1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – CAMPUS V PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL KELMAN CONCEIÇÃO DA SILVA QUEM MANDA NA FEIRA? Política, classe e rearranjos de poder em Feira de Santana na Era Vargas (1930 – 1945). SANTO ANTONIO DE JESUS 2012. 2 KELMAN CONCEIÇÃO DA SILVA QUEM MANDA NA FEIRA? Política, classe e rearranjos de poder em Feira de Santana na Era Vargas (1930 – 1945). Dissertação apresentada como pré-requisito parcial para a obtenção do título de mestre em História no Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local da Universidade do Estado da Bahia, Campus V, Santo Antonio de Jesus, sob a orientação do Prof. Dr. Raimundo Nonato Pereira Moreira. Co-Orientador Prof. Dr. Carlos Zacarias de Sena Júnior. SANTO ANTONIO DE JESUS 2012. 3 KELMAN CONCEIÇÃO DA SILVA QUEM MANDA NA FEIRA? Política, classe dirigente e rearranjos de poder em Feira de Santana na Era Vargas (1930 – 1945). Dissertação apresentada como pré-requisito parcial para a obtenção do título de mestre em História no Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local da Universidade do Estado da Bahia, Campus V, Santo Antonio de Jesus, sob a orientação do Prof. Dr. Raimundo Nonato Pereira Moreira. Co-Orientador: Prof. Dr. Carlos Zacarias de Sena Júnior. Santo Antônio de Jesus, ______________________________ __________________________________________________ Prof. Dr. Raimundo Nonato Pereira Moreira - UNEB __________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Zacarias de Sena Júnior - UFBA __________________________________________________ Prof. Dr. Eurelino Teixeira Coelho Neto - UEFS 4 A minha mãe, Dora, razão da minha vida, a mulher mais retada que eu conheço... 5 AGRADECIMENTOS Na elaboração deste trabalho, felizmente, tenho muitos a quem agradecer e gostaria de conseguir dizer exatamente o sinto por cada um. Ao professor Daniel Santos que incentivou a mim e Ricardo a fazer a seleção para o programa. Nas discussões para elaboração do projeto meu amigo Henrique Sena, o ―Bonitão‖, esteve comigo, assim como no período da inscrição, deslocando-se de Feira de Santana para Santo Antonio de Jesus apenas para eu e Ricardo realizarmos a inscrição para a seleção. Foi ele quem me deu a notícia de que passei na prova escrita e depois na seleção final. Que está comigo em cada angústia e alegria dos últimos sete anos da minha vida. A gratidão que sinto por ele não cabe em palavras. Agradeço a seu Emil Suzart, que liberou o ―golzão‖ para Elber me trazer em Santo Antonio de Jesus no dia da entrevista e depois para realizar a matrícula. Algo que ele não faz por ninguém, pois seu carro não toma nem chuva!!! Essa boa ação me fez ver o respeito que ele tem por mim que até então me era desconhecido. A Edelci Piaggio, que sem nem me conhecer pessoalmente, mediou junto à Fundação Getúlio Vargas o meu acesso à documentação do arquivo pessoal de Juracy Magalhães, sem os quais este trabalho não poderia ter sido elaborado. Alguém que sendo irmã de dona Elcy Piaggio, eu não poderia esperar nada menos do que bondade. Foi uma benção ela ter aparecido e me ajudado. Obrigada aos senhores Antonio e Hélio, funcionários do Arquivo Municipal de Feira de Santana, pessoas educadas e sempre atenciosas que ajudaram a me achar entre os documentos. Graças a eles o trabalho naquele arquivo é menos difícil. Também a Nayara Fernandes que me disponibilizou as edições da Folha do Norte que ela possui digitalizado, o que me proporcionou um exame deste documento bem mais apurado. Agradeço o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) sem o qual esta pesquisa não seria possível. A Graça Maria Dultra Simões, bibliotecária da UEFS, que auxiliou-me na normatização bibliográfica. Agradeço a Ane Geildes, secretária do programa, uma ―pessoa de Deus‖, como eu a digo sempre. A bondade de cada uma de suas ações comigo, e com todos os estudantes do programa, sempre foram além de suas obrigações. Acolheu-me e cuidou de mim em diversas situações e não há como agradecer tudo isso. Possivelmente só agora ela saberá um pouco da 6 importância dela nesses tempos em Santo Antonio de Jesus, pois não há como expressar o todo. Às companheiras de pós-graduação Adriana Santos, que eu conheço de outras vidas, Amélia Saback e Manuela Nascimento que fizeram muitas atividades burocráticas por mim quando eu nem sempre podia ir a Santo Antonio de Jesus, me avisavam sobre obrigações e prazos. Neste aspecto, Manuela principalmente, sempre de boa vontade para me ajudar em questões nem sempre fáceis. Pessoas com as quais passei apertos, bons momentos e foi uma alegria as encontrar e agora tê-las na minha vida. Ricardo Campos, ―Miguxu‖, parceiro ininterrupto nessa caminhada desde a graduação. Desde os pães comidos nas carreiras rumo às aulas, espera do ônibus das 23:00 h de Itabuna para Feira de Santana que só chegava na rodoviária de Santo Antonio de Jesus muito depois das 00:00 h, as chuvas, faróis quebrados e animais no meio da pista nessa BR 101, pernoites na Parati, discussões de textos, livros presenteados. Passamos por coisas intensas nesses dois anos e tudo teria sido mais penoso sem ele. Sou uma pessoa afortunada em tê-lo como amigo. Igor Gomes, amigo que conhece minhas primeiras incursões de pesquisa, que leu meus textos, criticou, discutiu, indicou leituras, ouviu minhas muitas inquietações e colaborou enormemente na finalização deste trabalho. À professora Sara Farias pelas boas aulas e importantes discussões na disciplina História e Região, que esclareceram-me muitos questionamentos, e à professora Ely Estrela com os pontos levantados sobre as relações de poder e elogio da minha escrita, um incentivo incomensurável. Ao fim desta etapa, lamento não poder disser isso a ela. Aos grupos de pesquisa Laboratório de História e Memória da Esquerda e das Lutas Sociais (LABELU / UEFS) e História dos Partidos e Movimentos de Esquerda na Bahia (UFBA), que em momentos diferentes discutiram meus textos que mais tarde originaram os capítulos aqui apresentados. Interlocutores importantes neste processo de pesquisa e escrita. Ao professor e amigo Eurelino Teixeira Coelho Neto, que com suas análises refinadas apresentou-me pontos e caminhos acerca deste estudo desde meus primeiros passos na condução do esforço da pesquisa. No processo de qualificação em particular, apontou-me questões que foram extremamente relevantes para a conclusão deste texto. Ao professor Carlos Zacarias de Sena Júnior, que nas reuniões do grupo, na banca de qualificação e em momentos posteriores me chamou atenção acerca das discussões de classe que perpassam o texto, me auxiliando na operacionalização do conceito, propondo questões sempre honestas que foram muito importantes na construção do texto. 7 Ao meu orientador, professor Raimundo Nonato Pereira Moreira, que se propôs a me orientar em um momento delicado. Deu-me autonomia na condução da pesquisa, planejamento e elaboração do texto, leu meus muitos rascunhos esmiuçando cada componente da sua construção, fez sugestões, me deu conselhos, me lembrou de cada prazo e jamais esqueceu de me dizer ―respire‖. A Aruã Lima pelos documentos cedidos, pelo empréstimo do livro Minhas Memórias Provisórias e pelas importantes colocações na minha banca de conclusão de curso que contribuíram para questões que discuti neste texto. Meus amigos Juan, Janilson, Jorge, Ronaldo, Filipe, Raimundo Júnior, Adenilson e Sirlley Jackelline pelos risos soltos e a companhia constante. A meu irmão Júnior, minha cunhada Katiúscia, minhas tias Elisangela, Rita, Valdeli, Vivian e Yvoneide, minhas primas Hiana e Iasmin, pela torcida sempre sincera. Lembro minhas avós Cristina e Élia que certamente ficariam orgulhosas de ver sua primeira neta receber mais um diploma. A Elber, companheiro de mais de uma década, com quem vive e vivo momentos tão intensos que às vezes parece que não vou sustentar. São tantas as contribuições e influências dele na realização desse trabalho que não há como delinear, não há palavras que o façam. A minha sobrinha Julia, que reclamou minha atenção em diversos momentos dizendo ―titia só sabe estudar‖, ―deixa eu assistir um desenho no teu computador‖, ―vamos brincar de maquiagem?‖ e com tudo enche minha vida de alegria que me manteve sã nesses últimos anos. Cada abraço, apertando meu pescoço com seus braçinhos quase já do tamanho dos meus, me preenche com um amor que não dá para descrever, mas é que maravilhoso sentir... E por fim e em especial, a minha mãe Dora, a quem dedico este trabalho. A razão pela qual eu respiro. Não sei o que seria de mim sem ela, que me dá muito mais do que o filho pode esperar da mãe. Que faz absolutamente tudo por mim, mesmo quando eu nem mereço e nunca me deixa só. A dádiva que Deus me concedeu é ter nascido dela, viver com ela e por ela ser amada. Eu jamais saberei agradecer com a propriedade que ela merece, porque é um privilégio ter uma mãe, mas ter a mãe que eu tenho, além de uma benção é uma honra. Te amo mãe... 8 RESUMO Esta dissertação trata das práticas políticas e rearranjos de poder forjados pela classe dirigente de Feira de Santana, entre os anos de 1930 a 1945. O esforço foi o de discutir as múltiplas relações de poder na cidade com as mudanças da política nacional e estadual com a vitória da Revolução de 1930, seguida da ascensão de Getúlio Vargas à presidência do Brasil, apresentando os mecanismos que possibilitaram à classe dirigente feirense manter-se no domínio do poder na cidade durante o recorte temporal examinado. As análises estão apresentadas em três capítulos. No primeiro capítulo elaboramos uma exposição sobre as formas de fazer política em Feira de Santana no período anterior a Revolução de 1930, tomando como marco o início da vida política de Arnold Ferreira da Silva, em 1924, importante articulador da classe dirigente feirensel. O capítulo dois versa sobre as movimentações em torno da sucessão presidencial de Washington Luiz e as rearticulações de poder que ocorreram na cidade no início de 1930 até o golpe do Estado Novo, em particular a construção de laços com Juracy Magalhães, a formação do diretório local do PSD e as estratégias para manutenção do domínio da política feirense. O terceiro e último capítulo refere-se à instalação do Estado Novo, o afastamento de Juracy Magalhães da política varguista e a posterior separação da classe dirigente feirense, que ao final de 1945 apresenta-se em dois lados: os que foram a favor de Getúlio Vargas, sob a liderança de Eduardo Fróes da Motta, e os que foram contra ele, liderados por Arnold Ferreira da Silva. A relevância deste trabalho está em complexificar à historiografia sobre esse período, trazendo para o debate elementos locais e colaborando na construção dos estudos sobre a História Política de Feira de Santana. Palavras-chave: Feira de Santana; política; poder local; classe; Era Vargas. 9 ABSTRACT This dissertation deals with the practices and policies rearrangements of power forged by the ruling class of Feira de Santana, between the years 1930 to 1945. The effort was to discuss the multiple power relations in the city with the changes of national policy and state with the triumph of the Revolution of 1930, then rise to the presidency of Getulio Vargas of Brazil, showing the mechanisms that allowed the ruling class to maintain Feirense in the field of power in the city during the time frame examined. The analyzes are presented in three chapters. In the first chapter we prepared a presentation on ways of doing politics in Feira de Santana in the period before the Revolution of 1930, taking as a framework the early political life of Arnold Ferreira da Silva, in 1924, a major organizer of the ruling class feirensel. Chapter two deals with the movements around the presidential succession and the Washington Luiz rearticulations of power that occurred in the city in early 1930 until the coup of the New State, in special the construction of ties with Juracy Magalhães, training local directory PSD and strategies for maintaining the policy Feirense. The third and final chapter refers to the installation of the Estado Novo, the removal of Magellan Juracy policy Vargas and the subsequent separation of the ruling class Feirense, who at the end of 1945 comes in two sides: those who were inside of Getúlio Vargas under the leadership of Eduardo da Motta Fróes, and those who were against him, led by Arnold Ferreira da Silva. The relevance of this work is to complexify historiography of this period, bringing elements to the debate on building sites and collaborating studies on Political History of Feira de Santana. Keywords: Feira de Santana; politics; power place; class; Vargas' government. 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................... 11 2 LIDERANÇAS POLÍTICAS EM FEIRA DE SANTANA NA PRIMEIRA REPÚBLICA: sujeitos e práticas políticas (1924 – 1929).......................................................................................................... 18 3 4 2.1 Legislativo e Executivo Municipal na Primeira República: feições feirenses.................................................................................... 2.2 A Política dos governadores e os poderes locais.................................................................................................... 2.3 Política em Feira de Santana na Primeira República.............................................................................................. 2.4 ―Prestimoso amigo‖: a inserção de Arnold Ferreira da Silva na política feirense.................................................................................... 2.5 Sujeitos políticos de Feira de Santana: uma análise de classe social .................................................................................................... 19 EM FEIRA A COISA MUDAVA? A Revolução de 1930 e as relações de poder (1930 – 1937).............................................................. 48 3.1 ―A Feira incorporar-se-á ao grande movimento que agita o país‖: eleições de 1930................................................................................... 3.2 A vitória da Revolução de 1930 em Feira de Santana................................................................................................. 3.3 O PSD e Juracy Magalhães em Feira de Santana: formação de outros laços........................................................................................... 3.4 Outros espaços de poder em Feira de Santana................................................................................................. 48 DIVISÃO NA POLÍTICA FEIRENSE: rupturas e novas aproximações das lideranças políticas (1937 – 1945)........................... 99 23 31 36 41 57 70 91 99 4.1 Campanha presidencial de 1938................................................... 4.2 Movimentações divergentes: A Ação Integralista Brasileira e o núcleo feirense...................................................................................... 4.3 O Estado Novo e a cisão dos segmentos dirigentes em Feira de Santana.................................................................................................. 103 115 142 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................ 145 FONTES................................................................................................... 148 REFERÊNCIAS....................................................................................... 153 APÊNDICE.............................................................................................. 11 1 INTRODUÇÃO O tema desta dissertação é a política e os rearranjos de poder em Feira de Santana durante os anos de 1930 a 1945, apresentando as rearticulações, tensões e os sucessivos desdobramentos dos dirigentes políticos feirenses com a ascensão de Getúlio Vargas à presidência do Brasil e ao final do seu governo. Buscamos investigar como essas lideranças locais construíram mecanismos para conservar seu poder diante das transformações ocorridas no país durante o período consagrado na historiografia brasileira como a Era Vargas. Os anos do primeiro governo de Getúlio Vargas sempre nos interessaram e despertaram curiosidade, em particular, por ser um período em que os estudos de História que pesquisam os temas da política a partir dos anos 1930 ao fim da Era Vargas e que abordam localidades fora de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul ainda são escassos, embora algumas mudanças venham acontecendo. Como destacou Eurico Alves 1, em Fidalgos e Vaqueiros, ―o pastoreio viveu, por muito tempo, sem ressonância no gabinete dos estudiosos‖, mas nos últimos anos ampliaram-se as pesquisas que trazem para o debate fatos históricos da primeira administração de Vargas ocorridos em diferentes localidades do Brasil, entre outros motivos, após a instituição de programas de pós-graduação em História. No período da graduação, durante a escolha do objeto do trabalho de conclusão do curso, decidimos buscar um tema com o qual pudesse estudar Feira de Santana dentro dos marcos temporais da Era Vargas. Assim, o recorte temporal foi escolhido, inicialmente, por motivações externas e não devido às questões relacionadas aos fatos sobre a história de Feira de Santana. Realizar um estudo sobre de Feira de Santana, em especial, acerca de sua História Política, nos expôs as lacunas quanto aos trabalhos dedicados a este tema com quem pudéssemos ter um diálogo mais próximo, a grande dificuldade de identificar fontes sobre ―assuntos políticos‖ da cidade e, também os obstáculos de acesso a algumas fontes existentes. A tarefa inicial de procura e identificação de fontes, que pudessem ser acessadas na cidade, foi realizada durante a graduação com financiamento do Programa de Bolsas de Iniciação Cientifica (PROBIC), da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), sob a orientação do Prof. Dr. Eurelino Coelho, vinculada ao Laboratório de História e Memória da Esquerda e das Lutas Sociais (LABELU). Após a primeira investigação desenvolvemos o trabalho de 1 BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e vaqueiros. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989. 12 conclusão de curso por meio da consulta destas fontes agrupadas, dentre elas, fontes primárias, produzidas pelo Executivo e Legislativo Municipal, o jornal Folha do Norte, o mais antigo da cidade e de propriedade da família de Arnold Ferreira da Silva, um relevante sujeito da minha pesquisa, e textos de memorialistas feirenses. No trabalho de conclusão produzimos um texto inicial que trouxe um quadro político geral sobre Feira de Santana nas décadas de 1930 e 1940 do século XX, enfatizando os sujeitos políticos da cidade e suas aproximações políticas-partidárias. Ao investigar essas personagens, percebemos que boa parte delas compuseram a política feirense durante todo o recorte temporal examinado, o que suscitou novas questões, a exemplo de como esses sujeitos conseguiram permanecer na direção da política feirense apesar vitória da Revolução de 1930, que norteada por uma concepção centralizadora divulgava, entre outros temas, o combate às oligarquias regionais? Ao nos candidatarmos para a seleção do Mestrado em História Regional e Local, em 2010, buscamos continuar abordando o tema, ampliando e aprofundando a pesquisa, mas procuramos formular outro problema. Para tanto, voltamos o foco das leituras para o periódico Folha do Norte que nos mostrou posicionamentos distintos de um mesmo segmento político da cidade, que partilhavam também uma identificação econômica e social. Em julho de 1929, esse grupo era vinculado ao Partido Republicano da Bahia e, em novembro de 1930, alinharam-se às forças revolucionárias. O que fizeram os políticos da cidade ―mudar de lado‖ nesse curto intervalo de tempo? Quais vínculos foram construídos por eles que os permitiu manter seu poder em Feira de Santana? Essas questões nos permitiram construir uma nova problemática. Nesse sentido, ao realizar um estudo sobre as questões políticas que assinalaram as movimentações na cidade, ficou claro que não poderíamos perder de vista os processos políticos em outras dimensões. Assim tomamos Feira de Santana como uma área humana que produziu certos arranjos e conflitos políticos dentro desta temporalidade específica, com sua própria dinâmica interna. Contudo, não teria como realizar este trabalho sem pensar as relações entre Feira de Santana, a Bahia e o Brasil. Portanto, o espaço político em disputa articula-se com outras localidades e para pensar se em Feira houve mudanças nas relações políticas com a chegada de Getúlio Vargas ao poder em 1930 foi necessário ponderar sobre as relações entre as instâncias de poder local, estadual e nacional. O conjunto de documentos acessível na cidade de Feira de Santana não dava conta de responder o questionamento central e, para tanto, buscamos outras fontes. Consultamos a base de dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da 13 Fundação Getúlio Vargas (CPDOC / FGV) e identificamos no arquivo pessoal de Juracy Magalhães, na Sessão Municípios, uma pasta sobre Feira de Santana. O acesso custoso a esses documentos nos possibilitou perceber as relações entre Juracy Magalhães e diversas lideranças políticas de Feira de Santana. Os vínculos dos políticos da cidade com Juracy Magalhães mostraram ser um dos pontos importantes na manutenção das mesmas lideranças na direção política da cidade no pós 1930. Uma documentação, até então, inédita nos estudos sobre a história de Feira de Santana. Quanto às atas e pareceres do Legislativo e Executivo Municipal entre os anos de 1924 e 1930 encontram-se no Arquivo Público Municipal de Feira de Santana e não se constituem um volumoso corpos documental, devido às muitas e recorrentes reformas e mudanças nas instalações físicas e no arquivo. Estes documentos foram utilizados para identificar os sujeitos que ocuparam os mandatos no Legislativo e no Executivo Municipal, as comissões internas das quais fizeram parte e, também, no intuito de apreender as discussões e decisões tomadas pelos dirigentes locais entre os anos de 1924 a 1930, período do início da vida política de Arnold Ferreira da Silva. Outra fonte utilizada foi o periódico Folha do Norte. Criado em setembro de 1909 por Tito Ruy Bacelar que foi Intendente Municipal, juntamente com os irmãos da família Silva, Arnold, Dálvaro e Raul. Circula até os dias de hoje, tendo sua publicação interrompida apenas em alguns meses de 1911, devido a um incêndio em suas oficinas. Com a morte de Tito Ruy Bacelar, o jornal ficou sob a responsabilidade dos irmãos Silva, por tramites que ainda nos são desconhecidos. Arnold Ferreira da Silva, que ocupou os mandatos de Intendente, Prefeito, Conselheiro Municipal e Vereador, além de proprietário foi um dos redatores da Folha do Norte, na qual escreveu uma coluna intitulada ―Vida Feirense‖, destinada a relatos sobre a vida da cidade, tratando de fatos históricos, economia, sociedade, cultural, entre outros. Exemplares da Folha do Norte encontram-se no Museu Casa do Sertão, no campus da UEFS. Utilizamos as matérias referentes aos anos de 1924 a 1945, que estão digitalizados e acessíveis no museu, na reconstrução factual e no processo de narrativa da Era Vargas. Voltamos nossa atenção para as narrativas dos eventos políticos, econômicos e sociais, filtrando os temas privilegiados por este periódico, e analisando em suas falas os contextos históricos, posicionamentos e aproximações partidárias, sociais, familiares, comerciais, durante esse período de forte agitação política considerando a ligação com Arnold Ferreira da Silva, como já mencionado, um dos donos do periódico. 14 Completando o conjunto das fontes estão os estudos de alguns memorialistas feirenses, que remontam ao período estudado e as constituições dos anos de 1891, 1934 e 1937, disponíveis na Biblioteca Central Julieta Carteado, também no campus da UEFS; o livro Minhas Memórias Provisórias, mais os depoimentos de Juracy Magalhães e Barbosa Lima Sobrinho que fazem parte do banco de dados de História Oral do CPDOC. Estes últimos, envolvidos direta e indiretamente nos acontecimentos das décadas de 1930 e 1940 e trazem relatos importantes sobre os eventos deste período. Durante o exame das fontes percebemos que os sujeitos que exerceram mandatos políticos em Feira de Santana recorrentemente utilizaram a máquina administrativa do município e do estado na realização de obras, aprovação de leis e decretos que atendiam aos seus próprios interesses econômicos, boa parte deles ligados ao capital comercial. E assim apreendemos que as ações no campo político e econômico eram indissociáveis. Os indícios encontrados nos apontaram para a realização de uma análise dos políticos de Feira de Santana enquanto classe social, o que nos colocou desafios que não são apenas de caráter empírico, mas também analítico e teórico. Por meio desta análise, feita com certo cuidado, pretendemos entender quais estratégias os sujeitos da política feirense se valeram para o exercício da hegemonia política na cidade, entretanto, não a consideramos como uma entidade homogênea, monolítica e livre de conflitos. Ao contrário, nesses segmentos dirigentes locais, que foram compostos ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940 basicamente pelos mesmos sujeitos, identificamos disputadas internas em determinados momentos. Na busca de melhor compreensão destes conceitos Karl Marx, Nicos Poulantzas, Antonio Gramsci e alguns dos comentadores de Gramsci, a exemplo de Christinne Buci – Glucksmann, foram referências teóricas importantes. Contudo, uma discussão que requer um aprofundamento que não foi feito aqui. Desse modo, propondo uma análise de classe das lideranças políticas de Feira de Santana, a metodologia empregada no exame das fontes foi a de estudar os sujeitos que compunham os segmentos dirigentes feirenses não somente como sujeitos políticos, mas também como sujeitos sociais. A partir deste enfoque, percebê-los para além das instituições oficiais da política na busca uma História Social da Política, recorrentemente discutida no LABELU, que nos ajude a pensar exercícios, conflitos e fenômenos políticos em vinculações com a vida social. As motivações das disputas, as coligações e oposições, podem ser compreendidas de forma mais ampla quando enriquecidas com estes elementos na construção do conhecimento histórico. É nessa delicada fronteira que o exame dos dirigentes políticos de Feira de Santana se insere. 15 Para tanto, sistematizamos as informações compiladas em um quadro que começamos a construir durante a investigação realizada no período da iniciação científica e que, ao longo das pesquisas desenvolvidas no mestrado, acrescentamos outros dados. Neste quadro, disponibilizado no apêndice da dissertação, constam os nomes dos sujeitos presentes neste estudo, formação educacional, cargos políticos, cargos em instituições filantrópicas, ano dos mandatos, filiações partidárias, obras realizadas, propostas de projetos e leis, propriedades pessoais, atividades profissionais. Enfim, procuramos reunir uma diversidade de informações que pudessem nos auxiliar na identificação e na composição dos segmentos dirigentes de Feira de Santana. Nas fontes buscamos sustentar a argumentação proposta cruzando os processos políticos dos anos de 1930 a 1945 com as práticas das lideranças políticas feirenses no mesmo período e alguns anos antes destes, com o objetivo de perceber porque não houve mudanças significativas nos sujeitos que compunham as frações dirigentes em Feira de Santana durante a ―nova fase da vida nacional‖ no pós 1930. A partir das evidências trazidas por esse conjunto de fontes, das questões que suscitaram, estruturamos o trabalho expondo as interpretações em três capítulos. No primeiro capítulo, nos dedicamos a examinar a política na cidade no momento anterior à vitória da Revolução de 1930, posto que se mostrou uma necessidade ao longo do trabalho. O objetivo de perceber as práticas políticas durante as décadas de 1930 e 1940, com o intuito de revelar o que mudou e o que se manteve na política feirense, não seria possível sem conhecer os sujeitos, as suas aproximações e as práticas políticas antes de 1930. Conduzimos a investigação a partir da inserção de Arnold Ferreira da Silva na política de Feira de Santana, sujeito que foi importante articulador das lideranças políticas feirenses até meados da década de 1960. Assim, volvemos nossa atenção para o ano de 1924, início da carreira política de Arnold Silva, quando ele ocupou o seu primeiro mandato, como Intendente Municipal, tendo como um relevante elemento, a aproximação familiar com o coronel Bernardino da Silva Bahia. No segundo capítulo, trouxemos as movimentações em torno da eleição presidencial de março de 1930 no Brasil, na Bahia e em Feira de Santana. Os dirigentes políticos que conduziram a política local nesse período se uniram a favor da chapa Júlio Prestes-Vital Soares, e meses após a vitória da Revolução de 1930, esses mesmos setores dirigentes aderiram aos ideais da Aliança Liberal. Até os anos de 1937, os segmentos dirigentes locais mantiveram certa coesão interna e buscaram estratégias para conservar seu poder na cidade, conseguindo manter-se como dirigente. Com a ascensão de Getúlio Vargas ao comando do 16 país, houve um reordenamento nas relações de poder no Brasil e, neste capítulo, apresentamos como ocorreram às novas disposições de poder na cidade e os primeiros distanciamentos entre os segmentos dirigentes da cidade. No terceiro e último capítulo, versamos acerca das inquietações que abrangeram as eleições que deveriam ter sido realizadas em 1938 e os diferentes apoios declarados às candidaturas de: José Américo de Almeida, Armando Salles e Plínio Salgado. Tratamos da agitação do período, acrescida com a organização dos movimentos da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e pela Ação Integralista Brasileira (AIB), e no que estes movimentos influenciaram o cenário político desse período e para o golpe do Estado Novo. Uma maior atenção foi dada a AIB que, em Feira de Santana, com um núcleo ativo, causou um estabelecido incômodo às frações dirigentes locais, em especial no período das eleições municipais de 1935, devido ao número significativo de adeptos, representando o mais efetivo grupo de oposição às lideranças políticas na cidade. Em linhas gerais, discutimos o golpe de novembro de 1937 e as relações políticas em Feira de Santana desde o golpe até o fim do regime estadonovista, expondo como os segmentos dirigentes da cidade se apresentaram ao final do período varguista. Os anos de 1937 a 1945 redefiniram o quadro da política no Brasil, na Bahia e em Feira de Santana: de um lado, estavam os getulistas e, no extremo oposto, os antigetulistas. Os principais líderes da política feirense (Eduardo Fróes da Motta e Arnold Ferreira da Silva) romperam após a instalação do Estado Novo, o que representou uma cisão significativa nos grupos dirigentes locais, até então inexistente. Ao final de 1945, esses segmentos estavam aglutinados em dois grandes partidos nacionais que se formaram durante a Era Vargas: o Partido Social Democrático (PSD), contando com a presença de Fróes da Motta, e a União Democrática Nacional (UDN), com Arnold Silva. Decomposto o texto em três temporalidades diferentes, examinamos em cada um deles a mesma questão: como os políticos de Feira de Santana se reorganizaram em presença das alterações na política e nas relações de poder no Brasil. Antes de 1930, no pós 1930 e com fim do primeiro governo de Getúlio Vargas. As pesquisas sobre Feira de Santana têm crescido e esta pesquisa parte do esforço de colaborar com esses estudos sobre Feira e para ampliar as abordagens sobre a chamada Era Vargas. Segundo Erivaldo Fagundes Neves, no ponto de vista da História Regional e Local, [...] a identidade de um grupo humano inicia-se pelo próprio reconhecimento como unidade social e no comportamento comunitário integrado a um determinado território, conectado numa ancestralidade sob os prismas de permanência e de 17 continuidade, articulado em relações hierárquicas de poder, o que equivale a contextualizar-se num tempo e num espaço, situar-se historicamente. E nesse processo, recorte espacial deve ser problematizado e adequado ao objeto de estudo, por se confundir com a demarcação do território, definida pela documentação a ser pesquisada, que se referencia na burocracia estatal.2 Nessa perspectiva, acreditamos no que afirma José D‘Assunção Barros 3: ―uma história que se produz de um lugar, que traz marcas deste lugar, que retorna depois a este mesmo lugar e produz novas interações com os leitores que consumirão esta história‖. Assim, esperamos contribuir de alguma maneira com os trabalhos que virão, trazendo elementos diferenciados sobre a política varguista, apresentando práticas locais e elaborando questionamentos sobre os fatos desse período que se mostraram não serem fatos isolados e que não se esgotam no local, mas que são possíveis quando pensamos essa territorialidade a partir das questões regionais e nacionais, questões que fazem parte do todo que é o Brasil, trazendo a cidade de Feira de Santana para a discussão dentro dos rigores teóricos e metodológicos que a História exige. 2 3 NEVES, Erivaldo Fagundes. Perspectivas historiográficas baianas: esboço preliminar de elaborações recentes e tendências hodiernas de escrita da História na Bahia. In: História Regional e Local: discussões e práticas. (Orgs.) OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos. REIS, Isabel Cristina Ferreira dos. Salvador: Quarteto, 2010. P. 108. BARROS, José D‘Assunção. O lugar da história local na expansão dos campos históricos. In: História Regional e Local: discussões e práticas. (Orgs.) OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos. REIS, Isabel Cristina Ferreira dos. Salvador: Quarteto, 2010. 18 2 LIDERANÇAS POLÍTICAS EM FEIRA DE SANTANA NA PRIMEIRA REPÚBLICA: sujeitos e práticas políticas (1924 – 1929) ―As derradeiras palavras do sr. intendente foram quase abafadas por delirante e prolongado palmeio, que bem traduz a solidariedade da terra feirense com o seu digno filho, o paladino destemeroso e esforçado dos seus mais cálidos ideais‖. 4 Este capítulo tem como objetivo apresentar e discutir os sujeitos dirigentes de Feira de Santana e suas práticas políticas no período anterior a vitória da Revolução de 1930. Para tanto, tomamos como marco o início da vida política de Arnold Ferreira da Silva em 1924, sujeito a quem a citação acima faz referência, liderança presente na vida política da cidade até os anos de 1960, sendo um importante articulador dos setores dirigentes feirenses. Assim, volvemos nossa atenção para os anos de 1924 a 1929, no intuito de examinar os sujeitos da sociedade política de Feira de Santana nos últimos anos da Primeira República, porque ao longo da pesquisa conhecer a política na época anterior ao recorte temporal proposto neste estudo despontou como uma necessidade. Portanto, foi preciso conhecer o quadro da política que compunha o poder local na Feira de Santana deste período. Apresentar o que houve de novo na política da cidade com a chegada de Getúlio Vargas ao poder e os desdobramentos nos seus quinze anos de governo, que é a questão central deste estudo, não seria possível sem antes investigar quem e como se fazia política em Feira de Santana no período precedente à década de 1930. Para esta parte do trabalho, utilizamos fontes primárias e secundárias, tais como matérias do periódico Folha do Norte, atas do Legislativo Municipal, correspondências entre políticos da cidade e os interventores estaduais, a maior parte delas correspondências com Juracy Magalhães, e textos de memorialistas de Feira de Santana. Por meio do exame destas fontes percebemos as relações políticas entre os poderes local e o estadual, objetivando conhecer as bases e as principais lideranças dos segmentos que controlaram a política em Feira de Santana nos últimos anos da Primeira República e permanências de sujeitos políticos após o sucesso da Revolução de 1930. 4 Folha do Norte, Feira de Santana. 2 jan 1926. N. 851, p. 1. 19 2.1 Legislativo e Executivo Municipal na Primeira República: feições feirenses. Feira de Santana está localizada na zona de planície entre o Recôncavo e os tabuleiros semiáridos, no interior da Bahia, a 108 km da capital, a qual se liga por meio da BR-324. No passado, fazia parte do território de Cachoeira constituído pelas freguesias de São José das Itapororocas, Sagrado Coração de Jesus do Pedrão e Santana do Camisão, as duas últimas, mais tarde foram desanexadas para dar origem a novos municípios. 5 Feira de Santana foi desmembrada do território original em 9 de maio de 1833, quando se tornou Villa do Arraial de Feira de Sant‘Anna e neste mesmo ano, alguns meses depois, foi elevada à condição de município sob a mesma denominação: Villa do Arraial de Feira de Sant‘Anna. Em agosto de 1833 foi marcada a sessão inaugural que designou a instalação da Câmara Municipal, que apontava a passagem da condição de vila para município. Entretanto, esta sessão não aconteceu na data marcada devido às algumas manifestações de um grupo da população de Feira de Santana, não possível de identificar durante a pesquisa, que contestava a posse de quatro dos sete vereadores eleitos. Alguns participantes dessa manifestação roubaram os certificados dos vereadores quando estes estavam sendo levados para a Villa de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, responsável pela instalação da Câmara de Feira de Santana. Entre os vereadores que foram alvos do descontentamento de parte da população feirense estiveram Francisco Caribé e Vicente Ferreira de Araújo, que não residiam em Feira de Santana, e Antônio Honorato da Silva Rego, que ocupava o cargo de Juiz de Paz de Santíssimo Coração de Jesus do Pedrão. O movimento repercutiu junto ao Presidente da Província que cedeu aos protestos, desqualificou dois dos vereadores acusados, um deles renunciou ao cargo, devido ao seu impedimento pelo acúmulo de cargo como juiz, e as vagas foram preenchidas pelos candidatos posteriores mais bem votados. Em 18 de setembro de 1833, ocorreu a primeira sessão da Câmara de Vereadores e esta marcou a instituição do poder Legislativo de Feira de Santana. Foi presidida pelo tenente Luis Ferreira da Rocha, presidente da Câmara Municipal da Villa de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, assessorado pelo secretário da mesma Câmara, Joaquim da Silva e Almeida. Foi realizada na sacristia da Igreja de Senhora Santana e foi composta pelos seguintes vereadores: Antônio Honorato da Silva Rego, Antônio Manuel Vitória, capitão Manuel da Paixão Bacelar e Castro, Joaquim Caribé Morotova, Joaquim José Pedreira 5 FERREIRA, Jurandyr Pires (Org.). Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1958. p. 226. 20 Mangabeira, padre Luiz Pinto da Silva Sampaio e padre Manuel Paulino Maciel. 6 Manuel da Paixão Bacelar foi escolhido o primeiro Presidente do Legislativo feirense e Joaquim José Pedreira Mangabeira, o primeiro Secretário.7 Em 16 de junho de 1873, por meio da Lei Provincial nº 1.320, a vila de Feira de Sant‘Anna foi elevada à categoria de cidade e recebeu o nome de Cidade Comercial de Feira de Santana, contando com a sede e seus distritos de Santa Bárbara, Bom Despacho, Gameleira, São Vicente, Bonfim, São José das Itapororocas, Tanquinho, Humildes e Almas. 8 Nesta ocasião foram criados mais dois lugares de vereadores na Câmara Municipal, todavia, esse aumento no número de membros não modificou a autoridade do Legislativo, que permaneceu exercendo as mesmas funções. 9 Os Decretos Estaduais de números 7. 455 e 7. 470 de 23 de junho e 31 de agosto de 1931, respectivamente, simplificaram o nome apenas para Feira e, em 30 de novembro de 1938, esta denominação foi modificada por meio do Decreto Estadual nº 11. 089, para o atual topônimo de Feira de Santana. 10 Desde a instalação da Câmara até 1890, seus membros foram chamados de Vereadores. A partir da Primeira República, a Câmara passou a chamar-se Conselho Municipal e seus membros foram denominados de Conselheiros, permanecendo assim até 1930, quando voltou a receber à nomenclatura de Câmara e seus componentes passaram a ser titulados novamente de Vereadores e, o chefe do Executivo Municipal, passou a ser evocado como Prefeito. Devido a isso, no decorrer do texto, aparecem as duas designações. Nos primeiros anos de seu funcionamento a Câmara de Feira de Santana não possuía sede própria, tendo funcionado em diversos locais, dentre eles o Teatro Santana, até a Câmara adquirir no início da década de 1920 o prédio que atualmente é situado em frente à Igreja Senhor dos Passos, localizado na esquina da Avenida Getúlio Vargas com Avenida Senhor dos Passos. Nesse período o Conselho Municipal teve seu espaço dividido com o Paço Municipal. 11 No Brasil, durante muitos anos, as Câmaras Municipais acumularam às funções dos poderes Legislativo e Executivo. Antes do regime republicano, o poder Legislativo geria o município e o Presidente da Câmara reunia também a função de Administrador do Executivo. Nas questões especiais havia a necessidade da intervenção do Presidente da Província, cargo 6 Folha do Norte, Feira de Santana, Edição de comemoração. 17 set. 2005, N. 5.628. FERREIRA, Jurandyr Pires, op. cit., p. 233. 8 Ibidem, p. 227. 9 POPPINO, Rollie. Feira de Santana. Salvador: Itapuã, 1968. p. 109-110. 10 FERREIRA, Jurandyr Pires, op. cit., p. 227. 11 DAMIÃO, Oscar. Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional da Feira de Santana. 3. ed. Feira de Santana: Gráfica Nunes Azevedo, 2002. p. 123. 7 21 que teve suas funções definidas pela Lei n. 40 de 3 de outubro de 1834, e que nomeado pelo Imperador, não possuía um mandato fixo, podendo ser removido quando o soberano assim entendesse. O Presidente era a autoridade máxima na província e limitava o poder das Assembleias Provinciais realizando diferentes intervenções com este objetivo, mas como podia ser removido a qualquer tempo não possuía poder próprio e não tinha como construir as bases do seu poder. 12 Finalmente, a primeira constituição da República (1891) criou novos atores políticos, o Presidente (governador) do estado e o Intendente municipal, além da consequente reorganização na estrutura de poder do país. A separação entre os poderes Legislativo e Executivo aconteceu com a instituição da República e implicou de forma direta no alinhamento do poder nos municípios brasileiros, com a criação do cargo de Intendente municipal para regê-los. A Constituição de 1891 foi inspirada no modelo norte-americano e designou o sistema de governo presidencialista, com ampla autonomia para os estados e estabelecendo um regime formalmente representativo democrático, no qual o presidente da República, chefe do Poder Executivo, passou a ser eleito pelo voto direto para um mandato de quatro anos, sem direito à reeleição. Entretanto, nem a Carta de 1891, nem as opções buscadas nos anos seguintes deram conta de formar um sistema político que respondesse a três problemas básicos: o da geração de atores políticos, o das relações entre os Poderes Executivo e Legislativo e o da interação entre poder central e poderes regionais. 13 No que diz respeito aos deveres do recém-criado cargo de Intendente estiveram a execução das leis, das posturas e dos regulamentos do Conselho Municipal, mas a ele se permitia ampla margem de ação independente, assim como os poderes próprios de polícia e dos coletores. O Intendente também poderia influenciar as ações do Conselho em função da autoridade para recomendar leis aos integrantes do Legislativo. 14 Em 2 de julho de 1892, foi promulgada a primeira Constituição do estado da Bahia. Possuía dez títulos e 151 artigos, mais as disposições transitórias. 15 O Poder Legislativo passou a ser bicameral composto pela Câmara Estadual (42 deputados eleitos para mandatos de dois anos) e pelo Senado Estadual (21 senadores escolhidos para mandatos de seis anos), tendo entre suas atribuições fixar a força policial, aprovar a lei orçamentária e estabelecer 12 BASTOS, A. C. Tavares. A província: estudo sobre a descentralização no Brasil. 3 ed. São Paulo: Nacional, 1975; CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma Discussão Conceitual. Dados. vol. 40, ano. 2. Rio de Janeiro, 1997. 13 FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos 20 e a Revolução de Trinta. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006. p. 2. 14 POPPINO, Rollie. Feira de Santana. Salvador: Itapuã, 1968. p. 124. 15 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 304. 22 impostos. O poder Executivo coube ao Governador, eleito pelo voto direto para um mandato de quatro anos que, segundo os termos legais, em sua falta, fosse por doença, morte ou outro motivo grave qualquer, ascenderia ao governo o presidente do Senado Estadual. 16 Essa Constituição levou em consideração a autonomia dos municípios. A 20 de outubro desse ano, foi promulgada na Bahia uma lei garantindo a autonomia local, tal como a preconizava a Constituição Federal. Segundo os termos da lei, o Poder Executivo municipal deveria ser exercido por um Intendente, enquanto o Conselho ficaria apenas com a prerrogativa de legislar. 17 Com relação à autonomia dada aos municípios baianos esteve a competência para criar, manter, transferir e suprimir escolas com o auxílio do Estado, estabelecida no Artigo 109. 18 O primeiro Intendente feirense do período republicano foi o coronel Joaquim de Mello Sampaio, que governou de 1º de fevereiro a 30 de julho de 1890.19 Nesse período, a duração mais comum de mandato do chefe do Executivo Municipal no Brasil foi de dois ou três anos, todavia, em alguns estados suas constituições previam mandatos de quatro anos. Nas primeiras constituições houve estados que não instituíram o sistema de nomeação, entretanto, com a importância que os municípios ganharam no cenário político estadual e federal, os governos estaduais implantaram reformas administrativas que favoreceram, entre outros, o fortalecimento de interesses pessoais e partidários. Segundo Rollie Poppino, na Bahia todas as Câmaras Municipais foram dissolvidas em 16 de janeiro de 1890 e substituídas por Conselhos nomeados pelo Governador, Dr. Manuel Vitorino Pereira. Pelo mesmo decreto, um funcionário administrativo, o Intendente, também nomeado pelo Governador, foi colocado à dianteira do município, como mencionado anteriormente. Dessa forma, Joaquim de Mello Sampaio e um Conselho de seis membros iniciaram as suas funções em 1º de fevereiro de 1890 em Feira de Santana. 20 Entre os anos de 1891 a 1915, os Intendentes baianos foram escolhidos através do voto direto. Em 1915, J. J. Seabra, em sua primeira gestão à frente do governo da Bahia, reformou a Constituição estadual de 2 de julho de 1892, e acabou com a eleição direta para o cargo de Intendente. Segundo Luis Henrique Dias Tavares, J. J. Seabra justificou que os Intendentes passaram a ser nomeados ―para garantir uma melhor escolha dos administradores locais‖, assinalando que ele é quem sabia fazer bem essa escalação, já que com a modificação o 16 Ibidem, p. 305. POPPINO, op. cit., p. 123 - 124. 18 TAVARES, op. cit., p. 305. 19 FERREIRA, Jurandyr Pires, op. cit., p. 233. 20 POPPINO, op. cit., p. 123. 17 23 privilégio de nomeação dos Intendentes coube ao Governador do estado. Tal mudança foi uma medida centralizadora de poder nas mãos do Governador assim como a unificação de todas as secretarias de Administração Pública na Secretaria Geral, criada por J. J. Seabra no mesmo período. 21 Em 1920, no governo de Antonio Moniz, eleito Governador com o apoio de J. J. Seabra, essa lei foi modificada para permitir outra vez a escolha dos Intendentes por meio do voto direto. 22 Contudo, ―os Conselhos Municipais, as juntas distritais e os juízes de paz continuaram a ser eleitos por sufrágio popular e a servir por quatro anos‖. 23 Esse período em que os Intendentes passaram a ser nomeados pelo Governador possuiu um detalhe relevante para a política da época. J. J. Seabra promoveu uma organização política que lhe concedeu a prerrogativa de indicar todos os Intendentes dos municípios baianos. Por meio de suas relações de poder, parcerias e arranjos políticos, Seabra realizou alianças e intermediações com as quais determinou quem deveria ocupar este e outros cargos de relevância dentro dos municípios assinalando às práticas políticas deste período. 2.2 A política dos governadores e os poderes locais Os primeiros anos do regime republicano foram de instabilidade em todo o Brasil. Para Marieta de Moraes Ferreira e Surama Conde Sá Ferreira Pinto, as relações entre os poderes Executivo e Legislativo, assim como as interações entre o poder central e os poderes regionais foram problemas que necessitavam ser equacionados. 24 Tais questões só começaram a ser deliberadas com a criação em 1898 da política dos governadores ou política dos estados. A política dos governadores foi ―um ajustamento e compromisso entre todos os estados da Federação para a escolha do presidente da República‖, e este, apoiava os candidatos indicados pelos governadores nas eleições estaduais. Ou seja, tratava-se de um arranjo oligárquico quanto ao seu funcionamento concreto, que teve entre os seus objetivos limitar as disputas políticas no âmbito de cada estado, evitando que os conflitos intraoligárquicos transcendessem as fronteiras regionais provocando inconstâncias políticas no plano nacional. Os laços da política dos governadores, a partir do governo de Manuel Ferraz de Campos Sales (1898-1902), influenciaram a estrutura político-partidária da Primeira República e foram reproduzidos entre os governos estaduais e municipais. O prestígio e a 21 TAVARES, op. cit., p. 334. POPPINO, op. cit., p. 127-128. 23 Ibidem, p. 127. 24 FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá, op. cit., p. 2. 22 24 intervenção do coronel em sua área de mando decidiam quem iria compor os cargos políticos e administrativos, embora, a subordinação dos líderes locais aos chefes dos estados não ocorresse sempre. 25 Para Ferreira e Pinto, a inovação política que efetivou a política dos governadores foi o reparo no Regimento Interno da Câmara no tocante à constituição da Comissão de Verificação de Poderes. Anteriormente cabia ao parlamentar mais idoso entre os presumidamente eleitos para a presidência da Câmara, nomear cinco deputados para formar a comissão encarregada de decidir sobre a legitimidade dos mandatos dos demais congressistas. Com o novo critério o encarregado de nortear a Comissão de Verificação passou a ser o mesmo da legislatura anterior. Paralelamente se procedeu a uma definição mais precisa dos diplomas: pelo novo texto o diploma passou a ser a ata geral da apuração da eleição, assinada pela maioria da Câmara Municipal, encarregada por lei de coordenar a apuração eleitoral. Com estas mudanças as eleições passaram a ser decididas antes que a Câmara deliberasse a respeito, tendo o Legislativo federal se transformado numa expressão da vontade política dos chefes estaduais. 26 Contudo, para Renato Monseff Perissinotto, a política dos governadores tratava de interesses bem mais específicos. Tinha um caráter fundamentalmente político e visava conferir a São Paulo e Minas Gerais ―o controle do governo federal e garantir a estabilidade do regime político, ameaçada pela não-institucionalização do processo de sucessão presidencial‖. 27 Em nome dessa política, a União tinha como norma não intrometer-se nos estados, ainda que esse direito lhe fosse assegurado na Constituição de 1891 em casos eventuais. 28 Mas, essa interferência aconteceu em determinadas circunstâncias, o que repercutiu em movimentações contra o poder instituído por grupos políticos que tiveram suas ações limitadas com a política dos governadores. Entretanto, as classes dominantes de estados como Rio Grande do Sul e Bahia buscaram maior participação no espaço político, resistindo à hegemonia do setor cafeeiro. Segundo o mesmo autor, os conflitos políticos no primeiro período republicano assumiram formas de conflitos regionais, mas não entre todas as regiões do país, nem entre todos os estados. Foram divergências particulares entre São Paulo e Minas Gerais, de um lado, ligados ao setor de agro exportação, e os demais estados, quase sempre liderados pelo 25 SOUZA, Maria do Carmo Campello de. O processo político partidário na Primeira República. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Brasil em perspectiva. 21. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 26 FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá, op. cit., 2006. p. 3. 27 PERISSINOTTO, Renato M. Classes dominantes e hegemonia na República Velha. Campinas, São Paulo: UNICAMP, 1994. p. 212-213. 28 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 24 de fevereiro de 1981. Disposições preliminares. Título I. Art 6º ―O Governo Federal não poderá intervir nos negócios dos peculiares aos estados, salvo: 1º Para manter a forma republicana federativa; 2º Para restabelecer a ordem e a tranqüilidade nos estados, a requisição dos respectivos governos‖. p 18. 25 Rio Grande do Sul, ligados ao abastecimento do mercado interno, ou seja, conflitos de classe e não entre oligarquias regionais. Para Perissinotto, as crises de 1910, 1922 e 1930 são indícios desses conflitos: [...] em 1910, Hermes da Fonseca foi eleito com declarado apoio gaúcho e declarada oposição paulista. A sua presidência foi marcada pela ascensão política de Pinheiro Machado, importante e influente senador gaúcho, e pelos conflitos com São Paulo. A sucessão de 1922 marcou ainda mais claramente essa divisão, com o Rio Grande do Sul à frente de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, formando a ―Reação Republicana‖ contra o candidato de São Paulo e Minas, Arthur Bernardes. A Revolução de 1930, como se sabe, teve no Rio Grande do Sul um dos pilares iniciadores da nova ordem e em São Paulo o baluarte da antiga.29 Esse arranjo favoreceu São Paulo e Minas Gerais no controle político que lhes proporcionou apoio tanto para a valorização do café paulista, como as ligações clientelistas entre Minas Gerais com o governo federal. Essa arrumação política, em vigência na Primeira República, foi colocada em questionamento por um conjunto de movimentações que funcionou como elemento de incitação a alterações nos fundamentos do sistema oligárquico da Primeira República, entre eles a Reação Republicana, mencionada por Perissinotto. Liderada por Borges de Medeiros, a Reação Republicana denunciou essa organização que garantia recursos para os esquemas valorizadores do café, em um momento no qual, segundo as lideranças do movimento, o que país necessitava era de finanças equilibradas. A acusação foi amplamente desenvolvida durante a campanha presidencial de Nilo Peçanha. O candidato da Reação Republicana protestou contra o ―imperialismo‖ econômicos e políticos dos outros Estados, declarando que a borracha, o cacau, o açúcar e outros produtos de exportação deveriam também ser protegidos. Os propagandistas gaúchos martelaram na tecla de que a alternância dos representantes entre São Paulo e Minas na Presidência da República tinha facilitado o progresso destas áreas e o abandono dos demais Estados. 30 Segundo Perissinotto, as contendas residiam nas alternativas referentes às políticas econômico-financeiras, nesse quadro o poder de barganha dos estados do Norte era pequeno diante de uma situação de crise permanente da economia açucareira. 31 Para Ferreira e Pinto, ―as disputas em torno da sucessão presidencial de 1922 que abririam espaço para a formação da Reação Republicana podem ser tomadas como indicadores do esgotamento do modelo 29 PERISSINOTTO, op. cit., p. 215. CARDOSO, Fernando Henrique. O Brasil republicano, v 8: estrutura de poder e economia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. p. 260. 31 Ibidem, p. 220. 30 26 político vigente na Primeira República‖. 32 Quando foi confirmada a candidatura de Arthur Bernardes à presidência, J. J, Seabra apresentou pretensões a ser seu vice, mas o presidente Epitácio Pessoa não permitiu. Assim, J. J. Seabra aliou-se à candidatura de Nilo Peçanha, que baseou sua campanha em protestos contra o imperialismo econômico e político de São Paulo e Minas Gerais, como já apontado anteriormente A chapa da Reação Republicana venceu na Bahia, mas foi derrotada no país. 33 Nesta eleição os gaúchos insistiam na tese segundo a qual o monopólio do poder por Minas e São Paulo havia promovido o progresso daquelas áreas deixando no ostracismo econômico e político as demais, que também careciam de atenção por parte do governo federal. 34 Conforme as previsões, Arthur Bernardes foi eleito e, em seu governo, a defesa do café tornou-se permanente e essa política foi desvantajosa para os demais estados a exemplo da Bahia que herdou, como afirma Consuelo Novais Sampaio, ―uma economia anêmica‖, ainda que diversificada. A economia baiana era de base agrária-mercantil, voltada para o mercado externo. A crise da economia açucareira não conseguiu ser superada, mesmo com algumas investidas realizadas no sentido de resolvê-la e não apenas na Bahia, mas na região açucareira. Assim, o açúcar, que durante o Império amparou o prestígio da Bahia, teve peso diminuto ao longo da Primeira República. O fumo, o cacau, o café foram os principais produtos do estado para a exportação, mas a possibilidade da liderança de um deles no mercado internacional foi restrita, o que condicionou o crescimento da economia da Bahia. 35 Ainda segundo Sampaio, [...] além da concentração da renda no complexo agro-comercial haver funcionado como fator inibidor do desenvolvimento econômico, a renda por ele gerada não era investida na região, de modo a permitir a expansão do mercado doméstico. A burguesia local, em geral subordinada a firmas estrangeiras, exercia controle secundário sobre os diferentes setores da produção, o que reduzia seus lucros e sua disposição de investir na região. Essa subordinação dos diversos setores da economia à atividade agro-comercial, e á intermediação estrangeira, inibiu quaisquer tentativas de mudanças na estrutura social e no processo político da Bahia na Primeira República. 36 Contudo, o cacau se sobressaiu aos demais produtos, a partir de 1860, com a procura pelas indústrias farmacêuticas e de alimentação dos Estados Unidos. As lavouras se 32 FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A Crise dos anos 20 e a Revolução de Trinta. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006. p. 6. 33 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 338. 34 PERISSINOTTO, op. cit., p. 221. 35 SAMPAIO, Consuelo Novais. Partidos políticos da Bahia na Primeira República: uma política de acomodação. Salvador: EDUFBA, 1998. p. 32-38. 36 Ibidem, p. 38-39. 27 desenvolveram no Sul da Bahia onde havia terras férteis e condições climáticas favoráveis. Segundo Luis Henrique Dias Tavares, acrescenta-se o fato de que vastas extensões de terra ―não possuíam dono‖, o que permitiu o deslocamento de uma grande quantidade de pessoas para a ocupação do litoral Sul e mais tarde avançando para o interior, áreas ocupadas naquele período por tribos dos povos tamoios e tupis, que logo foram expulsos e dizimados. 37 Com a permanência da defesa quase que exclusiva do café no governo de Arthur Bernardes, sua administração sofreu constantes oposições. Após o movimento militar dos 18 do Forte de Copacabana, os integrantes do movimento tenentista, articularam-se, mais uma vez, com o objetivo de derrubar o governo de Arthur Bernardes, que, desde o início de sua gestão coibiu seus opositores com violência, decretando o estado de sítio permanente e a censura à imprensa. Em 5 de julho de 1924 sob a liderança do general Isidoro Dias Lopez, os militares iniciaram outra rebelião tomando alguns quartéis e conseguiram instalar-se na capital paulista.38 Na Bahia, o governador Góes Calmon comprometido como o governo de Arthur Bernardes, que ele apoiou e acompanhou, enviou batalhões da Polícia Militar da Bahia para combater a revolução de 1924 em São Paulo. 39 A repressão do governo federal promoveu o deslocamento dos militares para o interior de São Paulo. Em seguida, os membros do movimento se fixaram no Oeste do Paraná, onde se defrontaram com as tropas governistas durante seis meses. Mais tarde, seguiram para o Rio Grande do Sul, onde contaram com a participação dos maragatos, liderados por Assis Brasil e o apoio do tenente Aníbal Benévolo, o capitão Luiz Carlos Prestes e o tenente Mário Portela Fagundes na organização do levante. As forças governamentais foram rapidamente mobilizadas e desmontaram as ações dos rebeldes, que conseguiram sobreviver apenas em regiões onde o acesso das tropas governamentais foi difícil. 40 As tropas revolucionárias foram estruturadas no final de 1924, na chamada Coluna Prestes, considerada um dos mais importantes momentos do movimento tenentista. Segundo Anita Leocádia Prestes, em linhas gerais, [...] lutava-se pelas mesmas reivindicações de caráter liberal já levantadas, em 1922, por Nilo Peçanha, durante a campanha da Reação Republicana, e pelos ―tenentes‖, que então pegaram em armas, pela primeira vez. A principal palavra de ordem era a 37 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 365. FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos 20 e a Revolução de Trinta. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006. p. 13. 39 TAVARES, op. cit., p. 352. 40 Ibidem, p. 50-51. 38 28 do voto secreto, medida indispensável para garantir a lisura dos processos eleitorais, sabiamente fraudulentos nos pleitos realizados na República Velha. 41 Na Bahia, a Coluna Prestes chegou na noite de 25 para 26 de fevereiro de 1926. Os revolucionários atravessaram o Rio São Francisco e realizaram uma marcha de 558 quilômetros pela caatinga a pé. Segundo Tavares, o governador Góes Calmon queria utilizar apenas as tropas regulares no combate à Coluna, entretanto, passando por cima de sua decisão, o presidente Arthur Bernardes, [...] decidiu incorporar coronéis da Chapada Diamantina e do São Francisco ao combate contra a Coluna. Intermediados por chefes do coronelato baiano residentes no Rio de Janeiro, os coronéis Horácio de Matos, Franklin Lins de Albuquerque, Abílio Wolney e outros, receberam muito dinheiro, muitas armas e munições para formar batalhões e combater a Coluna. Quando organizados somaram cerca de 3.500 homens bem alimentados, armados e municiados, conhecedores da caatinga em que lutavam e sabiam utilizar a tática de emboscadas e tocaias. Como enormes baixas em homens, perdas de armas e munições, a 2 de julho de 1926 a Coluna Prestes deixou a Bahia em Rodelas e se internou em Pernambuco. 42 Conforme Anita Leocádia Prestes, a coluna foi uma marcha militar, mas adquiriu características de movimento popular, sendo mais um exemplo das contestações à organização política do Brasil na Primeira República. 43 Deste modo, as regras do revezamento dos presidentes, estabelecidas com a política dos governadores, davam sinais de não conseguir mais abafar as disputas políticas no nível nacional. A organização política sistematizada por Campos Sales beneficiou também o fortalecimento dos grupos oligárquicos e dos coronéis que possuíam como lócus de sua força política o município, mas não apenas aqueles contextualizados na zona rural, como era o caso de Feira de Santana. Sob essa fórmula foi montada a engrenagem política da Primeira República que, para Dulce Chaves Pandolfi, alijava, progressivamente, os estados menores do jogo político nacional, por representar um pacto de conservação do poder estadual que exigia a expressão da lealdade ao poder central por meio do voto.44 Em linhas gerais, esse acordo foi reproduzido entre os governadores e os líderes locais que controlavam o eleitorado nas suas áreas de domínio. 41 PRESTES, Anita Leocádia. Uma epopéia brasileira. A Coluna Prestes. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009. p. 39-40. 42 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 354. 43 PRESTES, op. cit., p. 130. 44 PANDOLFI, Dulce. In: GOMES, Angela Maria de Castro (Org.). Regionalismo e centralização política: partidos e Constituinte nos Anos 30. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 341. 29 A figura do coronel, que tem sua origem nos engenhos de açúcar e nas fazendas de gado do século XVI, amadureceu durante a Primeira República estendendo o poder do domínio privado para o setor público comandando a política local e exercendo influência na política deste período, e se apresenta como conceito mais dilatado com relação aos múltiplos tipos de poder político-econômico que historicamente marcaram o Brasil. 45 Por meio de diversos mecanismos que lhe assegurava o domínio, o coronel garantia a vitória eleitoral ao governador e tornava-se credor das suas benfeitorias. Parte do poder do coronel foi legitimada por meio da concessão do governo estadual do controle de cargos públicos diversos como fiscais, promotores, delegados, professores, diretores de instituições de ensino, prerrogativas que a Constituição de 1891 que concedeu com ampla margem de autonomia aos estados, em detrimento dos municípios. A entrega destes cargos nas mãos dos coronéis estava fundamentalmente ligada à sustentação de interesses econômicos formando uma complexa rede de relações. A troca de favores e a reciprocidade davam-se também entre o coronel e a população local que não possuía canais para se expressar. De modo elástico, as relações eram permeadas pelas vontades, aversões e agrados daqueles que possuíam o poder que se impõem com o uso de mecanismos variados. Havia barganha entre os coronéis e ―seus eleitores‖, todavia, sua existência não impedia que arbitrariedades e abusos de poder ocorressem. Eurico Alves Boaventura, feirense, membro de uma família de prestígio em Feira de Santana e região desde muito antes da instalação da República, relata em sua obra Fidalgos e Vaqueiros que esses coronéis, do sertão da Bahia em especial, ―se apresentavam como tipos de valor, vivendo a sua vida em função da sua paisagem, sendo juiz e senhor e até mesmo Rei, ou Imperador, porque a única e solitária voz ouvida e que elevava no meio do poeirão das nossas estradas‖.46 Afirma ainda que ―a República vem incensar a vaidade das nossas casasde-fazenda, tonificando ainda mais a figura do coronel‖, pois a política estadual e federal contavam com o amparo dos chefes políticos locais. Rui Bacelar inicia a República na dianteira das forças políticas das fazendas feirenses. É político fidalgo, ainda nos últimos tempos, nos derradeiros instantes da época robusta do pastoreio, antes do descalabro moral que a revolução de trinta implantou, foi o Cel. Bernardino da Silva Bahia, firmando o seu renome na significação das malhadas das fazendas amigas ou no comércio das boiadas gordas. Major Quintiliano Martins da Silva Júnior, conhecido como Quintiliano, o Moço, 45 PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias: 1889-1943: A Bahia na Primeira República Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 21; CARDOSO, Fernando Henrique (Org). O Brasil republicano, v 8: estrutura de poder e economia (1889 – 1930). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 178. 46 BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e vaqueiros. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989. p. 348. 30 para o diferenciar do Pai, forma com o Cel. João Mendes da Costa, o Cel. Francisco Ramalho tipos de políticos de alto coturno no nosso meio, na meninice da República. 47 As eleições desse período davam-se sob o voto aberto e a ―bico de pena‖. Os chefes políticos ―orientavam‖ os eleitores a votarem em seus candidatos e as denúncias de fraudes eleitorais, nessa época, foram frequentes.48 A busca pela vitória eleitoral iniciava no registro dos eleitores, em que a prática corrente era que cada município ou comarca 49 elaborasse três comissões para promover as eleições: uma de registro, que era uma junta de alistamento; uma comissão eleitoral executiva, que era a mesa eleitoral; e a comissão de apuração, responsável pela contagem e validação dos votos. As três comissões eram constituídas pelo juiz da comarca nomeado pelo governador, um juiz municipal eleito pelos munícipes, e membros escolhidos entre o eleitorado local. Foi comum que membros do Conselho e Intendentes fizessem parte dessas comissões, interferindo nos procedimentos eleitorais e no resultado das eleições. Como afirma Consuelo Novais Sampaio, nos chamados currais eleitorais mais distantes, as eleições a bico de pena costumavam dispensar o formalismo de uma mesa eleitoral constituída; bastava apenas que, comodamente instalado em sua casa, o chefe político local, cercado de seus cabras de confiança, fizesse a ata eleitoral – antecipando-se ou não às eleições – nela deixando constar os votos de quem bem quisesse e entendesse. Sabia que sua força e prestígio cresciam na razão direta do número de votos apresentados. 50 As classes dominantes se utilizavam de meios variáveis para evitar o alistamento de eleitores que apoiassem seus rivais. Eleitores-fantasmas e os eleitores pagos também foram recorrentes nas práticas políticas desse período, assim como a compra de votos. E essa compra nem sempre aconteceu com uso direto de dinheiro e derivou, posteriormente, para a permuta de bens e serviços recebidos imediatamente ou a promessa destes, assim, o indivíduo dava seu voto porque recebeu o benefício ou o juramento de ainda recebê-lo. 51 52 Conseguir empregos, gastos com velórios, distribuição de roupas, sapatos, chapéus e outros artigos, foram comuns durante o período da campanha eleitoral e influenciaram de forma direta no resultado das eleições. O que demonstra a complexidade das relações entre 47 BOAVENTURA, op. cit., p. 351. FARHAT, Saïd. Dicionário parlamentar e político: o processo político e legislativo no Brasil. São Paulo: Melhoramentos; Fundação Peirópolis, 1996. p. 323. 49 Um distrito judicial que abrangia um ou mais municípios. 50 SAMPAIO,Consuelo Novais. Partidos políticos da Bahia na Primeira República. Uma política de acomodação. Salvador: EDUFBA, 1998. p. 102. 51 GUERREIRO, Caroline Webber. O que estava em jogo: o processo eleitoral e o problema da qualificação dos eleitores. Semina, Passo Fundo, v. 2, n. 2, p. 77-85, 2004. 52 CARDOSO, op. cit., p. 180. 48 31 dominantes e dominados que não eram permeadas unicamente pela submissão, pois votar no indicado pelo chefe local não era apenas aceitar passivamente o mando do coronel, mas também, trocar o seu voto por algo obtido ou que se desejava obter, e nessa relação, esperavase tanto a lealdade por parte do eleitor para com o coronel quanto do chefe político para com o seu liderado. 53 Quanto maior a capacidade de fazer favores, maior a possibilidade do coronel em aumentar seu eleitorado e ascender na hierarquia política. Dentro do seu campo de influência do coronel, ele exercia também um largo controle sobre seus dependentes, promovendo desavenças, rixas, e em alguns casos proferindo arbitrariedades, que foram respeitadas pelos que possuíam interesses que complementavam, o que pode ser percebido em Feira de Santana na Primeira República. se 54 Na esquadrinha por montar o quadro da política feirense antes de 1930, tivemos indícios de práticas de favorecimento, característica secundárias do coronelismo, exemplificada no pleito de 1924 para a Intendência Municipal, na qual Arnold Ferreira da Silva alcançou a vitória eleitoral. 55 A partir desta primeira gestão de Arnold Ferreira da Silva, início de sua vida política, procuramos identificar os sujeitos da sociedade política de Feira de Santana que nas décadas de 1920, 1930 e 1940 participaram ativamente da vida política da cidade, os quais, na maior parte do período examinado neste estudo, formaram os segmentos dirigentes feirenses. 2.3 Política em Feira de Santana na Primeira República Em Feira de Santana, na época em que o cargo de Intendente Municipal estava sob a indicação do Governador (1916 – 1920), o coronel Agostinho Fróes da Motta, fazendeiro e comerciante de gado e fumo, governou a cidade em duas gestões consecutivas, sendo a primeira de janeiro de 1916 a dezembro de 1917 e, a segunda de janeiro de 1918 a dezembro de 1919, o que aponta a existência de laços entre o político feirense com o governo estadual representado nas figuras de J. J. Seabra e Antonio Muniz Sodré de Aragão, já que entre os anos de 1915 a 1920 a Intendência foi ocupada a partir da indicação do governador. Agostinho Fróes da Motta foi antecedido e sucedido pelo coronel Bernardino da Silva Bahia, fazendeiro e comerciante de gado, que esteve à frente do Executivo feirense de outubro de 1912 a dezembro de 1915 e, posteriormente, também ocupou duas gestões consecutivas (a 53 Idem, p. 182. LEAL, Victor Nunes. Corolenismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Omega, 1978. p. 23. 55 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. ―O coronelismo numa interpretação sociológica. In: FAUSTO, Boris (Dir.). História geral da civilização brasileira. São Paulo: Difel, 1975. Tomo III, v. I, p. 155-190. 54 32 primeira de janeiro de 1920 a dezembro de 1921 e, a segunda de janeiro de 1922 a dezembro de 1923). 56 Os coronéis provinham de famílias que estavam entre as donas dos maiores patrimônios em Feira de Santana e que, quando não ocuparam o mandato de Intendente, ocuparam o de Conselheiro municipal, ou seja, estiveram continuamente investidos de um mandato político. Conforme Eul-Soo Pang, Motta e Bahia estavam entre os cinquenta coronéis mais proeminentes da Bahia entre os anos de 1889 e 1937. 57 Segundo Gastão Sampaio, Agostinho Fróes da Motta ―de origem humilde, revelou-se um administrador extraordinário‖. Estabeleceu-se como importante produtor e comerciante tendo a mais bem sucedida das firmas de fumo locais e chegando a atender ao mercado externo. Gastão Sampaio acrescenta que, para ampliar seus negócios, Agostinho Fróes da Motta se associou a Epifânio José de Souza, comerciante de Cachoeira, e formaram a firma Motta e Souza. Com a morte de Agostinho Fróes da Motta, a razão social ficou sob o nome de Epifânio José de Souza. Entretanto, Sampaio não esclarece se a família Fróes da Motta manteve algum nível de participação na firma ou se sociedade se desfez. Ainda segundo o autor, Agostinho Fróes da Motta deixou uma rica escola de negócio de fumo seguida por longo período por comerciantes do mesmo ramo na cidade. 58 Entre os anos das gestões de Motta e Bahia, ambos partidários do Partido Republicano da Bahia (PRB), Feira de Santana passou por um processo de intervenção urbana, discutido por Tiago Santana Santiago e que dá indicativos das relações de poder na cidade. Boa parte dessas intervenções foram realizadas sobre as ―casinhas que se espalhavam pela cidade‖, em particular nas áreas consideradas nobres e que, segundo a justificativa dos dirigentes políticos locais, atrapalhavam o ―aformoseamento‖ de Feira de Santana. 59 A partir dos registros da Décima Urbana e dos Foros municipais, Santiago mapeou as principais obras públicas, e também algumas obras privadas da época e identificou que a localização delas foram próximas às residências e casas comerciais de figuras da sociedade política e civil de Feira de Santana. 60 Um exemplo das práticas dos políticos feirenses, ainda no período da Primeira República, pode ser percebido nas obras da Praça Joaquim Remédios Monteiro e a construção 56 DAMIÃO, Oscar. Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional da Feira de Santana. 3. ed. Feira de Santana: Gráfica Nunes Azevedo, 2002. 57 PANG, Eul-Soo. Coronelismo e oligarquias 1889-1943. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.246 58 SAMPAIO, Gastão. Feira de Santana e o Vale do Jacuípe. Salvador, Bahia. p. 99 59 SANTIGO, Tiago Santana. Casas, casebres e ruínas: Política de desapropriação na Feira de Santana (19101917). Monografia de Conclusão de Curso. Feira de Santana: UEFS, 2010. 60 Ibidem. 33 do coreto da Praça General Argollo.61 Em 1915, o então Intendente coronel Bernardino da Bahia, financiou, com recursos próprios, a construção da Praça Joaquim Remédios Monteiro, em um período no qual, segundo Santiago, o poder municipal estabelecia quando e de que maneira o espaço da praça deveria ser utilizado, pois as praças não foram somente locais de manifestações religiosas, socialização, como também locais de comercialização de fumo, gado e outros gêneros. Em 16 de novembro de 1917, o coronel Agostinho Fróes da Motta à frente da Intendência Municipal, solicitou ao Conselho, período em que o coronel Bernardino Bahia foi Conselheiro e presidente da casa, a autorização para construir um coreto na Praça General Argollo, com o intuito de ―concorrer individualmente para o aformoseamento da cidade‖. 62 63 Os recursos utilizados foram do próprio intendente, assim como o fez o coronel Bernardino Bahia, e a referida praça localizava-se ao lado do palacete onde residia o coronel Agostinho Fróes da Motta. Entre os diversos locais da cidade, o Intendente escolheu para aplicar seus recursos um ponto da cidade que para além de embelezar a sua vizinhança, valorizou a sua propriedade e os seus negócios com o melhoramento de um bem público. Subjacente a estas obras e às recorrentes declarações de que buscavam priorizar a vontade geral, estavam os interesses pessoais. Ambas as praças tornaram-se símbolos da ―boa administração‖ dos dois intendentes, que gerindo o Executivo feirense, controlaram importantes aparatos administrativos. Somados com a estratégia do uso de recursos particulares, atenderam aos interesses pessoais e colaboraram para a construção dos prestígios pessoais, desses que autoproclamavam-se como defensores do desenvolvimento e progresso de Feira de Santana. Tais práticas possivelmente foram um dos mecanismos que favoreceram a permanência de coronéis Motta e Bahia nos grupos dirigentes locais durante as décadas de 1910 e 1920, haja vista que em 1918, o coronel Agostinho Fróes da Motta foi indicado pelo governador para permanecer na Intendência de Feira de Santana. Os interesses dos grupos dirigentes nesses anos foram mascarados por uma política de intervenções urbanas que agregou interesses ditos da comunidade feirense. Nas décadas de 1930 e 1940, como é apresentado nos capítulos seguintes, os membros dos segmentos dirigentes na cidade foram figuras das coligações político-partidárias e 61 Ibidem, p. 16. Atualmente chama-se Praça Fróes da Motta, renomeada após o falecimento do Coronel Agostinho Fróes da Motta em 1922. DAMIÃO, Oscar. Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional da Feira de Santana. 3. ed. Feira de Santana: Gráfica Nunes Azevedo, 2002. 63 Comunicações da Intendência Municipal de 16 de novembro de 1917, nº 72. Arquivo Público Municipal de Feira de Santana. Apud. SANTIAGO, p. 16. 62 34 aproximações familiares e pessoais com os dois Intendentes citados anteriormente, apontando que desde o período anterior ao movimento de 1930 a política na cidade foi exercida por um mesmo segmento. Em seu estudo, Santiago examinou as contas públicas das administrações dos coronéis Agostinho Fróes da Motta e Bernardino Bahia e observou que a receita municipal poderia arcar com uma intervenção urbana mais ampla, todavia, ela foi restrita as áreas próximas às propriedades de Motta e Bahia e sujeitos abastados da cidade, o que pode ser percebido nas obras realizadas por eles: Mercado Municipal, arborização das ruas Senhor dos Passos e Barão de Cotegipe, reparos em passeios das ruas General Osório, Remédios e Conselheiro Franco, reforma da ladeira da Nação, abertura das Ruas Desembargador Mario Heiti e Bernardino da Silva Bahia, juntamente com a praça e o coreto em 1915, Construção de dois prédios escolares, um localizado na Rua Barão de Cotegipe e outro na Praça General Argollo. Calçamento das ruas Dr. Manoel Victorino e General Osório entre as praças dos Remédios e General Argollo, melhoramentos na Praça de Sant‘Anna e na Praça General Argollo. 64 As intervenções realizadas por Motta e Bahia, valorizaram as suas propriedades nas áreas onde eles realizaram essas obras, como beneficiaram também as atividades comerciais as quais estavam ligados. Ai se incluem, as praças, como já mencionamos, mas também o Mercado Municipal que foi construído em 1914, na gestão de Bernardino Bahia, que durante décadas foi o principal ponto da feira de gado e o comércio de secos e molhados. A instauração do regime republicano em Feira de Santana, segundo Clovis Frederico Ramaiana Moraes Oliveira, apresentou a ideia de ordenamento social com base na urbe e na cidade como o local de origem da civilidade e do progresso. O autor traz, no início de sua dissertação, um debate historiográfico sobre a cidade com livros que versam acerca das cidades no contexto da revolução industrial. 65 Situação, que segundo Igor Santos Gomes, ―caracteriza as cidades enquanto local das ‗multidões‘, do ‗progresso‘, da ‗industrialização‘, da inserção no desenvolvimento do capitalismo internacional, etc.‖, diferente da conjuntura de Feira de Santana nesse período. 66 Oliveira mostra que, embora Feira de Santana tenha tido uma constituição urbana distinta da maioria dos estudos apresentados pelos autores que utiliza, os segmentos dirigentes da cidade, proprietários de terras, pequenos e grandes comerciantes endereçavam suas 64 SANTIAGO. Op. cit., 2010. p. 29-30. OLIVEIRA, Clóvis Frederico Ramaiana Moraes. De empório a princesa do sertão: utopias civilizadoras em Feira de Santana (1893-1937). Dissertação de Mestrado em Historia. UFBA, Salvador, 2000. p. 10. 66 GOMES, Igor Santos. Na contramão do sentido. Origens e trajetórias do PT de Feira de Santana – Bahia (1979 – 2000). Dissertação de Mestrado em História. Niterói: UFF, 2007. p. 39. 65 35 provocações às tradições populares, negros, vaqueiros, indicando um direcionamento ao discurso de uma nação capitalista e rumo ao progresso. 67 A feira de gado, citada anteriormente, foi um dos pontos fortes da economia feirense e sofreu constantes retaliações para que suas práticas fossem modificadas e mais tarde, discutiuse sua retirada do centro da cidade. Como uma organização social e as tradições não se esvaem segundo as vontades dos dirigentes, o comércio que se desenvolvia buscou conviver com o rural num mundo urbano que cambaleava, como aponta Oliveira. Uma estrutura física e normas fiscalizadoras foram instituídas com a criação dos currais modelo que lentamente acolheram a feira de gado. Contudo, essa pretensa urbe feirense não foi formada por completa. Locais próximos ao centro urbano como a propriedade de Dona Pomba, atual bairro da Rua Nova, até os anos de 1940 foi uma fazenda, assim como a criação de animais em residências permaneciam no cotidiano feirense. O uso do aparato político-administrativo pelos dirigentes políticos esteve presente nas práticas políticas na Primeira República não apenas nas interferências físicas da estrutura da cidade, como também em normatizações dos costumes da população. Como aponta Décio Saes, a burocracia estatal tende a se submeter aos interesses políticos de uma dada classe, mas especificamente àquela que ―espelharem‖ mais eficazmente a sua própria posição dentro da sociedade capitalista e aos interesses econômicos de uma classe, por força de origem de classe, da pressão pessoal, econômica, política ou a articulação desses fatores. 68 Os códigos de postura, como os citam Santiago e José Aldo Morais Silva, fizeram parte do cotidiano da cidade durante as décadas de 1920 a 1940 e ainda depois. 69 As regras desses códigos traziam determinações sobre hábitos e costumes, dos quais boa parte recaia apenas para uma parcela da população que, em geral, não possuía meios de se expressar. Outro exemplo citado por Santiago pode demonstrar o raciocínio exposto anteriormente. Em Feira de Santana, a criação de porcos em locais urbanos foi proibida nas décadas de 1910 e 1920. 70 Grande quantidade desses animais circulava pelas ruas da cidade, o que foi considerado algo ―ruim para a aparência da urbe e ao mesmo tempo para a saúde da população‖, em um período no qual Feira de Santana foi vista e divulgada como uma cidade sanadora e sanatória.71 Mesmo com o desrespeito à proibição sendo punida com uma multa no 67 OLIVEIRA, op. cit., p. 51. SAES, Décio. Estado Capitalista e Classe Dominante. Ver. Crítica Marxista. p. 163. 69 SILVA, José Aldo Morais. Natureza Sã, Civilidade e Comércio em Feira de Santana: elementos para o estudo da construção de identidade social no interior da Bahia (1833 – 1927). Dissertação (Mestrado em História)- UFBA, Salvador, 2000. 70 SANTIAGO, op. cit., p. 38. 71 SILVA, Aldo José, op. cit. 68 36 valor de 6$000 (seis mil réis) ou dois dias de prisão, a lei raramente foi cumprida. Segundo Rollie Poppino, a comercialização destes porcos quase sempre serviu para complementar a renda do criador, pois não houve uma venda regularizada, nem locais destinados ao comércio de suínos como aconteceu com o gado e, por conta disso, quase nunca eles foram levados à feira. 72 Os porcos eram concorrentes do gado, precisamente em relação ao consumo de suas carnes, e tendo entre os membros dos setores dirigentes grandes comerciantes de gado, entende-se as motivações para a proibição, bem como os pequenos criadores de gados que possuíam currais nos quintais de casas. Contudo, a concorrência com o gado era uma preocupação secundária. Uma família que criava porcos em casa possuía uma relativa autonomia quanto à produção do seu alimento e como tal, não teria a necessidade direta de consumir os produtos do comércio de alimento que era forte na cidade. Assim, os criadores e pequenos comerciantes de porcos, além e também pequenos criadores de gado encontraram maneiras de burlar as determinações e dar continuidade às suas atividades para forjar a sobrevivência realizando suas vendas muitas vezes de maneira clandestina. 2.4 “Prestimoso amigo”: a inserção de Arnold Ferreira da Silva na política feirense Agostinho Fróes da Motta e Bernardino Bahia foram aliados políticos durante muitos anos, embora houvesse discordâncias e disputas quanto aos rumos da administração do município, assim como possuíam atividades comerciais em comum. 73 O coronel Bernardino da Silva Bahia, no final do seu último mandato, em 1923, período em que ocupava também o cargo de presidente do diretório local do Partido Republicano da Bahia (PRB), indicou para lhe suceder no cargo de Intendente o pouco conhecido na sociedade civil, menos ainda na sociedade política, Arnold Ferreira da Silva. 74 Nascido em 3 de agosto de 1894, Arnold Ferreira da Silva era filho natural de Amâncio Ferreira da Silva e Vicência Lima e Silva, ambos de origem humilde segundo o memorialista 72 POPPINO, op. cit., p. 173-174. Segundo Reis, a vida política do Cel. Agostinho Fróes da Motta não foi iniciada com o cargo de Intendente. Há registro de sua participação em sessões do Conselho Municipal em 1902, o que aponta que seu poderio político na região vinha consolidando-se já no início da República, assim como o Cel. Bernardino Bahia. Ver mais em REIS. Wagner Alves. Agostinho Fróes da Motta: comércio, política e questões raciais na Princesa do Sertão (1900-1922). Monografia (Especialização em História da Bahia)- UEFS, Feira de Santana, 2008. Entre as décadas de 1910 e 1920, Feira de Santana passou por intervenções urbanas, parte delas encabeçadas por Agostinho Fróes da Motta e Bernardino Bahia. Algumas dessas transformações urbanísticas indicavam a disputa pelo poder político em Feira de Santana. Ver mais em SANTIAGO, Tiago Santana. Casas, casebres e ruínas: política de desapropriação na Feira de Santana (1910-1917). Monografia (Conclusão de Curso). UEFS, Feira de Santana, 2010. 74 Folha do Norte, Feira de Santana, Edição de comemoração, p. 2, 17 set. 1997. 73 37 feirense Gastão Sampaio, e afilhado de Tito Ruy Bacelar, fundador da Folha do Norte, em 1909 e ex-intendente de Feira de Santana. 75 Arnold Silva foi funcionário do matutino Folha do Norte, e, isto se deu possivelmente por conta desta parentela criada com o dono do periódico. Com a morte de Tito Ruy Bacelar, Silva e seus irmãos Raul e Dálvaro, se tornaram os proprietários do jornal, no qual ele escrevia uma coluna intitulada ―Vida Feirense‖. Quanto à maneira como o jornal foi adquirido ainda necessita de maiores pesquisas. Arnold Silva frequentou apenas o curso primário e a sua instrução é considerada por memorialistas feirenses como autodidata. Segundo a Folha do Norte, ―sua primeira atividade foi de aprendiz de ourives; depois escrevente de cartório‖. Trabalhou como secretário no Folha do Norte aos 14 anos, mais tarde revelando-se como jornalista com uma série de artigos inicialmente na coluna ―Crônica Feirense‖, sob o pseudônimo de ―Gil Moncorvo‖. Após um período sem publicações, retorna com uma nova denominação de ―Vida Feirense‖, assinando o próprio nome. 76 Dedicou-se também escrever estudos sobre Maria Quitéria e Lucas da Feira, segundo Gastão Sampaio, trazendo importantes contribuições sobre esses dois personagens. 77 Acerca das qualidades intelectuais de Arnold Silva a Folha do Norte assinalou: [...] Atilado investigador e estudioso, vai conquistando nas letras lauréis que já o colocaram em alto plano de administração. De uma iniciativa inteligente e corajosa vem de há muito ilustrando e honrando as colunas da Folha do Norte, revelando a bossa de aprimorado jornalista. O que há, porém, de mais notável no tirocínio de Arnold Silva, é que na sua modéstia e sem que haja frequentando centros de instrução superior, tem por seu próprio esforço conseguido amontoar farta soma de conhecimentos. 78 Sendo então um sujeito de origens modestas e sem grande representatividade na cidade, por que um político de prestígio como coronel Bernardino Bahia o indicou para ser o próximo Intendente de Feira de Santana? Como Arnold Silva conseguiu participar das frações dirigentes locais, ingressar na política, obtendo aproximações com figuras tradicionais da cidade, a exemplo de Bernardino Bahia? Examinando as trajetórias do coronel Bernardino Bahia e de Arnold Silva, para além das instâncias oficiais da política, temos alguns indícios para o questionamento levantado 75 76 Folha do Norte, Feira de Santana, Edição comemorativa dos 100 anos, 18 set 2009, p.1 Folha do Norte, Feira de Santana, 17 set 2005. Edição Comemorativa. Ver SAMPAIO, Gastão. Feira de Santana e o Vale do Jacuípe. Salvador. p. 189. DAMIÃO, Oscar. Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional da Feira de Santana. 3. ed. Feira de Santana: Gráfica Nunes Azevedo, 2002. 78 Folha do Norte, Feira de Santana, 2 ago 1919, N. 487, p. 2. 77 38 acima. Arnold Silva foi casado com Amanda de Barros Bahia, filha de Bernardo da Silva Bahia, que faleceu pouco tempo depois do matrimônio, em 23 de maio de 1926. 79 Arnold Silva, após ficar viúvo, voltou a se casar, desta vez com Berezina Barros Bahia, irmã da sua primeira esposa, com quem teve uma filha, Maria Luíza. 80 Assim, o fato de ser genro de Bernardino Bahia é um importante fator a ser avaliado na inserção de Arnold Silva na sociedade política de Feira de Santana, apreciando as táticas uniões íntimas para a ascensão de posições ou para a manutenção delas. Estratégia que foi relativamente comum na sociedade brasileira, nesse período, por meio da qual espaços políticos foram conquistados ou defendidos, e vínculos familiares e sociais foram estendidos. 81 Ser dono da Folha do Norte deu a Arnold Ferreira da Silva algum nível de prestígio na cidade, o que certamente contribuiu nessa aproximação entre ele e Bernardino Bahia que culminando na união das duas famílias por meio do matrimônio, pois na própria folha ainda na década de 1910 muitas edições dedicaram palavras elogiosas á figura do coronel Bernardino Bahia. Esta parentela com o coronel Bahia foi um elemento que auxiliou e facilitou a ascensão sociopolítica de Arnold Silva, fazendo-o galgar posições que estavam em desacordo com suas posses ―menores‖. 82 Arnold Silva foi eleito para o cargo de Intendente de Feira de Santana e governou a cidade de janeiro de 1924 a dezembro de 1925 e, mais tarde, de janeiro de 1926 a dezembro de 1927, quando o diretório do Partido Republicano da Bahia já estava sob sua direção.83 O primeiro mandato político ocupado por ele foi o mais alto na carreira política em uma cidade: chefe do Executivo Municipal. Essa eleição dá uma amostra da influência política da figura do coronel Bernardino da Silva Bahia em Feira de Santana, que devido à sua trajetória na cidade acumulou força e recursos que lhe permitiu manipular o jogo político produzindo um resultado desejado por ele. Sem pretender desvios de interpretação personalística, não há como negar que nessa circunstância histórica determinada a ação individual do coronel Bernardino Bahia foi decisiva nesta eleição, porque para eleger Arnold Ferreira da Silva outros sujeitos políticos feirenses possivelmente partilhavam da perspectiva do seu líder ou ao menos traduziram uma 79 Folha do Norte, Feira de Santana, 29 mai 1926, N. 881, p. 1. DAMIÃO, Oscar. Dicionário Personativo, Histórico, Geográfico e Institucional da Feira de Santana. 3. ed. Feira de Santana: Gráfica Nunes Azevedo, 2002. 81 A construção de laços políticos, por meio do matrimônio, pode ser observado também com Deocleciano Ramos em Lençóis. Ver mais em AGUIAR, Lielva Azevêdo. “Agora um pouco da política sertaneja”. A Trajetória da Família Teixeira no Alto Sertão da Bahia (Caetité, 1885-1924). Dissertação (Mestrado em História Regional e Local) - UNEB, Santo Antonio de Jesus, 2011. 82 CARDOSO, Fernando Henrique (Org), op. cit., p. 196. 83 Folha do Norte, Feira de Santana, Edição de comemoração, 17 set. 2005. p. 2. 80 39 cooperação para com ele. Consideramos como uma ação coletiva que foi coordenada a partir da opção individual de Bernardino Bahia: colocar à frente da Intendência de Feira de Santana alguém ligado ao segmento que vinha dirigindo a cidade desde os primeiros anos do século XX e que provavelmente daria prosseguimento às práticas políticas em vigor na cidade. Quando eleito, em 1924, Arnold Silva tinha como forte atributo o elo familiar, iniciando sua carreira política no final da Primeira República à frente da Intendência feirense. Todavia, outros fatores também podem ter colaborado para a sua iniciação política. Memorialistas feirenses mencionam que Arnold Ferreira da Silva possuía qualidades como carisma e habilidades como negociador, mediador e um talento ―natural‖ para a liderança. Algumas dessas características são possíveis de perceber ao observar sua trajetória política. 84 Conseguiu realizar duas gestões consecutivas, herdando os princípios da ação política do coronel Bernardino Bahia, assim como participação na criação e comércio de gado da família, firmando-se como um ator político também de forte influência na cidade, chamado igualmente de coronel, carregando o atributo da continuidade da política do seu sogro e ao começar sua carreira política em 1924 iniciou também a construção da chefia de um grupo político ligado ao Partido Republicano da Bahia. Informações e inferências que seu próprio jornal partilhou: [...] Discípulo de Bernardino Bahia, sucedeu-lhe nos comércios públicos e comerciais. De uma figura inteligente e pobre, tornou-se um ―business man‖ do nosso interior, com o mais acertado conhecimento de pecuária e negócios locais que se possa imaginar. Não fez conhecidos, fez prosélitos amigos. 85 Segundo a Folha do Norte, Arnold Silva à frente da administração da cidade governou sob o lema ―tudo pela Feira‖, promovendo realizações fecundas e de real e geral utilidade pública, sendo inegável a [...] a eficiência da ação administrativa do município em prol da coletividade quando obras materiais de vulto ai estão a documentar a operosidade de seus empreendedores, e mais do que isso, o alto vizo moral que jamais desfitaram no anseio de atingir os augustos ideais da terra feirense. 86 O jornal acrescentou ainda que as rendas do município foram sabiamente aplicadas por Arnold Silva, conseguindo concluir com recursos próprios obras dispendiosas como o Paço Municipal e que, jamais ocorreram em suas gestões, 84 DAMIÃO, 2002, op. cit. SAMPAIO, Gastão, 2002, op. cit. Folha do Norte, Feira de Santana, 1 jan. 1944, N. 1799, p. 1 86 TUDO pela Feira. Folha do Norte, Feira de Santana, 20 jan. 1926. N. 855. p. 1. 85 40 [...] gastos que não se fizessem precisos ou não estivessem legalmente autorizados, abolindo por completo o regime do atraso de pagamentos e recusadas sempre as propostas de divulgação e propaganda louvaminheiras que tão pesadas costumam ser aos erários municipais [...] Pagos em dia o funcionalismo e o professorado, custeados os outros vários serviços que lhe incumbem, o governo do município aplica todo o excedente da receita arrecadada em obras de utilidade inconfuntável e reclamados pelos interesses vitais da comunhão [...].87 A Folha do Norte exibiu Arnold Silva como um político honesto, habilidoso e que sempre governou voltado às necessidades e aspirações da população feirense, discurso que não nos causa estranheza. Nos anos seguintes ao seu primeiro mandato, ele ocupou cargos como presidente da Associação Monte Pio dos Artistas Feirenses, da Santa Casa de Misericórdia e da Filarmônica Euterpe Feirense, o que dá pistas de que a solidificação da posição social e política passou pela participação e direção de entidades de classes e organizações filantrópicas. Precedendo Arnold Silva à frente do Executivo feirense, Elpídio Raymundo Nova, advogado soteropolitano radicado em Feira de Santana, foi eleito para exercer o mandato de intendente de 1928 a 1930. Ele havia sido vereador em 1925 e, na sua primeira administração, governou Feira de Santana até 1931 devido à alteração da lei que regia o termo do Intendente e dos Conselheiros, para que pudesse ajustar a duração dos mandatos para quatro anos. A lei foi posta em prática imediatamente e ele governou até 1931. 88 Contudo, quando Getúlio Vargas assumiu o governo provisório, após o triunfo da Revolução de 1930, ele outorgou o decreto que colocou o cargo de Intendente inteiramente sob a autoridade do interventor, que foi o representante direto do governo federal e que substituiu os Governadores eleitos nos estados brasileiros. 89 Elpídio Nova ficou na administração de Feira de Santana até janeiro de 1931 quando ―por decreto de 31 do p. p. o Sr. Dr. Interventor Federal nomeou prefeito deste município o coronel João Mendes da Costa. S. s. que foi presidente do comitê da Aliança Liberal nesta cidade, já exerceu vários cargos de confiança dos governos e de escolha popular [...] ‖. 90 Dentre esses cargos ocupados pelo representante da Aliança Liberal na cidade, esteve o de Conselheiro municipal pelo PRB, o que é algo que pode ter influenciado na maneira como o coronel João Mendes da Costa foi desprestigiado pelas lideranças feirenses nos anos que 87 Ibidem. POPPINO, op. cit., p. 128. Ata da 11ª reunião ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal em 02 de junho de 1925. Arquivo Público Municipal de Feira de Santana. 89 POPPINO, op. cit., p. 140. 90 Folha do Norte, Feira de Santana, 10 jan. 1931. N. 1121, p.1. 88 41 seguem a pesquisa. Segmentos oriundos desse PRB do qual o coronel João Mendes da Costa se afastou nos últimos anos da década de 1920, por motivações que não foram possíveis identificar. 91 Entre os anos de 1920 e 1930, a sociedade política feirense foi ocupada pelos sujeitos mencionados no decorrer do texto. Com o sucesso da Revolução de 1930, houve algumas mudanças em curso nas relações de poder, iniciadas com as nomeações dos Interventores federais. A indicação do coronel João Mendes da Costa mobilizou as lideranças políticas feirenses na busca por manter sua posição de poder e direção na cidade, num período em que as disputas pelo poder se adensaram e tomaram rumos desconhecidos a ela. A chegada ao poder pela fração que organizou da Revolução de 1930 retirou nesse momento o poder de decisão dos grupos dirigentes locais. A nova configuração apresentou a esses segmentos o limite das suas ações e a impôs a necessidade de buscar atitudes que os permitissem continuar no poder. 2.5 Sujeitos políticos de Feira de Santana: uma análise de classe social Entre os Conselheiros e Vereadores nos anos das gestões de Arnold Ferreira da Silva e a de Elpídio Raymundo Nova como intendentes, entre os anos de 1924 e 1930, estão Gonçalo Alves Boaventura, farmacêutico e comerciante de couro, José Alves Boaventura, fazendeiro e comerciante, João Martins da Silva, fazendeiro e comerciante de gado, carne verde e produtos derivados, Filinto Marques de Cerqueira, advogado, João Barbosa de Carvalho, farmacêutico e proprietário de farmácia, Álvaro Simões Ferreira, fazendeiro, Antonio Rubem, comerciante, Guimarães Suzarte, João Lúcio, José Pinto dos Santos, Tertuliano Almeida, fazendeiro, Tertuliano Carneiro, cônego, Valentin José de Souza, Miguel Ribeiro, professor, Áureo de Oliveira Filho, dentista, professor, proprietário do Ginásio Santanópolis e de consultório dentário, Barbosa de Araújo, Eduardo Fróes da Motta, médico, fazendeiro e comerciante de gado e fumo, Joil Santos Barbosa, José Cordeiro de Almeida, Paulo Costa Lima, industrial, Vicente dos Reis, escrivão. Esses sujeitos, que até 1930 foram partidários do PRB e que, boa parte deles participaram das movimentações políticas de Feira de Santana até o pós 1945. 92 Analisando o funcionamento do Legislativo em Feira de Santana, a partir da leitura das atas, observamos que como era de praxe, no primeiro dia de cada ano da legislatura vigente 91 92 Folha do Norte, Feira de Santana, 25 jan. 1919. N. 460. p. 1. Atas da Câmara e Conselho Municipais de 1924, 1925, 1928 e 1930. Arquivo Público Municipal de Feira de Santana. 42 acontecia uma sessão solene para empossar os vereadores e realizar a eleição da Mesa Diretora. Dando sequência aos trabalhos, na sessão seguinte, eram votadas as comissões de trabalhos internos, as quais eram responsáveis por apresentar propostas, assim como deliberar sobre os projetos de leis de interesse do coletivo da municipalidade. Nos anos aqui examinados, o Conselho e a Câmara de Feira de Santana possuíram as seguintes comissões: de Redação, Instrução Pública, Justiça e Higiene, de Obras Públicas, Viação e Agricultura e de Fazenda. Cada uma das comissões era composta por três dos doze vereadores do município. Todas as discussões que eram realizadas no Conselho e na Câmara eram encaminhadas às comissões, de acordo com suas atribuições. Após o exame das atas, listamos os membros dessas comissões e averiguamos que, em geral, os Conselheiros e Vereadores compunham as comissões ligadas a seus interesses econômicos a exemplo de Áureo de Oliveira Filho, dentista, dono de consultório dentário e do Ginásio Santanópolis que fez parte da comissão de Instrução Pública, Justiça e Higiene; Gonçalo Alves Boaventura, farmacêutico e comerciante de couro foi membro da comissão de Fazenda; João Martins da Silva, fazendeiro e comerciante de carne verde e seus derivados, era membro da comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura. São exemplos que sugerem que ações políticas desse grupo social não foram dissociadas da dimensão econômica, promovendo essa aberta distribuição interna de cargos. Ocupar um mandato político e comissões como essas permitia a possibilidade de fazer reivindicações que contemplassem os diversos interesses econômicos dos sujeitos dos segmentos dirigentes de Feira de Santana, mas também estar próximo a debates que tivessem o resultado contrário, influenciando no controle da política municipal. Constituíam-se como representações diretas dos grupos dirigentes atuando na defesa de interesses. Na investigação do perfil dos sujeitos políticos feirenses, observamos que sua composição social abrangia comerciantes, proprietários de terras, agricultores, pecuaristas, professores, jornalistas, advogados e médicos. Ou seja, ligados ao capital comercial, em sua maioria, a propriedade fundiária, utilizada de forma mercantil, ou seja, não eram atividades distintas, mas complementares, e às profissões liberais. Em Feira de Santana, o corpo burocrático se confundia com o grupo dirigente que, no governo, usou o aparelho estatal em seu benefício. 93 Os líderes políticos foram os mesmos indivíduos que exerciam a dominação também em nível econômico, segmentos que abrigaram interesses econômicos diferentes, mas 93 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 54. 43 que não eram grupos sociais muito diferenciados e foram representantes e representados ao mesmo tempo. Nesse estudo, enfrentamos o desafio de operacionalizar a análise de classe dos dirigentes políticos feirenses aplicável à pesquisa empírica, sem, contudo, nos determos ao processo histórico de constituição da classe. Dificuldade que não é uma prerrogativa nossa, uma vez que é algo reconhecidamente complexo e, nessa tarefa, são muitos os questionamentos que levantamos na tentativa de empreender essa análise, a exemplo de como definir os interesses de classe; perceber quais relações que vinculam os sujeitos em uma situação comum de classe; o que foi no mínimo iniciar uma tarefa possivelmente interminável. O primeiro passo, com vistas a alcançar este objetivo, foi o de tentar identificar a existência da classe a partir da apreciação das relações de produção, mas essa identificação não foi suficiente porque, ao seguir indícios distintos sobre os indivíduos aludidos ao longo do texto, percebemos que os políticos de Feira de Santana não se constituíam enquanto classe compartilhando somente das mesmas relações objetivas com os meios de produção. Assim, o que fazia dos políticos de Feira de Santana uma classe? Karl Marx em sua obra O 18 Brumário de Louis Bonaparte, realiza a análise dos acontecimentos revolucionários na França, entre 1848 e 1851, acontecimentos esses que levaram ao golpe de estado em que Napoleão III, em linhas gerais, se nomeou imperador, à semelhança de seu tio Napoleão I. Nessa obra Marx propõe um exame de classe que aponta possíveis caminhos para um estudo dos políticos feirenses enquanto tal, mas com muitas limitações, boa parte devido à complexidade do objeto de estudo. Contudo, ressalto que utilizado o conceito de classe social no intento de explicar as relações sociais que pretendemos conhecer, nessas conjunturas e problemáticas aqui apresentadas, sem diminuir o conceito enquanto unidade analítica, pois por meio dele intencionamos entender a dinâmica da política feirense dos anos de 1930 a 1945. Segundo Marx, podem haver grupos politicamente estratégicos que não tenham a mesma base produtiva. Seria, assim, uma representação de classe que habita no partilhar de que ele nomeia de forma elástica de ―visões gerais de mundo‖. Tais ―visões de mundo‖ podem ter correspondência a partir de posições sociais que não especificamente a posição de classe representada no processo de produção, mas como identificá-las? 94 Comerciantes, fazendeiros, médicos, jornalistas e professores compunham os sujeitos da política feirense, o que aponta para interesses econômicos diversos, ou seja, lugares distintos 94 MARX, Karl. O 18 Brumário de Louis Bonaparte. In: Obras Escolhidas. MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. São Paulo: Alfa – Ômega, 1982. 44 em relação aos meios de produção e, portanto este não pode ser o único critério de análise. O que seria essa ―visão de mundo‖ no universo dos segmentos dirigentes da cidade? Nos diversos artigos publicados na Folha Norte e nas correspondências trocadas entre os políticos da cidade e Juracy Magalhães a preocupação em ―manter‖ Feira de Santana no caminho do desenvolvimento, antes e após a Revolução de 1930, foram falas constantes e que deixa implícito um conjunto de ideias que ocultam a origem de interesses desta classe social ou frações de classe. Por meio de falas propagandeavam sobre o que devia ou não ser valorizado, diversas intervenções físicas, assim como a instituição de normas, prescrições e saberes acerca de práticas comerciais, de socialização, entre outros que foram realizadas pelo Legislativo e Executivo Municipal em Feira de Santana nas décadas de 1920, 1930 e 1940, foram apresentadas como empreendimentos que beneficiavam a população. Expunham que tinham ―fé na crescente prosperidade e renome de sua terra natal‖. Em discursos como estes estiveram diluídos os reais interesses de classe, interesses que fizeram parte e interferiram no desenvolvimento das relações de poder na cidade. A ―visão de mundo‖ seria aquilo que os sujeitos dos grupos dirigentes disseram, pensaram, imaginaram, conceberam como visão unitária e que tiveram como objetivo intervir no conjunto das relações sociais em benfeitoria das próprias frações dirigentes. Em Fidalgos e Vaqueiros Eurico Alves Boaventura reclamou a perda dos hábitos da vida pastoril e relata que o criador de gado foi substituído pelo ―engordador‖, pelo ―soltador‖. Embora o comércio mantivesse certa dependência em relação ao campo, para ele o gado havia perdido sua identidade de legenda, pois com o crescente comércio de Feira de Santana a preocupação era com a criação destinada a este fim, o que resultou, conforme Eurico Alves, na perda de prestígio do fidalgo e do seu rebanho. 95 Os antigos dirigentes políticos de Feira de Santana, basicamente fazendeiros, estes fidalgos a quem Eurico Alves Boaventura faz referência, que fizeram parte do alto das hierarquias de prestígio, declinaram progressivamente do poder em detrimento do capital comercial desde o final do século XIX. Contudo, alguns membros de tradicionais famílias feirenses persistiram e inseriram-se em negócios ligados ao comércio. Pequenos e grandes comerciantes ganharam proeminência econômica e também os espaços sociais e políticos à medida que a cidade cresceu e apontou como eixo comercial no interior da Bahia. Famílias como a Bahia, Silva e Alves Boaventura, há muito ligadas ao campo, no início do século XX 95 BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e Vaqueiros. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989, p. 419. 45 encontravam-se envolvidas com atividades comerciais de grande porte com a venda de fumo, gado, carne verde e derivados. As grandes extensões de terra passaram a ser utilizadas de forma comercial. Esses vestígios insinuam que as relações de poder entre os sujeitos da política feirense foram relações de classe e, uma classe, ou frações dela, que assumiu o papel de direção e organização da sociedade feirense, ao lado da dominação de classe, com efeitos pertinentes revelados por meio dos códigos de postura, mudanças dos locais da venda de gado, de fumo, abertura de ruas, determinação de fechamento das barbearias aos domingos, o uso de pesos e medidas, criação dos currais modelo, criação de escolas, desapropriação de casas para a realização de inúmeras obras e outras tantas intervenções feitas sob o discurso de promoção do desenvolvimento da cidade e a consequente melhoria da vida da população. Assim, buscaram moldar as práticas desses sujeitos e manter a ordem material da cidade de forma a privilegiar o grupo dominante que exercia a direção política e controlava também o conjunto das forças econômicas ligadas em grande parte ao comércio, considerando entre as atividades comerciais as prestações de serviços – estabelecimentos pertencentes a médicos, dentistas, advogados e afins. Dessa perspectiva esses diversos atos são ações de classe, ações coletivas que produziram definições de interesses, valores e normas que são relacionados às posições de classe e que ressoaram no conjunto da vida social. Os integrantes dos grupos dirigentes em Feira de Santana divulgaram os seus valores como nobres e despretensiosos dando a aparência de universais e acima de interesses econômicos e políticos, buscando diminuir as diferenças de classe e solidificou a cidade a partir seus próprios preceitos comerciais definidos por sujeitos ligados às suas preocupações. Nesse sentido, trabalhadores feirenses como vaqueiros, magarefes, feirantes, aguadeiros, pequenos lavradores, carregadores, quituteiras e várias outras atividades ligadas direta ou indiretamente ao comércio, e que viviam diferentes relações sociais, foram submetidos às diversas regras impostas por esses segmentos dominantes que realizaram os negócios de maior porte e que normatizaram as relações comercias assim como os espaços de socialização que eram apregoados como necessários para a ―continuidade do venturoso bem estar da cidade e seus concidadãos‖, buscando transformar seus interesses particulares em interesses gerais das massas. Entretanto, não quer dizer que os trabalhadores estavam fadados à subalternidade, já que muitas destas regras enfrentaram conflitos e resistências de parte da população, mesmo quando pelo não cumprimento de algumas delas eram imputadas multas em dinheiro ou prisões, e trataram a seus modos às modificações do período. Mas os trabalhadores não possuíam as mesmas vias de organização e expressão dos grupos dirigentes. 46 Os sujeitos políticos de Feira de Santana partilharam festas, comemorações públicas, apadrinhavam os filhos dos seus pares, foram presidentes, vice-presidentes, secretários das mesmas entidades na cidade, enfim, possuíram várias formas de sociabilidades que colaboraram para a garantia de diferentes interesses. Já nos últimos anos da Primeira República, esses dirigentes políticos possuíam relações imbricadas que foram reproduzidas, concomitantemente também nas suas relações políticas e econômicas. Aqui, concebemos economia nos termos de Friedrich Engels, ―não trata de coisas, mas de relações entre pessoas e, em última instância, entre classes, embora essas relações estejam sempre ligadas a coisas e apareçam como se fossem coisas‖, o que converge com o pensamento de Marx. 96 Análise também presente em Gramsci, que compreende a economia como determinante da política, ―condicionando o âmbito das alternativas que se colocam à ação do sujeito‖. 97 Em 1º de maio de 1927 foi criado em Feira de Santana o Banco de Crédito Agrícola Popular, cooperativa de crédito popular e agrícola, de responsabilidade limitada e forma anônima, nos termos do Decreto n. 1637 de 5 de janeiro de 1907, com sede na Rua Bernardino Bahia, número 2, e que, tinha em seu corpo diretivo Arnold Ferreira da Silva, Carlos Rubino da Silva Bahia (cunhado de Arnold Silva e filho de Bernardino da Silva Bahia) e, Eduardo Fróes da Motta, membros dos setores dirigentes na cidade e ligados às atividades comerciais de grande vulto. Os indícios de seu funcionamento são de até meados da década de 1930. Nos anúncios na Folha do Norte, o banco divulgava-se como um ―instituto abençoado‖, que [...] recebe dinheiros tanto de sócios como de estranhos e abona juros em conta corrente imitada, em conta-corrente de movimento e em depósitos a prazo fixo. Faz empréstimos, descontos, hipotecas, cobranças e todas as transações peculiares aos institutos de crédito popular, cujo fim geral é operar mediante uma taxa módica, aproximando, em colaboração direta, os que dispõem de economias e os que delas carecem para o desenvolvimento do trabalho honesto. 98 Nos reclames do jornal o banco convidava ―operários, caxeiros, artistas e lavradores‖ a contraírem empréstimos que seriam pagos em pequenas parcelas ―da vossa economia‖ e realizar depósitos, ainda que pequenos, por ―não ser privilégio dos ricos ter conta em banco‖. 99 96 Em 1928, a Folha do Norte noticiou que o presidente da Federação dos Bancos Populares ENGELS, F. A contribuição à crítica da economia política de Karl Marx. In: MARX. ENGELS. Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Ed. Brasileira, 1956. V. 1. p. 346. 97 COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 97. 98 Folha do Norte, Feira de Santana. 8 out 1927. 99 Folha do Norte, Feira de Santana. 18 jun 1927, N. 1042; 28 jul 1928; 5 jan 1929. 47 do Brasil, respondendo à consulta em que sujeitos da capital da Bahia que lhe pediam instruções e conselhos para a função do Banco dos Auxiliares no Comércio da Bahia, apontou o modelo do Banco do Crédito Agrícola Popular da Feira de Santana abalizando ―a brilhante cooperativa de crédito como um exemplo a imitar todas as instituições do mesmo gênero, no Norte do país‖. 100 Em linhas gerais, um banco criado e gerido por membros dos segmentos dirigentes da cidade, que, mesmo divulgando-se como uma mão que se estendia ―para dar vigor a pequenos negócios que definham por falta de capital‖, estava subentendido os interesses de classe. Assim, os benefícios que trouxe aos seus sócios e grandes investidores ligados de diferentes maneiras ao setor comercial que crescia em Feira de Santana. Para além de seus bens individuais, os investimentos do banco asseguravam aos membros do grupo dirigente capital de giro para ―dar vigor‖ às suas próprias atividades comerciais. Deste modo, a análise das posições política, ideológica e social desse grupo foram requisitos indispensáveis para a identificação e caracterização da classe dirigente de Feira de Santana, pois são pontos que se mostram associados. Nesse sentido, as considerações de Nicos Poulantzas são importantes, afora as críticas que lhes são feitas, a respeito do estudo das classes sociais, pois ele trouxe uma relevante contribuição ao retirar este conceito do campo economicista e apontar que os aspectos políticos e ideológicos devem ser apreciados no exame de classes sociais. 101 Com vistas a alcançar esse objetivo adotamos a metodologia de examinar os sujeitos da pesquisa, buscando suas relações de parentescos, amizades, filiações partidárias, coligações políticas, ocupações, profissões, formas de sociabilidade, para pensar os segmentos dirigentes locais considerando uma multiplicidade de informações que enriqueceram a análise. 100 101 Folha do Norte, Feira de Santana. 1 fev 1941, N. 1647, p. 1. POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Martins, 1986, p. 74. 48 3 EM FEIRA A COISA MUDAVA? A Revolução de 1930 e as relações de poder (1930 – 1937) Os preparativos da grande campanha eleitoral que vai ferir no país, em março próximo vindouro, estão sendo feitos em todo o Brasil com o maior ardor de parte a parte. A Feira de Santana, que sempre vibrou influxo de todas as causas nobres e generosos ideais, não podia ficar na retaguarda do movimento que se alastra, despertando os sentimento cívicos do povo brasileiro. 102 Tomando como referência as modificações na política e nas relações de poder no Brasil com o triunfo da chamada Revolução de 1930, o objetivo deste capítulo é discutir as rearticulações de poder que ocorreram na sociedade política de Feira de Santana no início de 1930 até o golpe do Estado Novo, no esforço de apresentar como as lideranças políticas feirenses construíram mecanismos para sustentar seu poder na cidade diante das mudanças que ocorreram em âmbito nacional. O interesse recai em problematizar as práticas políticas presentes nas disputas, arranjos e acomodações forjadas pela da classe dirigente feirense entre si e com o Estado nesse momento em que forças políticas de segmentos diferentes assumiram o poder no Brasil. 3.1 “A Feira incorporar-se-á ao grande movimento que agita o país”: eleições de 1930 As agitações que envolveram as eleições presidenciais de 1930 no Brasil têm indicadores já nos dissídios que abarcaram as eleições dos anos anteriores, como mencionado no primeiro capítulo. As eleições presidenciais de 1926, nas quais Washington Luís Pereira de Sousa, presidente de São Paulo, foi apresentado como candidato único, transcorreram sem maiores problemas, indicando que o concerto entre as oligarquias estava temporariamente refeito. Alguns estudiosos do período, como Marieta de Moraes Ferreira e Surama Conde Sá Pinto, sinalizam que houve uma relativa estabilidade na gestão de Washington Luís, sendo uma das contribuições para tal constância o estado de sítio estabelecido durante os quatro anos do governo de Arthur Bernardes, vigente até 31 de dezembro de 1927 e que não foi interrompido pelo presidente eleito. 103 Em 1929, foram iniciadas as discussões sobre o pleito de 1º de março do ano seguinte. A presidência do Brasil estava sob o comando de um paulista, assim, devido ao acordo 102 103 Folha do Norte, Feira de Santana, 5 out 1929, N. 1055, p. 1. FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá, op. cit., p. 14. 49 político entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, pressupunha-se que ele indicasse o nome de um mineiro para sua sucessão. Os debates envolveram o nome de Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, governador de Minas Gerais, mas Washington Luís indicou o nome de Julio Prestes de Albuquerque, outro paulista, rompendo o acordo tácito entre São Paulo e Minas Gerais. Grupos de oposição organizaram-se, formaram a Aliança Liberal e, contando com o apoio de Minas Gerais, lançaram as candidaturas de Getúlio Dornelles Vargas, exministro da Fazenda de Washington Luís, e João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, governador da Paraíba, a presidente e vice-presidente da República, respectivamente. A chamada ―cisão intra-oligárquica‖ entre São Paulo e Minas Gerais foi um fato proeminente na construção da Aliança Liberal. Segundo Perissinoto, pode-se encontrar duas razões para a ocorrência dessa ruptura: a diversificação da economia mineira, com a elevação de um segmento voltado para o mercado interno; e uma questão propriamente política, sendo esta, inegavelmente, segundo o autor, a razão fundamental. 104 Os desencontros aconteceram em dois momentos distintos. Minas Gerais acusou São Paulo de aumentar os números da sua população com vistas a acrescentar cadeiras à sua representação no Congresso Nacional e Washington Luís retaliou. Por meio da ―degola‖ de candidatos do Partido Republicano Mineiro (PRM), Minas Gerais perdeu quatorze cadeiras e Washington Luís não abriu mão do nome de Júlio Prestes para sucedê-lo.105 O presidente impôs sanções econômicas e retirou de Minas Gerais todas as presidências de comissões, interferiu nas decisões do oficialismo mineiro, realizando alterações inéditas no equilíbrio federal. 106 Essa ruptura entre São Paulo e Minas Gerais foi relevante para a viabilização da aliança entre aquele estado e o Rio Grande do Sul na composição das forças que, em 1930, organizaram-se na Aliança Liberal. A campanha aliancista procurou espelhar os desejos das classes dominantes regionais, não ligadas ao núcleo cafeeiro. Em linhas gerais, o programa objetivou incorporar reivindicações que também acolhessem as classes médias urbanas, tais como: o incentivo a produção nacional em geral, a instituição do voto secreto e do sufrágio feminino, à regulamentação das leis de trabalho, com o objetivo de chamar a atenção das classes médias a seu favor.107 Segundo Boris Fausto, nos manifestos da Aliança Liberal, não se localizam 104 PERISSINOTTO, op. cit., p. 222. ―Eliminação efetuada pelo Legislativo de candidatos recém-eleitos ao se processar o chamado reconhecimento de poderes‖. FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas. O poder e o sorriso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 62. 106 PERISSINOTTO, op. cit., p. 223. 107 FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: história e historiografia. 16 ed. São Paulo: Companhia das letras. 1977. 105 50 quaisquer linhas de um programa industrialista. Sem dúvida, a plataforma aliancista não se dirigiu de modo direto ao ―mundo rural‖, como é o exemplo da plataforma da candidatura de Júlio Prestes, onde houve uma aberta referência ao fazendeiro como ―tipo mais representativo da nacionalidade‖ e à fazenda como ―lar brasileiro por excelência, onde o trabalho se casa à doçura da vida e a honestidade dos costumes completa a felicidade‖. Alguma coisa de novo se é perceptível, tanto em algumas promessas dirigidas à classe operária, aludindo à aplicação da lei de férias, ao advento do salário mínimo, como nas afirmações sobre o imperativo de decidir-se o problema siderúrgico, integradas menos ao desenvolvimento industrial do que à segurança nacional. 108 Durante a campanha presidencial de 1929 – 1930, a Aliança Liberal recebeu céleres adesões no Norte, ao ostentar como uma de suas bandeiras a luta contra a submissão política dos governadores frente ao governo central. Os aliancistas conseguiram vincular, desta forma, esferas sociais de interesses bem diversos e até mesmo contraditórios. Essa é uma circunstância específica que deu à Revolução de 1930 no Norte um estilo bastante amplo e popular, encontrando poucas resistências. A única exceção ocorreu na Bahia, onde a contrarevolução organizou-se, conseguindo esboçar algum nível de reação, embora tenha sido amplamente esmagada.109 Com o lema ―Representação e Justiça‖, a Aliança Liberal defendeu a moralização do processo político, uma extensa reforma eleitoral e às liberdades individuais. Segundo Ferreira e Pinto, ao propugnarem pelo liberalismo, as oposições tinham por objetivo tornar o sistema político mais representativo ao plano da classe dominante, agregando à mesma as frações da elite não abancadas na estrutura de poder, acrescentando também os grupos médios urbanos que cresceram em função do desenvolvimento econômico. 110 Contudo, os aliancistas, cercaram-se de cuidados para impedir que suas críticas, enquanto frente de oposição, não fossem confundidas com um ataque frontal ao setor cafeeiro. Essa postura deve-se, entre outras razões, ao fato de o café se constituir como núcleo básico da economia e o abandono do setor levaria o Brasil a uma grave crise econômica. Na campanha aliancista houve a distinção entre as políticas de ―defesa‖ e ―valorização‖ do café. [...] Na plataforma da Aliança Liberal, lida por Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, já no curso da crise mundial (2 de janeiro de 1930, esta posição se tornou bem mais 108 Ibidem, p. 44. GOMES, Ângela Maria de Castro (Org.). Regionalismo e centralização política: partidos e Constituinte nos Anos 30. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 342. 110 FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos 20 e a Revolução de Trinta. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006. p. 15-16. 109 51 explícita. Em um longo item dedicado ao café, o candidato qualificou a política de valorização de desastrosa, considerando que o Instituto deveria ter-se voltado para medidas de longo alcance, como a redução dos gastos de produção e transporte, a diminuição de impostos e, tanto quanto possível, a supressão de intermediários. 111 Na Bahia, Consuelo Novais Sampaio aponta que a campanha aliancista não conseguiu um número de adeptos significativos. Para a autora, o fato da chapa Julio Prestes e Vital Henrique Batista Soares, governador da Bahia, que concorreu às eleições em março de 1930, ter o apoio do presidente Washington Luiz tranquilizou os baianos quanto à certeza da vitória.112 Paulo Santos Silva acrescenta que, nesse período, a Bahia provou uma considerável constância política. O segmento liderado por Otávio Mangabeira e o grupo comandado pelo ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon firmaram um acordo, que foi responsável pela viabilização do nome do senador federal Pedro Lago como candidato de conciliação à sucessão estadual para completar a vaga deixada por Vital Soares. Eleito para governar de 1928 a 1932, Vital Soares abdicou ao governo da Bahia para candidatar-se à Vice-Presidência da República pela chapa de Júlio Prestes, deixando em seu lugar o senador Frederico Costa, presidente do senado estadual, que foi em seguida, suprido por Pedro Lago. 113 Segundo Sampaio, ―apenas um reduzido grupos de indivíduos, liderados à distância pelo ex-governador J. J. Seabra mostrava-se entusiasmado pelos ideais da Aliança Liberal‖. 114 Entretanto, para a autora, no que concorda Paulo Santos Silva, este grupo não estaria preocupado com questões sobre a política nacional e os ideais aliancistas e sim, em apresentar críticas constantes acerca dos políticos que estavam no poder na Bahia principalmente os Calmon, Vital Soares e Simões Filho. 115 Segundo Paulo Santos Silva, J. J. Seabra encontravase na oposição desde 1924 e por extensão de consequências, aderiu à Revolução de 1930 devido ao litígio doméstico com os segmentos beneficiados pelo Catete. Logo romperia com o governo Vargas e se juntaria à oposição. Ruptura motivada também pelo incomodo posto que recebeu de presidir o Tribunal Especial, estabelecido no Rio de Janeiro (28 de novembro de 19300, encarregado de apurar e punir crimes de corrupção praticados por membros do governo deposto, tarefa que para J. J. Seabra significava perseguir amigos e ex-correligionários políticos. 116 Luis Henrique Dias Tavares que acrescenta que, 111 CARDOSO, Fernando Henrique (Org), op. cit., p. 271. SAMPAIO, Consuelo Novais. Partidos Políticos da Bahia na Primeira República: uma política de acomodação. Salvador: EDUFBA, 1998. p.228. 113 SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e a construção do discurso histórico na Bahia (1930 – 1949). Salvador: EDUFBA, 2011. p. 23. 114 Ibidem, p. 222-223. 115 SILVA, op. cit., p. 223. 116 SILVA, op. cit., p. 24. 112 52 [...] em razões dessas combinações típicas do sistema oligárquico brasileiro, os Calmons e as facções e indivíduos no poder fecharam o estado da Bahia para a campanha da Aliança Liberal. Fizeram-no com tão aparente sucesso que o apoio do velho chefe Seabra à chapa aliancista em nada abalou a certeza calmonista no resultado das urnas fraudadas. 117 Para Aruã Silva Lima, o programa da Aliança Liberal que foi vitorioso no Brasil e, encontrou severa resistência na Bahia, foi rechaçado no estado, dentre outros motivos, pelo fato de representar uma quebra do status quo e de perspectivas palpáveis de mudanças estruturais nas redes de privilégio locais. 118 O grupo político composto pelo governador Francisco Marques de Góes Calmon, Antônio e Miguel Calmon Du Pin e Almeida e Otávio Mangabeira apoiou a candidatura de Júlio Prestes e, como assinala Tavares, negociou a vicepresidência para o governador Vital Soares e conseguiu minimizar a divulgação e possíveis adesões à campanha aliancista na Bahia. 119 No que diz respeito à Feira de Santana, no final do ano de 1928, os dirigentes políticos locais buscaram fortalecer seus vínculos com o governo estadual. Na sessão de 05 de junho desse ano, o conselheiro Álvaro Simões Ferreira, dono de fazenda em Fortaleza, atual Jaíba, apresentou uma moção de apoio e solidariedade política a Vital Soares, e obteve da casa aprovação unânime. 120 Meses após a moção ser aprovada, na primeira gestão de Elpídio Raymundo Nova (1928-1931), ele e Arnold Ferreira da Silva, Conselheiro Municipal e presidente do Conselho no ano de 1929, nessa época já com seu prestígio consolidado na sociedade política, convocaram para uma reunião alguns políticos e sujeitos de expressão da sociedade civil feirense, com o objetivo de tratar acerca das eleições de março de 1930. 121 Elpídio Nova declarou, [...] que aquela reunião era essencialmente política, descrevendo a ação que se efetua em todo o pais com os aprestos para o pleito que se vai ferir dentro em poucos meses. Referiu-se à lealdade partidária de Feira de Sant‘Anna, cujos expoentes eleitorais sempre têm formado uma legião dos que defendem os reais interesses do regime em renome da Bahia. 122 117 TAVARES, Luís Henrique Dias, op. cit., p. 381. LIMA, Aruã Silva de. 2009. Democracia contra o povo: Juraci Magalhães, Otávio Mangabeira e a UDN na Bahia (1927-1946). Dissertação (Mestrado em História)- UEFS, Feira de Santana. p. 60. 119 TAVARES, op. cit., p. 381. 120 Ata da 8ª sessão ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal em 05 de junho de 1928. Arquivo Público Municipal de Feira de Santana. 121 Ata da Sessão Solene de posse dos Conselheiros Municipais eleitos para a renovação da metade do Conselho na Legislatura de 1928 a 1930, Intendente Municipal no biênio de 1928 a 1929 e preenchimento de uma vaga no Conselho, em 01 de janeiro de 1928. Arquivo Público Municipal de Feira de Santana. 122 A FEIRA incorporar-se-á ao grande movimento que agita o paiz. Folha do Norte, Feira de Santana, 5 out. 1929. n. 1055. p 1. 118 53 Nesta reunião foram assentadas as seguintes deliberações: I – Constituição de um comitê com os objetivos principais de intensificar o alistamento eleitoral e o sufrágio à fórmula Júlio Prestes – Vital Soares; II – Nomeação de Comissões de três membros, em cada um dos novos distritos rurais do município, para os mesmos fins; III – Realização de comícios na sede e nos distritos, efetuados por membros designados pelo comitê; IV – Instituição de centros permanentes de alistamento eleitoral, com serviços de informação e auxílio a outros alistandos; V – Agitar pela imprensa local e pelos demais meios possíveis, a necessidade da qualificação eleitoral em grande escala, por honra da Bahia, está no dever de sustentar pelas urnas o nome de seu ilustre filho, Dr. Vital Soares, aliado ao seu eminente companheiro de chapa, Dr. Júlio Prestes. 123 Este comitê, que teve como intento trabalhar pela eleição de Julio Prestes e Vital Soares, foi constituído por nomes importantes da sociedade política e civil de Feira de Santana, dentre eles: Dr. Elpídio Nova, advogado; coronel Arnold Silva, um dos donos do periódico Folha do Norte, fazendeiro e comerciante de gado, carne verde e produtos derivados; Sr. Eduardo Motta, fazendeiro e comerciante de gado e fumo; João Mendes de Aguiar, professor; Dr. Honorato Manuel Bonfim, médico; José Alves Boaventura, fazendeiro; Valentim José Souza Barbosa, Dr. José Barbosa de Araújo Júnior, promotor público, Dr. Amarílio Cavalcante, médico; Heráclito Dias de Carvalho, delegado da cidade e comerciante de fumo e João Martins da Silva, fazendeiro e comerciante de gado, carne verde e produtos derivados. Muitos destes nomes fizeram parte da política de Feira de Santana desde a década de 1920 e alguns ainda em período anterior, como indicamos no primeiro capítulo. No plano nacional a acirrada campanha pela presidência se tornou mais agitada com a crise econômica mundial, simbolizada em outubro de 1929, com a chamada quebra da bolsa de Nova York. Ao final deste ano, houve muitas fábricas falidas em São Paulo e no Rio de Janeiro e consequentemente muitos desempregados em diferentes locais do país. As atividades agrícolas, notadamente a cafeicultura paulista, também foram atingidas gerando uma séria diminuição das exportações e a procedente queda no preço do café, liquidando o programa de estabilização implementado pelo governo federal. 124 A Bahia, totalmente dependente do setor exportador, foi profundamente atingida. Em 1930 exportações já apresentavam uma baixa de 129. 749 contos de réis em relação a 1928, devido à redução dos principais produtos de exportação do estado – cacau, fumo e café – quer em quantidade, quer nos seus valores, depreciados pela 123 124 Ibidem. FAUSTO, Boris. Revolução de 1930: história e historiografia. 16. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1977. 54 baixa de cotações mundiais. Também o setor de importações, no período acima considerado, sofreu uma queda de 36. 792 contos de réis.125 O empenho das lideranças políticas feirenses para eleger Júlio Prestes e Vital Soares resultou em gastos excedentes das finanças do município. As despesas com a campanha necessitaram inclusive de verbas suplementares e a primeiras delas foi solicitada pelo prefeito ao Conselho Municipal em 27 de maio de 1930126, e discutida na sessão de 3 de junho de 1930, sob a justificativa de que os custos com as eleições federais foram muito grandes. Na sessão seguinte, o Conselho autorizou o suplemento da verba em um conto de reis, afinal, a eleição de Júlio Prestes e Vital Soares viria favorecer os segmentos dirigentes feirenses, que mantinham ligações político-partidárias com o governador baiano, logo não havia motivos para negar o acréscimo da verba. 127 Em 1º de março de 1930, as eleições ocorreram em todo o país e às candidaturas oficiais venceram. A vitória da candidatura da situação era dada como certa em Feira de Santana e, com o resultado final do pleito o esforço dos grupos dirigentes na campanha se mostrou como válido. No dia da eleição, a Folha do Norte divulgou uma nota em que declarou considerar o pleito como o [...] mais importante dos últimos tempos. Os Srs Júlio Prestes, presidente de São Paulo e Vital Soares, governador da Bahia, apoiados por 17 Estados, disputam a presidência e vice-presidência da República em contra posição aos Srs Getúlio Vargas, presidente do Rio do Grande do Sul, e João Pessoa, presidente da Paraíba, por cujas candidaturas se pronunciaram as situações dominantes em Minais Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba do Norte‖.128 Em Feira de Santana, Julio Prestes e Vital Soares receberam 3.106 e 3.141 votos, respectivamente, num universo de dois colégios eleitorais que havia na cidade (um na sala do Juri e outro na sala do Conselho, ambos no Paço Municipal), ao mesmo tempo, Getúlio Vargas e João Pessoa obtiveram 388 e 354 votos, concomitantemente. 129 Uma boa diferença de votos entre os candidatos aponta sinais de que nesse período os arranjos dos políticos feirenses e os partidários do PRB estavam firmes. Contudo, a campanha aliancista não passou despercebida por parte dos eleitores feirenses, ainda que o número de votos dados à oposição 125 SAMPAIO, 1998, op. cit., p. 221. Requerimento do Intendente Municipal ao Conselho, 27 mai 1930. Arquivo Municipal de Feira de Santana. 127 Feira de Santana. Ata da 2ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal de Feira de Santana. 3 de junho de 1930. Arquivo Municipal de Feira de Santana. Feira de Santana. Ata da 3ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal de Feira de Santana. 10 de junho de 1930. Arquivo Municipal de Feira de Santana. 128 O PLEITO de hoje. Folha do Norte, Feira de Santana,1 mar 1930. N.1076. p. 1. 129 O PLEITO 1º. Resultados gerais do município. Folha do Norte, Feira de Santana, 8 mar. 1930. N. 1077. p 1; O PEITO de hoje. Folha do Norte, Feira de Santana, 1 mar. 1930. N. 1076. p 1. 126 55 tenha sido pequeno, a Aliança Liberal foi votada na cidade, assinalando que os grupos dirigentes possuíam discordantes. Essa pequena representatividade influenciou nas reordenações de poder na cidade após a vitória da Revolução de 1930, como é discutido mais adiante. Entretanto, mesmo com a vitória assegurada, os candidatos oficiais não tomaram posse. A Aliança Liberal se recusou a aceitar o resultado da eleição presidencial. Assis Chateaubriand, o mais forte aliado de Getúlio Vargas na imprensa e dono da maior cadeia de jornais do país, ―dirigiu ataques ferozes ao governo e à cumplicidade deste nas fraudes políticas‖.130 Todavia, as acusações de fraudes ocorreram de ambos os lados e os resultados oficiais não foram alterados. Segmentos de oposição, capitaneados por lideranças de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, articularam-se tendo como meta impedir essa posse dos eleitos e promover mudanças no sistema político vigente e conduziram o movimento armado que ficou conhecido na historiografia como a Revolução de 1930. Contudo, a via armada não foi a única alternativa considerada. Segundo Maria Helena de Magalhães Castro, a opção pela reação armada foi assumida e consolidada nos seis meses que se seguiram após a oficialização dos resultados eleitorais e foi no Rio Grande do Sul que as discussões centralizaram-se. Segundo a autora, neste estado constitui-se uma nova liderança, que reuniu elementos oriundos da frente oposicionista e coligando outros setores até então excluídos da chefia da Aliança Liberal e alheios às orientações partidárias. 131 Essa nova liderança superou e absorveu a máquina partidária, entretanto à execução dos planos revolucionários não podiam prescindir o apoio do partido e do governo do estado. 132 Robert Levine afirma que nos bastidores a Aliança Liberal negociou com Washington Luiz, oferecendo uma solução conciliatória que preservaria a República, posicionamento defendido por Getúlio Vargas e Borges Medeiros. Contudo, Washington Luiz, certo de que teria o apoio das forças armadas e sufocaria a revolução, rejeitou a proposta. 133 130 LEVINE, Robert M. Pai dos Pobres? o Brasil e a Era Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 42. Refiro-me aos variados partidos que compuseram a Aliança Liberal: Partido Republicano Mineiro; Partido Republicano Rio-Grandense e Partido Libertador, unidos na Frente Única Gaúcha; Partido Republicano da Paraíba; Partido Democrático Nacional que agregou as oposições do Distrito Federal, São Paulo, Pernambuco e outros estados e o Partido Republicano Democrático de Pernambuco. O Rio Grande do Sul no pós-30: de protagonista a coadjuvante. GOMES, Angela Maria de Castro (Org.). Regionalismo e Centralização Política. Partidos e Constituinte nos Anos 30. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 124. 132 CASTRO, op. cit., p. 45. 133 LEVINE, op. cit., p. 42. 131 56 Ainda segundo Castro, durante o desenrolar das articulações da revolução, Getúlio Vargas desviou-se da orientação partidária e passou a defender o caminho armado. 134 Oswaldo Aranha, então governador do Rio Grande do Sul, indicado por Getúlio Vargas, considerado um dos defensores da possibilidade de uma ação armada desde 1929 juntamente com João Neves da Fontoura e Virgilio de Melo Franco, assumiu o comando das deliberações conspiratórias e depositou grande montante de dinheiro num banco em Bueno Aires para a aquisição de armas. No final de julho, chegaram notícias do assassinato de João Pessoa em Recife devido a questões que envolviam honra pessoal e a oposição denunciou o governo federal pela morte e pela deterioração do ambiente econômico. 135 A Aliança Liberal deflagrou sua revolução nas primeiras horas de 3 de outubro de 1930. Em três estados e na capital federal, tropas atacaram prédios do governo e fecharam os quartéis onde se encontravam os soldados legalistas. Dois dias depois, as forças chefiadas por Juarez Távora, veterano da Coluna Prestes, tomaram Recife, garantindo o domínio do Norte e preparando-se para tomar o rumo do Sul por Minas Gerais.136 Em 24 de outubro, Washington Luís foi deposto e uma junta militar composta pelo almirante Isaías de Noronha e os generais Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto assumiu o poder. Quatro dias depois esta junta recebeu no Rio de Janeiro Osvaldo Aranha e Juarez Távora incumbidos de negociar a composição do novo governo e, na madrugada do dia 31, a direção do país foi transferida para Getúlio Vargas, candidato derrotado nas eleições de março de 1930 e principal líder da Aliança Liberal.137 Segundo Paulo Santos Silva a sucessão presidencial de 1930, [...] conduziria a Bahia a uma posição de relevo no cenário político nacional, caso a chapa situacionista vencesse. A ―Revolução de 1930‖ desfez esta perspectiva de acomodação e bem-estar. Não havia porque as elites políticas estaduais aderirem a um movimento que desalojava seus membros mais representativos do aparelho de Estado.138 Fortemente subsidiados pelo governo federal, alguns coronéis baianos enfrentaram as investidas da Aliança Liberal. O governo federal enviou para Salvador o general Santa Cruz Pereira de Abreu, para organizar a resistência e constituiu o quartel general das ―Forças em Operação no Norte da República, contando com o apoio encouraçado de São Paulo e de mais 134 CASTRO, op. cit., p. 46. LEVINE, op. cit., p. 42. 136 Ibidem, p. 42-43. 137 SOBRINHO, Barbosa Lima. A verdade sobre a Revolução de outubro – 1930. 3. ed. São Paulo: Alfa – Omega, 1982. 138 SILVA, op. cit., 2011. p. 23l. 135 57 duas unidades da Marinha de Guerra‖. 139 Segundo Tavares, havia na Bahia situações inconciliáveis: primeiro, no governo baiano. O governador eleito para suceder Vital Soares, Pedro Lago, ainda não havia tomado posse. Segundo, o governador em exercício, Frederico Costa, titubeou e continuou vacilando nas determinações contra os revolucionários, nisso se restringindo a confiar na Política Militar e a recorrer para os coronéis da Chapada Diamantina e do São Francisco. 140 O general Santa Cruz concentrou as suas forças na cidade de Alagoinhas, formando tropas que reuniram homens dos coronéis da Chapada e do São Francisco, da Polícia Militar e o 19º BC. Tudo fazia crer que Washington Luís iria conter o movimento, mas a ordem foi subvertida. No dia 20, as tropas revolucionárias que se dirigiam para Alagoinhas cercaram o 19º BC que foi coagido a aderir ao movimento revolucionário. 141 Posteriormente, os militares rebelados assumiram o poder e a situação tornou-se irreversível. 3.2 A vitória da Revolução de 1930 em Feira de Santana. No mesmo dia em que o presidente Washington Luiz foi deposto, 24 de outubro, a notícia chegou a Salvador. Dia 25 de outubro de 1930, os batalhões revolucionários entraram na capital baiana, onde foram recebidos com demonstrações de apoio e tão logo começaram as congratulações públicas pela vitória da revolução externadas nos jornais do estado tais como o Diário Oficial do Estado e o A Tarde.142 Em Feira de Santana, ainda na gestão de Elpídio Nova, o periódico Folha do Norte apontou que [...] a vitória do movimento revolucionário foi festejada [...] com uma imponente passeata cívica a noite no domingo último. Conduzindo o triunfo o pavilhão nacional e aos sons de vibrantes dobrados executados pela filarmônica ―Euterpe Feirense‖. Verdadeira multidão percorreu as ruas.143 E na mesma edição a folha afirmou que [...] com quanto conhecido sejam nossos ledores os eventos que determinaram a vitória da grande revolução e os que lhe seguiram, por mais uma intensa circulação de quotidianos, disputados com vivíssimo e justificado interesse pelo povo que lê e 139 RISÉRIO, Antonio. Adorável Comunista: história política, charme e confidências de Fernando Santana. Versal. 2003. p. 55 140 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 384 – 385. 141 Ibidem, p. 385-386. 142 SAMPAIO, op. cit., 1998, p. 225. 143 A NOVA fase da vida nacional: Empós a vitória da grande revolução. Folha do Norte, Feira de Santana, 1 nov. 1930. p. 1. 58 anelava por se sentir liberto dos tentáculos que o constrangiam e sugavam, apraznos relatar as ocorrências capitães dos últimos dias, em desobriga de dever profissional, feita de melhor vontade. As primeiras horas da tarde de sexta feira anterior houvemos de boa fonte a notícia do movimento revolucionário no Rio, seu triunfo, a deposição do Sr. Washington Luís e a constituição de uma junta governativa, do que cientificamos ao público legente em a edição do dia. 144 Neste jornal, de propriedade de Arnold Silva e seus irmãos, ao longo dos anos examinados nesta pesquisa, foram publicadas felicitações de aniversário, congratulações por novas casas comerciais abertas, casamentos, notificações sobre mudanças de residência, visitas à cidade, formaturas, falecimentos, mas traziam em especial os debates e enfrentamentos políticos. Quase sempre os temas acerca da política foram os assuntos tratados nas primeiras páginas do jornal e revelaram as posições dos donos e colaboradores do periódico e de suas aproximações político-partidárias, econômicas e sociais. A Folha do Norte foi, na época, um dos principais veículos de informação da cidade e, possivelmente, um dos mecanismos da classe dirigente feirense para construção de consensos. Os indícios apontam que o referido consenso foi buscando não somente entre os membros da própria classe dirigente, mas também entre as massas. Heloisa Faria Cruz ao estudar o processo de expansão e diversificação dos veículos impressos e grupos produtores, a renovação das linguagens e conformação com o conteúdo, percebeu um movimento mais vasto de rearticulações das relações com o ―letramento do povo‖, na cidade de São Paulo entre os anos de 1890 e 1915 e, com suas análises nos indica algumas possibilidades. 145 A autora afirma que as reflexões remetem tanto às condições sociais de possibilidade de leitura e da escrita, à produção e formação de leitores em diferentes momentos históricos, como ao universo de significação de diferentes leituras para diversos leitores. A partir desta perspectiva, observamos algumas características da Folha do Norte intencionando analisar, com algumas inferências, a quem as edições eram destinadas no recorte temporal estudado nesta pesquisa. O periódico foi publicado semanalmente desde sua criação em 1909, sendo interrompida por um curto período em 1911, como mencionado anteriormente, e circulava na cidade de Feira de Santana, nos seus sete distritos e na região. A assinatura foi possivelmente uma importante estratégia de comercialização do jornal aliada às vendas avulsas em pontos da cidade. 144 146 Mesmo com informações precárias a respeito das Ibidem. CRUZ, Heloisa Faria. São Paulo em tinta e papel: periodismo e vida urbana (1890 – 1915). São Paulo: EDUC, FAPESP, 2000. p. 135. 146 Anúncios de oferta de assinaturas em diversas edições da Folha do Norte. 145 59 tiragens do jornal e da sua sustentação financeira, é possível pensar algumas questões a partir dos reclames e das linguagens utilizadas pelo periódico. Respondendo também às demandas colocadas pelo desenvolvimento do comércio em Feira de Santana, fabricantes, comerciantes e profissionais liberais a exemplo de médicos, advogados, dentistas, tutores, alfaiates, entre outros, encontraram nos reclames um espaço de visibilidade. 147 Portanto, anunciavam na Folha do Norte divulgando grande variedade de produtos e serviços, produtos farmacêuticos e de higiene pessoal como Emulsão de Scott, Mitigal, Aspira, Depurativo 43, Elixir de Nogueira, sabonete e creme dental Eucalol, pomada Minancora, Antigal, regulador Sian, regulador Gesteira, fortificante Sued, pílulas do Abade Moss, pílulas Foster, lâminas de barbear Gillette, entre outros menos frequentes. Também foram constantes anúncios sobre vendas de terrenos, grandes e pequenos, móveis usados, livros, peças de vestuário em bazares, objetos encontrados, perda e roubo de animais, entre outros. Segundo Cruz, com o avançar do século XX a propaganda deixa progressivamente de ser o espaço exclusivo das publicações ―comerciais‖ e se articulou à imprensa de maneira mais ampla. As distinções entre o reclame e a notícia tornam-se cada vez mais sutis. A linguagem dos reclames renova-se. Através da propaganda, a imprensa incorpora temas e formas de dizer pouco afeitas à norma culta da cultura tradicional letrada. Agora, não são mais os indicadores de serviços e profissões ou tampouco os depoimentos de personalidades atestando a eficácia de um produto ou a idoneidade de um estabelecimento que predominam. Charges, desenhos e fotos passam cada vez mais a compor a mensagem publicitária. 148 Algo perceptível na Folha do Norte. A maior parte dos anúncios trazia imagens, quadrinhas e textos com os quais é possível perceber que alguns deles foram direcionados a destinatários específicos. Os reguladores, sabonetes e creme dentais vinham com imagens de mulheres bonitas e sorridentes; a Emulsão de Scott, as de mães que aparentavam preocupadas com os filhos que não tinham apetite e depois felizes com seus filhos saltitantes; a Gillette, com imagens de homens que passavam por dificuldades que o uso da lâmina e a consequente melhora na aparência seriam as soluções para seus problemas. As propagandas de móveis e roupas usadas, assim como os de vendas de pequenos terrenos, possivelmente convidaram pessoas de baixos rendimentos. Por meio desses indícios percebemos que o tipo de leitor a 147 CRUZ, op. cit., p. 153. LUCA, Tania Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2006. 148 Idem, p. 158. 60 quem o periódico buscava atingir não era apenas os ―letrados‖, mas diferentes segmentos socioeconômicos e de gênero, buscando estreitar-se com o cotidiano dos feirenses. Houve as publicações de temáticas mais refinadas, que representavam a vida da dita escol feirense, publicações de poemas, assim como assuntos ligados aos embates e posicionamentos políticos, marcando espaços, práticas e visões de mundo dos grupos ligados ao jornal. Contudo, nada disso responde a pergunta sobre quem lia esse jornal. Heloisa Faria Cruz fornece algumas pistas sobre esta questão. 149 A partir de relatos da época, a autora defende que a ―cultura letrada‖ chegava aos iletrados por meio de diversos mecanismos como a leitura em voz alta dos chefes das famílias ricas, remediadas e também de trabalhadores, além dos comentários nos bondes, nas vendas, nas barbearias e nas feiras livres. Algo semelhante provavelmente aconteceu em Feira de Santana, somados às estratégias como o uso de charges, quadrinhas e imagens, a população da cidade, alfabetizada ou não, conseguiu ter algum nível de acesso ao que vinha sendo discutido no periódico. Assim, ao examinar essas pistas percebemos a Folha do Norte como um complexo aparelho de construção de consensos, dentro da perspectiva gramsciana. Um aparelho privado, mas com vínculos com o Estado, que desempenhou papel ideológico e político relevante na dominação de classe em Feira de Santana. As pistas sugerem que essa classe, ou frações dela, até 1937, conseguiu manter-se relativamente coesa e impedir grandes crises orgânicas que levariam à sua superação, persistindo como dirigente. Um grupo com interesses relativamente equilibrados, com conexões objetivas entre ação política e interesses econômicos. A estrutura econômica de Feira de Santana no período estudado não era diversificada, a atividade econômica da cidade concentrava-se no comércio. Essa ausência de diversificação aponta para a também pouca diferenciação e fragmentação dos interesses dos setores dirigentes locais. Para que a coesão fosse mantida durante esses anos, as aproximações com o interventor foram um relevante colaborador. Observa-se nas notícias da Folha do Norte, periódico vinculado ao segmento dirigente feirense, uma onda de adesão aos ideais revolucionários. O jornal foi empregado para os primeiros passos em direção à proximidade com os grupos políticos que tomaram o poder. Nos anos da década de 1930, a classe dirigente feirense iniciou uma série de decisões voltadas para a preservação da sua de influência política na cidade objetivando manter suas tramas de privilégios. Assim, utilizou o espaço do jornal para divulgar que no período destas eleições, os políticos de Feira de Santana não só estavam do 149 Ibidem, p. 144 - 145. 61 lado do governador da Bahia, como se empenhavam para que ele fosse eleito o vicepresidente do Brasil. E meses após as eleições esses mesmos grupos dirigentes se mostraram aderentes aos segmentos que impediram a posse dos candidatos que eles mesmos trabalharam para eleger. Posicionamentos extremamente distintos dos mesmos segmentos diante das primeiras mudanças na política do país, após a Revolução de 1930, e que não foram necessariamente contradições, mas o que dava a tônica do jogo político dessa época, na qual as rearticulações do grupo foram uma das táticas de defesa da conservação e sobrevivência de seu domínio político na cidade. A classe dirigente de Feira de Santana procurou se adaptar às novas condições políticas que foram produzidas à sua revelia, o que não é algo incomum. Pela análise que Karl Marx fez dos anos de 1848 a 1851, em O 18 Brumário de Luis Bonaparte, fica entendido que os acontecimentos políticos não são espelhos das vontades das classes sociais, apontando que o movimento das forças políticas não são produzidos mecanicamente como reflexo dos seus interesses. A vitória da Revolução de 1930 é um exemplo dessa incapacidade temporária dos dirigentes políticos de ocuparem o plano principal da política na cidade. A revolução colocou na ordem do dia a possibilidade de perda do poder dessa classe dirigente feirense, gerando uma crise de hegemonia no interior da classe. A configuração política que determinou a chegada ao poder de outro segmento político produziu na classe dirigente feirense uma paralisia para decidir os rumos da política na cidade, levando-os aderir aos ideais dos revolucionários de 1930 como opção para sobreviver enquanto direção. 150 Nessa situação histórica específica, as estratégias, os arranjos e as aproximações promovidas pelos políticos feirenses demonstram a forma como a luta de classe se desenvolveu nesse momento histórico, pois a falta do poder iria impedir a capacidade dos políticos de Feira de Santana de direção da cidade. Aliaram-se aos novos grupos governistas, anteriormente na oposição, conseguiram voltar a ser situação e garantiram a continuidade no poder para os segmentos dirigentes na cidade. As transformações que ocorreram na política feirense a partir do êxito da Revolução de 1930 foram se acentuando, particularmente nos mandatos do Executivo e Legislativo Municipal, até meados de 1933 quando os setores dirigentes da cidade teceram laços com Juracy Magalhães durante o processo de formação do PSD. Estratégia que resultou dessa demanda de, por um determinado tempo, a classe dirigente não ser capaz de continuar 150 Ibidem. 62 dirigindo o processo político em Feira de Santana. Como afirma Antonio Gramsci, a supremacia de um grupo social se manifesta de dois modos, como ―domínio‖ e ―direção‖. Um grupo social pode e, aliás, deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governamental (esta é uma das condições principais para a própria conquista do poder); depois, quando exerce o poder e mesmo se mantêm fortemente nas mãos, torna-se dominante, mas deve continuar a ser também ―dirigente‖. 151 Consideramos os primeiros meses após a nomeação do coronel João Mendes da Costa, até o retorno de Elpídio Nova à prefeitura da cidade, em 1933, como um período de crise na classe dirigente de Feira de Santana, em que esta procurou recuperar o poder. As lideranças feirenses buscaram integrar-se ao novo governo que se divulgava novo também no regime político e na forma de Estado, pois tais modificações trariam impactos diretos aos seus interesses. Assim, as práticas posteriores dos políticos da cidade objetivaram reaver seu poder de direção e não serem substituídos pelos segmentos ligados à Revolução de 1930. Em 11 de novembro de 1930, o Decreto nº 19.398 instituiu juridicamente o Governo Provisório, procedente do sucesso da Revolução de 1930. 152 O novo governo fechou o Congresso e as Câmaras Legislativas Estaduais e Municipais, substituiu os então presidentes – mais tarde denominados de governadores – por interventores federais, com exceção do recém-eleito governador de Minas Gerais, Olegário Maciel. 153 Mais uma vez a dinâmica da política no Brasil foi modificada e os reordenamentos do poder foram tarefas movimentadas em todo o país com a criação do cargo de Interventor Federal, substituto dos antigos governadores, que também possuía a prerrogativa de nomear os prefeitos dos municípios, com vistas a criar uma centralização de poder. Com a chegada dos Interventores aconteceram mudanças nas estruturas de poder em diversos lugares do Brasil. Na Bahia, J. J. Seabra reivindicou o governo do estado, em retribuição a sua participação na campanha aliancista. Segundo Tavares, os jovens militares, desejosos de mudanças, vetaram o nome de J. J. Seabra por ser um representante da oligarquia baiana. 154 Configurava-se uma situação política diferente da Primeira República. O Interventor federal 151 GRAMSCI, Volume 5, op. cit., p. 62-63. Art. 1 – O governo provisório exercerá discricionariamente em toda a sua plenitude as altas funções e atribuições não só do Pode Executivo do Poder Legislativo até que seja eleita a assembleia constituinte e estabeleça esta a organização da Constituição do pais. A NOVA Constituição da República. Folha do Norte, Feira de Santana, 15 nov. 1930. p. 1; Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil . 16 de julho de 1934. p. 1 153 FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas: o poder e o sorriso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 46. 154 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11 ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 387. 152 63 necessitava da colaboração das lideranças locais, entretanto não precisava delas para manterse no poder. A sua permanência foi pautada por normas estabelecidas por Getúlio Vargas que produziu mecanismos para enfraquecer a autonomia dos estados e aumentar o seu controle sobre estes e, em 3 de agosto de 1931, publicou o Código dos Interventores, que estabeleceu [...] normas de subordinação destes ao poder central. Limitava também a área de atuação dos estados, que ficaram proibidos de contrair empréstimos externos sem autorização do governo federal; de gastar mais de 10% da despesa ordinária com serviços da polícia militar; de dotar as polícias estaduais de artilharia e aviação, ou de armá-las em proporção superior à do Exército. 155 Segundo Dulce Pandolfi, os membros do governo provisório juntamente com Getúlio Vargas, estabeleceram alguns critérios para o que deveria ser o interventor ideal: ―estrangeiro‖, ―militar‖ e ―neutro politicamente‖. 156 Assim, o líder tenentista Juarez Távora defendeu a necessidade de colocar no governo alguém ―neutro‖, ―[...] pois era mister realizar com imparcialidade e energia uma boa obra de saneamento administrativo que dificilmente um homem de partido teria coragem ou habilidade de realizar, sem se incompatibilizar com seus próprios partidários [...]‖. Em 1931 quase todas as interventorias do Norte foram entregues aos militares, o que, segundo a mesma autora, não foi um pressuposto ideológico, mas algo que se apresentou como necessário para implementar as políticas revolucionárias. E os ―estrangeiros‖? Para essa dita imparcialidade citada por Juarez Távora, os interventores não poderiam ter vínculos com as forças locais, embora em alguns casos tenham surgido exceções como os civis Carlos de Lima Cavalcânti, maior líder da Aliança Liberal em Pernambuco e Fernandes Távora, com fortes laços no Ceará. A maioria dos interventores do Nordeste seguiram esse tipo ideal. 157 Por telegrama, enviado do Rio de Janeiro, o capitão Juarez Távora nomeou o primeiro Interventor da Bahia, Leopoldo Afrânio Bastos do Amaral, engenheiro e professor da Escola Politécnica, que governou de 1º de novembro de 1930 a 18 de fevereiro de 1931, e que, junto com J. J Seabra foi um dos defensores da campanha aliancista na Bahia. O segundo Interventor foi Arthur Neiva, médico sanitarista, que ficou no comando do estado de 18 de fevereiro a 15 de julho de 1931. Após um breve intervalo, preenchido pelo General Raimundo Barbosa, o tenente Juracy Montenegro Magalhães foi nomeado por Getúlio Vargas e assumiu o governo da Bahia, permanecendo no cargo até novembro de 1937. Essa rotatividade de 155 FAUSTO, op. cit., p. 48. PANDOLFI, Dulce. In: GOMES, Ângela Maria de Castro (Org.). Regionalismo e centralização política: partidos e Constituinte nos Anos 30. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p. 346. 157 Ibidem. 156 64 Interventores sinaliza desajustes entre os representantes do poder local e o governo nomeado, e que aconteceram em muitos estados do Brasil nesse período. Para Dulce Pandolfi, essas crises foram acesas tanto por elementos tenentistas descontentes com a composição entre os interventores e os setores oligárquicos, como pelos próprios setores oligárquicos contrariados com sua pouca representatividade na interventoria. 158 Desse modo, a Revolução de 1930, que como assinalou Oswaldo Aranha, tinha como programa político ―[...] substituir normas para evitar o regresso à política dos antigos donos da República‖, provocou alterações nas estruturas de poder no Brasil. 159 Para Sampaio, na Bahia, a questão da centralização do poder envolveu interesses em conflito, pois desde a mudança para o regime republicano as elites baianas reclamavam da perda do prestígio político que a Bahia experimentou desde a proclamação da República. 160 Rinaldo César Nascimento Leite aponta uma longa reminiscência baiana no sentimento de perda do grupo e, mais do que lamentar esse incomodo, os baianos buscaram retomar essa representatividade. 161 ―A ‗Revolução de 1930‘ foi um momento peculiar porque significou um novo grupo regional lidando com um novo governo federal e por isso um misto de uma política de acomodação com um conflito aberto‖.162 Em Feira de Santana, as mudanças nos cargos da administração local foram ventiladas, o que gerou manifestações dos segmentos dirigentes para se manterem no mando do poder na cidade dando origem a um clima que combinava inconstância e imprevisibilidade. Elpídio Raymundo Nova ficou no governo até janeiro de 1931, quando o coronel João Mendes da Costa foi indicado pelo Interventor Leopoldo do Amaral para o cargo de Intendente municipal. Em 3 de janeiro de 1931, dias antes da nomeação do coronel Costa para prefeito de Feira de Santana, a Folha do Norte publicou uma reportagem mostrando ―os dois grandes melhoramentos da Feira‖: a inauguração da rede de energia elétrica e de telefonia no município. 163 A construção e distribuição da rede elétrica foi iniciada na segunda gestão de Arnold Silva, sob a concessão da Companhia de Melhoramentos da Feira de Sant‘Anna, da qual Simões Filho, diretor do jornal A Tarde e deputado federal nesse período, foi o diretor principal da companhia. 158 164 Foi uma prestação de serviço complicada, onde as faltas no PANDOLFI, op. cit., p. 350. Apud FERREIRA E PINTO, op. cit., p.14. 160 SAMPAIO, 1998, op. cit. 161 LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento. A Rainha Destronada: discursos das elites sobre as grandezas e os infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas. Tese (Doutorado em História)- PUC, São Paulo, 2005. 162 LIMA, 2009, op. cit., p. 65. 163 Folha do Norte, Feira de Santana, 3 jan 1931, n. 1120. p. 1. 164 Folha do Norte, Feira de Santana, 13 jan 1926, n. 853. p. 1. 159 65 abastecimento de energia elétrica foram constantes, tornando-se inclusive pauta de discussão da Câmara Municipal em diversos momentos. Tal nota divulgou o quão bem sucedida era a gestão de Elpídio Nova e que, diante de tantos benefícios trazidos para a cidade, tirá-lo do cargo não seria apropriado para Feira de Santana. Sua saída da prefeitura viria ―interromper os avanços‖ que a cidade vinha conseguindo com ele conduzindo o Executivo Municipal. Uma fala que pode ser lida como um apelo para permanência de Nova à frente da prefeitura, mas que não poderia apresentar-se como um desejo pessoal, e sim como algo de vontade da população feirense, proclamando os seus interesses como universais, haja vista que as ações político-administrativas do Executivo Municipal recaiam sobre a sociedade. Ao lado dessa reportagem, seguiu uma comunicação do Interventor ao então intendente, informando-lhe que ele depositara em suas mãos ―as funções de prefeito deste município‖. 165 Para a Folha do Norte, esta correspondência entre a interventoria do estado e a prefeitura de Feira de Santana foi um reconhecimento das benfeitorias da gestão de Elpídio Raymundo Nova e que lustrava o [...] ciclo brilhantíssimo de proveitosas administrações que a Feira de Santana ganhou com o predomínio dos elementos políticos que levaram o Dr. Nova a governo da comum. Resta-nos pedir a Deus que inspire os dirigentes da Bahia na escolha e organização dos dirigentes municipais, de modo que se não entrave o progresso crescente de muitas das melhores cidades baianas, entre as quais a nossa que, é bom lembrar, aprendeu nos últimos vinte anos a distinguir os bons e os maus governos. 166 Não obstante, a sociedade política feirense sofreu modificações que alteraram a arrumação de poder. A vitória da Revolução de 1930 deixou claro que haveria algumas modificações na política. As proporções dessas mudanças é que eram desconhecidas, mas se podia ter a certeza de que elas aconteceriam e iriam atingir, de alguma forma, os arranjos de poder na cidade. Esses apelos ao Interventor do estado, através da nota na Folha do Norte, para que ele mantivesse Nova na prefeitura de Feira de Santana, exemplificam as vicissitudes políticas do período em questão. Contudo, dias depois de enviar a correspondência para o então prefeito de Feira, Leopoldo do Amaral nomeou o coronel Costa para o cargo de prefeito e este permaneceu na administração da cidade até o início do governo de Juracy Magalhães. Segundo Poppino, 165 166 Idem, p. 1. Ibidem, p. 1. 66 [...] toda atividade política no município ficou em suspenso, até maio de 1933, quando se procedeu à eleição dos delegados à Assembleia Nacional Constituinte do Rio de Janeiro. [...] O conselho municipal fora abolido pelo decreto de 12 de novembro de 1930. Conquanto um Conselho consultivo provisório de cinco membros funcionasse em 1934 e 1935, não possuía poderes para legislar. 167 Juracy Montenegro Magalhães foi nomeado Interventor Federal aos 26 anos, tomando posse em 19 de setembro de 1931 e foi o mais jovem interventor do Brasil. Sua nomeação foi tida como insulto pelas classes dominantes baianas, que almejaram ocupar os cargos políticos dentro do seu estado. Inicialmente, Magalhães sofreu forte e persistente resistência dos grupos oligárquicos, compostos por velhos líderes da sociedade política baiana. Segundo Aruã Silva Lima, apesar da recepção tumultuada que Juracy Magalhães teve na Bahia, este conseguiu constituir um grupo político composto, inicialmente, por figuras proeminentes da sociedade baiana como o arcebispo da Bahia, Dom Augusto Álvaro Silva, o presidente do Tribunal de Justiça, Pedro Ribeiro de Araújo Bittencourt, pai de Clemente Mariani, e João Marques Reis.168 Quando Magalhães assumiu o governo da Bahia, o então prefeito de Feira de Santana enviou-lhe uma carta solicitando orientações. O coronel Costa disse se considerar um grande admirador das atitudes de Juracy Magalhães e diante dos acontecimentos pelos quais vinha passando o Brasil, não podia, segundo ele, ―dispensar no momento em que me acho à frente dos destinos deste Município, a vossa sabia orientação para feliz êxito do meu governo‖. 169 Um dos contatos iniciais entre Juracy Magalhães e os políticos feirenses representantes das forças aliancistas na cidade, em um momento no qual o Governo Provisório sofreu contínuos rearranjos, conforme a conjuntura. Nesse período, dentre as diferentes forças em disputa pelo poder, estavam os militares. Em 9 de julho de 1932, instalou-se em São Paulo a chamada Revolução Constitucionalista, que pediu a imediata constitucionalização do país. O levante exigiu do Governo Provisório a ação imediata de convocação da Assembleia Nacional Constituinte e eleição livre e direta de deputados para elaborar a futura Constituição. 170 Como aponta Marly Vianna, [...] vencidos pelas armas, os constitucionalistas de 1932 consideraram uma vitória política a convocação da ANC – que o governo provisório não teve forças para evitar – e se incorporaram ao debate constituinte, esperando reaver, como a nova 167 POPPINO, Rollie E. Feira de Santana. Salvador: Itapuã, 1968. p. 140-141. LIMA, op. cit., p. 24. 169 Carta dirigida ao Exmo. Sr. Tenente Juracy Magalhães, D. D. Interventor Federal, em 30 out 1931. Arquivo Pessoal JM. Pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. 170 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 392. 168 67 carta, a hegemonia perdida em 1930. O governo, no entanto, ao convocar a Assembleia, passou a controlar o processo, esvaziando-o de seu conteúdo oposicionista. 171 Segundo Aruã Lima, o movimento constitucionalista teve repercussões na Bahia. Um marco em particular, foi o episódio de 22 de agosto de 1932 na Faculdade de Medicina, que sofreu ação enérgica do governo estadual. O prédio foi sitiado, houve troca de tiros que resultou em alguns feridos e na morte de um civil, e, no fim do dia, ocorreu a rendição de professores e estudantes que formaram uma comissão para falar com o interventor. Prisões foram efetuadas e alguns envolvidos foram levados para outros estados como forma de exílio, dentre eles sujeitos de prestígio da sociedade baiana a exemplo do advogado e jornalista Nelson de Sousa Carneiro, o ex-chefe de polícia Pedro Gordilho e os professores Mário Leal e Adolfo Diniz. 172 Esse evento, ainda segundo Lima, deu brecha para o crescimento da oposição ao governo de Juracy Magalhães. 173 O próprio Interventor mencionou o episódio em suas memórias e reconheceu que lhe trouxe implicações: ―Eles não foram presos na penitenciária; eles foram presos num pavilhão isolado da penitenciária, não tinham nada com os presos. Mas, isso, eles exploraram com muita sabedoria política, sempre jogaram isso em cima do pobre tenente interventor‖. 174 As movimentações políticas decorrentes da Revolução de 1930 abriram espaço para diferentes discussões sobre o tema e tem sido tratada na historiografia a partir de vertentes distintas. No entanto, em Feira de Santana esse debate ainda não foi realizado. Dentro dos limites e com todas as resalvas de uma abordagem inicial, buscamos levantar questões tentando iniciar a discussão sobre o assunto. Relendo os clássicos trabalhos de Barbosa Lima Sobrinho e Boris Fausto, procuramos examinar a chamada Revolução de 1930 em Feira de Santana. Os dois trabalhos são apreciações diferenciadas sobre esse momento da história do Brasil e com algumas divergências, mas que levantam um ponto em comum: a ideia de uma revolução sem revolução. Em A verdade sobre a Revolução de Outubro – 1930, Barbosa Lima Sobrinho faz seu estudo sobre o curso dos movimentos imediatos após o sucesso da revolução e dos sujeitos que formaram o quadro revolucionário. O autor destaca as origens da revolução, inicialmente as divergências entre os estados São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e a Paraíba figurando entre os descontentes. Acrescenta que, mesmo com esse ponto de partida, os 171 VIANNA, op. cit., p. 126. TAVARES, 2008, op. cit., p. 394 173 LIMA, 2009, op. cit., p. 112. 174 ABREU, Alzira Alves de (coor.). Juracy Magalhães. Minhas Memórias Provisórias: depoimento prestado ao CPDOC. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, p. 103. 172 68 acontecimentos foram evoluindo auxiliados pela crise do café, a crise do açúcar, e também da Bolsa de Nova Iorque, tudo isso convergindo para encorpar a corrente de descontentamentos pelo país. Entretanto, Barbosa Lima Sobrinho ressalta que houve um conteúdo oligárquico nas divergências regionais que causaram a Revolução de 1930 e lhe atribui um perfil continuísta, ou seja, um modelo político afluente do velho conjunto. Os sujeitos envolvidos na revolução estavam muito vinculados às situações políticas anteriores. Para o autor, a revolução teve uma expressão regionalista e ressalta a importância das coalizões regionais e das oligarquias no jogo sucessório. Boris Fausto, em Revolução de 1930. História e Historiografia, destacou que a revolução foi o resultado dos choques entre os grupos oligárquicos que contaram com o forte reforço dos militares dissidentes, grupos distintos, mas que compartilhavam um mesmo objetivo: o de eliminar a hegemonia da burguesia cafeeira. Segundo o autor, a formação de uma frente de forças de naturezas diversas ―não responde, por se só, à questão de que classe ou fração substitui no poder a burguesia cafeeira‖. Diante da insuficiência destas classes, ou frações de classes, de assumirem o poder quando a burguesia cafeeira não conseguia sustentar o pacto político que a amparou, provocaram um vazio no poder originando o que ele denomina de Estado de compromisso (apreciação utilizada por Poulantzas, mas que deriva das considerações gramscianas). Esse conceito auxilia a percepção do significado da Revolução de 1930 em Feira de Santana. Para Boris Fausto, este Estado de compromisso, se traduziu através de um acordo ―entre as várias facções pelo qual ‗aqueles que controlam as funções de governo já não representam de modo direto os grupos sociais que exercem sua hegemonia sobre alguns dos setores básicos da economia e da sociedade‘‖. E acrescenta que, para que este compromisso fosse concretizado, a ausência de oposições fortes dentro das classes dominantes foi relevante. O acordo se dá entre as várias frações da burguesia; as classes médias – ou pelo menos parte delas – assumem maior peso, favorecidas pelo crescimento do aparelho do Estado, mantendo, entretanto uma posição subordinada. À margem do compromisso básico fica a classe operária, pois o estabelecimento de novas relações com a classe não significa qualquer política apreciável. 175 Neste sentido, é um Estado que se abre às influências sem necessariamente subordinar-se a nenhuma delas, o que para ele corresponde a uma nova forma de Estado mais 175 FAUSTO, Boris. 1977. A revolução de 1930: história e historiografia. 16. ed. São Paulo: Companhia das Letras. p. 104-105. 69 centralizado, com o intervencionismo mais amplo.176 Segundo o autor, o aumento da centralização foi facilitado pelas alterações institucionais que eliminam o sistema oligárquico, mas não às oligarquias, e o caso de Feira de Santana pode ser tomado como exemplo. Essas exposições provêm do conceito gramsciano de revolução passiva ou revolução sem revolução. 177 Antonio Gramsci utilizou deste conceito em suas reflexões para compreender a formação do Estado burguês moderno na Itália, mas também para apontar a passagem do capitalismo italiano para sua etapa monopolista e esclarece que a revolução passiva não é um programa, e sim um critério de interpretação, por meio do qual Gramsci reconhece a exclusão das massas populares no processo. Para o autor, [...] pode-se aplicar o conceito de revolução passiva (e isso pode ser documentado no caso do Risorgimento italiano) o critério interpretativo das modificações moleculares que, na realidade, modificam progressivamente a composição anterior das forças e, por conseguinte, tornam-se matriz de novas modificações.178 A revolução passiva traz como resultado a não transformação integral das estruturas do passado e não instaura um Estado novo, teria uma característica de inacabado, de incompletude. 179 Por meio do critério de interpretação da revolução passiva buscamos compreender o processo político dos anos imediatos à vitória da Revolução de 1930 em Feira de Santana, observando os processos de transição ―pelo alto‖. As oligarquias regionais passaram a se subordinar ao poder central, perderam o controle mais direto ao governo do estado, mas subsistiram como força local. A Revolução de 1930 abriu o caminho para o estabelecimento, breve, de uma direção política de um segmento que nesse período defendia as orientações da Aliança Liberal em Feira de Santana e foram numericamente menores em relação aos partidários do PRB e nessas condições conferi-se uma crise de hegemonia da classe dirigente local. A manifestação de um ―espírito revolucionário‖ só aconteceu quando a vitória do movimento estava confirmada e uma quebra nas texturas de privilégio era iminente. As lideranças locais aderiram às novas fileiras governistas como uma forma de manter sua direção na cidade, e mesmo com uma alternância entre os sujeitos que estiveram em ascensão e queda à frente dos cargos políticos, não há perda significativa do poder da classe dirigente que permaneceu dominando à política municipal à maneira ―antiga‖. 176 Idem, p. 110. GRAMSCI, Volume 5. 178 Apud COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 199. 179 SECCO, Lincoln. Gramsci e a Revolução. São Paulo: Alameda, 2006, p. 52. 177 70 O amortecimento de conflitos era indispensável ao exercício da hegemonia. Assim, essa classe dirigente operou rearranjos com o objetivo de manter a unidade política que fazia parte da defesa de seus interesses e, essa unidade é o exercício da hegemonia. Dessa forma, ao examinar quem foram os indivíduos que conduziram a vida política da cidade desde o último período da Primeira República até o golpe do Estado Novo, e mais adiante no fim do regime estadonovista, percebe-se que não houve um deslocamento expressivo das forças políticas, subsistindo as mesmas lideranças, não marcando uma mudança brusca dos sujeitos que compunham a classe dirigente, não havendo a sua superação e nem a substituição por outro setor. Essa mudança de ―lado‖ ocorreu quando os segmentos dirigentes experimentaram o fracasso das forças da situação do governo de Washington Luiz e se sentiram frontalmente atingidos pelas modificações decorrentes da ascensão getulista. 3.3 O PSD e Juracy Magalhães em Feira de Santana: formação de outros laços Novos procedimentos foram introduzidos pelo Código Eleitoral, promulgado em 24 de fevereiro de 1931, que estabeleceu o voto secreto, o voto feminino (embora a Constituição de 1891 não o proibisse), criou a Justiça Eleitoral incumbida de organização e de fiscalizar as eleições e extinguiu com a Comissão de Verificação dos Poderes, tirando do Poder Legislativo a prerrogativa de aprovar os eleitos; paços na busca da eliminação de fraudes. 180 A moralização do processo eleitoral esteve presente no programa da Aliança Liberal e Getúlio Vargas teceu constantes críticas às práticas clientelistas e às fraudes eleitorais, que, segundo ele, foram um entrave ao progresso do Brasil. Em um dos seus discursos, contido na coleção A Nova Política do Brasil, Getúlio Vargas afirmou a necessidade de acompanhar todo o processo eleitoral para restringir as fraudes e que, [...] o voto secreto, medida salutar, aconselhável para assegurar a independência das mesas eleitorais seja entregue a magistrados, cujas funções se exerçam cercados de completas garantias, de ordem moral e material, inacessível, assim, ao arbítrio dos mandões do momento. Com o voto secreto, institua-se, pois, o alistamento compulsório de todo cidadão brasileiro alfabetizado e entregue-se a direção das mesas eleitorais à magistratura federal togada. É este o conjunto de providências que julgo indispensáveis à genuína representação popular. Impedir-se-á, por meio delas, a fraude no alistamento, na votação e no reconhecimento. Só assim a opinião pública ficará tranqüilizada quanto ao livre exercício do direito ao voto. Só assim 180 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 24 de fevereiro de 1891. Título IV. Dos cidadãos brasileiros. Seção I. Art. 70. 1§Não podem alistar-se eleitores para as eleições federais, ou para os estados; 1º Os mendigos; 2º Os analfabetos; 3º As praças pret, excetuados os alunos das escolas militares de ensino superior; 4º Os religiosos de ordens monásticas, companhias, congregações ou comunidades de qualquer denominação, sujeitas a voto de obediência, regra, ou estatuto, que importe a renúncia da liberdade individual. 71 alcançaremos o saneamento das nossas praxes políticas e a restauração das normas democráticas. 181 É relevante lembrar que, apesar dos avanços do novo código, os analfabetos, maioria da população brasileira na época, permaneceram excluídos do processo político. Contudo, para Aline Aguiar Cerqueira, o voto ganhou tons cívicos e patrióticos no discurso varguista. O ato de votar e de governar o país estavam presos pela ―unidade, pela restauração da ordem pautada no sentimento de nação, missão esta que não estava somente nas mãos dos votantes, mas também nas mãos dos governantes‖. 182 No periódico Folha do Norte, esse tom cívico é perceptível, a exemplo desta nota: A todos os feirenses alistáveis cabe o inludível dever de habilitar-se para o exercício do direito ao voto no pleito constitucional, comprovando ainda uma vez os sentimentos cívicos e patrióticos de sua terra natal. (...) Ide alistar-vos, leitor! Tornai-vos eleitor e agi pela reconstitucionalização do Brasil, aquiescendo aos mandos de amor pátrio. 183 As medidas do código eleitoral não foram efetivadas conforme a lei estabeleceu, pois, como afirma Sampaio, ―não havendo ocorrido mudanças na infra-estrutura da sociedade, na prática a política oligárquica não se modificou, a despeito desses avanços no campo normativo‖. 184 Por sua vez, Juracy Magalhães buscou a construção de uma base política para amenizar à oposição ao seu governo e a formação do Partido Social Democrático (PSD) foi importante neste objetivo. Segundo Tavares, Magalhães ―dedicou os últimos meses de 1932 e o primeiro de 1933 na organização de um partido político baiano preparado para ganhar as eleições e apoiar a ordem estabelecida pela Revolução de 1930‖. 185 O Interventor partiu para o interior da Bahia à cata de aliados, e ai sua investida foi bem sucedida. Magalhães adotou medidas práticas para estabelecer o maior controle possível da capital e do interior da Bahia. 186 Deste modo, promoveu arranjos com o coronelato baiano e com variados setores da sociedade baiana e 181 VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil I: da aliança liberal às realizações do 1º ano do governo. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1938. p.23 - 24. 182 CERQUEIRA, Aline Aguiar. “A Segunda Serpente” da Princesa do Sertão: imprensa, representações femininas e direito ao voto (década de 1930). Monografia (Conclusão de Curso)- UEFS, Feira de Santana 2009. 183 IDE Alistar-vos .Folha do Norte, Feira de Santana, 25 de fevereiro de 1933, p.2. 184 SAMPAIO, Consuelo Novais. Poder e representação: o legislativo da Bahia na segunda República, 19301937. Salvador: Assembleia Legislativa, 1992. p. 127 – 129. 185 TAVARES, op. cit., p. 395. 186 Ibidem, p. 396. 72 [...] forjou em torno da sua proposta ―revolucionária‖, com concessões palpáveis, um consenso sobre a necessidade de fazer da Bahia um estado novamente glorioso, aos olhos de seus contemporâneos, ao mesmo tempo em que a inseria no contexto global de centralização estatal em relação à União.187 Em carta a Getúlio Vargas, Juracy Magalhães relatou como operou a organização partidária na Bahia: [...] Foi um brilhante sucesso a organização do Social Democrático Baiano. Uma magnífica assembleia constituída de 346 representantes municipais e distritais elaborou o programa, os estatutos e o regimento interno do partido, terminando por votar uma expressiva monção de apoio a Vossa Excelência, monção que demonstra, à evidência, que o partido está organizado visando a luta em todos os terrenos. Deume um grande trabalho essa arregimentação, pois, como Vossa Excelência bem sabe, a política baiana é cheia de grupinhos, formados, em geral, por incompatibilidades pessoais. Apesar disso consegui reunir elementos que asseguram à Revolução uma esmagadora maioria, no Estado. Vieram ao Congresso, pessoalmente, velhos chefes sertanejos, muitos dos quais nunca tinham comparecido a uma reunião política e outros jamais tinham vindo à capital. Somente o Góes Calmon, que fez política no interior, e para o interior, conseguiu trazer à capital talvez a metade dos elementos que agora se reuniram neste memorável Congresso. Basta dizer a Vossa Excelência que a gente do São Francisco veio unânime, depois de ter feito a fusão de todas as suas forças políticas, em uma reunião na cidade de Juazeiro. Parece-me este o fato mais expressivo do momento político baiano, pois aquela gente viveu sempre dividida. Parece-me que acertei no plano concebido por minha calourice política. Fiz aparecer a gente que tem prestígio real, promovendo o afastamento dos intermediários parasitas. [...] Dei uma oportunidade aos homens de prestígio de aparecerem no cenário político, pessoalmente, e isto, ao lado de ter contribuído para destruir o falso prestígio dos ―Gros bonets‖ da política baiana, vai fazê-los dar um rendimento muito maior, pois trabalharão ardorosamente para mostrar que o prestígio era deles. 188 Esta carta apresenta alguns dos mecanismos utilizados por Juracy Magalhães para minimizar a oposição ao seu governo, forjar uma base aliada e organizar o PSD. Em sua fala o Interventor assegura ter reconstituído as relações de poder ―desalojando‖ os ―velhos chefes sertanejos‖ e trazendo para a cena política os homens de ―prestígio real‖, mas em Feira de Santana isso não aconteceu bem assim. Juracy Magalhães aproximou-se da classe dirigente da cidade articulando-se com ela, reconhecendo a importância das lideranças locais que continuaram tendo relevância no processo político após 1930. Os nomes que compunham o quadro do diretório local do PSD foram os conhecidos sujeitos da sociedade política local, permanecendo a política feirense praticamente nas mesmas mãos. Pequena diferenciação houve com a inserção do coronel João Mendes da Costa, representante da Aliança Liberal em Feira de Santana. Contudo, Arnold Silva, Eduardo Fróes da Motta, João Martins da Silva e 187 188 LIMA, 2009, op. cit., p. 62. Carta de Juracy Magalhães a Getúlio Vargas, datada de 31 de janeiro de 1931. ABREU, Alzira Alves de (coor.). Juracy Magalhães. Minhas Memórias Provisórias: depoimento prestado ao CPDOC. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, p. 236 – 237. 73 outros antigos partidários do PRB fizeram parte do partido criado por Juracy Magalhães, apesar de estarem em lados opostos durante as eleições de 1930. Mais tarde, essa junção mostrou as suas incompatibilidades. Em Minhas Memórias Provisórias, Juracy Magalhães afirmou que, em 1933, ele já havia arregimentado os principais nomes em atividade na política municipal baiana, e estes ficaram com ele e não recuaram mais. 189 O Interventor visitou regularmente os chefes locais e suprimiu os intermediários nos contatos com estes, organizou coligações políticopartidárias, inaugurou um programa semanal no rádio, um veículo de comunicação novo e pouco empregado, que Magalhães utilizou com habilidade. Convocou os líderes políticos dos municípios para participar da convenção que deu origem ao PSD da Bahia, citada na referida carta a Getúlio Vargas, dos quais cento e cinqüenta e um municípios se fizeram representados, o que, como relatou o próprio Juracy Magalhães, não foi algo simples de fazer, mas foram expedientes similares aos utilizados pelas tradicionais lideranças baianas, não havendo a inovação tão apregoada. 190 Segundo Magalhães: ―O que fiz, na realidade, foi aproveitar os elementos válidos de cada municipalidade para uma sólida base política e assegurar a continuidade revolucionária‖. 191 Os partidos foram compostos nos moldes regionais, mostrando um retorno a práticas da Primeira República. Não existiu uma evolução no processo político-partidário, já que na base dessa estrutura permaneceram os líderes locais que faziam parte da política na Bahia antes deste período. O projeto antioligárquico empreendido pela Revolução de 1930 não pode ser posto em prática de imediato na Bahia. Para Aruã Lima, Juracy Magalhães ―precisou reconstruir as relações de poder entre as diferentes esferas substituindo o que ele chamou de ‗chefes locais‘. Procedeu desalojando os antigos grupos dominantes e apoiando as oposições‖. 192 Entretanto, em Feira de Santana, esse alijamento dos antigos grupos ocorreu por um breve período, o que não chegou a representar uma grande mudança no quadro da política local. Magalhães mediou os ―negócios‖ da Revolução de 1930 considerando a composição das forças no estado, procurando assegurar uma nova ordem política. Segundo Paulo Santos Silva, para a tarefa de cooptação dos chefes locais foi designado Manoel Novais, oficial de gabinete de Juracy Magalhães. 189 Idem, p. 75 – 76. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 396; SAMPAIO, 1998, op. cit., p. 93. 191 ABREU, op. cit., 1982, p. 83. 192 LIMA, op. cit., p. 25. 190 74 Embora fosse um jovem de apenas vinte e três anos, este político parecia-lhe o indivíduo dotado dos atributos adequados para realizar tal aproximação. Oriundo do sertão pernambucano, conhecia de perto o universo político do interior e sabia conduzir-se na política municipal. Não foi difícil para o jovem político negociar com os chefes municipais e construir bases de apoio para o interventor. Os resultados do seu desempenho vieram nas eleições realizadas em 1933 e 1934, quando o governo Vargas cedeu às pressões e procurou dar bases legais e institucionais ao seu governo. [...] 193 Em janeiro de 1933, Arnold Silva escreveu para Magalhães expressando seu desejo de ingressar no PSD, recém formado pelo Interventor, e lhe dando os parabéns pelo êxito da instalação do partido. No telegrama, Arnold Silva disse a Juracy Magalhães que estava pronto para incluir seu nome no diretório central do PSD e afirmou que o fazia ―não só pelo programa como também pelos processos com que se apresenta, marca da verdadeira conquista, da renovação, do saneamento político‖ da Bahia nesse período. 194 Nesse mesmo ano e mês foi instalado um diretório do PSD em Feira de Santana, com uma sessão solene no Paço Municipal e que foi alvo de agradecimentos do próprio Getúlio Vargas. 195 O coronel João Mendes da Costa lançou um manifesto na Folha do Norte, dirigido ―Ao Povo Feirense‖, por meio do qual informou acerca da instalação do partido: Tenho o grato prazer de comunicar ao Povo Feirense que ficou ontem acertado definitivamente firmado o congraçamento das forças eleitorais deste Município, sem preocupações personalísticas, visando, apenas o bem da Feira e grandeza do Brasil, em torno do benemérito Juracy Magalhães, de acordo com a ideologia de que resultará o grande partido com que o Estado vai concorrer às eleições da próxima Constituinte. O Diretório Político local, organizado naquela data por uma comissão devidamente organizada, será instalado solenemente no próximo sábado, às 21h, no Paço Municipal, e será composto por onze nomes, além do meu, que numa demonstração de solidariedade e apreço muito confortadora, teve indicação e apoio de todos os membros da aludida comissão. Nutro a convicção de haver concorrido, na medida dos meus desejos, para esse feliz resultado, assim como descanso na certeza de ter posto minhas forças a serviço da minha terra. 196 A Folha do Norte, ao comentar as movimentações sobre a formação do PSD no estado e em Feira de Santana, destacou que, 193 SILVA, op. cit., 2011, p. 30. Telegrama de Arnold Silva dirigido ao Tenente Juracy Magalhães, Dr. Interventor Federal da Bahia em 30 de janeiro de 1933. Arquivo JM, pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. 195 ―Apraz-me agradecer comunicação saber haver sido organizado este Diretório e bem assim afirmação solidariedade seus dignos membros – Getúlio Vargas‖. A BAHIA movimenta-se pelas eleições da Constituinte. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 jan. 1933, N.1227. p. 1. 196 Folha do Norte, Feira de Santana, 11 jan. 1941, N. 1644, p. 1. 194 75 [...] o movimento político que está se operando nesta comuna traduz à justa o anseio da coletividade consciente de contribuir para a reconstitucionalização do país e cooperar para a reorganização e alevantamento da Bahia, tornados necessários em face dos princípios revolucionários, ora vitoriosos. 197 O diretório do PSD feirense foi composto pelo coronel Costa, então prefeito, Arnold Silva, Eduardo Fróes da Motta, Heráclito Dias de Carvalho, Elpídio Nova, João Martins da Silva, Coronel Américo de Almeida Pedra, Leôncio Evangelista dos Santos, Coronel Álvaro Simões Ferreira, Antonio dos Santos Rubem e João Barbosa de Carvalho, mais João Marinho Falcão que em suas memórias relata que ingressou no PSD, mas tinha uma atuação discreta, ―consistindo no apoio aos candidatos do partido e alguma ajuda financeira‖. 198 O diretório local do PSD abrigou os conhecidos nomes da política feirenses e que, parte destas lideranças, trabalharam em 1929 pela eleição de Júlio Prestes e Vital Soares. Assim, de que renovação política falava Arnold Silva ao se dirigir a Juracy Magalhães? Quais foram os novos segmentos políticos que formavam nesse momento, uma aliança por uma ―Bahia una e forte‖?. Arnold Silva, Heráclito Dias de Carvalho e Eduardo Fróes da Motta, João Martins da Silva e Valentin José de Souza, fizeram parte do comitê prol candidatura de Júlio Prestes e Vital Soares, período em que esses sujeitos mantinham ligações políticas com o governo estadual cujo mandato ainda estava vigente. Em 1929, quando se discutiu a sucessão presidencial, a coligação que atendia àquela conjuntura política contou com a participação destes mesmos sujeitos que, na metade da década de 1930, já estavam agrupados no circuito varguista. O que observamos na formação do diretório do PSD feirense é um mesmo grupo político que se afastou do partido ao qual era tradicionalmente ligado, numa dada forma organizativa, com aqueles determinados homens que o formavam, constituindo agora outro partido quando se verificou uma situação de crise relativa a seu poder. Como bem assinalou Gramsci, ―os partidos nascem e se constituem como organização para dirigir a situação em momentos historicamente vitais para suas classes [...]‖. 199 Fazer parte do PSD estava diretamente relacionado à retomada da direção política das lideranças feirenses. Ao longo deste estudo o que ficou em evidência é que a Revolução de 1930 não inaugurou formas de exercício do poder em Feira de Santana rompendo com as práticas existentes. Os versados políticos da cidade, com força reconhecida pela sociedade política de Feira de Santana e cidades próximas, mostraram-se os mais fortes aliados do Interventor, 197 Idem. FALCAO, João. A vida de João Marinho Falcão: vitória do trabalho e da honra. Brasília: Pax, 1993, p. 89. 199 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 3. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2011, p. 61. 198 76 configurando novas articulações da classe dirigente que manteve o mesmo comportamento político que perdurou toda a década de 1930. Nas deliberações da reunião do novo partido, Elpídio Nova foi indicado, unanimemente, pelo diretório para ser o novo prefeito da cidade. Político que foi deposto deste mesmo cargo após a Revolução de 1930, retornou ao cenário político conseguindo assumir um segundo mandato frente ao governo da cidade no qual ficou até março de 1935. Nesse momento já se encontravam em uma nova acomodação o divulgador da Aliança Liberal em Feira de Santana, coronel João Mendes da Costa, e o prefeito destituído do cargo no período imediato a vitória do movimento de 1930, Elpídio Nova. Os arranjos políticos que começaram a ser traçados logo após a nomeação do primeiro Interventor, mostravam-se em consolidação e, por meio destas novas arrumações, os dirigentes políticos de Feira de Santana conseguiram se manter no poder após a Revolução de 1930, ainda que com um breve intervalo em que foram destituídos do poder. A negociação política entre Juracy Magalhães e as lideranças políticas de Feira de Santana que culminou na instalação do diretório local do PSD foi vantajosa para os dois lados. O Interventor conseguiu mais aliados para sua a base política e os políticos feirenses construíram laços com o novo segmento que estava no poder nos âmbitos nacional e estadual, permanecendo, assim, na direção da cidade. Todavia, cabe uma breve observação. Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta se tornaram respectivamente presidente e vice-presidente do diretório local, enquanto o prefeito, antigo representante da Aliança Liberal na cidade, ingressou no partido ocupando apenas a posição de simples membro. Nessas novas alianças, a liderança do coronel João Mendes da Costa dentro da classe dirigente feirense não era reconhecida, afinal até pouco tempo atrás Costa encontrava-se no grupo político que trabalhava para eleger Vargas e não Prestes, como foi o esforço das lideranças políticas de Feira de Santana. A classe dirigente feirense perdeu parte de sua força política nos primeiros meses após a vitória da Revolução de 1930, até que novos rearranjos promoveram a constituição de outros vínculos com o novo poder estadual e, conseqüentemente, com o governo federal. Sendo assim, reafirmaram-se nos espaços da política na cidade, ocupados por eles desde antes de 1930. Os agentes da política feirense promoveram contínuas arrumações, equilibrando os interesses do novo regime com o conservadorismo das suas práticas políticas para garantir sua permanência no poder. Para tanto, a relativa unidade da classe dirigente também foi importante para a defesa de sua direção política, ainda que tenham ocorrido episódios de 77 resistência à ―nova‖ direção da política feirense sob a liderança do coronel João Mendes da Costa. Em meados de 1933, ocorreu determinado episódio em Feira de Santana que não foi possível identificar, mas que foi um acontecimento que teve desdobramentos para o quais o então Prefeito, coronel Costa julgou, necessária à ação da polícia e, quando solicitou esta intervenção ao delegado da cidade, este disse ―só atender ordens do presidente do diretório do partido‖. Segundo o Prefeito esta atitude humilhou sua autoridade e como tal, não poderia deixar de ser punida. O delegado teve suas ações notificadas ao secretário de polícia e ao Interventor Juracy Magalhães pelo próprio coronel João Mendes da Costa, a quem ele disse esperar a ―continuação [do] prestígio da sua administração‖. 200 Uma situação que foi no mínimo embaraçosa para os envolvidos. O presidente do PSD era Arnold Ferreira da Silva que, como já mencionado, era muito influente na política da cidade. Esse acontecimento assinala que, mesmo nesse período, o coronel Costa, já há quase dois anos como prefeito da cidade, membro do PSD, estando na mesma coligação dos segmentos dirigentes locais, não teve sua liderança acolhida, mostrando a complicada situação da política em Feira de Santana e a proeminência da classe dirigente ligada a Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta. Em janeiro de 1933, a Folha do Norte publicou que o coronel Costa anunciou durante as negociações do partido que iria renunciar ao mandato de Prefeito, mas com as manifestações em contrário de Juracy Magalhães e do diretório local, ficou acordado que ele só seria substituído na prefeitura após a realização da Constituinte. A renúncia possivelmente foi uma repercussão do episódio citado e da resistência que a classe dirigente feirense promoveu ao coronel João Mendes da Costa. 201 Em decorrência da Constituinte, grupos políticos dos estados da União movimentaramse para a formação dos partidos e das candidaturas, e [...] o debate generaliza-se e prende as atenções. Todos se manifestam, opinam, dizem o que pensam. A Bahia não faria exceção ao momento agitado que o paiz está vivendo. Enquanto o Partido Social Democrático se constitui um bloco poderoso e compacto e, inaugura novos moldes e novas praxes, formam-se a Liga da Ação Social e o Partido Republicano Liberal, e também se anuncia um provável entendimento de elementos de desanvidos desde o regime que passou. 202 200 Telegrama de João Mendes da Costa a Juracy Magalhães. Arquivo Pessoal JM. Pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. Apenas o ano foi possível identificar no documento. 201 A BAHIA movimenta-se pelas eleições da Constituinte. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 jan 1933, N. 1227. p. 1. 202 A‘S VÉSPERAS da Constituinte. Folha do Norte, Feira de Santana, 1 abr de 1933, N.1237. p. 1 78 Na Bahia, em 1933, a oposição se organizou na Liga de Ação Social e Política (LASP), formada pelos Autonomistas, que tinham na esfera estadual Otávio Mangabeira como principal líder, que retornou ao Brasil em 1934 após a anistia. Com a chapa A Bahia ainda é a Bahia, a corrente autonomista abrigou nomes de relevância na política baiana tais como: Otávio Mangabeira e João Mangabeira, J. J. Seabra, Pedro Lago, Wanderley Pinho, Luis Vianna, Aloysio Filho, Moniz Sodré, Raphael Menezes, Pedreira Maia, Antonio Gonçalves e Carlos Leitão. 203 Esses sujeitos se constituíram enquanto oposição desde as primeiras medidas de centralização político-administrativa, estabelecidas pela Revolução de 1930. O nome da chapa acusa a insatisfação e a busca por revanchismo desses segmentos por terem sido retirados do poder no pós 1930. Segundo Tavares, Otávio Mangabeira não acreditava na eleição garantida pelo governo e ainda menos na efetivação da Constituinte já convocada. Deste modo, iniciou sua campanha atrasada e quando chegou aos coronéis encontrou muitos comprometidos com Juracy Magalhães e com os integralistas. A chapa autonomista elegeu apenas dois constituintes: J. J. Seabra e o intelectual Aloísio de Carvalho Filho. 204 Segundo Paulo Santos Silva, desde sua fundação, ―esta corrente tornou-se uma força aglutinadora; reuniu e conferiu unidade política às diversas facções baianas em torno da reivindicação da autonomia do estado frente ao poder central‖. 205 Desde a sua formação, a concentração autonomista defendia que a Bahia deveria reocupar o lugar que sempre foi seu. Silva acrescenta que o ―autonomismo‖ recorreu à história para dar validade a seu discurso. Mesmo que os historiadores baianos de então não concordassem entre si quanto à representação do passado da Bahia, em particular o das suas elites, superaram momentaneamente divergências e mantiveram-se unidos na defesa da ―restituição à Bahia a posse de si mesma‖, aproximando discurso histórico e projeto político. 206 Para Consuelo Novais Sampaio, entre governistas e opositores a diferença era mínima. Diferenciava-os mais a distância de gerações. A LASP tinha em sua composição homens mais jovens, na idade e na prática política, enquanto o PSD era, em grande parte, formado de homens maduros e experientes. Mas os membros de ambos os partidos, de modo geral, recrutados de setores da classe alta e da classe média, pareciam mais interessados no desempenho do poder do que na solução dos urgentes problemas que afligiam a sociedade. 207 203 O GRANDE pleito de 14 de outubro Folha do Norte, Feira de Santana, 1 set. 1934, N.1311. p. 1. TAVARES, op. cit., p. 397. 205 SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição. Luta política, intelectuais e a construção do discurso histórico na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2011. p. 13. 206 SILVA, Paulo Santos. O Estado Novo e os ―Autonomistas: conflito político e resistência liberal na Bahia. In: SILVA, Paulo Santos (Org.); SENA JUNIOR, C. Z. F. (Org.). O Estado Novo: as múltiplas faces de uma experiência autoritária. Salvador: EDUNEB, 2008. p. 110. 207 SAMPAIO, Op. cit., 1992. p. 262 – 263. 204 79 Na ocasião da Constituinte, o diretório do PSD em Feira de Santana discutiu sobre quais nomes iriam participar da disputa e Arnold Silva indicou o nome de Eduardo Fróes da Motta para ser um dos candidatos. Contudo, Motta rejeitou o convite por ―motivos de ordem particular‖ desconhecidos. Segundo Arnold Silva, diante da recusa de Motta, o diretório resolveu recomendar o seu ―humilde nome‖ e a escolha foi notificada a Juracy Magalhães, por meio do seguinte telegrama: Levamos conhecimento V. Exa. Diretório político local reunido [com o] fim de escolher candidato [das] futuras eleições [da] constituinte, por voto [de] todos seus membros aclamou Arnold Pereira da Silva, seu presidente, que reúne todos os requisitos caráter, lealdade, prestígio para representar condignamente Feira, terra seu berço. 208 Em um momento posterior, Arnold Silva comunicou ele mesmo a sua indicação por meio de uma carta a Juracy Magalhães e, ao fazê-lo, explicitou o quão conhecia os manejos do jogo político, demarcando em suas palavras seu próprio território e reconhecendo que essa recém formada aliança partidária traria vantagens a ambos os envolvidos. Arnold Silva se declarou ―absolutamente identificado‖ com os ideais do interventor e que aceitou a candidatura para ajudar a Bahia e não por ―preocupação de destaque pessoal‖, pois sempre possuiu ―hábitos e desejos modestos‖. Nesta carta, ele afirma que, se eleito [...] o mandato, longe de vantagens, me acarretará sacrifícios de ordem financeira pelo afastamento da Bahia e dos meus negócios. Compreendo, entretanto, que os sacrifícios de qualquer natureza não devem constituir embaraço a quem pretende servir à causa pública nesta hora de renovação, de reconstrução e de luta às vezes cruenta.209 E continuou a carta afirmando que, [...] a Feira é, neste momento, um bloco, homogêneo, compacto, ao lado da política renovadora e da administração honesta de V. Exa.. Candidato de Feira, terei de pensar e de agir como ela pensa e age, sem atenção a pequenas dissensões personalísticas.210 A Folha do Norte publicou, em 22 de abril de 1933, um manifesto do PSD, no qual o partido apresentou ao estado da Bahia os seus candidatos à Assembleia Nacional Constituinte. 208 Telegrama diretório do PSD a Juracy Magalhães em 20 mar 1933. Arquivo Pessoal JM – Pasta Municípios. CPDOC. 209 Carta escrita ao Exmo e Prezado Amº Sr. Interventor Juracy Magalhães, em 14 de março de 1933. Arquivo JM, pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. 210 Idem. 80 Entre os vinte e dois candidatos, apenas quatro não foram políticos da capital e um deles era Arnold Silva, ao lado de Lauro Passos de Cruz das Almas, Manoel Leôncio Galrão de Areia e Raphael de Castro Cicurá, de Itaberaba. 211 Um indício da influência e o poder político de Arnold Silva reconhecido não apenas pelos políticos locais que o indicaram, como também pelos membros do PSD e por Juracy Magalhães que aceitou sua candidatura. O que nos possibilita perceber a via de mão dupla que é o jogo político, haja vista que as investidas de Juracy Magalhães pelo interior do estado tinham o objetivo de buscar apoio e formar um esteio político forte, e assim abater a resistência a sua administração. Dessa forma, não se buscava o apoio de quaisquer lideranças, mas de políticos que efetivamente pudessem lhe emprestar seu prestígio e poder de jugo. Juracy Magalhães assinalou em Minhas Memórias Provisórias que os sujeitos políticos que ele encontrou no interior da Bahia eram chefes locais e não coronéis. Segundo o Interventor ―não se pode chamar de coronel, por exemplo [...] o médico Lauro Passos, de Cruz das Almas, [...] o jornalista Arnold Silva e o advogado Elpídio Nova, de Feira de Santana [...]‖. 212 Seja qual for o nome que Juracy Magalhães desse a estes sujeitos, se eles fossem apenas indivíduos que exerciam suas profissões, como Magalhães tenta aparentar em sua fala, e não possuíssem nenhum poder político em suas cidades o que eles teriam a oferecer? Qual a utilidade do apoio de sujeitos sem influência? Não importando o nome que seja dado, o poder que estes sujeitos exerciam em suas áreas, particularmente Arnold Silva, existia desde antes a Revolução de 1930, assim suas práticas políticas possuem raízes nas práticas da Primeira República, ou seja, com ―grupinhos‖ e ―incompatibilidades pessoais‖ e a situação não mudou em Feira de Santana no pós 1930 e, provavelmente em outras cidades da Bahia. Ainda que Juracy Magalhães tenha buscado relatar, em suas memórias, que nos primeiros anos de seu governo na Bahia ele fez políticas em moldes diferentes do que aqui já existiam, não foi exatamente assim. O fato de nomes como Arnold Silva, Elpídio Raymundo Nova e Lauro Passos terem feito parte da base aliada de Magalhães assinala que nesse contexto não se deve ter uma imagem simplificada do coronel como o latifundiário, senhor de terras e pessoas, mas que podemos ver práticas políticas semelhantes persistindo em um quadro mais complexo no qual convivem tipos diversos de coronéis como jornalistas, comerciantes, advogados, médicos. Arnold Silva, em 211 O MANIFESTO do Partido Social Democrático ao povo baiano. Folha do Norte, Feira de Santana, 22 abr. 1933, N.1240. p 1. 212 ABREU, Alzira Alves de (coor.), op. cit., p. 81. 81 particular, ainda após a Revolução de 1930 não perdeu a capacidade de controlar boa parte dos votos em Feira de Santana, logo era um aliado interessante para o governo. Essa aproximação com a figura de Juracy Magalhães foi utilizada por Arnold Silva, e também por outros políticos da cidade, para a barganha de favores de natureza diversas. Em agosto de 1933, Arnold Silva escreveu para Magalhães lhe informando que em Feira de Santana como em Santo Amaro, Santo Antonio de Jesus e outras localidades do interior do estado, [...] faz-se, anualmente, a tradicional festa religiosa da padroeira local com o produto da extração de pequenas quermesses, mediante ―cupons‖ numerados [...]. Festas verdadeiramente populares, interessam vivamente a população, que é toda muito católica e encontrou um meio fácil de custeá-las nas aludidas quermesses, cujos bilhetes são distribuídos apenas nos limites da cidade e se destinam exclusivamente ao dito fim. Ultimamente, por insistência do Delegado Fiscal do Tesouro Nacional, o agente do imposto de consumo, aqui, tem obstado a distribuição dos aludidos ―cupons‖. Em Santo Amaro, entretanto, Santo Antonio de Jesus e outros lugares, não se verifica a mesma proibição. Procura-me a comissão de festas e pede que eu me dirija ao eminente amigo. Será possível obter que o Delegado Fiscal não mande impedir a circulação das quermesses de Sant‘Anna? Isso muito satisfará o povo, o comércio, o vigário, especialmente a comissão de festas, da qual fazem parte dignos amigos nossos. 213 A Festa de Santana nesse período era uma das famosas maneiras de sociabilidade na cidade, da qual a classe dirigente da cidade fez parte e se ―juntava‖ às massas em louvores à padroeira. As comissões organizadoras na maioria das vezes foram compostas por membros da chamada escol feirense. O vigário referido por Arnold Silva, o cônego Tertualiano Carneiro, foi vereador de 1924 a 1925 e Presidente do Conselho Municipal nesse período, e é membro da família Fróes da Motta. Esta solicitação, que envolvia diferentes questões e sujeitos, foi realizada no período próximo à instalação da Assembleia Nacional Constituinte, e estes fatores foram usados habilmente por Arnold Silva. Tratava-se de contentar boa parte da população feirense que participava dos festejos da padroeira, o vigário, assim como os ―dignos amigos‖ mencionados por Arnold Silva, os coligados políticos. Ou seja, eram eleitores e como tais, não deveriam ser desagradados e, assim, o pedido de Arnold Silva foi atendido pelo Interventor. A manutenção dos laços entre as lideranças feirenses e Juracy Magalhães foi condicionada por essa reciprocidade de benefícios e concessões, que, ao que nos aponta, beneficiava tanto um quanto o outro. 213 Carta dirigida ao Exmo. Sr. Tenente Juracy Magalhães, D. D. Interventor Federal, em 21 de agosto de 1933. Arquivo JM, pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. 82 Dando continuidade ao processo de constitucionalização, o Governo Provisório elegeu uma Comissão Constitucional, responsável por elaborar um anteprojeto da nova Carta, que deveria ficar pronto até 3 de maio de 1933, data das eleições da Assembleia Nacional Constituinte. 214 Este anteprojeto foi entregue aos constituintes para ser discutido no âmbito desta comissão que foi criada por Getúlio Vargas objetivando ter certo nível de controle tanto sobre o conteúdo da nova constituição como dos seus encaminhamentos. Foi decretado feriado nacional para a realização das eleições, e estas ocorreram na data marcada. A apuração foi lenta, e aproximadamente depois de um mês da votação os resultados foram divulgados. Na Bahia, o PSD obteve 86.117 votos, representando 58,13%, a chapa Governador Octávio Mangabeira da LASP obteve 47.167 votos, o que significou 31,84%, e, o Integralismo conseguiu apenas 302 votos, com 0,20% em toda a Bahia. 215 Na eleição da constituinte, Arnold Silva foi eleito deputado federal pelo PSD da Bahia e integrou a Assembleia Nacional Constituinte, que foi instalada em 15 de novembro de 1933. ―levara a uma reorganização de forças políticas do país. Nos anos tumultuados que seguiram ao movimento de 1930, a disputa política se dera principalmente entre os setores da burguesia que chegaram ao poder e aqueles que se viram marginalizados pela revolução‖. 216 Os trabalhos da Constituinte duraram oito meses, até 16 de julho de 1934, quando foi promulgada a nova Carta. No dia seguinte, realizou-se à eleição indireta de Getúlio Vargas que foi eleito o Presidente Constitucional com a maioria dos votos dos congressistas, dando fim ao Governo Provisório e iniciando o chamado Governo Constitucional. 217 Durante esses meses de discussão na Constituinte, foram muitos os projetos que pleiteavam ver os seus interesses atendidos na Carta Magna. Os grupos oligárquicos defenderam que os estados deveriam cumprir um papel relevante; as ―forças revolucionárias‖ desejaram preservar a centralização do Estado, o que também era amparado pelos tenentes. Atender a interesses tão distintos foi um dos desafios da Constituinte. ―A Constituição de 1934 foi uma constituição com fortíssima ‗retórica federativa‘ encobrindo um regionalismo bem mais ativo‖. 218 Em 1934, ―a alienação era ignorar o Estado e a centralização necessária ao desenvolvimento nacional. A tal ponto que Getúlio Vargas, ao anunciar a nova Carta, preveniu que seria ‗o primeiro revisor dessa Constituição‘. Havia aquela consciência de que o acordo constitucional 214 Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil . 16 jul 1934. p. 5. SAMPAIO, Consuelo Novais. Poder e representação: o legislativo da Bahia na Segunda República, 19301937. Salvador: Assembléia Legislativa, 1992. p. 162. 216 VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 1935: sonho e realidade. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 126. 217 VIANNA, op. cit., p. 134. 218 CAMARGO, Aspásia. 1982. A revolução das elites: conflitos regionais e centralização política. In: Revolução de 30: seminário internacional. Brasília, D.F.: Ed. Universidade de Brasília, 1982. p. 46. 215 83 não era prático‖. 219 Para Dulce Pandolfi, grosso modo, a nova Carta representou uma vitória dos setores mais liberais, ao mesmo tempo em que garantiu o domínio do Legislativo e expandiu a capacidade intervencionista do Estado, e buscava ainda evitar que essa ampliação do poder intervencionista do Estado fosse confundida com um aumento do poder do presidente da República. 220 Para a Folha do Norte a promulgação da nova Constituição do Brasil repercutiu de maneira positiva. Segundo o periódico, a Carta Magna estava ―de acordo com as correntes sociológicas, que, no momento, dominam os círculos governamentais das nações civilizadas. N‘ella estão firmados os direitos e deveres dos cidadãos‖. 221 Arnold Silva era um dos donos deste jornal e um dos deputados da Constituinte, assim são óbvias as razões das palavras elogiosas nesta e em muitas outras edições seguintes. Conforme orientação dada por Juracy Magalhães, o coronel Costa aguardou a ocorrência das eleições da Constituinte e, em 20 de maio de 1933, enviou sua petição oficial de demissão do cargo de Prefeito da cidade. 222 O interventor aceitou o pedido e, em 29 de maio do mesmo ano nomeou Elpídio Nova o Prefeito de Feira de Santana, e este retornou aos espaços oficias pela mesma força política que o retirou em 1930. 223 Entretanto, em 12 de maio do mesmo ano, o coronel Costa escreveu um telegrama para Juracy Magalhães no qual disse que havia recebido, com surpresa, uma carta de Arnold Silva lhe agradecendo por seus serviços como prefeito de Feira de Santana e apelando para que ele honrasse com seu afastamento da prefeitura. Nesse telegrama, o coronel Costa pediu a Juracy Magalhães atenção com ―a atitude do presidente do diretório‖, já que Arnold Silva pareceu querer adiantar a saída de Costa da prefeitura de Feira e ele se sentiu afrontado com esta atitude. Não encontramos a contento uma documentação em que consta alguma resposta de Juracy Magalhães à solicitação do então prefeito de Feira de Santana, mas o conteúdo do seu telegrama, assim como o episódio com o delegado da cidade, apontam que o coronel Costa enfrentou aversões dentro da classe dirigente feirense. O antigo representante da Aliança Liberal em 1930 mais os partidários do PRB do mesmo período compuseram o diretório local 219 Idem, p. 47. PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1999. p. 9. 221 NOSSA Carta Magna e o Presidente Getúlio Vargas. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 jul. 1934. N. 1305. p. 1. 222 ―Segue [pelo] correio ofício [com] meu pedido de demissão‖. Telegrama de João Mendes da Costa a Juracy Magalhães em 19 mai 1934. O pedido de afastamento foi publica no dia seguinte: Folha do Norte, Feira de Santana, 20 maio 1933, N. 1244. p. 1. 223 Folha do Norte, Feira de Santana, 3 jun 1933. N. 1246. p. 1. 220 84 do PSD no pós 1930 e passaram a formar nessa época um mesmo segmento político, contudo, internamente houve desacordos. Os vestígios abalizam que os sujeitos que formavam os setores dirigentes feirenses desde a década de 1920 não viam o coronel Costa como um dos seus e conseguiram hostilizálos em alguns momentos. Costa era fazendeiro e nas décadas de 1930 e 1940 quando o comércio era a maior atividade econômica de Feira de Santana, não encontrei indícios de que ele foi envolvido de alguma maneira com o comércio. Assim, as razões desta resistência dos segmentos dirigentes da cidade podem não ter sido somente por diferenças políticas ou ideológicas, mas por possíveis incompatibilidades também no campo econômico. Após a renúncia do coronel Costa, em 1933, não encontramos nenhuma documentação que trouxesse qualquer informação sobre ele até os anos de 1945, pois após ser prefeito não exerceu mais nenhum mandato político. Esse silêncio nos permite inferir que ele provavelmente se afastou da política da cidade, todavia a afirmação desta hipótese necessita ser investigada. Ao fim da Constituinte Nacional, iniciaram-se os trabalhos para a realização da Assembleia Constituinte da Bahia. Sob a liderança de Juracy Magalhães, o PSD contou, nesse período, com vinte e quatro diretórios municipais no estado. Em 25 de agosto aconteceu em Feira de Santana a Convenção Regional do partido que decidiu quais seriam os candidatos à Constituinte Estadual. A convenção contou com a representação de Feira de Santana, que sediou a convenção, mais os municípios de Santo Amaro, Cachoeira, Maragogipe, Castro Alves, São Felix, São Gonçalo, Mundo Novo, Morro do Chapéu, Cruz das Almas, Conceição da Feira, Afonso Pena, Baixa Grande, Ipirá, Irecê, Itaberada, Santa Teresina, São Francisco, Muritiba, Rui Barbosa, Monte Alegre, Santo Estevão e São Felipe. 224 Procedida à votação, em que cada diretório tinha direito a um voto, foram eleitos como os representantes do partido na Constituinte Estadual Dr. Octaviano Pinho Pedreira da Silva, Dr. Elísio de Moura Medrado, coronel Adriano de Lima Pedreira e Dr. Humberto Pacheco de Miranda. 225 Esta concentração do PSD apoiava a candidatura de Juracy Magalhães ao governo da Bahia, e manifestou seu apoio também nesta convenção do partido. Em 6 de setembro de 1934, o Conselho Geral do PSD se reuniu e recomendou seus candidatos para a Câmara Federal, dentre eles Clemente Marianni, Medeiros Netto, Arthur Neiva, Attila Amaral e 224 225 Folha do Norte, Feira de Santana. 1 set 1934. N. 1311. p. 1. Idem. p. 1 85 Arnold Silva. 226 Na ocasião em que foi lançada também a candidatura de Juracy Magalhães para governador da Bahia e a chapa do PSD para a Constituinte Estadual. 227 Segundo a Folha do Norte o Conselho Geral do PSD assinalou que a candidatura de Juracy Magalhães é bem um oportuno ensejo para a definição, clara e iniludível, da vontade da Bahia, livre e conscienciosa, entre a política passada, anterior à Revolução triunfante, e a situação atual que, à face de todo país, oferece, para o julgamento superior da justiça, o exemplo invulgar e edificante de um governo de trabalho, honestidade e tolerância ao qual os próprios adversários não podem negar os mais relevantes serviços à nossa querida terra, com grande proveito à sua economia e maior lustre ao seu renome. 228 Elpídio Nova, então prefeito de Feira de Santana, junto com Arnold Silva foram os dois candidatos da cidade para a Constituinte Estadual que se realizou em 14 de outubro de 1934. Em Feira de Santana votaram 3.695 eleitores, segundo números fornecidos pelo juiz eleitoral Manoel Coelho em um telegrama enviado ao interventor Juracy Magalhães. 229 Merece assinalar a curiosa participação de João Mendes da Costa Filho, filho do coronel João Mendes da Costa, antigo chefe da Aliança Liberal em Feira de Santana e primeiro Prefeito nomeado após a vitória da Revolução de 1930, integrando a concentração autonomista. Eleito deputado constituinte, João Mendes da Costa Filho, nesse período, esteve em um segmento político oposto ao do seu pai. 230 Em 1945, foi eleito deputado constituinte pela UDN e, na documentação examinada, não obtivemos informações sobre suas relações com a o grupo dirigente feirense, mas fica implícito que entre eles não houve aproximações. 231 Juracy Magalhães concorreu ao governo da Bahia juntamente com Otávio Mangabeira. Para Tavares, nestas eleições observam-se mudanças no comportamento eleitoral dos autonomistas. Os seabristas, calmonistas e mangabeiristas dissolveram-se na concentração autonomista e organizaram-se para sustentar a chapa Governador Otávio Mangabeira. 232 Unificaram a liderança na pessoa desse político liberal por ser o mais reconhecido e respeitado por todos os que combatiam o interventor Juracy Magalhães e o presidente Getúlio Vargas na Bahia. Ele aceitara a candidatura ao governo do estado 226 Lista completa com os nomes dos candidatos no Folha do Norte, Feira de Santana, 08 set 1934. Num 1312. p. 1. 227 Lista completa com os nomes dos candidatos no Folha do Norte, Feira de Santana, 15 set. 1934. N. 1313. p. 1. 228 AO DIGNO e brioso eleitorado baiano. Folha do Norte, Feira de Santana. 22 set. 1934. N. 1314. p. 1. 229 Telegrama de Manoel Coelho para Juracy Magalhães em 16 out 1934. Arquivo Pessoal JM – Pasta Municípios – Feira de Santana – CPDOC. 230 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 401. 231 TAVRES, op. cit., p. 445. 232 Idem, p. 397. 86 sabendo que não havia a menor possibilidade de ser eleito pelo sistema de eleição indireta na Assembleia Constituinte de maioria juracisista. Também valeu o seu discurso centralizado na defesa do direito de a Bahia eleger o seu governador sem interferência da Presidência da República e de preferência baiano. 233 Segundo Paulo Santos Silva, Juracy Magalhães disse que só aceitaria se candidatar se fosse esclarecido ao leitor que votando em um candidato a deputado pelo PSD, estaria votando também no interventor e, em função deste dispositivo, ―considerou-se‖ eleito de forma direta. 234 Apurados os votos, conforme foi previsto, Juracy Magalhães foi eleito para o quatriênio de 1935 a 1939. Instalada em 23 de abril de 1934, a Constituinte baiana trabalhou durante quatro meses para elaborar a nova Carta e em 20 de agosto foi promulgada a Constituição do estado. Continha 106 artigos, mais treze Disposições Transitórias, e mudou o conceito de federalismo presente da Constituição de 1891 e definiu que a Bahia, ―parte integrante da Federação Brasileira‖, apresentava ―no exercício de sua autonomia político-administrativa, todo e qualquer direito ou poder que não lhe fora vedado, explícita ou implicitamente, pela Constituição‖. O Legislativo tornou-se unicameral. O Senado Estadual foi extinto, ficando a Assembleia Legislativa composta de representantes do povo eleitos pelo sistema proporcional e pelo voto secreto, universal, igual e direito, até o limite de 42 deputados, e de representantes das associações profissionais, eleitos por voto indireto das associações representativas de trabalhadores e patrões nas atividades rurais, industriais, comércio e transporte, profissionais liberais e funcionalismo público. Dois deputados por cada uma das três primeiras categorias e um por cada uma das duas últimas. 235 Em 19 de fevereiro de 1934, o então prefeito de Feira de Santana, Elpídio Raymundo Nova, escreveu mais uma vez para Juracy Magalhães solicitando sua exoneração do cargo de prefeito, devido à sua eleição para a Constituinte baiana. Nessa correspondência o informou também que, Arnold Silva indicou o nome de Heráclito Dias de Carvalho para assumir a prefeitura de Feira de Santana, após o afastamento de Nova para iniciar os trabalhos durante a Constituinte Estadual e reiterou que Carvalho era um amigo digno e de grande prestígio na cidade. 236 Essa indicação assim como a declarada incapacidade de Elpídio Nova de resolver os problemas políticos que se estabeleceram com o crescimento do integralismo na cidade, 233 Ibidem, p. 397 – 398. SILVA, op. cit., 2011, p. 37. 235 Idem, p. 401. 236 Telegrama de Elpídio Raymundo Nova para Juraci Magalhães em 19/02/1935. Arquivo JM - Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC. 234 87 indicam o claro mando de Arnold Silva no interior da classe dirigente feirense. Dois dias após o recebimento da correspondência de Nova, Magalhães nomeou Heráclito Dias de Carvalho, interinamente, Prefeito de Feira de Santana, e este tomou posse oficialmente em 1º de março de 1935. Após assumir o mandato, Heráclito Dias de Carvalho telegrafou para Juracy Magalhães o informado sobre a certeza da sua solidariedade patriótica para com seu governo e que, sentia-se honrado em colaborar com a grande obra de restauração moral, econômica e política da Bahia. 237 Conforme estabeleceu a nova Constituição da Bahia, o preenchimento dos cargos municipais para o quatriênio de 1935 a 1939 deveriam ser feito através do voto direito, secreto e universal. O PSD, em reunião do diretório local, discutiu acerca das eleições e lançou as candidaturas de Heráclito Dias de Carvalho para Prefeito de Feira de Santana, e para os cargos de vereadores, os nomes de Áureo de Oliveira Filho, Américo de Almeida Pedra, Adalberto Constâncio Pereira, Álvaro Simões Ferreira, Eduardo Fróes da Motta, Filinto Marques de Cerqueira, Gonçalo Alves Boaventura, João Barbosa de Carvalho, João Martins da Silva, José Pinto dos Santos, Valentin José de Souza e João Marinho Falcão. Resultou na eleição de todos os candidatos aqui citados, formando uma gestão e uma bancada de partido único. 238 A Folha do Norte divulgou o resultado das eleições municipais nos seguintes termos: ―para prefeito – Partido Social Democrático 2.805 votos, Integralismo 27 votos; para vereadores: Partido Social Democrático 2800 votos, Integralismo 30 votos‖. 239 Os indícios sugerem que o número de filiados ao integralismo em Feira de Santana foi maior do que o expresso nessa eleição, que nos aponta também, que sua expressão na cidade era considerável já que lançaram inclusive um candidato à prefeitura da cidade. É provável que um número menor atendesse aos critérios que definiam um eleitor qualificado o que pode ser um fator que colaborou para a pequena quantidade de votos. Contudo, mesmo sendo um pequeno número, tem-se a expressão de um segmento de oposição às lideranças de Feira de Santana. Ocorrendo segundo as previsões do texto constitucional a eleição de 1935, a primeira após a Revolução de 1930, pode ser tomada como um indicador da opinião da população feirense, pois com todos os candidatos do PSD eleitos foi conferido poder, por meio de mandatos políticos, às mesmas lideranças da cidade não modificando o equilíbrio das forças em Feira de Santana. A classe dirigente feirense se coligou com os aliancistas, que eram a 237 Telegrama de Heráclito Dias de Carvalho para Juraci Magalhães, em 02/03/1935 – Arquivo JM - Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC. 238 AO DIGNO eleitorado da Feira. Folha do Norte, Feira de Santana, 28 dez. 1935. N. 1380. p. 1. 239 Folha do Norte, Feira de Santana. 25 jan 1914. N. 1646, p. 4. 88 oposição no início dos anos 1930, ressaltou que essa aliança trouxe mudanças nas formas de fazer política, contudo conseguiu manter a orientação do seu eleitorado e a relativa estabilidade dos votos. Segundo Aruã Lima, depois de eleito indiretamente governador da Bahia, Juracy Magalhães, refreado pelas diretrizes de Getúlio Vargas e Juarez Távora, teve na consolidação da Concentração Autonomista os seus opositores mais presentes, entretanto, não foram os únicos. Havia também os integralistas e comunistas. Numerosos núcleos da Ação Integralista Brasileira (AIB) foram consolidados na Bahia e, num dado momento, constituíram-se como advertência ao poderio juracisista no interior do estado. Desse modo, o estado da Bahia a ser palco da agitação que já se desenhava mundialmente: liberais, comunistas e integralistas. 240 Em Feira de Santana os integralistas foram um segmento de oposição ao governo do estado e da classe dirigente local, que causou incomodo na época das eleições de 1935. Em 18 de 1934, Elpídio Nova informou a Juracy Magalhães que alguns adversários vinham buscando quebrar ―a harmonia‖ do partido na cidade nesse período próximo ao pleito e, o único que poderia ser resolver as contendas, a fim de evitar divergências, era Arnold Silva e este se encontrava fora da cidade se recuperando de uma enfermidade não conhecida. 241 Possivelmente, os integralistas de Feira de Santana e os núcleos próximos, como os de Conceição da Feira, Cruz das Almas e Riachão do Jacuípe seriam esses adversários citados por Elpídio Nova. Respostas à solicitação de Nova feita à Juracy Magalhães não foram encontradas e nem sobre o retorno de Arnold Silva e as providências tomadas por ele para minimizar a ação dos integralistas. Entretanto, podemos afirmar que algo foi feito acerca dessa oposição porque em um momento posterior, que discutimos mais adiante, muitos membros do integralismo na cidade publicizaram seus ―desligamentos‖ do movimento em notas na Folha do Norte. Os anos das gestões de Heráclito Dias de Carvalho foram agitados. Nos primeiros meses de seu mandato enquanto prefeito eleito pelo voto direto, pela legenda do PSD juracisista, Carvalho, que fora delegado de Feira de Santana e dono de um armazém de fumo destinado à exportação, desentendeu-se com um funcionário da prefeitura e chegou a instaurar um inquérito administrativo em 31 de dezembro de 1935. A alegação do então Prefeito foi a de que o funcionário Oscar Ribeiro dos Santos teria feito referência a ele em ―termos inconvenientes‖. Os funcionários Altino Mattos e Virgílio Alves Bastos foram arrolados como testemunhas e afirmaram não terem visto nem ouvido nada. Euclides Alves 240 241 LIMA, 2009, op. cit., p. 73. Telegrama de Nova para Juraci, em 18/09/2011. Arquivo JM – Pasta Municípios - CPDOC. 89 Mascarenhas, outro funcionário também arrolado como testemunha, disse que no mês de novembro, não se recordando o dia exato, assistiu o funcionário acusado dizer que havia trabalhado com muitos prefeitos, mas que Heráclito Dias de Carvalho tinha sido o pior deles. Oscar Ribeiro dos Santos afirmou que se um dia disse isso não se lembrava, mas que se o tivesse feito teria sido de pilheria porque estimava muito o prefeito e a ele tudo deve. O que era esse ―tudo‖ não possível afirmar, mas provavelmente o emprego de Oscar Ribeiro dos Santos na prefeitura foi uma concessão do Prefeito e seria parte desta ―dívida‖. O episódio se desenrolou assim: um acusou, o outro negou e sem meios concretos de provar a ofensa do funcionário, Carvalho encerrou o caso. Todavia, é mais um exemplo dos modos de fazer política em Feira de Santana e como se desenvolveram as relações de poder na cidade. Os membros da classe dirigente feirense davam diferentes demonstrações de quem estava no comando da cidade, o que pode ser observado em desde as indicações de cargos até o uso da força, como este processo citado, caracterizando formas de fazer política que a Revolução de 1930 não decompôs. As contendas nem sempre envolviam grandes motivações políticas e ideológicas, na verdade, boa parte delas se davam por conta de coisas miúdas que nada tinham a ver com os ideias revolucionários, PSD ou Juracy Magalhães, e sim com razões internas à política na cidade ou mesmo de natureza pessoal, algumas delas existentes mesmo dos anos de 1930. Em 26 de setembro de 1936, o então Prefeito e a Câmara Municipal de Feira de Santana discutiram sobre a adoção de serviços de água e esgoto na cidade. Nesse sentido, Carvalho providenciou, não tivemos como precisar sobre quais meios, a vinda de maquinário apropriado para a sondagem de possíveis olhos-d'água em Feira de Santana. Essas sondagens foram realizadas junto com desapropriações em diversos locais da cidade e, para que estas sondagens continuassem sendo feitas, o Prefeito solicitou à Câmara a abertura de um crédito suplementar no valor de vinte mil contos de réis que seriam usados nos exercícios de 1936 e 1937. 242 Na reunião da Câmara, em 13 de outubro do mesmo ano, este crédito foi aprovado e nos meses seguintes vários outros créditos suplementares foram demandados e assim como este, todos foram aprovados. O que aconteceu com essas especulações sobre possíveis mananciais na cidade e o real uso dessa verba permanecem desconhecidos, mas é fato que o abastecimento de água em Feira de Santana só foi instalado no final da década de 1950. Nos últimos anos de 1930, precisamente em 4 de março de 1939, o Sindicato dos Exportadores da Capital do Estado da Bahia, em especial os exportadores de fumo, publicou 242 Requerimento enviado à Câmara em 26 set 1936. Arquivo Municipal de Feira de Santana. 90 uma nota na Folha do Norte reclamando sobre o aumento do Imposto de Produção, alegando ser ilegal e que essa cobrança deveria ser feita do comerciante pois ―conforme o próprio nome está a indicar [...] deve ser pago pelo produtor da mercadoria, nunca, porém, pelo exportador‖. Na Folha do Norte de 11 de março de 1939, foi publicado o Ato de nº 9 do Prefeito Heráclito Dias de Carvalho, por meio do qual ele decretou a diminuição do imposto em Feira de Santana afirmando serem justas as reclamações que lhes foram dirigidas. Ficando estabelecidos novos valores para o referido imposto: 2 mil réis para o enfardador que beneficiar mais de 4.000 fardos; 1 mil réis para quem beneficiar até 4.000 fardos; 500 réis para quem beneficiar até 1.000 fardos. Carvalho utilizou a máquina burocrática em clara proteção do seu interesse econômico imediato, assim como os demais envolvidos na comercialização de fumo, ou seja, numa alarmente defesa de interesses de classe por meio do uso das prerrogativas do mandato o qual estava investido. Em 18 de março de 1939, a Folha do Norte divulgou uma nota sobre o empréstimo da Prefeitura tomado com a Caixa Econômica, no valor de 300 contos de réis, e que foram destinados para a construção dos currais modelo edificados de cimento armado e a balança que ―foi palco das maiores e mais movimentadas feiras de gado de toda História Econômica de Feira de Santana‖. 243 Segundo o jornal, esperava-se que esse empréstimo fosse investido na instalação do serviço de água e esgotos, o que não aconteceu. O empréstimo deveria ser pago em 10 anos a juros de 9%, com prestações semestrais. Como garantia a Caixa Econômica exigiu a hipoteca das citadas construções, recolhimento semanal da renda bruta dos currais e o produto líquido do imposto de indústria e profissões. 244 Um empreendimento de risco, mesmo com os promissores índices do desenvolvimento das atividades de comercialização do gado, que caso não viesse a dar certo poderia acarretar em altos débitos aos cofres municipais. Todavia, os currais modelos tornaram-se parte integrante do comércio de gado, carne verde e derivados em Feira de Santana e as normatizações impostas pelo formato dos currais não trouxeram muitas vantagens para pequenos criadores. Posteriormente a instalação dos currais modelo, precisamente em 1939, Heráclito Dias de Carvalho, por meio do Decreto Nº 3 proibiu o abate de gado no matadouro da cidade às aqueles não apresentassem sua taxa de registro e imposto de indústria e profissões, bem como cartão de inscrição para compra de selos do imposto de vendas à vista. Taxas, normas e outras obrigações que foram custosas e que, por conta disso, certamente restringiu o número de 243 244 FALCAO, João. A vida de João Marinho Falcão: vitória do trabalho e da honra. Brasília: Pax, 1993, p. 59. Folha do Norte, Feira de Santana. 18 mar 1939. N. 1549. p.1. 91 sujeitos que conseguiram persistir no comércio de carne da cidade, diminuindo progressivamente os pequenos concorrentes dos grandes comerciantes. 3.4 Outros espaços de poder em Feira de Santana Até os anos de 1937, os políticos da cidade mantiveram relações de proximidade política com o governo estadual, por meio da figura de Juracy Magalhães. Entretanto, com a implantação do Estado Novo, a política no país deu início a mais uma fase de reordenamento. Esse ordenamento em Feira de Santana apresentou suas distinções, promovendo novas tensões entre os conhecidos nomes da política local. Em particular, nos primeiros sete anos da década de 1930, os experimentados políticos feirenses conseguiram promover certa estabilidade política e o exercício da hegemonia. E a hegemonia política da classe dirigente, segundo Antonio Gramsci ―[...] caracteriza-se pela combinação de força e do consenso, que se equilibram de modo variado, sem que a força suplante em muito o consenso, mas ao contrário, tentando fazer com que a força pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados órgãos de opinião pública [...]‖ e ressalta que, pelo fato da hegemonia política apoiar-se nos partidos, não deixa de cruzar por diferentes meios e canais da sociedade civil. 245 A eleição de um prefeito e doze vereadores de um mesmo partido em Feira de Santana, partido do governador, proveniente de um segmento ao qual a classe dirigente feirense era opositora antes da Revolução de 1930, é a manifestação do resultado de um longo processo direção dessas lideranças na cidade. Mais uma essa classe vez colocou-se como desejosa de governar buscando atender às necessidades da população e continuou na direção da cidade legitimada pelo voto direto, balizada pela ―escolha dos feirenses‖. Segundo Gramsci, a hegemonia política é qualificada pelos aparelhos de hegemonia, ligados às práticas da classe dirigente, que é um [...] conjunto complexo de instituições, ideologias, práticas e agentes (entre os quais os ―intelectuais‖), o aparelho de hegemonia só encontra sua unificação através da análise da expansão de uma classe. Uma hegemonia não se unifica como aparelho a não se por referência à classe que se constitui em e através da mediação de múltiplos sub-sistemas: aparelho escolar (da escola à universidade), aparelho cultural (dos museus às bibliotecas), organização da informação, do meio ambiente, do urbanismo, sem esquecer o peso específico de aparelhos eventualmente herdados de um modo de produção anterior (tipo: a Igreja e seus intelectuais).246 245 246 GRAMSCI, op. cit., Volume 3, p. 95. Buci-Glucksmann, op. cit., p. 70. 92 Aliados ao governo do estado, a classe dirigente feirense utilizou-se dessa aproximação para negociar e disputar as múltiplas dimensões do poder na cidade a exemplo das escolas. A construção do consenso perpassa a utilização de aparelhos coercitivos dispostos pela força política, ao mesmo tempo desempenha sua força através dos aparelhos de hegemonia, de que também dispõe. A escola é um desses dispositivos que serve tanto para reproduzir a ideologia de uma realidade material da classe dirigente, quanto pode favorecer a crítica e a consciência da necessidade de superá-la. Local propício para ter sintonia com as ideias e valores que os segmentos dirigentes pretenderam difundir, ―socializando‖ um conjunto de normas sistematizadas e orientadas pelos dirigentes, que não ficaram restritos ao recinto escolar. 247 No pensamento de Gramsci há uma preocupação com escola e a questão educacional. Para o autor, discutir a escola em uma formação social capitalista é discutir hegemonia e, para tanto, centra suas análises sobre a função política da escola e a vê como um dos aparelhos de hegemonia, que assim como os partidos, os jornais, as revistas, são instâncias políticas por meio das quais a hegemonia é solidificada. A Escola Normal de Feira de Santana foi criada em 1 de julho de 1927 e foi a principal instituição de ensino na cidade até meados dos anos 1930. A inauguração da escola contou com a participação do Prefeito, representantes do governador, o diretor de instrução, religiosos, membros da escol feirense e a participação das filarmônicas 25 de Março e Euterpe Feirense. 248 A Feira culta deixou-se polarizar por intenso jubilo vendo traduzida para a realidade uma de suas lídimas aspirações – o instituto de ensino normal, aparelhamento indispensável a derrama de educadores, de tanto havermos mister para a alfabetização das populações rurais de que a urbes se viu a tornar centro e núcleo de irradiação intelectual. 249 A Escola Normal foi criada na gestão de Arnold Silva e durante o governo estadual de Francisco Marques de Góes Calmon, que se dedicou a criação de um sistema educacional para a Bahia, conseguindo a aprovação, após meses de debates, da Lei n. 1.846, de 14 de agosto de 1925. Essa lei foi admitida como a Reforma Anísio Teixeira, reconhecida como uma das mais respeitáveis reformas educacionais do Brasil da década de 1920. 250 Segundo Ione Celeste de Sousa, entre os anos de 1924 a 1928 Anísio Teixeira, quando foi Diretor de Instrução da 247 Ibidem, p. 69. SOUSA, Ione Celeste de. Garotas tricolores, deusas fardadas: as normalistas em Feira de Santana, 1925 a 1945. São Paulo: EDUC, 2001, p. 66. 249 Folha do Norte, Feira de Santana, 4 jun 1927, p. 1. 250 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 352. 248 93 Bahia, buscou renovar a educação no estado mediante o estabelecimento e institucionalização de exercícios e normas que unificassem e uniformizassem o ensino público. 251 Nesse período, a educação na Bahia foi organizada da seguinte forma: o governo do estado era responsável Escola Normal, pelo ginásio da Bahia e pelas escolas elementares da capital; aos municípios cabiam às escolas das cidades do interior e seus distritos. 252 Contudo, a instrução pública nesse período era paga, deixando de fora a maioria da população baiana da época. Dentro da proposta de reforma educacional, estava a criação de polos de instrução em várias localidades da Bahia. Quando a Escola Normal de Feira de Santana foi criada, houve relutância sobre a instalação, entre outros fatores, por ser tão próxima a Salvador. Entretanto, após discussões que problematizaram essa presença, a Escola Normal de Feira de Santana foi considerada como sendo uma escola voltada para a formação de professoras para o ensino na zona rural, que cobriria Feira e seus arredores. [...] A escola elementar rural deveria resgatar o homem do campo para a cidadania e para a vida coletiva, pela educação, que potenciaria as habilidades de cada elemento social. Porém, em razão do que considerava atraso no sistema de educação e da necessidade de recuperar o tempo perdido, o currículo das escolas normais do interior foi estruturado de forma mais curta, visando preparar mais rapidamente professoras para as carentes zonas rurais. 253 Demoradas e lentas modificações ocorreram na sociedade baiana e, entre elas, a formação de uma classe intermediária, que não possuíam longas linhagens de bens e buscaram a inserção na sociedade tendo como uma das estratégias a educação. Em Feira de Santana em particular, entre os anos de 1910 e 1920, cresceram os segmentos ligados ao capital comercial como já mencionados em outros momentos do texto, contudo, estes vinham de muitas famílias tradicionais da cidade. Até a criação da Escola Normal, esses segmentos enviavam suas filhas para estudarem na capital e a conclusão de seus estudos eram sempre noticiados pela Folha do Norte: Tendo alcançado boas notas em seus exames, diplomou-se aluna-mestra, no Educandário dos Perdões, a senhorinha Erundina Soares Boaventura, nossa contemporânea, filha da exmª srª d. Lydia Soares Boaventura. A nova aluna-mestra que já se acha entre nós desde o último sábado, nossos parabéns. 254 251 SOUSA, op. cit., p. 34. Idem, p. 35. 253 SOUSA, op. cit., p. 133. 254 Folha do Norte, Feira de Santana, 16 dez 1925. 252 94 Segundo Sousa, nesse período o ensino normal configurou-se como ―ensino de e para moças‖, a frequência passou a ser majoritariamente feminina. 255 A maioria das ―senhorinhas‖ feirenses que diplomaram-se na capital lecionaram em escolas públicas da cidade e formaram o primeiro quadro docente da Escola Normal de Feira de Santana. Entre elas Úrsula Martins da Silva, Esmeralda de Brito, Estefânia Menna, Sidronia Jaqueira, Regina Ferreira Vital e Esther Alves de Freitas. 256 O ingresso à carreira de magistério era por meio de concurso público, no qual os candidatos e candidatas submetiam-se às provas perante uma banca, em geral formada pelos professores da Escola Normal, todavia, não temos subsídios precisos sobre a forma de seleção desse primeiro quadro docente. Aprovados e aprovadas tomavam posse na cadeira na vaga para qual tinham se inscrito e, mais tarde, essa prática foi substituída por nomeações. Prática que discutimos adiante. Em 1935, por meio de decreto do governo estadual, a Escola Normal passou a chamar-se Escola Normal Rural e foi motivo de comemorações e uma reinauguração, que marcariam os ―novos tempos‖ para a educação na cidade. 257 Em 1934 foi criado o Ginásio Santanópolis, de propriedade de Áureo de Oliveira Filho, dentista e vereador da cidade. O ginásio possuiu o curso de humanidades, além do ensino de atividades práticas como agricultura e apicultura. 258 Duas escolas criadas na cidade entre os anos de 1920 a 1940 que foram de difusão da educação formal no Brasil, ―tendo as escolas normais como um instrumento de formação e constituição de práticas, atitudes e comportamentos‖, período em que os debates acerca dos rumos da educação no Brasil cresciam. 259 A partir das notícias na Folha do Norte e das correspondências trocadas entre Juracy Magalhães e membros da classe dirigente feirense como Arnold Silva, Eduardo Fróes da Motta, Heráclito Dias de Carvalho, Áureo de Oliveira Filho, Miguel Ribeiro, Gastão Guimarães, perseguimos pistas sobre de disputas nas instituições de ensino da cidade. Em 1934 Miguel Ribeiro e Gastão Clóvis de Souza Guimarães rivalizaram pela direção da Escola Normal calorosamente, com a intervenção de membros da classe dirigente e do próprio Juracy Magalhães. As discussões de Ione Celeste Sousa e uma carta de Arnold Silva para Juracy Magalhães, datada de 21 de agosto de 1934, sugerem alguns pontos acerca desta contenda. 255 SOUSA, op. cit., p. 39. Idem, p. 38. 257 ALMEIDA, Stela Borges; BARROS, Maria Lêda Ribeiro de. Escola Normal de Feira de Santana: fonte para estudo da História da Educação. Feira de Santana: UEFS, 1999, p. 3-4. 258 SAMPAIO, Gastão. Feira de Santana e o Vale do Jacuípe. Salvador, Bahia, 1982. p. 195. 259 SOUSA, op. cit., p. 17. 256 95 Segundo Sousa, a Escola Normal de Feira de Santana foi implanta com uma rígida disciplina coercitiva. Possuía um regulamento que detalhava o modelo de comportamento que tanto o alunado quanto professores e funcionários deveriam ter e, as infrações destas normas podiam ser pagas em multas pecuniárias ou punições morais. 260 Crimes e ―atos imorais‖ eram passíveis de eliminação e cancelamento de matrícula, contudo, não havia definições claras tipificando quais eram esses atos, o que permitia subjetividade em seus julgamentos. Fatores como gênero, idade, relações familiares e sociais, eram considerados durante os julgamentos de transgressões. Sousa aponta muitos episódios de problemas entre alunos, professores e funcionários que incidiam sobre as normas internas e que, a depender de quem estava envolvido, soluções diferenciadas foram adotadas. Em alguns casos de agressões de funcionários, boa parte de origem humilde, por estudantes membros da dita escol feirense, terminaram com repreensões destes de forma individual à portas fechadas e pedidos para que os funcionários agredidos fossem ―nobres e inteligentes‖ e que deixassem que fosse resolvido assim, por meio conversas, dando a entender que levando adiante e exigindo soluções mais drásticas eles poderiam estar trazendo problemas para si. Ou seja, retaliações aconteciam em algumas situações. 261 Fica evidente que os problemas ocorridos nas escolas iam além delas e assim também eram resolvidos, com envolvimento de sujeitos que não pertenciam ao ambiente das escolas, tendo influência direta da classe dirigente feirense, já que suas filhas e seus filhos recebiam tratamento diferenciado diante das violações às determinações das instituições. Mais tarde, parte desses envolvidos em contravenções nas escolas ocuparam o quadro docente da Escola Normal e do Ginásio Santanópolis e outros cargos públicos em Feira de Santana e região. As escolas da cidade trabalharam com os sujeitos que viviam a estrutura escolar, professores, alunos, funcionários, no entanto, algumas práticas e normas do cotidiano escolar tinham ressonância na sociedade, o que também fazia parte dos objetivos. Uma visão de mundo de ordem e desenvolvimento era propagandeada e sofria mudanças dependendo dos sujeitos envolvidos dentro e fora da escola. Os grupos dirigentes influenciavam o mundo escolar que, na sua essência, contribuiu para reproduzir a ordem social vigente na cidade ou vocalizavam interesses de classe, ainda que não fossem expostos como tais. As escolas regulamentavam sobre os horários, formas de sentar, levantar, roupas para cada horário e ocasião, pregavam sobre a idoneidade moral, hora a pátria. Modos de ―ser‖ que deveriam se estender além dos muros da escola. 260 261 Idem, p. 111. SOUSA, op. cit., 123. 96 Situações de desentendimentos ocorreram também entre funcionários e diretores. Em 1933, Arquimedes Guimarães, Diretor Geral de Instrução Pública da Bahia, convocou para trabalhar como secretária da Escola Normal, Melania Galvão. Segundo Arnold Silva ela desejava permanecer nesse cargo, mas ―ela incompatibilizou em absoluto com o diretor‖, Miguel Ribeiro. Este exigiu seu afastamento como uma ―providência indispensável à boa ordem e disciplina da casa‖ e Arnold Silva interferiu junto ao Interventor, para que ela fosse retirada do cargo. 262 Miguel Ribeiro foi conselheiro municipal em 1928 e possuía proximidades políticas com Arnold Silva, que tomou seu partido na briga. Em julho de 1934, Gastão Guimarães263, médico e professor, escreveu para Juracy Magalhães agradecendo sua penhora em efetivá-lo na direção da Escola Normal. 264 Dois dias depois, Miguel Ribeiro foi quem escreveu para o governador pedindo ―imediatas [e] radicais providencias desfazendo urgente atos‖, antes que Gastão Guimarães viesse a tomar posse. Segundo ele, efetivar Gastão Guimarães na direção da escola causou ―grande revolta [de] seus amigos políticos‖. 265 Esses episódios são mais um exemplo de que os sujeitos que não eram parte integrante do corpo escolar se envolviam constantemente nas questões da escola, exercendo influência direta sobre a organização da instituição de uma forma bem ampla. Áureo de Oliveira Filho e membros do diretório local do PSD intercederam junto a Juracy Magalhães para isenção da quota de fiscalização paga ao Departamento de Instrução Pública do estado no primeiro ano de funcionamento do ginásio. 266 Em uma longa carta a Arnold Silva, Áureo de Oliveira Filho listou o que segundo ele foram às razões para o pedido de dispensa: Daremos, para perfeita elucidação do que vimos alegando, um resumo das dificuldades até aqui vencidas em nossa empresa. Começas por adquirir uma área de terra com 8.000 metros quadrados, situada em um dos melhores pontos centrais da cidade e atendendo à todas as exigências do Departamento Nacional de Ensino, onde construímos quatro pavilhões de salas [...], atendendo os requisitos exigidos pela moderna pedagogia. Adquirimos mais, mobiliário moderno e adequado, laboratórios de Física, Química e História Natural, como V. Excia. teve oportunidade de conhecer, quando de sua visita ao nosso estabelecimento, onde deixou escrita ótima impressão que muito nos honra e desvanece. Deve ter compreendido V. Excia. quanto de materialmente temos empregado, não levando em conta nossas energias e o nosso esforço para dar à nossa terra uma fundação que 262 Carta de Arnold Silva para Juracy Magalhães em 21 ago 1933. Arquivo Pessoal Juracy Magalhães – Pasta Municípios – CPDOC. 263 SAMPAIO, Gastão, Op. cit., p. 195. 264 Telegrama de Gastão Guimarães para Juraci Magalhães, 18 jul. 1934. Arquivo Pessoal – JM – Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC. 265 Telegrama de Miguel Ribeiro para Juraci Magalhães, 20 jul. 1934. Arquivo Pessoal – JM – Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC 266 Telegrama do diretório local do PSD para Juraci Magalhães, 20 fev. 1935. Arquivo Pessoal –– JM. Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC. 97 lhe honre o progresso, que, digamos de caminho, para a nossa felicidade, tem sido considerável nestes últimos anos. 267 Nesse período o Ginásio Santanópolis contava com o auxílio do governo estadual no valor de dez contos de réis anuais. Valor que, segundo Áureo de Oliveira Filho, não pode ser de tanta ajuda devido às exigências do Departamento de Ensino Secundário para a criação das instalações do ginásio, embora tenha existido ainda auxílios também do governo municipal. Após suas exposições, Áureo de Oliveira Filho solicitou a Arnold Silva que intercedesse junto a Juracy Magalhães pela isenção da quota anual que seria paga a Inspetoria no valor de doze contos de réis e acrescentou que estava convicto [...] da eficiente e valiosíssima cooperação de V. Excia. junto ao Exmo. Camp. Juracy Magalhães, cuja visão bem clara das nossas necessidades vem caracterizando a diretriz da sua tão útil quão eficiente administração, não vacilará, estamos certos, de vir em nosso auxílio. 268 Solicitações como essa e de naturezas diversas, assim como, pedidos de indicações e de transferências de professoras para ambas as instituições, nomeações, criações de novas cadeiras destinadas a empregar familiares e pessoas com algum nível de proximidade com a classe dirigente de Feira de Santana, a exemplo dos recorrentes requerimentos de Arnold Silva a Juracy Magalhães para criar uma cadeira no distrito de Humildes, que seria destinada à professora Carmem Almeida Dias, natural de Feira de Santana, antes locada na cidade de Jacobina. 269 Pedido este, que foi atendido. Esses indícios nos possibilitaram levantar questões acerca das disputas pelo poder na cidade, que não se restringiram ao âmbito dos espaços oficiais da política, pois consideramos a escola como um dos espaços para a construção de consensos. 270 A escola na perspectiva gramsciana, mediante o que ensina, difunde e sedimenta concepções de mundo, algo relevante nas ações da classe dirigente. 271 No distrito de Humildes houve considerável número de adeptos do integralismo e que se opunham constantemente às lideranças feirenses, inclusive nas decisões referentes à Escola Normal incorrendo em disputas ―delicadíssimas‖, segundo os políticos de Feira de Santana. Logo, ―escolher a dedo‖ diretor, secretários, professores, delegados escolares, inspetores das instituições de ensino de Feira de Santana e seus distrititos tratava-se de parte da estratégia de 267 Carta de Áureo de Oliveira Filho para Arnold Silva. 29 ago 1934. Arquivo Pessoal –– JM. Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC, p 1- 2. 268 Idem, p. 3. 269 Telegramas de Arnold Silva para Juracy Magalhães em 11; 15 out 1934 270 BUCI- GLUCKSMANN, Christinne. Gramsci e o Estado. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 70. 271 GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a organização da cultura. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. p. 130. 98 dominação dos segmentos dirigentes da cidade, que dessa maneira podiam controlar o que e de que forma as ―visões de mundo‖ eram passadas dentro das escolas. Anos mais tarde, o Ginásio Santanópolis, permaneceu contando com a ajuda do governo municipal, como consta na Portaria Nº 261. Segundo o Prefeito José Berbert Tavares, o auxílio objetivava ―atender à eficiência pedagógica‖ realizada pelo ginásio, porém numa ordenação política diferente. Na década de 1940 os setores dirigentes de Feira de Santana já haviam cindido e a cidade foi governada por segmentos ligados ao governo de Getúlio Vargas e o ginásio, de propriedade de Áureo de Oliveira Filho, aliado político de Arnold Silva desde sua inserção na vida política da cidade, continuou recebendo esse benefício. Fica subentendido que Áureo de Oliveira Filho rompeu com Arnold Silva e consequentemente com Juracy Magalhães. A escola, como aparelho de hegemonia, é um campo da luta ainda que se constituam como espaços privilegiados da classe dirigente, pode ser também o lugar de antagonismos e embates. Por isso a classe dirigente de Feira de Santana explorou esses espaços, conquistando posições e desta forma difundia seus ideais como universais e isso é uma ação política. As instituições de ensino também foram moldadas pelas relações de poder e por elas articuladas, constituindo-se como um dos mecanismos de reprodução dos interesses e dos valores da classe dirigente. O acesso restrito às escolas, embora tenha havido bolsas de gratuidade, colaborou para que nestas instituições a participação de grupos oposicionistas fosse diminuto, amortecendo também as possibilidades de elaboração de concepções de mundo distintas à dos segmentos dirigentes. 99 4 DIVISÃO NA POLÍTICA FEIRENSE: rupturas e novas aproximações das lideranças política (1937 – 1945) ―O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o Art. 180 da Constituição, considerando que, ao promulgar-se a Constituição em vigor, se teve em vista, além de outros objetivos, instituir um regime de paz social e ação política construtiva‖. 272 O Golpe do Estado Novo, seguido da instalação do regime ditatorial, trouxe também outra disposição das forças políticas no Brasil. Segmentos políticos do país desmembraram-se em dois lados: os que foram a favor e os que foram contra o regime estadonovista, considerando-se as correntes heterogêneas dentro desses grupos. Neste capítulo, buscamos perceber como a classe dirigente de Feira de Santana se articulou com mais uma mudança de regime no país, sublinhando como as lideranças feirenses se apresentam ao fim da Era Vargas, nesse período marcado por tensões, críticas e conflitos de interesses. 4.1 A campanha presidencial de 1938 A Constituição de 1934 estabeleceu as novas eleições para a presidência da República e membros do Legislativo que deveriam acontecer em 3 de janeiro de 1938, após um mandato de quatro anos exercido por Getúlio Vargas, eleito de forma indireta. 273 Assim, o Superior Tribunal discutiu e aprovou as instruções para o pleito de 1938, as quais foram divulgadas em todo o país e os preparativos para a sucessão presidencial transcorreram. 274 José Américo de Almeida, o então Ministro da Viação do governo Vargas, aparecia como o candidato que teria o apoio do Presidente. Juracy Magalhães assegurou que, 272 Folha do Norte, Feira de Santana. 4 dez 1937. N. 1482, p. 1. Capítulo III – Do Poder Executivo. Do Presidente da República. Art. 52. O período presidencial durará um quadriênio, não podendo o Presidente da República ser reeleito senão quatro anos depois de cessada a sua função, qualquer que tenha sido a duração desta. § 1º A eleição presidencial far-se-á em todo o território da República, por sufrágio universal, direto, secreto e maioria de votos, cento e vinte dias antes do término do quadriênio, ou sessenta dias depois de aberta a vaga, se esta ocorrer dentro dos dois primeiros anos. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16 de julho de 1934. p. 24-25. 274 ―[...] somente poderão concorrer às aludidas eleições candidatos de partido já registrado ou de alianças de partidos cuja formação tenha sido previamente comunicada aos tribunais regionais ou de grupos de 200 ou mais eleitores que os fizer registrar, na forma do art. 167 do Código Eleitoral‖. Folha do Norte, Feira de Santana, 22 mai 1937. N. 1453. p. 1. 273 100 [...] desde a sublevação comunista de novembro de 1935 já tinha entrado em rota de colisão com setores influentes daquele núcleo por não haver cooperado com a polícia de Filinto Müller, ao ter ajudado seu irmão, Eliézer Magalhães, militante da Aliança Nacional Libertadora, a fugir do cerco repressor. Para, além disso [...], uma parte significativa dos militares que apoiavam o governo iniciaram um processo de dissensão com a continuidade de Vargas no poder, com todas as implicações político-econômicas que isso viria a ter. Assim, foi intentada uma articulação que Juraci Magalhães afirma ter iniciado em sua cabeça, que compunha uma lista tríplice a ser entregue a Vargas para acordar sobre a sucessão que deveria eleger um dos seguintes nomes como candidato de consenso: José Américo, Armando de Sales e Medeiros Neto.275 Conforme seu depoimento, Juracy Magalhães, procurou Getúlio Vargas para pedir autorização para trabalhar por uma candidatura de sucessão.276 Ainda segundo seu depoimento, Getúlio Vargas o levou a iniciar negociações com Armando Salles com o objetivo fazê-lo demover da sua candidatura e trabalhar por uma candidatura única. Todavia, o presidente autorizou, mas voltou atrás em sua decisão. Para Lima, a candidatura de José Américo apareceu como desestabilização já que veio depois e ainda por cima decompôs os setores que não desejavam a continuação de Vargas. 277 No mesmo depoimento Juracy Magalhães esclareceu a razão de não ter se voltado abertamente contra Getúlio Vargas. Segundo o antigo Interventor, era necessária uma explicação pública [...] para não parecer que eu tinha sido um ex-discípulo que se rebelava contra o mestre, o protegido contra o protetor. (...) Sua candidatura [Armando de Sales] tinha tomado uma conotação antigetulista e eu não poderia apoiar o Armando de Sales sem provar à Nação que tinha tentado uma solução em harmonia com o Presidente Vargas. 278 Manifestações de apoio à candidatura de José Américo foram expostas em diversos jornais do país, mostrando o apoio de diferentes estados, incluindo partidários do PSD da Bahia. 279 A Folha do Norte destinou muitas das suas matérias, a partir de junho de 1937, para tratar das eleições de 1938 e permaneceu apoiando os governos de Juracy Magalhães e Getúlio Vargas, divulgando, ainda, insistentemente, as qualidades de José Américo. Com a mesma regularidade que foram publicadas notícias sobre José Américo e os seus atributos para ocupar o cargo de Presidente da República, o jornal feirense apresentou notas 275 LIMA, op. cit., p, 26. MAGALHÃES, Juraci. Juraci Magalhães (depoimento). Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, História Oral, 1981. p. 157. 277 LIMA, op. cit., p, 27. 278 MAGALHÃES, 1981, op. cit., p. 158. 279 Com a manchete ―Em torno da sucessão presidencial‖, a Folha do Norte publicou as falas de apoio de vários estados a campanha de José Américo para sucessão presidencial. Folha do Norte, Feira de Santana, 3 jun 1937, N. 1459. p. 1. 276 101 depreciativas sobre Armando Salles, governador de São Paulo e principal opositor de José Américo na corrida presidencial. As notas sobre Armando Salles sempre traziam comentários sobre a ―má administração‖ dele em São Paulo e os ―prejuízos‖ que ele trouxe para a população daquele estado, ajuizando que não era esse o tipo de político que a população brasileira queria para liderar o país. Da estratégia de exaltar a figura de José Américo como o candidato ideal para suceder Getúlio Vargas, também fazia parte apontar a suposta ausência de preparo de Armando Salles, elaborando um discurso carregado de valores que eram difundidos com universais e desprovidos de quaisquer interesses, mas que objetivavam vocalizar na arena política interesses de classe e, para tanto, não apresentados como tais. Desde os primeiros aprontos para a eleição presidencial, pareceu claro que a disputa se travaria entre o ―candidato de Vargas‖ e a chapa de oposição. Os que, até esse período, integraram a rede de aliados de Getúlio Vargas trabalhavam pela campanha de José Américo. Por sua vez, a recém-formada União Democrática Brasileira (UDB) lançou o nome de Armando Salles, que havia sido nomeado o Interventor de São Paulo por Getúlio Vargas. O situacionismo de Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Bahia, com o apoio das bancadas do PRP e do PL gaúcho, firmavam-se pela candidatura de José Américo, que segundo eles, não se tratava somente de uma articulação política, mas de um desejo da população brasileira. 280 Uma matéria do Diário Carioca reproduzida pela Folha do Norte, afiançava que [...] a candidatura do ilustre Sr. José Américo de Almeida não é uma simples bandeira de luta das correntes políticas que a apresentaram. Ela tem uma expressão muito mais viva e muito mais alta, por que exprime a vontade soberana do povo brasileiro. Não se pode contestar esse aspecto magnífico que a campanha para a sucessão presidencial está apresentando. Bastará, para isso entrar em contato com as massas, com os humildes, com os trabalhadores, para se sentir toda a vibração cívica que os empolga, nesta hora decisiva para os destinos do Brasil. 281 E o texto prosseguiu afirmando que, [...] quarenta e seis anos de regime democrático despertam a consciência nacional. Os tempos em que os políticos faziam presidentes da República, usando de todos os processos de vilanias e de assaltos à verdade eleitoral, já se foram. A revolução de 1930 quando tivesse falhado em muitos dos seus objetivos por motivos que ainda é cedo para se apreciar em face da história, trouxe ao povo o despertar de uma 280 281 FAUSTO, 2006, op. cit., p. 78. PARA Frente. Folha do Norte, Feira de Santana, 31 jul. 1937. N. 1464. p. 1. 102 vontade e uma grande concentração de energias novas que já se têm feito sentir por mais de uma vez.282 Como assinala René Rémond, a campanha eleitoral é parte integrante da eleição; é o momento da manifestação das estratégias e, ao observá-la, percebem-se as mudanças a cada dia das intenções e também das relações de força, particularmente no período das eleições de 1938. Assim, torna-se interessante prestar atenção para os aspectos e o desenrolar dessa campanha presidencial na conjuntura em que ele aconteceu. 283 A campanha eleitoral seguiu num tom de conclamar o povo para unir-se por um objetivo que era ―seu‖: o de dar ao país um ―bom‖ presidente, que traria importantes ganhos ao país, assim como Vargas trouxe. Esse discurso objetivou construir na população feirense a vontade de tomar parte das decisões da vida política do Brasil e, está à altura, de substituir Getúlio Vargas dando seguimento à sua tão bem sucedida presidência, dando à política a aparência de universalista e formalmente aberta a todos. Não se tratou somente de apresentar os predicados de José Américo, mas também de estar fartamente enaltecendo a administração de Vargas, e que é esse o modelo de governo que o povo brasileiro aprovava e queria dar continuidade na figura de José Américo. Juracy Magalhães defendeu a realização de novas eleições para presidente e foi a favor da candidatura de José Américo, mas discordava da continuidade de Getúlio Vargas. Ao lado de Magalhães permaneceu a classe dirigente de Feira de Santana, que ocupava os espaços políticos da cidade antes da vitória da Revolução de 1930, e que neste período formavam a base aliada do governador. O PSD da Bahia convidou José Américo para a Assembleia Geral do partido, na qual aconteceu a homologação da sua candidatura à Presidência da República, em 25 de agosto de 1937 em Salvador. Nesse convite, o partido expressou seu apoio à sua candidatura e assegurou contar com a vitória certa. 284 Assinaram o convite Manoel Mattos Correia de Menezes, Gileno Amado, Antonio Ferrão do Amaral Muniz, Attila Amaral, Medeiros Netto, Marques do Reis, Pacheco de Oliveira, Prisco Paraíso, Manuel Novaes, Lauro Passos, Leoncio Galrão, Arthur Lavgine, Arnold Silva, Alfredo Mascarenhas e Clemente Mariani. Em 26 de agosto de 1937, no dia seguinte a visita a capital do estado, o diretório local do PSD, recebeu José Américo e prestou-lhe homenagens, para qual convidou a escol da sociedade feirense e ―o povo em geral‖. 282 Idem, p. 1. RÉMOND, René. Por uma História Política. 2ª Ed. Rio de Janeiro: FGV, 2003, p. 49. 284 O PSD da Bahia dirigiu um convite ao Sr. José Américo. Folha do Norte, Feira de Santana, 24 jul. 1937, N. 1462. p. 1. 283 103 Convite ao povo – O Partido Social Democrático, pelo seu Diretório local, tem a honra de convidar as Autoridades, representantes do Clero, Professorado, Diretorias, corpos Docentes e Discentes da Escola Normal Rural, Ginásio Santanopolis, Escolas Reunidas, Escola de Música, Filarmônicas locais e o povo em geral, para tomarem parte das homenagens que a Feira de Sant‘ Anna prestará ao grande brasileiro Ministro José Américo de Almeida, candidato nacional A presidência da República, quando da sua chegada a esta Cidade, no dia 26 do corrente as 15 horas. Sumamente gratos pelo comparecimento de todos. 19 de agosto de 1937. Arnold Silva, Elpídio Raymundo Nova, Heráclito Dias de Carvalho, Áureo de Oliveira Filho, João Barbosa de Carvalho, Américo Pedra, João Marinho Falcão, João Martins da Silva, Felinto Marques de Cerqueira, Manoel Mathias de Azevedo, Adalberto Constâncio Pereira, Gonçalo Alves Boaventura, Álvaro Simões Ferreira, José Pinto dos Santos. 285 A visita do candidato à Presidência da República, supostamente apoiado por Getúlio Vargas, dá amostras da relevância que a cidade possuía no contexto da política da Bahia e para a base aliada de Juracy Magalhães. Dentre os muitos municípios do país que tinham grupos políticos aliados ao governo estadual e federal, Feira de Santana foi um dos que mereceu a atenção especial de José Américo e daqueles que trabalhavam em sua campanha. Esse interesse em continuar promovendo alianças políticas nos âmbitos municipais, deixa clara a proeminência que os líderes locais permaneciam tendo mesmo após a vitória da Revolução de 1930. 4.2 Movimentações divergentes: A Ação Integralista Brasileira e o núcleo feirense Disputando as eleições presidenciais com José Américo de Almeida e Armando Salles, também estava Plínio Salgado, chefe da Ação Integralista Brasileira (AIB). Plínio Salgado foi jornalista e escritor de prestígio, vinculado à corrente modernista dos verde-amarelos. Em 1930 regressou de uma viagem que fez à Itália, durante a qual teve a chance de entrevistar-se com o líder máximo do fascismo, que triunfou em 1922, Benito Mussolini, e ficou impressionado com o regime em vigência naquele país. Organizou, então, o jornal A Razão e em seus editoriais ordenou as suas concepções políticas nacionalistas e antiliberais. No começo de 1932, Plínio Salgado iniciou a articulação com segmentos regionais simpáticos ao fascismo e, concomitantemente, fundou, no mês de fevereiro, a Sociedade de Estudos Políticos (SEP), agrupando intelectuais de disposições políticas autoritárias. Segundo Cristiano Cruz Alves, dentre os principais objetivos da SEP estavam à colaboração para construção da unidade nacional, o reforço da autoridade, a organização de todas as classes produtivas para o fortalecimento da nação e apoio ao pensamento político baseado nas 285 Folha do Norte, Feira de Santana, 21 ago 1937. p. 1. Assinam o convite além de Arnold Silva e Elpídio Nova, o prefeito e os doze vereadores eleitos pelo PSD na cidade, em 1935. 104 realidades nacionais. 286 O êxito dessas iniciativas levou à criação, em outubro do mesmo ano, da Ação Integralista Brasileira. Em 1932 foi lançado o Manifesto Integralista, que sistematizou os ideais do movimento: defesa do nacionalismo, com mais fundamentos culturais do que econômicos, corporativismo, luta contra os valores liberais e repúdio ao socialismo como modo de organização social. Plínio Salgado foi o chefe nacional de uma organização hierarquizada e que possuía símbolos e rituais que os identificavam, como o uso do uniforme verde, a letra grega sigma utilizada como emblema e a palavra ―Anauê‖ como saudação.287 Não era uma imitação do fascismo europeu, mas teve forte influência deste movimento político. Tendo como tema ―Deus, pátria e a família‖, a AIB cresceu rapidamente em todo o país. O número grande de adeptos fez com que ela fosse o primeiro partido de massa nacionalmente constituído do Brasil e, em maio de 1937, lançou Plínio Salgado como candidato à presidência.288 Os militantes da AIB, conhecidos também como ―camisas verdes‖, obviamente, apoiaram a candidatura de Plínio Salgado. Os grupos políticos que estavam no poder, e desejavam permanecer nele, sentiram a ameaça do movimento que contava com um número expressivo de adesistas. Juracy Magalhães, em Minhas Memórias Provisórias, admitiu que o integralismo teve grande repercussão na Bahia. Segundo ele, [...] compreensivelmente, aliás, porque a tendência estava em maré montante no mundo, com o Nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália etc. o movimento integralista criou muita força no Brasil, expandindo-se na Bahia de maneira relativamente fácil, porque conseguiu reunir os oposicionistas. Para meus adversários mais combativos, por exemplo, o caminho mais fácil era aderir a AIB, e este fato acabou me tornando o governador que mais aguerridamente lutou contra os integralistas. 289 Para Laís Mônica Reis Ferreira, ―nos anos 30 esse movimento representou um caminho político-ideológico da juventude brasileira‖. 290 Na Bahia, o integralismo disputou espaço com o socialismo, comunismo, liberalismo e outras correntes ideológicas. A sua expansão entre os estudantes universitários parece ter tido início a partir de 1933, durante uma visita de Plínio Salgado à Bahia. 286 ALVES, Cristiano Cruz. O integralismo e sua influência no anticomunismo baiano. Revista Antíteses. UEL. Vol 1, n. 2, jul – dez, 2008, p. 411. 287 FERREIRA, Laís Mônica Reis, 2009, op. cit. 288 TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 20-21. 289 ABREU, op. cit., p. 97. 290 FERREIRA, Laís Mônica Reis. op. cit., p. 24. 105 A chefia inicial coube a Messias Tavares, João Alves dos Santos e José Cesimbra. Sucedeu-lhes no posto de chefe único, em seqüência: Caldas Coni, Augusto Alexandre Machado, Messias Tavares, Milciades Ponciano Junqueira e Joaquim de Araújo Lima, que, finalmente, assumiu em abril de 1935 até o enceramento das suas atividades na Bahia, em setembro de 1936.8 A reabertura no estado se deu em junho de 1937, sob a chefia de Vitor Hugo Aranha, e seu encerramento se dá definitivamente, em âmbito nacional, em 10 de novembro de 1937, quando ocorreu golpe do Estado Novo. 291 Segundo Cristiano Cruz Alves, o integralismo conseguiu enraizar-se inclusive em sindicatos e associações de classe. 292 Para Laís Mônica Reis Ferreira, ―mesmo encontrando resistências, a Ação Integralista conseguiu obter rápido crescimento na Bahia. Segundo dados da própria AIB, em meados de 1936 haveria aproximadamente 46 mil integralistas no estado, distribuídos por mais de 300 núcleos municipais e distritais‖. Ainda mais intenso foi o crescimento no interior do estado, [...] em todas as regiões do estado foram fundados núcleos municipais e distritais, como nos municípios de Jequié, Poções, Rio Novo (Ipiaú), Ilhéus, Itabuna, Belmonte, Santa Inês, Lençóis, Miguel Calmon, Maragogipe, Santo Amaro, Muritiba, São Felix, Feira de Santana, Serrinha, Cumbe (Euclides da Cunha), Tucano, entre outros. 293 Na Folha do Norte pode-se notar uma preocupação, provocada pela AIB, nas constantes publicações acerca do movimento, tratando-o sempre como algo que ameaçava a ordem e a democracia no país. Aliando ao que era apregoado sobre o movimento integralista estiveram às colocações sobre os regimes totalitários europeus, particularmente manifestações antifascistas, e comunistas, ambas sempre depreciativas, na tentativa de construir nos leitores uma razão clara e forte para que os que não pertencessem ao movimento não aderissem a ele, e os que militavam, que o deixassem. Contudo, as ações de combate ao Integralismo em alguns momentos resultaram em confrontos na Bahia, segundo a mesma autora, muitas vezes, violentos. 294 A Folha do Norte publicou que ―o que vemos aqui no Brasil é um fenômeno de mimetismo ou macaqueação‖. E mais, que: [...] o nazismo na Alemanha perseguiu os católicos, perseguiu os protestantes, perseguiu os judeus, e logicamente, criando o ambiente anômalo, com a desgarantia de todos os direitos, está já no regime de razão para tudo. Na Itália não ha liberdade de pensamento, porque está tudo sujeito ao controle oficial da publicidade, e não ha liberdade de locomoção, porque ninguém tem o direito de emigrar do país. Ora, o que é um país onde não ha liberdade de pensamento nem liberdade de locomoção? 291 ALVES, Cristiano Cruz. op. cit., p. 412. Idem. 293 Idem, p. 26. 294 Idem, p. 25. 292 106 Portanto, movimento integralista no Brasil é um insulto a todo o nosso passado, e enxerto espúrio em nossa história, é macaqueação de fatos alheios ao nosso ambiente, pois aqui, no Brasil, nada ocorreu do que determinou na Itália e na Alemanhã tanto o fascismo quanto nazismo.295 Por ter sido um grande movimento de massas, a AIB preocupou os dirigentes políticos, particularmente nesse momento de eleições. Em Feira de Santana, houve um núcleo integralista, cujos principais líderes foram Dr. Juventino Pitombo, Rogério Pitombo, dentista, Dr. Targino Amorin, advogado, Dr. Honorato Bonfim, médico e professor, e Sílio Soledade, fazendeiro, dono das terras onde atualmente se localiza o bairro Chácara São Cosme. 296 Dr. Targino Amorin foi considerado como uma das importantes lideranças do movimento na cidade e a sua adesão ao integralismo foi de conhecimento da sociedade feirense, sendo inclusive noticiado na Folha do Norte, como indício da futura instalação de um núcleo integralista em Feira de Santana. Em meados de 1935, Cogita-se da fundação, nesta cidade, de um núcleo integralista, achando-se a frente do movimento nosso amigo e antigo colaborador Sr. Targino Amorin, talentoso advogado nos auditórios desta comarca. O ardoroso propagandista do Integralismo entre nós vem desenvolvendo grande atividade, tendo alcançado já adesão de muitos elementos sociais. 297 Ao publicar esta nota, em maio de 1935, período anterior às eleições municipais, o periódico não apresentou qualquer oposição a AIB, estabelecendo seu julgamento em oposição ao movimento somente meses depois. O Dr. Honorato Bonfim, que foi membro do comitê que trabalhou pela eleição de Julio Prestes e Vital Soares em 1930, num grande artigo publicado em 29 de julho de 1935, após o levante comunista, intitulado ―Pela defesa da família, da sociedade e da pátria‖, parafraseando o tema do movimento, numa gradação nitidamente integralista, assinalou que, [...] o comunismo é o espectro da fome, com a qual se não devem iludir as classes proletárias; é o polvo de enormes tentáculos, a querer asfixiar a vida coletiva perturbando-lhe a ordem social, a paz e a tranquilidade da família, que nele vê o maior algoz de suas vítimas, o maior dissipador de suas riquezas, o maior flagelo de seus entes mais queridos, o maior inimigo de Deus e da pátria. 298 295 O MOVIMENTO integralista. Folha do Norte, Feira de Santana, 24 jul 1937. N. 1462. p. 1. LAJEDINHO, Antonio do. A Feira da década de 30 (memórias). Feira de Santana: Mendes Costa, 2004; ALMEIDA, Osmar Damião de. Dicionário Personativo, histórico e geográfico de Feira de Santana. 3. ed. Gráfica Modelo: Feira de Santana, 2002. 297 NÚCLEO Integralista da Feira. Folha do Norte, Feira de Santana, 25 maio 1935, N. 1349. p. 1. 298 PELA defesa da família, da sociedade e da pátria. Folha do Norte, Feira de Santana, 20 jul. 1935. N. 1357. p. 1 e 4. 296 107 Os integralistas realizaram excursões organizadas pelo núcleo provincial, chamadas de ―bandeiras‖, que foram importantes na difusão do projeto integralista pelo interior na Bahia. Segundo Laís Ferreira durante a passagem destas ―bandeiras‖ ocorriam sessões doutrinárias, conferências, comícios, desfiles, nas ruas principais das cidades, formatura de milicianos entre outras atividades que avigoravam a propaganda integralista junto às populações do interior. 299 Entre 1935 e 1936, duas ―bandeiras‖ dirigiram-se para os municípios do Sul e do Recôncavo e, em julho de 1936, Feira de Santana foi visitada por uma ―excursão‖. 300 Sobre o núcleo integralista feirense, o memorialista Antonio do Lajedinho recordou que, [...] aqui em Feira o Dr. Juventino Pitombo, Sílio Soledade e outras pessoas de destaque assumiram a liderança e começaram a organizar o partido: inscrições dos adeptos com ficha completa, aquisição de fardas (sapato e gravata pretos, calça branca e a camisa verde com uma insígnia (um E ao contrário) no braço a exemplo dos Nazistas). Durante os fins de semana havia treinamento de ―ordem unida‖ onde aprendiam a marchar, fazer manobras e principalmente fazer a saudação – braço direito em horizontal para frente, mão espalmada voltada para baixo e a saudação em volta alta: ANAUÊ!!! Aos domingos promoviam festas que acabavam com desfiles e ―anauês‖. Nos feriados era grande a disputa por melhor colocação e destaque no cortejo. Deles havia os que usavam a farda durante todos os dias da semana pelos simples orgulho de ser integralista. 301 Antonio do Lajedinho relatou momentos em que os integralistas feirenses realizavam atividades em ruas da cidade e algumas delas contavam com o envolvimento da população e assim, concorriam com os partidários do PSD também pela simpatia e aceitação dos feirenses. Uma oposição aberta, mas que no início parece não ter sido levada a sério pela classe dirigente local que nesse momento não os hostilizou, assim como também não o fez a população, que assistia aos desfiles, disputando pelos ―melhores lugares‖. A AIB indispôs Juracy Magalhães, em especial no interior do estado onde seu esteio político era forte. No decorrer do ano de 1936, Magalhães afirmou-se como defensor do regime liberal-democrático representativo, daí conheceu a indisposição dos integralistas. Combater o integralismo tornou-se uma necessidade e, uma das maneiras com as quais o governador lidou com a questão, foi sugerir ao presidente Getúlio Vargas que proibisse a AIB, o que aconteceu tempos depois. 299 FERREIRA, Laís Mônica Reis. op. cit., p. 27. FERREIRA, Laís Mônica Reis op. cit., 2009, p. 26-27. 301 LAJEDINHO, Antonio do. A Feira da década de 30 (memórias). Feira de Santana: Mendes Costa, 2004, p. 58 300 108 Alguns outros participantes do movimento da AIB em Feira de Santana, considerando a sede e seus distritos, foram Fausto Pereira da Silva, Noberto Francisco de Oliveira, Mario Andrade, José Roque dos Santos, Archemedes Ramos, José de Almeida Sant‘Anna, Paulino Ribeiro da Costa, Justiniana Ribeiro da Costa, Luiz Dantas Carneiro, Betholdo Jonas Figueiredo, Silvano José Bastos, Chrispim Gonçalves Santos Manoel José de Britto, Melchiades, José de Oliveira, João Macaúbas, Francisco Souza Silva, Tiburcio Ramos de Cerqueira, João Macahubas, João Mendes Lacerda, Filinto Marques da Rocha, Victorio Manuel de Sant‘Anna, Mario Nunes Falcão, Aristides Bastos de Sant‘Anna, Bernardino Martins Moreira, Dionísio Coelho Vieira, Torquato Britto, José João Carneiro. Identificamos esses membros do integralismo em Feira de Santana, quando os ―camisas verdes‖ deixaram de fazer parte do movimento e apresentaram declarações de saída nas páginas da Folha do Norte. Várias notas públicas foram divulgadas no jornal, nas quais os participantes asseguravam abandonar o movimento integralista e davam explicações sobre as razões que os levaram a deixar a AIB. Esses anúncios sugerem que os que alardearam não mais fazer parte da AIB perceberam que a participação em um movimento que, em certa medida, ia de encontro ao governo de Vargas numa cidade que possuía grupos políticos que nesse momento apoiavam o governo federal, trar-lhes-ia dificuldades de acesso aos espaços políticos feirenses e /ou retaliações de natureza diversas. Em dezembro de 1935, o uso de camisas verdes e do símbolo do integralismo foi oficialmente proibido em Feira de Santana. 302 Nesta época, Arnold Silva era deputado federal pelo PSD, e Heráclito Dias de Carvalho era o prefeito de Feira de Santana. Ambos foram fortes lideranças na cidade, partidários do interventor, juntamente com outros nomes já mencionados. Exercendo mandatos políticos e somando-se suas influências no município, esse segmento político apresentou oposição a qualquer ocorrência que representasse determinado incômodo a seus interesses o que incluía o integralismo. Contudo, este incômodo se estabeleceu desde as eleições de 1935, como aludido no segundo capítulo. A oposição dos integralistas assinalava que, apesar de não ter havido modificações relevantes nos quadros políticos da cidade, conseguindo os mesmos grupos dirigentes que se mantiveram na direção após 1930 e esta classe ocupando boa parte dos cargos decisórios na cidade não conseguiu impedir expressões de resistência à sua hegemonia. José de Almeida Sant‘Anna, Paulino Ribeiro Costa, Justiniana Ribeiro Costa, outros membros da AIB, declararam que ―solidários com a atuação política e administrativa do 302 ESTÁ proibido o uso de camisas e insígnias integralistas. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 dez. 1935, N. 1379, p. 1. 109 deputado Arnold Silva e do prefeito Heráclito Dias de Carvalho, resolveram abandonar o integralismo, que pretende escravizar o Brasil ao Fascismo Internacional‖ 303 , se colocando ao lado dos líderes locais. O tom desta declaração, semelhante a outras tantas publicadas no mesmo jornal, aponta que não se tratava apenas de deixar o integralismo, e sim de trocar de direcionamento político e essa mudança também necessitava ser de conhecimento público. Mas mudar para onde? Deixar o movimento que trazia perigo ao país, pela ―real democracia‖ que regia o Brasil e ostentando adesão a classe dirigente de Feira de Santana ou, senão mudassem por eles, poderiam também fazer por medo de que os integralistas os substituíssem na cidade, pois as propagandas davam a ideia de um ―perigo‖ muito próximo. Nas afirmações de afastamento da AIB publicizadas na Folha do Norte, o integralismo foi descrito, pelos próprios membros, como um movimento que tinha pretensões de tirar a liberdade do povo brasileiro e trazia assertivas de que o projeto da liberal democracia era o melhor para o país, conforme asseguravam os antigos ―camisas verdes‖ Maria Andrade, Archimedes Ramos, Galdino Pereira Moraes e Pedro Alcântara do Nascimento: Venho comunicar ao publico e aos meus amigos que deixei de fazer parte do integralismo, por ter chegado à verdade de que o mesmo não convém ao nosso país. Estou com a liberal-democracia, único regime de liberdade e de progresso que deve ser abraçado e defendido por todo brasileiro. 304 Conhecendo que o integralismo é um partido de opressão e vinganças, retirei-me delle, certo de que só a liberal democracia nos convém. Deixei, portanto, saibam todos, de ser escravo de Hitler e Mussolini, tiranos estrangeiros que pretendem dominar o meu paiz com o concurso de indivíduos que pregam virtudes que nunca as possuíram. 305 Nós abaixo firmados, brasileiros, residentes nesta localidade, declaramos, que reconhecendo os grandes feitos verdadeiramente democráticos do ilustre Sr. Dr. José Américo de Almeida e do nosso grande benemérito Governador Juracy Magalhães, resolvemos por isso deixar as fileiras integralistas e filiar-nos ao pujante Partido Social Democrático da Bahia. 306 Comunico ao público e principalmente meus patrícios que, desligando-me do Integralismo, tornei-me um homem livre, pois desde que me alistei nas fileiras verdes fiquei reduzido à condição humilhante dos que são obrigados a obedecer cegamente. 307 Segundo os diretores da Folha do Norte, o povo brasileiro repelia qualquer tentativa intransigente de um estado totalitário e a Bahia estava na vanguarda da liberal democracia. 303 OS QUE deixam as fileiras verdes. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 ago. 1937, N. 1467, p. 6. Folha do Norte, Feira de Santana, 7 ago. 1937, N. 1465, p. 4. 305 OS QUE deixam as fileiras verdes. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 ago 1937, N. 1467. p. 1. 306 OS QUE deixam as fileiras verdes. Folha do Norte, Feira de Santana, 2 out 1937, N. 1473, p. 1. 307 OS QUE deixam as fileiras verdes. Folha do Norte, Feira de Santana, 21 ago 1937, N. 1467, p. 1. 304 110 Em Feira de Santana, mesmo com essas baixas do movimento integralista, que não sabemos até onde foram saídas reais ou forçadas, temos pistas que assinalam que o núcleo integralista permaneceu como um grupo forte de oposição à classe dirigente feirense. Nesse período, integravam o município de Feira de Santana os distritos de Santa Bárbara, Bom Despacho, Gameleira, São Vicente, Bonfim de Feira, São José das Itapororocas, Tanquinho, Humildes e Almas. Nas notas anunciadas na Folha do Norte, encontrei desfiliações em Riachão do Jacuípe, Bonfim de Feira, Almas, São José e Tanquinho. Por outro lado, não constatamos nenhum abandono das fileiras integralistas em Gameleira, Bom Despacho e Humildes. Em setembro de 1937, o então prefeito Heráclito Dias de Carvalho viajou ao distrito de Tanquinho, de onde era natural, para assistir ao exame das alunas da Academia de Corte, Bordados e Alta Costura, e foi procurado por membros da população local, que lhe fez queixas sobre filiados integralistas, que vinham causando ―sobressaltos e vexames‖ até altas horas da noite nas ruas do distrito. Após receber as denúncias, o Prefeito ordenou que fossem tomadas providências, que ocorreram por meio do acionamento da polícia e pedidos de prisões. Contudo, os integralistas conhecidos como João Redondo e Januário Pereira, saíram às ruas e enfrentaram a força policial e, depois deste episódio, foram decretadas as prisões dos militantes por desacato ao subdelegado de polícia, descritos pela Folha do Norte como dois ―petulantes adeptos do sigma‖. As ordens das prisões por sua vez foram recebidas de forma negativa pelos membros do integralismo feirense, que mostraram sua insatisfação deslocando para o distrito de Tanquinho certo número de membros do movimento que instalaram-se no núcleo integralista dali, segundo o mesmo jornal, ―numa franca atitude de acinte às autoridades constituídas‖. 308 Esse acontecimento aponta que em outros distritos de Feira de Santana as desistências podem ter diminuído as ações dos integralistas, porém não em Tanquinho. Os afastamentos do movimento que foram declarados no jornal Folha do Norte podem ter sido falsas desistências como também, podem ter sido num número insignificante diante da quantidade de membros adeptos ou, ainda, as lideranças do movimento podem não ter estado entre os que desistiram do movimento e conseguiram se rearticular em Tanquinho e depois em outras localidades, reconquistando membros e arregimentando novas filiações. Além disso, tal episódio é importante para ilustrar que em alguns momentos a luta política partiu para confrontos direitos como esse que acabamos de mencionar. 308 INTEGRALISTAS que perturbam a ordem pública. Folha do Norte, Feira de Santana. 25 set 1937, N. 1472, p. 1. 111 No distrito de Humildes não encontramos qualquer declaração de saída do movimento e, este distrito, foi um dos locais que mais incomodou a classe dirigente feirense devido ao número de adeptos do integralismo e da oposição que faziam ao PSD. E se não houve desistentes que se declararam na folha, muito provável que o distrito permaneceu hostilizando a classe dirigente feirense por um período mais longo do que em outros distritos. Não temos notícias a contento sobre as formas a partir das quais se davam essa oposição, mas segundo palavras de Arnold Silva telegrafadas a Juracy Magalhães, em Humildes perigavam os ―interesses do nosso partido nas próximas eleições‖, que foram as eleições municipais de 1935, demonstrando um risco real ao poder das lideranças feirenses. 309 Entretanto, apesar do temor de Arnold Silva, nesta eleição, o PSD conseguiu eleger todos os seus candidatos em Feira de Santana, apontando para a existência de uma política coercitiva, já que os integralistas que não aceitavam pacificamente os rumos apontados pelos grupos dirigentes locais não conseguiram alijar esses segmentos do poder na cidade. A partir de 1934 houve uma intensa campanha anticomunista no Brasil e, segundo Marly Vianna, com grande colaboração do integralismo. Segundo a autora, o movimento ampliava a campanha afirmando que combatia o regime comunista porque este queria tornar o Brasil uma colônia soviética, degradar as mulheres e destruir a família, dilatando a pretensa atmosfera de medo da população brasileira em relação aos comunistas. Foi nesse clima político que as forças antifascistas principiaram a sua organização. O movimento de oposição, bastante heterogêneo, tinha como vasto fator de integração o sentimento antifascista. A partir desta unidade básica, que se expressava no combate ao integralismo, dentro do país, e contra a guerra, no plano internacional, tornou-se provável estabelecer um programa de luta, que acabaria por conduzir à organização da Aliança Nacional Libertadora (ANL). 310 A história da ANL iniciou sua formação em meados de 1934 e seu lançamento em 12 de março de 1935. Segundo Marly Vianna, [...] foi o coroamento de um processo de lutas concretas, de organizações parciais, de acumulação de forças por parte dos setores antifascistas da sociedade. Passou pelas lutas grevistas reivindicatórias da classe operária, pelas discussões de programas de ação entre grupos e partidos de esquerda e pelos tenentes inconformados com os rumos que tomara o movimento de 1930 – lideranças, grupos e reivindicações que encontraram um denominador comum na luta contra o integralismo e a Lei de Segurança Nacional. 311 309 Telegrama de Arnold Silva para Juracy Magalhães em 11 out 1934. Arquivo Pessoal JM – Pasta Municípios. CPDOC. 310 VIANNA, op. cit., p 138. 311 Ibidem, p. 139. 112 Sob a inspiração do PCB e liderada por Luis Carlos Prestes, a ANL estabeleceu uma assumida oposição ao governo de Getúlio Vargas. Entre os principais pontos do seu programa figuravam o não reconhecimento da dívida externa; a nacionalização dos serviços públicos; a repartição de terras; garantia dos direitos dos trabalhadores; liberdades populares, inclusa a liberdade religiosa; o aniquilamento de privilégios de raça, cor ou nacionalidade. 312 Em poucos meses o movimento cresceu sensivelmente, tendo alcançado, conforme seus dirigentes, cerca de 100 mil membros. Na Bahia, segundo Tavares, a ANL foi oficialmente instalada em Salvador no dia 3 de maio de 1935 e foi organizada com muita dificuldade. A sua diretoria se reduziu ao advogado Edgar Mata, presidente, e ao engenheiro agrônomo Joaquim Seixas Vale Cabral, secretário-geral. 313 A AIB e ANL, cada uma com suas próprias formas de mobilização das massas, contribuíram para que o clima político tenso do Brasil desse período ficasse ainda mais agitado. Getúlio Vargas se aproveitou da situação para tomar medidas autoritárias. Assim, a ANL, [...] colocando nas ruas a presença política da esquerda e mobilizando efetivamente a população – mesmo que não predominantemente de trabalhadores – aguçava a questão comunista. Os corridos comícios e os choques violentos com os militantes da Ação Integralista Brasileira, também viçosa neste momento, indicavam o grau de radicalização e mobilização políticas a que se chegara o país.314 Em 4 de abril, alguns dias depois de um comício aliancista, Getúlio Vargas conseguiu do Congresso a aprovação da Lei de Segurança Nacional. Como o texto da lei era bastante impreciso, qualquer ato poderia ser avaliado como atentatório à segurança nacional e passível de penas rígidas. O movimento sindical operário experimentou a violência da lei, com a extinção da Confederação Unitária Sindical. A lei não atingiu, num primeiro momento, a Aliança Nacional Libertadora, mas visou, sobretudo, o movimento operário e o Partido Comunista do Brasil (PCB). 315 Para Getúlio Vargas, a formação da ANL representou uma manifestação aberta de que o comunismo iniciara uma investida para derrocar seu governo. Segundo Boris Fausto, era necessário ―cortar-lhe a cabeça de uma vez por todas, valendo-se de instrumentos já 312 FAUSTO, 2006, op. cit., p 72. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 406. 314 GOMES, 2007. op. cit., p, 177. 315 TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 17. 313 113 existentes, particularmente a Lei de Segurança Nacional, de abril de 1935, que definia os crimes contra a ordem política e social. Com base nessa lei, o governo dissolveu a ANL‖. 316 Precisamente, quatro meses depois de sua fundação, em 11 de julho, foi decretado o fechamento da ANL. A tentativa da chegada ao poder através de um levante armado, perspectiva presente na estratégia dos comunistas, concretizou-se em novembro de 1935. Com o apoio da Internacional Comunista, ocorreu em Natal, em Recife e no Rio de Janeiro, mas foi rapidamente controlado e os militantes e simpatizantes da ANL foram perseguidos e presos. Em 24 de novembro, como afirma Tavares, Juracy Magalhães, demonstrou seu apoio ao governo federal, através de decisões políticas e militares. Assim, mandou para Recife cunhetes de balas e um batalhão composto de soldados do 19º BC (Exército) e da polícia militar. Sob a sua direção, a bancada do PSD baiano na Câmara Federal aprovou por unanimidade o estado de guerra pedido pelo Presidente Getúlio Vargas. 317 As diversas notícias públicas em vários jornais do Brasil ajudaram com a agitação de propaganda sobre o levante, contribuindo para construir a resistência da população ao comunismo. A população mostrou-se alarmada, o que foi de grande valia para o governo que acrescentou mais emendas à Constituição de 1934 para endurecer o regime. 318 A Folha do Norte reproduziu uma entrevista dada por Filinto Müller, chefe da polícia do Distrito Federal, sobre a atuação da ANL. Segundo ele, ―nada mais é do que o desdobramento de um plano preconcebido e executado sob o total controle absoluto da 3ª Internacional [...]‖. 319 A malograda tentativa de insurreição, como afirma Carlos Zacarias de Sena Júnior, provocou a reação de parte da política do país. 320 Lideranças civis e militares, que passaram a ter os comunistas como inimigos. Segundo o mesmo autor, na Bahia houve relativa ―frouxidão‖ na repressão aos comunistas, em parte por conta do crescimento do movimento integralista no estado, penetrando em diversos setores. Assim, a vigilância do governo estadual foi voltada para as ações da AIB. 321 Getúlio Vargas conseguiu aprovar várias medidas repressivas como o decreto de estado de sítio em todo o território nacional. Acrescentou-se à coerção policial, que promoveu a prisão de envolvidos e simpatizantes do ANL, a apreensão de documentos em poder dos 316 FAUSTO, 2006, op. cit., p. 72. TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11 ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 408. 318 TOTA, op. cit., p. 18. 319 AS ATIVIDADES extremistas no Brasil – A ‗A.N.L não é mais do que a pele de cordeiro com que se veste o partido comunista. Folha do Norte, Feira de Santana, 20 jul. 1935. N. 1357, p. 1. 320 SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias F. de. Os impasses da estratégia: os comunistas, o antifascismo e a revolução burguesa no Brasil. 1936 – 1948. São Paulo: Annablume, 2009. p. 29. 321 Idem, p. 71. 317 114 dirigentes comunistas, que forneceu justificativa para a decretação do estado de guerra, de março de 1936 até o final de 1937, como divulgou a Folha do Norte: Recebemos hoje às 11 horas, o seguinte telegrama , procedente do Rio de Janeiro: Folha do Norte – Feira – Rio 1, as 23 hs. 30 m. Estado Maior Exército apreendeu impressionante documentação comprovando actividades comunistas pt. Agora, onze horas dez minutos da noite, Camara Deputados acaba approvar 138 votos contra 52 estado guerra todo território nacional prazo noventa dias. 322 Segundo Sena Júnior, nos tempos que se seguiram após 1935, [...] o que restou da organização partidária, submetido a quase dez anos de ilegalidade, foi muito pouco, não obstante os comunistas continuaram a atuar. Caçados implacavelmente como ―inimigos perigosos‖ do Estado, os comunistas brasileiros, e demais membros da ANL, procuraram refugiar-se como podiam diante da incansável polícia política de Getúlio Vargas e Filinto Muller, dois dos principais representantes do Estado autoritário que, àquela altura, já vinham montando um gigantesco e poderoso aparato repressivo para combater a atividade comunista no Brasil323. Na documentação examinada neste estudo não localizamos informações sobre a organização da ANL em Feira de Santana, embora existam notícias sobre a presença de um núcleo do PCB na cidade. 324 Em 1942, a Folha do Norte publicou que houve rumores na cidade sobre a vinda de panfletos avulsos de propaganda comunista, que chegaram pelo correio e que foram lidos por membros da população, mas não cita os nomes dos acusados ou qualquer outra pista que fosse possível perseguir, mas que sugere a movimentação de sujeitos que partilharam dos ideais comunistas em Feira de Santana. 325 No entanto, para a Folha do Norte, os integralistas e comunistas faziam parte de um mesmo ―mal‖ para a democracia do Brasil. Num artigo intitulado ―Os ‗verdes‘ e os ‗vermelhos‘‖, publicado no contexto dos movimentos para a eleição presidencial de 1938, a folha divulgou: [...] O Brasil poderá, amanhã, se submeter as cangas reacionárias da violência, depois que desaparecer a multidão impetuosa de seus filhos genuinamente democratas. A luta vai ser cruenta. Os ―verdes‖ e os ―vermelhos‖ são dois inimigos que se espreitam nos caminhos tortuosos do extremismo, para rasgarem a bandeira branca da nossa Democracia. Os ―vermelhos‖ estão abatidos pelas espadas imperdoáveis do nosso exército. Faltam os ―verdes‖. Estes são os inimigos número Um da Democracia. [...] Havemos de cravar no peito destes filhos desnaturados a clava potente, imudável da nossa vitória pela Democracia, porque a nossa linda Bandeira só 322 O ESTADO de guerra em todo território nacional. Folha do Norte, Feira de Santana, 2 out 1937, N. 1473, p. 1. 323 SENA JÚNIOR, op. cit., p. 29. 324 SENA JÚNIOR, op. cit., p. 98. 325 Folha do Norte, Feira de Santana. 13 jan 1944. N. 1801, p. 4. 115 tremulará num céu fascista ou bolchevista, quando ela for tingida pelas últimas gotas de sangue dos brasileiros democratas. 326 Esta nota comporta perceber que, nessa época, os setores dirigentes locais consideravam os comunistas ―vencidos‖, ou, ao menos, sem expressividade em Feira de Santana a ponto de representarem algum perigo, enquanto os integralistas significavam ainda uma ameaça concreta aos políticos de Feira de Santana, que se utilizavam do pano de fundo do movimento como ―ameaça nacional‖ para tentar diminuir as ações dos membros do integralismo na cidade, divulgando que se tratava de uma batalha pela defesa da democracia no Brasil. 4.3 O Estado Novo e a cisão dos segmentos dirigentes em Feira de Santana Envoltos num clima de instabilidade, os preparativos para a eleição presidencial continuaram. Lançadas oficialmente as candidaturas de Armando Salles, José Américo de Almeida e Plínio Salgado, esperava-se que a candidatura com o ―apoio‖ de Getúlio Vargas fosse a mais forte. Entretanto, era uma força apenas superficial, pois era Armando Salles que ganhava cada vez mais adeptos em torno do seu nome, enquanto José Américo, que não recebeu o esperado ―apoio‖ oficial, encontrou muitas dificuldades na campanha. Barbosa Lima Sobrinho, em um dos seus depoimentos dado ao CPDOC, apresentou alguns pontos acerca dos obstáculos de José Américo durante a campanha presidencial. Na sua campanha, José Américo começou a dizer realmente o que pensava, e assustou vários elementos. Era um homem, eu creio, cujas ideias sociais até mereceriam aplausos. Hoje não seriam condenadas, mas naquele tempo assustavam muita gente. Começou a assustar também o eleitorado das... Assustou várias correntes. Havia um certo ridículo em torno de algumas das suas expressões: "Eu sei onde está o dinheiro!" Ele disse isso em certa ocasião e deu motivo a muitas críticas à sua candidatura [...]. 327 O processo eleitoral foi esvaziado ao longo de 1937. Um dos fatores de influência foi a perseguição aos focos de resistência ao continuísmo promovida por Getúlio Vargas. Na Bahia, Juracy Magalhães se opôs ao projeto continuísta e, segundo Aruã Lima, Vargas estava ciente da decisão do governador desde 1936 e buscou dividir o PSD da Bahia, numa investida articulada por Agamenon Magalhães. Lima acrescenta ainda que, 326 327 OS VERDES e os vermelhos. Folha do Norte, Feira de Santana. 11 set 1937. N. 1470, p. 2. LIMA SOBRINHO, Alexandre José Barbosa. Barbosa Lima Sobrinho I (depoimento, 1977). Rio de Janeiro, CPDOC, 2005, p. 100. 116 [...] já a partir de 1936 a oposição a Magalhães na Bahia tinha ciência de sua discordância do presidente. Apenas grupos composto por sujeitos como Simões Filho tiveram posturas que lembravam os primeiros anos da década de 1930. Por outro lado, já era evidente que Otávio Mangabeira tinha ciência que o principal inimigo não era mais Juraci Magalhães, e sim, Getúlio Vargas. 328 Essa fissura no PSD baiano também se registrou em Feira de Santana, colocando em lados opostos velhas lideranças políticas. Além da força militar, o governo federal possuía outras ferramentas repressivas, tais como ―os dispositivos legislativo e jurídico, fundados na Lei de Segurança Nacional (LSN), de 1935, e no Tribunal de Segurança Nacional (TSN), de 1936, criados especialmente com a finalidade de prevenir e combater os sublevados contra o Estado‖. 329 O discurso acusatório do Estado proferido contra os comunistas constituiu-se como uma estratégia que desenhou o desfecho do golpe. Em setembro de 1937, os jornais noticiaram que havia sido descoberto um plano comunista para tomar o poder no Brasil, o forjado Plano Cohen, que contou com a colaboração direta dos integralistas e foi [...] apresentando pelas Forças Armadas como um plano de sublevação comunista eminente que ameaçava a ordem pública nacional. Apesar de vários parlamentares terem exigido provas que confirmassem tal conspiração, seus questionamentos permaneceram sem resposta, esmagados pelo argumento que alegava estarem as Forças Armadas fora de qualquer suspeição. 330 Com base no Plano Cohen, o governo pediu ao Congresso o retorno ao estado de guerra. A partir daí ocorreram várias prisões, Armando Salles foi constantemente vigiado pela polícia, as condições para uma eleição foram suprimidas e os boatos sobre o golpe atravessaram o país. Na busca de apoio para o golpe, Getúlio Vargas delegou a Negrão de Lima, ex-secretário da campanha de José Américo, à tarefa de percorrer os estados e consultar os governadores. Praticamente todos apoiaram o golpe com as exceções de Lima Cavalcanti em Pernambuco, e Juracy Magalhães na Bahia. A essas alturas, já com sua adesão declarada ao governo, os integralistas promoveram um desfile em homenagem a Getúlio Vargas, enquanto Plínio Salgado retirou sua candidatura. Um ato que demonstrou as aspirações de Plínio Salgado em ter algum nível de participação dentro do governo Vargas. Em 9 de novembro, Armando Salles escreveu um manifesto aos chefes militares e ―nele exprimiu a ‗inquietação dos que sentem outros graves perigos além do comunismo que conspiram contra a nação‘‖. 331 328 LIMA, op. cit., p. 27-28. SENA JÚNIOR, op. cit., 2009, p. 29. 330 GOMES, 2007, op. cit., p, 177. 331 FAUSTO, 2006, op. cit., p, 80. 329 117 O golpe, com data marcada para 15 de novembro foi antecipado e, em 10 de novembro o Congresso Nacional foi fechado e cercado pelo Exército. Às dez horas, a Carta de 1937, inspirada no regime da Polônia, de autoria de Francisco Campos, foi assinada por Vargas e por seus ministros, sendo implantado legalmente o Estado Novo. 332 O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil: [...] Com o apoio das Forças Armadas e cedendo às inspirações da opinião nacional, umas e outras justificadamente apreensivas diante dos perigos que ameaçam a nossa unidade e da rapidez com que se vem processando a decomposição das nossas instituições civis e políticas: Resolve assegurar à Nação a sua unidade, o respeito a sua honra e a sua independência, e ao povo brasileiro, sob um regime de paz política e social, as condições necessárias à sua segurança, ao seu bem-estar e a sua prosperidade. 333 A essência autoritária e centralizadora da Constituição colocou-a em reciprocidade com os padrões fascistas de organização político-institucional, rompendo com a tradição liberal dos textos constitucionais antes vigentes no país extinguindo as formas de representação autônoma dos interesses sociais. O regime buscou legitimação através do consenso, mas também da coerção, assim, o Estado deveria ser dirigido por um presidente forte, que teria de prevalecer sobre os poderes Legislativo e Judiciário. Para tanto, Getúlio Vargas dissolveu a Câmara, o Senado, as Assembleias Estaduais e as Câmaras Municipais, instalando um regime corporativista e ditatorial, com base na ideia fascista de papel hegemônico do Estado sobre os sujeitos e as instituições o sociais. À noite, justificou o golpe ao povo brasileiro falando no programa de rádio Hora do Brasil, e mais tarde jantou na casa do Embaixador da Argentina. Estabelecido o Estado Novo, Juracy Magalhães renunciou ao cargo de governador da Bahia, e na mesma noite do dia 10 de novembro despediu-se do povo da Bahia, por meio de um discurso lido nos microfones da Rádio Sociedade: A trepidação dessa hora não me permiti falar à Bahia com a profundeza e serenidade desejadas. Limito-me a dizer-lhe, a ela. ―Mater da nacionalidade‖, que não lhe maculei a honra cívica com atitudes diferentes dos anseios e cultura de seus filhos. Ao ato que neste instante se consuma no Brasil, opus, convictamente, todo o vigor do meu patriotismo. Que Deus se apiede do futuro da Pátria, única preocupação presente das atribulações do meu espírito.334 Após sua renúncia, Juracy Magalhães foi transferido para uma região de fronteira em Mato Grosso. Segundo Lima, ele protestou contra esta determinação e conseguiu entrar na 332 ARAÚJO, Maria Celina Soares D‘. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 1937. O Presidente da República dos. p. 21. 334 O NOVO Regime. Folha do Norte, Feira de Santana, 13 nov. 1937. N. 1479. p. 1. 333 118 Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Em 1938 concluiu o curso para no ano seguinte comandar o 1º Regimento de Infantaria, também conhecido como Regimento Sampaio, aquartelado na Vila Militar do Rio de Janeiro. Durante os anos de 1940, 41 e 42 fez o curso da Escola de Estado-Maior. Foi enviado aos Estados Unidos para treinamento. 335 Lima acrescenta ainda, que durante esse período, é provável que Juracy Magalhães passou a fazer parte da lista de informantes da inteligência dos Estados Unidos. 336 Trata-se de um período da vida de Magalhães em que as informações são escassas, inclusive no seu arquivo pessoal. No dia 11 de novembro, o coronel Antonio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Região Militar, assumiu o governo da Bahia, substituindo Juracy Magalhães. Arnold Silva, presidente do diretório do PSD em Feira de Santana, enviou a Juracy Magalhães um telegrama de solidariedade à sua renuncia, um dos primeiros anúncios de mais uma reordenação nas articulações políticas em Feira de Santana. Rio, 11 – Capitão Juracy Magalhães, Bahia – Momento querido amigo deixa o governo Bahia em cuja história inscreveu com inteligência honestidade patriotismo fase maior eficiente proveitosa atividade administrativa queira aceitar apertado comovido abraço expressão inalterável solidariedade grande obra política realizou – 337 Arnold Silva. Arnold Silva deixou a presidência do PSD, que foi extinto, e Eduardo Fróes da Motta, vice-presidente do diretório local, permaneceu como representante das forças que não romperam com Getúlio Vargas, antes aglutinadas no PSD e desfez a aliança com Juracy Magalhães. Heráclito Dias de Carvalho, eleito pelo PSD, por razões claras, foi afastado da prefeitura de Feira de Santana. Teodulo Bastos de Carvalho, médico e dono de indústria de manteiga e requeijão na cidade, foi indicado pelo governador para ser o novo prefeito de Feira de Santana. Bem próximo ao que ocorreu na cidade no período da vitória do movimento de 1930, com a deposição de Elpídio Nova, o sujeito instituído do mandato político de chefe do Executivo Municipal foi alijado no poder perante mais alterações na política nacional. Com o golpe do Estado Novo e o fechamento das Assembleias, Arnold Silva perdeu o seu mandato de deputado e ficou sem ocupar um cargo político, mas não deixou de fazer política. Em 31 de janeiro de 1941, ele mudou-se para Salvador, onde residiu durante um tempo, para administrar a Empresa de Carnes Verdes da Bahia, que sucedeu à Empresa Amado Bahia S. A. Juntamente com Arnold Silva, estiveram João Martins da Silva e João Marinho Falcão, todos na posição de sócios-gerentes, como já mencionado anteriormente. 335 LIMA, op. cit., p. 28. Idem, p. 29. 337 O NOVO Regime. Folha do Norte, 20 nov. 1937, N. 1480. p. 1. 336 119 Tanto João Martins da Silva, quanto João Marinho Falcão também integravam o PSD, que abandaram forçadamente no final de 1937. 338 Durante o período em que Arnold Silva se dedicou declaradamente ―apenas" à atividade comercial, o seu jornal permaneceu publicando notícias sobre Juracy Magalhães e sempre trazia notas em que a imagem do antigo governador continuou a ser exaltada. A folha permaneceu demonstrando ―apreço‖ pela figura do ex-governador da Bahia, o que sinaliza que os laços políticos entre Arnold Silva e Juracy Magalhães não foram desfeitos com a implantação do Estado Novo e o rompimento de Magalhães com Getúlio Vargas. Na gestão de Teodulo Bastos de Carvalho, que governou Feira de Santana de novembro de 1937 a julho de 1938, foi decretado o Código de Posturas pelo Decreto Lei nº 1, de 19 de dezembro de 1937. Criados em todos os municípios do país sob as orientações do governo federal, os códigos de posturas possuíram o objetivo de normatizar e vigiar o comportamento das pessoas, sendo parte do projeto político-ideológico do Estado Novo. ―A razão de Estado, máxima que rege o funcionamento do governo, supõe que o bem moral e a justiça sejam valores que possam ser criados pelo poder coercitivo do Estado‖. 339 Esse ―Estado Novo‖ que estava em formação, que iria levar o Brasil a uma fase de avanços em todos os campos da sociedade, precisava de um discurso que o legitimasse e divulgasse o regime, e construísse na população brasileira a importância de sua participação nesta tarefa, que seria de todos os brasileiros, marcando uma união entre as ordens políticas e sociais. Segundo Mônica Pimenta Velloso, a unificação dessas esferas, política e social, foi [...] defendida com base no argumento da identidade existente entre Estado e nação. Justifica-se, portanto, que a ―união‖ do político e do social não é arbitrária, posto que é fruto das aspirações sociais latentes. Neste sentido, o Estado é capaz de traduzir a ―vocação popular‖ consubstanciando em leis os instintos já existentes e consagrados na ―alma do povo‖. [...] o Estado, enquanto corporificador dos anseios sociais, deve exercer sobre a sociedade uma função sobretudo ―tutelar‖, garantindo a sua estabilidade e assegurando a paz social propicia ao desenvolvimento. 340 Ao assumir o controle da União com poderes totais, Getúlio Vargas utilizou a propaganda política como estratégia para o exercício do poder, comum aos ditadores das décadas de 1930 e 1940, mas até então não usual no Brasil. O Estado Novo foi o primeiro regime a ter uma preocupação efetiva com a autopromoção por meio do uso da propaganda 338 DESPEDIDA. Folha do Norte, Feira de Santana. 1 fev 1941, N. 1647, p. 1; EMPRESA de Carnes Verdes da Bahia S.A. Folha Norte, Feira de Santana, 19 abr 1941, N. 1658. p. 1. 339 OLIVEIRA, Lúcia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela Maria de Castro. Estado Novo: ideologia e poder. Rio Janeiro: Zahar, 1982, p. 55-56. 340 Idem, p 87-88. 120 voltada para a sociedade em geral, e para as massas em particular. O culto a personalidade de Vargas, a divulgação do projeto político-ideológico do novo regime foi respaldado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e pelo Ministério da Educação, em diferentes níveis de atuação. Graças ao monopólio dos meios de comunicação, exerce censura rigorosa sobre o conjunto das informações e as manipula. O poder político, nesses casos, conjuga o monopólio da força física e da força simbólica. Tenta suprimir, dos imaginários sociais, toda representação do passado, presente e futuro coletivos que seja distinta daquela que atesta a sua legitimidade e cauciona seu controle sobre o conjunto da vida coletiva. 341 O DIP era subdivido em seis seções, as quais apresentaram bem o poderio de intervenção do Estado Novo nos procedimentos sociais para a comunicação: propaganda, radiodifusão, cinema e teatro, turismo, impressa e serviços auxiliares, a exemplo de financiamentos de projetos. O DIP foi o órgão em que se deu a materialização do esforço do regime para controlar os instrumentos que foram os propagadores de um projeto políticoideológico que tinha pretensão de se afirmar como dominante, para tanto, a censura coibia qualquer manifestação contra o regime. Segundo Othon Jambeiro, a cultura passou a ser apreendida como uma ferramenta de organização política e disseminação ideológica. Vargas criou diversos aparatos culturais na estrutura do Estado que foram destinados a produzir e publicizar a ideologia do Estado Novo na sociedade. Assim, a maneira como o governo relacionou-se com os produtores culturais ganhou várias dimensões, entre elas a coerção e os apoios às atividades de cultura. 342 Velloso acrescenta que a cultura passou a ser concebida em termos de organização política, ou seja, o Estado criou seus próprios aparatos culturais, destinados a produzir e expandir sua compreensão de mundo para o conjunto da sociedade. 343 [...] Comparado com o nazismo, o Estado Novo tem uma política no campo estético que nada tem a ver com aquele. Enquanto o nazismo acaba com a chamada arte degenerada, o regime estado-novista convoca — tratando de cooptar, por certo — a vanguarda modernista, que representa um ponto alto e muitas vezes irreverente da cultura do país. 344 341 CAPELATO, Maria Helena. In: PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999. p. 169. 342 JAMBEIRO, Othon (Org.). Tempos de Vargas: o rádio e o controle da informação. Salvador: EDFBA, 2004. p. 12. 343 VELLOSO, op. cit., p. 72. 344 FAUSTO, Boris. In: PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999. p. 20. 121 No Estado Novo, uma aproximação entre o povo e o regime foi empreendida através do rádio. As quintas-feiras, Marcondes Filho ocupava dez minutos da Hora do Brasil irradiado pela Radio Nacional, a emissora de rádio de maior potência e a mais popular, no programa Falando aos Trabalhadores Brasileiros, produzindo mais de 220 discursos. Segundo Jambeiro, para tecer uma ideologia estadonovista aceitável pela população, o governo investiu significativamente na área da radiodifusão, patrocinando os programas mais populares e dos artistas, já então transformados em ídolos nacionais. 345 Para Lídia Lippi Oliveira, durante o Estado Novo não houve a produção de um discurso oficial. Assim, os discursos de Vargas é que foram muitas vezes adotados como os que mais se aproximam de um pensamento oficial, sem, contudo, terem assumido essa função patente. Os intelectuais que estavam direta ou indiretamente atrelados ao regime buscavam traduzir os pronunciamentos do presidente em palavras de ordem, em linhas de comportamento. E, nessa tarefa, transformaram-se em doutrinadores, em intérpretes da nova ordem. 346 Dentre esses intérpretes estiveram Almir de Andrade, Francisco Campos, Gilberto Freyre, Plínio Salgado, Augusto Capanema, Azevedo Amaral, que a frente de ministérios ou na direção de publicações culturais, podem ser citados como exemplos relevantes das múltiplas possibilidades na relação entre os intelectuais e o poder. Ainda que, em alguns momentos, produzindo reflexões distintas sobre a política nacional, possuíam a finalidade comum de legitimar o regime, seja por meio da tradição ou usando a modernização como justificativa para a construção de uma nação forte e o Estado é tido como o propulsor dessas mudanças, ou melhor, do condutor de um caminho que levava o Brasil de uma sociedade rural-oligárquica para uma sociedade urbana e industrial. Segundo Capelato, Nesse período, muitos veículos de comunicação acabaram aderindo ao poder para continuar usufruindo de suas benesses; os que não se dobraram a ele ficaram à mercê do controle da censura. Aos meios de comunicação cabia a tarefa de exaltar a figura de Vargas, não só como conciliador entre as classes e protetor dos oprimidos, mas também como realizador do progresso material, o que significava vencer o atraso. 347 A imprensa foi o setor mais eficiente do DIP, não diminuindo a relevância dos outros meios de comunicação. Foi voltada prioritariamente para o exercício da censura e da 345 Idem. p. 112. OLIVEIRA, Lúcia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela Maria de Castro. Estado Novo: ideologia e poder. Rio Janeiro: Zahar, 1982. p. 31. 347 CAPELATO, Maria Helena. O Estado Novo: o que trouxe de novo? In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge. O Brasil Republicano: o tempo do nacional-estatismo – do início da década de 1930 ao Estado Novo. Livro 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 118. 346 122 propaganda do regime, veiculou o discurso estadonovista notadamente nos jornais e revistas. 348 A Folha do Norte transcreveu uma nota em 8 de fevereiro de 1941, da União dos Jornalistas do Brasil (UJB), se mostrando favorável a maneira como Getúlio Vargas e o interventor de São Paulo, Ademar de Barros, tratam o jornalista e a imprensa. Segundo a nota, estes estadistas davam o verdadeiro valor à profissão. 349 Nesse período, Arnold Silva estava distanciado dos mandatos políticos e cauteloso em suas ações. O DIP para além de censurar a imprensa, ―sugeria‖ que alguns jornais publicassem matérias produzidas pelo departamento e os que se negavam a fazê-lo podiam ser retaliados com suas tiragens sendo inteiramente apreendidas e queimadas. Ou seja, o cenário exigia cuidado e polidez em cada palavra dita e escrita, especialmente para os donos de periódicos nesta época que só diziam o que ―poderiam‖ dizer. Um Estado organizador do seu povo em uma nação, direcionado para o homem, em particular para o trabalhador, ―expressão viva e máxima das possibilidades de desenvolvimento sócio-econômico‖, é como se divulgava o Estado Novo. 350 Propagava-se que as regulamentações dos códigos de posturas deveriam ser obedecidas não porque foram imposições da União, mas porque era importante a colaboração do povo brasileiro para com o seu país, defendendo a unidade da pátria. Contudo, a desobediência às determinações do código acarretaram algumas punições. Em Feira de Santana, a proibição de animais soltos nas ruas e praças da cidade, a exemplo de porcos, estava sujeito ao pagamento de multa, e os animais eram presos e abatidos. 351 Entretanto, o estabelecimento do código não modificou imediatamente as práticas da população feirense. Os animais continuaram a andar pelas ruas da cidade, alguns deles conduzidos pelos vaqueiros que permaneciam trabalhando com seus hábitos e costumes, o que por muitas vezes foi noticiado na Folha do Norte, num tom de desaprovação. 352 Também no início de dezembro de 1937, Getúlio Vargas decretou a extinção dos partidos políticos. O primeiro Artigo determinava que ―ficam dissolvidos, nesta data, todos os partidos políticos‖. Já o segundo, vedava ―o uso de uniformes, estandartes distintivos e outros símbolos dos partidos políticos, sejam quais forem os seus fins e denominações‖ 353 . A Ação Integralista Brasileira era um partido que apresentava exatamente as características proibidas 348 VELLOSO, op. cit., p. 73. CASA dos jornalistas. Folha do Norte, Feira de Santana. 8 fev 1941, N. 1648, p. 1. 350 Idem, p.122. 351 PREFEITURA Municipal – Aviso. Folha do Norte, Feira de Santana, 25 dez 1937, N. 1485. p. 3. 352 CONTINÚA o abuso – Rezes e boiadas continuam a transitar pela rua 24 de maio. Folha do Norte, Feira de Santana, 16 abr. 1938, N. 1501, p. 1. 353 A EXTINÇÃO dos partidos políticos. Folha do Norte, Feira de Santana, 4 dez. 1937, N. 1482, p. 1. 349 123 pelo decreto, o que inviabilizava, propositalmente, parte das ações integralistas. Finalmente, em 3 de dezembro, Vargas decretou a ilegalidade do AIB. Contudo, Sena Júnior afirma que, embora a AIB tenha tido o mesmo destino do seu extremo oposto, o PCB, foram os comunistas que permaneceram sendo os principais inimigos do Estado. 354 Quando posta na ilegalidade, a AIB passou a agir na clandestinidade e a organizou uma intentona contra Vargas. ―Em março de 1938, a polícia desmantelou uma tentativa de golpe: alguns líderes foram presos e outros, como Plínio Salgado e Belmiro Valverde, conseguiram fugir‖. 355 Segundo Levine: [...] Nas primeiras horas da manhã do dia 8 de maio de 1938, dezenas de integralistas armados tomaram de assalto o palácio do catete. Vargas, a filha Alzira e o staff pessoal do presidente foram forçados a se entrincheirar e, de suas janelas, revidar os tiros. Passaram-se horas em que os militares nada fizeram para intervir, embora houvesse sentinelas por perto e o comando militar estava, sem duvida, esperando para ver o que iria acontecer. Quando as tropas leais chegaram, o ataque foi rapidamente rechaçado. 356 Houve o fuzilamento de alguns participantes no próprio local, do levante conhecido como ―Putsch‖ Integralista. Vários integralistas foram presos na cidade de Salvador e nas maiores cidades do estado e os membros do movimento passaram a temer as perseguições do governo Vargas. Antonio do Lajedinho, relata que Getúlio Vargas [...] de posse dos fichários com os nomes e endereços de todos dos Integralistas do Brasil, com uma ação de longo alcance e extrema rapidez, em uma só noite mandou fechar todas as sedes e prender, em suas residências, todos os Integralistas. Aqui em Feira muitos carros ocuparam a cidade, silenciosamente, a partir das 22 horas e as 04 da manhã estavam todos presos. À medida que efetuavam as prisões a cidade ia acordando e as 04 horas às ruas estavam tão movimentadas como se fossem dia de festa, com uma tragicomédia pública: famílias em desespero, muita incerteza sobre o destino dos presos [...].357 Ao longo de 1937, dezenas de homens e mulheres de Feira de Santana, publicaram notas na Folha do Norte, divulgando as suas saídas do movimento integralista e declarando seu apoio ―a social democracia‖. Se ainda com as desistências declaradas, houve um considerável número de membros do movimento integralista para serem presos, uma breve análise desses episódios sugere que, ou foram falsas desistências, utilizadas como uma 354 SENA JÚNIOR, op. cit., p. 79. TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 25. 356 LEVINE, op. cit., p. 86. 357 LAJEDINHO, op. cit., p. 57. 355 124 estratégia política necessária ao momento da política local; ou era expressiva a quantidade de adeptos do integralismo em Feira de Santana. Com o afastamento de Juracy Magalhães do governo da Bahia, ―abria-se a possibilidade de um baiano assumir a direção política do estado. E de fato assim ocorreu‖. 358 O coronel Antonio Fernandes Dantas governou menos de três meses, até a nomeação de Landulpho Alves de Almeida, em 25 de março de 1938, que fica a frente do Executivo da Bahia até 1942. 359 Landulpho Alves era agrônomo, formado pela Escola Federal de São Bento das Lages, e era diretor do Departamento de Indústria Animal, órgão do Ministério da Agricultura, quando foi nomeado por Getúlio Vargas e, segundo Sena Júnior, procurou nomear um secretariado de ―técnicos‖ e ―apolíticos‖. 360 Em sua administração voltou à atenção para o desenvolvimento agrícola em dezenas de municípios do interior do estado, dentre eles Feira de Santana, reestruturou a Secretaria de Agricultura e estimulou a fruticultura e a produção do algodão. Sua nomeação teve boa receptividade na Bahia e em Feira de Santana, segundo demonstra a Folha do Norte e, ao que apontam as fontes, manteve aproximações com políticos feirenses, inclusive o Prefeito da cidade neste período, Heráclito Dias de Carvalho. Ao publicar uma reportagem sobre o novo Interventor, o periódico não deixou de enaltecer a figura de Getúlio Vargas e, mais precisamente, demonstrou não se opor ao novo regime e nem às decisões tomadas pelo presidente. Segundo o jornal de Arnold Silva e seus irmãos, a Bahia [...] não rejubila-se pelo simples fato de ser o novo interventor filho desta terra que serviu de berço ao expoente máximo da intelectualidade brasileira – Ruy – não; seria um bairrismo intolerável; Ella senti-se satisfeita porque a escolha do eminente Chefe da Nação recaí num civil que traz uma grande soma de serviços ao país, pela sua competência, inteligência e honestidade, e pela sua conduta elevada e desvelo pelas cousas públicas, principalmente pelos interesses da sua terra natal [...].361 Para Tavares, durante sua gestão Landulpho Alves, investiu [...] na implantação de ―fazendas experimentais‖, destinadas a melhorar o plantel bovino para abate e a qualidade das vacas leiteiras, na construção do primeiro aviário da Bahia, em Feira de Santana, em desenvolver a lavoura algodoeira (um dos grandes problemas das fábricas de tecidos baianas era a falta de matéria-prima) utilizando mudas de algodoeiros mais resistentes a pragas e capazes de produzir fibras mais longas. Construiu usinas de beneficiamento de algodão em Feira de Santana. Criou feiras anuais para a exposição de gado no parque de Ondina em 358 SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e a construção do discurso historiográfico na Bahia (1930 – 1949). Salvador: EDUFBA, 2011. p. 40. 359 NOVO Interventor da Bahia. Folha do Norte, Feira de Santana, 26 mar. 1938, N. 1498. p. 1. 360 SENA JÚNIOR, op. cit., p. 79. 361 PARABÉNS à Bahia – O Novo Governador Bahiano. Folha do Norte, Feira de Santana, 2 abr. 1938, N. 1499. p. 3. 125 Salvador. Fez uma tentativa para assentar famílias imigrantes japonesas na Colônia Agrícola de Mata do São João. 362 O período da sua administração foi extremamente importante para uma fração dos grupos dirigentes de Feira de Santana, cidade que tinha na pecuária e no comércio a base de sua economia. A prioridade dada pelo interventor para melhorar as condições da criação de gado beneficiou diretamente Arnold Silva, João Martins da Silva e João Marinho Falcão que administravam a Empresa de Carnes Verdes da Bahia, assim como a Eduardo Fróes da Motta, outro criador de vulto. Durante os anos de 1930 a 1937, no breve período de funcionamento do Legislativo feirense, João Martins da Silva foi membro da comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura, que tratava direta e indiretamente sobre a atividade econômica a qual ele foi ligado. 363 A feira de gado que acontecia no parque de Ondina, criada por Landulpho Alves, teve ressonância no comércio de gado dos sujeitos acima mencionados. João Martins da Silva foi dono de uma fazenda no caminho Feira-Salvador, atual BR-324, doada para a prefeitura de Feira de Santana para ser também um parque de exposição de gado que recebeu posteriormente o seu nome. 364 Possivelmente a sistematização da antiga ―Feira de Animais Vivos‖, que acontecia semanalmente na cidade no Campo General Câmara e abrigou criadores e negociadores de gado de Feira de Santana e região. 365 As iniciativas implantadas pelo governo de Landulpho Alves corresponderam objetivamente aos interesses econômicos de uma fração dos segmentos dirigentes feirenses e também a outros setores ligados ao comércio de gado. Segundo a Folha do Norte, o Interventor prometeu tabelar os preços do novilho de açougue em Feira de Santana e em outros mercados e, em meados de 1942, esse tabelamento não havia sido efetuado, sendo alvo de críticas de diversos jornais da Bahia. 366 Uma medida que possivelmente traria implicações para os pequenos criadores em geral. A normatização seria aplicada em todo o estado, o que interessou aos comerciantes de gado e carne verde de Feira de Santana, haja vista que o grosso dessa produção não era consumido na cidade e, sim a outros mercados. Em 6 de julho de 1938, Heráclito Dias de Carvalho,que foi eleito pelo voto direto em 1935 e retirado do cargo pelo golpe do Estado Novo, foi nomeado pelo Interventor como o 362 TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Bahia. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2008. p. 426. Atas do Legislativo transcritas no jornal Folha do Norte entre 1930 e 1937. 364 No Parque João Martins da Silva até os dias atuais acontece no mês de Setembro a Expofeira, que foi ampliada para uma feira agropecuária considerada uma das mais importantes do Nordeste no ramo de agronegócios. 365 Folha do Norte, Feira de Santana, 14 ago 1937, N. 1466. p. 2. 366 Folha do Norte, Feira de Santana, 22 jan 1944, N. 1802, p. 5. 363 126 novo Prefeito de Feira. 367 No momento da implantação do Estado Novo, sendo Carvalho membro do PSD, e aliado de Juracy Magalhães que se opôs a apoiar Vargas no golpe, não possuía as condições políticas para ser mantido no mandato. Após um curto período, ele retornou ao cargo e exerceu o mandato de julho de 1938 até março de 1943 apontando seu rompimento com Juracy Magalhães e, também, com Arnold Silva. Na posse de Carvalho, Elpídio Nova ao cumprimentar o novo Prefeito também o fez ao ex-governador Juracy Magalhães. Em muitas outras edições do jornal, a Folha do Norte publicou frequentemente reportagens elogiosas a Juracy Magalhães, ao mesmo tempo em que anunciou as determinações e projetos do novo regime, enaltecendo-o. O comportamento de Elpídio Nova, assim como o do periódico Folha do Norte, apresentou indícios das recentes correlações de força em Feira de Santana nos primeiros momentos do Estado Novo. O retorno de Carvalho à chefia do Executivo Municipal, pelo mesmo segmento político que pouco mais de sete meses antes o retirou do cargo, sinaliza as mudanças que ocorreram após a instalação do Estado Novo. O Prefeito deu sucessivas demonstrações de permanecer ligado aos setores que defendiam a política varguista. Em 1939 solicitou a liberação de crédito especial para a aquisição da obra Nova Política do Brasil, de autoria de Getúlio Vargas, e teve sua solicitação aprovada. 368 Também em 1939, o então Interventor Landulfo Alves, sob pedido do Ministério da Marinha, exigiu a quantidade de ferro velho existente nos estoques dos municípios baianos. Carvalho atendeu ao pedido, enviou o relato do estoque feirense e pediu à população que colaborasse com essa ―obra de profundo espírito patriótico, remetendo ao depósito municipal qualquer quantidade de ferro velho, que por ventura esteja em sua posse‖, o que foi feito. 369 Embora não tenha declarado abertamente nesse período, está implícito que Carvalho continuou coligado com Eduardo Fróes da Motta e rompeu com Arnold Silva que passou a ser opositor do governo Vargas após a instalação do Estado Novo. Curiosamente, a Folha do Norte não publicou, nessa época, falas depreciativas sobre a administração de Heráclito Dias de Carvalho. Em 21 de janeiro de 1941, o Interventor Landulpho Alves visitou Feira de Santana, permanecendo na cidade por alguns dias. Na sua chegada recebeu homenagens dos políticos da cidade, incluindo a colocação do seu retrato no salão do Paço Municipal seguida de ―animadas danças e farta distribuição de bebidas finas, até o amanhecer do dia imediato‖. No 367 GOVERNO do Município – O segundo prefeito da Feira depois de instituído o Estado Novo. Folha do Norte, Feira de Santana, 9 jul. 1938, N. 1513, p. 1. 368 Folha do Norte, Feira de Santana, 14 jan 1939. p. 4. 369 Folha do Norte, Feira de Santana, 11 fev 1939. p. 3. 127 dia seguinte o Interventor inaugurou a Estação de Avicultura do Estado, com capacidade para 20 mil aves, e a Usina de Beneficiamento de Algodão. 370 Contribuições importantes para atividades comercias da cidade que vinha alcançando constantes números de crescimento. Meses mais tarde após esta visita do Interventor à cidade, foi criado em Feira de Santana o Rotary Club, segundo a Folha do Norte em 2 de abril de 1941. 371 As primeiras reuniões para a organização da nova unidade em Feira de Santana aconteceram na casa de João Marinho Falcão, ligado ao comércio de gado e alimentos, que se tornou o primeiro presidente da instituição. 372 O Rotary Club se definiu como uma organização de líderes de negócio, empresários e profissionais, que buscou se integrar à comunidade ―com o único objetivo de servir desinteressadamente‖. Localizado em uma cidade com as atividades comercias em acelerado desenvolvimento, o Rotary Club de Feira de Santana, teve entre os primeiros membros o acima mencionado João Marinho Falcão, Heráclito Dias de Carvalho, Áureo de Oliveira Filho, Eduardo Fróes da Motta, Gonçalo Alves Boaventura, Álvaro Rubem, Dival Pitombo, Sérgio Meira Góes, Pedro Carvalho, Coriolano Carvalho, Luiz Azêvedo, Edgar Britto, Hermínio Santos, Armando Oliveira, Humberto de Alencar, Joaltino Silva, Renato Sá, Clovis Amorin, Carlos Cajazeira, Clovis Silveira Lima, Guilherme Azêvedo, José Britto. 373 Alguns desses nomes aparecem pela primeira vez no texto. Entretanto, outros nomes são conhecidos da política feirense, já recorrentemente citados. Chamamos atenção para o fato de Arnold Silva e João Martins da Silva não terem integrado a unidade rotatória de Feira de Santana, o que ratifica a separação dos segmentos dirigentes locais e sinaliza possíveis motivações para a ruptura, o que seriam divergências relacionadas às suas atividades comerciais e não necessariamente discordâncias no plano da política brasileira de maneira mais ampla. Neste mesmo ano, Arnold Silva, João Martins da Silva e João Marinho Falcão eram sócios da empresa de Carnes Verdes da Bahia, sediada em Salvador. Não temos pistas sobre a continuidade ou dissolução dessa sociedade, mas o fato de João Marinho Falcão integrar conjunto dos membros do Rotary Club, ao lado de sujeitos que nesse momento eram adversários de seus sócios, aponta que em Feira de Santana os interesses pessoais, na maioria vezes, suplantavam as questões políticas, haja vista que João Marinho Falcão continuou 370 ESTEVE nesta cidade, acompanhado de numerosa e ilustre comitiva, o sr. Interventor federal. Folha do Norte, Feira de Santana, 25 jan 1941, N. 1646, p. 1. 371 Folha do Norte, Feira de Santana, 5 abr 1941, N. 1656, p. 1. 372 DAMIÃO, op. cit. 373 Folha do Norte, Feira de Santana. 5 abr 1941, N. 1656, p. 1. 128 mantendo algum nível de relação com as frações dos setores dirigentes feirenses que não se opuseram ao governo de Getúlio Vargas, indo contra a ordem estabelecida quando da instalação do Estado Novo: Arnold Silva e João Martins da Silva não mantinham mais coligações políticas com boa parte dos sujeitos que compuseram o quadro do Rotary Club de Feira de Santana. O ano que se seguiu, 1942, notadamente devido à conjuntura internacional, é um ano importante na análise do Estado Novo. Nessa época, o regime deu os primeiros sinais de esgotamento, defendido como uma ―democracia autoritária―, mas que foi endurecido, tornado-o mais mobilizador. 374 A possibilidade do Brasil se manter alheio em relação aos principais países envolvidos na Segunda Guerra Mundial foi redefinida. Segundo Gomes, [...] desde o ano anterior, particularmente no decurso de seus meses finais, haviam aumentado as pressões americanas junto ao governo brasileiro. As cartas da barganha política estavam na mesa. Elas consistiam, por parte dos Estados Unidos, no interesse pelo Nordeste brasileiro como local para a instalação de bases militares estratégica, e por parte do Brasil, na obtenção de recursos materiais visando a instalação do projeto siderúrgico de Volta Redonda e o reequipamento do Exército. 375 Em 31 de dezembro de 1941, Getúlio Vargas enfatizou em seu discurso a importância da solidariedade continental, dando sinais de um possível alinhamento com os Estados Unidos. Segundo Antonio Pedro Tota, [...] Vargas soube tirar proveito das contradições entre o imperialismo alemão e o norte-americano, através de uma política externa, conhecida como pendular. Sua habilidade foi suficiente para se manter numa eqüidistância relativa entre as duas potências, apesar das tendências nazi-fascistas de alguns elementos do primeiro escalão de seu governo, como era o caso de Filinto Müller.376 Contudo, quando se tratou de efetivar o projeto da construção da Siderúrgica de Volta Redonda, a política pendeu vigorosamente para o lado dos Estados Unidos. Os regimes da Alemanha, Itália e Japão passaram a ser criticados constantemente como aqueles que ameaçavam a liberdade e a paz mundial. Segundo a Folha do Norte, a América, em especial a América do Sul, era ameaçada por esses regimes por estarem ―no primeiro plano de suas preocupações‖. Essa apreciação que exibi os regimes totalitários como o ―inimigo‖ foi finalizada com amostra de quem viria a ser o salvador do continente, caso a guerra ―chegasse aqui‖. Getúlio Vargas afirmou que ―compreendendo essas ameaças que pairam sobre o 374 FAUSTO, 2006, op. cit., p. 139. GOMES, Angela Maria de. A invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 2007. p. 182 – 183. 376 TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 50. 375 129 continente, é que se compreende a importância da luta que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos travavam pela liberdade. Não só da liberdade deles, mas também da nossa‖. 377 Entre 15 e 18 de janeiro de 1942, foi realizada no Rio de Janeiro a Terceira Reunião de Consultas dos Ministros das Relações Exteriores. Neste encontro, a orientação dada foi a de rompimento com os países do Eixo, o que aconteceu formalmente em 28 de janeiro de 1942. Alegou-se, como divulgou a Folha do Norte, que o conflito não era somente uma guerra europeia, [...] como as outras anteriores, com a qual nada tem que ver os americanos. Ela é a tradução de uma crise mundial da civilização. É indivisível. Não pode ser encarado em termos diferentes no Pacífico ou no Atlântico. É um só bloco e a sua solução deve ser total. Os campos de batalha é que são em diversos pontos do globo [...]. As frentes de batalha variam, porém o combate é o mesmo. A guerra como a crise é indivisível. Não há guerras locais. [...] Não é possível a neutralidade a esta altura, diante do crime. [...] O conflito é mundial, é total. Só os cegos não querem ver. 378 Com o rompimento, seguiram-se os conhecidos torpedeamentos de navios brasileiros pelos submarinos alemães. A União fez as seguintes recomendações, publicadas na Folha do Norte, de que fossem impedidas a distribuição de escritos nas línguas dos países com os quais o Brasil rompeu relações; proibiu que fossem cantados ou tocados os hinos desses países, assim como saudações peculiares a eles; os idiomas desses países não podiam ser utilizados em conversações em locais públicos; manifestações públicas de apoio a causa desses países seriam punidas com detenção; os naturalizados desses países seriam dispensados de cargos públicos e foi proibida a exibição de retratos de forma ostensiva de membros do governo desses países. 379 Nesse período, os Estados Unidos buscaram aumentar as suas aproximações com o Brasil e, para tanto, fizeram-se presentes também no campo cultural com o envio da Missão Rockfeller.380 Em março de 1942, a Folha do Norte divulgou alguns pontos de um artigo divulgado na revista norte-americana Political Digest, no qual, após ―rigorosa‖ investigação, os Estados Unidos descobriram planos de conquista dos países do Eixo e entre os cobiçados estaria o Brasil. Segundo o jornal: [...] Não há dúvida de que somos objeto de indisfarçável ambição. Possuímos um tesouro de matérias-primas indispensáveis à continuação da luta que causa ansiedade 377 AMEAÇAS totalitárias sobre as Américas. Folha do Norte, Feira de Santana, 3 jan. 1942, N. 1695. p. 3. A GUERRA indivisível. Folha do Norte, Feira de Santana, 17 jan. 1942. N. 1697. p. 1. 379 PROVIDENCIAS especialmente recomendadas pelo Governo da União. Folha do Norte, Feira de Santana, 31 jan. 1942, N. 1699. p. 1. 380 TOSTA, op. cit., p. 53. 378 130 a qualquer beligerante, máxime àqueles que adquirem as suas necessidades por meio de violência, de assaltado e invasão. Todo cuidado é pouco. Os brasileiros precisam se arregimentar incontinente afim de que possam enfrentar a execução dos projetos criminosos dos nazistas e nipônicos que não fazem cerimônia ao avançar vergonhosamente naquilo que não lhes pertence. O Brasil está no plano. Portanto, cabe aos brasileiros a missão de neutralizar, aniquiliar e tornar infrutífero esse plano. 381 Nessa época a posição do Brasil era indefinida, contudo as discussões com os EUA caminhavam. Nas palavras da Folha do Norte é possível inferir o tom de justificativa diante de uma adesão ao grupo dos países Aliados; um discurso que objetivava mostrar à população de Feira de Santana, e semelhante ao que aconteceu em vários lugares do país, contra o que o Brasil lutaria se entrasse na guerra. Entrar na guerra seria uma defesa da Nação. Esse era o tom propalado em diversos jornais brasileiros que estavam sob o julgo do DIP. 382 A Folha do Norte assinalou que, diante de ameaças eminentes, o brasileiro não poderia deixar de se defender contra ―o insulto de cobiçadores universais‖: [...] A história do Brasil é obra feita de sacrifícios que deverão ser eternizados por todas as gerações. Eis a suprema responsabilidade do povo brasileiro, que consiste em manter afastada sequer a possibilidade de uma ameaça e de um atentado. Não basta aplaudirmos as medidas de defesa empregadas pelo nosso sábio governo, é mister que cada um seja o vigilante, o soldado, o patriota que protege a nação contra os elementos dissolventes. 383 Segundo Gomes, em fevereiro de 1942 o exército norte-americano possuía um plano pronto de ocupação do Nordeste brasileiro e, em março, a permissão para o desembarque foi concedida por meio da negociação e liberação do empréstimo de 20 milhões de dólares e assistência técnica para a construção da Siderúrgica de Volta Redonda, a primeira deste porte na América Latina. Durante as negociações que precederam a tomada de posição brasileira, Góes Monteiro remeteu uma carta ao então Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, asseverando que o Brasil estava inteiramente despreparado para enfrentar a guerra, entretanto, sua opinião não foi acatada. O Brasil definiu dessa forma sua posição internacional. 384 Em agosto do mesmo ano Getúlio Vargas declarou guerra aos italianos e alemães e, no seguinte, criou o destacamento militar brasileiro: a Força Expedicionária Brasileira (FEB). O principal 381 INCLUÍDO o Brasil no plano das conquistas. Folha do Norte, Feira de Santana, 14 mar 1946. N. 1705, p. 1. Nessa época o DIP que se dizia preocupado em melhor atender ―aos interesses dos jornais‖ retirou a obrigatoriedade do registro dos jornais brasileiros junto à alfândega para a aquisição do papel com linha d‘água que era utilizado quase que exclusivamente por jornais de grande porte. A partir de março de 1942 havia a necessidade do registro ―apenas‖ no DIP e uma declaração do consumo do papel para que qualquer jornal comprasse o papel. UMA grande conquista para a imprensa. Folha do Norte, Feira de Santana, 14 mar 1942, N. 1705. 383 Folha do Norte, Feira de Santana, 24 jan 1942, N. 1698, p.1. 384 GOMES, 1989, op. cit., p. 183. 382 131 ato militar aconteceu na organização da campanha da Itália, em meados de 1944, na qual os brasileiros lutaram junto com as forças estadunidenses. Segundo Juracy Magalhães, o problema para a ida da FEB era a ―consecução dos vultosos recursos e materiais necessários para seu apetrechamento e deslocamento‖, somado à necessidade de reforçar as fronteiras brasileiras no Sul, mas que foram resolvidos com o auxílio dos Estados Unidos, diretamente interessado numa participação efetiva do Brasil no conflito. 385 Desde a entrada oficial do Brasil na guerra até o final desta, a Folha do Norte trouxe notícias sobre o conflito em todas as suas edições. Em alguns números, ocuparam a maioria do espaço físico do jornal, que nesse período produzia tiragens semanais e o uso de fotografias já era amplo. Temas como as novas armas utilizadas pelos Aliados, a inspeção da princesa Elizabeth aos batalhões ingleses, o desenrolar das batalhas, o sucesso dos que defendiam a liberal democracia e o esforço do Brasil na guerra foram trazidos aos leitores feirenses em artigos e várias fotografias. O confronto foi sempre divulgado como um esforço pela liberdade no Brasil e no mundo e, que para tal, era necessário o empenho de todos, a exemplo da citação anterior. Numa reportagem reproduzida na Folha do Norte, publicado no originalmente no United Empire em março de 1944, essa retórica esteve presente na fala de Osvaldo Aranha, na época Ministro do Exterior, em Washington: Não estamos empenhados em uma guerra de nações, ou de povos, ou de interesses. Estamos travando a batalha das nossas convicções individuais. Na verdade cada um de nós teve de tomar posição definida, porque nenhum homem pode ser neutro onde sua liberdade e seu destino estão em jogo. É impossível para quem quer que tenha experimentado a doçura da liberdade e vivido em harmonia com os seus semelhantes, lutar pelos que procuram anular as difíceis conquistas da raça humana e destruir os princípios básicos da nossa civilização, a fim de implantar o terror e a brutalidade como pedra angular da vida humana. Quando o Brasil resolveu romper relações com os países do Eixo, a vitória ainda não era certa como o é agora, mas, pelo contrário, quando o Japão, pouco antes de Pearl Harbour, cometeu um dos mais covardes atos da História. Os exércitos alemães estavam invadindo a Rússia e avançando com tal ímpeto que muitos temeram que conseguisse destruir o poderio militar dos Soviets. Foi precisamente naquele momento que o nosso Governo e o nosso povo proclamaram seus sentimentos. 386 Passados quase dois anos da adesão ao bloco Aliado, às contradições do regime aumentaram e foi necessário continuar apregoando justificativas a propósito da decisão de Getúlio Vargas em relação ao conflito, enquanto os opositores do Estado Novo discursaram levantando as bandeiras da democracia e do liberalismo com advertências anticomunistas. Prenunciava-se o fim do governo Vargas. 385 386 ABREU, op. cit., p. 113. O ESFORÇO de guerra do Brasil. Folha do Norte, Feira de Santana, 4 mar. 1944, N. 1808. p. 1. 132 Na Bahia, ao final de 1942, Landulpho Alves foi afastado do governo. Segundo Paulo Santos Silva, ele não possuía tradição na política baiana e nem habilidade para negociar com grupos locais e esse foi um dos motivos dele ter sido alijado do cargo. 387 Entretanto, Sena Júnior aponta que o fato da esposa de Landulpho Alves ter origem alemã, e essa informação de ter sido divulgada no contexto dos afundamentos dos submarinos brasileiros pelos alemães, também pode ser lista como um dos fatores que influenciaram o nível o afastamento do Interventor. 388 Landulpho Alves foi substituído pelo General Renato Onofre Pinto Aleixo que governou a Bahia de 24 de novembro de 1942 a 28 de outubro de 1945. Segundo Tavares, com a formação dos partidos nacionais, Aleixo aderiu ao PSD, ―os novos ares da democracia‖, conforme declarou na época. 389 Aleixo indicou para assumir a prefeitura de Feira de Santana, José Berbert Tavares, que ocupou o cargo somente de março de 1943 a abril de 1944. Nos últimos meses de 1944, Eurico Gaspar Dutra buscou amenizar suas diferenças com Góes Monteiro, convencendo-se de que era imperativo por fim ao Estado Novo assim como realizar eleições. Vargas buscou adiar as eleições, sob a alegação de que era preciso ter o fim da guerra, para nesse tempo organizar as instituições e o sistema político sob sua liderança. 390 Em fevereiro de 1945, [...] Getúlio Vargas recebeu um violento golpe político: José Américo de Almeida, ex-tenente civil e rompido com Getúlio Vargas desde 1937, deu uma longa entrevista para o Correio da Manhã, onde criticou violentamente o Estado Novo e Vargas. Os mecanismos de repressão e controle do Estado Novo não estavam funcionando muito bem, pois nem o DIP conseguiu impedir a publicação da entrevista. 391 Para Lourdes Sola, desde fins de 1944 o DIP já não era tão eficaz. 392 Nessa entrevista, José Américo de Almeida citou em detalhes os meios empregados pela imprensa e por grupos de pressão para tecer situações de desestabilização. Segundo Robert Levine, um mês depois desta entrevista, os mais importantes jornais do país já não submetiam seus textos à aprovação 387 SILVA, Paulo Santos. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e a construção do discurso historiográfico na Bahia (1930 – 1949). Salvador: EDUFBA, 2011. p. 41. 388 SENA Júnior, op. cit., p. 134. 389 TAVARES, 2008, op. cit., p. 440. 390 FAUSTO, 2006, op. cit., p, 147. 391 TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 64-65. 392 SOLA, Lourdes. O golpe de 37 e o Estado Novo. IN: MOTA, Carlos Guilherme. Brasil perspectiva. 21. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 279. 133 do DIP, e, em março ―Vargas fechou o departamento, embora a censura continuasse na esfera governamental [...]‖. 393 Nesse período, cresceu a campanha pela anistia ampla e irrestrita para os presos e exilados políticos. Segundo Tavares, a campanha pela anistia se ampliou na Bahia, ―em debates que se repetiram com entusiasmo nas escolas de nível superior, associações profissionais e sindicatos‖ 394 . Mais tarde, a anistia foi concedida e opositores como Luís Carlos Prestes e Otávio Mangabeira foram repatriados. A anistia foi considerada uma importante conquista política contra a ditadura estadonovista. Em 28 de fevereiro de 1945, Getúlio Vargas decretou a Lei Constitucional nº 9, conhecida como Ato Adicional, na qual regulamentou a criação de partidos políticos e marcou as eleições gerais para o final de 1945. O pleito deveria ser realizado em um prazo muito curto, o que representou uma dificuldade para organizar os setores da oposição. Ao mesmo tempo, as correntes políticas ainda ligadas a Vargas organizaram o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado a partir dos sindicatos controlados pelo governo, e o Partido Social Democrata (PSD), formado com o apoio dos interventores nos estados e da burocracia estatal favorecida ao longo do Estado Novo. Por sua vez, o Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922 e implacavelmente perseguido durante a Era Vargas, reorganizou-se, sob a liderança de Luís Carlos Prestes. Segundo Ângela de Castro Gomes e Maria Celina D‘Araújo, [...] os interventores estaduais, representando o que de mais significativo em termos de novas elites políticas, reuni-se para implementar o seu partido. Com isso, estavam vetando definitivamente a ideia de um grande partido de massas do qual fizessem parte. Estabeleciam, também, a criação de um partido nacional da cúpula governamental estado-novista gerido em termos de colegiado e com bases políticas nitidamente regionais. 395 O PTB nasceu no mesmo período do PSD e, teve como modelo inspirador o Partido Trabalhista Inglês. Suas bases foram formadas a partir da estrutura do Ministério do Trabalho, com a utilização de comandos sindicais e de organismos previdenciários. 396 Na Bahia, suas principais lideranças foram o economista Rômulo Almeida e o ex-interventor Landulpho Alves, entretanto, não possuiu a força eleitoral do PSD e da UDN. Em Feira de Santana, Hamilton Cohim e Claudemiro Suzarte foram os principais líderes do PTB. 393 397 João Marinho LEVINE, Robert M. Pai dos pobres? O Brasil e a Era Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 109. 394 TAVARES, op. cit., p. 438. 395 GOMES, Ângela de Castro. D‘ARAÚJO, Maria Celina. Getulismo e trabalhismo. São Paulo: Ática, 1989. p. 15. 396 Idem, p. 17. 397 LAJEDINHO, op. cit., p. 101. 134 Falcão, diz em suas memórias não ter se filiado inicialmente a nenhum partido porque seus amigos estavam divididos entre eles. Mais tarde, seu filho João Marinho filiou-se ao PCB e candidatou-se a deputado federal pelo mesmo partido e, nesse período, seus outros filhos Wilson, Walter e Manuel também aderiram ao PCB e trabalharam pela candidatura de João. O que certamente descontentou parte das lideranças feirenses. João Marinho Falcão diz ter auxiliado a campanha do seu filho recomendado-o através de cartas a velhos e fortes cabos eleitorais do sertão da Bahia como Baixa Grande, Ipirá, Rui Barbosa e Mundo Novo. Nessas cartas ele apresentava o filho e falava de sua pretensão em se eleger deputado, para o qual pedia o apoio, mas não pronunciava o nome do partido, deixava que os outros o fizessem. Tal postura aponta a resistência que havia em relação aos comunistas e, por conta disso, o prestígio pessoal de João Marinho Falcão certamente contribui para angariar muitos votos para seu filho. Contudo, João Falcão não foi eleito, pois a os comunistas baianos conseguiram eleger somente um deputado: Carlos Marighela. 398 Após a eleição, João Marinho Falcão se afastou nas instâncias oficiais do PCB e somente em 1953 vinculou-se a um partido, filiandose à UDN. 399 E as candidaturas à presidência do Brasil foram montadas. Ângela de Castro Gomes acrescenta que embora Dutra fosse o candidato que deveria ter o apoio da máquina administrativa, a indicação é de que os trabalhistas defendiam a instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte ainda com Getúlio Vargas no poder e, só em seguida, realizar eleições para as quais Vargas lançaria candidatura. Dessa forma, apostou-se no prestígio de Vargas junto aos trabalhadores e as candidaturas militares não precisariam ser retidas: seriam neutralizadas. ―Este projeto – ―Queremos Getúlio‖ e ―Constituinte com Getulio‖ – remete às relações trabalhistas com o chamado movimento queremista, nascido de forma mais articulada em meados de 1945‖, mas resalta que na perspectiva organizacional o PTB e o ―queremismo‖ não eram a mesma coisa. 400 Para Gomes e D‘Araújo, o PTB e o PSD resultaram do fracasso do projeto de organização de um ―partido único de massas e emergem como a solução pragmática possível num contexto em que as presenças de um significativo partido de oposição (UDN) e de uma forte esquerda organizada (PCB) forçavam a tomada imediata de decisões políticas‖. 401 Por sua vez, a União Democrática Nacional (UDN) foi criada em torno de uma coalizão anti-varguista. O estreitamento das relações entre Brasil e os Aliados, em particular com os 398 FALCAO, João. A vida de João Marinho Falcão: vitória do trabalho e da honra. Brasília: Pax, 1993. p. 91. Idem, p. 92. 400 GOMES, 2007, op. cit., p. 284. 401 Ibidem, p. 15 – 16. 399 135 Estados Unidos, forneceu aos opositores de Getúlio Vargas o sopro necessário para a formação da UDN. Juracy Magalhães afirmou que, [...] a União Democrática Nacional resultou do trabalho conspiratório de oposição ao Estado Novo. Não nutríamos – eu e muitos companheiros udenistas – uma inimizade pessoal pelo Dr. Getúlio. Inegavelmente, porém, a agremiação aglutinou dissidentes de todos os matizes, organizando-se, por isso mesmo, como uma ―união democrática‖, e não como um ―partido‖. Dela participaram o tradicional Partido Libertador do Rio Grande do Sul; o Partido Republicano Mineiro, de Bernardes; o ―autonomismo‖ e o ―juracisismo‖, que desde a Revolução de 1930 se degladiavam na Bahia; a família Konder e seus tradicionais adversários catarinense. 402 Como destacado no testemunho de Juracy Magalhães, na Bahia, os posicionamentos e as diferenças políticas entre autonomistas e juracisistas eram grandes, particularmente nos interesses locais, mas se uniram com a finalidade comum de combater Getúlio Vargas. Segundo Aruã Lima, a UDN na Bahia, ―nasceu programaticamente com o início do Estado Novo na medida em que propiciou o motivo fundamental de formação de uma frente ‗democrática‘ que se opunha ao ‗ditador‘‖, entretanto carregando ambiguidades. 403 Sobre a formação dos novos partidos políticos, Boris Fausto assinala que, [...] dessa forma, constituía-se um sistema partidário de longa duração para as condições brasileiras. Os três partidos, seriam de longe, os mais relevantes de 1945 a 1965, quando foram extintos pelo regime militar. Apesar das diferenças regionais e da formação de tendências internas, eles tiveram razoável coerência, inclusive no terreno programático, ainda que a diferença maior se desse entre o getulismo (PTBPSD) e anti-getulismo (UND). 404 Em 10 de outubro de 1945, Getúlio Vargas, por meio de um decreto-lei, antecipou para 2 de dezembro as eleições estaduais, que estavam marcadas para maio de 1946. No final de outubro, Vargas deu às oposições motivo para acelerarem as articulações para sua queda: nomeou Benjamim Vargas como Chefe da Polícia. Este cargo continha uma íntima ligação com o Exército, e Getúlio Vargas não havia consultado nenhum dos membros dos altos escalões do Exército sobre essa nomeação. Para Tota, Vargas estava testando seu poder. Após a nomeação, Góes Monteiro, que estava ocupando a pasta de ministro da Guerra, prontamente exigiu que Vargas voltasse atrás. 405 402 ABREU, op. cit., p. 117-118. LIMA, 2009, op. cit., p. 79. 404 FAUSTO, 2006, op. cit. 405 TOTA, Antonio Pedro. O Estado Novo. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 66. 403 136 Vargas se mostrou irredutível, e Góes Monteiro, até então aliado do Presidente na Revolução de 1930 e no Golpe de 1937, reuniu as suas tropas, cercou e tomou o Palácio da Guanabara em 29 de outubro. Dutra foi expor ao presidente a gravidade do quadro militar. Getúlio dispõe-se a voltar atrás na nomeação de seu irmão e nomear para o Ministério da Guerra um general indicado por Dutra. Este, por sua vez, procurou Góis Monteiro, que recusou a proposta, ficando decidido pela cúpula militar, a deposição do presidente.406 Na noite do mesmo dia, Getúlio Vargas assinou o ato formal da renuncia e José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu a presidência. ―Linhares prestou juramento no ministério da Guerra às duas da manhã de 30 de outubro, e nomeou um gabinete provisório‖, que contou com o ministério formado por Sampaio Dórea, Justiça; Pires do Rio, Fazenda; Maurício Joppert, Aviação; Melo Morais, Agricultura; Carneiro de Mendonça, Trabalho; Leão Veloso, Exterior; Leitão da Cunha, Educação; Góis Monteiro, Guerra; Dodsworth, Marinha; Armando Thompwsky, Exército; como chefe de polícia, Ribeiro da Costa e, prefeito do Distrito Federal, Filadelfo Azevedo. 407 A deposição de Vargas abriu caminho para a realização das eleições e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte. A atuação dos partidos políticos também mudou. O PCB reeditou suas diretrizes e lançou Iêdo Fiuza como seu candidato à presidência. A UDN e o PSD tinham imprecisões quanto ao crescimento de suas candidaturas juntos ao eleitorado e nesse contexto, a definição do apoio do PTB foi importante. Segundo Gomes, foram estabelecidos diálogos entre o PSD e Dutra de um lado, e o PTB de outro, até a formalização do apoio do PTB ao candidato do PSD. Embora os ―queremistas puros‖ não tenham se conformado em votar em Dutra. 408 Às vésperas das eleições Getúlio Vargas divulgou uma mensagem de apoio a Dutra, o que completou à sua vantagem. Os comícios de encerramento da campanha foram verdadeiras manifestações queremistas, nos quais segundo Gomes, eram muitos os cartazes e legendas de Getúlio Vargas e com a recomendação para votar em Dutra. Um comitê em prol da candidatura de Eduardo Gomes foi instalado em Feira de Santana em 3 de outubro de 1945 e durante a instalação do comitê, Arnold Silva, uma das maiores lideranças política das cidade que afilou-se a UDN, discursou fazendo uma retrospectiva desde a Revolução de 1930 até os dias que aproximavam às eleições de 2 de dezembro num tom evocativo. Declarou-se não como arrependido ou equivocado das suas decisões políticas 406 FAUSTO, 2006, op. cit., p, 154. LEVINE, op. cit., p. 111. LEVINE, Robert M. Pai dos pobres? O Brasil e a Era Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 111. 408 GOMES, 2007, p. 290-291. 407 137 no pós 1930, mas como alguém que se descobrira enganado por Getúlio Vargas, porém não por Juracy Magalhães, o que ele deixou claro. Sobre Vargas, destacou que, após 15 anos de governo nada se fez pelo Brasil e muito se perdeu e, que por isso, ―a nação [iria] marchar de novo‖ para buscar reerguer o país e ele se incluía nesta marcha. Pregou que nas eleições que se aproximavam era o momento da ditadura ser derrotada no Brasil e para esta tarefa Eduardo Gomes era o escolhido: [...] ai vem ele, não haja dúvidas. Vem para acabar com isso, isso de um país aviltado a tal ponto e de tal jeito desmoralizado que a palavra de seu presidente não encontra quem lhe dê crédito, quem a afiance ou abone. Ela vale menos que a mais insignificante moeda em dinheiro desvalorizado que ele emite a rodo e a granel. 409 Em 17 de novembro aconteceu em Feira de Santana um comício da UDN, contando com a presença de Juracy Magalhães, Nestor Duarte e Atila Amaral. Segundo a Folha do Norte, havia ―multidão raramente vista‖, que ouviu discursos a favor da candidatura de Eduardo Gomes. Contudo, a quantidade de pessoas que foram ao evento certamente foi bem menor do que divulgou a folha e os números dos resultados dessa eleição dão base a essa suspeita. 410 A Folha do Norte publicou seu perfil dos candidatos à presidência: Dutra: Fez o Estado Novo com Getúlio; fascista – inato, recebeu condecorações de Hitler; candidato dos integralistas, rejubila-se com o seu apoio, e é recebido em toda parte com ―anauês‖. Yiedo Fiuza: Lácio íntimo do ex-ditador e chaveiro da sua ―garconiére‖; como administrador prefeito de Petrópolis, suprimiu os bondes, única condução dos pobres, para entregar o monopólio dos transportes às empresas de ônibus, ricos de ricos; diretor do D.N.E.R. enriqueceu-se com o ―mercado negro‖ de gasolina e cimento; esse o ―candidato do povo‖ e de Prestes. Eduardo Gomes: Não é socialista nem esquerdista – é um democrata burguês; sempre combateu o Estado Novo; nunca foi fascista; promete as liberdades democráticas, o direito de greve e a liberdade sindical; manterá a legislação trabalhista, expurgando-a dos seus vícios fascistas. E o único candidato cuja palavra merece. 411 No dia anterior às eleições, o jornal defendeu a candidatura de Eduardo Gomes utilizando contra seus candidatos acusações e palavras depreciativas como de seu costume. Na mesma edição, também foram publicadas provocações aos adeptos do PSD em Feira de Santana: 409 Folha do Norte, Feira de Santana, 20 out 1945, N. 1893, p. 4. Folha do Norte, Feira de Santana, 24 nov. 1945, N. 1898. 411 Folha do Norte, Feira de Santana, 1 dez 1945, N. 1899. 410 138 Realiza-se amanhã o grande e animado pleito eleitoral cuja liberdade o governo da República está empenhado em assegurar. Apesar de todas as providências, neste município, a máquina armada pelo PSD não se desarticulou de todo e influi ainda na eleição: não foram afastados alguns administradores distritais facciosos, comprometidos na campanha partidária; as instruções em favor da candidatura Dutra foram expedidas até ontem, por funcionários da prefeitura; e guardas municipais fardados fizeram sempre a distribuição da propaganda do citado partido. 412 Todavia, a estratégia adotada pelo jornal não foi eficiente na cidade e o resultado das urnas apresentou Dutra como o vencedor destas eleições. 413 Na 19ª Zona Eleitoral, que era formada por Feira de Santana, Riachão do Jacuípe, onde Eurico Gaspar Dutra venceu, e Santo Estevão onde Eduardo Gomes obteve a maioria dos votos, totalizando respectivamente 6.708 e 3266, enquanto Yedo Fiuza alcançou 183 votos. O PSD venceu as eleições para deputados elegendo Eduardo Fróes da Motta e Arnold Silva, que foi o mais votado em Riachão do Jacuípe, computando respectivamente 3.542 e 1.497 votos. 414 Números que sugerem que Eduardo Fróes da Motta, que liderava a ala pessedista em Feira de Santana, estava com mais prestígio na política da cidade nesse contexto do que Arnold Silva, algo que ele não havia experimentado desde o início da sua carreira política. Em abril de 1945, a Folha do Norte iniciou publicações nas quais o posicionamento do grupo político que ele representava mostrou-se declaradamente antigetulista. Numa reportagem de Albérico Benevides intitulada ―O circo estadonovista‖, este disse que o povo clamava para ser libertado das ―algemas‖ impostas pela polícia política de Getúlio Vargas e seu regime do qual todos estavam enfadados. 415 Retórica semelhante à utilizada pela Folha do Norte ao parabenizar a vitória da Revolução de 1930, utilizando metáforas muito parecidas, quando disse que o povo estava livre dos ―tentáculos‖ das velhas oligarquias. Nesse período Arnold Silva, um dos donos do periódico, assim como os que mantiveram relações políticas e econômicas com ele, a exemplo de João Martins da Silva definiram-se contra Getúlio Vargas. A administração outrora tida como a condutora do ―saneamento político‖ do Brasil, passou a ser proclamada como passível de inúmeros questionamentos, tais como: Em que não daria a criação de tribunais idênticos àqueles que o sr. Getúlio Vargas instalou em 1930, para a devassa desses sete anos de governo a portas trancas, às escuras? Quantas fortunas fresquinhas, quantos possuidores de milhões não se 412 Idem, p. 1. Ibidem, p. 1. 414 Folha do Norte, Feira de Santana, 22 dez 1945, N. 1902, p. 1. 415 Folha do Norte, Feira de Santana, 14 abr 1945, N. 1866. p. 1. 413 139 sentiriam embaraçados para dizer por que caminhos escusos esses milhões entraram para as suas algibeiras? 416 No final de 1945, Bulcão Viana foi nomeado para o governo da Bahia, ficando no cargo até meados de 1946. Eduardo Fróes da Motta, que foi vice-presidente do diretório do PSD juracisista desde sua instalação em Feira e, que, permaneceu ao lado das fileiras varguistas após o golpe do Estado Novo, foi nomeado prefeito de Feira de Santana em abril de 1944, e governou a cidade até novembro de 1945, deixando o cargo para concorrer às eleições e foi substituído por Aciole Vieira de Andrade, engenheiro. 417 A ruptura entre Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta pode ser percebida no começo das organizações do pleito presidencial de 1945. Nesse período, Arnold Silva havia se desligado do PSD de Juracy Magalhães, já que todos os partidos foram extintos, e em Feira de Santana correu a notícia de que ele declarou seu apoio político a Eduardo Fróes da Motta e a candidatura de Eurico Gaspar Dutra. Arnold Silva desmentiu por meio da Folha do Norte, o que ele chamou de ―inominável perfídia‖ e em nota afirmou que [...] Continuava fiel à orientação do grande líder democrático Juracy Magalhães e integrado no apoio que os seus correligionários dão a candidatura presidencial do major-brigadeiro Eduardo Gomes. Si, nos sete anos em que floresceu o Estado Novo, nunca transigira com a ditadura e seus agentes, muito menos poderia fazê-lo agora, quando ela estrebucha nos seus dias de desmoralização e agonia. 418 Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta, que desde o último período da República Velha possuíram aproximações políticas e interesses em comum, apresentaram-se em lados adversários desde o golpe do Estado Novo. As lideranças políticas feirenses cindiram como não havia acontecido desde o final da década de 1910. Num plano geral Getúlio Vargas tornou-se o fiel da balança. Segmentos políticos em Feira de Santana dividiram-se entre os que apoiavam Vargas, sob a liderança de Eduardo Fróes da Motta, que permaneceu a favor do regime varguista, e os que foram contra Getúlio Vargas, sob a liderança de Arnold Silva. Na chamada política nacional, o Estado Novo é considerado uma experiência política ―bem-sucedida‖, entre outras razões, pela sua capacidade de angariar adesões e absorver conflitos. Como afirma Mônica Velloso, o regime teve um projeto político-ideológico muito bem articulado, que soube tirar proveito dos acontecimentos, reforçar situações e, sobretudo, conscientizar, soube convencer sobre a superioridade de uma nova ordem centrada no 416 Folha do Norte, Feira de Santana, 21 abr 1945, N. 1867, p. 1. Folha do Norte, Feira de Santana, 15 dez 1945, N. 1901, p. 1 418 Folha do Norte, Feira de Santana, 28 abr 1945. N.1868, p. 1. 417 140 fortalecimento do Estado. 419 Todavia, em Feira de Santana, foi o período em que os conflitos apareceram ao invés de serem absorvidos; foi à época em que as divergências passaram a existir de forma contundente. Os dirigentes políticos locais, que até esse momento pareceram ter os mesmos interesses e caminharam relativamente coesos, começaram a rachar logo após a instalação do novo regime e ao fim da Era Vargas os grupos dirigentes apareceram em dois lados: UDN e PSD. Com o fim do Estado Novo o quadro político de Feira de Santana apresentou-se divido entre os que permaneceram ao lado de Getúlio Vargas e os que passaram a ser seus opositores. Arnold Silva e João Mendes da Costa, presidente do comitê da Aliança Liberal em Feira em 1930, João Martins da Silva, Álvaro dos Santos Ruben, Áureo de Oliveira Filho, este último no final da década de 1930, não tinha posicionamento acentuado 420 , ingressaram na UDN ao lado de Juracy Magalhães, mas também na companhia de Otávio Mangabeira, Luiz Viana Filho, figuras políticas que fizeram oposição ao antigo Interventor se organizaram em nome de defesa da redemocratização e da oposição ao regime varguista. Líderes como Eduardo Fróes da Motta, Heráclito Dias de Carvalho, Theodulo Bastos de Carvalho permaneceram dando seu apoio a Vargas e continuaram na linha pessedista, que passou a ser um partido nacional. 421 Ao fim do primeiro governo de Getúlio Vargas as forças políticas de Feira de Santana, que nos últimos anos da Primeira República até o golpe do Estado Novo conseguiram confinar possíveis conflitos e se manter relativamente unida, encontravam-se em lados opostos e conflitantes. Lados que divulgavam bandeiras de interesses diferentes, mas onde os envolvidos nas vicissitudes da política possuíam o mesmo objetivo: permanecerem no centro das decisões do poder. Para tanto, promoveram alianças e aproximações ou cisões, atendendo às demandas das diferentes conjunturas. Contudo, embora os debates entre dois partidos e correntes de opinião existissem, fossem reais, ao mesmo tempo eles podem ter ocultado uma realidade de luta entre classe ou frações de classe na Feira de Santana desse período. Ainda que Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta propalassem estar em lados opostos diante das mudanças na política nacional, os vestígios acerca das práticas políticas na cidade indicam que talvez o que os levaram para direções diferentes não tenha sido apenas essas razões. Como apontar as motivações dessa cisão? 419 VELLOSO, op. cit., p. 71. Carta de João Mendes da Costa ao Tenente Joaquim Ribeiro Monteiro em 7 abr 1932. Arquivo Pessoal JM. Pasta Municípios – Feira de Santana. CPDOC. 421 Folha do Norte, Feira de Santana, 17 set. 2005, n. 5628, p 3. 420 141 As discussões, desentendimentos que ocorreram nos segmentos dirigentes locais antes desse período, ainda que não tenham tomando proporções como essa ruptura de Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta, eram contendas quase sempre sobre questões ―pequenas‖, brigas que envolviam ―política de corredor‖, intrigas, a exemplo do processo administrativo que Heráclito Dias de Carvalho abriu contra um funcionário alegando uma difamação que não foi comprovada, assim como a criação do Rotary Club de Feira de Santana. Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta eram envolvidos com o comércio de gado e fumo, foram sócios em um empreendimento bancário, o que nos levar a inferir que é bem possível que o causou essa dissidência entre eles foi uma disputa econômica ligada às atividades comerciais e não necessariamente uma grande motivação política. Algo que, guardada às devidas ressalvas, assemelha-se ao que Gramsci conceitua como a ―pequena política‖ que abarca as questões parciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre as diversas frações de uma mesma classe dirigente. Questões que se desenvolvem no interior de um equilíbrio já constituído e que não tentam suplantar aquele equilíbrio para criar novas relações. 422 Os segmentos dirigentes de Feira de Santana, que ao final de 1945 apresentaram-se como grupos divergentes com suas próprias lideranças, mas oriunda de políticos que lideravam a cidade desde o início do século XX, e que prosseguiram com o mesmo comportamento político. Nas eleições de 2 de dezembro de 1945 Eduardo Fróes da Motta sob a legenda do PSD recebeu mais do que o dobro de votos de Arnold Silva, o que aponta que Motta fortaleceu seu poder na cidade enquanto Silva perdeu certo espaço, o que de maneira alguma significa uma diminuição significativa de poder. Com vistas a recuperar seu prestígio na sociedade política, Arnold Silva contava com um importante mecanismo, seu periódico, a Folha do Norte e que foi palco dos debates políticos que seguiram na cidade. Anos mais tarde, Eduardo Fróes da Motta construiu seu próprio jornal, o Gazeta do Povo, em 1959. Este permaneceu poucos anos em circulação e junto com a Folha do Norte, fornecem relevantes elementos acerca das formas de fazer político na cidade, constituindo-se como fontes relevantes para o exame da História Política de Feira de Santana. 422 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 3. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2011. p. 21 22. 142 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste trabalho tivemos a preocupação essencial de entender as práticas e articulações políticas em Feira de Santana durante os anos de 1930 a 1945, no intuito de trazer para o debate histórico aspectos ainda não estudados sobre a História de Feira de Santana e acerca do período da chamada Era Vargas. Investigando informações diversas sobre os sujeitos políticos da cidade, pudemos perceber que as relações entre eles iam além das afiliações político-partidárias. Antes da Revolução de 1930, observamos em Feira de Santana o exercício da política permeado por elementos tradicionais, como o clientelismo, o apadrinhamento, o favoritismo, o uso da influência social e econômica, que marcaram a Primeira República. A maneira como os coronéis Agostinho Fróes da Motta e Bernardino da Silva Bahia utilizaram o aparelho administrativo do município para beneficiar os seus empreendimentos e os de outros sujeitos abastados da cidade, assim como a indicação do nome de Arnold Ferreira da Silva para ser candidato à Intendência de Feira de Santana, em 1924, dão indícios dessas práticas. Arnold Silva, até então, não havia exercido nenhum mandato político e a sua inserção nos espaços oficiais da política contou com a importante contribuição da força do coronel Bernardino da Silva Bahia, não apenas para elegê-lo, mas também no sentido de legar a sua influência, as formas de fazer política e a direção nos negócios da família ligados a comercialização de gado e carne verde. Desde o início do século XX, a política em Feira de Santana foi dirigida pelos mesmos segmentos que além de ocuparem os mandatos políticos, confundindo-se com o corpo burocrático, dirigiram as atividades comerciais de grande porte. Com o êxito da Revolução de 1930, e Getúlio Vargas assumindo o governo provisório, nomeando Interventores para os estados, e os cargos de Prefeitos ficando sob a autoridade do Interventor, foi iniciada uma mudança na política da cidade, perceptível na deposição de Elpídio Raymundo Nova em 1931. Nesta condição, com um outro grupo político assumindo o poder na cidade, verificou-se uma crise de hegemonia que existiu por um período relativamente pequeno até que a classe dirigente feirense recobrou seu poder de dirigir. As mesmas figuras da sociedade política local aproximaram-se do novo governo estadual por meio de súbitas identificações com os ideais revolucionários, o seguido ingresso no Partido Social Democrático (PSD) e promoveram novos arranjos e rearticulações que os permitiram permanecer no controle da política em Feira 143 de Santana, dando continuidade às suas diferentes intervenções nas relações sociais da cidade por meio das quais conservaram sua dominação de classe. Com a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a formação do PSD pelo então Interventor Federal, Juracy Magalhães, ficaram definidos os ajuntamentos políticos entre os dirigentes políticos de Feira e a política varguista. Um partido com características muito próximas à formação dos partidos na Primeira República. As forças políticas aglutinaram-se também em torno do nome de um líder, mas não pelo seu prestígio e carisma propriamente dito, mas por ser ele o representante dos novos segmentos que estavam no poder no país, o que fazia imperativa uma aproximação para a sobrevivência política. A organização do PSD foi feita considerando o peso dos segmentos locais. Foi nos líderes locais dos municípios do interior da Bahia que Juracy Magalhães formou alianças e assegurou a ―continuidade revolucionária‖. A ruptura com as velhas oligarquias, a principal bandeira levantada pelo movimento de 1930, teve que ser adiada em muitas cidades, assim como em Feira de Santana. Os velhos líderes da cidade, em inovadas arrumações, preservaram a condução da política feirense e não houve alterações estruturais que mostrassem o surgimento de novos sujeitos, de práticas políticas distintas das que foram vivenciadas na cidade na época da Primeira República ou a superação desta classe. Em suma, com a Revolução de 1930 a política em Feira de Santana continuou indubitavelmente nas mesmas mãos. A revolução não mudou os sujeitos, que se reorganizaram e retomaram o controle que lhes fugiu por um breve período após a vitória da revolução. Componentes da velha política feirense, cujos traços essenciais duraram, expressivamente, durante toda a década de trinta, se traduziu na consolidação de uma classe dominante que se entrelaçou na medida dos interesses comuns e ligações políticas, econômicas, pessoais, familiares. A partir da instituição do Estado Novo houve uma mudança mais expressiva na disposição das forças políticas em Feira de Santana. Após o golpe de 1937 a coesão dos grupos dirigentes feirenses começou a ruir, polarizando-os entre os que estavam com Getúlio Vargas e os que posicionavam contra ele; era com esse pano de fundo que os políticos feirenses apresentaram suas diferenças. Líderes como Arnold Silva, que ocupava o cargo de deputado estadual pelo PSD na época do golpe, perdeu seu mandato e afastou-se das instâncias oficiais da política, sem, contudo deixar a política. Eduardo Fróes da Motta, coligado político de Arnold Silva desde a década de 1920, permaneceu com os setores varguistas e durante a campanha presidencial de 1945 essa separação nas lideranças feirenses tomou forma e eles dividiram-se entre os partidos nacionais que se formaram. 144 Ao final de 1945, apresentavam-se em Feira de Santana os getulistas, engrossando as fileiras do Partido Social Democrático (PSD), e os antigetulistas, ligados a União Democrática Nacional (UDN). Eduardo Fróes da Motta ingressou no PSD nacional, e Arnold Silva na UDN, juntamente com Juracy Magalhães e Otávio Mangabeira, tendo a democracia como tema constante nos debates de oposição ao Estado Novo e a Getúlio Vargas. As relações que se estabeleceram nas frações dirigentes feirenses ao longo dos anos de 1930 a 1945, diante das sucessivas modificações na política nacional e estadual, não separaram a ação política da ação econômica. Após a vitória da Revolução de 1930 e a nomeação de Juracy Magalhães como Interventor da Bahia, os segmentos dirigentes locais teceram laços com o governo do estado, através de Juracy Magalhães, e passou a direcionar a ele um elenco de reivindicações balanceadas que buscassem atender aos diferentes interesses econômicos próprios da classe. Ao pesquisar os anos de 1930 a 1945 em Feira de Santana, o ―local‖ é a centralidade do ―lugar‖, mas não se significa uma história menor ou em bocadinhos. Assumindo Feira de Santana como parte do Brasil, buscamos definir suas especificidades sem deixar de trazer os elementos que a ligam ao todo, conforme a temática estudada, no esforço de produzir saber em História, sem mais adjetivos. A História tem entre seus objetivos compreender as atividades humanas, suas ações e os significados delas. Cada historiador após o exame de documentos e recorrendo à historiografia constrói sua versão acerca dos fatos históricos que pesquisou ou traz o que lhe foi possível obsevar deles. O texto escrito, saldo do trabalho do historiador, é também o resultado da sistematização de conhecimentos que estão em permanente reelaboração. Assim, ao realizar um estudo sobre os rearranjos políticos em Feira de Santana nos anos de 1930 a 1945, trouxemos questões que se não foram respondidas de maneira conclusiva, sinalizaram caminhos e insinuações. 145 FONTES FONTES BIBLIOGRÁFICAS ABREU, Alzira Alves de (coor.). Juracy Magalhães. Minhas Memórias Provisórias: depoimento prestado ao CPDOC. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. ALMEIDA, Osmar Damião de. Dicionário personativo, histórico e geográfico de Feira de Santana. 2. ed. Feira de Santana, 2000. BOAVENTURA, Eurico Alves. Fidalgos e vaqueiros. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989. BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. 24 de fevereiro de 1981. BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16 de julho de 1934. BRASIL. Constituição Brasileira de 10 de novembro de 1937. FALCAO, João. A vida de João Marinho Falcão: vitória do trabalho e da honra. Brasília: Pax, 1993. FERREIRA, Jurandyr Pires (Org.). Enciclopédia dos municípios brasileiros. Salvador, 1958. LAJEDINHO, Antonio do. A Feira da década de 30 (memórias). Feira de Santana: Mendes Costa, 2004. POPPINO, Rollie E. Feira de Santana. Salvador: Itapuã, 1968. SAMPAIO, Gastão. Feira de Santana e o Vale do Jacuípe. Salvador, Bahia. 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Ata da 6ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 08 de setembro de 1925. Feira de Santana. Ata da 5ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 01 de setembro de 1925. Feira de Santana. Ata da 4ª sessão extraordinária do Conselho Municipal em 09 de outubro de 1925. Feira de Santana. Ata da 5ª sessão extraordinária do Conselho Municipal em 10 de outubro de 1925. Feira de Santana. Ata da sessão solene de posse dos Conselheiros Municipais eleitos para a renovação da metade do Conselho na legislatura de 1928 a 1931, Intendente Municipal no biênio de 1928 e 1929 e preenchimento de uma vaga no Conselho, em 01 de janeiro de 1928. Feira de Santana. Ata da 1ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal em 10 de janeiro de 1928. Feira de Santana. Ata da 2ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal em 17 de janeiro de 1928. Feira de Santana. Ata da 3ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal em 24 de janeiro de 1928. Feira de Santana. Ata da 7ª sessão ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal em 29 de maio de 1928. Feira de Santana. Ata da 8ª sessão ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal em 05 de junho de 1928. Feira de Santana. Ata da 9ª sessão ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal em 08 de junho de 1928. 147 Feira de Santana. Ata da 2ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 21 de agosto de 1928. Feira de Santana. Ata da 3ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 28 de agosto de 1928. Feira de Santana. Ata da 4ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 30 de agosto de 1928. Feira de Santana. Ata da 5ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 04 de setembro de 1928. Feira de Santana. Ata da 6ª sessão ordinária da 3ª reunião periódica do Conselho Municipal em 11 de setembro de 1928. Feira de Santana. Ata da 2ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal de Feira de Santana. 3 de junho de 1930. Feira de Santana. Ata da 3ª sessão ordinária da 1ª reunião periódica do Conselho Municipal de Feira de Santana. 10 de junho de 1930. Feira de Santana. Ata da 4ª sessão ordinária da 2ª reunião periódica do Conselho Municipal de 17 de junho de 1930. CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS – CPDOC Arquivo Pessoal – Juraci Magalhães. Pasta Municípios – Feira de Santana. FGV / CPDOC. LIMA SOBRINHO, Alexandre José Barbosa. Barbosa Lima Sobrinho I (depoimento, 1977). Rio de Janeiro, CPDOC, 2005. MAGALHÃES, Juraci. Juraci Magalhães (depoimento). Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, História Oral, 1981. 148 REFERÊNCIAS AGUIAR, Lielva Azevêdo. “Agora um pouco da política sertaneja”. 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AMARÍLIO CAVALCANTE 1929 ANTONIO DOS SANTOS SERAFIM VEREADOR 1930 ANTONIO RUBEM VEREADOR 1924-1925 1928-1930 ALIBERT DO AMARAL PREFEITO 11 A 12/1945 Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Possuía o título de coronel. Fazendeiro Fortaleza, Jaíba. em atual 154 AMÉRICO DE ALMEIDA PEDRA VEREADOR 1935-1937 PELO PSD Membro da Comissão de Redação da Câmara Municipal em 1937. Conhecido como coronel. ARNOLD SILVA PREFEITO 1º VEZ PREFEITO 2º VEZ VEREADOR DEPUTADO FEDERAL 01/1924 a 12/1925 PELO PRD 01/1926-12/1927 1929-1930 1934; 1935-1937 Em 30/01/1933, escreve para Juracy dando os parabéns pelo êxito da instalação do PSD em Feira. (Telegrama da pasta Feira, Arquivo JM). Um dos donos do periódico Folha do Norte, após a morte do Intendente Tito Ruy Bacelar que era o dono. Escrevia a coluna ―Vida Feirense‖ sob o pseudônimo de Gil Moncorvo. Em 1923 o Partido Republicano Democrata, que tinha na presidência do diretório de Feira de Santana Bernardino Bahia, criado por J. J. Seabra (CPDOC-FGV), em assembléia indica o nome de Arnold Silva para concorrer ao cargo de Intendente Municipal. Eleito pelo voto popular e realiza a sua primeira gestão (Folha do Norte, Ed. De aniversário) Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Em sua gestão de 1925 é assinado o contrato para a construção da rede elétrica com a concessionária de Hidelbrando Cordeiro de Almeida (ainda desconheço). Contrato com duração de 30 anos. Energia movida a óleo. Rede inaugurada em 1926. Segundo Oscar Damião, na sua segunda gestão foi eleito pelo voto do povo. 1º casamento com Amanda, que faleceu, e o 2º com sua irmã Berezina, ambas filhas de Bernardino Bahia. Em 1930 era Presidente da Câmara. Presidente do diretório do PSD em Feira. Em 1926, Góes Calmon oficializa a instalação de uma escola normal em Feira, conforme a Lei nº 1.846, de 14/08/1925 (FN, Gerente do Banco de Crédito Popular desde sua fundação em 1927. A partir da década de 1940 administrou a empresa de carnes da família. 155 03/02/1926, num 859. p. 1). Em 17/02/1926 o Conselho Municipal decreta e o prefeito publica a Lei de nº 244, que torna obrigatório o fechamento de barbearias e lojas de cabeleireiros aos domingos (F.N. 20/02/1926, p. 2). Infração sujeita a multa de sessenta mil réis. Em 1931 na qualidade de representante da Amado Bahia, com sede na capital, solicitou a prefeitura de Feira um arrendamento de um terreno. Detalhes da localização do terreno F. N. 07/03/1931, p. 3. ATTILA AMARAL ÁUREO DE OLIVEIRA FILHO Pertenceu ao PSD da Bahia. No Folha do Norte de 24.07.1937, foi publicado um convite que o partido dirigiu a José Américo, convidando-o para assistir no dia 25.08.1937 a Assembleia Geral do Partido, onde aconteceria a homologação da sua candidatura á Presidência da República. Nesse convite o partido expressa seu apoio a essa candidatura e conta a vitória como certa. VEREADOR 1930 1935-1937 PELO PSD Autor da emenda que destinava o dinheiro da venda das desapropriações (aprovada pela câmara em 1937) apenas para outras desapropriações. Autor do projeto que tem por objetivo o aumento dos vencimentos do funcionalismo público. Exposta em 02.03 e a aprovada na sessão de 09.03.1937. Foi o 1º Secretário da Câmara em 1936. Membro da Comissão de Instrução Pública, Justiça e Higiene da Câmara em 1937. Aprendeu a profissão de protético com seu pai que era dentista prático. Cursou Dono do Colégio Santanópolis, criado em 1934. Possuía gabinete dentário em 1932. Em 1942 foi eleito presidente da Cooperativa dos Criadores de Ovinos da Bahia. Criada em 31 de maio de 1939 e sediada em Feira de Santana. Presidente Rotary Club 1945. do em 156 a faculdade de Odontologia em SSA, onde formou-se em 1933. Diversos anúncios deste gabinete no Folha do Norte. O seu filho, Alberto Oliveira, foi presidente do Fluminense; o Jóia da Princesa leva seu nome. A escola Inter-Escolar Áureo de Oliveira Filho, antiga escola técnica e atual CETEB, foi construída pelo governo do estado em sua homenagem por sua dedicação à educação. ARLINDO FERREIRA Membro da Liga Contra o Analfabetismo em 1939. Fez parte da campanha para a construção do albergue noturno em Feira junto com Vicente dos Reis. BARBOSA DE ARAÚJO VEREADOR 1929 No Folha do Norte de 05.10.1929 saiu uma nota sobre a formação de um comitê com o objetivo de trabalhar pela fórmula Julio Prestes-Vital Soares. O seu nome aparece na notícia como um dos conselheiros CARLOS ARTHUR RUBINOS BAHIA VEREADOR ? Filho de Bernardino da Silva Bahia. Recebeu em sua casa Juracy Magalhães, Carlos Lacerda e Juarez Távora, quando? Um dos donos do Banco de Crédito Popular criado em 1927. Sócio de Arnold Silva e Eduardo Fróes da Motta. Pecuarista. DR. JOSÉ BERBET TAVARES PREFEITO 03/1943-04/1944 EDUARDO FRÓES DA MOTTA PREFEITO VEREADOR 04/1944-11/1945 1929-1930; 1935-1937 PELO PSD. Sofreu grande pressão popular, tornando-se “persona non grata” para o povo, governando apenas poucos meses (p. 68), segundo Oscar Damião. Razões ainda desconhecidas. Em seu governo foi criada a Associação Comercial dos Trabalhadores da Construção Civil, com registro junto ao Ministério do Trabalho Filho de Agostinho Fróes da Motta. Formado Medicina. Pecuarista. Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. em Provedor da Santa 157 Membro da Comissão de Instrução Publica, Justiça e Hygiene em 1930. Vice-presidente da Câmara em 1930. Vice-presidente do diretório local do PSD. Em 1926, Arthur Motta (ver parentesco), constrói e inaugura uma escola na sua fazenda Cruzeiro do Mocó, para dar instrução obrigatória a população infantil da área. ELPIDIO RAYMUNDO NOVA VEREADOR PREFEITO 1ª VEZ (INTENDENTE) PREFEITO 2ª VEZ 1925-1926 1928-1931 Em 1928, era Intendente, cargo de indicação e possuía duração de dois anos. 1933-1935 A F. N de 1 fev. 1941 divulgou que em 1928 o presidente da Federação dos Bancos Populares do Brasil, respondendo à consulta em que elementos da capital do estado lhe pediam instruções e conselhos para a função do Banco dos Auxiliares no Comércio da Bahia, encaminhou-os ao Banco do Crédito Popular da Feira de Santana apontando ―a brilhante cooperativa de crédito como um exemplo a imitar todas as instituições do mesmo gênero, no Norte do pais‖. (p. 1). Em 1929, o título de intendente deixa de existir e a administração passa a ser feita por prefeitos. Construiu a 2ª cadeia pública da cidade, atual câmara de vereadores. Contava com o apoio do governo estadual (p. 68) segundo Oscar Damião. Na sua primeira gestão, solicitou ao Conselho Municipal, mais precisamente na sessão de 16.10.1928, a autorização a abertura de licitação pública Casa Misericórdia 1926. de em Um dos donos do Banco de Crédito Popular criado em 1927. Sócio de Arnold Silva e Carlos Rubino Bahia. Dono do periódico Gazeta do Povo, aberto em 1959. Advogado. Provedor da Santa Casa de Misericórdia em 1931. 158 para a construção de currais no campo General Câmara, para as feiras de gado semanais, e da implantação do serviço telefônico urbano e rural. Solicitações aprovadas nesta mesma sessão. Na sessão de 04/11/1928 respondeu ao Conselho Municipal um ofício que lhe foi dirigido pelo mesmo, a respeito da prestação do serviço de Iluminação Elétrica da cidade, que tem mantido contato com a gerência da Companhia de Melhoramento de Feira de Sant‘ Anna e que tem recebido muitas promessas de regularização do serviço, cuja anormalidade tem causado a falta de água na Usina. Como medida o prefeito resolveu não pagar integralmente à Companhia ―de junho para cá‖ (p. 1), a espera de uma solução definitiva. Na sessão de 03.06.1930, solicitou ao Conselho Municipal um crédito suplementar para a verba de ―Eleições e despesas eleitorais‖, com a justificativa de que foram grandes as despesas com as eleições federais. A proposta foi aceita pelo Conselho que autorizou o suplemento da verba em um conto de reis, na sessão de 10.06.1930. Em 03/10/1928 o Conselho lhe enviou um pedido de análise de algumas propostas, entre elas o fechamento da Travessa do Comércio, ―a bem da saúde pública‖. Em 13/10/1928, o Intendente enviou seu parecer para o Conselho negando o fechamento da Travessa. Em 04/12/1928, é apresentado o resultado da concorrência para a 159 instalação do serviço telefônico na cidade, com a Sociedade Anônima Luz e Força da cidade de Santo Amaro, com a exclusividade de exploração do serviço por 30 anos. Em 1931 é instalado o serviço de telefonia e segunda rede elétrica para receber a energia da hidrelétrica de Bananeiras. Em 19/02/1935, escrever para Juraci informando que Heráclito Dias de Carvalho era o nome indicado por Arnold, para substituí-lo na prefeitura de Feira. Nesse período Nova e Arnold foram eleitos deputados da constituinte estadual. FILINTO MARQUES DE CERQUEIRA VEREADOR 1924-1925 1928-1930; 1935-1937 PELO PSD 2º Secretário da Câmara em 1928 e em 1937. Advogado. Membro da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura em 1930. Membro da Comissão de Fazenda e da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura da Câmara em 1937. Morre em 1939 aos 82 anos. O prefeito Heráclito decreta luto oficial por 3 dias. GONÇALO ALVES BOAVENTURA VEREADOR 1924-1925 1928-1930; 1935-1937 PELO PSD Em 1924 era suplente (de quem?). Membro da Comissão de Fazenda da Câmara em 1937. Pai de Eurico Boaventura. Alves Em 1928 foi convocado como suplente de vereador(De quem?), pelo presidente da câmara José Alves Boaventura. Na 12ª sessão de 09.06.1925, ele propôs que Farmacêutico. Comerciante de couro. 160 fosse mudado de quinhentos reis para dez mil reis por carro de boi que transita ―nesta cidade‖. Proposta aprovada pelo Conselho nesta mesma sessão. Presidente do Conselho Municipal em 1928. HERÁCLITO DIAS DE CARVALHO PREFEITO 1ª VEZ PREFEITO 2ª VEZ 03/1935-11/1937 Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Natural Tanquinho. 07/1938-03/1943 Em seu governo aconteceu a 1ª micareta de Feira. Dono de armazém de fumo para exportação. Primeiro prefeito eleito pelo voto direto pelo PSD, 1935, partido de Juracy Magalhães. Em sua segunda gestão são construídos e inaugurados os Currais Modelo. Em 31.12.1935 instaurou um inquérito contra o funcionário Oscar Ribeiro dos Santos, sob a acusação de ter feito referência ao Prefeito em ‗termos inconvenientes‖. Os funcionários Altino Mattos e Virgílio Alves Bastos foram arrolados como testemunhas e afirmaram não ter visto nem ouvido nada. Euclides Alves Mascarenhas, outro funcionário também arrolado como testemunha, disse no mês de novembro, não se recordando o dia exato, testemunhou Oscar dizer que havia trabalhado com muitos prefeitos, mas que Heráclito tinha sido o pior. Oscar afirmou que se um dia disse isso não se lembra, mas que se fizesse teria sido de pilheria porque estima muito o Prefeito e a ele tudo deve. O episódio encerrou-se assim. Em 26/09/1936 solicitou à Câmara Municipal a abertura de crédito especial para ―correr as despesas de com o serviço de exploração estudos e desapropriações no exercício corrente de 1936 de Delegado de polícia em 1926. Presidente da filarmônica 25 de março também em 1926, reeleito. F.N. 13.01.1926. p. 1. Visitador da Santa Casa de Misericórdia em 1926 (F.N.) Acredito que mensalmente era escolhido um ou dois visitadores, que iriam realizar ações beneméritas pela instituição. 161 até o próximo exercício de 1937 até onde, presumo, se prolongarão esses trabalhos‖ (Requerimento enviado à Câmara em 26/09/1935 – p. 1). Em 13/10/1936, a Câmara deu parecer favorável. Decreta em 1939, publicado no Folha do Norte de 14/01/1939, a liberação de crédito especial para a aquisição da obra ―Nova Política do Brasil‖, de autoria de Vargas. Decreta (Ato nº 5) em 28/01/1939 a proibição entrada de carros de boi na cidade, sob pena de aplicação de multa. Publicado no Folha do Norte desse dia. Em 1939 o então interventor Landulfo Alves, sob pedido do Ministério da Marinha, exige estoque da quantidade de ferro velho existente nos estoques dos municípios. Heráclito atende ao pedido, envia o relato do estoque e pedi a população que colabore com essa ―obra de profundo espírito patriótico, remetendo ao depósito municipal qualquer quantidade de ferro velho, que por ventura esteja em sua posse‖ (F. N, 11.02.1939, num 1544, p.3). O Sindicato dos Exportadores da Capital do Estado da Bahia, em especial os Exportadores de Fumo, publicaram uma nota no F.N. de 04.03.1939, reclamando sobre o aumento do Imposto de Produção, alegando ser ilegal essa cobrança do comerciante pois ―conforme o próprio nome está a indicar [...] deve ser pago pelo produtor da mercadoria, nunca, porém, pelo exportador‖. Esta solicitação é datada de 31/01/1939. 162 No F.N. de 11.03.1939 é publicado o ato de nº 9 do prefeito Heráclito, onde ele decreta a diminuição do imposto afirmando serem justas as reclamações que lhes foram dirigidas. Ficando estabelecidos os seguintes valores: 2 mil réis para o enfardador que beneficiar mais e 4.000 fardos; 1 mil réis para quem beneficiar até 4.000 fardos; 500 réis para quem beneficiar até 1.000 fardos. O F. N. de 18/03/1939, num 1549, divulga o empréstimo da Prefeitura tomado com a Caixa Econômica, no valor de 300 contos de réis, para a construção dos currais modelo, de cimento armado e balança. Segundo o jornal, esperava-se que esse empréstimo se destina-se a instalação do serviço de água e esgotos. Para ser pago em 10 anos e juros de 9%, com prestações semestrais. Como garantia a Caixa exigiu a hipoteca das citadas construções, recolhimento semanal da renda bruta dos currais e o produto líquido do imposto de indústria e profissões. Reeleito em 1926 presidente da Filarmônica 25 de março. Em sua segunda gestão, precisamente em 2 de abril de 1941, foi inaugurado o Rotary Clube de Feira de Santana, formado por: Heráclito Dias de Carvalho; - Áureo de Oliveira Filho; - João Marinho Falcão; - Sérgio Meira Góes; - Pedro Carvalho; - Álvaro Rubem; - Coriolano Carvalho; - Luiz Azêvedo; - Eduardo Fróes da Motta; -Gonçalo Alves Boaventura; - Edgar Britto; 163 - Hermínio Santos; - Armando Oliveira; - Humberto de Alencar; - Joaltino Silva; - Dival Pitombo; - Renato Sá; - Clovis Amorin; - Carlos Cajazeira; - Clovis Silveira Lima; - Guilherme Azêvedo; - Jose Britto; - Filinto Marques. (FN, 5 abr 1941, n. 1656, p. 10) Como ele pode estar nesta lista se ele morreu em 1937? Certamente parente. Procurar nome completo. HONORATO BONFIM JOÃO BARBOSA DE CARVALHO VEREADOR SUPLENTE PREFEITO 1929 Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Médico, jornalista e professor do Ginásio Santanópolis. Membro do Integralismo. Escrevia na Folha do Norte, onde publicava poesias suas, mas não com regularidade. 1924 1925 1928-1930 1935-1937 PELO PSD 1947 Em 1930 foi o 2º Secretário da Câmara. Prático Farmácia. Suplente de quem? Proprietário de uma na Praça João Pedreira. Membro da Comissão de Instrução Publica, Justiça e Higiene em 1930. em Presidente da Câmara em 1937. Foi prefeito em 1947 substituindo Dr. Carlos Valadares, de quem era secretário (ainda não sei de que), que saiu do cargo para candidatar-se a Deputado (por qual partido?). JOAQUIM COELHO SUPLENTE 1925 JOÃO LÚCIO VEREADOR 1924-1925 JOÃO DA COSTA FALCÃO 1945 Suplente de quem? Candidato a deputado estadual pelo PC em 1945. 164 JOÃO MARINHO FALCÃO VEREADOR 1935-1937 PELO PSD Membro da Comissão de Redação da Câmara Municipal em 1937. Comerciante de secos e molhados. 1º presidente do Rotary Club de Feira de Santana. Sócio de Arnold Silva e João Martins da Silva da empresa de carnes. JOÃO MARTINS DA SILVA VEREADOR 1924-1925 1928-1930; 1935-1937 PELO PSD Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Membro da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura em 1930. Membro da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura em 1937. Pecuarista e comerciante de gado, carne verde e derivados. Doou o terreno onde hoje é parque de exposições – tio de Colbert Martins da Silva. Exposição em moldes similares à feira criada por Landulpho Alves no período da sua interventoria. Acontecia no bairro de Ondina. JOÃO MENDES DA COSTA PREFEITO 1931-1933 Chefe da Aliança Liberal em Feira de Santana. Nomeado por Leopoldo do Amaral. Em 30 de outubro de 1931 escreve para Juracy pedindo orientações para a sua administração em Feira de Santana. Arquivo JM, pasta Municípios – FSA – CPDOC. Título de coronel adquirido na Guarda Nacional, segundo Oscar Damião. Em 1932, por meio do Ato de nº 38 ele decreta a mudança do trânsito das boiadas da Rua 24 de maio (Rua de Aurora), alegando necessidade pública (F.N. 16/01/1932, p. 2). É estabelecida uma multa para aquele que descumprir a mudança. Fazendeiro. 165 JOÃO MENDES DA COSTA FILHO DEPUTADO ESTADUAL 1930-1937 PELA LASP (CONSTITUINTE) JOÃO MENDES AGUIAR Filho do coronel João Mendes da Costa. Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. JOIL SANTOS BABOSA ou JOEL? VEREADOR 1929-1930 JOSÉ ALVES BOAVENTURA VEREADOR 1924 1930 Professor. Possuía o título de coronel, de onde? Presidente do Conselho em 1924. Fazendeiro Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Membro da Comissão de Instrução Pública, Justiça e Higiene em 1930. JOSÉ CORDEIRO DE ALMEIDA VEREADOR 1928-1930 JOSÉ MOREIIRA DO ARAÚJO JOSÉ PINTO DOS SANTOS Membro da Comissão de Redação em 1930. Diretor da Secretaria da Câmara em 1930. VEREADOR 1924-1925 1930 1935-1937 PELO PSD Em 1925 e também em 1928 era o 1º Secretário do Conselho Municipal. Membro da Comissão de Redação em 1930. 1º Secretário da Câmara em 1937. Membro da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura e da Comissão de Redação da Câmara Municipal em 1935. JOSÉ GUIMARÃES SUZARTE VEREADOR 1924-1925 LÚCIO CERQUEIRA VALENTIN JUNIOR VEREADOR 1926-1928 MANUEL MATHIAS DE AZEVÊDO SUPLENTE DE VEREADOR 1928 Em 1925 era o 2º Secretário do Conselho Municipal. Presidente da filarmônica 25 de março em 1926. Suplente de quem? Foi alfaiate e depois comerciante. Segundo Oscar Damião, ele gostava de falar em público 166 e devido a isso foi nomeado orador de várias solenidades. Nomeado por quem? Quais eram essas solenidades? MANUEL COELHO MIGUEL RIBEIRO Juiz de Direito em Feira de Santana na década de 1930. VEREADOR 1928 OTTO SCHIMDT Diretor da Escola Normal de Feira desde 01/1931, nomeado pelo então Interventor Leopoldo do Amaral. Engenheiro da prefeitura em 1926. Rábula e depois bacharel em Direito. Disputou a direção da Escola Normal de Feira de Santana com Gastão Guimarães. Redator do jornal ―O Município‖, que circulou de 1892 a 1895, e posteriormente do jornal ―O Progresso‖, que circulou de 1900 a 1909. (Ver Ramaiana, cap II). Aparece várias vezes no Folha do Norte, quase sempre na primeira página. Em 14/03/1935 Nova escreveu para Juraci pedindo uma vaga que fora de Monteira Almeida, na Saúde Pública para este Schimdt. Médico. Em 1937, foi noticiado no Folha do Norte as comemorações dos dez anos da Escola Normal, e Otto Schimdt foi descrito como Técnico Esportivo da Escola. Membro da Diretoria do Clube Comercial Cruz Vermelha da Bahia em 1937, juntamente com Heráclito Dias de Carvalho, prefeito neste período. PAULO COSTA LIMA SUPLENTE DE VEREADOR 1928 Suplente de quem? Industrial segundo Folha do Norte de 14/01/1939 (de quê?) SIMÕES FILHO DEPUTADO FEDERAL 1926 Diretor da Companhia de Melhoramentos de Feira de Santana, empresa responsável pela instalação da luz elétrica na cidade no ano de 1926. (F. N. 13/06/1926, num 853, p.1) Dono e diretor do A Tarde em 1926, e TEODÚLO BASTOS PREFEITO 11/1937-07/1938 Eleito e afastado devido ao Formou-se em 167 DE CARVALHO golpe do Estado Novo, segundo Oscar Damião (quais razões?). Em sua gestão é decretado o Código de Postura – Decreto Lei nº 1, 19/12/1937. É publicado aviso do prefeito, no Folha do Norte de 01/01/1938, informando as pessoas que desobedecerem o código de postura que serão recolhidos ao curral da prefeitura todos os animais encontrados soltos nas ruas e nas praças, ficando a soltura dependente do pagamento da multa para que sejam devolvidos a seus donos. Com uma ressalva para os porcos, pois estes seriam mortos e distribuídos nas casas de ―pias‖. Farmácia e Medicina em SSA. Dono de indústria de manteiga e requeijão em 1940. TERTULIANO ALMEIDA VEREADOR 1924-1925 TERTULIANO CARNEIRO DA SILVA VEREADOR 1924-1925 Em 1924 e 1925 era Presidente do Conselho Municipal. Cônego. Cunhado de Arthur Fróes da Motta. VALENTIN JOSÉ DE SOUZA VEREADOR 1924 1928-1930; 1935-1937 PELO PSD Em 1924 era suplemente, mas de quem? Antonio Caribá doou 1 conto de réis para a compra do terreno para a do Albergue Noturno (F. N. 11/03/1939, num 1548). Também fez parte do comitê do sufrágio de 1929. Membro da Comissão de Obras Públicas, Viação e Agricultura em 1930. VICENTE REIS VEREADOR 1929 Em 1939 era membro da Liga Contra o Analfabetismo (Que liga é essa?). Nesse mesmo ano escrevia para o Folha do Norte. Publicou uma nota em 25.02.1939 solicitando das autoridades municipais um local para que pudessem ser construídas casas para os ―operários‖ de Feira. A maioria de suas notas são intituladas ―Pelos pobres‖, Escrivão civil crime em 1926. e 168 sempre reivindicando melhorias para os pobres como educação, construção de albergues, casas. F. N. de 18.03.1939, publica uma nota sobre a campanha levanta por ele e por Antonio Cypriano Pinto, João Paschoal dos Santos e Arlindo Ferreira, para a arrecadação de donativos que objetivavam a construção de um albergue noturno em Feira de Santana. WALDEMAR ALMEIDA Membro da Liga Contra o Analfabetismo em 1939.