OLHARES SOBRE UMA CIDADE REFLETIDA: MEMÓRIA E REPRESENTAÇÕES SOBRE DUQUE DE CAXIAS (1950-1980). Tânia Maria da Silva Amaro de Almeida ¹ Angela Maria Roberti Martins, DSc 2 O tema abordado nesta pesquisa é a cidade de Duque de Caxias nas representações literárias (19501980), cujo objeto são as representações sobre a cidade nas obras literárias de Santos Lemos e Barbosa Leite. O objetivo mais amplo desse projeto contempla a intersecção das relações entre o texto literário e o processo histórico. Seu pano de fundo traduz-se pela análise das representações assinaladas nas obras literárias de Santos Lemos e Barbosa Leite; pela problematização da ficção literária, da crônica e da poética; e, por sua exploração enquanto potência documental, testemunho de uma época historicamente determinada sobre a cidade de Duque de Caxias. Nessa perspectiva, o propósito central do trabalho é contribuir com as iniciativas que vêm ampliando a aproximação da História com a Literatura. Através de um olhar interdisciplinar, espera-se, também, verificar, nas fontes literárias sobre a região e, principalmente, sobre o município de Duque de Caxias, as concepções de cidade esboçadas por autores que escreveram sobre a vida urbana na sua própria contemporaneidade. Os autores escolhidos para nosso estudo são Silbert dos Santos Lemos e Francisco Barbosa Leite. O primeiro era ex-repórter de polícia, colunista social e delegado. Nas obras selecionadas "Sangue no 311", "O Negro Sabará" e "Os donos da cidade", três livros que fazem parte da coleção “Crimes que abalaram Caxias”, publicados, respectivamente, em 1967, 1977 e 1980, Santos Lemos relatou as relações ocorridas no submundo caxiense entre as décadas de 1950 a 1970. Francisco Barbosa Leite era um artista múltiplo. Vindo do Ceará, atuou como artista plástico, poeta, escritor, jornalista, ensaísta, cenógrafo, ator e compositor. Era amigo de Solano Trindade e compôs a canção “Exaltação à Cidade de Duque de Caxias”, que se tornaria, mais tarde, o Hino Oficial da cidade. Esse artista múltiplo escreveu diversos livros de poesias, contos e crônicas, entre eles "Contrastes e Confrontos", "O Chão de Caminhos", "Ânfora de Enigmas", "Os Espaços Abertos", "Entre o Sol e a Solidão", "A Distância Infinita". Além de cordéis como "A grande Feira de Duque de Caxias" e "A verdadeira História da cidade de Duque de Caxias", produziu livreto de contexto histórico livre em prosa lírica intitulado "Trilhas, Roteiros e Legendas de uma Cidade Chamada Duque de Caxias". Também, junto com Rogério Torres, elaborou "Duque de Caxias. Foto Poética". Alguns pressupostos estão presentes na elaboração desta proposta de pesquisa. Um deles é o de que o discurso literário traz em si um relato das formas de ver, sentir, imaginar e sonhar a cidade. Outro pressuposto que orienta esta investigação é o de que existe uma relação de aproximação e distanciamento entre as duas visões literárias sobre Duque de Caxias em uma mesma temporalidade. Ao que parece, nem todas as representações lançadas sobre a cidade se operam no nível da consciência, estando atravessadas por fatores culturais e psicológicos, os quais revelam a inscrição de mecanismos do imaginário nas formas de apreensão da realidade, nas subjetividades e nas sensibilidades dos escritores. Esta proposta implica, de imediato, o desafio de trabalhar na “fronteira” entre as formas literárias de ordenação do real e a configuração prática da cidade, com o cultural assumindo, assim, novas e desafiadoras dimensões como sugerem as tendências atuais que aproximam História e Literatura. Pesquisa de abordagem qualitativa do tipo documental e bibliográfica que, na realização do trabalho, o destaque versará sobre os métodos de interpretação de texto, sendo possível, também, a utilização da técnica comparativa para contrapor as representações da cidade em estilos diferentes, como a prosa de Santos Lemos e a poética de Barbosa Leite. ____________________ ¹ Discente do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas, UNIGRANRIO 90 2 Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas, UNIGRANRIO A pesquisa, que de forma alguma pretende esgotar o tema, está garantida pela existência, em arquivos e bibliotecas, de uma gama considerável de documentos e textos adequados ao estudo da cidade de Duque de Caxias, incluindo as fontes literárias para o estudo das representações. A documentação bibliográfica e textual disponível encontra-se Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias, mas também dispersa pelas bibliotecas e arquivos, como, por exemplo, Arquivo Nacional, Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional. O processo histórico de relação da cidade com a região da Baixada também pode ser avaliado através de documentação existente nesses arquivos. Com este estudo, estaremos contribuindo para o debate na academia sobre a história da Baixada Fluminense, que neste momento, carece de pesquisas de caráter acadêmico, no que se refere à relação da História com a Literatura. Observando os encontros nacionais e regionais de História, visitando bibliotecas e consultando catálogos de editoras especializadas, constatamos que não existem estudos sobre o tema. Apesar dos esforços de pesquisadores locais que se preocupam em analisar os movimentos sociais, a violência e os grupos políticos e culturais, é inexistente a produção acadêmica sobre o olhar da literatura sobre a história. Pretendemos dessa forma, estender nossa contribuição ao disponibilizar os dados e os documentos adquiridos na pesquisa, para as diversas instituições que trabalham e se interessam sobre o assunto. Sendo assim o que buscamos com esse estudo, é uma maneira de ter acesso à cidade a partir do que chamamos “visões da literatura”, ou seja, dos autores que dela falam, (re)criando o espaço urbano e a dinâmica da vida cotidiana. Duque de Caxias não é um lugar desprovido de História, mas moldado pela ação dos diferentes sujeitos históricos. Os textos de Santos Lemos revelam-nos várias possibilidades de leitura da realidade social e das disputas políticas operadas na localidade, contando com riqueza de detalhes o panorama social, o caráter de discriminação da população marginalizada e as práticas violentas e corruptas do poder constituído. O que se pode vivenciar através das memórias das personagens de Lemos é o espaço de tensões, onde não havia consentimento e o uso da coerção era a única estratégia de controle social. Ali estão representados os interesses dos grupos dominantes locais que detinham o controle do aparelho burocrático e político, através das relações com o poder central. Mas, ao mesmo tempo, podem ser visualizadas as formas de ocupação popular, as lutas dos trabalhadores e os movimentos sociais em busca de uma vida melhor. Já Barbosa Leite, poeta, artista plástico, escritor, compositor... pintará a cidade com suas cores e sons, não deixando também de expressar suas considerações sobre o cotidiano. As estratégias construídas pela população e as práticas necessárias para mostrar sua presença são construídas nas experiências da luta individual ou coletiva naquela Duque de Caxias que nos é dada a ler através da reconfiguração do passado para buscar compreender sua própria historicidade. Reprodução de fotografia expondo a precariedade do sistema de transportes em Duque de Caxias – s/d. À frente das lotações, os condutores. Autor desconhecido. 91 Fonte: acervo sob a guarda do IH/CMDC. A imagem não pode ser exibida. Talv ez o computador não tenha memória suficiente para abrir a imagem ou talv ez ela esteja corrompida. Reinicie o computador e abra o arquiv o nov amente. Se ainda assim aparecer o x v ermelho, poderá ser necessário excluir a imagem e inseri-la nov amente. Reprodução de fotografia onde se vê a Avenida Presidente Vargas, Duque de Caxias – anos 1950. Autor desconhecido. Fonte: acervo sob a guarda do IH/CMDC. Reprodução de fotografia expondo a Praça do Pacificador, na Duque de Caxias “pintada” por Barbosa Leite - anos 1970. Autor desconhecido. Fonte: acervo sob a guarda do IH/CMDC. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA LEITE, Francisco. A grande Feira de Duque de Caxias, 1984, s/r. _____. A verdadeira História da cidade de Duque de Caxias, 1984, s/r. _____. Exaltação à cidade de Duque de Caxias, 1963, s/r. _____. Trilhas, roteiros e legendas de uma cidade chamada Caxias. Duque de Caxias: Consórcio de Administração de Edições, 1986. _____ e TORRES, Rogério. Duque de Caxias. Foto poética, s/d, s/r. BELOCH, Israel. Capa Preta e Lurdinha: Tenório Cavalcanti e o povo da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Record, 1986. 92 BRAZ, Antonio Augusto; ALMEIDA, Tania Maria Amaro de. De Merity a Duque de Caxias: Encontro com a História da Cidade. Duque de Caxias: APPH-Clio, 2010. CARDOSO, Josué. Eles fizeram a História. Sessão "Memória Viva". 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