UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO E CULTURA
CONTEMPORÂNEAS
FERNANDA MAURICIO DA SILVA
A CONVERSAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE
PROGRAMAS JORNALÍSTICOS TELEVISIVOS
Salvador
2010
FERNANDA MAURICIO DA SILVA
A CONVERSAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE
PROGRAMAS JORNALÍSTICOS TELEVISIVOS
Tese de doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação
em
Comunicação
e
Cultura
Contemporâneas, Faculdade de Comunicação,
Universidade Federal da Bahia, como requisito para
obtenção do grau de Doutora em Comunicação e
Cultura Contemporâneas.
Orientadora: Profa. Dra. Itania Gomes
Salvador
2010
Sistema de Bibliotecas - UFBA
Silva, Fernanda Mauricio da.
A conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos /
Fernanda Mauricio da Silva. - 2010.
294 f. : il.
Orientadora: Profª Drª Itania Maria Mota Gomes.
Tese (doutorado) - Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Comunicação, Salvador,
2010.
1. Telejornalismo. 2. Conversação. 3. Estudos culturais. 4. Democracia. 5. Entretenimento.
I. Gomes, Itania Maria Mota. II. Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Comunicação.
III. Título.
CDD - 070.195
CDU - 070:654.19
A
Itania Gomes, minha orientadora, testemunha da minha vida acadêmica.
AGRADECIMENTOS
A meus pais, pelos esforços - em todos os sentidos – em me dar uma boa formação.
A Mauricio, pela paciência em ouvir minhas idéias mais entusiasmadas e minhas queixas
mais desanimadas.
A minhas irmãs, Carla, Paula e Renata, por terem formado meu caráter.
A Felipe Pichler, meu refúgio.
A minha orientadora, Itania Gomes, a quem admiro a vontade, coragem, persistência,
disciplina e tantas outras características.
Aos colegas do Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo (os que estão e os que já
passaram), pelas críticas e contribuições. Um agradecimento especial para Jussara Maia,
Juliana Gutmann e Karina Araújo.
Aos alunos que passaram por mim. Até hoje não sei foram eles que aprenderam comigo, ou o
contrário. Agradeço especialmente a Lindiwe Aguiar pelo auxílio com a parte técnica.
A Ivã Márcio e Maria Helena Gomes pela ajuda na finalização da tese.
Ao Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pelo suporte
nessa formação acadêmica.
À Capes, pelo financiamento desta pesquisa e pela bolsa de estágio doutoral.
A François Jost e Evelyne Cohen, pela receptividade durante o delicioso período do sanduíche
na Paris III.
A Deus, sem o qual nada disso seria possível.
Entender o jornalismo como parte da cultura contemporânea
requer perceber
a maneira como ele funciona como ambos: um conjunto de
instituições sociais concretas
e um repertório de práticas literárias historicamente forjados.
Michael Schudson, 2003
SILVA, Fernanda Mauricio. A conversação como estratégia de construção de programas
jornalísticos televisivos. 342f. il. 2010. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.
RESUMO
Cada vez mais, as emissoras de televisão apostam na transmissão de informações por meio
dos diálogos entre jornalistas e convidados: programas de entrevistas, de debates e telejornais,
que modificaram a tradicional função dos apresentadores de ler as notícias, para transmiti-las
através de uma conversa. A presente tese propõe-se a compreender os lugares, papéis e
configurações da conversação nos programas jornalísticos televisivos que a utilizam como
principal estratégia na relação com a audiência. Este estudo ancora-se nas formulações dos
Estudos Culturais ingleses e latino-americanos como instrumento teórico-metodológico para
pensar: primeiro, na conversação como estratégia de construção dos programas
individualmente, o que foi feito por meio do conceito de modo de endereçamento, que diz
respeito ao tom e estilo dos programas. Em segundo lugar, na relação entre o uso da
conversação e estruturas mais amplas que norteiam os modos de leitura e escritura. Para isso,
foi utilizado o conceito de gênero televisivo (e suas variantes, os subgêneros), concebido
como uma estratégia de comunicabilidade histórica e socialmente formada. Por fim, foi
necessário considerar que os recentes papéis da conversação no telejornalismo devem ser
compreendidos a partir de uma dimensão processual, o que foi feito através do conceito de
estrutura de sentimento, conceito dá conta dos movimentos de construção de um modelo
dominante de telejornalismo e das possíveis alternativas que o tencionam. Para as análises
foram selecionadas dez edições de seis programas da televisão brasileira: Observatório da
Imprensa (TV Brasil), Roda Viva (TV Cultura), Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia
Brasil (Rede Globo), Sem Censura (TV Brasil) e Marília Gabriela Entrevista (GNT),
gravados durante um período variado de 2006 a 2009. Por meio das análises, foi possível
constatar pelo menos duas dimensões mais evidentes sobre a conversação no telejornalismo.
Primeiro, o emprego da conversação como estratégia para que o jornalismo efetue seu papel
na democracia promovendo uma arena de discussão de temas de interesse público. Associadas
a esta dimensão, é recorrente o uso de expressões como “discussão” e “debate”, que ratificam
um lugar discursivo de aprofundamento das informações, participação e busca pela verdade.
Em segundo lugar, a conversação é apresentada à audiência como a forma verbal por meio da
qual o jornalismo televisivo se aproxima do campo do entretenimento, possibilitando novas
formas de recepção de seus produtos, baseadas na informação aliada à diversão e ao prazer.
Nesse caso, a conversação provoca um efeito de espontaneidade, uma vez que a conversação
em cena busca assemelhar-se às conversas casuais da vida cotidiana. A conclusão aponta três
modelos em que a conversação se mostra mais evidente no telejornalismo - a conversa
informativa, argumentativa e testemunhal – e o modo como essas práticas conversacionais
empregadas pelos mediadores provocam transformações no telejornalismo: a retomada da
matriz opinativa; a valorização dos testemunhos pessoais como prova de veracidade das
informações; e uma inclinação do telejornalismo a uma temática voltada para o cotidiano.
Palavras-chave: telejornalismo; conversação; estudos culturais; democracia; entretenimento.
SILVA, Fernanda Mauricio. The conversation as a strategy for the television journalism.
342f. il. 2010. Doctoral thesis - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura
Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.
ABSTRACT
Increasingly, television broadcasting seeks to transmit information through the dialogue
between journalists and guests: talk shows, debates and news programs, which changed the
traditional role of the presenters reading the news, to transmit them through a conversation.
This thesis seeks to understand the recent forms of appropriation of conversation in television
news programs that use it as the main strategy in their configuration. This study is based on
the formulation of british and latin-american Cultural Studies as a tool for theoretical and
methodological approach to understand: first, conversation as a strategy of building individual
program, which was done through the concept of mode of address, which relates to the tone
and style of programs. Secondly, the relationship between the use of conversation and wider
structures that guide the ways of reading and writing. To reach that goal, it was used the
concept of genre (and its variants, i.e., subgenres), a communicative strategy formed
historically and socially. Finally, it was necessary to consider that recent conversation roles in
TV journalism should be understood from a procedural dimension, which was done through
the concept of structure of feeling, concept that gives an account of the movement to build a
dominant model of journalism and of possible alternatives that intend to. For the analysis, ten
editions of six brazilians TV shows were chosen for this study: Observatório da Imprensa
(TV Cultura), Roda Viva (TV Brasil), Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia Brasil (Rede
Globo), Sem Censura (TV Brasil), and Marília Gabriela Entrevista (GNT), recorded between
2006 and 2009. Through analysis, it was possible to see at least two dimensions that are most
relevant on the conversation in journalism. Firstly, the use of conversation as a strategy for
promoting the role of journalism in democracy: promoting an arena for debate on subjects of
public interest. Associated with this aspect, the use of terms such as “discussion” and
“debate” are recurrent, supporting its discursive role of widening information and the search
for truth. Secondly, conversation is presented to the audience as a verbal means through
which television journalism enters the field of entertainment, giving way to new forms of
reception of its products, based on informativity, together with fun and pleasure. In this case,
conversation is used by the programs as a way of attributing authenticity to the mediators‟
discourse, as a result of the spontaneity seen in the relations established through conversation
in the programs. The conclusion indicates three models in which conversation is more evident
in telejournalism - informative, argumentative, and testimonial – and the way in which these
models used by mediators have incited transformations in journalism: the use of personal
opinions as the source of relevant and detailed information; the valuing of testimonies as
proofs of the truth (as they allow the audience to identify with situations lived by others); and
a tendency for telejournalism to deal with everyday themes.
Key-words: telejournalism, conversation, cultural studies, democracy, entertainment.
SILVA, Fernanda Mauricio. La conversation comme une stratégie pour la construction
des programmes de journalism télévisées. 342f. il. 2010. Thèse de doctorat - Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia,
Salvador, 2010.
RÉSUMÉ
De plus en plus, les chaînes de télévision transmetent l'information à travérs un dialogue entre
les journalistes et les invités : des talk-shows, des débats et des émissions de nouvelles, qui
ont changé le rôle traditionnel des présentateurs lecture des nouvelles, de les transmettre à
travers une conversation. Cette thèse vise à comprendre les lieux, les rôles et les paramètres
de la conversation dans les programmes de journalism télévisé qui l'utilisent comme une
stratégie principale par rapport à l'audience. Cette étude est ancrée dans les formulations des
études culturels de l‟Anglaterre et d'Amérique latine comme un outil de réflexion théorique et
méthodologique: d'abord, dans la conversation comme une stratégie de construction de
chaque programme, qui a été fait par l'intermédiaire du concept de mode d'adressage, qui dit
ce qui concerne le ton et le style de programmes. Deuxièmement, la relation entre l'utilisation
de la conversation et plus large des structures qui guident les moyens de lecture et d'écriture.
Pour ce faire, nous avons utilisé le concept de genre (et ses variantes, les sous-genres), conçu
comme une stratégie de transmissibilité historiquement et socialement constitué. Enfin, il est
nécessaire de considérer que les rôles récente conversation dans le journalisme de télévision
devrait être comprise à partir d'une dimension procédurale, qui a été fait par l'intermédiaire du
concept de structure du sentiment, concept que rend compte du mouvement pour construire un
modèle dominant du journalisme et de des alternatives possibles qui ont l'intention. Pour
l'analyse, nous avons sélectionné dix éditions de six programmes de la télévision brésilienne:
Observatório da Imprensa (TV Cultura), Roda Viva (TV Brasil), Jornal das Dez (Globo
News), Bom Dia Brasil (Rede Globo), Sem Censura (TV Brasil), and Marília Gabriela
Entrevista (GNT), constaté pendant une période allant de 2006 à 2009. Grâce à l'analyse, il
était possible de voir au moins deux dimensions qui sont plus évidents sur la conversation
dans le journalisme. Premièrement, l'utilisation de la conversation comme une stratégie visant
à faire du journalisme leur rôle dans la démocratie par la promotion d'une arène pour les
débats sur des sujets d'intérêt public. Associé à cette dimension est l'utilisation récurrente des
termes tels que «débat» qui confirment un lieu d'approfondissement de l'information
discursive, la participation et la vérité. Deuxièmement, la conversation est présenté
auxspectateurs comme la forme à travers lequel le journalisme de télévision se trouve à
proximité du domaine du divertissement, permettant à de nouvelles façons de recevoir vos
produits basés sur l'information associée à l'amusement et le plaisir. Dans ce cas, la
conversation conduit à un effet de spontanéité, acause de le ressemblement aux conversations
informelles de la vie quotidienne. La conclusion expose trois modèles dans lesquels la
conversation est plus évidente dans les programmes de journalism - la conversation
informative, argumentative et des témoignages - et comment ces pratiques conversationnelles
employées par les médiateurs causer des changements dans le journalisme de télévision: le
retour de la matrice de jugement, la reprise de témoignages personnels la preuve de la véracité
de l'information, et une inclinaison de journalisme à un thème axé sur le quotidien.
Mots-clés: journalisme télévisé, conversation, études culturelles, démocratie, divertissement.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Alberto Dines e o cenário do programa .....................................................
Figura 2: Imagens da vinheta do Observatório da Imprensa ...................................
Figura 3: Locução no Observatório da Imprensa .....................................................
Figura 4: enquadramento dos participantes no mesmo plano ...................................
Figura 5: resultado da enquete do Observatório da Imprensa ..................................
Figura 6: cenário atual do Roda Viva ........................................................................
Figura 7: seqüência de imagens da vinheta ...............................................................
Figura 8: charges de Paulo Caruso durante o Roda Viva ..........................................
Figura 09: construção narrativa da conversação pelos recursos da linguagem
televisiva ...................................................................................................................
Figura 10: o público no Roda Viva ...........................................................................
Figura 11: página de abertura do site do Roda Viva .................................................
Figura 12: vinheta do Jornal das Dez .......................................................................
Figura 13: escalada do Jornal das Dez .....................................................................
Figura 14: expressões faciais e gestualidade no Jornal das Dez ..............................
Figura 15: cenário para interação com jornalistas especializados ............................
Figura 16: repórter no local do acontecimento .........................................................
Figura 17: Bancada do Bom Dia Brasil antes e depois da reforma em junho de
2006 ...........................................................................................................................
Figura 18: diálogo entre apresentadores ...................................................................
Figura 19: cenário da sala de visitas .........................................................................
Figura 20: conversação articulada com jogo de enquadramentos ............................
Figura 21: vinheta do Bom Dia Brasil ......................................................................
Figura 22: recursos gráficos explicativos sobre o julgamento de Suzane von
Ritchtofen e dos irmãos Cravinhos ...........................................................................
Figura 23: duas versões do cenário do Sem Censura ................................................
Figura 24: disposição dos convidados no cenário e suas interações .......................
Figura 25: vinheta do Sem Censura...........................................................................
Figura 26: locomoção de Leda Nagle no cenário .....................................................
Figura 27: clipe .........................................................................................................
Figura 28: vista geral do cenário do Marília Gabriela Entrevista.............................
Figura 29: enquadramentos do Marília Gabriela Entrevista.....................................
Figura30: seqüência de imagens da vinheta ..............................................................
Figura31: “twitteira” do Roda Viva...........................................................................
Figura 32: as jornalistas Carla Amorim (Roda Viva) e Cláudia Tisato
(Observatório da Imprensa) .....................................................................................
Figura 33: gestos expressivos dos entrevistados .......................................................
81
82
83-85
89
98
102
107
108
120-122
125
126
131
135-137
142
144
148-149
153
155
156
160-162
165
167-168
171
172
173
177
197
200
201
202
223
224
250
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................
12
PARTE I: PONTO DE PARTIDA: conversação e jornalismo.......................................
22
1. CONVERSAÇÃO, SOCIEDADE E TELEVISÃO...................................................... 24
1.1. A conversação como forma cultural....................................................................
25
1.2. Aproximações entre conversação e telejornalismo .............................................
31
2. O JORNALISMO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA.........................................
39
2.1. O jornalismo e as esferas públicas....................................................................
40
2.2. Qual o público do interesse público?................................................................
44
2.3. Jornalismo político no Brasil e o “poder moderador”......................................
49
2.4. Os rituais de construção de objetividade..........................................................
52
PARTE II: CONVERSAÇÃO E MODOS DE ENDEREÇAMENTO:
premissas para análises dos programas............................................................................
55
1. CONCEITOS BALIZADORES PARA A ANÁLISE .................................................
57
1.1. A natureza processual do (tele)jornalismo: estrutura de sentimento...................
57
1.2. Gêneros televisivos .............................................................................................
62
1.3. Modo de endereçamento ..........................................................................
66
1.4. Operadores de análise de modo de endereçamento .................................
69
2.
O
OBSERVATÓRIO
DA
IMPRENSA
E
OS
ARAUTOS
DO
JORNALISMO ....................................................................................................... 79
2.1. As disposições discursivas em torno do consenso ................................... 80
2.2. O jornalismo enquanto metalinguagem ...................................................
90
2.3. Os arautos do jornalismo .........................................................................
95
3. RODA VIVA: REFLEXÃO E DEBATE NA ARENA ....................................
100
3.1. Tomada de posição ..................................................................................
101
3.2. Debate público na democracia ................................................................. 110
2.3. Posicionamento da audiência ................................................................... 117
3.4. Transformações na arena .........................................................................
122
4. ANÁLISE DO JORNAL DAS DEZ: 24 HORAS DE NOTÍCIA NO AR.......
128
4.1. As notícias no fim da noite ......................................................................
129
4.2. Polifonia e unicidade ...............................................................................
134
4.3. Jornal às dez ............................................................................................. 147
5. AS NOTÍCIAS NO INÍCIO DO DIA: ANÁLISE DO BOM DIA
BRASIL..................................................................................................................... 152
5.1. Dispositivos audiovisuais para a construção de posições discursivas......
152
5.2. A interação e as posições discursivas ......................................................
157
5. 3. O Bom Dia Brasil e a legitimidade no campo jornalístico .....................
163
6. O SEM CENSURA E A CONSTRUÇÃO DE SOCIABILIDADE ................
169
6.1. Palavra quase franqueada.........................................................................
170
6.2. Jornalismo e possibilidades de socialização ............................................
179
6.3. Uma comunidade geograficamente situada..............................................
188
7.
MARÍLIA
GABRIELA
ENTREVISTA:
INFORMAÇÃO,
CELEBRIDADES E INTIMIDADE.....................................................................
191
7.1. O status dos participantes e as relações estabelecidas ............................. 192
7.2. A personalização como meio para a informação .....................................
196
7. 3. Pauta e modo de conversar .....................................................................
203
PARTE III: A CONVERSAÇÃO NO TELEJORNALISMO: valores
democráticos e estratégias de entretenimento......................................................
210
1. CONVERSAÇÃO, TELEJORNALISMO E DEMOCRACIA ...................... 212
1.1. As perspectivas sobre a relação entre jornalismo, conversação e
democracia ...................................................................................................... 213
1.2. Níveis de participação da audiência na conversação dos programas ......
218
1.3. A dimensão política reivindicada ............................................................
228
1.4. Papel político do jornalismo ....................................................................
234
2. TELEJORNALISMO, CONVERSAÇÃO E ENTRETENIMENTO ...........
240
2.1. A conversação informal e o entretenimento ............................................
241
2.2. Os efeitos de espontaneidade e a autenticidade do jornalismo ................ 243
2.3. A partilha de experiências e a construção de afetividade ........................
256
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 267
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 277
GLOSSÁRIO............................................................................................................
292
INTRODUÇÃO
O telejornalismo brasileiro surgiu em 1950 tendo como exemplar o telejornal Imagens do Dia,
exibido pela TV Tupi de São Paulo (REZENDE, 2000). O primeiro programa jornalístico
televisivo do país constava de uma sequência de filmes com locução em off que narrava o que
era exibido pela imagem. Posteriormente, o Repórter Esso, exibido pela mesma emissora,
consagrou um modelo de telejornalismo baseado na locução em estilo radiofônico de Gontijo
Teodoro. Poucos recursos visuais compunham o noticiário televisivo que ainda perdia em
audiência para o rádio. Somente após os avanços tecnológicos, que permitiram a transmissão
via satélite, o arquivo em videotape, o uso das cores e a formatação de um cenário sem estar
baseada no patrocinador, foi que o telejornalismo se dinamizou criando novos formatos e
ampliando a cobertura jornalística.
Ao longo de seus sessenta anos, o telejornalismo nacional passou por intensas modificações
de modo a validar as premissas do jornalismo que se desenvolveram historicamente. A
migração de repórteres da mídia impressa para a televisão valorizou o trabalho de apuração e
constituiu uma tradição de cobertura baseada na presença do jornalista e do cinegrafista no
local do acontecimento, a fim de oferecer à audiência um relato que se pretendia mais preciso
e verdadeiro sobre os fatos. Aliado a isso, o telejornalismo explorou as potencialidades do
meio audiovisual para ratificar valores de instantaneidade e simultaneidade, valorizando a
transmissão dos acontecimentos e do próprio produto jornalístico ao vivo. A concorrência
entre as emissoras impulsionou a criação de formatos1 jornalísticos diferenciados dos
telejornais e permitiu a validação de novas narrativas televisivas.
Essa breve descrição salienta a natureza processual do telejornalismo, aqui compreendido sob
a perspectiva dos Estudos Culturais ingleses, que o concebem como forma cultural e
instituição social (WILLIAMS, 1997) que se reconfigura a partir das transformações
sócioculturais efetuadas no contexto que o insere. O cenário político e econômico, bem como
as transformações tecnológicas e a sociedade promovem transformações tanto no modo de
fazer o telejornalismo, quanto na relação com os telespectadores, que criam novas
preferências, novos critérios de avaliação dos produtos e novos usos dos programas.
1
Neste trabalho, o conceito de formato aproxima-se ao de subgênero, compreendido como estratégia de
comunicabilidade que indica os modos como um texto midiático deve ser usado pelos receptores, bem como as
possibilidades de construção do campo de produção. Esses e outros conceitos serão melhor explicados mais
adiante.
12
Tal perspectiva sobre o telejornalismo se deu a partir da relação desta autora com os Estudos
Culturais, sobretudo as matrizes inglesa e latino-americana, que vem se construindo desde a
graduação. Se num primeiro momento a aproximação com os Estudos Culturais se deu em
função de uma necessidade de compreender os hábitos de consumo televisivo – e, por
conseguinte, os lugares que a recepção ocupa no processo comunicativo – mais recentemente
as questões centrais dos Estudos Culturais, especificamente a relação entre comunicação,
cultura e poder, encontraram-se com preocupações que concernem ao jornalismo. A
experiência como docente da disciplina “Teorias do Jornalismo” permitiu levar os Estudos
Culturais a questões tais como a institucionalização do jornalismo, a constituição de valores e
premissas do campo, as práticas dos jornalistas nas redações. Se por um lado as “teorias do
jornalismo” buscam fixar padrões para explicar as práticas jornalísticas formadas
historicamente na Europa e Estados Unidos nos século XIX, os Estudos Culturais permitem
olhar o jornalismo a partir de sua relação com a sociedade e todas as tensões que envolvem
essa relação. É a partir desse lugar que o jornalismo, e mais especificamente o telejornalismo,
é compreendido neste trabalho, levando em conta suas transformações a partir de uma relação
que se estende à sociedade e à cultura.
Recentemente, percebe-se uma tentativa dos programas jornalísticos de se fazerem mais
próximos aos hábitos cotidianos da audiência, tanto na abordagem temática quanto na própria
estruturação dos programas. Assim, alguns telejornais propõem a redução do uso do
teleprompter e apostam numa forma de apresentação “mais espontânea, mais conversada2”. É
nesse sentido que se observa um alargamento do uso da conversação pelo telejornalismo,
construindo-se como lugar tanto de aprofundamento das notícias, quanto de sua
informalização. Se a conversação televisiva, historicamente, está relacionada ao debate de
assuntos provenientes da esfera pública, ela também esteve vinculada aos formatos e temas
reconhecidos como mais leves e informais, como é o caso das mesas redondas de futebol.
Na dissertação de mestrado desta autora, foi demonstrado que o programa Bate-Bola com o
Assinante, exibido pela ESPN Brasil, transmite as informações jornalísticas com base nas
2
Em entrevista ao programa Vídeo Show da TV Globo, a apresentadora do telejornal local carioca RJTV, Ana
Paula Araújo afirmou que o novo modelo do programa reforçaria a informalidade na apresentação das notícias.
13
formas dialógicas estabelecidas no interior do programa3 (SILVA, 2005). Paralelamente às
notícias exibidas como matéria, reportagem, nota coberta ou nota ilustrada4, a apresentadora
Sônia Francine evocava tanto comentaristas, que assumiam o papel de especialistas para
analisar os acontecimentos do mundo dos esportes, quanto convidados representantes do
campo esportivo, que davam um caráter testemunhal às notícias, com informações que
superavam as partidas esportivas. Além disso, o programa abria espaço para a participação
intensa dos telespectadores por meio de fax e e-mails com perguntas e comentários sobre os
esportes, promovendo, assim, um “bate-bola” com o telespectador assinante da ESPN Brasil.
Com base nos diálogos dos participantes, que ora provocavam um debate, ora se
apresentavam como uma conversa casual, o programa buscava uma diferenciação com relação
aos demais noticiários esportivos diários: além dos assuntos factuais relacionados aos
esportes, no Bate-Bola o telespectador poderia encontrar uma discussão sobre os temas,
ultrapassando a dimensão de informatividade característica dos programas esportivos diários e
consolidando um lugar de autoridade para tratar dos assuntos ligados ao cotidiano dos clubes
de futebol e das demais modalidades esportivas. Por estar numa emissora segmentada, o BateBola propunha um jornalismo baseado na opinião e no aprofundamento das notícias
veiculadas por meio de informações adicionais provenientes dos jornalistas especializados e
dos testemunhos dos representantes de clubes de futebol, atletas e técnicos.
Pensando nas formas como o telejornalismo é praticado hoje, as observações alcançadas por
meio da análise do Bate-Bola conduziram a um olhar sobre os papéis que a conversação pode
assumir nos diversos produtos jornalísticos, o que foi ratificado pela disseminação de
programas que a utilizam durante sua apresentação, seja nos diálogos efetuados entre
repórteres e apresentadores, seja pela presença de convidados no estúdio.
3
O objetivo daquela pesquisa era comparar os modos de construção de dois subgêneros televisivos: os
programas temáticos (representados pelos programas esportivos) e os telejornais. Assim, analisamos, além do
Bate-Bola com o Assinante, o Globo Esporte (Globo), o Esporte Total (Band), o Jornal Nacional (Globo) e o
Jornal da Band (Band).
4
“Nota ilustrada” foi o termo criado por mim em minha dissertação de mestrado para designar um formato de
apresentação da notícia que consta de uma seqüência de imagens acompanhada pela voz de um narrador em off.
A voz em off não é da apresentadora e as imagens que aparecem não são do evento que está sendo tratado. São
imagens que se relacionam ao acontecimento de forma mais distanciada ou imagens de arquivo. O aspecto
central desse formato é o texto verbal do narrador, cabendo às imagens aparecerem apenas como ilustração. Este
aspecto é um dos diferenciais do programa com relação a outros do mesmo subgênero.
14
Aliado a isso, é notável a quase absoluta ausência dessa temática na bibliografia sobre
telejornalismo nacional5, a qual tem se empenhado muito mais em compreender os telejornais
e suas relações com outros campos – mais especificamente o político e econômico – a partir
de abordagens contextuais. Tal postura das pesquisas em comunicação no Brasil contrasta
com as inclinações de pesquisa no restante do mundo, que têm demonstrado crescente
interesse nas relações entre conversação, televisão e jornalismo (CLAYMAN E HERITAGE,
2004; CORNER, 1999; ËKSTROM, 2001; JONES, 2008; LUNT E STENER, 2005;
MARTINEZ, 2003; MATEU, 1998; ÖNEBRING, 2003; TIMBERG e ERLER, 2004;
TOLSON, 2001). A partir de diferentes perspectivas, os autores empenham-se em
compreender o lugar da conversação na televisão a partir de formatos específicos, a exemplo
dos talk shows, e a forma como esses programas constroem esferas públicas e legitimam-se a
partir de um modo específico de conversar.
A presente tese tem como objetivo investigar as recentes formas de apropriação da
conversação nos programas jornalísticos televisivos, a fim de compreender, de maneira mais
ampla, os lugares, papéis e configurações que a conversação ocupa no telejornalismo
brasileiro hodiernamente. A hipótese é que a conversação no telejornalismo faz referência a
modelos calcados na vida cotidiana, mas alia-se a valores do jornalismo, a fim de configurar
tanto seriedade, quanto leveza. Considera-se que a conversação no ambiente televisivo
institucionaliza-se em modelos já reconhecidos pela audiência - a entrevista e o debate – mas
não se limita a eles, prometendo constituir-se como uma reprodução verossímil às conversas
espontâneas da vida cotidiana, o que se traduz por expressões como “um bate-papo informal”
ou “uma conversa com quem está em casa”. Por conta disso, a conversação neste trabalho será
tomada como uma estratégia empregada pelos programas para a construção de sua relação
com a audiência.
Para tanto, foi necessário compreender as diferentes concepções que a conversação pode
possuir na vida ordinária, a fim de chegar às apropriações efetuadas no campo jornalístico e as
aproximações com as premissas que o constituem enquanto instituição social. Este é o tema
da primeira parte desta tese, na qual assume-se que a conversação é um tipo de interação
5
À exceção disso, merecem destaque os trabalhos de José Luiz Braga (1994, 2006a); Cárlida Emerim Jacinto
Pereira (2004), França e Trindade (2009).
15
marcada por elementos verbais e não verbais (como gestos, tom de voz, etc) efetuada por dois
ou mais participantes, que adapta-se a partir de variações culturais e situacionais.
As contribuições de Erving Goffman (1986, 2005) sobre a organização das experiências
cotidianas efetuadas pelos indivíduos permitiram compreender que as práticas, inclusive a
conversação, estão sujeitas a diferentes usos a depender das condições contextuais que a
cercam. Sendo assim, o presente trabalho rejeita uma análise da conversação calcada em
paradigmas restritos à linguagem, que buscam encontrar padrões permanentes para as
diferentes interações verbais. Nesse rastro, são inúmeras as perspectivas analíticas que
observam os rituais, a utilização de expressões de abertura e encerramento, o uso de pronomes
de tratamento entre outras formalizações da linguagem para se compreender como as trocas
entre os indivíduos se dão, principalmente as correntes derivadas da matriz lingüística sobre a
conversação. Tais análises, apesar de indicarem modalizadores eficazes para o olhar do
analista, dizem muito pouco das dinâmicas e envolvimentos dos participantes durante as
trocas. Ao contrário, assume-se, aqui, a conversação como uma forma cultural e o objetivo do
analista é compreender as variações permitidas pelo cenário cultural e situacional que abriga
as diferentes interações.
Ao migrar para a televisão, a conversação obedece a certos pré-requisitos impostos pelo meio,
tais quais demarcações temporais, limites do número de participantes, o controle efetuado por
um representante do campo televisivo, a relação com os jogos de câmera. Desta maneira, este
trabalho pretende observar, a partir das pesquisas já realizadas, de que modo a conversação
institucionaliza certas formas de conversar que se transformam em formatos televisivos
específicos, criando hábitos de audiência e tradições nas práticas produtivas televisivas.
A consideração da conversação no campo midiático impõe uma reflexão central para este
trabalho: de que forma a conversação se aproxima das premissas e valores do jornalismo.
Sendo assim, a primeira parte prossegue com uma demarcação do lugar de fala adotado neste
trabalho tratando o jornalismo como instituição social e a televisão como forma cultural
(WILLIAMS, 1997). O jornalismo é aqui pensado como resultado de um processo histórico
que implicou numa construção de seu significado na vida social. Deste modo, mesmo as
premissas e valores que constituem o jornalismo – objetividade, valores-notícia, verdade e
relevância, atualidade, vigilância, interesse público – que foram concebidas a partir de um
16
modelo muito específico de sociedade anglo-americana do século XVIII, não se cristalizaram
em significados fixos, admitindo novas configurações a partir de novas expectativas sociais
sobre a objetividade no jornalismo (SCHUDSON, 1978), de modelos distintos de democracia
que impõem diferentes formas de vigilância (ALBUQUERQUE, 1999), da influência das
tecnologias multimídias no procedimento jornalístico e do consumo televisivo a partir de um
público multicultural que redefine a noção de interesse público (DEUZE, 2005).
A apropriação da conversação pelo telejornalismo se percebe mais nitidamente nas
materializações que produtos concretos fazem dela. Assim, a segunda parte desta tese é
dedicada à análise de programas jornalísticos televisivos que têm a conversação como
estratégia de sua construção e apresentação da audiência. Seguindo a proposta do Grupo de
Pesquisa em Análise de Telejornalismo6, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e
Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, o escopo teórico-metodológico
que norteia este trabalho reside em três conceitos fundamentais, que, articulados, demonstram
os possíveis usos da conversação no telejornalismo brasileiro. A noção de estrutura de
sentimento, conceito formulado por Raymond Williams (1979) para uma análise da cultura,
foi apropriado para dar conta dos movimentos de construção de um modelo dominante de
telejornalismo e das possíveis alternativas que tencionam o modelo hegemônico. Por meio das
noções de dominante, residual e emergente, o conceito de estrutura de sentimento permite
analisar o telejornalismo a partir de sua natureza processual, identificando elementos
formados no passado ainda em uso no presente, e os elementos que aparecem atualmente
como prescrições para usos futuros. Por meio da observação dos programas jornalísticos,
pode-se chegar à formação de uma tradição de programas de entrevistas e debates que tinham
como foco a discussão de temas ligados à política, rechaçando do campo jornalístico os
programas que dialogavam mais diretamente com a indústria do entretenimento.
O segundo conceito balizador deste trabalho é o de gênero televisivo ou midiático e suas
variantes, os subgêneros (ou formatos), por meio dos quais se pode alcançar os limites que a
conversação pode possuir em um programa. Logo, se o telejornalismo é um gênero televisivo,
os telejornais, programas de entrevistas, programas de debate, programas de jornalismo
temático, documentários são seus subgêneros. Os gêneros televisivos são concebidos como
uma estratégia comunicativa que insere tanto os aspectos de escritura, quanto os de leitura
6
Grupo de pesquisa coordenado pela professora Dra. Itania Gomes, com financiamento do CNPq.
17
(MARTIN-BARBERO, 1997, p. 302). Abandonando o tratamento dos gêneros televisivos
como uma “receita de fabricação”, Jesus Martín-Barbero entende que uma abordagem do
gênero a partir do ponto de vista cultural se constitui numa “chave para análise dos textos
massivos e, em especial, dos televisivos” (1997, p. 302). Assim, seguindo as pistas deixadas
por Williams (1979), Martin-Barbero concebe a análise dos gêneros televisivos quando
colocada em relação à sociedade.
O terceiro conceito, modo de endereçamento, foi operacionalizado a partir das contribuições
de David Morley e Charlote Brunsdon (1999), pensado como tom ou estilo que se traduz na
“orientação de um programa para o seu receptor e de um modo de dizer específico” (Gomes,
2007, p. 17). Assim, é na construção do seu estilo que um programa se diferencia dos demais
do mesmo subgênero e estabelece uma relação própria com os telespectadores. As análises
neste trabalho serão realizadas com base na operacionalização de quatro operadores de modo
de endereçamento: mediadores, temática, contexto comunicativo e pacto sobre o papel do
jornalismo. Inicialmente pensados para telejornais, os operadores de análise dos modos de
endereçamento propostos pelo Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo visam
contemplar a variedade de produtos jornalísticos televisivos. Esses operadores não possuem
uma hierarquização – como se um fosse mais importante que outro – nem tampouco aparecem
com a mesma incidência nos programas. Assim, é o próprio programa que levará à
observação dos operadores que se destacam nos textos. Os operadores de análise não são,
portanto, um fim, mas um meio que conduz ao estilo dos programas e à relação proposta
para/com a audiência.
A fim de contemplar uma diversidade de possibilidades sobre a conversação, foram
selecionados programas de diferentes subgêneros jornalísticos, desde que a conversação
possuísse um papel central na construção de seu tom e estilo. Como o meio televisivo permite
uma imbricação muito forte do jornalismo com outras esferas – ficção, drama, humor –, não
se pode considerar que existem produtos puros na televisão, mas sim o resultado de múltiplas
hibridizações. Sendo assim, o presente trabalho efetua a análise de programas que se vinculam
ao jornalismo a partir de uma relação histórica com o campo e do reconhecimento pelos
agentes do campo e pela sociedade enquanto tal. Também se procurou priorizar programas
que estivessem inseridos num cenário comunicativo diverso. Assim, programas da TV aberta
comercial, da TV pública e da TV fechada entraram no corpus analítico aqui proposto, que é
18
composto por seis programas: entre os telejornais, o Bom Dia Brasil (Rede Globo), um dos
mais antigos que utilizam a conversação em sua estrutura, e Jornal das Dez7 (Globo News),
que traz a conversação atrelada a uma proposta de aprofundamento das informações, como é
típico dos telejornais do fim de noite. Entre os programas de entrevista, fazem parte deste
corpus o Roda Viva (TV Cultura), por representar o momento de consolidação e disseminação
dos programas de entrevistas na grade de programação televisiva brasileira desde os anos
1980, e o Marília Gabriela Entrevista (GNT), principalmente por ter como mediadora a
jornalista Marília Gabriela, com reconhecida trajetória no telejornalismo brasileiro por suas
entrevistas. Entre os programas de debate, subgênero pouco tratado na bibliografia nacional,
foram selecionados o Observatório da Imprensa (TV Brasil), programa que propõe um debate
sobre a mídia por meio da construção de uma mesa redonda, e o Sem Censura (TV Brasil),
um dos programas mais antigos da televisão brasileira, que tem como objetivo a troca de
informações por agentes de diversos campos sociais que podem interagir sob mediação da
apresentadora Leda Nagle. Os programas foram gravados aleatoriamente de 2006 a 2009,
mas, para efeito de exemplificação nas análises, foram selecionadas dez edições de cada
programa.
A partir das análises efetuadas e da bibliografia consultada, foi possível alcançar pelo menos
duas dimensões mais claras sobre a conversação no telejornalismo: primeiro, a conversação é
apresentada aos telespectadores como um fundamento do modelo dominante de jornalismo
que a utiliza para repercutir os assuntos provenientes da esfera pública habermasiana.
Associado a esta dimensão da conversação, é recorrente o uso de expressões como
“discussão” e “debate”, que ratificam um lugar discursivo de aprofundamento das
informações e busca pela verdade. Com isso, a conversação é vista como uma forma de o
jornalismo efetuar seu papel na democracia, promovendo, ele mesmo, uma esfera pública,
uma arena de discussão de temas de interesse público.
Em segundo lugar, a conversação é apresentada à audiência como o espaço em que a
informalidade prevalece no telejornalismo, permitindo uma aproximação com a audiência. O
sistema de referência (WILLIAMS, 1969) utilizado pelos produtos televisivos para salientar
esse aspecto é “bate-papo” e “conversa”, como se remetendo às práticas cotidianas entre
amigos. Deste modo, o telejornalismo reconfigura as expectativas da audiência sobre seu
7
Telejornal noturno exibido pelo canal jornalístico da Globo, a GloboNews. O telejornal possui um âncora e traz
especialistas para o estúdio para comentar os assuntos.
19
papel social e a reposiciona como cúmplice das posições trocadas em cena. A conversação é a
forma verbal por meio da qual o jornalismo televisivo mais se aproxima do campo do
entretenimento, possibilitando novas formas de recepção de seus produtos, baseadas na
informatividade aliada com à diversão.
Estes são os assuntos discutidos na terceira parte desta tese que aponta para elementos da
cultura jornalística dominante e as formas emergentes que brotam nos modos de
endereçamentos dos programas analisados. Não se pretende separar essas duas possibilidades
– a conversação como aprofundamento ou como informalidade - em esferas distintas, como se
cada programa se utilizasse apenas de uma dessas dimensões. Ao contrário, os dois sentidos
são vistos em todos os programas em maior ou menor grau, o que permite afirmar que já não
se pode conceber, na cultura contemporânea, um telejornalismo isolado de outras esferas –
como o entretenimento - ainda que os programas salientem isso para legitimarem-se no
campo.
Como desdobramento, conclui-se que o telejornalismo contemporâneo tem se inclinado para
dois aspectos emergentes. O primeiro diz respeito a uma temática voltada para o cotidiano, ou
pelo menos, para uma abordagem das questões mais amplas da sociedade – política e
economia – a partir de um enquadramento voltado para o vivido e experienciado no dia-a-dia.
A própria redefinição da esfera pública apara abarcar debates de outras naturezas – religiosos
(BURKE, 2006), feministas (FRASER, 2007), de classes sociais (SILVERSTONE, 2003) –
contribui para um tratamento dos assuntos pautados pelo jornalismo voltados para a
cotidianidade. Temas vinculados à esfera pública habermasiana não foram excluídos do
cenário da conversação televisiva, mas aparecem sob novo enfoque. Com isso, há uma
redefinição da noção de interesse público, demonstrada por meio do pacto sobre o papel do
jornalismo que os programas pretendem estabelecer com a audiência (GOMES, W., 2003).
Como desdobramento, aponta-se o testemunho como forma narrativa privilegiada no
telejornalismo contemporâneo, por permitir que os indivíduos em cena, inclusive os
jornalistas, relatem suas experiências, confessem, partilhem com o telespectador emoções e
sentimentos. Ao invés de direcionar-se para dados estatísticos que confirmem os
acontecimentos relatados e provas auxiliares que complementem as informações, a fim de
convencer a audiência sobre a veracidade das informações trocadas na conversa, o
20
telejornalismo contemporâneo, sobretudo o que utiliza a conversação como estratégia, se
apropria do testemunho, do depoimento pessoal sobre as experiências cotidianas e o simples
relato serve como prova de veracidade, uma vez que permite à audiência identificar-se com as
questões vividas. Nesses casos, a autoridade do mediador se desloca de um saber instituído
para um viver compartilhado e é nesse sentido que ele recebe credibilidade.
O acirramento da concorrência entre as emissoras e o surgimento de novos gêneros impõem
aos modelos tradicionais do telejornalismo uma reformulação, e a conversação se apresenta
como uma delas. Os elementos aqui apontados sobre os lugares da conversação no
telejornalismo não se pretendem, em nenhuma hipótese, exaustivos e definidores do campo
jornalístico. Indicam, porém, algumas reflexões válidas a se fazer sobre o jornalismo na
televisão e as múltiplas formas que ele pode assumir.
21
PARTE I
PONTO DE PARTIDA:
Perspectivas sobre a conversação e o jornalismo
A compreensão dos lugares da conversação no telejornalismo impõe a consideração de dois
fatores cruciais: as premissas e valores do jornalismo enquanto instituição social e os
constrangimentos impostos pelo ambiente televisivo. No que diz respeito ao primeiro aspecto,
o telejornalismo está ancorado sobre paradigmas historicamente formados no campo
jornalístico, premissas estas que lhe atribui legitimidade face a seus consumidores. Valores
como objetividade, interesse público, vigilância, atualidade, verdade e relevância se
estabeleceram como parâmetros para a consolidação do jornalismo enquanto instituição
responsável por nutrir a sociedade com informações relevantes para sua vida cotidiana.
O segundo quesito põe em causa os dispositivos de som e imagem que operam
discursivamente na lógica interna dos programas. Assim, não se pode dispensar as possíveis
articulações entre o conteúdo e os aspectos visuais (enquadramentos de câmera, recursos de
edição e montagem, imagens gráficas, imagens captadas pela câmera, postura dos sujeitos,
etc) e sonoros (entonações, trilhas musicais, efeitos sonoros, som ambiente, etc). A televisão
brasileira herdou do rádio uma estruturação que se baseia na possibilidade de interação entre o
sujeito representante midiático e os agentes externos ao campo televisivo, interação esta que
pode ser captada diretamente pela audiência, quando não, partilhada por ela.
Este capítulo tem como objetivo apresentar a concepção de conversação adotada neste
trabalho, bem como a de jornalismo, que permite a introdução da conversação como estratégia
de construção dos programas. Para tanto, será efetuada uma discussão sobre as abordagens
mais recentes que têm a conversação como foco de estudo e as apropriações que os
pesquisadores fazem da conversação para pensar a relação com a televisão. Num segundo
momento, discute-se o jornalismo enquanto instituição social formada num contexto
específico que produziu as premissas que ainda são empregadas como balizadoras do campo
profissional e da relação com a sociedade. Esfera pública, interesse público, quatro poder e
objetividade serão, portanto, discutidos a partir da dimensão cultural que permite
reconfigurações dessas premissas.
23
1. CONVERSAÇÃO, SOCIEDADE E TELEVISÃO
Segundo John Corner (1999), embora a televisão se diferencie dos demais meios de
comunicação pelo tratamento das imagens que dão substância aos conteúdos, é
principalmente por meio do verbal que a TV efetiva uma relação com a audiência. Não
obstante, para o autor, a fala, em suas mais variadas formas, é a característica mais marcante
da televisão e a conversação aparece como um significativo desdobramento das múltiplas
formas de falar que a televisão pode empregar. A conversação está presente desde a proposta
estrutural da televisão, até formatos específicos de programas e, por isso, ela está no centro
das atenções de pesquisadores que consideram desde o poder dos discursos efetivados por
meio da conversação transmitida pela TV (LIVINGSTONE e LUNT, 1994; LUNT e
STENNER, 2005) até os aspectos modais das conversações institucionalizadas (CLAYMAN
e HERITAGE, 2004; MARTÍNEZ, 2003; MATEU, 1998) e os formatos televisivos que nela
se baseiam (JONES, 2008; TIMBERG e ERLER, 2004).
A observação da conversação num meio institucionalizado, como a televisão, não impede
considerar, porém, que ela carregue regras e padrões das conversações experienciadas na vida
cotidiana das pessoas comuns e é justamente nessa aproximação entre a instituição televisiva
e a vida ordinária que a conversação ganha significado em programas jornalísticos. Segundo
Clayman e Heritage (2004), a conversação, ainda no ambiente radiofônico, era a maneira
preferencial de se dirigir aos ouvintes, uma vez que permitia certa espontaneidade (ou a
simulação dela) na transmissão das informações. Para John Corner (1999), a coloquialidade
permitida pela conversação tornou-se o veículo por meio do qual o rádio tratava seus ouvintes
como consumidores e a televisão contemporânea ratifica valores de informalidade e
espontaneidade por meio das conversações postas em cena. Por outro lado, a conversação
também pode ser apropriada nos programas fazendo referência ao debate público e ao
aprofundamento dos temas.
Para uma abordagem da conversação como aspecto constituinte de programas jornalísticos na
televisão, é relevante observar os marcos das conversações cotidianas e sua migração para o
campo jornalístico televisivo, assimilando certas propriedades e reconfigurando outras para
adaptar-se ao contexto midiático que a insere. Este capítulo parte de uma breve abordagem
sobre diferentes perspectivas acerca da conversação na vida cotidiana, enfatizando aquelas
24
que tratam a conversação enquanto prática social assimilada nos contextos da vida ordinária.
Parte-se do pressuposto de que a conversação é uma forma cultural sujeita a mudanças a partir
de macrovariações culturais, ou microvariações situacionais. Em seguida, o capítulo trata de
recentes pesquisas que têm a conversação institucionalizada no ambiente televisivo como foco
de investigação, especialmente as que se expressam como forma de entrevista e debate.
1.1. A conversação como forma cultural
Conquanto a conversação seja uma prática antiga, que se formou juntamente com o
desenvolvimento da linguagem8, as pesquisas acadêmicas que se destinam a compreendê-la
em seus múltiplos aspectos são mais recentes. Peter Burke (1995) afirma que somente após a
década de sessenta do século XX é que surgiram as disciplinas interessadas em compreender a
fala, e mais recentemente ainda é que elas vincularam a fala à vida cotidiana. Antes disso, a
conversação era tema de ensaístas que buscavam definir regras sociais a partir dos hábitos
instituídos nas formas de conversar. Do século XVI ao XVIII, a compreensão que se tinha da
conversação nas sociedades européias – mais especificamente Itália, França e Inglaterra – era
de uma prática desenvolvida pelas elites, bastante regradas por meio de convenções sociais
como polidez, delicadeza, silêncio e humor para tornar a conversa agradável. Nessa
perspectiva, os textos sobre a conversação eram mais uma descrição sobre a “arte de
conversar”, tomada como parâmetro normativo de conduta, ao invés de constituir-se
propriamente numa fonte de investigação sobre a sociedade e a cultura.
Tal preocupação se deu apenas com a emergência da sóciolinguística, da etnometodologia e
da história social da linguagem, na segunda metade do século XX, que trouxeram um método
científico que busca identificar nas trocas verbais cotidianas as normas por meio das quais as
pessoas interagem. Dois autores foram fundamentais para que a conversação fosse tratada sob
o ponto de vista acadêmico. Mikhail Bakhtin (1999), ao tratar do diálogo enquanto gênero do
discurso, promoveu uma aproximação dos pesquisadores com as interações verbais e não
simplesmente com os textos e monólogos. As proposições de Erving Goffman (1986) sobre o
contexto, por sua vez, parecem ter inspirado boa parte das pesquisas que se desenvolveram a
posteriori tratando a conversação como objeto central. Sendo assim, percebem-se duas
8
Segundo Stephen Miller (2006), a conversação surgiu há 50 mil anos, quando os povos primitivos começaram a
desenvolver a fala. Para Gabriel Tarde (1992), um importante impulso para a conversação foi o advento da
agricultura, que conferiu às pessoas mais tempo livre, “variedade de vida” (1992, p. 103) e ocasiões de reunião
para os indivíduos, que permitiu o desenvolvimento da língua e, por conseguinte, da conversação.
25
orientações para a abordagem da conversação. A primeira regulada paradigmas linguísticos
que se supõem universais, a segunda orientada para a compreensão da conversação no
contexto.
No que diz respeito ao primeiro aspecto, Catherine Kerbrat-Orecchioni (2006) faz uma
compilação de estudos dedicados à conversação, pondo ênfase, sobretudo, naqueles que se
aproximam da perspectiva lingüística. De acordo com a autora, a análise da conversação se dá
por meio de modalizadores, tais quais o sistema de turnos de fala, a função dos elementos
não-verbais e paraverbais, os quadros temporais e espaciais que envolvem a conversação, os
participantes envolvidos e seus objetivos. Embora considere o contexto como elemento
fundamental para a análise das interações verbais, o objetivo da análise da conversação é
encontrar marcadores operacionais que se apliquem aos diversos contextos em que as trocas
acontecem, limitando as múltiplas possibilidades que tem a linguagem de modificar-se e
adaptar-se.
O trabalho de Paul Grice (1979), cujo propósito era encontrar, nos diálogos, as ambigüidades
da linguagem, traz uma perspectiva sobre a conversação que a isola do ambiente no qual
acontece. Sendo assim, Grice (idem) aposta no princípio de cooperação como pedra angular
da prática conversacional, por meio do qual Grice (idem) afirma que “cada participante
reconhece entre seus interlocutores (sempre até certo ponto) um objetivo comum ou um
conjunto de objetivos, ou ao menos uma direção aceita por todos” (1979, p. 60). Esse objetivo
pode aparecer no início ou durante a troca, pode ser bem definido ou vago e é em torno dele
que a interação entre os participantes se processa. Para Grice (idem), um participante irá
contribuir com a conversa no limite em que for solicitado pelo objetivo ou pela direção aceita.
Como desdobramento, Grice (idem) estabelece quatro categorias nas quais há regras e
subregras mais específicas: quantidade, qualidade, relação e modalidade. A quantidade referese ao aspecto numérico que indica quanto de informação deve ser concedido. A qualidade está
relacionada à veracidade do que é dito e exige dos participantes duas posturas: não afirmar
algo que creia ser falso e não afirmar algo que não tenha provas. A relação traz em si apenas
uma regra: a da relevância, por isso o participante deve estar atento às mudanças do que pode
ser relevante, os procedimentos normais numa troca. A modalidade, ao contrário das outras
categorias, diz respeito ao como dizer e a regra deve prezar pela clareza: evitar ser obscuro,
evitar a ambiguidade, ser breve, ser metódico. Assim, Grice propõe um conjunto de regras
26
que devem se fazer presentes no ato conversacional. Não ocorrendo uma dessas regras ou
obliterando-as, ficam visíveis as ambiguidades envolvidas na troca.
Na contramão das perspectivas que se voltam para uma análise interna da linguagem, Erving
Goffman (1986) voltou-se à sociologia da vida cotidiana trazendo a idéia de que a realidade
social não deve ser limitada a regras definidas. Embora ele mesmo proponha normas para o
tratamento das situações cotidianas, as regras por ele estabelecidas não se propõem
exaustivas: “atores normalmente aparecem com cinco ou dez regras (assim como eu), mas há
não fundamento para pensar que milhares de outras considerações não possam ser listadas em
conjunto9” (GOFFMAN, 1986, p. 6). Sendo assim, a abordagem conceitual sobre a
conversação proposta por Goffman e os desdobramentos que se originaram de suas pesquisas
mostram-se bastante profícuos no que diz respeito ao relevo dado ao contexto em que a
conversação se processa. A proposta goffmaniana recai sobre uma descrição dos princípios de
organização das interações nos diversos ambientes a partir de parâmetros como o sistema de
réplicas e respostas. Assim, o autor efetua exercícios analíticos da conversação em ambientes
específicos como as conversas espontâneas da vida cotidiana e a institucionalização das
conversas radiofônicas.
Em seu trabalho mais clássico, Frame Analysis (1986), Erving Goffman congrega boa parte
de suas formulações sobre as relações sociais na vida cotidiana, tema de suas investigações,
apropriando-se do conceito central de frame, um quadro interpretativo segundo o qual os
indivíduos interagem e atuam ordinariamente. Os frames são princípios organizativos que
definem um evento social e o envolvimento subjetivo dos indivíduos neles, a fim de
perceberem o que está acontecendo ali. Assim, quando os indivíduos se colocam numa
situação, eles promovem um trabalho interpretativo que os ajuda a
estabelecer os limites do comportamento apropriado, o marco que distingue
o episódio e seus conteúdos de outras realidades sociais próximas ou
parecidas, qualificar os sujeitos segundo o tipo de papel que desempenham e
o personagem que encarnam na cena (WOLF, 1994, p. 35).
É por meio da interpretação dos frames que os indivíduos se apresentam na vida cotidiana
(GOFFMAN, 2005) e estabelecem parâmetros individuais que lhes permite efetuar uma
interação bem sucedida. A não interpretação das situações ou a exposição a eventos nunca
9
No original: “players usually come up with 5 or 10 rules (as I will), but there are no grounds for thinking that a
thousand additional assumptions might not be listed by the others”.
27
antes partilhados – como o morador rural numa grande cidade – provoca deslocamentos de
sentido que exigem a aquisição de uma nova gramática a fim de que os participantes possam
interagir adequadamente. Daí decorre que há uma competência cultural adquirida para efetuar
as interações de maneira pertinente
Tal pensamento de Goffman (idem) inspirou o desenvolvimento de uma corrente de
investigação voltada exclusivamente para a análise das situações interacionais que têm como
base a conversação na vida cotidiana. A Análise da Conversação10 apresenta um conjunto de
operadores analíticos que outorgam ao analista identificar os processos que compõem a
conversação, seja na sessão terapêutica, seja nas conferências de imprensa. Sendo assim, as
conversas na vida cotidiana se dariam com base na articulação dos turnos de fala11,
fechamento e pares adjacentes, propriedade dos pares adjacentes, seqüências laterais e
correções, que permitiriam encontrar padrões ritualizados e deslocamentos, transgressões e
desvios na fala. Assim, ao analisar uma sessão de terapia em grupo, Harvey Sacks (1974)
atenta para o funcionamento das sequências laterais como procedimento ritualizado segundo o
qual novas informações podem ser dadas pelos participantes, seja no início, no final ou
durante a troca. A questão contextual, nesse caso, considera o ambiente criado pela terapia em
grupo, que traz em si mesmo os pressupostos que regem o comportamento dos indivíduos
naquela situação específica: a intimidade, a troca de segredos. A mudança do ambiente
comunicativo traria como conseqüência uma mudança no modo de falar, o que provocaria
novos padrões de comportamento e de conversação. Assim, Sacks defende que o contexto que
envolve os participantes durante as interações define o uso da conversação e traz implicações
diretas sobre o modo de organização das falas em seu interior: “para a noção de
10
A Análise da Conversação é uma corrente de investigação variante da etnometodologia e da sociologia de
Goffman, que visa analisar tanto as interações interpessoais institucionais quanto as casuais. O objetivo é ver
como a conversação funciona em diferentes ambientes (settings). Assim, essa corrente considera como ajustes
convencionais os seguintes contextos: entrevistas, audiências, conversas telefônicas e jogos de cartas. Os autores
que fundaram essa corrente (por volta da década de 1960) foram Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail
Jefferson.
11
Os turnos de fala pressupõem certos marcos gerais, mas estes são negociados à medida que a situação de
comunicação muda. As regras gerais são: troca dos locutores; cada locutor possui uma vez de falar; podem haver
sobreposições de fala, mas elas são de curta duração; os locutores passam a palavra de um para outro, podendo
haver tanto a sobreposição quanto o silêncio nessa passagem; a ordem dos turnos não é estabelecida; a amplitude
do turno também não é estabelecida; a duração da conversação não é especificada; o que as partes dizem não está
especificado; a distribuição dos turnos não é fixa; o número de participantes é variável; o locutor pode escolher o
próximo locutor dirigindo-lhe uma pergunta; os turnos podem ser compostos por apenas uma palavra ou podem
ter duração mais longa; existem procedimentos para tratar os erros e violações (quando alguém vai interromper,
normalmente pede desculpas).
28
„conversação‟, assim como para a ampla gama de outras noções, seu locus conversacional é
relevante para qual uso se pretende fazer dele12” (1974, p. 37).
Na tentativa de trazer uma contribuição relevante, os autores da Análise da Conversação
apresentam-se demasiadamente normativos, configurando padrões muito específicos sobre
cada uma das etapas que envolve as trocas. Embora os critérios analíticos apresentados sejam
importantes para a verificação dos procedimentos conversacionais em situações reais, eles não
devem limitar as múltiplas possibilidades que os participantes possuem no uso da fala quando
estão em interação. Sendo assim, neste trabalho, a conversação é analisada como
procedimento ritualizado nas interações entre os falantes, mas também como forma cultural
praticada por meio da linguagem verbal e dos elementos performáticos que a ela se associam
(gestos, mímicas, expressões faciais, tom de voz, etc). Enquanto forma cultural, a conversação
está sujeita a alterações provenientes das variações culturais: novas formas de relações
interpessoais,
influência
dos
meios
de
comunicação
massivos
e
não-massivos,
constrangimentos políticos e econômicos (que permitem ou inibem os encontros
interpessoais), que se reconfiguram histórica e socialmente13.
Assumindo a conversação como “um tipo específico de ato de fala, evento de fala ou gênero
de fala”, Peter Burke (1995, p. 121) observa os diferentes modos de conversar estabelecidos
historicamente a partir de uma noção flexível da língua e da fala. Propondo uma história
social da linguagem, reconhece que a conversação só pode ser compreendida no interior da
cultura e a partir de elementos culturalmente forjados, como relações entre diversos grupos
sociais, os parâmetros sociais que regulam os temas sobre os quais se é permitido conversar,
entre outros. Burke (idem) chama atenção para os diversos usos que a conversação pode
12
No original: “(…) for the notion of conversation, as for an enormous range of other notions, its conversational
locus is relevant to what use you want to make of it”.
13
Por conta dessa relação com o contexto, certas modalidades conversacionais foram tomadas como paradigma
normativo. A conversação civil praticada nos café,s sociedades, clubes, por exemplo, deve ser compreendida a
partir da relação com a cultura européia dos séculos XVII, XVIII e XIX, momento de reconfiguração política das
nações assumindo a democracia como modelo de governo. A conversação era, portanto, assumida como uma
prática que deveria envolver todos os indivíduos a fim de discutissem assuntos de interesse geral e formulassem
opiniões melhor consolidadas. A partir disso, formou-se uma tradição de pesquisa na área de política e
comunicação baseando-se, principalmente, nos pressupostos da conversação como formadora da opinião pública.
Essa abordagem da conversação sob o ponto de vista político e a relação com a democracia será melhor
explicitada na parte III, no ítem “Jornalismo, conversação e democracia”. Por ora cabe apenas salientar que essa
perspectiva contempla uma dimensão cultural da conversação social.
29
possuir no interior da cultura. Por isso, o autor defende a conversação como uma forma
cultural presente na vida cotidiana que obedece às variações culturais que a cercam.
Ainda que aponte certos elementos dominantes nas formas de conversar, sobretudo nas
sociedades européias do século XVIII, Burke não ignora que tais procedimentos são resultado
de um processo histórico e estão relacionados aos hábitos das classes privilegiadas econômica
e politicamente. Sendo assim, o autor está atento às possibilidades de transformações das
normas conversacionais e por isso a idéia de “arte da conversação”, calcada no modelo inglês
de conversação esclarecida, pode ser negociada e atualizada a partir de outros referenciais. O
autor admite, igualmente, que tais normas não são nem fixadas no tempo, como se fosse um
eterno modelo a ser buscado, nem no espaço, considerando que outras sociedades, no mesmo
período, criam suas próprias regras de trato. A questão do tom da voz, por exemplo, é para
Burke um fator diferencial, uma vez que a concepção de “tom de voz baixo” é cultural.
Quando comparados aos finlandeses, os ingleses são muito menos tácitos do que aqueles. No
entanto, com relação aos latino-americanos, os ingleses podem ser vistos como frios e
taciturnos. Assim, a abordagem de Peter Burke nos permite fundamentar a conversação como
forma cultural que se modifica a partir dos processos sócio-históricos14.
São essas variações históricas e culturais que formatam certos tipos de fala praticados na vida
cotidiana e em ambientes específicos, como a televisão. Neste trabalho, associa-se a
conversação ao contexto do telejornalismo que por si só já impõe certos limites ao passo em
que estende a possibilidade de certos usos. Assim, a conversação será tratada no interior dos
programas que a instituem como estratégia de sua construção, considerando as diferenças
entre eles, mas também a partir de marcos culturais que se transferem da sociedade para a
cena televisiva. Segundo José Luis Braga, “para diversas atividades sociais – às quais é
possível fazer corresponder certos tipos de conversação – pode-se constatar regras de
procedimento que definem essas atividades, desde que elas sejam suficientemente repetidas”
(BRAGA, 1994, p. 293). O objetivo, aqui, não é tanto estabelecer regras de uso como se
14
A não consideração da conversação como uma forma cultural, mas como um elemento normativo da
sociedade, é o que leva a afirmações de que hoje já não existe mais conversação entre os indivíduos. Stephen
Miller (2006), também numa historiografia da conversação nas sociedades européias, aponta as práticas
conversacionais dos séculos XVIII e XIX como parâmetro rígido de todas as práticas posteriores. Por não
encontrar nas sociedades contemporâneas os mesmos elementos que no passado, o autor aponta para o declínio
da arte de conversar.
30
fossem válidas para qualquer programa jornalístico televisivo, mas identificar procedimentos
– temáticas, forma de obtenção da informação, relações estabelecidas entre os participantes que, pelo uso constante, configuram características do telejornalismo contemporâneo.
1.2. Aproximações entre conversação, televisão e telejornalismo
Segundo a Análise da Conversação, certos marcos contextuais impõem limites e modos de
fazer específicos sobre a conversação e criam formatos institucionalizados que obedecem
mais ou menos aos mesmos princípios. Segundo Marianthi Makri-Tsilipakou (2004), a
conversação institucionalizada na televisão é orientada a um objetivo específico, os
participantes conduzem sua conduta com base nesse objetivo, que envolve constrangimentos
particulares. Na televisão, a conversação tem-se institucionalizado como entrevista ou debate.
O precedente histórico para isso é o advento dos talk shows, inicialmente na televisão norteamericana, e após os anos1990, pelo resto do mundo.
Segundo François Jost (2006), a nomenclatura do gênero15 oferece uma promessa ontológica
por meio da qual os telespectadores estabelecem suas expectativas com relação aos produtos
nele inseridos. Nesse caso, portanto, a expectativa seria consolidada em torno da conversação
(“talk”) e do entretenimento (“show”). Como a maior parte da bibliografia que se dedica ao
tema da conversação na televisão é de língua inglesa, o termo “talk show” funciona como um
“guarda-chuva” que insere tanto os programas direcionados ao debate de assuntos públicos,
quanto aqueles que exibem apresentações musicais, anedotas e piadas. Assim, a mesma
nomenclatura envolve produtos de natureza distinta, que despertam expectativas diferentes na
audiência16. Bernard Timberg e Robert Erler (2004) ressaltam que tanto a proposta quanto a
natureza dos talk shows norte-americanos se distinguem em função da faixa horária. Os
programas do início da madrugada, chamados late-night entertainment shows, tornaram-se o
modelo dominante de talk show a partir dos anos 1950 e exibem entrevistas ao lado de shows
de comédia estrelados pelo apresentador. Os programas vespertinos, denominados pelo autor
como
daytime
audience-participation
shows,
ou
“audience
participation
debate”
(LIVINGSTONE e LUNT, 1994) se basearam em programas radiofônicos e tinham como
15
O conceito de gênero televisivo será abordado detalhadamente no próximo capítulo. Por ora, cabe defini-lo
como “formas reconhecidas socialmente a partir das quais se classifica um produto midiático” GOMES, I., 2007,
p. 19).
16
Uma análise um pouco mais detalhada sobre o tema encontra-se em SILVA, 2009.
31
finalidade colocar a platéia em contato direto com celebridades e especialistas. Por fim, os
matutinos, também herdados da tradição de rádio, promoviam uma mistura entre notícias e
entrevistas, sendo conhecidos como early-morning news talk magazines.
Apesar da nomenclatura generalizante, autores mais vinculados ao jornalismo efetuaram uma
separação do modelo de entrevista desempenhado no jornalismo e fora dele, visando destituir
do cerne do campo jornalístico qualquer diálogo com o mundo do entretenimento. Manuel
Mateo (1998) distingue o caráter das entrevistas jornalísticas das que são voltadas para o
entretenimento, por exemplo, a partir do papel dos entrevistadores, lugar discursivo concedido
à fonte, temática abordada e a construção da cena televisiva que abarca a troca. Sendo assim,
nas entrevistas jornalísticas, o apresentador é o condutor de perguntas que visam transmitir o
conhecimento do entrevistado para a audiência, que é posicionada enquanto aprendiz. Sua
função no programa é dar visibilidade à fonte, um especialista ou representante oficial, que
concede informações relevantes e atuais. O cenário discreto visa colocar ênfase apenas na
conversa entre os participantes, dando destaque às informações trocadas.
A entrevista “diversional”, por sua vez, estrela um apresentador-celebridade notadamente
conhecido pelo público pela performance humorística. Geralmente, essas personalidades têm
sua trajetória construída no stand-up comedy, e levam para o programa piadas, anedotas,
sketches e paródias. Os entrevistados pertencem ao mundo midiático e comparecem ao
programa para servir de pretexto para as piadas do apresentador. Mesmo os representantes
políticos que comparecem a esses programas são enquadrados nessa perspectiva, como se
toda a cena fosse um grande show de comédia. No que diz respeito ao tratamento de
informações, por vezes a entrevista assume um teor sarcástico ou irônico sobre os fatos e os
representantes dos poderes públicos. O amplo cenário que envolve a troca compreende uma
platéia, que interage por meio de aplausos, risos, vaias, etc, um espaço para apresentação
musical, e uma banda responsável pela musicalidade do programa.
Clayman e Heritage (2004) afirmam que, embora as fronteiras entre esses formatos
jornalísticos e não-jornalísticos sejam “frouxas”, é possível efetuar uma distinção que isola a
entrevista jornalística das demais, associando-a ao campo político e a parâmetros do
jornalismo. Deste modo, é por meio das entrevistas que os assuntos referentes ao interesse
público geral são discutidos com os representantes das esferas de poder, configurando um
32
papel social relevante na formação de uma esfera pública contemporânea. Assim, segundo os
autores, a entrevista jornalística é
um locus de encontros diretos e essencialmente espontâneos entre jornalistas
e uma ampla variedade de figuras públicas, incluindo oficiais do governo
nos mais altos cargos. É uma arena na qual jornalistas representam certas
funções democráticas: solicitando declarações sobre políticas oficiais,
mantendo os políticos responsáveis por suas ações, e controlando os
parâmetros do debate público, tudo isso sob o escrutínio da cidadania17
(CLAYMAN e HERITAGE, 2004, p. 2).
Sendo assim, é possível identificar, entre os autores que buscam compreender a conversação
em suas formas institucionalizadas, primeiro uma distinção rígida entre o jornalismo e o
entretenimento; segundo uma concepção de jornalismo a partir de sua vinculação com a
política e seu papel enquanto serviço público. Como conseqüência, esses autores oferecem,
por um lado, descrições detalhadas sobre a conversação jornalística, marcadamente no
formato de entrevista, a partir de parâmetros provenientes do campo: credibilidade,
autenticidade, objetividade.
Se hoje a entrevista é uma prática por excelência do jornalismo para a obtenção das
informações, é verdade, também, que essa aproximação se deu historicamente a partir do
advento do jornalismo informativo no século XIX. Segundo Michael Schudson (2003), a
obtenção de informações é uma prática dispersa nas atividades cotidianas que se caracteriza
pela sua não-especialização, espontaneidade e mutualidade. No entanto, a obtenção de
informações por meio do binômio pergunta/ resposta tem sido associada à prática dos
jornalistas baseadas no modelo da entrevista que, ao contrário das interações cotidianas, é
sistematizado e bastante regrado. A emergência da entrevista como prática legítima do
jornalismo aconteceu paralelamente à profissionalização dos repórteres e sua busca por
autonomia. Embora fosse vista com desconfiança por parte de jornalistas mais experientes e
das fontes – que temiam por uma invasão de privacidade - a entrevista instituiu-se como
prática jornalística quando o repórter ganhou o atributo de intérprete privilegiado da realidade,
já no início do século XX.
17
No original: “it is a locus of direct and essencially unscripted encouters between journalists and a wide range
of public figures, including government officials at the highest levels. It is an arena in which journalists perform
certain core of democratic functions: soliciting statements of official policy, holding officials accontable for their
actions, and managing the parametres of public debate, all this under the immediate scrutinity of citizenry”.
33
Como ainda era uma novidade, não havia regras muito bem definidas sobre como executar e
publicar uma entrevista. No final do século XIX, os repórteres conversavam com as pessoas
públicas e usavam suas declarações para escreverem textos ensaísticos sobre os assuntos. Não
havia referência à fonte ou citações que confirmassem suas declarações. Segundo Schudson
(2003), o jornalista Horace Greeley, do New York Tribune, foi o primeiro a publicar uma
entrevista, no modelo hoje conhecido como “pingue-pongue”, em 1859. Como o formato
ainda era novo tanto para seus pares quanto para seus leitores, o jornalista precisou esclarecer
seu procedimento para o público: “isso é a substância de quase duas horas de conversa, na
qual muito foi dito incidentalmente, sem merecer ser reportado, ainda que eu pudesse lembrar
e reproduzir18” (2003, p. 74).
Entretanto, não se deve desconsiderar que, justamente pelas reconfigurações históricas, tanto
a entrevista quanto o jornalismo receberam novos significados. Segundo Erler e Timberg
(2004), o acirramento da concorrência das TVs públicas e comerciais norte-americanas com o
novo sistema de telecomunicações – composto, também, pela internet, por vídeo-games e
pelas TVs a cabo – levou a uma reconfiguração dos modelos já consagrados de talk shows. A
comédia, a sátira e a ironia pareciam novos caminhos adotados pelos programas para o
tratamento dos assuntos, inclusive, e principalmente, os que se referiam ao campo político. Os
autores resumem a década de 1990 como um período caracterizado por três tendências: a
institucionalização de talk shows, a experimentação de novas formas em antigos formatos e a
criação de programas híbridos ainda não consolidados. As distinções entre os talk shows
voltados para o entretenimento e os programas jornalísticos de conversação foram se
estreitando cada vez mais19. Segundo os autores, “no início dos anos 1990 muitos
apresentadores de talk shows televisivos ganharam projeção nacional pela combinação de
notícias, assuntos públicos (public affairs) e entretenimento em formatos de talk show novos
ou reciclados20” (2004, p. 158).
18
No original: “such is, as nearly as I can recall, the substance of nearly two hours of conversation, wherein
much was said incidentally that would be not be worth reporting, even if I could remember and reproduce it”.
19
Nesse cenário, o programa Politically Incorrect, exibido pelo canal Comedy Central, levou ao ar uma
conversação bem humorada, desempenhada por não-especialistas, sobre assuntos provocativos: pena de morte,
discriminação, etc. Com isso, o Politically Incorrect rompeu os parâmetros para a conversação política, baseada
no consenso e no conhecimento especializado dos participantes, e inaugurou um novo modo de fazer que
demandava da audiência alto nível de sofisticação política e cultural.
20
No original: “in the early 1990s a number of television talk-shows hosts rose to national prominence by
combining news, public affairs, and entertainment in new or recycled talk-show formats”.
34
As mesmas observações podem ser vistas na bibliografia referente aos programas de debates.
Também inseridos na nomenclatura “talk show”, os programas de debate se propõem a um
espaço de diálogo com uma platéia que participa do programa podendo tirar dúvidas, fazer
comentários, etc. Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) afirmam que nesses programas o
conhecimento especializado é substituído pelo conhecimento leigo, que interpela a audiência
a partir do que é vivido. O participante do programa, portanto, não possui credibilidade pelo
saber instituído, mas pela experiência. Nesse caso, o que definiria a dimensão de “debate” é a
participação e a pluralidade de vozes. A contradição de idéias não é um critério rigoroso para
a existência de um debate nesses programas.
Arquembourg, Lochard e Soulages (2006) possuem uma perspectiva diferenciada, percebendo
na televisão francesa modelos diferentes de debates, que migraram de uma abordagem mais
informativa para uma mais vinculada à lógica do entretenimento:
Esses programas, que estavam inscritos inicialmente numa filiação
informativa, escaparam, hoje, do controle das redações das emissoras. Eles
são produzidos, como a quase totalidade dos programas de fluxo
(entretenimento, jogos), por sociedades de produção privada, dirigidas por
apresentadores de forte notoriedade que se constituem na figura de proeza e
a essência do valor mercadológico21 (ARQUEMBOURG, LOCHARD e
SOULAGES, 2006, p. 43).
Os autores consideram que, historicamente, os programas de debate possuem abordagens
distintas: uma, mais tradicional, vinculada aos debates da sociedade e da política a partir de
um ideal de serviço público que as televisões francesas públicas buscavam cumprir, e um
modelo mais próximo do entretenimento, que se formou a partir da privatização das redes
televisivas.
Seguindo uma abordagem semelhante, Henrik Örnebring (2003) apresenta uma caracterização
histórica dos programas de debate que permite compreender as modificações do gênero ao
longo dos anos. Segundo o autor, os programas de debate suecos se distribuem em três fases.
A primeira, denominada por ele como “debate cortês”, se desenvolveu de 1956 a 1968, e era
21 No original: “Ces programmes, qui éteint inscrit initialement dans une filiation informative, ont aujourd‟hui
pour l‟essentiel échappé au contrôle des rédactions des chaînes. Il sont produit, comme la quasi-totalité des
programmes de flux (divertissement, jeux), par des societés de production privées, dirigées par des animateurs à
forte notorieté que en constituent les figures de proue et l‟essentiel de la valeur de merchande ».
35
caracterizada pela presença de uma elite intelectualizada – políticos, professores, jornalistas,
representantes de organizações - a fim de educar a população. A função do mediador era
organizar o debate, garantindo que todos os participantes pudessem falar e replicar,
funcionando de forma semelhante aos debates parlamentares. A cordialidade era a marca
central das conversas e não havia pretensão de confrontar opiniões diferentes, mas de
complementá-las, a fim de firmar um consenso e apresentá-lo à audiência.
De 1968 a 1984 a televisão viveu uma nova fase. O ano de 1968, com as manifestações
estudantis, a luta por direitos igualitários, os movimentos em defesa das minorias, criou uma
audiência mais combativa e crítica e, por conseguinte, modificou as expectativas com relação
aos meios de comunicação. A postura consensual do período anterior deu lugar a uma atitude
questionadora e confrontadora por parte do público. Desta forma, os programas televisivos
também precisaram se reconfigurar para levar à audiência um “debate crítico”. Como a
finalidade era o confronto de idéias, os convidados, obrigatoriamente, possuíam pontos de
vista diferentes. O público ganhou maior participação e os jornalistas destacavam-se no papel
de levar informação e esclarecimento sobre as instâncias de poder.
Nesse período, era possível notar uma variedade de modelos de construção dos programas. Os
programas consensuais do período anterior sobreviviam com o objetivo de educar a audiência.
No entanto, eles dividiam espaço com duas programações distintas: um jornalismo mais
crítico, que tratava de problemas sociais, e programas mais relacionados ao entretenimento,
em decorrência do surgimento de um segundo canal televisivo na Suécia que precisava
prender a atenção da audiência. A presença de artistas como convidados e a postura de
apresentadores que intervinham mais na entrevista figuraram uma nova gramática desses
programas, que se consolidou no período posterior.
O acirramento da concorrência entre a TV pública e a TV comercial na Suécia provocou
novas formas de atrair a atenção da audiência. O avanço da tecnologia, que permitiu o uso de
novos recursos da linguagem televisiva (como a edição de matérias em formatos de clipe, a
utilização de recursos visuais e sonoros), e a cópia de modelos televisivos norte-americanos
(como o programa The Phil Donahue Show) levaram a uma fase denominada por Örnebring
(idem) como “debate popular”, que transcorreu de 1984 a 1996. A pornografia, as brigas entre
maridos e esposas, a fidelidade entre os casais tornaram-se a temática privilegiada dos
36
programas. A abertura para a participação da pessoa comum e a elevação dos apresentadores
ao nível de celebridades também se tornaram a marca dos debates, que abandonavam o ponto
de vista especializado para adotar uma versão do mundo a partir do conhecimento popular.
A falta de registros históricos sobre programas de debates, no Brasil, inviabiliza a
compreensão das transformações ocorridas no subgênero. Sabe-se que, nos anos 1950, os
programas de debates surgiram no formato de mesa redonda com a proposta de oferecer aos
telespectadores um debate sobre assuntos de interesse público. Esse “interesse público” se
cumpria na apresentação de “crianças aleijadas e seu arrimo, a muleta” (JORNAL DO
BRASIL apud FREIRE FILHO, 2004, p. 92). Além desses, eram comuns as mesas redondas
esportivas para discutir sobre o último jogo e os placares da rodada22. Como a televisão, no
Brasil, já nasceu comercial, era comum que a programação se dirigisse a áreas ligadas ao
entretenimento. Ao mesmo tempo, o momento político brasileiro, com uma democracia ainda
instável, não permitiu que esse subgênero se consolidasse por meio do debate entre
candidatos, ou pela discussão de melhores propostas de governo. Assim, se se pode efetuar
uma comparação dos programas de debate brasileiros com os europeus, é possível notar uma
inversão: a vinculação com o âmbito do entretenimento se deu originalmente e, apenas com o
processo de redemocratização do país, é que ele passou a ser um subgênero vinculado a
assuntos que fomentassem discussão pública.
É muito comum, tanto na bibliografia disponível sobre o tema, quanto nos programas e na
crítica televisiva, um imbricamento dos sentidos de entrevista e debate: toma-se um pelo
outro, como se debate se referisse ao modo como a conversação é praticada. Assim, as
entrevistas são usadas como gancho para engendrar um debate. Nesses casos, é possível
perceber que o que melhor caracterizam um debate é: a troca de idéias, independentemente de
onde se pretende chegar, e a contradição de idéias, quando as posições de um são colocadas
contra outro interlocutor. Assim, os programas de debate põem em prática uma das duas
formas.
No Brasil, o desenvolvimento de programas que usam a conversação como estratégia central
de construção se deu de modo a valorizar ainda mais as distinções entre os gêneros
22
O primeiro registro que se tem sobre esse formato no jornalismo esportivo é o programa Mesa Redonda,
exibido pela TV Record, em 1954. Segundo André Ribeiro (2007), esse programa foi o “precursor das atuais
mesas de debates esportivos exibidas nos finais de semana” (2007, p. 158).
37
jornalísticos e os que se vinculam ao entretenimento. Tanto que a importação da designação
“talk show”, aqui, é mais recente, a partir dos anos 1990 e da estréia do programa Jô Soares
Onze e Meia, pelo SBT. A disseminação do uso do termo se deu por conta da proximidade
visual que o programa brasileiro efetuava com o The Late Show with David Letterman, talk
show criado nos anos oitenta. Até então, a designação mais comum era “programas de
entrevistas”, formato cuja ascendência remete ao período final da ditadura militar, no qual o
telejornalismo se abriu a novas possibilidades de emprego da gramática audiovisual, criando
novos produtos. Do ponto de vista do conteúdo, prevaleceu a abordagem política e o
desempenho da função política do jornalismo de cobrar mudanças – naquele contexto, essas
mudanças se referiam ao retorno à democracia. Outros programas que tinham a conversação
como estratégia foram excluídos da narrativa sobre a história do telejornalismo e encerrados
em gêneros distintos, mais vinculados ao entretenimento.
É nesse sentido que se faz necessário reconstruir uma noção de jornalismo que abarque essas
transformações a partir de sua processualidade. A conversação, portanto, quando associada ao
telejornalismo, recebe diferentes contornos do que normalmente é apresentado pelos autores.
Reposicionar o jornalismo, enquanto instituição social em formação, é o primeiro passo para a
compreensão das configurações possíveis que a conversação pode receber no telejornalismo,
seja a partir de uma atualização dos formatos de entrevista e debate, seja pela instauração de
novos usos. É nesse sentido que o capítulo seguinte se encaminha, propondo uma perspectiva
de jornalismo que dê conta de suas configurações na contemporaneidade.
38
2. O JORNALISMO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA
Considerando as revoluções burguesas (marcadamente a revolução industrial e as revoluções
político-sociais da França e da Inglaterra), o Iluminismo e a formação das democracias
européias como fatores contextuais determinantes para a institucionalização do jornalismo,
boa parte dos estudos do jornalismo assume as premissas formadas nesse cenário, há dois
séculos, como parâmetro normativo para o exercício do jornalismo contemporâneo. Assim, o
jornalismo teria a função de informar a sociedade sobre os fatos de interesse público de
maneira objetiva. As práticas jornalísticas calcadas nesses parâmetros são tomadas como o
modelo de referência, o discurso auto-legitimador do jornalismo ou ainda o modelo
dominante.
O que aqui se pretende desenhar é um olhar culturalista sobre o jornalismo, que traz
implicações relevantes sobre a forma como ele é concebido ao se articular com a cultura.
Reconhece-se que as premissas formadas nos séculos XVIII e XIX existem ainda hoje
definindo as expectativas sociais sobre seu papel. No entanto, elas não se constituem da
mesma maneira, oferecendo releituras em função de adaptações nas sociedades que as
incluem. Assumir, portanto, que o jornalismo é uma instituição social, na concepção dos
Estudos Culturais, significa reconhecê-lo como prática cultural em permanente transformação,
enquanto processo23. Segundo Peter Dalhgren,
com os Estudos Culturais testemunhamos um esforço teórico mais ambicioso
e sistemático para examinar a natureza do jornalismo, freqüentemente
colocando em questão as demarcações que o jornalismo faz entre ele próprio
e outras formas de produções mediáticas24 (DALHGREN, 2003, p. 3).
Deseja-se efetuar essa abordagem em torno de quatro aspectos que parecem centrais para a
concepção do jornalismo hodierno. O primeiro é a noção de esfera pública, tal como pensada
por Jürgen Habermas (1984) como “categoria da sociedade burguesa”, que permite pensar o
jornalismo na relação com os campos político e econômico, mas abre-se para incluir versões
alternativas, voltadas para o sensível e emocional. A consideração da esfera pública traz como
desdobramento a redefinição de outra premissa fundamental: o interesse público e, com ele, a
23
Ver PARTE II, “A natureza processual do telejornalismo”.
No original: “[...] with cultural studies we witness more ambitious and systematic theoretical efforts to
examine the nature of journalism, often putting into question the demarcations which journalism draws between
itself and other forms of media output”.
24
39
própria noção de público, que passa a considerar a multiculturalidade. O terceiro aspecto
tratado é a questão do quarto poder e do exercício de vigilância efetuado pelo jornalismo, que
agrega valores de independência e autonomia profissional. Em quarto lugar, a própria função
assumida pelo jornalismo para representação dos fatos cotidianos para o público e os rituais
usados para isso, especialmente a objetividade.
2.1. O jornalismo e as esferas públicas
Desde a publicação do livro “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, em 1964, até hoje, o
conceito de esfera pública, formulado por Jürgen Habermas, já foi criticado, ampliado,
negado e reconfigurado para se adaptar às recentes condições da política e das comunicações
de massa contemporâneas25. Tais críticas provêm da origem do conceito de esfera pública
que, para Habermas, estava concretizado na sociedade inglesa do século XVIII. O autor
define a esfera pública como
a esfera das pessoas privadas reunidas em um público; elas reivindicam esta esfera
pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a
fim de discutir com ela leis gerais da troca na esfera fundamentalmente privada, mas
publicamente relevante, as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social
(HABERMAS, 1984, p. 42).
Nesse fórum público de debates, os indivíduos possuíam apenas duas armas: o argumento e a
discursividade. Assim, era por meio das conversações que argumentos racionais eram
formulados e trocados. Só poderia haver deliberação por meio da argumentação. O conceito
de esfera pública está estritamente ligado à formação do Estado moderno e também ao
Iluminismo, uma vez que era pelo exercício da ratio que todos os indivíduos poderiam ter
acesso ao debate público. A finalidade última era a formação da opinião pública, um conjunto
de vontades consensuais, obtido por meio do debate argumentativo racional.
Duas instituições emergem como instrumentos da esfera pública: o Parlamento é a
concretização e institucionalização da esfera pública que se dá entre agentes profissionais e
não mais com o público; e a imprensa, com o papel de informar, criticar e educar, fornecendo
os temas que entrarão no debate público.
25
Apenas para citar alguns autores, Peter Burke e Asa Briggs (2006) mostram que, ainda no século XV, a
população de Florença se reunia em praça pública para discutir questões políticas fomentando uma esfera
pública; Nancy Fraser (2007) afirma uma ampliação da noção de esfera pública para incluir o feminino; Roger
Silverstone (2003) aponta para a “suburbanização” da esfera pública.
40
O próprio Habermas, quando aponta para uma mudança estrutural, afirma o esvaziamento da
esfera pública, sua encenação na vida pública por conta de transformações nas condições que
permitiram sua origem. Três mudanças foram significativas para reconfiguração desse cenário
no século XX: 1) mudança de mercado - que passou a incorporar grandes empresas e
alcançou-se maior nível de competitividade; 2) acessibilidade – o debate público passou a
representar interesses de classe e não mais dos indivíduos reunidos num público; 3) esfera
privada – as ações do Estado passam a se desenvolver para o indivíduo e não mais para a
família. Ora, se o contexto que permitiu o surgimento da esfera pública mudou a tal ponto que
reconfigurou suas características básicas – a acessibilidade, a discursividade e a racionalidade
– já não pode mais existir esfera pública, conclui Habermas. O que existe, segundo o autor, é
algo muito semelhante a ela, apenas como valorização de índices que ainda dão sustentação
ao Estado democrático de direito, a opinião pública seria o principal deles.
Num texto um pouco posterior, Habermas resume a falência da esfera pública:
a idéia de esfera pública, preservada no Estado de bem estar da democracia
de massa, uma idéia que reclama a racionalização do poder através do
intermédio da discussão pública entre indivíduos privados, ameaça se
desintegrar com a transformação estrutural da própria esfera pública26 (1974,
p. 55).
A questão que se apresenta como pano de fundo é: a esfera pública, compreendida como “o
âmbito da vida social em que se realiza, em várias arenas, por vários instrumentos e em torno
de variados objetos de interesse específico, a discussão permanente entre pessoas privadas
reunidas num público” (GOMES, W., 2005, p. 16), deixou de existir ou ela pode se
reconfigurar para incluir outras práticas?
A formulação de Habermas apresenta-se demasiadamente fechada a qualquer outro contexto
em que a troca de argumentos sobre quaisquer assuntos poderia se dar. Assim, o conceito de
esfera só se aplicaria, de fato, na Inglaterra do século XVIII, o “caso modelo” adotado pelo
autor. Quando Peter Burke e Asa Briggs (2006) afirmam que desde o século XVI, em países
como Alemanha, França e Holanda, houve a formação de uma esfera pública por conta das
26
No original: “The idea of the public sphere, preserved in the social welfare state mass democracy, an idea
which calls for a rationalization of power through the medium of public discussion among private individuals,
threatens to disintegrate with the structural transformation of the public sphere itself”.
41
lutas religiosas da Reforma, eles procuram deslocar a existência da esfera pública de um
âmbito tão restrito, e passam a incorporar o conceito, praticado nos mesmos moldes, a uma
situação que não era propriamente política, necessitando de outras instituições. Os autores
apontam, inclusive, o papel da mídia que, por meio de panfletos, cumpria uma função
semelhante à dos jornais opinativos no século XVIII.
Para se compreender a validade do conceito de esfera pública na cultura contemporânea, é
necessário apontar as transformações sociais, políticas e econômicas como um novo contexto
que implica em novas formas de argumentação e novas estratégias discursivas – não somente
o argumento – para asseverar o debate público. Uma dessas transformações diz respeito ao
papel da imprensa que, segundo Habermas, está no centro das modificações da esfera pública.
Fazendo uma leitura do texto clássico de Habermas, Wilson Gomes resume essa mudança de
papel dos meios de comunicação e sua interferência do enfraquecimento da esfera pública:
No modelo liberal, a imprensa era ao mesmo tempo um lugar, uma ocasião e
um meio da pública comunicação. Nela, por ela e com ela se estabelecia o
debate aberto e racional acerca de quaisquer objetos de interesse comum
levado a termo por um público de pessoas privadas aptas para o uso público
da razão. A opinião pública emerge desse debate como a sua meta alcançada.
Na contemporaneidade, a imprensa finda por ser o lugar, ocasião e meio pelo
qual aquilo que se quer que se torne opinião pública deve circular para obter
assentimento dos privados. Não é um meio de debate do qual se espera
emergir uma opinião, mas um meio de circulação de opiniões estabelecidas
às quais se espera uma adesão, o mais amplamente possível, de um público
reduzido a uma massa chamada de tempos em tempos a agir
plebiscitariamente9. Uma esfera pública constituída dessa arte não passa de
um meio de propaganda (GOMES, 2005a, p. 24).
A compreensão de Habermas sobre o papel da imprensa ressalta os modelos de jornalismo
que se sucederam nos século XVIII e XIX: o opinativo e o informativo, respectivamente.
Assume o autor que pelo jornalismo opinativo, o público poderia se inserir num debate
fornecendo, ele mesmo, suas opiniões. Por conta disso é que os jornais desse século passam a
trazer a seção de carta dos leitores, como forma de dar visibilidade a problemas e queixas
públicas. A imprensa informativa, por outro lado, era responsável por nutrir a sociedade com
informações concernentes à vida pública e ao interesse público. Habermas adverte que “só
existe uma imprensa em sentido estrito a partir do momento em que a transmissão da
informação regularmente torna-se pública, ou seja, torna-se por sua vez acessível ao público
em geral” (1984, p. 30). Ao efetuar uma crítica à nova “esfera pública”, afirmando-a como
uma encenação, Habermas considera o papel dos mass media (não mais a imprensa
42
exclusivamente) em fornecer opiniões já formuladas e apenas transmiti-las ao público, que
adere a elas sem envolver-se num debate racional, critério primeiro para a existência da esfera
pública.
A crítica efetuada por Habermas e a postulação do declínio da esfera pública na
contemporaneidade permite pensar em dois elementos: a compreensão do lugar da recepção; a
inclusão de outras formas comunicativas que não apenas o jornalismo e, consequentemente,
perceber-se-á uma transformação no sentido de esfera pública, pois já não se trata da imprensa
e seu papel, mas da mídia em geral. Sobre o lugar da recepção, Habermas a destitui de
qualquer possibilidade de reação ou mesmo da formação espontânea, na vida cotidiana, de
conversas privadas em ambientes privados. Na contemporaneidade, os indivíduos seriam
seduzidos pelas estratégias midiáticas de convencimento, chegando a um consenso formulado
previamente:
este convencimento prescinde da discussão e da racionalidade, porque não
quer conseguir convicção lógica: precisa, sim, da simpatia, da boa vontade,
da adesão não importando se a sua origem é racional ou meramente
emocional – por isso serve-se da sedução (GOMES, 2005a, p. 24).
Parece, porém, que os procedimentos do jornalismo continuaram os mesmos: fornecer
informações para que, num segundo nível, os indivíduos engajem-se em conversações a fim
de formar uma opinião consensual. Isso porque o discurso dominante do jornalismo assume,
ainda, a fomentação de uma esfera pública racional como seu papel político. A dimensão
habermasiana de esfera pública, portanto, permanece enquanto ideal do jornalismo e,
consequentemente, qualquer atividade que não ratifique a racionalidade e a argumentação é
considerada externa ao campo jornalístico. Örnebring e Jönsson (2001) afirmam que
concepção da esfera pública exclui outras práticas de jornalismo, como o tablóide, acusado de
sensacionalismo, de enfatizar a emotividade e de simplificar questões complexas. A
tabloidização se transfere da imprensa, local onde surgiu, para as mais variadas formas de
jornalismo, em especial o televisivo. O jornalismo tablóide é tomado, pelo discurso
dominante, como “mau jornalismo” por se opor à seriedade, responsabilidade, atividade
crítica que o “bom jornalismo” deve possuir. Posto que o jornalismo tablóide sempre existiu,
acompanhando o modelo dominante, os autores propõem a consideração de uma esfera
pública alternativa, na qual o jornalismo tablóide se coloca como instância de mediação para
dar espaço a públicos marginalizados do discurso dominante.
43
O mesmo argumento é dado por Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) ao tratarem os talk
shows como espaço de visibilidade de assuntos e pessoas que normalmente não aparecem no
jornalismo. Os autores chegam a afirmar essa esfera pública alternativa, que pode se formar
em diversos espaços, como uma esfera pública oposicional, oferecendo resistência ao padrão
dominante. Nisso, a televisão pode oferecer uma importante contribuição ao se constituir, ela
mesma, numa arena de debates, levando ao estúdio pessoas que não têm acesso aos
representantes públicos que podem direcionar suas questões e pautar assuntos que são de
interesse privado27.
2.2. Qual o público do interesse público?
A idéia de que o jornalismo deve agir como formador de uma esfera pública dá relevo à
dimensão social da prática jornalística, ou seja, de uma atividade voltada para a esfera civil. O
jornalismo foi-se configurando como instituição direcionada para o público e para todos os
seus derivados: “opinião pública”, “interesse público”, e as expressões que são tomadas,
muitas vezes, como seus sinônimos: “cidadão comum”, “bem comum”, etc. Todos esses
termos têm sido traduzidos pela expressão “interesse público” e é ela que, segundo Wilson
Gomes (2005a), está no coro da institucionalização do jornalismo e na fundamentação de seu
papel social.
Nelson Traquina (2004) aborda o “interesse público” a partir de um olhar idealista do
jornalismo, como se esta fosse sua missão: “interesse público” refere-se ao papel da mídia de
representar a sociedade e seus interesses, à defesa dos cidadãos contra um governo autoritário
que destitua a ordem social e roube as liberdades individuais, à função de levar ao público as
informações que precisam para exercerem sua atividade política na vida cotidiana. Assim, a
idéia de “interesse público” também se alia fortemente à da formação de uma esfera civil
politicamente ativa, não apenas no voto, mas na deliberação dos assuntos comuns.
Mais do que uma orientação prática, “interesse público” está no núcleo do discurso social do
jornalismo ou, noutros termos, de sua ideologia profissional. De maneiras semelhantes,
Wilson Gomes (2005a) e Mark Deuze (2005) vão abordar o “interesse público” como valor
que colabora tanto para formar o ideário profissional, quanto como uma espécie de contrato
27
A efetivação dessa esfera pública participativa por meio da conversação nos programas jornalísticos
brasileiros será abordada na Parte III, “Jornalismo, conversação e democracia”.
44
social acerca do jornalismo. Considerando um discurso social como um conjunto de locuções,
textos e falas em circulação que visa, primeiro, construir a identidade de um grupo e
promover o engajamento de seus participantes nesse discurso, e, segundo, legitimar o grupo
socialmente apontando a importância de sua existência para a própria sociedade, Wilson
Gomes (2005) explica que o “interesse público” está no centro do discurso social do
jornalismo, parâmetro usado pelos jornalistas para justificarem suas reportagens, para a
estruturação dos produtos jornalísticos e para o cumprimento de seu papel social.
Mark Deuze (2005) entende o discurso dominante sobre a ideologia profissional jornalística
como um conjunto de valores, estratégias e códigos que caracterizam o jornalismo e são
partilhados pelos profissionais. No entanto, em sua perspectiva, a ideologia é uma prática
ativa e está em constante negociação. Não é um conjunto estabelecido, mas está em formação
a partir de modificações históricas da concepção do que é o jornalismo e como ele pode
legitimar-se na sociedade. Assim, os dois autores partem do senso comum do que seria o
“interesse público”, expressado por Gomes como “o direito que o público tem de saber
determinadas coisas de seu interesse” (2005, p. 67), ou, conforme Deuze, o sentido de fazer
algo pelo público (2005, p. 447). Para ambos, o jornalismo assume o papel de vigilante
(watchdog) do status quo em nome do público, ou seja, age como seu representante28.
Tal como apontado por Traquina (2004), foi no contexto das revoluções burguesas do século
XVIII que o jornalismo se apropriou da noção de “interesse público” para fundamentar sua
função social. Segundo Gomes (op.cit.), a imprensa assumiu propriedades que remetem às
transformações sociais e políticas daquele momento. Assim, a imprensa opinativa é, primeiro,
burguesa e seu combate é contra o Estado e a favor da esfera civil. Segundo, a imprensa é
iluminista, o que implica considerar o peso da argumentação e do debate, da racionalidade de
homens livres para a decisão sobre o bem comum. O debate público visa tirar os assuntos do
segredo e torná-los aptos para o escrutínio público. A argumentação e a racionalidade são as
maneiras pelas quais os assuntos comuns devem ser discutidos, o que também configurava as
práticas jornalísticas (Guerra, 2003, p. 37). Em terceiro lugar, a imprensa nasce liberal, o que
enraíza os valores de liberdade individual, liberdade de imprensa e de opinião.
28
Neste momento, pretende-se fazer uma abordagem mais direcionada ao caráter público do jornalismo, ou seja,
sua vocação para a sociedade. A questão da vigilância será abordada mais detalhadamente no próximo parágrafo,
associado-a ao conceito de “quarto poder”.
45
O autor argumenta, porém, que essas características, mais evidentes no jornalismo opinativo,
se esvaziaram quando da democratização das sociedades, pois a esfera pública, antes
associada à esfera civil nas conversações cotidianas, se institucionalizou nas assembléias e
parlamentos, espaços oficiais onde há debate e tomada de decisão. Nisso reside o problema de
que o público não é mais interpelado como cidadão, mas como audiência: no modelo
mercadológico do jornalismo – que se estabeleceu com a penny press – sua nova missão seria
servir ao interesse de um público consumidor de notícias e não somente direcionar-se a sua
vocação política.
Suprir o mercado de informações num estado de enorme concorrência, para
um conjunto de consumidores com a maior quota de tempo livre e com o
maior poder de escolha da história da humanidade, num ritmo de produção
cada vez mais acelerado (chegamos, com a internet, ao estágio dos estoques
informativos renovados a cada minuto) e para atrair uma audiência distraída,
dotada dos interesses os mais diversos e cada vez mais distanciada da vida
política – eis o propósito, a meta e a razão de ser do jornalismo empresarial
contemporâneo (GOMES, W., 2005a, p. 69).
Apesar disso, ainda hoje, o discurso dominante do jornalismo emprega o “interesse público”
como valor legitimador essencial29, referenciando-se ao mesmo sentido que o originou na
época das Revoluções burguesas do século XVIII, constituindo-se “vozes de outro tempo e de
outro jornalismo”, como afirma Wilson Gomes (2005a, p. 70). Refutando a idéia de que o
interesse público deve ser tomado como valor absoluto do jornalismo, Gomes (2005a)
argumenta que para a compreensão das reais práticas jornalísticas contemporâneas, deve-se
manter a dimensão de público a partir da perspectiva da cidadania, ou seja, o interesse público
diz respeito, ainda, às questões políticas. Mas dever-se-iam encontrar outros valores que, em
diálogo com o interesse público, explicariam outras práticas e formas jornalísticas, como o
jornalismo esportivo, cultural, rural, etc. O autor conclui que
o jornalismo oferece basicamente instantâneos de eventos, fatos, fenômenos
socialmente relevantes e circunstâncias. Uma parte apenas desses
instantâneos, dessas fotografias, consiste em informações imediatamente
importantes para a tomada de posição política e para a orientação política do
29
Para Gomes, o interesse público é um valor que supera os demais e funciona como critério decisivo para as
práticas jornalísticas: “a prescrição é precisa e vale como determinação moral: nos casos em que dois valores
morais entram em conflito, o jornalista deve obedecer àquele valor que se relacionar diretamente à satisfação do
interesse público” (GOMES, 2005a, p. 67).
46
cidadão. O resto satisfaz todo o tipo de demandas de informação, que vai
desde os últimos lançamentos em home theater até a última conquista do
ator do momento, do novo filme do nosso diretor preferido até as novas
tendências na criação de caprinos (GOMES, 2005a, p. 76).
Mark Deuze (2005) também reconhece uma mudança na dimensão de público, o que, por
conseguinte, deveria levar a novas formulações sobre a idéia de “interesse público” e do
próprio público. Para Deuze (idem), duas questões problematizam o jornalismo
contemporâneo: 1) a relação com a tecnologia, que permite uma produção de notícias
multimidiática e interativa; e 2) a multiculturalidade que marca as sociedades contemporâneas
e a redefinição do “público”. Sobre esse segundo aspecto, Deuze afirma que, para o
jornalismo cumprir seu papel de porta-voz da sociedade, ele precisa conhecer que sociedade é
essa que está se formando a partir de amplos movimentos migratórios entre pessoas e culturas
distintas. Assim, a dimensão de “público” deve-se ampliar para incorporar indivíduos com
tradições, visões de mundo, rituais distintos dos já conhecidos. Para atingir o público como
cidadão é preciso conhecer suas necessidades e atuar de forma inclusiva a partir de demandas
específicas que surgem dessa nova configuração.
Como conseqüência, o jornalismo tem-se reestruturado de modo a incluir diferentes
representações do público multicultural e tem adotado um novo papel social. Segundo Deuze
(idem), o serviço ao interesse público não está mais relacionado somente à transmissão de
informação dos fatos para o público, mas ao incentivo das conversações sociais (2005, p.
455). Para Mark Deuze (idem), o público deve ser interpelado em seu papel como cidadão,
pois o que se transforma, na verdade, são as estratégias jornalísticas para isso: contratação de
profissionais que representem esses grupos sociais, levar ao estúdio especialistas para tratar
desses assuntos, buscar novas vozes na comunidade. Assim, o autor não problematiza o
“interesse público”, mas amplia a dimensão do público e o novo papel que o jornalismo deve
assumir.
Ainda tomando como parâmetro a idéia de público-cidadão que originou a noção de “interesse
público”, é necessário ampliar essa dimensão a fim de incluir outras interpelações do público
que não apenas pela cidadania, conforme apontado pelo modelo liberal de jornalismo.
Freqüentemente, os jornalistas assumem seu papel como servidores do interesse público
referindo-se ao tratamento de questões como violência urbana, saúde, transporte, índices
sociais (desemprego, analfabetismo, etc) entre outros assuntos que fazem parte do cotidiano
47
dos indivíduos, mas que não necessariamente fazem referência à cidadania, traduzida como o
direito ao voto. Sendo assim, as notícias que divulgam novas pesquisas para a cura do câncer
de mama, o tiroteio entre policiais e traficantes nas favelas, tendências do mercado
imobiliário, nem sempre são enquadradas30 como questões de política (saúde pública,
segurança pública, moradia), mas como informações que o público precisa saber para orientar
sua vida cotidiana.
Deste modo, se no discurso dominante do jornalismo o interesse público deve referir-se à
cidadania e ao papel político dos indivíduos, a dimensão de política deve ser ampliada o
suficiente para incluir essas questões que ganham relevância na vida cotidiana. Nas recentes
perspectivas deliberacionistas31 sobre a democracia e o papel da mídia é possível constatar
que “é difícil definir o que seria uma informação política ideal, já que materiais de naturezas
diversas podem tornar-se relevantes para a ação dos indivíduos em seus múltiplos papéis
como cidadãos, e não apenas como eleitores” (MAIA, 2008, p. 172). Sendo assim, os
deliberacionistas ampliam a dimensão de política afastando-a de uma dimensão puramente
institucional, ou seja, vinculada a questões de Estado, mas que inclua educação, segurança,
cuidados com a saúde física e mental, riscos no ambiente do trabalho, ou seja, questões que
ganham relevo no cotidiano. Sendo assim, o cotidiano é, ao mesmo tempo, o lugar da
afetividade e da tomada de consciência (Martin-Barbero, 1997, p. 289), o espaço onde os
indivíduos dão significados à suas experiências e partilham esses significados, criando formas
de sociabilidade.
Ao considerar que o interesse público deve estar articulado com valores outros para dar
significado ao jornalismo, Wilson Gomes (2005) acaba postulando uma redefinição do papel
do jornalismo contemporâneo: o jornalismo serviria para “orientar escolhas, basear
30
Assume-se aqui o conceito de enquadramento tal como formulado por Erving Goffman (1985) – discutido no
capítulo anterior – e adaptado ao jornalismo por Robert Entman (1993), para quem “enquadrar significa
selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de
forma a promover uma definição particular de um problema, uma interpretação casual, uma avaliação moral
e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito” (ENTMAN, 1993, p.52; grifo do autor).
31
O deliberacionismo é uma corrente que, juntamente com a tradição liberal e a republicana, procura
compreender a política e a democracia a partir de sua relação com a comunicação. No deliberacionismo, a
legitimidade do estado democrático depende da relação entre o centro de tomada de decisões políticas e a esfera
civil, esferas que devem permanecer num fluxo de comunicação contínuo e o papel da mídia seria, justamente,
nutrir esse fluxo. Para os autores do deliberacionismo, as conversações cotidianas são fundamentais para que os
cidadãos tenham capacidade de deliberar racionalmente sobre as decisões coletivas que os afetam (GOMES e
MAIA, 2008, p. 16). Os postulados do deliberacionismo serão melhor abordados na Parte III, “Jornalismo,
conversação e democracia”.
48
planejamentos, formar a própria opinião, montar perspectivas, selecionar pessoas, instituições
e posições, formar afetos e disposições internas, construir sonhos e esperanças” (GOMES,
2005a, p. 76). Na perspectiva que aqui se pretende adotar, ao cumprir com essas funções, o
jornalismo estaria exercendo seu serviço ao interesse público, uma vez que aparelha o
indivíduo para a vida social, permite que ele formule opiniões sobre o mundo e dê significado
à suas experiências. Assim, o jornalismo e a dimensão de interesse público devem ser
pensados a partir de questões que envolvem sociabilidade, ou seja, daquilo que é
compartilhado por um grupo ou sociedade, que gera partilha de afetos e permite troca de
opiniões na vida cotidiana.
2.3. Jornalismo político no Brasil e o “poder moderador”
Segundo Nelson Traquina (2004), a expressão “quarto poder” (traduzido do inglês Fourth
State) foi utilizada pela primeira vez em 1828 pelo deputado inglês McCaulay, ao referir-se à
galeria onde se sentavam os jornalistas que cobriam os debates parlamentares. A idéia de uma
mídia que vigiasse os três poderes constitucionais logo penetrou no discurso autolegitimador
do jornalismo, que se apresentava na dupla função de representar a opinião pública e vigiar o
poder. Pensando o modelo liberal de jornalismo atrelado ao sistema democrático de governo
recém instalado, Traquina (idem) considera que foi no contexto da democracia que o papel de
vigilância e a designação que incorpora essa atribuição – “quarto poder” – se consolidou no
jornalismo e passou a ser reconhecido socialmente. Segundo o autor, “os pais fundadores da
teoria democrática [...] reservaram ao jornalismo não apenas o papel de informar os cidadãos,
mas também, num quadro de check and balances (a divisão de poder entre poderes), a
responsabilidade de ser o guardião (watchdog) do governo” (2004, pp. 22-23). Assim, à
imprensa cabia o papel de fiscalizar as ações dos três poderes a fim de evitar uma “recaída”
para sistemas autoritários de governo e assegurar as liberdades individuais e a autonomia do
público-cidadão na sociedade.
A dimensão de “quarto poder” é, talvez, uma das expressões mais evidentes da relação entre
jornalismo e política, pois envolve diretamente a forma como os jornalistas compreendem seu
papel diante das instituições governamentais. Ratificando o valor de independência e
autonomia, o jornalismo compreende que parte de sua função social é fornecer aos cidadãos o
instrumental informativo necessário para suas ações cívicas. Por conta disso, o “quarto poder”
é um termo considerado universal para o jornalismo liberal contemporâneo.
49
Afonso de Albuquerque (1999, 2008, 2009) demonstra, porém, que a efetivação do papel de
“quarto poder” não se dá de maneira evidente e semelhante, mas possui variações culturais
que decorrem das relações construídas, em países diversos, entre a comunicação e a política.
Assim, os textos de Albuquerque apontam para dois fenômenos: 1) a relação entre jornalismo
e política em diferentes contextos culturais; 2) a compreensão da cultura política e como ela
afeta a relação com a mídia.
No que diz respeito ao primeiro aspecto, Albuquerque (2009) demonstra as apropriações da
idéia de “quarto poder” a partir de três tradições mais explícitas. A primeira refere-se ao
Fourth State, de tradição liberal britânica e fortemente ligado à publicização dos temas
políticos, permitindo um engajamento do público no debate político em âmbito nacional, e
estendendo as questões para vários locais. Os poderes, aqui, não são os institucionalizados,
mas as três classes feudais: primeiro estado (clero), segundo estado (nobreza), que se reuniam
na câmara dos Lords, e o terceiro estado (comuns), que se reunia na câmara dos comuns, onde
a imprensa tinha seu lugar.
O Fourth Branch, mais vinculado à perspectiva norte-americana, diferentemente do anterior,
diz respeito à divisão de poderes. Esta matriz aposta no equilíbrio e na interdependência dos
três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – para reger a sociedade. É justamente aí
que a mídia encontra seu lugar: promovendo esse equilíbrio e transformando-se em um
“ramo” (branch) do governo. Assim, o poder da mídia reside no controle de selecionar as
notícias, promovendo a interligação dos três poderes com a sociedade.
A terceira perspectiva é a de Poder Moderador, que expressa a relação entre jornalismo e
política no Brasil. A formulação do conceito de “poder moderador” remete à formação do
Estado brasileiro, desde os tempos monárquicos, até a ditadura militar. A Constituição
brasileira de 1824 previa o poder moderador centrado na figura do monarca que lhe permitiria
exercer uma autoridade sobre os outros três de forma neutra, com interesse em preservá-los.
Afonso de Albuquerque afirma que
três concepções acerca do Poder Moderador, enfatizadas durante a
Constituinte, concorreram para definir as suas atribuições. A primeira o
caracterizava como um lugar privilegiado ocupado pelo chefe do Estado, que
se situaria acima da “política” e seria merecedora de um respeito
incondicional; a segunda o definia o Imperador [sic] como a suprema
50
autoridade vigilante da nação e ao Poder Moderador como um poder de
exceção, que deveria ser acionado na defesa da ordem constitucional de
modo a impedir a perturbação da ordem pública; a terceira percebia o Poder
Moderador como um recurso de centralização política. De modo concreto, os
termos da adoção do Poder Moderador possibilitaram à Coroa brasileira
atuar de duas maneiras distintas: como Executivo forte, governando acima
das facções políticas (como aconteceu no Primeiro Reinado) ou como árbitro
do jogo político entre os partidos (como ocorreu no Segundo Reinado)
(ALBUQUERQUE, 2009, p. 9).
Após esse episódio, em diversos outros momentos da vida política nacional formou-se a idéia
de moderação: no início da República, em 1889, percebia-se a necessidade de manter o papel
do poder moderador a fim de estabilizar os outros três; a Política dos governadores do início
da República é descrita como um equivalente ao poder moderador; no breve período de
democracia no fim do Estado Novo, foram as forças armadas que reivindicaram um lugar de
ordem institucional, para arbitrar os conflitos entre o governo e a sociedade civil, até o golpe
de 1964; no processo de redemocratização do país, em 1985, foi a imprensa que reivindicou o
papel de fiadora da democracia e de suas instituições: “não se trata de dizer que o jornalismo
brasileiro opera de fato como um Poder Moderador, uma vez que não existe qualquer tipo de
amparo constitucional para isso, mas de sugerir que, em boa medida, é este papel que ele se
propõe a desempenhar” (2009, p. 10).
Vinculada muito fortemente a um elemento da cultura política nacional, a noção de poder
moderador revela a forma como o jornalismo se relaciona com o campo político. Ampliando a
proposta de Daniel Hallin e Paolo Mancini32, Albuquerque (2008) compreende a cultura
política nacional a partir de duas variantes: 1) o nível de estruturação partidária, tendo em
vista o grau de influência que as clivagens exercem junto ao governo e à vida política como
um todo; 2) o grau de intervenção dos meios de comunicação nos assuntos políticos (2008, p.
11). Assim, no Brasil, encontra-se um sistema partidário fracamente estruturado, mas uma
mídia politicamente ativa: os partidos não têm muita influência na forma de governo, mas há
“desconfiança generalizada quanto à maturidade e o bom funcionamento das instituições
políticas, e a percepção de que é imperativo agir para modificá-las ou, pelo menos, corrigir o
seu funcionamento (2008, pp. 13-14). Como os partidos são pouco enraizados na sociedade,
outras instituições reivindicam esse papel.
32
Segundo Albuquerque, os autores promovem uma ampla pesquisa sobre diferentes culturas políticas tendo
como referencial quatro variáveis: 1) o nível de desenvolvimento dos mercados de mídia nestes países; 2) o grau
de paralelismo entre os sistemas midiáticos e políticos; 3) o nível de profissionalismo no jornalismo; 4) o nível e
a natureza da intervenção do Estado junto aos meios de comunicação.
51
É por conta do reconhecimento da fragilidade das instituições políticas que a mídia brasileira
se assume como intérprete privilegiada dos interesses e árbitro dos três poderes
constitucionais. Diferentemente da política norte-americana, que já possui uma dimensão de
consenso mais ou menos estabilizada33, a sociedade brasileira não é consensual sobre
verdades fundamentais. Assim, no exercício de seu compromisso político, os jornalistas
brasileiros dividem-se numa postura adversativa ao governo, defendendo um jornalismo
direcionado à divulgação de ideologias de uma forma mais direta, ou preconizam um
jornalismo independente-objetivo para sustentar sua postura governista. Ao desempenhar o
papel de poder moderador, a imprensa brasileira reivindica autoridade para colocar um poder
contra o outro a fim de manter a ordem pública.
2.4. Os rituais de construção de objetividade
“O meu trabalho é comunicar fatos”, dizia um jornalista da Associated Press, em 1856, “as
minhas instruções não permitem qualquer tipo de comentários sobre os fatos, sejam eles quais
forem” (apud TRAQUINA, 2004, p. 51). A afirmação expressava um padrão emergente da
produção noticiosa que viria a tornar-se o paradigma do jornalismo nos anos seguintes. A
separação entre fatos e opiniões marcava o início de um modelo de jornalismo que buscava
distinguir-se dos anteriores – o opinativo e o literário – a partir do relato dos fatos. Assim,
surge o conceito de objetividade para designar um ritual de cobertura jornalística que tinha
nos acontecimentos sua matéria-prima.
Juntamente com o conceito de objetividade veio o próprio conceito de notícia e a
profissionalização dos repórteres. No modelo de jornalismo político-partidário, os jornalistas
escreviam teses e defendiam seus pontos de vista, especialmente sobre assuntos políticos.
Com a chegada do paradigma informativo, surgiu a figura do repórter, que deveria ir em
busca das informações, apurá-las e transmiti-las à audiência.
Ante as afirmações da necessidade de se praticar e consumir um jornalismo que seja espelho
dos acontecimentos – noção cara à idéia do jornalismo como uma espécie de mediação
33
O argumento do autor no texto é que, ao contrário do que preconizam alguns autores, o jornalismo político
brasileiro não copiou o modelo norte-americano tal e qual. A dimensão de quarto poder e sua efetividade na
mídia se dá formas distintas nos dois países, adaptando-se aos referenciais democráticos de cada um.
52
transparente entre a realidade e os indivíduos – o século XX trouxe novas formas de
compreender a realidade, a linguagem e, por conseguinte, o papel do jornalismo. Se durante o
período do Iluminismo acreditava-se que a linguagem refletia o mundo, com o
desenvolvimento da semiologia e da semiótica, passou-se a considerar que: a produção de
significados ocorria a partir dos contextos que inserem as falas e sua interpretação; que os
signos são ideológicos e, portanto, não são neutros e transparentes (cf. BAKHTIN, 1999).
No que diz respeito ao jornalismo, a partir dos anos 1950, ganhou força nos Estados Unidos
uma corrente de pesquisa vinculada às perspectivas construcionistas sobre a realidade. Assim,
as notícias não seriam um espelho, mas uma construção, uma imagem que os jornalistas
apresentam sobre o mundo. Voltados para a sociologia da produção, os autores vinculados ao
construcionismo tinham como finalidade demonstrar os rituais de produção noticiosa, não
apenas levando em conta seu valor simbólico, mas sua inserção na lógica comercial das
empresas jornalísticas. Nesse contexto, Gaye Tuchman (1999) demonstrou que a noção de
objetividade é empregada pelos jornalistas como uma maneira de defender-se contra possíveis
acusações. Assim, os jornalistas empregam estratégias formais – apresentação de lados
conflituais, uso de provas auxiliares, aspas e sequência apropriada – a fim de construir um
texto que pretende demonstrar o distanciamento entre o repórter e o acontecimento descrito.
Seguindo uma perspectiva semelhante, mas mais voltada à história da imprensa, Michael
Schudson (1978) revela que “a objetividade no jornalismo parece ter sido destinada a ser tanto
um bode expiatório quanto uma crença, e ainda uma defesa mais desajustada do que uma
afirmação sincera34” (SCHUDSON, 1978, pp. 157-158, tradução nossa). Afirma o autor que a
objetividade não era um paradigma essencial ao jornalista até o período posterior à I Guerra
Mundial, quando os jornalistas precisavam legitimar seu trabalho.
Apesar dessas ressalvas, a noção de objetividade ainda se apresenta como um alicerce do
jornalismo, definindo tanto as práticas dos jornalistas, quanto o reconhecimento da audiência
e a atribuição de credibilidade às coberturas. Não se pretende defender, neste trabalho, que a
objetividade deve ser pensada como maneira de espelhar a realidade e os fatos. No entanto, é
preciso considerar, também, que os produtos jornalísticos fazem referência a um sentido de
34
No original: “Objectivity in journalism seems to have been destinated to be as much a scapegoat as a belief
and more an awkward defense than a forthright affirmation”.
53
objetividade a fim de legitimar-se socialmente. No que diz respeito à conversação, a
concretização da idéia de objetividade obedece aos parâmetros dos programas, podendo ser
negociada um objetivo mais amplo de provocar reflexão, formação de opinião e cidadania.
Estes aspectos deverão ser observados nas análises dos programas, assunto desenvolvido na
parte seguinte.
54
PARTE II
CONVERSAÇÃO E MODOS DE ENDEREÇAMENTO:
premissas e as análises dos programas
55
Como foi visto na parte anterior, tanto o jornalismo quanto a conversação se modificam a
partir de transformações no contexto sócio-histórico. A análise de um produto jornalístico
televisivo que tenha a conversação como principal estratégia deve levar em conta essas
transformações e a dinâmicas que envolvem a concepção dos produtos. Por conta disso, os
Estudos Culturais, em especial o de filiação inglesa e latino-americana, aparecem como uma
profícua ferramenta teórico-metodológica. Considerar o telejornalismo dentro de uma
perspectiva culturalista significa compreendê-lo como produto cultural que está em
permanente relação com a sociedade e, portanto, sujeito a novas configurações e novos usos a
partir das transformações políticas, econômicas, sociais, tecnológicas.
Este trabalho esteia-se sobre três conceitos forjados e apropriados na matriz culturalista. O
conceito de modo de endereçamento (MORLEY e BRUNSDON, 1999; GOMES, 2007) se
apresenta como uma ferramenta teórico-metodológica importante para a compreensão do uso
da conversação como estratégia de configuração dos programas. A noção de gênero televisivo
(MARTIN-BARBERO, 1997; GOMES, 2002, 2007) permite reconhecer a relação entre a
conversação e o subgênero no qual o programa se insere, oferecendo parâmetros analíticos
que ajudam a reconhecer dentro de quais limites (formais, estruturais, temáticos) a
conversação pode se dar. O conceito de estrutura de sentimento (WILLIAMS, 1979) permite
olhar para os fenômenos sob o ponto de vista processual, indicando os usos do presente a
partir das reconfigurações de elementos do passado e apontando para o futuro. Segundo Itania
Gomes (2007), as três noções surgiram a partir do esforço de uma análise cultural e de uma
preocupação com a atividade da audiência na produção de sentido.
É nessa conjunção da atividade jornalística com passado, presente e futuro que a conversação
encontra seu lugar de destaque. Se, ao longo dos anos, a quantidade de programas que
utilizam a conversa entre participantes como elemento condutor de sua relação com a
audiência se multiplicou; se cada vez mais os telejornais lançam mão desse recurso; se as
formas de conversar tendem mais à informalidade e a personalização é sinal de que o
telejornalismo atual passa por transformações que permitem incorporar e pôr ênfase em
elementos antes pouco assimilados tanto pelo campo da produção quanto pela esfera da
recepção televisiva.
56
1. CONCEITOS BALIZADORES PARA A ANÁLISE
1.1 A natureza processual do (tele)jornalismo: estrutura de sentimento
Segundo Raymond Williams (1997), a televisão é uma forma cultural que está em permanente
processo de construção e apropriação, e o jornalismo uma instituição social que, na relação
com a cultura, ganha diferentes significados a partir de seus usos pela sociedade, usos estes
condicionados ao contexto histórico. Assim, para os Estudos Culturais, um olhar para a
cultura e seus produtos deve trazer, juntamente, uma observação sobre o caráter histórico que
os configura.
As obras iniciais dos Estudos Culturais já apontavam para a necessidade de averiguar o
passado a fim de compreender o presente. “As Utilizações da Cultura” (Hoggart, 1974
[publicado em 1957]), “A Formação da Classe Operária Inglesa” (Edward Thompson,
publicado em 1963) e “Cultura e Sociedade” (Williams, 1969 [publicado em 1958]) indicam a
preocupação central dos Cultural Studies – de reformular o conceito de cultura de modo que
contemplasse a classe operária – mas também revelavam um pressuposto axial: a cultura
enquanto processo.
Foi com Raymond Williams, porém, que a questão processual ganhou contornos teóricos mais
definidos. Em “Marxismo e Literatura” (1979), Williams revisita conceitos básicos do
marxismo – tais como infra-estrutura e superestrutura, ideologia, determinação, hegemonia –
e os discute a partir de suas próprias reincorporações para formular uma teoria cultural que dê
conta dos processos que envolvem sociedade, economia e cultura. Rejeitando um olhar para o
social a partir de uma cristalização das relações, formações, instituições e posições, Raymond
Williams (1979) sustenta sua teoria cultural numa dimensão flexível e mutável dos processos
sociais. Desde a redefinição do conceito de cultura como modo integral de vida, apontado em
“Cultura e Sociedade”, Williams já pensava nas formações culturais como um espaço de
tensão onde as relações de dominação são construídas. Assim, os grupos sociais (mais
especificamente, para ele, as classes) estariam em permanente disputa visando conquistar a
hegemonia. Sob esse ponto de vista, Williams não poderia conceber uma teoria cultural que se
baseasse em modelos fixos e explícitos, mas formula seu pensamento calcado nas mobilidades
do social que podem ser verificadas nas estruturas de sentimento.
57
Para William (idem), a análise cultural baseada em produtos acabados da cultura tende a
tomar esses produtos como fixos e estáveis, descartando tanto as transformações que se
efetuaram no passado de modo a levar até aquele produto, quanto suas apropriações
contemporâneas. Sendo assim, Williams só concebe as obras como abertas e processuais,
resultado de um investimento feito no passado e das reapropriações no presente. Assim, as
modificações que se percebem concretamente na vida social – como mudanças na língua, no
comportamento, nas formas de vestir – são uma
questão aberta – isto é, uma série de questões históricas específicas – se em
qualquer dessas modificações, este ou aquele grupo predominou ou foi
influente, ou se elas são resultado de uma interação muito mais geral. O que
estamos definindo é uma qualidade particular da experiência social e das
relações sociais, historicamente diferente de outras qualidades particulares,
que dá o senso de uma geração ou período (WILLIAMS, 1979, p. 133).
As estruturas de sentimento, para Williams, indicam os processos que ainda não estão
cristalizados socialmente e que, portanto, estão em solução. “Sentimento” foi o termo
encontrado pelo autor para dar destaque tanto ao presente quanto ao vivido ativamente, ao
contrário de “visão de mundo” ou “ideologia”, que focaliza mais na consciência, destituindo-a
de seu aspecto mais prático, como o autor pretende salientar. “Sentimento” se refere aos
“significados e valores tais como são vividos e sentidos ativamente” e ainda às “relações entre
eles e as crenças formais ou sistemáticas [que] são, na prática, variáveis (inclusive
historicamente variáveis), em relação a vários aspectos” (WILLIAMS, 1979, p. 134).
Com a palavra “estrutura”, Williams (idem) quer definir as “relações internas específicas, ao
mesmo tempo engrenadas e em tensão” (idem, p. 134). Assim, “estrutura” engloba algo que já
se formou e entrou no uso social, mas que permanece sujeito a variações e tensões. Estrutura
de sentimento é, para Williams, uma hipótese cultural que permite compreender o
contemporâneo a partir de suas múltiplas relações com os diversos elementos do social e,
portanto, inclui pensar tanto o passado – e as formas que engendraram os elementos do
presente – quanto o futuro – ressaltando aquilo que é novo.
Para operacionalizar analiticamente o conceito de estrutura de sentimento, o próprio autor
propõe três outros conceitos que permitem identificar, na sociedade, seus elementos
processuais. Lançadas desde “Cultura e Sociedade” (1969), as noções de emergente,
dominante e residual permitem reconhecer os movimentos e tendências dos fenômenos sociais
58
e as relações dinâmicas que efetuam. Williams (1979) formula sua teoria cultural com base na
compreensão daquilo que conquistou a hegemonia e se constituiu enquanto prática mais
comum, o que configura os aspectos dominantes da sociedade. Considerando o conceito de
hegemonia a partir da releitura gramsciana, para Williams (1979) o hegemônico não é
simplesmente o que se institui como forma de poder e dominação, mas significa uma
complexa rede de forças políticas, sociais e culturais ativas que prevaleceram sobre as outras.
Assim, a análise da cultura contemporânea é a análise daquilo que se configurou
historicamente como dominante, juntamente com suas instituições35 e formações36, e seus
processos de imposição sobre outras forças desenvolvidas em paralelo. No entanto, para
Williams (idem), presente, passado e futuro devem estar conectados na análise cultural de
modo a esclarecer o todo do processo social e destacar as características do dominante.
Na análise histórica autêntica, é necessário, em todos os pontos, reconhecer
as inter-relações complexas entre movimentos e tendências, tanto dentro
como além de um domínio específico e efetivo. É necessário examinar como
estes se relacionam com a totalidade do processo cultural, e não apenas com
o sistema dominante selecionado e abstrato (WILLIAMS, 1979, p.124).
O residual diz respeito aos aspectos forjados no passado, mas que permanecem em uso no
processo cultural por meio de uma reconfiguração no presente. Williams (idem) não se refere
ao residual como arcaico – “aquilo que é totalmente reconhecido como elemento do passado”
(idem, p. 125) – mas como um elemento que se formou no passado e que permanece ativo37,
podendo, inclusive, oferecer resistência aos padrões da cultura dominante.
Certas experiências, significados e valores que não podem se expressar, ou
verificar substancialmente, em termos de cultura dominante, ainda são
vividos e praticados à base do resíduo – cultural bem como social – de uma
instituição ou formação social e cultural anterior (WILLIAMS, 1979, p.
125).
Os aspectos residuais evocam uma certa tradição, compreendida por Williams não como a
sobrevivência do passado, mas como uma tradição seletiva, ou seja, “uma versão
intencionalmente seletiva de um passado modelador e de um presente pré-modelado, que se
35
O autor considera as instituições formais como responsáveis pela socialização de valores, conceitos e práticas
que se relacionam diretamente com o hegemônico. No entanto, Para Williams, essas instituições não são
estanques no tempo, mas são tensionadas por outras que emergem valores alternativos. Assim, as instituições
não são fixas no tempo e nem traduzem todo o pensamento de uma sociedade, mas apenas a consciência de uma
parcela dominante.
36
Para Williams, formações são as tendências conscientes que se materializam em “produções formativas”
(como tendências literárias, musicais, etc).
37
O autor exemplifica com três características da sociedade inglesa: a religião, a comunidade rural e a
monarquia.
59
torna poderosamente operativa no processo de definição e identificação social e cultural”
(1979, p. 118). O residual permite observar as práticas e valores que foram incorporados na
cultura como hegemônicos e os que foram negligenciados. Portanto, falar sobre uma tradição
televisiva brasileira, ou mais especificamente, uma tradição do telejornalismo, implica
reconhecer, em sua história, os aspectos absorvidos e os que foram deixados ao longo do
caminho, os que provocaram avanços e os que se apresentaram como formas alternativas ao
modelo dominante.
Os elementos residuais que apontam para as tradições seletivas permitem, igualmente,
identificar algumas direções para o futuro: as rupturas, os cruzamentos e as incorporações que
se efetuaram no passado permitem observar quais delas ainda podem ser integradas no futuro.
Para observar esse movimento para além do presente, Williams (idem) postulou o conceito de
emergente, referindo-se àquilo que está presente na sociedade de forma ainda virtual. São os
“novos valores, novas práticas, novas relações e tipos de relação [que] estão sendo
continuamente criados” (idem, p. 126) e que, por vezes, resistem à cultura dominante.
Williams não está falando simplesmente dos elementos emergentes em uma cultura, mas da
emergência de uma nova cultura, como foi o surgimento da classe operária inglesa no século
XIX. Embora nunca tenha se colocado como cultura dominante, a classe operária oferece
sempre resistência à dominante. Para se entender a cultura emergente é preciso “descobrir
novas formas ou adaptações da forma” (idem, p. 129) que começam a se fomentar
socialmente.
Deste modo, para Williams (1979), conhecer os elementos da cultura que estão em prática no
presente requer um movimento para o reconhecimento dos aspectos residuais, que ratificam
ou tensionam os dominantes, e para os emergentes que estão se forjando no presente e podem
se mostrar como uma alternativa ao modelo em dominação. Postos em relação, esses
conceitos possibilitam ao analista um olhar que relaciona presente e passado (dado pelo
conceito de residual), presente e presente (que indicam as formas dominantes), e presente e
futuro (englobadas pela noção de emergente). Embora sua proposta seja muito mais ampla, os
conceitos formulados por Williams sugerem um olhar sobre o (tele)jornalismo que indique as
tensões e lutas pela hegemonia que se efetuam no campo jornalístico. Se o modelo do
jornalismo informativo, formado nas sociedades anglo-americanas a partir do século XVIII38,
38
Ver CHALABY, 2003. TRAQUINA, 2004, 2005.
60
hoje se estabelece como dominante tanto para as atividades práticas, quanto para os modos de
recepção, é porque, historicamente, esse foi o discurso que se consagrou como legítimo
socialmente. No rastro, o jornalismo panfletário, desenvolvido pouco antes, e o
sensacionalismo, prática que se desenrolou e se desenrola ainda hoje lado-a-lado com o
modelo dominante, escaparam daquilo que se instituiu e se reconhece como o jornalismo de
referência. O que a história permite ver são os momentos de tensão e dominação, as disputas
efetuadas no interior do campo em sua constituição e na busca por uma legitimação. A
validade dos conceitos de residual e emergente, juntamente com o dominante, é ressaltar o
fato de que nenhum cultura dominante “inclui ou esgota toda a prática humana, toda a energia
humana e toda a intenção humana” (Williams, 1979, p. 128), o que significa que, na
compreensão do que se legitima como dominante no contemporâneo, é preciso considerar as
formas alternativas e resistentes que se desenvolveram em paralelo.
Na análise do telejornalismo é possível localizar certos elementos que se configuraram no
passado e se estabeleceram como dominantes ou alternativos no presente, o que fica visível na
própria apresentação dos programas. No caso das entrevistas televisivas, por exemplo, o
modelo face-a-face se forjou num período em que a proximidade física, juntamente com os
efeitos de edição e montagem que simulam essa proximidade, sugeria uma ruptura na
formalidade que a televisão tinha com relação às fontes oficiais. Assim, o fato de o
apresentador poder chegar perto de um representante político indicava que o povo se
aproximava deste a fim de obter esclarecimentos. Esse modelo de entrevista acabou tornandose dominante, embora hoje possua um novo uso: o de intimidade entre entrevistado e
apresentador, e por meio deste, com a audiência. Por meio de uma história sócio-cultural da
televisão e do telejornalismo é possível encontrar elementos como esses e compreender os
modos de produção e leitura contemporâneos. Numa análise histórica da imprensa, Michael
Schudson afirma que
entender o jornalismo como parte da cultura contemporânea requer verificar
como ele funciona tanto como um conjunto de instituições sociais concretas,
quanto como um repertório de práticas literárias historicamente forjadas39
(SCHUDSON, 2003, p. 2).
39
No original: “(...) understand journalism as a part of contemporary culture requires seeing how it works as
both a set of concrete social institutions and a a repertoire of historically fashioned literary practices”.
61
A incorporação da história sócio-cultural na análise do telejornalismo permite reconhecer
elementos como esses e formar uma compreensão mais ampla sobre suas características
contemporâneas. Seguindo essa proposta, Peter Burke40 e Asa Briggs (2006) alvitram uma
história social da mídia partindo desde a revolução da imprensa até as formas digitais de
comunicação. Segundo os autores, o olhar para o passado permite mostrar as mudanças de
técnicas como catalisadores das mudanças sociais, e não agentes que promovem
transformações radicais nas antigas formas de fazer. Os autores defendem que as mudanças
sociais e as novas técnicas acontecem concomitantes e acarretam modificações graduais em
seus usos e apropriações. Assim, compreender o processo histórico – articulando a história
sócio-cultural com a noção de estrutura de sentimento - permite averiguar as práticas
contemporâneas e os movimentos em direção ao futuro a partir das relações contextuais que o
jornalismo efetua.
1.2. Gêneros televisivos
A questão dos gêneros televisivos ainda se apresenta como um problema para os
pesquisadores da televisão. Se por um lado há um esforço de certos autores em definir como
se configura um gênero televisivo e seus produtos, por outro a hibridização dos formatos, os
deslocamentos efetuados de um gênero a outro muitas vezes se apresentam como um entrave
para sua compreensão. No universo televisivo, os gêneros – jornalismo, publicidade, ficção
seriada e outros – estão em permanente diálogo, agregando elementos de um e de outro, se
reconfigurando e se reestruturando.
Associando-se a perspectiva dos cultural studies aos estudos de linguagem, os gêneros são
formas culturais sujeitas às alterações histórico-culturais. É de Raymond Williams (1979) a
idéia de que, para que haja reconhecimento de um gênero (no caso dele, literário), é preciso
levar em conta dois fatos:
primeiro, a existência de relações sociais e históricas claras entre
determinadas formas literárias e as sociedades e períodos nos quais foram
originadas ou praticadas; segundo, a existência de continuidades indubitáveis
nas formas literárias através e além de sociedades e períodos com os quais os
produtos têm essas relações (WILLIAMS, 1979, p. 182).
40 Noutro momento, Peter Burke (2005) estabelece parâmetros e reflexões para a realização de uma história
cultural que contemple as diversas atividades humanas. Assim, o autor põe ênfase nos processos de interpretação
e produção de sentido da linguagem, do corpo, da religião, das festas populares ao longo do tempo.
62
Para além da questão da rotulação dos programas no interior de categorias fixas, Williams
(idem) chama atenção para o caráter móvel, mutante e flexível dos gêneros que se articulam
com a cultura e a sociedade. Segundo Itania Gomes (2007), tomar os gêneros como
parâmetros de análise de produtos jornalísticos implica “reconhecer que o receptor orienta sua
interação com o programa e com o meio de comunicação de acordo com as expectativas
geradas pelo próprio reconhecimento do gênero” (GOMES, 2007, p. 14). Sendo assim, o
gênero televisivo (ou midiático) oferece tanto os limites para o campo da produção, quantos
parâmetros para reconhecimento e produção de sentido por parte da audiência. Tratando dos
gêneros midiáticos, Jeder Janotti afirma que
os gêneros seriam, então, modos de mediação entre as estratégias produtivas
e o sistema de recepção, entre os modelos e os usos que os receptores fazem
desses modelos através de estratégias de leitura dos produtos midiáticos
(JANOTTI JÚNIOR, 2005, p. 60).
Os gêneros televisivos são, portanto, concebidos como uma estratégia comunicativa que
insere tanto os aspectos de escritura, quanto os de leitura (MARTIN-BARBERO, 1997, p.
302). Se o telejornalismo é um gênero televisivo, os telejornais, programas de entrevistas,
programas de debate, programas de jornalismo temático, documentários são seus subgêneros.
Jesus Martín-Barbero (1997) entende que uma abordagem do gênero a partir do ponto de vista
cultural se constitui numa “chave para análise dos textos massivos e, em especial, dos
televisivos” (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 302). Assim, seguindo as pistas deixadas por
Williams (1979), Martin-Barbero concebe a análise dos gêneros televisivos quando colocada
em relação à sociedade.
Propondo um diálogo entre os cultural studies e os estudos de linguagem, Itania Gomes
explica que
os gêneros são formas reconhecidas socialmente a partir das quais se
classifica um produto midiático. Em geral, os programas individualmente
pertencem a um gênero particular, como a ficção seriada ou o programa
jornalístico, na TV, e é a partir desse gênero que ele é socialmente
reconhecido (GOMES, 2007, p 14).
Por não se constituírem numa estrutura rígida que se perpetua ao longo do tempo, os gêneros
televisivos sofrem deslocamentos em sua forma de construção, misturando-se com outros
gêneros ou com outros elementos da cultura. É por conta desses deslocamentos que se torna
possível, hoje, que telejornais utilizem encenações com atores nas notícias sobre crimes,
63
saindo dos parâmetros reconhecidos do jornalismo e se apropriando de elementos mais
característicos da teledramaturgia. Janotti (2005) conclui que
analisar um produto midiático através dessa perspectiva pressupõe perceber
as relações entre esse produto e outros de diferentes gêneros, compará-los
com expressões canônicas ou similares dentro do mesmo paradigma. Os
gêneros são dinâmicos justamente porque respondem a determinadas
condições de produção e reconhecimento, indicativos das possibilidades de
produção de sentido e de interação entre os modos de produção/ circulação/
consumo dos produtos midiáticos (JANOTTI JÚNIOR, 2005, p. 59).
Numa perspectiva mais ligada à semiótica, François Jost (2004; 2009) pensa os gêneros
televisuais como etiquetas que ajudam o telespectador a se situar na programação. Para o
autor, “nós temos necessidade de saber para determinar nossa atitude: aceitação, recusa,
cólera41” (JOST, 2009, p. 39) e é para satisfazer essa necessidade de trazer o desconhecido ao
conhecido que as emissoras - e também os veículos especializados em TV e em sua
programação - criam etiquetas que tentam agrupar o conjunto de produtos com características
semelhantes. Embora o conceito de gênero televisivo pensado enquanto estratégia de
comunicabilidade entre a esfera da produção e da recepção englobe e ultrapasse a questão da
nomenclatura, François Jost (idem) propõe uma abordagem sobre os gêneros que inclui o
conceito de promessa que, para ele, se estabelece em todo material que circula sobre o
produto: entrevistas com produtores, publicidade, chamadas na programação. Além disso, a
promessa se efetiva nos produtos pela aproximação com pelo menos um dos três mundos: o
mundo real, que procura dar conta dos objetos existentes por meio de um discurso sobre a
realidade; o mundo fictício, que se refere à realidade numa perspectiva de verossimilhança, ou
seja, como uma simulação do mundo através de estereótipos; e o mundo lúdico, que trata dos
jogos e das interações com os telespectadores. Embora um programa possua um mundo que o
ancora com mais propriedade, ele pode acessar mais de um mundo para se construir
discursivamente, promovendo deslocamentos e migrações entre os gêneros. É com base nessa
promessa que os telespectadores irão orientar suas expectativas com relação ao produto.
Assim, aproximando as contribuições de Jost (idem) ao referencial dos cultural studies aqui
levantados, a promessa também faz parte do horizonte de escritura e de expectativas que os
gêneros televisivos carregam.
41
No original: « nous avons besoin de savoir, pour déterminer notre attitude : acceptation, refus, colère » (grifo
do autor).
64
Como desdobramento dos gêneros televisivos, a televisão oferece variações mais específicas
que encerram características semelhantes tanto no modo de apresentação, quanto na produção
de sentido por parte da audiência. Esses subgêneros (ou formatos) devem ser abordados a
partir de sua relação com a linguagem televisiva, com o campo jornalístico e com os
processos comunicacionais que os põe em relação com a recepção. Assim, se o telejornalismo
é um gênero televisivo – assim como a teledramaturgia, a publicidade ou os programas de
auditório – os telejornais, programas de entrevistas, programas de debates são subgêneros que
se articulam de alguma maneira com a esfera mais ampla do telejornalismo.
O uso da conversação como estratégia de construção de programas jornalísticos televisivos se
estabeleceu de maneira dominante nos programas de entrevistas e debates, que a trazem como
eixo da própria estruturação dos programas, sem o qual o subgênero deixa de existir. Nos
programas de entrevistas, o telespectador já espera que as informações venham por meio do
diálogo estabelecido por um mediador com algum representante da própria mídia e/ou de
outros campos sociais. Faz parte da promessa do subgênero um maior aprofundamento das
informações, uma vez que são os próprios atores ou testemunhas oculares dos assuntos
pautados que irão fornecer os dados e informações que normalmente não aparecem nas
reportagens televisivas.
Os programas de debate, por sua vez, são marcados pela troca de comentários acerca de um
tema determinado. Poucas são as pesquisas que se destinam à compreensão desse subgênero
e, sob o ponto de vista que aqui se pretende definir, a análise de programas de debate é
relevante pela vinculação com a dimensão de esfera pública habermasiana e, por isso, o uso
da conversação visa reproduzir a retórica do debate público.
No entanto, a conversação tem-se modificado, migrando para outros subgêneros, como os
telejornais, que impõem novas possibilidades construídas historicamente nas transformações
do subgênero e na relação deste com a sociedade. Os telejornais se constituem no subgênero
pioneiro do jornalismo praticado na televisão. Buscando inspiração no rádio e nos jornais
impressos, foram os telejornais que se encarregaram de instituir um padrão de telejornalismo,
que carrega a credibilidade atribuída ao veículo. Ao longo dos anos, esse subgênero sofreu
inúmeras modificações em sua estruturação: o cenário deixou de comportar o nome dos
patrocinadores para ser construído num espaço mais amplo compreendendo, muitas vezes, a
65
redação da emissora; os apresentadores, que anteriormente eram locutores e tinham a função
de simplesmente relatar os acontecimentos, passaram a ser jornalistas por formação, podendo
incluir comentários aos seus relatos. Atualmente, alguns telejornais colocam em sua estrutura
um espaço de diálogo no qual os mediadores podem trocar comentários e opiniões.
É nesse sentido que o conceito de gênero televisivo e suas variantes – os subgêneros –
encontram relevo no presente trabalho. Em primeiro lugar, é preciso destacar uma relação
conversação/ gênero, ou seja, as relações possíveis entre a prática conversacional e o
telejornalismo, levando em conta os valores do jornalismo e a gramática televisiva que o
sustenta. Depois, é preciso considerar como a conversação pode variar em função do
subgênero a partir de aspectos mais restritos que indicam as possibilidades e limites que pode
possuir. Se, num programa de entrevista, o tempo para a conversa é mais amplo, nos
telejornais há um limite temporal rígido para conciliar a apresentação das notícias com o
debate sobre elas.
É nos programas que essas possibilidades e limites dos gêneros e subgêneros se concretizam
fazendo perceber as expectativas da audiência sobre eles. Para dar conta da análise de
produtos, propõe-se o conceito de modo de endereçamento. Segundo Gomes, “a análise do
modo de endereçamento associada ao conceito de gênero televisivo deve nos possibilitar
entender quais são os formatos e as práticas de recepção solicitadas e historicamente
construídas pelos programas jornalísticos televisivos” (GOMES, 2007, p. 15). Sendo assim, se
o gênero é um conceito que visa dar conta das propriedades de um conjunto de produtos que
possuem semelhanças, o conceito de modo de endereçamento se volta ao produto, a
compreender seus aspectos internos articulados com questões contextuais que auxiliam o
analista a desvendar suas engrenagens.
1.3. Modo de endereçamento
Desde 2002, o Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo tem se dedicado à formulação
de uma metodologia para análise de programas jornalísticos televisivos considerando seus
múltiplos formatos na grade de programação. Além de estrutura de sentimento e gênero
televisivo, o conceito que dá sustentação a esta proposta metodológica, com o qual este
trabalho dialoga fortemente, é o de modo de endereçamento, conforme indicado por David
Morley e Charlotte Brunsdon (1999) como o tom ou estilo dos programas. Segundo Itania
66
Gomes, “o conceito de modo de endereçamento tem sido apropriado para ajudar a pensar
como um determinado programa se relaciona com sua audiência a partir da construção de um
estilo, que o identifica e que o diferencia dos demais” (2007, p. 15). Sendo assim, é por meio
de uma forma específica de direcionar-se à audiência que os programas estabelecem uma
relação com ela, distinguindo-se de outros do mesmo subgênero.
No entanto, a questão do tom de programas tem se apresentado recentemente como um
desafio para análise de diversos pesquisadores, suscitando diferentes formas de compreensão
de seu conceito42. Na perspectiva dos Estudos Culturais, a aproximação do tom com o estilo
ajuda a compreender a amplitude que o conceito pode adquirir para análise de produtos
específicos. Ao afirmar que o modo de endereçamento se define enquanto tom e estilo dos
programas, David Morley e Charlote Brunsdon (1999) utilizam uma nomenclatura
proveniente do campo literário para referir-se a formas comunicativas específicas e práticas
de um programa. O tom ou estilo são tomados como algo geral que define o produto como um
todo e, por se diferenciar de outros produtos semelhantes, estabelece uma relação própria com
uma audiência concebida. Raymond Williams (1979), ao tratar das estruturas de sentimento,
afirma que as mudanças que ocorrem nas práticas culturais, na língua, por exemplo, são
conseqüência de modificações em
alguma coisa bastante geral, numa ampla gama, e a descrição que com
freqüência melhor se aplica a essa transformação é o termo literário “estilo”.
É uma modificação geral e não uma série de escolhas deliberadas, e não
obstante se podem fazer escolhas nelas, bem como se podem escolher os
efeitos (WILLIAMS, 1979, p. 133).
Sendo assim, o estilo (ou tom, como o autor vai associar noutro momento) refere-se a um
conjunto geral de características que define as práticas e as obras, permitindo que haja um
efeito sobre e um reconhecimento por parte do leitor, ou seja, como uma forma do produto
endereçar-se a seus consumidores. A “série de escolhas deliberadas”, no dizer de Williams,
seria parte de uma estratégia mais ampla que se alia com o estilo e tom da obra, por isso é que
os programas televisivos, enquanto unidades televisivas, possuem apenas um estilo, uma
única proposta de relação com a audiência e os elementos do programa (cenários, mediadores,
assuntos tratados, recursos visuais, gráficos e sonoros, posição na grade de programação,
42
Uma abordagem sobre o tom dos programas a partir dessas perspectivas encontra-se em Duarte (2004, 2006,
2007) e Jost (2009).
67
relação com a concorrência) são escolhas estratégicas que vão dar sustentação a esse modo de
endereçamento. Desse modo, o conceito de modo de endereçamento ultrapassa a adjetivação
do produto (dinâmico, sério, formal etc) assim como se afasta da análise de posicionamentos
sociais dos sujeitos, conforme proposto pela análise fílmica da teoria Screen43, e recai sobre as
relações construídas entre programa e audiência por meio de estratégias múltiplas, dentre as
quais, a conversação.
Numa perspectiva um pouco diferenciada, Mats Ekström (2000) traz uma abordagem sobre o
telejornalismo que se aproxima da dimensão de tom e estilo, uma vez que concebe as
estratégias construídas pelos programas e as intencionalidades para atingir a audiência.
Segundo Ekström (idem), as estratégias comunicativas variam em função de três fatores: as
intenções dos produtores, os modos de produção e formas comunicativas usadas para
preencher essas intenções; as bases para o envolvimento da audiência e as expectativas que
pretende suprir; os papéis oferecidos aos atores no evento ou processo comunicativo.
A partir disso, Ekström (idem) chegou a três formas comunicativas principais que definem de
maneira mais apropriada um programa telejornalístico. A informação incorpora as definições
mais tradicionais do jornalismo e é usada como estratégia para ensinar os telespectadores
sobre algo que eles ainda não conhecem. Por isso é que o texto das reportagens deve ser
compreensível, a estrutura deve levar ao telespectador uma certa compreensão do mundo e o
programa deve cercar-se de estratégias para dizer que aquela informação é confiável e referese ao mundo real. A expectativa da audiência é ampliar seus saberes para orientar seu
comportamento e seus papéis sociais. Efetua-se, consequentemente, um pacto que tem o
jornalismo como guia da sociedade.
Segundo Ekström, o jornalismo “é fortemente orientado para as histórias, planejando um
enredo e utilizando o potencial dramático do meio44” (EKSTRÖM, 2000, p. 473) e por isso o
“jornalismo que conta histórias” (storytelling) é o modelo que mais se desenvolve
43
Segundo Elizabeth Ellsworth (1999), os filmes são construídos visando alcançar um grupo social específico e
reconhecer os modos de endereçamento de um filme, implica decifrar a idade, a classe social, o gênero, o nível
de escolaridade, etc dos espectadores pensados pelo produto. Para uma análise ainda nessa perspectiva, ver
Gomes et. al., 2004.
44
No original: “(...) a journalism which is strongly oriented toward telling stories, devising a plot and utilizing
the medium‟s dramaturgical potential”. Segundo o autor, o enredo se constrói com base em cinco estratégias
narrativas: uma sequência que indica uma relação de causalidade na narrativa e aponta para seu desfecho, a
construção de personagens, elementos dramáticos que orientam como a história deve ser interpretada, desfecho,
múltiplas possibilidades de explorar mitos sobre a sociedade e seus valores morais.
68
ultimamente, despertando na audiência os sentidos de empatia, identificação, empolgação e o
desejo de saber o final da história. Para Ekström (idem), a conversação no estúdio, em muitos
casos, se enquadra nesse modo de comunicação, reforçando o enredo narrado e criando
personagens, permitindo que o telespectador assuma um lugar de proximidade à história
narrada.
Sobre o jornalismo de atrações, Ekström (idem) trata desde as imagens sensacionais de
acidentes aéreos aos debates políticos que são exibidos pelas emissoras televisivas como
espetáculo. Normalmente, as atrações põem em relação três fatores - o agente (o jornalista), o
objeto exposto (o convidado) e o espectador (a platéia) – que se empenham em mostrar
imagens, acontecimentos e personagens que sejam surpreendentes, chocantes e singulares,
escapando da rotina noticiosa. A estética das atrações, portanto, constitui-se de imagens
dramáticas que são preferidas no lugar da informação. O modo de recepção que se espera
nesse modelo de jornalismo é voltado para emoções mais imediatas suscitadas por situações
extraordinárias.
Informação, storytelling e atração não são formas excludentes e podem estar presentes num
único produto jornalístico televisivo. No entanto, há uma que melhor define seu estilo e
submete as demais para se articularem e fazerem sentido na proposta à audiência. A
informação, o storytelling e as atrações não esgotam todas as possibilidades comunicativas de
um programa, mas ajudam, do ponto de vista analítico, a identificar as intenções das emissões
em direção a sua audiência.
1.4. Operadores de análise
Para compreender a construção do modo de endereçamento dos programas televisivos, o
Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornalismo elaborou quatro operadores de análise que
guiam o olhar do analista sobre o produto sem, no entanto, prendê-lo aos mesmos. Os
operadores ajudam o analista a compreender aquilo que é específico do programa, por isso a
aplicabilidade desses operadores se modifica: num programa, um operador pode ser mais
produtivo que outro, o que desobriga o analista a explorar todos os operadores de igual modo.
Para análise dos programas que têm a conversação como principal estratégia, porém, foi
necessário recorrer a operadores que tratam dos mecanismos conversacionais a fim de
69
observá-los nas trocas televisivas. Sendo assim, serão incorporados aos operadores de análise
do Grupo de Pesquisa em Análise de Telejornalismo critérios provenientes da Análise da
Conversação (SACKS, 1992) - que dizem respeito aos mecanismos de troca, como abertura e
encerramento das falas, passagem da palavra - e de José Luiz Braga (1994) – que trata
especificamente a conversação na televisão - para pensar os procedimentos que envolvem a
conversação televisiva na construção do modo de endereçamento do programa.
1.4.1. Papel dos mediadores
Os mediadores de programas jornalísticos televisivos são figuras essenciais para o sucesso ou
fracasso de um programa diante de seu público. Apresentadores fazem o intermédio entre o
mundo das notícias e a audiência. São responsáveis por dar cara ao programa e pelo carisma
que irá atrair os espectadores. Os repórteres correm atrás da notícia, obtêm informações
exclusivas, acessam diretamente as fontes envolvidas nos acontecimentos e são os
responsáveis por relatar os fatos do dia-a-dia por meio de uma linguagem atraente e imagens
interessantes. Comentaristas e cronistas oferecem as interpretações dos fatos, os julgamentos
morais, condenam e elogiam os atos e personalidades que estão no foco da mídia. Editores e
produtores, ainda que não apareçam diretamente, possuem uma forte influência na construção
do programa, deixando transparecer os mecanismos de produção. A relação que cada um
desses atores propõe à audiência, porém, varia de um programa para outro e, em boa medida,
concretizam o tom e estilo dos programas.
Para a análise do papel dos mediadores faz-se necessário empreender atenção sobre o modo
como esses sujeitos desempenham suas funções no interior do programa e como eles
dialogam com as premissas do campo jornalístico. A recente mudança no papel de
apresentadores de telejornais (cf. SQUIRRA, 1990; PORTO, 2002; FECHINE, 2002, 2008;
HAGEN, 2008), por exemplo, evidencia uma alteração na própria concepção do
telejornalismo e na expectativa do público sobre ele.
Os apresentadores dos programas jornalísticos televisivos possuem um lugar de destaque na
construção do programa, uma vez que são eles que vão estabelecer o contato direto com a
audiência - por meio do olhar para a câmera e do discurso direto (com o “boa noite”, “você
verá ainda nessa edição”) - e ganhar seu respeito por meio da credibilidade que inspiram e
70
empatia. No caso dos programas que fazem parte do corpus desta tese, são os apresentadores
os condutores da conversação posta em cena e, portanto, possuem um papel essencial na
construção da cena. Contemporaneamente, é possível notar uma mudança significativa no que
diz respeito a sua postura diante das câmeras, que permitiu que os apresentadores
abandonassem a postura de meros ventríloquos (VERÓN, 1983), e assumissem uma posição
mais ativa, apropriando-se do cenário e fornecendo comentários, função que tem sido
comumente designada “âncora” (SQUIRRA, 1990). De locutores que possuíam uma boa voz,
os apresentadores hoje interpretam as notícias, conversam e interagem entre si e com sua
equipe, orquestram a transmissão dos programas a partir de estúdios dispersos em diferentes
cidades.
Repórteres, comentaristas e fontes de informação interagem no programa por meio da
mediação dos apresentadores, que define os parâmetros que regem a conversação. Segundo
José Luiz Braga (1994), para compreender a conversação posta em cena nos programas, é
necessário compreender os papéis que os atores desempenham no interior do produto e os
papéis que levam de situações externas às conversas, da vida social. Assim, é necessário
compreender, por um lado, as performances dos agentes em interação, por outro, o modo
como enquadram as situações. Numa análise mais específica sobre a construção de papéis em
situações da vida cotidiana, Goffman (2005) afirma que, ao se colocarem em interação, os
indivíduos disponibilizam um conjunto de informações sobre si mesmos, a fim de delimitar as
maneiras que os demais interlocutores podem agir diante dele. Nisso consiste a formação de
um quadro narrativo (frame) que indica os modos pelos quais os indivíduos irão interagir. Sua
postura, expressões faciais, gestos mais ou menos espontâneos, como salientou Fechine
(2008) são marcos dos frames que ele pretende construir e caracterizam sua performance
durante a interação.
Por outro lado, é necessário considerar, também, que as informações iniciais que os
mediadores e fontes disponibilizam quando entram em contato nas interações do programa
decorrem da trajetória construída no campo jornalístico ou fora dele, quando a legitimidade
do discurso construído pelo mediador se dá pela relação com outros campos. Nesse sentido, o
conceito de trajetória, formulado por Pierre Bourdieu (2005) é uma ferramenta de análise da
71
construção da performance dos mediadores e dos quadros de sentidos construídos por eles45.
Avaliando a obra de Bourdieu, Erik Neveu (2005) afirma que
qualquer explicação das atitudes, discursos, comportamentos etc deve levar a
uma análise de ambos: a posição estrutural (no interior do campo, a posição
do campo vis-à-vis outros campos, etc) e a trajetória histórica particular por
meio da qual um agente alcança aquela posição (habitus)46 (NEVEU, 2005,
p. 3).
No que tange aos programas que utilizam a conversação, o papel dos mediadores deve ser
pensado a partir das relações que propõem com os interlocutores, sejam eles internos ou
externos ao programa. Nos programas de entrevistas e debates é o apresentador que recebe
maior destaque, pois é quem inicia a conversa e propõe uma relação com a audiência.
Entretanto, mesmo nesses subgêneros os apresentadores partilham a mediação com outros
personagens que podem, simplesmente, ler perguntas enviadas pelos telespectadores pela
internet, fazer enquetes ao vivo, dar notícias breves, etc. Assim, repórteres, comentaristas,
cartunistas também são considerados como parte da cena conversacional.
1.4.2. Pacto sobre o papel do jornalismo
Os programas jornalísticos televisivos dialogam continuamente com os valores e premissas do
jornalismo enquanto instituição social, atualizando-os de maneira específica de modo a
estabelecer um acordo tácito com os espectadores. Segundo Itania Gomes,
a relação entre programa e telespectador é regulada, com uma série de
acordos tácitos, por um pacto sobre o papel do jornalismo na sociedade. É
esse pacto que dirá ao telespectador o que deve esperar ver no programa.
Para compreensão do pacto é fundamental a análise de como o programa
atualiza as premissas, valores, normas e convenções que constituem o
jornalismo como instituição social de certo tipo (GOMES, 2007, p. 19)
As premissas indicam o modo como cada programa se relaciona com o jornalismo enquanto
instituição social47. Deste modo, os produtos podem fazer referência mais direta ao discurso
autolegitimador do jornalismo ou flexibilizá-lo de modo a incluir novas práticas. De todo
45
Ressalta-se que não é intenção deste trabalho efetuar uma análise sociológica dos meios de comunicação
conforme a teoria dos campos formulada pro Bourdieu. O conceito de habitus, aqui, é utilizado de maneira
estritamente instrumental, com o objetivo único de levar à compreensão da construção de trajetórias dos
jornalistas no campo profissional e de sua conseqüente apropriação pelos programas.
46
No original: “[...] any explanation of attitudes, discourses, behavior, etc must draw on an analysis of both
structural position (within the field, the field‟s position vis-à-vis other fields, etc) and the particular historical
trajectory by which an agent arrived at that position (habitus)”.
47
As premissas de interesse público, quarto poder e objetividade foram discutidas no segundo capítulo da parte I,
“O jornalismo na cultura contemporânea”.
72
modo, o operador do pacto sobre o papel do jornalismo visa compreender quê jornalismo cada
programa propõe à audiência. A idéia de atualidade, por exemplo, deve ser observada a partir
das estratégias internas de construção do efeito de “aqui-agora” instauradas internamente: os
dispositivos de transmissão direta, a valorização de temas que se dirigem ao que aconteceu ou
está acontecendo, ou ainda a tentativa de atualizar certas discussões aparentemente atemporais
vinculando-as com fatos do presente. Segundo Carlos Franciscato (2003), o jornalismo lida
com a atualidade a partir de cinco dimensões: 1) instantaneidade, que coloca produção e
recepção no mesmo tempo do evento a partir de tecnologias que permitem maior velocidade
de transmissão. A exibição de programas ao vivo visa construir legitimidade por meio dessa
estratégia. Os programas que usam a conversação, quando são transmitidos ao vivo, propõem
uma relação de cumplicidade com o telespectador que “participa” da conversa e é inserido na
mesma prática. 2) A simultaneidade leva o receptor para o tempo do evento sugerindo um
sincronismo entre o fato, a produção e a recepção. 3) Periodicidade significa produzir e
disponibilizar notícias com regularidade, fornecendo um acompanhamento do desenrolar dos
fatos. 4) Novidade, um dos valores mais importantes do jornalismo, diz respeito ao que é
novo, recente. A novidade, ao passo que supre a necessidade dos indivíduos do que está
acontecendo no momento, dá também um sentido de continuidade e familiaridade, já que não
há acontecimentos completamente novos todos os dias. 5) Revelação pública, explica o autor,
é a habilidade de trazer ao público um assunto que seja de seu interesse, mas que ele ainda
não conhece. Nesse caso, não necessariamente o fato acabou de acontecer, pelo contrário, ele
pode ter ocorrido num período de tempo mais longo, mas não ser de conhecimento da
sociedade.
A objetividade também é freqüentemente empregada pelos jornalistas de modo a consolidar
procedimentos em busca da obtenção da verdade. Por conta disso, objetividade e verdade são
duas premissas que caminham juntas na construção do pacto sobre o papel do jornalismo.
Josenildo Guerra (2003) redefine a objetividade jornalística, já não mais pensada enquanto
imparcialidade, como se o repórter pudesse se isentar de suas emoções e opiniões na
observação da realidade, e passa a considerá-la como “o procedimento através do qual o
jornalista opera as matrizes interpretativas48 próprias da área temática objeto da cobertura”
48
O autor explica que os jornalistas possuem um certo horizonte interpretativo que eles acionam ao se depararem
com um fato. O que ele define como matriz interpretativa são as delimitações feitas pelos jornalistas para
compreenderem o fato.”A partir do seu horizonte, o intérprete pode ou deve buscar, a depender das condições de
aplicação, um lugar mais preciso a partir do qual irá situar sua interpretação: este lugar mais preciso é o que aqui
73
(GUERRA, 2003, p. 216). Sendo assim, os jornalistas precisam dominar a área temática sobre
a qual pretendem tratar e fazer uma série de opções sobre o procedimento adequado para
tratá-la. É nesse sentido que as opiniões dos jornalistas são evitadas: “interdição das opiniões
e conjecturas pessoais se dá exatamente através do uso das matrizes interpretativas, o modo
como se torna possível conhecer os fatos no interior da área temática” (GUERRA, 2003, p.
216).
As dimensões de interesse público e vigilância dependem das estratégias discursivas
empregadas pelos programas para se mostrarem à audiência como um serviço, uma instituição
dotada de responsabilidade social. A vigilância diz respeito ao modo como o jornalismo se
constrói como cão de guarda da sociedade, especialmente do campo político. Por conta disso,
a idéia de vigilância está relacionada à de poder moderador (ALBUQUERQUE, 1999, 2008,
2009), que demonstra o modo como o jornalismo se relaciona com as instâncias de poder.
A idéia de interesse público está relacionada à de relevância, que, segundo Josenildo Guerra,
define parâmetros de avaliação do jornalismo por parte da sociedade. Segundo o autor
“relevância significa que (a) as informações são importantes no interior da área temática
objeto da cobertura e (b) as informações são adequadas a uma expectativa da parte dos
indivíduos” (GUERRA, 2003, p. 11). Sendo assim, cabe perceber, nos programas analisados,
que informações atendem a uma expectativa dos telespectadores e porque ela se destaca
dentro de uma área temática.
Freqüentemente, o uso da conversação no telejornalismo se associa de modo mais evidente ao
sentido de verdade do jornalismo, uma vez que o acesso direto às fontes de informação e a
transmissão de sua fala diretamente à audiência permitem que o conteúdo chegue diretamente
ao telespectador, com pouca ou sem intervenção da edição. Vinculado ao sentido de verdade,
a conversação permite, retoricamente, o aprofundamento das informações, daí seu uso nos
telejornais se tornar cada vez mais comum, em especial quando permite que especialistas se
tornem os porta-vozes de um saber que não compete aos apresentadores e repórteres. Assim, a
televisão cria seus próprios especialistas e os investe de autoridade para tratar sobre temas
específicos.
se está chamando de matriz interpretativa” (GUERRA, 2003, pp. 173-174). Assim, a matriz interpretativa é uma
escolha consciente do intérprete para dar significado ao objeto.
74
Nos programas que têm a conversação como estratégia de construção, o pacto sobre o papel
do jornalismo se articula com as formas por meio das quais os jornalistas vão abordar os
assuntos através de um sistema pergunta/ resposta ou interpelação/ resposta. A natureza da
pergunta, portanto, é uma chave relevante para a compreensão do tipo de informação que o
entrevistado deve fornecer, de modo a construir o jornalismo de um certo tipo no programa. O
enquadramento que os jornalistas oferecem aos assuntos, no programa, permite observar
certos padrões que, ainda que não sejam estanques e independentes, ajudam a compreender o
fluxo conversacional e, por meio dele, o pacto que o programa propõe à audiência sobre o
jornalismo. A partir das análises dos programas, foi possível encontrar oito modalidades de
pergunta:
a) Avaliativa – demanda uma opinião pessoal do entrevistado, uma visão de mundo, a sua
verdade sobre o assunto. Por vezes, essa modalidade de pergunta se traduz na forma “qual é a
sua opinião sobre...?”, ou “o que você pensa sobre...?”.
b) Biográfica – busca informações sobre a vida pessoal ou profissional de um participante. O
objetivo é dar destaque a experiências significativas que ajudem a audiência a compreender
melhor a vida pública do personagem, ou simplesmente oferecer informações curiosas sobre
seus ídolos: “como você começou sua carreira?”, “de onde veio essa característica?”, “seus
pais influenciaram nessa decisão?”.
c) Confirmação de hipóteses – visa comprovar hipóteses formuladas pelos jornalistas por
meio da fala do entrevistado. Essas perguntas aparecem, normalmente, após a formulação de
uma idéia por parte do entrevistador e a pergunta colocada em seguida: “você não acha
que...?”, “diante desse quadro é possível afirmar ....?”.
d) Comprobatória – tem como finalidade provar uma informação já existente ou um senso
comum. É comum os entrevistadores formularem essas perguntas como “é verdade isso?”, “é
isso ou não?”.
e) Informativa – busca o conhecimento de algo que ainda não se sabe, ou tirar uma dúvida. É
o que melhor caracteriza o subgênero da entrevista e confere à conversa um caráter educativo.
As perguntas “o que”, “quem”, “para quem”, “quando”, “por que” caracterizam bem esse
modelo de pergunta que visa extrair do entrevistado uma informação direta.
f) Intimista – procura levar o convidado à confissão de segredos, à partilha de emoções. O
objetivo dessas perguntas é criar um ambiente de intimidade no qual os assuntos podem ser
75
abordados. É um desdobramento das perguntas informativas, mas direcionadas aos
sentimentos: “foi difícil passar por isso?”, “o que você sentiu quando...?”, “você tem medo?”.
g) Investigativa – busca examinar, perscrutar diligentemente as informações e falas do
entrevistado. A pergunta investigativa se constrói como um contra-argumento: ela se opõe ao
que o entrevistado está falando, por conta disso, normalmente ela é formulada com a oração
adversativa: “mas será que...?”. A pergunta investigativa resume o sentido de inquérito e está
relacionada especialmente aos debates mais tensos.
h) Solução de problemas – diz respeito a dicas práticas para o dia-a-dia, a modos de evitar um
problema ou reduzir seus efeitos. Procura levar ao público a informação necessária para que
ele desempenhe seu papel cívico ou organize os problemas da vida cotidiana: “para o
telespectador que está em casa, o que é possível fazer para resolver essa situação?”, “existe
alguma medida prática que a gente possa adotar?”.
Ressalta-se que essa lista não possui intenção tipológica ou exaustiva. Visa, apenas,
operacionalizar o fluxo conversacional engendrado no programa a partir de uma relação entre
os turnos de fala na conversação e as premissas do jornalismo que são costuradas durante a
emissão.
1.4.3. Organização temática
Os temas pautados nos programas jornalísticos televisivos são organizados de modo a
construir um encadeamento das informações, seja pela proximidade das editorias, isto é,
notícias da mesma editoria são colocadas no mesmo bloco, seja pela diversidade de assuntos
num fragmento do programa, colocando uma variedade editorial no mesmo bloco. Segundo
Itania Gomes, “a arquitetura dessa organização implica, por parte do programa, a aposta em
certos interesses e competências do telespectador” (GOMES, 2007. p. 20). Assim, a
concepção dessa organização temática visa manter o telespectador cativo à emissão e, muitas
vezes, interessado no que vem a seguir.
Nos programas que utilizam a conversação, a organização dos assuntos se efetua sobre
diversos níveis: 1) o campo de especialidade dos participantes envolvidos na troca que impõe
o tratamento de certos assuntos em lugar de outros; 2) o estabelecimento, por parte do
mediador, de “subtemas” que são desdobramentos do tema principal – assim, a entrevista de
um político em campanha num programa pode abordar as estratégias eleitorais, a trajetória no
76
campo político, as polêmicas e discussões em que já se envolveu, etc; 3) o encadeamento
desses “subtemas” de modo que não haja interrupções abruptas de um assunto para outro,
simulando uma conversa cotidiana; 4) a distribuição de temas em editorias que se
especializam em produtos específicos.
Fundamental para a organização temática dos programas que usam a conversação é o papel
dos apresentadores para conduzir a conversa de modo a prender o telespectador e incluí-lo na
troca. Assim, nesses programas, a temática se articula com o operador do mediador,
responsável por manter a audiência informada sobre os processos internos que irão reger a
troca. Igualmente relevante é a função do mediador de enquadrar (GOFFMAN, 1986) os
assuntos a fim de levar o participante a falar o que ele espera. São os enquadramentos
efetuados pelo mediador durante a conversa que vão fornecer os “subtemas” que emergem na
troca e que podem despertar maior interesse por parte da audiência.
1.4.4. Contexto Comunicativo
Para José Luiz Braga (1994, pp. 300-301), outro elemento importante a se considerar para a
análise da conversação é o local onde a conversação ocorre, já que ele confere maior ou
menor grau de formalidade no tom da conversa. Para o autor, “uma conversa na televisão se
aparentaria a essa situação „em cena‟ – mas o território que é o estúdio, e o meio de longa
distância, impõem outras características” (BRAGA, 1994, 301). Essa “situação em cena”
referida pelo autor é o contexto comunicativo. Este operador visa analisar a situação de
comunicação que insere os enunciadores e o enunciatário propondo um lugar para o
telespectador. Os recursos da linguagem televisiva, tais como cenários, recursos gráficos,
recursos sonoros participam dessa cena reconstruída pelo programa. É necessário considerar
sempre que a situação encenada propõe um lugar para o telespectador que faz parte do
contexto mediático (cf. GUTMANN, 2006).
Segundo Itania Gomes (2007),
[...] isso pode ser melhor explicado pelo recurso à noção de instruções de uso
de um texto, ou seja, aqueles princípios reguladores da comunicação – os
modos como os emissores se apresentam, como representam seus receptores
e como situam uns e outros em uma situação comunicativa concreta
(GOMES, 2007, p. 19).
77
Por meio do texto verbal, os programas consolidam uma posição atribuída aos participantes
por meio de expressões como “você amigo que está chegando agora”, “nossa equipe de
reportagem obteve informações exclusivas para você”, que indicam uma forma de posicionar
a audiência de maneira distante, como se apenas observasse a conversação posta em cena, ou
por meio de uma proximidade, estabelecendo uma relação de cumplicidade. Deste modo,
apresentadores e telespectadores se unem como se fossem participantes de um mesmo ato
numa relação de intimidade mediada pela gramática televisiva.
Como conseqüência, os programas jornalísticos televisivos acabam consolidando um lugar de
fala (BRAGA, 1997), ou seja, um lugar socialmente reconhecido para tratar de determinados
assuntos a partir de uma posição construída. O conceito de lugar de fala refere-se ao espaço
social e discursivo em que uma fala adquire sentido num determinado contexto. Segundo
Braga,
sendo um lugar construído ou ocupado pelo discurso específico no tecido da
inter/extra-discursividade, o lugar de fala não corresponde ao “contexto”,
mas ao lugar construído pelo discurso nesse contexto - o ângulo proposto
estruturalmente pela fala para “ver” a realidade - ou mais exatamente,
segundo o qual a realidade se constitui em sentido (BRAGA, 1997, p. 113).
Com base nesses operadores, foram analisados seis programas – Observatório da Imprensa,
Roda Viva, Jornal das Dez, Bom Dia Brasil, Sem Censura e Marília Gabriela Entrevista tendo como objetivo compreender os papéis que a conversação possui na construção de seu
modo de endereçamento e o lugar da prática conversacional no telejornalismo
contemporâneo, o que será feito na PARTE III.
78
2. O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA E OS ARAUTOS DO JORNALISMO
“Observatório da Imprensa. Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”. É desta forma
que o site do Observatório da Imprensa se apresenta ao público49. Alinhado com os princípios
internacionais do media criticism, o Observatório da Imprensa é uma organização50 que
representa nacionalmente a vigilância aos meios de comunicação e concretiza uma missão
existencial que está explícita no site:
O Observatório da Imprensa funcionará como um fórum permanente onde
os usuários da mídia – leitores, ouvintes, telespectadores e internautas –,
organizados em associações desvinculadas do estabelecimento jornalístico,
poderão manifestar-se e participar ativamente num processo no qual, até há
pouco, desempenhavam o papel de agentes passivos (OBSERVATÓRIO DA
IMPRENSA, 24 jun. 2009).
Para efetivar essa missão, o Observatório da Imprensa disponibiliza, desde 1996, um site com
seções diversas onde a mídia e os acontecimentos que dela fazem parte são analisados por
diversos agentes: jornalistas, professores, estudantes de jornalismo, etc. Em 1998, o
Observatório migrou para a televisão cursando o sentido inverso da maioria dos programas
(que vão da TV para a internet, e não o contrário), mas mantendo o mesmo espírito do site
que, de acordo com José Luiz Braga (2006b), baseia-se na militância em torno de valores
consensuais sobre o jornalismo, efetuada através da crítica especializada. Segundo o autor, a
idéia do site é constituir-se num fórum onde as opiniões são trocadas livremente, de modo a
construir um jornalismo mais ativo na mediação entre os poderes públicos e os interesses dos
cidadãos51, o que se replica também no programa televisivo. No entanto, o produto
audiovisual recebe contornos próprios que o distinguem das características do site e efetua um
deslocamento entre a promessa e sua efetivação, no que tange à proposta de debate. Em todo
o programa vigora um teor de conformidade e consenso que o Observatório da Imprensa
deseja construir na relação com seu telespectador, oferecendo algumas pistas sobre seu modo
de endereçamento. Liderado pelo jornalista Alberto Dines, que possui ampla trajetória na
crítica da mídia, o programa Observatório da Imprensa vai ao ar todas as terças, a partir das
49
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/, acesso em 24/06/09.
O Observatório da Imprensa foi criado pelo Instituto Nacional de Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) e
pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).
51
O referido autor destaca elementos que nem sempre ratificam esse ideal. Sendo assim, segundo Braga (idem,
p. 131) não é qualquer pessoa que tem acesso ao fórum de debate, mas apenas os iniciados, fornecendo ao leitor
os elementos para que ele seja, também, um iniciado.
50
79
22h30 pela emissora pública TV Brasil. As edições analisadas compreendem um amplo
período que vai de maio de 2006 a novembro de 200952.
2.1. As disposições discursivas em torno do consenso
Para exercer a função de “fórum permanente”, lugar onde idéias são trocadas continuamente,
o Observatório da Imprensa televisivo adotou a conversação como estratégia central para sua
construção. A conversação se concretiza guardando características visuais e estruturais
semelhantes às de programas de debate: um mediador e seus interlocutores, dispostos em cena
lado-a-lado, formando uma espécie de mesa redonda, configuram uma forma de apresentação
reconhecida pela audiência como espaço de discussão de idéias. Além disso, em quase todas
as edições o apresentador Alberto Dines reforça a vocação do programa por meio do discurso:
“[...] este Observatório não pode perder de vista a sua função básica e a sua razão de ser: levar
aos telespectadores uma discussão contínua e constante sobre a mídia, onde quer que essa
discussão possa se dar” (30 mai. 2006).
O Observatório da Imprensa busca uma articulação entre um fato social que gerou a notícia e
o tratamento dado a ela dentro de padrões que fazem referência direta ao modelo dominante
de jornalismo. Assim, ao tratar de objetividade, o programa a aborda a partir da referência de
espelho da sociedade; ao se relacionar com o ideal de interesse público, remete ao público
enquanto cidadão inserido na democracia pelo voto, e assim por diante. O diálogo com o
modelo dominante do jornalismo extrapola a abordagem da discussão e migra para os
elementos visuais e sonoros, pouco explorados no programa. A preocupação central do
Observatório da Imprensa é com o conteúdo e não com os aspectos plásticos que a televisão
permite, que promovem distração das mensagens, fazendo o telespectador perder a substância
do que é dito. Tal perspectiva se inscreve nos discursos proferidos pelo apresentador na
abertura do programa, como foi o caso da edição de 06 jun. 2006, quando ressaltou o
“compromisso que uma emissora pública deve ter com o conteúdo dos programas”. Por conta
disso, o Observatório da Imprensa rejeita ao limite qualquer negociação com a estética
televisiva: o cenário de fundo azul só permite ver de modo fragmentado o nome do programa
escrito em branco; os microfones freqüentemente apresentam ruídos; os planos e
enquadramentos praticamente não variam ao longo da conversa.
52
Para efeito de simplificação foram selecionadas dez edições: 23 mai. 2006, 30 mai. 2006, 06 jun. 2006, 13 jun.
2006, 21 jun. 2006, 22 ago. 2006, 29 ago. 2006, 05 set. 2006, 18 ago. 2009.
80
Figura 1: Alberto Dines e o cenário do programa
Fonte: edição de 23 mai. 2006
O programa se restringe a utilizar imagens e sons externos à conversa apenas no momento de
abertura do programa, quando um VT é exibido, contendo entrevistas, imagens de páginas de
jornais e revistas, etc. Nesse caso, a imagem entra como fator que complementa a informação
que se pretende fornecer53. Nesse caso, o texto da narradora é costurado para casar com as
imagens que aparecem: quando diz que “a polícia decidiu partir para a revanche”, a imagem
que aparece na tela é de uma reportagem da revista Isto É que tem como manchete:
“Revanche: polícia militar teve licença para matar”.
Todo o momento de abertura do programa – da vinheta até que se inicie a conversa – visa,
primeiro, posicionar a audiência no tema e no enfoque que o programa dará a ele, e em
seguida, convocá-la a um lugar de aprendizado sobre o jornalismo e a problemática que
despertou os comentários. Pela vinheta, que simula uma página de jornal de onde emergem as
palavras-chave que guiarão o programa – e que deveriam guiar a prática dos jornalistas –, o
telespectador conhece algumas características basilares em torno das quais o jornalismo será
avaliado no Observatório da Imprensa: “público”, “ética”, “fato”, “cidadania”, “realidade”.
Há, também, palavras que reforçam a missão do programa: “participação”, “observação” e
“crítica”. Mantendo a metáfora do jornal, após um movimento semelhante ao de uma virada
de página, o programa exibe sua marca, indicando o lugar de observação que pretende
consolidar, o que é reforçado pelo olho que configura seu logotipo.
53
Ver exemplo na página 99.
81
Figura 2: Imagens da vinheta do Observatório da Imprensa
Fonte: edição de 23 mai. 2006
É, no entanto, por meio de sua fala inicial que Alberto Dines levanta as posições defendidas
pelo programa acerca do jornalismo. Motivado pela cobertura de um acontecimento, Dines
promove uma análise preliminar da apuração jornalística por meio de uma reflexão sobre os
valores do jornalismo já exibidos na vinheta e o modo como eles se fizeram visíveis, ou não,
na imprensa.
Dines:
Marcola, o bandido, mudou tudo. Os cadernos de cidade finalmente foram valorizados, os
repórteres de rua foram reabilitados, as autoridades descobriram que não podem continuar
dizendo uma coisa e fazendo outra. Marcola desarrumou as rotinas das redações. Mostrou
que os jornais diários devem também trabalhar em igual intensidade todos os dias da
semana e que não adianta fingir que está tudo bem quando, na realidade, quase tudo anda
muito mal. Marcola mostrou que eleições não são os únicos instrumentos de mudança. A
quatro meses do próximo pleito, percebe-se que a mudança deve ocorrer agora,
imediatamente, antes que seja tarde. Marcola mostrou que a violência não se concentra no
Rio de Janeiro. É um fenômeno nacional que envolve não apenas os presídios e as favelas,
mas também o Congresso. A corrupção não é um ministro isolado, confinado ao caixa dois
dos partidos. A corrupção deixa seqüelas em todas as esferas da sociedade. Marcola apenas
juntou tudo. Marcola mostrou que para entender o Marcola é preciso ir um pouco além das
frases feitas e das posturas politicamente corretas. O bandido nos acordou para as
conquistas democráticas que já havíamos esquecido. Marcola relembrou a repressão e a
justiça sumária dos tempos escusos. O fenômeno Marcola tem apenas nove dias de vida,
82
mas será difícil, muito difícil, interromper o seu curso. (Edição de 23 mai. 2006)
É por meio desse editorial, feito nos mesmos moldes do site, que o assunto do dia será
apresentado, o que converge para o levantamento de questões como fez Cláudia Tisato, a
outra mediadora do programa: “quando o assunto é violência urbana e crime organizado, a
imprensa noticia, denuncia e cobra uma providência das autoridades. Mas será que o que vai
ser feito é suficiente? A mídia poderia ter uma ação mais efetiva?” (07 jun. 2006).
Para finalizar esse momento de enquadramento temático, o Observatório da Imprensa
apresenta um vídeo no qual o assunto que norteará a edição é exibido de maneira mais
aprofundada. É nítido o uso de imagens coletadas da própria mídia54, de palavras- chave que
ratificam as posições já assumidas por Dines, e as falas de jornalistas, especialistas e fontes
diretamente relacionadas ao acontecimento.
Figura 3: Locução no Observatório da Imprensa
Narradora:
As ações começaram dia doze de maio logo após a decisão da
transferência dos líderes do PCC para penitenciárias no interior
do estado. Teve início uma série de ataques a delegacias e
rebeliões em presídios que se espalharam pelo interior de São
Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. A ordem da onda de
atentados partiu da principal facção criminosa do país, através
de celulares, alguns deles passados através de advogados. Em
pouco tempo, a revolta chegava às ruas de São Paulo. Os alvos
foram policiais, agências bancárias e ônibus. Mais de oitenta
coletivos foram incendiados. A segunda-feira amanheceu sem
transporte coletivo, sem shopping centers e poucos carros. A
população estava acuada. Medo reforçado por uma avalanche
de boatos. A polícia decidiu partir para a revanche e o número
de mortos se multiplicou. Na terça-feira da semana passada, a
violência chegou ao auge: foram trinta e três mortes em doze
horas.
Luiz Eduardo Soares (sociólogo):
A grande vitória do crime é a discussão nas instituições
democráticas e nos marcos legais. Se a polícia se antecipar ao
crime rasgando os compromissos legais, nós teríamos
justamente a rendição ao crime e a vitória do terror [...].
54
Numa prática próxima da clipagem no jornalismo que ratifica a posição de observação.
83
Narradora:
Surgia na mídia um suspeito acordo entre as autoridades do
governo de São Paulo e o chefe do PCC, o Marcola, para
acabar com as rebeliões nos presídios. Também era veiculada a
explicação para o começo de tudo. A facção criminosa teria
pago pela informação sobre a transferência dos membros do
PCC. Em um ano eleitoral, o terror instalado em São Paulo
também atingiu em cheio os políticos. Houve uma lamentável
troca de acusação entre oposição e governo.
Fernando Rodrigues (colunista/
FSP):
Tenho segurança absoluta de que esse tema de segurança
pública vai ser usado durante a campanha eleitoral como já foi
usado em campanhas anteriores. Até porque neste ano, por
conta desse episódio de São Paulo, é um assunto que vai ficar
em evidência, os políticos vão se aproveitar e é um desafio
para os jornalistas identificarem, nos discursos, as promessas
dos políticos, se é um debate verdadeiro, se é a verdadeira
intenção de resolver o problema ou se é apenas demagogia
eleitoreira [...].
Narradora:
Colunas e editoriais analisaram a maior onda de violência no
país. As revistas semanais fizeram reportagens de até trinta
páginas. Tentavam traduzir o caos em que a cidade se
transformou. [...] Em meio a tanta violência, uma questão
ética: como falar sem glamourizar os líderes do crime
organizado?
Marina Maggessi (Chefe
Delegacia
de
Repressão
Entorpecentes):
da Todo mundo acessa a imprensa de alguma maneira, inclusive
a os bandidos, né. Eles vivem muito... eles tiram muito da autoestima deles, das coisas que eles ganham de alguém. Uma
pessoa normal, uma pessoa honesta tem pavor de ver a sua cara
estampada no jornal dizendo: “este é um ladrão”, “este é um
assassino”. Mas eles não. Isso para eles é maravilhoso. Isso é o
84
marketing deles. Foi veiculada uma entrevista do Marcola
dentro da cadeia de Presidente Bernardes sem checar se aquilo
é verdade! Então, teve uma rede de televisão que colocou no ar
uma entrevista de um suposto Marcola dizendo: “olha só, isso
é só café. Vem pior por aí”. Então, a quem serve isso? A quem
interessa isso?
Narradora:
Outro ponto controverso da cobertura jornalística da semana de
terror em São Paulo foi a nítida diferença de enfoque entre as
mídias paulista e a carioca.
Marina Maggessi:
Teve gente que ligou para mim dizendo: “meu editor falou que
não era possível, que vocês estão escondendo o que está
acontecendo no Rio de Janeiro. Tem que ter alguma coisa
acontecendo no Rio de Janeiro. Não acredito. Isso não é
possível”. Eu falei: “ué, manda ele inventar. Ou ele inventa, ou
manda você vir aqui, ou ele vem. O que é que eu posso fazer
para você?” A gente consegue esconder assim? Que imprensa é
essa que tem no Rio de Janeiro?
(Edição de 23 mai. 2006)
A aparente abertura do Observatório da Imprensa para o questionamento, para a discussão
dos assuntos e para o debate diverge, porém, do modo como o programa consolida essas
propostas. O que se percebe por meio de seu acompanhamento é a defesa veemente de certos
valores do jornalismo e da preservação das instituições democráticas, e todos os elementos do
programa servirão para ratificar as posições defendidas naquela emissão. Não há de fato uma
discussão ou um debate, mas uma complementaridade que converge para a defesa de uma
hipótese sustentada pelo Observatório e atualizada por seu mediador principal, Alberto Dines.
O momento inicial do programa transmite “o que há de mais importante”, o que o
telespectador precisa saber antes de mudar de canal ou dispersar-se com outra atividade. É ali
que se enquadra o assunto e o consenso que se pretende produzir naquela edição. Como o
85
programa se propõe a um debate, a abertura põe muito mais ênfase no “como”, “por que” e
“com que efeito55” dos eventos sociais e das formas como os jornalistas os interpretaram. É
em torno desses elementos apresentados desde o início que o programa irá se construir sem
efetuar muitas reviravoltas. Todo o restante do texto converge para a reafirmação do que foi
dito inicialmente, ainda que haja posições contrárias dispersas na conversa.
Nas edições analisadas foi possível localizar um momento em que as posições de Dines foram
negadas por seus entrevistados. O Observatório da Imprensa, em 06 jun. 2006, propunha a
formação de um pacto nacional da mídia contra o crime organizado, pregando que os meios
de comunicação deveriam unir forças para mobilizar ações políticas em prol da segurança
pública antes das eleições, que aconteceriam meses depois. Os três jornalistas convidados do
programa, Tereza Cruvinel, Carlos Marchi e Lúcia Hippólito, posicionaram-se contrariamente
à proposta do pacto, afirmando não ser o momento ideal para tal ação. Durante a edição,
Alberto Dines não defendeu seu argumento, não questionou mais profundamente os demais
participantes sobre suas convicções, nem trouxe dados que ampliassem o debate. Ele deixou
que os convidados expressassem seu ponto de vista livremente, constituindo a cena do
programa como um espaço de livre expressão de idéias. No entanto, ao final da edição, após
cada participante concluir seu discurso com uma breve fala sobre suas convicções, Dines
reforçou o aspecto inicial de sua proposta:
Dines:
Eu queria dizer apenas o seguinte: eu insisto. Eu acredito que a imprensa tem um papel
antecipador. É vanguarda. Tem papel afirmativo, não apenas passivo. [...] A imprensa
tem o papel de transmitir... receber da sociedade os seus impulsos, e transmitir para ela
algumas, algumas coisas da sua vocação. Porque sem esse papel, vamos ter eleições,
vamos ter posse e a coisa vai continuar, e a imprensa a reboque dos fatos.
(Edição de 06 jun. 2006)
O adiamento do posicionamento do apresentador do programa acerca das novas questões que
foram levantadas durante a troca promoveu uma ruptura na disputa pela argumentação que
deve se construir ao longo da conversação. Alberto Dines favoreceu-se de sua posição
enquanto mediador para dar a “última palavra”, sem devolver aos participantes o direito de
reformular suas idéias, incluir novos argumentos. Assim, há um deslocamento na construção
de autoridade por meio do discurso, pois o mediador não fez o turno de fala retornar aos
55
A estruturação do Observatório da Imprensa segue o paradigma do lead no jornalismo, que afirma que o
primeiro parágrafo da notícia deve conter as informações principais sobre os fatos respondendo às perguntas: “o
que”, “quem”, “quando”, “como”, “onde”, “por que” e “com que efeito”.
86
parceiros de debate. Desta forma, ele confirma o caráter consensual: os participantes são
livres para se expressar, mas a palavra final é a do apresentador.
Variando entre três e quatro participantes por edição, além dos mediadores, o Observatório da
Imprensa elege os convidados a partir de uma posição no campo em que atuam, que pode ser
interna ao jornalismo, para dar um olhar “a partir de dentro”, ou externa, para esclarecer os
fatos cobertos. Assim, jornalistas dos principais veículos informativos do país – Folha de São
Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, TV Cultura, etc – posicionam-se ao lado de
especialistas, professores, pesquisadores. Cada um dos blocos do programa contém uma
rodada de perguntas a cada um dos participantes, garantindo-lhes o mesmo tempo de fala. As
perguntas feitas por Dines se estruturam de modo a introduzir a posição dele (e
consequentemente do programa) sobre o assunto e em seguida busca o aval do convidado para
confirmar essa posição. O modelo de confirmação de hipóteses das perguntas de Dines
prevalece no programa e conduz os diálogos travados na cena. Com isso, o Observatório
apresenta uma “verdade” sobre a imprensa, a sociedade e/ou o governo e pretende confirmar
essa verdade por meio das fontes. Sobre a proposta de um pacto nacional contra a violência
promovido pela mídia, Alberto Dines questionou a jornalista Tereza Cruviel, colunista do
jornal O Globo:
Dines:
Tereza Cruvinel, alguns eleitores de nosso site, o assunto foi lançado já há, se
não me engano, duas semanas no nosso site, alguns eleitores comentaram que os
jornalistas não gostam de trégua. Eles precisam é de grandes confrontos que
rendem notícias. Eu acho que não se está propondo uma trégua, quer dizer, o
confronto político continua, mas há uma área demarcada onde deveria haver um
esforço comum. Como é que você vê essa questão? O jornalista realmente gosta
de botar um pouquinho de lenha na fogueira?
(Edição de 06 jun. 2006)
O “debate” do Observatório da Imprensa se apresenta como resíduo das antigas práticas de
debate polido (ÖRNEBRING, 2003) que se encontravam nos diálogos com representantes
políticos nos primeiros anos da televisão, especialmente a norte-americana e européia, cujo
objetivo era o ensino e a formação de um consenso. No Observatório da Imprensa, essa
característica fica evidente no tratamento dado às questões que envolvem o Estado e suas
instituições, questões que são pautadas em boa parte da agenda do programa. Nas dez edições
que compõem este corpus, o programa fez referência ao Estado em sete, à exceção daquelas
que trataram de esportes. Mesmo fora do período eleitoral, o Observatório evidencia uma
87
vinculação com o campo político que perpassa boa parte de seus discursos, ainda que os
assuntos tratados não se dirijam exatamente a esse assunto.
Por assumir a passividade do receptor como pressuposto do modo de consumo dos produtos
jornalísticos, o Observatório da Imprensa reivindica um lugar de fala de doutrinamento desse
telespectador e da construção de sua atividade crítica. Assim, o Observatório, por meio do site
e também da televisão, promove freqüentes medições do “nível de atividade da audiência”
através de uma seção denominada “Urna Eletrônica”, uma enquete com perguntas que
evidenciam os valores do jornalismo defendidos no programa. O objetivo é verificar se a
emissão está de fato cumprindo sua função de incutir nos telespectadores os cânones para a
crítica do jornalismo e quando a resposta se apresenta positiva, isso é celebrado pelo
apresentador.
Dines:
A votação da Urna Eletrônica da semana passada não bateu o record, mas registrou
um número muito expressivo de votantes: 2401 no total. O assunto era matéria de
capa da Revista Veja no fim da semana anterior. Daqui a pouco você saberá os
resultados exatos. Mas uma coisa ficou clara: o eleitor brasileiro desenvolveu o olhar
crítico. Já não recebe passivamente tudo que a imprensa leva até ele. A nossa
sondagem não tem validade estatística, mas reflete uma tendência inquestionável:
nosso cidadão eleitor não aceita o que a imprensa lhe oferece. Nosso eleitorado
aprendeu a julgar, principalmente àqueles que querem fazê-lo de tolo.
(Edição de 23 mai. 2006)
Conforme explica José Luiz Braga (2006, pp. 121-122), a pergunta feita na enquete, sempre
relacionada ao tema do programa, apresenta um confronto: postura crítica versus a postura
conformista da audiência, e os resultados revelam a adesão dos telespectadores (e internautas)
aos valores do programa, oferecendo a “resposta certa”, que vai ao encontro das premissas do
Observatório. Algumas perguntas realizadas no período analisado foram: “as denúncias
vazias de Veja colocam a credibilidade da imprensa em xeque?” (15 mai. 2006), “a mídia
consegue mostrar a real dimensão da violência em São Paulo? Sim ou não?” (23 mai. 2009),
“a mídia deve liderar um pacto contra o terror?” (21 jun. 2006), “o que esclarece mais o
eleitor: o horário eleitoral gratuito ou a cobertura da mídia?” (28 jun. 2006).
As possibilidades interativas entre os participantes do programa também evidenciam o
deslocamento entre a promessa de debate e a efetivação de um consenso. Embora estejam
lado-a-lado, eles não se dirigem uns aos outros, não fazem perguntas, não complementam a
palavra do outro e praticamente comportam-se como ouvintes do pequeno discurso que os
parceiros proferem em seu tempo de fala. Esse distanciamento dos participantes é ratificado
88
pelos enquadramentos que se fecham em apenas um falante, isolando-o da cena que ali se
instaura. Embora se dirijam uns aos outros pelo olhar, o Observatório da Imprensa raramente
os mostra em conjunto no mesmo quadro, isolando o telespectador da conversa ali
estabelecida. Quando o faz, o programa deixa transparecer uma formação que, como já foi
dito, remete às mesas redondas, espaço já estigmatizado pelo debate.
Figura 4: enquadramento dos participantes no mesmo plano.
Fonte: edição de 06 jun. 2006
A distribuição dos turnos de fala no programa da TV Brasil é bastante regulada, inclusive com
relação ao tempo, sendo que cada participante tem o seu momento de falar, que varia três a
cinco minutos para concluir sua elocução. Há uma temática comum que conduz todas as
perguntas de um mesmo bloco a fim de criar uma coesão interna, mas Dines não busca
relacionar as falas, colocar um convidado contra o outro ou solicitar explicações maiores
sobre sua posição. Ele segue um script pensando anteriormente sem encorajar a intervenção
das falas de uns sobre os demais.
A iniciativa de replicar, responder, concordar ou discordar dos demais participantes parte dos
próprios falantes, que aguardam o seu momento de falar para corrigir ou ampliar às
colocações de seus pares.
Tereza Cruviel:
[...] Aproveito a deixa para dizer ao querido Marchi que eu não disse que o ato
de hoje [a manifestação do MLST na Câmara dos Deputados, que destruiu o
Salão Verde] foi um ato político. Eu estive lá e tive medo, né. Foi um ato, sim,
de vandalismo. Mas foi um ato de motivação política. Não foi um ataque do
PCC [Primeiro Comando da Capital], mas de um movimento político, né? É um
movimento organizado, um movimento social organizado com forma de luta
errada, sim, mas não é o PCC.
(Edição de 06 jun. 2006)
89
É por meio da formação de um consenso sobre o jornalismo, e não propriamente de um debate
sobre ele, que o Observatório da Imprensa irá construir uma relação com a audiência calcada
na crítica ao jornalismo praticado nos grandes veículos nacionais de comunicação. Boa parte
do programa se estrutura em torno de um certo conceito de jornalismo, apregoado pelos
participantes. É com base nessa noção que o Observatório da Imprensa formula suas
considerações sobre o “bom jornalismo” - identificado com o paradigma dominante e a idéia
de espelho da sociedade - e o “mau jornalismo” - o tendencioso, manipulador, etc. Assim,
para a compreensão da construção do tom e estilo deste programa, cabe uma análise mais
detida do lugar que o jornalismo ocupa.
2.2. O jornalismo enquanto metalinguagem
Enquanto proposta de oferecer à audiência uma crítica à mídia e às coberturas jornalísticas, o
jornalismo no Observatório da Imprensa é tanto conteúdo quanto modo de fazer: assume-se
que o programa irá tratar sobre o jornalismo de maneira jornalística. A abordagem do
jornalismo enquanto temática do programa implica pensar quais enfoques são dados ao
jornalismo, sob que circunstâncias ele é pautado, que aspectos ele procura salientar. O
jornalismo como modo de construção indica, por sua vez, a forma como o próprio programa
atualiza as premissas do jornalismo que procura evidenciar no conteúdo, configurando o pacto
sobre o papel do jornalismo. No caso do Observatório da Imprensa, destaca-se a qualidade de
vigilância, que consolida a promessa de observação, a dimensão de serviço público e a
construção de uma objetividade ritualizada na omissão de um enfrentamento das opiniões.
O jornalismo enquanto temática aparece como uma crítica ao assunto que ocupa as primeiras
páginas dos principais jornais, revistas e televisões do país. Nesse movimento, o Observatório
institucionaliza certos veículos, principalmente a mídia situada no sudeste, como condutores
dos cânones da profissão ou seus corruptores. Assim, duas abordagens sobre o jornalismo são
possíveis: a primeira diz respeito às premissas, aos valores que precisam ser assegurados pela
imprensa; a segunda refere-se aos procedimentos jornalísticos que devem estar de acordo com
a ética e o interesse público. É nesse dupla articulação que o programa vai construir sua
temática.
Os procedimentos jornalísticos dizem respeito às técnicas empregadas pelos jornalistas para a
obtenção da informação e sua divulgação. Assim, valoriza-se o repórter que efetuou boa
90
investigação, ouviu os diversos lados que envolvem a questão sem agir de maneira
tendenciosa, que tem o melhor acervo de provas que evidenciam os fatos. Além disso, são
ressaltados aspectos que dizem respeito à rotina produtiva: reuniões de pauta, processo de
edição, o tempo dedicado às coberturas, etc. Desta maneira, o Observatório da Imprensa
aproxima a audiência não-especializada dos rituais do jornalismo, introduzindo, ao menos, um
vocabulário próprio para que o telespectador se aproprie e efetue críticas melhor embasadas.
A proposta do programa não é discutir propriamente esses rituais rotineiros dos repórteres,
mas explicitá-los como causa ou conseqüência das coberturas e os efeitos por ela produzidos.
As premissas do jornalismo referem-se aos valores do jornalismo como instituição social que,
muitas vezes, remete a uma concepção do jornalismo enquanto mediação entre a sociedade e
os fatos, como um reflexo direto do que acontece na vida cotidiana. Assim, a objetividade, o
serviço público, a independência, a autonomia, a verdade aparecem como critérios pelos quais
a mídia deve ser criticada, como se pode ver na pergunta de Alberto Dines a Juca Kfouri,
jornalista esportivo:
Dines:
Juca, você falou sobre a quantidade de jornalistas que foram cobrir [a Copa do Mundo]
mas tem muito “para-jornalista” também, né? O esporte, e sobretudo o futebol, Copa do
Mundo, tem muito penetra e a celebridade vira mais importante do que o jornalista que
está ali no dia-a-dia, fazendo o feijão-com-arroz. Como é que você vê essa confusão
celebridade/ Copa do Mundo/ imprensa?
(Edição de 30 mai.2006)
O valor em questão é a legitimidade profissional, marcada por uma distinção entre “nós”, os
jornalistas que reivindicam um lugar especializado no campo, e “eles”, os agentes de outras
esferas, os “penetras” que impedem o exercício do jornalista. A legitimidade em si não é
discutida nessa edição do programa em nenhum momento, é tomada como valor universal na
prática da mídia informativa. A naturalização desses valores visa levar aos telespectadores
uma ideologia profissional que reserva aos jornalistas profissionais o direito legítimo de
representar o público nas diversas esferas da vida cotidiana.
Alguns procedimentos e premissas aparecem mais vezes, indicando a concepção de “bom
jornalismo” para o programa. Apuração é o procedimento jornalístico mais abordado durante
o Observatório da Imprensa, não tanto para explicar técnicas da boa apuração jornalística,
mas para destacar o papel político dos jornalistas: a boa apuração enfrenta a auto-censura e os
poderes públicos, caminha em nome do interesse público e da liberdade de expressão, como
91
ficou evidente na abordagem sobre o seqüestro ao jornalista Guilherme Portanova, da Rede
Globo, e a necessidade dos jornalistas não restringirem suas práticas de apuração por conta de
atos terroristas (21 jun. 2006).
No que diz respeito à concretização das premissas do jornalismo, o Observatório da Imprensa
assume uma postura bipolar quanto à missão de “vigilante do quarto poder56”. Se por um lado
o programa efetua a crítica da mídia por meio de um ataque veemente ao “mau jornalismo”,
por outro, ele parte em defesa da mídia quando o que está em jogo são valores mais amplos
como a liberdade de expressão, a democracia e a autonomia do campo profissional. A
militância do Observatório por um “bom jornalismo” permite ao programa ora a condenação
dos veículos de comunicação, ora sua advocacia ostensiva quando outros poderes interferem
no cerne de sua existência. Quando o que está em jogo é a liberdade de imprensa, o Estadão,
criticado em algumas edições, tornou-se vítima e os vilões eram os representantes do
judiciário que impediram o exercício do jornalismo-verdade, das denúncias e do interesse
público.
No editorial da edição de 18 ago. 2009, Dines reforçou o princípio da liberdade de imprensa:
Dines:
56
Durante a ditadura militar, os censores eram fardados. Agora, em plena vigência do
regime democrático, somos confrontados com essa aberração: a censura togada. Está
virando moda. Alguns magistrados não sentem o menor pudor em determinar a
supressão de informações. Não impõe sanções pelo que já foi publicado. Agora rogam-se
ao direito de atuar preventivamente para evitar a circulação daquilo que não consideram
apropriado. A nova mania aparentemente começou em 2002, quando o juiz do TRT de
São Paulo impediu a publicação de notícias sobre ele mesmo num caso de assédio
sexual. Este Observatório já tratou sobre a censura togada em cinco edições, a última em
julho passado, quando o Ministério Público Eleitoral proibiu que a Veja de São Paulo
publicasse entrevistas com os a candidatos à prefeitura da cidade alegando que tratava-se
de propaganda política. A nova investida da censura togada foi determinada pelo
desembargador de Brasília, Dácio Vieira, que atendeu a uma ação do filho do Senador
José Sarney e proibiu o jornal O Estado de São Paulo de continuar a publicação de
notícias sobre o inquérito sigiloso que corre contra ele na Polícia Federal. O Senador
Sarney alega que o pedido de embargo não partiu dele, mas a essa altura é difícil dizer
quem é quem no crime Sarney. No patético discurso ontem no plenário, o Senador
Sarney reclamou contra os supostos métodos nazistas que estariam sendo aplicados
contra o jornalão paulista e pediu a volta da lei de imprensa e do direito de resposta
recentemente extinto pelo STF. Então, por que razão Sarney não protestou na ocasião?
Simplesmente porque a administração da justiça no Brasil transformou-se numa sucessão
de injustiças. Gilmar Mendes, atual presidente do STF, tem parte da culpa neste
pandemônio judicial. Indagado sobre a validade do embargo noticioso imposto ao
Estadão, alegou que era uma decisão judicial e que por isso não configurava censura.
Agora, diante celeuma, impacienta-se e cobra celeridade no Tribunal de Justiça de
Ver TRAQUINA, 2003.
92
Brasília em definir a questão. A crise, que parecia circunscrita ao Senado, esfera
legislativa, agora estendeu-se ao âmbito do judiciário. Não é por acaso que a mídia não
gosta de agosto. [...] O direito à liberdade de expressão, garantido pela Constituição, foi
alvo, mais uma vez, da censura togada. Desta vez, a vítima foi o jornal O Estado de São
Paulo. A decisão foi do desembargador Dárcio Vieira do Tribunal de Justiça de Brasília.
(Edição de 18 ago.2009)
Nesse caso, a condenação migra para as esferas de poder, que também são o alvo da crítica
jornalística. O Observatório da Imprensa atualiza a função de poder moderador de forma
muito particular, não apenas transitando entre os três poderes para arbitrar sobre suas ações e
interpretar os fatos, mas principalmente intercedendo em nome seus pares, quando estes
querem exercer suas atribuições jornalísticas. Assim, o programa exerce a função de
moderação entre as esferas de poder e a própria mídia, servindo de trincheira dos jornalistas
contra as ações que ameaçam sua autonomia, e porta-voz da classe, formando uma espécie de
corporativismo profissional. Por estar distanciado da prática jornalística cotidiana, o
Observatório da Imprensa assume um lugar acima das instituições de mídia de modo que
pode falar em nome dela para exigir uma atitude positiva das instâncias de poder público em
relação à prática jornalística. Nesse sentido, o caráter de militância recebe contornos ainda
mais definidos, pois o programa fala em nome da corporação.
Por meio dessa dupla postura, ora contra, ora a favor da imprensa, é que o Observatório
consolida um pacto sobre o papel do jornalismo calcado no serviço público do jornalismo e
em sua atividade política. A missão de crítica se alia, portanto, à de cidadania: por meio do
arsenal oferecido pelo programa sobre os valores do jornalismo, a sociedade poderá
compreender melhor a mídia e cobrar dela atitudes proativas em direção às instâncias de
poder. A crítica estende-se aos limites do jornalismo e recai sobre valores “universais” que
devem ser assegurados para o funcionamento de uma sociedade madura, principalmente os
que confirmam índices da democracia.
A vigilância exercida pelo Observatório da Imprensa, portanto, abarca todas as esferas sociais
que dizem respeito à mídia – política, esporte, economia, e a própria mídia – visando dirigirse a um público, compreendido pelo programa em seu papel político-cívico. O programa fala
majoritariamente para o telespectador eleitor e legitima-se no contexto midiático por oferecer
uma crítica especializada da mídia que poderá servir de instrumento para que o eleitor forme
um repertório crítico que lhe permita votar melhor.
93
Uma premissa significativa no programa é a atualidade, que busca inserir o Observatório no
momento das principais discussões do país, de modo que o telespectador seja, logo, iniciado
nos assuntos a fim de conduzir suas conversas em espaço privado. Assim, na época da Copa
do Mundo, o programa pautou a prática do jornalismo esportivo, assunto que em poucas
oportunidades entram na temática do programa. A periodicidade semanal permite que a
equipe de produção do programa colete informações diversificadas sobre o assunto que será
abordado, o que se demonstra no VT que abre o programa por meio de imagens de
reportagens e colunas de jornais impressos e revistas, além de pequenos vídeos retirados de
programas jornalísticos.
Associado a isso, há uma valorização do “hoje”, a fim de que o programa não perca o tempo
do acontecimento que gerou a crítica. Essa simultaneidade entre tempo do evento e tempo de
transmissão do programa é buscada ao ponto de mudar as pautas já programadas. Na edição
de 06 jun. 2006, Alberto Dines explica:
Dines:
[após apresentar Tereza Cruvinel, convidada do programa] A nossa pauta de hoje é
um pacto nacional convocado pela mídia para enfrentar o crime organizado. Mas hoje
é um péssimo dia para discutir isso, porque houve aquela violência, aquele
vandalismo na “Casa do Povo”, na Câmara dos Deputados como nunca vimos [...].
Assim, a imediaticidade e a periodicidade se unem no programa para consolidar uma relação
dos telespectadores com o presente, a fim de que
diferentes atores sociais movimentem-se em simultaneidade dentro do corpo
social a fim de construir suas ações públicas (debates, contestações, reforço
ou produção de novos eventos) dentro de marcadores e intervalos comuns
aos oferecidos pela instituição jornalística.” (FRANCISCATO, 2003, p.
174).
O valor de objetividade do jornalismo é muito marcado no programa pela figura de Alberto
Dines. Na tentativa de exercer o jornalismo que defende, Dines intervém muito pouco nas
colocações dos convidados. O binômio pergunta/ resposta funciona de maneira simplista: o
apresentador coloca uma questão para o convidado que retruca e finaliza a troca. Passa-se,
então, outra questão para outro convidado que introduz novas idéias sobre o assunto. Dessa
forma, o programa aparenta destinar ao momento inicial – especialmente o editorial e o VT –
a possibilidade de transmissão de opinião direta por parte de seu mediador.
94
O Observatório da Imprensa não se assume, enquanto conjunto, como um programa objetivo,
uma vez que a crítica e análise da mídia constituem sua proposição primeira. A postura de seu
apresentador durante o momento de “debate” indica que ele mesmo não irá conceder mais
opiniões do que o que já foi oferecido. No entanto, as perguntas formuladas pelo apresentador
indicam as teses sobre a imprensa que o programa busca sustentar com o aval do convidado,
que a aprofunda a partir de sua área de atuação. Deste modo, além das perguntas de
confirmação de hipóteses, o Observatório da Imprensa utiliza também perguntas avaliativas:
“Doutor Maierovitch, nós estávamos tratando do crime com uma designação de crime
organizado. Mas de repente nós vimos que é um crime politizado, organizado e politizado. E
não é mais localizado, é nacional. Como é que o senhor vê essa transformação, essas
avaliações diferentes que hoje passamos a ter sobre o crime no Brasil, o crime e a violência no
Brasil?” (23 mai. 2006). O doutrinamento exercido pelo Observatório é liderado por Dines,
mas se dispersa para os outros convidados, mantendo a mesma característica do site, que
permite que colaboradores diversos cooperem para a formação de um discurso monofônico
sobre o jornalismo. Sendo assim, a objetividade é usada como ritual para validar o consenso
que se pretende formar, excluindo vozes dissidentes da cena do programa.
2.3. Os arautos do jornalismo
Boa parte do contexto comunicativo que o programa pretende instaurar se consolida pelo
papel desempenhado pelo mediador principal do Observatório da Imprensa, o jornalista
Alberto Dines. A trajetória de Dines revela não apenas a passagem em veículos importantes
da história do jornalismo brasileiro, mas sua influência deixou marcas no próprio processo
produtivo. Alberto Dines foi um dos responsáveis pela profissionalização do jornalismo,
criando práticas de reportagem específicas e rotinas de produção. Atuando como diretor de
jornalismo nos diários Última Hora, Diários Associados e Jornal do Brasil, Alberto Dines
buscava formas criativas de trazer inovações ao jornalismo impresso, que se consagraram
como dominantes: em seu período de doze anos no Jornal do Brasil, Dines e sua equipe
institucionalizaram a prática da reunião de pauta, o que ainda não era uma rotina nas redações.
Segundo seu próprio depoimento57, sua presença nas redações aprimorou um olhar crítico
para o jornalismo e para perceber mudanças que começavam a se enraizar na atividade
57
Entrevista concedida por Alberto Dines ao site do Observatório da Imprensa, 21/08/02. Disponível em
http://www.tvebrasil.com.br/observatorio/sobre_dines/memoria.htm, acessado em 08/12/09.
95
profissional. Assim, Dines percebia a necessidade de refletir sobre o jornalismo, o que o levou
às salas de aula da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1963. Anos mais
tarde, recebeu um convite para dar aula como professor visitante na Columbia Universtity,
coincidindo com o período de renúncia do presidente Nixon. Foi então que entrou em contato
com o conceito de media criticism, uma atividade de crítica ao jornalismo realizada no
ambiente acadêmico. Ao voltar para o Brasil, Dines recebeu o convite para escrever uma
coluna sobre política no jornal Folha de São Paulo que ainda não havia se consolidado entre
os principais veículos informativos do país. Além de efetuar os comentários políticos, Dines
ofereceu ao dono do jornal, Otávio Frias, uma coluna para discutir a imprensa, uma
experiência pioneira no país. Com sua demissão da Folha de São Paulo, a coluna de Alberto
Dines foi para o Pasquim, onde recebeu um olhar mais satírico.
A partir dessas experiências que inauguraram a crítica jornalística no Brasil e os contatos com
jornalistas de outras partes do mundo, Alberto Dines foi convidado para abrir um curso de
especialização, no nível de pós-graduação, para a crítica à imprensa na Universidade de
Campinas. Em seguida, juntamente com Carlos Vogt, o jornalista criou o Laboratório de
Estudos Avançados em Jornalismo, na mesma instituição, que foi o que acabou originando o
Observatório da Imprensa, primeiramente na internet, e dois anos depois, a convite de
Alexandre Machado, na TV Cultura. Segundo o apresentador, o ingresso na televisão se deu
porque a proposta do Observatório era atuar em três frentes: “na frente acadêmica, que é a da
formação, vamos atuar dentro da universidade; na frente do mercado, junto às empresas e a
outras instituições; e junto à sociedade também, para lembrá-la de exigir mais dos seus
veículos de comunicação” (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 08 dez. 2009), mas, segundo
ele mesmo, somente as duas primeiras se concretizaram inicialmente.
Segundo o apresentador,
hoje, o programa é uma instituição. O conceito foi lançado, e o conceito é de
que a crítica da mídia só se legitima quando ela é feita voltada para o público
que consome a informação, para o cidadão que lê, que precisa ser informado
corretamente. Porque, caso contrário, vira conversa de botequim entre
profissionais (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, 08 dez. 2009).
A trajetória de Alberto Dines aponta para o pioneirismo da atividade crítica do jornalismo, o
que lhe garante atributos para colocá-lo num lugar de destaque no campo jornalístico. Embora
não faça referência a sua carreira no programa, Dines ocupa um lugar essencial que lhe
96
permite um olhar mais crítico e distanciado, uma vez que se destacou na construção de um
jornalismo mais qualificado em práticas institucionalizadas – como a reunião de pauta – e
também na reflexão acadêmica sobre a atividade profissional. Sendo assim, a crítica é feita
“de fora para dentro” num caráter de observação, mas a partir de um lugar de fala construído
“de dentro para fora”. Esse duplo movimento presentifica-se no conjunto do programa por
meio da migração do discurso de um lugar a outro - interno e externo ao jornalismo –
conferindo-lhe credibilidade: do lado de dentro do jornalismo, os convidados jornalistas estão
ainda em atividade, permitindo o olhar a partir da prática e dos desafios que se impõem; do
lado de fora, os agentes de outros campos orientam a prática jornalística para o social. Dines,
por sua trajetória, é a figura que congrega as duas esferas e por isso mesmo está acima dos
demais. Em boa medida, é por esse distanciamento de Dines, aliado aos olhares internos e
externos sobre o jornalismo, que o Observatório da Imprensa constrói-se como um arauto do
jornalismo e de seus valores.
Já foi evidenciado que o Observatório da Imprensa busca constituir um consenso acerca do
jornalismo, consenso este que deve guiar as práticas dos agentes do campo no exercício de
sua profissão. Os editoriais de Dines, as perguntas que visam confirmar as teses formuladas
pelo programa, a postura não adversarial dos participantes da troca, a ausência de vozes
divergentes são indícios do tom consensual adotado pelo programa e do encaminhamento de
um certo conformismo às posições ali defendidas. A ênfase em valores tidos como universais,
como interesse público, autonomia, ética, entre outros, são balizas utilizadas pelo programa
para definir a qualidade do jornalismo desempenhado no Brasil. É pela formação desse
consenso e por assumir-se na missão de transmiti-lo à população que o Observatório da
Imprensa coloca-se num lugar especializado para a crítica. A construção do programa busca
evidenciar os problemas que concernem a imprensa e os poderes públicos, configurando o
lugar de porta-voz do “bom jornalismo”, o que muitas vezes se faz por meio de um discurso
moralizante sobre o jornalismo na forma de “dever ser” (cf. BRAGA, 2006, p. 129). Por isso é
que algumas das perguntas de Dines se traduzem pela busca da solução de problemas (“Assaf,
você acha que há soluções para criar uma pluralidade, uma diversidade, um confronto? Afinal
de contas, cada brasileiro é um técnico de futebol. Como é que a gente pode equilibrar a
cobertura esportiva, sobretudo a de televisão?”, 30 mai. 2006) e a posição dos convidados se
efetua numa direção quase profética, prevendo possíveis resoluções para o futuro: “eu acho
que agora, a partir dessa lição [do PCC], vai dar uma lição para as redações, para as
97
autoridades” (Renato Lombardi, 23 mai. 2006). Formulações como essas evidenciam que o
Observatório ocupa uma posição destacada do restante da mídia, permitindo-lhe agir como
porta-voz.
Ao passo que se consolida nesse lugar de arauto do jornalismo, o Observatório posiciona seus
telespectadores como potenciais agentes de transformação social, mas carente de parâmetros
para julgar a imprensa. Assim, o programa completa sua missão ao oferecer à audiência os
critérios por meios dos quais poderá avaliar o jornalismo. Segundo José Luiz Braga (2006),
enquanto o “debate” se dá entre iniciados, o Observatório da Imprensa dá “acesso a esse
debate, para que o leitor possa se tornar, ele também, um iniciado” (BRAGA, 2006, p. 131). A
divulgação do resultado da enquete funciona, nesse contexto, como uma prova retórica de que
o programa está cumprindo seu papel e convoca o telespectador a acompanhar o Observatório
da Imprensa pelo site, pela televisão e pelo rádio, como interpela seu apresentador ao final de
cada edição.
Figura 5: resultado da enquete do Observatório da Imprensa.
Fonte: edição de 23 mai. 2006
A concessão de um espaço ao telespectador visa reiterar os lugares discursivos assumidos na
constituição da cena televisiva enquanto o programa se posiciona como serviço público.
Assim, Alberto Dines abre uma pequena concessão para que os telespectadores enviem suas
questões diretamente para os participantes no estúdio, oferecendo a possibilidade de
participação deles também. Os telespectadores são representados por Cláudia Tisato,
mediadora localizada no estúdio do programa no Rio de Janeiro que não possui autonomia
para construir seu próprio discurso no Observatório, mas dá conta de aspectos como a
narração em off dos VTs, a apresentação dos convidados, a divulgação dos canais de
participação e a leitura das perguntas. É Cláudia que dá voz ao público no interior do
98
programa, possibilitando o diálogo com os participantes: “L.A., de Petrópolis, Rio de Janeiro,
pergunta para a Tereza: é possível que a grande mídia faça campanha contra a corrupção, a
má distribuição de renda, moralização dos políticos com resultados práticos?”, “será que hoje
os meios de comunicação estão distantes da sociedade civil?”, 06 jun. 2006.
Audiência e programa, portanto, interagem através de telefone, fax e e-mail cumprindo
retoricamente o papel de fazer daquela cena uma arena para discussão. No entanto, a
conversação que ali se estabelece se dá muito mais nos termos de uma entrevista, por meio da
simples colocação pergunta/ resposta sem direito a réplicas. Ali, as posições não são
confrontadas no sentido de indicar aos telespectadores outras perspectivas sobre o jornalismo.
Se é pelo acompanhamento constante do Observatório que o telespectador irá formar seu
repertório para análise crítica da imprensa e dos poderes públicos, a ausência de disputas no
interior da cena televisiva inclina os olhares para valores supostamente universais,
naturalizados nos discursos de seus agentes. Assim, se o programa traz o mérito de iniciar
telespectadores em questões que estão em pauta entre os diversos agentes da mídia, e oferecer
um lugar diversificado para olhar os fatos sociais, ele o faz de maneira ideológica, a partir de
valores pouco discutidos que dificultam ao público “nunca mais ler jornal no mesmo jeito”.
99
3. RODA VIVA: REFLEXÃO E DEBATE NA ARENA
No ar desde setembro de 1986, o programa de entrevistas Roda Viva se estabeleceu como um
lugar privilegiado de debate sobre assuntos públicos na televisão brasileira. Estreado um ano
após o movimento das Diretas Já no Brasil, alinhado com os ideais de democracia
participativa, e transmitido por uma TV pública, a TV Cultura de São Paulo, o Roda Viva,
desde suas origens, tem se empenhado em colocar no centro de seu cenário, constituído em
forma de arena, as principais personalidades nacionais e internacionais das áreas da política,
artes, economia, cultura, esportes, educação e ciência, a fim de construir-se como um locus de
discussão social. A revista Veja de 25 de fevereiro de 1987 atribuiu o sucesso do programa ao
equilíbrio entre sobriedade e informalidade nos debates, diferentemente do que ocorria nos
concorrentes do período, a exemplo do Canal Livre (TV Bandeirantes) e do Programa
Ferreira Netto (TV Gazeta de São Paulo), que oscilavam entre “o ambiente de bate-papo
entre amigos” e os “debates freqüentemente tumultuados”, respectivamente (DEBATE VIVO,
1987, p. 113).
Exibido desde a estréia todas as segundas-feiras58, o Roda Viva assume como ideal “realizar
jornalismo público de qualidade ao oferecer aos telespectadores a possibilidade de conhecer o
pensamento e o trabalho de personalidades nacionais e estrangeiras com profundidade”
(informações do site oficial do programa, acessado em 20 abr. 2009). A promessa de um
jornalismo de qualidade se concretiza por meio da proposta de reflexão e aprofundamento dos
assuntos que o programa discute em seus cinco blocos de exibição. Por conta disso, o Roda
Viva pressiona o subgênero que o insere – programa de entrevistas – a partir de imbricações
constantes com os programas de debates, já que é seu objetivo promover uma troca de idéias,
opiniões e argumentos sobre os assuntos que concernem o entrevistado e sua área de atuação.
O tempo prolongado, a performance dos participantes, o estatuto dos interlocutores em cena,
os enquadramentos temáticos e a abertura para a interatividade com o público são marcas do
programa que parecem dar a tônica do modo de endereçamento do Roda Viva e justificarem
seu sucesso e longevidade na história televisiva nacional59.
58
O que variou ao longo do tempo foi o horário de exibição: inicialmente o programa ia ao ar às 21hs20.
Durante o período analisado, o Roda Viva entrava em cena das 22hs10 às 23hs40. Ainda assim, a opção pela
faixa horária do fim da noite se mantém estável ao longo do tempo.
59
A presente análise leva em conta o período de 2006 a 2008, mas para efeito de exemplificação foram
selecionadas dez edições: 12/06/06 (com a senadora então candidata à presidência da República Heloísa Helena),
21/08/06 (com o escritor, ativista político e cineasta paquistanês Tariq Ali), 4/09/06 (com o físico Mário
Novello), 2/10/06 (debate sobre as eleições), 16/10/06 (com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva), 19/06/06
(debate sobre o universo dos deficientes físicos), 8/09/08 (com o cineasta Fernando Meirelles), 24/11/08 (com o
100
3.1. Tomada de posição
A história dos programas de entrevistas e debates no Brasil se inscreve no declínio da ditadura
militar, no final da década de setenta e início dos anos oitenta. A morte do jornalista Wladmir
Herzog60, em 1975, tornou-se um marco histórico para que a sociedade começasse a se
manifestar contrariamente à censura, às perseguições e às torturas aos inimigos políticos, aos
artistas de esquerda e à imprensa. Aproveitando o clima de tensão e protesto que se instalava
no período, a programação televisiva se abriu para o formato da entrevista e do debate, antes
limitado a poucos exemplares61. Com o governo militar enfraquecido, os programas
televisivos se encarregaram de suscitar o debate público e dar visibilidade aos temas e
personalidades antes pouco discutidos, ocupando, portanto, a função de porta-voz da
sociedade e galvanizaram uma esfera pública. Nesse rastro, Abertura (TV Tupi), Vox Populi
(TV Cultura), Encontro com a Imprensa (TV Bandeirantes), Diário Nacional (TV Record),
Canal Livre (TV Bandeirantes) e TV Mulher (TV Globo) atuaram como fomentadores da
discussão sobre cultura, economia e política. Foi nesse contexto que o programa Roda Viva
encontrou seu lugar na grade de programação brasileira e se justificava socialmente pela
proposta de um debate de alto nível dos assuntos que concerniam à vida pública. Seguindo a
tendência dos programas de sua época, o Roda Viva privilegiava a política, mas não se
restringia a ela, abrindo espaço para representantes das artes, cultura, esportes, economia e do
próprio campo televisivo.
Esses aspectos, construídos historicamente pelo programa, sofreram pequenas alterações ao
longo do tempo, mas não perderam sua essência, de modo que ainda hoje a proposta de
jornalismo de qualidade por meio da reflexão sobre os assuntos públicos é o elemento central
da construção do estilo do Roda Viva e o principal motivo para sua credibilidade entre a
audiência e os críticos televisivos (TARAPANOFF, 2004). Esse pacto sobre o papel do
jornalismo se mostra ao telespectador na própria estrutura cênica do estúdio: uma arena, no
centro da qual o entrevistado da rodada se posiciona e ao seu redor, numa arquibancada num
nível acima, seus entrevistadores formam um círculo interrompido por três televisores.
ator Wagner Moura), 1º/12/08 (com o professor de ciência da computação da Universidade de São Paulo,
Valdemar Setzer), 24/11/08 (com o economista Nicholas Stern).
60
Herzog era diretor de A Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que denunciava os problemas da
comunidade.
61
Mesa Redonda do Vídeo (1952), Hebe (1966) e Globo Gente (1973) são alguns exemplos de programas no
formato de entrevista e debate que fizeram a história da televisão antes da década de oitenta.
101
Através dessa estrutura, todos podem se entreolhar e o entrevistado pode se dirigir a qualquer
lado. Essa constituição do cenário62, que o programa carrega desde a sua estréia efetuando
algumas variações, sugere que o centro do programa, ocupado pelo entrevistado, será o foco
do debate. É para ele que todas as questões convergem e é ele que deverá responder à sabatina
de perguntas formuladas pelo apresentador do programa, pelos demais mediadores
convidados e pelos telespectadores que podem participar por e-mail ou por telefone.
Figura 6: cenário atual do Roda Viva
Fonte: edição de 24 nov. 2008
Para asseverar o alto nível do programa, o Roda Viva investe, principalmente, no estatuto dos
participantes, selecionados rigorosamente pela equipe de produção do programa, e na
qualidade das perguntas feitas, elementos que, em seu conjunto, dão um caráter tenso e muitas
vezes acirrado à conversa. As múltiplas vozes que constituem o Roda Viva possuem funções
bem definidas que se complementam para costurar o estilo do programa. Em primeiro lugar e
ocupando uma posição de destaque, o Roda Viva conta com um apresentador que faz a
mediação entre a esfera da produção e o interesse público que representa e busca assegurar.
Inúmeros jornalistas renomados já passaram por essa função, incluindo Rodolpho Gamberini,
apresentador no período inicial do Roda Viva, Augusto Nunes, Matinas Suzuki, Heródoto
Barbeiro, Jorge Escosteguy, jornalistas renomados e com um perfil vinculado aos cargos de
chefia do jornalismo televisivo e impresso. De 1998 até o início de 2008, o jornalista Paulo
Markun foi responsável pela mediação do Roda Viva, quando deixou a emissora para se tornar
presidente da Fundação Padre José de Anchieta. Após sua saída, o programa viveu um
período de instabilidade contando com diversos apresentadores até chegar a Lílian Witte Fibe,
62
O cenário do Roda Viva foi concebido pelos jornalistas Marcos Weinstock, que se incumbiu da formatação,
Roberto de Oliveira, coordenador da programação e Valdir Zwetsch, diretor de jornalismo da emissora. Quem
assina a versão atual do cenário é João Baptista da Costa Aguiar e Célio Inada.
102
jornalista que construiu sua carreira na TV como apresentadora do Jornal do Globo e do
Jornal Nacional (ambos da TV Globo), com uma passagem pelo SBT e, posteriormente, pela
apresentação do Jornal da Lílian no portal do Terra e, em seguida, no UOL News63.
A passagem da apresentação do Roda Viva de Markun para Lílian Witte Fibe, que se
concretizou em abril de 2008, trouxe algumas modificações no próprio papel da apresentação.
Paulo Markun evitava expressar algum tipo de emoção nas questões que levantava a seus
entrevistados, aproximando-se de uma postura mais objetiva. Tal postura mantinha o
apresentador no controle do programa que poderia chegar aos mais altos níveis de tensão, sem
que ele se envolvesse de maneira intensa, nem com o conteúdo da conversação, nem com a
postura do entrevistado.
Lílian Witte Fibe, por sua vez, assume uma postura mais controladora da cena, determinando
a passagem da palavra a fim de assegurar que todos os entrevistadores tenham espaço para
suas intervenções. Por conta disso, é comum observar no discurso da apresentadora uma
tentativa de organizar o debate: “o professor Armando ainda não abriu a boca” (1º dez.
2008), “Nós precisamos fazer mais um intervalo e a gente volta já já com a entrevista do
professor e economista Nicholas Stern” (24 nov. 2008). A apresentadora também não esconde
uma afetação emocional quando coloca suas questões. A depender do assunto, Fibe pode se
mostrar irritada, indignada, revoltada, variando o tom de voz para dar ênfase àquilo que
pretende denunciar:
Lílian Witte Fibe:
Ministro, eu confesso... A Declaração [dos Diretos Humanos] tem 60 anos,
mas a lei da abolição da escravatura tem 120 anos. Eu morro de vergonha de
saber, como brasileira, que a gente não conseguiu nem abolir a escravidão.
Muito menos conseguir resgatar os diretos humanos. Se ainda tem escravidão
no Brasil, e tem, né, o que a gente pode fazer, o que se pode fazer também a
curtíssimo prazo, senão para ontem, para acabar com isso? [aumentando o
tom de voz]
(Edição de 08 dez. 2008)
Embora cada apresentador traga sua marca pessoal, alguns atributos são típicos de quem
ocupa a função de apresentação do Roda Viva. É o apresentador que se dirige diretamente ao
telespectador por meio do eixo olho-a-olho (VERÓN, 1983) a fim de convocá-lo a
acompanhar o debate que ali se passa. Além disso, cabe a ele fazer as interrupções para os
63
Atualmente, Heródoto Barbeiro, reconhecido jornalista da TV Cultura, ocupa o cargo de apresentador do Roda
Viva, no entanto, esta análise irá se referir apenas ao período em que o programa foi comandado por Paulo
Markun e Lílian Witte Fibe.
103
comerciais (por meio de expressões como “a gente volta já”, “nós vamos para um intervalo e
voltamos num instante com o Roda Viva”), controlar o tempo do programa (“professor, nosso
tempo acabou”, “a gente tem trinta segundos para sua pergunta e a resposta dele”), convocar
os telespectadores para enviarem perguntas via e-mail ou telefone (“para você participar, ligue
para... Pela internet você pode acessar o site do programa e mandar o seu e-mail”), vender os
produtos do programa (“lembrando que a entrevista desta noite poderá ser encomendada em
DVD a partir de amanhã...”), apresentar os demais mediadores e o convidado da rodada e,
principalmente, direcionar os assuntos a serem debatidos. O apresentador representa uma
autoridade institucional, tanto que é a ele que os entrevistados se reportam para pedir
direcionamentos como: “posso contar uma anedota?” (Mário Novello, 04 set. 2006), “eu
posso só complementar a pergunta do Oscar?” (Roberto Lameirinhas, 21 ago. 2006).
As distinções entre Lílian e seu antecessor revelam diferenciações não apenas no modo de
condução, mas principalmente na construção do tom do programa em relação ao subgênero.
Paulo Markun parecia mais comprometido com a função de, por meio das entrevistas,
promover um debate dos assuntos a partir da troca de opiniões. Assim, “debate”, “discussão”,
“entrevista” e “conversa” apareciam como termos intercambiáveis no discurso do antigo
apresentador do Roda Viva. Lílian Witte Fibe, por sua vez, não possuía tanta desenvoltura da
condução do programa nos termos de um debate, procurando sempre encerrá-lo no subgênero
das entrevistas, limitando a conversa ao sistema de perguntas e respostas. Tome-se como
exemplo as entrevistas com Lula, conduzida por Paulo Markun (16 out. 2006), e com o
economista Nicholas Stern, por Lílian (24 nov. 2008). Paulo Markun, ao apresentar seu
convidado esclarece: “em contrapartida aos debates programados, duas entrevistas destinadas
a aprofundar a discussão de questões que devem pesar nesta definição eleitoral”, já Lílian
refere-se à prática no programa sempre como entrevista: “o Roda Viva está entrevistando
Nicholas Stern, consultor do governo inglês para assuntos climáticos e autor do Relatório
Stern, primeiro no mundo sobre impactos ambientais na economia global”. A rigidez da
apresentadora para a distribuição dos turnos de fala e para a inclusão de todos os
entrevistadores convidados na conversa não correspondeu à proposta de debate que o
programa pretende trazer ao telespectador64.
64
O modo como o Roda Viva constrói a conversação como um debate será abordado mais adiante.
104
Compartilhando a função de mediação, mas a partir de outro lugar de fala, o Roda Viva
convida para ocuparem o primeiro andar da arquibancada quatro jornalistas65 de veículos de
comunicação reconhecidos pela qualidade da cobertura, especialidade dos assuntos ou mesmo
pelos índices de audiência. É deles o papel de levantarem questões de interesse do
telespectador e é por conta de sua performance que muitas vezes o programa adquire um
caráter tenso e o debate chega ao acirramento desejado e compactuado com o telespectador.
Podem fazer parte, também, do grupo de entrevistadores especialistas, representantes de
instituições ou outras pessoas cujo cargo se relacione de algum modo com a área de atuação
do entrevistado. Na entrevista com o escritor paquistanês Tariq Ali (21 ago. 2006), foram seus
entrevistadores Demétrio Magnoli, geógrafo, especialista em relações internacionais e editor
do jornal Mundo, Geografia e Política Internacional; Roberto Lameirinhas, repórter da
editoria internacional do jornal O Estado de São Paulo; Vicente Adorno, comentarista de
internacional da Rádio Cultura FM; Samuel Feldberg, professor de Relações Internacionais
das Faculdades Rio Branco e membro do Gacint, Grupo de Análise e Conjuntura
Internacional da Universidade de São Paulo; Emir Sader, sociólogo e escritor; Oscar
Pilagallo, editor da revista Entrelivros.
Ao abrir as portas do programa para profissionais de fora da TV Cultura, o Roda Viva sustenta
a proposta de um jornalismo de qualidade, pois parece dizer à audiência que o debate ali será
no nível dos mais importantes jornalistas e especialistas no assunto tratado, ainda que não
façam parte do quadro da emissora. Retoricamente, o programa se reveste do discurso do
jornalismo público, que desconhece fronteiras empresariais em nome do interesse público.
Juntamente com o apresentador, são eles que perscrutam, investigam e tentam extrair do
entrevistado a verdade que não é dita nos veículos convencionais do jornalismo diário
informativo, efetivando sua função de vigilância e se posicionando como guardiões sociais da
democracia.
Do lado oposto, encontra-se o entrevistado, o “dono” das idéias, opiniões, conhecimentos que
estão guardados e devem tornar-se públicos na arena do Roda Viva. O programa privilegia
personalidades de destaque no cenário nacional ou internacional, seja pelo cargo que ocupam,
seja pelas convicções, seja pelas polêmicas em que estão envolvidas, de modo que há nelas
65
No seu surgimento, eram oito os entrevistadores que compareciam ao programa. Em 2006, esse número já
havia caído para seis. Após as recentes reformulações, o programa reduziu o número de entrevistadores
convidados para quatro por edição.
105
um diferencial e algo que as conecte com a atualidade: publicação de um livro, filme recémlançado, inserção no momento social. Embora não possua limites nas esferas de abrangência
da especialidade do convidado – podendo ir dos esportes à ciência – há limites no status desse
personagem para a vida pública, de modo que não é qualquer ator, cineasta ou político que se
sentam no centro do Roda Viva, mas é Wagner Moura, aclamado pela crítica após o filme
Tropa de Elite; Fernando Meirelles, indicado ao Oscar pelo filme Cidade de Deus e
reconhecido pelo trabalho mais recente, a adaptação do romance Ensaio sobre a Cegueira, de
José Saramago; e os candidatos à corrida presidencial no ano de 2006, respectivamente. Sua
posição solitária no centro da arena o deixa exposto a todo tipo de questionamento que pode
vir de qualquer lado, insinuando um lugar de fragilidade e desvantagem em relação aos
entrevistadores que se impõem como autoridade estando um nível acima do convidado. Se,
por um lado, a disposição do cenário em dois níveis força o entrevistado a olhar sempre para
cima para se dirigir a seus interlocutores, por outro, a situação de submissão é
contrabalanceada pelo tempo mais alongado disponível para o desenvolvimento de suas
idéias, mantendo-o no lugar central do programa.
É essa dinâmica que envolve entrevistados e entrevistadores que cria um sentido de “roda
viva”, sugerindo que tudo está mudando, se construindo, se reconfigurando. Desde a vinheta
de abertura, o programa convoca o telespectador a “entrar na roda” e acompanhar, pelo Roda
Viva, as transformações que acontecem ao seu redor por meio de um “debate vivo”, como
sugeriu a reportagem de Veja (25 fev. 1987). Ao som da música de Chico Buarque que lhe
empresta o nome66, imagens do mapa do mundo em tons de branco e cinza servem de fundo
às letras que formam o nome do programa. Ao final de uma seqüência de imagens, o quadro
finalmente se completa e forma-se, sobre um fundo branco, o nome do programa em cinza e
vermelho, sendo que o “O” que forma da palavra “RODA” é o globo terrestre que gira
continuamente até se fundir com o globo que está no piso do cenário onde o entrevistado do
dia se posiciona.
66
A canção “Roda Viva” (1967), de Chico Buarque, só passou a constituir a trilha sonora do programa da TV
Cultura em 2008, 21 anos após sua estréia, quando o compositor cedeu os direitos da música à emissora.
Anteriormente, a vinheta de abertura contava a assinatura musical de John Naschling. Independentemente dos
direitos de uso da música na abertura, o nome do programa convocava ao imaginário do telespectador que
continha a música, atualizando a idéia de que “o mundo roda num instante”, se transforma, se modifica e, por
isso, o programa trata daquilo que é atual, o que é novo.
106
Figura 7: seqüência de imagens da vinheta
Fonte: edição de 24 nov. 2008
O programa sugere, por meio da vinheta, que, ali, os assuntos e as personalidades que “estão
no centro do mundo” serão abordados de maneira viva, ativa e vigilante. No centro dessa
roda, o convidado se vê acuado, sem ter outra alternativa, senão responder às questões dos
entrevistadores.
Além desses enunciadores, o Roda Viva conta ainda com uma repórter da TV Cultura para
servir como porta-voz das perguntas enviadas pelos telespectadores, uma platéia disposta no
segundo nível da arquibancada, que participa do programa partilhando suas impressões por
meio do Twitter, ferramenta que permite a troca de mensagens instantâneas pela internet, e o
cartunista Paulo Caruso, presente desde a estréia do programa, que faz suas interpretações do
debate por meio de charges. A função de Caruso é perceber os momentos mais interessantes,
as falas de maior repercussão, as idéias discutidas ressignificando-as para a audiência.
107
Figura 8: charges de Paulo Caruso durante o Roda Viva
Charge representando um dos momentos mais acirrados do
programa, quando a deputada Ideli Salvatti (PT) e o
deputado José Carlos Aleluia (antigo PFL67) discutiam
sobre a atuação do governo Lula.
(Edição de 02 out. 2006)
Caruso captura momentos dos entrevistadores durante o
programa, o que é exibido por meio de uma conjugação
entre os enquadramentos de câmera e seus desenhos.
(Edição de 1º/12/08)
Fonte: edições de 02 out. 2006 e 1º dez. 2008
As charges de Caruso são captadas pela câmera durante todo o programa ainda em seu
processo de produção, e revelam um olhar individual sobre os assuntos à baila no Roda Viva.
São flagrados pelos desenhos de Caruso os entrevistadores, os convidados e personagens
externos ao programa que possuem relação com o que está sendo debatido no momento.
Segundo Jair Santos, as charges de Caruso possuem três funções mais evidentes:
a) ilustram, com carga humorística, o diálogo que se dá diante das câmeras;
b) fornecem um determinado enfoque para a análise da cena, sugerindo um
viés para a análise das declarações dos convidados; e c) como conseqüência
desta última característica, conferem a Paulo Caruso um privilegiado lugar
de fala no Roda Viva, uma vez que seus desenhos emitem opinião sobre a
entrevista sem contestação (SANTOS, 2005, p. 78).
67
Na época de exibição do programa, o deputado era membro do PFL (Partido da Frente Liberal), hoje
denominado Democratas.
108
O distanciamento físico entre os participantes aventa uma relação estritamente profissional e
momentânea entre os enunciadores, ou seja, ela se dá no contexto da transmissão e se esvazia
em seguida. Como os entrevistadores são, na maioria das vezes, jornalistas setorizados, é
comum que eles e os convidados se conheçam de outras coberturas jornalísticas, o que
transparece algumas vezes por meio do texto verbal:
Luiz Inácio Lula da Alexandre [referindo-se ao jornalista da TV Cultura presente no
programa], você me conhece há muito tempo e você sabe que a minha
Silva:
relação política com as pessoas, com qualquer que seja a pessoa, de
qualquer partido político, sempre foi uma relação de muita democracia,
sabe, de muita diplomacia.
(Edição de 16 out. 2006)
Engraçado, porque o Aderbal Freire-Filho, diretor da peça, é totalmente
Wagner Moura:
avesso a essas coisas tecnológicas em espetáculos. E vocês viram os
espetáculos dele, são sempre muito básicos, atores ali e pronto. E ele é que
veio com essa história da câmera.
(Edição de 29 set. 2008)
Os jornalistas empregam, majoritariamente, cinco tipos de pergunta para abordarem os
assuntos no Roda Viva: 1) biográfica – “E você teve a infância na cidade de Rodelas. Eu
soube que nessa cidade tem muito mármore... E você ficou lá os quinze anos, não é?”
(Jefferson Del Rios a Wagner Moura, 29 set. 2008); 2) confirmação de uma hipótese – “o
senhor disse, já, que a questão do terrorismo emana muito mais da fraqueza do que
propriamente da força. É uma colocação que eu acho que é aceita por muita gente, na verdade.
Agora, eu não tenho certeza se é uma definição que possa ser aplicada de maneira geral ao
terrorismo ou a um específico tipo de terrorismo que é aquele que vem exatamente de grupos
que estão sendo esmagados por poderes maiores. Ou é uma definição que vale de uma
maneira mais ampla. Como é que o senhor vê essa questão?” (Oscar Pilagallo a Tariq Ali, 21
ago. 2006); 3) solução de problemas – “o senhor poderia relacionar algumas medidas simples,
além da economia de água, do movimento pelo uso de produtos ecologicamente corretos
dentro de casa, domésticos, etc, que a população poderia adotar imediatamente para fazer a
sua parte também?” (Lílian Witte Fibe a Nicholas Stern, 24 nov. 2008); 4) informativa – “a
cosmologia não tem uma fronteira com outros ramos do conhecimento, ou - não sei bem se a
palavra se aplica -, de um lado, a filosofia e, do outro, a religião... não tem um meio-de-campo
aí que é meio embolado?” (Paulo Markun a Mário Novello, 04 set. 2006); 5) investigativas –
“a gente vive hoje em um Universo, segundo as versões dos próprios cosmólogos, em que
109
95% de todo conteúdo do Universo, energia e matéria, a gente não tem a menor idéia do que
seja. Por que, na opinião do senhor, alguém aqui deveria acreditar em uma versão
cosmológica com base em 5% do que a gente conhece de todo o Universo? Por que cinco por
cento iriam contar a história inteira?” (Salvador Nogueira a Mário Novello, 04 set. 2006). Por
meio desta última é que os jornalistas desempenham melhor o papel de fiscalização, de cães
de guarda dos interesses do público e consolidam o pacto sobre o papel do jornalismo de
efetivar um debate público a partir de critérios democráticos.
3.2. Debate público na democracia
O Roda Viva se assume, retoricamente, como um espaço aberto a todo tipo de idéia e
concepção de mundo ao pôr em diálogo personalidades em lados opostos na vida social. A
excitação do momento eleitoral no ano de 2006 e os escândalos que envolviam o governo
Lula foram bastante profícuos para a construção de uma arena supostamente neutra em termos
de política partidária, uma vez que o programa levou para o centro de seu cenário os
principais candidatos à corrida presidencial. Corroborando com essa postura, a edição de 02
out. 2006, que se configurou como uma mesa redonda68, promoveu um debate sobre o
momento eleitoral com representantes dos principais partidos políticos do país, formando
“duas bancadas: uma governista e outra de oposição”, como destacou o apresentador Paulo
Markun na abertura do programa69. Saindo da esfera da política, o Roda Viva com o professor
Valdemar Stezer (1º dez. 2008) – que defende o abandono das mídias eletrônicas por parte
das crianças e jovens alegando um prejuízo de seu desenvolvimento intelectual e social - teve,
como entrevistadores a neuropsicóloga infantil Ana Olmos, para fundamentar cientificamente
as posições do entrevistado, e José Armando Valente, professor do departamento de
Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes da Unicamp; Caio Túlio Costa,
jornalista e presidente do IG; Beth Carmona, presidente da Ong Midiativa - Centro Brasileiro
de Mídia para Crianças e Adolescentes, pessoas que, pelo cargo e instituição, se credenciam
para uma abordagem contrária à posição central defendida pelo entrevistado. Portanto, é na
68
Em certas edições, o Roda Viva muda seu formato de apresentação configurando-se como uma mesa redonda.
Nesses casos, não há um entrevistado no centro da arena, mas convidados com diferentes pontos de vista são
convidados para trocarem idéias sobre um tema comum.
69
Os convidados do programa nessa edição foram: Arlindo Chinaglia, deputado federal pelo PT de São Paulo,
líder do governo na Câmara; Álvaro Dias, senador pelo PSDB no Paraná; Ideli Salvatti, senadora pelo PT de
Santa Catarina e líder do partido no Senado; José Carlos Aleluia, deputado federal pelo PFL da Bahia; Eunício
Oliveira, deputado federal pelo PMDB do Ceará, parte da base de apoio do governo, e Osmar Serraglio,
deputado federal pelo PMDB do Paraná.
110
busca pelos múltiplos lados de uma mesma questão que o Roda Viva constrói sua proposta de
debate, atualizando aquilo que configura, do modo mais tradicional, o subgênero: o confronto
de idéias. Essa postura evoca um papel de vigilância exercido pelo programa, que permite à
sociedade formular melhor suas opiniões por meio do tratamento diversificado das questões
trazidas ao estúdio. Assim, o binômio pergunta/resposta funciona como alavanca para as
trocas de argumentos entre entrevistadores e entrevistados. A entrevista com Heloísa Helena
permite perceber como o programa efetua essa transição por meio da conversação:
Luiz Carlos Azedo:
Heloísa Helena:
Paulo Markun:
Heloísa Helena:
Fernando
Rodrigues:
Heloísa Helena:
Fernando
Rodrigues:
Heloísa Helena:
Paulo Markun:
Heloísa Helena:
Tereza Cruvinel:
Heloísa Helena:
Mas não respondeu a pergunta que eu fiz, com quem a senhora vai governar?
Quem são as pessoas, os partidos?
Com todas as pessoas, todos esses setores. Agora, se você quer que eu
reproduza a visão de governabilidade tradicional, eu não compartilho com
ela. Eu vou respeitar o Congresso Nacional como manda a Constituição do
país. O Congresso Nacional, embora enquanto promíscuo, represente a
promiscuidade do Palácio do Planalto, ele foi eleito pelo povo, então vou
respeitar. Agora, estarei no Congresso Nacional, como em vários estados do
país, debatendo com o Congresso Nacional. Por que não posso debater com o
Congresso Nacional? Por que essa mania e visão de governabilidade tem que
ser governabilidade de distribuição de cargos, prestígio e poder? Eu preciso
do Congressos Nacional para fiscalizar os atos do executivo, para estar sendo
parceiro da sociedade e da construção coletiva.
E a senhora acha que o Congresso vai embarcar nessa?
Não tenho dúvida. Vai [balançando a cabeça positivamente]!
[...] Senadora, a senhora vai colocar para correr o deputado que for lá na base
da fisiologia exigir cargo para aprovar projeto?
Mas, meu amor, ele nem vai. E você acha que alguém vai? Já disse várias
vezes, não vão.
Aí alguém não vota, o que a senhora faz?
Que projetos? Quais?
O governo agora, nem o Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento
da Educação Básica] passou.
Meu amor, o Fundeb... O governo é tão descarado, tão farsante
economicamente que tem ousadia de dizer isso. Se o governo quisesse... Veja
uma coisa, primeiro que o Fundeb, é sempre importante relembrar, é um
mecanismo importante, conquista da sociedade, e significa apenas 2% do
dinheiro do governo federal, é dinheiro de estados e municípios. Se o governo
quisesse disponilibilizar recursos para educação básica do país, era só
aumentar em 2% o repasse do fundo de participação e, junto com o
Ministério da Educação, fazia tudo, não precisava que aprovasse aquilo ali.
Isso pode ser feito, é execução orçamentária. Pode ser feito.
Desculpe, mas se ele apenas aumentar a transferência de estados e municípios
não terá garantia de ter aquilo aplicado em educação, agora, tem uma emenda
lá de 1%... [sobreposição]
[interrompendo] Garantia não tem nem com o Fundo, a garantia não tem nem
111
com Fundo, porque governo federal... Nem com Fernando Henrique nem o
governo Lula...
Tereza Cruvinel:
Heloísa Helena:
Fernando
Rodrigues:
Heloísa Helena:
Fernando
Rodrigues:
Heloísa Helena:
Tereza Cruvinel:
Heloísa Helena:
[interrompendo] O Fundeb já tem vinculação com matrículas, então tem uma
forma de controle da aplicação daqueles recursos. [...] Vamos dizer que o
Fundeb, independente dos méritos ou não do Fundeb, a senhora disse que o
governo foi... nem sei que palavra a senhora usou.
Me explique qual desses projetos, desses que eu falei aqui, qual o projeto que
eu precisarei mandar para o Congresso Nacional? Veja, em relação à
reforma tributária, você acha que o Congresso Nacional não será capaz de
votar um projeto de reforma tributária que impeça essa brutal e
avassaladora transferência de renda do pobre da favela, da classe média
assalariada e do setor produtivo para o capital financeiro?
Eu acho.
Por quê?
Não votou até hoje, senadora.
Não votou até hoje porque o governo não quis.
[interrompendo] Não, senadora, porque os estados também tiveram seus
conflitos.
Mas, meu bem, os estados têm seus conflitos [...].
(Edição de 12 jun. 2006)
O sistema de perguntas e respostas é usado para iniciar a troca de argumentos, que acontece
no momento em que a entrevistada fornece opiniões contrárias às que a bancada possui. Os
entrevistadores se unem contra a Heloísa Helena, deixando-a acuada em meio a contestações
que vêem de todos os lados: de Fernando Rodrigues, de Paulo Maukun, de Tereza Cruviel. A
dimensão de debate permite, inclusive, uma troca de papéis: quando o jornalista Fernando
Rodrigues responde a uma pergunta retórica feita pela entrevistada que era uma das bases de
seu argumento. Diante da contra-argumentação, a entrevistada precisa recomeçar e buscar
novos argumentos que validem sua posição.
Para além da informatividade das perguntas feitas (a que abre essa sessão de debate é “com
quem a senhora vai governar? Quem são as pessoas, os partidos?”), o Roda Viva propõe à
audiência o tratamento de questões relevantes num nível argumentativo, partindo do
pressuposto de que a audiência já possui as informações básicas para se integrar à conversa
encenada. Sendo assim, os três modos de comunicação propostos por Ekström (2003) não dão
conta de um programa como o Roda Viva, cujo papel não é simplesmente conceder
informações, contar histórias ou apresentar assuntos como atrações.
112
O Roda Viva, pela sua proposta de oferecer ao telespectador um debate, retoma um papel mais
característico do jornalismo opinativo70 que consolidou os parâmetros que ainda hoje são
tomados como definidor do campo: é opinativo porque permite a troca livre de opiniões que
se consolidam em argumentos. Segundo Josenildo Guerra, a matriz opinativa do jornalismo
está relacionada à esfera política e compreende o jornalismo como “uma grande esfera de
debate de idéias” (GUERRA, 2003, p. 36). “Nesta modalidade”, continua o autor, “não são os
fatos o eixo em torno do qual o discurso se estrutura, mas a tese pela qual o autor busca
explicá-los” (GUERRA, 2003, p. 36). Guerra explica que foi nos momentos de maior
instabilidade política que esse modelo de jornalismo se desenvolveu, atuando no processo de
formação e convencimento dos indivíduos para abraçarem as causas liberais71. Para o autor,
esse modelo de jornalismo se caracteriza pelo estilo polêmico e argumentativo dos textos, o
engajamento político dos atores em um projeto de sociedade e o domínio dos princípios que
norteiam as formas de governo e as alternativas desejadas (GUERRA, 2003, p. 37). Assim, o
Roda Viva se apropria de um modelo residual de jornalismo para construir sua legitimidade,
efetuando hibridizações no subgênero que o concerne. O cenário político eleitoral do
momento e as diversas carências sociais do país, tema da edição de 19 jun. 2006 sobre as
dificuldades de acessibilidade dos portadores de deficiência física, tornam-se um ambiente
profícuo para a existência desse programa e sua função social.
Se por um lado o programa semanal da TV Cultura se constrói para a audiência como um
espaço aberto a qualquer visão de mundo, por outro, a postura dos entrevistadores não se
mostra tão isenta de concepções preestabelecidas. A função que os mediadores assumem no
programa é de contradição das idéias apresentadas pelos entrevistados e cobrança por
esclarecimentos que ainda não foram prestados. Através de perguntas investigativas e de
confirmação de hipóteses, os jornalistas, e, por conseguinte, o Roda Viva, se colocam como
cães de guarda do interesse público e vigilantes das ações políticas. A entrevista com o
70
Não se pretende efetuar uma análise com base em gêneros jornalísticos como postulado por José Marques de
Melo (1985), mas apenas retomar outra função do jornalismo que se constituiu anteriormente ao paradigma
informativo, como aponta Josenildo Guerra (2003). O que está em jogo no Roda Viva não é a dimensão
panfletária do jornalismo, mas sua constituição como espaço de troca de opiniões.
71
Segundo Marialva Barbosa (2007), o jornalismo brasileiro viveu um período semelhante na passagem do
sistema de governo monárquico para a República. A autora aponta o uso de novas tecnologias de comunicação –
telégrafo, linotipo, cinematógrafo, etc – como catalisador da transformação do modelo opinativo para o
informativo no jornalismo brasileiro: “a opinião é, assim, gradativamente separada de uma idéia de informação
isenta e, neste processo, os novos artefatos tecnológicos desempenham papel fundamental” (2007, p. 24).
113
presidente Lula trouxe situações em que os jornalistas buscavam elucidar os escândalos que
ainda envolviam sua administração:
Presidente, o senhor tem, ao falar dessa questão do dossiê [em setembro
de 2006, “vazou” um DVD com vídeos e fotos do candidato à presidência
da República, Geraldo Alckmin, e do candidato ao governo de São Paulo,
Joée Serra, ambos do PSDB, em cerimônias de entrega de ambulâncias
vinculadas à Planam, ápice do escândalo dos Sanguessugas, com o
objetivo de prejudicar as candidaturas dos opositores ao presidente], tem
insistido muito em dizer que o senhor acabou sendo o maior prejudicado
com isso, porque o senhor tinha a chance de fechar a eleição no primeiro
turno e isso acabou não acontecendo. Agora, o senhor não acha que tem
um problema nesse raciocínio, presidente, porque a gente também pode
pensar o seguinte: o senhor só acabou sendo prejudicado porque essa
operação deu errado, presidente. Porque se essas pessoas não tivessem
sido presas, se os vendedores tivessem comparecido com um dossiê de
verdade e se os compradores, alguns deles ligados à sua campanha, não
tivessem sido presos antes, o senhor não teria sido prejudicado e a
oposição sim teria sido bastante prejudicada. O senhor não acha que tem
um problema nesse raciocínio, presidente?
Luiz Inácio Lula da Então, deixa eu te fazer uma pergunta: No que a minha candidatura
precisava do dossiê...
Silva:
[interrompendo] Interessava ao senhor, porque o governador...
Lourival Sant’Anna:
[interrompendo] A gente pode alegar o seguinte: O senhor tinha uma
Renata Lo Prete:
situação muito confortável nas pesquisas. Mas também se pode
argumentar o seguinte: Se essa operação tivesse dado certo, a oposição
como um todo teria sido bastante prejudicada, inclusive na questão de São
Paulo, onde a vitória estava bastante encaminhada.
Luiz Inácio Lula da Bobagem, Renata, pelo amor de Deus, Renata, uma bobagem, Renata.
Uma bobagem. Se o dossiê é o que as pessoas dizem que é... ele está na
Silva:
internet, a Polícia Federal passou investigando aquilo dois anos. Então,
meu Deus do céu, eu fico me perguntando como é que uma pessoa vai
comprar um dossiê que está na internet? Eu fico me perguntando como é
que a Polícia Federal passou dois anos investigando, tem todos os
resultados sobre esse tal de Vedoim [referindo-se a Luis Antônio Vedoin,
apontado como chefe da máfia das sanguessugas], sabe, e já tinha havido
investigação dele, então a minha pergunta, Renata, é simples [sendo
interrompido], minha pergunta é o seguinte, a minha pergunta é
curiosidade, sabe, de quem gosta de filme de detetives: Eu queria saber
quem é o arquiteto desse plano? Eu gostaria de saber.
(Edição de 16 out. 2006)
Renata Lo Prete:
As perguntas da jornalista da Folha de São Paulo que iniciaram o debate sobre o dossiê
Vedoim continham argumentos e formulações suas que eram averiguadas sob o ponto de vista
do entrevistado. Nesse momento, os argumentos foram trocados de modo a obter do
entrevistado uma confissão ou uma resposta mal argumentada, que revele que as acusações
contra ele estão corretas. Assim, o jornalismo no Roda Viva assume um papel que, nas
palavras de Afonso de Albuquerque (2009), se configura como um superpoder, acima dos
outros três e contra eles a fim de contribuir com a democracia.
114
O debate no Roda Viva muitas vezes assume um caráter tenso, o que confere dinâmica,
agilidade e vivacidade ao programa. Um indício de que a conversação atingiu o clímax é que
os participantes apresentam um comportamento mais passional – deixando transparecer
irritação, desconcerto, revolta – e o ritmo das perguntas aumenta, provocando uma série de
interrupções e sobreposições da fala. A sobreposição, portanto, é desejável e faz parte do jogo
de poder que o Roda Viva põe em cena, uma vez que quando todos falam ao mesmo tempo
estão competindo pelo direito à palavra e, por conseguinte, pelo poder do discurso.
Interpelações pelo nome ou cargo no convidado, além de expressões como “deixa eu entrar
nessa discussão aí”, “desculpe um momentinho”, “só um pouquinho, senadora” são formas
que os enunciadores encontram para invadir o discurso do entrevistado, que se defende
dizendo “deixa só eu terminar aqui”, “agora eu quero responder a pergunta de ...”.
Entrevistadores e audiência compactuam com uma postura mais controladora do jornalista, o
que permite que comportamentos como aumento do tom de voz, aproximação corporal ao
entrevistado, interrupção da resposta e monopólio da palavra se justifiquem retoricamente e
indiquem para o telespectador que o debate é intenso e aprofundado, como se pode ver no
exemplo mais acima da entrevista com a senadora Heloísa Helena (12 jun. 2006).
Para legitimarem seu papel de vigilância, os jornalistas chegam ao Roda Viva bem
preparados, dispondo de dados estatísticos, declarações de fontes oficias divulgadas pela
mídia, declarações do próprio entrevistado e informações adicionais a fim de entrarem na
arena com argumentos suficientemente convincentes para a batalha discursiva que irá se
travar ali. Por isso, muitas vezes os jornalistas se credenciam ao mostrar para a audiência que
sua reivindicação diante do entrevistado é embasada numa apuração anterior à cena, por meio
de enunciados como “nós conversávamos aqui, antes do programa,..” (Alexandre Machado,
edição de 16 out. 2006). A TV Cultura corrobora com essa atitude fornecendo previamente
aos entrevistadores convidados um material contendo os principais aspectos do assunto e do
entrevistado da rodada, o que permite que eles entrem no debate munidos de informações
adicionais e com perguntas já elaboradas, o que desequilibra a conversa e põe os
entrevistadores em posição de vantagem. O professor Valdemar Setzer chamou atenção para
essa desigualdade no ingresso à conversação ao responder “a pergunta do jornalista Caio
Túlio Costa: “Caio, você está numa situação de vantagem em relação a mim: eu não li os seus
trabalhos e você se baseou nos meus [risos] que, aliás estão na internet”, ao que o jornalista
115
retruca dizendo “sim, eu citei tudo que o senhor falou aqui”, como se o acesso a informações
anteriores pusesse os dois em desigualdade. O Roda Viva deixa transparecer o trabalho da
equipe de produção do programa, cuja função é fornecer aos entrevistadores convidados
informações suficientes para que eles ocupem o lugar de vigilância.
O inquérito é o veículo pelo qual a verdade pode ser trazida à luz e, na “roda viva” da TV
Cultura, o apresentador possui um lugar privilegiado no contexto comunicativo do programa
para assegurar que as informações trocadas sejam verídicas, o que também reforça o trabalho
da equipe de produção que dá sustentação a seu papel. Durante o período analisado, o único
momento em que o apresentador prestou algum esclarecimento foi quando o deputado federal
José Carlos Aleluia (então PFL, atual Partido Democratas) forneceu informações inverídicas
para sustentar suas opiniões enquanto discutia com a deputada Ideli Salvatti (PT):
José Carlos Aleluia:
Imagino o que é que a dona Vilma de Castro está pensando. Ela e os pais
daquele eletricista brasileiro que foi metralhado lá em Londres [referindo-se
a Jean Charles de Menezes (1978 – 2005), imigrante brasileiro confundido
com um homem-bomba e morto no metrô de Londres pela polícia
britânica], o eletricista foi para Londres porque não tinha emprego,
senadora. Ele foi ser eletricista lá porque aqui não tem emprego.
Ideli Salvatti:
[interrompendo] Ele foi quando?
José Carlos Aleluia:
No teu governo.
Ideli Salvatti:
No meu governo?
José Carlos Aleluia:
Como estão indo os jovens brasileiros. O único lugar em que jovem
brasileiro encontra emprego é no aeroporto [...].
[No início do quinto bloco] Queria antes de mais nada registrar aqui que
Jean Charles de Menezes estava em Londres desde o governo Fernando
Henrique Cardoso [...].
Paulo Markun:
(Edição de 02 out. 2006)
No Roda Viva, o apresentador concede sua opinião como argumento para a formulação de
perguntas. Assim, há uma aparente objetividade que se contrasta com o caráter adversativo
das questões direcionadas ao entrevistado. Na dinâmica conversacional, o controle da
distribuição dos turnos de fala ocorre, apenas, no início e encerramento dos blocos. Sendo
assim, cabe ao apresentador abrir e fechar as trocas, deixando o restante do processo de
construção da conversa aos entrevistadores e entrevistados que possuem liberdade de tempo
para formular seus argumentos. A intervenção dos demais mediadores na conversação do
Roda Viva permite a mudança de assuntos e a inclusão de aspectos novos imprevistos pelo
116
apresentador. Assim, o programa distribui o papel de construção do debate entre todos os
entrevistadores. Ao apresentador, cabe o papel de enquadrar a temática e a própria entrevista
por meio da pergunta de abertura72, que visa destacar os aspectos que irão conduzir a conversa
naquele bloco, ao menos inicialmente, permitindo que o entrevistado formule idéias a partir
de argumentos fornecidos pelo apresentador:
Paulo Markun:
(a Tariq Ali)
Eu queria começar pelo seguinte. O senhor acha que é possível conciliar
literatura e militância política? Porque é uma longa discussão no mundo.
Houve época que era muito valorizado, momentos em que se considerava que
não havia ligação possível - uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa
- e o senhor faz ambas. É possível haver essa conciliação?
(Edição de 21 ago. 2006)
A pergunta de Paulo Markun a Tariq Ali não apenas diz sobre o que os participantes devem
falar durante a conversa, mas indica o modo como Tariq Ali é inserido no programa: a partir
de sua militância política, e não apenas na sua atividade como escritor. Sendo assim, não
interessa ao programa o estilo textual de Ali, a construção de narrativas, o processo de
distribuição dos livros – embora sua vinda ao Brasil esteja vinculada à Festa Literária
Internacional de Parati -, mas sim às questões contextuais que estão no fundo nas suas obras –
o terrorismo, a política externa norte-americana, o convívio entre judeus e muçulmanos – e
será esse o assunto abordado durante a conversa. A preferência do programa pela atuação
política do convidado demonstra o tom do Roda Viva no cumprimento do papel de vigilante e
de formador de opiniões.
2.3. Posicionamento da audiência
O Roda Viva lança mão de um contexto comunicativo que visa colocar o telespectador numa
posição de permanente atenção à conversação. Pelo seu horário de exibição, o programa
concorre com filmes, programas de auditório e telejornais, e seu diferencial no fluxo
televisivo é se constituir uma alternativa a uma programação voltada majoritariamente ao
entretenimento. Para atrair o telespectador e mantê-lo preso durante toda a transmissão do
programa sem ceder ao zapping, o Roda Viva exige que o telespectador acompanhe todos os
meandros do debate para que não haja prejuízo de sua compreensão e ele possa formular sua
própria opinião de maneira mais consistente.
72
A formulação da pergunta de abertura cabe, exclusivamente, ao apresentador. Ele só abdica desse papel
quando é para introduzir uma pergunta dos telespectadores.
117
As estratégias de captura da audiência se dão desde o início do programa, quando o
apresentador fornece, no primeiro bloco, algumas informações contextuais sobre o convidado
do dia, apresentando-o como uma atração (EKSTRÖM, 2003):
Paulo
Markun:
Boa noite. Ela nasceu em Alagoas, num lugar chamado Pão de Açúcar que de doce
só tem o nome. Criada no sertão alagoano, foi trabalhadora rural, sindicalista e fez
carreira política no Partido dos Trabalhadores. Com marca pessoal forte, tornou-se
uma das mais aguerridas mulheres a chegarem ao Congresso Nacional. Rompida
com o PT há dois anos, agora se lança à corrida presidencial. O Roda Viva, que vem
entrevistando os principais pré-candidatos à eleição presidencial deste ano, conversa
esta noite com Heloísa Helena, pré-candidata à Presidência da República pelo
PSOL, Partido Socialismo e Liberdade. O Roda Viva começa em um instante.
(Edição de 12 jun. 2006)
Após a inserção dos patrocinadores do programa, o Roda Viva apresenta novamente o
convidado da rodada e introduz um VT com narração em off contendo os principais elementos
sobre a carreira e a vida pública do entrevistado:
Narrador:
Sempre envolvida no movimento sindical, popular, rural e indigenista, Heloísa marcou
carreira não só pela postura, como pela disposição para enfrentar qualquer polêmica.
Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, 44 anos, nasceu em Pão de Açúcar, sertão
de Alagoas, onde começou a trabalhar como bóia-fria com a família. Mais tarde, na
capital, em Maceió, se formou em enfermagem com pós-graduação em epidemiologia.
Começou a carreira política em 1990, no Partido dos Trabalhadores. Foi eleita viceprefeita de Maceió em 1992 e deputada estadual dois anos mais tarde. Em 1998,
tornou-se a primeira mulher eleita para o Senado por Alagoas, durante o mandato
destacou-se no combate à política neoliberal do presidente Fernando Henrique
Cardoso. Manteve a oposição ao governo Lula e acabou sendo expulsa do antigo
partido. O primeiro grande confronto aconteceu quando recusou-se a apoiar a indicação
de Henrique Meirelles para o Banco Central. Pouco depois, rejeitou o nome de José
Sarney para a presidência do Senado, confrontando mais uma vez a direção petista. Fez
críticas à política econômica do governo e criou nova crise quando se opôs ao projeto
de reforma previdenciária. Foi punida e, finalmente, expulsa do PT em 2003, mas não
deixou a política. Em 2004, ao lado de outros parlamentares também afastados, ajudou
a fundar PSOL e é pelo novo partido que Heloísa Helena disputa a presidência.
(Edição de 12 jun. 2006)
No início de cada bloco, o programa recria estratégias para situar o telespectador na emissão,
seja pelo texto verbal do apresentador, que relembra quem é o entrevistado do dia, seja por
um VT com narração em off ou com imagens dos trabalhos mais significativos do personagem
central do programa. Com exceção desses momentos, o Roda Viva pouco fornece informações
contextuais sobre os assuntos que surgem na conversação, cabendo ao telespectador
completar as lacunas deixadas pelo programa com informações que já possui através do
118
acompanhamento constante da grande imprensa. Deste modo, o programa requer um amplo
repertório cultural, uma vez que pressupõe que o telespectador já conhece os assuntos que
surgem nas falas dos participantes. Mesmo as charges de Caruso promovem esse tipo de
interpelação da audiência, uma vez que solicitam que a audiência esteja atenta ao programa
para interpretar os desenhos que capturam momentos específicos do debate. Muitas vezes as
charges tratam de uma situação extramidiática, com personagens que estão fora da cena, mas
que se relacionam com os assuntos abordados.
O processo de edição do programa, que utiliza quadros longos, de aproximadamente trinta
segundos, podendo chegar a um minuto, sugere que o telespectador assuma uma postura de
reflexão e atenção irrestrita à fala dos enunciadores. Enquanto o convidado ou o jornalista
desenvolve seu pensamento, as três câmeras do Roda Viva, situadas no nível da arquibancada,
o capturam em plano americano, deixando visíveis as mãos, a fim de mostrar a gesticulação
que complementa a fala73, e a bancada, que exibe as anotações e documentos dos
entrevistadores. O quadro fechado no falante e o corte seco do enunciador para o enunciatário
criam um efeito de proximidade entre os falantes e o telespectador. Poucas vezes a câmera do
Roda Viva não focaliza o enunciador que está com a palavra, mas quando o faz é sempre para
mostrar atividades que evoquem uma postura de atenção e reflexão: o interlocutor assentindo
com a cabeça enquanto o convidado fala, a platéia registrando a entrevista no twitter, as
charges de Paulo Caruso. Por meio desse jogo de enquadramentos, o Roda Viva cria, por meio
dos recursos da linguagem televisiva, um discurso do programa, discurso este que envolve o
uso da imagem articulado com o que está sendo dito. A equipe de edição e os diretores
aparecem, também, como mediadores na construção do programa para a audiência, usando a
articulação imagem/som, característica do telejornalismo, para elaborar um discurso próprio
do programa.
Quando o entrevistado afirma que as crianças são ingênuas para discernirem o conteúdo da
internet, uma charge de Paulo Caruso, que ilustra uma criança na frente de um computador,
satiriza as posições do convidado, mostrando-a como uma marionete. Quando Valdemar
Setzer fala sobre impedir o acesso aos sites, a câmera do Roda Viva mostra uma twitteira, em
primeiro plano, digitando um texto na internet. A câmera vai abrindo o quadro e fazendo uma
pan até que se veja todo o cenário do programa a partir do ponto de vista da participante
73
A exibição da gesticulação confere maior autenticidade à conversa pois remete às práticas da vida cotidiana.
119
conectada à internet. A imagem demonstra o lugar privilegiado que ela possui para observar
aquela cena e relatá-la aos demais participantes que não estão presentes no programa, o que
lhe confere legitimidade para construir suas idéias. Sendo assim, o Roda Viva apresenta, nesse
momento, um contra-discurso ao do entrevistado, de que a internet pode ser usada com fins
produtivos, como o programa busca fazer.
Figura 09: construção narrativa da conversação pelos recursos da linguagem televisiva
Lílian Witte Fibe:
Professor, o senhor então falava, antes do intervalo, e a
sua resposta foi abruptamente interrompida pela nossa
necessidade de intervalo, sobre internet. E eu queria só
acrescentar: assim como tudo na vida, não dá para fazer
da internet... separar o que é bom nela do que é ruim?
Como, por exemplo, nos canais de televisão? Como, por
exemplo, entre os bons e os maus professores? As
escolas péssimas que a gente sabe que tem e as boas
escolas? Não dá para fazer isso?
Valdemar Setzer:
Claro! Claro que dá! Mas para isso é preciso ter
discernimento. É preciso ser adulto. Se uma criança tem
discernimento, se os adultos acham: “não, vamos
colocar a criança pra ver televisão, para usar a internet
porque assim ela vai desenvolver o senso crítico...” [...]
Eu disse antes do intervalo que a internet é
extremamente perigosa. Por quê?
Porque a criança sendo ingênua está sujeita a
depredadores, a fornecer informações pessoais
dela e da família... [...]
120
Vai sair um livro no ano que vem, se não me
engano é da editora Nova Fronteira, com a tradução
que eu dei um parecer muito favorável, a editora me
pediu, de Gregory Smith, traduzindo a português se
diria: “Como proteger seus filhos na internet”. Aí
eu peguei e escrevi um artigo: “Como proteger seus
filhos da internet”! Ele [...] não tem coragem de ir
até as últimas consequências e dizer: “Olha, a
internet simplesmente não é para criança”. E lhe dá
uma porção de recomendações que eu posso passar
para os pais. Primeiro lugar: internet não é para
criança. Na minha opinião, ele não chega a tanto.
De modo que a minha recomendação – e eu já dou a
minha logo de cara – é que, se um pai acha
necessário, e eu acho que não é, mas se um pai acha
que a internet é útil para uma criança ou pra um
adolescente, ele tem que ficar ao lado. Não pode
deixar usar sozinho porque é extremamente
perigoso. A quantidade de crimes que tão
acontecendo... São enormes...
Apareceu há pouco... Ah! Houve no Rio de Janeiro
um congresso agora e eu tenho um artigo emitido
pelo ministério alemão, que foi me mandado pela
minha amiga Rute propondo que todos os países se
ajudem para proteger as crianças da internet.
Como? Filtrando. Impedindo acesso aos sites.
Esse ministério não teve coragem de chegar e dizer:
“Internet não é pra criança! E se for, o pai tem que
ficar junto porque vai dar problema”!
121
Não em todos os casos, evidentemente, mas a
quantidade de problemas que tá dando é muito
grande. O Gregory Smith chama atenção da
ingenuidade de todas as crianças e adolescentes
[...].
Fonte: edição de 1º dez. 2008
3.4. Transformações na arena
Em seus mais de vinte anos, o Roda Viva orgulha-se pelas mais de mil entrevistas realizadas
que retratam “momentos e fatos importantes das mais diversas áreas do conhecimento: artes,
política, economia, cultura, esportes, educação e saúde” (TV CULTURA, 20 abr. 2009). Essa
história e a credibilidade alcançada ao longo dos anos não permitiram, porém, que o programa
se estabilizasse numa estrutura perene. Ao contrário, o próprio Roda Viva, enquanto espaço
midiático, promove modificações com vistas a acompanhar as transformações sociais e as
expectativas do público. Nesse sentido, duas mudanças significativas têm implicações na
construção do programa e merecem ser enfatizadas: a exploração dos aspectos pessoais do
entrevistado e a ênfase na interatividade por meio das novas tecnologias.
O Roda Viva sempre se calcou nos aspectos relacionados à vida pública de seus entrevistados,
rechaçando uma construção de sua credibilidade por meio de um vínculo íntimo entre os
participantes da conversação posta em cena. No entanto, quando o centro da arena é ocupado
por um personagem que tem boa aceitação popular, o Roda Viva explora certos elementos de
sua vida pessoal que não necessariamente têm a ver com a carreira e a atuação social que o
levou para o programa. Contrariamente ao que acontece com a esfera política, a qual o
programa trata com desconfiança, quando os personagens que ocupam o centro da roda são
agentes promotores da cultura e da cidadania, agentes que fazem o país melhor, que
promovem uma projeção positiva do Brasil no mundo, eles são tomados como parâmetro de
conduta e de ação social, e sua biografia é usada como exemplo para os telespectadores.
Lillian
Fibe:
Witte Wagner, falando em família, um assunto que a gente acabou não abordando
aqui é a tua admiração pelo teu pai. Queria que você contasse a história dele.
Você fez um filme por causa dele e, para minha surpresa, lendo aqui sobre tua
vida, o teu pai, uma pessoa simples como é, fez questão de se formar em
122
Wagner Moura:
direito e ficou preocupado com a educação. Você tem uma irmã médica?
Tenho uma irmã médica.
Lillian
Witte Os dois são formados em curso superior? Conta isso?
Fibe:
Meu pai era um desses sertanejos que vêm em pau-de-arara, aquele caminhão
Wagner Moura:
que tem as tábuas, do sertão até o Rio, fazer essas coisas que os nordestinos
fazem: garçom, porteiro e tal. A história dele foi essa, fez essas coisas todas,
entrou para as forças armadas, virou sargento da Aeronáutica. Casou-se com
minha mãe, que também é sertaneja, de Rodelas. Eu e minha irmã nascemos e
ele estudava direito, sempre foi um homem inteligente [...].
Lillian
Witte Vocês estudaram em escola particular?
Fibe:
Lillian
Witte Sua irmã é médica de que especialidade?
Fibe:
Minha irmã é uma louca, porque ela trabalha na UTI pediátrica.
Wagner Moura:
Lillian
Witte Onde?
Fibe:
Em Salvador.
Wagner Moura:
Lillian
Witte Hospital privado?
Fibe:
Ela dá plantões em vários hospitais diferentes em UTI pediátrica, é uma coisa
Wagner Moura:
muito louca. Às vezes, ela me liga do plantão e eu digo: "e aí, como estão as
crianças?”. E ela diz: “As crianças nunca estão bem”. [...]
Nina Lemos:
Como foi para sua família - uma filha médica, seu pai advogado - o filho que
tinha uma banda de rock e virou ator?
Wagner Moura:
Eu não acredito que, na época, tenha sido o sonho da vida do meu pai. Fui
criado para ser um garoto incrível, era bom aluno, tirava boas notas, mas não
estava nos sonhos dele eu ser ator. Mas, por outro lado, ele é um homem muito
sensível e nunca se opôs. Quando eu resolvi fazer jornalismo, já vi que para ele
não era... [risos]. Ele queria que eu fosse um médico, um advogado. No interior
tem muito essa mentalidade de que a carreira é a de engenheiro, dentista e tal.
Aí eu não fui um bom moço [risos].
(Edição de 29 set. 2008)
A insistência da apresentadora para que o ator fale sobre sua biografia revela uma mudança no
enfoque do programa, que passa a usar a vida pessoal dos entrevistados para estreitar laços de
proximidade com a audiência. Por outro lado, enfraquece o programa do ponto de vista da
promoção de um debate, pois a vinculação com a biografia do ator não pretende a formulação
de um argumento, ela entra como dado curioso. Embora o emprego de perguntas intimistas
possa direcionar o programa ao tratamento de questões sociais mais amplas (“durante,
praticamente, toda sua vida política, a senhora apostou num projeto do PT, e na candidatura
do presidente Lula, na eleição do presidente Lula como, vamos dizer assim, forma de
123
viabilizar tudo isso que a senhora está defendendo hoje. E, há dois anos, houve este
rompimento. Eu não acredito que tenha sido unilateral, quer dizer, a senhora não saiu, foi
expulsa, mas não foi unilateral, foi expulsa porque se insubordinou à orientação do PT. Mas
esse processo deve ter sido uma coisa longa, dolorosa. A senhora poderia falar um pouco
disso, como foi esse rompimento, essa decepção?”, Luiz Carlos Azedo para Heloísa Helena,
em 12 jun. 2006), no caso da biografia de Wagner Moura, ela se esgota em si mesma, não
servindo nem mesmo para levar o público a compreender suas opções como ator.
Para Mark Deuze, o jornalismo contemporâneo caminha para o confronto com dois aspectos
emergentes que podem modificar sua forma de produção: o multiculturalismo74 e a
multimidialidade. Segundo o autor,
a combinação das técnicas de controle do conjunto de notícias e transmissão
das histórias em todos os formatos midiáticos [...], assim como a integração
de tecnologias digitais de transmissão combinadas com a reconcepção da
relação entre produtor e consumidor das notícias tende a ser um dos maiores
desafios encontrados pelos estudos do jornalismo e seu ensino no século
XXI75 (DEUZE, 2005, p. 451).
É notável, contemporaneamente, que boa parte dos programas televisivos possui um site na
internet que fornece informações básicas sobre pauta e programação, permite a recuperação
de vídeos e, em alguns casos, possibilita a interação com a audiência. Assim, o ato de assistir
a um programa televisivo não se restringe à recepção televisiva, mas envolve a relação com
outras mídias que o complementam. No Roda Viva, o uso de tecnologias tem ampliado as
possibilidades receptivas para, cada vez mais, incluir o público na conversa.
Uma das características mais marcantes do Roda Viva, desde seu surgimento, foi a
possibilidade de constituir-se num fórum público dos assuntos permitindo que a audiência
tivesse voz no interior do programa. Segundo a revista Veja de 25 fev. 1987, além de
perguntas gravadas previamente, o Roda Viva permitia que os telespectadores fizessem
perguntas ao vivo por telefone. Assim, o semanário da TV Cultura sempre possibilitou que os
telespectadores também tivessem acesso aos atores sociais presentes em sua arena por meio
74
Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”.
No original: “The combination of mastering newsgathering and storytelling techniques in all media formats
[…], as well as the integration of digital network technologies coupled with a rethinking of the news producerconsumer relationship tends to be seen as one of the biggest challenges facing journalism studies and education
in the 21st century”.
75
124
de telefone, fax e e-mail, à medida que as tecnologias de comunicação progrediam. Na versão
anterior a 2008, o público era representado no programa por meio da platéia, formada por
estudantes universitários, jornalistas, advogados, representantes de partidos e de sindicatos
que assistiam ao debate, sem direito à palavra. Ao final de cada bloco, a platéia era
apresentada e exibida à audiência. Além disso, o programa gravava um VT com perguntas de
pessoas comuns em locais públicos, de modo que a audiência, de fato, tivesse voz e lançasse
suas preocupações aos convidados do programa. A representação do povo incluía taxistas,
cabeleireiras, professores, representantes comunitários que apareciam creditados durante a
transmissão do Roda Viva. Essa tentativa de representação popular no interior do contexto
discursivo do programa visava sustentar a proposta de um jornalismo público, mas também
obedecia uma seleção por parte da produção do programa. Sendo assim, não era qualquer
pessoa que entrava na platéia do Roda Viva, mas aquelas que possuíam alguma relação com o
convidado. Na entrevista com Heloísa Helena, um dos participantes da platéia foi o deputado
federal pelo PSOL de São Paulo, e uma dos entrevistados que falavam do exterior do
programa era o líder comunitário de São Paulo, Vanildo Moreti. Embora não tenha
visibilidade midiática, os interesses do líder comunitário convergem para as propostas da
entrevistada do dia. Sendo assim, há um processo seletivo de quem participa e quem não tem
direito a voz no Roda Viva. Os membros da platéia não se engajam no debate, cabendo-lhes o
papel de espectadores da conversa.
Figura 10: o público no Roda Viva
Fonte: edição de 12 jun. 2006
Em 2008, as formas de inserção da audiência no programa sofreram modificações que, se por
um lado foram otimizadas, por outro ampliaram a lacuna existente entre a emissão e seu
público. Ao invés de exibir as próprias pessoas fazendo suas perguntas, o Roda Viva
adicionou à bancada de mediadores uma repórter da TV Cultura responsável por ler as
125
perguntas que os telespectadores enviam por e-mail ou fax. Sendo assim, o programa
midiatiza a voz da audiência, que não possui acesso direto à conversa. Na edição de 1º dez.
2008, a jornalista Carmem Amorim foi responsável pelo contato do público com o programa:
“eu tenho uma pergunta aqui, aliás duas, do C.H., de Anápolis, Goiás, que pede para o senhor
fazer um comentário sobre o impacto da lan house na vida das crianças e adolescentes, né. E o
que o senhor acha das redes sociais: orkut, por exemplo, qual é o impacto que essas redes
podem ter na vida dessas crianças e adolescentes” (a Valdemar Setzer). Assim, não é a pessoa
comum que se engaja no debate promovido pelo programa, mas um representante do campo
jornalístico que lhe dá voz.
Por outro lado, o site do Roda Viva na internet permite aos usuários acessar os bastidores do
programa – reportagens feitas com os entrevistadores sobre suas expectativas do debate -,
assistir ao programa na web, enviar perguntas, participar de um bate-papo durante a
transmissão e acompanhar a produção das charges. Assim, o próprio telespectador do
programa pode obter mais informações sobre os assuntos e o convidado, o que lhe coloca
numa posição mais autorizada no debate, buscando informação para formar sua opinião por
vários canais. As mensagens partilhadas via twitter pelos participantes na platéia do estúdio
corroboram para promover um debate no âmbito social, fora dos limites televisivos, embora
fomentado por eles. Sendo assim, o Roda Viva amplia sua atuação e permite que se crie uma
comunidade de interesses aduzida pela conversação que o programa põe em cena.
Figura 11: página de abertura do site do Roda Viva
Fonte: http://www.iptvcultura.com.br/rodaviva/index.html, capturado em 11 mai. 2009
126
Desta maneira, o Roda Viva aposta na convergência para alcançar uma audiência mais vasta e
confirmar o lugar de debate público que reivindica na construção de seu estilo. Os ideais de
participação e inclusão do público, que reforçam aspectos democráticos, são lançados para o
espaço virtual, que permite liberdade de acesso para participantes diversos, mas com alcance
reduzido. O privilégio pelo uso da internet em detrimento da transmissão televisiva se
manifesta, também, na mudança do horário de transmissão do programa, que acontece às 17
horas, ao vivo, pela internet, sendo a versão televisionada exibida no horário habitual, mas
gravado, rompendo com um dos padrões de legitimidade do jornalismo: a transmissão direta.
Essas mudanças na arena apontam para transformações que o programa efetua no subgênero.
O Roda Viva é o programa de entrevistas há mais tempo em exibição no país. Por conta disso,
ele preserva certos elementos ao mesmo tempo que inova outros, efetuando um avanço no
subgênero. A exibição, desde sua estréia, às segundas-feiras na faixa horária noturna, a
conservação do cenário nos mesmos moldes, a proposta de um “debate vivo”, como salientou
a revista Veja de 25 fev. 1987, são elementos que criam familiaridade do programa com a
audiência e, de certo modo, dão um sentido de estabilidade, conservando os aspectos que
asseguram a qualidade do programa em todos esses anos. Por outro lado, o Roda Viva não
deve ser compreendido como se estivesse estático, pelo contrário: ele adapta-se para
incorporar o novo: a nova tecnologia, as novas formas de incluir a audiência, os novos
personagens da cena pública. Essas inovações promovem um retorno ao nome do programa, à
vivacidade da roda, que permanece ativa, se reconfigurando em torno do novo.
127
4. ANÁLISE DO JORNAL DAS DEZ: 24 HORAS DE NOTÍCIAS NO AR
Em 1996, o Brasil assistiu à estréia do seu primeiro canal voltado inteiramente para notícias.
Inspirado, principalmente, no modelo da norte-americana CNN (Cable News Network), o
grupo Globosat estreou no dia 15 de outubro de 1996 a programação da Globo News, “o
primeiro canal de notícias 24 horas no ar”, como salienta o site da emissora. A idéia de formar
a primeira emissora de jornalismo do país encontrou um cenário favorável no mercado
nacional de televisão por assinatura que, na década de noventa, estava em crescimento. A
Globosat já possuía os canais Telecine (de filmes), GNT (de assuntos gerais), Multishow (de
música) e Sportv (de esportes) quando os diretores da rede Globo reuniram a equipe que
cuidaria de formar o novo canal das organizações Globo.
Segundo a então superintendente-executiva da rede Globo, Marluce Dias da Silva, a primeira
equipe responsável pelo novo canal, que ainda não possuía nome ou programação, definiu em
primeiro lugar as bases do que deveria ser o jornalismo da emissora: “quando se pensava em
canal de notícias, o modelo era o hard news. Uma de nossas primeiras decisões indicava que
nosso produto seria diferente: o telespectador teria análises profundas e debates”
(GLOBONEWS, 2006, p. 31). Assim, o canal de notícias da Globo intercalava telejornais de
meia em meia hora (o Em Cima da Hora) com reprises dos programas da TV Globo (Jornal
Hoje, Bom Dia Brasil, Globo Rural, Fantástico, Globo Repórter, Pequenas Empresas &
Grandes Negócios, Jornal Nacional) e um programa de entrevistas diário que “constituiria o
fórum de discussão diário de temas variados” (GLOBONEWS, 2006, p. 45), o Espaço Aberto.
Também se definiu, nesse momento, o telejornal que seria o carro-chefe da emissora no final
da noite: o Jornal das Dez. Ainda na fase de concepção da Globo News, o nome dado ao
telejornal era Nacional News, cuja proposta era efetuar análises, comentários e entrevistas a
partir das reprises das matérias do Jornal Nacional.
O grande diferencial do Jornal das Dez, porém, parecia ser as entrevistas, que tinham como
objetivo “discutir o principal assunto do dia com o principal personagem” (GLOBONEWS,
2006, p. 224). E foi com essa proposta que o Jornal das Dez foi ao ar na estréia da Globo
News, no dia 15 de outubro de 1996, levando para o estúdio o então Ministro da Fazenda do
governo Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan. A entrevista versava sobre seu pacote de
128
medidas econômicas para reduzir o défict público que não havia sido discutido pelo
Congresso Nacional, anunciado quatro dias antes da exibição do telejornal.
O uso das entrevistas para aprofundar os assuntos dos telejornais já vinha sendo praticado
desde os anos 1980. O Jornal das Dez, porém, oferece mais tempo para a discussão dos
assuntos com os convidados e com jornalistas especializados que respondem às perguntas dos
apresentadores. Com cinquenta e cinco minutos de exibição, o telejornal da Globo News
possui estúdios no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Nova Iorque, locais de onde as
notícias são transmitidas e comentadas por apresentadores, repórteres e especialistas. O
horário avançado de exibição o coloca numa posição privilegiada para fazer a avaliação dos
principais fatos do dia e, ao mesmo tempo, oferecer um prognóstico do que será notícia no dia
seguinte. É com base nessas características que o Jornal das Dez efetua seu modo de
endereçamento que será analisado neste capítulo a partir das edições de 17 a 22 de novembro
de 2008.
4.1. As notícias no fim da noite
Desde a estréia do Jornal das Dez, sua promessa é apresentar à audiência “um jornal de fim
de noite com notícias mais aprofundadas” (GLOBONEWS, 2006, p. 226). Por conta disso, a
abordagem do telejornal carro-chefe da Globo News não se resume a um panorama das
principais notícias do país e do mundo, mas elas passam por uma seleção a partir da qual será
possível promover o aprofundamento prometido na proposta de jornalismo da emissora.
Inicialmente, buscava-se uma unidade temática entre os dois telejornais carros-chefes da rede
Globo – o Jornal Nacional e o Jornal das Dez - dando um sentido de continuidade da
programação e aprofundamento, uma vez que o Jornal Nacional se propunha a uma
abordagem panorâmica dos assuntos, enquanto o Jornal das Dez efetuava os comentários e
entrevistas com especialistas.
Entretanto, com o passar do tempo, o Jornal das Dez foi, não apenas estabelecendo uma pauta
própria, como também especializou sua equipe de reportagem, buscando construir uma
identidade temática independente do telejornal do horário nobre da Globo. Assim, o Jornal
das Dez aproveita pouco do que é agendado pelo Jornal Nacional e, quando o faz, é a partir
de um enquadramento próprio que diferencia os dois telejornais e oferece ao telespectador um
pacto sobre o papel do jornalismo diferenciado. Na edição de 19 nov. 2008, por exemplo,
129
apenas oito assuntos foram semelhantes nos dois telejornais: ameaça da Al-qaeda a Barak
Obama, reconstituição do seqüestro de Eloá, aprovação da reforma tributária, a posição
contrária do Senado quanto à medida provisória que ajuda instituições filantrópicas, a defesa
do banqueiro Daniel Dantas à Justiça, o indiciamento de dez pessoas pelo acidente com a
empresa aérea TAM, a morte de uma mulher em Guarulhos, a semana do empreendedorismo
e a astronauta que perdeu uma mala de ferramentas no espaço. Ao mesmo tempo que o Jornal
das Dez se pauta pelo Jornal Nacional para o estabelecimento de sua agenda, ele procura
diferenciar-se oferecendo ao telespectador um produto novo, reconfigurado a partir da
proposta de aprofundamento.
Apesar de trazer notícias sobre diversos assuntos, normalmente apresentadas por André
Trigueiro nos últimos blocos, a marca central do Jornal das Dez e o aspecto que define sua
relação com a audiência é o tratamento que o telejornal oferece às notícias provenientes da
esfera pública habermasiana e a conversação é a estratégia empregada para constituir essa
relação. A vinheta do programa exibe imagens representativas dos principais assuntos que
podem ser encontrados no programa: ciência e tecnologia (imagem de um DNA), economia
(pessoas trabalhando e um trator arando a lavoura), política (o Congresso Nacional), meio
ambiente (um animal em seu habitat). Essas imagens são exibidas como se estivessem numa
tela, e passam rapidamente uma após a outra, sendo acompanhadas por uma trilha musical
também acelerada, sugerindo que o programa acompanha a velocidade dos acontecimentos.
Ao final da vinheta, o telespectador vê que as telas que trazem esses assuntos na vinheta é a
tela que compõe o zero do “J10”, logotipo do programa, como se o Jornal das Dez fosse o
lugar de interpretação das notícias para o telespectador. A ênfase, portanto, não é tanto no
acontecimento em si, em levar o público a conhecer algo que ele ainda não sabe, mas na
releitura dos acontecimentos que o telejornal busca promover.
As “notícias mais aprofundadas” transitam entre as duas editorias centrais do Jornal das Dez:
política e economia. São esses temas que recebem informações complementares por meio da
interpretação dos especialistas e é por esse aprofundamento que o Jornal das Dez se
diferencia dos demais telejornais e o posiciona na grade de programação como espaço
privilegiado para a interpretação dos acontecimentos. A promessa do aprofundamento busca
materializar-se por meio de duas estratégias: a exploração do mesmo assunto a partir de
pontos de vista e implicações diferenciados, e os comentários dos especialistas e de jornalistas
130
dispersos em diversas regiões, que se justificam no programa pelo tratamento de uma área
temática específica.
Figura 12: vinheta do Jornal das Dez
Fonte: edição de 17 nov. 2008
Sobre o primeiro aspecto, o Jornal das Dez não oferece o simples relato dos acontecimentos
em uma matéria ou reportagem, mas busca tratá-lo a partir das diversas dimensões que o
envolvem. No período analisado, um dos principais assuntos foi a crise econômica mundial.
Na edição de 17 nov. 2008, por exemplo, foram desdobramentos da crise econômica a reunião
de Barak Obama, presidente recém-eleito dos Estados Unidos, com seu principal rival, o
republicano John McCain, propondo uma ação conjunta de combate à crise; as decisões do
secretário do tesouro norte-americano; a experiência de um brasileiro que morava nos Estados
Unidos durante a crise; o aumento dos pedidos de falência; a crise econômica na Europa e no
Japão e a posição do governo brasileiro sobre a economia local durante a crise. O telejornal
buscava levar ao telespectador os elementos factuais, marcados por um relato que busca
descrever o que estava acontecendo, fazer o telespectador compreender o problema
econômico a partir de uma dimensão pessoal através da experiência de alguém que viveu o
problema abordado, e as complementações realizadas pelos especialistas.
131
Os aspectos factuais vinculam o Jornal das Dez ao subgênero telejornal a partir das
convenções tradicionais que definem os modos de escritura e de leitura, permitindo que a
audiência o reconheça e o interprete a partir da familiaridade com a gramática deste
subgênero. O programa da Globo News busca levar ao telespectador informações básicas e
atualizadas que lhe permitam compreender o fenômeno narrado:
Lília Teles
(nota
coberta):
O futuro presidente Barak Obama disse que os dois [ele e John McCain] iam
conversar sobre como trabalhar juntos para o país. Obama foi cordial e disse que
McCain merece agradecimentos pelos serviços prestados à nação. John McCain
garantiu que pretende ajudar o presidente eleito, tom bem diferente do usado no fim
da campanha para atacar o então candidato democrata. Obama foi acusado pelos
republicanos de ser um socialista envolvido com terroristas de esquerda e até de agir
como uma celebridade e não estar preparado para governar (...). No fim do encontro
de hoje os dois disseram que planejam trabalhar juntos para superar os grandes
desafios atuais, como a crise financeira, a necessidade de criar uma nova política
energética e defender o país do terrorismo.
(Edição de 17 nov. 2008)
A humanização do relato, por sua vez, aciona uma dimensão de storytelling (EKSTRÖM,
2003), por meio da qual o telespectador é capturado pela emoção, promovendo uma
vinculação da audiência com a temática por meio do sentimento de partilha e de se colocar no
lugar do outro. O uso da humanização do relato no Jornal das Dez, porém, tem uma
finalidade explicativa que se complementa à emocional despertada pela história de vida de
uma pessoa comum. Sendo assim, o telejornal efetua uma ampliação da proposta de Ekström
(idem) ao buscar a instrução do telespectador sobre algo que ele não conhece, mas por meio
da empatia, da identificação e da empolgação com a história. A edição de 17 nov. 2008 trouxe
uma reportagem realizada pelo correspondente Jorge Pontual com um brasileiro que foi para
os Estados Unidos em busca de melhor qualidade de vida e acabou falindo por conta da crise
econômica. Para relatar a experiência de Edson João, o repórter Jorge Pontual escolheu uma
estrutura dramática para orientar sua reportagem:
a) Apresentação do personagem:
Jorge Pontual
(off):
Edson João Malanski veio do Paraná para os Estados Unidos há oito anos
para tentar a sorte como músico. Chegou a lançar um CD com o pseudônimo
de Ed John. Mas foi no mercado imobiliário que ele buscou o sonho
americano: ficar rico em pouco tempo [...].
b) Introdução do conflito:
132
Jorge Pontual
(off):
Com a mulher, brasileira de Goiânia que ele conheceu aqui, Edson deu
entrada numa casa pagando apenas quinze mil dólares. Era 2002, o ano em
que começou a bolha do mercado imobiliário. Era fácil conseguir
financiamento. O casal continuou a comprar casas aqui e numa cidade
vizinha, Elizabeth. Em pouco tempo, Edson e a mulher comandaram um
império imobiliário. Sem desembolsar um tostão e em muitos casos com
financiamento de 100% dos bancos, tornaram-se proprietários de trinta
casas. Nelas, alugaram setenta apartamentos e chegaram a ter renda mensal
de cem mil dólares, o que dava para pagar as prestações das trinta casas e
ficar com o lucro [...].
c) Clímax:
Jorge Pontual
(off):
Em 2006, as coisas começaram a complicar. Os impostos subiram e os juros
também. Edson tentou vender algumas das casas, mas os preços entraram
em queda.
Edson João
(sonora):
O primeiro problema que eu percebi foi quando eu quis vender algumas
propriedades. Eu percebi que para você vender não era da mesma maneira
que eu tinha comprado [...]. Aí eu percebi que alguma coisa não estava
certa.
Jorge Pontual (off):
Este ano, eles pararam de pagar as prestações e os bancos, por falta de
pagamento, pegaram algumas casas de volta [...]. Há dois meses, o casal, já
separado, entrou na justiça com pedido de concordata. Eles já perderam
metade do patrimônio e o resto irá a leilão para pagar as dívidas. Edson, que
entrou no mercado imobiliário com quase nada, agora deve oito milhões de
dólares.
d) Solução:
Jorge Pontual
(off):
Mas ele está confiante. Vai passar os próximos meses renegociando a
dívida para limpar o nome da praça.
Edson João
(sonora):
Eu não sou o primeiro. Se fosse só comigo que estivesse acontecendo eu
ia pensar: “o que é que eu fiz de errado?”. Mas como a gente vê, a história
é de milhões e milhões de pessoas [...].
e) Desfecho:
Jorge Pontual
(off):
A história de Edson é emblemática do delírio que tomou conta do mercado
imobiliário nos Estados Unidos nos últimos anos e terminou com a quebra
do sistema financeiro armado em cima desse castelo de cartas. O cassino
imobiliário permitiu que um brasileiro quase sem recursos se tornasse dono
de setenta imóveis. O sonho durou apenas quatro anos, mas Edson aprendeu
muito. Descobriu que leva jeito para os negócios e quer começar de novo.
(Edição de 17 nov. 2008)
A promessa de aprofundamento das notícias se complementa pela inserção de jornalistas
especialistas, cujo papel é fornecer uma interpretação dos principais acontecimentos da
edição. A fala dos especialistas é relacionada a uma área específica de atuação, em especial,
133
política, economia e internacional (que oferece uma leitura sobre os principais acontecimentos
do exterior, mas também a partir de um enquadramento que valoriza o político e o
econômico) e é por meio da conversação que eles são acionados no programa. Ainda sobre o
tema “crise econômica”, o Jornal das Dez contou com a participação de Carlos Alberto
Sardenberg, especializado em economia, para levar dados estatísticos e explicações mais
amplas sobre a economia brasileira e a relação com outros países:
Carlos Alberto Sardenberg, Estados Unidos, Europa e Japão em recessão. A gente
vai exportar para quem ano que vem, hein Sardenberg?
Carlos Alberto Pois, é. É um problema, né? Você sabe que, por exemplo, 40% das exportações
brasileiras vão para Estados Unidos e para o conjunto da Europa. Mais um tanto
Sardenberg:
para o Japão. Então você vê que mais da metade da exportação brasileira está
afetada pela crise nos países... desenvolvidos. Esse é o problema e esse é o modo
pelo qual a crise chega ao Brasil, pela via do comércio. Um dos modos. O outro é
pela via do crédito. Mas esse pela via do comércio é muito importante porque nos
últimos anos, de 2002 para cá, especialmente, as exportações brasileiras cresceram
muitíssimo. Tiveram um crescimento muito forte. O Brasil cresceu não apenas em
mercados tradicionais, como se ampliou para outros mercados. Hoje, por exemplo,
a notícia dizendo da queda das exportações para a Rússia, que se tornou um
freguês... é... importante. Então, esse é o modo... esse é um dos modos principais
como a crise internacional chega ao Brasil: pela queda no ritmo das exportações.
Carla Lopes:
(Edição de 17 nov. 2008)
A participação do especialista, portanto, não está tão vinculada à sua opinião - embora ela
possa ser emitida quando fundamentada em dados mais concretos -, ou ao um julgamento
moral da sociedade e das instituições. A credibilidade do jornalista especialista presente nos
estúdios do Jornal das Dez se constrói pelo acesso a informações privilegiadas estabelecido
em sua trajetória. Para compreender o papel dos especialistas no Jornal das Dez é preciso
pensar sua relação com os demais mediadores do programa.
4.2. Polifonia e unicidade
Os mediadores do Jornal das Dez são apresentadores, especialistas - mais diretamente
envolvidos com as conversações - e repórteres. Apesar das distinções de papéis, fica evidente
a construção de um trabalho em equipe, que é ressaltado desde a escalda do programa. Num
jogo de imagens que intercalam os mediadores e os assuntos tratados, o Jornal das Dez
convoca o telespectador a reconhecer os lugares discursivos dos principais agentes e a criar
uma expectativa sobre o que será abordado com devido destaque pelo telejornal, como se
pode ver na escalada abaixo:
134
Figura 13: escalada do Jornal das Dez
André Trigueiro:
Boa noite! Eu sou André Trigueiro e o Jornal das
Dez está começando com os seguintes assuntos em
destaque:
André Trigueiro:
A inflação despenca nos Estados Unidos. O índice
de preços ao consumidor teve a maior queda mensal
em mais de sessenta anos.
André Trigueiro:
E em tempo de crise, aumenta a procura por cupom
de desconto.
André Trigueiro:
Pesquisas indicam que 90% dos consumidores
americanos estão usando cupons para economizar.
[...]
135
André Trigueiro:
O governador de São Paulo esteve hoje em Brasília
reunido no Palácio do Planalto. Carlos Monforte.
Carlos Monforte:
Mas o conteúdo do encontro virou segredo de estado
por causa das pressões da Comissão de Valores
Mobiliários. João Borges.
João Borges:
O principal assunto da reunião do governador José
Serra com o presidente Lula e o Ministro da
Fazenda, Guido Mantega, foi também o mais
evitado na entrevista do governador e o Ministro: a
compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil.
Carlos Monforte:
A gravação da reunião entre o delegado Protógenes
Queiroz e diretores da Polícia Federal já está com o
presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar
Mendes. Mônica Carvalho.
136
Mônica Carvalho:
A defesa do banqueiro, que chegou a ser preso na
operação Satiagraha da Polícia Federal em julho,
quer que o coordenador da investigação, o delegado
Protógenes Queiroz, e o diretor geral da Agência
Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda, sejam
ouvidos novamente pelo juiz Fausto Decentes.[...]
André Trigueiro:
Você vai acompanhar uma reportagem especial
sobre os dez anos da Estação Espacial Internacional.
Na véspera do aniversário, um pequeno acidente: a
astronauta deixou escapar das mãos uma maleta com
ferramentas, que foi para o espaço. [...]
André Trigueiro:
Daqui a trinta segundos.
Fonte: edição de 19 nov. 2008
A escalada é o primeiro contato da audiência com o Jornal das Dez. Antecede, inclusive, a
vinheta, e é por meio dela que o programa busca atrair sua atenção e criar familiaridade com
os atores responsáveis por levar as informações para os telespectadores. Em alguns casos, os
apresentadores anunciam a presença dos jornalistas especialistas ou de convidados externos
ao programa para comentar os assuntos, como se fosse uma atração (EKSTRÖM, 2003):
“Merval Pereira comenta” (19 nov. 2008), “Será que esses nomes são bons para o Brasil [a
137
indicação de Timothy Geithner e Hillary Clinton para os cargos de secretário do tesouro
americano e secretária de Estado, respectivamente]? O embaixador Roberto Abdenur
responde” (22 nov. 2008). Ao exibir, desde o início da emissão, os mediadores responsáveis
pela construção da informação, o Jornal das Dez permite notar uma complementaridade no
trabalho da equipe do telejornal que se compromete em levar ao telespectador uma unicidade
entre os mediadores que se traduz, durante todo o programa, nas interações entre eles.
São três os apresentadores do Jornal das Dez: do Rio de Janeiro, André Trigueiro é o
condutor principal do programa, que estabelece contato com o telespectador na abertura e
encerramento do jornal; de São Paulo, fala a jornalista Carla Lopes e, de Brasília, o jornalista
Carlos Monforte, responsável pelas notícias de política. Segundo Henrique Lago, um dos
primeiros editores-chefe do programa, os apresentadores não são
leitores de notícias. Eles são âncoras com participação ativa nas entrevistas.
Discutimos os assuntos antes de o jornal ir ao ar, mas eles têm liberdade para
fazer as próprias perguntas. Eventualmente, o convidado está falando, o
Trigueiro me avisa „quero contestar‟ e eu sei que posso abrir o microfone
para ele. (GLOBONEWS, 2006, p. 229)
André Trigueiro ocupa a função de mediador principal, diferenciado-se dos demais pelo
contato inicial com a audiência. Desde a estréia do telejornal, Trigueiro é o rosto do Jornal
das Dez e é quem distribui a palavra inicialmente, organizando os assuntos no programa.
Antes de sua atuação no programa, André Trigueiro era repórter da editoria Rio, da rede
Globo. É também apresentador do programa Cidades e Soluções, estreado na Globo News em
2006, que tem como objetivo discutir iniciativas para problemas urbanos sem a intervenção de
políticas públicas. É na questão ambiental, porém, que Trigueiro possui maior atividade,
sendo autor dos livros “Meio ambiente no século 21”, “Mundo sustentável” e “Manual de
comunicação e meio ambiente”.
O estúdio de São Paulo do Jornal das Dez já foi comandado por Lílian Amarante, Guto
Abranches, Zelda Mello, Veruska Donato. Durante o período analisado, a jornalista Carla
Lopes76 fez as vezes de apresentadora, sendo responsável, também, pelos diálogos com os
jornalistas especialistas presentes no estúdio. Carla Lopes também apresenta notícias que se
76
A jornalista Mônica Waldvogel é quem faz a ancoragem do Jornal das Dez em São Paulo atualmente.
138
passam em São Paulo, ainda que não haja vinculação com economia, como as informações
sobre violência urbana, meteorologia entre outras.
Um dos mediadores mais importantes do Jornal das Dez é o jornalista Carlos Monforte,
apresentador situado em Brasília que introduz os assuntos de política, remetendo à sua
trajetória no telejornalismo. Monforte iniciou sua carreira no jornal A Tribuna, de São Paulo,
passando, posteriormente, para a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras do Estado
de São Paulo. Entre 1973 e 1978, foi repórter especial do jornal O Estado de São Paulo, de
onde saiu para trabalhar na TV Globo, como repórter dos programas Jornalismo eletrônico,
Jornal Nacional e Fantástico. Em 1982, assumiu a editoria de política do Jornal da Globo e,
no mesmo ano, tornou-se editor e apresentador do Bom Dia São Paulo. No ano seguinte,
Monforte estreou o telejornal Bom Dia Brasil, onde ficou por nove anos e estabeleceu boa
parte de sua credibilidade na cobertura política. Incorporando a inovadora proposta do Bom
Dia Brasil, Carlos Monforte não apenas apresentava as notícias, mas realizava entrevistas
com representantes do campo político, que possuíam mais tempo para construir seu
raciocínio77. Foi nesse momento que Carlos Monforte ganhou reconhecimento dos pares do
campo jornalístico e entre os políticos que entrevistava. Segundo a revista Veja de 18 de
fevereiro de 1987, o ex-senador Afonso Camargo (governo José Sarney) definiu o
apresentador como um “entrevistador muito ágil” e o ex-Ministro da Fazenda, Dilson Funaro,
o caracterizou como “competente e seguro”.
Ainda como apresentador do Bom Dia Brasil, Monforte cultivou o hábito de freqüentar o
Palácio do Planalto e o Congresso a fim de encontrar notícias e convidados para seu
programa. Por conta disso, Monforte ganhou credibilidade para tratar de assuntos dessa
esfera, o que faz, atualmente, no Jornal das Dez. Carlos Monforte é responsável pela
apresentação de notícias de política - voltada para o centro de decisões e as instituições
correlacionadas aos poderes institucionais - no estúdio em Brasília. As notícias apresentadas
por Monforte dizem respeito a CPIs, reforma tributária, encontro do G20, aumento de crédito
pela Caixa Econômica Federal, posição do governo federal frente à crise econômica. Outros
assuntos da capital federal, como o Festival de Cinema, não passam pela mediação de
Monforte, mas de André Trigueiro, o que sugere uma especialização inclusive nos assuntos
tratados no programa. A presença de Carlos Monforte no Jornal das Dez assegura a função de
77
Ver capítulo “As notícias do início do dia: análise do Bom Dia Brasil”.
139
vigilância que o programa pretende cumprir, como se estivesse atento a todas as ações do
governo federal, o que se expressa também pelos repórteres setorizados do programa que
cobrem apenas os acontecimentos do Congresso e do Palácio do Planalto, como é o caso de
Mônica Carvalho e João Borges, no período analisado.
As interações que marcam a conversação no Jornal das Dez são conduzidas pelos
apresentadores, independentemente de qual seja seu local geográfico. Há distinções, porém,
no controle dos turnos de fala. André Trigueiro atua sempre como interpelador, convocando
os demais mediadores do programa, embora nunca haja como respondente. No Jornal das Dez
há uma permissão da condução da conversa pelos demais mediadores, no entanto, André
Trigueiro possui o papel de regente da condução da palavra, como se ocupasse um lugar
privilegiado com relação aos demais. Enquanto Carla Lopes e Carlos Monforte atuam dos
dois lados do binômio interpelação/ resposta (seja por meio de pergunta ou comentário),
Trigueiro ocupa-se apenas com a primeira função.
Quando a intenção é convocar a participação de outro apresentador, podem ser feitas
perguntas informativas (“Carla, e para enganar o porteiro do condomínio, os bandidos
simularam uma blitz?”, André Trigueiro, 17 nov. 2008), avaliativas (“Monforte, boa noite.
Essa operação desencadeou uma série de vazamentos de informações de todos os lados. O
caso está cada dia mais complicado?”, Carla Lopes, 17 nov. 2008), comprobatórias (“E com
este aumento de crédito, muita gente se endividou e agora está com a corda no pescoço. E foi
pensando nessas pessoas que o governo de São Paulo lançou um novo serviço, não é isso
Carla Lopes? Boa noite. A iniciativa, bom, vem em boa hora, já que nessa semana as
empresas começam a pagar o décimo terceiro salário, que muita gente usa, justamente, para
quitar dívidas”, André Trigueiro, 18 nov. 2008) ou confirmação de hipóteses (“a seriedade da
crise econômica nos EUA colocou de lado a rivalidade política entre Barak Obama e John
McCain. No primeiro encontro depois da disputa presidencial, as duas maiores lideranças
republicana e democrata do momento deixaram claro que é hora de dar as mãos para enfrentar
os desafios que passam pela frente, e que não são poucos. Vamos a Nova Iorque com Lília
Teles. Lília, boa noite. O que não falta é abacaxi gigante [gesto que indica tamanho] para
descascar nos EUA, né?”, André Trigueiro, 17 nov. 2008). Em todo caso, a finalidade da
passagem da palavra de um a outro apresentador visa confirmar informações já existentes e
partilhadas por eles, legitimando a informação por meio da proximidade à área de cobertura –
140
economia, internacional, política. Por conta disso, a resposta do outro apresentador é de
reforço à fala do anterior e de concordância convocando um sentido de unicidade, apesar da
pluralidade de vozes que compõem o jornal: “passou por aqui sim, André” (Carla Lopes, 17
nov. 2008), “complicadíssimo mesmo, Carla” (Carlos Monforte, 17 nov. 2008). As
interpelações de um apresentador a outro no Jornal das Dez seguem o modelo comentário/
resposta, suprimindo a interrogação de quase todas as falas. Sobre a CPI dos grampos, André
Trigueiro solicitou a participação de Carlos Monforte por meio desse recurso:
André Trigueiro:
Carlos Monforte:
Carlos Monforte, a temperatura não para de subir na investigação desses
supostos vazamentos de informações sigilosas. Está feia a coisa!
É, as coisas estão se complicando, né, André. Ninguém sabe onde isso vai
parar. As investigações revelam um emaranhado de escutas ilegais e legais. E
também mostram a troca de acusações desencadeadas pela operação
Satiagraha, que prendeu por duas vezes o banqueiro Daniel Dantas.
(Edição de 18 nov. 2008)
A fim de provocar esse sentido consensual entre os apresentadores do Jornal das Dez, as falas
são previamente pensadas e há momentos específicos para as interações entre os participantes,
como relata a correspondente Heloísa Vilela:
Na hora de responder a uma pergunta do Trigueiro [André Trigueiro ,
apresentador do programa], me dei conta de que a página não estava no
teleprompter. A pergunta veio. Eu não tinha resposta e nem podia inventar...
Fiquei congelada! E o Trigueiro saiu pela tangente. Ele mesmo chamou a
matéria e, depois, conseguiu „restabelecer‟ o contato comigo
(GLOBONEWS, 2006, p. 230).
Essa unicidade dos apresentadores do Jornal das Dez e a liberdade para comentários e
adjetivações sobre o conteúdo divulgado os afasta de uma dimensão de objetividade que os
apresentadores de telejornal costumam prezar. As interpretações dos jornalistas que ocupam o
lugar de apresentação do telejornal da Globo News complementam as informações divulgadas
e constroem um efeito de reflexividade, como se quisessem efetuar uma discussão dos
assuntos e não a simples divulgação deles, o que é feito, na Globo News, pelos blocos de
notícias do Em Cima da Hora. Assim, os apresentadores do Jornal das Dez enfatizam um
efeito de espontaneidade na construção de seu discurso por meio da gestualidade e de
expressões faciais que indiquem seu envolvimento com o tema abordado.
141
Figura 14: expressões faciais e gestualidade no Jornal das Dez
Fonte: edição de 17 nov. 2008
As interações conduzidas pelos apresentadores possuem como alvo a participação de
jornalistas especializados que, por sua trajetória no campo jornalístico ou nas esferas a que se
vinculam – política, economia -, são vozes reconhecidamente autorizadas para tratar dos
assuntos. No período analisado, um tema bastante evidente foi a crise econômica, o que
solicitou a participação de Carlos Alberto Sardenberg, comentarista de economia do Jornal
das Dez. Antes de especializar-se no jornalismo econômico, Sardenberg atuou em diversas
editorias, entre esportes, política e geral. Desde a década de 1970, trabalhou em alguns dos
principais veículos impressos do país: as revistas Veja e Isto É, os jornais O Estado de São
Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil. Além disso, de 1985 a 1987
foi coordenador de Comunicação Social do Ministério do Planejamento, em seguida foi
assessor da reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atuou na área
econômica na gestão de Franco Montoro em São Paulo (de 1983 a 1987). Na televisão, foi
comentarista da TV Cultura e diretor de jornalismo da TV Bandeirantes78. Sardenberg, além
da Globo News, é comentarista de economia na rádio CBN.
Para os comentários sobre política, o Jornal das Dez conta com a participação da jornalista
Cristiana Lôbo, que aproximou-se da vida política em 1982, quando começou a acompanhar
os governos de João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando
Henrique Cardoso. Em 1984, tornou-se setorista dos deputados federais em Brasília, o que lhe
garantiu o acompanhamento próximo da política nacional. No jornalismo, foi repórter do
jornal O Globo, onde trabalhou ao lado de Tereza Cruvinel e Ricardo Boechat, também
colunistas de política. Em 1992, ganhou sua própria coluna sobre política no jornal O Estado
78
Informações disponíveis em http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Sardenberg, capturado em 04/04/10.
142
de São Paulo, onde atuou até 1998, quando foi para a Globo News para ser comentarista do
programa Fatos e Versões.
A função do especialista no Jornal das Dez é contribuir para o enquadramento temático
construído pelo programa salientando os aspectos considerados pelo programa como mais
relevantes. Parte de sua credibilidade está no próprio engajamento na conversação. Enquanto
o apresentador se mostra previamente preparado para efetuar as perguntas, os especialistas
demonstram que suas respostas são construídas no momento da emissão, o que se pode notar
pela manutenção do eixo olho-a-olho entre especialista e apresentador e pelas hesitações em
seu discurso. Tal performance salienta um efeito de espontaneidade, como se as falas ali
encenadas não estivessem presas a um roteiro. Jornalisticamente, essa forma de posicionar o
especialista visa dar-lhe mais credibilidade, uma vez que precisa recorrer a seus
conhecimentos sobre os assuntos abordados nas interações para construir, ao vivo, sua fala.
Assim, há um conjunto de saberes que o especialista recorre para formular suas respostas
durante o Jornal das Dez. Após a exibição de uma matéria contendo as declarações do
presidente Lula sobre as alterações no ministério, o Jornal das Dez convocou a participação
da comentarista de política, Cristiana Lôbo:
Carlos Monforte:
Cristiana Lôbo:
Nós vamos conversar agora com a jornalista Cristiana Lôbo que está no estúdio
do Jornal das Dez lá em São Paulo. Boa noite, Cristiana. Bom, o presidente
Lula disse que o PMDB é um parceiro preferencial. Será que ele esqueceu o PT
ou está querendo de uma forma, assim, acintosa, esquecer o mais rapidamente
o PT?
Boa noite, Monforte. Boa noite a todos. Não, a declaração do presidente Lula
foi entendida pelo próprio PMDB como uma declaração protocolar. O
presidente Lula não pode abrir mão do PMDB, que é a maior bancada na
Câmara e a maior bancada no Senado. Se perder esse apoio fragiliza a
sustentação do governo no Congresso. Então ele disse isso como uma forma de
“olha, amigos, amigos”. Mas no final, ele disse o seguinte: “não é habitual que
um partido comande as duas casas”. O presidente Lula, ele quer o PMDB na
base, mas quer também ao mesmo tempo, dividir os espaços no Legislativo
entre o PMDB e o PT. Na Câmara, o PMDB já está ajeitado no acordo com o
PT, um acordo de 2006, e que o Arlindo Chinaglia foi eleito presidente para,
em 2008, ter a contra-partida do PMDB.... ter a contra-partida do PT [
corrigindo-se], elegendo um nome do PMDB, que é o Michel Temer. Mas no
Senado, os próprios peemedebistas, eles reivindicam a vaga. Mas sevocê
conversa com os ministros, por exemplo, eles acham que o PMDB não tem um
nome pronto no Senado para ser presidente do Senado, já que o senador Sarney
já disse que não quer. Então, a declaração do presidente agrada a bancada do
PMDB, mas abre espaço para essa negociação que ele tem dito para os petistas
que vai fazer: que vai querer um petista no comando do Senado. [...]
(Edição de 18 nov. 2008)
143
A fala de Cristiana Lôbo não se legitima por dados e informações que a mediadora possui,
mas por sua análise do campo político a partir do trânsito entre os partidos e o governo
federal. Seu papel no programa é dar sentido à situação política do país, levando ao
telespectador uma interpretação já formulada e mais ferramentas para a compreensão das
instituições federais. Essa compreensão visa formar no telespectador um capital cultural que
lhe permite ser, também, um analista de política e tomar melhores decisões em sua atuação
cívica. No Jornal das Dez, a ênfase na cobertura dos três poderes institucionais posiciona o
público como eleitor e é para melhor equipar esse eleitor que o Jornal das Dez efetua suas
análises.
O cenário que cerca esses jornalistas é diferenciado com relação ao restante do telejornal.
Distanciados da bancada, os especialistas são posicionados num ambiente composto por duas
poltronas colocadas lado a lado, permitindo que os participantes se olhem e possam, também,
olhar para a câmera. As poltronas, entretanto, não remetem ao ambiente aconchegante do lar,
ou da sala de estar, mas de um ambiente institucionalizado como uma sala de espera ou um
consultório, um local de passagem onde se estabelecem relações profissionais.
Figura 15: cenário para interação com jornalistas especializados
Fonte: edição de 17 nov. 2008
O contexto comunicativo construído pelo Jornal das Dez faz referência à institucionalização
das relações ali estabelecidas. Os mediadores se encontram com um propósito definido e
pactuado previamente: a obtenção de informações que não se encontram nas matérias e
reportagens exibidas pelo telejornal, as interpretações dos fatos e avaliações sobre os
acontecimentos a partir de um relato especializado. A própria conversação demonstra a
institucionalização das trocas que se dão nesse ambiente: o tempo é limitado entre três e cinco
144
minutos para a participação do especialista, que, normalmente, responde a três perguntas dos
mediadores; a passagem da palavra de um mediador para outro é regulada pelo diretor do
programa, que amplia o enquadramento de câmera para mostrar a mudança de um falante a
outro e depois fecha em quem possui a palavra; o objetivo da troca é estabelecido
anteriormente ao encontro e essa definição prévia permite um melhor preparo dos
participantes envolvidos na troca que não estão completamente numa situação de
espontaneidade. A supressão da bancada pretende colocar os participantes em igualdade
durante a conversação, no entanto, nota-se uma atribuição de papéis bem construída: o
apresentador possui autoridade para fazer as perguntas, enquanto o especialista constrói-se
como autoridade por possuir os conhecimentos para respondê-las.
Além dos jornalistas especializados, o Jornal das Dez efetua um aprofundamento das
informações por meio de entrevistas com agentes externos ao campo jornalístico. Marca do
telejornal desde sua estréia, as entrevistas do Jornal das Dez demonstram o lugar privilegiado
que o programa possui entre os pares do campo jornalístico, uma vez que entram em seu
estúdio professores, pesquisadores, embaixadores, ministros, ou seja, representantes dos mais
altos cargos oficiais do Estado e/ ou os especialistas das principais instituições do país. Nesse
caso, o cenário para a entrevista pode ser qualquer um dos estúdios do programa, sendo que o
do Rio de Janeiro é o espaço preferencial para a realização desses diálogos. A participação
dessas figuras no Jornal das Dez remete a seu papel social que migra para a cena televisiva, e
toda a conversa se passa em torno disso. Para tratar dos conflitos entre o Brasil e o Equador, o
programa convidou o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Francisco Teixeira:
Carlos
Monforte:
Francisco
Teixeira:
Carlos
Monforte:
Francisco
Teixeira:
No estúdio do Jornal das Dez no Rio de Janeiro está o professor de história
contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Francisco Carlos
Teixeira para quem eu vou fazer a primeira pergunta. Boa noite, professor.
Boa noite, Monforte.
O que a gente gostaria de saber é o seguinte: é...o que... quais os próximos passos
dessa novela que não é nova, já desde o ano passado que ela vem acontecendo, o
que é que pode acontecer agora com o retorno do embaixador ao Brasil?
Bom, tem duas ordens de acontecimentos aqui. A primeira é do nível da relação
Estado/ Estado. Nós já tínhamos cancelado uma missão, liderada pelo Ministério
dos Transportes: o grande projeto... o projeto fundamental de integração
continental, uma ferrovia e hidrovia nesse sentido. Então, paralisando
investimentos e relacionamentos com o Equador. Mas mais grave que isso é que a
ação do Equador, do governo Correia está mostrando que há uma fragilidade
muito grande do marco regulatório no nosso continente. As regras básicas sobre
145
Eduardo
Grillo:
Francisco
Teixeira:
Eduardo
Grillo:
Carla Lopes:
Francisco
Teixeira:
investimento, sobre capitais, sobre contratos, inclusive contratos de banco para
banco, banco central para banco de fomento estatal, como o BNDES, podem ser
transformados numa peça de nacionalismo em praça pública. Isso é muito ruim
para o conjunto do continente.
Professor, a impressão que fica é que na verdade o que o presidente Rafael Correia
está fazendo... ele faz porque acha que pode. Na verdade, se tivesse alguma...
algum controle sobre isso... Como seria feito esse controle? Já aconteceu antes
com Evo Morales na Petrobrás. Como as empresas podem se garantir, como se
garante o investimento se não se sabe o que vai acontecer depois? Uma situação
um pouco difícil. Tem uma forma? O senhor falou em marco regulatório. Tem se
como fazer isso?
Olha, sem dúvida nenhuma. Quer dizer, o Mercosul tem um marco regulatório no
seu interior. Quer dizer, os investimentos, os capitais, a circulação de mercadorias
são garantidos. No caso do Equador, como ele não está no interior do Mercosul e
também ele acabou de pleibiscitar uma nova Constituição cuja aplicação nem se
sabe bem, né, como vai ser feita. A Suprema Corte de Justiça do Equador foi
demitida e está sendo montada uma outra agora pelo partido majoritário que apóia
Rafael Correia. Tudo isso mostra que na verdade o Equador escapa a uma
capacidade da gente considerar um lugar saudável, seguro, para fazer
investimentos. Não se trata de maneira alguma do caso Odebrecht, porque a
ameaça é muito grande contra a Petrobrás e agora o BNDES. O que acontece é
que está transformando o nacionalismo bastante panfletário numa forma do Rafael
Correia se manter à frente dos movimentos sociais. Porque os movimentos sociais,
principalmente os movimentos indígenas, eles estão muito radicalizados. E ele
tenta liderar e se manter na crista da onda fazendo esse discurso nacionalista.
Professor, a Carla Lopes tem uma pergunta lá de São Paulo, Carla.
Boa noite, professor. Professor, essa não é a primeira que o Brasil se vê numa saia
justa com os países vizinhos. Todo mundo vem acompanhando aí, há dois anos a
gente viu o governo de Evo Morales invadir as refinarias da Petrobrás e também
nacionalizar o setor de gás e petróleo. E o Brasil acabou colocando panos quentes.
Será que essa política de condescendência com os países vizinhos não é
equivocada e acaba sendo a raiz dos problemas? Abre um precedente para que os
países vizinhos tenham uma atitude como essa, uma atitude mais radical?
Veja, aí a gente tem dois problemas: o caso da Bolívia e do Equador são
exatamente países que não estavam integralmente no âmbito do Mercosul. Então,
portanto, as regras, o marco regulatório não estava vigente para eles, não é vigente
para eles. Se esses países estivessem dentro do Mercosul, seria muito difícil tomar
essa atitude. Por exemplo, nós não temos nenhum problema desse tipo com a
Argentina, né. Ao contrário, temos uma relação rica e complementar com a
Argentina. A segunda coisa é que a América do Sul está passando por um
processo de mobilização de grupos sociais que eram grupos totalmente afastados
de qualquer decisão política, eu não vou dizer há quinhentos anos, mas pelo
menos desde o início do século XX. Nesse sentido, esses grupos estão muito
radicalizados e as regras gerais das relações internacionais não estão sendo
levadas em conta. Essa linguagem não está sendo entendida. Eu acho que o Brasil,
ele tem que, nesse momento – e é isso que o Itamaraty fez hoje – é falar muito
claramente aonde está alinha vermelha. Se ultrapassar essa linha vermelha, esses
países vão ter prejuízo, como o Equador hoje. O Equador é um país com uma
comódite única, como é o petróleo, que agora está desabando, né. Políticas desse
tipo só vai isolar o país.
(Edição de 22 nov. 2008)
146
Não há rigor, por parte do Jornal das Dez, sobre quem irá iniciar a troca. Neste caso, como o
tema da entrevista girava em torno de política, Carlos Monforte deu início à conversação
apresentando o convidado e enquadrando os objetivos da conversa. Também é possível notar
que todos os mediadores podem participar da conversação, oferecendo um franqueamento da
palavra, o que corrobora, também, com a unicidade que o programa busca construir.
4.3. Jornal às dez
Com uma programação voltada para o jornalismo, a Globo News tem no controle do tempo
um aliado para a oferta do conteúdo. Com o slogan “a vida em tempo real”, a emissora por
assinatura dá destaque à atualidade dos assuntos, o que é reforçado pelos blocos de notícias
exibidos a cada hora cheia no Em Cima da Hora. Por meio dessa estratégia, os assuntos são
repetidos ao longo da programação, permitindo que o telespectador que acompanha o canal
esteja atualizado a todo o momento sobre os desdobramentos dos fatos. A ênfase da emissora
no tempo é uma marca sobre sua proposta de jornalismo, que se estende aos demais
programas informativos, como é o caso do Jornal das Dez. O destaque ao horário de exibição
do telejornal carro-chefe da Globo News não é aleatório. O Jornal das Dez é como se fosse o
ponto de chegada de todas as informações transmitidas durante o dia. É dessa maneira que o
telejornal se diferencia dos blocos de notícias e procura envolver a audiência numa atitude de
continuidade no acompanhamento da programação, mas uma continuidade dinâmica, que
acrescenta novos olhares aos assuntos.
Uma inovação do Jornal das Dez com relação ao uso do tempo é que é um dos poucos
telejornais do país com exibição sete dias por semana. Para a equipe do Jornal das Dez, não
há folga na divulgação e interpretação dos assuntos que marcam o dia, não há descanso para
os jornalistas, que estão sempre em busca do novo e do que pode ser marcante para a semana.
Oferecendo uma alternativa à programação televisiva de domingo, que se volta mais aos
produtos da esfera do entretenimento79 – programas de auditório, cobertura esportiva, filmes,
reality shows, etc – o Jornal das Dez mantém, no domingo, o mesmo padrão de jornalismo do
restante da semana, ampliando, inclusive, a cobertura para levar ao programa convidados que
contribuam na interpretação dos assuntos que irão pautar a semana.
79
Mesmo os programas jornalísticos exibidos ao domingo enfatizam uma imbricação entre informações e
entretenimento, como é o caso do Fantástico (rede Globo) e do Domingo Espetacular (TV Record).
147
Para concretizar esse sentido de atualidade atrelado ao de busca pela informação, o Jornal das
Dez conta com o trabalho de uma equipe de repórteres cujo discurso e cobertura se validam
pelo “aqui” e “agora” que a cobertura pretende demonstrar. O “aqui” se evidencia pela
presença no local do acontecimento, que o coloca numa posição privilegiada para relatar os
fatos. Aliado à retórica que convoca a presença do repórter no local, o telejornal insere
imagens que confirmem essa posição privilegiada para o detalhamento dos fatos. Além disso,
como o repórter não acompanhou a ação dos assaltantes, o telejornal utiliza recursos gráficos
que reconstituem o acontecimento, aproximando a audiência da ação e criando um efeito de
“aqui-agora”:
Figura 16: repórter no local do acontecimento.
César Galvão:
Os assaltantes fizeram uma falsa blitz aqui na rua de
acesso ao condomínio. Era para facilitar a invasão.
César Galvão:
Depois, para que aquele portão [locomovendo-se
até que o portão apareça no quadro] fosse aberto,
eles convenceram o porteiro de que precisavam
entrar para prender um suposto traficante.
César Galvão (off):
Enquanto a rua estava bloqueada, parte do grupo se
aproximou da portaria em dois carros.
148
César Galvão (off):
Eles estavam armados e usavam coletes da Polícia
Civil.
César Galvão (off):
Depois que o portão foi aberto, mais sete carros
entraram com o restante da quadrilha.
Fonte: Edição de 17 nov. 2008
A presença do repórter no local do acontecimento é reforçada pelos apresentadores, que
chamam atenção para sua localização para levar à audiência informações mais completas.
Sobre a votação da reforma tributária, o apresentador Carlos Monforte convocou a
participação do repórter Rafael Mônaco chamando atenção para essa relação espacial: “o
repórter Rafael Mônaco está lá [no Congresso] e tem outras informações ao vivo” (Carlos
Monforte, 19 nov. 2008). O relato do repórter se legitima pelo acompanhamento completo do
acontecimento a partir de sua presença no local, o que lhe permite fornecer maiores detalhes
sobre o caso:
Rafael Mônaco:
Olha, a Comissão Especial de Reforma tributária se reuniu hoje no início da
tarde, e logo no início o presidente da comissão, o deputado Antônio Palocci,
disse que a idéia era voltar, sim, o texto base da reforma ainda hoje. O
presidente... a idéia do deputado Palocci era de que as emendas e os destaques
fossem só discutidos no plenário. A reunião foi suspensa no meio da tarde, por
causa da sessão ordinária em plenário, e retomada às oito e quinze da noite. E
aí ficou decidido que os destaques vão ser votados sim pela comissão junto
com o texto base. Desde então, até agora, a oposição vem apresentando
requerimentos para tentar adiar a votação. E os deputados de oposição têm dito
149
que se foram precisos oito meses de discussão do texto da reforma que seria
um tempo insuficiente votar o texto em apenas cinco horas. Os deputados
governistas disseram que, se for preciso, vão ficar aqui até cinco da manhã.
(Edição de 19 nov. 2008)
Os destaques temporais efetuados pelo repórter indicam, retoricamente, sua presença no local
desde o início das discussões, o que lhe confere credibilidade para levar ao telespectador as
informações mais atualizadas, empregando um sentido de novidade. O horário avançado na
grade de programação posiciona o telejornal num lugar privilegiado para a cobertura de certos
assuntos, que são apresentados no momento de sua resolução. Assim, o Jornal das Dez busca
exibir notícias em primeira mão, reduzindo o tempo entre o acontecimento e o da recepção.
Outra estratégia para isso é o uso de expressões que ratifiquem o tempo presente, mesmo que
o assunto se refira a um passado muito próximo: “Arnaldo Bloch lançou o livro agora à
noite” (18 nov. 2008), “o time de Dunga, que chegou agora há pouco a Brasília, tenta quebrar
um tabu de vinte anos” (18 nov. 2008). A instantaneidade, modo pelo qual o Jornal das Dez
busca construir um sentido de atualidade, ganha ainda mais relevo pela transmissão direta do
programa, que busca levar o telespectador para o momento da emissão. No início das
transmissões da Globo News, as entrevistas do Jornal das Dez eram gravadas previamente e
levadas ao ar durante a exibição do programa. Atualmente, as interações entre os mediadores
acontecem ao vivo, o que garante maior autenticidade para a abordagem dos assuntos, uma
vez que é no momento da exibição que os mediadores constróem sua fala.
Para manter o telespectador preso à narrativa, o Jornal das Dez salienta os aspectos mais
relevantes do assunto tratado por meio de legendas que não apenas situam o telespectador na
emissão, mas também indicam o que o telejornal pretende destacar como mais relevante. Para
isso, o telejornal cria rubricas que resumem o assunto (“Mundo em crise”, “Acidente da
TAM”) e muda o texto na sublegenda a depender do texto do repórter. Na reportagem sobre a
investigação do acidente da companhia aérea TAM, em 2007, a reportagem de Graziela
Guardiola trouxe as seguintes sublegendas: “polícia apresenta as conclusões do inquérito”,
“inquérito não aponta falha no equipamento”, “outros fatores também contribuíram”, “10
pessoas indiciadas”, “Airbus também deve ser indiciada”, “inquérito segue para o Ministério
Público” (19 nov. 2008). Com isso, o telejornal cria uma narrativa paralela à apresentada pelo
texto da repórter e o vídeo, conduzindo o telespectador na interpretação das notícias e
promovendo a saliência dos assuntos no texto, ou seja, “uma parte da informação mais
notável, significativa ou memorável para a audiência” (ENTMAN, 1993, p. 53).
150
Se por um lado o papel dos apresentadores permite a construção de uma interpretação própria
que representa a instituição, por outro, o dos repórteres busca reforçar uma naturalização do
discurso sobre os acontecimentos por meio do privilégio aos rituais que garantem objetividade
do discurso. Dentre esses rituais, os repórteres do Jornal das Dez utilizam com mais
freqüência a abordagem dos “dois lados” envolvidos. Sobre a restrição ao direito à meia
entrada para os estudantes, o Jornal das Dez do dia 22 de novembro de 2008 procurou ouvir
os diversos lados que envolveram a questão: a) dos produtores de cultura: “na medida em que
todo mundo tem carteirinha de estudante, os produtores acabam majorando o valor da inteira
para cinquenta [reais] e a meia é vinte e cinco [reais], mas na verdade, a gente sabe que o
custo de produção do evento está contando com aqueles vinte e cinco” (Ivan Diniz, produtor
cultural); b) representação estudantil: “restringir o direito à meia entrada, hoje, no país como
está, é acabar com a meia entrada do estudante. O que a gente tem que colocar hoje é a
emissão, a padronização nacional e evitar que sejam falsificadas as carteirinhas estudantis, e
permitir que somente estudantes de verdade tenham acesso à carteira” (Márvia Scárdua,
diretora de relações institucionais da União Nacional dos Estudantes); c) governo: “o fato das
entidades estudantis terem proposto que a Casa da Moeda emita as carteiras para dar garantia
e segurança já é um avanço enorme.nós precisamos encontrar as medidas complementares que
deverão fazer parte dessa lei” (Juca Ferreira, Ministro da Cultura); d) estudantes: “tem que
incluir, né? Tem que facilitar e não repreender o acesso à cultura do próprio estudante”
(Daniel França, estudante).
Isso indica uma diferenciação nos papéis discursivos construídos no programa. Enquanto o
relato dos acontecimentos leva informações ao telespectador por meio de uma abordagem
“isenta” de posicionamentos por parte dos atores discursivos, a mediação realizada no estúdio
posiciona a audiência como intérprete da realidade social relatada nas reportagens. Com isso,
o Jornal das Dez reforça o papel de um apresentador-comprometido (FECHINE, 2008), ou
seja, o que exprime posicionamentos, mas sem defender posições político-ideológicas, mas
não tanto do ponto de vista pessoal, mas de uma voz institucional, que corrobora com a
unicidade construída pelos apresentadores. Do ponto de vista da construção do subgênero, o
Jornal das Dez se coloca como um representante das características mais emergentes do
telejornalismo e o faz a partir de uma dimensão de aprofundamento das informações,
principal marca da relação estabelecida com a audiência.
151
5. AS NOTÍCIAS NO INÍCIO DO DIA: ANÁLISE DO BOM DIA BRASIL
No site Memória Globo, a antiga apresentadora do telejornal Bom Dia Brasil, Leilane
Neubarth, ressaltou a qualidade inovadora do programa a partir da introdução da conversa
entre os apresentadores na estrutura do programa, “levando-os a uma maior interação entre si,
com os colunistas e as praças” (MEMÓRIA GLOBO, 06 dez. 2009). Quebrando o paradigma
dos telejornais de seu tempo, o Bom Dia Brasil efetuou algumas rupturas com relação ao
padrão consolidado da época: do ponto de vista do formato, o telejornal possui um cenário
amplo que se distribui em dois espaços - o da bancada e o de uma reprodução de uma sala de
visitas, do ponto de vista do conteúdo, o programa matinal da Rede Globo não se propunha a
oferecer um panorama de notícias diversas, mas o tratamento mais detalhado de assuntos
relacionados às editorias de política e economia preferencialmente, por meio da entrevista no
estúdio.
Ainda hoje o Bom Dia Brasil guarda as características centrais de sua proposta inicial,
atualizando os elementos a partir de inovações tecnológicas e da participação num cenário
político e midiático diferenciado daquele que formatou seu surgimento. Deste modo, o Bom
Dia Brasil oferece continuidades e rupturas que fornecem significados sobre a relação que o
programa pretende estabelecer com a audiência. Passados mais de vinte e cinco anos, o
telejornal que abre a programação jornalística em rede da Globo criou um padrão de
apresentação das notícias durante a faixa horária matutina como um espaço duplo voltado
para o aprofundamento das questões que deverão pautar a mídia durante o dia e para a leveza
que as notícias pela manhã supostamente devem possuir. O Bom Dia Brasil é exibido pela
Globo de segunda a sexta das sete e dez às oito horas da manhã.
5.1. Dispositivos audiovisuais para a construção de posições discursivas
Em 05 de junho de 2006, o Bom Dia Brasil apresentou seu novo cenário, que mantém a
mesma essência do formato introduzido dez anos antes: a divisão do espaço do estúdio em
duas partes com características distintas: a bancada e a sala de visitas. Com uma aparência
mais moderna que a anterior, o cenário do Bom Dia Brasil é o elemento que mais chama a
atenção do telespectador ao se colocar diante dele.
152
Figura 17: Bancada do Bom Dia Brasil antes e depois da reforma em junho de 2006.
Fonte: edições de 05 jun. 2006
Um dos ambientes representa a dureza do telejornalismo sério – a bancada, lugar
tradicionalmente construído como espaço de autoridade; o outro, sua flexibilidade – a sala de
visitas, composta por duas poltronas e uma mesinha de centro. Esses dois ambientes resumem
bem o modo como o programa apresenta-se para a audiência por meio de uma relação entre os
assuntos mais duros do interesse público geral e a abordagem de assuntos mais vinculados à
esfera diversional: moda, culinária, música. Além disso, a disposição de duas poltronas sugere
ao telespectador que aquele espaço será destinado à interação entre os participantes da cena. A
construção do cenário antecipa boa parte do modo de endereçamento do Bom Dia Brasil: um
telejornal sério o suficiente para tratar dos assuntos vinculados duros e flexível o suficiente
para abrir espaço para o bate-papo entre os apresentadores e para a apresentação de “colunas”
sobre cultura e comportamento, aproximando-se do formato de revista, como afirma o site do
programa na internet80. Mais do que um espaço para a exibição das notícias, o cenário do Bom
Dia Brasil indica diferentes formas de posicionar a audiência na cena, estabelecendo com o
telespectador um vínculo de autoridade ou de cumplicidade.
O uso dos diferentes espaços do Bom Dia Brasil não deve ser visto de maneira simplista numa
relação causal entre o local de apresentação das notícias e assunto tratado. Via de regra, o
espaço da bancada é o lugar que confere autoridade para tratar de temas mais vinculados ao
paradigma dominante do jornalismo, trazendo um sentido de interesse público relacionado a
temas como segurança pública, decisões políticas, denúncias, etc. Essa relação do programa
com o campo político é histórica e foi o motivo inicial que motivou sua criação. De acordo
com o site Memória Globo, o Bom Dia Brasil foi ao ar pela primeira vez em 1983 trazendo
80
Disponível em http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MRP746686-16020,00.html, acesso em 6/12/09.
153
como características centrais a cobertura voltada para política e economia, e a entrevista com
personalidades públicas. De acordo com seu primeiro mediador e editor-chefe, Carlos
Monforte, o telejornal tinha como foco a transmissão de notícias da área de política ancoradas
na capital federal. Como em Brasília não havia um estúdio com infra-estrutura suficiente para
sediar a exibição do telejornal, Carlos Monforte e sua equipe montaram o cenário no Rio de
Janeiro e mudaram-se para a sede do governo a fim de ficar mais próximos do local de
tomada de decisões. O contexto de maior abertura política no início dos anos oitenta permitiu
o enquadramento do telejornal a partir da relação estreita com o campo político. Para ratificar
essa posição, o jornalista Marcello Netto fazia comentários sobre economia, enquanto
Antônio Brito e Álvaro Pereira comentavam os assuntos de política, estabelecendo, desde seu
nascimento, o caráter colunista do telejornal.
A abordagem desses temas ainda hoje faz referência à familiaridade que os telespectadores
possuem com o telejornal e dizem respeito ao lugar de fala que o programa adquiriu nos
campos jornalístico e político. Quando aborda essa temática a partir da bancada, o Bom Dia
Brasil assume sua função social de defesa dos interesses do cidadão e ratifica essa postura por
meio de um texto verbal que tanto o coloca como observador privilegiado da realidade e
detentor das informações, através de formulações como “você conhece o novo golpe?”,
quanto aproxima o enunciador dos telespectadores por meio de expressões inclusivas, como
“a gente não sabe mais em quem acreditar”.
O espaço da sala de visitas, porém, é o lugar da conversa, do bate-papo e dos assuntos
amenos. É de lá que os apresentadores introduzem as notícias de cultura e esportes e é quando
as interações se pretendem mais espontâneas, livres do teleprompter. Conquanto essa
distribuição temática em espaços específicos pareça um padrão do telejornal, é nas exceções
que se observa o verdadeiro lugar de fala do Bom Dia Brasil no telejornalismo. Em certos
casos, as notícias de cultura são ancoradas a partir da bancada e os comentários amenos sobre
o tema são feitos a partir desse local, como se pôde ver na edição de 07 jun. 2006. Após a
exibição de uma matéria sobre a exposição de múmias da era pré-colombiana no Museu
Arqueológico do Rio de Janeiro, A apresentadora Renata Vasconcellos observou “que múmia
esquista!” e seu colega de bancada, Renato Machado, completou “não tem como não deixar
de olhar, né?”.
154
Figura 18: diálogo entre apresentadores
Fonte: Edição de 07 jun. 2006
Por outro lado, o espaço dos comentários sobre economia é a sala de visitas. A disposição das
poltronas frente-a-frente permite uma identificação com os formatos dos programas de
entrevistas, acionando a competência televisiva do telespectador para reconhecer o tipo de
narrativa que será estabelecida ali. A arrumação das poltronas no cenário permite que os
mediadores se coloquem de frente para o outro, mas não numa posição face-a-face que isola o
telespectador da cena. Ao contrário, as poltronas estão levemente inclinadas em direção às
câmeras de modo a inserir, também, a audiência na interação, o que se ratifica pelo olhar do
comentarista diretamente para a câmera, assumindo um teor professoral ao discurso. Renato
Machado e Renata Vasconcellos interpelam os mediadores por meio de perguntas que tragam
explicações para o telespectador leigo.
Sendo assim, o espaço em si não traz um significado imediato, mas é o uso que os
apresentadores dão a ele que permite posicionar a audiência. São as mudanças e
reposicionamentos de um espaço para outro que definem o telejornal como uma mistura entre
o jornalismo sério e o entretenimento, atributo que começou a se construir com a chegada de
Renato Machado ao cargo de editor-chefe e apresentador. Desde seu surgimento em 1983, a
vocação principal do Bom Dia Brasil era a abordagem de política e economia, o que ainda se
mantém como se pode ver na presença diária de Míriam Leitão e Alexandre Garcia como
comentaristas dessas esferas. No entanto, foi a partir de 1996, com Renato Machado, que o
programa passou a se estruturar em dois cenários e colocar mais ênfase em cultura e esportes.
Os deslocamentos dos mediadores pelo estúdio e a mudança do lugar de apresentação de
notícias demonstra que o telejornal já não pretende fazer distinção rígida entre os temas
155
vinculados ao jornalismo dominante e área de lazer. Assim, esporte e economia são
apresentados a partir do mesmo lugar: a sala de visitas.
Figura 19: cenário de sala de visitas
Renato Machado:
[...] São dias cinzentos na economia mundial, Míriam. Cada
declaração de Barnank Bank [diretor do banco central norteamericano] um novo sobressalto?
Míriam Leitão:
Eu não falei que não está agradando em nada? Cada vez que
Barnank Bank, o mercado despenca. As palavras dele foram
traduzidas assim: para Bank, não está havendo todo o risco de
desaquecimento e está muito preocupado com o índice
inflacionário, ou seja, os juros vão subir mesmo. Aí o mercado
piorou. Isso só acontece porque os economistas não sabem o
que está acontecendo na economia mundial. Tudo é motivo
para susto. E um bom susto foi dado pelo presidente do Irã.
Ele disse que pode dificultar o trânsito do petróleo no Golfo
Pérsico. Imagina se isso acontece mesmo! Por lá, passam 40%
de todo o petróleo negociado no mundo. Aqui no Brasil, o
mercado ficou confuso. Queda na bolsa mostrando
pessimismo, mas queda no risco país mestrando otimismo. O
pessimismo vem de fora, o otimismo daqui de dentro. É que
ontem o governo anunciou mais conta de dívida externa. São
papéis de longo prazo, mas com parcelas do principal
vencendo agora, nos próximos três anos. O tesouro vem
diminuindo a dívida aos poucos, aproveitando cada chance.
Uma das formas de medir a dívida externa do governo é
descontar as reservas em dólar. Nessa medida, a dívida era de
80 bilhões de dólares em 2003, e agora é de 2º bilhões de
dólares. O país está tentando evitar alguma gripe ou coisa pior
que venha com os maus ventos externos.
Fonte: edição de 06 jun. 2006
O uso do cenário, articulado com esferas de jornalismo e entretenimento, demonstra uma
característica da faixa horária que o Bom Dia Brasil ocupa na grade de programação, que cada
vez mais tem sido composta por revistas eletrônicas que trazem informação e debate ao lado
156
de receitas de culinária e reality shows. O Bom Dia Brasil, para firmar-se na grade de
programação, legitima-se recorrendo aos temas vinculados ao jornalismo sério, mas também
efetua sua flexibilidade, incorporando as propriedades da faixa de programação. Tanto que o
programa que o sucede na Globo, o Mais Você, estende ainda mais essa relação entre
jornalismo e entretenimento. Se no Bom Dia Brasil a sala de visitas permite a flexibilidade do
jornalismo, no programa comandado por Ana Maria Braga a sala incorpora a cozinha e o
jardim, situando o telespectador no confortável ambiente doméstico. No fluxo televisivo, o
telespectador é transportado de uma sala a outra, permitindo uma continuidade na forma como
recebe as informações.
5.2. A interação e as posições discursivas
Pela estrutura do programa, que interliga diversos mediadores espalhados em diferentes
territórios, o Bom Dia Brasil costura os discursos por meio de uma forma de apresentação
calcada na permanente interação dos agentes. O programa se apresenta à audiência como se
fosse uma longa conversação entre todos os mediadores. Esse efeito se verifica pela forma
como os assuntos são encadeados e pelas relações estabelecidas entre os participantes.
O Bom Dia Brasil possui sete mediadores com funções que se distinguem por meio do
controle dos turnos de fala, da relação com a audiência e do engajamento no discurso
jornalístico. Desde 2003, o par apresentador que “dá a cara” do telejornal é composto por
Renato Machado, que também é editor-chefe do programa, e Renata Vasconcellos. Além
desses, o Bom Dia possui mais três mediadores responsáveis pela apresentação das notícias:
Mariana Godoy, no estúdio de São Paulo; Cláudia Bomtempo, localizada em Brasília; e
Tadeu Schmidt81 responsável pelas notícias esportivas no próprio estúdio do Rio de Janeiro.
Esses cinco têm em comum o papel de apresentar as notícias ao telespectador. Míriam Leitão
e Alexandre Garcia, por sua vez, fazem as vezes de especialistas, comentaristas, aparecendo
em momentos específicos do telejornal (pode ser uma ou mais vezes, mas nunca durante a
emissão inteira) para tecer comentários valorativos sobre os acontecimentos.
Embora sejam parceiros na apresentação do Bom Dia Brasil, Renato e Renata não estão em
condição de igualdade na cena. É Renato Machado que abre todas as edições do programa, é
81
Tadeu Schmidt saiu do Bom Dia Brasil para apresentar o Fantástico. Como no período analisado ainda era
Tadeu Schmidt o apresentador, nossas análises se voltam para seu trabalho.
157
ele que introduz as notícias de maior relevância social e, por vezes, é quem dá a última
palavra sobre os assuntos. Foi após a chegada de Machado no telejornal que o Bom Dia
rompeu a vinculação estreita com a política e economia, instaurando um modelo mais
parecido com o de uma revista, “com matérias variadas e de comportamento” (MEMÓRIA
GLOBO, 06 dez. 2009). Assim, diversas seções especiais estrearam no programa, como “Arte
na Mesa” (produzida pela repórter Sandra Moreyra) sobre culinária, “Rasgando Seda”, uma
homenagem de um convidado do programa a qualquer personalidade, “Perfil” –
posteriormente rebatizada como “Abrindo o Jogo”, uma entrevista conduzida por Leilane
Neubarth com personalidades de diferentes áreas, entre outras.
Essa abertura do programa para outras abordagens temáticas está relacionada à própria
personalidade de Renato Machado que demonstra interesse e conhecimento sobre a cultura
erudita. Assim, o apresentador assume um lugar de sofisticação pelo apreço e conhecimento
sobre música clássica, alta culinária francesa, vinhos, ópera, literatura clássica. Sua presença
como apresentador do programa de culinária Menu Confiança, do canal GNT, juntamente
com o chef francês Claude Troisgot, fornece ao apresentador atributos de sofisticação e
requinte, que migram para o Bom Dia Brasil na opção por temas vinculados à cultura erudita.
Renata Vasconcellos, por sua vez, entrou no Bom Dia Brasil no ano 2003 para substituir
Leilane Neubrath após rápidas passagens pelos programas de fim de ano da Globo, pelo
Jornal Hoje (1971) e pelo Fantástico (1973), além de atuar na Globo News (1997). Renata
encaixa-se muito bem à proposta do programa de afastar-se do modelo enrijecido das hard
news e assumir a coloquialidade como parâmetro para a condução das notícias. Seu papel no
telejornal é, além da apresentação as notícias, efetuar as interações com os demais mediadores
do programa.
Mariana Godoy e Cláudia Bomtempo82 são as apresentadoras dos estúdios da Globo em São e
Brasília, respectivamente. As duas possuem a função de apresentar o telejornal a partir de seu
local geográfico, sendo que Cláudia tem ainda a atribuição de conversar com Alexandre
Garcia. Tadeu Schmidt possui um papel um pouco distinto: sua participação no programa se
dá pela vinculação com o tema que aborda: esporte. Assim, o apresentador é responsável,
82
No período analisado, era Cláudia Bomtempo que mediava o telejornal em Brasília. Hoje, essa função é de
Zileide Silva. As descrições aqui efetuadas serão, apenas, do trabalho de Cláudia Bomtempo.
158
tanto pela introdução das notícias esportivas, quanto pelos comentários feitos após a exibição
das matérias.
Alexandre Garcia e Míriam Leitão possuem a função de comentaristas, fornecendo uma
interpretação sobre as áreas de política e economia, respectivamente, mas não apenas elas.
Recentemente, os dois colunistas do programa têm se dedicado ao comentário de qualquer
tema que seja de seu interesse, mas na configuração de seu papel discursivo, é nessas áreas de
especialidade que os dois se legitimam. Míriam conduziu sua carreira no jornalismo
econômico desde que começou a trabalhar no jornal Gazeta Mercantil, onde ficou durante seis
anos. No Jornal do Brasil, Míriam foi colunista e editora de economia. Atualmente, além de
exercer a função de comentarista de economia do Bom Dia Brasil, onde trabalha desde a
década de 1990, Míriam Leitão é colunista de economia do jornal O Globo e apresenta o
programa Espaço Aberto Economia, da Globo News.
A trajetória de Alexandre Garcia na cobertura política também lhe conferiu autoridade para
exercer a função de comentarista no programa. Sua carreira é marcada por atuações no rádio,
no jornalismo impresso e na televisão, sendo que seu ingresso na Globo aconteceu apenas em
1988 e foi a partir daí que se efetivou uma trajetória na cobertura política. Alexandre Garcia
cobriu todas as eleições presidenciais e também se destacou no campo do jornalismo político
pelo acompanhamento constante das decisões do Congresso.
É pela diferenciação de papéis entre os mediadores que o Bom Dia Brasil constrói uma forma
de apresentação baseada nas interações constantes entre eles, como todo o texto fosse uma
grande conversação. Seguindo a proposta de oferecer as notícias a partir de uma perspectiva
mais aprofundada sobre os assuntos por meio da entrevista, o Bom Dia Brasil traz pouca
diversidade temática, mas investe em diferentes olhares sobre o mesmo fato. Deste modo,
todos os mediadores estão concatenados na emissão, passando a palavra de um a outro,
deslocando o lugar da audiência de aprendiz, a fim de contribuir para a formação de uma
informação mais ampla para preparar o telespectador para suas atividades e interações
cotidianas.
A estrutura utilizada para a condução dos assuntos do telejornal é por meio da interpelação
dos mediadores, chamando sua atenção para a tomada de posição na cena. Assim, parece que
159
a narrativa possui elos que unem as partes que cada mediador vai apresentar. Renato Machado
e Renata Vasconcellos introduzem as notícias e interpelam seus colegas por meio de uma
pergunta ou do simples chamamento que indica uma deixa para a participação do outro:
O irmão de Suzane, Andréas, vai participar do julgamento e ele foi
Mariana Godoy:
(no estúdio em São Paulo, por convocado, Renato, como testemunha tanto pela defesa, quanto
meio de um telão)
pela acusação.
É, e a Suzane foi presa também porque foi considerada uma
Renato Machado:
(na sala de visitas)
ameaça para o irmão. Vamos agora para o novo estúdio de Brasília
onde está a repórter Cláudia Bomtempo. Cláudia, a Justiça proibiu
a transmissão ao vivo do julgamento?
Isso mesmo Renato. O pedido feito pela Associação dos
Cláudia Bomtempo:
(em Brasília, por meio de um Advogados Criminalistas de São Paulo foi negado pelo Ministro do
telão)
Superior Tribunal de Justiça, Milton Naves. Só vão ser permitidas
imagens do início do julgamento e do momento em que a sentença
for anunciada. Alexandre Garcia, não deixa de ser um julgamento
público.
É, portas abertas, mas sem TV. Enfim, o país parece mais
Alexandre Garcia:
(em Brasília, ao lado de interessado na Copa. No limiar desse julgamento, há uma
Cláudia)
desconfiança de que alguns sejam mais iguais que outros, embora a
teoria constitucional seja de que “todos são iguais perante a lei”.
Alguns eleitos, por exemplo, não são iguais aos seus eleitores
porque, afinal, têm foro especial, embora sendo “sanguessugas”.
Depois de tantas absolvições de mensaleiros confessos, a decepção
se tornou grande em relação aos julgamentos políticos na Câmara.
Bem, resta a confiança na Polícia Federal e no Ministério Púbico. E
quanto ao Judiciário, neste caso, julga-se também um pouco se os
ritos da lei e da justiça são justos. Renato.
(Edição de 05 jun. 2006)
Essa aparente continuidade, porém, é de ordem estrutural, fazendo o telespectador crer que
aquele modelo de apresentação das notícias é mais coloquial ou informal, assim como as
conversas da vida cotidiana. No entanto, na passagem de um mediador para outro, percebe-se
que sua interpelação serve coordenar as participações dos mediadores, mostrando-se bastante
regrada. A aparente conversação estabelecida visa chamar a atenção do diretor de TV para as
mudanças de enquadramentos que devem ser efetuadas para que o telespectador não se perca
na distribuição dos turnos de fala. Os planos e enquadramentos reforçam a qualidade regrada
das conversas, efetuando cortes precisos para inserir os participantes durante a cena, como se
pode ver no exemplo a seguir:
Figura 20: conversação articulada com jogo de enquadramentos
Renato Machado:
Quase quatro anos depois do crime, os assassinos
do casal von Ritchtofen vão a julgamento. A filha
Suzane está no banco dos réus e ao lado dela, os
160
cúmplices, Renata.
Renata Vasconcellos:
O ex-namorado, Daniel, e o irmão, Renato,
Cristian Cravinhos.
Renata Vasconcellos:
Suzane quer contar em detalhes como era o
namoro dela para o juíz e para os jurados. A
estratégia é mostrar que ela foi induzida a planejar
o crime pelo ex-namorado.
Renata Vasconcellos:
Vamos então até o estúdio novo do Bom Dia em
São Paulo falar com a Mariana Godoy. Mariana,
há alguma chance de adiamento?
Mariana Godoy:
161
Essa é uma possibilidade muito pequena, Renata.
Mas ainda não se sabe se Suzane e os irmãos
Cravinhos serão julgados juntos. O repórter
Rodrigo Boccardi está na Barra Funda. Rodrigo,
este é um julgamento que pode ser desmembrado?
Rodrigo Boccardi:
A chance de desmembramento é grande e isso
pode acontecer logo no início da tarde quando
começar o julgamento. [...].
Fonte: Edição 05 jun. 2006
Se do ponto de vista estrutural as interações entre os mediadores aparecem como construção
de um efeito de espontaneidade e fluidez na condução dos assuntos no programa, do ponto de
vista do engajamento dos participantes durante a emissão, o Bom Dia Brasil parece atualizar o
formato das entrevistas para evocar a participação dos comentaristas. Desde seu início o
programa aposta na entrevista como narrativa principal para a abordagem dos assuntos. Essa
opção não foi aleatória, pois indicava a emergência desse formato de apresentação das
notícias na história do telejornalismo brasileiro. Foi no início dos anos oitenta que programas
de entrevistas se disseminaram na grade de programação nacional, consolidando uma prática
legítima na obtenção das notícias. Assim como nos programas de entrevista, no Bom Dia
Brasil os diálogos entre mediadores e fontes eram usados para tratar de assuntos referentes à
esfera pública habermasiana, configurando um lugar legítimo na consolidação de um novo
referencial para os telejornais nacionais. O Bom Dia Brasil foi o primeiro telejornal nacional a
adotar essa narrativa como preferencial na construção de sua relação com a audiência.
Naquele momento, as entrevistas se davam no estúdio e fora dele, por meio de uma seção na
qual um jornalista tomava café da manhã com um representante político. Na estréia do
162
quadro, o convidado foi o então Presidente da República, João Figueiredo. Durante o ano de
1984, o programa entrevistou cerca de 700 representantes dos altos cargos oficiais,
angariando credibilidade junto ao campo político para o tratamento dos assuntos de interesse
nacional (MEMÓRIA GLOBO, 06 dez. 2009).
O formato da entrevista é utilizado pelo Bom Dia Brasil de maneira diferenciada atualmente.
A presença de uma figura pública no estúdio é restrita a momentos específicos da conjuntura
política e social (as prévias eleitorais, por exemplo, como aconteceu em 2006). No entanto, o
programa mantém comentaristas especializados em áreas específicas como política, economia
e esportes e a interpelação feita a esses mediadores se dá por meio do binômio pergunta/
resposta característico das entrevistas. Assim, a participação de comentaristas não promove
uma ruptura na narrativa, como se fosse uma seção especial, mas é costurada na narrativa do
telejornal por meio de perguntas efetuadas pelos apresentadores que solicitam sua
competência profissional. As perguntas elaboradas pelos apresentadores para os comentaristas
evidenciam uma postura de “querer saber”.
5. 3. O Bom Dia Brasil e a legitimidade no campo jornalístico
O pacto sobre o papel do jornalismo no Bom Dia Brasil vincula-se a dois elementos: o horário
de exibição e a extensão do estúdio para diversos locais: do Rio de Janeiro, o programa
estabelece contato com os estúdios em São Paulo e Brasília, e conecta-se, também, com os
correspondentes internacionais da Globo. A estrutura jornalística da emissora é composta por
quatro telejornais nacionais exibidos após os noticiários locais: Bom Dia Brasil, Jornal Hoje,
Jornal Nacional e Jornal da Globo. Retoricamente, essa disposição dos telejornais ocupando
as principais faixas horárias do dia (manhã, início da tarde, noite e fim de noite) produz um
sentido de que a emissora está o dia inteiro voltada aos principais acontecimentos do dia e os
exibirá de forma diversa em seus telejornais. A Globo constrói um lugar privilegiado no
jornalismo nacional por apresentar-se em permanente acompanhamento dos assuntos.
Nesse contexto, o Bom Dia Brasil posiciona-se numa faixa horária que faz a transição entre o
encerramento das atividades do dia anterior e as possíveis repercussões ao longo da jornada.
O telejornal efetua uma ponte entre os desfechos apresentados pelo Jornal da Globo na
véspera e as agendas ainda abertas no presente, que serão apresentadas num primeiro
163
momento, pelo Jornal Hoje. Assim, o telejornal matinal articula o ontem e o hoje,
promovendo uma interpretação de fatos passados e seus potenciais desfechos no presente.
Por meio dessa estrutura encadeada dos telejornais, a Globo institui não apenas valores
jornalísticos, mas organiza a vida cotidiana em torno de seus programas, como se as
atividades se estruturassem em torno das notícias. No Bom Dia Brasil essa dimensão
organizativa dos rituais diários ganha relevo pela constante informação do horário ao final de
cada bloco do programa. Assim o programa parece dizer à audiência que o telejornal não o
convoca à simples assistência televisiva, mas à organização de seu dia em torno das notícias.
A vinheta do programa ilustra bem essa passagem de um telejornal a outro, indicando que
acompanhou os desdobramentos dos acontecimentos durante a noite inteira para oferecer ao
telespectador um repertório qualificado para suas tomadas de decisão e para as conversas na
esfera pessoal. A vinheta exibe um globo terrestre em movimento giratório até culminar com
o amanhecer. A exibição do nascer do sol acompanhada do nome do programa transcrito
sobre o globo terrestre ratifica valores jornalísticos de prontidão e vigilância, como se os
jornalistas estivessem ocupados durante toda a madrugada para saudar a audiência com um
prognóstico especializado dos assuntos que poderão ter desdobramentos significativos durante
o dia, como ficou claro no texto da apresentadora Renata Vasconcellos para apresentar a
notícia sobre a invasão do Plenário por manifestantes do Movimento de Libertação dos SemTerra (MLST): “de madrugada, todos os detidos prestaram depoimento” (07 jun. 2006).
O globo terrestre da vinheta também traduz a prontidão do programa em estar atento ao que
acontece nas diversas partes do mundo. É também pelo fato de ir ao ar pela manhã que o Bom
Dia Brasil é privilegiado no tratamento de certos assuntos, especialmente no que diz respeito
à cobertura internacional e à economia. O fato de ir ao ar algumas horas depois da abertura
das Bolsas de Valores dos principais mercados europeus e asiáticos permite que o telejornal
ofereça ao telespectador informações bem embasadas sobre o que esperar dos mercados
econômicos. Daí a importância de Míriam Leitão como colunista do programa, levando à
audiência, quase todos os dias, as explicações sobre os impactos das variações nas economias
internacionais sobre a economia nacional. É na cobertura de economia que o Bom Dia Brasil
melhor oferece os prognósticos sobre a agenda do dia, indicando o que poderá acontecer no
Brasil, as prováveis medidas adotadas pelo governo ante as crises internacionais. O telejornal
164
prepara os repórteres da emissora para a cobertura das instâncias de decisão, as possíveis
declarações e os posicionamentos dos agentes no campo político.
Figura 21: vinheta do Bom Dia Brasil
Fonte: edição de 06 jun. 2006
Na cobertura dos jogos da Copa do Mundo de 2006, o Bom Dia Brasil também saiu em
vantagem na transmissão das informações sobre a seleção. Como a sede do evento foi na
Alemanha, o horário de exibição dos jogos era próximo ao do telejornal, o que levou o
programa a explicitar a estrutura montada pela Globo para a cobertura do evento. No dia que
marcou o início da cobertura da Copa, quatro repórteres enviados à Alemanha fizeram teasers
na escalada a partir de locais diferentes mostrando os diversos olhares que a emissora
ofereceria sobre o evento esportivo. Além disso, ficava muito nítida a dispersão dos repórteres
em cidades diferentes para acompanhar os jogos da Seleção, mas também dos adversários e
das principais seleções de futebol. Assim, pelo horário de transmissão do telejornal o
telespectador possuía as informações mais recentes sobre o esporte, ao mesmo tempo em que
se preparava para assistir às partidas. A proximidade temporal entre o tempo do evento e o da
165
recepção atribui ao telejornal a posição de legitimidade em sua função de relatar os fatos.
Assim, expressões como “a seleção brasileira acaba de fazer o primeiro treino” (06 jun. 2006),
“vamos às últimas notícias sobre a Seleção com Tadeu Schmidt” (07 jun. 2006) posicionam o
telejornal numa posição sempre alerta aos acontecimentos que possam interessar ao
telespectador, posição esta valorizada pelo trabalho dos repórteres que recebem, no programa,
um lugar relevante na obtenção da informação.
Essa dispersão dos repórteres para cobrir os jogos da Copa, embora sua ênfase tenha se dado
por conta da notoriedade do evento, segue uma tendência do Bom Dia Brasil de construir sua
credibilidade por meio da proximidade com o local do acontecimento, o que demonstra um
traço do estilo do programa que desde sua estréia optou por essa abordagem, transferindo-se
para Brasília para falar sobre política. O retorno ao Rio de Janeiro foi precedido por recursos
técnicos que permitissem o contato entre mediadores em diferentes locais.
A proximidade entre o jornalista e o local do acontecimento como uma forma de melhor
observar a realidade é vista no campo jornalístico como fator essencial para a melhor
apuração dos fatos e, por conseguinte, a construção de credibilidade dos jornalistas. Os
repórteres encarnam essa função e adquirem legitimidade pública para construir seus
discursos a partir do que é visto. Essa é uma propriedade do subgênero que os programas
específicos atualizam constantemente na consolidação de uma posição de distinção no campo.
Assim, colocações como “eu estive lá” (Tadeu Schmidt, 07 jun. 2006) ou “o repórter Mauro
Naves, que sempre acompanha a seleção, viu como é que era a estrutura lá” (Tadeu Schmidt,
06 jun. 2006) são freqüentes nos programas jornalísticos para estabelecer sua autenticidade.
No Bom Dia Brasil, porém, a proximidade ao local do acontecimento ganha contornos muito
específicos, pois o programa apresenta-se polifônico no momento de ancoragem. Se são os
apresentadores que dão a cara dos programas jornalísticos televisivos, a dispersão que Bom
Dia Brasil efetua na apresentação poderia provocar um estranhamento por parte da audiência,
já que em certos momentos, é Mariana Godoy que aparece mais vezes no vídeo para
introduzir as notícias. Entretanto, pela própria estrutura conversacional, os mediadores do
Bom Dia Brasil cedem a autoridade uns aos outros de modo a construir um discurso mais
autêntico para o telespectador. No entanto, os estúdios em São Paulo e Brasília não são
independentes, mas funcionam a partir do controle e da coesão dados por Renato Machado
166
que, normalmente, é quem dá a última palavra sobre os principais assuntos. Assim, ao passo
em que o programa dispersa as vozes e a autoridade, ele também converge para Renato
Machado e Renata Vasconcellos que mantêm os privilégios de estabelecer o contato inicial
com a audiência e o controle na distribuição dos turnos de fala.
Como a proposta do programa é oferecer os fatos a partir de uma abordagem mais detida
sobre eles, as coberturas jornalísticas no Bom Dia Brasil são mais longas e evidenciam uma
proposta do jornalismo de explicar minuciosamente o funcionamento das instituições sociais a
fim de que o telespectador compreenda os prognósticos feitos pelos comentaristas
posteriormente. A cobertura do julgamento de Suzane von Ritchtofen e dos irmãos Cravinhos
demonstrou o papel do telejornal em acompanhar o caso detidamente. Desde o dia 25 de maio
de 2006 o programa ofereceu uma cobertura do assunto, sendo que o julgamento só iria
acontecer dez dias depois. Cumprindo com o papel de oferecer ao telespectador a bagagem
necessária para compreender os desdobramentos do fato durante o dia, a reportagem de Alan
Severiano apontou as possibilidades da anulação do julgamento de Suzane, os argumentos da
defesa dela e dos outros réus, os irmãos Cravinhos, e trouxe explicações sobre o
funcionamento de um processo criminal, indicando, inclusive, as posições que os acusados
teriam no espaço.
Figura 22: recursos gráficos explicativos sobre o julgamento de Suzane von Ritchtofen e dos irmãos
Cravinhos.
167
Fonte: edição de 05 jun. 2006
O Bom Dia Brasil oferece distinções em relação ao subgênero dos telejornais que se
expressam desde a vinheta do programa até sua estrutura. O telejornal matinal da TV Globo
criou uma forma específica de direcionar-se à audiência, envolvendo-a na interação dos
mediadores, de modo que o telespectador sinta-se instruída com as avaliações ali
estabelecidas. No cenário comunicativo que envolve o programa, nota-se uma tentativa do
Bom Dia Brasil de unir sua vocação histórica com os campos político e econômico a assuntos
mais vinculados à esfera do lazer, o que diz muito de seu apresentador principal, Renato
Machado. Ainda assim, quando trata de “amenidades”, o telejornal o faz a partir de um
enquadramento da alta cultura e da sofisticação, o que não contrasta com o jornalismo sério,
mas o ratifica. Deste modo, o telejornal oferece uma transição entre a esfera do jornalismo e
do entretenimento para manter o telespectador preso ao fluxo televisivo.
168
6. O SEM CENSURA E A CONSTRUÇÃO DE SOCIABILIDADE
A grade de programação televisiva vespertina conta com programas de diferentes gêneros:
filmes e telenovelas concorrem, principalmente, com talk shows direcionados a testes de
fidelidade e resolução de casos amorosos, além de seriados norte-americanos. A TV Brasil,
porém, destina seu horário vespertino a um programa surgido em 1985, ainda no calor das
discussões pela redemocratização do país. Com nome emblemático, o Sem Censura era
apresentado inicialmente por Lúcia Leme, que, no centro de uma mesa-redonda, direcionava
perguntas a seus convidados de diversas áreas. A fórmula do programa parecia inovadora:
dispostos lado-a-lado, os convidados podiam interagir e debater, sob o comando da
mediadora, sobre os assuntos do dia. A participação da audiência era também fundamental,
uma vez que, segundo a própria apresentadora do período inicial, no Sem Censura, “não
fazemos um monólogo. O público participa. Se damos uma informação errada, o telespectador
liga para corrigi-la” (COM a língua solta, 22 jul. 1992).
Produzido inicialmente pela TV Educativa do Rio de Janeiro e retransmitido pela TV
Educadora, o Sem Censura já obteve 14 pontos no IBOPE83 na década de 1990 e foi segundo
lugar em audiência em 198784 seguindo a fórmula de debate público proposta em seu
surgimento. No entanto, a mudança de gestão da TVE carioca durante os anos 1990 impôs
uma série de transformações na emissora, que já não se propunha a oferecer uma programação
alternativa às grandes redes comerciais de televisão. Ao ser nomeado diretor da TVE, José
Aurélio Barbosa, o “Leleco”, assumiu suas posições políticas, quebrando a regra número um
das emissoras públicas: o serviço público, rejeitando o partidarismo. Também colocou em
crise a folha de pagamentos da organização contratando um número desnecessário de
profissionais que tinham vínculos familiares com os funcionários do canal. Além disso,
interferiu nos programas já existentes, impondo convidados e assuntos. Com o Sem Censura
não foi diferente. No início dos anos 1990, toda a equipe inicial do programa, responsável
pelo seu sucesso e credibilidade junto à audiência, foi desligada da emissora. Segundo Lúcia
Leme, Leleco “impingiu uma lista de trinta pessoas que deveriam ser convidadas para o
programa” (A TV do absurdo, 20 fev.1991), o que tirava a liberdade dos jornalistas de
produzirem suas próprias pautas baseados num ideal de interesse público.
83
Revista Veja, 20/02/1991.
Informações extraídas do site http://www.museudatv.com.br/historiadasemissoras/tve.htm, acesso em
09/03/2010.
84
169
As interferências do diretor da emissora promoveram mudanças na estrutura do programa, que
passou a equilibrar o debate dos assuntos com apresentações musicais. “Antes, batalhávamos
muito para conseguir colocar um cantor no Sem Censura. Depois do Leleco, houve uma
espécie de loteamento entre as gravadoras e cada uma coloca no programa o artista que
quiser”, afirmou o divulgador de uma gravadora de discos (A TV do absurdo, 20 fev.1991).
As transformações ocorridas no Sem Censura coincidem com um período em que o número
de programas de entrevistas e debates se multiplicou na televisão brasileira. Se nos anos 1980
programas dessa natureza apareceram na grade de programação para suscitar o debate
público, dez anos mais tarde os programas eram apontados como um “falatório” no qual “o
telespectador se aborrece, aprende pouco e assiste a um autêntico desfile arroz-de-festa”
(COM a língua solta, 22 jul. 1992).
Apesar da mudança de sua proposta inicial, o Sem Censura continuou sendo um programa
respeitado pela audiência e pela crítica televisiva. Longe dos quatorze pontos no IBOPE,
mantendo-se na faixa de dois pontos atualmente, o programa de debates diário da TV Brasil
mantém-se como alternativa à programação vespertina para quem deseja obter informações.
Os dois momentos da história do programa – o surgimento, baseado no debate público, e o
desenvolvimento, acompanhado por entrevistas com celebridades - apontam para as marcas
de seu modo de endereçamento tal como se configura hoje. A promessa de um debate sem
censura já não remete ao caráter político do programa, mas guarda a legitimidade que rendeu
seu sucesso em meados dos anos 1980. Apresentado por Leda Nagle desde 1996, o Sem
Censura é exibido pela TV Brasil de segunda a sexta-feira, das 16hs às 17hs3085.
6.1. Palavra quase franqueada
Segundo Guilherme Rezende (2000), os programas de entrevista e de debates tinham baixo
custo, pois não dependiam de uma ampla infraestrutura para sua produção. Segundo a revista
Veja de 22 de julho de 1992, os custos de um mês de programa não passam de U$ 25000,
enquanto um episódio de telenovela chega a U$ 35000. Ainda segundo a reportagem de Veja,
foi essa relação custo-benefício que impulsionou a produção de uma diversidade de
programas de entrevistas e debates nos anos noventa. A fórmula, porém, foi descoberta anos
antes e adotada em larga escala pelas emissoras da TV aberta, especialmente as públicas,
85
Para esta análise, serão utilizadas dez edições do Sem Censura com fins ilustrativos. As edições foram
escolhidas aleatoriamente e referem-se ao período entre os dias 27 de abril de 2009 e 15 de maio do mesmo ano.
170
justamente pela possibilidade de tratar assuntos com mais profundidade e baixo custo.
Atualmente, a TV Brasil, emissora pública criada em 2007, leva ao ar cinco programas de
conversação (considerando entrevista e debate) com diferentes temáticas: música, literatura,
política ou temas gerais, como é o caso do Sem Censura.
Com um cenário simplista que pouco se alterou ao longo dos anos, exceto por uma tentativa
de modernização que lhe dá profundidade, o Sem Censura estrutura-se como uma mesa
redonda, na qual convidados de diversas áreas posicionam-se lado-a-lado formando um
semicírculo. Ao centro, encontra-se a apresentadora, Leda Nagle, que comanda a conversação
do programa a partir de uma pequena bancada, semelhante a uma tribuna, que lhe confere um
lugar de destaque em cena. Ao longo da conversa, os enquadramentos são longos – em torno
de um minuto - e se mantêm no plano americano na maior parte do tempo.
Figura 23: duas versões do cenário do Sem Censura
Fonte: edições de 15 mai. 2009 e 04 out. 1993 (disponível em
http://www.youtube.com/watch?v=KqzVoJYSb4g, acesso em 09 mar. 2010)
Se por um lado o programa utiliza pouco os recursos da linguagem televisiva para se atrelar à
conversação, por outro é no aspecto visual do cenário que se encontram boa parte das
estratégias do programa que se relacionar com a audiência. Em primeiro lugar, a distribuição
dos convidados no semicírculo não é aleatória, mas obedece a critérios de notoriedade no
cenário cultural nacional. O Sem Censura, propositadamente, coloca os convidados famosos
no centro do semicírculo, de modo que os enquadramentos de câmera os posicionem em lugar
privilegiado em relação aos demais participantes, ou seja, ao lado da apresentadora. Assim,
praticamente todas as vezes em que a mediadora aparece, um dos dois está presente em
segundo plano.
171
Figura 24: disposição dos convidados no cenário e suas interações
Fonte: edições de 29 abr. 2009 e 28 abr. 2009.
Os famosos ocupam lugar de destaque, nem tanto pela vinculação temática, nem pelo tempo
destinado à entrevista, mas para prender a audiência durante o programa. A organização
temática do Sem Censura durante seus quatro blocos segue o critério de atualidade e interesse
público, que, no programa, aparecem articulados, e se expressam por pautas vinculadas a
problemas individuais que podem ser ampliados para o social, como saúde, violência,
acidentes de trânsito, entre outros. Assim, são os especialistas e fontes oficiais que,
normalmente, abrem o programa, ocupando o primeiro bloco da emissão. Os representantes
das esferas culturais aparecem apenas no terceiro bloco, o último dedicado a entrevistas. Mas,
tendo aparecido desde a abertura do programa, o posicionamento dos convidados famosos do
programa funciona como um atrativo para que a audiência se mantenha engajada à conversa
que ali se passa. O Sem Censura, com isso, apela para a já conhecida estratégia dos programas
televisivos de usar o fluxo como estratégia de captura: o telespectador tem que assistir toda a
emissão para ver/ ouvir o assunto de seu interesse. Além disso, em cada bloco são concedidos
em torno de quinze minutos de entrevista para cada entrevistado, buscando uma igualdade de
acesso à palavra por parte de todos os participantes. Portanto, nem sob este ponto de vista os
representantes culturais podem ser considerados mais relevantes que os demais na construção
do Sem Censura, mas interpelam o telespectador a assistir o programa a partir do olhar –
dispositivo cênico – e do reconhecimento de sua condição de notoriedade.
Um segundo aspecto que o dispositivo visual permite compreender é a relação interna dos
interlocutores do programa e aquilo que parece ser a marca mais evidente do Sem Censura
desde seu surgimento: a interação supostamente livre e igualitária. Colocados no mesmo nível
e lado-a-lado, todos os participantes podem se ver e interagir, interferindo na fala uns dos
outros. A promessa do programa sustenta-se sobre o franqueamento da palavra e que todos
podem participar “sem censura”, ou seja, sem a regulação rígida de um mediador. Essa
172
construção sugere que todos os participantes são responsáveis pela construção do
conhecimento e, aliados à apresentadora, irão trazer contribuições que escapam à produção,
por meio de perguntas que a apresentadora não faz, ou de opiniões e idéias a partir de um
repertório cultural adquirido em experiências distintas. A não censura já não representa um
manifesto contra o governo autoritário que limitava as conversações, mas expressa a liberdade
que o programa busca construir nas interações entre participantes.
A ênfase do programa na interação aberta entre participantes orienta a relação que o programa
propõe à audiência desde a vinheta de abertura, que não faz qualquer referência a assuntos
tratados, temáticas ou problemáticas que se pretende discutir. É a conversação, demonstrada
na vinheta por uma sequência de quadros que mostram duas ou mais pessoas interagindo, que
configura o aspecto central do Sem Censura.
Figura 25: vinheta do Sem Censura.
Fonte: edição de 08 mai. 2009
Na maioria dos quadros, dois ou mais participantes aparecem como se estivessem dialogando,
o que se pode notar pelos gestos, aplausos, risos que aparecem de forma estilizada por meio
de recursos gráficos. O último quadro, porém, põe a apresentadora em primeiro plano, o que
evidencia que, ao contrário de sua promessa, há uma hierarquia durante a conversação. É
173
possível notar, tanto na estruturação do cenário, quanto na distribuição dos turnos de fala, um
controle exercido pela mediadora. Do centro do programa, Leda Nagle pode se deslocar, em
sua cadeira giratória, para outros pontos do cenário, buscando maior proximidade física com
os entrevistados. Sua posição central permite que ela tenha controle da situação e conceda aos
participantes a palavra nos momentos em que achar conveniente.
Sendo assim, o franqueamento da palavra, no Sem Censura, é relativo, obedecendo aos
critérios da apresentadora, que se coloca como autoridade no controle dos turnos de fala. A
entrevista com a juíza do trabalho Luciana Neves, sobre os direitos das empregadas
domésticas para regularização da atividade profissional, exemplifica aposição de
superioridade que a apresentadora demonstra:
Luciana Neves: [...] O que é que normalmente o juiz vem fazendo, que a gente chama
“jurisprudência”, as decisões vêm sendo: se aquela trabalhadora faz isso acima de
três dias na semana, ela já é uma doméstica...
Acima de três dias, quatro dias, cinco dias?
Leda Nagle:
Luciana Neves: É, de três para cima. Se ela vai lá duas...
Três também?
Leda Nagle:
Luciana Neves: É. Três para cima.
Então você tem que ter duas pessoas para ter dois dias.
Leda Nagle:
Luciana Neves: Não. Por que é que você não tem uma só e assina a carteira dela como doméstica?
Não, porque não encontra, né. Não é todo mundo que encontra para trabalhar
Leda Nagle:
todos os dias.
Luciana Neves: E tem....
Elas moram longe. Elas querem voltar para casa e é também sacrificado às vezes.
Leda Nagle:
Luciana Neves: Mas tem...
No Rio de Janeiro, por exemplo, da Baixada para a Zona Sul são duas, três horas
Leda Nagle:
de ônibus. Então tem empregada que não quer trabalhar todo dia porque tem filho,
tem marido, entendeu?
Luciana Neves: Mas olha como a própria...
E as pessoas também, por conta do seu próprio orçamento doméstico, às vezes não
Leda Nagle:
podem ter uma empregada todos os dias.
Luciana Neves: Mas aí...
Porque é muito caro, então acaba tendo duas vezes por semana, três vezes por
Leda Nagle:
semana. Não é? Ou terça e quinta, ou segunda, quarta e sexta.
Luciana Neves: Mas você fala assim: “a empregada...”. Você mesma já reconhece como
empregada. A diarista é muito típica, muito clara para você dizer que é diarista.
Ela vai lá cumprir uma tarefa e vai embora. [...] Ela pode ir lá para lavar e passar
uma roupa. Pode ser para fazer a faxina. Pode ser para fazer o almoço e ir embora.
Ela vai lá, faz o seu almoço da semana e vai embora. Ela é uma diarista. [...].
(Edição de 30 abr. 2009)
Esta conversa foi iniciada como continuidade à entrevista com Luci Pereira, atriz que
representava uma empregada doméstica na telenovela da TV Globo, Caminho das Índias. Por
meio de perguntas informativas, Leda Nagle buscou obter da entrevistada informações que, na
verdade, esclarecessem os patrões sobre seus deveres e, por conseguinte, sua condição e seus
174
deveres. Por estar pessoalmente interessada no assunto, a apresentadora inicia uma série de
interrupções para obter informação que revelam certa ansiedade em obter uma resposta
desejável. Como essa resposta não veio, Leda Nagle iniciou uma tentativa, também ansiosa,
de justificar sua posição sem deixar que a juíza contra-argumentasse ou complementasse as
informações. As interrupções promovidas pela apresentadora a fim de esclarecer suas dúvidas
e comprovar seu ponto de vista “rouba” da entrevistada a autoridade de oferecer explicações
sobre um assunto que é de sua especialidade. A autoridade construída fora do campo
jornalístico, nesse caso, se esvai diante da autoridade da apresentadora, que já está em
condição de vantagem sobre o entrevistado por ali ser o “seu espaço”. Por isso é que, quando
os convidados se vêem em situações como essas, eles reivindicam seu direito de resposta
dizendo “calma”, “deixa só eu concluir...”, ou por meio de gestos que indiquem um pedido de
espera.
Essa disputa pela autoridade recai sobre dois aspectos vinculados ao papel de Leda Nagle
como mediadora. O primeiro diz respeito a sua função no programa que, além de
apresentadora, é editora-chefe. Isso lhe atribui certa autonomia para pautar assuntos, retomar
questões, expor suas idéias. O papel como editora remete ao processo de produção
jornalística, àquilo que se inicia antes da entrevista e se estende durante. Assim, Leda Nagle
deixa transparecer essa condição quando afirma “eu já fiz essa pauta várias vezes com você
mesmo, você sabe disso” (13 mai. 2009) ou “a gente vai fazer um programa sobre gravidez e
assuntos ligados a grávidas, tá. Segunda-feira” (29 abr. 2009).
Muitas vezes, os assuntos pautados no Sem Censura parecem responder a um interesse
particular da mediadora, ou seja, o programa orienta sua dimensão de interesse público a
partir dos interesses privados de Nagle. Ainda na entrevista com a juíza do trabalho, Leda
Nagle aparece tomando nota dos esclarecimentos da advogada e afirma seu interesse
particular pelo tema: “o que eu queria esclarecer hoje é aquela que trabalha... Porque eu estou
achando que essa é uma grande tendência. Eu tenho conversado muito, tenho visto muita
gente que, ou trabalha terça e quinta, ou segunda, quarta e sexta [...]. Quem trabalha três vezes
por semana, tem que assinar a carteira?” (30 abr. 2009). Assim, a temática parte das situações
vividas pela apresentadora que podem representar um interesse coletivo. Essas experiências
entram no programa para remeter a situações cotidianas que fundamentam a relevância do
assunto: “doutor, eu tive duas amigas que, teoricamente, morreram depois do uso, do mal uso,
175
digamos assim, da bombinha. Ainda chamava bombinha. É... isso procede ou foi uma coisa
impensada?” (pergunta para o médico especialista em alergia respiratória, Fábio Kuschnir,
edição de 07mai. 2009).
Um outro aspecto que reforça a autoridade da mediadora é a construção de sua trajetória no
campo jornalístico televisivo e o reconhecimento da audiência sobre seu lugar de fala para
realizar as entrevistas. Foi como entrevistadora do Jornal Hoje (TV Globo) que Leda Nagle
ganhou reconhecimento pelas suas entrevistas. O quadro comandado por ela no telejornal ia
ao ar todo sábado à tarde e durante o período de 1977 a 1989 entrevistou diversas
personalidades da cultura, como Glória Menezes, Chico Buarque, Cazuza, Rita Lee.
Após doze anos, Nagle foi para a TV Manchete num período em que a emissora buscava
assegurar o segundo lugar em preferência da audiência. O investimento no telejornalismo –
para concorrer com o já estabelecido Jornal Nacional – foi a estratégia adotada por Mauro
Costa, ex-diretor de jornalismo da Manchete, para dinamizar a programação. Na nova
emissora, Leda Nagle foi apresentadora do Jornal da Manchete – Edição da Tarde,
concorrente direto de seu antigo anfitrião. As entrevistas, que se tornaram sua marca, foram
mantidas no horário de sábado à tarde e se estenderam para terça e quinta à tarde. Assim,
Leda Nagle consolidava um lugar no cenário televisivo nacional como entrevistadora que a
levou, em 1996, ao comando do Sem Censura.
Foi principalmente a passagem pelo Jornal Hoje que criou familiaridade entre a apresentadora
e o público e que aparece constantemente como referência em suas entrevistas no Sem
Censura. Na entrevista com o cantor Moraes Moreira, após ter cantado a música “Pombo
Correio”, Leda comenta: “Faz parte da trilha sonora da minha vida essa música. Era essa
música que era do Hoje?” (29 abr. 2009). Além de a própria mediadora convocar essa
trajetória, seus convidados se referem a ela a partir de uma relação de admiração e
credibilidade:
Fábio Jorge Inclusive, eu só queria, antes de cantar, queria dizer que anos atrás eu tinha um
(cantor):
ídolo que era você na televisão [...]. É verdade. Eu via você na TV e eu achava o
máximo nas entrevistas do Jornal Hoje. [...] Eu imaginava você sempre aquela
mulher forte, né. Aquela figura feminina forte da TV.
(Edição de 27 abr. 2009)
176
É na referência a essa trajetória e a conseqüente familiaridade que o público demonstra ter
com a apresentadora que ela constrói sua credibilidade em seu programa, onde está há mais de
dez anos. A credibilidade se concretiza também quando ela demonstra se informar sobre os
assuntos em outros veículos e manter-se atualizada para provocar uma conversa melhor
embasada: “hoje eu vi na BBC” (29 abr. 2009), “eu li na imprensa de hoje” (13 mai. 2009), ou
quando demonstra um sistema de produção que envolve uma preparação prévia para o
programa: “quando eu estava vindo aqui para o estúdio, a gente estava comentando...” (28
abr. 2009).
O terceiro elemento que os dispositivos visuais do programa permitem observar é a dimensão
de debate assumida pelo Sem Censura, que remete ao modelo de mesa redonda já conhecido
do público. Do ponto de vista genérico, o Sem Censura impõe um dilema, tendo em vista que
mistura entrevistas e discussão na mesma edição. A apresentadora, ao mesmo tempo que se
referencia ao ato de entrevistar como parte de sua atividade no programa (“eu entrevistei, até
essa semana, o doutor Paulo Müller”, 30 abr. 2009), também afirma que aquele é um espaço
de debate que incluiria, também, os telespectadores, os “debatedores fixos” do programa,
como Leda Nagle salienta a cada abertura. O Sem Censura mistura entrevistas com a troca de
opiniões, que caracteriza o modelo de mesa redonda. Consequentemente, a conversação do
programa se estrutura em torno de dois pares adjacentes mais evidentes: o binômio pergunta/
resposta, definidor da entrevista, e o binômio interpelação/ resposta, caracterizado pela
sucessão de comentários justapostos, o que seria mais típico do debate.
Figura 26: locomoção de Leda Nagle no cenário
Fonte: edição de 07 mai. 2009
177
A cada tema abordado, Leda Nagle inicia e encerra um ato conversacional, constituindo, a
cada emissão, uma seqüência desses atos que não necessariamente remetem uns aos outros.
Tomando como exemplo a edição de 07 de maio de 2009, é possível encontrar quatro
abordagens distintas que inauguram e encerram conversações na cena: meteorologia, alergias
respiratórias, divulgação de uma peça de teatro, lançamento do DVD do grupo Revelação.
Enquanto trata de cada um desses assuntos, Leda Nagle se aproxima do entrevistado que o
aborda e se dirige, inicialmente, apenas a ele.
Essa questão do debate posiciona o telespectador em um lugar muito específico no programa.
Ser chamado de “debatedor fixo” o convoca a uma posição de fidelização, além de abrir
espaço para sua intervenção na conversa televisiva. A cada edição, o programa escolhe um
tema sobre o qual os telespectadores devem refletir e enviar suas observações: perguntas,
comentários, experiências. O site do Sem Censura na internet possui um canal em que o
telespectador pode votar numa enquete e um espaço para o envio de mensagens, e é na
concessão da palavra à audiência que o programa o posiciona como participante da conversa.
O resultado da enquete é lido no final do programa, mas as mensagens enviadas ao programa,
que podem ser sobre o tema do dia ou sobre qualquer outro, colocam o telespectador na cena,
como se ele fechasse o círculo do cenário.
O tema do dia é proposto à audiência como uma pergunta que convoca a formulação de idéias
e a partilha de testemunhos, configurando o debate que o Sem Censura inaugura. Na edição de
29 de abril de 2009, o tema foi alcoolismo e a pergunta que norteou a participação da
audiência foi: “você conhece algum caso de alcoolismo? A pessoa que você conhece aceita se
tratar ou é um problemão para a família?”. Como nem todas as perguntas solicitam apenas
respostas diretas, do tipo sim/ não, esse espaço concedido pelo Sem Censura para a
participação da audiência permite a expressão de suas angústias, visões de mundo,
manifestações de indignação ou preocupação. Identificando os interlocutores pelo nome e
local, Leda Nagle relata os pareceres que são compartilhados no programa, como se pode ver
na mesma edição:
Leda Nagle:
Hoje a gente perguntou aqui se você conhece algum caso de alcoolismo, se a pessoa
aceita se tratar ou se é um problema. Não conhece nenhum caso, o J.P.R., dezoito
anos, Belo Horizonte [...]. P.R., do Flamengo, conhece um alcoólatra. Os familiares
o julgam apenas como uma pessoa alegre, que bebe apenas por adorar ver os amigos
em noitadas regadas a copos e copos. A família não o vê como alcoólatra [...].
178
“Gostaria de falar de uma situação de alcoolismo que tem acontecido aqui na minha
cidade – a cidade é São João Del Rei: são as festas universitárias para jovens com
idade entre vinte e trinta, que fazem suas propagandas a partir da quantidade de
bebida a ser consumida no open bar. Numa dessas festas que houve aqui, foi
propagado que teria duzentos litros de caipirinha, trezentos litros de vodca e
inúmeras caixas de cerveja. Vale ressaltar que o ingresso para essas festas dá direito
a uma caneca de chop e a galera vai de carro, porque elas são realizadas em sítios
fora da cidade”. Perigo absoluto, né [...]. A H., de Sete Lagoas, conheceu o primo
que morreu mês passado muito jovem, com quarenta anos. Já bebia desde
adolescente. Vítima da bebida e do cigarro, já tentou várias vezes deixar a bebida e
nunca conseguiu e isso foi um problema para a família e depois para ele mesmo.
(Edição de 29 bar. 2009)
A leitura das mensagens enviadas pela audiência ocorre em momentos específicos,
geralmente no final dos blocos, e não interfere no momento em que o assunto está sendo
tratado pelas entrevistas de Leda. Há, portanto, uma distinção entre a conversa no estúdio e o
momento em que o telespectador pode dar sua contribuição. Espaço, também, para perguntas
e elogios (ao programa e/ ou ao convidado), o momento em que as mensagens são lidas pode
fazer retornar certos temas ou suscitar comentários por parte dos convidados e da
apresentadora, como aconteceu com o depoimento sobre as festas universitárias no exemplo
acima.
As enquetes apelam para questões do cotidiano (“você tem sogra?”, “se você fosse fazer um
consórcio, o que escolheria?”, “que tipo de alergia você tem? Ou é um superprivilegiado sem
alergia alguma?”) e não têm validade demonstrativa, ou seja, o resultado numérico (se mais
ou menos pessoas conhecem um alcoólatra) não é o que mais importa, mas sim o que é
compartilhado, a visibilidade a problemas que, vividos no nível pessoal, ganham, no
programa, relevância coletiva. Deste modo o Sem Censura cria um sentido de sociabilidade,
de partilha de um mundo comum que se vincula com o pacto sobre o papel do jornalismo.
6.2. Jornalismo e possibilidades de socialização
Os diálogos travados no programa Sem Censura remetem, sobretudo, a um sentido da
conversação que não se limita apenas à divulgação de informações, mas essas informações
devem servir à vida cotidiana e unir os indivíduos em torno de interesses comuns. A
informação (EKSTRÖM, 2003) é uma propriedade evidente do programa, mas é negociada
com valores outros que lhe dão sentido de partilha e troca. No Sem Censura, a conversação
visa o cumprimento do papel do jornalismo de servir como unificador de interesses, valores e
179
sentidos socialmente partilhados. O programa da TV Brasil promove essa função a partir de
dois referenciais:
A) A construção de uma comunidade afetiva em torno do presente compartilhado.
Segundo Carlos Franciscato (2003), o discurso jornalístico apropria-se do presente a partir da
identificação de expectativas dos receptores que lidam com os conteúdos divulgados. O
sentido de atualidade, tratado pelo autor a partir de uma relação de conteúdo e também como
construção cultural, se traduz na função do jornalismo de identificar, no fluxo de experiências
vividas no cotidiano, aquelas que, pela sua relevância, merecem tornar-se notícia. Para o
autor, o jornalismo “fabrica” um tempo presente através do uso de tecnologias que criem um
efeito de “aqui-agora”, unindo os indivíduos a partir da recepção da notícia e da percepção do
acontecimento num fluxo de experiências. A temporalidade não é percebida, portanto, sob o
plano individual, mas coletivo, referindo-se ao momento ou instante em que as pessoas estão
interagindo. O “ao vivo” no telejornalismo, por exemplo, permite esse efeito de contato
instantâneo entre o momento do acontecimento, o da produção e o da recepção.
Buscando uma aproximação da exibição do programa com o fluxo de experiências vividas e
compartilhadas no presente, o Sem Censura procura tematizar aquilo que está em evidência
no momento, o que está em pauta na mídia e o que faz parte das relações sociais cotidianas.
Esse tempo do evento é fundamental para a construção da atualidade do jornalismo do Sem
Censura, uma vez que o programa pauta os assuntos vinculando-os ao presente experienciado
no cotidiano. Torna-se tema do programa, portanto, o dia da sogra e o dia das mães, o
lançamento de novos CDs, o desempenhos dos atores da novela das oito86, etc. Assim, a
temática do Sem Censura se articula com a atualidade, elemento fundamental para a
compreensão do pacto sobre o papel do jornalismo, configurando dois processos que ocorrem
concomitantemente: os temas provêm das experiências cotidianas e as experiências cotidianas
e representações de mundo são pautadas pela mídia em geral. Esse ciclo temático que envolve
mídia, programa e vida cotidiana pode ser percebido de duas formas. A edição de 28 de abril
de 2009 tratou do tema cirurgia plástica, que, aparentemente, é um tema “frio”, podendo ser
abordado em qualquer edição. No entanto, o enquadramento dado pela apresentadora buscou
86
Eliane Giardini, Stephan Necessian, Luci Pereira foram alguns atores da telenovela Caminhos da Índia,
presentes no Sem Censura no período analisado.
180
capturar e dar relevância ao assunto a partir da vinculação com o presente: “doutor, é tempo
de cirurgia plástica?”. A parte inicial da troca foi marcada por perguntas que indicassem o
melhor momento para fazer as cirurgias: o fim do verão, momento em que foi exibido o
programa, é de fato o melhor momento para procedimentos cirúrgicos?
As questões abordadas no Sem Censura, e que, em muitos casos, abrem o programa, emergem
do que é discutido e vivido no cotidiano, como salienta a apresentadora Leda Nagle: “só se
fala em gripe suína” (29 abr. 2009), “eu vou começar esse programa falando daquilo que a
gente mais fala nesses dias assim: que o tempo está maluco” (07 abr. 2009). Essas colocações
apontam para o tema que está repercutindo na vida social e a presentificação desses assuntos
no programa valorizam o “agora”: o que se fala agora, nestes dias, neste momento.
Por outro lado, o programa procura estar engajado num sistema comunicativo que envolve
outras mídias e espera o mesmo do telespectador. Os temas que surgem no Sem Censura
ganham sentido de atual a partir de uma vinculação com o que está em pauta em outros meios
de comunicação. No dia 30 de abril de 2009, a entrevista com o oncologista Daniel
Herchenhorn, presente no estúdio para falar sobre o linfoma, tipo de tumor que atinge o
sangue, teve como gancho a doença que acometeu a então Ministra da Casa Civil, Dilma
Rousseff. Foi acessando um saber compartilhado coletivamente, pautado pelos meios de
comunicação, que o programa tratou do assunto. Sobre as mudanças nas condições climáticas
do país, Leda Nagle, para fundamentar sua opinião, fez referência a uma imagem que circulou
nos telejornais, mesmo sem citar nome do veículo ou data. A complementação da fala da
apresentadora, num momento de hesitação, por outro participante demonstra que o mesmo
repertório é compartilhado socialmente:
Luiz Austin:
Leda Nagle:
[outra pessoa]:
Leda Nagle:
[...] Quem olha para as imagens, na bacia amazônica, as casas já são feitas sobre
palafitas. As pessoas já sabem que as bacias, as grandes bacias hidrográficas,
elas têm épocas de ano que aumentam a sua capacidade [...].
Mesmo nas grandes cidades tem essa coisa de... muitas comunidades em cima
dos morros. Vendo aquela imagem daqueles dois operários naquele carrinho de
limpar [faz gesto como se estivesse limpando um vidro]...
Andaime [complementando].
Andaime, né. Eles passaram um perrengue ali. Coitados, né. Não sei como não se
machucaram mais. A gente fica com medo do prédio da gente, porque nada no
Brasil foi construído pensando nisso.
(Edição de 07 mai. 2009)
181
O programa da TV Brasil retoma, com isso, o conceito de onipresença da mídia, segundo o
qual “o saber público – o conjunto de conhecimentos, opiniões, atitudes, difundidos pela
comunicação de massa – possui uma qualidade particular: é sabido publicamente que ele é
publicamente conhecido” (WOLF, 2006, p. 142). Articulando temporalidade e temática, o
Sem Censura constrói o processo de presentificação e circulação dos temas a partir de um
ciclo contínuo no qual o cotidiano pauta a mídia e vice-versa. Como afirma Rousiley Maia,
“em condições contemporâneas, as pessoas tendem a mesclar o material dos media com suas
próprias experiências87” (MAIA, 2008, p. 204).
É nessa “mixagem” que o Sem Censura concretiza a atualidade jornalística em sua dimensão
de simultaneidade, ou seja, o sincronismo entre o tempo de transmissão e o tempo de
recepção. Segundo Franciscato, “o momento presente em que a conversação se realiza (na
maioria das vezes, uma simulação de interlocução) produz uma dimensão temporal que é
fundamental para o próprio sentido de integração entre interlocutores” (FRANCISCATO,
2000, p. 4). Embora o autor esteja tratando a conversação como uma simulação de contato
(Martin-Barbero, 1997), é possível pensar nas conversações efetivas que o Sem Censura põe
em cena, como estratégia de integração entre público e representante midiático, de modo a
criar um sentido de comunidade. As enquetes e os momentos de troca de mensagens por emails visam incluir participantes televisivos e audiência na mesma prática ao mesmo tempo,
reforçando a idéia de socialização, e estendendo a possibilidade de contato do plano olho-aolho para interlocuções mais efetivas: os telespectadores podem se dirigir, de fato, para os
participantes em cena e, de certo modo, para outros que estão ouvindo naquele momento – por
isso é que há pedidos, como “manda um beijo para ....”. Como afirma Franciscato sobre a
imprensa, “este ato [de ler jornal] ganha sentido não somente pela busca individual de
conhecimento sobre assuntos diversos, mas porque ele leva as pessoas a se sentirem
integradas em uma comunidade cujas ações e o próprio destino lhes competem estar cientes e,
mesmo, intervir” (FRANCISCATO, 2003, p. 162, grifo meu). O que o Sem Censura
promove, através do jornalismo, é o reconhecimento do indivíduo como membro de um grupo
mais amplo, dando visibilidade a questões comuns e promovendo espaço para compartilhar
problemas. Como afirma Rousiley Maia,
apenas quando convicções comuns emergem, os cidadãos podem agir em
concerto, desenvolvendo uma perspectiva autocrítica e auto-reflexiva,
87
A autora está tratando, mais especificamente, do modo como a mídia pode interferir das falas cotidianas e em
ações políticas, mas ajuda a explicar este fenômeno no Sem Censura.
182
traduzindo suas experiências do particular para o geral, do institucional para
o civil e vice-versa. É isso que permite uma definição compartilhada do
problema e, assim, uma constatação pública de sofrimentos ou danos
comuns (MAIA, 2008, p. 87).
Embora esteja tratando das conversações políticas na vida cotidiana, Maia traz a idéia de que
há uma “definição compartilhada de problemas”, o que explica a sociabilidade que o Sem
Censura pretende gerar a partir do compartilhamento de experiências. À oposição dos
problemas que são relatados no programa, e, em geral, o convidado nunca vai ao programa
para falar sobre seus problemas, quem faz isso é o público, os personagens que participam da
conversação do Sem Censura trazem suas soluções a partir do que já aprenderam:
Maria Mariana:
Eu acho, assim, que a única maneira de a gente proteger o nosso filho é sendo
amiga. Eu acho que esse investimento na amizade, eu acho que é a única forma.
Porque, como vai proteger de um mundo tão violento? De um mundo tão
absurdo? Eu procuro acreditar que o tempo que eu dedico a eles, e tudo, é
querendo proteger, porque eu quero chegar neles adolescentes e que eles
confiem em mim, e ser amiga para poder saber o que eles estão pensando, poder
orientar.
(Edição de 08 abr. 2009)
B) A construção de uma comunidade a partir de uma dimensão cívica
Ao unir os indivíduos em torno de questões de interesse comum, o Sem Censura identifica os
assuntos que possuem maior relevância para a audiência. A própria conversação em cena
demonstra maiores níveis de engajamento quando os participantes começam a interferir nas
falas uns dos outros, fazendo perguntas, trocando opiniões e argumentos, e colaborando com a
construção de um conhecimento para o telespectador que, por sua vez, também tem espaço
para a contribuição. Nesses momentos, a conversação fica marcada por uma série de
sobreposições que indicam a disputa pela palavra, exigindo que Leda Nagle coloque ordem na
troca através de expressões como “espera aí, espera aí”. O primeiro bloco da edição de 13 de
maio de 2009, que abordou os acidentes rodoviários provocados por animais soltos nas
estradas, exemplifica essa característica do programa. O inspetor da Polícia Rodoviária
Federal, André Luiz Azevedo, foi questionado pelo cantor Toni Garrido, pelo escritor Flávio
Carneiro e pelo médico Fernando Dias:
Toni Garrido:
Quando você tem ações, como por exemplo essa do bafômetro, né, novas blitz
instaladas por causa do bafômetro, isso é mudança de lei ou isso é algum
adendo, alguma medida tomada... Porque quando você fala isso, quando você
diz: “não existe luz no fim do túnel”, eu fico pensando numa que está
183
André Azevedo:
Fernando Dias:
André Azevedo:
Fernando Dias:
André Azevedo:
Flávio Carneiro:
André Azevedo:
Flávio Carneiro:
André Azevedo
exatamente na frente do túnel que é: [...] as estradas deveriam ser também de
certa forma legisladas pela União e pela Polícia Rodoviária Federal. Você não
tem como obrigar o cercamento, mesmo que fosse com cercas baixas, por todo o
redor de toda a estrada, que isso evitaria completamente tudo?
Na verdade, as rodovias concedidas que são privatizadas, boa parte delas recebe
esse tipo de sinalização e esse tipo de impedimento. Não só em relação aos
animais, mas também em relação aos pedestres, que também é outro problema
grave nosso. Nós temos 40% do nosso número de vítimas fatais é de pedestres
[...].
Existe, então, um sistema de vigilância permanente dessas rodovias por algum
veículo da Polícia Rodoviária Federal buscando identificar esses animais que
estão na preferia das estradas?
Sim. Todos os animais que estão à margem da rodovia dentro da nossa faixa de
domínio são...
são capturados e?
Aciona-se um veículo da Polícia.
Eu moro em Teresópolis e subo direto a serra e a estrada passa dentro do Parque
Nacional, né.
[sobreposição] Encontra animais.
Encontra não muitos ali, né, porque acho que o IBAMA tem uma forma de
controle, mas às vezes aparece. E é uma estrada que não pode ser iluminada
justamente para não atrapalhar o modo de vida dos animais. A estrada passa
dentro do Parque. E aí você está falando das mortes, e também no Nordeste, de
vários outros tipos de animais que não estão exatamente em extinção. A minha
dúvida era só a seguinte: existe alguma instituição, algum órgão de defesa de
animais envolvido em alguma campanha? Alguém se manifestou? Tem algum
órgão que esteja envolvido nisso de alguma maneira ou não?
Na verdade, eu posso dizer, não a Polícia Rodoviária, mas uma determinada
concessionária que administra uma das vias do Rio foi procurada por uma dessas
entidades porque havia um número grande de atropelamentos de animais de
pequeno porte e trazia risco inclusive para a extinção de algumas espécies. E aí a
concessionária foi procurada. Saiu, inclusive, alguma matéria em alguns jornais
sobre essa questão. Exatamente por isso que surgiu essa idéia entre os
engenheiros lá de promover essa passagem por baixo da rodovia e cercar, botar
grade, para evitar o acesso do animal à rodovia e nos traria um outro alento: que
seria evitar também o acesso do pedestre [...].
(Edição de 13 mai. 2009)
Certos assuntos despertam mais o engajamento e envolvimento dos participantes do que
outros. Embora Leda Nagle tente incluir todos os participantes por meio de interpelações
diretas que se referem ao tema do dia (“Vander Lee tem sogra?”, 28 abr. 2009; “doutor
Leonardo já teve alguma experiência com ciganos?”, 15 mai. 2009), em certos casos os
participantes começam a interagir espontaneamente, procurando tirar dúvidas pessoais ou
partilhar suas idéias sobre o assunto. Os assuntos que mais convocam a participação são
aqueles que os interpelam enquanto agentes de transformações sociais: os direitos e deveres
enquanto membros da sociedade. A dimensão de cidadania instaurada pelo programa ressalta
seu papel social de fornecer informações que habilitem as pessoas para a vida cotidiana e
promovam mudanças para os problemas que atingem a sociedade. Deste modo, o Sem
184
Censura põe em operação outro aspecto do pacto sobre o papel do jornalismo: o serviço ao
interesse público e a atribuição de relevância aos assuntos.
Segundo Josenildo Guerra (2003), a relevância se processa a partir de três parâmetros: a
expectativa da audiência; a importância relativa do fato no interior da área temática; e o
interesse público ou a função social do jornalismo. Logo, a atribuição de relevância está
relacionada não apenas aos procedimentos jornalísticos de seleção, mas principalmente à
relação dos produtos com os receptores. A relevância se estabelece em função do público e
para ele, por isso a idéia de interesse público está imbricada nesse conceito. É considerado
interesse público tudo aquilo que aparelha o indivíduo para a vida cotidiana, ainda que não
haja referência direta à dimensão político-partidária da qual o termo se originou88. No Sem
Censura, é relevante aquilo que atinge a saúde física e mental, os direitos e deveres, os
problemas públicos, etc.
Na conversação posta em cena no programa, os assuntos são enquadrados como relevantes a
partir do tipo de pergunta feita, sobretudo, pela apresentadora. Assim, destacam-se três
modalidades de pergunta que constroem um sentido de comunidade entre participantes e
telespectadores e assume o caráter cívico do público: as perguntas informativas,
comprobatórias e de solução de problemas. A pergunta informativa é a mais empregada no
programa e confere o estilo do Sem Censura: o programa é voltado para a informatividade, ou
seja, para levar ao público um conhecimento que ele ainda não possui (cf. EKSTRÖM, 2003).
É comum a conversa iniciar com dados básicos para criar um repertório comum a todos: “a
contaminação [da gripe suína] se dá como na gripe comum” (para Edimilson Migowisky, 29
abr. 2009), “a catarata é o que? É uma névoa?” (para Leonardo Akaishi, 15 mai. 2009), “o
linfoma é um câncer muito comum?” (para Daniel Herchenhorn, 30 abr. 2009).
O exemplo supracitado – sobre os acidentes nas rodovias – demonstra o engajamento dos
participantes em obter um conhecimento que ainda não possuem, o que é feito por meio das
perguntas informativas direcionadas ao representante oficial responsável pela abordagem do
assunto: “Existe, então, um sistema de vigilância permanente dessas rodovias por algum
88
Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”.
185
veículo da Polícia Rodoviária federal buscando identificar esses animais que estão na preferia
das estradas?” (Fernando Dias a André Luiz Azevedo); “existe alguma instituição, algum
órgão de defesa de animais envolvida em alguma campanha? Alguém se manifestou? Tem
algum órgão que esteja envolvido nisso de alguma maneira ou não?” (Flávio Carneiro a
André Luiz Azevedo). Deste modo, o Sem Censura parece democratizar a palavra, oferecendo
acesso à conversação a todos os participantes que queiram contribuir para a formação do
conhecimento.
Retomando a questão da simultaneidade, no Sem Censura há uma sincronia na obtenção de
informação entre os participantes, o que inclui Leda Nagle e o público. Nagle não se apresenta
como detentora do conhecimento e nem de mais conhecimento do que os não-especialistas.
Ela se coloca numa posição de igualdade, permitindo que outras contribuições sejam
adicionadas à conversa. Na entrevista sobre os problemas de memória, o cantor dos
Detonautas, Tico Santa Cruz, acrescentou à discussão com seu repertório adquirido sobre o
assunto:
Tico
Cruz:
Santa
Saiu uma matéria agora na Superinteressante falando sobre a questão da
memória. Porque também, quanto mais informação a gente absorve no dia-adia, e a internet hoje em dia é um poço infinito de informação, vai
acumulando, vai acumulando, vai acumulando. Então você tem que abrir
espaço no teu cérebro também para poder entrar com informações novas e não
reter também as coisas desnecessárias [...].
(Edição de 11 mai. 2009)
Também em busca de informações mais precisas sobre os assuntos, Leda Nagle utiliza
perguntas comprobatórias a fim de esclarecer algo que seja do senso comum: “a gente vai
falar de alcoolismo, uma doença crônica que se inicia freqüentemente na juventude. Os jovens
estão bebendo mais mesmo? Há dados estatísticos ou é um achismo generalizado?” (para o
médico José Luiz Galvão, 29 abr. 2009); “[...] vivem me dizendo coisas tipo: „ah, antes de
tomar um iogurte, toma uma proteína. Antes de comer um carboidrato, se você comer uma
proteína, você minimiza o efeito do carboidrato‟. É verdade?” (para a nutricionista Laura
Sampaio, 12 mai. 2009).
Mas mais do que isso, a dimensão de interesse público e as informações fornecidas em função
desse interesse visam promover uma atitude individual que resulte em mudanças sociais. Por
isso, os temas trazidos pelos especialistas – coeficiente nutricional, gripe suína, acidentes
186
rodoviários, alcoolismo, alergias – são enquadrados pelo programa visando uma finalidade
educativa. À seqüência de perguntas informativas e comprobatórias, o programa emprega as
de solução de problemas, como se fosse o desfecho do assunto que leva a um valor moral. A
conversa funciona, portanto, dessa forma: a busca de um repertório comum por meio de
perguntas informativas ou comprobatórias, seguidas de perguntas de solução de problemas a
fim de alertar a população sobre seu papel enquanto agente de transformação e o conseqüente
desfecho em um discurso moral que, na maioria das vezes, recai sobre a educação, por meio
de locuções como “alguma coisa precisa ser feita” (Leda Nagle, 13 mai. 2009), “a prevenção
[ao alcoolismo] tem que ir para a cultura e a partir da cultura, educar. (Julieta Guevara, 29 abr.
2009). Esse discurso está presente tanto no texto verbal da apresentadora, quanto no dos
convidados que também buscam, por meio da conversação, dar visibilidade às instituições que
representam.
Edimilson
Migowisky:
[...] a gripe é um doença muito contagiosa. A gripe, essa gripe tranqüila que todo
mundo tem todos os anos, acomete cerca de 10% da população mundial. E uma
gripe como a gripe suína, como é um vírus muito novo e todo mundo é
vulnerável a ele, espera-se que o percentual de pessoas acometidas seja muito
maior. Por isso é que a gente tem que redobrar a atenção e tentar cada vez mais
divulgar as formas de prevenção: evitando o contato com pessoas contaminadas,
utilizando a máscara se tiver contato com pessoas contaminadas, utilizar a
máscara correta, fazer uma boa higiene das mãos e, Leda, fazer a vacinação que
está disponível na rede pública [gesticula enumerando com as mãos o que deve
ser feito para a prevenção].
(Edição de 29 abr. 2009)
Assim, a conversação no Sem Censura adquire um caráter cívico de modo que os assuntos
ali tratados dão visibilidade a questões sociais e convoca a população a uma ação efetiva,
ainda que parta de atitudes individuais. Ao tratar sobre acidentes rodoviários provocados
por animais soltos nas estradas, o Sem Censura deu a dimensão de serviço público que
cumpre o pacto sobre o papel do jornalismo direcionando o assunto para o que a
população pode fazer:
Leda Nagle:
E se criasse um “disque-denúncia” para animais em rodovias?
André Azevedo:
A Polícia Rodoviária tem o telefone 191 que é gratuito, vinte e quatro horas
por dia e serve também para essa finalidade. O usuário identifica o animal
solto na rodovia, ele pode imediatamente ligar e informar o local que a
Polícia Rodoviária mobiliza uma viatura para tirar aquele animal de lá.
187
Toni Garrido:
André Azevedo:
Leda Nagle:
Toni Garrido:
Leda Nagle:
André Azevedo:
Leda Nagle:
André Azevedo:
191 é?
191.
Bom saber. Isso é bom.
Isso é bom. É fácil, rápido [...].
A população denuncia?
A participação da população é pequena. Nós precisávamos interagir mais
com a população.
[sobreposição] é preciso fazer umas campanhas para conscientizar a
população [...].
O motorista, se ele participa mais dessa fiscalização, certamente ele faz a
polícia trabalhar de maneira mais objetiva, atendendo exatamente onde as
demandas estão.
(Edição de 13/05/09)
O público é posicionado como parceiro das instituições para reduzir os problemas sociais e o
Sem Censura cumpre um papel de vigilância, não tanto da política institucional, mas da
sociedade e daquilo que une os indivíduos enquanto comunidade. Por conta disso, às
perguntas informativas de Leda Nagle sucedem as de solução de problemas, que visam
complementar a informação atualizando-a na vida privada dos telespectadores: “como um
serviço, de um modo geral, para as pessoas, se você num auto-exame achar um caroço, vamos
chamar assim, que você não sente dor quando você aperta, é melhor sair correndo para o
médico?” (para Daniel Herchenhorn, 30 abr. 2009).
6.3. Uma comunidade geograficamente situada
Os assuntos trazidos pelo Sem Censura visam interpelar qualquer telespectador em qualquer
parte do país. Mas nota-se que a partilha de experiências ocorre mais no sudeste e,
especialmente, no Rio de Janeiro, local onde o programa é rodado. Referências geográficas
como o “show em Olaria”, “a peça em Bangu”, “os ciganos do Largo do Machado” aparecem
nas falas dos entrevistados sem serem acompanhadas por explicações do que esses locais
representam. Por outro lado, qualquer referência externa a esse espaço geográfico é visto com
curiosidade pela apresentadora, que utiliza perguntas biográficas a fim de trazer esse “outro”
para o interior do programa: “você é de onde? [...] E você começou a fazer teatro lá [na
Paraíba]?” (Leda Nagle a Luci Pereira, 30 abr. 2009), “você é goiano?” (Leda Nagle a Flávio
Carneiro, 13 mai. 2009), “[você] se transformou em bailarino em Teresina?” (Leda Nagle a
Marcelo Evelin, 15 mai. 2009). As perguntas biográficas se dirigem mais marcadamente aos
atores da cultura, mas não com o objetivo de fazer o público conhecer algo curioso sobre eles.
A expectativa do programa não é estreitar laços de intimidade entre celebridade e audiência,
mas ratificar o sentido de sociabilidade que o programa engendra, fornecendo informações
188
sobre a cultura, o urbanismo e a geografia das cidades, como se pode ver na entrevista com o
coreógrafo Marcelo Evelin:
Leda Nagle:
Marcelo Evelin:
Leda Nagle:
Marcelo Evelin:
Leda Nagle:
Marcelo Evelin:
agora, me diz uma coisa, você é piauiense?
eu sou, nasci em Teresina.
e essa comunidade de Dirceu é uma periferia?
é uma periferia, a maior periferia da cidade. Tem quase um terço da população
de Teresina e tem só 31 anos. É um conjunto de casas populares por isso
chama Dirceu, porque o governador que criou esse conjunto chamava Dirceu
Arcoverde. E em 31anos ele se tornou uma comunidade enorme, com uma
identidade própria, também marcada pela violência, por um estigma de
periferia, como toda periferia.
são casas?
são casas que perderam essa cara de um conjunto, uma vila e hoje tem
universidades, maternidades, um teatro, um mercado próprio, todas as maiores
lojas. E tem uma maneira de ser bem particular. Bem... uma identidade bem
precisa [...]. Tem um certo orgulho de ser dali, tem uma qualidade, assim,
periférica, isso não é depreciativo, assim. É uma qualidade de saber que não
são parte de um centro, mas que estão ali, que são presentes, que querem
construir uma maneira de estar, de ser. É muito interessante. Na verdade, eu
estou convivendo nessa periferia há três anos. Fiquei 20 anos fora do Brasil,
muito tempo fora do Brasil, e voltei porque aceitei esse trabalho nesse teatro
que foi um teatro que a comunidade pediu à prefeitura para construir. Eles me
convidaram para dirigir o teatro. Eu aceitei o teatro já tinha acabado de ser
aberto fazia três meses [...].
(Edição 15 mai. 2009)
Essa tentativa do programa de incluir o espaço fora do locus carioca para seu interior visa
ampliar o território da comunidade de partilha criada pelo e através do Sem Censura. Por isso
também é que os telespectadores que enviam suas mensagens são identificados pelo nome e
local de onde falam, criando um sentido de que a sociabilidade ultrapassa limites geográficos
e que, mesmo em locais diferentes dos que mais são representados no programa, as
experiências podem ser vividas e compartilhadas.
****
O Sem Censura negocia com o subgênero programa de debate promovendo uma atualização
da tradição: a estrutura em mesa redonda remete aos primeiros programas de debate e a um
reconhecimetno da audiência. A tentativa de obter uma verdade consensual que auxilie os
brasileiros a construirem uma sociedade melhor também se articula a essa dimensão da
tradição do subgênero, conforme apontada por Örnebring (2003), que remete ao início da
televisão. No entanto, o programa da TV Brasil transforma o subgênero a partir da relação
189
com a temática, que negocia com aspectos de entretenimento: a exibição de trechos de peças
de teatro, de música, de poesia. Assim, há uma continuidade no formato, mas uma ruptura no
conteúdo do subgênero: o Sem Censura permanece com o objetivo de promover um debate
público sobre assuntos que interessam à população – saúde física e mental direitos e deveres,
etc – mas permite a abordagem de outras temáticas que não se encerram no conteúdo político.
190
7. MARÍLIA GABRIELA ENTREVISTA: INFORMAÇÃO, CELEBRIDADES E INTIMIDADE
Desde os anos 1980, o nome de Marília Gabriela tem sido associado a programas de
entrevistas. De estagiária da TV Globo, Marília Gabriela passou pelos cargos de repórter,
correspondente internacional, apresentadora de telejornais, do Fantástico e do programa
temático TV Mulher. Em meados dos anos oitenta, após sair da Globo, onde tornou-se
notadamente conhecida, Marília Gabriela voltou para a rede Bandeirantes, onde já havia
trabalhado como entrevistadora do programa Canal Livre, na década de setenta. Dispondo da
familiaridade do público, Gabriela se estabeleceu no telejornalismo como entrevistadora no
estilo cara-a-cara, primeiramente com o programa de entrevistas Marília Gabi Gabriela
(1985) e pouco depois, na mesma emissora, com o Cara-a-Cara com Marília Gabriela, além
de ter sido mediadora de debates entre os candidatos à presidência da República em 1989. Em
1997 foi contratada pelo SBT para apresentar o SBT Repórter e o De Frente com Gabi89,
programa de entrevistas que mantinha o modelo já estabelecido na Band. Por meio dessa
trajetória, Marília Gabriela construiu um lugar privilegiado no telejornalismo. Em sua lista de
entrevistados, figuram nomes como Yasser Arafat, Fidel Castro, Madona, além de outros
importantes artistas nacionais e internacionais da música, teatro, literatura e televisão.
A adjacência ao ambiente cultural e o casamento de oito anos com o ator e modelo Reynaldo
Gianecchini foram um trampolim para que a apresentadora se lançasse à carreira como atriz
após a gravação do filme Ed Mort (1997). A partir daí seguiram-se trabalhos no mundo da
ficção, como as telenovelas Senhora do Destino (Globo, 2004) e Duas Caras (Globo, 2007),
além da minissérie JK (Globo, 2006) e de gravações musicais. Por essa trajetória, que concilia
a indústria do entretenimento e do jornalismo, Marília Gabriela leva para seu programa a
proximidade que possui com a indústria cultural nacional, assim como as estratégias
jornalísticas para extrair de seus entrevistados algo que seja relevante para o telespectador.
Este parece ser o caso do Marília Gabriela Entrevista, programa de entrevistas que vai ao ar
em edição inédita aos domingos, às vinte e duas horas, pelo canal fechado da Globosat GNT.
O modelo cara-a-cara sugere proximidade e intimidade, marcas do tom que o Marília
Gabriela Entrevisto que propõe ao telespectador. A análise que se segue irá focar nas
entrevistas realizadas com a atriz Letícia Sabatella (15 mai. 2006), o psiquiatra Jair de Jesus
89
Em junho de 2010, este programa voltou ao ar, exibido aos domingos, à meia noite.
191
Mari (28 mai. 2006), o ator e ex-marido da apresentadora, Reynaldo Gianecchini (12 jun.
2006), a dupla formada pela jornalista e atleta Cynthia Howlett e o psiquiatra Joel Rennó
Junior (05 nov. 2007), as cantoras Roberta Sá e Fabiana Cozzo (18 nov. 2007), os atores
Ingrid Guimarães e Paulinho Vilhena (25 nov. 2007), o economista Oscar Motomura (02 dez.
2007), a jornalista Fátima Bernardes (13 jan. 2008), o cantor Zeca Pagodinho (20 jan. 2008) e
o repórter Caco Barcellos (07 set. 2008).
7.1. O status dos participantes e as relações estabelecidas
Durante aproximadamente uma hora de exibição, o Marília Gabriela Entrevista convida o
telespectador a participar, ainda que de forma indireta, de “uma boa prosa90” entre sua
apresentadora, a jornalista Marília Gabriela, e um ou dois convidados, geralmente
apresentados ao público pelo site do programa, pelas chamadas dispersas na programação do
GNT ao longo da semana ou pela imprensa. Uma das estratégias mais evidentes para
convocar o telespectador, portanto, é o reconhecimento social do entrevistado, que pode se
dar pela fama, no caso das celebridades, ou pelo prestígio que possui numa área de atuação,
no caso dos especialistas que possuem os saberes que o programa promete explorar ao longo
de sua transmissão
Enquanto apresentadora-celebridade, Marília Gabriela divide a bancada de seu programa com
seus entrevistados, personalidades bem-sucedidas qualquer que seja sua área de atuação. Por
isso, o programa valoriza o estatuto de seus convidados realçando os prêmios ganhos, livros
publicados, críticas positivas feitas. Durante as edições analisadas, o programa destacou, por
exemplo, o jornalista Caco Barcellos pelo prêmio Jabuti de Literatura91 que recebeu em 2004
pelo livro Abusado, o dono do morro Dona Marta e as cantoras Fabiana Cozzo e Roberta Sá
(18 nov. 2007), que foram apresentadas como “as melhores promessas da nova safra de
cantoras da MPB”. A primeira pergunta feita por Marília Gabriela a Fabiana Cozzo visava
legitimá-la ainda mais no meio musical: “Fabiana, você se preparou bastante para seguir a
carreira de cantora. Você estudou canto, teoria musical, piano e violão, o que é um
investimento grande, consistente. Você se considera recompensada já?” (18 nov. 2007).
90
Informação
extraída
do
site
oficial
do
programa,
http://globosat.globo.com/gnt/programas/oprograma.asp?gid=20, acesso em 17 jun. 2009.
disponível
em
91
Premiação criada em 1959 pelo presidente da Câmara Brasileira do Livro, Edgard Cavalheiro, é hoje um dos
principais prêmios literários do Brasil, contemplando romances a livros didáticos, livros de ilustração a projeto
gráficos.
192
O programa procura construir-se como um lugar onde a celebridade tem liberdade para falar
espontaneamente sobre suas emoções, suas impressões sobre um novo trabalho, seus medos e
inseguranças, seus desafios pessoais. Para deixar seus convidados à vontade para confessarem
segredos, contarem histórias sobre sua vida pessoal e mostrarem “a pessoa por trás do ídolo”,
Marília Gabriela dialoga com eles como se estivessem numa situação de igualdade,
ressaltando que ela própria faz parte do campo midiático posto em questão. Quando a cantora
Fabiana Cozzo afirma que gostaria de receber uma música do compositor Gilberto Gil para
cantar, Gabriela retruca: “eu já recebi”, tentando colocar-se como parte do métier.
Retoricamente, entrevistadora e entrevistado estão em igualdade no cenário cultural e é por
essa posição que Marília Gabriela aposta num enquadramento intimista das conversas,
esperando que seu entrevistado irá encontrar um terreno livre para dividir suas emoções com a
apresentadora.
Marília Gabriela:
Fátima Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima Bernardes:
Você já fez análise?
Eu fiz durante um tempo pequeno, uns dois anos, e fiz muito motivada,
inicialmente, por uma fobia imensa de avião que surgiu depois do nascimento
das crianças.
Ah, que loucura! E dizem que não passa quando vem assim na maturidade,
vamos dizer.
É, foi uma fobia... Acho que ela surge porque... Todo mundo nasce sabendo
que vai morrer, né. E é como se eu tivesse perdido esse “direito de morrer”,
sabe [faz sinal de aspas com as mãos]. A criança nasce, você tem três filhos
pequenos... Sempre a analista, a gente conversa assim: eu tenho os pais vivos,
o William tem os pais vivos, eu tenho irmã, ele tem irmãs, então, quer dizer,
as crianças não estariam sozinhas no mundo. Mas mesmo assim me deu um
pânico de faltar imenso. Não sei se por elas ou por mim, pelo medo de não
poder vê-las crescer e de algo que eu quis tanto.
Foi logo depois do nascimento que você teve isso?
Piorou. Assim, eu antes, se eu te disser que eu amava viajar de avião, eu
nunca amei. Mas eu sempre andei profissionalmente, você sabe, toda hora, e
sempre fiz isso sem impedimento. Depois do nascimento delas, quando elas
iam fazer dois anos nós [a entrevistada e seu marido, o apresentador e editorchefe do Jornal Nacional William Bonner] resolvemos fazer uma viagem
meio de lua-de-mel. Só nós dois [...]. Fomos para Nova Iorque. Na volta foi
desesperador dentro do avião.
[Interrompendo] O que é que dá?
Olha, me deu como se fosse, não foi a síndrome do pânico, mas foi uma crise
de pânico. Ou seja, eu tinha como se fosse uma febre. Aqui [tocando o rosto]
eu ficava vermelha, o tremor que me dá [...], salta a musculatura do corpo
inteiro.
Um descontrole motor mesmo.
Um descontrole motor. [...] A partir daquele momento eu fiquei dois anos e
quatro meses sem voar.
(Edição de 13 jan. 2008)
193
A própria Marília Gabriela abre sua vida para dar informações, opiniões e experiências
pessoais, permitindo que a audiência conheça também as suas próprias fragilidades e dramas:
“eu já fui assaltada três vezes no trânsito com revólver na cabeça [...] e eu fico ainda, e ainda,
e ainda mais assustada quando, ao contrário disso, vejo uma carnificina que diz que estamos
na lei de talião” (28 mai. 2006). A exploração de sua vida pessoal chegou ao ponto máximo
quando levou para o estúdio seu então marido, Reynaldo Gianecchini, para comemorar o dia
dos namorados (12 jun. 2006). A entrevista era sobre a carreira do ator, mas o casal não se
furtou de deixar claro que vivia uma situação de maior intimidade. Durante a entrevista,
Marília Gabriela se privilegiou do fato de morar com ele para lembrá-lo de alguma situação
inusitada que ele viveu (“eu vou te lembrar uma coisa”), além de deixar para claro para o
telespectador a condição dos dois (“meu convidado de hoje é um ator que fala particularmente
ao meu coração”). A entrevista foi encerrada com um beijo do casal, ratificando a posição de
intimidade que o programa visa construir.
O vínculo de intimidade que se estabelece no Marília Gabriela Entrevista se confirma pelo
tratamento pessoal no interior da cena. É comum a apresentadora tratar seus convidados pelo
primeiro nome, pelo apelido, ou ainda usar expressões carinhosas, como “minha linda” e
“querido”. Em resposta, os entrevistados a chamam de “Gabi”, apelido que ficou marcado em
sua trajetória televisiva.
Toda essa situação de intimidade se mistura com os atributos jornalísticos do programa, que
pretende extrair das fontes uma informação relevante para o telespectador. Por isso, em certas
situações, os entrevistados célebres participam do programa para dar seu depoimento pessoal
sobre uma temática mais ampla que envolve sua atividade profissional ou uma experiência
pessoal. A atriz Letícia Sabatella falou sobre sua atuação na série JK (Globo, 2006), mas o
gancho que a levou para o programa foi a comemoração do dia das mães, o que lhe deu
oportunidade para tratar sobre seu relacionamento com a filha, a separação do ator Ângelo
Antônio e sua posição sobre novos relacionamentos (15 mai. 2006).
O Marília Gabriela Entrevista também convida um especialista que possa partilhar seu
conhecimento com a audiência. Dividindo ou não o espaço com uma celebridade, o papel do
especialista no programa é levar ao público a interpretação de um fenômeno, seja sobre os
194
riscos da depressão pós-parto (28 out. 2007), seja sobre os efeitos psicológicos da violência
nas grandes cidades (28 mai. 2006), seja sobre a formação das lideranças do país (02 dez.
2007). Nesses casos, Marília Gabriela busca posicionar-se como alguém que não possui
conhecimento sobre o tema e precisa da posição do especialista para obter informações:
Marília Gabriela:
Oscar Motomura:
Eu gostaria que você definisse uma palavra que é muito usada com bode
expiatório mais do que a palavra... mas, a princípio é apenas uma palavra
para os leigos: “ sistema”. Tudo é jogado em cima do sistema. O sistema faz
de pobres, os ladrões, do empresário, o cruel. O sistema faz adolescentes
ricos baterem numa empregada doméstica que espera o ônibus. Que raio de
sistema é esse?
O sistema pode ser visto sob vários ângulos. Mas é... vou pegar um deles: o
sistema político-econômico-social do país. Se a gente olha um pouco aquilo
que acontece, primeiro que existe um desenho e que não foi um desenho feito
de uma tacada só, aquele negocinho que você vai fazendo aos pouquinhos,
um pouco aqui, um pouco ali, e num certo sentido você tem um “frankstein”
e que constitui uma instituição. O sistema político-econômico-social é o
sistema que vigora no país. Agora, uma coisa é a instituição formal, outra
coisa é como ele é usado. Então quando eu digo: “como é que a realidade da
nossa sociedade efetivamente funciona?” na verdade significa que certas leis,
que estão lá, que foram criadas com boas intenções, funcionam para alguns,
mas não funciona para outros. Isso é uma distorção que a gente vê. A
pergunta é a mesma: “por que isso?”. É uma distorção. [...].
(Edição de 02 dez. 2007)
Dotado de autoridade e credibilidade pelo cargo que ocupa, pela formação ou pela instituição
que dirige, o especialista é responsável pelo conhecimento técnico sobre os assuntos e por isso
são fontes constantemente acessadas pelos jornalistas. No entanto, segundo Sonia Livingstone
e Peter Lunt (1994), na atual fase da televisão, o conhecimento técnico ou científico tem dado
lugar à contribuição leiga sobre os assuntos, pois expressam de forma mais apropriada as
experiências da vida cotidiana. Segundo os autores, nos talk shows a pessoa comum tem
aparecido “para ilustrar questões públicas92” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, p. 97),
ganhando atributo de autoridade por expressar tais questões numa linguagem mais acessível
ao telespectador comum.
O Marília Gabriela Entrevista não leva para o estúdio pessoas comuns, mas transforma as
situações vivenciadas pelas celebridades em questões ordinárias com as quais o público pode
se identificar. Na edição de 28 de outubro de 07, o programa levou para o estúdio a jornalista
e atleta Cynthia Howlett e o psiquiatra Joel Rennó Junior, para tratar do tema “gravidez: antes
92
No original: “[...] to ilustrate public issues”.
195
e depois”, buscando levar ao telespectador informações médicas sobre a depressão pós-parto,
o que justifica a presença do psiquiatra, que é coordenador do Pró-Mulher – Projeto de
Atenção à Saúde Mental da Mulher, e de Cynthia Howlett que, além de ser a nova atração do
GNT, acabara de tornar-se mãe de uma menina. Com o testemunho de Cynthia Howlett, o
programa validou uma estratégia que busca levar a audiência a se identificar com o tema
aprendendo com sua vida pessoal. As perguntas de Marília Gabriela eram biográficas e
intimistas, direcionadas para sua vida pessoal e sua experiência como mãe: “você estranhou
amamentar?”, “ser mãe é parecido com o que você imaginava?”, “você nunca teve uma
insegurança durante a gravidez?”. Como a entrevista não se bastava na experiência pessoal de
Cynthia, a apresentadora colocou, para o psiquiatra Joel Rennó, perguntas informativas que
valorizavam seu conhecimento técnico sobre a maternidade: “quando a melancolia se torna
uma doença?”.
Quando não há outro convidado, o próprio especialista torna-se alvo de perguntas pessoais
que ilustrem o caráter testemunhal que a entrevista adquire. A entrevista com o psiquiatra
especializado em medo e fobia Jair de Jesus (28 mai. 2006) visava levar esclarecimentos
psicológicos sobre o impacto que os ataques realizados pelo Primeiro Comando da Capital
(PCC), em maio de 2006, poderiam surtir nos moradores de São Paulo. Assim, Jair Mari foi
para o Marília Gabriela Entrevista explicar sobre o processo de formação de um quadro de
pânico e fobia que poderia resultar dessa situação de crise. No entanto, além das informações
técnicas e conceitos, Marília Gabriela tirou o médico da posição de especialista e o colocou
como indivíduo comum - ao perguntar se ele também sentiu medo naquela situação - e como
cidadão - ao solicitar seu parecer sobre a questão da segurança pública.
7.2. A personalização como meio para a informação
A personalização é a característica mais evidente do Marília Gabriela Entrevista, estando
presente desde a abertura do programa até seu encerramento. Por personalização compreendese a ênfase do programa na vida pessoal do entrevistado e em seu olhar subjetivo sobre o
mundo partilhado com o telespectador. Para apresentar seu convidado de cada edição, Marília
Gabriela pronuncia uma frase ou um pensamento que represente o entrevistado do dia. Na
edição de 13 de janeiro de 2008, Marília Gabriela abriu o programa dizendo “existem coisas
que o olho feminino vê com maior precisão do que cem olhos masculinos” para apresentar a
jornalista Fátima Bernardes. Enquanto diz à audiência quem é o seu convidado, um
196
movimento de câmera abre o plano de modo a inserir a apresentadora e seu entrevistado no
mesmo quadro. Logo após a apresentação do convidado, o programa exibe um pequeno clipe
com o resumo dos aspectos de sua vida pessoal e de sua carreira, motivos pelos quais ele está
presente no programa. No caso de Bernardes, sabemos o dia e local de seu nascimento, com
quem é casada, os nomes de seus filhos, a paixão pelo balé, sua formação acadêmica, seu
cargo e instituição onde trabalha.
Figura 27: clipe
Fonte: edição de 13 jan. 2008
O programa sugere que o telespectador não está diante do representante de uma instituição,
mas de uma pessoa e é seu olhar subjetivo sobre o mundo que será explorado naquela
conversa. De certa maneira, o clipe antecipa os assuntos que serão abordados ao longo do
programa e familiariza o telespectador de forma superficial sobre a vida pessoal e pública do
convidado.
O Marília Gabriela Entrevista compactua com a audiência um modelo de jornalismo calcado
no depoimento pessoal que se legitima pela autenticidade de seus protagonistas e pela
proximidade com o mundo experienciado na vida cotidiana. No Marília Gabriela Entrevista,
a personalização se dá nas formas de conversar instituídas. Pressupondo que a conversação,
nesse programa, é uma troca de idéias entre pessoas que querem parecer íntimas, os
197
participantes e os telespectadores compactuam que a troca de idéias, opiniões e informações
seja livre e subjetiva.
É constante o interesse de Marília Gabriela pelas origens da carreira, as motivações que
levaram à música, às artes cênicas ou à literatura, as pessoas que influenciaram a decisão e
que deram as primeiras oportunidades, ou interesse por uma área diversa da profissão. Assim,
a apresentadora geralmente conduz suas entrevistas a partir de questões biográficas como
“como surgiu esse ser político” (para Letícia Sabatella, 15 mai. 2006), “quando a música
começou a fazer parte da sua vida?” (para Roberta Sá, 20 jan. 2008), buscando as motivações
que levaram à profissão:
Marília
Gabriela:
Caco Barcellos:
[o jornalismo policial] foi uma escolha desde sempre ou você foi escolhido?
eu acho que foi uma coisa natural. Veio, acho, meio herdada da minha família,
dos meus pais, dos meus tios, principalmente irmãos da minha mãe, que eram
pessoas muito inquietas, muito indignadas. Eu lembro de um tio, motorista de
caminhão que me ensinou a dirigir [...]. Mas eu lembro, assim, de percorrer a
cidade com ele e de repente a gente cruzava numa esquina, tinha dois indivíduos,
ou três indivíduos batendo lá em alguém. Ele descia, brecava o caminhão, descia
correndo e voava em cima para ajudar porque achava uma covardia. Ele ficava
todo alterado e voltava dirigindo na maior tranqüilidade. Tinha cumprido o papel
dele. É um exemplo.
(Edição de 10 set. 2007)
Como o foco do Marília Gabriela Entrevista é no relato subjetivo de alguém que esteja muito
próximo a uma realidade, o programa não busca construir um consenso e uma verdade
absoluta sobre os assuntos que levanta. A finalidade é a troca de idéias e é nessa troca que o
conhecimento se constrói. No Marília Gabriela Entrevista o papel do testemunho não se
esgota na experiência pessoal, mas pode servir como referencial para a vida cotidiana dos
telespectadores. Tratando da conversação nos programas de debate, Sonia Livingstone e Peter
Lunt afirmam que os aspectos privados serviriam como forma de conhecimento para a vida
cotidiana:
[...] os programas de discussão ou de participação da audiência não
são sobre assuntos cotidianos ou assuntos de consumo, embora eles
lidem com assuntos cotidianos à medida que afetam a vida ordinária.
[...] Eles trazem questões além do domínio privado do ambiente
doméstico e do local, já que o telespectador é também construído
198
como cidadão, com um dever de ser informado acerca do mundo e de
agir sobre ele93 (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, pp. 38-39).
Em suas entrevistas, Marília Gabriela busca conciliar os relatos de simples experiências com
reflexões de temas mais amplos que sirvam para estimular a reflexão da audiência.
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Eu vou te fazer uma pergunta quase delicada. Você é uma jornalista, uma
jornalista de renome no, talvez ou seguramente, jornal de maior importância do
país, da televisão brasileira, que é o Jornal Nacional. Aí você vive uma situação
dessa [o assalto a sua residência por um menor de idade] e você se ressente,
evidentemente, de todas as formas, dessa violência. A sua objetividade como
jornalista se perde nesse momento ou você consegue fazer uma análise crítica do
que aconteceu e do que acontece todos os dias, particularmente, ou onde é mais
noticiado, no Rio de Janeiro?
Não, eu consigo fazer uma análise, acho, muito mais crítica. Eu consigo fazer
uma análise de que, por exemplo, é impossível uma pessoa passar por um
reformatório e sair do jeito que esse menino saiu. Eu acho que é impossível uma
pessoa que já teve passagem pela polícia, como era o caso dele, estar solto na
rua. Eu acho que é impossível o acesso que as pessoas têm a arma com uma
facilidade. Eu fiquei muito mais crítica e percebendo que a coisa está muito
perto. Mas não no sentido de querer algo em termos de uma vingança pessoal ou
de uma ação pessoal ou coletiva...
Não, mas uma ação política e como ação política o que você acha que deveria
acontecer?
Bom, embora não seja uma medida de curto prazo, pode parecer bobagem, tem
que ser educação. Sem isso a gente não vai chegar a lugar nenhum. Em outro
momento, eu acho que a gente tem que ter as prisões realmente cumprindo pena.
As pessoas hoje, elas não são tementes a Deus, elas não são tementes à lei.
Porque hoje em dia é quase como se você tivesse o direito de matar uma pessoa,
é só escolher bem quem. Porque a primeira pessoa que você matar vai te dar o
que? Quatro anos de cadeia? Talvez.
E a penalização de menor de idade?
Eu acho que dezesseis anos, se você pode furtar, você pode responder pelos seus
atos. Eu acho que a partir daí... se você pode escolherem quem você vai votar,
você pode responder pelo que você faz.
(Edição de 13 jan. 2008)
93
No original: “The audience discussion or participation programme is not quite current affairs or consumer
affairs though it deals with current issues as they affect ordinary lives. […] It takes issues beyond the private
domain of the domestic and local, for the viewer is also constructed as citizen, with a duty to be informed about
and act upon the wider world”.
199
A aposta do programa no compartilhamento de elementos pessoais é uma estratégia para
garantir que as informações ali trocadas sejam verídicas e expressem a verdadeira essência
dos entrevistados para além de sua vida pública e dos diversos papéis que devem
desempenhar na vida social. Assim, o entrevistado transige com o estilo do programa em
oferecer informações pessoais, com mais ou menos desenvoltura. Marília Gabriela não força o
entrevistado a abrir sua vida a fim de manter a entrevista leve e o canal aberto para que o
diálogo suceda. Na entrevista com o cantor Zeca Pagodinho, ao perceber que suas respostas
estavam ficando lacônicas, a apresentadora preferiu mudar de assunto (20 jan. 2008).
Para criar um ambiente propício para a conversa entre mediadora e convidado, o cenário do
Marília Gabriela Entrevista é formado apenas por um fundo de madeira, três colunas
iluminadas e uma mesa em formato de S onde os participantes se posicionam frente-a-frente.
A simplicidade do cenário visa chamar a atenção do telespectador para o elemento central do
programa: a conversa. A iluminação do estúdio favorece essa referência, tendo em vista que
fica mais concentrada no convidado e na apresentadora.
Figura 28: vista geral do cenário do Marília Gabriela Entrevista
Fonte: edição de 18 nov. 2007
O efeito de “cara-a-cara” é construído por meio de recursos de edição e montagem que
valorizam os planos fechados e cortes secos de um falante para outro, ratificando sua
proximidade física. O enquadramento de câmera que prevalece no Marília Gabriela
Entrevista é o plano americano, que captura os falantes a partir da altura da bancada, de modo
a deixar as mãos enquadradas para valorizar a gestualidade e os movimentos do entrevistado e
da entrevistadora durante a troca. Uma variante desse enquadramento é o primeiro plano, no
qual os personagens são mostrados dos ombros para cima, como forma de salientar as reações
dos participantes à fala uns dos outros, seja de atenção, seja de divertimento. Para situar o
200
telespectador na cena, o Marília Gabriela Entrevista varia os quadros, mostrando os
enunciadores a partir de diversos ângulos.
Figura 29: enquadramentos do Marília Gabriela Entrevista
Fonte: edição de18 nov. 2007
Nas entrevistas de Marília Gabriela, o efeito do “cara-a-cara” é o que ajuda a conferir a
intimidade que o programa visa construir, como se a aproximação física autorizasse o
entrevistado a compartilhar certos segredos e confidências dos quais apenas a apresentadora e
o telespectador irão tomar parte. Deste modo, o programa constrói um contexto comunicativo
no qual os participantes no estúdio compartilham de um vínculo de intimidade que extrapola a
cena ali exibida e o telespectador espia e tenta tomar uma posição. Marília Gabriela deixa
clara sua relação pessoal com os entrevistados afirmando que já trabalhou com eles noutras
ocasiões, ou simplesmente que os conhece para além da cena:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Bom, o futebol? [risos]
Um sonho frustrado.
Eu tinha que mandar essa, ele adora futebol [olhando para a câmera].
Um sonho frustrado.
É?
Queria ser jogador, você sabe.
Mas você bate bola ainda?
Sim, na esperança do Dunga [técnico da seleção brasileira de futebol]
reconhecer meu talento.
Você se acha melhor jogador do que o Chico Buarque se acha ou não?
Ah, não quero polemizar com o Chico [risos].
(Edição de 10 set. 2008)
O lugar dado à audiência é diferenciado, pois ela se encontra fora do circuito das celebridades
da mídia e dos saberes especializados e, portanto, não pode ter acesso direto à cena. O contato
com o telespectador é feito por meio do eixo olho-a-olho (VERÓN, 1983) na abertura e no
201
encerramento dos blocos e em momentos específicos do programa em que a apresentadora
olha para a câmera para prestar algum esclarecimento. O lugar da audiência é tão diferenciado
que Marília Gabriela apenas coloca os óculos para olhar para a câmera, como se com esse
gesto estivesse construindo um outro lugar: o de apresentadora de um produto televisionado.
Após esse breve contato, Marília Gabriela tira os óculos, volta-se para seu entrevistado e foca
apenas nele.
Desde sua vinheta, o Marília Gabriela Entrevista posiciona a audiência como espectadora de
uma conversa animada e eloqüente na qual sua protagonista principal, a apresentadora,
pretende rir, divertir-se e trocar confidências. As imagens da vinheta dispostas num gráfico
alaranjado abordam apenas a mediadora e seus principais gestos: o tirar e colocar dos óculos,
a gestualidade, os risos.
Figura 30: seqüência de imagens da vinheta
Fonte: edição de 02 dez. 2007
202
7. 3. Pauta e modo de conversar
A ascensão de Marília Gabriela no telejornalismo se inscreve no contexto de transformações
sociais que passavam a incluir a sexualidade, o corpo e o papel da mulher na sociedade como
fenômenos a serem discutidos no ambiente midiático. Como apresentadora do programa TV
Mulher, Gabriela direcionava suas entrevistas aos novos papéis que a mulher desenvolveria na
sociedade. Segundo a Revista Imprensa, Marília Gabriela é uma das mulheres mais admiradas
pelo público e “representa o ideal da mulher madura, elegante e inteligente” (VIEIRA, agosto
de 2002). Sua chegada no GNT - emissora que privilegia a referência ao feminino através de
imagens de mulheres relacionadas à marca do canal, do privilégio às mulheres na
apresentação da maioria dos programas (Patrícia Travassos, Fernanda Young, Mônica
Waldvogel são algumas) e dos nomes dos programas que se dirigem ao feminino
(Superbonita, Supernanny, Saia Justa) – ratificou essa vinculação com temas femininos ao
colocá-la na apresentação do programa Aquela Mulher (1996-1998), direcionado às
“personalidades femininas que se destacavam em suas áreas” (GNTMIDIA, acessado em 02
out. 2010). Os homens passaram a ter lugar no programa após 1998 e seu nome mudou para
Marília Gabriela Entrevista, que possui o formato que vai ao ar atualmente.
É esse repertório que lhe dá autoridade e desenvoltura para encontrar em seus entrevistados –
ainda que sejam atores da esfera midiática – o relato de algo relevante para o telespectador,
mostrando que as personalidades célebres do cenário midiático nacional desempenham
também seus papéis como cidadãos. Quando entrevistou a atriz Letícia Sabatella (14 mai.
2006), Marília Gabriela não apenas buscou levar ao telespectador informações sobre a vida
pessoal da atriz, mas também procurou sua versão sobre os acontecimentos que a atingiram de
forma mais direta. Ao tratar sobre sua militância no PT, Marília Gabriela busca sair da esfera
privada, para uma discussão sobre política, sob o ponto de vista da atriz:
Marília
Gabriela:
Você se engajou nas campanhas do PT com o coração. O escândalo do mensalão
deixou você desapontada? Mudou alguma coisa na sua cabeça ou nada?
Letícia
Sabatella:
Me deixou em estado de choque. Mas a gente ainda está olhando essa história
recente, analisando o que significa [...]. Logo quando eu li [as primeiras
denúncias], me veio logo aquela máxima de que os fins justificam os meios.
Porque não é o caso de uma pessoa que fez para enriquecer, ou que fez para si
mesma. Fez em nome de uma causa, mas fez. Foi cooptado por um sistema de
fazer política.
Um sistema muito combatido pelo próprio PT.
Marília
Gabriela:
Letícia
Muito combatido pelo próprio PT . Mas ao mesmo tempo eu acompanhei a
203
Sabatella:
campanha do PT desde oitenta... desde estudante. Depois eu não fiz campanha
diretamente. E as campanhas que eu fazia, eu não dizia “vote no fulano”, “vote
no Lula”. Eu me preocupava com as campanhas cinematográficas de outros
candidatos, campanhas com roteiro de marketing, diretor de marketing. E o PT
não tinha isso, o Lula não tinha isso antes. Então eram campanhas em que eles
pediam apoio (...). Para o Lula ser eleito, ele precisou aderir a isso, entrar nesse
esquema todo. E foi se construindo uma imagem de um Lula domesticado para
poder ser aceito, para poder entrar. Eu lembro de uma reunião que teve lá em
casa e tinha várias pessoas da classe e o Lula dizendo “o que eu faço para
competir?”.
(Edição de 14 mai. 2006)
A pauta do Marília Gabriela se estabelece por uma vinculação com a dimensão de atualidade
prezada pelo jornalismo tradicional. Embora sua periodicidade seja semanal, o programa
busca manter-se atualizado com relação aos principais acontecimentos, discussões e datas
comemorativas do país, e conserva os temas em pauta durante a semana toda por meio das
reprises do programa disponíveis na grade de programação. A atriz Ingrid Guimarães foi para
o programa a fim de falar sobre a estréia de seu novo programa no GNT, Mulheres Possíveis,
enquanto o ator Paulinho Vilhena, na mesma edição, foi falar sobre o filme O Magnata, no
qual atuou como protagonista (25 nov. 2007). Deste modo, o programa tanto divulga os novos
projetos dos famosos, para o público acompanhe seus ídolos na mídia, quanto espera que o
telespectador esteja atento às produções culturais recentes. A seleção dos convidados obedece
a um calendário midiático, ainda que o motivo da pauta seja o término ou início de uma nova
atração, ou um evento criado pela emissora, como a semana de música do GNT. Durante o
verão, a gravação do programa mudou-se para o Rio de Janeiro94, “cidade que é a cara do
verão”, como ressaltou sua apresentador e fez edições especiais fora do ambiente do estúdio.
O sentido de novidade é significativo na construção do pacto sobre o papel do jornalismo no
Marília Gabriela Entrevista e parece ser motivo de atração da audiência, já que as
informações culturais são dadas diretamente pelo seu ator. A novidade é ressaltada
freqüentemente pela apresentadora por meio de seu texto verbal, quando diz “o novo filme”,
“o novo CD”, “o último trabalho”.
Ao mesmo tempo, o sentido de novidade no Marília Gabriela Entrevista diz sobre aquilo que
é cotidiano, que é familiar ao telespectador, como a maternidade, o medo e a fobia, a falta de
94
O Marília Gabriela Entrevista é gravado na cidade de São Paulo.
204
segurança pública. Assim, o Marília Gabriela Entrevista cumpre o que o foi dito por Carlos
Eduardo Franciscato:
[...] como não é possível apostar que a inovação, originalidade ou
singularidade ocorram todos os dias, é perceptível que a notícia fale de um
cotidiano que nos é familiar, não tão diverso da nossa realidade e
compreensão (FRANCISCATO, 2003, p. 178).
A atualidade no Marília Gabriela Entrevista se constrói também num efeito de
simultaneidade, não entre a emissão e o fato, mas entre os acontecimentos divulgados na
imprensa diária e a reflexão sobre os mesmos no contexto do programa. Por isso, as
entrevistas de Marília Gabriela não perdem o tempo do evento, aproximando-se ao máximo
de sua ocorrência, a fim de levar ao telespectador algo que não tenha sido discutido ainda, ou
uma visão particular que acrescente algo ao conhecimento sobre os fatos. Destaca-se, nesse
caso, a entrevista com o psiquiatra Jair de Jesus Mari (28 mai. 2006), que teve como gancho
os atentados do PCC aos policias civis de diversas cidades paulistas em maio de 2006,
resultando em queima de ônibus, ataques a delegacias e a postos da polícia. O tema foi
amplamente discutido na mídia nacional, mas no Marília Gabriela Entrevista recebeu um
enquadramento voltado para os danos emocionais que situações traumáticas e violentas
podem provocar, tornando a entrevista interessante para os telespectadores por sua
aplicabilidade na vida cotidiana.
O enquadramento que Marília Gabriela dá às entrevistas é no posicionamento do personagem
sobre os assuntos que estão dentro do seu repertório. O programa busca as versões dos
entrevistados sobre a temática proposta para discussão, por isso, o acirramento de opiniões, a
discussão, a contradição são evitados naquela situação comunicativa. Marília Gabriela,
quando discorda de seu convidado, lança-lhe sua posição em forma de pergunta, como se
estivesse buscando nele uma aprovação, mantendo, de alguma forma, uma dimensão de
objetividade em sua função. As opiniões de Marília Gabriela, assim, são dadas para
fundamentar a posição do entrevistado, mas não para contradizê-las.
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Vou fazer uma coisa quase irresponsável. Mas você, diante disso que você
diz e que, nessa relação pobre/ polícia, você está resumindo ou concluindo
que pobre é sempre bom e polícia é sempre ruim?
Absolutamente que não. Não tenho essa ilusão e o dia-a-dia mostra isso que
os pobres, aliás, os brasileiros, a sociedade em geral no Brasil, me desculpe a
franqueza, mas tem uma vocação pelo ilícito e pela ilegalidade que é uma
205
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
coisa preocupante. Seja pobre ou seja rico.
Você acha que viria de que isso?
Ah, acho que é herança do nosso passado.
Nosso caráter de colonizado,digamos, para driblar o colonizador?
Talvez. Acho que a gente poderia estudar melhor isso. Eu observo nas
favelas, respondendo bem o que você perguntou, tem pessoas que são aliadas
do crime sem achar que estão cometendo um crime. Um exemplo: uma
senhora que vende cachorro-quente na área do asfalto, como eles chamam,
freqüentemente uma senhora que eu conheci emprestava sua “towerzinha”,
que levava cachorro-quente à venda na Zona Sul do Rio de Janeiro, para
servir de receptáculo do malote de assalto a banco. Os assaltantes, amigos da
favela...
[interrompendo] Pagavam a ela alguma coisa...
Jogavam o malote ali e ela saía, fechava seu botequim ambulante e aí saía
rodando, levando o dinheiro para outro destino. Que polícia vai desconfiar de
uma senhora com toda aparência de uma trabalhadora? E de fato é uma
trabalhadora. Faz isso sem achar que isso é um crime. É um favorzinho para o
filho da vizinha. E você observa em todos os segmentos sociais posturas
assim. Eu acho que as elites... por exemplo, o que é a sonegação, por
exemplo? É um crime gravíssimo, né?
é um crime gravíssimo que as pessoas cometem.
(Edição de 07 set. 2008)
A fluidez com que os assuntos são abordados no Marília Gabriela Entrevista é mérito de sua
apresentadora e denota que clareza e transparência são valores do jornalismo caros para o
programa. A organização dos temas nos blocos e o encadeamento dado pela mediadora de um
assunto para outro evitam os ruídos e garantem que a informação chegue ao telespectador de
modo claro e em continuidade com os demais assuntos. Para isso, Marília Gabriela deixa
transparecer uma preparação prévia à entrevista a fim de alcançar as informações desejadas.
Ela sempre se mostra informada sobre o trabalho do entrevistado e sobre a temática mais
ampla que pretende levantar a partir de seu ponto de vista e suas experiências. No caso da
entrevista com Caco Barcellos (07 set 2008), Marília Gabriela usou um pouco de sua
bagagem no jornalismo para explorar o papel do entrevistado no campo e mostrou-se ciente
sobre as principais discussões sobre segurança pública e os principais assuntos repercutidos
na mídia nacional: “em várias entrevistas suas, Caco, você disse que nunca viu a polícia entrar
esculachando em casa de rico. Agora nós vimos isso acontecer com a prisão do Daniel
Dantas, do Nagi Nahas há um tempo atrás. Eu queria saber: chegamos à igualdade, isso é
suficiente, a polícia esculachar todo mundo, pobre e rico?”. Sendo assim, a fase de preparação
para a entrevista é essencial para que a conversa estabelecida não perca a dinâmica e solicita
do telespectador um conhecimento sobre esses assuntos que serão trazidos à baila na
entrevista, a fim que preencha as lacunas deixadas pelos protagonistas da cena.
206
O roteiro de perguntas formulado previamente, característico de apresentadores de programas
de entrevistas, permite à mediadora distribuir os temas ao longo do programa. Além disso, os
protagonistas deixam transparecer um diálogo anterior à gravação do programa - por meio de
expressões como “a gente estava conversando antes aqui” – que põe a conversação num fluxo,
como se a transmissão fosse apenas o recorte de alguns momentos de uma conversa mais
ampla. A preparação prévia dos participantes do programa consolida a proposta de clareza das
informações e garante que os temas relevantes serão, seguramente, abordados dentro de uma
lógica concebida ao longo da edição do programa, uma vez que o Marília Gabriela Entrevista
não é ao vivo e, portanto, se permite recortar os momentos mais produtivos da conversação.
Para evitar o excesso de sobreposições que impedem a compreensão das falas e os desvios de
assunto, Marília Gabriela chama atenção de seu entrevistado, dizendo “mas nós estávamos
falando sobre...”, “continuando nesse assunto...”, “eu quero falar sobre isso com você daqui a
pouco, agora vamos continuar falando de...”.
Apesar de possuir um roteiro, um certo improviso é permitido, de modo que os textos não se
apresentem como se estivessem decorados pela apresentadora, nem haja respostas prontas por
parte do entrevistado. Além disso, Marília Gabriela insere perguntas a partir da fala do
entrevistado, deixando a entrevista mais aberta a intervenções sem seguir à risca o roteiro. Ao
questionar Caco Barcellos sobre o jornalismo de celebridades, encontramos um exemplo
dessas rápidas intervenções:
Marília
Gabriela:
Caco Barcellos:
[...] Você é um jornalista tão qualificado, tão premiado, tão reconhecido e isso
pode fazer, já vi fazendo em várias pessoas, pode torná-lo um... não devo dizer
arrogante, mas pelo menos uma pessoa muito definida no seu gosto, no que é
permissível e no que não é. O que eu quero saber é: o que você acha desse
jornalismo que é comum hoje em todo o mundo, que cresce e que vende e que
enriquece grandes empresários da mídia e todos os setores que é o jornalismo
de fofoca. Quem namora quem, quem dá para quem, quem levou o pé onde. E
até num assunto sério como a criminalidade dentro da elite, isso pode virar
uma fofoca, como nós já vimos. O que é que você acha? Isso te incomoda ou
você aceita isso também?
Eu só aceito porque eu não gosto de criticar o trabalho alheio. Mas é claro que
eu gostaria que as celebridades brasileiras fossem pessoas que mereceriam esse
título por coisas maravilhosas que fizeram pelo país. Não é sempre isso que a
gente observa. Muita gente ganha notoriedade, vira até uma referência nacional
sem ter feito nada muito além do que namorar com uma outra pessoa muito
famosa. Acho que é um pouquinho de perda de tempo e um foco desvirtuado,
eu acho, da nossa função, já que também são veículos de imprensa que fazem
isso. Mas eu prefiro também observar e continuo achando graça das coisas.
207
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Caco Barcellos:
Marília Gabriela:
Você ainda acha graça das coisas?
Eu acho, lógico. Eu acho muito curioso.
O que te faz rir?
Leio também essas revistas [de fofoca].
Ah, você lê essas revistas, Caco Barcellos!
No mínimo eu folheio vendo as fotografias.
Não vem com essa. Abriu, olhou, está vendo, está sabendo das fofocas. Você
faz fofoca?
(Edição de 07 set. 2008)
Como o destaque está no entrevistado, a apresentadora passa a palavra para ele geralmente
utilizando o binômio pergunta/resposta, já que se trata de uma entrevista, mas nem sempre. Às
vezes ela introduz a fala do entrevistado por meio de um comentário: “O que eu quis dizer que
[o jornalismo policial] não era para todo mundo no sentido de que você precisa ser destemido
para encarar esse desafio. Você mesmo passou por algumas dificuldades no exercício da sua
profissão” (07/09/08). Para regular os turnos de fala, Marília Gabriela faz um gesto, inclina-se
para frente ou para trás, indica que quer fazer uma colocação, ou toma para si a palavra final e
introduz um novo assunto. Com isso, a conversa não perde a dinâmica, não é interrompida por
silêncios e sempre tem aspectos a explorar.
Na condução da temática, Marília Gabriela explora diversos assuntos sem que se perca a
unidade da conversa. Preferencialmente, o programa busca concentrar-se, em cada bloco, num
aspecto temático e seus desdobramentos. Na entrevista com Caco Barcellos, o primeiro bloco
foi destinado ao jornalismo e ao jornalismo policial; o segundo continuou tratando de
jornalismo policial e falou sobre o Profissão Repórter; no terceiro bloco, o programa explorou
mais o assunto da segurança pública e as políticas de segurança; por fim, o quarto bloco tratou
da vida pessoal de Caco Barcellos. Para manter o telespectador e o convidado situados na
condução da conversa, Marília Gabriela explica como pretende manter a conversa: “Caco,
antes de falar mais sobre o Profissão Repórter, eu queria fazer mais algumas perguntas
relacionadas ao nosso primeiro bloco...”. Esse cuidado do programa em manter uma divisão
de assuntos também ratifica o caráter mediatizado da conversação, que precisa manter uma
ordem para não ultrapassar o tempo estabelecido sem tratar dos assuntos centrais.
Há, também, um cuidado em manter o telespectador situado na forma de condução do
programa, uma vez que ele pode dispersar-se para outro canal. Assim, Marília Gabriela, no
início e no final de cada bloco relembra à audiência quem é o entrevistado do dia. Quando o
programa recebe dois convidados, a mediadora explica como o programa irá se estruturar:
208
uma conversa a três no primeiro bloco, no segundo e no terceiro ela irá receber cada um dos
entrevistados individualmente, e no último bloco os três estarão justo mais uma vez para
encerrar o programa. Por meio dessa estratégia, o programa visa capturar o telespectador com
quem pretende estabelecer uma relação de proximidade.
A proposta de intimidade e familiaridade permite que o programa efetue transgressões no que
é convencionado como padrão de entrevista informativa, não tanto do ponto de vista da
estrutura do programa – que apresenta-se bastante conservadora no uso do modelo cara-a-cara
– mas da forma como a conversação é conduzida no interior na cena. É exibindo as
celebridades como pessoas comuns e as explicações dadas pelos especialistas que o Marília
Gabriela Entrevista busca levar ao telespectador uma informação útil para sua vida cotidiana
e permitir que ele se reconheça nas trocas postas em cena.
209
PARTE III
A CONVERSAÇÃO NO TELEJORNALISMO:
valores democráticos e estratégias de entretenimento
A partir dos ensaios e manuais sobre a conversação, Michael Schudson (1997) efetua uma
distinção em dois modelos. O primeiro diz respeito às práticas de sociabilidade baseadas no
prazer da conversação. Nesse caso, há uma dimensão estética que, pela sua simples existência,
provoca nos participantes sensações de apreciação, diversão e prazer. Há, por outro lado, um
modelo de conversação que reivindica sua existência atrelada à resolução de problemas. A
conversa serve aos participantes para alcançar um objetivo exterior à interação e que,
comumente, aponta para índices democráticos: o voto, a deliberação, a formulação de
argumentos. No primeiro caso, a forma de ingresso dos participantes é pela sensibilidade, pela
capacidade de entreter, pela sociabilidade; no segundo, é pelo argumento e pela razão.
Embora esteja tratando da conversação desempenhada na vida cotidiana, os modelos trazidos
por Schudson (idem) ajudam a iluminar as questões que norteiam este trabalho a fim de
pensar os lugares da conversação no telejornalismo a partir do que foi demonstrado nas
análises dos modos de endereçamento dos programas. A observação das conversações
efetuadas pelos participantes permitiu a verificação de que há, pelo menos, duas relações
postas em causa pelos produtos audiovisuais. A primeira alinha-se com o discurso dominante
do jornalismo e com o modelo de resolução de problemas de Schudson (idem). Nesse caso, é
evidente que o jornalismo coloca-se como mediador das questões de interesse público
direcionando a conversação para a fiscalização e promoção de um bom governo.
A segunda perspectiva apropria-se do modelo social de conversação de Schudson (idem) que
a vincula ao prazer e entretenimento dos participantes e da audiência. Nesse caso, os
programas se apresentam como um bate-papo entre os interlocutores, que imediatamente
estabelecem laços de intimidade, costurados antes ou durante a cena. Essa dimensão dos
diálogos põe em questão a relação entre conversação, jornalismo e entretenimento, questão
que se afasta do paradigma dominante do jornalismo, mas que permite, justamente por isso,
perceber seus aspectos emergentes. A forte tendência dos programas jornalísticos a se
construírem de maneira informal acaba reproduzindo as conversas cotidianas espontâneas
entre pessoas privadas e se ancora em reformulações de valores do jornalismo como verdade e
autenticidade. A discussão que se segue nesta terceira parte reflete sobre essas duas
articulações efetuadas entre o telejornalismo e a conversação. Os programas analisados
dialogam, à sua maneira, com os dois modelos, ora encenado um jornalismo que se propõe a
resolver problemas, ora criando vínculos entre os participantes e a audiência.
211
1. CONVERSAÇÃO, TELEJORNALISMO E DEMOCRACIA
Quando se pensa na relação entre jornalismo e conversação, freqüentemente inicia-se uma
discussão sobre o papel político do jornalismo, uma vez que os modelos institucionalizados de
conversação dentro do campo jornalístico – a entrevista e o debate – se desenvolveram
originalmente nessa vinculação entre as esferas política e comunicativa. Clayman e Heritage
(1999) afirmam que os primeiros programas televisivos de entrevista dos Estados Unidos
emergiram baseados no modelo das entrevistas coletivas já praticadas pelos representantes da
Casa Branca. Bernard Timberg e Robert Erler (2004) apontam para a tensa entrevista que o
jornalista Edward Murrow realizou com o senador Joseph McCarthy no programa See It Now
como asseguradora de seu lugar na história da televisão norte-americana. Henrik Örnebring
(2003) relata que no período que ele designou como “debate cortês”, os programas de debate
da Suécia assemelhavam-se às sessões oficiais do Parlamento Nacional, o que se expressava
pelos nomes dos programas: The Little House, The New House, Evening Plenary.
Essa aproximação das modalidades conversacionais com o campo político se dá por meio de
uma alusão freqüente que se faz ao papel da conversação na democracia. As sociedades
européia e norte-americana dos séculos XVIII e XIX consolidaram um sistema de governo
baseado no papel político que cada cidadão, investido de razão e de sua parcela de poder,
poderia exercer na sociedade. Juntamente com o governo democrático, formaram-se
instituições novas que exercessem e assegurassem o novo modelo de sociedade, dentre elas,
as Assembléias, onde o público era representando pelos agentes escolhidos por ele por meio
de um processo também institucionalizado e ritualizado de eleição. A participação, portanto, é
um dos esteios da democracia ocidental, introduzindo dois valores centrais que caracterizam
essa forma de governo para essas sociedades: a liberdade dos indivíduos para a expressão de
idéias e opiniões, e a igualdade de condições entre eles para a deliberação das ações em vistas
do bem comum.
Foi nesse contexto que o jornalismo encontrou a justificativa para sua existência social,
consolidando-se como instituição mediadora entre o público e as decisões políticas 95. Para
consolidar esse papel, os jornais passaram a dedicar um espaço para que os leitores
manifestassem sua opinião sobre os assuntos que diziam respeito ao seu papel como cidadão
95
Ver PARTE I, “O jornalismo na cultura contemporânea”.
212
(BRAGA, 2006b, p. 134). Assim, o próprio jornalismo pretendia constituir-se como um
fórum de debate aberto para os cidadãos igualitários expressarem-se livremente.
É por conta dessa aproximação entre a formação do modelo democrático e a
institucionalização da imprensa que democracia, conversação e jornalismo apareceram
atrelados em boa parte dos escritos sobre a comunicação (HABERMAS, 1984; MAIA, 2008b;
MAIA E MARQUES, 2008; MAIA, MARQUES E MENDONÇA, 2007; SCHEUFELE,
2000; SCHUDSON, 1997; TARDE, 1992; WYATT, KATZ, KIM, 2000). O século XIX
assistiu a uma expansão desse modelo de imprensa, o que atraiu o interesse dos autores da
época para a sociedade que se reorganizava em torno da comunicação de massa, representada
tanto pela imprensa, quanto pela propaganda. Desde as remotas definições de “público” e
“massa” ao refinamento do conceito de esfera pública, a conversação aparece num sentido
iluminista que a vincula à ação política na democracia.
O que se pretende neste capítulo é observar como a relação entre telejornalismo, conversação
e democracia se constrói nas estratégias discursivas dos programas analisados. Nas
tradicionais perspectivas sobre o trinômio conversação/ jornalismo/ democracia desconsiderase que a democracia é uma construção social e que essa relação não se processa nos mesmos
termos no Brasil, que possui um modelo democrático de governo ainda em formação, e nos
países centrais da Europa e os Estados Unidos. Sendo assim, o capítulo parte de uma
consideração geral sobre a relação entre conversação, jornalismo e democracia, tendo como
ponto de chegada as recentes perspectivas deliberacionistas, que têm na conversação social
praticada na vida cotidiana o centro do exercício da democracia. A partir disso, pretende-se
observar de que maneira o telejornalismo reforça, amplia ou rejeita os índices democráticos
por meio de três parâmetros observados nos programas analisados: os níveis de participação
da audiência, a dimensão de política atualizada pelos programas e o modo como o programa
pretende exercer seu papel político.
1.1.
As perspectivas sobre a relação entre jornalismo, conversação e democracia
Um dos textos mais clássicos sobre o trinômio conversação/ jornalismo/ democracia é “A
opinião e as Massas”, de Gabriel Tarde (1992). Escrito no final do século XIX, o autor celebra
a formação do Estado democrático e suas instituições por meio de um discurso que evidencia
que tudo melhorou após a destituição do modelo de Estado aristocrático: as pessoas se
213
tornaram mais livres, o exercício político era controlado e voltado para o público, os assuntos
públicos eram mais amplos e havia mais espaços para as conversações. Na democracia, o
público exercia sua parcela de poder pelos rituais de escolha de seus representantes e pela
conversação na vida cotidiana, que é o foco da atenção de Tarde (idem). Mais do que a
conversação que se dá nas Câmaras, interessa ao autor os diálogos que acontecem nos cafés,
clubes e salões, no âmbito privado, pois esses possuem validade cívica de transformação
social. Salientando o papel político dessas conversações, Tarde afirma que os déspotas
“vigiam com desconfiança os contatos de seus súditos, impedindo-os ao máximo de conversar
entre si” (Tarde, 1992, p. 96). No regime democrático, porém, esse controle é substituído pela
liberdade dos indivíduos em se encontrarem e conversarem sobre qualquer assunto.
A conversação, para Tarde (idem), é o veículo de formação da opinião pública e, enquanto
expressão do interesse do público, o termômetro para a ação dos governantes. A conversa
livre e racional nos cafés, clubes, associações era aberta a todos e tinha como resultado uma
ação política efetiva. É possível, portanto, mensurar a intensidade da conversação pela
formação da opinião:
Há um vínculo estreito entre o funcionamento da conversação e as mudanças
de opinião, de que dependem as vicissitudes do poder. Onde a opinião muda
pouco, lentamente ou permanece quase imutável, as conversações costumam
ser raras, tímidas, girando num círculo estreito de mexericos. Onde a opinião
é móvel, agitada, onde passa de um extremo a outro, as conversações são
freqüentes, ousadas, emancipadas. Onde a opinião é fraca, é porque se
conversa sem animação; onde ela é forte, é porque se discute muito; onde é
violenta, é porque há paixão em discutir; onde é exclusiva, exigente, tirânica,
é porque os participantes estão às voltas com alguma obsessão coletiva; onde
é liberal, é porque os assuntos da conversa são variados, livres, alimentados
inteiramente por idéias gerais (TARDE, 1992, p. 134).
Os jornais possibilitaram o surgimento de assuntos gerais em detrimento do “entrelaçamento
de monólogos” dos séculos anteriores, em que cada indivíduo falava sobre sua própria vida,
sobre seus interesses pessoais. O jornalismo colocou na pauta do dia os temas das conversas
cotidianas, assuntos comuns que interessavam a todos e poderiam, assim, contribuir para a
formação da opinião pública e de um repertório de questões que constituiriam o interesse
público.
Uma perspectiva semelhante encontra-se na formulação do conceito de esfera pública
formulado por Jürgen Habermas em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1984). Para
Habermas, era na esfera pública que os indivíduos privados se transformavam num público,
214
agindo ativamente na construção política96. A própria definição de esfera pública trazia a
igualdade e a conversação como princípios fundamentais para sua formação: esfera pública,
segundo o autor, é
o domínio da nossa vida social no qual algo próximo à opinião pública pode
ser formado. O acesso é garantido a todos os cidadãos. Uma porção da esfera
pública vem a existir em cada conversação na qual cada indivíduo privado
agrupa-se para formar um corpo público97 (HABERMAS, 1974, p. 49).
O argumento era a única credencial para o engajamento nos diálogos, de modo que qualquer
cidadão, independentemente de classe, faixa etária, poderia interagir. Na relação entre
“democracia” e “conversação”, “igualdade” é um referente constantemente empregado como
propriedade essencial para que as duas instâncias se efetuassem de maneira saudável. Assim,
o exercício da democracia deveria estar enraizado na livre participação de indivíduos
igualitários que, por meio do argumento e do debate público, tomam decisões e são capazes
de agir politicamente. Tais perspectivas esbarram, porém, no sistema de governo escolhido
para pôr em prática os ideais de uma sociedade democrática. A representação, ao invés da
livre participação, confinou a espaços e personalidades distintas o dever de debater e tomar
decisões. Como ressalta Wilson Gomes,
a consolidação da experiência democrática moderna, principalmente através
dos modelos de democracia representativa, findou, entretanto, por configurar
uma esfera da decisão política apartada da sociedade ou esfera civil. O
âmbito da decisão política é constituído, então, por agentes em dedicação
profissional e por membros de corporações dedicadas ao controle e
distribuição do capital circulante nesta esfera – os partidos –, dotando-se de
altíssimo grau de autonomia em face da esfera civil. Constitucionalmente, as
duas esferas precisam interagir apenas no momento da renovação dos
mandatos, restringindo-se o papel dos mandantes civis à decisão, de tempos
em tempos, sobre quem integrará a esfera que toma as decisões propriamente
políticas (GOMES, 2005, p. 216).
Como conseqüência dessa separação entre a esfera civil e as instâncias de tomada de decisão,
a participação tornou-se algo pouco tangível, apesar de ainda estar no cerne do pensamento
democrático. O próprio Wilson Gomes (idem) afirma que a dimensão de participação precisa
existir, ainda que retoricamente, para que o governo atue a partir de um direcionamento da
opinião pública. Por conta disso, novas perspectivas sobre a democracia procuram inserir no
modelo democrático representativo uma gradação de níveis de participação que, ainda que
96
Ver “O jornalismo na cultura contemporânea”, na parte I.
No original: “a realm of our social life in which something approaching public opinion can be formed. Access
is guarantee to all citizens. A portion of the public sphere comes into being in every conversation in which
private individuals assemble to form a public body”.
97
215
não atuem diretamente na tomada de decisões, pode reforçar valores democráticos mais
amplos.
O deliberacionismo surgiu nos anos 1990 como oposição às tradicionais correntes de
pensamento sobre a comunicação e a política – a tradição liberal e a republicana – colocando
no centro do debate a formação de uma arena discursiva entre o Estado e a sociedade, arena
esta que seria a própria esfera pública forte e atuante. Assim, as tomadas de decisão ocorridas
periodicamente nas eleições não são suficientes para assegurar a democracia, que deve
estender-se para a conversação e discussão cotidianas que permitem maior reflexão sobre os
problemas sociais. Sendo assim, para os autores afiliados a essa perspectiva, deliberar não é
apenas o ato de tomar decisões, o que afastaria boa parte da sociedade dos processos
democráticos, como explicou Wilson Gomes (2005), mas envolve todo o processo
argumentativo e o “intercâmbio de razões feito em público” (MAIA, 2008a, p. 166).
Nesse contexto, a conversação informal cotidiana é um forte elemento para a concretização da
democracia. Tomando a política num sentido mais amplo, que não se limita às questões que
estão no centro do poder, mas estende-se aos contextos práticos da vida cotidiana e às
configurações da sociedade civil, os deliberacionistas afirmam que
a conversação cotidiana também é fundamental para a vitalidade da
democracia, já que ela provê tópicos e configura valores para serem
defendidos na esfera pública e, ainda, prepara os cidadãos para que se
engajem em trocas argumentativas exigentes (MAIA, 2008, p. 203).
Tanto em Tarde (1992), quanto para Habermas (1984) e para os deliberacionistas (MAIA
2008a, 2008b), é possível notar que a relação jornalismo/ conversação/ democracia se dá no
âmbito da influência de um sobre o outro na vida cotidiana. A formação da opinião e o caráter
democrático da conversação, nesses estudos, expressam-se e ganham valor nas interações
sociais ordinárias. Como afirma Tarde, “politicamente, não são tanto as conversações e
discussões parlamentares, e sim as conversações e discussões privadas, que importa
considerar” (1992, p. 136). Sendo assim, a dimensão democrática da conversação ocorre na
vida cotidiana e não no âmbito da comunicação de massa. A formação de uma esfera pública
forte e ativa se dá pela ação da mídia, mas não a tem como palco para a fomentação das
conversações políticas relevantes entre indivíduos comuns.
216
Segundo Maia, Marques e Mendonça (2007), há pelo menos três níveis no sistema de
deliberação. Um primeiro nível é o “central” (ou “oficial”), representado pelas Câmaras,
Parlamento, judiciário, etc. Esse primeiro elemento diz respeito aos representantes políticos e
suas ações diretas de tomada de decisão. Numa segunda perspectiva, tem-se o “institucional”,
que envolve outras instituições que lidam com a política e a sociedade, mas não ocupam os
lugares administrativos oficiais: partidos políticos, grupos de interesse, a mídia, entre outros.
Em terceiro lugar, estão as conversações de indivíduos privados, ativistas políticos, etc. Os
dois primeiros grupos, segundo os autores, atraem boa parte da atenção dos estudos
deliberacionistas, o que demonstra uma preocupação com o que acontece no centro e não na
periferia.
O que aqui se pretende investigar é de que modo a conversação encenada nos programas
analisados ratifica ou rechaça elementos democráticos, que propriedades democráticas podem
ser encontradas (ou não) nesses programas. A partir da bibliografia sobre democracia,
conversação e comunicação, foi possível encontrar um quadro de referências com valores que,
segundo os autores, promovem e fortalecem a democracia. O objetivo deste capítulo é
verificar, nos programas que compõem o corpus desta tese, a presença ou ausência desse
quadro de referências e como ele é empregado no interior dos programas. Espera-se, com isso,
chegar ao papel da conversação para ratificação ou enfraquecimento da democracia através do
telejornalismo.
O quadro de referências é composto por três matrizes que funcionarão como guia para as
análises. A primeira delas é o nível de participação da audiência, ou seja, as possibilidades
que o programa concede aos telespectadores de interagir com os interlocutores no estúdio.
“Participação” é a palavra-chave para compreender o papel democrático da conversação posta
em cena, pois pressupõe-se que, no sistema democrático, o público seja responsável pelas
tomadas de decisão e deliberações. Outra matriz referencial é a compreensão de política que o
programa deixa transparecer, ou seja, se política diz respeito somente às questões de Estado –
que envolvem gestão, legislação, corrupção, etc – ou se essa concepção de política se
identifica com questões mais amplas, envolvendo o domínio do cotidiano, como já se tem
discutido neste trabalho98. A terceira matriz referencial envolve a relação entre jornalismo e
democracia a partir da compreensão do próprio programa sobre seu papel político. Aqui,
98
Ver Parte I, “O jornalismo na cultura contemporânea”.
217
entram em jogo as questões vinculadas, principalmente, ao jornalismo como vigilante, cão de
guarda e poder moderador.
A materialização desse quadro referencial nos programas deverá ser observada, além das
próprias estratégias discursivas dos mesmos, por um sistema de referências, tal como pensado
por Raymond Williams (1969), que permite olhar o uso dos termos a partir da vinculação com
outros que também configuram seu sentido. Muitas vezes, os mediadores dos programas
utilizam a palavra “conversa” para referir-se a “debate” ou “discussão” e, atreladas a esses
sentidos, outras expressões são utilizadas para fazer compreender seu caráter democrático.
Interpelar, por exemplo, a audiência como “participante” ou de “debatedores fixos” indica
uma forma do programa se construir como um espaço aberto, uma arena que envolve a
sociedade.
1.2.
Níveis de participação da audiência na conversação dos programas
A idéia de participação e inclusão na democracia é defendida por Sonia Livingstone e Peter
Lunt (1994), segundo quem, há duas concepções de democracia que levam em conta o
envolvimento do público. Na “democracia elitista”, a relação entre o poder estabelecido e os
cidadãos comuns é disseminada com base na idéia de que as crenças individuais disseminamse como crenças coletivas, ratificando uma dimensão de consenso na sociedade. Na
“democracia participativa”, o poder instituído está engajado com a discussão e o diálogo com
o público. Nessa perspectiva, as pessoas comuns têm o direito de participar politicamente por
meio do voto, do lobby, do inquérito aos membros de partidos políticos e empresas
comerciais. Esse modelo de democracia participativa proposto pelos autores seria inclusivo e
permitiria a efetiva tomada da palavra pelos diversos grupos que compõem a rede social,
gerando esferas públicas alternativas. Os meios de comunicação de massa teriam um papel
central na inclusão dos membros desses grupos.
Rejeitando um olhar pessimista sobre os meios de comunicação, Sonia Livingstone e Peter
Lunt (idem) afirmam que os media podem ocupar um lugar social relevante para a construção
de uma esfera pública alternativa, em que os cidadãos assumam ativamente seu papel político
por meio do discurso. A perspectiva adotada pelos autores ingleses amplia a dimensão de
esfera pública burguesa tal como foi postulada por Jürgen Habermas (1984), sobretudo no que
tange ao papel dos meios de comunicação na construção da esfera pública e na concepção de
218
“público”. Para Livingstone e Lunt (idem), as relações entre media, poder e sociedade são
explicadas pelas possibilidades de tensão que os públicos podem oferecer na cultura. A
televisão, portanto, se consolida não como veículo reducionista dos papéis políticos que os
indivíduos podem exercer na democracia, mas como forma de “facilitar e legitimar a
negociação pública – através do compromisso e não do consenso – dos significados entre os
grupos oposicionais e marginalizados99” (LIVINGSTONE e LUNT, 1994, pp. 10-11).
Nesse sentido, para Livingstone e Lunt (idem), a televisão e seus programas apresentam-se
como uma possibilidade de se exercer a inclusão, a pluralidade e a democracia participativa
gerando novos fóruns de debate, novas esferas públicas a partir interesses de “grupos sociais
especiais”, cujo debate estimularia a contestação e a negociação, revelaria as tensões que
envolvem a sociedade, ao invés do consenso que marca boa parte das instituições.
As observações de Livingstone e Lunt (idem) estão orientadas para o que eles denominam
“programa de participação da audiência” (“audience participation programmes”), um tipo
específico de talk show que leva para o estúdio pessoas comuns para falarem sobre problemas
que normalmente não são pautados pela mídia tradicional - problemas familiares, distúrbios
psíquicos – ou vitórias sobre os desafios da vida cotidiana – doenças, desemprego, vícios, etc.
O conhecimento especializado, que sempre marcou os debates públicos efetuados pelos media
até os anos 1990, cede lugar ao conhecimento leigo que se constrói pela experiência vivida e
partilhada com a audiência. A presença da platéia no estúdio assegura ainda mais o lugar que
esses programas pretendem construir para si: um locus onde as questões vividas e sentidas
pelo telespectador ganham relevância e dúvidas podem ser esclarecidas ao vivo.
É em função dessa tentativa de incluir o público na cena do programa a fim de cumprir seu
papel político que os programas que tomam a conversação como marca de sua construção e
relação com a audiência procuram inseri-la em algum nível. Tome-se como exemplo o
programa Roda Viva. A participação do público é tão relevante para o programa que quando a
edição é gravada, o apresentador salienta que os telespectadores não poderão participar
diretamente, mas busca não perder o contato com a audiência: “o programa de hoje está sendo
gravado e, portanto, não permite a participação direta do telespectador. Mas você pode
mandar a sua crítica, sua sugestão, sua proposta, pelo site do programa” (21 ago. 2006).
99
No original: “media could facilitate and legitimaze the public negotication – through compromise rather than
consensus – of meanings among oppositional and marginalized groups”.
219
Desde seu surgimento, o programa traz como atributo a possibilidade de interação dos
telespectadores com os entrevistados de cada edição pelas ligações para o estúdio. Como
ressalta a matéria de Veja,
“Muitas vezes as melhores perguntas são dos telespectadores”, diz
Gamberini [primeiro apresentador do programa]. Na entrevista de
Meneguelli [presidente da Central Única dos Trabalhadores], por meio de
uma centena de telefonemas, o público queria saber coisas bem mais
concretas – se o sindicalista trabalhava, qual o seu salário, quem pagou suas
viagens a Cuba e à União Soviética. -, enquanto a bancada de entrevistadores
fazia perguntas sobre a Assembléia Constituinte e a dívida externa brasileira
(DEBATE VIVO, 1987, p. 113).
Hodiernamente, outras tecnologias de comunicação têm sido empregadas para incentivar a
participação dos telespectadores nos programas, em especial a internet. Segundo Wilson
Gomes (2005b), num momento em que se discute os baixos níveis de participação do público
na democracia, a internet desponta como um ambiente que permite acesso dos indivíduos às
esferas de tomada de decisão, possibilitando a multiplicação de fóruns de debate ou mesmo de
ações democráticas - governo eletrônico, voto eletrônico, voto online, transparência do Estado
e outros. “Democracia digital”, “ciberdemocracia”, “e-democracy” são termos comumente
empregados pelos autores mais otimistas que vêm na internet uma “luz no fim do túnel” para
o problema da falta de atividade cívica da sociedade contemporânea. Gomes (idem) conclui
apontando vantagens significativas no uso da internet para a democracia mais participativa,
mas que isso não significa que as atuais práticas políticas serão inteiramente modificadas por
causa da internet. Pelo contrário, o que se vê é justamente a manutenção das mesmas práticas:
o não acesso, o desinteresse pelo debate político. Segundo Gomes, as “discussões políticas
são freqüentemente dominadas por poucos” (2005b, p. 221).
Todos os programas analisados possuem um site na internet onde os assuntos do dia (ou os
convidados) são divulgados. Alguns programas, porém, procuram oferecer um uso
convergente ao dispositivo digital permitindo que, pela internet, a audiência seja inserida na
conversa. A questão que aqui se impõe é como o público é representado nos programas, como
ele pode participar da conversação e se essa participação de fato colabora para a inclusão na
democracia. Nos programas analisados, os níveis de envolvimento da pessoa comum na
220
conversação100 foram três: aparece e participa (pleno); aparece, mas não participa (oculto);
não aparece, mas participa (representativo).
No nível pleno, a própria pessoa aparece no televisor dirigindo sua pergunta ou comentário ao
convidado e aos demais participantes da conversação. Essa forma representa a inclusão do
público na cena do programa, dando-lhe o direito à palavra, o que reforçaria, plenamente, os
ideais democráticos. O membro do público, nesse caso pode aparecer ao vivo no programa
como convidado, como parte de uma platéia101, ou num VT gravado. Dentre as edições
analisadas, isso aconteceu apenas na entrevista do Roda Viva com Heloísa Helena (12/06/06),
que trouxe cinco pessoas - uma professora, um líder comunitário, um estudante, um taxista e
uma esteticista, todos identificados pelo nome e profissão - que apareceram no programa por
meio de um VT feito anteriormente à exibição do Roda Viva, o que demonstra um preparo
prévio da equipe de produção do programa. Esse trabalho prévio também se evidencia na
tentativa de agrupar as perguntas das pessoas comuns e inseri-las no programa num momento
em que os assuntos tratados apareçam durante a conversa, como ressalta o apresentador: “já
que estamos falando com uma socialista, eu queria encerrar o programa com duas perguntas
de telespectadores curiosos a respeito da sua forma de ser, do seu comportamento e marca
pessoal, vamos lá”; “senadora, a respeito das manifestações e das reivindicações dos
trabalhadores sem-terra, nós temos aqui as perguntas de duas pessoas ouvidas pelo Roda
Viva em São Paulo. Vamos ver” (Paulo Markum, 12 jun. 2006). As perguntas dirigidas pelo
público buscam obter informações, mas também confrontam os participantes no estúdio para
um posicionamento claro sobre suas posições como governante. Assim, perguntas
condicionais – trazidas pelo público – são feitas para aparelhá-lo na escolha dos
representantes que devem ocupar os altos cargos de chefia do Estado:
Maria Teodora de Senadora Heloísa Helena, diante da gravidade dos fatos da semana passada, ou
seja, da invasão dos sem-terra na Câmara dos Deputados [invasão promovida
Azevedo
pelo Movimento pela Libertação dos Sem Terra em junho de 2006. 497
(professora):
integrantes do movimento foram presos e 41 pessoas ficaram feridas], o que a
100
Excluem-se dessa análise as humanizações do relato, nas quais pessoas comuns transformam-se em modelos
para ilustrar a situação narrada na reportagem. O que interessa a este capítulo é a participação do público na
conversação.
101
É o caso dos programas analisados por Livingstone e Lunt (1994). No Brasil, o apresentador Serginho
Groisman (Rede Globo) construiu sua trajetória na televisão em programas como Matéria Prima (TV Cultura) e
Programa Livre (SBT), no qual concedia a palavra à platéia que comparecia ao estúdio. Pelo bordão “fala
garoto” e pela cessão do microfone à platéia, Groisman procura construir seu estúdio como um espaço de
participação no qual perguntas e comentários podem ser feitos.
221
senhora, como presidente, faria?
Valnildo Moreti Pergunto o seguinte, no seu governo haverá reforma agrária?
(líder
comunitário):
Gilmar da Silva Você que tem gênio tão forte, está se candidatando à presidência do Brasil, o
que você vai fazer pela gente com esse gênio todo que você tem?
Santos
(estudante):
Eliezer
(taxista):
Lopes Se ela se visse lá sentada, administrando o país, se ela não teria o mesmo
comportamento do Lula, de mudar de perfil e fazer o jogo que os demais
sempre fizeram?
Sandra Augusta Queria perguntar à Heloísa Helena, como seria um governo com a mulher na
presidência? Será que a gente realmente poderia conseguir colocar a marca da
Carvalho
mulher, usar toda a sensibilidade, não é, toda essa intuição e fazer a diferença?
(esteticista):
(Edição de 12 jun. 2006)
As respostas a essas perguntas, inclusive, são um dos poucos momentos em que a convidada
olha para a câmera, reforçando o caráter dialógico que pretende manter com o público, que
logo se dispersa após a introdução de uma nova pergunta formulada por um dos
entrevistadores no estúdio.
Embora permita que a própria pessoa formule sua pergunta ao entrevistado, o Roda Viva
concede um espaço reduzido no acesso à conversação, uma vez que a troca se dá num único
turno de fala: a pergunta é dirigida e a resposta concedida apenas na emissão do programa.
Não há possibilidade de retrucar a resposta, reivindicar uma explicação mais ampla, discordar,
complementar a pergunta e promover um debate. Assim, o nível pleno, no Roda Viva, é mais
uma estratégia retórica do programa para fazer-se uma cena de debate público do que uma
ação que efetivamente permite o acesso igualitário aos participantes na troca.
A ocultação permite que o público assista à conversa in loco, mas não lhe é permitido o
direito à palavra. A pessoa comum aparece – geralmente numa platéia - mas não possui voz,
servindo apenas como espectadora dos diálogos ali travados, mas ausente da conversação.
Novamente, cabe voltar ao Roda Viva para observar de que formas a ocultação é construída
no programa. Até a entrada de Lílian Witte Fibe, o Roda Viva tinha uma platéia, situada no
segundo andar da arquibancada, que assistia à cena, interagia com os convidados nos
222
intervalos do programa, tomava nota dos assuntos tratados, mas não possuía acesso à
conversação, não era permitido fazer perguntas ou comentários102.
Em 2008, porém, o programa mudou as formas de transmissão e de recepção, reconfigurando
o envolvimento da audiência. A platéia também foi repensada para possibilitar novas
maneiras de engajamento. Ela ainda não possui espaço para interação no programa, mas tem
lugar privilegiado como espectadora da cena e pode partilhar suas impressões pela internet
com outros “seguidores” do Roda Viva no twitter. Nesse sentido, “participar”, para a platéia
do Roda Viva, significa “acompanhar ativamente”, colocando impressões e comentários e
divulgando-os no twitter, com a criação de um fórum externo ao programa onde outras
pessoas também podem participar.
Figura 31: “twitteira” do Roda Viva
Fonte: edição de 1º dez. 2008
A democratização, aqui, acontece no ambiente externo à cena televisiva, mas busca convocar
o telespectador a um debate noutro fórum, que complementa a audiência televisiva. O fato de
exibir os “twitteiros” escrevendo suas mensagens é uma tentativa do programa de provocar
essa discussão num veículo que oferece mais possibilidade de acesso, uma vez que o número
de participantes para a conversação ali encenada é limitado.
A forma representativa é a maneira mais comum pela qual os programas televisivos permitem
o acesso do público à conversação. Nesse modelo, os telespectadores participam por meio do
envio de perguntas e comentários por e-mail, fax ou telefonema, respondendo a enquetes que
são comentadas durante a emissão do programa. Sua voz é representada por um jornalista da
102
Ver “Roda Viva: reflexão e debate na arena”, na Parte II.
223
emissora, responsável por selecionar as perguntas que devem ir ao ar e lê-las ao vivo. Por
vezes, é o próprio apresentador que faz isso, como ocorre com Alberto Dines nas edições mais
recentes do Observatório da Imprensa e com Leda Nagle na condução do Sem Censura. Em
momentos específicos do programa, ela introduz as falas da audiência, que chegam a sua
mesa através da equipe de produção do programa. A apresentadora atua como porta-voz das
perguntas e comentários da audiência e depois as distribui aos destinatários presentes na
bancada do programa. Há momentos específicos em que as falas da audiência são levadas ao
ar, o que é controlado pela apresentadora e a direção do programa. Mas há também uma
tentativa permanente de inclusão, o que se traduz pela interpelação aos telespectadores como
“debatedores fixos”, como se eles, também, construíssem a conversação do programa.
Roda Viva e Observatório da Imprensa, porém, atribuem o papel de representar o público a
uma jornalista que não possui participação direta na conversação posta em cena no programa.
Ela não faz perguntas nem comentários durante a transmissão, interagindo para dar voz à
audiência, como se assegurasse um lugar específico aos telespectadores.
Figura 32: as jornalistas Carla Amorim (Roda Viva) e Cláudia Tisato
(Observatório da Imprensa)
Fonte: edições de 1º/12/08 e 13/06/06, respectivamente
O Roda Viva não possui um responsável permanente para exercer essa função, oferecendo um
rodízio de jornalistas que cumprem esse papel. Assim, não há familiaridade entre os
telespectadores e seu representante na cena do programa. Para inserir as perguntas dos
telespectadores no programa, a jornalista que os representa busca manter a fluidez das
conversas, aproveitando as “deixas” de outros entrevistadores para incluir as questões
levantadas pelo público: “E por falar em Rodelas, a gente já tem a pergunta de um dos
224
telespectadores: durante esse período em que você esteve no sertão da Bahia, quais os traços
culturais que você percebeu lá que diferenciam esse lugar do resto do país? O que mais te
marcou? O que você observa de diferente no resto do país e por outros lugares por onde
andou? Pergunta de A.A.C., de Sergipe” (ao ator Wagner Moura, 29/09/08).
O Observatório da Imprensa, por sua vez, atribui à jornalista Cláudia Tisato, além do papel
de narração, abertura e encerramento dos blocos, leitura da pergunta da enquete e dos
resultados, o de ler as perguntas efetuadas pelos telespectadores. Ausente da conversação do
programa, Tisato não possui controle sobre o momento que deve falar e interfere pouco nas
falas dos telespectadores.
Do ponto de vista da construção de uma conversação democrática e das possibilidades de
participação, a abordagem representativa reproduz o modelo de democracia representativa: há
alguém que interage no lugar do público. A exclusão é tão evidente que o próprio jornalista
que representa a audiência não participa do restante da conversa. O tratamento do público
como “eleitor” no Observatório da Imprensa e o uso de outras expressões que remetem à
democracia representativa – “urna”, “voto” – salientam o mesmo lugar do sistema
representativo: o de agente externo às conversações, que se institucionalizam em ambientes
específicos e com atores autorizados.
É possível observar que no que tange às estratégias de inclusão da audiência na conversação,
programas que dialogam mais estritamente com uma dimensão de debate atribuem mais
ênfase à questão da participação. Sem Censura e Observatório da Imprensa estão incluídos no
subgênero programas de debates, enquanto o Roda Viva, como a análise do modo de
endereçamento demonstrou, procura legitimar-se a partir da construção de um fórum de
debates, o que se pode notar pela construção de uma arena. Esses programas buscam agir
como representantes da democracia a partir do reforço do debate público, ainda que apresente
limitações na garantia de igualdade de acesso e de pluralidade.
Jornal das Dez e Marília Gabriela Entrevista possuem sites na internet nos quais os
telespectadores podem acompanhar as novidades dos programas, mas não há qualquer
referência ao ambiente virtual durante a emissão televisiva. É como se fossem dois espaços
distintos que não convergem para uma mesma prática receptiva. Assim, os dois programas
225
apostam mais no aparelhamento da audiência fora da transmissão do programa para a vida
democrática. Eles permitem que as discussões ali efetuadas tenham visibilidade e sirvam para
fundamentar as opiniões dos telespectadores, sem que as pessoas de fato tenham voz no
interior dos programas.
No Bom Dia Brasil, há uma tentativa de levar a audiência televisiva ao veículo na internet
sugerindo um aprofundamento nas questões levantadas durante o programa. Assim, os
apresentadores afirmam que “você poderá encontrar mais informações sobre isso na página do
Bom Dia Brasil na internet”, onde também se pode ter acesso aos blogs dos comentaristas,
chats com especialistas, etc103.
Michael Schudson (1997) põe em questão o princípio de igualdade da conversação
democrática, uma vez que não há nada em sua natureza que sugira isso. Os autores que
abordam e/ou analisam a conversação – Goffman (1984), Sacks (1979), Schegloff (2001),
Burke (1995), Tarde (1992), Grice (1998) – afirmam a necessidade de uma competência
cultural adquirida para participarem das trocas cotidianas. Se essa partilha de um background
precisa existir para que a conversação se efetive, é necessário pensar, de acordo com
Schudson (1997), sobre quem está incluído e quem não está, quem é efetivamente membro da
conversação na democracia e quem está excluído. Os escritos sobre a conversação
democrática descrevem as formas de conversar presentes numa elite européia muito
específica. Michel de Montaigne (1961) afirma que a “arte da conversação” caracteriza-se
pela busca da verdade por meio do debate. O contrário disso, a conversação vulgar, primitiva,
indelicada e interrompida, é praticado pelos “espíritos inéptos e mal formados104”
identificados como uma “ordem que subsiste entre pastores e caixeiros, mas não entre nós”
(1961, p. 227). Freqüentemente, a “arte de conversar” nesses escritos é identificada com a
classe burguesa, destituindo de qualquer abordagem as práticas populares de conversação.
Peter Burke (1995) destaca as clivagens hierárquicas que marcaram as conversações ao longo
da história, determinando certos usos da linguagem por parte de empregados em relação aos
seus patrões, mulheres em relação aos homens: uso de pronomes de tratamento, tom de voz,
etc. Assim, a suposta igualdade entre os indivíduos na conversação cotidiana, tomada como
103
Recentemente, a sessão de esportes do telejornal busca maior proximidade com a audiência, que responde a
enquetes comentadas pelo apresentador Alex Escobar durante a transmissão do programa. “Bolão do
campeonato brasileiro”, “desafios”, e outras formas de convocar a participação dos telespectadores na emissão,
embora não possuam o caráter político
104
O autor faz referência utilizada por Platão na República.
226
princípio regulador das trocas, aplicava-se apenas aos grupos específicos sobre os quais se
falava e não para toda a sociedade.
Para Schudson (op.cit.), a atenção deve estar nas regras que tornam a conversação homogênea
ou pluralista. Levando-se em conta a disseminação de diferentes estilos de vida na cultura
pós-moderna, a dimensão de igualdade deve ser revista para pensar a multiculturalidade.
Assim, Schudson defende que é na heterogeneidade, antes da igualdade, que a conversação
democrática adquire seu caráter público, permitindo reconhecer as tensões que envolvem a
democracia e a verdadeira promoção do debate público. Schudson conclui, portanto, que
o que faz a conversação na democracia não é a livre, igualitária e espontânea
expressão, mas o acesso igualitário ao palco, a participação igualitária no
estabelecimento das regras básicas para a discussão, e um conjunto de regras
desenhadas para encorajar a fala pertinente, a escuta atenta, as simplificações
apropriadas e a ampla porção de direitos de falar105 (1997, p. 307).
Sobre as possibilidades de participação do que denominou “públicos fracos” – as pessoas que
estão excluídas do centro de tomada de decisões -, Rousiley Maia (2008a) afirma que
estabelecendo-se um paralelo das desigualdades políticas e comunicativas no
terreno dos media, podemos dizer que os públicos fracos possuem
desvantagem de assimetria de poder, a qual afeta a oportunidade de acesso
aos canais e meios de comunicação de massa; desigualdade comunicativa,
que dificulta a utilização efetiva das oportunidades de expressão (por
exemplo, a posse de vocabulário específico para expressar suas necessidades
e perspectivas conforme a gramática dos veículos); de pobreza política, que
diz respeito à falta de capacidades públicas desenvolvidas (por exemplo, a
habilidade de articular argumentos politicamente relevantes, a fim de serem
considerados pelos demais (MAIA, 2008a, p. 183).
Por conta disso é que a representação aparece de forma tão naturalizada nos meios de
comunicação. É notável o esforço dos programas em convocar a participação da audiência,
especialmente com o uso de recursos digitais, na conversação posta em cena nos programas.
No entanto, ainda não é a própria pessoa comum que aparece ao lado dos jornalistas e dos
convidados expondo-se e oferecendo seus argumentos. O público delega aos jornalistas as
possibilidades expressivas para que ele, que detém o controle da situação comunicativa, insira
as opiniões do público no momento adequado, de modo a fazer sentido durante a conversa. Na
construção da gramática da conversação televisiva, especialmente quando esta se apresenta
105
No original: “what makes conversation democratic is not free, equal and spontaneous expression but equal
access to the floor, equal participation in setting the ground rules for discussion, and a set of ground rules
designed to encourage pertinent speaking, attentive listening, appropriate simplifications, and widely
apportioned speaking rights”.
227
mais argumentativa, o que a tradição seletiva do telejornalismo demonstra é a construção de
uma autoridade baseada no domínio de uma linguagem específica que vincula os participantes
ao campo político, a compreensão de assuntos que se ligam mais à máquina de governo do
que ao que é vivido pela audiência, o que invalida a presença de representantes do público na
conversação. Tais proposições se relacionam mais com uma construção do que deve ser a
conversação nos programas que se vinculam ao modelo dominante do jornalismo, do que
propriamente com a falta de habilidade de público em formular idéias sobre os assuntos
políticos. Assim, os limites de participação da audiência não podem ser vistos como uma falta
de interesse cívico, mas um constrangimento trazido pelos meios de comunicação aos modos
de conversar sobre política das pessoas comuns, que não estariam desvinculados dos critérios
televisivos.
1.3. A dimensão política reivindicada
Reconhecido enquanto instituição social, o jornalismo validou sua existência pela vinculação
com o campo político. A noção de “quarto poder”, uma das premissas básicas do jornalismo,
salienta essa posição, que vem sendo construída culturalmente: ao jornalismo, cabe vigiar as
ações dos três poderes institucionais. A relação com o campo político, portanto, se consolidou
a partir da proximidade com os assuntos de governo. Por conta disso, Executivo, Legislativo e
Judiciário são foco dos assuntos pautados pelo jornalismo que se aproxima do discurso
dominante.
Sendo assim, o jornalismo tem tomado a política, na construção de seu discurso autolegitimador, como questão que envolve governança: as instituições do poder e suas ações. Na
apropriação da conversação, essa postura se evidencia ainda mais, uma vez que os jornalistas
especialistas com quem se conversa nos programas são reconhecidos pelo trânsito nessas
instituições, pela proximidade profissional com agentes do campo político, e daí decorre sua
autoridade para tratar de assuntos políticos.
As questões políticas, no entanto, têm-se dirigido para um sentido mais amplo, que abarca as
questões do cotidiano, dos problemas enfrentados pela população, de seus direitos e deveres.
É nesse sentido que se busca construir uma informação política que favoreça a democracia:
fornecendo ao público não apenas um relato da semana presidencial, mas de como as decisões
228
do governo afetam sua vida cotidiana e o contrário: como os problemas vividos no cotidiano
pautam agendas políticas. Problemas de saúde pública, falta de infra-estrutura urbana,
segurança, etc são agendados pelos meios de comunicação a fim de suscitar um debate
público que inclua as esferas de tomada de decisão. Segundo Rousiley Maia e Ângela
Marques,
afirmar que tanto as conversações em contextos cotidianos quanto as
discussões políticas contribuem para a ampla deliberação significa adotar
uma definição de política que abrange também a luta cotidiana pela
sobrevivência e desafiar as relações de poder existentes em nossa sociedade
(MAIA e MARQUES, 2008, p. 168).
Em primeiro lugar e de maneira mais evidente encontra-se a política institucional que se
apresenta pela presença de jornalistas especialistas e das fontes entrevistadas. Jornal das Dez
e Roda Viva procuram levar fontes oficiais para o estúdio a fim de debater diretamente com
eles os assuntos referentes à política. Nos dois programas, a presença de representantes
oficiais é marca de sua relação com a audiência desde sua estréia. O telejornal da Globo News
já levou à bancada ministros, embaixadores, e outras personalidades diretamente vinculadas
ao campo político. O Roda Viva, ao longo de sua trajetória, já levou ao centro da arena Luís
Carlos Prestes, criador do Partido Comunista Brasileiro (1986), Fernando Collor de Melo
(1987), Fidel Castro, presidente de Cuba (1990), Luís Inácio Lula da Silva (1995, 1999,
2006), entre outros. No período eleitoral, o Bom Dia Brasil também levou para o estúdio os
principais candidatos à presidência da República para debaterem com os jornalistas suas
propostas de governo.
Os modos pelos quais os programas acionam a dimensão institucional da política são
múltiplos. Uma dessas abordagens é a discussão sobre escândalos que envolvem os atores do
campo, o que caracteriza uma forma mais polêmica de tratar a política. A presença da então
senadora Heloísa Helena no Roda Viva (12 jun. 2006), por exemplo, teve como um dos
pontos principais do debate sua saída do Partido dos Trabalhadores e a atual situação com o
antigo partido. A postura dos jornalistas, nesse caso, é de investigar o que aconteceu, levar o
entrevistado à contradição, solicitar esclarecimentos.
Outro modo de tratar questões institucionais é levando ao estúdio pessoas autorizadas para
avaliar uma situação política nacional ou internacional atual. Os entrevistados, nesses casos,
não necessariamente precisam ser fontes ligadas ao Estado, mas pessoas reconhecidas
229
socialmente para analisar conflitos e decisões políticas. É o caso da entrevista do escritor
Tariq Ali ao Roda Viva (21 ago. 2006) e do embaixador do Brasil nos Estados Unidos,
Roberto Abdenur, para comentar a nomeação de Timothy Geithener como secretário do
tesouro norte-americano e de Hillary Clinton como secretária de Estado no Jornal das Dez
(22 nov. 2008). O enquadramento dado à entrevista de Tariq Ali privilegiou sua posição
política sobre o Oriente Médio, em detrimento de uma abordagem sobre suas obras literárias,
seu estilo como escritor, etc. As questões que nortearam a entrevista não se ligaram
exatamente a atitudes de governo, mas trataram de problemas da política internacional norteamericana para resolver conflitos ao redor do mundo, em especial, do terrorismo.
Demétrio Magnoli:
Eu queria propor uma questão sobre não-ficção. Na recente tentativa de
atentados em Londres, o senhor disse que a responsabilidade deveria ser
atribuída também à política de Tony Blair [primeiro-ministro do Reino Unido
de 1997 a 2007]. No ano passado, em 7 de julho de 2005, nos atentados
terroristas contra Londres [foram atingidos três trens do metrô e um ônibus;
houve 52 mortos e cerca de 700 feridos], o senhor escreveu que "os
londrinos” - vou citar entre aspas - “pagaram um preço pela reeleição de Blair
e pela continuação da guerra". Ou seja, se eu li direito essa passagem, a
responsabilidade aí não é nem de Tony Blair, mas dos eleitores, do povo de
Londres. Eu queria saber, do ponto de vista moral e político, se o senhor é
capaz de oferecer uma condenação incondicional do terror global, ou é
incapaz?
Tariq Ali:
Não tenho problema nenhum com isso. Sempre fui contra o terrorismo
incondicionalmente, quer seja o terrorismo praticado por indivíduos, quer
seja o terrorismo praticado por Estados. O terrorismo de Estado mata mais
gente que qualquer grupo de terroristas individuais na história da
humanidade. Faça o balancete do século XX e você verá isso bem de perto.
Com relação à Grã-Bretanha, quando explodiram as bombas, há um ano,
denunciei as explosões e as descrevi em meu livro Rough music [de 2005]
como uma carnificina sem sentido, mas eu disse que era preciso entender as
causas. Explicar as causas não significa justificar as conseqüências.
Demétrio Magnoli:
Tariq Ali:
Mesmo se se diz que a culpa é dos eleitores que reelegeram Blair?
As pessoas que o elegeram eram contrárias à guerra. A maioria do público
inglês era contrária à guerra no Iraque. Há duas semanas, 63% do público
inglês declarou-se incomodado com a proximidade entre Blair e os EUA.
Demétrio Magnoli:
Justamente por isso, eu lhe pergunto se não é o caso de dizer que toda a
responsabilidade pelo terror é dos terroristas, que toda a responsabilidade
pelos atos de terror em Londres, como os da Indonésia [em Bali, local
turístico, em 2002 e 2005], como os atos de terror na Índia [em 2006], porque
a Al Qaeda não faz terror só em Londres, como os atos de terror em Taaba
[em 2005], no Egito, se toda a responsabilidade por esses atos integralmente
não cabe aos terroristas, assim como a responsabilidade pela invasão do
230
Iraque cabe integralmente aos Estados Unidos...
Tariq Ali:
Você não pode isolar atos de terror que acontecem das razões que são a sua
causa. Por que os terroristas atacaram a Inglaterra e não a França, a
Alemanha, a Escandinávia? [...] Essa é a pergunta que se deve fazer. E digo
mais. Meu modo de ver isso não é tão estranho quanto você imagina. Quando
escrevi, no dia seguinte às explosões, no [jornal britânico] The guardian - que
é um jornal liberal - que a causa era a guerra do Iraque, fui denunciado por
gente do governo. Em duas semanas, uma comissão especial criada pelo
Ministério das Relações Exteriores disse exatamente a mesma coisa. Dez dias
depois, foi feita uma pesquisa de opinião. 66% dos ingleses disseram que os
motivos dos ataques em Londres eram a política externa de Blair e a guerra
no Iraque. Isso não significa justificar o terror, significa explicar suas causas.
Se não for assim, a posição que você defende significaria que essas pessoas
são totalmente malucas, que esses jovens do norte da Inglaterra são loucos.
Eles não são loucos. Alguma coisa os deixa loucos e essas causas nós
devemos evitar.
(Edição de 21 ago. 2006)
As decisões políticas e projetos de governo também são pauta das conversações dos
programas analisados. Nesse caso, os agentes do governo aparecem como figuras ativas na
tomada de decisão que podem promover o bem estar da sociedade ou o contrário: adotar
medidas que estorvam os direitos da população. A conversação pode se dar com os agentes
diretamente envolvidos nas tomadas de decisão e na formulação de projetos ou com
jornalistas especialistas que possam oferecer uma interpretação daquilo que está na esfera do
poder para a vida cotidiana do cidadão comum.
Outra forma como a política pode aparecer nos programas é como instituição responsável por
resolver os problemas sociais. A conversação, nesse sentido, caminha em busca de levar o
público a conhecer seus problemas mais graves e como os políticos se posicionam diante
deles. No Observatório da Imprensa, por exemplo, esse papel político é evidenciado na
relação da imprensa com a política, propondo formas de parceria para uma ação conjunta de
combate a grupos sociais que ameacem a ordem social. É o caso da edição que propunha um
pacto da imprensa contra o crime organizado como forma de coagir o governo a tomar
providências mais imediatas (06 jun. 2006).
No Bom Dia Brasil, assuntos de segurança pública, como os atentados do PCC a São Paulo,
são problemas que concernem ao Estado resolver. O público é interpelado a partir de uma
dimensão de quem sofre as ações e está fora das decisões democráticas. Sobre as
231
manifestações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra na Câmara, Míriam Leitão, que é
comentarista de economia, deslocou-se de sua área de especialidade, para colocar-se como
especialista em instituições políticas:
Renata
Vasconcellos:
Mírian, foi um ataque a um dos mais importantes símbolos da democracia
brasileira.
Míriam Leitão:
Exatamente, Renata. A democracia brasileira tem vinte e um anos e até agora,
muitos políticos, líderes, governantes, não conseguem entender que um poder
constituído legitimamente pelo voto tem o direito e o dever de usar a força
quando necessário para evitar excessos e exigir o cumprimento da lei. Ontem,
os primeiros momentos mostraram a mesma confusão de sempre. O deputado
Emílio Teixeira disse que era a direita infiltrada. Uma asneira do tempo da
ditadura. O líder do PT, Henrique Fontana, foi ao microfone do Plenário para
dizer que o país não pode criminalizar o movimento social. Essa ladainha é
sempre repetida pelo próprio governo Lula. Ninguém está fazendo isso,
criminalizando o movimento social. Um certo movimento social está, sim,
cometendo crimes impunemente e tem que ser punido.
(Edição de 7 jun. 2006)
Sendo assim, a conversação nos programas analisados busca exercer seu papel democrático ao
dar visibilidade aos problemas sociais e chamar a atenção dos políticos sobre sua função de
asseverar a ordem social. O Marília Gabriela Entrevista efetua tentativas de se aproximar da
política institucional a partir das temáticas tratadas. Na entrevista com o administrador Oscar
Motomura, que foi ao programa para tratar de liderança, Marília Gabriela pediu que o
convidado analisasse a postura do presidente Lula enquanto líder:
Marília Gabriela:
Oscar Motomura:
Como você avaliaria o Lula enquanto líder? [...] Vamos supor que ele vá fazer
o curso da Amana Key [organização presidida por Oscar Motomura que tem
como finalidade prestar consultoria a líderes de diversas áreas], o que você
aperfeiçoaria, ou reeducaria, ou levaria a se reeducar em que?
Primeiro, qual é o papel dele lá. E aí talvez encontre várias opções. Talvez um
dos papéis mais importantes do líder seja a educação. E se ele dedicar dez
horas por dia só para reeducar ou mudar a cultura da sociedade, se ele tiver
uma bandeira nesse sentido, ele terá feito um trabalho fantástico. Esses
despertar será importante [...].
(Edição de 02dez. 2007)
Na entrevista com o psiquiatra Jair de Jesus Mari (28/05/06), Marília Gabriela perguntou a
seu entrevistado “o que é que tem que mudar? A partir daí você espera que mude em que?
Onde? Quem vai fazer o que? Ou quem deveria fazer o que?” para melhorar o quadro de falta
de segurança nas grandes cidades. A resposta do convidado, porém, evidencia um outro
232
direcionamento sobre a forma como a política pode ser tratada nos programas. Ao dizer que a
solução para o problema de segurança pública no país é “um trabalho de todos nós”, Jair Mari
convoca uma dimensão de cidadania, de que os problemas não dependem apenas das
instituições, mas da ação individual de cada brasileiro.
No Marília Gabriela Entrevista, a política aparece mais a partir de um traço do entrevistado –
de sua profissão, suas preferências, seu engajamento em instituições – do que do programa em
si. As entrevistas de Marília Gabriela não privilegiam atores políticos que ocupam os altos
cargos, embora às vezes estes apareçam em seu cenário. A apresentadora procura reforçar
valores democráticos e de gestão pública quando os convidados os inserem em seu discurso
ou em sua história de vida. Explorando os elementos pessoais dos entrevistados, a política
aparece como uma forma de legitimar o programa no campo jornalístico.
Essa dimensão voltada para a convocação da audiência enquanto cidadã e responsável pela
construção de uma sociedade melhor se pode ver por uma extensão dos temas que abarcam a
política, que deixam de ser exclusivos das instituições e passam a se voltar para o cotidiano. A
forma de educação dos filhos, por exemplo, é um tema freqüente nos programas analisados,
que o tratam a partir de uma discussão sobre experiências pessoais de maternidade (Marília
Gabriela Entrevista com Letícia Sabatella, 15 mai. 2006 e Cínthia Howllet, 05 nov. 2007;
Sem Censura, 08 mai. 2009) ou de formas adequadas de expor as crianças aos conteúdos dos
mass media (Roda Viva com Valdemar Setzer, 1º dez. 2008).
Nesse caso, o jornalismo reivindica um papel de educar a sociedade, ao invés de cobrar das
autoridades por resolução de problemas. Os poderes públicos são mencionados nos discursos
dos participantes a partir de uma perspectiva que indica morosidade, lentidão e corrupção e
que apenas quando a sociedade cuida de si mesma é que se pode alcançar seus direitos. Sendo
assim, o público é convocado a participar das conversações a fim de dar uma dimensão ampla
aos problemas, tirando-os do nível individual e levando-os para o plano social. O jornalismo
cria, a partir disso, um sentimento de pertencimento a uma comunidade em que todos os
cidadãos partilham dos mesmos problemas e oferece uma extensão do sentido de esfera
pública, uma vez que passa a abarcar não apenas a política convencional e a economia, mas os
diferentes modos de vida.
233
1.4. Papel político do jornalismo
Se desde os escritos de Gabriel Tarde (1992) a imprensa possui papel fundamental para
fomentar a democracia por meio da oferta de assuntos comuns sobre os quais os indivíduos
poderiam conversar, as perspectivas deliberacionistas aprofundam a função dos media na
construção da democracia. Segundo Gomes e Maia (2008), a mídia possui um papel essencial
na formação de uma esfera cívica forte através da competição argumentativa dos veículos, do
aumento de intensidade da visibilidade do debate público, da transmissão da informação
política qualificada, da mobilização de questões sociais relevantes, da visibilidade a
argumentos apropriadamente construídos e da construção de uma opinião política
racionalmente motivada. Além disso, a mídia teria a função de transferir a agenda pública
para a agenda política – como ocorre na cobertura da Parada Gay, por exemplo – permitindo a
entrada da vontade pública no sistema político.
Tomando-se esses parâmetros como referenciais, é possível observar o papel dos programas
analisados na condução de uma conversação que reforce valores democráticos. À exceção da
competição argumentativa dos jornais, que é uma característica do jornalismo da Europa do
século XVIII, e da geração de posições e opiniões públicas racionalmente motivadas, que só
pode ser averiguada por meio de uma pesquisa empírica de recepção, os demais fatores
apontados pelos autores podem ser verificados na condução das conversas encenadas nos
programas.
Em primeiro lugar e de maneira mais evidente, os programas analisados buscam oferecer ao
público uma informação política de qualidade. Isso é o que caracteriza boa parte do pacto
sobre o papel do jornalismo e salienta uma das marcas primeiras do jornalismo enquanto
instituição social: prover a sociedade com informações. Os programas apostam na
exaustividade para construir uma dimensão de qualidade da informação divulgada e a política
aparece freqüentemente como veículo para atribuir legitimidade ao programa, seja na
vinculação com a política institucional, seja na que se volta para um sentido de cidadania. A
conversação aparece, portanto, como complemento às reportagens e matérias que circulam na
mídia diária e associa-se a qualificadores como “aprofundamento”, “reflexão”, “seriedade”.
Ressalta-se, nesse quesito, a participação do jornalista especializado em política como
intérprete dos acontecimentos que se dão nas esferas de poder. Com um tempo para a
234
conversação um pouco mais estendido (em torno de cinco minutos nos telejornais), o
especialista aparece como autoridade por demonstrar conhecimento sobre os meandros
internos das instituições políticas e ter acesso privilegiado a fontes de informação. Alexandre
Garcia (Bom Dia Brasil) e Cristiana Lôbo (Jornal das Dez) podem oferecer suas
interpretações sobre o quadro político nacional por conta de sua trajetória construída no
campo jornalístico e da familiaridade que construíram durante a carreira com a audiência. No
caso de Cristiana Lôbo, sua presença em outros programas que também se propõem a discutir
política reforça seu lugar de fala no telejornalismo. A presença de apresentadores
conhecedores do campo político - como Carlos Monforte (Jornal das Dez) – e de repórteres
setorizados visam reforçar a especialização e o cuidado da informação política divulgada
pelos programas.
No Roda Viva, há uma relação diferenciada com a construção de autoridade dos especialistas:
eles são provenientes de outros veículos de comunicação com os quais o telespectador já
possui familiaridade. Assim, participam da conversação jornalistas já reconhecidos pela
atuação na política, o que se evidencia pela proximidade profissional que demonstram com
seus entrevistados. No Roda Viva, o especialista é o entrevistador convidado, que não faz
parte da equipe permanente do programa.
O especialista político, no entanto, não possui espaço nos programas que se aproximam da
política voltada para o cotidiano e para os direitos e deveres da audiência, o que demonstra
que o jornalismo ainda está consolidado sobre parâmetros do modelo dominante que trata a
dimensão política a partir de uma relação com o Estado e suas instituições. Quando tratam de
assuntos que concernem à cidadania, os programas acabam enquadrando as conversas em
torno de decisões que precisam ser tomadas pelos agentes no centro do poder.
Marília Gabriela Entrevista e Sem Censura não possuem especialistas em sua constituição e
buscam deslocar a autoridade para oferecer esse tipo de informação política para agentes
externos ao campo jornalístico que possuem vinculação com o tema tratado, ou pelo que é
vivido e sentido por pessoas célebres que tiveram seus direitos obliterados.
Parte da construção da informação de qualidade a fim de provocar uma conversação
democrática, remete a um segundo papel dos meios de comunicação: a visibilidade a
235
argumentos apropriadamente construídos. Uma dimensão dessa transmissão de argumentos é
a contradição de idéias que visam fortalecer posições distintas. Assim, quando há um debate,
ainda que seja num momento específico, a tentativa dos jornalistas que conduzem a conversa
é oferecer perguntas investigativas ou mesmo opiniões pessoais que desestabilizem a posição
do interlocutor. Por conta disso, as formulações iniciam, geralmente, com “mas você não acha
que...”, trazendo o caráter adversativo que, ainda que não seja tenso, busca extrair do falante
um posicionamento melhor consolidado sobre a realidade relatada. Um exemplo disso pode
ser encontrado na entrevista de José Jesus Mari a Marília Gabriela (28 mai. 2006):
Marília Gabriela:
José Jesus Mari:
Marília Gabriela:
José Jesus Mari:
Marília Gabriela:
José Jesus Mari:
Marília Gabriela:
[...] Você se acostuma com a violência? Você passa a dar... Existe uma
complacência com a violência?
[sobreposição] Eu acho que nós criamos uma casca, né. Porque não é comum
você andar na rua e passar assim e ver um policial com o revólver na mão. Ou
o pessoal entregando dinheiro nos lugares, eles descem armados, eles estão ali
com armas. Nós vivemos numa cidade onde está ocorrendo uma guerra civil.
Agora, a nossa situação, ela é particular. Ela não é fruto do terrorismo, ela não
é fruto de desastre natural. Ela é fruto de uma situação muito particular do país
que tem suas raízes na desigualdade, em todos os problemas que nós temos
como sociedade. Então é fruto nosso.
[interrompendo] Mas não é muito simplista dizer que é... Por exemplo, vamos
dar um exemplo a grosso modo. Eu poderia interpretar o que você disse como
uma verdade que passou a ser apregoada de que a criança vê na televisão um
objeto de desejo, um objeto de consumo. Não pode adquirir, então ela,
provavelmente, vai estar facilitando... isso vai estar facilitando a entrada dessa
criança para o crime porque vai assaltar, vai tentar conseguir. Não é uma forma
simplista de resolver essa violência urbana?
Olha, a violência é muito complexa. São vários fatores e talvez esse seja um
pequeno fator, né? O que nós temos em relação aos dados, aos estudos, não há
uma relação simples, direta da pobreza com a violência. Mas há uma relação
do seguinte tipo: por exemplo, a violência está concentrada nos centros
urbanos. E a violência, ela não vai estar, não se desenvolve nos centros rurais,
ou nas cidades de médio e pequeno porte, onde não há muito desenvolvimento.
Então muito provavelmente, a chegada do desenvolvimento... Então, numa
sociedade onde ela é capitalista, onde ela tem um estímulo – você tem que ter
um Nike, tem que ter um Porche, você tem que ter ... – sofre um bombardeio
muito forte e uma pressão muito forte pelo consumo capitalista. E ao mesmo
tempo você não tem serviços básicos, né. Você não tem saúde. Você não tem
educação, você não tem moradia, você não tem transporte. E ao mesmo tempo,
você tem uma parte da população vivendo superbem e o resto sofrendo para
caramba e querendo tudo, ter o mesmo estilo de vida. Eu acho que um pouco
isso pode ocorrer.
Um pouco. Porque eu acho injusto...
[interrompendo] Não pode reduzir, né, Gabi.
Não, porque todos os dias você pode acordar de madrugada e ver milhões, ou
saber de milhões, ou ver milhares de trabalhadores, pessoas honestas, que vão
para o trabalho e têm tanto medo da violência quanto as pessoas que estão
sujeitas a assaltos.
(Edição de 28 mai. 2006)
236
Desta forma, o entrevistado pode rever sua posição e fornecer bases melhores para sustentar
sua opinião: “os dados”, “os estudos”. Segundo o deliberacionismo, as formulações dos
falantes num diálogo não servem apenas para tentar convencer o ouvinte, mas serve para que
o próprio falante explicite explicações e justificativas sobre seus pontos de vista (MAIA,
2008, p. 182). Por conta disso, as interrupções dos apresentadores na fala do interlocutor são
justificadas, uma vez que permite que os argumentos sejam melhor formulados e suas idéias
fiquem mais claras para o interlocutor e, principalmente, para a audiência que, presume-se,
também irá refletir sobre aquela elocução.
No exemplo acima, é notável que a apresentadora permanece com uma postura adversa à do
entrevistado até se chegar a um consenso e as opiniões convergirem para o mesmo sentido. O
aspecto consensual parece mais evidente na construção dos programas. O Observatório da
Imprensa privilegia uma postura dos convidados semelhantes à de seu mediador principal,
Alberto Dines, como se demonstrou na análise do modo de endereçamento do programa. Para
discordar de Dines, os convidados se desculpam, pedem licença e agem com extrema polidez
a fim de evitar confrontos. A argumentação, nesse programa, visa confirmar uma tese
defendida pelo programa e tentar convencer o telespectador a acatá-la também.
Uma das funções mais importantes para a criação de uma conversação democrática no
telejornalismo é a mobilização de questões sociais relevantes e a transferência da agenda
pública para a agenda política. Isso demonstra que os meios de comunicação estão agindo em
função de um interesse público que deve promover transformações políticas e pressionar as
esferas centrais do poder. Se por um lado há uma desigualdade no acesso do público à
conversação em cena no telejornalismo, por outro, cabe perceber quem os jornalistas
representam, que interesses e que questões sociais recebem maior visibilidade nas trocas.
Rousiley Maia (2008) chama atenção para a omissão dos atores periféricos das representações
políticas midiáticas. Sendo assim, “os meios de comunicação não oferecem um espaço
equinâme para os atores sociais divulgarem suas causas” (MAIA, 2008, p. 180). Por conta
disso, a organização da sociedade em associações tem papel cada vez mais relevante para
valorizar parâmetros democráticos na construção de argumentos, na criação de sociabilidade
política, na revisão de suas idéias sobre problemas comuns à comunidade.
237
Cabe perceber, portanto, em que medida a conversa encenada pelos jornalistas e suas fontes
durante os programas tematizam os aspectos que concernem a problemas sociais. Nesse
sentido, é possível notar que o apego dos programas à política institucional inibe a inserção de
outras temáticas na conversação, corroborando com uma posição de invisibilidade de certos
problemas e questões sociais. No Observatório da Imprensa, por exemplo, o interesse do
cidadão aparece, apenas, como o direito a obter informações bem apuradas, a partir de
instituições éticas e livres para transmitir conhecimentos. Os problemas do cidadão comum
giram em torno da censura efetuada aos meios de comunicação.
Bom Dia Brasil e Jornal das Dez tratam dos problemas sociais a partir do enquadramento da
política institucional, como foi visto no item anterior. A questão da crise econômica, por
exemplo, no Jornal das Dez entrou na conversação dos participantes com o parecer de Carlos
Alberto Sardenberg sobre as saídas do governo norte-americano para a resolução dos
problemas e os desafios do governo brasileiro.
O Roda Viva, porém, busca validar um discurso de responsabilidade social ao levar ao
programa as principais problemáticas sociais no momento em que elas estão em discussão.
Nas edições analisadas, o programa levou ao ar um debate sobre deficientes físicos e os
problemas de acessibilidade que enfrentam (19 jun. 2006). Preconceito, falta de políticas
públicas, ausência de outros fóruns de debate na sociedade para dar visibilidade a esse tema
foram alguns dos aspectos tratados durante essa edição. Para a discussão, o programa levou
para o estúdio pessoas que convivem com a falta de acessibilidade, como Leonardo Mattos,
deputado federal pelo Partido Verde de Minas Gerais e Presidente da Comissão Especial para
o projeto de lei do estatuto das pessoas com deficiência; Lars Grael, velejador; Ronaldo
Correia Júnior, autor do site Dedos dos pés; Marcos Frota, ator, criador e diretor da Unicirco,
Universidade Livre do Circo, com programa de inclusão de deficientes; e Clodoaldo Silva,
atleta paraolímpico da natação.
O assunto foi tratado a partir de duas perspectivas: levar a questão da deficiência física para a
agenda pública, ou seja, torná-la interesse de todos, independentemente da condição física, e
transformá-la em questão de governo. Por conta disso, os participantes do Roda Viva
buscaram dar relevo ao aspecto social do problema, tirando a responsabilidade de promover
ações de transformação apenas dos grupos que sofrem com a questão e torná-la um papel de
238
cada um: “nós iniciamos esse movimento de pessoas com deficiência na década de 80 e ele
sofreu uma série de defecções ao longo dessa mobilização e estou vendo este momento raro,
oportuno da confecção do Estatuto dos Deficientes, no Senado e na Câmara, da Convenção
Internacional das Pessoas com Deficiência, mais uma oportunidade de recuperarmos esse
movimento e, finalmente, pautarmos o Brasil sobre a necessidade de políticas
verdadeiramente públicas e de pautarmos o Brasil sobre um plano diretor voltado
exclusivamente ao processo de inclusão de deficientes” (Leonardo Mattos). Além disso,
ressalta-se o papel dos meios de comunicação em pautar essa temática: “eu acho que o debate
está extremamente interessante para o Brasil todo. Aliás, o Roda Viva tem cumprido esse
papel ao longo da sua existência com pessoas e temas extremamente importantes” (Célia
Leão).
Marília Gabriela Entrevista e Sem Censura buscam representar diversos grupos sociais,
problematizando questões que o jornalismo convencional não trata. A maternidade é um tema
constantemente pautado por esses programas e tratado a partir de um enquadramento que visa
dar às mães as ferramentas necessárias para exercerem bem esse papel. Os problemas da
depressão pós-parto, a culpa das mães que possuem um ritmo de vida acelerado, as formas de
ensino aos filhos são problemas contemplados no programa e tratados a partir da dimensão do
vivido. Alcoolismo, obesidade, depressão, prostituição são temas que também compõem a
pauta desses programas a partir de uma dimensão que salienta os aspectos da vida cotidiana
que problematizam as experiências. Assim, esses programas partem de uma experiência
pessoal para um problema social, e do social para o visível, que ganha na conversação
jornalística uma forma de criar relações afetivas entre os telespectadores, como será visto no
capítulo seguinte.
239
2. TELEJORNALISMO, CONVERSAÇÃO E ENTRETENIMENTO
“Espontaneidade”, “informalidade” e “coloquialidade” são expressões cada vez mais
encontradas nas definições dos produtos jornalísticos televisivos106. A promessa de levar ao
telespectador informação de qualidade associada ao prazer de consumi-la, muitas vezes,
encontra na conversação a estratégia verbal preferencial para a construção de uma espécie de
“telejornalismo light” em oposição ao modelo consagrado dos hard news.
O que parece ser uma tendência irrevogável do telejornalismo para alguns, é motivo de grande
preocupação para outros, pois implicaria a substituição de características centrais ao
jornalismo enquanto instituição social – o serviço ao interesse público, a seriedade, a
racionalidade – por propriedades vinculadas à esfera do entretenimento. Tal visão negativa
provém de uma distinção histórica entre as duas esferas: o jornalismo, na formação de seu
discurso dominante, se apresentaria como área da racionalidade; do lado oposto, o
entretenimento estaria vinculado ao prazer, diversão e distração das coisas sérias. Na
televisão, a discussão ganha contornos ainda mais radicais, pois seria um meio que, por
excelência, estaria voltado ao entretenimento pela conjugação de som e imagem (GOMES,
W., 2004). O casamento entre jornalismo e entretenimento provocaria hibridações funestas
como o infotainment.
No que diz respeito à apropriação da conversação no telejornalismo, nota-se que, conquanto
não seja usada com fins democráticos, ela é vista como prática meramente diversional,
voltada ao prazer dos participantes. Entretanto, o uso da conversação nos programas
jornalísticos televisivos pode oferecer algumas pistas para a compreensão das formas
receptivas da sociedade contemporânea que alia a crítica ao prazer.
Sendo assim, tratar a conversação a partir do entretenimento não significa apreendê-la a partir
de temas vinculados à esfera do lazer e diversão, ou tampouco de um modo de conversar
marcado expressões coloquiais, mas como uma forma de os programas convocarem os
receptores a uma atitude prazerosa enquanto assistem as trocas, prazer este que remete às
106
O site do telejornal Bom Dia Brasil ressalta o “tom informal” e a “espontaneidade” que o telejornal visa
oferecer (disponível em http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MRP746686-16020,00.html, acesso em 6/12/09); o
programa Estúdio I, da Globonews, se apresenta como “informação com inteligência e informalidade”
(disponível em: http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,JOR319-17665,00.html, acesso em 6/12/09); o
Jornal Hoje, por sua vez, aposta numa “linguagem coloquial, sem perder a seriedade” na apresentação das
notícias (disponível em: http://g1.globo.com/jornalhoje/0,,TLI1028-16025,00.html, acesso em 6/12/09).
240
conversações desempenhadas na vida cotidiana. Este capítulo procura abordar a relação entre
telejornalismo, conversação e entretenimento iniciando com uma discussão mais ampla sobre
essa temática a partir de referenciais teóricos que demonstram a conversação como prática
aprazível desempenhada no tempo livre e na vida privada. Considera também o modo como o
modelo dominante de jornalismo rejeitou essa concepção e como o telejornalismo
contemporâneo retoma essa perspectiva a partir da dimensão de prazer para obtenção das
informações. O capítulo prossegue demonstrando, nos programas que compõem o corpus
desta tese, a articulação entre essa dimensão de prazer e a autenticidade das conversações
televisiva, tendo como parâmetro a construção de um efeito de espontaneidade durante as
conversas. Por fim, o capítulo ressalta o modo como a apropriação da conversação no
telejornalismo pode provocar formas de sociabilidade entre agentes do campo televisivo e
audiência, reduzindo a distância entre as duas esferas por meio do relato de experiências
pessoais que buscam fazer o telespectador identificar-se com os assuntos narrados.
2.1. A conversação informal e o entretenimento
Para além das questões que envolvem a prática política e a troca racional de idéias, os autores
que tratam da conversação ressaltam o caráter aprazível das trocas entre os participantes.
Gabriel Tarde define a conversação como “todo diálogo sem utilidade direta e imediata, em
que se fala, sobretudo, por falar, por prazer, por distração, por polidez” (TARDE, 1992, p.
95, grifo meu). Em busca de origens possíveis da conversação, Tarde (idem) retorna ao
período anterior ao surgimento da linguagem escrita para descrever as práticas dos homens
em seu tempo livre. Na Grécia antiga, após passarem por um processo civilizatório, os
indivíduos mantiveram a prática de dialogar para se comprazer enquanto passam o tempo
“sob os álamos que margeiam o Ilisso” (TARDE, 1992, p. 107). Apropriando-se das idéias de
David Hume, Stephen Miller (2006) afirma que antes de obter conhecimento, homens e
mulheres cultivam o hábito de conversar, contribuindo para o prazer e entretenimentos uns
dos outros (Hume apud MILLER, 2006, p. 62). Na reconstrução da história social da
conversação, portanto, os dois autores apontam elementos semelhantes que compõem a
compreensão sobre a prática conversacional: o prazer e o tempo livre.
Por conta disso, é que boa parte dos escritos que se dedicam à caracterização da conversação
em momentos históricos específicos destinam-se à conversação praticada em ambiente
privados, como os cafés, salões, clubes e sociedades na Europa moderna. Segundo Jürgen
241
Habermas (1984), na primeira década do século XVIII, Londres já contava com mais de três
mil cafés com fregueses habituais que falavam sobre temas específicos e com regras de
comportamento características de cada um:
Os juristas discutiam sobre Direito ou assuntos eruditos... no café Nando`s
ou no Grecian... As pessoas da City se encontravam no Garraway`s ou no
Jonathan`s para discutir a alta e a baixa das ações e verificar a taxa de
seguros. Os religiosos conversavam no Trusy`s ou no Child`s sobre as
fofocas da Universidade... (National Review, apud HABERMAS,1984, pp.
299-300).
Na vida privada e enquanto prática da vida cotidiana, a conversação é abordada a partir de sua
dimensão mais aprazível: a conversa permite o deleite, a distração e a formação de vínculos
de amizade por meio de laços emocionais que são partilhados durante a troca. É o fato de
colocar os indivíduos em conjunto, unidos por interesses comuns que a conversação atua
como catalisador de formas de sociabilidade especialmente quando é praticada no tempo livre,
como forma de entretenimento.
As perspectivas iluministas sobre a conversação, porém, impuseram um discurso dominante
do que deveria ser uma conversação racional, voltada para a troca de idéias e de opiniões,
para a argumentação e para o papel cívico dos indivíduos na democracia107. Isso é
conseqüência de uma distinção na Europa moderna entre a esfera da racionalidade e da
emoção. A compreensão do “entretenimento” como distração das coisas sérias também faz
parte de um discurso dominante que se estabeleceu no século XVIII a partir do Iluminismo.
Richard Shusterman (2003) afirma que desde seus usos mais remotos, o termo
“entretenimento” esteve associado à distração, ao lazer, ao prazer. No século XVIII, autores
como Heidegger e principalmente Hegel, na discussão sobre a estética, separaram a
racionalidade embutida na fruição da arte, da distração provocada pela arte popular. Os
autores da Escola de Frankfurt também são responsáveis por essa cisão ao discernirem a alta
da baixa cultura, cabendo à primeira o exercício intelectual e à segunda a distração e o prazer.
Foi essa perspectiva que acabou se disseminando como dominante e influenciou a forma
como as pessoas entendem e lidam com o entretenimento.
Schusterman (idem), porém, afirma que historicamente, “entretenimento” designava “capturar
a atenção”, “ficar absorto”, “pensar”. No século XVII, Michel de Montaigne afirmou que para
107
Essa perspectiva da conversação já foi desenvolvida no capítulo anterior, “Conversação, telejornalismo e
democracia”.
242
o exercício da mente, era necessário haver um momento de distração. Deste modo, o
entretenimento: 1) pode envolver não apenas o mero prazer, mas também o exercício superior
da mente; 2) deveria levar ao prazer; 3) não é um fator negativo que empobrece a mente, pelo
contrário, fortalece o trabalho intelectual providenciando alívio e um exercício alternativo
(SCHUSTERMAN, 2003, p. 295). A distinção, portanto, entre seriedade e diversão, intelecto
e prazer, razão e sensibilidade se deu na ordem da cultura, na formação de um discurso
iluminista que valorizava a razão e reproduzia nas instituições sociais a separação entre as
duas esferas.
Em oposição às formulações frankfurtianas sobre o entretenimento na relação com os mass
media, Walter Benjamin (1982) afirma que a recepção no cinema é marcada por uma relação
com as obras culturais nas quais razão e sensibilidade convergem. Para ele, o divertimento é
uma característica da sociedade contemporânea que traz uma forma de recepção progressista e
superior às antigas.
Esta forma de recepção mediante o divertimento, cada vez mais evidente
hoje em todos os domínios da arte, e que em si mesma é um sintoma de
importantes modificações nos modos de percepção, encontrou no cinema seu
melhor campo de experiência [...]. Se ele rejeita basicamente o valor cultural
da arte, não é apenas porque transforma cada espectador em especialista,
mas porque a atitude deste especialista não exige de si nenhum esforço de
atenção. O público das salas escuras é indubitavelmente um examinador,
mas um examinador que se distrai (BENJAMIN, 1982, p. 238).
Considera-se, portanto, a partir de Benjamin, que o entretenimento é um valor das sociedades
contemporâneas que se expressa nos produtos culturais como uma forma de recepção,
utilizando estratégias diversas, dentre as quais encontra-se a conversação. Na relação com o
telejornalismo, as práticas conversacionais ultrapassam a perspectiva dominante, que a
associa à democracia, e efetua rupturas nas marcas genéricas, permitindo que a audiência
receba as informações a partir do sensível e não apenas do racional. Ao pôr em cena
conversações, os programas procuram aproximar-se das práticas informais cotidianas,
buscando interpelar o telespectador para assumir a mesma postura que adota nas conversações
privadas.
2.2. Os efeitos de espontaneidade e a autenticidade do jornalismo
Dentre as propriedades estéticas da conversação, a mais ressaltada entre os autores é a
espontaneidade. Segundo Peter Burke (1995), a conversação possui quatro regras básicas: o
243
princípio de cooperação (GRICE, 1979), a distribuição igualitária entre os falantes, a
adequação à situação e a espontaneidade e informalidade das trocas. Burke vai além,
afirmando que a espontaneidade não é uma propriedade contemporânea, mas faz parte das
regras dos manuais franceses do século XVII. Segundo esses escritos, a espontaneidade
deveria ser mantida ainda que de maneira performática, evidenciando a deselegância e a
hesitação como parte da encenação de uma conversa espontânea. A fala deveria ser livre,
natural e fácil, evitando mostrar-se demasiadamente forçada e estudada.
A espontaneidade diz respeito à naturalidade e as formas voluntárias que os indivíduos se
encontram na vida cotidiana e suscitam uma conversa. Nas interações casuais da vida
cotidiana, as normas sociais que regulam as conversas são apagadas a fim de construir-se
como uma prática que emerge naturalmente, sem objetivo definido e sem papéis
estabelecidos. Makri-Tsilipakou (2004) afirma que boa parte dos estudos contemporâneos
sobre a conversação trata de uma distinção entre a conversação casual mundana e as trocas
que se passam em ambientes específicos. A autora afirma que no segundo caso, que inclui as
conversações televisivas, constrangimentos formais prevalecem sobre a casualidade e
espontaneidade das interações cotidianas.
Durante os anos 1980, quando o Brasil começou a assistir um processo de redemocratização e
a televisão procurou levar ao ar políticos de diversos partidos e cargos, iniciou-se uma fase de
construção de uma gramática para performance dos agentes do campo político nos produtos
televisivos. A revista Veja de 13 de janeiro de 1982 traz regras sobre como os políticos
deveriam portar-se para conquistar a atenção da audiência, tais como boa postura, serenidade
(evitar atitudes que indiquem nervosismo como engolir a seco, piscar várias vezes),
informalidade (falar como quem conversa), olhar para a câmera a fim de dirigir-se ao
telespectador, demonstrar segurança, entre outros. A influência dos assessores de imprensa se
multiplicou nesse período para reeducar os políticos a lidar com o veículo. Com isso, a
televisão reforçou padrões de comportamento que deveriam ser buscados durante as
conversações, demonstrando as condutas ideais que os entrevistados deveriam ter para
conquistar a audiência: uma conduta regrada, calculada e performática.
Recentemente, porém, o que se nota é a construção de uma autenticidade do telejornalismo
por meio da espontaneidade na divulgação das notícias. A liberdade com relação ao
244
teleprompter, por exemplo, marca uma transformação do papel dos apresentadores que, agora,
legitimam-se pela habilidade verbal: clareza na construção e transmissão das mensagens,
desenvoltura para lidar com improvisos, possibilidade de construção de um discurso próprio.
No caso da conversação, espera-se que os entrevistadores apresentem-se munidos de
conhecimentos sobre a área do entrevistado e, ao mesmo tempo, conduzam a conversa com
liberdade de um roteiro, buscando, na própria interação, os elementos que visam levar
informações, avaliações, argumentos e pontos de vista ao telespectador. Como conseqüência,
o uso do termo “conversa” ou “bate-papo”, como sinônimos de “entrevista” e “debate”, visa
salientar esse aspecto espontâneo, fazendo referência a uma prática da vida cotidiana.
Essa construção, baseada numa suposta improvisação, faz refletir sobre o lugar que a
espontaneidade possui na autenticação do discurso jornalístico atual. Clayman e Heritage
(2003) afirmam que a entrevista era o veículo preferencial de transmissão das notícias pelo
rádio justamente pela sua espontaneidade e informalidade. Quando foi para a televisão,
porém, era difícil para os jornalistas parecerem espontâneos, pois eles apareciam lendo os
roteiros de perguntas de forma artificial. O teleprompter foi um dispositivo que contribuiu
para a construção dessa espontaneidade, pois com ele os textos eram lidos diretamente para a
câmera, exigindo que os apresentadores utilizassem performances cênicas que os fizessem
parecer espontâneos.
A atribuição do caráter de autenticidade aos programas televisivos se modificou ao longo do
tempo, indicando novas formas de recepção televisiva. Quando se vêem diante das
conversações nos programas jornalísticos televisivos, os telespectadores as balizam a partir de
suas experiências na vida cotidiana, pela espontaneidade e naturalidade com que os assuntos
emergem. Segundo Jeffrey Jones (2003), a audiência tem desenvolvido um interesse por uma
relação menos mediada com a conversação televisiva e mais centrada na realidade. O sucesso
que os talk shows fizeram no período de campanha eleitoral norte-americana, levando para os
estúdios os candidatos à presidência, demonstrou que
enquanto a retórica calculada, ensaiada e manipulada das performances
políticas tornaram-se uma desconfortável realidade da vida política no início
dos anos 1990, esses novos fóruns para a conversação política aparentemente
ofereceram um olhar mais genuíno e acessível sobre os candidatos108
(JONES, 2003, p. 166).
108
No original: “whereas the calculated, rehearsed, and manipulative rhetoric of political performance and spin
had become an uncomfortable reality of political life by the early 1990s, these new forums for political talk
seemingly offered a more genuine and accessible look at the candidates”.
245
Essas novas formas de recepção televisiva são conseqüência das hibridações dos gêneros
televisivos cada vez mais comuns contemporaneamente. Realidade e ficção, por exemplo,
misturaram-se formando gêneros que confundem as duas esferas, o que provoca novas formas
de interpretação dos programas109. Segundo Timberg e Erler (2004, pp. 183-184), “os
telespectadores tornaram-se altamente sofisticados sobre os modos de funcionamento da
televisão e responderam crescentemente a programas que misturavam formatos ou criavam
fronteiras entre informação e entretenimento, ficção e realidade110”. Assim, uma nova
competência é requerida para a distinção entre o real e o ficcional. Como parâmetro, a
audiência utiliza como referência o seu próprio mundo para atribuir autenticidade aos
produtos televisivos. François Jost, tratando sobre o “mundo real”, afirma que “o primeiro
reflexo do telespectador é de determinar se, sim ou não, as imagens falam do nosso mundo ou
não, qualquer que seja a idéia que ele tem desse mundo111” (JOST, 2009, p. 42). Por conta
disso é que a espontaneidade emerge como critério para validação de autenticidade das
conversações postas em cena nos programas jornalísticos televisivos, como uma tentativa de
aproximar-se das práticas cotidianas.
Ao passo que buscam alcançar os novos modos de recepção televisiva, os agentes do campo
televisivo e a audiência reconhecem que os constrangimentos impostos pelo meio
permanecem em operação: tempo regrado, distinção de papeis pré-estabelecida, roteiro de
perguntas para dirigir as respostas do entrevistado a fim de alcançar o objetivo da troca, etc.
Sendo assim, a espontaneidade aparece como um efeito desejado pelo campo da produção,
uma estratégia para fazer crer que aquela conversa é natural e voluntária. Assim, os
programas procuram efetuar um apagamento das marcas televisivas para inserir o
telespectador como participante de uma conversa. Quanto mais os programas conseguem
esconder os elementos da gramática televisiva ou naturalizá-los, maior o efeito de
espontaneidade e, por conseguinte, maior autenticidade. Essas estratégias dizem respeito,
109
Como conseqüência, alguns formatos se estabeleceram com base na mistura entre ficção e realidade. O talk
show The Daily Show, apresentado por John Stweart, por exemplo, faz uma paródia dos talk shows inserindo
elementos ficcionais, personagens que parecem estar desenvolvendo uma ação já conhecida: um falso repórter
imita quadros de previsão do tempo, notícias inventadas são dadas como verdadeiras, etc.
110
No original : “ viewers had become increasingly sophisticated about how televisivon worked and were
responding increasingly to shows that blended forms or crossed the boundaries between news and
entertainment”.
111 No original: “(…) le premier réflexe du téléspectateur est de déterminer si, oui ou non, les images parlent de
notre monde ou non, quelle que soit l‟idée qu‟il se fait de ce monde”.
246
sobretudo, à performance dos participantes e a forma de lidar com o tempo, com a introdução
dos assuntos durante a troca, com as atitudes dramáticas para reconstruir experiências.
Para compreender as performances dos participantes que interagem nos programas, é
necessário entender o modo como controlam suas ações durante a troca e que impressões
pretendem provocar no outro, que pode ser o interlocutor ou o telespectador. Segundo Erving
Goffman (2005), os encontros entre os indivíduos na vida cotidiana são marcados por
operações básicas que denotam um modo de agir específico naquela situação. Por conta disso,
os indivíduos partilham certas informações básicas uns sobre os outros, informações que
podem ser fornecidas antes do encontro ou durante a interação. Como conseqüência, Goffman
(idem) afirma que, a todo momento, quando estão em contato uns com os outros, os
indivíduos estão representando um papel diante de uma platéia e o que varia é a crença que se
tem sobre esse papel, seja a crença do interlocutor, seja a do próprio falante em si mesmo.
Quando há uma coincidência entre a crença pessoal e a crença dos demais interlocutores nas
atitudes e palavras proferidas por um indivíduo, ocorre o que o autor denomina fachada, ou
seja, um padrão de comportamento do indivíduo em diversas situações. A fachada representa
o “verdadeiro eu”, um conjunto de ações que caracterizam o indivíduo e, por isso, permite que
os demais participantes saibam como agir diante dele. É essa correspondência entre a
impressão que pretende provocar e a crença que os demais possuem sobre o interlocutor, entre
o “verdadeiro eu” e as atitudes do falante que atribui autenticidade ao indivíduo. Quando
essas esferas não são correspondentes, há uma impressão de falseamento e, como
conseqüência, acontece a perda da credibilidade no indivíduo.
Essas idéias básicas de Goffman (idem) permitem pensar em três maneiras pelas quais os
participantes constroem ou perdem a autenticidade durante a conversação: o “desvendamento
do eu” compactuado pelos participantes; o reforço ao papel social; o falseamento da fachada.
O “desvendamento do eu” do entrevistado evoca um sentido de mostrar a pessoa “real” para
além de seu papel social. João Freire Filho (2009) analisa os reality shows e programas de
estilo de vida não a partir de uma perspectiva que supervaloriza a atitude de voyerismo dos
telespectadores, mas do prazer que a audiência encontra nesses programas ao buscar marcas
de sinceridade e espontaneidade na performance dos indivíduos na cena televisiva. Freire
Filho (idem) relata o trabalho de Adrejevic, segundo quem a aferição de valor a esses
programas reside, não no prazer de espiar a vida alheia (concepção típica dos autores que
247
afirmam o voyerismo como uma patologia da sociedade contemporânea), mas na busca por
“vislumbres objetivos (não roteirizados ou arquitetados) do subjetivo” (FREIRE FILHO,
2009, p. 7). É nos momentos de fragilidade emocional que o “verdadeiro eu” se manifesta e é
nessa atribuição de veracidade ao papel desempenhado na tela que se constrói o prazer da
recepção desses programas.
Somos sensibilizados, através de narrativas e explanações emocionalmente
persuasivas, para a importância da elaboração da autenticidade, da
configuração de uma identidade e de uma imagem distintiva e fiel ao nosso
eu interior. A autenticidade é exaltada como motor de uma vida significativa,
psicologicamente satisfatória e socialmente recompensadora, tornando-nos,
ao mesmo tempo, sujeitos mais confiantes e confiáveis (FREIRE FILHO,
2009, p. 11).
É no sentido de mostrar à audiência a “pessoa real” que está ao fundo de seu atributo como
celebridade ou personalidade pública que a conversação desempenha um papel central nos
programas. As perguntas biográficas e intimistas têm como finalidade disponibilizar para os
telespectadores informações que não aparecem no desenvolvimento das atividades
profissionais dos entrevistados. Em certos casos, o objetivo da conversa é justamente negar
imagens estabelecidas sobre os indivíduos em outras esferas midiáticas e mostrar o indivíduo
como “gente comum”, como foi o caso da entrevista de Fátima Bernardes a Marília Gabriela:
Marília Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Fátima, me pediram para fazer uma coisa na abertura do programa.
Sim.
Para você me dizer um defeito que você tenha de fato. Que você considere ter,
porque você é a imagem da mulher perfeita, o que para a gente é meio terrível
[sobreposição].
Ah, eu tenho vários. Vou começar dizendo um: que eu com fome sou
insuportável [...]. E eu sou muito ansiosa. Eu acho isso um grande defeito [...].
Você já fez análise?
Eu fiz durante um tempo pequeno, uns dois anos e fiz muito motivada,
inicialmente, por uma fobia imensa de avião que surgiu depois do nascimento
das crianças [...].
Mas olha, você sabe que é muito legal você falar disso, porque você sabe
também que tem essa imagem de mulher perfeita. Aliás, isso é uma imagem
que te incomoda às vezes ou não?
Não... é uma imagem que eu não vejo...Quer dizer, eu não sei porque essa
imagem de tanta perfeição. Acho que ela está muito associada à imagem da
apresentadora do jornal, que tem que estar com o cabelo que não pode cair no
olho, e que a maquiagem está correta, e que a roupa é discreta.
[interrompendo] E que parece que está tudo bem.
As pessoas imaginam aquilo ali como a nossa sala de visitas, embora a gente
exercite diariamente aquilo que não seja. E...então elas têm uma imagem de
que tudo funciona na nossa vida. Elas vêem trinta e oito minutos de jornal, né.
E aí elas não vêem toda a correria para chegar ali [...].
248
(Edição de 13 jan. 2008)
Como uma de suas marcas centrais, o “desvendamento do eu” no Marília Gabriela Entrevista
busca estabelecer uma relação de proximidade com a audiência, que reconhece, em seus
relatos, experiências, gostos, problemas e características aspectos comuns com os quais pode
identificar-se. Para evidenciar a integridade entre a vida privada e a vida pública do
entrevistado, os programas buscam salientar as histórias de vida, experiências e características
pessoais a fim de reforçar os comportamentos congruentes ou confrontar os entrevistados com
posturas paradoxais entre o discurso defendido e o vivido, como se pôde perceber na
entrevista com Heloísa Helena no Roda Viva:
Alexandre
Machado:
Heloísa Helena:
Tereza Cruvinel:
Heloísa Helena:
Tereza Cruvinel:
Heloísa Helena:
A quem mais a senhora tem horror, ao PT ou ao PSDB?
Não, não, não, a ninguém, nadinha, nadinha. Eu não tenho horror pessoal por
ninguém, eu sou um poço de ternura [leva as mãos ao peito], uma fofa [risos].
Só não gosto de cinismo.
E nesse poço de ternura, a senhora acha mesmo necessário usar linguagem
tão pesada, contrária a sua ternura na vida privada?
Na vida privada?
Todo mundo sabe que a senhora é uma pessoa terna, mas a senhora enche a
boca com palavras mais pesadas, acha necessário isso?
É porque, veja só, se fosse na minha casa, eu aceitava? Se fosse com a minha
filha ou o meu filho, eu aceitava? Então, eu sou desse tipo de jeito, aliás, sou
da turma de Jesus Cristo ou quente ou frio, era ele quem dizia, não sou eu não,
entendeu? [...] Eu estou dizendo que cada pessoa tem seu jeito, tem gente que
faz a luta implacável bem serena e tem gente que faz a luta implacável um
pouco mais abusada.
(Edição de 12 jun. 2006)
Nessa operação de desvendamento, a conversa mostra-se autêntica pela liberdade gestual dos
participantes e expressões faciais que coloquem ênfase em momentos relevantes da narrativa.
A gestualidade aparece na composição do discurso do entrevistador a fim de inserir-se na
troca a partir de uma dimensão pouco roteirizada e mais próxima às atitudes cotidianas. O
jogo de enquadramentos de câmera durante a conversação busca conduzir o olhar do
telespectador para os aspectos expressivos que os falantes empregam enquanto constroem seu
discurso, por isso o enquadramento preferencial é o plano americano, que procura mostrar as
mãos do entrevistado e consequentemente seus movimentos mais imediatos. Para dar maior
249
ou menor ênfase ao gestual, os planos podem abrir ou fechar nos entrevistados, a fim de
evidenciar a espontaneidade dos falantes enquanto interagem.
Figura 33: gestos expressivos dos entrevistados
Fonte: Sem Censura (27 abr. 2009), Marília Gabriela Entrevista (18 nov. 2007; 28 mai 2006)
Segundo Goffman (op.cit.), há fachadas que são culturalmente estabelecidas para guiar certos
papeis sociais, e por isso, os indivíduos vão agir num encontro com base num consenso sobre
o que é ser médico, advogado, político, jornalista. É nesse sentido que os participantes da
conversação reforçam o papel social que carregam anteriormente à interação, acionando
conhecimentos prévios sobre sua função ou sua personalidade. A performance dos atores,
quando pretendem reforçar seu papel social, é controlada, a fim de mostrar equilíbrio e
segurança para tratar dos assuntos que autorizam sua presença no programa.
Quando os telejornais, por exemplo, convocam os jornalistas especialistas, sua participação
no programa limita-se a seu campo de atuação, por conta disso, eles não fazem parte da
transmissão inteira do programa, mas aparecem em momentos específicos para levarem sua
contribuição. A construção de trajetórias no campo jornalístico atribui relevância ao papel
social que desempenham e levam para a conversação as informações prévias que os demais
participantes devem possuir sobre ele. O destaque que os apresentadores dão ao papel do
250
comentarista nas chamadas dos programas – “Merval Pereira comenta”, “com os comentários
de Míriam Leitão” – visa atribuir maior autoridade ao seu discurso. Durante a troca, reforçam
a construção de sua fachada por meio de expressões como “eu estive com...”, “eu conversei
com...”, que indicam seu acesso profissional ao acontecimento que pretendem interpretar.
O destaque ao papel social é compactuado pelos programas jornalísticos, pois a finalidade da
conversação é a transmissão de informações e/ou a reflexão sobre fenômenos sociais. Sendo
assim, há um objetivo específico para a conversação e, por vezes, ela é pautada a partir desse
papel social. No Observatório da Imprensa e no Sem Censura os convidados são apresentados
à audiência a partir de sua profissão e de seu propósito na cena: “para debater esse tipo de
censura que vem dos tribunais, estão conosco Ricardo Gandu, diretor de conteúdo do grupo
Estado, e Aloísio Maranhão, diretor de Opinião do jornal O Globo” (Alberto Dines no
Observatório da Imprensa, 18 ago. 2009), “será que a „abusante112‟ Undira reclama seus
direitos? Undira é vivida pela atriz Luci Pereira. É uma das empregadas domésticas da novela
Caminhos das Índias” (Leda Nagle no Sem Censura, 30 abr. 2009). Os convidados não são
inseridos na conversa apenas pela profissão – diretor de conteúdo, atriz, etc – mas a partir de
um tema específico que lhe autoriza a tratar sobre os assuntos.
No Roda Viva e no Marília Gabriela Entrevista a apresentação dos entrevistados mescla
aspectos da vida pública com informações de sua vida pessoal que podem servir para levar o
telespectador a conhecer a trajetória do entrevistado em sua área de atuação ou estabelecer
uma relação de proximidade com a audiência: “Tariq Ali costuma se definir como um
„muçulmano não-muçulmano‟. Ao mesmo tempo em que se posiciona contra o império
americano, também é contra o fundamentalismo religioso. Escritor, roteirista e cineasta, Tariq
nasceu no Paquistão e estudou na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde vive. Escreveu
biografias, romances, obras de história e política internacional, muitas obras já traduzidas para
o português e lançadas no Brasil. Recentemente, na Flip, a Festa Literária Internacional de
Parati, Tariq lançou sua última publicação, Um sultão em Palermo - o quarto livro do
Quinteto Islâmico, série que enfoca a grandeza da contribuição do islã e seus confrontos com
o Ocidente [...].” (Paulo Markum, 21 ago. 2006). No Marília Gabriela Entrevista os aspectos
pessoais são fornecidos no início do programa num clipe com fotografias do personagem a ser
entrevistado.
112
Expressão utilizada pela atriz na construção de sua personagem durante a telenovela.
251
Quando a performance dos participantes se volta mais diretamente para o reforço ao papel
social, pode ocorrer uma disputa na construção de autoridade e pelo domínio do discurso,
especialmente quando o objetivo do programa é oferecer um debate marcado pela contradição
de idéias. Segundo Michael Schudson (2003), em cada entrevista, há uma construção de
autoridade, tanto pelo jornalista quanto pela fonte. O inquérito não visa apenas obter
informações, mas destaca uma das partes no domínio discursivo. É uma disputa de poder de
quem tem a melhor resposta, o melhor argumento. Schudson (idem) afirma que “em qualquer
conversação existe potencialmente uma tensão entre a fala como forma de solidariedade que
estabelece ou reforça uma relação de igualdade entre duas pessoas, e a fala como afirmação
de poder, estabelecendo ou restituindo uma hierarquia113” (SCHUDSON, 2003, p. 75). Sendo
assim, o ato de perguntar e responder não é neutro, mas promove disputas pelo poder da
palavra, quem dá a palavra final, quem transmite a verdade.
De um lado, os jornalistas procuram assegurar seu lugar social na obtenção das informações,
assumindo, muitas vezes, uma postura dura – que se traduz no uso de perguntas
investigativas, na interrupção das respostas, na sobreposição, na ironia. Do outro lado,
encontra-se a fonte, que possui legitimidade em outras esferas sociais, mas está desligada do
campo jornalístico. Em função disso, a fonte ocupa uma posição de desvantagem na
conversação, uma vez que a troca se passa num ambiente já identificado com os
apresentadores e, por isso, naquele espaço, é o apresentador que controla a situação.
As disputas pelo poder da palavra durante a conversa se dão de maneiras diversas. Marília
Gabriela prefere manter o clima cordial da conversa a fim de assegurar a relação de
intimidade que constrói com seus entrevistados. Por conta disso, a apresentadora procura dar
mais espaço às falas do entrevistado e deixar com ele a palavra final quando o assunto tratado
provoca oposição de idéias:
Marília
Gabriela:
Caco
Barcellos:
Marília
Você não acha curioso que o país tenha um presidente eleito duas vezes, um
retirante, um migrante nordestino, um homem que saiu da ...
Uma trajetória incrível.
Uma trajetória fantástica e que, apesar disso, apesar de ele estar lá, as classes
113
No original: “in any conversation, there is potencially a tension between talk as a form of solidarity that
establishes or reinforces an egalitarian relationship between two people and talk as an assertion of power,
establishing or restating hierarchy”.
252
Gabriela:
Caco
Barcellos:
Marília
Gabriela:
Caco
Barcellos:
Marília
Gabriela:
Caco
Barcellos:
Marília
Gabriela:
Caco
Barcellos:
privilegiadas continuam cada vez mais privilegiadas?
É, e é um lado do governo dele, né. Porém...
Explica porque isso acontece...
Do outro lado, ele tirou muita gente da pobreza, né. Eu não sei... quem sou eu para
estar analisando um governo e a figura do Lula. Não sou a pessoa mais indicada para
isso. Mas me parece que ele sempre foi muito hábil e importante na liderança dos
trabalhadores em busca de melhores salários, tanto que o ABC hoje tem um salário
diferenciado em relação à média nacional. Porém, nos outros segmentos eu acho que
ele não tinha um grupo muito efetivo para ajudá-lo e tocar os assuntos, questões
nacionais como meio ambiente e outras.
E no caso da justiça que mais recentemente tem me impressionado? É a equipe dele.
Mas são poderes independentes, né, são independentes, Marília. Mesmo nessa
questão da violência, que é um pouco menor do que da justiça, você tem um
governador que é radicalmente contra essa política do extermínio e é justamente na
gestão dele que esse extermínio aumenta, porque quem manda nessa questão do
extermínio é o coronel, o chefe do batalhão. O soldado sabe que a ordem vem do
chefe que vai continuar ali quando o governador for embora. Ele tem que obedecer a
esse coronel. É uma questão, parece particular, mas que ajuda a explicar muito.
sim, há uma teia...
Eu acho que hoje o presidente não consegue governar por iniciativa própria. Há toda
uma circunstância que faz que ele obedeça os seus limites de ação. Os governantes
sempre se queixam disso: “eu tento fazer, mas eles não deixam”. [...] Eu acho que
quanto mais evoluída a sociedade, menor o poder de dependência, eu diria, de
exercício da vontade própria do presidente e tem que ser assim, a sociedade que
define os rumos.
(Edição de 07 set. 2008)
O Roda Viva constrói posições adversárias entre entrevistadores e entrevistado quando leva
para a arena representantes políticos, independentemente do cargo que ocupam, exercendo sua
função de poder moderador. Em muitos casos, todos os entrevistadores se unem contra o
entrevistado, ou são formados “partidos” entre os mediadores favoráveis às idéias do
entrevistado e os contrários a ele.
No Observatório da Imprensa, é visível o domínio que Alberto Dines oferece à construção de
autoridade durante a conversação. Embora ofereça aos participantes o mesmo tempo para
desenvolverem suas idéias, quando os convidados se mostram contrários, ele usa seu lugar
como condutor do programa para dar a palavra final, como se pôde ver na proposta de um
pacto da imprensa contra o terrorismo114. É o mesmo mecanismo que permite a Leda Nagle,
no Sem Censura, interromper a fala da juíza do trabalho, Luciana Neves (30 abr. 2009) e a
114
Ver “O Observatório da Imprensa e os arautos do jornalismo”, na parte II.
253
Renato Machado, no Bom Dia Brasil, superar os demais mediadores encerrando seus
comentários:
Cláudia
Bomtempo:
Renato Machado:
Bom, em caso de vitória do PT nas eleições para presidente, há compromisso
de coalizão com o PMDB, afinal, um eventual governo petista precisa de uma
base de sustentação no Congresso, Renato. Mas é preciso deixar bem claro
que esse PMDB é a ala governista do partido.
Sim, Cláudia. O PMDB está dividido. E por exemplo, o PMDB de Santa
Catarina já disse que vai apoiar o candidato da oposição.
(Edição de 06 jun. 2006)
A atitude demasiadamente controlada dos participantes em função da construção de seu papel
social tem como conseqüência um terceiro aspecto sobre a performance dos participantes.
Para desestabilizar o domínio que os entrevistados possuem sobre as impressões que
pretendem causar, os entrevistadores buscam capturar os elementos que escapam ao controle:
as expressões de indignação e raiva, os sinais de nervosismo, as hesitações e deslizes durante
as respostas. Goffman (2005) chama a atenção de que pequenos deslizes podem desconfigurar
a impressão que se pretende causar. Esses deslizes são involuntários, como o gaguejar, uma
tosse, uma crise de risos e outras manifestações físicas que põem em cheque o papel que se
pretende incorporar. Por isso, para Goffman (idem), a manutenção de uma representação
controlada não se sustenta por muito tempo. Face a essa possibilidade de desfigurar a
representação, é possível também, falseá-la, ou seja, demonstrar para a plateia algo que não é
verdadeiro. Ao considerar a veracidade e a falsidade das representações, Goffman (idem)
afirma que as fachadas verdadeiras são uma resposta involuntária do indivíduo à situação,
enquanto as falsas são previamente planejadas.
Durante as conversações mais tensas, os jornalistas procuram levar o entrevistado ao
desequilíbrio e evidenciar uma reação espontânea que revele seu “verdadeiro eu”, que escapa
do controle da ação durante a conversa. Ao mesmo tempo em que a demonstração do
falseamento da performance revela uma falta de espontaneidade do entrevistado e, por
conseguinte, a perda da autenticidade de seu discurso, é justamente nos momentos em que os
entrevistados permitem ver pequenas deixas de seu “eu real” que o debate atinge o clímax,
pois indica o nível máximo de tensão. É o caso de expressões de irritação como “meu filho,
pelo amor de Deus, não seja ingrato” (Lula no Roda Viva, 16 out. 2006), “não é suspender
minha Nossa Senhora” (Heloísa Helena no Roda Viva, 12 jun. 2006).
254
Outra forma de falseamento da conversa diz respeito não tanto à performance dos
personagens, mas aos recursos técnicos que visam direcionar o olhar da audiência para as
interações. Para criar um efeito de espontaneidade, os programas empregam esses recursos –
enquadramentos, edição, sonorização – de modo preciso, dirigindo o olhar do telespectador de
um falante ao outro. Os telejornais Bom Dia Brasil e Jornal das Dez são bons exemplos dessa
configuração. Com mediadores espalhados em diversos estúdios, os telejornais contam com
um telão por meio do qual podem interagir e presentificar-se durante a conversa. No Jornal
das Dez, a interpelação de um mediador a outro ocorre nos momentos iniciais do programa,
quando trata especialmente de política e economia. No restante do programa, é o apresentador
André Trigueiro que introduz as notícias sem buscar interlocução com os demais mediadores
presentes nos estúdios.
O Bom Dia Brasil se costura por meio de interpelações constantes de um mediador a outro,
como se eles mesmos apresentassem as notícias numa conversa que abarca todos os
mediadores e a audiência. A passagem da palavra de Renato Machado para Renata
Vasconcelos, para Mariana Godoy e assim por diante evidencia uma aparente fluidez de um
tema a outro, como se os assuntos puxassem novas abordagens. O corte abrupto de um
assunto a outro, marcado pelo recurso do corte seco, nesse telejornal, dá lugar a uma forma de
apresentação em que os diversos enfoques sobre os temas são agrupados em blocos
interligados pelo chamamento de um mediador a outro.
Essa estrutura conversacional é da ordem do “fazer crer” que aquela conversa é espontânea,
uma reprodução das trocas que ocorrem na vida cotidiana. No entanto, essa construção é
nitidamente regrada por um script que indica, inclusive, os momentos em que os mediadores
podem oferecer um comentário “espontâneo”, livre do teleprompter. A sincronia da passagem
da palavra com o trabalho de direção de imagens demonstra o rigor técnico do programa em
conjugar a fala de cada um com os enquadramentos que os inserem na cena, tornando
evidente o rígido controle que o programa efetua na condução da estrutura conversacional. O
telespectador é inserido na conversa por meio de um jogo de enquadramentos que se fecha no
mediador falante, abre-se para mostrar a transição de um para outro e fecha-se novamente
para aproximar a audiência do novo mediador. Esse “fazer crer” que simula espontaneidade
permite que a audiência seja posicionada não como espectadora distanciada, mas engajada na
conversa.
255
Quando ocorre uma falha, porém, nesses recursos técnicos e os mediadores se vêem em reais
possibilidades de agir espontaneamente, percebe-se quão regrada é a troca, o que revela seu
falseamento e a perda da autenticidade. Da Alemanha, o apresentador Tadeu Schmidt dirigiuse a seus colegas presentes no estúdio do Rio de Janeiro provocando um momento em que a
participação era livre:
Tadeu Schmidt:
Renata
Vasconcellos:
Tadeu Schmidt:
Renato Machado:
[...] O que parece que não vai mudar por aqui é o frio, viu, gente, porque
quando começou o Bom Dia estava um pouquinho mais de dez graus, agora
está um pouquinho menos. Mas com certeza teremos dias quentíssimos, se
Deus quiser, dias muito felizes aqui na Königstein. Estava com saudade de
vocês, viu, Renato, Renata.
[os dois respondem ao mesmo tempo] A gente também, Tadeu.
[breve silêncio] Estava aqui olhando o cenário novo. É bonito, viu.
é, pois é. Mas a gente vai ficar se vendo, Tadeu. Todos os dias.
(Edição de 05 jun. 2006)
Quando a conversa se mostra muito roteirizada, há, para o telespectador, um desconforto
provocado pela apresentação demasiadamente regrada e controlada. Pela competência cultural
adquirida, o telespectador sabe que existem limites que configuram uma conversação
televisiva – limites referentes ao tempo, por exemplo – mas atribui maior ou menor
autenticidade pela forma como os participantes lidam com esses constrangimentos impostos
pelo meio. Assim, a atribuição de autenticidade à conversação se dá pela proximidade com a
prática cotidiana e pela habilidade dos mediadores em lidar com o improviso.
2.3. A partilha de experiências e a construção de afetividade
Numa análise da história da conversação, Peter Burke salienta que o significado do termo
latino para conversação, “conversatio”, aproximava-se de “intimidade”, uma vez que
ressaltava relações sociais entre pessoas próximas. João Freire Filho (2009, p. 2) lembra que o
termo latino “intimus” é o superlativo do adjetivo “interior”, significando, portanto, “o mais
afastado”, “o mais recôndito”, “o mais secreto”, “o âmago”. Sendo assim, a esfera da
intimidade está ligada ao lar, os sentimentos, aos pensamentos e sensações, enfim, a tudo que
diz respeito ao “mundo interior do indivíduo” (FREIRE FILHO, 2009, p. 2). Na esfera íntima
residem os segredos e confidências que culminam no sentido de “confiança”, uma amizade
estreita entre duas pessoas. Sendo assim, a conversação aparece enquanto prática da vida
256
cotidiana na qual os indivíduos podem despir-se emocionalmente, revelar seus segredos,
encontrar interesses comuns e compartilhá-los.
Consequentemente, a conversação é um meio de os indivíduos se reconhecerem mutuamente
e interagirem no mundo social. A propriedade socializante da conversação tem sido ressaltada
por diversos autores. David Hume afirmava que a conversação promove tanto o
desenvolvimento intelectual quanto a saúde emocional por criar e fortalecer relações de
amizade (apud MILLER, 2006, p. xi). Para Gabriel Tarde, quando dois indivíduos se
encontram, “a conversação que mantêm é apenas um complemento de seus olhares
recíprocos, através dos quais se exploram e buscam saber se pertencem à mesma espécie
social, ao mesmo grupo social” (TARDE, 1992, p. 130) e segundo Diane McWhother,
“conversar é o que nos ata enquanto povo” (MCWHOTHEr apud MILLER, 2006, p. 12).
Mesmo nas conversações institucionalizadas no ambiente televisivo, a conversação possui um
valor emocional relevante para a criação de afetos: “há um lugar no espectro televisivo para
conversas se elas são realmente boas, se são informativas, espirituosas e sentimentais115”
(ROSE apud MILLER, 2006, p. 20).
Embora a questão da intimidade na televisão seja abordada nos estudos acadêmicos a partir de
um olhar funesto sobre a relação entre público e privado, pretende-se, neste momento,
apresentá-la a partir de uma perspectiva mais positiva, capaz, inclusive, de associar-se a
parâmetros jornalísticos para o tratamento dos assuntos. Conquanto o jornalismo tenha se
construído socialmente como instituição responsável por prover a sociedade com informações
que ampliem seu capital cognitivo, a abordagem da vida alheia já existia nas páginas dos
jornais desde o século XVII, o que permitiu o surgimento de um jornalismo tablóide,
identificado com notícias sensacionais sobre crimes, escândalos morais sobre as elites, contos
humorísticos (ÖRNEBRING; JÖNSSON, 2004, p. 10). A aproximação com a o modelo
iluminista, porém, destituiu das páginas dos jornais “sérios” essa abordagem, valorizando,
apenas, a função política da imprensa e a narrativa ideal que valoriza o relato objetivo.
115
No original: “I believe that there is a place in the spectrum of television for really good conversation, if it is
informed, spirited, soulful”.
257
A noção habermasiana de esfera pública atribui ao jornalismo a função de alcançar a
audiência a partir de seu papel cívico, ignorando interesses outros que envolvem o indivíduo
enquanto pessoa comum:
[...] a audiência midiática não é apenas formada por cidadãos, mas também
por indivíduos privados com amplo espectro de pensamentos e, não menos
importante, sentimentos. O jornalismo tablóide, por outro lado, é
freqüentemente direcionado mais ao sentimento e sensibilidade do que à
razão e racionalidade, e é, a esse respeito, próximo ao modelo ideal de
narrativa jornalística. Para motivar os cidadãos a assumirem seu lugar no
discurso político, é necessário para as notícias midiáticas tentar alcançar e
apelar a ambos: a mente humana racional e às emoções. Atrair o interesse da
audiência é um dos principais objetivos da seleção e apresentação das
notícias116 (ÖRNEBRING; JÖNSSON, 2004, pp. 8-9, tradução nossa).
É nessa vinculação com o sensível e emocional que a abordagem da vida privada dos
indivíduos se mostra pertinente para pensar papeis outros do jornalismo que corroboram com
sua dimensão democrática. Considerar a audiência a partir de seus sentimentos envolve menos
uma abordagem jornalística direcionada a uma temática voltada para o emocional, do que às
formas narrativas que valorizam os aspectos vividos como forma de legitimar a informação.
Sendo assim, o “relato objetivo dos fatos” – modelo identificado com o discurso dominante
do jornalismo – pode dialogar com testemunhos pessoais partilhados pelas pessoas que vivem
determinada situação. A conversação pode ser um veículo para isso uma vez que, nos
programas, é notável o esforço dos mediadores em utilizar perguntas biográficas ou intimistas
para solicitar dos convidados uma explicação de suas idéias ou de suas escolhas de vida a
partir de experiências pessoais.
Buscando caracterizar a experiência estética a partir do prazer gerado pela socialização dos
indivíduos, George Mead (1926) chama atenção para o fato de que as experiências, quando
vividas em conjunto, são apreendidas a partir de uma dimensão de deleite, que envolve o
simples fato de colocar as pessoas em contato em direção a uma finalidade comum. Para
Mead (idem), a experiência estética parte da necessidade de interpretar as complexidades da
116
No original: “The media audience are not only citizens, but also private individuals with a great spectra of
thoughts and, not least important, feelings. Tabloid journalism on the other hand is often directed more towards
sensibility and feelings than sense and rationality and is in this respect closer to a narrative model of journalism.
To motivate the citizens to take part in the political discourse, it may be necessary for the news media to try to
reach and appeal to both the human rational minds and emotions. To attract the interest of the audience is one of
the main goals of news selection and presentation”.
258
vida social em termos dos objetivos e dos esforços dos indivíduos em alcançá-los. Por conta
disso, o autor se opõe às perspectivas que afirmam que a divisão de trabalho na sociedade
industrial impediu as formas de socialização e contato entre os indivíduos. Ao contrário, é
justamente no emprego do esforço conjunto para alcançar uma finalidade que os trabalhadores
de uma indústria encontram prazer na experiência.
Com base nisso, Mead (idem) reconhece no cinema e no jornalismo formas novas de obter
prazer pela recepção coletiva do produto. Para o autor, a simples leitura dos jornais e o
contato com assuntos comuns provocam uma recepção prazerosa, uma vez que ultrapassa o
nível do pessoal e une os indivíduos em torno de questões vividas socialmente. Sendo assim,
o caráter generalizante dos assuntos pautados pelo jornalismo permite uma experiência
comunitária e a identificação do grupo social ao qual o indivíduo faz parte.
Se essa forma de resultado prazeroso possui uma função estética ou não
depende de se a história da notícia, após ser lançada em seu formato
aceitável, serve para o leitor interpretar sua experiência como uma
experiência partilhada pela comunidade à qual pertence. Essas formas, no
final das contas, são as formas determinantes que interpretam sua
experiência social117 (MEAD, 1926, p. 390, tradução nossa).
O relato de uma experiência pessoal, quando levada a público pela televisão permite que o
acontecimento individual ganhe relevo para a sociedade e, assim, formem-se grupos de
interesses a partir dos assuntos levantados. Objetiva-se neste momento tratar de quatro
finalidades dos testemunhos na conversação encenada em programas jornalísticos televisivos
e uma conseqüência. O relato das experiências no telejornalismo pode servir para criar
interesses comuns entre os participantes em cena e os telespectadores, fortalecer argumentos,
provocar uma discussão de aspectos relevantes para a sociedade e dar sentido às experiências
vividas de modo que ajude outras pessoas que passam por situação semelhante. A
conseqüência do relato de experiências é a formação de vínculos afetivos que permitem
pensar em formas de sociabilidade.
117
No original: “Wheather this form of the enjoyed result has an aesthetic function or not depends upon whether
the story of the news, after being thrown into this acceptable form, serves to interpret to the reader his experience
as the shared experience of the community to which he belongs These forms are after all the determining forms
which interpret his social experience”.
259
A) Criação de interesses comuns
Ângela Marques (2009, p. 8) a firma que a “a conversação é uma dinâmica comunicativa que
se desenvolve com maior freqüência entre indivíduos que partilham as mesmas idéias, hábitos
e experiências”, ou seja, indivíduos semelhantes desenvolvem laços afetivos, por meio da
conversação, embasados em interesses comuns compartilhados. Ao se porem em contato pela
primeira vez uns com os outros, os indivíduos podem iniciar a interação por meio da busca
por informações – a fim de suprir uma necessidade específica – ou pela identificação de algo
que seja partilhado por ambos, o que poderá provocar uma repetição de interações e a
formação de uma amizade.
Nos programas jornalísticos televisivos, embora o privilégio seja a busca pela informação,
não se pode obliterar a tentativa dos apresentadores em identificar em seu entrevistado
aspectos comuns que os integrem durante a conversa. Esse aspecto comum pode ser um gosto
(Renato Machado em relação à música erudita), a profissão (Marília Gabriela em relação ao
jornalismo nas entrevistas com Caco Barcellos e Fátima Bernardes), um relacionamento,
experiências semelhantes, idéias coincidentes sobre um assunto ou qualquer outro elemento
que ponha os participantes em uma situação de partilha:
Marília Gabriela:
Ingrid Guimarães:
Marília Gabriela:
Ingrid Guimarães:
Marília Gabriela:
Ingrid Guimarães:
Marília Gabriela:
Ingrid Guimarães:
Marília Gabriela:
Ingrid Guimarães:
Quando você disse que tem a insegurança, você disse assim: “ah, tem o meu
ego”, que você vai resolver lá com a minha homônima, a Marli [terapeuta da
atriz, que, num ato falho, trocou o nome da apresentadora pelo da sua
psicóloga]...
Marli, eu já resolvo muita coisa com a minha Marli.
Por que? Qual é o problema do ego?
Primeiro, assim, como a minha vida foi muito ralada para conseguir tudo, eu
sempre acho que alguma coisa vai desaparecer. A Marli fala: “Ingrid, mas a
sua carreira é mais que consolidada”. Eu falo: “não...”. E depois, se ver é
muito complicado, né?
Se ver eu acho...
Eu odeio me ver.
Que bom. Bem-vinda ao clube [apertando as mãos].
Eu sei, eu sei porque eu tenho várias coleguinhas que concordam comigo.
É um problema.
Porque eu nunca acho bom. Eu nunca acho bom. Eu tenho que perguntar para
o outro: “- é bom? – é ótimo – ah, então tá”.
(Edição de 25 nov. 2007)
Como conseqüência, espera-se que o telespectador também encontre nos assuntos em comum
algo que o faça sentir-se parte da conversa. O apresentador busca enquadrar a conversa a
260
partir de elementos gerais que podem alcançar a todos. No Marília Gabriela Entrevista, o
foco em “questões da alma” visa incorporar o telespectador na intimidade que se busca
durante a conversa. Por conta disso, Marília Gabriela procura tratar de sonhos, frustrações,
defeitos, qualidades, medos, ou seja, emoções que podem ecoar nas experiências cotidianas da
audiência. A esfera íntima, aqui, tem como finalidade criar essa proximidade entre os
participantes no estúdio e os telespectadores e, para isso, a apresentadora empenha-se em criar
um ambiente propício à troca de aspectos da vida privada.
A cumplicidade entre os participantes se estabelece por meio pela habilidade do apresentador
em mostrar-se compreensivo com as questões compartilhadas pelo entrevistado e em destacar
apenas os aspectos que têm um objetivo definido. Sendo assim, quando Leda Nagle pergunta
a Moraes Moreira sobre o rompimento do cantor com o grupo Novos Baianos, a
apresentadora não busca polemizar um assunto do passado, mas destacar esse elemento como
uma aspecto relevante para a carreira do músico (Sem Censura, 29 abr. 2009). Por conta desse
ambiente, o cantor sente-se à vontade para revelar a verdade sobre o assunto: “dizer que foi
tudo tranqüilo é mentira”. Assim, a cumplicidade, ao contrário da dureza, pode ser usada pelo
jornalismo como forma de buscar a verdade, que é compartilhada livremente pelo
interlocutor.
B) Fundamentação de um argumento
Discutiu-se no capítulo anterior que uma das formas de construir uma conversação
democrática nos programas é a visibilidade a argumentos pertinentes e bem construídos. O
argumento, normalmente, aparece fundamentado em dados concretos, provas, relatórios. No
entanto, o relato de experiências pessoais pode provocar a formulação de um argumento que
se baseia não em dados externos ao indivíduo, mas àquilo que está impregnado em sua vida
cotidiana. Pelo testemunho, os indivíduos constroem seus pontos de vista de modo mais
inteligível e permitem que o outro seja incluído na situação narrada.
A experiência de vida busca efetuar uma reflexão sobre uma condição mais ampla e cumpre o
que George Mead (1926) apontou sobre o papel do jornalismo de fazer questões individuais
ganharem relevância social. É nesse sentido que se pode compreender a pergunta que Marília
Gabriela fez a Fátima Bernardes:
261
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Fátima, você teve uma experiência traumática, eu imagino. Vocês foram
assaltados. O assaltante... Era um assaltante?
Um assaltante.
Que entrou no seu quarto armado. Você estava dormindo, as crianças ao lado.
Não foi isso? [...] É uma situação que eu sequer consigo imaginar. Já fui
assaltada na rua, mas quando você é invadido na sua casa, imagino que seja uma
experiência insuperável ou você superou e de que forma?
Olha, ela é... a superação é muito lenta. Eu acho assim que ela foi um marco, ela
é definitiva na forma... Porque ali na sua casa é a área em que você acha que está
protegido, né? [...] Eu acreditava que estava. Tanto que a minha casa não tinha
grades, não tinha alarme, não tinha nenhum tipo de segurança. A casa estava lá.
E eu era tão tranquila que a gente dormia com as janelas embaixo abertas. Não
as janelas da sala, que são janelas maiores, mas as janelas da cozinha que são
janelas de mais de um metro, e da área de serviço. E foi por ali que ele entrou.
Então, você está dormindo e... Eu escutei o barulho da porta. A gente deixa ela
encostada por causa das crianças e aquele “tac” abrindo a porta. E eu já olhei...
estava de bruços e eu já olhei na altura que chegam os meus filhos, geralmente o
Vinícius ou Beatriz. E aí... lembro que tive que olhar para cima porque a gente
deixa a luz da sala íntima acesa para as crianças terem o caminho facilitado, e aí
eu vi uma sombra alta. Ele acendeu a luz, eu já vi a arma. É assim, você imagina
que não é possível, que em algum momento você vai acordar. [...] Ele não nos
reconheceu inicialmente.
Ah, ele não sabia em casa de quem estava entrando?
Não, não. Depois nós... a ficha dele foi toda levantada. Ele é um rapaz que tinha
dezenove anos. Como outros menores de idade, com passagem pela Febem, e
que começou a assaltar. Já era o terceiro assalto e sempre sozinho, descalço e
armado. E você não entende como é que aquela situação está acontecendo. Ele
queria dinheiro, ele queria jóias que a gente tinha. A gente foi rapidamente
tentando dar. E num determinado momento... A gente percebia que era tão
inexperiente. Eu quase não olhei para ele porque ele pediu que eu ficasse de
bruços. Mas o William esteve mais com ele. Ele botou a arma na cintura para
abaixar porque queria procurar uma bolsa para botar as jóias. Em vez de pegar
qualquer coisa, ele foi escolher. Nessa hora o William achou que poderia tirar a
arma dele [...]. Quando o William reagiu, eu escutei um barulho que era uma luta
dentro do closet, eu achei que era uma criança entrando.
Nossa!
Então aí foi uma gritaria... A minha babá acordou, ainda foi na janela do quarto
do Vinícius, que ela estava dormindo ali. Pensou que fosse algum barulho e
voltou a dormir, graças a Deus. Porque se alguém vem até o quarto, aí era uma
tragédia. [...]
Eu vou te fazer uma pergunta quase delicada. Você é uma jornalista, uma
jornalista de renome no, talvez ou seguramente, jornal de maior importância do
país, da televisão brasileira, que é o Jornal Nacional. E você se ressente,
evidentemente, de todas as formas, dessa violência. A sua objetividade como
jornalista se perde nesse momento ou você consegue fazer uma análise crítica do
que aconteceu e do que acontece todos os dias, particularmente, ou onde é mais
noticiado, no Rio de Janeiro?
Não, eu consigo fazer uma análise, acho, muito mais crítica. Eu consigo fazer
uma análise de que, por exemplo, é impossível uma pessoa passar por um
reformatório e sair do jeito que esse menino saiu. Eu acho que é impossível uma
262
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
Marília
Gabriela:
Fátima
Bernardes:
pessoa que já teve passagem pela polícia, como era o caso dele, estar solto na
rua. Eu acho que é impossível o acesso que as pessoas têm a arma com uma
facilidade. Eu fiquei muito mais crítica e percebendo que a coisa está muito
perto. Mas não no sentido de querer algo em termos de uma vingança pessoal...
Não, mas uma ação política e como ação política o que você acha que deveria
acontecer?
Bom, embora não seja uma medida de curto prazo, pode parecer bobagem, tem
que ser educação. Sem isso a gente não vai chegar a lugar nenhum. Em outro
momento, eu acho que a gente tem que ter as prisões realmente cumprindo pena.
As pessoas hoje, elas já não são tementes a Deus, elas não são tementes à lei.
Porque hoje em dia é quase como se você tivesse o direito de matar uma pessoa,
é só escolher bem quem. Porque a primeira pessoa que você matar vai te dar o
que? Quatro anos de cadeia? Talvez.
E a penalização de menor de idade?
Eu acho que dezesseis anos, se você pode furtar, você pode responder pelos seus
atos. Eu acho que a partir daí... se você pode escolherem quem você vai votar,
você pode responder pelo que você faz.
(Edição de 13 jan. 2008)
O testemunho, nesse caso, entra na conversa com o peso de um argumento que fundamenta a
idéia da entrevistada sobre o sistema penal e a segurança pública. Foi a partir de uma
experiência pessoal que Fátima Bernardes pôde rever suas idéias e formular uma opinião mais
consolidada sobre o assunto. Além disso, Marília Gabriela busca da entrevistada uma postura
crítica com relação a sua atividade profissional e as implicações dessa experiência sobre seu
papel como jornalista. A abordagem do tema no programa pretende levar o telespectador à
reflexão a partir de uma experiência real que, no momento da emissão, torna-se próxima a ele
também.
C) Revelar um problema social
Se por um lado o testemunho pode contribuir para fortalecer argumentos, por outro, ele pode
ser usado para iniciar um debate sobre um problema social. Nesse caso, a conversação faz o
sentido contrário da anterior: parte de um problema coletivo para o que é vivido
individualmente. O debate do Roda Viva sobre deficientes físicos representa essa dimensão:
Paulo Markum:
[...] Eu queria, antes de mais nada, colocar uma questão preliminar, que é a
seguinte: o que o país precisa fazer para que a nossa bandeira aqui, digamos,
estilizada [referindo-se à imagem colocada no centro do cenário com o símbolo
dos cadeirantes], se torne uma realidade, ou seja, para que os deficientes estejam
definitivamente incluídos? E eu queria pedir isso, reclamando, digamos,
solicitando, a experiência de cada um de vocês, porque se a gente for discutir a
263
Célia Leão:
questão pura e simplesmente no plano geral, existem inúmeras questões a serem
resolvidas. E eu acho que até o grande público, alguma parte delas identifica:
educação, emprego, acessibilidade, condições da sociedade. Mas eu queria que
cada um puxasse pela sua vivência e dissesse assim: “Pela experiência que eu
tenho, o mais importante, ou mais urgente, ou mais essencial, é isso”.
Começando pela Célia Leão.
[...] Está aqui bem o símbolo da pessoa deficiente no Brasil, que é uma causa de
todos nós. Eu diria uma frase em que a gente vai vivendo 31 anos numa cadeira
de rodas e vai aprendendo: “Ter uma deficiência, com certeza absoluta não é a
melhor coisa do mundo”. Lógico que tem outras situações mais fáceis e mais
agradáveis, mas também posso dizer, afirmar que não é a pior coisa do mundo.
(Edição de 19 jun. 2006)
O objetivo dessa forma de interpelar a participação dos convidados é inserir numa reflexão
sobre o tema – e todos os convidados mostraram-se bem informados sobre os principais
assuntos referentes à deficiência física – aquilo que é vivido, a fim de levar o telespectador a
uma compreensão do problema a partir de quem o vive. Com isso, permite-se que a audiência
reexamine suas posições através do acesso aos aspectos da vida privada.
D) Dar sentido às experiências vividas e ajudar as pessoas que passam pelo mesmo
problema
Muitas vezes, os programas jornalísticos televisivos empregam os testemunhos para levar ao
público uma reflexão pessoal sobre um problema vivido. O relato da experiência é
extremamente focado no subjetivo, mas busca levar a pessoa que vivenciou, ou vivencia o
problema a uma formulação mais madura a respeito do assunto. Sobre a questão da
maternidade, o programa Sem Censura levou ao ar o depoimento da cantora Preta Gil:
Leda Nagle:
E a maternidade de Preta? Preta teve filho cedíssimo, né? Vinte anos?
Preta Gil:
[...] Eu tive filho muito cedo, não tão cedo, mas com dezenove anos eu engravidei
do Francisco. Eu acho o Francisco... ele foi assim, naquele momento da minha
vida, ele foi a salvação da minha vida. Essa época da adolescência é uma época
crucial na vida de qualquer adolescente, enfim, mulher, homem, de você ter que
optar, saber o que você vai ser quando crescer e você já estando grande, enfim. A
coisa de ingressar na vida profissional... entrar na faculdade. Eu não queria essas
coisas para mim. Eu estava... eu estava muito em dúvida do que eu queria ser. Eu
não sabia se eu queria cantar, se eu queria representar, se eu queria ser atriz, se eu
queria ser modelo, se eu queria ser cozinheira e isso me angustiava muito. Aí eu
264
comecei a namorar o Otávio, pai do Francisco, e eu fiquei grávida. Eu digo que foi
um “sem querer querendo”. Eu deixei que acontecesse. Foi uma surpresa para todo
mundo porque eu não dividi com todo mundo a minha angústia. E aí, quando eu
descobri que estava grávida do Francisco, eu falei: “agora eu tenho um motivo
para viver. Agora eu não preciso ficar nessa dúvida do que eu vou ser, se eu vou
ingressar na carreira como o meu pai, de cantora e seguir meus dons, se eu vou
continuar representando. Não. Vamos parar com isso tudo, porque agora eu tenho
uma outra história aqui, que é o meu filho”. Então, não que seja uma fuga. Eu
acho que ele foi exatamente isso: eu encontrei a razão da minha vida e decidi
construir e me descobrir profissionalmente, afetivamente, em todos os sentidos,
com ele do meu lado.
(Edição de 08 mai. 2009)
O testemunho de uma experiência visa fortalecer os vínculos de intimidade que o programa
pretende construir, ao mesmo tempo em que propõe para o telespectador um tipo de recepção
que não está calcado na informatividade, mas no prazer de ouvir o outro falando sobre si
mesmo. Sonia Livingstone e Peter Lunt (1994) demonstram que um dos prazeres encontrados
pelos receptores nesse tipo de programa é ouvir pessoas comuns falando sobre si mesmas e,
consequentemente, poderem reorientar suas práticas cotidianas a partir desses depoimentos:
“alguns pensam que podem aprender algo sobre o mundo social através desses programas118”
(LIVINGSTONE e LUNT, 1994, p. 83, tradução nossa). Sendo assim, há uma interpelação do
lugar que os programas oferecem ao telespectador quando suscitam a troca de experiências
pessoais para fundamentar as idéias partilhadas.
Na entrevista com Fátima Bernardes (13 jan. 2008), o principal assunto do primeiro bloco foi
o processo de fobia que a apresentadora do Jornal Nacional entrou após o nascimento de seus
três filhos119. Fátima Bernardes relatou com detalhes a história do medo de avião, as
conseqüências físicas, o tratamento que buscou para se livrar do problema e os resultados
obtidos. A entrevistada não apenas confessa seus medos e os descreve à audiência, como
também indica sua cura, o que acaba se tornando um momento de auto-ajuda e de incentivo a
que pessoas que passam por problemas tenham força de vontade para livrar-se deles. A
superação do medo de avião de Fátima Bernardes foi resumido por ela como “eu sou capaz de
não ter esse descontrole que eu tive físico, desde que eu me cuide antes”.
118
119
No original: “[...] some feel they can learn about their social world through these programmes”.
Ver “Marília Gabriela Entrevista: interseção entre jornalismo e entretenimento”, na Parte II.
265
Ser testemunha, portanto, não é apenas presenciar um acontecimento, mas vivê-lo e transmitilo a partir das sensações que desperta. Se os relatos jornalísticos baseiam-se, historicamente,
numa descrição dos fatos a partir do apagamento das opiniões e emoções do repórter, com os
testemunhos pessoais fornecidos nos programas o telespectador é convocado a ocupar um
lugar não tanto de quem pretende conhecer algo novo, mas de quem partilha de um mesmo
mundo. O relato de experiências pessoais captura o telespectador pela sensibilidade e pela
emoção, que não necessariamente se manifesta pelo exagero de imagens chocantes ou de
descrições do mundo cão, mas pelo que é vivido pela pessoa comum e o modo como ela
consegue, pelo discurso, dar sentido às experiências e transmiti-las a outros. São esses
significados que, segundo Mead (1926), permitem a percepção do mundo “real” e a
socialização dos indivíduos a partir de um imaginário que gera um sentimento de apreciação e
prazer pelo simples fato de ser compartilhado com outros.
É nesse sentido que a conversação pode oferecer um alargamento ao modelo dominante de
jornalismo, ao redimensionar a centralidade de seu papel político. O acesso à sensibilidade do
telespectador não precisa ser compreendido como uma ameaça à qualidade do jornalismo,
mas como uma tentativa de permitir que os indivíduos se interliguem pela afetividade que o
relato jornalístico também proporciona. A conversação catalisa essas possibilidades de
socialização através do acesso à vida íntima dos entrevistados e dos entrevistadores que não
visa a exploração gratuita do privado, mas insere-o num contexto relevante para a formação
de argumentos, a denúncia a problemas sociais, a reflexão e partilha da solução de problemas,
e à criação de vínculos afetivos que permitem que os representantes da cena televisiva e os
receptores partilhem dos problemas uns dos outros e atribuam novos significados ao seu
mundo. Quando o relato de experiências é usado para esses fins, os próprios entrevistados
compactuam com os programas num ambiente de cumplicidade e cordialidade. A conversação
posta em cena nos programas pode fornecer informações relevantes através da construção de
uma relação prazerosa com a audiência, que se vê convidada a partilhar a mente de outros
indivíduos e ressignificar o social.
266
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A conversação no telejornalismo não é um fenômeno novo. Embora não fosse o objetivo
principal desta tese, foi possível resgatar parte da história dos programas de entrevistas e
debates no Brasil a partir de sua vinculação com a conversação. Por conseguinte, o contexto –
político, econômico, cultural, tecnológico, social - que permitiu a consolidação de um modelo
dominante de conversação, que coincide com o período posterior à ditadura militar - também
foi brevemente descrito a partir das análises de modo de endereçamento dos programas. A
articulação da análise dos programas com as críticas que circulam sobre eles, tanto as de hoje
quanto as do passado, permite levar para a observação do programa as expectativas e as
promessas que se formam em torno dele. Ao mesmo tempo, essa articulação revela uma
lacuna na pesquisa em comunicação no que diz respeito a uma história cultural da televisão e
do telejornalismo120.
No entanto, chama atenção seu uso cada vez mais freqüente nos programas revelando,
especialmente, as tensões sofridas pelo campo jornalístico e as novas estratégias para atrair a
audiência. A revista Veja apresentou um quadro bastante ilustrativo sobre a televisão e os
programas baseados na conversação:
nos anos 70, viveu-se a explosão dos enlatados. Na década de oitenta, foi a
vez das grandes telenovelas, dos programas infantis, do investimento no
telejornalismo e das cenas de nudez e violência em cascata. Agora vive-se no
reinado do blá-blá-blá. Nunca se falou tanto sobre tudo em todos os canais
da televisão (COM A LÍNGUA SOLTA, 22 jul. 1992, p. 92).
Apesar da postura nefasta de Veja com relação aos talk shows, hoje é possível pensar nas
interseções desses modelos, que oferecem uma certa pluralidade na programação televisiva.
Tal perspectiva foi possível a partir da noção de estrutura de sentimento, que concedeu um
olhar voltado não apenas para o interior dos programas, mas para os diálogos efetuados entre
estes e o cenário jornalístico e televisivo que o cerca.
O cruzamento entre os modos de endereçamento dos programas analisados, as premissas do
jornalismo e as características da conversação resultou em três formas por meio das quais a
conversação aparece mais evidentemente como estratégia de construção no telejornalismo,
que foram sistematizadas no quadro abaixo:
120
Os trabalhos de João Freire Filho e Ana Paula Goulart são algumas exceções.
267
Quadro 1: modalidades conversacionais no telejornalismo brasileiro contemporâneo
Modalidades
de
Conversação
Informativa
Argumentativa
Característica da
conversação
Mais direcionada de um
falante a outro, poucas
sobreposições, mas quando
elas ocorrem é para tentar
esclarecer melhor, tirar uma
dúvida, fornecer um dado
novo.
Pergunta informativa,
solução de problemas,
avaliativa.
Pouco controle dos turnos
de fala pelo mediador. Os
participantes criam
dinâmicas próprias para
passar a palavra uns para os
outros.
Muitas sobreposições para a
construção de autoridade.
Pergunta investigativa,
comprobatória ou
confirmação de hipóteses.
Turnos de fala bem
marcados para deixar que o
testemunho fique claro.
Aspectos
jornalísticos
ressaltados
Atualidade.
Interesse
público.
Valor-notícia.
Interesse
público.
Finalidade e expectativa
da audiência
Aprofundamento de
informações específicas: a
gripe suína, o novo álbum.
Estar melhor equipado
para promover mudanças
do ponto de vista
individual que, em seu
conjunto, podem efetuar
mudanças sociais.
Aprofundamento de
opiniões sobre
problemáticas gerais.
Construção de
uma esfera
pública.
Vigilância e
poder
moderador.
Contar
Histórias.
Partilha de um mundo
comum a partir da troca de
experiências.
Socialização.
Testemunhal
A dimensão de
continuidade ocorre pela
repetição e reforço da
última fala para a tomada da
palavra.
Socialização.
Informações curiosas sobre
celebridades.
Pergunta biográfica ou
intimista.
Longe de possuir uma pretensão de fixar padrões rígidos, o quadro acima é uma
sistematização dos aspectos mais evidentes encontrados nos programas e uma interpretação
deles, tendo em vista a apropriação da conversação pelo telejornalismo. O mais comum é que
ocorra a justaposição desses modelos durante a emissão de um programa, ou seja, que dois
modelos apareçam como preferenciais, possibilitando formatos como informativotestemunhal, quando o programa mescla informações sobre uma área específica e
268
testemunhos que exemplifiquem essas informações - é o caso da edição do Marília Gabriela
Entrevista com Cynthia Howlett e Joel Rennó - ou argumentativo-informativo, como a maior
parte das entrevistas do Roda Viva. O que aqui se pretende demonstrar é de que formas os
subgêneros televisivos analisados se ancoram nessas práticas conversacionais. Assim,
identificando a conversa é possível perceber as marcas do subgênero e aquilo que os permite
avançar.
A conversação informativa ratifica os parâmetros já conhecidos pela audiência e pelos
produtores da entrevista enquanto prática jornalística para obtenção dos conteúdos. Duas são
as formas como essa conversação pode ser empregada. A primeira faz referência ao padrão do
subgênero de programas de entrevistas e concerne às conversas com especialistas ou
representantes de órgãos oficias a fim de prestar à população esclarecimentos que lhes ajude
orientar sua vida cotidiana e cumprir seu papel na democracia. A conversação informativa se
ancora no papel do jornalismo de nutrir a sociedade com informações e, pelo tempo estendido
para a abordagem dos assuntos, ela é muitas vezes definida pelos próprios jornalistas como
um “aprofundamento”, em oposição à superficialidade dos telejornais diários. Jornal das Dez
e Bom Dia Brasil apropriam-se da conversação numa extensão do subgênero que os concerne,
a fim de superar os limites historicamente estabelecidos pelos telejornais enquanto formato.
Entretanto, os papeis discursivos dos mediadores nos programas, embora se pareçam
retoricamente, são bastante distintos. Enquanto o Jornal das Dez busca levar ao telespectador
informações e comentários adicionais, o Bom Dia Brasil assume uma postura mais doutrinária
e leva ao telespectador uma avaliação moral sobre os assuntos.
Em todos os programas se pode perceber essa forma de conversação em função da relação
com o modelo dominante de jornalismo. Sendo assim, a conversação no telejornalismo
mantém o padrão dominante, que está além das distinções de subgêneros. Os modos de
endereçamento, porém, denunciam finalidades distintas para o uso dessa informação. O Sem
Cesura, por exemplo, utiliza a conversação informativa para convocar o telespectador a
assumir seu papel como cidadão. O Roda Viva, por sua vez, visa favorecer uma reflexão sobre
os fenômenos abordados na conversa.
Além da entrevista, a conversa informativa caracteriza os debates classificados por Örnebring
(2003) como corteses, nos quais se busca um consenso e a instrução da população com
relação a determinado assunto. Por conta disso é que perguntas informativas se mesclam com
269
as de solução de problemas ou avaliativas, a fim de se chegar num ponto comum que é
defendido pelo programa, como ocorre no Observatório da Imprensa.
Outra prática recorrente à conversa informativa está ligada a este momento de celebrização da
televisão que usa como fontes seus próprios agentes. Assim, participam dos programas
convidados ilustres para divulgar um novo trabalho e as conversas giram em torno dele.
Freqüentemente, porém, essa modalidade de conversação se relaciona com as testemunhais,
como será mostrado mais à frente. A informação biográfica sobre celebridades tem-se
estendido para diversos programas. No corpus analisado, ela aparece mais marcadamente no
Marília Gabriela Entrevista, mas também no Sem Censura e, em momentos pontuais, no
Roda Viva, nas entrevistas com Wagner Moura e Fernando Meirelles.
Remetendo a um modelo de jornalismo que se baseia na opinião e na troca de idéias, a
modalidade argumentativa põe em contato agentes de diferentes esferas sociais. A
argumentação se articula mais visivelmente com o subgênero dos programas de debate em sua
forma crítica (ÖRNEBRING, 2003), uma vez que promove a argumentação e contraargumentação sobre questões diversas da vida social. A conversação argumentativa faz
referência a uma forma residual de jornalismo: o opinativo. Este modelo de jornalismo entra
em vigor historicamente a partir de uma vinculação estrita com a política e, em especial, com
valores democráticos. Fazendo referência ao jornalismo liberal do século XVIII nas
sociedades européias, o jornalismo opinativo, segundo Josenildo Guerra (2003), busca
“oferecer à sua audiência uma chave de leitura do mundo real, a partir da exposição de suas
teses sobre os problemas abordados” (idem, p. 37). Apesar de ter dado espaço ao paradigma
informativo, o jornalismo opinativo nunca deixou de existir, presente em colunas, artigos,
editoriais, no caso do jornalismo impresso. Na televisão, esse modelo de jornalismo encontra
na conversação um instrumento para sua prática, uma vez que, por meio dela, é possível dar
visibilidade ao debate público e, supostamente, estimular a formação de uma esfera pública
fora do ambiente midiático. O jornalismo opinativo é, portanto, um resíduo de antigas práticas
jornalísticas, mas que permanecem em uso, em especial pela vinculação com o campo
político.
Tanto Josenildo Guerra (2003), numa análise do jornalismo mais voltada para a formação
européia e norte-americana, quanto Marialva Barbosa (2007), numa história cultural da
270
imprensa brasileira, afirmam que momentos de instabilidade são mais suscetíveis à adoção
desse modelo de jornalismo, o que justifica que, historicamente, esse modelo tenha surgido na
Europa na passagem do absolutismo para a democracia e, no Brasil, da monarquia para a
República. A própria história do surgimento de programas de debate e entrevistas no Brasil
aponta para um momento de transição política: da ditadura para a democracia. No entanto,
essa instabilidade não necessariamente está presente, apenas, na transição de um governo para
outro, mas em crimes contra o Estado, escândalos envolvendo parlamentares, abusos de
poder, etc. A apropriação da conversação pelo telejornalismo brasileiro representa, em certa
medida, uma liberdade para fornecer opiniões quando o contexto político exige e, como os
problemas do governo são freqüentes no sistema político nacional, há sempre espaço no fluxo
televisivo para programas que promovam debates sobre essas questões. Os programas
jornalísticos fazem um jogo entre informatividade e opinião, que é consentido pela audiência,
uma vez que visa promover o fortalecimento da democracia. Segundo Afonso de Albuquerque
(1999), é essa instabilidade política que leva o jornalismo brasileiro ao papel de poder
moderador, função que, nos programas de debate e de entrevistas, é cumprido pelo inquérito
aos representantes das esferas sociais. Como esse modelo de jornalismo não é exclusivo do
Brasil e de países com baixa estabilidade política, e como esses programas não deixam de
existir quando não há nenhuma questão política em discussão no momento, é preciso
considerar que outros desequilíbrios – sociais, culturais, ambientais, etc – também são alvo do
jornalismo opinativo.
É nesse sentido que a conversação nos programas jornalísticos assume um caráter de denúncia
e adota um papel de cobrar das autoridades explicações calcadas em bons argumentos. No
Roda Viva, a argumentação é o veículo privilegiado por meio do qual os participantes
interagem. Busca-se, no programa, construir um clima de tensão por meio da postura
adversarial dos jornalistas em relação ao entrevistado. Nesse programa, a conversa
argumentativa é o que confere o pacto sobre o papel do jornalismo por meio do caráter
investigativo que as perguntas elaboradas pelos entrevistadores possuem. A conversação
argumentativa dispersa-se em outros programas analisados neste corpus de maneira mais
pontual. No Marília Gabriela Entrevista, por exemplo, a argumentação pode existir quando o
convidado busca discutir um assunto de interesse geral. Sendo assim, as entrevistas com Caco
Barcellos, com Jair de Jesus Mari, com Oscar Motomura, em certos momentos, atingiram o
271
modelo argumentativo, a fim de obter uma avaliação dessas pessoas sobre o assunto debatido:
segurança pública e liderança.
Os três modos de comunicação formulados por Mats Ekström (2003) não incluem essa
perspectiva do telejornalismo. Portanto, propõe-se uma ampliação desse modelo a partir dos
mesmos referenciais empregados pelo autor para formulação das formas comunicativas de
informação, storytelling e atrações: a intenção dos produtores, as bases para envolvimento da
audiência e os papéis oferecidos aos atores do processo comunicativo. Do ponto de vista da
intencionalidade das esferas produtivas, os programas evidenciam um amplo trabalho da
equipe de produção não apenas para a seleção das temáticas abordadas e dos convidados, mas
do preparo dos participantes para se envolverem na troca. O Roda Viva, por exemplo,
disponibiliza aos entrevistadores um resumo sobre o convidado para fomentar o debate e
impedir que haja um esvaziamento da conversa, ou que ela seja marcada por silêncios. Leda
Nagle, no Sem Censura, também se apresenta munida de informações iniciais para iniciar os
diálogos. O objetivo dos programas é oferecer à audiência uma troca de argumentos que
demonstre a defesa de um projeto de sociedade (GUERRA, 2003, p. 37).
A audiência é envolvida a partir da necessidade de formar uma opinião própria sobre as
problemáticas tratadas durante a conversa. Assim, espera-se que ela já possua informações
básicas sobre o tema posto em debate e engaje-se na troca de argumentos a fim de obter
perspectivas diferentes das suas e que as leve a formular sua visão de mundo. O contato com a
argumentação televisionada dos agentes dos programas leva ao reforço dos argumentos dos
telespectadores sobre o assunto, seja para encontrar respaldo para o que já pensam, seja para
reconfigurar e encontrar novos argumentos, o que fortalece a deliberação na democracia.
Os atores no processo comunicativo argumentativo possuem a função de fornecer argumentos
que corroborem com seu ponto de vista ou negue os outros, dando um sentido de disputa pela
visão de mundo vencedora. Há um mediador que funciona como debatedor, estimulando a
troca e propondo as questões que devem ser abordadas durante a conversa.
A terceira modalidade conversacional é testemunhal, marcada pela troca de experiências e de
idéias que as expliquem e dêem significado. Perguntas biográficas e intimistas são mais
freqüentes para suscitar essa modalidade conversacional, que tem como objetivo oferecer um
272
sentido de partilha e sociabilidade entre os participantes da conversa em cena e os
telespectadores. A conversação testemunhal dá relevo ao papel do depoimento e seu
significado para o jornalismo contemporâneo.
Segundo François Jost (2003), o testemunho é a forma preferencial dos jornalistas na
atualidade, uma vez que substitui as informações fornecidas por especialistas pela
autenticidade de experiências vividas de qualquer pessoa. O testemunho envolve duas
perspectivas: algo que se viu e algo que se viveu. No primeiro caso, o jornalismo valida-se
pelo relato de alguém que presenciou um acontecimento e, por isso, possui autoridade para
contá-lo aos outros. No segundo, o que está em jogo é a experiência, o sentimento que pode
ser relatado por alguém que viveu uma situação e, por isso, pode ser exemplo de questões
mais amplas e servir de exemplo para outros. Essa é a forma mais comum pela qual os
testemunhos são tratados nos programas analisados.
Opondo a conversa informativa à testemunhal, Daniel Dayan (2006) relaciona os testemunhos
ao pouco aprofundamento da televisão contemporânea:
[...] um especialista pode contradizer outro. Mas ao contrário, um
especialista não pode contradizer o testemunho de alguém já que se refere a
sua própria experiência. Ele não pode dizer a esse testemunho: „essa não é a
sua experiência, essa não é a sua vivência, você não sabe exatamente do que
está falando, eu conheço sua experiência melhor que você‟ (DAYAN, 2006,
p. 180).
Para o autor, os testemunhos entram na televisão com o peso de um argumento contra o qual
ninguém pode refutar. Segundo Dayan (idem), certos programas televisivos promovem uma
publicização da vida privada, sem que haja um debate mais amplo que insira os testemunhos
pessoais concedidos. Deste modo, os programas levam seus convidados para o estúdio apenas
para falar sobre algo que viveram, e não para usar a experiência pessoal como argumento
sobre uma temática.
Entretanto, a perspectiva de Dayan (idem) contrasta com o que se pode ver nos programas,
quando as experiências são relatadas a fim de sustentar uma visão de mundo. O testemunho
participa da conversa como prova de uma realidade percebida pelo falante que pode servir de
exemplo para outros. Quando um programa põe em cena conversações sobre maternidade, na
qual as participantes relatam suas dificuldades, ele está contribuindo para que outras mães
sejam informadas ou se sintam confortadas por experiências semelhantes às suas. Quando os
273
entrevistadores utilizam experiências pessoais para fundamentar suas perguntas, o relato
transforma-se em ilustração para obter uma informação que se aplique ao caso. Tratando das
conversas na vida cotidiana, Ângela Marques (2009) afirma que
[...] o testemunho pode ser visto como um procedimento prático empregado
pelos indivíduos para tornar seus pontos de vista mais inteligíveis e passíveis
de serem aceitos como válidos. Ao assumir uma forma narrativa, o
testemunho retira as experiências do locus de sua ocorrência particular e lhe
confere um valor de ilustração, exemplo, prova ou argumento. [...] O
emprego do testemunho em situações de conversação informal oferece a
oportunidade de perceber a situação a partir da perspectiva do outro, o que
pode contribuir para a mudança de modos de pensar e de compreender as
histórias individuais e coletivas (MARQUES, 2009, pp. 11-12).
Do ponto de vista narrativo, o testemunho ganha o formato daquilo que os autores comumente
denominam storytelling, o ato de contar histórias. Ao tratar sobre o storytelling, Mats Ekström
(2003) refere-se a uma estratégia narrativa construída em torno de aspectos dramáticos:
seqüência narrativa, construção de personagens, elementos dramáticos que enquadram as
interpretações a serem feitas, o desfecho da história e as possibilidades de explorar mitos da
sociedade e valores morais. Capturando a audiência a partir de um vínculo emocional, o ato
de contar histórias, para Ekström (idem), é o que melhor caracteriza o jornalismo
contemporâneo.
Segundo Makri-Tsilipaku (2004), a conversação pode ser voltada para o relato de “como as
coisas são”, fornecendo informações, análises e a verificação da verdade – o que se enquadra
aos modelos de conversação informativa e argumentativa –, ou pode voltar-se à reprodução de
algo que aconteceu, relacionando-se à subjetividade e à afetividade (2004, p. 844), o que
caracteriza os testemunhos. Para essa recriação da experiência, os participantes utilizam
recursos dramáticos, como é o caso do assalto de Fátima Bernardes (Marília Gabriela
Entrevista), a história de Moraes Moreira nos novos baianos (Sem Censura), etc. Por outro
lado, o testemunho pode servir como fonte de aprendizado, como partilha de uma experiência
que serve de exemplo para outras pessoas e, para isso, os falantes empregam relatos
emocionais para engajar a audiência e despertar nela o interesse a partir da partilha de
sentimentos. Sendo assim, a experiência de uma pessoa pode representar a de muitas, o que
denota um caráter social das experiências vividas.
274
Erving Goffman (1986) já tratava a conversação cotidiana a partir de uma proximidade como
atos teatrais, pois, ao contar o que se passou, ao relatar uma experiência, o falante precisa
recuperar a cena de forma dramática. O drama, para Goffman (idem), está mais presente nas
conversas cotidianas do que a informação: “estou sugerindo que freqüentemente, o que os
falantes afirmam fazer não é fornecer informação ao receptor, mas apresentar dramas a uma
audiência. De fato, parece que passamos a maior parte do tempo engajados não em dar
informações, mas em dar shows121” (GOFFMAN, 1986, p. 508, tradução nossa).
Por conta disso, é que se pode apontar o testemunho como elemento narrativo emergente no
telejornalismo. Harvey Sacks (1992) chama atenção de que, ao contar uma história sobre algo
que vivencia, um falante procura provocar no ouvinte os mesmos sentimentos que ele teve
para que a experiência seja, também, do interlocutor. Assim, a partilha de problemas ou
alegrias pode fazer referência a algo que foi vivenciado ou que poderia ter sido vivenciado
pelo ouvinte, retirando a experiência do plano individual e levando-a para o coletivo. Para
George Mead (1926), o jornalismo permite que os indivíduos, ao entrarem em contato com
questões de interesse geral, ultrapassem a experiência pessoal de obter informações, para ter
uma recepção prazerosa das informações veiculadas por representar uma recepção coletiva e
compartilhada.
Essas “questões de interesse geral”, concernentes à política partidária ou não, são aquelas
percebidas na vida cotidiana e que integram os indivíduos enquanto grupo. Por conta disso,
cresce, no telejornalismo, o tratamento de assuntos vinculados à vida ordinária, ao cotidiano:
maternidade, problemas familiares, mercado imobiliário, etc. Segundo Roger Silverstone
(2003), há duas abordagens dicotômicas sobre o cotidiano. A primeira, que se vincula aos
primeiros escritos de Marx, compreende o cotidiano como espaço de dominação capitalista
onde ocorre a reificação da cultura e a alienação. A segunda envolve uma teorização do
popular e de questões como prazer e resistência que se dão no cotidiano.
Fazendo referência à mesma dicotomia, Martin-Barbero (1997) afirma que “as práticas que
constituem o viver cotidiano, juntamente com aquelas que dão cabo da subsistência e dão
sentido à vida – [foram] consideradas mais como obstáculo à tomada de consciência do que
121 No original: “I am sugesting that often what talkers undertake to do is not to provide information to a
recipient but to present dramas to an audience. Indeed, it seems that we spend most of our time not engaged in
giving information but in giving shows”.
275
como ação política conseqüente” (MARTIN-BARBERO, 1997, p. 289). Assim, ao propor um
mapa noturno para explorar o campo da comunicação e cultura, Martin-Barbero recoloca o
povo numa dimensão ativa e não dominada pelas esferas de produção. Assim, para o autor, o
cotidiano e as práticas que dele fazem parte podem tornar-se o lugar de tomada de
consciência, de produção de sentidos e de resistência:
O espaço da reflexão sobre o consumo é o espaço das práticas cotidianas
enquanto lugar de interiorização muda da desigualdade social, desde a
relação com o próprio corpo até o uso do tempo, o habitat e a consciência do
possível para cada vida, do alcançável e do inatingível. Mas também
enquanto lugar de impugnação desses limites e expressão dos desejos,
subversão de códigos e movimentos de pulsão e do gozo (MARTINBARBERO, 1997, p. 290).
Por conta desse reposicionamento do cotidiano é que os programas que utilizam a
conversação como estratégia inserem perguntas de solução de problemas, buscando convocar
a audiência a partir de seu papel como transformadora de problemas sociais. Assim, os
indivíduos são integrados, por meio do jornalismo, enquanto participantes do mesmo
cotidiano, das mesmas práticas e agentes da mesma produção de sentidos. A conversação
televisiva permite evocar o papel de construtor da sociabilidade que o jornalismo possui e
que, pelo predomínio do discurso voltado ao intelecto e à racionalidade do modelo dominante,
muitas vezes é obliterado. A conversação permite alcançar esse sentido de sociabilidade, uma
vez que envolve, na mesma prática, os agentes midiáticos e a audiência, reforçando o sentido
de partilha que a conversação pode oferecer. Não se pretende, aqui, defender o fim do modelo
informativo ou opinativo de jornalismo, voltado para a política e para a racionalidade. O
modelo dominante possui um lugar importante na sociedade contemporânea. O objetivo é,
apenas, incluir a dimensão do sensível, da afetividade e do prazer à noção que se tem sobre o
papel do jornalismo.
276
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GLOSSÁRIO
Formatos de apresentação das notícias:
Nota: é o relato mais sintético de um acontecimento. Quando apresenta imagens é chamada
nota coberta, quando não, é a nota simples.
Matéria: é o relato mais completo de um acontecimento combinando a apresentação ao vivo
(feita pelo apresentador) e narração em off coberta por imagens e passagem feita pelo
repórter.
Reportagem: possui o mesmo formato que a matéria jornalística, mas apresenta um relato
mais ampliado de um acontecimento, mostrando suas causas e repercussões. Em geral, ela é
composta por: cabeça + off + boletim + sonoras (entrevistas) + pé. Quanto ao tema, pode ser
factual, também chamada de matéria quente, relacionada aos acontecimentos do dia-a-dia; ou
o chamado feature, matérias frias referentes a assuntos de interesse geral, não
necessariamente ligadas à atualidade do acontecimento. Utilizaremos o termo matéria como
sinônimo de reportagem.
Entrevista: é o diálogo que o jornalista mantém com o entrevistado.
Indicador: são as matérias baseadas em informações de temas gerais, com a utilização de
recursos gráficos, como no caso da previsão meteorológica.
Chamada: é o formato em que o apresentador faz referência a outro do momento da
programação. Se a referência for ainda dentro do programa em exibição, chamaremos apenas
chamada, quando se referir a outro momento da programação televisiva (transmissões, outros
programas) chamaremos chamada da programação.
Stand-up: quando a notícia é dada por um repórter na rua, no local do acontecimento.
Geralmente o stand-up é feito ao vivo e é marcado por um diálogo entre o apresentador e o
repórter.
Clipe: é a edição de imagens com um fundo musical. Usado no encerramento das matérias ou
do programa.
Enquete122: entrevista com populares com base na mesma pergunta.
Recursos jornalísticos:
Escalada: são frases de impacto no início de um telejornal com o objetivo de chamar a
atenção do telespectador.
Sonora: é a imagem e a fala do entrevistado numa matéria.
Cabeça: é o correspondente ao lead do jornal impresso. É lida pelo apresentador e dá o
gancho da matéria.
Pé ou nota-pé: é a conclusão da matéria feita pelo apresentador do estúdio.
Vinheta: música e imagem que representam o programa. Nos telejornais, a vinheta é usada
basicamente na abertura do noticiário e dos blocos.
Passagem: quando o repórter faz uma gravação no local do acontecimento para transmitir um
resumo das informações.
Selo: ícone de pessoa, assunto ou instituição componente do cenário do programa por meio de
recurso gráfico.
Lapada: apresentação de várias notas cobertas seguidas uma da outra, geralmente separadas
por uma vinheta ou pelo logotipo do programa.
Planos e enquadramentos:
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A enquete pode ser considerada um formato ou um recurso utilizado nas matérias jornalísticas quando
aparecem juntamente com outros elementos, como off, passagem do repórter.
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Plano geral: tomada geral do programa onde se pode ver todo o cenário.
Plano americano: tomada que mostra a mesa onde se posiciona o apresentador.
Plano próximo: tomada pela cintura, mostra a pessoa da cintura para cima. É um plano que
sugere uma situação de intimidade.
Movimentos de câmera:
Zoom: recurso que se aproxima (zoom-in) ou afasta (zoom-out) do objeto filmado. No
telejornalismo, o zoom está relacionado à seriedade que se pretende dar ao assunto: uma
notícia com grande repercussão é acompanhada por um zoom-in no re´porter ou apresentador.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA