias: Nota: é o relato mais sintético de um acontecimento. Quando apresenta imagens é chamada nota coberta, quando não, é a nota simples. Matéria: é o relato mais completo de um acontecimento combinando a apresentação ao vivo (feita pelo apresentador) e narração em off coberta por imagens e passagem feita pelo repórter. Reportagem: possui o mesmo formato que a matéria jornalística, mas apresenta um relato mais ampliado de um acontecimento, mostrando suas causas e repercussões. Em geral, ela é composta por: cabeça + off + boletim + sonoras (entrevistas) + pé. Quanto ao tema, pode ser factual, também chamada de matéria quente, relacionada aos acontecimentos do dia-a-dia; ou o chamado feature, matérias frias referentes a assuntos de interesse geral, não necessariamente ligadas à atualidade do acontecimento. Utilizaremos o termo matéria como sinônimo de reportagem. Entrevista: é o diálogo que o jornalista mantém com o entrevistado. Indicador: são as matérias baseadas em informações de temas gerais, com a utilização de recursos gráficos, como no caso da previsão meteorológica. Chamada: é o formato em que o apresentador faz referência a outro do momento da programação. Se a referência for ainda dentro do programa em exibição, chamaremos apenas chamada, quando se referir a outro momento da programação televisiva (transmissões, outros programas) chamaremos chamada da programação. Stand-up: quando a notícia é dada por um repórter na rua, no local do acontecimento. Geralmente o stand-up é feito ao vivo e é marcado por um diálogo entre o apresentador e o repórter. Clipe: é a edição de imagens com um fundo musical. Usado no encerramento das matérias ou do programa. Enquete122: entrevista com populares com base na mesma pergunta. Recursos jornalísticos: Escalada: são frases de impacto no início de um telejornal com o objetivo de chamar a atenção do telespectador. Sonora: é a imagem e a fala do entrevistado numa matéria. Cabeça: é o correspondente ao lead do jornal impresso. É lida pelo apresentador e dá o gancho da matéria. Pé ou nota-pé: é a conclusão da matéria feita pelo apresentador do estúdio. Vinheta: música e imagem que representam o programa. Nos telejornais, a vinheta é usada basicamente na abertura do noticiário e dos blocos. Passagem: quando o repórter faz uma gravação no local do acontecimento para transmitir um resumo das informações. Selo: ícone de pessoa, assunto ou instituição componente do cenário do programa por meio de recurso gráfico. Lapada: apresentação de várias notas cobertas seguidas uma da outra, geralmente separadas por uma vinheta ou pelo logotipo do programa. Planos e enquadramentos: 122 A enquete pode ser considerada um formato ou um recurso utilizado nas matérias jornalísticas quando aparecem juntamente com outros elementos, como off, passagem do repórter. 292 Plano geral: tomada geral do programa onde se pode ver todo o cenário. Plano americano: tomada que mostra a mesa onde se posiciona o apresentador. Plano próximo: tomada pela cintura, mostra a pessoa da cintura para cima. É um plano que sugere uma situação de intimidade. Movimentos de câmera: Zoom: recurso que se aproxima (zoom-in) ou afasta (zoom-out) do objeto filmado. No telejornalismo, o zoom está relacionado à seriedade que se pretende dar ao assunto: uma notícia com grande repercussão é acompanhada por um zoom-in no re´porter ou apresentador. 293