V Con ferência Brasileira de Mídia Cidadã
UNICENTRO, Guarapuava /PR – 8 a 10 de ou tubro de 2009
Relato humanizado no jornalismo: a importância da humanização na narrativa
para um jornalismo transformador
1
Criselli MONTIPÓ2
Ângela FARAH3
Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv)
ISSN-2175-6554
Referência:
MONTIPÓ, Criselli; FARAH, Ângela. Relato
humanizado no jornalismo: a importância da
humanização na narrativa pra um jornalismo
transformador. In: Mídia Cidadã 2009 – V
Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, 2009.
Guarapuava. Anais. Guarapuava, 2009. p. 906923.
RESUMO
Identificar a função social do jornalismo, que, à luz do conhecimento, torna-o capaz de
dar à comunidade os meios para a transformação positiva de suas realidades é a
principal intenção deste trabalho. A pesquisa foi realizada em 2005 com base em
depoimentos de jornalistas de todo o Brasil que evidenciam, em suas entrevistas, as
funções norteadoras da profissão e seu potencial transformador. Além disso, este
trabalho busca o referencial teórico que trata da relação entre o jornalismo
transformador e a reportagem, seu gênero por excelência. Para abordar o tema
reportagem, recorta um aspecto particular desse gênero: a reportagem escrita com
recursos do Jornalismo Literário e sua utilização no jornalismo impresso que vive
atualmente, uma crise de identidade, já que teve que se adaptar aos moldes do
desenvolvimento tecnológico. Casos felizes do casamento entre reportagem com
narrativa humanizada e jornalismo impresso foram apontados no decorrer do trabalho
como uma forma de incentivo a essa prática, que tem demonstrado resultados sociais
satisfatórios, como comprovaram os jornalistas em suas declarações.
Palavras-chave: jornalismo; jornalismo literário; reportagem; cidadania; transformação
social.
1
Este artigo reproduz a pesquisa realizada para o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo,
no Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), orientado pela professora Angela Maria Farah, em 2005.
2
Jornalista pelo Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv) , especialista em Didática e Docência na Educação
Superior pela Unidade de Ensino Superior Vale do Iguaçu (Uniguaçu) , colaboradora da Revista Geração
Sustentável, assessora de comunicação das Faculdades Integradas do Brasil. E-mail [email protected]
3
Jornalista, mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), coordenadora do curso
de Jornalismo do Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), docente dos cursos de Jornalismo e Publicidade
da Uniuv, e membro do Conselho Editorial da Uniuv. E-mail: [email protected]
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1 INTRODUÇÃO
Vida, tempo e inovações. A contemporaneidade tem apresentado o desenvolvimento das
sociedades e a ampliação de suas necessidades sociais. Nesse processo, a informação
ocupa espaço importante já que o fluxo de informações que gira em torno do eixo
terrestre norteia a vida humana de um pólo a outro. Como ressalta Lage (2002), o
jornalismo tornou-se essencial à vida das pessoas. Tão essencial quanto respirar. Para
viver, é preciso estar informado. É preciso compreender a lógica e a analogia do mundo.
Vale lembrar que noticia-se sobre tudo e sobre todos. Poucas linhas são suficientes para
informar. É o que pensa a maioria dos veículos de comunicação da atualidade:
instantaneidade é a palavra de ordem. No entanto, esse jornalismo é sem profundidade.
Não há pesquisa, não há impressões, não há relato. Assim sendo, pouco transforma.
Entretanto, a obrigação do jornalismo é informar e formar. Nesse contexto, vê-se a
necessidade de um jornalismo que amplie o espaço do relato de seus protagonistas, para
que o espaço das discussões – que o jornalismo deve fomentar – seja também ampliado.
Pensando nessas necessidades trazidas pela globalização – pertinentes à comunicação –
que obrigaram o ser humano a manter-se informado, este trabalho destina-se a refletir
sobre um aspecto particular desse processo: que papel ocupa o jornalismo impresso
nesse complexo processo de informação e tradução da realidade. Além disso, como o
jornalismo, por meio de reportagens bem elaboradas, pode cumprir sua função social de
inquietar o leitor e, por que não, transformar sua realidade.
É apenas um recorte em meio a todo o processo comunicativo. E para colorir esse
aventureiro recorte, além das referências teóricas, este trabalho buscou a opinião de
alguns jornalistas que acreditam na força da palavra impressa. Foram mais de 20
entrevistas realizadas por e-mail entre junho e setembro de 2005. A maioria dos
consultados não pode responder. Alguns se desculparam pela falta de tempo, já que
estão “na corrida” na grande mídia. Os nove entrevistados que responderam – Ana Taís
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Martins Portanova Barros, Edvaldo Pereira Lima, Elaine Tavares, Genara Rigotti, James
Alberti, Juremir Machado da Silva, Natalia Viana, Pedro Doria e Wilson Gasino – são
jornalistas que perambularam ou ainda perambulam em meio à crise do papel e, ainda
assim, munidos de sensibilidade, dão força criativa às suas obras, esperando poder
contribuir nas discussões sobre as realidades existentes. E, segundo eles próprios, por
que não na transformação dessas realidades?
Dessa forma, este trabalho se propõe a demonstrar que a utilização de uma linguagem
voltada para a humanização do relato jornalístico pode sensibilizar e ampliar a
compreensão dos leitores sobre a realidade brasileira, podendo se tornar uma ferramenta
de divulgação das ações humanas para a construção de uma sociedade igualitária. Por
isso, optou-se em entrevistar jornalistas que têm um perfil direcionado à produção de
reportagens com profundidade e humanização na narrativa. Esses jornalistas foram
incitados a apontar – em seus próprios trabalhos – exemplos de matérias escritas com
recursos do Jornalismo Literário, que, por meio da informação repassada, geraram ações
concretas da comunidade, como a mobilização social.
Afinal, com pequenas dissonâncias, a maioria dos jornalistas entrevistados acredita na
função social do jornalismo e seu potencial transformador, pró-ativo. Ao longo do
trabalho, experimenta-se a doçura das formas de se escrever uma boa reportagem. Os
jornalistas entrevistados defendem a humanização na narrativa como alternativa para a
crise. Apontam o recorte da realidade e a escolha do particular para tornar-se público, e
para transformar.
1 O JORNALISMO E SUA FUNÇÃO SOCIAL
Não há como iniciar uma discussão sobre o jornalismo, sem lançar luzes à sua função
social. O jornalismo tornou-se imprescindível à vida em sociedade. Afinal, as
informações, em diferentes níveis de complexidade, auxiliam na tomada de decisões das
pessoas, que buscam no jornalismo diferentes fórmulas para resolverem as equações de
suas vidas. Tão mais significativas são as informações na vida humana, quando um
leitor decide sobre seu posicionamento político com base no que tem acompanhado no
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jornal. “O jornalismo é a síntese do espírito moderno: a razão (a “verdade”, a
transparência) impondo-se diante da tradição obscurantista, o questionamento de todas
as autoridades, a crítica da política e a confiança irrestrita no progresso, no
aperfeiçoamento contínuo da espécie” (MARCONDES FILHO, 2002, p.9).
Lima (1998) ressalta que o jornalismo trata de reproduzir a realidade concreta, factual.
“Seu papel principal é relatar os acontecimentos, de maneira que as pessoas tenham
conhecimento do que ocorre nos diversos campos da realidade social e da existência
humana, orientando-se assim em relação ao fluxo dinâmico da nossa complexa era”
(p.9).
O jornalismo seria, assim, a janela para o real, uma janela para conhecer e compreender
as informações que orientam o dia-a-dia desse mundo globalizado. Vale ressaltar que o
real, a realidade, seria, como o definido nos dicionários, “algo que existe de fato,
verdadeiro”, ou seja, o jornalismo seria uma janela para a vida. No jornalismo,
fragmentam-se dados, expandem-se ideias, pluralizam-se pensamentos, mas também se
ocultam verdades. Por esse motivo, para Amaral (1997, p.41), “uma forma mais
simplificada estabeleceria quatro qualidades para a boa informação: deve ser
interessante (fugir à banalidade quotidiana), abrangente (interessar ao maior número
possível de pessoas), nova e verdadeira ”. Ou seja, a informação deve interessar, de
alguma forma, o público.
É como se as pessoas precisassem de fragmentos de outras vidas, de outras
experiências, para construírem as suas. Lima (1998) afirma que, em muitos casos, o
relato - no caso, jornalístico – avança para tentar explicar a causa – ou as causas – da
ocorrência focalizada em cada mensagem jornalística; às vezes também tenta sugerir os
desdobramentos futuros, e as conseqüências dos desdobramentos. Pois as pessoas, para
estarem inseridas em suas comunidades, precisam saber o que acontece nelas. Por isso,
Lage (2002) lembra que a responsabilidade de comunicar do profissional é ressaltada
quando se reflete que o repórter está onde o leitor, ouvinte ou espectador não pode estar.
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Considere-se que enquanto o estudante, a empregada doméstica, o empresário, o
mecânico, a professora realizam suas tarefas profissionais, o mundo “pra lá da porta”,
transfigura-se, transforma-se. Ao voltar para casa, para seu mundo, esse mundo “lá
fora” precisa ser conhecido, pois influencia o mundo individual. “Uma multiplicidade
de fenômenos que ocorrem em todos os lugares e de diferentes maneiras passam a
interferir na vida das pessoas” (GENRO FILHO, 1987, entre 165-182). Genara Rigotti
(2005) – repórter do jornal A Notícia, de Joinville – define que o papel do jornalista
seria informar da maneira mais correta e com a linguagem mais acessível.
O jornalista James Alberti (2005) – que já trabalhou no jornal A Notícia, no Jornal de
Londrina e atualmente é produtor da Rede Paranaense de Comunicação (RPC) – usa
uma definição do jornalista Zuenir Ventura para estabelecer a função do jornalismo. “Se
o jornalista é uma testemunha da história, como disse Zuenir Ventura, então a função do
jornalista é registrar essa história do modo mais fiel possível”. Para ele, jornalismo é
contar a verdade dos fatos. “E a verdade, como objeto do trabalho do jornalista, não é
relativa, como se estivesse presente em todas as versões possíveis de um fato. A
verdade, jornalisticamente falando, é o fato, é algo concreto e possível de ser obtida”.
Uma das jornalistas da revista Caros Amigos, Natalia Viana (2005), considera que a
informação é muito importante no mundo em que vivemos, porque está em toda parte,
vem de todos os cantos do mundo. Não há como fazer parte de uma sociedade sem estar
informado, ao menos, sobre o que é de interesse de tal comunidade. Dessa forma, Lage
(2002) acredita que o jornalista tem uma delegação ou representação implícita que o
autoriza a ser os ouvidos e os olhos remotos do público, selecionar e lhe transmitir o que
possa ser interessante.
Vale lembrar que a história ocorre sempre na rua, nunca em uma redação de jornal. Por
isso, o jornalista deve estar atento ao que está acontecendo nas ruas, nas praças, nas
repartições públicas, nas escolas. Também nas esquinas, nos barracos e onde não se
possa ver, mas ainda assim existe. Para definir o quanto é importante, o jornalista
presenciar os fatos para que a informação seja repassada de forma fiel à sociedade,
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Alberti (2005) lembra de uma história que ouviu de um jornalista:
O jornalista pode ser comparado a pomba que Noé soltou para ver se
encontrava terra firme. Ela voltou com um ramo no bico, informando
que o dilúvio chegava ao fim. Esse é o tamanho do compromisso das
empresas de comunicação e dos jornalistas. Eles recebem uma
autorização da sociedade para informar para essa mesma sociedade se
o dilúvio terminou ou se ele ainda continua. Não é um simples
negócio, como uma fábrica de sabonetes. Há, porém, uma triste
distorção e essa autorização acaba sendo usurpada, geralmente por
políticos, que não usam com dignidade a concessão pública. Essa
‘autorização’, para mim, vale também para os jornais e para os
jornalistas. É uma forma muito bonita de ver o jornalismo.
(ALBERTI, 2005).
Além de informar – entenda-se documentar, avisar, comunicar, inteirar, noticiar – o
jornalismo também pode instruir, ou seja, orientar. Pois suas informações, mesmo que
indiretamente, ajudam a definir os rumos para os quais caminha a humanidade. “O que
diferencia de fato o jornalismo de outras atividades é o desempenho da tarefa
informativa e orientativa. O alimento dessa função é a ocorrência social, sobre a qual se
debruça o jornalismo para, a partir daí, manter a sua audiência a par dos
acontecimentos, possibilitando-lhe orientar-se diante da avalanche de ocorrências
relevantes na sociedade moderna” (LIMA, 2004, p.11).
Para inúmeros jornalistas, o acesso à informação define a cidadania, afinal, para Noblat
(2003, p.22), “a democracia depende de cidadãos bem informados”. Muitos também
acreditam que o jornalismo pode ser um auxiliador na transformação positiva da
realidade.
Em um prisma mais ideológico, Wilson Gasino (2005), que já foi editor-chefe do Jornal
de Londrina , e editor de Nacional do jornal Gazeta do Povo, no Paraná, aponta que o
jornalismo é ferramenta de transformação da sociedade “porque os desequilíbrios
sociais, marcantes na área de poder e riqueza também acontecem em termos de
informação. Quem detém a informação e o poder de difundi-la (o que quer e como quer)
detém o poder político e o poder econômico também”. Segundo ele, quanto mais
democratizada a informação, mais as pessoas se conscientizam dos seus direitos, da sua
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importância como cidadão, do seu valor como ser humano e, principalmente, da sua
força para mudar o mundo, para transformar a realidade.
2 POUCAS PÁGINAS... É A CRISE DO JORNALISMO IMPRESSO
A informação, vivendo a vertiginosa era digital, percorre as ondas dos satélites, o
impalpável mundo on-line. A era atual é da instantaneidade informativa em decorrência
do desenvolvimento tecnológico e é perceptível que isso trouxe muitos avanços para o
processo informativo.
No caso específico do jornalismo impresso contemporâneo, essa agilidade gerou uma
intensa crise de identidade, pois o jornal de papel acaba retransmitindo o que outros
meios informativos já noticiaram. “O modelo da prática jornalística que conhecemos
hoje, pelos menos, é praticado em vários jornais diários do país, está agonizante”
(CASTRO; GALENO, 2002, p.77).
Com o enxugamento do conteúdo nos jornais, a função de proporcionar conhecimento,
que nasceu com o jornalismo, está sendo minimizada. Menos informação, menor a
construção do conhecimento.
Quando uma reportagem consegue ensinar ou despertar as pessoas
para a importância do ‘amor ao próximo’, da ‘harmônica’, da ‘paz’;
consegue promover a fraternidade e o respeito entre ‘povos diversos’
(entenda-se aqui a diversidade humana); ou simplesmente consegue
oportunizar estes ‘seres diferentes’ comungarem as mesmas ideias e
repensarem conceitos pré-concebidos; a reportagem (ou o jornalismo)
está contribuindo de forma espetacular, na minha opinião, para a
construção do conhecimento individual e coletivo (RIGOTTI, 2005).
O exagero de boa parte da imprensa em informar superficialmente empobrece o
jornalismo, reduz seu valor social, minimiza seu papel de auxiliar na construção de
saberes. Os jornalistas entrevistados apontam como uma das saídas para o jornalismo
contemporâneo, voltar a investir na narração, na velha fórmula da boa história a se
contar. As
narrativas
impregnadas
de
vida,
de
imagens,
de
histórias
e,
conseqüentemente, de informações implícitas e explícitas deixaram de ser produzidas,
talvez pela cobrança pela agilidade, imposta pelo padrão da imprensa. “Os jornais
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impressos, até onde posso enxergar, têm vida longa. Sofrerão mudanças, talvez
mudanças radicais, mas sobreviverão sem aperto” (KHAMMEL, 1997).
A valorização do cotidiano anódino é uma estratégia de sobrevivência citada por Barros
(2001). Para ela, essa valorização deveria ser olhada com mais carinho pelo jornalismo,
“que tira sua própria sobrevivência do cotidiano” (BARROS, 2001, p.186). Ela defende
o reencantamento da vida banal, obtido pela valorização coletiva das pequenas coisas do
dia-a-dia.
3 A REPORTAGEM CONTANDO AS HISTÓRIAS
Há assuntos delicados e interessantes demais que não podem ocupar as 20 linhas da
notícia. Precisam de mais espaço, de mais pesquisa, de maior corpo. Não somente isso.
Precisam de alma, de coração, para narrar as histórias. Para Gasino (2005), “a
reportagem é o retrato daquilo que acontece, pintado com as cores da visão do
jornalista. Sem conhecermos a realidade não podemos mudá-la”. A descrição na
narrativa surge, então, como elemento-chave dessa composição, como apontam os
jornalistas: que sejam reportagens cheias de vida.
Genro Filho (1987) dá para a reportagem o adjetivo “totalidade”, uma vez que, com
maior rigor na investigação e maior espaço, busca sua significação na totalidade da
matéria jornalística, “concorrendo com a singularidade do fenômeno que aborda e dos
fatos que o configuram” (GENRO FILHO, 1987, entre 183-202).
Nesse aspecto, a arte de contar histórias, como nos primórdios da comunicação, pode
beber da fonte inesgotável da literatura, embora a fonte inspiradora não tenha atraído
tanto os jornalistas contemporâneos. No entanto, talvez seja essa a alternativa para atrair
os leitores que migram para outros meios informativos, deixando o jornalismo impresso
com as páginas fechadas.
As narrativas impregnadas de vida, de imagens, de histórias e, conseqüentemente, de
informações implícitas e explícitas deixaram de ser produzidas, talvez pela cobrança
pela agilidade, imposta pelo padrão da imprensa. Lima (2004) defende o uso da
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reportagem com recursos da literatura seja algo para que o jornalismo assuma a
plenitude de sua função. Em entrevista, Lima (2005) ressalta que, normalmente, o
jornalismo convencional tem uma atitude muito passiva e reativa diante das ocorrências
sociais.
A sua leitura de mundo é quase sempre superficial. Felizmente, há
uma escola e uma tradição, a do Jornalismo Literário, onde o
propósito central é compreender a realidade social em profundidade.
Essa escola exerce uma função, portanto, que ultrapassa o nível da
informação e da orientação, entrando no território da compreensão.
Por isso exerce prioritariamente, entendo, uma função educativa,
muito ancorada no papel de geração e transmissão de conhecimento
(LIMA, 2005).
Dessa forma, muitos jornalistas vêem na literatura a esperança da comunicação e a
forma mais adequada de unir emoção e verdade seria com o Jornalismo Literário, que
nasceu em 1960. “Através da leitura, o homem exerce a sua singularidade, de forma
universal. Porque ela é forma de expressão oral ou escrita que atravessa os tempos da
história humana, que cruza as fronteiras e as nações” (CASTRO; GALENO, 2002,
p.89). A junção da literatura com o jornalismo seria, portanto, a ferramenta essencial
para a compreensão, em plenitude, da vida humana.
4 UM JORNALISMO TRANSFORMADOR
Um jornalista que usa suas impressões durante o relato sensível de uma realidade pode
encontrar o aconchego de um coração atento e disposto a ajudar, a se mobilizar. Barros
(2005) lembra que o repórter não deve humanizar somente durante a narrativa. Ela
defende que o jornalista seja humano em tempo integral. Não se trata de usar a
sensibilidade para impressionar, para criar apenas uma sensação momentânea
(sensacionalismo). No entanto, a linha é tênue, é preciso cuidado, responsabilidade.
A intenção, no caso de um jornalismo mais sensível, é aproximar as pessoas de uma
realidade que nem sempre conhecem e por isso não se preocupam. A descrição, a
apuração detalhada nesse caso, seria com intuito de inquietar e suscitar informações em
uma comunidade a fim de explicitar os conflitos pelos quais a raça humana passa.
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Iluminado na percepção da vida em sua dimensão humanamente complexa, o
jornalismo, por meio de suas reportagens, pode trazer à tona informações que podem
modificar os rumos da sociedade, que possui inúmeros conflitos. Dessa forma, na
medida em que as ações são executadas pelos personagens da vida social, elas acabam
refletindo interesses de determinados grupos da sociedade, executados pelos
personagens individuais e coletivos, como ressalta Lima (1998).
Antes de ser um negócio, o jornal deve ser visto como um serviço
público. E como servidor público deverá proceder. Mais do que
informações e conhecimentos, o jornal deve transmitir entendimento.
Porque é do entendimento que deriva o poder. E em uma democracia,
o poder é dos cidadãos (NOBLAT, 2003, p.22).
Por esse motivo, é preciso que o jornalismo informe da forma mais adequada, para que
não perca credibilidade junto ao público, e não sofra ataques de diversos setores da
sociedade, como lembra Pena (2005). É preciso revelar o mundo, tal qual é e por que
não, como poderia ser.
O jornalista que sabe isso expõe-se continuamente à arte, onde o
homem encontra sua transcendência, à cotidianidade, à vida como ela
é, lá onde a vida humana é imanente, ao pensamento complexo, que é
capaz de contemplar a diversidade sem obrigá-la ao apaziguamento
redutor. Arte e rotina são protagonizadas por pessoas comuns, é em
detalhes banais que a vida se tece. Relacionamo-nos com o mundo
através de constructors , e é isso que o jornalismo faz, uma contínua
produção simbólica do mundo (BARROS, 2001, p.176).
São casos felizes de “uso do poder da informação” a favor da comunidade, que serão
mostrados a seguir.
4.1 Cores, gritos e sussurros da transformação
Uma reportagem – ancorada na sensibilidade, na força e na fragilidade humana –
pode trazer ao conhecimento da comunidade algo que a mobilize, que a inquiete. Sabese que para isso é preciso transpiração e esforço intelectual. Por isso, muitos jornalistas
apontaram que para o processo de transformação ter início, é preciso contar uma
história, produzir uma reportagem que reflita o ser humano em sua essência, com seus
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problemas ou soluções. Por esse motivo, em entrevista, Viana (2005) destaca que o
jornalismo tem que ter uma perspectiva individual.
“Só conseguimos esse efeito, enquanto jornalistas, quando saímos a campo e
interagimos, como seres humanos, com nossos personagens da vida real. Não
conseguimos isso quando nos limitamos a entrevistar pessoas pelo telefone ou pela
internet, nem quando só escrevemos condicionando nosso texto a um formato limitado
de 'lead’” (LIMA, 2005).
Assim, a pesquisa buscou alguns exemplos de reportagens do jornalismo impresso, que
geraram algum tipo de transformação positiva das realidades. Wilson Gasino lembrou
da série de reportagens sobre adolescentes que estavam sendo mortos pelo tráfico em
Londrina. Elaine Tavares evidenciou a cobertura sobre o Movimento dos Sem-Terra
(MST) e perfil sobre um construtor de relógios de sol.
O jornalista Pedro Doria aborda constantemente o tema sexo, aborto. Natalia Viana
citou como exemplo uma matéria sobre subemprego, Hip Hop e cooperativismo.
Edvaldo Pereira Lima exemplificou a transformação por meio do jornalismo com o
livro-reportagem Hiroshima. James Alberti destacou a série de reportagens sobre
comunidade que estava sendo expulsa de sua terra. Genara Rigotti ressaltou uma
seqüência de matérias sobre o caso de uma mãe que teve seus filhos afastados por causa
da miséria.
Neste artigo, é apresentada a experiência de Genara Rigotti, que já recebeu o título
Jornalista Amiga da Criança , e tem um exemplo interessante de reportagem que teve
um resultado positivo na comunidade. “Fui cobrir uma reunião em que o promotor da
Vara da Infância e Juventude e representantes do Conselho Tutelar, estavam
apresentando o Programa de Aviso por Maus-tratos Contra Criança ou Adolescente
(Apomt) para professores da rede pública” (RIGOTTI, 2005). Durante a cobertura do
evento, Rigotti se dá conta que uma nova pauta surgiu. “Em determinado momento o
promotor contou a história de uma mulher grávida que estava pedindo esmolas pelas
ruas com um dos quatro filhos... e chegou a pedir dinheiro para ele”. Depois de ver
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aquilo, o promotor solicitou o abrigamento das crianças e disse acreditar que em
algumas situações a solução é destituir o pátrio poder e colocar as crianças para adoção
— especialmente quando as crianças são pequenas e serão adotadas mais facilmente.
Rigotti conta que uma conselheira tutelar, que acompanhava o caso desta mulher, pegou
o microfone e disse indignada que miséria não é motivo para tirar os filhos de uma mãe.
A platéia aplaudiu a conselheira de pé... Enfim, começou ali uma
discussão que ainda iria longe!
Eu me interessei foi pela história daquela mulher, já que na semana
seguinte iria fazer uma matéria especial para o aniversário do ECA[...]
Resolvi procurar a conselheira, e no dia que liguei, ela estava com a
mulher na Câmara de Vereadores, contando sua história para uma das
comissões da casa. Fui até lá e entrevistei a mulher. O fotógrafo fez
uma foto (no contra luz) que mostrava ela olhando para o horizonte
com um bebê de 15 dias nos braços e desesperada pela distância dos
outros quatro filhos (abrigados por determinação do juiz da infância, a
pedido do promotor)[...]
Escrevi o material, que lembrava os 15 anos do ECA, as dificuldades
de implementação da lei, e contava a história daquela mulher, que por
causa da miséria havia sido impedida até mesmo de ver os filhos. Ela
nunca havia recebido qualquer tipo de auxílio dos programas da
prefeitura, por isso, tinha como única fonte de renda a catação de
papel e a mendicância (RIGOTTI, 2005).
A primeira matéria sobre o caso foi publicada no dia 13 de julho de 2005, intitulada
Miséria afasta mãe dos quatro filhos. E trazia como subtítulo Catadora de papel pede
ajuda a conselho tutelar para impedir que crianças sejam adotadas . A forma utilizada
pela jornalista, para escrever a história, aproximava o leitor da narrativa.
Faltava pouco para dar a luz a seu quinto filho. Maria (nome fictício*)
já não tinha forças para sair pelas ruas à cata de papelão. Era com a
venda do material que ela pagava o aluguel de um quitinete e tentava
alimentar as crianças. "Nos dias que dava bem, tirava uns R$ 10,00",
diz. A proximidade do parto começava a preocupar. "Queria adiantar
um aluguel e deixar um dinheiro com as crianças antes de ir para a
maternidade, porque sabia que, pelo menos no primeiro mês depois do
parto,
não
conseguiria
trabalhar",
lembra.
A solução que encontrou foi sair pelas ruas e pedir esmolas. Levou o
filho mais velho, de oito anos. Naquele dia, uma das pessoas
abordadas pelo menino foi o promotor Geovani Werner Tramontin, da
Promotoria da Infância e Juventude de Joinville. "Quando ele disse
que eu estava cometendo um crime, respondi que ele podia me ajudar.
Agora, ele quer tirar meus filhos e dar para adoção. A minha vida é
muito sacrificada. Já morei embaixo de ponte, dormi em casa
abandonada... é muita história. Mas, agora, que tenho meu cantinho,
querem tirar as crianças de mim", indaga. Maria tem 34 anos e vive
em Joinville desde 1998. Veio para a cidade depois que a casa onde
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morava em Itajaí pegou fogo, porque cozinhava usando álcool.
Durante todos esses anos, sofreu agressões do companheiro, que, há
três meses, por determinação da Justiça, foi afastado de casa. Parte da
orelha decepada, o braço quebrado, a cicatriz de uma facada que levou
no rosto são algumas das agressões. "Nunca deixei ele encostar nas
crianças. Preferia apanhar", diz (A NOTÍCIA, 2005).
Rigotti conta que a segunda parte da reportagem foi publicada no dia seguinte (14 de
julho de 2005), quando o promotor já havia requisitado o abrigamento do bebê (que
ainda estava sendo amamentado pela mãe), e também um relatório da Secretaria de
Bem-Estar Social sobre a conselheira. “O promotor queria o afastamento da conselheira,
pois ela estava se metendo onde não devia...”. Seu relato prossegue:
Quando tudo parecia negro e sem solução (pois a gente não queria
explorar a briga da conselheira com o promotor, já que isso poderia
irritá-lo ainda mais), começaram as ligações para o jornal, de várias
pessoas querendo ajudar aquela mulher e indignados com a atitude do
promotor. Entre as várias ajudas que a mulher recebeu, teve uma que
mudou sua vida. Uma empresária (que não quis se identificar)
resolveu reformar uma casa, mobiliar e pagar o aluguel pelo período
de um ano para aquela mulher, até que ela conseguisse "andar com as
próprias pernas". Ela também arranjou um emprego para a mulher,
enfim, tudo o que o poder público deixou de fazer. E isso aconteceu,
depois que esta empresária leu a reportagem, que não identificava a
mulher (em respeito ao ECA), mas que contava sua história de uma
forma humanizada (RIGOTTI, 2005).
A última matéria sobre o assunto foi publicada no dia 16 de julho de 2005, e já abordava
a ajuda da empresária.
Depois de ler a reportagem "Miséria afasta mãe dos quatro filhos",
publicada na edição do dia 13 do AN Cidade, uma empresária
joinvilense se comoveu com a história de Maria (nome fictício) e
resolveu ajudar. A empresária alugou uma casa para a catadora de
papel morar e ofereceu um emprego para que ela possa sustentar a
família e construir um futuro com mais dignidade. Já na quinta-feira,
Maria deu entrada na papelada para fazer sua carteira de trabalho. [...]
A empresária que resolveu ajudar a catadora de papel acha
desnecessário se identificar e acredita que com esse apoio Maria
poderá retomar seus filhos e reconstruir sua vida. Também na
segunda-feira, uma assistente social deve visitar Maria, para
elaboração de um relatório, que será encaminhado à Promotoria da
Infância e Juventude, e a advogada que aceitou defender a catadora
também dará entrada ao pedido de desabrigamento das crianças (A
NOTÍCIA, 2005).
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A jornalista ressalta que depois de toda essa mobilização da comunidade, o promotor
não teve alternativa senão a de recuar. “Mesmo assim pediu o afastamento da
conselheira, com o argumento de que ela estava querendo se promover na mídia. O juiz
acabou suspendendo a medida de abrigamento e devolvendo as crianças para a mãe”.
Segundo Rigotti, a conselheira está processando a Secretaria de Bem-estar Social por ter
produzido um relatório falso, apenas para atender ao pedido do promotor. “E eu tive a
oportunidade de falar sobre o assunto na Câmara de Vereadores... Tudo isso, fez muitas
pessoas refletirem sobre o que é a pobreza, e como uma situação de abuso de autoridade
pode mudar para sempre a vida de uma família”. Quando foi entrevistada sobre o
assunto, em setembro de 2005, Rigotti afirmou ainda que voltaria a conversar com a
catadora de papel “para ver como está sua vida agora, depois de tantas mudanças”.
Mudanças? Sim, pequenas mudanças. E como elas aconteceram? Foi por meio do
jornalismo que essa realidade foi transformada. Não que o jornalismo tenha sido o único
responsável pela mudança, ele foi o mediador. Para que elas realmente acontecessem foi
preciso de um público atento, solidário, imbuído de um sentimento coletivo de
transformação social. Onde há informação verdadeira, necessária, e corações abertos à
partilha, há inquietação e a realidade condigna a todos se tece em plenitude.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O jornalismo tem suas raízes na sociedade, na vivência humana. Ocupa-se de contar as
histórias da vida para as gerações presentes e para as gerações futuras. Dessas raízes
surgem o tronco e os galhos de conhecimento, que o ato de comunicar gera, pouco a
pouco, no interior da fotossíntese, que é a existência do homem sobre a Terra.
Este trabalho tentou iluminar – com o mosaico das falas de profissionais atuantes no
mercado – as formas de como essa fotossíntese comunicacional pode fornecer
conhecimento aos receptores da informação. Com esse prisma, detalhou um pouco da
crise que suprime a informação e, em conseqüência, o conhecimento no atual molde de
construção do jornalismo da sociedade contemporânea, que vive as inovações
tecnológicas a cada segundo. Com isso, percebeu-se que o jornalismo impresso acabou
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perdendo um pouco seu espaço.
Assim, este trabalho tentou também mostrar que o jornalista, com recursos do
Jornalismo Literário, pode atrair o interesse do público já que se trata de uma matéria
escrita de forma criativa. Além disso, a utilização de uma linguagem voltada para a
humanização do relato jornalístico pode sensibilizar os leitores sobre a realidade
brasileira e a informação repassada de forma precisa e humanizada pode gerar
conhecimento e ações concretas da comunidade, como a mobilização social.
Então, quais podem ser os frutos do jornalismo? Ora aninhado na existência humana, o
jornalismo pode contar as verdades do mundo e apontar alternativas para a melhoria das
realidades. Isso foi observado nas entrevistas dos jornalistas procurados. Na maioria, os
entrevistados relatam pelo menos um exemplo de que uma reportagem veiculada no
jornalismo impresso gerou um bom resultado em determinada sociedade. Bons frutos de
um jornalismo sensível e atento às necessidades sociais.
Ao longo do trabalho foi também apontado como o jornalismo impresso – que
sobrevive em meio ao solo árido das novas tecnologias que o suplantam – pode brotar e
florescer entre as comunidades, e como sua narrativa humana e verossímil, pode gerar
sementes de esperança de que exista uma sociedade mais igualitária e feliz.
Afinal, o poder da palavra é tamanho. Ela cresce regada com o suor e a perseverança do
repórter que tem como sua única ferramenta para o plantio, a união adequada das
versões das verdades. Esse poder – o da palavra transformada em informação por meio
do trabalho do jornalista – pode ser repartido na grande colheita que é o processo de
comunicação.
Que vivam, então, as páginas do jornalismo impresso, que ainda resistem às
tempestades e aos granizos da superficialidade da informação e, nos casos felizes, de
investigação, nutrem-se do adubo da literatura – da descrição dos ambientes, das falas,
dos cheiros e das cores – e assim tornem o leitor mais próximo do mundo que está ali
adiante de sua janela. Uma porção de verdade somada a uma porção de emoção pode
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frutificar em informação concisa e necessária para o crescimento de um povo.
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Relato humanizado no jornalismo