“
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A literatura não veio
para salvar o mundo
Letras
07
RONALDO CAGIANO
ESCRITOR BRASILEIRO EM ENTREVISTA
FEVEREIRO- 2014 | Nº06 | DIRECTOR: EDUARDO QUIVE
Ensaio sobre
Nós, os do Macurungo
de Adelino Timónio
ensaio 12
UM MAKONDE CHAMADO
CASIMIRO NHUSSI
Fundação Ilha de
Moçambique
artes
19
artes
23
Í
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FEVEREIRO 2014
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02
NDICE
04/05 - Efeméride
18 - Artista do Mês 17 - Música
A festa do Canhú
Rahima
DIVULGAÇÃO
Mondlane
Arquitecto da Unidade
Nacional
07/14 - Letras
07
Entrevista a
Ronaldo Cagiano
A busca e o paradoxo, os
alicerces da construção
12 identitária em
Nós, os do Macurungo
15/17 - Galeria
18
Nuances de Marcos Vieira
Escultura
Seja um de Nós. Escreva-nos pelo e-mail: [email protected]
E
FEVEREIRO 2014
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03
ditorial
20 ANOS SEM UM GRANDE
MESTRE
F
DIRECTOR
Eduardo Quive
Edição Mensal n.º 06
Matola — Fevereiro 2014
Distribuição electrónica
oi no dia 19 de
de Mandlakaze, província de Gaza
mente, a conviver com o detalhe
Fevereiro
que
onde nasceu a 25 de Fevereiro de
de Chissano.
um dos emble-
1934 foi educado pela mãe e pelos
Alberto Chissano era um
máticos esculto-
avós. A avó, uma curandeira
homem versátil. De guardador de
res do País morreu quando falta-
famosa, ensinou-lhe um vasto
rebanhos, aprendiz de alfaiate,
vam apenas seis adias para cele-
mundo simbólico que, de certa
empregado doméstico, mineiro,
brar seu aniversário, que se assi-
forma, influenciou a sua arte.
militar e empregado do Núcleo de
nala a 25 de Fevereiro. Um mes-
Outra das influências marcantes
Arte de Maputo terminou com o
tre. O quintal onde Chissano
no seu trabalho é a cultura tradi-
título de mestre em escultura,
esculpiu muitas das suas obras
cional changana que conheceu de
essa arte para qual entrou nos
logo após seu desaparecimento
perto.
anos 60, a conselho do pintor
físico transformou-se num museu
ENDEREÇO
Av. Mártires da Machava, 904
Bairro Patrice Lumumba - Matola
E-mail: [email protected]
Celular: +258 82 27 17 645
COLABORADORES
António Joaquim Marques (Angola)
Carlos dos Santos
José dos Remédios
Palmira Marques (Timor Leste)
Tito Selemane
FOTOGRAFIA
Bantus Imagem
Marcos Vieira (Brasil)
PROJECTO GRÁFICO
Bantus Imagem
nasceu
Malangatana e fez a sua primeira
e ainda mantém-se a Galeria em
destinado a mestre. Em 2012,
exposição 1966. A sua obra conti-
que
mesmo depois da sua morte, foi
nua cuidadosamente tratada e
condecorado com Doutor Honores
cuidada pela família.
Ainda hoje a obra do mestre
Causa pela primeira instituição de
Chissano
Chissano gera uma nostalgia. Há
ensino superior de artes da Mato-
como sua matéria-prima. Algu-
uma triste razão de Ser e Estar
la, o Instituto Superior de Artes e
mas das suas obras atingem cerca
com que o Mestre assinava inde-
Cultura.
de três metros de altura.
Chissano
recebia
visitas
daqueles que amam sua arte.
Alberto
Chissano
tinha
madeira
levelmente as suas obras. Ora é o
É importante manter a obra
povo, ora as críticas ao poder.
A tristeza está estampada
do mestre e levar a mais pessoas.
Chissano
dos
em muitos detalhes da sua obra.
20 anos sem o mestre, a ideia é
pobres‖. E a sua obra faz jus ao
Mais do que a sua, era a angústia
fazer com que o Museu e Galeria
seu palavreado. Porque os artistas
do povo afectado por muitos
Chissano seja um recanto sagrado
não morrem, e para o caso deste,
males. E essa angústia até hoje
da vida e obra de Alberto Chissa-
os seus ensinamentos ficaram.
reina, quando sempre que faltar
no bem como um ponto de fuga da
Hoje Chissano ainda tem uma
seis dias para se celebrar seu ani-
sua experiência para outras mar-
legião de discípulos que alastram
versário ter que antes se celebrar
gens. No município da Matola,
as suas ideias e utopias.
a sua morte. Nasce a 25 de Feve-
cidade privilegiada desse acervo, o
reiro, mas antes morre a 19 do
Órfão de pai desde nasci-
Governo já incute aos estudantes
mesmo mês…
mento, Alberto Chissano natural
do ensino secundário, particular-
dizia-se
―deus
E
FEVEREIRO 2014
[email protected]
04
feméride
UKANYI – UM PRETEXTO PARA
AMIZADE
Q
uando o ano começa os
habitantes de Marracuene tem muito que celebrar, mas a maior razão
para que o ano se inicie é a chegada de
um presente da natureza cujas atenções
e repercussão atinge até os menos atentos.
Em Fevereiro o distrito de Marracuene é o centro das atenções porque os
canhueiros que originam um fruto doce
chamado canhú trazem a oportunidade
de se produzir uma bebida afrodisíaca: o
Ukanyi, ou a bebida feita a partir do
Canhú.
Depois de um longo intervalo em
que as pessoas foram se ocupando de
produzir nos campos agrícolas é preciso
que chegue meses como Janeiro e Fevereiro para os canhueiros darem ao
homem o fruto pelo qual se pode produzir o Ukanyi. E é na companhia de Ukanyi que o povo agradece a Deus, ou aos
deuses, descendentes familiares que
foram generosos no final da época agrícola, trazendo muito amendoim, milho,
mandioca, feijão entre outros alimentos
que vem do cultivo da terra. E nessa época, até a visita é também bem-vinda, afinal não há fome nem sede.
Percorremos alguns quilómetros
da capital do país para o portão de entrada ao distrito de Marracuene, fronteira
sul com a cidade de Maputo, uma extensão de terra de 666 Km quadrados e uma
população de 157.642 habitantes de
acordo com o CENSO de 2007.
Entramos pelo bairro Kumbeza,
onde em língua ronga encontramos um
dos homens famosos produtores desta
bebida, Armando Zimba, ou Ndzimba,
como nessa língua se transformam os
nomes e os homens tratados pelos seus
apelidos. Ndzimba é um conhecedor da
tradição do Ukanyu e nas suas capacidades tenta preservar. Mas este ano a
angústia é que tomou o espaço da alegria
que a bebida feita com o fruto do
canhueiro poderia trazer. Tatana Ndzimba
conta-nos que não produziu o Ukanyu
nesta época, tudo por culpa do desenvolvimento: ―os canhueiros foram destruídos
dando espaço a construção de casas‖.
Ndzimba conta que em anos passados, aquelas terras – Marracuene – eram
ricas em canhueiros e por conta disso, a
tradição de Ukanyi era uma certeza em
todas suas épocas. Agora o espaço é tomado pela angústia quando chega a vez de se
tomar essa bebida porque muitos produtores não têm mais acesso, não obstante os
poucos que ainda resistem. A outra angústia do ancião é o facto do Ukanyi ser ultimamente um produto comercial, violando
a grande regra dos antepassados. Ele
explica aquele que era o uso correcto da
bebida:
―Antigamente o Ukanyi era um pretexto para festejo, união, solidariedade e
reconciliação. Toda a população juntavase no círculo do bairro ou na casa do líder
tradicional cada um, com a sua quantida-
de de Canhú comidas e potes para que
todas as festividades se façam sob tutela
do líder. Ali na presença de todos, o
mukhulo – líder tradicional, régulo – faz
a cerimónia do Kupahla, esse acto no
qual invocam-se os nomes dos antepassados da zona e de outros espíritos confiados, agradecendo as conquistas
durante o ano e renovando os pedidos
para os próximos dias.‖
Depois disso a festa, os tambores
acompanham a alegria que vem nos
corações de cada um, os cânticos tradicionais e as respectivas danças. Aí as
mulheres e os homens com as crianças a
volta, reafirmam a unidade e, para o caso
concreto, a moçambicanidade celebrase. O Unkanyi torna-se, desse modo,
numa tradição que consolida a harmonia
e bem-estar sociais. Todas as mágoas são
esquecidas e perspectivam-se novas
acções, de acordo com Ndzimba, que
apesar de temer a sede este ano, não deixa de esperar dias melhores.
E
FEVEREIRO 2014
[email protected]
05
feméride
Dr. Eduardo Mondlane
ARQUITECTO DA
UNIDADE NACIONAL
E
du ardo
Ch iv amb o
Mondlane, com o prestígio inigualável de ser
chamado ―arquitecto
da Unidade Nacional‖ dos moçambicanos, nasceu em Manjacaze, província
de Gaza a 20 de Junho de 1920. Foi
um dos fundadores e primeiro presidente da Frente de Libertação de
Moçambique (FRELIMO), a organização que lutou pela independência
de Moçambique do domínio colonial
português. A sua morte ―prematura‖
foi a 3 de Fevereiro de 1969 em Dar
es-Salaam, Tanzânia. O dia da sua
morte, assassinado por uma encomenda-bomba, é celebrado em
Moçambique como o Dia dos Heróis
Moçambicanos
Filho de um chefe tradicional,
Mondlane estudou inicialmente
numa missão presbiteriana suíça
próxima de Manjacaze, mas viria a
terminar os seus estudos secundários numa escola da mesma igreja na
África do Sul. Após ter sido expulso,
na sequência da subida ao poder do
Partido Nacional, da Universidade
de Witwatersrand, onde cursava
Antropologia e Sociologia, seguiu estudos, usufruindo de uma bolsa, na Universidade de Lisboa. Aí conheceu outros
estudantes que viriam a ser os líderes
dos movimentos nacionalistas e anticoloniais de vários países africanos, como
Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Termi-
naria os estudos nos Estados Unidos,
frequentando o Oberlin College (Ohio) e
a Northwestem University (Evaston, Illinois) e vindo a obter o doutoramento em
Sociologia.
se, em Nova Iorque.
Em 1961, visitou
convite da Missão Suíça,
com vários nacionalistas,
ceu de que as condições
Trabalhou para as Nações Unidas,
no Departamento de Curadoria, como
investigador dos acontecimentos que
levavam à independência dos países africanos e foi também professor de história
e sociologia na Universidade de Syracu-
para o estabelecimento de um movimento
de libertação. Por essa altura e independentemente, formaram-se três organizações com o mesmo objectivo: a UDENAMO (União Democrática Nacional de
Moçambique), a MANU (Mozambique
African National Union, à maneira da
Moçambique, a
e teve contactos
onde se convenestavam criadas
KANU do Quénia e de tantas outras) e a
UNAMI (União Nacional Africana para
Moçambique Independente). Estas organizações tinham sede em países diferentes e uma base social e étnica também
diferentes, mas Mondlane tentou uni-las, o que conseguiu,
com o apoio do presidente da
Tanzânia, Julius Nyerere – a
FRELIMO foi de facto criada na
Tanzânia, com base naqueles
três movimentos, em 25 de
Junho de 1962, e Mondlane foi
eleito seu primeiro presidente,
com Uria Simango como VicePresidente.
Eduardo Mondlane morreu a 3
de Fevereiro de 1969 ao abrir
uma encomenda que continha
uma bomba, na casa de uma exsecretária sua, Betty King. Suspeita-se que a encomenda teria
sido preparada em Lourenço
Marques, pela PIDE, a polícia
secreta portuguesa, mas como
chegou às suas mãos e por que
foi ele a abri-la nunca ficou
esclarecido.
Mondlane deixou viúva, Janet
Mondlane e três filhos. Mais importante,
deixou um livro, "Lutar por Moçambique", que só foi publicado alguns meses
depois da sua morte, onde detalha como
funcionava o sistema colonial em
Moçambique e o que seria necessário
para desenvolver o país.
B
FEVEREIRO 2014
[email protected]
06
reViDAdeS
Morreu poeta
Virgílio de Lemos
C
onhecido pela sua poesia de intervenção
social, Virgílio de
Lemos foi um escritor
de combate que lutou através das letras,
contra a opressão colonial. Da geração
de José Craveirinha e Noémia de Sousa,
o poeta moçambicano publicou seus
primeiros poemas em 1947, cujo conteúdo foi censurado pelo regime português,
tendo sido preso pela PIDE. Foi também
incriminado porque mandava informações sobre Moçambique para o exterior.
Lemos perdeu a vida na região de
Nantes, Oeste da França, vítima de
paragem cardíaca após meio ano em
coma e nos últimos dias em estado vegetativo.
A família conta que Lemos esteve
durante muito tempo hospitalizado e
chegou a dizer a esposa que preferia
morrer porque já estava cansado da vida
que levava.
O poeta moçambicano teve AVC
e, à posterior, foi submetido a uma
intervenção cirúrgica e veio a perder a
fala. Na madrugada de sexta-feira,
Lemos perdeu a vida vítima de paragem
cardíaca.
A família Lemos avança ainda
que aguarda informações concretas relativas ao seu funeral, mas adianta que o
poeta será cremado e deixou algumas
orientações sobre a forma como quer
que a cerimónia decorra.
Estudantes do ISArC levam a cabo
festival Kulimar
―
É preciso humanizar o
ensino, é preciso tornar o
ensino um processo de
interacção, liberdade e
democracia. Quando isso acontece, o
contacto é mais real e verdadeiro. Não
se pode pensar na educação colocando
à parte a questão humana‖
Enterraram-se os tempos em
que o homem moçambicano era
escravizado pelo vazio artístico cultural apregoado pelas mentes ignorantes e agarradas ao conceito de que a
cultura só serve para divertimento.
Engana-se quem um dia assim pensou,
aliás, não é preciso justificar com palavras essa falsidade, é só buscar o
grandioso acto que veio provar uma
vez mais que as artes e cultura podem
ser o ponto de partida para se constituir uma sociedade sólida, cultural e
economicamente - O Festival Kulimar
realizado pelo Instituto Superior de
Artes e Cultura. Será esta uma
revolução cultural?
Isaú Meneses nega e repudia a
ideia cega de que a cultura é brincadeira. O músico moçambicano falava
na inauguração de uma exposição
mista, aberta por ocasião do Kulimar.
O artista disse que a qualidade da produção actual significa que as artes não
são brincadeira como já foram intituladas. ―É preciso que o estudante das
artes e cultura se empenhe na
contínua busca de qualidade para sustentar de forma concreta a importância das artes e cultura na sociedade‖.
António Sarmento, docente de
Artes no ISArC e peça chave no comando de todas as manifestações
artísticas que marcaram o Festival Kulimar, refere que toda a produção exibida no mesmo é fruto, de algum
modo, do que ele chama de humanização do ensino.
Os ventos letreiros de centro…
E
les foram respeitosos,
pediram licença, portanto, é justo que se
lhes receba. Entrem
poetas, cronistas e escritores da chamada terra do Chiveve. É da Beira, o leito
de muitos nomes sonantes das nossas
literaturas. Eles denominaram-se
sopradores de letras através da revista
que deram nome de Soletras. Uma instigante embarcação cheia de palavras
que percorre os megabytes do Índico
para nos chegar pelos correios electrónicos. Não surpreende-nos tal atitude,
Moçambique é um país de pensantes, o
escritor aqui, deve procurar o meio pelo
qual se deve afirmar. Tal aconteceu em
quase todas gerações literárias, tome-se
o exemplo de Charrua – a mais propalada – como a ideal excitação. São provocativos com os seus ―compadres‖ de
Maputo e a própria complexidade do
país ―literário‖:
―Foi a pensar em tudo isso que
decidimos avançar com a presente proposta. Ela não é nova, vem juntar-se à
Literatas em (hibernação?) e espaços
como associações de jovens, seminários
e colóquios, jornais, revistas, todos eles
com fins literários‖ disse Cremildo da
Cruz em editorial.
O editor vai em frente na sua
escrita, definindo a Soletras como aquela que vem ―responder a essa falta de
espaços e órgãos de que os jovens escritores principiantes e aspirantes há muito precisavam como forma de continuarem a alimentar o seu vício de escrita‖.
Nós, concordamos com o tal
intento dos escribas da Beira que já se
definiram como os ―sem território‖.
Dany Wambire, o sempre actual cronista é quem comanda esse barco. Para
quem já esteve em Maputo e fez a travessia do centro da cidade para Katembe, saberia justificar esse barco com o
nome de Bagamoyo. Resta-nos que se
cumpra a promessa de que nos chegue
regularmente esse novo lugar de letras,
a Soletras, Sopradora de Letras.
Portugal condecora
Ungulani e Paulina
Chiziane
O
s escritores moçambicanos Ungulani Ba
Ka Khosa e Paulina
Chiziane foram recentemente condecorados com o grau
Grande Oficial da Ordem do Infante D.
Henrique. O Presidente da República
Portuguesa, Cavaco e Silva, na mensagem sobre as Ordens Honoríficas,
afirma:
―a distinção, sob a forma de condecorações, do serviço prestado no exercício de cargos públicos, do mérito
artístico, científico ou empresarial, é
uma tradição que devemos cultivar,
pelo prestígio que as Ordens Honoríficas possuem para os agraciados e,
acima de tudo, pela circunstância de
permitirem destacar personalidades e
instituições verdadeiramente notáveis,
que devem servir de modelo à nossa
sociedade.‖
A atribuição destas condecora-
ções é sinal inequívoco do apreço e do
reconhecimento, ao mais alto nível do
Estado português, por estes dois escritores e intelectuais moçambicanos, que
se destacam pelo grande contributo que
têm dado para o enriquecimento das
letras moçambicanas e para a divulgação de Moçambique e das suas culturas
a nível internacional.
L
FEVEREIRO 2014
[email protected]
07
etras
“
A LITERATURA
NÃO VEIO PARA SALVAR O MUNDO
RONALDO CAGIANO, ESCRITOR BRASILEIRO
Eduardo Quive
[email protected]
U
m tal de Ronaldo Cagiano, brasileiro, mandou-me um livro. A obra que me chegou em Maputo
tinha como título “O SOL NAS FERIDAS”. Devorei o livro na mesma tarde que o correio alertoume da encomenda que atravessou oceanos. Só depois conheci o perfil do escritor. Mineiro de
Cataguases, Ronaldo Cagiano, residiu em Brasília e está já em São Paulo - lê-se na biografia do
homem. Uma poesia escrita com veia e sangue. Há pessoas, há lugares, há dores, odores e frustrações, uma espécie de outra versão de “Stress” de Lília Momplé. Li e reli a obra e tudo acabou no reconhecimento. Aqui me está “o” poeta. De seguida chegou-me outro livro com título “Dicionário de Pequenas Solidões”, dessa
vez era conto. E fui navegando sem medo de me decepcionar na fúria desse escritor cujo primeiro contacto geroume a fidelidade à sua escrita. Aos 52 anos de idade Cagiano só tem estórias de vida a contar, a veia é a mesma, há
um escritor que persiste, há um cronista de binóculos acesos à uma sociedade incendiada. As chamas estão hasteadas, agora, resta a fumaça… E a sua escrita é capaz de criar um espaço desconhecido no leitor. Aqui o poeta, o
contista, e suas histórias nesta incursão pelo discurso directo.
l
FEVEREIRO 2014
[email protected]
08
etras
NÓS - Da sua produção literária apenas conheço dois livros,
o suficiente para a minha viagem
na sua poesia e prosa. Livros
afora, porque não sei quem é o
autor dessa escrita enxuta.
Comece por definir-se. Quem é
Ronaldo Cagiano?
RONALDO CAGIANO - Creio
que aquilo que disse Fernando Pessoa,
possa traduzir de certa maneira o
espírito e a essência que percorrem o
ser e o escritor que simbioticamente
guases é teu útero. Fale-me desse
lugar e das lembranças que guarda
dele.
- Às margens do rio Pomba, essa
hidrografia sentimental que serpenteia
pelos contrafortes das montanhas de
Minas Gerais, há essa cidade com sua
história, sua mitologia, suas tradições e
seu povo permeado de contradições. É
ela o berço do menino e o território das
primeiras e marcantes experiências do
homem, tanto no campo afectivo, quanto
no psicológico e no intelectual. A cidade
sonância do movimento modernista de
1922, que ocorreu em São Paulo e revolucionaria as artes no Brasil. Alguns
jovens estudantes da cidade, entre eles
Rosário Fusco, Francisco Inácio Peixoto,
Enrique de Resende, Guilhermino César
e Ascânio Lopes criaram essa revista,
com ousadia e independência, recebendo
colaboração dos principais nomes do
modernismo paulista e carioca e também
do exterior, a ponto de o escritor Ribeiro
Couto exclamar: "Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases!" Depois, nos
“
A noite revelou-se
aqui como escuridão
impiedosa, uma
nódoa obscura que
não tinha hora nem
tempo para eclodir,
matéria purulenta e
vil da carne violada,
de um espírito conflagrado no território
da pior das madrugadas: a impossibilidade do grito ou da
denúncia. É das
ruínas dessa escuridão abissal, é do
me povoam: "A literatura como toda
arte é a confissão de que a vida não
basta." RC é esse inquilino das palavras que, desde cedo, anterior mesmo
ao útero, já tinha uma ligação placentária com a literatura, pois é ancestral
a minha disposição de tentar estabelecer um diálogo com o mundo por
meio da expressão poética ou ficcional. Desde a mais tenra idade, sentime um estrangeiro nesse "mondo
cane", tentando sempre decodificar as
angústias e as urgências que tanto nos
atormentam. Sou movido pela literatura, a percebo em todos as circunstâncias, talvez esse exílio permanente
que só os livros me possibilitam tornaram a existência possível, algo além
da fugacidade de todos os instantes.
Literatura para mim é chão, teto, pulmão, farol e evangelho. Sou movido
pelas dúvidas e só a palavra me suscita o verdadeiro salto dialético sobre os
escombros de tudo que somos e vivemos.
Pelo menos sei que Cata-
guarda desde os primórdios de sua formação uma certa atmosfera vanguardista. Foi fundada por um militar francês,
Guido Marliére, desertor das tropas de
Napoleão, que às margens do Pomba e
do Meia Pataca encontrou seus primeiros habitantes, os índios Cataguás e que
durante seu processo de instalação, consolidação e civilização recebeu a herança
portuguesa de famílias que se radicaram
na cidade e construíram as bases de sua
economia, centrada na indústria têxtil.
Talvez essa herança ibérica tenha também influenciado na instauração de uma
certa consciência cultural e intelectual,
pois nos primeiros anos do século XX,
Cataguases foi palco de movimentos
estéticos renovadores, que chamaram a
atenção do Brasil e até do exterior. Na
década de 20 o cinema brasileiro surge
na cidade, pelas mãos pioneiras de
Humberto Mauro, que inaugurou o
famoso "Ciclo de Cataguases, com a primeira película, "Valadião, o cratera",
seguido de "Ganga Bruta e "Thezouro
Perdido", os primeiros filmes produzidos
no País. Na mesma década, entre os anos
1927-1929, surge a revista "Verde", res-
anos 50 e 60, uma onda de renovação se
manifesta também na arquitectura e nas
artes plásticas, tendo no escritor e intelectual comunista Francisco Inácio Peixoto a grande alavanca para esse processo, um homem aglutinador, que atraiu
para a cidade obras de arquitectos e pintores importantes, entre os quais Oscar
Niemeyer, Cândido Portinari, Bruno
Giorgi, Jan Zach, Emeric Mercier, Djanira etc. Então, nasci e fui criado numa
cidade que trazia em sua gênese toda a
efervescência cultural e intelectual, que
foram marcantes na minha formação
como sujeito e também serviram de estímulo e catapulta para uma busca também da arte em minha vida. Na esteira
desse clima de profunda inquietação
criadora, surge meu interesse pela literatura, primeiramente como leitor, depois
como escritor.
Na sua poesia encontro os
lugares. Qual é a sua relação com
os lugares, não Cataguases em si
que pouco já vi nos seus livros,
mas Brasília e São Paulo, em particular, parecem os territórios do
ventre dessa madrugada que insistia em
abusar da personagem, que extraí a luz
que trouxesse à tona
o tumor, rasgasse a
placenta de uma indignação, que ficção
adoptou e implodiu
sem complacência.
L
FEVEREIRO 2014
[email protected]
etras
poeta. Quer comentar sobre isso?
- Vivi em Cataguases até os dezoito anos, quando me mudei para Brasília,
capital do País, uma cidade que em tudo
guarda semelhança com o mesmo clima
artístico que povoou meu berço, ainda
que nos últimos trinta anos Cataguases
tenha vivido um certo ostracismo nesse
campo, por culpa e obra de administrações totalmente alienadas de sua verdadeira vocação. Brasília e Cataguases
comportam uma similaridade quando
penso que a capital do País é fruto de
um sonho e de uma ousadia nascidas de
um visionário, Juscelino Kubitschek,
que vencendo toda a oposição hepática
daquele momento ergueu uma cidade
em pleno (e desértico) coração, fazendo
despertar o Brasil, um gigante adormecido, que sempre esteve de costas para o
interior e de frente para o Atlântico. E
Cataguases também, a seu tempo e seu
modo, foi uma cidade que ultrapassou
os limites do provincianismo e da
mediocridade reinantes em qualquer
cidade do interior brasileiro, e num tempo de poucos recursos e valores e costumes tradicionais e arraigados, soube
fazer suas rupturas através da arte, principalmente da literatura e do cinema e
mostrar que havia vida inteligente e pulsante onde muita gente só reconhecia
uma vocação mediana para a economia
agrária ou industrial. Vivi 28 anos em
Brasilia e tomando emprestado uma
frase de Gilberto Gil, Brasília me deu
régua e compasso, mas foi Cataguases
que me concedeu as raízes do que sou
hoje. Toda minha construção literária
tem como respaldo os referenciais de
minha formação inicial e de minhas descobertas e experiências, que remontam
à meninice à beira dos córregos, aos dias
passados na barbearia do meu pai (em
cujo salão engraxei sapatos dos 8 aos 14
anos, e onde recolhi histórias da cidade
e de seu povo), às primeiras leituras nos
livros emprestados da biblioteca do
Colégio Estadual. Esses são os alicerces
que me sustentam até hoje. Se em meus
poemas, há momentos em que dialogo
com Brasília e com São Paulo (onde
moro há 7 anos), é em Cataguases que
busco refúgio, repouso e sustentação,
onde retiro matéria e circunstância para
a confecção literária, ainda que um poema ou um conto nasçam em outros
sítios, no íntimo percebo que essa
ancestralidade e dependência são fortíssimas. Enquanto Brasília e São Paulo
são territórios físicos e geográficos contemporâneos, são ambiência factual de
minha escritura, Cataguases é a coordenada afectiva que não me deixe perder o
rumo, é a bússola que me conduz.
Um escritor aos 52 anos de
idade o que lhe cabe dizer sobre a
leitura?
- A leitura é fundamental em
qualquer tempo e lugar, em qualquer
país. Seja qual for seu estágio de desen-
volvimento, uma verdadeira nação só se
emancipa pela educação e pala cultura,
ainda que na maior parte não há como
defender a leitura como primordial ou
essencial na vida das pessoas, enquanto
encontramos populações inteiras que precisam se alimentar, vivem na completa
pobreza e indigência, sofrem criminoso
apartheid provocado pela miséria e opressão política. Mas um país sem leitores é
um país catatônico, que não consegue
caminhar porque não forma massa crítica. A leitura liberta, porque transforma o
homem num ser inquieto e que não aceita
verdades prontas e certezas definitivas,
sejam elas as políticas, as filosóficas, as
religiosas ou ideológicas. O Brasil continental, com seus quase 202 milhões
de habitantes, ainda não é um País de
leitores, infelizmente. Ainda carecemos de uma política permanente de
estado, que trate o livro e a leitura
como essenciais, como produtos de
uma cesta básica. Sim, o livro deveria
ser incluído na cesta básica da população, pois ao lado da comida barata
deve haver o alimento espiritual e
intelectual também acessível, o livro.
No Brasil lê-se pouco e quando o
homem mal lê, lê mal, porque nossos
leitores, em sua maioria são vítimas do
analfabetismo funcional, produto de
uma escola pública de má qualidade;
por outro lado, o mercado acaba por
impor goela abaixo da população o
lixo literário que vem de fora, que aqui
chega com status de excelência e ao
invés de formar, deforma. Além do
mais, o hábito de leitura ainda não
está totalmente consolidado, porque
antes de fazer parte de um projecto
didáctico e pedagógico, deve ser estimulado no seio da família. O que ainda compromete a difusão do livro é o
elevado preço de capa, um dos mais
caros do mundo e a carência de bibliotecas na maioria das cidades brasileiras. Somos a sétima economia do
mundo, mas vivemos uma contradição: abrem-se mais igrejas evangélicas, arenas de rodeio, celas de presídio
ao invés de bibliotecas, livrarias ou
salas de aulas. Há mais pastores que
professores. Enquanto essa lógica permanecer, seremos um país empobrecido intelectual e culturalmente, bestializado pelo pentecostalismo que avança feito beldroega e dominado pela
avidez de um sistema editorial avassalador, que pensa no lucro, em detrimento da própria formação de seus
leitores, que são obrigados e engolir
obras de quinta categoria, enquanto a
verdadeira literatura está hibernada e
os autores de qualidade padecem pela
falta de espaço.
Em O Sol nas Feridas a lírica amorosa converge com toda a
degradação social. Qual é o motivo dessa relação?
- Tento fazer um contraponto
entre o sentimento amoroso, a percepção
lírica e a expressão crítica diante do mundo
que aí está e tudo o que o torna desumano,
desagregador e injusto. A literatura não
veio para salvar o mundo, quando muito
resgatar o autor por meio de suas catarses,
quando exorciza seus fantasmas, enfrenta
suas obsessões e digladia contra os inimigos visíveis ou ocultos. Nesse livro, como
num poema de Nicolás Guillen,"venho com
minhas lembranças./ Venho com minhas
feridas/e meus versos." Penso na poesia
como instância de enfrentamento de nossas angústias, de nossa insularidade nesse
tempo de coisificação e etiqueta, de nosso
desconforto e deslugar num tempo em que
fazer poesia pode ser entendido como um
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luxo enquanto o lixo universal nos atola
e sufoca. Mas é contra esse "status quo"
que a(s)cendemos a chama e o libelo da
palavra poética. "O sol nas feridas" tenta iluminar essas cicatrizes, para que as
feridas expostas, de nossas dores de
amores ou de nosso sofrimento diante
do caos e da desorganização que aí
vicejam sejam sacudidos pelo nosso
susto e a luta a(r)mada de toda palavra.
Que grau de labor poético
exigiu de ti esse livro? Me parece
que a preocupação com o tempo e
espaço causou o delírio do poeta?
- Como em Drummond, que
trouxe à sua construção todo o sentimento do mundo, procurei também
nesse livro falar do "tempo presente/do
homem presente/ da vida presente."
Ou como Bandeira, "da vida que poderia/ter sido/ e não foi." Falo a partir de
um olhar que me exigiu, ao longo de
anos, uma certa depuração, para perceber, sem cair no panfletarismo (quando
trato de temas sociais) nem na exacerbação do eu lírico (quando repasso o
território afectivo) e tentar (re)colher
das lutas e lutos diários (como também
nos diz o poeta paraibano Leo Barbosa
em um volume que fala desse movimento constante de perdas que inventariamos ao longo da vida), o que é fundamental para sobrevivermos aos
escombros da caminhada. A passagem
do tempo, o absolutismo da morte, o
silêncio dos outros, os espaços geográficos e psicológicos sempre me interessaram como matéria literária, são fontes permanentes de preocupação, por-
que acredito que estamos aqui para vencer isso, viver é uma luta permanente
contra tudo isso que nos escapa, que se
esfarinha pela moenda de Chronos, porque somos nada num pomar de bactérias.
Vejo ainda nessa obra que a
sua relação com o campo urbano é
inflamada. O ambiente urbano é
uma fonte de inspiração?
- Sem dúvida, dentro de cada cidade há uma cidade que não sabemos.
Dentro de cada habitante, há um homem
que desconhecemos. A minha poesia, ao
contemplar essas geografias, mergulha
nesses meandros, tanto da metrópole
quanto dos seres que (sobre)vivem a ela.
A urbe é um permanente campo de conflitos, de confrontos, sítio onde pululam
todos os contrastes e em que se percebe
mais fortemente o individualismo, o
alheamento e a passividade. Essas condições me interessam como matéria poética, como fonte de inquirição permanente
e isso me remete a uma fala de Walter
Benjamin: "Nenhum rosto é tão surrealista como o verdadeiro rosto de uma
cidade." Minha poesia se invagina nesse
cenário, com uma mirada ao mesmo
tempo cirúrgica e terna, na expectativa
de desvendar a cidade por trás da cidade,
esse espaço que nos ilude com seus labirintos.
E as pessoas, a vida em si.
Isso recorre-me ao conto todas as
estações. Uma autêntica loucura. A
vida ganha outra dimensão e conto
ganha o estilo de crónica. Quem é o
escritor nesse lugar? Quais são as
suas exigências?
- Esse é um conto que metaforiza de
forma caleidoscópica a capital da república,
Brasília, que apesar de ser uma cidade
nova, já apresenta suas rugas e sua vida
pulsante é povoada de dicotomias, é espelho do próprio Brasil, com sua heterogeneidade e seus problemas. O conto é escrito a
partir de observação durante uma viagem
de metrô, num curto espaço geográfico e
temporal em que situações, vidas, ocorrências desfilaram velozmente como numa
película. Ali está um pequeno extracto das
contradições vividas pelo homem e a cidade
em seu enfrentamento quotidiano com a
realidade, em que tudo parece (o)correr
numa dimensão onírica, como se fosse
"tudo ao mesmo tempo agora".O escritor
também é um protagonista, porque passageiro desse trânsito difuso de tipos, corpos
e olhares que reflectem a impessoalidade da
vida nos grandes centros. Quis fotografar
instantes de uma babel urbana, flagrantes
que certamente nunca se repetirão da mesma forma, mas que a cada dia vão ocorrer
com a mesma forma tensa e densa, porque
o hibridismo de tantas existências anónimas e a urgência que tudo dilacera e insula-
riza é que conduzem essas existências &
almas em desalinho, esses espíritos desassossegados, esse rebanho que viaja todos os
dias em busca de um porto seguro ou de
uma utopia. Essa realidade registrada por
mim num conto passageiro (sobre passageiros do imponderável) é um olhar crítico e
reflexivo sobre esse brutal enfrentamento
quotidiano de muitas metrópoles, a solidão
e o individualismo marcando o (des)
compasso de existências. Essa experiência
narrativa que nasceu de uma observação
mais detida, desnudou-me um mundo
repleto de significação, antes não havia
percebido esse mosaico humano de profunda riqueza e ao mesmo tempo de inegável sofrimento, justamente onde reside
a beleza trágica da vida. Essa experiência
me remete a um poema de Drummond:
"Há uma cidade em ti que não sabemos."
Esse mundo submerso, mas que todo dia
passa diante de nós, muitas vezes nos
escapa, mas a literatura vem com seu
aparato para nos escandalizar, para nos
tornar mais suscetíveis ao que é urgente
observar, com lentes críticas que nos permitem panoramizar o homem em seu
eterno movimento para vencer a poeira
do tempo e se comunicar.
A frustração e metas inalcançáveis não faltam nos seus textos.
Tanto em poesia, como em prosa.
Parece que os seus personagens
estão condenados ao sofrimento e a
miséria. De onde vem esses seres
tão sôfregas?
- Meu projecto literário abarca a
tentativa de compreender a miséria que
nos cerca e não me refiro somente àquela
mais indecente e plausível, a material,
financeira e social. Falo dos dramas e
misérias, das pequenas tragédias que
cada vida carrega, do homem perdido no
labirinto de suas próprias insatisfações,
do ser apequenado pela falta de espaço e
oportunidade num mundo globalizado,
em que a competição revela o pior de
cada um; do sujeito que vive seus passivos afectivos e não encontra resposta
para suas angústias, enfim tangencio
questões existenciais que percorrem a
humanidade desde os primórdios. Procu-
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ro reflectir sobre o lugar do homem num
tempo em que há um veloz escalonamento
de valores e que demandas nos transformam em máquinas e os sentimentos são
substituídos pelo pragmatismo e pela violência de metas a serem perseguidas,
No poema Escamas: ―A vida,
em suas estranhas latitudes,/
território lisérgico onde dormiam meus fantasmas/ já não
é mais o cemitério onde cultivo
desilusões/hoje, planeta do
qual não me escondo, catapulta
-me sobre os abismos‖. Qual é
na verdade o abismo que te
catapulta?
- É toda a sorte de desencantos, é todo o caos que nos rodeia. A
catástrofe que mais oprime é o sensação de deslugar, de nãopertencimento, de apartheid e de
crescente isolamento a que o ser vai
sendo empurrado, encurralando-se
no cipoal de uma civilização que,
apesar das conquistas da modernidade e dos benefícios da tecnologia,
ainda é capaz de actos de reprovável
medievalismo, como um país invadir
outro em nome da democracia, ou o
terrorismo ser utilizado para justificar uma fé delirante e inabalável. O
abismo é um conjunto brutal de
comportamentos, sejam eles humanos ou políticos, no cerne das pessoas ou
no bojo das instituições, que culminam no
apequenamento e no aviltamento da civilização e da própria convivência dos
homens e dos povos entre si.
Ao
encontro
do
livro
―dicionário de pequenas solidões‖:
atenta-me a serenidade com que
relata a tragédia a personagem. Há
uma calma fria com que é contada a
história, como se de uma violação
sexual não se tratasse. Entendo esse
cinismo como um acto vingativo ao
próprio acto macabro. Comente
essa minha observação contandome as razões desse conto.
- A tragédia está exposta não com
as tintas estereotipadas de um abuso, mas
subrepticiamente por meio do fluxo de
consciência em que a personagem vai deslindando, num processo vertiginoso de
lembranças e analogias com o próprio
passado histórico do país e do mundo, um
momento crucial de sua infância, em que
a violação que sofreu também é uma
metáfora dos tantos abusos por que passa
o próprio mundo em suas mutações e
mutilações. Ao passar em revista à sua
dor, a catarse também funciona como
uma pá de cal, a tentativa de exorcizar um
velho fantasma que a agredia e mesmo
sem nomear o lugar e o algoz, a vingança
subtil se estabelece e exerce um papel
apaziguardor, na medida em que a personagem excrementa o que ela carrega como
uma sujeira moral, cuja culpa é retirada
de seus ombros, com o mesmo cinismo e
violência com que lhe impuseram tamanho peso um dia. Esse conto foi escrito a
partir de um relato, um acontecimento
real na vida de uma pessoa e aqui o autor
incorporou toda a carga miserável e
dolorosa de um crime silencioso e impune, para fazer "justiça", em que a condenação não será a perpetração de uma
caso, sofreu o abuso antecipado de uma
condenação moral, execrado em praça
pública por um político recém-eleito e
empossado, mas inescrupuloso. O
homem ultrajado pela bile de um vereador faminto de revanchismo contra a
corrente política que havia sido derrotada numa eleição municipal, toma as
rédeas de uma vingança privada para
o homem incurável em seus instintos de
sobrevicência, que carece de uma nova
mentalidade civilizatória que procuro
reproduzir nessas histórias, (re)colhidas
dos meus espantos.
Aliás, tratando-se dos melhores momentos para a criação, qual é
para si o lugar e a hora propícia para que saia um poema ou um conto?
- Em qualquer hora, tempo ou
lugar. No trabalho ou em casa;
sob o chuveiro ou numa viagem,
a história pode nascer ou um
poema irrompe diante de si, inapelavelmente. Uma observação,
um detalhe de uma conversa, um
flerte de um cenário, um acontecimento, uma notícia de jornal,
um imprevisto no meio da multidão ou uma lembrança qualquer,
de repente há um insight e o verso ou a história se impõem e o
autor é instrumento de sua
arquitectura e é dominado por
essa pulsação, por esse fluxo que
penetra e procura espaço, como
água de um rio, que se insurge
contra todos os obstáculos até
ganhar o oceano, alargando as
margens por onde passa.
pena, mas o juízo da recompensa punitiva estabelecido por meio da ficção.
Se existe o mito de que a noite
é o melhor momento para a criação, poderíamos ter esse conto
como surgido no colo da escuridão?
- À noite credita-se o aparecimento de todos os fantasmas, mas essa
assombração que atormentava a protagonista desde remota idade proclamava
uma angústia insone. A noite revelou-se
aqui como escuridão impiedosa, uma
nódoa obscura que não tinha hora nem
tempo para eclodir, matéria purulenta e
vil da carne violada, de um espírito conflagrado no território da pior das madrugadas: a impossibilidade do grito ou da
denúncia. É das ruínas dessa escuridão
abissal, é do ventre dessa madrugada
que insistia em abusar da personagem,
que extraí a luz que trouxesse à tona o
tumor, rasgasse a placenta de uma indignação, que ficção adoptou e implodiu
sem complacência.
O mesmo cenário de chacina
e terror se vive no conto dies irae.
Qual o retrato de uma vingança
fria vindo de quem um vereador
não podia esperar?
- Nesse pequeno texto, baseado
numa história real acontecida em Cataguases, dei vez e voz ao assassino que, no
colocar fim a uma humilhação pública e
desfere os tiros fatais contra um político
que ascendia naquela hora como uma
espécie de macartismo municipal, numa
torpe caça às bruxas de uma administração que havia sido vencida nas
urnas. Aqui assassino e assassinado
protagonizam o auge trágico de uma
disputa mesquinha, num cenário
mediocrizado pelas paixões que sempre
dominaram as campanhas eleitorais nos
rincões brasileiros, onde o exercício
político sempre foi conduzido por oligarquias, em que a racionalidade era
vencida pelo personalismo opressor.
Vejo nesse texto alguma
reacção insana. Na verdade os
contos desse livro mostram-nos
uma sociedade doente. O fundamental intento dessa abordagem
do quotidiano?
- Nos contos desse livro há um
espelho de uma sociedade que oscila
entre a passividade e a reacção, numa
demonstração cabal do desequilíbrio e
das contradições vividas pelo próprio
homem, principalmente quando colocado frente a frente com suas crises, com
seus dilemas ou qualquer tipo de pressão, seja ela de ordem familiar, política
ou laboral. É o homem, sem mistificação, que procuro retratar nesses personagens, muitos deles enfrentando situações-limite, tantos andando no fio da
navalha. Não é a sociedade doente, mas
Tem uma opinião sobre a
actual literatura brasileira?
- Vivemos um período de intensa
produção literária em todos os géneros,
diria um verdadeiro "boom" criativo, que
tem proporcionado o surgimento de muitos novos e bons autores de ficção e poesia
e a consolidação de outros nomes já estabelecidos. A internet, por meio de blogs e
revistas electrónicas, é um exemplo desse
painel multifacético da literatura brasileira contemporânea, tem sido um instrumento preponderante para a difusão e
termómetro das novas correntes criativas.
Porém, em meio à profusão de tanta novidade, há que ser ter uma consciência estética e discernimento capazes de nos fazer
perceber que nem tudo que cai na rede é
peixe e separarmos o joio do trigo. Mas o
que tem valor e qualidade, fatalmente
resistirá à poeira do tempo, à exigência
dos leitores, aos apetites do mercado e ao
funil da crítica.
Acredita em momentos de
inconsciência no acto da escrita?
- Sim, há momentos de completa
apatia ou bloqueio criativo. Essas crises
também são fundamentais à vida e à obra
de qualquer artista. Elas nos sinalizam
para a necessidade de retomar o fôlego,
rever caminhos, apontar novas direcções e
se ter a humildade e a autocrítica para
perceber deficiências e corrigir o que não
está a altura. Às vezes é preciso ser como a
Fênix: renascer das próprias cinzas.
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A busca e o paradoxo, os alicerces da construção
identitária em Nós, os do Macurungo
José dos Remédios
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I
N
ão aprendi, como
B a l za c .
M as ,
falando
em
nomes, chamome José dos Remédios. José significa ―aquele que acrescenta‖, ―o acréscimo do Senhor‖ ou mesmo ―Deus
multiplica‖. O nome provém do
hebraico, YOSEF, e, originalmente,
significa ―Ele [referindo-se a Deus]
acrescenta‖¹ – dos Remédios já se
sabe.
Fazendo jus ao meu primeiro
nome, nesta reflexão irei – ficando
Aos três…
Aurélio Cuna, as lágrimas…
Aurélio Furdela, a confiança…
Aurélio Ginja, a oportunidade…
com o primeiro significado, ―aquele
que acrescenta‖ – acrescentar alguns
parágrafos ao que está muito bem
escrito em Nós, os do Macurungo,
um dos livros de Adelino Timóteo.
Não aprendi, como Balzac. Mas,
à semelhança de Adelino e de todos
que fazem da escrita uma vida, percebi que ―tinha de aprender, e não tardei aprender, que um homem tinha
de desistir de tudo e não fazer mais
nada senão escrever, que tinha de
escrever, e escrever, e escrever, mesmo que toda a gente o desaconselhasse, mesmo que ninguém acreditasse
nas suas potencialidades‖ (Miller,
Tinha de aprender, como Balzac
aprendera, que um homem devia
escrever colunas e volumes antes
de assinar com o seu verdadeiro nome.
Henry Miller
2000: 33).
Consciente disso, antes de
mergulhar nesse universo fantástico – não entendamos o fantástico
numa perspectiva todoroviana,
mas naquela a que o senso comum
atribui a alguma coisa sublime –
que se projecta através de uma
escrita verosímil, o nosso autor, se
(não) “respeita a Deus”, e este é o
significado de ―Timóteo‖, através
da narrativa, parece pretender
fazer parte de uma linhagem nobre,
como se a condizer com o significado do seu primeiro nome,
―Adelino‖, ―aquele de linhagem
nobre‖. Aliás, Nós, os do Macurundo
integra perfeitamente nessa linhagem se tivermos em conta que alguns
livros lançados pela Alcance este ano,
Entre Memórias Silenciadas, de
Ungulani ba ka Khosa e A Legítima
Dor da Dona Sebastião, de Lucílio
Manjate ou, no ano passado, Nghamula: o homem do Tchova (ou o
Eclipse de um Cidadão), de Aldino
Muianga, apresentam universos diegéticos construídos sobre os mesmos
alicerces conducentes a construção
de uma imagem identitária²: a busca
e o paradoxo.
Nesta
intervenção
procuro
¹Ver http://www.dicionariodenomesproprios.com.br.
²Segundo Claude Lévi-Strauss (1997), citado por Bernd (2003: 16), identidade é uma entidade abstracta, sem existência real, mas indispensável como ponto de referência. Assim, como dirá Bernd (2003:
12), a identidade nacional é um “meio” importante para entrar em relação com o outro e não um “fim” em si.
Matusse (1998) parece apologista da ideia de a identidade ser uma entidade abstracta, um ―meio‖ e não um ―fim‖, quando se refere aos factores intangíveis que concorrem para a construção da imagem de
moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa.
³Refiro-me à obra Os Molwenes, de Isaac Zita. Nesta colectânea de onze (11) contos, se por um lado as histórias que envolvem personagens infantis são contadas por um narrador heterodiegético, aquele
que não participa na história que narra como personagem (Reis e Lopes, 2000: 262 – 265), (―Os Molwenes‖, ―Tika‖ ou ―A Menina de Dez Anos‖), por outro as histórias são contadas por um narrador autodiegético infantil (―O Areal‖, ―Bátegas de Chuva‖) e adulto (―Diário de um Professor Estagiário‖). Refiro-me ainda à obra Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Houwana, com sete (7) contos, os
quais apresentam personagens e narradores autodiegéticos infantis com grande protagonismo (―Nós Matamos o Cão Tinhoso‖, ―Inventário de Imóveis e Jacentes‖ ou Papá, Cobra e Eu‖.
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mostrar que [Nós, os do] Macurungo funciona como um lugar propenso à construção identitária das personagens e, consequentemente, dos
moçambicanos no geral.
II
Na verdade, à semelhança do
que se passa com a escrita de Isaac
Zita, Luís Bernardo Houwana³ ou
Elcídio Bila – um jovem que ainda
percorre os labirintos da publicação
– Nós, os do Macurungo é a história enunciada por
uma voz jovial que
se adivinha pertencer a um narrador
de
meia-idade⁴.
No caso, um narrador autodiegético,
por integrar nas
histórias que conta
como personagem
principal (Reis e
Lopes, 2000: 259
– 262). Entretanto, se em autores
como Zita e Houwana é possível
usar os conceitos
atinentes aos estatutos dos narradores com muita lucidez devido aos
nítidos protagonismos das personagens, em Timóteo
essa nitidez permanece
difusa,
pois o protagonismo do narrador
autodiegético
é
intermitente: em
alguns casos o narrador da história
assume o protagonismo diegético ao
desenrolar as funções cardinais⁵,
noutros casos esse protagonismo é
partilhado com personagens excepcionais como pai de Khawenda ou
com espaços diegéticos como Macurungo.
Falando em Macurungo, termo
bantu que deriva de ―marungo‖,
nome para batata-doce – esta é a
convicção do nosso autor – é uma
região da Beira que mais do que isso,
na obra funciona como um lugar propenso à construção identitária das
entidades textuais e de uma nação
que a cada alvorecer busca conhecerse melhor do ponto de vista histórico
e sociopolítico. Ajuda-nos a enfatizar
esta ideia a concepção de ―Estado‖
que o professor Mucote passa aos
seus alunos:
Estado quer dizer ‗nós‘, ‗o
partido que nos une e dinamiza
o povo‘, bem a nossa
‗colectividade, onde estamos
todos inclusos: crianças, velhos,
adultos, proletários e operários,
aliados encabeçados pelo nosso
camarada Presidente.‘ (p. 60).
Porque sou céptico em relação
a existência de uma colectividade em
que todos os indivíduos estão integrados, e mais céptico ainda em relação à existência de um partido que
une e dinamiza o povo, fiquemos
com a primeira afirmação daquele
professor, a qual sou apologista:
―Estado quer dizer ‗nós‘‖ – ou deveria dizer.
A partir daqui tudo se
explica, ou melhor, se ―Estado quer
dizer ‗nós‘‖, neste contexto, com o
título Nós, os do Macurungo Adelino
eleva aquela região da Beira quase ao
patamar do ―Estado‖, pois é com o
cronótopo de Macurungo e o seu folclore que se robustece a construção
de uma imagem de moçambicanidade6. Para o efeito, como se a acentuar o nome e o imaginário circundante, nesta narrativa de Timóteo
passa-se o mesmo fenómeno que nas
já citadas obras de Khosa, Manjate e
Muianga, a busca pela compreensão
dos fenómenos sociais a partir do
passado e a recuperação dos paradoxos identitários em ebulição nessa
época.
Como
exemplo
desses
paradoxos, consequência do processo da formação do
―eu‖ e do ―nós‖, é
introduzido
na
narrativa o pai de
Khawenda,
uma
personagem que
ao se dedicar a
abandonar a sua
matriz bantu, perde-se ao tentar forjar em si e nos seus
conterrâneos uma
personalidade singular.
Com efeito, é
assim que o escritor, o poeta, o
artista plástico, o
jornalista revela a
sua preocupação
com os aspectos
profícuos à edificação da identidade
artística de um
país novo, com um
passado inesgotável e, por isso, uma
literatura e cultura
ainda por descobrir⁶. Almejando enaltecer esse espaço, no qual as personagens se conectam com as suas histórias individuais, Adelino intitula a sua décima
⁴Parece-me que ao se activarem personagens infantis para falarem de assuntos sociais embaraçosos pretende-se disfarçar o azedum daí resultante, porque ―no meio daquelas carências, a nossa
fértil imaginação, nós os do Macurungo inventamos sistemáticos modos de celebrar, transformando tristezas comuns em alegrias gerais‖ (p. 112).
⁵“As funções cardinais são unidades-charneiras da narrativa: representam as acções que constituem os momentos fulcrais da história, garantindo a sua progressão numa ou noutra direcção‖ (Reis e
Lopes, 2000: 186).
6Ver Matusse (1998).
⁷Ver o artigo “Moçambique: uma cultura e literatura por descobrir”, de Adelino Timóteo.
⁸João Xilim é protagonista de Portagem, de Orlando Mendes. É mulato filho de mãe negra (Kati) e pai branco (Campos), cuja paternidade lhe recusou. Por isso, em ambientes degradados como o
Marandal, rejeitando a sua origem europeia, Xilim tenta aproximar-se às suas raízes negras.
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terceira (13ª) exposição de artes plásticas Mussicanas de Macurungo, traduzindo, Donzelas de Macurungo.
Melhor dizendo, este artista multifacetado recorre a vários artifícios à sua
disposição para fazer da terra onde
passou a infância, uma região privilegiada, por ecoar aos ouvidos do país e
do mundo uma cultura em permanente
redescoberta.
Macurungo, portanto, funciona simbolicamente como um espaço
através do qual a escrita de Adelino
Timóteo se projecta rumo à (trans)
nacionalidade literária. Deve ser por
isso que a certa altura a narrativa activa no gato da dona Tina um perfil idêntico ao do Cão-Tinhoso e nas personagens Dino, Dinis, Bai e Maria, um perfil idêntico ao das personagens Ginho,
Quim, Gulamo e Isaura, de Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo
Houwana. Deve ser por isso que a certa
altura a obra interage com Portagem,
de Orlando Mendes, quando nos apresenta um personagem à imagem de
João Xilim.⁷ Refiro-me ao mulato
Jowane,
Mulato bom de coração.
Mulato que de mulato só tinha a
pele clara e os cabelos desfrisados.
Mulato que não ligava nenhuma às
suas raízes europeias. Nasceu e
cresceu no subúrbio da Xipangara.
E o seu mundo era aquele: um
homem de tez clara e cabelos desfrisados convivendo no meio indígena. Era o protótipo de mulatos
de mãe negra e pai incógnito.
Mulato rejeitado pelo pai branco e
a quem nada resta senão a opção
de ser leal às suas raízes africanas
(p. 104).
Deve ser por isso que o título desta obra de Adelino Timóteo lembra-nos
um outro, de um escritor cuja escrita
preocupa-se muito com os musseques e
em projectar histórias incríveis que
neles acontecem – também encontramos esta particularidade no nosso
autor. Refiro-me à obra Nós, os do
Makulusu, do escritor angolano José
Luandino Viera, cuja preocupação
pelos contextos sociais e políticos em
cruzamento com a história (angolana,
logo se vê) que se configura nos anos
da luta armada de libertação nacional é
igualmente axiomática. Esta aparente
apropriação é realmente interessante,
pois revela-nos que Timóteo e a literatura moçambicana constroem-se através dos contactos que se estabelecem
entre os escritores de cá e de outras
literaturas.
Nós, os do Macurungo é
uma narrativa de trajectórias em que
uns partem e outros chegam para ocuparem os espaços dos que partem sem
perspectivas de regresso. O camarada
Tchitcho é atento a este fenómeno e as
suas consequências:
Mas parece-me que há aqui
duas classes de ocupantes dos
imóveis: os que saíram do cimento para o cimento e os que saíram
do subúrbio para o cimento. Só
na província de Sofala o parque
imobiliário é de catorze mil imóveis e mais da metade destes
estão danificados, porque muitos
dos que saíram do subúrbio para
cimento não sabem utilizar os
imóveis, praticam abortos e colocam fetos no autoclismo, assam
castanhas nas banheiras das
casas, tiram o parquet do chão
para fazer lenha, quando partem
vidros substituem-nos por contraplacados ou por nada. (p. 43).
Este excerto vem mesmo a propósito porque nos conduz à ―quarta
escrita do narrador‖ da obra Os Narradores da Sobrevivência, de Nelson
Saúte, com a qual, de forma muito evidente, estabelece um intenso dialogismo textual: quer ao nível dos enredos
em si quer ao nível da consciência das
entidades enunciadoras dos discursos.
Vejamos:
Os inquilinos acendiam
fogões a carvão nos andares,
punham a lenha em chamas nas
flats, as paredes escureciam ocultando o branco que haviam tido
antes. Os homens, nas suas horas
de lazer, plantavam pequenas
hortas nas banheiras. Eles ignoravam a utilidade dos pequenos
objectos que se atulhavam nas
casas de banho da revolução. Os
prédios caiam aos bocados –
como podiam resistir? (p. 71).
De modo algum: nem os prédios
de Os Narradores da Sobrevivência
resistiriam aos maus tratos e tãopouco Nós, Os do Macurungo resistiria à necessidade de incorporar no seu
universo todas estas situações que nos
livram do aspecto grave com que
lemos um livro para, em compensação, nos proporcionar razões que nos
levam a interromper momentanea-
mente a leitura para rir euforicamente.
Todas estas trajectórias, dos
que vão, dos chegam, dos que voltam, dos ficam, dos que nunca chegam e nunca voltam a Macurungo,
na verdade, fazem parte dessa busca
incessante e paradoxa pela construção identitária das personagens, do
narrador e do narratário (ou leitor)
enquanto ouvinte e memória dos
eventos contados.
Ora, nesta narrativa do autor
de obras como Os Segredos da Arte
de Amar (1999), A Fronteira do
Sublime (2007), A Virgem da Babilónia (2009) e Nação Pária (2010), a
evasão é uma outra componente diegética sobre a qual a personalidade
das personagens se alicerça. Se por
um lado uma personagem consome
álcool na tentativa de fugir da realidade, por outro, essa evasão e satisfação à mistura é feita com recurso à
uma máquina de escrever, relíquia
da família do narrador, fonte de
conhecimento, de liberdade, de força
anímica, e importante artefacto na
projecção do passado e do presente.
Por isso os ―macurunguesses‖ a disputam sem cessar, fazendo com que
a mãe do narrador proteste:
Houwana, L. B. (2008) Nós
Matamos o Cão Tinhoso. Lisboa:
Edições Cotovia.
Khosa, U. (2013) Entre
Memórias Silenciadas. Maputo:
Alcance Editores.
Manjate, L. (2013) A Legítima Dor da Dona Sebastião.
Maputo: Alcance Editores.
Matusse, G. (1998) A
Construção da Imagem de
Moçambicanidade em José
Craveirinha, Mia Couto e
Ungulani ba ka Khosa.
Maputo: Livraria Universitária.
Mendes, O. (1981) Portagem. Maputo: Instituto Nacional
do Livro e do Disco.
Miller, H. (2000) Trópico de
Capricórnio. Largo da Lagoa:
Biblioteca Visão.
Muianga, A. (2012)
Nghamula, o homem do
Tchova (ou o Eclipse de um
Cidadão). Maputo: Alcance
Editores.
Reis, C. e Lopes, A.
(2000) Dicionário de Narratologia, 7ª Edição. Coimbra: Livraria Almedina.
Saúte, N. (2000) Os
Narradores da Sobrevivência. Lisboa: Publicações
Dom Quixote.
Deixem a máquina de meu
marido repousar! [não se confunda a máquina do marido da
mãe do narrador com a
―máquina‖ do marido da mãe do
narrador. Isso seria um caos] Há
seis meses que está saltando de
quintal em quintal. Apesar de ser
de ferro, ela também reclama
descanso‖ (145).
Timóteo, A. (2013) Nós, os
do Macurungo. Maputo: Alcance
Editores.
Depois disto, nada mais a
Zita, I. (1988) Os Molwenes.
Maputo: Associação dos Escritores
Moçambicanos.
dizer.
Leia-se o livro e diga-se
alguma coisa, porque ―a vida é tão
pequena para se estar em silêncio!‖ (p. 76).
José dos Remédios
Infulene, 19 de Setembro
de 2013, 11:51h
—————————
Bibliografia
Bernd, Z. (2003) Literatura e
Identidade Nacional, 2ª Edição. Porto Alegre: Editora da UFRGS.
Vieira, J. L. (1985) Nós, os
do Makulusu, 4ª Edição. Lisboa:
Edições 70.
Outra fonte:
h t t p : / /
www.dicionariodenome
sproprios.com.br
[acessed on Setembro
2013].
Timóteo, A. (s/d)
Moçambique: uma cultura e literatura por descobrir. Online document: Adelino Timóteo
Publications site,
[Acessed on September,
1].
g
FEVEREIRO 2014
[email protected]
aleria
NUANCES
Marcos Vieira
[email protected]
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aleria
[email protected]
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[email protected]
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JANEIRO 2014
Artes
Artista do Mês
POESIA | MÚSICA
Tânia Tomé: música, poesia e corpo
T
ânia Tomé já é conhecida, não só como poetisa, compositora e cantora, mas pelo movimento por si levado a cabo desde 2008,
denominado ―showesia‖. De acordo com
a poesia, showesia são as várias artes em
intercâmbio simultâneo no mesmo palco tornando a poesia viva.
Esse conceito já é conhecido e
através do qual, Tânia Tomé tem se feito
presente em vários fóruns. Numa ponte
com esse conceito aliamos o primeiro
livro da autora, intitulado ―Agarra-me o
sol por trás‖ onde encontramos essa
mistura que se tornou necessária para a
expressão poética da Tânia.
Em ―Agarra-me o sol por trás‖ a
poesia converge com as outras artes
como a dança, a música tornando o corpo um elemento indispensável. Aliás, o
grau erótico dessa poesia, primeiro, é o
que leva-nos ao corpo. O corpo como
essa forma de dizer palavras, produzir
efeitos melódicos e atiçar a sensibilidade. O corpo, esse elemento de expressar
o que a alma sente. Tânia Tomé faz-se
mulher através dessa expressão ao mesmo tempo que faz-se o país ou o continente: ―Minha África suburbana./ Eu sei
-me Moçambique,/ cisterna no pecúlio
dos deuses. /Um Zambeze inteiro escala
a língua/ escorre-me pelas pernas/
ramifica nos canhoeiros,/ laça os peixes
inquietos nas sementes/ engolfa-se nos
mpipis bêbados nas timbilas(…)‖ (Meu
Moçambique, p.57).
Os afectos e os ritmos dessa poesia levam à celebração no sabor da
pátria, seus géneros musicais, batuques,
timbilas, apitos e gentes que dançam.
Tânia Tomé canta e dança numa linguagem verbal cheia de metáforas para com
o corpo. Tudo isso será uma mistura
nostálgica, das suas notáveis leituras de
poesia de José Craverinha, de quem herdou a utilização dos ritmos tradicionais,
desde os nomes e a aproximação à oralidade nos seus textos.
Seja por isso ainda erótica, como a
maioria das mensagens das músicas no
estilo tradicional, onde o conflito humano é elemento necessário. O título
―Agarra-me o sol por trás‖ submete-nos a
uma reflexão para dimensões subjectivas
da personificação do sol, aquele que
agarra. Portanto, os raios solares, são
tratados por Tânia Tomé, como um elemento de afecto, carícia, em fim, o amor.
Logo, sugere-nos ainda, o sol como um
ponto de êxtase e de prazer. O clímax
atinge-se no cruzar do verbo e na poesia
musicalizada. As imagens que acompanham os versos, no livro, têm o mesmo
sentido das palavras, uma combinação
versátil da poesia em foto e em papel.
Já disse o prefaciador da obra, o
conhecido escritor brasileiro Floriano
Martins que abraçado com António
Cabrita, credenciaram essa poesiamúsica. Floriano reage à essa expressão
em jeito de estreia de Tânia Tomé como
uma presença que demarca-se das outras
no fluir do verso. É um facto que até nos
seus mais dois livros, a poetisa prova o
percurso que quer tomar na reservada
tradição da poesia feita por mulheres em
Moçambique.
Talvez seja do factor feminino, a
iminência da ―terra‖ nas palavras que
fazem o ―Agarra-me o sol por trás‖. Não
se precisa inventar caminhos para chegar que essa poesia é de Moçambique. É
como disse também o poeta angolano,
José Luís Mendonça ao afirmar ―Esse
País Chamado Corpo de Mulher‖. De
resto é só lendo que se pode provar as
águas desse rio imparável que se chama
poesia.
a
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UM MAKONDE CHAMADO
CASIMIRO NHUSSI
C
om a sua dança já
é um “enigma”.
Agora com a mistura de sua voz
fazendo
música,
este homem torna-se uma espécie africana de “one man show”
lá nas terras canadianas onde
está radicado sem esquecer dos
chãos da sua terra de onde nos
vem o mistério, a arte exclusiva
genuína. Chama-se Casimiro
Nhussi e está vivo a quase meio
século. Foi um dos primeiros
jovens bailarinos e coreógrafos
da Companhia Nacional de
Canto e Dança e quis ir para
além da dança, descobriu
outros mistérios do corpo e vai
içando as cores da bandeira
moçambicana no seu trabalho.
É sobre ele que falamos a seguir
a propósito de uma conversa
que teve com a Nós, aqui em
Maputo.
Casimiro Nhussi nasce no planalto de Moeda na província nortenha de
Cabo Delgado, em 1964. Nasce com a
história do sonho da pátria moçambicana independente. Aliás, foi em Moeda
que se desencadeou a luta armada de
libertação de Moçambique exactamente
no ano em que nasce o que agora é tido
como um dos melhores coreógrafos do
país, actualmente a residir lá para as
terras canadianas.
ras e esculturas em madeira, que reflectem a sua estética e cultura ricas.
Só para entender o poder do povo
a que pertence o artista, os Makondes,
são originários da África oriental e habitam três planaltos do norte de Moçambique e sul da Tanzânia. Têm como actividades principais, a agricultura e a
escultura. Evidentemente um povo
artístico, os Makondes são apreciados
mundialmente pelas suas belas másca-
Nascendo de um povo que tem
sua história centrada nas artes, Casimiro
Nhussi não podia sair diferente do que
lhe vaticinaram seus ancestrais, embora
filho de um antigo combatente de libertação nacional. A guerra colonial que
durou dez anos, o afectou indirectamente. Vibrou com independência, mas não
escapou das marcas da guerra civil,
entre o governo e a Renamo.
No meio de tilintar de obuses e
AKM‘s, um artista se fazia e, inclusive,
desceu o planalto e se tornou num dos
destacados bailarinos, inspirado nas
máscaras do seu povo e nas coreografias
dos seus avós e seu pai que também era
grande bailarino de Mapiko e escultor de
pau-preto e máscaras. Por outro lado,
sua mãe era cantora dos ritmos que
acompanham os bailarinos de Mapiko.
Portanto, o canto e a dança eram prato
principal da família
Casimiro Nhussi ainda procurou
ser jogador de futebol no Matchedje ao
lado de um dos nomes que hoje fazem
parte da lista de treinadores de futebol,
Nacir Armando. Mas não se deixou
enganar e justifica-se assim, hoje, o bailarino, coreógrafo, músico e instrutor de
dança profissional dos mais proeminentes da cultura moçambicana.
a
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DANÇA E MÚSICA
TUDO JUNTO
Em 1992, foi celebrada a paz, findos 16 anos de uma guerra que tornou
todo o país num verdadeiro cemitério.
Essa guerra está na memória do artista
que foi entrevistado pela Nós durante
sua estadia em Maputo em que fez grandes concertos para lançar seu trabalho
discográfico ―Gweka‖.
Recordamos uma dos seus maiores trabalhos como coreógrafo intitulado
―Ode a Paz‖ que mereceu um digressão
por todo o país para celebrar o fim da
guerra, a reconciliação e o futuro, um
futuro que começava pelas primeiras
eleições gerais em Moçambique. A sensibilização para esse escrutínio coube à
companhia Nacional de Canto e Dança
onde fazia parte Casimiro Nhussi.
A representação da peça ―Ode a
Paz‖, de acordo com Nhussi, foi o espelho da guerra que o artista presenciou e
era preciso expressar sua opinião como
artista.
―Estávamos cansados da guerra.
Nós viajamos pela companhia e víamos
países que estavam em paz. Ai nós descobrimos o quão estávamos atrasados.
Então quando a paz chegou foi um alívio
para todos. O povo estava cansado da
guerra. A paz foi resultado também da
reacção dos artistas contra a guerra. Nós
gritamos querendo a paz. Essa peça não
levou muito tempo para se montar porque todos sabíamos do que estávamos a
falar. Foi um inspiração não somente
minha, também de todos os bailarinos‖.
Hoje com a faceta de músico, já
tem dois trabalhos publicados em discos.
O primeiro, intitulado ―Makonde‖,
Nhussi conta que surgiu por acaso, queria apenas um disco através do qual
pudesse mostrar a sua tradição no Canadá ―Makonde sou eu, é meu pai, minha
família e, em Moçambique, makonde é a
minha identidade‖ disse.
E foi essa identidade premiada
com o Western Canadian Music Award,
na categoria do World Music. Bastante
animado com o sucesso do primeiro trabalho, seguiu-se este ―Gweka‖ lançado
em Novembro em Maputo e Pemba,
capital da província em que nasceu,
Cabo Delgado.
Estando agora nas duas facetas, a
de músico e bailarino, Casimiro Nhussi
justifica que no continente africano não
se pode deixar enganar pelas academias
ocidentais que separam a música da dança e vice versa. ―Ou estudas música ou
danças, mas, na verdade, elas são um
casal. Quando faço a coreografia, escuto
a música na minha mente e vou ao movimento. Quando levanto o pé, tenho o
acompanhamento do tambor. existe um
diálogo agradável entre a música e o
movimento. O mapiko tem música, teatro, dança, sem separação. É difícil separar a música do teatro e da dança‖.
―Gweka‖ contém 13 temas, que
cantam o amor, o respeito pela tradição
e a esperança de um amanhã melhor,
por isso que no espectáculo do Centro
Cultural Franco-Moçambicano foi sob o
lema ―Cas´Gweka - presente, passado e
futuro‖. O artista faz a combinação perfeita de ritmos tradicionais do norte de
Moçambique, com maior destaque ao
Mapiko e Limbondo.
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“
HÁ VÁRIAS VOZES QUE CANTAM BEM
NO PAÍS, E ACHO QUE SOU UMA DELAS
Eduardo Quive
[email protected]
C
anta profissionalmente há cerca de 13 anos e foi em Quelimane, província de Zambézia que descobriu o embrião da música, sob o berço de uma das bandas simbólicas do país, Garimpeiros. Com o
evoluir da carreira, Rahima, de quem nos referimos, regressa para Maputo onde se encontra com o
produtor Roland através da já falecida cantora Chonil. Foi um percurso inesquecível que o levou
até à integração na banda chefiada pelo saxofonista José Maria. E foi na Pazede que aprendeu verdadeiramente a caminhar na música. Aliás, terá sido aí que se delimitaram os estilos que quisera seguir. Agora é
uma das vozes de ouro em processo do verdadeiro reconhecimento no estilo afro-jazz. Mesmo assim, já pisa palcos grandiosos, dentro e fora do país. A sua música é relevante e bastante notável pela abordagem existencial
que faz. Numa das mais conhecidas, “buyissa nwananga”, o mesmo que devolva meu filho, tem foco em um conflito doméstico, típico da sociedade moçambicana. Importa perceber o seu processo de criação, a sua trajectória
e os planos da sua carreira que, a depender da voz e do estilo, terá sucesso.
A música ―buyissa nwananga‖
tem a ver com a sua vida?
Nem sei. Quando fiz aquela música
não pensei na minha história, foi tudo por
cima. Mas acredito que na vida não vem
ao acaso e calhou. Mas não tem a ver com
a minha história, no entanto calhou ser
similar.
E as suas outras composições
vêm daquilo que lhe acontece ou do
que vê nos outros?
Depende, tudo que fazemos tem a
ver com o que nos rodeia. Os factos da
vida e uma parte das minhas músicas
têm a ver com isso. Vivo num meio e
procuro transmiti-lo.
Da música ―Buyissa Nwananga‖, foi única que tem o vídeo. E as
outras?
Ainda não fiz vídeos de outras
músicas porque não é só fazer. Ainda não
arranjei financiamentos para fazer. Eu
sou a gerente da minha própria carreira.
E tudo que eu faço e lanço é do meu bolso, não tem patrocinador tudo tem que
vir de mim.
Como é que consegues fazer a
sua carreira assim?
Consigo. Toda gente tem que conseguir algo na vida.
O que é que isso exige de ti?
Muito esforço. Muita procura,
muito gasto da sola do sapato.
Qual é o melhor momento
para compor uma canção?
Não existe o melhor momento.
Componho sempre que me vem a vontade
e claro, quando chega a hora de organizar
os conteúdos, aí exige mais concentração
um tempo livre. Quanto as ideias, elas,
aparecem a qualquer hora e qualquer
lugar. Mas para trabalhá-la é preciso concentração.
Tem já em vista um álbum?
Não. Estou com esse plano, mas
tudo exige dinheiro. A fé é a última esperança, por isso sei que vou conseguir.
a
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rtes
Pareceu-me que você se tornou mais popular com a música
que participou no Ngoma…
Tenho estado sempre no
Ngoma e sempre votada porque as
pessoas se apaixonam com a minha
música. Mas não concorro pelo prémio, faço-o porque é um espaço
para exibir o que faço e até de forma que a minha música seja conhecida.
Mas por causa de muitas frustrações nas áreas dos mais radicais
da música, há alguns que acabam
pautando por aquilo que se chama
música comercial. E tu, já pensaste
Não. Não vou até ai… há outros
estilos se calhar que sejam também
comerciais, menos isso. Não quero
dizer que desprezo o estilo, mas ainda
não me veio a ideia de fazer. Mas pos-
diferente, mas vou gravar sim com a
minha banda e envolverei outros artistas.
Tem acompanhado o evoluir
das artes, como vê a nossa
música?
Agora a música virou de um ângulo para outro. Tomou uma direcção muito diferente do tempo que
começo a cantar até antes dos últimos oito anos. Desses oito anos
para cá está tudo mudado.
A tua música é diferente
das apostas dos outros músicos jovens. O que te faz pautar
por esse rumo?
Mas é uma boa ou má mudança que ocorreu?
Acho que é uma diversificação.
Hoje em dia não há má nem boa,
feia ou bonita voz. Há no entanto
boa ou má música, com estilos
diferentes. É possível gostar de
uma música hoje e amanhã gostar
de uma outra. Mas nos tempos
passados, nos apegávamos a
alguém porque durante um tempo
ela fazia um único estilo de música. E eu venho desses tempos. De
um tempo para cá as coisas mudaram. Há várias qualidades e quantidades. Não me acho única há
várias vozes que cantam bem aqui
no país, e acho que sou uma delas.
Comecei a cantar com os
Garimpeiros, depois o Roland e por
acaso, conheci o José Maria e ele
faz um estilo de música mais para o
Jazz. Então não tinha outras
influências e referências. Apaixonei
-me mais pelo Afro-Jazz. Por que é
a linha que já vinha fazendo, mas
abro excepção para outra coisa.
Actualmente faço trabalho com
outros artistas fazendo outros estilos de músicas. Até para mim tenho
vindo a gravar outros estilos que
não tem a ver com o que habitualmente faço. Sou diversificada.
Há em andamento a nova lei
de espectáculos tem algum
conhecimento sobre ela?
O que é que a música te
dá?
Dá-me esperança, amor,
satisfação pessoal. Dinheiro a música ainda não me dá, eu dou dinheiro à música agora. Mas vai me dar,
tenho a máxima certeza e o dia vai
chegar.
O conhecimento da lei dos espectáculos tenho por alto. Mas é bom
que exista algo palpável que tenha
algum censo para os músicos. Porque pelo que ouvi dizer é que há
uma obrigatoriedade, por lei, em
que cada espectáculo que se faça
com um músico estrangeiro é obrigatório que esteja um nacional.
Antes isso não era obrigatório, isso
já é bom é só se fazer jus a aquilo
que está escrito. Vamos ver se isso
vai acontecer.
Essa certeza implica ter
alguma estratégia…
Claro é sempre bom ter
estratégias. Alvos a atingir. Para
tudo temos que ter uma certeza.
em rumar para esse estilo?
Acho-me atraída sim para esse
lado. Os ouvidos são diversificados e também é bom colhermos experiências de
cada estilo musical e é também bom,
poder fazer cada um desses estilos. Não
vejo mal nenhum nisso, temos que ser
músicos para vários mundos e não nos
prendermos em apenas um.
Estás a dizer que, por exemplo, que um dia te ouviremos a cantar Pandza ou Dzukuta?
so fazer outros estilos populares, não
vejo mal nenhum.
Fale-nos do processo de
criação de uma música sua.
A música é muito interior. É
uma paixão e tenho muito prazer em
fazê-la. Não me acho uma boa compositora, mas componho ideias que
depois entrego a minha banda
(Nyanga Project) para que desenvolvam e estruturarem. A parte da gravação quando tem a ver com estudo é
a
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“
A CULTURA É UM RECURSO
INESGOTÁVEL
S
heik Hafiz Jamú é uma das mais respeitadas personalidades da Ilha de Moçambique. Trata-se de um “expert” em matéria
de conservação de património cultural, é
líder de uma confraria religiosa (Sajadi),
assessor de negócios numa empresa privada e tem a
nobre tarefa de presidir a Fundação Ilha de Moçambique.
Jessemusse Cancinda - em Nampula
[email protected]
Defende que a cultura é um recurso inesgotável que deve ser capitalizado
para a melhoria das condições de vida da
população, por isso todo e qualquer tipo
de património deve beneficiar os nativos,
neste sentido, a população da Ilha de
Moçambique que se depara com problemas sérios de falta de emprego pode
aproveitar o património cultural daquela
que é considerada a primeira capital de
Moçambique para ganhar rendimento.
Hafiz Jamú entende que as pessoas não podem iludir-se com os recursos naturais porque um dia poderão acabar e nem pensar que a riqueza está longe enquanto convive connosco.
- O que é fundação Ilha de
Moçambique?
– Fundação Ilha de Moçambique é
uma organização local com base nas
associações de representatividade da
sociedade civil e de base comunitária
que assegura a existência e persistência
das agremiações da Ilha de Moçambique.
– A quanto tempo existe esta
fundação?
– É difícil responder esta pergunta,
porque quando se fala da existência de
uma organização há quem olha pelo reconhecimento jurídico e que esta em processo, mas já temos uma autorização para
agir, diria que temos um reconhecimento
precário, mas em tanto que existência, a
fundação vem a doze anos.
– Que actividades estão a ser
desenvolvidas por esta agremiação?
– Neste momento estamos virados
para o desenvolvimento comunitário
baseado na conservação do património da
Ilha de Moçambique e criação de oportunidades de negócios a partir desse património. Estamos a falar que a Ilha de
Moçambique tem agregados três tipos de
património, o edificado, o subaquático e o
imaterial.
– Como é que se pode distinguir estes tipos de património que a
Ilha de Moçambique agrega?
– Quando falamos de património
edificado referimo-nos as casas e outros
tipos de construções que se encontram na
cidade de Pedra e Cal e na cidade de
Macuti que devem ser reabilitadas mantendo o estilo original e que iniciamos a
reabilitar o edifício onde funcionam os
escritórios da fundação. Temos o património subaquático, reza a história que a
volta da ilha afundaram muitas naus por
razoes de tempo e guerras, estas naus
afundaram com instrumentos que
podem nos revelar a história da interacção do povo moçambicano, particularmente o macua-nahara com o resto do
mundo. E temos o património imaterial
que resulta dessa interacção havida ao
longo de mais de dois mil anos, onde a
Ilha de Moçambique foi paragem obrigatória do comércio do ouro, marfim e
mais que foi moldando o modo de ser do
homem da ilha.
– Como é que estão a utilizar
esse património todo, no sentido
de melhorar as condições de vida
da população local?
– De uns tempos para cá os edifícios da Ilha de Moçambique começaram
a ser comprados por pessoas que não
tem a ver com a ilha e muito menos com
a conservação do património cultural,
para além disso, por causa do desaparecimento do Macuti, as populações estão
a substituir o Macuti com chapas de zinco. Esta realidade fez com que identificássemos na cidade de Macuti que é
onde vive maior parte da população,
algumas casas com o intuito de museologicar. Como exemplo, identificamos uma
senhora que tem talento de cozinhar,
investimos na reabilitação da sua casa e
o local será um restaurante com comida
local, esta iniciativa poderá ajudar a conservar a casa que é um património, se
olharmos a ilha toda como um museu e
as ruas como corredores e que será uma
forma de ganhar dinheiro. Assim a
senhora não precisa de destruir a sua
casa porque é uma fonte de rendimento
e nós gostaríamos que as pessoas usassem o fundo de desenvolvimento distrital para reabilitar as suas casas seguindo
os padrões de conservação do património e transformar isso num local de hospedagem, restaurante, enfim, porque a
riqueza não está fora está dentro da Ilha
de Moçambique, o importante é saber
aproveitar.
– Como é que olha o património imaterial da Ilha de Moçambi-
a
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[email protected]
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rtes
que num mundo em constante
globalização?
– O património imaterial muda
com o tempo, as tecnologias influenciam a nossa cultura e dentro de 20
anos a identidade cultural vai mudar.
Agora, se conservamos a nossa forma
de ser, a nossa cultura, pode significar
uma oportunidade de negócios para o
futuro. Poderemos através do turismo
vender este património, desde o saber
cozinhar, vestir, dançar. Portanto,
ficamos tristes em notar que os nossos
jovens acabam imitando um turista
que circula por tudo quanto é canto de
calções sem notar que é um viajante. É
preciso perceber que há uma obrigação da nossa parte em conservar os
nossos traços culturais para garantir a
inesgotabilidade de um recurso que é
a cultura. A cultura é uma oportunidade
de negócio e emprego para o futuro. O
carvão, o gás, o petróleo, tudo isto acaba,
mas a cultura não, ela é um recurso inesgotável. Por isso, os mais velhos devem
garantir que este recurso não desapareça.
– Por falar em desaparecimento de traços culturais, tirando o
Tufo que foi bastante divulgado, há
danças da Ilha de Moçambique que
estão a entrar numa letargia?
– O lugar do Tufo que é uma dança
de origem árabe é mais político, foi utilizado depois de 1975 pelos políticos nos
eventos públicos e mais tarde foi patenteado pelo turismo quando passa a ser
apresentado nos hotéis e ganhou o espaço
que ganhou. A mesma sorte não teve as
danças genuinamente locais como Ephive,
Namahantja e Morro, cujos executores
acabaram abandonando por falta de rendimento e que são usadas de quando em
vez nos eventos tradicionais.
– Há uma dança aqui na Ilha
de Moçambique cujos executores
não estão agrupados, mas quando
os turistas pagam, reúnem-se e praticam. Até que ponto estas pessoas
podem se organizar melhor para
ganhar com esta dança?
– Esta dança chama-se Ephive e é
verdade que há necessidade de usá-la
como nosso cartão-de-visita. Alias, o
objectivo da fundação é valorizar este
património, não queremos valorizar o tufo
que já está valorizado e exposto. É preciso
resgatar aquilo que está ser perdido e
como viu, os turistas mesmo sem ter sido
divulgada, procuram pelos praticantes
desta dança, então a fundação pretende
trabalhar em questões do género.
– Para terminar, quais são os
horizontes desta fundação?
– Queremos criar uma harmonia
entre o sector privado e as comunidades,
estamos a programar a construção de
um centro cultural onde poderão se cruzar os praticantes de diferentes expressões culturais, tendo em conta que a Ilha
de Moçambique é património cultural da
humanidade e estamos a nos deparar
com uma situação em que as associações
da Ilha de Moçambique perdem voz
depois de perder um financiador e pretendemos criar uma âncora para estas
agremiações no sentido de se tornarem
visíveis, activas e sobreviventes.
m’saho
Caderno de Prosa, Verso & Crítica
POESIA
POESIA
LOUCURAS
TRADIÇÃO
Escritor Carlos dos
Santos discursa sobre o
contexto “moderno” da
sociedade actual
POESIA
ELOGIO DA
LOUCURAS
LOUCURAS
CONTO
CONTO
CONTO
M’saho
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02
PROSA
TIÃO
Alexandre Staut
[email protected]
W
ould you like
to buy a leather belt? You
don‘t speak in
English? Brasil? De tão longe? Fala
brasileiro, então? Ah, português. Um
cinto de couro, molunga. Junto ouro.
Me arrastei, fronteira inteira, mapa
afora, desci uma estrada rente à linha
do mar, atravessei dois rios, sem perder o horizonte dos olhos, as águas da
Índia, esse oceano à nossa frente,
pastoso, que brilha quando o dia é de
sol. Sou só, não sei você. Onde estão
todos os meus, não sei mais, por isso
vim para o estrangeiro, Durban, cidade que desemboca nas águas barrentas desse mar aqui, aqui na sua frente.
No pequeno comércio, na junção do espelho de mar com a cidade
grande, vim vender coisas. Capulanas
indianos, cofres chineses. Sabia que
essa cidade é a maior comuna indiana fora da Índia? Pois então. Já os
chineses, veja, fazem fortuna por
aqui. Vendem ovos de avestruz de
resina, imitações, mulanga. Não são
caros como os ovos reais. Os ovos do
país dos bilhões são todos falsos, mas
o povo compra. É brinquedo de
criança, é lembrança da South Africa,
país de tantas fazendas de avestruzes,
ave rara de carne saborosa. Eu comera quando tinha mais dentes na boca.
Hoje, me sobram apenas alguns. Por
isso, sou mais dos manjares.
Não sou da China, não sou da
Índia, sou dali, ali de cima, vim, queria ver com os meus olhos, tinha de
vir um dia. Em Maputo, na Beira,
falam de Durban. Afortunada vila,
essa esquina do mundo, molunga,
onde todos se encontram um dia,
gente do norte, do sul, do leste e do
oeste. Esses prédios na sua frente
encerram fortunas. Desde que cheguei, eu os miro. Estou aqui há umas
dezenas de luas. De início, vendi
ovos de avestruz coloridos, uns com
haste, outros com fichário, que usam
como se fossem cofres. Mas eu mesmo nunca usei o objeto para guardar
os randes que junto. A moeda local.
Não pesa no meu bolso. Tenho furos
pelas pernas, a calça, a mesma do dia
que em cheguei, luas atrás.
Foi um chinês falso que vende
coisas à beira-mar a me apresentar o
pequeno comércio na ponta dessa
terra. Combinamos. Ele me passava
os ovos coloridos, verdes, amarelos,
uns com o mapa da África, todos
conforme os ovos verdadeiros. Eu
armava uma palha pelo chão e oferecia ovos, como se fossem de verdade,
saídos dos avestruzes. As crianças
gostam, molunga. Você tem crianças
lá no Brasil? Mas isso tudo foi antes.
Arrumava a esteira aos meus pés,
nas pedras da faixa de areia, e, o corpo parte deitado, outra sentado pelo
chão, via passarem pés e pernas,
mulheres, homens, crianças, via também passarem pneus, rápidos. O
transito aqui é do lado contrario,
falam que é assim também nas Europas. Em seu país é dessa forma também?
Mas, o que dizia é que via os
passantes pelas pernas, gente apressada, poucos tinham tempo para as
palavras. Inglês aprendi para necessidades, inglês ensinado pelo chinês
dos cofres. Com ele soube da arte de
criar frases, tudo para atrair olhares
às mercadorias, aos ovos. Meu inglês
melhora a cada dia, molunga. Hoje
falo quase como se fosse gente daqui,
mas somente as frases aprendidas,
certo? A maioria começa com Would
you like to buy e depois falo o nome
da coisa de ocasião. Vendi alguns
ovos, menos de uma centena, acredito. Dos tantos passantes, algumas
crianças paravam. Eu deixava os
pequenos se servirem. São ovos de
verdade, os únicos verdadeiros de
toda a África, não pode derrubar no
chão, senão quebra, são frágeis,
escuta o barulho. Aproximava o ovo
do ouvido da criança e dava uma
batida rápida no objeto, com o verso
dos dedos. Barulho de ovo de verdade, ouviu? Repetia a história dez ,
vinte vezes por dia. A língua cansava.
Às vezes um pai resolvia agradar o
pequeno, somente às vezes. Um dia me
enrolei ao tentar dizer que, com um
ovo de avestruz é possível fazer uma
batida para uma dezena de pessoas.
Basta colocar óleo de capivara na caçarola. Sabia disso, molunga? Às vezes,
quando o inglês saía sem erros, tentava
sorrir para os fregueses, mas me faltam
os dentes. Então não sorria. Para você
que diz a mesma língua, eu mostro.
Olha. É por isso que eu estou aqui,
molunga. Os dentes. Já percebeu o
quanto exibem belos dentes de ouro
nessa terra? Dentes reluzentes, como
brilham. Pois então.
Problema é que vendia, no máximo, cinco, seis ovos, numa tarde. Um
ovo, cem randes, dos quais eu tocava
em 15 moedinhas. Isso dava para o
álcool, no fim do dia, mais um pedaço
de pão mole. E isso me enchia a barriga. Ovo mesmo, naquela época, minha
boca não viu, nem o estômago.
Quando percebi que não pagaria
nem o tempo de ficar na fila do dentista, resolvi mudar de profissão, molunga. De início, acreditei em adestrar
leões-marinhos. Quem deu a ideia foi
um turista. Vira, na outra ponta da
praia, um velho a colocar sardinha na
própria boca e depois incitar o bichão a
pegar o almocinho. Fui lá, vi com os
meus olhos. Era bonito de se ver. Sentado, ele passava a mão no bicho gordo, como se fosse seu próprio filho.
Antes de meter o peixinho na boca,
falava para os turistas: quando Monda
arrastar o corpão para perto de mim,
quer dizer que vai pular, então, senhores, sejam rápidos, batam a foto! Mas,
antes, coloquem uns randes dentro do
meu chapéu. O velho me olhou feio.
Deve ter percebido que eu não tinha
cara de turista, portanto não ia encher
o seu chapéu com meus poucos randes.
De olhar atravessado, falou bem alto,
fez questão, disse que tinha permissão,
na orla, para fazer o trabalho. Cuidava
sozinho dos bichos de toda a South
Africa. Todos os dias, há vinte anos,
passa pela beira do mar a chamar leões
-marinhos. Resolvi não perturbar o
negócio do velho. Ele ia arrumar conversa para o meu lado, caso fosse
balançar sardinha na orla, no intuito
de chamar os bichos, de dentro da
água. Também não saberia adestrar
bicho nenhum. Não tenho nem
mesmo sorriso para a foto. Como
faria quando os turistas armassem
suas câmeras, para o beijo com o
bichão?
Mesmo assim, me despedi do
chinês dos ovos. Não aguentava
contar a mesma história tantas
vezes. Saí por aí, no intuito de
encontrar outra profissão, guardador de bicicletas, guardador de
cadeiras, guardador do que fosse.
Foi quando caíram nos meus braços capulanas indianos, que poderiam ser usados para cozer roupas,
calças, camisas. Eu próprio cheguei
a pensar em ter novas vestes, me
vestir como um indiano, colorido,
dourado. Amanhecia e eu estendia
os capulanas no chão, artigo fino,
todos verdadeiros, fios de ouro,
vindos da Índia, de navio. Inclusive, aquele navio que passa, lá no
fundo do mar, deve vir da Índia,
deve trazer mercadorias variadas,
não somente capulanas. Vendia,
vendia, vendia. Falava que eram
sedas. Depois, quando os negócios
não iam tão bem, passei a desfazer
as sedas, para juntar os fios dourados. Quem sabe poderia amalgamar
tudo em formato de dentes, os malditos dentes. Cheguei a perguntar
pelas ruas onde poderia ver um
dentista, mas o dinheiro que entrava pelo bolso das calças, continuava
a escorrer pernas abaixo. Os fios
dourados não me eram suficientes.
Não consegui nem mesmo vestir
novas camisas, coloridas. Muito
menos arrumei sorriso novo. Quando decidi mudar de ramo, me apareceu um vendedor de cintos. Deixei um de lado para o meu próprio
uso, molunga. Este que agora tenho
na altura da barriga, cada vez mais
seca. São os melhores de toda a
África, cintos feitos em couro de
tatu. Sinta na mão, como é firme.
Duram uma vida. Sugiro que leve
uma maleta cheia para o seu país.
Fale por lá que comprou de um
sujeito que, se ainda não ri por aí, é
porque faltam dentes na sua boca,
os dentes que faz questão de, um
dia, conseguir.
M’saho
FEVEREIRO 2014
03
PROSA
BAIRRO BAIXO (III)
Tito Selemane
M
uito rapidamente, Tó pensou no
caso do jovem
ardina, na reportagem daquele jornalista que acompanhara a precoce eterna transferência
para o céu do filho único da coitada
velha senhora, reflectiu e tentou entender – "…bem trajado, óculos de ouro,
Martini… –," onde haverá problema
nisso? Só podem ser marginais, macacos
dementes nas fileiras policiais, não?
Indagou e depois respondeu:
- Tenho aqui comigo os documentos que o senhor me exige, mas só
os exibirei se o senhor disser primeiro
porque é que mos exige. Mais ainda,
usei essas garrafas para trazer água para
as flores que o senhor vê ai nesse vaso.
Não se trata, nada, de álcool, ou melhor,
Martini como a autoridade pensa e
docemente pronuncia.
Está resposta embaraçou e não
agradou o polícia que visivelmente
começava a enervar-se.
- O senhor quer desafiar a Lei?
Ou pensa que sou assim muito parvo a
ponto de aceitar facilmente o que me
diz.
- Lamento que não sei, mas digo
-lhe a pés firmes e sem hesitação alguma, como pode ver, que a lei aqui só
verá os meus documentos se primeiro
souber dizer porque é que mos exige. E
lamento ainda que não tenho mínimas
qualidades para afirmar, discutir consigo sobre o seu grau de parvoíce. Digo
lamento, porque parece-me que é mesmo o senhor que acaba de dizer que não
é assim muito parvo, podendo, querendo bondosamente ou não, significar, por
outras palavras, que talvez o seja em
qualquer outro grau e que não "muito".
Perdoe-me, se lhe tiver feito lembrar
esse lado da gramática, não foi minha
intenção. Perdoe-me do fundo do coração, senhor, se o tiver feito!
Muito ofendido e meio envergonhado, mas ainda resistente num tom de
voz menos arrogante, disse o polícia:
- Tudo bem. A minha psicologia
diz-me que o caro cidadão deve não
estar assim tão bem da cabeça, portanto
está perdoado. Entretanto como não quer
Baste a quem baste o que lhe basta
exibir os documentos que lhe exijo, levo a
O bastante de lhe bastar!
garrafa que ainda está cheia. E meio
A vida é breve, a alma é vasta:
medroso daquele corpo visivelmente
Ter é tardar.
demolidor de Tó-Carocho ordenou: e não
se mexe quando eu me inclinar para levar
Agora basta somente carregaa garrafa do chão, porque se não...
rem nos gatilhos, autoridade! … Não é
Assunto encerrado.
bom morrer sem medo do inferno, não,
Antes que ele o fizesse, em silênsenhores?
cio vibrou o telemóvel de Tó no bolso
Um estúpido nervosismo humiesquerdo das suas calças. Não tendo se
lhado e inevitavelmente expresso pelas
apercebido o polícia, quando Tó quis
suas caras, retirou-lhes os indicadores
imediatamente tirá-lo do bolso, os dois
dos gatilhos:
polícias puseram os dedos indicados nos
- Sonâmbulo diurno, filho de
gatilhos e em simultâneo disseram:
uma coitada não pouco, pensa que
- Atreva-se e verá! Quer sujartemos mais tempo para ouvir a porcaria
nos mesmo as mãos?!
Tó não desistiu de
tirar o telemóvel do bolso e
embora a sua calma dissesse-lhes que não tinha
medo, não queria tirar
arma alguma que não tinha
e nem queria trocar forças
com uns agentes fisicamente não fortes que tinham os
lábios de garganta seca,
estômago vazio e olhos
amantes de sangue por
amor a Pátria. Tirou o telemóvel do bolso e enquanto
respondia a uma mensagem que tinha recebido, de
quem não se sabe, disse
ironicamente sorridente:
Sujar-vos
as
mãos?!...
- Você ousa irritarnos ainda mais? Desafiar
uma faca de dois gumes da
lei bem afiada assim, só
pode ser coisa de um louco
que não sabe o que faz
como o senhor! Disse um
dos polícias.
Tó, como daqueles
homens que têm a vida
como seu único maior vicio
e refúgio, mentalmente
perturbado momentaneamente, as duas mãos nos
bolsos da gabardina pôs e
depois de ter dito:
- Pessoa; Pessoa,
FOTO: Marcos Vieira
que grande Mensagem, ó
Génio!...pareceu a sós consigo mesmo, e, sem totalmente se entreda tua boca! Disse um deles pegando na
gar à emoção, com um olhar tímido na
garrafa de Martini ainda cheia de água
forma, resistente e irreversível de homem
e foram-se em direcção, à saída, ao porde acção no fundo, tristemente alegre, em
tão principal.
voz baixa, recitou:
Instantes depois, Tó com os
seus ouvidos apuradíssimos ouviu uma
Os Deuses vendem quando dão.
voz muito feminina gritando por socorCompra-se a glória com desgraça.
ro. Era da mesma direcção do portal
Aí dos felizes, porque são
principal, aonde os dois gumes da faca
Só o que passa!
da lei bem afiada tinham seguido, de
onde vinham os gritos. Porque será?
Tenho que ir para casa. Pensou. Decidiu. Com as mãos nos bolsos da gabardina foi caminhando em direcção ao
portão principal.
De repente, Tó viu uma jovem
de aparentemente dezoito anos de idade e 1.60 m de altura, escura, de uma
pele da cor de café, sentada no chão
entre dois jazigos, com o tronco meio
inclinado para trás, apoiando-se com os
braços naquele chão de terra batida,
um vestido verde-claro de linho sem
mangas até aos joelhos, um casaco leve
também verde claro de linho, sapatos
de salto altíssimo, pernas meio afastadas, a voz já toda esgotada de tanto ter
gritado por socorro, calcinha branca
toda empoeirada no seu pé direito, dois
Índicos transbordando-lhe furiosamente pelas faces a partir dos olhos; TóCarocho ficou a uns poucos metros,
examinou a cena e tendo concluído tratar-se de uma desgraça, qualquer coisa
triste e não de um filme, aproximou-se
da jovem:
- O que é que se passa contigo,
menina? Estás doente? Perguntou Tó.
- Não, não! Fui sexualmente
violada, malmente mal usada. Vivo no
Bairro Luís Cabral e por aqui passo
sempre quando vou a cidade, esta é a
minha via mais rápida de casa para a
paragem e vice-versa.
- Está, estas a referir-te ao Bairro Baixo, que é a tua via rápida? Perguntou Tó-Caracho.
- Claro, meu irmão! Permitame que te trate por irmão, mesmo que
não o sejas de sangue. Sinto que de
coração o és. Foste o único que se preocupou comigo até agora. Veja que mal
consigo falar, gritei o quanto pude
enquanto várias pessoas, até dois polícias, por aqui passavam, como vês até
agora, pessoas a passarem ainda por
aqui, e não houve alguém como tu, que
pelo menos me ajudasse a gritar por
socorro.
Afinal, também os dois gumes
da faca da lei por ali perto tinham passado e quando se aperceberam de tudo
conversaram:
- Vamos molhar a garganta
com essa coisinha, meu. Não perca
tempo com coisas sem interesse.
Vamos lá beber logo este luxo, mano.
Sabe que eu só via está platina na televisão? Eu nunca tinha tomado isto em
toda a minha vida. Isto pode ser dois
nossos salários…
- É verdade. Você pensa bem e
rápido, mais velho! Quem mandou ser
bonita, meu avô ou nós? Vamos deixar
a gaja ser comida.
Do romance Inéditto: Doroth
M’saho
FEVEREIRO 2014
CRÍTICA
04
ELOGIO DA TRADIÇÃO(*)
Carlos dos Santos
[email protected]
A
presenta-se
hoje,
mais um conto desta
colecção que escolheu
resgatar contos tradicionais Moçambicanos e recontá-los
através das artes e das manhas de pessoas que esculpem o meio à sua volta
com o cinzel da palavra, da mesma
maneira que outros o fazem à madeira
com o gume afiado do formão. Neste
conto de hoje cruzaram-se ambos estes
artesãos para tentarem engalanar com
mais melodia esta história tradicional já
de si colorida. E este é o resultado.
“
...nestes últimos
anos quase que de
As histórias são uma das formas
mais perspicazes e eficazes de promover
as atitudes desejadas e de transmitir
valores positivos às crianças. Por isso,
este é um conto que tem como principal
destinatário as crianças. Mas (muitas d)
elas não estão aqui presentes! Onde
estão (ess)as crianças? Muitas estão neste momento em suas casas, plantadas
atrás de aparelhos de TV, a ingurgitarem
sem sequer mastigarem, novelas obscenas e desenhos animados aterradores.
Outras, estão à frente de computadores,
a jogarem, como autómatos, vídeo
games violentos ou a desnudarem publicamente as suas intimidades, sem pejo
algum, no Facebook, em Blogs e outros
que tais. Outras ainda, estão acorrentadas aos seus celulares a trocarem mensagens indecifráveis para o comum dos
mortais. Mas há ainda outras crianças.
São as crianças que estão na rua. Não
têm nem televisão, nem computador,
nem celular. Nem habitação. Nem
sequer alimentação! Competem em cada
semáforo por uma esmola escanifrada,
com outros pedintes de várias idades e
condições: deficientes, uns, anciãos
outros, mas todos eles abandonados.
Anciãos que não deviam estar ali, a disputar esmolas com aquelas crianças, que
também não deviam estar ali. Anciãos
que deviam estar, em vez disso, no aconchego dos seus lares, a contarem histórias àquelas crianças. As velhas histórias
tradicionais, como esta que aqui se lança
hoje. Mas não estão.
cada vez que se
Esta é só uma, do vasto leque de
maleitas de que enferma hoje o nosso
tecido social e que são o reflexo do banimento intempestivo e do abandono inopinado de diversas tradições, ocorrido
nas últimas 3 décadas, que provocou
uma hemorragia que nunca mais foi
estancada e que a todos nos ameaça de
anemia social.
nos de equilíbrio
As tradições não são mandamen-
mudou uma coisa,
a sociedade se tornou um pouco
pior. Temos de
rever com urgência o nosso
“modernismo” e
repensar as tradições e, talvez,
repor muitas
delas. Para, com
isso, repormos os
mecanismos inter-
da malha social
que foram esfarrapados...
tos divinos nem criações humanas abstractas. Elas são procedimentos dinâmicos que a sociedade foi estabelecendo ao
longo dos tempos para, nas circunstâncias vigentes, manter unido, equilibrado e
estável o tecido social. São mecanismos
de defesa e de resposta em relação às circunstâncias do meio ambiente, em cada
lugar e em cada tempo.
Quer isto dizer que essas tradições
eram inteiramente benéficas, e que não
comportavam quaisquer males? Com certeza que não. Tudo tem um custo. Tal
como qualquer outro, também o tecido
social é vulnerável à traça. E a traça tem
de ser eliminada.
Mas é preciso ter o cuidado e o
saber para ao tentar fazê-lo, não rasgar o
tecido e deixar que a traça se evada e se
espalhe incólume. Nos combates é preciso evitar o voluntarismo, que leva a deitar
-se fora a criança com a água do banho.
Para que não seja pior a emenda que o
soneto.
As tradições para produzirem os
resultados positivos para que foram criadas, comportavam, sim, facetas negativas. Que era preciso combater. No
entanto, elas foram erradicadas apenas
pelas suas facetas negativas, descurando
-se os impactos positivos que elas produziam. E que, nas circunstâncias vigentes
não se conseguiam obter de outro modo.
E foram banidas sem terem sido substituídas por outras que fossem melhores.
Por consequência, bastas vezes o
resultado desta abolição abrupta foi o
agravamento dos efeitos negativos que
essas tradições possuíam, e de forma
mais perniciosa, porque velada, tendo,
ademais, o vazio criado, libertando os
efeitos negativos que elas estancavam.
Como estes meninos e estes anciãos despojados e abandonados por todo o lado.
Porque, uma vez que as tradições
são a linguagem arquitectada para
mediar a interacção social com o meio, o
combate não deve ser dirigido a essas
práticas entanto que tal, que são meras
consequências, e sim às circunstâncias
M’saho
que motivaram o seu estabelecimento,
que são a sua causa. São as circunstâncias que têm de ser combatidas.
Só assim se conseguirá que estas
tradições deixem de ―ser necessárias‖,
se tornem mesmo obsoletas e, por isso,
sejam repudiadas por quem as pratica –
e não por quem as observa à distância. E
que sejam substituídas por outras práticas, por novas tradições, que produzam
os mesmos resultados positivos, sem
comportarem os mesmos efeitos negativos. Comportarão outros, certamente.
Tudo tem um custo.
FEVEREIRO 2014
atirá-los para o colo dos filhos, embrulhados num discurso monocórdico e estéril
sobre a importância da leitura – coisa que,
porém, apesar de a dizerem assim tão
importante, os filhos nunca vêem os pais a
fazerem! Um exemplo vale por mil imagens!
Mas, as histórias não são para serem
lidas pelas crianças. As histórias são para
serem contadas. As histórias são para
serem interpretadas. Por pais e filhos juntos.
divertida. E podem, depois, partir da
história escrita e porem-se todos a
inventar. E, assim, as histórias nunca
mais vão acabar.
nos está a conduzir à loucura e ao naufrágio sociais. Há que estancar este
ciclo alucinado de mudança em que
caímos.
Mas o mais importante neste
acto de contar histórias não são, porém,
as histórias em si. As histórias não são
um fim. São apenas um meio. O acto de
contar uma história, é um momento
privilegiado do forjar de vínculos inquebrantáveis, vínculos de confiança, de
partilha, de amor, entre pais e filhos,
O novo não é sinónimo garantido de melhor. E se não der provas de
sê-lo, é melhor deixar as coisas como
estão, para não as piorar. Para sempre? Não! Até que se encontre um
novo que seja melhor. E, ―melhores‖,
serão apenas aquelas práticas que
dêem provas de conseguirem produzir
os mesmos resultados positivos, ou
mais ainda, com menores custos colaterais nefastos.
As leis que regem o nosso modo
de vida urbano moderno são tradições,
elas também! Não têm os defeitos de
aqueloutras. Mas em nada estão isentas
de efeitos nefastos, seja sobre os indivíduos, seja sobre a sociedade. Tantos,
que não conseguem sequer manter a
sociedade unida e educada, solidária e
harmoniosa, permitindo, em vez disso,
que se abandonem impunemente viúvas, filhos, pais e avós: esses mesmos
que pululam por esta cidade ao relento,
como fantasmas ensimesmados! Por
ora.
A economia de mercado, tão elogiada, tem inúmeras facetas negativas.
Afinal, ela é o ventre fértil gerador e, ao
mesmo tempo, o seio em que se nutrem
estas ervas daninhas do social. Mas apesar disso não foi condenada e banida
sumariamente. A democracia vigente,
tão prendada que é, está cheia de defeitos, entre eles a perpetuação de inúmeras desigualdades e injustiças e da mais
tenaz das formas de ditadura – a das
maiorias. Mas não é por isso que foi
liminarmente suspensa. Como se fez
com muitas tradições no nosso país.
Uma destas tradições que foi varrida pelo tsunami do modernismo, com
todas as consequências que nos sufocam
hoje, foi a prática de outrora de contar
histórias às crianças.
Os contos tradicionais eram o
meio através do qual, tocando o sentimento com mestria, e levando à identificação com uns, e à rejeição de outros
dos comportamentos contados, se ensinava às crianças, e se relembrava aos
adultos, como respeitar os outros e o
meio ambiente, ou seja, a saber - ser e a
saber estar, construindo assim, noite
sobre noite, a personalidade dos futuros
adultos da família e da comunidade,
educando, desse modo, história sobre
história, filhos em quem os pais se orgulhavam: nós.
Belos tempos esses, em que os
pais não se tinham demitido das suas
responsabilidades parentais e não passavam a vida a lamentar-se e a acusar a
nova geração de todos os males sociais
– como nós fazemos hoje. Não é porque
nós fomos melhores filhos… É porque
eles foram bons pais.
Os ――melhores‖‖pais de agora
limitam-se a comprar uns livritos e a
05
CRÍTICA
Mas a verdade é que nestes últimos anos quase que de cada vez que se
mudou uma coisa, a sociedade se tornou um pouco pior. Temos de rever
com urgência o nosso―modernismo‖ e
repensar as tradições e, talvez, repor
muitas delas. Para, com isso, repormos
os mecanismos internos de equilíbrio
da malha social que foram esfarrapados, até que outros, comprovadamente
melhores, se desenvolvam e afirmem e
vão sendo adoptados, em substituição.
Desenvolvidos por dentro, progressivamente, fruto da alteração das circunstâncias, a qual produz níveis mais
elevados de consciência social, sem os
quais nenhuma mudança perdura, e
com bases de sustentação, em sinergia
com outros factores, sem os quais não
resultam.
Contar uma história não é falá-la,
como quem a lê. É encená-la. É dar um tom
de voz e uma musicalidade diferentes a
cada personagem. É fazer gestos e caretas,
para dar vida e sentimento a cada passagem da história. É trocar as palavras escritas por sinónimos falados, porque mais
bonitos, ou porque mais compreensíveis
por parte daqueles que ouvem a história.
O papel dos pais é, por isso, indispensável. Seja a contá-las, seja a saberem
ouvir para responderem às perguntas das
crianças. Ou seja a investigarem para poderem fazê-lo, porque também para nós não é
vergonha nenhuma não sabermos tudo. Só
é vergonha não procurar aprender.
Os contos e as histórias não têm
dono. Ou melhor, têm muitos donos: elas
são propriedade de quem as conta e de
quem as ouve. Todos nós estamos autorizados a alterar, a mudar as histórias que
lemos, ao contá-las. Este livro intenta precisamente esse exercício de acrescentar
sempre vozes e sons, imagens e acontecimentos ao contar de um conto, acrescentando-lhe de cada vez um ponto.
Pais e avós, tios e professores e as
crianças podem, assim, fazer de cada livro
um momento de aprendizagem mútua
netos e avós, tios e sobrinhos, laços que
são fundamentais para o desenvolvimento são e equilibrado das crianças
sob os pontos de vista psíquico, emocional e social. E também dos adultos!
Mas, nesse momento mágico,
grande parte de nós está ausente. Estamos ocupados, quando não a praticá-los
mesmo, a condenar todos à nossa volta,
incluindo os nossos próprios filhos, que
nós não soubemos educar, por todos os
males que nos rodeiam nesta malafortunada época em que vivemos,
recordando, cheios de saudade, os nossos bons velhos tempos.
É verdade. Os tempos de antigamente eram melhores em muitas coisas:
quase todas aquelas coisas que nós combatemos e mudámos.
Esta sociedade de hoje, de que
tanto nos queixamos, com todos os
males que arrasta, é produto nosso, das
mudanças que nós instituímos. Renovação, inovação, reestruturação, revisão,
reforma…Mudar tornou-se moda. Muda
-se por mudar. Porque mudar é uma
forma de afirmação do poder pessoal.
Cada um muda o que o outro mudou,
numa maré infernal de mudança, que
É preciso que paremos de nos
lamentar como carpideiras inconsoladas, e que, em vez disso, ajamos.Contar histórias é uma potente
forma de acção. É um acto de intervenção social. Pode mesmo ser um acto de
rebeldia e revolta contra o estado
actual das coisas. Ninguém o virá fazer
para nós. O remoto controlo está nas
nossas próprias mãos.
Não podemos alterar o presente, porque já o escrevemos com as
escolhas que fizemos no passado. Mas
podemos alterar o futuro, com aquilo
que escolhermos fazer no presente.
Temos esse dever, porque como disse
J.J. Audubom, o nosso planeta “não é
uma herança que recebemos dos
nossos pais, mas sim um empréstimo que recebemos dos nossos
filhos‖.
Termino aqui, para não vos
tomar mais tempo, e impedir que
saiam já. Passem ali e comprem livros.
Sigam directos daqui para casa. Reúnam a família, peguem no remoto e
desliguem a televisão, o computador e
os celulares, e depois ponham-se a
contar histórias. Esta, que neste livro
recontei e outras. Não se esqueçam:
não se limitem a contá-las. Podem, à
vontade, reinventá-las. E inventar
outras. Mas contem histórias, agora e
sempre.
Contar histórias é preciso.
M’saho
FEVEREIRO 2014
06
POESIA
Poesia de António Joaquim Marques
Angola
(Kiba-Mwenyu)
Kimbundu
NGI LULUTA MU JINJILA
Português
VAGUEIO PELAS RUAS
Eme ngi luluta mu jinjila ku jisanzala jina
Ni ngi wana mikumbi y’ami ku mabata mana
Ngi wana mikumbi ya kulenduka kw’ami
Yene i londokesa ku muxima wa ukwenze
O kuzediwa mu kizuwa kia hadya
Vagueio pelas ruas das sanzalas
Oferecendo de porta em porta meus poemas
Ofereço meus poemas humildes
Que revelam do coração valente
A prosperidade dum futuro próximo
O mikumbi y’ami ya biluka mulombe
O mikumbi y’ami ya kala nduwa we
O mikumbi y’ami mabuku ku malunda
Nda kulongolola ukatelu wa akwetu
Meus poemas são sombrios
Meus poemas são vermelhos também
Meus poemas são vagas da história
Que interpretam dores do meu povo
Eme ngi luluta mu jinjila ku jisanzala jina
Ni ngi wana mikumbi y’ami ku mabata oso
Ngi wana ngo mikumbi ya kuxixima kw’ami
Ngi wana mikumbi ya manyinga mami
Vagueio pelas ruas das sanzalas
Oferecendo de porta em porta meus poemas
Ofereço meus poemas sôfregos
Ofereço meus poemas sangrentos
Ngi wana mikumbi yiyi ni akwa-nzala
Ngi wana ni atu a saluka ni an’a humbuluka ze
Mukonda nga tokala oso mu malamba mama
Ofereço meus poemas aos esfomeados
Ofereço aos enlouquecidos e mutilados
Porque também pertenço-os na desgraça
O mikumbi y’ami, kiluminu kia dikumbi dyo-swenye
Anga mikumbi y’ami i dila ukatelu wa atudi oso
Ni jinjinda ja mudyelelu wene u suka muxima
Meus poemas são ecos do sol afogado
Meus poemas choram dores de viúvas
E amarguras de esperanças desesperadas
Mikumbi y’ami, jinjila ja ukwame mu dimbinza
Mikumbi yiyi i tena kwimbila henda yo-jimbidile
Mukonda ngala anji ni imoma moxi di’ami
Eme ngala ni imoma ya kitangana kia wima
Meus poemas são pássaros feridos no espaço
Meus poemas cantam amor extraviado
Porque em mim permanecem ainda
Cicatrizes de todos tempos trágicos
Maza o kuwaba kwa mukumbu
Kwa kulundumukile mu kitombe kina
Anga mikumbi y’ami ya bulukile ze
Ontem a beleza da música
Morreu ingloriamente na escuridão
Mas os meus poemas não morreram
Eme ngi luluta mu jinjila ku jisanzala jina
Ni ngi wana mikumbi y’ami ku mabata oso
Mu madimi ma ixi
Vagueio pelas ruas das sanzalas
Oferecendo de porta em porta meus poemas
Em línguas indígenas
Mukonda o mikumbi ya kuxixima kw’ami
Undundu wa jindunge ni mwenyu
Mu kidi kia kizuwa kia hadya ina
Yene i songesa jinzoji mu nzumbi ya ixi y’etu!
Porque estes poemas apesar de serem humildes
São heranças nobres da vida
Que pertence a verdade dum futuro
Reivindicando sonhos na alma da terra!
Do livro “Difuta” (Poemas feitos entre 1985 – 1995) - Edição bilingue: Kimbundu/Português
M’saho
FEVEREIRO 2014
CARTAS AO MUNDO
Carta do Oriente
POESIA
Poesia de
Pedro Afo
“As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se
com o presente e encaram o futuro sem medo.” Epicuro
Palmira Marques, Díli
SERENA
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Caro Zé:
Uma vez mais me encontro pela Ásia, aquela muito a Oriente
da qual conheces alguns locais. As cores e os contrastes são uma constante. Nas paragens por onde moro, não tenho o alvejar da branca neve da
nossa serra nem o frio copioso e rijo! O calor torna-nos otimistas e soltos.
Aqui o ―inferno não são os outros‖ mas antes, esta canícula indomável,
duma Ásia que cresce em desalinho e plena de poluição. Dou muita vez a
pensar comigo mesmo, que seria de Manteigas com um décimo da poluição de Jakarta, quase sempre envolvida numa nuvem de fumo…ou com o
rio Zêzere atafulhado de lixo da pior espécie como o que acontece, neste
charco imundo que corta a capital indonésia e que é meio de subsistência
de muitos pobres! Também o (des) governo destas paragens quase sempre avilta os sonhos de quem nasce pobre, pobre vive e pobre morre.
Nesta viragem de ano, pede-se sempre o que desejamos, porque o pedido, por si só, é o descrédito de que o não realiza!
Encanto saqueador da minha bondade,
Tu sim, és minha metade,
Causadora do meu sorriso rasgado,
Dádiva do meu presente;
Actriz principal do meu alegre semblante.
Seu calor preenche o meu vazio;
Doce, suave e verdadeiramente meiga;
Sua imperfeição faz de ti , mulher perfeita.
O teu não no meu sim, encaixa-se perfeitamente,
Minha adorável Afrodite.
De serena tens tudo e mais um pouco,
Quem mal te diz, pensa que te conhece.
Tu és:
O adorno dos meus escombros,
O sonho dos meus sonhos.
Mas como viver é preciso e o passado é o que de mais certo
temos, as recordações entram-nos pela alma e saem-nos pela boca, pelos
olhos, pelos poros…Pois bem, evocaste no texto, tua avó Mariana que a
amiúde me lembra. Ela conhecera minha avó materna, PalmiraJabé,
estando por isso, ligada ao passado de minha mãe. Acompanhei a senhora Mariana, muitas vezes ao terço diário na igreja de Sta. Maria. Ia bastas
vezes a nossa casa onde passava as tardes a conversar ou a coser roupa.
Também para mim e meus irmãos era a avó Mariana, e tanto quanto sei,
nessa altura, poucos netos tinha em Manteigas – talvez estivesse o Rui
(que é feito dele e da sua guitarra? Não o vejo para aí há meio lustro!).
Lembro-me ainda de minha mãe ―obrigar‖ a avó Mariana a acompanharnos nas refeições e quando o caldo era de grão, havia sempre filme, porque a sua garganta muito sensível, reagia ao polme da leguminosa, fazendo-a tossir excessivamente. Era uma mulher de rija têmpera, mas com o
passar dos anos, tornaram-se raras as descidas ao Valazedo, ficando retida na sua casa do Eirô. Assim, éramos nós que subíamos, para levar uma
sopa ou um mimo. Sentadas junto da janela que dava para a ribeira da
vila, conversávamos, contando ela antigas histórias. Ainda hoje, recordo
as suas mãos, escuras e ossudas, salpicadas de sinais, mas sempre tão
expressivas. Sabes Zé, de certo modo, tenho orgulho de ter partilhado
momentos tão únicos com esta velhinha que não sendo da minha família,
PALAVRAS
Palavras curtas, palavras grossas,
Palavras impetuosas e cuidadosas,
Palavras cheias de charme.
Palavras duras, como picadas de um enxame.
Algumas desmotivadoras
E outras encorajadoras.
Nunca passam despercebidamente,
Palavras sempre mudam,
Estruturam, mas também desestruturam,
Tão pequenas e com um poder imensurável,
Quem dera as proferir, sem ferir,
As exalar, sem importunar.
Disparar, sem alvejar.
Não vivemos sem elas, são aquele sim e não que fazem o
coração palpitar.
era como se o fosse.
Tudo isto para dizer, que esta distância física entre o extremo
mais ocidental da Europa e o extremo mais oriental da Ásia põe as recordações em paralelo. E tal como tu, ―Nesta andança inquieta, admirável e
insegura que é a vida, saibamos respeitar-nos no seio do nosso tempo,
saibamos colher as flores que hão-de perfumar a nossa casa, e não nos
cansemos do que nos faz falta, não abusemos da força que já não somos
por se ter esgotado a força que já fomos, nem troquemos a emoção do
afecto instintivo pela secura da apatia insolente‖.
“As palavras são mais sensíveis que peças de cristal,
portanto, é preciso saber usá-las.”
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ARTISTAS JÁ
CONFIRMAM PRESENÇA
J
á se conhecem as datas de realização de um dos maiores festivais de música em Moçambique e
com mesmo prestígio a nível do continente. O Festival Azgo na sua edição de 2014 tem músicos de
peso para além da programação multicultural que junta, artesanato, gastronomia, cinema e literatura. Dois artistas influentes já confirmaram a sua vinda em Maputo para actuar no festival
que decorre nos dias 23 e 24 de Maio próximos. Conheça a seguir o perfil dos artistas….
ILHAS REUNIÃO
A autora de ―Django‖ e ―Ti blé‖,
espera contagiar o público que aderir
aos espectáculos do ―Azgo‖, assim como,
fortificar laços com Moçambique, uma
vez que haverá espaço de colaboração
entre Christine Salem e a moçambicana
Zena Bacar. A parceria musical entre
estas duas vozes de grande respeito, vai
contar com os préstimos dos Eyuphuro,
banda que tem Zena Bacar como
vocalista principal.
Ainda no quadro do Festival Azgo
em parceria com o CCFM, Salem promete incendiar o palco do Centro Cultural Franco Moçambicano, onde a artista
vai protagonizar um espectáculo inserido numa residência artística aqui no
nosso país.
De Moçambique, a cantora das
Ilhas Reunião, ruma para à vizinha Swazilândia onde vai participar no afamado
festival multicultural daquele país, o
Bushfire.
Christine Salem é uma das mais
brilhantes vozes femininas do ritmo
Maloya, música originária das Ilhas
Reunião, terra natal da artista. Com
uma personalidade forte e carismática,
Christine Salem toca um instrumento
denominado típico da comunidades conservadores do seu país, denominado
kayanm. Muitos críticos de música e arte
em geral, consideram que a voz de Christine tem o poder do oceano, banha corações
e mentes.
Desde 2008, após quase 10 anos
ininterruptos em turnê por diferentes países do mundo, Christine Salem dedica-se a
música de raiz do continente africano em
particular do seu país natal. Produz um
trabalho de uma nova linha, escreve música baseada nos ritmos tocados durante as
cerimónias dedicadas aos antepassados em
Madagascar, nos Comores e nas Ilhas Reunião.
ÁFRICA DO SUL
Tlale Makhene, vencedor dos SAMA
(South African Music Awards - maior parada de sucesso de música na África de Sul)
tem presença garantida no Festival Azgo,
evento vai para a sua quarta edição.
Este professor de música e performer, já partilhou palco com nomes como:
Keiko
Matsui,
Pharaoh
Sanders,
Corrine
Bailey, Angelique Kidjo, Jamalia, Caiphus Semenya
entre outros.
Tlale Makhene vai escalar pela primeira vez Moçambique e espera conquistar a simpatia dos apreciadores da sua
música. Mais do que isso, Tlale, servir-seá desta oportunidade não só para ampliar
a rede de contactos, assim como, para
projectar-se mais no mercado internacional.
Tlale Makhene is one of South Africa's most remarkable drumming
talents.Tlale Makhene é um dos mais
notáveis talentos de percussão da África
do Sul. Highly regarded by musicians and
musical fans alike, he is as much sought
after teacher, session musician and performer. Altamente considerado por músicos e fãs de música da mesma forma, ele é
o mais procurado depois de professor,
músico e performer. His album, The
Ascension Of The Enlightened is a true
spiritual offering from a truly enlightened
man. Seu álbum, A Ascensão dos iluminados é uma verdadeira oferta espiritual de
um homem verdadeiramente iluminado.
Born in Soweto, Tlale moved to Swaziland at a young age and began drumming at the age of four. Nascido em
Soweto, Tlale mudou-se para a Suazilândia em tenra idade e começou a
tocar bateria com a idade de quatro.
Tlale começou a tocar bateria
na igreja, bem como, no meio escolar.After leaving school he returned to
his birthplace Soweto in 1992 and
began studying drumming full time at
the FUNDA Center. Após deixar a
escola, voltou para sua terra natal
Soweto em 1992 e começou a estudar,
batucando em tempo integral num
Centro de Formação Profissional
local.
Refira-se que a Quarta Edição
do Festival Azgo, terá lugar entre os
dias 23 e 24 de Maio próximo, no
Campus Principal da Universidade
Eduardo Mondlane. Para além de
artistas estrangeiros, o evento, leva ao
palco músicos de Moçambique, casos
de Simba, G-Pro, Isabel Novella,
Yolanda Kakana e Ghorwane.
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6ª edição da Revista Nós Artes e Cultura. - Pedro Afo