ANAIS ANÁLISE DE UM PROJETO DE INOVAÇÃO SOB O CONCEITO DA ESTRATÉGIA DO OCEANO AZUL THAIS RIBEIRO DOS SANTOS ([email protected] , [email protected]) UNICSUL - Universidade Cruzeiro do Sul GIOVANA GAVIOLI RIBEIRO DA SILVA ([email protected]) UNICSUL - Universidade Cruzeiro do Sul CLAUDIO CRIVELLARO ([email protected]) USP - ESCOLA POLITÉCNICA RESUMO O objetivo deste artigo é analisar um projeto de inovação de uma empresa de autopeças com o intuito de verificar se o mesmo possui todas as características de uma ideia geradora de oceano azul, conceito proposto por Kim e Mauborgne (2005), que orienta como se distanciar da concorrência, tornando-a insignificante por meio de uma ideia inovadora. Com este estudo foi possível concluir que o projeto possui todas as características da estratégia e, desta forma, poderá criar um novo mercado, no qual a empresa atuaria longe de sua concorrência, aumentando assim seu lucro e participação de mercado. PALAVRAS-CHAVE: estratégia; inovação; estratégia do oceano azul; concorrência. 1. DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIA Estratégia é um termo muito utilizado nos dias de hoje. Constantemente ouvimos falar de “estratégia de negócio”, “estratégia de mercado”, “gestão estratégica”, “planejamento estratégico”, dentre outros termos. Mas afinal o que significa estratégia? De acordo com Kluyver e Pearce (2010, p. 2): Estratégia diz respeito a posicionar uma organização para obtenção de vantagem competitiva. Envolve escolher a respeito de que setores participar, quais produtos e serviços oferecer e como alocar recursos corporativos. Seu objetivo principal é criar valor para acionistas e outros stakeholders (grupo de interesses) ao proporcionar valor para o cliente. Já para Barney e Hesterly (2011) estratégia se refere a como obter vantagem competitiva, sendo uma boa estratégia aquela que gera esta vantagem. Os autores acrescentam que: “... é a melhor aposta sobre como a competição vai se desenvolver e como essa evolução pode ser explorada para que se conquiste uma vantagem competitiva”. Rodermel, Monir, Schmidt e Stadler (2011) também citam competição ao definir estratégia: “a estratégia está profundamente ligada às escolhas das formas de competir. Leva em conta onde, como, quando e com quem competir.” 1/16 ANAIS “Competição” e “escolher como agir no futuro” são ideias em comum em todas estas definições. Desta forma é possível concluir que estratégia se refere às ações que se deseja realizar para obter uma posição no futuro (atingir um objetivo) e assim se sobressair dentre a concorrência. É possível acrescentar que a estratégia empresarial, conforme Barney e Hersterly (2011) é “...um conjunto sequencial de análises e escolhas que podem aumentar a probabilidade de uma empresa escolher uma boa estratégia, isto é, uma estratégia que gere vantagens competitivas.” Conforme Kluyver e Pearce (2010, p. 101), uma empresa possui vantagem competitiva quando : Planeja e implementa com sucesso uma estratégia geradora de valor que os concorrentes não estejam utilizando no momento. A vantagem competitiva é sustentável quando atuais ou novos concorrentes não são capazes de imitá-la ou superá-la. Assim é possível dizer, que ao utilizar estratégia empresarial, a empresa está em busca da obtenção de um diferencial (vantagem competitiva) não encontrado em sua concorrência naquele momento e que seja difícil de ser copiado. Ao utilizar a inovação é possível criar algo inédito que trará valor para o cliente e, como consequência, vantagem competitiva para a empresa, sendo este o foco deste artigo. 2. INOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA Conforme Michaellis (2009), inovação significa: “1. Ato ou efeito de inovar. 2 Coisa introduzida de novo. 3. Renovação”. Já inovar significa “Fazer inovações, introduzir novidades em (leis, costumes, artes etc.). 2 Produzir algo novo, encontrar novo processo, renovar: Inovar a execução de um trabalho. 3 Introduzir (palavras) pela primeira vez em uma língua.” No âmbito empresarial e, com o passar dos anos, o uso destes termos ganhou um sentido grandioso, sempre atrelado à grandes mudanças e ao sucesso de algumas empresas no mercado. Carvalho (2012, p. 220) compara a existência da inovação com nossa sobrevivência: De fato, desde aqueles longínquos tempos pré históricos em que deixamos o nomadismo de lado e começamos a desenvolver a agricultura, a inovação tem sido a maneira pela qual superamos as dificuldades que o meio nos impõe, promovemos nossa adaptação e nos fortalecemos. [...] Daí você pode imaginar quão forte é a relação entre inovação e sobrevivência. Aliás, ainda hoje essa perspectiva de inovar para sobreviver é fundamental para as organizações. Apesar da inovação levar todo o crédito do sucesso das empresas, não é apenas uma simples criação do que não existia que garante sua utilidade. O real significado da inovação está no valor que é atribuído a ideia ou produto descoberto ou redescoberto. Carvalho (2002) diz: “Inovação se refere ao uso da ideia e não de uma invenção. Uma invenção somente se torna uma inovação quando é aplicada a algum propósito. O mundo está cheio de invenções que não foram aplicadas a nenhuma finalidade útil.” Mestriner (2007) também defende esta ideia: “a inovação é ação de criar algo com base no que já existe, porque criar algo com base no que não existe não é inovação, é invenção”. Ele acrescenta que a 2/16 ANAIS inovação é estratégica por exercer impacto no desempenho dos produtos e consequentemente nos negócios, pois a inovação que traz benefício ao consumidor aumenta em 73% as chances sucesso no produto, mas para isso ocorrer é necessário ter foco já que a inovação não é criada, ela é encontrada desde que se procure no lugar certo, levando novidade na categoria em que o produto concorre. Desta forma é possível concordar quando Mestriner (2007) diz que a inovação precisa trazer algum benefício ao consumidor para que tenha força e que só a invenção sozinha não é suficiente, é necessário usá-la como estratégia. 3. A ESTRATÉGIA DO OCEANO AZUL A estratégia do Oceano Azul foi abordada primeiramente e oficialmente em 2005 por meio do livro “A Estratégia do Oceano Azul: Como Criar Novos Mercados e Tornar a Concorrência Irrelevante” dos autores W. Chan Kim e Reneé Mauborgne. Conforme a própria síntese do livro, os autores estudaram 150 ganhadores e perdedores em 30 indústrias diferentes, sendo os ganhadores as empresas que obtiveram sucesso no mercado se distanciando da concorrência e os perdedores as empresas que foram engolidas pela concorrência e não conseguiram se destacar no mercado. Com esta análise os autores viram que conceitos tradicionais não explicavam o método dos ganhadores, mas perceberam características em comum entre eles, como o fato de tornarem a concorrência irrelevante ou investir em mercados inexplorados, por exemplo. No livro, os autores também ensinavam como colocar a estratégia, chamada de Oceano Azul, em prática. Segundo os autores, ao criar um produto totalmente inovador é possível sair do Oceano Vermelho, que é o da concorrência e atingir o Oceano Azul, no qual só a empresa inovadora se estabiliza sem se preocupar com a concorrência, por tê-la tornado-a insignificante. Esta estratégia segue uma linha diferente das tradicionais: enquanto a maioria das estratégias tradicionais orientam a tomar ações para sobreviver no oceano vermelho, ou seja, criação de métodos para vencer e combater a concorrência sem olhar para outros campos, a estratégia do oceano azul orienta a criar estratégia, concentrando o foco em tornar a concorrência irrelevante e, ao invés de optar por uma das estratégias genéricas de Porter como diferenciação, foco ou liderança de custos (Portal Gestão.com, 2014), a estratégia do oceano azul opta por todas elas ao mesmo tempo: criar uma estratégia que persiga a diferenciação e a liderança de custo simultaneamente, que reduza custos e aumente o valor para os compradores, ao mesmo tempo. A fim de atingir o oceano azul, Kim e Mauborgne (2005) desenvolveram algumas ferramentas modelo que ajudam a analisar a posição atual da empresa e a decidir quais atitudes devem ser tomadas para desbravar novos mercados. Dentre elas estão: a) Matriz de avaliação de valor: ferramenta composta por um gráfico cujo objetivo principal é de captar a situação atual no espaço de mercado conhecido, ou seja, compreender o que os concorrentes andam fazendo e em que estão investindo, entender os atributos de base da 3/16 ANAIS competição dos produtos, serviços e entrega e entender o que os compradores recebem de valor como clientes, de qualquer uma das ofertas competitivas que existem no mercado. b) O modelo das quatro ações: possui como objetivo auxiliar na reconstrução ou criação de elementos de valor para os clientes, gerando assim uma nova curva de valor. Deve responder às seguintes perguntas: o que devo reduzir abaixo dos padrões setoriais, o que devo eliminar e é considerado indispensável pelo setor, o que devo criar de atributos que nunca foram oferecidos e quais atributos devo elevar acima dos padrões da concorrência. c) Análise das seis fronteiras do mercado: nesta etapa, é necessário analisar e reconstruir as seis barreiras do mercado, que são: dos setores alternativos, dos grupos estratégicos, da cadeia de compradores, da oferta de produtos e serviços complementares, do apelo funcional e emocional dos compradores e do transcurso do tempo. d) Sequência estratégica: após criada nova ideia, para que a mesma seja viável é necessário responder positivamente às perguntas: sua ideia de negócios gera utilidade excepcional para o comprador? Seu preço é acessível para a massa de compradores? Você é capaz de cumprir sua meta de custo para lucrar ao preço estratégico? Quais são as barreiras na realização da sua ideia de negócios, você as está encarando? Caso as respostas sejam todas positivas a estratégia do oceano azul criada é comercialmente viável. e) As seis utilidades do produto: Segundo Kim e Mauborgne (2005) a maneira de avaliar se a estratégia está transpondo cada uma das barreiras da sequência estratégica (d), é necessário analisar a utilidade para os compradores por meio do mapa de utilidade. Os modelos para efetivar esta análise estão nos anexos anexos I e II. f) Precificação estratégica: Kim e Mauborgne (2005) recomendam não seguir a ideia de oferecer um preço abusivo no lançamento do produto, pois sabe-se que o volume gera mais retornos elevados do que de costume. O modelo recomendado para a definição de preço pode ser encontrado na figura 1: Figura 1 – Corredor de preço da massa Mesma Forma Forma diferente, mesma função Forma e função diferentes, mesmo objetivo Alto grau de proteção legal e de recursos Precificação no nível superior Precificação no nível médio Corredor de preço da massa Precificação no nível inferior Difícil de imitar Algum grau de proteção legal e de recursos Baixo grau de proteção legal e de recursos Fácil de imitar 4/16 ANAIS O tamanho círculo de é proporcional ao número Fonte: do Adaptado Kim e Mauborgne (2005) de compradores atraídos pelo produto / serviço g) Teste de ideias do oceano azul: Conforme Kim e Mauborgne (2005), após desenvolver a estratégia do oceano azul na sequencia utilidade, preço, custo e adoção também é necessário o uso desta última ferramenta chamada de o “teste de ideias do oceano azul”, cujo modelo está na figura 2: Figura 2 – Modelo do Teste de Ideias do Oceano Azul Utilidade A utilidade é excepcional? As razões para comprar seus produtos e serviços são irresistíveis? Preço Seu preço é facilmente acessível para a massa de compradores? Custo Sua estrutura de custos é compatível com a meta de custo? Adoção Você enfrentou antecipadamente as barreiras á adoção? Fonte: Kim e Mauborgne (2005) Se a resposta for positiva em todas as perguntas do modelo, a empresa estará pronta para implantar a estratégia do oceano azul. Esta ferramenta serve como uma checagem do que foi definido até o momento, antes de partir para implementação. h) Superação das barreiras organizacionais: Para executar a estratégia do oceano azul Kim e Mauborgne (2005) sugerem superar as quatro barreiras presentes na implantação de um projeto, que são: barreira cognitiva, barreira de limitação de recursos, barreira de motivação, barreira política e organizacional. i) Sustentabilidade: Uma estratégia do oceano azul pode resistir de 10 a 15 anos sem enfrentar grandes desafios, após este prazo provavelmente a ideia será copiada. Para saber quando inovar novamente é necessário sempre analisar a curva de valor: quando ela estiver chegando próxima à curva dos concorrentes é hora de inovar novamente. Todos os modelos citados usam como base os princípios da estratégia do oceano azul, conforme a tabela 1: Tabela 1– Os princípios da estratégia do oceano azul Princípios de formulação Fatores de risco atenuados por cada princípio Reconstrua as fronteiras do mercado Risco de busca Concentre-se no panorama geral, não nos Risco do planejamento números Risco da escala Vá além da demanda existente Risco do modelo de negócios Acerte a sequência estratégica 5/16 ANAIS Princípios de execução Supere as principais barreiras organizacionais Introduza a execução da estratégia Fatores de risco atenuados por cada princípio Risco organizacional Risco da gestão Fonte: Kim e Mauborgne (2005) Na sequencia do artigo, apresenta-se a aplicação das ferramentas para a análise do projeto de inovação. 4. O PROJETO ANALISADO O projeto de inovação a ser estudado consiste em uma solução para o transporte de pessoas em corredores exclusivos de ônibus (sistemas BRT) que concederia novos tipos de contratos com os clientes da empresa analisada o que resultaria em mais lucro e crescimento. O primeiro corredor BRT (Bus Rapid Transit) surgiu em 1974 em Curitiba e em 2000 passou a ter seu modelo utilizado em outros países ao redor do mundo, sendo que hoje se estima que 166 cidades utilizem este sistema (Embarqbrasil.org, 2015). O BRT consiste em um sistema de ônibus rápido e eficiente onde os veículos coletivos operam em um corredor exclusivo para eles. O sistema tem como característica o pagamento da passagem antes do embarque em estações localizadas ao longo do corredor. Os veículos utilizados são de alta capacidade (comportam em média de 160 a 270 passageiros), modernos e são compostos de piso baixo (no mesmo nível das calçadas) para facilitação do embarque e desembarque. Estas características fazem com que tempo de viagem seja menor e que a emissão de CO2 no ar seja reduzida, já que há o aumento da velocidade de tráfego e a otimização da frota (BRT Brasil.org, 2015). No BRT da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, houve redução de 60% no tempo de viagem em um trajeto de 39 km e redução de 38% na emissão de CO2 com todo o sistema (BRT Rio, 2015). Além destes benefícios, este sistema apresenta vantagens no custo de implantação, que equivalem a uma fração dos custos de implantação do transporte sobre trilhos (Embarqbrasil.org, 2015). Enquanto o metrô requer de $100 a $500 milhões de dólares para ser implantado, o BRT requer de $1 a $15 milhões de dólares (Gazeta do Povo, 2015). Desta forma, o projeto analisado visa oferecer uma solução que gere ainda mais economias em relação aos produtos utilizados atualmente, que são, em sua maioria, ônibus articulados e biarticulados. Estes tipos de ônibus geram altos gastos de manutenção, exigem rotas específicas para poder rotacionar, além de gerar custos desnecessários quando enviados em horários fora de pico. Assim, a solução estudada propõe um modelo de veículo que dispensa o uso de articulações, mas que mantém a alta capacidade em transportar pessoas, então os custos de manutenção (das articulações especificamente) seriam removidos, além dos modelos poderem ser utilizados em mais rotas. Estes ônibus seriam movimentados por meio de propulsão elétrica (veículos híbridos, com baterias ou com ultra-capacitores), seguindo a tendência do uso destes tipos de combustíveis limpos que causam menos danos para o meio ambiente. 6/16 ANAIS Além destes fatores, o projeto também propõe a criação de uma escala maior de produção de um veículo mais padronizado, de menor porte e menor complexidade e com vantagens operacionais em flexibilidade, conforto, durabilidade, e capacidade de transporte de pessoas. 5. METODOLOGIA DE PESQUISA A metodologia utilizada neste artigo foi a realização de uma pesquisa exploratória sobre o assunto “A Estratégia do Oceano Azul” por meio de um levantamento bibliográfico e sobre o projeto de inovação da empresa de autopeças estudada. Com os dados obtidos destas pesquisas foi realizada uma análise descritiva do projeto de acordo com as ferramentas do modelo da estratégia do oceano azul. 6. ANÁLISE DOS RESULTADOS Matriz de Avaliação de Valor Para criar a matriz de avaliação de valor para o projeto de inovação estudado foi preciso entender as principais características dos ônibus BRT ofertados atualmente e seu mercado (citadas no item 4 deste artigo). No mercado de ônibus brasileiro, as empresas que fabricam estes tipos de transporte são: Volvo, Scania, e Mercedez. Estas empresas já desenvolveram e desenvolvem projetos junto a seus fornecedores como a Caio (carroceria), Marcopolo (carroceria) e Eletra (tração híbrida). Em relação aos compradores, as principais empresas que adquirem ônibus são viações municipais e intermunicipais como a EMTU por exemplo. A qualidade dos ônibus que estas viações utilizam influenciará na imagem que os clientes possuirão da empresa. Dentro deste contexto, é possível levantar os seguintes atributos que as autoviações levam em consideração no momento de decisão da compra de um ônibus, seja ele convencional ou BRT, conforme a matriz de valor da figura 3: 7/16 ANAIS Figura 3 – Matriz de Avaliação de Valor do Mercado atual de ônibus 1 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 Convencional 0,2 BRT 0,1 0 Fonte: Elaborado pelos autores Nesta matriz é possível traçar a diferença entre os dois tipos de ônibus conforme os atributos de valor para as empresas e é possível concluir que, por mais que a implantação de um BRT seja mais cara, pois depende de estrutura local para operar, em longo prazo eles são mais econômicos e eficientes, além de oferecerem mais vantagens para o usuário final e o meio ambiente. Modelo das quatro ações As respostas para as perguntas deste modelo em relação ao projeto analisado seriam: 8/16 ANAIS Figura 4: O modelo das quatro ações ELIMINAR ELEVAR •A parte articulada do veículo. •Embarque e desembarque •Capacidade •Facilidade na Manutenção •Estrutura local •Eficiência Operacional REDUZIR CRIAR • Tamanho dos veículos •Custo/Preço •Flexibilidade da capacidade •Flexibilidade de operação • Flexibilidade de manutenção •Conformidade com o Inovar-auto Fonte: Elaborado pelos autores Conforme visto na figura 4, o projeto de inovação analisado propõe remover a parte articulada dos veículos e fazê-los em tamanhos menores, entretanto o modelo de veículo sugerido não necessitará de aumento na quantidade de motoristas, de forma que a operação do mesmo não afetaria capacidade ofertada e ainda aumentaria a flexibilidade da mesma. Esta inovação tratase do segredo industrial da empresa analisada e não será revelado. A flexibilidade mencionada ocorreria com o envio da quantidade apropriada de unidades conforme os horários de pico, o que também geraria flexibilidade de operação. Além disso, a padronização das unidades facilitaria e reduziria o custo de manutenção. A flexibilidade de manutenção seria caracterizada com a maior possibilidade de trocar pequenas peças, e não de toda uma parte do veículo, para resolução de problemas, além disso, a necessidade de peças sobressalentes para manutenção seria menor. Desta forma, analisando estes pontos, é possível criar uma nova curva de valor, acrescentando os seguintes atributos, que não são levados em consideração pelos concorrentes atualmente: 9/16 ANAIS Figura 5 - Nova curva de valor 1 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 Convencional 0,2 BRT 0,1 NG BRT 0 Fonte: Elaborado pelos autores Os atributos não utilizados pela concorrência e acrescentados neste projeto são: flexibilidade de capacidade, flexibilidade operacional, flexibilidade de manutenção e conformidade com o Inovar Auto (veículo possui redução de emissão de poluentes no meio ambiente, além ser inovador). Análise das seis fronteiras Nesta etapa, foram analisadas as seis fronteiras sugeridas por KIM e MAUBORGNE 2005, as quais devem ser desbravadas pela empresa em vista de se libertar da concorrência e criar oceanos azuis. O projeto ultrapassa todas as fronteiras. Tabela 2 – Análise das seis fronteiras A solução sugerida oferece uma opção para os clientes de setores alternativos, que seriam as pessoas que andam de carro, moto ou bicicleta. Como o ônibus é de Setores corredor e não pegaria trânsito, o mesmo poderá ser uma opção atrativa para os alternativos usuários dos outros setores. Grupos estratégicos A solução também oferece um diferencial não disponibilizado pelos grupos estratégicos deste mercado que são as empresas que oferecem ônibus comuns ou articulados. Este diferencial é a flexibilidade de capacidade e operação, sendo assim é possível atrair clientes destes dois grupos: dos que querem oferecer uma capacidade média/alta e dos que querem oferecer capacidade alta o tempo todo. 10/16 ANAIS Cadeia de compradores O projeto analisado também leva em consideração tanto os clientes que comprariam o ônibus (autoviações) como os usuários finais (passageiros), pois além de oferecer economia de custo ao longo do tempo de vida do ônibus, ele oferece também facilidade de manutenção, agilidade e conforto para os clientes finais. Oferta de O veículo será mais fácil de ser montado (padronizado) e consertado além de oferecer produtos e conectividade wi-fi para os clientes finais, fatores que agradarão todos os envolvidos serviços no uso deste transporte. complementares Apelo funcional O veículo analisado possui a parte funcional superior à de seus concorrentes e, além e emocional dos do apelo funcional, será possível usar também o apelo emocional no momento de compradores divulgação do produto. Sugerindo um novo modelo de ônibus de corredor, a empresa já está considerando tendências do futuro do transporte público, que envolve ônibus andando em corredores exclusivos e utilizando fontes de energia menos poluentes (Calmon, 2014). Fonte: Elaborado pelos autores Transcurso do tempo Sequência Estratégica As respostas desta sequência seriam todas positivas, nas quais a utilidade excepcional para o comprador seriam as características inovadoras deste ônibus. O preço seria um pouco superior aos oferecido pela concorrência, porém ainda seria acessível e seria possível bater as metas de custo e a barreira para adoção. Por outro lado haveria a dificuldade de compra da ideia por parte de alguma montadora, pois a empresa analisada produzirá apenas algumas peças, os demais componentes ficariam por conta da montadora que aceitasse investir na proposta, entretanto a empresa analisada está conseguindo vencer esta etapa. Desta forma é possível dizer que o projeto segue devidamente toda sequencia estratégica sugerida. As seis utilidades do produto No caso do projeto analisado, é possível propor o seguinte ciclo de experiência de compra: 11/16 ANAIS Tabela 3 – Ciclo da experiência de compra do Next BRT Generation Ciclo da experiência de compra 1. Compra 2. Entrega 3. Uso 4. Suprimento 5. Manutenção O tempo de O produto exigirá Para o ônibus O ônibus precisará O manutenções operar, de de poder procedimento entrega do treinamento operação por parte será necessário periódicas, de compra ônibus toda entretanto como a será o mesmo poderá ser dos motoristas, para que será do manutenção de 20% a que eles saibam estrutura utilizado BRT feita por unidade e 30% menor operar os novos sistema atualmente os veículos serão tempo ônibus da melhor esteja para aquisição do padronizados, será possível funcionando dos outros que se leva maneira possível diminuir o tipos de para entrega gerando economia devidamente, e a como as custo ônibus, onde dos ônibus de combustível. de complexidade deste os estes são convenciona Quando não estiver estações is (aprox. 90 em uso, o ônibus parada e as procedimento adquiridos comparado á através de dias). Com a deverá ficar alocado pistas. A em uma garagem, Caso a cidade já concorrência. padronizaçã encomenda, após o o, redução e na qual poderá ser possua corredor capacidade por menor das quais são de ônibus, o oferecida, simplificaçã recebimento não dos utilizadas para os mesmo poderá exemplo, do pedido do o grandes ser utilizado sofrerá cliente, onde veículos, o BRTs atuais. o alterações, pois é todas as processo de Como os ônibus para possível parar serão novos, o grau implementação manufatura condições será mais de eficácia de seus do BRT. Caso apenas a unidade combinadas apresentar equipamentos serão não possua, o que rápido, ficam de problemas. documentadas assim como excelentes em vista custo escolha do escolha de implantação dos A . O processo as operações da material a ser usado que corredores de cotação até logísticas de fornecedores pela próprios para o para produção das finalização da entrega, que prezam ônibus sugerido unidades, também qualidade. também compra a Como todas as será menor do aumentará poderá levar serão da que a facilidade unidades um mês, pois facilitados e terão implantação dos manutenção devido ao produzidas muitos dos tamanho das piso baixo, acesso corredores para atualização detalhes sendo wi-fi e slots para os ônibus atuais, veículos, precisarão ser unidades. carregamento de pois o novo necessário menos decididos. celular, o produto ônibus exigirá peças em estoque. oferecerá o que o menos cliente exige, sem complexidade de itens movimentação. desnecessários. 6. Descarte O ônibus proposto será montado com o máximo de peças recicláveis possíveis, para quando for descartado, gere o mínimo de dano possível ao meio ambiente. Quantas mais peças poderem ser reutilizadas para montagem de um novo ônibus, melhor será para o meio ambiente. O descarte de ônibus é um processo complexo e que precisa ser feito legalmente. Fonte: Elaborado pelos autores Desta forma, conclui-se que há vários obstáculos a serem ultrapassados para se distanciar da concorrência, como o treinamento dos motoristas, que precisa ser eficiente e de fácil compreensão, o desafio da construção dos corredores de ônibus, a disponibilização de uma manutenção fácil e prática e o uso do máximo possível de peças recicláveis. Entretanto, também há vários pontos positivos em relação ao uso que podem encorajar os clientes a adquirirem o ônibus mesmo com estes obstáculos, que são a agilidade, a velocidade de locomoção e a flexibilidade operacional. 12/16 ANAIS Precificação Estratégica Em relação a este projeto, recomenda-se cobrar preço de venda na fronteira superior, já que o projeto será patenteado, entretanto as autoviações não devem cobrar um valor mais caro na passagem aos clientes finais porque terão um custo operacional menor, além do que os clientes não estarão dispostos a pagar um valor mais alto pelo transporte público. Teste de ideias do Oceano Azul As respostas deste teste cujas perguntas estão na figura 2 seriam as seguintes: - Utilidade: Sim, o ônibus fará parte do sistema BRT e oferecerá conforto e comodidade para os passageiros, assim como velocidade e eficiência em suas viagens. Para o cliente, oferecerá flexibilidade operacional e de capacidade, além de redução de custo ao longo da vida do produto. - Preço: Sim, o preço do ônibus será mais alto, porém acessível à massa de compradores. - Custo: Sim, a estrutura do custo será condizente com a meta de custos. - Adoção: Sim, a princípio todas as barreiras à adoção serão ultrapassadas. Desta forma, é possível prosseguir com a implantação deste projeto de inovação. Superando as barreiras organizacionais Em relação às quatro barreiras organizacionais citadas por Kim e Mauborgne (2005), que são: barreiras cognitiva, limitação de recursos, barreira de motivação e barreira política organizacional, é possível dizer que o projeto deve se atentar a alguns fatores como a limitação de recursos disponíveis para montar os veículos e as barreiras políticas que podem atrasar a construção de corredores de ônibus. Em relação a primeira e terceira barreira, podese dizer que até o momento a empresa está as superando, obtendo apoio e motivação dos envolvidos no projeto. Sustentabilidade Para que o projeto estudado mantenha sua sustentabilidade, deve-se sempre analisar suas curvas de valor e, quando as mesmas ficarem próximas ao de seus concorrentes, será a hora de buscar um novo oceano azul. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a pesquisa efetuada é possível concluir que para se diferenciar e se distanciar da concorrência, não basta apenas ter uma ideia e aplicá-la conforme as estratégias tradicionais: é necessário também inovar na forma de vê-la e de aplicá-la dentro da organização. Para tanto, Kim e Mauborgne (2005) sugerem o uso da estratégia do oceano azul, que consiste em um 13/16 ANAIS conjunto de ferramentas que visa ajudar as empresas a inovarem, desbancando a concorrência por anos e assim sair do sangrento e concorrido oceano vermelho. Em um oceano azul, a empresa fica à frente de todos seus concorrentes tornando-os insignificantes, oferecendo um produto ou serviço difícil de copiar não só por sua exclusividade em si, mas também pelas alterações organizacionais necessárias para oferecêlo. Dentro deste conceito, a empresa de autopeças estudada sugere um projeto no qual consiste em uma solução inovadora para os ônibus de corredor. Segundo análise efetuada, o projeto possui todas as características necessárias para uma ideia geradora de oceano azul, seguindo os princípios da estratégia, criando uma nova curva de valor implantando as ações do “modelo das quatro ações”, superando as seis fronteiras de mercado, seguindo a sequência estratégica de ideia comercialmente viável, respondendo positivamente ao ciclo da experiencia de compra, conseguindo seguir o modelo de precificação estratégica, passando no teste de ideias do oceano azul e tendo potencial para superar as quatro barreiras organizacionais de implantação; precisando se atentar e não esquecer dos seguintes pontos: 1 - oferecimento de conforto e facilidades dentro de todas as unidades fabricadas, seguindo a tendência do setor. 2 - produção das unidades com material que reduza tanto o peso do veículo e o consumo de combustível como os gastos de manutenção no período de vida do mesmo. 3 - usar o apelo funcional para a venda de seu produto as auto viações e do apelo emocional para despertar a utilização dos clientes finais. 4 - dar atenção aos fatores como treinamento a ser oferecido aos operadores do veículo, construção dos corredores de ônibus e uso de peças recicláveis para facilitar o descarte do produto. Se a empresa levar em consideração estes fatores e sempre atualizar sua curva de valor, certamente ela conseguirá ficar anos à frente de sua concorrência. REFERÊNCIAS BARNEY, Jay B; Hesterly , William S.; Administração Estratégica e Vantagem Competitiva. 3 ed- São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2011. BRT BRASIL. Disponível em: http://www.brtbrasil.org.br/ - Acesso em 04/02/2015. BRT RIO. Disponível em http://www.brtrio.com/conheca - Acesso em 04/02/2015. CALMON, Fernando; Mobilidade urbana desafia indústria. www.automotivebusiness.com.br/.../mobilidade-urbana-desafia-industria. 06/04/2014. 14/16 Disponível Acesso em: em ANAIS CARVALHO, Fábio Câmera Araújo de. Gestão do Conhecimento. São Paulo: Pearson, 2012. DICIONÁRIO MICHAELIS UOL 2009 – disponível em http://michaelis.uol.com.br/ acesso em 03/04/2014 EMBARQ BRASIL. 166 cidades pelo mundo adotam o BRT. Disponível em: http://embarqbrasil.atendesigngroup.com/news/166-cidades-pelo-mundo-adotam-o-brt Acesso em 06/04/14. GAZETA DO POVO. Guia compara custos e benefícios dos sistemas de metrô, BRT e VLT. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1493494&tit=Guiacompara-custos-e-beneficios-dos-sistemas-de-metro-BRT-e-VLT – Acesso em 04/02/2015 INOVAR AUTO. Disponível em: http://inovarauto.com.br/. Acesso em 06/04/2014. KIM, W. Chan e MAUBORGNE, Renée. A Estratégia do Oceano Azul: Como criar novos mercados e tornar a concorrência irrelevante. – São Paulo: CAMPUS, 2005. KLUYVER, Corlenis A. de, PEARCE A. John – Estratégia: uma visão executiva – 3. Ed – São Paulo: Pearson Pretince Hall, 2010. MESTRINER, Fabio. Gestão Estratégica de Embalagem. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. PORTAL GESTÃO. As estratégias genéricas de Michael Porter. Disponível em: https://www.portal-gestao.com/item/6710-as-estrat%C3%A9gias-gen%C3%A9ricas-demichael-porter.html - Acesso em: 06/04/2014 RODERMEL, Pedro MONIR, SCHMIDT, Maria do CARMO; STADLER Adriano – Desenvolvimento gerencial, estratégia e competitividade. Curitiba: Ibpex, 2001; ROLDAN, Josie. Empreendedorismo e Vantagem Competitiva. Disponível em: http://www.administradores.com.br/artigos/negocios/empreendedorismo-e-vantagemcompetitiva/76993/. Acesso em 29/07/2014. TURBAN, Efraim; King, David; - Comércio eletrônico: estratégia e gestão. São Paulo: Prentice Hall, 2004. 15/16 ANAIS ANEXOS ANEXO I - Modelo de identificação dos obstáculos para utilidade Compra Entrega Produtividade dos clientes: Simplicidade: Uso Suplementos Manutenção Descarte Em que estágio se encontram os maiores obstáculos produtividade dos clientes Em que estágio se encontram os maiores obstáculos á simplicidade? Conveniência: Em que estágio se encontram os maiores obstáculos à conveniência? Risco: Em que estágio se encontram os maiores obstáculos á redução do risco? Diversão Imagem: Em que estágio se encontram os maiores obstáculos a diversão e imagem? Preservação ambiental: Em que estágio se encontram os maiores obstáculos á preservação ambiental? á Fonte: KIM E MAUBOURGNE (2005) ANEXO II – Modelo para Análise de Ciclo da Experiência de Compra 1. Compra Qual é a demora para encontrar o produto de que se precisa? O local da compra á atraente e acessível? Qual é o grau de segurança do ambiente de transações? Com que rapidez se completa a compra? 2. Entrega Qual é a demora para receber o produto? Qual é o grau de dificuldade para desembalar e instalar o novo produto? Os próprios compradores devem providenciar a entrega? Em caso positivo, qual é o custo e a dificuldade de entrega? 3. Uso O produto exige treinamento ou assistência de especialistas? É fácil guardar o produto quando não estiver em uso? Qual o grau de eficácia dos itens e funções do produto? O produto ou serviço fornece muito mais capacidade e opções do que as exigidas pela média dos usuários? Será que ele está cheio de itens desnecessários? 4. Suprimento Precisa-se de outros produtos ou serviços para que o produto funcione? Em caso afirmativo, qual é o custo desses suplementos? Qual é a demora para obtê-los? Qual é o grau de incômodo deles resultante? Qual é o grau de facilidade para obtê-los? Fonte: KIM E MAUBOURGNE (2005) 16/16 5. Manutenção O produto exige manutenção externa? Qual é o grau de facilidade para manter e atualizar o produto? Qual é o custo da manutenção? 6. Descarte O uso do produto gera resíduos? Qual é o grau de facilidade para descartar o produto? O descarte seguro do produto envolve questões legais ou ambientais? Qual é o custo do descarte?