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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEPARTAMETO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS
HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA
MARIANA CLARA COSTA LEITE DA SILVA
INVENTÁRIO LEXICAL DOS ASPECTOS MUSICAIS DA FESTA DE NOSSA
SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS, SANTA LUZIA – PB
JOÃO PESSOA – PB
MARÇO DE 2014
2
MARIANA CLARA COSTA LEITE DA SILVA
INVENTÁRIO LEXICAL DOS ASPECTOS MUSICAIS DA FESTA DE NOSSA
SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS, SANTA LUZIA –PB
Trabalho monográfico apresentado ao Curso
de Licenciatura em Letras da Universidade
Federal da Paraíba como requisito para
obtenção do grau de Licenciado em Letras,
habilitação em Língua Portuguesa, sob a
orientação da Prof.ª D.ª Josete Marinho de
Lucena.
JOÃO PESSOA – PB
MARÇO DE 2014
3
S586i
Silva, Mariana Clara Costa Leite da.
Inventário lexical dos aspectos musicais da festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos, Santa Luzia-PB / Mariana
Clara Costa Leite da Silva. - João Pessoa, 2014.
47f. : il.
Orientador: Josete Marinho de Lucena
Monografia (Graduação) - UFPB/CCHLA
1. Lexicologia. 2. Festa de Nossa Senhora do Rosário dos
Pretos (Santa Luzia-PB) - aspectos musicais - inventário.
3.Campos léxico-semânticos - teoria.
UFPB/BC
CDU: 801.3(043.2)
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MARIANA CLARA COSTA LEITE DA SILVA
INVENTÁRIO LEXICAL DOS ASPECTOS MUSICAIS DA FESTA DE NOSSA
SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS, SANTA LUZIA – PB
Trabalho monográfico apresentado ao Curso
de Licenciatura em Letras da Universidade
Federal da Paraíba como requisito para
obtenção do grau de Licenciado em Letras,
habilitação em Língua Portuguesa, tendo sido
aprovado pela banca examinadora.
Data de aprovação: _____/_____/_____
BANCA EXAMINADORA
Prof.ª D.ª Josete Marinho de Lucena, DLCV, UFPB
Orientadora
Prof.ª D.ª Socorro Cláudia Tavares de Sousa, DLCV, UFPB
Examinadora
Prof.ª D.ª Mª do Socorro do Amaral Burity, IFPB
Examinadora
5
Dedico esta monografia aos amigos da
Comunidade Quilombola da Pitombeira que,
com certeza, apreciarão esse trabalho.
6
AGRADECIMENTOS
A Deus, porque é Meu Mestre Maior.
A minha família, pelos pensamentos positivos.
A minha avó Maria e ao meu noivo Rosenildo, sem os quais, certamente, eu não chegaria a
realizar esse trabalho.
A querida professora Josete Marinho de Lucena, por ter “comprado” essa ideia e orientado a
jornada.
Às professoras Mª do Socorro do Amaral Burity e Socorro Cláudia Tavares de Sousa e, por
aceitarem participar da banca e avaliar esse trabalho.
Ao amigo, pernambucano, Darcio, porque sei que se alegra com as minhas conquistas.
Enfim, a todos os colegas de curso, funcionários e professores que me auxiliaram a trilhar
esse caminho.
Obrigada!
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Ilê Pérola Negra
O canto do negro
Veio lá do alto,
E é belo como a íris dos olhos de Deus
E no repique, no batuque
No choque do aço
Eu quero penetrar
No laço afro que é meu, e seu.
Militão/René Veneno/Guiguio
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RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo organizar um inventário lexical que contemple os
aspectos musicais da centenária Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que acontece
anualmente na cidade de Santa Luzia, interior paraibano. Para tanto, fez-se o levantamento de
quinze lexias coletadas entre os participantes e organizadores dos festejos, sejam eles
moradores da área urbana de Santa Luzia ou provenientes do Quilombo da Pitombeira, que se
localiza na área rural da cidade. Após a coleta do material, os termos foram catalogados em
fichas lexicográficas e, só então, foram organizados segundo a fórmula da microestrutura de
Faulstich. Com o intuito de atingir o objetivo proposto, utilizamos como fundamentação a
Teoria dos Campos Léxico-semânticos e os pressupostos da Lexicologia. Devido ao caráter
lexicológico da referida pesquisa, foram também consultados compêndios lexicográficos:
Dicionário de Língua Portuguesa, de Antônio Houaiss (2009) e o Dicionário Aurélio de
Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda (2004).
PALAVRAS-CHAVE: Inventário dos Aspectos Musicais da Festa de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos, em Santa Luzia – PB. Lexicologia. Teoria dos Campos Léxico –
Semânticos.
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ABSTRACT
This paper aims to organize a lexical inventory that covers the musical aspects of the
Centennial Feast of Our Lady of the Rosary of the Blacks held annually in the city of Santa
Luzia, Paraíba interior. As such, there was an uprising fifteen lexias collected from the
participants and organizers of the festival, they are living in the urban area of Santa Luzia or
from the Quilombo of Pitombeira, which is located in a rural area of the city. After sample
collection, the terms were cataloged in lexicographical records and only then were organized
according to the formula of microstructure Faulstich. In order to achieve the proposed goal,
we use as the basis theory of Lexical- Semantic Fields and the assumptions of Lexicology.
Due to the lexical character of this research, lexicographical textbooks were also consulted:
Dictionary of the Portuguese Language, Antonio Houaiss (2009) and Webster's Dictionary of
English Language, Aurélio Buarque de Holanda (2004).
KEYWORDS: Inventory of Musical Aspects of the Festa de Nossa Senhora do Rosário dos
Pretos of Santa Luzia - PB. Lexicology. Field Theory Lexicon - Semantic.
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SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................................. 11
2 UM BREVE RELATO SOBRE A FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
DOS PRETOS, EM SANTA LUZIA – PB ........................................................................... 12
3 PRESUPOSTOS TEÓRICOS ............................................................................................ 16
3.1 Léxico e cultura................................................................................................................. 17
3.2 Lexicologia e Lexicografia ............................................................................................... 20
3.3 Campos Léxico-semânticos .............................................................................................. 23
4 ORGANIZAÇÃO DO INVENTÁRIO .............................................................................. 25
4.1 Macroestrutura ................................................................................................................. 26
4.2 Microestrutura .................................................................................................................. 26
5 INVENTÁRIO SOCIOCULTURAL DA MUSICALIDADE NA FESTA DE NOSSA
SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS, EM SANTA LUZIA – PB ............................ 29
6 ANÁLISE DO INVENTÁRIO ........................................................................................... 36
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 37
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 40
ANEXOS ................................................................................................................................. 44
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CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O presente trabalho tem por finalidade organizar um inventário lexical que contemple
os aspectos musicais da centenária Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que
acontece anualmente na cidade de Santa Luzia, interior paraibano.
A motivação em realizar esta pesquisa nasceu devido a relação sentimental que temos
com a cidade de Santa Luzia e, em especial, com a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos
Pretos, por sermos naturais daquela região e desde a infância ouvirmos relatos saudosos a
respeito dos quilombolas e dos festejos organizados por eles.
Outro estímulo para o desenvolvimento deste trabalho foi a nossa participação, no
período de 2012 a 2013, no projeto intitulado “Aspectos da Cultura Paraibana: uma
abordagem léxico-semântica”, que tem como coordenadora a Prof.ª D.ª Josete Marinho de
Lucena (UFPB). O referido projeto pretende, entre outros objetivos, levantar e catalogar
termos e expressões próprios da linguagem do paraibano. Durante as reuniões do projeto,
tivemos nosso primeiro contato com os textos teóricos que posteriormente fundamentariam
nosso trabalho.
Antes de dar início as pesquisas de campo, realizamos a leitura de textos teóricos
sobre as Ciências do Léxico, Semântica Lexical, Teoria dos Campos Semânticos, Linguagem
e Cultura, a fim de reunirmos subsídios teóricos sob os quais pudéssemos fundamentar nossos
estudos.
Com o intuito de atingirmos nosso objetivo, visitamos por duas vezes a cidade de
Santa Luzia, a fim de entrevistarmos 15 (quinze) informantes ligados àquela tradição popular,
entre os entrevistados 07 (sete) são moradores da área urbana da cidade de Santa Luzia e 08
(oito) residem no Quilombo da Pitombeira, povoado quilombola que se localiza na área rural
da cidade. As entrevistas foram registradas com o auxílio de um aparelho gravador e tiveram
como norte um questionário (anexo nº 01) que elaboramos previamente.
Após a coleta dos termos, iniciamos a organização do inventário representativo da
linguagem da festa por meio do preenchimento das fichas lexicográficas (anexo nº 02).
Consultamos, ainda, diversos dicionários, com o objetivo de verificar se os termos
encontrados eram registrados com o significado semelhante ao empregado pelos informantes
entrevistados ou se apresentavam como acepções complementares, diferentes ou, ainda, não
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dicionarizadas. Finalmente, dispomos os termos de acordo com a Teoria dos Campos
Semânticos e, só então, iniciamos a “montagem” do glossário.
Após esta introdução, discorreremos sobre os festejos em homenagem a Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia. O segundo capítulo deste trabalho possui 03
(três) subdivisões. A primeira parte enfoca a relação entre léxico e cultura, essencial para o
entendimento deste trabalho, haja visto acreditarmos que por intermédio da análise do léxico
de uma língua podemos visualizar como se dá a relação entre língua e cultura em uma
determinada comunidade linguística.
Em um segundo momento, discorreremos sobre as Ciências do Léxico, em especial,
sobre a Lexicologia e a Lexicografia, sendo esta última de grande valia para a construção e
organização do inventário. Por fim, abordaremos a Teoria dos Campos Semânticos, uma vez
que o presente inventário se encontra organizado sob seus pressupostos. Na sequência
encontra-se o inventário e uma análise sobre ele.
Esperamos dar continuidade a esta pesquisa contemplando todos os campos
semânticos possíveis, o que nos possibilitará uma visão mais ampla acerca do universo
linguístico da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia.
2 UM BREVE RELATO SOBRE A FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
DOS PRETOS, EM SANTA LUZIA – PB
O Município de Santa Luzia foi fundado em 24 de novembro de 1871, e completará
143 anos de história, em 2014. Segundo informações contidas na obra “Santa Luzia: sua
história sua gente”, escrita em 1996, por José Jacinto de Araújo, morador e natural daquela
região, a pequena cidade se localiza na Mesorregião do Sertão Paraibano, mais precisamente
na Microrregião da Depressão do Alto Piranhas, conhecida como “Vale do Sabugi”,
expressão que tem origem no Tupi e que significa “olho d´agua rumoroso”. Para chegarmos
em Santa Luzia, partindo da capital do estado, João Pessoa, percorremos cerca de 268
quilômetros de estrada.
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Ainda segundo o autor Araújo (1996), Santa Luzia é também conhecida pelos apelidos
de “Cidade Ilha” ou “Veneza Paraibana”, por se encontrar rodeada por 03 (três) grandes
açudes que se tornaram cartão postal da cidade.
Imagem 01 – Igreja Matriz de Santa Luzia e Açude Velho. Fonte: autora
Embora Santa Luzia seja uma cidade tranquila, segura e acolhedora, como toda boa
cidade do interior, sua população local padece, praticamente o ano inteiro, devido à seca e às
altas temperaturas. Isso acontece, segundo informações do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística), porque o município se encontra na área de abrangência do semiárido
brasileiro, apresentando grande irregularidade em seu regime de chuvas. A localização da
cidade sobre a depressão do Rio Piranhas e a proximidade com a Serra da Borborema são os
principais empecilhos para a existência de um clima mais agradável na região.
Imagem 02 – Vegetação de Santa Luzia. Fonte: autora.
14
Mesmo com tantas adversidades climáticas e com todo o sofrimento causado pela
seca, o santa-luziense é alegre e festivo. No calendário da cidade, destaca-se a Festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos, que acontece na primeira quinzena do mês de outubro.
Embora os festejos em homenagem a Nossa Senhora do Rosário aconteçam em diversas
cidades brasileiras, a comemoração em Santa Luzia possui suas particularidades. Como nos
propomos a elaborar um inventário dos termos musicais da Festa de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos, faz-se necessário que discorramos brevemente sobre a história e a
organização desta tradicional comemoração popular.
Devido a carência de documentos que narrem de forma fidedigna a trajetória da festa,
tomaremos como norte para “recontar” essa história a dissertação de mestrado de Jordânia de
Araújo Souza, intitulada Etnografando a Pitombeira (Várzea/PB): Disputas e divergências
entre origens e direitos a (uma) identidade quilombola, defendida no ano de 2011; a obra de
José Jacinto de Araújo, Santa Luzia: sua história, sua gente e levaremos em consideração os
relatos dos moradores da região, que ouvimos durante as entrevistas que realizamos na
ocasião da pesquisa.
A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que acontece na cidade de Santa
Luzia na Paraíba desde o ano de 1872, é considerada uma tradição secular da região. Mas,
segundo Jordânia de Araújo Souza (2011, p. 86-87), “foi na Pitombeira onde se realizou a
primeira missa dedicada a esta santa, reunindo os negros da Pitombeira, Ramadinha, São
Domingos e Trindade (comunidades rurais da região)”.
Imagem 03 – Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia – PB. Fonte: autora.
A relevância do Quilombo da Pitombeira para os festejos em homenagem a Nossa
Senhora do Rosário, naquela região, é imensurável. Ademais o quilombo ter sido o berço da
festa, é da Pitombeira que saem os representantes do Reisado, os integrantes da Banda
15
Cabaçal e boa parte dos membros da Irmandade do Rosário, que é o grupo responsável pela
organização do evento.
O referido quilombo localiza-se na zona rural de Santa Luzia, no caminho em direção
ao município de Várzea Nova. Em 2005, a Comunidade da Pitombeira foi reconhecida como
comunidade remanescente de quilombo e, embora não tenhamos dados concretos sobre como
e em que circunstâncias ocorreu a fundação desta comunidade, os moradores da região
acreditam que quatro casais de negros fugidos dos maus tratos da escravidão se estabeleceram
nas terras da Pitombeira, dando início ao povoado que hoje é constituído por uma média de
203 (duzentas e três) famílias.
Imagem 04 – Quilombo da Pitombeira. Fonte: autora.
Na atualidade, as famílias quilombolas da Pitombeira conquistaram alguns benefícios
como energia, água encanada, acesso à internet, entre outros. Os moradores, pessoas
humildes, acolhedoras e trabalhadoras, sobrevivem da agricultura familiar, do artesanato, da
pequena criação de animais, do comércio, entre outras atividades informais. Uma grande
parcela das crianças e jovens do povoado encontra-se regularmente matriculada em escolas
públicas da região e, no caso dos jovens, em cursos técnicos profissionalizantes.
O apego ao cristianismo é intenso entre os quilombolas da região. Não percebemos
haver, entre os moradores da Pitombeira, o culto às divindades africanas. O santa-luziense
expressa sua devoção à Santa do Rosário por meio de novenários, quermesses, comidas
típicas, danças, cantos e de uma diversidade de manifestações folclóricas características do
Ciclo do Rosário. A primeira quinzena do mês de outubro é dedicada às homenagens a Nossa
Senhora do Rosário, a padroeira da Irmandade dos Negros, nas quais se destacam as
homenagens feitas pela Banda Cabaçal e o Cortejo Real protagonizados pelos reis, rainhas,
16
vassalos e juízes, provenientes do Quilombo da Pitombeira, que, em comitiva, desfilam pelas
ruas da cidade.
Encerradas as cerimônias religiosas, hoje realizadas na igreja de Nossa Senhora
do Rosário, inaugurada em 28 de setembro de 2013, as ruas da cidade são tomadas pelas
manifestações profanas e pelos grupos folclóricos que são recebidos nas casas dos devotos
com bebidas e comidas típicas do sertão paraibano, como a buchada de bode e a cachaça.
Imagem 05 – Momentos Importantes da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Santa Luzia – PB.
Fonte: autora.
Mesmo em meio a condições adversas de sobrevivência, é nítido o empenho dos
moradores do povoado em manter vivo o cortejo à Nossa Senhora do Rosário, pois, ainda
hoje, os integrantes do Reisado Perpétuo, as crianças do Reisado Mirim, os músicos e os
lanceiros da Banda Cabaçal, provenientes da Pitombeira, se deslocam, muitas vezes a pé, em
direção à cidade de Santa Luzia para se apresentarem nos diversos momentos da
comemoração, arcando com todas as despesas de alimentação, vestuário, transporte e
hospedagem.
Como podemos perceber, é impossível, em poucas linhas, relatarmos toda a beleza e
riqueza desta tão importante manifestação cultural popular da região. Embora acreditamos
que, ao analisarmos as escolhas lexicais das pessoas envolvidas nestes festejos, poderemos
contribuir com os estudos lexicais que ponham em destaque o falar desta comunidade
linguística, ainda ocultado pelo desconhecimento de seu léxico próprio e original.
3 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Este capítulo possui 03 (três) subdivisões. A primeira seção enfoca a relação entre
léxico e cultura, essencial para o entendimento deste trabalho, haja visto acreditarmos que por
17
intermédio da análise do léxico de uma língua podemos visualizar como se dá a relação entre
língua e cultura em uma determinada comunidade linguística. Em um segundo momento,
discorreremos sobre as Ciências do Léxico, em especial, sobre a Lexicologia e a Lexicografia,
sendo esta última de grande valia para a construção e organização do inventário. Por fim,
abordaremos a Teoria dos Campos Semânticos, uma vez que o presente inventário se encontra
organizado sob seus pressupostos.
3.1 LÉXICO E CULTURA
Transmitimos e compartilhamos nossas experiências vividas por meio da língua que
falamos. Desde sempre, o homem enquanto ser social, que se desenvolve em contato com o
meio em que vive, procurou estabelecer comunicação com os seus semelhantes. As figuras
rupestres são exemplos de registros antigos que comprovam essa necessidade de interação
entre os indivíduos de um mesmo grupo, desde os tempos mais remotos.
A língua é o principal veículo que dispomos para exteriorizar nossos pensamentos,
crenças, conhecimentos e costumes, e figura como importante elemento de conservação
cultural. A relação entre língua e humanidade é inseparável, e ao investigarmos a língua
falada por uma determinada comunidade, podemos descobrir muito acerca dos costumes e a
respeito da cultura das pessoas que ali convivem, haja visto que “Os costumes de uma nação
têm repercussão na língua e, por outro lado, é em grande parte a língua que constitui a
Nação.” (SAUSSURE, 2012, p. 53).
Mas como as formas de nomear as coisas poderiam revelar algo sobre a cultura de um
povo? E que elemento linguístico nos permitiria essa observação? Embora não tenhamos a
pretensão de esgotar esses questionamentos neste trabalho monográfico, nos dispomos a
discorrer ao que diz respeito à relação entre léxico e cultura.
Segundo Faraco (1991, p. 25), “O léxico é um dos pontos em que mais claramente se
percebe a intimidade entre língua e cultura.” Mas o que é o léxico de uma língua? O léxico
pode ser compreendido, conforme Antunes (2012, p. 27) como, “[...] o amplo repertório de
palavras de uma língua, ou o conjunto de itens à disposição dos falantes para atender às suas
necessidades de comunicação.” Ou seja, o léxico seria, em síntese, o conjunto de todas as
palavras de uma língua.
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Observando a definição de léxico, proposta acima por Antunes (2012), concluímos
que seja impossível para qualquer falante de uma língua apreender o seu léxico em sua
totalidade. Isso acontece porque ao léxico faz parte de um sistema aberto que se encontra em
constante crescimento e, ao mesmo tempo em que os itens lexicais relacionam a língua, o
meio social e a cultura dos falantes, eles se tornam elementos difíceis de serem delimitados.
Por esse motivo, o estudo das unidades léxicas da língua foi deveras questionado pelos
linguistas, como afirma Biderman (2001, p. 97):
A notória dificuldade de estudar o léxico de uma língua se deve ao fato de
ser este um sistema aberto, contrariamente aos demais domínios linguísticos
como a Fonologia, a Morfologia e a Sintaxe. Na verdade, grandes
monumentos lexicográficos de muitas línguas nada mais são que vastos
repertórios vocabulares de um determinado estado de língua, pois um
sistema aberto em expansão como o léxico, não pode ser apreendido, nem
descrito em sua totalidade.
Além dessa abrangência e mutabilidade do léxico, outro aspecto que merece uma
maior atenção é a relação entre léxico e cultura. O léxico, ao mesmo tempo em que é
constituído pelos fenômenos culturais e sociais, permite que, através de sua, análise possamos
observar como se estabelecem as questões sociais e culturais em uma determinada
comunidade linguística.
De acordo com Vilela (1994, p. 06), “o léxico é a parte da língua que primeiramente
configura a realidade linguística e arquiva o saber linguístico duma comunidade.” Enfim, toda
a ideologia, os valores e as práticas das comunidades humanas são refletidos no léxico. Como
corrobora Biderman (2001, p. 109):
[...] todo sistema linguístico manifesta, tanto no seu léxico como na sua
gramática, uma classificação e uma ordenação dos dados da realidade que
são típicas dessa língua e da cultura com que ela se conjuga. Ou ainda: cada
língua traduz o mundo e a realidade social segundo o seu próprio modelo,
refletindo uma cosmovisão que lhe é própria, expressa nas suas categorias
gramaticais e léxicas.
19
É nesse sentido que o léxico se constitui como elemento de análise dessa pesquisa,
uma vez que a análise lexical pode se debruçar sob os aspectos mais concretos da língua,
quando o olhar do pesquisador recai sobre os elementos formadores das lexias (elementos
intralinguísticos), como também em um nível mais abstrato, o que pressupõe ir além de uma
análise meramente gramatical e levar em consideração os elementos de significação
(elementos extralinguísticos) que possam responder a questões como: Quem fala essa língua?
Em que condições? Qual o contexto? Em que época histórica?
Outro elemento que merece atenção neste capítulo é a cultura, sobretudo no que diz
respeito a sua ligação com o léxico. Considerando os dizeres de Ferreira (2004, p. 213), a
cultura pode ser entendida como: “O complexo dos padrões de comportamento, das crenças,
das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e
típicos de uma sociedade.”
Ainda, na mesma perspectiva, ao se reportar à cultura, Cascudo (1973, p. 21) afirma
que, “Para fins primários de impressão poder-se-ia dizer que a cultura é um conjunto de
técnicas de produção, doutrinas e atos, transmissível pela convivência e ensino, de geração em
geração.”
Observando tais definições, percebemos, pelo menos, duas características importantes
sobre a cultura. A cultura é algo que é transmitido pela convivência e ensino, e é algo que se
constrói coletivamente.
Outra considerável característica da cultura é o seu caráter mutável. Assim como o
léxico, a cultura está em constante transformação, visto que o ser humano, a partir da
convivência social, corre sempre o risco de se transformar, de ser outro. Afinal, segundo Hall
(2003, p. 44), “a cultura não é uma questão de ontologia de ser, mas de se tornar.” Fato
confirmado, também, por Cascudo (1973, p. 23), quando assevera que “Mesmo sem carência,
necessidade lógica, sentido útil, um certo padrão decresce, começa a murchar na predileção
popular e estabelece-se por um novo padrão”.
Imprescindível sabermos que, embora estas transformações pelas quais a cultura e o
léxico passam ao longo do tempo sejam profundas, o que há de essência nestes dois elementos
é mantido, de maneira que sempre poderemos identificar a que civilização um e outro
elemento pertencem, o que pode ser comprovado sob a ótica do historiador e folclorista
Cascudo (1973, p. 22):
20
É bem possível que uma cultura modifique uma cerimônia, um aspecto da
organização administrativa, uma técnica de produção agrícola ou industrial,
a maneira de preparar uma alimento tradicional, um ritmo de dança
individual, bailado coletivo, equipamento ou forma de caçar, pescar,
guerrear, tecer, fiar, modelar, pintar cerâmica, ornamentar-se, tatuar-se,
abandonar certos vocábulos por outros ou fazê-los ter significação diferente,
sem que a civilização perca no conjunto de sua apresentação habitual e
sensível vitalidade e fisionomia normais.
Como já percebemos, léxico e cultura, malgrado não possamos definir com precisão
seus contornos, estão, profundamente, relacionados. Assim, a língua e suas lexias constituem
e são constituídas através da cultura.
Neste sentido, tomar como objeto de pesquisa o falar de uma comunidade linguística
em um momento de celebração popular e religiosa, como é a Festa de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos em Santa Luzia – PB é, também, evidenciar sua cultura, seus hábitos, suas
crenças, além de ser uma rica oportunidade de compreender a relação língua-cultura e, desse
modo, entender a língua como construção comunitária.
O crescente interesse pelos estudos lexicais favoreceu o desenvolvimento das Ciências
do Léxico, sobre as quais trataremos no tópico a seguir. Discorreremos, em especial, no que
atine a Lexicologia e a Lexicografia.
3.2 LEXICOLOGIA E LEXICOGRAFIA
Existem ciências que se dispõem, ao seu modo, a estudar o léxico de uma língua. Cada
qual procura se dedicar a uma face em especial deste tão amplo objeto de estudo. A
Lexicologia, por exemplo, refere-se ao estudo teórico e sistemático do léxico. A Lexicografia
é popularmente conhecida como “a arte de fazer dicionários”. Trataremos dessas duas
ciências no decorrer dessa seção.
A Lexicologia é, em síntese, o ramo da Linguística responsável pelo estudo do léxico
de uma língua. Devido à dificuldade de delimitação no estudo do léxico, a Lexicologia
21
enfrentou muitos questionamentos, por parte dos estudiosos da língua, até ser reconhecida
como ciência.
Há um forte vínculo entre a Lexicologia e a Semântica. Isso acontece porque ambas as
ciências abordam os sentidos possíveis das unidades lexicais, ou seja, tanto os estudos
semânticos, quanto os estudos lexicológicos não se contentam com a análise do aspecto
formal dos itens lexicais, mas respondem também pelas questões relativas à significação das
palavras.
Sobre esse fato Ullmann (1964, p. 64) afirma que:
A Lexicologia, por definição, trata de palavras e dos morfemas que as
formam, isto é, de unidades significativas. Conclui-se, portanto, que estes
elementos devem ser investigados tanto na sua forma como no seu
significado. A lexicologia terá por conseguinte, duas subdivisões: a
morfologia, estudo das formas das palavras e dos seus componentes, e a
semântica, estudo dos seus significados.
O estudioso considera que palavras e morfemas se constituem quanto unidades
significativas, o que confirma essa proximidade entre a Lexicologia e a Semântica. Ao estudar
o léxico de uma língua, não devemos utilizar o termo “palavra”, a fim de evitarmos equívocos
e imprecisões. Em seu lugar empregamos os termos “lexema” ou “lexia”. Segundo Pottier
apud WELKER (2004, p. 19), “uma “lexia” pode ser um “lexema”, isto é, um morfema
lexical, uma palavra com significado próprio.”
Como já vimos, o léxico possui, pelo menos, duas facetas: a estrutura mórfica e o
conteúdo semântico. Faz-se necessário esclarecer que, quanto à sua estrutura mórfica, as
lexias podem ser classificadas em lexias simples (compostas por uma forma livre) e lexias
complexas (compostas por uma forma presa ligada a uma forma livre). Salienta-se que no
estudo e descrição das formas simples e complexas devemos dar atenção tanto aos aspectos
fonológicos e morfológicos quanto ao ponto de vista sintático, semântico e pragmático para
que sejamos coerentes em nossas observações.
Outra ciência que lida com as unidades lexicais é a Lexicografia. No passado, a
Lexicografia foi uma prática comum entre as culturas antigas do Oriente e era compreendida,
na época, como uma “arte”, uma “técnica”. Somente a partir de meados do século XX é que a
Lexicografia ganha status de ciência, passando a figurar como um dos objetos de estudo da
Linguística moderna.
22
Sob esta perspectiva, Seabra e Welker (2011, p. 30), nos trazem uma definição
atualizada em relação ao que seria a Lexicografia:
[...] a lexicografia é vista como uma disciplina linguística de caráter
cientifico que contempla os aspectos teóricos e práticos da elaboração de um
dicionário. A lexicografia se insere, portanto, no domínio da linguística
aplicada.
Os dicionários são imprescindíveis para a civilização moderna. Sempre que estamos
em dúvida sobre a grafia ou significado de uma determinada palavra, ou ainda quando
procuramos por sinônimos para evitar a repetição de vocábulos em um determinado texto,
recorremos a tal ferramenta de compilação de palavras e, embora os dicionários sejam
passíveis de erro, muitas das vezes eles são considerados mais que um referencial, originando
o mito de que não se pode discordar ou contestar seu conteúdo.
Biderman (2001, p. 131) afirma que: “Os dicionários constituem uma organização
sistemática do léxico, uma espécie de tentativa de descrição do léxico de uma língua.” É
justamente por não haver a possibilidade de descrevermos o léxico em sua totalidade,
abrangendo todos os seus aspectos que os dicionários serão sempre passiveis de contestação e
reformulações.
Ainda, segundo Biderman (2001, p. 132):
Um dicionário é um produto cultural destinado ao consumo do grande
público. Assim sendo, é também um produto comercial, o que o faz diferente
de outras obras culturais. É preciso considerar igualmente que o dicionário
deve registrar a norma linguística lexical vigente na sociedade para o qual é
elaborado, documentando a práxis linguística dessa sociedade.
O léxico carrega em si muito da cultura de um povo e os dicionários, por reunirem
essas lexias, acabam por também retratarem a cultura, a época e a sociedade linguística que
representam. Enfim, o dicionário, “uma vez que registra e veicula, de maneira sistematizada,
em determinada época, a realidade sociocultural de uma comunidade, acaba por se tornar um
grande referencial cultural de um povo.” (SEABRA; WELKER, 2011, p. 35).
23
Apesar das diversas denominações que podem ter uma obra lexicográfica (glossário,
vocabulário, dicionário), preferimos a nomenclatura de inventário para o presente trabalho,
visto que, o inventário, ao nosso ver, pode representar o acervo cultural de uma tradição como
é o caso da Festa.
Para organizar este inventário, recorremos ao agrupamento das lexias em campos. De
acordo com Biderman (2001), O léxico pode ser apreendido ao longo do tempo, de formas
diversas. Quando precisamos lembrar como uma determinada palavra é constituída ou qual o
seu significado, nosso sistema cognitivo costuma fazer relações com outras palavras que
sejam próximas sob algum aspecto, seja ele fonético, morfológico, sintático e/ou semântico, o
que nos leva a acreditar que podemos organizar as lexias em conjuntos de significação ou
familiaridade, como propõe a Teoria dos Campos melhor explicada a seguir.
3.3 CAMPOS LÉXICO-SEMÂNTICOS
Através da Teoria dos Campos Léxico-Semânticos podemos ordenar, explicar,
descrever e estudar o léxico de uma língua, tomando como objeto de análise, além da
estrutura interna que constitui os vocábulos, a significação, o contexto e as relações
extralinguísticas em que estes estão imersos.
De acordo com a professora Maria das Neves Alcântara de Pontes (2002), a noção de
Campos Semânticos nasceu na Antiguidade Clássica e é filha da curiosidade em torno da
palavra e de suas significações. Entretanto, estudos que se esmeram em organizar uma Teoria
dos Campos Léxico-Semânticos ganharam força nos últimos tempos, o que propiciou o
surgimento de diversas nomenclaturas para designar os campos, que variam de acordo com o
ponto de vista e o interesse de cada linguista, como por exemplo: “Campos Associativos”,
“Campos Lexicais”, “Campos Semânticos”, entre outros.
Uma vez que a presente pesquisa tem como propósito estudar o léxico, analisando os
componentes linguísticos e extralinguísticos das lexias características da Festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia – PB, entendemos que a experiência dos
falantes, o contexto e a realidade em que vivem serão, também, importantes suportes para
chegarmos à significação da palavra, por isso, acreditamos que a denominação Campo
Léxico-semântico seja a mais adequada ao objetivo deste trabalho.
24
Ferdinand Saussure (2012, p. 172), em seu Curso de Linguística Geral, já destacava as
associações e a solidariedade entre os vocábulos: “[...] as palavras que oferecem algo em
comum se associam na memória e assim se formam grupos dentro dos quais imperam
relações muito diversas”.
Segundo Saussure (2012, p. 174), a associação de palavras em grupos vai além das
semelhanças que os termos possuem entre si, podendo acontecer, também, por meio das
relações estabelecidas entre as lexias, observamos: “Os grupos formados por associação
mental não se limitam a aproximar os termos que apresentam algo em comum; o espírito
capta também a natureza das relações que os unem em cada caso e cria com isso tantas séries
enunciativas quantas relações diversas existam.”
Segundo a professora Pontes (2012), Essa noção de “Rede Associativa” proposta por
Ferdinand Saussure, contribuiu largamente para os estudos da Semântica Lexical, mas a
primeira formulação organizada sobre a ideia de campo foi desenvolvida em 1924, por G.
Ipsen que, através da imagem do mosaico, estudou o campo linguístico e demonstrou as
relações de conteúdo no campo léxico.
Em “Semântica: uma introdução à ciência do significado”, Ullmann (1964) traz a
noção de campo estabelecida por Trier, na qual percebemos, claramente, que para o filósofo a
língua estrutura-se em campos lexicais, uma vez que os vocábulos encontram-se entrelaçados
entre si. Sobre as ideias de Trier, Ullmann (1964, p. 510-511) comenta:
Trier elaborou a sua concepção de campos como sectores estreitamente
entrelaçados do vocabulário, no qual uma esfera particular está dividida,
classificada e organizada de tal modo que cada elemento contribui para
delimitar seus vizinhos e é por eles delimitados.
Percebemos, nas concepções de Trier, uma forte influência das ideias de Ferdinand
Saussure, principalmente quando se trata da relação de solidariedade entre as palavras. Na
década de 50, Leo Weisgerber resolve retomar e aprofundar as observações de Trier. É de
Weisgerber a divisão do campo linguístico em: campos léxicos e campos sintáticos. Segundo
aponta Vilela (1979, p.46):
25
Weisgerber é não só o continuador de Trier, como teórico de campos
lexicais, como ainda o seu reformulador, ao enquadrar a teoria de Trier numa
teoria linguística mais completa, com mais precisão de doutrina e método e
com maior classificação terminológica.
George Matoré é outro importante nome a ser mencionado quando falamos em campos
semânticos. De acordo com Pontes (2002), foi Matoré que acrescentou ao conceito de campo,
elaborado por Trier, a ideia de que os vocábulos (palavras testemunhas) que constituem os
campos nocionais são como um retrato da sociedade que representam. Para o estudioso, “a
palavra analisa e objetiva o pensamento individual, tendo um valor coletivo: há uma
sociabilidade própria da língua” (MATORÉ, 1953. p. 37 apud PONTES, 2002, p. 54).
Essa visão de Matoré é fundamental para esta pesquisa, uma vez que considera que os
campos léxico-semânticos, de certa forma, são capazes de espelhar a sociedade em que estão
inseridos, o que nos possibilita uma análise lexical que associe tanto os aspectos linguísticos,
quantos os aspectos extralinguísticos que motivam, em igual medida, as escolhas lexicais dos
falantes.
Ao longo da pesquisa, percebemos que se tivéssemos a pretensão de organizarmos um
glossário que oferecesse uma visão ampla sobre a Festa poderíamos organizar o inventário de
modo a contemplar, pelo menos, quatro campos semânticos distintos: comidas típicas,
musicalidade, comitiva real e indumentárias.
Essa divisão metodológica, sob nossa ótica, facilita a compreensão do universo lexical
criado pela riqueza cultural da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Santa Luzia
– PB. Todavia, devido a restrições de tempo e a necessidade de realizarmos outras visitas e
entrevistas para lograrmos êxito deste objetivo, decidimos delimitar nosso olhar em torno do
campo da musicalidade.
4 ORGANIZAÇÃO DO INVENTÁRIO
Neste capítulo podemos visualizar como se dá a organização do “corpo” do inventário.
Assim poderemos melhor compreender como os itens lexicais encontram-se dispostos nesta
26
relação lexicográfica (macroestrutura) e como é os dados são organizados em cada verbete
(microestrutura).
4.1 MACROESTRUTURA
Os itens lexicais encontram-se dispostos em ordem alfabética e a grafia dos termos
procura obedecer às regras ortográficas do português brasileiro. Cada termo possui apenas
uma entrada, havendo a possibilidade de agruparmos uma ou mais variantes em uma mesma
entrada.
4.2 MICROESTRUTURA
Observando a microestrutura do inventário percebemos como se dá a organização dos
dados em cada verbete. Neste inventário, utilizaremos a formula básica do verbete proposta
por Enilde Faulstich (1995, p. 287):
VERBETE = TERMO-ENTRADA + REFERÊNCIAS GRAMATICAIS + DEFINIÇÃO ± VARIANTE(S) +
CONTEXTO + FONTE ± REMISSIVA(S) ± NOTAS
Quadro 01 - Organização do verbete.
a) Termo-entrada
A entrada, iniciada por letra maiúscula, aparecerá em negrito e em sua forma
lematizada, ou seja: os verbos estarão no infinitivo e os nomes, no masculino singular, com
exceção das lexias que se apresentam apenas no feminino e/ou plural. Após o termo-entrada,
acrescenta-se dois-pontos e, ainda na mesma linha, seguem as referências gramaticais
correspondentes ao verbete. A entrada pode ser composta por um termo formado por uma ou
por mais palavras (lexias complexas).
27
b) Referências Gramaticais
Sempre que termo-entrada for formado por apenas uma palavra, será indicado a qual
classe gramatical este termo pertence; já as lexias complexas terão como referência gramatical
a expressão sintagma nominal, quando referir-se ao nome e sintagma verbal quando referir-se
ao verbo.
c) Indicação de dicionarização dos termos
Os dicionários Houaiss e Aurélio foram utilizados como norte para indicar a
dicionarização de cada termo. Logo após as referências gramaticais, ainda na mesma linha,
constará a indicação de dicionarização dos termos, conforme especificado a seguir:
TDAE
Termo dicionarizado com acepção equivalente
TDAC
Termo dicionarizado com acepção complementar
TDAD
Termo dicionarizado com acepção diferente
TND
Termo não dicionarizado
Quadro 02 - Indicação de Dicionarização. Fonte: autora.
d) Definição
As definições deverão estar localizadas abaixo da entrada e serão sempre iniciadas
com letra maiúscula. O contexto em que as palavras foram encontradas, bem como a consulta
28
a dicionários de música nortearam a elaboração das definições para cada verbete. Optamos
por definições, de preferência, curtas e objetivas para facilitar o entendimento do usuário. O
termo genérico vem seguido de traços distintos que particularizam o termo definido.
e) Variante(s)
Abaixo da definição, aparecerá (ão) a(s) possível (is) variante(s) referente(s) ao termo.
Segundo Faulstich (1995, p. 5) as variantes linguísticas mais comuns são: variante
morfossintática, variante fonética e variante gráfica. Neste inventário, quando necessário,
também
serão
consideradas
as
variantes
sociolinguísticas
(variantes
regionais,
socioprofissionais).
f) Contexto
Na linha seguinte, aparecerá o contexto de ocorrência retirado do corpus, esse
contexto de ocorrência deverá vir em fonte itálico. Logo após o contexto de ocorrência, na
mesma linha aparecerá entre parênteses à fonte e/ou informante (fonte e página). Para
identificar os informantes utilizamos as abreviações IU pra os moradores da área urbana de
Santa Luzia e IQ para os informantes provenientes do Quilombo da Pitombeira, que se
encontra localizado na área rural da cidade.
g) Notas
Abaixo do contexto, poderão aparecer as notas explicativas. Sabemos que existem
diversos tipos de notas explicativas (notas linguísticas, notas de marcas de uso, notas
enciclopédicas, etc.). Neste inventário constarão apenas notas linguísticas. As notas
linguísticas se referem aos processos de formação e aos fenômenos linguísticos ocorridos com
29
o termo em análise, como por exemplo, seu percurso etimológico. Para facilitar a
compreensão do glossário, organizamos o quadro a seguir:
Etim.
Etimologia
s.m.
Substantivo masculino
s.f.
Substantivo feminino
Sint. Nom.
Sintagma nominal
Var. fonética
Variante fonética
Quadro 03 – Abreviaturas. Fonte: autora.
5 INVENTÁRIO SOCIOCULTURAL DA MUSICALIDADE NA FESTA DE NOSSA
SENHORA DO ROSÁRIO DOS PRETOS, EM SANTA LUZIA – PB
B
Banda Cabaçal: sint. nom. (TND)
30
Grupo musical popular composto por pifeiros, caixeiros e lanceiros provenientes do
Quilombo da Pitombeira, área rural de Santa Luzia. O grupo é responsável pelo cortejo a
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que acontece nas ruas de Santa Luzia – PB, na primeira
quinzena do mês de outubro, há mais de 140 anos.
“No momento em que você vê a Banda Cabaçal tocar, você lembra dos seus antepassados”.
(IQ 01)
Notas linguísticas: lexia complexa formada por nome + nome.
Batucada: s.f. (TDAE)
Ritmo popular improvisado produzido por um grupo de pessoas, através de palmas e de
instrumentos de percussão.
“Quando a batucada batia, ficava tudo assim admirado.” (IQ 02)
Notas linguísticas: batuc (ar) + ada. Etim. proveniente do quimbundo.
C
Caixa: s.f. (TDAE)
Instrumento musical semelhante a um tambor de tamanho e proporções menores. Diferente do
bombo e da zabumba, o som emitido pela caixa é suave e agudo.
“Tinha outro que tocava zabumba, aquele caixa, a gente chama caixa, mas a palavra que tem
lá na história é zabumba”. (IQ 01)
31
Notas linguísticas: etim. proveniente do latim capsa.
Caixeiro: s.m. (TDAE)
Indivíduo que toca a caixa na Banda Cabaçal. Segundo a tradição, na Festa de Nossa Senhora
do Rosário dos Pretos em Santa Luzia – PB, o caixeiro, assim como os demais membros da
Banda Cabaçal, deve ser natural de algum dos quilombos da região.
“Tem os que chama caixeiro na banda, que toca os instrumentos de percussão”. (IU 01)
Notas linguísticas: caixa + -eiro.
Caracaxá: s.m. (TDAE)
Instrumento musical semelhante a um chocalho feito, artesanalmente, com cabaças secas e
sem miolo, onde se depositam sementes. O caracaxá é adornado com fitas coloridas e é um
importante elemento de percussão da Banda Cabaçal.
“Tem um instrumento que chama caracaxá que é como um maracazinho”. (IU 01)
Notas linguísticas: etim. de origem ameríndia e de fundo onomatopaico.
Ciranda: s. f. (TDAE)
Dança popular em que os participantes, adultos e/ou crianças, dão as mãos formando uma
grande roda, que se movimenta de acordo com o ritmo e a cadência dos instrumentos de
percussão.
“Aí eles fazia a festa, dançava coco de roda e tinha a ciranda, porque essas danças são parte
do quilombo”. (IQ 01)
32
Notas linguísticas: etim. do espanhol zaranda “peneira”.
Coco-de-roda: sint. non. (TDAE)
Dança de roda de origem africana caracterizada por passos improvisados e rápidos. O coco–
de-roda costuma ser acompanhado por instrumentos de percussão como o zabumba e o ganzá.
“Quem cantava coco de roda era Manuel de Bia”. (IQ 01)
Notas linguísticas: lexia complexa formada por nome + preposição + nome.
G
Ganzá: s.m (TDAE)
Instrumento de percussão de formato cilíndrico feito de folhas de flandres, contendo em seu
interior sementes e seixos. O ganzá, ao ser balançado, emite som semelhante ao som emitido
por um chocalho.
“Lalau é que tocava ganzá nessa festa. Ganzá é assim de flandres, sabe?” (IQ 02)
Notas linguísticas: etim. proveniente do quimbundo nganza “cabaça”.
L
33
Lança de pontão: sint. nom. (TND)
Adereço utilizado pelos lanceiros da banda cabaçal para executar os malabares, saltos e
danças. A lança de pontão é constituída por uma longa vara de madeira que possui, em uma
de suas extremidades, uma peça pontiaguda enfeitada com fitas coloridas.
“É lança de pontão porque só é lança se tiver essa ponta”. (IU 02)
Notas linguísticas: lexia complexa formada por nome + preposição + nome.
Lanceiro: s.m. (TDAC)
Espécie de artista que vem em frente a Banda Cabaçal dançando e executando malabares com
a lança de pontão. O lanceiro é considerado o guardião da Banda Cabaçal.
“E tem os lanceiros que são os guardiões da banda, eles dançam um tipo de dança local”. (IU
01)
Notas linguísticas: lança + -eiro.
N
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Negro do Rosário: sint. nom. (TND)
Ritmo musical popular executado pela Banda Cabaçal do Quilombo da Pitombeira, que se
localiza na área rural de Santa Luzia -PB.
“O ritmo da banda que chama Negro do Rosário... Para aprender o ritmo Negro do Rosário,
primeiro você tem que fazer duas coisas: nascer em Santa Luzia e ser preto”. (IU 01)
Notas linguísticas: lexia complexa formada por nome + preposição + nome.
P
Pífano: s.m. (TDAE)
Pequena flauta transversal feita de uma espécie de bambu mais fino conhecido como taquara,
ou de tubo PVC de 20 milímetros. Possui um orifício para o sopro e outros seis orifícios
destinados ao movimento dos dedos, o diâmetro dos orifícios e a extensão do “tubo”
determinam o som emitido, que pode variar entre tons graves e agudos.
Var. fonética: pifo, pife.
“De primeiro, tinha muito nego tocando pífano”. (IU 03)
Notas linguísticas: etim. proveniente do castelhano pífano.
35
R
Retreta: s.f. (TDAC)
Local, ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Santa Luzia -PB, onde se
apresentam a banda da cidade e a Banda Cabaçal. Na ocasião, aqueles que prestigiam os
festejos podem participar de leilões e, ainda, experimentar comidas e bebidas típicas da
região.
“Retreta é pavilhão. No pavilhão a gente junta as cadeira, tinha música, tinha parque, tinha
leilão...” (IQ 03)
Notas linguísticas: etim. do francês retraite “toque de recolher”.
Z
Zabumba: s.m. (TDAE)
Instrumento de percussão de grande circunferência, cilíndrico, oco e de som grave, possui as
duas faces cobertas por membranas de pele de animal (bode) ou sintéticas. É tocado,
normalmente, na vertical ou inclinado, pendurado por uma alça no ombro do tocador. O
zabumba é considerado uma versão popular do bombo.
“Tinha outro que tocava zabumba, aquela caixa, a gente chama caixa, mas a palavra que tem
lá na história é zabumba”. (IQ 01)
36
Notas linguísticas: etim. termo africano cujo radical parece ser proveniente do conguês bumba
“bater”.
6 ANÁLISE DO INVENTÁRIO
O presente inventário encontra-se organizado de acordo com a Teoria dos Campos
Léxico-semânticos e contempla 14 (quatorze) lexias que possuem, pelo menos, uma
característica em comum: todas elas estão ligadas, de uma maneira ou de outra, ao universo
musical da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia - PB.
Essa associação é possível, segundo Ferdinand Saussure (2012, p. 172), devido à
existência de elos significativos entre as lexias:
[...] as palavras que oferecem algo em comum se associam na memória e
assim se formam grupos dentro dos quais imperam relações muito diversas.
Assim a palavra francesa enseignement ou a portuguesa ensino fará surgir
inconscientemente no espírito uma porção de outras palavras (enseigner,
renseigner, ou ainda éducation, apprentissage); por um lado ou por outro,
todas tem algo de comum entre si.
Na década de 60, Pottier faz uma releitura da Teoria Hjelmsleviana e desenvolve o
conceito de “sema” que seria esse “algo em comum” (significado comum) entre as lexias.
Segundo o estudioso, quando nos dispomos a analisar linguisticamente os lexemas (lexias)
devemos, estar atentos às relações de sentido estabelecidas entre eles.
Analisando, por exemplo, as lexias caixa e zabumba percebemos haver entre elas,
alguns semas em comum. Esses traços significativos partilhados por esses dois termos,
refletidos nas semelhanças físicas e funcionais entre os instrumentos musicais caixa e
zabumba fazem com que o falante da língua, que não possua conhecimentos musicais
apurados, acredite que as duas lexias tratam de um mesmo objeto, fato comprovado pelo dizer
da informante do quilombo:
“Tinha outro que tocava zabumba, aquela caixa, a gente chama caixa, mas a palavra que tem
lá na história é zabumba”. (IQ 01)
37
Mas, ao observamos as definições dispostas neste inventário, podemos concluir que
caixa e zabumba, mesmo sendo instrumentos tão semelhantes, mantêm suas particularidades.
O instrumento musical caixa, por exemplo, possui dimensões reduzidas e emite um som mais
agudo em comparação com o zabumba, que é um instrumento de grande circunferência
conhecido por emitir um som grave e “abafado”.
Isso acontece porque o dois lexemas, zabumba e caixa, possuem semas em comum:
“instrumento de percussão”, “formato cilíndrico”, “cavidade oca”, “presentes na Banda
Cabaçal”, entre outros. Embora essa diversidade de semas comuns a um e outro elemento seja
aquilo que nos permite agrupá-los em um mesmo campo léxico-semântico, ao mesmo tempo,
essas semelhanças podem fazer com que os usuários da língua acreditem que as lexias
zabumba e caixa, por exemplo, designam um mesmo objeto, o que não é verdade.
Outra reflexão que também gira em torno das relações de significação entre as lexias
diz respeito à existência ou não de motivação entre significado e o significante. Tomando
como exemplo dois sintagmas nominais presentes neste inventário a saber: lança de pontão e
Negro do Rosário, percebemos haver uma espécie de motivação extralinguística que
propiciou o surgimento e o uso destas lexias na comunidade linguística pesquisada.
Com relação ao sintagma nominal lança de pontão, percebemos que as características
físicas do objeto, em questão, podem ter motivado o surgimento da referida expressão, ou
seja, um referente intrínseco ao objeto nomeado, nos faz acreditar que, possivelmente, a lança
de pontão é assim designada devido à presença de uma extremidade pontiaguda no final de
sua haste. Observando a fala do informante abaixo, percebemos a preocupação do falante em
frisar a necessidade do adereço possuir, em um de seus extremos, uma espécie de ponta para
que possa receber a designação de lança de pontão.
“É lança de pontão porque só é lança se tiver essa ponta”. (IU 02)
Na expressão Negro do Rosário, que nomeia o ritmo próprio e original criado pelos
músicos da Banda Cabaçal de Santa Luzia, a motivação para criação lexical parece vir do
contexto social, histórico e cultural em que está mergulhada aquela tradição popular.
Enquanto negro faz referência ao elemento africano representado em Santa Luzia pelos
quilombolas da região, Rosário figura como símbolo da religiosidade católica, fortemente
disseminada pelos europeus.
38
A presença de 03 (três) termos de origem africana e 01 (um) termo de origem indígena
em um universo de 14 (quatorze) lexias desperta nossa atenção, também, para questões sociais
e históricas. Sabemos que, embora os negros e os índios tenham contribuído largamente para
a construção de uma “identidade nacional brasileira”, em muito, suas raízes e cultura foram
silenciadas pelo poderio europeu. Vejamos o que diz (MELO apud PETTER; FIORIN, 2008) na
citação abaixo:
A verdade é que os elementos portugueses de nossa cultura foram
elaborados, amalgamados com os elementos indígenas e negro-africanos,
além das influências mais recentes de outros fatores. Mas é certo que o
elemento português prevaleceu, dando uma nota mais sensível de
europeidade a nossa cultura.
Nesse capítulo, apresentamos uma sucinta análise sobre as lexias inventariadas onde
pudemos perceber como ocorrem as ligações de significação entre elas. Compreendemos,
ainda, que algumas dessas lexias, além de terem muito a ver com a realidade e contexto dos
falantes entrevistados, podem sofrer influência de fatores extralinguísticos em sua forma e/ou
significação.
Como prevíamos, os arranjos sociais, culturais e históricos e, ainda os espaços
geográficos, não escapam à análise lexical, funcionando como motivadores da criação e da
transformação do itens lexicais.
Percebemos, ainda, a grande criatividade do falante que age sobre a língua e sobre
suas lexias de acordo com as suas necessidades comunicativas, de modo que a língua falada
por uma determinada comunidade linguística, acaba retratando os costumes e hábitos daquele
povo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao iniciarmos a presente pesquisa tínhamos por objetivo catalogar termos e
expressões referentes ao universo musical da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
em Santa Luzia - PB e elaborar um glossário, a partir das escolhas lexicais feitas por aqueles
39
que organizam e participam dos festejos. Comprovamos, ao término desta pesquisa, que o
nosso objetivo foi alcançado.
A fim de concluirmos nosso trabalho, antes de darmos início à pesquisa de campo,
realizamos a leitura de textos teóricos sobre as Ciências do Léxico, Semântica Lexical, Teoria
dos Campos Semânticos, Linguagem e Cultura a fim de reunirmos subsídios teóricos sob os
quais pudéssemos fundamentar nossas estudos.
Após a pesquisa teórica, visitamos por duas vezes a cidade de Santa Luzia e
entrevistamos 15 (quinze) informantes ligados àquela tradição popular, entre os entrevistados
07 (sete) são moradores da área urbana da cidade de Santa Luzia e 08 (oito) residem no
Quilombo da Pitombeira, povoado quilombola que se localiza na área rural da cidade. De
posse dos termos coletados, elaboramos o inventário representativo da linguagem da Festa.
Pensando em como melhor organizarmos este trabalho, optamos por dividi-lo em três partes
principais.
A primeira parte corresponde aos pressupostos teóricos. Neste capítulo procuramos
enfocar a relação entre léxico e cultura essencial para o entendimento deste trabalho, visto
acreditarmos que através da análise do léxico de uma língua podemos visualizar como se dá a
relação entre língua e cultura em uma determinada comunidade linguística.
Em um segundo momento do capítulo, discorremos sobre as Ciências do Léxico, em
especial, sobre a Lexicologia e a Lexicografia, sendo esta última de grande importância para a
construção do inventário, pois os dicionários são produzidos através desta ciência. Por fim,
abordamos a Teoria dos Campos Léxico-Semânticos, uma vez que o presente inventário se
encontrou organizado sob seus pressupostos.
Na terceira parte deste trabalho, encontramos o inventário lexical dos aspectos
musicais da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia – PB. Este
inventário foi organizado de acordo com a Teoria dos Campos Léxico-semânticos e
contempla 14 (quatorze) lexias que possuem, pelo menos, uma característica em comum:
todas elas estão ligadas, de uma maneira ou de outra, ao universo musical da Festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa Luzia - PB.
Finalmente, após o inventário, apresentamos uma sucinta análise sobre as lexias
inventariadas onde pudemos perceber como ocorre as ligações de significação entre elas.
Compreendemos ainda que algumas dessas lexias, além de terem muito a ver com a realidade
40
e contexto dos falantes entrevistados, podem sofrer influência de fatores extralinguísticos em
sua forma e/ou significado.
Além do ganho acadêmico e de todo conhecimento teórico apreendido, participar
dessa pesquisa foi uma rica oportunidade de compreendermos a língua como retrato cultural
de um povo. Acreditamos que o trabalho em questão possa contribuir com os estudos lexicais
que ponham em destaque o falar desta comunidade linguística, ainda obscurecido, pelo
desconhecimento de seu léxico próprio e original.
Sem pretender esgotar o assunto, vemos que trata-se de um trabalho árduo e que
requer uma grande dedicação por parte do pesquisador. Esperamos, futuramente, dar
continuidade a esta pesquisa contemplando todos os campos léxico-semânticos que possam
ser retratados através desta tão importante manifestação popular e regional, o que nos
possibilitará uma visão ampla acerca do universo linguístico da Festa de Nossa Senhora do
Rosário dos Pretos, em Santa Luzia.
41
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SOUZA, Jordânia de Araújo. Etonografando a Pitombeira (Várzea/PB): disputas e
divergências entre origens e direitos a [uma] identidade quilombola/Jordânia de Araújo
Souza; Orientadora: Prof.ª Dr.ª Mércia Rejane Rangel Batista. Campina Grande, PB, 2011.
ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução a ciência do significado. Trad. de J. A.
Osório Mateus. 3ª edição. Lisboa: Fundação Caloust Gulbenkian, 1964.
VILELA, Mário. Problemas de Lexicologia e Lexicografia. Porto: Editora Civilização,
1979.
VILELA, Mário. Notas Prévias. In: Estudos de Lexicologia do Português. Coimbra,
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WELKER, Herbert Andreas. Dicionários: uma pequena introdução à Lexicografia. Brasília:
Editora Thesaurus, 2004.
43
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<http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=251340&search=paraiba|sa
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44
ANEXO 01: QUESTIONÁRIO
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA- UFPB
GRUPO DE PESQUISA: LÉXICO, ENSINO E CULTURA (LEC)
PROJETO DE PESQUISA: Aspectos da cultura paraibana: uma abordagem léxicosemântica.
PLANO DE TRABALHO: A Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa
Luzia, Sertão da Paraíba: uma abordagem léxico-semântica.
PESQUISADORA:
ORIENTADORA:
___________________________________________________________________
Caro Informante,
A presente pesquisa trata-se do Projeto em desenvolvimento que pretende catalogar
termos e expressões relacionados à festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Santa
Luzia - PB. Além disso, é pretensão nossa divulgar o trabalho que é desenvolvido no espaço
da festa nos mais diversos setores, bem como o próprio glossário poderá servir de instrumento
para especialista da área e demais interessados. Por isso, para sua realização contamos com a
sua preciosa colaboração.
Ao responder ao questionário, você estará colaborando para que a pesquisa alcance os
objetivos desejados.
Sempre agradecidas!
Josete Marinho de Lucena.
Mariana Clara Costa.
QUESTIONÁRIO GERAL
Código:
1. Localização:
45
2. Nome do informante:
Idade:
3. Naturalidade:
Estado civil:
4. Nome do cônjuge:
Naturalidade do cônjuge;
5. Filiação:
Escolarização:
6. Nome do pai:
7. Nome da mãe:
8. Naturalidade dos pais:
9. Pai:
10. Mãe:
11. Onde mora?
12. Há quanto tempo?
13. Esteve fora alguma vez? Por quanto tempo?
14. Você se considera uma pessoa religiosa? Qual a sua religião?
15. Quais as suas lembranças sobre a Festa de Nossa Senhora dos Pretos?
16. Desde quando você participa da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos? Qual
a sua “função” nos festejos?
17. Qual a importância desses festejos para você e para sua comunidade?
18. Qualquer pessoa pode participar como integrante da festa ou há alguma restrição
(idade, sexo, raça)?
19. Como são arrecadados os fundos para organizar a festa? Quem é o responsável por
esta atividade?
20. Como se dá a organização para a/da festa? Há algum ritual especial de preparação?
21. Como é dividida a comemoração? Quais os momentos mais importantes da festa?
22. Existem vestimentas, trajes típicos para os participantes da festa? Quais são eles?
Quem os confecciona?
23. Qual a importância da música, da melodia, dos cânticos nestes festejos? Toca-se
algum instrumento musical? Quais?
24. Existe alguma iguaria, algum prato típico apreciado ou servido durante os festejos?
Quais são eles?
25. Como é a recepção e a reação das pessoas que assistem aos diversos momentos da
festa?
46
Observações:
Data da entrevista: ___/___/___
47
ANEXO 02: FICHA LEXICOGRÁFICA
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA- UFPB
GRUPO DE PESQUISA: LÉXICO, ENSINO E CULTURA (LEC)
PROJETO DE PESQUISA: Aspectos da cultura paraibana: uma abordagem léxicosemântica
PLANO DE TRABALHO: Inventário Lexical dos Aspectos Musicais da Festa de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos em Santa Luzia - PB
PESQUISADORA: Mariana Clara Costa Leite da Silva
ORIENTADORA: Prof.ª Dr.ª Josete Marinho de Lucena
FICHA LEXICOGRÁFICA
CÓDIGO:
1. Termo-entrada:
2. Referências gramaticais:
3. Área de aplicação do termo:
4. Indicação de dicionarização ou não dicionarização e suas acepções dicionarizadas:
DA– Dicionário Aurélio
(
DH – Dicionário Houaiss
) TND
( ) AE
(
) TD ( ) AD
( ) AC
5. Variantes
a. Regionais:
b. socioprofissionais:
6. Conceitos dos informantes:
Cód. do Inf.: Conceito 1:
Cód. do Inf.:
Conceito 2:
Cód. do Inf.:
Conceito 3:
Cód. do Inf.:
Conceito n:
7. Definição final:
8. Contexto de atualização (+ fonte):
9. Remissivas:
Ver
Cf.
10. Notas:
Linguística:
Enciclopédica:
(
) TND
(
) TD
( ) AE
( ) AD
( ) AC
48
11. Data do 1° registro e da última atualização da Ficha:
Legenda: TD= Termo dicionarizado
TND= Termo não dicionarizado
AE= acepção equivalente
AD= acepção diferente
AC= acepção complementar
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