UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Rio de Janeiro 2008 CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Saúde da Família. Orientadora Profª Drª Valéria Ferreira Romano. Rio de Janeiro 2008 CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Saúde da Família. Aprovada em BANCA EXAMINADORA _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Valéria Ferreira Romano Universidade Estácio de Sá _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Marilene Cabral do Nascimento Universidade Estácio de Sá _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Sheila Pereira da Silva e Souza Instituto Nacional do Câncer À minha mãe Francisca, meu pai Ney, meus filhos Victor e Rodrigo, minhas irmãs Solange e Marcia e ao meu parceiro de vida Adhemar, que são ferramentas valiosas em minha vida. AGRADECIMENTOS Aos profissionais e usuários do PSF-LAPA que me inspiraram a escolher o tema do acolhimento e nos momentos mais difíceis souberam dar crédito à realização desta pesquisa. À professora Dra. Valéria Romano, que tive a felicidade de poder compartilhar de seus conhecimentos, revelando sensibilidade e uma imensa paciência diante dos fatos e acontecimentos. Agradeço a todos os amigos e alunos que contribuíram, incentivaram e acreditaram na execução desta pesquisa. Ao professor Dr. Hesio Cordeiro, que sempre nos acolheu carinhosamente, e a toda equipe do mestrado, pelo empenho no financiamento do Curso através das bolsas de estudo fornecidas pela parceria com o Ministério da Saúde. À professora Dr.ª Marilene Cabral do Nascimento por ampliar meu olhar em relação ao comportamento humano. À professora Dr.ª Sheila Pereira da Silva e Souza, pela disponibilidade em ensinar e ajudar ao próximo. À equipe de trabalhadores e gestores do PSF-Itaboraí, pelo empenho e solidariedade em ajudar na realização desta pesquisa. Aos colegas de mestrado, no qual tivemos a oportunidade de aprender e crescer juntos. Aos professores, que com muita competência nos acompanharam. A Aline Luna, secretária do mestrado, sempre pronta a nos ajudar. E a Deus que iluminou meu caminho para a realização de mais um sonho em minha vida! O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo. (Mahatma Gandhi) RESUMO O foco central desse estudo é o acolhimento, que é entendido como uma postura ética e política, de cumplicidade da equipe multiprofissional de saúde com as necessidades de saúde do usuário. Esta postura começa desde a porta de entrada, passando pelo atendimento individual e coletivo, ocorrendo tanto no ambulatório ou no domicílio, nas práticas educativas, até no sistema de referência e contrareferência e na internação hospitalar. Almejando sempre à construção do entendimento do processo saúde-doença pelo usuário com a finalidade de que ele participe como sujeito do seu processo de cura, é uma ferramenta fundamental para implementação da Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS) como possibilidade de mudança no processo de trabalho do Programa de Saúde da Família (PSF). O objetivo geral da pesquisa propõe compreender do ponto de vista dos profissionais de Saúde da Família a concepção do conceito de acolhimento e os fatores que facilitam e dificultam a implantação do mesmo no processo de trabalho no PSF. A pesquisa qualitativa utilizou-se análise de entrevistas semi-estruturadas e observação participante com todos os membros de uma equipe de Unidade de Saúde da Família (USF) no município de Itaboraí/RJ. Os resultados encontrados indicaram um entendimento sobre acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado do profissional médico, com conseqüente aumento de demanda para o mesmo. Verificou-se que os profissionais de saúde estudados demonstram-se sensibilizados com o sofrimento do usuário, esforçando-se para lhe oferecer uma escuta qualificada. Os profissionais de saúde elegeram como principais fatores facilitadores para implantação do acolhimento: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados foram: modelo de saúde centrado no médico, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, ausência de intersetorialidade e demanda excessiva para a equipe. Conclui-se que o processo de acolhimento e o entendimento dos profissionais da Saúde da Família sobre o mesmo divergem sobre a Política Nacional de Humanização e os autores teóricos sobre o assunto, demonstrando a necessidade de educação permanente na construção deste processo. Palavras-chaves: Acolhimento. Humanização. Programa Saúde da Família. ABSTRACT The main focus of this study is user embracement, understood as an ethical and political attitude in favour of the health needs of the patient, going from the admittance to individual and collective consultation, occurring in clinics as well as at residences, in educational practices, up to the reference and counter referencesystem and in hospitalization. It constantly aims at the construction of the patients/users comprehension of the health-disease process, for the purpose of active participation in the healing process. Being a fundamental tool for the implementation of the National Politics of Humanization (HumanizaSUS), as a possibility of transformation in the working process of the Family Heallth Program (FHP). As a general objective it proposes to comprehend, from the position of the healthcare professionals, the perception of the concept of user embracement and the factors that facilitate and complicate the implantation of it in the working process in the FHP. As a qualitative research, an analyses of semi-structured interviews of all the participating team members of a Family Health Unity (FHU) in the municipality of Itaboraí/RJ was employed. The found results indicated a comprehension of user embracement as non-scheduled clinical attention of the medical professional, thus consequently increasing the demand. It was noted that the researched healthcare professionals showed to be moved by the suffering of the patient/user, making an effort to listen carefully. As the main factors facilitating the implantation of acceptance, the health professionals opted for the bond with the community, the awareness of the health needs of the community and the motivation on the part of the healthcare professional in working in the FHP. The main complicating factors found were: a model of healthcare fixed on the medic; resistance of the community in attending educational activities; and the absence of intersectoriality and an excessive demand on the healthcare team. Concluded was that the process of user embracement and the perception of it by healthcare professionals of FHP diverge on the National Politics of Humanization and the theory of the issue at hand, thus demonstrating the necessity of permanent education in the construction of this process. Key-words: User Embracement. Humanization. Family Health Program. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 12 2 2.1 PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA ACOLHIMENTO NO PSF 19 22 3 O MODELO TECNO-ASSISTENCIAL DE SAÚDE EM DEFESA DA VIDA: UM PRECURSOR DO ACOLHIMENTO A HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO À SAÚDE ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE 26 36 36 4.2 4.2.1 4.2.2 AS CARACTERÍSTICAS DO SUS NO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ: ASPECTOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS ESTRUTURA DA REDE MUNICIPAL DE SAÚDE Dados Populacionais Dados de Cadastramento Familiar pelo PSF ano 2002 5 5.1 5.2 OBJETIVOS DO ESTUDO GERAL ESPECÍFICOS 41 41 41 6 6.1 6.2 6.3 6.4 6.4.1 METODOLOGIA TIPO DE ESTUDO CENÁRIO E POPULAÇÃO DA PESQUISA PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS TÉCNICA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO Categorias 42 42 43 46 48 50 7 7.1 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS O ENTENDIMENTO DO CONCEITO DE ACOLHIMENTO PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UNIDADE DE SAÚDE SANTA ROSA FATORES QUE INFLUENCIAM A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NA USF FATORES FACILITADORES FATORES DIFICULTADORES 54 55 CONSIDERAÇÕES FINAIS 77 REFERÊNCIAS 80 APÊNDICE 1: ROTEIRO DE ENTREVISTA APÊNDICE 2: DADOS GEOGRÁFICOS APÊNDICE 3: DADOS POPULACIONAIS APÊNDICE 4: DADOS DE CADASTRAMENTO FAMILIAR PELO PSF ANO 2002 APÊNDICE 5: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO APÊNDICE 6: FOTOS DA UNIDADE SAÚDE DA FAMÍLIA E DA ÁREA ADSCRITA 86 87 88 89 ANEXO1: HUMANIZA SUS 97 3.1 3.2 4 4.1 7.2 7.3 7.4 28 33 37 39 40 58 59 66 90 91 1 INTRODUÇÃO Esta pesquisa aborda o tema do acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família. O acolhimento nas Unidades de Saúde de família (USF) apresenta-se como um dispositivo importante na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Estudá-lo remete a reflexões a respeito do processo de trabalho da equipe multiprofissional no cotidiano das unidades de saúde da família, na troca de saberes, distribuição do poder, no compromisso, responsabilização e vínculo com a comunidade em determinado território e com a realidade sanitária na qual vivem as pessoas. Nessa direção, o presente estudo entende acolhimento como uma postura ética e política de cumplicidade da equipe multiprofissional de saúde com as necessidades de saúde do usuário, desde a recepção, passando pelo atendimento individual ou coletivo no ambulatório ou domiciliar, nas práticas educativas, na busca de intersetorialidade, até o encaminhamento a outros níveis de atenção através de referência e contra-referência. Uma postura comprometida com a construção do entendimento do processo saúdedoença pelo usuário com a finalidade que ele participe como sujeito do seu processo de cura. Esta compreensão do conceito de acolhimento foi elaborada após revisão de literatura que analisa a Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2004) e está em sintonia com os pensamentos de Merhy (1997), Campos (1994), Cecílio (2001) e Matumoto (1998). O modelo atual de atenção à saúde, ainda hegemônico, caracteriza-se por focalizar a doença, estando centrado na assistência médica individual, fragmentada, especializada e direcionada à demanda espontânea. Na perspectiva de superar esse modelo, o Programa de Saúde da Família (PSF) é uma medida proposta pelo Ministério da Saúde para a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, caracterizando-se como a principal resposta, dos órgãos governamentais, para a superação da crise na atenção à saúde, com ênfase na atenção básica. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2007) os objetivos do PSF são: -- Prestar assistência integral, contínua, com resolubilidade às necessidades de saúde da população adscrita; -- Intervir sobre os fatores de risco aos quais a população está exposta; -- Humanizar as práticas de saúde através do estabelecimento de um vínculo entre os profissionais de saúde e a população; -- Proporcionar o estabelecimento de parcerias através do desenvolvimento de ações intersetorias; -- Contribuir para a democratização do conhecimento do processo saúde doença, da organização dos serviços e da produção social da saúde; -- Trabalhar em equipe multidisciplinar; -- Fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e, portanto, qualidade de vida; -- Estimular a organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social. O acolhimento constitui uma forma de humanizar e organizar o trabalho em saúde que vai ao encontro dos objetivos do PSF. É fundamental em relação ao estabelecimento de vínculo e compromisso entre os profissionais de saúde e a comunidade para resolução de suas necessidades de saúde, proporcionando a troca de saberes entre a comunidade e a equipe multidisciplinar. A motivação para o desenvolvimento desta pesquisa surgiu a partir das minhas inquietações, observações e experiências de atuação profissional nesses quase 13 anos como Médica de Família. Durante este período pude evidenciar linhas de tensão entre trabalhador e usuário para resolver as necessidades de saúde da população. A partir de 1995 iniciei esta prática como médica no Programa Médico de Família de Niterói, estando hoje como docente e médica do PSF-Lapa. Os propósitos e as finalidades da estratégia do acolhimento podem ser os mais diversos possíveis a depender de cada um dos sujeitos que os coloca em ação, da sua visão de mundo, sua formação ideológica, técnica, ética e do contexto em que esteja inserido. Os ruídos criados dentro da equipe de saúde da família são inúmeros quando não se tem claro um processo de trabalho com um fim único: o de atender as necessidades de saúde da comunidade. Da perspectiva aqui tomada, o acolhimento se configura a partir de um fazer cotidiano em que se busca tomar a crise da saúde como um desafio de resgatar a missão, do setor saúde, de produção de vida e de saúde, enfim, de qualidade de vida. Essa proposta de acolhimento se apóia no reconhecimento das relações entre as pessoas no momento de atendimento como uma das questõeschave, e em especial a relação trabalhador-usuário (MATUMOTO, 1998). Esta relação trabalhador-usuário vem se construindo histórica e socialmente partindo do reconhecimento do poder/saber entre o técnico e o leigo estabelecendo uma relação de subordinação do segundo pelo primeiro, não reconhecendo e retirando da população o seu saber, criando uma relação de dependência especialmente do saber médico (MERHY, 1994). Entre os obstáculos encontrados para atuar na perspectiva dessa proposta destaco algumas limitações observadas em minha trajetória profissional, que são freqüentemente relatadas na literatura sobre o trabalho em equipe no PSF. Silva (2005) analisa a experiência de uma equipe do PSF em um município baiano, buscando identificar evidências da articulação entre ações e interação entre os profissionais da equipe da saúde da família, com vistas à construção de um projeto assistencial comum. Do ponto de vista da interação, com vistas à construção de um projeto comum, o autor identificou como aspecto favorável a partilha de algumas decisões referentes à dinâmica da unidade. Por outro lado foi observado que o planejamento das ações concentra-se nos profissionais de nível superior, de forma individualizada. Schimith (2004) observa o trabalho de uma equipe do PSF em um município do Rio Grande do Sul, identificando o potencial de acolhimento e de construção do vínculo entre profissionais e usuários. Verificou que existem lacunas no acolhimento aos usuários, sobretudo no que se refere à abertura do serviço para a demanda, à responsabilização pelos problemas de saúde da população e ao estímulo à autonomia do usuário. Constatou-se que a produção de vínculo está relacionada com o desenvolvimento de atividades clínicas. A autora propõe a aproximação da enfermeira às atividades clínicas e ao acolhimento dos usuários. Outros autores, Santos (2007), Chaves dos Santos (2002), Branco (2005) e Cavalcante (2006), constatam que o trabalho nas equipes de saúde da família ainda se mantém organizado através de atividades autônomas no sentido de desarticulação entre as diversas categorias profissionais, o que gera conflitos e tensas relações interpessoais. O atendimento da demanda espontânea expressa esta desarticulação no trabalho: quem ouve primeiro o usuário para saber se é possível agendar a consulta ou há necessidade de atendimento no mesmo dia? Segundo Franco (2004), na maioria das Unidades Básicas de Saúde, sem acolhimento, quem faz o primeiro atendimento é a recepcionista da USF que na maioria das vezes é uma agente administrativa, ficando com grande poder, o de determinar quem entra e quem não entra, ou seja, o acesso das pessoas à assistência fica limitado a ter vaga ou não de consulta médica. Quantos não vão embora sem ter sido atendidos em suas necessidades? Será que outro profissional da equipe não poderia escutar o usuário? [...] Cada profissional tem que participar ativamente desse processo, inserindo-se na resolução dessa problemática. Acesso e acolhimento deixam de ser problemas de recepção e tornam-se objeto da prática de toda equipe de saúde [...]. A função da porta não é mais barrar e limitar o atendimento e, sim responder aos problemas que ali aparecem de modo criativo, explorando ao máximo as tecnologias leves de que dispomos em nosso saber e em nossas relações [...] (MERHY, 1994, p. 138). Segundo Scholze et al. (2006) o acolhimento deve ser realizado por cada membro da equipe, ouvindo os usuários e oferecendo respostas para suas necessidades. A implantação do acolhimento possibilitará encaminhar as necessidades mais imediatas da população atendida, preservando a eqüidade na atuação do PSF e a organização da demanda na assistência. O desemprego, a baixa renda familiar, baixa escolaridade, violência familiar e tantos outros problemas que vão além do setor saúde encontram escuta na equipe? Apesar de todo esforço das equipes de Saúde da Família em realizar práticas educativas, as ações de saúde continuam predominantemente individuais e curativas, priorizando a consulta individual, havendo pouco espaço de articulação entre os saberes necessários para a construção do acolhimento (CAMPOS, 2005). A partir do pressuposto de que o Programa de Saúde da Família é uma possibilidade de construção de cidadania, venho refletindo sobre a amplitude do contato direto diário com o sofrimento humano e percebendo que quanto mais se estreitam vínculos, mais o profissional é solicitado pela comunidade, correndo o risco de, contraditoriamente à proposta de humanização/acolhimento nos serviços de saúde, este vínculo gerar dependência e medicalização. O problema que motivou a realização dessa pesquisa foi essa relação trabalhador-usuário que estabelece ainda uma subordinação do segundo pelo primeiro, não reconhecendo e retirando da população o seu saber, criando uma relação de dependência especialmente do saber médico (MERHY, 1994). Na verdade essa relação trabalhador-usuário, que não troca saberes, dificilmente conseguirá resolver as necessidades de saúde da população. Precisamos nos pautar pela construção de um outro tipo de vínculo entre os trabalhadores de saúde e os usuários, temos que primar pela cidadanização da assistência à saúde, reconstruindo nossa dignidade e a do paciente, no campo das ações de saúde (MERHY, 1994). Devido a essas inquietações, o presente estudo aborda o acolhimento no PSF como possibilidade de reverter essa tendência de modelo ainda médico-centrado e não usuário-centrado (CAMPOS, 2003), como propõe o conceito de acolhimento pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006). A escolha do município de Itaboraí-RJ como cenário deste estudo deve-se ao fato do mesmo ter sido um dos pioneiros na implantação do acolhimento, enquanto política de trabalho, nas Unidades de Saúde da Família dentro do estado do Rio de Janeiro. Itaboraí sediou em maio de 2007, a 1ª Oficina de Humanização na Atenção Básica: a HUMANIZASUS-ITABORAÍ. Este estudo visa à identificação dos fatores que facilitam e dificultam a implantação do acolhimento no PSF Itaboraí especificamente na Unidade de Saúde da Família (USF) - Santa Rosa. Pretende aprimorar o conhecimento desses fatores e a identificação de estratégias que contribuam para valorizar e estimular os profissionais na construção coletiva de um modelo de atenção à saúde humanizado e acolhedor. A presente dissertação é composta por oito sessões. O capítulo 1 apresenta ao leitor o tema do acolhimento no Programa de Saúde da Família. O capítulo 2 aborda o PSF, sua implantação, metodologia, contradições e desafios. O capítulo 3 descreve o acolhimento como proposta de humanização na atenção à saúde. O capítulo 4 descreve as características do SUS e do PSF no município de Itaboraí. Os capítulos 5 e 6 explicitam os objetivos do estudo (geral e específico), as opções metodológicas, o cenário e a população e os preceitos éticos observados neste estudo. O Capítulo 7 trata dos resultados encontrados e da discussão com a literatura especializada. Finalizando, o capítulo 8 apresenta as considerações finais, trazendo uma síntese dos resultados encontrados e das contribuições do estudo. 2 PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA O Programa de Saúde da Família (PSF) tem suas raízes no Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), adotado pelo Ministério da Saúde em 1991. O PACS foi um antecessor do PSF, ao focar a família e não apenas o indivíduo em seu conjunto de ações. No PACS a atenção estava centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social. Além disso, introduzia uma visão ativa de não esperar a demanda chegar para intervir, mas de agir preventivamente sobre ela, constituindo-se assim como um instrumento real de reorganização da demanda. Em 1994, surgiu a proposta do PSF como instrumento de reorganização do SUS, reafirmando seus pressupostos básicos referentes à universalidade, integralidade e eqüidade, em um contexto de descentralização e controle social da gestão. O Programa de Saúde da Família (PSF) vem sendo incorporado pelo Ministério da Saúde como um modelo alternativo de atenção à saúde desde 1994, em substituição ao modelo tradicional, em decorrência da necessidade de agregar-se uma nova prática de cuidado em saúde. As ações de saúde desenvolvidas pelo PSF passaram, assim, a serem centradas na família, percebida a partir de seu ambiente sociocultural. O trabalho neste âmbito se estrutura a partir da Unidade de Saúde da Família (USF), onde fica localizada a equipe multiprofissional com responsabilidade por uma determinada população a ela vinculada. A organização do trabalho visa o atendimento integral às famílias, através de visitas domiciliares, grupos de educação em saúde, reuniões comunitárias e consultas individuais. O que facilita o estabelecimento de vínculos de responsabilidade e confiança entre profissionais e famílias, e permite uma compreensão ampliada do processo saúde- doença e da necessidade de intervenções, a partir de problemas e demandas identificadas. Desta maneira, estão assim definidos os princípios sobre os quais o PSF atua: -- caráter substitutivo: substituição das práticas convencionais de assistência por um novo processo de trabalho, cujo eixo está centrado na vigilância à saúde; -- integralidade e hierarquização: a unidade de saúde da família está inserida no primeiro nível de ações e serviços do sistema local de saúde, denominado atenção básica. Deve estar vinculada à rede de serviços, de forma que se garanta a atenção integral aos indivíduos e famílias, e sejam asseguradas a referência e contra-referência para os diversos níveis do sistema, sempre que for requerida maior complexidade tecnológica para a resolução de situações ou problemas identificados na atenção básica; -- territorialização e criação de clientela: trabalha com território de abrangência definido e é responsável pelo cadastramento e acompanhamento da população adscrita a essa área. Recomenda-se que uma equipe da saúde da família (ESF) seja responsável pelo acompanhamento de no máximo 4.500 pessoas. -- equipe multiprofissional: é formada por no mínimo um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e quatro a seis agentes comunitários de saúde, que são responsáveis por cerca de 3000 a 4.500 pessoas, totalizando de 600 a 1000 famílias por equipe de saúde. Quando ampliada, conta ainda com um dentista, um auxiliar de consultório dentário e um técnico em higiene dental (BRASIL, 2006). Esta equipe multiprofissional passa a ser a "Porta de Entrada" do serviço de saúde, porém na prática cotidiana dos PSF, percebe-se que a oferta de serviços de saúde continua em torno do procedimento médico-centrado, que é a consulta médica. A partir dela é oferecido uma lista de serviços que pode ser executado por outros profissionais. O programa trabalha por meio de marcação de consulta médica. É dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, e essa mudança deveria se caracterizar a partir de um modelo que seja usuário-centrado, mas será que é assim? Embora o trabalho esteja direcionado para práticas multiprofissionais, nada garante nas estratégias do PSF de que haverá ruptura com a dinâmica médicocentrada, do modelo hegemônico atual. O Programa aposta em uma mudança centrada na estrutura, ou seja, o desenho sob o qual opera o serviço, mas não opera de modo amplo nos microprocessos do trabalho em saúde, nos fazeres do cotidiano de cada profissional, que em última instância é o que define o perfil da assistência (FRANCO, 2006). O Ministério da Saúde passou a se referir em 2005 ao Programa de Saúde da Família (PSF) como Estratégia de Saúde da Família, deslocando a idéia de um programa setorial de saúde, uma vez que o PSF não foi implantado apenas para organizar a atenção básica no SUS de maneira temporária, mas essencialmente para reestruturar esse sistema, na medida em que redirecionou prioridades de ação em saúde, reafirmando uma nova filosofia de cuidado em saúde e uma consolidação dos princípios organizativos do SUS. No entanto, neste estudo, utilizaremos o termo Programa de Saúde da Família (PSF) em virtude de seu uso comum no meio acadêmico e pelos profissionais de saúde. 2.1 ACOLHIMENTO NO PSF Para refletir sobre o acolhimento no PSF como um dispositivo capaz de contribuir para a mudança de um modelo hegemônico médico-centrado para usuário-centrado é preciso antes conceituar as principais características do trabalho em saúde. O conceito de trabalho vivo em saúde vem de Merhy (1997) quando estuda a micropolítica do trabalho em saúde, e identifica dois componentes, o trabalho morto e o trabalho vivo. O primeiro é o produto do meio como ferramenta ou matéria-prima, sendo o resultado de um trabalho humano realizado em um momento anterior, por exemplo, o formulário, o estetoscópio,os equipamentos de saúde. O trabalho vivo é aquele que está em ação, vai se dando, vai se fazendo no próprio ato pelo trabalhador, dando a ele, certa autonomia em sua ação, seu poder de decidir coisas em seu microespaço. Segundo Merhy (1997), o acolhimento é produzido no encontro entre trabalhador e o usuário que ele chama de espaço intercessor, onde cada uma das partes, o usuário e trabalhador se colocam com toda sua inteireza, ou seja, suas necessidades, projetos, ansiedades, dores, medos, desejos, sonhos e potencialidades. Nesse espaço intercessor está a potência do trabalho vivo em ato. Isso determina uma característica essencial do trabalho em saúde, a de que ele é relacional. Para agir nesse espaço intercessor, o trabalhador lança mão de ferramentas. O autor classifica as ferramentas em tecnologias dura, leve-dura e leve. A tecnologia dura é composta por equipamentos tipo máquinas como o termômetro, estetoscópio assim como os exames complementares (tomografia, ressonância magnética, etc.). A tecnologia leve-dura é a que foi adquirida pelo profissional durante sua formação e no exercício profissional. Por último a tecnologia leve que diz respeito à qualidade da relação estabelecida entre o trabalhador e o usuário. Ela permite produzir relações, expressando como resultados a construção ou não de acolhimento, vínculos e responsabilizações. O trabalho é um meio de vida, que tem sempre uma finalidade para que ele se realize e está ligado ao atendimento à determinada necessidade da pessoa, seja ela de que tipo for. No campo da saúde, segundo Cecílio (2001), as necessidades de saúde do usuário podem ser apreendidas em quatro grandes conjuntos: o primeiro diz respeito a ter boas condições de vida, ou seja, ao modo de levar a vida no trabalho, lazer, moradia e alimentação. O segundo se refere ao acesso a toda tecnologia capaz de melhorar a qualidade de vida. Nesse aspecto, o autor considera que o determinante do uso de cada tecnologia deveria ser definido pela necessidade de cada pessoa, e não por um protocolo de hierarquias dessas tecnologias. O terceiro considera o vínculo entre usuário e equipe e profissional de saúde. Vínculo esse que expressa confiabilidade, que representa encontro de duas pessoas, trabalhador de saúde e usuário, numa relação harmônica e calorosa. O quarto e último refere-se à autonomia do sujeito, ou seja, à possibilidade de cada um refazer a sua própria vida buscando a melhoria de sua qualidade de vida. É importante entender as necessidade de saúde de maneira que o usuário, ao buscar um serviço de saúde, independente de sua complexidade encontre uma escuta que vá além de suas queixas, e que o considere como parte de um todo traduzindo em um atendimento o mais completo possível. Essa abordagem requer a participação de diferentes trabalhadores de saúde na atenção e reforça as relações entre serviço de saúde e usuário, permitindo o direito de usufruir os bens que o serviço oferece de tal forma que o usuário, ele mesmo, obtenha as ferramentas necessárias para que possa se apropriar, refletir e transformar seu modo de viver a vida. Isso envolve centrar as ações numa prática que inclua o cuidado. Merhy (2002) sobre este aspecto afirma que: [...] o modelo assistencial que opera hoje nos nossos serviços é centralmente organizado a partir dos problemas específicos, dentro da ótica hegemônica do modelo médico neoliberal, e que subordina claramente a dimensão cuidadora a um papel irrelevante e complementar. [...] podemos também afirmar que neste modelo assistencial a ação dos outros profissionais de uma equipe de saúde são subjugadas a esta lógica dominante, tendo seus núcleos específicos e profissionais subsumidos à lógica médica, com o seu núcleo cuidador também empobrecido (p. 125). O autor destaca que, sob uma outra lógica, o conjunto de profissionais de saúde tem um núcleo comum: o do cuidado e esse é integrador dos diferentes olhares. Na medida que é comum, provoca o diálogo e a troca de saberes dos diferentes campos profissionais. Deseja-se que o novo modelo de atenção considere o processo saúde-doença além da dimensão incluída nos âmbitos tradicionais da epidemiologia e da terapêutica, que não tenha mais o saber médico como centro e que considere o indivíduo e não a doença como foco da atenção. Para tal finalidade é necessário um conjunto de ações que essencialmente têm que ser realizadas por um grupo de pessoas e não por um único profissional. Atender as necessidades de saúde da população nos moldes propostos implica em um trabalho de equipe multiprofissional, para realizar uma abordagem integral da pessoa, vendo-a em seu contexto sócio-econômico e cultural. No Programa de Saúde da Família espera-se que os profissionais de saúde solicitados possam utilizar seus conhecimentos, experiências, habilidades na assistência direta ao usuário, ultrapassando os limites de um papel muitas vezes burocrático dentro da equipe, para uma relação mais próxima com o usuário levando a um crescimento pessoal e profissional, que as trocas interdisciplinares e as trocas com o saber popular podem proporcionar. Nesse novo cenário não tem mais a demanda reprimida, pois todo o usuário que chegar em uma unidade de saúde da família será atendido, porém não necessariamente pelo médico. No entanto este deverá ser acionado, toda vez que a situação apresentada for de uma competência, que não se enquadra dentro das atribuições legais e éticas do profissional que estiver acolhendo o usuário. Compreendemos que se o trabalhador de saúde souber usar suas ferramentas/tecnologias no encontro com as necessidades de saúde do usuário, esse encontro resultará ou não em um produto de saúde de qualidade. É importante ressaltar que neste estudo sobre o acolhimentode focamos as tecnologias leves, porém existem outros fatores que influenciam a qualidade dos serviços como: infraestrutura da USF, vínculos trabalhistas e uma gestão comprometida com a qualidade do serviço prestada. 3 O MODELO TECNO-ASSISTENCIAL DE SAÚDE EM DEFESA DA VIDA: UM PRECURSOR DO ACOLHIMENTO Feita a contextualização da origem e concepção do Programa Saúde da Família, sentimos necessidade de entender como surgiu o conceito de acolhimento. Após revisão de literatura identificamos no modelo tecno-assistencial em defesa da vida, um precursor da proposta de acolhimento. Este modelo, cujos principais objetivos foram incorporados pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2004), foi descrito por Merhy (2002), que encontra fundamento do acolhimento na compreensão e manejo da micropolítica do processo de trabalho. O modelo tecno-assistencial de saúde em defesa da vida, desenvolvido em Campinas-SP, originou-se de um grupo de profissionais de saúde que fundou o Laboratório de Planejamento e Administração em Saúde - Lapa, nos finais dos anos 80. Os componentes desse grupo fizeram parte do Movimento Sanitário Nacional desde a criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde - CEBES em 1976, que foi criado dentro do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Na Universidade, viam eles um espaço para construção de um modelo de atenção à saúde que servisse de contraponto ao modelo hegemônico. O modelo em defesa da vida debruçou-se sobre questões críticas da saúde brasileira, tanto no terreno da saúde pública quanto privada, apontando para a fragilidade do modelo de atenção vigente e a decorrente insegurança dos cidadãos quando a ele recorrem para resolver seus problemas. Isso ocorre, segundo Merhy (1997), porque o modelo vigente está centrado no médico e no tratamento que, na maioria das vezes, se dá de uma maneira impessoal, objetivizante e descompromissada. O autor afirma ainda que: [...] seria necessário reconstruir a idéia de autonomia do trabalhador em saúde, para além do médico e procurando a configuração do trabalhador coletivo, e construir um processo que publicize os espaços institucionais com a presença do conjunto dos atores, realmente interessados na saúde, em particular os usuários (MERHY, 1997, p. 119). A proposta Lapa-Unicamp caminha nessa direção. Ela é centrada na preocupação da organização da produção de serviços e em projetos de construção de ações sociais cooperadas entre o sistema organizacional do serviço público e a sociedade. Assim, baseia-se nos princípios da gestão democrática, saúde como direito de cidadania e serviço público de saúde voltado para a defesa da vida individual e coletiva. Nessa forma de conceber saúde, o grupo Lapa-Unicamp trouxe contribuições fundamentais e inovadoras diante de outras praticadas no país no "fazer" qualidade em saúde. Outro ponto diz respeito aos usuários e à incorporação de novos sujeitos sociais na luta em defesa da vida. Refere-se ao trabalhador da saúde pública e ao contexto de sua insatisfação pela falta de reconhecimento profissional e, muitas vezes, pelas más condições de trabalho. [...] Este quadro tem estado presente cotidianamente na vida das instituições de saúde, no Brasil, e tem se expressado não só na total insegurança da clientela no tipo de atendimento do qual muitas vezes está sendo vítima, mas também na profunda crise de realização humana e profissional do conjunto dos trabalhadores do setor saúde [...] (MERHY, 1994, p. 123). Campos (1997) acrescenta ainda que é preciso ter consciência de que trabalhar dentro do campo da saúde implica na subjetividade que o caracteriza, existindo uma proximidade física e conseqüentemente a interferência sobre o corpo e a vida do outro. [...] Às vezes, até ouve-se o arfar, sente-se o suor, percebe-se o medo [...] o trabalho em saúde assenta-se sobre relações interpessoais todo o tempo (CAMPOS, 1997, p. 250). O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pela Lei Orgânica da Saúde n° 8080/90 entendendo saúde de forma mais ampla: A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso a bens de serviços essenciais (ANDRADE, 2001). O grupo Lapa-Unicamp referenda essas idéias e tenta, com sua proposta, tratar saúde não apenas como ausência de doença. Para os proponentes desse modelo tecno-assistencial, o cidadão é um sujeito social com direitos de acesso à saúde, lazer, trabalho, moradia entre outros, abrindo assim a possibilidade de alcançar qualidade de vida. É importante registrar que o grupo Lapa-Unicamp assessorou a implantação do modelo acolhimento em algumas cidades brasileiras, tais como: Campinas (SP), Ipatinga (MG), Caxias do Sul (RS), Betim (MG), Belo Horizonte (MG), Sobral (CE) e Chapecó (SC), contribuindo para a humanização na atenção à saúde. 3.1 A HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO À SAÚDE Segundo estudos de revisão sobre o conceito de humanização, realizados por Casate e Corrêa (2005, p. 187), existem diferenças significativas no enfoque da humanização presente na produção científica entre as décadas de 1950 a 1980 e os trabalhos da última década. No primeiro caso, segundo os autores, a humanização é entendida em uma "perspectiva caritativa". O paciente é mostrado como um ser frágil, vulnerável e dependente, que desperta a piedade dos profissionais de saúde. As características dos profissionais, como doçura, compaixão e espírito de caridade, são valorizadas, além do caráter divino de sua atuação. Na década de 70, surgiram discussões e lutas sobre os direitos dos pacientes. A primeira declaração de direitos dos pacientes a ser reconhecida pela literatura foi emitida pelo Hospital Mount Sinai, em Boston, nos Estados Unidos, em 1972. O conceito de humanização passou a ser entendido como um princípio vinculado ao paradigma dos direitos humanos, às idéias de dignidade e respeito à vida humana, enfatizando-se a dimensão ética entre pacientes e profissionais de saúde. De grande importância para fundamentação da humanização na saúde foi a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada pela Organização Mundial da Saúde e pelo UNICEF em Alma-Ata (Cazaquistão), em 1978. Nela foi declarado que saúde é um bem-estar completo, físico, mental e social, e não apenas ausência de doenças, devendo ser compreendida como um direito humano fundamental. Enfatizou-se que a obtenção do mais alto nível de saúde possível é o objetivo social mais importante a ser atingido pelos sistemas de saúde, e que as pessoas devem ter o direito e a obrigação de participar individual e coletivamente do planejamento e da implementação de seus cuidados com saúde. Nos anos 80, caminhou-se para a valorização dos sujeitos, das relações dialógicas e das trocas solidárias. A humanização veio a representar a possibilidade de uma nova ordem relacional. A prática médica havia se tornado impessoal, gerando a reivindicação de humanização do atendimento em saúde por parte dos movimentos sociais e associações de defesa de direitos de pacientes, sobretudo aquelas de certos grupos mais vulneráveis e/ou organizados, como pacientes idosos, portadores de HIV e de distúrbios mentais. O Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) foi criado em 1999, pela Secretaria da Assistência à Saúde do Ministério da Saúde, com os objetivos de: -- melhorar a qualidade e a eficácia da atenção dispensada aos usuários; recuperar a imagem dos hospitais junto à comunidade; -- capacitar os profissionais dos hospitais para um conceito de atenção à saúde baseado na valorização da vida humana e da cidadania; conceber e implantar novas iniciativas de humanização, beneficiando tanto os usuários como os profissionais de saúde; -- estimular a realização de parcerias e trocas de conhecimentos; desenvolver um conjunto de indicadores de resultados e sistemas de incentivo ao tratamento humanizado. O objetivo central era promover uma mudança na cultura do atendimento na área hospitalar (BRASIL, 2001). Em 2003, o Ministério da Saúde definiu como uma de suas prioridades a humanização do Sistema Único da Saúde. Nessa época o Programa de Humanização passou a ser subordinado à Secretaria Executiva do Ministério, sendo então denominada Política Nacional de Humanização (PNH), também chamada Humaniza-SUS. A proposta inicial foi ampliada e seu foco deixou de ser o sistema hospitalar, passando a ser todo o sistema de saúde. A PNH considera como fundamentais as mudanças nas profundas desigualdades socioeconômicas, nos problemas de acesso ao serviço de saúde, na desvalorização dos trabalhadores de saúde, na precarização das relações de trabalho, no baixo investimento na educação permanente dos trabalhadores de saúde, na pouca participação destes na gestão dos serviços e no frágil vínculo com os usuários (BRASIL, 2003). Podemos perceber que são valorizados os diferentes sujeitos no processo de produção da saúde: os usuários, os trabalhadores e os gestores. Em 2004, a PNH ampliou a proposta de humanização, como política transversal que atravessa as diferentes ações e instâncias gestoras do SUS, comprometendo-se em: -- Traduzir os princípios do SUS em modos de operar os diferentes equipamentos e sujeitos da rede de saúde; -- Construir trocas solidárias e comprometidas com a dupla tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos; -- Oferecer um eixo articulador das práticas de saúde, destacando o aspecto subjetivo nelas presente; -- Contagiar, por atitudes e ações humanizadoras, a rede do SUS, incluindo gestores, trabalhadores da saúde e usuários. A PNH em 2004 considera como parâmetros importantes para sua implementação na atenção básica: -- Organização do acolhimento de modo a promover a ampliação efetiva do acesso à atenção básica e aos demais níveis do sistema, eliminando as filas, organizando o atendimento com base em risco priorizados e buscando a adequação da capacidade resolutiva; -- Abordagem orientada por projetos terapêuticos de saúde, individuais e coletivos, para usuários de comunidade, contemplando ações de diferentes eixos, e levando em conta as necessidades/demandas de saúde. Avançar em perspectivas de: -- Exercício de uma clínica ampliada, capaz de aumentar a autonomia dos sujeitos, das famílias de da comunidade; -- Estabelecimento de rede de saúde e incluindo todos os fatores e equipamentos sociais de base territorial, firmando laços comunitários e reconstruindo políticas e intervenções intersetoriais; -- Organização do trabalho, com base nas equipes multiprofissionais e a atuação transdisciplinar, incorporando metodologias de planejamento e gestão participativa, colegiada, e avançando na gestão compartilhada dos cuidados/atenção; -- Implementação de sistema de escuta qualificada para usuários e trabalhadores, com garantia de análise e encaminhamento a partir dos problemas apresentados; -- Garantia de participação dos trabalhadores em atividades de educação permanente; -- Promoção de atividades de valorização e de cuidados aos trabalhadores da saúde, contemplando ações voltadas para a promoção da saúde e qualidade de vida no trabalho; -- Organização do trabalho com base em metas discutidas coletivamente e com a definição dos eixos avaliativos, avançando na implementação de contratos internos de gestão. Dessa forma constatamos que a PNH está em consenso com a proposta do acolhimento, quando estabelece a organização do trabalho com base em equipes multiprofissionais com atuação transdisciplinar, buscando a construção de trocas solidárias e comprometidas com a dupla tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos. 3.2 ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE Acolhimento, como parte do processo que pretende promover qualidade de vida através do sistema de saúde pública, representa a possibilidade de ampliação do acesso dos usuários a esses serviços. "Sua aplicação significa a retomada da reflexão da universalidade na assistência e da dimensão da governabilidade das equipes locais..." (MALTA, 2000). Dessa maneira, o acolhimento: [...] tornou possível, ainda, a reflexão sobre a humanização das relações em serviço e parte da lógica de poder contida nesse processo, contribuindo assim para uma mudança na concepção da saúde como direito. Ao permitir reflexões e criações coletivas envolvendo governo, trabalhadores e usuários, em um movimento de mudanças necessárias para traçar esse novo fazer em saúde, resgatou-se o espaço de trabalho como lugar de sujeitos (MALTA, 2000, p. 22). Assim, acolhimento faz parte das relações que implicam no acesso do usuário, na humanização dessas relações e na responsabilidade para com a vida das pessoas. Nesse processo é necessário envolver todos os trabalhadores da saúde. No Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa (FERREIRA, 1993), o termo acolhimento está relacionado ao: Ato ou efeito de acolher; recepção, atenção, consideração, refúgio, abrigo, agasalho. E acolher significa dar acolhida ou agasalho a; hospedar; receber: atender; dar crédito a; dar ouvidos a; admitir, aceitar; tomar em consideração; atender a. Em 2004, a PNH passou a compreender o acolhimento relacionado principalmente à problemática da recepção, da demanda espontânea - buscando atender a todos com uma escuta qualificada, pactuando respostas - e também ao reconhecimento do usuário como participante ativo no processo de produção da saúde. Acolhimento é uma ação tecno-assistencial que pressupõe a mudança da relação profissional/usuário e sua rede social através de parâmetros técnicos, éticos, humanitários e de solidariedade, reconhecendo o usuário como sujeito e participante ativo no processo de produção da saúde. O acolhimento é um modo de operar os processos de trabalho em saúde, de forma a atender a todos que procuram os serviços de saúde, ouvindo seus pedidos e assumindo no serviço uma postura capaz de acolher, escutar e pactuar respostas mais adequadas aos usuários. Implica prestar um atendimento com resolutividade e responsabilização, orientando, quando for o caso, o paciente e a família em relação a outros serviços de saúde para a continuidade da assistência e estabelecendo articulações com esses serviços para garantir a eficácia desses encaminhamentos (BRASIL, 2004). Pelo documento técnico do Ministério da Saúde de Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005, p. 29): O acolhimento relaciona-se diretamente com a comodidade e o trato humanizado que o serviço oferece ao usuário, além da dimensão operacional de escuta das queixas e necessidades de saúde, buscando uma atenção resolutiva por meio da articulação dos serviços da rede. Este aspecto é fundamental na medida em que influi no nível de confiança entre o provedor e o usuário, aderência às indicações de continuidade no atendimento, respeito individual e satisfação dos usuários. Em 2006, a idéia de acolhimento nos serviços de saúde já reunia uma grande experiência em diversos serviços de saúde do SUS e a própria PNH pode se autoavaliar, ampliando o conceito de acolhimento e preocupando-se em esclarecer um novo conceito. Segundo a PNH em 2006, tradicionalmente, a noção de acolhimento no campo da saúde tem sido identificada: -- Ora como uma dimensão espacial, que se traduz em recepção administrativa e ambiente confortável; -- Ora como uma ação de triagem e repasse para serviços especializados. As duas têm sua importância, porém quando tomadas isoladamente dos processos do trabalho em saúde se restringem a uma ação pontual, isolada e descomprometida com os processos de responsabilização e construção do vínculo. Nessa definição restrita de acolhimento muitos serviços de saúde convivem com filas madrugadoras na porta de entrada da UBS, reproduzindo uma forma de trabalho que privilegia a produção de procedimentos em detrimento aos sujeitos que estão sob sua responsabilidade. Muitas vezes oferecem serviços totalmente contraditórios à demanda. Por meio das práticas dos serviços de saúde que implantaram o acolhimento, a PNH (2006) refletiu e assim o redefiniu: [...] É preciso não restringir o conceito de acolhimento ao problema da recepção da demanda espontânea, tratando-o como próprio a um regime de afetabilidade [...] o acolhimento só ganha sentido se o entendemos como uma passagem para o acolhimento nos processos de produção de saúde. [...] o acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética: não pressupõe hora ou profissional específico para fazê-lo, implica compartilhamento de saberes, angústias e invenções tomando para si a responsabilidade de "abrigar e agasalhar" outrem em suas demandas, com responsabilidade e resolutividade [...] constitui como ação que deve ocorrer em todos os locais e momentos do serviço de saúde [...] (BRASIL, 2006). Neste estudo trabalharemos com o conceito de acolhimento formulado pelo documento técnico do Ministério da Saúde de Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005, p. 29) e pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006), que estão em concordância com os autores nos quais nos baseamos para o desenvolvimento desta pesquisa. 4 AS CARACTERÍSTICAS DO SUS NO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ 4.1 CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ: ASPECTOS SÓCIODEMOGRÁFICOS O município de ltaboraí divide-se em oito distritos, com uma extensão territorial de 429,03 km2. Devido à transição das suas características econômicas, de agrícola e industrial para urbana, de periferia de grande centro, com intensa migração na década de 70, sem investimentos em infra-estrutura básica, saneamento e em oferta de emprego para a população, tem hoje perfil socioeconômico e sanitário que compromete a qualidade de vida de seus habitantes. Apresenta população de 205.857 habitantes, segundo estimativa IBGE (2005). Apresenta grande aglomerado urbano empobrecido, encontra-se na região metropolitana do Rio de Janeiro e para fins de planejamento em saúde é localizado na região metropolitana II, da qual também fazem parte os municípios de Niterói, São Gonçalo, Maricá, Rio Bonito, Tanguá e Silva Jardim. FIGURA 1: REGIÃO METROPOLITANA II I T A B O R A Í - RJ Região Metropolitana II Fonte: Página na internet da Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. 4.2 ESTRUTURA DA REDE MUNICIPAL DE SAÚDE Segundo o Plano Municipal da Secretaria Municipal de Saúde 2005/2009, o sistema de saúde de Itaboraí está voltado para a construção de uma rede pública de assistência que responda, principalmente, pelas ações de atenção básica, com referência integrada e fluxos estabelecidos para o segundo e terceiro nível. Nesta lógica de organização dos serviços, o Programa Saúde da Família e o Programa de Agentes comunitários de Saúde são responsáveis pela formatação do modelo assistencial, a partir da atenção básica. As equipes do PSF estão distribuídas em 44 unidades de saúde. A cobertura das áreas não adscritas ao PSF e PACS é realizada por quatro Unidades Básicas de Saúde e pela Policlínica de Especialidades. O Hospital Municipal Desembargador Leal Júnior (HMDLJ), além de implantar e implementar a Policlínica de Especialidades Prefeito Francisco Nunes da Silva respondem as demandas originadas do primeiro nível de atenção da rede municipal da saúde. TABELA 1: REDE DE UNIDADES DE SAÚDE CNES 2269112 2693887 3030547 3373614 2268922 3447952 2268973 2290308 2294141 2268981 3028828 2294176 2269147 2269198 2269015 2269244 Unidade de Saúde Ambulatório Central Centro de Atenção Psicossocial Pedra Bonita Divisão de Vigilância Sanitária e Ambiental Farmácia Básica Hospital Municipal Desembargador Leal Júnior Policlínica de Especialidades Pref. Francisco Nunes da Silva Posto de Saúde Apoio II Posto de Saúde Engenho Velho Posto de Saúde Vila Rica Posto Milton Rodrigues Rocha Unidade Básica de Saúde Chácara de Sambaetiba Unidade de Saúde da Família Apoio III Unidade de Saúde da Família da Reta Velha Unidade de Saúde da Família de Cabucu Unidade de Saúde da Família de Itambi Unidade de Saúde da Família de Jardim Idália 8007454 Unidade de Saúde da Família de Mangueira 2290324 Unidade de Saúde da Família de Reta Nova 2294184 Unidade de Saúde da Família de São José 2269139 Unidade de Saúde da Família do Sapê 2269228 Unidade de Saúde da Família Gebara 3378780 Unidade de Saúde da Família Grande Rio 8013446 Unidade de Saúde da Família Grania Cabucu 8007446 Unidade de Saúde da Família Joaquim Oliveira 3337111 Unidade de Saúde da Família Monte Verde 2693895 Unidade de Saúde da Família Santo Antônio 8007438 Unidade de Saúde da Família Santo Expedito 8007462 Unidade de Saúde da Família São Joaquim 3337138 Unidade de Saúde da Família Vila Nascimento 2294168 Unidade de Saúde de Família de Agro Brasil 2269201 Unidade de Saúde de Família de Aldeia da Prata 2269236 Unidade de Saúde de Família de Ampliacao 2269104 Unidade de Saúde de Família de Marambaia 2269023 Unidade de Saúde de Família de Nova Cidade 2269031 Unidade de Saúde de Família de Pachecos 2269090 Unidade de Saúde de Família de Porto das Caixas 2290316 Unidade de Saúde de Família de Quissama 2269082 Unidade de Saúde de Família de Visconde de Itaborai 2294133 Unidade de Saúde de Família do Areal 2269120 Unidade de Saúde de Família do Bairro Amaral 2269155 Unidade de Saúde de Família Jardim Planalto 3313395 Unidade de Saúde de Família Planalto de Marambaia 2294125 Unidade de Saúde de Família Vila Brasil 2269163 Unidade Movel Odontolooica I 8013411 Unidade Movel Odontologica II Fonte: CNES/SMS de Itaboraí. 4.2.1 Dados Populacionais FIGURA 2: POPULAÇÃO SEGUNDO MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA II Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Municípios da Região Metropolitana II População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.758.768 Itaboraí 197.017 Maricá 83.088 Niterói 464.354 Rio Bonito São Gonçalo 50.645 914.536 Silva Jardim 21.920 Tanguá 27.208 Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2006 Município População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.876.788 330190 Itaboraí 220.982 330270 Maricá 99.053 330330 Niterói 476.671 330430 Rio Bonito 53.036 330490 São Gonçalo 973.372 330560 Silva Jardim 23.576 330575 Tanguá 30.098 Fonte: Pacto de Atenção Básica - DATASUS, 2006. A população de Itaboraí era de 197.017 habitantes em 2002 passando a 220.982 habitantes em 2006 (dados estimados), representando um crescimento populacional de 10% em 4 anos. Esta taxa de crescimento populacional de 2,5% ao ano encontra-se elevada em relação à média nacional de 1,37% ao ano. 4.2.2 Dados de Cadastramento Familiar pelo PSF ano 2002 FIGURA 3: PACTO DE ATENÇÃO BÁSICA - 2006 - RIO DE JANEIRO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro % pop cober PSF segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Município % pop cober PSF Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 27,15 Itaboraí 50,87 em 2002 69,5 em 2006 Maricá 14,66 Rio Bonito 25,57 São Gonçalo 36,26 Silva Jardim 70,05 Tanguá ITABORAÍ: REDE HOSPITALAR : 05 Fonte: DATASUS, 2006. 19,10 REDE AMBULATORIAL : 54 Houve um significativo aumento de cobertura populacional pelo PSF desde a sua implantação em 2002, quando 50,87% de sua população foi cadastrada. Em 2006, 69,5% da população estava cadastrada pelas equipes do PSF. Dados de 2007 apontam uma cobertura de 71,6% da população residente (Itaboraí, 2007). 5 OBJETIVOS DO ESTUDO 5.1 GERAL Compreender as percepções dos profissionais de saúde do PSF do município de Itaboraí sobre o acolhimento. 5.2 ESPECÍFICOS Descrever como os profissionais de saúde percebem seu processo de trabalho no âmbito do acolhimento. Identificar condições favoráveis e desfavoráveis à implantação do acolhimento. 6 METODOLOGIA 6.1 TIPO DE ESTUDO O presente estudo pretende compreender, do ponto de vista dos profissionais de saúde da equipe do PSF de Itaboraí, quais os fatores que facilitam e dificultam a implantação do acolhimento no processo de trabalho, além de descrever a percepção que possuem sobre seu processo de trabalho no âmbito do acolhimento. Visando a alcançar o discurso dos profissionais de saúde do PSF sobre a percepção de acolhimento a pesquisa qualitativa nos pareceu mais adequada, porque entendemos que nosso interesse seja: Pelo cotidiano, e não tanto por fatos extraordinários, em um espaço e um tempo concretos, por aplicar procedimentos mais indutivos do que dedutivos e ainda considerar os fenômenos sociais mais como particulares e ambíguos, do que como repetíveis e claramente definidos (TOBAR, 2004, p. 93). A pesquisa qualitativa não se baseia no tamanho da amostra e sim na abrangência do problema investigado em suas múltiplas dimensões (MINAYO, 1994). A pesquisa qualitativa responde: As questões muito particulares, ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, motivos aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um nível mais profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalizações de variáveis (MINAYO, 1994, p. 21). 6.2 CENÁRIO E POPULAÇÃO DA PESQUISA O cenário utilizado foi o Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí (PSF-Itaboraí), implantado em 2002 promovendo atenção à saúde nas 46.959 famílias cadastradas, totalizando 161.933 pessoas. A cobertura populacional do PSF-Itaboraí é de 71,6% da população residente no município (AGÊNCIA BRASIL, 2006). Atualmente o PSF de Itaboraí possui 44 equipes formadas por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde. O critério de escolha do PSF-Itaboraí para o desenvolvimento deste estudo teve como base o fato de que, em 2006, o Ministério da Saúde ofertou um prêmio pelo excelente desempenho deste na primeira fase do Projeto de Expansão e Consolidação do Programa Saúde da Família (PROESF). Além do município de Itaboraí, o Ministério da Saúde premiou 11 municípios. São eles: Aracaju (SE), Belo Horizonte (MG), Caucaia (CE), Caxias (MA), Itabira (MG), João Pessoa (PB), Juazeiro (BA), Londrina (PR), Maracanaú (CE), Mossoró (RN) e Parnamirim (RN). Os municípios receberam uma verba de R$ 6 milhões (AGÊNCIA BRASIL, 2006). E também o critério de escolha foi motivado pelo fato do mesmo ter sido um dos pioneiros na implantação do acolhimento, enquanto política de trabalho, nas Unidades de Saúde da Família locais. Em maio de 2007 foi realizada a I Oficina de Humanização na Atenção Básica: HumanizaSUSItaboraí (ANEXO 1). O campo de estudo escolhido foi a Unidade de Saúde da Família - Santa Rosa situada em uma área rural. O nome dado a esta Unidade de Saúde da família é fictício dando importância à norma de anonimato da equipe. Respeitando-se o critério de inclusão por ter sido uma USF implantada há mais tempo (seis anos) e de maior permanência dos profissionais da equipe (trabalhando juntos há mais de quatro anos). Partiu-se do pressuposto que uma equipe implantada há mais tempo estaria mais estruturada no seu processo de trabalho. A equipe da USF é constituída por uma médica, um enfermeiro, uma auxiliar de enfermagem, uma recepcionista, oito agentes comunitários de saúde. A população adscrita está em torno de oito mil pessoas segundo relato dos entrevistados. A renda familiar média é de aproximadamente um salário mínimo. O padrão de construção das casas é muito precário. Não há saneamento básico, água encanada e as ruas são bastante esburacadas e sem qualquer pavimentação. As microáreas apresentam características diversificadas. Existem microáreas que são formadas somente por sítios e fazendas, cujos proprietários, geralmente aposentados, residem em Niterói, cidade próxima, ou seja, diversas moradias permanecem a maior parte do tempo fechadas. Esses sítios e fazendas mantém uma distância significativa entre si, o que dificulta a realização da visita domiciliar, sem um transporte adequado. Nesta situação as pessoas cadastradas e freqüentadoras são os caseiros e alguns (poucos) proprietários que se interessaram. Observamos também que em outras microáreas, entretanto, concentram-se numa mesma rua casas bem pobres, situadas lado a lado. Foi comum encontrar 30 ou mais casas nessa situação. Isso evidencia a heterogeneidade das microáreas, diferenciando o trabalho entre os diversos agentes comunitários de saúde, particularizando discussões locais a partir desta diversidade. Cabe lembrar que nas áreas rurais a concentração populacional é muito menor do que nas áreas urbanas. Uma das extremidades da área adscrita da equipe de saúde estudada fica na fronteira entre os municípios de Itaboraí e Cachoeiras de Macacu, a uma distância aproximadamente de três quilômetros da unidade. E a outra divisa da área até mais ou menos dez quilômetros da unidade. Só para ilustrar, imaginemos a área adscrita como se fosse um retângulo com um comprimento de seis quilômetros e largura de três quilômetros, o que totaliza 18 km². Os profissionais de saúde que participaram do estudo constituíram-se de: um médico, um biólogo (padrinho da USF), um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem, um agente administrativo e cinco agentes comunitários de saúde. Todos eles atuam na Unidade de Saúde da Família Santa Rosa. No PSF do município de Itaboraí cada USF possui um padrinho que fica responsável em fazer o elo entre a coordenação do PSF e a equipe da USF. Desse total de dez profissionais, quatro sujeitos são do sexo masculino e seis do sexo feminino, enquadraram-se na faixa etária entre 40 e 55 anos e quatro deles entre 20 e 35 anos. O nível de escolaridade desses profissionais apresentou as seguintes características: GRAU DE ESCOLARIDADE Ensino médio incompleto Ensino médio completo Terceiro grau completo QUANTIDADE 2 5 3 Em relação ao tempo de serviço na unidade de saúde da família, a amostra dividiu-se em: TEMPO DE SERVIÇO Menos de um ano De 1 a 2 anos De 3 a 4 anos De 5 a 6 anos QUANTIDADE 1 1 2 6 6.3 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS A coleta de dados foi feita através de entrevistas individuais semi-estruturadas com os 10 profissionais de saúde da equipe da USF-SANTA ROSA, além da realização de observação participante. A entrevista semi-estruturada é baseada no uso de um guia de entrevistas, que consta de uma lista de perguntas ou temas que necessitam ser abordados durante as mesmas; o informante aborda livremente a pergunta ou tema proposto (MINAYO, 2004). As entrevistas seguiram um roteiro de perguntas, apresentado no apêndice a este projeto, e foram realizadas com os sujeitos do estudo, após agendamento prévio com os mesmos, de acordo com suas disponibilidades de horário. Foram feitas perguntas pertinentes ao tema acolhimento com o objetivo de refletir sobre qual é o entendimento dos profissionais de saúde da USF sobre o acolhimento além de identificar condições favoráveis e desfavoráveis sobre a prática do mesmo. No roteiro da entrevista, houve uma pergunta direta sobre o que eles entendiam sobre o conceito de acolhimento e no restante do roteiro foram abordados temas indiretos a exemplo do processo de trabalho, visitas domiciliares, práticas educativas, reuniões de equipe, etc. As entrevistas foram gravadas em meio magnético (fitas K-7), tendo sido posteriormente transcritas, totalizando 600 minutos de gravação. Os profissionais de saúde entrevistados assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (ver apêndice). O número de entrevistas não foi previamente estipulado, pois, concordando com Minayo (1994, p. 102): Numa busca qualitativa, preocupamo-nos menos com a generalização e mais com o aprofundamento e abrangência da compreensão seja de um grupo social, de uma organização, de uma instituição, de uma política ou de uma representação. O número das entrevistas foi delimitado em função do atendimento dos objetivos traçados no início do estudo, tendo sido realizadas até o alcance de um ponto de saturação das respostas aos questionamentos. Ainda segundo Minayo (1994, p. 43): A pesquisa qualitativa não se baseia no critério numérico para garantir sua representatividade [...]. A amostragem boa é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões. A observação participante foi realizada durante dois meses (100h) na unidade onde atuam os profissionais de saúde entrevistados, em dias previamente agendados com os próprios profissionais de saúde. Os cenários de observação foram na USF e extra-muros nas visitas domiciares com agentes comunitários de saúde. Na USF observei a sala de espera, a recepção, a consulta médica, a consulta de enfermagem, os procedimentos realizados pela auxiliar de enfermagem e a reunião de equipe. O principal objetivo da observação é gerar conhecimento sobre o comportamento humano. Na nossa pesquisa cujo objeto de estudo foi compreender as percepções dos profissionais sobre o acolhimento, a observação foi fundamental para fazer a diferença entre um discurso verbal de uma escuta qualificada de acolhimento e um comportamento distanciado e indiferente ao sofrimento do usuário. A importância dessa técnica reside no fato de podermos captar uma variedade de situações ou de fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas (MINAYO, 1994, p. 61), tendo sido registrado em um diário de campo, a fim de facilitar o processo de análise. Para Minayo (1994, p. 63), o diário de campo é: Um instrumento ao qual recorremos em qualquer momento da rotina do trabalho que estamos realizando [...]. Sobre ele o pesquisador se debruça, no intuito de construir detalhes que no seu somatório vai congregar os diferentes momentos da pesquisa [...]. Quanto mais rico for em anotações esse diário, maior será o auxílio que oferecerá à descrição e à análise do objeto em estudo. A coleta de dados foi realizada nos meses de julho a agosto de 2008 após aprovação do projeto pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá. Os dados foram coletados mediantes assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (APÊNDICE), contemplado pela Resolução número 196/96, do Conselho Nacional de Saúde - CNS (Diretrizes e normas reguladoras de pesquisas envolvendo seres humanos), preservando o anonimato dos participantes (BRASIL, 2006c). 6.4 TÉCNICA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO Utilizamos a análise de conteúdo a partir da vertente temática (BARDIN, 1997) para discutirmos os achados do estudo. Os temas oriundos das entrevistas realizadas foram desdobrados em núcleos ou unidades de sentido e apresentados através de categorias. Pode-se definir a análise de conteúdo como um conjunto de instrumentos metodológicos que se presta ao estudo das comunicações e que, partindo da escolha e definição de determinados indicadores, permite a inferência de variáveis. São essas variáveis que auxiliam na compreensão e interpretação das condições que permitiram construir uma comunicação ou suas conseqüências. Ou, como define Bardin (1997, p. 42): Designa-se sob o termo análise de conteúdo um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. Ou seja, mais importante que a descrição dos textos em si, são as inferências que podem ser construídas a partir do tratamento dado a eles. Assim: A intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou eventualmente de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não) (BARDIN, 1997, p. 38). O que se pretende quando da realização da análise de conteúdo é poder inferir as condições de produção ou certas variáveis de um tipo de comunicação tomado por objeto de análise. Bardin (1997, p. 39) define inferência como "uma operação lógica pela qual se admite uma proposição em virtude de sua ligação com outras proposições já aceitas como verdadeiras". É a partir das variáveis inferidas que se dá o trabalho de interpretação, atividade que dá conclusão ao trabalho de análise de conteúdo e constitui seu objetivo final. E para que tal inferência seja possível, recorre-se a indicadores. Estes são escolhidos e definidos pelo analista, de acordo com os objetivos da análise. Assim, na análise de conteúdo há uma fase inicial de descrição do texto a ser analisado, uma última fase, que é a interpretação - isto é, a significação dada a essa descrição - e uma fase intermediária a essas duas, que é a inferência. É esta inferência que vai permitir a passagem de uma fase à outra. Ou seja, dado um significante, chegamos ao significado, através do trabalho de inferência que serve de ponte entre os dois. Ainda segundo Bardin (1997), análise de conteúdo pode ser organizada em três pólos cronológicos ou etapas. A primeira etapa, denominada pré-análise, é uma fase de organização que tem como objetivo operacionalizar e sistematizar as idéias iniciais. Bardin considera esta fase como período de instituições. A pré-análise possui três objetivos: (1) a escolha dos documentos a serem analisados; (2) a formulação de hipóteses e objetivos; e (3) a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final. As atividades empreendidas nesta fase são abertas e não-estruturadas, havendo uma inter-relação entre elas. Após a escolha do material, o passo seguinte é a realização de uma leitura flutuante, quando surgem impressões e orientações para a análise. Este é um trabalho preparatório da análise, onde se escolhem os índices que serão organizados sistematicamente em indicadores. Após a pré-análise, parte-se para a segunda etapa, a exploração do material, quando se administram sistematicamente as orientações e decisões tomadas na préanálise. Nesta fase é feito um recorte do material a ser analisado, através de uma grelha de categorias, definidas na pré-análise, que são projetadas sobre os conteúdos. Por fim, a terceira etapa compreende o tratamento dos resultados obtidos e o trabalho de inferência e interpretação. Assim, ao fim da análise, obtém-se a elaboração de um elo entre os dados do texto e a teoria prévia do analista. No nosso estudo resolvemos, antes do trabalho de campo, elaborar as categorias a serem investigadas, que nos ajudaram na análise do conteúdo. 6.4.1 Categorias O conceito de acolhimento formulado no documento técnico do Ministério da Saúde sobre Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005) e na Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006) foi utilizado como referência teórica para avaliar a percepção dos profissionais. A palavra categoria, em geral, refere-se a um conceito que abrange elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre em si. As categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Esse tipo de procedimento pode ser utilizado em qualquer tipo de análise qualitativa. As categorias podem ser estabelecidas antes do trabalho de campo, na fase exploratória da pesquisa, ou a partir da coleta de dados. As categorias podem ser divididas em subcategorias ou variáveis. Segundo Minayo (1994, p. 70), o pesquisador deveria, antes do trabalho de campo, definir as categorias a serem investigadas. Após a coleta de dados, ele também deveria formulá-las, visando à classificação dos dados encontrados em seu trabalho de campo, para em seguida comparar as categorias gerais estabelecidas antes com as específicas, formuladas após o trabalho de campo. Para alcançar os objetivos estipulados por este estudo, a categoria foi assim classificada: QUADRO 1: CATEGORIA E SUBCATEGORIAS PRELIMINARES. ADAPTADO DO INSTRUMENTO TÉCNICO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE (BRASIL, 2005) E DO TEXTO BÁSICO DE SAÚDE SOBRE ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE (BRASIL, 2006) Categoria Subcategorias/variáveis 1.1 - visita domiciliar 1.2 - diagnóstico de saúde 1.3 - monitoramento referências 01 acolhimento 1.4 - informações do serviço 1.5 - critérios de triagem demanda 1.6 - espaço do acolhimento 1.7 - monitoramento tempo espera serviço Fonte: Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família. Documento técnico, (BRASIL, Ministério Saúde, 2005) e texto básico de saúde sobre acolhimento nas práticas de produção de saúde (BRASIL/HumanizaSUS, 2006). A categoria escolhida foi o conceito de acolhimento, subdividido em 7 subcategorias. A primeira subcategoria refere-se à percepção do profissional de saúde quanto à importância da visita domiciliar no entendimento do processo saúde-doença, da dinâmica familiar, da construção de vínculos e do atendimento clínico domiciliar. A segunda subcategoria refere-se a avaliar se a equipe de saúde da família realiza diagnóstico de saúde da população, identificando os problemas mais freqüentes. A terceira subcategoria refere-se ao nível de responsabilidade que a equipe de saúde da família estabelece com as famílias, ao identificar se registra e monitora as referências para outros níveis de atenção. A quarta subcategoria procura aferir se a equipe está sensibilizada e fornece informações sobre o serviço de forma clara e acessível (comunicação verbal e visual). A quinta subcategoria, critérios de triagem da demanda, procura abordar se existem critérios orientadores diferenciando situações de atendimento imediato daqueles programados. A sexta subcategoria, denominada espaço do acolhimento, refere-se ao acolhimento dos usuários, no sentido da escuta da demanda realizada em um espaço apropriado, por profissional da equipe. Na verdade mais importante que o espaço é a atuação, a disponibilidade de escuta em qualquer lugar: na recepção, consulta individual, práticas educativas, visitas domiciliares e visita hospitalar. A sétima subcategoria, monitoramento do tempo de espera do serviço, verifica se a equipe estuda o fluxo de solicitações (demanda), monitorando o tempo médio decorrido entre o momento de solicitação pelo usuário (agendamento) e o real atendimento no serviço, ou seja, da consulta. Estas subcategorias ajudaram na elaboração do roteiro de perguntas da entrevista (APÊNDICE). Houve uma pré-análise dos dados orientados pelos pressupostos e objetivos do estudo, com leitura flutuante e exaustiva das entrevistas. Ainda nesta fase trabalhou-se com as entrevistas, buscando uma forma de proceder aos recortes, à categorização e à codificação na medida em que se apresentava a recorrência dos dados. Durante a leitura flutuante exaustiva das entrevistas identificamos 9 temas apresentados na seção de resultados. Cada um dos temas foi analisado isoladamente, comparando dados da literatura oficial sobre o conceito de acolhimento e falas das entrevistas. Todos esses 9 temas estão ligados para compreendermos o conceito de acolhimento na sua totalidade. 7 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Apresentação dos nove temas que surgiram após análise das entrevistas: 1) Tempo de trabalho no USF - Santa Rosa: a maior parte dos entrevistados trabalha há mais de seis anos na mesma USF. 2) Todos entrevistados conhecem as principais necessidades de saúde da comunidade, que são: baixa renda familiar, falta de saneamento básico, baixa escolaridade e desemprego. 3) Em maio de 2007 todos os integrantes dessa USF fizeram a 1ª Oficina de Humanização para as Unidades de Saúde da Família do município de Itaboraí ministrado pelo núcleo da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (ANEXO). 4) Todos entrevistados quando perguntados diretamente o que entendem sobre conceito de acolhimento, responderam com palavras "chavões" que mais adiante explanarei melhor. Porém quando perguntados como é feita a marcação de consultas na unidade, responderam sobre o acolhimento como se fosse uma triagem, um pronto atendimento feito pela médica antes das consultas marcadas dos grupos prioritários como: hipertensos, diabéticos, gestantes, crianças e preventivos. 5) A importância da reunião de equipe aparece em todas as falas. 6) Grande dificuldade de formar grupos, refere-se a que a população está "adormecida". 7) A grande motivação de ser agente comunitária é ter um trabalho perto de casa e poder ajudar as pessoas. 8) O termo triagem é utilizado como sinônimo de acolhimento pela equipe 9) A sobrecarga da "triagem" pela médica levando ao seu adoecimento. Nas entrevistas todos associam o adoecimento da médica ao tipo de acolhimento que a unidade fazia, já que os usuários só querem saber do "doutor", o enfermeiro fica em segundo plano. Os temas obtidos na análise das entrevistas foram agrupados em três categorias: 1) entendimento do conceito de acolhimento pelos profissionais de saúde; 2) fatores que facilitam a implantação do acolhimento; 3) fatores que dificultam a implantação do acolhimento no processo de trabalho. As entrevistas foram identificadas pela sigla ENT e numeradas de um a dez. 7.1 O ENTENDIMENTO DO CONCEITO DE ACOLHIMENTO PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UNIDADE DE SAÚDE SANTA ROSA O universo dos dez entrevistados apresenta diferentes formas de resposta e chegamos a conclusão que muitos dos sujeitos identificaram o significado de acolhimento como sendo a maneira de ter o primeiro contato com o usuário ao chegar na unidade de saúde da família (USF) e não deixá-lo sair da unidade sem uma resposta. A idéia de acolhimento pesquisada parece estar ainda em construção, apesar de os membros da equipe da USF - Santa Rosa terem participado, três meses antes do início deste estudo, de uma capacitação sobre Acolhimento, promovida pela Secretaria Municipal de Saúde (ver relatório da oficina em anexo). Vejamos os relatos abaixo: "O acolhimento é assim, é a gente não deixar nenhum usuário sair sem ouvir uma resposta [...]: "Oh, volta amanhã que hoje não tem como a médica te atender", ou enfermeiro, se for o caso de ser o enfermeiro. [...] O enfermeiro não tem como te atender, você volta amanhã ou à tarde. O acolhimento é a pessoa não sair sem uma resposta" (ENT 8). "[...] é você filtrar as necessidades, você ouvir, saber ouvir e você poder avaliar e filtrar as necessidades dos usuários. Se são imediatas ou se podem esperar um pouquinho, mais alguns minutinhos ou mais algum dia ou alguns dias. Para poder você ser mais humano naquele atendimento" (ENT 1). "O acolhimento eu acho que é o primeiro atendimento que a gente dá à pessoa quando chega na Unidade de Saúde da Família (USF). Aquela informação que aflige a pessoa" (ENT 3). Nesses três relatos percebemos uma percepção de acolhimento compatível ao entendimento tradicional do conceito de acolhimento, como uma triagem da demanda espontânea que chega na USF sem marcação prévia de consulta. Neste estudo, consideramos o acolhimento como uma mudança no processo de trabalho em saúde que busca a intervenção de toda a equipe multiprofissional, que se encarrega da escuta e da resolução do problema do usuário (MALTA, 2000, p. 24). Inferimos que os profissionais de saúde entendem acolhimento apenas como uma ação individual e pontual realizada pelo profissional na entrada da USF que geralmente é feito por uma auxiliar de enfermagem, um agente comunitário de saúde ou uma recepcionista. Durante os dois meses de observação, percebemos que os usuários chegavam na USF perguntando se a Drª A poderia atender e o profissional de saúde respondia apenas que a agenda estava lotada sem, muitas vezes, procurar saber o motivo da solicitação de atendimento médico, demonstrando, assim, uma dicotomia entre o discurso e a ação. Outras percepções foram mencionadas durante as entrevistas que indicaram uma identificação com as noções presentes na Política Nacional de Humanização. "Acolher para mim é muito parecido com abraçar, dar um abraço [...] é o profissional de saúde que investe em atenção básica, tem o perfil de acolher e não apenas de tratar e cuidar" (ENT 6). "É saber ouvir a pessoa, ouvir a necessidade e ajudar no que for possível" (ENT 5). "Muitas vezes a pessoa está desesperada com um problema e só de conversar com a gente durante meia hora, durante uma visita domiciliar já vai se acalmando e não precisa ir na USF procurar atendimento médico" (ENT 4). Nesses relatos percebemos que a percepção de acolhimento não está restrita ao problema da demanda espontânea, mas envolve a interação com o usuário no sentido de uma escuta qualificada em busca de resolver a sua necessidade de saúde baseada no conceito ampliado de saúde. Entretanto na maioria dos relatos, percebemos que os entrevistados, apesar de serem profissionais de saúde sensibilizados com o sofrimento do usuário, esforçando-se para lhe oferecer uma escuta qualificada, identificam o acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado realizado pelo médico, com conseqüente aumento de trabalho para o mesmo. "O acolhimento a Drª A fazia antes de tirar licença por motivo de doença. O acolhimento que a Drª fazia era assim: ela pedia para as pessoas chegarem antes da 7 horas, os casos que não podiam esperar pelo agendamento normal da consulta. Quando ela chega ela dá as senhas, os números para as pessoas que estavam esperando para ser atendido no acolhimento por ela. Se quando ela chegar tiverem 20, 30 pessoas ela se compromete a atender. Depois que ela já estiver atendendo as pessoas do acolhimento e chegar mais usuário quem atenderá será o enfermeiro B. Ela faz o acolhimento até 9:30. Depois ela atende os usuários marcados até às 11:30h. Os usuários que sobraram para o atendimento ela pede para voltar a tarde [...]. Os dias de acolhimento são terça e quarta de manhã. Os outros dias para hipertensos, diabéticos, gestantes, crianças e casos especiais" (ENT 10). É importante que o acolhimento não fique restrito ao problema da recepção da demanda espontânea, ao contrário, espera-se que seja entendido como próprio a um regime de afetabilidade (aberto a alterações), algo que qualifica uma relação e é, portanto, passível de ser apreendido e trabalhado em todo e qualquer encontro e não apenas numa condição particular de encontro, que é aquele que se dá na recepção. O acolhimento na porta de entrada só ganha sentindo se o entendermos como uma passagem para o acolhimento nos processos de saúde, de produção de saúde. O acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética: não pressupõe hora ou profissional especifico para fazê-lo, implica compartilhamento de saberes, angústias e invenções, tomando para si a responsabilidade de "abrigar e agasalhar" outrem em suas demandas, com "responsabilidade e resolutividade" (BRASIL, 2006). 7.2 FATORES QUE INFLUENCIAM A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NA USF As entrevistas abordaram fatores facilitadores e dificultadores para o exercício da prática no cotidiano do acolhimento. Alguns fatores elegemos como os mais facilitadores para a construção da implantação do acolhimento, porque foram os mais citados nas falas dos profissionais: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados nas falas dos entrevistados foram: modelo de saúde ainda médico-centrado, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, falta de intersetorialidade e demanda populacional muito grande para a equipe. Organizamos os principais fatores relatados pelos entrevistados no quadro a seguir: QUADRO 1: FATORES FACILITADORES E DIFICULTADORES DA IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NO PSF - SANTA ROSA Fatores Facilitadores Fatores Dificultadores 1) Vínculo com a comunidade 1) Modelo saúde médico-centrado 2) Conhecimento das necessidades de saúde da 2) Comunidade resistente às práticas educativas comunidade 3) Motivação profissional em atuar no PSF 3) Grande demanda de atendimento 4) Reunião de equipe semanalmente 4)Insuficiência de rede de referência para consulta com especialistas 5) Treinamento 5) Falta de apoio dos supervisores 6) Permanência dos profissionais 6) Falta de transporte para realizar visita domiciliar 7) Gestão comprometida com o PSF 7) Ausência de intersetorialidade 7.3 FATORES FACILITADORES O vínculo com a comunidade construído pela equipe, principalmente médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e alguns agentes comunitários de saúde, pelo fato de trabalharem juntos há mais de quatro anos foi um ponto importante para facilitar a implantação do acolhimento na equipe estudada. Segundo Merhy (1994, p. 138): Criar vínculos implica em ter relações tão próximas e tão claras que nós nos sensibilizamos com todo o sofrimento daquele outro, daquela população. É permitir a constituição de um processo de transferência entre o usuário e o trabalhador que passa a servir à construção da autonomia do próprio usuário. É sentir-se responsável pela vida e pela morte do paciente, dentro de uma dada possibilidade de intervenção nem burocratizada, nem impessoal. É ter relação, é integrar-se, com a comunidade em seu território, no serviço, no consultório, nos grupos e se tornar referencia para o usuário, individual ou coletivo. Em relação à construção do vínculo e de compromisso com os usuários a participante afirmou: "Bem no início há seis anos, na implantação da USF, os usuários tiveram dificuldade de aceitar as visitas domiciliares para fazer cadastramento, ficavam envergonhados quando chegava na hora do almoço. Não aceitavam fazer o cadastro familiar. [...] Atualmente eles sentem falta da minha visita quando tiro férias. Hoje sou muito bem recebida na casa dos meus usuários, eles me acolhem muito bem. Tenho uma família bem pobre que visito freqüentemente mais de uma vez por mês. É uma senhora que mora com seus seis filhos e um deles, uma menina de quatro anos tem hidrocefalia. Ela não tem marido e cada filho é com um pai diferente e nenhum deles a ajuda financeiramente. Estou sempre ajudando até na parte financeira. Eu e meu esposo damos uma cesta básica mensal" (ENT 4). Em outro depoimento percebemos como a construção do vínculo está ligada à responsabilidade de o profissional de saúde estar aberto a ouvir o sofrimento humano: "Às vezes eu falo que eu sou um pouco psicóloga. Tem casas que eu levo uma hora. As pessoas me contam os problemas deles... Eu penso assim: Pôxa conheci fulano agora. Fulano confia tanto em mim. Fala tanta coisa sobre a vida dele. Às vezes ele se acha em mim. [...] quer desabafar. Às vezes não tem nem como desabafar com a família. Às vezes tem vergonha de contar os próprios problemas para os familiares. Então, conta para mim. Por isso eu sou um pouco de psicóloga. Eu já sei as casas que são assim. Então, vou passar naquela casa tal hora porque eu sei que vou ficar ali muito tempo" (ENT 5). Em um dia de observação do atendimento da Drª A, constatamos o quanto ela é amada pela comunidade. A paciente chega na consulta dizendo que Drª A é uma mãezona e que não saberia dizer o que seria da sua vida sem o amor dela. Outra paciente entra no consultório acompanhada de sua filha. Ela anda com dificuldade devido a seqüela de acidente vascular encefálico. Fala arrastada e chora quando lembra do início de sua doença. A filha relata que graças a Drª A e ao enfermeiro B que visitavam sua mãe uma vez por semana ela conseguiu se recuperar. Antes das visitas domiciliares só chorava e dizia que nunca mais conseguiria andar. A Drª A comenta depois que a paciente foi embora: O PSF traz um fato inovador na atenção em saúde, que é o vínculo. Nós como profissionais de saúde ao entrarmos na casa de nossos pacientes ficamos próximos deles e de suas famílias. O conhecimento das necessidades de saúde da comunidade que os agentes comunitários de saúde, auxiliar de enfermagem, enfermeiro e médico demonstraram, por meio das entrevistas, indica que os profissionais de saúde "intuitivamente" conhecem o conceito ampliado de saúde. Sobre esta concepção, o sintoma ou sinal físico é compreendido como reflexo das condições de vida e de trabalho da pessoa, como a falta de dinheiro, condições de moradia, alimentação, transporte, lazer, etc., enfim de uma série de condições que fazem parte da vida das pessoas e são determinantes dos perfis de saúde e doença. Eles vivenciam o conceito, mas não conseguem trabalhar na lógica da determinação social da doença. Adiante quando falarei da intersetorialidade, esta lógica será esclarecida. "Olha a minha microárea não tem assim, como se diz, urbanização. Os esgostos são tudo fossas e a água é de poço. Então muitos não filtram a água. Então tem muito problema de verminose, às vezes tem muito problema de escabiose, aliás, é o que mais tem tido problema" (ENT 5). Em outro depoimento a busca de atendimento médico pela comunidade foi reconhecida pela agente comunitária de saúde como um desabafo do usuário, devido a seus problemas financeiros. "Aqui na comunidade onde a gente trabalha, o povo aqui, seria mais necessário um psicólogo do que um médico. Pra falar a verdade [...] o povo daqui, a gente tem dificuldade financeira em relação a tudo. É a saúde, é a alimentação, é a roupa, é o calçado, é o remédio. [...] tem muita gente que vem na unidade pedir atendimento e diz: "Ah, eu tô com urgência". Não é. Às vezes a pessoa não tá sentindo 'nada'. A pessoa vem tipo desabafar" (ENT 2). O relato abaixo expressa com clareza o conceito ampliado de saúde. "Quando nós chegamos aqui em fevereiro de 2002, a nossa principal preocupação era exatamente esse diagnóstico de saúde. [...] a partir da 8º Conferencia Nacional de Saúde, quando se definiu um espectro muito mais ampliado do que seja saúde. Decidimos por sair do gueto exclusivo da área do médico. Não ter a saúde era ter a presença da doença. Quando esse termo virou mais que saúde um completo bem-estar físico e ter também acesso a transporte, trabalho, renda, acesso aos setores de saúde, como atenção básica. [...] nossa preocupação foi ter esse olhar ampliado com a questão de saúde. Diagnosticamos aqui três principais problemas. Primeiro o saneamento básico não existia, assim como também ainda não existia rede de esgoto de tratamento e nem água em rede nem potável. Cerca de 90% ou mais da população adstrita ainda utiliza a água de poço artesiano ou poço de anel. [...] ainda não foi feito pesquisa de água de poço, mas eu diria pela nossa experiência, que 70% da população não faz nenhum tipo de tratamento na água que usa. O segundo problema: trabalho e renda. É uma região muito pobre, sem oferta de trabalho por conta também de uma total falta de especialização e preparo da população para o mercado de trabalho. [...] Último e principal problema, a questão do transporte, tratamento e conservação de vias, estradas, ruas e etc." Segundo Merhy (1994, p. 120): O usuário, qualquer que ele seja, espera que a relação trabalhador de saúde-usuário seja capaz de gerar um acolhimento, que permita uma atuação sobre o seu problema, o seu sofrimento". Podemos entender que para Merhy acolher é atuar sobre o problema, sofrimento, ou seja, as necessidades de saúde do usuário. Segundo Cecílio (2001, p. 113), quando alguém procura um serviço de saúde, está trazendo "uma cesta de necessidades de saúde" e caberia a equipe ter sensibilidade e preparo para decodificar e saber atender da melhor forma possível. Sugere que as necessidades estão organizadas em quatro grandes grupos: "O primeiro diz respeito a ter boas condições de vida [...]. O outro conjunto fala da necessidade de se ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida [...]. O terceiro diz respeito à insubstituível criação de vínculos efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional [...]. Um quarto diz respeito à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida". Motivação profissional em atuar no PSF: A maioria dos entrevistados relatou uma grande motivação de trabalhar no PSF. Esta motivação não estaria apenas ligada à oferta de emprego, mas principalmente com a vontade de querer ajudar as pessoas, pois a maioria trabalha neste mesmo emprego há mais de quatro anos. "Quando vim morar em Santa Rosa não tinha nenhuma opção de emprego. Para poder trabalhar tinha que ir para Itaboraí ou para o Rio. Na época achei que era interessante um serviço perto de casa, podendo conciliar o trabalho com os meus afazeres de casa com o marido e os filhos [...]. Pretendo ficar no meu emprego durante muito tempo gosto de fazer o trabalho. Gosto de visitar as pessoas, gosto desta área de saúde. É legal estar com as pessoas e poder ajudar as pessoas que estão passando por necessidade. Aqui é um local de difícil acesso" (ENT 4). Durante meu trabalho de observação participante realizei visitas domiciliares com a maioria dos integrantes da equipe. Percebi um grande vínculo da equipe com os usuários. A maioria dos agentes comunitários conheciam os problemas de saúde da sua microárea e eram bem recebidos pelos usuários. Apenas uma visita domiciliar me surpreendeu com um agente comunitário de saúde. Ao entrarmos no quintal do domicílio avistamos uma casa ainda inacabada. Fomos recebidos por uma moça bem simpática aparentando 20 anos, e três crianças. O agente comunitário de saúde (ACS) permaneceu em silêncio o tempo todo. Essa visita domiciliar já estava agendada com esse ACS há uma semana e ele quem escolheu a residência da visita domiciliar. Quando entramos na casa uma senhora estava dormindo na sala e durante toda a visita domiciliar permaneceu dormindo. Constatei que o ACS não sabia quem morava na residência e que a senhora que estava dormindo era a chefe da família. Também fiquei surpresa quando a neta da senhora relatou que sua avó há cinco meses tinha sido acometida por um quadro de acidente vascular encefálico e o ACS desconhecia o fato. A microárea desse ACS não fica muito distante da USF, a pé levou 10 minutos. Durante a entrevista relatou ter escolhido trabalhar no PSF por estar desempregado. Está atuando na USF-Santa Rosa há cerca de quatro anos. Este acontecimento apesar de ter sido uma exceção, nos leva a inúmeras reflexões e uma delas é a falta de oferta de emprego na região e deficiências no processo de educação permanente da equipe, além de ausência de um plano local de saúde onde as prioridades com critérios como vulnerabilidade ou risco possam ser utilizados de maneira sistemática. Além disto, podemos inferir que a avaliação do trabalho em equipe não parece estar sendo suficientemente conduzida, já que fatos como o descrito, embora pontuais, nos fazem pensar que as necessidades de saúde da população não estão sendo adequadamente valorizadas na medida da equidade e do acesso aos serviços de saúde. Reunião de equipe semanalmente: para a construção do acolhimento como mudança no processo de trabalho a reunião de equipe é uma ferramenta fundamental. Ela possibilita uma reflexão e problematização do cotidiano, do desafio de trabalhar em uma equipe multidisciplinar. Os depoimentos abaixo refletem a reunião de equipe como facilitadora do processo de construção do acolhimento. É um trabalho... todo dia junto, né?! A gente tenta estar sempre conversando. [...] A gente tenta, né?! Quando acontece alguma coisa, a gente chega na reunião e conversa para tentar resolver da melhor maneira possível. Acidentes sempre acontecem. Sempre acontece uma desavença. Às vezes, as pessoas, como a nova recepcionista que começou agora, os usuários reclamam muito. Eu tento resolver os problemas. Digo: Calma, ela chegou agora. Dá um tempo para ela e tal. Tudo que muda a pessoa sente, né?! Até se acostumar... Tem que ser com muita conversa (ENT 5). [...] Tanto é que nós acabamos é... deixando pra tarde as atividades programáticas. O quê que a gente percebeu? Um buraco no preenchimento da agenda com a vinda dos pacientes dos agendamentos à tarde. Nós tivemos sempre o cuidado, toda a semana na reunião de equipe, a gente troca todas as informações. E há pouco tempo atrás eram os agentes que ficavam na recepção, porque não tinha alguém exclusivamente para a recepção. Então, a gente trocava muita informação: "Oh, fulano falou assim"; "Vamos ver o que tá acontecendo"; "Vamos trocar isso"; "Vamos fazer diferente". E o índice de ausência, de não comparecimento as consultas à tarde era sempre muito grande. E aí a gente foi estudando a característica do lugar e percebendo por conta mesmo do local que as pessoas tem uma vida mais ativa pela manhã. [...] Roça, bem, roça. Porque tem a questão do deslocamento. Você vê só: a maior parte dos diabéticos, hipertensos e com osteoartroses são os pacientes que mais procuram a gente no atendimento e estão com idade acima de cinqüenta anos. É... excluindo as poucas pessoas que moram bem perifericamente à unidade, todas as outras..., porque aqui nós não temos só casa lado a lado. Aqui também têm sítios, que ficam distante. Em geral a comunidade não sai de casa à tarde devido ao sol que nesta região é bem forte! (ENT 7). Participei de duas reuniões de equipe verificando que a maioria dos agentes comunitários ficavam em silêncio apenas ouvindo a doutora A e o enfermeiro B,que comandavam a reunião. Nas duas reuniões foi discutido o problema de fazer grupos com a comunidade, onde todos acham que a comunidade é preguiçosa pois os grupos são à tarde. Outro problema levantado na reunião pelo enfermeiro B, que ele está sendo cobrado pela coordenação em fazer com que os agentes comunitários de saúde façam mais visitas domiciliares, pois o número de visitas domiciliares dos agentes comunitários por mês esta abaixo do preconizado pelo Ministério da Saúde. Treinamento Introdutório: Todos os entrevistados relatam que fizeram o treinamento introdutório sobre o programa Saúde da Família antes de começar a trabalhar e continuam a ter capacitações. [...] O treinamento introdutório foi realizado em duas semanas, em horário integral, de 8 às 17h. Era com o grupo do Núcleo da Universidade Federal Fluminense. Nessa ocasião, foram capacitados profissionais médicos e enfermeiros do PSF. Foi durante 14 dias, duas semanas em regime integral. Na semana seguinte esses profissionais médicos e enfermeiros que haviam sido capacitados, foram os capacitadores dos agentes de saúde e de auxiliares de enfermagem... Agente de saúde e auxiliares de enfermagem com a supervisão desse grupo que capacitou os médicos e enfermeiros inicialmente. E essa capacitação, ela se mantém até hoje para médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagens e agentes comunitários de saúde. [...] Alguns treinamentos são ministrados para o grupo todo, enquanto que outros, somente por profissão, dependendo do aprofundamento que você vai ter. Por exemplo: hipertensão arterial, diabetes, hanseníase e tuberculose... nesses quatro tipos de treinamento eles são institucionais, no mínimo semestral. [....] Anualmente temos em torno de seis a oito vezes no mínimo capacitações. A última foi sobre o acolhimento, em maio 2007, durante 3 dias à tarde de 13:00 às 17:00 h (ENT 6). A maioria dos entrevistados relata que aprenderam muito durante os treinamentos, podendo correlacionar a prática com a teoria, sentindo-se mais seguro no cotidiano da USF. Outra fala freqüente foi a possibilidade de tomar conhecimento dos problemas de infraestrutura das outras USF percebendo que os problemas são os mesmo na maioria das USF. Relatam também que logo que entraram no emprego os treinamentos eram com maior freqüência e agora são poucos por ano. Gestão comprometida com o PSF: A maioria dos entrevistados relata que a implantação do Programa Saúde da Família em Itaboraí melhorou muito a vida das pessoas. Reconhece uma gestão comprometida com a melhoria da saúde do povo. [...] Itaboraí começou do alto. Implantou 44 equipes do programa saúde da família, cobrindo 70% da população [...] a gestão municipal, a prefeitura deu uma espécie de carta branca para a secretária de saúde implantar o Programa Saúde da Família em Itaboraí (ENT 6). [...] o usuário não precisa ir mais no centro de Itaboraí para marcar consulta com médico. Atualmente ele é atendido pela médica de família na unidade saúde da família próximo de sua residência. Quando é solicitado um exame laboratorial, ele também não precisa mais se deslocar para o centro. Toda sexta-feira de manhã um profissional do laboratório vem à Unidade de Saúde da Família fazer a coleta de sangue. O material coletado é levado ao laboratório, é feita a análise, o resultado retorna para Unidade Saúde da Família e já é agendada uma consulta com a médica. Caso seja necessário o parecer de um especialista, o usuário também não precisa se deslocar ao centro para marcar. Os pedidos de referências para especialistas e de exames de laboratório são enviados todas as segundasfeiras por uma kombi que chamamos de rota. Ela passa em todas as Unidades de Saúde da Família com dia e hora diferentes e recolhe todo esse material, referência e pedido de exame. É então levado a Secretaria de Saúde, que autoriza e retorna. A referência já chega marcada com dia e hora. Isso melhorou o deslocamento do usuário que teria que ir várias vezes ao centro. Como já foi relatado o transporte aqui é muito precário. (ENT 1). [...] antes do Programa Saúde da Família não havia coleta de lixo (ENT 5). [...] A nível de gestão, de todos os lugares que trabalhei, Itaboraí foi onde me senti mais acolhida porque, embora eles não tivessem todos os "sims", eles me davam um "não" pra eu saber que tinha que stopar ali, porque não tem mais nada. Não adianta ficar gastando a minha energia. Vinha o "não", "Oh, isso não tem como fazer por isso, por isso, por isso". Eu sabia os porquês. Então isso faz a gente trabalhar, ainda que não satisfatoriamente, mas pelo menos sei que as respostas estão vinculadas a um sistema maior. Não é um sistema de gestão em saúde de Itaboraí, mas um sistema maior [...] (ENT 7). 7.4 FATORES DIFICULTADORES Modelo Saúde Médico-Centrado, entre os fatores dificultadores mais prevalentes aparece o processo de trabalho na Unidade de Saúde da Família centrado na pessoa e no saber da médica A, ficando os outros profissionais de saúde subestimados e a oferta de serviços reduzida. [...] Agora com a doutora de licença acho que não tem vindo quase ninguém aqui na Unidade de Saúde da Família. Porque o problema do povo aqui é a doutora, como diz a doutora A É o doutor. É o doutor faz milagre aqui. Por exemplo, ninguém vem aqui perguntar ao enfermeiro B: "Ah, enfermeiro B eu tô com esse machucadinho aqui. O que você acha que eu devo fazer? Não é remédio não, eu acho que você deve lavar com soro fisiológico e depois passar essa pomada aqui". Não. Eles querem saber cadê a doutora, porque a doutora tem que olhar, porque ela sabe o que vai passar ali e vai resolver. Mas o enfermeiro B não sabe. Entendeu? Quase ninguém vem aqui, o enfermeiro B tem feito mais é puericultura, que as mães vem e trazem as crianças [...]. O enfermeiro aqui não faz um preventivo, porque as mulheres aqui... os maridos são muito cabeça dura (ENT 2). Podemos inferir que a relação trabalhador-usuário vive um desgaste de longo tempo, gerada pelo processo de trabalho dividido com os procedimentos sem a necessária integração multidisciplinar. [...] percebi que comecei a adoecer a partir daí, do acolhimento, que fica todo centralizado em mim. Porque na verdade, toda a demanda da unidade, acaba, como eles falaram, centralizada no doutor. No início do processo do acolhimento a gente começou a fazer o acolhimento de forma que ficasse mais destinado ao enfermeiro B e a auxiliar de enfermagem C. O quê que aconteceu? Eu diria assim: que 80% do acolhimento deles acabava parando em mim. O enfermeiro B tem assim, essa é a minha sorte, um conhecimento vasto. Então ele consegue abranger e alcançar muita coisa que poderia me desafogar, mas a comunidade quer o doutor. Tanto que nós começamos a treinar a comunidade para tratá-lo como "doutor" [...] fazendo parte das tentativas de a gente de estabelecer uma divisão de atuação em saúde. Começamos a mostrar o que o enfermeiro B tinha um Dr. na frente, adiantou no sentido de que a figura dele como enfermeiro universitário ganhou mais destaque [...]. Para os usuários, o nível cultural da grande maioria o enfermeiro não pode atender (médica A). Este depoimento revela o quanto é difícil para os profissionais de saúde interagirem entre si, trocando conhecimentos ,articulando um campo de produção do cuidado (Franco,1999). Não basta culpabilizar os usuários pela sua cultura. Precisamos desconstruir nossos saberes centrados na doença e buscar nas práticas educativas um caminho para a transformação cultural, social e política de nossa comunidade,almejando o entendimento do processo saúde-doença. Os obstáculos encontrados no cotidiano de trabalho no Programa Saúde da Família são diversos, a implantação do acolhimento gerou uma expectativa muito grande tanto por parte da gestão quanto por parte dos profissionais para resolver os problemas das pessoas. Para traçar um campo de produção do cuidado tanto seja ele na Unidade de Saúde da Família, no domicílio, nas práticas educativas, demanda uma educação permanente para a equipe muldisciplinar e uma equipe de supervisão mais presente no cotidiano do processo de trabalho da equipe. A Política Nacional de Humanização indicou a partir de 2007, que o grande desafio para concretização do acolhimento para humanização da atenção é entender que não só médicos fazem a clínica, mas todos os profissionais de saúde fazem cada um a sua clínica, apresentando como proposta a Clínica Ampliada. A sua proposta é ser um instrumento para que os trabalhadores e gestores de saúde possam enxergar e atuar na clínica lidando com os usuários enquanto sujeitos, buscando sua participação e autonomia no projeto terapêutico. Ajudar usuários e trabalhadores a lidar com a complexidade dos sujeitos e a multicausalidade dos problemas de saúde na atualidade significa ajudá-los a trabalhar em equipe. No entanto, isso não é fácil. Lidar com diferenças, com conflitos, com afetos e poderes na equipe é um aprendizado coletivo, dependendo fortemente da gestão. Práticas Educativas: Outro problema citado como dificultador para implantação do acolhimento, que está em sintonia com o que foi relatado acima, é que a maioria dos entrevistados relatou resistência da comunidade em freqüentar as práticas educativas. [...] o povo daqui tem uma mania muito feia, eles só fazem o que vai recompensar. Se você vai ter um agrado você vem, por exemplo: Ah, vamos fazer uma tarde com reunião e depois vai ter um lanche. Aparece gente. Agora: Ah, vamos fazer uma tarde de reunião com a comunidade para tratar dos problemas do posto, pronto, não vem ninguém (ENT 2). [...] o único grupo que conseguimos manter, mas mesmo assim vem pouca gente é o grupo dos hipertensos e diabéticos. Acho que é porque aferimos a pressão e fazemos o teste do açúcar (ENT 8). [...] Já teve aqui um terapeuta de grupo fazendo ginástica, mas... Tem até fotos ali. Era uma vez por semana. Aí, apareciam três, quatro pessoas e depois não aparecia ninguém. Aí, em dois meses, já tinha acabado (ENT 5). [...] Eles têm esse grande problema aqui não conseguem fazer grupos de trabalhos, com relação à comunidade. Grupos de hipertensos, de diabetes, grupo de uma conversa qualquer, entendeu? É difícil, já que as pessoas não comparecem. Ele e ela já fizeram mil e uma coisas: feira de artesanato, horta na entrada do posto (ENT 1). [...] Aqui o povo é muito desunido [...] a médica daqui já tentou montar um grupo para fazer um programa artesanal para motivar a comunidade. Era uma feira de artesanato em que os usuários expunham seus trabalhos em barracas uma vez por semana na praça da comunidade. Infelizmente a comunidade se dispersou, é difícil até a gente tentar motivar as pessoas. Uma coisa que é difícil aqui é ter reunião [...] grupo de diabético e de hipertensão, você captar essas pessoas para participar dessas reuniões é uma coisa complicada, algumas pessoas elas não vêem porque dizem que moram longe do posto [...] o povo daqui é muito imediatista, se ele está doente passa mal, ele quer vir aqui, quer sair com uma receita na mão e um remedinho para tomar (ENT 3). Nos depoimentos relatados acima foram levantados pelos profissionais de saúde as seguintes dificuldades para realização das atividades de grupo: -- O não comparecimento do usuário nos grupos de saúde levando à baixa freqüência deles nas reuniões. -- O usuário só participa de grupos quando recebe alguma coisa material em troca. -- Os usuários dizem que moram longe do posto dificultando a ida nos grupos de educação em saúde. -- Imediatismo do usuário, procurando a unidade de saúde da família só quando está "doente". -- Falta de líderes na comunidade. Segundo Merhy (1994), acolher é atuar sobre os problemas dos usuários mostrando para eles as possibilidades de resolver os seus problemas, mostrando os caminhos. É fazer com que eles entendam melhor o seu processo de adoecimento e eles mesmos consigam por si só intervir no seu processo de sofrimento. Concluímos que uma das diretrizes do acolhimento é buscar a autonomia do usuário fazendo com que ele entenda que saúde não é apenas o resultado de um processo centrado no poder e saber absoluto do médico intervindo na doença, mas que está ligado diretamente a fatores físicos, emocionais, religiosos, econômicos, culturais, ambientais e psicossociais. Podemos falar do uso de práticas educativas como forma de fortalecer o conhecimento do usuário, para que tome consciência crítica de si e do mundo. Sendo assim a educação em saúde pode ser uma ferramenta de atuação em saúde possibilitando a troca entre o saber técnico e o saber popular. É importante que a equipe de saúde da família estudada possa rever a forma como o grupo está sendo conduzido. O modelo assistencial curativo, centrado no atendimento médico, condiciona uma prática educativa que reforça aulas ou palestras, ficando restrita a responder dúvidas pontuais levantadas pelos usuários, sendo respondidas pelos próprios profissionais de saúde dificultando um espaço para troca de saberes. É preciso envolver o usuário, o qual deverá fazer parte do processo e não ser apenas um ouvinte. O grupo deve ser um espaço de troca de saberes. É fundamental citar a pedagogia da problematização de Paulo Freire (2002): [...] a prática educativa norteada pela pedagogia da problematização é mais adequada à prática educativa em saúde. Além de promover a valorização do saber do educando e instrumentalizando-o para a transformação de sua realidade e de si mesmo, possibilita efetivação do direito da clientela às informações de forma a estabelecer sua participação ativa nas ações de saúde, assim como para o desenvolvimento contínuo de habilidades humanas e técnicas no trabalhador de saúde, fazendo que este exerça um trabalho criativo. Estas características e conseqüências convergem para uma sociedade mais democrática em prol do desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos e coletividade estando em concordância com os princípios e diretrizes da promoção da saúde" (p. 153). Será que a equipe da USF - Santa Rosa já pensou na estratégia de perguntar para a comunidade o que eles gostariam de discutir nas práticas educativas? Será que uma alternativa para os usuários que moram longe da Unidade de Saúde da Família, é propor grupos extra-muros, fora da unidade saúde da família? Para que essa nova forma de pensar e atuar no processo de trabalho em saúde, buscando a autonomia do usuário aconteça é necessário capacitar e instrumentalizar os profissionais de saúde em educação em saúde. Número populacional acima do estipulado pelo Ministério da Saúde/grande demanda: Os princípios básicos fundamentais de Saúde da Família são integralidade, qualidade, equidade e participação social. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2006) estipula que cada equipe de saúde da família se responsabilize pelo acompanhamento de 3000 a 4500 pessoas de uma determinada área, e estas passam a ter coresponsabilidade no cuidado à saúde. Um dos problemas levantados pelos entrevistados como fator dificultador para a implantação do acolhimento é um número populacional muito grande sobrecarregando a equipe. Levando até ao adoecimento da médica. [...] a demanda daqui é muito grande, acho que teria que ter dois médicos. A última vez que fizemos a contagem do número de pessoas cadastradas deu uma base de mais ou menos 8000 pessoas (ENT 2). [...] isso é até uma questão que extrapola a qualidade do atendimento. Chega até ao ponto do adoecimento do profissional de saúde (ENT 4). [...] é um problema que permeia todas as equipes. O quantitativo populacional foi inclusive relatado na última Conferência Municipal de Saúde em Itaboraí. É uma relação absurda de número populacional para uma equipe muito pequena de saúde da família. Não temos condições de cumprir os princípios da integralidade [...] (ENT 6). O princípio da integralidade significa considerar a pessoa como um todo, atendendo a todas as suas necessidades, integrando as ações de promoção da saúde, a prevenção de doenças, o tratamento e a reabilitação. Como resolver 85% dos problemas de saúde da comunidade se a equipe de saúde trabalha com um valor populacional acima do preconizado pelo Ministério da Saúde? Insuficiência de rede de referência para consulta com especialistas: Com a implantação do Programa Saúde da Família no município de Itaboraí, foi criada uma policlínica de especialidades para atender a rede básica de saúde, fazendo com que o problema de referência e contra-referência avançasse muito. Porém, mesmo assim, o quantitativo de referência para cada Unidade de Saúde da Família, segundo os entrevistados, é insuficiente. Além disso, os médicos especialistas não preenchem a contra-referência. Mesmo com a criação de uma policlínica de especialidades, observamos que o sistema de referência e contra-referência se mostra insuficiente para assegurar a continuidade do cuidado das famílias de forma integral. [...] existe um limite de número de referência que não é obedecido. Nós encaminhamos de acordo com as necessidades dos nossos usuários. Nós não deixamos de encaminhar porque nós só temos x números. Nós encaminhamos se o nível central só tem x números de referência para a nossa Unidade Saúde da Família. Eles têm que resolver essa situação (ENT 8). No relato acima percebemos uma falta de comunicação entre o nível central com a USF e vice-versa. [...] em termos de qualidade de atendimento na policlínica, de nossos pacientes, não temos problemas. O grande problema mesmo é o quantitativo de consultas disponibilizadas e o preenchimento pelo especialista da contra-referência [...] pela minha experiência em termos de participação em conferências é um problema inerente a todos os Programas Saúde da Família. Acredito que é uma questão de comprometimento, de envolvimento desse profissional que faz essa consulta especializada em entender que deva ocorrer uma continuidade do cuidado [...] a equipe de Saúde da Família deve saber e manter o tratamento que foi pontuado com o especialista (ENT 6). No depoimento abaixo verificamos que, apesar de todo o esforço para o processo de consolidação do SUS, ainda ocorrem restritas mudanças naquilo que ele considera essencial: a organização da rede regionalizada e hierarquizada das unidades, capaz de garantir acesso universal e eqüitativo da população a todos os níveis de complexidade de serviços, e a relação entre esses profissionais e esses serviços e os usuários (LEVCOVITZ, 1997). [...] tenho um paciente fazendo uma síndrome dispéptica, vomitando, passando mal, ocupando o tempo da Atenção Básica com medicação sintomática devido a um problema que poderia ser resolvido efetivamente com procedimento cirúrgico. Vamos fazer o procedimento cirúrgico. Vamos criar estratégias para criar parcerias com outros municípios, fazer mutirões. Eu não sei, tem que criar uma estratégia. E vamos resolver essa situação, porque isso desafoga a atenção básica. E desafogando a atenção básica, o acolhimento vai ser desafogado também. Que você vê movimentos repetitivos de uma situação que pode ser resolvida. Pode-se criar uma estratégia para resolver. É basicamente isso. Eu acho que a gente procura acolher, mas nós não somos acolhidos no sistema [...] (ENT 7). Falta de transporte para realizar visita domiciliar: Com o trabalho de campo verificamos que a característica principal da USF é estar situada em uma área rural. As pessoas têm o hábito de acordar cedo, o que talvez seja um dos fatores a levar a procura maior de consulta médica pela manhã. Durante a observação participante, foi visto que, pela tarde, após o almoço, a procura ao PSF diminui consideravelmente e na fala dos trabalhadores pesquisados, este fato ocorre porque "as pessoas ficam em casa dormindo" ou porque o sol da tarde é muito forte e os usuários em geral caminham muito até chegar na USF. Os entrevistados relataram e confirmaram o observado, sobre o fato de que como a equipe de saúde da família localiza-se em uma área rural de grande extensão, as visitas domiciliares ficam prejudicadas pelo fato do transporte do Programa de Saúde da Família ser insuficiente. Há uma kombi para cobrir todas as Unidades de Saúde da Família de Itaboraí. [...] a minha área fica cerca de 12 km de distância da Unidade de Saúde da Família. Para fazer as visitas domiciliares eu tô indo com minha moto. Eu tô até me prejudicando porque gasto gasolina do meu bolso e tudo. Mas fica mais fácil para levar as fichas que preencho como de diabéticos, gestantes, crianças e também poder ajudar as pessoas. Já pensou, eu tô cheio de bolsa, de papel e de repente cai uma tempestade acaba com todo o meu trabalho (ENT 3). [...] a médica A fazia visita domiciliar na minha microárea, mas como a estrada é de chão, muito esburacada, acabou estragando seu carro. Começamos a pedir o carro do Programa Saúde da Família de Itaboraí mas nunca conseguimos até hoje. Tem duas pessoas na minha microárea que já tiveram derrame cerebral e ficaram com seqüela em membros inferiores. Tinham dificuldade de andar até a Unidade de Saúde da Família que é longe da residência delas. Os familiares têm que ficar arrumando e pagando carro para levar lá no dia da consulta (ENT 5). Ausência de intersetorialidade: Durante a primeira conferência internacional sobre promoção da saúde, realizada no Canadá, em 1986, surgiu um dos mais importantes documentos da saúde pública moderna, a Carta de OTTAWA, que diz: "paz, educação, habitação, alimentação, renda, ecossistema estável, conservação dos recursos e eqüidade são requisitos fundamentais para a saúde", ou seja, saúde é resultado de um processo de produção social que expressa a qualidade de vida de uma população. Foi apontado pela maioria dos entrevistados que um dos grandes fatores que dificultam a implantação do acolhimento são as condições precárias de vida da população da área adscrita da USF. [...] a maioria da nossa área não tem saneamento básico. É fossa comum. Não temos água encanada, a maioria é poço semi-artesiano. A maioria das águas não é tratada [...] a média salarial daqui é de um salário mínimo para uma família de três a cinco pessoas para sobreviver [...] meio de transporte, só tem uma linha de ônibus que monopoliza toda esta região [...] falta lazer, não tem um clube, não tem uma pracinha bem organizada. Não tem nada. Itaboraí é tipo o elo perdido, porque se chover em certas ruas daqui, você não consegue sair de casa (ENT 3). Podemos inferir que está faltando estabelecer parcerias com diferentes segmentos sociais e institucionais para intervir nessas situações que transcendem o setor saúde. Estamos falando da falta de intersetorialidade, que tem efeito determinante sobre as condições de vida e saúde dos indivíduos, famílias e da comunidade. [...] no que diz respeito à acessibilidade como a principal falha na questão do transporte, tratamento e conservação de vias, estradas, ruas etc. [...] você não consegue trabalhar esses problemas nas áreas da saúde. Você precisa do compromisso, do comprometimento de outros setores, como por exemplo, os de transporte e de obras de saneamento, que é basicamente o que falta aqui. E o envolvimento mais presente da prefeitura como um todo, para ter uma melhoria no que diz respeito ao acesso, ao trabalho e renda. [...] há um ano e meio foi fundada uma associação de moradores, que ainda está em processo de construção (ENT 6). Quando perguntado sobre quais sugestões que facilitariam a prática do acolhimento os entrevistados mencionaram: contratação de outro clínico geral ou, de preferência, ginecologista, duas equipes de Saúde da Família, diminuição do número populacional por equipe de Saúde da Família, maior envolvimento dos gestores estaduais, federais, da população e contratação de um psicólogo. [...] Uma delas é o quantitativo de população encaminhada para cada unidade de médico da família. Isso tem que ser diminuído. Isso tem de ser equacionado. Isso tem que ser melhorado para que possamos, como profissionais nos envolvermos de verdade no trabalho... Queremos que a estratégia da Saúde da Família dê certo. Temos que resolver os problemas. Não pode ser só o profissional de saúde que deve fazer isso. Tem que haver um envolvimento dos gestores nisso aí. Gestores estaduais, federais... Tem de haver o envolvimento da população organizada, as entidades civis [...] (ENT 7). Percebemos nestas sugestões a dificuldade de entendimento da metodologia do PSF, quando é sugerido a introdução na equipe básica de especialistas. O atendimento médico focado no doente e não no indivíduo sobrecarrega o profissional médico. O olhar ampliado do individuo como um ser biopsicosocial por todos profissionais faria com que o cuidado da população fosse melhor distribuído entre a equipe multiprofissional. O grande número populacional e a ausência da participação dos gestores no nível local, só dificultam a meta desse olhar ampliado em relação ao usuário. Os resultados encontrados indicaram um entendimento sobre acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado do profissional médico, com conseqüente aumento de demanda para o mesmo. Verificou-se que os profissionais de saúde estudados demonstram-se sensibilizados com o sofrimento do usuário e se esforçam para lhe oferecer uma escuta qualificada. Os profissionais de saúde elegeram como principais fatores facilitadores para implantação do acolhimento: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados foram: modelo de saúde centrado no médico, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, demanda excessiva para a equipe e ausência de intersetorialidade. Conclui-se que o processo de acolhimento e o entendimento dos profissionais da Saúde da Família sobre o mesmo divergem sobre a Política Nacional de Humanização e os autores teóricos sobre o assunto. É importante destacar as dificuldades encontradas na USF, que impossibilitam a integração adequada da equipe para implantação do acolhimento: -- Distâncias geográficas, afetando a visita domiciliar devido a falta de transporte; -- População adscrita muito superior quantitativamente ao estudado; -- Falta de apoio de supervisores; -- Insuficiência da rede de referências para consulta com especialistas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo buscou refletir sobre as dificuldades de implantação do acolhimento no Programa Saúde da Família, no cenário de estudo, no caso o município de ItaboraíRJ, mas poderá ser útil também para um questionamento sobre como está ocorrendo a implantação do acolhimento no Brasil em outras localidades. Uma questão central parece ser o fato de que prevalecendo um modelo técnicoassistencial médico-centrado, o acolhimento, pensado como uma atitude e uma postura de toda a equipe, vê seu efeito e sua efetividade diluídas porque reduzida a um modelo que não privilegia o trabalho em equipe, mesmo considerando todos os esforços para reverter tal situação. Desta forma observamos que os profissionais de saúde estudados continuam a associar acolhimento com a maneira de receber o usuário, ouvi-lo e dar respostas imediatas, bem como a entender o acolhimento como consulta médica não agendada. Como frisado anteriormente, para a Política Nacional de Humanização, o HumanizaSUS, o acolhimento representa uma proposta de reorientação do processo de trabalho, na qual todos os profissionais de saúde são igualmente importantes e têm sua contribuição a dar para a satisfação das necessidades de saúde da população. No processo do acolhimento todos os profissionais precisam se expor. Outras experiências com acolhimento encontradas na literatura relataram o acolhimento sendo realizado por outros profissionais: nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Ribeirão Preto-SP e de Betim-MG, por enfermeiras e auxiliares de enfermagem, e na Escola de Formação em Saúde da Família de Visconde de Sabóia, em Sobral-Ceará, por médico, enfermeiro e auxiliar de enfermagem. Nossa concepção de acolhimento nesta pesquisa aproxima-se da de Sobral, no entendimento de que é necessária a participação de todos os profissionais da equipe no processo do acolhimento. Os profissionais de saúde da USF estudado participaram da 1ª Oficina de Humanização para as Unidades de Saúde da Família do município de Itaboraí ministrado pelo Núcleo da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (ANEXO). O conceito de acolhimento trabalhado na oficina está em sintonia com o conceito de nossa pesquisa, no entanto, perguntamos, como uma oficina de humanização com carga horária de apenas 12h pode mudar um processo de trabalho que está enraizado nos profissionais de saúde desde a sua formação acadêmica? Qual é o impacto da utilização da educação continuada em detrimento da educação permanente na construção deste processo? É necessário fazer a distinção entre educação continuada e educação permanente. Esta oficina de humanização é um exemplo de educação continuada. Ela promoveu uma atualização do conhecimento dos profissionais de saúde sobre o tema acolhimento, porém não criou estratégias para que esse conhecimento fosse reelaborado frente às condições reais das próprias Unidades de Saúde da Família (RIBEIRO, 1996). A educação permanente em saúde tem como objeto de transformação o processo de trabalho, orientado para a melhoria da qualidade dos serviços e para a eqüidade no cuidado e no acesso aos serviços de saúde. Parte, portanto, da reflexão sobre o que está acontecendo no serviço e o que precisa ser transformado (RIBEIRO, 1996). Sabendo que um dos parâmetros da Política Nacional de Humanização para implementação de ações na atenção básica é a garantia de participação dos trabalhadores em atividades de educação permanente (BRASIL, 2006), como enfrentar mudanças na produção da saúde sem a implementação efetiva de ações que valorizem esta educação permanente no processo de trabalho da equipe? Por que insistir no modelo de utilização hegemônico e exclusivo da educação continuada? Novas formas de pensar e agir em saúde exige tempo de amadurecimento, comprometimento dos gestores municipais, estaduais, federais, participação popular, intersetorialidade e educação permanente em serviço. Dialogar com os desafios de transformação e mudança deve ser o compromisso de todos nós que desejamos um SUS de qualidade Esperamos, assim, que com este estudo possamos ter estimulado o leitor a refletir sobre o tema do acolhimento no Programa Saúde da Família, como uma maneira de aproximação entre as singularidades, como uma forma de preencher a lacuna que não aproxima o usuário da equipe, na esperança de contribuição para um olhar diferenciado sobre o agir em saúde. REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASIL. Seminário avalia expansão do Programa Saúde da Família. 04/08/2006. Disponível em: <http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/08/04/materia_2006-0804.0135400234/view>. Acessado em 07 jan. 2007. AGUIAR, A. C.. Estratégias de Avaliação e a Transformação da Educação Médica no Brasil. Boletim da Associação Brasileira de Educação Médica XXII (5), p. 10-11, 2004. ANDRADE, Luis Odorico Monteiro de. Sus passo a passo. São Paulo: Hucitec, 2001. BARDIN, L. Análise de conteúdo. 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APÊNDICE 1: ROTEIRO DE ENTREVISTA 1) Entrevistado Número: 2)Idade: 3)Sexo: 4)Escolaridade: 5)Profissão: 6)Tempo que atua no Programa Saúde Família - Itaboraí: 7)Porque você resolveu atuar na Saúde da Família? (motivação,interesses) 8)Há quanto tempo você trabalha na Saúde da Família? 9)Como é o seu trabalho na unidade de saúde da família? 10)Como é feita a visita domiciliar? 11)Que profissionais da equipe fazem visita domiciliar? 12)A equipe conhece as necessidades de saúde da população? Se sim quais são as mais freqüentes. 13)Como é realizado as referências para outro nível de atenção? 14)Os usuários recebem informações sobre o serviço? Quais? De que forma? 15)Como os usuários são recebidos na unidade de saúde da família? 16)O que você entende por acolhimento? 17)Quais são as atitudes que você relaciona com acolhimento? 18)Em relação ao acolhimento quais fatores facilitam e dificultam a sua prática? 19)Você já participou de alguma reunião de equipe? Se sim, em que freqüência. APÊNDICE 2: DADOS GEOGRÁFICOS MAPA DA REGIÃO METROPOLITANA II (ESTADO DO RIO DE JANEIRO) I T A B O R A Í - RJ Região Metropolitana II Fonte: Homepage Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. REDE VIÁRIA DA CIDADE DE ITABORAÍ/RJ Itaboraí – Rede Viária Fonte: Homepage Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. O município de Itaboraí está situado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro designada Região Metropolitana II. Ainda fazem parte desta região os municípios de Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Tanguá, Maricá e Silva Jardim. APÊNDICE 3: DADOS POPULACIONAIS POPULAÇÃO SEGUNDO METROPOLITANA II MUNICÍPIOS DA REGIÃO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Municípios da Região Metropolitana II População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.758.768 Itaboraí 197.017 Maricá 83.088 Niterói 464.354 Rio Bonito 50.645 São Gonçalo 914.536 Silva Jardim 21.920 Tanguá 27.208 Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2006 Município População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.876.788 330190 Itaboraí 220.982 330270 Maricá 99.053 330330 Niterói 476.671 330430 Rio Bonito 53.036 330490 São Gonçalo 973.372 330560 Silva Jardim 23.576 330575 Tanguá 30.098 Fonte: Pacto de Atenção Básica – DATASUS, 2006. A população de Itaboraí era de 197.017 habitantes em 2002 passando a 220.982 habitantes em 2006 (dados estimados) representando um crescimento populacional de 10% em 4 anos. Esta taxa de crescimento populacional de 2,5% ao ano encontra-se elevada em relação à média nacional: 1,37% ao ano. APÊNDICE 4: DADOS DE CADASTRAMENTO FAMILIAR PELO PSF ANO 2002 PACTO DE ATENÇÃO BÁSICA-2006 - RIO DE JANEIRO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro % pop cober PSF segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Município % pop cober PSF Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 27,15 Itaboraí 50,87 em 2002 69,5 em 2006 Maricá 14,66 Rio Bonito 25,57 São Gonçalo 36,26 Silva Jardim 70,05 Tanguá 19,10 ITABORAÍ: REDE HOSPITALAR : 05 REDE AMBULATORIAL : 54 Fonte: DATASUS, 2006. Houve um significativo aumento de cobertura populacional pelo PSF desde a sua implantação em 2002, quando 50,87% de sua população foi cadastrada. Em 2006, 69,5% da população estava cadastrada pelas equipes do PSF. Dados de 2007 apontam uma cobertura de 71,6% da população residente (Itaboraí, 2007). APÊNDICE 5: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Universidade Estácio de Sá Mestrado Profissional em Saúde da Família TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Nome do entrevistado: _________________________________ Idade: _______ Projeto: Projeto de Pesquisa: O Acolhimento no Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí no Estado do Rio de Janeiro (CNPq Edital 037/2004); Responsável: Claudia Rebello (tel: ) Eu, ____________________________________________________________, abaixo assinado, declaro ter pleno conhecimento do que se segue: Objetivo da Pesquisa: Refletir sobre as percepções que possuem os profissionais de saúde do Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí em relação ao acolhimento da atenção, com base em observação partipante e entrevistas semiestruturadas a serem realizadas com os profissionais de saúde que atuam no Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí, no Estado do Rio de Janeiro. Benefícios que possam ser obtidos: Identificar condições favoráveis e desfavoráveis à consolidação de uma cultura de acolhimento. Refletir sobre o Acolhimento enquanto uma ação de humanização na atenção básica, respondendo desta forma a uma demanda da Política Nacional de Humanização. Receberei resposta ou esclarecimento a qualquer dúvida acerca de assuntos relacionados com o objeto da pesquisa. Tenho a liberdade de retirar o meu consentimento a qualquer momento e deixar de participar do estudo. Obterei informações atualizadas durante o estudo, ainda que isto possa afetar minha vontade de continuar dele participando. A pesquisa manterá o caracter oficial das informações relacionando-as com a minha privacidade. Em caso de dúvidas, poderei esclarecê-las através de contato telefônico com o(a) pesquisador(a) pelos telefones (21) 22956162 ou com o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá, Rua do Riachuelo 27, 6º andar - Centro; Tel.: 3231-6135; e-mail: [email protected]. Rio de Janeiro, _____de ___________________de 200___. _______________________________ Assinatura do Participante ____________________________ Assinatura do(a) Pesquisador APÊNDICE 6: FOTOS DA UNIDADE SAÚDE DA FAMÍLIA E DA ÁREA ADSCRITA FOTO 1: USF-Santa Rosa. FOTO 2: Recepção da USF-Santa Rosa. FOTO 3: Mural de informações da USF-Santa Rosa. FOTO 4: Quadro das atividades da médica e do enfermeiro. FOTO 5: Visita domiciliar na área adscrita. FOTO 6: Microárea da Unidade. ANEXO1: HUMANIZA SUS Apresentação Proposta e Metodologia do Trabalho APRESENTAÇÃO A Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí convida para o debate a rede de atenção básica, composta em sua maioria por equipes do Programa Saúde da Família, responsável pela cobertura de cerca de 70% da população do município. Essas equipes vêm trabalhando em territórios definidos, com clientela conhecida e com o compromisso técnico e ético de prevenir, cuidar, proteger, recuperar, promover, enfim, produzir saúde. Encaramos o desafio de construir a rede do Sistema Único de Saúde – SUS – em Itaboraí com a perspectiva da política pública que mais favorece a inclusão das pessoas, que lida com a defesa da vida, e com a garantia do direito à saúde das populações trazida pelas conquistas na Constituição de 1988. Muitos avanços aconteceram, e novos desafios se impõem na medida em que o sistema se organiza. Na voz dos usuários, gestores e profissionais surgem demandas de modelos de atenção à saúde que viabilizem e facilitem o acesso dos usuários e confiram resolutividade aos serviços assim como a valorização dos trabalhadores e gestões mais participativas. Trata-se de estabelecer prioridades no percurso de construção do SUS-Itaboraí. Após um intenso processo de implantação de uma rede de atenção básica, utilizando como estratégia o Programa Saúde da Família, segue-se a necessidade de qualificação e aperfeiçoamento do processo dos cuidados de saúde, que se iniciam no acolhimento aos usuários, no acompanhamento das famílias, na formação e relacionamento pessoal e profissional das equipes. O propósito deste momento de reflexão é o da construção coletiva de estratégias que promovam mudanças nas práticas do cuidar em nosso cotidiano, fortalecendo relações mais solidárias entre todos os que fazem o SUS. Prefeitura Municipal de Itaboraí Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí Itaboraí, 2007 PROPOSTA E METODOLOGIA A proposta de trabalho que a Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí traz nesse momento para sua rede de atenção básica é a de, ampliar, facilitar, e qualificar o acesso dos usuários ao sistema público de saúde. Para alcançar esses objetivos, optou-se por um método com o formato de oficinas de trabalho em momentos seqüenciais. Partiremos no primeiro momento de fundamentos teóricos e relatos trazidos por profissionais com experiência acadêmica e em serviços de saúde, para uma aproximação inicial com o debate que é hoje dominante no país em todas as instâncias do SUS: a qualificação da atenção à saúde de todos os brasileiros. Iniciaremos o debate conhecendo um pouco da Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão no Sistema Único de Saúde - HumanizaSUS, em especial na atenção básica. Também ouviremos experiências de intervenções em sistemas de saúde municipais com propostas de reorganização da porta de entrada na atenção básica, e as reflexões sobre essas experiências. Nos momentos seguintes as equipes se encontrarão em trabalhos de grupo para promover a reflexão sobre o processo de trabalho em saúde na rede local. Com o apoio de técnicos, irão construir um diagnóstico da situação do acesso dos usuários ao sistema de saúde do ponto de vista da atenção básica e a partir daí, refletir sobre o produto do trabalho, criando novas estratégias de organização para o trabalho cotidiano das unidades. Intensifica-se a partir deste momento, o processo de acompanhamento das equipes de saúde, para apoiar o trabalho de melhoria do acesso dos usuários ao sistema de saúde do município. Os trabalhos de grupo foram organizados contando com a presença integral das equipes de saúde, em um ambiente agradável para facilitar a participação de todos. As instruções do caderno de atividades deverão ser observadas e acompanhadas, pois fazem parte do trabalho. Foram agrupados no final do caderno de atividades os textos de referência utilizados para inspiração e montagem do texto-base como apoio e leitura suplementar de acordo com o interesse despertado pelos temas. Boa sorte e bom trabalho! Seqüência das Atividades Instruções aos Participantes: IDatas e horários dos encontros da Oficina – 14, 16 e 18 de maio, das 13:00h às 17:00h. II- Participantes – todos os profissionais das equipes das sete Unidades de Saúde da Família abaixo: UNIDADES Vila Brasil Aldeia da Prata Planalto da Marambaia Marambaia Agrobrasil Nova Cidade Visconde TOTAL DE EQUIPES Nº. DE EQUIPES 02 02 01 01 01 02 02 11 1º dia – Abertura Data: 14/05/07 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Mesa de Abertura. II- Leitura das Instruções aos Participantes. III- Mesa de Discussão: Apresentação da Política Nacional de Humanização do SUS – PNH. Cláudia Abbês – Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense A experiência de Itaboraí – “Acesso para todos”. Mônica Almeida – Secretária Municipal de Saúde de Itaboraí Relato de experiência de Acolhimento na Atenção Básica. Túlio Franco – Professor da Universidade Federal Fluminense IV- Debate. 2º dia - Fluxo do Usuário na Unidade de Saúde da Família Data: 16/05 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Divisão das 11 equipes em 7 grupos por Unidade de Saúde da Família. II- Os participantes deverão ler previamente o Texto-base para Discussão do Fluxo do Usuário na Unidade de Saúde da Família, pág. 10, para os trabalhos deste 2º dia da Oficina. III- Com o apoio dos supervisores na discussão e com o material fornecido, cada grupo deve montar o fluxograma do usuário dentro de sua Unidade de Saúde (como é a chegada do usuário hoje à Unidade e o caminho que ele percorre para ser atendido). IV- O grupo deve escolher um componente que irá apresentar o fluxograma em Plenária. V- Plenária: discussão a partir dos fluxogramas apresentados pelos grupos com análise da situação. VI- Distribuição de uma proposta de avaliação por escrito da Oficina. 3º dia - Discussão do Acesso Data: 18/05 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Divisão das 11 equipes em 7 grupos mesclados. II- Com o apoio dos supervisores na discussão sobre o Acesso ao PSF e com o material fornecido, cada grupo deve sistematizar as principais propostas para melhoria do Acesso às Unidades de Saúde da Família. III- O grupo deve escolher um componente que irá apresentar as propostas em Plenária; IV- Plenária - apresentação das propostas dos grupos com estabelecimento de compromisso e pactuação entre a equipe de gestão e as equipes das Unidades, sintetizando as principais propostas de reorganização da Porta de Entrada em um documento. Este documento deverá ser validado pelos participantes em Plenária. V- Distribuição de uma proposta de avaliação por escrito da Oficina. VI- Apresentação das duplas de supervisores que acompanharão as equipes a partir desse momento TEXTO-BASE PARA DISCUSSÃO DO FLUXO DO USUÁRIO NA UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA Introdução Este texto foi formulado para a “Oficina de Humanização na Atenção Básica: Acesso para todos” pela equipe da Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí, com base em trabalhos que discutem o Sistema Único Saúde e trazem algumas noções norteadoras para o que desenvolveremos neste encontro. Para deixar claro o foco do trabalho proposto, o texto foi dividido em tópicos que não têm um encadeamento necessário entre si, mas que compõem um bloco temático que servirá de base para as discussões acerca do acesso e fluxo dos usuários às Unidades de Saúde da Família. Os trabalhos que serviram como base para este texto estão indicados ao final, nas Referências Bibliográficas. Sistema Único de Saúde (SUS) “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Essa é uma conquista do povo brasileiro. Toda conquista é, entretanto, resultado e início de um outro processo. Em 1988, votamos a criação do Sistema Único de Saúde. Com ele afirmamos a universalidade, a integralidade e a eqüidade da atenção em saúde e a participação social. Com ele também apontamos para uma concepção de saúde que não se reduz à ausência de doença, mas a uma vida com qualidade. A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais, sendo, portanto necessária para o trabalho em saúde a interlocução entre os diferentes setores coresponsáveis pela melhoria da qualidade de vida da população. Muitas são as dimensões com as quais estamos comprometidos: prevenir, cuidar, proteger, tratar, recuperar, promover, enfim, produzir saúde. Muitos são os desafios que aceitamos enfrentar quando estamos lidando com a defesa da vida, com a garantia do direito à saúde. Neste percurso de construção do SUS, em um país como o Brasil com as profundas desigualdades sócio-econômicas que ainda o caracterizam, o acesso dos usuários aos serviços e aos bens de saúde permanece com várias barreiras. O cenário indica, então, a necessidade de mudanças nas estratégias adotadas pelas equipes de saúde para o cuidado e acompanhamento dos seus usuários. Queremos um SUS com essas mudanças. Para isso, estamos propondo esta discussão que tem por objetivo refletir sobre o acesso da população à Atenção Básica, mais especificamente sua vinculação com as equipes das Unidades do Programa de Saúde da Família que participam desta Oficina. Programa de Saúde da Família (PSF) O Programa de Saúde da Família foi concebido pelo Ministério da Saúde em 1994, tendo como objetivo “a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, o que vem possibilitando às equipes do PSF uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas”. As equipes de Saúde da Família podem ser a “Porta de Entrada” do sistema de saúde para a população de suas áreas. Desta forma, é dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, contudo, ao que parece, ainda não há uma real desburocratização do acesso aos serviços, visto que o atendimento às urgências, que é muito importante do ponto de vista do usuário, não vem se mostrando um ponto forte nas Unidades de Saúde da Família. O PSF foi implantado no município de Itaboraí em 2002. Desde então, tem sido uma prioridade da Secretaria Municipal de Saúde a qualificação das equipes das Unidades de Saúde da Família e a sua integração com os demais serviços de saúde do município. Hoje, é importante pensar como as Unidades de Saúde da Família se organizam para serem, de fato, agentes de mudança do modelo assistencial. Pretende-se discutir a partir daí a relação da equipe com a população, a forma como cada equipe se organiza para dar conta das suas necessidades e demandas, e as possibilidades de recriação e reconfiguração deste modelo proposto. Para tanto, utilizamos algumas noções da Política Nacional de Humanização do SUS, que nos dá suporte para esta discussão. Política Nacional de Humanização (PNH) No início de 2003, o Ministério da Saúde (MS) decidiu priorizar o tema da humanização como aspecto fundamental a ser contemplado nas políticas de saúde. Colocava-se não só um desafio, mas principalmente a urgência de revisitar conceitos e práticas nomeadas como humanizadas. Identificada a movimentos religiosos, filantrópicos ou paternalistas, a humanização era menosprezada por grande parte dos gestores, ridicularizada por trabalhadores e demandada pelos usuários. A questão trazia à cena do debate as condições precarizadas de trabalho, as dificuldades de pactuação das diferentes esferas do SUS, o descuido e o descompromisso na assistência ao usuário dos serviços de saúde. O diagnóstico apontava para a complexidade da tarefa de se construir de modo eficaz um sistema público que garantisse acesso universal, equânime e integral a todos os cidadãos brasileiros. A discussão da humanização no campo da saúde não pode se fazer sem que consideremos a maneira como o tema está intrinsecamente ligado ao processo de constituição do Sistema Único de Saúde no Brasil. O SUS é o resultado de lutas pela redemocratização da sociedade brasileira que aconteciam em meio a movimentos de resistência à ditadura militar. No campo da saúde essa resistência se exprimiu, sobretudo, no Movimento da Reforma Sanitária a partir do qual foram formulados os princípios de universalidade, equidade e integralidade da saúde presentes no texto da Constituição de 1988 como direito de qualquer cidadão e como dever do Estado. Por Humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos envolvidos no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a coresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão. Assim, a PNH trabalha, dentre outras questões, a melhoria do acesso do usuário aos serviços de saúde, se utilizando para tanto dos instrumentos destacados a seguir, que serão discutidos com vocês nesta oficina. Acolhimento e Garantia do Acesso Recepção do usuário, desde sua chegada, responsabilizando-se integralmente por ele, ouvindo sua queixa, permitindo que ele expresse suas preocupações, angústias e, ao mesmo tempo, colocando os limites necessários, garantindo atenção resolutiva e a articulação com os outros serviços de saúde para a continuidade da assistência quando necessário. Acolher é dar acolhida, admitir, aceitar, dar ouvidos, dar crédito a, agasalhar, receber, atender, admitir. O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa, em suas várias definições, uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão. Classificação de Risco (ou Avaliação de Risco) Mudança na lógica do atendimento, permitindo que o critério de priorização da atenção seja o agravo à saúde e/ou grau de sofrimento e não mais a ordem de chegada (burocrática). Realizado por profissional da saúde que, baseado em protocolos técnicos definidos pela equipe, identifica os usuários que necessitam de tratamento imediato, considerando o potencial de risco, agravo à saúde ou grau de sofrimento, e providencia de forma ágil o atendimento adequado a cada caso. Agenda Aberta O novo processo de trabalho incorpora, inicialmente, a mudança do fluxo de entrada do usuário ao serviço. Todos têm acesso garantido e são recebidos por uma equipe de acolhimento (de forma individual e sigilosa), formada por enfermeira, auxiliares de enfermagem e médicos. Essa escuta busca recuperar a solidariedade, o vínculo de confiança, de forma humanitária, procurando dar resposta segura às necessidades do usuário. Os atendimentos programados, que já aconteciam na Unidade de Saúde da Família, permanecem agendados, mas os profissionais ficam com parte da agenda aberta para o acolhimento de casos que sejam avaliados e que apresentem necessidade de serem atendidos naquele momento. Assim, a organização do processo de trabalho da equipe assegura o acesso aos seus usuários, estando acordado que o enfermeiro e auxiliar de enfermagem avaliam os casos que chegam à unidade e, se necessário, os encaminha para um atendimento médico. É de fundamental importância que o profissional médico tenha participação ativa neste processo, garantindo a retaguarda dos encaminhamentos e atuando nas avaliações se necessário. É importante que a agenda para marcação de consultas esteja ao alcance dos profissionais da equipe de acolhimento, estando aberta também para marcações posteriores que sejam consideradas necessárias. Equipe Multiprofissional Grupo que se constitui por profissionais de diferentes áreas e saberes (interdisciplinar transdisciplinar). Este grupo se caracteriza pela valorização destes diferentes saberes e pelo exercício de quebra da hierarquia nas relações de trabalho. A equipe se organiza em função dos objetivos/missão de seu serviço de saúde, estabelecendo-se como uma equipe de referência para os usuários desse serviço (população que fica sob a responsabilidade desse grupo/equipe). Rede de Serviços Conjunto de Unidades de diferentes perfis e funções, organizadas de forma articulada, responsáveis por resolver/encaminhar as diferentes demandas de saúde da população. Para que se estabeleça uma rede, é necessário que cada nível do sistema (desde a Atenção Básica aos Hospitais de alta complexidade) resolva os problemas que lhe foram atribuídos e pactue com os demais serviços a melhor forma de encaminhar os casos que a Unidade não consegue dar conta. A resolutividade é ponto fundamental a ser discutido em todas as equipes dos diferentes serviços, para que a rede funcione bem e a articulação entre as Unidades seja efetiva, garantindo não apenas o acesso nominal dos usuários, mas a continuidade do cuidado. O Encontro do Trabalhador de Saúde com o Usuário Em uma Unidade de Saúde, a aproximação entre usuário e trabalhador de saúde promove um encontro, este “ficar em frente um do outro”, um e outro sendo seres humanos, com suas intenções, interpretações, necessidades, razões e sentimentos, mas em situação de desequilíbrio, de habilidades e expectativas diferentes, onde um, o usuário, demanda assistência, em estado físico e/ou emocional fragilizado, junto ao outro, um profissional supostamente capacitado para atender e cuidar da causa de sua fragilidade. Deste modo cria-se um vínculo, gerando uma ligação afetiva e ética entre ambos, numa convivência de ajuda e respeito mútuos. O Uso do Fluxograma Descritor para Análise do Processo de Trabalho O Fluxograma é uma técnica que utiliza a representação gráfica de todas as etapas do processo de trabalho na Unidade de Saúde, servindo para tornar visíveis os caminhos percorridos pelo usuário quando procura assistência e sua inserção no serviço. O Fluxograma permite um olhar agudo sobre os fluxos existentes no momento da produção da assistência à saúde, e permite a detecção de seus problemas. É como se, ao aplicá-lo, lançássemos luz em áreas de sombra até então não percebidas: esta é uma forma de visualizar e registrar o que acontece no trabalho cotidiano. O Fluxograma é representado por quatro símbolos: Elipse - representa sempre a entrada ou saída do usuário no serviço; Losango - indica os momentos em que deve haver uma decisão para a continuidade do trabalho; Retângulo na horizontal usuário. - diz respeito ao momento de intervenção, ação sobre o Retângulo na vertical - representa o cardápio de serviços da Unidade, os procedimentos oferecidos pela mesma. Estes símbolos se ligam por setas indicativas da direção do trabalho e podem ser sinalizadas etapas através de textos curtos. O Fluxograma é um instrumento que revela os impasses do processo de trabalho e as relações estabelecidas nas Unidades de Saúde entre os trabalhadores e desses com os usuários. Referências Bibliográficas: Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Curso de formação de facilitadores de educação permanente em saúde: unidade de aprendizagem - trabalho e relações na produção do cuidado em saúde. O Processo de Trabalho em Saúde. Rio de janeiro: Ministério da Saúde/FIOCRUZ, 2005. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política nacional de Humanização. HumanizaSUS: documento-base da Política Nacional de Humanização para gestores e trabalhadores do SUS. 3ª ed. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política nacional de Humanização. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2ª ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. FRANCO, T. B. & MERHY, E. E. Fluxograma descritor e projetos terapêuticos para análise de serviços de saúde, em apoio ao planejamento: o caso de Luz (MG). In: MERHY, E. E. et. al. O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. São Paulo: HUCITEC, 2003. BARROS, R. B. & PASSOS, E. A humanização como dimensão pública das políticas de saúde. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 561-571, 2005. FRANCO, T. B. & MERHY, E. E. PSF: Contradições e novos desafios. In: Conferência Nacional de Saúde On-Line - Tribuna Livre – http://www.datasus.gov.br/cns. Textos de Apoio O processo de trabalho em saúde Texto adaptado do Curso de Formação de Facilitadores de Educação Permanente em Saúde, Unidade de Aprendizagem: Trabalho e Relações na Produção do Cuidado em Saúde, Ministério da Saúde, 2005. Introdução Ao debatermos o processo de trabalho, pretendemos entrar no mundo espetacular da produção de saúde. O objetivo com esse tema é o de levá-lo a identificar e analisar as diversas situações de trabalho em saúde, os diferentes modos de fazer a assistência aos usuários. O trabalho em saúde refere-se a um mundo próprio, complexo, diverso, criativo, dinâmico, em que cotidianamente usuários se apresentam portadores de algum problema de saúde e buscam, junto aos trabalhadores que ali estão, resolvê-los. O momento do trabalho é ao mesmo tempo de encontro entre esse trabalhador e o usuário. Você já parou para pensar que o trabalho em saúde só é possível mediante o encontro e a relação entre o profissional e o usuário? Esse encontro é permeado pela dor, o sofrimento, os saberes da saúde, as experiências de vida, as práticas assistenciais, subjetividades que afetam os sujeitos trabalhador e usuário. Enfim, há um mundo complexo a ser pesquisado que envolve, sobretudo, a produção do cuidado. Ao executar seu trabalho, os profissionais de saúde obedecem a uma certa disposição física, disciplinadamente organizada, ou seja, há lugares específicos onde certos produtos são realizados. É como se, no serviço, ou seja, em um certo estabelecimento de saúde, houvesse diferentes unidades de produção, por exemplo: na recepção, produzem-se informações, agendas; na sala de vacinas, produzem-se procedimentos de imunização; nos consultórios, são produzidas consultas médicas, de enfermagem; e assim cada lugar tem uma “missão” dentro de um espectro geral de cuidado com os usuários. Tudo isso entra em movimento durante o período em que o serviço está disponível para atender às pessoas que procuram, por algum motivo, resolver ali os seus problemas de saúde. Os trabalhadores de cada lugar destes executam certas tarefas, que se presume tenham sido previamente determinadas ou pactuadas entre eles, pois se busca uma sintonia entre o que uns fazem em determinado lugar, por exemplo, na recepção, e o que os outros realizam em outros ambientes, muitas vezes, reportando-se uns aos outros. Há um relacionamento, no trabalho, entre todos os profissionais como o funcionamento de uma “rede de conversas”, mediada pelo trabalho. O trabalho em saúde e suas tecnologias O trabalho é uma atividade que tem sempre uma finalidade para que ele se realize, a qual está ligada ao atendimento à determinada necessidade da pessoa, seja ela de que tipo for. Os produtos criados com a atividade do trabalho, nessa perspectiva, têm um “valor de uso” (Campos, 1994). No caso da saúde, Cecílio (2001) sugere que as necessidades estão organizadas em quatro grandes grupos: “O primeiro diz respeito a ter boas condições de vida [...]; O outro conjunto fala da necessidade de se ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida [...]; O terceiro diz respeito à insubstituível criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional [...]; Um quarto diz respeito à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida”. (Cecílio, 2001:114-115; grifos nossos). Podemos concluir que as atividades ligadas à promoção e prevenção, reabilitação e cura estão todas de alguma forma relacionadas nos grupos de necessidades descritos acima. Esses conjuntos de necessidades aqui relacionados demonstram que os problemas de saúde são sempre complexos, porque envolvem inúmeras dimensões da vida, desde as que se circunscrevem no corpo até as de ordem social e subjetiva. O trabalho em saúde, por sua vez, para ser eficaz, deve responder a essa complexidade e dar sentido à intervenção nos diversos campos da saúde. Abre-se aqui um leque de possibilidades de uso de diversas tecnologias de trabalho para a produção do cuidado. Mas, afinal, você já parou para pensar o que é tecnologia? Você acha que no seu trabalho cotidiano você utiliza tecnologias? Vamos nos debruçar um pouco sobre esse termo e ver qual o verdadeiro sentido que ele tem para o trabalho em saúde. Em geral, as pessoas associam a palavra tecnologia a máquinas e instrumentos, geralmente os mais modernos. Se foi isso que você pensou, não está errado, mas também não está completo esse raciocínio. Para iniciar a discussão sobre as tecnologias de trabalho em saúde, vamos ao dicionário verificar o sentido literal do termo. Ele nos diz que tecnologia é o “conjunto de conhecimentos, [...] que se aplicam a um determinado ramo de atividade” (Holanda, 1999). Ou seja, é conhecimento aplicado, o que pressupõe que toda atividade produtiva traz, em si, um saber que é utilizado para executar determinadas tarefas que vão levar à criação de algo, ou seja, à realização de certos produtos. Na indústria, as tecnologias estão inscritas nas máquinas que, na maioria das vezes, dominam o cenário produtivo, mas estão presentes também no conhecimento do trabalhador, utilizado para operar essas máquinas e produzir inúmeras coisas, tais como sapatos, roupas, carros etc. Esses produtos serão consumidos, em algum momento futuro, por alguém que o produtor (o operário que fez o sapato) provavelmente jamais vai conhecer, isto é, quem produz não interage com o consumidor do seu produto. Chamo a sua atenção para o fato de que, nesse curto parágrafo, enquanto falamos da produção industrial, mencionamos dois tipos de tecnologia: a primeira, que está inscrita nas máquinas utilizadas no processo produtivo; e a segunda, que está na habilidade do operário definida pelo seu conhecimento técnico em relação ao produto, materiais, processo produtivo, operação da máquina etc. No caso da saúde, diferente da indústria, o trabalhador que faz a assistência, podendo ser o enfermeiro, médico, dentista, psicólogo, auxiliar ou técnico de enfermagem, entre muitos outros, são os produtores da saúde e nessa condição interagem com o consumidor (usuário), enquanto estão produzindo os procedimentos. Mais do que isso, esses serão consumidos pelo usuário no exato momento em que são produzidos. Por exemplo: ao fazer um curativo, a auxiliar de enfermagem está produzindo algo, o curativo, em relação com o consumidor desse produto, o usuário, que o consome nesse exato momento. Isso determina uma característica fundamental do trabalho em saúde, a de que ele é relacional, isto é, acontece mediante a relação entre um trabalhador e o usuário, seja ele individual ou coletivo. Por exemplo, a consulta só se realiza, quando o profissional de saúde está diante do usuário e, assim, com os demais atos produtores de procedimentos, tais como o curativo, a vacina, os diversos tipos de exames, atos cirúrgicos, reuniões de grupos, visitas domiciliares etc. Podemos dizer que na saúde, além dos dois tipos de tecnologia já identificados nos processos produtivos, as que estão inscritas nas máquinas e no conhecimento técnico, há uma outra absolutamente fundamental, que é a tecnologia das relações. O que significa que para estabelecer relações de assistência e cuidado à saúde, é necessário um conhecimento que seja aplicado para essa finalidade, porque não são relações como outra qualquer, ela tem uma certa finalidade que é a saúde. Esse debate das tecnologias de trabalho em saúde vem sendo realizado mais sistematicamente há alguns anos, em um primeiro momento por Ricardo Bruno Mendes Gonçalves (1994) que fez a diferenciação entre as tecnologias que estão inscritas nas máquinas e instrumentos de trabalho e aquelas do conhecimento técnico, tendo o autor chamado as primeiras de “tecnologias materiais” e as outras de “tecnologias não materiais”. Essa primeira diferenciação foi importante por reconhecer o conhecimento como tecnologia e coloca, no centro do debate do trabalho e produção da saúde, os sujeitos sociais portadores de conhecimento, que são os trabalhadores/produtores de saúde e, por excelência, aqueles que têm a capacidade de ofertar uma assistência de qualidade. Sem descartar a importância que têm as máquinas e instrumentos que auxiliam no trabalho em saúde, na definição de diagnóstico e nas terapias, importa registrar que o trabalho humano é absolutamente fundamental e insubstituível. Para você notar o quanto isso é relevante para a produção da saúde, procure lembrar-se de alguma situação em que houve incorporação de novas tecnologias assistenciais no trabalho em saúde e isso tenha acarretado redução de postos de trabalho, como geralmente acontece na área industrial. Não há situação como essa, a não ser em algumas exceções na área de laboratórios. De resto, mantêm-se os postos de trabalho, porque é a pessoa quem de fato realiza o cuidado aos usuários e, interagindo com o mesmo, ambos são capazes de impactar seu estado de saúde. Dando continuidade aos estudos na área, Merhy (1997), ao descrever sobre a produção do cuidado e suas tecnologias, estabeleceu três categorias para tecnologias de trabalho em saúde. Chamou de “tecnologias duras” as que estão inscritas nas máquinas e instrumentos e têm esse nome porque já estão programadas a priori para a produção de certos produtos; de “leve-duras” as que se referem ao conhecimento técnico, por ter uma parte dura que é a técnica, definida anteriormente, e uma leve, que é o modo próprio como o trabalhador a aplica, podendo assumir formas diferentes dependendo sempre de como cada um trabalha e cuida do usuário; e “tecnologias leves” que dizem respeito às relações que, de acordo com o autor, são fundamentais para a produção do cuidado e se referem a um jeito ou atitude próprios do profissional que é guiado por uma certa intencionalidade vinculada ao campo cuidador, ao seu modo de ser, à sua subjetividade. São tecnologias, também, porque dizem respeito a um saber, isto é, competências para os trabalhadores de saúde lidarem com os aspectos relacionais que envolvem os atos produtivos, como já foi citado anteriormente. Para começar a entender como a organização do trabalho influencia o modo de se organizar o cuidado aos usuários, é necessário verificar qual das três tecnologias tem prevalência sobre o processo de trabalho, no momento em que o trabalhador está assistindo os usuários. O Trabalho Vivo em ato e o Processo de Trabalho em Saúde Como você pôde ver nas observações que fez do processo de trabalho, há situações em que o mesmo é dominado pela “tecnologia dura” e/ou “leve-dura”, ou seja, o trabalhador valoriza mais o instrumento que tem à mão, do que a atitude acolhedora que pode e deve ter em relação ao usuário, quando faz o atendimento. Isso significa que, muitas vezes, a relação, o diálogo e a escuta são colocados em segundo plano, para dar lugar a um processo de trabalho centrado no formulário, protocolos, procedimentos, como se esses fossem um fim em si mesmos. O resultado último que se pretende é o de reduzir o sofrimento, melhorar a qualidade de vida, criar autonomia nas pessoas para viverem a vida. Imaginemos que há sempre várias formas de se comportar com o usuário durante o trabalho de assistência à saúde. Por exemplo, pense em um trabalhador fazendo uma anamnese. Ele pode fazer essa atividade de duas formas distintas, quais sejam: 1º – O profissional pega um roteiro/questionário, mal cumprimenta o usuário e começa a fazer as perguntas, olhando e anotando no questionário à sua frente. Restringe-se às perguntas, age de modo formal, distante e frio. 2º – O profissional pode ter o roteiro/questionário que lhe serve de guia, mas abre espaço para a fala e a escuta do usuário sobre aspectos não roteirizados, realiza uma introdução que o deixa mais à vontade, a fala não se restringe às perguntas do questionário, troca olhares, interage, discute os problemas percebidos, qualifica a atenção e o cuidado. No primeiro caso, podemos dizer que o processo de trabalho de produção da anamnese foi dominado pela tecnologia dura representada nesse ato pelo instrumento roteiro/questionário. Houve uma substituição dos atos de fala e escuta, para a linguagem fria do texto do roteiro, ao qual o trabalhador ficou preso. Isso reduziu de alguma maneira o aspecto relacional desse trabalho. Já no segundo caso, o aspecto relacional é valorizado, isto é, há o domínio da tecnologia leve no processo de trabalho, servindo o instrumento apenas como seu auxílio. Nesse caso, a relação entre trabalhador e usuário torna-se dinâmica, há valorização dos gestos mútuos de cuidado e produção da saúde. Mas o que torna o trabalho, quando realizado de forma centrada nas tecnologias leves, mais produtivo e interessante para o usuário e o trabalhador de saúde? Que aspectos vão se organizando para que ele ganhe essa dinâmica e maior resolutividade? De novo nos valemos de Merhy (1997, 2002) para dizer que as tecnologias leves são aquelas mais dependentes do Trabalho Vivo em ato. Ao ler a expressão acima, seria natural que você se dividisse entre dois sentimentos: o da sua beleza “trabalho vivo” e a curiosidade em relação ao seu significado. Estaria se perguntando: e há trabalho morto? A resposta é sim, há trabalho morto e vamos falar de ambos a seguir. Trabalho Vivo é a expressão que dá significado ao trabalho em ato, isto é, no exato momento da sua atividade produtiva (Merhy; 1997, 2002; Franco, 2003). Trabalho morto são máquinas e instrumentos possuem esse nome porque sobre as máquinas e instrumentos existentes já se aplicou determinado trabalho anterior, ou seja, eles já trazem uma carga de trabalho pregresso, que lhes deu forma e função. Quando o processo de trabalho é comandado pelo trabalho vivo, o trabalhador tem uma grande margem de liberdade para ser criativo, relacionar-se com o usuário, experimentar soluções para os problemas que aparecem e, o que é mais importante, interagir, inserir o usuário no processo de produção da sua própria saúde, fazendo-o sujeito, isto é, protagonista de seu processo saúde-doença. Já quando hegemonizado pelo trabalho morto, o processo de trabalho é pré-programado, porque fica sob o comando dos instrumentos, age como se ele fizesse um aprisionamento do trabalho vivo, limitando a ação do trabalhador àquilo que já foi determinado pela programação da máquina, protocolo, formulário etc. Aqui há pouca interação entre trabalhador e usuário, construção de sujeitos nesse encontro realizado para produzir o cuidado. Há apenas um processo frio e duro de produção de procedimentos. Toda atividade produtiva envolve sempre o Trabalho Morto e o Trabalho Vivo em ato, para que se realizem os produtos desejados. No processo de trabalho, um deles tem a hegemonia e determina, no caso da saúde, o perfil da assistência. Voltando ao nosso exemplo, em que um trabalhador de saúde vai fazer uma anamnese, podemos dizer que o roteiro/questionário é trabalho morto e os atos de fala, escuta, olhares são trabalho vivo em ato. Quando o roteiro comanda o processo de trabalho (1º caso), podemos dizer que é um processo de trabalho que tem hegemonia do trabalho morto e é dependente das tecnologias duras. Quando há o inverso (2º caso), há hegemonia do trabalho vivo, lugar próprio das tecnologias leves. A Composição Técnica do Trabalho – CTT1 e Micropolítica Talvez você se pergunte: E como eu sei quando o processo de trabalho está centrado no Trabalho Morto ou no Trabalho Vivo em ato? Pela observação do modo como o profissional age com o usuário, pela atitude frente ao problema de saúde, é possível perceber se suas ações são cuidadoras ou não. À razão entre o Trabalho Morto e Trabalho Vivo no interior do processo de trabalho, chamamos de Composição Técnica do Trabalho (Franco, 2003). Ela serve para analisar o processo de trabalho, como já foi dito aqui, através da sua observação e a percepção de como se dá o trabalho, a atitude do profissional, a sua implicação com o problema de saúde do usuário e o protagonismo desse diante da sua própria forma de fazer a assistência à saúde. É uma percepção, não quantificável, do modo de produção do cuidado. Quanto maior a hegemonia do Trabalho Vivo nesse processo, maior é o nível de cuidado que se tem com o usuário. Importa registrar que um processo de trabalho, para ter maior volume de Trabalho Morto ou Trabalho Vivo implicado com o mesmo, depende do próprio trabalhador. Essa afirmação tem por base uma característica fundamental do processo de trabalho em saúde: a de que o trabalhador possui um razoável autogoverno sobre o seu processo de trabalho, isto é, ele comanda o modo como vai se dar a assistência. Se essa acontece por parâmetros humanitários, com atitudes acolhedoras, ou ao contrário, de forma burocrática e sumária, é determinada por quem está em ato, na relação com o usuário, no caso, o próprio trabalhador. O espaço de trabalho, onde há realizações impulsionadas pela prática de cada um, é o lugar da micropolítica, para o caso que estamos vendo, de produção de saúde. E o que é a micropolítica? É o protagonismo dos trabalhadores e usuários da saúde, nos seus espaços de trabalho e relações, guiado por diversos interesses, os quais organizam suas práticas e ações na saúde. Assim o espaço da micropolítica não é uno, é múltiplo de quantas identidades se inscreverem nesse lugar, como sujeitos que pretendem realizar seus 1 A Composição Técnica do Trabalho – CTT a razão entre o Trabalho Morto e Trabalho Vivo presente no núcleo tecnológico de produção do cuidado, do processo de trabalho. (Franco, 2003). projetos, sejam eles identificados com o campo individual ou coletivo; privado ou público; cuidador ou não cuidador; enfim, é aí que se define de fato o perfil da assistência, porque é nesse lugar que se dá o trabalho em saúde. Os processos de produção da saúde mais tradicionais organizam campos de ação no espaço da micropolítica, estruturando processos produtivos centrados no instrumental e nas normas dependente do trabalho morto, como formas de garantir maior produção de procedimentos. Isso foi construído historicamente, através da prevalência dos interesses da indústria de medicamentos e equipamentos biomédicos na determinação dos desenhos organizativos da atenção em saúde, que operam criando uma consciência e subjetividade entre os diversos profissionais, que dá formação ao imaginário de que a qualidade da assistência está vinculada ao uso das tecnologias duras e leve-duras, isto é, equipamentos e conhecimento especializado. Isso acontece com uma anamnese, como já informamos, como também em relação a consultas, em que o profissional prioriza a prescrição de procedimentos e praticamente anula os atos de fala, escuta, toque, relações, que são próprios da clínica, ou qualquer outro procedimento que se realiza. O mesmo repete-se em reuniões de grupo, onde predomina a fala técnica, centrada no profissional e não se abre para a escuta dos usuários portadores de algum problema crônico de saúde, e que têm a necessidade de falar das suas angústias, dos estigmas da doença, dos processos existenciais os quais impactam seu modo de estar no mundo. O processo de trabalho centrado na norma e no protocolo (trabalho morto) reduz sobremaneira o campo de cuidado aos usuários. A micropolítica é o lugar onde se manifesta e se produz a subjetividade. E o que é a subjetividade? É um modo próprio e específico de ser e atuar no mundo e em relação com os demais. Vale dizer que a subjetividade é dinâmica, muda de acordo com as experiências de cada um, é afetada pelos valores e cultura que a pessoa vai internalizando ao longo da vida e do tempo. Ela é produzida socialmente e nunca está acabada. A história e as experiências de vida, as relações com grupos ou indivíduos disparam mudanças no jeito de ser e agir de cada um, o que chamamos de “processos de subjetivações” que vão mudando as pessoas, ou seja, produzindo novas subjetividades. O trabalho é uma das experiências mais ricas que uma pessoa tem e,por isso, ele produz nela novas formas de entender e agir no mundo e com as outras pessoas. A isso chamamos de “nova subjetividade”. Ao produzir coisas e serviços, como o de assistência à saúde por exemplo, o sujeito produz a si mesmo. Um dos efeitos em se tornar sujeito é o de ganhar maior capacidade de intervir sobre a realidade, ser protagonista de mudanças sociais, coletivas e individuais. A personagem de Guimarães Rosa, Riobaldo Tatarana, nos fala da sua percepção de toda essa questão, de uma forma clara:“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão”. (Riobaldo Tatarana em Grande Sertão: Veredas; João Guimarães Rosa) As afirmações de que “as pessoas não estão sempre iguais... não foram terminadas” e “elas vão sempre mudando” expressa muito bem algo que existe em cada um e que o diferencia dos demais, tornando-o singular, ao mesmo tempo em que afirma que isto é uma construção perene. Muito se tem discutido sobre o tema da subjetividade e o modo como influencia a forma de as pessoas enxergarem e atuarem no mundo. A questão é universal, atravessa os tempos. A subjetividade impulsiona a pessoa a atuar no ambiente da micropolítica. Micropolítica é a “arte ou ciência de governar” que cada um tem, seus próprios espaços de trabalho, relações, enfim, de vida. Um dos espaços onde isso se dá, é no lugar onde a pessoa trabalha e produz. Ela faz isso de acordo com certo sentido, isto é, determinados fins os quais considera mais adequados aos seus interesses ou desejos. Foi tentando encontrar sentidos para a subjetividade e seu impacto na formação do campo social, que o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari definiu que a subjetividade pode ser “solidária”, baseada em valores societários, humanitários e de cidadania, que levem à construção de um mundo novo; e pode ser “capitalística”, quando opera a partir dos objetivos privados e individuais, reproduzindo as muitas formas de enquadramento das pessoas nas normas sociais vigentes (Guattari, 1998). Por exemplo, um profissional que tem um grande conhecimento técnico em uma determinada área, ao cuidar do usuário, pode se relacionar com ele de forma impessoal, sumária e burocrática; já outro profissional, igualmente conhecedor dos problemas de saúde, pode estabelecer relações humanizadas e acolhedoras com os usuários. Veja bem, mesmo equiparando-se tecnicamente, os dois profissionais têm atitudes completamente diferentes e o que determina seu modo de ser, quando realiza a assistência ao usuário, não é uma lei ou norma do serviço, isto é, não há uma racionalidade guiando seu comportamento, é sua subjetividade que atua quando ele está trabalhando, determinando assim o seu modo de agir perante o usuário e seu problema de saúde. E não é apenas o profissional que tem uma certa subjetividade quando está em serviço, mas o usuário também traz uma história de vida, de relações, conhecimento acumulado, uma dada cultura, enfim, inúmeros fatores que determinam seu modo próprio de ver e atuar no mundo. Como a assistência à saúde se dá a partir do encontro dos dois, trabalhador e usuário, ambas as subjetividades podem influenciar um ao outro mutuamente. É como se essa relação que se estabelece para a produção do cuidado criasse uma situação em que um afeta ao outro com toda a carga de subjetividade que têm, permeando o processo de trabalho no exato momento em que se dá a assistência. Mas para que isso ocorra, é necessário haver espaço de conversas entre ambos, o que não ocorre em um processo de trabalho que é sumário e burocrático e trata o usuário como um objeto sobre o qual deve ser realizado um procedimento a fim de reabilitar seu corpo doente, e ponto. A relação produtiva mesmo só vai acontecer se o usuário for tratado como sujeito, que pode ser ele também um protagonista do seu processo saúde-doença. Mas será que o processo de trabalho em determinado estabelecimento de saúde é sempre ou de um jeito, centrado nos instrumentos e normas; ou de outro jeito, nas relações? É possível haver estabelecimentos de saúde onde haja uma mistura entre as duas formas de agir no cuidado aos usuários? Vou deixar essas perguntas para você responder. Para isso, pode usar uma ferramenta apropriada para análise do processo de trabalho que é o Fluxograma Descritor, descrito abaixo. O Uso do Fluxograma Descritor para Análise do Processo de Trabalho Segundo Franco & Merhy (2003), o Fluxograma é uma representação gráfica de todas as etapas do processo de trabalho. É uma forma de olhar o que acontece na operacionalização do trabalho no cotidiano. Ele é representado por três símbolos, convencionados universalmente: A elipse, representa sempre a entrada ou saída do processo de produção de serviços; o losango, indica os momentos em que deve haver uma decisão para a continuidade do trabalho e um retângulo, diz respeito ao momento de intervenção, ação, sobre o processo. Procura-se, com o Fluxograma, interrogar a micropolítica da organização do serviço de saúde e, assim, revelar as relações ali estabelecidas entre os trabalhadores e desses com os usuários, os nós-críticos do processo de trabalho, o jogo de interesses, poder e os processos decisórios. Pretende-se, assim, ao retratar todos processos e interesses implicados na organização do serviço, revelar áreas de sombra que não estão claras e explícitas para os trabalhadores e gestores do serviço. Para aqueles que queiram aplicar o fluxograma em uma Equipe de Saúde da Família ou Unidade de Saúde, descrevemos abaixo algumas dicas que ajudam nisso. Mas, lembrese, cada caso deve ser tratado com especificidade, então isso que está aqui deve ser adaptado à situação específica. 1. Reúna a equipe de Saúde da Família ou da Unidade Básica de Saúde. É importante que o fluxograma descritor do processo de trabalho seja elaborado coletivamente, porque quem mais conhece e entende o processo de trabalho é quem está efetivamente trabalhando; 2. Coloque sobre a parede (pregue com fita crepe) folhas de papel pardo sobre os quais vai ser desenhado o fluxograma. É importante que todos estejam visualizando sua construção para facilitar a compreensão do processo de trabalho; 3. Inicie a conversa com a equipe perguntando sobre o acesso do usuário ao serviço. Vá anotando no papel a expressão gráfica desse acesso; 4. Em seguida, interrogue o pessoal que trabalha na recepção e assim, sucessivamente, vá solicitando à equipe que relate o processo de trabalho, segundo os itinerários que são feitos pelo usuário quando busca assistência nesse serviço; 5. Ao final, é importante fazer uma revisão desse caminho, retomando o processo de trabalho novamente. Há sempre alguma coisa para ser mudada ou que foi esquecida. A revisão ajuda a aperfeiçoar o fluxograma. Encerramos aqui a discussão sobre o processo de trabalho em saúde, deixando claro que esse é o início de um longo e duradouro debate sobre o tema, ao qual você deve estar atento e aberto a perceber novidades na área. Elas sempre aparecem, pois é um campo fértil e aberto para novos arranjos na organização do trabalho em saúde. Referências Bibliográficas: HOLANDA, A B. Novo Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999. CAMPOS, G.W.S. A Saúde Pública e a Defesa da Vida. S. Paulo: Hucitec, 1994. CECÍLIO, L.C.O. As Necessidades de Saúde como Conceito Estruturante na Luta pela Integralidade e Eqüyidade na Atenção em Saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, ABRASCO; 2001. FRANCO, T.B. Reestruturação Produtiva e Transição Tecnológica na Saúde: um olhar a partir do Sistema Cartão Nacional de Saúde. (Tese de Doutorado). DMPS/UNICAMP: Campinas (SP), 2003. FRANCO, T. B. Merhy, E. E. O uso de ferramentas analisadoras dos serviços de saúde: o caso do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP. In: MERHY, E.E. et. al. O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. São Paulo: HUCITEC, 2003. GONÇALVES, R.B.M. Tecnologia e Organização Social das Práticas de Saúde. São Paulo: HUCITEC, 1994. GUATTARI, F. Caosmose. São Paulo: EDITORA 34, 1998. MERHY, E. E. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do Trabalho Vivo em saúde. In: MERHY, E. E.; ONOCKO, R. (Org.), Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo: Hucitec, 1997. MERHY, E. E. Saúde: a cartografia do Trabalho Vivo. São Paulo: Hucitec, 2002. PSF: Contradições e novos desafios Túlio Franco e Emerson Merhy Resumo O Programa de Saúde da Família é hoje uma das principais respostas do Ministério da Saúde à crise vivida no setor. Um estudo comparativo do PSF com a Medicina Comunitária e as Ações Primárias de Saúde (Alma Ata, 1978) mostra similaridades entre as três propostas, que se organizam a partir de um ideal racionalizador e operam através do núcleo teórico da epidemiologia e vigilância à saúde. O atual modelo de assistência à saúde, se caracteriza como "produtor de procedimentos", visto que a produção de serviços se dá a partir da clínica exercida pelo médico o qual utiliza principalmente as tecnologias duras/leveduras. O PSF, ao resumir sua ação à vigilância à saúde, com tímida incursão na clínica, não tem potência para reverter esta configuração do Modelo Médico Hegemônico. Para um modelo assistencial centrado no usuário, propõe-se um processo de trabalho multiprofissional e determinado por tecnologias leves/leveduras, com a "produção do cuidado", entendido enquanto ações de Acolhimento, Vínculo, Autonomização e Resolução. Palavras-Chave: Programa de Saúde da Família, PSF, Modelo Assistencial, Gestão, Planejamento, Processo de Trabalho. Introdução O Programa de Saúde da Família - PSF - foi concebido pelo Ministério da Saúde em 1994, com o objetivo de proceder "a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, o que vem possibilitando às equipes da Família uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas". O mesmo documento, elenca os princípios sob os quais a Unidade de Saúde da Família atua, quais sejam: “Caráter substitutivo”: substituição as práticas convencionais de assistência por um novo processo de trabalho, centrado na vigilância à saúde; Integralidade e Hierarquização: A Unidade de Saúde da Família está inserida no primeiro nível de ações e serviços do sistema local de saúde. Territorialização e adscrição da clientela: trabalha com território de abrangência definido. Equipe multiprofissional: A equipe de Saúde da Família é composta minimamente por um médico generalista ou médico de família, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e de quatro a seis agentes comunitários de saúde (ACS). Este artigo se propõe a uma análise do Programa de Saúde da Família, a partir do processo e das tecnologias de trabalho em saúde, como território dos fazeres e portanto, produtor do cuidado em saúde, em busca de uma compreensão de suas possibilidades e limites. Serão descritas a estrutura e organização do Programa, no sentido de desvendar o núcleo epistemológico que alimenta o PSF e seu campo operativo. Pretendendo-se ao final esboçar uma idéia geral sobre o perfil do PSF e sua inserção na arena de disputas de projetos para a implementação do Sistema Único de Saúde, no Brasil. E procurar entender, nesse jogo, qual é a aposta do PSF? O Programa de Saúde da Família tem potência para mudar o modelo tecnoassistencial para a saúde, como ele se propõe? PSF: Territorialização, Adscrição de Clientela. Discutindo seu núcleo estrutural. O PSF tem sua matriz teórica circunscrita prioritariamente ao campo da vigilância à saúde. Sendo assim, seu trabalho está quase que restritivamente centrado no território, de acordo com as concepções desenvolvidas pela Organização Pan-Americana de Saúde. Isto significa que em grande medida a normatização do programa inspira-se nos cuidados a serem oferecidos para ações no ambiente. Não dá muito valor ao conjunto da prática clínica, nem toma como desafio a necessidade de sua ampliação na abordagem individual nela inscrita, no que se refere a sua atenção singular, necessária para os casos em que os processos mórbidos já se instalaram, diminuindo "as autonomias nos modos de se andar a vida" (Campos, 1992, e Merhy, 1998). Desta forma o PSF desarticula sua potência transformadora, aprisionando o trabalho vivo em ato, em saúde, em normas e regulamentos definidos conforme o ideal da vigilância à saúde, transformando suas práticas em "trabalho morto" dependentes. Assim, como a Medicina Comunitária e os Cuidados Primários em Saúde, ao não se dispor a atuar também na direção da clínica, dando-lhe real valor com propostas ousadas como a da "clínica ampliada", age como linha auxiliar do Modelo Médico Hegemônico. É como se o PSF estivesse delimitando os terrenos de competência entre ele e a corporação médica: "da saúde coletiva, cuidamos nós o PSF; da saúde individual cuidam vocês, a corporação médica". E, nada é melhor para o projeto neoliberal privatista, do que isso, pois deixa-se um dos cenários de luta vitais para a conformação dos modelos de atenção sem disputa anti-hegemônica. Gastão W. S. Campos, propõe a estruturação de equipes multiprofissionais, às quais se adscrevem um dado número de usuários. Esta organização justifica-se em dois sentidos: o de "quebrar a costumeira divisão do processo de trabalho em saúde segundo recortes verticais, compondo segmentos estanques por categorias profissionais" (...) "responsabilizar cada uma dessas equipes por um conjunto de problemas muito bem delimitados e pelo planejamento e execução de ações capazes de resolvê-los, o que ocorreria por meio da vinculação de cada equipe a um certo número de pacientes previamente inscritos, do atendimento de uma certa parcela da demanda que espontaneamente procura a unidade, bem como pela responsabilidade em relação aos problemas coletivos" (Campos; 1992:153). O Programa de Saúde da Família adota a diretriz de vínculo e propõe a adscrição de clientela, de 600 a 1.000 famílias, em um determinado território, que se adscrevem a uma equipe composta por 1 médico, 1 enfermeira, 1 auxiliar de enfermagem e 5 agentes comunitários de saúde. Esta equipe passa a ser a "Porta de Entrada" do serviço de saúde, não tendo o programa um esquema para atendimento da demanda espontânea. É dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, e essa mudança deve se caracterizar quando tiver um modelo que seja usuário-centrado. Contudo, ao que parece, não há uma real desburocratização do acesso aos serviços, visto que o atendimento às urgências, que é muito importante do ponto de vista do usuário, não torna-se ponto forte de sua agenda de trabalho. Os serviços que não conseguem criar esta agenda, tem se mostrado como de baixa credibilidade para os usuários (Chakkour et al., 1992). Assim, o PSF parece cometer um erro de saída. Estrutura e organização do PSF Dentre os diversos problemas verificados na proposta do PSF, enquanto "estratégia de mudança do modelo assistencial", pode-se de modo sistemático, apontar o seguinte: A idéia, que já se descreveu, de que esteja mais voltado para ações as de natureza "higienistas", do que as de cunho "sanitaristas", não dando valor e importância suficientes a uma rede básica assistencial, integrada ao sistema de saúde, ganha um grande destaque por tornar-se uma perspectiva muito polêmica em um país como o Brasil, pois ao se verificar, que de acordo com dados do Ministério da Saúde de 1998, há no país 55.647 Unidades Ambulatoriais, das quais 31.342 constituem-se de Unidades Básicas de Saúde, o que fazer com esta ampla e capilar rede de serviços, locais. No Brasil, há em média uma Unidade Básica para cada 5.424 habitantes, valor muito melhor do que o recomendado pela OMS, que é de uma UBS para cada 20.000 habitantes. Esta rede, construída ao longo da história da saúde pública neste país, oferece um equipamento importante para operar a assistência à saúde e deve necessariamente ser considerado para a organização de um novo modelo assistencial. Sobre a organização e forma de trabalho da equipe, embora o trabalho esteja direcionado para práticas multiprofissionais, nada garante nas estratégias do PSF que haverá ruptura com a dinâmica medicocentrada, do modelo hegemônico atual. Não há dispositivos potentes para isso, porque o Programa aposta em uma mudança centrada na estrutura, ou seja, o desenho sob o qual opera o serviço, mas não opera de modo amplo nos microprocessos do trabalho em saúde, nos fazeres do cotidiano de cada profissional, que em última instância é o que define o perfil da assistência. As visitas domiciliares, não devem ser vistas como novidade e exclusivas do PSF, porque é um recurso que deve ser utilizado por qualquer estabelecimento de saúde, desde que isto seja necessário, e já vem sendo uma prática de várias redes de serviços não organizados sob esta modalidade, inclusive mostrando bons resultados. É próprio da missão das Unidades de Saúde e deve ser considerado um expediente rotineiro em serviços assistenciais. O fato de realizá-las não significa que o médico tenha abandonado sua prática "procedimento centrada" e nem mesmo que o trabalho dos outros profissionais deixem de ser estruturados pelos atos e saberes médicos. Estes são problemas de outras ordens, como está se tentando mostrar neste artigo. Outra questão central, diz respeito ao fato dos seus mentores considerarem que podem organizar e estruturar a demanda de serviços das UBS, a partir exclusivamente de usuários que devem ser referenciados pelas equipes do PSF. Desta forma, elimina a possibilidade de atendimento a demanda espontânea, o que se constitui em uma doce ilusão. A população continua recorrendo aos serviços de saúde em situações de sofrimentos e angústias, e não havendo um esquema para atendê-la e dar uma resposta satisfatória aos seus problemas agudos de saúde, vão desembocar nas Unidades de Pronto Atendimento e Prontos Socorros, como usualmente acontece. Este é um erro estratégico na implantação do PSF, o que enfraquece em demasia sua proposição, visto que a população acaba por forçar a organização de serviços com modelagens mais comprometidas com os projetos médico-hegemônicos, para responderem as suas necessidades imediatas. As visitas domiciliares compulsórias, indicam dois tipos de problemas muito graves, por sinal: um, diz respeito a otimização dos recursos disponíveis para assistência à saúde, pelo programa, principalmente de seus recursos humanos. Não deveria ser recomendado que profissionais façam visitas domiciliares, sem que haja uma indicação explícita para elas, a exceção dos trabalhadores que têm a função específica da vigilância à saúde, como por exemplo, os agentes comunitários de saúde, que devem percorrer o território insistentemente. Mas, pode-se considerar uma diretriz pouco eficiente, a visitação de médicos e enfermeiros por exemplo, sem que o mesmo nem mesmo saiba o que vai fazer em determinado domicílio. Um outro aspecto, da visita domiciliar compulsória, diz respeito ao fato de que isto, pode significar uma excessiva intromissão do estado na vida das pessoas, limitando sobremaneira seu grau de privacidade e liberdade. O controle que o estado pode exercer sobre cada cidadão, é reconhecido como problema e fica mais evidente, ao se pensar este tipo de diretriz sendo praticado em um país sob governo autoritário, o quanto não há um cunho trágico nisso. Uma questão muito sentida, principalmente a partir de relatos de pequenos municípios, diz respeito aos custos/financiamento do programa. O PSF trabalha com a idéia de que altos salários garantem bons atendimentos, viabilizando o trabalho diferenciado do médico e permitindo a sua "interiorização". Sem desconsiderar a importância de remuneração satisfatória dos profissionais de saúde, é um equívoco pensar que isto por si só, como muitas vezes esta diretriz tem sido assimilada, garante um atendimento acolhedor, com compromisso dos profissionais na resolução dos problemas de saúde dos usuários. O modo de assistir as pessoas, está mais ligado a uma determinada concepção de trabalho em saúde, a construção de uma nova subjetividade em cada profissional e usuário. Vinculase inclusive a determinação de uma relação nova, que foge ao padrão tradicional onde um é sujeito no processo e o outro o objeto sobre o qual há uma intervenção para a melhora da sua saúde. A nova relação tem que se dá entre sujeitos, onde tanto o profissional quanto o usuário podem ser produtores de saúde. O PSF mitifica o generalista, como se este profissional, ou melhor, esta "especialidade" médica conseguisse por si só implementar novas práticas de saúde junto à população. De acordo com dados da pesquisa "Perfil dos Médicos do Brasil", realizada pela Fiocruz/FCM em 1995, de 183.052 médicos registrados nos Conselhos de Medicina, 2,6% são especializados em Medicina Geral e Comunitária, enquanto em pediatria - 13,4%; gineco-obstetrícia - 11,8% e em medicina interna - 8,0%. Seria mais adequado um modelo de assistência que absorvesse com mais naturalidade estes profissionais, inserindo-os em novas práticas, dando-lhes oportunidades de adquirir novos conhecimentos e operar novos fazeres. Isto seria a construção de sujeitos plenos, capazes de liberar sua energia criativa no trabalho vivo que cada um é capaz de operar em outra modelagem assistencial. De acordo com Campos et all, a especialidade médica se circunscreve ao "núcleo de competência, que incluiria as atribuições exclusivas daquela especialidade", contudo o médico detém ainda uma certa tecnologia de trabalho, que lhe dá maior amplitude de ação, o qual o autor denomina de "campo de competência, que incluiria os principais saberes da especialidade-raiz e que, portanto, teria um espaço de sobreposição de exercício profissional com outras especialidades, ... seria um campo de interseção com outras áreas". (Campos; Chakkour; Carvalho; 1997:143). Merhy descreve que a produção do cuidado em saúde requer tanto o acesso às tecnologias necessárias (duras, leveduras e leves), comandadas pelas tecnologias leves, como por outro lado, pressupõe o uso dos diversos conhecimentos que cada profissional de saúde detêm, articulando de forma exata "seus núcleos de competência específicos, com a dimensão de cuidador que qualquer profissional de saúde detém". (Merhy; 1998:113) Os diversos saberes se articulam, em um emaranhado de saberes que em "relações intercessoras com os usuários" produzem o cuidado. No fundamental, esta discussão nos indica que a polêmica entre generalistas X especialistas se torna uma falsa polêmica, ao verificarmos que se o generalista se isolar no seu campo de conhecimento próprio, ele pode ao longo do tempo se transformar em um "especialista da generalidade" e assim, derrotar a sua pretensa resolutividade. A verdadeira discussão diz respeito ao fato dos profissionais de saúde, não apenas os médicos, nem apenas os que trabalham inseridos diretamente na assistência, mas todos os que labutam na produção de serviços de saúde, reaprenderem o trabalho a partir de dinâmicas relacionais, somando entre si os diversos conhecimentos. Este é um território pôr onde transita não apenas o mundo cognitivo, mas a solidariedade profissional está presente na boa prática de interagir saberes e fazeres e pode se mostrar eficaz na constituição de modelos assistenciais centrados no usuário. Isto pode ser real, se pensarmos que "todo profissional de saúde, independentemente do papel que desempenha como produtor de atos de saúde, é sempre um operador do cuidado, isto é, sempre atua clinicamente, e como tal deveria ser capacitado, pelo menos, para atuar no terreno específico das tecnologias leves, modos de produzir acolhimento, Responsabilizações e vínculos". (Merhy; 1998:117). Merhy propõe a elaboração pelas equipes de referência dos usuários, de "projetos terapêuticos" individuais a serem operados pôr um profissional implicado no cuidado àquele usuário, que então ficaria com a função de "gestor do cuidado". Este profissional assume as funções de "um administrador das relações com os vários núcleos de saberes profissionais que atuam nesta intervenção, ocupando um papel de mediador na gestão dos processos multiprofissionais e disciplinares que permitem agir em Saúde, diante do caso concreto apresentado, o que nos obriga a pensá-lo como um agente institucional que tenha de ter poder burocrático-administrativo na organização." (Merhy; 1998:117). Quanto à gestão do PSF, o primeiro problema apresentado na sua organização diz respeito ao alto grau de normatividade na sua implementação. O formato da equipe, as funções de cada profissional, a estrutura, o cadastro das famílias, o levantamento dos problemas de saúde existentes no território e os diversos modos de fazer o programa, são regulamentados centralmente pelo Ministério da Saúde. Estas normas, deverão ser seguidas rigorosamente pelos municípios, sob pena daqueles que não se enquadrarem nas orientações ministeriais, ficando fora do sistema de financiamento das equipes de PSF. Agindo assim, o Ministério da Saúde não só aborta a construção de modelos alternativas, mesmo que similares a proposta do PSF, como engessa o próprio Programa de Saúde da Família diante de realidades distintas vividas em diferentes comunidades em todo território nacional. O tradicional centralismo das políticas de saúde, que marcam a área governamental desde a primeira república, se evidencia neste ato. Em relação a escolha da família, como espaço estratégico de atuação, também é necessário alguns comentários. É positivo apontar o foco de atenção de uma equipe de saúde, para um "indivíduo em relação", em oposição ao "indivíduo biológico". Com certeza, onde houver famílias na forma tradicional, a compreensão da dinâmica deste núcleo, através da presença da equipe no domicílio, é potencialmente enriquecedora do trabalho em saúde. No entanto nem sempre, este núcleo está presente. Nem sempre este é o espaço de relação predominante, ou mesmo o lugar de síntese das determinações do modo de andar a vida das pessoas em foco. O PSF, o processo de trabalho em saúde e o mito da Esfinge "decifra-me ou te devoro" Se de um lado, o PSF traz na sua concepção teórica a tradição herdada da Vigilância à Saúde, por outro, reconhece que a mudança do modelo assistencial dá-se a partir da reorganização do processo de trabalho. Partindo de uma crítica ao atual modelo, que tem nas ações e saberes médicos a centralidade dos modos de fazer a assistência, propõe um novo modo de operar o trabalho em saúde. A alternativa pensada estrutura o trabalho assistencial a partir de equipes multiprofissionais. Aqui, entende-se que ocorre com o PSF algo parecido como o enigma da Esfinge. Conta a mitologia grega que a Esfinge tenha sido enviada por uma divindade para vingar, entre os tebanos, um crime impune do rei Laio. A Esfinge fixou-se nos arredores de Tebas, detendo e devorando os que passavam, quando não conseguiam decifrar seus enigmas. Édipo foi o primeiro a resolver o que lhe foi proposto: "Qual é o animal que anda com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?" Édipo respondeu: "O homem, que engatinha na infância, caminha ereto na idade adulta e se apoia em um bastão na velhice". Após a resposta, a Esfinge matou-se, libertando a população da punição que lhe foi imposta. No PSF acontece o mesmo, ou seja, o programa enxerga onde está o problema do atual modelo assistencial: no processo de trabalho. Contudo não decifra-o e como no caso da esfinge, é engolido pela feroz dinâmica do trabalho medicocentrado, e por não saber inclusive por limitação ideológica de seus operadores, acaba operando centralmente na produção de procedimentos e não na produção do cuidado e da cura. Por quê isso, se todo esforço e discurso é feito para mudar esta lógica de produção? Interpretar a essência dos processos de trabalho em saúde é a condição para decifrar seus enigmas e impedir a ação destruidora da "esfinge", que diz respeito à dinâmica do capital posta no caso da saúde. Para ferir de morte esta dinâmica, é preciso uma ação que reorganize o trabalho do médico e dos outros profissionais, atuando nos seus processos decisórios que ocorrem no ato mesmo da produção de saúde. Estes novos fazeres, práticas, se materializam em "tecnologias de trabalho", usadas para produzir saúde. Tecnologias, aqui, entendida como o conjunto de conhecimentos e agires aplicados à produção de algo. Este conhecimento pode estar materializado em máquinas e instrumentos, ou em recursos teóricos e técnicas estruturadas, como tecnologias duras e leveduras, respectivamente, lugares próprios do "trabalho morto". Por outro lado, este conhecimento pode estar disperso nas experiências e modos singulares de cada profissional de saúde operar seu trabalho vivo em ato, como na produção de relações, tão fundamentais para o trabalho em saúde, que é essencialmente um trabalho interseçor (Merhy, 1997). Esta função criativa e criadora que pode caracterizar os serviços de saúde, a partir das relações singulares, é operada por "tecnologias leves", território onde se inscreve o "trabalho vivo em ato". Buscar na arena da produção de serviços de saúde, os lugares onde se matriciam o conhecimento e a forma de potencializá-los para a assistência à saúde é fundamental. Isto só será possível, se for permitido, por conquista ou por política institucional, que cada trabalhador utilize o máximo da sua potência para resolver efetivamente os problemas de saúde dos usuários. O "trabalho vivo em ato" é aquele que ocorre no momento mesmo em que ele se realiza, no imediato fazer a produção do serviço. As tecnologias de trabalho, têm sua relevância na configuração do modelo de assistência, porque perfilam o modo pelo qual se produz serviços de saúde, definindo por conseqüência, a capacidade de absorção da demanda, a capacidade de efetivamente resolver problemas de saúde, os custos dos serviços, e o que é fundamental, a própria relação entre sujeitos deste processo. Nessa questão, é preciso considerar que o trabalho médico procedimento centrado, é ao mesmo tempo determinado pelo uso de tecnologias duras, o que o torna não apenas custoso, mas pouco resolutivo, na medida que impõe o caráter frio do produto no lugar da finalidade, como o centro da atenção. Resolver problemas de saúde resumiu-se em realizá-los, como um fim em si mesmo. Portanto, importantes obstáculos se interpõem à frente de quem quer alterar o modelo assistencial, indicando porque é necessário alterar muito mais do que estruturas, deve-se modificar as referências epistemológicas, será necessário destruir o núcleo duro de comportamentos estereotipados, estruturados. CONCLUSÃO Há uma caráter prescritivo, bastante exacerbado, neste programa. São definidas a priori os locais de atendimento: unidade básica para pacientes vulneráveis, visitas domiciliares para outros atendimentos e grupos na comunidade. Da mesma forma existe uma lista das atividades que devem ser realizadas pela equipe. Pode-se dizer, portanto, que no PSF existe uma confusão entre o que é ferramenta para diagnóstico e intervenção, e o que é resultado em saúde. Os resultados desejados são anunciados (85% dos problemas de saúde resolvidos, vínculo dos profissionais com a comunidade, etc...) e infere-se que seguindo a prescrição altamente detalhada obter-se-á o resultado anunciado. Não é muito diferente do modelo atual que infere que consultas e exames são equivalentes a soluções para os problemas de saúde. Diante disso, na vida real dos serviços que aderem ao PSF, cabem três tipos de ações dos profissionais da equipe: ignorar as prescrições, e manter a lógica atual (as diversas planilhas podem ser preenchidas de forma "criativa"); aceitar as prescrições, recapitulando os objetivos, mas mantendo o compromisso principal do serviço de saúde, não com os usuários, mas sim com novos procedimentos; e finalmente a equipe pode ignorar parcialmente as prescrições e dedicar-se criativamente a intervir na vida da comunidade em direção a melhoria de suas condições de vida. Esta possibilidade é mais remota, porque significa trabalhar com a consciência de que nenhuma ferramenta (apesar das promessas do PSF), pode dar conta de tudo, embora todas sejam necessárias. Reconhecer a insuficiência das prescrições e das receitas, não é tarefa simples. Um processo de trabalho, prescritivo a nível central, não contribui para este movimento dentro da equipe. A solidariedade interna da equipe, a sinergia das diversas competências, prérequisitos para o desafio desta equipe, fica desestimulada pelo detalhamento das funções de cada profissional. Trabalhar com este limite e com a necessidade de inventar abordagens a cada caso, exige um ‘luto’ da onipotência de cada profissional, para que seja possível o trabalho em equipe, e some-se as competências e a criatividade de cada membro da equipe. O PSF, com seu caráter prescritivo, não contribui para a superação deste problema, e pode propiciar aos profissionais assumirem a atitude que predominantemente assumem hoje: isolar-se em seus núcleos de competência. Aqui entra uma questão central, o fato de que enquanto os trabalhadores não construírem uma interação entre si, trocando conhecimentos e articulando um "campo de produção do cuidado" que é comum à maioria dos trabalhadores, não pode dizer que há trabalho em equipe. O aprisionamento de cada um em seu "núcleo específico" de saberes e práticas, aprisiona o processo de trabalho as estruturas rígidas do conhecimento técnicoestruturado, tornando-o trabalho morto dependente. Ao contrário, o "campo de competência" ou "campo do cuidado", além da interação, abre a possibilidade de cada um usar todo seu potencial criativo e criador na relação com o usuário, para juntos realizarem a produção do cuidado. Para remodelar a assistência à saúde, o PSF deve modificar os processos de trabalho, fazendo-os operar de forma "tecnologias leves dependentes", mesmo que para a produção do cuidado sejam necessários o uso das outras tecnologias. Portanto, pode-se concluir que a implantação do PSF por si só não significa que o modelo assistencial esteja sendo modificado. Podem haver PSF’s médico centrados assim como outros usuário centrados, isso vai depender de conseguir reciclar a forma de produzir o cuidado em saúde, as quais foram discutidas neste trabalho e dizem respeito aos diversos modos de agir dos profissionais em relação entre si e com os usuários. A adesão ou a rejeição ao Programa de Saúde da Família, deve considerar que da forma como o PSF está estruturado pelo Ministério da Saúde, não lhe dá a possibilidade de se tornar de fato um dispositivo para a mudança, como é o objetivo do PSF, de acordo com o MS. Toda a discussão realizada aqui, indica que o Programa precisa se reciclar para incorporar potência transformadora ou melhor, assumindo uma configuração diferente. Referências Bibliográficas: "Programas e Projetos - Saúde da Família"; Ministério da Saúde, 1998; p. 1. (documento disponível na Internet, no site do MS). "Saúde da Família: Uma Estratégia de Organização dos Serviços de Saúde"; Ministério da Saúde, mimeo, Brasília; março de 1996; p. 2. Campos, G.W.; Chakour, M.; Santos, R.C. "Análise crítica sobre especialidades médicas e estratégias para integrá-las ao Sistema Único de Saúde (SUS) in Cadernos de Saúde Pública, ENSP; Rio de Janeiro, 1997. Campos, G.W.S.; A Saúde Pública e a Defesa da Vida; HUCITEC, S. Paulo, 1994. Campos, G.W.S.; Reforma da Reforma, repensando a saúde; HUCITEC, S. Paulo, 1992. Cecílio, L.C.O (org) et al. "Inventando a Mudança na Saúde"; HUCITEC, S. Paulo, 1994. Chakkour et al. 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Embora o PSF tenha proporcionado um trabalho junto a micro-áreas e domicílios, no que diz respeito à vigilância à saúde, persistiam em nível do atendimento na Unidade de Saúde, as filas noturnas e longas esperas para o atendimento. Este é um problema que aflige a grande parte dos gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), e é objeto de insatisfação dos usuários. Pergunta-se então, porque haveria tamanha demanda reprimida, isto é, qual a causa da restrição do acesso, sendo que já havia sido realizado um grande investimento na rede assistencial com a implantação de Equipes de Saúde da Família (ESF)? A partir deste problema colocado, observou-se que em grande parte da rede, o processo e trabalho estava centrado na pessoa e no saber médico, reproduzindo a organização tradicional da assistência, com opressão da capacidade que outros profissionais apresentam na resolução dos problemas de saúde. Com o fluxo assistencial direcionado apenas para a consulta médica, a capacidade de atendimento e por conseqüência o acesso das pessoas estaria sempre restrita. Verificou-se ainda que a Unidade de saúde só se legitimaria junto à população, se fosse capaz de atende-la no momento em que ela mais necessitasse, isto é, quando estivesse instalado um processo mórbido qualquer, momento em que a doença demanda um cuidado imediato. Percebeu-se que o modo como estava organizado o processo de trabalho, reduzia em muito a capacidade de respostas da equipe de saúde, sub utilizava a capacidade de trabalho dos profissionais de saúde, sobrecarregando o médico com problemas, os quais, outros poderiam resolver. Diante disto, optou-se por reorganizar o processo de trabalho, procurando trabalhar com a idéia de inclusão social, humanização do atendimento, acolhendo todas as pessoas e dando uma resposta positiva ao seu problema de saúde. Assim nasceu a idéia do “Acolher Chapecó” que se organiza com base nas diretrizes do modelo assistencial, já provadas na sua eficácia, que são; Acolhimento, Vínculo, Resolutividade, Autonomização e Vigilância à Saúde. (Campos, 1994; Merhy, 1994, 1997; Franco et al, 1999, 2003; Silva Jr., 1998). Através do “Acolher Chapecó”, pretende-se organizar a assistência na Unidade de Saúde e no PSF, de forma a absorver todos que procuram a Unidade, acolhendo-os através de um fluxo voltado à equipe multiprofissional e ao mesmo tempo, fortalecer o vínculo com a equipe, procurando trabalhar projetos terapêuticos cuidadores, que busquem acompanhar o usuário no seu processo terapêutico. O Acolhimento no Programa Saúde da Família – PSF O Programa Saúde da Família tem se estruturado centralmente com base no saber da vigilância à saúde, instrumentalizado pela epidemiologia. Esta é uma grande vantagem que o PSF realiza, o trabalho no território e domicílio. Junto a este, o PSF trouxe para a discussão do modelo assistencial, a idéia de vínculo dos usuários à equipe. A clínica como parte do conhecimento aplicado à assistência, se coloca marginal ao objetivo reformador ao qual o PSF se propõe e neste sentido, na maioria dos casos, esta permanece operando na forma do modelo tradicional, com base na queixa-conduta e no ato prescritivo, sem uma real interação entre os sujeitos trabalhador e usuário. Permanece ainda, na organização da oferta dos serviços, o problema do atendimento à demanda espontânea, que é fundamental para qualificar a acessibilidade da população, especialmente a que tem uma necessidade imediata instalada. A estratégia de reorganização do PSF envolveu principalmente duas diretrizes operacionais. A primeira, do Acolhimento. Sua implantação envolveu um grande debate junto aos trabalhadores das Unidades de Saúde da Família, procurando identificar através da discussão do processo de trabalho, o quanto este ainda era burocrático, impessoal, e ao mesmo tempo, verificou-se as possibilidades de aproveitamento das potencialidades existentes em todos trabalhadores, para assistir aos usuários e trabalhar com a idéia de estar produzindo o cuidado nas suas práticas cotidianas. As medidas adotadas de reorganização do processo de trabalho, mudaram em primeiro lugar o fluxo do usuário. Este era encaminhado anteriormente, da recepção da Unidade para o médico. Com o Acolhimento, o usuário é encaminhado para um dos profissionais da equipe que deverá fazer uma escuta qualificada do seu problema de saúde, podendo ali mesmo resolver ou encaminhar para outro profissional. Esta alteração do fluxo e do processo de trabalho muda um pouco o papel da recepção, no sentido que esta deixa de ser um lugar de “poder”, ou seja, capaz de decidir sobre o acesso ou não do usuário, e passa a operar um trabalho de orientação ao fluxo dos usuários. O lugar de decisão passa a ser o Acolhimento, após a escuta do usuário e feita por pessoas ligadas à função assistencial. Isto significa que todos os usuários têm garantido o acesso e a Unidade passa a não trabalhar mais na lógica da “ficha” ou “senha” para obter atendimento. Para garantir a assistência ao usuário, que busca a Unidade ou a Equipe de Saúde da Família (ESF), em “demanda espontânea”, a agenda médica foi aberta para ofertar esta retaguarda ao Acolhimento, ficando previamente agendados apenas os retornos de consultas anteriores. Com este reordenamento no processo de trabalho, foram observados os seguintes resultados nas Unidades de Saúde e ESF observadas: Os profissionais se viram mais envolvidos na assistência clínica aos usuários e perceberam que neste processo, há também uma valorização do seu trabalho e da sua função no serviço de saúde, sendo isto motivo de maior satisfação por parte dos trabalhadores. A escuta realizada no Acolhimento, aguçou a percepção dos problemas da área de abrangência da Unidade de Saúde da Família, envolvendo aí aqueles de origem sanitária e social. Em relação à acessibilidade dos usuários, estes tiveram o acesso ao serviço facilitado e atendimentos mais ágeis. Com todos os profissionais envolvidos no Acolhimento, isto é, na assistência direta ao usuário, há um aumento da oferta de serviços e por conseqüência, eliminou-se a fila noturna para atendimento. Dados demonstram que a equipe de Acolhimento tem resolvido em média 30% dos problemas de saúde, com recursos utilizados pela própria equipe, ou seja, sem nenhum tipo de encaminhamento. Enfim, este processo possibilitou maior aproveitamento da capacidade instalada. Outras evidências de reorganização do processo de trabalho puderam ser verificadas, principalmente através da enfermagem, que está mais presente no processo decisório clínico e na assistência ao usuário. Para obter estes resultados, foi importante um relacionamento da equipe durante o trabalho, baseado na interação, com trocas permanentes de saberes e fazeres. Isto é fundamental, pois os trabalhadores conformam uma dada “rede de petição e compromissos” durante o processo de trabalho, isto é, há uma interdependência entre cada um no exercício da sua função assistencial o que requer um ótimo relacionamento, com trocas de conversas durante o trabalho, o que leva ao aumento da resolutividade (Franco & Merhy, 2003). Observou-se maior sensibilidade dos profissionais para o cuidado aos usuários. Todo este processo aumentou a sensibilidade da equipe na percepção da sua clientela, tendo inclusive induzido à reavaliação do critério de risco para os usuários, procurando trabalhar uma idéia de múltipla determinação do mesmo, o que envolve por conseqüência, projetos terapêuticos que contemplem a multiplicidade de fatores determinantes do processo saúde-doença. A segunda diretriz de reorganização do processo de trabalho foi o Vínculo. A idéia de vinculação de clientela à Equipe de Saúde da Família (ESF) já está bem enraizada entre todos os trabalhadores e usuários, por ser a principal diretriz do PSF. No entanto, o vínculo pressupõe a responsabilização da equipe, o que significa a garantia de acompanhamento dos projetos terapêuticos, o cuidado para que os usuários fortaleçam seu vínculo com a ESF. Na grande parte dos serviços de saúde, os projetos terapêuticos se resumem a consultas, exames e retornos, com medicamentalização excessiva dos usuários. Nestes casos, demonstra um processo de trabalho centrado no saber médico, e o cuidado ao usuário é realizado com base no ato prescritivo. Isto caracteriza um modelo assistencial centrado na produção de procedimentos e não na produção do cuidado. No entanto, se houver uma inversão das tecnologias de cuidado, buscando inserir nos projetos terapêuticos ações que transferem conhecimento ao usuário, elevem sua auto-estima, consigam incorporar toda sua vivência no processo terapêutico, fazendo-o também sujeito do seu estado de saúde, haverá a possibilidade de trabalhar a saúde com base em tecnologias leves, um processo mais relacional do que instrumental. Em muitos casos, isto significa elaborar projetos terapêuticos mais completos e cuidadores, centrado nas necessidades dos usuários e tendo-o como protagonista do seu processo de saúde. O objetivo com este processo é de que o usuário vá ganhando maiores graus de autonomia para viver a vida (Campos, 1997). No momento, o “Acolher Chapecó” inicia um grande passo na sua continuidade, o de trabalhar a integralidade da atenção à saúde. Pretende-se estruturar as “linhas de cuidado” (Merhy & Cecílio, 2003; Franco & Magalhães, 2003) que se referem à construção de fluxos seguros e facilitados de acesso e percurso dos usuários ao todos os serviços da rede de atenção à saúde. A construção das linhas de cuidado são estruturadas a partir dos projetos terapêuticos definidos de forma singular a cada usuário, tendo como estruturantes dos mesmos as suas necessidades. A gestão da linha do cuidado deverá se realizar pela Equipe de Saúde da Família ou Unidade de Saúde à qual o usuário está vinculado. Esta fará o seu acompanhamento, naquilo que foi estabelecido pelo projeto terapêutico, definindo assim um certo fluxo de acesso aos outros níveis de atenção à saúde. Da mesma forma, a equipe à qual o usuário formou seu vínculo, deverá monitorar a assistência que este está tendo e principalmente, acompanhar o retorno do mesmo, para que ela possa dar seqüência ao seu cuidado, pois o vínculo permanece sempre na equipe básica. Referências Bibliograficas CAMPOS, G.W.W.; Reforma da Reforma, repensando a saúde; HUCITEC, S. Paulo, 1992. CECÍLIO, L.C.O.; As Necessidades de Saúde como Conceito Estruturante na Luta pela Integralidade e Equidade na Atenção em Saúde; Rio de Janeiro; UERJ, IMS: ABRASCO; 2001. CECÍLIO, L.C.Ol (org) et all; “Inventando a Mudança na Saúde”; HUCITEC, S. Paulo, 1994. FRANCO, T. B. & Merhy, E. E. ; O USO DE FERRAMENTAS ANALISADORAS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE: O Caso do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP, in MERHY et al; O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano; HUCITEC, São Paulo, 2003. FRANCO, T.B. E MAGALHÃES, JR.; Atenção Secundária e a Organização das Linhas de Cuidado in Merhy et al “O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano”; São Paulo, HUCITEC, 2003. FRANCO, T.B.; Bueno, W.S.; Merhy, E.E. O Acolhimento e os Processos de Trabalho em Saúde: O Caso de Betim (MG); Cadernos de Saúde Pública/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2000. MERHY, E. E.; Saúde: A Cartografia do Trabalho Vivo; São Paulo, Hucitec, 2002. MERHY, E.E. & ONOCKO, R. (Orgs.) Agir em Saúde, um desafio para o público; HUCITEC, São Paulo, 1997. MINISTÉRIO DA SAÚDE; Programa de Saúde da Família - PSF; Brasília (DF) 1998. SILVA JR. A.G.; Modelos Tecnoassistenciais em Saúde - o debate no campo da saúde coletiva; Hucitec, São Paulo, 1998. EQUIPE ORGANIZADORA Mônica Morrissy Martins Almeida Renato Glória de Castro Regina Brezensky Andréa Cristina de Farias Mello Amanda Almeida Mudjalieb Rosangela Martins Gomes Cristiane Feitosa Itaboraí, maio de 2007 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Rio de Janeiro 2008 CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Saúde da Família. Orientadora Profª Drª Valéria Ferreira Romano. Rio de Janeiro 2008 CLAUDIA MARTINS REBELLO O acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí/RJ Dissertação apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Saúde da Família. Aprovada em BANCA EXAMINADORA _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Valéria Ferreira Romano Universidade Estácio de Sá _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Marilene Cabral do Nascimento Universidade Estácio de Sá _________________________________________ Prof.ª Dr.ª Sheila Pereira da Silva e Souza Instituto Nacional do Câncer À minha mãe Francisca, meu pai Ney, meus filhos Victor e Rodrigo, minhas irmãs Solange e Marcia e ao meu parceiro de vida Adhemar, que são ferramentas valiosas em minha vida. AGRADECIMENTOS Aos profissionais e usuários do PSF-LAPA que me inspiraram a escolher o tema do acolhimento e nos momentos mais difíceis souberam dar crédito à realização desta pesquisa. À professora Dra. Valéria Romano, que tive a felicidade de poder compartilhar de seus conhecimentos, revelando sensibilidade e uma imensa paciência diante dos fatos e acontecimentos. Agradeço a todos os amigos e alunos que contribuíram, incentivaram e acreditaram na execução desta pesquisa. Ao professor Dr. Hesio Cordeiro, que sempre nos acolheu carinhosamente, e a toda equipe do mestrado, pelo empenho no financiamento do Curso através das bolsas de estudo fornecidas pela parceria com o Ministério da Saúde. À professora Dr.ª Marilene Cabral do Nascimento por ampliar meu olhar em relação ao comportamento humano. À professora Dr.ª Sheila Pereira da Silva e Souza, pela disponibilidade em ensinar e ajudar ao próximo. À equipe de trabalhadores e gestores do PSF-Itaboraí, pelo empenho e solidariedade em ajudar na realização desta pesquisa. Aos colegas de mestrado, no qual tivemos a oportunidade de aprender e crescer juntos. Aos professores, que com muita competência nos acompanharam. A Aline Luna, secretária do mestrado, sempre pronta a nos ajudar. E a Deus que iluminou meu caminho para a realização de mais um sonho em minha vida! O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo. (Mahatma Gandhi) RESUMO O foco central desse estudo é o acolhimento, que é entendido como uma postura ética e política, de cumplicidade da equipe multiprofissional de saúde com as necessidades de saúde do usuário. Esta postura começa desde a porta de entrada, passando pelo atendimento individual e coletivo, ocorrendo tanto no ambulatório ou no domicílio, nas práticas educativas, até no sistema de referência e contrareferência e na internação hospitalar. Almejando sempre à construção do entendimento do processo saúde-doença pelo usuário com a finalidade de que ele participe como sujeito do seu processo de cura, é uma ferramenta fundamental para implementação da Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS) como possibilidade de mudança no processo de trabalho do Programa de Saúde da Família (PSF). O objetivo geral da pesquisa propõe compreender do ponto de vista dos profissionais de Saúde da Família a concepção do conceito de acolhimento e os fatores que facilitam e dificultam a implantação do mesmo no processo de trabalho no PSF. A pesquisa qualitativa utilizou-se análise de entrevistas semi-estruturadas e observação participante com todos os membros de uma equipe de Unidade de Saúde da Família (USF) no município de Itaboraí/RJ. Os resultados encontrados indicaram um entendimento sobre acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado do profissional médico, com conseqüente aumento de demanda para o mesmo. Verificou-se que os profissionais de saúde estudados demonstram-se sensibilizados com o sofrimento do usuário, esforçando-se para lhe oferecer uma escuta qualificada. Os profissionais de saúde elegeram como principais fatores facilitadores para implantação do acolhimento: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados foram: modelo de saúde centrado no médico, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, ausência de intersetorialidade e demanda excessiva para a equipe. Conclui-se que o processo de acolhimento e o entendimento dos profissionais da Saúde da Família sobre o mesmo divergem sobre a Política Nacional de Humanização e os autores teóricos sobre o assunto, demonstrando a necessidade de educação permanente na construção deste processo. Palavras-chaves: Acolhimento. Humanização. Programa Saúde da Família. ABSTRACT The main focus of this study is user embracement, understood as an ethical and political attitude in favour of the health needs of the patient, going from the admittance to individual and collective consultation, occurring in clinics as well as at residences, in educational practices, up to the reference and counter referencesystem and in hospitalization. It constantly aims at the construction of the patients/users comprehension of the health-disease process, for the purpose of active participation in the healing process. Being a fundamental tool for the implementation of the National Politics of Humanization (HumanizaSUS), as a possibility of transformation in the working process of the Family Heallth Program (FHP). As a general objective it proposes to comprehend, from the position of the healthcare professionals, the perception of the concept of user embracement and the factors that facilitate and complicate the implantation of it in the working process in the FHP. As a qualitative research, an analyses of semi-structured interviews of all the participating team members of a Family Health Unity (FHU) in the municipality of Itaboraí/RJ was employed. The found results indicated a comprehension of user embracement as non-scheduled clinical attention of the medical professional, thus consequently increasing the demand. It was noted that the researched healthcare professionals showed to be moved by the suffering of the patient/user, making an effort to listen carefully. As the main factors facilitating the implantation of acceptance, the health professionals opted for the bond with the community, the awareness of the health needs of the community and the motivation on the part of the healthcare professional in working in the FHP. The main complicating factors found were: a model of healthcare fixed on the medic; resistance of the community in attending educational activities; and the absence of intersectoriality and an excessive demand on the healthcare team. Concluded was that the process of user embracement and the perception of it by healthcare professionals of FHP diverge on the National Politics of Humanization and the theory of the issue at hand, thus demonstrating the necessity of permanent education in the construction of this process. Key-words: User Embracement. Humanization. Family Health Program. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 12 2 2.1 PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA ACOLHIMENTO NO PSF 19 22 3 O MODELO TECNO-ASSISTENCIAL DE SAÚDE EM DEFESA DA VIDA: UM PRECURSOR DO ACOLHIMENTO A HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO À SAÚDE ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE 26 36 36 4.2 4.2.1 4.2.2 AS CARACTERÍSTICAS DO SUS NO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ: ASPECTOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS ESTRUTURA DA REDE MUNICIPAL DE SAÚDE Dados Populacionais Dados de Cadastramento Familiar pelo PSF ano 2002 5 5.1 5.2 OBJETIVOS DO ESTUDO GERAL ESPECÍFICOS 41 41 41 6 6.1 6.2 6.3 6.4 6.4.1 METODOLOGIA TIPO DE ESTUDO CENÁRIO E POPULAÇÃO DA PESQUISA PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS TÉCNICA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO Categorias 42 42 43 46 48 50 7 7.1 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS O ENTENDIMENTO DO CONCEITO DE ACOLHIMENTO PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UNIDADE DE SAÚDE SANTA ROSA FATORES QUE INFLUENCIAM A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NA USF FATORES FACILITADORES FATORES DIFICULTADORES 54 55 CONSIDERAÇÕES FINAIS 77 REFERÊNCIAS 80 APÊNDICE 1: ROTEIRO DE ENTREVISTA APÊNDICE 2: DADOS GEOGRÁFICOS APÊNDICE 3: DADOS POPULACIONAIS APÊNDICE 4: DADOS DE CADASTRAMENTO FAMILIAR PELO PSF ANO 2002 APÊNDICE 5: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO APÊNDICE 6: FOTOS DA UNIDADE SAÚDE DA FAMÍLIA E DA ÁREA ADSCRITA 86 87 88 89 ANEXO1: HUMANIZA SUS 97 3.1 3.2 4 4.1 7.2 7.3 7.4 28 33 37 39 40 58 59 66 90 91 1 INTRODUÇÃO Esta pesquisa aborda o tema do acolhimento como possibilidade de mudança do processo de trabalho no Programa de Saúde da Família. O acolhimento nas Unidades de Saúde de família (USF) apresenta-se como um dispositivo importante na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Estudá-lo remete a reflexões a respeito do processo de trabalho da equipe multiprofissional no cotidiano das unidades de saúde da família, na troca de saberes, distribuição do poder, no compromisso, responsabilização e vínculo com a comunidade em determinado território e com a realidade sanitária na qual vivem as pessoas. Nessa direção, o presente estudo entende acolhimento como uma postura ética e política de cumplicidade da equipe multiprofissional de saúde com as necessidades de saúde do usuário, desde a recepção, passando pelo atendimento individual ou coletivo no ambulatório ou domiciliar, nas práticas educativas, na busca de intersetorialidade, até o encaminhamento a outros níveis de atenção através de referência e contra-referência. Uma postura comprometida com a construção do entendimento do processo saúdedoença pelo usuário com a finalidade que ele participe como sujeito do seu processo de cura. Esta compreensão do conceito de acolhimento foi elaborada após revisão de literatura que analisa a Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2004) e está em sintonia com os pensamentos de Merhy (1997), Campos (1994), Cecílio (2001) e Matumoto (1998). O modelo atual de atenção à saúde, ainda hegemônico, caracteriza-se por focalizar a doença, estando centrado na assistência médica individual, fragmentada, especializada e direcionada à demanda espontânea. Na perspectiva de superar esse modelo, o Programa de Saúde da Família (PSF) é uma medida proposta pelo Ministério da Saúde para a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, caracterizando-se como a principal resposta, dos órgãos governamentais, para a superação da crise na atenção à saúde, com ênfase na atenção básica. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2007) os objetivos do PSF são: -- Prestar assistência integral, contínua, com resolubilidade às necessidades de saúde da população adscrita; -- Intervir sobre os fatores de risco aos quais a população está exposta; -- Humanizar as práticas de saúde através do estabelecimento de um vínculo entre os profissionais de saúde e a população; -- Proporcionar o estabelecimento de parcerias através do desenvolvimento de ações intersetorias; -- Contribuir para a democratização do conhecimento do processo saúde doença, da organização dos serviços e da produção social da saúde; -- Trabalhar em equipe multidisciplinar; -- Fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e, portanto, qualidade de vida; -- Estimular a organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social. O acolhimento constitui uma forma de humanizar e organizar o trabalho em saúde que vai ao encontro dos objetivos do PSF. É fundamental em relação ao estabelecimento de vínculo e compromisso entre os profissionais de saúde e a comunidade para resolução de suas necessidades de saúde, proporcionando a troca de saberes entre a comunidade e a equipe multidisciplinar. A motivação para o desenvolvimento desta pesquisa surgiu a partir das minhas inquietações, observações e experiências de atuação profissional nesses quase 13 anos como Médica de Família. Durante este período pude evidenciar linhas de tensão entre trabalhador e usuário para resolver as necessidades de saúde da população. A partir de 1995 iniciei esta prática como médica no Programa Médico de Família de Niterói, estando hoje como docente e médica do PSF-Lapa. Os propósitos e as finalidades da estratégia do acolhimento podem ser os mais diversos possíveis a depender de cada um dos sujeitos que os coloca em ação, da sua visão de mundo, sua formação ideológica, técnica, ética e do contexto em que esteja inserido. Os ruídos criados dentro da equipe de saúde da família são inúmeros quando não se tem claro um processo de trabalho com um fim único: o de atender as necessidades de saúde da comunidade. Da perspectiva aqui tomada, o acolhimento se configura a partir de um fazer cotidiano em que se busca tomar a crise da saúde como um desafio de resgatar a missão, do setor saúde, de produção de vida e de saúde, enfim, de qualidade de vida. Essa proposta de acolhimento se apóia no reconhecimento das relações entre as pessoas no momento de atendimento como uma das questõeschave, e em especial a relação trabalhador-usuário (MATUMOTO, 1998). Esta relação trabalhador-usuário vem se construindo histórica e socialmente partindo do reconhecimento do poder/saber entre o técnico e o leigo estabelecendo uma relação de subordinação do segundo pelo primeiro, não reconhecendo e retirando da população o seu saber, criando uma relação de dependência especialmente do saber médico (MERHY, 1994). Entre os obstáculos encontrados para atuar na perspectiva dessa proposta destaco algumas limitações observadas em minha trajetória profissional, que são freqüentemente relatadas na literatura sobre o trabalho em equipe no PSF. Silva (2005) analisa a experiência de uma equipe do PSF em um município baiano, buscando identificar evidências da articulação entre ações e interação entre os profissionais da equipe da saúde da família, com vistas à construção de um projeto assistencial comum. Do ponto de vista da interação, com vistas à construção de um projeto comum, o autor identificou como aspecto favorável a partilha de algumas decisões referentes à dinâmica da unidade. Por outro lado foi observado que o planejamento das ações concentra-se nos profissionais de nível superior, de forma individualizada. Schimith (2004) observa o trabalho de uma equipe do PSF em um município do Rio Grande do Sul, identificando o potencial de acolhimento e de construção do vínculo entre profissionais e usuários. Verificou que existem lacunas no acolhimento aos usuários, sobretudo no que se refere à abertura do serviço para a demanda, à responsabilização pelos problemas de saúde da população e ao estímulo à autonomia do usuário. Constatou-se que a produção de vínculo está relacionada com o desenvolvimento de atividades clínicas. A autora propõe a aproximação da enfermeira às atividades clínicas e ao acolhimento dos usuários. Outros autores, Santos (2007), Chaves dos Santos (2002), Branco (2005) e Cavalcante (2006), constatam que o trabalho nas equipes de saúde da família ainda se mantém organizado através de atividades autônomas no sentido de desarticulação entre as diversas categorias profissionais, o que gera conflitos e tensas relações interpessoais. O atendimento da demanda espontânea expressa esta desarticulação no trabalho: quem ouve primeiro o usuário para saber se é possível agendar a consulta ou há necessidade de atendimento no mesmo dia? Segundo Franco (2004), na maioria das Unidades Básicas de Saúde, sem acolhimento, quem faz o primeiro atendimento é a recepcionista da USF que na maioria das vezes é uma agente administrativa, ficando com grande poder, o de determinar quem entra e quem não entra, ou seja, o acesso das pessoas à assistência fica limitado a ter vaga ou não de consulta médica. Quantos não vão embora sem ter sido atendidos em suas necessidades? Será que outro profissional da equipe não poderia escutar o usuário? [...] Cada profissional tem que participar ativamente desse processo, inserindo-se na resolução dessa problemática. Acesso e acolhimento deixam de ser problemas de recepção e tornam-se objeto da prática de toda equipe de saúde [...]. A função da porta não é mais barrar e limitar o atendimento e, sim responder aos problemas que ali aparecem de modo criativo, explorando ao máximo as tecnologias leves de que dispomos em nosso saber e em nossas relações [...] (MERHY, 1994, p. 138). Segundo Scholze et al. (2006) o acolhimento deve ser realizado por cada membro da equipe, ouvindo os usuários e oferecendo respostas para suas necessidades. A implantação do acolhimento possibilitará encaminhar as necessidades mais imediatas da população atendida, preservando a eqüidade na atuação do PSF e a organização da demanda na assistência. O desemprego, a baixa renda familiar, baixa escolaridade, violência familiar e tantos outros problemas que vão além do setor saúde encontram escuta na equipe? Apesar de todo esforço das equipes de Saúde da Família em realizar práticas educativas, as ações de saúde continuam predominantemente individuais e curativas, priorizando a consulta individual, havendo pouco espaço de articulação entre os saberes necessários para a construção do acolhimento (CAMPOS, 2005). A partir do pressuposto de que o Programa de Saúde da Família é uma possibilidade de construção de cidadania, venho refletindo sobre a amplitude do contato direto diário com o sofrimento humano e percebendo que quanto mais se estreitam vínculos, mais o profissional é solicitado pela comunidade, correndo o risco de, contraditoriamente à proposta de humanização/acolhimento nos serviços de saúde, este vínculo gerar dependência e medicalização. O problema que motivou a realização dessa pesquisa foi essa relação trabalhador-usuário que estabelece ainda uma subordinação do segundo pelo primeiro, não reconhecendo e retirando da população o seu saber, criando uma relação de dependência especialmente do saber médico (MERHY, 1994). Na verdade essa relação trabalhador-usuário, que não troca saberes, dificilmente conseguirá resolver as necessidades de saúde da população. Precisamos nos pautar pela construção de um outro tipo de vínculo entre os trabalhadores de saúde e os usuários, temos que primar pela cidadanização da assistência à saúde, reconstruindo nossa dignidade e a do paciente, no campo das ações de saúde (MERHY, 1994). Devido a essas inquietações, o presente estudo aborda o acolhimento no PSF como possibilidade de reverter essa tendência de modelo ainda médico-centrado e não usuário-centrado (CAMPOS, 2003), como propõe o conceito de acolhimento pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006). A escolha do município de Itaboraí-RJ como cenário deste estudo deve-se ao fato do mesmo ter sido um dos pioneiros na implantação do acolhimento, enquanto política de trabalho, nas Unidades de Saúde da Família dentro do estado do Rio de Janeiro. Itaboraí sediou em maio de 2007, a 1ª Oficina de Humanização na Atenção Básica: a HUMANIZASUS-ITABORAÍ. Este estudo visa à identificação dos fatores que facilitam e dificultam a implantação do acolhimento no PSF Itaboraí especificamente na Unidade de Saúde da Família (USF) - Santa Rosa. Pretende aprimorar o conhecimento desses fatores e a identificação de estratégias que contribuam para valorizar e estimular os profissionais na construção coletiva de um modelo de atenção à saúde humanizado e acolhedor. A presente dissertação é composta por oito sessões. O capítulo 1 apresenta ao leitor o tema do acolhimento no Programa de Saúde da Família. O capítulo 2 aborda o PSF, sua implantação, metodologia, contradições e desafios. O capítulo 3 descreve o acolhimento como proposta de humanização na atenção à saúde. O capítulo 4 descreve as características do SUS e do PSF no município de Itaboraí. Os capítulos 5 e 6 explicitam os objetivos do estudo (geral e específico), as opções metodológicas, o cenário e a população e os preceitos éticos observados neste estudo. O Capítulo 7 trata dos resultados encontrados e da discussão com a literatura especializada. Finalizando, o capítulo 8 apresenta as considerações finais, trazendo uma síntese dos resultados encontrados e das contribuições do estudo. 2 PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA O Programa de Saúde da Família (PSF) tem suas raízes no Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), adotado pelo Ministério da Saúde em 1991. O PACS foi um antecessor do PSF, ao focar a família e não apenas o indivíduo em seu conjunto de ações. No PACS a atenção estava centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social. Além disso, introduzia uma visão ativa de não esperar a demanda chegar para intervir, mas de agir preventivamente sobre ela, constituindo-se assim como um instrumento real de reorganização da demanda. Em 1994, surgiu a proposta do PSF como instrumento de reorganização do SUS, reafirmando seus pressupostos básicos referentes à universalidade, integralidade e eqüidade, em um contexto de descentralização e controle social da gestão. O Programa de Saúde da Família (PSF) vem sendo incorporado pelo Ministério da Saúde como um modelo alternativo de atenção à saúde desde 1994, em substituição ao modelo tradicional, em decorrência da necessidade de agregar-se uma nova prática de cuidado em saúde. As ações de saúde desenvolvidas pelo PSF passaram, assim, a serem centradas na família, percebida a partir de seu ambiente sociocultural. O trabalho neste âmbito se estrutura a partir da Unidade de Saúde da Família (USF), onde fica localizada a equipe multiprofissional com responsabilidade por uma determinada população a ela vinculada. A organização do trabalho visa o atendimento integral às famílias, através de visitas domiciliares, grupos de educação em saúde, reuniões comunitárias e consultas individuais. O que facilita o estabelecimento de vínculos de responsabilidade e confiança entre profissionais e famílias, e permite uma compreensão ampliada do processo saúde- doença e da necessidade de intervenções, a partir de problemas e demandas identificadas. Desta maneira, estão assim definidos os princípios sobre os quais o PSF atua: -- caráter substitutivo: substituição das práticas convencionais de assistência por um novo processo de trabalho, cujo eixo está centrado na vigilância à saúde; -- integralidade e hierarquização: a unidade de saúde da família está inserida no primeiro nível de ações e serviços do sistema local de saúde, denominado atenção básica. Deve estar vinculada à rede de serviços, de forma que se garanta a atenção integral aos indivíduos e famílias, e sejam asseguradas a referência e contra-referência para os diversos níveis do sistema, sempre que for requerida maior complexidade tecnológica para a resolução de situações ou problemas identificados na atenção básica; -- territorialização e criação de clientela: trabalha com território de abrangência definido e é responsável pelo cadastramento e acompanhamento da população adscrita a essa área. Recomenda-se que uma equipe da saúde da família (ESF) seja responsável pelo acompanhamento de no máximo 4.500 pessoas. -- equipe multiprofissional: é formada por no mínimo um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e quatro a seis agentes comunitários de saúde, que são responsáveis por cerca de 3000 a 4.500 pessoas, totalizando de 600 a 1000 famílias por equipe de saúde. Quando ampliada, conta ainda com um dentista, um auxiliar de consultório dentário e um técnico em higiene dental (BRASIL, 2006). Esta equipe multiprofissional passa a ser a "Porta de Entrada" do serviço de saúde, porém na prática cotidiana dos PSF, percebe-se que a oferta de serviços de saúde continua em torno do procedimento médico-centrado, que é a consulta médica. A partir dela é oferecido uma lista de serviços que pode ser executado por outros profissionais. O programa trabalha por meio de marcação de consulta médica. É dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, e essa mudança deveria se caracterizar a partir de um modelo que seja usuário-centrado, mas será que é assim? Embora o trabalho esteja direcionado para práticas multiprofissionais, nada garante nas estratégias do PSF de que haverá ruptura com a dinâmica médicocentrada, do modelo hegemônico atual. O Programa aposta em uma mudança centrada na estrutura, ou seja, o desenho sob o qual opera o serviço, mas não opera de modo amplo nos microprocessos do trabalho em saúde, nos fazeres do cotidiano de cada profissional, que em última instância é o que define o perfil da assistência (FRANCO, 2006). O Ministério da Saúde passou a se referir em 2005 ao Programa de Saúde da Família (PSF) como Estratégia de Saúde da Família, deslocando a idéia de um programa setorial de saúde, uma vez que o PSF não foi implantado apenas para organizar a atenção básica no SUS de maneira temporária, mas essencialmente para reestruturar esse sistema, na medida em que redirecionou prioridades de ação em saúde, reafirmando uma nova filosofia de cuidado em saúde e uma consolidação dos princípios organizativos do SUS. No entanto, neste estudo, utilizaremos o termo Programa de Saúde da Família (PSF) em virtude de seu uso comum no meio acadêmico e pelos profissionais de saúde. 2.1 ACOLHIMENTO NO PSF Para refletir sobre o acolhimento no PSF como um dispositivo capaz de contribuir para a mudança de um modelo hegemônico médico-centrado para usuário-centrado é preciso antes conceituar as principais características do trabalho em saúde. O conceito de trabalho vivo em saúde vem de Merhy (1997) quando estuda a micropolítica do trabalho em saúde, e identifica dois componentes, o trabalho morto e o trabalho vivo. O primeiro é o produto do meio como ferramenta ou matéria-prima, sendo o resultado de um trabalho humano realizado em um momento anterior, por exemplo, o formulário, o estetoscópio,os equipamentos de saúde. O trabalho vivo é aquele que está em ação, vai se dando, vai se fazendo no próprio ato pelo trabalhador, dando a ele, certa autonomia em sua ação, seu poder de decidir coisas em seu microespaço. Segundo Merhy (1997), o acolhimento é produzido no encontro entre trabalhador e o usuário que ele chama de espaço intercessor, onde cada uma das partes, o usuário e trabalhador se colocam com toda sua inteireza, ou seja, suas necessidades, projetos, ansiedades, dores, medos, desejos, sonhos e potencialidades. Nesse espaço intercessor está a potência do trabalho vivo em ato. Isso determina uma característica essencial do trabalho em saúde, a de que ele é relacional. Para agir nesse espaço intercessor, o trabalhador lança mão de ferramentas. O autor classifica as ferramentas em tecnologias dura, leve-dura e leve. A tecnologia dura é composta por equipamentos tipo máquinas como o termômetro, estetoscópio assim como os exames complementares (tomografia, ressonância magnética, etc.). A tecnologia leve-dura é a que foi adquirida pelo profissional durante sua formação e no exercício profissional. Por último a tecnologia leve que diz respeito à qualidade da relação estabelecida entre o trabalhador e o usuário. Ela permite produzir relações, expressando como resultados a construção ou não de acolhimento, vínculos e responsabilizações. O trabalho é um meio de vida, que tem sempre uma finalidade para que ele se realize e está ligado ao atendimento à determinada necessidade da pessoa, seja ela de que tipo for. No campo da saúde, segundo Cecílio (2001), as necessidades de saúde do usuário podem ser apreendidas em quatro grandes conjuntos: o primeiro diz respeito a ter boas condições de vida, ou seja, ao modo de levar a vida no trabalho, lazer, moradia e alimentação. O segundo se refere ao acesso a toda tecnologia capaz de melhorar a qualidade de vida. Nesse aspecto, o autor considera que o determinante do uso de cada tecnologia deveria ser definido pela necessidade de cada pessoa, e não por um protocolo de hierarquias dessas tecnologias. O terceiro considera o vínculo entre usuário e equipe e profissional de saúde. Vínculo esse que expressa confiabilidade, que representa encontro de duas pessoas, trabalhador de saúde e usuário, numa relação harmônica e calorosa. O quarto e último refere-se à autonomia do sujeito, ou seja, à possibilidade de cada um refazer a sua própria vida buscando a melhoria de sua qualidade de vida. É importante entender as necessidade de saúde de maneira que o usuário, ao buscar um serviço de saúde, independente de sua complexidade encontre uma escuta que vá além de suas queixas, e que o considere como parte de um todo traduzindo em um atendimento o mais completo possível. Essa abordagem requer a participação de diferentes trabalhadores de saúde na atenção e reforça as relações entre serviço de saúde e usuário, permitindo o direito de usufruir os bens que o serviço oferece de tal forma que o usuário, ele mesmo, obtenha as ferramentas necessárias para que possa se apropriar, refletir e transformar seu modo de viver a vida. Isso envolve centrar as ações numa prática que inclua o cuidado. Merhy (2002) sobre este aspecto afirma que: [...] o modelo assistencial que opera hoje nos nossos serviços é centralmente organizado a partir dos problemas específicos, dentro da ótica hegemônica do modelo médico neoliberal, e que subordina claramente a dimensão cuidadora a um papel irrelevante e complementar. [...] podemos também afirmar que neste modelo assistencial a ação dos outros profissionais de uma equipe de saúde são subjugadas a esta lógica dominante, tendo seus núcleos específicos e profissionais subsumidos à lógica médica, com o seu núcleo cuidador também empobrecido (p. 125). O autor destaca que, sob uma outra lógica, o conjunto de profissionais de saúde tem um núcleo comum: o do cuidado e esse é integrador dos diferentes olhares. Na medida que é comum, provoca o diálogo e a troca de saberes dos diferentes campos profissionais. Deseja-se que o novo modelo de atenção considere o processo saúde-doença além da dimensão incluída nos âmbitos tradicionais da epidemiologia e da terapêutica, que não tenha mais o saber médico como centro e que considere o indivíduo e não a doença como foco da atenção. Para tal finalidade é necessário um conjunto de ações que essencialmente têm que ser realizadas por um grupo de pessoas e não por um único profissional. Atender as necessidades de saúde da população nos moldes propostos implica em um trabalho de equipe multiprofissional, para realizar uma abordagem integral da pessoa, vendo-a em seu contexto sócio-econômico e cultural. No Programa de Saúde da Família espera-se que os profissionais de saúde solicitados possam utilizar seus conhecimentos, experiências, habilidades na assistência direta ao usuário, ultrapassando os limites de um papel muitas vezes burocrático dentro da equipe, para uma relação mais próxima com o usuário levando a um crescimento pessoal e profissional, que as trocas interdisciplinares e as trocas com o saber popular podem proporcionar. Nesse novo cenário não tem mais a demanda reprimida, pois todo o usuário que chegar em uma unidade de saúde da família será atendido, porém não necessariamente pelo médico. No entanto este deverá ser acionado, toda vez que a situação apresentada for de uma competência, que não se enquadra dentro das atribuições legais e éticas do profissional que estiver acolhendo o usuário. Compreendemos que se o trabalhador de saúde souber usar suas ferramentas/tecnologias no encontro com as necessidades de saúde do usuário, esse encontro resultará ou não em um produto de saúde de qualidade. É importante ressaltar que neste estudo sobre o acolhimentode focamos as tecnologias leves, porém existem outros fatores que influenciam a qualidade dos serviços como: infraestrutura da USF, vínculos trabalhistas e uma gestão comprometida com a qualidade do serviço prestada. 3 O MODELO TECNO-ASSISTENCIAL DE SAÚDE EM DEFESA DA VIDA: UM PRECURSOR DO ACOLHIMENTO Feita a contextualização da origem e concepção do Programa Saúde da Família, sentimos necessidade de entender como surgiu o conceito de acolhimento. Após revisão de literatura identificamos no modelo tecno-assistencial em defesa da vida, um precursor da proposta de acolhimento. Este modelo, cujos principais objetivos foram incorporados pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2004), foi descrito por Merhy (2002), que encontra fundamento do acolhimento na compreensão e manejo da micropolítica do processo de trabalho. O modelo tecno-assistencial de saúde em defesa da vida, desenvolvido em Campinas-SP, originou-se de um grupo de profissionais de saúde que fundou o Laboratório de Planejamento e Administração em Saúde - Lapa, nos finais dos anos 80. Os componentes desse grupo fizeram parte do Movimento Sanitário Nacional desde a criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde - CEBES em 1976, que foi criado dentro do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Na Universidade, viam eles um espaço para construção de um modelo de atenção à saúde que servisse de contraponto ao modelo hegemônico. O modelo em defesa da vida debruçou-se sobre questões críticas da saúde brasileira, tanto no terreno da saúde pública quanto privada, apontando para a fragilidade do modelo de atenção vigente e a decorrente insegurança dos cidadãos quando a ele recorrem para resolver seus problemas. Isso ocorre, segundo Merhy (1997), porque o modelo vigente está centrado no médico e no tratamento que, na maioria das vezes, se dá de uma maneira impessoal, objetivizante e descompromissada. O autor afirma ainda que: [...] seria necessário reconstruir a idéia de autonomia do trabalhador em saúde, para além do médico e procurando a configuração do trabalhador coletivo, e construir um processo que publicize os espaços institucionais com a presença do conjunto dos atores, realmente interessados na saúde, em particular os usuários (MERHY, 1997, p. 119). A proposta Lapa-Unicamp caminha nessa direção. Ela é centrada na preocupação da organização da produção de serviços e em projetos de construção de ações sociais cooperadas entre o sistema organizacional do serviço público e a sociedade. Assim, baseia-se nos princípios da gestão democrática, saúde como direito de cidadania e serviço público de saúde voltado para a defesa da vida individual e coletiva. Nessa forma de conceber saúde, o grupo Lapa-Unicamp trouxe contribuições fundamentais e inovadoras diante de outras praticadas no país no "fazer" qualidade em saúde. Outro ponto diz respeito aos usuários e à incorporação de novos sujeitos sociais na luta em defesa da vida. Refere-se ao trabalhador da saúde pública e ao contexto de sua insatisfação pela falta de reconhecimento profissional e, muitas vezes, pelas más condições de trabalho. [...] Este quadro tem estado presente cotidianamente na vida das instituições de saúde, no Brasil, e tem se expressado não só na total insegurança da clientela no tipo de atendimento do qual muitas vezes está sendo vítima, mas também na profunda crise de realização humana e profissional do conjunto dos trabalhadores do setor saúde [...] (MERHY, 1994, p. 123). Campos (1997) acrescenta ainda que é preciso ter consciência de que trabalhar dentro do campo da saúde implica na subjetividade que o caracteriza, existindo uma proximidade física e conseqüentemente a interferência sobre o corpo e a vida do outro. [...] Às vezes, até ouve-se o arfar, sente-se o suor, percebe-se o medo [...] o trabalho em saúde assenta-se sobre relações interpessoais todo o tempo (CAMPOS, 1997, p. 250). O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pela Lei Orgânica da Saúde n° 8080/90 entendendo saúde de forma mais ampla: A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso a bens de serviços essenciais (ANDRADE, 2001). O grupo Lapa-Unicamp referenda essas idéias e tenta, com sua proposta, tratar saúde não apenas como ausência de doença. Para os proponentes desse modelo tecno-assistencial, o cidadão é um sujeito social com direitos de acesso à saúde, lazer, trabalho, moradia entre outros, abrindo assim a possibilidade de alcançar qualidade de vida. É importante registrar que o grupo Lapa-Unicamp assessorou a implantação do modelo acolhimento em algumas cidades brasileiras, tais como: Campinas (SP), Ipatinga (MG), Caxias do Sul (RS), Betim (MG), Belo Horizonte (MG), Sobral (CE) e Chapecó (SC), contribuindo para a humanização na atenção à saúde. 3.1 A HUMANIZAÇÃO NA ATENÇÃO À SAÚDE Segundo estudos de revisão sobre o conceito de humanização, realizados por Casate e Corrêa (2005, p. 187), existem diferenças significativas no enfoque da humanização presente na produção científica entre as décadas de 1950 a 1980 e os trabalhos da última década. No primeiro caso, segundo os autores, a humanização é entendida em uma "perspectiva caritativa". O paciente é mostrado como um ser frágil, vulnerável e dependente, que desperta a piedade dos profissionais de saúde. As características dos profissionais, como doçura, compaixão e espírito de caridade, são valorizadas, além do caráter divino de sua atuação. Na década de 70, surgiram discussões e lutas sobre os direitos dos pacientes. A primeira declaração de direitos dos pacientes a ser reconhecida pela literatura foi emitida pelo Hospital Mount Sinai, em Boston, nos Estados Unidos, em 1972. O conceito de humanização passou a ser entendido como um princípio vinculado ao paradigma dos direitos humanos, às idéias de dignidade e respeito à vida humana, enfatizando-se a dimensão ética entre pacientes e profissionais de saúde. De grande importância para fundamentação da humanização na saúde foi a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada pela Organização Mundial da Saúde e pelo UNICEF em Alma-Ata (Cazaquistão), em 1978. Nela foi declarado que saúde é um bem-estar completo, físico, mental e social, e não apenas ausência de doenças, devendo ser compreendida como um direito humano fundamental. Enfatizou-se que a obtenção do mais alto nível de saúde possível é o objetivo social mais importante a ser atingido pelos sistemas de saúde, e que as pessoas devem ter o direito e a obrigação de participar individual e coletivamente do planejamento e da implementação de seus cuidados com saúde. Nos anos 80, caminhou-se para a valorização dos sujeitos, das relações dialógicas e das trocas solidárias. A humanização veio a representar a possibilidade de uma nova ordem relacional. A prática médica havia se tornado impessoal, gerando a reivindicação de humanização do atendimento em saúde por parte dos movimentos sociais e associações de defesa de direitos de pacientes, sobretudo aquelas de certos grupos mais vulneráveis e/ou organizados, como pacientes idosos, portadores de HIV e de distúrbios mentais. O Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) foi criado em 1999, pela Secretaria da Assistência à Saúde do Ministério da Saúde, com os objetivos de: -- melhorar a qualidade e a eficácia da atenção dispensada aos usuários; recuperar a imagem dos hospitais junto à comunidade; -- capacitar os profissionais dos hospitais para um conceito de atenção à saúde baseado na valorização da vida humana e da cidadania; conceber e implantar novas iniciativas de humanização, beneficiando tanto os usuários como os profissionais de saúde; -- estimular a realização de parcerias e trocas de conhecimentos; desenvolver um conjunto de indicadores de resultados e sistemas de incentivo ao tratamento humanizado. O objetivo central era promover uma mudança na cultura do atendimento na área hospitalar (BRASIL, 2001). Em 2003, o Ministério da Saúde definiu como uma de suas prioridades a humanização do Sistema Único da Saúde. Nessa época o Programa de Humanização passou a ser subordinado à Secretaria Executiva do Ministério, sendo então denominada Política Nacional de Humanização (PNH), também chamada Humaniza-SUS. A proposta inicial foi ampliada e seu foco deixou de ser o sistema hospitalar, passando a ser todo o sistema de saúde. A PNH considera como fundamentais as mudanças nas profundas desigualdades socioeconômicas, nos problemas de acesso ao serviço de saúde, na desvalorização dos trabalhadores de saúde, na precarização das relações de trabalho, no baixo investimento na educação permanente dos trabalhadores de saúde, na pouca participação destes na gestão dos serviços e no frágil vínculo com os usuários (BRASIL, 2003). Podemos perceber que são valorizados os diferentes sujeitos no processo de produção da saúde: os usuários, os trabalhadores e os gestores. Em 2004, a PNH ampliou a proposta de humanização, como política transversal que atravessa as diferentes ações e instâncias gestoras do SUS, comprometendo-se em: -- Traduzir os princípios do SUS em modos de operar os diferentes equipamentos e sujeitos da rede de saúde; -- Construir trocas solidárias e comprometidas com a dupla tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos; -- Oferecer um eixo articulador das práticas de saúde, destacando o aspecto subjetivo nelas presente; -- Contagiar, por atitudes e ações humanizadoras, a rede do SUS, incluindo gestores, trabalhadores da saúde e usuários. A PNH em 2004 considera como parâmetros importantes para sua implementação na atenção básica: -- Organização do acolhimento de modo a promover a ampliação efetiva do acesso à atenção básica e aos demais níveis do sistema, eliminando as filas, organizando o atendimento com base em risco priorizados e buscando a adequação da capacidade resolutiva; -- Abordagem orientada por projetos terapêuticos de saúde, individuais e coletivos, para usuários de comunidade, contemplando ações de diferentes eixos, e levando em conta as necessidades/demandas de saúde. Avançar em perspectivas de: -- Exercício de uma clínica ampliada, capaz de aumentar a autonomia dos sujeitos, das famílias de da comunidade; -- Estabelecimento de rede de saúde e incluindo todos os fatores e equipamentos sociais de base territorial, firmando laços comunitários e reconstruindo políticas e intervenções intersetoriais; -- Organização do trabalho, com base nas equipes multiprofissionais e a atuação transdisciplinar, incorporando metodologias de planejamento e gestão participativa, colegiada, e avançando na gestão compartilhada dos cuidados/atenção; -- Implementação de sistema de escuta qualificada para usuários e trabalhadores, com garantia de análise e encaminhamento a partir dos problemas apresentados; -- Garantia de participação dos trabalhadores em atividades de educação permanente; -- Promoção de atividades de valorização e de cuidados aos trabalhadores da saúde, contemplando ações voltadas para a promoção da saúde e qualidade de vida no trabalho; -- Organização do trabalho com base em metas discutidas coletivamente e com a definição dos eixos avaliativos, avançando na implementação de contratos internos de gestão. Dessa forma constatamos que a PNH está em consenso com a proposta do acolhimento, quando estabelece a organização do trabalho com base em equipes multiprofissionais com atuação transdisciplinar, buscando a construção de trocas solidárias e comprometidas com a dupla tarefa de produção de saúde e produção de sujeitos. 3.2 ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE Acolhimento, como parte do processo que pretende promover qualidade de vida através do sistema de saúde pública, representa a possibilidade de ampliação do acesso dos usuários a esses serviços. "Sua aplicação significa a retomada da reflexão da universalidade na assistência e da dimensão da governabilidade das equipes locais..." (MALTA, 2000). Dessa maneira, o acolhimento: [...] tornou possível, ainda, a reflexão sobre a humanização das relações em serviço e parte da lógica de poder contida nesse processo, contribuindo assim para uma mudança na concepção da saúde como direito. Ao permitir reflexões e criações coletivas envolvendo governo, trabalhadores e usuários, em um movimento de mudanças necessárias para traçar esse novo fazer em saúde, resgatou-se o espaço de trabalho como lugar de sujeitos (MALTA, 2000, p. 22). Assim, acolhimento faz parte das relações que implicam no acesso do usuário, na humanização dessas relações e na responsabilidade para com a vida das pessoas. Nesse processo é necessário envolver todos os trabalhadores da saúde. No Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa (FERREIRA, 1993), o termo acolhimento está relacionado ao: Ato ou efeito de acolher; recepção, atenção, consideração, refúgio, abrigo, agasalho. E acolher significa dar acolhida ou agasalho a; hospedar; receber: atender; dar crédito a; dar ouvidos a; admitir, aceitar; tomar em consideração; atender a. Em 2004, a PNH passou a compreender o acolhimento relacionado principalmente à problemática da recepção, da demanda espontânea - buscando atender a todos com uma escuta qualificada, pactuando respostas - e também ao reconhecimento do usuário como participante ativo no processo de produção da saúde. Acolhimento é uma ação tecno-assistencial que pressupõe a mudança da relação profissional/usuário e sua rede social através de parâmetros técnicos, éticos, humanitários e de solidariedade, reconhecendo o usuário como sujeito e participante ativo no processo de produção da saúde. O acolhimento é um modo de operar os processos de trabalho em saúde, de forma a atender a todos que procuram os serviços de saúde, ouvindo seus pedidos e assumindo no serviço uma postura capaz de acolher, escutar e pactuar respostas mais adequadas aos usuários. Implica prestar um atendimento com resolutividade e responsabilização, orientando, quando for o caso, o paciente e a família em relação a outros serviços de saúde para a continuidade da assistência e estabelecendo articulações com esses serviços para garantir a eficácia desses encaminhamentos (BRASIL, 2004). Pelo documento técnico do Ministério da Saúde de Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005, p. 29): O acolhimento relaciona-se diretamente com a comodidade e o trato humanizado que o serviço oferece ao usuário, além da dimensão operacional de escuta das queixas e necessidades de saúde, buscando uma atenção resolutiva por meio da articulação dos serviços da rede. Este aspecto é fundamental na medida em que influi no nível de confiança entre o provedor e o usuário, aderência às indicações de continuidade no atendimento, respeito individual e satisfação dos usuários. Em 2006, a idéia de acolhimento nos serviços de saúde já reunia uma grande experiência em diversos serviços de saúde do SUS e a própria PNH pode se autoavaliar, ampliando o conceito de acolhimento e preocupando-se em esclarecer um novo conceito. Segundo a PNH em 2006, tradicionalmente, a noção de acolhimento no campo da saúde tem sido identificada: -- Ora como uma dimensão espacial, que se traduz em recepção administrativa e ambiente confortável; -- Ora como uma ação de triagem e repasse para serviços especializados. As duas têm sua importância, porém quando tomadas isoladamente dos processos do trabalho em saúde se restringem a uma ação pontual, isolada e descomprometida com os processos de responsabilização e construção do vínculo. Nessa definição restrita de acolhimento muitos serviços de saúde convivem com filas madrugadoras na porta de entrada da UBS, reproduzindo uma forma de trabalho que privilegia a produção de procedimentos em detrimento aos sujeitos que estão sob sua responsabilidade. Muitas vezes oferecem serviços totalmente contraditórios à demanda. Por meio das práticas dos serviços de saúde que implantaram o acolhimento, a PNH (2006) refletiu e assim o redefiniu: [...] É preciso não restringir o conceito de acolhimento ao problema da recepção da demanda espontânea, tratando-o como próprio a um regime de afetabilidade [...] o acolhimento só ganha sentido se o entendemos como uma passagem para o acolhimento nos processos de produção de saúde. [...] o acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética: não pressupõe hora ou profissional específico para fazê-lo, implica compartilhamento de saberes, angústias e invenções tomando para si a responsabilidade de "abrigar e agasalhar" outrem em suas demandas, com responsabilidade e resolutividade [...] constitui como ação que deve ocorrer em todos os locais e momentos do serviço de saúde [...] (BRASIL, 2006). Neste estudo trabalharemos com o conceito de acolhimento formulado pelo documento técnico do Ministério da Saúde de Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005, p. 29) e pela Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006), que estão em concordância com os autores nos quais nos baseamos para o desenvolvimento desta pesquisa. 4 AS CARACTERÍSTICAS DO SUS NO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ 4.1 CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ITABORAÍ: ASPECTOS SÓCIODEMOGRÁFICOS O município de ltaboraí divide-se em oito distritos, com uma extensão territorial de 429,03 km2. Devido à transição das suas características econômicas, de agrícola e industrial para urbana, de periferia de grande centro, com intensa migração na década de 70, sem investimentos em infra-estrutura básica, saneamento e em oferta de emprego para a população, tem hoje perfil socioeconômico e sanitário que compromete a qualidade de vida de seus habitantes. Apresenta população de 205.857 habitantes, segundo estimativa IBGE (2005). Apresenta grande aglomerado urbano empobrecido, encontra-se na região metropolitana do Rio de Janeiro e para fins de planejamento em saúde é localizado na região metropolitana II, da qual também fazem parte os municípios de Niterói, São Gonçalo, Maricá, Rio Bonito, Tanguá e Silva Jardim. FIGURA 1: REGIÃO METROPOLITANA II I T A B O R A Í - RJ Região Metropolitana II Fonte: Página na internet da Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. 4.2 ESTRUTURA DA REDE MUNICIPAL DE SAÚDE Segundo o Plano Municipal da Secretaria Municipal de Saúde 2005/2009, o sistema de saúde de Itaboraí está voltado para a construção de uma rede pública de assistência que responda, principalmente, pelas ações de atenção básica, com referência integrada e fluxos estabelecidos para o segundo e terceiro nível. Nesta lógica de organização dos serviços, o Programa Saúde da Família e o Programa de Agentes comunitários de Saúde são responsáveis pela formatação do modelo assistencial, a partir da atenção básica. As equipes do PSF estão distribuídas em 44 unidades de saúde. A cobertura das áreas não adscritas ao PSF e PACS é realizada por quatro Unidades Básicas de Saúde e pela Policlínica de Especialidades. O Hospital Municipal Desembargador Leal Júnior (HMDLJ), além de implantar e implementar a Policlínica de Especialidades Prefeito Francisco Nunes da Silva respondem as demandas originadas do primeiro nível de atenção da rede municipal da saúde. TABELA 1: REDE DE UNIDADES DE SAÚDE CNES 2269112 2693887 3030547 3373614 2268922 3447952 2268973 2290308 2294141 2268981 3028828 2294176 2269147 2269198 2269015 2269244 Unidade de Saúde Ambulatório Central Centro de Atenção Psicossocial Pedra Bonita Divisão de Vigilância Sanitária e Ambiental Farmácia Básica Hospital Municipal Desembargador Leal Júnior Policlínica de Especialidades Pref. Francisco Nunes da Silva Posto de Saúde Apoio II Posto de Saúde Engenho Velho Posto de Saúde Vila Rica Posto Milton Rodrigues Rocha Unidade Básica de Saúde Chácara de Sambaetiba Unidade de Saúde da Família Apoio III Unidade de Saúde da Família da Reta Velha Unidade de Saúde da Família de Cabucu Unidade de Saúde da Família de Itambi Unidade de Saúde da Família de Jardim Idália 8007454 Unidade de Saúde da Família de Mangueira 2290324 Unidade de Saúde da Família de Reta Nova 2294184 Unidade de Saúde da Família de São José 2269139 Unidade de Saúde da Família do Sapê 2269228 Unidade de Saúde da Família Gebara 3378780 Unidade de Saúde da Família Grande Rio 8013446 Unidade de Saúde da Família Grania Cabucu 8007446 Unidade de Saúde da Família Joaquim Oliveira 3337111 Unidade de Saúde da Família Monte Verde 2693895 Unidade de Saúde da Família Santo Antônio 8007438 Unidade de Saúde da Família Santo Expedito 8007462 Unidade de Saúde da Família São Joaquim 3337138 Unidade de Saúde da Família Vila Nascimento 2294168 Unidade de Saúde de Família de Agro Brasil 2269201 Unidade de Saúde de Família de Aldeia da Prata 2269236 Unidade de Saúde de Família de Ampliacao 2269104 Unidade de Saúde de Família de Marambaia 2269023 Unidade de Saúde de Família de Nova Cidade 2269031 Unidade de Saúde de Família de Pachecos 2269090 Unidade de Saúde de Família de Porto das Caixas 2290316 Unidade de Saúde de Família de Quissama 2269082 Unidade de Saúde de Família de Visconde de Itaborai 2294133 Unidade de Saúde de Família do Areal 2269120 Unidade de Saúde de Família do Bairro Amaral 2269155 Unidade de Saúde de Família Jardim Planalto 3313395 Unidade de Saúde de Família Planalto de Marambaia 2294125 Unidade de Saúde de Família Vila Brasil 2269163 Unidade Movel Odontolooica I 8013411 Unidade Movel Odontologica II Fonte: CNES/SMS de Itaboraí. 4.2.1 Dados Populacionais FIGURA 2: POPULAÇÃO SEGUNDO MUNICÍPIOS DA REGIÃO METROPOLITANA II Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Municípios da Região Metropolitana II População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.758.768 Itaboraí 197.017 Maricá 83.088 Niterói 464.354 Rio Bonito São Gonçalo 50.645 914.536 Silva Jardim 21.920 Tanguá 27.208 Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2006 Município População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.876.788 330190 Itaboraí 220.982 330270 Maricá 99.053 330330 Niterói 476.671 330430 Rio Bonito 53.036 330490 São Gonçalo 973.372 330560 Silva Jardim 23.576 330575 Tanguá 30.098 Fonte: Pacto de Atenção Básica - DATASUS, 2006. A população de Itaboraí era de 197.017 habitantes em 2002 passando a 220.982 habitantes em 2006 (dados estimados), representando um crescimento populacional de 10% em 4 anos. Esta taxa de crescimento populacional de 2,5% ao ano encontra-se elevada em relação à média nacional de 1,37% ao ano. 4.2.2 Dados de Cadastramento Familiar pelo PSF ano 2002 FIGURA 3: PACTO DE ATENÇÃO BÁSICA - 2006 - RIO DE JANEIRO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro % pop cober PSF segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Município % pop cober PSF Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 27,15 Itaboraí 50,87 em 2002 69,5 em 2006 Maricá 14,66 Rio Bonito 25,57 São Gonçalo 36,26 Silva Jardim 70,05 Tanguá ITABORAÍ: REDE HOSPITALAR : 05 Fonte: DATASUS, 2006. 19,10 REDE AMBULATORIAL : 54 Houve um significativo aumento de cobertura populacional pelo PSF desde a sua implantação em 2002, quando 50,87% de sua população foi cadastrada. Em 2006, 69,5% da população estava cadastrada pelas equipes do PSF. Dados de 2007 apontam uma cobertura de 71,6% da população residente (Itaboraí, 2007). 5 OBJETIVOS DO ESTUDO 5.1 GERAL Compreender as percepções dos profissionais de saúde do PSF do município de Itaboraí sobre o acolhimento. 5.2 ESPECÍFICOS Descrever como os profissionais de saúde percebem seu processo de trabalho no âmbito do acolhimento. Identificar condições favoráveis e desfavoráveis à implantação do acolhimento. 6 METODOLOGIA 6.1 TIPO DE ESTUDO O presente estudo pretende compreender, do ponto de vista dos profissionais de saúde da equipe do PSF de Itaboraí, quais os fatores que facilitam e dificultam a implantação do acolhimento no processo de trabalho, além de descrever a percepção que possuem sobre seu processo de trabalho no âmbito do acolhimento. Visando a alcançar o discurso dos profissionais de saúde do PSF sobre a percepção de acolhimento a pesquisa qualitativa nos pareceu mais adequada, porque entendemos que nosso interesse seja: Pelo cotidiano, e não tanto por fatos extraordinários, em um espaço e um tempo concretos, por aplicar procedimentos mais indutivos do que dedutivos e ainda considerar os fenômenos sociais mais como particulares e ambíguos, do que como repetíveis e claramente definidos (TOBAR, 2004, p. 93). A pesquisa qualitativa não se baseia no tamanho da amostra e sim na abrangência do problema investigado em suas múltiplas dimensões (MINAYO, 1994). A pesquisa qualitativa responde: As questões muito particulares, ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, motivos aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um nível mais profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalizações de variáveis (MINAYO, 1994, p. 21). 6.2 CENÁRIO E POPULAÇÃO DA PESQUISA O cenário utilizado foi o Programa de Saúde da Família do Município de Itaboraí (PSF-Itaboraí), implantado em 2002 promovendo atenção à saúde nas 46.959 famílias cadastradas, totalizando 161.933 pessoas. A cobertura populacional do PSF-Itaboraí é de 71,6% da população residente no município (AGÊNCIA BRASIL, 2006). Atualmente o PSF de Itaboraí possui 44 equipes formadas por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde. O critério de escolha do PSF-Itaboraí para o desenvolvimento deste estudo teve como base o fato de que, em 2006, o Ministério da Saúde ofertou um prêmio pelo excelente desempenho deste na primeira fase do Projeto de Expansão e Consolidação do Programa Saúde da Família (PROESF). Além do município de Itaboraí, o Ministério da Saúde premiou 11 municípios. São eles: Aracaju (SE), Belo Horizonte (MG), Caucaia (CE), Caxias (MA), Itabira (MG), João Pessoa (PB), Juazeiro (BA), Londrina (PR), Maracanaú (CE), Mossoró (RN) e Parnamirim (RN). Os municípios receberam uma verba de R$ 6 milhões (AGÊNCIA BRASIL, 2006). E também o critério de escolha foi motivado pelo fato do mesmo ter sido um dos pioneiros na implantação do acolhimento, enquanto política de trabalho, nas Unidades de Saúde da Família locais. Em maio de 2007 foi realizada a I Oficina de Humanização na Atenção Básica: HumanizaSUSItaboraí (ANEXO 1). O campo de estudo escolhido foi a Unidade de Saúde da Família - Santa Rosa situada em uma área rural. O nome dado a esta Unidade de Saúde da família é fictício dando importância à norma de anonimato da equipe. Respeitando-se o critério de inclusão por ter sido uma USF implantada há mais tempo (seis anos) e de maior permanência dos profissionais da equipe (trabalhando juntos há mais de quatro anos). Partiu-se do pressuposto que uma equipe implantada há mais tempo estaria mais estruturada no seu processo de trabalho. A equipe da USF é constituída por uma médica, um enfermeiro, uma auxiliar de enfermagem, uma recepcionista, oito agentes comunitários de saúde. A população adscrita está em torno de oito mil pessoas segundo relato dos entrevistados. A renda familiar média é de aproximadamente um salário mínimo. O padrão de construção das casas é muito precário. Não há saneamento básico, água encanada e as ruas são bastante esburacadas e sem qualquer pavimentação. As microáreas apresentam características diversificadas. Existem microáreas que são formadas somente por sítios e fazendas, cujos proprietários, geralmente aposentados, residem em Niterói, cidade próxima, ou seja, diversas moradias permanecem a maior parte do tempo fechadas. Esses sítios e fazendas mantém uma distância significativa entre si, o que dificulta a realização da visita domiciliar, sem um transporte adequado. Nesta situação as pessoas cadastradas e freqüentadoras são os caseiros e alguns (poucos) proprietários que se interessaram. Observamos também que em outras microáreas, entretanto, concentram-se numa mesma rua casas bem pobres, situadas lado a lado. Foi comum encontrar 30 ou mais casas nessa situação. Isso evidencia a heterogeneidade das microáreas, diferenciando o trabalho entre os diversos agentes comunitários de saúde, particularizando discussões locais a partir desta diversidade. Cabe lembrar que nas áreas rurais a concentração populacional é muito menor do que nas áreas urbanas. Uma das extremidades da área adscrita da equipe de saúde estudada fica na fronteira entre os municípios de Itaboraí e Cachoeiras de Macacu, a uma distância aproximadamente de três quilômetros da unidade. E a outra divisa da área até mais ou menos dez quilômetros da unidade. Só para ilustrar, imaginemos a área adscrita como se fosse um retângulo com um comprimento de seis quilômetros e largura de três quilômetros, o que totaliza 18 km². Os profissionais de saúde que participaram do estudo constituíram-se de: um médico, um biólogo (padrinho da USF), um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem, um agente administrativo e cinco agentes comunitários de saúde. Todos eles atuam na Unidade de Saúde da Família Santa Rosa. No PSF do município de Itaboraí cada USF possui um padrinho que fica responsável em fazer o elo entre a coordenação do PSF e a equipe da USF. Desse total de dez profissionais, quatro sujeitos são do sexo masculino e seis do sexo feminino, enquadraram-se na faixa etária entre 40 e 55 anos e quatro deles entre 20 e 35 anos. O nível de escolaridade desses profissionais apresentou as seguintes características: GRAU DE ESCOLARIDADE Ensino médio incompleto Ensino médio completo Terceiro grau completo QUANTIDADE 2 5 3 Em relação ao tempo de serviço na unidade de saúde da família, a amostra dividiu-se em: TEMPO DE SERVIÇO Menos de um ano De 1 a 2 anos De 3 a 4 anos De 5 a 6 anos QUANTIDADE 1 1 2 6 6.3 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS A coleta de dados foi feita através de entrevistas individuais semi-estruturadas com os 10 profissionais de saúde da equipe da USF-SANTA ROSA, além da realização de observação participante. A entrevista semi-estruturada é baseada no uso de um guia de entrevistas, que consta de uma lista de perguntas ou temas que necessitam ser abordados durante as mesmas; o informante aborda livremente a pergunta ou tema proposto (MINAYO, 2004). As entrevistas seguiram um roteiro de perguntas, apresentado no apêndice a este projeto, e foram realizadas com os sujeitos do estudo, após agendamento prévio com os mesmos, de acordo com suas disponibilidades de horário. Foram feitas perguntas pertinentes ao tema acolhimento com o objetivo de refletir sobre qual é o entendimento dos profissionais de saúde da USF sobre o acolhimento além de identificar condições favoráveis e desfavoráveis sobre a prática do mesmo. No roteiro da entrevista, houve uma pergunta direta sobre o que eles entendiam sobre o conceito de acolhimento e no restante do roteiro foram abordados temas indiretos a exemplo do processo de trabalho, visitas domiciliares, práticas educativas, reuniões de equipe, etc. As entrevistas foram gravadas em meio magnético (fitas K-7), tendo sido posteriormente transcritas, totalizando 600 minutos de gravação. Os profissionais de saúde entrevistados assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (ver apêndice). O número de entrevistas não foi previamente estipulado, pois, concordando com Minayo (1994, p. 102): Numa busca qualitativa, preocupamo-nos menos com a generalização e mais com o aprofundamento e abrangência da compreensão seja de um grupo social, de uma organização, de uma instituição, de uma política ou de uma representação. O número das entrevistas foi delimitado em função do atendimento dos objetivos traçados no início do estudo, tendo sido realizadas até o alcance de um ponto de saturação das respostas aos questionamentos. Ainda segundo Minayo (1994, p. 43): A pesquisa qualitativa não se baseia no critério numérico para garantir sua representatividade [...]. A amostragem boa é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões. A observação participante foi realizada durante dois meses (100h) na unidade onde atuam os profissionais de saúde entrevistados, em dias previamente agendados com os próprios profissionais de saúde. Os cenários de observação foram na USF e extra-muros nas visitas domiciares com agentes comunitários de saúde. Na USF observei a sala de espera, a recepção, a consulta médica, a consulta de enfermagem, os procedimentos realizados pela auxiliar de enfermagem e a reunião de equipe. O principal objetivo da observação é gerar conhecimento sobre o comportamento humano. Na nossa pesquisa cujo objeto de estudo foi compreender as percepções dos profissionais sobre o acolhimento, a observação foi fundamental para fazer a diferença entre um discurso verbal de uma escuta qualificada de acolhimento e um comportamento distanciado e indiferente ao sofrimento do usuário. A importância dessa técnica reside no fato de podermos captar uma variedade de situações ou de fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas (MINAYO, 1994, p. 61), tendo sido registrado em um diário de campo, a fim de facilitar o processo de análise. Para Minayo (1994, p. 63), o diário de campo é: Um instrumento ao qual recorremos em qualquer momento da rotina do trabalho que estamos realizando [...]. Sobre ele o pesquisador se debruça, no intuito de construir detalhes que no seu somatório vai congregar os diferentes momentos da pesquisa [...]. Quanto mais rico for em anotações esse diário, maior será o auxílio que oferecerá à descrição e à análise do objeto em estudo. A coleta de dados foi realizada nos meses de julho a agosto de 2008 após aprovação do projeto pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá. Os dados foram coletados mediantes assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (APÊNDICE), contemplado pela Resolução número 196/96, do Conselho Nacional de Saúde - CNS (Diretrizes e normas reguladoras de pesquisas envolvendo seres humanos), preservando o anonimato dos participantes (BRASIL, 2006c). 6.4 TÉCNICA DE ANÁLISE DE CONTEÚDO Utilizamos a análise de conteúdo a partir da vertente temática (BARDIN, 1997) para discutirmos os achados do estudo. Os temas oriundos das entrevistas realizadas foram desdobrados em núcleos ou unidades de sentido e apresentados através de categorias. Pode-se definir a análise de conteúdo como um conjunto de instrumentos metodológicos que se presta ao estudo das comunicações e que, partindo da escolha e definição de determinados indicadores, permite a inferência de variáveis. São essas variáveis que auxiliam na compreensão e interpretação das condições que permitiram construir uma comunicação ou suas conseqüências. Ou, como define Bardin (1997, p. 42): Designa-se sob o termo análise de conteúdo um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. Ou seja, mais importante que a descrição dos textos em si, são as inferências que podem ser construídas a partir do tratamento dado a eles. Assim: A intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção (ou eventualmente de recepção), inferência esta que recorre a indicadores (quantitativos ou não) (BARDIN, 1997, p. 38). O que se pretende quando da realização da análise de conteúdo é poder inferir as condições de produção ou certas variáveis de um tipo de comunicação tomado por objeto de análise. Bardin (1997, p. 39) define inferência como "uma operação lógica pela qual se admite uma proposição em virtude de sua ligação com outras proposições já aceitas como verdadeiras". É a partir das variáveis inferidas que se dá o trabalho de interpretação, atividade que dá conclusão ao trabalho de análise de conteúdo e constitui seu objetivo final. E para que tal inferência seja possível, recorre-se a indicadores. Estes são escolhidos e definidos pelo analista, de acordo com os objetivos da análise. Assim, na análise de conteúdo há uma fase inicial de descrição do texto a ser analisado, uma última fase, que é a interpretação - isto é, a significação dada a essa descrição - e uma fase intermediária a essas duas, que é a inferência. É esta inferência que vai permitir a passagem de uma fase à outra. Ou seja, dado um significante, chegamos ao significado, através do trabalho de inferência que serve de ponte entre os dois. Ainda segundo Bardin (1997), análise de conteúdo pode ser organizada em três pólos cronológicos ou etapas. A primeira etapa, denominada pré-análise, é uma fase de organização que tem como objetivo operacionalizar e sistematizar as idéias iniciais. Bardin considera esta fase como período de instituições. A pré-análise possui três objetivos: (1) a escolha dos documentos a serem analisados; (2) a formulação de hipóteses e objetivos; e (3) a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final. As atividades empreendidas nesta fase são abertas e não-estruturadas, havendo uma inter-relação entre elas. Após a escolha do material, o passo seguinte é a realização de uma leitura flutuante, quando surgem impressões e orientações para a análise. Este é um trabalho preparatório da análise, onde se escolhem os índices que serão organizados sistematicamente em indicadores. Após a pré-análise, parte-se para a segunda etapa, a exploração do material, quando se administram sistematicamente as orientações e decisões tomadas na préanálise. Nesta fase é feito um recorte do material a ser analisado, através de uma grelha de categorias, definidas na pré-análise, que são projetadas sobre os conteúdos. Por fim, a terceira etapa compreende o tratamento dos resultados obtidos e o trabalho de inferência e interpretação. Assim, ao fim da análise, obtém-se a elaboração de um elo entre os dados do texto e a teoria prévia do analista. No nosso estudo resolvemos, antes do trabalho de campo, elaborar as categorias a serem investigadas, que nos ajudaram na análise do conteúdo. 6.4.1 Categorias O conceito de acolhimento formulado no documento técnico do Ministério da Saúde sobre Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família (BRASIL, 2005) e na Política Nacional de Humanização (BRASIL, 2006) foi utilizado como referência teórica para avaliar a percepção dos profissionais. A palavra categoria, em geral, refere-se a um conceito que abrange elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre em si. As categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Esse tipo de procedimento pode ser utilizado em qualquer tipo de análise qualitativa. As categorias podem ser estabelecidas antes do trabalho de campo, na fase exploratória da pesquisa, ou a partir da coleta de dados. As categorias podem ser divididas em subcategorias ou variáveis. Segundo Minayo (1994, p. 70), o pesquisador deveria, antes do trabalho de campo, definir as categorias a serem investigadas. Após a coleta de dados, ele também deveria formulá-las, visando à classificação dos dados encontrados em seu trabalho de campo, para em seguida comparar as categorias gerais estabelecidas antes com as específicas, formuladas após o trabalho de campo. Para alcançar os objetivos estipulados por este estudo, a categoria foi assim classificada: QUADRO 1: CATEGORIA E SUBCATEGORIAS PRELIMINARES. ADAPTADO DO INSTRUMENTO TÉCNICO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE (BRASIL, 2005) E DO TEXTO BÁSICO DE SAÚDE SOBRE ACOLHIMENTO NAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO DE SAÚDE (BRASIL, 2006) Categoria Subcategorias/variáveis 1.1 - visita domiciliar 1.2 - diagnóstico de saúde 1.3 - monitoramento referências 01 acolhimento 1.4 - informações do serviço 1.5 - critérios de triagem demanda 1.6 - espaço do acolhimento 1.7 - monitoramento tempo espera serviço Fonte: Avaliação para Melhoria da Qualidade da Estratégia Saúde da Família. Documento técnico, (BRASIL, Ministério Saúde, 2005) e texto básico de saúde sobre acolhimento nas práticas de produção de saúde (BRASIL/HumanizaSUS, 2006). A categoria escolhida foi o conceito de acolhimento, subdividido em 7 subcategorias. A primeira subcategoria refere-se à percepção do profissional de saúde quanto à importância da visita domiciliar no entendimento do processo saúde-doença, da dinâmica familiar, da construção de vínculos e do atendimento clínico domiciliar. A segunda subcategoria refere-se a avaliar se a equipe de saúde da família realiza diagnóstico de saúde da população, identificando os problemas mais freqüentes. A terceira subcategoria refere-se ao nível de responsabilidade que a equipe de saúde da família estabelece com as famílias, ao identificar se registra e monitora as referências para outros níveis de atenção. A quarta subcategoria procura aferir se a equipe está sensibilizada e fornece informações sobre o serviço de forma clara e acessível (comunicação verbal e visual). A quinta subcategoria, critérios de triagem da demanda, procura abordar se existem critérios orientadores diferenciando situações de atendimento imediato daqueles programados. A sexta subcategoria, denominada espaço do acolhimento, refere-se ao acolhimento dos usuários, no sentido da escuta da demanda realizada em um espaço apropriado, por profissional da equipe. Na verdade mais importante que o espaço é a atuação, a disponibilidade de escuta em qualquer lugar: na recepção, consulta individual, práticas educativas, visitas domiciliares e visita hospitalar. A sétima subcategoria, monitoramento do tempo de espera do serviço, verifica se a equipe estuda o fluxo de solicitações (demanda), monitorando o tempo médio decorrido entre o momento de solicitação pelo usuário (agendamento) e o real atendimento no serviço, ou seja, da consulta. Estas subcategorias ajudaram na elaboração do roteiro de perguntas da entrevista (APÊNDICE). Houve uma pré-análise dos dados orientados pelos pressupostos e objetivos do estudo, com leitura flutuante e exaustiva das entrevistas. Ainda nesta fase trabalhou-se com as entrevistas, buscando uma forma de proceder aos recortes, à categorização e à codificação na medida em que se apresentava a recorrência dos dados. Durante a leitura flutuante exaustiva das entrevistas identificamos 9 temas apresentados na seção de resultados. Cada um dos temas foi analisado isoladamente, comparando dados da literatura oficial sobre o conceito de acolhimento e falas das entrevistas. Todos esses 9 temas estão ligados para compreendermos o conceito de acolhimento na sua totalidade. 7 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Apresentação dos nove temas que surgiram após análise das entrevistas: 1) Tempo de trabalho no USF - Santa Rosa: a maior parte dos entrevistados trabalha há mais de seis anos na mesma USF. 2) Todos entrevistados conhecem as principais necessidades de saúde da comunidade, que são: baixa renda familiar, falta de saneamento básico, baixa escolaridade e desemprego. 3) Em maio de 2007 todos os integrantes dessa USF fizeram a 1ª Oficina de Humanização para as Unidades de Saúde da Família do município de Itaboraí ministrado pelo núcleo da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (ANEXO). 4) Todos entrevistados quando perguntados diretamente o que entendem sobre conceito de acolhimento, responderam com palavras "chavões" que mais adiante explanarei melhor. Porém quando perguntados como é feita a marcação de consultas na unidade, responderam sobre o acolhimento como se fosse uma triagem, um pronto atendimento feito pela médica antes das consultas marcadas dos grupos prioritários como: hipertensos, diabéticos, gestantes, crianças e preventivos. 5) A importância da reunião de equipe aparece em todas as falas. 6) Grande dificuldade de formar grupos, refere-se a que a população está "adormecida". 7) A grande motivação de ser agente comunitária é ter um trabalho perto de casa e poder ajudar as pessoas. 8) O termo triagem é utilizado como sinônimo de acolhimento pela equipe 9) A sobrecarga da "triagem" pela médica levando ao seu adoecimento. Nas entrevistas todos associam o adoecimento da médica ao tipo de acolhimento que a unidade fazia, já que os usuários só querem saber do "doutor", o enfermeiro fica em segundo plano. Os temas obtidos na análise das entrevistas foram agrupados em três categorias: 1) entendimento do conceito de acolhimento pelos profissionais de saúde; 2) fatores que facilitam a implantação do acolhimento; 3) fatores que dificultam a implantação do acolhimento no processo de trabalho. As entrevistas foram identificadas pela sigla ENT e numeradas de um a dez. 7.1 O ENTENDIMENTO DO CONCEITO DE ACOLHIMENTO PELOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DA UNIDADE DE SAÚDE SANTA ROSA O universo dos dez entrevistados apresenta diferentes formas de resposta e chegamos a conclusão que muitos dos sujeitos identificaram o significado de acolhimento como sendo a maneira de ter o primeiro contato com o usuário ao chegar na unidade de saúde da família (USF) e não deixá-lo sair da unidade sem uma resposta. A idéia de acolhimento pesquisada parece estar ainda em construção, apesar de os membros da equipe da USF - Santa Rosa terem participado, três meses antes do início deste estudo, de uma capacitação sobre Acolhimento, promovida pela Secretaria Municipal de Saúde (ver relatório da oficina em anexo). Vejamos os relatos abaixo: "O acolhimento é assim, é a gente não deixar nenhum usuário sair sem ouvir uma resposta [...]: "Oh, volta amanhã que hoje não tem como a médica te atender", ou enfermeiro, se for o caso de ser o enfermeiro. [...] O enfermeiro não tem como te atender, você volta amanhã ou à tarde. O acolhimento é a pessoa não sair sem uma resposta" (ENT 8). "[...] é você filtrar as necessidades, você ouvir, saber ouvir e você poder avaliar e filtrar as necessidades dos usuários. Se são imediatas ou se podem esperar um pouquinho, mais alguns minutinhos ou mais algum dia ou alguns dias. Para poder você ser mais humano naquele atendimento" (ENT 1). "O acolhimento eu acho que é o primeiro atendimento que a gente dá à pessoa quando chega na Unidade de Saúde da Família (USF). Aquela informação que aflige a pessoa" (ENT 3). Nesses três relatos percebemos uma percepção de acolhimento compatível ao entendimento tradicional do conceito de acolhimento, como uma triagem da demanda espontânea que chega na USF sem marcação prévia de consulta. Neste estudo, consideramos o acolhimento como uma mudança no processo de trabalho em saúde que busca a intervenção de toda a equipe multiprofissional, que se encarrega da escuta e da resolução do problema do usuário (MALTA, 2000, p. 24). Inferimos que os profissionais de saúde entendem acolhimento apenas como uma ação individual e pontual realizada pelo profissional na entrada da USF que geralmente é feito por uma auxiliar de enfermagem, um agente comunitário de saúde ou uma recepcionista. Durante os dois meses de observação, percebemos que os usuários chegavam na USF perguntando se a Drª A poderia atender e o profissional de saúde respondia apenas que a agenda estava lotada sem, muitas vezes, procurar saber o motivo da solicitação de atendimento médico, demonstrando, assim, uma dicotomia entre o discurso e a ação. Outras percepções foram mencionadas durante as entrevistas que indicaram uma identificação com as noções presentes na Política Nacional de Humanização. "Acolher para mim é muito parecido com abraçar, dar um abraço [...] é o profissional de saúde que investe em atenção básica, tem o perfil de acolher e não apenas de tratar e cuidar" (ENT 6). "É saber ouvir a pessoa, ouvir a necessidade e ajudar no que for possível" (ENT 5). "Muitas vezes a pessoa está desesperada com um problema e só de conversar com a gente durante meia hora, durante uma visita domiciliar já vai se acalmando e não precisa ir na USF procurar atendimento médico" (ENT 4). Nesses relatos percebemos que a percepção de acolhimento não está restrita ao problema da demanda espontânea, mas envolve a interação com o usuário no sentido de uma escuta qualificada em busca de resolver a sua necessidade de saúde baseada no conceito ampliado de saúde. Entretanto na maioria dos relatos, percebemos que os entrevistados, apesar de serem profissionais de saúde sensibilizados com o sofrimento do usuário, esforçando-se para lhe oferecer uma escuta qualificada, identificam o acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado realizado pelo médico, com conseqüente aumento de trabalho para o mesmo. "O acolhimento a Drª A fazia antes de tirar licença por motivo de doença. O acolhimento que a Drª fazia era assim: ela pedia para as pessoas chegarem antes da 7 horas, os casos que não podiam esperar pelo agendamento normal da consulta. Quando ela chega ela dá as senhas, os números para as pessoas que estavam esperando para ser atendido no acolhimento por ela. Se quando ela chegar tiverem 20, 30 pessoas ela se compromete a atender. Depois que ela já estiver atendendo as pessoas do acolhimento e chegar mais usuário quem atenderá será o enfermeiro B. Ela faz o acolhimento até 9:30. Depois ela atende os usuários marcados até às 11:30h. Os usuários que sobraram para o atendimento ela pede para voltar a tarde [...]. Os dias de acolhimento são terça e quarta de manhã. Os outros dias para hipertensos, diabéticos, gestantes, crianças e casos especiais" (ENT 10). É importante que o acolhimento não fique restrito ao problema da recepção da demanda espontânea, ao contrário, espera-se que seja entendido como próprio a um regime de afetabilidade (aberto a alterações), algo que qualifica uma relação e é, portanto, passível de ser apreendido e trabalhado em todo e qualquer encontro e não apenas numa condição particular de encontro, que é aquele que se dá na recepção. O acolhimento na porta de entrada só ganha sentindo se o entendermos como uma passagem para o acolhimento nos processos de saúde, de produção de saúde. O acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética: não pressupõe hora ou profissional especifico para fazê-lo, implica compartilhamento de saberes, angústias e invenções, tomando para si a responsabilidade de "abrigar e agasalhar" outrem em suas demandas, com "responsabilidade e resolutividade" (BRASIL, 2006). 7.2 FATORES QUE INFLUENCIAM A IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NA USF As entrevistas abordaram fatores facilitadores e dificultadores para o exercício da prática no cotidiano do acolhimento. Alguns fatores elegemos como os mais facilitadores para a construção da implantação do acolhimento, porque foram os mais citados nas falas dos profissionais: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados nas falas dos entrevistados foram: modelo de saúde ainda médico-centrado, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, falta de intersetorialidade e demanda populacional muito grande para a equipe. Organizamos os principais fatores relatados pelos entrevistados no quadro a seguir: QUADRO 1: FATORES FACILITADORES E DIFICULTADORES DA IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO NO PSF - SANTA ROSA Fatores Facilitadores Fatores Dificultadores 1) Vínculo com a comunidade 1) Modelo saúde médico-centrado 2) Conhecimento das necessidades de saúde da 2) Comunidade resistente às práticas educativas comunidade 3) Motivação profissional em atuar no PSF 3) Grande demanda de atendimento 4) Reunião de equipe semanalmente 4)Insuficiência de rede de referência para consulta com especialistas 5) Treinamento 5) Falta de apoio dos supervisores 6) Permanência dos profissionais 6) Falta de transporte para realizar visita domiciliar 7) Gestão comprometida com o PSF 7) Ausência de intersetorialidade 7.3 FATORES FACILITADORES O vínculo com a comunidade construído pela equipe, principalmente médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e alguns agentes comunitários de saúde, pelo fato de trabalharem juntos há mais de quatro anos foi um ponto importante para facilitar a implantação do acolhimento na equipe estudada. Segundo Merhy (1994, p. 138): Criar vínculos implica em ter relações tão próximas e tão claras que nós nos sensibilizamos com todo o sofrimento daquele outro, daquela população. É permitir a constituição de um processo de transferência entre o usuário e o trabalhador que passa a servir à construção da autonomia do próprio usuário. É sentir-se responsável pela vida e pela morte do paciente, dentro de uma dada possibilidade de intervenção nem burocratizada, nem impessoal. É ter relação, é integrar-se, com a comunidade em seu território, no serviço, no consultório, nos grupos e se tornar referencia para o usuário, individual ou coletivo. Em relação à construção do vínculo e de compromisso com os usuários a participante afirmou: "Bem no início há seis anos, na implantação da USF, os usuários tiveram dificuldade de aceitar as visitas domiciliares para fazer cadastramento, ficavam envergonhados quando chegava na hora do almoço. Não aceitavam fazer o cadastro familiar. [...] Atualmente eles sentem falta da minha visita quando tiro férias. Hoje sou muito bem recebida na casa dos meus usuários, eles me acolhem muito bem. Tenho uma família bem pobre que visito freqüentemente mais de uma vez por mês. É uma senhora que mora com seus seis filhos e um deles, uma menina de quatro anos tem hidrocefalia. Ela não tem marido e cada filho é com um pai diferente e nenhum deles a ajuda financeiramente. Estou sempre ajudando até na parte financeira. Eu e meu esposo damos uma cesta básica mensal" (ENT 4). Em outro depoimento percebemos como a construção do vínculo está ligada à responsabilidade de o profissional de saúde estar aberto a ouvir o sofrimento humano: "Às vezes eu falo que eu sou um pouco psicóloga. Tem casas que eu levo uma hora. As pessoas me contam os problemas deles... Eu penso assim: Pôxa conheci fulano agora. Fulano confia tanto em mim. Fala tanta coisa sobre a vida dele. Às vezes ele se acha em mim. [...] quer desabafar. Às vezes não tem nem como desabafar com a família. Às vezes tem vergonha de contar os próprios problemas para os familiares. Então, conta para mim. Por isso eu sou um pouco de psicóloga. Eu já sei as casas que são assim. Então, vou passar naquela casa tal hora porque eu sei que vou ficar ali muito tempo" (ENT 5). Em um dia de observação do atendimento da Drª A, constatamos o quanto ela é amada pela comunidade. A paciente chega na consulta dizendo que Drª A é uma mãezona e que não saberia dizer o que seria da sua vida sem o amor dela. Outra paciente entra no consultório acompanhada de sua filha. Ela anda com dificuldade devido a seqüela de acidente vascular encefálico. Fala arrastada e chora quando lembra do início de sua doença. A filha relata que graças a Drª A e ao enfermeiro B que visitavam sua mãe uma vez por semana ela conseguiu se recuperar. Antes das visitas domiciliares só chorava e dizia que nunca mais conseguiria andar. A Drª A comenta depois que a paciente foi embora: O PSF traz um fato inovador na atenção em saúde, que é o vínculo. Nós como profissionais de saúde ao entrarmos na casa de nossos pacientes ficamos próximos deles e de suas famílias. O conhecimento das necessidades de saúde da comunidade que os agentes comunitários de saúde, auxiliar de enfermagem, enfermeiro e médico demonstraram, por meio das entrevistas, indica que os profissionais de saúde "intuitivamente" conhecem o conceito ampliado de saúde. Sobre esta concepção, o sintoma ou sinal físico é compreendido como reflexo das condições de vida e de trabalho da pessoa, como a falta de dinheiro, condições de moradia, alimentação, transporte, lazer, etc., enfim de uma série de condições que fazem parte da vida das pessoas e são determinantes dos perfis de saúde e doença. Eles vivenciam o conceito, mas não conseguem trabalhar na lógica da determinação social da doença. Adiante quando falarei da intersetorialidade, esta lógica será esclarecida. "Olha a minha microárea não tem assim, como se diz, urbanização. Os esgostos são tudo fossas e a água é de poço. Então muitos não filtram a água. Então tem muito problema de verminose, às vezes tem muito problema de escabiose, aliás, é o que mais tem tido problema" (ENT 5). Em outro depoimento a busca de atendimento médico pela comunidade foi reconhecida pela agente comunitária de saúde como um desabafo do usuário, devido a seus problemas financeiros. "Aqui na comunidade onde a gente trabalha, o povo aqui, seria mais necessário um psicólogo do que um médico. Pra falar a verdade [...] o povo daqui, a gente tem dificuldade financeira em relação a tudo. É a saúde, é a alimentação, é a roupa, é o calçado, é o remédio. [...] tem muita gente que vem na unidade pedir atendimento e diz: "Ah, eu tô com urgência". Não é. Às vezes a pessoa não tá sentindo 'nada'. A pessoa vem tipo desabafar" (ENT 2). O relato abaixo expressa com clareza o conceito ampliado de saúde. "Quando nós chegamos aqui em fevereiro de 2002, a nossa principal preocupação era exatamente esse diagnóstico de saúde. [...] a partir da 8º Conferencia Nacional de Saúde, quando se definiu um espectro muito mais ampliado do que seja saúde. Decidimos por sair do gueto exclusivo da área do médico. Não ter a saúde era ter a presença da doença. Quando esse termo virou mais que saúde um completo bem-estar físico e ter também acesso a transporte, trabalho, renda, acesso aos setores de saúde, como atenção básica. [...] nossa preocupação foi ter esse olhar ampliado com a questão de saúde. Diagnosticamos aqui três principais problemas. Primeiro o saneamento básico não existia, assim como também ainda não existia rede de esgoto de tratamento e nem água em rede nem potável. Cerca de 90% ou mais da população adstrita ainda utiliza a água de poço artesiano ou poço de anel. [...] ainda não foi feito pesquisa de água de poço, mas eu diria pela nossa experiência, que 70% da população não faz nenhum tipo de tratamento na água que usa. O segundo problema: trabalho e renda. É uma região muito pobre, sem oferta de trabalho por conta também de uma total falta de especialização e preparo da população para o mercado de trabalho. [...] Último e principal problema, a questão do transporte, tratamento e conservação de vias, estradas, ruas e etc." Segundo Merhy (1994, p. 120): O usuário, qualquer que ele seja, espera que a relação trabalhador de saúde-usuário seja capaz de gerar um acolhimento, que permita uma atuação sobre o seu problema, o seu sofrimento". Podemos entender que para Merhy acolher é atuar sobre o problema, sofrimento, ou seja, as necessidades de saúde do usuário. Segundo Cecílio (2001, p. 113), quando alguém procura um serviço de saúde, está trazendo "uma cesta de necessidades de saúde" e caberia a equipe ter sensibilidade e preparo para decodificar e saber atender da melhor forma possível. Sugere que as necessidades estão organizadas em quatro grandes grupos: "O primeiro diz respeito a ter boas condições de vida [...]. O outro conjunto fala da necessidade de se ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida [...]. O terceiro diz respeito à insubstituível criação de vínculos efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional [...]. Um quarto diz respeito à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida". Motivação profissional em atuar no PSF: A maioria dos entrevistados relatou uma grande motivação de trabalhar no PSF. Esta motivação não estaria apenas ligada à oferta de emprego, mas principalmente com a vontade de querer ajudar as pessoas, pois a maioria trabalha neste mesmo emprego há mais de quatro anos. "Quando vim morar em Santa Rosa não tinha nenhuma opção de emprego. Para poder trabalhar tinha que ir para Itaboraí ou para o Rio. Na época achei que era interessante um serviço perto de casa, podendo conciliar o trabalho com os meus afazeres de casa com o marido e os filhos [...]. Pretendo ficar no meu emprego durante muito tempo gosto de fazer o trabalho. Gosto de visitar as pessoas, gosto desta área de saúde. É legal estar com as pessoas e poder ajudar as pessoas que estão passando por necessidade. Aqui é um local de difícil acesso" (ENT 4). Durante meu trabalho de observação participante realizei visitas domiciliares com a maioria dos integrantes da equipe. Percebi um grande vínculo da equipe com os usuários. A maioria dos agentes comunitários conheciam os problemas de saúde da sua microárea e eram bem recebidos pelos usuários. Apenas uma visita domiciliar me surpreendeu com um agente comunitário de saúde. Ao entrarmos no quintal do domicílio avistamos uma casa ainda inacabada. Fomos recebidos por uma moça bem simpática aparentando 20 anos, e três crianças. O agente comunitário de saúde (ACS) permaneceu em silêncio o tempo todo. Essa visita domiciliar já estava agendada com esse ACS há uma semana e ele quem escolheu a residência da visita domiciliar. Quando entramos na casa uma senhora estava dormindo na sala e durante toda a visita domiciliar permaneceu dormindo. Constatei que o ACS não sabia quem morava na residência e que a senhora que estava dormindo era a chefe da família. Também fiquei surpresa quando a neta da senhora relatou que sua avó há cinco meses tinha sido acometida por um quadro de acidente vascular encefálico e o ACS desconhecia o fato. A microárea desse ACS não fica muito distante da USF, a pé levou 10 minutos. Durante a entrevista relatou ter escolhido trabalhar no PSF por estar desempregado. Está atuando na USF-Santa Rosa há cerca de quatro anos. Este acontecimento apesar de ter sido uma exceção, nos leva a inúmeras reflexões e uma delas é a falta de oferta de emprego na região e deficiências no processo de educação permanente da equipe, além de ausência de um plano local de saúde onde as prioridades com critérios como vulnerabilidade ou risco possam ser utilizados de maneira sistemática. Além disto, podemos inferir que a avaliação do trabalho em equipe não parece estar sendo suficientemente conduzida, já que fatos como o descrito, embora pontuais, nos fazem pensar que as necessidades de saúde da população não estão sendo adequadamente valorizadas na medida da equidade e do acesso aos serviços de saúde. Reunião de equipe semanalmente: para a construção do acolhimento como mudança no processo de trabalho a reunião de equipe é uma ferramenta fundamental. Ela possibilita uma reflexão e problematização do cotidiano, do desafio de trabalhar em uma equipe multidisciplinar. Os depoimentos abaixo refletem a reunião de equipe como facilitadora do processo de construção do acolhimento. É um trabalho... todo dia junto, né?! A gente tenta estar sempre conversando. [...] A gente tenta, né?! Quando acontece alguma coisa, a gente chega na reunião e conversa para tentar resolver da melhor maneira possível. Acidentes sempre acontecem. Sempre acontece uma desavença. Às vezes, as pessoas, como a nova recepcionista que começou agora, os usuários reclamam muito. Eu tento resolver os problemas. Digo: Calma, ela chegou agora. Dá um tempo para ela e tal. Tudo que muda a pessoa sente, né?! Até se acostumar... Tem que ser com muita conversa (ENT 5). [...] Tanto é que nós acabamos é... deixando pra tarde as atividades programáticas. O quê que a gente percebeu? Um buraco no preenchimento da agenda com a vinda dos pacientes dos agendamentos à tarde. Nós tivemos sempre o cuidado, toda a semana na reunião de equipe, a gente troca todas as informações. E há pouco tempo atrás eram os agentes que ficavam na recepção, porque não tinha alguém exclusivamente para a recepção. Então, a gente trocava muita informação: "Oh, fulano falou assim"; "Vamos ver o que tá acontecendo"; "Vamos trocar isso"; "Vamos fazer diferente". E o índice de ausência, de não comparecimento as consultas à tarde era sempre muito grande. E aí a gente foi estudando a característica do lugar e percebendo por conta mesmo do local que as pessoas tem uma vida mais ativa pela manhã. [...] Roça, bem, roça. Porque tem a questão do deslocamento. Você vê só: a maior parte dos diabéticos, hipertensos e com osteoartroses são os pacientes que mais procuram a gente no atendimento e estão com idade acima de cinqüenta anos. É... excluindo as poucas pessoas que moram bem perifericamente à unidade, todas as outras..., porque aqui nós não temos só casa lado a lado. Aqui também têm sítios, que ficam distante. Em geral a comunidade não sai de casa à tarde devido ao sol que nesta região é bem forte! (ENT 7). Participei de duas reuniões de equipe verificando que a maioria dos agentes comunitários ficavam em silêncio apenas ouvindo a doutora A e o enfermeiro B,que comandavam a reunião. Nas duas reuniões foi discutido o problema de fazer grupos com a comunidade, onde todos acham que a comunidade é preguiçosa pois os grupos são à tarde. Outro problema levantado na reunião pelo enfermeiro B, que ele está sendo cobrado pela coordenação em fazer com que os agentes comunitários de saúde façam mais visitas domiciliares, pois o número de visitas domiciliares dos agentes comunitários por mês esta abaixo do preconizado pelo Ministério da Saúde. Treinamento Introdutório: Todos os entrevistados relatam que fizeram o treinamento introdutório sobre o programa Saúde da Família antes de começar a trabalhar e continuam a ter capacitações. [...] O treinamento introdutório foi realizado em duas semanas, em horário integral, de 8 às 17h. Era com o grupo do Núcleo da Universidade Federal Fluminense. Nessa ocasião, foram capacitados profissionais médicos e enfermeiros do PSF. Foi durante 14 dias, duas semanas em regime integral. Na semana seguinte esses profissionais médicos e enfermeiros que haviam sido capacitados, foram os capacitadores dos agentes de saúde e de auxiliares de enfermagem... Agente de saúde e auxiliares de enfermagem com a supervisão desse grupo que capacitou os médicos e enfermeiros inicialmente. E essa capacitação, ela se mantém até hoje para médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagens e agentes comunitários de saúde. [...] Alguns treinamentos são ministrados para o grupo todo, enquanto que outros, somente por profissão, dependendo do aprofundamento que você vai ter. Por exemplo: hipertensão arterial, diabetes, hanseníase e tuberculose... nesses quatro tipos de treinamento eles são institucionais, no mínimo semestral. [....] Anualmente temos em torno de seis a oito vezes no mínimo capacitações. A última foi sobre o acolhimento, em maio 2007, durante 3 dias à tarde de 13:00 às 17:00 h (ENT 6). A maioria dos entrevistados relata que aprenderam muito durante os treinamentos, podendo correlacionar a prática com a teoria, sentindo-se mais seguro no cotidiano da USF. Outra fala freqüente foi a possibilidade de tomar conhecimento dos problemas de infraestrutura das outras USF percebendo que os problemas são os mesmo na maioria das USF. Relatam também que logo que entraram no emprego os treinamentos eram com maior freqüência e agora são poucos por ano. Gestão comprometida com o PSF: A maioria dos entrevistados relata que a implantação do Programa Saúde da Família em Itaboraí melhorou muito a vida das pessoas. Reconhece uma gestão comprometida com a melhoria da saúde do povo. [...] Itaboraí começou do alto. Implantou 44 equipes do programa saúde da família, cobrindo 70% da população [...] a gestão municipal, a prefeitura deu uma espécie de carta branca para a secretária de saúde implantar o Programa Saúde da Família em Itaboraí (ENT 6). [...] o usuário não precisa ir mais no centro de Itaboraí para marcar consulta com médico. Atualmente ele é atendido pela médica de família na unidade saúde da família próximo de sua residência. Quando é solicitado um exame laboratorial, ele também não precisa mais se deslocar para o centro. Toda sexta-feira de manhã um profissional do laboratório vem à Unidade de Saúde da Família fazer a coleta de sangue. O material coletado é levado ao laboratório, é feita a análise, o resultado retorna para Unidade Saúde da Família e já é agendada uma consulta com a médica. Caso seja necessário o parecer de um especialista, o usuário também não precisa se deslocar ao centro para marcar. Os pedidos de referências para especialistas e de exames de laboratório são enviados todas as segundasfeiras por uma kombi que chamamos de rota. Ela passa em todas as Unidades de Saúde da Família com dia e hora diferentes e recolhe todo esse material, referência e pedido de exame. É então levado a Secretaria de Saúde, que autoriza e retorna. A referência já chega marcada com dia e hora. Isso melhorou o deslocamento do usuário que teria que ir várias vezes ao centro. Como já foi relatado o transporte aqui é muito precário. (ENT 1). [...] antes do Programa Saúde da Família não havia coleta de lixo (ENT 5). [...] A nível de gestão, de todos os lugares que trabalhei, Itaboraí foi onde me senti mais acolhida porque, embora eles não tivessem todos os "sims", eles me davam um "não" pra eu saber que tinha que stopar ali, porque não tem mais nada. Não adianta ficar gastando a minha energia. Vinha o "não", "Oh, isso não tem como fazer por isso, por isso, por isso". Eu sabia os porquês. Então isso faz a gente trabalhar, ainda que não satisfatoriamente, mas pelo menos sei que as respostas estão vinculadas a um sistema maior. Não é um sistema de gestão em saúde de Itaboraí, mas um sistema maior [...] (ENT 7). 7.4 FATORES DIFICULTADORES Modelo Saúde Médico-Centrado, entre os fatores dificultadores mais prevalentes aparece o processo de trabalho na Unidade de Saúde da Família centrado na pessoa e no saber da médica A, ficando os outros profissionais de saúde subestimados e a oferta de serviços reduzida. [...] Agora com a doutora de licença acho que não tem vindo quase ninguém aqui na Unidade de Saúde da Família. Porque o problema do povo aqui é a doutora, como diz a doutora A É o doutor. É o doutor faz milagre aqui. Por exemplo, ninguém vem aqui perguntar ao enfermeiro B: "Ah, enfermeiro B eu tô com esse machucadinho aqui. O que você acha que eu devo fazer? Não é remédio não, eu acho que você deve lavar com soro fisiológico e depois passar essa pomada aqui". Não. Eles querem saber cadê a doutora, porque a doutora tem que olhar, porque ela sabe o que vai passar ali e vai resolver. Mas o enfermeiro B não sabe. Entendeu? Quase ninguém vem aqui, o enfermeiro B tem feito mais é puericultura, que as mães vem e trazem as crianças [...]. O enfermeiro aqui não faz um preventivo, porque as mulheres aqui... os maridos são muito cabeça dura (ENT 2). Podemos inferir que a relação trabalhador-usuário vive um desgaste de longo tempo, gerada pelo processo de trabalho dividido com os procedimentos sem a necessária integração multidisciplinar. [...] percebi que comecei a adoecer a partir daí, do acolhimento, que fica todo centralizado em mim. Porque na verdade, toda a demanda da unidade, acaba, como eles falaram, centralizada no doutor. No início do processo do acolhimento a gente começou a fazer o acolhimento de forma que ficasse mais destinado ao enfermeiro B e a auxiliar de enfermagem C. O quê que aconteceu? Eu diria assim: que 80% do acolhimento deles acabava parando em mim. O enfermeiro B tem assim, essa é a minha sorte, um conhecimento vasto. Então ele consegue abranger e alcançar muita coisa que poderia me desafogar, mas a comunidade quer o doutor. Tanto que nós começamos a treinar a comunidade para tratá-lo como "doutor" [...] fazendo parte das tentativas de a gente de estabelecer uma divisão de atuação em saúde. Começamos a mostrar o que o enfermeiro B tinha um Dr. na frente, adiantou no sentido de que a figura dele como enfermeiro universitário ganhou mais destaque [...]. Para os usuários, o nível cultural da grande maioria o enfermeiro não pode atender (médica A). Este depoimento revela o quanto é difícil para os profissionais de saúde interagirem entre si, trocando conhecimentos ,articulando um campo de produção do cuidado (Franco,1999). Não basta culpabilizar os usuários pela sua cultura. Precisamos desconstruir nossos saberes centrados na doença e buscar nas práticas educativas um caminho para a transformação cultural, social e política de nossa comunidade,almejando o entendimento do processo saúde-doença. Os obstáculos encontrados no cotidiano de trabalho no Programa Saúde da Família são diversos, a implantação do acolhimento gerou uma expectativa muito grande tanto por parte da gestão quanto por parte dos profissionais para resolver os problemas das pessoas. Para traçar um campo de produção do cuidado tanto seja ele na Unidade de Saúde da Família, no domicílio, nas práticas educativas, demanda uma educação permanente para a equipe muldisciplinar e uma equipe de supervisão mais presente no cotidiano do processo de trabalho da equipe. A Política Nacional de Humanização indicou a partir de 2007, que o grande desafio para concretização do acolhimento para humanização da atenção é entender que não só médicos fazem a clínica, mas todos os profissionais de saúde fazem cada um a sua clínica, apresentando como proposta a Clínica Ampliada. A sua proposta é ser um instrumento para que os trabalhadores e gestores de saúde possam enxergar e atuar na clínica lidando com os usuários enquanto sujeitos, buscando sua participação e autonomia no projeto terapêutico. Ajudar usuários e trabalhadores a lidar com a complexidade dos sujeitos e a multicausalidade dos problemas de saúde na atualidade significa ajudá-los a trabalhar em equipe. No entanto, isso não é fácil. Lidar com diferenças, com conflitos, com afetos e poderes na equipe é um aprendizado coletivo, dependendo fortemente da gestão. Práticas Educativas: Outro problema citado como dificultador para implantação do acolhimento, que está em sintonia com o que foi relatado acima, é que a maioria dos entrevistados relatou resistência da comunidade em freqüentar as práticas educativas. [...] o povo daqui tem uma mania muito feia, eles só fazem o que vai recompensar. Se você vai ter um agrado você vem, por exemplo: Ah, vamos fazer uma tarde com reunião e depois vai ter um lanche. Aparece gente. Agora: Ah, vamos fazer uma tarde de reunião com a comunidade para tratar dos problemas do posto, pronto, não vem ninguém (ENT 2). [...] o único grupo que conseguimos manter, mas mesmo assim vem pouca gente é o grupo dos hipertensos e diabéticos. Acho que é porque aferimos a pressão e fazemos o teste do açúcar (ENT 8). [...] Já teve aqui um terapeuta de grupo fazendo ginástica, mas... Tem até fotos ali. Era uma vez por semana. Aí, apareciam três, quatro pessoas e depois não aparecia ninguém. Aí, em dois meses, já tinha acabado (ENT 5). [...] Eles têm esse grande problema aqui não conseguem fazer grupos de trabalhos, com relação à comunidade. Grupos de hipertensos, de diabetes, grupo de uma conversa qualquer, entendeu? É difícil, já que as pessoas não comparecem. Ele e ela já fizeram mil e uma coisas: feira de artesanato, horta na entrada do posto (ENT 1). [...] Aqui o povo é muito desunido [...] a médica daqui já tentou montar um grupo para fazer um programa artesanal para motivar a comunidade. Era uma feira de artesanato em que os usuários expunham seus trabalhos em barracas uma vez por semana na praça da comunidade. Infelizmente a comunidade se dispersou, é difícil até a gente tentar motivar as pessoas. Uma coisa que é difícil aqui é ter reunião [...] grupo de diabético e de hipertensão, você captar essas pessoas para participar dessas reuniões é uma coisa complicada, algumas pessoas elas não vêem porque dizem que moram longe do posto [...] o povo daqui é muito imediatista, se ele está doente passa mal, ele quer vir aqui, quer sair com uma receita na mão e um remedinho para tomar (ENT 3). Nos depoimentos relatados acima foram levantados pelos profissionais de saúde as seguintes dificuldades para realização das atividades de grupo: -- O não comparecimento do usuário nos grupos de saúde levando à baixa freqüência deles nas reuniões. -- O usuário só participa de grupos quando recebe alguma coisa material em troca. -- Os usuários dizem que moram longe do posto dificultando a ida nos grupos de educação em saúde. -- Imediatismo do usuário, procurando a unidade de saúde da família só quando está "doente". -- Falta de líderes na comunidade. Segundo Merhy (1994), acolher é atuar sobre os problemas dos usuários mostrando para eles as possibilidades de resolver os seus problemas, mostrando os caminhos. É fazer com que eles entendam melhor o seu processo de adoecimento e eles mesmos consigam por si só intervir no seu processo de sofrimento. Concluímos que uma das diretrizes do acolhimento é buscar a autonomia do usuário fazendo com que ele entenda que saúde não é apenas o resultado de um processo centrado no poder e saber absoluto do médico intervindo na doença, mas que está ligado diretamente a fatores físicos, emocionais, religiosos, econômicos, culturais, ambientais e psicossociais. Podemos falar do uso de práticas educativas como forma de fortalecer o conhecimento do usuário, para que tome consciência crítica de si e do mundo. Sendo assim a educação em saúde pode ser uma ferramenta de atuação em saúde possibilitando a troca entre o saber técnico e o saber popular. É importante que a equipe de saúde da família estudada possa rever a forma como o grupo está sendo conduzido. O modelo assistencial curativo, centrado no atendimento médico, condiciona uma prática educativa que reforça aulas ou palestras, ficando restrita a responder dúvidas pontuais levantadas pelos usuários, sendo respondidas pelos próprios profissionais de saúde dificultando um espaço para troca de saberes. É preciso envolver o usuário, o qual deverá fazer parte do processo e não ser apenas um ouvinte. O grupo deve ser um espaço de troca de saberes. É fundamental citar a pedagogia da problematização de Paulo Freire (2002): [...] a prática educativa norteada pela pedagogia da problematização é mais adequada à prática educativa em saúde. Além de promover a valorização do saber do educando e instrumentalizando-o para a transformação de sua realidade e de si mesmo, possibilita efetivação do direito da clientela às informações de forma a estabelecer sua participação ativa nas ações de saúde, assim como para o desenvolvimento contínuo de habilidades humanas e técnicas no trabalhador de saúde, fazendo que este exerça um trabalho criativo. Estas características e conseqüências convergem para uma sociedade mais democrática em prol do desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos e coletividade estando em concordância com os princípios e diretrizes da promoção da saúde" (p. 153). Será que a equipe da USF - Santa Rosa já pensou na estratégia de perguntar para a comunidade o que eles gostariam de discutir nas práticas educativas? Será que uma alternativa para os usuários que moram longe da Unidade de Saúde da Família, é propor grupos extra-muros, fora da unidade saúde da família? Para que essa nova forma de pensar e atuar no processo de trabalho em saúde, buscando a autonomia do usuário aconteça é necessário capacitar e instrumentalizar os profissionais de saúde em educação em saúde. Número populacional acima do estipulado pelo Ministério da Saúde/grande demanda: Os princípios básicos fundamentais de Saúde da Família são integralidade, qualidade, equidade e participação social. O Ministério da Saúde (BRASIL, 2006) estipula que cada equipe de saúde da família se responsabilize pelo acompanhamento de 3000 a 4500 pessoas de uma determinada área, e estas passam a ter coresponsabilidade no cuidado à saúde. Um dos problemas levantados pelos entrevistados como fator dificultador para a implantação do acolhimento é um número populacional muito grande sobrecarregando a equipe. Levando até ao adoecimento da médica. [...] a demanda daqui é muito grande, acho que teria que ter dois médicos. A última vez que fizemos a contagem do número de pessoas cadastradas deu uma base de mais ou menos 8000 pessoas (ENT 2). [...] isso é até uma questão que extrapola a qualidade do atendimento. Chega até ao ponto do adoecimento do profissional de saúde (ENT 4). [...] é um problema que permeia todas as equipes. O quantitativo populacional foi inclusive relatado na última Conferência Municipal de Saúde em Itaboraí. É uma relação absurda de número populacional para uma equipe muito pequena de saúde da família. Não temos condições de cumprir os princípios da integralidade [...] (ENT 6). O princípio da integralidade significa considerar a pessoa como um todo, atendendo a todas as suas necessidades, integrando as ações de promoção da saúde, a prevenção de doenças, o tratamento e a reabilitação. Como resolver 85% dos problemas de saúde da comunidade se a equipe de saúde trabalha com um valor populacional acima do preconizado pelo Ministério da Saúde? Insuficiência de rede de referência para consulta com especialistas: Com a implantação do Programa Saúde da Família no município de Itaboraí, foi criada uma policlínica de especialidades para atender a rede básica de saúde, fazendo com que o problema de referência e contra-referência avançasse muito. Porém, mesmo assim, o quantitativo de referência para cada Unidade de Saúde da Família, segundo os entrevistados, é insuficiente. Além disso, os médicos especialistas não preenchem a contra-referência. Mesmo com a criação de uma policlínica de especialidades, observamos que o sistema de referência e contra-referência se mostra insuficiente para assegurar a continuidade do cuidado das famílias de forma integral. [...] existe um limite de número de referência que não é obedecido. Nós encaminhamos de acordo com as necessidades dos nossos usuários. Nós não deixamos de encaminhar porque nós só temos x números. Nós encaminhamos se o nível central só tem x números de referência para a nossa Unidade Saúde da Família. Eles têm que resolver essa situação (ENT 8). No relato acima percebemos uma falta de comunicação entre o nível central com a USF e vice-versa. [...] em termos de qualidade de atendimento na policlínica, de nossos pacientes, não temos problemas. O grande problema mesmo é o quantitativo de consultas disponibilizadas e o preenchimento pelo especialista da contra-referência [...] pela minha experiência em termos de participação em conferências é um problema inerente a todos os Programas Saúde da Família. Acredito que é uma questão de comprometimento, de envolvimento desse profissional que faz essa consulta especializada em entender que deva ocorrer uma continuidade do cuidado [...] a equipe de Saúde da Família deve saber e manter o tratamento que foi pontuado com o especialista (ENT 6). No depoimento abaixo verificamos que, apesar de todo o esforço para o processo de consolidação do SUS, ainda ocorrem restritas mudanças naquilo que ele considera essencial: a organização da rede regionalizada e hierarquizada das unidades, capaz de garantir acesso universal e eqüitativo da população a todos os níveis de complexidade de serviços, e a relação entre esses profissionais e esses serviços e os usuários (LEVCOVITZ, 1997). [...] tenho um paciente fazendo uma síndrome dispéptica, vomitando, passando mal, ocupando o tempo da Atenção Básica com medicação sintomática devido a um problema que poderia ser resolvido efetivamente com procedimento cirúrgico. Vamos fazer o procedimento cirúrgico. Vamos criar estratégias para criar parcerias com outros municípios, fazer mutirões. Eu não sei, tem que criar uma estratégia. E vamos resolver essa situação, porque isso desafoga a atenção básica. E desafogando a atenção básica, o acolhimento vai ser desafogado também. Que você vê movimentos repetitivos de uma situação que pode ser resolvida. Pode-se criar uma estratégia para resolver. É basicamente isso. Eu acho que a gente procura acolher, mas nós não somos acolhidos no sistema [...] (ENT 7). Falta de transporte para realizar visita domiciliar: Com o trabalho de campo verificamos que a característica principal da USF é estar situada em uma área rural. As pessoas têm o hábito de acordar cedo, o que talvez seja um dos fatores a levar a procura maior de consulta médica pela manhã. Durante a observação participante, foi visto que, pela tarde, após o almoço, a procura ao PSF diminui consideravelmente e na fala dos trabalhadores pesquisados, este fato ocorre porque "as pessoas ficam em casa dormindo" ou porque o sol da tarde é muito forte e os usuários em geral caminham muito até chegar na USF. Os entrevistados relataram e confirmaram o observado, sobre o fato de que como a equipe de saúde da família localiza-se em uma área rural de grande extensão, as visitas domiciliares ficam prejudicadas pelo fato do transporte do Programa de Saúde da Família ser insuficiente. Há uma kombi para cobrir todas as Unidades de Saúde da Família de Itaboraí. [...] a minha área fica cerca de 12 km de distância da Unidade de Saúde da Família. Para fazer as visitas domiciliares eu tô indo com minha moto. Eu tô até me prejudicando porque gasto gasolina do meu bolso e tudo. Mas fica mais fácil para levar as fichas que preencho como de diabéticos, gestantes, crianças e também poder ajudar as pessoas. Já pensou, eu tô cheio de bolsa, de papel e de repente cai uma tempestade acaba com todo o meu trabalho (ENT 3). [...] a médica A fazia visita domiciliar na minha microárea, mas como a estrada é de chão, muito esburacada, acabou estragando seu carro. Começamos a pedir o carro do Programa Saúde da Família de Itaboraí mas nunca conseguimos até hoje. Tem duas pessoas na minha microárea que já tiveram derrame cerebral e ficaram com seqüela em membros inferiores. Tinham dificuldade de andar até a Unidade de Saúde da Família que é longe da residência delas. Os familiares têm que ficar arrumando e pagando carro para levar lá no dia da consulta (ENT 5). Ausência de intersetorialidade: Durante a primeira conferência internacional sobre promoção da saúde, realizada no Canadá, em 1986, surgiu um dos mais importantes documentos da saúde pública moderna, a Carta de OTTAWA, que diz: "paz, educação, habitação, alimentação, renda, ecossistema estável, conservação dos recursos e eqüidade são requisitos fundamentais para a saúde", ou seja, saúde é resultado de um processo de produção social que expressa a qualidade de vida de uma população. Foi apontado pela maioria dos entrevistados que um dos grandes fatores que dificultam a implantação do acolhimento são as condições precárias de vida da população da área adscrita da USF. [...] a maioria da nossa área não tem saneamento básico. É fossa comum. Não temos água encanada, a maioria é poço semi-artesiano. A maioria das águas não é tratada [...] a média salarial daqui é de um salário mínimo para uma família de três a cinco pessoas para sobreviver [...] meio de transporte, só tem uma linha de ônibus que monopoliza toda esta região [...] falta lazer, não tem um clube, não tem uma pracinha bem organizada. Não tem nada. Itaboraí é tipo o elo perdido, porque se chover em certas ruas daqui, você não consegue sair de casa (ENT 3). Podemos inferir que está faltando estabelecer parcerias com diferentes segmentos sociais e institucionais para intervir nessas situações que transcendem o setor saúde. Estamos falando da falta de intersetorialidade, que tem efeito determinante sobre as condições de vida e saúde dos indivíduos, famílias e da comunidade. [...] no que diz respeito à acessibilidade como a principal falha na questão do transporte, tratamento e conservação de vias, estradas, ruas etc. [...] você não consegue trabalhar esses problemas nas áreas da saúde. Você precisa do compromisso, do comprometimento de outros setores, como por exemplo, os de transporte e de obras de saneamento, que é basicamente o que falta aqui. E o envolvimento mais presente da prefeitura como um todo, para ter uma melhoria no que diz respeito ao acesso, ao trabalho e renda. [...] há um ano e meio foi fundada uma associação de moradores, que ainda está em processo de construção (ENT 6). Quando perguntado sobre quais sugestões que facilitariam a prática do acolhimento os entrevistados mencionaram: contratação de outro clínico geral ou, de preferência, ginecologista, duas equipes de Saúde da Família, diminuição do número populacional por equipe de Saúde da Família, maior envolvimento dos gestores estaduais, federais, da população e contratação de um psicólogo. [...] Uma delas é o quantitativo de população encaminhada para cada unidade de médico da família. Isso tem que ser diminuído. Isso tem de ser equacionado. Isso tem que ser melhorado para que possamos, como profissionais nos envolvermos de verdade no trabalho... Queremos que a estratégia da Saúde da Família dê certo. Temos que resolver os problemas. Não pode ser só o profissional de saúde que deve fazer isso. Tem que haver um envolvimento dos gestores nisso aí. Gestores estaduais, federais... Tem de haver o envolvimento da população organizada, as entidades civis [...] (ENT 7). Percebemos nestas sugestões a dificuldade de entendimento da metodologia do PSF, quando é sugerido a introdução na equipe básica de especialistas. O atendimento médico focado no doente e não no indivíduo sobrecarrega o profissional médico. O olhar ampliado do individuo como um ser biopsicosocial por todos profissionais faria com que o cuidado da população fosse melhor distribuído entre a equipe multiprofissional. O grande número populacional e a ausência da participação dos gestores no nível local, só dificultam a meta desse olhar ampliado em relação ao usuário. Os resultados encontrados indicaram um entendimento sobre acolhimento como atendimento ambulatorial não agendado do profissional médico, com conseqüente aumento de demanda para o mesmo. Verificou-se que os profissionais de saúde estudados demonstram-se sensibilizados com o sofrimento do usuário e se esforçam para lhe oferecer uma escuta qualificada. Os profissionais de saúde elegeram como principais fatores facilitadores para implantação do acolhimento: o vínculo com a comunidade, o conhecimento das necessidades de saúde da comunidade e a motivação do profissional de saúde em atuar no PSF. Os fatores dificultadores mais encontrados foram: modelo de saúde centrado no médico, resistência da comunidade em freqüentar atividades educativas, demanda excessiva para a equipe e ausência de intersetorialidade. Conclui-se que o processo de acolhimento e o entendimento dos profissionais da Saúde da Família sobre o mesmo divergem sobre a Política Nacional de Humanização e os autores teóricos sobre o assunto. É importante destacar as dificuldades encontradas na USF, que impossibilitam a integração adequada da equipe para implantação do acolhimento: -- Distâncias geográficas, afetando a visita domiciliar devido a falta de transporte; -- População adscrita muito superior quantitativamente ao estudado; -- Falta de apoio de supervisores; -- Insuficiência da rede de referências para consulta com especialistas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo buscou refletir sobre as dificuldades de implantação do acolhimento no Programa Saúde da Família, no cenário de estudo, no caso o município de ItaboraíRJ, mas poderá ser útil também para um questionamento sobre como está ocorrendo a implantação do acolhimento no Brasil em outras localidades. Uma questão central parece ser o fato de que prevalecendo um modelo técnicoassistencial médico-centrado, o acolhimento, pensado como uma atitude e uma postura de toda a equipe, vê seu efeito e sua efetividade diluídas porque reduzida a um modelo que não privilegia o trabalho em equipe, mesmo considerando todos os esforços para reverter tal situação. Desta forma observamos que os profissionais de saúde estudados continuam a associar acolhimento com a maneira de receber o usuário, ouvi-lo e dar respostas imediatas, bem como a entender o acolhimento como consulta médica não agendada. Como frisado anteriormente, para a Política Nacional de Humanização, o HumanizaSUS, o acolhimento representa uma proposta de reorientação do processo de trabalho, na qual todos os profissionais de saúde são igualmente importantes e têm sua contribuição a dar para a satisfação das necessidades de saúde da população. No processo do acolhimento todos os profissionais precisam se expor. Outras experiências com acolhimento encontradas na literatura relataram o acolhimento sendo realizado por outros profissionais: nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Ribeirão Preto-SP e de Betim-MG, por enfermeiras e auxiliares de enfermagem, e na Escola de Formação em Saúde da Família de Visconde de Sabóia, em Sobral-Ceará, por médico, enfermeiro e auxiliar de enfermagem. Nossa concepção de acolhimento nesta pesquisa aproxima-se da de Sobral, no entendimento de que é necessária a participação de todos os profissionais da equipe no processo do acolhimento. Os profissionais de saúde da USF estudado participaram da 1ª Oficina de Humanização para as Unidades de Saúde da Família do município de Itaboraí ministrado pelo Núcleo da Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (ANEXO). O conceito de acolhimento trabalhado na oficina está em sintonia com o conceito de nossa pesquisa, no entanto, perguntamos, como uma oficina de humanização com carga horária de apenas 12h pode mudar um processo de trabalho que está enraizado nos profissionais de saúde desde a sua formação acadêmica? Qual é o impacto da utilização da educação continuada em detrimento da educação permanente na construção deste processo? É necessário fazer a distinção entre educação continuada e educação permanente. Esta oficina de humanização é um exemplo de educação continuada. Ela promoveu uma atualização do conhecimento dos profissionais de saúde sobre o tema acolhimento, porém não criou estratégias para que esse conhecimento fosse reelaborado frente às condições reais das próprias Unidades de Saúde da Família (RIBEIRO, 1996). A educação permanente em saúde tem como objeto de transformação o processo de trabalho, orientado para a melhoria da qualidade dos serviços e para a eqüidade no cuidado e no acesso aos serviços de saúde. Parte, portanto, da reflexão sobre o que está acontecendo no serviço e o que precisa ser transformado (RIBEIRO, 1996). Sabendo que um dos parâmetros da Política Nacional de Humanização para implementação de ações na atenção básica é a garantia de participação dos trabalhadores em atividades de educação permanente (BRASIL, 2006), como enfrentar mudanças na produção da saúde sem a implementação efetiva de ações que valorizem esta educação permanente no processo de trabalho da equipe? Por que insistir no modelo de utilização hegemônico e exclusivo da educação continuada? Novas formas de pensar e agir em saúde exige tempo de amadurecimento, comprometimento dos gestores municipais, estaduais, federais, participação popular, intersetorialidade e educação permanente em serviço. Dialogar com os desafios de transformação e mudança deve ser o compromisso de todos nós que desejamos um SUS de qualidade Esperamos, assim, que com este estudo possamos ter estimulado o leitor a refletir sobre o tema do acolhimento no Programa Saúde da Família, como uma maneira de aproximação entre as singularidades, como uma forma de preencher a lacuna que não aproxima o usuário da equipe, na esperança de contribuição para um olhar diferenciado sobre o agir em saúde. REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASIL. Seminário avalia expansão do Programa Saúde da Família. 04/08/2006. Disponível em: <http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/08/04/materia_2006-0804.0135400234/view>. Acessado em 07 jan. 2007. AGUIAR, A. C.. Estratégias de Avaliação e a Transformação da Educação Médica no Brasil. Boletim da Associação Brasileira de Educação Médica XXII (5), p. 10-11, 2004. ANDRADE, Luis Odorico Monteiro de. Sus passo a passo. São Paulo: Hucitec, 2001. BARDIN, L. Análise de conteúdo. 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APÊNDICE 1: ROTEIRO DE ENTREVISTA 1) Entrevistado Número: 2)Idade: 3)Sexo: 4)Escolaridade: 5)Profissão: 6)Tempo que atua no Programa Saúde Família - Itaboraí: 7)Porque você resolveu atuar na Saúde da Família? (motivação,interesses) 8)Há quanto tempo você trabalha na Saúde da Família? 9)Como é o seu trabalho na unidade de saúde da família? 10)Como é feita a visita domiciliar? 11)Que profissionais da equipe fazem visita domiciliar? 12)A equipe conhece as necessidades de saúde da população? Se sim quais são as mais freqüentes. 13)Como é realizado as referências para outro nível de atenção? 14)Os usuários recebem informações sobre o serviço? Quais? De que forma? 15)Como os usuários são recebidos na unidade de saúde da família? 16)O que você entende por acolhimento? 17)Quais são as atitudes que você relaciona com acolhimento? 18)Em relação ao acolhimento quais fatores facilitam e dificultam a sua prática? 19)Você já participou de alguma reunião de equipe? Se sim, em que freqüência. APÊNDICE 2: DADOS GEOGRÁFICOS MAPA DA REGIÃO METROPOLITANA II (ESTADO DO RIO DE JANEIRO) I T A B O R A Í - RJ Região Metropolitana II Fonte: Homepage Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. REDE VIÁRIA DA CIDADE DE ITABORAÍ/RJ Itaboraí – Rede Viária Fonte: Homepage Prefeitura de Itaboraí/RJ, 2006. O município de Itaboraí está situado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro designada Região Metropolitana II. Ainda fazem parte desta região os municípios de Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Tanguá, Maricá e Silva Jardim. APÊNDICE 3: DADOS POPULACIONAIS POPULAÇÃO SEGUNDO METROPOLITANA II MUNICÍPIOS DA REGIÃO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Municípios da Região Metropolitana II População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.758.768 Itaboraí 197.017 Maricá 83.088 Niterói 464.354 Rio Bonito 50.645 São Gonçalo 914.536 Silva Jardim 21.920 Tanguá 27.208 Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro População segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2006 Município População Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 1.876.788 330190 Itaboraí 220.982 330270 Maricá 99.053 330330 Niterói 476.671 330430 Rio Bonito 53.036 330490 São Gonçalo 973.372 330560 Silva Jardim 23.576 330575 Tanguá 30.098 Fonte: Pacto de Atenção Básica – DATASUS, 2006. A população de Itaboraí era de 197.017 habitantes em 2002 passando a 220.982 habitantes em 2006 (dados estimados) representando um crescimento populacional de 10% em 4 anos. Esta taxa de crescimento populacional de 2,5% ao ano encontra-se elevada em relação à média nacional: 1,37% ao ano. APÊNDICE 4: DADOS DE CADASTRAMENTO FAMILIAR PELO PSF ANO 2002 PACTO DE ATENÇÃO BÁSICA-2006 - RIO DE JANEIRO Pacto de Atenção Básica - 2006 - Rio de Janeiro % pop cober PSF segundo Município Município: Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim, Tanguá Período: 2002 Município % pop cober PSF Fonte: Ministério da Saúde e IBGE TOTAL 27,15 Itaboraí 50,87 em 2002 69,5 em 2006 Maricá 14,66 Rio Bonito 25,57 São Gonçalo 36,26 Silva Jardim 70,05 Tanguá 19,10 ITABORAÍ: REDE HOSPITALAR : 05 REDE AMBULATORIAL : 54 Fonte: DATASUS, 2006. Houve um significativo aumento de cobertura populacional pelo PSF desde a sua implantação em 2002, quando 50,87% de sua população foi cadastrada. Em 2006, 69,5% da população estava cadastrada pelas equipes do PSF. Dados de 2007 apontam uma cobertura de 71,6% da população residente (Itaboraí, 2007). APÊNDICE 5: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Universidade Estácio de Sá Mestrado Profissional em Saúde da Família TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Nome do entrevistado: _________________________________ Idade: _______ Projeto: Projeto de Pesquisa: O Acolhimento no Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí no Estado do Rio de Janeiro (CNPq Edital 037/2004); Responsável: Claudia Rebello (tel: ) Eu, ____________________________________________________________, abaixo assinado, declaro ter pleno conhecimento do que se segue: Objetivo da Pesquisa: Refletir sobre as percepções que possuem os profissionais de saúde do Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí em relação ao acolhimento da atenção, com base em observação partipante e entrevistas semiestruturadas a serem realizadas com os profissionais de saúde que atuam no Programa Saúde da Família do Município de Itaboraí, no Estado do Rio de Janeiro. Benefícios que possam ser obtidos: Identificar condições favoráveis e desfavoráveis à consolidação de uma cultura de acolhimento. Refletir sobre o Acolhimento enquanto uma ação de humanização na atenção básica, respondendo desta forma a uma demanda da Política Nacional de Humanização. Receberei resposta ou esclarecimento a qualquer dúvida acerca de assuntos relacionados com o objeto da pesquisa. Tenho a liberdade de retirar o meu consentimento a qualquer momento e deixar de participar do estudo. Obterei informações atualizadas durante o estudo, ainda que isto possa afetar minha vontade de continuar dele participando. A pesquisa manterá o caracter oficial das informações relacionando-as com a minha privacidade. Em caso de dúvidas, poderei esclarecê-las através de contato telefônico com o(a) pesquisador(a) pelos telefones (21) 22956162 ou com o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estácio de Sá, Rua do Riachuelo 27, 6º andar - Centro; Tel.: 3231-6135; e-mail: [email protected]. Rio de Janeiro, _____de ___________________de 200___. _______________________________ Assinatura do Participante ____________________________ Assinatura do(a) Pesquisador APÊNDICE 6: FOTOS DA UNIDADE SAÚDE DA FAMÍLIA E DA ÁREA ADSCRITA FOTO 1: USF-Santa Rosa. FOTO 2: Recepção da USF-Santa Rosa. FOTO 3: Mural de informações da USF-Santa Rosa. FOTO 4: Quadro das atividades da médica e do enfermeiro. FOTO 5: Visita domiciliar na área adscrita. FOTO 6: Microárea da Unidade. ANEXO1: HUMANIZA SUS Apresentação Proposta e Metodologia do Trabalho APRESENTAÇÃO A Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí convida para o debate a rede de atenção básica, composta em sua maioria por equipes do Programa Saúde da Família, responsável pela cobertura de cerca de 70% da população do município. Essas equipes vêm trabalhando em territórios definidos, com clientela conhecida e com o compromisso técnico e ético de prevenir, cuidar, proteger, recuperar, promover, enfim, produzir saúde. Encaramos o desafio de construir a rede do Sistema Único de Saúde – SUS – em Itaboraí com a perspectiva da política pública que mais favorece a inclusão das pessoas, que lida com a defesa da vida, e com a garantia do direito à saúde das populações trazida pelas conquistas na Constituição de 1988. Muitos avanços aconteceram, e novos desafios se impõem na medida em que o sistema se organiza. Na voz dos usuários, gestores e profissionais surgem demandas de modelos de atenção à saúde que viabilizem e facilitem o acesso dos usuários e confiram resolutividade aos serviços assim como a valorização dos trabalhadores e gestões mais participativas. Trata-se de estabelecer prioridades no percurso de construção do SUS-Itaboraí. Após um intenso processo de implantação de uma rede de atenção básica, utilizando como estratégia o Programa Saúde da Família, segue-se a necessidade de qualificação e aperfeiçoamento do processo dos cuidados de saúde, que se iniciam no acolhimento aos usuários, no acompanhamento das famílias, na formação e relacionamento pessoal e profissional das equipes. O propósito deste momento de reflexão é o da construção coletiva de estratégias que promovam mudanças nas práticas do cuidar em nosso cotidiano, fortalecendo relações mais solidárias entre todos os que fazem o SUS. Prefeitura Municipal de Itaboraí Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí Itaboraí, 2007 PROPOSTA E METODOLOGIA A proposta de trabalho que a Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí traz nesse momento para sua rede de atenção básica é a de, ampliar, facilitar, e qualificar o acesso dos usuários ao sistema público de saúde. Para alcançar esses objetivos, optou-se por um método com o formato de oficinas de trabalho em momentos seqüenciais. Partiremos no primeiro momento de fundamentos teóricos e relatos trazidos por profissionais com experiência acadêmica e em serviços de saúde, para uma aproximação inicial com o debate que é hoje dominante no país em todas as instâncias do SUS: a qualificação da atenção à saúde de todos os brasileiros. Iniciaremos o debate conhecendo um pouco da Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão no Sistema Único de Saúde - HumanizaSUS, em especial na atenção básica. Também ouviremos experiências de intervenções em sistemas de saúde municipais com propostas de reorganização da porta de entrada na atenção básica, e as reflexões sobre essas experiências. Nos momentos seguintes as equipes se encontrarão em trabalhos de grupo para promover a reflexão sobre o processo de trabalho em saúde na rede local. Com o apoio de técnicos, irão construir um diagnóstico da situação do acesso dos usuários ao sistema de saúde do ponto de vista da atenção básica e a partir daí, refletir sobre o produto do trabalho, criando novas estratégias de organização para o trabalho cotidiano das unidades. Intensifica-se a partir deste momento, o processo de acompanhamento das equipes de saúde, para apoiar o trabalho de melhoria do acesso dos usuários ao sistema de saúde do município. Os trabalhos de grupo foram organizados contando com a presença integral das equipes de saúde, em um ambiente agradável para facilitar a participação de todos. As instruções do caderno de atividades deverão ser observadas e acompanhadas, pois fazem parte do trabalho. Foram agrupados no final do caderno de atividades os textos de referência utilizados para inspiração e montagem do texto-base como apoio e leitura suplementar de acordo com o interesse despertado pelos temas. Boa sorte e bom trabalho! Seqüência das Atividades Instruções aos Participantes: IDatas e horários dos encontros da Oficina – 14, 16 e 18 de maio, das 13:00h às 17:00h. II- Participantes – todos os profissionais das equipes das sete Unidades de Saúde da Família abaixo: UNIDADES Vila Brasil Aldeia da Prata Planalto da Marambaia Marambaia Agrobrasil Nova Cidade Visconde TOTAL DE EQUIPES Nº. DE EQUIPES 02 02 01 01 01 02 02 11 1º dia – Abertura Data: 14/05/07 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Mesa de Abertura. II- Leitura das Instruções aos Participantes. III- Mesa de Discussão: Apresentação da Política Nacional de Humanização do SUS – PNH. Cláudia Abbês – Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense A experiência de Itaboraí – “Acesso para todos”. Mônica Almeida – Secretária Municipal de Saúde de Itaboraí Relato de experiência de Acolhimento na Atenção Básica. Túlio Franco – Professor da Universidade Federal Fluminense IV- Debate. 2º dia - Fluxo do Usuário na Unidade de Saúde da Família Data: 16/05 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Divisão das 11 equipes em 7 grupos por Unidade de Saúde da Família. II- Os participantes deverão ler previamente o Texto-base para Discussão do Fluxo do Usuário na Unidade de Saúde da Família, pág. 10, para os trabalhos deste 2º dia da Oficina. III- Com o apoio dos supervisores na discussão e com o material fornecido, cada grupo deve montar o fluxograma do usuário dentro de sua Unidade de Saúde (como é a chegada do usuário hoje à Unidade e o caminho que ele percorre para ser atendido). IV- O grupo deve escolher um componente que irá apresentar o fluxograma em Plenária. V- Plenária: discussão a partir dos fluxogramas apresentados pelos grupos com análise da situação. VI- Distribuição de uma proposta de avaliação por escrito da Oficina. 3º dia - Discussão do Acesso Data: 18/05 - Horário: 13:00h às 17:00h. Local: AIPERJ I- Divisão das 11 equipes em 7 grupos mesclados. II- Com o apoio dos supervisores na discussão sobre o Acesso ao PSF e com o material fornecido, cada grupo deve sistematizar as principais propostas para melhoria do Acesso às Unidades de Saúde da Família. III- O grupo deve escolher um componente que irá apresentar as propostas em Plenária; IV- Plenária - apresentação das propostas dos grupos com estabelecimento de compromisso e pactuação entre a equipe de gestão e as equipes das Unidades, sintetizando as principais propostas de reorganização da Porta de Entrada em um documento. Este documento deverá ser validado pelos participantes em Plenária. V- Distribuição de uma proposta de avaliação por escrito da Oficina. VI- Apresentação das duplas de supervisores que acompanharão as equipes a partir desse momento TEXTO-BASE PARA DISCUSSÃO DO FLUXO DO USUÁRIO NA UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA Introdução Este texto foi formulado para a “Oficina de Humanização na Atenção Básica: Acesso para todos” pela equipe da Secretaria Municipal de Saúde de Itaboraí, com base em trabalhos que discutem o Sistema Único Saúde e trazem algumas noções norteadoras para o que desenvolveremos neste encontro. Para deixar claro o foco do trabalho proposto, o texto foi dividido em tópicos que não têm um encadeamento necessário entre si, mas que compõem um bloco temático que servirá de base para as discussões acerca do acesso e fluxo dos usuários às Unidades de Saúde da Família. Os trabalhos que serviram como base para este texto estão indicados ao final, nas Referências Bibliográficas. Sistema Único de Saúde (SUS) “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Essa é uma conquista do povo brasileiro. Toda conquista é, entretanto, resultado e início de um outro processo. Em 1988, votamos a criação do Sistema Único de Saúde. Com ele afirmamos a universalidade, a integralidade e a eqüidade da atenção em saúde e a participação social. Com ele também apontamos para uma concepção de saúde que não se reduz à ausência de doença, mas a uma vida com qualidade. A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais, sendo, portanto necessária para o trabalho em saúde a interlocução entre os diferentes setores coresponsáveis pela melhoria da qualidade de vida da população. Muitas são as dimensões com as quais estamos comprometidos: prevenir, cuidar, proteger, tratar, recuperar, promover, enfim, produzir saúde. Muitos são os desafios que aceitamos enfrentar quando estamos lidando com a defesa da vida, com a garantia do direito à saúde. Neste percurso de construção do SUS, em um país como o Brasil com as profundas desigualdades sócio-econômicas que ainda o caracterizam, o acesso dos usuários aos serviços e aos bens de saúde permanece com várias barreiras. O cenário indica, então, a necessidade de mudanças nas estratégias adotadas pelas equipes de saúde para o cuidado e acompanhamento dos seus usuários. Queremos um SUS com essas mudanças. Para isso, estamos propondo esta discussão que tem por objetivo refletir sobre o acesso da população à Atenção Básica, mais especificamente sua vinculação com as equipes das Unidades do Programa de Saúde da Família que participam desta Oficina. Programa de Saúde da Família (PSF) O Programa de Saúde da Família foi concebido pelo Ministério da Saúde em 1994, tendo como objetivo “a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, o que vem possibilitando às equipes do PSF uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas”. As equipes de Saúde da Família podem ser a “Porta de Entrada” do sistema de saúde para a população de suas áreas. Desta forma, é dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, contudo, ao que parece, ainda não há uma real desburocratização do acesso aos serviços, visto que o atendimento às urgências, que é muito importante do ponto de vista do usuário, não vem se mostrando um ponto forte nas Unidades de Saúde da Família. O PSF foi implantado no município de Itaboraí em 2002. Desde então, tem sido uma prioridade da Secretaria Municipal de Saúde a qualificação das equipes das Unidades de Saúde da Família e a sua integração com os demais serviços de saúde do município. Hoje, é importante pensar como as Unidades de Saúde da Família se organizam para serem, de fato, agentes de mudança do modelo assistencial. Pretende-se discutir a partir daí a relação da equipe com a população, a forma como cada equipe se organiza para dar conta das suas necessidades e demandas, e as possibilidades de recriação e reconfiguração deste modelo proposto. Para tanto, utilizamos algumas noções da Política Nacional de Humanização do SUS, que nos dá suporte para esta discussão. Política Nacional de Humanização (PNH) No início de 2003, o Ministério da Saúde (MS) decidiu priorizar o tema da humanização como aspecto fundamental a ser contemplado nas políticas de saúde. Colocava-se não só um desafio, mas principalmente a urgência de revisitar conceitos e práticas nomeadas como humanizadas. Identificada a movimentos religiosos, filantrópicos ou paternalistas, a humanização era menosprezada por grande parte dos gestores, ridicularizada por trabalhadores e demandada pelos usuários. A questão trazia à cena do debate as condições precarizadas de trabalho, as dificuldades de pactuação das diferentes esferas do SUS, o descuido e o descompromisso na assistência ao usuário dos serviços de saúde. O diagnóstico apontava para a complexidade da tarefa de se construir de modo eficaz um sistema público que garantisse acesso universal, equânime e integral a todos os cidadãos brasileiros. A discussão da humanização no campo da saúde não pode se fazer sem que consideremos a maneira como o tema está intrinsecamente ligado ao processo de constituição do Sistema Único de Saúde no Brasil. O SUS é o resultado de lutas pela redemocratização da sociedade brasileira que aconteciam em meio a movimentos de resistência à ditadura militar. No campo da saúde essa resistência se exprimiu, sobretudo, no Movimento da Reforma Sanitária a partir do qual foram formulados os princípios de universalidade, equidade e integralidade da saúde presentes no texto da Constituição de 1988 como direito de qualquer cidadão e como dever do Estado. Por Humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos envolvidos no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a coresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão. Assim, a PNH trabalha, dentre outras questões, a melhoria do acesso do usuário aos serviços de saúde, se utilizando para tanto dos instrumentos destacados a seguir, que serão discutidos com vocês nesta oficina. Acolhimento e Garantia do Acesso Recepção do usuário, desde sua chegada, responsabilizando-se integralmente por ele, ouvindo sua queixa, permitindo que ele expresse suas preocupações, angústias e, ao mesmo tempo, colocando os limites necessários, garantindo atenção resolutiva e a articulação com os outros serviços de saúde para a continuidade da assistência quando necessário. Acolher é dar acolhida, admitir, aceitar, dar ouvidos, dar crédito a, agasalhar, receber, atender, admitir. O acolhimento como ato ou efeito de acolher expressa, em suas várias definições, uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, uma atitude de inclusão. Classificação de Risco (ou Avaliação de Risco) Mudança na lógica do atendimento, permitindo que o critério de priorização da atenção seja o agravo à saúde e/ou grau de sofrimento e não mais a ordem de chegada (burocrática). Realizado por profissional da saúde que, baseado em protocolos técnicos definidos pela equipe, identifica os usuários que necessitam de tratamento imediato, considerando o potencial de risco, agravo à saúde ou grau de sofrimento, e providencia de forma ágil o atendimento adequado a cada caso. Agenda Aberta O novo processo de trabalho incorpora, inicialmente, a mudança do fluxo de entrada do usuário ao serviço. Todos têm acesso garantido e são recebidos por uma equipe de acolhimento (de forma individual e sigilosa), formada por enfermeira, auxiliares de enfermagem e médicos. Essa escuta busca recuperar a solidariedade, o vínculo de confiança, de forma humanitária, procurando dar resposta segura às necessidades do usuário. Os atendimentos programados, que já aconteciam na Unidade de Saúde da Família, permanecem agendados, mas os profissionais ficam com parte da agenda aberta para o acolhimento de casos que sejam avaliados e que apresentem necessidade de serem atendidos naquele momento. Assim, a organização do processo de trabalho da equipe assegura o acesso aos seus usuários, estando acordado que o enfermeiro e auxiliar de enfermagem avaliam os casos que chegam à unidade e, se necessário, os encaminha para um atendimento médico. É de fundamental importância que o profissional médico tenha participação ativa neste processo, garantindo a retaguarda dos encaminhamentos e atuando nas avaliações se necessário. É importante que a agenda para marcação de consultas esteja ao alcance dos profissionais da equipe de acolhimento, estando aberta também para marcações posteriores que sejam consideradas necessárias. Equipe Multiprofissional Grupo que se constitui por profissionais de diferentes áreas e saberes (interdisciplinar transdisciplinar). Este grupo se caracteriza pela valorização destes diferentes saberes e pelo exercício de quebra da hierarquia nas relações de trabalho. A equipe se organiza em função dos objetivos/missão de seu serviço de saúde, estabelecendo-se como uma equipe de referência para os usuários desse serviço (população que fica sob a responsabilidade desse grupo/equipe). Rede de Serviços Conjunto de Unidades de diferentes perfis e funções, organizadas de forma articulada, responsáveis por resolver/encaminhar as diferentes demandas de saúde da população. Para que se estabeleça uma rede, é necessário que cada nível do sistema (desde a Atenção Básica aos Hospitais de alta complexidade) resolva os problemas que lhe foram atribuídos e pactue com os demais serviços a melhor forma de encaminhar os casos que a Unidade não consegue dar conta. A resolutividade é ponto fundamental a ser discutido em todas as equipes dos diferentes serviços, para que a rede funcione bem e a articulação entre as Unidades seja efetiva, garantindo não apenas o acesso nominal dos usuários, mas a continuidade do cuidado. O Encontro do Trabalhador de Saúde com o Usuário Em uma Unidade de Saúde, a aproximação entre usuário e trabalhador de saúde promove um encontro, este “ficar em frente um do outro”, um e outro sendo seres humanos, com suas intenções, interpretações, necessidades, razões e sentimentos, mas em situação de desequilíbrio, de habilidades e expectativas diferentes, onde um, o usuário, demanda assistência, em estado físico e/ou emocional fragilizado, junto ao outro, um profissional supostamente capacitado para atender e cuidar da causa de sua fragilidade. Deste modo cria-se um vínculo, gerando uma ligação afetiva e ética entre ambos, numa convivência de ajuda e respeito mútuos. O Uso do Fluxograma Descritor para Análise do Processo de Trabalho O Fluxograma é uma técnica que utiliza a representação gráfica de todas as etapas do processo de trabalho na Unidade de Saúde, servindo para tornar visíveis os caminhos percorridos pelo usuário quando procura assistência e sua inserção no serviço. O Fluxograma permite um olhar agudo sobre os fluxos existentes no momento da produção da assistência à saúde, e permite a detecção de seus problemas. É como se, ao aplicá-lo, lançássemos luz em áreas de sombra até então não percebidas: esta é uma forma de visualizar e registrar o que acontece no trabalho cotidiano. O Fluxograma é representado por quatro símbolos: Elipse - representa sempre a entrada ou saída do usuário no serviço; Losango - indica os momentos em que deve haver uma decisão para a continuidade do trabalho; Retângulo na horizontal usuário. - diz respeito ao momento de intervenção, ação sobre o Retângulo na vertical - representa o cardápio de serviços da Unidade, os procedimentos oferecidos pela mesma. Estes símbolos se ligam por setas indicativas da direção do trabalho e podem ser sinalizadas etapas através de textos curtos. O Fluxograma é um instrumento que revela os impasses do processo de trabalho e as relações estabelecidas nas Unidades de Saúde entre os trabalhadores e desses com os usuários. Referências Bibliográficas: Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde. Curso de formação de facilitadores de educação permanente em saúde: unidade de aprendizagem - trabalho e relações na produção do cuidado em saúde. O Processo de Trabalho em Saúde. Rio de janeiro: Ministério da Saúde/FIOCRUZ, 2005. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política nacional de Humanização. HumanizaSUS: documento-base da Política Nacional de Humanização para gestores e trabalhadores do SUS. 3ª ed. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política nacional de Humanização. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2ª ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. FRANCO, T. B. & MERHY, E. E. Fluxograma descritor e projetos terapêuticos para análise de serviços de saúde, em apoio ao planejamento: o caso de Luz (MG). In: MERHY, E. E. et. al. O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. São Paulo: HUCITEC, 2003. BARROS, R. B. & PASSOS, E. A humanização como dimensão pública das políticas de saúde. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 561-571, 2005. FRANCO, T. B. & MERHY, E. E. PSF: Contradições e novos desafios. In: Conferência Nacional de Saúde On-Line - Tribuna Livre – http://www.datasus.gov.br/cns. Textos de Apoio O processo de trabalho em saúde Texto adaptado do Curso de Formação de Facilitadores de Educação Permanente em Saúde, Unidade de Aprendizagem: Trabalho e Relações na Produção do Cuidado em Saúde, Ministério da Saúde, 2005. Introdução Ao debatermos o processo de trabalho, pretendemos entrar no mundo espetacular da produção de saúde. O objetivo com esse tema é o de levá-lo a identificar e analisar as diversas situações de trabalho em saúde, os diferentes modos de fazer a assistência aos usuários. O trabalho em saúde refere-se a um mundo próprio, complexo, diverso, criativo, dinâmico, em que cotidianamente usuários se apresentam portadores de algum problema de saúde e buscam, junto aos trabalhadores que ali estão, resolvê-los. O momento do trabalho é ao mesmo tempo de encontro entre esse trabalhador e o usuário. Você já parou para pensar que o trabalho em saúde só é possível mediante o encontro e a relação entre o profissional e o usuário? Esse encontro é permeado pela dor, o sofrimento, os saberes da saúde, as experiências de vida, as práticas assistenciais, subjetividades que afetam os sujeitos trabalhador e usuário. Enfim, há um mundo complexo a ser pesquisado que envolve, sobretudo, a produção do cuidado. Ao executar seu trabalho, os profissionais de saúde obedecem a uma certa disposição física, disciplinadamente organizada, ou seja, há lugares específicos onde certos produtos são realizados. É como se, no serviço, ou seja, em um certo estabelecimento de saúde, houvesse diferentes unidades de produção, por exemplo: na recepção, produzem-se informações, agendas; na sala de vacinas, produzem-se procedimentos de imunização; nos consultórios, são produzidas consultas médicas, de enfermagem; e assim cada lugar tem uma “missão” dentro de um espectro geral de cuidado com os usuários. Tudo isso entra em movimento durante o período em que o serviço está disponível para atender às pessoas que procuram, por algum motivo, resolver ali os seus problemas de saúde. Os trabalhadores de cada lugar destes executam certas tarefas, que se presume tenham sido previamente determinadas ou pactuadas entre eles, pois se busca uma sintonia entre o que uns fazem em determinado lugar, por exemplo, na recepção, e o que os outros realizam em outros ambientes, muitas vezes, reportando-se uns aos outros. Há um relacionamento, no trabalho, entre todos os profissionais como o funcionamento de uma “rede de conversas”, mediada pelo trabalho. O trabalho em saúde e suas tecnologias O trabalho é uma atividade que tem sempre uma finalidade para que ele se realize, a qual está ligada ao atendimento à determinada necessidade da pessoa, seja ela de que tipo for. Os produtos criados com a atividade do trabalho, nessa perspectiva, têm um “valor de uso” (Campos, 1994). No caso da saúde, Cecílio (2001) sugere que as necessidades estão organizadas em quatro grandes grupos: “O primeiro diz respeito a ter boas condições de vida [...]; O outro conjunto fala da necessidade de se ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida [...]; O terceiro diz respeito à insubstituível criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional [...]; Um quarto diz respeito à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida”. (Cecílio, 2001:114-115; grifos nossos). Podemos concluir que as atividades ligadas à promoção e prevenção, reabilitação e cura estão todas de alguma forma relacionadas nos grupos de necessidades descritos acima. Esses conjuntos de necessidades aqui relacionados demonstram que os problemas de saúde são sempre complexos, porque envolvem inúmeras dimensões da vida, desde as que se circunscrevem no corpo até as de ordem social e subjetiva. O trabalho em saúde, por sua vez, para ser eficaz, deve responder a essa complexidade e dar sentido à intervenção nos diversos campos da saúde. Abre-se aqui um leque de possibilidades de uso de diversas tecnologias de trabalho para a produção do cuidado. Mas, afinal, você já parou para pensar o que é tecnologia? Você acha que no seu trabalho cotidiano você utiliza tecnologias? Vamos nos debruçar um pouco sobre esse termo e ver qual o verdadeiro sentido que ele tem para o trabalho em saúde. Em geral, as pessoas associam a palavra tecnologia a máquinas e instrumentos, geralmente os mais modernos. Se foi isso que você pensou, não está errado, mas também não está completo esse raciocínio. Para iniciar a discussão sobre as tecnologias de trabalho em saúde, vamos ao dicionário verificar o sentido literal do termo. Ele nos diz que tecnologia é o “conjunto de conhecimentos, [...] que se aplicam a um determinado ramo de atividade” (Holanda, 1999). Ou seja, é conhecimento aplicado, o que pressupõe que toda atividade produtiva traz, em si, um saber que é utilizado para executar determinadas tarefas que vão levar à criação de algo, ou seja, à realização de certos produtos. Na indústria, as tecnologias estão inscritas nas máquinas que, na maioria das vezes, dominam o cenário produtivo, mas estão presentes também no conhecimento do trabalhador, utilizado para operar essas máquinas e produzir inúmeras coisas, tais como sapatos, roupas, carros etc. Esses produtos serão consumidos, em algum momento futuro, por alguém que o produtor (o operário que fez o sapato) provavelmente jamais vai conhecer, isto é, quem produz não interage com o consumidor do seu produto. Chamo a sua atenção para o fato de que, nesse curto parágrafo, enquanto falamos da produção industrial, mencionamos dois tipos de tecnologia: a primeira, que está inscrita nas máquinas utilizadas no processo produtivo; e a segunda, que está na habilidade do operário definida pelo seu conhecimento técnico em relação ao produto, materiais, processo produtivo, operação da máquina etc. No caso da saúde, diferente da indústria, o trabalhador que faz a assistência, podendo ser o enfermeiro, médico, dentista, psicólogo, auxiliar ou técnico de enfermagem, entre muitos outros, são os produtores da saúde e nessa condição interagem com o consumidor (usuário), enquanto estão produzindo os procedimentos. Mais do que isso, esses serão consumidos pelo usuário no exato momento em que são produzidos. Por exemplo: ao fazer um curativo, a auxiliar de enfermagem está produzindo algo, o curativo, em relação com o consumidor desse produto, o usuário, que o consome nesse exato momento. Isso determina uma característica fundamental do trabalho em saúde, a de que ele é relacional, isto é, acontece mediante a relação entre um trabalhador e o usuário, seja ele individual ou coletivo. Por exemplo, a consulta só se realiza, quando o profissional de saúde está diante do usuário e, assim, com os demais atos produtores de procedimentos, tais como o curativo, a vacina, os diversos tipos de exames, atos cirúrgicos, reuniões de grupos, visitas domiciliares etc. Podemos dizer que na saúde, além dos dois tipos de tecnologia já identificados nos processos produtivos, as que estão inscritas nas máquinas e no conhecimento técnico, há uma outra absolutamente fundamental, que é a tecnologia das relações. O que significa que para estabelecer relações de assistência e cuidado à saúde, é necessário um conhecimento que seja aplicado para essa finalidade, porque não são relações como outra qualquer, ela tem uma certa finalidade que é a saúde. Esse debate das tecnologias de trabalho em saúde vem sendo realizado mais sistematicamente há alguns anos, em um primeiro momento por Ricardo Bruno Mendes Gonçalves (1994) que fez a diferenciação entre as tecnologias que estão inscritas nas máquinas e instrumentos de trabalho e aquelas do conhecimento técnico, tendo o autor chamado as primeiras de “tecnologias materiais” e as outras de “tecnologias não materiais”. Essa primeira diferenciação foi importante por reconhecer o conhecimento como tecnologia e coloca, no centro do debate do trabalho e produção da saúde, os sujeitos sociais portadores de conhecimento, que são os trabalhadores/produtores de saúde e, por excelência, aqueles que têm a capacidade de ofertar uma assistência de qualidade. Sem descartar a importância que têm as máquinas e instrumentos que auxiliam no trabalho em saúde, na definição de diagnóstico e nas terapias, importa registrar que o trabalho humano é absolutamente fundamental e insubstituível. Para você notar o quanto isso é relevante para a produção da saúde, procure lembrar-se de alguma situação em que houve incorporação de novas tecnologias assistenciais no trabalho em saúde e isso tenha acarretado redução de postos de trabalho, como geralmente acontece na área industrial. Não há situação como essa, a não ser em algumas exceções na área de laboratórios. De resto, mantêm-se os postos de trabalho, porque é a pessoa quem de fato realiza o cuidado aos usuários e, interagindo com o mesmo, ambos são capazes de impactar seu estado de saúde. Dando continuidade aos estudos na área, Merhy (1997), ao descrever sobre a produção do cuidado e suas tecnologias, estabeleceu três categorias para tecnologias de trabalho em saúde. Chamou de “tecnologias duras” as que estão inscritas nas máquinas e instrumentos e têm esse nome porque já estão programadas a priori para a produção de certos produtos; de “leve-duras” as que se referem ao conhecimento técnico, por ter uma parte dura que é a técnica, definida anteriormente, e uma leve, que é o modo próprio como o trabalhador a aplica, podendo assumir formas diferentes dependendo sempre de como cada um trabalha e cuida do usuário; e “tecnologias leves” que dizem respeito às relações que, de acordo com o autor, são fundamentais para a produção do cuidado e se referem a um jeito ou atitude próprios do profissional que é guiado por uma certa intencionalidade vinculada ao campo cuidador, ao seu modo de ser, à sua subjetividade. São tecnologias, também, porque dizem respeito a um saber, isto é, competências para os trabalhadores de saúde lidarem com os aspectos relacionais que envolvem os atos produtivos, como já foi citado anteriormente. Para começar a entender como a organização do trabalho influencia o modo de se organizar o cuidado aos usuários, é necessário verificar qual das três tecnologias tem prevalência sobre o processo de trabalho, no momento em que o trabalhador está assistindo os usuários. O Trabalho Vivo em ato e o Processo de Trabalho em Saúde Como você pôde ver nas observações que fez do processo de trabalho, há situações em que o mesmo é dominado pela “tecnologia dura” e/ou “leve-dura”, ou seja, o trabalhador valoriza mais o instrumento que tem à mão, do que a atitude acolhedora que pode e deve ter em relação ao usuário, quando faz o atendimento. Isso significa que, muitas vezes, a relação, o diálogo e a escuta são colocados em segundo plano, para dar lugar a um processo de trabalho centrado no formulário, protocolos, procedimentos, como se esses fossem um fim em si mesmos. O resultado último que se pretende é o de reduzir o sofrimento, melhorar a qualidade de vida, criar autonomia nas pessoas para viverem a vida. Imaginemos que há sempre várias formas de se comportar com o usuário durante o trabalho de assistência à saúde. Por exemplo, pense em um trabalhador fazendo uma anamnese. Ele pode fazer essa atividade de duas formas distintas, quais sejam: 1º – O profissional pega um roteiro/questionário, mal cumprimenta o usuário e começa a fazer as perguntas, olhando e anotando no questionário à sua frente. Restringe-se às perguntas, age de modo formal, distante e frio. 2º – O profissional pode ter o roteiro/questionário que lhe serve de guia, mas abre espaço para a fala e a escuta do usuário sobre aspectos não roteirizados, realiza uma introdução que o deixa mais à vontade, a fala não se restringe às perguntas do questionário, troca olhares, interage, discute os problemas percebidos, qualifica a atenção e o cuidado. No primeiro caso, podemos dizer que o processo de trabalho de produção da anamnese foi dominado pela tecnologia dura representada nesse ato pelo instrumento roteiro/questionário. Houve uma substituição dos atos de fala e escuta, para a linguagem fria do texto do roteiro, ao qual o trabalhador ficou preso. Isso reduziu de alguma maneira o aspecto relacional desse trabalho. Já no segundo caso, o aspecto relacional é valorizado, isto é, há o domínio da tecnologia leve no processo de trabalho, servindo o instrumento apenas como seu auxílio. Nesse caso, a relação entre trabalhador e usuário torna-se dinâmica, há valorização dos gestos mútuos de cuidado e produção da saúde. Mas o que torna o trabalho, quando realizado de forma centrada nas tecnologias leves, mais produtivo e interessante para o usuário e o trabalhador de saúde? Que aspectos vão se organizando para que ele ganhe essa dinâmica e maior resolutividade? De novo nos valemos de Merhy (1997, 2002) para dizer que as tecnologias leves são aquelas mais dependentes do Trabalho Vivo em ato. Ao ler a expressão acima, seria natural que você se dividisse entre dois sentimentos: o da sua beleza “trabalho vivo” e a curiosidade em relação ao seu significado. Estaria se perguntando: e há trabalho morto? A resposta é sim, há trabalho morto e vamos falar de ambos a seguir. Trabalho Vivo é a expressão que dá significado ao trabalho em ato, isto é, no exato momento da sua atividade produtiva (Merhy; 1997, 2002; Franco, 2003). Trabalho morto são máquinas e instrumentos possuem esse nome porque sobre as máquinas e instrumentos existentes já se aplicou determinado trabalho anterior, ou seja, eles já trazem uma carga de trabalho pregresso, que lhes deu forma e função. Quando o processo de trabalho é comandado pelo trabalho vivo, o trabalhador tem uma grande margem de liberdade para ser criativo, relacionar-se com o usuário, experimentar soluções para os problemas que aparecem e, o que é mais importante, interagir, inserir o usuário no processo de produção da sua própria saúde, fazendo-o sujeito, isto é, protagonista de seu processo saúde-doença. Já quando hegemonizado pelo trabalho morto, o processo de trabalho é pré-programado, porque fica sob o comando dos instrumentos, age como se ele fizesse um aprisionamento do trabalho vivo, limitando a ação do trabalhador àquilo que já foi determinado pela programação da máquina, protocolo, formulário etc. Aqui há pouca interação entre trabalhador e usuário, construção de sujeitos nesse encontro realizado para produzir o cuidado. Há apenas um processo frio e duro de produção de procedimentos. Toda atividade produtiva envolve sempre o Trabalho Morto e o Trabalho Vivo em ato, para que se realizem os produtos desejados. No processo de trabalho, um deles tem a hegemonia e determina, no caso da saúde, o perfil da assistência. Voltando ao nosso exemplo, em que um trabalhador de saúde vai fazer uma anamnese, podemos dizer que o roteiro/questionário é trabalho morto e os atos de fala, escuta, olhares são trabalho vivo em ato. Quando o roteiro comanda o processo de trabalho (1º caso), podemos dizer que é um processo de trabalho que tem hegemonia do trabalho morto e é dependente das tecnologias duras. Quando há o inverso (2º caso), há hegemonia do trabalho vivo, lugar próprio das tecnologias leves. A Composição Técnica do Trabalho – CTT1 e Micropolítica Talvez você se pergunte: E como eu sei quando o processo de trabalho está centrado no Trabalho Morto ou no Trabalho Vivo em ato? Pela observação do modo como o profissional age com o usuário, pela atitude frente ao problema de saúde, é possível perceber se suas ações são cuidadoras ou não. À razão entre o Trabalho Morto e Trabalho Vivo no interior do processo de trabalho, chamamos de Composição Técnica do Trabalho (Franco, 2003). Ela serve para analisar o processo de trabalho, como já foi dito aqui, através da sua observação e a percepção de como se dá o trabalho, a atitude do profissional, a sua implicação com o problema de saúde do usuário e o protagonismo desse diante da sua própria forma de fazer a assistência à saúde. É uma percepção, não quantificável, do modo de produção do cuidado. Quanto maior a hegemonia do Trabalho Vivo nesse processo, maior é o nível de cuidado que se tem com o usuário. Importa registrar que um processo de trabalho, para ter maior volume de Trabalho Morto ou Trabalho Vivo implicado com o mesmo, depende do próprio trabalhador. Essa afirmação tem por base uma característica fundamental do processo de trabalho em saúde: a de que o trabalhador possui um razoável autogoverno sobre o seu processo de trabalho, isto é, ele comanda o modo como vai se dar a assistência. Se essa acontece por parâmetros humanitários, com atitudes acolhedoras, ou ao contrário, de forma burocrática e sumária, é determinada por quem está em ato, na relação com o usuário, no caso, o próprio trabalhador. O espaço de trabalho, onde há realizações impulsionadas pela prática de cada um, é o lugar da micropolítica, para o caso que estamos vendo, de produção de saúde. E o que é a micropolítica? É o protagonismo dos trabalhadores e usuários da saúde, nos seus espaços de trabalho e relações, guiado por diversos interesses, os quais organizam suas práticas e ações na saúde. Assim o espaço da micropolítica não é uno, é múltiplo de quantas identidades se inscreverem nesse lugar, como sujeitos que pretendem realizar seus 1 A Composição Técnica do Trabalho – CTT a razão entre o Trabalho Morto e Trabalho Vivo presente no núcleo tecnológico de produção do cuidado, do processo de trabalho. (Franco, 2003). projetos, sejam eles identificados com o campo individual ou coletivo; privado ou público; cuidador ou não cuidador; enfim, é aí que se define de fato o perfil da assistência, porque é nesse lugar que se dá o trabalho em saúde. Os processos de produção da saúde mais tradicionais organizam campos de ação no espaço da micropolítica, estruturando processos produtivos centrados no instrumental e nas normas dependente do trabalho morto, como formas de garantir maior produção de procedimentos. Isso foi construído historicamente, através da prevalência dos interesses da indústria de medicamentos e equipamentos biomédicos na determinação dos desenhos organizativos da atenção em saúde, que operam criando uma consciência e subjetividade entre os diversos profissionais, que dá formação ao imaginário de que a qualidade da assistência está vinculada ao uso das tecnologias duras e leve-duras, isto é, equipamentos e conhecimento especializado. Isso acontece com uma anamnese, como já informamos, como também em relação a consultas, em que o profissional prioriza a prescrição de procedimentos e praticamente anula os atos de fala, escuta, toque, relações, que são próprios da clínica, ou qualquer outro procedimento que se realiza. O mesmo repete-se em reuniões de grupo, onde predomina a fala técnica, centrada no profissional e não se abre para a escuta dos usuários portadores de algum problema crônico de saúde, e que têm a necessidade de falar das suas angústias, dos estigmas da doença, dos processos existenciais os quais impactam seu modo de estar no mundo. O processo de trabalho centrado na norma e no protocolo (trabalho morto) reduz sobremaneira o campo de cuidado aos usuários. A micropolítica é o lugar onde se manifesta e se produz a subjetividade. E o que é a subjetividade? É um modo próprio e específico de ser e atuar no mundo e em relação com os demais. Vale dizer que a subjetividade é dinâmica, muda de acordo com as experiências de cada um, é afetada pelos valores e cultura que a pessoa vai internalizando ao longo da vida e do tempo. Ela é produzida socialmente e nunca está acabada. A história e as experiências de vida, as relações com grupos ou indivíduos disparam mudanças no jeito de ser e agir de cada um, o que chamamos de “processos de subjetivações” que vão mudando as pessoas, ou seja, produzindo novas subjetividades. O trabalho é uma das experiências mais ricas que uma pessoa tem e,por isso, ele produz nela novas formas de entender e agir no mundo e com as outras pessoas. A isso chamamos de “nova subjetividade”. Ao produzir coisas e serviços, como o de assistência à saúde por exemplo, o sujeito produz a si mesmo. Um dos efeitos em se tornar sujeito é o de ganhar maior capacidade de intervir sobre a realidade, ser protagonista de mudanças sociais, coletivas e individuais. A personagem de Guimarães Rosa, Riobaldo Tatarana, nos fala da sua percepção de toda essa questão, de uma forma clara:“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão”. (Riobaldo Tatarana em Grande Sertão: Veredas; João Guimarães Rosa) As afirmações de que “as pessoas não estão sempre iguais... não foram terminadas” e “elas vão sempre mudando” expressa muito bem algo que existe em cada um e que o diferencia dos demais, tornando-o singular, ao mesmo tempo em que afirma que isto é uma construção perene. Muito se tem discutido sobre o tema da subjetividade e o modo como influencia a forma de as pessoas enxergarem e atuarem no mundo. A questão é universal, atravessa os tempos. A subjetividade impulsiona a pessoa a atuar no ambiente da micropolítica. Micropolítica é a “arte ou ciência de governar” que cada um tem, seus próprios espaços de trabalho, relações, enfim, de vida. Um dos espaços onde isso se dá, é no lugar onde a pessoa trabalha e produz. Ela faz isso de acordo com certo sentido, isto é, determinados fins os quais considera mais adequados aos seus interesses ou desejos. Foi tentando encontrar sentidos para a subjetividade e seu impacto na formação do campo social, que o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari definiu que a subjetividade pode ser “solidária”, baseada em valores societários, humanitários e de cidadania, que levem à construção de um mundo novo; e pode ser “capitalística”, quando opera a partir dos objetivos privados e individuais, reproduzindo as muitas formas de enquadramento das pessoas nas normas sociais vigentes (Guattari, 1998). Por exemplo, um profissional que tem um grande conhecimento técnico em uma determinada área, ao cuidar do usuário, pode se relacionar com ele de forma impessoal, sumária e burocrática; já outro profissional, igualmente conhecedor dos problemas de saúde, pode estabelecer relações humanizadas e acolhedoras com os usuários. Veja bem, mesmo equiparando-se tecnicamente, os dois profissionais têm atitudes completamente diferentes e o que determina seu modo de ser, quando realiza a assistência ao usuário, não é uma lei ou norma do serviço, isto é, não há uma racionalidade guiando seu comportamento, é sua subjetividade que atua quando ele está trabalhando, determinando assim o seu modo de agir perante o usuário e seu problema de saúde. E não é apenas o profissional que tem uma certa subjetividade quando está em serviço, mas o usuário também traz uma história de vida, de relações, conhecimento acumulado, uma dada cultura, enfim, inúmeros fatores que determinam seu modo próprio de ver e atuar no mundo. Como a assistência à saúde se dá a partir do encontro dos dois, trabalhador e usuário, ambas as subjetividades podem influenciar um ao outro mutuamente. É como se essa relação que se estabelece para a produção do cuidado criasse uma situação em que um afeta ao outro com toda a carga de subjetividade que têm, permeando o processo de trabalho no exato momento em que se dá a assistência. Mas para que isso ocorra, é necessário haver espaço de conversas entre ambos, o que não ocorre em um processo de trabalho que é sumário e burocrático e trata o usuário como um objeto sobre o qual deve ser realizado um procedimento a fim de reabilitar seu corpo doente, e ponto. A relação produtiva mesmo só vai acontecer se o usuário for tratado como sujeito, que pode ser ele também um protagonista do seu processo saúde-doença. Mas será que o processo de trabalho em determinado estabelecimento de saúde é sempre ou de um jeito, centrado nos instrumentos e normas; ou de outro jeito, nas relações? É possível haver estabelecimentos de saúde onde haja uma mistura entre as duas formas de agir no cuidado aos usuários? Vou deixar essas perguntas para você responder. Para isso, pode usar uma ferramenta apropriada para análise do processo de trabalho que é o Fluxograma Descritor, descrito abaixo. O Uso do Fluxograma Descritor para Análise do Processo de Trabalho Segundo Franco & Merhy (2003), o Fluxograma é uma representação gráfica de todas as etapas do processo de trabalho. É uma forma de olhar o que acontece na operacionalização do trabalho no cotidiano. Ele é representado por três símbolos, convencionados universalmente: A elipse, representa sempre a entrada ou saída do processo de produção de serviços; o losango, indica os momentos em que deve haver uma decisão para a continuidade do trabalho e um retângulo, diz respeito ao momento de intervenção, ação, sobre o processo. Procura-se, com o Fluxograma, interrogar a micropolítica da organização do serviço de saúde e, assim, revelar as relações ali estabelecidas entre os trabalhadores e desses com os usuários, os nós-críticos do processo de trabalho, o jogo de interesses, poder e os processos decisórios. Pretende-se, assim, ao retratar todos processos e interesses implicados na organização do serviço, revelar áreas de sombra que não estão claras e explícitas para os trabalhadores e gestores do serviço. Para aqueles que queiram aplicar o fluxograma em uma Equipe de Saúde da Família ou Unidade de Saúde, descrevemos abaixo algumas dicas que ajudam nisso. Mas, lembrese, cada caso deve ser tratado com especificidade, então isso que está aqui deve ser adaptado à situação específica. 1. Reúna a equipe de Saúde da Família ou da Unidade Básica de Saúde. É importante que o fluxograma descritor do processo de trabalho seja elaborado coletivamente, porque quem mais conhece e entende o processo de trabalho é quem está efetivamente trabalhando; 2. Coloque sobre a parede (pregue com fita crepe) folhas de papel pardo sobre os quais vai ser desenhado o fluxograma. É importante que todos estejam visualizando sua construção para facilitar a compreensão do processo de trabalho; 3. Inicie a conversa com a equipe perguntando sobre o acesso do usuário ao serviço. Vá anotando no papel a expressão gráfica desse acesso; 4. Em seguida, interrogue o pessoal que trabalha na recepção e assim, sucessivamente, vá solicitando à equipe que relate o processo de trabalho, segundo os itinerários que são feitos pelo usuário quando busca assistência nesse serviço; 5. Ao final, é importante fazer uma revisão desse caminho, retomando o processo de trabalho novamente. Há sempre alguma coisa para ser mudada ou que foi esquecida. A revisão ajuda a aperfeiçoar o fluxograma. Encerramos aqui a discussão sobre o processo de trabalho em saúde, deixando claro que esse é o início de um longo e duradouro debate sobre o tema, ao qual você deve estar atento e aberto a perceber novidades na área. Elas sempre aparecem, pois é um campo fértil e aberto para novos arranjos na organização do trabalho em saúde. Referências Bibliográficas: HOLANDA, A B. Novo Aurélio, Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999. CAMPOS, G.W.S. A Saúde Pública e a Defesa da Vida. S. Paulo: Hucitec, 1994. CECÍLIO, L.C.O. As Necessidades de Saúde como Conceito Estruturante na Luta pela Integralidade e Eqüyidade na Atenção em Saúde. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, ABRASCO; 2001. FRANCO, T.B. Reestruturação Produtiva e Transição Tecnológica na Saúde: um olhar a partir do Sistema Cartão Nacional de Saúde. (Tese de Doutorado). DMPS/UNICAMP: Campinas (SP), 2003. FRANCO, T. B. Merhy, E. E. O uso de ferramentas analisadoras dos serviços de saúde: o caso do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP. In: MERHY, E.E. et. al. O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. São Paulo: HUCITEC, 2003. GONÇALVES, R.B.M. Tecnologia e Organização Social das Práticas de Saúde. São Paulo: HUCITEC, 1994. GUATTARI, F. Caosmose. São Paulo: EDITORA 34, 1998. MERHY, E. E. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do Trabalho Vivo em saúde. In: MERHY, E. E.; ONOCKO, R. (Org.), Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo: Hucitec, 1997. MERHY, E. E. Saúde: a cartografia do Trabalho Vivo. São Paulo: Hucitec, 2002. PSF: Contradições e novos desafios Túlio Franco e Emerson Merhy Resumo O Programa de Saúde da Família é hoje uma das principais respostas do Ministério da Saúde à crise vivida no setor. Um estudo comparativo do PSF com a Medicina Comunitária e as Ações Primárias de Saúde (Alma Ata, 1978) mostra similaridades entre as três propostas, que se organizam a partir de um ideal racionalizador e operam através do núcleo teórico da epidemiologia e vigilância à saúde. O atual modelo de assistência à saúde, se caracteriza como "produtor de procedimentos", visto que a produção de serviços se dá a partir da clínica exercida pelo médico o qual utiliza principalmente as tecnologias duras/leveduras. O PSF, ao resumir sua ação à vigilância à saúde, com tímida incursão na clínica, não tem potência para reverter esta configuração do Modelo Médico Hegemônico. Para um modelo assistencial centrado no usuário, propõe-se um processo de trabalho multiprofissional e determinado por tecnologias leves/leveduras, com a "produção do cuidado", entendido enquanto ações de Acolhimento, Vínculo, Autonomização e Resolução. Palavras-Chave: Programa de Saúde da Família, PSF, Modelo Assistencial, Gestão, Planejamento, Processo de Trabalho. Introdução O Programa de Saúde da Família - PSF - foi concebido pelo Ministério da Saúde em 1994, com o objetivo de proceder "a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, o que vem possibilitando às equipes da Família uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas". O mesmo documento, elenca os princípios sob os quais a Unidade de Saúde da Família atua, quais sejam: “Caráter substitutivo”: substituição as práticas convencionais de assistência por um novo processo de trabalho, centrado na vigilância à saúde; Integralidade e Hierarquização: A Unidade de Saúde da Família está inserida no primeiro nível de ações e serviços do sistema local de saúde. Territorialização e adscrição da clientela: trabalha com território de abrangência definido. Equipe multiprofissional: A equipe de Saúde da Família é composta minimamente por um médico generalista ou médico de família, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e de quatro a seis agentes comunitários de saúde (ACS). Este artigo se propõe a uma análise do Programa de Saúde da Família, a partir do processo e das tecnologias de trabalho em saúde, como território dos fazeres e portanto, produtor do cuidado em saúde, em busca de uma compreensão de suas possibilidades e limites. Serão descritas a estrutura e organização do Programa, no sentido de desvendar o núcleo epistemológico que alimenta o PSF e seu campo operativo. Pretendendo-se ao final esboçar uma idéia geral sobre o perfil do PSF e sua inserção na arena de disputas de projetos para a implementação do Sistema Único de Saúde, no Brasil. E procurar entender, nesse jogo, qual é a aposta do PSF? O Programa de Saúde da Família tem potência para mudar o modelo tecnoassistencial para a saúde, como ele se propõe? PSF: Territorialização, Adscrição de Clientela. Discutindo seu núcleo estrutural. O PSF tem sua matriz teórica circunscrita prioritariamente ao campo da vigilância à saúde. Sendo assim, seu trabalho está quase que restritivamente centrado no território, de acordo com as concepções desenvolvidas pela Organização Pan-Americana de Saúde. Isto significa que em grande medida a normatização do programa inspira-se nos cuidados a serem oferecidos para ações no ambiente. Não dá muito valor ao conjunto da prática clínica, nem toma como desafio a necessidade de sua ampliação na abordagem individual nela inscrita, no que se refere a sua atenção singular, necessária para os casos em que os processos mórbidos já se instalaram, diminuindo "as autonomias nos modos de se andar a vida" (Campos, 1992, e Merhy, 1998). Desta forma o PSF desarticula sua potência transformadora, aprisionando o trabalho vivo em ato, em saúde, em normas e regulamentos definidos conforme o ideal da vigilância à saúde, transformando suas práticas em "trabalho morto" dependentes. Assim, como a Medicina Comunitária e os Cuidados Primários em Saúde, ao não se dispor a atuar também na direção da clínica, dando-lhe real valor com propostas ousadas como a da "clínica ampliada", age como linha auxiliar do Modelo Médico Hegemônico. É como se o PSF estivesse delimitando os terrenos de competência entre ele e a corporação médica: "da saúde coletiva, cuidamos nós o PSF; da saúde individual cuidam vocês, a corporação médica". E, nada é melhor para o projeto neoliberal privatista, do que isso, pois deixa-se um dos cenários de luta vitais para a conformação dos modelos de atenção sem disputa anti-hegemônica. Gastão W. S. Campos, propõe a estruturação de equipes multiprofissionais, às quais se adscrevem um dado número de usuários. Esta organização justifica-se em dois sentidos: o de "quebrar a costumeira divisão do processo de trabalho em saúde segundo recortes verticais, compondo segmentos estanques por categorias profissionais" (...) "responsabilizar cada uma dessas equipes por um conjunto de problemas muito bem delimitados e pelo planejamento e execução de ações capazes de resolvê-los, o que ocorreria por meio da vinculação de cada equipe a um certo número de pacientes previamente inscritos, do atendimento de uma certa parcela da demanda que espontaneamente procura a unidade, bem como pela responsabilidade em relação aos problemas coletivos" (Campos; 1992:153). O Programa de Saúde da Família adota a diretriz de vínculo e propõe a adscrição de clientela, de 600 a 1.000 famílias, em um determinado território, que se adscrevem a uma equipe composta por 1 médico, 1 enfermeira, 1 auxiliar de enfermagem e 5 agentes comunitários de saúde. Esta equipe passa a ser a "Porta de Entrada" do serviço de saúde, não tendo o programa um esquema para atendimento da demanda espontânea. É dada ao PSF a missão de mudar o modelo assistencial para a saúde, e essa mudança deve se caracterizar quando tiver um modelo que seja usuário-centrado. Contudo, ao que parece, não há uma real desburocratização do acesso aos serviços, visto que o atendimento às urgências, que é muito importante do ponto de vista do usuário, não torna-se ponto forte de sua agenda de trabalho. Os serviços que não conseguem criar esta agenda, tem se mostrado como de baixa credibilidade para os usuários (Chakkour et al., 1992). Assim, o PSF parece cometer um erro de saída. Estrutura e organização do PSF Dentre os diversos problemas verificados na proposta do PSF, enquanto "estratégia de mudança do modelo assistencial", pode-se de modo sistemático, apontar o seguinte: A idéia, que já se descreveu, de que esteja mais voltado para ações as de natureza "higienistas", do que as de cunho "sanitaristas", não dando valor e importância suficientes a uma rede básica assistencial, integrada ao sistema de saúde, ganha um grande destaque por tornar-se uma perspectiva muito polêmica em um país como o Brasil, pois ao se verificar, que de acordo com dados do Ministério da Saúde de 1998, há no país 55.647 Unidades Ambulatoriais, das quais 31.342 constituem-se de Unidades Básicas de Saúde, o que fazer com esta ampla e capilar rede de serviços, locais. No Brasil, há em média uma Unidade Básica para cada 5.424 habitantes, valor muito melhor do que o recomendado pela OMS, que é de uma UBS para cada 20.000 habitantes. Esta rede, construída ao longo da história da saúde pública neste país, oferece um equipamento importante para operar a assistência à saúde e deve necessariamente ser considerado para a organização de um novo modelo assistencial. Sobre a organização e forma de trabalho da equipe, embora o trabalho esteja direcionado para práticas multiprofissionais, nada garante nas estratégias do PSF que haverá ruptura com a dinâmica medicocentrada, do modelo hegemônico atual. Não há dispositivos potentes para isso, porque o Programa aposta em uma mudança centrada na estrutura, ou seja, o desenho sob o qual opera o serviço, mas não opera de modo amplo nos microprocessos do trabalho em saúde, nos fazeres do cotidiano de cada profissional, que em última instância é o que define o perfil da assistência. As visitas domiciliares, não devem ser vistas como novidade e exclusivas do PSF, porque é um recurso que deve ser utilizado por qualquer estabelecimento de saúde, desde que isto seja necessário, e já vem sendo uma prática de várias redes de serviços não organizados sob esta modalidade, inclusive mostrando bons resultados. É próprio da missão das Unidades de Saúde e deve ser considerado um expediente rotineiro em serviços assistenciais. O fato de realizá-las não significa que o médico tenha abandonado sua prática "procedimento centrada" e nem mesmo que o trabalho dos outros profissionais deixem de ser estruturados pelos atos e saberes médicos. Estes são problemas de outras ordens, como está se tentando mostrar neste artigo. Outra questão central, diz respeito ao fato dos seus mentores considerarem que podem organizar e estruturar a demanda de serviços das UBS, a partir exclusivamente de usuários que devem ser referenciados pelas equipes do PSF. Desta forma, elimina a possibilidade de atendimento a demanda espontânea, o que se constitui em uma doce ilusão. A população continua recorrendo aos serviços de saúde em situações de sofrimentos e angústias, e não havendo um esquema para atendê-la e dar uma resposta satisfatória aos seus problemas agudos de saúde, vão desembocar nas Unidades de Pronto Atendimento e Prontos Socorros, como usualmente acontece. Este é um erro estratégico na implantação do PSF, o que enfraquece em demasia sua proposição, visto que a população acaba por forçar a organização de serviços com modelagens mais comprometidas com os projetos médico-hegemônicos, para responderem as suas necessidades imediatas. As visitas domiciliares compulsórias, indicam dois tipos de problemas muito graves, por sinal: um, diz respeito a otimização dos recursos disponíveis para assistência à saúde, pelo programa, principalmente de seus recursos humanos. Não deveria ser recomendado que profissionais façam visitas domiciliares, sem que haja uma indicação explícita para elas, a exceção dos trabalhadores que têm a função específica da vigilância à saúde, como por exemplo, os agentes comunitários de saúde, que devem percorrer o território insistentemente. Mas, pode-se considerar uma diretriz pouco eficiente, a visitação de médicos e enfermeiros por exemplo, sem que o mesmo nem mesmo saiba o que vai fazer em determinado domicílio. Um outro aspecto, da visita domiciliar compulsória, diz respeito ao fato de que isto, pode significar uma excessiva intromissão do estado na vida das pessoas, limitando sobremaneira seu grau de privacidade e liberdade. O controle que o estado pode exercer sobre cada cidadão, é reconhecido como problema e fica mais evidente, ao se pensar este tipo de diretriz sendo praticado em um país sob governo autoritário, o quanto não há um cunho trágico nisso. Uma questão muito sentida, principalmente a partir de relatos de pequenos municípios, diz respeito aos custos/financiamento do programa. O PSF trabalha com a idéia de que altos salários garantem bons atendimentos, viabilizando o trabalho diferenciado do médico e permitindo a sua "interiorização". Sem desconsiderar a importância de remuneração satisfatória dos profissionais de saúde, é um equívoco pensar que isto por si só, como muitas vezes esta diretriz tem sido assimilada, garante um atendimento acolhedor, com compromisso dos profissionais na resolução dos problemas de saúde dos usuários. O modo de assistir as pessoas, está mais ligado a uma determinada concepção de trabalho em saúde, a construção de uma nova subjetividade em cada profissional e usuário. Vinculase inclusive a determinação de uma relação nova, que foge ao padrão tradicional onde um é sujeito no processo e o outro o objeto sobre o qual há uma intervenção para a melhora da sua saúde. A nova relação tem que se dá entre sujeitos, onde tanto o profissional quanto o usuário podem ser produtores de saúde. O PSF mitifica o generalista, como se este profissional, ou melhor, esta "especialidade" médica conseguisse por si só implementar novas práticas de saúde junto à população. De acordo com dados da pesquisa "Perfil dos Médicos do Brasil", realizada pela Fiocruz/FCM em 1995, de 183.052 médicos registrados nos Conselhos de Medicina, 2,6% são especializados em Medicina Geral e Comunitária, enquanto em pediatria - 13,4%; gineco-obstetrícia - 11,8% e em medicina interna - 8,0%. Seria mais adequado um modelo de assistência que absorvesse com mais naturalidade estes profissionais, inserindo-os em novas práticas, dando-lhes oportunidades de adquirir novos conhecimentos e operar novos fazeres. Isto seria a construção de sujeitos plenos, capazes de liberar sua energia criativa no trabalho vivo que cada um é capaz de operar em outra modelagem assistencial. De acordo com Campos et all, a especialidade médica se circunscreve ao "núcleo de competência, que incluiria as atribuições exclusivas daquela especialidade", contudo o médico detém ainda uma certa tecnologia de trabalho, que lhe dá maior amplitude de ação, o qual o autor denomina de "campo de competência, que incluiria os principais saberes da especialidade-raiz e que, portanto, teria um espaço de sobreposição de exercício profissional com outras especialidades, ... seria um campo de interseção com outras áreas". (Campos; Chakkour; Carvalho; 1997:143). Merhy descreve que a produção do cuidado em saúde requer tanto o acesso às tecnologias necessárias (duras, leveduras e leves), comandadas pelas tecnologias leves, como por outro lado, pressupõe o uso dos diversos conhecimentos que cada profissional de saúde detêm, articulando de forma exata "seus núcleos de competência específicos, com a dimensão de cuidador que qualquer profissional de saúde detém". (Merhy; 1998:113) Os diversos saberes se articulam, em um emaranhado de saberes que em "relações intercessoras com os usuários" produzem o cuidado. No fundamental, esta discussão nos indica que a polêmica entre generalistas X especialistas se torna uma falsa polêmica, ao verificarmos que se o generalista se isolar no seu campo de conhecimento próprio, ele pode ao longo do tempo se transformar em um "especialista da generalidade" e assim, derrotar a sua pretensa resolutividade. A verdadeira discussão diz respeito ao fato dos profissionais de saúde, não apenas os médicos, nem apenas os que trabalham inseridos diretamente na assistência, mas todos os que labutam na produção de serviços de saúde, reaprenderem o trabalho a partir de dinâmicas relacionais, somando entre si os diversos conhecimentos. Este é um território pôr onde transita não apenas o mundo cognitivo, mas a solidariedade profissional está presente na boa prática de interagir saberes e fazeres e pode se mostrar eficaz na constituição de modelos assistenciais centrados no usuário. Isto pode ser real, se pensarmos que "todo profissional de saúde, independentemente do papel que desempenha como produtor de atos de saúde, é sempre um operador do cuidado, isto é, sempre atua clinicamente, e como tal deveria ser capacitado, pelo menos, para atuar no terreno específico das tecnologias leves, modos de produzir acolhimento, Responsabilizações e vínculos". (Merhy; 1998:117). Merhy propõe a elaboração pelas equipes de referência dos usuários, de "projetos terapêuticos" individuais a serem operados pôr um profissional implicado no cuidado àquele usuário, que então ficaria com a função de "gestor do cuidado". Este profissional assume as funções de "um administrador das relações com os vários núcleos de saberes profissionais que atuam nesta intervenção, ocupando um papel de mediador na gestão dos processos multiprofissionais e disciplinares que permitem agir em Saúde, diante do caso concreto apresentado, o que nos obriga a pensá-lo como um agente institucional que tenha de ter poder burocrático-administrativo na organização." (Merhy; 1998:117). Quanto à gestão do PSF, o primeiro problema apresentado na sua organização diz respeito ao alto grau de normatividade na sua implementação. O formato da equipe, as funções de cada profissional, a estrutura, o cadastro das famílias, o levantamento dos problemas de saúde existentes no território e os diversos modos de fazer o programa, são regulamentados centralmente pelo Ministério da Saúde. Estas normas, deverão ser seguidas rigorosamente pelos municípios, sob pena daqueles que não se enquadrarem nas orientações ministeriais, ficando fora do sistema de financiamento das equipes de PSF. Agindo assim, o Ministério da Saúde não só aborta a construção de modelos alternativas, mesmo que similares a proposta do PSF, como engessa o próprio Programa de Saúde da Família diante de realidades distintas vividas em diferentes comunidades em todo território nacional. O tradicional centralismo das políticas de saúde, que marcam a área governamental desde a primeira república, se evidencia neste ato. Em relação a escolha da família, como espaço estratégico de atuação, também é necessário alguns comentários. É positivo apontar o foco de atenção de uma equipe de saúde, para um "indivíduo em relação", em oposição ao "indivíduo biológico". Com certeza, onde houver famílias na forma tradicional, a compreensão da dinâmica deste núcleo, através da presença da equipe no domicílio, é potencialmente enriquecedora do trabalho em saúde. No entanto nem sempre, este núcleo está presente. Nem sempre este é o espaço de relação predominante, ou mesmo o lugar de síntese das determinações do modo de andar a vida das pessoas em foco. O PSF, o processo de trabalho em saúde e o mito da Esfinge "decifra-me ou te devoro" Se de um lado, o PSF traz na sua concepção teórica a tradição herdada da Vigilância à Saúde, por outro, reconhece que a mudança do modelo assistencial dá-se a partir da reorganização do processo de trabalho. Partindo de uma crítica ao atual modelo, que tem nas ações e saberes médicos a centralidade dos modos de fazer a assistência, propõe um novo modo de operar o trabalho em saúde. A alternativa pensada estrutura o trabalho assistencial a partir de equipes multiprofissionais. Aqui, entende-se que ocorre com o PSF algo parecido como o enigma da Esfinge. Conta a mitologia grega que a Esfinge tenha sido enviada por uma divindade para vingar, entre os tebanos, um crime impune do rei Laio. A Esfinge fixou-se nos arredores de Tebas, detendo e devorando os que passavam, quando não conseguiam decifrar seus enigmas. Édipo foi o primeiro a resolver o que lhe foi proposto: "Qual é o animal que anda com quatro pés pela manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?" Édipo respondeu: "O homem, que engatinha na infância, caminha ereto na idade adulta e se apoia em um bastão na velhice". Após a resposta, a Esfinge matou-se, libertando a população da punição que lhe foi imposta. No PSF acontece o mesmo, ou seja, o programa enxerga onde está o problema do atual modelo assistencial: no processo de trabalho. Contudo não decifra-o e como no caso da esfinge, é engolido pela feroz dinâmica do trabalho medicocentrado, e por não saber inclusive por limitação ideológica de seus operadores, acaba operando centralmente na produção de procedimentos e não na produção do cuidado e da cura. Por quê isso, se todo esforço e discurso é feito para mudar esta lógica de produção? Interpretar a essência dos processos de trabalho em saúde é a condição para decifrar seus enigmas e impedir a ação destruidora da "esfinge", que diz respeito à dinâmica do capital posta no caso da saúde. Para ferir de morte esta dinâmica, é preciso uma ação que reorganize o trabalho do médico e dos outros profissionais, atuando nos seus processos decisórios que ocorrem no ato mesmo da produção de saúde. Estes novos fazeres, práticas, se materializam em "tecnologias de trabalho", usadas para produzir saúde. Tecnologias, aqui, entendida como o conjunto de conhecimentos e agires aplicados à produção de algo. Este conhecimento pode estar materializado em máquinas e instrumentos, ou em recursos teóricos e técnicas estruturadas, como tecnologias duras e leveduras, respectivamente, lugares próprios do "trabalho morto". Por outro lado, este conhecimento pode estar disperso nas experiências e modos singulares de cada profissional de saúde operar seu trabalho vivo em ato, como na produção de relações, tão fundamentais para o trabalho em saúde, que é essencialmente um trabalho interseçor (Merhy, 1997). Esta função criativa e criadora que pode caracterizar os serviços de saúde, a partir das relações singulares, é operada por "tecnologias leves", território onde se inscreve o "trabalho vivo em ato". Buscar na arena da produção de serviços de saúde, os lugares onde se matriciam o conhecimento e a forma de potencializá-los para a assistência à saúde é fundamental. Isto só será possível, se for permitido, por conquista ou por política institucional, que cada trabalhador utilize o máximo da sua potência para resolver efetivamente os problemas de saúde dos usuários. O "trabalho vivo em ato" é aquele que ocorre no momento mesmo em que ele se realiza, no imediato fazer a produção do serviço. As tecnologias de trabalho, têm sua relevância na configuração do modelo de assistência, porque perfilam o modo pelo qual se produz serviços de saúde, definindo por conseqüência, a capacidade de absorção da demanda, a capacidade de efetivamente resolver problemas de saúde, os custos dos serviços, e o que é fundamental, a própria relação entre sujeitos deste processo. Nessa questão, é preciso considerar que o trabalho médico procedimento centrado, é ao mesmo tempo determinado pelo uso de tecnologias duras, o que o torna não apenas custoso, mas pouco resolutivo, na medida que impõe o caráter frio do produto no lugar da finalidade, como o centro da atenção. Resolver problemas de saúde resumiu-se em realizá-los, como um fim em si mesmo. Portanto, importantes obstáculos se interpõem à frente de quem quer alterar o modelo assistencial, indicando porque é necessário alterar muito mais do que estruturas, deve-se modificar as referências epistemológicas, será necessário destruir o núcleo duro de comportamentos estereotipados, estruturados. CONCLUSÃO Há uma caráter prescritivo, bastante exacerbado, neste programa. São definidas a priori os locais de atendimento: unidade básica para pacientes vulneráveis, visitas domiciliares para outros atendimentos e grupos na comunidade. Da mesma forma existe uma lista das atividades que devem ser realizadas pela equipe. Pode-se dizer, portanto, que no PSF existe uma confusão entre o que é ferramenta para diagnóstico e intervenção, e o que é resultado em saúde. Os resultados desejados são anunciados (85% dos problemas de saúde resolvidos, vínculo dos profissionais com a comunidade, etc...) e infere-se que seguindo a prescrição altamente detalhada obter-se-á o resultado anunciado. Não é muito diferente do modelo atual que infere que consultas e exames são equivalentes a soluções para os problemas de saúde. Diante disso, na vida real dos serviços que aderem ao PSF, cabem três tipos de ações dos profissionais da equipe: ignorar as prescrições, e manter a lógica atual (as diversas planilhas podem ser preenchidas de forma "criativa"); aceitar as prescrições, recapitulando os objetivos, mas mantendo o compromisso principal do serviço de saúde, não com os usuários, mas sim com novos procedimentos; e finalmente a equipe pode ignorar parcialmente as prescrições e dedicar-se criativamente a intervir na vida da comunidade em direção a melhoria de suas condições de vida. Esta possibilidade é mais remota, porque significa trabalhar com a consciência de que nenhuma ferramenta (apesar das promessas do PSF), pode dar conta de tudo, embora todas sejam necessárias. Reconhecer a insuficiência das prescrições e das receitas, não é tarefa simples. Um processo de trabalho, prescritivo a nível central, não contribui para este movimento dentro da equipe. A solidariedade interna da equipe, a sinergia das diversas competências, prérequisitos para o desafio desta equipe, fica desestimulada pelo detalhamento das funções de cada profissional. Trabalhar com este limite e com a necessidade de inventar abordagens a cada caso, exige um ‘luto’ da onipotência de cada profissional, para que seja possível o trabalho em equipe, e some-se as competências e a criatividade de cada membro da equipe. O PSF, com seu caráter prescritivo, não contribui para a superação deste problema, e pode propiciar aos profissionais assumirem a atitude que predominantemente assumem hoje: isolar-se em seus núcleos de competência. Aqui entra uma questão central, o fato de que enquanto os trabalhadores não construírem uma interação entre si, trocando conhecimentos e articulando um "campo de produção do cuidado" que é comum à maioria dos trabalhadores, não pode dizer que há trabalho em equipe. O aprisionamento de cada um em seu "núcleo específico" de saberes e práticas, aprisiona o processo de trabalho as estruturas rígidas do conhecimento técnicoestruturado, tornando-o trabalho morto dependente. Ao contrário, o "campo de competência" ou "campo do cuidado", além da interação, abre a possibilidade de cada um usar todo seu potencial criativo e criador na relação com o usuário, para juntos realizarem a produção do cuidado. Para remodelar a assistência à saúde, o PSF deve modificar os processos de trabalho, fazendo-os operar de forma "tecnologias leves dependentes", mesmo que para a produção do cuidado sejam necessários o uso das outras tecnologias. Portanto, pode-se concluir que a implantação do PSF por si só não significa que o modelo assistencial esteja sendo modificado. Podem haver PSF’s médico centrados assim como outros usuário centrados, isso vai depender de conseguir reciclar a forma de produzir o cuidado em saúde, as quais foram discutidas neste trabalho e dizem respeito aos diversos modos de agir dos profissionais em relação entre si e com os usuários. A adesão ou a rejeição ao Programa de Saúde da Família, deve considerar que da forma como o PSF está estruturado pelo Ministério da Saúde, não lhe dá a possibilidade de se tornar de fato um dispositivo para a mudança, como é o objetivo do PSF, de acordo com o MS. Toda a discussão realizada aqui, indica que o Programa precisa se reciclar para incorporar potência transformadora ou melhor, assumindo uma configuração diferente. Referências Bibliográficas: "Programas e Projetos - Saúde da Família"; Ministério da Saúde, 1998; p. 1. (documento disponível na Internet, no site do MS). "Saúde da Família: Uma Estratégia de Organização dos Serviços de Saúde"; Ministério da Saúde, mimeo, Brasília; março de 1996; p. 2. Campos, G.W.; Chakour, M.; Santos, R.C. "Análise crítica sobre especialidades médicas e estratégias para integrá-las ao Sistema Único de Saúde (SUS) in Cadernos de Saúde Pública, ENSP; Rio de Janeiro, 1997. Campos, G.W.S.; A Saúde Pública e a Defesa da Vida; HUCITEC, S. Paulo, 1994. Campos, G.W.S.; Reforma da Reforma, repensando a saúde; HUCITEC, S. Paulo, 1992. Cecílio, L.C.O (org) et al. "Inventando a Mudança na Saúde"; HUCITEC, S. Paulo, 1994. Chakkour et al. Satisfação da clientela da rede de serviços do município de Paulínia, mimeo, 1992. Dominguez, B.N.R., "Programa de Saúde da Família - como fazer", Ed. Parma Ltda, S. Paulo, 1998. Silva Jr., A.G., Modelos Tecnoassistenciais em Saúde - o debate no campo da saúde coletiva, Ed. Hucitec, 1998. Fleury, S.; "A Questão Democrática na Saúde" in Saúde e Democracia - a luta do CEBES; Lemos, São Paulo, 1997. Franco, T.B.; Bueno, W.S.; Merhy, E.E. O Acolhimento e os Processos de Trabalho em Saúde: O Caso de Betim (MG); São Paulo, 1998. (aprovado para publicação no Cadernos de Saúde Pública da ENSP). Mandel E.; O Capitalismo Tardio; Nova Cultural, São Paulo, 1985. Mendes, E.V. (org.) et al. "Distrito Sanitário - o processo social de mudança das práticas sanitárias do Sistema Único de Saúde", Ed. Hucitec, São Paulo, 1994. Merhy, E.E. & Onocko, R. (Orgs.) Agir em Saúde, um desafio para o público; HUCITEC, São Paulo, 1997. Merhy, E.E. 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Embora o PSF tenha proporcionado um trabalho junto a micro-áreas e domicílios, no que diz respeito à vigilância à saúde, persistiam em nível do atendimento na Unidade de Saúde, as filas noturnas e longas esperas para o atendimento. Este é um problema que aflige a grande parte dos gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), e é objeto de insatisfação dos usuários. Pergunta-se então, porque haveria tamanha demanda reprimida, isto é, qual a causa da restrição do acesso, sendo que já havia sido realizado um grande investimento na rede assistencial com a implantação de Equipes de Saúde da Família (ESF)? A partir deste problema colocado, observou-se que em grande parte da rede, o processo e trabalho estava centrado na pessoa e no saber médico, reproduzindo a organização tradicional da assistência, com opressão da capacidade que outros profissionais apresentam na resolução dos problemas de saúde. Com o fluxo assistencial direcionado apenas para a consulta médica, a capacidade de atendimento e por conseqüência o acesso das pessoas estaria sempre restrita. Verificou-se ainda que a Unidade de saúde só se legitimaria junto à população, se fosse capaz de atende-la no momento em que ela mais necessitasse, isto é, quando estivesse instalado um processo mórbido qualquer, momento em que a doença demanda um cuidado imediato. Percebeu-se que o modo como estava organizado o processo de trabalho, reduzia em muito a capacidade de respostas da equipe de saúde, sub utilizava a capacidade de trabalho dos profissionais de saúde, sobrecarregando o médico com problemas, os quais, outros poderiam resolver. Diante disto, optou-se por reorganizar o processo de trabalho, procurando trabalhar com a idéia de inclusão social, humanização do atendimento, acolhendo todas as pessoas e dando uma resposta positiva ao seu problema de saúde. Assim nasceu a idéia do “Acolher Chapecó” que se organiza com base nas diretrizes do modelo assistencial, já provadas na sua eficácia, que são; Acolhimento, Vínculo, Resolutividade, Autonomização e Vigilância à Saúde. (Campos, 1994; Merhy, 1994, 1997; Franco et al, 1999, 2003; Silva Jr., 1998). Através do “Acolher Chapecó”, pretende-se organizar a assistência na Unidade de Saúde e no PSF, de forma a absorver todos que procuram a Unidade, acolhendo-os através de um fluxo voltado à equipe multiprofissional e ao mesmo tempo, fortalecer o vínculo com a equipe, procurando trabalhar projetos terapêuticos cuidadores, que busquem acompanhar o usuário no seu processo terapêutico. O Acolhimento no Programa Saúde da Família – PSF O Programa Saúde da Família tem se estruturado centralmente com base no saber da vigilância à saúde, instrumentalizado pela epidemiologia. Esta é uma grande vantagem que o PSF realiza, o trabalho no território e domicílio. Junto a este, o PSF trouxe para a discussão do modelo assistencial, a idéia de vínculo dos usuários à equipe. A clínica como parte do conhecimento aplicado à assistência, se coloca marginal ao objetivo reformador ao qual o PSF se propõe e neste sentido, na maioria dos casos, esta permanece operando na forma do modelo tradicional, com base na queixa-conduta e no ato prescritivo, sem uma real interação entre os sujeitos trabalhador e usuário. Permanece ainda, na organização da oferta dos serviços, o problema do atendimento à demanda espontânea, que é fundamental para qualificar a acessibilidade da população, especialmente a que tem uma necessidade imediata instalada. A estratégia de reorganização do PSF envolveu principalmente duas diretrizes operacionais. A primeira, do Acolhimento. Sua implantação envolveu um grande debate junto aos trabalhadores das Unidades de Saúde da Família, procurando identificar através da discussão do processo de trabalho, o quanto este ainda era burocrático, impessoal, e ao mesmo tempo, verificou-se as possibilidades de aproveitamento das potencialidades existentes em todos trabalhadores, para assistir aos usuários e trabalhar com a idéia de estar produzindo o cuidado nas suas práticas cotidianas. As medidas adotadas de reorganização do processo de trabalho, mudaram em primeiro lugar o fluxo do usuário. Este era encaminhado anteriormente, da recepção da Unidade para o médico. Com o Acolhimento, o usuário é encaminhado para um dos profissionais da equipe que deverá fazer uma escuta qualificada do seu problema de saúde, podendo ali mesmo resolver ou encaminhar para outro profissional. Esta alteração do fluxo e do processo de trabalho muda um pouco o papel da recepção, no sentido que esta deixa de ser um lugar de “poder”, ou seja, capaz de decidir sobre o acesso ou não do usuário, e passa a operar um trabalho de orientação ao fluxo dos usuários. O lugar de decisão passa a ser o Acolhimento, após a escuta do usuário e feita por pessoas ligadas à função assistencial. Isto significa que todos os usuários têm garantido o acesso e a Unidade passa a não trabalhar mais na lógica da “ficha” ou “senha” para obter atendimento. Para garantir a assistência ao usuário, que busca a Unidade ou a Equipe de Saúde da Família (ESF), em “demanda espontânea”, a agenda médica foi aberta para ofertar esta retaguarda ao Acolhimento, ficando previamente agendados apenas os retornos de consultas anteriores. Com este reordenamento no processo de trabalho, foram observados os seguintes resultados nas Unidades de Saúde e ESF observadas: Os profissionais se viram mais envolvidos na assistência clínica aos usuários e perceberam que neste processo, há também uma valorização do seu trabalho e da sua função no serviço de saúde, sendo isto motivo de maior satisfação por parte dos trabalhadores. A escuta realizada no Acolhimento, aguçou a percepção dos problemas da área de abrangência da Unidade de Saúde da Família, envolvendo aí aqueles de origem sanitária e social. Em relação à acessibilidade dos usuários, estes tiveram o acesso ao serviço facilitado e atendimentos mais ágeis. Com todos os profissionais envolvidos no Acolhimento, isto é, na assistência direta ao usuário, há um aumento da oferta de serviços e por conseqüência, eliminou-se a fila noturna para atendimento. Dados demonstram que a equipe de Acolhimento tem resolvido em média 30% dos problemas de saúde, com recursos utilizados pela própria equipe, ou seja, sem nenhum tipo de encaminhamento. Enfim, este processo possibilitou maior aproveitamento da capacidade instalada. Outras evidências de reorganização do processo de trabalho puderam ser verificadas, principalmente através da enfermagem, que está mais presente no processo decisório clínico e na assistência ao usuário. Para obter estes resultados, foi importante um relacionamento da equipe durante o trabalho, baseado na interação, com trocas permanentes de saberes e fazeres. Isto é fundamental, pois os trabalhadores conformam uma dada “rede de petição e compromissos” durante o processo de trabalho, isto é, há uma interdependência entre cada um no exercício da sua função assistencial o que requer um ótimo relacionamento, com trocas de conversas durante o trabalho, o que leva ao aumento da resolutividade (Franco & Merhy, 2003). Observou-se maior sensibilidade dos profissionais para o cuidado aos usuários. Todo este processo aumentou a sensibilidade da equipe na percepção da sua clientela, tendo inclusive induzido à reavaliação do critério de risco para os usuários, procurando trabalhar uma idéia de múltipla determinação do mesmo, o que envolve por conseqüência, projetos terapêuticos que contemplem a multiplicidade de fatores determinantes do processo saúde-doença. A segunda diretriz de reorganização do processo de trabalho foi o Vínculo. A idéia de vinculação de clientela à Equipe de Saúde da Família (ESF) já está bem enraizada entre todos os trabalhadores e usuários, por ser a principal diretriz do PSF. No entanto, o vínculo pressupõe a responsabilização da equipe, o que significa a garantia de acompanhamento dos projetos terapêuticos, o cuidado para que os usuários fortaleçam seu vínculo com a ESF. Na grande parte dos serviços de saúde, os projetos terapêuticos se resumem a consultas, exames e retornos, com medicamentalização excessiva dos usuários. Nestes casos, demonstra um processo de trabalho centrado no saber médico, e o cuidado ao usuário é realizado com base no ato prescritivo. Isto caracteriza um modelo assistencial centrado na produção de procedimentos e não na produção do cuidado. No entanto, se houver uma inversão das tecnologias de cuidado, buscando inserir nos projetos terapêuticos ações que transferem conhecimento ao usuário, elevem sua auto-estima, consigam incorporar toda sua vivência no processo terapêutico, fazendo-o também sujeito do seu estado de saúde, haverá a possibilidade de trabalhar a saúde com base em tecnologias leves, um processo mais relacional do que instrumental. Em muitos casos, isto significa elaborar projetos terapêuticos mais completos e cuidadores, centrado nas necessidades dos usuários e tendo-o como protagonista do seu processo de saúde. O objetivo com este processo é de que o usuário vá ganhando maiores graus de autonomia para viver a vida (Campos, 1997). No momento, o “Acolher Chapecó” inicia um grande passo na sua continuidade, o de trabalhar a integralidade da atenção à saúde. Pretende-se estruturar as “linhas de cuidado” (Merhy & Cecílio, 2003; Franco & Magalhães, 2003) que se referem à construção de fluxos seguros e facilitados de acesso e percurso dos usuários ao todos os serviços da rede de atenção à saúde. A construção das linhas de cuidado são estruturadas a partir dos projetos terapêuticos definidos de forma singular a cada usuário, tendo como estruturantes dos mesmos as suas necessidades. A gestão da linha do cuidado deverá se realizar pela Equipe de Saúde da Família ou Unidade de Saúde à qual o usuário está vinculado. Esta fará o seu acompanhamento, naquilo que foi estabelecido pelo projeto terapêutico, definindo assim um certo fluxo de acesso aos outros níveis de atenção à saúde. Da mesma forma, a equipe à qual o usuário formou seu vínculo, deverá monitorar a assistência que este está tendo e principalmente, acompanhar o retorno do mesmo, para que ela possa dar seqüência ao seu cuidado, pois o vínculo permanece sempre na equipe básica. Referências Bibliograficas CAMPOS, G.W.W.; Reforma da Reforma, repensando a saúde; HUCITEC, S. Paulo, 1992. CECÍLIO, L.C.O.; As Necessidades de Saúde como Conceito Estruturante na Luta pela Integralidade e Equidade na Atenção em Saúde; Rio de Janeiro; UERJ, IMS: ABRASCO; 2001. CECÍLIO, L.C.Ol (org) et all; “Inventando a Mudança na Saúde”; HUCITEC, S. Paulo, 1994. FRANCO, T. B. & Merhy, E. E. ; O USO DE FERRAMENTAS ANALISADORAS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE: O Caso do Serviço Social do Hospital das Clínicas da UNICAMP, in MERHY et al; O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano; HUCITEC, São Paulo, 2003. FRANCO, T.B. E MAGALHÃES, JR.; Atenção Secundária e a Organização das Linhas de Cuidado in Merhy et al “O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano”; São Paulo, HUCITEC, 2003. FRANCO, T.B.; Bueno, W.S.; Merhy, E.E. O Acolhimento e os Processos de Trabalho em Saúde: O Caso de Betim (MG); Cadernos de Saúde Pública/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2000. MERHY, E. E.; Saúde: A Cartografia do Trabalho Vivo; São Paulo, Hucitec, 2002. MERHY, E.E. & ONOCKO, R. (Orgs.) Agir em Saúde, um desafio para o público; HUCITEC, São Paulo, 1997. MINISTÉRIO DA SAÚDE; Programa de Saúde da Família - PSF; Brasília (DF) 1998. SILVA JR. A.G.; Modelos Tecnoassistenciais em Saúde - o debate no campo da saúde coletiva; Hucitec, São Paulo, 1998. EQUIPE ORGANIZADORA Mônica Morrissy Martins Almeida Renato Glória de Castro Regina Brezensky Andréa Cristina de Farias Mello Amanda Almeida Mudjalieb Rosangela Martins Gomes Cristiane Feitosa Itaboraí, maio de 2007