A QUESTÃO DA QUALIDADE NO SISTEMA AGROINDUSTRIAL DO OVO [email protected] Apresentação Oral-Estrutura, Evolução e Dinâmica dos Sistemas Agroalimentares e Cadeias Agroindustriais DANIELLA CAROLINA ZANARDO DONATO; ÉRIKA ROSENDO DE SENA GANDRA; PAULA DUARTE SILVA RANGEL GARCIA; CAROLINA BARBOSA MALEK DOS REIS; AUGUSTO HAUBER GAMEIRO. FMVZ/USP, PIRASSUNUNGA - SP - BRASIL. A questão da qualidade no sistema agroindustrial do ovo Grupo de Pesquisa: 4 - Estrutura, Evolução e Dinâmica dos Sistemas Agroalimentares e Cadeias Agroindustriais Resumo O ovo é considerado o alimento natural, de baixo custo e alto valor nutritivo, além de conter substâncias promotoras de saúde e preventivas de doenças. Alguns riscos relacionados a ovos são conhecidos, e para controlá-los existe a certificação do SIF, ou, no caso de ovos orgânicos, de empresas certificadoras. Outro aspecto importante é o peso dos ovos, característica desconhecida por maior parte dos consumidores e que em um futuro próximo será uma exigência básica. O sistema agroindustrial do ovo enfrenta desafios no mercado nacional e internacional, sendo os principais pontos fracos a relação informal entre os produtores e compradores, a lenta modernização e o baixo crescimento. Ainda assim, o Brasil é o sétimo maior produtor de ovos do mundo, apesar de seu consumo ainda ser muito pequeno, quando comparado a outros países. Na tentativa de expandir o comércio, existem hoje no mercado ovos enriquecidos com vitaminas ou ácidos graxos específicos ou ainda com menor conteúdo de colesterol. Outra possível solução para a expansão do setor seria a exportação. Porém, para que isso ocorra, o Brasil terá que se adequar às normas, dentre elas as de bem estar animal, exigidas especialmente pelos países da Comunidade Européia. Palavras-chaves: ovo, qualidade, bem-estar animal Abstract Egg is considered a natural food, with low cost and high nutritional value; besides containing health promoter and disease prevent substances. Some risks related to egg are known and to control them there are the federal inspection (to conventional producing systems) and private certification institutions (to organic eggs). Another important aspect is eggs weight, an unknown characteristic for the majority of consumers, and that in the near future will be a trivial requirement. The egg agro-industrial system faces challenges in domestic and international market. The main problems are the informal relation among producers and traders, the slow modernization process and the low sector’s growth rate. 1 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Even though, Brazil is the 7th larger egg producer in the world, despite its low consumption level in comparison to other countries. There are efforts to expand this market. Nowadays different products are being offered, as the vitamin or specific fatty acids enriched eggs or those with low cholesterol levels. Other possible solution to the sector’s expansion is the international market. However to this happen, Brazil needs to adequate to international quality rules, among them the animal welfare ones, required mainly by European Community countries. Key Words: egg, quality, animal welfare 1. INTRODUÇÃO Os ovos são produtos de fácil acesso para população, devido seu baixo custo, sendo um ingrediente de alta importância na culinária brasileira e muito útil na indústria de transformação (Lot et al., 2005). Segundo Pascoal et al. (2008) os ovos são importantes constituintes da alimentação, podendo contribuir para melhorar a dieta de pessoas de baixa renda. O Brasil é o sétimo maior produtor de ovos do mundo, atrás dentre outros, da China, Estados Unidos, México, Japão, conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. A produção de ovos no País designa quase que exclusivamente ao mercado interno (Martins, 2003). O consumo de ovos, atualmente, gira em torno de 140 unidades per capita por ano no Brasil, quantidade baixa quando comparada com outros países, como, por exemplo, o México, com um consumo de 374 ovos per capita ao ano (Avisite, 2008). No ano de 2007, conforme a União Brasileira de Avicultura (UBA), a produção de ovos chegou a aproximadamente 24 bilhões de unidades (correspondendo a aproximadamente 67 milhões de caixas com 30 dúzias) (UBA, 2008). A cadeia produtiva de ovos no Brasil se caracteriza pela produção de ovos para consumo tanto “in natura”, quanto industrializados. A produção é feita predominantemente no sistema de criação em gaiolas, com granjas de cria e recria separadas das granjas de produção. A maioria é composta por produtores independentes de pequeno e médio porte, que preparam a própria ração na propriedade e trabalham com galpões abertos, tradicionais. Existe, por outro lado, grandes produtores que estão partindo para a adequação climática e automação das instalações. Maior parte da produção é comercializada no mercado interno, tendo o setor se adequado nos últimos anos para incrementar as exportações. Entretanto, para atender as exigências do consumidor nacional e do mercado internacional existe a necessidade da contínua implementação de programas que garantam elevado padrão de qualidade dos ovos de mesa e dos produtos a base de ovo. Nesse sentido, a aplicação de boas práticas de produção e, em especial, as que visam à preservação do meio ambiente, bem como o bemestar animal e dos trabalhadores, devem ser consideradas para o progresso da atividade avícola e para a inserção definitiva do setor no mercado mundial (UBA, 2008). 2 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Os sistemas de produção agropecuária “integrada” tiveram o seu início de implantação no Brasil na década dos anos 60, em Santa Catarina, no segmento da avicultura. Posteriormente, foi se estendendo para a suinocultura, assim como para os demais estados do Sul. A idéia central deste sistema de produção é o da complementação da produção rural com a atividade industrial, no fornecimento de matéria-prima para a mesma. Durante muitos anos, o sistema integrado funcionou através de acordos informais entre produtor e indústria. Na medida em que os processos foram ficando maiores e mais complexos, foram sendo desenvolvidos mecanismos mais formais, inclusive contratos entre a empresa integradora e o integrado. Diversas indústrias privadas e cooperativas adotaram este sistema, que na atualidade envolve milhares de produtores rurais (UBA, 2008). O objetivo do presente trabalho foi analisar o sistema agroindustrial (SAG) do ovo de forma a compreender sua organização com vistas à garantia e sinalização de qualidade aos consumidores, especialmente diante da possibilidade (ou mesmo da necessidade) de se atingir novos mercados internacionais. 2. O SISTEMA AGROINDUSTRIAL DO OVO O sistema agroindustrial (SAG), ou simplesmente “agronegócio” é compreendido por uma cadeia de operações que envolvem desde a fabricação de insumos, a produção nas fazendas, a transformação (industrialização), distribuição e comercialização, chegando ao consumidor final. Para o Brasil, o agronegócio constitui uma das principais fontes de divisas. Este sucesso se vincula ao grau de articulações de seus diferentes elos, e aos mecanismos de coordenação em responderem às imposições do mercado. As interações dos setores agroindustriais formam a cadeia produtiva por estarem relacionadas ao comércio, ao setor financeiro, à infra-estrutura, à tecnologia, à relação de trabalho e ao aparato institucional público e privado. O sistema agroindustrial apresenta inter-relação de independência e interdependência (Furlaneto e Candido, 2006). O sistema agroindustrial dos ovos, apresentado sucintamente na Figura 1, foi considerado por Mizumoto (2004) e Zylbersztajn e Mizumoto (2008), como sendo de baixo desempenho no mercado nacional e internacional. No Brasil, o sistema agroindustrial de ovos movimenta R$ 1,1 bilhão por ano, sendo 23% destinado a rações, 12% aos salários e 25% à distribuição (Zylbersztajn e Mizumoto, 2008). Os pontos fracos deste sistema são a relação informal entre os produtores e compradores (Zylbersztajn e Mizumoto, 2008), a sua lenta modernização, seu baixo crescimento, reduzido nível de investimento em pesquisas e a falta do conhecimento das propriedades nutricionais do ovo pelos consumidores (APA, 2008). 3 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Supermercados Feiras, Sacolões Empórios, Padarias Varejista Insumos Ração Vacinas Medicamentos Equipamentos Instalações Produtores ovos Processadores de ovos Produtores aves Avozeiros Matrizeiros Incubatórios Recriadores Atacadista Ovos “in natura” Consumidor final Indústria de ovos Consumidor industrial Industrializados Massas alimentícias FIGURA 1. Sistema Agroindustrial de ovos. Fonte: Mizzumoto, 2004. Já conforme Martins (2003), o que falta para a avicultura brasileira é um espaço no mercado externo, que representa a grande possibilidade de crescimento da avicultura nacional. Para manter aceitação no mercado externo os produtores terão de investir em novas tecnologias e se adequar às normas de sanidade e segurança alimentar. Mas o Brasil também apresenta vantagens. O reduzido custo de produção é uma delas. Em termos sanitários, apresenta um status positivo na área de sanidade animal e segurança alimentar relacionado ao setor. Outras vantagens competitivas do setor de ovos no Brasil são: sistema de produção verticalmente integrado, institutos de pesquisa de nível internacional, empresas e marcas de prestígio e produção abundante de grãos (Avisite, 2008). 3. QUALIDADE DO OVO O ovo é considerado o alimento natural, equilibrado e de baixo custo, contendo alto teor de proteína de excelente qualidade, gorduras, vitaminas e minerais. Além de ser uma importante reserva de nutrientes, também contém substâncias promotoras de saúde e preventivas de doença, o que torna um alimento funcional (Oliveira, 1999). A casca do ovo é uma estrutura única na natureza, servindo como barreira primária às injúrias físicas e invasão de microorganismos. Os demais componentes presentes no ovo, 4 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural como gema e clara (albúmen), são considerados uma segunda frente de proteção, devido às muitas substâncias ativas com propriedades nutritivas e atividades biológicas protetoras e promotoras da saúde. Muitas atividades biológicas têm sido associadas aos componentes dos ovos, incluindo sua atividade antibacteriana, antiviral e modulação do sistema imunológico, evidenciando o elo dieta-saúde, ressaltando assim, a importância do consumo de ovos na prevenção e tratamento de doenças (Mazzuco, 2008). Contudo, a maior valorização das vantagens nutritivas e funcionais do ovo pelos consumidores depende da qualidade destes produtos que são oferecidos ao mercado, sendo aspecto de influência na aceitação, nos hábitos e decisões do consumidor final (Oliveira, 1999). O baixo consumo de ovos é justificado, em grande parte, pela falta de conhecimento da população em relação às propriedades nutricionais do produto, por considerar o ovo um substituto da carne e, também, julgá-lo como prejudicial à saúde (por possuírem teor de colesterol considerável) (Lot et al., 2005). Além disso, o ovo muitas vezes é associado à contaminação microbiana nociva aos seres humanos, como pela salmonela, por exemplo. Substâncias que podem acarretar perigo para a saúde humana nem sempre podem ser visualizadas externamente em um alimento (Spers, 2000). No amplamente reconhecido conceito Hazard Analysis Critical Control Point (HACCP) o termo “risco” refere-se a “um agente biológico, químico ou físico em alimentos com um potencial, ou condições, de causar um efeito de saúde adverso” (Valeeva et al., 2004). Como exemplos dos riscos relacionados aos ovos têm-se microorganismos patógenos, antimicrobianos, excesso de sujidades e uso excessivo de soluções limpantes. Geralmente, admite-se que o ovo é estéril até o momento da postura, a partir desse torna-se susceptível a qualquer tipo de contaminação. Os microorganismos penetram no ovo e se multiplicam, uma vez que a gema é considerada um ambiente favorável para o crescimento microbiano, podendo causar toxinfecções nos consumidores (Pascoal et al., 2008). A aquisição de ovos sujos ou deteriorados compromete a imagem geral do produto. Sabe-se que, após a postura, os ovos perdem a qualidade de maneira contínua, um fenômeno inevitável, e agravado por diversos fatores. Seu melhor conhecimento e controle, especialmente por parte de pequenos e médios avicultores, podem resultar em ovos de melhor qualidade, com benefícios para a população consumidora e logicamente para a classe avícola. (Oliveira, 1999). Temperatura e tempo de armazenamento são fatores essenciais para a conservação do produto e na manutenção das características organolépticas (Alleoni e Antunes, 2001). No entanto, 92% dos ovos são comercializados “in natura” no mercado interno sem qualquer refrigeração podendo deteriorar-se em no máximo 15 dias após a data de postura (Pascoal et al., 2008). Por terem seus constituintes protegidos pela casca, a qualidade do albúmem fica notória somente no momento da sua utilização pelo consumidor ou agroindústria, dependendo exclusivamente, da responsabilidade dos produtores em produzirem ovos de boa qualidade (Alleoni e Antunes, 2001). Além da qualidade, um aspecto quantitativo importante é o peso. A legislação brasileira exige um mínimo de peso por dúzia para cada tipo de ovos, e, isto é desconhecido pela maior parte da população. Consumidores brasileiros não têm 5 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural curiosidade quanto ao peso de uma dúzia de ovos nos diversos tipos, que em um futuro próximo, será uma exigência trivial segundo alguns especialistas (Oliveira, 1999). Segundo Cherian et al. (1990) citados por Pascoal et al. (2008), quando os ovos são armazenados por longos períodos pode ocorrer também a redução do peso do ovo devido à perda de água e à centralização da gema. No entanto, os ovos de supermercado e da feira livre seguidamente estão com peso abaixo do recomendado pela legislação, não podendo ser comercializados como de tipo grande, uma vez que, de acordo com a resolução CIPOA nº 5/91, são considerados grandes ovos aqueles com pesos de 55 a 60 g (MAPA, 2008). Acredita-se que futuramente o consumidor terá sua preferência não vinculada apenas no preço, mas também à qualidade (Pascoal et al., 2008). A variável “qualidade do produto” apresenta diversas considerações, pois para o produtor significa peso e resistência da casca, para os consumidores significa prazo de validade e boas características sensoriais. Para os processadores, indica facilidade de retirada da casca, cor da gema e propriedades funcionais (Alleoni e Antunes, 2001). É válido destacar que a maioria dos defeitos observados em ovos no mercado tem origem em etapas anteriores, desde a composição das rações, passando pelas instalações até a distribuição. Cabe aos avicultores procurar mais conhecimentos junto aos órgãos de assistência técnica e contribuir para melhor qualidade e maior aceitação deste excelente alimento pela população (Oliveira, 1999). Estratégias nutricionais têm sido exploradas na formulação das dietas das aves, modificando-se a composição de lipídeos, aumentando o conteúdo de vitaminas e minerais e melhorando o valor nutritivo dos ovos, tornando-os enriquecidos em nutrientes específicos. Hoje no mercado, na tentativa de expandir o comércio, surgem os ovos enriquecidos com vitaminas ou com ácidos graxos poliinsaturados (PUFA). Ovos enriquecidos com ácidos graxos Ômega 3 são opções disponíveis ao consumidor, porém, por serem de alto valor comercial, abrangem um nicho específico de consumidores (Lot et al., 2005). Além do aspecto econômico, há crescente preocupação da sociedade relativa ao meio ambiente e à qualidade de vida das aves, surgindo um desafio para avicultura de postura. As granjas têm como objetivo diminuir o oferecimento de rações com altos níveis de proteína para diminuir a excreção de nitrogênio e com isso, preservando o meio ambiente (Pavan et al., 2005). Os requerimentos técnicos específicos na avicultura brasileira têm como base legislativa a Instrução Normativa nº 7, de 10 de Março de 2005; e a Portaria nº 138, de 5 de Junho de 2006 do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, que definem os aspectos relacionados as ações de registro, fiscalizações, e controle de estabelecimentos Avícolas Produtores de Ovos e Aves Livres de Patógenos Específicos (SPF). Medidas legislativas sobre rotulagem alimentar são vistas como importantes atividades de promoção de saúde. O uso destas justifica-se como modo de auxiliar as pessoas a adquirirem uma nutrição adequada. O objetivo é garantir aos consumidores acesso à informação útil e confiável, encorajando a comercialização e o consumo dos 6 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural produtos. Um dos fatores que podem influenciar na escolha alimentar das pessoas é o número de informações nutricionais contidas nos rótulos (Celeste, 2001). Segundo Reid e Hendricks (1994), citado por Leite et al., (2006), até 52% das pessoas usam informações de rótulos. Entretanto, existem informações que podem ser enganosas, devido ao uso freqüente de palavras ambíguas, confusas e termos técnicos. Os modelos usuais de análise de demanda assumem que o consumidor conhece e entende os riscos associados ao consumo de alimentos e expressam as suas preferências e avaliações dos diferentes níveis de segurança do alimento fazendo uma efetiva escolha entre produtos que oferecem uma variedade de riscos e probabilidades de ocorrência. A presença de assimetria de informação torna estes modelos inadequados para explicar o fenômeno e permite a ocorrência de ação oportunística por parte do mercado. Uma possibilidade de evitar ou atenuar a ocorrência deste tipo de ação oportunística está na criação de marcas, padrões ou certificados que assegurem um padrão de qualidade ou de uma legislação mais rigorosa que puna e controle este tipo de atitude (Spers, 2000). Os atributos relacionados à segurança do alimento não são facilmente verificáveis visualmente, podendo considerá-los como percebidos em sua maioria intrinsecamente (Figura 2). Os principais exemplos são os alimentos com: i) determinado padrão de qualidade intrínseca (sabor e textura), ii) seguros (ausência de microorganismos), iii) não modificados geneticamente (propiciado pela engenharia genética), iv) não irradiados, v) funcionais ou nutracêuticos (por avanços na área de nutrição), vi) produzidos com práticas que não agridem o bem estar dos animais, que sejam “naturais” e ambientais quanto possíveis (agricultura orgânica), ou, ainda, que possam determinar a origem do produto (Spers, 2000). 7 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Qualidades extrínsecas Atributos dos alimentos Qualidades intrínsecas Preço Aparência Cor Tamanho Formato Dano ao meio ambiente Ausência de aditivos ou conservantes Ausência de resíduos químicos Valor nutritivo Confiança no produto ou empresa 1 Atributos facilmente percebidos externamente pelo consumidor. Atributos que necessitam de instrumentos (selos, certificados, marcas e rotulagens) para serem facilmente percebidos pelos consumidores. A percepção esta fortemente atrelada ao grau de confiança nestes instrumentos. 2 FIGURA 2. Alguns atributos intrínsecos e extrínsecos avaliados pelo consumidor na escolha de um alimento. Fonte: Spers (2000). Os certificados de qualidade surgem como uma alternativa para comprovar os atributos intrínsecos e fazer com que os consumidores fiquem mais seguros quanto ao seu consumo, principalmente quando se trata de alimentos, um produto básico e necessário à sobrevivência humana (Spers, 2000). O Serviço de Inspeção Federal (SIF) atua junto às indústrias que processam alimentos de origem animal de acordo com a Lei 7.889/89 supervisiona e audita os Programas de Auto-Controles das empresas (BPF, PPHO, APPCC). São registrados, no Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA), 134 estabelecimentos de ovos e derivados, representação pouco significativa quando comparados aos outros setores: 1.686 estabelecimentos de leite e derivados, 1.334 de carne e derivados, 357 de pescado, 207 mel e derivados (MAPA, 2008). Existe ainda um programa de controle de resíduos e contaminantes – PNCRC/2008 (Instrução Normativa no 10, de 14 de abril de 2008), que verifica a presença de antimicrobianos (MAPA, 2008). Para o sistema caipira, tecnicamente são considerados sinônimos os termos descritos no Ofício do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A denominação reconhecida no Ofício 060 é a de “Ovos Caipira” ou Ovos Tipo ou Estilo “Caipira” ou “Ovos Colonial” ou “Ovos Tipo ou Estilo Colonial” (MAPA, Ofício Circular DOI/DIPOA Nº 60/99 de 04/11/99). Um dos maiores problemas observados atualmente na relação à produção caipira é que não há uma supervisão que controle os produtos químicos e nem tampouco sobre esses animais estarem livres ou não, apenas o cuidado é genético e 8 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural alimentício, pois o consumidor exige ovos de casca firme e vermelha com gema escura (Arenales, 2001 citado por Pasian, 2007). 5. TENDÊNCIAS MUNDIAIS A seleção genética tradicional sempre focou nos parâmetros produtivos, como uniformidade no peso corporal, aumento na produção de ovos, melhoras na qualidade da carne e do ovo, entre outros; e tendeu a dar menos atenção às questões de bem-estar, como selecionar aves menos agressivas e com menor tendência ao canibalismo (HESTER, 2005). O fato de os animais serem alojados em gaiolas e de não haver mistura de animais de diferentes idades em um mesmo galpão, há menor índice de mortalidade e doenças nos plantéis de criação avícola, além dos cuidados de vacinação e higiene, que neste sistema é maior (Hester, 2005). Há controvérsias quanto à melhor instalação a ser utilizada para poedeiras, pois as gaiolas tradicionais possuem alguns benefícios, tais como melhor controle de doenças (Abrahamsson e Tauson, 1995, citados por Hester, 2005), menor produção de amônia (Appleby et al., 1989, citado por Hester, 2005), vantagens econômicas, quando comparadas ao sistema alternativo, como as gaiolas “mobiliadas” (com poleiro, ninho e caixa para banho de areia) (Van Horne e Achterbosch, 2008) e é mais fácil de inspecionar. Porém as gaiolas tradicionais impedem que a ave expresse suas vontades naturais, como o banho de areia, bater as asas e ciscar o chão (Tauson, 1986, citado por Hester, 2005). Quanto às instalações, atualmente no Brasil predomina o uso de gaiolas convencionais, com espaço de 300 a 400 cm² por ave, possuindo um dos menores custos de produção do mundo, dados baixos custos com alimentação e mão de obra, além da falta de legislação que regulamente a criação de poedeiras. Porém, se o Brasil quiser exportar ovo, mesmo que em pó, para países da União Européia, terá que substituir as gaiolas convencionais por gaiolas enriquecidas (ou mobiliadas com ninho, poleiro e banho de areia/cama), com pelo menos 750 cm² por ave, ou por sistemas alternativos, com até 1.100 cm² por ave (Van Horne e Acterbosch, 2008). A produção de ovos de galinhas mantidas em gaiolas em bateria tem recebido especial atenção dos consumidores, grupos de bem estar animal e responsáveis pela definição de políticas. Uma pesquisa no Reino Unido em 1995 (King, 1995, citado por Bennett e Blaney, 2003) mostrou que 72% dos cidadãos do Reino Unido pensavam que o sistema de gaiolas em baterias não era correto, enquanto que Harper e Henson (2001, citado por Bennett e Blaney, 2003) mostraram que o sistema de gaiolas em baterias era considerado “algo inaceitável” pelos cidadãos do Reino Unido, Irlanda, França e Alemanha. Em 1999, o Ministério da Agricultura Europeu concordou em banir o uso de gaiolas em baterias por galinhas poedeiras a partir de 1o de janeiro de 2012 (EU Directive 99/74/EC) (Bennett e Blaney, 2003). 9 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Espaço em comedouro também recebe atenção, com relação ao bem estar, uma vez que o aumento neste espaço implica em aumento da produção de ovos, por diminuir os efeitos da hierarquia social, dentro de cada gaiola, e reflete em menor competitividade pelo alimento. Além da diminuição do estresse, também há maior sincronia entre alimentação e produção de ovos (Hughes, 1971, citado por Hester, 2005). Da mesma forma, quando os bebedouros são mal distribuídos, torna-se mais um fator estressante, refletindo em efeitos deletérios à produção (Gibson et al., 1988, citado por Hester, 2005). A muda forçada, que consiste na indução de detenção de ovários pela ave, para um segundo ciclo de produção de ovos, por meio de privação alimentar total por duas semanas, é outro item que merece atenção. No segundo ciclo a ave produz ovos de melhor qualidade e com pico de produção quase semelhante ao ciclo anterior. Porém, este manejo é extremamente estressante para a ave, chegando a haver mortalidade neste período (Hester, 2005). E, por fim, a debicagem, que é a retirada da ponta do bico, tem gerado bastantes controversas entre pesquisadores. Pois o intuito deste manejo é reduzir o canibalismo, melhorando a sobrevivência, as condições de empenamento e tornando os animais mais dóceis (DAVIS et al., 2004). Entretanto, a debicagem causa dor, seja pelo próprio processo (corte do bico), seja por diminuir a habilidade de as aves consumirem o alimento. Há propostas de simplesmente banir a debicagem, ou ainda, de fazê-la de forma branda, em aves com menos de 10 dias de idade (Van Horne e Achterbosh, 2008). Assim como o aumento geral da legislação da União Européia para proteger e melhorar o bem estar dos animais de produção, foi acordado, em 1997, que as considerações sobre bem estar animal se tornariam agregadas (retroativamente) ao Tratado de Roma, integrando a Comunidade Européia através de um Protocolo de bem estar animal (Bennett e Blaney, 2003). O Protocolo é importante por que ele estatui o desejo de “garantir melhor proteção e respeito para o bem estar dos animais como seres sensíveis” e afirma que “sistematizando e implementando a agricultura, transporte, comércio interno e políticas de pesquisa da Comunidade, a Comunidade e os Estados Membros devem dar todas as condições para as necessidades de bem estar dos animais...”. Isso destaca a crescente preocupação ética sobre os tratamentos dos animais dentro da União Européia e, com importância, explicitamente reconhece os animais como seres capazes de prazer e dor, do que como bens inanimados (Bennett e Blaney, 2003). 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma legislação para proteger e melhorar o bem-estar dos animais de produção é essencial caso o Brasil pretenda explorar o mercado internacional. Antes de implementar a legislação, porém, é importante que avaliações de custo-benefício sejam realizadas, conforme sugerido por Gameiro (2007). Como verificado, a produção de ovos no Brasil é um segmento em transformação, apesar de sua aparente estagnação. Estagnação, pois o 10 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural mercado apenas responde a uma demanda que quase não varia. E em transformação, pois ele tenta (e precisa) se adequar às tendências mundiais de exigência de qualidade. Existe uma necessidade eminente de se quebrar velhos paradigmas, tais como o ovo ser um veículo de infecções, ou representar um grande vilão à saúde, devido o colesterol. E isso só será possível lançando-se mão de informação ao consumidor, investimentos em marketing e, principalmente, união dos produtores a fim de viabilizar tais ações. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALLEONI, A.C.C. e ANTUNES, A.J. Unidade Haugh como medida de qualidade de ovos de galinha armazenados sob refrigeração. Scientia Agrícola. v.58, n.4, p.681-685; 2001. APA. Associação Paulista de Avicultura. 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