Jovens Pesquisadores ISSN 1806-8634 Ano V – Número 9 – Jul./Dez. 2008 A revista dos trabalhos de conclusão de curso dos alunos do CCSA – Mackenzie Home Objetivos Normas para publicação Edições Expediente Contato A Revista Jovens Pesquisadores apresenta parte dos esforços dos discentes do CCSA, em artigos extraídos de seus trabalhos de pesquisa de conclusão de curso. SUMÁRIO Sumário EXPEDIENTE ............................................................................................................. 2 CONTATO ................................................................................................................. 3 OBJETIVOS ............................................................................................................... 4 NORMAS PARA PUBLICAÇÃO ....................................................................................... 5 A APLICAÇÃO DO REFERENCIAL TEÓRICO NOS PROCESSOS RECENTES DE FUSÕES & AQUISIÇÕES .......................................................................................................... 6 A inovação como fator de VANTAGEM COMPETITIVA do etanol DE CANA no mercado BRASILEIRO de COMBUSTÍVEIS ............................................................................. 24 A PERCEPÇÃO ÉTICA INTERFERE NO DIA MACKENZIE VOLUNTÁRIO? .......................... 40 CANAIS REVERSOS E A IMAGEM CORPORATIVA - UM ESTUDO DE MULTICASOS........... 50 ECONOMIA COMPORTAMENTAL E TRAJETÓRIAS DE CONSUMO INTERTEMPORAL ANOMALIAS E EVIDÊNCIAS DO CASO BRASILEIRO ................................................... 63 IMPORTÂNCIA DOS COMPONENTES DA REPUTAÇÃO CORPORATIVA NA PERCEPÇÃO DE UNIVERSITÁRIOS CLIENTES DE BANCOS ................................................................. 85 O IMPACTO DA TECNOLOGIA DE ETIQUETA INTELIGENTE (RFID) NA PERFORMANCE DE CADEIAS DE SUPRIMENTOS – UM ESTUDO NO BRASIL ........................................... 101 TAMANHO É DOCUMENTO! E BELEZA É FUNDAMENTAL? EXPLORANDO INFLUÊNCIAS DE COMPRA NA RELAÇÃO EMPREGADA DOMÉSTICA – PATROA. ..................................... 141 Um Estudo Macroeconométrico da Influência do IED sobre as Exportações Brasileiras .. 158 2 EXPEDIENTE Editores Prof. Gilberto Perez Profª. Vânia Maria Jorge Nassif Prof. José Caio Racy Prof. Paulo Rogério Scarano Conselho Editorial Adilson Caldeira Alexandre Nabil Ghobril Álvaro Alves de Moura Junior André Castilho Ferreira Costa Francisco Américo Cassano Henrique Formigoni José Caio Racy Luiz Carlos Jacob Perera Marcos Antonio Franklin Maria Thereza Pompa Antunes Paulo Dutra Costantin Paulo Roberto Leite Paulo Rogério Scarano Roberto Gardesani Silvia M. Russi de Domenico Vânia Maria Jorge Nassif Composição e arte Prof. Paulo Rogério Scarano Composição do CCSA Diretor Prof. Dr. Moisés Ari Zylber Diretora Adjunta da Unidade Tamboré Prof. José Carlos Thomaz Coordenadores de Curso Administração Geral Prof. Sergio Lex Contabilidade Prof. Henrique Formigoni Economia Prof. Paulo Rogério Scarano Coordenadores Monografia (para o curso de Economia) Prof. André Fernandes Lima TGI - Trabalho de Graduação Interdisciplinar (para o curso de Administração) Prof. Gilberto Perez REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 3 CONTATO JOVENS PESQUISADORES R. Consolação, 930 Prédio T – Ed, Rev. Modesto Carvalhosa – CCSA/Térreo CEP 01302-907 – Consolação – São Paulo/SP – Brasil E-mail: [email protected] REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 4 OBJETIVOS Objetivo Geral A revista Jovens Pesquisadores é uma publicação semestral, cujo objetivo principal é divulgar a produção acadêmica dos alunos do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, relacionada aos seus trabalhos de conclusão de curso. Objetivos Específicos estimular a continuidade do trabalho de conclusão de curso, agregando as sugestões dos examinadores, após sua aprovação; estabelecer o contato dos novos pesquisadores com as características próprias do processo de produção de artigos acadêmicos; ampliar a troca de experiências entre orientadores e orientandos, possibilitando a estes últimos uma oportunidade pioneira para a publicação de suas pesquisas; aprimorar ainda mais a qualidade dos trabalhos de conclusão de curso do CCSA/Mackenzie. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 5 NORMAS PARA PUBLICAÇÃO *Estas regras são pré-requisitos para publicação • Enviar e-mail para [email protected], mencionando o Título do Trabalho, um telefone de contato e uma cópia eletrônica do artigo Primeira página título e subtítulo do artigo nome dos autores por extenso abaixo do título (o nome dos autores deve aparecer somente na primeira página) professor orientador (nome completo) resumo do artigo (máximo 150 palavras) palavras-chave (mínimo três e máximo seis) início do texto Formatação do artigo Papel A4, margens: superior: 2,5cm ; inferior:2,0cm ; esquerda:2,5cm; direita:2,0cm. Tipo de letra: Times New Roman. Tamanho de letra no título e sub-título: 12 (em negrito, maiúsculas). Tamanho de letra no texto: 12 (sem negrito). Espaço entre linhas: simples. Espaço entre parágrafos: 6pts. Alinhamento: justificado. Referencias bibliográficas: de acordo com a ABNT (NBR 6023/02). Limite: 20 páginas, incluindo ilustrações, gráficos, tabelas, notas e referências bibliográficas. Não colocar notas de rodapé, mas sim no fim do arquivo. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 6 A APLICAÇÃO DO REFERENCIAL TEÓRICO NOS PROCESSOS RECENTES DE FUSÕES & AQUISIÇÕES Eduardo Silva Farinazzo Leonardo dos Santos Rodrigues Mario Henrique Quintero Laskievic Matheus Werneck Achoa Pires Ricardo Bruno Novack Bueno Luiz Carlos Jacob Perera RESUMO O tema Fusões e Aquisições é recorrente no meio empresarial, devido às empresas buscarem constantemente aumentar o seu valor de mercado. Agregar valor à empresa não é tarefa fácil, pois implica adaptar-se a cenários nem sempre favoráveis e fazer a rentabilidade da empresa superar o custo de capital, ajustado ao risco do empreendimento. O crescimento desejado (rápido e rentável) obriga as empresas a serem ágeis no seu processo decisório. Entre as possíveis alternativas encontra-se a compra de um concorrente, possibilitando superar etapas do processo de crescimento. Empiricamente o sucesso de um processo de F&A pode ser testado pelos ganhos conjuntos das empresas envolvidas. Na prática, o processo é árduo e trabalhoso, exigindo muita aplicação dos agentes. O presente trabalho subsidia um projeto maior de monografia e analisa, a luz de referencial teórico atualizado, cinco estudos de Fusões e Aquisições recentemente realizados. Palavras-chave: Fusões e Aquisições, aquisições de empresas, resultados de fusões e aquisições, motivos para fusões e aquisições, estratégias de negócios. INTRODUÇÃO Neste artigo, procura-se, a partir da análise de cinco trabalhos científicos, encontrar e identificar motivos e efeitos empresariais influenciadores dos processos de Fusões e Aquisições (F&A), que estejam de acordo com o referencial teórico apresentado. Procura-se, ainda, determinar, na prática, como ocorrem os processos de F&A e quais os principais resultados alcançados. Pelo fato de o mundo, hoje, apresentar competitividade muito acirrada, a busca por novos mercados é uma realidade para as organizações. Este estudo torna-se uma ferramenta relevante por apresentar os motivos principais que levam as empresas a adquirir outras empresas, e os problemas enfrentados por elas nesse processo. Tais problemas ocorrem por fatores como a falta de planejamento, a inexperiência com o processo e a falta de importância dada e ele. No cenário mercadológico atual, muitas vezes a opção mais viável para o crescimento da empresa dá-se pela aquisição de uma concorrente, pois o mercado encontra-se em equilíbrio, ou seja, atendendo às expectativas da demanda e opções de crescimento expansionistas seriam temerárias. Este e outros aspectos das F&A são discutidos neste texto. O problema de pesquisa formulado foi: Os processos de Fusões e Aquisições desenvolvidos pelas empresas levam em consideração o referencial teórico existente? Considerando que este trabalho objetiva subsidiar um projeto maior de monografia sobre o tema F&A, foi estabelecido como objetivo geral a verificação da adequação do referencial teórico disponível REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 7 aos processos de fusões e aquisições analisados. Como objetivo específico procurou-se verificar os resultados alcançados a partir dos processos desenvolvidos pelas empresas constantes das pesquisas analisadas. Este trabalho está estruturado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se a introdução colocando o contexto da pesquisa; no item dois apresenta-e o referencial teórico pertinente; o item três discute a metodologia adotada; no item quatro, apresenta-se os principais resultados encontrados, e; finalmente, são tecidas as considerações finais com as principais conclusões da pesquisa. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1Conceitos de Fusões e Aquisições Aquisição é o processo pelo qual as ações ou ativos de uma empresa passam a pertencer a um comprador. É o termo genérico usado para descrever a mudança de proprietário. Quanto à fusão é o termo específico para o procedimento que pode ou não acontecer após a aquisição (REED e LAJOUX, 1995:4). Rasmussen (1989) salienta que a aquisição não é um evento isolado, e sim, parte integral do processo de expansão e crescimento de um grupo econômico. As F&A são poderosas ferramentas para o crescimento e expansão econômica empresarial, permitindo a penetração em novos mercados em curto prazo, evitando a espera pela maturidade de investimentos internos a partir da estaca zero. As duas últimas décadas do século XX foram marcadas por um crescente aumento das operações de fusões e aquisições. Isso ocasionou diversas mudanças, alterando padrões de gestão, produção e emprego no mundo todo. Trata-se de um fenômeno que tende a continuar. Segundo Dupas (2001), a concentração das últimas décadas ainda persistirá, apesar de o número de líderes mundiais, na fabricação de vários produtos em áreas fundamentais à economia contemporânea, já ser muito restrito. No Brasil, o tema F&A passa a ter maior importância no início dos anos 90 quando o número de operações começa a aumentar, em decorrência da redução das barreiras à entrada ao capital estrangeiro e da inserção do país no mercado globalizado. Rossetti (2001) afirma ser provável que o ritmo se acelere em virtude de fatores como i) a intensificação de privatizações em áreas em que o setor público ainda tem presença marcante; ii) confirmação da estabilidade monetária; iii) um número ainda grande de empresas familiares envolvidas em processos sucessórios complexos; iv) crescente participação dos fundos de pensão no patrimônio empresarial do país e; v) retomada do crescimento econômico, em bases sustentáveis. De acordo com Barros (2003), fusão envolve uma completa combinação de duas ou mais empresas que deixam de existir legalmente para formar uma terceira com nova identidade, teoricamente sem predominância de nenhuma das empresas anteriores. Já a aquisição determina o desaparecimento legal da empresa comprada. Duas grande lógicas estão sempre envolvidas com processos de F&A; uma está ligada à maximização de valor da empresa e outra a fortes motivações do corpo diretivo. Para Cartwright e Cooper (1999) as duas estão muito relacionadas porque, do ponto de vista ideal, as razões do corpo diretivo têm como última conseqüência o aumento do valor da empresa. Rourke (1992) e Evans, Pucik e Barsoux (2002) identificam outros motivos para a aquisição de empresas. Para o primeiro, as razões da aquisição estão ligadas à necessidade de diversificação pura, à melhoria de posição no mercado, à aquisição de tecnologia e ao aproveitamento de situações de reestruturação, quando a empresa tem problemas de desempenho. Para os segundos, REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 8 estão ligadas a domínio de mercado para ganhar economia de escala e controle sobre canais de distribuição, expansão geográfica, aquisição e/ou alavancagem de competências, aquisição de recursos, ajuste ao mercado competidor e desejo irracional de executivos. Muitas empresas são vendidas devido a dificuldades financeiras, e isso também é muitas vezes determinado por razões pessoais ou envolvimento emocional do dono e fundador com a empresa, fazendo com que o proprietário não enxergue, estrategicamente, o melhor momento da venda, ocorrendo a venda em período de extrema dificuldade financeira. 1.2 Due Diligence Due Diligence trata-se da etapa inicial do processo de aquisição, quando são feitos levantamentos e análises sistematizadas sobre a empresa a ser adquirida (BARROS, 2003). Segundo Marks e Mirvis (1998) o mais comum nessa etapa é focalizar as implicações financeiras decorrentes dos valores relativos a taxas, impostos ou quaisquer questões legais que influenciem na estrutura da transação em si, com o objetivo de auxiliar a definição do preço a ser pago. Muitas empresas formam equipes multidisciplinares com capacidade e expertise para cumprir a due dilligence, porém o que geralmente ocorre é a formação de uma equipe de background para avaliar os riscos financeiros envolvidos na operação. Isso faz com que o processo de due dilligence fique muito focalizado, dispensando outros aspectos importantes que deveriam ser analisados. A composição da equipe é que faz a negociação ser variada. Por ser uma questão importante e estratégica, os profissionais que farão parte da equipe são escolhidos pela direção da empresa. Normalmente, os critérios para escolha são experiência, competência e relação de confiança. Em alguns casos, o dono participa da negociação, em outros, a tarefa é entregue a executivos ou também a instituições especializadas, como bancos e empresas de consultoria. Para Rourke (1992) o período de integração á mais lento quando os fundadores permanecem na empresa adquirida. A empresa adquirente não pode ser ingênua em relação às presenças que se enriqueceram com a operação, pois esse fato dificulta a garantia de comprometimento com a nova forma de organização. Por outro lado, quando a empresa quer ou precisa ser vendida e o corpo social compartilha dessa visão, o tempo de integração e as dificuldades inerentes ao processo tendem a ser menores. Segundo Evans, Pucik e Barsoux (2002) a maioria das empresas reconhece que os primeiros cem dias após a aquisição são de extrema importância para evitar conseqüências negativas. Apesar da importância desse período, poucas são aquelas que elaboram um plano de ação para essa fase. Algumas das que planejam, privilegiam apenas a indicação rápida de uma equipe de integração e a divulgação da nova estrutura organizacional. As fusões e aquisições normalmente têm como funcionalidade resolver deficiências ou carências em termos mercadológicos, tecnológicos ou de talentos para a gestão do negócio. Para Martelanc, Pasin e Cavalcante (2006) as principais vantagens e motivos da ocorrência desse tipo de transação são: Ganhos com economia de escala e outras formas de sinergia; Viabilização da expansão em prazo mais curto, redução do custo da expansão e diminuição dos prazos de implantação e dos riscos de uma nova linha de produtos; Aumento do poder de mercado diante de clientes, distribuidores e fornecedores; Garantia de novos canais de distribuição e utilização de bases já instaladas; Obtenção de vantagens fiscais; REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 9 Remoção de um concorrente potencial; Remoção de barreiras à entrada em novos mercados; Remoção de administradores ineficientes; Redução dos riscos inerentes ao desenvolvimento interno de novos projetos ou produtos ou à montagem de estabelecimentos próprios em novos segmentos de mercado. Em vez de se construir uma fábrica, comprar máquinas, desenvolver produtos e correr atrás dos clientes, compra-se uma empresa em pleno funcionamento; Entrada em novos mercados e novas indústrias - é a forma mais rápida de entrar em novos mercados e indústrias; pode proporcionar o tamanho ideal para o novo entrante, assim como agilizar a expansão geográfica, por meio de marcas regionais e capacidade de produção local; Utilização de fundos em excesso, de um lado, e levantamento de fundos, de outros. Diversificação do risco – várias empresas juntas, em setores ou mercados diferentes, reduzem o risco do grupo e a volatilidade das receitas; 1.3 Teoria da Eficiência A teoria da eficiência leva em conta a sinergia. Quando alguma empresa destina sua energia para fusão ou aquisição, espera-se o melhoramento do desempenho ou o alcance de algum tipo de sinergia, aumentando a eficiência da economia como um todo. Acredita-se que quando há o processo de F&A, a eficiência de qualquer uma das partes envolvidas no processo (empresa compradora e adquirida) é passada para a outra parte que não possuía eficiência. Normalmente, as fontes de sinergia são mais intensas em transações horizontais, ou seja, em empresas do mesmo setor. Isso ocorre porque existe muita semelhança nas tarefas, processos, normas, procedimentos e os departamentos possuem funções similares, fazendo com que existam grandes possibilidades de redução de despesas. Segundo Martelanc, Pasin e Cavalcante (2006), são quatro as principais fontes de sinergia entre empresas: i) aumento da receita. Essa fonte refere-se à possibilidade da soma das receitas da empresa combinada, seja maior do que as receitas das empresas separadas; ii) redução de custos e despesas. Essa fonte refere-se à possibilidade da empresa conjugada poder operar de maneira mais eficiente do que as duas empresas separadamente. Fatores como economia de escala, economia de integração vertical, utilização de recursos complementares e transferência de tecnologia entre empresas auxiliam na redução de custos e despesas; iii) benefícios fiscais. Os ganhos fiscais podem ocorrer pelo uso de prejuízos fiscais e diferimento de pagamento de imposto de renda e por um melhor planejamento fiscal/tributário, que pode ocorrer com o retardo ou impedimento do fato gerador do imposto; iv) redução do custo de capital. Essa redução pode ocorrer com a percepção de um menor risco das empresas, já que estas ficaram maiores e passam a ser consideradas bem sucedidas. Esse benefício, normalmente não aparece no primeiro ano, pois os empréstimos, de maneira geral, já foram contratados com taxas e prazos definidos. De acordo com Key (1995), os ganhos sinérgicos podem demorar para aparecer se a reestruturação das empresas levar tempo para ser concluída, e eles podem até mesmo não ocorrer se a reestruturação não visar a integração dos departamentos, a eliminação das tarefas redundantes e o corte do pessoal em excesso. A reestruturação deve ser rápida e eficiente, pois se não for assim, além da sinergia não aparecer, as empresas arcarão com custos da ineficiente integração. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 10 Conforme Wright, Krol e Parnell (2000:153), a fusão é uma estratégia de crescimento em que uma empresa combina-se com outra. Reed e Lajoux (1995:3) e Wright, Krol e Parnell (2000:145) aproximam os conceitos ao afirmarem que uma fusão ocorre quando uma empresa é combinada com outra, chamada sobrevivente e desaparece dentro de outra. 1.4 Evolução das Fusões e Aquisições Para muitos autores, como Mitchell e Mulherin (1996), o desenvolvimento em determinadas indústrias influenciará onde atividades de ordem econômica estão concentradas. Katz, Simanek e Townsend (1997) afirmam que um dos motivos, além daqueles econômicos, para que cada onda apresente silhuetas diferentes é a constante alteração das leis. Análises essas que são corroboradas por Camargos e Barbosa (2003), que afirmam que as fusões e aquisições ocorrem de maneira cíclica, havendo, ainda, período de maior ou menor atividade por motivos principalmente de ordem econômica. Camargos e Barbosa (2003) descrevem quatro ondas como principais e mais facilmente identificáveis. A primeira teve início no final do século XIX e durou até os primeiros anos do século passado, quando uma nova depressão interrompeu o primeiro ciclo. Sua principal motivação foi a consolidação de diversos setores industriais, como petróleo e aço, e a formação de monopólios – uma vez que ainda não havia legislação regulamentada sobre o tema. DePamphilis (2003) acrescenta que nesse período as aquisições eram basicamente horizontais, ou seja, caracterizavam-se pela união de empresas atuantes do mesmo setor – geralmente concorrentes. Com o fim da Primeira Grande Guerra, uma nova fase de vigoroso crescimento iniciou-se, sendo interrompida novamente em 1929, ano em que eclodiu a Grande Depressão. DePamphilis (2003) diz que a regulamentação sobre o conceito de monopólio, com seus primórdios ligados ao Clayton Act que, em 1914, nos EUA, condenou e exemplificou práticas restritivas de concorrência, tais como vendas casadas e aquisições maléficas ao mercado, impediu que um número grande de empresas se fundisse em apenas uma. Nesse período, a concentração passou de monopólios para oligopólio. Segundo ele, no segundo ciclo as fusões e aquisições também foram do tipo horizontal, visando menor concentração da indústria. Stigler (1950) complementa que, apesar de o número de fusões horizontais continuar predominante, nesse período houve mais uniões verticais, em que se adquire empresas de uma mesma cadeia produtiva. A terceira onda surgiu após a Segunda Grande Guerra, oriunda de uma maior sofisticação no mercado financeiro. Alguns autores, como DePamphilis (2003) a chamam de Era dos Conglomerados e indicam sua duração como sendo entre 1965 e 1969. Segundo Triches (1996), nessa fase novas alterações nas leis antitruste na década de 1950 dificultaram as fusões e aquisições do tipo horizontal e vertical (embora essa última continuasse acontecendo em detrimento à horizontal). Assim, esse ciclo observou a formação de conglomerados, quando empresas que atuavam em outros setores e não concorriam entre si foram unidas. Segundo o mesmo autor, boa parte dos conglomerados formados nesta época não logrou êxito por “ignorarem o princípio fundamental de Adam Smith, de que a especialização aumenta a eficiência e a produtividade” (TRICHES, 1996). Katz, Simanek e Townsend (1997) afirmam que 50% dos conglomerados dessa época terminaram em desinvestimentos após cinco anos. Segundo os autores, ilusões a respeito de sinergias financeiras e gerenciais levaram a resultados desastrosos. As sinergias financeiras eram esperaradas pela redução do risco do negócio, uma vez que, admitindo-se que segmentos diferentes possuem taxas de crescimento variadas em mesmos períodos, a diversificação REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 11 contribuiria para esse objetivo. Como resultado, as empresas teriam acesso a crédito a juros mais baixos, além de economia de escala financeira. Contudo, essa tática não se mostrou verdadeira na prática, pelo fato de que investidores conseguiam retornos muito maiores com a diversificação em seu portfólio de ações, e não investindo em uma só empresa holding de um conglomerado. Já as sinergias gerenciais não ocorreram muitas vezes por excesso de confiança dos gerentes gerais dos conglomerados e também por problemas de agência quando, para reter poder, diretores preferiam investir em negócios que eles nunca haviam trabalhado antes a retornar dinheiro aos acionistas na forma de dividendos. Katz, Simanek e Townsend (1997) dizem ainda que, a falta de controle por falta dos acionistas da época contribuiu para que os problemas acima relatados ocorressem. A quarta onda vigorou ao longo da década de 1980 e apresentou maiores aquisições hostis, que até esse período não eram comuns. Além disso, prosseguiram os movimentos de desinvestimento de grandes conglomerados que se formaram durante a terceira onda de fusões e aquisições, na década de sessenta. (DEPAMPHILIS, 2003). Ainda o baixo preço das ações, causado pelo crash da bolsa de Nova York em 1987, possibilitou a compra de empresas norte-americanas por estrangeiras, fato que ainda não havia acontecido em grande volume até então. Tais aquisições foram majoritariamente hostis (TRICHES, 1996). Katz, Simanek e Townsend (1997) afirmaram, também, que uma política antitruste mais liberal propiciou reestruturações dentro de segmentos industriais mais facilmente. Aliás, para estes e outros autores, reestruturação é a palavra chave dessa Quarta Onda. Segundo eles, as transações que alcançaram maior sucesso nesse período foram aquelas em que se comprava um conglomerado inteiro, vendendo-se depois cada negócio separadamente, alcançando maior valor. Diferente de Camargos e Barbosa (2003), que apontam quatro ondas, alguns autores como DePamphilis (2003) e Katz, Simanek e Townsend (1997) já consideram uma nova onda, aquela ocorrida ao longo da década de 1990. Esses últimos apontam que a principal razão para F&A na Quinta Onda é o alcance de sinergias operacionais: economias de escala e escopo em aquisições horizontais. Triches (1996) afirma que a década de 1990 assistia à “adequação inteligente a ambientes de negócios em constante mutação, adequação determinada por mercado em retração (início da década), reformas governamentais e mudanças tecnológicas”. DePamphilis (2003) ressalta que, nesse período, também contribuíram para as fusões maiores desregulamentação nas leis de mercado, revolução na tecnologia de informação e crescente leva de privatizações globalmente. Aliado a um dos momentos de maior expansão do crescimento e do mercado de capitais, essa onda gerou o volume mais intenso da história das fusões e aquisições, US$ 3,48 trilhões em 2000. Observa-se que em todas as ondas analisadas, fatores não-econômicos como as Leis Antitruste delimitaram o alcance e a concentração resultante de fusões e aquisições. 1.5 Tipos de Fusões e Aquisições F&A podem ser classificadas de diversas formas. DePamphilis (2003) afirma que a classificação de uma operação desse tipo dependerá de as empresas estarem ou não na mesma indústria, ou de sua relação na cadeia produtiva. Nesse contexto, o autor chama de horizontais as fusões entre duas empresas de um mesmo segmento, ao passo que os conglomerados são o resultado de uniões entre companhias de setores sem relação entre si. Quando firmas de uma mesma cadeia de valor se juntam, ou seja, a união entre fornecedor e cliente, ou do extrator da matéria-prima com o utilizador desta, temos uma fusão ou aquisição vertical. Camargos e Barbosa (2003) relatam que é denominada montante a aquisição de uma REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 12 empresa acima da adquirente na cadeia, como a compra de um fornecedor, ao passo que o inverso é chamado jusante – um bom exemplo é a aquisição de um distribuidor. DePamphilis (2003) e Camargos e Barbosa (2003) concordam também acerca da definição da forma com que a fusão ou aquisição é realizada. Assim, dois outros termos surgem: fusão ou aquisição amigável ou hostil. No primeiro caso, existe mudança na propriedade corporativa, mas poucas substituições no controle administrativo, já que a gerência da firma alvo é receptiva à idéia da união. Já na aquisição hostil, ocorre efetiva mudança da administração da firma-alvo e não há solicitação de tomada de controle. A potencial adquirente busca comprar ações diretamente no mercado, até conseguir uma porcentagem suficiente para o controle. Esse procedimento pode ser feito via Oferta Pública de Aquisição de ações (OPA). Havendo possibilidade, a aquisição amigável é preferível em relação à hostil, uma vez que o preço de compra alcança um valor menor em comparação à oferta hostil. Além disso, o processo pós-fusão, ou seja, as ações conjuntas que viabilizarão o negócio efetuado fluirão muito mais facilmente caso a fusão tenha sido de interesse mútuo – adquirente e firma-alvo. Um estudo da Thomson Financial Securities Data Corporation nos EUA na década de 1990 mostrou que apenas 17% das aquisições hostis alcançaram sucesso administrativo (DePamphilis, 2003). 1.6 Fatores Motivadores nas Fusões e Aquisições De acordo com Copeland, Koller e Murrin (2006), uma impressionante infra-estrutura de sustentação às negociações de F&A apareceu, incluindo diversos tipos de entidades, desde bancos até mesmo investigadores particulares, constatando ainda que esse seja um movimento relativamente novo, que começou a surgir no fim dos anos setenta. Ao analisar-se os diversos fatores que podem motivar uma transação de F&A, a constatação, quanto à grande estrutura de sustentação que surgiu, não chega a ser uma surpresa. De acordo com Copeland, Koller e Murrin (2006) um dos fatores chave para motivar uma fusão, é o fator financeiro em relação ao retorno médio ao acionista, principalmente ao acionista da empresa adquirida, que em média recebe um ágio de 20% pela transação. Dentre outros fatores positivos de influência para uma fusão e aquisição, pode-se abordar primeiro o que Brealey e Myers (1998) considera como objetivo principal para uma fusão horizontal, as economias de escala. Nas fusões elas são possíveis através da redução de custos que um aumento no nível de produção proporciona, aplicação mais racional dos esforços em pesquisa e desenvolvimento, além é claro da transferência de know-how. Na prática isso não é tão simples, normalmente, é muito mais fácil adquirir uma empresa do que integrá-la com a compradora. Devido a essa dificuldade, muitas empresas que promovem um processo de fusão optam por, ao término do processo, continuar atuando em separado e até mesmo como concorrentes, em determinados mercados. Outro fator motivante, que pode ser elencado, é a economia decorrente da integração vertical, que ocorre quando, por exemplo, uma empresa industrial, em busca de maior controle sobre seu processo produtivo, avança sobre um fornecedor ou um cliente, chegando mais próximo da matéria prima ou do consumidor final. Brealey e Myers (1998) também aborda a questão da combinação de recursos complementares. Isso ocorre em casos onde uma pequena empresa tem potencial para crescimento, mas não tem os recursos nem a estrutura para tal. Nesses casos, uma fusão com uma grande empresa, em condições de promover a expansão, pode ser uma boa solução, rápida e barata. Para a empresa compradora, também se torna um bom negócio, pois a empresa comprada proporciona uma nova oportunidade de negócios, sem os custos e o tempo necessário para se iniciar um processo desde o início. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 13 No caso de as operações serem bem sucedidas, as empresas juntas valem mais e obtêm oportunidades melhores do que quando estavam separadas. Esse fator motivador também pode influenciar processo de F&A entre duas empresas igualmente grandes, porém são situações menos comuns, pois geralmente os maiores ganhos são proporcionados nos casos entre pequenas e grandes empresas. Segundo Brealey e Myers (1998), outro fator motivador é a questão dos benefícios fiscais. Muitas vezes ocorre a situação na qual a empresa possui prejuízos reportáveis para os exercícios futuros, mas não dispõe de lucros para fazer uso desse benefício. Nesses casos, a fusão com outras empresas que dispõe de lucros tributáveis é uma boa opção, que proporciona uma grande economia para a empresa. De acordo com Benston (1980), mais um fator que pode ser apontado como motivo para uma F&A, é a existência de fluxos de caixa livres. Esse excedente de capital pode ser utilizado para a compra de ações de outras empresas, como forma de reaplicar o dinheiro da empresa. Em casos onde uma empresa apresenta ineficiências administrativas, que podem fazer com que a empresa descontinue, a realização de uma fusão pode ser uma boa opção. Brealey e Myers (1998) defende que apesar de não ser o único meio de se melhorar a gestão da empresa, muitas vezes pode ser mais simples e prático. Após elencar alguns motivos economicamente justificáveis, não se pode deixar de lado o fato de que existem outras razões gerenciais que podem causar uma fusão e aquisição. Barbosa e Camargos (2003) apontam, que existem casos onde os diretores de uma empresa optam pela fusão, em decorrência de questões de bem estar pessoal, ainda que isso prejudique o valor da empresa e o preço das ações. De acordo com Brealey e Myers (1998), a questão da diversificação pode ser enquadrada nesse aspecto. Isso porque ainda não existem provas de que os investidores estejam dispostos a pagar um prêmio por empresas diversificadas. Ainda segundo Brealey e Myers (1998), outro fator sem justificativa econômica, são os custos financeiros de transações como empréstimos e financiamentos. Isso porque em casos de fusão entre duas empresas, as taxas de juros relativos a empréstimos serão mais baixas do que se ambas fizessem isso em separado. Mas isso só ocorre porque uma empresa acaba servindo de garantia para o empréstimo da outra, o que dá maior segurança para a fonte de crédito, porém para as empresas em si, essa diminuição de taxas não significa ganho líquido nenhum, já que uma agora passa a servir de garantia para a outra. Considerando a abordagem proposta por Walker (1994), a avaliação de possíveis aquisições de empresas em dificuldades financeiras, apesar de, inicialmente não parecer muito atrativa para uma aquisição, aponta diversas vantagens para os compradores. A dificuldade financeira torna a empresa alvo teoricamente fácil de ser encontrada, e no momento da negociação do preço, a empresa adquirente possui a vantagem na discussão. Essa vantagem é tanta, que geralmente a empresa compradora não terá que desembolsar um valor muito alto pelos ativos da empresa, conseguindo um desconto razoável. Walker (1994) ainda verifica que muitas vezes, problemas como excesso de funcionários, custos operacionais elevados, e outros assuntos relativos, podem já ter sido eliminados pela atual administração, tornando o processo muito mais simples para a empresa compradora. Nem sempre o processo de F&A acaba por alcançar o sucesso. De acordo com Brealey e Myers (1998), não existem generalizações que expliquem os motivos que levam uma operação de F&A, que aparente tem sentido no aspecto econômico, ao fracasso. Pode ser que a transação tenha sido mal executada, ou que o comprador tenha superestimado os valores dos ativos em questão. Outro fator importante é a dificuldade que muitas vezes os gestores enfrentam para realizar a REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 14 integração dos processos com os departamentos, já que empresas diferentes muitas vezes utilizam métodos diferentes de contabilidade, possuem políticas de trabalho diferentes, e assim por diante. Tendo considerado esses aspectos que podem influenciar negativamente, não se pode esquecer de mencionar a cultura, aspecto que Brealey e Myers (1998) considera como principal motivo para o insucesso de uma operação de F&A. Ainda, nesse aspecto, dos fracassos em F&A, Copeland, Koller e Murrin (2006) abordam o fato de que muitas vezes o comprador super valoriza o potencial de mercado em questão. É um erro muito comum, principalmente ao se adotar premissas que considerem um crescimento acelerado por um longo período de tempo, ou que determinado mercado dará a volta por cima no curto prazo. Outro erro comum citado por Copeland, Koller e Murrin (2006) é a superestimativa de sinergias entre as empresas. As expectativas geradas por esse aspecto afetam em muito o julgamento do valor da negociação, e por isso uma criteriosa avaliação deve ser feita, mas nem sempre isso ocorre. Também é válido ressaltar a questão do envolvimento pessoal dos participantes na transação. Como mostram Copeland, Koller e Murrin (2006), muitas vezes no ímpeto de conseguir realizar a aquisição de uma empresa, os administradores da compradora acabam realizando lances excessivos, que de fato já não trazem perspectivas de criar valor para o acionista. 1.7 Formas de Aquisição e Transferência ou Tomada de Controle (takeover). O processo de aquisição de uma empresa pode acontecer de diversas formas.Segundo Walker (1994), uma vez que o comprador negocie com os proprietários originais da empresa, ele terá duas possibilidades, a de aquisição das ações da empresa ou a aquisição do negócio e dos ativos. Brealey e Myers (1998) apresentam três alternativas de aquisição: i) fundir as empresas; ii) a compra de ações da empresa vendedora, e; III) a compra de alguns ou todos os ativos da vendedora. A fusão, no caso, é aquela em que uma empresa assume todos os ativos e todos os passivos da outra. Este tipo de fusão tem de ter a aprovação de, ao menos, 50% dos acionistas de cada empresa. Dodd (1980) aponta que a proposta deve ser aprovada pelo quadro de diretores de ambas as firmas, já que ele tem o poder de vetar ou não tal proposta. A aquisição por compra de ações pode ser paga através de dinheiro, ações ou outros valores mobiliários. Neste processo, o comprador pode negociar diretamente com os acionistas da empresa alvo. Neste tipo de aquisição, procura-se obter a aprovação dos gestores da empresa adquirida, mas se o entendimento não ocorrer, após o comprador adquirir a maioria efetiva das ações, e o controle da empresa, o comprador pode redefinir o quadro de gestores (BREALEY e MYERS, 1998). Quando a negociação é feita por aquisição de ativos, a propriedade dos ativos tem de ser transferida, e o pagamento é feito a empresa, e não aos acionistas. Walker (1994) ressalta que uma empresa falida, apresenta três formas de venda de seus ativos: i) através de leilão (auction); ii) através de contrato particular (private treaty); e iii) através de ofertas negociadas (tender sale). Segundo Fabretti (2005), num processo de privatização, a aquisição de companhia aberta que dependa de autorização do governo para funcionar deverá ser precedida de oferta publica. Neste caso, a aquisição do controle acionário é a forma que tem sido mais adotada, e a adquirente pode escolher se quer manter a mesma denominação da empresa adquirida, de acordo com seu interesse. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 15 Muitas vezes as aquisições são feitas diretamente entre os compradores e os acionistas da empresa à venda, sem em alguns casos obter o consentimento do controle administrativo das empresas (BREALEY e MYERS, 1998). Isso impacta diretamente no controle da empresa, neste caso a transferência de controle pode ocorrer através de um takeover, ou seja, a tomada de controle sem o aval dos executivos, que pode ser feito de forma hostil (hostile takeover) ou amigável (friendly takeover). Hirschey (1986) define friendly takeover como sendo a mudança na propriedade corporativa sem implicar na mudança do controle administrativo, e hostile takeover como uma tomada de controle não solicitado, resultando na substituição do controle administrativo. Martelanc, Pasin e Cavalcante (2006) afirmam que as aquisições hostis, sem o aval dos executivos, demandam grandes ágios. Brealey e Myers (1998) relatam que os compradores, ao dirigir-se diretamente aos acionistas da empresa alvo, podem proceder de duas maneiras; i) a primeira é chamada guerra por procuração, onde os compradores podem através de procurações, buscarem apoio dos acionistas da empresa alvo em sua próxima assembléia geral; ii) alternativa, em geral mais fácil e barata, que a guerra por procurações, é fazer uma oferta pública de aquisição diretamente aos acionistas. Segundo Copeland, Koller e Murrin (2006), grupos de LBO (leveraged buy-outs), começaram a surgir, em reação à incapacidade demonstrada por muitas empresas para se ajustarem às mudanças do mercado. Esses grupos de investimento adequavam suas aquisições de forma amigáveis e também hostis. Brealey e Myers (1998) diferem as LBO das aquisições em dois aspectos, um faz com que as ações tornem-se privadas, ou seja, elas deixam de ser negociadas no mercado, e o outro aspecto é que uma grande parte do preço de compra é financiado pelo endividamento, que faz com que ele seja de alto risco, inferior à notação de investimento. Está pode ser considerada uma técnica de defesa, quando liderada pelos gestores da empresa,e é denominada de MBO (Management buy-out). 1.8 Estratégias de Defesa e Fatores Críticos em Fusões e Aquisições 1.8.1 A Contabilização de Ativos Intangíveis: O Goodwill Adquirir uma empresa é uma tarefa complexa, pois exige uma série de medidas que são indispensáveis para que se alcance o sucesso. São questões fiscais, contábeis e até legais que envolvem uma operação desse tipo. O primeiro ponto a ser abordado quando analisamos as fusões e aquisições contabilmente, é o fato dela ser apenas uma simples aquisição de ativos ou uma consolidação de participação e esta questão é uma das mais debatidas atualmente. Quando uma empresa compra a outra, na maioria das vezes paga um valor acima daquele avaliado, pois uma compra envolve fatores que vão além do valor de mercado daquela empresa, ou seja, além do valor de mercado das suas ações, pois uma compra faz com que a empresa ganhe uma possível tecnologia, ou mesma mão de obra especializada, o que só faz com que ela tenha ganhos. Para demonstrar contabilmente este valor, os gestores criam o ativo chamado goodwill, ou seja, os ativos intangíveis, como os citados acima, os quais normalmente não são mensurados. Segundo Hendriksen e Breda (1999) o goodwill pode ser reconhecido a qualquer momento, reavaliando o patrimônio líquido a valor de mercado. Porém, Hendriksen e Breda concluiram (1999) que os ganhos com o goodwill para a empresa são muito difíceis de serem mensurados. No entanto, quando fazemos o cálculo, mesmo que aproximado, dos benefícios futuros, chegamos a um valor e portanto devemos reconhecê-lo. O autor afirma ainda que quando uma empresa é vendida, não existe a criação do goodwill, o que acontece apenas é que ele passa a ser visível. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 16 Transpondo este exemplo para um situação de abertura de capital de uma empresa, na maioria das vezes podemos observar que o valor negociado no mercado excede o valor patrimonial da empresa, visto que o investidor espera sempre um retorno dos fluxos de caixa futuro maior do que o valor desembolsado. Uma outra característica deste ativo não mensurável é denominada pelo autor de inseparabilidade, ou seja, ele diz que não é possível separá-lo da empresa, e muito menos observá-lo em uma máquina ou um produto, pois se a fosse, deixaria de ser um ativo intangível. Hendriksen e Breda (1999) mostram ainda que no Brasil, o goodwil é denominado de ágio, ou seja, ele é fruto da diferença entre o valor pago e o valor contábil, em contrapartida, intercionalmente ele é fruto da diferença entre o valor pago e o valor justo dos ativos líquidos adquiridos, que acaba sendo o terceiro enfoque explicado acima. Aqui, o valor do ágio tem que ser registrado em uma conta que difere da conta contábil chamada investimento, porém quando temos uma demonstração consolidada, as expectativas de lucros futuros deve estar na conta investimentos, enquanto o ágio que se baseia no valor de mercado deve ser ajustado nos ativos e passivos que lhe deram origem. De acordo com Martins (1972), o goodwill é gerado pela sinergia de ativos, e não pode ser contabilizado separadamente dos outros ativos, isto pelo fato dele se originar a partir da diferença entre o valor de todos ativos considerados no seu conjunto e a soma desses ativos separadamente. O autor diz ainda que a soma das partes é menor que o todo, portanto o goodwill pode ser considerado como resultante do trabalho em conjutno de todos os ativos. 1.8.2 Estratégias para se Defender das F&A Brealey e Myers (1998) concluíram que existem muitos modos dos gestores lutarem contra ofertas públicas de aquisição sobre as suas empresas. Na maioria das vezes, as empresas alvo se antecipam às ofertas com objetivo de conseguirem negociar um melhor preço para a venda. Ocorre, também, sob a forma de objetivo pessoal de garantir seu emprego, pois existe um risco grande e geralmente ocorre de a empresa compradora não utilizar o quadro diretivo da empresa comprada, passando o controle gerencial para seus dirigentes. As estratégias acima são consideradas pré-oferta, pois são táticas que podem ser utilizadas antes de as fusões ocorrerem, porém, caso a empresa já tenha sido adquirida, existem as estratégias pós-oferta. A mais simples delas seria a contra-oferta feita pelas ações da compradora, outra bastante usual é a queixa para órgãos controladores comprovando que aquela compra irá gerar monopólio no setor. Brealey e Myers (1998) demonstram que existem outras duas maneiras de se defender através da reestruturação do ativo e do passivo. A primeira ocorre quando a empresa comprada adquire ativos que causem problemas de truste, ou mesmo que a compradora não queira naquele momento, mas que serão muito importantes no futuro por representarem uma parte da empresa. A segunda seria emitir mais ações para uma terceira empresa que se tornaria uma interveniente parceira, ou simplesmente recomprar as ações dos atuais acionistas, pagando um prêmio a eles. 1.9 Fatores Críticos nos Processos de F&A Barros (2003) afirma que uma das etapas vitais para o processo de F&A é a integração entre as empresas, pois isto garante o sucesso da operação. No entanto, Rourke (1992) afirma que a maior parte dos compradores não se interessa com a fase de integração, pelo contrário, eles estão apenas interessados em englobar a empresa adquirida, porém é muito importante planejar o processo para que não haja problemas futuros. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 17 Existem algumas questões básicas nesta etapa de uma fusão, que implica no choque de culturas. Schein (1985) define cultura como algo dinâmico, intangível, resultante da interação de pessoas e grupos em unidades sociais estáveis, já Motta e Caldas (1997) a definem como o que designa, liga, coloca em ordem e fornecem esquemas de interpretação que dão sentido à existência. Quando há a fusão de duas empresas, ou a aquisição de uma empresa pela outra, inevitavelmente acontece um choque de culturas, geralmente diferentes, com crenças e valores distintos, processos divergentes e a integração entre elas varia muito, principalmente de acordo com a causa que levou aquela junção. Nas aquisições, o caso é o mais crítico, pois uma empresa praticamente perde com o tempo a sua cultura, que é substituído pelo da empresa adquirente. Não existe um modelo perfeito de integração cultural, porém, como já fora dito, este é um fator crítico, pois se algo der errado, a empresa perde valor. O importante então é os dirigentes determinarem com precisão os objetivos daquela nova empresa e deixá-los bem claro para todos, principalmente para aqueles que trabalharem para a empresa adquirida, caso contrário, isto pode se tornar problemático. Existem outras questões que estão ligadas à área de recursos humanos como a retenção de talentos e a comunicação bem clara e transparente com todos. Estudos mostram que as principais dificuldades e as causas do insucesso estão ligadas a gestão de pessoas, mais especificamente ao clima de tensão que é criado na empresa adquirida. Héau (2001) afirma que as aquisições são um ótimo negócio para quem está na condição de vendedor, porém, não necessariamente para quem está comprando. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A metodologia utilizada foi a da metanálise que, no dizer de Cozby (2003), é uma técnica que combina os resultados de vários estudos. Trata-se de um estudo comparativo e meta-analítico com objetivo de encontrar relações existentes entre o referencial teórico de fusões e aquisições a as situações descritas nas pesquisas analisadas. Os dados são secundários e foram retirados dos estudos constantes do Quadro 1. e objetivam subsidiar a análise proposta, além de servir de base para aprofundar o estudo de uma monografia sobre o tema Fusões e Aquisições (F&A). Optou-se por utilizar dados provenientes de pesquisas realizadas anteriormente por Pasin et al. (1999), Andreatta e Paula (2002), Vianna et al. (2003), Tanure e Cançado (2004) e Orsi (2006). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 18 Quadro 1. Resumo das pesquisas utilizadas na meta-análise Pesquisa Autores Tema P.1 - Aquisição de empresas para incorporação de conhecimento: dimensões de análise e indicadores de resultado. Orsi (2006) Trata de empresas que, com interesse em novos mercados, optam pela incorporação de bases externas de conhecimento, através da aquisição de outras empresas que já passaram pelo processo de aprendizado e dispõem de reconhecimento no mercado. P. 2 - Responsabilidade Social, Cultura e Relações de Poder: O caso Aventis Pharma do Brasil Vianna et al. (2003) Estuda as relações entre a responsabilidade social corporativa e as relações de poder e cultura nas organizações, desenvolvendo um estudo de caso focado na Aventis Pharma do Brasil que surgiu a partir de uma fusão entre a Rhodia e a Hoechst. P. 3 Fusões, Internacionalização do Brasileiro Andreatta e Paula (2002) Analisa a motivação principal para os Investimentos Diretos Estrangeiros e os processos de Fusões e Aquisições no sistema bancário brasileiro. Tendo como objetivo principal a discussão dos fatores determinantes e resultantes desse processo, desde o início dos anos noventa. P. 4 - Relacionando o motivo da aquisição com diferentes processos de integração cultural Tanure Cançado (2004) e Busca discutir a relação entre a estratégia de aquisição (motivo da compra) e as formas de integração cultural entre empresas adquirentes e adquiridas. P. 5 - Fusões e Aquisições na indústria de alimentos do Brasil: Um estudo sobre a gestão financeira das empresas. Pasin et (1999) al. Aquisições e setor bancário Possui o objetivo de avaliar o impacto financeiro, os fatores motivadores e as causas e conseqüências da internacionalização das empresas nas maiores fusões e aquisições do setor alimentício entre os anos de 1996 e 1999. 3. ANÁLISE DOS RESULTADOS 3.1 Fatores da Fusão e Aquisição A Pesquisa 1. de Orsi (2006) descreve como fatores motivadores para a realização do processo de fusão alguns dos itens presentes na teoria de F&A, como por exemplo o ganho de conhecimento que a empresa adquirente passa a ter, proporcionado pela vinda de profissionais da empresa adquirida, com uma série de novos conhecimentos específicos necessários para a empresa adquirente buscar o aproveitamento de novas janelas de oportunidade. A Pesquisa 2. de Vianna et al. (2003) ressalta dois itens que serviram como ponto chave para a realização do processo de F&A, a busca por sinergias que existem entre as empresas envolvidas, e também a busca pela realização pessoal dos líderes das empresas envolvidas, que buscam o poder e o reconhecimento que uma transação de F&A bem sucedida pode proporcionar. Na Pesquisa 3. de Andreatta e Paula (2002) encontra-se como fatores motivadores para o processo de F&A a busca dos bancos por novos mercados, além da tentativa de criar barreiras de entrada para possíveis novos concorrentes, como estratégia de defesa empresarial. Ao analisar a Pesquisa 4. de Tanure e Cançado (2004) encontra-se novamente a questão dos recursos complementares como fator determinante para o processo de F&A. Além desse fator, a busca por sinergias também aparece em evidência No texto da Pesquisa 5. de Pasin et al. (1999) pode-se perceber que fatores motivadores como a busca por economias de escala e a redução de barreiras de entrada, foram de vital importância para a concretização dos processos de F&A descritos sobre a indústria alimentícia. Além destes, também são relacionados como fundamentais as vantagens existentes em integrações verticais e REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 19 a saturação dos mercados dos países desenvolvidos, bem como o aumento constante de custos que inviabilizava a continuidade de empresas de pequeno porte. A matriz de análise de conteúdo do Quadro 2. mostra os resultados da análise dos diversos processos de Fusões e Aquisições analisados com foco nos motivos que os originaram. Fator Financeiro X Economias de Escala Integração Vertical X X X X X (1999) P.5 - Pasin et al. P. 4 - Tanure e Cançado (2004) - P. 3 - Andreatta e Paula (2002) (2003) (2006) P. 1 - Orsi Item P. 2 - Vianna et al Quadro 2. Matriz de análise de conteúdo X Recursos Complementares X Benefícios Fiscais X Ineficiências Administrativas X Dificuldades Financeiras X X X X Retenção de pessoas X Integração de processos X X X X X Choque de Culturas X Reorganização do espaço X X X X Integração de pessoas X X (ganho de conhecimento) Fonte: elaborado pelos autores a partir do Referencial Teórico. 3.2 Problemas Identificados O artigo (P. 1) de Orsi (2006) aborda questões problemáticas como a integração de processos, retenção de pessoas, choque de culturas e a reorganização do espaço. Pelo fato das duas empresas estudadas (Promon e Deloitte) pretenderem entrar em um novo mercado, o da tecnologia de informação, elas encontraram diversos problemas com relação à transferência de conhecimento, devido ao fato deste conhecimento pertencer às pessoas, o que foi chamado pelo autor de conhecimento tácito. Outros dois problemas encontrados foram a integração entre as pessoas e a reorganização do espaço físico, que demorou para ser assimilada por todos. O caso da Aventis Pharma (P. 2) de Vianna et al (2003) revelou problemas referentes à gestão de pessoas e principalmente às diferenças culturais. Concluiu-se que após um processo de aquisição, a empresa comprada perde sua identidade ao longo do tempo, o que faz com que ela REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 20 encontre problemas num longo prazo, pois seus funcionários demorarão para ter a percepção de que algo mudou e que aquilo que antes estavam acostumados, hoje não está mais em prática. O terceiro artigo (P. 3) de Andreatta e Paula (2002) mostrou que os dois principais problemas encontrados pelos bancos estrangeiros no processo de aquisição e conseqüente entrada no mercado brasileiro foram o choque de culturas e a gestão de pessoas. No caso, um está ligado ao outro, pois devido as enormes diferenças entre a cultura estipulada pela empresa compradora e a vendedora, alguns funcionários se sentem insatisfeitos com tal situação, o que os leva a se desligar da organização deixando-a carente neste aspecto. No artigo de Tanure e Cançado (P. 4) foi identificado problemas com relação à integração de processos e pessoas, uma vez que na aquisição do Banco Francês Brasileiro (BFB) pelo Itaú, a integração foi muito lenta devido as questões culturais enraizadas que não foram desfeitas pelo processo de F&A. Na aquisição do BEMGE pelo Itaú, o que se verificou foi uma ansiedade dos funcionários por informações sobre o processo de aquisição, e isto foi um problema, pois gerou insatisfação por parte dos funcionário que gostariam que a empresa fosse transparente em suas ações. No pesquisa de Pasin et al (1999), que aborda os casos de F&A da indústria alimentícia brasileira, o problema chave abordado gira em torno da questão financeira das empresas adquiridas e a difícil missão das compradoras de reerguê-las e fazer com que deixem de dar prejuízo, passando a apresentar lucros. 3.3 Resultados dos Processos das Fusões e Aquisições No artigo P. 1 de Orsi (2006) verifica-se o resultado do processo de F&A realizados pelas duas empresas (Deloitte e Promon) foi positivo, pois mesmo com as dificuldades encontradas em incorporar o conhecimento adquirido, foi realizado um ótimo trabalho focado principalmente na questão da integração, o que culminou com a constituição de uma base única de informação, que passou a pertencer a nova empresa. O único fator negativo encontrado diz respeito as questões econômico-financeiras, pois devido a uma retração do mercado, levou certo tempo para que as empresas obtivessem lucros com a nova aquisição. Na análise de Vianna et al. (2003), no artigo P. 2, pode-se destacar que para a Aventis Pharma, os processos de Fusões e Aquisições foram positivos. O ganho sinergético alcançado foi notável, tendo em vista que, após a fusão da Hoechst Marion Roussel e Rhodia Farma, a Aventis já nasceu como uma mega corporação do mercado fármaco, sendo a líder mundial neste segmento. O artigo P. 3 de Andreatta e Paula (2002) mostrou que os processos de F&A, adotados pelos bancos para entrarem em outros países, vem surtido resultados positivos, já que esses bancos (adquirentes) vêm conseguindo aproveitar as estruturas dos bancos adquiridos e ter um satisfatório sucesso perante os bancos domésticos; apesar de alguns problemas de integração cultural. Tanure e Cançado (2004) no artigo P. 4 mostram que se pode afirmar com segurança que os processos de integração cultural adotados pelo Banco Itaú e também pelo Banco ABN Amro foram satisfatórios, já que levaram – ao final do processo de fusão com suas respectivas adquiridas – à completa integração entre empresas e funcionários. Ao analisar o artigo P. 5 de Pasin et al. (1999) percebe-se que os processos de F&A estudados resultaram em ganhos de economia de escala para as empresas participantes, além de redução nos custos de produção. Vale ressaltar que esses efeitos foram positivos para os envolvidos, já que resultaram em aumento de valor, como se pode verificar nas análises de indicadores financeiros apresentadas. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 21 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em todos os casos apresentados, evidenciou-se a preocupação das empresas em promover F&A de forma racional, observando os princípios pesquisados e constantes nos referenciais teóricos do tema. Respondemos, assim, positivamente ao problema de pesquisa formulado. Com relação ao alcance do objetivo geral do trabalho, formula-se a seguir uma discussão breve sobre a adequação do referencial teórico aos casos analisados. A análise comparativa das diferentes pesquisas colaborou para que fossem identificadas diferenças importantes entre os processos de fusões e aquisições das empresas citadas neste trabalho, o que reforça a idéia de que o assunto é vasto, e novas adições à teoria, hoje existente, ainda virão – o percentual de F&A que fracassam (embora parte destas tenham, como razão para o fracasso, avaliações equivocadas) ainda é alto. Exemplo da pluralidade do tema é o Banco Itaú, que construiu uma competente equipe e processos para F&A devido ao seu know-how obtido em aquisições diversas – com propósitos diferentes. Um ponto constantemente citado nos referenciais teóricos e cuja aplicação prática, apesar de complexa, mostra-se crucial, é a integração cultural. Como se verifica no artigo da Aventis, os resultados pretendidos podem ficar abaixo do esperado, caso essa parte do processo de uma F&A seja descuidado. Vários outros tópicos embasados na teoria de F&A são explorados, alguns deles mais de uma vez, como se pode constatar no Quadro 2. Matriz de Análise de Conteúdo dos textos analisados.Foram verificados: combinação de recursos complementares; maximização do valor das empresas; F&A como estratégia de defesa; para aumento de market-share; economia de escala; obtenção de vantagens oriundas de fusão entre fornecedor/cliente (integração vertical), etc. Portanto, fica clara a importância de conhecimento prévio frente ao assunto, para que as manobras de fusões ou incorporações de empresas transcorram sem sobressaltos ou choques culturais e, mais, que tais movimentos cheguem ao objetivo inicial: aumentar o valor das duas empresas por meio das sinergias planejadas. Companhias que se aventurem nesse complexo processo sem o devido preparo não obterão êxito em suas empreitadas e, sem sombra de dúvidas, serão punidas pelo mercado com a perda de valor de suas ações. O objetivo específico foi alcançado na medida que foram discutidos e analisados os principais tópicos relativos ao resultados dos processo de F&A. 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REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 24 A INOVAÇÃO COMO FATOR DE VANTAGEM COMPETITIVA DO ETANOL DE CANA NO MERCADO BRASILEIRO DE COMBUSTÍVEIS Andréa Gomes Allegrussi Daniela Uliana Presinoto Flávia Aparecida Souza Silva Michelle Scudilio Maranho Rubens Charles Rodrigues Roy Sérgio Lex RESUMO O presente estudo busca identificar os impactos da inovação na geração de vantagem competitiva do etanol de cana-de-açúcar, no setor de combustíveis do mercado brasileiro. Baseado no referencial teórico sobre o assunto, e nas entrevistas realizadas, verifica-se que a inovação é de fundamental relevância no desenvolvimento de tecnologias capazes de gerar vantagem competitiva ao etanol no mercado de combustíveis, como por exemplo, o desenvolvimento da tecnologia flex-fuel e de novas variedades da cana para os diferentes tipos de clima e solo brasileiro. Destacam-se também as perspectivas para o setor com a geração de energia elétrica, o aproveitamento dos resíduos e a chamada “segunda geração de biocombustíveis”. Palavras-chave: etanol; combustível; inovação; vantagem competitiva INTRODUÇÃO A escalada dos preços do petróleo, observada a partir de 2001, quando o preço do barril tipo Brent estava abaixo de US$ 25,00, atingindo neste ano (2008) valores em torno de US$ 130,00, demonstra que a busca por combustíveis alternativos além de uma questão ambiental, tornou-se uma questão de necessidade econômica, afirma Rodrigues (2008). Racy (2007) afirma que o Brasil busca difundir a sua experiência bem sucedida com o etanol derivado da cana -de-açúcar em um excelente momento. Já que a produção e a comercialização de veículos bicombustíveis, que utilizam gasolina e/ou álcool em qualquer proporção, atingiram 4 milhões de unidades no mercado automotivo brasileiro, resultado acumulado entre março de 2003 (quando foram lançados) e setembro de 2007. Em fevereiro de 2007, o percentual de vendas dos automóveis leves bicombustíveis chegou a 87% do total. Segundo projeções, em 2013, o total de veículos bicombustíveis atingirá 50% da frota, cerca de 15 milhões de veículos. Por esse motivo, é necessário entender como através da inovação, os produtores e distribuidores de etanol pretendem tornar o produto competitivo no mercado nacional, mantendo os mercados conquistados e, principalmente, conquistar novos mercados, além de identificar as inovações em andamento e/ou planejadas dentro da cadeia produtiva do etanol de cana (abrangendo inovação desde o plantio da cana-de-açúcar até a distribuição do combustível), compreender o impacto e perspectivas trazidas por estas inovações, identificar as vantagens competitivas do etanol em relação aos demais combustíveis, compreender como as vantagens competitivas podem ser sustentáveis e entender como as inovações podem contribuir para obtenção de vantagem competitiva, abordando o seguinte problema de pesquisa: “Como as inovações geram vantagem competitiva ao etanol de cana no mercado brasileiro de combustíveis?”. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 25 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Inovação De acordo com o Manual de Oslo, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), inovação é a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, mas também pode se relacionar a novos mercados, novos modelos de negócio, novos processos, métodos organizacionais ou até mesmo novas fontes de suprimentos. 1.1.1 A Importância da Inovação Estratégias centradas na inovação constituem a essência do comportamento das empresas competitivas. Seja para captura de mercados pela introdução de novos produtos (e, concomitantemente, de novos processos), reduzir lead times, ou produzir com máximo aproveitamento físico dos insumos. A importância da inovação tecnológica – de produto ou de processo – para a competitividade é inquestionável (FERRAZ, KUPFER, HAGUENAUER, 1995). Inovação tecnológica de produto ou processo compreende a introdução de produtos ou processos tecnologicamente novos e melhorias significativas em produtos e processos existentes. Considera-se que uma inovação tecnológica tenha sido implementada se tiver sido introduzida no mercado (inovação de produto) ou utilizada no processo de produção (inovação de processo). [...] Envolvem uma série de atividades científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais. (OCDE, Manual de Oslo, 1996, p.35). A inovação possui grande relevância na sociedade, porém, não é algo que simplesmente opta-se por utilizar, e sim, uma vantagem que exige análise do mercado e planejamento, como afirma Drucker (2003, p. 189): “a inovação deliberada e sistemática começa com a análise das oportunidades”. 1.1.2 A inovação como Fator de Competitividade Cada vez mais a inovação tem ocupado um lugar central nas discussões sobre competitividade empresarial e, na formulação de políticas de desenvolvimento regional. Os motivos são claros: em estudos realizados nos países mais desenvolvidos, estima-se que a inovação é responsável por 80% a 90% do crescimento da produtividade. Sabendo-se também que o aumento da produtividade responde por mais de 80% do crescimento econômico, a inovação é essencial para ampliar as oportunidades de ganhos econômicos e sociais das cidades, regiões e países (QUANDT, 2005). A empresa é capaz de inovar consistente e efetivamente, de estar bem posicionada para recorrer a sua habilidade inovadora como vantagem competitiva (SHIMIZU, 2007). 1.1.3 Barreiras para a Inovação Um dos grandes problemas que as empresas enfrentam, e uma das razões pelas quais as empresas, após uma alavancada, não conseguem manter-se no mercado, é o comodismo (SHIMIZUhimiz 2007). Durante o ápice da implantação da inovação, onde há maiores ganhos financeiros, as companhias acabam tornando-se suas próprias vítimas ao agir de forma displicente. Um passado onde a inovação resultou em sucesso e vantagem no mercado não é garantia de que haja continuidade a médio ou longo prazo. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 26 Se comparado com países como Argentina, México e República Tcheca, o Brasil até possui um percentual de investimento em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) relativamente maior, porém, analisando-o em relação a países de primeiro mundo, como Alemanha e França, é possível notar a disparidade em investimentos, como mostra a Figura 1. Pode-se notar quão grande será o desafio das empresas para manter o espírito e a capacidade de inovação, a fim de que se tornem competitivas e mantenham-se competitivas no mercado global (PIMENTA, 2007). Alemanha França Bélgica Espanha BRASIL República Tcheca Argentina México 0,00% 1,00% 2,00% 3,00% 4,00% Figura 1 – Percentual de Investimentos das empresas em P&D Fonte: Adaptado do IPEA 1.2 Vantagem Competitiva A globalização e a mudança tecnológica disseminaram as novas fontes de competição, o que gerou a desregulamentação dessas, alterando as regras da competição em muitos setores e tornou, a cada dia, os mercados mais complexos e imprevisíveis. Para acompanhar essa competição acelerada, os fluxos de informação em um mundo altamente conectado permitem que as empresas detectem e reajam aos concorrentes em movimentos cada vez mais rápidos. Isto significa que já não se pode mais esperar que um concorrente faça seu movimento antes de decidir como reagir (DAY, REIBSTEIN, 1999). A busca de novas capacitações é um processo permanente, seja porque os recursos em estoque se depreciam com o passar dos anos e precisam ser repostos, seja porque se tornam obsoletos em função do surgimento de inovações nos processos, produtos, organização da produção e formas de comercialização. Essa segunda possibilidade cria opções comportamentais que vão desde a associação de estratégias mais agressivas, que visam situar a empresa diante do processo inovativo, propiciando-lhe o controle do ritmo de obsolescência das capacitações de seus concorrentes, até as estratégias mais passivas, de natureza imitativa, buscam adotar na empresa de algum grau de capacidade de resposta (FERRAZ, KUPFER, HAGUENAUER, 1995). Vantagem competitiva é uma medida relativa, que indica a posição de uma empresa em relação aos seus concorrentes. Dessa forma, mesmo uma empresa que possui um produto de baixa qualidade, mas que é reconhecido como a melhor oferta disponível pelos clientes, desfruta de vantagem competitiva sobre os demais competidores. De forma análoga, é possível existir uma empresa que oferta um produto de alta qualidade, mas que se posiciona em relativa desvantagem competitiva (REA e KERNER, 1997 apud BARROS p. 23, 2001). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 27 Sabe-se muito sobre o que é vantagem competitiva e como determinadas ações a criam e a destroem, sendo que dois importantes tipos dessa vantagem são: o menor custo e a diferenciação. O menor custo é a capacidade de uma empresa projetar, produzir e comercializar um produto comparável com mais eficiência do que seus competidores, com preços iguais ou próximos de seus concorrentes, já a diferenciação é a capacidade de proporcionar ao comprador um valor excepcional e superior, em termos de qualidade do produto, características especiais ou serviços de assistência. Ambas estão avidamente inseridas no processo competitivo e implicam diretamente na criação das vantagens competitivas e na sustentação das mesmas (PORTER, 2000). 1.2.1 Estratégia e Vantagem Competitiva A estratégia de uma empresa é sua teoria de como competir com sucesso. Entretanto, uma maneira de analisar o que significa competir com sucesso é avaliar o impacto que essa teoria tem em sua posição competitiva em uma indústria ou mercado. Conforme o nível de sucesso de uma empresa, a implementação dessa teoria terá uma das três implicações para a posição competitiva dessa empresa (BARNEY, 2002). Segundo Vasconcelos (2004), as empresas podem ter vantagens competitivas que contribuam para uma performance superior, porém, concomitantemente, apresentar também desvantagens competitivas, isto é, fatores que contribuem negativamente para a performance de forma que uma coisa anule a outra, resultando em performance média convergente com a média do mercado. 1.3 Sustentabilidade O termo sustentabilidade nos remete à relação entre a sociedade e sua base material, e os efeitos desta relação sobre as gerações futuras. Segundo o Relatório de Brundtland (1987), sustentabilidade é: "suprir as necessidades da geração presente sem afectar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas". Não se trata de uma sustentabilidade dos recursos e do meio ambiente apenas, mas das formas sociais de apropriação e uso desses recursos e deste ambiente, ou seja, o processo pelo qual as sociedades administram as condições materiais de sua reprodução, inclusive definindo os princípios que orientam a distribuição desses recursos (CORDEIRO, 2006). Segundo Michael Porter apud Mano (2007), o conceito de sustentabilidade – que se apóia nos aspectos ambiental, social e econômico-financeiro – deve ser visto como uma oportunidade de negócio e ser levado ao centro da estratégia das companhias. É interessante destacar a diferença entre o sustentável e o sustentado, que apesar de muitas vezes serem tratados como se tivessem a mesma definição, podem apresentar uma contradição. Por exemplo, desenvolvimento sustentado é o desenvolvimento ao longo do tempo, obtido, sobretudo, por meio de capitais gerados a partir do comércio internacional. Já o desenvolvimento sustentável é aquele que não é danoso ao ambiente (TROYJO, 2007). Para um projeto ser sustentável, deve ser: ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito (SACHS, 2004). No caso do Brasil, ao gerar superávits comerciais obtidos a partir de uma postura agressiva em relação ao exterior, é possível ter fontes de longo prazo de capital que forneça estoque dos recursos necessários para que refaçamos nossa própria tecnologia. E isso caracteriza um desenvolvimento sustentado. No mérito de desenvolvimento sustentável, é possível citar para o Brasil as vantagens comparativas em relação à produção de etanol com base em cana-de-açúcar, mais barato que o milho dos E.U.A. e mais barato que o trigo da França e da Alemanha. E a grande oportunidade para o Brasil poder se tornar uma nação de desenvolvimento sustentável é concentrar-se na tecnologia, não somente na matéria-prima, para que não aconteça com o etanol REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 28 o que aconteceu com o café brasileiro – virar commodity. Para que o desenvolvimento seja sustentável, é necessário que exista um modelo de desenvolvimento sustentado (TROYJO, 2007). 1.3.1 Vantagem Competitiva Sustentável A manutenção da vantagem competitiva exige mudanças e exploração, ao invés de desconhecer as tendências da indústria, faz-se necessário investir para fechar os caminhos pelos quais os competidores poderiam atacar e destruir vantagens antigas (PORTER, 2000). Segundo Day e Reibstein (1999) por trás de uma vantagem competitiva sustentável pode haver diversas investidas estratégicas que sãs as utilizadas a princípio para conquistar a vantagem competitiva. Por exemplo, empresas diferenciam suas ofertas enfatizando o desempenho, a qualidade, a confiabilidade, o prestígio ou a convivência. Ou ao utilizarem uma estratégia de baixo custo, a qual pode ser usada para investimento do produto, sustentação dos preços mais baixos, ou por fornecer lucros altos (AACKER, 2001). Barney (2002) cita que as empresas que possuem uma inovação que é difícil imitar, que é rara, e que possui recursos disponíveis nas escolhas e implementações de suas estratégias podem usufruir um período de vantagem competitiva sustentável e ficar acima do lucro médio do mercado. 1.4 Análise do Setor Sucroalcooleiro A cultura da cana-de-açúcar no Brasil se confunde com a própria história do país, tendo sido uma das primeiras culturas agrícolas a serem organizadas no período da colonização. Até o século XIX, toda a atividade característica do setor sucroalcooleiro, tanto do cultivo da cana como da produção e comercialização do açúcar, era restrita, exclusivamente, à região nordeste do país, devido ao clima e solo propícios e incentivos através de financiamentos bancários para os aqueles que se comprometessem a estabelecer a cultura da cana em suas terras (COSTA, 2003). Nos dias de hoje o Brasil tornou-se um dos maiores produtores e exportadores mundiais de álcool e açúcar, tendo parte de sua história ligada a esta atividade, com o “Ciclo da Cana-deAçúcar”, iniciado em 1532 pelos portugueses, se expandindo para o Nordeste e tornando o Brasil, o maior fornecedor de açúcar para o mercado europeu na época e desbravador de novos mercados atualmente (ÚNICA, 2005). 1.5 Combustível Verde O álcool, como combustível automotivo no Brasil, teve seu início nos anos 20, se fortalecendo nos anos 70 com as crises mundiais de petróleo, com a criação do Proálcool (Programa Nacional do Álcool) e sua queda nos anos 80/90 com a decadência do mercado de carro a álcool (ÚNICA, 2005). A própria fonte relata que, em meados de 2003, esse quadro mudou, pois o setor sucroalcooleiro aprendeu a administrar sua produção de álcool com uma verdadeira revolução tecnológica: a entrada no mercado de veículos bicombustíveis, com capacidade de rodar a álcool, a gasolina ou qualquer mistura entre eles, mas sendo a preferência do consumidor final, quase toda pelo álcool, devido a comparação de preços: 60% menor em relação a gasolina. (MIGUEZ, 2005). 1.6 Evolução do Programa Nacional do Álcool O Programa Nacional do Álcool ou Proálcool foi criado em 1975 para estimular a produção do álcool, viabilizando o atendimento das necessidades do mercado interno e externo e da política de combustíveis automotivos (BIODIESEL, 2007). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 29 Dados da Copersucar (1989) citam como benefícios a favor da implantação do Proálcool: melhorias nas condições ambientais e maior flexibilidade na produção de açúcar que permitiram a adequação da agroindústria de cana-de-açúcar às oscilações de preço do mercado internacional. A implantação do Proálcool destaca-se em cinco fases distintas (BIODIESEL, 2007): 1975 a 1979: Fase Inicial Nesta fase, os esforços são dirigidos à produção de álcool para a mistura com gasolina. Os primeiros carros movidos exclusivamente a álcool surgiram em 1978. 1980 a 1986: Fase de Afirmação O segundo choque do petróleo no final dos anos 70 triplicou o preço do barril e a compra deste produto passou a representar 46% da pauta de importações brasileiras em 1980. A proporção de carros a álcool no total de automóveis do país aumentou de 0,46% em 1979 para 26,8% em 1980. 1986 a 1995: Fase de Estagnação A partir de 1986, o novo cenário chamado de “contrachoque do petróleo” colocou à prova, mundialmente, o programa de uso eficiente da energia. Essa crise afetou a credibilidade do Proálcool, pois, junto com a redução de estímulos do uso deste combustível, foi responsável pelo déficit da demanda e das vendas de automóveis movidos por essa fonte de energia. 1995 a 2000: Fase de Redefinição Segundo os dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores – ANFAVEA – de 1998 a 2000, a produção de veículos a álcool manteve-se em nível de 1%. Fase Atual (2008) O Brasil vive uma expansão dos canaviais com o objetivo de oferecer, em grande escala, o combustível alternativo. O plantio avança além das áreas tradicionais, do interior paulista e do Nordeste, e espalha-se pelos cerrados. A tecnologia dos motores flex-fuel veio dar novo fôlego ao consumo interno de álcool. Hoje a opção já é oferecida para quase todos os modelos das indústrias de automóveis e, os automóveis bicombustíveis ultrapassaram pela primeira vez os movidos à gasolina na corrida do mercado interno. Perspectivas para o Proálcool Atualmente o mundo está empenhado em encontrar uma solução duradoura para seu problema energético. A preocupação ambiental se somou à redução dos estoques e à alta dos preços dos combustíveis fósseis para valorizar as fontes renováveis e menos poluentes de energia. O governo brasileiro tem mostrado interesse em manter e reativar o Proálcool, dado que o álcool combustível exerce um importante papel na estratégia energética para um desenvolvimento sustentado. 1.7 Etanol (álcool etílico) O etanol, também chamado álcool etílico, é uma substância obtida da fermentação de açúcares. No Brasil, o etanol é utilizado como combustível de motores de explosão, constituindo assim um mercado em ascensão para um combustível obtido de maneira renovável e o estabelecimento de uma indústria de química de base, sustentada na utilização de biomassa de origem agrícola e renovável. Pode ser produzido a partir de matérias primas açucaradas, como a cana do açúcar e a REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 30 beterraba açucareira, matérias amiláceas, como o milho e a mandioca ou ainda matérias primas celulósicas, como madeira ou bagaço, nesse caso mediante processos ainda em fase de desenvolvimento (NOGUEIRA, 2007). O mesmo autor afirma (2007, p. 6), “Nos anos noventa, com a crescente conscientização das questões ambientais, o etanol passou a ser mais valorizado por suas vantagens do ponto de vista das emissões menos agressivas e mesmo com uma baixa competitividade econômica, a qualidade do ar nas grandes cidades passou a justificar seu uso”. Segundo Macedo (2007), a produção de etanol combustível representa hoje um programa energético consolidado que se desenvolve e expande de forma sustentável. O Brasil produz de etanol o equivalente a 200 mil tambores diários de petróleo e é consumida basicamente pelos veículos nacionais e representa 40% do mercado de combustíveis. Para Piolla (2008), as energias renováveis estão entre os campos mais promissores da economia internacional, dada a urgência de se desenvolver fontes geradoras limpas que não contribuam para o aquecimento global. O Brasil desponta como um forte candidato a ocupar posição de destaque nesse mercado, especialmente em função do domínio das tecnologias de hidroeletricidade (que responde por 84% da matriz elétrica do país) e dos biocombustíveis (etanol e biodiesel). 1.8 Comparação entre os Combustíveis Alternativos para Veículos Nos últimos anos, iniciou-se o debate sobre os benefícios dos biocombustíveis versus combustíveis fósseis, à base de petróleo. Hoyer (2007) afirma que qualquer combustível alternativo é melhor do que os carros de hoje (com combustíveis à base de petróleo). O autor afirma ainda que, mesmo o gás natural, quando queimado diretamente no motor, só fica atrás da gasolina e do diesel, em termos de eficiência, gasto energético e poluição. Desde 2004, o Brasil lidera a produção de etanol no mundo, destilando 15 bilhões de litros. Os Estados Unidos produziram 13,1 bilhões de litros no mesmo ano de 2004, quase exclusivamente do milho. Na China, a produção de etanol de trigo e milho produziu quase 3,75 bilhões de litros, e a Índia obteve 1,87 bilhão da cana-de-açúcar. A França produziu mais de 750 milhões de litros da beterraba e do trigo. No geral, o mundo produziu etanol suficiente para deslocar aproximadamente 2% do consumo de gasolina (MURRAY, 2005). No caso específico do etanol de cana-de-açúcar, as vantagens que temos são a tecnologia agroindustrial de pleno domínio pela indústria nacional, o que incrementa os agronegócios brasileiros, contribui de certa forma para a diminuição das importações de petróleo e/ou a promoção da auto-suficiência, além de que, o etanol na forma anidra (sem água), pode ser adicionado à gasolina do petróleo entre 22% e 26% em volume, sem exigir adaptações nos motores, e por ser um combustível não fóssil, tem os incentivos do Protocolo de Kyoto (ETAPA, 2007). Por outro lado, o etanol de cana-de-açúcar, para ser produzido, necessita de grandes áreas plantadas (monocultura), além de exigir solos de alta qualidade e chuvas regulares (MACEDO, 2004). Ao comparar o etanol de cana com o etanol de milho (sendo os EUA o líder na produção), existem grandes diferenças de rendimento e, em conseqüência, no custo-benefício. A começar pelo preço aos produtores no Brasil: R$ 0,42 o litro do etanol da cana, enquanto que o do milho é R$ 0,54 o litro. Nos Estados Unidos, a produção de milho é subsidiada (PEDROZO, 2007). Uma das vantagens do etanol de milho é que a matéria-prima pode ser estocada em silos, e a tonelada REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 31 de milho rende 380 litros de etanol, enquanto que a de cana, 70 litros. Porém, no caso da cana, o impacto na agricultura é menor. No Brasil, cada hectare gera de 60 a 120 toneladas de cana, dependendo da fertilidade e do cultivo. Já para o milho, um hectare produz cerca de três toneladas afirma Murray (2005), é a fonte menos eficiente, pois a produtividade por hectare da beterraba e da cana-de-açúcar é quase o dobro do milho. Já o etanol de beterraba pode ser considerado uma boa fonte de energia, pois produz quase duas unidades de energia por cada unidade utilizada na produção. Ainda assim, o etanol de cana-deaçúcar é a matéria-prima mais eficiente, rendendo oito vezes a energia necessária para a produção do etanol (MURRAY, 2005). A cana-de-açúcar do Brasil pode produzir também o combustível líquido a partir da biomassa, com a mais alta relação de vantagem em todo o mundo na comparação com as energias fósseis. A relação é de 8,9 para o etanol, enquanto os diversos tipos de biodiesel estão entre 2,0 e 3,0. Para o etanol de milho dos EUA, essa relação está na faixa de 1,3 a 1,8. Para o etanol de beterraba (como o produzido na Alemanha) ou trigo (em alguns países da Europa), a relação é próxima de 2,0. A indústria da cana não usa energia fóssil no processo de produção industrial do etanol, apenas bagaço. Com isso, apresenta no Brasil maior sustentabilidade que os demais (NASCIMENTO, 2007). O hidrogênio, extraído do metanol ou da água, que gera energia por meio de células de combustível, é uma fonte alternativa muito discutida. Entretanto, é uma opção ainda longe da viabilização econômica: abastecer um carro com hidrogênio custa até cinco vezes mais do que com gasolina (HOYER, 2007). Para Veja (2007), substituir um combustível não renovável por um cuja matéria-prima é uma das mais abundantes do planeta, como é o caso do hidrogênio, faz com que a eficácia nessa substituição seja alta. Porém, a energia gasta para sintetizar o hidrogênio vem principalmente da queima de combustíveis fósseis, que poluem a atmosfera, contribuindo para o aquecimento global caso fosse feito em larga escala mundial. 1.9 Perspectivas para o Etanol De acordo com Macedo (2007), nos próximos anos, será possível implementar as tecnologias disponíveis ainda em uso parcial. A evolução “contínua” de processos incluirá: agricultura “de precisão”, variedades para as novas áreas, avanços na mecanização agrícola, novos processos de separação do etanol, e automação industrial. Em médio prazo (5–10 anos), diversos co-produtos derivados da sacarose e novos subprodutos serão incorporados. Em médio e longo prazo, poderá ocorrer a difusão de variedades geneticamente modificadas de cana-de-açúcar. Isto, e o uso de novas variedades poderão aumentar significativamente o valor da produção. Tecnologias ainda não comerciais poderão ser as chaves para esta transformação: a hidrólise de biomassa e diversas fermentações dos açúcares resultantes, a gaseificação de biomassa, para energia elétrica ou síntese de combustíveis, e possivelmente a engenharia genética, no suporte ao melhoramento da cana. Macedo (2004) afirma que os custos na produção do etanol prometem diminuir ainda mais, com melhorias no processo, inovações em variedades transgênicas de cana-de-açúcar, novos processos industriais e novos produtos (entre estes, energia elétrica a partir do bagaço e da palha de cana). Até a década de 90, as empresas não investiam em diferenciação de produtos ou diversificação produtiva, pois buscavam apenas algumas melhorias técnicas em seus equipamentos. Após a extinção do IAA, que desencadeou a desregulamentação do setor, surgiram novos produtos, novas técnicas de produção e desenvolveram novos segmentos de mercado. Conforme Vian (2002), “[...] o uso dos subprodutos da cana têm-se orientado para a via da segmentação de mercado”. Outra estratégia utilizada pela indústria canavieira foi a diversificação produtiva onde, além da produção de açúcar pelas destilarias de álcool, algumas empresas buscaram a produção REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 32 também de energia elétrica e a utilização da palha e bagaço, por exemplo. Essa diversificação está relacionada a obtenção de lucros maiores e manutenção do crescimento a longo prazo, mas também está ligada à sobrevivência da empresa para não ficar estagnada. Por conta dos excelentes retornos obtidos ao longo dos últimos anos, espera-se que a produção continue crescendo até 2015. Conforme Walter et al. (2005), existem três motivos para essa expectativa: Por conta do aumento das vendas dos veículos flex-fuel, cresceu o consumo do etanol hidratado no mercado doméstico; Por razões ambientais e estratégicas, cresceu o interesse do mercado externo pelo etanol, gerando um aumento de suas exportações, o que criou a expectativa de que esse mercado continue em ascensão; A perspectiva de crescimento das exportações de açúcar, em virtude das conquistas alcançadas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio – OMC. Especialistas do segmento industrial fazem projeções de que a produção de cana chegará a 413 milhões de toneladas na safra 2005-2006 e a 560 milhões em 2010 e a 673 milhões de toneladas em 2013 (PIACENTE, 2005). Macedo (2004) cita que, de acordo com a Embrapa, a expansão do setor sucroalcooleiro não implicará em riscos de desmatamentos e impactos ambientais, pois estima-se uma liberação de área equivalente a 20 milhões de hectares advindos do aumento do nível tecnológico na pecuária com maior lotação por hectare, o que tornaria disponíveis áreas atualmente utilizadas por pastagens para outros cultivos. O objetivo no Brasil de expansão de cana-de-açúcar é não avançar sobre área virgens, incluindo Pantanal, Amazônia Legal, áreas remanescentes de Mata Atlântica e as demais Áreas de Preservação Ambiental. As áreas produtoras de cana-de-açúcar precisam estar próximas às usinas de processamento e se essa distância for superior a 40km da usina a produção torna-se inviável economicamente. A Tabela 1 demonstra diversidade de áreas existentes para a agricultura e dimensão que cada uma possui dentro do país. Conforme histórico, o Brasil é hoje o que pode oferecer menor custo de produção de etanol e de açúcar a partir da cana. A tendência é de que esses custos diminuam ainda mais devido a melhorias na produção, inovação em variedades de cana (transgênicas), novos processos industriais e novos produtos (como energia elétrica a partir do bagaço e da palha da cana) (MACEDO, 2004). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 33 Tabela 1 – Áreas ocupadas pela agricultura no Brasil Área total do Brasil 851.404.680 Não agriculturável (estradas, cidades, Amazônia legal, etc) 497.793.441 Área agriculturável 353.611.239 Área com agricultura perene 7.541.626 Área com agricultura anual (a) 34.252.829 Área ocupada com cana-de-açúcar (2004) (b) 6.252.023 % Área com cana-de-açúcar (b/a) 18,30% Área em repouso (c) 8.310.029 Área de pastos naturais (d) 78.048.463 Área de pastos artificiais 99.652.009 Área com florestas naturais 88.897.582 Área ocupada com plantações florestais 5.396.016 Área não utilizada (e) 16.360.085 Área inapta para agricultura 15.152.600 Área possível de expansão com cana-de-açúcar [(c+d+e)/2] 51.359.289 Fonte: IBGE, 2005. Do ponto de vista ambiental, Macedo (2004) afirma que: A cultura não é irrigada; recicla todos os efluentes industriais (vinhaça, torta, cinzas); utiliza em larga escala controles biológicos de pragas; tem conseguido reduzir o uso de fertilizantes minerais e defensivos. Nas regiões de maior produção, estão em curso programas para a redução gradual da queima da cana, e o mesmo deverá ocorrer com a proteção de nascentes e a redução da captação de água para uso industrial. Piacente (2005), afirma que a agroindústria canavieira deve se estabelecer em regiões que tenha infra-estrutura logística para escoamento da produção e disponibilidade de mão-de-obra, o que atualmente inviabiliza a instalação de usinas de cana em áreas remotas. Não há razão para que a lavoura de cana avance sobre “áreas virgens”, uma vez que há suficiente área ocupada pela pecuária extensiva, áreas degradadas no Cerrado, e áreas ocupada por outras culturas agrícola (PIACENTE, 2005). Portanto não se vê limitações em se tratando de disponibilidade de áreas para uma expansão sustentável da cana-de-açúcar até 2015 no Brasil. No entanto, é necessário que sejam observadas e cumpridas as legislações ambientais vigentes. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 34 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICO Conforme Lakatos (2001, p.102), “tema é o assunto que se deseja provar ou desenvolver. Pode surgir de uma dificuldade prática enfrentada pelo coordenador, da sua curiosidade científica, de desafios encontrados na leitura de outros trabalhos ou de sua própria teoria”. Portanto, este estudo busca desenvolver e compreender como o etanol brasileiro obtém vantagem competitiva e busca desenvolver-se, através da inovação. Com isso, o título escolhido para este trabalho foi “A inovação como fator de vantagem competitiva do etanol de cana no mercado brasileiro. Sendo o problema de pesquisa a ser abordado: “Como as inovações geram vantagem competitiva ao etanol de cana no mercado brasileiro de combustíveis?”. De acordo com Richardson (1999, p. 62) “objetivos gerais definem, de modo geral, o que se pretende alcançar com a realização da pesquisa”. O objetivo geral deste trabalho é observar e analisar como as inovações podem gerar vantagem competitiva para os produtores do etanol de cana no mercado brasileiro de combustíveis, mantendo os mercados conquistados e, principalmente, conquistar novos mercados. 2.1 Métodos de Pesquisa O trabalho de pesquisa pode ser executado adotando-se um dos dois grandes métodos de pesquisa: o qualitativo ou o quantitativo. O método a ser utilizado será definido pela natureza do problema de pesquisa ou o nível de aprofundamento (RICHARDSON, 2007). 2.1.1 Escolha do tipo de pesquisa Em função da natureza do problema apresentado e dos objetivos deste estudo, o método a ser aplicado será o de pesquisa qualitativa exploratória. Esse tipo de método permite que se reconheça todo o repertório de características, valores e crenças sobre o tema a ser estudado (TRUJILLO, 2003), utilizando a pesquisa exploratória (que estuda um fenômeno atual, ainda pouco examinado entre as comunidades). A análise de caráter exploratória, de acordo com Richardson (1999, p.17) visa descobrir as semelhanças entre fenômenos, os pressupostos teóricos que não estão claros, ou são difíceis de encontrar. Nessa situação, faz-se uma pesquisa não apenas para conhecer o tipo de relação existente, mas, sobretudo para determinar a existência de relação. 2.2 Coleta de Dados De acordo com Oliveira (1999), a coleta de dados é a fase prática da pesquisa, com a aplicação das técnicas selecionadas, a fim de coletar os dados previstos. Os instrumentos de coleta basicamente são: questionários e entrevistas. Os questionários geralmente cumprem a função de descrever as características e medir determinadas variáveis de um grupo social (OLIVEIRA, 1999). Já a entrevista, segundo Hair (2006, p. 162), “ocorre quando o pesquisador „fala‟ diretamente com o respondente, fazendo perguntas e registrando as respostas. As entrevistas possibilitam ao pesquisador obter feedback e fazer uso de auxílio visual se estiver na presença do entrevistado Esta pesquisa foi realizada através de entrevistas semi-estruturadas (o entrevistador, apesar de possuir questões estruturadas, tem flexibilidade para inserir, perguntas não-estruturadas). 2.2.1 Análise de Dados Partindo do pressuposto que o objetivo principal desta pesquisa é conhecer as possibilidades de crescimento competitivo que o país poderá obter através da produção do etanol de cana-deaçúcar, iniciaremos neste momento análise do conteúdo das entrevistas realizadas por todos os componentes do grupo. A análise de conteúdo pode ser definida como: REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 35 Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2007, p.37). A comunicação deste trabalho baseia-se nas entrevistas realizadas, segundo Maykut e Morehouse (1994), organizar a transcrição de entrevistas é importante quando elas são as principais fontes de dados de uma pesquisa qualitativa. Tal processo necessita de tempo e preparo dos pesquisadores. Em uma entrevista com duração de uma até duas horas, torna-se necessário aproximadamente vinte horas para transcrevê-la. O material a ser utilizado nesse trabalho é a transcrição de quatro entrevistas relacionadas no Quadro 1. Neste estudo foram entrevistados profissionais com larga experiência e conhecimento no ramo de energia. Todos os entrevistados pertencentes à amostra estão envolvidos com a energia derivada da cana-de-açúcar, principalmente o etanol, em suas diversas áreas de conhecimento, do desenvolvimento tecnológico, pesquisa acadêmica e comercialização. Os temas abordados pelos entrevistados, relacionados no quadro 1, que se repetem com muita freqüência foram utilizados na criação dos índices – “recortados do texto em unidades comparáveis de categorização para análise temática e de modalidades de codificação para o registro dos dados”. Quadro 1– Composição da Amostra Entrevista Entrevistado E1 Luiz Augusto Nogueira E2 Carlos Eduardo Machado Paletta Gerente Regional de Vendas TGM Turbinas E3 Arnaldo Walter Professor e Engenheiro Mecânico Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp E4 Manoel Régis Lima Verde Leal Engenheiro Aeronáutico Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). César Posição na Administração Horta da Silva Professor especialista Planejamento Energético Fonte: Os autores 3. Conclusão da Análise de Dados REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 Empresa em Universidade Itajubá Federal de 36 A Figura 2 demonstra, de forma sintetizada, as relações entre as categorias que foram criadas a partir das entrevistas e pesquisas do tema: “Como as inovações geram vantagem competitiva ao etanol de cana no mercado brasileiro de combustíveis?”. Através da figura pode-se compreender a relação existente entre as desvantagens, limitações e barreiras (C2) com a inovação (C3). Para cada barreira que surge uma inovação pode ser criada, seja no desenvolvimento de melhorias de produtos, na criação de processos eficientes, entre outras coisas que podem ser utilizadas de forma inovadora para transpor os obstáculos existentes (DRUCKER, 2003). Analisando a categoria de Vantagens competitivas (C1), nota-se a grande integração que esta deve ter com a categoria de inovação (C3), para que a partir dela possa ampliar estudos de novas técnicas e estratégias que façam das empresas organismos competitivos e presentes no mercado (BARNEY, 2002). Por fim, é possível considerar a relação entre a categoria de perspectivas (C4) e a categoria de inovação (C3) onde o tema deste trabalho ganha formas mais concretas, pois com o surgimento, em todo o mundo, de novos tipos de veículos e tecnologias de motores tem provocado mudanças importantes na tradicional postura da indústria automobilística e de outros agentes atuantes no mercado, resultando no início de uma onda de crescimento sem precedentes para o setor sucroalcooleiro (ÚNICA, 2005). Vantagens Competitivas (C1) Desvantagens, limitações e barreiras (C2) Perspectivas (C4) Inovação (C3) Figura 2 – Agrupamento de Categorias Fonte: Os Autores. 4. CONCLUSÃO O lançamento da tecnologia flex-fuel, que permitiu a re-introdução do etanol como combustível no mercado nacional é o fator que motivou, essencialmente, a realização desta pesquisa. A possibilidade de o consumidor optar por abastecer com etanol e/ou gasolina, de acordo com seu interesse, seja ele econômico ou ambiental, aliado ao baixo custo de produção e distribuição do REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 37 etanol de cana-de-açúcar em relação à gasolina, são, sem dúvida, os principais fatores que garantem a vantagem competitiva do etanol no Brasil. Dentre as diversas constatações desta pesquisa, destacam-se as tecnologias voltadas ao ciclo de produção da própria cana, como o desenvolvimento de novas variedades da planta, adaptadas aos diferentes tipos de clima e solo brasileiro, que permitiram ganhos relevantes de produtividade. Essas tecnologias robustecem essa agroindústria e terminam significando a produção de etanol de forma mais econômica e sustentável, contribuindo efetivamente para a sua competitividade. Porém, dentre as diversas descobertas desta pesquisa, as que devem ser consideradas mais relevantes estão relacionadas às diversas perspectivas tecnológicas associadas e derivadas da produção e consumo do etanol. Dentre elas, destacamos que há perspectivas importantes, como a possibilidade de distribuição de energia elétrica excedente obtida e o aproveitamento dos resíduos do processo produtivo do etanol. Há também a possibilidade do desenvolvimento de uma nova fonte de etanol, que poderá ser obtida através da celulose do bagaço, denominada “segunda geração de biocombustíveis”, além da proposta da adição de uma cota de etanol de cana no mercado internacional. Na fase industrial, as tecnologias de segunda geração vão propiciar o aproveitamento da fibra da cana (bagaço e palha) de forma mais eficiente e aumentando ainda mais a produtividade energética (por unidade de área plantada). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AACKER, David A. Administração Estratégica de Mercado. 5ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. FERRAZ, João Carlos; KUPFER, David; HAGUENAUER, Lia. Made in Brazil: desafios competitivos para a indústria. Rio de Janeiro: Campus, 1995. 386 p. BARNEY, Jay B. Gaining and Sustaining Competitive Advantage. Second Edition: Printice Hall, 2002. BARROS, Luís Alberto Monteiro de. Inovação como fator de competitividade: o segmento da indústria eletro-eletrônica. Dissertação (Mestrado em Administração de Empresas). Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas, Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, 2001. CORDEIRO, Adriana Tenório. 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Daniel Vinicius Fernandes Iandara Rebello Joaquim Mercedes Sampaio Pacheco Rafael Romagnoli Rafaela Luciana da Silva Nelson Destro Fragoso RESUMO Este trabalho põe em questão percepção ética e participação em ação voluntária na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Com o objetivo de identificar uma possível relação entre a percepção ética dos alunos e sua participação no Dia Mackenzie Voluntário, os procedimentos metodológicos se firmam em uma amostragem de trabalho não probabilística, composta por trezentos alunos dos cursos Administração, Contabilidade, Economia e Comércio Exterior do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA), entre os semestres 3º, 4º, 5º e 6º dos períodos manhã, tarde e noite. Para a análise dos dados, foi aplicado o método de pesquisa quantitativa descritiva, padronizando a coleta de dados através de questionário e o tratamento pelos programas SPSS e Excel. Como resultado ficou demonstrado pela pesquisa que não há relação entre a percepção ética dos alunos do CCSA e sua participação no Dia Mackenzie Voluntário. Palavras-chave: percepção ética; ação social; Dia Mackenzie Voluntário. INTRODUÇÃO As questões sociais não resolvidas pelo Estado e as diversas demandas que o segundo setor abdicou nas suas tradicionais limitações, permitiram o surgimento de um novo personagem na história. Segundo Fernandes (1997), o terceiro setor nasceu de uma ausência, defasagem ou falta do Estado, a partir de uma iniciativa da população. Como relata Rothgiesser (2002), o Terceiro Setor se mantém através de recursos públicos e privados, relacionados a contribuições particulares, de pessoas que desejam que seu dinheiro e sua colaboração sejam bem executados. As entidades filantrópicas representam uma parcela do Terceiro Setor. De acordo com alguns requisitos, recebem o título de filantropia, as diversas entidades de assistencialismo, saúde e educação. Como, por exemplo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie. O problema de pesquisa é definido por Booth, Colomb e Williams (2005) como a dificuldade encontrada pelo pesquisador, podendo ser dividido em prático e de pesquisa. O primeiro representa a realidade, e o segundo, um “conhecimento incompleto” ou uma necessidade de mais informação para a total compreensão. A partir das definições estudadas, o problema de pesquisa do trabalho em questão é: Há relação entre a participação do aluno do CCSA no Dia Mackenzie Voluntário e sua percepção ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie? Richardson (1999) afirma que os objetivos específicos definem etapas que devem ser cumpridas para alcançar o objetivo geral. Assim sendo, o objetivo geral é: Identificar a relação entre a participação no Dia Mackenzie Voluntário dos alunos do CCSA e sua percepção ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie. E os objetivos específicos são: Correlacionar percepção ética e participação na ação social; Verificar se os alunos do CCSA percebem ética na REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 41 Universidade; Identificar os motivos pelo qual os alunos participam do Dia Mackenzie Voluntário e se a ética é motivo significante para a participação no Dia Mackenzie Voluntário. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Ética Vázques (2002) traz que a moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas. Moral é o conjunto das normas para o agir específico ou concreto. A moral está contida nos códigos, que tendem a regulamentar o agir das pessoas. Leisinger e Schmitt (2002) definem Moral Empresarial como o conjunto daqueles valores e normas que, dentro de uma determinada empresa, são reconhecidos como vinculantes. Não existindo uma moral especial para as empresas, nem mesmo para as multinacionais, mas existem expectativas de ação mais amplamente definidas. Para Srour (2000), cada vez mais a imagem que as empresas gostariam de passar é a de empresas éticas. Isto, na verdade, implica dizer empresas moralmente inatacáveis, sintonizadas com a moral do tempo e com os costumes vigentes. Por isso, empresas éticas seriam aquelas que subordinam as suas atividades e estratégias a uma prévia reflexão ética e agem de forma socialmente responsável. A ética é a ciência que estuda e estabelece os fins da conduta humana. Diferente da moral, como explicado por Guerra, Saraiva, Neto, Sabbadini, Baeta, Liberal, Bull, Filho, Bonilha, Prando, Martins, Grendene e Dohme (2006), que significa o conjunto de regras sobre o comportamento, a ética é universal, e a moral, uma aplicação da ética, temporal e cultural. A preocupação das empresas (com ou sem fins lucrativos) em apresentar seus valores e seus códigos de conduta ética reafirma a relação da responsabilidade social, econômica e até cultural das organizações frente ao mercado global. Qualidade, agilidade, bom preço e bom atendimento deixam de serem fatores diferenciais para se tornarem fatores mínimos nas corporações (NASH, 1993). Como diz Guerra (1995), caminha-se para uma nova forma de trabalho onde a ética se insere como elemento relevante e fator de competitividade, por atribuir ao processo de decisões gerenciais maiores confiabilidade e consistência. Dessa forma, para estudar a ética empresarial cabe uma análise da moral que está presente nas empresas, no país ou em uma determinada coletividade estudada. Nash (1993) apresenta algumas desvantagens das normas empresariais que devem ser destacadas. A maior delas consiste em dizer que as normas não abrangem o ramo de atividade da empresa, e sim as intenções éticas da organização. Então, caso um setor trabalhe todo de forma antiética, a empresa que deseje implantar e realizar suas operações de forma ética sofrerá desvantagem no mercado. Outro ponto que representa a idéia de que apenas as normas sejam suficientes para boas condutas. 1.2 Terceiro Setor No espaço aberto deixado pela ineficiência, ausência ou falência estatal, o setor privado começou a ajudar nas questões sociais, através das inúmeras instituições que compõem o chamado Terceiro Setor (FERNANDES, 1997). O terceiro setor tem no momento atual da sociedade, duas realidades que devem ser consideradas no seu desempenho: a realidade de sanar as questões sociais não resolvidas pelo Estado do Bem Estar Social e as demandas sociais que o segundo setor abdicou nas suas tradicionais limitações. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 42 Essa realidade envolve a filantropia empresarial, os financiamentos de agências nacionais e estrangeiras, as redes de empresas que investem na gestão de conhecimento e metodologias para reverter carências sociais. A partir dos autores Cardoso (1997), Fernandes (1997), Petras (2000) e Ghon (2002) é possível traçar um panorama relacionado aos movimentos sociais urbanos dos anos oitenta no Brasil, considerando três frentes importantes: os sindicatos, os movimentos populares comunitários e o movimento estudantil. Segundo Cardoso (1997), Fernandes (1997), Petras (2000) e Ghon (2002) a diferença entre a ação consciente e a fazecção alienada está na possibilidade da reflexão crítica por parte dos seus atores, que deve incluir a dimensão política. Caso contrário existe o sério risco deste importante fenômeno emergente no cenário mundial, chamado Terceiro Setor, se transformar em um mero executador de tarefas ditadas pelos Primeiro e Segundo Setores. Bettiol (2005) acredita que a dificuldade encontrada para conceituar esse segmento pode ser claramente visualizada na definição habitualmente apresentada, não governamental e não– lucrativo, abstendo-se de dizer o que realmente significa este conjunto de organizações para apresentar apenas o que elas não são. Para Rothgiesser (2002), o terceiro setor deve imprimir uma crescente aprendizagem da sociedade como um todo no que se refere à sua área de atuação. O cenário das Organizações sociais nos dias atuais é investir na qualificação e no desenvolvimento das suas próprias informações. Segundo Rothgiesser (2002), constata-se um crescimento quantitativo e qualitativo do Terceiro Setor como um todo, em especial das ONGs. Com a consolidação democrática, através da pluralidade partidária, formação de sindicatos e fortalecimentos de movimentos sociais urbanos e rurais, abre-se espaço para uma atuação mais efetiva das organizações. O Instituto Presbiteriano Mackenzie inicia suas atividades em 1870. Em 1869, a cidade de São Paulo vivia um clima de efervescência, e é neste cenário que se instalava na cidade de São Paulo o casal de missionários presbiterianos George e . O reverendo Chamberlain empreendia viagens missionárias pelo interior do Estado, sua esposa, Mary, dedicava-se à área pedagógica na residência do casal, nascia então, uma escola socialmente responsável e integrada à sociedade. Em 1871, a escola da senhora Chamberlain contava com 44 alunos e teve que se mudar, pois a sala de estar do casal já não comportava mais tantos alunos. A partir de 1872, as aulas passaram a ser pagas, concedendo-se bolsas parciais e integrais para os alunos carentes (MACKENZIE: TRADIÇÃO E PIONEIRISMO, 2000). A Universidade Presbiteriana Mackenzie é de caráter confessional e como instituição presbiteriana é regida pela fé-cristã evangélica reformada. Assim, o compromisso do Mackenzie é de estimular o conhecimento das "ciências humanas e divinas", colaborando na formação integral do ser humano, com oportunidades de conhecimento e reflexão dos princípios éticocristãos (BALANÇO SOCIAL, 2005). Segundo Muller (1970), o Mackenzie nunca deixou de ser pioneiro, sempre buscou seu ideal, cumpre a missão, cultiva a educação, dignifica a pessoa humana, dedica-se às ciências divinas e humanas; caracteriza-se pela busca contínua da excelência no ensino e na pesquisa; prima pela formação integral do ser humano, em ambiente de fé cristã evangélica reformada. (BALANÇO SOCIAL DO MACKENZIE, 2006). 1.3 Responsabilidade Social Segundo Rost (1999), com as tecnologias cada vez mais avançadas, as máquinas substituem e ajudam no trabalho das pessoas e a produção necessita ser cada vez mais acelerada. Questões REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 43 como: Gestão da Qualidade, Gestão do Meio Ambiente, Gestão da Segurança no Trabalho e Qualidade de Vida no Trabalho, auxiliam a padronizar processos e, ao mesmo tempo, na customização dos produtos, aumentam a satisfação dos funcionários no trabalho, retêm talentos e buscam atrair outros, além de claro, fidelizar os clientes e captar outros. Segundo Soares (2002), hoje se atingiu um estágio de amadurecimento dos três setores, mas é fundamental conquistar um novo patamar deste desenvolvimento. Há uma necessidade de compreensão, mais do que nunca, da importância de maior articulação e parceria entre eles. Não se pode deixar este momento de expectativa nacional, oportunidade rara de mobilização, passar, sem que se avance nesse sentido. Segundo Soares (2002), alguns estudos apontam que a responsabilidade social não surgiu por simples benevolência empresarial, mas, antes de tudo, pela necessidade crucial de estratégias de melhoria das condições de vida das pessoas que trabalham nas empresas e, também, de soluções para problemas da comunidade em que elas estão inseridas. Responsabilidade Social nas empresas, para Kapaz (2007), significa uma visão empreendedora mais preocupada com o entorno social em que a empresa está inserida. Isso não significar deixar de se preocupar com a necessidade de geração de lucro, mas colocando-o não como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para se atingir um desenvolvimento sustentável e com mais qualidade de vida. Segundo Tachizawa (2002), é convergente com estratégias de sustentabilidade de longo prazo, que incluem a necessária preocupação com os efeitos das atividades desenvolvidas no contexto da comunidade em que se inserem as empresas, excluindo, portanto, atividades no âmbito da caridade ou filantropia tradicionalmente praticada pela iniciativa privada. 1.4 Dia Mackenzie Voluntário Segundo o Balanço Social do Mackenzie de 2006, o Departamento de Responsabilidade Social, Filantropia e Desenvolvimento Institucional, que é responsável pela realização de ações sociais ligadas à filantropia, coordenou dezoito projetos em prol do desenvolvimento da comunidade. Quinze desses projetos já existiam e outros três projetos foram incluídos. Esses projetos atendem um total de 332.903 pessoas, relacionados à educação, cultura, saúde, meio-ambiente, geração de renda, entre outros. Desses trabalhos, cabe destacar o Dia Mackenzie Voluntário pela sua maior mobilização (com 251.000 atendidos) e pela sua freqüência anual. O Projeto tem foco na educação, na área social, da saúde, cultural e ambiental e visa atender a comunidade como um todo. Ocorre durante os meses de junho a outubro e recebe apoio de funcionário e voluntários para a realização das atividades. Tem como principal preocupação atender as Oito Metas do Milênio, estabelecida pela ONU. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 2.1 Hipótese Para Thiollent (2003), uma hipótese é simplesmente definida como suposição formulada pelo pesquisador a respeito de possíveis soluções do problema da pesquisa. Em relação ao referido trabalho, a hipótese testada foi: A existência de uma correlação entre a percepção ética dos alunos do CCSA e sua participação no Dia Mackenzie Voluntário. 2.2 Variáveis Em relação ao referido trabalho, as variáveis são: percepção ética e participação no Dia Mackenzie Voluntário. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 44 2.3 Método Segundo Diehl e Tatim (2006), a pesquisa quantitativa relaciona-se ao uso da quantidade para coletar e tratar os dados. Para o referido trabalho, foi utilizado o método quantitativo. Gil apud Diehl e Tatim (2006), classifica as pesquisas em exploratórias e descritivas. A pesquisa exploratória busca tornar o objetivo mais explícito e compreensivo. Já a pesquisa descritiva, utilizada neste trabalho, tem como objetivo principal a descrição da população em questão e a padronização na coleta de dados, como questionários. 2.4 Plano Amostral Para a pesquisa que se segue, a população é composta de 300 alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, dos cursos do CCSA (Centro de Ciências Sociais e Aplicadas), Administração, Contabilidade, Economia e Comércio Exterior, entre os semestres 3 °, 4°, 5° e 6°, dos períodos matutino, vespertino e noturno. Diehl e Tatim (2006) separam a amostragem em probabilística e não probabilística. A primeira requer tratamento estatístico, enquanto que a segunda, pode ser intencional e não utiliza formas aleatórias de seleção. A partir das definições, a amostragem do trabalho em questão foi não-probabilística. 2.5 Instrumento de Coleta de Dados O instrumento utilizado para a coleta de dados foi o questionário. Para obter as informações e os dados da pesquisa de campo. Foi aplicado questionário de forma impessoal, mantendo o anonimato do entrevistado, com questões fechadas de concordância e possibilitando analise e caracterização do entrevistado com dados psicográficos. 2.6 Tratamento de Dados A partir das informações estudadas, foi adotado para o tratamento dos dados um software estatístico que oferece ferramentas para análise do problema: o SPSS. Somado a ele, os dados também foram trabalhados no Excel. 2.7 Análise dos Dados A pesquisa de campo consistiu em trezentas entrevistas realizadas com alunos que cursavam entre o 3° e o 6° semestre dos cursos do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (Administração de Empresas, Economia, Contabilidade e Comércio Exterior), nos períodos matutino, vespertino e noturno. Figura 1 – Faixa Etária Figura 2 – Semestre Letivo REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 45 A amostra possui uma pequena diferença entre o sexo masculino (52,33%) e o feminino (47,67%). Em relação à idade, 53,3% têm entre 20 e 22 anos, 160 pessoas entrevistadas, conforme figura 1, representando a maioria da amostra. Dos quatro cursos entrevistados do Centro de Ciência Sociais e Aplicadas, 39,7% dos entrevistados estão matriculados em Administração e 38,3% em Economia. A maioria dos entrevistados está no 3° semestre, que representa 45% da amostra, 135 entrevistados, conforme figura 2. E o período com mais indivíduos pesquisados foi o da manhã, com 57,7% da amostra. Como apresentado nos resultados da pesquisa, 24,7% já participaram do Dia Mackenzie Voluntário, contra 75,3% que nunca participaram. Dos 74 entrevistados que responderam que participaram apenas um respondeu que não participaria de novo, enquanto os outros 73 afirmaram que participaram novamente do Dia Mackenzie Voluntário. E dos 75,3% que não participaram do Dia Mackenzie Voluntário, ou seja, 226 entrevistados, 27,43% não participariam e 72,57% participariam em outra oportunidade. Para análise das variáveis 7 a 31, foi realizada a Análise Fatorial, devido à presença de um alto índice na Medida de Adequação da Amostra (KMO). Sem as variáveis 7, 27 e 9, o KMO obtido foi de 0,808 (aproximadamente 0,81), para definir as variáveis fundamentais para tal análise, é verificado a comunalidade. Na primeira passagem pelo SPSS, as variáveis 7 e 27 apresentaram baixa comunalidade, abaixo de 0,5 a contribuição da variável para o fator é ruim. Com a exclusão das variáveis 7 e 27, o programa encontrou sete fatores, sendo que a variável 9 era a única no sétimo fator. Porém, na elaboração do roteiro, a variável 9 correspondia ao grupo de questões sobre ética. Entretanto, foi realizada nova passagem com objetivo de obter seis fatores, devido a sua relação com outras variáveis. Apesar de encontrar a variável enquadrada no grupo de fatores esperado, sua comunalidade apresentou-se abaixo de 0,5 e a variável também foi retirada da análise fatorial. Os seis fatores identificados na Análise Fatorial foram agrupados em: F1: Compromisso e dedicação dos envolvidos com o ensino do CCSA; F2: Serviços da Biblioteca, atividades sociais do Mackenzie e informações transmitidas pela Universidade; F3: Terceiro Setor; F4: Fornecimento de bolsas; F5: Responsabilidade ambiental do Mackenzie e Resultados do Dia Mackenzie Voluntário; F6: Conhecimento de Ética. De acordo com o roteiro da pesquisa, os motivos identificados que justificam a participação dos entrevistados no Dia Mackenzie Voluntário, são: 79,73% dizem ter vontade e desejo de participar do Dia Mackenzie Voluntário; 58,11% têm interesse na atividade; 13,51% participam por caridade; 6,76% por obrigação; 62,16% vêem importância em realizar projetos sociais; 44,59% acreditam que participando estão contribuindo para um mundo melhor; 4,05% sofrem influência dos amigos; 14,86% realizam por curiosidade; 10,81% participaram com o objetivo de conhecer novas pessoas; 35,14% afirmam realmente acreditar na ação realizada pelo Dia Mackenzie Voluntário; e 45,95% porque gostam. Para analisar os possíveis motivos da não participação dos entrevistados, e talvez entender o porquê os entrevistados não participariam em outra oportunidade da ação Dia Mackenzie Voluntário, foram selecionadas dez alternativas para auxiliar na justificava, além da opção outros, onde o aluno poderia adicionar algum motivo diferente dos demais. Descobrir os motivos da não participação no Dia Mackenzie Voluntário corresponde a um objetivo da pesquisa e diante da grande maioria não ter participado, torna-se relevante. Dos entrevistados, 226 não participaram e, diante os motivos pré-estabelecidos, havia a possibilidade de assinalar mais de uma alternativa. Os resultados obtidos foram: 66,37% das pessoas responderam que falta tempo para que possam participar; 25,22% justificam como falta de REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 46 disposição; 38,94% dizem não conhecer as atividades desenvolvidas no Dia Mackenzie Voluntário; 11,06% já trabalham em outra Instituição do Terceiro Setor ou já realiza outra atividade social; 9,29% não se interessam pela atividade; 1,77% assinalaram não enxergar relevância nas ações sociais; 2,21% admitem sentir vergonha ao realizar a ação; 22,57% dos entrevistados justificaram a não participação pelo fato de ocorrer aos finais de semana; 3,54% das pessoas não se identificam com o Mackenzie; e 6,19% não acreditam no resultado. Apenas duas pessoas marcaram a alternativa outros, com a justificativa de falta de organização na realização do projeto. Com a análise da relação da participação no Dia Mackenzie Voluntário com o sexo feminino e masculino, dos 74 entrevistados que participaram, 64,9% são do sexo feminino e os outros 35,1% são do sexo masculino. Já os 226 entrevistados que não participaram, 42% são mulheres e 58% são homens. Portanto, percebe-se que há maior participação do sexo feminino no Dia Mackenzie Voluntário. Ao analisarmos os cursos separadamente, dos 30 alunos entrevistados de Contabilidade, 40% deles participaram do Dia Mackenzie Voluntário. Dos outros cursos, apenas 26,05% de Administração de Empresas, 20,87% de Economia e 19,44% de Comércio Exterior participaram. Assim, o curso de Contabilidade, possui uma participação satisfatória em relação aos demais cursos, destacando que a participação total é de, praticamente, 25% de todos os entrevistados. Para atingir o objetivo de correlacionar percepção ética e participação na ação social do Mackenzie a participação no Dia Mackenzie Voluntário possui correlação satisfatória com os fatores sobre ética e sobre as atividades na área de Responsabilidade Ambiental (como o lixo reciclável) e dos resultados da ação Dia Mackenzie Voluntário. O programa apresenta a identificação através da Correlação de Pearson, sendo que para o Fator sobre Conhecimento de Ética, a variável da participação tem correlação de 95% e das atividades sociais e ambientais, 99%. Dessa forma, é possível afirmar que há correlação entre a percepção que o aluno tem do conhecimento de ética com a sua participação no Dia Mackenzie Voluntário. Outra análise relevante inclui a correlação da participação do aluno com seu conhecimento das atividades ambientais realizadas e o resultado dessas atividades e do resultado da ação Dia Mackenzie Voluntário. Os outros fatores, como a percepção do Terceiro Setor, do fornecimento de bolsas e do comprometimento e dedicação dos envolvidos com o ensino não obtiveram correlação com a participação do aluno no Dia Mackenzie Voluntário. Para compreender a percepção dos alunos entrevistados em relação: ao compromisso e dedicação dos envolvidos com o ensino do CCSA; aos serviços da Biblioteca, atividades sociais do Mackenzie e informações transmitidas pela Universidade; ao Terceiro Setor; ao fornecimento de bolsas; a Responsabilidade ambiental do Mackenzie e Resultados do Dia Mackenzie Voluntário; e a percepção ética, a análise pelo histograma facilita uma reflexão das respostas obtidas. Ao analisar o compromisso e a dedicação dos envolvidos com o ensino, como Professores, Coordenadores e Diretores, foi possível observar que nas afirmativas que envolviam a percepção dos Professores para com os alunos e para com a Universidade, as respostas foram, em média, satisfatórias. Para os entrevistados, tanto em relação aos alunos quanto à Universidade, a maioria concordou parcial e totalmente, com expressiva diferença entre os dados das demais alternativas. As atividades oferecidas pela Biblioteca do CCSA são percebidas com eficiência e seriedade pelos alunos entrevistados, uma vez que a maioria respondeu concordar total ou parcialmente com as afirmativas sobre a Biblioteca e seus serviços. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 47 De acordo com os resultados, os alunos perceberam mais seriedade nas atividades sociais da Universidade Presbiteriana Mackenzie do que transparência. Dos entrevistados, 162 alunos responderam concordar que a atividades sociais realizadas no Mackenzie são sérias, contra 95 que concordam que as atividades são transparentes. E quanto às informações transmitidas pela Universidade, 223 entrevistados afirmam acreditar nas informações. Foi possível analisar, com as questões fechadas de concordância, a percepção dos alunos entrevistados quanto ao Terceiro Setor. As afirmativas trabalhadas pelo grupo foram: a Universidade Presbiteriana Mackenzie é uma organização não-governamental e sem fins lucrativos, o Mackenzie é uma Entidade Filantrópica do Terceiro Setor e todo resultado obtido pela Universidade é reinvestido em melhorias internas. De acordo com os resultados, os entrevistados apresentaram-se indiferentes quando afirmado que o Mackenzie é uma Entidade Filantrópica. Em média, 33% dos alunos responderam não saber, ou seja, a alternativa indiferente, se o Mackenzie possui características de filantropia. As outras afirmativas, também relacionadas aos conhecimentos no Terceiro Setor, receberam respostas variadas, como apresenta o gráfico. Pode-se afirmar que, em média, 60 alunos responderam um das alternativas para dizer que acreditam que o Mackenzie é uma entidade Filantrópica do Terceiro Setor e que todo resultado obtido pela Universidade é reinvestido em melhorias internas. Em relação ao Fator Responsabilidade Ambiental e Resultados do Dia Mackenzie Voluntário, conforme os resultados da pesquisa, 28,33% dos entrevistados têm conhecimento sobre os resultados do Dia Mackenzie Voluntário. E nas variáveis sobre responsabilidade ambiental, os alunos apresentam-se, na sua maioria, indiferentes. Por fim, a percepção do conhecimento de ética foi apresentada nos resultados de forma satisfatória, pois mais da metade dos entrevistados, em todas as afirmativas sobre ética, responderam concordar total ou parcialmente. O número de pessoas que não sabem ou não julgam relevantes, com a alternativa indiferente, ou que discordam total ou parcialmente, não é maior do que 70 entrevistados. A afirmativa que diz que ética é a ciência que estuda a conduta humana obteve o maior número de discordância. 3.CONCLUSÃO O objeto de estudo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, torna-se essencial diante de um processo de formação acadêmica e do início da experiência da pesquisa e de descobertas científicas. Para isso, o estudo do Mackenzie e das suas atividades de caráter público, diante de muitos projetos na área, aprofundou-se o estudo no Dia Mackenzie Voluntário. A priori, identificar se a ética é motivo significante para a participação no Dia Mackenzie Voluntário é objetivo da reflexão e interfere na hipótese de existir uma correlação entre as variáveis. Segundo o site da Universidade, o objetivo do Mackenzie é prestar um serviço de qualidade, mas não esquecendo a participação no desenvolvimento humano de uma maneira ética e socialmente responsável. Assim, estreitar o estudo na percepção ética dos alunos e dos possíveis voluntários torna-se fundamental para compreender a complexidade e o prestígio de colaborar socialmente. Identificar se há relação entre a participação no Dia Mackenzie Voluntário dos alunos do CCSA (Centro de Ciências Sociais e Aplicadas) e sua percepção ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie é o objetivo principal deste trabalho e reforça os laços de importância das reflexões anteriores. Conhecer ética, verificar se os alunos do CCSA percebem ética na Universidade, REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 48 identificar os motivos que os alunos participam no Dia Mackenzie Voluntário e os motivos que ajudam a não participação favorece a consideração de temas salientes à Universidade Presbiteriana Mackenzie e todos os seus envolvidos. O resultado demonstrou que a hipótese foi rejeitada, ou seja, não há relação entre as variáveis: percepção ética e participação no Dia Mackenzie Voluntário. Isto abre outras reflexões diante de todas as informações conquistadas nos questionários. Portanto, a percepção ética da Universidade não é um fator determinante para a participação dos alunos em ações sociais, como o Dia Mackenzie Voluntário. Quanto aos motivos que representam à participação dos alunos na ação, 80% dizem ter vontade e desejo de participar do Dia Mackenzie Voluntário, 62% dos entrevistados que já participaram vêem importância em realizar projetos sociais, e 58% têm interesse na atividade. Há, também, um retorno favorável da ação, pois somente uma pessoa dos 74 que participaram, não participaria novamente da ação e os outros 73 participariam. Ao caráter filantrópico do Mackenzie, cabe o aumento das atividades sociais e a assistência à comunidade, bem como a captação de alunos e funcionários que fortaleçam o trabalho espontâneo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Balanço Social 2005 do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Departamento de Resposabilidade Social, Filantropia e Desenvolvimento Institucional. Editora Mackenzie. Balanço Social 2006 do Instituto Presbiteriano Mackenzie. Departamento de Resposabilidade Social, Filantropia e Desenvolvimento Institucional. Editora Mackenzie. BOOTH, Wayne C.; COLOMB, Gregory G.; WLLIAMS, Joseph M.. A Arte da Pesquisa. São Paulo: Martins Fontes, 2005. CARDOSO, Ruth. Fortalecimento da Sociedade Civil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. DIEHL, Astor Antônio; TATIM, Denise Carvalho. Pesquisas em ciências sociais aplicadas. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. FERNANDES, Rubem César. O Que é o Terceiro Setor? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. FERNANDES, Rubem César. Privado Porém Público: O terceiro Setor na América Latina. 2.ed.. Rio de Janeiro: Relume e Dumará, 1994. GHON, M. G.. Teoria dos Movimentos Sociais. 3. ed.. São Paulo: Edições Loyola, 2002. GUERRA, Ana Paula D. et al. Marketing no Terceiro Setor. São Paulo: Mackenzie, 2006. GUERRA, Silvio. 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Apresenta informações sobre cursos, vestibular, Balanço Social da empresa, atividades desenvolvidas na área de Responsabilidade Social, serviços da Biblioteca, dentre outros. Disponível em: www.mackenzie.com.br. Acesso em: 08 junho 2008. VÁZQUES, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 50 CANAIS REVERSOS E A IMAGEM CORPORATIVA - UM ESTUDO DE MULTICASOS Ligia Helena Padilha Paulo Roberto Leite RESUMO Este artigo analisa a questão da possibilidade de ganho de imagem corporativa por meio da adoção de uma política adequada no tratamento de seus canais reversos de retorno de produtos não consumidos. Trata-se de um estudo exploratório com metodologia qualitativa, utilizando técnica de estudo de caso múltiplos, extrato de um projeto de pesquisa de maior vulto , que envolveu um minucioso levantamento bibliográfico e coletas de dados de campo com entrevistas em profundidade com executivos de logística e marketing e com posterior transcrição e análise de conteúdo. As empresas Motorola, Souza Cruz e Editora Abril, todas de grande porte, mas de ramos distintos de atuação, constituíram os casos analisados. Observou-se, neste estudo exploratório, que nos casos examinados existem diferentes níveis de importância em relação aos canais reversos de seus produtos e, como conseqüência, diferentes níveis de preocupação quanto ao impacto que o retorno de produtos produzem na imagem corporativa da empresa. Palavras-chave: Logística Reversa; Imagem Corporativa; Marca Corporativa; Identidade Corporativa. INTRODUÇÃO O tema logística reversa vem sendo bastante discutido nos dias de hoje, tanto no meio acadêmico quanto no empresarial e isso decorre, principalmente, do amadurecimento do mercado consumidor, cada vez mais exigente e competitivo. Dessa maneira, surge a noção de que a responsabilidade de uma empresa com relação ao seu produto não termina quando este é entregue no canal de distribuição ou ao cliente, mas se estende também ao tratamento que é dado a ele mesmo após chegar ao mercado. A falta de gerenciamento do retorno de bens não consumidos pode ocasionar problemas comerciais entre as empresas produtoras e seus canais de distribuição e até mesmo com seu consumidor final. O gerenciamento do fluxo reverso de bens é importante, pois pode contribuir para a redução de perdas recorrentes, como também ajudar na construção e preservação da imagem corporativa e das marcas. Enquanto a logística direta é constituída pelas diversas etapas pelos quais os produtos são comercializados até chegar ao consumidor final, a logística reversa, em contraposição, é a área que visa equacionar aspectos logísticos do retorno de bens ao ciclo produtivo ou de negócios através da multiplicidade de canais de distribuição reversos de pós-venda e de pós-consumo, agregando-lhes valores de diversas naturezas como econômica, ecológica, legal, logístico, de imagem corporativa, entre outros. (LEITE, 2003). É importante ressaltar o tipo de fluxo reverso a ser tratado uma vez que existem dois tipos deles que são distintos e portanto devem ser gerenciados de maneiras diferentes. O primeiro tipo é o REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 51 chamado de pós-consumo que são constituídos pelo fluxo reverso de uma parcela de produtos e de materiais constituintes originados no descarte após a sua utilidade original e o segundo tipo é o chamado de bens de pós-venda que são constituídos pelas diferentes formas e possibilidades e retorno de uma parcela de produtos com pouco ou nenhum uso. Nesses casos, avalia-se que o gerenciamento do fluxo reverso de bens possa não apenas reduzir perdas recorrentes, como também ajudar na construção e preservação da imagem corporativa e das marcas. O gerenciamento do segundo tipo de fluxo pode também gerar ganhos de lucro para a empresa e ainda lhe garantir uma imagem de empresa socialmente responsável. A imagem corporativa, em síntese, é a visão que as pessoas têm da empresa e vem ganhando grande destaque nesse ambiente competitivo que exige cada vez mais um relacionamento entre clientes e a empresa duradouro, uma vez que é mais barato manter clientes já conquistados do que conquistar novos. Com a crescente sensibilidade ecológica da sociedade, que passou a exigir das empresas maior responsabilidade social, a preocupação com imagem corporativa ganhou ainda mais importância. O gerenciamento dos fluxos reversos de seus produtos se insere, portanto, perfeitamente nesse contexto. O presente estudo pretende verificar se as empresas gerenciam o fluxo reverso de seus produtos não consumidos em razão da preocupação com sua imagem corporativa. Para tanto, foi conduzido um estudo de caso em três empresas que apresentam diferentes níveis de estruturação do canal reverso, destacando, principalmente, à questão da imagem. 1. REFERENCIAL TEÓRICO A busca do material bibliográfico foi feita por meio de via eletrônica, utilizando bases de dados como Proquest, Ebsco, banco de teses da CAPES, da FGV, da USP e do Mackenzie. Inicialmente, foi levantada a importância da imagem corporativa e suas influências, sendo em seguida coletadas as definições e conceitos de imagem corporativa. Pesquisou-se, também, como ocorre a construção da imagem e quais as conseqüências advindas da imagem corporativa. Os resultados desse levantamento permitiram a construção dos tópicos abordados a seguir: 1.1 A Importância da Imagem Corporativa Martineau (1958), um dos primeiros autores acadêmicos a estudar a imagem corporativa, coloca que já em meados do século passado os comerciantes começavam a perceber que, a menos que o potencial consumidor estabelecesse (conscientemente ou não) uma adequação entre sua imagem pessoal e a imagem da loja, ele não iria sentir-se atraído pelo estabelecimento, independentemente dos preços ofertados. Para o autor, já naquela época, poucos produtos podiam ser vendidos a partir da demonstração de uma superioridade funcional, principalmente no ramo industrial. As vendas dependeriam da interação de cada empresa com seus muitos públicos diferentes, cada qual vendo a imagem da organização por uma lente diferente, interferindo na decisão de compra do produto (MARTINEAU, 1958). Assim, do ponto de vista da administração de empresas, uma boa imagem pode auxiliar nas vendas e na obtenção de financiamentos, como colocam Gray e Smeltzer (1985). Para os autores é fundamental manter uma imagem corporativa que não se torne ultrapassada, já que uma imagem indesejada pode ser uma barreira para o alcance das metas corporativas. Marziliano (1998) coloca que as organizações procuram projetar imagens positivas externamente, geridas para criar uma percepção favorável no público externo à empresa. Como observa Haedrich (1993), muitas organizações têm problemas em estabelecer e manter sistematicamente esta imagem positiva. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 52 Haedrich (1993) observa que se uma empresa pretende cumprir seus objetivos em termos de participação de mercado, retorno das vendas e lucro, ela deve possuir uma reputação e imagem positivas frente aos seus sub-públicos relevantes. Para o autor, a imagem dispara um “efeito de halo” que interfere na atitude geral das pessoas com relação aos seus produtos. Para Gray e Smeltzer (1985), uma imagem positiva: facilita a obtenção de financiamentos; permite um ganho superior e melhores vendas; facilita o recrutamento de novos funcionários; aumenta a moral e reduz o turn-over; e minimiza os confrontos com o governo e as ONGs. Por fim, Marziliano (1998) vê que a empresa busca desenvolver sua imagem corporativa para obter uma legitimidade junto à sociedade, para que esta a perceba como competente na realização de certas tarefas. Para o autor a imagem pode ser um importante indicador da sobrevivência da empresa. Barney (1986), Wernerfelt (1984) e outros autores ligados à Visão Baseada em Recursos propõem que as empresas devem buscar a diferenciação, principalmente a partir da utilização de seus recursos intangíveis para aquisição e manutenção de uma vantagem competitiva sobre seus concorrentes. Gray e Smeltzer (1987) colocam em maior profundidade a imagem corporativa como sendo um importante recurso deste processo de diferenciação. Para os autores as empresas estão aprendendo que para serem competitivas precisam diferenciar-se, criando imagens distintas frente aos diversos públicos com que interagem. Um programa de imagem corporativa bem concebido pode fornecer à empresa a individualidade necessária para prosperar no competitivo ambiente atual, comunicando as suas melhores qualidades, que a tornam única, para os seus diversos públicos (GRAY e SMELTZER, 1987). Schultz et al (2002) colocam que com produtos cada vez mais semelhantes no mercado os profissionais de marketing vêem o envolvimento e a preocupação com a imagem como um importante modo de se estabelecer uma posição única para um dado produto. Para os autores a constituição de uma forte marca corporativa pode permitir à empresa se expressar através de ações que não estejam diretamente atreladas a seus produtos, porém que reforcem o seu significado e permitam associações positivas a eles. Melewar e Walker (2003) corroboram: a marca corporativa auxilia os consumidores a reconhecer a posição da empresa na sociedade, seus objetivos e valores e o que poderão experimentar ao consumir seus produtos. 1.2 A Imagem Corporativa: Definições e Conceituações Como afirma Papineau (1979), há excessos de definições sobre o que é imagem. Diversas definições propostas no período de 1955 a 1990 são apresentadas por Dobni e Zinkhan (1990), sendo sintetizadas no Quadro 1: Autor(es) Ano Definição de Imagem Gardner e Levy 1955 Conjunto de sentimentos, idéias e atitudes que os consumidores têm sobre uma marca. Herzog 1963 Soma das impressões que o consumidor recebe de diferentes fontes, que se juntam numa espécie de personalidade da marca que é similar ao público como um todo, apesar de diferente para grupos específicos, que possuem diferentes atitudes frente à marca. Reynolds 1965 Construto mental desenvolvido pelo consumidor com base em poucas impressões, selecionadas dentre a grande quantidade de impressões disponíveis. Levy e Glick 1973 Interpretação, conjunto de inferências e reações com relação a um símbolo. Não é o objeto em si, porém refere-se a ele. Levy 1978 Mistura de realidade física e de crenças, atitudes e sentimentos atrelados ao REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 53 produto. Bullmore Reynolds Gutman e 1984 Criação da psique do indivíduo que não pertence a um produto, mas sim à mente do sujeito, que contém e cria a imagem num processo de mediação envolvendo as experiências do consumidor. 1984 Conjunto de significados ou associações que diferenciam um produto de uma empresa de seus competidores, representada por uma síntese entre atributos do produto, valores pessoais e conseqüências para o consumidor. Quadro 1: Definições para Imagem. Autor: adaptado de Dobni e Zinkhan (1990). Para Moffitt (1994) a imagem corporativa é qualquer pedaço de conhecimento, atitude ou ação que a pessoa possa ter com relação à organização. Para Martineau (1958), trata-se de uma espécie de estereótipo, uma simplificação. Para Reynolds (1965) a imagem corporativa é o constructo mental desenvolvido pelo consumidor com base em poucas impressões selecionadas dentre as impressões totais existentes, num processo criativo que envolve elaboração, refinamento e ordenação destas impressões. Gensch (1978) corrobora ao ver a imagem como referindo-se às expectativas de um consumidor, num processo pelo qual os indivíduos retratam a complexidade de sua percepção em algumas poucas dimensões com as quais são capazes de lidar em suas decisões. Já Spector (1961) vê a imagem como a soma das percepções das características pessoais de uma organização. Ou, como colocam Williams e Moffitt (1997), a imagem corporativa pode ser entendida como cada uma e todas as opiniões, experiências, conhecimentos e ou comportamentos que um indivíduo possui para com uma dada empresa. Como colocam Dobni e Zinkhan (1990), a imagem é uma interação entre os estímulos do produto e do consumidor. 1.3 Construção da Imagem Corporativa Por muito tempo a imagem corporativa esteve associada a atributos técnicos visuais. Como colocam Gray e Smeltzer (1987), a imagem é transmitida por comunicadores como: Nomenclatura: nomes empregados pela corporação e suas divisões e departamentos. Declarações formais: missão, objetivos, filosofia e ou contribuições únicas da firma. Organização: nível de comunicação e relacionamento entre divisões e departamentos. Imagens e gráficos: logotipos, formas, tipos de letra, cores - toda comunicação visual. Mídia permanente: sinais, letreiros, placas, cartões de visitas, veículos, plantas e outros aspectos interiores e exteriores. Mídia promocional: propagandas, brochuras, publicações, relações públicas, artigos, eventos, representações audiovisuais e outros tipos de mídia promocional Estes estudos iniciais partiam da proposição de Martineau (1958) de que a imagem genérica de uma empresa é chamada à mente por algum aspecto específico, ligado a uma associação ou significado. Para o autor, a mente humana costuma abstrair e associar um simples símbolo a uma imagem corporativa que é, na verdade, complexa - imagens simplificadas resumem grosseiramente a vasta complexidade de significados. Como propõe Chernatony (2002), os artefatos que circundam os colaboradores lhes dão pistas dos valores organizacionais inerentes à imagem corporativa. Em todas as situações padrões subjetivos de conhecimentos e valores mediam a ação das pessoas com o mundo, sendo que a mente lida com uma quantidade limitada de complexidades, abstraindo e simplificando alguns poucos significados a partir do todo (MARTINEAU, 1958). Essa perspectiva é reforçada por Chernatony (2002) que, ao estudar uma série de autores, conclui que os diversos stakeholders têm capacidades limitadas de REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 54 processamento das informações pertinentes à marca de uma empresa, acessando e escolhendo entre marcas a partir de um número restrito de características. 1.4 Conseqüências da Imagem Corporativa Para Martineau (1958) as imagens construídas pelos indivíduos fazem com que eles rejeitem aquilo com o que não concordam com relação às informações relativas a uma dada empresa. Para o autor, uma vez que noções estereotipadas sejam formadas na mente, elas são difíceis de serem modificadas, atuando como filtros do que as pessoas vêem e ouvem. Em especial, a imagem corporativa criaria um “efeito de halo”, fazendo com que a percepção do indivíduo advenha de fatos que podem não necessariamente corresponder à realidade (MARTINEAU, 1958). Spector (1961) corrobora ao propor que a imagem que uma pessoa forma ao interagir com a empresa não pode ser fácil ou rapidamente melhorada, pois assume os contornos de uma atitude cujos componentes emocionais resistem às mudanças. De acordo com Martineau (1958) campanhas publicitárias coerentes não são suficientes para construir a riqueza necessária da imagem corporativa na cabeça dos públicos desejados. Para o autor a propaganda contribui muito, mas não exclusivamente, já que outros fatores se juntam para construir a imagem e devem apresentar uma coerência entre si. Como propõe Haedrich (1993) diversas áreas da empresa contribuem para formação da imagem, com diferentes níveis de significância e ênfase. Para o autor é preciso que a organização pense e aja de modo holístico e integrado, levando em consideração não apenas circunstâncias específicas, como também as interações entre os elementos individuais do seu sistema corporativo e as interfaces internas e externas que possui. Marziliano (1998) reforça tal visão ao propor que o processo de formação da imagem corporativa é levado adiante pelas habilidades dos gestores da empresa, que devem buscar reduzir a discrepância entre o que a empresa é e como o público externo a percebe. Para o autor não é suficiente projetar uma imagem positiva, dado que esta deve ser avalizada pelo público externo. 1.5 Construção da Imagem por meio da Logística Reversa Diferentemente da logística direta que gerencia os fluxos de materiais de seu ponto de origem ao seu ponto de consumo, a logística reversa gerencia o fluxo de materiais de seu ponto de consumo ao seu ponto de origem, reintroduzindo-o ao ciclo dos negócios. Leite (2003) define a logística reversa como a área da logística empresarial que tem a preocupação com os aspectos logísticos do retorno ao ciclo de negócios ou produtivo de embalagens, bens de pós-venda e de pósconsumo, agregando-lhes valores de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, logístico, de imagem corporativa, entre outros. Além da possibilidade de minimizar parte das perdas econômicas, um outro aspecto da logística reversa, segundo diversos autores, está relacionado aos ganhos de imagem perante a sociedade que uma empresa pode agregar por meio do tratamento de seus canais reversos. O caráter subjetivo que cerca a criação da imagem corporativa na percepção do consumidor forma-se a partir do relacionamento desenvolvido entre empresa e consumidor em todas as fases de negociação, bem como seu relacionamento com a sociedade, o meio-ambiente e o respeito às leis de um país. Empresas como Hanna Andersson, Kenneth Cole Shoe e Nike, encorajam seus clientes a retornar os produtos antigos em troca de descontos na aquisição de novos produtos. Os produtos retornados após o uso são então doados para a caridade. Em cada uma dessas empresas, a logística reversa é estrategicamente utilizada para o bem da comunidade, contribuindo para a imagem da empresa perante a sociedade. Também se verifica que em todo mundo há uma crescente preocupação acerca das questões ecológicas. O crescimento da sensibilidade ecológica tem se convertido em mais um importante fator de incentivo à estruturação e à organização dos canais de distribuição (LEITE,1998). Incentivados pela Norma ISO 14000 que trata da gestão ambiental mais eficiente, muitas REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 55 empresas buscam alcançar a simpatia dos consumidores mediante a produção de “produtos verdes”, aumentando assim, a missão da Logística Empresarial para dispor a mercadoria ou serviço certo, no tempo certo, no lugar certo e nas condições desejadas, garantindo o controle do ciclo de vida do produto. O aumento de consciência ecológica dos consumidores que esperam que as empresas reduzam os impactos negativos de sua atividade ao meio ambiente tem gerado ações por parte de algumas empresas que visam comunicar ao público uma imagem institucional "ecologicamente correta". Esta preocupação ambiental pode ser incorporada aos esforços de marketing, o que é conhecido como Green Marketing. O Green Marketing, conforme definido por Stock (1998) é a prática de incorporar tópicos ambientais como reciclagem, embalagens biodegradáveis, recipientes retornáveis, produtos não poluentes e outras formas ecologicamente corretas aos esforços de marketing. Naturalmente que todo esforço empreendido por uma empresa visando à preservação ambiental pode proporcionar ganhos de imagem para esta empresa, especialmente dentre os consumidores que se identifiquem com a questão ecológica. Existe ainda uma clara tendência de que a legislação ambiental caminhe no sentido de tornar as empresas cada vez mais responsáveis por todo ciclo de vida de seus produtos. (LEITE,2003). Em síntese, a logística reversa pode ser um instrumento estratégico tanto para a redução de custos quanto para o ganho de imagem corporativa, sendo um importante instrumento estratégico na diferenciação dos serviços prestados aos consumidores. 2. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO A pesquisa foi iminentemente qualitativa, que, segundo Malhotra (2000) se caracteriza por uma metodologia não estruturada e exploratória baseada em pequenas amostras, as quais fornecem evidências para o entendimento do problema. Teve características exploratórias, que Köche (1997) coloca como aquela que esclarece e modifica conceitos e idéias para uma formulação mais precisa do problema de pesquisa. É empregada quando não se dispõem de um sistema de teorias e conhecimentos suficientemente construídos, sendo difícil elaborar hipóteses operacionalizáveis. Isso é coerente com o fato de que o tema logístico reversa e imagem corporativa encontram-se pouco desenvolvidos, envolvendo trabalhos ainda pioneiros no Brasil.. Foram conduzidos estudos de caso, pois a idéia era analisar em profundidade as ações da logística reversa e a imagem corporativa das empresas. Utilizaram-se diversas formas de estudo de levantamento de dados, o que no caso deu a profundidade necessária para a análise desejada pelo estudo. Foram analisadas empresas industriais, selecionadas por conveniência, como empresa editorial, produtora de eletrônicos e de tabaco. A escolha teve como base pesquisas feitas anteriormente que indicaram que setores o gerenciamento de canais reversos está mais organizados e os resultados mais evidentes. As empresas que integraram o estudo foram a Editora Abril, Motorola e Empresa Souza Cruz. Participaram desse estudo como sujeitos de pesquisa os gerentes das áreas de logística, marketing e controladoria que são os profissionais responsáveis pelo gerenciamento da logística reversa assim como da imagem corporativa das empresas. Além dos gerentes, foram entrevistados consumidores dos produtos dessas empresas. A coleta de dados iniciou-se pela pesquisa bibliográfica, com o levantamento da literatura sobre logística reversa e imagem corporativa. O encadeamento das idéias buscou formar um arcabouço suficiente de conceitos e evidências acadêmicas que justificasse a pesquisa e a forma como se pretende conduzi-la. Os dados foram coletados por meio de entrevistas individuais, realizadas a partir de um formulário semi-estruturado, sendo o conteúdo gravado e submetido à transcrição e REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 56 análise. De acordo com Thietart et al.(1999) a entrevista é um dos principais métodos de coleta de dados primários para a pesquisa qualitativa, por ser uma técnica que reflete o consciente e o inconsciente dos entrevistados. Para construção da análise foi utilizada, em parte, a metodologia de estudo de caso de Yin (2003). Para o autor trata-se de uma boa estratégia quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos, tal qual ocorre com as operações logísticas, que não podem ser paradas para experimentações. A coleta de dados buscou seguir as determinações que o autor apresenta para um bom pesquisador, que tem como características: ser bom ouvinte, ser adaptável e flexível, sem perder o rigor do método, elaborar perguntas adequadas e interpreta as respostas, perguntando-se a todo momento porque os eventos ocorreram. Para Yin (2003) várias fontes devem ser usadas para convergir rumo à descoberta, encadeando logicamente as evidências para corroborar (negar) as proposições formuladas, conduzindo às conclusões. Parte do processo de triangulação proposta pelo autor foi utilizada como a formação do referencial teórico e a análise das entrevistas. Porém, neste estudo, a dificuldade em obter documentos junto às empresas impediu que a triangulação fosse completa. 3. RESULTADOS Foram analisados três estudos de caso realizados em três empresas de diferentes ramos de atividade a fim de obter um panorama da estruturação do canal reverso, seu retorno financeiro e ainda avaliar a importância da imagem corporativa para essas. A análise dos dados obtidos junto às três empresas de grande porte que participaram do estudo permitiram os resultados que se apresentam a seguir. Notou-se um crescente interesse pela logística reversa, mas que varia de empresa para empresa. Os resultados, portanto, apontam para diferentes graus de estruturação do canal, onde a questão da imagem aparece como preocupação secundária, sendo esta focada mais na questão de atender e satisfazer o cliente final. Observa-se na condução da pesquisa, no entanto, que o impacto da logística reversa na imagem tanto da Motorola quanto Souza Cruz era irrelevante frente a outras ações promocionais da empresa. Essa questão foi corroborada com a dificuldade de se obter dados quanto a este tema nas áreas de logística, com os entrevistados redirecionando entrevistas para outras áreas competentes da empresa – que, entretanto, não foram atingidas pelo estudo após algumas tentativas de contato. Assim para estas duas empresas, os dados levantados não foram suficientes para estabelecer uma análise. Já na Abril, onde o canal reverso é parte importante da operação da empresa e onde a logística é fundamental para pontualidade e, consequentemente, para imagem da empresa – trata-se da distribuição de um produto perecível – foi possível levantar dados suficientes para uma análise, que é apresentada entremeada às questões de estruturação dos canais reversos. 3.1 Telefones Celulares – Motorola A Motorola é uma empresa que atua nos setores eletrônico e de telecomunicações, comercializando produtos como semicondutores, acesso à Internet e TV por banda larga, cablemodems, sistemas automotivos, soluções de telemática e telefones celulares - uma de suas principais operações no Brasil. A operação brasileira da firma, localizada na cidade de Jaguariúna (SP), é a sua base industrial na América do Sul e contou com investimentos da ordem de US$ 490 milhões, empregando hoje cerca de novecentos colaboradores. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 57 O canal reverso da Motorola busca, sobretudo, tratar os aparelhos considerados inadequados pelo consumidor. A empresa estabelece que a devolução pode ocorrer até o período de 150 minutos de uso contínuo ou nove meses de garantia contratual. A cadeia reversa é constituída por uma série de serviços autorizados terceirizados, com diferentes níveis de competência técnica, a saber: duzentos e quarenta e três pontos de coleta com nível um de competência tecnológica, que fazem pequenos reparos e mantém o contato com o cliente; cinquenta e nove SAMs com nível dois e cinqüenta e oito SAMs com nível três de competência tecnológica; onze CARs de alta especialização e maior complexidade tecnológica. A figura 1 esquematiza as atividadesda logística reversa da motorola: Figura 1: Mapeamento do retorno de aparelhos defeituosos na Motorola Aparelho defeituoso Cliente Cliente SAMs (Serviço Autorizado Motorola) Aparelho consertado Não Problemas na placa? Sim “Scrap” Placa defeituosa CAR (Centro Avançado de reparo) Fonte: Autores Já os ganhos de imagem pela prestação de serviços ao cliente devem-se, em primeira análise, à busca por uma diferenciação que permita vantagens sustentáveis na competição pelo mercado. Dada a crescente competitividade no setor de celulares no Brasil, a Motorola considera o serviço de pós-venda como um diferencial na construção de sua imagem perante os clientes. Contando com uma rede exclusiva de atendimento como ferramenta estratégica, a empresa busca atender ao cliente com problemas ou insatisfeito de forma eficiente e imediata, aceitando devoluções mesmo quando estas são causadas por mau uso do aparelho. De acordo com o gerente entrevistado, o objetivo principal é fazer com que o cliente sinta-se amparado em suas necessidades e em contato direto com a Motorola. Por esta razão, o atendimento nos SAMs e CARs é feito por técnicos habilitados e treinados pela empresa. Quando o SAM não consegue prestar um bom serviço e o cliente decide que não quer mais o produto, a primeira tentativa é a de substituir o aparelho defeituoso por outro novo, mesmo que isto implique na disponibilização de um aparelho de qualidade superior. O objetivo é manter o cliente satisfeito e evitar ao máximo que ele recorra a órgãos como o Procon, o que contribuiria negativamente para a imagem da empresa. Assim, o tratamento dos produtos pelos canais reversos é uma forma de prestar um serviço diferenciado ao cliente. 3.2 Distribuição de Cigarros – Souza Cruz A Souza Cruz foi fundada em 25 de abril de 1903, e é hoje uma empresa líder no mercado nacional de cigarros, sendo também destaque na produção e exportação de fumo. Desde 1914 faz parte da British American Tobacco (BAT), segundo maior grupo do mundo no setor de cigarros, com 14,6% do mercado. A empresa atua em todo o ciclo de seu produto, desde a produção agrícola da matéria prima (tabaco), passando pelo seu processamento e finalizando com a fabricação e distribuição. A companhia hoje atende diretamente cerca de duzentos mil pontos-de-venda, com REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 58 74,6% de participação no mercado brasileiro (76,8 bilhões de unidades de cigarros comercializadas por ano), gerando cerca de cinco mil empregos diretos e trezentos e oitenta mil indiretos. Em 2003 apresentou um faturamento anual de R$ 6,8 bilhões. A Souza Cruz possui duas fábricas, em Cachoeirinha (RS) e Uberlândia (MG), que juntas possuem a capacidade instalada de cento e dez bilhões de unidades por ano e operam de acordo com avançada tecnologia de processo e preservação ambiental. Embora o tratamento logístico reverso da Souza Cruz não seja considerado uma atividade relevante, uma vez que o montante de produtos retornados é pequeno, é interessante notar que, mesmo assim, esta atividade não deixa de existir e nem de demandar gerenciamento. Nesse caso, a figura do vendedor exerce papel fundamental, por meio de visitas aos varejistas. A figura 2 demonstra o fluxo reverso da Souza Cruz: Figura 3: Mapeamento do fluxo reverso da Souza Cruz Varejista: Produto Vencido? SIM Recolhimento Não Carros de entrega CID Destin o final R E A L O C A Ç Varejista de à O maior rotatividade Fonte: Autor Por sua pouca importância na Souza Cruz, a logística reversa não é um fator que influencia na imagem da empresa. Porém, por se tratar de uma empresa fabricante de cigarros, produto este nocivo à saúde, a empresa busca por meio de projetos de preservação ambiental e de responsabilidade social projetar uma imagem positiva da empresa. Além disso, é evidente a preocupação com o cumprimento rigoroso da legislação que rege a fabricação e comercialização do seu produto. 3.3 Distribuição de Publicações – DINAP/ Grupo Abril A análise do conteúdo das entrevistas permitiu verificar que a empresa é vista de modo positivo, tendo como características principais a idoneidade, honestidade, seriedade, confiabilidade e a isenção. A Editora Abril tem sua imagem percebida pelos consumidores como uma firma de ponta, inovadora e batalhadora, de excelente reputação, líder no mercado editorial e que serve de modelo aos seus concorrentes. A identificação da Abril com a árvore verde que transmite seriedade, respeito com os clientes e qualidade foi fortemente identificada. A imagem, porém, não é única, cabendo diversas interpretações de acordo com os diferentes públicos e negócios da empresa. O leitor de Veja, o assinante da TVA e a editora Globo, todos clientes do Grupo Abril, têm contatos e necessidades diferentes, o que leva a percepções diferentes. Além da coerência quanto a seriedade e qualidade da firma, há espaço para muitas interpretações quanto ao que ela representa. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 59 Com relação ao estudo da imagem da Abril pela técnica da personificação, as respostas foram bastante coerentes quando foi enfatizado que o objeto de análise era a editora e não outro componente do grupo. Há indícios de que para cada foco de atuação – TVA, DINAP, dentre outros - há respostas diferentes o suficiente para que se pudessem caracterizar unidades de uma mesma empresa, mas que possuem imagens distintas. As colocações apontam para uma firma refinada, coerente com a imagem que os colaboradores fizeram do público que trabalha na organização – redatores, designers e jornalistas. A imagem percebida pela cadeia logística pode ser analisada pelos prismas do leitor e do distribuidor / jornaleiro. O leitor veria a empresa com idoneidade, isenção, seriedade, confiabilidade e imparcialidade, refletindo a percepção do público interno entrevistado. Há a ressalva de que na cabeça do leitor fica o título, a marca do produto – Veja, Playboy, Cláudia – e não uma marca Editora Abril. Já pelo ponto de vista do distribuidor / jornaleiro há uma tendência de se ver a imagem pela divisão que distribui as publicações, a DINAP. Os jornaleiros veriam a DINAP como uma empresa estruturada, séria e confiável, com o qual é lucrativo e vantajoso trabalhar, diferenciada favoravelmente de seus concorrentes, apontada como a melhor distribuidora do mercado. Para este público a Abril / DINAP tem um serviço abrangente e veloz, com bons produtos, processos e sistemas, que lhe garantem uma maior participação de mercado, com excelência na qualidade da distribuição, com as revistas na quantidade, hora e lugar certos. Isso dá segurança de que se está trabalhando com uma empresa de ponta, pioneira e líder nesse segmento de mercado, que oferece vantagens nas comunicações, na rentabilidade, no tratamento interpessoal, na pontualidade e na logística reversa. Os resultados permitiram verificar que é unânime a interferência da logística na imagem da empresa. O canal logístico é a “cara da empresa” no ponto de venda, pois o consumidor desconhece o que está por trás da entrega. Assim é preciso cuidado e atenção com o canal, principalmente porque a entrega e o recolhimento são terceirizados. O que a logística fizer ou deixar de fazer interfere na imagem da empresa. Se a revista chegar atrasada ou não chegar na banca, o cliente ficará insatisfeito e, apesar de a DINAP ser a responsável, a imagem da Editora Abril é que virá à frente. O consumidor final não vê o canal reverso, o que esvazia a interferência que ele poderia ter na imagem da empresa para os leitores. Já para o distribuidor / jornaleiro a logística reversa é fundamental, pois o fluxo reverso estabelece a remuneração e cobrança na cadeia. Como o produto tem venda consignada, todo ajuste de contas é feito pela diferença entre o que foi entregue (logística direta) e o que foi devolvido sem consumo (logística reversa). A logística reversa também garante a permanência de produtos de qualidade na banca. As revistas têm de ser repostas e recolhidas com agilidade, ficando expostas pelo tempo certo. Se um produto é recolhido e o cliente procura por ele no dia seguinte, gera uma insatisfação. Se o produto não é recolhido, a informação nova não pode ser colocada na banca. A pontualidade é muito importante: se você é pontual a imagem fica boa; se não é, ela fica ruim. Além disso, a interdependência entre diferentes praças faz com que o retorno dos exemplares não consumidos tenha de ser feito de modo articulado e com qualidade, para que não haja desabastecimento ou oferta de produtos danificados ou em estado ruim de conservação. Se o retorno não é processado corretamente e na data combinada com o editor, a estratégia de colocação da mesma mercadoria em outros pontos de venda pode ser frustrada. 4. CONCLUSÕES As três empresas analisadas no estudo apresentaram diferentes graus de estruturação dos canais reversos o que influenciou também na projeção de sua imagem corporativa para os diferentes satakeholders. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 60 Na Empresa Souza Cruz, em razão de a empresa não apresentar muito retorno de seus produtos, é insignificante a importância atribuída por ela no canal reverso. O vendedor atua com o objetivo de não permitir que o retorno aconteça exercendo um papel administrativo nos estoques do varejista. Não há pessoas especializadas dedicadas ao retorno, nem espaços em armazéns para esse fim. A preocupação com a imagem, em contrapartida, tem especial atenção e a empresa dedica-se muito em passar uma imagem de responsável em termos ambientais e sociais para o público em geral, além de extremamente cumpridora das leis. A Motorola mostra uma atenção maior do que na Souza Cruz no que se refere ao seu canal reverso buscando tratar aparelhos considerados inadequados por alguma razão para o consumidor. O canal reverso é constituído por uma série de serviços autorizados onde os aparelhos são consertados e devolvidos ao consumidor. Em alguns casos, a empresa recompra os aparelhos consertando-os e são colocados novamente à venda. Na Abril/Dinap verifica-se que há um grande volume de produtos que retornam pelos canais reversos e, para tanto, é necessário um alto grau de estruturação o que inclui pessoas extremamente dedicadas ao tratamento do encalhe e espaços específicos em armazéns assim como transportes. O aumento de lucro operacional pode ser identificado por meio da utilização da reciclagem do produtos retornados, para a qual a empresa terceiriza o serviço dentro de suas dependências, pelo envio de publicações para mercados secundários e armazenamento do encalhe, o que permitem o reaproveitamento de materiais bem como relançamentos futuros. O tratamento do encalhe também permite a empresa controlar o fluxo de publicações efetivamente vendidas. Assim, em primeiro lugar, o estudo da logística reversa revelou que há grandes variações na forma de estruturação dos canais reversos e diferentes graus de importância são atribuídos a estes canais. O volume de produtos retornados pode ser decisivo neste processo. Há evidências de três diferentes cenários: canal reverso é irrelevante. Ocorre quando a quantidade de produtos não consumidos retornada é muito pequena frente à distribuição total. A logística reversa não aparece nas estatísticas da empresa e ocupa uma posição marginal. Um exemplo prático é a empresa Souza Cruz. canal reverso é relevante. Ocorre quando a quantidade de produtos não consumidos retornada é razoável frente a distribuição total. A logística reversa recupera valor e, principalmente, contribui para o fortalecimento da imagem da empresa. Um exemplo prático é a empresa Motorola. canal reverso é importante. Ocorre quando a quantidade de produtos não consumidos retornada é grande frente a distribuição total. A logística reversa não só contribui para o fortalecimento da imagem como também recupera uma parcela significativa de valor, sendo parte fundamental da operação da empresa. Um exemplo prático é a Dinap, do Grupo Abril. Há evidências de que mesmo em canais reversos pouco estruturados a questão da imagem motiva um esforço maior na operação de retorno dos produtos, de modo a satisfazer ao máximo o cliente. Os entrevistados mostraram-se também receosos em colocar suas opiniões, preferindo delegar a resposta de algumas perguntas a profissionais especialistas no tratamento da imagem da empresa, formando-se uma espécie de tabu. Assim, a análise dos dados obtidos não foi suficiente para que um panorama da imagem fosse realizado nas empresas Souza Cruz e Motorola, por exemplo. Já na empresa Abril uma primeira aproximação da imagem da empresa foi possível, como mostrado anteriormente neste relatório. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 61 Como trata-se de um tema delicado, a realização de entrevistas com pessoas que não atuam diretamente com o marketing ou promoção da empresa fez com que muitas vezes o entrevistado se sentisse desconfortável em responder às perguntas. Tal desconforto aumentava ao se apresentar o procedimento de gravação das entrevistas. Outro fator limitante observado na investigação foi a baixa aderência encontrada entre a metodologia proposta por Yin (2003) para o estudo de caso e a absorção do conceito de imagem corporativa junto à empresa. Além disso, a pouca disponibilidade de documentos que confirmem o conteúdo obtido da fala dos entrevistados, mesmo porque muitas informações são confidenciais, trouxe dificuldades para a sustentação das evidências observadas na teoria e coletadas na prática. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARNEY, Jay B. Strategic factor markets: Expectations, luck and business strategy. Management Science. Vol. 32, issue 10, p. 1231-1241, Oct 1986. CHERNATONY, Leslie. Living the corporate brand: brand values and brand enactment. Corporate Reputation Review, v. 5, i. 2/3, p. 113-133, Fall 2002. DOBNI, Dawn; ZINKHAN, George M. In search of brand image: a foundation analysis. Advances in Consumer Research, v. 17, i. 1, p. 110-120, 1990. GENSCH, Dennis. Image-Measurement Segmentation. 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REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 63 ECONOMIA COMPORTAMENTAL E TRAJETÓRIAS DE CONSUMO INTERTEMPORAL - ANOMALIAS E EVIDÊNCIAS DO CASO BRASILEIRO Patrícia Fonseca Roberta Muramatsu RESUMO Inspirado pelo referencial teórico da economia comportamental, o presente artigo buscou apresentar e discutir três anomalias da escolha intertemporal brasileira: (a) as crescentes trajetórias de poupança privada em meio a episódios de hiper-inflação no final da década de 1980; (b) a significante queda das taxas de poupança privada em 1990; e (c) as trajetórias de consumo crescente acompanhada por comportamentos de super-endividamento e inadimplência, em meio a um cenário de possibilidades de planejamento do orçamento, detectadas desde o ano de 2000. Defende-se a tese de que os conceitos comportamentais de viés de projeção, pavor pela espera, aversão à perda, desconto hiperbólico e auto-controle, iluminam alguns elementos emocionais que estariam por detrás dos enigmas supracitados. Conclui-se por último, que consideráveis ganhos explicativos podem advir da tentativa de inserir premissas psicológicas mais realistas na análise econômica da escolha intertemporal brasileira. Palavras-chave: Economia; Psicologia; Anomalias; Consumo; Poupança. INTRODUÇÃO “Compreender as emoções que as pessoas experienciam na hora de consumir ou de postergar o consumo, é crítico para o entendimento e previsão dos trade-offs intertemporais que elas fazem” (LOEWENSTEIN, 2000, p.430) Dentre as diversas escolhas com as quais o agente econômico se depara diariamente, o trade-off entre consumir e poupar, é sem dúvida uma das mais relevantes para a ciência econômica, cuja seqüência de resultados vem a determinar a trajetória de consumo intertemporal desses agentes. Relevância essa, que se caracteriza também em função de implicações práticas que o resultado agregado desse trade-off impõe à condução de política econômica. A persistência, ou de preferências viesadas para o consumo imediato, ou de preferências viesadas para o consumo futuro (poupança), pode comprometer o crescimento econômico de um país, caso impacte o nível de investimentos, o nível de preços ou gere recessão. O ideal de previsão, aplicado aqui a comportamentos de consumo e poupança, torna-se assim particularmente interessante, podendo tal capacidade contribuir para elaboração e execução de melhores políticas. Nesse sentido, a decisão humana ao preceder qualquer fenômeno econômico, inclusive o ato de poupar ou consumir, torna-se central no exercício preditivo. Se o conjunto das escolhas de hoje culminam nos padrões econômicos do amanhã, prever eventos pede suposições sobre o processo decisório individual. E a ciência econômica, em específico as abordagens neoclássicas, por não demonstrarem interesse em desvendar os processos geradores dessas escolhas, oferecem como REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 64 solução o postulado de que as pessoas respondem a incentivos. A escolha passa então a ser encarada na economia como produto de uma inferência racional e otimizadora, fruto da ponderação dos custos e benefícios delineados pelos incentivos econômicos presentes no momento da decisão. Deste modo, apesar de não ser possível predizer exatamente qual será a escolha efetiva dos indivíduos, pode-se a partir da observação dos incentivos macroeconômicos do período, traçar pelo menos uma tendência confiável ou um comportamento esperado. Nessa crença se baseiam, tanto a expectativa de qual será a resposta dos agentes às políticas econômicas, quanto as principais projeções econômicas, denotando a centralidade de tal premissa no estudo e na prática da economia. A presente discussão surge da detecção de algumas anomalias. Em três momentos da história econômica brasileira foram observadas escolhas intertemporais anômalas, ou seja, que divergiram claramente do esperado, dados os incentivos macroeconômicos do período. Entre elas figuram-se: as crescentes trajetórias de poupança privada no final da década de 1980, em meio a episódios de inflação galopante; a significativa e brusca queda da poupança privada em 1990; e a expansão atual do consumo privado seguida de instâncias de super-endividamento e inadimplência, num cenário de estabilidade de preços, altas taxas de juros reais e possibilidade de planejamento do orçamento e do consumo futuro. Tais anomalias desafiam e fragilizam a compreensão econômica convencional de que os agentes respondem a incentivos. O ponto de partida deste artigo é a visão de que a economia comportamental é capaz de contribuir para a elucidação desses três enigmas da escolha intertemporal brasileira. Os desenvolvimentos comportamentais, visando superar certas limitações da abordagem neoclássica, inserem em seus modelos novas suposições psicológicas, que compactuem com as observações empíricas de que os agentes econômicos, ao invés de plenamente racionais, se mostram dotados de racionalidade limitada (SIMON, 1957; MURAMATSU e HANOCH, 2005) e apresentam forte inconsistência temporal. (STROTZ, 1955; LAIBSON, 1997). O presente trabalho se apóia especificamente nos conceitos comportamentais de viés de projeção, pavor pela espera, aversão à perda, desconto hiperbólico e auto-controle, no intuito de iluminar tais enigmas. Argumenta-se aqui que certas motivações emocionais, desencadeadas pelos fenômenos supracitados, teriam distorcido a percepção dos incentivos econômicos destes períodos, oferecendo assim uma explicação para a observação de padrões de consumo intertemporal distintos das previsões dos modelos neoclássicos. (HALL, 1978; FRIEDMAN, 1957; MODIGLIANI e BRUMBERG, 1954) Desde já, ressalta-se que um melhor entendimento acerca dos fatores determinantes das decisões de consumo e poupança tem claras implicações para políticas públicas. Ademais, a consideração não só dos determinantes econômicos, mas também de determinantes psicológicos delineia a possibilidade de uma expansão de escopo para a ciência econômica aplicada à realidade brasileira. Objetivando apresentar tais anomalias e as respectivas interpretações comportamentais, o presente artigo está estruturado da seguinte forma: na seção 2 encontra-se o referencial teórico onde são apresentados brevemente os conceitos comportamentais que serão abordados no decorrer do artigo. A seção 3 apresenta a metodologia utilizada na análise empírica das trajetórias de consumo intertemporal brasileiras de 1981 até 2007. Na seção 4, 5 e 6 discute-se respectivamente o primeiro, o segundo e o terceiro enigma aqui detectados. As sub-seções 4.1, 5.1 e 6.1 dispõem, na seqüência da apresentação das anomalias, a interpretação comportamental para as mesmas. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 65 Na seção 7 são feitas algumas considerações sobre as motivações emocionais e racionais implícitas nos períodos estudados, enfatizando o papel das emoções e dos estados viscerais correntes na determinação da percepção dos incentivos econômicos presentes nesses períodos. Por fim, na oitava seção as conclusões finais da pesquisa são elaboradas. 1. REFERENCIAL TEÓRICO “No âmago da economia comportamental está a convicção de que ao aumentar o realismo dos pressupostos psicológicos da análise econômica se aperfeiçoará a própria ciência econômica-gerando insights teóricos, melhorando as previsões de fenômenos econômicos e sugerindo melhores políticas.”(CAMERER e LOEWENSTEIN, 2004, p. 1) A suposição central de que os indivíduos respondem a incentivos traz implícitas as premissas de maximização da utilidade, racionalidade plena e homogeneidade de comportamentos, sempre presentes na análise neoclássica. Espera-se não só que a opção do agente racional vislumbre a trajetória que maximiza seus benefícios dados os incentivos econômicos, mas que em geral todas as pessoas apresentem padrões semelhantes em resposta aos mesmos incentivos. Por mais de cinqüenta anos, tal estrutura de maximização da utilidade dominou a compreensão dos economistas sobre consumo e poupança pessoal (DIAMOND e VARTIAINEN, 2007), influenciando os principais modelos intertemporais, tendo como exemplos o modelo da renda permanente (FRIEDMAN, 1957), o modelo dos ciclos de vida (MODIGLIANI E BRUMBERG, 1954) e seminal trabalho de Hall (1978). Tais abordagens, apesar de não se apresentarem como representações descritivas, têm sido questionadas por um número cada vez maior de economistas. (DIAMOND e VARTIAINEN, 2007). Isso ocorre, por que o aparato neoclássico não tem se mostrado capaz de absorver uma série de comportamentos de consumo e poupança observados na realidade empírica1. A Economia Comportamental se insere nesse contexto por acreditar que premissas psicológicas mais realistas podem aumentar a capacidade de predição e explicação dos modelos econômicos, além de esclarecer alguns comportamentos tidos como enigmáticos. Na presente abordagem, se buscará melhor compreender decisões de consumo e poupança brasileiras, a partir da noção de viés de projeção, pavor pela espera, aversão à perda, desconto hiperbólico e auto-controle. Para tanto, os próximos tópicos abordarão brevemente o significado de tais conceitos. 1.1 O Viés de Projeção O modelo do viés de projeção é recente, foi desenvolvido por George Loewenstein, Ted O‟Donoughe e Matthew Rabin em 2003, e substitui o “princípio de maximização da utilidade descontada pela hipótese empírica de que o indivíduo se baseia nos seus estados viscerais correntes para prever suas preferências futuras e a utilidade associada aos cursos de ação disponíveis” (MURAMATSU, 2006, p. 109). A principal contribuição de tal desenvolvimento é o reconhecimento de que os agentes apresentam dificuldades em fazer estimativas de suas preferências, gostos, valores e emoções futuras, baseando-se por isso, fortemente em seus estados viscerais presentes para avaliar as REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 66 alternativas, e efetivamente escolher. A partir de tal ótica é possível concluir que a percepção atual do ambiente interferirá diretamente na avaliação de perspectivas e possibilidades futuras. Se o agente fosse plenamente racional, possuísse informação completa e mantivesse seus estados viscerais, suas avaliações sobre o futuro não gerariam viés. Corretas estimativas sobre preferências e estados do ambiente futuro gerariam escolhas ótimas. No entanto, além de a hipótese de informação completa não encontrar contrapartida na vida real, o agente também apresenta dificuldades em avaliar corretamente quais serão suas preferências futuras. Restando apenas ao agente econômico dotado de racionalidade limitada (SIMON, 1957) a alternativa de se basear nas informações que o hoje e experiências passadas lhe provêem. Desse modo, em função de limitações cognitivas e incapacidades computacionais, os estados emocionais atuais (sentimentos de incerteza ou euforia, por exemplo) terminam por impactar significantemente as avaliações futuras, viesando-as. 1.2 O “Pavor pela Espera” (Desconto Negativo) Taxas de desconto comumente são positivas, denotando que o agente prefere antecipar um resultado positivo e postergar um resultado negativo. No entanto, Loewenstein (1987) e diversos outros autores (BENZION ET AL, 1989; CARSON e HOROWITZ, 1990) demonstraram que às vezes os agentes preferem antecipar um evento desagradável, apresentando assim taxas de desconto negativas. Isso ocorreria devido ao fato de que esperar por uma perda implicaria em sofrimento, gerando o efeito chamado na literatura comportamental de “pavor pela espera” (dread effect). Segundo Muramatsu e Fonseca (2008), tal indivíduo traz a perda a valor presente a um custo muito mais alto, pelo simples fato de que o custo de oportunidade de esperar por ela (ansiedade) pode ser muito alto. Dessa perspectiva, um agente que previsse uma queda em seu padrão de consumo no futuro, preferiria poupar agora, antecipando a perda futura como uma forma de se precaver dela e da ansiedade adjacente à espera2. 1.3 O Desconto não Constante (Hiperbólico) “Funções de desconto hiperbólicas são caracterizadas por uma taxa de desconto relativamente alta para curtos horizontes e por uma taxa de desconto relativamente baixa para amplos horizontes”. (LAIBSON, 1997, p.445) O modelo de utilidade descontada (SAMUELSON, 1937), assim como os principais modelos intertemporais de consumo e poupança (FRIEDMAN, 1957; MODIGLIANI e BRUMBERG, 1954; HALL, 1978), tem como uma de suas suposições centrais a idéia de que o desconto temporal do agente é constante ao longo do tempo. Implicando que tal indivíduo em nenhum momento revê seu padrão de ordenação das preferências. Estudos e experimentos comportamentais têm sugerido que ao invés de uma taxa de desconto constante, as pessoas parecem apresentar taxas de desconto que decrescem à medida que o horizonte temporal da escolha se expande (funções de desconto hiperbólicas). Se as taxas de desconto decrescem ao longo do tempo isso revela não só que as preferências estão mudando, mas principalmente que neste caso, o agente apresentaria preferências viesadas para o consumo presente (miopia), além de uma tendência a ser mais paciente à medida que o evento ou a escolha em questão se afasta no tempo (MURAMATSU E FONSECA, 2008).3 REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 67 Em suma, a inconsistência temporal compreendida na concepção de função de desconto hiperbólica traz como principal implicação a expectativa de que o indivíduo “fará escolhas relativamente previdentes, quando estiver planejando adiantadamente (todos os custos e benefícios ocorrem no futuro), mas fará escolhas um tanto quanto imprevidentes quando alguns custos e benefícios estiverem no presente” (CAMERER e LOEWENSTEIN, 2004, p.26).4 1.4 O Auto-Controle A principal implicação de um desconto temporal não constante são os problemas de autocontrole. Isso porque o agente espera perspectivamente (hoje) que no futuro ele aja com previdência. Mas quando o futuro chega, ele se comporta contra seus desejos iniciais perseguindo uma gratificação imediata (imprevidência) muito mais do que um bem estar de logo prazo (CAMERER e LOEWENSTEIN, 2004). 5 Strotz (1955) foi o primeiro a reconhecer este problema de planejamento (planeja uma coisa e faz outra) por parte dos agentes econômicos, que gostariam de agir de forma temporalmente consistente. A importância de tal conceito é enfatizada para uma melhor compreensão da dinâmica da economia. Isso por que problemas de auto-controle levam agentes a consumir mais do que gostariam de uma perspectiva inicial (e equivalentemente a poupar menos do que gostariam) (FREDERICK ET AL, 2002). 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Visando detectar trajetórias inconsistentes de consumo intertemporal das famílias brasileiras, o presente trabalho analisa detalhadamente o comportamento tanto da série de consumo privado, quanto de poupança privada desde 1981 até 2007, buscando compreender até onde o movimento dessas séries respeitou as previsões dos principais modelos intertemporais neoclássicos (MODIGLIANI e BRUMBERG, 1954; FRIEDMAN, 1957; HALL, 1978) e os incentivos macroeconômicos de cada período. A série de consumo privado foi construída e tem freqüência anual6. A série de poupança privada também é anual e sua construção seguiu a metodologia do trabalho empírico de Reis et al (1998)7. Como incentivos macroeconômicos foram considerados os níveis de renda, o nível da taxa de juros e o nível de inflação de cada período. Tomou-se medida de renda, a série anual de PIB per capita deflacionada pelo deflator implícito do PIB. Como medida do nível de preços foi considerada a série mensal do IGP-DI (FGV). E como medida da taxa de juros tomou-se a série mensal da taxa de juros Over/Selic deflacionada pelo IPC (IBGE)8. Todas as séries acima foram retiradas do IPEADATA. Para uma segunda parte do trabalho foram utilizadas como medida de crédito para o consumo privado, a série de saldo consolidado das operações de crédito (com recursos livres referenciais para taxa de juros pré-fixada) no cheque especial e no cartão de crédito. E como medida de inadimplência foi considerado o saldo acima mencionado, com atraso superior a 90 dias. Dados REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 68 de crédito pessoal, crédito consignado e de financiamento de bens duráveis (i.e. carro, casa) não foram analisados, pois podem configurar investimento em alguns casos, o que se desvia dos propósitos do texto. A seleção apenas das séries de cheque especial e de cartão de crédito traduzem por isso a tentativa, de focalizar apenas o crédito direcionado para decisões de consumo. Ambas as séries supracitadas foram retiradas do sistema de séries temporais do Banco Central do Brasil (ver www.bacen.gov.br), são mensais abrangendo apenas o período do ano de 2000 até 2007 (não existem séries mais longas para cheque especial e cartão de crédito) e foram deflacionadas pelo IPCA (IBGE)9 Reconhece-se que trabalhar com dados em painel seria o mais indicado para uma análise que visa fazer inferências sobre o comportamento microeconômico do agente, e sobre o processo de tomada de decisão. Contudo, não existem pesquisas em painel no Brasil (i.e. POF e PNAD) que relacionem o perfil da pessoa ao seu perfil histórico financeiro. Por essa razão, o presente esforço trabalhou com os dados agregados citados previamente. A análise empírica aqui desenvolvida detectou três momentos em que os comportamentos de consumo e poupança privados parecem conflitar com os incentivos econômicos do período. Tais anomalias desafiam a compreensão econômica convencional, e por isso qualquer tentativa de elucidação sugere a possibilidade de expansão de escopo por parte da ciência econômica. Argumenta-se neste estudo que o emprego da abordagem da economia psicológica nos ajuda a explicar tais anomalias de consumo intertemporal observadas, que serão explicitadas a seguir. 2.1 O Primeiro Enigma - Inflação, Incerteza e Poupança Crescente “O período que compreende o início dos anos 80, até meados dos anos 90 é interessante e peculiar, pois se constata que a elevação dos patamares inflacionários coincidiu com aumentos substanciais das taxas de poupança privada”. (REIS ET AL, 1998, p. 234) % PIB 30 3000 2500 2000 1500 1000 500 0 25 20 15 Inflação (IGP-DI) Gráfico I - Evolução da Inflação e da poupança privada no Brasil de 1981 a 1994. 3 1 Poupança Privada 199 9 199 7 198 5 198 3 198 198 198 1 10 % a.a. A década “perdida” de 1980 não deixou como legado apenas uma lacuna no crescimento e desenvolvimento do país, deixou também alguns enigmas acerca do comportamento individual do agente econômico brasileiro para a teoria econômica. Acompanhando o Gráfico I abaixo, é possível perceber a existência de uma coincidência temporal entre a elevação dos patamares de poupança privada, e a aceleração do processo inflacionário. Levantando desde já a questão do por que indivíduos em meio a um ambiente de inflação galopante escolheriam postergar o consumo e poupar mais. Fonte: IPEADATA (tanto para laboração da série de poupança privada, quanto como fonte do IGP-DI). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 69 Os altos índices de inflação do período, que partem já de uma hiperinflação de 100% a.a. no início dos anos 80, para patamares de 2013% a.a. em 1989, oferecem um forte desincentivo à poupança. A abordagem de otimização intertemporal preveria um esgotamento da poupança privada, uma vez que o custo compreendido pela perda de poder de compra gerada pelo processo inflacionário excede os benefícios que rendimentos reais da poupança possam oferecer, deteriorando assim a renda real ao longo do tempo (HALL, 1978). Maximizar numa estrutura de ambiente inflacionária seria privilegiar o consumo imediato Destacamos desde já que em tal período existia no Brasil uma característica institucional muito peculiar: a indexação de títulos, ativos financeiros, salários e contratos em geral. Isso significava que todo mês tais dispositivos legais tinham seus valores corrigidos pela inflação passada, numa tentativa de manter o poder de compra dos agentes. Como pode-se imaginar nem a indexação plena era capaz de restabelecer 100% do valor corroído pela inflação, até porque a defasagem mensal num período de inflação galopante é considerável. De qualquer forma vale situar que mesmo com o fenômeno da indexação vigorando a estratégia individual esperada seria aquela voltada para maximizar o consumo presente de forma a proteger-se tanto quanto possível da aceleração inflacionária. No entanto, o período que foi marcado por um baixo crescimento do PIB, total descontrole inflacionário, baixas taxas de investimento, de poupança externa e de poupança do governo, apresentou surpreendentemente altas taxas de poupança privada. (REIS ET AL, 1998; EDWARDS, 1995). Não só houve uma inesperada elevação dos estoques ótimos de poupança dos brasileiros, como se percebe a partir do Gráfico II abaixo, uma retração simultânea do consumo privado. Enfatiza-se aqui que tal observação num cenário de inflação descontrolada é extremamente contra-intuitiva para a compreensão econômica neoclássica. 75 60 45 30 15 0 Poupança Privada 19 93 19 90 19 87 Consumo Privado 19 84 19 81 % PIB Gráfico II - Evolução do consumo privado e poupança privada de 1981 a 1994. Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA. Como é possível detectar pela tabela abaixo, observa-se desde 1985, o ensaio de uma trajetória de crescimento da poupança privada, que salta de R$245 bilhões em 1985, para R$374 bilhões em 1987, alcançando a cifra de R$458 bilhões em 1989, ou cerca de 30% PIB, como demonstra o Gráfico II e a Tabela I abaixo. Já o consumo, acabado o período de congelamento de preços do Governo Sarney (1986), apresenta queda partindo de R$994 bilhões em 1986 para cerca de R$880 bilhões em 1988, chegando a patamares de R$868 bilhões em 1989.10 Tabela I - Consumo Privado e Poupança Privada de 1983 a 1994. Anos Consumo Privado Poupança Privada Anos Consumo Privado Poupança Privada REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 70 (bilhões de reais) (bilhões de reais) (bilhões de reais) (bilhões reais) 1983 R$ 844 R$ 181 1989 R$ 868 R$ 458 1984 R$ 867 R$ 260 1990 R$ 909 R$ 213 1985 R$ 890 R$ 245 1991 R$ 953 R$ 208 1986 R$ 994 R$ 254 1992 R$ 948 R$ 264 1987 R$ 945 R$ 374 1993 R$ 969 R$ 259 1988 R$ 880 R$ 406 1994 R$ 1.013 R$ 255 Fonte: Elaboração própria com base nos dados disponíveis no IPEADATA. Ressalta-se aqui, que os baixos níveis de renda dos agentes brasileiros seriam outros fatores que deveriam contribuir para desincentivar um comportamento de poupança, já que “poupar é relativamente menos atraente quando a renda é baixa” (DIAMOND e VARTIAINEN, 2007, p. 33). Ademais, políticas econômicas do período, como defasados reajustes salariais e as desvalorizações do câmbio deterioravam ainda mais a renda real (MODIANO, 1990), debilitando dessa forma a possibilidade de planejamento do orçamento. O Gráfico III na seqüência, evidencia a deterioração na renda ocorrida no período, a qual chegou a somar 30% de perda do poder de compra do salário mínimo, ao longo da década de 1980. (MORAES, 1999). 11,3 11 10,7 10,4 10,1 9,8 19 94 19 92 19 90 PIB per capita real 19 88 19 86 Milhares de reais Gráfico III - PIB per capita real no Brasil de 1986 a 1994. Fonte: IPEADATA Investigando o que poderia ter levado os agentes privados brasileiros a elevar seus níveis de poupança a cerca de 30% do PIB nesse período, poderia-se tomar taxas de juros reais positivas como possíveis incentivos à poupança. Contudo diversos esforços empíricos concluíram que “o efeito da taxa de juros real sobre a poupança privada é negligenciável” no Brasil (GLEIZER, 1991, p. 63). Estudos como os de Reis et al (1998) e Gomes (2007) chegaram à mesma conclusão de que os juros não são significativos na evolução da série de consumo e poupança do Brasil. Seguindo a orientação dos estudos citados, o presente trabalho descarta a hipótese de que um aumento da poupança privada estaria sendo fortemente guiado por uma elevação na taxa de juros real. Com isso em mente, busca-se desvelar alguns fatores que possivelmente estavam por detrás do enigma da poupança privada crescente, respaldado em fundamentos da Economia Comportamental. 2.1.1 Interpretações Comportamentais para a Primeira Anomalia Inflação pode-se dizer, é um fator ampliador das incertezas sobre o futuro da vida econômica individual. Em tais circunstâncias o principal coordenador de uma economia de mercado, o sistema de preços, fica comprometido, e o conjunto de incentivos do ambiente distorcido. Os REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 71 agentes perdem seu principal sinalizador de informações, de forma que tal situação produz novas fontes de incerteza. (FRIEDMAN, 1977; OKUN, 1971). Mais ainda, a incerteza aumenta à medida que a média da inflação avança (ISSLER, 1991). O Brasil no período que se estende de 1972 a 1985 apresentou uma variação da taxa de inflação de 15% para 243% ao ano, e só no intermezzo de 1986 à 1989 esse patamar avançou de 60% para 2.013% ao ano. Além disso, não apenas o processo inflacionário em si gera instabilidade, e por conseqüência incerteza, mas programas anti-inflacionários frustrados e políticas macroeconômicas incoerentes com um ambiente inflacionado contribuíram no caso do Brasil para o crescimento da percepção de incertezas e perigos, gerando um ambiente econômico adverso. Entre 1986 e 1989 o país enfrentou o fracasso de três programas de estabilização (Plano Cruzado de fev/1986, Plano Bresser de jun/1987 e Plano Verão de Jan/1989), cujos congelamentos de preços culminaram inevitavelmente em desabastecimento da economia. Os períodos posteriores aos planos foram, de acordo com Reis et al, acompanhados por “fortes oscilações nas taxas de câmbio e de juros, instabilidade da atividade econômica e aumentos de concentração na distribuição de renda” (1998, p. 242-243). Em 1987 especificamente, o país enfrentou uma crise cambial que o levou à moratória externa. Para piorar, os desencontrados reajustes de preços e salários intensificavam o clima de insegurança em que viviam os agentes, uma vez que o preço de compromissos assumidos (i.e. aluguel) podia ser reajustado antes do dissídio salarial. Em meio a tantas experiências negativas não seria difícil imaginar que grande parte dos agentes econômicos estivessem formando expectativas nefastas quanto a oportunidades futuras. No contexto abordado acredita-se que três fatores comportamentais guiariam preponderantemente as ações dos indivíduos: a aversão a perda, projeções de utilidade futura viesadas pelo fator visceral ansiedade e medo, e tentativa de antecipação das perdas futuras de forma a minorar a ansiedade presente. O viés de projeção, conceito formalmente proposto por Loewenstein et al (2003), se baseia na hipótese de que a previsão de utilidade futura é estado dependente, sendo condicionada por emoções e estados viscerais correntes. Compreende-se que numa estrutura de ambiente como a brasileira no final da década de 1980, os agentes estivessem formando perspectivas e expectativas negativas quanto a seus respectivos futuros econômicos. Entende-se que a insegurança que permeava tal ambiente econômico, impactaria não só a forma como este indivíduo enxerga o futuro (medo do que o amanhã aguarda), mas principalmente impactaria a estimativa de suas preferências futuras, viesando-as no sentido de um maior apelo por precaução. O viés característico nesse caso advém do fato de que, fazer estimativas num cenário econômico adverso tende a viesar negativamente as projeções sobre o futuro. Mais especificamente, o contexto inflacionário da década de 1980, ensinou aos brasileiros que a inflação reduz drasticamente o bem estar social (HASLAG, 1997), seja ao reduzir o crescimento via incerteza, seja ao alterar a composição do produto (aumentando participação de serviços financeiros e diminuindo a de bens de consumo). Os agentes puderam perceber que o nível de atividade econômica foi restringido, e em razão disso projetaram para o futuro o pessimismo de hoje via preferências temporais. Acredita-se que as expectativas negativas dos agentes em relação ao futuro motivaram inferências do tipo “não sei se conseguirei manter meu padrão de consumo” que por sua vez promovem ansiedade, e revelam a dificuldade e o desconforto associado ao ajuste das preferências dos agentes àquilo que eles possuem de fato (LOEWENSTEIN e ANGNER, 2002). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 72 O agente avesso às perdas (KAHNEMAN ET AL, 1990), apresentará, em função disso, um comportamento conhecido como “pavor pela espera”: antecipará a perda futura esperada e restringirá no presente suas possibilidades de consumo, e desta forma revelará a preferência pela poupança precaucional no período corrente (DARDANONI, 1991). Em vários momentos, parece ser mais aceitável para o indivíduo perder agora na estrutura de ambiente conhecida (e fugir da ansiedade da espera), do que encarar as características de um futuro ainda obscuro. Isso ocorreria devido ao fato de que esperar por uma perda implica em sofrimento, como prevê o efeito “pavor pela espera” (dread effect). Segundo Muramatsu e Fonseca (2008), tal indivíduo traz a perda a valor presente a um custo muito mais alto, pelo simples fato de que o custo de oportunidade de esperar por ela (ansiedade) pode ser muito alto. Dessa perspectiva, um agente que previsse uma queda em seu padrão de consumo no futuro, preferiria poupar agora, antecipando a perda futura como uma forma de se precaver dela e da ansiedade adjacente à espera. Argumenta-se no presente artigo, que o esforço de poupança da década de 1980 tinha fortes motivações precaucionais (CARROLL e SAMWICK, 1998). Ou seja, era uma estratégia proveniente da incerteza que os agentes enfrentavam quanto à renda futura, muito mais do que o resultado da tentativa de alocação ótima dos recursos familiares.11 Vale salientar que a escolha de alguns indivíduos pelo consumo postergado foi também largamente influenciada por processos cognitivos - atenção, memória e aprendizado – capazes de indicar a possibilidade de reduzir a variabilidade dos rendimentos a partir de dispositivos financeiros plenamente indexados e contas remuneradas overnight, não sendo possível ignorar o papel de tal característica institucional e da ocorrência de uma provável ilusão monetária (SHAFIR ET AL, 1997) no aumento da poupança privada. Entretanto, a queda do consumo especificamente em conjunto com a maciça elevação observada da poupança privada, sugerem forte substituição intertemporal por parte dos agentes. Ainda que a indexação se constituísse num incentivo ao consumo postergado, não é razoável supor que ela se constituísse num desincentivo ao consumo presente (que cobria 100% a inflação esperada), a menos que outros fatores em conjunto com a possibilidade de reaver parte da perda inflacionária estivessem atuando na determinação da escolha dos agentes. O presente artigo sugere que o viés de projeção dos agentes, a aversão a perdas e o próprio desconforto associado à espera por perdas (efeito “pavor pela espera”) seriam alguns dos fatores psicológicos que contribuem para uma explicação do comportamento de poupança precaucional num ambiente extremamente inflacionário e permeado de incertezas, como o Brasil na época. Adicionalmente argumenta-se aqui que a estratégia observada de consumo postergado, motivada por elementos objetivos como a possibilidade de contas remuneradas e dispositivos financeiros indexados, e por fatores psicológicos que incentivaram escolhas precaucionais, só será abandonada a partir do Plano Collor I em 1990. Isso porque uma mudança institucional dramática conhecida como “sequestro dos ativos e fim das contas overnight” foi capaz de alterar significativamente os incentivos dos agentes associados à postergação do consumo imediato em nome de uma gratificação maior no futuro. 2.2 O Segundo Enigma – O Choque Institucional e a Queda na Poupança Em março de 1990, é anunciado o Plano Collor I, o quarto plano de estabilização econômica desde o Plano Cruzado de 1986. E apesar de parte de seu conteúdo ser conhecido de outros REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 73 planos, como congelamentos de preços e tímidos ajustes fiscais ele surpreendeu negativamente os indivíduos ao anunciar o congelamento em média de 70% do estoque de ativos financeiros do país (NAKANO, 1990; BRESSER-PEREIRA, 1991; MORAES, 1999) A Medida Provisória 168 decretou que apenas poderiam ser convertidos em Cruzeiros os saldos dos depósitos à vista e das cadernetas de poupança até o limite de NCz$50.000, o que dada a taxa de câmbio da época equivalia a um pouco mais que US$1.000 (NAKANO, 1990). Além disso, saldos superiores a CR$195.000 estavam sujeitos a partir de então à tributação de 8% de IOF (Imposto sobre operações financeiras) no momento do saque (MORAES, 1999). Tal congelamento representava a união de um confisco injustificado via tributação com uma não declarada moratória interna, uma vez que entre os ativos financeiros congelados estavam também os títulos da divida pública brasileira. O Plano Collor I resultou num fantástico enxugamento de liquidez, reduzindo de um dia para o outro os meios de pagamentos no conceito ampliado M4 (papel moeda; depósitos à vista; títulos públicos em poder do setor privado; depósitos em caderneta de poupança; depósito à prazo; e letras de câmbio) de cerca de 30% PIB para 9% do PIB (NAKANO, 1990). Para se ter idéia da distorção promovida, a demanda de moeda adequada seria de pelo menos 14% do PIB. ......... Em países capitalistas com moeda estável essa porcentagem chega a 17% do PIB para os EUA, e a 30% do PIB para o Japão. (BRESSER-PEREIRA, 1991). A reação não poderia ser outra, o “choque monetário tomou toda a sociedade de surpresa, deixando-a perplexa” (NAKANO, 1990, p.140) e “reduziu ainda mais o já abalado crédito do Estado e das instituições financeiras” (BRESSER-PEREIRA, 1991, p.84). A poupança privada cai vertiginosamente no ano de 1990, e subsequentemente em 1991, como mostra o Gráfico IV, mantendo-se pouco acima de 15% PIB no restante de toda década, sem ter se recuperado como se vê, até os dias atuais. Gráfico IV - Poupança Privada após o choque institucional de 1990. % PIB 30 25 20 Poupança Privada 15 20 03 20 00 19 97 19 94 19 91 19 88 10 Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA. Abaixo a tabela II vem a explicitar a magnitude do choque institucional e seu imediato reflexo sobre o comportamento de poupança dos agentes privados brasileiros. Como é possível observar, a mudança de patamares de 1989 para 1990 é drástica: enquanto em 1989 (valendo lembrar que esses dados provém de registros consolidados ao final de um ano) a poupança privada chegava a quase 30% do PIB brasileiro, somando cerca de R$458 bilhões de reais, em 1990 ela praticamente se reduz em mais da metade, caindo para 13,92% do PIB e não passando de R$213 bilhões de reais. Uma redução de exatos 53,49% num curto período de um ano. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 74 Tabela II - Poupança privada de 1985 a 1992 Ano Variáveis 1985 Poupança Privada (%PIB) 17,55% 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 16,92% 24,07% 26,16% 28,56% 13,92% 13,46% 17,12% Poupança Privada (bilhões de reais) R$245 bi R$254 bi R$374 bi R$406 bi R$458 bi R$213 bi R$208 bi R$ 264 bi Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA. Enfatiza-se aqui que os dados utilizados para construção da série de poupança no presente trabalho se baseiam em estimativas de formação bruta de capital fixo e não em saldos de contas bancárias ou na demanda por títulos públicos. Por isso, a queda da poupança em 1990 não pode ser compreendida apenas como um “saque geral” dos ativos financeiros logo após o término do confisco (o processo de liberalização dos ativos financeiros só teve início no segundo semestre de 1991), mas sim como uma verdadeira opção a favor do consumo presente, a despeito de demais oportunidades de poupança e/ou investimento. 2.2.1 Interpretações Comportamentais para a Segunda Anomalia Acredita-se que tal reversão no padrão de poupança dos agentes brasileiros pode ser iluminada nos termos da noção de aversão à perda. O indivíduo avesso às perdas atribui um maior incômodo às situações de perda em relação ao quanto aprecia os ganhos (RABIN, 1998), sendo por isso fortemente impactado pelo novo desenho institucional. Tal ação mina a tentativa de precaução via poupança do agente, que buscava garantir seu padrão de bem–estar e acaba por ser negativamente surpreendido. O presente artigo compreende que frente a tal incentivo o agente revisa sua estratégia de escolha por consumo postergado. Afinal, tal mudança na ordem institucional abre espaço para novos confiscos, sugerindo que não há mais garantias de que a postergação do consumo corrente se reverterá em maior consumo futuro. Ademais, para o agente avesso a perdas sua poupança só faz sentido se tiver liquidez, se puder ser resgatada a qualquer momento, é essa certeza que permanece implícita no comportamento de poupança precaucional. Conseqüentemente, podemos entender que um ambiente de instabilidade e não transparência das instituições econômicas e políticas são capazes de incentivar as preferências sobre o consumo imediato e garantido em detrimento de maiores possibilidades de consumo futuro, gerando importantes entraves para a trajetória de crescimento dinamicamente sustentável brasileira. Tais preferências míopes que emergem e persistem após o choque institucional protagonizarão um importante papel dez anos mais tarde como o terceiro enigma a seguir explicitará. 2.3 O Terceiro Enigma – Consumo, Endividamento e Estabilização Outro momento curioso da história econômica brasileira se apresenta a partir da segunda metade da década de 1990 até os dias atuais. Nesse período a estabilização econômica já era uma realidade vivida por todos os brasileiros. O Plano Real de 1994 conseguiu com sucesso debelar o processo inflacionário, devolvendo a estabilidade do poder de compra da moeda. Nessa nova estrutura de ambiente torna-se possível um planejamento do consumo intertemporal, uma vez que se tem segurança na perspectiva do quanto a renda futura representará como poder de compra. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 75 Levando em conta que também vigorou nesse período uma política monetária de altas taxas de juros reais, onde a taxa Selic/Over real chegou a um pico de 27%a.a. em 1998, poder-se-ia argumentar que tal cenário traduzia consideráveis incentivos a poupar de uma perspectiva neoclássica. A substituição do consumo abordada pelo modelo de renda permanente (FRIEDMAN, 1957), pelo modelo de ciclos de vida (MODIGLIANI e BRUMBERG, 1954) e principalmente pelo trabalho seminal de Hall (1978), implica a grosso modo, que “uma maior taxa de juros real esperada leva os consumidores a postergar o consumo, tudo o mais constante” (CAVALCANTI, 1993, p. 203). Contudo a evidência empírica brasileira tem confrontado tal concepção, e apesar de taxas de juros positivas têm se observado um boom no consumo das famílias (ALÉM e GIAMBIAGI, 1997), como mostra o Gráfico V abaixo. O consumo privado que somava cerca de 1,1 trilhão de reais em 1995, alcança em 2006 a cifra de 1,41 trilhão de reais. Um aumento real de 28% do consumo nacional privado em pouco mais de 10 anos. Isso contando que a variação do PIB nesse mesmo período foi de algo em torno de 31,4%, um valor muito próximo, sugerindo que o consumo tem acompanhado de perto as variações na renda. 1475 1400 1325 1250 Consumo Privado 20 03 20 05 20 01 19 99 19 97 1175 1100 19 95 Bilhões de reais Gráfico V - Consumo Privado no Brasil desde 1995 Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA. Ao mesmo tempo, a poupança dos agentes privados não apresentou grande alteração, quando comparada com os altos níveis observados no final da década de 1980 (rever Gráfico I e IV). Depois do choque institucional de 1990, a poupança privada cai para aproximadamente 14% do PIB, e tem se mantido pouco acima desse nível no restante da década de acordo com a Tabela III abaixo, não ultrapassando em nenhum momento uma proporção de 19 % do PIB. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 76 Tabela III - Poupança Privada e Consumo Privado como proporção do PIB de 1994 a 2005. Poupança Privada Consumo Privado (% PIB) (% PIB) 1994 15,0 59,6 2000 12,8 64,3 1995 18,0 62,5 2001 12,4 63,5 1996 15,3 64,7 2002 12,9 61,7 1997 16,0 64,9 2003 15,4 61,9 1998 17,8 64,3 2004 14,8 59,8 1999 13,7 64,7 2005 18,3 60,3 600 450 300 150 20 05 20 03 20 01 19 99 19 97 19 95 0 12,6 12,2 11,8 PIB per capita real 11,4 11 19 95 19 97 19 99 20 01 20 03 20 05 Poupança Privada Milhares de reais Poupança Privada Consumo Privado (% PIB) (% PIB) Anos Bilhões de Reais Anos Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA.Gráfico VI e VII - Poupança privada e Evolução do PIB per capita no Brasil a partir de 1995 Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IPEADATA. De acordo com o Gráfico VI acima, pode-se observar apenas uma leve deterioração da poupança privada a partir de 1998, que acaba por ser recuperada de 2003 para cá. Em suma, a poupança manteve-se curiosamente constante apesar do crescimento da renda observado no período. O Gráfico VII apresenta a evolução da renda per capita brasileira, que avançou 11,8% no intervalo de 1995 e 2006, um crescimento vale lembrar bem abaixo dos 28% observados no consumo privado. As observações acima sugerem a existência de uma preferência revelada por parte dos agentes brasileiros em destinar ganhos de rendimento à incursão em padrões de consumo mais elevados. Reforçando tal indício de miopia está o fato de que a tomada de crédito para consumo por parte do setor privado tem apresentado considerável expansão, assim como também tem se elevado as instâncias de super-endividamento e os índices de inadimplência, denotando a existência de preferências mal adaptadas ao ambiente. Neste cenário de possibilidade de planejamento do orçamento, os agentes revelam dificuldades em equilibrar a renda familiar com os apelos de consumo e compromissos já assumidos. Os gráficos VIII e IX a seguir apresentam a evolução dos níveis de tomada de crédito e inadimplência, referente às ferramentas financeiras cartão de crédito e cheque especial, traduzindo a tentativa de capturar apenas o volume de crédito que foi direcionado para decisões de consumo. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 Bilhões de reais 77 ma 19 16 13 10 7 4 1 0 i/ 0 Volume contratado no Cheque Especial Volume contratado no Cartão de Crédito i/02 a i/04 a i/06 ma m m 28 24 20 % 16 12 8 4 0 0 / i 0 a i/02 a i/04 a i/06 ma m m m Inadimplê ncia no Che que e spe cial (%) Inadimplê ncia no Cartão de Cré dito (%) Gráfico VIII e IX - Operações de crédito para consumo e inadimplência acima de 90 dias a partir de 2000. Fonte: BCB-DEPEC Como pode ser observado a partir do gráfico acima, desde o ano de 2000 o volume de crédito contratado no cheque especial dobrou, passando de cerca de 6 bilhões de reais para mais de 13 bilhões reais por mês. Já as operações via cartão de crédito apresentaram desempenho ainda mais significativo, tendo aumentado mais de 17 vezes o volume contratado, partindo no ano de 2000 de cerca de 1 bilhão de reais para uma demanda atual de quase 18 bilhões de reais por mês. Contudo, é a inadimplência que mais chama a atenção, mostrando que escolhas equivocadas ou impensadas têm sido feitas. Do ano de 2000 para cá, a porcentagem inadimplente no cheque especial pulou de cerca de 3% para 10% do crédito disponibilizado, como mostra o Gráfico IX. No cartão crédito, os números assustam: a porcentagem inadimplente pulou de 2,5% para praticamente 25% de todo crédito concedido. Tais dados sugerem a possibilidade de deterioração das finanças familiares brasileiras. Robert Hall afirmava que os “consumidores estimam seu bem-estar econômico de um modo inteligente que exige um olhar sobre o futuro” (1978, p. 985), no entanto as evidências brasileiras recentes levam necessariamente ao questionamento dessa perspectiva. Tem realmente os brasileiros se importado com seu consumo futuro? E se o têm porque não exercem a possibilidade de planejamento do orçamento que tal estrutura de incentivos do período delineia? Os tópicos a seguir buscarão iluminar alguns fatores que poderiam estar levando esses indivíduos a privilegiar o consumo imediato, baseando-se mais uma vez em fundamentos comportamentais. 2.3.1 Interpretações Comportamentais para a Terceira Anomalia De 1994 até os dias atuais consideráveis mudanças tem ocorrido no cenário econômico individual. A expansão do crédito, com destaque para o alargamento dos prazos de pagamento (ALÉM e GIAMBIAGI, 1997) e a popularização de inovações financeiras como o cartão de crédito, são algumas delas, que colaboraram no sentido de aumentar as possibilidades do agente econômico, que antes se via preso à sua renda corrente. Um problema, no entanto, surge do reconhecimento de uma limitação cognitiva, que questiona a capacidade do indivíduo de frente a um crédito tão facilitado, resistir às tentações do consumo imediato, e se manter fiel a seus planejamentos previdentes de longo prazo. Segundo as palavras precisas de Webley e Nyhus (1998, p. 6) o “comportamento é resultado da intensidade experienciada de tentações, e da habilidade de executar o auto-controle em situações onde há conflito entre o curto prazo (gastar agora) e os objetivos de longo prazo (orçamento doméstico sólido)”. O desconto hiperbólico do agente, por exemplo, transforma o presente numa tentação ao supervalorizar o benefício do “comprar agora” e subestimar o incômodo do “pagar depois” (KILBORN, 2007), desencorajando uma atitude precavida frente a um conflito entre o hoje e o amanhã. Se por um lado os agentes freqüentemente determinam metas de poupanças pessoais, do outro está a tentação do comprar agora e violar os planos anteriores. A constatação da existência de problemas de auto-controle emerge da observação de que os agentes tendem a violar REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 78 sistematicamente seus planos de longo prazo à medida que os períodos futuros tornam-se atuais (STROTZ, 1955), em função da maior taxa de desconto que o agente apresenta no presente (desconto hiperbólico). Isso implica que ao se deparar com a possibilidade de consumo imediato, com uma promoção ou com uma facilidade de pagamento, o agente tende a superestimar o quanto essa oportunidade “vale a pena”, se esquecendo, ou pelo menos subestimando o impacto de tal decisão sobre seus planejamentos de longo prazo (como poupar uma certa quantia todo mês). A consequência da não percepção individual dessa disposição curto-prazista é incorrer seguidamente na “tentação do consumo imediato”, pois a maior taxa de desconto para o presente revela um apelo consumista e imediatista. As inovações financeiras tomam seu papel neste cenário ao facilitar o acesso à gratificação imediata. O excesso de liquidez é uma armadilha perigosa para o agente inconsistente que sempre superestima a utilidade do consumo presente, pois não só o leva a sabotar sistematicamente seus planejamentos previdentes, como fica delineada a possibilidade de que a inexistência de restrições ao crédito, implique na observação de instâncias de superendividamento sub-ótimas, dados os objetivos de longo prazo dos agentes. (MEIER e SPRENGER, 2007; KILBORN, 2007). Em vista disso, o modelo do desconto hiperbólico prevê que as inovações financeiras vão impactar negativamente as taxas de poupança individuais (LAIBSON, 1997; HEUKELOM, 2007). O ambiente de estabilidade de preços e a trajetória ascendente da renda dos indivíduos observadas no período que se estende desde 1995, contribuem para um clima de otimismo, que dispensa precaução. Sugere-se aqui que, assim como no final da década de 80 o modelo do viés de projeção delinearia um apelo por ações previdentes, no ambiente atual o agente se encontra despreocupado, pois o fácil acesso à liquidez se apresenta como um fator de segurança econômica. Outras dificuldades cognitivas acabam por exacerbar esse já existente sentimento de otimismo. O fato de que os agentes utilizam atalhos mentais para prever a probabilidade de eventos futuros, em particular eventos negativos, e de que tendem a subestimar o poder do juro composto (KILBORN, 2007; DIAMOND e VARTIAINEN, 2007) leva-os a subestimar a probabilidade de incorrer em situações desagradáveis como a inadimplência. É necessário chamar a atenção desde já, para o fato de que não há na presente discussão espaço para valoração. Pegar crédito ou endividar-se não pode ser definido como algo ruim ou bom. Mas nasce uma preocupação do fato de que os agentes em função de certas características comportamentais (inconsistência, imediatismo e falta de auto-controle) seriam levados a superestimar a utilidade (e necessidade) desse crédito no presente, e assim a violar uma possível escolha prévia por cursos de ação mais previdentes. O caso atual brasileiro começa por se tornar crítico a partir da noção de que seus altos níveis de impaciência (frente ao consumo) dificultam a complicada tentativa de auto-controle, à medida que valorizam ainda mais o presente já superestimado pelo desconto hiperbólico.12 A principal implicação desse comportamento míope e impaciente, é que os agentes apresentarão dificuldade em desenvolver uma poupança que respeite o seu ciclo de vida ou em manter uma renda permanente ao longo da vida (FRIEDMAN, 1957; MODIGLIANI e BRUMBERG, 1954), uma vez que sistematicamente sabotam seus planejamentos de longo prazo. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 79 O presente trabalho acredita que tal inconsistência temporal é um dos motivos que existem por detrás da não observação da teoria da renda permanente no Brasil e da respectiva não suavização do consumo, detectada pelos estudos de Issler e Rocha (2000), Gomes (2004) e Gomes e Paz (2004). O agente inconsistente não consegue se manter fiel aos seus projetos de poupança. E divergindo das previsões neoclássicas, nota-se que “há realmente um excesso de sensibilidade do consumo à renda” no Brasil (GOMES, 2004, p. 394; GOMES, 2007), compactuando com a previsão do modelo de desconto hiperbólico (LAIBSON, 1997) de que o consumo acompanhará de perto o progresso da renda, e apresentará por isso variações cíclicas. Fica assim mais do que delineada a importância de se discutir os problemas de auto-controle, e a melhor forma de contorná-los. Se substratos da realidade empírica que corroborem a hipótese de inconsistência não faltam, o auto-controle por refletir a vontade de resistir às tentações do consumo, acaba por “se tornar crítico na determinação da poupança dos agentes” (DIAMOND e VARTIAINEN, 2007, p. 35) Na literatura comportamental há um consenso, de que uma saída para as pessoas conseguirem se engajar num planejamento de longo-prazo, sem se auto-sabotar, é tentar limitar as escolhas futuras por meio de “estratégias de comprometimento” (DIAMOND e VARTIAINEN, 2007), aplicando parte de seus recursos em ativos ilíquidos, por exemplo. Dessa forma, quando a “tentação do consumo imediato” chegar, a pessoa terá menos recursos disponíveis para satisfazer os apelos da impaciência. Exemplos de aplicações ilíquidas seriam ativos imobiliários, aplicações financeiras com prazo mínimo para saque, poupanças compulsórias, entre outros. A idéia é impedir ou desincentivar (por meio de punições como multas) o “eu” do futuro de frustrar os planejamentos do “eu” de hoje. Prover os agentes de mais informação sobre seus próprios vieses (tendência de supervalorizar o presente) contribui também para o sucesso das estratégias de comprometimento. Se a informação sozinha, não tem mostrado grandes resultados na tentativa de elevar o grau de auto-controle dos agentes (KILBORN, 2007), sem ela o indivíduo nem reconheceria a necessidade de instrumentos de auto-controle. Por último, fica a necessidade de se avaliar qual tem sido o papel social desse excesso de liquidez. Apesar de o “crédito para consumo ter sido considerado algo positivo, na medida em que permite que os consumidores tenham uma vida melhor, alavancada pelo potencial de renda futura.” (KILBORN, 2007, p. 14), e de existir a crença de que em função disso a expansão do crédito traz ganhos de bem-estar para sociedade (GOMES ET AL, 2005), ficam algumas dúvidas em aberto. Até onde a compreensão das limitações comportamentais e cognitivas dos agentes vem a questionar tal perspectiva? Em primeiro lugar, deve-se levar em conta que a inconsistência do agente abre espaço para instâncias de endividamento sub-ótimas, face os objetivos de longo prazo da pessoa. Em segundo lugar, visto que a impaciência é um dos fatores determinantes da inadimplência (MEIER e SPRENGER, 2007) deve-se também considerar a existência de uma maior predisposição brasileira à inadimplência. Além de ser frustrante não conseguir alcançar as próprias metas, se o super-endividamento recai em inadimplência, o agente sofre também considerável queda em seu padrão de bem-estar. A perspectiva comportamental por isso sugere, que não necessariamente a simples expansão do acesso ao crédito implica em ganhos de bem-estar. O presente trabalho defende a tese, em razão disso, de que o agente inconsistente deve ser provido de ferramentas para lidar com sua própria inconsistência, numa tentativa para aqueles que reconhecem a dificuldade e gostariam de se manter fieis aos seus planejamentos de longo prazo, de contornar o problema. Conclui-se com isso que a expansão e democratização do REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 80 crédito deve ser acompanhada por uma expansão dos mecanismos de comprometimento, os quais ainda são insuficientes, para não dizer quase inexistentes, no Brasil. 2.4 Considerações sobre Motivações Racionais e Emocionais “Antes do crédito estar amplamente disponível aos consumidores, estes vieses permaneciam em grande medida nas sombras” (KILBORN, 2007, p. 22) Indaga-se porque os brasileiros no final dos anos 1980 conseguiram se controlar frente à opção do consumo imediato, apresentando altos níveis de poupança privada, ao passo que hoje, apresentam problemas de auto-controle e instâncias de super-endividamento. O que teria mudado? Mudaram tanto as motivações racionais quanto as motivações emocionais dos agentes. Argumenta-se aqui que ambas atuariam de forma a moldar a percepção dos incentivos econômicos. A motivação emocional, no entanto, algumas vezes distorce tal percepção de incentivos induzindo a escolhas efetivas difíceis de se defender, de uma ótica de otimização, maximização ou simplesmente da noção de um agente racional. O presente artigo levanta a hipótese que, da mesma forma como os efeitos renda e substituição interagem entre si de modo a definir decisões de consumo e poupança, as motivações emocionais e racionais quando antagônicas, também gerarão uma interação, cujo fruto (caso as motivações emocionais superem as racionais) serão comportamentos de consumo e poupança inesperados pela teoria neoclássica.13 No final dos anos 80, a motivação racional se voltava para o consumo presente, em função do corrosivo processo inflacionário e dos defasados reajustes salariais que contribuíam para a deterioração da renda. Contudo a motivação emocional do período, delineada pelo sentimento de incerteza e insegurança quanto ao futuro, solicitava esforços de poupança precaucional. Como foi visto anteriormente, a poupança privada apresentou forte crescimento no período, sugerindo que tais motivações emocionais superaram as motivações racionais de tentativa de maximização de resultados. Já a partir da estabilização econômica de 1994, compreende-se que a motivação racional apontava na direção da possibilidade de planejamento do orçamento, onde o maior acesso ao crédito, altas taxas de juros reais, e inflação controlada induziriam a uma maior suavização do consumo. No entanto, a motivação emocional somava não só a memória do choque institucional de 1990, como também a inconsistência temporal do agente intensificada pelo advento das facilidades de crédito, estimulando assim um privilégio do consumo imediato. O que se observa hoje, como previamente discutido, são crescentes níveis de endividamento e de inadimplência, e não comportamentos de suavização consumo, insinuando novamente que motivações emocionais se sobrepuseram às motivações racionais na determinação da escolha efetiva. Vale ressaltar que no final dos anos 80 a inconsistência temporal do agente não se manifestava com força, pois ele estava preso à sua renda corrente, face à inexistência das inovações financeiras. É verdade que ainda hoje uma parte da população ainda se encontra restrita a liquidez, sem acesso a linhas de crédito via cheque especial e cartão de crédito por não possuírem conta bancária ou por outros fatores. Contudo tal proporção vem se reduzindo a cada ano, evidenciando a necessidade de começar a levar em consideração algumas ponderações aqui presentes. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 81 Com isso, percebe-se que não se pode esperar do ser humano um comportamento uniforme. Se novos incentivos econômicos entram em jogo, novas motivações racionais e emocionais também emergem, resultando em novas (e algumas vezes inesperadas) trajetórias comportamentais. A hipótese de poupança precaucional da década de 1980 não conflita com a hipótese atual de miopia exatamente por isso. Um novo ambiente e novos incentivos tenderiam a produzir novas resultantes. Nessa mesma linha, Lucas (1976) já preconizava que a tradicional função consumo não é invariante às alterações de política e a outras mudanças que aconteçam na economia. Por isso, um melhor entendimento acerca dos comportamentos de consumo e poupança passa necessariamente pelo estudo de seus processos geradores e pela análise do impacto que novas variáveis produzirão em tais escolhas. Sugere-se assim a conveniência de se inserir um pouco mais de psicologia nas análises econômicas, entendendo limites, vieses e possibilidades do agente econômico. 3. CONCLUSÕES O presente trabalhou buscou, respaldado nos desenvolvimentos da economia comportamental, apresentar e discutir algumas anomalias do consumo intertemporal brasileiro, propondo uma interpretação alternativa e complementar àquela tida pela economia tradicional, que considera os fenômenos aqui apresentados como anômalos e enigmáticos. De qualquer modo vale lembrar que o próprio conceito de anomalia está intrinsicamente ligado a uma dada estrutura teórica, e é por isso que se defende aqui que uma possível expansão de tal base analítica, incluindo fatores emocionais e viscerais presentes no momento da tomada de decisão, desenha a possibilidade de complementariedade no formato de uma abordagem pluralista, que potencializa e possibilita uma maior elucidação dos fenômenos observados. Necessário também destacar que fatores viscerais e emocionais em geral, aqui encarados como alguns dos determinantes de trajetórias de consumo intertemporal, são transitórios. Não obstante, o impacto das supracitadas decisões na vida econômica dos indivíduos e da nação são permanentes, delineando a importância de estudos e programas de conscientização que adentrem o tema. É importante prover o individuo de todas as ferramentas disponíveis para que escolhas, cada vez mais conscientes, sejam tomadas. Nesse sentido, fica claro que a contínua expansão das ferramentas de crédito deve necessariamente ser acompanhada, por igual expansão dos instrumentos de comprometimento e da divulgação dos mesmos, do contrário há possibilidade de deterioração das finanças familiares, como alguns países já vêm testemunhando. Conclui-se por fim, que a inserção de fatores psicológicos na compreensão de episódios e trajetórias de consumo intertemporal é largamente defensável vis-à-vis a contribuição dos resultados aqui gerados. Fica clara a necessidade de abrir a caixa preta dos processos geradores das escolhas, adentrando na neblina da mente humana e inserindo mais psicologia na ciência econômica face à compreensão de que um melhor entendimento acerca dos fatores determinantes das decisões tem claras implicações para políticas públicas e para um mais preciso exercício de previsão de conjunturas econômicas. Afinal, o determinante pico da decisão econômica é nada mais que o primeiro passo das trajetórias macroeconômicas observadas. Dissecá-los é contribuir para o ideal de previsão da profissão. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 82 ALÉM, A.C.; GIAMBIAGI, F. Aumento do investimento: o desafio de elevar a poupança privada no Brasil. Revista do BNDES, Brasília, n. 8, p.3-30, dez. 1997. BANCO CENTRAL DO BRASIL (BACEN). Disponibiliza dados sobre a atividade econômicofinanceira. Disponível em: <http://www.bacen.com.br/>. Acesso em: 24 set. 2007. BENZION, U. et al. 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REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 85 IMPORTÂNCIA DOS COMPONENTES DA REPUTAÇÃO CORPORATIVA NA PERCEPÇÃO DE UNIVERSITÁRIOS CLIENTES DE BANCOS Fábio Felice Darré José Carlos Thomaz RESUMO Várias correntes têm discutido o tema reputação corporativa. Não se consegue determinar um denominador comum para o tema e não há uma definição única. Assim, diversas correntes, foram estudadas, focando-se, depois, uma única para se poder determinar a linha de pesquisa. O conceito estudado é que a reputação de empresa é influenciada pelas múltiplas imagens por elas constituídas. Objetivou-se identificar quais são os componentes formativos da reputação que influenciam a escolha de bancos por clientes universitários. Utilizaram-se os resultados de uma revisão sistemática da literatura, coleta de dados qualitativos por meio de focus group, e coleta de dados quantitativos envolvendo 206 entrevistados. Aplicou-se a análise fatorial e análise de correlação, utilizando-se o software SPSS. Concluiu-se que os atributos apontados na literatura, com poucas exceções, são válidos para a mensuração da reputação de bancos comerciais. Conclui-se também que os atributos podem ser agrupados em fatores, facilitando o emprego de uma escala reduzida. Palavras-chave: reputação corporativa, imagem corporativa, componentes da reputação. INTRODUÇÃO Uma das formas de uma empresa, qualquer que seja seu porte, conquistar seus clientes é por meio de sua reputação. As conseqüências da reputação podem ser muitas, destacando-se a conquista de um diferencial competitivo, um melhor desempenho organizacional, maior capacidade de conseguir empréstimos e o interesse de investidores externos. A reputação corporativa se refere à imagem que a empresa tem em seu mercado, constituindo-se da soma de qualidades e atributos psicológicos que existem na mente dos clientes de uma empresa (GOTSI; WILSON, 2001). A imagem de uma empresa pode ser constituída de duas maneiras: de dentro da empresa para fora ou de fora para dentro. A imagem construída de dentro para fora se baseia na forma que os membros da organização acreditam que são vistos pelos elementos externos da organização (RINDOVA; FOMBRUN, 1998). A imagem constituída de fora para dentro se baseia no fato de que observadores não só processam informação em uma mensagem específica, mas também fazem comparações com experiências anteriores (reputação), com outros casos (imagens projetadas) e ainda consideram opiniões de terceiros (imagens selecionadas e projetadas) (RINDOVA; SCHULTZ, 1998). Dessa forma a reputação de uma empresa pode tanto ajudar na sua imagem junto ao cliente, quanto atrapalhá-la. Assim considerando, propôs-se uma pesquisa com o tema “Percepção dos Clientes sobre os Componentes da Reputação Corporativa”, que focalizou especialmente a rede bancária. O que se questiona como problema da pesquisa, é: “Quais são os componentes formativos da Reputação Corporativa que influenciam a escolha dos bancos por universitários?”. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 86 Este estudo torna-se importante ao observar como o consumidor se comporta ou reage à reputação corporativa, possibilitando aos gestores utilizarem os fatores corretos para descobrir novas maneiras de atrair e captar clientes, e, dessa forma, melhorar seu desempenho no mercado. A atenção recaiu sobre estudantes universitários de um curso de Administração de Empresas porque, uma vez em posição gerencial nas empresas, esses estudantes decidirão com quais bancos suas empresas manterão relacionamentos. Tem-se como objetivo geral identificar quais são os componentes formativos da reputação que influenciam a escolha de bancos por clientes universitários. Para alcançar o objetivo geral, os seguintes objetivos específicos foram perseguidos: 1 - levantar quais atributos são considerados precursores da reputação no setor bancário; 2 - conhecer se os clientes discriminam entre imagem e reputação; 3 - conhecer os atributos que os clientes associam à reputação; 4 - avaliar o grau de importância percebido para cada atributo; 5 - verificar se os atributos podem ser agrupados em fatores. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Imagem Corporativa Martineau (2003) conceituou o termo imagem como a soma de qualidades funcionais e atributos psicológicos que existem na mente do consumidor, enquanto que Boulding (apud MACEDO, 2001) definiu imagem como conhecimento pessoal. Assim, a imagem corporativa torna-se “a figura que um conjunto de expectadores tem de uma organização através do acúmulo de todas as mensagens recebidas” (IND, 1997). Imagem corporativa é uma cópia momentânea e a representação do ajuste da empresa, ou seja, a imagem é uma construção ou projeto que as pessoas fazem da empresa (RINDOVA; FOMBRUN, 1998). Vindo da psicologia, Gruning (2003) diz que são os clientes que fazem a imagem da empresa, através da observação da realidade ou de símbolos que outras pessoas passam para ela. A imagem de marca pode ser definida como um conjunto de associações e valores estabelecidos entre a marca e o consumidor. Essas associações nascem tanto de experiências pessoais quanto de mensagens transmitidas pelos meios de comunicação (PINHO, 1996). De acordo com Tomio (2006), a escolha do consumidor é influenciada pelas imagens que as pessoas têm do produto oferecido e o benefício que esse serviço lhes proporcionará. A imagem de determinada marca ou serviço auxilia no comportamento do consumidor e na determinação de estratégias de marketing desenvolvidas pelas organizações para atrair e manter clientes. 1.2 Reputação Corporativa O termo reputação corporativa tem sido utilizado na literatura com múltiplos sentidos e comumente há confusão com o termo “imagem”. Muitas vezes ambos são utilizados como sinônimos. Ainda não há uma definição estabelecida para o termo reputação corporativa porque ele tem sido delineado por várias disciplinas, cada uma assumindo sua própria definição conceitual Carmely; Freund (2002). Neste estudo tentou-se evitar essa confusão na utilização dos termos, embora pela própria redação dos diversos autores isso nem sempre tenha sido possível. Como menciona Rindova e Fombrun (1998), imagem e reputação corporativa não são idênticas, nem uma é imitação da outra. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 87 O tema reputação coorporativa ainda é pouco estudado, porém tem-se intensificado nos últimos anos o estudo sobre o tema. Contudo, não existe até o presente momento uma definição de consenso na literatura sobre o tema, podendo existir posturas contraditórias (CAMPOS, 2005). O tema tem atraído o interesse de pesquisadores porque a reputação corporativa pode aumentar a capacidade de lucro de uma empresa, e da mesma forma uma má reputação pode atingi-la de forma negativa (DOWLING, 1986), tornando-se assim um vilão da corporação. Para conquistar e manter uma boa imagem e reputação, a empresa deve usar de honestidade com todos os seus diferentes públicos, ser cuidadosa com o meio ambiente, lidar bem com as reclamações, ser verdadeira com os anúncios, prestar bons e constantes serviços, não sonegar impostos, ter a ética como eixo principal de sua conduta e, sobretudo, ser aberta e transparente (CREDIDIO, 2003). A reputação corporativa e os investimentos estão por toda parte na companhia (GOTSI; WILSON, 2001). A evolução da reputação é baseada na experiência direta dos investidores com as companhias, além de outra forma de comunicação e símbolos que propaga a informação sobre as ações das empresas e/ou a comparação com as ações de seus rivais. Esse parecer de Gotsi e Wilson (2001) reforça a linha de raciocínio de Fombrun (1996) ao considerar a influência da imagem sobre a reputação. Indo além, Fombrum (1996) entende que a reputação coorporativa é a representação perceptiva das ações passadas da organização e das visões futuras. 1.3 Atributos que Discriminam Imagem de Reputação Em uma revisão bibliográfica, Thomaz (2006) identificou atributos que têm sido utilizados tanto para avaliação da reputação como para a avaliação da imagem corporativa das organizações. Optou pelo método da revisão sistemática como técnica para esclarecimento da questão. Esse método é utilizado quando se tem uma hipótese, em que é necessário identificar, selecionar e avaliar estudos anteriores que permitam responder as questões ou rejeitá-las. Foram selecionados diversos textos, provenientes de artigos e livros, onde o foco era estudar conceitos de “imagem” e “reputação” das organizações. As variáveis de interesse associadas à imagem e à reputação foram coletadas e reunidas num quadro para facilitar a visualização (Tabela 1). Os atributos contidos na tabela foram reduzidos ao menor número de categorias possíveis, tendo utilizado os seguintes critérios de redução: 1. Atributos com mesma denominação, repetidos, foram eliminados; 2. Atributos com denominações diferentes, mas similares, foram consolidados; 3. Cada um dos atributos foi classificado em uma categoria apropriada; 4. As categorias foram refinadas, consolidando-se as similares (Tabela 2). A interpretação dos dados evidenciou a sobreposição na utilização dos atributos para avaliar imagem e reputação. A sobreposição ficou evidente, pois diversos autores utilizam os mesmos atributos para avaliar tanto a imagem quanto a reputação. Assim, os atributos representativos da imagem são proxies de atributos da reputação, e vice-versa. 1.4 Reputação Corporativa e suas Correntes A reputação corporativa é um conjunto de imagens que a corporação tem diante de seu público (RINDOVA; FOMBRUN, 1998). Porém essa afirmação tem sido muito contestada por alguns autores, tais como Balmer (1997), Bromley (993), Brow e Cox (1997), Brow e Dacin (1997), Fombrun (1996), que fazem diferentes associações entre reputação e imagem (GOTSI, WILSON, 2001). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 88 Tabela 1 Atributos Ocorrências Atributo Qualidade produtos/serviços 1 Qualidade do gerenciamento 2 Inovação 3 Responsabilidade social e ambiental 4 Força financeira 5 Valor do investimento a L.P. 6 Atitude e comportamento 7 Qualidade do marketing 8 Admiração ou reconhecimento geral 9 Liderança 10 Qualidade da estratégia 11 Produtos e serviços que valorizam o dinheiro 12 Envolvimento/ cuidados com comunidade 13 Bom empregador 14 Gerenciamento RH 15 Confiabilidade 16 Habilidade para atrair, desenvolve e reter talento Cultura voltado ao cliente Credibilidade Maximização satisfação e lealdade cliente Variedade de produtos/serviços Suporta alguma coisa Visão de futuro Margem de lucro Parecer ter fortes perspectivas de crescimento Bom sentimento sobre a empresa 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 Atributo Familiaridade Manter altos padrões no trato com pessoas Negocia em bases humanas Desempenho financeiro Patrocínio de atividades Habilidade de comunicação Características distintivas Interação com os empregados Amabilidade Cortesia e amigabilidade Pessoal de contato/ vendas Características dos produtos Desenvolvimento de produtos Parecer ser um investimento de baixo risco Comunicação Força de vendas e canais Posição competitiva Associações simbólicas Sucesso Recomendar a empresa Atitude e comportamento Conduz os negócios de modo humano Estabelecimento de redes e alianças Recebe bem os visitantes Comportamento ético Práticas éticas Ocorrências 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 Fonte: Thomaz (2006). Gotsi e Wilson (2001) classificam duas correntes do pensamento. Uma vê os dois conceitos como semelhantes (corrente da analogia) e a outra como diferentes (corrente diferenciada). Esta é dividida em outras três escolas: a primeira considera que reputação corporativa e imagem corporativa são diferentes no conceito. A segunda e a terceira consideram os conceitos relacionados, sendo que a segunda acredita que a reputação corporativa é somente uma dimensão da construção da imagem da corporação. A terceira explora o outro lado da relação e afirma que a reputação da empresa é influenciada pelas múltiplas imagens que são constituídas por elas. O terceiro grupo é o mais representativo e explorado. Afirma-se que a reputação é uma foto instantânea que concilia todas as imagens da empresa (FOMBRUN, 1996), pois a reputação corporativa é uma reflexão da organização a ser vista acima dos olhos e dita alem das palavras (SAXTON, 1998). Tabela 2 Atributos analisados REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 89 Código Atributos Total 2 Qualidade do gerenciamento 12 1 Qualidade produtos/serviços 11 3 Inovação 11 4 Responsabilidade social e ambiental 10 5 Força financeira 8 7 Atitude e comportamento 8 8 Qualidade do marketing 7 9 Admiração ou reconhecimento geral 6 11 Qualidade da estratégia 6 12 Produtos e serviços que valorizam o dinheiro 5 13 Envolvimento/ cuidados com comunidade 5 14 Bom empregador 4 15 Gerenciamento RH 4 16 Confiabilidade 3 17 Habilidade atrair, desenvolver, reter talentos 2 18 Cultura voltado ao cliente 2 19 Credibilidade 2 20 Maximização satisfação e lealdade cliente 2 21 Variedade de produtos/serviços 1 22 Suporta alguma causa 1 26 Bom sentimento sobre a empresa 1 27 Familiaridade 1 28 Manter altos padrões no trato com pessoas 1 32 Habilidade de comunicação 1 33 Características distintivas 1 34 Interação com os empregados 1 37 Pessoal de contato/ vendas 1 42 Força de vendas e canais 1 49 Estabelecimento de redes e alianças 1 Fonte: Thomaz (2006). Campos (2005) diz que existem três vertentes sobre o tema reputação: a primeira trata reputação como sendo uma percepção, indicando que os stakeholders têm, em geral, uma percepção a respeito da organização. A segunda trata reputação como um julgamento, indicando que os stakeholders, por estarem envolvidos com a organização, a estimam e a julgam pela sua REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 90 reputação. A terceira analisa a reputação como um ativo, referindo-se a ela como sendo um recurso intangível, com valor financeiro. A reputação é o produto de anos de uma competência percebida pelos stakeholders, sendo um recurso frágil, pois a reputação leva muito tempo para ser criada, não pode ser comparada e pode ser facilmente prejudicada (GOTSI; WILSON, 2001). Lesly, citado por Oliveira (2007), acrescenta que a proeminência de um nome é encarada como um sinal de sucesso, já que a reputação em um negócio raramente pode ser obtida sem verdadeiras realizações. Portanto é necessário que uma empresa busque construir uma boa reputação e não meçam esforços para preservá-la e protegê-la. Fombrun (1996) acrescenta que a reputação é um grupo de atributos conferidos a uma organização, inferidos pelas ações passadas, desenvolvendo-se a partir da diferenciação da organização e da prática de construção de uma imagem, mantidas ao longo do tempo, de modo a levar as pessoas a perceberem a organização como confiável e responsável, oferecendo valor aos stakeholders. Dowling (1986) apresenta a importância da reputação em exemplos clássicos de acidentes, exploração de trabalho de menores, má qualidade de um produto recém-lançado e má utilização do marketing. A reputação é um recurso que deve ser protegido devido à importância da estratégia. Segundo Fombrun (1996), quanto maior for o grau de intangibilidade, maior deverá ser a preocupação sobre a reputação. Segundo Dowling (1986), a boa reputação de alguns produtos e serviços se deve a valores psicológicos associados e eles. Quando o produto e o serviço apresentam uma boa reputação, aumentam a satisfação dos empregados com o trabalho, o mesmo acontece também com o lançamento de novos produtos, além de aumentar a eficácia do efeito publicitário, abre acesso também para os fornecedores. 1.5 Reputação Corporativa e seu diferencial Competitivo As empresas que obtiveram sucesso a partir de 1990 não foram aquelas que demonstraram ter produtos excelentes, mas sim aquelas que deixaram claras suas crenças. Pringle e Thompson (apud GONZALES, 2005). Nesse sentido, os fatores intangíveis são mais adequados para valorizar a reputação do que os atributos tangíveis, pois o mercado, em alta velocidade, copia rápido seu produto, porém atributos intangíveis são mais difíceis de copiar (AAKER, 1998). Uma boa imagem da empresa contribui de uma forma significativa para um posicionamento defensável e para o sucesso da estratégia da corporação. Já uma imagem negativa percebida por qualquer um de seus públicos indica um erro no processo estratégico de administração da empresa (GRAY; SMELTZER, 1985). 2.PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Desenvolveram-se duas pesquisas de campo, sendo uma qualitativa e outra quantitativa. A diferença entre essas duas pesquisas se dá não só pela sistemática pertinente a cada uma delas, mas, sobretudo, pela forma de abordagem do problema (RICHARDSON, 1999). Justificou-se a aplicação da pesquisa qualitativa porque, utilizando-se o pensamento de Richardson (1999), pretendeu-se compreender aspectos psicológicos cujos dados não podem ser coletados por outros métodos. Esses aspectos dizem respeito aos atributos formativos da reputação corporativa no setor bancário, segundo a percepção do cliente. Utilizou-se a técnica do REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 91 grupo de foco para a coleta dos dados. O tratamento dos dados foi feito empregando-se a análise de conteúdo. O método quantitativo, caracterizado pelo emprego da quantificação das variáveis da pesquisa para posterior tratamento por meio de técnicas estatísticas, foi utilizado para selecionar, descrever e agrupar os atributos da reputação em categorias, ou fatores. Utilizou-se, para a seleção dos atributos, o índice de proporção de concordância substantiva proposto por Anderson e Gerbing (1991). A análise fatorial foi utilizada para se conhecer o peso de cada atributo na percepção dos respondentes e para agrupar as variáveis em fatores, de modo a se compor uma escala visando a facilitar próximas pesquisas. 2.1 Coleta de Dados Qualitativos Para se conhecer se os clientes discriminam entre imagem e reputação e levantar quais atributos são consideradas precursores da reputação no setor bancário, utilizou-se a técnica de levantamento baseada em grupos de foco (focus group), que permite ao pesquisador coletar dados em curto prazo e em quantidade adequada (MATTAR, 1993). Seguindo-se Mattar (1993), desenvolveu-se discussão em grupo, sob a coordenação de um moderador, que introduziu os tópicos da discussão e a dirigiu de uma maneira não-estruturada e natural. O grupo, formado por oito alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do curso de Administração de Empresas, foi homogêneo em relação à idade, ao sexo e à escolaridade, sendo que todos foram participativos e tiveram nível de envolvimento adequado, atendendo às recomendações de Giovinazzo (2007). O moderador é conhecedor do tema e as discussões tiveram duração de duas horas e meia, em outubro de 2007. O trabalho no grupo de foco foi iniciado com a apresentação de objetivos pelo autor, que a seguir passou a palavra ao moderador. Seguiu-se com a apresentação pessoal de cada um dos componentes do grupo. O objetivo de se obter o discernimento entre imagem e reputação não foi declarado ao grupo, de modo a não levar os componentes a algum esquema mental prédeterminado para a diferenciação. Com isso, a categorização dos atributos em um dos dois conceitos surgiu espontaneamente. Os tópicos levados à discussão foram obtidos na literatura sobre imagem e reputação, constantes do referencial teórico deste estudo. 2.2 Análise dos Dados Qualitativos Terminada a coleta de dados qualitativos, obtidos no grupo de foco, foi feito um estudo utilizando-se a técnica de análise de conteúdo. A análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise de comunicação, composto por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, para obtenção de indicadores (quantitativos ou não) que levem à inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção das mensagens (BARDIN, 2002). De acordo com Bardin (2002), as fases da análise de conteúdo organizam-se cronologicamente em pré-análise (visa operacionalizar e sistematizar as idéias, elaborando um esquema preciso de desenvolvimento do trabalho); análise do material (consiste basicamente na codificação, categorização e quantificação da informação); tratamento dos resultados (uma vez estabelecidas as características do problema da pesquisa, formulados os objetivos e escolhidos os documentos, o investigador está em condições de dar uma resposta bastante precisa às perguntas “por que” e “o que” analisar) e inferência e interpretação. Visou-se, primeiramente, descobrir o que os clientes entendem por imagem e por reputação corporativas e que atributos associam à imagem e à reputação corporativa, cumprindo o primeiro e o segundo objetivos específicos. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 92 2.3 Resultado do Focus Group O Focus Group teve início com uma pergunta geral conduzida pelo moderador a respeito de como o cliente optaria por um banco se os produtos fossem hipoteticamente todos iguais. A partir desse momento as idéias foram surgindo, foram discutidos assuntos como promoções para universitários, marca do banco, cultura da organização, qualidade do produto e serviço e taxa de juros. Um assunto bastante comentado foi a respeito do status que o banco tem e o que isso proporciona para o cliente, como por exemplo, estilo de vida, classe social e cartão premium. No início dois bancos foram citados: Itaú Personalité e Bradesco Prime. Foi questionado pelo moderador quais são seus os atributos e as diferenças entre eles. Aspectos comuns foram comentados para ambos, como tranqüilidade, segurança e força financeira. O diferencial apresentado pelos entrevistados referente ao banco Bradesco Prime foi em relação à facilidade de acesso, pois as agências são encontradas facilmente nas grandes cidades. O ponto mais relevante foi a disponibilidade de agências em cidades litorâneas e interioranas que mesmo não possuindo uma agência Prime atenderiam as necessidades. O ponto forte apresentado pelos entrevistados a respeito do banco Itaú Personalité é a “imagem” que ele passa aos consumidores de um banco com forte segurança financeira, que apresenta agências próprias e imponentes que valorizam o status do banco e enaltece o consumidor desse serviço e produto. Posteriormente o moderador pediu para comparar dois bancos que não fossem Premium. Os participantes encolheram o Banco Real e o Santander Banespa. O Santander não apresentou uma boa imagem quando comparado com o Real, que possui um foco nos universitários. A percepção dos alunos esta mais aguçada em função das constantes propagandas e publicidades vinculando universitários, estilo de vida e sucesso profissional. Na percepção dos alunos as agências estão localizadas em pontos estratégicos como em universidades e próximos a casas noturnas, locais muito freqüentados por jovens. Outro ponto muito relevante foi em relação à preocupação ambiental apresentada pelo Banco Real. Até esse ponto do focus group foram identificados os seguintes atributos: variedade e qualidade de serviço, força financeira, qualidade do marketing, confiabilidade, credibilidade, cultura, além de ser um bom empregador e possuir bom atendimento. O atributo cultura apresentou duas interpretações: a primeira se refere à cultura de atendimento ao público interno, onde se deve ter uma preocupação constante com treinamento de funcionários, gerenciamento da área de recursos humanos, habilidades para atrair e reter talentos. A outra se refere à cultura de atendimento ao cliente, visando a sua satisfação e retenção. Na opinião de um entrevistado, os grandes bancos comerciais precisam ter credibilidade, confiança e tradição para que os clientes depositem o dinheiro sem correr riscos financeiros. Esses atributos estão “relacionados à reputação do banco”. Neste ponto do focus group investigou-se se há diferença entre imagem e reputação, tomando-se alguns conceitos emitidos pelos entrevistados: “Reputação tem toda uma história, o que ele fez no passado e o que vem construindo. A imagem é o que esta representando agora”. “Imagem é uma fotografia do momento e a reputação se faz com a tradição, ao longo dos anos. É uma série de imagens que esta formando uma reputação”. “Imagem tem que ser construída no curto prazo, e a reputação deve ser construída no longo prazo”. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 93 Foi identificado pelos entrevistados que há diferença entre imagem e reputação, que ambos estão relacionados e que ações presentes podem comprometer a reputação da empresa, que é conquistada lentamente durante anos de tradição. Quando o moderador pressupôs, provocativamente, que os bancos são todos iguais e que a única diferença é o fator reputação, todos os entrevistados disseram que a reputação influencia na tomada de decisão. Durante esse processo de diferenciação surgiram outros novos atributos como inovação de produtos e serviços e liderança no mercado financeiro. 2.4 Coleta de Dados Quantitativos Encerrada a fase qualitativa do estudo, foi criado um formulário contendo os 31 atributos resultantes do trabalho do grupo de foco. Esse formulário prestou-se a conhecer se de fato os atributos são associados à reputação e em que nível de importância essas associações são percebidas. Utilizou-se uma escala Likert de quatro pontos (muito importante, importante, pouco importante, nada importante). Obtiveram-se respostas de 206 universitários clientes de bancos da capital de São Paulo, selecionados por conveniência. O estudo é, portanto, não probabilístico. Para a análise dos dados foi empregado o índice de proporção de concordância substantiva (psa), proposto por Anderson e Gerbing (1991), e técnicas estatísticas de análise fatorial. O índice de proporção de concordância substantiva serviu de critério para a seleção final dos atributos e a análise fatorial foi utilizada para se agrupar os atributos em fatores, de modo a oferecer uma escala com um número menor de itens, o que poderá facilitar pesquisas futuras sobre a reputação corporativa. 2.5 Análise dos Dados e Resultados De posse desses dados foi possível conhecer os atributos que os clientes associam à reputação, terceiro objetivo do estudo. A Tabela 3 mostra o número de associações e a proporção de concordância substantiva para cada um dos atributos, classificados por ordem descendente de psa. Como é aconselhável não eliminar nenhum atributo cujo psa exceda a 0,75 e como todos se mostram superiores a 0,98, nenhum deles foi eliminado. O passo seguinte considerou o grau de importância atribuído pelos respondentes a cada um dos atributos, atendendo ao previsto no quarto objetivo específico (avaliar o grau de importância percebido para cada atributo). A Tabela 4 mostra os resultados obtidos nesta fase da análise. Nela os atributos estão classificados por ordem descendente da soma dos graus de importância 3 e 4. Considerando-se que devem ser desconsiderados os atributos cuja soma dos graus de importância 3 e 4 sejam inferiores a 0,80, conforme sugerido por Anderson e Gerbing (1991), os últimos seis atributos foram eliminados e não compuseram as análises da fase seguinte. Finalmente, aplicou-se a análise fatorial para se verificar se os atributos podem ser agrupados em fatores, atendendo ao quinto e último objetivo específico (Tabela 5). Os testes mostraram que a análise fatorial era adequada para essa amostra. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 94 Tabela 3: Número de associações dos atributos à reputação No. de associações psa RepuNão Repu- Não tação assoc. tação assoc. Atributo Política interna de operação da empresa 206 0 1 0 Treinamento dado aos empregados visando a produção/prestação do serviço 206 0 1 0 Comprometimento dos funcionários 205 0 1 0 Honestidade nas informações e no relacionamento com os consumidores e clientes 205 1 1 0 Garantia de que a empresa continue no negócio 205 0 1 0 Comprometimento da alta gerência 204 1 0,99 0 Capacidade da empresa em atrair pessoal talentoso 204 0 0,99 0 Política de Recursos Humanos em suas linhas gerais 204 1 0,99 0 Confiabilidade do produto ou do serviço 204 0 0,99 0 Preços compatíveis com a qualidade do produto ou serviço oferecido 203 0 0,99 0 Qualidade final do produto apresentado ao cliente 203 0 0,99 0 Benefício funcional proporcionado pelo produto ou pelo serviço 203 0 0,99 0 Competência da equipe em resolver o problema do cliente 202 1 0,98 0 Confiança depositada nos funcionários que atendem o cliente 202 0 0,98 0 Qualidade da gestão da empresa 202 0 0,98 0 Anúncios pagos de produtos e/ou serviços da empresa 200 2 0,97 0,01 Inovação tecnológica no desenvolvimento de produtos e serviços 197 8 0,96 0,04 Confiança depositada na empresa como um todo 197 8 0,96 0,04 Seriedade com que os assuntos financeiros da empresa são conduzidos 197 0 0,96 0 Seriedade com que todos os assuntos da empresa são conduzidos 197 0 0,96 0 Comportamento ético nos negócios 196 0 0,95 0 Política de relacionamento com interlocutores externos à empresa 196 1 0,95 0 Forma de agir da empresa em relação ao meio-ambiente e à sociedade 196 0 0,95 0 Fatos conhecidos sobre a atuação da empresa 195 1 0,95 0 Foco no cliente 192 1 0,93 0 Qualidade do serviço prestado pela empresa 192 5 0,93 0,02 Qualidade das várias fases do atendimento ao cliente 191 1 0,93 0 Liderança no segmento de atuação 189 0 0,92 0 Comportamento dos empregados durante o atendimento cliente PESQUISADORES REVISTAao JOVENS 189 1 0,92 0 ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 Forma como a empresa trata seus empregados 189 12 0,92 0,06 Competitiva no mercado global 185 4 0,9 0,02 Fonte: os autores 95 O teste de esferacidade de Bartlett mostrou significância (0,000), ou seja, há significantes relações entre as variáveis, o que indica que a análise fatorial pode ser aplicada. Além disso, o teste de KMO (teste de adequação de amostra de Kaiser-Meyer-Olkin) resultou igual a 0,619 e indica a adequação da análise fatorial para a amostra em estudo, por ser superior a 0,50 (HAIR et al. 2006). A matriz ante-imagem de correlação entre as variáveis também mostra, por meio do MSA (Measure of Sampling Adequacy), que a análise fatorial é aceitável, visto que se situaram superiores a 0,5 (HAIR et al., 2006). Na análise inicial observou-se uma distorção dos resultados, pois as variáveis não foram bem agrupadas. O primeiro grupo continha 17 atributos reunidos com grande variação de resultados e os demais grupos apresentaram cargas fatoriais muito baixas. Na tentativa de melhorar o resultado, foram descartados os atributos cujas somas dos graus de importância 3 e 4 que se apresentava inferior a 80% (Tabela 4), sendo descartados 6 atributos: honestidade nas informações e no relacionamento com os consumidores e clientes, política de recursos humanos em suas linhas gerais, política de relacionamento com interlocutores externos à empresa, política interna de operação da empresa, benefício funcional proporcionado pelo produto ou pelo serviço e treinamento dado aos empregados visando à produção ou à prestação do serviço. Após a eliminação desses atributos foi efetuada uma nova análise com os 25 atributos restantes (Tabela 5). Surgiram oito novos grupos e os resultados apresentados foram mais homogêneos. Hair et al (2006, p. 107) recomendam que, para o tamanho de amostra considerado neste estudo (n = 206) e para que se obtenha significância no nível de 0,05, as cargas fatoriais devem ser superiores a 0,400. Como se pode notar na Tabela 5, todas as cargas fatoriais se situaram acima de 0,40, não se aconselhando, portanto, excluir nenhuma das variáveis em estudo. Note-se que o eigenvalue (autovalor) de cada fator foi superior a 1,0 e que os oito fatores explicam 73,5% da variância total das variáveis. A análise fatorial permitiu extrair oito fatores, denominados conforme o Quadro 1. No primeiro fator os atributos estão relacionados à liderança e confiabilidade no segmento bancário, além de inovação tecnológica e respeito com os funcionários. O fator foi denominado “inovação e liderança”. Quadro 1: Fatores extraídos da análise fatorial 1 Inovação e liderança 2 Responsabilidade para com a sociedade 3 Seriedade nos negócios 4 Qualidade do atendimento 5 Qualidade geral dos produtos e serviços 6 Comprometimento com o cliente 7 Comportamento ético nos negócios 8 Confiança nos funcionários Fonte: os autores No segundo fator os atributos foram relacionados às responsabilidades sociais, incluindo-se a responsabilidade do banco em oferecer competitividade de preço, posicionamento no mercado REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 96 global, preocupação com o meio ambiente e social. Foi classificado como “responsabilidade com a sociedade”. Tabela 4: Grau de importância dos atributos Grau de importância Atributos 1 2 3 4 % de ( 3 + 4) N Qualidade do serviço prestado pela empresa Qualidade final do produto apresentado ao cliente 192 203 0 1 7 7 84 64 101 131 0,96 0,96 Comprometimento da alta gerência Liderança no segmento de atuação Fatos conhecidos sobre a atuação da empresa 204 189 195 0 0 1 10 12 13 129 70 75 65 107 106 0,95 0,94 0,93 Foco no cliente Comportamento dos empregados durante o atendimento ao cliente Comportamento ético nos negócios Forma de agir da empresa em relação ao meio-ambiente e à sociedade Seriedade com que todos os assuntos da empresa são conduzidos Forma como a empresa trata seus empregados Seriedade com que os assuntos financeiros da empresa são conduzidos Comprometimento dos funcionários Capacidade da empresa em atrair pessoal talentoso Qualidade da gestão da empresa Qualidade das fases do atendimento ao cliente Confiança depositada na empresa como um todo Competência da equipe em resolver o problema do cliente Confiabilidade do produto ou do serviço Inovação tecnológica no desenvolvimento de produtos e serviços 192 10 6 77 99 0,92 189 196 0 1 16 15 86 71 87 107 0,92 0,91 196 9 11 89 87 0,9 197 189 0 9 21 12 93 88 83 80 0,89 0,89 197 205 204 202 191 197 2 0 2 0 12 0 23 27 26 28 17 30 81 90 60 95 74 82 91 88 116 79 88 85 0,87 0,87 0,86 0,86 0,85 0,85 204 1 0 2 32 3 74 4 98 0,85 0,84 197 0 32 92 73 0,84 Garantia de que a empresa continue no negócio Competitiva no mercado global 205 185 0 10 34 22 91 91 80 62 0,83 0,83 Anúncios pagos de produtos e/ou serviços da empresa Confiança depositada func. que atendem o cliente Preços compatíveis com a qualidade do produto ou serviço oferecido Política de relacionamento com interlocutores externos à empresa Treinamento dado aos empregados visando a produção ou a prestação do serviço Honestidade nas informações e no relacionamento com os consumidores e clientes 200 202 11 2 26 36 105 97 58 67 0,82 0,81 203 21 20 105 57 0,8 196 1 42 116 37 0,78 206 4 47 65 90 0,75 205 7 50 63 85 0,72 Política de Recursos Humanos em suas linhas gerais 204 18 41 111 34 0,71 Benefício funcional proporc. pelo produto/serviço Política interna de operação da empresa 203 206 1 22 58 59 92 93 52 32 0,71 0,61 Fonte: os autores REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 97 No terceiro grupo foi possível reunir atributos relacionados à seriedade nos negócios, agrupandose atributos como seriedade dos gestores em conduzir assuntos gerais da empresa, capacidade da empresa atrair equipe de trabalho talentosa e, principalmente, tratamento dos assuntos financeiros. Esse grupo recebeu o nome de “seriedade nos negócios”. O quarto grupo foi nomeado de “qualidade do atendimento”. Reuniram-se variáveis como qualidade da gestão da empresa e sua atuação, englobando as fases de atendimento ao cliente e comportamento dos empregados durante o atendimento ao cliente. Tabela 5: Matriz dos atributos rotacionada. Fatores Atributos 1 2 3 4 5 6 7 8 Inovação tecnológica de produtos e serviços 0,816 0,123 0,158 -0,100 -0,052 0,056 0,149 0,038 Confiabilidade do produto ou do serviço 0,663 0,162 0,040 -0,005 0,465 0,120 -0,016 0,062 Forma como a empresa trata os empregados 0,623 0,462 -0,079 0,065 0,142 0,044 -0,119 -0,033 Anúncios pagos de produtos e/ou serviços 0,623 0,237 0,147 0,137 -0,148 -0,156 -0,409 0,208 Liderança no segmento de atuação 0,473 0,293 -0,366 -0,018 -0,316 0,099 0,001 0,373 Confiança depositada na empresa 0,136 0,728 0,145 0,241 -0,005 0,180 0,134 -0,039 Forma agir em rel.meio-ambiente/sociedade 0,367 0,686 -0,155 -0,029 0,177 0,130 0,233 0,188 Preços compat.qualidade do produto/serviço 0,104 0,644 -0,068 0,109 0,256 0,130 -0,227 0,046 Competitiva no mercado global 0,249 0,587 0,415 -0,383 0,087 -0,178 0,178 0,004 Foco no cliente 0,448 0,490 0,122 0,128 0,104 0,249 -0,380 0,216 Capacidade da empresa em atrair pessoal -0,099 -0,050 0,775 -0,128 0,169 0,032 -0,321 0,105 Seriedade condução assuntos financeiros 0,104 0,082 0,759 0,205 0,068 0,284 0,231 -0,104 Seriedade condução todos os assuntos 0,238 0,043 0,692 0,254 0,091 0,071 0,419 -0,078 Fatos conhecidos sobre a atuação da empresa 0,175 -0,046 0,119 0,758 0,099 -0,021 0,135 0,158 Qualidade da gestão da empresa -0,306 0,238 0,032 0,750 -0,184 0,097 -0,052 0,054 Qualidade do atendimento ao cliente 0,052 0,186 0,090 0,655 0,517 0,000 0,120 0,173 Comportamento empreg.atendimento cliente 0,118 0,022 -0,308 0,501 0,454 0,458 -0,188 -0,104 Competência em resolver problema do cliente -0,134 0,093 0,107 0,113 0,760 0,122 0,106 -0,149 Qualidade do serviço prestado pela empresa 0,313 0,205 0,191 -0,044 0,605 0,224 0,074 0,395 Qualidade final do produto 0,206 0,324 0,402 -0,062 0,568 -0,055 0,011 0,272 Comprometimento da alta gerência -0,027 0,124 0,145 0,146 0,075 0,814 -0,026 0,068 Comprometimento dos funcionários 0,073 0,145 0,107 -0,121 0,132 0,789 0,057 0,196 Garantia de continuar no negócio 0,443 0,060 -0,079 0,157 -0,077 0,541 0,488 -0,205 Comportamento ético nos negócios -0,072 0,055 0,127 0,073 0,121 0,016 0,780 0,154 Confiança nos func. atendimento cliente 0,085 0,047 -0,042 0,289 0,047 0,164 0,078 0,813 Fonte: os autores No quinto grupo reuniram-se atributos associados com as qualidades e os serviços prestados aos clientes finais. Nele está incluída a competência dos funcionários em resolver os problemas dos clientes. Esse grupo foi nomeado como “qualidade geral dos produtos e serviços”. O sexto grupo reuniu atributos como o comprometimento da empresa em continuar no segmento de atuação e comprometimento dos funcionários e da alta gerência em atender e desenvolver estratégias satisfatórias para os clientes, esses atributos foram classificados como comprometimento com o cliente. O penúltimo grupo se refere ao comportamento ético nos negócios e significa a realização de negócios de forma lícita, sendo denominado como “comportamento ético nos negócios. Finalmente, o último fator denominou-se como “confiança nos funcionários” por conter esse REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 98 atributo, o que significa que os clientes têm confiança na relação com os funcionários de atendimento. 3. CONCLUSÕES O objetivo geral deste estudo foi atingido, uma vez que se identificou o conjunto de componentes formativos da reputação corporativa de bancos comerciais que influenciam a escolha desses bancos por clientes universitários. Para que se atingisse esse objetivo, e cumprindo os objetivos específicos, foi necessário levantar quais atributos são considerados precursores da reputação no setor bancário, conhecer se os clientes discriminam entre imagem e reputação, conhecer os atributos que os clientes associam à reputação, avaliar o grau de importância percebido para cada atributo e, finalmente, verificar se os atributos podem ser agrupados em fatores, de modo a facilitar futuros estudos sobre reputação. Por meio do trabalho com grupo de foco pôde-se atingir o primeiro e o segundo objetivos específicos. Nesse sentido, obteve-se uma lista de atributos relacionados à reputação e a discussão permitiu que se percebesse que os componentes do grupo discriminam entre imagem e reputação: “Reputação tem toda uma história, o que ele fez no passado e o que vem construindo. A imagem é o que esta representando agora” e “Imagem é uma fotografia do momento e a reputação se faz com a tradição, ao longo dos anos. É uma série de imagens que esta formando uma reputação”. Pode se perceber que, em geral, os atributos indicados na literatura são aplicáveis à avaliação da reputação corporativa. Alguns desses atributos indicados na literatura não foram eleitos pelos sujeitos da amostra deste estudo. São eles: honestidade nas informações e no relacionamento com os consumidores e clientes, política de recursos humanos em suas linhas gerais, política de relacionamento com interlocutores externos à empresa, política interna de operação da empresa, benefício funcional proporcionado pelo produto ou pelo serviço e treinamento dado aos empregados visando à produção ou a prestação do serviço. Sugere-se que um estudo seja feito para que se conheçam os motivos da rejeição desses atributos. Atendendo ao terceiro objetivo específico, conheceram-se os atributos que os clientes associam à reputação. Pôde-se avaliar o grau de importância percebido pelos respondentes para cada atributo, cumprindo o quarto objetivo específico. Com isso, conseguiu-se responder ao problema de pesquisa, uma vez que foi impossível indicar quais são os componentes formativos da Reputação Corporativa que influenciam a escolha dos bancos por universitários (mostrados na Tabela 5) O agrupamento dos atributos em fatores (Quadro 1), quinto objetivo específico do estudo, poderá ser útil para a mensuração da reputação corporativa aplicando-se uma escala reduzida, com apenas oito indicadores. Sugere-se que um novo estudo seja realizado, nele aplicando-se a escala reduzida. Os resultados desse novo estudo poderiam ser comparados aos resultados deste, numa tentativa de teste e validação da escala reduzida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AAKER, David A. Marcas: gerenciando o valor da marca. São Paulo: Negócio, 1998. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 99 ANDERSON, J. C.; GERBING, D. W. Predicting the performance of measures in a confirmatory factor analysis with a pretest assessment of their substantive validities. 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REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 101 O IMPACTO DA TECNOLOGIA DE ETIQUETA INTELIGENTE (RFID) NA PERFORMANCE DE CADEIAS DE SUPRIMENTOS – UM ESTUDO NO BRASIL Regiane dos Santos Soares Tatiana Limão Comucci Telma Cristina dos Santos Tom Bocage de Almeida Paulo Roberto Leite RESUMO O gerenciamento da cadeia de suprimentos tornou-se vital para maior competitividade empresarial e a tecnologia da informação cria novas oportunidades para o planejamento, controle e operação em toda a cadeia. O sistema RFID poderá substituir o atual método de coleta de dados ampliando as dimensões de informações logísticas. Este artigo questiona qual o impacto do uso da etiqueta inteligente na performance da cadeia de suprimentos. Utilizou-se uma abordagem quantitativa exploratória revelando que o maior benefício desta ferramenta na amostra selecionada revela-se importante principalmente em centros de distribuição e no gerenciamento de estoque nos diversos elos da cadeia de suprimento. INTRODUÇÃO No atual cenário competitivo que o mercado global se encontra, uma das maneiras das empresas sobreviver é se diferenciando; seja na marca, na tecnologia, ou nos preços. Quem dita o preço é o mercado tornando difícil vender um produto com um preço acima do mercado, pois consumidores hoje estão muito mais informados na hora da compra. Se a empresa pretende ter um lucro maior, ela terá que reduzir seus custos. Na historia recente da administração as empresas passaram a fabricar seus produtos em locais onde encontravam mão-de-obra mais barata, benefícios governamentais, impostos mais baixos, intensificaram a terceirização concentrando as atividades em seu foco principal, entre outros aspectos. Com uma transformação para organização de processos horizontais na direção dos clientes, a cadeia de suprimentos tornase importante como forma de organização para ganho de competitividade. Com a globalização dos mercados, os diversos elos da cadeia de suprimentos localizando-se em regiões por vezes diferentes o gerenciamento da cadeia se torna ainda mais importante para o melhor aproveitamento dos benefícios dessa transformação horizontal da produção. As mudanças de ordem econômica, que criam novas exigências competitivas, e de ordem tecnológica, que possibilitam o gerenciamento eficiente e eficaz das operações, vêm fazendo da logística uma das estratégias gerenciais de relevância para as empresas modernas. O gerenciamento logístico pode proporcionar vantagem competitiva às organizações quando a cadeia é vista e operada de forma integrada, pois pode proporcionar diferenciação pelo nível de serviço e ser capaz de operar o baixo custo através do gerenciamento do fluxo de informações na cadeia. “A missão do gerenciamento logístico é planejar e coordenar todas as atividades necessárias para alcançar níveis desejáveis dos serviços e qualidade ao mais baixo custo possível” (FLEURY et al, 2000), (CHRISTOPHER, 2002, p.10). REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 102 A atividade de disponibilizar produtos e materiais em locais, no tempo e nas quantidades necessárias ao seu uso tem participado da vida em sociedade ao longo do tempo na historia. Mais recentemente quando empresas organizadas a utilizam para estas funções ao longo da historia administrativa adquire a denominação de logística empresarial e tem participado gradativamente na estratégia empresarial notabilizando-se mais recentemente pela necessidade de empresas lideres no mercado de privilegiar a coordenação dos fluxos de materiais e de produtos ao longo das cadeias de suprimentos, o denominado Supply Chain Management (LEITE, 2006),. O Supply Chain Management surge para aprimorar e desenvolver as atividades relacionadas com o fluxo e transformação de produtos e serviços associados, desde a obtenção de matérias primas, até a chegada do produto ao usuário final, bem como os fluxos de informação relacionados e a geração de valor para todos os componentes da cadeia. O amplo desenvolvimento da Tecnologia da Informação (TI) nos últimos anos contribuiu para o desenvolvimento do gerenciamento da cadeia de suprimentos que sofreu um aumento na complexidade de suas operações no atual cenário. Com sua utilização foi possível aumentar a integração entre os agentes da cadeia devido à facilidade e velocidade da transferência de informações e, desta forma, aumentar o nível de serviço, bem como reduzir custos operacionais através da automação. Alguns recursos da TI têm, não apenas gerado soluções específicas, mas também criado novas oportunidades para o planejamento, o controle e a operação das atividades de toda a cadeia de suprimentos. Os Sistemas de Informações Logísticas surgiram com o desenvolvimento da TI dentro da logística. Estes sistemas ligam as atividades logísticas em um processo integrado combinando hardware e software para medir, controlar e gerenciar as operações logísticas dentro de uma empresa ou na cadeia de suprimentos inteira. A coleta de dados, que servirá de base para estes sistemas, é crítica para o gerenciamento e o controle de informações logísticas, conforme Bowersox e Closs (2001). Atualmente, o método de coleta de dados é a leitura ótica de um código de barras impresso nos produtos ou em suas embalagens que permite a sua transformação em dados digitais, gerando as informações com maior precisão do que os sistemas manuais, além de permitir a comunicação em tempo real entre os membros do canal, entre outros benefícios. O sistema RFID constitui-se da colocação de um chip de pequena dimensão nos produtos ou em suas embalagens que pode ser “lido” por um sistema de radio freqüência, permitindo não somente aumentar a quantidade de informações contidas mas a sua “leitura” à distancia o que facilita muito a operação de reconhecimento (EAN, 2006). Algumas empresas estão investindo maciçamente nessa tecnologia. A empresa norte-americana Procter & Gamble encomendou cerca de 500 milhões de chips RFID para utilizar em seus produtos da marca Gilette. Já as gigantes Boeing e a Airbus – as duas maiores fabricantes de aviões do planeta - exigirão de seus mais de 2 mil fornecedores a identificação de peças de aviões e motores utilizando essa tecnologia já no próximo ano, com a justificativa de que desejam evitar erros de manufatura. A rede de supermercados Wal-Mart confirmou a exigência feita a seus fornecedores de que todos os produtos vendidos pela rede precisarão conter etiquetas RFID até janeiro de 2005. A Microsoft está entrando na disputa por uma participação neste mercado com o anúncio de que pretende desenvolver softwares e serviços para suportar o uso de RFID nos setores industrial e de varejo. O interesse inicial da empresas ao investir nesta tecnologia é de solucionar problemas como furtos e roubos de mercadorias e controle de estoque de estoque. A etiqueta de Identificação por Rádio Freqüência esta sendo considerada por muitos como a sucessora do código de barra, utilizado em todo o mundo, causando o mesmo impacto que este REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 103 último causou na cadeia de suprimentos quando foi implantado. No Brasil existem ainda poucas informações sobre o uso da tecnologia, porém o grupo CBD, que já está em fase de testes em seus centros de distribuições é um dos exemplos neste sentido. Uma das dificuldades para disseminar o RFID é a falta de informação sobre o interesse que o mercado doméstico tem quanto a aplicação deste sistema. Estas lacunas no conhecimento destas aplicações e seus impactos na performance empresarial constituem os motivadores desta pesquisa exploratória cujo problema de pesquisa pode ser entendido como: “O impacto da tecnologia de etiqueta inteligente (RFID) na performance da cadeia de suprimentos”. 1.REFERENCIAL TEÓRICO 1.1.Logística Empresarial A logística empresarial pode ser entendida com a área de logística cujo objetivo é tornar disponíveis produtos e serviços no local onde são necessários no momento em que são desejados (BOWERSOX E CLOSS, 2001; BALLOU, 2004). Fleury et al (2000) destaca um aspecto paradoxal em sua atividade, pois ao mesmo tempo em que é uma das atividades econômicas mais antigas é, também, um dos conceitos gerenciais modernos. Complementam ainda os autores analisando dois aspectos gerenciais que justificam a importância desta atividade no mundo empresarial moderno, o de ordem econômica e tecnológica. As mudanças econômicas criam novas exigências competitivas, enquanto as mudanças tecnológicas tornam possível o gerenciamento eficiente e eficaz de operações logísticas cada dia mais complexas e demandantes. Segundo Bowersox e Closs (2001, p.407), a empresa tem que ter uma integração interna e externa suficiente para satisfazer aos objetivos fundamentais do negócio. As funções da logística são combinadas em três áreas operacionais principais: distribuição física, apoio à manufatura e suprimentos. Para obter uma integração interna, devem ser coordenados os fluxos de estoque e informações entre essas áreas. As três áreas devem ser sincronizadas no sentido da obtenção simultânea de: (1) resposta rápida; (2) variância mínima; (3) estoque mínimo; (4) consolidação de movimentação; (5) qualidade; e (6) apoio ao ciclo de vida dos produtos (BOWERSOX e CLOSS, 2001 pg 62). O Massachusetts Institute of Technology apud Martins (2003) define o gerenciamento integrado da cadeia de suprimentos como um enfoque integrado, orientado para o processo, visando adquirir, produzir e entregar produtos e serviços aos clientes. 1.2 Supply Chain Management A implementação do moderno conceito Supply Chain Management (SCM) ou Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos exige substanciais mudanças culturais e organizacionais, assim como significativos investimentos em tecnologia de informação. O sucesso dependerá, em última instância, da persistência, paciência, habilidade de negociação e conhecimento dos responsáveis pelo processo. Segundo Fleury et al (2000), a primeira dimensão da excelência em logística está relacionada com a forma como a empresa enxerga seu relacionamento com os clientes. Nestas condições as empresas excelentes em logística entenderiam que seu sucesso dependeria do sucesso de seus clientes, pois ambos fazem parte de uma mesma cadeia de suprimentos. Marino (2003) diz que o termo SCM apareceu pela primeira vez em um artigo de Keith Oliver, vice-presidente sênior da consultoria Booz Allen & Hamilton, no jornal inglês The Financial Times. Complementando, Fleury et al (1999) explica que o conceito de SCM começou a se desenvolver no início da década de 90 e no nível internacional, são poucas as empresas que já conseguiram implementá-lo com sucesso, e, em nível acadêmico, o conceito ainda pode ser considerado em construção. Para Figueiredo et al (2004), o conceito de Supply Chain REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 104 Management surgiu como uma evolução natural do conceito de logística integrada. Enquanto a logística integrada representa uma integração interna de atividades, o SCM representa sua integração externa, incluindo uma série de processos de negócios que interligam os fornecedores aos consumidores finais. Mas para Fleury et al (2000) o conceito de SCM é mais do que uma simples extensão da logística integrada, pois engloba vários aspectos do negócio como, por exemplo: marketing (estabelecer conceito), pesquisa e desenvolvimento (criação de novos produtos), fabricação e logística (executar operações) e finanças (estruturação financeira), ou seja, ultrapassa as atividades diretamente relacionadas com a logística integrada. “A Competência Logística decorre de uma avaliação relativa da capacitação de uma empresa para fornecer ao cliente um serviço competitivamente superior ao menor custo total possível” (BOWERSOX e CLOSS, 2001 pg 23). Christopher (1999), destaca que o Gerenciamento da Cadeia de Suprimento preocupa-se em alcançar, da maneira mais econômica, a satisfação das exigências do consumidor final por meio da integração dos processos do comprador e do fornecedor. O objetivo do SCM seria desta forma coordenar todos os estágios envolvidos, direta e indiretamente, no atendimento de um pedido de um cliente que termina quando um cliente estiver satisfeito pela compra, envolvendo o controle dos fluxos entre os estágios da cadeia para maximizar a lucratividade (CHOPRA e MEINDL, 2004; TAYLOR, 2005; CECATTO, 2005). Torna-se portanto importante entender a cadeia de suprimentos como uma seqüência de acréscimos de custos e valores, introduzindo a idéia de tradeoff entre estes conceitos. 1.3 Cadeia de Valor Segundo Porter (1998) a vantagem competitiva tem origem nas inúmeras atividades distintas executadas por uma empresa na entrega de produtos. O modelo da cadeia de valor divide as atividades industriais em atividades primárias (logística de entrada, operações, logística de saída, marketing e vendas, serviços) e atividades de apoio (infra-estrutura da empresa, gerenciamento de recursos humanos, tecnologia). O conceito de cadeia de valor enfatiza que haverá acréscimo de valor à medida que se avança ao longo da cadeia, ou seja, à medida que se avança na seqüência de atividades necessárias para a satisfação de um pedido do cliente agrega-se valor ao conjunto produto / serviço em cada fase. Turban (2004) aponta que um dos principais objetivos da gestão da cadeia de suprimentos é justamente maximizar esse valor e a tecnologia da informação aparece neste contexto com grande importância. A cadeia de valor, conforme Hitt (2002), pode ser usada pela empresa para a compreensão de sua posição em custos e na identificação de meios para implantação de estratégia comercial auxiliando. Segundo Christopher (2002), a gerência logística na busca da adequação das atividades para criar vantagem em valor e vantagem em custo de várias maneiras como, por exemplo, melhor utilização da capacidade, redução de estoques, maior integração entre fornecedores em nível de planejamento e nível de serviço ao cliente. Para Christopher (2002), no futuro, as companhias líderes de mercado serão aquelas que atingirão paralelamente excelência em custos e diferenciação e o gerenciamento logístico é um elemento capaz de auxiliar as companhias nesta conquista. O paradigma fundamental da logística, segundo Bowersox e Closs (2001), é a convicção de que o desempenho integrado produz melhores resultados que funções gerenciadas individualmente. A tecnologia da informação é o recurso chave para obtenção da integração, no entanto ressalta o autor, é preciso dar atenção ao fato de que os aplicativos de sistemas de informação geralmente REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 105 são criados com base na estrutura organizacional gerando banco de dados limitados a funções específicas que dificulta o acesso interfuncional e, portanto, a integração. Christopher (2002) aponta ainda que, a eficiência no processo é alcançada quando o prazo logístico (tempo para receber, fabricar e entregar um pedido) se iguala ao ciclo do pedido do cliente (tempo que o cliente se dispõe a esperar). Este objetivo poderá ser alcançado pela redução do prazo logístico ou pelo aumento do ciclo do pedido do cliente, onde a tecnologia de informação revela-se de vital importância resultando em melhor qualidade e menor custo. 1.4 Vantagem em Valor No ambiente competitivo globalizado, com a tecnologia a custos decrescentes, onde os clientes são mais exigentes devido ao número de ofertas com qualidade equivalentes - a única maneira de agregar valor é através dos serviços, segundo Christopher (2002). Para Ballou (2004), a logística está relacionada à criação de valor para clientes e fornecedores, bem como para os acionistas da empresa, sendo expresso em termos de tempo e lugar. Para o autor, os produtos e serviços não têm valor a menos que estejam sob posse do cliente quando (tempo) e onde (lugar) eles desejam consumi-los. Assim, conforme Christopher (2002), a disponibilidade é conceito chave para a distribuição, pois sua ineficiência abre espaço para ação da concorrência que possua qualidade e preços compatíveis com o mercado, além disso, a disponibilidade é capaz de reter clientes, porque tem impacto direto nos custos deste, uma vez que ele poderá diminuir seus estoques se o fornecimento for confiável. Bowersox e Closs (2001) citam que as empresas orientadas pelas oportunidades do mercado consideram a satisfação das necessidades dos clientes o principal motivo para o desempenho de suas atividades e por isso utilizam o conceito de marketing para orientação de suas estratégias. As empresas procuram identificar essas necessidades específicas e corresponder a elas vinculando-se aos recursos disponíveis para satisfazê-las de maneira individualizada. Para Chopra (2003), toda cadeia de suprimento deve maximizar o valor global gerado, ou seja, maximizar o resultado da diferença entre o valor do produto final para o cliente e o esforço realizado pela cadeia para atender ao seu pedido. Segundo o autor, o valor, para a maioria das cadeias comerciais, está ligado a diferença entre a receita gerada pelo cliente e o custo total no decorrer da cadeia de suprimento, ou seja, a lucratividade da cadeia de suprimento. Resende (2003) cita que a eficiência da cadeia produtiva depende muito das alianças firmadas ao longo da cadeia, principalmente no que tange a evolução das integrações, uma vez que estas representam os custos (da aquisição da matéria prima à distribuição dos produtos acabados). Para Turban (2004) agregar valor ao longo da cadeia de suprimentos é essencial para o crescimento da competitividade ou até mesmo para a própria sobrevivência da empresa, mas isso é limitado por vários problemas ao longo da cadeia. Os problemas são mais evidentes em cadeias de suprimentos extensas e complexas e em operações envolvendo um número elevado de parceiros de negócios que se acumulam e assim faz-se nascer à necessidade de busca de soluções criativas. Os diversos autores examinados parecem concordar que existe tendência na busca de vantagem competitiva através do acréscimo de valor aos cliente na cadeia de suprimentos. 1.5 Tecnologia da Informação Segundo Turban (2004), os termos Sistema de Informação (SI) e Tecnologia da Informação (TI) são diferentes apesar de, normalmente, serem usados como sinônimos. Para o autor a tecnologia REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 106 da informação TI diz respeito ao aspecto tecnológico de um sistema de informação incluindo hardware, software, banco de dados, rede e outros dispositivos. Desta forma, a TI seria um subsistema do SI que é responsável pela coleta, processamento, armazenagem, análise e disseminação de informações com um determinado objetivo. Resumidamente o SI processa os dados e instruções (inputs) e produz resultados, como por exemplo, cálculos e relatórios (outputs) para usuários ou para outros sistemas. Turban (2004) salienta que o termo TI também é usado para denominar um SI e que também pode ser usado em um sentido mais amplo, descrevendo um conjunto de diversos sistemas de informação, usuários e gestão de uma empresa inteira. De forma mais genérica, Troger (1997), considera a TI como dispositivos que transmitem, manipulam, analisam e exploram a informação. Estes dispositivos ou ferramentas disponibilizadas pela tecnologia da informação são, para Cunha (2002), essenciais para que a empresa possa personalizar serviços e atender às necessidades de cada cliente de maneira mais eficaz. Nas últimas décadas, o fluxo de informações baseava-se principalmente em papel, resultando em uma transferência de informações lenta, pouco confiável e propensa a erros (FLEURY, 2000, pg 286). O que caracteriza a atual Revolução Tecnológica, conforme Castells (2000), não é a centralidade de conhecimentos e informação, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa informação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre a inovação e seu uso. E esta Revolução, gerada pela crescente demanda do mercado em conjunto com o progresso tecnológico, segundo Troger (1997), é responsável pelo desenvolvimento de novos paradigmas na manufatura, nos negócios e no comércio afetando diretamente o modo como as organizações devem atualmente reagir ao mercado. 1.6 A importância da TI na Cadeia de Suprimentos O requisito básico para integração na Cadeia de Suprimentos é o compartilhamento da informação. Pedido de clientes e de ressuprimento, necessidades de estoque, movimentações nos armazéns, documentação de transportes e faturas são algumas das informações básicas da logística. Segundo Bowersox e Closs (2001), o impacto imediato de todos os tipos de leitura e de transferência eletrônica, foi um aumento na disponibilidade de informação em tempo hábil, relativos a quase todos os aspectos do desempenho logístico. Permitindo a otimização do projeto logístico e o gerenciamento de forma integrada e eficiente de seus diversos componentes, conforme Fleury et al (2000). Bowersox e Closs (2001, pg 176) consideram que são três as principais importâncias da informação logística: 1) O cliente considera que informações sobre status do pedido, disponibilidade do produto, programação de entrega e faturamento são fatores essenciais de serviço ao cliente. 2) Com o objetivo central de redução de estoque em toda a cadeia de suprimentos, os executivos consideram que a informação pode ser um instrumento eficaz na redução de estoque e da necessidade de RH, por exemplo, a informação de necessidade.3) A informação aumenta a flexibilidade para decidir como, quando, e onde os recursos podem ser utilizados para se obter vantagem competitiva. Turban (2004) diz que o fato é que os recursos estão crescendo de forma exponencial e, com essa atual taxa de crescimento as empresas terão oportunidade de comprar, pelo mesmo preço, duas vezes mais capacidade de processamento a cada ano e meio, quatro vezes mais em três anos, oito vezes mais em 4,5 anos, etc, ou seja, a razão custo - beneficio cairá exponencialmente. Os Sistemas de Informações Logísticas possuem quatro diferentes níveis de funcionalidade de acordo com Bowersox e Closs (2001): REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 107 1) O sistema transacional funciona como base para todas as operações logísticas. Tem grande número de usuários, demanda pesada de comunicação e grande volume de transações. Exige softwares complexos fazendo com que os custos dos sistemas transacionais sejam altos. É neste nível que todos os dados do ciclo do produto são armazenados. Estes dados são essenciais para todos os outros processos de tomadas de decisão dentro da cadeia de suprimentos. 2) No controle gerencial são utilizados os dados fornecidos pelo sistema transacionais, que ficam armazenados em um “Data Warehouse”, para o desenvolvimento de indicadores e relatórios que serão usados para a mensuração de desempenho. 3) O apoio à decisão tem como objetivo, como o próprio nome já diz, apoiar tomadas de decisão através do uso de softwares nas atividades operacionais. Possibilitam significativas melhorias na eficiência das operações logísticas resultando em uma redução de custos. 4) Planejamento estratégico é voltado para desenvolver e aperfeiçoar a estratégia logística. Suas decisões baseiam-se no nível apoio de decisão e são voltadas para estratégias de longo prazo. Confirmando a tendência e a relevância da preocupação da adoção desta tecnologia pelas empresas, uma pesquisa realizada pela ECRBrasil (2006) com 47 empresas das indústrias alimentícia, farmacêutica, de eletrodomésticos e de vestuário, distribuidores e varejistas durante um seminário técnico, revelou que 70% das empresas pretendiam investir na tecnologia em 2005, sendo que a proporção no varejo é maior: 89%, enquanto 70% da indústria demonstrou a mesma intenção. Quanto ao prazo de implantação de sistemas de Rádio Freqüência, a pesquisa apontou que há unanimidade em empregar a tecnologia em três anos ou mais. O problema é saber se as empresas instaladas no País estarão tão aptas a atender a esse chamado como estão suas filiais européias e norte-americanas 1.7 Identificação por Rádio Freqüência (RFID) Com a crescente pressão do mercado global altamente competitivo, é de vital importância a busca permanente de fontes de competitividade que mostrem resultados positivos das empresas para o mercado. Sendo assim, a gestão integrada da cadeia de abastecimento - Supply Chain Management - juntamente com o apoio do comércio eletrônico é vista como uma resposta adequada a essa tal pressão global. Essa nova visão das atividades logísticas e de gestão de informação exige trabalhar em equipe, valorizando a integração de todos os departamentos da empresa, e estabelecendo alianças com outras organizações, o que ainda é uma barreira nas empresas brasileiras, onde é muito comum estruturas departamentalizadas e com má comunicação. Para Cecatto (2002), o Supply Chain Management surge então para aprimorar e desenvolver todas as atividades relacionadas com o fluxo e transformação de produtos e serviços associados, desde a obtenção de matérias primas, até a chegada do produto ao usuário final, bem como os fluxos de informação relacionados e a geração de valor para todos os componentes da cadeia. Uma das ferramentas utilizadas para esse fim, é o RFID – “Radio Frequency Identifucation” ou Identificação por Rádio Freqüência, que é mais bem utilizada e aproveitada quando difundida por toda a cadeia. Segundo a Intel (2006) este sistema utiliza três elementos para seu funcionamento: uma antena, um leitor e um transmissor. Diferentemente da tecnologia de código de barras tradicional, as leitoras de RFID podem digitalizar centenas de itens etiquetados simultaneamente e não exigem uma "linha de visão" entre a etiqueta e o scanner. Mas o mais importante do desenvolvimento da RFID, segundo a Intel (2006) está no modo como as empresas usam os dados obtidos REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 108 Os dados gerados pela leitora de RFIDs podem ser convertidos em informações importantes e acionáveis, que proporcionam um considerável retorno sobre o investimento, ao obter, consolidar e analisar enormes volumes de dados que podem ser usados para tomar decisões empresariais mais velozes e eficientes. Por exemplo: aumentar a disponibilidade dos produtos e identificar as áreas problemáticas na cadeia de abastecimento; dinamizar a eficiência da logística e reduzir o roubo e a falsificação; aumentar a precisão do inventário e otimizar a projeção de estimativas comerciais; reduzir os custos de manutenção e concentrar-se nas exceções de processos dispendiosos 1.8 Vantagens e Desvantagens Obtidas pelo Uso da Tecnologia RFID de acordo com a Literatura Consultada. Desenvolve-se neste tópico uma relação de vantagens e desvantagens que a leitura da bibliografia ofereceu e que serviram de base para a elaboração do questionário da pesquisa. Vantagens possíveis destacadas: Rastreamento adequado e preciso de recursos (ativos) e visibilidade ao longo da cadeia de abastecimento; A detecção sem necessidade da proximidade da leitora para o reconhecimento dos dados; A durabilidade das etiquetas com possibilidade de reutilização; Identificação de falsificações, prevenção contra roubos e devoluções mais velozes; Aumento da produtividade e redução significativa dos custos operacionais; A contagem instantânea de estoque, facilitando os sistemas empresariais de inventário; A precisão nas informações de armazenamento e velocidade na expedição; A localização dos itens ainda em processos de busca; Lojas com atendimento mais rápido e auto serviço. Visibilidade de estoques físicos. Personalização de produtos e informações correspondentes. Reciclagem inteligente de produtos. Desvantagens possíveis relacionadas na literatura: custo elevado da tecnologia RFID em relação aos sistemas de código de barras é um dos principais obstáculos para o aumento de sua aplicação comercial. Atualmente, uma etiqueta inteligente custa nos EUA cerca de 25 centavos de dólar cada, na compra de um milhão de chips. No Brasil, segundo EAN (2006), esse custo sobe para 80 centavos até 1 dólar a unidade; impacto do custo da tecnologia no preço final dos produtos. uso em materiais metálicos e condutivos relativos ao alcance de transmissão das antenas.. A padronização das freqüências utilizadas para que os produtos possam ser lidos por toda a indústria, de maneira uniforme. A invasão da privacidade dos consumidores por causa da monitoração das etiquetas coladas nos produtos. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 109 Alguns fornecedores vêem a adoção de RFID uma política de redução de estoques do seu cliente, o que reduziria a venda desses fornecedores. 2.PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A questão focal do presente artigo traduz-se pelo interesse de responder a questão da pesquisa: “O impacto da tecnologia de etiqueta inteligente (RFID) na performance de cadeias de suprimentos” ( KÖCHE,2003). Destaque-se portanto o objetivo principal da pesquisa como a identificação deste impacto em empresas atuando no Brasil e para a consecução deste objetivo principal objetivos específicos puderam ser obtidos ao longo da pesquisa tais como: conhecer os fatores que levam as empresas a utilizar o RFID; identificar em qual área da logística empresarial é considerada a sua aplicação; avaliar os ganhos de produtividade esperados com o uso da ferramenta; entender como os setores pretendem utilizar a ferramenta; constatar se existem barreiras para a utilização da ferramenta. ( KÖCHE,2003) 2.1 Definição operacional Uma definição operacional indica a ação ou operação pela qual o significado do constructo se manifesta. Ela indica a atividade ou comportamento que pode ser observada para se constatar a existência de um constructo. Foi definido um constructo que pode resumido no Quadro 1 que permitirá avaliar os principais indicadores visados nesta pesquisa: Quadro 1 – Construto principal da pesquisa Definição operacional das variáveis Variável independente: Tecnologia RFID Variável dependente: Performance da Cadeia Produtividade Redução de Perdas e Custos Barreiras para utilização Controle Operacional Utilização por setor Competitividade Nível hierárquico da informação Visibilidade ao longo da cadeia Áreas da logística empresarial que utilizam Indicadores de utilização ( real ou intencional) Identificação de falsificações, prevenção contra roubos e devoluções mais velozes Reconhecimento dos dados sem necessidade da proximidade da leitora 2.2 Tipo de Pesquisa Realizou-se uma pesquisa descritiva, pois como explica Richardson (1999, p. 66) o estudo descritivo é realizado quando se deseja descrever as características de um fenômeno através das estatísticas de sua ocorrência. 2.3 Metodologia da Pesquisa Utilizou-se o método quantitativo de pesquisa que segundo Richardson (1999, p.70) “.... representa, em principio, a intenção de garantir a precisão dos resultados, evitar distorções de REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 110 análise e interpretação, possibilitando, conseqüentemente uma margem de segurança quanto às inferências”. 2.4 Plano Amostral Os respondentes da pesquisa foram profissionais da área de logística, produção e Supply Chain Management. A amostra foi obtida por acessibilidade, portanto não probabilística, incorrendo desta forma às limitações de generalizações do seu estudo estatístico. Os respondentes da pesquisa foram executivos que participavam em diversos seminários de logística em associações na cidade de São Paulo durante o ano de 2005, escolhidos ao acaso e que se dispuseram ao preenchimento do questionário. 2.5 Coleta de Dados Segundo Richardson (1999, p. 189), o questionário é instrumento mais comum entre os instrumentos de coleta de pesquisa e tem pelo menos duas funções: descrever as características e medir determinadas variáveis de um grupo social. O instrumento para coletar os dados foi elaborado especialmente para esta pesquisa com perguntas fechadas, de múltipla escolha e com escala Likert. 2.6 Tratamento de Dados Foi utilizado o software estatístico para a análise de estatística descritiva e estatística inferencial para determinar as relações existentes entre as variáveis adotadas. Os dados foram resumidos em planilhas determinadas as estatísticas descritivas apresentadas nos resultados de pesquisa. Foram elaboradas tabelas cruzadas entre as principais variáveis da mesma, apresentado nos resultados da pesquisa. 3.Resultados e Discussões Serão demonstrados, a seguir, os resultados da pesquisa realizada observando-se inicialmente que a pesquisa constatou que a tecnologia ainda é pouco utilizada e que em conseqüência as respostas obtidas em sua maioria podem ser consideradas como expectativas dos executivos respondentes em sua futura utilização. 3.1 Fatores Apontados como Possíveis para Utilização da Tecnologia RFID Classificação Geral - Fatores para Utilização do RFID FG er E st oq FP ue ed FP ido ro s du t FR os FN upt eg ura oc FF iaç ão FA o rm rça az Tr en ab am FT en FP ran to s er da por t s FM Es e t an oq u ut E e st oq ue FN FA iv tivo el s E s FI toq ns ue ta FA laç ss ões Té cn ic a Freqüencia 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Fatores Gráfico 1 – Classificação Geral – Fatores para Utilização do RFID ( as variáveis estão precedidas das letras F de fator ) Fonte – Pesquisa realizada REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 111 O respondente podia apontar diversas alternativas e embora as diferenças observadas entre as opções oferecidas pelos respondentes não tenham sido muito nítidas, os fatores para utilização do RFID em ordem de importância são: melhor gerenciamento dos estoques, movimentação e transportes e velocidade de liberação dos pedidos. O fator melhorias nas condições de negociação foi identificado como o menos importante. Talvez uma das razões desta falta de nitidez na preferência para a utilização da tecnologia seja o fato de que poucas são as empresas que a utilizam e portanto trata-se principalmente de expectativa. Detalhes deste achado pode ser estudado em trabalho futuro especifico. 3.2 O Uso da Tecnologia nos Diversos Setores Empresariais O Gráfico 2 demonstra a dispersão dos resultados pelos diversos setores dos respondentes das pesquisas na tentativa de identificar alguma tendência na utilização da tecnologia. FGerEstoque 5 FPedidos FProdutos FRuptura FNegociação FForçaTrab 4 FArmazenamento FTransporte FPerdasEstoque FManutEstoque FAtivos 3 Mean FNivelEstoque FInstalações FAssTécnica 2 1 0 Indústria Comércio Transporte Serviços Setor Gráfico 2 –Classificação por Setor – Fatores para Utilização do RFID Fonte – Pesquisa realizada A observação específica da motivação de utilização em setores da cadeia de suprimentos revela pequena diferença entre os mesmos. Respostas de maior média Menor média Industrial o melhor gerenciamento dos estoques e a velocidade de liberação dos pedidos melhorias nas negociações Comercial melhor gerenciamento dos estoques e a redução do nível de estoques aumento da produtividade na utilização de ativos. Transportes o aumento da produtividade na utilização de ativos e na seqüência a movimentação e transporte e o melhor gerenciamento dos estoque redução nos custos de recall e assistência técnica mais eficiente Serviços melhor gerenciamento dos estoques melhorias nas negociações. 3.3 Utilização da Tecnologia nas Áreas REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 condições condições de de 112 Áreas que farão melhor uso do RFID Freqüência 25 20 IATrasnporte 15 IAArmazenagem 10 IAMaterias IAProcProdutivo 5 0 Muito importante Importante Pouco importante Pouquissimo importante Importância Gráfico 3 –Áreas que farão melhor uso do RFID Fonte – Pesquisa realizada Conforme observado, no Gráfico 3, a maioria dos respondentes considera que a área de movimentação de materiais fará o melhor uso da ferramenta RFID vindo na seqüência: área de armazenagem, transporte, processo produtivo. Este resultado poderia ser esperado no entanto caberia novas pesquisas especificas para determinar com maior precisão esta preferência. Ganho de produtividades esperada ou obtida com a tecnologia Freqüência Ganhos na Produtividade com a Utilização do RFID 16 14 12 10 8 6 4 2 0 IPForçaTrab IPArmazenamento IPTrasnporte IPEstoque IPManutEstoque Muito Importante Importante Pouco Importante Pouquíssimo Importante Não importante Importância Gráfico 4 –Ganhos na Produtividade com a Utilização do RFID Fonte – Pesquisa realizada Em relação aos ganhos na produtividade que a utilização da ferramenta RFID pode proporcionar, segundo o resultado da pesquisa mostrado no gráfico acima, por ordem de importância foram: a movimentação e transporte, aumento da eficiência da força de trabalho, redução nos custos de armazenagem, redução das perdas de estoque e redução nos custos de manutenção de estoques. 3.4 Aspectos que Influem no Desempenho Proporcionado pela Tecnologia Procurou-se identificar que aspectos influem no desempenho empresarial e sob diferentes perspectivas. Utilizou-se uma certa profusão de possíveis aspectos de influencia de forma a ressaltar os de maior incidência. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 113 Classificação Geral - Aspectos Influentes no Desempenho da Cadeia A nu m A Pe Ve d l o i do cT s A r an R a s A st p vi A si tiv bi o lid ad A Ad e d a A ura do Pr b s od ilid D a A em de id e an A ntif da pr i c o d aç A uti ão C vi on da tE d A sto e Pr q A ec ue Lo is ca ão A liz Inf At aI en te di ns m A en P A ro to D A isp teç R ep Es ão t A osi oqu pe çã e r s oP on r a od A liza re ç ci ão cl ag em Freqüência 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Aspectos Gráfico 5 – Classificação Geral – Aspectos Influentes no Desempenho da Cadeia( a letra A identifica aspecto) Fonte – Pesquisa realizada Como os respondentes podiam apontar diversas respostas fica evidente que alguns aspectos salientam em relação aos demais, embora algumas vezes com valores não muito diferentes de respostas. No entanto observa-se que os aspectos visibilidade ao longo da cadeia de abastecimento (190), rastreamento adequado e preciso de recursos (ativos)(180), controle de estoques(180) e a precisão nas informações de armazenamento e velocidade na expedição(180), destacam-se dos demais apontados. 3.5 Influência do Setor na Indicação de Performance Propiciada pela Tecnologia. Aspectos que Influenciam no Desempenho da Cadeia ANumPedidos 7 AVelocTransp ARastAtivo AVisibilidade 6 ADados ADurabilidade AProdDemanda 5 AIdentificação Mean AProdutividade 4 AContEstoque APrecisãoInf ALocalizaItens 3 AAtendimento AProteção ADispEstoque 2 AReposiçãoProd APersonalização AReciclagem 1 0 Indústria Comércio Transporte Serviços Setor Gráfico 6 –Classificação por Setor – Aspectos Influentes no Desempenho da Cadeia Fonte – Pesquisa realizada Para o setor Industrial o desempenho na cadeia de suprimento será influenciado com o uso do RFID no seguinte aspecto rastreamento adequado e necessidade de recursos (ativos) vindo em seqüência visibilidade ao longo da cadeia de abastecimento, sendo o aspecto menos influente a diminuição do número de pedidos. O Comércio considera que a influencia se dará com os aspectos a seguir: a contagem instantânea de estoques vindo em seqüência lojas com atendimento mais rápido e auto-atendimento sendo o aspecto menos influente reciclagem inteligente de produtos. O setor de Transporte considera os aspectos maior velocidade de transporte, rastreamento adequado e preciso de recursos (ativos) bem como contagem instantânea de estoques como muito influentes no desempenho da cadeia, sendo o menos REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 114 influente a diminuição do número de pedidos. O setor de Serviços considera que a influencia se dará com os aspectos a seguir: rastreamento adequado e preciso de recursos (ativos) e reconhecimento dos dados sem necessidade da proximidade da leitora e em seqüência visibilidade ao longo da cadeia de abastecimento, sendo o aspecto menos influente diminuição do número de pedidos. 3.6 Barreiras para a Utilização da Tecnologia A principal idéia nesta seção era a de destacar quais seriam as dificuldades para a implantação da tecnologia visto que a maior parte dos respondentes ainda não a utilizava. Barreiras para a Utilização do RFID 20 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 Custo Elevado Aumento Preço Materiais Usados Frequencia Privacidade Outros Barreira 1 Barreira 2 Barreira 3 Barreira 4 Barreira 5 Barreira 6 Gráfico 7 –Barreiras para a utilização do RFID Fonte – Pesquisa realizada A maior barreira para a utilização do RFID apontada pelo mercado foi custo elevado em relação aos sistemas de código de barras, em seguida aparecem aumentos no preço final dos produtos, padronizações das freqüências utilizadas para que os produtos possam ser lidos por toda a indústria, uso em materiais metálicos e condutivos relativos ao alcance de transmissão das antenas, e o obstáculo que apresenta menor barreira é invasão da privacidade dos consumidores por causa da monitoração das etiquetas nos produtos. 3.6 Nível Hierárquico de Decisão Utilizada pela Tecnologia O principal interesse desta questão referia-se à duvida dos pesquisadores quanto ao seu grau de importância nos diferentes níveis de decisão empresarial. Utilização do RFID nos Níveis de Funcionalidade 30 Freqüência 25 20 NívelControle 15 NívelPlanejam ento 10 NívelDecis ão 5 0 Utilizada Não Utilizada Utilização Gráfico 8 : Utilização do RFID nos Níveis de Funcionalidade Fonte – Pesquisa realizada REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 115 Dentre os níveis de funcionalidades dos sistemas de informações logística o nível de controle gerencial foi apontado como o que mais utilizaria os dados coletados por essa ferramenta. Neste caso as respostas foram separadas nos casos de respondentes que utilizam e aqueles que não utilizam a tecnologia com resultados muito diferentes demonstrando a diversidade de perspectiva entre eles. 4. Resultados com o Uso da Tecnologia Freqüência Resultados Obtidos com o Uso do RFID 12 10 8 6 4 2 0 Cortar os custos de verificação Controle de inventário Prevenção contra perdas Rastreamento Devolução de e produtos gerenciamento dos ativos Rastreamento Gerenciarem o da origem dos inventário mais produtos. eficiente Planejamento do inventário Design do produto Outros: Resultados Gráfico 9: Resultados Obtidos com o Uso do RFID Fonte – Pesquisa realizada As respostas que se destacam estão relacionadas com o controle de estoques em geral tendo-se as respostas mais nítidas nestes itens. 4.1 A Expectativa de Uso da Tecnologia Pretendia-se entender neste caso a importância que a tecnologia poderia sugerir aos respondentes da pesquisa. A Importância da Utiliz ação do RFID 35 Freqüência 30 25 20 Sim 15 Não 10 5 0 Evitar Exclusão Acompanhar Mercado Aumentar Produtividade Inovadora Gráfico 10 : A Importância da Utilização do RFID Fonte – Pesquisa realizada Observa-se que os aspectos aumentar a produtividade e a competitividade, bem como ter um posicionamento inovador revelaram ser os principais expectativas pelo uso da tecnologia. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 116 5.CONCLUSÕES Os dados obtidos permitiram atingir o principal objetivo da pesquisa identificando os diversos fatores que influem no desempenho das cadeias de suprimentos e os diversos objetivos secundários. Segundo a amostra examinada a utilização desta tecnologia ainda é muito pequena o que se torna um achado da pesquisa e colocou os resultados na condição de expectativas dos respondentes em sua maioria. Em geral os profissionais respondentes da área possuem importante expectativa positiva para o uso do RFID em relação a possibilidade de desempenho maior no gerenciamento dos estoques de forma mais eficiente. A expectativa está relacionada à maior produtividade na movimentação e transportes reduzindo custos de armazenagem, perdas e manutenção de estoques, desta forma, a área que faria melhor uso do RFID seriam as áreas de movimentação de materiais e armazenagem. O melhor gerenciamento de estoques é apontado como motivo principal para a utilização da ferramenta. Por outro lado observou-se nesta pesquisa que, de forma geral, grande expectativa no uso da RFID resulte em um melhor desempenho do gerenciamento da cadeia de suprimentos por melhorar a visibilidade ao longo da cadeia bem como por possibilitar um rastreamento de recursos mais adequado e preciso. O aumento da produtividade e da competitividade são os resultados apontados como mais importantes para que se utilize a ferramenta. Analisando os resultados da pesquisa por setores empresariais observa-se que os setores industrial, comercial e de serviços concordam que o fator que os levariam a utilizar o RFID seria o melhor gerenciamento dos estoque, no entanto, o setor de transportes considerou como mais importante o aumento da produtividade na utilização de ativos. A análise feita por setor, também, indica que o setor de transporte considera que o uso do RFID influencia o desempenho da cadeia por permitir uma contagem instantânea de estoques, um rastreamento adequado e preciso dos recursos (ativos) e por melhorar a velocidade de transporte. O setor Industrial concorda com o maior desempenho no rastreamento adequado de ativos, mas também aponta a visibilidade ao longo da cadeia outro fator de influencia no desempenho da cadeia de suprimentos. O setor comercial aponta a contagem instantânea de estoques, assim como o setor de transportes. E o setor de serviços aponta o rastreamento adequado e preciso de recursos (ativos), o reconhecimento dos dados sem necessidade da proximidade da leitora e em seqüência visibilidade ao longo da cadeia de abastecimento. Entretanto, os profissionais consideram que a principal barreira à implantação do RFID é seu custo elevado e o seu reflexo nos preços de venda dos produtos. Destacou-se também na pesquisa a preocupação quanto à padronização das freqüências utilizadas para que os produtos possam ser lidos por toda a indústria. Os resultados obtidos com a pesquisa apontam uma visão muito parecida com aquela das empresas pioneiras na implantação da nova tecnologia, como as já pesquisadas Wal-Mart e grupo CBD. Sua utilização esta se dando inicialmente no gerenciamento de estoques e centros de distribuição, exatamente nas áreas em que foram apontadas pela pesquisa realizada como as que trazem maiores benefícios. Sugerimos como estudos futuros que sejam feitas pesquisas mais aprofundadas com relação à cadeia de suprimento, para verificar se há algum elo e/ou setor específico que fará melhor uso REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 117 dessa ferramenta; identificar a aceitação dos clientes finais em relação ao uso do RFID no mercado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALLOU, Ronald H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: Planejamento, Organização e Logística Empresarial. 4ed. Porto Alegre: Bookman, 2004. BERNARDO, Cláudio Gonçalves. A Tecnologia RFID e os Benefícios da Etiqueta Inteligente para os Negócios. Disponível em: http://www.unibero.edu.br/download/revistaeletronica/ Set04_Artigos/A%20Tecnologia%20RFID%20-%20BSI.pdf. Acesso em 30/02/2006. BOWERSOX, Donald J.; CLOSS, David J. Logística Empresarial: O Processo da Integração da Cadeia de Suprimento. São Paulo: Atlas, 2001. CAIXETA FILHO, José. Gestão Logística do Transporte de Cargas. São Paulo:Atlas, 2001. 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Tradução Edson Luiz Riccio. São Paulo: Atlas, 1998. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 119 PERFIS E CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDOR DE NEGÓCIO E DO EMPREENDEDOR SOCIAL: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO Gilmara de Oliveira Tavares Luiza Aparecida Balduino Tatiane Alexandre Silva Vânia Maria Jorge Nassif RESUMO Esta pesquisa teve por objetivo identificar os perfis e características do empreendedor social e do empreendedor de negócios. O referencial teórico traz os autores de referencia na área e, por meio de seus estudos, foi possível conhecer os pressupostos teóricos do tema em questão. Tratase de uma pesquisa de natureza exploratória cujo método é o qualitativo. A entrevista foi o instrumento escolhido para levantamento de dados, por meio de um roteiro semi-estruturado permitindo aos respondentes oportunidades para expressarem livremente suas experiências como empreendedores. Foram entrevistados quatro empreendedores sociais e quatro empreendedores de negócios, totalizando-se oito entrevistas. Os dados foram tratados por meio de análise de conteúdo, conforme Bardin (1977), contemplando onze categorias de respostas para análise de resultados. Os resultados da pesquisa demonstram que, de maneira geral, existem convergências e divergências entre os empreendedores sociais e de negócios. Ambos contrapõem características e perfis apresentando diversas formas para liderar com um empreendimento, seja uma empresa privada ou uma instituição sem fins lucrativos. Dessa forma, os dados mostram que em alguns pontos há semelhanças em seus perfis, pois são determinados, otimistas, acreditam e tem amor pelo que fazem e torcem para dar certo. Outros pontos são divergentes e mostram que os empreendedores sociais têm um comportamento mais afetivo relacionado ao trato com pessoas. Já o empreendedor de negócios tem o seu comportamento centralizado no negócio enfatizando o gosto pela liderança e pelo próprio negócio. Palavras-chave: empreendedor social; empreendedor de negócios; perfil, características INTRODUÇÃO Os pequenos negócios têm mostrado uma importância crescente como propulsores do desenvolvimento econômico e social no mundo todo. No Brasil, o tema empreendedorismo tem sido muito discutido e vem ganhando muita importância devido ao grande número de novos negócios criados a cada ano e ao insucesso de grande parte deles (SEBRAE-SP, 2001). Isso tem ocorrido, entre outros motivos, pela degradação do trabalho formal e o aumento dos índices de desemprego. As pequenas e médias empresas estão ganhando espaço no mercado nacional, o que leva a crer que essas empresas têm à sua frente, empreendedores de negócios. Com isso, esse tema se torna alvo para estudos e entendimentos do que vem a ser um empreendedor. Ao longo do tempo, surge um conceito do empreendedorismo, voltado para área social, conhecido como empreendedorismo social. O Empreendedorismo Social teve base no Terceiro REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 120 Setor, mais precisamente nas ONG‟s – Organizações não Governamentais – e emerge no cenário brasileiro, como forma de buscar alternativas para o campo social, perante a crescente problematização e a redução dos investimentos públicos no campo social, o crescimento das organizações do terceiro setor e da participação das empresas no investimento em ações sociais. A noção encontrada na literatura de empreendedorismo social não possui viés economicista, pelo contrário, como o próprio termo aponta, seu viés é social, ou seja, focado nas questões da sociedade e nas relações sociais. Assim, o empreendedorismo de caráter social tem como finalidade a gestão de um empreendimento coletivo, para promover o desenvolvimento sócioeconômico. Desta forma, essa pesquisa tem por objetivo entender quem é o empreendedor social, visto que a literatura e estudos científicos, voltados para esse tema são ainda incipientes. Será também, objeto de estudo dessa pesquisa, diferenciar o empreendedor de negócios do empreendedor social. Para tanto, esta pesquisa está organizado da seguinte maneira: na primeira parte, há uma parte dedicada ao referencial teórico cujo objetivo foi o de procurar entender o que os pesquisadores da área têm estudado. Os procedimentos metodológicos apontam a estrutura da pesquisa e como ela foi desenvolvida. Posteriormente foi realizada uma pesquisa de campo com empreendedores de negócios e sociais, e os resultados foram analisados à luz do referencial teórico. Para finalizar, as conclusões apresentam o olhar das autoras para esse fenômeno e apresentam-se as limitações, bem como a recomendações de novos estudos. 1.REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Empreendedor e Empreendedorismo No mundo contemporâneo, as mudanças são cada vez mais constantes e incertas provocando competições mais acirradas em um ambiente desafiador. A sociedade tem procurado operar com uma diversidade de modelos de trabalho, fazendo surgir diferentes tipos de atores sociais atuando em mercados locais, regionais, globais e até mesmo internacionais. Frente a essa diversidade de contexto, motivação surge nesse cenário à figura do empreendedor e como sua ação, o empreendedorismo. O empreendedorismo, enquanto conceito faz parte da experiência humana desde a criação do homem, mas apenas nos últimos dois séculos passaram a ser estudado de maneira formal, e somente há 50 anos passou a ser objeto de interesse científico significativo (FALCONE 2005). Esses autores afirmam que é comum encontrar, em trabalhos científicos, o estudo do empreendedorismo qualificado como confuso, nebuloso e complexo. Para tanto, faz-se necessário explorar os diferentes conceitos encontrados na literatura com o intuito de buscar pelo conceito de empreendedor social e, por conseqüência, entender esse ator social frente ao empreendedor de negócio, que, de certa forma, tem sido mais explorado nos estudos científicos. São diversos os conceitos encontrados na literatura sobre empreendedorismo como [...] o processo de criar alguma coisa diferente com valor pela dedicação do tempo e do esforço necessário, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais associados, recebendo as recompensas resultantes na forma de satisfação monetária e pessoa. (HISRICH, PETERS, 2003, p.29) REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 121 Percebe-se na afirmação dos autores, que o empreendedorismo relaciona a estabilização do empreendimento e o retorno monetário associados à satisfação pessoal. Timmons (1999) define empreendedorismo como criação e distribuição de valor, tendo benefícios para o próprio indivíduo, organizações e sociedade. Degen (1989) afirma que “ser empreendedor significa ter, acima de tudo, a necessidade de realizar coisas novas, pôr em prática as idéias próprias, característica de personalidade e comportamento nem sempre fácil de encontrar”. Para Filion (1999), o verdadeiro empreendedor é aquela pessoa que imagina, desenvolve e realiza suas idéias e visões. Seguindo o raciocínio do autor pode-se entender o empreendedorismo como o estudo da natureza comportamental do ser humano enfrentando seus desafios. Assim, observa-se que o conceito de empreendedor apresenta diferentes facetas. Visando sintetizar diferentes visões, o Quadro 1, reúne algumas definições. Quadro 1 – Desenvolvimento dos conceitos de empreendedorismo e do termo empreendedor Data Autor Definição 1961 David McClelland Alguém dinâmico que corre riscos moderados. 1964 Peter Drucker O empreendedor maximiza oportunidades. 1975 Albert Shapero O empreendedor toma iniciativa, organiza alguns mecanismos sociais e econômicos, e aceita riscosde fracasso. 1980 Karl Vesper O empreendedor é visto de forma diferente economistas, psicólogos, negociantes e políticos. 1983 Gifford Pinchot O intra-empreendedor é um empreendedor que atua dentro de uma organização já estabelecida. Robert Hisrich O empreendedorismo é o processo de criar algo diferente e com valor, dedicando o tempo e o esforço necessários, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais correspondentes e recebendo as conseqüentes recompensas da satisfação econômica e pessoal. 1985 Fonte: Adaptado de Hisrich e Peters (2004) O Quadro 1 revela que o conceito de empreendedorismo vem se aprimorando ao longo dos anos, as características sobre o empreendedor vem sendo identificadas. Pode - se destacar o fato de que um dos perfis do empreendedor é saber lidar com os riscos conforme citado pelo autor Hisrich (2004). Ainda considerando os riscos Dornelas afirma que “o empreendedor é aquele que detecta uma oportunidade e cria um negócio para capitalizar sobre ele, assumindo riscos calculados” (2001 p.37). Drucker (1999) cita a importância da maximização de oportunidades para o empreendedor assim como Timmons (1999) define o empreendedor como uma pessoa que consegue identificar oportunidades e sabe aproveitá-las transformando-as em negócios de sucesso. Dolabela (2003) complementa, os empreendedores conseguem mesmo sem recursos explorar a oportunidade, pois ele sabe como gerenciar. Considerando o objetivo do presente artigo, será necessário identificar, conforme a literatura, as diferenças apontadas entre empreendedor de negócios e o empreendedor social. Dornelas (2001) relata que os empreendedores de negócios freqüentemente são confundidos com gerentes e administradores, sendo considerados aqueles que dirigem e controlam ações REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 122 desenvolvidas na organização. Conclui que todo administrador tem que ser um bom empreendedor e também cita as semelhanças entre administrador e empreendedor que segundo Rosemary Stewart (1982), do Oxford Center, existe três semelhanças: demandas (o que tem que ser feito), restrições (fatores internos e externos da organização que limita o que o responsável pode fazer) e alternativas (identificam as opções que o responsável tem na determinação do que fazer e como fazer). O empreendedor tem papel fundamental na sociedade, seja numa empresa privada ou numa administração de organizações sem fins lucrativos. Com isso pode-se perceber que o empreendedor passa a atuar por sentimento de satisfação pessoal sendo considerado como uma pessoa motivada, ou seja, de auto-realização pessoal. Considerando a realização pessoal do empreendedor em diferentes organizações, Hisrich (2004) afirma: [...] esse crescente interesse é promovido por fatores como o reconhecimento de que pequenas firmas que desempenham um papel importante na criação de empregos e na inovação [...] as maiores estruturas organizacionais não oferecem um ambiente para a auto-realização. (2004, p.36) Assim, diante dessas observações, compreende-se que a determinação e necessidade de autorealização do indivíduo podem levar ao estabelecimento de um novo negócio. Fica evidente que o empreendedor é mencionado como alguém que consegue realizar seus desejos, obter sucesso e se sair sempre bem. E esses conceitos advêm de pesquisas de diferentes escolas de pensamentos e têm revelado um campo de estudo repleto de controvérsias acadêmicas, marcadas por uma ausência quase completa de consenso e que tem se caracterizado por um elevado grau de fragmentação (UCBASARAN; WESTHEAD; WRIGHT, 2001). Dornelas (2001) pontua que o empreendedor de sucesso possui características extras, além dos atributos do administrador, algumas características pessoais que somados as características sociológicas e ambientais, permitem o nascimento de uma nova empresa, ou seja, de uma idéia surge uma inovação. Estes empreendedores de sucesso são visionários, reflete como será seu negócio e sua vida e tem habilidades para sonhar. Sabem tomar decisões na hora certa e programam rapidamente seus negócios. Identificam oportunidades na ordem presente. Hisrich (2004), afirma que muitos empreendedores tiveram pais também empreendedores, isso demonstra que a influência familiar faz parte da decisão e conhecimento do empreendedor. Os empreendedores se apaixonam pelo negócio e sacrificam tudo para garantir sobrevivência, pois o empreendimento assume prioridade na vida do empreendedor se tornando uma fonte de autoestima. Para Filion (1999), o empreendedor possui diferentes características como: pessoas criativas, que tem metas estabelecidas para atingir seus objetivos, mantêm postura e consciência no ambiente e nas pessoas que convive, está sempre buscando conhecimento e aprendizagem, consegue desenvolver suas habilidades, as decisões tomadas são de riscos moderados, está sempre inovando com suas idéias, imagina e realiza suas visões. Destaca também que não se pode avaliar uma pessoa e afirmar que ela vai ser bem-sucedida enquanto empreendedor ou não. Mas pode-se dizer se essa pessoa possui características mais comumente encontradas nos empreendedores. Filion (1999) complementa que a pesquisa sobre empreendedores bemsucedidos permite aos novos empreendedores identificarem as características que devem ser aperfeiçoadas para a obtenção do sucesso. Os empreendedores são indivíduos internamente motivados para atuar em seus negócios com autoconfiança, mais desejosos de independência e autonomia que pessoas não empreendedoras. São pessoas que possuem predisposição para o progresso, têm uma percepção mais arrojada REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 123 sobre o futuro e as próprias condições, para enfrentar os fatores diversos ao meio. Acredita na capacidade do homem em construir o próprio destino, melhorar o ambiente externo e encarar situações difíceis como desafios (SOARES, 1996, p. 207-208). Kests de Vries apud Birley e Musyka (2001), refere-se aos verdadeiros empreendedores, pessoas que possuem as mesmas características, como pessoas que caminham para realizações e gostam de assumir responsabilidades em tomar decisões, também considera como pessoas que não gostam de trabalho repetitivo e rotineiro. Para refletir o empreendedorismo social, conforme Mello Neto e Froes (2001) faz-se necessário mencionar a globalização, considerando que a pobreza, a necessidade do desenvolvimento humano, os problemas econômicos, políticos e sociais, se disseminaram em meados dos anos 90, período em que começa a se desenvolver o conceito de empreendedor social, sobretudo, no Brasil. Lanni (1997, p.79), diz que a globalização fecha, destrói, mas, também abre novos horizontes, para se pensar, ver e agir sobre um mundo em constante transformação, criando inibições e deflagrando novas condições para uns e outros indivíduos, grupos, classes, movimentos e nações. Cria outras possibilidades de ser, agir, pensar e imaginar. Dees (2002) ressalta que o empreendedorismo social surge de uma falha governamental e filantrópica. Devido à ineficiência das organizações sociais, sentiu-se a necessidade de trazer pessoas que focassem em resolver problemas sociais, criando novos modelos para o empreendedorismo social e afirma que o termo é novo, mas o fenômeno não, “o novo termo é importante, uma vez que implica na indistinção das fronteiras do setor social” (DEES, 2002, p.1). Melo Neto & Fróes (2001), defendem que um dos problemas das organizações sociais cuja demanda para esses novos empreendedores vem do investimento errado efetuado pelo terceiro setor. Criticam o estado em relação aos projetos que são investidos que só visam intenções populistas e objetivos eleitorais. Já Drucker (1996) acredita que o empreendedorismo social vem de uma passagem de uma sociedade agrícola para uma sociedade da informação e como as questões sociais vieram se tornando mais importantes não somente para o Estado, mas também para a sociedade como um todo, em específico, junto ao trabalho das Organizações do Terceiro Setor. Oliveira (2002) acrescenta que o empreendedorismo social é derivação do empreendedorismo empresarial e que surge através do crescimento do Terceiro Setor e ressalta que há pouca bibliografia sobre o assunto, tanto no Brasil quanto no exterior, demonstrando ser um tema novo e ainda em desenvolvimento com oportunidade para amplas pesquisas. Dentre os primeiros sinais de empreendedorismo social no Brasil podemos destacar que em 1980 a fundação da Ashoka por Drayton, acreditou no potencial dos empreendedores sociais para os problemas sociais no Brasil. A Ashoka tem como objetivo designar fundos para os empreendedores sociais e disponibilizar uma rede profissional dentro as quais eles possam disseminar idéias e soluções (BARENDSEN & GARDNER, 2004). A idéia de empreendedorismo social evolui a partir da necessidade de integrar a parte econômica e social da comunidade buscando o benefício e o bemestar da sociedade. Tentando através da sociedade ações empreendedoras que possam solucionar os problemas sociais vigentes e dar-lhes suporte cívico, político, ético moral e cultural. (MELO NETO & FRÓES, 2001, p. 81). Esses autores pontuam que o empreendedorismo social, é uma ação coletiva que envolve pessoas da comunidade buscando a integração e o desenvolvimento dessas pessoas. E buscam através dessas ações, solucionar os problemas da comunidade e ao produzir bens e serviços para a mesma. Portanto, o foco é buscar soluções para os problemas sociais mediante necessidades da comunidade, medindo o sucesso através do desempenho, impacto social das atuações, atitudes e comportamentos, ou seja, o número de pessoas no programa ou projeto de empreendedorismo social. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 124 Os empreendedores sociais fazem o papel de agentes da mudança no setor social, adotando uma missão para criar e sustentar o valor social. Agindo corajosamente sem ser limitado por recursos atualmente à disposição. (JOHANNA MAIR; IGNASI MARTÍ, 2005). O empreendedor social segundo Dees (2002) é uma das espécies do gênero dos empreendedores que têm uma missão social no papel de agentes de mudanças. Defende ainda que as ações dos empreendedores sociais visem um ganho sem necessariamente ser o lucro conforme seria numa organização privada. Já Rouere e Pádua (2001), dizem que constituem a contribuição efetiva de empreendedores sociais inovadores cujo trabalho na área social produz desenvolvimento sustentável, qualidade de vida e mudança de paradigma de atuação em benefício de comunidades menos privilegiadas. Como características do empreendedor social podem-se destaca que são pessoas com visão estratégica, habilidades e determinação, não descansam enquanto não resolverem os problemas sociais, não apenas na sua localidade, mas em todo o sistema. (BILL DRAYTON, fundador da Ashoka). Uma das características do empreendedor social segundo Dees (1988) é trabalhar constantemente na melhoria dos problemas, portanto são agentes da mudança no setor social. O empreendedor social deve adotar como missão criar e sustentar o valor social (não somente o valor confidencial), além disso, como estratégia destaca que é importante haver um processo de inovação contínua. Melo Neto & Fróes, 2002, defendem que empreendedor social é um tipo especial de líder – suas idéias fazem parte de uma metodologia para a busca de soluções para problemas sociais. Brickerhoff (2000) considera que os empreendedores sociais estão sempre dispostos a agregar valores aos serviços existentes, bem como a servir aos seus colaboradores com novas formas de gestão. Por outro lado, Rao (1998) pontua que os empreendedores sociais, são indivíduos que desejam colocar suas experiências organizacionais e empresariais mais para ajudar os outros do que para ganhar dinheiro. Apresenta que empreendedor social possui as seguintes características:Dispostos a correr riscos; - Entendem a diferença entre necessitar e querer; - Mensuram o retorno social e financeiro de cada um dos investimentos; - Sempre têm uma missão, mas sabem que sem dinheiro não há missão que se conclua. É importante destacar também que a Fundação Schwab (importante organização direcionada aos empreendedores sociais da Suíça) estabelece algumas diretrizes a respeito das características mínimas que um empreendedor social precisa para ser aprovado em um projeto nessa fundação: Inovação: deve apresentar uma idéia, um produto ou um serviço que dê um novo enfoque para solucionar problemas sociais; - Modelo a seguir: apresentar qualidades que são referência para outros empreendedores e para a sociedade em geral, comprovando sua integridade; - Valor adicionado: o candidato deve apresentar condições de se comprometer com a necessidade de pensar na alimentação e apoio da rede de empreendedores sociais da fundação não só com o seu projeto. Em relação às estratégias desenvolvidas pelos empreendedores sociais, outra característica que se pode destacar é capacidade de explorar todas as opções do recurso, da filantropia até métodos comerciais do setor do negócio. Suas estratégias têm que ser elaboradas considerando os recursos adquiridos, além disso, calcula riscos e controlam o aspecto negativo, para reduzir o dano que resultará da falha. (GREGORY DEES, 1998). Aponta ainda as seguintes características em relação ao empreendedor social: - Adotar uma missão de gerar e manter valor social; Buscar novas oportunidades para servir a tal missão; - Engajar-se num processo de inovação e aprendizado contínuo; - Agir arrojadamente sem se limitar pelos recursos disponíveis; Transparência para com seus parceiros e públicos de interesse; - Determinação em relação a sua visão, missão e como devem agir;- Avalia seu progresso, não somente pelo tamanho ou pelo processo e sim pelos resultados sociais, financeiros e de gestão. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 125 Os empreendedores sociais são tidos como pessoas com visão, experiência e talento que buscam soluções inovadoras para problemas sociais em grande escala nas áreas do meio ambiente, educação, direitos humanos, saúde, participação cidadã e desenvolvimento econômico. São tidos também como pessoas criativas, visionárias, práticas e pragmáticas. Busca criar mudanças ultrapassando as barreiras e gerando impacto social positivo na região onde atua, através de ações inovadoras e com estratégias concretas para disseminação de suas idéias. (ASHOKA, 2007). Shaw (2004, p.196), pontua que o empreendedor social possui o perfil de: - Criatividade: usa se soluções radicais para enfrentar e solucionar os problemas sociais; - Empreendedor: apresenta seus projetos, negocia suas necessidades, manda suporte para suas idéias e conquista efetivamente os recursos; - Determinado: demanda que suas idéias ou propostas farão uma maior diferença quando implementadas com sucesso; - Ético: Assegura que dinheiro público seja bem usado, que idéias não sejam corrompidas através de interesses adquiridos e que seu compromisso seja avaliado pelo projeto. Um dos perfis importantes de um empreendedor social é conseguir tratar a falha de um projeto como uma experiência de aprendizagem, não uma tragédia pessoal. Agir corajosamente sem ser limitado por recursos atualmente à disposição. Os empreendedores sociais não deixam seus próprios recursos limitados mantê-los de perseguir suas visões. São hábeis em fazer mais com menos. (J. GREGORY DEES, 1998). Segundo Dees (2002), o objetivo principal do empreendedor social é a missão social voltado para solucionar os diversos problemas encontrados na sociedade, além de propiciar a integração das pessoas, produzirem bens ou serviços sem visar o lucro, produzir para a comunidade, ou seja, preparar as pessoas até que elas possam caminhar sozinhas. Um dos principais papéis do empreendedor social é a cidadania com enfoque no valor dos cidadãos: “Criam novas organizações, abrem seus próprios negócios, vão à busca de recursos, tecem novas redes de colaboração e apoio mútuo, investem seu tempo e seus poucos recursos naquilo em que acreditam e acalentam dia-a-dia seus sonhos de transformação” (MELO NETO & FRÓES, 2001, p. 14) Para um empreendedor social, a missão social é fundamental, missão da melhoria social que não possa ser reduzida a criar benefícios confidenciais (retornos ou benefícios financeiros do consumo) para indivíduos. Dees (1998) destaca que o lucro não é o calibre da criação do valor; nem é a satisfação de cliente; o impacto social é o que importa para o empreendedor social, querem mais do que um impacto rápido; querem criar melhorias duráveis. Drayton fundador da Ashoka (1988) diz que o empreendedor social precisa ter idéias criativas e inteligentes que possam se transformar em um novo padrão para a sociedade como um todo, ser totalmente confiáveis, pois segundo ele o mundo já possui um número suficiente de líderes corruptos. Segundo Gohn (1998), o processo de crescimento do terceiro setor, está relacionado com os movimentos sociais no inicio dos 80, com a abertura da política e a queda da ditadura militar que sofreu um refluxo nos anos 90, decorrente aos despreparos dos movimentos sociais. “A maior parte dos movimentos sociais populares entrou, nos anos 90, despreparados diante da nova conjuntura de políticas sociais estatais de parcerias entre estado e entidades da sociedade civil organizada”. (1998, p.11). 1.2 As diferenças e semelhanças entre empreendedor de negócios e o social REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 126 A primeira diferenciação feita por Melo Neto & Froes (2001) entre o empreendedorismo social e o empreendedorismo de negócio estão focadas em alguns aspectos: o empreendedor social não produz bens e serviços para vender, mas para solucionar problemas sociais. Seu objetivo é solucionar situações de riscos (exclusão social, pobreza, miséria). Já o empreendedor de negócios trabalha com:- idéias e oportunidades econômicas e atuam desenvolvendo-as, precisa reunir capital, trabalho e outros recursos para a produção de bens e serviços para venda. Além disso, em relação a idéias e inovações os empreendedores de negócios primeiro identificam as oportunidades para depois desenvolverem as idéias já os empreendedores sociais buscam soluções inovadoras para os problemas sociais existentes e potenciais. (MELO NETO & FROES, 2001). Ao que se refere a criatividade e inovação, William Drayton fundador da Ashoka defende: “Criatividade e imaginação dos empreendedores sociais não devem nada às dos empreendedores do setor privado.Ao contrário, são muitas vezes mais criativos e determinados, pois o risco é maior quando envolve vidas humanas. Suas idéias,conceitos e metodologia não são objetos de apropriação individual e intelectual,como o fazem os empreendedores privados” . (MELO NETO E FROES, p. 9) Para Thalhuber (1998) tanto os empreendedores sociais, como os empresariais, têm similaridades, pois “ambos estão criando demanda, obtendo recursos e convertendo idéias em produtos e serviços [...] são orientados à ação e focados na realidade”. A grande diferença, segundo o autor, está no sentido do empreendedor social que segundo ele apresentam algumas características especiais: focam ganhos à longo prazo e uma organização sólida; lucros são um meio e não um fim; o lucro é investido na própria organização, não vai para os sócios e gera autonomia para a organização. Serve para ajudar mais as pessoas sempre buscando melhorar a qualidade de vida de todos, ao contrário de distribuí-las às partes interessadas; desenvolve a habilidade de suas organizações de estar responsáveis pelos seus próprios destinos e não focar nas prioridades dos doadores. Conclui o autor, os empreendedores sociais parecem combinar o melhor dos dois mundos. Eles sintetizam o foco, com a orientação necessária nos resultados para ter sucesso no mundo dos negócios, com a abnegação, a paixão e a humanidade que dirigem os ativistas sociais. O Quadro 2 faz uma comparação entre o empreendedor social e o de negócios e suas diferenças por diferentes autores: Quadro 2 – Diferenças entre o empreendedor social e de negócio (Jim Thalhuber) Empreendedores de negócio Força é experiência pessoal, conhecimento e energia Foco em pequenos termos financeiros ganhos Sem limite no tipo ou liberdade de idéias Empreendedores sociais Força é sabedoria coletiva e experiência organizações, é a chave de financiadores Foco na construção de longos termos da capacitação organizacional Idéias baseadas na organização estão na missão e no centro de competências Lucro é um fim, objetivo Lucro é um significado Lucro embolsado e/ou distribuído para acionistas Lucro retorna à organização na ordem para servir mais pessoas e/ou encontrar grandes resultados Riscos pessoas e/ou financiador em ativos Riscos ativos organizacional, imagem e crença pública REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 127 Diferenças entre o empreendedor social e de negócio (Melo Neto & Froes) Empreendedorismo Privado Empreendedorismo Social é individual é coletivo produz bens e serviços para o mercado produz bens e serviços para comunidade tem o foco no mercado tem foco na busca de soluções para problemas sociais sua medida de desempenho é o lucro sua medida de desempenho é impacto social visa satisfazer a necessidade dos clientes e ampliar potencialidades dos negócios visa resgatar pessoas da situação de risco social e promovê-las Fonte: Melo Neto & Froes(2001); Jim Thalhuber (1998) Além das diferenciações citadas acima Melo Neto & Froes (2001) destacam ainda alguns pontos importantes sobre esses dois empreendedores. Sobre medida desempenho e retorno os autores defendem que o empreendedor social mede seu retorno com base na melhoria da qualidade de vida da comunidade, ou seja, os problemas sociais resolvidos, já o empreendedor de negócios mede seu retorno na economia, baseado nos resultados financeiros que geralmente mostra o sucesso de seu projeto, ou seja, prevalece a busca do lucro e aumento das vendas e retorno do investimento. Outra característica que diferencia os empreendedores de negócio do empreendedor social é que o segundo possui paixão e humanismo pelas causas sociais. Dessa forma, uma característica marcante do empreendedor social é a capacidade de tornar sonhos em realidade. Thalhuber (1998) ressalta que os empreendedores sociais devem possuir idéias inovadoras para mudar o modelo da sociedade [...] partem de uma única qualidade organizacional para perseguir sua visão até tornarem-se uma realidade socialmente extensa. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Esta pesquisa teve por objetivo identificar se as características dos Empreendedores Sociais diferem das características dos Empreendedores de Negócios. Os objetivos específicos deste estudo ficaram assim definidos: Identificar perfis e características dos empreendedores sociais e dos empreendedores de negócios baseado na literatura; Desenvolver um mapa de características reveladas na literatura para comparar com a pesquisa de campo; Analisar os resultados e verificar aspectos convergentes e divergentes em relação a esses dois atores sociais. Com base no problema de pesquisa em questão, optou-se pela pesquisa exploratória cujo método foi o qualitativo. Participaram da pesquisa quatro empreendedores sociais e quatro empreendedores de negócios. Para empreendedores de negócios os respondentes foram empreendedores de pequenas e médias empresas de ramos de mercado distintos e os empreendedores sociais, pessoas que atuam na área da saúde, com crianças, pessoas carentes e mulheres e participaram da pesquisa. Os critérios de escolha foram acessibilidade e localização de atuação dos respondentes. Visando preservar a identidade dos participantes da pesquisa e, para melhor identificá-los, segue as informações:- Empreendedor de Negócio 1 (E. Negócio 1);- Empreendedor de Negócio 2 (E. Negócio 2); - Empreendedor de Negócio 3 (E. Negócio 3);- Empreendedor de Negócio 4 (E. Negócio 4).Os empreendedores sociais foram intitulados como:- Empreendedor Social 1 (E. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 128 Social 1);- Empreendedor Social 2 (E. Social 2);- Empreendedor Social 3 (E. Social 3);Empreendedor Social 4 (E. Social 4). O instrumento de coleta de dados eleito para a pesquisa foi a entrevista, por meio de um roteiro semi-estruturado, objetivo e aberto que considerou os principais aspectos desta pesquisa proporcionando respostas coerentes para conclusão do estudo. As entrevistas tiveram como enfoque identificar diferentes características entre empreendedores sociais e empreendedores de negócios. Foram gravadas e transcritas na integra para assim contribuir com a análise dos resultados. Todos os empreendedores entrevistados mostraram entusiasmo com o trabalho do grupo e o tema abordado. Todas as perguntas foram essenciais para compor a análise dos resultados e os dados foram tratados à luz de Bardin (1977), em que se buscou compreender o posicionamento dos dois grupos pesquisados. As categorias eleitas para análise dos resultados foram: Formação acadêmica; Perfil e Característica; Metas e objetivos; Projetos e sonhos; Influencia familiar; Envolvimento no negócio;Relacionamento com funcionário;Experiências anteriores;Conquistas e satisfações;Conceito de empreendedor;Diferenças e similaridades entre empreendedor: social e de negócios. 2.1Análises dos Resultados A primeira categoria analisada diz respeito a formação acadêmica dos empreendedores entrevistados. Foram coletados dados como a instituição de ensino e cursos complementares ao longo dos anos. Quadro 3: Formação acadêmica dos empreendedores sociais E.SOCIAL 1 - Faculdade ABC- História E.SOCIAL 2 FASC – Serviço Social; - FMU - Terceiro Setor e PUC - Serviço Social Área Judiciária E.SOCIAL 3 - Fundação Santo André – Matemática; - Fundação Mauá - Informática / Processamento de dados; - FGV - Desenvolvimento Organizacional; - USP Gerenciamento do terceiro setor E.SOCIAL 4 - Faculdade Rio Branco – Fonoaudiologia e Psicopedagogia - Faculdade Rio Branco - Fonte: Organizado pelas autoras O Quadro 4 agrupa a formação acadêmica dos empreendedores de negócio entrevistados: Quadro 4 - Formação acadêmica dos empreendedores de negócio E. NEGÓCIOS 1 - FGV - Química industrial E. NEGÓCIOS 2 - PUC - Direito e Ciências Contábeis E. NEGÓCIOS 3 - UNESP - Direito E. NEGÓCIOS 4 - 2º Grau Fonte: Organizado pelas autoras REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 129 Em relação aos empreendedores de negócios observou-se que o nível de escolaridade, para a maioria dos entrevistados, é de ensino superior, porém, não necessariamente em cursos ligados à área de atuação dos mesmos. Isso pode ser percebido em Hirish (2004), em estudos em que o mesmo descobriu que os empreendedores têm mais escolaridade do que a população em geral. Porém, pelos tipos e qualidade da educação recebida, às vezes, não desenvolvem as habilidades para a criação de um empreendimento e processo administrativo. Já para os empreendedores sociais pode-se perceber que a maioria tem conhecimentos ligados à área social. Observa-se ainda que, todos os entrevistados têm ensino superior em cursos voltados a área social. Diferente do empreendedor de negócio, os estudos que pontuam as questões de formação são menos recorrentes nos dados que relaciona empreendedores sociais e sua formação. A categoria de resposta Perfil aglutinou os dados levantados durante a entrevista, em que os respondentes citaram um pouco sobre o seu perfil e características gerais. Esses dados estão agrupados, obtendo respostas tanto de empreendedores sociais quanto de empreendedores de negócios. Quadro 5 - Perfil dos empreendedores. Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Não tem preconceitos; Amor pelo que faz; Acreditar na causa; Trabalham sem querer nada em troca; Gostam de planejar; Criar metas; Fazer projeto na vida pessoal e profissional; Gosta da convivência com as pessoas; Ser tolerante; Ser compreensivo. Determinado; Aceitar desafios Gostar de orientar pessoas; Dedicado; Amor pelo que faz; Concentrado; Gosta da liderança; Flexível; Planejador; Inovador Comunicativo Facilidade de relacionamento interpessoal Fonte: Organizado pelas autoras Foram identificados diferentes perfis e características para os empreendedores sociais e de negócios dentro do grupo pesquisado. Percebe-se alguns pontos semelhantes nos dois grupos, pois estão relacionados à determinação, otimismos e, além disso, acreditam e tem amor pelo que fazem e torcem para dar certo. Esses dados têm semelhança quando observado a análise de Dornellas (2001), para o perfil do empreendedor de negócios, em que pontua que eles são otimistas, tem alta dedicação e são incansáveis pelo trabalho; tem amor pelo que faz se tornando os melhores vendedores de seu produto e serviço, valoriza seus funcionários tornando-se admirado, forma time. Para Shaw (2004, p.196), ainda analisando as convergências ele pontua o seguinte perfil para o empreendedor social: são determinados: demanda que suas idéias ou propostas farão uma maior diferença quando implementadas com sucesso. Ao que se refere à divergência, alguns dados coletados mostram que os empreendedores sociais têm um comportamento mais sentimental relacionado ao trato com pessoas. Já o empreendedor REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 130 de negócios tem o seu comportamento centralizado no negócio como ser verdadeiro e gostar de ser líder. Tal conceito pode-se relacionar com a análise de Hisrich (2004) que define que há um comportamento no perfil empreendedor que inclui: a iniciativa, organização e reorganização de mecanismos sociais e econômicos. Já o empreendedor de negócios, tem seu comportamento centralizado no negócio, como gostar de ser líder, verdadeiro e dedicado. A terceira categoria mostra as metas e objetivos de cada empreendedor, as quais se referem tanto as carreiras profissionais, como na vida pessoal. Quadro 6 – Metas e objetivos dos pesquisados Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Ser agente de transformação para ajudar o jovem Fazer a diferença na vida dos jovens carentes Ajudar o próximo, pessoas carentes Seguir estatuto e normas Promover a educação familiar Desenvolver atividades sócio educativas Elaborar metas através de planejamento estratégico. Aprovação de metas através de um conselho, reuniões Atingir um número maior de clientes Fidelizar os clientes Ter um bom gerenciamento nas empresas Oferecer algo novo para os clientes Fazer a empresa crescer Fazer um planejamento para alcançar as metas Fazer Reuniões para decisão e aprovação de metas Aumentar carteira de clientes Focar no melhor atendimento ao cliente Fazer um planejamento para alcançar as metas Fonte: Organizado pelas autoras Nos dados coletados, foram percebidas divergências entre os dois modelos. Uma delas é relacionada às metas que para o de negócio foi observado que as metas e os objetivos estão totalmente relacionados com o cliente e o crescimento do negócio. Para os sociais a meta e o objetivo, podem-se relacionar em como poder melhorar a ajuda ao próximo. Referente à semelhança, observou-se que tanto os empreendedores sociais quanto os de negócio fazem reuniões e planejamento para traçar suas metas e objetivos, isso vem de encontro com a teoria de Filion (1999), diz que o empreendedor possui características como: pessoas criativas, que tem metas estabelecidas para atingir seus objetivos. No quadro abaixo, compara-se quais são os sonhos dos empreendedores e ao mesmo tempo, mostra os principais objetivos dos empreendedores tanto na vida pessoal quanto no negócio. Quadro 7 - Projetos e Sonhos dos empreendedores Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Capacitar jovens; Trazer qualidade de vida para as pessoas; Ter reconhecimento do trabalho pelas pessoas; Conseguir atingir o plano; Implementar um projeto social (responsabilidade social) Abrir novas filiais em outras regiões (local e global); Oferecer melhores benefícios para os funcionários; REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 131 Capacitar e orientar pessoas que precisam obter trabalho; Ajudar pessoas se relacionarem com a sociedade; Fazer parcerias com pessoas que possam ajudar no projeto; Ajudar as pessoas e emancipá-las. Proporcionar melhores condições de trabalho (melhorar a estrutura da empresa); Oferecer cursos e treinamentos para os funcionários, capacitando o lado profissional; Implementar projetos de sustentabilidade. Fonte: Organizado pelas autoras Pode-se observar que todos os empreendedores sociais têm como projetos e sonhos ajudar as pessoas, ou seja, fazer algo que proporcionem melhor qualidade de vida para a sociedade, sempre focando proporcionar mais conhecimento, capacitação e até mesmo relacionar-se perante a sociedade. Essa análise vem ao encontro com a teoria de Melo Neto e Froes (2002) que defendem que os empreendedores sociais trabalham através de ação coletiva que envolve pessoas da comunidade buscando a integração e o desenvolvimento dessas pessoas. E buscam através dessas ações, solucionar os problemas da comunidade e ao produzir bens e serviços para a mesma. Ao comparar com os empreendedores de negócios, percebem-se semelhanças em relação aos projetos e sonhos, pois os mesmos também querem fazer parte de algum projeto social com intenção de ajudar as pessoas. Com relação às diferenças entre os empreendedores, compreendese que alguns dos empreendedores de negócios têm seus projetos e sonhos focados na empresa, como a ampliação de seu negócio, Dornelas (2001) diz que os empreendedores de sucesso são visionários, tem habilidades para programar seus sonhos, refletindo essas habilidades no seu negócio e na vida. Na sexta categoria estão relacionados as influencias familiares e breve histórico de vida de cada empreendedores sociais. Quadro 8 – Histórico e influência familiar dos empreendedores sociais E.SOCIAL 1 E.SOCIAL 2 E.SOCIAL 3 E.SOCIAL 4 Tem apoio da família no projeto; Houve modificações boas no relacionamento com família depois que iniciou projeto; Tem ajuda de todos quando precisa. Origem pobre; família grande; Batalhou para estudar e alcançar seus objetivos; Família não apóia o trabalho, porém todos admiram. Origem pobre; Sempre estudou em escolas públicas; Esforçou-se para chegar onde está; Dificuldade no começo para se dedicar aos filhos e ao trabalho. Família sempre reunida; Tem a compreensão de todos; Organiza o tempo para dedicar-se á família. Fonte: Organizado pelas autoras Ao analisar a influência familiar dos empreendedores sociais, percebe-se que a maior parte deles tem bom relacionamento com a família, apesar da dificuldade para dedicar-se ao trabalho e a REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 132 família, ao mesmo tempo, tem compreensão de todos para ajudar quando é preciso. Não foi encontrado na literatura nenhuma teoria com relação a influência familiar dos empreendedores sociais. No quadro abaixo estão relacionados as influencias e histórico familiar na vida dos empreendedores de negócios. Quadro 9 - Histórico e influência familiar dos empreendedores de negócio E. NEGÓCIOS 1 Influência do pai para ingressar na empresa; Trabalha com membros da família. E. NEGÓCIOS 2 Tem apoio da família com relação as responsabilidades de trabalho; Trabalha com vários familiares na empresa. E. NEGÓCIOS 3 Influência do pai para ingressar na empresa, para ajudar no trabalho; Trabalha com membros da família. E. NEGÓCIOS 4 Família humilde; Não teve nenhuma influência familiar; Hoje trabalha com a esposa. Fonte: Organizado pelas autoras Na fala dos empreendedores, percebe-se uma grande influência familiar na vida e no negócio. A maioria teve a influência dos pais para ingressar na empresa e, além disso, percebe-se que vários membros da família trabalham com esses empreendedores e a maioria entrou com a influência dos mesmos. Apenas o Empreendedor 4 que não teve apoio nem influência familiar em relação à abertura do negócio, mas em relação à participação da família no negócio a esposa trabalha com o empreendedor na empresa a anos. Convergindo com as análises acima Hisrich (2004), que afirma que muitos empreendedores tiveram pais também empreendedores, demonstrando que a influência familiar faz parte da decisão e conhecimento do empreendedor. Os empreendedores se apaixonam pelo negócio e sacrificam tudo para garantir sobrevivência, pois o empreendimento assume prioridade na vida do empreendedor se tornando uma fonte de auto-estima. No quadro abaixo, foram listados o envolvimento dos empreendedores sociais e de negócios em seu empreendimento, através da entrevistas falaram sobre a importância desse envolvimento e como é lidar com a rotina dentro das instituições. Quadro 10 - Envolvimento no negócio Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Treina toda equipe para melhorar o trabalho; Trabalhar para atingir envolvimento de todos na equipe; Rotina igual a qualquer trabalhador Ter uma agenda flexível; Ter diferentes comportamentos dependendo do lugar. Ter esforço e dedicação todos os dias para alcançar as metas. Organizado com as tarefas o trabalho; Trabalham com reuniões para fazer um planejamento completo; Treina toda equipe para melhorar o trabalho; Está sempre inovando e se esforçando para atingir os objetivos; Ter controle sobre os acontecimentos gerais na empresa; Estar sempre informado sobre ferramentas novas de trabalho que ajudam no dia a dia; Fonte: Organizado pelas autoras REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 133 Para os dois tipos de empreendedores, há um grande envolvimento com o negócio, o que foi mais identifica é que todos destacam o trabalham em equipe pensando na capacitação dos funcionários através de treinamentos. Para os empreendedores de negócio a organização é um ponto forte, e além disso consideram que reuniões fazem parte do seu dia a dia normal. Os empreendedores sociais destacam que sua rotina não tem nada de diferente de um trabalhador qualquer, falam ainda que parte importante principal do trabalho é ter uma agenda flexível e além disso conseguir se adequar aos diferentes tipos de ambientes e pessoas lidam no dia a dia. Conforme a análise de envolvimento dos empreendedores com o negócio, equipara-se ao conceito de Hisrich (2003) onde o autor pontua esse envolvimento como o processo de criar alguma coisa diferente com valor, dedicação do tempo e do esforço necessário, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais associados, recebendo as recompensas resultantes na forma de satisfação monetária e pessoa. Ou seja, para todos os empreendedores a dedicação e o esforço todos listam que é fundamental para o sucesso do negócio. No quadro abaixo, são apresentadas as formas de relacionamento que os empreendedores sociais e de negócios têm com seus funcionários, como lideram e qual o envolvimento com sua equipe de trabalho. Quadro 11 – Relacionamento com funcionários Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Flexibilidade em coordenar a equipe; Gosta de liderar sua equipe; Bom relacionamento com equipe; união Todos voluntários trabalham com dedicação; Consegue envolver todos com paixão no trabalho; Liderança através da orientação; Saber gerenciar expectativas dos funcionários. Analisa os resultados com os funcionários; Trabalha com harmonia, Procuram discutir opiniões com funcionários; saber ouvir Procuram estar sempre ligado á equipe; Preferem gerenciar analisando os dois lados (o da empresa e o do funcionário); Trabalhar com confiança na equipe. Fonte: Organizado pelas autoras Na literatura é citado por Dornelas (2001) que as habilidades do empreendedor são categorizadas em três áreas, sendo uma delas ligadas ao lado do envolvimento com pessoas. Pode-se perceber que todos os entrevistados têm bons relacionamentos com os funcionários, porém cada modelo de empreendedor tem a sua forma de relacionamento. Conforme demonstrado nas falas dos empreendedores, nota-se que os empreendedores sociais têm maior facilidade de se relacionar com funcionários, o fato de trabalharem com o mesmo objetivo social em ajudar pessoas, traz um maior envolvimento entre os mesmos. Os empreendedores de negócios, também têm bom relacionamento com os funcionários prezando harmonia no ambiente de trabalho, mas apresenta como foco gerenciar o desenvolvimento do funcionário com o trabalho, ou seja, os resultados que trará. Para os de negócios, observou-se que acreditam ser um ponto a ser melhorado. Para os sociais, observou-se que esse ponto é fundamental que as atividades a serem desenvolvidas possam dar certo. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 134 Diferente do empreendedor de negócio, não foi encontrado na literatura dados acerca de empreendedores sociais e seu relacionamento com funcionários / pessoas. Na próxima categoria foi observada a trajetória profissional dos entrevistados antes de se tornarem empreendedores. Cada entrevistado falou sobre suas experiências anteriores, independentes se havia ligação com o trabalho atual. Quadro 12– Experiências profissionais dos empreendedores sociais. E.SOCIAL 1 E.SOCIAL 2 E.SOCIAL 3 E.SOCIAL 4 Não havia trabalhado antes de participar do projeto; É Assistente Social e Diretora no projeto; Sempre planejou trabalhar em projeto carente. Trabalhou na área pública; Trabalho na Secretaria de habitação e Assistência Social; Iniciar uma escola de datilografia, mas desistiu. Trabalhou como secretária; Trabalhou em várias áreas dentro da organização; Foi a primeira gerente da empresa; Foi também gerente geral. Trabalhou somente em um lugar além da fundação; Teve oportunidade de crescimento na fundação; Buscou mais conhecimento nos estudos para atuar na fundação. Fonte: Organizado pelas autoras Quadro 13 – Experiências profissionais dos empreendedores de negócios. E. NEGÓCIOS 1 Trabalhou apenas 1 ano fora da empresa. E. NEGÓCIOS 2 Nunca trabalhou em outra empresa; Teve dificuldade para decidir carreira profissional; Estudou outras áreas diferentes. E. NEGÓCIOS 3 Atuou 2 anos como advogado. E. NEGÓCIOS 4 Trabalhou como Carpinteiro; Trabalhou em Construção Civil. Fonte: Organizado pelas autoras Conforme análise de experiências profissionais anteriores vivenciadas pelos empreendedores, o abandono de carreira mostrado em algumas falas acima é citado por Hirish (2004) que observa a necessidade de escolha na hora de tomar a decisão sobre o abandono a atual carreira ou o estilo de vida. Observou-se que os entrevistados levaram em consideração o “gostar do negócio”, pois a maioria teve oportunidades de seguir outros caminhos profissionais, mas optaram em ter o seu próprio negócio. Percebe-se que alguns dos entrevistados mudaram de carreira ou de área de atuação para se dedicarem ao empreendedorismo. Para os empreendedores sociais, percebe-se que apesar de alguns já terem experiências em outras áreas, havia um histórico que influência no trabalho com empreendedorismo social. Já os empreendedores de negócios buscaram novos desafios, como estudar diferentes áreas de atuação, mas o fato de ter seu próprio negócio os levou a novas experiências de negócios que alguns puderam usar conhecimentos anteriores para aplicar no seu próprio empreendimento. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 135 A próxima categoria refere-se a conquistas e satisfações, onde os empreendedores listam as maiores conquistas, da organização ou empresa. Também estão relacionadas às satisfações oferecidas pelas instituições, para cada empreendedor. Quadro 14 – Conquistas e satisfações dos entrevistados Empreendedor Social Empreendedor de Negócios Um espaço bom e seguro para as pessoas; Aprender fazer bons projetos; Ver pessoas felizes e unidas; Ter o reconhecimento do trabalho pelas pessoas; Ver a transformação das pessoas que são ajudadas; Ver a auto-estima das pessoas que receberam ajuda; Obter relatos de sucesso de pessoas que ajudam. Reconhecimento e satisfação dos clientes; Lucro; Obter funcionários mais qualificados através de treinamentos e incentivos; Abrir novas filiais; Oferecer oportunidades para os funcionários; Reconhecimento da empresa no mercado; Conseguir desempenhar um bom trabalho sempre. Fonte: Organizado pelas autoras Observou-se que todos os entrevistados citaram suas conquistas e satisfações ligadas às instituições. Citam um momento importante, algo que foi alcançado ou algo que seja a essência do negócio, além disso destacam momentos que acontecem no dia a dia que fazem perceber que o que estão fazendo vale a pena. Pode-se perceber que tanto para os empreendedores de negócios quanto para os empreendedores sociais, a conquista e satisfação servem para aumentar o desejo de continuar com o projeto ou empresa. Os empreendedores sociais destacam que a maior satisfação é o retorno pessoal ou seja, ligado a felicidade e reconhecimento das pessoas dos quais eles trabalham é o fato de ver as pessoas que eles ajudam felizes, além disso enfatizam que conseguir fazer com que as pessoas que eles ajudam consigam se transformar em pessoas melhores, assim como transformar suas vidas é destacado por esses empreendedores como grande conquista. Para Melo Neto & Fróes(2001)os empreendedores sociais investem seu tempo, apoio, recursos, para conquistar o seu maior sonho o de transformação da sociedade. Ainda relacionado a pessoas o empreendedor de negócios reconhece a satisfação de conseguir através de treinamentos e orientações desenvolver bons funcionários e, além disso, conseguir oferecer oportunidades para os mesmos relacionados ao seu desempenho. Segundo Dornelas (2001) o empreendedor deve valorizar seus funcionários tornando-se admirado, além disso tem que saber avaliar a chance de sucesso quando utiliza o capital intelectual para criar valor para a sociedade. A próxima categoria refere-se ao conceito de empreendedorismo citado por cada empreendedor durante a entrevista, qual a idéia deles sobre conceito de empreendedorismo da sua respectiva área de atuação. Quadro 15 – Conceito de empreendedorismo Empreendedorismo Social Empreendedorismo de Negócios Ter liderança na comunidade e Obter lucro financeiro e benefícios; REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 136 envolver nela Melhorias na comunidade; Lutar pela causa coletiva,fazer algo por alguém; Buscar retorno e satisfação de pessoas; Satisfação em ajudar as pessoas; Orientar e desenvolver pessoas; Trabalhar, sem querer retorno financeiro; Ir atrás dos sonhos e colocá-los em prática; Ter coragem de arriscar; Acreditar em si mesmo; Saber gerenciar. Trabalhar com pessoas em transformação; Fazer planejamento e estabelecer metas; Ter visão de negócio; Fazer acontecer; Não ter medo; Assumir e saber lidar com os riscos; Ser atualizado; Ir atrás dos sonhos; Ter uma reserva financeira; Saber gerenciar. Fonte: Organizado pelas autoras Conforme as falas citadas acima, os empreendedores de negócios destacam como conceito sobre empreendedorismo, que há riscos a serem assumidos para ser um empreendedor, mas também há formas de superá-los. Apontam também que o mercado deve ser estudado e entendido para se assumir tais riscos, pois é através disso que alcançam o sucesso. Esses conceitos apontados pela maioria dos entrevistados são condizentes com a teoria dos autores: Hisrich e Peters (2003) que destacam que o empreendedorismo exige: dedicação, esforço e além de tudo o empreendedor deve estar disposto a assumir os riscos financeiros, psicológicos e sociais associados para conseguir o que deseja. Dornelas (2001) afirma que o empreendedor de negócios detecta uma oportunidade e cria um negócio para capitalizar sobre ele e precisa assumir os riscos, porém calculá-los. Com relação aos empreendedores sociais, são apresentados no quadro 23 como conceitos de empreendedorismo, a pessoa que trabalha sem esperar retorno financeiro, pois consideram que o maior investimento está nas pessoas amparadas, conceituam também como empreendedor a pessoa que trabalha a favor da comunidade e coletividade. Esses conceitos apresentados pelos entrevistados são compatíveis com a teoria apresentada pelos autores Melo Neto & Froes (2001) que destacam que para os empreendedores sociais, a medida de desempenho e retorno são feitos com base na melhoria da qualidade de vida da comunidade. Para Dees (2002) o objetivo do empreendedorismo social está ligado à missão social e voltado para solucionar os problemas da sociedade, visa produzir bens ou serviços sem visar o lucro. De acordo com o tema principal do trabalho foi inserido como pergunta chave nas entrevistas aos empreendedores o que eles identificam qual era a principal semelhança entre os empreendedores sociais de negócios. A maioria dos entrevistados considerou como semelhança o fato dos dois modelos colaborarem para a coletividade e sociedade. Acreditam que no caso do empreendedor de negócios ele emprega pessoas, paga salários, bônus, dentre outros, ou seja, de acordo com a opinião dos mesmos estão ajudando a sociedade. Assim como o empreendedor social também busca ajudar a sociedade, ele trabalha com a causa principal: pessoas, ou seja, ajudar a comunidade da melhor maneira usando a gestão e os recursos disponíveis. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 137 São segmentos diferentes, porém os dois com o mesmo objetivo: ajudar a sociedade a se desenvolver ter uma melhor qualidade de vida, porém de maneiras distintas. Isso vem ao encontro com a teoria de Timmos (1999) que define que o empreendedor tem a necessidade de criação e distribuição de valor, trazendo benefícios para o próprio indivíduo, organizações e a sociedade. Dornelas (2001) também destaca que o empreendedor deve saber avaliar a chance de sucesso e utilizar o capital intelectual para criar valor para a sociedade. Melo Neto & Fróes (2001) trazem a idéia de que o empreendedor social vem integrar a parte econômica e social da comunidade buscando o benefício e o bem-estar da sociedade. Entre as diferenças de conceito dos empreendedores sociais e de negócio destacou-se a questão do “lucro” que os modelos de empreendedores analisados possuem, ou seja, para o empreendedor de negócio o maior foco está no lucro da sua empresa, no retorno em dinheiro. Já o empreendedor social avalia outro tipo de “lucro” que se relaciona à realização pessoal. Isso converge com a teoria de Rao (1998) que pontua os empreendedores sociais, como indivíduos que desejam colocar suas experiências organizacionais e empresariais mais para ajudar os outros do que para ganhar dinheiro. Jane Berry (2003) também destaca que o objetivo do empreendedor social é construir lucros sociais para melhorar a qualidade de vida da sociedade. Os dados levantados na literatura em relação ao empreendedor de negócio estão também condizente ao encontrado nas entrevistas, Hisrich (2004) diz que o empreendedor organiza e opera uma empresa para o lucro pessoal. Portanto, os empreendedores de negócio visam o ganho financeiro enquanto o empreendedor social visa o ganho de ver uma sociedade melhor, como pôde ser observado nas citações acima. De acordo com as respostas analisadas e que geraram onze categorias de respostas, pode-se observar que existem diferenças e semelhanças entre os empreendedores sociais e de negócios. Ambos contrapõem características e perfis apresentando diversas formas para liderar um empreendimento, seja uma empresa privada ou uma instituição sem fins lucrativos. 3.CONCLUSÃO A presente pesquisa teve como objetivo identificar as características gerais dos empreendedores sociais e empreendedores de negócios e analisar as possíveis divergências e convergências entre os dois. A escolha do tema foi fundamentada pelo fato da literatura, ainda, não ter grandes aprofundamentos ligados ao empreendedorismo social. As diferentes abordagens e linhas de pensamento que permeiam o tema serviram de estímulo para que a realização desse trabalho se concretizasse. A pesquisa procurou levantar, por meio da literatura, os conceitos sobre os empreendedores de negócios e sociais, assim como as características de cada um deles. Por meio de entrevistas qualitativas com empreendedores foi possível a obtenção de dados para serem analisados e comparados com as teorias relacionados à pesquisa dos principais autores que falam sobre o tema. Após analisar as respostas provenientes das entrevistas, foram geradas onze categorias, a saber: formação acadêmica, perfil e característica, metas e objetivos, projetos e sonhos, influencia familiar, envolvimento no negócio, relacionamento com funcionários, experiências anteriores, conquistas e satisfações, conceito de empreendedor e diferenças e similaridades entre empreendedor social e de negócios. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 138 Para efeito de análise de todas as respostas coletadas, foram apresentadas ao longo do trabalho apenas aquelas que a maioria dos empreendedores possuía a mesma opinião. Assim pode-se perceber que existiam algumas particularidades para alguns entrevistados, as quais já estavam dentro das expectativas das entrevistadoras, pelo fato da amostra ser composta por poucos participantes. O resultado da pesquisa, de modo geral, atendeu as expectativas das entrevistadoras, pois foi possível identificar algumas semelhanças e diferenças nas características gerais dos dois modelos de empreendedores. Como semelhança, os dois tipos de empreendedores concordam que trabalham em pró da coletividade e a sociedade. Ou seja, os empreendedores sociais trabalham diretamente com a sociedade buscando a melhoria da qualidade de vida das pessoas mais carentes e os empreendedores de negócios acreditam que através do seu negócio geram empregos, pagando os salários e impostos, e assim, colaboram com a sociedade. Além disso, observou-se que, de acordo com a fala dos respondentes, os dois grupos dizem que gostam de trabalhar com pessoas e gostam de liderar, se preocupam com as pessoas com que trabalham e buscam através de treinamentos e orientação ajudar a desenvolver seus colaboradores e voluntários. Tendo como principal diferença pode-se destacar o “lucro” que cada empreendedor social e de negócios espera. No caso do empreendedor de negócio ele busca lucro financeiro da sua empresa, para poder expandir, inovar, contratar mais pessoas e ter um padrão de vida melhor. Procuram visualizar seus resultados através de gráficos entre ganhos e despesas. Para os empreendedores sociais o lucro vem da satisfação de ver as pessoas, que estão ajudando, melhores, ou seja, o ganho do negócio é conseguir ver os resultados das transformações das pessoas, conseguirem ter o reconhecimento da comunidade e expandir seu projeto para o maior número de pessoas e atrair voluntariados. A pesquisa trouxe aprendizado e um avanço no conhecimento acerca do tema. Além disso, os dados puderam ser comparados com o referencial teórico apresentado ao longo do trabalho, podendo assim, expandir os conhecimentos tanto na parte teórica como na prática. Mas, ressaltase que as respostas advindas de tal pesquisa são específicas para o grupo estudado, e desta forma não podem ser generalizadas. Com o término da pesquisa, observou-se carências de estudos desenvolvidos por autores brasileiros sobre o tema de empreendedorismo social, fazendo com que um trabalho tão importante como o empreendedorismo social que já está sendo explorado há anos no Brasil ainda não tenha a devida atenção de pesquisadores e de acadêmicos. Dessa forma, incentivar o desenvolvimento de novos estudos e pesquisa dentro da abordagem em questão, ampliaria a área de conhecimento no empreendedorismo e, por conseqüência, os ganhos se estenderiam para área correlatas e de muita utilidade para a sociedade brasileira. 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Carla Murakawa Gabriel Barros O. de Gaetano Oswaldo Vecci Rubens Norio Hada Áurio Lúcio Leocádio RESUMO O consumidor de baixa renda apresenta particularidades em seu processo decisório, e sofre influências que requerem maior aprofundamento para que haja melhor absorção e adesão de produtos e serviços. Este trabalho buscou identificar a existência de fatores de influência surgindo da base da pirâmide ao topo. Desta forma, o objetivo geral do estudo é analisar a influência de compra do consumidor de baixa renda na relação empregada doméstica-patroa, além de identificar desejos de compra e papéis desempenhados no processo de compra. O trabalho fundamenta-se na literatura sobre comportamento do consumidor e sobre o consumidor de baixa renda. Foram feitas entrevistas semi-estruturadas em profundidade, com empregadas domésticas, e os dados foram analisados por meio de análise de conteúdo. Os dados evidenciaram que a influência das patroas em relação às empregadas domésticas refere-se a aspectos de alimentação e saúde. A influência das empregadas se restringe principalmente em relação a produtos de limpeza e os objetos de desejo têm como parâmetros o tamanho e aspectos de beleza de produtos da sua rotina profissional. Palavras-chave: Baixa renda; comportamento do consumidor; empregada doméstica. INTRODUÇÃO O mercado de baixa renda representa atualmente mais de 50% dos lares brasileiros segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) e IBGE (2004). Logo, apresenta um vasto potencial, que vem sendo cada vez mais explorado por empresas de bens de consumo. Prahalad (2005) acredita que o foco na criação de serviços e produtos para camadas carentes é uma forte estratégia e até mesmo uma solução para diminuir a pobreza que assola muitos países, incluindo o Brasil. O consumidor de baixa renda apresenta particularidades em seu processo decisório, sofrendo influências que são sigficativas para absorção e adesão de produtos e serviços, á medida em que suas necessidades forem exploradas pelas empresas. Barki (2005) ressalta que devido às limitações financeiras do consumidor de baixa renda, a empresa necessita de um esforço maior REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 142 de marketing para atender o mesmo, assim como ponderações sobre formas de pagamento para que este público seja cada vez mais presente e consuma cada vez mais. Para Mowen e Minor (2006) compreender os consumidores proporciona uma serie de benefícios, como auxiliar os gerentes na tomada de decisões, dar base de conhecimento através de pesquisas, apoiar os legisladores e controladores na elaboração e manutenção de leis e regulamentos referentes à compra e venda de mercadorias e serviços, auxiliar o consumidor na tomada de decisão de compra e por último auxilia a entender o comportamento humano. Além de se tornar um assunto de extrema abrangência, o público de baixa renda, de acordo com Prahalad (2005), ficou por muito tempo fora de estudos e é pouco explorado, o que pode apresentar grandes oportunidades de negócios. Temas relacionados a esse público ainda são pouco explorados em teses e dissertações, o que o torna um tema desafiador e que desperta curiosidade. A base da pirâmide como mercado, oferece uma nova oportunidade de crescimento para o setor privado e um fórum para inovações. Soluções velhas e desgastadas não podem criar mercados na base da pirâmide (PRAHALAD, 2005, p.19). Assim como Prahalad (2005), Hart (2006) ressalta que estudar o consumidor localizado na base da pirâmide é um imenso e novo desafio gerencial para as grandes empresas do mundo, e também é um mercado potencial que está para ser atendido. Segundo Barki (2005, p.14) além das grandes oportunidades que o mercado de baixa renda pode apresentar o que vem despertando o interesse de empresas de diversos setores, embasado no estudo feito pelo The Boston Consulting Group (2002), diversas empresas que optaram por atender esse mercado hoje já são líderes ou vice-líderes em seus segmentos, com produtos consagrados entre os consumidores. O tema a ser estudado foi definido após a percepção da dificuldade que a maioria das empresas encontra ao implementar ou direcionar produtos para as classes de baixa renda. Além disso, de acordo com dados do IBGE (2004) aproximadamente 76% dos domicílios brasileiros fazem parte da classe de baixa renda, o que faz com que esta classe seja extremamente sedutora para uma exploração mercadológica. Este trabalho buscará identificar a existência de fatores de influência surgindo da base da pirâmide ao topo, assim como o inverso, do topo da pirâmide para a base. Para tal será necessária uma análise sobre o comportamento do consumidor na escolha dos produtos, assim como uma análise sobre a influência e os agentes influenciadores. Desta forma,o objetivo geral do estudo é analisar a influência de compra do consumidor de baixa renda na relação empregada domésticapatroa. Os objetivos específicos são: a) identificar fatores de influência da família, no processo de decisão de compra da empregada doméstica; b) identificar desejos de compra da empregada doméstica; c) identificar os papéis de compra desempenhados na relação empregada doméstica-patroa; d) identificar os tipos de produtos relevantes nesse processo de compra; e) identificar a percepção dos produtos/marcas. 1.REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Comportamento do Consumidor Segundo Engel et al. (2000, p.4) o comportamento do consumidor é definido “como as atividades diretamente envolvidas em obter, consumir e dispor de produtos e serviços, incluindo os processos decisórios que antecedem e sucedem estas ações”. Mowen e Minor (2006, p.3) REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 143 mantêm a mesma linha de raciocínio complementando que o comportamento do consumidor é composto pelo estudo dos consumidores individuais e em grupos e seus processos de trocas. O processo decisório do consumidor é um dos estudos mais pertinentes no marketing, pois estuda o comportamento do consumidor na tomada de decisão a fim de alcançar os objetivos, fazendo a melhor escolha, reduzindo o risco e também o esforço; assim para poder entender e mapear a lógica de escolha, o processo é dividido em etapas. Na concepção de Solomon (2002) são quatro passos que podem ser descritos como: (1) reconhecimento do problema, (2) busca de informações, (3) avaliação de alternativas e (4) escolha do produto. Porém, neste trabalho será abordado o modelo de processo decisório de compra de Engel et al. (2000), por ser mais completo. Este consiste em seis partes sendo: (1) reconhecimento da necessidade, (2) busca, (3) avaliação de alternativa pré-compra, (4) compra, (5) consumo e (6) avaliação pós-consumo. O processo de decisão de compra é bastante complexo e envolve implicações estratégicas de marketing, deve-se então ficar atendo às influências, conhecimentos e características do consumidor. Considerando ainda, que as etapas podem ser ou não obedecidas, o que depende do grau de envolvimento e o risco envolvido na compra. Contudo, tal estudo requer uma profundidade maior de entendimento. Os consumidores são de certa forma moldados pelo ambiente em que habitam, segundo Engel et al. (2000, p.391) esta é uma relação recíproca, já que o ambiente também é modificado a partir das concepções de seus personagens. O ambiente possui diversas variáveis componentes, que afetam direta ou indiretamente o modo de pensar do consumidor, como influências situacionais, contexto cultural do consumo, influências étnicas, classe social e status, influências pessoais e influências familiares e domiciliares. Os fatores ambientais englobam também fatores pessoais, culturais, individuais e sociais, ou assuntos inseridos nestes diversos contextos. Segundo Yanaze (2007, p.139) a realização da segmentação de mercado logo no início do processo estratégico mercadológico é de suma importância. As empresas precisam realizar o estudo dos seus consumidores, pois um produto ou serviço raramente tem a mesma significância para todas as pessoas, com isso os profissionais de marketing devem identificar os grupos homogêneos dentro do mercado heterogêneo a ser atingidos. Para alcançar o objetivo final da comunicação, deve-se passar por outras etapas importantes para o sucesso do processo. De acordo com Mowen e Minor (2006, p.33) o objetivo principal para o profissional de marketing é identificar as bases para a segmentação, ou seja, em quais variáveis ele poderá identificar os grupos de pessoas e empresas com as vontades e necessidades semelhantes. Dentro dessa variável entra as subcategorias para classificar as características dessas pessoas, já citada acima por outro autor, que formam os mercados como, são elas: as características demográficas, comportamentais, psicográficas e de personalidade. Outra variável apontada, a cultural, é caracterizada pela análise do modo de vida dos consumidores de uma sociedade, ela é normalmente utilizada como uma variável para a segmentação, do marketing internacional. A análise a ser realizada ocorre nas subculturas existentes em uma cultura nacional, analisando as características semelhantes, como o status existente nessa sociedade ou mesmo a sua área geográfica, possibilitando o desenvolvimento ou promoção de um produto específico para esses consumidores. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 144 Com base nessas características de como se dividir esse grande grupo de consumidores em um segmento-alvo, nesse trabalho será analisada a influência e o comportamento de compra, exercido pela consumidora de baixa renda sobre a decisão de compra familiar. Ou seja, para agrupar esses compradores em potencial com uma característica semelhante, o mercado foi segmentado pelas características demográficas dessa população, especificamente de acordo com os critérios socioeconômicos de um mesmo grupo, como por exemplo, grau de instrução, ocupação, classe social e renda (ou itens de posse). 1.2 Consumidor de Baixa Renda Muito tem se ouvido falar no mercado de baixa renda já que é um mercado de bilhões de consumidores, principalmente quando consideramos países emergentes como Brasil, China e Índia. Conforme Prahalad (2005) e Hart (2006), os países em desenvolvimento ou mercados emergentes podem oferecer grandes oportunidades de crescimento para grandes empresas, já que grande parte da sua população concentra-se na chamada base da pirâmide. De acordo com Prahalad (2005, p.118) no Brasil é considerada baixa renda ou base da pirâmide a população pertencente às classes C, D e E, que possui uma renda familiar de até 10 salários mínimos. Barki (2005) acrescenta que consultorias e institutos de pesquisas utilizam critérios semelhantes para conceituar a baixa renda. Portanto esta será a definição de baixa renda adotada neste trabalho. De acordo com estudos, mais de 85% da população brasileira encontra-se nas classes C, D e E, os seus rendimentos são mais baixos, porém devido à grande de quantidade de pessoas envolvidas esse público detém um poder de compra significativo. As classes C, D e E, que para muitas empresas representam um público desinteressante, ficando fora de diversos estudos, hoje podem apresentar grandes oportunidades de negócios. Para Prahalad (2005) essa parte da população representa um imenso e novo desafio para grandes empresas, pois é um mercado que possui diferentes aspectos do que as empresas estão acostumadas. Para Blecher (2006) em dez anos, os mercados emergentes serão responsáveis por 40% do crescimento da produção mundial, e estar bem posicionado neles, portanto, é algo visto como uma questão de sobrevivência no longo prazo. De acordo com Spers e Wright (2006) oferecer somente produtos mais baratos não gera uma vantagem competitiva sustentável para as empresas, é necessária uma estratégia consistente, combinando adequadamente o posicionamento da empresa e seu mix de marketing para atender ao público de baixa renda, ou seja, empresas que pretendem atender o este público devem adotar um posicionamento que reflita nos seus preços, produtos, promoção e ponto de venda. Segundo Barki (2005) as lojas devem oferecer um mix de produtos adequados, que representam o desejo de consumo do público de baixa renda e são comprados em momentos específicos, como festas, fins de semana, visitas de amigos e familiares, e também produtos de segunda linha que representam a maior parte de compra desses consumidores. No Brasil, os clientes das classes C, D e E sonham com as mesmas mercadorias que os das classes A e B (PRAHALAD, 2005, p.130). Toda empresa ao selecionar o seu público-alvo necessita identificar as necessidades e expectativas do mesmo; no caso de empresas voltadas para o público de baixa renda não é diferente. Para Barki (2005) empresas que pretendem atender o consumidor de baixa renda, precisam entender sua realidade, suas necessidades e desenvolver estratégias específicas. De acordo com Hart (2006) o público de baixa renda além de ter necessidades não atendidas pelo mercado enfrenta obstáculos, como taxa de juros abusivos, produtos de má qualidade, preços REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 145 exorbitantes; para tanto as empresas que pretendem atender o público de baixa renda necessitam além de identificar as necessidades e oportunidades nesse mercado remover esses obstáculos. Para Blecher (2006) a idéia é que entre as diferenças e semelhanças existentes entre os mercados, dos quais as empresas já estão acostumadas, encontre-se um ponto em comum para a formulação de novos negócios e/ou produtos inovadores para conquistar esses consumidores. De acordo com Hart (2006, p.138) a maioria das oportunidades de crescimento no mercado da base da pirâmide será aproveitada por empreendedores, assim como as oportunidades no Japão do pós-guerra foram aproveitadas por inovadores como Sony, Honda e Toyota. Ainda acrescenta que as empresas que pretendem atender o mercado da base da pirâmide devem construir novos modelos de negócios que incluam estratégias, estruturas organizacionais e processos de gerenciamento realmente apropriado para as condições deste mercado. Conforme Spers e Wright (2006) “a integração entre estratégia, posicionamento e elementos de marketing representa a chave do sucesso no segmento de bens populares, transformando este grande potencial de mercado em uma oportunidade efetiva de atuação”. A base da pirâmide pode ser uma fonte de inovações não apenas para produtos e processos, mas também para modelos de negócios (PRAHALAD, 2005, p.58). O público de baixa renda, diferentemente do que muitos acreditam, não leva em conta apenas o preço no processo de decisão de compra, para Prahalad (2005) as marcas também fazem parte do elenco de pretensões desses consumidores, sendo assim, também são compradores de valor. O grande desafio das empresas, então, é tornar acessíveis os produtos para esse mercado com menor poder aquisitivo. No segmento de consumidores de baixa renda, optou-se pelo foco em uma categoria profissional que fosse identificada predominantemente como pertencente ao segmento: as empregadas domésticas. Cabe frisar que a escolha não representa a inserção completa da categoria no segmento, mas a predominância desses profissionais nas classes sócio-econômicas menos favorecidas. A formação da estrutura social e familiar no Brasil acumulou resíduos históricos da época escravocata, ajustando-se gradativamente à realidade contemporânea, principalmente nos aspectos trabalhista e de mercado (FREYRE, 1987). Outro ponto significativo para escolha dessa categoria, diz respeito à sua relação direta com os aspectos econômicos do trabalho doméstico e suas implicações no consumo familiar (EHRENBERG, 2000). 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Com o propósito de aprofundamento e precisão foi utilizada uma pesquisa de caráter exploratório, tendo como ferramenta o método de entrevista qualitativa para obter respostas que embasem e qualifiquem o trabalho. Foram feitas 12 entrevistas com empregadas domésticas, visando descobrir os atributos e a relevância das variáveis. Aaker (2004) afirma que a pesquisa qualitativa serve para descobrir as preferências do consumidor, e também compreender o escopo e a complexidade de atividades e preocupações do mesmo, levando em conta sentimentos, pensamentos, intenções e comportamentos passados. A escolha do caráter e das técnicas de pesquisas utilizadas teve base a falta de padrões disponíveis devido ao fato de tratar-se de um foco específico de um assunto ainda inovador e abrangente. A forma de entrevista escolhida buscou o maior envolvimento dos entrevistados devido ao fato do questionário abordar questões de caráter pessoal. Nas entrevistas em profundidade, optou-se pelo questionamento de um problema oculto, por envolver fantasias, carreira profissional e vida social, e por ter a finalidade de identificar aspectos ocultos na relação REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 146 analisada. Desta forma, os entrevistados não tinham conhecimento prévio dos reais objetivos da pesquisa. A melhor situação para participar da mente de outra pessoa é ficar frente a frente com ela, por este tipo de abordagem ser inquestionável (RICHARDSON, 2007, p. 207). Uma entrevista é uma forma de comunicação utilizada para transmissão de informações, ela pode ser feita de forma estruturada ou não estruturada. Para Richardson (2007) a pesquisa não estruturada visa abranger e focar os aspectos julgados pelo entrevistador como mais importantes. O método de entrevista utilizado neste trabalho foi baseado em um roteiro, utilizando técnicas projetivas de associação, que de acordo com Malhotra (2001, p.166) são associações em resposta de estímulos (palavras) gerados pelo entrevistador, dentre elas, algumas palavras neutras, para disfarçar o propósito da pesquisa. A coleta dos dados ocorreu durante o período de 2 meses, na qual foram realizadas 12 entrevistas com empregadas domésticas, gerando aproximadamente 240 minutos de entrevistas gravadas, com duração média de 20 minutos por entrevista, totalizando. 45 páginas transcritas de entrevistas. A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo, por ser um método apropriado para estudos cujo fenômeno observado é o conteúdo efetivo de uma comunicação (MALHOTRA, 2004). Desta forma, utilizou-se o processo de codificações, que é definido por Bardin (2006) como o processo pelo qual os dados brutos são transformados sistematicamente e agregados em unidades que permitem uma descrição exata das características pertinentes do conteúdo e dos padrões de respostas (BARDIN, 2006). 2.1 Análise dos Dados As entrevistas foram realizadas com o propósito de verificar a influência da empregada doméstica sobre os hábitos de compra da casa em que trabalha, tendo como objetivo geral desta pesquisa analisar a influência da empregada doméstica no processo de compra familiar. Na apresentação da entrevista à entrevistada foi informado que se tratava de um trabalho acadêmico com o objetivo de entender e analisar os processos e a organização de uma residência, ou seja, o real motivo da entrevista foi disfarçado, com o propósito de tornar a entrevista mais informal, e reduzir os vieses nas respostas, apresentando os tópicos a partir do momento em que os assuntos foram mencionados. Nesta pesquisa foram realizadas entrevistas semi-estruturadas tendo como base um roteiro constituído de tópicos e perguntas abertas que orientavam o entrevistador sobre os pontos mais importantes a serem abordadas. As perguntas abertas auxiliaram os entrevistados em suas respostas, fazendo com que os mesmos tenham mais liberdade para responder e apresentar comentários e opiniões pertinentes à pergunta elaborada. Esse tipo de entrevista é a mesma utilizada por Barros (2006b), sendo considerada a mais adequada para o entendimento da visão de mundo de atores sociais, uma vez que esta permite o livre fluxo dos entrevistados, deixandoos a vontade na condução de suas respostas. Para a realização desta pesquisa foram feitas 12 entrevistas com empregadas domésticas mensalistas, com idade e tempo de profissão heterogêneo, variando de 8 a 28 anos de experiência. Foram utilizados nomes fictícios para manter o anonimato da empregada, de sua patroa e das famílias das pessoas citadas nas entrevistas. Os pontos relevantes das entrevistas foram: constatar a influência da patroa sobre a empregada e a influência da empregada doméstica sobre a patroa, constatar objetos de desejos do grupo de REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 147 empregadas domésticas, a lealdade da patroa e da empregada junto à marca, a escolha do produto, a compra no grupo familiar e o processo decisório do grupo de empregadas domésticas. 2.2 Influência Patroa X Empregada Através das entrevistas foram constatados diversos perfis de relação patroa-empregada, abrangendo desde empregadas que mantêm contato com os membros da residência em que trabalha apenas por meio de bilhetes ou telefonemas, até empregadas com maior contato com a patroa e os demais membros da família, neste caso, estabelecendo uma relação de maior proximidade, na qual foi possível verificar um grau de maior intimidade de ambas as partes, tendo dentre as conversas diárias, aconselhamento, sugestões e compartilhamento de informações gerais (notícias, trabalho, família). O relacionamento é muito bom, ela é uma pessoa bem engraçada, quando ela está em casa, a gente trabalha conversando. Muito legal trabalhar aqui. Sônia Maria, 32 anos. Ah, sobre tudo né. Sobre mim, sobre ela, ela pergunta como eu tô, os problemas, sobre a minha casa, sobre como eu vivo... a gente conversa de tudo mesmo. Kátia Flávia, 30 anos. Ah conversa sobre o trabalho, sobre o lado pessoal também, o preço das coisas, coisas que acontecem. Ela também me aconselha, ela sempre diz para eu escolher as amizades. Sheila Regina, 47 anos. Os trechos de entrevistas comprovam a relação mais comum identificada, como sendo a relação próxima da empregada doméstica com a patroa. Mas deve-se ressaltar que devido ao surgimento de um novo perfil de trabalhadores, como jovens universitários que moram sozinhos, ou homens solteiros, os chamados singles, ou até mesmo casais que ambos trabalham o dia inteiro fora, faz com que o contato entre eles e a empregada doméstica seja de baixa proximidade; tal fato vem crescendo na população brasileira. Dentre as 12 entrevistas realizadas, foram encontrados 4 casos em que a empregada doméstica e a patroa e família não se encontram, estabelecendo assim uma relação com menos contato e conseqüentemente menor influência. Geralmente eu não vejo (a patroa), a gente se comunica por telefone ou bilhetes, ela sai muito cedo. Maria Aparecida, 26 anos. Ela trabalha né... Tipo assim, ela trabalha fora e quando eu saio, eu não encontro ela em casa. Maria Lúcia, 28 anos. Foi identificada a influência comportamental da patroa sobre a empregada doméstica, o que se estendeu à compra e adesão de diversos tipos de produtos, sendo eles, produtos de limpeza, alimentação, saúde e eletrodoméstico. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 148 Em pesquisa realizada por Barros (2006a) foi identificado que as empregadas domésticas mudaram seus hábitos de compra em relação ao xampu e à alimentação, devido ao contato desses produtos na casa da patroa. Neste trabalho foi diagnosticado que houve influência nos hábitos alimentares, mas em relação a xampu e produtos de higiene pessoal não foi citado. a) Produtos de Limpeza Confirmando os dados obtidos na pesquisa de Barros (2006a) A influência da patroa nas compras da empregada doméstica referente a produtos de limpeza é a mais comum, conforme as entrevistas, devido ao fato, de estes produtos serem a sua principal ferramenta de trabalho. Exemplos de produtos cujo uso foi influenciado pela patroa: Eu comecei a usar o sapólio, que antes eu não usava, comecei a usar aqui (casa da patroa) e gostei. Maria Aparecida, 26 anos. O amaciante eu gostei muito quando usei lá (casa da patroa), achei o cheiro bom e comecei a usar em casa também. Eloísa Helena, 27 anos. Comecei a usar a cera para lavar prato que vende no caminhão, excelente para limpar panelas, quando o caminhão passa aqui na rua eu até compro um pouquinho para mim. Sônia Maria, 32 anos. Vale à pena destacar o uso desse tipo de produto vendido em caminhões, porta a porta, uma vez que foram identificados, em duas entrevistas o uso do mesmo não apenas pela empregada doméstica, mas também pela patroa, visto que normalmente tais produtos são destinados a baixa renda. Lá onde eu trabalho, vende produto assim de caminhão e ela compra assim. Maria Lúcia, 28 anos. b) Alimentação e Saúde Verificou-se durante as entrevistas que a patroa também exerce influência nos hábitos alimentares do grupo de empregadas domésticas, através de dicas e conselhos. Em relação à saúde, a influência é exercida devido ao relacionamento patroa-empregada e as conversas diárias. Verificou-se que a patroa orienta quanto a melhores práticas de cuidado com a saúde das empregadas domésticas e preocupação com os demais familiares, como filhos e marido. Ela me falou para alimentar melhor, comer mais verduras, por causa do ferro comer mais feijão, de alimentação ela me dá uns toques legais. Maria Aparecida, 26 anos. Mas depois que eu apareci grávida ela falou para me alimentar melhor, comer mais verduras, por causa do ferro comer bastante feijão. De alimentação ela me dá uns toques legal... manerar no REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 149 sal, não comer muita gordura, comprar as coisas mais natural por causa do bebê e da minha saúde mesmo. Maria Aparecida, 26 anos. ... tipo assim sem sal, cozinhar pro meu filho que e é bebe (tem 4 anos) com pouco sal e com pouco óleo, porque eu também tenho pressão alta. Aí ela me dá essas sugestões. Cleuza Regina, 30 anos. Porém notou-se que, em relação a produtos alimentícios, as marcas utilizadas por cada grupo são bem distintas, sendo que cada uma mantém lealdade a sua marca preferida, os produtos alimentícios mais citados foram o arroz e o feijão. Ah minha marca é diferente, o arroz lá é Tio João o meu é Solito, a marca é diferente sim. Kátia Flávia, 30 anos. Lá na casa (da patroa) o arroz é o Prato Fino, geralmente, e o feijão é Camil. Na minha casa o feijão é o carioca eu não tenho uma preferência não. Cleuza Regina, 30 anos. c) Eletrodoméstico Notou-se em algumas entrevistas que as patroas influenciaram as empregadas domésticas na questão dos eletrodomésticos, pois recomendaram como sendo úteis para o seu dia-a-dia. A “Geoge forma” (George Foreman), essa churrasqueirinha, que ela até me deu uma. Cleuza Regina, 29 anos. Nesta citação, observa-se a dificuldade da empregada doméstica em pronunciar o nome da marca do produto e a dificuldade de fixação da marca na mente do consumidor de baixa renda, visto que tal produto é destinado aos consumidores de classes mais altas. Portanto pode-se dizer que produtos destinados a consumidores e baixa renda devem ter um nome de fácil pronúncia, levando-se em consideração a dificuldade que pode ser encontrada pelos mesmos. De acordo com Barros (2007), ao comprar um eletro-eletrônico a baixa renda sente-se “consumidor”, o que permite a superação da identidade de “pobre”, fazendo com que a compra desse tipo de produto exerça papel importante na construção de identidade positiva frente aos mais favorecidos. O que ela me sugeriu foi um grill com nome de homem (George Foremam), que não deixa o gordura na carne, muito bom e saudável. Sônia Maria, 32 anos. Conforme tal depoimento é importante ressaltar, a diferença entre a patroa e a empregada doméstica, em relação à educação e conhecimento, podendo ser considerados como um dos principais fatores que influenciam o processo de compra da empregada doméstica. Em algumas situações a patroa tem papel importante, pois com informações do produto, ela influencia a empregada a comprar. Isso pode ocorrer devido a diferença de escolaridade e o acesso de informações que cada uma possui. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 150 2.3 Influência Empregada X Patroa De acordo com as respostas das entrevistadas constatou-se que a emprega também exerce influência nas compras da patroa, principalmente no que cerne a principal ferramenta de trabalho das empregadas domésticas, os produtos de limpeza. Entre os produtos de limpeza que foram identificados como resultados de influência da empregada doméstica nas compras do grupo familiar estão: Eu falei para ela sobre o sabão em barra, que ela compra o sabão de côco que não rende muito, falei para ela comprar o sabão em barra glicerinado que rende mais do que o de côco. Maria Aparecida, 26 anos. É uma dica minha que eu dei pra ela, eu falei para ela começar a usar e aí sempre compra esse sempre (detergente Ypê). Kátia Flávia, 35 anos. a) Amaciante e Sabão em Pó Sim, o amaciante de roupa, mas não falei nenhuma marca e o sabão em pó Omo, porque rende mais. Ana Carolina, 52 anos. No processo de compra do grupo familiar foi possível destacar o pouco conhecimento de algumas patroas em relação aos produtos de limpeza. Podemos julgar esse fato, a falta de uso dos produtos de limpeza, ou até mesmo a plena confiança em sua empregada doméstica para a indicação das marcas desse tipo de produto. Ela compra essas marcas (sabão em pó Omo, detergente Ypê entre outros) por minha causa, ela não tem muita noção não (risos). Lúcia Helena, 27 anos. Contudo, é possível dizer que assim como no artigo de Barros (2006b) existe a influência da empregada doméstica nas compras da patroa, principalmente em produtos de limpeza e alimentação. Porém diferentemente deste artigo, as empregadas domésticas entrevistadas demonstraram indicar produtos que também utilizam em suas casas. 2.4 Objetos de Desejo das Empregadas Domésticas Tendo como um dos objetivos específicos identificar o desejo de compra do grupo de empregadas domésticas, devido ao fato desde grupo, em sua maioria, pertencer à classe de baixa renda e a maioria de suas patroas pertencer no mínimo a classe média, ficou claro o desejo de possuir alguns produtos com as características relacionadas a tamanho, decoração e qualidade. Verificou-se também que o grupo foco das entrevistas admira a casa onde trabalha principalmente por ser grande, ter cômodos espaçosos, produtos de qualidade entre outros. a) Tamanho Em relação ao tamanho, ficou clara a apreciação das empregadas, quanto ao tamanho da casa ou dos cômodos da residência de suas patroas. Foi clara a associação da grandeza sendo fonte de beleza e de agrado pessoal da maioria das entrevistas. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 151 Eu gosto mais é da sala de visita, é grande né, tem espaço, bem bonita. Kátia Flávia, 30 anos. Ah é uma decoração assim simples, mas é tudo bem bonito, tem um quintal bem grande. Eloísa Helena, 28 anos. O tamanho talvez, mas é isso mesmo o tamanho. Cleuza Regina, 29 anos. O desejo das empregadas domésticas não está apenas na grandeza da casa ou dos seus cômodos, mas também, na grandeza dos produtos que podem ser encontrados na casa da patroa, algumas citações mostram que os eletroeletrônicos, móveis ou demais produtos são desejados por também serem grandes. A decoração do banheiro eu acho muito bonito, tem um espelho enorme no banheiro que chama muito a atenção. Maria Aparecida, 26 anos. Na minha casa a única coisa que eu gostaria de ter é aquela televisão grande da sala. Rosa Maria, 52 anos. Podemos constatar que o desejo de casa espaçosa, cômodos amplos e produtos grandes estão ligados à falta na realidade da empregada domestica, no qual em sua maioria mora em bairros periféricos onde as casas são pequenas, o grupo familiar é grande e cômodo é pouco espaçoso. Moro na Parada de Taipas, (...), lá mora eu, minha irmã, o esposo mais sete filhos no total dez pessoas. Sheila Regina, 47 anos. b) Beleza e decoração Após analisar as entrevistas também foi possível constatar que as empregadas domésticas gostam, admiram e desejam a casa e os seus cômodos por acharem esteticamente agradáveis. É um lugar lindo e gosto de tudo lá. Ana Carolina, 52 anos. Apesar dos esforços por parte do entrevistador em tranqüilizar e omitir das entrevistadas o real propósito da entrevista, e acima de tudo, desvincular a entrevista com a patroa, houveram alguns vieses nas respostas, houve resguardo por parte das entrevistadas, que muitas vezes tomaram as perguntas como meio de descobrir se havia inveja por parte delas em relação à casa, ou à família e até o status social das patroas. Constatou-se também um senso de combinação e de estética das empregadas mensalistas e também da associação da decoração da casa com os gostos e jeito de sua patroa. Gosto do banheiro... a privada combina com a pia, tem um espelho maravilhoso, acho o banheiro muito bonito. Maria Lúcia, 28 anos. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 152 Sim gosto de tudo, a decoração é simples, mas tem a cara dele. Ana Carolina, 52 anos. A sala completa, porque é bem espaçosa e os moveis são lindos tudo bem arrumadinho. Bem decorado. Marta Maria, 28 anos. c) Qualidade Outro motivo que faz a empregada doméstica comprar ou recomendar a compra a sua patroa é a qualidade do produto. A qualidade ficou claramente associada aos produtos de limpeza sendo na maioria das entrevistas citadas conforme declaração abaixo. Não... não tem a mesma qualidade, sabão em pó, por exemplo, não é a mesma, pois o Omo é muito diferente de Minerva. Rosa Maria, 52 anos. A percepção de qualidade nas empregadas domésticas está claramente ligada ao preço, considerando então produtos de qualidade aqueles com preço alto. (...) produto para limpar azulejo, ele limpa melhor, mas é muito caro, é o Veja para limpar azulejo. Sheila Regina, 47 anos. E de acordo com Prahalad (2005) para os consumidores de baixa renda o preço é fator importante, tão relevante quanto o desempenho a ele associado, portanto as empresas que pretendem atender a esse público devem repensar e redesenhar a relação preço/desempenho. 2.5 Lealdade a Marca A pesquisa também viabilizou a constatação da grande lealdade à marca das empregadas domésticas mensalistas e de suas respectivas patroas, principalmente quando se trata de produtos de limpeza e alimentos. No processo de compra do grupo familiar foi constatada uma grande lealdade à marca, por parte da patroa, tendo a empregada doméstica apenas a função de indicar a falta do produto, mediante a lista de compra. A lealdade à marca ocorreu geralmente em relação a produtos de limpeza e alimentação. Não coloco marca, eu coloco (na lista de compra) só o produto mesmo, ela tem as marcas já que compra sempre. Kátia Flávia, 30 anos. Não é o nome do produto, a marca é ela que escolhe. Vera Lúcia, 35 anos. No processo de compra das empregadas domésticas também foi constatada grande lealdade a algumas marcas especificas, destacando-se produtos de limpeza e alimentação, nesta última categoria especificamente o arroz. De acordo com as entrevista verificou-se que um alto grau de lealdade à marca de arroz nas compras das empregadas domésticas, sofrendo pouca influência da patroa. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 153 O que eu prefiro mesmo não mudo de jeito nenhum, é o arroz. Só gosto de arroz Namorado. Rosa Maria, 52 anos. Eu uso o arroz Camil, minha patroa não compra esse. Vera Lúcia, 35 anos. No que diz respeito a produtos de limpeza, especificamente em relação à marca do sabão em pó, percebeu-se uma grande lealdade por parte da empregada doméstica a marca Omo, fato também ressaltado por Barros (2006a) que ainda acrescenta, que além de usarem muito este produto em suas próprias casas, declararam-se fiéis a tal marca, também recomendam o uso do mesmo para suas patroas. O sabão em pó eu sempre usei o mesmo (Omo). Eloísa Helena, 27 anos. (...) de vez em quando porque é bem mais barato, mas tem certas coisas que não dá para comprar como sabão em pó, tem que ser Omo e“bombril” tem que ser Bombril (risos). Sônia Maria, 32 anos. Destaca-se também a presença de lealdade não apenas na marca de um produto específico, mas também a lealdade ao mix de produtos de um fabricante, como é o caso da marca Ypê. (...) detergente eu gosto do Ypê, amaciante do Ypê, bem tudo do Ypê, eu gosto mais da marca do Ypê. Kátia Flávia, 30 anos. O processo decisório de compra no grupo familiar tem início na constatação da falta do produto, geralmente estabelecido pela lista de compra feita pela empregada. Na maioria das vezes, a lista é composta apenas por produtos de limpeza, sendo mencionado somente o produto, não especificando a marca. Na etapa seguinte, a patroa ou os demais da casa efetuam a compra dos produtos, escolhendo as marcas, já conhecidas e consumidas a tempo. Foi identificado também, que em alguns casos a lista de compra é feita de maneira inversa, isto é, a empregada faz uma lista dos produtos e quantidade que tem na casa, e a patroa faz a compra dos itens faltantes na lista. Mas também houve casos em que a empregada não elabora lista e em alguns casos em momento de urgência ou necessidade ela mesma efetua a compra. A doutora (patroa) mesmo (compra), mas eu também faço as vezes, quando precisa de uma coisa na hora que não tem, eu vou lá buscar. Eloísa Helena, 27 anos. Na análise das entrevistas ficou claro que as empregadas domésticas sofrem influência de suas patroas principalmente no que diz respeito à alimentação e saúde. Já as empregadas domésticas influenciam suas patroas principalmente em relação a produtos de limpeza. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 154 Em alguns casos há uma grande lealdade das empregadas e de suas patroas junto a uma marca especifica que julgam comprá-las devido ao rendimento não se importando com o preço, mas sim com a qualidade. 3.CONSIDERAÇÕES FINAIS A procura e a compra desses bens que detêm status são muito importantes para esses consumidores, pois eles atrelam essa característica do status como um sinal de prosperidade e ascensão social da família. Foi identificada nas entrevistas a busca de identidade da baixa renda no grupo de empregadas domésticas, perante a patroa, de acordo com Prahalad (2005). As empregadas domésticas buscam semelhanças desejam ter o mesmo estilo de vida das patroas, ou seja, mesmos objetos de desejos, uma casa ampla com cômodos espaçosos e até ter eletrodomésticos iguais. Isso representa também, claramente, a busca de produtos utilizados pela patroa, como os de decoração, os utensílios de banheiros (pias,, reconhecimento e status) e necessidade de autorealização (desenvolvimento pessoal e conquistas). Foram analisados em alguns casos que há uma grande lealdade das empregadas e de suas patroas junto a uma marca especifica, pois elas julgam comprá-las principalmente por causa do rendimento e não por causa do preço, dando preferência pela qualidade. No caso de produtos de limpeza, especificamente o sabão em pó, as empregadas domésticas são bastante leais às marcas específicas. Tomando como foco a análise do processo de compra da empregada doméstica, em sua casa, foi possível constatar que a patroa tem papel iniciador ou influenciador neste processo de compra, fornecendo argumentos para uma nova compra de algum produto, ou a substituição de algum produto ou marca já utilizada. Com o foco agora na análise do processo de compra familiar da patroa, foi possível constatar que na maioria das vezes a empregada tem papel influenciador. Entretanto, o papel decisor sempre fica a cargo da patroa. Levando em consideração o modelo do processo de decisão de compra de Engel, a empregada doméstica possui atuação em quase toda a cadeia: no reconhecimento das necessidades (escrevendo as listas de compras), na busca (utilizando informações obtidas através de seu trabalho), na avaliação de alternativa pré-compra (utilizando o histórico de uso desses produtos), o consumo (no caso dos produtos de limpeza) e a avaliação pós-consumo. Na análise das entrevistas ficou evidenciada que a influência sofrida pelas empregadas domésticas por parte suas patroas especialmente no que nos aspectos de alimentação e saúde. A influência das empregadas se restringe principalmente em relação a produtos de limpeza. Para alguns casos existe uma grande lealdade das empregadas e de suas patroas junto a uma marca específica, que optam comprá-las devido ao rendimento, não tomando como fato-chave o preço, mas sim a qualidade dos produtos. Durante a realização das pesquisas houveram certas dificuldades devido a pouca instrução das empregadas domésticas, isso resultou em dificuldade de entendimento das perguntas e conseqüentemente influenciando no entendimento das respostas. Assim para a realização de futuras pesquisas a sugestão é avaliar se o nível de escolaridade das empregadas domésticas influencia no seu processo de compra. As entrevistas tiveram duração média de 20 minutos, o que é um tempo relativamente baixo, tal fato ocorreu por uma série de fatores, dentre eles, o fato de entrevistarmos as empregadas no REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 155 local de trabalho, e muitas vezes no horário de trabalho, fazendo com que, muitas vezes, as empregadas domésticas fossem objetivas demais, o que se tornou um fator limitante. Em nosso estudo constatamos uma limitação devido ao caráter qualitativo da pesquisa, o que não permite com que esses resultados sejam necessariamente válidos para a população da amostra estudada. Assim sendo, como uma opção de pesquisa para o futuro, sugerimos um estudo quantitativo que seja representativo para a população das empregadas domésticas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AAKER, David A. Pesquisa de Marketing. Porto Alegre: Bookman, 2004. ABEP: Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. 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Elaborou-se uma revisão da literatura, que permitiu a obtenção de uma variada gama de opiniões sobre as motivações do IED e as suas verdadeiras finalidade e aplicabilidade. Com a finalidade de conferir maior grau de certeza às constatações obtidas na revisão da literatura, uma análise econométrica tendo o IED assim como o Investimento Brasileiro Direto (IBD) como variáveis independentes e as exportações brasileiras como variável dependente, obteve-se os seguintes resultados: o IED não tem natureza complementar às exportações brasileiras; a desvalorização cambial também não tem representatividade significativa para expandir as exportações brasileiras; o IBD é o incentivador das exportações brasileiras, pelo fornecimento de insumos às unidades ligadas a tais investimentos. Portanto, em resposta à questão-problema, o IED não é agente influenciador das exportações brasileiras nos últimos anos. Palavras-chave: Investimento Direto; Políticas Financeiras; Estratégias de Internacionalização. INTRODUÇÃO Investimento Estrangeiro Direto (IED) é o processo pelo qual residentes de um país (o país investidor) adquire patrimônio com o propósito de controlar a produção, distribuição e outras atividades de uma firma em outro país (o país anfitrião). A importância da análise de IED ocorre devido a seu rápido crescimento global, às preocupações levantadas em relação às causas e conseqüências da posse estrangeira na economia local e ao fato de que o IED tem se caracterizado como uma importante fonte de fundos para países em desenvolvimento. As ferramentas comuns que firmas utilizam para desenvolver mercados estrangeiros para seus produtos consistem em: exportações, licenciamento, distribuição estrangeira e produção estrangeira - sendo que esses dois últimos procedimentos envolvem IED. O investimento estrangeiro direto pode ser visto como uma atividade que satisfaz necessidades básicas de negócio. Deste modo, existem motivações específicas de cada firma para a realização de IED. Dentre elas, observa-se a necessidade de mercados, eficiência produtiva, matériasprimas, informação e tecnologia, minimização ou diversificação de risco, integração de operações, desenvolvimento de conhecimento não transferível, proteção de conhecimento, proteção da reputação, capitalização sobre reputação, ação de evitar tarifas e cotas, considerações cambiais, assim como relações com outras multinacionais. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 159 O assunto crítico em relação a IED e ao comércio internacional refere-se a questão de serem complementares ou substitutos. Em outras palavras, a que ponto a produção e venda por subsidiárias em um mercado estrangeiro substitui ou auxilia no aumento das exportações ao mesmo mercado? Deste modo, o objetivo deste estudo é verificar a influência do Investimento Estrangeiro Direto no Brasil, assim como do Investimento Brasileiro Direto (IBD) sobre as exportações brasileiras. Trata-se de uma pesquisa exploratória de natureza econômica onde se define IED, discriminamse as motivações empresariais na prática de IED, assim como se aponta os efeitos de IED sobre os fluxos comerciais. Para isso, será feita uma ampla pesquisa tomando-se como base sobretudo a literatura internacional com o objetivo de se analisar alguns dos principais autores na área de Economia Internacional onde as teorias em relação a IED se inserem pelo fato de envolver a mobilidade internacional dos fatores de produção. Para aplicação do método estatístico, será feito um levantamento de dados secundários em órgãos como o Banco Central do Brasil e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Desta maneira, será possível realizar uma análise econométrica tendo como base o IED e IBD como variáveis independentes e as exportações de setores e firmas brasileiras que praticam IED como variável dependente. Uma vez detectada essa relação, concluir-se-á com uma apreciação crítica sobre a complementaridade ou substitutibilidade do IED sobre as exportações brasileiras. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Definição de IED Conforme a 5ª edição do Manual da Balança de Pagamentos do FMI (IMF’s Balance of Payments Manual), Investimento Direto é a categoria de investimento internacional que reflete o objetivo de uma entidade residente em uma economia de obter um interesse duradouro em uma empresa residente em outra economia. O interesse duradouro implica a existência de uma relação de longo prazo entre o investidor direto e a empresa e um grau significativo de influência pelo investidor na administração da empresa. Investimento Direto compreende não somente a transação inicial que estabelece a relação entre o investidor e a empresa, mas também todas as transações subseqüentes entre eles e entre empresas afiliadas, incorporadas ou não. De acordo com Krugman e Obstfeld (2005), Investimento Estrangeiro Direto são fluxos internacionais de capitais com os quais uma firma estabelecida em um país cria ou expande uma subsidiária em outro país. A característica peculiar do investimento estrangeiro direto é que envolve não somente uma transferência de recursos, mas também a aquisição de controle. Isto é, a subsidiária não somente tem uma obrigação financeira com a matriz, mas também é parte da mesma estrutura organizacional. Segundo Salvatore (2001), investimentos diretos são investimentos em fábricas, bens de capital, terra, e inventários que envolvam ambos o capital e administração, onde o investidor retenha controle sobre o uso do capital investido. Investimento Direto geralmente assume a forma de uma subsidiária ou controle de outra firma por meio da aquisição da maioria de suas das ações. No contexto internacional, Investimentos Diretos são comumente executados por corporações multinacionais engajadas em manufatura, extração de recursos, ou serviços. Carbaugh (2002) afirma que para executar suas operações mundiais, empresas multinacionais confiam no Investimento Estrangeiro Direto, que é a aquisição de um interesse controlador em uma companhia ou planta produtiva estrangeira. Investimento estrangeiro direto tipicamente REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 160 ocorre quando uma companhia obtém um número suficiente de ações de uma companhia estrangeira para assumir controle nas decisões desta empresa; quando a companhia adquire ou construi novas plantas e equipamento no exterior; quando a companhia aloca fundos ao exterior para financiar a expansão de sua subsidiária estrangeira; ou quando os lucros da subsidiária estrangeira são reinvestidos na expansão de sua planta. Gerber (2002) comenta que Investimento Estrangeiro Direto é o primeiro subcomponente de fluxos financeiros, juntamente com o investimento em portfolio que são títulos estrangeiros (foreign securities) e empréstimos para firmas estrangeiras, incluindo bancos. Investimento estrangeiro direto inclui itens tangíveis como imóveis, fábricas, galpões, utilitários de transporte, e outros patrimônios físicos. Gerber (2002) observa que a similaridade entre IED e investimento estrangeiro em portfolio é que ambos oferecem aos seus beneficiários direitos sobre o resultado futuro da economia estrangeira. Entretanto, são diferentes em seus horizontes de tempo e isto pode acarretar efeitos dramáticos ao país anfitrião onde o patrimônio se encontra. Investimento Direto geralmente envolve um horizonte de tempo maior, pois são difíceis de liquidar rapidamente e conseqüentemente representa uma posição de longo prazo no país anfitrião. Pugel e Lindert (2000) analisam que contabilistas da balança de pagamentos definem IED como qualquer fluxo de empréstimo ou aquisição de propriedade em relação a uma empresa estrangeira que é largamente controlada por residentes (geralmente firmas) do país investidor. As proporções de propriedade que definem o termo “largamente” variam de país para país. Para os EUA, 10% de propriedade pela firma investidora são o bastante para uma definição oficial de investimento direto. Nota-se que investimento direto consiste em qualquer investimento, seja nova aquisição ou empréstimo simples, contanto que a empresa investidora tenha propriedade de 10% da empresa estrangeira que recebe o investimento. A distinção entre investimento direto e portfolio (não direto) é o foco no termo controle. Uma firma que tem a propriedade e controle de empresas em mais de um país é uma empresa multinacional. Numa firma multinacional, a matriz está estabelecida no país de origem, ou seja, no país investidor. A matriz tem uma ou mais filiais ou subsidiárias estrangeiras em um ou mais países anfitriões. A matriz utiliza IED para estabelecer uma nova filial estrangeira ou para expandir ou financiar uma já existente. Desta maneira, interpreta-se que IED são fluxos internacionais de capitais utilizados no financiamento da administração e/ou produção de uma empresa localizada no exterior (país anfitrião), sendo esta de propriedade significativa da empresa localizada no país investidor. O atributo comum nas definições de investimento estrangeiro direto é o termo controle, em que o investidor busca uma relação de longo prazo e exerce considerável influência na administração da firma, o que representa a característica mais importante que distingue IED do investimento em portfolio em que o investidor não busca controle ou interesse duradouro. 1.1.2 Motivações de IED Segundo Krugman e Obstfeld (2005), a teoria moderna da empresa multinacional inicia-se na distinção entre as duas questões da qual uma maior é composta. Primeiro, qual a razão pela qual um bem é produzido em dois ou mais países ao invés de um. Esta é conhecida como a questão de localização. Segundo, qual o motivo pelo qual a produção em diferentes localizações é executada pela mesma empresa ao invés de firmas separadas? Esta é conhecida como a questão de internalização. Krugman e Obstfeld (2005) comentam que a teoria de localização é a teoria do comércio internacional na qual a localização da produção é determinada pela dotação de fatores. Deste REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 161 modo, fabricantes de computadores estabelecem suas instalações que requerem mão-de-obra altamente qualificada para elaboração de design em Massachusetts ou na Califórnia, assim como suas instalações que requerem mão-de-obra menos qualificada para a linha de montagem na Irlanda ou Singapura. Alternativamente, custos de transporte e outras barreiras ao comércio podem também determinar a localização das plantas. Como analisam Krugman e Obstfeld (2005), a teoria de internalização é um assunto distinto. A produção de uma subsidiária é freqüentemente o insumo de outra. Ou a tecnologia desenvolvida em um país pode ser utilizada em outros. Ou ainda a administração pode coordenar as atividades das plantas em diversos países. Estas transações são o que une uma empresa multinacional. Entretanto, transações internacionais não precisam ser executadas dentro da mesma firma. Componentes podem ser vendidos no mercado, e tecnologia pode ser licenciada a outras firmas. Deste modo, multinacionais existem pelo fato de ser mais lucrativo desempenhar tais transações dentro da mesma firma do que entre empresas diferentes. Esta é a razão pela qual a motivação das multinacionais é denominada “internalização”. Para Krugman e Obstfeld (2005), entre diversas teorias, têm-se duas visões influentes em relação ao motivo pelo qual atividades em diferentes países podem ser integradas em uma única firma de maneira útil. Deste modo, a razão pela qual atividades em diferentes países são conduzidas por somente uma firma ao invés de diferentes firmas é baseada em dois pilares. O primeiro enfatiza as vantagens de internalização para a transferência de tecnologia. Tecnologia, definida de maneira abrangente como qualquer tipo de conhecimento economicamente útil, pode algumas vezes ser vendida ou licenciada. Entretanto, a tecnologia geralmente é intrínseca a um grupo de indivíduos e não é possível agrupá-la ou vendê-la, além de ser difícil para um comprador em potencial saber o quanto vale a tecnologia. Tais problemas podem ser reduzidos se uma firma, ao invés de vender tecnologia, estabelece subsidiárias para auferir ganhos com esse conhecimento. O segundo pilar enfatiza as vantagens de internalização para integração vertical. Caso uma firma produza um bem utilizado como insumo em outra firma, problemas poderão ocorrer. Se ambas as firma gozarem de uma posição monopolística, elas poderão entrar em conflito caso uma delas tente abaixar o preço enquanto a outra tente aumentá-lo. Problemas de coordenação poderão existir se demanda ou oferta é incerta. Finalmente, preço flutuante pode impor risco excessivo sobre uma parte ou outra. Se ambas as firmas estiverem combinadas em uma única firma “verticalmente integrada”, tais problemas poderão ser evitados ou ao menos reduzidos (KRUGMAN E OBSTFELD, 2005). De acordo com Salvatore (2001), as motivações para execução de Investimentos Estrangeiros Diretos são geralmente as mesmas que se aplicam para investimentos em portfolio, isto é, obtenção de altos retornos (possivelmente resultante de taxas de crescimento mais altas no exterior, tratamento tributário mais favorável, ou maior disponibilidade de infraestrutura) ou diversificação de riscos. Entretanto, Salvatore (2001) analisa que a principal razão pela qual residentes de uma nação não se financiam com capital de outras nações, executando eles mesmos investimentos em sua própria nação ao invés de aceitar investimentos diretos do exterior, é que muitas grandes corporações, geralmente em mercados monopolísticos ou oligopolísticos, freqüentemente têm conhecimentos únicos na produção ou em habilidades administrativas que poderiam ser utilizados facilmente e de maneira lucrativa no exterior sobre as quais a corporação deseja manter controle direto. Nesta situação, a firma executará Investimentos Diretos no Exterior. Isto envolve integração horizontal, ou a produção de um produto diferenciado que é também produzido no país de origem no exterior. Um exemplo é a empresa IBM que não deseja licenciar REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 162 produtores estrangeiros de forma a manter controle completo sobre segredos de comércio e patentes para assegurar serviços e qualidade consistentes, cuja situação se aplica à Xerox, Gillette, Toyota e muitas outras empresas multinacionais. Salvatore (2001) afirma que outra razão importante para Investimento Estrangeiro Direto é a obtenção de controle de uma matéria-prima e assim assegurar uma oferta ininterrupta ao custo mais baixo possível. Isso se refere à integração vertical, sendo a forma da maior parte dos Investimentos Estrangeiros Diretos em países em desenvolvimento e em alguns países desenvolvidos abundantes em minério. Salvatore (2001) analisa que integração vertical envolvendo multinacionais podem também envolver a propriedade das vendas ou redes de distribuição no exterior, como é o caso da maioria das montadoras de automóveis no mundo. De acordo com Salvatore (2001) outras razões para o IED baseiam-se em evitar tarifas e outras restrições que nações impõem às importações ou em obter vantagem de subsídios governamentais que incentivam Investimentos Estrangeiros Diretos. Outras razões possíveis incluem a entrada num mercado estrangeiro oligopolístico para auferir altos lucros, a compra de uma firma estrangeira promissora para evitar sua competição futura e a possível perda de mercados de exportação, ou pela razão de que apenas uma grande empresa multinacional conseguiria obter o financiamento necessário para entrar em tal mercado. Salvatore (2001) observa que a distribuição regional de IED aparenta relacionar-se com proximidade geográfica e acordos comerciais. Desta maneira, o Japão é o principal investidor estrangeiro direto da Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Tailândia, enquanto que os principais destinos de investimentos diretos da União Européia incluem Gana e Marrocos na África, o Brasil na América Latina, e a Índia na Ásia. Carbaugh (2002) comenta que, embora os lucros expliquem em última instância o processo de investimento estrangeiro direto, a administração corporativa pode dar ênfase a uma variedade de outros fatores quando questionada sobre suas motivações de investimento. Esses fatores podem são classificados por Carbaugh (2002) em fatores de demanda, em que multinacionais estabelecem subsidiárias no exterior para atingir mercados estrangeiros que não podem ser atendidos adequadamente pela exportação direta. Isso ocorre algumas vezes em resposta à insatisfação em relação a técnicas de distribuição no exterior. Conseqüentemente, um negócio pode estabelecer uma divisão de marketing estrangeira e, mais tarde, instalações manufatureiras. Esse incentivo pode ser particularmente forte quando se percebe que existem preferências locais e diferenças em design. Uma familiaridade com as condições locais é de extrema importância para um programa de marketing de sucesso. O estabelecimento de instalações no exterior pode ser influenciado quando empresas consideram que sua capacidade produtiva é suficiente para atender as demandas domésticas. Desta maneira, caso deseje gozar de taxas de crescimento que excedam a expansão da demanda doméstica, exporta-se ou estabelecese operações no exterior. Competição por mercados pode também influenciar a decisão da firma em se estabelecer no exterior. Estratégias corporativas podem ser de natureza defensiva caso sejam levadas a preservar fatias de mercado de competidores atuais ou em potenciais. De fato, o método mais efetivo de prevenir que uma empresa estrangeira se torne um forte concorrente é pela aquisição, cuja prática é exemplificada pela General Motors que adquiriu a Monarch na Alemanha e a Opel no Canadá, mas não adquiriu firmas de modelos de menor porte como a Toyota e a Volkswagen, que vieram a se tornar fortes competidores da GM. Outra classificação por Carbaugh (2002) em relação aos fatores de motivação para Investimento Estrangeiro Direto são os fatores de custo, em que multinacionais buscam o aumento de seus REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 163 lucros por meio da redução dos custos de produção. Tais Investimentos Estrangeiros diretos podem tomar uma variedade de formas. A busca por matérias-primas essenciais pode orientar a intenção de uma firma de se tornar uma multinacional, o que é particularmente observado pelas indústrias extrativistas e de commodities agrárias. Custos de produção incluem mão-de-obra, em que multinacionais desejam manter o baixo custo desse fator pela alocação de parte ou de toda a sua linha de produção ao exterior. Ressalta-se que o mero fato de os EUA pagarem salários mais elevados em relação ao exterior não indica necessariamente custos mais elevados, uma vez que altos salários podem ser resultados de uma produtividade da mão-de-obra maior do que a de outros países. A localização de uma multinacional pode ser também influenciada por fatores de transporte, especialmente em setores onde os custos de transporte compõem uma fração elevada do valor do produto. Se o custo de transportar matérias-primas é significativamente mais elevado do que o custo de remeter os produtos acabados aos mercados, a multinacional deverá alocar suas instalações de produção mais proximamente de matérias-primas do que de seus mercados. Madeira, químicos básicos, alumínio, e aço estão entre os produtos que se aplicam a essa descrição. Alternativamente, quando o custo de transportar produtos acabados é significativamente mais elevado do que o de transportar as matérias-primas, as multinacionais alocariam suas instalações próximas aos mercados. Produtores de bebidas como a Coca-Cola e Pepsi-Cola transportam xarope concentrado para suas plantas em todo mundo, que adicionam água, engarrafam, e vendem os produtos aos consumidores. Por sua vez, quando os custos de transporte compõem uma pequena fração do valor do produto, multinacionais tendem a escolher a localização onde a disponibilidade e o custo de mão-de-obra e de outros insumos lhes ofereçam o menor custo de produção. Multinacionais que produzem componentes eletrônicos, roupas, e sapatos são exemplos de tal mobilidade locacional. Políticas governamentais podem também resultar em Investimento Estrangeiro Direto. Algumas nações procuram atrair empresas estrangeiras para estabelecer instalações geradoras de emprego por meio de subsídios como tratamento tarifário preferencial ou construções de fábrica gratuitas. Mais comumente, Investimento Direto pode ser uma maneira de transpor barreiras tarifárias sobre importações. As altas tarifas que o Brasil impõe sobre importações de autopeças implicam que produtores de automóveis estrangeiros que desejam vender no mercado brasileiro devem alocar linhas de produção neste país. Outro exemplo de investimento direto foram as montadoras de automóveis japonesas que estabeleceram linhas de produção nos EUA na década de 80 e 90 para neutralizar as pressões protecionistas americanas (CARBAUGH, 2002). Moosa (2002) afirma que as motivações de IED incluem a necessidade por mercados. Quando o crescimento nas vendas é limitado pelo mercado doméstico, a firma considera expandir-se ao exterior, lhe permitindo explorar economias de escala. Inclui-se também a necessidade por eficiência produtiva, que motiva companhias a produzir em países onde fatores de produção são relativamente baratos, tal como mão-de-obra utilizada pela Nike para produção de tênis na Ásia, pagando aos trabalhadores baixos salários. Há ainda a necessidade por matérias-primas em que, de forma a evitar os custos de transporte associadas às importações de matérias-primas indisponíveis em seu país, a firma estabelecerá instalações de produção próximas de onde se encontram as matérias-primas no país estrangeiro. Enumera-se a necessidade por informação e tecnologia que tem motivado investimento estrangeiro direto em companhias farmacêuticas americanas e produtoras de software e hardware, além da necessidade de minimizar e diversificar risco. Cita-se também a integração de operações, cujo exemplo de integração vertical que ocorre quando uma firma participa de vários estágios no processo produtivo é exemplificado pela indústria petrolífera que se engaja em operações que variam da exploração e extração à venda. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 164 Outra motivação mencionada por Moosa (2002) é o conhecimento não-transferível que ocorre quando uma firma desenvolve autoridade na produção de certa commodity, mas é difícil transferir tal conhecimento, sendo então melhor expandir-se internacionalmente. Enumera-se ainda a proteção de conhecimento onde a firma tem conhecimento transferível, mas não deseja transferi-lo, cujo exemplo é a Kentucky Fried Chicken que passou a transferir sua produção ao exterior para proteger o segredo se sua receita; a proteção da reputação em que a firma decide produzir no exterior para proteger a marca ou a qualidade do produto, cujo exemplo é o McDonald‟s que se expandiu internacionalmente para proteger sua reputação de fazer hambúrgueres saborosos; e a capitalização com base na reputação, cujo exemplo são os bancos internacionais bastante conhecidos que atraem depósitos quando estabelecem divisões em países estrangeiros (MOOSA, 2002). Em acordância com Carbaugh (2002), Moosa (2002) cita também a ação de evitar tarifas e quotas, onde a produção que ocorre em um país estrangeiro torna-se um substituto às exportações que estariam sujeitas a tarifas e quotas, cujo exemplo clássico foi o estabelecimento de montadoras japonesas nos EUA. Moosa (2002) também observa as considerações cambiais, onde firmas optam por estabelecer produção em países cujas taxas cambiais são fracas ou subvalorizadas, e vendem seus produtos em países onde as taxas cambiais são fortes ou sobrevalorizadas (os conceitos de sub e sobrevalorização são mensurados por desvios na paridade do poder de compra). Finalmente, Moosa (2002) menciona as relações com outras multinacionais - motivação na qual empresas se expandem internacionalmente como seguidora. Esse fator é particularmente válido para bancos e outras instituições financeiras, onde o banco ou a instituição financeira que serve sua matriz no seu país de origem pode estabelecer um braço no mesmo país estrangeiro para servir as necessidades bancárias e financeiras da subsidiária, o que se constituiu de fato numa das razões para o crescimento da atividade bancária internacional. De acordo com Pugel e Lindert (2000), uma explicação possível seria que IED é simplesmente uma forma de fluxo internacional de capital financeiro baseada na diferenças entre retornos e riscos entre países. Embora retorno e risco devam ter um papel nas decisões das firmas sobre a execução ou não de IED, esta teoria financeira de IED não é adequada, pois não explica a razão pela qual esses investimentos internacionais seriam grandes o suficiente para estabelecer controle na administração de empresas estrangeiras. Para Pugel e Lindert (2000), uma conclusão equivocada é considerar que, se o desafio é a transferência de capital de uma nação para outra, investimento internacional em portfolio pode cumprir essa tarefa melhor do que o IED por parte das firmas cujas preocupações se baseiam na produção e no marketing. Outra explicação para IED é que é simplesmente o resultado de competição perfeita na qual algumas firmas quase acidentalmente operam em mais de um país. Entretanto, tal interpretação também se mostra inadequada, pois IED não é algo fácil de se executar e nem é algo acidental dada a complexidade de se operar em um país estrangeiro. Pugel e Lindert (2000) analisam que, uma vez que firmas locais têm vantagens inerentes em operar em seu próprio ambiente, uma empresa estrangeira encontra-se em desvantagem, pois inicialmente não tem a compreensão nativa de leis locais, clientes, procedimentos, práticas, e relacionamentos. Além disso, uma empresa estrangeira tem custos extras de manutenção do controle administrativo, seja em comunicação, seja nos custos de viagem, e, especialmente nos mal-entendidos. Entretanto, segundo Pugel e Lindert (2000), para que considere a execução de IED, a firma entrante estrangeira deve ter algumas vantagens específicas não compartilhadas por seus REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 165 competidores locais no país anfitrião de forma que compense as desvantagens inerentes a empresas estrangeiras. A vantagem específica da firma é algumas vezes baseada em tecnologia ou patentes. Pode ter acesso especial a grandes montantes de capitais – montantes muito superiores do que uma firma nacional comum poderia ter. Ou, como no caso do refinamento de petróleo ou processamento de metais, uma firma pode coordenar operações e requerimentos de capital investido em vários estágios num processo de produção vertical e, devido a altos custos de inventário e ao seu conhecimento dos requerimentos em cada estágio, a firma pode ter a habilidade de economizar por meio de operações sincronizadas. Ou a ela pode ter vantagens de marketing baseadas na utilização qualificada de publicidade e outros métodos promocionais que estabelecem os diferenciais de um produto como, por exemplo, através de marcas fortes. Ou ainda a firma deve ter uma administração superior. Desta maneira, alguma vantagem especial é necessária para a firma superar a desvantagem de operar à distância (PUGEL E LINDERT, 2000). O quadro a seguir sintetiza as motivações de IED segundo os autores discutidos nesta seção. Quadro 1 – Motivações de IED Segundo Autores Discutidos Autor Krugman e Obstfeld (2005) Motivações de IED Transferência de tecnologia Integração Vertical Salvatore (2001) Integração Horizontal Integração Vertical Transpor Restrições às Importações Obter Subsídios Governamentais Carbaugh (2002) Fatores de Demanda Fatores de Custo Moosa (2002) Necessidade por Mercados Necessidade por Eficiência Necessidade por Matérias-Primas Necessidade por Informação Minimizar e Diversificar Risco Integração de Operações Conhecimento Não-Transferível Proteção de Conhecimento Proteção da Reputação Capitalização com Base na Reputação Considerações Cambiais Relações com Outras Multinacionais REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 166 Pugel e Lindert (2000) Tecnologia ou Patentes Acesso a Financiamento Economia em Operações Sincronizadas Vantagem de Marketing Vantagem Administrativa Outras Vantagens Específicas Fonte: ORGANIZADO PELOS AUTORES, 2006. 1.4 Investimento Estrangeiro Direto e o Comércio Internacional No ano em que o Investimento Estrangeiro ocorre, os gastos internacionais da nação investidora aumenta e provoca déficit em seu balanço de pagamentos (excesso de gastos no exterior sobre receitas estrangeiras). Entretanto, a transferência inicial de capital e o aumento dos gastos no exterior por parte da nação investidora tendem a suavizar pelo aumento das exportações de bens de capital, peças individuais, e de outros produtos pela nação investidora, assim como pelo fluxo subseqüente de lucros à nação investidora. Além disso, a decisão de se optar por exportação direta ou por IED/licenciamento relaciona-se às economias de escala. Deste modo, quando o tamanho do mercado do país anfitrião é grande o suficiente para permitir uma produção eficiente, a firma do país investidor eleva seus lucros por meio do estabelecimento de uma subsidiária de produção ou por meio do licenciamento de direitos para uma firma local produzir e vender seu produto. Por outro lado, a escolha entre IED ou licenciamento relaciona-se em decidir se é mais eficiente estabelecer uma subsidiária de produção estrangeira ou licenciar tecnologia para uma firma estrangeira produzir. Desta maneira, a decisão de estabelecer operações por meio de IED ou licenciamento depende da extensão ao qual o capital é utilizado no processo produtivo, do tamanho do mercado estrangeiro, e da magnitude de custo fixo que o negócio deve arcar para estabelecer uma planta no exterior. Há também um consenso de que a condição do comércio internacional e IED serem complementares ou substitutos depende do fato do IED ser horizontal ou vertical. A condição de o IED ser horizontal ou vertical depende das diversas características dos países. Por exemplo, se países tem dotações de fatores significativamente diferentes, então o IED vertical dominará. Por outro lado, IED horizontal dominará se os países forem similares em tamanho e em dotações relativas, e se custos de comércio são de moderados a altos. Em IED horizontal, firmas servem mercados estrangeiros por meio do estabelecimento de plantas no exterior para fabricar bens idênticos. Desta maneira, as exportações do país investidor ao país anfitrião diminuirão, implicando assim que são substitutos. Em IED vertical, multinacionais separam as diferentes etapas da produção geograficamente pelos países para obter vantagem nos preços inferiores dos fatores, implicando então a sua complementaridade. O IED é geralmente complementar ao comércio internacional, resultando-se tanto em expansão das exportações do país investidor em componentes utilizados na produção da filial, pelo fato da filial importar insumos da matriz a um custo inferior em relação a outros fornecedores, como na própria expansão das exportações do país investidor em produtos finais - analisado sob o aspecto de a filial ser relativamente mais eficiente do que a matriz na utilização de ferramentas de marketing para estimular a demanda local para os produtos que não são produzidos pela filial nacional. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 167 O quadro a seguir sintetiza as idéias em relação ao IED e o comércio internacional segundo os autores discutidos nesta seção. Quadro 2 – IED e o Comércio Internacional Segundo Autores Discutidos Autor IED e Comércio Internacional Salvatore (2001) Inicialmente: Déficit no balanço de pagamentos (aumento dos gastos no exterior) Posteriormente: Superávit no balanço de pagamentos (exportações) Carbaugh (2002) Exportações vs IED: Economia de escala IED vs Licenciamento: Intensidade de K Moosa (2002) Dotação diferenciada de fatores: IED (complementar ao comércio internacional) vertical Dotação similar de fatores: IED horizontal (substituto ao comércio internacional) Pugel e Lindert (2000) Complementariedade: comércio internacional de componentes e de produtos acabados não comercializados pela filial (marketing). Gonçalves (2003) Substituição: redução das importações de produtos acabados Complementaridade: comércio intraindustrial Fonte: ORGANIZADO PELOS AUTORES, 2006. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 2.1 Problema de Pesquisa Segundo Marconi & Lakatos (2003), a formulação do problema de pesquisa objetiva esclarecer a dificuldade específica que se encontra e, prendendo-se ao tema proposto, esclarece a dificuldade específica com a qual se defronta e que se pretende resolver por intermédio da pesquisa. Desta maneira, teve-se a formulação do problema de pesquisa. De que modo a realização de IED e IBD por parte de empresas brasileiras influencia fluxo de exportações diretas brasileiras: favorável ou desfavoravelmente? 2.2 Hipótese do Trabalho De acordo com Richardson (1999), nem todo tipo de pesquisa requer hipóteses. Por exemplo, Malhorta (1999) afirma que, devido a seu tipo de pesquisa, nenhuma hipótese foi proposta, pois um dos objetivos de seu tipo de pesquisa é gerar hipóteses. Nesta pesquisa, o assunto crítico em relação ao IED e ao comércio internacional referiu-se à questão de serem complementares, pelo fato de aumentar as exportações de insumos, bens de capital e tecnologia do país investidor para o país anfitrião onde se estabeleceu a subsidiária; ou substitutos, por haver menor necessidade de exportações diretas uma vez que a produção passa a ocorrer no país anfitrião. 2.3 Tipo de Pesquisa Trata-se de uma pesquisa exploratória de natureza econômica. 2.4 Objetivos REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 168 2.4.1 Objetivo Geral De acordo com Marconi & Lakatos (2003), o objetivo geral está associado a uma visão global e abrangente do tema, relacionando-se com o conteúdo intrínseco dos fenômenos e eventos, assim como das idéias estudadas. Desta maneira, o objetivo geral deste estudo foi verificar a influência do Investimento Estrangeiro Direto e Investimento Direto Brasileiro no Exterior sobre as exportações brasileiras. 2.4.2 Objetivos Específicos Segundo Marconi & Lakatos (2003), os objetivos específicos têm que contribuir objetivamente para responder ao problema de pesquisa, sendo que o objetivo específico apresenta caráter mais concreto em relação ao objetivo geral. Tem função intermediária e instrumental, permitindo, de um lado, atingir o objetivo geral e, de outro, aplicar este a situações particulares. Desta maneira, os objetivos específicos desta pesquisa foram: 1. Definir IED. 2. Discriminar as motivações empresariais na prática de IED. 3. Apontar os efeitos do IED sobre os fluxos comerciais. 4. Verificar as relações dos valores de IED/IBD com as variações no valor das exportações brasileiras. 5. Executar apreciação crítica sobre a complementaridade ou substitutibilidade do IED/IBD sobre as exportações brasileiras. 2.5 Método De acordo com Richardson (1999), método em pesquisa significa a escolha de procedimentos sistemáticos para descrição e explicação de um fenômeno. Em princípio, a diferença entre o método qualitativo e quantitativo é que o primeiro não emprega um instrumental estatístico como base do processo de análise de um problema, e não pretende numerar ou medir unidades ou categorias homogêneas. Segundo Flick (2004) a pesquisa qualitativa consiste na escolha correta de métodos e teorias oportunos, no reconhecimento e na análise de diferentes perspectivas, nas reflexões dos pesquisadores a respeito de sua pesquisa como parte do processo de produção de conhecimento e na variedade de abordagens e métodos. Por outro lado, Gressler (2003) afirma que a pesquisa quantitativa é caracterizada pela formulação de definições operacionais das variáveis, quantificação nas modalidades de coleta de dados e informações, utilização de tratamentos estatísticos e hipóteses que exigem, geralmente, uma relação entre causa e efeito e apóia suas conclusões em dados estatísticos, comprovações e testes. Desta maneira, o método seguido é o quantitativo, uma vez que se investiga a relação de causalidade entre os fenômenos relacionados às exportações diretas brasileiras e o Investimento Estrangeiro Direto, assim como Investimento Brasileiro Direto, baseando-se em bancos de dados e ferramentas econométricas. 2.6 Instrumentos de Coleta de Dados Para aplicação do método estatístico, fez-se um levantamento de dados secundários em US$ milhões no Balanço de Pagamentos do Brasil, disponível no sítio do Banco Central do Brasil. Em Transações Correntes, analisou-se o total das exportações de bens em seu valor FOB (freeon-board), ou seja, sem a inclusão do valor de fretes. O termo FOB (porto de embarque REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 169 nomeado) é o termo em que o vendedor deve entregar a mercadoria a bordo do navio nomeado pelo comprador, assumindo os custos até este ponto. A bordo significa ter ultrapassado a murada do navio, não necessitando ter chegado aos porões ou ao convés. A partir deste ponto, os custos e riscos são por conta do comprador. A contratação do transporte, neste caso, é por conta do comprador, que deve pagar o frete. Na Conta Financeira, analisou-se o crédito de IED (Investimento Estrangeiro Direto), assim como o débito de IBD (Investimento Brasileiro Direto). Analisou-se o crédito de IED e o débito de IBD pelo fato de representar, respectivamente, o valor que estrangeiros depositam como investimento no País – o que representa contabilmente um ingresso de recursos no Brasil – e o valor que os brasileiros residentes efetivamente investem no exterior – o que representa na contabilidade social uma saída de recursos do Brasil. A partir das séries temporais do Banco Central do Brasil, analisou-se adicionalmente o índice de taxa de câmbio real baseado no IPCA com o mês de junho de 1994 como data-base, e o índice do PIB brasileiro trimestral dessazonalizado a preços de mercado, tendo-se como data-base o ano de 1990. 2.7 Técnica de Análise Após se executar a estatística descritiva das variáveis denominadas por X (total das exportações de bens brasileiras FOB), IBD , IED , E (índice de taxa de câmbio real) e PIBíndice (índice do PIB trimestral dessazonalizado a preços de mercado), analisou-se os respectivos gráficos de linhas da variável endógena X e das exógenas IBD , IED e E como uma tentativa de se investigar alguma relação visível entre as mesmas. A partir da elaboração do gráfico de linhas, as variáveis X , IBD , e IED passam a ser representadas como percentual em relação ao PIBíndice , denotadas respectivamente como X _ Y , IBD _ Y , e IED _ Y . Desta forma, embora não seja possível executar uma análise numérica individual a partir de valores do eixo y, a análise relativa das variáveis em estudo evitará a heterocedasticidade (variância do erro não constante) nos possíveis modelos formulados posteriormente, dado que as variáveis passam a ser estudadas sob o mesmo parâmetro de análise. Em seguida, elaborou-se um gráfico logarítmico dessas variáveis, uma vez que se trata de uma forma funcional importante para se analisar dados, colocando-os em um mesmo parâmetro de análise por meio de sua “compressão numa mesma base”. Desta maneira, torna-se útil para se analisar dados que assumem valores que dificultam comparações, como é o caso da comparação da variável IBD _ Y com as demais variáveis pelo fato de assumir valores muito pequenos em relação a estas. Deste modo, desenvolveram-se gráficos de dispersão, em que se tem a variável X _ Y no eixo x e cada uma das outras variáveis no eixo y. Constitui-se na melhor ferramenta para visualizar a relação entre duas variáveis quantitativas, coletando-se dados aos pares de duas variáveis (exógena e endógena) para se verificar a existência de relações entre as variáveis em questão. Após a análise a partir de diferentes tipos de gráficos, desenvolve-se um modelo de regressão múltipla em que se tem X _ Y como variável dependente e IBD _ Y , IED _ Y e E como variáveis independentes. Finalmente, executou-se o teste t de student de significância do modelo, aceitando-se ou rejeitando-se a hipótese nula de que tal coeficiente é diferente de zero, ou seja, significante ao modelo em que se tem o valor das exportações totais de bens como variável endógena. O p-valor que representa este teste é o cálculo da probabilidade de se cometer o erro de tipo 1 (rejeitar a REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 170 hipótese nula quando ela é verdadeira), com os dados amostrais. Este valor é dado pelo pacote estatístico. Assim, compara-se com o nível de significância escolhido e toma-se a decisão. Se o p-valor for menor que o nível de significância escolhido, rejeita-se a hipótese nula. Caso contrário, se aceita tal hipótese nula de que o coeficiente assume valor zero. 3. RESULTADOS E ANALISES DOS DADOS 3.1 Estatística Descritiva Tabela 1 – Estatística descritiva para as variáveis endógena e exógenas VARIÁVEL MÉDIA DESVIO PADRÃO MÍNIMO MÁXIMO X 16713,84 6474,786 9730,576 33042,1 IBD 883,5882 1266,322 97,336 8442,282 IED 6472,399 2936,821 997,6 12403,64 E 109,5795 33,68202 68,66 193,46 PIBíndice 130,2415 9,358488 114,72 148,15 Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados calculados pelo STATA. Na Tabela 1, X representa as exportações totais de bens; IBD representa o Investimento Brasileiro Direto; IED , o Investimento Estrangeiro Direto; E , o índice da taxa de câmbio real; e PIBíndice , o índice do PIB trimestral brasileiro. Estes valores permitem uma visualização inicial dos dados incluídos no modelo de regressão linear múltipla a ser desenvolvido, com suas respectivas médias, desvios-padrão, valores mínimos e valores máximos assumidos. Os dados da análise encontram-se no Apêndice A. 3.2 Gráfico de Linhas Por meio do gráfico de linhas, analisam-se os respectivos gráficos de linhas da variável endógena X e das exógenas IBD , IED e E como uma tentativa de se investigar alguma relação visível entre as mesmas. As variáveis X , IBD , e IED passam a ser representadas como percentual em relação ao PIBíndice , denotadas respectivamente como X _ Y , IBD _ Y , e IED _ Y . Desta forma, embora não seja possível executar uma análise numérica individual a partir de valores do eixo y, a análise relativa das variáveis em estudo evitará a heterocedasticidade nos possíveis modelos formulados posteriormente, dado que as variáveis passam a ser estudadas sob o mesmo parâmetro de análise. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 171 240 200 160 120 80 40 0 5 10 15 20 25 X_Y IED_Y 30 35 40 45 IBD_Y E Figura 3 – Gráfico de linhas para as variáveis endógena e exógenas Fonte: Elaborado pelos autores a partir do EViews 5.0. A partir da Figura 3, observa-se que a variável X _ Y sofre tendência ascendente a partir do primeiro trimestre do ano de 2002. Por outro lado, a variável IBD _ Y e IED _ Y sofre oscilações ao longo do período observado, verificada de forma mais acentuada no ano de 2004. Por meio das variações ao longo do eixo observa-se que o IED _ Y varia mais do que o IBD _ Y em termos absolutos, uma vez que a variável IED assume valores historicamente maiores nos dados amostrais. Aparentemente, a variável X _ Y não se comporta como esperado considerando-se as variações do índice da taxa de câmbio real E , uma vez que valorizações cambiais não tem representado necessariamente declínio das exportações. É possível verificar este fenômeno de forma mais clara a partir do ano de 2004 em que houve aumento das exportações sob desvalorizações cambiais. Apesar de não ser esperado, é explicável, dado que, no caso do Brasil, o aumento do valor das exportações sob desvalorizações cambiais aponta para ganhos de competitividade internacional. Portanto, numa análise inicial, espera-se obter um p-valor para a variável E acima de 5% de significância, aceitando-se a hipótese nula de que o parâmetro possa assumir valor zero, ou seja, não ser significante para explicar o desempenho das exportações durante o período observado. Em relação à interação das variáveis X _ Y e IED _ Y , não é possível identificar se o IED e as exportações brasileiras são complementares ou substitutas. Apesar de assumirem tendências distintas ao longo do eixo, sobretudo durante período que compreende os anos de 1999 a 2004, algumas oscilações pontuais verificadas pelo IED _ Y correspondem a variações na mesma direção da variável X _ Y , como se observa nos anos de 1998 e 2004. Em relação à interação das variáveis X _ Y e IBD _ Y , verifica-se que podem ser complementares, uma vez que muitas das oscilações assumidas pelo IED _ Y correspondem a variações na mesma direção da variável X _ Y . Capta-se um aumento simultâneo dessas variáveis durante os anos de 1995, 1998, 2000 e, sobretudo, em 2004. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 172 Desta maneira, analisa-se que o câmbio não é uma variável decisiva para provocar alterações significativas nas exportações, apontando para ganhos de competitividade internacional do Brasil. Verifica-se também que o IED possivelmente não tem uma natureza definida complementar ou substituta para as exportações brasileiras. Por outro lado, a partir das oscilações assumidas por esta variável com conjunto com as exportações brasileiras, considerase o IBD como uma força fomentadora em potencial das exportações brasileiras. 3.3 Gráfico Logarítmico A forma logarítmica é uma forma funcional importante para se analisar dados, colocando-os em um mesmo parâmetro de análise por meio de sua “compressão numa mesma base”. Por exemplo, os logaritmos naturais de 100 e 1000 são, respectivamente os valores 4,51 e 6,91. Desta maneira, torna-se útil para se analisar dados que assumem valores que dificultam comparações, como é o caso da comparação da variável IBD _ Y com as demais variáveis pelo fato de assumir valores muito pequenos em relação a estas. 500.0 250.0 150.0 100.0 50.0 25.0 15.0 10.0 5.0 2.5 1.5 1.0 0.5 5 10 15 20 25 X_Y IED_Y 30 35 40 45 IBD_Y E Figura 4 – Gráfico logarítmico para as variáveis endógena e exógenas Fonte: Elaborado pelos autores a partir do EViews 5.0. Observa-se na Figura 4 que as maiores variações adquiridas pela variável IBD _ Y , seguida da variável IED _ Y , da variável X _ Y , e do índice da taxa de câmbio real E . Na regressão a ser estimada, espera-se um R 2 baixo, ou seja, um poder de explicação agregado relativamente baixo que as variáveis IBD _ Y , IED _ Y e E exercem sobre a exportação total de bens, pelo fato desta variável endógena não absorver com a mesma intensidade as variações sofridas pelas variáveis exógenas. Pode-se raciocinar que as variáveis IBD _ Y , IED _ Y e E podem se compensar em suas perdas e ganhos proporcionadas às exportações. 3.4 Gráfico de Dispersão Um gráfico de dispersão constitui na melhor ferramenta para visualizar a relação entre duas variáveis quantitativas, coletando-se dados aos pares de duas variáveis (exógena e endógena) para se verificar a existência de relações entre as variáveis em questão. REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 173 100 60 50 80 40 IBD_Y IED_Y 60 40 30 20 20 10 0 0 80 120 160 200 240 80 120 X_Y 160 200 240 X_Y 200 180 160 E 140 120 100 80 60 80 120 160 200 240 X_Y Figura 5 – Gráfico de dispersão para as variáveis endógena e exógenas Fonte: Elaborado pelos autores a partir do Eviews 5.0. Por meio da Figura 5, verifica-se que, para maiores níveis de exportação, os níveis de IED mínimo assumem possível tendência ascendente. Por outro lado, não é possível verificar uma clara dependência linear entre as variáveis X _ Y e IED _ Y , uma vez que alguns dos maiores valores de IED _ Y ocorrem para os níveis mais baixos de exportação. Desta forma, se observam níveis mínimos crescentes de IED coincidentes com maiores valores de exportações. Entretanto, dadas as observações de níveis relativamente altos de IED para baixos valores de exportações, não é imperativo que todo o IED seja destinado para esse fim. No caso do Brasil, observam-se Investimentos Estrangeiros Diretos nos setores de telecomunicações e energia que não geram exportações. Assim, o propósito exportador ou não do IED dependerá do setor em que tal investimento se aplica. Em relação às variáveis X _ Y e IBD _ Y , apesar da variável IBD _ Y assumir valores constantemente baixos, é possível observar que os valores mínimos de IBD _ Y assumem possível tendência ascendente ao longo do eixo, coincidindo com maiores níveis de X _ Y na Figura 5. Deste modo, pode haver relação direta entre Investimento Brasileiro Direto e as exportações nacionais. Finalmente, não é aparente a dependência linear entre as variáveis X _ Y e E , uma vez que níveis mais altos de exportações ocorrem com baixos níveis de E , ou seja, moeda nacional valorizada. Observa-se assim que, dada a maior competitividade do Brasil no cenário REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 174 internacional, as exportações nacionais dispensam de uma taxa cambial excessivamente desvalorizada para seu persistente crescimento em nível agregado. 3.5 Modelo Econométrico 3.5.1 Regressão Múltipla Inicia-se X PIBíndice com 1 2 a IBD PIBíndice elaboração 3 IED PIBíndice do E 4 seguinte modelo econométrico: , em que X representa as exportações totais brasileiras FOB em US$ (milhões); IBD é o valor do Investimento Brasileiro Direto em US$ (milhões); IED , o Investimento Estrangeiro Direto em US$ (milhões); E , o índice da taxa de câmbio real R$/US$; PIBíndice , o índice do PIB trimestral brasileiro; e consiste no termo de erro, onde se inclui todas as variáveis não expressas pelo modelo que, por hipótese, tem média zero e variância constante 2 , gerando os seguintes resultados: Tabela 1 – Resultados da regressão múltipla Dependent Variable: X_Y Method: Least Squares Sample: 1995Q1 2006Q2 Included observations: 46 Variable Coefficient Std. Error t-Statistic Prob. IED_Y -0.197995 0.250341 -0.790900 0.4334 IBD_Y 1.883128 0.639896 2.942866 0.0053 E 0.219283 0.162560 1.348931 0.1846 C 99.43967 20.29665 4.899313 0.0000 R-squared 0.221671 Mean dependent var 125.9970 Adjusted R-squared 0.166076 S.D. dependent var 39.22125 S.E. of regression 35.81663 Akaike info criterion 10.07764 Sum squared resid 53878.89 Schwarz criterion 10.23666 Log likelihood -227.7858 F-statistic 3.987253 Durbin-Watson stat 0.492796 Prob(F-statistic) 0.013797 Fonte: Elaborado pelos autores a partir do Eviews 5.0. Como verificado por meio do gráfico logarítmico, verifica-se um R 2 relativamente baixo, ou seja, um poder de explicação agregado relativamente baixo que as variáveis IBD _ Y , IED _ Y e E exercem sobre a exportação total de bens. Esse fenômeno ocorre pelo fato da variável REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 175 endógena X _ Y não absorver com a mesma intensidade as variações sofridas pelas variáveis exógenas, além do fato das exportações brasileiras não dependerem exclusivamente das variáveis deste modelo. Observa-se também que as variáveis IBD _ Y , IED _ Y e E podem se compensar em suas perdas e ganhos proporcionados às exportações brasileiras. Nos resultados da regressão múltipla ilustrados pela Tabela 1, verifica-se que a variável IED _ Y e E não são significativas para explicar as exportações durante o período observado. Levando-se também em consideração seu coeficiente estimado, verifica-se que o Investimento Estrangeiro Direto assume um coeficiente negativo e próximo de zero (-0,197995), o que mostra que o IED não apresenta natureza definida complementar às exportações brasileiras. Isto ocorre pelo fato do Investimento Estrangeiro Direto no Brasil não exercer influência empírica sobre as exportações brasileiras. Assim, a maioria dos valores de IED no Brasil é executado para produção destinada sobretudo ao mercado interno – de forma que o IED não tem uma natureza definida complementar às exportações. Esse fenômeno caso pode ser ilustrado pelos recentes investimentos nos setores de telecomunicações e de energia que não geram exportações, conforme Figura 6 a seguir. Investimentos Estrangeiros Diretos no Brasil: As 5 maiores Aplicações por Atividade Econômica em 2005 (US$ milhões) 3000,00 2500,00 2000,00 1500,00 1000,00 500,00 0,00 Serviços prestados principalmente às empresas Comércio varejista e Fabricação de produtos reparação de objetos alimentícios e bebidas pessoais e domésticos Correio e telecomunicações Eletricidade, gás e água quente Figura 4 – IED e Setores de Aplicação no Brasil em 2005. Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados disponíveis no sítio do Banco Central do Brasil. Em relação à variável E para o índice de câmbio real, além da insignificância estatística, analisase também um coeficiente positivo próximo de zero (0,219283). Deste modo, verifica-se que as estruturas de produção e consumo de um país podem causar ganhos (ou perdas) de competitividade internacional, independente de variações na taxa de câmbio. Neste caso, a análise empírica corrobora o já mencionado ganho de competitividade brasileiro (RIVERA RIVERA e CASSANO, 2006). Assim, as variações cambiais não exercem influência significativa em relação ao desempenho agregado das exportações dado que persistentes valorizações cambiais não fizeram com que os REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 176 valores das exportações brasileiras deixassem de ter uma regular tendência ascendente observada pelas Figuras 3, 4 e 5. Por outro lado, observa-se que o IBD _ Y é significativo ao modelo, assumindo coeficiente positivo diferente de zero (1,883128), o que mostra que os Investimentos Diretos Brasileiros não substitui as exportações pelo investimento em plantas produtivas no exterior, mas as incentiva pelo fornecimento de insumos. Segundo a lógica de Moosa (2002), uma razão para isso é que o Investimento Direto permite à firma estabelecer uma maior base distributiva, assim expandindo sua linha de produtos vendidos no mercado estrangeiro. Além disso, a produção no país estrangeiro requer invariavelmente a importação de produtos intermediários do país investidor, ocorrendo conseqüentemente exportações por parte do Brasil. 4. CONCLUSÃO A revisão da literatura permitiu observar-se que há intensa variedade de opiniões sobre a finalidade e a utilização do IED. Enquanto Krugman/Obstfeld e Salvatore coincidem na opinião de que a integração vertical é um dos pontos mais relevantes do IED, Carbaugh alerta para os fatores de custo, Moosa para a necessidade de mercados e de matérias-primas e Pugel/Lindert citam a vantagem de marketing e vantagem administrativa. Tais discrepâncias de opinião, entretanto, não diminuem a importância do tema. Pelo contrário, demonstram como ainda é necessária uma maior discussão a respeito da melhor utilização do IED e, também, da correta aplicação do mesmo. A análise estatística, por outro lado, indica que o Investimento Estrangeiro Direto no Brasil não exerce influência empírica sobre as exportações brasileiras. Assim, a maioria dos valores de IED no Brasil é executado para produção destinada sobretudo ao mercado interno – de forma que o IED não tem uma natureza definida complementar às exportações. Esse fenômeno pode ser ilustrado pelos recentes investimentos nos setores de telecomunicações e de energia que não geram exportações. Além disso, observa-se que as variações cambiais não exercem influência significativa em relação ao desempenho agregado das exportações. Desta forma, a desvalorização cambial – fator muito considerado no meio empresarial como agente capaz de ampliar a participação de produtos nacionais no exterior – não tem uma representatividade significativa com a expansão das exportações brasileiras. A teoria aponta que o Investimento Direto permite à empresa estabelecer uma maior base distributiva, assim expandindo sua linha de produtos vendidos no mercado estrangeiro. A produção no país estrangeiro requer invariavelmente a importação de produtos intermediários do país investidor, ocorrendo conseqüentemente o aumento das exportações. Desta maneira, o ponto mais importante da análise estatística é o que permite, através da análise de gráficos e, mais precisamente, através da regressão múltipla, afirmar-se que o IBD não substitui exportações pelo investimento em plantas produtivas no exterior, mas, sim, incentiva as exportações brasileiras pelo fornecimento de insumos às unidades ligadas a tais investimentos (em especial produtos intermediários). O Brasil tem aplicado capitais no exterior para criar subsidiárias de empresas exportadoras e, principalmente, para instalações de filiais de bancos brasileiros. Esta estratégia é utilizada por empresas como a Petrobras, Bradesco, Itaú, Sadia, Banco do Brasil e Varig. Observa-se que a REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 177 presença de empresas brasileiras no exterior é notória. Hoje, na Argentina, pode-se fazer compras nas Lojas Hering, almoçar no China em Box e alugar um carro na Localiza Rent a Car – todas empresas brasileiras. Verifica-se também que o faturamento da Churrascaria Fogo de Chão nos Estados Unidos é maior do que o da rede brasileira (MAIA, 2003). Deste modo, a questão-problema tem como solução a pouca influência relativa que o IED exerce sobre o fluxo das exportações brasileiras, considerando-se de forma mais importante o IBD como uma forma fomentadora em potencial das exportações brasileiras. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BANCO CENTRAL DO BRASIL: base de dados. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br>. Acesso em: 01 dez. 2006. CARBAUGH, Robert J. International economics. 8th ed. Australia: South Western College Publishing, 2002. GUJARATI, Damodar. Econometria básica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. FLICK, Uwe. Uma Introdução à Pesquisa Qualitativa. 2ed. Porto Alegre: Bookman, 2004. GERBER, James. International economics. 2nd ed. Boston: Addison-Wesley, 2002. GONÇALVES, Reinaldo. A nova economia internacional: uma perspectiva brasileira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. HILL, R. 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APENDICE A – DADOS DA ANÁLISE REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 178 DATA PIBíndice X IBD IED E 1° Trim.1995 118,41 9730,58 234,77 997,60 71,75 2° Trim.1995 116,70 11718,61 405,70 1289,06 71,75 3° Trim.1995 114,72 12729,02 710,69 1928,93 70,70 4° Trim.1995 115,42 12328,08 182,62 2154,19 69,99 1° Trim.1996 116,08 10285,79 97,34 1865,22 69,28 2° Trim.1996 118,17 12617,02 137,81 3879,89 68,91 3° Trim.1996 121,88 12955,04 368,59 1737,17 68,66 4° Trim.1996 121,64 11888,89 499,36 4551,38 69,72 1° Trim.1997 122,15 10656,96 127,10 3430,40 69,98 2° Trim.1997 122,62 14132,24 439,80 5212,63 70,19 3° Trim.1997 124,18 14901,91 350,07 5299,61 71,23 4° Trim.1997 124,61 13303,23 397,57 8138,45 72,42 1° Trim.1998 122,28 11906,77 222,57 5307,26 72,85 2° Trim.1998 124,95 14074,88 321,53 6925,17 73,90 3° Trim.1998 124,49 13493,83 1704,37 11348,80 75,97 4° Trim.1998 122,56 11664,39 776,71 11400,93 78,03 1° Trim.1999 122,83 10045,44 659,33 9067,96 113,69 2° Trim.1999 124,09 12405,83 729,69 7616,47 109,11 3° Trim.1999 124,43 12581,27 325,31 10650,26 117,00 4° Trim.1999 126,72 12978,91 689,37 8919,81 118,30 1° Trim.2000 128,59 12048,11 717,79 8191,89 109,05 2° Trim.2000 129,32 14104,87 524,97 7961,30 111,16 3° Trim.2000 130,13 15246,05 1298,05 11733,65 109,90 4° Trim.2000 131,56 13686,58 693,38 12403,64 116,16 1° Trim.2001 133,10 13788,43 464,08 6537,12 120,61 2° Trim.2001 131,97 15138,73 646,04 6962,23 136,43 3° Trim.2001 130,89 15446,89 758,82 7483,57 148,64 REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008 179 4° Trim.2001 130,31 13848,60 979,84 9033,92 145,41 1° Trim.2002 132,78 11890,59 693,00 6232,88 134,09 2° Trim.2002 133,03 13161,34 642,17 7233,50 140,30 3° Trim.2002 134,86 18466,16 1395,40 6517,92 172,16 4° Trim.2002 135,68 16843,70 336,72 6475,68 193,46 1° Trim.2003 134,00 15045,08 800,19 3688,25 174,93 2° Trim.2003 133,89 17957,25 321,56 4114,05 146,20 3° Trim.2003 134,58 19788,02 457,85 5185,38 143,27 4° Trim.2003 136,89 20293,80 406,81 6250,20 139,73 1° Trim.2004 139,17 19448,28 541,25 4063,73 138,31 2° Trim.2004 140,83 23858,19 752,79 3295,40 145,38 3° Trim.2004 142,60 26971,58 8442,28 10515,23 139,65 4° Trim.2004 143,41 26197,19 1357,41 7926,19 129,35 1° Trim.2005 143,69 24451,13 1046,15 5167,14 122,08 2° Trim.2005 145,70 29226,04 1212,82 6974,58 113,17 3° Trim.2005 143,95 33042,10 769,25 9381,95 107,44 4° Trim.2005 145,62 31589,00 1003,33 8538,22 102,18 1° Trim.2006 147,48 29387,32 3324,07 6551,83 98,81 2° Trim.2006 148,15 31512,98 1678,78 7589,74 99,37 REVISTA JOVENS PESQUISADORES ANO V, N. 9, JUL./DEZ. 2008