O uso de marcadores conversacionais e a compreensão textual no programa MSN Messenger: um estudo etnográfico com duas adolescentes Janaina Fernanda Dias da Silva1 (UFPE) Sandra Patrícia Ataíde Ferreira2 (UFPE) Resumo: Objetivou-se (i) verificar como os marcadores conversacionais favorecem a compreensão textual no MSN entre duas usuárias adolescentes; (ii) Identificar os marcadores mais utilizados por elas; (iii) Compreender de que maneira os marcadores conversacionais possibilitam a coerência do texto produzido no MSN; (iv) Analisar qual a intencionalidade do uso dos emoticons e onomatopéias. Participaram duas adolescentes usuárias do MSN. Foi realizada observação da conversação das adolescentes e uma entrevista on line individual com as participantes. Como principal resultado, verifica-se que os marcadores conversacionais dão coerência ao texto e possibilitam a compreensão dos interlocutores. Palavras-chave: MSN, marcadores conversacionais, adolescentes. Abstract: This study aimed to (i) to verify how the conversational markers favor the reading comprehension between two users on MSN adolescents; (ii) identify the most markers used by them (iii) Understand how the conversational markers enable the consistency of the text produced on MSN; (iv) review which the intentionality of the use of emoticons and onomatopoeia. Two adolescents participated in users of MSN. Was realized one observation by the conversation of teenagers online and interview with the individual participants. The main result, it appears that the conversational markers give coherence to the text and enable the understanding of the interlocutors. Palavras-chave: MSN, conversational markers, adolescents. Introdução A comunicação sempre esteve presente na humanidade e, nos últimos anos, com o desenvolvimento da tecnologia, tem surgido diferentes formas de se comunicar. Atualmente, pode-se afirmar que a internet possui os mais novos modos de interação humana, nascendo, a partir disso, a comunicação mediada por computador (CMC), que é um tipo de interação interpessoal através deste recurso ligado à internet (OLIVEIRA, 2007). Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -1- A interação estabelecida pela internet faz surgir novas configurações de texto que se materializam através do gênero digital, que se apresenta de diversas formas como, e-mail, blogs, bate-papos (chats), entrevista com convidado, aula chat, vídeo conferência interativa, entre outros (MARCUSCHI, 2005), os quais são produzidos a partir de um contexto social e histórico. Em geral, são escritos, assíncronos e derivados de gêneros já existentes. Diante de diversos gêneros digitais existentes, o presente estudo tem como foco, o bate papo (chats), o qual “apresenta uma estreita relação entre fala e escrita [...] em que estratégias conversacionais próprias da fala são utilizadas no momento de interação eletrônica [...]” (MODESTO, 2007. p.1), dispondo para isto, de diversos mecanismos para romper a ausência da interação face a face, como os emoticons, onomatopéias, sons etc. Usando o programa MSN Messenger, buscou-se compreender como os marcadores conversacionais favorecem a compreensão textual de duas usuárias adolescentes, concebendo-se que esta conversação produz um discurso eletrônico através do texto materializado a partir desse gênero digital (MARCUSCHI, 2008), que é possuidor de peculiaridades que precisam se investigadas. Através da metodologia etnográfica que visa pesquisar hábitos e costumes de uma determinada cultura, propomo-nos a responder as seguintes questões: (1) como os marcadores conversacionais favorecem a compreensão textual no MSN? (2) quais os marcadores iconográficos e onomatopaicos mais utilizados pelos usuários adolescentes? (3) como os marcadores conversacionais possibilitam a coerência do texto? (4) com qual intenção os usuários utilizam esses marcadores? Tem-se então como objetivo geral: Verificar como os marcadores conversacionais favorecem a compreensão textual no MSN Messenger e como objetivos específicos: (i) identificar quais os marcadores são mais utilizados pelas usuárias; (ii) Compreender de que maneira os marcadores conversacionais possibilitam a coerência do texto e (iii) Analisar qual a intencionalidade do uso dos emoticons e onomatopéias. Para isto, utilizaremos a perspectiva de texto que o considera como “[...] resultado de uma Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -2- ação lingüística cujas fronteiras são em geral definidas por seus vínculos com o mundo no qual ele surge e funciona [...]” (MARCUSCHI, 2008. p. 72) e que para compreendê-lo em uso é necessário entender o seu contexto, “é no uso efetivo da língua e de modo especial no texto em sua relação com seu leitor ou ouvinte que o sentido se constitui”. (p. 234) O interesse pelo tema surgiu a partir da discussão do livro “Produção textual, análise de gêneros e compreensão”, de Marcuschi (2008), realizada como atividade do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Linguagem, Leitura e Letramento (GEPELLL), no qual o autor ressalta a importância de pesquisas sobre a compreensão de texto dentro dos gêneros digitais. No entanto, o interesse pelo o MSN, em especial, surge pelo fato da pesquisadora utilizá-lo há alguns anos, possuindo bastante familiaridade com este tipo de bate papo e por este ser um dos mais utilizados no Brasil, atualmente, como se pode observar nos sites de downloads. Além disso, após realização da pesquisa bibliográfica em âmbito nacional, não foram encontrados trabalhos que exploram como o texto é compreendido dentro dos bate papos, em especial, do MSN Messenger, como é o objetivo da presente investigação. No entanto, foram encontrados estudos relevantes relacionados a este tema. Por exemplo, a pesquisa que investiga a estrutura conversacional do MSN, em que o autor descreve e analisa a interação decorrente desse ambiente com jovens paulistas universitários, percebendo a partir disso que esta conversação aproxima-se mais da interação face a face do que da escrita propriamente dita, além de outras conclusões (MODESTO, 2007). O estudo sobre a descoberta do espaço de produção de linguagem no discurso produzido em sala de bata papo da internet, com corpus extraído de gravações do mIRC, em Juiz de Fora, que aponta o chat como um espaço de produção de linguagem que brevemente alcançará o espaço de produção do ensino (BERNARDES; VIEIRA, 2001). E ainda a pesquisa sobre o uso dos marcadores verbais para representar aspectos não-verbais em salas de bate papo abertas e como estes contribuem para a interação no diálogo, chegando- Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -3- se, além de outras conclusões, que estes marcadores são o esforço cognitivo de trazer o corpo para a conversação (OLIVEIRA, 2007). Com isso, acredita-se poder contribuir para uma melhor compreensão do texto produzido digitalmente e revelar a importância dos marcadores conversacionais para o processo inferencial dos interlocutores dentro desse ambiente, pois é de grande importância uma observação etnográfica da internet para entender os hábitos sociais e lingüísticos utilizados (MARCUSCHI, 2005), além de fazer com que os professores compreendam a importância do ensino da estrutura de gêneros mais recentes, pois atualmente temos uma enorme variedade de gêneros orais e escritos, possibilitando novas formas para se comunicar. Marco Teórico Linguagem, texto e leitura A linguagem permite que o ser humano se comunique de diversas formas, demonstrando e compartilhando sentimentos, emoções e experiências, além disso, conforme a necessidade de comunicação surgem novas ou expandem-se antigas formas de linguagem de forma que a interação ocorra da melhor forma possível, pois os indivíduos e as sociedades estão em constante mudança, tendo a linguagem que adaptar-se às necessidades pessoais e sociais dos usuários. (GOODMAN, 1997) Através da linguagem, os indivíduos agem e se apropriam do mundo e, muitas vezes, essa realização se dá pela interação com textos, no entanto, o entendimento de como se dá essa interação muda a partir da concepção que se tenha sobre linguagem e, consequentemente, sobre sujeito e leitura. Há uma concepção que considera o texto como representação, produto do pensamento do sujeito, sendo este considerado como único responsável pelo sentido do texto e totalmente consciente de suas vontades e palavras. O contexto, nesta concepção, não possui nenhuma relação com o que o sujeito produz ou ler, Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -4- cabendo, por exemplo, ao leitor interpretar descobrindo qual a intenção do autor, exercendo um papel totalmente passivo na compreensão do texto. Tem-se, ainda, a concepção de que o texto é o resultado da codificação do emissor, de acordo com essa concepção, o leitor deve decodificar a mensagem, pois através disso, o sentido do texto poderá ser explicitado; o sujeito é visto como um repetidor de mensagens, inconsciente do sentido que produz e do que diz, sendo totalmente assujeitado a ações externas, possuindo assim como na concepção anterior, uma função passiva. (KOCH, 2006) Já na concepção de texto como um lugar de interação entre interlocutores, estes são construídos e se constroem na/pela interação, estabelecendo-se assim uma relação dialógica entre autor/texto/leitor, cabendo dentro do texto um espaço de implícitos que podem variar a partir do contexto que cada leitor está inserido. Em relação ao sentido, pensa-se que este não está nem no texto, nem no autor, nem no leitor, mas é construído através da relação entre eles. O sujeito nesta concepção é social, histórico e ideológico, sendo constituído através de sua relação com o outro, passando a ter um papel ativo na construção e compreensão do sentido do texto, além disso, dentro dessa perspectiva, a leitura é um ato social entre autor e leitor que interagem através do texto, sendo os conhecimentos de mundo, textual e linguístico necessários para reconstruir o sentido do texto (CASTRO, 2007). Assim, por se acreditar na relação dialógica existente na leitura de qualquer texto, esta última concepção será a norteadora da presente investigação. Marcadores conversacionais e compreensão textual Os marcadores conversacionais “são articuladores que ajudam a dar coesão e coerência ao texto falado, dentro do contexto conversacional” (URBANO, 1993 apud MODESTO, 2007), sendo estes parte da função interacional na conversação, podendo ser de tipo linguístico e não linguístico. Nos linguísticos, existem os verbais lexicalizados (como sabe? Eu acho que, tá, ok etc.), os não lexicalizados Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -5- (ahn, eh, etc), os prosódicos (pausas, alongamentos, hesitações, etc) e os não lingüísticos (gestos, olhares, risos etc). Como ajudam na compreensão entre os interlocutores, estes marcadores também fazem parte da conversação digital. Assim, os verbais lexicalizados são representados na mesma forma que na interação face a face, só que se utilizando da escrita, já os prosódicos e não lingüísticos são representados através de reticências, onomatopéias ou emoticons (expressões que representam emoções e atitudes humanas) (MODESTO, 2007). No caso da presente pesquisa, a investigação se dará a partir da análise dos emoticons e onomatopéias, pois na pesquisa realiza por Modesto (2007), o mesmo verificou que houve um maior uso desses marcadores na conversação em sala de bate papo aberta. Acredita-se, então, que esses são os marcadores mais utilizados nos bate papos fechados, como é o caso do MSN Messenger, buscando, a partir disso, verificar como estes marcadores favorecem a compreensão desse texto entre os interlocutores. Considerando a compreensão textual a partir de Marcuschi (2008), que considera que “compreender o outro é uma aventura, e nesse terreno não há garantias absolutas ou completas”, percebe-se que é necessário entender melhor como ocorre a compreensão textual do gênero digital bate papo, pois esta é uma atividade bastante complexa, visto que não é algo genético, nem que se consiga de forma natural, individual ou isolada da sociedade em que se vive, mas que exige do leitor habilidade, interação e trabalho. (p. 228) Compreender um texto não é apenas uma ação cognitiva ou lingüística, mas está inteiramente relacionada com a interação e inserção do indivíduo no mundo, dentro de uma dada sociedade. Ademais, pode-se afirmar que existem más e boas compreensões de um texto, porém uma boa compreensão exige uma atividade cognitiva trabalhosa. (MARCUSCHI, 2008) Além disso, esta atividade é importante não somente para a escola ou para o ensino como um todo, mas ela se faz necessária para compreendermos o outro, como também os textos que temos acesso no nosso dia a dia. A compreensão se dá através das relações humanas mediadas pelo texto, já que não se compreende Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -6- apenas extraindo informações deste, mas por meio de uma construção de sentidos, pois “o texto sempre monitora o seu leitor para além de si próprio” (MARCUSCHI, 2008, p, 233), logo é preciso sair do texto para compreendê-lo, sendo este um dos aspectos fundamentais para a produção de sentidos. Visto que os marcadores conversacionais ajudam a dar coerência a conversação, percebe-se a importância desta para que os interlocutores compreendam-se. A coerência não está no texto, mas são os leitores, no processo de interação entre autor e texto, baseados nas pistas dadas e nos conhecimentos linguísticos, enciclopédicos, textuais e interacionais adquiridos que ela é construída (KOCH; ELIAS, 2009). Ela é “um princípio da interpretação do discurso” e das ações humanas de um modo geral (CHAROLLES, 1983 apud MARCUSCHI, 2008 p. 120), permitindo que os sentidos sejam construídos pelo leitor e que assim ele possa compreender o texto. “É importante frisar que a coerência é um aspecto fundante da textualidade e não resultante dela” (MARCUSCHI, 2008. p.122), portanto sem coerência não há texto, muito menos a possibilidade de compreendêlo. Através disso, pode-se observar a gama de processos envolvidos na conversação e, no caso da presente pesquisa, em bate papos. Não se trata de um acontecimento simples, mas há uma complexidade que precisa ser analisada e que serve de grande interesse para a escola, já que esta deveria propor-se a preparar os seus alunos a intervir, participando ativamente do mundo no qual estão inseridos. Por isso, é importante atentar para as diversas atividades comunicativas que eles vivenciam e como estas atividades podem vir a contribuir para uma melhor interação dos alunos com o mundo. Procedimentos Metodológicos A presente pesquisa é de origem qualitativa, sendo caracterizada como etnográfica. Segundo André (2008), a etnografia é um conjunto de técnicas que os Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -7- antropólogos utilizam para coletar dados sobre os valores, os hábitos, as crenças, as práticas e os comportamentos de um grupo social. Como a pesquisa se deu dentro de um ambiente virtual, fez-se necessário utilizar uma técnica específica para tal, a etnografia virtual que, segundo Mason (2001 apud OLIVEIRA, 2007, p.52) é um “trabalho de pesquisa que requer imersão completa do pesquisador” dentro da realidade vivenciada pelas pessoas que utilizam a comunicação mediada por computador como o principal e geralmente único meio de comunicação. Para que isto possa ocorrer de forma favorável é necessário que o pesquisador utilize instrumentos de análise de texto para descrever e analisar o objeto investigado (OLIVEIRA, 2007). A observação do pesquisador nesse tipo de pesquisa poderá ser realizada de duas maneiras: observação participante ativa e a observação participante passiva (SCHAWARTZ; SCHAWARTZ, 1969 apud OLIVEIRA 2007). Neste estudo, utilizou-se a forma passiva, pois esta permite a observação e o envolvimento mínimo entre observador e participante, sendo tal escolha fundamentada na idéia de que um menor envolvimento do pesquisador poderia possibilitar uma maior interação entre os usuários do comunicador. A partir disso, o presente estudo analisou uma conversação com duas adolescentes, ambas com 17 anos que utilizavam o comunicador instantâneo MSN Messenger e através disso, identificou quais os marcadores conversacionais foram mais utilizados por elas; como estes marcadores possibilitam a coerência, além de verificar qual a intencionalidade desse uso. O interesse pelos adolescentes, dentro desse ambiente, surgiu após analisar um estudo realizado por Bernardes e Vieira (2000) que verificaram um grande número de internautas adolescentes que utilizavam as salas de bate papo do mIRC, que é um canal de médio porte utilizado apenas pela região sudeste brasileira. Assim, acredita-se, por hipótese, que os adolescentes são os que mais utilizam o MSN Messenger, por isso a escolha por essa faixa etária. Para a realização da coleta de dados, a pesquisadora utilizou os seus contatos pessoais do MSN Messenger e a partir desses entrou em contato com outros Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -8- adolescentes que aceitaram participar da pesquisa. A participação do pesquisador deu-se de forma passiva, estando dentro da conversação, mas apenas observando, sem intervir durante a interação entre as usuárias. Para obter a conversação e as entrevistas on line utilizou-se de um recurso do próprio MSN Messenger, o Messenger plus, o qual possibilita a gravação de toda a conversação, inclusive dos emoticons Análise dos Dados O corpus utilizado neste trabalho foi constituído de uma conversação digital entre duas adolescentes no MSN, em trio, composta pelas adolescentes Lavínia1 e Sara e pela pesquisadora, que participou de forma passiva, além da entrevista on line. As usuárias são brasileiras, pernambucanas e frequentadoras assíduas do comunicador MSN. A conversa analisada ocorreu no dia 04 de agosto de 2010, com duração de 40 minutos. Esta foi observada a partir da etnografia virtual, analisando-a conforme a análise da conversação (MARCUSCHI, 2003), que analisa os processos cooperativos existentes na atividade conversacional, voltando-se muito mais para a interpretação do que para a organização da conversa. Primeiramente, foram analisados das conversações os marcadores mais utilizados pelas usuárias; após isso, buscou-se compreender como os marcadores conversacionais favorecem a coerência do texto, verificando através do contexto se os marcadores estão coerentes ou não com o tópico discursivo (aquilo acerca do que se está falando), além de verificar qual a intenção desses usos. Em geral, percebeu-se que a conversação teve mais usos de onomatopéias do que de emoticons e que esses usos estão relacionados ao sentido daquilo que o digitador/falante faria se estivesse conversando face a face. Em geral, percebeu-se que as contribuições dadas pelas usuárias foram curtas, sendo este um dos aspectos encontrados na maioria dos bate-papos (MARCUSCHI, 2005), podendo essa característica ser atribuída ao fato do contexto de produção da conversa não se 1 Os nomes são fictícios para preservar a identidade das participantes. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -9- realizar de forma presencial(MODESTO, 2007), além do fato de que as trocas discursivas necessitarem ser rápidas, para que o texto se aproxime do discurso oral (OLIVEIRA, 2007). Marcadores mais utilizados Ao analisar a conversação, foi encontrada uma maior utilização dos marcadores não linguísticos (paralinguístico) que são aqueles que indicam risos, olhar, gestos etc. Estes são importantes para a conversação, pois servem para manter e estabelecer o contato com o interlocutor (MARCUSCHI, 2003). A seguir são apresentados exemplos da utilização desses marcadores. No primeiro trecho2 da conversa apresentada, Sara está “falando” sobre o fato das pessoas não saberem se comportar num show que aconteceria na cidade de Recife, já no segundo trecho, Lavínia acha engraçado Sara dizer que conheceu seu atual namorado pela internet. (17:40) Sara :*: (17:43) Lavínia: ia galera sabe brincar não qe logo se estranhar Kkkkk m s tu c nhc u l nd m O segundo mais usado pelas usuárias foi o marcador verbal não lexicalizado que é de grande ocorrência e recorrência e são utilizados geralmente para monitorar o falante/digitador. Essa utilização pode ser observada nos seguintes trechos: 2 Os trechos são um recorte das conversações. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 10 - 3 Hum qu b m p l m n s tu squ c u v n c us n (17:45) Lavínia: (17:50) Sara :*: mg foi a galera min prendeu aki pow Os prosódicos e os verbais lexicalizados foram os menos utilizados pelas usuárias. Os primeiros “são freqüentes em final de unidade comunicativas e geralmente coocorrem com outros marcadores”. (MARCUSCHI, 2003), já os segundos, são geralmente esvaziados de conteúdo semântico original, mas são utilizados como estratégia para testar o grau de participação e atenção do interlocutor (URBANO, 1999), assim como ocorre com os verbais não lexicalizados. Abaixo, seguem alguns exemplos da utilização desses dois marcadores: Prosódicos: (17:38) Sara: O cl ud nh (17:38) Sara: ... w m g j s b s tu v pr s rr s m r t Verbais lexicalizados: (17:40) Lavínia :*: (17:46) Lavínia :*: tbm vou ver tem aquestão do meu namorado tbm né mulher sabe porqe né ? em fim não vamos comentar sobre ele . No geral, foi registrado na conversação analisada um total de 24 marcadores não linguísticos, 3 prosódicos, 4 verbais lexicalizados e 11 verbais não 3 Os marcadores utilizados como exemplos serão destacados ao longo da análise. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 11 - lexicalizados. Percebe-se que há um uso freqüente de marcadores conversacionais, visto a importância deles para administrar o turno conversacional, além de negociar o tema e seu desenvolvimento. (CASTILHO, 1989 apud URBANO, 1999). Dentre os marcadores não linguísticos mais utilizados pelas interlocutores, tem-se o uso mais frequente do emoticon , que no MSN tem o sentido de confuso, mas que cada falante/digitador pode atribuir um sentido que achar mais adequado para cada situação. O emoticon “pode produzir significados que são estabelecidos no contexto das relações estabelecidas durante a conversação” (MODESTO, 2007), uma vez que o sentido do texto é construído na relação entre os interlocutores. No primeiro turno (17:41), Lavínia está falando sobre ter que falar com o namorado para poder sair, já no segundo (17:50) é sobre não ter atendido o convite da amiga em ir para a casa dela. (17:41) Lavínia :*: (17:50) Lavínia:*: se não minha conciencia vai ficar pesada foi a galera min prendeu aki pow Nestes momentos Lavínia usa o emoticon com outro sentido que não é atribuído no comunicador, pois ela o utiliza para expressar sua face, o modo que certamente faria ao ficar com a consciência pesada ou no momento que vai responder à amiga o porquê não pode ir para sua casa. Outro emoticon que aparece algumas vezes é este: . Ele foi criado pelos usuários do MSN, pois estes tem a liberdade de não somente usarem os que já existem no comunicador, mas também podem criar seus próprios emoticons que vão sendo repassados durante as conversações. Este emoticon é utilizado, em geral, para indicar que o falante/digitador está sorrindo, além de ser utilizado Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 12 - também o KKKKK, uma onomatopéia que indica também o mesmo sentido. No caso de Lavínia, ela prefere usar o emoticon, já Sara prefere utilizar a onomatopéia, mas ambas atribuem o mesmo sentido. Durante a entrevista com a pesquisadora, Lavínia declarou que usa os emoticons para que o seu amigo tenha uma ideia de como ela está naquele momento, qual seria sua expressão se esteve face a face com o seu interlocutor; já Sara diz que usa para “adicionar”, para dar um sentido a mais que vai além das palavras. A seguir, trecho onde as adolescentes utilizam os maracdores não linguisticos citados acima, nele elas conversam sobre o início do namoro de Lavínia: (17:43) Lavínia :*: comoçei ontem pela net (17:43) Sara: kkkkk m s tu c nhc u l (17:44) Lavínia :*: nd m em gaibu ^^ Os recursos não verbais como o olhar, o riso, a gesticulação, etc tem papel fundamental na interação face a face (MARCUSCHI, 2007), bem como na interação digital. Pode-se afirmar através de Oliveira (2007), que os usos dos recursos não verbais são muitas vezes um esforço de trazer o corpo para dentro da conversação digital, já que este é fundamental para o processo de interação humana. Percebese que tanto Lavínia como Sara esforçam-se para superar a ausência de estarem face a face, mas mesmo diante dessa ausência, ambas produzem uma conversação coerente. A coerência do texto na conversação Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 13 - A coerência é estabelecida através da interação entre autor e texto e, no caso da conversação digital, essa coerência não é estabelecida de forma diferente, ela é construída através da interação entre os interlocutores, permitindo que estes se compreendam ao longo do texto. Observe-se este trecho da conversação: (17:38) Sara: O cl ud nh (17:38) Sara: ... w m g j s b s tu v pr s rr s m r t (17:39) Lavínia :*: acho qe sim amr vai dar muita geente (17:40) Lavínia :*: ia galera sabe brincar não qe logo se estranhar Nesse tópico, em que acontece o início da conversação, Sara começa a conversa com um marcador prosódico ligado à entonação da voz, ela repete a última letra para indicar possivelmente uma voz mais alta, como verificado também por Modesto (2007), que pode estar ligado ao prazer de estar iniciando uma conversa com sua amiga, após isso ela utiliza outro marcador de pausa (...) para planejar sua pergunta (MARCUSCHI, 2003, P. 64). Em seguida, percebe-se que Lavínia começa seu tópico respondendo a pergunta de sua interlocutora, demonstrando compreensão do tópico anterior, não havendo por parte de Lavínia nenhuma pergunta ou questionamento da “fala” anterior. Essa coerência se dá a partir do contexto da conversa e dos conhecimentos de mundo que ambas possuem a respeito de como se procede uma conversação, além de outros conhecimentos como o linguístico, textual e interacional. Podendo-se, então, concluir que houve Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 14 - coerência em relação aos marcadores utilizados pelas usuárias. Essa coerência se deu não somente neste momento da conversação, mas ao longo de toda a conversa. A intencionalidade do uso dos marcadores conversacionais Com relação à intencionalidade dos usos dos marcadores, Sara através da entrevista declarou que os utiliza por achar alguns engraçados e pelo fato dos seus interlocutores também se utilizarem deste recurso, o que demonstra que o sujeito é constituído através de sua relação com outro, favorecendo, assim, uma relação dialógica. Segue o trecho da entrevista: (18:34) JANA : com qual intenção vc usa os emoticons (18:34) JANA : ou onomatopeias como kk ou rsrs ? u ch sup r ngr ç d s lguns qu s mpr p ss l g st tbm (18:36) Sara: (18:36) JANA : Sei t pr rr (18:36) Sara: dc nr Já Lavínia diz que utiliza para demonstrar como ela estaria naquele determinado momento da conversa: (18:24) JANA (18:24) : Lavínia :*: (18:24) JANA : qual a sua intenção em usar os emoticons como ai amr kk ou onomatopéias KKK Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 15 - (18:24) Lavínia :*: (18:25) Lavínia :*: (18:25) JANA (18:26) : Lavínia :*: é a cara qe eu faço quando tou en duvidas ou quando nao gostei muito de alguma coisa e os emoticons em geral pq vc usa? pra ter uma ideia de como eu estou Ela falou ainda que utiliza alguns deles por achar engraçado, assim como respondeu Sara. Percebe-se, então, que Lavínia e Sara utilizam com a intenção de demonstrar como fariam se estivessem conversando face a face: “[...] as pessoas enquanto escrevem desejam expressar também seus estados emocionais ou como seriam seus gestos”. (MODESTO, 2007, p.104). Esta é a afirmação do autor em relação aos marcadores utilizados nos bate papos fechados, podendo também ser assim entendido dentro do MSN. Considerações Finais Após a análise da conversação das adolecentes, assim como das entrevistas das mesmas, pode-se sugerir como hipóteses, para que, posteriormente, sejam testadas com um número maior de conversações e entrevistas; que os marcadores conversacionais favorecem a compreensão do texto dentro do MSN, pois os mesmos tem várias funções: orientam, monitoram o falante/digitador e o ouvinte/leitor; servem para dar tempo a organização do pensamento, corrigir, reogarnizar e reorientar o discurso, entre outros (MARCUSCHI, 2003), estes aspectos são importantes para o processo interacional entre os que participam da conversação, facilitando a interação entre os mesmos. Quanto à identificação dos marcadores mais utilizados, tem-se um uso mais freguente dos não linguísticos, que está relacionado ao esforço de incluir o olhar, os gestos, o sorriso e etc, ou seja, a percepção do corpo, que se dá através Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 16 - discurso escrito, pelo fato do ambiente ser digital, assim como foi verificado por Oliveira (2007). Em relação à maneira dos marcadores conversacionais possibilitarem a coerência do texto, percebeu-se que há uma relação estreita com o contexto da conversação. Neste ambiente, os marcadores são utilizados com a intenção de dar um maior sentido aquilo que está sendo dito, possibilitando a compreensão entre os interlocutores. Quanto à intenção dos usos dos marcadores, observou-se que as usuárias utilizavam para demonstrar suas emoções e atitudes dentro do espaço digital, além do fato dos outros interlocutores também fazerem uso deles, mostrando que o texto é co-contruído pelos usuários também dentro desse espaço. O que foi constatado nesta pesquisa, serve para que possa-se compreender como os marcadores conversacionais são importantes não só para a conversação face a face como também para as conversações digitais. Além disso, para que haja uma boa compreensão é necessário que os interlocutores coordenem várias ações, que vão além de uma simples habilidade linguística e também para que possa-se ter uma visão mais complexa em relação a conversação digital, tratada muitas vezes com certo preconceito em relação à conversação face a face, como se esta não fosse uma prática social importante para aqueles que a utilizam. Referências Bibliográficas ANDRÉ, Marli E. D. A. 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Dra Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Departamento de Psicologia e Orientação Educacionais E-mail: [email protected] Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 19 -