A CIÊNCIA DO SENSO COMUM: OS LIMITES DA FORMAÇÃO
POLÍTICA DA APP-SINDICATO COM BASE NA ANÁLISE DA APOSTILA
SOBRE COMUNICAÇÃO SINDICAL
ARAUJO, Francieli – UEL
[email protected]
Eixo Temático: Formação de Professores e Profissionalização Docente
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
A presente pesquisa tem a finalidade de analisar o Programa de Formação Político Sindical da
APP-Sindicato que ocorreu entre os anos de 2007 a 2009. Buscou-se compreender de que
forma a referida entidade busca politizar a classe trabalhadora, a partir de seu projeto político
pedagógico. Para a análise utilizou-se como aporte teórico a apostila “Teoria e Prática da
Comunicação Sindical” (2008) que compõe um dos eixos temáticos do programa. Assim, o
objeto de pesquisa buscou detectar as potencialidades da iniciativa proposta pela APPSindicato, mas, também, os limites de sua pedagogia de formação, direcionada, em primeiro
momento, às suas bases de professores e funcionários de escola. Dessa forma, pretendeu-se
com este trabalho levantar os pontos problemáticos desta pedagogia de formação, para
perceber como esta interfere na construção da consciência de classe, da politização e da
própria perspectiva de construção de uma leitura crítica da realidade social. Com o estudo
pode-se constatar que o caminho adotado é o da construção de uma leitura superficial,
dicotômica, marcada pela presença de conceitos operacionalizados arbitrariamente e que
seguramente não politiza. Verificou-se ainda que o programa de formação através da referida
apostila ao buscar suprimir a comunicação sindical a um discurso pautado no conhecimento
vulgar não só pode delimitar sua dimensão política como também cria impedimentos ao
avanço do trabalhador no campo reflexivo. O percurso metodológico foi traçado com vistas a
elucidar as razões que movem a problemática levantada. Para tanto, fez-se recurso aos
conceitos utilizados pelo campo da teoria marxiana, incorporando autores clássicos, bem
como análises recentes no campo do materialismo histórico dialético. Trata-se de uma
pesquisa descritiva de análise documental.
Palavras-chave: Educação. Política. Ideologia. Sindicato.
Introdução
Este estudo tem como objetivo compreender o processo de formação político sindical
promovido pela entidade APP– Sindicato (Associação dos Professores do Paraná), em
5133
conjunto com a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) e a UFPR
(Universidade Federal do Paraná), entre os anos de 2007 a 2009.
O programa de educação e formação sindical proposto pela APP é amplo, estendendose no tempo há mais de três anos. Seu projeto pedagógico é composto por quatro eixos
temáticos, a saber: 1- concepção política e sindical; 2- formação de dirigentes sindicais; 3planejamento e administração sindical e 4- temas transversais. Por sua vez, cada eixo é
composto por uma série de fascículos que foram avaliados pelas entidades acima citadas e
discutido nos três anos de execução do projeto de formação.
É exatamente em relação a esta proposta de trabalho sugerida pela APP que pauta-se
nossa investigação. Sabe-se que a pretensão do material apresentado pelo programa é oferecer
conhecimento científico, no entanto em nossas análises busca-se evidenciar que o material
proposto, ou seja, o conjunto de apostilas apresenta uma série de limites conceituais.
Diante do apresentado e de acordo com as possibilidades de uma análise monográfica,
nossas investigações serão restritas a um único fascículo. Dessa forma, dar-se-á ênfase ao
segundo eixo temático, o qual trata da formação de dirigentes sindicais, utilizando-se, para
isso, o material de trabalho fornecido pela APP- Sindicato e intitulado “Teoria e Prática da
Comunicação Sindical” (2008) de autoria de Claudia Santiago e Vito Giannotti.
O material parte do princípio de que a comunicação sindical é um componente
imprescindível à politização da classe trabalhadora e partindo deste pressuposto, propõe-se
discutir como as empresas de comunicação agem para difundir suas idéias, estabelecendo o
contraponto a esta prática a partir da proposta de uma comunicação sindical própria
(SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008).
Verificou-se que ao construírem um projeto de formação, a APP-Sindicato busca
romper com o culto à consciência espontânea. No entanto, a questão central a ser analisada
não é o esforço desenvolvido e, sim, como ele é desenvolvido. O intuito é verificar por quais
caminhos são conduzidas as reflexões acerca da educação política necessária à emancipação
da classe trabalhadora e, em particular, ao processo de formação política de professores e
funcionários proposto pela APP.
Sob este aspecto é que pontuamos o problema, qual seja verificar em que medida o
programa de formação político sindical da APP conduz a uma consciência emancipadora
junto à categoria docente e, mais amplamente, aos trabalhadores em geral, classe à qual o
fascículo se pretende estar direcionado. Assim, nosso objeto de pesquisa busca detectar as
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potencialidades da iniciativa proposta pela APP-Sindicato, mas, também, os limites de sua
pedagogia de formação, direcionada, em primeiro momento, às suas bases de professores e
funcionários de escola.
Para a análise, o estudo opera inicialmente com duas hipóteses. A primeira delas é a de
que sob aparência de construção do pensamento científico, o que se encobre no material é a
predominância do senso-comum, despolitizador da categoria na qual se pretende construir o
agir crítico. A segunda hipótese, decorrente da primeira, é de que contribui para esta
politização despolitizadora, o atrelamento da formação à própria perspectiva partidária na
qual está envolvida a APP-Sindicato, o que a conduz a direcionar o material e a manipular a
análise, como é o caso, por exemplo, da maneira como aborda a política sindical e suas
relações com a social-democracia e o projeto socialista.
A relevância da pesquisa que se intenciona está no fato de que esta busca realizar a
análise crítica de um programa de formação sindical, pretendida como crítica à sociedade
burguesa, em particular e, ao capital, em geral, promovido por uma das maiores organizações
sindicais da América Latina, a APP-Sindicato, que conta hoje em seus quadros com vinte e
nove núcleos sindicais em todo o estado.
Desse modo, esta análise é de importância uma vez que a proposta da apostila da APPSindicato destaca que a comunicação sindical deve pautar-se na práxis, ou seja, deve abranger
teoria e prática para formar novas lideranças políticas, capazes de contribuir com a discussão
da realidade da escola pública e os desafios postos aos educadores. Assim, cabe pontuar que a
apostila coloca um problema essencial, qual seja o de compreender a práxis da comunicação
sindical e a realidade tal como ela é. A questão é saber se o encaminhamento proposto pelo
material da APP realiza esta finalidade de modo a ser capaz de produzir um agir de acordo
com o conhecimento da realidade.
Para cumprir com tal objetivo fez-se recurso aos conceitos utilizados pelo campo da
teoria marxiana, incorporando autores clássicos, bem como análises recentes acerca do
materialismo histórico dialético.
Alguns aspectos da política social-democrata no discurso acerca da comunicação sindical
Pretende-se neste estudo compreender de que modo a APP- Sindicato e seus parceiros
intentam formar novas lideranças políticas a partir do tema em questão, a comunicação
sindical. Sendo assim, faz-se necessário primeiramente identificar através da leitura do
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material a perspectiva política adotada pelas entidades de financiamento do programa.
Através dessa compreensão pode-se verificar a tendência teórica que embasa o projeto
pedagógico de formação proposto aos trabalhadores.
Inicialmente verificou-se que as entidades CNTE e APP-Sindicato desenvolvem ações
em defesa da escola pública democrática e por melhorias nas condições de trabalho dos
profissionais da educação. Nessa perspectiva, os debates são encaminhados na direção de um
tema muito recorrente na atualidade, a “luta pela cidadania”. Assim, extrai-se do próprio site
da CNTE esta postura analítica, onde se verifica que estas entidades lutam pela valorização
dos Trabalhadores em Educação, pautando-se pela mobilização, pela profissionalização, pela
carreira, pelo piso salarial profissional nacional, pela garantia dos direitos sociais e pela
ampliação dos espaços de cidadania.
Evidencia-se no discurso proclamado por estas instituições o debate centrado na
questão da cidadania, ou seja, o terreno da constituição do ser jurídico, com direitos e deveres.
Através de uma leitura institucional da realidade, a crítica se estabelece no campo da ordem,
na busca pela manutenção de direitos sociais já adquiridos e na “luta” por outros ainda não
garantidos juridicamente. O plano formal é assim, o espaço no qual o campo do direito é
discutido com vistas a consolidar o conceito de cidadania e do bem-comum através da palavra
de ordem, igualdade. Desta proposição decorre uma impossibilidade, qual seja o de realizar o
que se estabelece no plano formal de se materializar para o conjunto da sociedade que possui
necessidades e interesses antagônicos.
Em linhas gerais, confinando a discussão aos parâmetros da cidadania, o que se
destaca no material proposto pela APP- Sindicato alinha-se com a perspectiva denominada
social-democrata, cujo terreno é o das reformas no plano legislativo, com vistas a tornar o
sistema capitalista mais igualitário, através do reformismo social. Assim, difere
significativamente de uma proposta de ordem transformadora que visa romper com o sistema
econômico vigente, cuja finalidade precípua é eliminar a divisão do trabalho na forma atual
em que se encontra, isto é, a presença da separação entre quem pensa e quem concebe, a
separação entre trabalho intelectual e material.
À luz desse contexto, o debate é assim, conduzido pelas entidades na direção de uma
determinada tendência política, cuja finalidade central é estabelecer reformas sociais que
buscam amenizar as disparidades da sociedade capitalista. Esta perspectiva será mais bem
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explicitada no decorrer do estudo através de excertos retirados do próprio material, a apostila
“Teoria Prática da Comunicação Sindical” (2008).
A comunicação sindical: conceitos e perspectivas
A proposta de comunicação sindical apresentada pelos autores Claudia Santiago e Vito
Giannotti parte do princípio da necessidade de superar um desafio, qual seja: “[...] entender
como as empresas de comunicação agem para difundir suas ideias e ver como nos educadores
e educadoras podemos responder com a nossa educação” (SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008,
p. 04).
Os autores diante do esforço em afirmar que a mídia burguesa institui mecanismos de
dominação ideológica, criam com isso um embate direto entre a comunicação da grande mídia
e a sindical, que teria por sua vez a responsabilidade de criar uma mídia contra-hegemônica,
capaz de libertar a sociedade da manipulação burguesa. No entanto, consideramos que tanto
esta relação dicotômica simplifica as relações de classes, bem como, consideramos ainda que
a realidade não possa ser considerada como mera manipulação. A manipulação é própria de
uma realidade fetichizada, na qual os indivíduos se movem no campo das aparências e da
pseudoconcreticidade1. Dessa maneira, manipular é operacionalizar os elementos que estão no
cotidiano, cujo fetichismo social é parte integrante. Portanto, para transpor o “desafio” que se
propõem, é preciso incorporar a leitura do fetichismo social.
Espera-se dessa forma, verificar se a perspectiva teórica, tal como é desenvolvida pela
APP-Sindicato, é capaz de impulsionar o trabalhador à reflexão da totalidade do complexo
social, abarcando neste movimento as contradições do capitalismo. É capaz de o educador
sindical da APP, face à atual ordem vigente, fornecer os elementos para desmistificar o
mundo da práxis fetichizada, própria do pensamento comum? Tarefa mais do que necessária
uma vez que
O pensamento comum é a forma ideológica do agir humano de todos os dias.
Todavia, o mundo que se manifesta ao homem na práxis fetichizada, no tráfico e na
manipulação, não é o mundo real, embora tenha a ‘consistência’ e a ‘validez’ do
mundo real: é o ‘mundo da aparência’ (Marx). A representação da coisa não
constitui uma qualidade natural da coisa e da realidade: é a projeção, na consciência
1
No mundo da pseudoconcreticidade - ideia falsa do real - a diferença entre essência e fenômeno desaparece.
Nele os fenômenos externos se desenvolvem a superfície dos processos realmente essenciais. Trata-se do mundo
da práxis feitichizada dos homens, das representações comuns – projeções dos fenômenos externos na
consciência dos homens (KOSÍK, 1976).
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do sujeito, de determinadas condições históricas (KOSÍK, 1976, p. 15, grifo do
autor).
Trata-se de discutir as complexidades que abarcam a categoria da totalidade e, assim,
pensar os grandes complexos da vida social, reconhecendo que a realidade não é transparente,
ou seja,
[...] ela não se apresenta aos homens, à primeira vista, [...] apresenta-se como o
campo em que exercita a sua atividade prático-sensível, sobre cujo fundamento
surgirá a imediata intuição prática da realidade (KOSÍK, 1976, p.10).
Estes princípios são necessários, uma vez que o interesse é saber por quais caminhos
são conduzidas as reflexões acerca da educação política necessária à emancipação da classe
trabalhadora e, em particular, ao processo de formação política de professores e funcionários
proposto pela APP-Sindicato.
Portanto, partindo dessas inquietações é que expomos a concepção de comunicação
sindical segundo os autores Claudia Santiago e Vito Giannotti, a partir do material de análise
a apostila “Teoria e Prática da Comunicação Sindical” (2008).
Ao dar início à discussão em torno do tema comunicação sindical, os autores
explicitam os meios de comunicação que podem ser utilizados pelo sindicato. A princípio, os
autores pontuam que além dos meios tradicionais, como o jornal, boletim ou panfleto, há
muitas outras ferramentas que podem ser “[...] usadas por aqueles interessados em fazer uma
comunicação diferente. Uma comunicação voltada para um público específico, para uma
classe específica” (grifo nosso, SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008, p. 09). Santiago e
Giannotti buscam especificar a comunicação sindical valendo-se de idéias e termos que não
explicitam claramente os elementos constitutivos da linguagem que se pretende firmar.
Ademais se afirma ainda que a comunicação sindical é “uma comunicação diferente e muito
exigente” (grifo nosso, 2008, p. 75). Vejamos, de acordo com Santiago e Giannotti (2008)
quais são as atribuições fornecidas à comunicação sindical para que ela seja compreendida de
tal forma:
[...] a comunicação sindical é extremamente exigente. Esta exigência começa pelo
destinatário da comunicação. Fazer um jornal empresarial, da chamada grande
imprensa, é uma coisa. Este é feito para um público que quer ler. Que tem hábito de
leitura. Um público que, por motivo ou por outro está esperando ter na mão seu
jornal para ver o que ele quer. O que lhe interessa. Fazer um jornal, um panfleto, ou
uma cartilha para o público sindical é outra coisa. O interesse deste destinatário não
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é automático. Quem está interessadíssimo que nosso boletim, jornal, cartilha ou livro
histórico seja lido somos nós. É o diretor sindical, é o jornalista, não o sonhado
destinatário (SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008, p. 75).
Diante do apresentado, pode-se compreender que a intenção é empregar um tipo de
linguagem a cada estrato social. Dessa forma, ao afirmarem que a estrutura econômica incide
sobre a comunicação, estão com isso reforçando a sociedade de classes. A presença da
comunicação sindical, numa sociedade de classes com interesses antagônicos, como a
capitalista, deve ser pensada sob a perspectiva de emancipação da classe trabalhadora, tendo
por objetivo à abolição da estratificação social nos moldes em que se encontra. No entanto, ao
problematizarem a comunicação sindical, o fazem, a princípio, comparando-a a um mosaico,
devido a sua complexidade.
A comunicação de um sindicato com os trabalhadores de sua base pode ser
comparada a um mosaico composto de centenas de pedrinhas. Nenhuma destas
pedras é o mosaico, mas o conjunto delas, colocadas em seqüência de uma
determinada forma, pode dar um belíssimo resultado final. [...] cada pedaço dessa
comunicação é um instrumento e é preciso sabê-lo usar de forma certa e na hora
certa (SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008, p. 09).
A ideia de mosaico é utilizada na intenção de demonstrar de maneira simplificada que
a realidade é composta por diversos elementos e que a combinação desses dá a devida
explicação a esta realidade. Da mesma forma Santiago e Giannotti buscam criar um caminho
direto, simplificado para exprimir que se quisermos compreender a sociedade é preciso
conhecer também as suas partes e como elas se entrelaçam. Ao se referirem de modo mais
específico a comunicação sindical, os autores manifestam que há um conjunto de elementos
que viabilizam esta prática, todavia, é necessário ter o conhecimento adequado para se fazer a
comunicação adequada (id, ibidem).
Nesse caminho, Santiago e Giannotti (2008, p. 10) buscam delimitar os campos da
comunicação sindical dividindo-os em três blocos, a saber: comunicação escrita, a via rádio e
TV e a via Internet.
O primeiro é o bloco da escrita. O panfleto, a cartilha, o jornal periódico, a carta, o email, enfim são alguns exemplos citados pelos autores como instrumentos diferentes que
fazem parte da comunicação escrita. O segundo é o rádio e a TV, já o terceiro e ultimo bloco é
a internet, considerada um instrumento indispensável na disputa pela hegemonia, por sua
agilidade e eficácia na divulgação da mensagem sindical. Evidencia-se que o discurso dos
5139
autores é meramente descritivo, uma vez que não empreendem uma discussão de caráter
analítico de cada um desses meios. Para elucidar, explicitaremos acerca do carro de som, que
de acordo com Santiago e Giannotti é um instrumento amplamente utilizado pela
comunicação sindical latino-americana:
O nosso carro de som é um poderoso instrumento de comunicação. Um instrumento
de veiculação das idéias de um sindicato. A importância de um carro de som, por
exemplo, durante uma ocupação de um prédio do Instituto Nacional da colonização
e reforma Agrária (INCRA) pelo Movimento dos Sem-Terra (MST) é determinante.
Nesta ocupação, não há panfletos nem cartazes. Não há outdoors nem pichações.
Nem cartilhas nem livros. Há a politização feita oralmente pelo MST e repetida,
boca a boca, pelos militantes e pelos trabalhadores comuns (2008, p. 11, grifo
nosso).
Destaca-se nesta passagem o aspecto instrumental do carro de som. Ao evidenciarem
este plano, perde-se de vista o trabalho interno dos elementos teóricos que devem nortear a
análise dos instrumentos utilizados na politização dos trabalhadores. O fato de um carro de
som ser ocupado por militantes, não significa que automaticamente ocorra à politização. Para
tanto, é preciso tomar consciência das contradições sociais existentes e se organizar no
sentido de resolvê-las. Isto só é possível se a politização ocorrer no plano da consciência
crítica, através da apreensão teórica.
Nesse sentido, verifica-se que, no lugar da análise crítica o que se apresenta até o
momento é um discurso que não contém as mediações necessárias para responder ao
problema proposto, isto é, não consegue apreender as conexões internas do objeto em questão.
Diante desta proposta de discussão estabelecida pelos autores, observa-se que estes ficam
presos estritamente a forma, ao aparato instrumental e a oratória. Pode-se verificar esta
postura, ao afirmarem que:
Um dia ocupação de um prédio do Incra ou da DRT pode se transformar num curso
de formação para milhares de trabalhadores, através do carro de som. O dia todo ele
tocará as músicas sobre a realidade e a luta dos sem-terra, do compositor de
Rondônia, Chico Pinto. Nessas músicas, as palavras de ordem do MST – ‘Ocupar,
resistir, produzir’ – serão repetidas pelo menos cinco ou seis vezes em cada música
até todo mundo ter aprendido a música de cor e com ela reafirmar as palavras
centrais da sua luta (SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008, p. 12, grifo dos autores).
Isto posto o que se apresenta no encaminhamento da discussão, é a necessidade da
comunicação sindical de evidenciar a “luta do dia a dia” dos profissionais da educação, bem
como os “problemas gerais da educação do nosso país” (SANTIAGO; GIANNOTTI, 2008,
5140
p.12). Essas reivindicações estão atreladas aos aspectos mais contingentes do universo do
trabalho dos profissionais da educação. A questão salarial, a tripla jornada de trabalho, a
violência nas escolas, são alguns temas recorrentes nos debates das instâncias que buscam
defender a escola pública e seus profissionais.
No entanto, é preciso considerar que estas contradições se exprimem através da
sociedade de classes, própria de uma estrutura capitalista. E isto acontece na medida em que
uma franja da sociedade se apropria daquilo o outro produz. Resultando na impossibilidade de
se estabelecer relações harmoniosas entre os indivíduos sob a égide do sistema burguês.
Efetivamente o que se apresenta à sociedade são relações violentas que mascaradas ocultam a
verdadeira face do capitalismo.
Frente a este “espírito de luta” e em consonância com a política adotada por estes
órgãos, Santiago e Giannotti pontuam que:
Nossa comunicação tem que dar conta do desafio de falar para os profissionais da
educação e para os pais e mães dos nossos alunos e com toda a sociedade.
Precisamos falar dos salários de miséria que recebemos. Mostrar para toda a
população que para ter uma remuneração que dê para viver, precisamos pipocar de
um trabalho para o outro, chegando a ter até três empregos (2008, p. 12).
A discussão restringe-se aqui ao plano jurídico, que é próprio de uma estrutura que
visa trabalhar no campo da imediaticidade. Diante desta leitura institucional, a ação sindical
fica restrita ao movimento reivindicatório do trabalho face ao capital. Destituído de seu
caráter verdadeiramente crítico, o sindicato e suas ações se enquadram nos limites do
reformismo social, característica presente na política social-democrata. Portanto, a ideia de
comunicação sindical apresentada se restringe a lutar contra os efeitos do sistema capitalista,
não havendo esforços que visem à abolição de toda a dominação de classe. Para tanto seria
necessário estabelecer um movimento de ordem transformadora que tivesse em pauta a luta de
classes que se materializa pela relação capital x trabalho.
Considerações finais
Com o presente estudo monográfico pode-se compreender que no conjunto, o material
aponta para uma série de limites conceituais, os quais interferem diretamente na formação da
consciência política e no agir concreto daqueles que se pretende formar.
5141
Constatou-se, de acordo com o fascículo analisado que buscando criticar a estrutura de
dominação na sociedade capitalista, o caminho adotado é o da construção de uma leitura
superficial, dicotômica, marcada pela presença de conceitos operacionalizados arbitrariamente
e que, na prática, terminam por ser esvaziados de seu sentido, como é o de “hegemonia”.
No decorrer da análise do fascículo, pode-se visualizar que os autores, Santiago e
Giannotti buscam suprimir a ideologia dominante difundida pelos grandes meios de
comunicação. No entanto, avaliamos que para realizar tal crítica é preciso, sobretudo,
considerar que as contradições da realidade estão intimamente ligadas, no momento atual, à
ideologia do capital. Desse modo, para romper com tal hegemonia será necessário romper
primeiramente com as condições que lhe tornam possíveis sua existência. Torna-se imperativo
compreender que a ideologia do capital, atua no campo do convencimento da consciência
humana. Assim, ela age mascarando a realidade, deixando transparecer apenas a aparência do
fenômeno, cujo resultado se evidencia nas relações de dominação. É neste campo que atua a
comunicação de massa, no plano ideológico, uma vez que é empreendida pelos grandes
grupos econômicos que agem na legitimação da ordem instituída, a capitalista. Para
compreender este processo de superação da pseudoconcreticidade é preciso examinar a
realidade por meio da dialética2 que segundo Kosík:
[...] trata da ‘coisa em si’. Mas a ‘coisa em si’ não se manifesta diretamente ao
homem. Para chegar a sua compreensão, é necessário fazer não só um certo esforço,
mas também um détour. Por este motivo o pensamento dialético distingue entre
representação e conceito da coisa [...] (1976, p. 9).
Por certo, o programa de formação político sindical que se intenciona crítico, deve ser
capaz de impulsionar o trabalhador à reflexão da totalidade do complexo social, abarcando
neste movimento as contradições do capitalismo. O papel do educador, em particular o
sindical, face à atual ordem vigente seria o de fornecer elementos para desmistificar o mundo
da práxis fetichizada.
Em linhas gerais a comunicação sindical precisaria conduzir o trabalhador ao
conhecimento da ciência, através da apreensão de certos elementos, fazendo-o superar a
2
A dialética não atinge o pensamento de fora para dentro, nem de imediato, nem tampouco constitui uma de suas
qualidades; o conhecimento é que é a própria dialética em uma de suas formas; o conhecimento é a
decomposição do todo (KOSÍK, 1976).
5142
imediaticidade dos processos e fenômenos sociais como sendo a realidade da estrutura social
(NETTO, 2000).
No entanto, o que se visualizou na apostila “Teoria e Prática da Comunicação
Sindical” (2008) foi o renuncio à teoria e em contrapartida buscou-se trabalhar com conceitos
operacionalizados de forma arbitrária. Ao trabalharem com a realidade social de modo
mecânico, não se tem o que é fundamental para a constituição do intelectual orgânico do
proletariado, ou seja, a apreensão dialética da realidade. É preciso compreender que esta
realidade está em movimento, é uma totalidade, é contraditória, e um legítimo intelectual
orgânico da classe apreende estes conhecimentos. No caso dos pressupostos contidos na
apostila, isto não se concretiza. Portanto, ao estabelecer uma consciência coerente em torno de
uma determinada concepção de mundo, estamos afirmando que esta é capaz de explicar os
problemas colocados pela realidade.
Por fim, acreditamos que pensar a educação do trabalhador, em especial, no projeto de
formação político sindical da APP-Sindicato requer investigar em que base está ancorada a
sua pedagogia de formação e em qual filosofia política ela se sustenta. Por isso, destacamos
em nosso estudo a importância da posse da filosofia que, segundo Gramsci, é a teoria. Tratase de compreender que a apreensão dos elementos conceituais pela classe trabalhadora conduz
a formação da consciência de classe e conseqüentemente ao desejo de transformação social.
REFERÊNCIAS
GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação: um estudo introdutório. 8ª Ed. São
Paulo: Cortez: Autores associados, 1992.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Vol. I. Edição e trad.: Carlos Nelson Coutinho.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
_______________. Cadernos do cárcere. Vol. II. Edição e trad.: Carlos Nelson Coutinho; 2ª
Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
KOSÍK, Karel. Dialética da totalidade concreta. In: Dialética do Concreto. Tradução: Célia
Neves de Alderico Toríbio. 2ª Ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1976.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
NETTO, José Paulo, Para a Crítica da Vida Cotidiana. In: NETTO, José Paulo e
5143
CARVALHO, M. C. Brant, Conhecimento e Crítica, S.P., Cortez, 2000.
SANTIAGO, Claudia; GIANNOTTI, Vito. Teoria e Prática da Comunicação Sindical.
Programa de Formação da CNTE/APP - Sindicato. Curitiba - PR, 2008.
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