ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL Suplemento Literário ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL Jornal do Peregrino Ribeirão Preto - SP - Ano I - No 1 - Junho/2002 www.jperegrino.com.br VEIGA MIRANDA, UM HOMEM ILUSTRE ADEUS, JOÃO! Antônio Carlos Tórtoro (*) “Causou profunda consternação em nossos meios sociais a notícia do falecimento do Dr. João Caetano de Menezes, ocorrido na noite de ontem, em nossa cidade. Advogado e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Ordem dos Velhos Jornalistas, contava oitenta e dois anos de idade. Era casado com a Sra. Dirce Biatto de Menezes, cujo consórcio deixou os filhos Dr José Manoel, viúvo da Sra Sandra Helena Mendonça Biatto de Menezes e Dra Maria Rosa Biatto de Menezes. Deixou netos. Seu sepultamento será realizado hoje, saindo o féretro às dez horas do Velório Samaritano para o Cemitério Municipal de Cravinhos” (Coluna de Avisos Fúnebres / Falecimentos do Jornal “A Cidade” do dia 2 de abril de 2002) Isso é tudo que os arquivos da ARL-Academia Ribeirãopretana de Letras possui sobre seu ex-acadêmico, apesar de dezenas de insistentes pedidos para que seus membros enviem materiais para arquivar e guardar, ou colocar em nosso site para manutenção da memória dos homens que ajudaram a fazer a história da Literatura em Ribeirão Preto e região. Parece-me que alguns acreditam ser realmente, imortais, não se preocupando em permitir aos amigos e colegas de entidades por onde passaram que tenham um registro, no dia de sua passagem para planos superiores, a ser repassado para os que os sucederem. Restam os arquivos da minha memória, ativados em minha mente sob os seguintes comandos especiais, “chaves” que abrem as portas para a entrada de um homem calmo e experiente, fala compassada, coração de criança, sonhador e desligado dos problemas particulares do dia–a-dia, mas preocupado, sempre, com os problemas mundiais: Ordem dos Velhos Jornalistas (reuniões em que ele se fez presente), posses de novos acadêmicos (momentos em que ele fez ouvir suas palavras), D. Dirce (que faz lembrar os longos “papos” que batemos, por telefone, falando sobre o João), Sede Própria da ARL (lembra as diversas vezes que ele garantiu que existia um membro secreto da ARL que, com certeza, nos daria sua Sede Própria), Jornal “A Cidade” (que faz lembrar sua coluna diária lida por muitos, inclusive pela Madre Elza, irmã Ursulina com quem convivi durante mais de dez anos), ou qualquer história ou “causo” sobre matas, rios, animais, caçadas, pescarias. Poucos souberam de sua morte a tempo de visitá-lo no Velório Samaritano ou acompanhá-lo até Cravinhos onde ocorreu seu sepultamento. Era uma terça-feira, sete horas da manhã, quando a acadêmica Ely Vieitez Lanes avisou-me do ocorrido. Só tive tempo (entre o atender alunos, pais de alunos, professores, telefonemas, inerentes ao meu trabalho de Orientador Educacional, no Colégio Anchieta) de localizar onde estava o corpo e enviar, em nome de todos os membros da ARL, nossa homenagem em forma de uma coroa de flores. Há muito não tínhamos notícia, na ARL, do Dr João Caetano, por se ter respeitado seu afastamento das atividades do sodalício por motivos particulares: não queríamos que se sentisse constrangido. Sua Cadeira nº 32, cujo Patrono é Cecília Meirelles, está vaga, mas seu nome constará para sempre do rol daqueles que ajudaram a construir as décadas de existência da ARL. (*) Presidente de ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras Rubem Cione (*) oão Pedro da Veiga Miranda é mineiro de nascimento, amou patrioticamente Ribeirão Preto. Aqui viveu, sendo professor, conferencista, jornalista, engenheiro, militante político, vereador e prefeito municipal. Aqui viveu e prestou seus bons serviços para a comunidade, apenas se afastando, temporariamente, a convite do Dr. Epitácio Pessoa, Presidente da República, para ser Ministro Civil da Marinha. Honrosamente voltou para Ribeirão Preto, e aqui faleceu, onde está sepultado. Ao se afastar da vida pública, em 1923, Veiga Miranda, movido pelo verdadeiro idealismo que o caracterizava, fundou na capital paulista a revista “O Comentário”, destinado à doutrinação política e em cuja direção mais uma vez revelou versatilidade de talento. Nela redigia praticamente tudo, desde artigos de fundo, até crônicas, versos e anúncios. Adotava pseudônimos diversos, inclusive um feminino – Sílvia Rangel – com a qual subscrevia uma seção dirigida às mulheres. Faleceu a 17 de fevereiro de 1936, em Ribeirão Preto, irrealizado nas aspirações de pertencer à Academia Brasileira de Letras, recusando, por co- J erência, o oferecimento que lhe fizeram na fase em que era Ministro da Marinha; concorreu – apenas como literato – à vaga de Amadeu Amaral, em 1930, sendo derrotado por Guilherme de Almeida. Em 1.935, também não logrou êxito ao disputar o lugar com Coelho Netto na cadeira cujo patrono é Álvares de Azevedo. Duro golpe a preterição para quem biografara magistralmente o segundo e merecera do primeiro entusiástico aplauso pela produção literária que realizou, conforme atesta a correspondência existente. Num dos seus maravilhosos livros, pleno de confidências, estão páginas de grande beleza moral, cívica, poética, pessoal e familiar. Muito de história de sua vida; trajetória de lutas, de vitórias, de amor, de decepção também, mas que marcam a vida de um dos notáveis homens públicos desta nação, de um homem que soube viver com dignidade, com espírito, com inteligência, um homem que se emoldurou de excepcional cultura e de uma formação própria dos que tiveram a felicidade de um berço tradicional e de virtudes as mais ricas. Veiga Miranda, que tinha Ribeirão Preto como sua própria terra natal, que não o esqueceu quando nas alturas de suas posições, que bem o representou, que desejou aqui viver e morrer, sendo aqui sepultado como desejara (no Cemitério da Saudade, quadra 18, sepultura 1848), pertence à galeria dos seus notáveis homens públicos, que enriquecem sua vida e sua história. Homens como estes precisam e merecem ser lembrados como exemplo às gerações presentes e futuras. Veiga Miranda não foi eleito para a ABL – Academia Brasileira de Letras, apesar de sua vasta obra literária como romancista, dramaturgo, poeta, ensaísta, conferencista e dramaturgo, mas foi imortalizado pela ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras ao ser instituído como o patrono da cadeira 22, uma justa homenagem desta cidade que ele amou e a quem dedicou o melhor de sua vida. (*) Este artigo é um excerto – páginas 36,37 e 81 – do livro “Entre Ruy e Epitácio, Veiga Miranda”, editora Legis Summa Ltda., 1994, do escritor, historiador, advogado e membro e ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras, Dr. Rubem Cione. 2 - Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26 ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL Ribeirão Preto - SP - Junho/2002 EMÍLIA, A Nº 1 DE DELICADEZAS E DE DOR Antonio Carlos Tórtoro (*) Waldomiro W. Peixoto (*) “Se me movo no elemento da pintura figurativa, sei que um quadro é sempre mais do que a imagem. Mas o que vem a ser esse mais?”, diz o filósofo José Arthur Giannotti, no Caderno “Mais!”, nº 519, da Folha de S. Paulo. Estou pensando o mesmo sobre a Emília, ao vê-la numa manhã de sábado, 8 horas, em seu esquife no Velório da Saudade: havia ali um algo mais, indescritível, envolvendo alguém que dedicou grande parte de sua vida a um sonho que se tornou realidade. A Academia Ribeirãopretana de Letras (ARL) teve origem em um grupo de estudantes, entre os quais figuravam os advogados José Wilson Seixas Santos e Saulo Ramos, que viria a ser Ministro do Governo José Sarney. Nasceu com um grupo de jovens idealistas e vibrantes que se reunia na Praça XV de Novembro, invadia a redação de “A Tarde”, cultivava os mais belos valores do espírito e se mantinha coeso no culto à Literatura. Foram os precursores da ARL, e até 1947 permaneceram juntos, uma irmandade de poetas, cronistas, contistas, romancistas e músicos, mas, sobretudo altruístas, cujos nomes devem estar inscritos nos anais do Sodalício. Entre eles estava Emília Ferreira da Matta Rocha, a Acadêmica que até o dia 19 de janeiro de 2002 ocupou cadeira nº 1 da ARL (patroneada por Antônio de Oliveira). E foi em 1947, no dia 23 de outubro, que os jovens literatos fundaram a “Academia Estudantina de Letras”, apoiados e incentivados por escritores, professores, jornalistas e políticos que representavam a elite cultural da cidade. E o grupo deixou de reunir-se na cozinha da Legião Brasileira e na casa da Emília, para instalar-se na Biblioteca Municipal, na Praça Santo Antônio, por determinação do então prefeito José de Magalhães. De repente, para surpresa e gáudio dos estudantes, o professor Romualdo Monteiro de Barros e o doutor Epaminondas Barra solicitaram ingresso na Academia Estudantina, que foi então transformada, no dia 09 de junho de 1951, em Academia Ribeirãopretana de Letras, para acolher esses e outros intelectuais de Ribeirão Preto. Emília nasceu no dia 17/12/ 1921, em Sertãozinho, SP, filha de Manoel Ferreira da Matta e Mavelina de Almeida Loureiro. É autora dos livros “Pontal: que eu vi e ouvi”, “Saudade”, “A Flor do Ipê”, “Lágrimas de Mãe”. Além de fundadora da ARL, pertence à Academia de Letras Municipais do Brasil (Cadeira nº 12), Academia de Letras Internacional Três Fronteira (Brasil, Uruguai e Argentina), Academia de Letras de Rezende (RJ), UBT – Seção Espírito Santo e Academia de Letras de Anápolis. Emília é um exemplo a ser seguido, e sua vida, dedicada à ARL, é um bom motivo para que muitos acadêmicos, que atualmente ocupam as 40 Cadeiras, repensem suas posições e participem mais das atividades propostas e desenvolvidas pela atual diretoria da nossa Academia Ribeirãopretana de Letras. “Eu que tanto amei, que fiz por onde, / cada um fosse feliz...”. (De seu poema “Solidão”) (*) Presidente da ARL Academia Ribeirãopretana de Letras o acabar de fazer a primeira leitura do livro de poesias “ECOS NO OUTONO”, edição Funpec – Ribeirão Preto, 2001, 86 páginas, de Jair Yanni, confesso que o julguei simples demais. Mas conhecendo a autora há muitos anos, sabendo-a uma pessoa sensível, que vive Arte o tempo todo (é artista plástica e agitadora cultural) e tendo privado com ela tantos anos no Grupo Flamboyant, ficou-me o sentimento do leitor que não conseguiu dar-se conta da grandeza de sua poesia. A simplicidade não poderia ser fortuita; haveria de ter uma intenção na forma simples de construir sua poesia. Jair Yanni é do ramo e eu bem sabia. Fiz a releitura dos poemas como se prepara uma receita que, apesar de simples, encanta pelo sabor. Assim como uma salada, onde não é permitido inventar muito para se obter o sabor desejado. Encontrei versos saborosos. Comecei a comer seus textos, a degustar cada palavra e a descobrir a poesia que havia escondida por trás do texto verdadeiramente simples e apenas aparentemente fácil. Cada poema é preciso ler calmamente, meditar. Devagarzinho. Como se fôssemos desnudando um repolho, removendo uma folha de sobre a outra, até descobrir o tenro interior onde habita a essência latente, poética, automanifestada. A poesia é como Deus, existe em tudo apesar do homem. No prólogo da antologia poética do Grupo Flamboyant “Cantata (in) Multivozes” eu afirmo que “a Arte é latente em tudo, está à disposição de todos”. Eu acredito piamente nisso e “ECOS NO OUTONO” o comprovam. Finda a releitura, duas características se confirmam: simplicidade e relação de despojamento com o leitor. A primeira depreende-se de seu estilo simples, vocabulário fácil, despretensioso, sem malabarismos verbais ou estrutura sintática rebuscada. Não existe uma preocupação de trabalhar A literariamente a forma; há, sim, uma busca da poesia a partir do conteúdo. Não há também a pretensão de tratar os temas de forma definitiva; sobretudo importa captar sutilmente o momento poético sem grandes aprofundamentos. Seu texto é limpo como o riacho em que se vêem peixes e pedras ao fundo, entre areias em movimento e plantas, em sinfonia de busca e espera. A relação de despojamento depreende-se do fato de que seu texto não é provocativo; ele tão-somente apresenta o fato poético em si e este cala na alma do leitor, espontaneamente, de acordo com a leitura que cada um faz, uma vez que os temas tratados são universais e a cada um sabe de forma diferente. Aí reside a latência da poesia que a autora sutilmente colocou em tudo, despojadamente, e o leitor vai desvendando aos poucos. Tempo, o primeiro poema da coletânea, é um exemplo acabado desta simplicidade e despojamento e seus versos e signos falam por si mesmos: “O tempo igual coexiste/E se sucede em toda parte... / O mundo não envelhece/ Os homens morrem”. A essência do Eclesiastes está por inteiro nestes quatro sábios versos. A poeta coloca os signos com propriedade, a leitura poética fica por conta do leitor que, de forma espontânea, vai decodificando e descobrindo um universo de beleza que habita em suas entrelinhas. O poema como pré-texto, e a descoberta deste mundo amargo e quase fatalista no subtexto. Ratificam essa vertente também os poemas Reflexões, Momentos, Fonte, Eterno Começar e Já Desvivo... O sentimento de religiosidade é também muito forte. Religiosidade decorrente do amor – pode-se dizer panteísta – que destila dos temas abordados, com um toque de sabedoria, uma sabedoria zen, tal a suavidade com que trata cada um dos poemas. É ler Tempo e Milagre entre outros para constatar. Seus textos são, sempre com doce sutileza, construídos também de paradoxos (Consolatrix, O Velho, Nós Três, Disfarce), plasticidade (A Chuva), metalinguagem (Árvore de Pedra) e, apesar da delicadeza, conflitos existenciais. Reflitamos sobre estes versos: “Vejo-me. / Não me reconheço”. (O Espelho Desabitado), “O jogo da vida é sem vencedor/ Não há querer.”(Consolatrix) e “Agonizo em meu disfarce.”(Disfarce). A dor de existir é pungente nos últimos poemas, a partir de Saudade – este, aliás, um poema antológico – cujo tema é por demais desgastado, mas recebe tratamento novo e chega a ser devastador, travestido em lamento de vida e morte: “Por favor, / Não venha agora/ vou preparar o lugar/ Vou consertar as goteiras/ Desta casa destelhada...”. É uma densa metáfora da Preparação e lembra a amargura frente à iminência da morte, marca dos melhores poemas de Manuel Bandeira. Esse poema, em uníssono com Desafio e Pássaro Ferido, no lugar da destruição traz inusitadamente a redenção: “A brisa fez-se vento forte... / Vim à tona em pedaços/ Juntei-os/ E resolvi ser poeta” (...) “Recolherei todos os galhos/ quebrados da nossa árvore... / E quando brotar/ A primeira folhinha verde/ Reporei seu ninho/ Novamente”. É a Fênix abrindo as asas e anunciando o renascimento através da dor. A poesia de Jair Yanni é Fênix abrindo as asas e anunciando o renascimento através da dor (“Cuidarei do tronco castigado/ porque acredito na força das raízes”). Escancara o óbvio para denunciar o invisível. Mais: denuncia aos cegos – que teimam em não ver – que a poesia é como Deus: em tudo faz a sua morada. (*) Da Cadeira 22 da ARL Academia Ribeirãopretana de Letras ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL Ribeirão Preto - SP - Junho/2002 Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26 - 3 CARTA ABERTA A UM AMIGO Ely Vieitez Lanes(*) ão escrevo ao presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras, Coordenador Pedagógico, acadêmico, matemático, articulista, ou poeta, mas ao amigo. Caro Antônio Carlos Tórtoro, analise, lucidamente, por que você é pedra de escândalo, provoca críticas e irritação, muitas vezes. Já não se usa homem como você. Ignora a globalização, gente feita em série. Hoje há um pacto anônimo e silencioso que rege a reificação humana e quem é diferente paga preço alto. Você tem a coluna vertebral feita de aço, jamais se curva. Seus posicionamentos são muito claros, francamente, todos são meio políticos, na pior acepção do termo: ninguém é contra ou a favor, muito pelo contrário. O sim, sim, não, não bíblicos transformaram-se em um tíbio talvez provisório. Pontualidade, fidelidade, franqueza, teimoso como um Sísifo redivivo, continua empurrando sua pedra montanha acima, trabalhando numa faina tresloucada, desinteressada do lucro, tão preocupado está com o dever, a tarefa a cumprir. Ninguém é mais assim, caríssimo. Julgam-no, pois, ultrapassado, ingênuo, meio rude, obsoleto. E culturalmente? Saber matemática não era o bastante. Embrenhou-se pela poesia, começou a ler grandes autores também da prosa: as citações em seus artigos são a evidência insofismável. Sabia? Correm por aí histórias folclóricas a seu respeito. A minha predileta é aquela quando você trabalhava em um colégio religioso e a falsa doce freira começou a perseguí-lo pelo pecado de você ser maçom. Ela desconhecia a liberdade de opções do ser humano? Na sexta-feira, você era o coordenador pedagógico e mal conhecia um computador. Ela, N maquiavelicamente, mudou-o de cargo: a partir de segunda-feira, você seria o professor de computação. Você fez o que ela pretendia? Abandonou o emprego? Não. Comprou livros e livros sobre o assunto e dois dias depois era perito no computador e seus mistérios. Que força é essa? De onde tira sua pertinácia? Muitos o consideram um homem meio “gauche”, irrita-se com sua exagerada seriedade, intransigência. Não querem que cobre compromissos assumidos (é tão “raffiné”, hoje, dizer que se esqueceu, devido a vida muito agendada...), odeiam quando ten- ta levantar verbas para a ARL , projetos culturais; criticam se você aceita cargos , escandalizam-se por que você nada recebe por eles. Enfim, meu amigo, de que barro você é feito? Olhe ao seu redor: quase todo mundo usa máscaras, representa papéis, arma-se de mentiras capciosas, considera normais todas as fraquezas e vícios humanos. E você continua o contrário de tudo isso ?! Já ouvi duas vezes a assertiva preciosa: “Ele não sabia que era impossível, foi lá e fez”. Desconheço o autor, mas ela lhe cabe como uma luva. Seu lema de vida deve ser a frase do filósofo espanhol, Jesús Urteaga: “É preciso saber o que se quer e estar no que se faz”. Sabe o que eu desejaria? Como na bizarra novelinha da Rede Globo de inacreditável sucesso, fazer uns vinte clones seus. Empossálos nos governos municipal, estadual e federal. Seriam varridas as falsidades, a falácia, a demagogia, as traições, os conchavos espúrios. Todos os problemas do Brasil poderiam ser resolvidos. Escrevo-lhe, Antônio Carlos Tórtoro, porque admiro quem marcha na contramão, aqueles que não se moldam, como se fossem de essência líquida (ou de argila?), os guerreiros, idealistas, sonhadores. Siga sua difícil vereda, meu admirável amigo, mas você não está sozinho. Houve um homem, um irmão, que até morreu para redimir os pecados dos homens, sem questionar se valia a pena. Avante, pois, querido Quixote moderno! À sua frente haverá, sempre, infindos moinhos de vento, com os quais você terá que lutar. Para heróis de seu feitio não há reconsiderações, recuos, desistência. Penso, contudo, que o mundo ainda vale a pena, pelas surpresas da Criação, como você. (*)Membro da ARL e UBE UM QUADRO Nilva Mariani (*) Além, a montanha... flocos de nuvem cingindo-lhe o pescoço. As flores embelezando-se, maquiando-se em tons suaves em torno do espelho líquido. O colibri aprova o capricho e cumprimenta cada flor com reverências de bailarina e beijos enamorados. O raio de sol saltitando, bulindo aqui e acolá, põe purpurinas na água e nas plantas. Aquarela perfeita! Quase... Agora sim! -a ária do canário, que acaba de chegar, preenche os espaços vazios... E a paz assina o quadro, (*) Cadeira nº 39 da ARL Academia Ribeirãopretana de Letras Nesta foto destacamos os primeiros acadêmicos: Vêem-se em pé, da esquerda para direita: Prof. Benedito de Siqueira Abreu - Dr. Osmany Emboaba da Costa - Teatrólogo Teodoro José Papa - Dr. Sylvio Ricciardi - Prof. José Paschoal Rosário - Dr. José Wilson Seixas Santos - Radialista Sebastião Porto - Dr. José Magalhães Navarro - Prof. Mário Moreira Chaves e Dr. Fernando Correia Leite. Sentados, no mesmo sentido: Jornalista Antonio Machado Sant’Anna - Dr. Plínio Travassos dos Santos - Prof. José de Souza Magalhães Dr. Ruben Cione - Prof. Daniel Amaral Abreu e Profª Emília Ferreira da Mata. 4 - Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26 ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL Ribeirão Preto - SP - Junho/2002 ONDE ESTÁ O BOM CANDIDATO? Waldomiro W. Peixoto (*) ualquer leitor bem informado e bem formado está com a pulga atrás da orelha nestas eleições para Presidente. Nos escalões estaduais, então, nem é bom tocar porque é assunto para inúmeras páginas, sem cair na repetição. Se bem informado, sabe dos conchavos que todos os políticos estão fazendo para chegar ao poder. Se bem formado, sabe que a ética não está sendo respeitada por nenhum deles; maquiavelicamente não estão preocupados com os meios, e sim, com o fim. Itamar Franco, depois de tantos factóides para aparecer diuturnamente na mídia, desistiu da candidatura porque sentiu que no cenário nacional não tinha chance, preferindo ficar no cenário estadual e brigar de frente com Azeredo. Fez que fez e acabou atrapalhando as pretensões nacionais do PMDB, que hoje não tem nenhum nome de apelo popular para enfrentar uma guerra pela sucessão de FHC. Roseana Sarney, quem estava por dentro das tramas políticas sabia que ela não tinha substância para um embate deste porte também. Era fogo de palha. Na mesma velocidade as chamas cresceram e apagaram. O Brasil não é o Maranhão, e o clã Sarney não é tão forte assim no cenário nacional. Todos sabemos que José Sarney caiu de pára-quedas na Presidência no vácuo de Tancredo Neves, como Itamar no de Collor. E como o Brasil não é o Maranhão, mas os Sarney podem achar que é, Roseana desiste da Presidência e se Q candidata a uma cadeira federal, seja na Câmara ou no Senado, põe em Brasília o seu pezinho, porque quem há de duvidar que os maranhenses a elegerão? No futuro... Ciro Gomes fez um mandato razoavelmente bem sucedido entre dois mandatos de Tasso Jereissati e ganhou uma certa simpatia do eleitorado brasileiro, até cair meio por acaso no Ministério da Fazenda, substituindo Ricúpero – o das parabólicas, lembram-se? – e deu seqüência, não por muito tempo, no início do Plano Real (e final do governo Itamar), até que FHC o assumisse de vez com Pedro Malan. Quem neste país associa Ciro com o sucesso do Plano Real, quem? Depois disso, sob a batuta de Mangabeira Unger, quis ganhar novo espaço no cenário nacional e vem fazendo um estrago danado, vítima do próprio discurso. Depois de assumir que faria uma aliança com o PFL de ACM, a quem ele disse ser mais sujo do que pau de galinheiro, o que restou de sua ideologia políticopartidária? Como acreditar num homem que age de acordo com o sabor dos ventos, preocupado apenas com a escalada ao poder e jogando ao lixo as idéias e os princípios indispensáveis para um bom governo? Anthony Garotinho recebe o apoio de Roberto Freire – este um dos mais coerentes e limpos políticos deste país – e de Brizola, ícones da Esquerda no país e, quando interessa para chegar ao poder, fala em aliança com o PFL, tendo ACM como um dos caciques. Daí a reação e a ameaça de debandar de Roberto Freire. Dá para imaginar, caro eleitor, Maluf. Onde está a coerência? teressar, Serra é Governo, quanBrizola dizendo que Garotinho é Onde está o respeito pelo eleitor? do não interessar Serra critica o a melhor opção para o país por- O que este faz com seus sonhos Governo e ganha a simpatia do que ACM é um paladino da justi- de mudanças? Joga no vaso sa- eleitor. De estratégia em estratéça, do bem estar social, um ho- nitário e dá uma descarga? gia, de acordo com o vaivém das mem preocupado com o povo? Enfim, José Serra, que faz circunstâncias, vai se construinJá pensou o Brizola falando para qualquer aliança para chegar ao do o caminho para chegar ao o eleitor que ele e ACM não vão poder também, assim como os Poder. Uma vez lá... Bem, esta é aceitar o entreguismo das empre- outros. Aliás, não foi outra coisa outra história. sas nacionais para o FMI? Ora, que FHC fez em nome da Ó Maquiavel, vós sereis etertenham a santa paciência, des- “governabilidade”. Nunca se teve no! Durante os exercícios do porespeito tem limite! Nem é preci- tanta notícia nos periódicos de der, vós permaneceis no limbo. so dizer mais nada desta mixór- tanto conchavo para permanecer Mas, pairando a ameaça sobre dia, desta mistura exótica chama- no poder como no Governo FHC. ele, vós sois ressuscitado pela da Garotinho/Brizola/ACM. O PFL falou lagartos e crocodilos súcia que grassa nas entranhas Luís Inácio Lula da Silva – a do Governo e de Serra e estes o do país e habita nos palácios quem o Brasil reconhece pela sua aceitam de braços abertos por- mantidos pelo povo. luta no passado – agora é outro que há duas metas a cumprir: terDeixemos a pergunta: Com homem, com outro discurso, mo- minar bem o mandato FHC e ga- Lula e Serra no páreo, talvez Ciro, derado demais, bom moço, sem nhar as eleições. Também aqui remotamente Garotinho, o que é enfrentamento nenhum se isso importa o fim e não os meios. A que o brasileiro faz com a espenão lhe render votos, sem con- nova tática de Serra agora é: Ser- rança de um país mais democráfronto nenhum porque isso pode ra é Serra, FHC é FHC. Esta tico, mais coerente e, sobretudo, lhe tirar do conforto do primeiro descolagem interessa porque em mais justo socialmente? lugar nas pesquisas para a Presi- final de governo se FHC não todência. Existe um partido - o PL – mar medidas amargas na econo(*) Cadeira 22 da ARL que está ideologicamente à direi- mia seu Governo fará água até o Academia Ribeirãopretana ta até do PFL, o mais lídimo re- final. Então, fica assim: quando inde Letras. presentante do neoliberalismo no Brasil, que busca uma aliança com o PT. Como o eleitor minimamente informado pode aceitar e confiar em alguém que para chegar ao poder aceita fazer uma aliança com quem representa o que há de mais atrasado no país do ponto de vista do próprio PT? No cenário municipal – não um município qualquer, mas se trata de São Paulo, o 3º orçamento do país – a Martha Suplicy fala em fa- Da esquerda para a direita: Menalton, Ely, Dr Rubem, Dr Ruffino, zer aliança com Quércia! Nilva, Roveri, Tórtoro, Dr Palermo, Dra Rosa, Dr Navarro, Dra O homem talvez só menos Maria Lúcia, Dr Eduardo Dutra, Dr Augusto M. Peres, Dr João execrado pelo PT do que Caetano e Dra Amini. I Bienal do Livro de Ribeirão Preto e Região de 21 de junho a 4 de julho de 2002 Visite nosso site www.jperegrino.com.br, para maiores informações. Para Anunciar Ligue Ribeirão Preto (16) 636 5543 São Paulo (11) 6204 2135 6203 5581 www.jperegrino.com.br e-mail: [email protected]