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UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
PÓS – GRADUAÇÃO LATU SENSU EM SAÚDE DA FAMÍLIA
DO
CU
M
EN
A Odontologia e o Programa Saúde da Família (PSF)
Luciana de Albuquerque Silva
Profª. Orientadora Msc. Maria da Conceição Maggioni Poppe
Eirunepé - AM
2013
2
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
PÓS – GRADUAÇÃO LATU SENSU EM SAÚDE DA FAMÍLIA
A Odontologia e o Programa Saúde da Família (PSF)
Luciana de Albuquerque Silva
Monografia apresentada ao Instituto A
Vez do Mestre da Universidade
Cândido Mendes, como requisito
parcial à obtenção do título de
especialista em Saúde da Família.
Eirunepé - AM
2013
3
RESUMO
A Odontologia e o Programa Saúde da Família (PSF) foi o tema escolhido desta
monografia, cujo objetivo é procurar evidenciar e analisar os aspectos importantes da inclusão da
assistência odontológica para compor a busca pela qualidade de vida e consequentemente da
saúde integral da população. O trabalho trata das dificuldades encontradas pelo cirurgião dentista
do Programa Saúde da Família em promover a saúde bucal no seu local de atuação, pois para que
todos os obstáculos que distanciam o paciente de seu tratamento sejam vencidos, faz-se
necessário que o cirurgião dentista conheça a realidade social e cultural do local de sua atuação, e
assim se estabeleçam vínculos entre ele e a comunidade onde atua.
O Programa Saúde da Família foi criado em 1994 e prioriza as ações de promoção,
prevenção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família e a inclusão da Odontologia no
Programa Saúde da Família tem como objetivo ampliar o acesso da população às ações de saúde e
de promoção de saúde bucal. Para tanto o Ministério da Saúde afirma que hoje se busca, portanto,
um profissional que saiba se imiscuir no plano social e que possa atuar tanto no consultório
particular em equipes multidisciplinares de saúde.
O trabalho de abordagem aos dentistas foi feito com base em uma pesquisa de opinião
com que arguia sobre as dificuldades que enfrentam em atuar na comunidade para repassar as
informações necessárias em educação em saúde bucal et também a comunidade opinou sobre a
importância do repasse dessas informações para a melhora da saúde bucal de suas famílias.
Embora as dificuldades existam e só apenas se modificará com o tempo, o grande desafio
atual é o processo levado a efeito pelo Programa de Saúde da Família através do relevante papel
da Odontologia, de motivar o paciente para o uso correto e eficiente do arsenal de conhecimentos
que lhes são perpassados através do programa.
4
METODOLOGIA
Este estudo monográfico foi realizado no Município de Eirunepé, cidade do
interior do estado do Amazonas, pertencente à Microrregião de Juruá e distandose da Capital do estado cerca de 1.160 km em linha reta.
Foi feita uma pesquisa de opinião junto aos profissionais Dentistas que
atuam no Programa Saúde da Família (PSF) do Município, há pelo menos 5 anos e
também junto à comunidade acerca da importância do repasse de informação
sobre saúde bucal e do aproveitamento desta, no sentido de mudanças,
obviamente positivas para a comunidade em geral.
Aos primeiros, deu-se-á a oportunidade de identificar suas principais
dificuldades em, mesmo em longo prazo, incutir na mentalidade da população as
vantagens de se autocuidar, de preocupar-se com a sua saúde bucal e de
transmitir essas informações importantes dentro de seus círculos sociais.
Opinaram 06 dentistas de diferentes sexos e idades que atuam no PSF.
A comunidade também teve a oportunidade de dar sua contribuição, no
sentido de destacar a importância que cada um dá a sua saúde bucal e se acham
que as informações acerca desse tema são de fundamental importância para a
melhoria de sua qualidade de vida e da de seus familiares; foram ouvidas as
opiniões de 60 usuários da atenção básica, também de diferentes sexos, idades e
grau de instrução.
Inicialmente, após a coleta dos dados profissionais de cada um, foram feitas
duas perguntas aos cirurgiões dentistas: a primeira e mais obvia, sobre a principal
5
dificuldade que enfrentam em atuar na comunidade para repassar as informações
necessárias em educação em saúde bucal. E a segunda referenciava a opinião
individual, no sentido de ampliar a visão de formação que os futuros profissionais,
ou seja, os acadêmicos de odontologia venham receber dentro das Universidades
para que haja um maior comprometimento, enquanto profissional do serviço
público, e também direcionamento para capacitar as áreas adscritas em sua área
de abrangência no tocante ás ações de educação em saúde bucal.
Para a comunidade, ou usuários dos serviços odontológicos do Município,
foi lançado apenas um questionamento: se o valor das informações fornecia algum
sentido na melhoria de sua qualidade de vida e se havia aplicabilidade dessas
informações nos hábitos de sua família.
Autores importantes na Odontologia como Mário Chaves (2002), estudioso
da Odontologia Social, Miguel Nobre (2000) que atrela seus estudos nos
determinantes do Sistema Único de Saúde para a odontologia, e também algumas
Portarias do Ministério da Saúde (2006), corroboram no sentido de ampliar as
informações para um bom embasamento teórico sobre a odontologia e o Programa
saúde da Família.
6
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Capítulo 1 – PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA (PSF): A PROMOÇÃO DE SAÚDE
BUCAL.
1.1– Objetivos da implantação da Odontologia no PSF.
Capítulo 2 – O CIRURGIÃO DENTISTA E O PSF.
2.1 – Atribuições específicas do Cirurgião Dentista.
Capítulo 3 - ANÁLISE DAS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELO CIRURGIÃO
DENTISTA
EM
PROMOVER
SAÚDE
BUCAL
QUESTIONÁRIO E OPINIÃO DOS USUÁRIOS.
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA
DE
ACORDO
COM
O
7
INTRODUÇÃO
A Odontologia e o Programa Saúde da Família (PSF) foi o tema escolhido
desta monografia, cujo objetivo é procurar evidenciar e analisar os aspectos
importantes da inclusão da assistência odontológica para compor a busca pela
qualidade de vida e consequentemente da saúde integral da população.
A formulação do modelo de Atenção à Saúde Bucal no Programa Saúde da
Família (PSF) segue os princípios e as diretrizes preconizados por essa estratégia
e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), destacando-se o princípio da integralidade,
intersetorialidade, universalidade, descentralização, participação da comunidade,
entre outros.
A questão central desse trabalho trata das dificuldades encontradas pelo
cirurgião dentista do Programa Saúde da Família (PSF) em promover a saúde
bucal no seu local de atuação, neste caso pertinente, o município de Eirunepé.
Pois para que todos os obstáculos que distanciam o paciente de seu tratamento
sejam vencidos, faz-se necessário que o cirurgião dentista conheça a realidade
social e cultural do local de sua atuação, e assim se estabeleçam vínculos entre
ele e a comunidade onde atua.
Seria de grande importância que nesse aspecto, as Universidades,
introduzissem na ementa de disciplinas importantes como Saúde Coletiva, tópicos
que ajudassem o aluno a promover um estudo sobre a adequação do profissional
ao meio que irá atuar, para que enquanto profissional, não se criem falsas
8
expectativas nem tampouco barreiras entre paciente/usuário/cliente do PSF e o
cirurgião dentista.
Dessa forma, o tema sugerido irá relacionar as doutrinas do Sistema Único
de Saúde (SUS) propostas pelo PSF com as dificuldades encontradas pelos
cirurgiões dentistas dentro do Município para que haja uma forma de aumentar o
desempenho do profissional e principalmente de melhorar os hábitos da população
quanto a sua higiene bucal.
No primeiro capítulo do trabalho poderá ser acompanhada a forma através
da qual a odontologia foi inserida no PSF, serão destacados os objetivos dessa
inclusão tão importante dentro do Programa Saúde da Família (PSF) e a
importância da saúde bucal para o alcance do bem estar e da manutenção da
saúde geral.
No segundo, será apresentado o relevante papel do cirurgião dentista
dentro do Programa Saúde da Família (PSF) e suas atribuições específicas dentro
de sua área de trabalho junto à população assistida.
No terceiro e último capítulo, será levantado um conteúdo teórico sobre as
principais dificuldades do cirurgião dentista em desenvolver corretamente seu
trabalho junto à população, no sentido de motivá-los à mudança de hábitos e a
melhorar seu autocuidado e percepção de saúde bucal, bem como buscar refletir
sobre mudanças quanto à sua formação acadêmica, para que essas dificuldades
sejam minimizadas e o trabalho do futuro profissional seja promissor.
9
Objetivando-se com a conclusão deste estudo, a identificação dos reais
problemas enfrentados pelos cirurgiões dentistas do Município de Eirunepé em
promover a saúde bucal em seu local de atuação, e propor meios para o
estabelecimento de comunicação e repasse de informação para a população no
que se refere à educação em saúde bucal.
10
CAPÍTULO I
Programa saúde da família (PSF): a promoção de saúde
bucal
O Programa Saúde da Família (PSF), criado em 1994, prioriza as ações
de promoção, prevenção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família,
do recém-nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral e contínua
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2000).
A missão do PSF, preconizado pelo Ministério da Saúde é reorganizar as
Unidades Básicas de Saúde, para que estas, além de se tornarem resolutivas,
estabeleçam
vínculos
de
compromisso
e
responsabilidade
entre
os
profissionais de saúde e a população, de um modo integral e participativo
(SOUSA, 2000).
O PSF, portanto, não surgiu para resolver todos os problemas, mas para
tratar com igualdade os desiguais, ou seja, dar mais atenção a quem precisa, e
com isso, praticar a promoção, prevenção e preservação da saúde.
E é dentro deste aspecto de importância fundamental, o objetivo maior
da inclusão da Odontologia no Programa de Saúde da Família, pois durante
muito tempo a Odontologia esteve voltada apenas para o combate às doenças
bucais já instaladas e em avançado estágio de evolução. A atenção em saúde
11
bucal concentrava-se em ações curativas e direcionadas a escolares (SAÚDE
EM FOCO, 2000).
O Programa de Saúde Bucal da Família foi estruturado com o objetivo de
contribuir para a reorientação do modelo assistencial a partir da atenção básica,
em conformidade com os princípios do SUS, imprimindo nova dinâmica de atuação
nas unidades básica de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2000).
A Odontologia foi inserida no PSF pelas Portarias Ministeriais 1.444, de
28/12/2000, e 267, de 29/09/2001, com o intuito de buscar a construção de novos
processos de trabalho voltados para a família, considerando-a uma instituição
perene nas relações estabelecidas pela humanidade, em que ocorrem relações
pessoais e se transmitem valores éticos, religiosos e culturais (BRASIL, 2001).
A inclusão da Odontologia no Programa Saúde da Família (PSF) tem como
objetivo ampliar o acesso da população às ações de saúde bucal, respeitando os
princípios organizativos e operacionais do PSF, além de criar critérios de
incentivos financeiros aos estados e municípios e assegurar o acesso progressivo
de todas as famílias beneficiadas com o PSF às ações de promoção de saúde
bucal (SAÚDE EM FOCO, 2000).
No levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) em 1998, por meio de Pesquisa Nacional por Amostras de
Domicílios (PNAD), foi constatado que cerca de 20 milhões de brasileiros, de
um total de 160 milhões, nunca foram ao dentista. Isso representa algo em
torno de 12,5% de pessoas que nunca tiveram acesso a tratamento
12
odontológico. É importante salientar que na área rural esse número sobe para
32% (BRASIL, 2000).
A promoção de saúde bucal compreende uma ação global e sistêmica,
cujo objetivo é aprimorar a qualidade de vida dos indivíduos. Para tal, segundo
Miranda Leão (2001), a OMS definiu alguns princípios para esta promoção:
desenvolvimento de habilidades pessoais, ação comunitária, política pública
saudável e a existência de uma ambiente de apoio e reorientação dos serviços
de saúde.
Petry e Pretto (1997), desde então, já chamam a atenção para o fato de
que a motivação do paciente tem um papel importantíssimo na saúde bucal,
pois envolve um processo de empatia, responsabilidade, afeto, conhecimento
técnico e científico, disponibilidade e prazer.
Surgiu então, a Odontologia preventiva objetivando resgatar as
deficiências
existentes,
exigindo
do
profissional
capacitação
técnica,
comunicação interpessoal para compreender a motivação do indivíduo através
de programas de educação e prevenção da saúde Bucal (CHAVES, 2001).
O principal recurso de motivação pessoal para Couto et al. (2002) é o da
orientação direta, devido ao contato muito próximo paciente/profissional,
devendo ser uma atitude constante nas atividades profissionais, a fim de que os
conhecimentos trabalhados possam ser incorporados de forma definitiva aos
hábitos de higiene bucal dos pacientes.
13
A saúde bucal adquire maior importância quando se fala em qualidade de vida
da população; assim, é essencial a busca de mecanismos que ampliem o âmbito
de suas ações e viabilizem mudanças no perfil epidemiológico brasileiro. A luta
pela saúde bucal está diretamente vinculada à melhoria de fatores condicionantes
sociais, políticos e econômicos, o que referenda a responsabilidade e dever do
Estado em sua execução (BASTOS et al., 1996).
1.1– Objetivos da implantação da Odontologia no PSF
A necessidade de melhorar os índices de saúde bucal e ampliar o acesso
da população às ações a ela relacionadas impulsionou a decisão de reorientar as
práticas de intervenção, Nesse contexto, valendo-se para tanto, de sua inclusão na
estratégia PSF, do cuidado com a saúde da família.
De acordo com Storck (2003), destaca-se dentre esses objetivos do plano
de reorganização das práticas de intervenção, os seguintes:
ü O melhoramento das condições de saúde bucal da população
brasileira;
ü A orientação das práticas de atenção à saúde, consoante ao
preconizado pelo PSF;
14
ü O acesso progressivo de todas as famílias residentes nas áreas
cobertas pelas equipes do PSF às ações de promoção e prevenção,
bem como aquelas de caráter curativo-restaurador da saúde bucal;
ü Capacitação, formar e educar constantemente os profissionais de
saúde bucal, por intermédio da articulação entre as instituições de
ensino superior e as de serviço do SUS.
ü Avaliar os padrões de qualidade e o impacto das ações de saúde
desenvolvidas, sempre de acordo com os princípios do PSF.
Durante muitos anos, no Brasil, a inserção da saúde bucal e das práticas
odontológicas no SUS deu-se de forma paralela e afastada do processo de
reorganização dos demais serviços de saúde.
Atualmente essa tendência tem sido revertida, obsevandose o esforço para promover a integração da saúde bucal nos
serviços de saúde em geral a partir da conjugação de saberes e
práticas que apontem para a promoção e vigilância em saúde, para
a revisão das práticas assistenciais que incorporam a abordagem
familiar (PINHEIRO et al., 2008:03).
De acordo como Ministério da Saúde (2006), as bases principais para a
reordenação das ações de saúde bucal são: o caráter substitutivo das práticas
tradicionais, a integralidade na assistência prestada à população, a articulação da
refer6encia e contra-referência aos serviços de maior complexidade, a família
como núcleo central de abordagem, a humanização do atendimento, o estímulo às
ações de promoção de saúde e a educação permanente dos profissionais.
E janeiro de 2004, o Ministério da Saúde elaborou o documento “Diretrizes
da Política Nacional de Saúde Bucal”. Estas diretrizes apontam para uma
reorganização da atenção em saúde bucal em todos os níveis de atenção e para o
15
desenvolvimento de ações intersetoriais, tendo o conceito do cuidado como eixo
de reorientação do modelo, respondendo a uma concepção de saúde não centrada
somente na assistência aos doentes, mas, sobretudo, na promoção da boa
qualidade de vida e intervenção nos fatores que colocam em risco, incorporando
ações programáticas de uma forma mais abrangente (MINISTÉRIO DA SAÚDE,
2006).
Observa-se assim que, a Odontologia requer dos programas em que esteja
inserida, um compromisso contínuo do profissional no sentido de possibilitar a
qualidade de vida do cidadão a partir do aspecto considerado como fundamental, a
promoção de saúde no desenvolvimento da díade: educação e prevenção em
Saúde Bucal.
16
CAPÍTULO 2
O cirurgião dentista e o PSF
A formação de profissionais de Odontologia tem se modificado com o
passar do tempo. Do início puramente artesanal, passou pelo aspecto cientificista
e hoje, na grande maioria dos cursos o enfoque é humanístico (NOBRE 2000).
É, portanto, necessário ao acadêmico e futuro profissional da área da
saúde, conhecer e reconhecer os fatores intervenientes na manutenção da saúde
bucal dos indivíduos da sociedade em que vive. A Odontologia mudou e,
consequentemente a forma de vivenciá-la também sofreu transformações, e uma
delas foi, sem dúvida, a criação do Programa Saúde da Família o Ministério da
Saúde.
Dentro deste Programa o cirurgião dentista (CD) tem um relevante papel,
bem como todos os que compõem a equipe. Assim, nesse momento histórico a
inserção da saúde bucal no PSF passa a demandar uma reorganização da prática
odontológica, pois o CD necessita ser sujeito de um processo de qualificação
profissional, visando integrar uma equipe e desenvolver ações programáticas
inseridas nesta estratégia de intervenção populacional baseada no território, com
vistas à efetivação do SUS (BRASIL, 2006).
17
Historicamente, as práticas de saúde bucal no Setor Saúde, indicam que ela
foi desenvolvida à distância, sendo feita praticamente entre quatro paredes, restrita
à prática do CD com seu equipamento odontológico. Atualmente, a incorporação
das ações de saúde bucal pela Equipes da Saúde da Família visa transpor esse
modelo de organização e prática anterior, na medida em que procura integrar a
prática dos profissionais da equipe (MARCENES, 2000).
A definição do campo das práticas das Equipes de Saúde Bucal (ESB) na
Atenção Básica extrapola os limites da boca, são ações que devem integrar o PSF.
O cirurgião dentista dentro da equipe é co-responsável por várias ações dentro do
campo da atenção à saúde bucal, dentre elas estão:
As ações intersetoriais, que significam ações para mudar as
circunstâncias sociais e ambientais que afetam a saúde
coletivamente, como por exemplo, intervir em ações que promovam
desenvolvimento social, acesso ao saneamento básico e incentivo
à fluoretação das águas de abastecimento público.As ações
educativas e de promoção à saúde, que fornecem instrumentos
para fortalecer a autonomia dos usuários no controle do processo
saúde-doença e na condução de seus hábitos. Dentro destas
ações está a abordagem das principais doenças que acometem a
boca e a importância do autocuidado. E também, as ações
assistenciais, que significam a parte curativa, de cunho individual
ou coletivo, a fim de minimizar os problemas já existentes (BRASIL,
2006: 24).
Dentro das estratégias para a incorporação das ações de saúde bucal no
PSF está a inclusão de profissionais de saúde bucal por meio de duas
modalidades: A primeira incorpora um cirurgião dentista (CD) e um auxiliar de
saúde bucal (ASB), que seria a modalidade I. Na modalidade II, além do CD e
ASB, seria incorporado também um Técnico em Higiene Bucal (THD) (SILVA,
2003).
18
A carga horária de trabalho desses profissionais deverá ser de 40 horas
semanais com o atendimento em instalações que atendam aos critérios de
referência territorial e facilidade de acesso à população.
A relação entre a Equipe de Saúde Bucal e a Equipe de Saúde da Família,
inicialmente, foi determinada na proporção de uma Equipe de Saúde Bucal para
duas Equipes de Saúde da Família implantada ou em processo de implantação. A
partir da Portaria GM/MS 673, de 3 de junho de 2003, estabeleceu-se que podem
ser implantadas tantas Equipes de Saúde Bucal quantas forem as Equipes de
Saúde da Família em funcionamento nos municípios (BRASIL, 2006).
Como estratégia operacional, a Odontologia resgata a matriz ideológica do
Programa de Saúde da Família, ou seja, busca trabalhar a descrição da clientela,
com foco no núcleo familiar e utilizar-se da Epidemiologia como ferramenta de
decisão, norteadora dos critérios de priorização, a partir do conceito de risco.
Busca ainda defender o trabalho multidisciplinar; integrar o coletivo ao individual e
a prevenção à cura, trabalhando a compreensão da determinação social do
processo saúde-doença a partir de uma prática humanizada.
A atuação do cirurgião-dentista em equipe interdisciplinar, em nível central,
se volta para o planejamento de políticas públicas saudáveis e o desenvolvimento
de ações de vigilância da saúde da coletividade. Ressalta-se que essas atividades
também podem ser desenvolvidas em nível distrital, na dependência do tamanho
do município de sua organização político-administrativa (SOUSA, 2000).
As políticas promotoras de saúde incluem: o controle da produção de
alimentos processados com adição de açúcar e o apoio ao aumento e à
distribuição de alimentos tradicionais em nível nacional; o desencorajamento do
uso de açúcar, incentivando sua substituição por produtos mais saudáveis; a
remoção de açúcares extrínsecos não lácteos na alimentação de crianças e em
19
medicamentos pediátricos; a fiscalização de rótulos alimentares, exigindo a
descrição clara de seus conteúdos e valor nutritivo; o controle de propagandas
sobre alimentos infantis; a distribuição de merenda escolar com alimentos sem
açúcar e baixo teor de gorduras; a inclusão de temas transversais nos currículos
escolares, enfatizando que açúcares ingeridos isoladamente são pobres sob o
aspecto nutricional, além de diminuírem a densidade nutricional de alimentos
complexos.
A efetiva ação da Atenção Básica depende fundamentalmente de uma
sólida política de educação permanente e capaz de produzir profissionais com
habilidade e competência que lhes permitam compreender e atuar no setor público
com boa técnica e compromisso público (BRASIL, 2006).
Nesse aspecto, o cirurgião dentista com atuação no PSF, tem a chance de
construir,
através
da
aproximação
com
o
usuário,
uma
autonomia
de
enfrentamento dos problemas existentes e estabelecer vínculos que resultem em
cooperação e em ensino e aprendizagem mútuos.
2.1 Atribuições específicas do Cirurgião Dentista
De acordo com a Portaria n° 648/GM, de 28 de março de 2006 a
competência específica do cirurgião dentista que atua na Atenção Básica por meio
do Programa Saúde da Família é:
I – Realizar exames clínicos com a finalidade de conhecer a realidade
epidemiológica da saúde bucal da comunidade;
20
II – Realizar procedimentos clínicos definidos na Norma Operacional Básica
do SUS;
III – Assegurar a integralidade no tratamento;
IV – Encaminhar e orientar os usuários que apresentem problemas mais
complexos a outros níveis de especialização;
V – Realizar atendimentos de primeiro cuidados nas urgências;
VI – Realizar pequenas cirurgias ambulatoriais;
VII – Prescrever medicamentos na conformidade dos diagnósticos
efetuados;
VIII – Emitir laudos e pareceres sobre assuntos de sua competência;
IX – Coordenar ações coletivas voltadas para a promoção e prevenção da
saúde bucal;
X – Programar e supervisionar o fornecimento de insumos para as ações
coletivas;
XI – Supervisionar o trabalho do Técnico em Higiene Dental (THD) e Auxiliar
de Saúde Bucal (ASB);
XII – Registrar na ficha de saúde bucal todos os procedimentos realizados.
Fonte: http:// WWW.planeta.terra.com.br/saude/artigos.asp
21
Foi a partir dessas atribuições que a Área Técnica de Saúde bucal do
Ministério da Saúde entendeu a necessidade de expansão da Odontologia no PSF,
numa perspectiva de contemplar as ações promocionais, preventivas e curativas reabilitadoras (SILVA, 2003).
A maioria dos cirurgiões dentistas precisa entender a complexidade do
Programa da Saúde da Família e o papel do dentista dentro dele. Pois é um
trabalho de assistência integral ao indivíduo e é uma grande responsabilidade zelar
pela saúde do paciente como um todo. Não podendo simplesmente haver a
detecção de algum problema de saúde e ficar abaixo da linha de preocupação,
sem a tomada de alguma providência.
22
CAPÍTULO 3
ANÁLISE DAS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELO CIRURGIÃO
DENTISTA EM PROMOVER SAÚDE BUCAL DE ACORDO COM A
PESQUIDA DE OPINIÃO DOS CENTISTAS E USUÁRIOS.
É certo que os serviços de saúde são importantes para a saúde bucal da
coletividade. No entanto, a predominância do enfoque assistencial deve ser
questionada. São necessárias mudanças nas formas tradicionais de avaliação do
trabalho desenvolvido pelo cirurgião dentista (CD), que utilizam habitualmente
indicadores relacionados a aspectos curativos, redirecionando esforços para a
avaliação de atividades preventivas e promocionais. A abordagem do Programa
Saúde da Família (PSF) para o trabalho do CD vai muito além do trabalho clínico,
pois é uma lógica de pensar na saúde de forma integral e ampliada (ARRUDA,
2001).
De acordo com Oliveira (2002), essas intervenções demonstraram ser
ineficazes para produzir mudanças de comportamento em saúde bucal que fossem
sustentáveis em longo prazo e falharam em abordar desigualdades. Isso mostra
que as estreitas abordagens de promoção de saúde bucal realizadas atualmente
aumentaram as desigualdades sociais. Uma abordagem mais progressiva da
promoção da saúde, a qual reconheça a importância do combate aos
determinantes sociais, políticos e ambientais de saúde bucal, faz-se necessária.
23
No entanto, a formação acadêmica dos profissionais de saúde bucal não
contempla ainda estas questões, ou contempla-as apenas de forma pontual e
isolada, o que se reflete em falta de preparo para o trabalho em equipe, para o
olhar interdisciplinar e para a vivência do paradigma de promoção de saúde. Há a
necessidade de motivar os profissionais para que reflitam e redirecionem suas
práticas, tendo como medida inicial o investimento e estímulo à educação
permanente e um monitoramento e avaliação das ações por eles desenvolvidas
(OLIVEIRA, 2002).
Definir objetivos de formação para o cirurgião dentista como o profissional
que deverá estar apto para desenvolver ações de prevenção, promoção, proteção
e reabilitação da saúde; para se comunicar com outros profissionais da saúde e
com o público em geral; domínio das tecnologias de informação e comunicação;
para liderar uma equipe multiprofissional e educar-se permanentemente é
valorizar uma atitude e ações interdisciplinares, uma vez que tais objetivos são
impossíveis de serem conseguidos se quisermos trabalhar apenas com as
ciências odontológicas (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).
Nesse sentido, embora as indicações propostas nas Diretrizes Curriculares
(Resolução CNE/CES 3/2002) para o curso de Odontologia sejam recentes, do ano
de 2002, é importante verificar, na realidade da formação dos alunos, o que está
sendo concretizado ou se concretizando. A proposta do profissional egresso dos
cursos de Odontologia em relação à nova postura, de compromissos éticos com a
sociedade, ajudando o usuário a viver com saúde, é um terreno amplo para
investigação (Pinheiro et al., 2008).
A formação, aliada à promoção de saúde, constitui a realidade do discurso
contemporâneo no campo da saúde coletiva, que visa, em última instância, à
promoção de saúde do indivíduo e da comunidade. No Sistema Único de Saúde
24
(SUS), ela é parte de um processo que apenas se inicia, mas que já evidencia
seus novos rumos.
Pesquisadores acrescentam ainda que algumas características quanto ao
perfil desejável para o profissional de Odontologia que busca trabalhar no PSF
seria enxergar o paciente em sua totalidade bio-psicosocial e não de forma
fragmentada, saber integrar-se com os outros profissionais envolvidos na equipe
do PSF, apresentar sensibilidade para as questões sociais, estabelecer vínculos e
criar laços de compromisso entre os profissionais de saúde e a comunidade,
humanizando as práticas de saúde e ter uma visão ampliada do processo
saúde/doença.
O CD assuma seu compromisso como profissional de
saúde e contribua efetivamente para a melhoria das condições de
vida da comunidade, sua formação profissional deverá resgatar o
caráter co coletivo da prática odontológica, com conseqüente
capacitação para o PSF. Pois as características desejáveis que um
CD deve apresentar para estar adequado à realidade do PSF
devem ser opostas às tradicionais que o modelo biomédico confere
aos profissionais de saúde (NÓBREGA, 2008: 05).
Os cursos de Odontologia nas duas últimas décadas vêm-se notabilizando
por suas iniciativas significantes no sentido de cada vez mais propiciarem uma
formação de mais adequada dos profissionais aos tempos atuais.
Segundo o Portal da Educação (2012), as Direções de Faculdades de
Odontologia estão investindo fortemente na elaboração de seus projetos
pedagógicos.
Trabalharam
seriamente
para
que
seus
corpos
docentes
compreendam o significado e a relevância de se definirem com clareza os
objetivos de aprendizagem profissional do cirurgião dentista que abranjam os
campos do conhecimento, das habilidades e das atitudes e valores próprios desse
profissional.
25
De forma coerente com esta definição, os docentes precisavam descobrir e
organizar formas de integrar disciplinas e informações; discutir e planejar técnicas
de aulas e de avaliação que facilitassem aos alunos desenvolverem os objetivos
pretendidos. Reviram o papel do professor procurando que ele se percebesse
como um colaborador com a aprendizagem do aluno no curso. Buscava-se uma
nova concepção para a formação do cirurgião dentista, que ao mesmo tempo
pudesse organizar de modo coerente as ações docentes e discentes voltadas para
sua consecução.
A formação aliada à promoção de saúde constitui a realidade do discurso
contemporâneo no campo da saúde coletiva, que visa à saúde do indivíduo e da
comunidade. Para isso, é imprescindível conhecer a realidade de saúde bucal do
município (MASSETO, 2012).
Uma reorganização da atenção em saúde bucal em todos os níveis de
atenção, tendo o conceito de cuidado como eixo de reorientação do modelo,
respondendo a uma concepção de saúde não centrada somente na assistência
aos doentes, mas, sobretudo, na promoção da boa qualidade de vida e
intervenções nos fatores que a colocam em risco; pela incorporação das ações
programáticas de uma forma mais abrangente e desenvolvimento de ações
intersetoriais são as diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal hoje no Brasil
(MINISTÉRIO, 2008).
O Ministério da Saúde (2006) afirma que hoje se busca, portanto, um
profissional com esse perfil, que saiba se imiscuir no plano social, que possa atuar
tanto no consultório particular em equipes multidisciplinares de saúde, uma vez
que os cirurgiões dentistas foram formados, até então, quase que exclusivamente
para o exercício profissional liberal.
26
Apesar disso, foi verificado que os CDs não haviam despertado para a
importância da prevenção e educação, em especial a nível coletivo. Essa aparente
inadequação do profissional de Odontologia para o trabalho junto a uma equipe do
PSF pode ser explicada junto a alguns pesquisadores para os quais a formação
odontológica universitária é muito deficiente em relação às disciplinas que tratam
dos aspectos sociais e preventivos, levando em muitos casos ao desinteresse do
futuro profissional para com elas.
Os resultados mostram que, dos 06 cirurgiões dentistas entrevistados,
quatro eram do sexo feminino e dois do sexo masculino. Com relação à idade,
observa-se a predominância de um grupo na faixa etária de 27–38 anos,
correspondendo a uma predominância de um grupo jovem de profissionais de
saúde da Odontologia no PSF desse município. Quanto ao ano de formação, a
maioria do grupo pesquisado são formados na faixa que vai dos anos de 1993 a
2008, ou seja, todos têm ao menos 5 anos de formação, achado que aponta para
uma realidade que refere cirurgiões dentistas com formação recente atuando no
município. Com relação à educação profissional permanente ou continuada, cabe
salientar também que, dos 06 cirurgiões dentistas entrevistados, 02 desses
receberam algum tipo de capacitação após a sua graduação para o trabalho no
PSF.
O trabalho de abordagem aos dentistas foi feito com base em uma pesquisa
de opinião com duas perguntas simples: a primeira arguia sobre as dificuldades
que enfrentam em atuar na comunidade para repassar as informações necessárias
em educação em saúde bucal e a segunda pedia a opinião individual, no sentido
de ampliar a visão de formação que os futuros profissionais, ou seja, os
acadêmicos de odontologia venham receber dentro das Universidades para que
haja um maior comprometimento, enquanto profissional do serviço público.
27
Os sujeitos da pesquisa foram interpelados sobre as dificuldades
encontradas para o desenvolvimento do trabalho de promoção de saúde na equipe
de saúde bucal no PSF.
Dentre as principais respostas, foram citadas as seguintes dificuldades:
ü Demanda excessiva por atendimento odontológico;
ü Formação insuficiente recebida na graduação diante dificuldades
culturais;
ü A falta de educação e de informação no que diz respeito à saúde por
parte da população;
ü Falta de trabalho em equipe e a falta de trabalho intersetorial.
A dificuldade mais citada pelos cirurgiões dentistas para o desenvolvimento
do trabalho de promoção de saúde foi identificada por eles como cultural. Sabe-se
que conceitos como os de saúde e de doença, aparentemente simples, referem-se
a
fenômenos
complexos
que
agrupam
fatores
biológicos,
sociológicos,
econômicos, ambientais e culturais. Daí torna-se evidente a influência do contexto
social e cultural sobre as maneiras de pensar e de agir dos indivíduos ante seus
problemas de saúde, portanto as questões culturais constituem forte obstáculo
para o trabalho de promoção de saúde.
Nesse sentido, compreendemos que a efetividade de uma prática de saúde
depende do conhecimento prévio das características de pensar e agir
predominantes na população com relação à saúde e da habilidade da pessoa,
nessa prática de saúde, integrar esse conhecimento.
Quanto à percepção de ajustes para a formação acadêmica, todos foram
unânimes em afirmar que a parte sociológica é de fundamental importância para a
atividade que exercem. Eles afirmam que esses novos paradigmas, de uma
28
formação voltada para a realidade social, apesar de já estar presente no
pensamento acadêmico, com relação às práticas de saúde bucal, não se
encontram evidentes, pois a formação da maioria dos novos profissionais egressos
das universidades, ainda permanece a mesma, ou seja, predominantemente
voltada para a técnica.
De acordo com PINHEIRO, et al. (2008), e justificando o pensamento dos
profissionais, afirma que dentro das inúmeras discussões sobre o caráter social da
formação do profissional de odontologia, muitos autores passaram a questionar o
tipo de formação desenvolvida, procurando encontrar soluções conducentes e
mais articuladas às necessidades de saúde da população.
Também foi fácil observar que as atividades relatadas e desenvolvidas
pelos dentistas como sendo de promoção de saúde se restringem às atividades de
prevenção (aplicação de flúor, escovação supervisionada) e de Educação em
Saúde bucal (palestras e apresentação de vídeos). Não se evidencia atividades
integradas e intersetoriais de promoção de saúde, permanecendo fragmentada a
abordagem do processo saúde-doença, ao se notar que o trabalho desses
profissionais é reduzido ao seu setor de trabalho, não expressando nessas
sequências a articulação de setores, saberes, e a mobilização na formulação de
intervenções que propiciem a produção de saúde.
Para a comunidade ou usuários dos serviços odontológicos do Município, foi
lançado apenas um questionamento: se o valor das informações fornece algum
sentido na melhoria de sua qualidade de vida e se há aplicabilidade dessas
informações nos hábitos de suas famílias.
Para a maioria dos usuários a utilidade do repasse de informações sobre
saúde bucal é de fundamental importância, pois ajuda no cuidado diário com a
higiene bucal dos filhos e também dos netos que muitas vezes são criados por avós.
29
E também para a sua própria saúde dado que a maioria dos argüidos eram adultos
jovens com idades entre 21 e 43.
Alguns relatam que mesmo não assistindo nenhuma palestra, seus próprios
filhos, que assistiram, chegam em casa e lhes ensinam a forma correta de escovar
os dentes, por exemplo, ou explicam como é importante usar o fio dental antes da
escovação e falam dos benefícios de se manter uma boa higiene oral.
Porém houve respostas que surpreenderam, como por exemplo, o fato de
receberem “papeizinhos” (folderes) após as palestras não serve de nada segundo
alguns, pois eles não sabem ler! Ou então os argumentos de alguns, que
informaram preferir ou dar mais importância a uma consulta odontológica, que
segundo eles é muito difícil de conseguir, achando que somente isso é que
realmente é útil para resolver seus problemas de saúde bucal.
É notória a percepção da população de que a importância do repasse das
informações sobre saúde bucal é importante, que direta ou indiretamente essas
informações acabem chegando e fazendo diferença no cuidado que existia com a
saúde da boca dos usuários e de sua família.
Deve se esclarecer que um dos princípios básicos da odontologia moderna
é não intervir antes que as ações de promoção de saúde tenham tido a
oportunidade de funcionar. Nesse sentido, os cirurgiões dentistas são convidados
a repensar a sua prática e exercer um novo papel dentro da odontologia em saúde
coletiva. Os profissionais têm a responsabilidade de advogarem políticas públicas
saudáveis e de auxiliarem as pessoas a se capacitarem na busca de sua qualidade
de vida e da coletividade e não de impô-las.
Tomando-se como referência os campos de ação propostos pelo Ministério
da Saúde (2006), as atribuições do dentista em nível local podem ser direcionadas
para o fortalecimento de ações comunitárias, o desenvolvimento de habilidades
30
pessoais e a reorientação dos serviços de saúde. Para tanto é necessário que o
cirurgião dentista (CD) realize seu trabalho equilibrando prevenção e cura,
adotando procedimentos cuja eficácia tenha sustentação científica e assegurando
que esses sejam implementados da melhor maneira possível.
Além disso, o CD deve participar do processo de identificação dos
problemas dos diferentes grupos populacionais do território sob responsabilidade
de seu serviço de saúde, atuando em equipes multidisciplinares e intersetoriais,
com a participação de lideranças locais na vigilância da saúde bucal.
O grande desafio atual é o processo levado a efeito pelo Programa de
Saúde da Família através do relevante papel da Odontologia, motivar o paciente,
para o uso correto e eficiente do arsenal de conhecimentos que lhes são
perpassados através do programa, para que seus hábitos tornem-se saudáveis, e
contribuam para o alcance do equilíbrio da saúde geral do indivíduo e de seus
familiares, respaldando assim uma mudança bem mais abrangente com relação à
população adscrita.
31
CONCLUSÃO
A Odontologia, através de seus recursos humanos específicos e integrando
o Programa Saúde da Família (PSF), se enquadra em uma nova modalidade de
atenção à saúde, devendo seus profissionais cultivar uma relação nova com a
comunidade, baseada na atenção, na confiança, no respeito e no cuidado. Os
cirurgiões dentistas (CDs) e seus assistentes são vistos como profissionais que
podem de fato desempenhar um papel decisivo nas equipes do PSF.
O modelo de assistência do PSF constitui um desafio para o cirurgião
dentista que, como participante da equipe de saúde, deve levar em consideração o
envolvimento de seus atos com os aspectos sociais, políticos, econômicos e
culturais importantes para o processo de transição e consolidação do novo modelo
de assistência à saúde.
Neste trabalho foi evidenciado que os cirurgiões dentistas já possuem
incorporada uma concepção da promoção de saúde, que apesar de muito limitada
como uma ação, objetiva melhoria na qualidade de vida; como também já
agregaram a integralidade do ser humano, não tratando-o como uma “boca”,
separada do resto do corpo.
É visível, entretanto, a ideologia curativista, que ainda é fortemente
presente, construída na graduação, com base no conhecimento biológico e na
atenção individualizada, como também a concepção fortemente assentada de
promoção de saúde em ações de prevenção e de cura.
Não se constatou o entendimento de promoção como uma proposta mais
ampla no sentido de influenciar reais mudanças nas políticas de saúde, no estilo
32
de vida das pessoas, na participação comunitária e na reorganização dos serviços;
ou seja, ainda falta ao cirurgião dentista achar formas de chamar a atenção da
população, usando a “proximidade” que existe no PSF, para agregar mudanças de
hábito eficazes, fazendo visitas domiciliares, por exemplo, e promovendo
demonstrações de uma escovação correta para toda a família nessa oportunidade.
Pois às vezes, somente falando, a absorção das informações não se concretiza.
Por outro lado, a formação recebida na graduação dos cursos de
Odontologia mostra-se insuficiente, alicerçada no modelo flexneriano de ensino,
que supervaloriza o aspecto técnicocientífico, da fragmentação do ensino e do
distanciamento entre ensino e serviço.
Nesse processo, a inclusão do acadêmico de odontologia no PSF poderia
caracterizar
a
vivência
extremamente
importante
da
realidade
local
e,
principalmente, possibilitar a compreensão dos valores e crenças da população
acerca da saúde bucal.
As atividades desenvolvidas no trabalho nas Equipes do PSF restringem-se,
predominantemente, às atividades de prevenção (aplicação de flúor, escovação
supervisionada e outras, principalmente nas escolas) e Educação em Saúde Bucal,
centradas no modelo assistencialista, denotando poucas atividades integradas e
intersetoriais, não havendo envolvimento com os outros profissionais da equipe,
como os enfermeiros, agentes de saúde, assistentes sociais, etc.
Todos estes achados levam a concluir que, apesar das dificuldades citadas
nas opiniões dos cirurgiões dentistas, percebe-se que mudanças importantes vêm
ocorrendo no trabalho desses profissionais e que esse caminhar ainda possui
muitos obstáculos a serem transpostos para a maximização dos serviços
odontológicos, ao progresso da saúde bucal e, consequentemente, da qualidade
de vida da população, que invariavelmente e paulatinamente irá, cada vez mais,
dar à sua saúde bucal o devido valor que ela tanto merece.
33
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Luciana de Albuquerque Silva