UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PROJETOS EXPERIMENTAIS III TURMA 2005.I HABILITAÇÃO EM JORNALISMO REBELIÃO NA CASA DE CUSTÓDIA EM BENFICA: ANÁLISE DA APURAÇÃO JORNALÍSTICA Anderson Pereira Sanchez Rio de Janeiro, Junho/2005 ANDERSON PEREIRA SANCHEZ REBELIÃO NA CASA DE CUSTÓDIA EM BENFICA: ANÁLISE DA APURAÇÃO JORNALÍSTICA Monografia apresentada como conclusão no curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Universidade Estácio de Sá. Orientadora: Profª Ms. ILANA POLISTCHUCK NOGUEIRA Rio de Janeiro, Junho/2005 ANDERSON PEREIRA SANCHEZ REBELIÃO NA CASA DE CUSTÓDIA EM BENFICA: ANÁLISE DA APURAÇÃO JORNALÍSTICA Grau: _____________ BANCA EXAMINADORA _____________________________________________________ Profº Ms. Rafael Fortes _____________________________________________________ Profª Ms. Sandra Almada _____________________________________________________ Profª Ms. Ilana Polistchuck Nogueira Rio de Janeiro, junho de 2005 ii Dedico a monografia ao meu salvador Jesus Cristo que concedeu a mim a dádiva da vocação jornalística. iii AGRADECIMENTOS Agradeço a minha orientadora, que se tornou para mim, neste último ano acadêmico, uma figura materna na área intelectual. Agradeço também aos meus pais, pela educação com que me criaram e, em particular, a minha mãe, pelo auxílio nos afazeres domésticos para que eu pudesse realizar as tarefas universitárias. Por fim, gostaria de agradecer a minha namorada, Andreia, pelo apoio em minha vida particular e pelas instruções sobre informática que me ajudaram demasiadamente para a realização desta monografia. iv “Se a condenação e o que o motivou devem ser conhecidos por todos, a execução da pena, em compensação, deve ser feita em segredo; o público não deve intervir nem mesmo como testemunha, nem como abonador da punição; a certeza de que, atrás dos muros, o detento cumpre sua pena deve ser suficiente para constituir um exemplo.” Michel Foucault v RESUMO A monografia analisa a apuração dos dados para a informação jornalística sobre o Sistema Penitenciário. Para isso, foram feitas pesquisas bibliográficas para amparar teoricamente a avaliação da prática na atuação dos repórteres na coleta de informações para transmissão das notícias na cobertura da rebelião de presos na Casa de Custódia em Benfica no ano de 2004, no Rio de Janeiro. Antes da descrição da análise do objeto, foi apresentada uma conjuntura breve do tema com a história política recente do Brasil, Criminologia, história das penas e do sistema penitenciário fluminense. Depois foram descritos os resultados da investigação quantitativa e qualitativa do material produzido pelos jornais O Globo, Jornal do Brasil e O Dia na cobertura da rebelião em Benfica para demonstrar como foi realizado o trabalho dos profissionais de imprensa na apuração da notícia que contou com minha participação direta no fato como assessor de comunicação do Sindicato dos Servidores da Secretaria de Estado e Justiça do Rio de Janeiro, órgão que representa os agentes penitenciários. vi LISTA DE TABELAS 1 – Tabela da ordem dos temas publicados pelos jornais pesquisados no trabalho Mídia e violência do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes................................................................ p. 81 2 – Tabela dos temas sobre o sistema penitenciário cobertos pelos jornais pesquisados no trabalho Mídia e violência do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes........................................ p. 81 LISTA DE GRÁFICOS 1 – Gráfico das unidades informativas na cobertura jornalística da Rebelião na Casa de Custódia em Benfica................................................................... p. 48 2 – Gráfico das unidades informativas na cobertura do sistema penitenciário no mês de maio até o dia anterior à rebelião............................................. p. 51 3 – Gráfico das unidades informativas coordenadas (contextualização do tema).......................................................................................................... p. 55 4 – Gráfico do enquadramento das matérias............................................. p. 57 5 – Gráfico das matérias subordinadas provenientes da observação direta do repórter ..................................................................................................... p. 59 6 – Gráfico dos tipos de fontes citadas..................................................... p. 65 7 – Gráfico das fontes oficiais citadas por cada jornal............................. p. 66 8 – Gráfico das fontes oficiais.................................................................. p. 67 LISTA DE ANEXOS 1 – Circulação dos Jornais no Estado do Rio de Janeiro.......................... 2 – Matérias principais na cobertura do Jornal do Brasil.......................... 3 – Matérias principais na cobertura do jornal O Dia............................... 4 – Matérias principais na cobertura do jornal O Globo........................... 5 – Tabela discriminada das fontes oficiais citadas.................................. 6 – Tabela discriminada das fontes oficiosas citadas............................... vii p. 92 p. 93 p. 94 p. 95 p. 96 p. 97 7 – Tabela discriminada das fontes independentes.................................. p. 98 8 – Ofício do secretário de Administração Penitenciária ao juiz da VEP p. 99 9 – Relatório do Conselho da Comunidade sobre a Casa de Custódia em Benfica no dia 24 de maio de 2004........................................................................ p. 101 viii SUMÁRIO Introdução ............................................................................................... p. 01 Capítulo 1 – Jornalismo e o Governo...................................................... 1.1 – Liberdade de Imprensa.......................................................... 1.2 – Censura................................... .............................................. 1.2.1 – Lei de Segurança Nacional................................... 1.2.2 – Perseguição aos intelectuais e jornalistas............. 1.3 – Abertura política.................................................................... 1.3.1 – Constituição Cidadã............................................ 1.3.2 – Repressão popular............................................... p. 05 p. 07 p. 08 p. 10 p. 12 p. 15 p. 17 p. 19 Capítulo 2 – Prisão.................................................................................. 2.1 – Crime..................................................................................... 2.2 – As penas................................................................................ 2.3 – Execução Penal..................................................................... 2.3.1 – Tratamento.......................................................... 2.3.2 – Sistema Penitenciário.......................................... 2.3.2.1 – Origens.............................................. 2.3.2.2 – Desipe................................................ 2.3.2.3 – Secretaria de Estado de Administração Penitenciária........................ 2.4 – Formas de poder.................................................................... 2.4.1 – Poder Moderador................................................. p. 21 p. 22 p. 26 p. 28 p. 30 p. 32 p. 33 p. 35 p. 37 p. 38 p. 39 Capítulo 3 – Apuração jornalística da Rebelião na Casa de Custódia em Benfica.......................................... p. 44 ix 3.1 – Informação jornalística impressa........................................... 3.2 – Ética....................................................................................... 3.3 – Contextualização da notícia.................................................. 3.3.1 – Agenda da mídia.................................................. 3.3.2 – Matérias coordenadas.......................................... 3.3.3 – Matérias subordinadas........................................ 3.3.4 – Matérias principais.............................................. 3.4.1 – Pesquisa...................................................... 3.4.2 – Observação direta....................................... 3.4.3 – Fontes de informação................................. 3.4.3.1 – Dados do Governo......................... 3.4.3.2 – Testemunhas.................................. 3.4.3.2.1 – Motivo gerador.................. 3.4.3.2.2 – Refém assassinado............. 3.4.3.2.3 – Presos mortos..................... 3.4.4 – Desdobramento.......................................... p. 46 p. 47 p. 49 p. 51 p. 54 p. 57 p. 60 p. 61 p. 63 p. 65 p. 67 p. 71 p. 72 p. 77 p. 78 p. 79 Conclusão................................................................................................ p. 84 Bibliografia............................................................................................. p. 88 Anexos..................................................................................................... p. 91 x 01 INTRODUÇÃO Qual é a importância do sistema penitenciário para a sociedade e qual é o papel do jornalismo neste contexto? As respostas para as perguntas acima são amplas e complexas, mas dentro de um noticiário de rebeliões, fugas, maus-tratos e “mordomias” concedidas aos presos nos últimos anos faz-se necessário procurar entender como as informações são produzidas e entregues à opinião pública. É lógico que não se pode e nem se quer dissecar todo o processo de fabricação jornalística. Isto seria uma atitude presunçosa do autor deste trabalho. Entretanto, a razoável experiência de sete anos de serviço penitenciário como agente de segurança, três anos e meio de acompanhamento freqüente das notícias sobre o sistema penitenciário e, por fim, o trabalho como assessor de comunicação do Sindicato dos Servidores da Secretaria de Justiça – entidade representante das questões trabalhistas dos servidores penitenciários do Estado do Rio de Janeiro – desde maio de 2004, possibilitou a constatação de que dados de bom número de matérias jornalísticas sobre o sistema penitenciário fluminense não eram corretos, desta forma comprometendo a exatidão da informação jornalística, informação esta que o cidadão tem o direito de receber corretamente. Apesar de ser superficial e empírica, esta verificação despertou a vontade de pesquisar para saber se de fato isso ocorre e, em caso afirmativo, buscar as causas destas falhas. A investigação começa a partir de uma hipótese principal de que, com relação aos acontecimentos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro, existem falhas na apuração dos dados que fazem parte da informação do todo. Outras suposições surgiram como a da manipulação da notícia, mas a teoria exposta – que também tem inúmeras variáveis como interesses da empresa jornalística com seus anunciantes, com políticos e até com a própria ideologia do dono do veículo ou do editor – parece ser a menos provável para responder às questões apontadas. Então, resta a base do processo produtivo da informação jornalística que é a apuração, ou seja, a reportagem∗ . ______________________ ∗ Apuração é “investigação, levantamento e verificação dos dados e elementos de um acontecimento, para transformá-lo em notícia. Para apurar uma notícia, o repórter deve informar-se o mais que puder sobre os fatos e circunstâncias, a fim de transmiti-los com seus dados essenciais para os leitores” e reportagem é o “conjunto das providências necessárias à confecção de uma notícia jornalística: cobertura, apuração, seleção de dados, interpretação e tratamento, dentro de determinadas técnicas e requisitos de articulação do texto jornalístico informativo. O processo de reportagem, que vai ‘desde a captação dos dados à redação’, segundo Juvenal Portella, envolve o trabalho físico e mental necessários à sua existência. Considera-se incorreto designar reportagem como um tipo de notícia descritiva, mais apurada e ampla, acompanhada com documentação e testemunhos. Na verdade, esse tipo de notícia é resultado de uma reportagem, e não a reportagem em si” (RABAÇA; BARBOSA, 1978: 21; 405). 02 A monografia não pretende fazer uma análise quantitativa dos assuntos noticiados nos diversos veículos jornalísticos da grande imprensa. A questão a ser respondida também não é por que as notícias sobre o sistema penitenciário são predominantemente sobre rebeliões, fugas e corrupção – se realmente o são – e o porquê desses temas serem os preferidos, ou seja, fazerem parte da agenda dos meios de comunicação na cobertura do sistema penitenciário, embora seja um ponto muito importante para a área da Justiça (especialmente da Execução Penal) e também para a sociedade. O trabalho pretende se ater exatamente aos possíveis erros das rotinas produtivas iniciais como é o caso da coleta de dados. Apesar do vasto número de matérias existentes, não será incluído material radiojornalístico, telejornalístico ou do jornalismo online como objeto de observação. No máximo, serão usados alguns exemplos no que tange à apuração de informações. Na verdade, estará sendo avaliado material impresso, mais especificamente jornais diários do Rio de Janeiro. A razão para se utilizar somente o material do meio de comunicação impresso é a linguagem e a capacidade de retenção que esse meio tem no indivíduo e na opinião pública. A prática da coleta de dados para uma notícia no jornalismo deve ser a mesma para todos os profissionais, não importando para qual veículo trabalhem. É uma questão de compromisso com a ética da profissão que tem por fim o seu público, mas as questões da imagem para a televisão e a instantâneidade para o rádio e a internet obrigam que a apuração tenha uma rapidez e outros tipos de informações coletadas como as cenas em movimento do acontecimento coberto – no caso da televisão – e que o jornal impresso não requer. A revista semanal foi também excluída da pesquisa por ter uma periodicidade maior do que a do jornal e por não transmitir a realidade social do sistema penitenciário no seu dia-adia. Por sua vez, além dessas vantagens que o jornal diário nos proporciona para a pretendida pesquisa, a detenção (usando o sentido bom da palavra) da informação possibilitada ao leitor é maior do que a fornecida por qualquer outro meio, sem contar com a contextualização do tema que é oferecida – ou deveria ser – àquele que tem acesso à notícia diariamente. O cotidiano no sistema penitenciário nacional foi muito agitado nos últimos anos, principalmente no Rio de Janeiro. O ano de 2002 foi marcante para a história do sistema penitenciário fluminense. Segundo a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (criada em 2003), aconteceram 28 rebeliões no Estado e o período ficou conhecido como o ano das rebeliões. O material de notícias e reportagens sobre o intervalo de tempo em questão é grande e, ainda que se desejasse estudar toda essa gama de informações geradas pela imprensa, o tempo curto para finalizar o presente trabalho não seria suficiente. Por 03 este motivo, escolheu-se a cobertura jornalística de um evento que foi muito rico para a investigação: a rebelião na Casa de Custódia em Benfica em maio de 2004 e os seus desdobramentos, isto é, o período anterior que pode ter causado a tragédia e o momento posterior com suas conseqüências para o povo carioca. A população que vive no município do Rio de Janeiro tem acesso a vários jornais diários. Mas para a pesquisa serão usados os principais jornais e a medição para tal afirmação foi o índice de venda diária. De acordo com os números do Instituto Verificador de Circulação (ver anexo 1), o jornal O Globo é o que mais vende, seguido pelo Extra e O Dia. O jornal Extra foi excluído por pertencer à mesma empresa de O Globo e ser direcionado ao mesmo público de O Dia. O Jornal do Brasil foi incluído por causa da sua tradição no jornalismo impresso. Não importa se o público leitor é de classe A, B, C ou D. Importa que ele como cidadão tem direito a receber uma informação exata sobre o que acontece em sua cidade e que os erros jornalísticos – apesar de compreender-se que é normal que eles existam – devem ser evitados, não obstante a obrigação de que sejam assumidos quando surgirem também é imprescindível à prática jornalística. Por esta razão, a investigação vai se concentrar na informação. No capítulo dois da monografia, se tentará responder o que é informação e o que a notícia requer para ter qualidade. A partir desse esclarecimento, o trabalho buscará entender o processo de coleta de dados para uma matéria jornalística. Qual é a importância da apuração na prática profissional do repórter e na questão ética do jornalismo. Na contramão da dinâmica apressada do jornalismo diário atualmente, por demandarem um maior período de tempo, as formas de coleta como as pesquisas, por exemplo, não deixarão de ser examinadas. A monografia também buscará entender o que são fontes, quais os tipos e o relacionamento dos jornalistas com elas. E dentro disto, não podemos esquecer das assessorias de imprensa no jornalismo contemporâneo. Até onde é benéfico ou prejudicial o seu trabalho como fonte de informação. Sendo o setor da Execução Penal, mais especificamente o Sistema Penitenciário, estratégico para a Segurança Pública de um Estado, qual seria o limite do Executivo em querer expor as informações concernentes ao tratamento do condenado pela Justiça, já que grande parte da população entende que os presos devem sofrer na mesma proporção pelos erros que cometeram, não importando que tipos de crimes praticaram. É mais do que necessário voltar rapidamente no tempo e consultar a História e isso vai ser feito no primeiro capítulo do trabalho. O senso comum não conhece a origem dos problemas atuais e tem uma visão em perspectiva deficiente para a punição de um criminoso. Por isso, busca-se compreender o que é o sistema penitenciário, a origem do sistema punitivo utilizando a privação de liberdade e também quem é a população 04 presidiária carioca e quais são as suas origens. Da mesma forma, será de vital importância mostrar o que é crime, mesmo que brevemente, na tentativa de desconstruir preconceitos e estigmas. A conjuntura histórica também vai mostrar o papel do jornalismo na luta contra a repressão autoritária e na proteção dos direitos humanos atualmente vigentes no país. Mais particularmente, a história recente do Brasil vai servir para compreender o direito dos indivíduos e combater qualquer tipo de arbitrariedade no que tange à liberdade da manifestação do pensamento e da informação. Desta maneira, o processo de abertura política depois de duas décadas de exceção, ou melhor, da Ditadura Militar, será imprescindível para contextualizar a função do jornalista para a transição política e implantação da democracia. Será exposta a luta contra a censura que foi imposta pelo regime na tentativa de não permitir a difusão da informação e, evidentemente, as conseqüências desses atos que permitiram abusos, como a privação de liberdade, torturas e assassinatos contra jornalistas, intelectuais e outros cidadãos brasileiros. Assim, o trabalho monográfico pretende mostrar como o jornalismo é importante na luta contra os abusos do Estado no desrespeito aos direitos individuais dos cidadãos e no descumprimento dos direitos humanos dos condenados pela Justiça. O regime democrático demanda um jornalismo que tem como fim o cidadão. A sociedade, através do Estado, tem o direito de punir, como também tem o dever de conceder aos apenados o direito de cumprir suas sentenças com respeito à dignidade humana para que depois de terminadas as penas, possam voltar ao convívio social. Por isso, os jornalistas devem, como em qualquer outra área de cobertura, apurar corretamente os dados sobre o sistema penitenciário para informar da melhor maneira possível à população. Desta forma, o jornalismo estará sendo ético, cumprindo o seu papel na democracia ao fiscalizar o Governo e informar à opinião pública sobre o que ocorre na gestão dos serviços públicos como o é o sistema penitenciário. 05 1 JORNALISMO E GOVERNO Um corpo enforcado com um cinto em volta do pescoço é encontrado nas dependências do 2º Exército em São Paulo. No dia seguinte, 26 de outubro de 1975, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) divulga uma nota oficial que informa que o jornalista Vladimir Herzog cometeu suicídio. A versão oficial gerou desconfiança em toda a sociedade1 . Vladimir Herzog tinha 38 anos, era casado, pai de dois filhos e dirigia o jornalismo da TV Cultura de São Paulo. O DOI-CODI era um órgão de repressão da Ditadura Militar e monitorava os passos do jornalista há vários dias2 . Segundo Alberto Dines, calcula-se que 90 jornalistas foram presos na época3 . Uma missa ecumênica em homenagem a Vladimir Hezog foi realizada oito dias depois de sua morte e contou com a adesão em massa da população. Mais de oito mil pessoas participaram do evento organizado pelo bispo Dom Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo James Wright e pelo rabino Henri Sobel, todos chefes respectivos de suas congregações religiosas em São Paulo. “Que a memória de Vladimir Herzog faça dessa geração a geração da esperança que renasce todos os dias, e que todas as esperanças em conjunto formem uma corrente irresistível que nos levará a dias melhores”, discursou Dom Paulo naquele dia4 . O assassinato de Vladimir Herzog foi o fato que detonou o processo de abertura política no país5 . O jornalista Rodolfo Konder afirma que o episódio das prisões e a morte de Herzog foi conseqüência de uma briga entre os setores mais radicais de ultra-direita do regime. De um lado, o 2º Exército com Ednaldo Dávila e Silvio Frota e do outro o general Geisel. O presidente Geisel e seus partidários tentavam implantar uma abertura lenta, gradual e segura, enquanto Dávila e Frota tentavam impedir. “Acredito que tenha contribuído de maneira decisiva para que o processo de abertura de Geisel pudesse avançar mais e acabar desembocando na conquista da liberdade e democracia”, analisa Konder6 . ______________________________________ 1 “Três anos depois, no dia 27 de outubro de 1978, o processo movido pela família do jornalista, trouxe à tona a verdade sobre a morte de Vladimir Herzog. A União foi responsabilizada pelas torturas e pela morte do jornalista, naquele que foi o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar contra o Estado”. (Saiba mais sobre o jornalista Vladimir Herzog. In: Agência Brasil. http:// www.radiobras.gov.br, 28/10/2004). 2 Observatório da Imprensa, TV Educativa, 26/10/2004. 3 Zuenir Ventura confirmou no programa que Herzog estava sendo perseguido e sofrendo ameaças (Idem). 4 Saiba mais sobre o jornalista Vladimir Herzog. In: Agência Brasil. http://www.radiobras.gov.br/, 28/10/ 2004. 5 José Mindlin, secretário de Cultura de São Paulo em 1975 (ver nota 2). 6 Rodolfo Konder, jornalista. (Ver nota 2). 06 Deduz-se que a história recente do Brasil mostra o valor de uma imprensa livre para o regime democrático. O caso do jornalista Herzog foi marcante, mas foi apenas um dentre as milhares de prisões provocadas por um governo autoritário e repressor das idéias e dos direitos individuais. A liberdade de imprensa visa a possibilitar o direito da pessoa humana e nos faz retornar aos princípios do Iluminismo que orientou os revolucionários americanos e franceses. 07 1.1 Liberdade de Imprensa As origens do jornalismo contemporâneo remontam ao conceito de imprensa livre do século XIX. O Iluminismo e as revoluções do século XVIII possibilitam à imprensa um papel importante na mediação entre governo e povo. Em 1807, a liberdade de imprensa era algo raro e por isso Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, escreveu que queria “demonstrar a falsidade do pretexto de que a liberdade de imprensa é incompatível com um governo disciplinado”7 . A imprensa serve para mediar a opinião pública e, segundo BUCCI (2000: 170), este conceito que tem origem no Iluminismo francês “consagra-se como o tribunal máximo da democracia americana e, de forma disseminada, de todas as democracias do século XX”. Já STEPHENS (1993: 451) afirma que os jornalistas se tornaram ministros do público depois do papel do público ter sido institucionalizado nos Estado Unidos e que um governo republicano8 , então, necessita de uma “imprensa livre e vigorosa”. O mesmo autor (1993: 434-435) mostra que os jornais combativos ajudaram a realizar a Revolução Americana, embora o mesmo não tenha ocorrido na Revolução Francesa devido ao controle dos monarcas. Contudo, na época do Iluminismo, os esclarecidos da França reconheciam o valor da liberdade de expressão. Voltaire escreveu “É um direito tão natural o de utilizar sua própria pena como o é usar sua própria língua...” (BELLANGER apud STEPHENS, 1993: 434). Para Robespierre, um dos líderes revolucionários, a “opinião pública era o único juiz competente das opiniões particulares, o único censor legítimo dos escritos”. Ele garantia que o debate político só era possível através da liberdade de imprensa (BUCCI, 2000: 168; 192). Apesar do avanço nas sociedades anteriormente citadas, a relação do governo com a imprensa no Brasil, além de complicada, tem suas peculiaridades. Conseqüência de uma mudança na forma de governo, da monarquia para a república, e de várias alterações nos regimes – da democracia ao autoritarismo e vice-versa – em pouco mais de um século, a imprensa livre brasileira está chegando à maioridade somente agora, depois de 20 anos do fim do último período de governo ditatorial que implementou forte censura aos meios de comunicação. ______________________________________ 7 Carta a Thomas Seymour, de 11de fevereiro de 1807. (LEVY apud STEPHENS, 1993: 445). “A palavra república significa coisa (res) pública, isto é, do povo” (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 231; 433). A república é uma forma de governo, como também o é a monarquia. Montesquieu também inclui o despótico. Ele considera que “o governo republicano é aquele em que o povo, como um só corpo, ou somente uma parcela do povo, exerce o poder soberano” (MONTESQUIEU, 2003: 23). 8 08 1.2 Censura A História do Brasil está repleta de golpes militares e períodos de censura à imprensa. Desde o Império à República, todos os governantes usufruíram o poder e usaram o instrumento da censura para pôr em prática suas políticas e ideologias. A história nacional mostra que a atitude das Forças Armadas de se intrometer na política nacional ocorre desde a implementação da República, porém, os próprios militares também já sofreram com a censura na imprensa e foram privados da liberdade de expressão (FERREIRA, 1981: 231). Em 1884, o Regime Imperial usou a imprensa como um de seus instrumentos e proibiu aos militares de a utilizarem – isto e mais outras questões precipitaram a queda da monarquia em 1889 (Ibidem: 231). A idéia da República ganhou consistência, na década de 1870, somente quando se organizou através de clubes republicanos, partidos políticos e dos jornais (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 209). Um período extenso de censura ocorreu entre 1937 e 1945. Depois do golpe em 1930 e o fim da Velha República, o momento “negro” da imprensa se deu no Estado Novo. O Governo Federal criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)9 , um novo organismo de controle que se encarregava da propaganda do governo e da censura aos meios de comunicação (Ibidem: 319; 320). O líder da revolução de 1930, Getúlio Vargas, é deposto em 1945, mas retorna ao poder eleito pelo povo em 1951. A repercussão na imprensa depois de uma tentativa de assassinato contra o político e jornalista Carlos Lacerda provoca uma pressão imensa contra o Executivo Federal. Os militares exigem a renúncia de Getúlio que no dia 24 de pouco mais de um ano depois, no dia 31 de março, um golpe colocaria o chefe da Revolução, o General Humberto de Alencar Castelo Branco, na presidência da República do Brasil (FERREIRA, 1981: 318; 340-346). O controle sobre os meios de comunicação foi muito comum no país e vários foram os mecanismos que possibilitaram o seu efetivo funcionamento. Entre eles, a ______________________________________ 9 “O DIP e as instituições civis dominadas pelo Governo procuravam associar traços, por vezes duvidosos, da personalidade do presidente a supostas “virtudes” do povo brasileiro. Tais instituições funcionavam como verdadeiros aparelhos ideológicos do Estado. O objetivo era formar uma imagem favorável do Governo, de modo a conseguir o reconhecimento da sociedade brasileira. Inúmeros livretos de propaganda foram editados pelo DIP, que os distribuía nos sindicatos, escolas e clubes, onde também eram feitas palestras sobre as realizações do governo. A figura de Getúlio era sempre exaltada: ele era o “Guia da Juventude Brasileira”, o “Grande Pai”, o “Apóstolo Nacional”, o “Reformador”, o “Pacifista”. Criava-se o mito Getúlio. Os métodos persuasivos de dominação coexistam com os repressivos” (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 330). 09 imprescindível Lei de Segurança Nacional que visava a “proteger” o povo brasileiro não somente mais do ataque externo armado, mas também de idéias “estranhas” como o comunismo e a pornografia. 10 1.2.1 Lei de Segurança Nacional A Lei de Segurança Nacional (LSN) tem a função de proteção da soberania da Nação, mas em decorrência dela, onde o coletivo prepondera, o indivíduo perde direitos. No último período ditatorial, a LSN torna-se instrumento poderoso para a manutenção do poder político. A escolha do presidente passa a ser questão de segurança nacional a partir de 1964 (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996:397). O Ato Institucional Nº 1 do dia 9 de abril concede todos os poderes ao Alto Comando Militar que determina quem vai ser o presidente da República Federativa do Brasil (FERREIRA, 1981:347). As primeiras normas legais em função da segurança nacional no Brasil foram elaboradas nas Constituições de 1824 no Império e em 1891 na República e tinham como objetivos: “Defesa da dignidade da Nação brasileira contra a invasão de inimigos externos contra as rebeliões internas tendentes a mudar, pela força, a forma de organização e de Governo instituídos pela maioria, contra, o comportamento dirigido para a subversão da ordem pública” (ALENCAR, 1980:43 e 44). Em 11 de novembro de 1930, ano da Revolução, o Decreto Nº 19.398 institui o Governo Provisório e cria um Tribunal Especial “para processo e julgamento de crimes políticos, funcionais e outros...”. Mas o título Segurança Nacional começa a receber tratamento específico somente a partir de 1934. Em 1953, sob a Carta Magna de 1946, a Lei Nº 1.802, definiu o crime político (ALENCAR, 1980: 46, 68). O Ato Institucional Nº 5 é editado em 13 de dezembro de 1968 e permite ao Governo confiscar bens em caso de enriquecimento ilícito e suspender a concessão de hábeas corpus 10 no caso de infração da Lei de Segurança Nacional (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996:398). O golpe deu início ao período de exceção que legislou com a constituição de 1967 e por emendas constitucionais, atos institucionais, atos complementares, leis complementares e outros atos legislativos que regularam a matéria sobre segurança nacional (ALENCAR, 1980: 68). ______________________________________ 10 “Locução latina (...) com que se designa a lei que assegura a liberdade individual e não permite que uma pessoa seja presa antes que se forme em definitivo a sua culpa” (CARVALHO; PEIXOTO, 1961: 579). “É remédio constitucional que garante o direito individual de locomoção contra ameaça, efetiva violência ou coação exigida de forma ilegal ou com abuso de poder” (FÜHRER; FÜHRER, 1994: 96). 11 “De acordo com a declaração contida na Exposição de Motivos nº 336-A, de 16 de outubro de 1978, do Ministro da Justiça do Governo Geisel, Armando Ribeiro Falcão, tinha o Chefe do Governo, a partir de sua investidura, o intuito de reformular os dispositivos que definiam os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social estabeleciam o processo e julgamento desses crimes” (ALENCAR: 1980, 345). O ministro da Justiça em 1964, Alfredo Buzaid, encarava o comunismo como o principal inimigo da sociedade (MARCONI, 1980:14). Em um dos seus inúmeros discursos, Buzaid justifica a censura em nome da defesa da moral e dos bons costumes: “Quem ler atentamente o Decreto-Lei verificará, sem dificuldade, que o objetivo do Governo não foi o de exercer o controle da inteligência brasileira, sufocar-lhe o espírito criador ou restaurar a mesa censória dos tempos coloniais. A preocupação do Governo consistiu em banir do mercado as publicações obscenas que aviltam e degradam a juventude, bem como proibir terminantemente que os agentes do comunismo internacional se servissem do rádio e da televisão para exercer através de programas insidiosos influência subliminar no seio das famílias (...) Quem estudou a teoria da informação, o rádio e a televisão constituem, nos nossos dias, os meios mais eficazes para dirigir a opinião pública. É por meio deles que o comunismo internacional atua sobre o povo, invadindo sub-repticiamente os lares e os seus agentes, adrede preparados, se infiltram em todos esses meios de comunicação para transmitirem suas idéias dissolventes” (BUZAID, 1970: 17; 18). Apesar do eufemismo retórico, a prática comprovou a verdadeira razão para impor o controle sobre a opinião pública. O Regime Militar infligiu uma violenta censura policial à imprensa brasileira11 na tentativa de conter qualquer reação do povo que tinha como porta-vozes os intelectuais e a própria imprensa. ______________________________________ 11 MARCONI (1980) recolheu material sobre a censura no período das ditaduras militares e seu primeiro capítulo mostra as desculpas autoritárias para manter o poder através da repressão e da força: A psicose da segurança nacional. 12 1.2.2 Perseguição aos intelectuais e jornalistas Logo depois do golpe de 1964, as primeiras pressões contra jornalistas contestadores ocorreram. O Serviço Nacional de Informações (SNI) 12 pressionava para que estes jornalistas fossem demitidos. Mas, de acordo com MARCONI (1980: 37-38), foi a partir da edição do AI-5 que a imprensa brasileira teve grandes dificuldades “para tentar exercer seu papel de informar à opinião pública, ao tempo em que sofria toda sorte de violência, das quais a censura foi a mais visível”13 . Houve um grande silêncio no meio estudantil, sindical, artístico e intelectual por causa das inúmeras prisões que ocorreram (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 398399), embora isso não tenha impedido que parte da opinião pública, especialmente a elite, soubesse de parte dos acontecimentos (DINES, 1974: 135). A censura policial foi de dois tipos nos nove anos em que durou. “A primeira, através de bilhetinhos e telefonema que determinaram os assuntos que não deveriam ser abordados pela imprensa”, afirma MARCONI (1980: 43), “a segunda, chamada censura prévia, com censores – policiais revisando todo o material a ser divulgado”, descreve o ornalista. DINES (1975: 137; 139-141) analisa a censura, baseado em suas experiências na oca das ditaduras militares, como ineficaz em sua tentativa de parecer onipotente: _______________________________ 12 “Politicamente, o projeto do general Castello Branco, escolhido como presidente, incluía o fortalecimento do Executivo e a segurança do Estado, para qual foram criados órgãos como o Serviço Nacional de Informações” (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 395). 13 “A Tribuna da Imprensa, do combativo Hélio Fernandes, teve a redação invadida por censores militares em outubro de 1968, dois meses antes do AI-5. Também o Jornal do Brasil foi colocado sob censura prévia mas, pelo menos na edição de 14 de dezembro, conseguiu marcar seu protesto que, certamente ficará registrado na história da pouca resistência dos jornais brasileiros à censura. Seu editor chefe foi preso, assim como um dos diretores do jornal (...) “Nuvens negras ameaçam o país” foi o teor do quadro meteorológico da primeira página, hoje um clássico do gênero. A censura prévia manteve-se no jornal até princípios de janeiro de 1969, quando a direção do “Jornal do Brasil” acordou com a 1ª Região Militar fazer a auto-censura.” (DINES, 1974: 136). “O Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde tiveram suas edições apreendidas pela polícia, o mesmo ocorrendo com mais de uma dezena de outros jornais espalhados pelo país. O motivo para tanta violência foi um só: o regime militar não queria que a imprensa falasse sobre a política interna” (MARCONI, 1980: 38). “O colunista Zózimo Barroso do Amaral foi preso, incomunicável, na Semana Santa de 1969, por ter publicado a notícia de que o então Ministro do Exército, General Lira Tavares, fora empurrado por agentes de segurança paraguaios. Outros jornalistas foram presos, alguns até na própria redação do jornal, mas por supostas atividades extrajornalísticas, isto é, políticas” (DINES, 1974: 137). 13 “A existência da censura é fato mais grave do que aquilo que ela proíbe divulgar. E a existência da censura é fatalmente desvendada no seu exercício (...) emana (do Governo) uma sensação de desesperada onipotência, de querer configurar o mundo e as mentes de acordo com uma linha (...) da censura às informações estratégicas chegou-se assim, rápida e insensivelmente, a uma imposição de uma visão de mundo...”. Apesar do fim da censura prévia em 1973 sob o governo do general Garrastazu Médici (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 402), o general Ernesto Geisel assume a presidência em 15 de março de 1974. Ele cassa mandatos, suspende direitos políticos (FERREIRA, 1981: 349) e a censura continua atuando, principalmente nos meios de comunicação eletrônicos. Menos de três semanas antes da prisão e morte de Vladimir Herzog, Alberto Dines publica uma nota na coluna “Jornal dos jornais” da Folha de São Paulo com o título “Caça às bruxas”. Ele criticava a colaboração de alguns jornalistas com o regime vigente, como por exemplo, Cláudio Marques, colunista do Shopping News que há três domingos vinha apelidando a TV Cultura, dirigida por Herzog, de TV-Vietcultura: “Fazer a crítica à imprensa considerando os aspectos puramente profissionais e objetivos é uma necessidade. Faz parte da maturação do processo jornalístico e deve ser praticada por todos. Mas abandonar problemas concretos de qualidade e ética e incorporar-se ao grupo de denunciadores da infiltração ideológica nos meios de comunicação é, no mínimo, uma traição à sua própria classe hoje amordaçada, pagando por erros que não cometeu”14 . O comentário político não existia no telejornalismo e “o noticiário se limitava ao factual, sobretudo quando se tratava de assuntos delicados, que envolviam episódios de tortura” (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 76). Dois casos foram simbólicos e indignaram a população: além do suposto suicídio de Vlado, a morte do metalúrgico Manuel Fiel Filho, em janeiro de 1976, também nas dependências do DOI-CODI, marcou a reação contra a violência impetrada pelo autoritarismo militar. A morte de Vlado despertou os jornalistas da imprensa brasileira. A Folha de São Paulo publicou um editorial dois dias depois do culto ecumênico15 . Para Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em 1975, aquilo foi uma conquista porque a Folha não publicava um editorial desde o dia seguinte da instituição do AI-5 em 1968. “A consciência nacional foi despertada naquele momento”, diz Audálio16 . ___________________________________ 14 DINES, Alberto. “Caça às bruxas”. In: Folha de S.Paulo, 12/10/1975, p. 6. Ver capítulo 1 (p. 1). 16 Ver nota 2. 15 14 O caso Vladimir Herzog é representativo no jornalismo brasileiro. Se hoje temos um país democrático, isto se deve muito ao paradigma da ética jornalística no país (BUCCI, 2000: 41) criada a partir daquele momento. A morte de Herzog dentro dos porões do DOICODI foi símbolo da luta do jornalismo contra a ditadura do regime militar, contra a censura e a favor da liberdade de imprensa e dos direitos humanos. 15 1.3 Abertura política A imprensa, em conjunto com atos públicos e manifestos da população, intensificou a luta em favor da redemocratização na política nacional em 1978. O general João Batista Figueiredo, ex-chefe do SNI, eleito neste ano, possibilitou a extinção dos atos institucionais e a Lei da Anistia foi decretada no ano seguinte, mas o controle das informações difundidas pelos meios de comunicação ainda estava longe de chegar ao fim (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 404). A Lei Nº 6.683 concedia anistia a todos aqueles que haviam cometido crimes políticos no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979. O projeto do governo excluía os condenados por crime de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal. A lei foi votada no congresso no dia 22 de abril e ratificada pelo presidente no dia 28. Duas mil e duzentas pessoas foram imediatamente beneficiadas, entre elas Fernando Gabeira, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes, Márcio Moreira Alves e Miguel Arraes 17 (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 99-100). ______________________________________ 17 Miguel Arraes foi eleito governador de Pernambuco em 1962 e deposto pelos militares foi se exilar na Argélia (http://geocities.yahoo.com.br/vinicrashbr/biografias/brasil/miguelarraes.htm, 27/05/2005); Fernando Gabeira era jornalista do JB nos anos 40 e se engajou na luta contra a ditadura nos anos 60. Gabeira participou do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick e logo depois foi preso. Beneficiado pelo seqüestro do embaixador alemão, foi libertado e exilado (http://www.geocities.com/Athens/Troy/4280/gabeira.htm, 27/05/2005); Leonel de Moura Brizola foi eleito deputado estadual ainda quando era estudante, depois foi eleito deputado federal e tentou organizar uma resistência armada contra a ditadura. Depois de desautorizado pelo presidente João Goulart, se exilou no Uruguai (http://www.pdt.org.br/personalidades/bzprf.htm, 27/05/ 2005); Márcio Moreira Alves começou a trabalhar com 17 anos como repórter do Correio da Manhã. Apoiou o movimento político-militar de 31 de março de 1964, mas se posicionou contra desde a edição do AI-1. Elegeu-se deputado federal, porém encabeçou a lista dos parlamentares cassados com o AI-5. Ele se exilou no Chile e depois foi para França estudar e lecionar em Portugal, em seguida (http://www.senado.gov.br/ comunica/museu/marcio_alves.htm, 27/05/2005); Luís Carlos Prestes participou da Revolta Tenentista e liderou a “Coluna Prestes”, ficou conhecido como “Cavaleiro da Esperança”. Aliou-se aos comunistas, mas a tentativa de golpe que planejou no Brasil fracassou. Ficou nove anos preso e quando solto subiu ao palanque de Getúlio Vargas. Elegeu-se senador em 1946, mas foi para clandestinidade, no ano seguinte, após o partido (PCB) a qual pertencia ser cassado. Voltou em 1960, mas o golpe militar o privou dos direitos políticos por dez anos e em 1971 foi para a União Soviética (http://www.culturabrasil.pro.br/prestes.htm, 27/05/05). 16 A democratização avançava lentamente. Em 1983, o deputado Dante de Oliveira apresenta uma proposta de Emenda Constitucional ao Congresso Nacional que restabeleceria as eleições diretas para presidente da república. Apesar da campanha parlamentar e do apoio popular, a imprensa é pressionada pela opinião pública a fazer uma cobertura mais efetiva e a TV Globo é imensamente criticada. O jornalismo da maior emissora de televisão de sinal aberto do país se justifica e afirma que enfrentou dificuldades para realizar o seu trabalho. No livro lançado em 2004, que comemorou os 35 anos do Jornal Nacional, os porta-vozes da empresa dizem que a emissora também foi pressionada pelos militares a simplesmente não cobrir os fatos relacionados às “Diretas Já!”: “Woile Guimarães, então diretor dos telejornais de rede, diz que ministros e generais ligavam para Roberto Marinho, ameaçando até mesmo retirar a concessão para o funcionamento da emissora (...) Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, diretor de programação da Rede Globo de Televisão) confirma: ‘Naquele momento, a pressão sobre Roberto Marinho foi intensa. Foi uma frustração para mim e para toda a equipe de jornalismo, uma tristeza para o Armando Nogueira e a Alice-Maria, não poder fazer a cobertura de maneira adequada. Nós ficamos limitados pelo poder de audiência que a TV Globo tinha. Isso foi uma tristeza muito grande, mas entendo que naquele momento o Dr. Roberto não podia resistir’” (Ibidem: 158). No dia 18 de abril, o presidente João Figueiredo decretou medidas de emergência por 60 dias. Entre as medidas estava a censura prévia às emissoras de rádio e televisão, sendo proibida a transmissão ao vivo de qualquer informação sobre os atos do governo e sobre a votação da emenda Dante de Oliveira. O governo argumentava que tais medidas preservariam a soberania do Congresso Nacional para decidir livremente. A emenda foi rejeitada por 22 votos no dia 25 de abril (Ibid: 162; 166). Depois da derrota das “Diretas Já!”, os políticos da oposição se organizaram para eleger Tancredo Neves. A eleição, mesmo que indireta, gerou grande perspectiva no povo brasileiro, pois a promessa da volta da democracia estaria sendo depositada na eleição do primeiro presidente civil depois da implementação da Ditadura Militar. No dia 15 de janeiro de 1985, a Aliança Democrática venceu a disputa (Ibid: 172). Apesar da fatalidade com o presidente eleito que não pôde assumir a presidência da república no dia 15 de março – na véspera da posse, Tancredo foi internado e depois de sete operações veio a falecer no dia 21 de abril por causa de uma infecção generalizada (Ibid) –, o vice-presidente eleito, José Sarney, assumiu a presidência e encaminhou a volta da democracia através de uma nova Constituição Federal. 17 1.3.1 Constituição Cidadã A saída dos militares da frente e dos bastidores da política possibilitou à sociedade brasileira repensar18 a organização do Estado brasileiro. As eleições para a assembléia legislativa que iria redigir a nova constituição aconteceram em 15 de novembro de 1986. A Assembléia Constituinte começou os trabalhos em 1º de fevereiro de 1987 e em outubro de 1988 a Constituição Federal era promulgada (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 433). A oitava constituição brasileira foi essencial para o processo de democratização no país. Os direitos políticos baseados na soberania popular consistiam no princípio constitucional de que todo poder emana do povo e é exercido através de representantes eleitos diretamente (COTRIM, 1991: 207; 210). Os princípios fundamentais como o Estado Democrático de Direito também permitiam ao povo participar politicamente da formação do Governo e limitar juridicamente o poder do próprio Governo, tendo este que cumprir as leis a que todos se subordinam (Ibidem). A Carta Magna foi chamada pelo presidente do congresso, o deputado Ulisses Guimarães19 , de “Constituição Cidadã” (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 433). Apesar do avanço nas leis brasileiras no que se refere aos direitos e garantias fundamentais como rege o artigo 5º da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (CF. Art. 5º. § 01), a população necessita de informação para que as leis saiam do papel e se tornem efetivas para a vida real do povo brasileiro, como COTRIM (1991: 207) avalia: ______________________________________ 18 “O fim do regime militar havia tornado necessários o reordenamento jurídico do país e a feitura de uma nova constituição. A carta em vigor, de 1967, acrescida do emendão de 1969 e outras alterações impostas pela ditadura, era a forma acabada do ‘entulho autoritário’. Havia um consenso de que este velho ordenamento jurídico-político-insitucional precisava ser removido” (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 431). 19 O deputado Ulisses Guimarães, presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), também foi chamado de o “Senhor Diretas” por sua efetiva participação para a aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira (Ibidem: 426). 18 “Evidentemente, a luta por avanços sociais deve e precisa continuar. E não apenas no campo das leis, mas no terreno concreto da vida. Infelizmente, o Brasil tem longa e triste tradição de elaborar belas leis para o “mundo das idéias”, reservando outras normas para o “mundo da realidade”. Cavou-se, em nossa sociedade, um terrível abismo entre o País real – do sofrimento cotidiano do povo – e o País legal – dos lindos projetos que se tornaram sem eficácia, permanecendo simplesmente no papel. De qualquer maneira, é preciso conhecer a Constituição que aí está, se queremos incorporar algum benefício que ela propõe. Sem consciência exata do que existe, não se pode questionar. E não se saber o que exigir”. Assim, o papel do jornalista é imprescindível para o respeito às leis brasileiras que tem como fim a cidadania dentro do regime democrático e republicano. A Constituição Federal garante ao cidadão brasileiro o direito à informação: “é assegurado a todos o acesso à informação” (CF, Art. 5º. § 14). Sendo assim, o jornalismo tem o dever de conscientizar a população da verdadeira dimensão do que hoje foi conquistado no país. 19 1.3.2 Repressão popular A necessidade do despertar do cidadão brasileiro quanto aos seus direitos hoje vigentes no país nos remete ao tratamento concedido pelo Governo ao povo na época do Império. A República, até hoje, não difere muito da forma do governo monárquico no que concerne à repressão de uma verdadeira democracia que preserva a liberdade e respeita a igualdade entre todas as pessoas que vivem no território nacional baseado na soberania popular. No período imperial, os negros foram protagonistas de várias revoltas. Eles se reuniam constantemente e mostravam certo nível de organização. As rebeliões, as fugas e os trabalhos mal executados eram formas de protesto dos negros, mas por outro lado, o Império tinha uma legislação dura e um aparelho repressivo bem constituído para reprimir as revoltas e enfraquecer a tentativa de conquista da liberdade dos escravos. Outras questões possibilitaram posteriormente que a classe dominante viesse a se juntar ao ideal e conceder a abolição aos escravos (ALENCAR; CARPI; VENICIO, 1996: 201). A liberação não planejada da mão-de-obra escrava juntamente com o aumento populacional, a incorporação de grandes contingentes de imigrantes e o processo de urbanização e industrialização são algumas das causas dos conflitos sociais no fim do século XIX e início do XX. Segundo CARRARA (1998: 62-63), este período foi marcado por uma “ampla e sistemática reflexão em torno do crime e dos criminosos” no mundo ocidental e não sendo diferente aqui no Brasil e mais especificamente no Rio de Janeiro e São Paulo. FOUCAULT (1975: 28; 41) é referência obrigatória para o tema em questão. Ele afirma que “a prática penal (é) mais um capítulo da anatomia política do que conseqüência das teorias jurídicas” e de que “o suplício judiciário deve ser compreendido como um ritual político. Faz parte, mesmo num modo menor, das cerimônias pelas quais se manifesta o poder”. Desta feita, as relações de poder são acentuadas para o controle social e DURKHEIM (2002: 84) diz que “o direito penal protege os sentimentos coletivos do povo e deve penetrar ou influenciar as mentes avessas, mesmo que para isso deva-se aumentar sua intensidade”. O crime é normal e necessário para uma sociedade. Segundo DURKHEIM (2002: 82; 86), não há sociedade em que não haja criminalidade e os crimes são úteis para a evolução da moral e dos direitos dos membros das sociedades. É exatamente neste ponto que entra o poder estabelecido na tentativa de reprimir as lutas por conquistas dos direitos do povo. FOUCAULT (1975: 69-70) apresenta a reforma penal no século XVIII como um instrumento para proporcionar à sociedade a função regular de reprimir as ilegalidades, 20 inserindo “no corpo social o poder de punir”. Ilegalidades que foram conquistadas, e até toleradas, e desta forma, geridas de forma diferencial para que não fossem totalmente suprimidas (Ibidem, 74-75). Desta forma, o crime não é o que o senso comum visualiza apenas, ou seja, grande parte da população não leva em conta as suas causas e considera o delito como algo proveniente somente de “pessoas más e sem coração”. A Justiça Criminal deve buscar preservar e respeitar os direitos da sociedade em seu conjunto no que cabe o direito de punir para preservar a ordem e a vida em comum de seus membros, como também os direitos dos próprios indivíduos para possibilitar avanços na melhora da vida de cada um, sem limitações ou repressões de qualquer tipo que possam inviabilizar o bem-estar social, especificamente, em nosso país onde a desigualdade sócio-econômica ainda é de proporções alarmantes e injustas. 21 2 PRISÃO A pena de privação de liberdade tão difundida pelo mundo de hoje tem origem no século XVIII. As idéias iluministas, da mesma forma que reforçam o conceito de opinião pública, também desqualificam a forma de punir primitiva e modificam a punição por meio de um sistema que pode ser distribuído a todos e para todos. As mudanças ideológicas são reforçadas pelas transformações demográficas e econômicas naquele século. A constituição da prática de delitos também muda e a aplicação do castigo requer novas demandas. As diferenças entre as classes sociais e econômicas e o controle por parte do Estado ganham contornos mais nítidos. Os ideais que preservam o elemento humano, mesmo que condenado pela Justiça, ganham força e são implementados, pelo menos em retórica, para as novas instituições punitivas – as prisões. O Brasil que sempre importou os modelos de política social por influência ou imposição, encerra a aplicação da pena de morte em 1890. O sistema penal brasileiro, então, passa a ter a finalidade de reeducar e ressocializar os presos, quase sempre negros e trabalhadores. A reforma no sistema punitivo decorre das idéias iluministas, mas para compreender a necessidade das mudanças faz-se obrigatório recuperar as origens penais e a sua evolução até os dias de hoje. 22 2.1 Crime A situação sócio-econômica em uma sociedade pode provocar a queda ou elevação das taxas de criminalidade, do ponto de vista das análises sociológicas e históricas. Contudo, existem outros fatores que influenciam a prática de crimes. O trabalho não pretende investigar as causas do crime, mas apresentará, pelo menos superficialmente, algumas posições que possam orientar ao leitor sobre a importância na cobertura jornalística dos procedimentos conferidos às pessoas condenadas pela Justiça. No Direito Penal, o crime é dividido em infração e contravenção penal, sendo composto pela conduta – ação ou omissão – humana descrita pela lei que a proíbe (FÜHRER; FÜHRER, 1994: 23-24). O fundamento do direito está na necessidade da vida da sociedade humana e tende à obtenção dos fins individuais e sociais, resultando daí o princípio com a moral ou ética. O direito não pode se opor à ética e toda regra de direito deve ser moral, porém não há necessidade que toda norma moral tenha de manifestar-se numa norma de direito. “Já que o direito regula as condições exteriores que tornam possível ao homem a obtenção de seus fins, e a moral somente indica estes fins” (BECCARÍA, 2002: 33 ver nota). Qualquer ato punido que ofende a parte média e imutável do senso moral é a definição de crime para DURKHEIM (2002: 58; 60-61) que também cita GAROFALO para completar o conceito. Alguns atos que anteriormente foram criminosos em outras sociedades e hoje não o são considerados, não deixam de ser crimes, como DURKHEIM (2002: 61-62) explica: “Atos taxados como crimes pelas sociedades primitivas, e que perderam essa qualificação, são realmente criminosos em relação a essas sociedades, exatamente como os que continuamos a reprimir hoje em dia. Os primeiros correspondem às condições em transformação da vida social, os segundos às condições constantes; mas não são mais artificiais uns com os outros (...) mesmo que esses atos tivessem revestido indevidamente o caráter criminológico, ainda assim não deveriam ser separados radicalmente dos outros; pois as formas mórbidas de um fenômeno têm a mesma natureza das formas normais e, por conseguinte, tanto é necessário observar as primeiras como as segundas para determinar essa natureza. A doença não se opõe à saúde, são duas variantes do mesmo gênero, que se esclarecem mutuamente (...) a idéia de que a nossa moral é a moral é desconhecida dos povos primitivos ou que só existe neles de modo rudimentar, torna essa definição arbitrária”. Ao transpor a linha da moral no crime e se detendo à questão prática, a Sociologia Criminal criada por Enrico Ferri (1856-1929) e influenciada pelos observadores das prisões 23 da Antropologia Contemporânea, classifica os crimes e os tipos de criminosos. As hipóteses criminais de acordo com as várias Escolas20 da disciplina definem o crime como uma infração, um ato ilegal, uma ação bio-social ou anti-social. Os criminosos são divididos em nato quando instintivo e atrofiado no senso moral; louco, o alienado mental; ocasional, ao praticar um crime eventualmente; habitual, ao reincidir e fazer do crime uma “profissão”; e por fim, o passional, quando fruto de um temperamento nervoso, de sensibilidade exagerada e que ocorre sem premeditação (FERNANDES; CHOFARD, 1995: 19; 21). Voltando a DURKHEIM (2002: 83), o fenômeno criminológico está ligado à vida coletiva e, exceto quando alcança um alto índice de criminalidade, apresenta todos os sintomas da normalidade: “Transformar o crime numa doença social seria admitir que a doença não é uma coisa acidental mas que, pelo contrário, deriva, em certos casos, da constituição fundamental do ser vivo; seria eliminar qualquer distinção entre o fisiológico e o patológico. Pode, sem dúvida acontecer que até o crime tome formas anormais; é o que acontece quando, por exemplo, atinge uma taxa exagerada (...) Classificar o crime entre os fenômenos de fisiologia normal, não é só dizer que é um fenômeno inevitável, ainda que lastimável, devido à incorrigível maldade dos homens; é afirmar que é um fator da saúde pública, uma parte integrante de qualquer sociedade sã. Este resultado é, à primeira vista, bastante surpreendente, a ponto de ter desconcertado até a nós, e durante muito tempo. Contudo, logo que se tenha dominado esta primeira surpresa, não é difícil encontrar as razões que explicam esta normalidade e, ao mesmo tempo, a confirmam (...) em primeiro lugar, o crime é normal porque uma sociedade isenta dele é completamente impossível”. Segundo o autor, a uniformidade absoluta e universal é impossível. Todas as sociedades são compostas por indivíduos que divergem do tipo coletivo e é inevitável que alguns apresentem um caráter criminoso. “Porque o que lhes confere este caráter não é sua importância intrínseca, mas as que lhe atribui a consciência comum” (Ibidem: 85). O fato de o crime ser um fato de sociologia normal, não se afirma que não se deva odiá-lo. DURKHEIM (Ibid: 87 ver nota) tem a preocupação de deixar isso bem claro: ________________________________ 20 As Escolas se dividem em: Clássica, de orientação metafísica; Positivista, determinista; Antropológica, naturalista; Crítica ou Eclética, o criminoso é produto das más condições sociais, mas é responsável por ser são e ter moral; Neo-Clássica, quem comete um crime é responsável social e tem senso jurídico por causa da certeza da punição trazida à sociedade; e a Neo-Positiva que revela a periculosidade do criminoso e trabalha com medidas de segurança (FERNANDES; CHOFARD, 1995: 19; 21). 24 “Também a dor não tem nada de desejável; o indivíduo odeia-a tal como a sociedade odeia o crime e, no entanto, ela depende da fisiologia normal. Não só deriva necessariamente da própria constituição de qualquer ser vivo como desempenha um papel útil na vida, pelo que não pode ser substituída. Seria, pois, desnaturar singularmente o nosso pensamento apresentá-lo como uma apologia do crime. Não nos ocorreria sequer protestar contra uma tal interpretação se não soubéssemos a que estranhas acusações e a que mal-entendidos nos expomos, quando se tenta estudar objetivamente os fatos morais e falar deles numa linguagem que não seja a do vulgo”. O sociólogo também demonstra que além de normal o crime é necessário e útil para a vida social. O crime é indispensável, conforme, à evolução da moral e do direito. Pode-se retornar ao período de exceção no Brasil e à Lei de Segurança Nacional para entendermos como o criminoso, seja ele político-ideológico ou não, pode contribuir para o progresso do direito em uma sociedade. “Para que a originalidade do idealista que ambiciona ultrapassar o seu século se possa manifestar, é preciso que a do criminoso que cita aquém do seu tempo o possa igualmente. Não podem emitir uma sem a outra (...) A liberdade de pensamento de que gozamos hoje nunca poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam não tivessem sido violadas antes de serem solenemente abolidas. Todavia, naquele momento, essa violação era um crime, pois ofendia sentimentos ainda muito vivos na generalidade das consciências” (DURKHEIM 2002: 8687). Em contraposição, retornando novamente à situação jurídica do criminoso, FOUCAULT (1975: 76) diz que o criminoso é paradoxal, pois o cidadão aceita as leis da sociedade, inclusive as que o pune. Segundo ele, “o menor crime ataca toda a sociedade; e toda a sociedade – inclusive o criminoso – está presente na menor punição. O castigo penal é então uma função generalizada, coextensiva ao corpo social e a cada um de seus elementos”. Servindo-se da analogia de DURKHEIM (2002: 88-90) do crime com a doença, o pensador conclui que a pena deveria ser então o remédio e o seu papel não seria o de curar já que o crime não contém nada de mórbido como visto anteriormente. O Estado então deveria desempenhar a função de médico ao “prevenir a eclosão de doenças com uma boa higiene e, quando se declaram, procurar curá-las” (Ibidem). Desta forma, a prevenção do mal deveria ser buscada não na pena e sim em outras áreas como na educação, trabalho, saúde e que nada mais são do que direitos de cada cidadão. Conclui-se que a pena mais aplicada atualmente para os criminosos, a de privação 25 de liberdade, tem como fim não a extinção do crime, já que sua eliminação é impossível, mas uma forma de controle social através de uma relação de poder do Estado com o povo e que é acatada pela própria sociedade. Para compreendermos isso será necessário voltar às origens do sistema penitenciário contemporâneo. 26 2.2 As penas As punições existem desde que o homem começou a se organizar em grupos com o intuito de disciplinar os infratores das normas da vida coletiva, mas não se tinha idéia de prisões no Período Primitivo. A punição nos tempos mais remotos consistia na reparação de danos e os instrumentos usados eram o pagamento pecuniário ou através da simples vingança conforme afirma FERREIRA (S/D: 20) equivocadamente. A Lei de Talião 21 não significa vingança proporcional ao crime e sim pena igual à ofensa porque tinha como propósito não de vingar o mal, mas cumprir com exatidão a justiça; não devia ser vingança pessoal, mas justiça pública; e exceto em caso de assassinato, a lei possibilitava ao ofensor indenizar com pagamento monetário (ALLIS apud HOFF, 1995: 182). Não existia pena de privação de liberdade ligada à sanção penal. O encarceramento consistia em aguardar o julgamento. Os locais usados para tal fim eram os calabouços, torres, conventos desabitados e castelos e palácios em ruínas (FERREIRA, S/D: 19). Existiam também as masmorras e os cárceres canônicos onde os homens eram colocados para ser redimidos e outros ficavam voluntariamente para alcançar santidade1 . Entre os séculos IV e VI, a Igreja Apostólica Católica Romana, impôs um sistema disciplinar para governar seu povo. Entres os fiéis existia uma grande quantidade de bárbaros e para torná-los civilizados e instruídos na vida cristã foi introduzido uma série de punições rígidas para atos imorais. Havia flagelações, peregrinações, confissões públicas, jejuns, e orações como penitências para ofensas menores que poderiam chegar até a excomunhão no caso de uma falta grave. Os sacerdotes tinham livros com penitências para cada um dos mais variados pecados, que uma vez cumpridos, serviam como prova de arrependimento. Com o passar do tempo, a disciplina se desenvolveu até se tornar em um verdadeiro sistema (NICHOLS, 1997: 52; 115). A palavra “pena” tem origem no grego penos, sinônimo de castigo, dor e suplício, que sugere em que o criminoso deve sofrer para pagar sua pena (FERREIRA, S/D: 20). Na Idade Média essa lógica é bem aplicada com penas como a marca a ferro quente, chicoteamento, esquartejamento, enforcamento e a guilhotina (FOUCAULT, 1975: 1416). _______________________________ 21 A lei das Doze Tábuas “condenava à pena de talião (apenas) quando não podia apaziguar o queixoso; era, permitido, depois da condenação, pagar as perdas e danos, convertendo a pena corporal em pecuniária” (MONTESQUIEU, 2003: 105). 27 As idéias iluministas e uma conjuntura político-sócio-econômica impõem uma mudança no sistema punitivo e as transformações sociais mudam a organização do crime e a forma de repressão dos delitos. O crime se torna menos violento no século XVIII. Os criminosos são “velhacos, espertos, matreiros que calculam, criminalidade de marginais” ao contrário dos delinqüentes do século anterior que “são homens prostrados, mal alimentados, levados pelos impulsos e pela cólera, criminosos de verão” (Ibidem: 64-66; 71). A criminalidade de massa se transforma em criminalidade de bordas e margens e que exigem punição mais branda. O criminoso sanguinário torna-se fraudulento em conseqüência do desenvolvimento da produção, do aumento das riquezas, de uma valorização jurídica e moral das propriedades. O aumento geral da riqueza e o grande crescimento demográfico transferem o alvo principal dos direitos para os bens. A reforma punitiva tem como objetivo não igualar, mas aumentar seus efeitos de maneira a diminuir custos econômico-políticos e melhor distribuir em toda parte a punição. FOUCAULT (1975: 68-70) conceitua esta mudança como uma “nova economia do poder de castigar” que insere na sociedade o poder de punir. “A reforma penal nasceu no ponto de junção entre a luta contra o superpoder do soberano e a luta contra o infrapoder das ilegalidades conquistadas e toleradas (...) um sistema penal deve ser concebido como um instrumento para gerir diferencialmente as ilegalidades, não para suprimi-las a todas” (FOUCAULT 1975: 74-75). As prisões surgem para controlar os crimes no novo contexto oriundo das transformações sociais (FERREIRA, S/D: 20). Paralelamente, os ideais do Iluminismo de “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” tornam o aparelho punitivo mais humano. _____________________________________ 22 Esses eram conhecidos como os penitenciais. Existiam também os que eram enviados por um juiz ou tribunal eclesiástico para fazer penitências e não reincidirem, destes foram inspirados os penitenciários (MARTINS, 1997: 24). A penitência consistia no encarceramento na cela, originando a chamada prisão celular. Estudiosos cristãos criam o Código de Direito Canônico (síntese da moral cristã e do direito romano) e depois do fim do Império Romano do Ocidente, o Império Bizantino sob Justiniano cria o Corpus Júris Civilis (atualização do direito romano) (FERREIRA, S/D: 21). 28 2.3 Execução Penal A pena compõe-se de dois aspectos. O retributivo ou de castigo pelo mal cometido e o da prevenção geral e especial que visa no primeiro caso ao desestímulo de todos da prática do delito e no último, à recuperação do apenado, buscando fazer com que não volte a cometer crime (FÜHRER; FÜHRER, 1994: 90). O novo modo de executar a pena orientada para a reeducação e ressocialização do condenado pela Justiça se dirige ao encontro do respeito aos direitos individuais e passa a ter a humanidade como paradigma. Um dos primeiros homens23 a expor suas idéias humanistas no direito penal é CESARE BECCARÍA (2002) no final do século XVIII. A sua obra Dos delitos e das penas é um clássico na luta pelos direitos humanos na execução penal e no que diz respeito à individualização das penas. “A ordem nos conduziria a examinar e distinguir todas as diferentes espécies de delitos e a maneira de puni-los, se a natureza variável deles, pelas diversas circunstâncias das épocas e dos lugares, não nos obrigasse a uma imensa e tediosa particularização. Bastar-me-á indicar os princípios mais gerais e os erros mais funestos e comuns, para desiludir tanto aqueles que, por mal compreendido amor à liberdade, quisessem introduzir a anarquia, como aqueles que gostariam de submeter os homens a uma disciplina claustral (...) Se eu não tivesse outro mérito senão aquele de ter sido o primeiro a apresentar à Itália, com alguma evidência maior, o que outras nações ousaram escrever e começam a praticar, considerarme-ia feliz; mas se, defendendo os direitos dos homens e da verdade invencível, contribuísse para arrancar dos espasmos e das angústias da morte alguma desafortunada vítima da tirania e da ignorância, igualmente fatais, as bênçãos e as lágrimas de um só inocente, nos transportes da sua alegria, consolar-me-iam do desprezo dos homens” (BECCARÍA, 2002: 37). A pena de privação de liberdade originalmente é composta da função técnica de correção. As condições de processamento das penas são humanizadas tendo um passo importante a partir do século XIX (MARTINS, 1997: 26-27). A prisão se torna a principal forma de punição para indivíduos e se espalha pelo mundo. _____________________________________ 23 Secretaria de Estado de Administração Penitenciária. http://www.seap.rj.gov.br/#, 04/04/2005. 29 O Brasil importa da Europa modelos prontos de prisões. A Justiça passa a exercer o papel de controle. No Império, Dom Pedro II estimula a vinda de europeus no período anterior à libertação dos escravos em uma tentativa de embranquecimento da população. “Negros e trabalhadores pobres passam a constituir os grupos mais perigosos, sendo alvo das prisões e sem os mesmos direitos dos recém-chegados” (FERREIRA, S/D: 21). A pena de morte é abolida em 1890 com o surgimento do regime penitenciário na República e a prisão tem como finalidade ressocializar e reeducar o detento (Ibidem: 21). 30 2.3.1 Tratamento As primeiras leis penais brasileiras foram as Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas que vieram com os portugueses. Mas anteriormente, entre os índios brasileiros já existia uma forma de “vindita privada” institucionalizada (KOSOVSKI, 1978: 38). Existia a possibilidade de substituição da pessoa por outra, transferindo a pena e poupando a vida do substituto. “Se um índio destes mata outro da mesma geração em alguma briga, ou por desastre, são obrigados os parentes do matador a entregálo aos parentes do morto, que logo o afogam e o enterram (...) e sendo caso que o matador fuja, de maneira que os parentes não o possam tomar, lhe tomam um filho ou filha, se o tem, ou irmão, e se não tem um nem outro, entregam pelo matador, o parente mais chegado, ao qual não matam, mas fica cativo do mais próximo parente do morto e com isso ficam todos contentes e amigos como o eram antes do acontecimento de morte” (SOUZA apud KOSOVSKI, 1978: 37-38). A Proclamação da Independência interrompeu as Ordenações e baseado no código Francês de 1810 e do Napolitano de 1819, em 1830 começou a vigorar o Código Criminal do Império. Com o advento da mudança da forma de governo em 1890, o Código Penal da República regride em relação ao avanço do Código Imperial e em 1940 é reformado pelo Código Penal (KOSOVSKI, 1978: 39; 41). Este Código vigora até os dias atuais e sofreu algumas mudanças24 em 1977 e em 1984. A Lei de Execuções Penais surge em vários países depois da 2ª Guerra Mundial. A Organização das Nações Unidas (ONU) elabora as regras mínimas para tratamento ao recluso, salientando o caráter social do serviço penitenciário, sendo seguras, disciplinadas, mas principalmente humanizadas (FERREIRA, S/D: 21). A Lei de Execução Penal (LEP) brasileira Nº 7.210 de 11 de julho de 1984 “tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”25 . O Estado deve assistir ao interno com a finalidade de “prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade”26 . ______________________________________ 24 Lei Nº 6.416, de 24/05/1977 e Lei Nº 7.209, de 11/07/1984 (FÜHRER; FÜHRER, 1994: 23-24). LEP. Art. 1º. 26 LEP. Art. 10º. 25 31 A LEP foi elaborada num período de redemocratização, o que favoreceu questões como o tratamento e a reinserção dos condenados por meio da descrição das chamadas “assistências”. Os primeiros estados da federação a antecipar à LEP foram o Rio de Janeiro e Pernambuco. A pesquisa Gestão penitenciária no Rio de Janeiro: problemas e perspectivas27 mostra que a necessidade de uma legislação para definir a operação desse setor e acompanhar todo ordenamento internacional da questão penitenciária privilegiou os direitos e deveres dos presos. O processo das mudanças nas leis penais brasileiras até a promulgação da Lei de Execuções Penais que começou a vigorar a partir do dia 1º de janeiro de 1985 mostra que a sociedade guiada pelo Estado avançou. Contudo, deve-se conhecer o sistema penitenciário em uma tentativa de compreender o porquê da legislação não ser cumprida em sua integridade e, por isso, considerada hipócrita por não ser executada em toda sua totalidade. ______________________________________ 27 A pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania descreve o perfil dos funcionários do sistema penitenciário fluminense e os principais problemas da administração do setor (MUNIZ; PEREIRA, 2001: 4; 6). 32 2.3.2 Sistema Penitenciário28 A Lei de Execuções Penais compõe o sistema penitenciário brasileiro com estabelecimentos penais para o cumprimento da pena de reclusão ou detenção29 de condenados ou para o recolhimento de presos que aguardam julgamento. Os quatro séculos de história do sistema penitenciário do Rio de Janeiro estão repletos de políticas emergenciais, improvisadas e sem qualquer planejamento para longo prazo. Os resultados são mais do que conhecidos: superlotação, fugas, rebeliões e muitas mortes. A perspectiva histórica vai ajudar a compreender como um setor estratégico para a segurança da população e que serve de instrumento governamental para controle social é tão negligenciado pela imprensa carioca. ______________________________________ 28 A História do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro foi baseado no link do sítio da internet da Secretaria do Estado de Administração Penitenciária (www.seap.rj.gov.br, 14/04/2005) e no relatório de pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (MUNIZ; PEREIRA, 2001: 9-10). 29 Não existe diferença entre reclusão ou detenção atualmente. A lei usa os temos como índices para a determinação dos regimes de cumprimento da pena. A reclusão é cumprida nos regimes fechado, semi-aberto ou aberto. A detenção só nos regimes semi-aberto ou aberto (FÜHRER; FÜHRER, 1994: 91). 33 2.3.2.1 Origens Na cidade do Rio de Janeiro, o primeiro local destinado a abrigar presos foi um prédio no antigo Morro do Castelo instalado durante o governo Mem de Sá. O prédio também abrigava o Senado da Câmara e os primeiros pedidos para a transferência dos presos são de 1631. O prédio era velho e as condições de segurança eram mínimas, o que permitia constantes fugas. A mudança só ocorre em 1639 quando é construído o novo edifício que ficou conhecido como Cadeia Velha. A liberação de verbas foi lenta e em 1663 só havia um pavimento no edifício. Uma sala especial foi construída para os “homens nobres” e outra para as “mulheres nobres”. O objetivo era não misturar os “nobres” com os presos comuns, em sua maioria negros. A Cadeia Velha foi palco do julgamento e condenação à morte por enforcamento do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Em 1808, a família real requisita o prédio para alojar a criadagem da rainha. A Cadeia Velha nunca mais serviu de prisão e foi demolida na década de 20, onde foi construído o Palácio Tiradentes, sede da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro atualmente. A prisão foi transferida para um local mais espaçoso, conhecido como Aljube, na altura da Rua da Prainha com a Ladeira da Conceição. Outras prisões passaram a abrigar presos comuns. A Ilha das Cobras, onde hoje funciona o Arsenal da Marinha, com suas masmorras construídas pelos padres jesuítas, começou a receber presos civis em 1834. A prisão na Ilha de Santa Bárbara recolhia mulheres e a Fortaleza de São Sebastião no Morro Castelo, conhecida como Calabouço, custodiava os escravos. Em 1834, uma Comissão de visita às cadeias, que também examinava casas e armazéns, constatou que as prisões da Ilha das Cobras e do Aljube estavam em estado lastimoso. A prisão do Calabouço deixava de existir por ordem do Governo em 1837. O Estado Imperial Brasileiro, influenciado pelas idéias reformistas, introduz a pena de prisão com trabalho, com o objetivo de reprimir e reabilitar a moral do preso. A construção da Casa de Correção da Corte se iniciou em 1834 nos moldes de um estabelecimento estadunidense, mas a verdadeira inspiração foi o modelo arquitetônico de prisão elaborado por Jeremy Benthan, no final do século XVIII e início do século seguinte, na Inglaterra. A construção permitia controlar o detento permanentemente, o preso era visto sem visualizar quem o vigiava. O governo instituiu duas loterias para arrecadar dividendos para a construção da unidade prisional, moderna para a época. Os cidadãos contribuíram voluntariamente e reconheceram a importância do projeto. O orçamento da compra do terreno e construção da obra foi de três mil e quinhentos contos de réis. A verba não foi suficiente e a unidade 34 prisional passou a funcionar sem terminar o projeto inicial. A Casa de Correção foi regulamentada apenas em 06 de julho de 1950. Quatro anos depois foi transformada na Penitenciária Central do Distrito Federal e no dia 19 de julho de 1957, pela Lei 3.212, a Penitenciária passou a chamar-se Professor Lemos Brito30 . A Lemos de Brito juntamente com a antiga Casa de Detenção (1856), atual Penitenciária Milton Dias Moreira, e o Presídio Hélio Gomes iniciaram a formação do Complexo da Frei Caneca, no Centro da Cidade. As penitenciárias estavam sob comando do Ministério da Justiça no Rio de Janeiro, que era a capital federal. No século XX, a Penitenciária Talavera Bruce (1941) e Esmeraldino Bandeira (1957) em Bangu, zona oeste do Estado, passariam a ser administradas pela Superintendência do Sistema Penal (Susipe) do Estado da Guanabara em 1960. No período anterior à fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro (19601975) foram construídos, em 1962, a Penitenciária Agrícola de Magé e o Presídio Evaristo de Morais, em São Cristóvão, conhecido como Galpão da Quinta. O Hospital Agostinho Vieira de Castro e o Instituto Penal Romeiro Neto em 1966, a Penitenciária Moniz Sodré em 1971 e o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo (1972) completam a constituição do sistema penitenciário fluminense antes da fusão em 1975. ______________________________________ 30 A penitenciária destina-se ao cumprimento da pena de reclusão em regime fechado e o condenado será alojado em cela individual, chamada de unidade celular (LEP. Art. 87-89). Já o presídio não consta na Lei de Execuções Penais, mas seria o estabelecimento penal que custodia presos em regime fechado sem a unidade celular onde os presos ficariam juntos em determinado espaço. Os outros estabelecimentos são para os presos em regime semi-aberto ou aberto. A Colônia Agrícola, Industrial ou similar destina-se ao cumprimento da pena em regime semi-aberto e o condenado poderá ser alojado em compartimento coletivo (LEP. Art. 9192). A Casa do Albergado destina-se ao cumprimento de pena privativa de liberdade, em regime aberto, e da pena de limitação de fim de semana (LEP. Art. 93). No Centro de Observação realizar-se-ão os exames gerais e o criminológico, cujos resultados serão encaminhados à Comissão Técnica de Classificação. No Centro poderão ser realizadas pesquisas criminológicas (LEP. Art. 96). O Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico destina-se aos inimputáveis e semi-imputáveis (LEP. Art. 99). Por fim, a Cadeia Pública que se destina apenas ao recolhimento de presos provisórios (LEP. Art. 102). 35 2.3.2.2 Desipe O novo Estado do Rio de Janeiro transformou o Susipe em Departamento do Sistema Penal (Desipe) e passou a administrar as unidades prisionais do antigo estado. Ainda em 1975, o novo departamento assume a carceragem de presos da Secretaria de Segurança Pública em Água Santa, o Presídio Ary Franco. Em Bangu, é inaugurado o Hospital Penitenciário Roberto Medeiros em 1977 e os Institutos Penais Plácido de Sá Carvalho e Vicente Piragibe dois anos depois. Este último seria transformado em Penitenciária um pouco mais tarde, quando a Penitenciária Cândido Mendes, conhecida como o Presídio da Ilha Grande, foi extinta em 1994 e seus presos para lá transferidos. Em 1988, é construída a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, que ficou conhecida como Bangu 1. A arquitetura e o sistema eletrônico, novidades na época, obtiveram grande destaque na mídia e foi considerada unidade de segurança máxima. Com capacidade para apenas 48 presos, tinha como objetivo custodiar condenados classificados como de alta periculosidade. Nos anos 90 aconteceram novas construções de penitenciárias de segurança máxima em série, mas com a capacidade de número de presos bem maior. A Penitenciária Alfredo Tranjan (Bangu 2) foi inaugurada em 1995, a Penitenciária Dr. Serrano Neves (Bangu 3) dois anos depois e a Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho (Bangu 4) em 1999 para 500 presos, a princípio, cada uma. Ainda na década de 90, foi inaugurada a Penitenciária Pedrolino Werling de Oliveira, também no Complexo da Frei Caneca, para abrigar expoliciais condenados pela Justiça. No governo de Anthony Garotinho foram criadas as “Casas de Custódia”. Este tipo de estabelecimento penal não existe na Lei de Execuções Penais 31 e substituem as cadeias públicas que abrigam presos provisórios, ou seja, aqueles que aguardam julgamento. A idéia surgiu em março de 1999. O general José Siqueira Silva, secretário de Segurança Pública na época, propôs ao governador a criação das casas de custódia para reduzir a superlotação nas delegacias, principalmente dos presos condenados, o que vinha provocando constantes fugas e rebeliões. A idéia surgiu quando ele pensou em transformar a sede da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos Automotores Terrestres (DRFVAT), em Benfica, numa grande carceragem. A primeira casa aberta foi na Penitenciária Esmeraldino Bandeira, em Bangu, em junho daquele ano32 . Em dezembro de 2000, foi ______________________________________ 31 Ver nota 30. BRAGA, Ronaldo. “Como surgiram as casas de custódia”. In: Jornal O Globo. Rio de Janeiro, 19/11/1999, p.17. 32 36 inaugurada a Casa de Custódia Pedro Melo da Silva e um mês depois a Casa de Custódia Jorge Santana no Complexo de Bangu. Em junho foi a vez de ser inaugurada a Casa de Custódia Dalton Crespo de Castro, em Campos. As transferências de presos das delegacias, sob cuidados da Secretaria Estadual de Segurança Pública, para as Casas de Custódia administradas pelo Desipe, órgão da Secretaria de Justiça, continuaram no ano de 2002. No dia 22 de janeiro foi inaugurada a Casa de Custódia Bangu 5. Enquanto o projeto “Delegacia Legal” era implementado – as delegacias passavam a não ter mais presos e apenas iriam atender ao público com serviço informatizado –, o sistema penitenciário inchava com o aumento do número de presos. No dia 11 de setembro de 2002, uma rebelião na penitenciária Bangu 1 (divulgada como de segurança máxima em 1988) provocada por um “acerto de contas” entre facções criminosas inimigas acabava com quatro presos mortos e mostrava que o investimento na estrutura física de uma penitenciária não passava apenas de uma maquiagem33 . O preso Ernaldo Pinto de Medeiros, conhecido como Uê, um dos criadores e líder da facção “Amigo dos Amigos” foi morto e teve o corpo incendiado por seus rivais do “Comando Vermelho”, comandados por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP34 . Apenas em 2002, ocorreram 28 rebeliões em todo o estado35 . Em todo o governo de Marcello Alencar, antecessor de Garotinho, não houve uma rebelião36 sequer. A vice-governadora, Benedita da Silva era quem governava o Estado na ocasião da rebelião em Bangu 1. Anthony Garotinho havia se licenciado para concorrer à presidência da república nas eleições de 2002. ______________________________________ 33 SAINT-CLAIR, Clóvis; PADILLA, Ivan. “Tá tudo dominado”. In: Revista Época. São Paulo, Ed. Globo, Edição 226, 16/09/2002, pp.66-69. 34 Idem. 35 Secretário de Administração Penitenciária Astério Pereira dos Santos, RJTV 1ª Edição, TV Globo, 02/12/ 2003. 36 Desembargador Jorge Loretti, secretário de Justiça do governo Marcello Alencar, entre 1995 e 1998, CBN Rio, Rádio CBN, 03/06/2004. 37 2.3.2.3 Secretaria de Estado de Administração Penitenciária A esposa do ex-governador, Rosinha Garotinho, candidatou-se ao Governo do Estado e venceu no primeiro turno. Ela assume o cargo mais importante do Estado em 2003 e extingue o Desipe. O sistema penitenciário passa a ter uma secretaria própria pela primeira vez, mas os problemas continuam. Acontecem três rebeliões no Estado, sendo uma a mais demorada de toda a história do sistema penitenciário fluminense. Uma tentativa de fuga em Bangu 3 acaba com o agente penitenciário Luis Cláudio Lima Bonfim, de 33 anos, morto. A ação dos bandidos37 aconteceu às 10 horas do dia 2 de dezembro e depois eles fizeram 15 pessoas reféns. A rebelião só terminou no dia 5, 75 horas depois de iniciada38 . O acontecimento provocou uma reviravolta na administração penitenciária e o secretário Astério Pereira dos Santos impôs uma disciplina muito rígida39 para os detentos do sistema penitenciário do Rio de Janeiro. Embora a mudança fosse notável na questão disciplinar, a Secretaria do Estado de Administração Penitenciária continuava a acolher presos provisórios provenientes das delegacias do Estado. A Casa de Custódia Bangu C é inaugurada no dia 10 de junho e a casa de Custódia de Magé no mês seguinte. Ainda em 2003, começariam a funcionar as casas de custódia de Japeri e Itaperuna. Por fim, em 2004, são inauguradas a Casa de Custódia de Volta Redonda no dia 23 de março e a de Benfica no dia 07 de abril. Um pouco mais de um mês após, acontece uma tentativa de fuga em massa e uma posterior rebelião que termina com outro agente penitenciário assassinado em serviço, o segundo em menos de seis meses. E mais uma vez, a “maquiagem desbota” e os problemas do setor são expostos. _____________________________________ 37 Bonfim, como era conhecido pelos colegas, era agente do Serviço de Operações Externas (SOE) e responsável pelo transporte dos presos. Naquela fatídica manhã, o agente que se encontrava de férias, foi convocado extraordinariamente para trabalhar. Ele chegou em Bangu 3 com mais três colegas e foram surpreendidos por um grupo de presos – liderados por Renato de Souza Paula, o Ratinho, acusado de participar da morte do jornalista Tim Lopes, em 2002 – que se encontravam fortemente armados. Os presos tentaram render os agentes para conseguir fugir com a viatura do SOE. A troca de tiros chamou a atenção de um policial militar que estava na guarita e que conseguiu evitar o sucesso da empreitada dos bandidos (BRITO, Bartolomeu. “Rebelados matam agente”. In: O Dia Online. www.odia.ig.com.br, 03/12/2003). 38 PERELO, Geraldo; VERDE, Ricardo Villa. “Polícia militar assume Bangu 3”. In : O Dia Online. www.odia.ig.com.br, 06/12/2005). 39 Os presos destruíram toda a penitenciária Bangu 3, exceto o setor reservado para as visitas íntimas. Uma dentre várias outras determinações do secretário Astério Pereira dos Santos foi a de suspender as visitas íntimas dos presos de Bangu 3 por mais de um ano. Este benefício só foi liberado em fevereiro de 2005 (GOMES, Fábio. “Liberado amor atrás das grades”. In: Jornal Extra. Rio de Janeiro, 19/02/2005, p.3). 38 2.4 Formas de poder A tragédia da Casa de Custódia em Benfica é emblemática quando se refere ao papel da imprensa em fiscalizar ao Estado e o serviço público prestado pelos governantes. São duas formas de poder com peculariedades e vaidades específicas e que, quando mal administradas, acabam prejudicando a população – que deve ser a finalidade de ambos os poderes citados em uma democracia. A Justiça Criminal e, sendo mais objetivo, a Execução Penal exerce um poder considerável quando se trata de efeitos na área social e política. A cobertura jornalística deste setor pela imprensa deve receber certos cuidados para que injustiças não sejam cometidas. O jornalismo brasileiro dentro do seu contexto histórico e político está em processo de amadurecimento e necessita de equilíbrio para respeitar os direitos do cidadão, antes de qualquer intento na preservação das instituições vigentes. Desta forma, como o poder político quer preservar o aparelho estatal, o poder fiscalizador da imprensa tem que se pautar no cidadão. 39 2.4.1 Poder Moderador O Estado que governa a sociedade deve ter seus atos fiscalizados por essa mesma sociedade. Este axioma é básico em uma democracia e, para se evitar abusos, a vigilância do Estado por parte dos cidadãos tem como principal meio o jornalismo no papel de mediador da opinião pública. No campo político da Justiça Criminal e da Execução da Penal, os três poderes responsáveis pelo bom funcionamento da máquina estatal, ao elaborar leis (Legislativo), pô-las em prática (Executivo) e fazer com que sejam cumpridas (Judiciário), devem estar em harmonia e em perfeito equilíbrio para que a República alcance o seu fim: o cidadão. FOUCAULT (1975: 41; 43; 47) afirma que “o suplício judiciário deve ser compreendido também como um ritual político. Faz parte, mesmo num modo menor, das cerimônias pelas quais se manifesta o poder”. Ele afirma que o suplício não restabelecia a justiça, mas servia para reativar o poder. Ao mesmo tempo em que o Iluminismo desqualifica as atrocidades, o suplício se torna um perigo político. “O povo se sentia mais próximo dos que sofriam a pena; em nenhuma outra ocasião ele se sentia mais ameaçado, como eles, por uma violência legal sem proporção nem medida. A solidariedade de toda uma camada da população com os que chamaríamos pequenos delinqüentes – vagabundos, falsos mendigos, maus pobres, batedores de carteira, receptadores, passadores – se manifestou com muita continuidade; atestam esse fato a resistência ao policiamento, a caça aos denunciantes, os ataques contra as sentinelas ou os inspetores. E era a ruptura dessa solidariedade que visava sempre mais a repressão penal e policial” (Ibidem: 52). O alvo da pena muda. Não é mais o corpo e sim a alma. “À expiação que tripudia sobre o corpo deve suceder um castigo que atue profundamente, sobre o coração, o intelecto, a vontade, as disposições” (Ibid: 18). FOUCAULT expõe em sua teoria a importância da semiótica no sistema punitivo com seu código de leis e toda a mecânica dos sinais da pena, que são os interesses e a duração. “Não é mais a restauração aterrorizante da soberania que vai sustentar a cerimônia do castigo, é a reativação do Código, o reforço da ligação entre a idéia do crime e a idéia da pena” (Ibid: 82; 90-91). No caso da pena de privação de liberdade, o princípio da nãopublicidade (grifo meu) se torna evidente. “Se a condenação e o que a motivou devem ser conhecidos por todos, a execução da pena, em compensação, deve ser feita em segredo; 40 o público não deve intervir nem como testemunha, nem como abonador da punição; a certeza de que, atrás dos muros, o detento cumpre sua pena deve ser suficiente para constituir um exemplo” (Ibid: 82; 90-103). É por isso que BECCARÍA (2002: 50) enfatiza o papel da opinião pública, apesar de falhar ao não se referir à execução penal e a necessidade da publicidade neste campo. “Que os julgamentos sejam públicos; e públicas as provas do crime, para que a opinião pública, que é talvez a única fortaleza da sociedade, imponha freio à força e às paixões, a fim de que o povo diga: não sejamos escravos, defendamo-nos”. A opinião pública também é um conceito iluminista e deveria ser a expressão da cidadania, embora BUCCI (2000: 174-175) ache isto um pouco distante da realidade. Ele afirma que o jornalismo deve trabalhar para a democracia e não se deixar confundir entre a vontade do público, a popularidade, e a legitimidade. Ainda segundo BUCCI, “as sociedades precisam da imprensa com uma espécie de agente fiscalizador” (Ibidem) e falar em jornalismo é prestar informações relevantes para o público, segundo as necessidades e direitos do público – não do governo. “A liberdade de imprensa, a propósito, é um princípio assegurado não por eles, jornalistas, mas pela sociedade, que deles precisa para mediar a comunicação pública. Do mesmo modo, que está na ética jornalística, qualquer que seja a sua acepção, a defesa da liberdade, da verdade, da justiça, da pluralidade de opiniões e de pontos de vista, e da vigilância dos atos do governo” (Ibid: 18). Já AFONSO DE ALBUQUERQUE (2000) argumenta que a imprensa brasileira como “Quarto Poder” está bem distante do jornalismo que é praticado nos Estados Unidos e que serve como exemplo. “Os jornalismos que se praticam no Brasil e nos Estados Unidos são o fruto de ambientes culturais – e também, poder-se-ia acrescentar, políticos, econômicos e legais – completamente diferentes e, por este motivo, não há nenhuma razão a priori para supor que eles devessem ser semelhantes” (ALBUQUERQUE, 2000: 25). O exercício do “Quarto Poder” não se dá na esfera do Estado e não se confunde com os três poderes, mas sim no compromisso em representar o cidadão comum frente ao Estado e no funcionamento eficiente do sistema de divisão de poderes. No Brasil esse poder da imprensa estaria mais para um Poder Moderador, semelhante àquele implementado 41 no Império, em que se administra a relação entre os poderes. Tudo isto em decorrência de experiências ditatoriais e de redemocratização política recente. Onde o coletivo tem preferência sobre o individual, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos. “Enquanto nos Estados Unidos, a idéia de “Quarto Poder” traduz um compromisso da imprensa com o sistema de divisão de poderes como um todo (e com a conservação do equilíbrio entre os poderes em particular), no Brasil, ela apela de alguma maneira para uma tradição brasileira, e totalmente distinta de Quarto Poder: o Poder Moderador. Tal como o fizeram em tempos passados o Imperador e os militares, a imprensa reivindica hoje exercer o papel de árbitro das disputas entre os poderes constituídos, decidindo sempre em favor do “Bem Comum”” (ALBUQUERQUE, 2000: 49). Apesar dos traumas e neuroses como vimos recentemente aflorar com a questão do Conselho Federal de Jornalismo, a imprensa brasileira vem amadurecendo. Algumas coberturas jornalísticas tiveram ampla discussão na questão ética como ocorreu com a edição do debate no segundo turno da eleição para a presidência da república entre Fernando Collor e Luis Inácio Lula da Silva, em 1989, na TV Globo. A emissora foi alvo de muitas críticas e fez o que todo jornalismo sério deve fazer: assumir o erro40 . Principalmente quando se trata de rádio ou televisão que é uma concessão pública41 . Como também ocorreu na campanha das “Diretas Já!”. Grande parte da imprensa brasileira se destacou como a Folha de São Paulo e a própria Rede Globo. A última interviu decisivamente na discussão para quem deveria assumir a presidência da república depois da morte de Tancredo Neves, evitando assim um retrocesso autoritário (Ibidem: 45). ______________________________________ 40 “Se a Rede Globo reconhecesse seus erros passados e os explicasse à opinião pública, prestaria um grande serviço e sua credibilidade não sairia ferida – ao contrário, iria se reforçar. Disposição para reconhecer e corrigir as falhas é um mandamento sagrado da ética jornalística” (BUCCI, 2000: 210). No livro Jornal Nacional: A notícia faz história, João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo e presidente do Conselho Editorial, diz que a Globo errou na edição do debate presidencial em 1989, tanto na do “Jornal Hoje” quanto na do “Jornal Nacional”. “Depois desses anos todos, eu acredito que as duas edições estavam erradas (...) eu debito os dois erros à inexperiência de todos nós na época (...) Não passa pela minha cabeça que os equívocos tenham sido cometidos por má-fé” (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 213). 41 “É preciso que o poder público conceda a permissão para que aquela determinada freqüência (aquele canal) seja utilizada por uma empresa para enviar seus sinais aos aparelhos receptores. Sem essa permissão nada feito. O que vale dizer: em última análise, o cidadão é o dono das freqüências exploradas pelas empresas” (BUCCI, 2000: 35). 42 Dentro de um amadurecimento forçado pela luta contra a ditadura e preservação da democracia, se faz mister um redirecionamento do coletivo para o individual e não existe melhor parâmetro que os Direitos Humanos. Da mesma forma que a imprensa lutou contra a ditadura e seus excessos ao aprisionar e assassinar pessoas como ocorreu com Vladimir Herzog, hoje é necessário reviver as desigualdades que vem sendo cometidas em nossa sociedade para que a atitude nobre realizada pelos jornalistas nas décadas de 60 a 90 não seja considerada como corporativista. Com o mesmo afinco que os jornalistas defendem o direito a receber e transmitir informações como consta o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, base de nossa Constituição federal, o seu artigo 1º diz que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Como também consta no artigo 9º do Código de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas e que trata dos deveres do jornalista: “Opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Aliando a teoria à prática, concluímos que não há melhor setor para o exercício de tal compromisso com o cidadão. Os desrespeitos aos direitos humanos, ao trabalhador e o reflexo de todas as injustiças estão contidas no sistema penitenciário. A detenção penal substitui os suplícios. Segundo FOUCALT (1975), o sistema penitenciário serve aos interesses de classes elitistas. “A penalidade não “reprimiria” pura e simplesmente as ilegalidades; ela as “diferenciaria”, faria sua “economia” geral. E se podemos falar de uma justiça não é só porque a própria lei ou a maneira de aplicá-la servem aos interesses de uma classe, é porque toda a gestão diferencial das ilegalidades por intermédio da penalidade faz parte desses mecanismos de dominação. Os castigos legais devem ser recolocados numa estratégia global das ilegalidades. O “fracasso” da prisão pode sem dúvida ser compreendido a partir daí (...) a lei é feita para todo mundo em nome de todo mundo; que é mais prudente reconhecer que ela é feita para alguns e se aplica a outros; que em princípio ela obriga todos os cidadãos, mas se dirige principalmente às classes mais numerosas e menos esclarecidas; que, ao contrário do que acontece com as leis políticas ou civis, sua aplicação não se refere a todos da mesma forma; que nos tribunais não é a sociedade inteira que julga um de seus membros, mas uma categoria social encarregada da ordem sanciona outra fadada à desordem (...) cujas primeiras vítimas são muitas vezes as classes pobres, acoçada de todos os lados pela polícia, exposta a longas penas de prisão (Ibidem (grifo meu): 220; 227; 229; 231). 43 A Organização Não-Governamental Justiça Global42 reforça a teoria de Foucault nos dias atuais do Rio de Janeiro. A significativa influência da ditadura militar no país sobre a segurança pública, o desrespeito aos direitos humanos e o modelo de política neoliberal desde os anos 80 que provoca uma exclusão do corpo social são as principais causas de uma política de criminalização da pobreza. Segundo o Relatório Rio: violência policial e insegurança pública, o papel da mídia fortalece uma triste generalização entre pobreza e crime. “A crescente desigualdade social acaba por fornecer elementos suficientes para que muitos optem por atividades ilícitas como meio de vida, sendo identificada não como uma das causas da criminalidade, mas como uma característica dos criminosos, levando à associação e generalização entre pobreza e crime (...) A profusão nos rádios, jornais e televisão da exploração sensacionalista da violência, quase sempre em consonância com o já citado preceito do “entender menos e punir mais”, dirige o corpo social a um falso clamor por “justiça”, que é habilidosa e demagogicamente manipulado pelo Estado na perpetuação da violência, travestida como “resposta” à criminalidade – mas que diz respeito, em última instância, ao etiquetamento penal de suas camadas mais miseráveis” (LYRA, 2004: 14-15). Basta olhar para dentro do cárcere carioca para ver quem se encontra isolado pelo Estado do convívio social. Uma pesquisa43 do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas nas prisões da cidade do Rio de Janeiro concluída em 2004 mostrou qual é o perfil do presidiário carioca: homem, jovem, negro ou pardo, solteiro, possui baixa escolaridade e não possui religião. Desta forma, concluído, mesmo que superficialmente a conjuntura do sistema penitenciário fluminense no contexto histórico do Brasil recente, pode-se com este entendimento buscar uma análise mais profunda da informação jornalística por meio dos jornais cariocas e como hipótese principal de possíveis falhas nos dados das notícias na mídia impressa da cidade do Rio de Janeiro, vai ser focado o processo de apuração. ______________________________________ 42 A ONG Justiça Global elaborou o Relatório Rio 2004 (LYRA, 2004) visando contribuir para um debate mais profundo sobre a questão da violência policial e do desrespeito aos direitos humanos no Rio de Janeiro. 43 A pesquisa (FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, 2004) buscou traçar um quadro comparativo entre a população carcerária e a população do município do Rio de Janeiro. Foram analisados alguns dos principais aspectos sócio-econômicos e demográficos desses dois universos baseado no Censo Demográfico 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 44 3 APURAÇÃO JORNALÍSTICA DA REBELIÃO NA CASA DE CUSTÓDIA EM BENFICA A informação é a matéria-prima do repórter e para a correta difusão da notícia é necessária uma apuração precisa. A ética jornalística demanda um compromisso com a verdade dos fatos e que não pode ser limitada a interesses desconexos ao bem comum. Na cobertura do sistema penitenciário, o conceito de cidadania e preservação do respeito aos direitos do homem deve servir de referência à prática do jornalista em sua função de vigilância do poder para cumprir o papel de agente social e possibilitar ao cidadão o direito à informação. Para isso, é importante verificar como se processa a coleta de informações para uma reportagem. A apuração, depois do planejamento da pauta – o primeiro passo dentro da rotina de produção da matéria jornalística – será o item pesquisado na cobertura da rebelião na Casa de Custódia em Benfica, em maio de 2004, por ser essencial no acabamento final da notícia. O trabalho de coleta e verificação de dados é a base para qualquer tipo de matéria jornalística. O parâmetro ético desta fase da produção noticiosa baliza a prática profissional e a qualidade da própria informação em sua edição final. O primeiro dia de cobertura nos três jornais reporta o que aconteceu no dia 29 de maio. Uma tentativa de fuga em massa dos presos da Casa de Custódia em Benfica contou com o reforço de um grupo de homens armados pelo lado de fora da unidade prisional. Explosões de bombas, tiroteio e correria nas ruas daquele bairro assustaram os moradores da localidade. Os presos que não conseguiram fugir estavam armados e iniciaram uma rebelião ao fazer os funcionários – agentes penitenciários e funcionários terceirizados de uma cooperativa – reféns. No dia seguinte (30 de maio), as negociações continuaram, mas o assassinato de um refém, o agente de segurança penitenciária Marco Antônio Borgatte, pontuou as matérias dos jornais do dia 31. O fim da rebelião ocorreu no terceiro dia, depois de 62 horas de iniciado o movimento dos presos. A notícia no primeiro dia de junho de 2004 nos diários cariocas era o desconhecimento do número exato de presos mortos no desfecho da tragédia. A apuração de uma notícia consiste em uma investigação, levantamento e verificação dos dados e elementos de um acontecimento. O repórter deve informar-se o mais que puder sobre os fatos e circunstâncias, a fim de transmiti-los com seus dados essenciais para os leitores (RABAÇA, 1978: 21). Informar o público é a finalidade do trabalho do jornalista. “O público tem o direito de ser informado e isso é regra para os jornalistas” (LAGE, 2001: 94). Direito este que consta da Declaração Universal dos Direitos do Homem e está presente em todo o mundo 45 democrático como em nosso país através do parágrafo XIV do artigo 5º da Constituição Federal. BUCCI (2000: 45) afirma que a razão de ser do repórter é a existência do direito à informação, o qual pertence ao cidadão. “É correto presumir que tudo o que se pratica no campo do jornalismo, da apuração dos fatos à edição final do que será visto pelo público, é do interesse e da conta do cidadão” (Idem, 46). O trabalho vai investigar a apuração das informações na cobertura da fuga e rebelião que terminou, oficialmente, com a morte de 31 pessoas, no final de maio e no primeiro dia de junho de 2004, na Casa de Custódia em Benfica, Rio de Janeiro. 46 3.1 Informação jornalística impressa O conceito de notícia, segundo LAGE (2001: 112), pode ser substituído pela expressão informação jornalística. O sentido é peculiar e “não é apenas uma estruturação de dados convenientemente tratados, como na informática ou na inteligência militar, que opõe informação (relato consistente, envolvendo análise) a informe (relato episódico)” (Ibidem). Ainda, segundo o professor, a informação jornalística coincide com a reportagem – como gênero de texto – e difere das notícias de interesse geral relevantes, isto é, fatos novos. A informação jornalística consiste na exposição do maior número possível de dados combinado com o interesse do assunto. Este casamento forma um todo abrangente e compreensível. Os jornais diários foram os veículos escolhidos para a pesquisa por causa da capacidade de retenção que fornecem. A imaginação através da leitura torna a realidade mais assimilável e por isso a retenção é maior do que a proporcionada pelo rádio ou pela TV (DINES, 1974: 89). A notícia da tentativa de fuga e rebelião desencadeou uma série de dados que consistiram em um verdadeiro trabalho de produção de informação jornalística. A monografia vai se deter ao conteúdo das matérias dos jornais O Globo, O Dia e Jornal do Brasil no período da crise provocada no sistema penitenciário por causa do ocorrido em Benfica e busca analisar como foi feito o trabalho de apuração para as reportagens publicadas nestes jornais nos dias 30, 31 de maio e 01º de junho. 47 3.2 Ética A ética serve para balizar as ações humanas e está relacionado ao comportamento e a reflexão do grupo ao qual pertence o indivíduo. A palavra ética vem do grego éthos e refere-se aos costumes (BUCCI, 2000: 15). O comportamento ético é composto por uma vertente individual, outra social e não se traduz sempre em leis: “Embora ta ethé e mores signifiquem o mesmo, isto é, costumes e modos de agir de uma sociedade, ethos, no singular, é o caráter ou temperamento individual que deve ser educado para os valores da sociedade e ta ethiké é uma parte da filosofia que se dedica às coisas referentes ao caráter e à conduta do indivíduo (...) A ética de Espinosa não é normativa, ou seja, não culmina no estabelecimento de máximas que possam ser lidas como regras de conduta válidas para todos (...) a ação só é ética se realizar a natureza racional, livre e responsável do agente e se o agente respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é uma intersubjetividade” (CHAUI apud BUCCI, 2000: 15). O ofício do jornalista não é uma técnica apenas. Segundo BUCCI (2000: 26; 45; 49; 197), é uma práxis ética e buscar a notícia é o primeiro dever do profissional. O autor diz que técnica e ética não se separam e que o preparo ético é indispensável para a performance técnica. Apesar dos estudos sobre a produção da informação44 serem efetuados no andamento normal da cobertura informativa por períodos prolongados, alguns conceitos da sociologia dos emissores de notícias serão aproveitados na pesquisa da cobertura na crise do sistema penitenciário quando ocorreu a fuga, rebelião e chacina na Casa de Custódia em Benfica. O Código de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), em seu artigo 7º, destaca o trabalho de coleta de dados para a divulgação da informação. “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”. Desta forma, além da teoria, a pesquisa vai deter-se na prática cotidiana do trabalho de coleta de dados por parte dos repórteres para a produção de notícias em seu sentido amplo de informação jornalística, ou seja, reportagens. ______________________________________ 44 O Newsmaking estuda os emissores e os processos produtivos nas comunicações de massa. A sociologia dos emissores, essencialmente, diz respeito aos produtores de notícias (WOLF, 1995: 159; 166). 48 Os três jornais apresentaram 52 unidades informativas (GRAF. 1), isto é, matérias em forma de reportagens e boxes sobre o sistema penitenciário. O Jornal do Brasil apresentou apenas oito unidades, O Dia publicou 24, quase metade das unidades analisadas, e O Globo 20 unidades. O jornal O Dia usou três intertítulos45 em suas matérias principais, enquanto O Globo usou quatro. Os intertítulos não foram usados como unidades informativas. O Globo utilizou quatro boxes e O Dia dois. Os boxes46 foram computados como unidades informativas. GRÁFICO 1 – Unidades Informativas sobre a rebelião em Benfica O Dia 47% O Globo 38% Jornal do Brasil 15% A análise foi dividida na apuração do fato e do contexto sobre o sistema penitenciário. São três reportagens (uma de cada jornal) sobre os fatos principais dos dias cobertos, ou seja, nove no total. O foco do trabalho vai ser analisar detalhadamente a apuração desses fatos. A tentativa de fuga e o início da rebelião; as negociações e a morte do agente penitenciário que ficou como refém; e o fim da rebelião com o número de presos mortos. As matérias contextuais compreendem as subordinadas aos fatos e coordenadas com a rebelião. As coordenadas estão em uma conjetura mais abrangente do sistema penitenciário como os antecedentes que podem ter causado a tragédia. As subordinadas aos fatos compreendem a reação dos vizinhos da casa de custódia, dos parentes dos presos e agentes, depoimentos, da participação de um pastor nas negociações, a forma de comunicação dos presos e o comportamento das autoridades. O contexto do sistema penitenciário é importante, mas por conter inúmeras variáveis é um tema complexo e muito amplo, por este motivo, não vai ser depurado como devia. ______________________________________ 45 O intertítulo é um “pequeno título intercalado na matéria. Na redação clássica da notícia impressa, no Brasil, o primeiro intertítulo da notícia costuma anteceder o terceiro parágrafo. O mesmo que entretítulo” (LAGE, 2002: 58). 46 Os boxes são caixas diagramadas para a veiculação de informações extras. “Espaço destacado geralmente por fios, em uma matéria jornalística ou anúncio publicitário, destinado a fornecer ao leitor informações adicionais, quase sempre compostas em tipos diferentes do texto” (RABAÇA; BARBOSA, 1978: 50). O Dia usou os boxes para destacar depoimentos. Já O Globo para contextualizar o fato com informações sobre os antecedentes da rebelião como outras fugas e rebeliões no sistema penitenciário. 49 3.3 Contextualização da notícia O contexto do assunto é importante para a compreensão do fato. Este trabalho fazse mais imprescindível em um momento de uma crise como foi a do sistema penitenciário com a rebelião em Benfica em maio de 2004. As políticas públicas que vêm sendo efetuadas pelo Estado Democrático de Direito no setor e o contexto histórico do fato devem ser publicados em uma reportagem que deseja informar bem. Segundo NOBLAT (2002: 72), a contextualização ou a falta dela pode mostrar a importância ou não de um fato. A contextualização é “‘a inter-relação de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação’, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (Idem: 73). Ninguém que queira entender corretamente um fato ou um acontecimento pode desprezá-lo. Os leitores têm o direito de entender tudo o que se publica e por isso, os jornalistas não podem partir do pressuposto que todos os leitores lêem as notícias diariamente (Ibidem: 74). Antes de analisar a contextualização da cobertura da rebelião em Benfica, vamos partir da suposição que a maioria dos leitores dos jornais leu os jornais todos os dias, mesmo porque dois dos diários (O Globo e JB) estudados trabalham com o esquema de vendas por assinatura, além da venda em banca. Como afirmado anteriormente, a monografia não irá se deter na questão do agenda-setting47 , mesmo porque o que lhes é fornecido para construção da pauta também passa por um processo de escolha, seleção e feitura das notícias e as pesquisas sobre os gatekeepers 48 e newsmaking49 que analisam a ______________________________________ 47 A definição do agenda-setting é que “em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo o que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo” (SHAW apud WOLF, 1995: 130). O impacto sobre os destinatários é configurado em dois níveis. Na “‘ordem do dia’ dos temas, assuntos e problemas presentes na agenda dos mass media e na hierarquia de importância e de prioridade segundo a qual esses elementos estão dispostos na ‘ordem do dia’” (Idem, 2002: 132). O agenda-setting compreende variáveis como a lógica interna do funcionamento da informação de massa; os critérios de relevância que a estruturam; os processos simbólicos que presidem à atividade comunicativa; as influências cognitivas (Ibidem, 158). 48 O conceito de selecionador foi elaborado por Kurt Lewin em 1947 num estudo sobre as dinâmicas que agem no interior dos grupos sociais. “Lewin nota que existem neles zonas que podem funcionar como ‘cancela’, como ‘porteiro’” (Ibidem, 1995: 161). “A passagem, ou bloqueio, da unidade através de todo o canal, depende, em grande medida, do que acontece na zona de filtro (...) o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia”. (LEWIN apud WOLF, 1995: 162). 49 Ver nota 44. Os problemas que compreendem o estudo do newsmaking passam por critérios de importância e noticiabilidade, que por sua vez rotinizam e padronizam o processo de fabricação das notícias. As rotinas produtivas compreendem a recolha dos materiais informativos (tema da monografia), a seleção, edição e apresentação da informação jornalística. A pesquisa sobre a produção de informação é complexa por causa dos elementos em jogo. “O relevo dado aos elementos de rotinização ilustra bem como seria desviante interpretar o processo de comunicação de massa em termos de um modelo simples e linear que não tem em conta factores resultantes da complexidade comunicativa dos órgãos produtivos” (WOLF, 1995: 225; 226). 50 fabricação da informação de massa indicam a complexidade do tema. Contudo, partindo do pressuposto que os jornais são os principais promotores da agenda do público e definem o âmbito do interesse público (McCOMBS apud WOLF, 1995: 145). Esta teoria indica que as pessoas compreendem a realidade social pelo que lhes é fornecido por meio dos jornais (WOLF, 1995: 130) e por isso é importante vislumbrar o que foi publicado no mês de maio de 2004 só como introdução da contextualização das reportagens nos dias da cobertura. 51 3.3.1 Agenda da mídia A cobertura da rebelião na casa de custódia em Benfica foi rica em informações, mas será que os meios de comunicação executaram o bem seu papel de fiscalizar o Estado e informar à população sobre o que estava acontecendo antes da crise estourar quando aconteceu a rebelião naquela unidade prisional? Para isso, deve-se verificar o que foi publicado pelo menos nos dias que antecederam à rebelião. Os três jornais publicaram 28 unidades informativas até o dia 29 de maio, o dia da rebelião em Benfica (GRAF. 2). O Globo foi o jornal que mais cobriu o sistema penitenciário com onze matérias. O Jornal do Brasil e O Dia se equipararam com oito unidades e nove unidades respectivamente. O JB, das oito unidades, quatro eram notas. O Dia usou três notas das nove unidades informativas publicadas. GRÁFICO 2 – Unidades informativas no mês de maio O Dia 29% O Globo 39% Jornal do Brasil 32% As três notas de O Dia foram sobre uma descoberta de um telefone celular na casa de custódia50 , prisão de uma visita com drogas51 e sobre a prisão de um agente de disciplina52 . O Dia também noticiou a fuga no presídio Ary Franco, em Água Santa53, no dia 26, e deu continuidade na informação com a prisão dos policiais militares que vigiavam os muros da unidade no dia seguinte54 . ______________________________________ 50 Telefone em casa de custódia. In: Jornal O Dia, 19/05/2004, p. 11. Mulher tenta entra com droga em Bangu. In: Jornal O Dia, 27/05/2004, p. 13. 52 Agente já havia sido preso por tortura na Ilha. In: Jornal O Dia, 29/05/2004, p. 18. 53 Presos fogem do Ary Franco. In: Jornal O Dia, 26/05/2004, p. 10. 54 FORTUNA, Roberto. Oito policiais na prisão. In: Jornal O Dia, 27/05/2004, p. 14. 51 52 Entretanto, o mais interessante foi o erro gravíssimo de informação na nota “Agente já havia sido preso por tortura na Ilha”, no dia 29 de maio, quando chamou o agente de disciplina de agente penitenciário do Degase, confundindo os cargos de diferentes setores. O Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas, que compõem a Secretaria de Estado da Infância e Juventude (Seij), cuida de menores em conflito com a lei e os agentes que cuidam dos menores exercem o cargo de agente de disciplina. Já os agentes penitenciários custodiam os presos convencionais e pertencem à Secretaria de Estado Administração Penitenciária (Seap)55 . Contudo, O Dia foi o único jornal que cobriu, no mesmo dia 29 (um dia antes de começar a cobertura analisada), o protesto dos agentes penitenciários no Palácio Guanabara56 contra a política do Governo do Estado para o sistema penitenciário. O Sindicato que representa os agentes penitenciários iria ser uma das principais fontes de informação dos jornais na cobertura da rebelião denunciando as ações equivocadas do Governo estadual no setor. O Jornal do Brasil também noticiou a fuga em Água Santa e no dia seguinte informou a prisão dos PMs em uma nota. Também em nota, o JB informou sobre a prisão de uma visita com drogas57 e da negativa do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em conceder liberdade a um agente suspeito de tortura no caso Chang58. O jornal também noticiou um acordo entre o governo federal e estadual para liberação de recursos para o sistema penitenciário 59 no dia 04 de maio, mas cometeu o erro de não dar continuidade na informação com o desfecho do acordo nos dias seguintes. “Nada desperta mais raiva nos leitores do que começar a acompanhar uma história pelos jornais e não saber como ela terminou. Este é o passatempo predileto dos jornalistas: irritar os leitores não dando continuidade às notícias que publicam. Mudamos de assunto como mudamos de roupa diariamente – e que se virem os leitores interessados no assunto publicado ontem e esquecido hoje” (NOBLAT, 2002: 60). ______________________________________ 55 Ver “Secretaria do Estado de Administração Penitenciária” (p. 36). Operação tartaruga nas penitenciárias. In: Jornal O Dia, 29/05/2004, p. 17. 57 Bangu, mulher é presa com maconha. In: Jornal do Brasil, 27/05/2004, p.A14. 58 Caso Chang, STJ nega liberdade a suspeito de tortura. In: Jornal do Brasil, 21/05/2004, p.A19. O chinês naturalizado brasileiro Chan Kim Chang, 46 anos, foi preso no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro por policiais federais, quando tentava embarcar para os Estados Unidos sem declarar dólares que levava. O comerciante foi torturado e morreu depois de passar oito dias internado em conseqüência de um traumatismo craniano (Revista Época, In: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT597719-2763,00.html, 29/09/2003). A Justiça Federal condenou nove dos 11 acusados pela morte do chinês. As penas variaram de quatro a 18 anos de prisão. Seis agentes penitenciários e três detentos, que ajudaram a agredir o chinês, foram condenados; um outro agente penitenciário e o diretor do presídio foram absolvidos (RJTV, In: http://rjtv.globo.com/ RJTV/0,19125,VRV0-3114-70796-20041215,00.html, 15/12/2004). 59 MARQUES, Hugo. Estado e União costuram acordos. In: Jornal do Brasil, 04/05/2004, p. A18. 56 53 Já o jornal O Globo, não só publicou as negociações como deu seqüência a informação. No dia 1º, publicou a matéria “União deve liberar recursos para os presídios”60 e no dia 6 de maio voltou ao assunto com seu desfecho na reportagem “Obras em presídios serão retomadas”61 . O Globo publicou 11 unidades informativas e nenhuma delas foi em forma de notas. As matérias abrangeram tanto o factual com a fuga em Água Santa62 e o desdobramento com a prisão dos PMs63 , quanto a conjuntura do sistema penitenciário como a matéria sobre a questão das verbas para investimento com a construção de dois presídios64, além de mostrar as reivindicações dos agentes por melhores salários no dia 7 de maio65 e como a Seap estava administrando a questão de mistura de facções em unidades prisionais com a reportagem “Parede de aço separa presos rivais em Bangu”66 . Estes últimos temas voltariam à agenda na cobertura sobre a rebelião em Benfica. O jornal O Globo colocou o sistema penitenciário na agenda do veículo. A média foi superior a uma notícia a cada três dias. A constatação foi uma agradável surpresa. Agora o ponto negativo ficou por conta do JB que apresentou pouquíssimas informações e metade delas foi em forma de notas, ou seja, factuais e extremamente superficiais. Quando contextualizou algum tema, o fez de forma deficiente ao não dar continuidade na informação. Já O Dia, levando em conta a linha editorial do veículo e o seu público, foi factual, mas contextualizou os acontecimentos fazendo desdobramento e relembrando casos passados. A quantidade de nove unidades de informação foi razoável, embora superficial por causa de um terço dessas matérias terem sido publicadas em forma de notas. Visto a agenda dos jornais no período anterior à rebelião, a monografia vai estudar a contextualização feita pelos jornais nos três dias de cobertura da rebelião em Benfica, a partir do que foi publicado no dia 30 e 31 de maio até o dia 01º de junho. ______________________________________ 60 MENDONÇA, Alba Valéria; CARVALHO, Jailton. União deve liberar recursos para presídios. In: O Globo. 01°/05/2004, p.27. 61 Obras em presídios serão retomadas. In: O Globo. 06/05/2004, p.14. 62 BRANDÃO, Túlio; ARAÚJO, Vera. Mais uma fuga suspeita. In: O Globo. 26/05/2004, p.13. 63 COSTA, Ana Cláudia. Corregedoria prende oito PMs do Ary Franco. In: O Globo. 27/05/2004, p.16. 64 WERNECK, Antônio; MENEZES, Maia. Acordo prevê a construção de dois presídios. In: O Globo. 11/ 05/2004, p.17. 65 Guardas de presídios pedem aumento de 72%. In: O Globo. 07/05/2004, p.20. 66 ARAÚJO, Vera. Parede de aço separa presos rivais em Bangu. In: O Globo. 23/05/2004, p.22. 54 3.3.2 Matérias coordenadas As matérias coordenadas com o acontecimento e que buscaram contextualizar o fato da rebelião como as possíveis causas na cobertura dos três jornais pesquisados foram no total de 27 unidades informativas (GRAF. 3). As reportagens apresentaram temas como lembrança de outros casos semelhantes; o questionamento em relação ao planejamento para aplicação das políticas implementadas como a localização da unidade prisional; a estrutura física da casa de custódia; o discurso das autoridades; a estrutura humana do sistema ao referir-se ao número insuficiente de agentes e a terceirização da função de segurança penitenciária; a composição da população carcerária; e a repercussão internacional. Neste tipo de reportagem a pesquisa é imprescindível. NOBLAT (2002: 68) afirma que o repórter só deve ir atrás da notícia depois de ler tudo que existir sobre o assunto. A investigação e a procura por dados não são simples e demandam tempo e esforço. A procura de dados em arquivo, por exemplo, exige domínio da técnica do processo de arquivamento e a interpretação de tabelas numéricas é um exercício de inteligência. “A pesquisa é a base do melhor jornalismo” (LAGE, 2001: 134). O Jornal do Brasil apresentou apenas duas matérias sobre o que poderia ter provocado a tragédia. A reportagem de Joana Dale e Michel Alecrim “Sindicato quer fechar unidade”67 , no dia 31 de maio, denunciou o número insuficiente de agentes e a cooperativa que foi usada pelo Governo para terceirizar o serviço de segurança na unidade prisional. A outra matéria68 foi de João Pinheiro no dia seguinte e mostrava o desentendimento no discurso dos representantes do Governo sobre uma das causas da rebelião. A localização não adequada da casa de custódia – em área urbana e perto de favelas – e com obras ainda para serem realizadas69 teriam sido uma das discussões nos bastidores políticos do poder executivo do Estado, mas a necessidade da implementação das delegacias legais havia precipitado a transferência de presos para aquele local. ______________________________________ 67 DALE, Joana; ALECRIM, Michel. Sindicato quer fechar unidade. In: Jornal do Brasil. 31/05/2004, p.A14. PINHEIRO, João. Secretários se desentendem publicamente. In: Jornal do Brasil. 01º/06/2004, p.A13. 69 A história se repete, a Casa de Correção foi inaugurada sem as obras terem sido concluídas no século XIX. Ver “Origens” (p. 32). 68 55 O jornal O Dia publicou matérias sobre a inadequação da construção da unidade70 e da localização da casa de custódia71. O Dia articulou o reflexo de nossa injustiça social ao mostrar a proximidade e a separação entre a prisão dos pobres com a dos ricos72, onde estavam os detentos chamados VIP (Very Important People) como o ex-deputado Sérgio Naya e oito fiscais do caso Propinoduto, entre eles Rodrigo Silveirinha. O jornal também mostrou a falta de agentes penitenciários e a terceirização da função73; a incoerência dos discursos das autoridades74; a repercussão internacional75; e outros casos semelhantes76 . Foram onze matérias no total. O Globo também aprofundou o tema e colocou quatorze matérias coordenadas que contextualizavam o tema. Além de publicar o que os outros jornais mostraram, o jornal divulgou as denúncias de maus-tratos77 em boxe e uma pesquisa sobre o perfil do presidiário carioca78 já citado na monografia. GRÁFICO 3 – Unidades informativas coordenadas O Dia 41% O Globo 52% Jornal do Brasil 7% ______________________________________ 70 Desafio às autoridade através de buracos nas paredes. In: Jornal O Dia. 30/05/2004, p.12. MARTA, Fabrício. Cadeia tipo queijo suíço. In: Jornal O Dia. 31/05/2004, p.9. 71 CRUZ, Adriana Cruz; BRAGA, Luciene. Detentos olham e jogam piadas para as casas vizinhas. In: Jornal O Dia. 31/05/2004, p.8. 72 Prisão VIP. In: Jornal O Dia. 30/05/2004, p.12. Sobre a construção de um local para separar presos considerados “nobres” – os VIPs de hoje – dos negros. Ver “Origens” (p. 31). 73 CRUZ, Adriana Cruz; BRAGA, Luciene. Sindicato denuncia falta de agentes. In: Jornal O Dia. 31/05/ 2004, p.8. 74 Autoridades apresentam versões diferentes sobre a segurança da unidade. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.12. 75 Uma condenação mundial. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.12. 76 Carandiru: 111 presos executados. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.12. 77 Relatos de maus-tratos. In: Jornal O Globo. 30/05/2004, p.21. 78 MARQUEIRO, Paulo. População carcerária é jovem, negra e sem religião. In: Jornal O Globo. 01º/06/ 2004, p.14. Ver também nota 43. 56 O jornal O Globo foi o que mais se aprofundou no tema. Buscou as causas, apresentou uma pesquisa e usou fontes que denunciaram erros nas políticas públicas para o sistema penitenciário. O jornal O Dia também executou um bom trabalho de pesquisa e conseguiu contextualizar o quadro lamentável nos dias da rebelião com os antecedentes que provocaram o acontecimento. Já o JB mais uma vez deixou a desejar. A cobertura foi superficial no enquadramento do tema e se dedicou apenas ao factual. 57 3.3.3 Matérias subordinadas O compromisso capital do exercício da função jornalística é com a verdade dos fatos e para isso ele necessita de uma precisa apuração dos acontecimentos e, evidentemente, da correta divulgação das informações coletadas. Isto é básico para o trabalho do jornalista e compõem, como já foi visto neste trabalho, o código de ética da profissão79. O historiador e jornalista Paul Johnson propõe “dez mandamentos” para orientar o trabalho dos jornalistas e que também deve orientar o público, pois a informação com qualidade é um direito da população. O primeiro destes mandamentos é o “desejo dominante de descobrir a verdade” (PAUL JOHNSON apud BUCCI, 2000: 165). Esta ordenação compreende a objetividade jornalística. Ela não pede isenção total e sim equilíbrio. Segundo BUCCI (2000: 93; 95), “a melhor objetividade no jornalismo é então uma justa, transparente e equilibrada apresentação da intersubjetividade”. Para isto a coleta de dados pode ser realizada por duas maneiras. A mais usada é por meio de fontes de informação e a outra através da observação direta do fato pelo próprio repórter. A observação direta é a capacidade do jornalista de presenciar o acontecimento, reparar no detalhe e publicar a informação relevante para o público. No caso da rebelião em Benfica, este tipo de coleta de dados produziu um número razoável de reportagens. Embora, segundo LAGE (2002: 49), a observação direta seja pouco usada para uma reportagem ou até mesmo como origem de uma matéria jornalística, do total das 52 unidades informativas publicadas, 16 delas tiveram origem na observação dos acontecimentos in loco pelo repórter (GRAF. 4). GRÁFICO 4 – Enquadramento das matérias Coordenadas 52% Subordinadas 31% Subordinadas _____________________________ 79 Ver “Ética” (p. 47). Principais 17% Principais Coordenadas 58 Nas reportagens subordinadas aos fatos, ou seja, provenientes da observação direta do repórter, os jornais O Globo e Jornal do Brasil se igualaram e produziram apenas três matérias cada um. O JB80 descreveu o clima tenso vivido pelos moradores de Benfica por causa dos acontecimentos no primeiro dia de rebelião. A “fuga” da governadora Rosinha Garotinho e do marido Anthony Garotinho, então secretário de segurança, foi reportado pelo O Globo 81 no segundo dia em um boxe. Todos os dois jornais 82 destacaram a participação do pastor da Assembléia de Deus dos Últimos Dias, Marcos Pereira da Silva, nas negociações com os presos para o fim da rebelião. Já o jornal O Dia foi o que mais publicou matérias com esse tipo de apuração, dez em um total de 16 (GRAF. 5). No primeiro dia, o jornal mostrou que os presos usaram até ônibus na fuga83 . A morte do agente penitenciário que era refém foi destaque no segundo dia. O depoimento de Ângelo Borgatte, filho do refém assassinado, foi publicado84. O Dia também mostrou como é feita a comunicação dos presos85 naquela unidade. No último dia, destacou o alívio dos reféns e parentes86 ; o depoimento do deputado Geraldo Moreira sobre o estado dos corpos dos presos assassinados na rebelião87; o protesto dos parentes dos presos88 ; o papel do pastor nas negociações89 ; a intenção da governadora em evitar uma invasão à casa de custódia90 ; por fim, a suspensão das aulas nas proximidades do estabelecimento prisional91 e, paradoxalmente, a inauguração de uma creche na localidade92 também foram temas das reportagens do jornal. ______________________________________ 80 Clima tenso no Bairro. In: Jornal do Brasil. 30/05/2004, p.A20. Rosinha e Garotinho saem pelos fundos. In: Jornal O Globo. 31/05/2004, p.10. 82 Pastor é aclamado ao chegar à prisão. In: Jornal O Globo. 01º/06/2004, p.13; A Bíblia para uma facção. In: Jornal O Globo. 01º/06/2004, p.13; Pastor causa mal-estar entre autoridades. In: Jornal do Brasil. 01º/06/ 2004, p.A13. 83 Até ônibus foi usado na fuga. In: Jornal O Dia. 30/05/2004, p.12. 84 ‘Meu pai previu que isso aconteceria’. In: Jornal O Dia. 31/05/2004, p.8. 85 Comunicação por cartazes. In: Jornal O Dia. 31/05/2004, p.8. 86 Emoção e alívio tomam conta de agentes mantidos reféns no reencontro com suas famílias. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.11. 87 ‘Cena absurda’. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.11. 88 Protestos e tensão do lado de fora da casa de custódia. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.11. 89 Pastor experiente em negociações. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.12. 90 Rosinha e o temor de um massacre. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.12. 91 Milhares fora da sala de aula. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.13. 92 Creche inaugurada perto da cadeia. In: Jornal O Dia. 01º/06/2004, p.13. 81 59 GRÁFICO 5 – Matérias subordinadas O Globo 19% O Dia 62% Jornal do Brasil 19% Os repórteres do jornal O Dia destacaram-se na cobertura ao retratar as histórias, que eram inúmeras, dos cidadãos envolvidos no acontecimento. Segundo NOBLAT (2002: 75), notícia é uma história e gente gosta de ler história sobre gente. Neste aspecto, a melhor cobertura foi a do jornal O Dia que mostrou uma preocupação com a agenda pública. Os outros dois jornais estudados se limitaram a destacar o que já era evidente. 60 3.4 Matérias principais A relação com as fontes de informação e a avaliação dos dados coletados com essas fontes para a transmissão das notícias vai depender do grau de independência do jornalista e de sua qualificação profissional. O comprometimento com o órgão oficial ou o desconhecimento pode provocar erros de informação essenciais para que o público possa compreender o que realmente está acontecendo e quem são os responsáveis pelo fato que ocorre no espaço público. A pesquisa e a observação direta são imprescindíveis para tornar a informação completa. Os repórteres tiveram um vasto campo para executar as duas tarefas para produzir uma notícia de qualidade na cobertura da rebelião na Casa de Custódia em Benfica. Como já visto anteriormente, a observação direta e a pesquisa geraram várias matérias coordenadas e subordinadas com o fato. Por esta razão, a análise vai se conter com dados novos relacionados ao acontecimento estudado dentro da notícia construída pelo repórter e que contribuíram para uma melhor compreensão por parte do leitor da rebelião em Benfica. 61 3.4.1 Pesquisa A pesquisa feita pelos repórteres ajudou a contextualizar o fato, mas quando não foi realizada provocou alguns erros. O jornal O Globo93 cometeu um erro bastante superficial, e por isso perdoável, por falta de pesquisa e conhecimento do setor. O Serviço de Operações Especiais (SOE) na época ainda se chamava Serviço de Operações Externas, mas, com certeza, os repórteres de O Globo foram induzidos ao erro pelos próprios funcionários que haviam mudado o nome do setor da secretaria por conta própria, inclusive realizando a alteração na impressão da nomenclatura nos próprios uniformes 94 . A mudança de nome só aconteceria no final de ano com a conclusão do curso para o novo grupamento que iria compor o reformulado SOE. Agora sim, Serviço de Operações Especiais, composto pelo GSE (Grupamento de Serviço de Escolta) e pelo GIT (Grupamento de Intervenção Tática) que ficaria com a incumbência de intervir e acabar com rebeliões no sistema penitenciário fluminense. Os erros de nomenclatura são muito comuns nos jornais. A recente extinção do Desipe e a criação da Seap em 2003 ainda não foram bem compreendidas pelos repórteres que quase sempre nomeiam os agentes de segurança penitenciária como “funcionários ou agentes do Desipe”, ou até “policiais” como foi publicado no JB95 quando o refém Marco Antônio Borgatte foi socorrido após levar um tiro de um preso no segundo dia de rebelião. Já o jornal O Dia96 também errou ao dizer que o Conselho da Comunidade era uma Comissão de entidades. Na verdade, o Conselho é composto por inúmeras entidades desde organizações não-governamentais a instituições acadêmicas. O Sindicato dos agentes também pertencia ao Conselho da Comunidade que na época era presidida por Marcelo Freixo, professor de História e pesquisador da ONG Justiça Global. O Conselho da Comunidade é um órgão da Execução Penal que deverá existir em cada comarca com o dever de visitar, pelo menos mensalmente, os estabelecimentos penais existentes na comarca; entrevistar presos; apresentar relatórios mensais ao juiz da execução e ao Conselho Penitenciário; e diligenciar a obtenção de recursos materiais e humanos para melhor assistência ao preso ou internado, em harmonia com a direção do estabelecimento (LEP, Arts. 61; 80; 81). ______________________________________ 93 Refém é morto pelas costas. In: Jornal O Globo. 31/05/2004. p. 10; Fuga e Terror em Benfica. In: Jornal O Globo. 30/05/2004, p.20. 94 A identificação do erro, nesse caso, foi fácil porque eu pertenço ao quadro de pessoal da Seap como agente de segurança penitenciária e por isso ter trabalhado sete anos em contato direto com os servidores do SOE. 95 LUBIANCO, Júlio; NETTO, Sabrina. Impasse e morte em Benfica. In: Jornal do Brasil. 31/05/2004. p.A13. 96 Cenas de Barbárie em Benfica. In: Jornal O Dia. 01º/06/20004. p.11. 62 Contudo, o jornal O Globo97 destacou em seu segundo dia de cobertura que a rebelião já era a segunda mais longa e perdia somente para a rebelião que aconteceu na Penitenciária Serrano Neves (Bangu 3) em dezembro de 2003. ______________________________________ 97 Refém é morto pelas costas. In: Jornal O Globo. 31/05/2004. p. 10. A rebelião em dezembro de 2003 durou 75 horas e também terminou com a morte de um agente penitenciário assassinado. O servidor Luís Cláudio Lima Bonfim trabalhava no Serviço de Operações Externas e foi à Bangu 3 para transportar quatro internos para o Fórum do Centro da Cidade quando foi surpreendido por presos que queriam fugir. Ele foi vítima de dois tiros de fuzil e não resistiu aos ferimentos. Mais uma vez a tentativa de fuga frustrada dava início a mais uma rebelião no Sistema Penitenciário do Estado (BRITO, Bartolomeu. Rebelado matam agente. In: O Dia Online. Acesso em: 03/12/2003. www.odianoline.ig.com.br). 63 3.4.2 Observação direta Todos os três jornais relataram alguns fatos igualmente através da observação do que estava acontecendo nas proximidades da casa de custódia em Benfica. No primeiro dia, a denúncia de maus-tratos feita pelos parentes dos presos foi coberta pelos três jornais98 que divulgaram inclusive o protesto de uma mãe de preso que tirou a roupa, mas somente o repórter Júlio Lubianco do JB colocou a opinião dos agentes penitenciários em relação a este último assunto. Os servidores reforçaram a denúncia ao dizer que faltava material para o exame que é condicional para a concessão de visitas íntimas99 e que isso era mais uma razão para a insatisfação dos detentos daquela unidade prisional. A vulnerabilidade da construção da unidade prisional fluminense também foi destaque. Mais uma vez Júlio Lubianco do JB se destacou ao contar o número de buracos feitos nas paredes da casa de custódia. Segundo ele, foram 16. O jornal O Globo detalhou que apenas pedaços de madeira serviram para abrir os buracos. Já no segundo dia, O Globo100 noticiou que os parentes dos detentos iriam ficar em uma praça próxima ao estabelecimento prisional (esta informação o jornal também colocou no primeiro dia de cobertura), a suspensão do fornecimento de água e que os colegas do agente penitenciário assassinado se desesperaram. E no último dia, o mesmo jornal101 contou que havia mais de 100 policiais e agentes penitenciários prontos para invadir a casa de custódia. O JB destacou que a participação na revista do defensor público foi proibida. Este item foi uma das reivindicações dos presos e que não foi cumprida pelo Estado. O fim da rebelião, depois da intervenção do pastor evangélico Marcos Pereira da Silva, foi o assunto do último dia de cobertura. O jornal O Dia102 citou que Silvana Santos da Silva, a irmã de um dos principais líderes da facção Comando Vermelho, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, foi ao local da rebelião acompanhar as negociações. Depois, no desdobramento dos dias seguintes se soube que ela pertencia à igreja do pastor negociador. ______________________________________ 98 LUBIANCO, Julio. Presos escapam de casa de custódia. In: Jornal do Brasil. 30/05/2004, p.A20; Tiros, bombas, fuga e rebelião. In: Jornal O Dia. 30/05/2003, p.12; Fuga e Terror em Benfica. In: Jornal O Globo. 30/05/2004, p.20. 99 O encontro sexual é um benefício oficialmente concedido após avaliação médica e comportamental do preso. 100 Refém é morto pelas costas. In: Jornal O Globo. 31/05/2004. p.10. 101 COSTA, Ana Cláudia; CÁSSIA, Cristiane de; MENDES, Taís; ARAÚJO, Vera. Desfecho trágico. In: Jornal O Globo. 01/06/2004. p.13. 102 Ver nota 96. 64 Já os repórteres de O Globo103 observaram que o pastor foi aclamado ao chegar ao local e que os parentes oraram na praça onde se abrigaram durante os três dias. Como também o fez o JB104, que da mesma forma informou sobre um protesto dos familiares. O jornal O Globo também noticiou o enterro de Antônio Borgatte, o refém assassinado, e também divulgou que mais de 500 pessoas participaram do sepultamento. ______________________________________ 103 Ver nota 101. NETTO, Sabrina; BORGES, Netto. Acordo não dá fim a pesadelo. In: Jornal do Brasil. 01/06/2004. p.A13. 104 65 3.4.3 Fontes de informação A observação direta e a pesquisa não podem ser desprezadas em acontecimentos não planejados como foi a tentativa de fuga em massa, a evasão, a rebelião e assassinatos na Casa de Custódia em Benfica, mas as fontes são essenciais para um bom jornalismo. As fontes, segundo LAGE (2001: 63), classificam-se em oficiais, oficiosas, independentes, primárias, secundárias, testemunhas e especialistas, além das próprias assessorias que são compostas, em sua maioria, por jornalistas e que, por sua vez, têm a capacidade de pautar os jornais. A pauta elaborada nas redações também “escraviza” os jornalistas no dia-a-dia. Esta pauta é baseada em informações de outros veículos como rádio, jornal, televisão, Internet, fontes profissionais como assessorias de imprensa e cartas, telefonemas e emails (correio eletrônico) de leitores (LAGE. 2001: 45). Contudo, a monografia busca investigar o trabalho do repórter, ou seja, numa fase posterior à escolha e organização das pautas elaboradas pelos chefes. Esta fase consiste no trabalho de coleta de dados já em campo e em acontecimentos às vezes súbitos como o estudado e é aqui que o repórter vai aprender “a cultivar e a respeitar suas fontes de informação; aí ele conhecerá na carne o valor da independência e os perigos dos conflitos de interesse” (BUCCI 2000: 204; 205). GRÁFICO 6 – Tipos de fontes citadas Independentes 35% Oficiais 56% Oficiosas 9% A quantificação do número de fontes usadas pelos jornais estudados revelou que as fontes oficiais foram as preferidas pelos repórteres com cerca de 56% das citações (GRAF. 6). Em um total de 68 fontes citadas nas informações concedidas para os leitores, 38 eram fontes oficiais. Existiu certo equilíbrio entre os três jornais. O JB foi quem mais citou fontes oficiais nos três dias, 15 vezes. O Globo citou 13 e O Dia 10 vezes (GRAF. 7). 66 A quantificação do número de fontes usadas pelos jornais estudados revelou que as fontes oficiais foram as preferidas pelos repórteres com cerca de 56% das citações (GRAF. 6). Em um total de 68 fontes citadas nas informações concedidas para os leitores, 38 eram fontes oficiais. Existiu certo equilíbrio entre os três jornais. O JB foi quem mais citou fontes oficiais nos três dias, 15 vezes. O Globo citou 13 e O Dia 10 vezes (GRAF. 7). Os representantes do Governo do Estado foram citados 16 vezes. O JB citou sete vezes, O Globo cinco e O Dia quatro vezes. GRÁFICO 7 – Número das citações de fontes oficiais por jornal O Dia 26% O Globo 34% Jornal do Brasil 40% O Legislativo representado pelo deputado Geraldo Moreira foi citado 11 vezes por ter participado das negociações, presenciado a morte do agente penitenciário no segundo dia de cobertura e visto os corpos dos presos assassinados durante a rebelião. O Globo o citou cinco vezes, O JB quatro e O Dia duas vezes apenas. Nestes dois últimos dias, o Judiciário também se fez presente com cinco citações através do Conselho da Comunidade, órgão da Execução Penal, e a Defensoria Pública que protegem os direitos dos presos. Já o Sindicato, representante dos servidores penitenciários, foi citado seis vezes e com equilíbrio nos três dias de cobertura, duas vezes por cada um dos três jornais. O vício, ou melhor, o relacionamento constante com as fontes provoca, em certos casos, uma certa paralisação do uso do instinto, do faro, da sensibilidade do próprio repórter e a observação direta ou a própria investigação fica em segundo plano e, às vezes, o que seria óbvio se torna despercebido. 67 3.4.3.1 Dados do Governo As fontes oficiais, chamadas também de institucionais, são mantidas pelo Estado ou são aquelas instituições que preservam algum poder de Estado, como cartórios, empresas e organizações, como sindicatos e associações. É o tipo de fonte tido como mais confiável e os dados que propõem são tidos como verdadeiros. Existem as fontes oficiosas que estão ligadas a alguma entidade ou indivíduo, mas não estão autorizadas a falar e por isso podem ser desmentidas como os servidores penitenciários que quase sempre quando se pronunciam não são identificados por causa do medo de morrer ou de punição. Por fim, têm-se as fontes independentes, que estão desvinculadas de uma relação de poder ou interesse específico visível (LAGE, 2001: 63). Ao contrário do que acontece na prática, NOBLAT (2002: 59) é categórico ao afirmar que as informações oficiais deveriam ocupar pouco espaço nos jornais. Segundo ele, “informação é poder” e todo governo mente, manipula informações ou simplesmente as omitem. “Jornalista deve liminarmente desconfiar de toda e qualquer informação que emane de fontes oficiais. E checá-la à exaustão” (Idem). O essencial da ideologia profissional do jornalista é a “caça” às notícias como ativo recolhedor de informações e independente das fontes (GOLDING; ELLIOT apud WOLF, 1995: 196). GRÁFICO 8 – Fontes Oficiais Judiciário 13% Governo 42% Legislativo 29% Sindicato 16% Na cobertura da rebelião em Benfica, como foi visto anteriormente, as fontes do Executivo prevaleceram (GRAF. 8). Das 38 citações, 16 fontes eram representantes do Governo, isto representa 42,1%. Enquanto as fontes oficiosas – aquelas que são operadores do Governo, mas não autorizados a dar declarações, embora tenham vivenciado ou testemunhado o fato – só foram citadas seis vezes, ou seja, 9% (GRAF. 6). Dados essenciais para toda cobertura do acontecimento ficaram em dúvida logo no primeiro dia e na primeira 68 parte da estrutura da notícia. O lide105 , o primeiro parágrafo da matéria jornalística e que traz as informações básicas do acontecimento noticiado, já continha um erro de informação que seria primordial para o restante da cobertura feita pelos três jornais no episódio. No livreto a Estrutura da notícia, NILSON LAGE (2002) mostra que a notícia no jornalismo moderno é “o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante (...) o lead é o relato do fato principal de uma série, o que é mais importante ou mais interessante” (Idem: 16; 27). A observação do que a realidade tem de singular é a essência do jornalismo e para se transmitir o conhecimento de algo, é preciso entender esse algo (LAGE, 2001: 49; 111). Caso isso não aconteça, os erros são inevitáveis. O jornal O Globo106 e o Jornal do Brasil107 contaram que “pelo menos 14 homens fugiram”, baseado em números oficiais, isto é, dado fornecido pela Secretaria do Estado de Administração Penitenciária. O jornal O Dia108 já usou a informação como única e afirmou: “Quatorze presos fugiram da Casa de Custódia de Benfica, ontem de manhã”. O Globo também ouviu moradores e policiais que “tiveram a impressão de que mais de cem escapavam”. O JB foi mais comedido e completou “moradores da região, no entanto, dizem ter visto mais de 30 pessoas armadas do lado de fora da unidade”. Contudo, nenhum dos três jornais “perguntou” quem de fato poderia informar com segurança, ou seja, aqueles que trabalham no sistema penitenciário e que poderiam dizer que o número dado pelo Governo do Estado era falso, pois só se poderia saber o número de fugitivos depois da contagem109 dos presos e que, até aquele momento, não poderia ter sido feita por causa da rebelião em curso. O repórter não é obrigado a ser especializado em todos os temas, mas deve ser pelo menos no trabalho que executa. A função técnica de intermediar a informação deve fazer com que o repórter busque a verdade através de uma fonte que entenda do assunto. A especialização é bem vinda, mas o repórter deve ser especializado mesmo é na arte de fazer uma reportagem, pois as assessorias de imprensa se proliferam atualmente. Hoje, não somente os governos e as instituições têm assessoria de imprensa, mas celebridades e pessoas nem tanto famosas possuem estratégias para divulgar feitos na mídia. ______________________________________ 105 É a resposta para cinco perguntas básicas para o entendimento de um acontecimento. “Os 5 “w” e 1 “h” (where, what, when, why, who e how) foram institucionalizadas pelo escritor Rudyard Kipling e transformadas no pilar do jornalismo moderno. Kipling era editor do jornal indiano “Allahabad Pioneer” quando compôs o verso “I have six honest serving men; / they taught me all I know; / their names are where and what, and when / and how and why and who” (COSTA apud DINES: 1974: 62). 106 Fuga e Terror em Benfica. In: Jornal O Globo. 30/05/2004, p.20. 107 LUBIANCO, Julio. Presos escapam de casa de custódia. In: Jornal do Brasil. 30/05/2004, p. A20. 108 Tiros, bombas, fuga e rebelião. In: Jornal O Dia. 30/05/2003, p.12. 109 O “confere”, como é conhecida a contagem dos presos, é um procedimento cotidiano obrigatório devido a preocupação com a responsabilidade da custódia dos detentos. Todas as turmas de agentes de segurança penitenciária realizam dois conferes por dia. Um matutino, a cada passagem de plantão, e outro ao anoitecer para verificar se não houve fuga ou morte entre os presos durante aquele período. 69 Segundo BUCCI (2000: 194), estamos na era das “relações públicas generalizadas”. Hoje, o controle das informações não está mais nos meios de comunicação. “São transformações radicais que representam novos desafios para a técnica do jornalismo – e também para a sua ética” (Idem: 195). A saída para isso seria o da especialização junto com o preparo crítico. “A prática jornalística nunca dependeu tanto da reflexão e do estudo como agora. Uma redação não é um balcão onde notícias são empacotadas. Uma redação é um núcleo encarregado de pensar. Ela é um tanto melhor quanto melhor for a sua capacidade de elaboração coletiva. A qualidade do que ela apura, escreve, narra, edita, fotografa e desenha é conseqüência do modo como ela pensa – ou do modo como ela não pensa. Jornalistas não são “mineradores” da informação exclusiva que ocasionalmente são instados a pensar, mas precisam ser pensadores com grande capacidade executiva. O jornalismo é uma atividade intelectual – ou é inconseqüente e tolo. Numa época em que se tornou lugar-comum dizer que o conhecimento é o segredo de todas as atividades, chega a ser chocante constatar que a maioria dos jornalistas praticamente não estuda. Ao contrário, dão mostras de um sentimento antiacadêmico e antiintelectual quase sem precedentes. Nenhum deles levaria o filho num dentista que se orgulhasse de não cursar pósgraduação. Nenhum deles iria se tratar com um cardiologista que não freqüentasse os congressos internacionais de sua área, de preferência apresentando trabalhos. Nenhum contrataria como advogado um curioso inculto; dariam preferência aos que fossem professores titulares de alguma universidade. E, mesmo assim, consideram normal que o público seja informado por profissionais que, na média, pouco lêem e não estudam. Que não estudam se quer o que se passa com a comunicação e com o espaço público nas democracias atuais. A persistir nessa toada, a mentalidade média das redações continuará a reproduzir o espetáculo (...) O jornalismo dentro do espetáculo não é a mesma coisa que o jornalismo produzido pelo ideal da opinião pública, assim como a guerra não é mais a mesma. Se ele não tem consciência do ambiente social e cultural em que foi inserido pela História, converte-se em presa fácil da estratégia de comunicação das relações públicas generalizadas – cujos profissionais, por sinal, estudam, e muito (BUCCI, 2000: 199-200, grifo meu). O repórter é um inteligente avaliador de dados (DINES, 1974: 91) e tradutor de discursos (LAGE, 2001: 22). Entretanto, nenhum dos jornais cariocas checou a afirmação sobre o número de fugitivos. O Dia assumiu o discurso governamental como verdadeiro, mas o JB e O Globo desconfiaram e apresentaram outras versões. NOBLAT (2002: 56) aconselha que “antes de acreditar em algo o jornalista deve duvidar. E só crer quando esgotar as dúvidas e não lhe restar alternativa senão crer”. Mas o jornalista também diz que o repórter, ao não testemunhar um fato, publica o que lhe contam a respeito dele. 70 “Podemos publicar opiniões divergentes sobre um mesmo fato. Versões divergentes, não. É pecado mortal! O que fazer diante de contradições? Apurar, apurar, apurar. Até que todas ou quase todas tenham sido eliminadas. Até que nos reste apenas uma história na qual possamos acreditar” (Idem: 51, grifo meu). Os repórteres de O Globo e JB acertaram quando agiram com ceticismo, mas erraram ao deixar o leitor com duas versões quanto ao número de fugitivos. Uma simples observação da situação naquele momento em que existia uma rebelião com quase três dezenas de reféns e descontrole total dentro da casa de custódia provocaria a busca de uma informação mais fundamentada. As fontes oficiosas como os agentes penitenciários que foram fontes sobre outras questões das reportagens e conhecem o dia-a-dia do sistema penitenciário poderiam esclarecer que naquele momento seria impossível saber o número exato de foragidos como fora divulgado oficialmente. Este número seria essencial após o fim da rebelião para efetuar a contagem do número de presos mortos. No segundo dia, O Dia110, ao pé da matéria (último parágrafo), continuou com a mesma informação de que “O motim começou depois que 14 detentos fugiram pela porta da frente”. O JB111 não informou o número de fugitivos, mas o jornal O Globo112 deixou o ceticismo de lado e passou a afirmar em seu lide, baseado em informação oficial, que o número de fugitivos era de 14 presos. E por fim, no terceiro dia de cobertura, o jornal O Dia113 , remetendo ao primeiro dia dos acontecimentos, novamente informou que “a rebelião começou às 6h de sábado, depois que 14 internos fugiram com a ajuda de traficantes de favelas vizinhas”. ______________________________________ 110 CRUZ, Adriana; BRAGA, Luciene. Selvageria e morte na cadeia. In: Jornal O Dia. 31/05/2004. p.8. Ver nota 95. 112 Ver nota 100. 113 Ver nota 96. 111 71 3.4.3.2 Testemunhas As pessoas que presenciam o fato e vivem o acontecimento são as melhores fontes de informação, principalmente numa situação onde o poder constituído está exposto ao público e tenta ao máximo evitar a divulgação de informações que possam comprometer a imagem das autoridades. Os dados oficiais são liberados com o máximo de urgência para minimizar o problema vigente e diminuir o peso das declarações de testemunhas. O sistema penitenciário, neste sentido, é o setor mais evidente onde isto ocorre. O princípio da não-publicidade é explicado por FOUCAULT (1975): “Se a condenação e o que o motivou devem ser conhecidos por todos, a execução da pena, em compensação, deve ser feita em segredo; o público não deve intervir nem mesmo como testemunha, nem como abonador da punição; a certeza de que, atrás dos muros, o detento cumpre sua pena deve ser suficiente para constituir um exemplo” (Idem, ibidem: 103). Existem mais algumas naturezas de fontes. As primárias ou secundárias e as fontes especialistas ou testemunhas. As primárias são aquelas que o jornalista tem como base de coleta para o essencial em uma matéria. Essas fontes fornecem fatos, versões e números. As secundárias são consultadas para o planejamento de uma pauta ou contextos. A fonte primária é o descobridor e os especialistas que comentarão a descoberta são fontes secundárias (LAGE, 2001: 65; 66). As fontes especialistas servem para análise e interpretações de eventos. Já as testemunhas são fontes que presenciaram o fato, vivenciaram o acontecimento e no caso da cobertura da rebelião em Benfica foram testemunhas as fontes oficiais como o deputado Geraldo Moreira no assassinato do refém e na verificação dos corpos de detentos mortos após o fim da rebelião; fontes oficiosas como os agentes penitenciários, policiais e bombeiros; e por fim as independentes como os presos e moradores. Contudo, LAGE alerta que o testemunho mais confiável é o mais imediato, pois se apóia na memória de curto prazo, que é mais fidedigna (Idem: 67). NOBLAT (2002: 62) afirma que “a melhor fonte não é a que sabe tudo, mas a que nos conta o que sabe”. Para ele, a melhor fonte é a que tem jeito de jornalista, ou seja, sabe observar, valoriza o detalhe e guarda tudo na memória. 72 3.4.3.2.1 Motivo gerador Os relatos na rebelião em Benfica foram compostos em metade dos casos, 34 num total de 68 citações, por fontes de informação primárias, testemunhas. Os três jornais estudados usaram os moradores para reportarem o momento da fuga no primeiro dia e O Globo114 conseguiu o detalhe de que o alarme foi disparado na unidade prisional de Benfica somente vinte minutos após a tentativa de fuga em massa ter iniciado: “A segunda fuga no sistema penitenciário do Rio em quatro dias começou, segundo moradores das redondezas, por volta das 6h20m, mas o alarme só foi acionado às 6h40m”. Os presos também serviram como fonte de informação. Já no primeiro dia de rebelião, os detentos colocaram faixas e ameaçaram os policiais com armas conforme divulgou o jornal O Globo115 . No segundo dia, o mesmo jornal dá destaque às faixas que informavam ser a principal reivindicação da rebelião o fim do ajuntamento de facções criminosas na mesma unidade prisional, inclusive merecendo o intertítulo “Presos pedem fim de mistura de facções”116 . O jornal dá prosseguimento às reivindicações dos presos e divulga que os presos chegaram a escrever uma carta com uma lista de reivindicações. O JB117 também usou um preso como fonte de informação por meio de um aparelho de telefonia celular. O detento se identificou por Wesley Snipes e disse que os rebelados estavam fortemente armados e prontos para reagir à uma invasão da polícia. A rebelião foi resultado da tentativa de fuga ocorrida na manhã de sábado (29 de maio). As reivindicações como a separação de facções criminosas em unidades do sistema penitenciário foram surgindo no noticiário com o passar do tempo. É bom lembrar que o jornal O Globo relatou a “mistura” na penitenciária Serrano Neves (Bangu 3) em uma matéria da repórter Vera Araújo118 no começo da semana quando aconteceu a rebelião em Benfica e na própria cobertura contextualizou isso quando se referiu às faixas como vai ser visto mais a frente. Contudo, de fato, a rebelião teve como motivo gerador a tentativa de fuga. ______________________________________ 114 Ver nota 106. Idem. 116 Ver nota 100. 117 Ver nota 95. 118 Ver nota 66. 115 73 Um trabalho realizado no Espírito Santo sobre as características e significados 119 de rebeliões a partir de dados extraídos de matérias jornalísticas120 estudou o aspecto psicológico da manifestação dos presos em casos como o que ocorreu em Benfica. “A intenção do trabalho foi compreender fatores envolvidos nas rebeliões protagonizadas por presos condenados pela justiça à pena de reclusão” (TAVARES; MENANDRO, 2004: 231; 232). A pesquisa verificou que a tentativa frustrada de fuga aparece como grande causadora de rebeliões ao lado dos protestos contra a superlotação. “Pudemos notar, a partir da leitura dos noticiários, que as tentativas frustradas de fuga, tanto em São Paulo quanto nos outros estados brasileiros, como motivo gerador das rebeliões, estavam relacionadas com a incidência das categorias transferência, superlotação e condições para fuga. As tentativas frustradas de fuga comumente se revertiam em protestos contra a superlotação e resultavam, freqüentemente, em reivindicação de transferências de presos para outros estabelecimentos prisionais, em São Paulo, ou em reivindicação de condições para fuga, nos outros estados brasileiros” (TAVARES; MENANDRO, 2004: 234; 235). Uma outra pesquisa do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud) de 1998 constatou que em 225 incidentes prisionais noticiados pela imprensa como casos de motins ou rebeliões, ocorridos entre 1994 e 1997, em São Paulo, apenas em 166 casos foi possível obter alguma informação sobre o motivo do incidente. “Desses, quase metade dos casos (47,5%) foram classificados como “tentativas de fuga”. Vêm, em seguida, como responsáveis pelos motins, a superlotação (21%), as más condições do estabelecimento prisional (11,4%), os maus tratos (9,6%), a demora judiciária e as brigas (8,4% cada)” (ILANUD apud TAVARES; MENANDRO, 2004: 234; 235). _______________________________________ 119 Ferdinand de Saussure compreende que todas as manifestações da linguagem humana constituem a Lingüística (SAUSSURE, S/D: 13). Segundo ele, a Língua é uma instituição social e a palavra é um ato individual. A Semiologia, então, tem como objetivo estudar a vida dos signos no interior da vida social (MATTELART, 1995: 86). A Semiologia visa ao conhecimento do mundo histórico e social em que vivemos ao delinear códigos como sistema de expectativas válidos no mundo dos signos. A pesquisa semiológica delineia sistemas de expectativas correlatos no mundo dos comportamentos psicológicos, dos modos de pensamento, além de mostrar-nos, no universo dos signos, o universo das ideologias que se refletem nos modos comunicativos pré-constituídos. As mensagens isoladas se organizam e se tornam compreensíveis em códigos nos fatos de comunicação como fenômenos da cultura (ECO, 1976: XVII; XX). O norte-americano Charles Sanders Peirce também estudou os signos, mas privilegiou os signos não-verbais (VALENTE, 2001: 14). 120 A pesquisa documental foi feita com dados extraídos do jornal Folha de São Paulo, de âmbito nacional e, segundo os pesquisadores, com bastante crédito no tocante à apuração de informações e à veracidade dos fatos noticiados. Foram utilizadas notícias de rebeliões ou motins em penitenciárias, casas de detenção e cadeias públicas brasileiras, ocorridos entre 1995 e 2000 (TAVARES; MENANDRO, 2004: 234; 235). 74 É inevitável abrir um parêntesis aqui, pois não são somente os presos que aproveitam a situação de crise para expor suas necessidades. Da mesma forma, outros protagonistas envolvidos que não têm muito espaço nos meios de comunicação, quando comparados com o espaço fornecido aos órgãos governamentais, beneficiam-se do momento atípico para expor questões e estimular o debate público. No caso da rebelião em Benfica, os servidores do sistema penitenciário, representados pelo Sindicato, levantaram questões que foram reforçadas por declarações de especialistas como o pesquisador da Organização Não-Governamental (ONG) Justiça Global e então presidente do Conselho da Comunidade, Marcelo Freixo, e obrigaram ao Governo do Estado responder e dar explicações à opinião pública. Embora o jornal O Dia121 tenha sido comedido em relação ao debate público sobre o problema do sistema penitenciário, o diário publicou no primeiro dia de cobertura que o Sindicato denunciava que homens com mais de 60 anos de uma cooperativa exerciam a função de agentes de segurança. Já o Jornal do Brasil e O Globo reproduziram com maior destaque os discursos das autoridades envolvidas. O JB122 também mostrava que naquele dia os agentes realizavam uma “operação-padrão”123 em protesto contra as más-condições de trabalho e, na mesma matéria, a entidade de classe criticava a localização da unidade. O Globo124 também apresentava os mesmos dados fornecidos pelo Sindicato e ainda reforçava o discurso como uma “tragédia anunciada” para a rebelião em Benfica. O jornal também mostrava a incoerência do Executivo ao reportar que Garotinho chegou negar a fuga em Benfica pela manhã em um programa de rádio e, que depois de confirmado o fato, ele não fora mais achado. No segundo dia, enquanto em O Globo125 o Sindicato continuava criticando o Governo do Estado ao afirmar que a casa de custódia era um “presídio de tijolo e barbante”126, o secretário de Administração Penitenciária, Astério Pereira dos Santos, assumia o papel de interlocutor junto à imprensa, apesar daquela situação ter sido causada pela necessidade da implementação rápida do programa Delegacia Legal da Secretaria do Estado de Segurança Pública, coordenado por César Campos, que também viria em defesa de Garotinho ao afirmar no último dia da rebelião ao JB127 que o problema teria sido ______________________________________ 121 Ver nota 108. Ver nota 107. 123 A “operação-padrão” consiste no estrito cumprimento da Lei de Execuções Penais. O número sempre deficitário de servidores no serviço penitenciário provocaria uma demora na concessão de direitos dos apenados como a visita de familiares só para citar um exemplo. A revista feita nas pessoas que entram em unidades teria que ser realizada no mínimo por dois agentes, o que inviabilizaria o atendimento de todos os cadastrados no horário estipulado e gerando, desta maneira, um clima tenso dentro das prisões. 124 Ver nota 106. 125 Ver nota 100. 126 “Os códigos são sistemas de expectativas no universo dos signos. As ideologias são sistemas de expectativas no universo do saber. Há mensagens informativas que revolucionam os sistemas de expectativas no universo dos signos” (ECO, 1976:86). O código no sistema penitenciário é muito peculiar e o discurso sobre segurança é o mínimo que o setor deve oferecer. Qualquer palavra que coloque isto em dúvida tem impacto considerável. 127 Ver nota 104. 122 75 operacional e não das condições físicas da unidade. O Globo128 , por sua vez, mostrava a crítica e o desabafo dos representantes do judiciário como o defensor público Leonardo Rosa e do Conselho da Comunidade por meio do seu presidente Marcelo Freixo por não terem sido permitidos acompanhar a vistoria da unidade após o fim da rebelião. O pesquisador revela que já havia alertado às autoridades sobre o que poderia ocorrer em Benfica129. Era o início da estratégia de evitar a divulgação de informações contrárias ao Governo no Estado do Rio de Janeiro praticado pelo secretário e marido da governadora, Anthony Garotinho, e seus comandados, no sistema penitenciário fluminense130 . A análise do discurso das personagens envolvidas com questões do setor é imprescindível, mas fica como sugestão para futuros trabalhos que poderão dispor de um tempo maior para investigação científica. Neste trabalho em questão, uma pesquisa estadunidense sobre o tema pode ilustrar, com uma superficial comparação, em que consiste o debate público sobre o setor aqui no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos da América. A pesquisa procurou investigar o papel dos meios de comunicação131 , políticos e operadores da lei na construção da imagem da Justiça Criminal. O trabalho, além de descobrir que o jornal acredita fielmente nas fontes governamentais e políticas132 , concluiu a existência de uma politização da agenda do meio de comunicação no debate público sobre o setor133 que proporciona mais matérias relacionadas a programas de correção e violência institucional. E em grau menor, são citadas questões como saúde prisional, prisão de policiais, privatização de unidades prisionais para funcionar como indústrias. E por sua vez, negligencia aspectos importantes como o tratamento de prisioneiras, menores em conflito com a lei e recursos para o setor. As fontes governamentais anunciam sua agenda de endurecimento do encarceramento repetidamente para fortalecer o apoio popular nas ______________________________________ 128 Ver nota 101. Ver “Desdobramento” (p. 78). 130 Idem. 131 Mais especificamente, de matérias sobre o sistema prisional no jornal New York Times. O jornal é considerado o mais influente dos Estados Unidos e a pesquisa foi feita entre 1992 e 1995. (A content anlysis of the correctional debate in the New York Times. In: The Prison Journal. S/L, 2000). 132 “Our findings reveal that the New York Times relies heavily on political and government sources who— not surprisingly—express support for the prevailing correctional policies and practices” (Idem: 245). 133 “This research discovered considerable evidence of the politicization of punishment and criminal justice agenda setting in the media have significant implications to correctional policy and practice. The correctional debate presented in the New York Times, whose motto is “All the news that’s fit to print,” concentrates heavily on issues of institutional violence and correctional programs. To a lesser degree, the New York Times addresses prison health care, get-tough policies, and privatization/corrections as industry, while neglecting other important correctional issues (e.g., capital punishment, juveniles, and female prisoners)” (Ibidem: 260). 129 76 políticas do setor, enquanto, os sindicatos apóiam ou fazem oposição às políticas de governo de acordo com os interesses da classe. O debate sobre o setor é freqüentemente superficial, constituído por uma falsa polaridade134 . _____________________________________ 134 “Government sources pronounced repeatedly their agenda to expand the correctional system and to harshen the nature of incarceration, both of which are prominent features of coercive social control. Whereas political posturing on corrections serves to cultivate public support for criminal justice policy (…) Equivocally, corrections officers unions either support or oppose the government’s correctional policies depending on how it best serves their interests (...) the debate over rehabilitation often seems superficial, constituting a false polarity” (Ibidem: 253; 254; 260). 77 3.4.3.2.2 Refém assassinado No segundo dia de cobertura, o assassinato do agente penitenciário foi o principal assunto dos jornais estudados. A testemunha ocular do assassinato do agente penitenciário foi o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado Geraldo Moreira. Segundo ele, o servidor público Marco Antônio Borgatte foi empurrado e executado. O JB135 informou que eles atiraram contra os negociadores também. Entretanto, o jornal O Dia136 publicou a mesma informação em seu lide, mas no corpo da matéria apresentou outra versão. Segundo o jornal, o presidente do Sindicato que representa os agentes penitenciários, Paulo Ferreira, disse que o servidor teria tentado escapar e por isso foi morto. A função do autor dessa monografia é a de assessor de comunicação daquele sindicato e ao questionar Paulo Ferreira sobre a versão dele ter sido a única diferente dos acontecimentos acima narrados, ele respondeu que não presenciara o fato e que “no calor dos acontecimentos” havia se precipitado e, equivocadamente, informou à repórter de O Dia o que havia escutado de outras pessoas que estavam supostamente perto do ocorrido. Paulo assegurou que estava errado e a informação correta era a do deputado Geraldo Moreira. O deputado afirmou que o agente fora assassinado para servir como exemplo caso o Governo do Estado autorizasse a invasão dos policiais na casa de custódia. A repórter Adriana Cruz, disse137 ao autor da monografia que fica “arrepiada” quando lembra como foi feita a reportagem. Paulo Ferreira, segundo ela, estava conversando com os repórteres e contava que conhecia Marco Antônio Borgatte, um dos reféns, quando se ouviu o barulho do disparo. O presidente do Sindicato correu para ver o que tinha ocorrido e voltou “transtornado” com a informação de que o agente, a quem acabara de se referir, tinha sido alvejado com um tiro de fuzil. O depoimento da repórter confirma que a versão provavelmente verdadeira era a do deputado Geraldo Moreira e não a do próprio Paulo, como foi reportado por ela. ______________________________________ 135 Ver nota 95. Ver nota 110. 137 CRUZ, Adriana. Conversa por telefone, 13/05/2005. 136 78 3.4.3.2.3 Presos mortos O terceiro dia foi o último da cobertura investigada nesta monografia. Com o fim da rebelião, a notícia principal foi o número de presos que haviam sido mortos. O Governo obteve o número de fugitivos já no primeiro dia de cobertura, mas após o fim da rebelião, contar os mortos sob custódia do Estado foi um trabalho muito difícil. Portanto, a informação sobre o número de mortos foi obtida com as fontes oficiosas e testemunhas, ou seja, aquelas que entraram na unidade depois do fim da rebelião, viram os corpos, mas não estavam autorizadas pelo Estado a revelar o número exato de mortos. O Jornal do Brasil138 divulgou que o deputado Geraldo Moreira havia informado no segundo dia de cobertura que um refém libertado disse que existiam presos mortos dentro da casa de custódia. O JB139 do dia seguinte também publicou que o sindicato dos agentes já tinha a informação que o número de mortos dentro da casa de custódia era de no mínimo 30 mortos na manhã do terceiro dia, antes do fim da rebelião. O jornal informou que o número de mortos não havia sido divulgado oficialmente, mas o defensor público Leonardo Rosa Melo da Cunha tinha conversado com um preso ferido a bala no sábado e este tinha dito que pelo menos 38 detentos estavam mortos. O jornal O Globo140 teve como fonte de informação o deputado Geraldo Moreira que contabilizou 28 mortos, mas o número poderia ser maior porque ele disse que não teve coragem de acompanhar a revista nas celas com os oficiais da PM e peritos da Polícia Civil. Os bombeiros que estavam na cadeia retirando os mortos disseram que o número de corpos estava entre 40 e 50. Já o jornal O Dia141 utilizou todas as fontes dos outros jornais como o deputado Geraldo Moreira, o defensor público Leonardo Rosa, os bombeiros e acrescentou a informação do comandante da PM coronel Renato Hottz. Segundo ele, os presos teriam comunicado, por meio de carta, que o número era de 35 mortos. Dois dias depois, o número oficial da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária era de 30 mortos, apesar de o Instituto Médico-Legal ter pedido à Santa Casa de Misericórdia a realização de 38 (e depois ter baixado para 35) sepultamentos para as vítimas do motim142 . Por vários dias, a questão foi assunto de desdobramento nos jornais cariocas. ______________________________________ 138 Ver nota 95. Ver nota 104. 140 Ver nota 101. 141 Ver nota 111. 142 Conexão Rocinha-Benfica. In: O Dia Online, 03/06/2004, http://odia.ig.com.br/odia/policia/pl030601.htm 139 79 2.3.2.3.4 Desdobramento O Sistema Penitenciário depois da rebelião em Benfica ficou por muito tempo na agenda da mídia impressa. O ato de desdobramento de uma notícia já publicada anteriormente pelo próprio veículo ou por outro é conhecido como suíte e consiste em “dar continuidade à apuração de um fato (já noticiado) que continue sendo de interesse jornalístico, mediante acréscimo de novos elementos para a publicação de notícias atualizadas” (RABAÇA; BARBOSA, 1978: 441). Além do número de mortos, novas rebeliões aconteceram a partir do dia 05 de junho quando os servidores penitenciários começaram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho que incluíam reajuste salarial e concurso público para a função de agente de segurança. Os detentos do Presídio Milton Dias Moreira, no complexo da Frei Caneca, se amotinaram quando souberam da greve dos agentes, mas o motim foi rapidamente controlado por policiais do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado). Na noite anterior, acontecia outra rebelião. Agora, na Casa de Custódia em Magé. “Cinco dias depois do fim do motim na Casa de Custódia de Benfica, em que 31 pessoas morreram, nove presos e um soldado do Batalhão de Operações de Policiamento Especial (Bope) da PM ficaram feridos ontem de manhã durante uma rebelião na Penitenciária Milton Dias Moreira, no complexo da Frei Caneca, no Centro. O motim aconteceu depois de os presos receberem a informação de que as visitas seriam suspensas devido à greve dos agentes penitenciários, que foram substituídos por PMs. À noite, na Casa de Custódia de Magé, onde estão presas cerca de 300 mulheres, houve outra rebelião. As detentas atearam fogo a colchões e destruíram parte das celas. A Polícia Militar enviou reforço para conter o motim”143 . E por fim, a governadora Rosinha Matheus decreta Estado de Emergência no sistema penitenciário do Estado no dia 7 de junho. O objetivo da medida era realizar obras de reforma e compra de equipamentos em “caráter de emergência”, de acordo com a lei, sem necessidade de licitação144 . Outra medida foi entrar com uma ação na justiça contra a ______________________________________ 143 Situação de emergência. In: RJ TV Online, 08/06/2004, http://redeglobo6.globo.com/RJTV/0,19125,VRV03114-53212-20040608,00.html. 144 PINEIRO, João; BITTENCOURT, Adriana. Juiz determina fim da greve nos presídios. In: JB Online, 09/ 06/2004, http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cidade/2004/06/08/jorcid20040608009.html. 80 greve dos agentes. Na terça-feira, dia 8 de junho, o juiz João Marcos de Castello Branco Fantinato, da 8ª Vara de Fazenda Pública, julgou a paralisação ilegal e ilegítima por ser considerado um serviço essencial, determinando o imediato retorno ao trabalho145. Os agentes realizaram uma Assembléia Geral em frente à Assembléia Legislativa (ALERJ) no dia seguinte e decidiram acatar a decisão judicial146. Embora uma análise da agenda da mídia posterior à rebelião fosse importante, este trabalho fugiria do tema da monografia. Não obstante, para finalizar o trabalho e seguir a lógica do raciocínio deve-se, pelo menos, apresentar uma pesquisa mais abrangente realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. A pesquisa concluída recentemente analisou as notícias dos três principais jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais sobre o tema violência e segurança pública em todo o país. No Rio, os três jornais pesquisados foram os mesmos do presente trabalho147 e o período analisado compreendeu os meses de maio a setembro de 2004, ou seja, começou com o mês da rebelião em Benfica e cobriu os meses subseqüentes que reportaram os desdobramentos acima descritos. O sistema penitenciário ficou na quarta posição em relação ao foco principal dos temas das matérias jornalísticas com 166 textos, 6,6% do total de 2.514 textos pesquisados148 (TABELA 1). Os jornais do Rio de Janeiro dedicaram apenas 5,5% das notícias sobre violência e segurança pública ao sistema penitenciário. Isto significa quase metade em comparação com o espaço dos jornais paulistas, que reservaram 9,6% (RAMOS; PAIVA, 2005; 27). ______________________________________ 145 BITTENCOURT, Adriana. Sindicalista teme novas rebeliões. In: JB Online, 09/06/2004, http:// jbonline.terra.com.br/jb/papel/cidade/2004/06/09/jorcid20040609006.html. 146 O relatório de pesquisa Mídia e violência: como os jornais retratam a violência e a segurança pública no Brasil, além dos jornais cariocas, pesquisou O Estado, Folha e Agora de São Paulo e o Estado de Minas, Hoje em Dia e Diário da Tarde de Minas Gerais (RAMOS; PAIVA, 2005: 06). 147 Em primeiro lugar ficou o tema Forças de Segurança – que engloba várias corporações policiais (Federal, Civil, Militar e Técnica), as Forças Armadas e as guardas municipais – com 40,5%, 1018 textos. Em segundo e terceiro lugar ficaram Ato violento e Desdobramento do ato violento respectivamente (RAMOS; PAIVA, 2005: 27). 148 Em primeiro lugar ficou o tema Forças de Segurança – que engloba várias corporações policiais (Federal, Civil, Militar e Técnica), as Forças Armadas e as guardas municipais – com 40,5%, 1018 textos. Em segundo e terceiro lugar ficaram Ato violento e Desdobramento do ato violento respectivamente (RAMOS; PAIVA, 2005: 27). 81 TABELA 1 – Ordem dos temas sobre violência e segurança Fonte: Cesec/2005 (p. 14) Foco Central Forças Segurança Ato violento Desdobramento de ato violento Sistema Penitenciário Judiciário/MP/Legislação Políticas de Segurança Fenômenos da violência Sociedade civil/DH Estatísticas Outros Total Nº 1018 527 407 166 101 90 83 61 36 25 2514 % 40,5 21,0 16,2 6,6 4,0 3,6 3,3 2,4 1,4 1,0 100,0 Apesar de quase metade (47,6%) das notícias se ocuparem de fugas e rebeliões, 24,1% dos textos aprofundaram-se no tema discutindo assuntos como condições, construção, superlotação e bloqueio de celulares no sistema penitenciário (TABELA 2). Segundo o estudo, 51,2% das matérias sobre o sistema trouxeram uma abordagem individualizada, mas 46,4% já avançam para um enquadramento desde a perspectiva das políticas públicas. Os direitos dos detentos aparecem pouco (4,8%) e quando aparecem estão novamente na perspectiva individualizada da denúncia (RAMOS; PAIVA, 2005: 27). TABELA 2 – Temas sobre o sistema penitenciário Fonte: Cesec/2005 (p. 28) Tema Fugas e rebeliões Condições e estrutura carcerária Outros Superlotação/direitos Corrupção/maus tratos NFPI Total Nº 79 32 24 20 10 1 166 % 47,59 19,28 14,46 12,05 6,02 0,60 100 A imprensa tem o papel preponderante de fornecer o debate público e dar voz àqueles que não conseguem se fazer ouvir. Apesar das políticas públicas serem evidenciadas na agenda dos jornais no período da pesquisa, a discussão em torno dos direitos das minorias – que no presente trabalho é direcionado aos direitos dos apenados – pode diminuir ainda 82 mais. O foco de proibição da divulgação de informações não está mais na imprensa e sim em quem fornece as informações aos meios de comunicação. Desta forma, a atitude autoritária do Governo do Estado que remonta aos tempos negros da Ditadura Militar pode impedir que a sociedade possa saber o que acontece no sistema penitenciário e ter o direito à informação não respeitada. Dois meses após a rebelião em Benfica, em julho de 2004, o secretário da Seap questionou a “legalidade” do Conselho da Comunidade, por meio de uma carta ao juiz da Vara de Execuções Penais, Carlos Augusto Borges, que havia sido avisado das condições precárias da Casa de Custódia em Benfica no dia 06 de maio, quase um mês antes da rebelião. A informação foi tornada pública pelo presidente do Conselho da Comunidade, órgão que defende o estrito cumprimento da Lei de Execuções Penais, no último dia da rebelião após a proibição do acesso para vistoria da unidade prisional149 . O fato é citado no ofício (ver anexo 8). O secretário também criticava o excesso de entrevistas concedidas pelo presidente do Conselho da Comunidade e que o papel principal do órgão seria o assistencialismo e não a fiscalização. Por sua vez, a Organização Não-Governamental Justiça Global, a qual Marcelo Freixo pertence, cita o fato no Relatório Rio150 e comenta a estratégia governamental: “Na essência do ofício, o governo do estado solicita expressamente que o Juiz desfaça o atual Conselho e que nomeie uma nova direção que possa dar ao Conselho um papel mais assistencialista, buscando fornecer materiais de higiene e colchões para os presos que não possuem. O artigo 37 da Constituição determina que ‘a administração Pública direta e indireta de qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência’. O princípio da publicidade diz respeito ao conhecimento acerca dos atos da administração pública, de forma que possam todos os interessados participar das decisões políticas. Sendo assim, é fundamental que os órgãos de monitoramento possam atuar de forma autônoma e independente, fazendo com que o poder público possa ser fiscalizado sistematicamente, o que vai garantir a melhoria da qualidade do serviço prestado e o reforço da prática da democracia” (LYRA, 2004: 29;30) . O Sindicato também seria alvo da tentativa do autoritarismo do atual governo estadual. Um mês depois do ofício ao juiz da VEP, um Projeto de Lei Complementar era enviado pelo Governo do Estado para Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) na tentativa de coibir qualquer tipo de declaração na mídia ou reunião sindical por parte dos servidores penitenciários. O Regime Disciplinar dos Servidores Efetivos da ______________________________________ 149 150 Ver “Motivo gerador” (p. 74). Ver nota 42 83 Secretaria de Administração Penitenciária iria tramitar nas comissões da Alerj, mas seria retirado de pauta e arquivado por conter inúmeros artigos inconstitucionais. Contudo, poucos meses depois, o projeto voltaria à casa legislativa com pequenas mudanças para ser votado em regime de urgência no dia 18 de maio de 2005. Os artigos 55 e 56 revelam a intenção do Executivo ao afirmar que é transgressão disciplinar com penalidade de suspensão de 16 a 41 dias e de 41 a 90 dias, respectivamente: “Divulgar ou propalar, através da mídia, fatos, serviços ou tarefas em desenvolvimento na repartição ou em quaisquer órgãos do sistema penitenciário, ou contribuir para a divulgação, ou ainda conceder entrevistas sobre os mesmos, sem autorização da autoridade competente (…) Coagir ou aliciar servidores com o objetivo de impedir ou perturbar o desenvolvimento normal do expediente do sistema penitenciário, ou reunir-se ou concentrar-se em locais próximos às unidades prisionais com o mesmo objetivo”. 84 CONCLUSÃO A monografia procurou analisar a apuração jornalística sobre fatos relacionados ao sistema penitenciário e partiu da hipótese que a coleta de dados era deficiente. A investigação revelou o contrário. A cobertura jornalística sobre o sistema penitenciário feita pelos três jornais estudados surpreendeu tanto no que se refere à agenda dos meios de comunicação, quanto na qualidade dos textos produzidos por meio de uma boa apuração da informação na cobertura da rebelião em Benfica. Embora a apuração tenha sido boa, a análise dos dados falhou e mostrou um total desconhecimento do assunto por parte dos repórteres dos jornais analisados. A pesquisa Mídia e violência investigou o período que teve início no mês da rebelião em Benfica, em maio, e se estendeu até setembro, neste intervalo de tempo ocorreram sucessivas rebeliões, greves dos servidores do setor, ou seja, uma crise que obrigou a governadora do Estado do Rio de Janeiro decretar Estado de Emergência no setor. Embora o trabalho tenha realizado a investigação em um intervalo de tempo atípico e isto indique que os resultados poderiam ser diferentes se realizados em outro momento, ficou constado por esta monografia que no período anterior à rebelião na casa de custódia em Benfica, no mesmo mês de maio (depois de três meses de aparente tranqüilidade nas unidades prisionais estaduais), o Jornal do Brasil e O Dia cobriram o setor de maneira superficial. Contudo o jornal O Dia, se destacou ao cobrir o ato público dos servidores que culminou com a decretação de uma operação padrão um dia antes da rebelião na Casa de Custódia em Benfica. Já o jornal O Globo surpreendeu positivamente com uma cobertura contextualizada, com mais destaque para agenda política, porém presente pelo menos, em média, a cada três dias no mês de maio. Já a cobertura jornalística da rebelião na Casa de Custódia em Benfica também surpreendeu no que se refere aos resultados obtidos por cada jornal. A hipótese principal do trabalho era que a imprensa carioca realizava uma apuração de dados deficiente sobre o sistema penitenciário, mas não foi isso que se constatou. A pesquisa das matérias coordenadas que buscaram uma contextualização do porquê do ocorrido, revelou que o JB, por sua vez, foi a surpresa negativa com uma cobertura quase que factual, pois se esperava que o Jornal do Brasil, por sua tradição no jornalismo brasileiro, trouxesse uma cobertura mais consistente e aprofundada. Já O Dia não ficou muito abaixo da abrangente cobertura de O Globo no que se refere à contextualização do tema. O jornal O Dia se destacou na contextualização da situação do que estava acontecendo e os reflexos para a sociedade carioca da rebelião no bairro de Benfica com as matérias subordinadas ao fato. A observação direta dos repórteres foi a principal fonte 85 de informação e que mostrou a preocupação com a agenda pública, mais especificamente da sociedade civil, por parte do jornal mais “popular” dos diários pesquisados. A apuração dos dados informativos, o objeto analisado no trabalho, mostrou que alguns erros que não comprometeram a cobertura foram cometidos por falta de um conhecimento mais aprofundado do setor e que poderia ser aperfeiçoado por uma pesquisa mais acurada. A observação direta também foi usada pelos repórteres dos três jornais e com destaque para Júlio Lubianco do JB que contou 16 buracos feitos pelos presos nas paredes da casa de custódia. Em relação às fontes de informação, foi constatado que mais da metade foram fontes oficiais e que os dados do Governo do Estado tiveram a prerrogativa de serem verdadeiros, apesar de outros dados fornecidos por outros tipos de fontes – como as oficiosas no tocante ao número de presos mortos – serem diferentes. Já em relação ao número de fugitivos, os repórteres do jornal O Dia omitiram-se da busca pela verdade desde a primeira notícia. Os profissionais de O Globo e o JB cometeram uma falha primordial e imperdoável ao apresentarem versões diferentes e não buscar a mais consistente para transmitir a informação mais próxima da realidade. Os dois jornais ouviram fontes oficiais e independentes, mas as fontes oficiosas como os agentes penitenciários que trabalham no setor e conhecem o cotidiano do sistema penitenciário não foram procurados e, nesse caso, isto seria imprescindível para a correta divulgação dos fatos. A falta da observação direta do repórter e do conhecimento sobre o setor ficou evidente, pois seria impossível saber a quantidade de fugitivos sem a contagem dos presos naquele momento em que a rebelião deixava a situação dentro da casa de custódia sem qualquer tipo de controle. As fontes testemunhas foram ouvidas, mas o peso para a informação final não foi o mesmo dispensado à fonte governamental. O trabalho de expor as fontes primárias que participam do acontecimento foi bem feito pelos três jornais, com destaque mais uma vez para os repórteres Júlio Lubianco e Sabrina Netto do JB que ouviram um preso por telefone celular. Por fim, a análise dos dados após o levantamento como uma avaliação dos discursos foi negligenciada pelo O Dia. O JB apresentou o desentendimento dos secretários de governo, mas foi O Globo que deu maior ênfase a esta questão. Em síntese, a apuração jornalística na cobertura da rebelião na Casa de Custódia em Benfica foi melhor do que a “esperada” pela hipótese principal. O JB foi uma surpresa negativa por causa do tratamento factual do acontecimento e superficialidade de sua cobertura, mas o trabalho dos repórteres do tradicional jornal se destacou ao buscar o detalhe. O Dia foi um meio termo entre o factual e a conjuntura do fato, mas se destacou ao apresentar uma agenda pública na cobertura talvez impulsionada pelo público leitor do diário. E por fim, o jornal O Globo foi factual e contextualizou o assunto de forma abrangente. Quem acompanhou os acontecimentos pelo jornal teve uma compreensão 86 mais próxima da realidade do sistema penitenciário. Os três jornais apresentaram as diversas versões do fato, mas pecaram ao dar um peso maior às informações governamentais em fatos que foram essenciais para o desfecho do acontecimento: o número exato de presos que conseguiram fugir e o contraditório número de presos mortos dentro da unidade. A independência das fontes, uma busca maior com a observação direta e um trabalho de pesquisa são ações que podem favorecer um maior conhecimento sobre o sistema penitenciário e, a partir disso, permitir que as fontes procuradas sejam usadas de maneira correta ao fornecer determinados tipos de informação. Utilizar um número grande e variado de tipos de fontes não representa qualidade na reportagem, se certa fonte não for usada para a busca de um específico dado que sirva para completar a informação jornalística. Apesar da liberdade de imprensa ter sido respeitada para os profissionais que fizeram a cobertura da rebelião, a conseqüência das informações divulgadas naquele período provocaram a dissolução do Conselho da Comunidade, um dos órgãos de maior participação e proteção dos direitos humanos dentro do sistema penitenciário. Da mesma forma, a tentativa de calar o Sindicato que representa os agentes penitenciários e que foi a fonte de informação que revelou as principais mazelas do setor, por meio de uma lei que proíbe o servidor de se reunir perto das unidades prisionais e fazer declarações à imprensa, são algumas das estratégias de comunicação para evitar a transparência no sistema penitenciário. Não existe área na qual o Governo pratica o princípio da não-publicidade de forma tão explícita e isto é aceito pela sociedade, provavelmente, entre outras coisas, por decorrência da ignorância da própria população no tocante às origens da exclusão social em nosso país. A exploração escravocrata e a posterior abolição que exigiu uma repressão no começo do século passado contra os negros e pobres têm como resultado o que hoje encontramos em nossas prisões: a grande maioria na população carcerária é de pessoas de cor preta ou parda e pobres ou miseráveis. Do mesmo jeito, o povo desconhece o Direito Criminal e (evidentemente exclui-se dessa afirmação a anormalidade dos crimes sanguinários e cruéis) não sabe que o delito pode ser cometido por qualquer pessoa, pois a própria população se submete à política que elabora e determina as leis em certo período e local das relações sociais. Contudo, apesar de nossa história recente de Ditadura Militar com perseguições a quem se opunha ao regime vigente, inclusive aos jornalistas que sofreram também com a repressão por meio de prisões e torturas, o profissional da informação deve se empenhar em buscar as notícias através de uma apuração dos dados de maneira eficiente e que venha possibilitar a transmissão do que seja mais próximo da realidade dentro das prisões. E assim, cumprir o papel de informar com qualidade ao cidadão que deve ter este direito respeitado. A imprensa, para concluir, tem o dever de contribuir com a opinião pública ao 87 fiscalizar os atos do governo, estimular o debate sobre as políticas implementadas no espaço público e não pode exercer esta prática de forma diferente para as direcionadas ao sistema penitenciário. Este é um setor importante para o cumprimento dos direitos humanos e para a segurança pública, pois não somente possibilita a punição do criminoso, mas também contribui, ou pelo menos deveria, para a diminuição do índice de reincidência ao recuperar a pessoa que cometeu um delito em qualquer momento da vida. 88 BIBLIOGRAFIA ALBUQUERQUE, Afonso de. “Um outro “Quarto Poder”: imprensa e compromisso político no Brasil”. In: Revista do Mestrado em Comunicação. Niterói, Universidade Federal Fluminense, v.4, janeiro de 2000, pp. 23-57. ALENCAR, Ana Valderez Ayres Neves de. Segurança Nacional. Lei nº 6.620/78 – antecedentes, anotações, histórico. Brasília, Senado Federal, 1980. ALENCAR, Chico; CARPI, Ribeiro; VENICIO, Marcus. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. BECCARÍA, Cesare Bonesana. Dos delitos e das penas. Rio de Janeiro, Editora Rio, 2002. BUCCI, Eugênio Bucci. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. BUZAID, Alfredo. 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Jornal do Brasil Jornal dos Sports Balcão TOTAL Média de vendas 257.451 243.357 171.195 86.685 75.778 15.274 14.449 864.189 Fonte: Instituto Verificador de Circulação Maio/2004 Publicação O Globo O Dia Jornal do Brasil Média de Vendas 253.621 171.914 80.011 Fonte: Instituto Verificador de Circulação 93 ANEXO 2 – JORNAL DO BRASIL: MATÉRIAS PRINCIPAIS NA COBERTURA 30/05/2004 (PÁGINA A20) 31/05/2004 (PÁGINA A13) 01/06/2004 (PÁGINA A13) 94 ANEXO 3 – O DIA: MATÉRIAS PRINCIPAIS NA COBERTURA 30/05/2004 (PÁGINA 12) 31/05/2004 (PÁGINA 08) 01/06/2004 (PÁGINA 11) 95 ANEXO 4 – O GLOBO: MATÉRIAS PRINCIPAIS NA COBERTURA 30/05/2004 (PÁGINA 20) 31/05/2004 (PÁGINA 10) 01/06/2004 (PÁGINA 13) 96 ANEXO 5 – TABELA DISCRIMINADA DAS FONTES OFICIAIS O Dia Jornal do Brasil O Globo Fontes 30 31 01º Total 30 31 01º Total 30 31 01º Governo X X X X X X X X X 01 X Total Total Geral 01 01 Secretaria de Administração Penitenciária Secretaria de Segurança Pública Tenentecoronel Álvaro Garcia Coronel Fernando Belo Subsecretário da Sesp Paulo Couto Coordenador César Campos Coronel Renato Hottz Negociadores X 01 X 01 X 02 01 03 01 01 01 03 07 X X X X 01 X X 01 X X X X 01 X X X X X 01 X 01 01 X X 01 02 X X X X 01 X X 01 X X X X 01 01 X X 01 X X X X X X X X 01 X X X X X X 01 01 X X X X 01 X X 01 01 X X X X X X X X 01 X 01 X 01 X X X X X X X X 01 Sindicato 01 01 X 02 X 01 01 02 01 01 X 02 06 Deputado Geraldo Moreira Conselho da Comunidade (Marcelo Freixo) Defensor Leonardo Rosa de Melo TOTAL DE FONTES X X 02 02 X 04 X 04 X 04 01 05 11 X X 01 01 X X X X X X 01 01 02 X X 01 01 X X 02 02 X X X X 03 02 03 05 10 02 08 05 15 03 07 03 13 38 97 ANEXO 6 – TABELA DISCRIMINADA DAS FONTES OFICIOSAS O Dia Jornal do Brasil O Globo Fontes 30 31 01º Total 30 31 01º Total 30 31 01º Asp’s X X X X 02 X X 02 X X X Total Total Geral X 02 Policiais X X X X X X X X 02 X X 02 02 Bombeiros X X 01 01 X X X X X X 01 01 02 TOTAL DE FONTES 01 02 X X 02 02 X 01 03 06 X X 01 98 ANEXO 7 – TABELA DISCRIMINADA DAS FONTES INDEPENDENTES O Dia Jornal do Brasil O Globo Fontes 30 31 01º Total 30 31 01º Total 30 31 01º X Total Total Geral 03 07 Morador 02 X X 02 02 X X 02 03 X Presos 01 01 X 02 01 02 01 04 01 01 01 03 09 Parentes dos presos Ângelo Borgatti (filho do asp morto) Pastor Marcos Pereira da Silva Outras pessoas 01 X X 01 01 01 X 02 01 01 X 02 05 X X X X X X X X X 01 X 01 01 X X X X X X X X X X 01 01 01 X X 01 01 X X X X X X X X 01 TOTAL 04 01 01 DE FONTES 06 04 03 01 08 05 03 02 10 24 99 ANEXO 8 – OFÍCIO DO SECRETÁRIO DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA AO JUIZ DA VEP GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Secretaria de Estado de Administração Penitenciária OF. Nº /GAB/SEAP/04 Em 23 de julho de 2004. Excelentíssimo Senhor Dr. CARLOS AUGUSTO BORGES DD. Juiz Titular da Vara de Execuções Penais Meritíssimo Juiz, É da sabença jurídica que o art. 80 da Lei de Execução Penal estabelece a composição do Conselho da Comunidade com representações de associação comercial ou industrial, um advogado indicado pela seção da Ordem dos Advogados do Brasil e um assistente social escolhido pela Delegacia Seccional do CNAS. Estabelece, ainda, o parágrafo único do referido artigo, que na falta de representação prevista ficará a critério do Juiz da Execução a escolha dos integrantes do Conselho. No Rio de Janeiro, observamos que o atual Presidente do Conselho, além de não ser residente nesta comarca, é tão-somente um integrante do chamado 3º Setor, ou seja, membro de uma organização não-governamental (ONG), ao que parece internacional, não se sabendo ao certo qual atividade a que se dedica para sua manutenção. Diz-se, isto, em face da descaracterização evidente do 3º Setor que é, ou deveria ser, apoiado no trabalho voluntário. Pelo que se tem visto, o reconduzido ou reeleito para referida função desenvolve tremendo esforço para se manter presente na mídia, não raro veiculando notícias nem sempre verdadeiras e sempre focadas na segurança pública e na administração penitenciária. A respeito disso, V.Exa. é testemunha do que o cidadão Marcelo Freixo fez veicular sobre os episódios de Benfica, dizendo ter comunicado ao Juiz da Execução fatos prevenindo-o do que haveria de ocorrer, quando, na realidade, o fez através de e-mail, após ter saído a notícia nos jornais e ser questionado por esse Juízo, conforme V. Exª teve oportunidade de relatar a este secretário e ao subsecretário Dr. Aldney, no seu gabinete. Experiência idêntica tivemos com o mesmo cidadão no ano passado. 100 Acrescentando ao comentado o fato de que não se observa representação expressiva da sociedade organizada, daquelas previstas na lei, as quais naturalmente apontam para uma oportunidade de revezamento no Conselho, eis que todas elas são geridas com cargos eletivos com base em disputa de escrutiníos de classe, tudo leva a crer que a composição do Conselho não tenha seguido as observações do caput do art. 80, limitando-se a acolher sempre os mesmos que se apresentam e com isso utilizando o que possibilita o parágrafo único permanentemente. Fica fácil para qualquer um imaginar o volume de problemas criados por pessoas movidas por esses interesses estranhos, em meio às naturais dificuldades do universo prisional, em total falta de sintonia com o inciso IV do art. 81 da LEP que incumbe ao Conselho da Comunidade, como tarefa precípua, dentre outras disposições, diligenciar a obtenção de recursos materiais e humanos para melhor assistência ao preso ou internado, em harmonia com a direção do estabelecimento Diante do exposto e considerando, ainda, que ao Conselho da Comunidade temos que franquear os estabelecimentos prisionais para as suas visitas e ter um órgão colegiado o Conselho Penitenciário - , indicado por nós, para receber os seus relatórios, e ainda na esteira do parágrafo único do art. 80 da LEP, solicitamos a V.Exa. que nos encaminhe o ato formal, desse Juízo, de acordo com o inciso IX do art. 66 da LEP, que compôs e instalou o atual Conselho da Comunidade, de modo que possamos inscrevê-lo e habilitá-lo ao acesso às unidades, já que jamais nos foi apresentado, em que pese nunca ter sido tal fato motivo para obstruir o trabalho de seus membros, bem como rogamos que sejam sopesados os argumentos expostos no corpo deste documento, todos com o objetivo de reforçar a transparência necessária a tão importante órgão de execução, cuja constituição é da responsabilidade desse respeitável Juízo. Na certeza de estar colaborando com V.Exa. na espinhosa tarefa que abraça de maneira tão digna, colho o ensejo para reiterar os nossos protestos de consideração e apreço. ASTÉRIO PEREIRA DOS SANTOS Secretário de Estado de Administração Penitenciária 101 ANEXO 9 – RELATÓRIO DO CONSELHO DA COMUNIDADE SOBRE A CASA DE CUSTÓDIA EM BENFICA NO DIA 11 DE MAIO DE 2004 Relatório da visita do Conselho da Comunidade à Casa de Custódia de Benfica Data da visita: 11/05/2004 Data da inauguração da unidade: 05/04/2004 Motivo da visita: visita de rotina para conhecer a nova casa de custódia. Diretor: Major PM José Roberto do Amaral Lourenço Subdiretor: Ainda não assumiu o cargo. Segundo o diretor será um Capitão da PM. Capacidade: 1311 Número de presos no dia da visita: 862 Equipe técnica: • • • • • • Médicos: 2 Dentistas: 1 Assistentes sociais: 2 Psicólogo: 1 Técnicos ou auxiliares de enfermagem – 3 Assistente jurídico - 1 Segurança interna: • Agentes penitenciários: 4 por turno – escala 24/72 • PMs da Cooperativa: 25 por turno – escala Segurança externa: • 25 Policiais Militares por turno Entrevista com o Diretor: Iniciamos a visita com uma conversa com o diretor que relatou o seguinte: • A Casa de Custódia foi construída onde antes funcionava um Batalhão da PM e desde que foi inaugurada, apresentou diversas falhas estruturais e de segurança. Quando começou a funcionar várias janelas ainda estavam sem grades; em poucos dias o asfalto na base do alambrado que cerca o pátio do banho de sol cedeu e devido a problemas na impermeabilização há vários pontos de vazamento (inclusive na sala da Direção). 102 • A maioria dos presos da Casa de Custódia diz ser integrante do Comando Vermelho. A unidade é dividida em 7 galerias: 4 com capacidade de 288 presos cada e 3 abrigando um total de 162 presos. Nas 4 maiores estão os presos que dizem ser do Comando Vermelho e nas 3 menores ficam os presos do 3o Comando, os neutros e os que pediram seguro. • A rotatividade da unidade é muito grande, havendo um número expressivo de presos condenados, cujos casos estão sendo priorizados pelo serviço jurídico (até o momento já haviam sido identificados 60 presos que referiam estar nessa situação). • Não existem presos faxinas nesta casa de custódia. Para a limpeza e serviços gerais a unidade conta com os serviços de 10 funcionários da empresa VIGO. A alimentação é fornecida pela empresa Hambre (palavra que quer dizer fome em espanhol) que mantém na unidade 6 empregados encarregados do transporte e manuseio da alimentação. Segundo o diretor a empresa também mantém no local uma nutricionista. • A comida servida para os presos é igual a dos funcionários, mas enquanto a dos primeiros é acondicionada em quentinhas, a dos funcionários é distribuída em containers. Inicialmente havia muitas queixas da comida, mas após reclamação do diretor a qualidade melhorou. • O transporte dos presos para o Fórum é feito pela Polinter. O Serviço de Operações Externas (SOE) só é responsável pelos translados motivados por problemas de saúde. • Provisoriamente (até o término do reparo no pátio externo), o banho de sol está sendo realizado no corredor das galerias. • Perguntado se houve algum incidente importante durante esse mês de funcionamento, o diretor relatou três episódios: a depredação de um alambrado de proteção das celas da Galeria A, cujo material seria usado para fazer facas e estoques; uma briga entre os presos, como desdobramento do problema na Favela da Rocinha e um problema na D6 quando os presos recusaram-se a permitir a revista daquela cela. Condições da unidade: Visitamos a parte administrativa da casa de custódia que se encontrava em boas condições. Conhecemos o refeitório dos funcionários (onde observamos não haver nenhuma pia) e o alojamento dos guardas, cujas camas contavam com estrados que pareciam ter sido feitos artesanalmente e com ripas de madeira finas e frágeis. Conversamos com um dos guardas cooperativados (um PM aposentado que anteriormente trabalhava em policiamento) a quem perguntamos sobre o treinamento que ele recebera para atuar na nova função. Evidentemente constrangido e encerrando rapidamente a conversa, o funcionário disse ter 103 feito um curso composto por 9 aulas onde aprendeu noções gerais sobre leis. Ainda no primeiro andar, vimos a cela chamada pelos presos de “porquinho”, onde ficam os presos que aguardam o transporte para o hospital, ou o atendimento técnico na própria unidade. No local constatamos a presença de 5 internos (um deles não chegou a dizer-nos seu nome), sendo que dois (Alex Cardoso de Gouveia e Rodrigo de Medeiros Silva) se queixaram de terem sido espancados pelo SOE (corredor polonês e agressões com uma toalha molhada) há mais ou menos três semanas. Presos que aguardavam atendimento médico: Alex Cardoso de Gouveia – clínico geral Rogério Santos Caldeira – urologista Marcos Paulo de Oliveira Silva – ortopedista Rodrigo de Medeiros Silva – ortopedista Visita às galerias : No segundo andar, onde ficam as galerias A, B e C estão custodiados os presos do 3o Comando, neutro e os que pediram seguro. As galerias A e B, dos presos neutros e do 3o Comando estavam, naquele momento, no horário de visita. Entramos e conversamos com os presos e seus familiares, observados à distância pelos funcionários. Vários manifestaram temor por estarem na mesma unidade que os presos do Comando Vermelho e imploravam por sua transferência. Além disso, referiam que a própria unidade, cercada por sete favelas, estava localizada em área “dominada” pelo Comando Vermelho, o que além de se constituir em risco para as suas vidas era também uma ameaça para os seus familiares que seguidamente sofriam agressões verbais de pessoas da comunidade. Reforçando imediatamente esse apelo uma das mães chegou a desmaiar. Quase todos diziam ser sobreviventes ou testemunhas de um massacre ocorrido na Polinter em novembro de 2003, onde oito integrantes do Terceiro Comando teriam sido mortos por presos do Comando Vermelho. Agora tinham sido informados que seus inimigos estavam bastante armados e que a qualquer momento desceriam para “terminar o serviço”. Disseram inclusive ter visto subirem armas por uma marimba, o que segundo eles também foi visto pelos PMs. Reconheceram que quebraram as grades das janelas para fazer estoques, segundo afirmaram para se defender de uma nova agressão e afirmaram que após o recolhimento dos estoques houve uma sessão de espancamento. Seis presos que teriam sido espancados deram seus nomes: Kleber Luis Ferreira de Souza; Delci Rodrigues dos Santos, Rogério Gomes Brum, Wagner de Lima, Welington Brás Feitosa e João Luis Mendes Ribeiro Gonçalves. Disseram que o espancamento ocorreu no corredor da galeria, com cabos de vassoura, pontapés, socos e chutes, no dia 19 de abril. Segundo eles, o diretor esteve presente durante parte do espancamento e participaram da agressão 6 funcionários (o único nome citado foi o do Sr. Souza). Por último, se queixaram do atendimento médico, afirmando que só recebem atendimento quando estão muito mal. Presos deste andar que solicitaram atendimento médico: Kleber Luis Ferreira de Souza 104 No 3º andar visitamos 2 galerias onde estavam presos do Comando Vermelho. Na cela E2, com capacidade para alojar 36 presos em 12 triliches, já havia 32, procedentes da 31ª DP. Destes, oito referiam já ter sentença transitada em julgado. Vários se queixavam que já estavam na unidade há mais de 30 dias e até o momento não tinham sido chamados para atendimento jurídico ou social. Além disso reclamaram dos vazamentos, do sistema de água que é racionado (ligado apenas 3 vezes por dia, durante 15 a 20 minutos) e controlado externamente (inclusive a descarga dos sanitários); da falta de remédios; do banho de sol (feito no corredor da galeria, onde não bate sol); da falta de material de limpeza (disseram ter recebido apenas 3 sabonetes para 32 presos); do desaparecimento das roupas e valores trazidos por ocasião de sua chegada e da comida, que muitas vezes chega estragada. Quanto às visitas, se queixaram da revista aos familiares (especialmente das mães e mulheres grávidas que também são obrigadas a tirar a roupa e se agachar) e da morosidade dos procedimentos que freqüentemente reduzem o tempo da visita para apenas 1 hora por semana. Por último, referiram ter sofrido espancamento coletivo, por parte do SOE, há 2 semanas e disseram que são deixados por várias horas aguardando atendimento médico “no porquinho” (muitas vezes sequer conseguem ser atendidos), onde freqüentemente são obrigados a ficar junto aos presos da facção inimiga. Na cela D3 havia 34 presos que basicamente reclamaram dos mesmos pontos. Presos deste andar que solicitaram atendimento médico: Anderson Rodrigues – dermatologia Edson Monteiro da Silva – clínica geral Alexandre Guimarães Pacheco – otorrinolaringologista Adriano Marques Rodrigues – dermatologia Marcos Vinícius Ferreira da Silva – dermatologia Antonio Ferreira Correa – cirurgia Ilson da Silva – otorrinolaringologista Francisco de Paula Chagas Souza – dermatologia Tiago Ferreira do Nascimento – clínica geral Leonardo Ferreira Campos – dermatologia José Félix da Silva Filho – dermatologia Alexandre da Silva Teodoro – dermatologia Wiliam Gomes da Silva – pneumologia Denis Rodrigues de Farias - neurologia Presos deste andar que referiram sentença transitada em julgado: Leandro Gonçalves da Silva Sebastião da Silva Peres Filho Leandro Roberto Carvalho Guimarães Marcos Vinícius Ferreira da Silva Edson Monteiro da Silva Fábio Guimarães Antonio Ferreira Correa 105 Nova conversa com o diretor Em nova conversa com o diretor, este negou a colocação de presos de facções diferentes na cela de espera (porquinho). Igualmente negou todas as outras alegações em relação à falta de material de limpeza, explicando que deixara de entregar o papel higiênico para algumas celas como forma de castigo pelo uso inadequado do material (segundo ele, o papel estava sendo usado como serpentina e jogando pela janela). Em relação ao banho de sol informou que esta é uma solução provisória até que o pátio externo fique pronto, o que deverá ocorrer na próxima semana. Quanto aos pertences e ao dinheiro que os presos alegavam que havia desaparecido, negou a possibilidade, embora tenha admitido que recebeu muitas reclamações. Ele afirmou que parte dos pertences foi entregue aos familiares e o restante liberado aos presos. Inclusive garantiu que ele mesmo ajudou neste procedimento. Em relação à acusação de espancamento ele negou terminantemente, admitindo, no entanto, que houve denúncias de abuso cometidas por um funcionário, que foi afastado. Ao final de nossa conversa entregamos a lista de pedidos de atendimento médico que o diretor atendeu prontamente. Representantes do Conselho da Comunidade da Comarca do Rio de Janeiro presentes nesta visita: Marcelo Freixo, Tania Kolker, Patrícia Galvão e Padre André Hombrados. Representantes do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro: Dr. Leonardo Rosa e Dr. Alexandre Paranhos.