MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA – INCRA Superintendência Regional do Rio Grande do Sul SR-11 RELATÓRIO AMBIENTAL DO PROJETO DE ASSENTAMENTO SANTO ÂNGELO SANTANA DO LIVRAMENTO/RS Porto Alegre, junho de 2006. 1 IDENTIFICAÇÃO DO EMPREENDEDOR E EQUIPE TÉCNICA ................................ 1 2 IDENTIFICAÇÃO DO IMÓVEL .........................................................................................2 3 LOCALIZAÇÃO..................................................................................................................... 3 4 PAISAGEM REGIONAL....................................................................................................... 5 4.1 O AMBIENTE NATURAL ......................................................................................................... 5 4.1.1 Clima ............................................................................................................................. 5 4.1.2 Geologia e geomorfologia............................................................................................. 7 4.1.3 Relevo ............................................................................................................................ 8 4.1.4 Solos ............................................................................................................................ 11 4.1.5 Hidrografia.................................................................................................................. 14 4.1.6 Vegetação .................................................................................................................... 15 4.1.7 Fauna ..........................................................................................................................17 4.2 ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS DA REGIÃO ........................................................................ 19 4.2.1 População.................................................................................................................... 19 4.2.2 Produção primária...................................................................................................... 19 4.2.2.1 Produção agrícola............................................................................................... 19 4.2.2.2 Produção animal................................................................................................. 21 5 DIAGNÓSTICO DA ÁREA DO PROJETO DE ASSENTAMENTO............................. 23 5.1 DIAGNÓSTICO DO MEIO NATURAL ...................................................................................... 23 5.1.1 Relevo e solos .............................................................................................................. 23 5.1.1.1 Relevo.................................................................................................................23 5.1.1.2 Solos ................................................................................................................... 26 5.1.1.3 Capacidade de uso das terras:............................................................................. 28 5.1.2 Recursos hídricos ........................................................................................................ 31 5.1.3 Uso do solo.................................................................................................................. 33 5.1.3.1 Uso anterior à implantação................................................................................. 34 5.1.3.2 Uso atual............................................................................................................. 36 5.1.3.3 Avaliação das alterações no uso do solo ............................................................ 38 5.1.4 Vegetação................................................................................................................... 38 5.1.4.1 Considerações sobre a vegetação campestre...................................................... 42 5.1.4.2 Considerações sobre a vegetação florestal ......................................................... 43 5.1.5 Fauna.......................................................................................................................... 44 5.2 DIAGNÓSTICO DO MEIO SÓCIO–ECONÔMICO E CULTURAL................................................... 46 5.2.1 População e organização social ................................................................................. 46 5.2.2 Infra-estrutura física, social e econômica................................................................... 46 5.2.3 Sistema produtivo........................................................................................................ 47 5.2.4 Saúde ........................................................................................................................... 47 5.2.5 Educação..................................................................................................................... 47 5.2.6 Saneamento ................................................................................................................. 47 6 IMPACTOS AMBIENTAIS E MEDIDAS MITIGADORAS .......................................... 48 6.1 DEGRADAÇÃO DO SOLO ...................................................................................................... 48 6.1.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 48 6.2 USO DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE (APP) ....................................................48 6.2.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 48 6.3 INEXISTÊNCIA DE ARL....................................................................................................... 48 6.3.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 49 6.4 DEGRADAÇÃO DA VEGETAÇÃO NATIVA .............................................................................. 49 6.4.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 50 6.5 REDUÇÃO DA ABUNDÂNCIA E RIQUEZA DA MASTOFAUNA NATIVA ..................................... 50 6.5.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 50 6.6 DESTINAÇÃO INADEQUADA DE RESÍDUOS LÍQUIDOS E SÓLIDOS .......................................... 50 6.6.1 Medidas mitigadoras................................................................................................... 50 7 EDUCAÇÃO AMBIENTAL ................................................................................................ 51 8 BIBILIOGRAFIA ................................................................................................................. 52 PROJETO DE ASSENTAMENTO SANTO ÂNGELO SANTANA DO LIVRAMENTO/RS Solicitação do Licenciamento de Implantação e Operação – LIO 1 IDENTIFICAÇÃO DO EMPREENDEDOR E EQUIPE TÉCNICA Ministério do Desenvolvimento Agrário - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA/RS Endereço:Av. José Loureiro da Silva 515, 4º andar 90010-420 - Porto Alegre - RS Representante legal: Ângelo Guido Menegat –Superintendente Regional Responsável técnico: Eng. Agrônomo Marcelo Almeida Bastos Contato: Fone (51) 3328-6666 ramal 240 E-mail: [email protected] Equipe Técnica Heinrich Hasenack Geógrafo, MSc.– coordenador, UFRGS Eliseu Weber Eng. Agrônomo, M.Sc. – UFRGS Eliana Casco Sarmento Eng. Agrônoma, Bióloga - UFRGS Gabriel Selbach Hofmann Geógrafo BSc- UFRGS Josi Fernanda Cerveira Bióloga MSc.- UFRGS Mariana Lisboa Pessoa Acadêmica de Geografia - UFRGS Rafael Trevisan Biólogo, MSc. - UFRGS Rogério Both Biólogo BSc.- UFRGS 1 2 IDENTIFICAÇÃO DO IMÓVEL • Denominação do imóvel: Projeto de Assentamento Santo Ângelo • Código SNCR: 805.068.027.537-4 • Processo de Desapropriação: • Processo do Projeto de Criação: • Data da criação: 21/11/1996 • Área total do projeto:481,42 hectares • Número de módulos fiscais: 17,19 • Município: Santana do Livramento/RS (Figuras 1 e 2). • Localização e acesso: localiza-se a sudeste da sede municipal de Santana do Livramento, ao sul da BR 293 e da linha férrea e a sudeste das localidades de Tabatinga e Bela Vista. 2º distrito de Ibicuí, localidade de Itaquatiá. • Coordenadas: a área situa-se entre os seguintes pontos extremos do sistema de coordenadas UTM da Zona 21: 656.190 m E, 6.570.420 m N e 662.040 m E, 6.564.540 m N • Bacia hidrográfica: o PA Santo Ângelo situa-se na bacia hidrográfica do rio Santa Maria e sub-bacia do rio Ibicuí da Cruz (Figura 8). • Zoneamento Agroecológico: preferencial para arroz irrigado, trigo, sorgo, forrageiras de clima temperado (aveia, azevém, centeio, etc.), videira americana, citros (limões e bergamota) e pessegueiro. • Número de famílias assentadas: 17 (dezessete) famílias. • Área média dos lotes: 28,32 hectares. 2 3 LOCALIZAÇÃO O município de Santana do Livramento está localizado a aproximadamente 498 km de Porto Alegre. Sua sede está a 210 m de altitude e suas coordenadas geográficas são 30°53'33 de latitude sul e 55°31'36 de longitude oeste. Limita-se ao norte com Rosário do Sul, a leste com Dom Pedrito, a leste com Quaraí e ao sul com o Departamento de Rivera. Está dividido em dois distritos: Livramento (subdistritos: 1º Livramento, 2º Upamaroti, 3º Ibicuí) e o 2º, Pampeiro (subdistritos: 1º Pampeiro, 2º São Diogo, 3º Espinilho e 4º Cati) (INCRA, 2004). Santana do Livramento localiza-se na região sudoeste do Rio Grande do Sul, pertencendo à microrregião Campanha Central (IBGE, 1999) e ao Corede Fronteira Oeste (SCP/RS, 2005). Na divisão fisiográfica do Estado (Fortes, 1979), enquadra-se na região da Campanha. As principais vias de acesso ao município são a BR 158, a BR 293 e a RS 183 (Figura 1). Figura 1. Localização do município de Santana do Livramento no estado do Rio Grande do Sul. 3 A área do Projeto de Assentamento (PA) Santo Ângelo fica localizada cerca de 27 km a leste da sede do município de Santana do Livramento (Figura 2). As vias de acesso ao PA são municipais sem pavimentação, em regular estado de conservação com limitações de uso no período chuvoso. A estrada que conduz ao assentamento passa ao sul do Cerro dos Munhoz e do Cerro Florentina. Figura 2. Localização do Projeto de Assentamento Santo Ângelo no município de Santana do Livramento. 4 4 PAISAGEM REGIONAL 4.1 O ambiente natural 4.1.1 Clima O município de Santana do Livramento encontra-se entre os paralelos 30°S e 31°S, e está a cerca de 340 km do oceano Atlântico. Esta posição geográfica, associada a um relevo suave ondulado, proporciona uma homogeneidade na distribuição da maioria dos elementos climáticos no município. Com base no período normal 1931-60 publicado no Atlas agroclimático do estado do Rio Grande do Sul (IPAGRO, 1989) (Tabela 1), a estação meteorológica de Santana do Livramento, localizada nas coordenadas 30°58’29”S e 55°32’39”W e com altitude de 235 metros, registra uma temperatura média anual de 17,8°C, tendo em janeiro seu mês mais quente com temperatura média de 24,2°C e em junho seu mês mais frio com temperatura média de 12,1°C. Entre os meses de maio e setembro as temperaturas mínimas médias encontram-se abaixo de 10°C. Segundo Machado (1950), na região as geadas são comuns entre os meses de abril a novembro. A precipitação total anual é de 1.388 mm, não havendo grandes diferenças de distribuição entre as estações do ano. A diferença entre a estação mais seca, o verão e a mais chuvosa, o outono, é de apenas 75 mm. O mês que registra o maior precipitação é outubro, com 156 mm e o de menor precipitação é dezembro, com 84 mm. Tabela 1. Dados normais (1931-1960) mensais e anuais de temperatura, precipitação e evaporação de Santana do Livramento. jan fev Temperatura média (° C) 24,2 23,7 21,6 17,6 Precipitação (mm) 123 107 124 143,4 112,1 102,1 Evaporação (mm) mar abr mai jun jul ago set out nov 13,9 11,9 12,1 13,2 15,0 17,5 20,3 141 124 135 99 93 114 156 88 86,4 64,3 55,7 60,4 78,2 dez 22,8 ano 17,8 84 1.388 87,4 112,0 106,2 143,3 1.151 Esses valores quando submetidos à classificação proposta por Köppen (1948), indicam um clima do tipo Cfa. Esse tipo climático é característico das regiões de menor altitude do Estado, evidenciando condições subtropicais, com verões quentes de temperaturas médias superiores a 22°C, invernos amenos de temperatura superior a -3°C e distribuição uniforme de precipitação ao longo do ano (Figura 3). A Figura 3 representa o diagrama climático proposto por Walter (1986), para o caso específico de Santana do Livramento. O eixo horizontal representa os meses do ano, iniciando pelo mês de julho e terminando em junho. O eixo vertical representa a temperatura (°C) à esquerda e a precipitação (mm) à direita. A escala utilizada tem uma relação de 1°C para 2 mm de precipitação. Nesta relação, segundo Walter (1986), meses nos quais a curva da precipitação encontra-se acima daquela da temperatura são considerados úmidos. Entretanto, o comportamento da precipitação em Santana do Livramento (Fígura 3), não garante uma disponibilidade regular de água no solo para as plantas, em especial nos meses mais quentes. Através do balanço hídrico climático (Cunha, 1992), é possível identificar os períodos de excedente ou déficit hídrico no Município (Fígura 4). 5 Santana do Livramento, 17,8° C, 1388 mm 200 100 80 Cº mm 30 60 20 40 10 20 Figura 3. Diagrama climático de Santana do Livramento (30°58’29”S e 55°32’39”W) para o período de observação 1931-1960. A Figura 4 expressa o curso médio do balanço hídrico climático calculado pelo método de Thornthwaite e Mather (Cunha, 92), para uma capacidade de armazenamento de 75mm. Comprova-se a existência de um déficit hídrico de 26 mm entre os meses de novembro e fevereiro, sendo dezembro o mês mais crítico, com um déficit de 14 mm. A associação entre as altas temperaturas destes meses, a diminuição dos índices de precipitação e a baixa capacidade de armazenamento de água no solo explicam a ocorrência desta indisponibilidade de água no verão. Durante todos os demais meses do ano há excedente hídrico. A soma deste excedente resulta num saldo de 578 mm. Junho e julho são os meses de maior excedente com 110 e 96 mm respectivamente, justificados pelas baixas temperaturas desta época e pelo aumento da precipitação, resultado de uma maior atuação de massas polares (frentes frias) na região. 6 180 160 ALTURA DE ÁGUA(mm) 140 120 100 80 60 40 20 0 jul ago set out nov dez jan fev mar abr mai jun MESES P ETP ETR Figura 4. Gráfico do balanço hídrico climático de Santana do Livramento (30°58’29”S e 55°32’39”W), onde P é a precipitação, ETP a evapotranspiração potencial e ETR a evapotranspiração real O zoneamento agrícola (SA/RS, 1978) aponta como culturas preferenciais para o município de Santana do Livramento arroz irrigado, trigo, sorgo, forrageiras de clima temperado (aveia, azevém, centeio, etc), videira americana, citros (limões e bergamota) e pessegueiro. O município é considerado inapto ou marginal para culturas tradicionais como, por exemplo, fumo, feijão, mandioca e milho. Para o cultivo da soja a área é classificada como tolerável. Entretanto, o déficit hídrico mostra-se um empecilho para culturas de verão que necessitem quantidades razoáveis de água entre os meses de novembro e janeiro. 4.1.2 Geologia e geomorfologia O município de Santana do Livramento está inserido no Domínio Morfoestrutural das Bacias e Coberturas Sedimentares e situa-se sobre duas regiões geomorfológicas. Na porção ocidental, a região geomorfológica Planalto da Campanha, através da unidade geomorfológica Planalto de Uruguaiana. Na porção oriental, pela região geomorfológica Depressão Central Gaúcha, através da unidade geomorfológica Depressão do Rio Ibicuí-Rio Negro (IBGE, 1986). A região geomorfológica Planalto da Campanha representa o extremo ocidental e meridional do Domínio Morfoestrutural das Bacias e Coberturas Sedimentares. Tem seu limite ocidental no rio Uruguai, o limite sul no rio Quaraí e o limite norte nos afluentes da margem direita do rio Ibicuí e no contato com o Planalto das Missões. O contato do Planalto da Campanha com a Depressão Central Gaúcha ocorre na forma de encostas escarpadas de cerca de 200 m de desnível. O relevo nessa região foi esculpido pelos rios sobre rochas efusivas básicas da Formação Serra Geral e da Formação Botucatu. É marcante a presença de extensas áreas de depósitos aluvionares holocênicos ao longo das drenagens. 7 A região geomorfológica da Depressão Central Gaúcha apresenta dois segmentos: um leste-oeste e outro norte-sul, separando o Planalto Meridional ao norte do Planalto Sulriograndense ao sul e sudeste, a leste com a Planície Costeira interna e a oeste com o Planalto da Campanha. É uma região de baixa altitude entre dois planaltos onde os processos erosivos sobre rochas paleozóicas, triássicas e jurássicas produziram relevo ondulado. Esta região foi dividida em duas unidades geomorfológicas: a Depressão do Rio Jacuí e a Depressão Rio Ibicuí-Rio Negro. Esta Unidade, na qual situa-se parcialmente o Município, localiza-se no segmento norte-sul da região geomorfológica, De forma geral a região encontra-se dissecada com topos convexos e planos e encostas suaves. Quando as elevações ultrapassam 200 m de altitude, as vertentes são mais íngremes. Predomina na região a Formação Rosário do Sul, com a presença de cerros com cobertura de arenito Botucatu. Junto aos rios há depósitos de aluvião e, junto à calha fluvial atual, de areias, ambos de origem Quaternária. Os projetos de assentamento do INCRA em Santana do Livramento situam-se integralmente sobre a unidade geomorfológica Depressão do Rio Ibicuí-Rio Negro. 4.1.3 Relevo O relevo de Santana do Livramento varia de suave ondulado a ondulado, o que é característico da região da Campanha. A paisagem apresenta vários cerros, sendo os mais altos os cerros do Itaquatiá (395m), da Cruz (392m) e da Vigia (338m). Há cerros de menor tamanho, como o Cerro de Palomas, o Registro e o do Marco, este último situado na linha divisória com Rivera, no Uruguai (INCRA, 2004). As altitudes no município variam de aproximadamente 100 m até 385 m, com declividades pouco acentuadas, estando as áreas mais declivosas geralmente associadas às encostas dos cerros. As Figuras 5 e 6 mostram, respectivamente, a distribuição das diferentes altitudes e das declividades no território do município e as Tabelas 2 e 3 mostram o percentual da área do município ocupada por diferentes faixas de altitude e declividade. Analisando-se estes dados percebe-se que a maior parte do município tem altitudes inferiores a 250 m (aproximadamente 80% do território) e declividades inferiores a 10% (aproximadamente 89% do território). As áreas mais elevadas situam-se nas porções central e sudoeste do município, na divisa com o Uruguai. Tabela 2. área ocupada pelas diferentes faixas de altitude no município de Santana do Livramento. Faixas de altitude Área (%) 100 a 150 m 21,76 150 a 200 m 36,02 200 a 250 m 21,70 250 a 300 m 13,09 300 a 350 m 6,56 350 a 400 m 0,86 Total 100,00 8 Figura 5. Faixas altimétricas em Santana do Livramento. 9 Figura 6. Faixas de declividade em Santana do Livramento. Tabela 3. área ocupada pelas diferentes faixas de declividade no município de Santana do Livramento. Faixa de declividade Área (% do município) 0 a 5% 55,21 5 a 10% 33,66 10 a 15% 7,92 15 a 20% 1,99 20 a 25% 0,74 > 25% 0,47 Total 100,00 10 4.1.4 Solos Neste item são apresentadas as principais classes de solos que ocorrem no Município de Santana do Livramento com base nos estudos disponíveis no Estado até o presente: “Levantamento de Reconhecimento dos Solos do Rio Grande do Sul”(Ministério da Agricultura, 1973) na escala 1:750.000” e “Levantamento Exploratório de Solos”(IBGE, 1986) na escala 1:1.000.000”. Os solos foram descritos quanto às suas características, classificação, ocorrência e aptidão para uso agrícola com base nas cartas digitais em escala 1:250.000 do IBGE. A classificação dos solos foi atualizada com base no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (EMBRAPA, 1999). A Figura 7 mostra as unidades de mapeamento de solos ocorrentes no município de Santana do Livramento e a Tabela 4 lista a área ocupada por cada tipo de solo no território do município. Analisando-se esses dados verifica-se que a maior parte do município é constituída de Neossolos (aproximadamente 54% do território), Argissolos (Aproximadamente 32% do território) e Planossolos (Aproximadamente 10% do território), com pequenas áreas de Chernossolos e Vertissolos. Figura 7. Grupos de solos do município de Santana do Livramento, modificado a partir de IBGE (1986). 11 Argissolo Acinzentado PBPe2 - Podzólico Bruno-Acinzentado Planossólico eutrófico Ta A moderado e proeminente textura média/argilosa e média e Planossolo eutrófico Ta A moderado textura média/argilosa relevo suave ondulado e plano. PBPe3 - Podzólico Bruno-Acinzentado Planossólico eutrófico Ta média/argilosa e Brunizém textura argilosa relevo suave ondulado. A moderado textura PBPe4 - Podzólico Bruno-Acinzentado Planossólico eutrófico Ta A moderado e proeminente textura média/argilosa e média, Podzólico Vermelho Escuro distrófico Tb A moderado textura média/argilosa relevo suave ondulado e ondulado e Planossolo eutrófico Ta A moderado textura média/argilosa relevo plano e suave ondulado. PBPe5 - Podzólico Bruno-Acinzentado Planossólico eutrófico e distrófico Ta A moderado textura média/argilosa e Podzólico Vermelho-Escuro álico e distrófico Tb abr·ptico e não abrúptico A moderado textura arenosa/argilosa e média/argilosa relevo suave ondulado e ondulado. Argissolo Vermelho-Amarelo PVa4 - Podzólico Vermelho-Amarelo álico Tb abrúptico plíntico A moderado textura arenosa/argilosa e arenosa/média e Podzólico Vermelho-Escuro álico Tb A moderado textura média/argilosa relevo suave ondulado. Argissolo Vermelho PEa3 - Podzólico Vermelho-Escuro álico e distrófico Tb A moderado e proeminente textura média/argilosa relevo suave ondulado. PEa5 - Podzólico Vermelho-Escuro álico e distrófico Tb abr·ptico e não abr·ptico A moderado textura arenosa/argilosa e média/argilosa relevo suave ondulado. PEa10 - Podzólico Vermelho-Escuro álico e distrófico Tb abrúptico e não abrúptico A moderado textura arenosa/argilosa e média/argilosa, Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média substrato basalto relevo suave ondulado e ondulado e Chernossolo BT2 - Brunizém Vértico e não Vértico cálcico e não cálcico textura média/argilosa e argilosa relevo suave ondulado. BT7 - Brunizém Vértico cálcico e não cálcico textura média/argilosa e argilosa e Solos Litólicos eutróficos A moderado e chernozêmico textura média e argilosa substrato folhelhos relevo ondulado e suave ondulado. Neossolo Litólico Re2 - Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média cascalhenta e média fase pedregosa e não pedregosa substrato basalto relevo suave ondulado. Re3 - Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média cascalhenta e média fase pedregosa substrato basalto relevo ondulado. Re4 - Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média cascalhenta e média fase pedregosa substrato basalto relevo forte ondulado e ondulado. Re7 - Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média cascalhenta e média fase pedregosa e não pedregosa substrato basalto e Brunizém Vértico cálcico e não cálcico textura argilosa relevo suave ondulado. 12 Re9 - Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico textura média cascalhenta e média fase pedregosa e não pedregosa substrato basalto e Brunizém Vértico cálcico e não cálcico textura argilosa relevo ondulado. Re19 - Associação Complexa de Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico e moderado textura média cascalhenta e média fase pedregosa substrato basalto com Podzólico Vermelho-Escuro Distrófico Tb abrúptico A moderado textura arenosa/argilosa relevo suave ondulado e Vertissolo A chernozêmico textura argilosa relevo plano. Planossolo Hidromórfico PLe2 - Planossolo eutrófico Ta A moderado textura arenosa/média e média/argilosa e Gleissolo eutrófico Ta A moderado textura média e argilosa relevo plano. Vertissolo V3 - Vertissolo cálcico e não cálcico A chernozêmico textura argilosa e muito argilosa e Solos Litólicos eutróficos A chernozêmico e moderado textura média substrato basalto relevo plano e suave ondulado. Tabela 4. Área ocupada pelas diferentes classes de solo no município de Santana do Livramento. Classe No de manchas Grupo Área (ha) Área (%) BT2 BT7 PBPe2 PBPe3 PBPe5 PEa10 PEa5 PLe2 PVa4 Re19 Re2 Re3 Re4 Re7 Re9 V3 Água Urbano Total 7 1 1 2 3 1 4 15 5 1 3 1 11 1 3 8 2 2 Chernossolo Chernossolo Argissolo Argissolo Argissolo Argissolo Argissolo Planossolo Argissolo Neossolo Neossolo Neossolo Neossolo Neossolo Neossolo Vertissolo Água Urbano 12.633,75 2.346,39 8.880,48 6.942,64 26.543,62 16.657,04 83.039,45 71.961,28 79.530,23 7.978,35 123.121,63 7.649,90 97.725,35 13.046,42 122.026,14 9.893,65 227,36 1.203,96 691.407,83 1,84 0,34 1,28 1,00 3,84 2,41 12,01 10,41 11,50 1,15 17,81 1,11 14,13 1,89 17,65 1,43 0,03 0,17 100,00 De acordo com o levantamento da capacidade de uso da terra no Rio Grande do Sul (Rio Grande do Sul, 1985), aproximadamente 56,3% das terras do município estão na classe VI, principalmente por serem solos rasos (Neossolos Litólicos). Cerca de 9,8% da área do município é ocupada por solos de várzea (usados no cultivo de arroz) e 32,4% são solos com maior profundidade (Argissolos Vermelhos, Argissolos Vermelho-Amarelos e Argissolos Acinzentados). 13 A Tabela 5 mostra a superfície e o percentual do município ocupados pelas diferentes classes de capacidade de uso, extraídos do resumo da distribuição % das classes de capacidade de uso da terra por município (Rio Grande do Sul, 1985). Tabela 5. Classes de capacidade de uso no município de Santana do Livramento (Rio Grande do Sul, 1985). Classe de capacidade de uso Área ocupada (%) Classe III 224.208,00 32,4 Classe IVi 67.816,00 9,8 Classe IVe 692,00 0,1 5.536,00 0,8 389.596,00 56,3 4.152,00 0,6 692.000,00 100,00 Classe IVp/t Classe VI Classe VII Total 4.1.5 Área ocupada (ha) Hidrografia A rede de drenagem da região apresenta um padrão predominante dendrítico a sub-dentrítico, pertencente às bacias hidrográficas dos rios Quaraí (30,8 % do território), Ibicuí (25,6 %) e Santa Maria (43,6 %), todas pertencentes à região hidrográfica do rio Uruguai, de acordo com o Departamento de Recursos Hídricos (DRH) do Estado do Rio Grande do Sul. Ao longo dos cursos d’água secundários ocorrem barragens e um grande número de pequenos açudes. A Figura 8 mostra os limites dessas três bacias no município de Santana do Livramento. Todos os Projetos de Assentamento do INCRA em Santana do Livramento situam-se na bacia do rio Santa Maria, sub-bacia do rio Ibicuí da Armada. 14 Figura 8. Bacias hidrográficas no município de Santana do Livramento. 4.1.6 Vegetação De acordo com o projeto Radambrasil (IBGE, 1986), para o município de Santana do Livramento são citadas as regiões fitoecológicas da Estepe e da Savana Estépica. A região da Estepe está localizada principalmente na Depressão do Rio Ibicuí-Rio Negro, recobrindo sedimentos do Permiano e Triássico e no Planalto da Campanha, sobre basaltos do Juracretáceo. A paisagem campestre da Estepe é essencialmente caracterizada por gramíneas cespitosas dos gêneros Stipa e Agrostis; gramíneas rizomatosas dos gêneros Paspalum e Axonopus; raras gramíneas anuais e oxalidáceas, além de leguminosas e compostas. As fanerófitas são representadas por espécies espinhosas e decíduas dos gêneros Acacia, Prosopis, Acanthosyris e outros. A região da Savana Estépica está localizada, em sua maior parte, nas áreas dissecadas do Planalto da Campanha, recobrindo arenitos do Jurássico, basaltos do Juracretáceo, assim como partes menores das áreas vizinhas, da Depressão do Rio Ibicuí-Negro, sobre sedimentos do Permiano e do Triássico. Esta região de contato entre os campos do Planalto da Campanha e os 15 campos da Depressão Central é revestida por fisionomias florestais denominadas pelo projeto Radambrasil (IBGE, 1986) como Savana Estépica Arbórea Aberta com floresta de galeria. O dossel arbóreo é formado dominantemente por espécies xeromorfas, onde se destacam Astronium balansae (pau-ferro), Lithraea molleoides (aroeira-do-fruto-achatado), Schinus lenticifolius (aroeira-cinzenta), Helietta longifoliata (canela-de-veado), Celtis tala (taleiro), Enterolobium contortisiliquum (timbaúva) Acacia caven (espinilho) e outras. De forma dispersa, ocupando afloramentos litólicos, ocorrem agrupamentos de cactáceas dos gêneros Cereus e Opuntia. Flanqueando as drenagens existem galerias arbóreas, de porte alto, formadas pelas espécies: Patagonula americana (guajuvira), Parapiptadenia rigida (angico), Luehea divaricata (açoitacavalo), Ruprechtia laxiflora (farinha-seca), além de outras. No estrato gramíneo-lenhoso dominam as gramíneas: Paspalum notatum (grama-forquilha), Andropogon lateralis (capimcaninha), Aristida palens (barba-de-bode), Piptochaetium montevidense (pêlo-de-porco), Elyonurus sp. (capim-limão), além da umbelífera Centella asiatica (pata-de-mula). De acordo com o mapa de Biomas do IBGE (2004a), o município de Santana do Livramento insere-se no Bioma Pampa, no qual estão presentes fisionomias campestres com tipologia vegetal dominante herbáceo/arbustiva. As formações florestais, pouco expressivas neste Bioma, restringem-se à vertente leste do Planalto Sul-Riograndense e às margens dos principais rios e afluentes da Depressão Central. Dos quatro conjuntos principais de fitofisionomias campestres presentes no Bioma, apenas o Planalto da Campanha e a Depressão Central ocorrem em Santana do Livramento e são classificados como Estepe no sistema fitogeográfico internacional, sendo demarcada como Savana Estépica apenas a região do município de Barra do Quaraí, no extremo oeste do Estado (IBGE, 2004b), sendo esta interpretação distinta daquela anteriormente proposta pelo projeto Radambrasil. No Planalto da Campanha, porção ocidental do município, a cobertura vegetal predominante é a Estepe gramíneo/lenhosa. Esta região pode ser considerada como a área “core” do Bioma no Brasil, apresentando disjunções da Savana Estépica típica do ambiente Chaquenho (extremo oeste do Estado). Segundo Boldrini (1997), nesta porção os solos são rasos e férteis, há uma dominância de espécies prostradas, que cobrem bem o solo e que são de bom valor forrageiro, constituindo uma vegetação baixa. A fisionomia é de extensas planícies de campo limpo. Destacam-se, dentre as espécies de verão, Paspalum notatum, P. almum, P. dilatatum e Coelorhachis selloana e, dentre as de inverno, as flechilhas Stipa hyalina, S. papposa e S. setigera, além do cabelo-de-porco, Piptochaetium bicolor. Dentre as leguminosas, Adesmia bicolor (babosa) é a espécie que está sempre presente em alta cobertura, mesmo em áreas com pastejo intenso. Nos locais mais pedregosos são encontradas plantas cespitosas de pequeno porte, como Aristida murina e Bouteloua megapotamica. O mio-mio, Baccharis coridifolia, é planta considerada indesejável nesta região, por ser tóxica aos animais. Em áreas com solos hidromórficos aparecem espécies hidrófilas como Eleocharis obtusetrigona, E. dunensis e as gramas-boiadeiras, (Leersia hexandra e luziola peruviana). Na Depressão Central, porção oriental do município, os campos arbustivo-herbáceos estão associados a florestas-de-galeria degradadas que, em geral, são compostas por espécies arbóreas decíduas (IBGE, 2004b). De acordo com Boldrini (1997), como conseqüência de solos muito diversificados, os campos apresentam uma fisionomia peculiar, havendo mistura de elementos arbustivos de várias famílias vegetais, destacando-se as aroeiras (Schinus spp.), as vassouras (Baccharis spp.), e o caraguatá (Eryngium horridum). No estrato mais baixo dominam espécies de verão, com baixo valor nutritivo, muitas de folhagem fibrosa, como as barbas-de-bode (Aristida spp.) e muitas andropogôneas (Schizachyrium microstachyum, Andropogon lateralis, Erianthus sp.). No estrato inferior Paspalum notatum, a grama-forquilha, é dominante. 16 Nas áreas úmidas destacam-se espécies de ciperáceas (Eleocharis montana, E. obtusetrigona, Rhynchospora spp., Kyllinga spp.) e gramíneas higrófilas (Leersia hexandra e luziola peruviana). As florestas-de-galerias, localizadas ao longo das drenagens com terraços periodicamente inundáveis, são do tipo aberto e descontínuo, com predomínio de corticeiras (Erythrina crista-galli), salgueiros (Salix humboldtiana) e sarandis (Sebastiania schottiana). Os processos mais comuns de modificação da paisagem (perfuração, dissecação, fragmentação e encolhimento) são relacionados à ocupação humana, que remonta a meados do século XVII. A pecuária foi a atividade inicial, tendo sido posteriormente introduzidas novas culturas como o arroz e a soja. Segundo Boldrini (1997), a criação extensiva de ovinos e bovinos é a atividade predominante na região. O excesso de pastejo utilizado em muitas propriedades é o maior problema provocado por esta atividade. A alta pressão de pastejo provoca uma redução gradativa da cobertura vegetal até seu desaparecimento, reduzindo consideravelmente a diversidade da vegetação. Devido à redução ou eliminação de espécies de bom valor nutritivo, estas são substituídas por outras de menor valor ou invasoras. Com a destruição da comunidade vegetal, ocorre a degradação do solo, através de sua compactação, redução da capacidade de infiltração da água e aumento do escorrimento superficial, provocando a erosão e tornando inviável a utilização destas áreas. O cultivo de arroz e soja representaram a mais recente fonte de impactos sobre a vegetação local. O arroz, por ocupar as áreas de várzea, é uma importante causa de diminuição dos campos úmidos. A soja, cuja introdução na região é mais recente, vem alterando a paisagem de modo significativo, especialmente no que se refere à supressão dos campos nativos. 4.1.7 Fauna A região à qual pertence o PA Santo Ângelo está inserida no Bioma Pampa (IBGE, 2004a), onde predominam paisagens campestres. Cabrera & Willink (1980) descrevem esta mesma região como pertencente à Província Biogeográfica Pampeana. A característica básica da fauna desta região está no domínio de espécies tipicamente de formações abertas, para a fauna de mamíferos, como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus, CANIDAE), o graxaim-do-campo (Pseudalopex gymnocercus, CANIDAE), o zorrilho (Conepatus chinga, MUSTELIDAE), o gato-palheiro (Oncifelis colocolo, FELIDAE), o veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus, CERVIDAE), a preá (Cavia aperea, CAVIDAE), o tuco-tuco (Ctenomys torquatus, CTENOMYDAE), entre outros. A relevância do enfoque sobre a fauna de mamíferos (mastofauna) reside no fato de serem espécies especialmente sensíveis e grandemente afetadas pelos processos de perda e alteração de hábitat (Robinson & Redford, 1986; Terborgh, 1992; Cuarón, 2000). As primeiras alterações antrópicas nesta região, a partir do processo de ocupação da terra para criação de gado de forma extensiva, em meados do século XVII, resultaram na modificação de uma paisagem natural campestre em uma paisagem pastoril. A mudança na estrutura fundiária, acompanhada da diversificação do uso econômico da terra, vem exercendo alterações ambientais diferentes daquelas ocorridas pelos processos históricos de ocupação regional, com o conseqüente aumento da pressão antrópica sobre os remanescentes de vegetação original (refúgios para fauna) em detrimento do maior aproveitamento econômico da terra. Estas alterações sobre a paisagem pastoril na região são advindas principalmente da substituição dos campos secos por pastagens cultivadas e lavouras, predominantemente soja, e dos campos úmidos (banhados e várzeas) por lavouras de arroz. O resultado disso é a drástica redução na 17 abundância ou a extinção local de inúmeras espécies da fauna nativa campestre, pela perda de seus hábitats. A sensível redução do tamanho populacional do veado-campeiro e do cervo-dopantanal (Blastoceros dichotomus, CERVIDAE), praticamente extinto no Rio Grande do Sul (Fontana et. al, 2003), são exemplos deste fato. O componente florestal presente na paisagem campestre, principalmente na forma de matas de galeria e nas encostas dos cerros, também sofreu redução em detrimento da expansão da agricultura e da pecuária. Estes remanescentes são de extrema importância para as espécies cujo conjunto de hábitats utilizados inclui ambientes florestais, abrangendo tanto espécies generalistas quanto ao uso de hábitat, assim como as tipicamente florestais. Entre estas espécies estão o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla, MYRMECOPHAGIDAE), o bugio-preto (Alouatta caraya, CEBIDAE) a lontra (Lontra longicaudis, MUSTELIDAE), o gato-do-mato-grande (Oncifelis geoffroyi, FELIDAE), a jaguatirica (Leopardus pardalis, FELIDAE), o gato-maracajá (Leopardus wiedii, FELIDAE), o gato-mourisco (Herpailurus yaguarondi, FELIDAE), a onçapintada (Panthera onca, FELIDAE) o leão-baio (Puma concolor, FELIDAE) e os veados mateiro (Mazama americana, CERVIDAE) e catingueiro (Mazama gouazoubira, CERVIDAE). Atualmente, para a mastofauna, os últimos refúgios estão localizados em áreas com baixa aptidão para uso agrícola, tanto pela situação topográfica (encostas dos cerros, áreas não drenáveis, etc.) quanto pela dimensão, além daquelas com baixa pressão de pastejo como campos úmidos e campos secos de uso extensivo. Adicionalmente aos fatores relacionados à perda de hábitat já descritos, causadores do declínio das populações e do desaparecimento de algumas espécies da mastofauna, a caça ilegal, historicamente, mantém-se como uma das principais causas da redução da abundância e diversidade das espécies da mastofauna (Fontana et al., 2003). Este fator de impacto sobre a fauna não é uma característica exclusivamente regional, mas sim um problema que atua sobre toda a área de distribuição das espécies cinegéticas. A preocupação com os efeitos da caça é ainda maior para mamíferos de médio e grande porte, muito visados pelo volume do recurso alimentar e alto valor da pele da maioria destas espécies. Associado a isso, alguns fatores biológicos como ciclo de vida longo e taxa reprodutiva baixa, e fatores ecológicos como área de vida comparativamente grande, presentes em grande parte da parcela da mastofauna cinegética, são agravantes da vulnerabilidade à pressão de caça (Bodmer & Robinson, 2003). Algumas espécies da mastofauna de médio e grande porte possuem apenas registros históricos para a região, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla, MYRMECOPHAGIDAE), o lobo-guará, a onça-pintada e o cervo-do-pantanal, e constam no Livro Vermelho da Fauna em Extinção no Rio Grande do Sul (Fontana et al., 2003) como Criticamente em Perigo de extinção. A ariranha (Pteronura brasiliensis, MUSTELIDAE), está considerada como espécie Provavelmente Extinta para o estado, segundo estes autores. Outras espécies que perduraram mesmo após a intensificação dos processos de eliminação dos habitats, como o tamanduá-mirim, a lontra, o quati (Nasua nasua, PROCYONIDAE), o gatomourisco, o gato-do-mato grande, a jaguatirica, o gato-maracajá, o leão-baio, o veado-mateiro, o veado-catingueiro e a paca (Agouti paca, AGOUTIDAE), constam atualmente no Livro Vermelho da Fauna em Extinção no Rio Grande do Sul (Fontana et al., 2003), em diferentes categorias de ameaça e possuem registros esporádicos para a região. Atualmente, a mastofauna mais comum é composta por espécies tolerantes ao padrão de uso e ocupação humana da região, onde predomina a pecuária de corte em campo nativo, e por espécies tolerantes a níveis baixos de pressão de caça ou de pouco interesse para os caçadores. Entre estas pode-se citar o gambá (Didelphis albiventris, DIDELPHIDAE), o tatu-mulita (Dasypus hybridus, DASYPODIDAE) o tatu-mulita (orelhudo ou mulitinha) (Dasypus 18 septemcinctus, DASYPODIDAE), o tatu-galinha (D. novemcinctus, DASYPODIDAE), o tatude-rabo-mole (Cabassous tatouay, DASYPODIDAE) e o tatu-peludo (Euphractus sexcinctus, DASYPODIDAE) o graxaim-do-mato (Cerdocyon thous, CANIDAE), o mão-pelada (Procyon cancrivorous, PROCYONIDAE), o zorrilho, o furão (Galictis cuja, MUSTELIDAE), o ouriço (Sphiggurus spinosus, ERETHIZONTIDAE) a Santo Ângelo (Hydrochaeris hydrochaeris, HYDROCHAERIDAE), o ratão-do-banhado (Myocastor coypus, MYOCASTORIDAE) e o tuco-tuco. 4.2 Aspectos sócio-econômicos da região 4.2.1 População A população do município de Santana do Livramento é de 80.252 habitantes segundo o Censo 2000 (PNUD, 2003). Esta população representa 47% da população total da microrregião da Campanha Central, da qual o município faz parte juntamente com os municípios de Rosário do Sul e São Gabriel. Comparando-se o número de habitantes atual com o do censo demográfico de 1991, observa-se um crescimento populacional de 10.597 habitantes (13,2%). Este crescimento foi superior ao experimentado pelo total da microrregião (14.667 hab., 8,2%). A densidade demográfica de 13 hab/km2 é a maior da microrregião, embora possa ser considerada baixa se comparada à densidade demográfica média do estado do Rio Grande do Sul (36,1 hab/km2). Dos três municípios da microrregião, Santana do Livramento é o que possui maior contingente de população urbana (91,7% em 1991 e 93,0% em 2000). Rosário do Sul e São Gabriel, embora também predominantemente urbanos, possuem em 2000 88,3% e 85,5% de sua população, respectivamente, em área urbana. Com base nas características da população levantadas pelo Censo 2000, PNUD (2003) elaborou o índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M). Este índice leva em consideração três variáveis principais: renda, longevidade e instrução, com valores que oscilam entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1 estiver o índice, tanto melhores são as condições de vida da população. Neste sentido, Santana do Livramento atingiu em 1991 o índice 0,73, o melhor da microrregião (0,73 em São Gabriel e 0,70 em Rosário do Sul). Este valor é pouco inferior à média do Estado (0,75). Em 2000 houve melhoria nas condições de vida, gerando um aumento do índice em nível municipal (0,80), na microrregião (0,78 em São Gabriel e 0,77 em Rosário do Sul) e no Estado (0,81). Percebe-se, no entanto, que as condições em Santana do Livramento tiveram um aumento mais significativo. 4.2.2 Produção primária 4.2.2.1 Produção agrícola Os dados considerados para caracterizar a produção agrícola de Santana do Livramento são da Pesquisa Agrícola Municipal (IBGE, 2003a) referentes aos cultivos temporários e permanentes de Santana do Livramento, RS. 4.2.2.1.1 Cultivos temporários Santana do Livramento tem como principais cultivos temporários o arroz (historicamente associado à pecuária de corte), melancia, milho, soja, sorgo e trigo. Estes cultivos ocupam a grande maioria das áreas utilizadas para agricultura (Tabela 6). No período de 2001 a 2003 esta área manteve-se estável, com algumas mudanças em cultivos específicos: a área cultivada com 19 sorgo granífero sofreu diminuição (provavelmente às custas do incremento da área de soja), enquanto a área destinada ao cultivo de melancia aumentou. Apesar da área de arroz não ter sofrido alteração alguma, sua produção vem diminuindo devido à queda de produtividade. Outro destaque vai para a produção de trigo. Embora a área tenha se mantido a mesma, o rendimento médio da produção sofreu incremento superior a cem por cento durante o período considerado. Tabela 6. Área plantada e colhida (ha), quantidade produzida (T) e rendimento médio de cultivos temporários (kg/ha) de 2001 a 2003, no município de Santana do Livramento, RS. (IBGE, 2003a) Cultura Área plantada e colhida Quantidade produzida Rendimento médio da (ha) (t) produção (kg/ha) 2001 Arroz (em casca) Melancia 2002 2003 2001 2002 2003 11.000 11.000 11.000 65.395 59.323 46.090 5.945 5.393 4.190 50 150 6.000 6.000 340 Sorgo granífero Milho (em grão) 2003 150 2001 500 2002 1.575 1.590 10.000 10.500 10.600 6.000 12.000 12.000 12.000 2.000 2.000 2.000 300 2.900 544 480 4.640 1.600 1.600 1.600 2.000 2.000 300 3.600 3.600 540 1.800 1.800 1.800 Trigo (em grão) - 210 210 - 151 378 - 719 1.800 Outros 3 3 3 Soja (em grão) Total 19.393 19.663 20.563 4.2.2.1.2 Cultivos permanentes De acordo a Pesquisa Agrícola (IBGE, 2003a) o município de Santana do Livramento tem como principais produtos de cultivo permanente a laranja, o pêssego e a uva, todos bem estabelecidos na região. A área ocupada por estes cultivos entre 2001 e 2003 corresponde, respectivamente, a 100, 99 e 99% da área total de cultivos permanentes de 2001, 2002 e 2003 (Tabela 7). Vale ressaltar a baixa no rendimento médio na viticultura em 2003 (IBGE, 2003a), atividade esta principalmente destinada à produção de vinho (SEBRAE/RS, 1998). Tabela 7. Área plantada (ha) de cultivos permanentes, quantidade produzida (T) e rendimento médio (kg/ha) de laranja, pêssego e uva (lavouras permanentes) durante 2001-2003 no município de Santana do Livramento, RS (IBGE, 2003a). Culturas Área plantada (ha) 2002 Laranja 100 100 100 340 340 340 3.400 3.400 3.400 Pêssego 62 62 61 465 471 476 7.500 7.596 7.803 Uva 539 689 580 4.210 4.823 2.030 7.810 7.000 3.500 Subtotal 701 851 741 0 6 6 701 857 747 Total 2001 2002 2003 Rendimento médio (kg/ha) 2001 Outros 2003 Quantidade produzida (t) 2001 2002 2003 20 4.2.2.2 Produção animal Quanto à produção animal do município de Santana do Livramento, a Pesquisa Pecuária Municipal (IBGE, 2003a) registra dez espécies: bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos, suínos, eqüinos, asininos, muares, codornas e frangos. Entretanto, como mostra a Tabela 8, apenas os rebanhos ovino e bovino têm participação relevante na produção animal neste município. Segundo o INCRA (1987) Santana do Livramento está inserido na zona de pecuária 2, que aceita de 0,8 a 0,46 UA/ha (UA = 450kg). Tabela 8. Efetivo dos rebanhos bovino e ovino durante o período entre 1990 e 1996 e de 2001 a 2003 (IBGE 2003a) e proporção sobre o total de espécies de Santana do Livramento, RS. Rebanho 1990 1996 2001 2002 2003 Bovino 436,879 433,506 550,424 639,794 590,586 Ovino 833,000 564,255 480,000 408,500 351,909 Total bovino/ovino 1269,879 997,761 1030,424 1048,294 942,495 Rebanho total 1369,841 1081,159 1108,815 1126,964 1025,958 % bovino/ovino sobre o rebanho total 93% 92% 93% 93% 92% 4.2.2.2.1 Bovinocultura de corte A criação de bovinos é a principal atividade pecuária em Santana do Livramento. Quanto à condição do produtor, 87,12% do rebanho efetivo de 1996 pertencia a produtores que eram proprietários. Outro elemento importante é que 96,14% dos produtores cria gado de corte. Considerando-se uma família composta por quatro membros, 6.684 pessoas são diretamente dependentes deste produto. Isto sem levar em conta o número de empregados e suas respectivas famílias. (SEBRAE/RS, 1998). 4.2.2.2.2 Bovinocultura leiteira A produção de leite em Santana do Livramento está concentrada em 2.052 produtores que possuem propriedades entre10 e 100 hectares. Essa atividade, porém, não ocorre somente em pequenas propriedades, pois um segundo grupo de produtores de leite ocupa áreas entre 100 e 1.000 hectares. Observa-se assim, que a produção leiteira também se faz presente em médias e grandes propriedades. Corroborando com a vocação deste município para pecuária de corte, observa-se uma produtividade leiteira muito baixa em relação à média do Estado (5,25 litros por vaca ordenhada). Mesmo o melhor estrato em termos de produtividade no município é menor que a produtividade média do Estado. Esses dados explicam a baixa renda per capita obtida pelos produtores de leite desse município e evidencia a necessidade urgente de reestruturar a produção leiteira, tanto no que se refere ao manejo como a genética do rebanho. Isso sem considerar a comercialização (SEBRAE/RS, 1998). A partir dos dados apresentados na Tabela 9, embora bastante generalizados, pode-se inferir que o rebanho ordenhado vem mostrando uma sutil melhora na produtividade, já que o número de 21 animais ordenhados manteve-se bastante estável, enquanto a produção de leite vem aumentando gradualmente. Tabela 9. Número de vacas ordenhadas e produção de leite (mil litros) no município de Santana do Livramento durante os períodos entre 1990 e 1996 e de 2001 – 2003 (IBGE 2003a). Produção leiteira 1990 1996 2001 2002 2003 Vacas ordenhadas (cabeças) 7,733 7,070 7,500 7,600 7,830 Produção de leite (mil litros) 7.987 6.998 9.100 9.200 9.292 Depois da década de 80, em que ocorreram inúmeros assentamentos na região, a atividade leiteira se desenvolveu como forma de viabilizar a pequena propriedade familiar. O leite é recolhido e beneficiado principalmente pela CAMAL, Cooperativa Agropecuária de Aceguá Ltda., hoje incorporada pela COSULATI, cooperativa sul- riograndense de laticínios (INCRA, 2004). 4.2.2.2.3 Ovinos O rebanho de ovinos somente é superado pelo rebanho bovino em Santana do Livramento. Mesmo com o drástico declínio do número de cabeças (Tabela 8) Santana do Livramento possui o maior rebanho ovino do país (IBGE, 2003b). Apesar da produção de ovinos no município ter diminuído, ela reduziu proporcionalmente menos do que a média do Estado, indicando a existência de alguma vantagem para a ovinocultura na região (SEBRAE/RS, 1998). A produção de lã também reduziu, tanto no Estado como no município, como era de se esperar, devido à grande diminuição do rebanho efetivo. Contudo, ocorreu no período uma diminuição na produtividade média do Estado e também do município, neste porém, o decréscimo foi menor (SEBRAE/RS, 1998). 4.2.2.2.4 Produção de mel Apesar de não constar na a lista de espécies consideradas pela Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE, a produção de mel resultante da apicultura no município de Santana do Livramento sofreu um incremento significativo ao longo do período amostrado (Tabela 10). Os períodos apresentados foram escolhidos por representarem a brusca alteração na quantidade de mel produzida no município em questão. Tabela 10. Produção de mel no município de Santana do Livramento entre os anos de 1990 e 2003 (IBGE 2003a). Ano 1990 1995 1996 1999 2000 2003 Produção (kg) 14.662 19.210 60.000 67.800 160.000 280.000 Este incremento na produção de mel é provavelmente devido à EMATER em Bagé oferecer assistência técnica e cursos para interessados em apicultura. Cabe salientar que esta atividade econômica pode ser considerada interessante no tocante ao seu reduzido impacto sobre o ambiente, podendo, talvez, ser implantada como uma alternativa de utilização indireta de áreas de uso restrito (áreas de proteção permanente e de reserva legal). 22 5 DIAGNÓSTICO DA ÁREA DO PROJETO DE ASSENTAMENTO 5.1 Diagnóstico do meio natural 5.1.1 Relevo e solos 5.1.1.1 Relevo O relevo do PA Santo Ângelo foi analisado a partir de dados altimétricos das cartas em escala 1:50.000 da DSG, utilizados para a elaboração de um Modelo Numérico do Terreno (MNT) e cálculo das declividades. A Figura 9 e a Tabela 11 mostram, respectivamente, a distribuição espacial e a superfície ocupada por diferentes faixas altimétricas no imóvel. A Figura 10 e a Tabela 12 mostram, respectivamente, a distribuição espacial e a superfície ocupada por diferentes faixas de declividade. Analisando-se esses dados pode-se observar que o relevo do imóvel correspondente ao PA Santo Ângelo é predominantemente plano e suave ondulado. As altitudes variam aproximadamente entre 140 e 220 metros, dos quais cerca de 28.28% da área encontra-se acima de 180 metros, em locais constituídos de topos de coxilhas. As declividades se distribuem de forma relativamente homogênea no imóvel, com a predominância de inclinações muito suaves. A maior parte da área apresenta inclinações inferiores a 5%, constituindo pendentes bastante suaves que totalizam aproximadamente 50,51% da superfície do imóvel. As áreas com 5 a 10% de declividade ocupam 37,77% do imóvel e as áreas com inclinações superiores a 10%, que constituem áreas de relevo suave ondulado, totalizam apenas cerca de 11,72% da superfície do imóvel. Tabela 11. Área ocupada pelas diferentes faixas de altitude no PA Santo Ângelo. Faixa de altitude (m) Área (ha) Área (%) 140 a 160 m 190,44 39,61 160 a 180 m 154,38 32,11 180 a 200 m 123,94 25,78 200 a 220 m 12,00 2,50 480,76 100,00 Total Tabela 12. Área ocupada pelas diferentes faixas de declividade no PA Santo Ângelo. Faixa de declividade (%) Área (ha) Área (%) 0 a 5% 242,81 50,51 5 a 10% 181,60 37,77 10 a 15% 39,99 8,32 15 a 25% 16,36 3,40 480,76 100,00 Total 23 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Classes de altitude 140 a 160 m 160 a 180 m 180 a 200 m > 200 m 659000 660000 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 500 1000 mMeters N Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 9. Faixas de altitude no PA Santo Ângelo. 24 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Classes de declividade 0 a 5% 5 a 10% 10 a 15% 15 a 25% 659000 660000 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 500 1000 mMeters N Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 10. Faixas de declividade no PA Santo Ângelo. 25 5.1.1.2 Solos No estudo da capacidade de uso das terras do PA Santo Ângelo foi utilizado como base o levantamento semidetalhado dos solos da folha Palomas (1:50.000) o qual é parte integrante do zoneamento vitivinícola para a região na Campanha no Estado do Rio Grande do Sul. O levantamento dos solos foi realizado com o apoio de cartas planialtimétricas do Serviço geográfico do exercito (DSG), mapa geológico do Estado, mapa municipal, fotos aéreas, caderneta de cores, martelo pedológico, lupa e materiais diversos. As áreas objeto do estudo foram percorridas desde a parte mais baixas até as mais altas para identificar e caracterizar a distribuição dos solos na paisagem. Entre as características levantadas estão: classe de solo, textura, declividade, profundidade efetiva, drenagem, erosão, pedregosidade, uso atual, etc. Nesta prospecção tanto os pontos de identificação dos solos para fins de mapeamento quanto os limites das unidades de mapeamento dos solos e dos perfis coletados foram localizados com o uso de equipamento GPS. As analises físicas e químicas nas amostras dos solos coletados foram executadas no laboratório da UFRGS em Porto Alegre, RS. 5.1.1.2.1 Classes de solo no PA Santo Ângelo A Figura 11 e a Tabela 13 mostram, respectivamente, o mapa de solos e a área ocupada pelas diferentes unidades de mapeamento no PA Santo Ângelo. A descrição das unidades é apresentada abaixo: PVd 2 – ARGISSOLO VERMELHO Distrófico abrúptico A moderado textura arenosa/média fase relevo suave ondulado. O solo que compõe esta unidade de mapeamento assemelha-se ao anterior diferenciando-se por apresentar o caráter abrúptico, que mesmo em relevo suave ondulado lhe confere alta susceptibilidade à erosão. PVd 3 – Associação: ARGISSOLO VERMELHO Distrófico abrúptico fase relevo ondulado + ARGISSOLO VERMELHO Distrófico arênico fase relevo suave ondulado ambos A moderado textura arenosa/média Esta unidade de mapeamento é composta por uma associação de solos onde tanto ocorrem solos com caráter abrúptico quanto solos com caráter arênico, dificultando o emprego das técnicas conservacionistas. PVe - ARGISSOLO VERMELHO Eutrófico arênico A moderado textura arenosa/argilosa fase relevo suave ondulado. SGe 2 – PLANOSSOLO HIDROMÓRFICO Eutrófico arênico A moderado textura arenosa/argilosa fase relevo plano. Unidade de mapeamento com as características referentes HIDROMÓRFICOS porém com espessura superficial menor (50 cm). aos PLANOSSOLOS 26 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Classes de solo PV d 2 PV d 3 PV e SG e 2 659000 660000 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 500 1000 mMeters N Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 11. Mapa de solos do Projeto de Assentamento Santo Ângelo. 27 Tabela 13. Superfície ocupada pelas diferentes classes de solo no Projeto de Assentamento Santo Ângelo. No de manchas Classe de solo Área (ha) Área (%) PVd 2 4 112,74 23,45 PVd 3 5 172,51 35,88 PVe 1 5,01 1,04 SGe 2 1 190,50 39,62 480,76 100,00 Total 5.1.1.3 Capacidade de uso das terras: O sistema de capacidade de uso das terras foi desenvolvido pelo Serviço Nacional de Conservação do Solo dos Estados Unidos da América no ano de 1951, segundo Klingebiel & Montgomery (1961). Seu enfoque está relacionado com a conservação dos solos, onde são analisadas as potencialidades dos mesmos, com maior ênfase nas suas limitações. Este sistema é recomendado para áreas que possuem levantamentos pedológicos em nível detalhado ou no máximo semidetalhado considerando ainda que o nível de manejo deve ser de médio a alto. É importante ressaltar que o mapa de capacidade de uso das terras pode ser obtido a partir de um levantamento pedológico semidetalhado ou detalhado ou ainda por meio de um levantamento denominado utilitário. O levantamento utilitário é um inventário de dados essenciais relativos às características e propriedades da terra relevantes para a sua classificação de uso e outras necessárias para o planejamento conservacionista. Estas informações Referem-se a certos atributos do solo, à declividade do terreno, à erosão das terras, a fatores limitantes da terra, ao uso atual da área e ao estágio de desmatamento, entre outras características gerais. As informações referidas são convencionalmente escritas de uma forma numérica e literal sendo representadas por uma fórmula mínima obrigatória. Profundidade efetiva 3 B Classe de declividade Textura Permeabilidade 3/2 - - 1/2 27 Erosão Uso atual pd 2 - di - Lp Fatores limitantes 5.1.1.3.1 Avaliação de capacidade de uso A avaliação da capacidade de uso foi realizada com base no mapa de solos do PA Santo Ângelo, analisando-se as características físico-químicas típicas de cada unidade de mapeamento de solo e classificando-a através das variáveis acima descritas. Também foram incluídas as áreas de preservação permanente (APP), cuja delimitação obedeceu à Resolução CONAMA 289, de 25 28 de outubro de 2001, que trata do licenciamento de projetos de assentamento da reforma agrária. A delimitação das APP baseou-se em levantamentos de campo e na cartografia em escala 1:50.000 existente para a área em análise. Dos critérios definidos na resolução 289, aplicam-se ao PA Santo Ângelo a delimitação de uma área em torno das nascentes (50 m), das faixas ao longo dos cursos d’água (30 m) e em torno dos corpos d’água naturais ou construídos pelo homem (50 m no presente caso). Não ocorrem no imóvel áreas declivosas o suficiente para serem enquadradas como APP. O resultado quantitativo da avaliação da capacidade de uso do PA Santo Ângelo pode ser visto na Figura 12 e no Quadro 1. Quadro 1. Classes, subclasses e unidades de capacidade de uso, suas respectivas áreas e fatores limitantes no PA Santo Ângelo. Unidade de Classe de Área (ha) mapeamento declividade Unidade de capacidade de uso Fator limitante Característica diagnóstico diferencial da unidade de uso PVd 2 B 109,31 IVe-1 Textura abrúptico PVd 3 D 168,91 IVe-2 Declive D abrúptico PVe A 4,87 IIIe Textura arênico SGe 2 A 167,61 IVi-2 Hidromorfismo arênico ------ 30,06 VIII l, app Legislação -------------- APP O mapa apresentado na Figura 12 e os dados do Quadro 1 mostram que as terras da classe IVe ocupam a maior superfície no imóvel, com 278,22 ha (cerca de 57,87%). Nessas áreas as limitações devem-se ao caráter abrúptico dos solos e à declividade, requerendo práticas intensivas de conservação dos solos. As terras da classe de capacidade de uso IVi, próprias para tipos de exploração específicos como a cultura do arroz devido ao risco de inundações e drenagem deficiente no perfil do solo, ocupam 167,61 ha (cerca de 34,86% do total). Entretanto, a grande quantidade de areia na textura destes solos os tornam também suscetíveis à erosão, apesar da baixa declividade. Ocorrem ainda 4,87 ha (cerca de 1,01% do imóvel) de terras de classe IIIe, que apresentam limitações ao cultivo anual em função da textura arenosa. As terras da classe VIII, constituídas por áreas de preservação permanente, ocupam 30,06 ha (aproximadamente 6,25% do total). 29 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Capacidade de uso IIIe IVe-1 IVe-2 IVi-2 VIII 659000 660000 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 500 1000 mMeters N Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 12. Mapa das classes de capacidade de uso das terras do PA Santo Ângelo. 30 5.1.2 Recursos hídricos A rede de drenagem do PA Santo Ângelo é formada por pequenos cursos d’água que fluem predominantemente na direção norte. A Figura 13 mostra a rede de drenagem superficial do PA Santo Ângelo com base nas cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército (DSG), Folha SH.21-Z-D-I-1 (Marco Itaquatiá). Analisando-se a rede de drenagem percebe-se que uma nascente de cursos d’água situa-se dentro do imóvel e duas nascentes praticamente sobre seus limites, sendo que a maioria apresenta comportamento intermitente, ou seja, sofre a influência de períodos de estiagem e freqüentemente fica seca. O estado de conservação da maioria das nascentes é regular, tendo campo nativo úmido como vegetação predominante no seu entorno. Entretanto, o entorno das nascentes é acessível ao gado que eventualmente utiliza a pastagem ali existente. O comportamento dos cursos d’água próximo às nascentes é semelhante a estas, ou seja, é intermitente. Eles passam a assumir um comportamento mais perene a jusante, quando atingem áreas de topografia mais baixa e mais plana. No que se refere ao estado de conservação, a maior parte dos cursos d’água que cruza o imóvel pode ser considerada boa. Quanto à vegetação original do entorno dos cursos d’água, verifica-se uma situação que é típica da região, onde predomina campo e ocorrem formações florestais significativas somente nas baixadas próximo aos cursos d’água maiores. A água utilizada para o consumo humano é retirada de poços e cacimbas, sendo aparentemente de boa qualidade. 31 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 # 6569000 # 6569000 # 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 # # # # # # # 6565000 6565000 # # # # # 657000 658000 Hidrografia 659000 660000 0 Limites Rio Intermitente 661000 Limite dos PA 500 1000 mMeters N Rio Perene # Nascentes Rodovias Estrada municipal sem pavimentação Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 13. Mapa de recursos hídricos no PA Santo Ângelo. 32 5.1.3 Uso do solo O uso do solo foi mapeado em duas épocas distintas a fim de se avaliar as alterações ocorridas com a implantação do PA Santo Ângelo. A metodologia utilizada para produção dos mapas temáticos de uso e cobertura do solo foi a interpretação visual em tela de imagens do satélite Landsat, órbita ponto 223/081. Foram produzidos dois mapas temáticos, um referente ao período anterior à implantação do PA (13/07/1986) e outro relacionado ao uso atual da área (21/11/2003), após a implantação do PA. Além do mapeamento do uso do solo, foi também quantificada a superfície ocupada no imóvel por APP (Áreas de Preservação Permanente) e por ARL (Área de Reserva Legal). As APP foram espacializadas de acordo com a lei federal n.º 4.771, de 15 de setembro de 1965 (Código Florestal) e Lei n.º 7.803 de 18 de julho de 1989 (Altera o Código Florestal), das quais aplicamse ao PA Santo Ângelo os seguintes critérios: • 30 m ao longo dos cursos d’água • 50 m em torno de nascentes • 50 m em torno de corpos d`água naturais e artificiais Quanto à ARL, de acordo com a medida provisória n.º 1956-54 de 21 de setembro de 2000, 20% da área do imóvel deve ser mantida com esse caráter, mas verificou-se a inexistência de uma área delimitada com essa finalidade no PA. A Tabela 14 mostra a superfície ocupada por APP e ARL no PA Santo Ângelo. 33 Tabela 14. Superfície ocupada por áreas APP e ARL no PA Santo Ângelo. Tipo de área protegida Superfície ocupada (ha) Proporção do imóvel (%) APP 30,06 6,25 ARL 0,00 0,00 5.1.3.1 Uso anterior à implantação As classes de uso e cobertura do solo identificadas para o período anterior à implantação do PA Santo Ângelo são mostradas na Figura 14 e a área ocupada pelas diferentes classes é listada nas Tabelas 15 e 16. Tabela 15. Superfície ocupada pelos diferentes usos no PA Santo Ângelo em 13/07/1986. Classe de uso No de manchas Área (ha) Área (%) Agricultura/solo exposto 2 19,38 4,03 Campo seco 4 336,24 69,94 Campo umido 3 117,24 24,39 Mata 2 7,70 1,60 Silvicultura 1 0,20 0,04 480,76 100,00 Total Tabela 16. Superfície ocupada pelos diferentes usos nas APP do PA Santo Ângelo em 13/07/1986. Classe de uso No de manchas Área (ha) Área (%) Campo seco 5 11,77 39,14 Campo umido 6 17,02 56,63 Mata 4 1,27 4,22 30,06 100,00 Total 34 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Categorias de uso do solo Agricultura/solo exposto Campo seco Campo umido Mata 659000 660000 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 500 1000 mMeters N Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene Silvicultura Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 14. Uso anterior à implantação do PA Santo Ângelo. 35 Analisando-se esses dados verifica-se que a maior parte do imóvel antes da implantação do PA era ocupada por campo nativo seco ou úmido, perfazendo aproximadamente 453,48 ha (cerca de 94,33% do total), o que está de acordo com o naturalmente esperado para região. A diferenciação entre estas classes está relacionada à presença de maior umidade no solo como conseqüência da posição topográfica. As formações florestais nativas identificadas para este período foram todas incluídas na classe Mata nativa, correspondendo a matas de galeria. Foram identificadas duas manchas significativas desta classe na área do PA, situadas na porção central do imóvel, junto a cursos d’água. Totalizam uma área pouco expressiva em relação às demais classes de uso e cobertura, ocupando apenas 7,7 ha (cerca de 1,6% do total). A área explorada com agricultura também era pouco significativa, totalizando 19,38 ha (4,03% do total), situados na porção central do imóvel, próximo às áreas de mata nativa. Para o mapeamento da classe agricultura foram consideradas as áreas de solo preparado para o cultivo. No que se refere à situação das áreas de preservação permanente (APP), verifica-se que toda a superfície encontrava-se sob cobertura vegetal nativa de campo úmido, campo seco ou mata nativa. 5.1.3.2 Uso atual As classes de uso e cobertura do solo identificadas para o período atual são mostradas na Figura 15 e a área ocupada pelas diferentes classes é listada nas Tabela 17 e 18. Tabela 17. Superfície ocupada pelos diferentes usos no PA Santo Ângelo em 21/11/2003. Classe de uso No de manchas Agricultura/solo exposto Área (ha) Área (%) 17 70,85 14,74 Campo seco 5 281,22 58,49 Campo umido 4 113,22 23,55 Mata 2 7,70 1,60 Pousio 1 7,34 1,53 Silvicultura 2 0,43 0,09 480,76 100,00 Total Tabela 18. Superfície ocupada pelos diferentes usos nas APP do PA Santo Ângelo em 21/11/2003. Classe de uso No manchas Área (ha) Área (%) Campo seco 5 11,76 39,12 Campo úmido 6 17,03 56,65 Mata 4 1,27 4,22 30,06 100,00 Total 36 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 6570000 6569000 6569000 6568000 6568000 6567000 6567000 6566000 6566000 6565000 6565000 657000 658000 Categorias de uso do solo 659000 Campo seco 661000 0 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação Agricultura/solo exposto 660000 500 1000 mMeters N Hidrografia Campo umido Rio Intermitente Mata Rio Perene Pousio Silvicultura Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente Figura 15. Uso atual no PA Santo Ângelo. 37 Neste período a maior parte da superfície permanece ocupada por campo nativo seco e úmido, respectivamente com 281,22 ha (58,49% do imóvel) e 113,22 ha (23,55% do imóvel), apesar de um decréscimo nos valores de cobertura em relação a 1986. A classe Mata nativa é formada por duas manchas, da mesma forma que para o período anterior, situadas na porção central do imóvel, junto a cursos d’água e ocupando a mesma superfície de 7,70 ha (1,60% do total). Para o mapeamento da classe agricultura foram consideradas as áreas de solo preparado para o cultivo. No período atual a classe agricultura é responsável por aproximadamente 14,74% da superfície total do PA, ocupando 70,85 ha. O número elevado de manchas (17) distribuídas ao longo de todo o imóvel é conseqüência do aumento da exploração produtiva da área, onde cada assentado destina uma parcela de seu lote para o plantio de pastagens ou culturas anuais e/ou perenes. Foi ainda identificada uma classe de pousio, que representa áreas anteriormente preparadas para o plantio e que depois não foram novamente utilizadas, até a data da imagem utilizada para o mapeamento do uso atual. Essas áreas encontram-se em sua maioria cobertas por vegetação campestre nativa em regeneração, com a predominância de espécies pioneiras. As áreas de pousio ocupam 7,34 ha, representando cerca de 1,53% do imóvel. 5.1.3.3 Avaliação das alterações no uso do solo Comparando-se o uso anterior à implantação e o uso atual percebe-se que houve alterações significativas em algumas classes e outras mantiveram-se praticamente inalteradas. A superfície ocupada por mata nativa, por exemplo, manteve-se inalterada, mas convém salientar que a manutenção das áreas de mata não reflete necessariamente o seu estado de conservação pois sua composição florística pode ter sido alterada. A fisionomia dominante da paisagem permaneceu, em 2003, formada por fisionomias campestres, mas com uma significativa redução em comparação com 1986. A área ocupada por campo seco e campo úmido passou de 453,48 ha (94,33% do total) para 394,44 ha (82,04%), uma redução de 13,02%. Em contrapartida a superfície ocupada com agricultura aumentou de 19,38 ha (4,03%) em 1986 para 70,85 ha (14,74%) em 2003, um aumento de 265,58% que se deu sobre áreas de campo. Verifica-se também o surgimento de áreas de pousio, denotando locais alterados que foram anteriormente utilizados com agricultura ou preparados para o plantio de pastagens e encontram-se agora em repouso. Além da substituição de parte da superfície de campo nativo por outras classes relacionadas à atividade produtiva, outra grande modificação da paisagem está ligada à fragmentação das áreas de campo. O número de manchas na classe agricultura aumentou de duas em 1986 para dezessete em 2003, distribuídas por todo o imóvel, transformando uma paisagem constituída de manchas contínuas de campo em 1986 em uma paisagem ainda campestre, porém muito mais fragmentada em 2003. 5.1.4 Vegetação Para a avaliação da vegetação realizou-se uma amostragem de forma expedita, caracterizando qualitativamente a fisionomia e a florística dominantes. As formações campestres, fisionomia naturalmente predominante na região (IBGE, 1986 e 2004), apresentam exploração predominantemente pecuária, com algumas áreas destinadas ao cultivo de pastagens e culturas anuais. O assentamento apresenta uma área expressiva de campo nativo sendo utilizado para a criação de gado leiteiro e de corte. 38 Constatou-se a presença de algumas espécies como Vernonia nudiflora Less. (alecrim-docampo), Paspalum notatum Flüggé (grama-forquilha), Andropogon lateralis Nees, Andropogon selloanus (Hack.) Hack., Aristida jubata (Arechav.) Herter, Melica brasiliana Ard., Setaria parviflora (Poir.) Kerguélen, Desmodium incanum DC., Trachypogon montufari (Kunth) Nees, Dichanthelium sabulorum (Lam.) Gould & C.A. Clark, Baccharis coridifolia DC. (mio-mio), Piptochaetium montevidense (Spreng.) Parodi, Schyzachirium microstachyum (Desv. ex Ham.) Roseng., Aristida laevis (Nees) Kunth, Eryngium horridum Malme, Paspalum nicorae Parodi, Briza subaristata Lam., Briza lamarckiana Nees, Steinchisma hians (Elliott) Nash, Axonopus affinis Chase, Eragrostis bahiensis Schrad. ex Schult., Paspalum ionanthum Chase, Paspalum quadrifarium Lam., Stipa melanosperma J. Presl., Setaria vaginata Spreng., Carex albolutescens Schwein., Baccharis trimera (Less.) DC., Phalaris angusta Nees ex Trin., Briza uniolae (Nees) Nees ex Steud., Briza poaemorpha Henrard, Senecio selloi (Spreng.) DC., Andropogon virgatus Desv. ex Ham, Adesmia latifolia (Spreng.) Vogel (Figura 16). Figura 16. Adesmia latifolia, espécie nativa com alto valor forrageiro. Nas áreas alteradas, Figura 17, (beira de estrada, proximidades de residências, áreas de pousio, etc.) aparecem espécies como Facelis retusa (Lam.) Sch. Bip., Senecio selloi (Spreng.) DC., Solidago chilensis Meyen, Cynodon dactylon (L.) Pers., Paspalum urvillei Steud., Senecio brasiliensis (Spreng.) Less. e Eragrostis plana Nees (capim-annoni), sendo esta última extremamente agressiva sobre o campo nativo. 39 Figura 17. Área cultivada com pastagem de inverno (aveia e azevém). As formações florestais nativas, representadas neste caso por pequenos capões de mata, encontram-se em estágios iniciais e secundários de regeneração. Os dominantes fisionômicos são o salseiro, Salix humboldtiana e o branquilho, Sebastiana serrata. As principais manchas florestais nativas localizam-se em áreas de baixadas com elevados teores de umidade no solo (Figura 18). Entre as espécies vegetais arbóreas encontradas destacam-se as listadas no Quadro 2. 40 A B C D Figura 18. (A) e (B) Aspecto geral da mata ciliar presente no PA Santo Ângelo e (C) e (D) detalhamento do seu interior. Quadro 2. Lista de espécies arbóreas registradas no PA Santo Ângelo. Família Nome científico Nome popular SALICACEAE Salix humboldtiana Salseiro EUPHORBIACEAE Sebastiania serrata Branquilho MYRTACEAE Eugenia rostrifolia Batinga ANACARDIACEAE Schinus molle Aroeira-mole AQUIFOLIACEAE Ilex sp. Caúna LAMIACEAE Vitex megapotamica Tarumã SAPINDACEAE Allophylus edulis Chal-chal LEGUMINOSAE Erythrina crista-galli Corticeira-do-banhado MYRSINACEAE Myrsine sp. Capororoca LEGUMINOSAE Acacia cavens Espinilho 41 5.1.4.1 Considerações sobre a vegetação campestre A área do PA Santo Ângelo apresenta alguns problemas ambientais devido aos impactos sofridos antes e depois do assentamento. O campo nativo desta área é relativamente sensível à exploração intensa, pois o solo tem baixa fertilidade e é estruturalmente frágil. Esta fragilidade do solo dificulta o rápido restabelecimento da vegetação quando o campo sofre perturbações severas. Os principais impactos constatados sobre o campo nativo no assentamento são: o uso das áreas campestres para a agricultura, o pastejo intenso e a invasão pelo capim-annoni (Eragrostis plana). O uso de áreas campestres para a agricultura foi constatado tanto nas áreas altas quanto nas áreas baixas e úmidas. A utilização do campo nativo como pastagem é bastante heterogênea, variando a intensidade do uso de acordo com os critérios do proprietário de cada lote. De modo geral o pastejo é intenso, o que é evidenciado pela pouca oferta de forragem no campo. Os campos apresentam uma boa cobertura do solo por gramíneas rizomatosas prostradas (Figura 19). Estas espécies atuam como elementos fundamentais na conservação do solo impedindo a erosão. É importante salientar que um manejo adequado sobre áreas pastejadas proporciona uma melhora significativa em termos de produção de biomassa no campo nativo e de ressemeadura natural das espécies garantindo uma manutenção do banco de sementes do solo. A B Figura 19. (A) Aspecto geral de um campo nativo com mio-mio e (B) detalhe da cobertura do campo ilustrado na figura ao lado. Durante a visita ao assentamento foi possível observar a presença de Eragrostis plana (capimannoni), principalmente em piquetes próximos às residências e beira de estrada. Estes pequenos focos constatados podem servir de fonte de semente para propagação da praga pelos campos do assentamento principalmente pela da movimentação de veículos e animais pelas estradas do PA. O capim-annoni é uma gramínea perene originada da África e introduzida no Estado na década de 1950. É uma espécie invasora muito severa que ocupa o campo eliminando as espécies nativas. Este comportamento não é comum entre as espécies exóticas encontradas no Estado, visto que a grande maioria delas permanece em áreas ruderais ou ao longo de rodovias, não invadindo áreas nativas. 42 Em campos completamente infestados pelo capim-annoni, as únicas formas de controle da praga são a aplicação de herbicidas e/ou a mobilização do solo com cultivo posterior. O retorno ao estágio natural do campo, com toda a composição florística nativa, é praticamente impossível, pois o capim-annoni produz muitas sementes e estas permanecem viáveis no solo por muitos anos. Somente os brotos jovens do capim-annoni são palatáveis para o gado, pois é uma planta com grandes quantidades de fibra e isto ocasiona sérios prejuízos à dentição dos animais e à produção constituindo-se em sério problema especialmente na criação de gado-leiteiro, diminuindo consideravelmente a vida produtiva das vacas. É importante ressaltar que o capim-annoni ocupa com maior facilidade áreas que foram cultivadas e recentemente abandonadas. Nestas condições em que o solo é movimentado, ocorre a destruição da vegetação original, facilitando a invasão do capim-annoni. Apesar do capimannoni ser espécie invasora de campo nativo, é interessante salientar que essa invasão é muito mais lenta no campo do que em áreas alteradas. Isto facilita seu controle em áreas campestres onde a infestação for pequena, evitando a destruição da vegetação nativa, corroborando a idéia de conservação dos campos naturais. A exploração sustentável das áreas campestres minimiza as perdas na biodiversidade garantindo assim benefícios aos recursos naturais ao mesmo tempo que oferece ao produtor uma boa relação custo x benefício Em suma, o PA Santo Ângelo apresenta predomínio de áreas campestres sob regime de exploração pecuária. O campo, em geral, é utilizado sob condições de pastejo intenso. As condições do solo daquela região são extremamente sensíveis pela elevada suscetibilidade à erosão, sendo a agricultura um dos principais fatores de impacto sobre o ambiente. Neste sentido é importante reduzir ao máximo o revolvimento do solo, daí a relevância da manutenção do campo nativo na área. A longo prazo a invasão dos campos pelo capim-annoni poderá ser o impacto mais sério na área, podendo limitar o principal uso do campo no assentamento que é a pecuária sobre o campo nativo. 5.1.4.2 Considerações sobre a vegetação florestal A vegetação florestal original do bioma Pampa estava naturalmente restrita às áreas próximas aos cursos d´água, encostas dos cerros e áreas de baixadas. Sua área foi lentamente reduzida ao longo do processo de ocupação colonial. A partir da interpretação da imagem Landsat não foi detectada uma redução expressiva da área ocupada por vegetação florestal, no PA Santo Ângelo, desde sua implantação. Porém, deve-se destacar que o levantamento de campo identificou diferentes impactos antrópicos, acentuados após a implantação do assentamento, relacionados a atividades que comprometem não apenas a área coberta por florestas, mas sim a estrutura e a qualidade dos hábitats florestais. Entre estes impactos destacam-se em ordem decrescente de importância: (i) O corte seletivo de árvores madeiráveis e a extração de lenha para consumo doméstico, inclusive de espécies declaradas como imunes ao corte pelo Código Florestal Estadual, provocam impactos consideráveis na cobertura vegetal arbórea e comprometem também a capacidade regenerativa das matas pela retirada de indivíduos com características de matrizes e porta-sementes. (ii) as atividades relacionadas ao pastoreio em APP, geram um grave comprometimento da capacidade regenerativa das florestas pela pressão de pastoreio sobre o sub-bosque, especialmente sobre o banco de plântulas; 43 Os impactos acima listados comprometem drasticamente a manutenção (existência) das formações florestais ao longo do tempo pela redução da sua capacidade regenerativa. A redução ou supressão da cobertura vegetal em áreas de nascentes tem impactos diretos sobre a manutenção qualidade e da quantidade de água fornecida por aquelas. A inexistência de reserva legal (ARL) compromete a manutenção da biodiversidade local na medida em que a cobertura vegetal original, além de fornecer um banco de sementes para a sucessão vegetal em áreas circunvizinhas, proporciona abrigo e alimentação à fauna nativa. 5.1.5 Fauna Para a avaliação da mastofauna, principalmente de médio e grande porte, realizou-se uma amostragem caracterizando qualitativamente a composição desta parcela da fauna, as condições dos hábitats disponíveis para as espécies em questão, assim como os impactos decorrentes da implantação do PA Santo Ângelo sobre a mastofauna da região. A amostragem foi realizada através de um levantamento das espécies de mamíferos, com base em visualizações, vestígios e relatos de moradores. Para isto o assentamento foi percorrido, priorizando-se locais de possível uso ou refúgio por estes animais e as Áreas de Preservação Permanente (APP) (Figuras 18 e 20). As espécies de mamíferos terrestres registradas, com base na metodologia utilizada, para o PA Santo Ângelo estão listadas no Quadro 3. A B Figura 20. (A) Exemplo de local percorrido para a amostragem de fauna, interior da APP, PA Santo Ângelo e (B) Exemplo de registro de Dasypus sp., pela presença de toca, PA Santo Ângelo. 44 Quadro 3. Lista de espécies de mamíferos registradas no PA Santo Ângelo. Família Nome científico Nome popular Tipo de registro Habitat Espécies nativas DIDELPHIDAE Didelphis albiventris Raposa/gambá Relato Generalista DASYPODIDAE Cabassous tatouay Tatu-de-rabomole Relato Campo/ Floresta Dasypus sp Tatu Relato/Toca Campo/ Floresta CANIDAE Cerdocyon thous Graxaim-domato Relato MUSTELIDAE Lontra longicaudis Lontra Relato Floresta de Galeria/ Banhado HYDROCHAERIDAE Hydrochaeris hydrochaeris Capivara Relato MYOCASTORIDAE Myocastor coypus Ratão-dobanhado Visual Floresta de Galeria/ Banhado Floresta de Galeria/ Banhado CTENOMYDAE Ctenomys torquatus Tuco-tuco Toca Campo (seco) Espécies introduzidas CANIDAE Canis familiaris Cachorro doméstico Visual - FELIDAE Felis catus Gato doméstico Visual - SUIDAE Sus scrofa Porco doméstico Visual - BOVIDAE Bos taurus Gado bovino - Visual As espécies nativas de mamíferos presentes no Quadro 3 são, em sua maioria, espécies de ampla distribuição geográfica, generalistas quanto ao uso de hábitats florestais e campestres. São animais de ocorrência comum em áreas onde o uso econômico predominante da terra é a pecuária em campo nativo. A redução do número de espécies, bem como da abundância de registros para o PA Santo Ângelo está associada principalmente: (i) à alteração e fragmentação dos hábitats devido ao uso econômico. Embora haja uma considerável extensão de campo nativo dentro do assentamento, grande parte da área está sujeita à alta pressão de pastejo, com a conseqüente diminuição da oferta de hábitats para as espécies da 45 mastofauna da região. As áreas florestais apresentam estrutura de raleio pela retirada de madeira nativa, que quando associadas à entrada do gado doméstico, resulta numa grande simplificação dos hábitats disponíveis para a fauna de mamíferos (Figuras 18 e 20). (ii) à alta pressão de caça local, evidenciada através dos relatos e pela presença de um grande número de cães domésticos, típicos de caça. Apesar da existência de legislação vigente proibindo esta prática, os relatos dos assentados enfatizam a grande atividade de caça exercida desde a implementação do assentamento Santo Ângelo, e que atualmente há uma redução desta atividade, não relacionada à redução da pressão de caça, mas sim pela diminuição da abundância das espécies caçadas. Este fato corrobora com os dados levantados para o assentamento, de baixa abundância e riqueza de mamíferos. (iii) ao não cumprimento da legislação quanto às áreas de preservação. A inexistência de reserva legal e o uso das APP, tanto das áreas cobertas por fisionomias campestres quanto por florestais, atuam de forma danosa sobre a mastofauna, principalmente com a redução da disponibilidade de hábitats. Além disso, a invasão destas áreas pelas espécies introduzidas presentes no assentamento dificulta o estabelecimento da mastofauna local, principalmente pela descaracterização do hábitat, aumento da predação e competição pelos recursos. Os remanescentes florestais dentro do PA Santo Ângelo, embora pareçam pouco representativos em extensão para espécies com áreas de vida relativamente grandes, como felídeos, canídeos e cervídeos, representam os últimos refúgios para a mastofauna de médio e pequeno porte. Isso ressalta a importância da preservação das APP, sendo necessária a suspensão imediata do uso destas áreas, sejam elas florestais ou campestres, bem como o impedimento do acesso por espécies introduzidas. 5.2 Diagnóstico do meio sócio–econômico e cultural 5.2.1 População e organização social O PA Santo Ângelo foi implantado em 1996 com a instalação de 17 famílias, das quais 16 permanecem atualmente assentadas. A redução de uma família deve-se à condenação de um lote. A exploração da área é realizada de forma individualizada, cada família dedicando-se ao cultivo de seu próprio lote. A maioria dos assentados é oriunda de municípios de Cruz Alta, Rodeio Bonito e Palmeira das Missões. Apenas duas famílias são da região de Santana do Livramento.No início, houve dificuldades de adaptação das famílias que vieram de outras regiões em função das diferenças no que se refere à estrutura fundiária e ao sistema de cultivo. A região da Campanha caracteriza-se por apresentar propriedades médias e de grande porte dedicadas ao cultivo de arroz irrigado e à pecuária extensiva, enquanto a região de origem dos assentados é caracterizada por um sistema fundiário de pequena propriedade onde predomina a agricultura familiar dedicada ao cultivo de grãos. 5.2.2 Infra-estrutura física, social e econômica A infra-estrutura do PA Santo Ângelo pode ser considerada regular. Existe acesso à energia elétrica para praticamente todas as residências, mas não há abastecimento com água encanada, ela é obtida individualmente de poços e cacimbas. As residências são de boa qualidade, de madeira ou alvenaria. A rede viária do imóvel tem boa densidade e boa qualidade, permitindo acesso com veículo a todos os lotes. Quanto a estruturas de uso comunitário, durante os levantamentos de campo para 46 este estudo foi identificado um resfriador comunitário de leite, com capacidade de 500 litro, além de um resfriador individual. 5.2.3 Sistema produtivo A principal matriz produtiva do PA é a criação de gado de corte feita sobre campo nativo e a produção de grãos, principalmente milho e feijão. A produção de leite ainda está em fase inicial,, mas verifica-se o interesse dos assentados em ampliar a atividade. Para subsistência das famílias são também cultivadas pequenas lavouras de batata doce, mandioca, além da criação de pequenos animais como aves e suínos. A produção de grãos é feita com bom nível tecnológico, utilizando insumos como sementes e fertilizantes, além de defensivos, mas o sistema de cultivo é convencional, sem a manutenção da cobertura do solo. Pela fragilidade das terras à erosão, verifica-se a necessidade de adotar melhores práticas conservacionistas urgentemente. A assistência técnica é fornecida pela Cooperativa de Prestação de Serviços Técnicos COOPTEC (antigo LUMIAR). A COOPTEC atende praticamente todos os assentamentos da região, mas a carência de técnicos dificulta o bom atendimento aos assentados. 5.2.4 Saúde As famílias do PA Santo Ângelo geralmente utilizam os postos de saúde e a rede hospitalar existentes em Santana do Livramento, através do SUS, necessitando deslocar-se até a sede do município para buscar atendimento. De acordo com a Secretaria de Saúde de Livramento, as doenças mais comuns entre os assentados são escabioses (sarna e piolho), com ocorrências freqüentes de problemas respiratórios no inverno. Existe também atendimento nas escolas, com vacinação e distribuição de medicamentos mediante receituário médico. O exame pré-natal para as gestantes é feito na cidade. O hospital para atendimento especializado é a Santa Casa. Casos mais complexos são enviados para Uruguaiana, Rosário do Sul (oftalmologia e traumatologia) e Porto Alegre. 5.2.5 Educação As crianças do PA Santo Ângelo freqüentam uma escola de ensino fundamental situada no PA Bom Será, que é vizinho. Essa escola é freqüentada tanto pelas crianças desse PA quanto de outros PA existentes na região. Os alunos que freqüentam o ensino médio precisam deslocar-se até a cidade de Santana do Livramento, necessitando utilizar-se do sistema de transporte escolar provido pelo município. A dependência do transporte causa transtornos em algumas ocasiões, impedindo os alunos de freqüentar regularmente as aulas. Esse problema é mais comum em períodos de a interrupção do repasse de recursos do transporte escolar pelo Estado ao município. 5.2.6 Saneamento O acesso ao saneamento no PA Santo Ângelo ainda é bastante limitado. A água consumida pelas famílias é oriunda de poços e cacimbas e não sofre tratamento, embora seja aparentemente de boa qualidade. No que se refere aos dejetos, a maior parte dos assentados utiliza o sistema de “casinha” e alguns os lançam a céu aberto, sem qualquer tratamento. A falta de água encanada é uma dificuldade adicional para a instalação de banheiros. Os resíduos sólidos orgânicos e inorgânicos (restos de alimentos, garrafas plásticas, latas, vidros, etc.) gerados pelos assentados também carecem de tratamento adequado. A maior parte têm como destino final a queima ou o lançamento à céu aberto, pois a coleta de lixo feita pela prefeitura do município não abrange a zona rural. 47 6 IMPACTOS AMBIENTAIS E MEDIDAS MITIGADORAS Os principais impactos resultantes da implantação do PA Santo Ângelo e as medidas mitigadoras recomendadas estão a seguir relacionados. Como forma de mitigar esses impactos sobre o meio físico e biótico e com o objetivo de adequar as condutas de aproveitamento agropecuário ao Código Florestal Brasileiro e ao Código Florestal do Estado do Rio Grande do Sul, é sugerido um conjunto de recomendações. 6.1 Degradação do solo Em alguns locais do PA Santo Ângelo observa-se terras impróprias para uso com lavouras sendo utilizadas para este fim. Associado a práticas de manejo inadequadas (sistema de cultivo convencional) esse uso contribui para a intensificação dos processos erosivos aos quais o solo já é naturalmente frágil, verificando-se já o surgimento de processos erosivos. 6.1.1 Medidas mitigadoras • Respeitar a capacidade de uso das terras e adotar usos e práticas de manejo recomendadas para cada classe; • Produzir e distribuir mapas e cartilhas para os assentados e para os técnicos de extensão, mostrando a distribuição das classes de aptidão de uso das terras no assentamento e nos lotes, com indicação das práticas de uso e manejo conservacionista das mesmas; • Orientar sobre a fragilidade da estrutura do solo e a manutenção da vegetação original desta região evitando o revolvimento do solo; • Incentivar a implantação de cultivos perenes (fruticultura, por exemplo) e a manutenção da atividade pecuária sobre campo nativo. 6.2 Uso das áreas de preservação permanente (APP) Áreas de preservação permanente são áreas de proteção integral, portanto não devem ser utilizadas para qualquer finalidade. No PA Santo Ângelo verifica-se a utilização da vegetação presente nas APP pelo gado, especialmente próximo às nascentes, ainda que com baixa intensidade. 6.2.1 Medidas mitigadoras • Impedir qualquer forma de uso nas APP, como pastejo, retirada de madeira e lenha, abrigo para o gado, seccionamento por estradas, lançamento de resíduos, etc.; • Impedir o acesso de pessoas e de animais domésticos às APP para permitir a regeneração da vegetação nativa, seja ela florestal ou campestre; • Implantar projetos de recuperação da vegetação nativa em áreas de preservação permanente degradadas ou atualmente utilizadas com lavouras, supervisionada por profissional habilitado. 6.3 Inexistência de ARL A análise do mapa de uso e ocupação do solo e as vistorias realizadas em campo evidenciaram a inexistência de áreas destinadas a Reserva Legal (ARL), que deveria ser de 20% da área de cada lote ou da área total do PA Santo Ângelo. 48 6.3.1 Medidas mitigadoras • Avaliar o passivo ambiental relativo à inexistência de ARL no PA Santo Ângelo com o objetivo de obter-se uma solução conjunta com os demais PA do INCRA contidos neste tipo de formação vegetal; • Definir e implantar área(s) de reserva legal contemplando a fisionomia campestre, natural e predominante na região. Como alternativa para compensar o passivo ambiental relativo à inexistência de ARL, há a possibilidade de adquirir áreas fora do PA em regime de servidão florestal, podendo-se inclusive utilizar uma única área contígua para atender a exigência de ARL de vários PA. Esta alternativa possibilita ao proprietário de um imóvel que não atenda às exigências de reserva legal adquirir, por servidão florestal ou de conservação, área excedente de outro imóvel que passará a cumprir o papel de imóvel serviente em função daquele que será imóvel dominante, ainda que não sejam contíguos. Mediante tal título, o proprietário do imóvel serviente poderá ceder em caráter permanente o direito sobre o excesso do percentual mínimo estabelecido pelo Código Florestal Brasileiro. A servidão ambiental pode ser instituída em favor do próprio poder público, possuindo o potencial de tornar-se uma ferramenta eficiente na proteção de terras públicas e privadas. A sua utilização na implantação, ampliação ou efetivação de unidades do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) pode trazer ganhos significativos à conservação da biodiversidade, na medida em que viabiliza a manutenção da reserva legal de diversas propriedades desconexas em uma única área. Configura-se como uma excelente ação pública para sanar passivos ambientais que normalmente exigem soluções complexas, de difícil fiscalização e custo elevado de implantação. Para ser efetivada, a servidão florestal ou de conservação deverá ser aprovada pelo órgão ambiental competente. A solução do passivo ambiental relativo à inexistência de ARL no PA Santo Ângelo pode utilizar-se desta alternativa. O argumento para tal deve-se à fragilidade do estabelecimento de ARL em um imóvel que é ou será dividido em lotes de tamanho reduzido, gerando, naturalmente, áreas de reserva legal descontínuas no espaço. Esta descontinuidade, associada à dificuldade de fiscalização da manutenção da integridade natural das ARL, descaracteriza o objetivo original do estabelecimento de ARL, a conservação da biodiversidade e manutenção da cobertura vegetal original. Adicionalmente, o tamanho reduzido das propriedades induz o produtor a utilizar as áreas de reserva legal para sua subsistência. A adoção desta medida além de não retirar área ou realocar famílias de assentados, na prática representará um aumento de 20% na área de cada lote, já que permitirá ao assentado utilizar integralmente áreas que originalmente deveriam ter sido delimitadas como ARL. A introdução da servidão ambiental poderá representar um poderoso instrumento para implantar, ampliar ou efetivar Unidades de Conservação. 6.4 Degradação da vegetação nativa O PA Santo Ângelo apresenta boa parte de sua superfície ocupada por campo nativo sob regime de exploração pecuária, geralmente utilizado sob condições de alta pressão de pastejo, causando redução da cobertura do solo e da diversidade de espécies do campo nativo. Além disso, verifica-se a invasão dos campos pelo capim-annoni (Eragrostis plana), que é exótico e a longo prazo poderá tornar-se o impacto mais sério na área. A agressividade dessa espécie aliada ao seu baixo valor forrageiro poderá futuramente limitar a principal atividade no assentamento que é a pecuária sobre o campo nativo. 49 Quanto à vegetação florestal, o corte seletivo de árvores madeiráveis e a extração de lenha para consumo doméstico, inclusive de espécies declaradas como imunes ao corte pelo Código Florestal Estadual, além de reduzirem a densidade comprometem a sua capacidade regenerativa pela retirada de indivíduos com características de matrizes e porta-sementes. 6.4.1 Medidas mitigadoras • Adequar o número de animais à capacidade de suporte de cada lote, buscando garantir a manutenção da qualidade e da capacidade produtiva do campo nativo; • Garantir orientação e acompanhamento técnico aos assentados sobre os problemas acerca da invasão dos campos pelo capim-annoni, bem como formas de manejo e controle; • Promover a implantação de projetos de silvicultura nos lotes, com vistas a uso como abrigo para o gado, fonte energética e fonte de madeira para construção, aliviando a pressão de uso indevido sobre a vegetação nativa em APP ou fora dela; • Evitar o plantio de espécies exóticas, principalmente aquelas mais agressivas em relação às espécies nativas (Pinus sp., por exemplo). 6.5 Redução da abundância e riqueza da mastofauna nativa Os impactos antrópicos já citados acima para a vegetação também afetam negativamente a fauna, principalmente pela alteração e redução dos hábitats. Além disso, a caça, atividade comum entre os assentados desde a implantação do PA, constitui uma das principais causas da redução na abundância e na riqueza das espécies presentes na área. 6.5.1 • Medidas mitigadoras Adicionalmente às medidas já relacionadas anteriormente para a vegetação, a eliminação da caça é uma ação fundamental e urgente para garantir a conservação da mastofauna local. 6.6 Destinação inadequada de resíduos líquidos e sólidos A produção de efluentes e de resíduos sólidos domésticos pelas 26 famílias do PA não possui estrutura de coleta e tratamento adequados, que atendam a todos os assentados. Os resíduos sólidos são na sua maioria depositados a céu aberto ou queimados, inclusive as embalagens de insumos e defensivos. 6.6.1 Medidas mitigadoras • Implantação de projetos para construção de banheiros domésticos, com adequado tratamento dos dejetos; • Implantação de projetos para construção de estruturas apropriadas para o armazenamento e compostagem dos resíduos de origem animal, juntamente com outros resíduos orgânicos produzidos nos lotes, para posterior utilização como adubo; • Garantir orientação técnica e prover infra-estrutura aos assentados para que destinem as embalagens de defensivos de acordo com a legislação em vigor. 50 7 EDUCAÇÃO AMBIENTAL O efeito das medidas mitigadoras dos impactos ambientais somente se tornará permanente se houver conscientização das comunidades envolvidas. Com este objetivo é altamente recomendável o desenvolvimento de um programa de educação ambiental, supervisionado por profissionais capacitados, prevendo: • Cursos de educação ambiental enfatizando os conceitos de desenvolvimento sustentável, a manutenção da qualidade ambiental e ecológica, noções sobre os Códigos Florestais Brasileiro e do Estado do Rio Grande do Sul, com especial destaque para os artigos que versam sobre APP, proteção de nascentes e espécies vegetais imunes ao corte; • Palestras sobre o uso sustentável das áreas campestres, salientando os aspectos de produtividade dos campos daquela região e formas mais adequadas de otimizar a produção sem destruir este recurso natural; • Com o apoio das escolas, das secretarias municipais de educação e de agricultura e agentes de extensão, organizar e motivar os jovens para o desenvolvimento de atividades como produção de mudas nativas e plantio nas áreas de preservação permanente, controle do recolhimento e destino de lixo inorgânico, etc. • Produção de material escrito (cartilhas) sobre legislação ambiental, fauna e flora nativa e sua importância, uso e manejo correto dos solos, seleção, produção e plantio de árvores nativas adaptadas à região, proteção e adequação de fontes d’água, etc. 51 8 BIBILIOGRAFIA Boldrini, I. I. 1997. Campos do Rio Grande do Sul: caracterização fisionômica e problemática ocupacional. Boletim do Instituto de Biociências. 56:1-33 (Série Ecologia) Bodmer, R. E.; Robinson, J. G.2003. Análise de sustentabilidade de caça em florestas tropicais no Peru. In: Cullen, L., Jr., Rudran, R. e Valladares-Padua, C. (orgs). 2003. Métodos de Estudos em Biologia da Conservação e Manejo da Vida Silvestre. Curitiba, Editora UFPR. Cabrera, A.L.; Willink, A. 1980. Biogeografia da América Latina. 2ed. Washington, OEA. 122p. Cuarón, A. D. 2000. A Global Perspective on Habitat Disturbance and Tropical Rainforest Mammals. Conservation Biology, 14(6):1574-1579. Cunha, G. R. 1992. Balanço hídrico climático, in Bergamaschi, H. (coord.). Agrometeorologia aplicada à irrigação. Porto Alegre, Editora da Universidade. p. 63-84. DNPM. 1989. Mapa Geológico do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, DNPM. 1mapa: color. Escala 1:1.000.000. EMBRAPA. 1999. Sistema brasileiro de classificação de solos. 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Atlas sócio-econômico do estado do Rio Grande do Sul. Disponível em: http://www.scp.rs.gov.br/atlas/atlas.asp?menu=467, acessado em 09/05/2005. SEBRAE/RS. 1998. Diagnóstico sócio-econômico do município de Santana do Livramento. Porto Alegre, SEBRAE/RS. 208 p. Streck, E. V.; Kämpf, N.; Dalmolin, R.S.D.; Klamt, E.; Nascimento, P.C.; Schneider, P. 2002. Solos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Editora da Universidade. 107 p. Terborgh, J. 1992 Maitenance of diversity in tropical forests. Biotropica, v. 24, n. 2b, p. 283-292. Walter, H.. 1986. Vegetação e zonas climáticas. São Paulo: EPU. 325 p. 53 Anexo I Fatores limitantes para avaliação de capacidade de uso das terras Fatores limitantes da terra Além dos fatores limitantes com profundidade efetiva, permeabilidade, textura, declividade, hidromorfismo, erosão, produtividade aparente e risco de inundação, o Quadro 4 apresenta vários outros. Quadro 4. Fatores limitantes da terra. Símbolo pd Nome Significado Pedregosidade Pedras e afloramentos Inundação Inundações periódicas ab Abrupto Mudança textural abrúptica va Vértico Argilas expansivas hi Hidromorfismo Saturação com água se Seca prolongada Déficit hídrico acentuado sd Geada ou vento frio Geada, vento e neve di Distrofismo Saturação por bases baixa al Saturação com Al Saturação por Al alta ct Baixa retenção de cátions CTC baixa ti Tiomorfismo Presença de sais de enxofre so Sodificação Saturação com sódio alta sl Salinização Condutividade Elétrica alta ca Carbonato Presença de carbonato i Profundidade efetiva Refere-se à espessura máxima do solo sem impedimento físico para o desenvolvimento radicular. É a camada de solo favorável ao desenvolvimento das raízes e ao armazenamento de umidade, diferente da camada subjacente com impedimentos advindos de propriedades físicas que impedem ou retardam significativamente o desenvolvimento radicular. O Quadro 5 mostra os valores de profundidade efetiva utilizados no sistema de avaliação da capacidade de uso das terras. 54 Quadro 5. Valores de profundidade efetiva. Profundidade Adjetivação Mais de 2,00 metros 1– Muito profundos De 1,00 metro a 2,00 metros 2 – Profundos De 0,50 metro a 1,00 metro 3 – Moderadamente profundos De 0,25 metro a 0,50 metro 4 – Rasos Menos de 0,25 metro 5 – Muito rasos Permeabilidade É a capacidade que o solo apresenta de transmitir água ou ar podendo ser: 1. Rápida: quando o solo é de textura arenosa ou de estrutura forte, pequena, granular e muito friável, apresentando fácil percolação de água como nas classes de solos, NEOSSOLOS QUARTZARÊNICOS e LATOSSOLOS em geral; 2. Moderada: quando o solo é de textura e estrutura compostas de tal forma que proporcionam moderada percolação de água, atingindo geralmente em laboratório níveis de cinco (5) a cento e cinqüenta (150) milímetros de água percolada por hora; 3. Lenta: quando o solo possui características de textura e estrutura tais que tornam a percolação mais difícil . A velocidade de percolação é inferior a cinco (5) milímetros de água percolada por hora nos testes de laboratório. Normalmente ocorre em camadas argilosas ou muito argilosas ou nas de textura média, com argila de atividade alta e/ou alta saturação por sódio. No Quadro 6 são apresentadas as classes de permeabilidade do perfil dos solos estudados. Quadro 6. Classes de permeabilidade do perfil dos solos Permeabilidade da camada Rápida subsuperficial Rápida 1/1 Permeabilidade da camada superficial Moderada Lenta 2/1 3/1 Moderada 1/2 2/2 3/2 Lenta 1/3 2/3 3/3 55 Textura No Quadro 7 são apresentadas as anotações numéricas das combinações da textura das camadas superficiais e subsuperficiais. Quadro 7. Textura dos solos. Textura da Textura da camada superficial camada Muito argilosa Argilosa Média subsuperficial Muito argilosa 1/1 2/1 3/1 Siltosa Arenosa 4/1 5/1 Argilosa 1/2 2/2 3/2 4/2 5/2 Média 1/3 2/3 3/3 4/3 5/3 Siltosa 1/4 2/4 3/4 4/4 5/4 Arenosa 1/5 2/5 3/5 4/5 5/5 Declividade O Quadro 8 mostra os intervalos de declividade utilizados para a avaliação da capacidade de uso. Quadro 8. Intervalos de declividade. Classe Declive (%) A Inferior a 3 B Entre 3 e 8 C Entre 8 e 12 D Entre 12 e 20 E Entre 20 e 45 F Entre 45 e 75 G Superior a 75 Hidromorfismo As ocorrências de hidromorfismo conforme a profundidade do solo são apresentadas no Quadro 9. Quadro 9. Hidromorfismo conforme a profundidade do solo Hidromorfismo Profundidade hi 1 Abaixo de 100 cm da superfície hi 2 Abaixo de 50 cm da superfície hi 3 Abaixo de 25 cm da superfície hi 4 Até a superfície do solo 56 Erosão a) Erosão laminar 1. Ligeira: quando já aparente mas com menos de 25% do solo superficial removido ou quando não for possível identificar a profundidade normal do horizonte A de um solo em estado natural, com mais de 15 centímetros do solo superficial remanescente; 2. Moderada: com 25 a 75% do solo superficial removido ou quando não for possível identificar a profundidade normal do horizonte A de um solo em estado natural, com 5 e 15 centímetros do solo superficial remanescente; 3. Severa: com mais de 75% do solo superficial removido e, possivelmente, com o horizonte B já visível ou quando não for possível identificar a profundidade natural do horizonte A de um solo em estado natural, com menos de cinco (5) centímetros do solo superficial remanescente; 4. Muito severa: com todo o solo superficial já removido e com o horizonte B bastante afetado (erodido), já tendo sido removido, em alguns casos, em proporções entre 25 e 75% da espessura original; 5. Extremamente severa: com o horizonte B, em sua maior parte já removido em razão da utilização agrícola; 6. Símbolo reservado para áreas desbarrancadas ou translocações de blocos de terra. b) Erosão em sulcos Freqüência dos sulcos: 1. ocasionais: área com sulcos distanciados mais de 30 metros; 2. freqüentes: área com sulcos a menos de 30 metros de distância entre si mas ocupando área inferior a 75%; 3. muito freqüentes: área com sulcos a menos de 30 metros de distância entre si mas ocupando área superior a 75%. Profundidade dos sulcos: 1, 2 e 3: representam sulcos superficiais que podem ser cruzados por máquinas agrícolas e se desfazem com o preparo do solo; 1, 2 e 3: representam sulcos rasos que podem ser cruzados por máquinas agrícolas mas não se desfazem com o preparo do solo; 1, 2 e 3: representam sulcos profundos que não podem ser cruzados por máquinas agrícolas e que ainda não atingiram o horizonte C; 1V, 2V e 3V: representam sulcos muito profundos que não podem ser cruzados por máquinas agrícolas e que já atingiram o horizonte C, sendo também denominados de voçorocas. Suas representações estão no Quadro 10 a seguir. 57 Profundidade Freqüência dos sulcos dos sulcos Ocasionais Freqüentes Muito freqüentes Superficiais 1 2 2 Rasos 1 2 3 Profundos 1 2 3 2V 3V Muito profundos ou 1V voçorocas Quadro 10. Profundidade dos sulcos. Produtividade aparente • p1: muito alta – solos aparentemente com ampla reserva de nutrientes e propriedades físicas muito boas, produzindo ótimas colheitas dentro dos melhores padrões e práticas de manejo da região considerada; • p2: alta – solos aparentemente com razoáveis reservas de nutrientes e propriedades físicas boas, produzindo colheitas boas dentro dos melhores padrões e práticas de manejo da região considerada; • p3: média – solos aparentemente com reservas de nutrientes e/ou propriedades físicas razoáveis, produzindo colheitas moderadas dentro dos melhores padrões de manejo mais comuns da região considerada; • p4: baixa – solos aparentemente com problemas de produtividade que só conseguem produzir colheitas consideradas baixas dentro dos melhores padrões de manejo mais comuns da região considerada; • p5: muito baixa – solos com sérios problemas de produtividade, nos quais só se conseguem colheitas muito baixas mesmo usando-se os melhores padrões comuns de manejo da região. Risco de inundação O risco de inundação é avaliado pela freqüência e duração dos eventos, conforme segue: a) Freqüência: Ocasionais: com mais de cinco anos de recorrência provável; Freqüentes: com recorrência provável entre um e cinco anos; Muito freqüentes ou anuais: ocorrendo sistematicamente todo ano, repetindo-se uma ou mais vezes nas várias estações do ano. b) Duração: Curtas: durando menos de dois dias; Médias: durando entre dois dias e um mês; Longas: durando mais de um mês. 58 O Quadro 11 mostra a interação da freqüência e da duração das inundações. Freqüência das inundações Duração das inundações Ocasionais Freqüentes Curtas I1 I4 Anuais ou muito freqüentes I7 Médias I2 I5 I8 Longas I3 I6 I9 Quadro 11. interação da freqüência e duração das inundações Pedregosidade A ocorrência de pedregosidade é avaliada conforme a quantidade de pedras ou matacões e pela presença dos substrato rochoso, conforme abaixo: • pd1: poucas pedras • pd2: pedras abundantes • pd3: pedras extremamente abundantes • pd4: poucos matacões • pd5: matacões abundantes • pd6: matacões extremamente abundantes • pd7: afloramentos rochosos • pd8: muitos afloramentos rochosos • pd9: grande quantidade de afloramentos rochosos Salinidade A salinidade e a sodificação interferem no desenvolvimento do sistemma radicular e são avaliados como segue: Salinidade sl1: ligeira sl2: moderada sl3: forte Sodificação so1: moderada so2: forte so3: muito forte 59 O nível tecnológico indica o grau de desenvolvimento da tecnologia agrícola adotada ou “nível de manejo” da terra, podendo ser: • N: tecnologia de nível nulo • B: tecnologia de nível baixo • M: tecnologia de nível médio • E: tecnologia de nível elevado • V: investimentos vultuosos porém, mal-aplicados. Uso atual O uso atual é a caracterização do uso atual da terra, dando indicações sobre a tradição e a experiência dos agricultores e sugerindo possíveis manejos futuros. Os tipos de uso atual da terra podem ser: F – floresta S – cerrado T – caatinga C – campo nativo O – complexo vegetacional Pn – pastagem nativa Pm – pastagem melhorada Pc – pastagem cultivada Px – capineira Lp – lavoura perene Lt – lavoura temporária La – lavoura anual E – terreno estéril P – pastagens L – lavoura H – horticultura V – silvicultura Hf – fruticultura Ho – olericultura ou floricultura Va – araucária Vd – essências exóticas Vn – essências nativas Vp – pinus Vê – eucalipto 60 6570000 657000 658000 659000 660000 661000 6570000 Anexo II Capacidade de uso do solo Legenda Capacidade de uso IIIe 6569000 6569000 IVe-1 IVe-2 IVi-2 VIII Rodovias Estrada municipal sem pavimentação 6568000 6568000 Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene 0 500 1000 mMeters N 6567000 6567000 Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente 6566000 6566000 Projeto: Apoio ao licenciamento ambiental de projetos de assentamento 6565000 6565000 657000 658000 659000 660000 661000 Título: Mapa de capacidade de uso das terras do PA Santo Ângelo, Santana do Livramento - RS Escala: 1:20.000 Porto Alegre, abril de 2006 659000 660000 661000 662000 Anexo III 6574000 6574000 Uso do solo em 21/11/2003 Legenda Categorias de uso do solo Agricultura/solo exposto Campo seco Campo umido Mata Pousio Silvicultura 6573000 6573000 Rodovias Estrada municipal sem pavimentação Hidrografia Rio Intermitente Rio Perene 0 500 1000 mMeters N 6572000 6572000 Base cartográfica: Cartas em escala 1:50.000 da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Sistema de coordenadas UTM Datum SAD 69 Origem das coordenadas: 57° W e Equador, acrescidas das constantes 500.000 e 10.000.000 respectivamente 6571000 6571000 Projeto: Apoio ao licenciamento ambiental de projetos de assentamento Título: Mapa de uso atual do PA Santo Ângelo, Santana do Livramento - RS, com base em interpretação de imagem Landsat 5 de 21/11/2003 659000 660000 661000 662000 Escala: 1:20.000 Porto Alegre, abril de 2006