ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL
Suplemento Literário
ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL
Jornal do Peregrino
Ribeirão Preto - SP - Ano I - No 1 - Junho/2002
www.jperegrino.com.br
VEIGA MIRANDA,
UM HOMEM ILUSTRE
ADEUS, JOÃO!
Antônio Carlos Tórtoro (*)
“Causou profunda consternação em nossos meios sociais a notícia do falecimento
do Dr. João Caetano de Menezes, ocorrido na noite de ontem, em nossa cidade.
Advogado e membro da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Ordem dos Velhos
Jornalistas, contava oitenta e dois anos de idade. Era casado com a Sra. Dirce Biatto
de Menezes, cujo consórcio deixou os filhos Dr José Manoel, viúvo da Sra Sandra
Helena Mendonça Biatto de Menezes e Dra Maria Rosa Biatto de Menezes. Deixou
netos. Seu sepultamento será realizado hoje, saindo o féretro às dez horas do Velório
Samaritano para o Cemitério Municipal de Cravinhos” (Coluna de Avisos Fúnebres /
Falecimentos do Jornal “A Cidade” do dia 2 de abril de 2002)
Isso é tudo que os arquivos da ARL-Academia Ribeirãopretana de Letras possui
sobre seu ex-acadêmico, apesar de dezenas de insistentes pedidos para que seus
membros enviem materiais para arquivar e guardar, ou colocar em nosso site para
manutenção da memória dos homens que ajudaram a fazer a história da Literatura em
Ribeirão Preto e região.
Parece-me que alguns acreditam ser realmente, imortais, não se preocupando
em permitir aos amigos e colegas de entidades por onde passaram que tenham um
registro, no dia de sua passagem para planos superiores, a ser repassado para os
que os sucederem.
Restam os arquivos da minha memória, ativados em minha mente sob os seguintes comandos especiais, “chaves” que abrem as portas para a entrada de um homem
calmo e experiente, fala compassada, coração de criança, sonhador e desligado dos
problemas particulares do dia–a-dia, mas preocupado, sempre, com os problemas
mundiais: Ordem dos Velhos Jornalistas (reuniões em que ele se fez presente), posses de novos acadêmicos (momentos em que ele fez ouvir suas palavras), D. Dirce
(que faz lembrar os longos “papos” que batemos, por telefone, falando sobre o João),
Sede Própria da ARL (lembra as diversas vezes que ele garantiu que existia um
membro secreto da ARL que, com certeza, nos daria sua Sede Própria), Jornal “A
Cidade” (que faz lembrar sua coluna diária lida por muitos, inclusive pela Madre Elza,
irmã Ursulina com quem convivi durante mais de dez anos), ou qualquer história ou
“causo” sobre matas, rios, animais, caçadas, pescarias.
Poucos souberam de sua morte a tempo de visitá-lo no Velório Samaritano ou
acompanhá-lo até Cravinhos onde ocorreu seu sepultamento. Era uma terça-feira,
sete horas da manhã, quando a acadêmica Ely Vieitez Lanes avisou-me do ocorrido.
Só tive tempo (entre o atender alunos, pais de alunos, professores, telefonemas,
inerentes ao meu trabalho de Orientador Educacional, no Colégio Anchieta) de localizar onde estava o corpo e enviar, em nome de todos os membros da ARL, nossa
homenagem em forma de uma coroa de flores.
Há muito não tínhamos notícia, na ARL, do Dr João Caetano, por se ter respeitado
seu afastamento das atividades do sodalício por motivos particulares: não queríamos
que se sentisse constrangido.
Sua Cadeira nº 32, cujo Patrono é Cecília Meirelles, está vaga, mas seu nome
constará para sempre do rol daqueles que ajudaram a construir as décadas de
existência da ARL.
(*) Presidente de ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
Rubem Cione (*)
oão Pedro da Veiga
Miranda é mineiro de
nascimento, amou patrioticamente Ribeirão
Preto. Aqui viveu, sendo professor, conferencista, jornalista, engenheiro, militante político, vereador e prefeito municipal. Aqui
viveu e prestou seus bons serviços para a comunidade, apenas se afastando, temporariamente, a convite do Dr. Epitácio
Pessoa, Presidente da República, para ser Ministro Civil da
Marinha. Honrosamente voltou
para Ribeirão Preto, e aqui faleceu, onde está sepultado.
Ao se afastar da vida pública, em 1923, Veiga Miranda,
movido pelo verdadeiro idealismo que o caracterizava, fundou
na capital paulista a revista “O
Comentário”, destinado à doutrinação política e em cuja direção mais uma vez revelou versatilidade de talento. Nela redigia praticamente tudo, desde
artigos de fundo, até crônicas,
versos e anúncios. Adotava
pseudônimos diversos, inclusive um feminino – Sílvia Rangel
– com a qual subscrevia uma
seção dirigida às mulheres.
Faleceu a 17 de fevereiro
de 1936, em Ribeirão Preto,
irrealizado nas aspirações de
pertencer à Academia Brasileira de Letras, recusando, por co-
J
erência, o oferecimento que lhe
fizeram na fase em que era Ministro da Marinha; concorreu –
apenas como literato – à vaga
de Amadeu Amaral, em 1930,
sendo derrotado por Guilherme
de Almeida.
Em 1.935, também não logrou êxito ao disputar o lugar
com Coelho Netto na cadeira
cujo patrono é Álvares de Azevedo. Duro golpe a preterição para
quem biografara magistralmente o segundo e merecera do primeiro entusiástico aplauso pela
produção literária que realizou,
conforme atesta a correspondência existente.
Num dos seus maravilhosos
livros, pleno de confidências, estão páginas de grande beleza
moral, cívica, poética, pessoal
e familiar. Muito de história de
sua vida; trajetória de lutas, de
vitórias, de amor, de decepção
também, mas que marcam a
vida de um dos notáveis homens
públicos desta nação, de um
homem que soube viver com
dignidade, com espírito, com inteligência, um homem que se
emoldurou de excepcional cultura e de uma formação própria
dos que tiveram a felicidade de
um berço tradicional e de virtudes as mais ricas.
Veiga Miranda, que tinha Ribeirão Preto como sua própria
terra natal, que não o esqueceu
quando nas alturas de suas posições, que bem o representou,
que desejou aqui viver e morrer,
sendo aqui sepultado como desejara (no Cemitério da Saudade, quadra 18, sepultura 1848),
pertence à galeria dos seus notáveis homens públicos, que enriquecem sua vida e sua história. Homens como estes precisam e merecem ser lembrados
como exemplo às gerações presentes e futuras.
Veiga Miranda não foi eleito
para a ABL – Academia Brasileira de Letras, apesar de sua
vasta obra literária como romancista, dramaturgo, poeta,
ensaísta, conferencista e dramaturgo, mas foi imortalizado
pela ARL – Academia
Ribeirãopretana de Letras ao
ser instituído como o patrono da
cadeira 22, uma justa homenagem desta cidade que ele
amou e a quem dedicou o melhor de sua vida.
(*) Este artigo é um
excerto – páginas 36,37 e
81 – do livro “Entre Ruy e
Epitácio, Veiga Miranda”,
editora Legis Summa
Ltda., 1994, do escritor,
historiador, advogado e
membro e ex-presidente
da ARL – Academia
Ribeirãopretana de Letras,
Dr. Rubem Cione.
2 - Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26
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Ribeirão Preto - SP - Junho/2002
EMÍLIA, A Nº 1
DE DELICADEZAS E DE DOR
Antonio Carlos Tórtoro (*)
Waldomiro W. Peixoto (*)
“Se me movo no elemento da
pintura figurativa, sei que um quadro é sempre mais do que a imagem. Mas o que vem a ser esse
mais?”, diz o filósofo José Arthur
Giannotti, no Caderno “Mais!”, nº
519, da Folha de S. Paulo.
Estou pensando o mesmo sobre a Emília, ao vê-la numa manhã de sábado, 8 horas, em seu
esquife no Velório da Saudade:
havia ali um algo mais,
indescritível, envolvendo alguém
que dedicou grande parte de sua
vida a um sonho que se tornou
realidade.
A Academia Ribeirãopretana
de Letras (ARL) teve origem em
um grupo de estudantes, entre os
quais figuravam os advogados
José Wilson Seixas Santos e
Saulo Ramos, que viria a ser Ministro do Governo José Sarney.
Nasceu com um grupo de jovens
idealistas e vibrantes que se reunia na Praça XV de Novembro,
invadia a redação de “A Tarde”,
cultivava os mais belos valores do
espírito e se mantinha coeso no
culto à Literatura. Foram os precursores da ARL, e até 1947 permaneceram juntos, uma irmandade de poetas, cronistas, contistas, romancistas e músicos,
mas, sobretudo altruístas, cujos
nomes devem estar inscritos nos
anais do Sodalício.
Entre eles estava Emília
Ferreira da Matta Rocha, a Acadêmica que até o dia 19 de janeiro de 2002 ocupou cadeira nº 1
da ARL (patroneada por Antônio
de Oliveira). E foi em 1947, no
dia 23 de outubro, que os jovens
literatos fundaram a “Academia
Estudantina de Letras”, apoiados
e incentivados por escritores, professores, jornalistas e políticos
que representavam a elite cultural da cidade. E o grupo deixou
de reunir-se na cozinha da Legião
Brasileira e na casa da Emília,
para instalar-se na Biblioteca
Municipal, na Praça Santo Antônio, por determinação do então
prefeito José de Magalhães. De
repente, para surpresa e gáudio
dos estudantes, o professor
Romualdo Monteiro de Barros e
o doutor Epaminondas Barra solicitaram ingresso na Academia
Estudantina, que foi então transformada, no dia 09 de junho de
1951, em Academia Ribeirãopretana de Letras, para acolher
esses e outros intelectuais de Ribeirão Preto.
Emília nasceu no dia 17/12/
1921, em Sertãozinho, SP, filha de
Manoel Ferreira da Matta e
Mavelina de Almeida Loureiro. É
autora dos livros “Pontal: que eu
vi e ouvi”, “Saudade”, “A Flor do
Ipê”, “Lágrimas de Mãe”. Além de
fundadora da ARL, pertence à
Academia de Letras Municipais
do Brasil (Cadeira nº 12), Academia de Letras Internacional Três
Fronteira (Brasil, Uruguai e Argentina), Academia de Letras de
Rezende (RJ), UBT – Seção Espírito Santo e Academia de Letras
de Anápolis.
Emília é um exemplo a ser seguido, e sua vida, dedicada à ARL,
é um bom motivo para que muitos acadêmicos, que atualmente
ocupam as 40 Cadeiras, repensem suas posições e participem
mais das atividades propostas e
desenvolvidas pela atual diretoria
da nossa Academia Ribeirãopretana de Letras.
“Eu que tanto amei, que fiz por
onde, / cada um fosse feliz...”.
(De seu poema “Solidão”)
(*) Presidente da ARL
Academia Ribeirãopretana
de Letras
o acabar de fazer a primeira leitura do livro de poesias
“ECOS NO OUTONO”,
edição Funpec – Ribeirão Preto, 2001,
86 páginas, de Jair Yanni, confesso
que o julguei simples demais. Mas conhecendo a autora há muitos anos,
sabendo-a uma pessoa sensível, que
vive Arte o tempo todo (é artista plástica e agitadora cultural) e tendo privado com ela tantos anos no Grupo
Flamboyant, ficou-me o sentimento do
leitor que não conseguiu dar-se conta
da grandeza de sua poesia. A simplicidade não poderia ser fortuita; haveria de ter uma intenção na forma simples de construir sua poesia.
Jair Yanni é do ramo e eu bem
sabia. Fiz a releitura dos poemas como
se prepara uma receita que, apesar
de simples, encanta pelo sabor. Assim como uma salada, onde não é
permitido inventar muito para se obter
o sabor desejado. Encontrei versos
saborosos. Comecei a comer seus
textos, a degustar cada palavra e a
descobrir a poesia que havia escondida por trás do texto verdadeiramente simples e apenas aparentemente
fácil. Cada poema é preciso ler calmamente, meditar. Devagarzinho.
Como se fôssemos desnudando um
repolho, removendo uma folha de sobre a outra, até descobrir o tenro interior onde habita a essência latente,
poética, automanifestada.
A poesia é como Deus, existe
em tudo apesar do homem. No prólogo da antologia poética do Grupo
Flamboyant “Cantata (in) Multivozes”
eu afirmo que “a Arte é latente em
tudo, está à disposição de todos”.
Eu acredito piamente nisso e “ECOS
NO OUTONO” o comprovam.
Finda a releitura, duas características se confirmam: simplicidade e relação de despojamento com o leitor. A
primeira depreende-se de seu estilo
simples, vocabulário fácil, despretensioso, sem malabarismos verbais ou
estrutura sintática rebuscada. Não
existe uma preocupação de trabalhar
A
literariamente a forma; há, sim, uma
busca da poesia a partir do conteúdo.
Não há também a pretensão de tratar
os temas de forma definitiva; sobretudo importa captar sutilmente o momento
poético sem grandes aprofundamentos. Seu texto é limpo como o
riacho em que se vêem peixes e pedras ao fundo, entre areias em movimento e plantas, em sinfonia de busca
e espera. A relação de despojamento
depreende-se do fato de que seu texto
não é provocativo; ele tão-somente
apresenta o fato poético em si e este
cala na alma do leitor, espontaneamente, de acordo com a leitura que cada
um faz, uma vez que os temas tratados são universais e a cada um sabe
de forma diferente. Aí reside a latência
da poesia que a autora sutilmente colocou em tudo, despojadamente, e o
leitor vai desvendando aos poucos.
Tempo, o primeiro poema da coletânea, é um exemplo acabado desta
simplicidade e despojamento e seus
versos e signos falam por si mesmos: “O tempo igual coexiste/E se
sucede em toda parte... / O mundo
não envelhece/ Os homens morrem”. A essência do Eclesiastes está
por inteiro nestes quatro sábios versos. A poeta coloca os signos com
propriedade, a leitura poética fica por
conta do leitor que, de forma espontânea, vai decodificando e descobrindo um universo de beleza que habita
em suas entrelinhas. O poema como
pré-texto, e a descoberta deste mundo amargo e quase fatalista no subtexto. Ratificam essa vertente também
os poemas Reflexões, Momentos,
Fonte, Eterno Começar e Já
Desvivo...
O sentimento de religiosidade é
também muito forte. Religiosidade decorrente do amor – pode-se dizer
panteísta – que destila dos temas abordados, com um toque de sabedoria,
uma sabedoria zen, tal a suavidade
com que trata cada um dos poemas.
É ler Tempo e Milagre entre outros
para constatar.
Seus textos são, sempre com
doce sutileza, construídos também de
paradoxos (Consolatrix, O Velho, Nós
Três, Disfarce), plasticidade (A Chuva), metalinguagem (Árvore de Pedra) e, apesar da delicadeza, conflitos
existenciais. Reflitamos sobre estes
versos: “Vejo-me. / Não me reconheço”. (O Espelho Desabitado), “O jogo
da vida é sem vencedor/ Não há
querer.”(Consolatrix) e “Agonizo em
meu disfarce.”(Disfarce). A dor de
existir é pungente nos últimos poemas,
a partir de Saudade – este, aliás, um
poema antológico – cujo tema é por
demais desgastado, mas recebe tratamento novo e chega a ser devastador, travestido em lamento de vida e
morte: “Por favor, / Não venha agora/
vou preparar o lugar/ Vou consertar
as goteiras/ Desta casa destelhada...”.
É uma densa metáfora da Preparação e lembra a amargura frente à
iminência da morte, marca dos melhores poemas de Manuel Bandeira.
Esse poema, em uníssono com Desafio e Pássaro Ferido, no lugar da
destruição traz inusitadamente a redenção: “A brisa fez-se vento forte... /
Vim à tona em pedaços/ Juntei-os/ E
resolvi ser poeta” (...) “Recolherei todos os galhos/ quebrados da nossa
árvore... / E quando brotar/ A primeira
folhinha verde/ Reporei seu ninho/
Novamente”.
É a Fênix abrindo as asas e
anunciando o renascimento através
da dor.
A poesia de Jair Yanni é Fênix
abrindo as asas e anunciando o
renascimento através da dor (“Cuidarei do tronco castigado/ porque acredito na força das raízes”). Escancara
o óbvio para denunciar o invisível.
Mais: denuncia aos cegos – que teimam em não ver – que a poesia é
como Deus: em tudo faz a sua morada.
(*) Da Cadeira 22 da ARL
Academia Ribeirãopretana
de Letras
ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL
Ribeirão Preto - SP - Junho/2002
Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26 - 3
CARTA ABERTA A UM AMIGO
Ely Vieitez Lanes(*)
ão escrevo ao presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras,
Coordenador Pedagógico, acadêmico, matemático, articulista, ou
poeta, mas ao amigo. Caro Antônio Carlos Tórtoro, analise, lucidamente, por que você é pedra de
escândalo, provoca críticas e
irritação, muitas vezes. Já não se
usa homem como você. Ignora a
globalização, gente feita em série.
Hoje há um pacto anônimo e
silencioso que rege a reificação
humana e quem é diferente paga
preço alto. Você tem a coluna vertebral feita de aço, jamais se curva. Seus posicionamentos são
muito claros, francamente, todos
são meio políticos, na pior
acepção do termo: ninguém é
contra ou a favor, muito pelo contrário. O sim, sim, não, não bíblicos transformaram-se em um tíbio talvez provisório. Pontualidade,
fidelidade, franqueza, teimoso
como um Sísifo redivivo, continua
empurrando sua pedra montanha
acima, trabalhando numa faina
tresloucada, desinteressada do lucro, tão preocupado está com o
dever, a tarefa a cumprir.
Ninguém é mais assim, caríssimo. Julgam-no, pois, ultrapassado, ingênuo, meio rude, obsoleto.
E culturalmente? Saber matemática não era o bastante. Embrenhou-se pela poesia, começou a
ler grandes autores também da
prosa: as citações em seus artigos são a evidência insofismável.
Sabia? Correm por aí histórias folclóricas a seu respeito. A minha
predileta é aquela quando você
trabalhava em um colégio religioso e a falsa doce freira começou
a perseguí-lo pelo pecado de você
ser maçom. Ela desconhecia a liberdade de opções do ser humano? Na sexta-feira, você era o coordenador pedagógico e mal conhecia um computador. Ela,
N
maquiavelicamente, mudou-o de
cargo: a partir de segunda-feira,
você seria o professor de computação. Você fez o que ela pretendia? Abandonou o emprego? Não.
Comprou livros e livros sobre o assunto e dois dias depois era perito
no computador e seus mistérios.
Que força é essa? De onde tira
sua pertinácia?
Muitos o consideram um homem meio “gauche”, irrita-se com
sua exagerada seriedade,
intransigência. Não querem que
cobre compromissos assumidos
(é tão “raffiné”, hoje, dizer que se
esqueceu, devido a vida muito
agendada...), odeiam quando ten-
ta levantar verbas para a ARL , projetos culturais; criticam se você
aceita cargos , escandalizam-se
por que você nada recebe por eles.
Enfim, meu amigo, de que barro você é feito? Olhe ao seu redor:
quase todo mundo usa máscaras,
representa papéis, arma-se de
mentiras capciosas, considera
normais todas as fraquezas e vícios humanos. E você continua o
contrário de tudo isso ?!
Já ouvi duas vezes a assertiva
preciosa: “Ele não sabia que era
impossível, foi lá e fez”. Desconheço o autor, mas ela lhe cabe como
uma luva.
Seu lema de vida deve ser a
frase do filósofo espanhol, Jesús
Urteaga: “É preciso saber o que
se quer e estar no que se faz”.
Sabe o que eu desejaria? Como
na bizarra novelinha da Rede Globo de inacreditável sucesso, fazer
uns vinte clones seus. Empossálos nos governos municipal, estadual e federal. Seriam varridas as
falsidades, a falácia, a demagogia, as traições, os conchavos espúrios. Todos os problemas do
Brasil poderiam ser resolvidos.
Escrevo-lhe, Antônio Carlos
Tórtoro, porque admiro quem
marcha na contramão, aqueles
que não se moldam, como se fossem de essência líquida (ou de
argila?), os guerreiros, idealistas,
sonhadores. Siga sua difícil vereda, meu admirável amigo, mas
você não está sozinho. Houve um
homem, um irmão, que até morreu para redimir os pecados dos
homens, sem questionar se valia
a pena. Avante, pois, querido
Quixote moderno! À sua frente
haverá, sempre, infindos moinhos
de vento, com os quais você terá
que lutar. Para heróis de seu feitio
não há reconsiderações, recuos,
desistência. Penso, contudo, que
o mundo ainda vale a pena, pelas
surpresas da Criação, como você.
(*)Membro da ARL e UBE
UM QUADRO
Nilva Mariani (*)
Além, a montanha...
flocos de nuvem
cingindo-lhe o pescoço.
As flores embelezando-se,
maquiando-se
em tons suaves
em torno do espelho líquido.
O colibri aprova o capricho
e cumprimenta cada flor
com reverências de bailarina
e beijos enamorados.
O raio de sol
saltitando,
bulindo aqui e acolá,
põe purpurinas na água
e nas plantas.
Aquarela perfeita!
Quase...
Agora sim!
-a ária do canário,
que acaba de chegar, preenche
os espaços vazios...
E a paz assina o quadro,
(*) Cadeira nº 39 da ARL
Academia Ribeirãopretana
de Letras
Nesta foto destacamos os primeiros acadêmicos: Vêem-se em pé, da esquerda para direita:
Prof. Benedito de Siqueira Abreu - Dr. Osmany Emboaba da Costa - Teatrólogo Teodoro
José Papa - Dr. Sylvio Ricciardi - Prof. José Paschoal Rosário - Dr. José Wilson Seixas
Santos - Radialista Sebastião Porto - Dr. José Magalhães Navarro - Prof. Mário Moreira
Chaves e Dr. Fernando Correia Leite. Sentados, no mesmo sentido: Jornalista Antonio
Machado Sant’Anna - Dr. Plínio Travassos dos Santos - Prof. José de Souza Magalhães Dr. Ruben Cione - Prof. Daniel Amaral Abreu e Profª Emília Ferreira da Mata.
4 - Encarte do Jornal do Peregrino Ano II - No 26
ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS - ARL
Ribeirão Preto - SP - Junho/2002
ONDE ESTÁ O BOM CANDIDATO?
Waldomiro W. Peixoto (*)
ualquer leitor bem informado e bem formado
está com a pulga atrás
da orelha nestas eleições para Presidente. Nos escalões estaduais, então, nem é bom
tocar porque é assunto para inúmeras páginas, sem cair na repetição.
Se bem informado, sabe dos
conchavos que todos os políticos
estão fazendo para chegar ao
poder. Se bem formado, sabe que
a ética não está sendo respeitada por nenhum deles; maquiavelicamente não estão preocupados com os meios, e sim, com o
fim.
Itamar Franco, depois de tantos factóides para aparecer
diuturnamente na mídia, desistiu
da candidatura porque sentiu que
no cenário nacional não tinha
chance, preferindo ficar no cenário estadual e brigar de frente com
Azeredo. Fez que fez e acabou
atrapalhando as pretensões nacionais do PMDB, que hoje não
tem nenhum nome de apelo popular para enfrentar uma guerra
pela sucessão de FHC.
Roseana Sarney, quem estava por dentro das tramas políticas
sabia que ela não tinha substância para um embate deste porte
também. Era fogo de palha. Na
mesma velocidade as chamas
cresceram e apagaram. O Brasil
não é o Maranhão, e o clã Sarney
não é tão forte assim no cenário
nacional. Todos sabemos que
José Sarney caiu de pára-quedas
na Presidência no vácuo de
Tancredo Neves, como Itamar no
de Collor. E como o Brasil não é o
Maranhão, mas os Sarney podem achar que é, Roseana desiste da Presidência e se
Q
candidata a uma cadeira federal,
seja na Câmara ou no Senado,
põe em Brasília o seu pezinho,
porque quem há de duvidar que
os maranhenses a elegerão? No
futuro...
Ciro Gomes fez um mandato
razoavelmente bem sucedido entre dois mandatos de Tasso
Jereissati e ganhou uma certa
simpatia do eleitorado brasileiro,
até cair meio por acaso no Ministério da Fazenda, substituindo
Ricúpero – o das parabólicas,
lembram-se? – e deu seqüência,
não por muito tempo, no início do
Plano Real (e final do governo
Itamar), até que FHC o assumisse de vez com Pedro Malan.
Quem neste país associa Ciro
com o sucesso do Plano Real,
quem? Depois disso, sob a batuta de Mangabeira Unger, quis ganhar novo espaço no cenário nacional e vem fazendo um estrago
danado, vítima do próprio discurso. Depois de assumir que faria
uma aliança com o PFL de ACM,
a quem ele disse ser mais sujo
do que pau de galinheiro, o que
restou de sua ideologia políticopartidária? Como acreditar num
homem que age de acordo com
o sabor dos ventos, preocupado
apenas com a escalada ao poder e jogando ao lixo as idéias e
os princípios indispensáveis para
um bom governo?
Anthony Garotinho recebe o
apoio de Roberto Freire – este um
dos mais coerentes e limpos políticos deste país – e de Brizola,
ícones da Esquerda no país e,
quando interessa para chegar ao
poder, fala em aliança com o PFL,
tendo ACM como um dos caciques. Daí a reação e a ameaça
de debandar de Roberto Freire.
Dá para imaginar, caro eleitor, Maluf. Onde está a coerência? teressar, Serra é Governo, quanBrizola dizendo que Garotinho é Onde está o respeito pelo eleitor? do não interessar Serra critica o
a melhor opção para o país por- O que este faz com seus sonhos Governo e ganha a simpatia do
que ACM é um paladino da justi- de mudanças? Joga no vaso sa- eleitor. De estratégia em estratéça, do bem estar social, um ho- nitário e dá uma descarga?
gia, de acordo com o vaivém das
mem preocupado com o povo?
Enfim, José Serra, que faz circunstâncias, vai se construinJá pensou o Brizola falando para qualquer aliança para chegar ao do o caminho para chegar ao
o eleitor que ele e ACM não vão poder também, assim como os Poder. Uma vez lá... Bem, esta é
aceitar o entreguismo das empre- outros. Aliás, não foi outra coisa outra história.
sas nacionais para o FMI? Ora, que FHC fez em nome da
Ó Maquiavel, vós sereis etertenham a santa paciência, des- “governabilidade”. Nunca se teve no! Durante os exercícios do porespeito tem limite! Nem é preci- tanta notícia nos periódicos de der, vós permaneceis no limbo.
so dizer mais nada desta mixór- tanto conchavo para permanecer Mas, pairando a ameaça sobre
dia, desta mistura exótica chama- no poder como no Governo FHC. ele, vós sois ressuscitado pela
da Garotinho/Brizola/ACM.
O PFL falou lagartos e crocodilos súcia que grassa nas entranhas
Luís Inácio Lula da Silva – a do Governo e de Serra e estes o do país e habita nos palácios
quem o Brasil reconhece pela sua aceitam de braços abertos por- mantidos pelo povo.
luta no passado – agora é outro que há duas metas a cumprir: terDeixemos a pergunta: Com
homem, com outro discurso, mo- minar bem o mandato FHC e ga- Lula e Serra no páreo, talvez Ciro,
derado demais, bom moço, sem nhar as eleições. Também aqui remotamente Garotinho, o que é
enfrentamento nenhum se isso importa o fim e não os meios. A que o brasileiro faz com a espenão lhe render votos, sem con- nova tática de Serra agora é: Ser- rança de um país mais democráfronto nenhum porque isso pode ra é Serra, FHC é FHC. Esta tico, mais coerente e, sobretudo,
lhe tirar do conforto do primeiro descolagem interessa porque em mais justo socialmente?
lugar nas pesquisas para a Presi- final de governo se FHC não todência. Existe um partido - o PL – mar medidas amargas na econo(*) Cadeira 22 da ARL
que está ideologicamente à direi- mia seu Governo fará água até o
Academia Ribeirãopretana
ta até do PFL, o mais lídimo re- final. Então, fica assim: quando inde Letras.
presentante do neoliberalismo no Brasil, que busca uma aliança com o PT.
Como o eleitor minimamente informado pode
aceitar e confiar em alguém que para chegar ao
poder aceita fazer uma aliança com quem representa o que há de mais atrasado no país do ponto de
vista do próprio PT? No
cenário municipal – não
um município qualquer,
mas se trata de São Paulo,
o 3º orçamento do país – a
Martha Suplicy fala em fa- Da esquerda para a direita: Menalton, Ely, Dr Rubem, Dr Ruffino,
zer aliança com Quércia! Nilva, Roveri, Tórtoro, Dr Palermo, Dra Rosa, Dr Navarro, Dra
O homem talvez só menos
Maria Lúcia, Dr Eduardo Dutra, Dr Augusto M. Peres, Dr João
execrado pelo PT do que
Caetano e Dra Amini.
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