UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JULIO DE MESQUITA FILHO FACULDADE DE CIÊNCIAS Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência - Bauru - SP TESE DE DOUTORADO HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL: MANUTENÇÃO DE UM MITO? VALÉRIA SILVA DIAS Dezembro/2008 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JULIO DE MESQUITA FILHO FACULDADE DE CIÊNCIAS Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA PESQUISA EM ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL: MANUTENÇÃO DE UM MITO? Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, como exigência parcial para obtenção do grau de doutora em Educação para a Ciência. Doutoranda: Valéria Silva Dias Orientador: Prof. Dr. Alberto Villani Dezembro/2008 DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO UNESP – Campus de Bauru Dias, Valéria Silva. História e filosofia da ciência na pesquisa em ensino de ciências no Brasil : manutenção de um mito? / Valéria Silva Dias, 2008 116 f. : il. Orientador: Alberto Villani Tese (Doutorado)– Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências, Bauru, 2008. 1. Psicanálise. 2. Mito. 3. Pesquisa em ensino de ciências. 4. História e filosofia da ciência. I. Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências. II. Título. Ficha catalográfica elaborada por Maria Thereza Pillon Ribeiro – CRB 3.869 BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Alberto Villani (orientador) Profa. Dra. Elizabeth Barolli Prof. Dr. Jorge Megid Neto Prof. Dr. Roberto Nardi Profa. Dra. Sonia Maria Dion Faculdade de Ciências, UNESP, Bauru, 23 de dezembro de 2008 AGRADECIMENTOS Ao Professor Alberto Villani, orientador dessa tese, pela insistência e confiança na realização do trabalho. Ao Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, pela flexibilidade e compreensão, sem as quais não seria possível finalizar o projeto. Aos colegas do Grupo de Pesquisa sobre Formação de Professores e Psicanálise, pelo apoio e colaboração nas discussões sobre a tese. Aos professores e professoras que concederam as entrevistas para essa pesquisa. Aos membros das bancas de qualificação e defesa, pelas preciosas contribuições na análise crítica do texto. Ao meu marido, meus familiares (particularmente, meus irmãos e minha irmã) e amigos, pela compreensão, pela escuta paciente e pela ajuda nos momentos difíceis. No limite, o que veremos é que o mito se deixa eternamente interpretar, e esta interpretação torna-se, ela mesma, um novo mito. Em outras palavras, as interpretações não esgotam o mito. Antes, de outra maneira, a ele se agregam como novas formas de o mito expor suas mensagens. Numa cápsula, poderia ser dito: novas interpretações, outros mitos. Isto é, talvez, aquilo que de mais sedutor se encontra no mito. (Rocha, 1999, p. 48) Mudaram as estações e nada mudou Mas eu sei que alguma coisa aconteceu Está tudo assim tão diferente Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar Que tudo era pra sempre Sem saber Que o para sempre Sempre acaba? Renato Russo - Legião Urbana (Por enquanto) RESUMO A institucionalização da pesquisa sobre Ensino de Ciências (EC) teve início no Brasil no final da década de 1960 e apenas recentemente, no ano 2000, foi reconhecida como área pela Capes. Durante esse tempo, tivemos a produção de vários trabalhos que buscaram analisar sua história, descrevendo os fatores determinantes de sua constituição e sustentação. Em nossa pesquisa resgatamos alguns desses trabalhos, focando o olhar sobre os aspectos subjetivos que contribuíram para seu desenvolvimento. Elegemos como referências os trabalhos de Nardi (2005) e Villani, Pacca e Freitas (2002), bem como alguns conceitos psicanalíticos desenvolvidos por René Kaës sobre a vida psíquica de grupos e instituições. Esses elementos permitiram interpretar os eventos que marcaram a história da área de EC, considerando que todo grupo se constitui, se organiza e evolui de acordo com a configuração que reveste o sistema de representação de seus membros, da tarefa proposta, do grupo em si mesmo e do contexto social. Após identificarmos os quatro momentos organizadores no desenvolvimento dos vínculos intersubjetivos estabelecidos na instituição - o Momento Originário, o Primeiro, o Segundo e o Terceiro Organizador Grupal - buscamos pelos intermediários que marcaram os intercâmbios, os lugares, as atribuições, a atividade representacional e os afetos. Reconhecemos na História e Filosofia da Ciência (HFC) intermediários fundamentais em cada fase do desenvolvimento da área e buscamos elementos para entender melhor os papéis desempenhados pela HFC na pesquisa, principalmente, suas contribuições para a fundação e sustentação da área. Para obtermos informações com potencial mais subjetivo fizemos entrevistas com pesquisadores da área, cujas produções científicas revelaram aproximação com a HFC. A nossa interpretação avançou quando integramos um novo conceito no suporte das análises: o mito. Nossos resultados revelaram que, embora manifestada de diferentes formas, a exploração da HFC na pesquisa em EC parece cumprir a missão fundamental de manutenção do mito da ciência, ou seja, de transmitir através das gerações a narrativa da ciência como um mito de origem e de verdade. Palavras-chave: Pesquisa em Ensino de Ciências, História e Filosofia da Ciência, psicanálise, mito. ABSTRACT The establishment of research into Science Education began in Brazil in the end of the decade of the 1960’s and only recently, in the year 2000, was it recognized as a field by Capes. During this time, many works tried to analyse its history, describing the determinant factors of its constitution and upholding. In our research we look back on some of these works, focusing on subjective aspects that contributed to its development. We chose as reference the works of Nardi (2005) and Villani, Pacca & Freitas (2002), and some other psychoanalytic concepts developed by René Kaës referring to psychic life of groups and institutions. These elements allowed us to interpret the events that highlighted the history in the field of Science Education, taking into consideration that any group is made up of, organizes itself and develops itself according to the configuration that overlays the representation system of its members, of the task proposed, the group itself and the social context. After we were able to identify the four organizational moments in the development of the intersubjective links existing in an institution which are the arising moment, the first, the second and the third group organizer, we searched for the intermediates that highlighted the interchanges, the places, the attributions, the representational activities and the affection. One can recognize in the History and Philosophy of Science (HPS) the fundamental intermediary in each developing phase of the field and search for elements to better understand the roles played by the HPS in research, especially its contributions to the foundation and establishment in the field. To obtain more potential and subjective information, many researchers in this field were interviewed whose scientific works showed some proximity with the HPS. Our interpretation took a head start when we integrated a new concept to support our analysis: the myth. Our results revealed that, although manifested in many different ways, exploring the HPS in the Science Education research seems to fulfill the fundamental mission in maintaining the science of myth, or rather, transmitting from generation to generation the science narrative as a myth of origin and truth. Key words: Research in Science Education, History and Philosophy of Science, psychoanalysis, myth. ÍNDICE 1. APRESENTAÇÃO ____________________________________________ 02 1.1 A METODOLOGIA DA PESQUISA ____________________________________ 04 2. UM PANORAMA DA ÁREA DE ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL ____ 09 2.1 O PANORAMA ANTERIOR À DÉCADA DE 1960 __________________________ 12 2.2 FASE 1: O INÍCIO DAS PESQUISAS NA ÁREA ___________________________ 21 2.3 FASE 2: A CONSOLIDAÇÃO DA ÁREA ________________________________ 28 2.4 FASE 3: O MOMENTO ATUAL DA ÁREA _______________________________ 30 3. INTERPRETANDO A HISTÓRIA DA ÁREA DE EC E DESTACANDO CONTRIBUIÇÕES DA HFC_________________________________________ 36 3.1 MOMENTO ORIGINÁRIO _________________________________________ 41 3.2 PRIMEIRO ORGANIZADOR GRUPAL _________________________________ 43 3.3 SEGUNDO ORGANIZADOR GRUPAL _________________________________ 45 3.4 TERCEIRO ORGANIZADOR GRUPAL __________________________________ 49 4. PAPÉIS DA HFC NA HISTÓRIA DA ÁREA ________________________ 52 4.1 ASPECTOS OBJETIVOS: PUBLICAÇÕES E MODELO DE MUDANÇA CONCEITUAL ____ 54 4.2 ASPECTOS SUBJETIVOS: REFERÊNCIA SIMBÓLICA E TRANSMISSÃO DA HERANÇA _ 63 5. UMA OUTRA TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO: MITO ____________ 71 5.1. COMPLEXO DE ÉDIPO: UMA INTERPRETAÇÃO E UMA PONTE ________________ 78 5.2. MITO DE ORIGEM _____________________________________________ 79 5.3. MITO DA VERDADE ____________________________________________ 82 5.3. MITO DE ORIGEM E DE VERDADE __________________________________ 83 6. CONCLUSÕES _____________________________________________ 87 REFERÊNCIAS __________________________________________________ 91 APÊNDICE 1 - ROTEIRO PARA ENTREVISTA _________________________ 99 APÊNDICE 2 - AUTORIZAÇÃO ____________________________________ 101 APÊNDICE 3 - INTERMEDIÁRIO ___________________________________ 102 APÊNDICE 4 - REVISTA BRASILEIRA DE ENSINO DE FÍSICA ___________ 104 APÊNDICE 5 - O REAL, O SIMBÓLICO E O IMAGINÁRIO ______________ 108 APÊNDICE 6 - A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO ______________________ 113 1. APRESENTAÇÃO Nesse início de trabalho não poderia me furtar à explicitação da trajetória que me levou a pesquisar sobre as contribuições da História e Filosofia da Ciência (HFC) para a pesquisa na área de Ensino de Ciências (EC). Esse trajeto talvez tenha começado a se delinear em 1999 quando iniciei minha iniciação científica sob orientação do professor Roberto de Andrade Martins. O desafio que me foi proposto em meu primeiro contato com a História da Ciência foi estudar os trabalhos desenvolvidos por Michael Faraday que resultaram na lei da indução eletromagnética. De repente me vi diante de dezenas de artigos publicados por Faraday no início do século XIX, de diferentes biografias sobre ele e, como desafio suplementar, tinha seu caderno de laboratório com anotações do seu próprio punho para estudar. A tarefa era ao mesmo tempo árdua e fascinante e os resultados se traduziram em uma profunda marca na minha formação científica. Este estudo, realizado durante a licenciatura em Física, foi determinante para as escolhas que fiz para o mestrado, primeiro ao decidir pela área de EC e depois ao definir o tema da dissertação que tinha como eixo as contribuições de Faraday para a metodologia do trabalho experimental. Essas decisões foram amparadas pelas indicações do professor Martins que me incentivou a buscar um novo orientador que tivesse experiência na pesquisa em EC e que, ao mesmo tempo, tivesse vínculos com a pesquisa em HFC. Na experiência do mestrado ampliamos os estudos sobre a história do eletromagnetismo e iniciamos um estudo mais sistemático sobre historiografia e seus diferentes enfoques teóricos. Além disso, tivemos a oportunidade de entrar em contato com um referencial que possibilitou tratar de aspectos subjetivos envolvidos na relação ensino-aprendizagem. Nesse movimento, emprestamos conceitos do referencial psicanalítico lacaniano que nos permitiu ampliar o universo de interpretações dos dados disponíveis. O pertencimento a dois grupos de pesquisa foi particularmente importante nesse processo. O Grupo de História e Teoria da Ciência (GHTC) sediado na Unicamp, onde era possível debater sobre as questões relativas a 2 história do trabalho de Michael Faraday; e o Grupo de Pesquisa em Formação de Professores de Ciências e Psicanálise, onde as questões subjetivas ligadas ao relacionamento entre professores e alunos puderam vir à tona. Desde o início dessa fase eu já estava convencida de que o conhecimento da HFC poderia contribuir para o ensino das Ciências e buscava a introdução de textos históricos (fontes primárias) como forma de contextualizar e dar sentido a aprendizagem de meus alunos. Portanto, na atuação docente no Ensino Médio e também no Ensino Superior já lidava com as dificuldades que o uso de textos históricos na sala de aula apresentava e comecei a questionar sobre sua viabilidade prática. Mas foi durante o processo de desenvolvimento da dissertação de mestrado que tive contato com estudos sobre esse tipo de aplicação, sobre sua importância enquanto temática de pesquisa. Comecei a vislumbrar a possibilidade de obter respostas a algumas questões que me inquietavam e que geraram a tese ora apresentada. Com a participação em congressos e outros eventos científicos na área da Educação em Ciências e da HFC foi possível partilhar percepções e experiências sobre o uso da HFC no ensino e, revisando a bibliografia da área, foi possível ter acesso aos resultados de diversas pesquisas (Bizzo, 1991; Silva e Martins, 2003; Dias e Villani, 2004; Greca e Freire, 2004; Silva, 2006; Borges, 2007) sobre esse assunto. Algumas pesquisas revelavam as potencialidades para uso da HFC desde o Ensino Fundamental até o Ensino Superior, apontando fatores como: desmitificação da ciência e da atividade científica, concepções alternativas e suas superações, contextualização, evolução dos conceitos etc. Outras pesquisas apontavam os empecilhos: falta de material adequado aos diferentes níveis de ensino, despreparo dos professores relacionado à formação inicial, redução do número de aulas de ciências nas escolas, principalmente, no que se refere à escola pública de Ensino Médio, entre outros fatores. Enquanto nos envolvíamos com o levantamento desses dados, percebemos que esse tema era recorrente nas pesquisas da área de Educação em Ciências há muito tempo. Encontramos artigos sobre essa temática desde as primeiras publicações especializadas da área. Também percebemos que o 3 espaço para discussão das questões relativas ao ensino foi ficando cada vez maior nos eventos científicos da área de HFC. No quadro geral a HFC pareceu-nos reveladora de uma característica preocupante das pesquisas sobre EC e suas aplicações: a distância entre os resultados das pesquisas e a sala de aula. Como pudemos constatar, enquanto tema de pesquisa, a HFC estava presente desde o início da área, mas poucos trabalhos enfocavam experiências concretas de sua aplicação no ensino1. Inquietamo-nos ao constatar que esse distanciamento não era exclusividade das pesquisas sobre o uso de HFC no ensino, pelo contrário, se revelava também no estudo de outras temáticas, como a experimentação e o laboratório didático, por exemplo. Então, questionamos: como e porque essa temática permanece presente nas pesquisas? O que sustentou e sustenta a permanência desse tema de pesquisa na área ao longo do tempo? Essas questões nos levaram ao tema dessa tese e nos indicaram que, muito provavelmente, as respostas sobre o status que a HFC tem na área precisariam ser buscadas na própria história da pesquisa em EC. 1.1 A METODOLOGIA DA PESQUISA O caminho escolhido foi começar por uma pesquisa bibliográfica em periódicos da área de EC. Acreditávamos que um levantamento das publicações que tratavam da inserção da HFC no ensino poderia nos ajudar a responder perguntas do tipo: quem são as pessoas que escrevem sobre o uso da HFC no ensino? Quais as temáticas abordadas pelos autores em seus artigos? Após a revisão bibliográfica em dois periódicos ligados ao ensino de Física percebemos que somente parte das questões poderia ser respondida. Listar pesquisadores e os temas dos artigos não nos permitiu enxergar além de uma mudança na perspectiva das produções, ou seja, conseguimos detectar apenas que o número de artigos que tratavam de traduções ou leituras de episódios da história sem articulação com o ensino foi diminuindo com o passar 1 Existem várias iniciativas visando diminuir esse distanciamento, como exemplos, citamos o livro organizado por Silva (2006) “Estudos de História e Filosofia das Ciências: subsídios para Aplicação no Ensino” e o artigo de González e Pérez (2000) “Un currículo para el estúdio de la Historia de la Ciência en secundaria”. 4 do tempo. A impossibilidade de avançar na análise nos remeteu à necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a história da pesquisa em EC, principalmente, no tocante às temáticas de pesquisa que conquistaram espaço no Brasil. Essa tarefa nos levou ao encontro de vários trabalhos (Almeida, 1980; Goergen, 1986; Krasilchik, 1989; Conrado, 2005; André, 2006; Ferreira, 2006) de natureza parecida quanto à intencionalidade de mapear os aspectos objetivos (publicações, eventos científicos, criação de pós-graduações, etc.) que levaram a consolidação da pesquisa em ensino de Física, Química e Biologia2. Uma pesquisa particularmente inspiradora foi realizada por Nardi (2005) na tese intitulada “A área de ensino de Ciências no Brasil: fatores que determinaram sua constituição e suas características, segundo pesquisadores brasileiros”. A metodologia de coleta de dados foi baseada em entrevistas com representantes da área escolhidos pelos próprios pares através de uma consulta nacional, em que foram indicados os pesquisadores mais influentes na área, na opinião dos consultados3. Os dados provenientes das falas dos entrevistados foram analisados com o referencial de Análise do Discurso de linha francesa, e sua leitura levounos a perceber que seria possível fazer um levantamento mais específico dos aspectos subjetivos (as crenças, os preconceitos, os impasses vividos, os conflitos etc.) que envolveram a atuação dos pesquisadores ao longo dos anos. Surgiu então uma nova idéia: buscar trabalhos que retratassem a trajetória da pesquisa em EC, porém, que analisassem os eventos considerando a subjetividade envolvida na interface dos sujeitos individuais com o coletivo do grupo/área. Encontramos nas pesquisas desenvolvidas por 2 Cabe aqui a ressalva que, embora a área seja oficialmente reconhecida como Ensino de Ciências e Matemática, as pesquisas sobre o ensino de Matemática e, conseqüentemente, sobre o papel da História da Matemática no ensino estão circunscritas a uma comunidade específica, diferente daquela que retratamos no âmbito desse estudo. Uma exceção dessa situação talvez seja encontrada no programa de pós-graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 3 A consulta foi feita através de correio eletrônico e atingiu 973 pesquisadores. Foram indicados 501 nomes para entrevistas, em um total de 202 respostas obtidas. O critério do número de citações foi estabelecido para definir os 24 pesquisadores que foram entrevistados, sendo que todos tiveram oito ou mais indicações. 5 Villani, Pacca e Freitas (2002) também em Villani et al. (2006) as referências que procurávamos. Essas pesquisas utilizaram alguns conceitos da psicanálise lacaniana visando uma nova compreensão sobre os aspectos que marcaram a constituição e sustentação da área, ajudando com isso na reflexão sobre os caminhos já trilhados e sobre aqueles que poderiam se mostrar possíveis de serem trilhados. Outras pesquisas, estas empreendidas por Valadares e Villani (2001, 2006), utilizaram conceitos elaborados por René Kaës (1991, 1997, 2001, 2005) e permitiram enxergar a área de pesquisa em EC, no conjunto de seus pesquisadores e produções, como uma instituição ou um grupo com uma vida psíquica singular, passível de estudos e análises. Um trabalho específico apresentado por Villani na mesa de abertura do X Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (X EPEF) retratou a história da área dividida em quatro grandes momentos (ou fases), apontando os elementos caracterizadores de cada uma delas. Essa interpretação dos aspectos subjetivos envolvidos na história da área nos revelou que a HFC não foi apenas mais uma temática explorada nas pesquisas da área em meio a tantas outras; ela parece ter atuado como fator determinante em algumas fases, contribuindo, entre outras coisas, para aproximação de pesquisadores e referenciais teóricos específicos. A questão norteadora de nossa tese ganhou novos contornos nessa etapa do trabalho definindo-se como uma indagação sobre os papéis que a HFC desempenhou na história da área. Decidimos então entrevistar alguns dos pesquisadores que fizeram essa história e que poderiam nos ajudar não só a entender mais sobre o assunto, mas também vislumbrarmos possibilidades de resposta a nossa pergunta de pesquisa. Contamos também com os relatos das experiências vividas pelo próprio orientador do trabalho, que se constituíram em contribuições valiosas para a construção da tese. Assim, o que buscamos nos entrevistados foi a memória individual que se expressa apoiada em tempos e espaços institucionais, que se traduzem em dados histórico-afetivos de cada um. Segundo Kaës (2005), a memória é dependente de uma experiência vivida e integrada a uma história de um grupo, 6 que sustenta as memórias comuns e partilhadas, seus contratos e pactos ao longo de sua trajetória. A escolha dos entrevistados foi pautada nas referências obtidas durante a revisão dos periódicos empreendida em etapa anterior da pesquisa. O critério principal foi selecionar pesquisadores, reconhecidos dentro da área de ensino de Ciências, que tivessem publicações sobre o uso da HFC no ensino. Também buscamos referências nas atas do Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, principal evento promovido pela Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) no Brasil, sobre os pesquisadores que estavam envolvidos com a questão do ensino de Ciências. A participação da pesquisadora em eventos científicos realizados no âmbito das duas comunidades alvo facilitou, em parte, a realização das entrevistas. Entre as dificultadas enfrentadas citamos: a distância, pois as entrevistas foram realizadas nas residências ou locais de trabalho dos entrevistados espalhados por diversos estados brasileiros; a necessidade de transcrição integral das fitas (gravadas em áudio) feita pela própria pesquisadora - opção que se justifica pois entendemos que em um trabalho como esse em que se busca pelos detalhes, aquilo que está subjacente à fala, a terceirização desse serviço não seria uma vantagem; e o insucesso na tentativa de contatar algumas pessoas, principalmente alguns pesquisadores já aposentados. Para realização das entrevistas elaboramos um roteiro semi-estruturado, que pode ser encontrado no Apêndice 1. Em várias ocasiões, porém, a dinâmica das questões foi adaptada para a situação manter-se confortável em função da relação estabelecida entre a pesquisadora e o entrevistado. De maneira geral, as entrevistas duraram cerca de uma hora e trinta minutos, todos os entrevistados se mostraram comprometidos e envolvidos com as questões apresentadas e alguns, inclusive, ofereceram materiais adicionais para ajudar na pesquisa (sugeriram nomes para novas entrevistas, indicaram bibliografia). Obtivemos permissão escrita dos entrevistados para transcrição e uso dos dados gravados para fins dessa pesquisa (modelo no Apêndice 2). Salientamos ainda que as transcrições não foram utilizadas na íntegra, 7 selecionamos os trechos que se mostraram interessantes para a sustentação da tese, conforme apresentado nos capítulos seguintes. A análise das entrevistas (de uma lista preliminar de vinte pesquisadores, treze entrevistas foram realizadas e doze entrevistas foram utilizadas efetivamente4) suscitou a necessidade de buscar uma nova referência teórica para complementar a discussão sobre os elementos de perpetuação da HFC durante toda a história da área. Na tentativa de encontrar esse referencial, uma atividade relevante foi a submissão dos dados ao grupo de pesquisa coordenado pelo orientador desse trabalho. A atividade do grupo se configura pela dinâmica de associação livre e atenção flutuante através das quais os pesquisadores (em número que varia em torno de dez pessoas a cada reunião) levantam questões e sugerem hipóteses sobre a dinâmica dos eventos relatados, a partir do referencial adotado5. Foi durante uma dessas seções que a idéia de explorar a dimensão mítica da ciência foi proposta como possibilidade interpretativa dos dados relatados, nos levando ao conceito de mito e à referência que faltava. Consideramos que entre os principais resultados alcançados, nesse trabalho, estão o reconhecimento da História e Filosofia da Ciência (HFC) como um intermediário nos quatro momentos da história da área de pesquisa em EC, a descrição de elementos que possibilitam entender melhor os papéis desempenhados pela HFC no desenvolvimento dos vínculos intersubjetivos estabelecidos e ainda suas contribuições para a fundação e sustentação dessa área de pesquisa. Esses resultados, mais a utilização do conceito de mito, nos possibilitaram sustentar a tese de que, embora manifestada de diferentes formas, a exploração da HFC na pesquisa em EC parece cumprir a missão fundamental de valorização e manutenção do mito da ciência, ou seja, de transmitir através das gerações a narrativa da ciência como um mito de origem e de verdade. 4 Uma entrevista foi descartada, pois objetivava apenas testar o roteiro semi-estruturado e promover os ajustes quanto á duração, tempo de transcrição, etc. 5 Para saber mais sobre a dinâmica de trabalho desse grupo de pesquisa consultar Villani et al. (2006) ou Valadares (2008). 8 2. UM PANORAMA DA ÁREA DE ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL O reconhecimento da existência de uma área específica de pesquisa em Ensino de Ciências é uma situação relativamente nova para a comunidade científica brasileira. A criação da área de Ensino de Ciências e Matemática na CAPES6 ocorreu em setembro de 2000, embora possamos dizer que seu delineamento tenha se iniciado bem antes, aproximadamente no final da década de 1960. Sabemos que o estabelecimento dessa nova área foi influenciado pelo crescimento da comunidade científica no Brasil, especialmente, de pesquisadores provenientes das chamadas “ciências duras” – Física, Química, Biologia e Matemática. Sabemos também que a comunidade foi marcada em sua história pelos pesquisadores e materiais didáticos estrangeiros que aqui chegaram, trazendo com eles tradições e temáticas de pesquisa. Mas como traçar em poucas linhas um panorama da história da área de Educação em Ciências no Brasil? Optamos por sintetizar alguns estudos já realizados com essa perspectiva, entrelaçando principalmente os dados apresentados por Schwartzman (1979) sobre a construção geral da comunidade científica no Brasil, a pesquisa realizada por Nardi (2005) com os pesquisadores da área de EC e os trabalhos de Villani (2002, 2007) em que apresenta a história da área dividida em quatro fases distintas. Schwartzman contou sua história apoiado no depoimento de dezenas de cientistas, brasileiros ou provenientes de diferentes partes do mundo para trabalhar aqui, dar aulas, fundar institutos ou montar laboratórios. Além de se constituir como uma excelente fonte de dados sobre a formação da comunidade científica nacional, chamou-nos atenção a metodologia de coleta de dados utilizada no trabalho, talvez pela similaridade com a metodologia de coleta de dados eleita por Nardi na pesquisa já referida. De fato, a construção de um acervo de depoimentos tem sido uma estratégia bem utilizada quando se trata de reconstruir a história de instituições, 6 CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 9 grupos, comunidades. Também seguimos esse processo, através das entrevistas, para tentar entender os mecanismos engendrados pela HFC que deram sustentação a essa área (esses dados serão expostos no próximo capítulo). Entretanto, é preciso ficar claro que as condições de produção dos depoimentos, dos discursos coletados por nós, por Nardi (2005) e Schwartzman (1979), são bem distintas: ocorreram em momentos diferentes da história, envolveram números diversos de participantes, escolhidos por critérios diferentes e se prestaram a análises distintas. Contudo, ao nosso ver, isso não impede que tais dados sejam aproveitados em uma mesma pesquisa como essa que ora apresentamos. Schwartzman inicia sua obra sobre a história do desenvolvimento da comunidade científica no Brasil comparando o trabalho dos primeiros cientistas com o trabalho realizado por Sísifo a partir da maldição que foi imposta a este pelos deuses. A descrição da maldição revela que “Sísifo tem a sina de levar uma grande pedra morro acima, para vê-la rolar ladeira abaixo, e recomeçar tudo novamente. É um trabalho insano, inglório, interminável. Mas ele persiste” (1979, p.1). A comparação claramente trata dos resultados dos esforços dos cientistas, considerados poucos e efêmeros por Schwartzman, diante do tamanho do desafio que representava fazer ciência no Brasil naquela época. Nardi (2005), focalizou a formação de uma comunidade mais específica dentro da comunidade científica que foi objeto de estudo de Schwartzman. Ele buscou pela comunidade de pesquisadores sobre Ensino de Ciências. Esses pesquisadores apontaram os fatores que contribuíram para a constituição da área de EC no Brasil, que foram reunidos por Nardi (p. 98ss) em doze pontos: I. Os projetos de Ensino, ou seja, a tradução e implantação dos projetos estrangeiros como PSSC, BSCS, CBA, IPS, Harvard e outros; e o posterior surgimento das versões nacionais como PEF, PBEF e FAI; II. As políticas públicas nacionais de fomento à pós-graduação, à pesquisa e a projetos de ensino de Ciências e Matemática; III. O Projeto CAPES/PADCT7/SPEC8; 7 8 Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Subprograma de Educação para a Ciência 10 IV. A criação de programas de pós-graduação em Ensino de Ciências no Brasil; V. O papel das faculdades de Educação na formação dos primeiros pesquisadores; VI. Movimentos para melhoria do ensino; VII. O papel das sociedades científicas na luta pela democratização das oportunidades educacionais no país, pelo restabelecimento do estado de direito e apoio aos cientistas marginalizados durante o período militar, também pela organização dos primeiros simpósios, encontros e outros eventos sobre o ensino de Ciências; VIII. A própria pesquisa em ensino de Ciências; IX. Esforços pontuais, ou iniciativas individuais de pesquisadores de diversas áreas científicas que trouxeram o reconhecimento (dado pelos pares) de sua competência para a pesquisa em EC; X. Os eventos iniciados pelas sociedades científicas; XI. O surgimento de publicações periódicas da área; XII. As reestruturações da educação básica. Na frase apresentada abaixo, ele lembra que vários desses aspectos que contribuíram para formação dessa área específica de pesquisa já foram objeto de estudos no Brasil. No caso do Brasil, a instituição da ciência em disciplinas escolares, a criação dos cursos de licenciatura destinados à formação de professores de ciências, a criação de sociedades de pesquisa com secretarias de ensino, a implantação de centros de apoio e assessoria à construção de equipamentos para o ensino e à capacitação de professores de ciências, o advento dos primeiros simpósios específicos sobre ensino das áreas de ciências, a publicação de periódicos científicos destinados à divulgação sobre o tema, os encontros e congressos de pesquisa específicos em ensino das ciências, de uma forma ou outra, já foram tratados em estudos que se constituíram em dissertações, teses, artigos e capítulos de livros publicados no país e no exterior (NARDI, 2005, p.15). Já nos trabalhos de Villani, Pacca e Freitas (2002) e naquele apresentado por Villani (2007) no X EPEF, parte-se do pressuposto que essa 11 área de pesquisa em EC está consolidada, e empreende-se a tentativa de contar a história dessa área em quatro partes: a primeira relativa ao panorama científico brasileiro anterior a década de 1960, a segunda parte refere-se ao nascimento e primeira constituição da área (fase 1), a terceira parte do texto é referente ao processo de amadurecimento da Instituição (fase 2) e a quarta parte referente ao desenvolvimento mais recente, caracterizado por uma multiplicidade de linhas de pesquisa e de desafios a serem enfrentados (fase 3). Através de recortes dos trabalhos citados, procuramos caracterizar abaixo cada uma das quatro partes em que se dividiu a história da área, localizando os acontecimentos mais significativos em cada período conforme indicados pelos autores citados. Aos dados das pesquisas de Schwartzman, Nardi e Villani somamos outros, encontrados em trabalhos como de Goergen (1986), Krasilchik (1989), Bizzo (1996) e André (2006), quando julgamos que ajudariam na composição desse panorama geral da área. Nossa intenção é que a leitura de um panorama geral dê suporte para uma análise mais específica, que faremos na seqüência, sobre as contribuições da HFC para a área. 2.1 O PANORAMA ANTERIOR À DÉCADA DE 1960 A história dos pioneiros da ciência no Brasil é, sem dúvida, interessante e importante para entendermos a formação das instituições e das comunidades de pesquisa que se organizaram no país em suas diferentes regiões. Entretanto, como afirma Schwartzman (1979), não foram os pioneiros, como Frei Velloso ou Martius9 - em sua maioria viajantes que passaram pelo país estudando nossa fauna, nossa flora, nosso solo - que fundaram as instituições 9 Os relatos sobre plantas brasileiras iniciaram-se logo após o descobrimento do país. O marco inicial dos estudos foi a elaboração da Flora Fluminensis, por Frei Mariano da Conceição Velloso, no século XVIII. Outra obra importante e mais abrangente foi a Flora brasiliensis, programada e iniciada por Martius incluiu todas as espécies brasileiras conhecidas na época. Martius viveu entre 1794 e 1869, e dedicou grande parte de sua vida ao estudo da flora do Brasil. A Flora brasiliensis levou 66 anos para ser concluída e envolveu 65 botânicos sob a direção sucessiva de Martius, Eichler e Urban. Seu primeiro volume foi publicado em 1823. Foi realizada com o patrocínio de três monarcas: o Rei da Baviera, o Imperador da Áustria e o Imperador do Brasil. A Flora brasiliensis compreende 40 volumes (130 fascículos), descreve 2253 gêneros, dos quais 160 novos e 22767 espécies, das quais 5689 novas. 12 científicas ou agregaram outros cientistas ao seu redor criando tradição de pesquisa que tivesse continuidade. Fundador, certamente, foi Oswaldo Cruz, criador do Instituto que hoje leva seu nome e que deu origem a toda uma tradição de pesquisa biológica no Brasil. Fundador foi Teodoro Ramos, com sua grande influência na Escola Politécnica de São Paulo e seu papel na organização da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP; ou Heinrich Rheinbolt, professor de química de origem alemã que cria toda uma linha de trabalho a partir de sua vinda para São Paulo (SCHWARTZMAN, 1979, p. 4). Outros nomes são acrescentados por Schwartzman a esses fundadores e participantes da organização do desenvolvimento das instituições científicas do país, como o do físico Gleb Wataghin, do matemático Lélio Gama, do geólogo Othon Leonardos, do físico Francisco Magalhães Gomes e do biólogo Olympio da Fonseca. Mas, não seria possível no espaço desse trabalho, mapear o trabalho destes e de tantos outros que tiveram seus nomes inscritos nessa história. Em comum se verifica que muitos desses “cientistas primeiros” eram estrangeiros que vieram se radicar no Brasil ou brasileiros que haviam se formado no exterior. Muitos buscaram colocações nos institutos, faculdades ou nas universidades brasileiras que cresciam em número, sobretudo pela união de faculdades ou institutos isolados10. Schwartzman recorreu ao trabalho de Azevedo (1971) para contar um episódio símbolo dessa necessidade de importação de pessoal especializado 10 Uma das primeiras universidades fundadas no Brasil foi a Universidade Federal do Amazonas, em 1909 (www.ufam.edu.br). Logo depois outras universidades foram surgindo como a Universidade Federal do Paraná, em 1912 (www.ufpr.br), a Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1920 (www.ufrj.br) e a Universidade de Porto Alegre, fundada em 1934, que é conhecida hoje como Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O ano de 1934 também marcou a fundação da Universidade de São Paulo (www4.usp.br), com a união de vaárias faculdades já existentes em São Paulo, como a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, por exemplo. Dentre todas as demais universidades que surgiram no Brasil, destacamos ainda a fundação da Universidade Federal da Bahia, em 1946, cuja primeira célula foi a Escola de Cirurgia da Bahia fundada em 1808, considerada oficialmente a primeira oferta de ensino superior no país (www.fameb.ufba.br). Os dados foram retirados dos sites das universidades onde pode-se conhecer mais sobre a história de cada instituição. 13 que ocorreu na Universidade de São Paulo (USP), cuja fundação data de 25 de janeiro de 1934. Outra dificuldade, e não menor, é a que nos surgiu quando, criada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, pensamos em constituir o seu quadro de professores. Para muitas matérias não havia, no país, mestres altamente especializados e em condições, portanto, de inaugurar cursos novos e de alto nível e com as técnicas de pesquisa para assegurar uma contribuição constante aos progressos científicos. Não se tratava apenas de professores que pudessem dar cursos de alta qualidade, mas capazes, por seu espírito e suas técnicas de pesquisa, de concorrer para o progresso das ciências, a cujo ensino teriam de dedicar-se. Tínhamos por isso de recorrer a professores estrangeiros (SCHWARTZMAN, 1979, p. 208). E, para trazer da Europa professores, que se encarregassem dos novos cursos em nossa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, foi incumbido Teodoro Ramos, que partiu logo, a fim de contratar em nome do governo do estado as comissões de professores que deveriam inaugurar e instalar os novos cursos. Três foram essas comissões, a de alemães, a de italianos e a de franceses, além de um professor português para língua e literatura portuguesa, e um outro espanhol para língua e literatura espanhola. Com esses professores e mais as referidas comissões – a francesa, de sete especialistas, a italiana, de seis, e a alemã, de cinco – completou-se o quadro de professores contratados na Europa para inaugurarem e darem cursos na faculdade que acabava de ser criada (p. 209). Outra característica interessante ressaltada pelo autor foi a vocação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras para a pesquisa, que inaugurou uma fase diferente para o papel das universidades no país: de valorização da universidade como local privilegiado para formação de novos pesquisadores e para a própria prática científica. Até aquele momento a atividade científica brasileira se havia firmado fora do sistema de educação superior. Segundo Schwartzman (1979, p. 139), no início do século XX existiam “apenas seis instituições em que se podia falar de um espírito científico e do gosto pela experimentação” - o Museu Paranaense, a Escola de Medicina da Bahia, o 14 Instituto Agronômico de Campinas, o Museu Paulista, o Jardim Botânico e o Instituto Manguinhos – “e destas apenas uma poderia ser considerada diretamente pertencente ao âmbito universitário”, tratava-se da Escola de Medicina da Bahia onde existiu um esforço sistemático de pesquisas na área de medicina legal. Ademais, permaneceu por muito tempo a inclinação das universidades pela formação na área do direito. Azevedo (1963) apud Schwartzman (1979, p. 140) afirma que “em 1940, para cada dez escolas de engenharia, onze de medicina, catorze de farmácia e odontologia, cinco de agronomia e veterinária, contavam-se vinte escolas de direito, oficiais ou fiscalizadas”. Visto que a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP representou um marco na história das universidades nacionais, vale a pena lembrar que existia uma separação rigorosa entre a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (que tinha responsabilidade integral na formação científica dos professores) e o Instituto de Educação (que era responsável apenas pela instrumentação didática). E, se Schwartzman apontou que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras teve o papel de levar a pesquisa e a formação de pesquisadores para dentro da universidade, Nardi apontou que foram nas Faculdades de Educação que se formaram os primeiros doutores na área de ensino de Ciências, visto que nos institutos de origem existia (e existe até hoje) “supostas incoerências de objetos de estudos” (p. 100), ou seja, uma resistência a pesquisar as questões relativas ao ensino. Outro dos fatores apontados por Nardi (2005) e também por Villani, Pacca e Freitas (2002), cujo estopim se localiza nessa fase da área e fora do Brasil, é o surgimento dos projetos de ensino. O marco ocorre no final da década de 1950, por um evento extraordinário do ponto de vista científico, social, político e educacional: a colocação em órbita do primeiro satélite Sputnik, em 1957. Nos Estados Unidos, e também nos outros países do bloco ocidental, a comoção geral foi grande e gerou uma reação imediata: recuperar o tempo perdido em relação ao avanço russo. Para vencer a batalha espacial, foram feitos investimentos de recursos humanos e financeiros sem paralelo na história da educação. Esses recursos foram utilizados principalmente na 15 produção de projetos de ensino de Ciências e Matemática para o Ensino Médio. A justificativa desse empreendimento baseava-se na idéia de que a formação de uma elite que garantisse a hegemonia norte-americana na conquista do espaço dependia, em boa parte, de uma escola secundária em que os cursos das Ciências identificassem e incentivassem jovens talentos a seguirem carreiras científicas. Esse movimento, teve a participação intensa das sociedades científicas, das universidades e de acadêmicos renomados, apoiados pelo governo (KRASILCHIK, 2000, p.85). Em particular, o governo americano promoveu a criação da NSF (National Science Foundation), que deveria financiar a pesquisa básica e os programas de educação em ciências; sua primeira decisão foi oferecer incentivos para a elaboração de um projeto novo e grandioso, o PSSC (Physical Science Study Committee), que circulou nos EUA e depois na Europa e na América Latina, inclusive no Brasil. Projetos similares foram criados no âmbito das demais ciências naturais e da Matemática, seguindo o exemplo da Física. Como exemplos citamos quena Matemática foi desenvolvido o SMSG (School Mathematics Study Groups), na Biologia desenvolveram o BSCS (Biological Science Curriculum Study) e na Química formularam o CBA (Chemical Bond Approach). Na Inglaterra esse movimento encontrou ressonância na insatisfação dos professores de ciências que pressionavam por reformas curriculares e, como resultado das pesquisas de professores das universidades, criaram o Nuffield Foundation’s Science Teaching Project. Esses projetos educacionais provocavam nas escolas um rearranjo das disciplinas científicas de forma a formarem um quadro estruturado que pudesse levar o estudante, numa visão positivista, a pensar e agir como se fosse um cientista (Nardi, 2005). O projeto Nuffield e, mais tarde, também o projeto Harvard (Harvard Project Physics) tiveram pequena penetração em nosso país. O projeto Harvard era menos exigente, do ponto de vista experimental, que o PSSC e tinha ênfase em aspectos históricos e filosóficos. Essas características do 16 projeto Harvard eram reveladoras de um movimento importantíssimo que se dava no exterior, no âmbito da Filosofia da Ciência, que “questionava fortemente essa linha epistemológica (empirista) e introduzia uma nova visão que teria efeitos na caracterização do ensino das ciências vinte anos depois” (Villani, Pacca e Freitas, 2002, p.5). O movimento de inovação na educação científica que deu origem a tantos projetos estava embasado em dois pressupostos: 1) se a ciência fosse apresentada na forma como é conhecida pelos cientistas, ela seria interessante para todos; 2) qualquer conteúdo poderia ser ensinado de uma forma adequada, para qualquer aluno, em qualquer estágio de desenvolvimento, contando com o material e o planejamento de ensino corretos. Villani, Pacca e Freitas (2002, p. 3) consideram que “em geral, esperavase que a produção de material instrucional, baseada, principalmente, na competência científica, na experiência de magistério e na sensibilidade pedagógica de seus autores, se constituísse numa bússola para a preparação e realização de atividades didáticas de qualidade para o ensino”. Os projetos, de certa forma, contemplavam essa crença, pois a maioria fornecia “materiais suplementares específicos para sala de aula e oferecia cursos de treinamento para o professor desenvolver habilidades para a aplicação dos materiais instrucionais”. Segundo Nardi (p. 99), no Brasil, uma iniciativa particular para viabilizar esta proposta de renovação se deu através do IBECC11, da FUNBEC e dos Centros de Ciências. O IBECC (Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura) surgiu em 1946, “sob a liderança de Isaias Raw, congregou um grupo de professores universitários com a tarefa específica de promover o ensino das ciências, sobretudo, no Ensino Fundamental: sua meta era a iniciação científica das crianças” (Villani, Pacca e Freitas, 2002, p. 3). As ações dos professores do IBECC, porém, não se restringiram apenas ao Ensino Fundamental. Em sua tese, Nardi aponta que, entre os movimentos para melhoria do ensino, teve 11 Essa iniciativa de renovação do Ensino de Ciências antecedeu a corrida espacial e seus desdobramentos nos EUA, pois o IBECC foi criado em 1946, logo, podemos falar de um pioneirismo do Brasil nesse sentido. 17 lugar destacado pelos entrevistados a implantação da disciplina ‘Instrumentação para o Ensino da Física’ na licenciatura do Instituto de Física da USP e em outras instituições. Esta disciplina acabou sendo adotada nos demais cursos de Física pelo país, e também por muitos cursos de Química, como foi o caso da licenciatura em Química do Instituto de Química da USP; note-se ainda que em diversos cursos essa disciplina fica a cargo de mestres e doutores capacitados na área de ensino de Ciências (NARDI, 2005, p. 100). A FUNBEC (Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências) foi criada na década de 1960, pelo grupo do IBECC. Era uma organização que visava promover as ciências no Ensino Médio, com tarefas de preparação de manuais e cursos para aperfeiçoamento do professor. Inicialmente a organização dedicou-se à produção de protótipos de equipamentos de laboratório similares aos importados. Esse objetivo estava em harmonia com um novo programa governamental de substituição da importação dos materiais instrucionais. Os Centros de Ciências foram criados em 1965, em seis regiões diferentes do país12. Foram implantados no Rio de Janeiro - RJ (CECIERJ), em São Paulo - SP (CECISP), no Recife - PE (CECINE), em Salvador - BA (CECIBA), em Belo Horizonte - MG (CECIMIG) e em Porto Alegre - RS (CECIRS). Inicialmente desempenharam um papel significativo no treinamento de professores em serviço e na disseminação das inovações, principalmente encorajando atividades de observação e de uso de laboratórios nas escolas. Este movimento em favor dos projetos de ciências encontrou ressonância nas reestruturações da Educação Básica, sendo um fator importante na constituição da área, como apontado por Nardi. Uma situação peculiar foi a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), em 1961, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino para os primeiros quatro anos, com a complementaridade facultativa de mais dois. Permitiu a criação de novos cursos com flexibilidade curricular e incentivou a experimentação e a 12 Alguns permanecem em atividade ainda hoje. 18 construção de uma maior responsabilidade social e profissional dos alunos em sua formação, harmonizando-a com o ensino acadêmico. Na área das Ciências, a disciplina de Iniciação Científica foi introduzida no atual Ensino Médio e a carga horária das disciplinas científicas (Física, Química e Biologia) aumentou. As demandas de reformas advindas com a LDB ofereceram maior liberdade para a introdução dos projetos americanos no Ensino Médio, fomentaram as traduções e adaptações desses projetos, e promoveram cursos para sua disseminação, que contaram muitas vezes com a participação dos autores originais. Para tanto existia um financiamento da Fundação Ford13 e a garantia da United States Agency for International Development (USAID)14. A tradução “garantia a fidelidade dos textos e, ao mesmo tempo, introduzia modificações apropriadas para tornar os livros úteis para as escolas brasileiras” (Barra e Lorenz, 1986, p. 1974). É neste contexto que localizamos a elaboração do Projeto Piloto financiado pela UNESCO. Um projeto de ensino de Física que contou com a participação de professores de vários países latinoamericanos, dos EUA e da Suécia, em que foi elaborado um material para o "Ensino Programado" e atividades experimentais sobre o tema "Luz". Quanto ao objetivo de permitir a vivência da atividade científica, o projeto se assemelhava àqueles anteriormente importados. Villani, Pacca e Freitas (2002) alertam que, contudo, o esforço nacional sobretudo a inserção dos projetos de ensino - não produziu todos os efeitos esperados na melhoria da aprendizagem de ciências. 13 A Fundação Ford é uma organização privada, sem fins lucrativos, criada nos Estados Unidos para ser uma fonte de apoio a pessoas e instituições inovadoras em todo o mundo, comprometidas com a consolidação da democracia, a redução da pobreza e da injustiça social e com o desenvolvimento humano (http://www.fordfound.org). 14 USAID é uma agência independente do Governo Federal dos Estados Unidos e foi criada em 1961 pelo presidente John F. Kennedy. A divisão da USAID – Brazil desenvolve e apóia projetos em diversas áreas, hoje com foco principal no desenvolvimento sustentável. No site da agência (http:\\brazil.usaid.gov) encontramos as finalidades das atividades em curso no país: “Os programas e as atividades da USAID contribuem com os esforços brasileiros de buscar soluções a temas de interesse global incluindo a proteção de florestas tropicais e de ecossistemas naturais, a diminuição da mudança climática global e a redução da transmissão de doenças comunicáveis tais como a tuberculose. A Missão está também trabalhando lado a lado com parceiros brasileiros para atender às necessidades dos jovens em situação de risco, promover o crescimento comercial de micro e pequenas empresas, e deter a prática deplorável do tráfico de seres humanos para fins sexuais e de trabalho forçado”. 19 Apesar da renovação das expectativas dos professores, do movimento produzido e das assessorias dos especialistas quando os projetos foram para as salas de aulas, os resultados não se concretizaram da maneira esperada. De certo modo, os professores eram considerados simples executores dos projetos, nos quais a explicitação das etapas do método científico ajudaria a moldar o aluno na direção da prática científica, dependendo da qualidade do produto produzido (p.3). Outros autores compartilham das conclusões de Villani, Pacca e Freitas. [...] embora muito se tenha feito em termos de tradução e divulgação dos novos materiais, bem como de treinamento de professores para a sua utilização, no que se refere especificamente a melhoria da aprendizagem, os resultados demonstram que, em geral, os mesmos ficaram aquém do esperado [...] a falta de recursos das escolas, aliada ao despreparo dos professores, dificultou a utilização, em larga escala, dos novos materiais didáticos (BARRA E LORENZ, 1986, p. 1982). De fato, somente uma minoria dos professores conseguia se apropriar dos projetos tornando-os parte do seu saber docente; a maioria era incapaz de satisfazer aos novos padrões estabelecidos. Como aponta Villani, Pacca e Freitas [...] os Grandes Projetos Institucionais, caracterizados por uma visão empirista do conhecimento científico, continuaram a orientar a renovação do ensino de ciências, tornando progressivamente mais clara a distinção entre a minoria que conseguia se apropriar desse espírito e a maioria que desistia da mudança (2002, p. 5). Em síntese, parece-nos que o clima dominante nas atividades referentes ao Ensino de Ciências era de valorização e de mudanças, até a tomada de poder dos militares. Marcaram esse período a criação de instituições de pesquisas, o atrelamento a centros de poder externos (simbolizado pelos financiamentos e importação de projetos) e o incentivo governamental para desenvolvimento de materiais didáticos e projetos nacionais. 20 Os projetos talvez sejam o grande símbolo desse momento e, na maioria dos casos, eram pautados por uma visão empirista da Ciência. Uma exceção era o Projeto Havard que dava destaque aos conteúdos da História e Filosofia da Ciência ao invés de destacar as atividades experimentais como os demais. Esses conteúdos revelaram-se, nas décadas seguintes, fundamentais para a pesquisa em EC, como veremos a seguir. 2.2 FASE 1: O INÍCIO DAS PESQUISAS NA ÁREA Uma mudança neste processo aconteceu após a instauração da ditadura militar no Brasil, em 1964, quando um novo elemento passou a figurar no cenário da pesquisa educacional: a segurança. Foi introduzido um controle na educação com diretrizes contrárias ao clima anterior de experimentação. A idéia era garantir a ordem e a estabilidade das instituições tradicionais. Para Villani, Pacca e Freitas (2002) as universidades públicas foram pressionadas para que seu corpo docente restringisse a sua atuação no ensino, na pesquisa e na extensão à sua dimensão academicista, ou seja, destituída de um maior compromisso com a cultura popular e a sociedade, num quadro de acordo velado de renúncia a uma oposição explícita ao regime político. Dentro desse quadro os resultados encontrados por Nardi apontam o importante papel das sociedades científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) que “apoiaram resolutamente a luta pelo restabelecimento do estado de direito e pela democratização das oportunidades educacionais no país” (p.100). Instalou-se um clima contraditório no que se refere às pesquisas educacionais, pois Este novo elemento introduziu uma ruptura que ‘divide o campo da pesquisa educacional colocando, de um lado, uma tendência que poderíamos caracterizar como ‘oficial’, numa linha de pesquisa bastante voltada para o aprimoramento do próprio trinômio educação-desenvolvimento-segurança e, de outro, uma tendência de reflexão e, conseqüentemente, de investigação e de pesquisa educacional onde predominarão a crítica e a denúncia deste 21 atrelamento da educação e do desenvolvimento às questões de segurança (MELLO, 1985 apud GOERGEN, 1986, p. 6). Em compensação, o governo garantiu o apoio às iniciativas da universidade, principalmente financiando as pesquisas e o aperfeiçoamento do seu corpo docente em programas de pós-graduação. Esse foi um dos fatores fundamentais para constituição da área de pesquisa em EC, segundo os pesquisadores entrevistados por Nardi, pois como efeito desse comportamento da academia tivemos a institucionalização da pesquisa e da pós-graduação no país. Particularmente, o caso da melhoria do ensino de Ciências, os editais do SPEC, além de apoiar projetos na área de ensino de Ciências e Matemática, favoreceram, segundo os entrevistados, a capacitação de docentes das universidades brasileiras nessa área, através da saída dos primeiros docentes do ensino superior para cursar mestrado e doutorado no exterior. Assim, a instituição do SPEC [...] no final da década de 1970, dentro do PADCT [...] é um dos fatores citados pela maioria dos entrevistados; há quase uma unanimidade em atribuir a este programa a nucleação dos grupos de pesquisa em ensino de Ciências que se consolidaram e foram responsáveis pela constituição da área e criação dos atuais programas de pós-graduação existentes no país (NARDI, 2005, p. 99)15. No caso da Educação isso criou uma mudança significativa na organização da pesquisa. Até aquele momento, ela era desenvolvida principalmente em institutos e centros ligados a órgãos governamentais. Na universidade, “a maior parte [...] dos trabalhos realizados por professores universitários resultava de esforços individuais relacionados com interesses intelectuais ou acadêmicos. A pesquisa [era] praticamente negligenciada nos orçamentos das universidades e, em geral, [desempenhava] papel secundário na carreira do professor universitário” (Gouveia, 1971, p.10). 15 SPEC – Subprograma de Educação para a Ciência PADCT – Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, criado pelo governo brasileiro em 1984 como um instrumento complementar a política de fomento à Ciência e Tecnologia. 22 Para o campo da Educação em Ciências, a entrada da pesquisa na universidade teve um efeito singular nas universidades do Rio de Janeiro, de Brasília e, sobretudo, de São Paulo e Porto Alegre. No Instituto de Física da UFRGS, o Mestrado em Física incorporou uma linha de pesquisa em Ensino de Física e o Instituto de Física da USP se juntou a outras unidades da instituição para oferecer o Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências. A trajetória desses institutos revela dados semelhantes. No Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): [...] a partir de 1967 e até o fim dos anos sessenta, foram contratados vários professores com a finalidade, mais ou menos explícita, de lecionarem Física Geral. Esses professores, no entanto, não se limitaram somente a dar aulas, pois partiram para a busca de soluções para o grande problema que era o ensino de Física Geral. Essa busca, a princípio à base de tentativa e erro, foi aos poucos assumindo o caráter de pesquisa em ensino de Física e contribuiu, pelo menos em parte, para a formação do grupo de ensino (MOREIRA, 1977, p.1 apud NARDI, 2005, p.21). Inicialmente este grupo começou utilizando metodologias de análise quantitativa e testando o sucesso das metodologias inovadoras propostas. [...] A utilização de novos métodos de ensino trouxe resultados didáticos bastante favoráveis e a pesquisa em torno desses métodos trouxe muita experiência ao grupo... [entretanto]... as pesquisas em torno de métodos, via de regra, não estão baseadas em teorias ou modelos de aprendizagem [...] assim sendo, pesquisas mais recentes procuram basear-se em teorias de aprendizagem e atacar questões mais fundamentais, como, por exemplo, aprendizagem de conceitos. Essa é, no entanto, uma linha recém iniciada. Paralelamente, está se dedicando bastante atenção ao ensino de laboratório através da montagem e testagem de novas experiências (Op.cit., p. 23). No Instituto de Física da USP a ênfase inicial foi na elaboração de projetos. A realização do Projeto Piloto da UNESCO, começada no IBECC, 23 terminou nesta instituição e foi o ponto de partida para uma primeira tentativa de pós-graduação, que acabou sendo reconhecida somente lato sensu (especialização). Vários dos docentes que participaram deste curso se envolveram também em outros projetos. No início dos anos 70, foi desenvolvido o Projeto de Ensino de Física (PEF) compreendendo textos e conjuntos experimentais para o ensino de 2º grau [...] Aproximadamente na mesma época, surgiram dois outros projetos nacionais para o ensino de Física em nível secundário: o Projeto FAI (Física AutoInstrutiva) e o Projeto Brasileiro para o Ensino de Física (PBEF), desenvolvidos por professores em sua maioria ligados ao IFUSP (RODRIGUES e HAMBURGER, 1993, p. 4 apud NARDI, 2005, p.49). Estes projetos foram inspirados nos projetos norte-americanos, porém, seu desenvolvimento estava focado, desde o início, para a situação das escolas brasileiras. Eles enfatizavam o ensino ativo e as atividades dos alunos, sobretudo de laboratório. Outro grupo do IFUSP desenvolveu um curso personalizado de Física Básica para graduação e outro ainda produziu filmes didáticos destinados ao ensino universitário com a colaboração da Escola de Comunicação e Artes da USP. Todos estes projetos tiveram continuidade em pesquisas desenvolvidas na recém instituída pós-graduação em Ensino de Física, que envolveu o Instituto de Física e a Faculdade de Educação, e contava com a colaboração de docentes de ambas as unidades acadêmicas. Estas pesquisas em geral realizavam análises, parciais e sob diferentes aspectos, dos vários projetos produzidos e adotavam sistematicamente como referenciais teóricos: Skinner (principalmente suas idéias sobre (principalmente sua proposta de condicionamento instrução operante), personalizada) e Keller Piaget (principalmente sua teoria dos estágios de desenvolvimento). Em seguida, em várias universidades e em outras áreas (Química, Biologia, Geologia) surgiram trabalhos caracterizados pelo acoplamento entre projetos de ensino de ciências locais e pesquisas sobre os mesmos. 24 Este momento foi caracterizado por uma expansão da área muito maior e mais rápida do que a das outras áreas da Educação, pois as pesquisas começaram a ser realizadas com o apoio tanto dos institutos de pesquisa básica (Física, Matemática, Geociências, Química e Biologia) quanto da Educação. Em aproximadamente três décadas multiplicou-se os programas de pósgraduação que visavam a Educação em Ciências, sediados tanto nas Faculdades de Educação quanto nos Institutos Científicos. Esses programas, embora numerosos e frutíferos, não tiveram um balizador comum, ou não tiveram uma área de pertencimento própria, até a criação da área 46 na CAPES. Depois surgem os atuais programas de pós-graduação em ensino de Ciências, sediados em institutos de Ciências ou nas faculdades de Educação, e cuja maioria foi cadastrada na Área 46 da CAPES (Área de Ensino de Ciências e Matemática). Notar que essa Área foi criada por pressão dos pares, a partir do ano 2000, a fim de congregar e avaliar os programas de pós-graduação existentes, e hoje conta com cerca de 300 programas de mestrado e/ou doutorado espalhados pelas universidades brasileiras (NARDI, 2005, p. 99). É importante notar que nas pesquisas em Educação em Ciências foi importante o trabalho de doutores recém formados e, sobretudo, o envolvimento de pesquisadores com doutorado nas disciplinas científicas que, junto com seus orientandos, procuravam apreender os novos referenciais e desenvolver caminhos que conduzissem a resultados significativos. Esta parceria parece ter marcado de forma singular o desenvolvimento da área, diferenciando-o da pesquisa anterior em Educação, tanto por introduzir uma sensibilidade ao rigor científico quanto por estar disponível para todas as linhas de pesquisa de outras áreas. Esta situação de busca, diferente da tradição dos institutos de pesquisa básica, gerava dúvidas nos colegas pesquisadores em Física, que tendiam a diminuir a importância da área pela sua falta de tradição e questionavam sua coexistência em institutos de grande prestígio. Esse questionamento foi 25 retratado no trabalho de Moreira (1977) através da explicitação de uma pergunta crucial que foi resgatada na tese de Nardi (2005). Cabe, dentro de uma instituição dedicada à pesquisa em Física, a existência de um grupo dedicado somente ao ensino e à pesquisa em ensino de Física? Um grupo dessa natureza não deveria estar dentro de um departamento ou faculdade de educação? (p. 22). Essa resistência reforçava os laços entre os membros dos grupos de ensino que não podiam duvidar de que seu trabalho fosse legítimo e reconhecido. Alguns esforços pontuais, ou iniciativas individuais, foram apontados pelos pesquisadores entrevistados por Nardi (2005, p.101) como fatores que ajudaram na constituição da área. “Pesquisadores de diversas áreas científicas, considerados competentes por seus pares, passaram a se dedicar à pesquisa em ensino de Ciências, quando esta ainda era considerada uma atividade de ‘segunda categoria’”. O clima de tensão era quebrado em ocasiões nos quais os trabalhos em ensino resultavam em méritos para as instituições que os abrigavam. Um evento que tornou visível essa nova realidade acadêmica foi o primeiro Simpósio Nacional em Ensino de Física, realizado em São Paulo em 1970, com o auxílio da Sociedade Brasileira de Física. O Simpósio reuniu professores de Física de 3º e 2º graus para discutir as iniciativas e os problemas dessa área de ensino. O Simpósio passou a ser realizado regularmente a cada 3 anos em diferentes cidades, e constituiu-se no principal encontro dos pesquisadores em ensino e professores de Física. Havia consciência de que os problemas relativos ao ensino de Física deveriam ser tratados de forma sistemática, com a realização de pesquisas e 16 desenvolvimentos sobre o assunto (NARDI, 2005, p. 6) . Diversos outros eventos, de abrangência estadual ou nacional, também deram sua contribuição. 16 Ao informar a periodicidade Nardi referiu-se aos primórdios do evento, atualmente o Simpósio Nacional de Ensino de Física é bienal, acontecendo nos anos ímpares. 26 Os eventos iniciados pelas sociedades científicas na década de 1970, como Simpósio Nacional de Ensino de Física (1970), no IFUSP, e os EDEQ – Encontro e Debates sobre o Ensino de Química, no Rio Grande do Sul, por volta de 1980, que originaram posteriormente os ENEQ – Encontro Nacional de Ensino de Química [...] foram também citados como decisivos para constituição e consolidação da área. Os entrevistados que militam na área há mais tempo também citam como importantes eventos anteriores promovidos pela UNESCO (Op. cit., p. 101) Nessa fase inicial das pesquisas sobre EC no Brasil, destacam-se a instituição das pós-graduações nas universidades e a criação de eventos e periódicos específicos para divulgação desse novo campo de conhecimento. Esses elementos guardam em comum o fato de abrigarem desde os primórdios uma linha de investigação com a temática da epistemologia, da história e da filosofia da Ciência. Em sua tese, Nardi (2005, p. 145) afirma que “a forte presença da epistemologia, da história e da filosofia da Ciência como uma das importantes linhas de pesquisa na área de ensino de Ciências faz-se notar em eventos, programas de pós-graduação e na produção da área”. O autor ressalta ainda que, [...] em muitos casos, os pesquisadores envolvidos com esta linha de investigação, embora participem dos eventos de pesquisa em ensino promovidos por sociedades como a SBF, a SBQ, a Abrapec e outras, congregam-se e têm sua afiliação científica principal em entidades próprias, como a SBHC (Sociedade Brasileira de História da Ciência) e sociedades internacionais; ou seja, esses pesquisadores também freqüentam círculos acadêmicos próprios, e sua pesquisa pode estar mais direcionada para a Epistemologia, a História e/ou Filosofia da Ciência, e não tanto para as questões de ensino (p. 145 – 146). De fato, algum dos pesquisadores envolvidos nessa linha de investigação como citou Nardi, são historiadores da Ciência que se interessam pelas questões relativas ao EC. Muitos participam de eventos de pesquisa em 27 ensino e eventos científicos da área de HFC nos quais também podem encontrar espaço para divulgação de suas pesquisas sobre EC. O Simpósio Nacional de História da Ciência e da Tecnologia é um exemplo de evento desse tipo, pois mantém uma sessão para trabalhos sobre o uso da HFC no EC há bastante tempo. 2.3 FASE 2: A CONSOLIDAÇÃO DA ÁREA Além da realização sistemática dos eventos como o Simpósio Nacional de Ensino de Física, a área conseguiu criar outros instrumentos importantes de divulgação de seus trabalhos: as publicações periódicas. Nardi (2005, p. 101) cita “a revista Cultus, a Revista de Ensino de Ciências (da FUNBEC), a Revista de Ensino de Física (criada no IFUSP) e o Caderno Catarinense de Ensino de Física (da Universidade Federal de Santa Catarina)”. Esses periódicos deram mais visibilidade à área e representaram um dos “fatores de aglutinação dos esforços em prol da melhoria do ensino, tendo sido importantes para configurar os primórdios da área de ensino de Ciências no país”. Essas publicações revelam que durante toda a década de 1970, a análise e a avaliação de projetos e propostas metodológicas, como o método Keller privilegiando análises estatísticas, sustentou a elaboração de artigos, dissertações e teses. A modificação das características das pesquisas constitui por si só um outro elemento decisivo para a área como apontam os entrevistados por Nardi. Fundamentalmente, como apontam Villani, Pacca e Freitas (2002), houve o aprofundamento dos referenciais teóricos, marcados principalmente pelo movimento das pesquisas sobre as concepções alternativas e o modelo de mudança conceitual (MMC). Esse movimento foi tão importante na consolidação da área que vale a pena entender melhor o MMC. Para um docente ensinar promovendo uma mudança conceitual, algumas estratégias deveriam ser privilegiadas (Scott et al., 1992). A primeira seria o conflito cognitivo nas suas mais variadas formas (por ex. Dreyfus et al., 1990). A seqüência “prever, observar e refletir” deveria conduzir os alunos a tomarem consciência de seus conflitos cognitivos e 28 resolvê-los satisfatoriamente. Também poderiam ser utilizados exemplos da História da Ciência que salientassem as concepções iniciais dos cientistas e as maneiras de serem refutadas. Apesar de essas duas operações auxiliarem a tomar consciência do conflito cognitivo, sua resolução em favor das idéias científicas não era garantida. Uma segunda maneira de promover a mudança conceitual seria a exploração de parte das idéias alternativas dos estudantes, visando à ampliação de seu alcance e à generalização de seu significado, na direção do conhecimento científico (Brown, 1992). Uma forma semelhante de incentivar a mudança progressiva dos alunos poderia consistir em analisar situações problemas, debatê-las até encontrar uma possível solução, e depois comparar os resultados com as correspondentes teorias que caracterizaram a História da Ciência até as soluções modernas (Niedderer, 1992). Uma terceira forma, indireta, de enfrentar a mudança conceitual foi mediante a exploração da metacognição (Gunstone, 1992), estratégia mais ampla do que a própria mudança conceitual e que sobreviveu às críticas desta. Favorecer o processo metacognitivo significava fornecer instrumentos e ocasiões para o refinamento do conhecimento, da percepção e do controle que o aluno poderia ter sobre sua aprendizagem. De alguma maneira, esse procedimento provocaria um maior envolvimento do aluno no processo de aprender, diminuiria o desânimo de não conseguir enfrentar algumas questões e favoreceria o diálogo com o professor. O processo que conduziu à hipótese das concepções alternativas e ao modelo de mudança conceitual encontrou grande respaldo na semelhança entre as idéias pré-galileanas sobre movimento (impetus) e as idéias dos estudantes sobre força impressa17. Assim o processo de mudança histórico 17 De modo resumido, o Modelo de Mudança Conceitual estabelece que para ocorrer uma mudança de idéias é necessário primeiro que o sujeito experimente alguma insatisfação em relação às idéias correntes e que a nova concepção seja (i) inteligível, isto é acompanhada de representações coerentes na forma de proposições e/ou imagens; (ii) plausível, isto é capaz de resolver as anomalias conhecidas e ser consistente com outros conhecimentos do aluno; (iii) fértil, isto é capaz de resolver os problemas do aluno e conduzir a novas descobertas. Além disso, o processo de mudança conceitual se desenvolve no cenário dos conceitos já existentes para o indivíduo. Este, denominado ecologia conceitual, influencia a seleção de novos conceitos ou teorias determinando a direção da acomodação, condiciona a aprendizagem e envolve analogias e metáforas significativas para o sujeito. Em suma, a ecologia determina se as condições são, ou não, possíveis de serem satisfeitas. 29 poderia constituir uma analogia para entender e promover a mudança das idéias dos estudantes. Este modelo tornou-se uma linha de pesquisa extremamente frutífera para analisar eventos didáticos e uma razão do sucesso do modelo foi sua versatilidade para promover estratégias didáticas, como o uso de conflitos cognitivos e analogias, a promoção de atividades metacognitivas e a exploração da História e Filosofia da Ciência (HFC) na sala de aula. Um efeito dessas pesquisas, diretamente na melhoria do ensino, foi a elaboração de testes ou outros instrumentos de análise que, utilizados em sala de aula, despertavam a atenção do aluno e tornavam-se meios para ensinar através do fomento de discussões e de propostas de soluções comparativas. A Didática das Ciências ou ‘Science Education’ começou a se estabelecer como área de pesquisa autônoma e o professor começava a ser considerado novamente como uma peça fundamental no ensino das ciências (Villani, Pacca e Freitas, 2002, p. 6). Nesse quadro, o papel do professor era contribuir para que os alunos confrontassem suas previsões teóricas com os resultados de suas experiências, comparassem suas falas sucessivas à procura de coerências, percebessem as diferenças entre o texto do livro didático ou a fala do próprio professor e as justificativas por eles utilizadas e, mais em geral, refletissem sobre seu processo de aprendizagem. Também era esperada uma mudança das idéias dos alunos caso o professor utilizasse uma série de analogias capaz de diminuir progressivamente a distância entre as concepções alternativas dos estudantes e as concepções científicas visadas com o ensino. Finalmente, esperava-se que seria de grande auxílio para a mudança cognitiva do aluno o contato com a História da Ciência e Filosofia da Ciência tanto do professor, quanto dos alunos. 2.4 FASE 3: O MOMENTO ATUAL DA ÁREA Villani (2007) define esse momento da área como plural, ou seja, considera que existe atualmente uma diversidade de linhas de pesquisas na 30 área e aponta como um dos principais desafios da mesma a busca por uma unidade, ou por um elemento unificador, que permita uma identificação dentro da pluralidade de enfoques. Também para Nardi (2005) existe hoje uma pluralidade que marca a área, sendo ainda uma hipótese que as pesquisas sustentem-se sobre paradigmas diferentes. Além de fornecer dados importantes sobre as origens da área, um fato particular chamou-me atenção na análise desses documentos: eles mostraram que os grupos de pesquisa trabalham numa pluralidade de enfoques, de referenciais teóricos, metodológicos explicitando, de várias formas suas convergências e divergências. [...] Essas divergências seriam uma característica da área? Ou, em outros termos, suas pesquisas se sustentam em paradigmas diversos? (NARDI, 2005, p.12) Acreditamos que um elemento que contribuiu para essa diversidade foi o enfrentamento com iniciativas diferentes das dificuldades de exploração das concepções alternativas e de implantação do MMC que começaram a aparecer no mundo inteiro. Os principais obstáculos para os quais buscaram-se alternativas foram sintetizados por Villani, Pacca e Freitas (2002, p. 13): x a pouca consideração de que a motivação, metas, crenças, autoconfiança, tipo de abordagem e, sobretudo, o envolvimento do aluno; constituíssem influências determinantes do rumo da mudança conceitual (Strike & Posner, 1992; Pintrich et al., 1994); x a limitada eficácia das estratégias didáticas baseadas no conflito cognitivo ou nas analogias, pelo fato de o aluno poder reagir de várias maneiras frente à dificuldade (Chinn & Brewer, 1993); x a necessidade de rever o conceito de mudança conceitual, enquanto substituição de idéias novas espontâneas por idéias científicas, pois seria intrínseco à evolução cognitiva manter as idéias antigas junto com as novas (Mortimer, 1995); x a potencialidade de exclusão escolar implícita no modelo, que privilegia o desempenho dos alunos oriundos de culturas com forte componente 31 científico e dificulta a aprendizagem dos alunos oriundos de minorias culturais diferentes (Cobern, 1993); x a ignorância do papel do professor na promoção da inteligibilidade e plausibilidade do conhecimento científico e na condução e sustentação do processo de aprendizagem, principalmente a relação de confiança entre ele e o aluno (Villani & Cabral, 1997). Essas dificuldades fizeram com que, paulatinamente, as concepções alternativas e o MMC que dominou o cenário das pesquisas, não só nacionalmente, até o início da década de 1990, fosse ‘perdendo forças’ e foram se fortalecendo outras linhas de pesquisa. Isso não significa que não seja mais abordada na área, pelo contrário, no Brasil e fora daqui continua sendo uma linha de interesse dentro da comunidade de pesquisadores em EC18. Cachapuz et al. (2001) chamam atenção para um estudo em que Laurence Viennot investiga os motivos da abundância das investigações neste campo e acabam por afirmar que A investigação sobre as “concepções alternativas” colocou em questão a eficácia do ensino por transmissão de conhecimentos previamente elaborados e contribuiu, de forma mais geral, para levantar dúvidas sobre as visões simplistas de aprendizagem e do ensino das ciências, como a idéia docente [...] de que ensinar é uma atividade simples para a qual basta apenas conhecer a matéria e ter alguma experiência (CACHAPUZ et al., 2001, p. 174) Para eles o estudo das pré-concepções foi o elemento que mais contibuiu na problematização do ensino e aprendizagem das ciências e “para a ruptura das tradições assumidas sem qualquer crítica” (Op. cit). O amplo espectro de enfoques para a pesquisa foi retratada por Villani e Valadares (2007) de forma sucinta: na década de 1990, um grupo de pesquisadores começou a pesquisar sobre analogias e modelos (Justi e 18 Em artigo publicado na Revista Portuguesa de Educação, Cachapuz et al. (2001) lista os principais levantamentos sobre essa temática publicados em revistas internacionais, considerando a análise de mais de 1000 artigos e um pouco mais de 25000 referências bibliográficas. 32 Gilbert, 1999), sobre os modelos mentais e as representações sociais (Greca, 1995; Borges & Gilbert, 1998), sobre as implicações do perfil conceitual (Mortimer, 2000; Amaral, 2004), sobre o currículo como lugar de conflitos entre diferentes grupos sociais (Lopes, 1996, Macedo & Lopes, 1999) ou religiosos (Sepulveda & El-Hani,2004). Os autores apontam que o movimento mais amplo focalizou a pesquisa sobre as formas de linguagem (Martins & Ogborn, 1996; Capecchi & Carvalho, 2000) e sobre o discurso do professor e dos alunos. De um lado, Vigotski, Bakhtin e seguidores foram escolhidos como referência na análise dos vários tipos de interação dialógica em sala de aula (Mortimer, 1998; Macedo, 1998; Santos, 2001). Por outro lado, pensadores franceses como Deleuze (Amorim, 2000), Foucault (Souza, 2001), Lacan (Cabral, 1998), Guattari (Ferraço, 2000), Kaës (Valadares, 2002) e outros sustentaram as pesquisas sobre diferentes tipos de análise de discurso. Villani e Valadares (2007) ainda apontam que outros pesquisadores estudaram as emoções, motivações e a afetividade com o auxílio de categorias oriundas de modelos psicológicos e psicanalíticos (Ferreira, 1997; Villani, 1999; Pietrocola & Pinheiro, 2000; Arruda, 2001; Santos & Mortimer, 2003; Wykrota & Borges, 2004). Por sua vez, os problemas com os grupos de aprendizagem foram focalizados mediante diferentes referenciais teóricos, inclusive psicanalíticos, como Bion (Barolli, 1998), Anzieu (Barros, 2002) e Kaës (Valadares & Villani, 2001). Simultaneamente cresciam as pesquisas sobre formação de professores que utilizavam abordagens interdisciplinares, exploravam a educação ambiental e as novas tecnologias. Por sua vez os trabalhos sobre História e Filosofia da ciência, de um lado, continuaram a aprofundar a possibilidade de contribuir para a formação de professores e a sala de aula (Carvalho & Castro, 1995; Martins & Silva, 2003) e, de outro lado, tornaram-se mais técnicos e mais rigorosos em sua metodologia (Martins, 2000). Em outro trabalho, Villani (2007) aponta como os principais temas das pesquisas atuais (no contexto brasileiro): x Ensino e aprendizagem de conceitos científicos; x Currículos para o ensino de ciências; 33 x Formação inicial e continuada de professores; x Linguagem e discurso na sala de aula de ciências; x Avaliação da aprendizagem; x História e Filosofia das Ciências na Educação em Ciências. Esta lista pode ser confrontada com uma apresentada por Cachapuz et al. (2001) que considera como as principais linhas da investigação em EC (no contexto internacional): x Concepções alternativas; x Resolução de problemas; x Trabalho experimental ou práticas de laboratório; x Currículo; x Construção/validação e avaliação de materiais didáticos, nomeadamente sustentados na Epistemologia e na História da Ciência; x Relações Ciência, tecnologia e sociedade e o papel do meio; x Linguagem e comunicação no ensino e na aprendizagem das ciências; Como problemáticas prioritárias no início do milênio Cachapuz et al. (2001, p. 176), identificam: a avaliação; a formação dos professores, com particular interesse pelas epistemologias e concepções epistemológicas dos docentes, pela história da ciência e pelas questões axiológicas genéricas ou específicas como as que focam as diferenças de gênero, a diversidade cultural, o contexto social, os grupos sociais, os códigos pedagógicos e lingüísticos, os problemas de poder/políticos, discursos, etc.; e a metacognição. Ao tratar das perspectivas para o futuro, a primeira tendência referida por Cachapuz et al. (2001, p. 178) é o reforço de vínculos entre as distintas linhas de investigação. Isso nos lembrou a busca pelo elemento unificador apontada por Villani (2007) e sugeriu que atualmente o desenvolvimento das pesquisas em EC no Brasil está em ressonância com a área no âmbito internacional. 34 Nesse movimento de olhar para a história dessa área de pesquisa, interessa-nos perceber a evolução, as mudanças que se sucederam e também perceber aquilo que se manteve, ou seja, características permanentes da instituição. Para tanto, parece-nos significativo discutir a questão da transmissão e a necessidade de formular uma representação dela no que diz respeito aos vínculos, aos valores, aos saberes a transmitir. Nesse sentido Kaës (2001, p.25) nos alerta que “nossa modernidade (no limite, o conceito pelo qual cada geração se desliga da precedente e se coloca em posição de herdeira) não é apenas a crise da transmissão, de seus objetos e de seus processos: é também a crise do próprio conceito de transmissão”. No capítulo seguinte apresentaremos uma interpretação da história da área na qual focamos o desenvolvimento dos vínculos intersubjetivos entre os membros e a Instituição. Destacamos os organizadores grupais e as contribuições da HFC em cada fase da área. 35 3. INTERPRETANDO A HISTÓRIA DA ÁREA DE EC E DESTACANDO CONTRIBUIÇÕES DA HFC Nossa intenção nesse capítulo é olhar para a história da área e tentar explicitar sua evolução, as mudanças que aconteceram nas quatro décadas de sua existência e também perceber aquilo que se manteve, ou seja, as características permanentes da área. De certa forma outras pesquisas se ativeram a questões similares, como a realizada por Nardi (2005), porém, ao propormos nossa pergunta estávamos em busca dos aspectos subjetivos da constituição e sustentação da área, particularmente, no que se refere aos papéis desempenhados pela HFC em cada uma das fases. Ou seja, mais do que a seqüência de eventos nos interessa desvelar os mecanismos não aparentes, quase sempre inconscientes, desenvolvidos pelo grupo e pelos sujeitos do grupo – nessa relação complexa entre o individual e o coletivo, entre o sujeito e a instituição. Encontramos nos trabalhos de Valadares (2002, 2008) e Villani & Valadares (2007) um movimento dessa natureza, em que foi utilizado um referencial que possibilitou ressonância entre os dados e os tipos de conceitos encerrados teoricamente. Trata-se de um referencial que utiliza conceitos da teoria psicanalítica, principalmente pautado nos textos de René Kaës. O uso de conceitos do campo psicanalítico nas pesquisas sobre ensino já tem sido feito há algum tempo e tem se mostrado bastante promissor. No Brasil, de modo particular, tem sido utilizado pelo grupo de pesquisa do qual fazemos parte desde o ano de 2001. De forma geral, como pode ser observado nos trabalhos de Barolli et al. (1997), Villani (1999), Barolli, Valadares e Villani (2007), Valadares (2008) e outros, são tomados do referencial psicanalítico alguns conceitos de empréstimo na tentativa de entender a dinâmica das relações simbólicas dos indivíduos com os elementos que compõem sua vida: a relação com o conhecimento, a relação com os grupos de pertencimento etc. Nesse tipo de trabalho, em que basicamente são exploradas analogias entre situações distintas, a interpretação dos dados assume um lugar de muita importância. 36 [...] a interpretação como essência da pesquisa com o referencial psicanalítico, não deve ser submetida a regras, encontra-se a sua maior força na sua especificidade em relação a um conjunto de dados. O dado pode falar e revelar o não desejado, o latente, o inconsciente, sendo na busca deste dito não-dito que o conhecimento pode ser construído, avançando no que ainda não foi revelado pelas pesquisas realizadas até o momento (MENDES, 2002, p. 92). Essa possibilidade de avançar na construção do conhecimento sobre a área de pesquisa em EC é que nos fez optar pelas obras de Kaës (1991, 1997, 2001, 2005) nas quais encontramos um referencial bastante consistente no que se refere à vida psíquica dos grupos, sobretudo, conceitos apropriados para entender as continuidades e as rupturas que permeiam a história das Instituições19. A importância de tais conceitos reside não só no fato de se referirem a representações, fantasias, ansiedades e defesas compartilhadas por todo o grupo de pessoas vivendo a mesma situação, mas principalmente no fato de enfatizarem a produção coletiva dessas. Estamos, então, falando de mecanismos que são psicológicos, dada sua especificidade de conteúdo e processo, mas não são individuais (KAËS, 1991, p.12). Considera-se assim que o sujeito atuante em um grupo é o sujeito que ao mesmo tempo constrói e testemunha a história do grupo. Portanto, todo grupo/toda Instituição pode ser considerada um campo com múltiplas inscrições e agenciamentos (histórico-sociais, político-jurídicos, sócio-culturais, técnico-assistenciais), repletos de conflitos entre e dentro dos âmbitos que o atravessam. 19 Existe uma aparente contradição envolvida na idéia de analisar as atividades de um grupo de pessoas, o que requer a prevalência do impessoal, com um referencial que trata da psique humana, referencial que aparentemente busca o movimento separador do eu. Essa possível estranheza não passou despercebida para Kaës, por isso ele nos lembra que a questão já fora considerada por Freud no desenvolvimento inicial da psicanálise, “Freud foi o primeiro a considerar que o grupo é o lugar de uma realidade psíquica específica, cujo estudo pertence de pleno direito ao campo da psicanálise” (Kaës, 1991, p. 35). 37 Com efeito, aquilo que em cada um de nós é instituição – a parte mais indiferenciada da nossa psique, bem como as estruturas da simbolização – está engajada na vida institucional para o duplo benefício dos sujeitos individuais e do conjunto concreto que formam e do qual são parte ativa, para seu benefício e para seu prejuízo, ou sua alienação. Sobre o fundo de outros níveis da realidade na instituição, resulta uma vida psíquica característica do vínculo e do lugar institucionais, um “clima” típico de cada instituição: aí se conjugam a história e a estrutura da instituição, a natureza e as imposições da sua tarefa primária, a infra-estrutura inconsciente que as suas relações organizam, visando satisfações que dela podem ser auferidas (KAËS, 1991, p.16). Porque considerar a área de pesquisa em Ensino de Ciências análoga a uma Instituição? Primeiro porque as Instituições são lugares de pacificidade, ou seja, onde predomina o acordo de levar adiante uma obra coletiva, ainda que isso não signifique consenso perfeito, nem obediência cega às regras e normas interiorizadas para funcionamento do grupo. Uma forma, portanto, de analisar a história da área de pesquisa em EC, seria buscar pelos mecanismos desenvolvidos por seus membros para garantia de sua existência. Quais os conflitos gerados pelas diferentes lógicas foram gerenciados dentro da Instituição para sua sobrevivência pacífica? No que consistiria uma unidade imaginária perseguida pelo grupo? Quais intermediários foram gerados para as mudanças de fases assinaladas no capítulo anterior? Diferentemente das organizações que visam a produção delimitada, cifrada e datada, de bens ou de serviços e que se apresentam como contingentes (exemplo: uma empresa pode nascer ou morrer sem que esse nascimento ou esse desaparecimento traga conseqüências importantes para a dinâmica social), as Instituições, na medida em que iniciam uma modalidade específica de relação social, na medida em que tendem a formar e socializar os indivíduos seguindo um pattern específico, no qual pretendem perpetuar um determinado estado, desempenham um papel essencial na regulação social global. Com efeito, têm como alvo primordial ajudar na manutenção ou na renovação das forças vivas de uma comunidade, permitindo seres humanos serem capazes de 38 viver, amar, trabalhar, mudar e, talvez, criar o mundo à sua imagem (ENRIQUEZ, 1991, p.73). A família e a escola são exemplos de instituições onde é fácil notar algumas características básicas de uma Instituição, como a questão da alteridade, ou seja, “da aceitação do outro enquanto sujeito pensante e autônomo por cada um dos atores sociais que mantêm com ele relações afetivas e vínculos intelectuais” (op. cit., p.74). O objetivo de uma Instituição é de existência, ela se concentra sobre as relações humanas inscritas em uma trama simbólica e imaginária. Assim sendo, toda Instituição tem vocação para encarnar o bem comum. Para isso, favorecerá a manifestação das pulsões sob a condição de que sejam metaforizadas e metabolizadas em desejos socialmente aceitáveis e valorizados, o desdobramento de fantasias e de projeções imaginárias na medida que “trabalhem” a favor do projeto mais ou menos ilusório da Instituição tendo, a emergência de símbolos por função unificar a Instituição e garantir o trabalho desta sobre o consciente e o inconsciente de seus membros (ENRIQUEZ, 1991, p.74). Todo grupo se constitui, se organiza e evolui de acordo com a configuração que reveste o sistema de representação de seus membros; da tarefa proposta; do grupo em si mesmo; do contexto social. O desenvolvimento de uma Instituição é, portanto, marcado pelos conflitos que advêm da necessidade de conciliar as diferentes lógicas individuais. Ou seja, para dar conta da heterogeneidade – social, política, psíquica – o grupo realiza um grande investimento tentando fazer coincidir em uma unidade imaginária esses âmbitos e lógicas diferentes, de forma a reduzir ao máximo seus aspectos conflitantes e criar uma relação isomórfica entre sujeito e instituição. Por outro lado, a capacidade das instituições de tolerar o funcionamento de lógicas e ordens relativamente distintas constitui a capacidade de ampliação do seu espaço simbólico, isto é, a sustentação de uma relação homomórfica. 39 Nesse movimento, encontramos rupturas, caracterizadas por criações originais ou paralisia das ações institucionais (Valadares e Villani, 2006, p. 3). Nos períodos de crises e mudanças é essencial que sejam encontrados intermediários20 capazes de articular as relações entre os grupos e as instituições, permitindo gerar passagens de uma estrutura a outra. As três principais formações intermediárias, articuladas entre si e que sustentam o vínculo social e parte da identidade do sujeito são: contrato narcísico21, comunidade de direito22 e pacto denegativo23. A presença de um determinado intermediário em momentos específicos da evolução de um grupo marca os intercâmbios, os lugares, as atribuições, a atividade representacional e os afetos. Decorre daí a importância de um enfoque genético, isto é, de uma seqüência organizativa na história de um grupo, a partir de organizadores psíquicos do grupo. René Kaës (1997) define quatro momentos organizadores no 20 O intermediário é construído para dar condições aos sujeitos de encontrar um lugar no qual suas práticas sejam reconhecidas pelo grupo no qual atuam. Uma função fundamental é também tornar suportável o impacto psíquico das mudanças visadas. No Apêndice 3 pode-se encontrar uma discussão mais aprofundada desse conceito. 21 Kaës, em vários de seus trabalhos, retoma o texto de Freud [1974 (1914)] “Sobre o Narcisismo: uma Introdução”, para mencionar que todo sujeito leva uma dupla existência: ser um fim em si mesmo e, simultaneamente, elo, beneficiário e servidor de uma cadeia social e geracional. Ele possui um lugar assinalado no grupo e para assegurar esse lugar e sua continuidade, o conjunto deve investir nele, em um efeito de mútua determinação, o contrato narcísico. Da maior ou menor mobilidade deste lugar, o sujeito pode encontrar maior ou menor dificuldade em retomar o discurso do grupo (mitos, valores, ideologias, utopias) por sua própria conta. 22 A segunda formação intermediária considerada por Kaës, buscada em “O Mal estar na civilização” de Freud [1974 (1929)], é a comunidade de direito, consecutiva à renúncia pulsional dos sujeitos ao contrato ao qual aderem; diz respeito às compensações do sujeito na formação do vínculo e na sua manutenção, obtidas a partir de suas renúncias, parte de sua soberania, de suas tendências agressivas e vingativas. Desta forma, ela é uma formação biface, tem uma função para o sujeito e para o grupo. Segundo Freud, na leitura de Kaës, uma das causas do mal-estar no mundo moderno estaria no sentimento experimentado por cada sujeito na insuficiência das instituições e de suas funções em regular as relações dos homens entre si. Neste caso, a comunidade de direito fornece a “base psíquica da fundação jurídica da instituição e o da filiação legítima dos seus sujeitos a um conjunto social” (Kaës, 2005, p. 174). 23 O pacto denegativo seria um acordo comum e inconsciente entre os membros do grupo do que deve ser rejeitado, deixado de lado, cumprindo uma função tanto para o sujeito quanto na manutenção do conjunto. Para que este se mantenha não há somente a necessidade da identificação com um objeto comum: espera-se que algo deva ser deixado de fora, excluído das representações. Os pactos mergulham os sujeitos no desconhecimento e seus mecanismos são múltiplos: “o recalque, o qual produz a retirada de representações que possam gerar rupturas; a repressão, forma mais dura para a retirada de circulação do indesejado; a negação, elemento essencial de toda regulação social e fundador da realidade humana e social” (Fernandes, 2005, p. 131). 40 desenvolvimento dos vínculos intersubjetivos: O Momento Originário, o Primeiro, o Segundo, e o Terceiro Organizador Grupal. Veremos como se estabelece a correspondência desses momentos organizadores com as fases da área, identificando em cada uma delas os intermediários gerados pela Instituição. 3.1 MOMENTO ORIGINÁRIO O Momento Originário é organizado psiquicamente pela fantasia fundadora. É o momento prévio à fundação do primeiro pacto em que há o encontro dos sujeitos dispersos com um objeto apresentado na fantasia do fundador do agrupamento. Normalmente este capta as ansiedades presentes no cenário institucional e as transforma em um projeto portador de promessas especiais, que possui a capacidade de antecipar uma experiência de prazer (ilusão). O Momento Originário, frequentemente, é acompanhado de angústias intensas. Ao descrevermos o panorama da área nos anos que antecederam a década de 1960 destacamos: a criação de universidades (e ressaltamos o papel das faculdades de Educação na formação dos primeiros doutores na área de EC); o surgimento dos projetos de ensino internacionais e nacionais (e o conseqüente atrelamento a centros de poder externos simbolizado pelos financiamentos para importação de projetos); a criação de instituições como o IBECC, a FUNBEC e os Centros de Ciências (cujas tarefas principais eram a preparação de materiais e capacitação de professores visando a melhoria do ensino das Ciências) e o incentivo governamental para a reforma educacional em curso (que se traduzia basicamente em financiamento para desenvolvimento de materiais e projetos nacionais). Acreditamos que os pontos marcados são suficientes para revelar que existia, no final da década de 1960, um clima de esperança de renovação do ensino de Ciências pautado na criação de diferentes órgãos ligados ao desenvolvimento de projetos e materiais instrucionais. As iniciativas dos docentes que atuavam no ensino de Ciências e que estavam envolvidos em pesquisas na área educacional carregavam esta esperança e procuravam difundi-la nos colaboradores, principalmente docentes do Ensino Médio. 41 Podemos supor então que esse clima de esperança foi a fantasia fundadora que organizou o momento originário da área. Existia a ilusão de que as atividades em curso, as reformas propostas, certamente se traduziriam em melhoria do ensino das Ciências. Para muitos pesquisadores, entretanto, existia uma angústia crescente porque as atividades em curso e as reformas propostas não produziam o efeito de melhoria na qualidade do ensino como era desejada e desenhava-se no cenário político nacional o período árduo da ditadura militar com diretrizes contrárias ao clima anterior de experimentação. Gerou-se, portanto, a sensação da impotência de atuar em um cenário educacional nacional onde os pesquisadores eram pressionados para restringirem suas atividades ao âmbito acadêmico e para manter a esperança em poder driblar o controle do governo. Como já frisamos anteriormente, elegemos os projetos de ensino importados e também aqueles que aqui foram elaborados como o grande símbolo desse momento. Não só porque aglutinavam as propostas de reforma e valorização do ensino de Ciências, o incentivo governamental etc.; mas também porque os projetos eram portadores de problemas velados, como a visão empirista da Ciência que não “encabeçava a pauta das discussões”. Embora o empirismo estivesse presente em boa parte dos projetos marcados pela predominância de atividades experimentais, também tiveram lugar propostas como do Projeto Harvard, que dava destaque aos conteúdos da História e Filosofia da Ciência. Sabemos que o uso da HFC no ensino carrega em si necessidades que sempre foram apontadas nas pesquisas: conhecimento da história sobre os conteúdos a serem ensinados; predisposição para lidar com as controvérsias e não-linearidade que caracterizam a produção do conhecimento científico; sustentação do processo de desmitificação da Ciência e da atividade científica, sem que isso signifique desvalorização do seu papel no progresso da humanidade; entre outros aspectos. Esse conjunto de elementos não é suportado dentro de uma visão empirista de Ciência, que era a visão traduzida por quase a totalidade dos projetos de ensino. Sendo os projetos os portadores símbolos da esperança de renovação do ensino na área, o questionamento da visão de Ciência que se 42 estava difundindo só iria entrar de vez na pauta das discussões quando a área estivesse pronta. 3.2 PRIMEIRO ORGANIZADOR GRUPAL O Primeiro Organizador Grupal é o momento da fundação e elaboração de um modelo, cujos organizadores psíquicos são o pacto denegativo e o contrato narcísico. Essa fase de desenvolvimento do grupo tem uma função redutora e unificadora. Procura assegurar uma primeira identificação imaginária e aponta as primeiras predisposições significantes. Nesse momento se estabelece o primeiro pacto denegativo grupal. O grupo se constitui pela construção narcísica comum dos membros do grupo e as angústias são contidas. Nessa fase inicial das pesquisas sobre EC no Brasil, se destacaram: o controle estabelecido pelo regime militar (e os movimentos de enfrentamento desse controle); o investimento na formação dos professores (que financiou a ida de muitos brasileiros para o exterior, a vinda de vários pesquisadores ao Brasil e a instituição das pós-graduações nas universidades brasileiras); a mudança do lócus da pesquisa para as universidades; adoção de referenciais teóricos adotados principalmente da psicologia no acoplamento dos projetos de ensino e a pesquisa; questionamento da legitimidade das produções científicas da área (reconhecimento); a criação dos primeiros eventos e periódicos específicos para divulgação desse novo campo de conhecimento. Como esse emaranhado de situações se transformou no momento da fundação da área? Ainda no Momento Originário foram construídas as bases do Primeiro Organizador Grupal. Foi isso que permitiu que o grupo desenvolvesse tanto uma identificação entre cada um dos membros para a realização de seus desejos (construção narcísica comum), quanto os mecanismos de defesa contra os perigos que podiam ameaçar a Instituição em construção (pactos denegativos). Vejamos como isso aconteceu. A ameaça de perder o clima de renovação e a esperança na reforma do ensino de Ciências trazida pela ditadura militar promoveu uma identificação entre os pesquisadores recém reunidos nas universidades, sob a forma de movimentos para enfrentamento do controle estabelecido. Nota-se que esses 43 movimentos foram reconhecidos como importantes para a sustentação da área na tese de Nardi (2005), provavelmente, porque representaram uma forma de suporte da angústia trazida pelo governo militar. As atividades de pesquisa dos grupos criados eram caracterizadas pelo estudo de metodologias de ensino e pelo desenvolvimento de projetos, como o Projeto Piloto da UNESCO, o Projeto de Ensino de Física (PEF), o FAI (Física Auto Instrutiva) e o Projeto Brasileiro para o Ensino de Física (PBEF). Assim, o contrato narcísico dos grupos de pesquisa em Educação em Ciências parece ter sido fundado na confiança em relação ao sucesso do acoplamento entre pesquisa e projetos. Simultaneamente, um pacto denegativo foi desenvolvido com a função de proteger esse esforço das eventuais críticas, ou seja, ninguém poderia duvidar de que o material produzido ou os métodos escolhidos pudessem funcionar. Todo o esforço era concentrado em desenvolver projetos mais adequados às diferentes realidades regionais, encontrar metodologias mais eficientes, ou seja, a adequação dos projetos e métodos aos seus fins poderia ser questionada desde que se mantivesse a crença de que era o caminho correto para melhorar a qualidade do ensino de Ciências. Essa situação revela um outro recalque mais profundo que parece ter acompanhado o surgimento desta instituição: desconsiderar o papel do professor no ensino das Ciências. Acreditou-se que os projetos ou os métodos seriam necessários e suficientes para provocar os efeitos almejados, independentemente da atuação do professor. Como regra geral as pesquisas realizadas nesse período utilizavam referenciais teóricos importados da psicologia (e ainda hoje essa é uma prática comum). Isso poderia representar uma forma de buscar um rigor científico que ajudasse a suportar as angústias geradas pelo questionamento da legitimidade das produções e pela pressão da coexistência com os demais grupos de pesquisa já consolidados nos institutos. Também a organização do primeiro Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) e a criação da Revista de Ensino de Física (REF)24 tiveram 24 Uma caracterização desse periódico (que depois passou a ser denominado Revista Brasileira de Ensino de Física) pode ser encontrada no Apêndice 4. 44 papéis importantes nesse processo de busca da credibilidade das pesquisas realizadas nesse novo campo. Representavam o reconhecimento da Sociedade Brasileira de Física (SBF) dos resultados atingidos pela área. O pioneirismo da Física, como já foi explicitado antes, se estendeu depois para as associações representativas da comunidade dos químicos e biólogos. O SNEF e a REF tinham em comum o fato de abrigarem uma linha de investigação com a temática da epistemologia, da história e da filosofia da Ciência. Essa também era uma linha que aparecia nas produções das primeiras pós-graduações da área, conforme já apontado anteriormente com apoio do trabalho de Nardi (2005). O que poderia representar essa recorrência? Podemos levantar algumas hipóteses: o potencial de uso da HFC que já havia sido apontado nos projetos de ensino foi valorizado com a vinda de alguns pesquisadores estrangeiros para dar aulas, palestras e cursos nas universidades brasileiras; o doutoramento no exterior contribuiu para formação de pesquisadores com interesse na HFC (já que essa é uma linha temática forte em outros países); o conhecimento histórico constitui-se um campo inteligível tanto para os provenientes dos institutos de Ciências (Físicos, Químicos e Biólogos) quanto para os provenientes das faculdades de Educação, ou seja, ambos podiam partilhar de uma linguagem comum. Essas hipóteses serão objetos de nosso próximo capítulo. 3.3 SEGUNDO ORGANIZADOR GRUPAL Essa é a fase da ilusão grupal. O Segundo Organizador Grupal é também o momento do envelope grupal. Neste procedimento unificador predomina a elaboração da relação ao semelhante e a exclusão do diferente. O laço grupal pode se ver empobrecido, apesar do grupo articular bem suas tarefas. Os limites entre o dentro e o fora são acentuados. É o momento em que se prepara o enunciado das primeiras regras e das primeiras leis em comum. Na primeira metade da década de 1980 a pesquisa em EC atingiu a fase de envelope grupal, desenvolveu-se o Segundo Organizador Grupal. Nessa fase surgiu um procedimento unificador evidenciado pela procura por 45 referenciais teóricos mais apropriados para interpretar os fenômenos específicos da tarefa de ensinar ciências. Em primeiro lugar, o desenvolvimento da linha de pesquisa sobre concepções alternativas e mudança conceitual conseguiu promover um guarda-chuva teórico (o construtivismo) que abrigava de um lado as contribuições recentes de Piaget (Teoria da equilibração), Ausubel e Novak (Teoria da aprendizagem significativa) e dos filósofos pós-positivistas (Kuhn, Lakatos e Laudan) e, de outro lado, justificava novas estratégias didáticas (Scott et al., 1992). Dentro desse cenário outro elemento importante na época foi a importação da área da psicologia da obra "Psicogênese e História da Ciência”, de Piaget e Garcia. Essa obra influenciou a área de EC em seus referenciais teóricos, principalmente pelo acoplamento da psicologia com a história da ciência. Inhelder, no prefácio da obra, destaca que os autores, sendo um psicólogo e um físico, produziram uma obra que “abre para investigação caminhos que atravessam as fronteiras da psicologia e da história da ciência”. De fato, Piaget e Garcia ao procurarem investigar possíveis analogias25 entre os mecanismos de passagem de um estado genético a seus sucessores e os mecanismos de passagem de um período histórico ao seguinte, utilizaram eventos históricos, principalmente, da história da Física e da história da Matemática. Os exemplos que mais se sobressaem são, sem dúvida, as explicações sucessivas que as crianças fornecem para a transmissão do movimento, que se elaboram em função das operações de seus próprios pensamentos, e são comparáveis as explicações do impetus dadas em épocas sucessivas por diferentes pensadores, de Aristóteles a Buridan e Benedetti. (INHELDER in PIAGET e GARCIA, 1982, p. 8) A exploração de concepções alternativas e analogias dentro do Modelo de Mudança Conceitual mostrou-se extremamente fértil nas pesquisas da área 25 É importante lembrar que os autores reforçaram que não se tratava de fazer simplesmente comparações ou, utilizando as palavras utilizadas por eles, não se tratava de resgatar a filogênese pela ontogênese. 46 naquele momento, pois possibilitava o estudo de diferentes estratégias didáticas (uso de conflitos cognitivos, por exemplo), o estudo de atividades metacognitivas e a exploração da HFC, que teve um momento de grande valorização. Os simpósios nacionais (SNEF´s) envolvendo pesquisadores e professores continuaram se repetindo a cada três anos e, paralelamente às discussões sobre os problemas relativos ao ensino de ciências, começaram a aparecer debates explícitos procurando delinear ou até definir as características da pesquisa em EC. Por exemplo, no SNEF de 1982, uma das mesas redondas foi dedicada ao assunto e num artigo da REF, o autor procurava delinear a diferença entre pesquisa e desenvolvimento de projetos (Villani, 1981)26. Evidenciava-se assim a busca por elementos unificadores de elaboração da relação de semelhança, ou seja, a busca pela identidade da área por referenciais próprios etc. Os limites entre o dentro e o fora foram acentuados, passou-se a se questionar quem pertencia ou não a essa nova área e havia satisfação e orgulho em pertencer ao grupo (ilusão grupal). O grupo elaborou novos organizadores psíquicos. Parece que o novo sonho (contrato narcísico), além de apontar para uma solução bastante definitiva para o ensino das ciências via modelo universal (Mudança Conceitual), era alcançar uma estruturação e um reconhecimento semelhante ao das outras disciplinas científicas. O correspondente pacto denegativo parece ter sido o reconhecimento implícito da diferença entre professor e pesquisador, ou melhor, entre a intervenção didática e a pesquisa, com a conseqüente pressão para que todos se adaptassem a trabalhar com uma metodologia e um referencial teórico específicos. Também houve uma revisão do pacto denegativo anterior que minimizava o papel do professor na promoção da aprendizagem das ciências, 26 Em particular, afirmava: “o que torna estas atividades (os projetos de intervenção didática) secundárias em relação à pesquisa fundamental é a preocupação de resolver um problema prático sem inseri-lo no contexto do aprofundamento das características do Ensino de Física, e sem se preocupar com a sua eventual reprodutibilidade e com a análise e a avaliação crítica da comunidade científica”. 47 pois as pesquisas estavam progressivamente atribuindo importância às iniciativas do docente na aprendizagem de seus alunos. Outro intermediário, que favoreceu o desenvolvimento e a unificação da área, foi o início da adesão à metodologia de pesquisa qualitativa (estudo de caso, pesquisa ação etc.) que permitiu abandonar a obrigação de rechear as pesquisas com análises estatísticas e se dedicar ao estudo de eventos singulares27. Simultaneamente houve uma contribuição importante no que se refere ao financiamento dos projetos de pesquisa e dos pesquisadores brasileiros: de um lado o SPEC/PADCT e o BID deram uma injeção de recursos significativos consagrando o financiamento da Educação em Ciências e da correspondente pesquisa no Brasil, auxiliando grupos de pesquisa e permitindo a formação de redes de colaboração. Por outro lado, o CNPq reconheceu formalmente a pesquisa em Ensino de Ciências, concedendo bolsas de produtividade para vários pesquisadores dessa área, e bolsas de pós-graduação para mestrandos e doutorandos. Um destaque deve ser dado para as participações em Congressos no exterior, a vinda de pesquisadores estrangeiros e o desenvolvimento de doutorados no exterior. De fato, foi muito importante, do ponto de vista do fortalecimento psicológico dos pesquisadores brasileiros, a colaboração com pesquisadores estrangeiros de renome. Em particular, Villani e Valadares (2007) citam o workshop internacional de La Londe28 como um evento importante que consagrou o modelo de Mudança Conceitual e unificou a orientação das pesquisas, permitindo o diálogo entre a Aprendizagem Significativa, o Movimento das Concepções Alternativas e a Teoria da Equilibração. Uma conseqüência prática do encontro de La Londe foi o início de uma troca sistemática de informações atualizadas com pesquisadores renomados como, por exemplo, Ogborn, Viennot, Gilbert, que se dispuseram a receber estudantes brasileiros de doutorado e aceitaram convites para participar de 27 A pesquisa qualitativa se configura como marca das pesquisas educacionais de forma geral, não apenas no que se refere ao ensino de Ciências. 28 First International Workshop in Research on Physics Education, La Londe les Maures – França, 1983. 48 cursos no Brasil dando visibilidade no exterior à Instituição que estava se consolidando aqui. Outros intermediários importantes foram a instituição de novas revistas da área: a Revista de Ensino de Ciências (da FUNBEC), Química Nova na Escola (da SBQ) e o Caderno Catarinense de Ensino de Física29 (da Universidade Federal de Santa Catarina); e a organização de novos congressos como o EDEQ e, posteriormente, o ENEQ30. Podemos considerar que outro fator marcante no processo de estabilização da área foi a promoção do I Encontro de Pesquisadores em Ensino de Física31. A organização de um encontro sistemático, a cada dois anos e com participação exclusiva de pesquisadores da área, visava fomentar, além da apresentação e discussão de trabalhos, também a discussão das metodologias de pesquisa e dos problemas da área de Ensino de Física. A Sociedade Brasileira de Física, que patrocinava os encontros, reconhecia explicitamente a área como tendo direitos similares das demais áreas de pesquisa em Física. 3.4 TERCEIRO ORGANIZADOR GRUPAL É a última fase de desenvolvimento, o Momento Mitopoético, onde temos como organizador psíquico o grupo de trabalho. Esse momento conduz a uma nova organização que define sobre o futuro do grupo e sobre o afastamento entre o momento originário e os diferentes períodos de seu desenvolvimento. As representações recalcadas podem ser admitidas e o grupo adquire certa segurança. Outras relações grupais/relações singulares ao grupo são colocadas em ação. 29 O Caderno Catarinense de Ensino de Física teve seu nome alterado a partir do vol. 19 (abril de 2002) e atualmente chama-se Caderno Brasileiro de Ensino de Física. 30 Trata-se do Encontro e Debates sobre o Ensino de Química e do Encontro Nacional de Ensino de Química. 31 “A idéia de organização dos EPEF - Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, segundo Susana Barros (1990, p.15), surgiu.... num encontro informal de pesquisadores em ensino de Física, quando se considerou a necessidade de ter um fórum específico para a discussão da pesquisa stricto sensu, visando aumentar a compreensão de certos problemas estudados e abrir caminhos para outras soluções, nos moldes dos demais encontros tópicos das outras áreas da Física....” (Nardi, 2005) 49 A partir da década de 1990 configura-se na área o que Kaës chama de Momento Mitopoético. Essa fase, que acreditamos ainda está em processo na área, define-se pelo afastamento entre o momento de ilusão originário e os organizadores grupais. No cenário educacional tivemos a diminuição de trabalhos explorando o Modelo de Mudança Conceitual e a adoção de diversos outros modelos e resultados de outras áreas. A ilusão que os problemas do EC seriam resolvidos com projetos de ciências padronizados foi sendo abandonada progressivamente, embora não erradicada, e a produção científica ganhou múltiplos enfoques. O reconhecimento dessa área de pesquisa pela CAPES em 2000, trouxe certa segurança ao grupo. Embora ainda existam resquícios dos questionamentos sobre a produção da área, principalmente no que se refere ao rigor científico, constata-se que a luta por espaço dentro dos institutos de ciências ganhou outros contornos. Um exemplo da maturidade atingida pela Instituição é a busca pela sua organização em grupos de pesquisa, ou seja, existe um certo consenso que os pesquisadores devem formar grupos de trabalho para fortalecer as pesquisas que serão desenvolvidas. Mais ainda, a área já suporta e até valoriza a pluralidade de enfoques, de referenciais teóricos e metodológicos que são características marcantes da produção atual, como apontou a tese de Nardi já referenciada. Finalmente, constatamos que a área poderia ter funcionado em uma versão ideológica, na qual haveria possibilidade de excluir quem não seguisse as orientações (por exemplo, não reconhecendo a metodologia de pesquisaação), mas parece que funcionou numa versão transicional, na qual foi permitida a abertura de espaços onde surgiram iniciativas inovadoras de grupos e sujeitos. Provavelmente, a própria constituição da área não autorizou nenhum grupo a estabelecer regras rígidas, deixando espaços tanto para o desenvolvimento de projetos com concepções antigas, quanto para iniciativas que privilegiaram a estrutura e o conteúdo disciplinar. As listas elaboradas por Villani (2007) e Cachapuz et al. (2001) mostrando as linhas de pesquisa vigentes na área deixam isso bastante claro. Comportam temáticas recorrentes 50 desde o princípio da área, como a História e Filosofia da Ciência e a experimentação, e também aparecem linhas mais recentes, como a que discute as relações entre Ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA). Como ressaltamos no capítulo anterior, parece existir no momento atual um esforço da área de olhar para sua história (não que isso não tenha sido feito em outros momentos, talvez apenas com outras perspectivas) para auxiliar na busca por elementos unificadores ou reforço de vínculos entre as distintas linhas de investigação. Arriscamos dizer a partir desses elementos que a fase atual da área revela sua disponibilidade e credibilidade para questionar e refletir sobre seu próprio futuro. 51 4. PAPÉIS DA HFC NA HISTÓRIA DA ÁREA A permanência da HFC na área levou-nos a questionar pelos seus mecanismos de transmissão. Mais uma vez, a psicanálise apontou uma possibilidade de resposta através da hipótese de uma psique de massa que seria responsável pela transmissão dos valores, dos costumes, dos conhecimentos de uma geração para outra. A existência de uma psique de massa explicaria, por exemplo, como um sentimento pode ser transmitido de geração em geração e sobreviver em indivíduos que não tiveram conhecimento da experiência vivida na geração anterior. Seria assim uma explicação para a continuidade e a transmissão da vida psíquica, sem a qual a cultura de um povo não poderia ser construída. [...] sem a hipótese de uma psique de massa, de uma continuidade da vida psíquica do homem, a qual permite não considerar as interrupções dos atos psíquicos resultantes do desaparecimento das existências individuais, a psicologia coletiva, a psicologia dos povos não poderia existir. Se os processos psíquicos de uma geração não se transmitissem de uma para a outra, se não continuassem uma na outra, cada pessoa estaria obrigada a recomeçar seu aprendizado da vida (FREUD, 1913 apud KAËS, 1997, p. 38). Estaria na psique de massa dos pesquisadores em EC a valorização da HFC? Foi apenas mais uma temática explorada nas pesquisas da área em meio a tantas outras ou a HFC teve um papel determinante em alguns momentos? Ao traçar o panorama da área, algumas situações nos chamaram atenção de imediato. Uma delas localizada no final da década de 1960, quando a HFC apareceu valorizada no Projeto Harvard para o ensino de Física que foi traduzido e aplicado, sem muito sucesso, no Brasil. Isso nos pareceu significativo porque também alguns dos projetos nacionais financiados naquele momento apresentavam a HFC como um instrumental importante. Mesmo que na redação dos projetos a inserção da HFC fosse restrita, sua valorização era evidente, isso foi revelado inclusive no primeiro SNEF realizado em São Paulo, 52 onde a HFC teve um lugar marcado nas discussões e apresentações de trabalhos que ocorreram no evento. Outra situação singular que despertou nossa atenção se deu na segunda fase da história da área. Nesta fase de consolidação, que teve início na década de 1980, a HFC foi um elemento importante dentro do Modelo de Mudança Conceitual que, por sua vez, foi determinante para o processo de maturidade da área. Assim também nas novas publicações específicas da área, como a REF e o CCEF, constatamos inclusões sistemáticas da HFC. Para nortear o aprofundamento em nossas investigações elaboramos duas questões: Quais papéis a HFC representou na história da área? Como contribuiu para sua formação e sustentação? Em busca das respostas decidimos seguir um caminho similar àquele utilizado por Nardi (2005) no trabalho já mencionado e, para dar conta da teia de relações presentes, entrevistamos pesquisadores que atuam na área e cuja inserção nela se deu em momentos diferentes. Assim, escolhemos pesquisadores da área de EC que têm alguma aproximação (publicações, orientações) com a HFC. Segundo Kaës (2005), a memória é dependente de uma experiência vivida e integrada a uma história de um grupo, que sustenta as memórias comuns e partilhadas, seus contratos e pactos ao longo de sua trajetória. A história está conformada por histórias de vida singulares, que transcorrem no seio das instituições. Nelas se enlaçam acontecimentos de trabalho, questões de poder, vínculos libidinais individuais e grupais, inseridos na cultura recortada de cada organização em particular, que é sustentada por mitos através de ritualizações cotidianas. Quem senão os que vivem essa história são as testemunhas principais dela? Quem senão os que a “fazem” podem narrar, testemunhar, através de relatos orais, o que sucede nas instituições? (MEZZANO, 1998 apud VALADARES, 2008, p.74) Por isso buscamos nos entrevistados a memória individual que se expressa apoiada em tempos e espaços institucionais e se traduzem nos dados histórico-afetivos de cada um. Tentamos organizar as contribuições da HFC em dois blocos. O primeiro focado em dados mais objetivos, que dizem respeito à inserção do tema em 53 periódicos importantes da área e na sua exploração como referencial teórico, principalmente dentro do Modelo de Mudança Conceitual. No segundo bloco focamos aspectos mais subjetivos em busca de melhor compreensão dos motivos da permanência da HFC durante toda a história da área. 4.1 ASPECTOS OBJETIVOS: PUBLICAÇÕES E MODELO DE MUDANÇA CONCEITUAL Nosso primeiro movimento foi mapear nos periódicos específicos para pesquisadores e professores de Física as contribuições da HFC, tentando identificar as motivações, o motor epistêmico dessas publicações. Optamos por analisar dois importantes periódicos nacionais cujos nascimentos (um em 1979 e o outro em 1984) tiveram grande importância para a consolidação da área. O fato de serem publicações da área de Ensino de Física é decorrente do pioneirismo da Física dentro da área, como fica evidenciado pelo fato das primeiras pós-graduações em Ensino de Ciências terem tomado lugar nos Institutos de Física da UFRGS e da FEUSP, como já citado. O Caderno Catarinense de Ensino de Física (CCEF) teve seu primeiro volume publicado em 1984 pelo departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é chamado Caderno Brasileiro de Ensino de Física e mantém, desde o primeiro volume, uma seção intitulada “História e Filosofia da Física (HFF)”. Analisando os sete primeiros anos de publicação (dezembro de 84 a dezembro de 91) contabilizamos 26 artigos publicados nessa seção, sendo a segunda seção do periódico em número de publicações. Para efeitos comparativos, citamos que a seção que publicou o maior número de artigos foi “Ensino de Física”, com 55 artigos publicados. Outras seções tiveram número de publicações semelhantes como “Laboratório Caseiro”, com 22 artigos; “Demonstre em Aula”, com 22 artigos, “Física Geral”, com 24 artigos e “Divulgação Científica”, com 25 artigos publicados. Acreditamos que o grande número de artigos sobre História e Filosofia da Física (HFF) é um indício da valorização dessa temática na área que se consolidava. Além disso, a seção de HFF foi a única que mereceu edições especiais do periódico, que ocorreram em 1988, 1989 e 1990. A edição especial de 1988 trouxe os resultados de uma mesa-redonda, que teve lugar 54 em um dos SNEF´s, cujo tema foi a influência da História da Ciência no Ensino de Física. Nossa primeira impressão foi que a história e a filosofia representavam para a comunidade científica um tema de fácil compreensão e, supostamente, de fácil exploração na pesquisa e no ensino. Para os pesquisadores com a formação inicial em ciência – Física, Química, Biologia ou Matemática (área em que a história sempre foi amplamente explorada) – a idéia de trabalhar com textos históricos e ensinar através da história e da filosofia pode ter parecido atraente por enxergarem na área de EC mais um campo aberto para publicação32. Eu acho que teve essa aproximação por falta de mercado para o historiador da ciência. Onde tem História da Ciência no Brasil? Pelo que eu conheço, acho que tem no Rio de Janeiro, tem na PUC, tem uma cadeira de História da Ciência na Federal de Minas, mas geralmente não tem curso na área de História da Ciência. Então eu acho que o pessoal viu que na área de Ensino de Ciências tinha uma linha bastante forte de pesquisa em História da Ciência e acho que disseram: a gente vai se virar por aí, a gente vai para área de ensino, pega essa linha e “dá para meio que fazer” a ligação entre a área de ensino e a História da Ciência, mais para sobreviver como historiador da ciência. [Zico] Eu vejo que como surgiram as revistas da área, da década de 80 para cá - a primeira foi a Revista Brasileira de Ensino de Física, depois foi o Caderno Catarinense, que depois virou Brasileiro, depois acho que foi a Investigações que já é mais... daí a Ciência & Educação, depois a Ensaios, a Ciência e Ensino da Unicamp - eu acho que quando essas revistas começaram a se especializar e ter sessões ou serem totalmente para pesquisa de ensino, também na área de História e Filosofia começaram a deslanchar as revistas dessa área. Então também esse pessoal teve onde publicar. [Dino] 32 Os nomes que aparecerão a seguir, após trechos das entrevistas, são fictícios. 55 A presença marcante da HFC nas publicações da área permanece até hoje33. Uma análise de um período mais recente da revista de Ensino de Física (REF) demonstra isso. O periódico surgiu em 1979, como publicação da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e o ano de 1993 marcou a inauguração da seção "Epistemologia e História da Física" que, posteriormente, foi chamada apenas "História da Física" e, a partir de 2000, "História da Física e Ciências Afins". No período de 1993 a 2003 foram publicados 44 números da revista. Nas seções específicas sobre História da Física encontramos um total de 68 artigos, sendo que 13 autores foram responsáveis por 53 artigos publicados, representando 78% da totalidade dos artigos e, um único autor responde por 27 artigos, ou seja, aproximadamente 40% dos 68 publicados na referida seção. Notamos também uma grande diversidade na origem desses autores, provenientes de várias regiões do país. Comparando com um estudo realizado anteriormente por Moret34 (1994), percebemos uma situação diferente daquela encontrada nos dez primeiros anos da revista, quando existia uma predominância de autores da região sudeste do Brasil, mais precisamente, autores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Outro fato que chamou-nos a atenção foi a multiplicidade de abordagens desses artigos e de autores. Alguns pareciam impulsionados pela idéia simples de que conhecer a história da Física por si só agregaria motivação e facilitaria a aprendizagem de conceitos físicos. Isso parece ser conseqüência da crença de que um material adequado seria suficiente para garantir a aprendizagem, como vimos na interpretação de alguns eventos da história da área. Como a preocupação inicial era a produção de material didático científico de qualidade, onde se destacaram os projetos de ciências, a produção de textos históricos para inserção da HFC nos projetos e nos livros didáticos era um nicho de trabalho interessante, ainda que muitos não conseguissem produzir qualquer articulação com o ensino. 33 Também em publicações de fora do Brasil a HFC tem lugar garantido. Um exemplo, é a revista Science & Education que desde 1991 é especializada no estudo do papel da História e Filosofia das Ciências no ensino das Ciências (Cachapuz et al., 2001) 34 Moret (1994). A revista de ensino de física: 1979-1988. 56 Eu vejo que isso acontece também na História e Filosofia das Ciências, então [vejo] pessoas que trabalham puramente com História até pessoas que inserem mesmo a História e Filosofia no ensino. Então, eu vejo que às vezes é até difícil classificar se esse trabalho é de Ensino de Ciências ou não quando ele tem o viés histórico, porque às vezes ele fica mais puramente na História, na Filosofia, na Epistemologia. Outros realmente vão a campo e inserem, não é? [Dino] A aplicação em sala de aula eu já acho um pouco mais difícil. Confesso que eu tenho uma dificuldade de ver os alunos lendo... Sei que existem experiências que fazem isso, de leitura de textos de fonte primária ou mesmo a utilização de outras metodologias no Ensino Médio, mas... Confesso que tenho dificuldade de fazer uma ligação com a área de ensino. Toda vez que tenho que pegar a questão da HC e fazer uma ligação com o ensino eu tenho uma certa dificuldade. Em geral daí eu converso com as pessoas, tem gente que é dá área de ensino no projeto, e as pessoas conseguem fazer a ligação. [Zico] Outros artigos que encontramos justificavam o uso da HFC em aulas para desmitificar a imagem da ciência e o trabalho do cientista, evidenciando as controvérsias científicas, a não-linearidade da produção científica, aumento da cultura geral dos alunos e dos professores, entre outros aspectos. Para propiciar uma reflexão sobre a natureza da ciência, sobre o empreendimento, essa coisa que hoje todas as reformas curriculares acentuam, que não basta ensinar os conteúdos de ciências, é preciso que se reflita sobre a natureza do empreendimento científico, a história é imbatível. [Vilas] Acho que eu sempre tive uma coisa na minha cabeça. Era a questão do aprendizado mesmo, eu tive dificuldade em um conteúdo de Química e eu tinha ganhado do meu avô um volume sobre Química que tinha uma introdução enorme sobre História da Química, foi lendo aquilo que me ajudou a entender a Química. Isso nunca saiu da minha cabeça. [Roma] Alguém vira para você e fala que uma lei não é natural, é anormal, tem um grau de arbitrariedade, ela faz parte de uma construção porque está envolvida em 57 um paradigma. Tudo bem, isso é uma discussão estática. Se você quiser entender, então, como essa lei é formulada, validada, tem que recorrer a história. [...] Por que quando eu passei a dar aula eu percebi que tinha uma certa arbitrariedade para você apresentar. Os alunos, em alguns momentos, gostariam de saber da onde que as coisas vem, e a gente sempre usava a receita construtivista, na época não tinha esse instrumento todo. Quando você conhece a história, você tem mais argumentos. Você pode falar um pouco do processo, quer dizer, você consegue lidar melhor com essa dimensão do ensino e aprendizagem.[Peter] Esse tipo de abordagem exemplifica uma primeira exploração da HFC que focalizou o Ensino Médio. Não somente houve pesquisas procurando textos históricos capazes de apontar a semelhança entre as idéias dos cientistas (por exemplo, de calor e temperatura de Black, ou de inércia circular de Galileu) e as dos alunos, mas também foram propostas experiências didáticas caracterizadas pelo uso em sala de aula desses textos, que deveriam desempenhar um duplo papel: de indicar o caminho da mudança e sustentar a auto-estima e o esforço dos alunos. Embora o número de trabalhos que tratavam de experiências concretas em sala de aula fosse limitado, encontramos relatos de alunos que, de fato, apontavam o efeito estimulador de saber que grandes cientistas compartilharam de idéias semelhantes às dos estudantes e de entrar em contato com suas dúvidas. Outro conjunto de artigos explorou as analogias entre as concepções alternativas dos estudantes e de cientistas de outrora, buscando caminhos para entender melhor o processo de aprendizagem da Física pelos estudantes e o aperfeiçoamento de seu ensino. Essa linha de artigos apareceu articulada com a discussão do Modelo de Mudança Conceitual e da Teoria da Equilibração de Piaget. Nesses casos a HFC representava um papel de suporte, fornecendo elementos para comparações e analogias. A década de 1980, o movimento das concepções alternativas e via de regra as concepções cognitivistas, elas abriram um enorme campo para História e para Filosofia das Ciências, em dois ou três sentidos diferentes. Um desses sentidos 58 é o que você disse, ou seja, quando se ia estudar concepções alternativas era importante conhecer a História da Ciência. Porque era a tese do Piaget, de que no aprendizado individual você ia de novo percorrer [...] as etapas que a humanidade tinha percorrido na produção do conhecimento. Até que essa tese fosse criticada foi preciso muita pesquisa para mostrar que não era bem assim, essa tese tinha que ser tomada com “grão de sal”. Mas ali, portanto, você teve uma legitimação enorme para História da Ciência. Eu diria que um outro fator, ligado ao mesmo contexto, é que se fez muitas analogias com a aprendizagem e as mudanças de teorias científicas. [...] A analogia com a aprendizagem, então, se revelou mais problemática. Mas veja, foram dez anos que isso fez a vida de muita gente. Então, tudo isso junto teve no fortalecimento da área de ensino de ciências um enorme papel, uma legitimação do papel da história e epistemologia. [Vilas] A incorporação dos resultados destas pesquisas (os textos históricos e seu uso nas experiências didáticas) nos cursos de capacitação de professores e nos cursos de formação inicial constituiu um meio de divulgação bastante eficiente sobre a fertilidade do acoplamento da HFC com o Ensino de Ciências. Este acoplamento promoveu também a elaboração de variações sobre o modelo de mudança conceitual com a exploração das teses de filósofos póspositivistas, onde a própria estrutura da ciência e de seu progresso estavam em foco. Assim alguns se dedicaram a desenvolver uma analogia sobre o EC a partir das idéias de Kuhn, Lakatos, Fayerabend, Laudan ou de Popper. Depois do entusiasmo com o modelo de mudança conceitual pensei que poderia incrementar sua relevância explorando as idéias de Laudan que me pareciam mais flexíveis para dar conta da história efetiva da ciência. Foi neste trabalho que ficou clara para mim a importância decisiva da motivação dos alunos para a aprendizagem. [Niva] Tem o caso, por exemplo, que o Chassot fala: a gente foi lá buscar, foi beber na HFC, por quê? Eu acho que os filósofos mais contemporâneos, o Kuhn, o Popper, o Lakatos, ao explicarem a organização, a estrutura da Ciência [...] eles colocam, se aproximam mais, da visão que os educadores em Ciências têm e como eles entendem a Ciência. E isso fez com que eles acabassem se 59 apropriando disso na pesquisa, no ensino até. E hoje eu perfeitamente discuto a questão da Ciência não ser linear, no meu grupo de estudo, via história e filosofia, não só na graduação como também na pesquisa. [Dino] O caso mais significativo, que teve ampla divulgação também no exterior, foi a exploração da idéia de ‘perfil epistemológico’ de Bachelard para propor uma nova versão da mudança conceitual: a mudança do perfil conceitual (Mortimer, 1994). Nessa segunda vertente a contribuição da HFC focalizou o Ensino Superior, promovendo disciplinas que divulgassem episódios historicamente significativos de mudança científica, como a passagem da teoria geocêntrica para heliocêntrica ou o nascimento da teoria da relatividade. Quando percebi que durante minha formação fui enganado sobre a história da Relatividade, resolvi pesquisar sobre suas origens e complementar o ensino da teoria com informações mais confiáveis sobre sua história. [Niva] Parece que a vontade de transmitir para as gerações mais novas aquilo que a comunidade científica recalcava (que as grandes mudanças científicas não são lineares, nem constituem a vitória da verdade) envolveu boa parte dos pesquisadores da área, e rapidamente estimulou alguns para pesquisar e divulgar uma HFC incluindo as ligações e os compromissos entre o desenvolvimento científico e o poder econômico e político. No início das pesquisas da área, esta tarefa era considerada como uma maneira de combater a ditadura militar, denunciando implicitamente o pacto entre universidade e governo. Minha dedicação ao estudo e à divulgação da História e Filosofia da Ciência era uma parte do trabalho de conscientização dos alunos e dos professores. Tinha a impressão que denunciando a pretensa neutralidade da ciência estava ajudando meus alunos a serem mais críticos e a refletirem sobre a situação do Brasil. [Niva] 60 O interesse de alguns para fazer o acoplamento da HFC no Ensino Médio ou Superior não diminuiu, no entanto, as dificuldades para fazer a transposição didática do material histórico e produzir material que seja realmente viável para ser levado à sala de aula. Esses desafios permanecem até hoje. Também permanece o desafio do enfrentamento do preconceito dentro dos institutos de Ciências (a pesquisa sobre ensino foi, e ainda é, vista por alguns como algo “menor”) e a necessidade de uma aproximação entre os historiadores das ciências e educadores que passa, entre outras coisas, pela dificuldade de superação da linguagem entre campos distintos de conhecimentos. Ele tinha muito preconceito, era um cara da área dura, em Química. E é uma cara que acha que pesquisa de Ciências Humanas não tem muito valor. Não sei se ele acha isso hoje, mas naquela época (se referindo ao final da década de 1990) era bem claro isso. [Belo] Tem um grupo de pessoas da Biologia preocupada com isso. Está no V ou VI Encontro de História e Filosofia da Biologia e no ano passado surgiu toda uma discussão sobre a qualidade da história que aparece nos livros didáticos, que em geral é uma história caricata, ruim. E teve toda uma reflexão sobre alguém ter que produzir esse material, e não é o cara do Ensino de Ciências. O cara tem que ter um bom material de História da Ciência para poder utilizar. Daí o pessoal meio que acolheu a idéia e acho que no final desse ano, em novembro, teremos o primeiro Encontro de Produção de Material Didático para História da Biologia. [Zico] Eu tive que enfrentar esse medo. Mas, felizmente no meu caso, fui super bem acolhida por meus colegas de departamento (uma física, com atuação notória como historiadora da Ciência, referindo-se aos colegas físicos).[Emma] Felizmente, podemos perceber nas falas acima que atualmente existem componentes novos e promissores no que se refere à articulação entre as distintas áreas, como a aproximação mais consistente entre pessoas com 61 formação nos campos da HFC, EC e Ciências duras e a valorização na formação inicial e continuada dos professores. Essa perspectiva otimista também pode ser observada na fala de outros entrevistados. Agora com certeza está, mas antigamente não. Então agora a gente tem todos esses cursos de Pós-Graduação de Ensino de Ciências, com ênfase, que tem a área de História da Ciência. Certamente está formando gente e a situação daqui a dez anos vai ser completamente diferente, completamente. Mas acho que ainda não houve tempo de consolidar isso, a gente está numa fase de transição. [...] Pelo que estou percebendo nesses cursos de pós-graduação como o da Bahia, o GHTC de Campinas, o de Bauru, São Paulo e etc., a gente tem agora um número crescente de pessoas que vence essa barreira que havia entre o historiador que não trabalha com educação e o educador que quer usar História da Ciência e não está muito familiarizado com a coisa. Então agora você tem pessoas com os pés firmes dos dois lados, então é uma situação completamente diferente e eu acho que isso por um lado permite então uma colaboração melhor porque as pessoas entendem a linguagem um do outro. Ah, e se a moda não passar depressa, que é sempre um perigo, eu acho que a gente vai ter uma comunidade sólida e uma das melhores do mundo em uso da História da Ciência em Educação. Estou falando isso seriamente porque eu acho que o movimento aqui no Brasil está muito forte e está superando o da maioria dos países do exterior. Eu acho que a gente vai ter uma comunidade muito boa nessa área daqui a dez anos. [Roma] Pelo menos aqui é um pouco diferente. A gente tinha um curso que era o famoso “Evolução dos conceitos da Física”, de 2 créditos. Quando eu cheguei aqui o curso era “do átomo grego até a mecânica quântica”, em 2 créditos. Às vezes, a gente brincava de fazer a conta de quantos séculos era por minuto. Mas agora a gente tem um curso de 4 créditos em História da Ciência e mais 4 créditos em Filosofia da Ciência, e algumas possibilidades de sala de aula de discutir isso. Pelo menos eu discuto. [Zico] Eu me defino como historiador da Biologia, quer dizer, isso eu não sou na verdade. Esse ano eu trabalho com Filosofia da Biologia. Na verdade estou me definindo como biólogo teórico. [...] Mas eu tenho que dizer que eu sou mais um biólogo teórico e pesquisador em Educação, em Ensino de Biologia. Agora, 62 nessas identidades eu acho que não tem uma que sobressai mais que a outra, são as duas coisas mesmo. [Cris] Assim, acreditamos que a simples colaboração entre dois tipos de resultados - de pesquisas em EC e em HFC tornou-se uma sugestão quase inesgotável de iniciativas e resultados na pesquisa em Ensino de Ciências, contribuindo de maneira decisiva para sua institucionalização no Brasil. 4.2 ASPECTOS SUBJETIVOS: REFERÊNCIA SIMBÓLICA E TRANSMISSÃO DE HERANÇA A constituição do sujeito, a partir dos conceitos psicanalíticos adotados, considera sobre que todo nascimento marca a inserção em um lugar previamente determinado por um grupo social, por uma família35. Cada pessoa retratada nesse contexto é sempre um sujeito atravessado pelos grupos dos quais faz parte e que a constitui, é o sujeito da herança, da cadeia social no qual foi inserido e sobre a qual atua, modificando-a. Assim, todo sujeito é ao mesmo tempo um ser singular e uma continuidade dos seus ancestrais. Kaës (2001, p.11) confere a Freud a inauguração dessa prática de se pensar como sujeito tanto de uma herança como do desvio que ele introduz naquilo que recebe dos pais36. [...] porque o sujeito da herança está dividido, como o sujeito do inconsciente, entre a necessidade “de ser um fim para si mesmo” e de ser “o elo de uma cadeia à qual está sujeito sem a participação de sua vontade”, mas à qual deve servir e da qual pode esperar tirar benefícios (KAËS, 2001, p.11). Tentando compreender a captura dos pesquisadores da área pela temática da HFC, seguimos uma primeira idéia de que tal envolvimento poderia advir da própria formação acadêmica desses sujeitos, ou seja, da hipótese de que em sua formação teriam aprendido com seus professores a valorizar a HFC. 35 Outros aspectos sobre a constituição do sujeito podem ser encontrados no Apêndice 6. O autor ainda lembra que em duas oportunidades Freud utiliza o aforismo construído por Goethe para o personagem Fausto: “aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”. 36 63 Se eu pensar na Paula, no Armando, na Fabrícia, uma série de outros alunos... foram alunos meus na graduação. Já cresceram na graduação com a formação, com os pesquisadores dentro dessa área de História e Filosofia no Ensino de Ciências. Para eles era opção óbvia. [Cris] Seguindo a linha da psicanálise lacaniana, consideramos que na formação de cada indivíduo sempre é possível reconhecer elementos dos quais aprendemos algo, seja uma pessoa, um curso, um livro. É claro que cada curso, cada livro e cada pessoa “lidos” por indivíduos diferentes não marcam um e outro da mesma forma. Essa marca, esse lugar especial que podem ocupar na vida das pessoas é preparado segundo as experiências do indivíduo e a identificação desses elementos com as próprias características. Dentro desta concepção, a necessidade de algo do qual vamos aprender não implica a existência de um depositário de saber externo que vai transpor concretamente parte desse saber para alguém; pelo contrário, esse algo ou alguém do qual aprendemos é o nosso eleito como o sujeito-suposto-saber, é a nossa Referência simbólica, o Outro. O grupo que nos precede, em particular alguns de seus membros considerados pelos infans como seus representantes, nos sustenta e nos mantém numa matriz de investimentos e de cuidados, ele predispõe sinais de reconhecimento e de apelo, designa lugares, apresenta objetos, oferece meios de proteção e de ataque, traça vias de realização, indica limites, enuncia interditos. No grupo realizam-se ações psíquicas que sustentam o recalcamento das representações, a supressão dos afetos, a renúncia pulsional, ou deles nos libertam. É nesse conjunto que o recebe, nomeia, que o sonhou, que o investe, o situa e o fala, eu o sujeito do grupo se torna sujeito falante e sujeito falado, não só pelo efeito da língua, mas pelo efeito do desejo daqueles que – como a mãe, em primeiro lugar – também se fazem porta-vozes do desejo, do interdito, das representações do conjunto (Kaës, 2001, p. 13 - 14). Nas falas dos entrevistados, identificamos alguns pontos recorrentes que nos chamaram atenção. Um deles se refere à presença constante da referência 64 a outros pesquisadores e professores ligados a HFC que tiveram importância singular na carreira dos entrevistados. Alguns nomes, como Pierre Lucie e Mario Schemberg foram citados diversas vezes, sempre no contexto de evidenciar pessoas que contribuíram para formação de outros pesquisadores aqui no Brasil, dando início a um ciclo de formação nas universidades de educadores com interesse e conhecimento sobre HFC. [...] em 91, eu queria fazer o doutorado, tinha a possibilidade de fazer um doutorado em História da Ciência, dentro do departamento de História, que tinha o professor Shozo Motoyama, a professora Maria Amélia Dantas. Na época as conexões pra mim não eram claras, mas veja, a cadeira de História da Ciência na USP é criada por influência do Schemberg, com o apoio do Euripedes Simões de Paula, que era o diretor da faculdade de filosofia, e aí você pega o currículo do Shozo e da Maria Amélia Dantes que tinham sido alunos do Schemberg e foram para a História da Ciência, para a História da Física, estimulados e apoiados pelo Schemberg. [Vilas] [...] A gente tinha figuras como Mário Schemberg, que estava vivo aí, que influenciaram muitas pessoas, que tinham conhecimento grande de História da Física, mas que não faziam pesquisa propriamente em História da Física. [Roma] [...] o curso do professor Pierre Lucie sobre história da mecânica [...] o curso do Pierre Lucie me influenciou muito, eu fiquei fascinado pelo curso e também pelo Pierre Lucie como professor. [Vilas] Outro ponto, ligado a esse, é o legado deixado por pessoas, projetos, cursos, livros que se tornou ponto de partida para experiências posteriores. [...] o Seminário Nacional de Ensino de Física de 1976, eu não me lembro se foi o segundo ou o terceiro na USP. Eu me lembro de dois mini-cursos que eu fiz e que eu fiquei encantado, eu mantive essas apostilas anos a fio. [Vilas] [...] A segunda influência que me vem na cabeça, está relacionada com os livros do professor Mario Schemberg, o “Pensando a Física” em especial, que é 65 um livro organizado pelo José Luiz Goldfarb e com apoio, acho, da Ana Maria, da Amélia Hamburguer, que era um curso que ele deu na USP. [Vilas] [...] Lá mesmo eu comecei a ler Thomas Kuhn, eu fui apresentado a alguma coisa da Filosofia da Ciência, de História também, então no curso que eu fiz lá, tinha algo de História e Filosofia da Ciência e quando eu volto pro Brasil em 75 [...] e pego a disciplina de Instrumentação para o Ensino de Física da licenciatura, então eu começo a dar, eu utilizo o Nuffield que eu aprendi a fazer na Inglaterra. [Ugo] Parece-nos claro a importância das referências, do Outro, para esses sujeitos que contribuíram para a perpetuação da HFC nas pesquisas da área. Poderíamos supor que a valorização da HFC foi-lhes transmitida (no sentido psicanalítico), foi recebida como herança ao ingressarem nesse grupo? Kaës nos lembra que [...] o grupo precede o sujeito do grupo [...]. A subordinação ao grupo funda-se na inelutável rocha da realidade intersubjetiva como condição de existência do sujeito humano. O que é inelutável é que somos postos no mundo por mais de um outro [...] cujos sujeitos nos têm e nos mantêm como servidores e herdeiros de seus “sonhos de desejos insatisfeitos”, de seus recalcamentos e de suas renúncias, na malha de seus discursos, de suas fantasias e de suas histórias (2001, p. 13). Parece-nos então uma marca desse grupo a valorização da história para o ensino de Ciências. Isso faz sentido se considerarmos que a história da pesquisa em Educação em Física no Brasil foi amplamente influenciada pelos modelos estrangeiros (particularmente, com a vinda de pesquisadores para o Brasil e com a saída de brasileiros para completarem sua formação no exterior), onde a HFC era fortemente discutida. [...] Porque que tem esse movimento forte? Eu não saberia dizer, não saberia dizer. Quer dizer teve iniciativas em vários lugares. Teve iniciativas nos Estados Unidos, teve na Escandinávia, na Inglaterra, o pessoal lá da Austrália, o Mathews que é extremamente importante... Eu não conseguiria dizer 66 exatamente o quê que motivou toda essa movimentação nas últimas duas décadas, principalmente. Mas aqui, com certeza, a explicação do que ocorre no Brasil passa pelo que ocorre no exterior. [Roma] A existência de uma herança que foi sendo transmitida (e cabe lembrar que se trata de uma transmissão inconsciente, pois o sujeito da herança é o sujeito do Inconsciente), permite entender o pesquisador como um elo de ligação da transmissão dessa herança, ao mesmo tempo beneficiário e servidor da mesma. Ao valorizar a HFC o pesquisador tornava-se seu beneficiário porque a HFC possibilitava várias linhas de exploração nas pesquisas (aprendizagem de conceitos, concepções alternativas, desmitificação da atividade científica), tinha uma versatilidade que permitia diferentes investimentos, o que justificava a preparação interna e externa de um lugar para essa herança. Então estava começando a haver pesquisa em História da Ciência no Brasil, mas era pouquíssimo [...] eu diria que não havia muita reflexão de como isso deve ser feito, porque isso vai ser útil, porque não vai, “é legal por História da Ciência”. [...] É então completamente diferente dessa segunda fase, quando aparece a questão do Piaget, concepções espontâneas, esse negócio todo, porque você tem uma proposta muito clara de que aspecto a História da Ciência pode ser útil, como e que autores são importantes para você discutir isso teoricamente etc., então, já é uma linha de trabalho muito mais bem definida, que não é a única, quer dizer, ao mesmo tempo você tem outras coisas que correm paralelas, como por exemplo, a preocupação de relacionar Ciência com Sociedade. Isso não tem nada a ver com as concepções espontâneas [...] é História da Ciência mais marxista. Então a gente tem várias pessoas no Brasil que vão enfatizar mais essa linha e que estão preocupadas com o que a Educação deve contribuir para a formação da pessoa num sentido mais amplo. [Roma] Eram seminários de Ensino de Física e nós chamamos pessoas de diversas áreas para dar os seminários. Um dos seminaristas trabalhava com Filosofia das Ciências. E ao dar o seminário ele viu, pelas questões que os professores faziam, ele acabou começando a se dedicar à questão do Ensino. E depois de 67 certo tempo, acredito que 10 - 12 anos, [...] ele me agradeceu pessoalmente por ter chamado ele para aquele seminário e ele ter percebido um sentido que ele poderia dar, uma aplicação ou um sentido na Filosofia da Ciência. E hoje [...] ele faz pesquisa na área e ele integra, acho que ele integra, um dos programas de Ensino de Ciências.[Dino] E ao valorizar a HFC o pesquisador tornava-se também seu servidor à medida que mantinha a alienação no saber do Outro. Mantinha “os sonhos de desejos insatisfeitos”, talvez a crença que a HFC seria um auxílio na aprendizagem. Seria esse o aspecto velado da transmissão, ou seja, aquilo que é negado pelo grupo. Não é difícil entender a transmissão dessa negatividade (ou talvez possamos dizer esse pacto) se considerarmos que a realidade da sala de aula não sustentava a crença; a ausência (ou quase) de trabalhos de pesquisa que discutiam a prática permanecia como algo conhecido na área, mas não discutido abertamente. Freud (1914) já apontava que a transmissão se organiza a partir do negativo, daquilo que falta e falha, complementado por Kaës (2001) que acrescenta como elemento organizador da transmissão “aquilo que não adveio”. Isso de utilização da História, eu entedia que... qual era o meu desafio? O que eu tinha na cabeça? Vamos participar da construção do conhecimento, então você oferecia um exemplar e eu não parava, eu achava que isso poderia substituir o ensino de física tradicional por história, não é isso? [Ugo] Dois outros aspectos sobre a transmissão nos parecem igualmente interessantes nessa análise: a impossibilidade de interromper completamente uma transmissão e a origem do conteúdo transmitido. Embora a urgência e as pressões para interromper possam ser tão grandes como para transmitir, aquilo que é retido não permanece completamente inacessível para os herdeiros, sempre restam traços que ligam uma geração as suas sucessoras, ainda que isso gere certo sofrimento cuja motivação seja desconhecida. Assim, embora a formação de novos pesquisadores na área tenha promovido o surgimento de posições contrárias 68 às contribuições da HFC, algo dessa herança permaneceu, uma marca forte o suficiente para garantir sua sobrevivência. A fala de alguns entrevistados revela um enfraquecimento na crença que a HFC seria uma alternativa didática positiva no que se refere a trabalhar com textos históricos em sala de aula, principalmente, no Ensino Médio, mas por outro lado, reforçam a necessidade da formação do professor de ciências incorporar estudos sobre a HFC. Eu hoje não sou mais nenhum radical, quando eu terminei, eu era muito mais defensor da história. Eu hoje tenho uma visão mais equilibrada. Eu acho assim, o professor precisa conhecer a história para justamente sedimentar esse lado mais humano da construção do conhecimento, quer dizer, para o conhecimento não ser uma coisa externa a construção humana. Mas eu acho que não necessariamente você tem que ensinar com a história. Eu acho que hoje, minha posição é assim, você precisa saber, porque justamente isso é um antídoto para o dogmatismo. Não tem outra maneira, você tem que ter uma discussão calcada na dimensão histórico-epistemológica. Por quê? Porque a epistemologia te abre o olho e a história te dá os argumentos, permite você ter uma alternativa para o processo amplificador, então hipotético-dedutivo da ciência. Então é a história que te dá os elementos, enriquece o discurso, permite você contar outras coisas, fazer os alunos se identificarem com as construções, mas não é necessariamente que você tenha que ensinar com história. Eu não acho que a história seja um elemento essencial da didática.[Peter] Mas o que eu ia dizer, só para concluir o argumento sobre o Ensino Superior, para você ter uma formação eficaz dos alunos sobre a natureza da Ciência, tem que atravessar todo o curso. Claro que você tem mil dificuldades, porque são os professores que vão fazer isso ou planejar esse currículo, então, não tem outro jeito. Eu acho que no Ensino Médio é a mesma coisa, tem que ter passado todo o tratamento no currículo.[Tito] Tudo o que foi exposto acima nos possibilitou perceber a permanência, a herança da HFC na área, através da fala dos pesquisadores, das publicações e dos eventos/congressos. A partir do referencial adotado, também não seria ingenuidade dizer que a HFC terá sempre um lugar nas pesquisas sobre o EC, 69 possivelmente, com a alternância dos momentos de maior ou menor valorização conforme a história revelou até hoje. Mas, no caso que analisamos, onde estaria a origem dessa crença inconsciente que a HFC auxiliaria no ensino de Ciências? Segundo Kaës (2001, p.12) “a origem é precisamente o que nos escapa, aquilo de que estamos irremediavelmente ausentes, e que foge ao nosso controle no próprio movimento em que somos constituídos no e pelo desejo de um outro, e, alem do mais, de um outro que nos precede”. Mas, sendo aquilo que escaparia a esses sujeitos, seria também aquilo que os manteria presos, que sustentaria o investimento libidinal na HFC dentro do grupo. Nosso próximo movimento, portanto, foi no sentido de entender melhor a origem da crença em sua potencialidade. 70 5. OUTRA TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO: MITO Todas as características da transmissão de uma herança que apontamos no capítulo anterior nos levaram ao conceito de mito. Não pela clareza da definição do conceito (que ainda não se estabeleceu), mas pela correspondência entre a versatilidade da HFC e a plasticidade interpretativa do mito. Na linguagem comum a palavra mito significa algo fantasioso, não verdadeiro, falso. Mas não foi nesse sentido que buscamos pela conceituação do mito37, nos interessou particularmente os significados atribuídos por Freud, Jung e Lacan pela aproximação com a psicanálise. O mito é uma narrativa. É um discurso, uma fala. É uma forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos, dúvidas e inquietações. Pode ser visto como uma possibilidade de se refletir sobre a existência, o cosmos, as situações de “estar no mundo” ou as relações sociais. Mas, o mito é também um fenômeno de difícil definição [...] faz parte daquele conjunto de fenômenos cujo sentido é difuso, pouco nítido, múltiplo (Rocha, 1999, p. 7). Várias foram as tentativas teóricas empreendidas na busca de entender o significado do mito. Nesta permanente perseguição, várias escolas, correntes de pensamento e linhas de pesquisa foram esboçadas em torno dessa pergunta. O mito foi um grande desafio intelectual e ainda se coloca como um fenômeno de difícil apreensão para todos aqueles que se empenharam na sua discussão (Rocha, 1999, p. 24). Das tentativas produzidas na virada do século XIX para o século XX, citamos as teorias de tipo naturalista38, historicista39 e animista40 como aquelas 37 Uma retrospectiva interessante pode ser encontrada na obra de Auzobel Neto, David. Mito e psicanálise: estudos psicanalíticos sobre formas primitivas de pensamento, 1993. 38 “Numa exposição sucinta, a teoria naturalista parte da idéia de que nos momentos primitivos, na “aurora” da humanidade, os fenômenos naturais marcavam fortemente os interesses deste homem “primitivo” dada a sua fragilidade frente ao espetáculo, ao quadro, destas forças em ação. Este interesse tinha um cunho poético, teórico e contemplativo. As regularidades, as variedades, as alternâncias dos quadros propiciados pelos fenômenos da natureza eram a fonte para os exercícios simbólicos que se constituíam em mitos” (Rocha, 1999, p. 29-30). O sol e a lua tinham papel de destaque no conjunto de corpos celestes de que se ocupavam as mitologias. 71 que talvez tenham dado maiores contribuições para o entendimento do mito. Porém, no início do século XX surgiram duas novidades importantes que assinalaram uma nova maneira de significá-los: a introdução da etnografia no campo da Antropologia Social, inicialmente com os estudos de Malinowski, e a aplicação do estruturalismo ao estudo dos mitos, por Lévi-Strauss. Esses trabalhos estabeleceram uma ponte entre o mito e o contexto social, em uma perspectiva analítica. É nessa ponte entre o mito e o contexto social, ou seja, nessa perspectiva de que os mitos emergem da sociedade e, portanto, interpretá-los é também um caminho para entender a sociedade que o gerou, que localizamos o interesse da psicanálise pelos mitos. Contudo, a ênfase interpretativa da psicanálise levou os mitos de uma perspectiva um tanto “funcional”41 para uma perspectiva mais interiorizada, ou seja, “o mito ganha um espaço dentro do ser humano” (Rocha, 1999, p. 40). O mito se apresenta, também em sua visada, com um caráter de inesgotável. Para empregar um termo antigo, digamos que ele participa do caráter de um esquema no sentido kantiano. Ele está muito mais próximo da estrutura que de todo conteúdo, e se reencontra e se reaplica, no sentido mais material da palavra, sobre todas as espécies de dados, com essa eficácia ambígua que o caracteriza (Lacan, 1995, p. 259). 39 A vertente historicista procurou ver no mito um registro de acontecimentos históricos. “O mito não se originava mais de um exercício contemplativo frente às forças naturais e sim de um exercício de crônica frente aos episódios históricos. O mito como relato e a mitologia como conjunto de episódios históricos efetivamente acontecidos. O mito visto literalmente como registro da história. Não só se difundia historicamente, ele era a própria história” (Rocha, 1999, p. 32). 40 O animismo tem como idéia básica o pressuposto de que todos os elementos da natureza são passíveis de personificação, ou seja, na crença da duplicidade, da espiritualização de todos os elementos naturais. Foi dos estudos nessa vertente que surgiram as principais relações entre mito e ritual. “Encadear o mito e o ritual e discutir a predominância ou o estatuto de um e outro foi o objetivo perseguido por um tipo de interpretação conhecida como Escola do Mito e do Ritual” (Rocha, 1999, p. 35). 41 Para Rocha (1999) essa perspectiva se traduzia no uso do mito como guia cotidiano de explicação do funcionamento social. “Ora funcionava como explicação que saciava a ânsia de conhecimento, ora funcionava como satisfação de profundos desejos religiosos. Ora era função de salvaguarda da moralidade, ora a função de possuir regras práticas para guiar o homem” (p. 40). 72 Na base dos mitos identificamos uma representação coletiva, que é narrada ou transmitida através de gerações, valendo-se da linguagem. O relato mítico é um objeto de linguagem, permeado por uma lógica complexa. Essa lógica não se refere à verdade sobre a origem, mas sobre seu significado. O relato oculta essa lógica em escala coletiva perdurando por gerações. Então, o estatuto do mito consideraria a lógica do pensamento dissimulada no relato. Essas considerações encontram respaldo em Eliade que, segundo Auzobel Neto (1993, p.19) acredita que “o mito constitui a representação de uma realidade que passou a existir. Nesse sentido, o mito é sempre e invariavelmente uma espécie de verdade, o flagrante de uma criação, a evidência do modo pelo qual algo foi produzido e começou a ser no mundo”. Em síntese poderíamos dizer que o mito é uma narrativa com estruturas que se repetem e que permite novas interpretações a cada repetição, em outras palavras, é uma crença que é transmitida com pequenas variações com objetivo de explicar o real. O que se chama um mito, seja ele religioso ou folclórico, em qualquer etapa de seu legado que se o considere, apresenta-se como uma narrativa. Pode-se dizer muita coisa sobre essa narrativa, e tomá-la sob diferentes aspectos estruturais. Pode-se dizer, por exemplo, que ela tem alguma coisa de atemporal. Pode-se tentar definir sua estrutura quanto às configurações que ela define. Pode-se tomá-la sob sua forma literária, cujo parentesco com a criação poética é surpreendente, ao passo que o mito é, ao mesmo tempo, muito distinto desta, no sentido que demonstra certas constâncias que não estão absolutamente submetidas à invenção subjetiva (Lacan, 1995, p. 258). O mito trata, portanto, do real, mas permite vesti-lo com o imaginário, através da estrutura simbólica com a qual a narrativa vai sendo recontada através do tempo42. Assim a psicanálise redescobriu o mito, interpretando-o como uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo, de forma perfeitamente análoga ao que são os sonhos na vida do indivíduo. 42 Pode-se conhecer mais sobre o real, o simbólico e o imaginário lendo o Apêndice 5. 73 A psicanálise também interpretou mitos. Freud fez uma brilhante e famosa interpretação do mito de Édipo. De quebra, ainda inventou alguns mitos importantes. A Psicanálise de Carl Gustav Jung, conhecida como Psicologia Analítica ou junguiana, não se cansa de interpretar mitos. Grosso modo, para eles, os mitos estão todos numa região da mente humana, a que chamam inconsciente coletivo, uma espécie de repositório que todos possuímos da experiência coletiva. Neste lugar, os mitos se encontram. O inconsciente coletivo é, como o nome diz, algo compartilhado pela humanidade toda, é um patrimônio comum. Ao mesmo tempo existe em cada um de nós (Rocha, 1999, p. 13). Para Auzobel Neto (1993, p.15), o trabalho psicanalítico de Freud “localizou a presença do mito como uma condição real, atuante e atual no inconsciente”. Os mitos estariam para a sociedade, assim como os sonhos estariam para os indivíduos. Podemos entender dessa forma a razão pela qual Freud recorreu ao mito grego para dar nome ao complexo de Édipo: para ele, o mito do jovem que mata o pai e casa com a própria mãe, simboliza e manifesta a atração de caráter sexual que o filho, na primeira infância, sente pela mãe e o desejo de suplantar o pai. A estória de Édipo é bastante conhecida e já foi também bastante interpretada. Antropólogos, sociólogos e tantos outros forneceram seu olhar sobre esse mito que, ainda hoje, se apresenta como uma rica narrativa-espelho do comportamento humano. Interessa-nos, particularmente, as interpretações de Freud, Foucalt e Lévi-Strauss, que enxergaram em Édipo, respectivamente, o mito da mulher amada, a busca pela verdade e a busca da origem. Antes de apresentar tais interpretações e explorar sua analogia com a tese que buscamos sustentar, vamos primeiro conhecer a estória de Édipo. Escolhemos a narrativa apresentada por Rocha (1999, p. 52-58) pela forma sintética e pela clareza textual que encontramos abaixo. Édipo era filho de Laio, rei de Tebas, e de Jocasta. Laio e Jocasta, pouco antes de se unirem, consultaram o oráculo de Delfos sobre sua descendência e o destino de seus filhos. Ouviram do oráculo uma terrível 74 profecia: “O filho que tivessem viria a ser o assassino de seu pai e o marido de sua mãe”. Laio, então, ao nascer o seu primeiro filho, temeroso dos ditames do oráculo, toma a drástica decisão de matá-lo. Para evitar a terrível profecia, encarregou um de seus servos da morte da criança. O servo, porém, lutando entre o horror da sua tarefa e a fidelidade ao seu rei, limitou-se a perfurar os pés da criança e suspendê-la com uma corda nos galhos de uma árvore do monte Cíteron. O pastor Forbas, que nas redondezas tomava conta dos rebanhos de Políbio, rei de Corinto, atraído pelo choro do menino se comoveu, tomou-o a seus cuidados e o entregou a Políbio. Sua esposa, a rainha, acolheu amorosamente a criança e a adotou como filho. Em virtude de seus pés inchados, deu-lhe o nome de Édipo (em grego Oidipous, que significa ‘pé inchado’). E cresceu forte a criança. Mal contava quatorze anos e já destacava-se perante a oficialidade da corte sendo admirado por sua força, destreza e sagacidade. Em jogos, lutas e corridas, Édipo era muito superior a seus companheiros, o que o dignificava ainda mais perante toda a corte. A tal ponto ele era um vencedor, que despertava mesmo um forte sentimento de inveja entre os outros. Certa vez, um deles, humilhado pela superioridade de Édipo, disse-lhe com raiva que ele não era nada senão um enjeitado, um filho adotivo dos reis. Atormentado por esta dúvida em seu espírito e cheio de ansiedade, começou a inquirir sobre seu nascimento. Sempre que perguntava à rainha, a quem julgava ser sua mãe, esta se esforçava por persuadi-lo de que ele era de fato seu filho. Não satisfeito, no entanto, Édipo busca socorro na consulta ao oráculo de Delfos. Dele recebe um terrível conselho: ‘Não retornar jamais a sua terra natal para não vir a ser o assassino de seu pai e o marido de sua mãe, pois dele nasceria uma raça odiosa’. Impressionado por esta violenta predição e para que ela nunca se realizasse, não volta mais a Corinto julgando que ali se encontravam seus pais. Regulando-se pelos astros do céu, Édipo toma o caminho da Fócida. 75 Numa estrada estreita encontra um velho escoltado por alguns guardas. Este lhe ordena com arrogância e altivez que saísse do caminho. Ameaçadoramente, toma a espada e tenta obrigá-lo a deixar a passagem livre. Mas, não se humilha impunemente um príncipe. Édipo reage e com sua enorme destreza e treino militar acaba matando tanto o ancião quanto os guardas. É desnecessário dizer que a trágica profecia começa a tecer sua rede sobre o destino de Édipo. O ancião era Laio. Chegando nas cercanias de Tebas, Édipo encontra a cidade desolada por uma calamidade inaudita. Como se não bastasse a morte de seu rei, a esfinge, monstro nascido de Equidna e Tifon, fora enviada pela deusa Juno contra os tebanos. Com sua cabeça, face e mãos de mulher, cauda de dragão, voz de homem, corpo de cão, asas de pássaro e garras de leão este monstro propunha um enigma a todos os viajantes dizendo-lhes: ‘Decifra-me ou te devoro’. No monte Ficeu, às portas de Tebas, exercia sua devastidão, estraçalhando aqueles incapazes de adivinhá-la. O enigma que propunha às suas vítimas era usualmente este: ‘Qual é o animal que, de manhã, tem quatro pés, dois ao meio-dia e três pés ao entardecer?’. A morte da esfinge, que livraria os caminhos do monstro e salvaria Tebas, dependia da explicação do enigma. Era decifrá-lo; e muitos haviam morrido tentando. Creon, irmão de Jocasta e agora o rei de Tebas, em desespero oferece sua irmã em casamento e, conseqüentemente, a coroa do reino àquele que, destruindo a esfinge, salvasse Tebas. Espalha-se a notícia em toda a Grécia. O repto está lançado. A mão do vaticínio fecha-se implacavelmente sobre o destino de Édipo. Ele aceita enfrentar a esfinge. Neste momento, é bem-sucedido em sua tarefa. Demonstrando a sagacidade que lhe é peculiar, ousa desvendar o mistério da esfinge. Diante do enigma que lhe é posto, Édipo aponta para si próprio e responde que o animal é o homem, pois este engatinha na infância, o amanhecer da vida, e se utiliza de quatro pés, anda sobre duas pernas ao meio-dia, na plena idade, e, finalmente, ao entardecer da existência, na velhice, usa uma bengala, andando, então, com três pés. 76 Ao monstro adivinhado nada resta. Joga-se do penhasco e mata-se quebrando a cabeça contra as pedras. Édipo é o novo rei de Tebas. É, também, o marido de Jocasta. Na cama nupcial, como mulher apaixonada, está, agora, sua própria mãe. Mas de nada ninguém ainda sabe, e eles seguem governando Tebas e gerando quatro filhos. Dois são homens: Etéocles e Polinice. Duas são mulheres: Antígona e Ismênia. Passam-se os anos e o reino é acometido de uma nova desgraça. Uma peste sem precedentes devasta igualmente homens e animais. Desafia a ciência, as preces, os sacrifícios e destrói implacavelmente toda a região. O oráculo, como refúgio de todos os desgraçados, é, ainda uma vez, consultado. Dele se obtêm as armas para derrotar a peste. O oráculo diz que os tebanos dela se livrariam quando descobrissem e expulsassem do reino o assassino do antigo rei Laio. A peste, dizia o oráculo, era uma punição aos tebanos por não terem procurado vingar o rei. Édipo, ele próprio, como mandatário ordena um minucioso inquérito, uma investigação exaustiva, sobre a morte de Laio. Pouco a pouco, juntando depoimentos de antigos servos, as profecias dos oráculos, conversas com Jocasta e suas próprias lembranças, a dura verdade vai-se desenhando. Pedaço por pedaço, face por face, passo a passo vai recaindo sobre Édipo a impossível verdade do seu destino marcado. Ele era aquele assinalado pelo oráculo como causador da peste. O matador de seu próprio pai. O marido de sua mãe. Jocasta mata-se imediatamente. Édipo se pune arrancando os próprios olhos, pois não se julga mais merecedor de contemplar a luz do Sol. É expulso do reino por seus filhos, que assumem o comando de Tebas. Apenas Antígona não o abandona e, no exílio, acompanha seu desgraçado pai. Os dois juntos acabam por se deter perto de uma pequena localidade, Colona, nas vizinhanças de Atenas. Ali entram num bosque consagrado aos Eumênidas cujo acesso era proibido a todo e qualquer profano. Alguns habitantes da área, horrorizados pelo sacrilégio, querem matá-lo. Antígona implora por seu pai e consegue que ambos sejam levados à presença de Teseu. Este os recebe com hospitalidade. Dá a Édipo seu poder como apoio e seus estados como refúgio. Teseu o protege. Édipo lembra que um oráculo de 77 Apolo predisse sua morte em Colona e que seu túmulo seria o penhor da vitória dos atenienses sobre todos os povos seus inimigos. Édipo, tempos depois, ao ouvir um trovão crê que é hora de sua morte. Dirige-se com Teseu à beira de um penhasco, troca sua roupa de guerra por vestes especiais, recomenda suas filhas ao seu protetor e espera a morte. Em seguida, com o solitário testemunho de Teseu, a terra treme. Se entreabre suavemente. Sem violência e sem dor Édipo é recebido, agora finalmente em paz, para a morte. É permitido a qualquer um propor uma interpretação para a triste estória de Édipo. E não é um pecado interpretá-la, ao contrário, é dessa forma que ela se mostra e se constitui como mito, uma narrativa sem compromisso de contar uma verdade, mas com potencialidade para ensinar algo sobre as facetas de uma sociedade. Porque o mito de Édipo foi tão explorado? A resposta talvez esteja na própria forma como a narrativa se apresenta. Édipo e seu destino, às vezes, faz lembrar uma multiplicidade de espelhos onde se refletem universos existenciais radicalmente próximos. Nele, são projetados desejos, imagens, sentidos de largo alcance. Édipo espalha qualquer coisa de muito fundamental. Édipo é um mito exemplar por onde quer que se olhe. Exemplar pela sua força, exemplar pelas suas mensagens. Exemplar pelo que coloca em jogo e pelos diferentes jogos propiciados pelas suas interpretações (Rocha, 1999, p.46). A primeira interpretação que escolhemos explorar foi apresentada por Freud e, talvez, seja a mais conhecida das três que apresentaremos. Seguiremos a ordem cronológica de elaboração: primeiro Freud, depois LéviStrauss e, por último, Foucault. 5.1 COMPLEXO DE ÉDIPO: UMA INTERPRETAÇÃO E UMA PONTE Lembramos que antes de Freud criar a expressão “Complexo de Édipo” (que aparece em sua obra a partir de 1910) há muito o mito de Édipo já era conhecido e interpretado. Para Freud, conhecido como o pai da psicanálise, Édipo é um espelho onde todos podemos nos enxergar como crianças, na fase em que amamos nossa mãe e odiamos nosso pai. Talvez não amor e ódio 78 explicitamente, não a mãe e o pai enquanto os nossos familiares, mas mãe e pai enquanto espaços simbólicos43. Entender o Complexo de Édipo pode parecer complicado, mas, por ora, basta a idéia inicial que o Complexo de Édipo é uma ponte entre a psicanálise e o mito. De um lado a psicanálise que revelou o inconsciente como governante de nossas ações, lugar de nossas angústias, esperanças e emoções. Do outro lado a estória de um jovem agindo para fugir de um destino trágico, mas, guiado por forças que ele desconhece, seguindo pistas que o levariam ao encontro desse mesmo trágico destino. 5.2 MITO DE ORIGEM A segunda interpretação nos ofereceu Lévi-Strauss (pai da antropologia estruturalista) em 1955, no artigo “A estrutura dos mitos”.44 Basicamente a interpretação dos mitos feita por Lévi-Strauss se ancora em três alicerces: o mito pode ser dividido em unidades (mitemas); existe uma dimensão sincrônica e diacrônica de leitura das unidades e; o mito está referenciado tanto a outros mitos quanto à sociedade, ou seja, a sua interpretação só é possível quando analisado em conjunto com outros mitos próximos. Esse entrelaçamento de vários mitos também é defendido por Rocha. O mito é, pois, capaz de revelar o pensamento de uma sociedade, a sua concepção de existência e das relações que os homens devem manter entre si e com o mundo que os cerca. Isto é possível de ser investigado tanto pela análise de um único mito quanto de grupos de mitos e até mesmo da mitologia completa de uma sociedade (Rocha, 1999, p. 12). No caso do mito de Édipo, o terceiro alicerce nos diz que devemos relacionar os mitos gregos com a sociedade grega da época, e o quadro abaixo 43 Mais elementos sobre o Complexo de Édipo pode ser encontrado no Apêndice 5. O artigo foi publicado originalmente com o título "The structural study of myth" no Journal of American Folklore, 78, p. 428 - 444. Depois foi republicado, com algumas modificações, na coletânea Anthropologie structurale, em Paris, pela editora Plon, em 1958. Este ano deve ser lançado em Língua Portuguesa, pela editora Cosan Naify, aqui no Brasil. 44 79 nos ajuda a entender a estrutura de análise desenvolvida por Lévi-Strauss no tocante às duas idéias iniciais. I II III IV Cadmo procura sua irmã Europa raptada por Zeus 45 Cadmo mata o dragão Spartois se exterminam 46 mutuamente Lábdaco (pai de Laio) = coxo. Laio (pai de Édipo) = torto. Édipo = pé inchado Édipo mata seu pai Laio Édipo imola a esfinge Édipo esposa Jocasta, sua mãe Etéocles mata seu irmão Polinice Antígona enterra Polinice, seu irmão, violando a interdição Quadro 1: Mito de Édipo (elaborado por Lévi-Strauss e disponível em Rocha, 1999, p.88) Carreira (2001) baseada nos estudos de Lévi-Strauss (1949, 1955), ajuda a entender melhor as dimensões sincrônica e diacrônica presentes no estruturalismo de Strauss. [...] o mito tem uma estrutura permanente no tempo, pois o mito tem uma estrutura que é tanto sincrônica (não-histórica, momentânea), quanto 45 Rapto de Europa: na mitologia grega, Europa era filha do rei da Fenícia, Agenor, e irmã de Cadmo. Foi raptada por Zeus disfarçado de touro que a levou para Creta, o que levou Cadmo a procurá-la e, na jornada, fundar a cidade de Tebas. Em Creta, Europa teve três filhos: Minos, Radamanto e Sarpédon. 46 Irmãos Spartoi: na mitologia grega, os Espartos ou Semeados são os guerreiros que nasceram dos dentes do dragão de Ares, plantados por Cadmo no lugar onde seria fundada a cidade de Tebas. 80 diacrônica (histórica, permanente) e [...] por ser uma estrutura sobre a qual o sentido desliza, o mito possui uma função importante. A técnica narrativa mítica parte de uma estrutura simbólica que pode reconstruir uma multiplicidade de experiências reais e, mais ainda, passar para a expressão verbal algo caótico e contraditório que, por ser da ordem do real, não pode ser resolvido sem o simbólico. Os mitemas podem ser lidos na horizontal (linha a linha respeitando a ordem em que surgem) ou na vertical (coluna a coluna). Assim, Lévi-Strauss toma um mitema como: “Édipo imola a esfinge” e relaciona com “Cadmo mata o dragão” (esse do mito grego onde Cadmo é irmão de Europa, que foi raptada por Zeus). A relação entre eles está no fato de serem mitemas que falam de homens que destroem monstros símbolos da terra, ou seja, é o homem negando que tenha nascido da terra, que na terra esteja sua origem. Em oposição a isso, Lévi-Strauss faz notar que os nomes Laio (torto), Édipo (pé inchado) e Lábdaco (pai de Laio = coxo) evidenciam a dificuldade de andar, característica em muitas mitologias daqueles que brotam e nascem da terra. A outra relação feita por Lévi-Strauss na interpretação de Édipo trata das relações de parentesco, ora superestimada positivamente - como mostrada pelos mitemas “Cadmo procura sua irmã Europa raptada por Zeus” e “Édipo esposa Jocasta sua mãe”, ora subestimada negativamente – “Édipo mata seu pai Laio” e “Os Spartoi se exterminam mutuamente” (os Spartoi nascem dos dentes do dragão morto por Cadmo). Estas oposições são uma forma de LéviStrauss afirmar que, [...] é o mito traduzindo uma inquietude, uma dificuldade, uma impossibilidade da sociedade grega de adotar uma única teoria da origem do homem. Por um lado, existe uma crença de que o homem provém da terra, é autóctone, tem o vegetal como modelo, nasce da terra e a ela pertence. Por outro lado, uma evidente constatação de que cada um de nós vem da relação entre um homem e uma mulher. Assim, afirma-se a terra, nega-se a terra. Afirma-se o parentesco, nega-se o parentesco (Rocha, 1999, p.91). 81 Esperamos que esses fragmentos tenham dado conta de revelar, ainda que superficialmente, a forma como Lévi-Strauss constrói sua interpretação de Édipo como mito de origem. 5.3 MITO DA VERDADE Rocha (1999) nos lembra que Focault estuda o mito de Édipo tomando por base a peça Édipo-Rei, de Sófocles, portanto, a ação de desenvolve no momento em que Édipo volta a Tebas, mata Laio e encontra a cidade assolada pela peste. O mote da peça é a busca pela descoberta dos motivos da peste, a busca da verdade que só aparece com a união de várias metades que se encaixam de duas em duas. Por exemplo, o oráculo de Delfos anuncia que a peste revela a sujeira de um país imerso em uma conspurcação. A outra metade dessa verdade é a revelação de que a sujeira se deve a um assassinato. Quem foi assassinado e quem é o assassino? Duas novas metades da verdade se encaixam no final da estória com a revelação dos nomes de Laio e Édipo. Nesse jogo interpretativo proposto por Foucault, várias outras metades são encaixadas para mostrar a verdade. Para Foucault, esta forma de estabelecimento da verdade traduz um instrumento de poder. Quando alguém possui uma mensagem ou um objeto e, para reconhecer como autêntico, quebra em dois o objeto ou reparte a mensagem de forma tal que só pelo encaixe de seus fragmentos se complete seu poder ou sua verdade. O poder mantém sua unidade através desse jogo de fragmentos de um mesmo conjunto que só quando tiver a configuração total reunida revelará sua ordem, sua verdade ou sua força. [...] Na visão de Foucault, a estória de Édipo exprime uma complexa e interessante correlação entre “saber”, “verdade” e “poder” (Rocha, 1999, p. 69). Assim temos o mito de Édipo três vezes interpretado, temos a ponte da mitologia com a psicanálise estabelecida por Freud. 82 5.4 MITO DE ORIGEM E DE VERDADE Ao estabelecer tal ponte, Freud introduziu a noção de “complexo” para caracterizar uma condição nuclear na formação da personalidade humana. Assim, ele ajudou a construir uma ponte e contribuiu para a discussão sobre a importância do mito no funcionamento normal e patológico do psiquismo. Para Freud, segundo Laplanche e Pontalis (1971), citados por Auzobel Neto (1993, p. 20), “o complexo é um conjunto organizado de representações e recordações, dotadas de intenso valor afetivo, parcial ou totalmente inconscientes”. Aquilo que Freud designou de “complexo”, Jung (discípulo e colaborador de Freud durante muitos anos) chamou de “arquétipo”. Para este, a aproximação entre os mitos e a psicanálise se faz através da formulação da vida dos arquétipos, ou seja, dos padrões hereditários de comportamento que guiam o sujeito sobre o modo como deve se comportar em determinadas situações, ainda que o sujeito não tenha conhecimento dessa herança da humanidade. Dizendo de outro modo, os arquétipos seriam os modelos que surgem do inconsciente coletivo da humanidade formando a base da psique humana. [...] vai ser exatamente neste inconsciente coletivo que Jung vai achar sua interpretação para o mito. O inconsciente coletivo manifesta-se em padrões que ele chama, usando uma expressão de Santo Agostinho, de “arquétipos”. O arquétipo significa um determinado tipo de “impressão” psíquica, como se fosse uma marca ou imagem. Um conjunto de caracteres que, em sua forma e significado, são portadores de motivos mitológicos arcaicos. Aí está, pois, o sentido do mito. Conteúdo e manifestação do inconsciente coletivo. Encontrado nas mais diversas culturas humanas e, num passe de mágica arquétipica, reencontrado no mais fundo da cuca de cada um de nós (Rocha, 1999, p. 43). Para Jung, o inconsciente é formado por uma rede de arquétipos dinâmicos e o mito seria como uma expressão de uma imagem por meio da qual se formularia um arquétipo ou um padrão de comportamento (Auzobel Neto, 1993). Dessa forma, podemos entender o mito como um gerador de padrões de comportamento para um grupo social, e explorá-lo como 83 possibilidade explicativa para a manutenção da crença da HFC nas pesquisas em EC. Se considerarmos a HFC como um mito que condensa a história e o ensino, daremos conta da dupla faceta que caracteriza um mito: de teorização e de transmissão e, talvez com isso, possamos entender melhor suas contribuições e permanência na área. Tratar-se-ia então de considerar como um mito a narrativa da criação da própria ciência, que começa a existir a partir da necessidade de se transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade. Seria, portanto, o reflexo espelhado de uma sociedade que optou pelo racionalismo e transmite, através da HFC, o mito dessa ciência como caminho para encontrar a verdade. Assim, a HFC teria como função manter a argumentação que valida socialmente essa opção através do tempo. Freud (1930) apontou que a própria cultura era responsável por estabelecer os mecanismos identificatórios entre os seus membros. Logo, esse “ensinar a Ciência” implica uma representação coletiva, que é narrada ou transmitida através de gerações, através da linguagem. No caso que estamos analisando, a HFC seria a representação no imaginário daquele grupo, de uma tradição idealizada da ciência, da ciência como caminho para encontrar a verdade, como ideal de objetividade e racionalidade. [...] o mito tem, no conjunto, um caráter de ficção. Mas esta ficção apresenta uma estabilidade que não a torna de modo algum maleável às modificações que lhe podem ser trazidas, ou, mais exatamente, que implica que toda modificação implica por sua vez, por essa razão, uma outra, sugerindo invariavelmente a noção de uma estrutura. Por outro lado, essa ficção mantém uma relação singular com alguma coisa que está sempre implicada por trás dela, e da qual ela porta, realmente, a mensagem formalmente indicada, a saber, a verdade. Aí está uma coisa que não pode ser separada do mito (Lacan, 1995, p. 258). O mito não pode, conseqüentemente, ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma. Assim, não se há de definir o mito pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere. E, 84 na narrativa da HFC está intrínseco aquilo a que o mito se propõe: ser uma forma substitutiva de uma verdade, que contêm uma ilusão. Sustentamos que a HFC tem a função mítica de manter a busca pela verdade e pela origem. Essa ilusão sustentou inicialmente sua exploração na área, permitiu o desenvolvimento dos mecanismos de transmissão no grupo, através, principalmente, do recalque e viabilizou diversos caminhos de exploração para a pesquisa. Uma instituição não pode sobreviver sem elaborar um ou mais mitos unificadores, sem instituir ritos de iniciação, de passagem e de realização, sem se atribuir heróis tutelares (tomados muitas vezes entre os fundadores reais ou entre os fundadores imaginários da instituição), sem contar e/ou inventar uma história que permanecerá na memória coletiva; mitos, ritos, heróis, sagas, cuja função é sedimentar a ação dos membros da instituição, servir-lhes de sistema de legitimação e dar, assim, sentido às suas práticas e às suas vidas. A instituição pode então se oferecer como objeto ideal a ser interiorizado, que dá vida, ao qual todos devem manifestar a sua lealdade, e até mesmo se sacrificar. Ela apresenta exigências e obriga a todos a se moverem pelo orgulho do trabalho a realizar: verdadeira missão de vocação salvadora (Enriquez, 1991, p.78). No caso do mito da ciência, é a comunidade de cientistas, físicos, químicos, geólogos e biólogos, que tem a função de manter vivo o status da ciência e a História da Ciência tem um papel especial de contar a história dos grandes feitos e dos grandes personagens. A força da HFC nas pesquisas da área poderia ser identificada, portanto, com a força dos mitos de origem nos processos de subjetivação. Sabemos que a falência de um mito pode gerar uma angústia insuportável, o que motiva pessoas a morrerem para que o mito sobreviva, como pode ser visto em manifestações de fanatismo religioso, por exemplo. Assim, a necessidade humana de certeza e permanência é tão grande que as bases de sustentação da HFC na pesquisa em ensino só seria questionada se a crença na própria ciência entrasse em colapso, em outras palavras, o mito não significa algo verdadeiro, porque a verdade mesma não existe, mas a 85 manutenção do mito, via HFC, garante a sustentação do status da ciência, que é necessária para a continuidade da formação de novas gerações de cientistas e de fomento à produção científica de forma geral. 86 6. CONCLUSÕES Uma Instituição, como a área de pesquisa que estamos analisando, é uma instituição que permite a entrada de pesquisadores num universo de valores, de normas e de sistemas de referências (mito ou ideologia) particulares. Esse conjunto serve como lei organizadora tanto da vida física quanto da vida mental e social dos indivíduos que delas participam. Ao longo da pesquisa pudemos identificar vários elementos organizadores da vida dessa Instituição. Como um sistema cultural, simbólico e imaginário, percebemos que a área disponibilizou aos seus membros as condições necessárias para sua constituição e sobrevivência. Nossos dados revelaram que os três sistemas foram fundamentais para a área, pois garantiram sua identidade. Enquanto um sistema cultural ofereceu basicamente três subsídios: 1. um sistema de valores e de regras, ou seja, uma forma dominante de pensar e de agir (a possibilidade de importação de referenciais de outras áreas – psicologia e sociologia por exemplo - e a valorização da publicação em periódicos específicos da área podem ilustrar o sistema cultural estabelecido no caso); 2. uma estrutura para viver na instituição (o reconhecimento das agências de fomento à pesquisa e os periódicos específicos da área, são exemplos oferecidos pela instituição para edificação de uma obra coletiva); 3. um processo de formação e socialização dos diferentes membros (como exemplos da área analisada temos as reuniões dos grupos de pesquisas, os seminários, encontros, congressos, cursos de pós-graduação). Enquanto um sistema simbólico atribuiu heróis fundadores, como aqueles apontados pela comunidade na pesquisa realizada por Nardi (1995); institui ritos próprios para eleição de representantes no CNPq e na CAPES, por exemplo; além de se oferecer como um objeto ideal pelo qual valeria a pena suportar as pressões e angústias, principalmente, aquelas geradas nas primeiras comunidades de pertencimento, os institutos de Ciências. Como um sistema imaginário capturou os indivíduos na armadilha de seus próprios desejos de afirmação narcísica e de identificação, prometendo que contribuiriam para a melhoria do ensino de ciências através de suas 87 pesquisas e manteriam o status da ciência. A área parece ter sido ainda capaz de cumprir outra função imaginária importante: proteger seus membros da possibilidade de abalamento de sua identidade, da angústia de fragmentação. Mesmo as dificuldades de fazer os resultados das pesquisas se concretizarem em experiências de ensino e a pluralidade teórica e metodológica que caracteriza sua produção atual não são vistas como uma ameaça às bases da Instituição, como um perigo de fragmentação. Essa pluralidade é encarada como um valor, as dificuldades são encaradas como mais um elemento no jogo de desafios que a área precisa jogar permanentemente para não se transformar apenas em uma simples organização de trabalho com regras e códigos próprios. É nesse “jogo de esconde-esconde” imaginário que a HFC parece ter ocupado um lugar importante nas pesquisas em ensino. É muito difícil encontrar um professor de Ciências ou mesmo um cientista que não sustente no discurso a valorização do uso da HFC no ensino, porém, ao serem questionados do porquê dessa valorização sempre surge uma “zona de silêncio”. Normalmente, o silêncio é quebrado por justificativas de promoção da desmitificação da atividade científica, revelação da não-linearidade do processo de construção do conhecimento, etc. Justificativas bastante usuais (e isso não significa que não sejam verdadeiras), mas que não têm sido suficientes para concretizar o uso da HFC no ensino. Vários fatores foram responsáveis pela configuração dessa realidade. Na fase inicial da área, ou no momento do Primeiro Organizador Grupal, algumas pessoas passam a se articular no país para pesquisar as questões do ensino de ciências e tivemos aqui a presença de formadores (Pierre Lucie, Mário Schemberg) que marcam essa nova comunidade com o uso da HFC no ensino, personagens que valorizavam a HFC e produziram experiências concretas bem sucedidas do uso da mesma em suas atividades didáticas, palestras, cursos etc.. Nasceu então a ilusão de que a aprendizagem das Ciências seria facilitada pelo uso da HFC. As primeiras explorações da HFC no ensino parecem ser decorrentes dessa ilusão inicial. Como evidências, vimos que apareceram vários trabalhos 88 propondo textos históricos, principalmente para uso no Ensino Médio, e os projetos de ensino trouxeram a valorização da HFC em suas propostas. Essa ilusão, no entanto, não se sustentou por muito tempo porque o material didático não garante por si só a aprendizagem das Ciências. Portanto, a possibilidade de aprender Ciências com apoio da HFC implica em ter professores que conheçam História e Filosofia e que estejam preparados para fazer a transposição para cada nível de ensino. Assim como acontece com boa parte dos resultados de pesquisa da área, isso não se concretizou na prática. No caso da HFC, por ser uma temática há muito pesquisada, essa lacuna ficou muito evidente e, aos poucos, mesmo aqueles que continuavam acreditando na potencialidade de contribuições da HFC no ensino foram abandonando a ilusão de que isso se faria através do uso de textos históricos nas aulas. A necessidade de transmitir a crença na ciência, contudo, permaneceu intocada. Na fase de consolidação da área (Segundo Organizador Grupal), a comunidade encontrou outras formas de exploração da HFC. Uma dessas formas especialmente relevante para a pesquisa foi o desenvolvimento do Modelo de Mudança Conceitual e a exploração das concepções alternativas dos alunos trabalhadas em comparação com as concepções de cientistas registradas na HC. O número de trabalhos de pesquisa sobre esse assunto e a fala dos entrevistados mostrou como essa via de exploração foi produtiva. Por fim, no Momento Mitopoético atual, observamos a manutenção das iniciativas de maior inserção da HFC na formação inicial dos professores de Ciências, propostas de elaboração de materiais didáticos de qualidade para serem levados às salas de aula e presença nas discussões em eventos científicos da área de EC e da área de HFC. A possibilidade de maior aproximação entre essas duas áreas e de formação de pesquisadores com estofo em ambas pode resultar futuramente em resultados concretos de melhoria na qualidade do EC. Ainda que isso não ocorra, dificilmente a HFC perderá seu espaço nas pesquisas em EC, pois o ensino de Ciências continuará a ser um caminho para manutenção do status da Ciência e a HFC terá sempre uma função mítica 89 nessa manutenção. Assim, para que a HFC perdesse sua força nas questões do EC, teria que perder espaço a crença na própria Ciência. Assim, da verdade que o mito não se propõe ter, ficam a eficácia e o valor social. Da origem que ele não se propõe possuir, fica a sua sempre presença, seus desconhecidos autores, sua improvável localização no tempo. Da interpretação que ele nos propõe como enigma, ficam as mais diversas tentativas do pensamento humano tanto de criá-lo quanto de analisá-lo (Rocha, 1999, p. 15). Também nosso texto não tem a pretensão de ser a verdade, mas esperamos que possa ser uma interpretação plausível, que cumpra a função social de contribuir para a pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil. 90 REFERÊNCIAS ALMEIDA JR., J. B. A evolução do ensino de Física no Brasil. Rev. Ens. Fís. 1 (2), 1979 e 2 (1), 1980. AMARAL, E. M. Perfil conceitual para a segunda lei da termodinâmica aplicada às transformações físico-químicas: a dinâmica discursiva em uma sala de aula de química do Ensino Médio. Tese de doutorado. Faculdade de Educação da UFMG, Belo Horizonte, 2004. AMORIM, A. C. R. Os olhares do caminhante nos territórios do ensino de Biologia. Tese de doutorado. Unicamp, Campinas, 2000. 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Se tivesse que se enquadrar em um de dois quadros: como Historiador da Ciência que se interessa pelo Ensino de Ciências ou como Educador que se interessa por HFC, como se enquadraria? 5. Como foi seu contato inicial com a pesquisa em Ensino de Ciências? 6. Você enxerga mudanças em suas motivações ou preocupações com o Ensino de Ciências ao longo das décadas? 7. Em sua opinião, qual papel ou papéis, a HFC poderia ocupar no EC no Brasil? 8. Você enxerga mudanças nos papéis que a HFC desempenhou na pesquisa em ensino ao longo das décadas? 9. Se dividíssemos a história da pesquisa em EC no Brasil em três grandes períodos: Período dos grandes projetos nacionais, Período da consolidação de referencias específicos da área (estudos de concepções alternativas e mudança conceitual), Período da pluralidade de linhas de pesquisa e de valorização do papel do professor Como você avaliaria a importância da HFC em cada período? 10. A HFC tem presença significativa nas publicações, desde os primórdios das publicações específicas da área. Você acredita que a longevidade da HFC enquanto temática de pesquisa na área de ensino de ciências se deve a quais fatores? 11. Existem algumas pessoas que acreditam que a importância que a HC tem se deve simplesmente ao fato que ela valoriza, atribui status e acesso à própria Ciência. Você concorda com isso? 99 12. As publicações sobre HFC têm enfoques bastante diversos, mas com uma característica marcante: poucos trazem relatos do uso da HFC na sala de aula. Você acompanha as publicações sobre a temática? E como enxerga essa pluralidade de enfoques e a escassez de experiências concretas em sala de aula? 13. Você concorda com a leitura de que existe um movimento de aproximação, nos últimos anos, entre os historiadores da Ciência e os educadores que incorporam a HFC em suas pesquisas? Em sua visão, a que se deve tal aproximação? 14. Quais fatores você apontaria como fundamentais, nesse momento, para a manutenção da HFC como uma temática importante para o ensino de Ciências? Quem você apontaria como referência entre os educadores que utilizam HFC? E quem apontaria entre os historiadores que se preocupam com a educação em Ciências? 100 APÊNDICE 2 AUTORIZAÇÃO IDENTIFICAÇÃO DA PESQUISA Doutoranda: Valéria Silva Dias Orientador: Prof. Dr. Alberto Villani Tema da Dissertação/Tese: As contribuições da História e Filosofia da Ciência na pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil Autorizo a utilização dos dados/informações cedidos em entrevista concedida em 01 de janeiro de 2008, realizada em São Paulo - SP, para fim único de colaboração na tese de doutoramento da pesquisadora acima identificada. Estou ciente de que a entrevista será transcrita integralmente, com possibilidade de uso total ou parcial dos dados fornecidos. Obtive ainda a garantia de que minha identidade será mantida no anonimato, conforme firmado pela pesquisadora. São Paulo, 01 de janeiro de 2008. ___________________________ Prof. Dr. João Silva Dias ___________________________ Valéria Silva Dias 101 APÊNDICE 3 INTERMEDIÁRIO Segundo Kaës, a noção de intermediário é particularmente adequada para a compreensão das relações entre diferentes níveis de organização, já que trata de articular as relações entre os sujeitos e o meio, de intervir em situações conflitivas, de compreender as passagens de uma estrutura a outra ou de captar as relações estabelecidas entre os diferentes elementos que constituem uma estrutura. Para Valadares e Villani (2006) como espaço e/ou como objeto, o intermediário é definidor de uma fronteira: ele é e não é, ele liga e mantém separado. Como uma ponte, ele mantém junto as partes heterogêneas, sem abolir as propriedades dos elementos unidos em cada margem. Esse conceito, como seu nome indica, permite fazer a mediação, a ponte entre duas ordens de realidade que possuem sua lógica própria, que são heterogêneas e que, por conseqüência, não podem ser reduzidas uma à outra. Trata-se, então, de construir um conceito que, sem destruir a ordem própria do social e sem reduzir a ordem própria da realidade psíquica, permita ultrapassar o afastamento que organiza esses dois espaços (KAËS, 2005, p.11). O espaço intermediário é, portanto, simultaneamente psíquico, social e cultural. O conceito de intermediário permite tratar questões de continuidade e ruptura na ordem da vida social e na ordem da cultura, que são articuladas com a ordem da vida psíquica de cada sujeito. É um espaço no qual o sujeito pode se constituir como indivíduo em suas relações com os grupos de pertencimento. Tomar tal conceito como referência significa, portanto, considerar como Kaës (1991, p. 11) que “os mecanismos sociais possuem sua dinâmica própria, não redutível à dinâmica individual nem à soma das dinâmicas individuais” mas também significa questionar como ele, Mas que fenômenos são esses, que dependem, para existir, de muitos indivíduos em presença? É possível explicar o social sem questionar o que os 102 indivíduos em presença empenham coletivamente na sua produção? Reunião de egos sincréticos, defesas coletivas, supostos básicos? (Op. Cit., p.11) As formações intermediárias aparecem com diversas conotações nos trabalhos de Freud. Uma delas se remete à formação intermediária como condição de acesso ao recalcado, situada entre uma representação consciente e uma representação inconsciente. Uma segunda conotação associa o intermediário à dimensão do compromisso elaborativo, criativo. E, em uma terceira abordagem, as formações intermediárias são associadas a uma função vital, o que implica que a experiência de rupturas e crises forma o intermediário. Kaës considera como base os estudos de Freud e ressalta ainda que, Tais formações encarnam-se em lugares e em funções específicas. A longa série de personagens intermediárias e mediadoras que Freud faz surgir desde Totem e tabu até Moisés e o monoteísmo, na figura de condutor ou do historiador-poeta são protótipos dessas formações de duas faces: [...] lado de seu espaço interno – e a questão é a do apoio de sua função intermediária sobre o grupo; e do lado do espaço intersubjetivo – e a questão é a de sua mobilização preferencial no campo psíquico do grupo. Essa dupla questão encarada na sua conjunção leva a indagar sobre o que se entrelaça, e em que gênero de formações psíquicas, entre a psique do condutor (seu Ideal do Ego, suas identificações, suas pulsões homossexuais, por exemplo) e as formações psíquicas em nível de grupo (o Ideal comum, o regime das identificações, a angústia “social”, as alianças inconscientes do tipo contrato narcísico, por exemplo) (KAËS, 1997, p. 225). 103 APÊNDICE 4 A REVISTA BRASILEIRA DE ENSINO DE FÍSICA (RBEF) Inicialmente intitulada Revista de Ensino de Física (REF), o periódico surgiu em 1979, como publicação da Sociedade Brasileira de Física (SBF). Um importante estudo sobre a REF foi realizado por Moret (1994) em sua dissertação de Mestrado, abordando a trajetória dos dez primeiros anos da revista (1979 – 1988), os fatores que influenciaram sua criação, seus objetivos e sua estrutura interna. Em edição recente podemos ler que “a Revista Brasileira de Ensino de Física – RBEF – é uma publicação da Sociedade Brasileira de Física voltada para a melhoria do ensino de Física, e todos os níveis de escolarização, através da publicação de artigos sobre materiais e métodos instrucionais, desenvolvimento de currículo, pesquisa em ensino, história e filosofia da Física, política educacional e outros temas pertinentes e da divulgação de assuntos de interesse da comunidade engajada no ensino de Física”47. Em 24 anos de existência, a RBEF teve vários editores. De 1979 a 1988, fase de criação, implementação e consolidação, a revista esteve sob a direção do Professor João Zanetic (USP). Depois assumiu um corpo editorial com direção do Professor Marco Antonio Moreira (UFRGS) durante cinco anos (1989-1993), período onde a revista teve o formato e o nome alterados, dentre outras modificações. Em 1994, assumiu como diretor responsável o Professor Vanderley S. Bagnato (USP) que ficou à frente da revista até 1999. Desde o ano 2000, o corpo editorial da RBEF tem como diretor o Professor Nelson Studart (UFSCar), que definiu novas tendências e nova política editorial. Entre as novidades está o lançamento de um suplemento semestral, a “Física na Escola” (FnE) voltada à comunidade que leciona Física no Ensino Médio. O primeiro recorte que faremos para este trabalho será limitar o estudo às publicações do período de 1993 a 2003, desconsiderando os suplementos e nos reportando quando necessário às edições anteriores. O ano de 1993 marca a inauguração da seção "Epistemologia e História da Física" que, 47 Contracapa, RBEF V.25, n.4, Out - Dez (2003). 104 posteriormente, foi chamada apenas "História da Física" e, a partir de 2000, "História da Física e Ciências Afins", seção que é atualmente considerada pelo editor “relevante para a pesquisa desta área ainda incipiente no Brasil” 48. A amostra De 1979 a 1992 foram publicados 14 volumes da RBEF, contendo um total de 23 números. A partir de 1993, manteve-se o padrão de 4 números por volume, resultando em 44 números publicados de 1993 a 2003. Nas seções específicas sobre História da Física, desses 44 números selecionados, encontramos um total de 68 artigos, um número significativo frente a "insipidez" da área. Diante da impossibilidade de fazer uma análise dessa totalidade de artigos, fizemos a escolha por aqueles autores que contribuíram com mais de um artigo, compondo o quadro 1. Nome do autor Instituição N. Temáticas abordadas J. P. Baptista J. M. F. Bassalo J. B. Bastos Filho F. Caruso EFES UFPA 03 27 UFAL 03 CBPF 02 L. C. de Cudmani P. M. C. Dias L. Ferracioli O. Freire Jr. R. A. Martins A. Medeiros M. C. D. Neves T. Ramos J. A. Valadares UNT (Arg) 02 Hist. desenvolvimento de conceitos/ Fenomenologia Epistemologia/HC/Metodologia de ensino UFRJ UFES UFBA UNICAMP UFRP UEM USP UAL (Port) 02 02 02 02 02 02 02 02 Ensino-aprendizagem/HF Ensino-aprendizagem/HF HC/Epistemologia/Ensino de Ciências Historiografia/Filosofia da Ciência/HC HC/Material didático HC/Física Geral/Ensino-aprendizagem Mecânica Quântica/Física Matemática História do desenvolvimento de conceitos Hist. do desenvolvimento de conceitos/ HC Física Geral/ Ensino de Física/ HC/ HC no Brasil Física/ Filosofia/Educação Quadro1: Recorrência de autores na seção História da Ciência da RBEF, entre 1993 e 2003. 48 Editorial, RBEF CD-ROM (1979 – 2002). 105 Os autores e os artigos Uma de nossas suposições iniciais era de que a grande quantidade de artigos estaria revelando um grande número de pesquisadores se dedicando a História da Física. Por outro lado, poderia estar sinalizando uma pluralidade de critérios para selecionar os artigos para essas seções específicas. Podemos notar no quadro 1, que 13 autores são responsáveis por 53 artigos dos 68 publicados, representando 78% da totalidade dos artigos, sendo que um único autor responde por 27 artigos, ou seja, aproximadamente 40% dos 68 publicados na referida seção. Notamos também uma grande diversidade na origem institucional desses autores, provenientes de várias regiões do país e de fora dele, no caso, uma autora da Argentina e um autor de Portugal. Uma situação diferente daquela encontrada por Moret (1994) ao analisar os dez primeiros anos da revista, quando notou uma predominância de autores da região sudeste do Brasil, mais precisamente, autores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Comparando os dados atuais com aqueles dos primeiros anos da revista, percebemos também um significativo aumento no número de artigos publicados sobre o tema, além de um aumento no número de autores. Segundo Moret (1994), considerando o período de 1979 a 1988, foram 37 artigos publicados na seção divulgação, então responsável pelas temáticas Física e História e Filosofia da Física, e 6 o número de pesquisadores incluídos no quadro de recorrência de autores (aqueles com 2 ou mais artigos publicados). Uma análise preliminar dos conteúdos discutidos nos artigos selecionados nos permite dividi-los em dois grupos distintos: aqueles que apresentam articulações com respeito à área de Ensino de Física ou outras áreas ligadas à Educação, e aqueles que não tem maiores preocupações com as questões educacionais. O quadro abaixo apresenta com mais detalhes os conteúdos discutidos por alguns dos autores listados. 106 Autor e nº. publicações (N) J. P. Baptista (3) J. M. F. Bassalo (27) L. C. de Cudmani (2) O. Freire Jr.(2) R. A. Martins (2) Conteúdos discutidos (N) - Articulados ao ensino (*) Princípio da Inércia (1) Movimento de rotação nos sistemas pré-socráticos (1) Sistemas numéricos - Arquimedes e Dirac (1) Física brasileira: atores e influências (1) Física do estado sólido (4) Nascimentos da Física (13) Ensino de Física em Belém do Pará (1)* Interação eletrofraca e bioquímica (1) Lei de Rayleigh-Jeans (1) Cálculo - Newton e Leibniz (6) Epistemologia e História da Física na formação de professores (1)* Resolução de problemas na escola (1)* Ensino e pesquisa em geofísica (1)* Física brasileira: atores e influências (1) Historiografia (1)* Tradução de obra de Issac Newton (1)* Quadro2: temáticas abordadas em artigos de cinco autores, num total de 36 artigos. 107 APÊNDICE 5 O REAL, O SIMBÓLICO E O IMAGINÁRIO Lacan desenvolveu durante muito tempo as três categorias conceituais da realidade humana, os registros do imaginário, real e simbólico. As três categorias são onipresentes e não são estanques, ou seja, baseiam-se no princípio da recursividade. Assim, o real e o simbólico devem aparecer no registro do imaginário, o real e o imaginário devem estar presentes no registro do simbólico e o imaginário e simbólico devem estar presentes no registro do real. O Imaginário Define-se o imaginário como sendo o registro psíquico correspondente ao ego do sujeito, o lugar do eu por excelência, com seus efeitos de ilusão e engodo, cujo investimento libidinal foi denominado por Freud de Narcisismo. O eu engana-se porque acredita ser aquilo que não é, o que conduz à constatação de que o eu é uma construção imaginária. Ao definir o eu como uma construção imaginária, estamos caracterizando-o como um contínuo processo de identificações, identificações parciais. Santaella (1986) citando Quinet (1995, p. 7) diz: “O eu é como Narciso: ama a si mesmo, ama a imagem de si mesmo que ele vê no outro”. Para Lacan, a constituição do eu toma lugar durante o estágio do espelho, quando o bebê (com idade entre seis e dezoito meses) age no sentido de ficar preso na imagem do espelho e não na escuta do sujeito ou do objeto. Ele se interessa por sua imagem formada no espelho e começa o reconhecimento da identidade própria do eu, em um jogo paradoxal com a imagem especular, de oscilação entre o eu e o outro. Senhor e servo do imaginário, o ego se projeta nas imagens em que se espelha: imaginário da natureza, do corpo, da mente, das relações sociais. Buscando por si mesmo, o ego acredita se encontrar no espelho das criaturas 108 para se perder naquilo que não é ele. Esta situação é fundamentalmente mítica. É uma metáfora da condição humana, uma vez que estamos sempre ansiando por uma completude que não pode jamais ser encontrada, infinitamente capturada em miragens que ensaiam sentidos onde o sentido está sempre em falta (SANTAELLA, 1986). O imaginário, portanto, é o reservatório narcísico, é a sede da imagem do eu e do corpo. Constitui-se assim como o registro dos sentimentos, aquele que emprega um grau de corporeidade, de afeto, às experiências vividas (Lopes, 2006). Um mergulho radical no imaginário corresponderia à loucura, sendo considerado louco aquele que adere ao imaginário sem mediação. “Narciso morre na voragem de não se diferenciar de si mesmo, na falta de alteridade. É a alteridade, o outro como semelhante, que nos salva da loucura e da alienação no outro, o que pressupõe a castração simbólica” (Junqueira, 2003). O Simbólico O registro do simbólico é o lugar do código fundamental da linguagem. Ele é lei, estrutura regulada sem a qual não haveria cultura. Lacan chama isso de grande Outro. O Outro, grafado em maiúscula, foi adotado para mostrar que a relação entre o sujeito e o grande Outro é diferente da relação com o outro (grafado em letra minúscula) recíproco e simétrico ao eu imaginário. Mrech (1999, p. 135) considera a existência do outro da semelhança ou pequeno outro, “concebido de uma forma imaginária, onde o sujeito atribui ao outro externo as mesmas características que ele identifica nele mesmo” e do Outro Simbólico ou Grande Outro, “o Outro dos sujeitos é um produto da incorporação da cadeia de significantes familiar do sujeito. O Outro acaba sendo o lugar do tesouro dos significantes. Do Outro como Outro simbólico, do Outro da referência. [...] Um Outro que vai sendo internalizado pelo sujeito até se tornar o seu parceiro mais íntimo”. 109 Portanto, o registro do simbólico, sob o governo do desejo, é o lugar do significante, visto que esse grande Outro da linguagem é o outro do discurso universal, de tudo o que foi dito, da herança cultural da humanidade. O Real Cabe inicialmente alertar que, da mesma forma que não podemos identificar o registro do imaginário com a imaginação, não podemos confundir o registro psíquico do real com a noção corrente de realidade. Chaves (2006) ao estudar o estatuto do real em Lacan, conclui que o real é aquilo que nos escapa, é o que retorna sempre ao mesmo lugar, ao qual não podemos ter acesso por inteiro, embora possamos nos aproximar pelo caminho científico das pequenas equações/aproximações. A realidade psíquica de cada sujeito é sempre singular. E mais, há algo que a própria realidade psíquica do sujeito não consegue alcançar, algo que é da ordem do registro do real. Pois, em função da linguagem ter estruturado caminhos dentro do sujeito, o que acontece é que certos conteúdos ficam presos às cadeias de gozo, de onde o sujeito não sai, para onde ele constantemente retorna (MRECH, 1999, p. 80). Durante seus estudos Lacan acaba por mostrar que o real é aquilo que sobra como resto do imaginário e que o simbólico é incapaz de capturar, ou seja, o real é o impossível, aquilo que não pode ser simbolizado e que permanece impenetrável ao sujeito do desejo. Real é aquilo que falta na ordem simbólica, os restos que não podem ser eliminados em toda articulação do significante, aquilo que só pode ser aproximado, jamais capturado. Para Lacan é importante que nós percebamos que há na linguagem e na fala sempre algo que vaza, algo que não se atinge, a não ser aproximativamente: a própria criança a brincar. É nessa região que Lacan assinala a existência do registro do real. Algo que nós tentamos apreender, mas só identificamos através dos símbolos, das imagens, das significações e dos sentidos da nossa cultura (MRECH, 1999, p.119). 110 Após 1970 Lacan passa a conferir um predomínio do Real em relação aos outros registros, instalando a ordem R.S.I. (Real, Simbólico, Imaginário). Antes disso já havia conferido um lugar dominante ao simbólico, seguindo a ordem S.I.R. (Simbólico, Imaginário, Real). Como existem conseqüências teóricas decorrentes de cada uma dessas posições, entendemos que Lacan se convence aos poucos da primazia do real frente aos demais registros, ou seja, que somos guiados pelo gozo. De forma muito sintética podemos dizer que o real é a categoria da pulsão (do gozo49), o imaginário é a categoria psicanalítica da demanda de amor, e o simbólico é o registro do desejo. Voltamos então a idéia da recursividade. Para Santaella (1986), a análise da demanda de amor revela que ela depende da linguagem, pois o imaginário se expressa através de signos ou através daquilo que Lacan chamou de cadeia de significantes. Alienada na linguagem a demanda humana é capturada no deslocamento infinito da cadeia metonímica do desejo, na cadeia de significantes do simbólico. Ao mesmo tempo, a demanda de amor é acossada pelas vicissitudes obscuras da pulsão sexual, na ordem do real. Assim, apesar da predominância da demanda de amor que o caracteriza, o imaginário também apresenta sua face simbólica e sua face real. Essas relações triádicas também aparecem nos registros do real e do simbólico. O registro do real está sob a dominância da pulsão, que é uma necessidade que não pode jamais ser inteiramente satisfeita. O que existe em seu lugar é o curso circular sem fim da pulsão. O papel do imaginário na pulsão também se torna aparente na fantasia que acompanha a busca humana pela satisfação. O registro do simbólico, sob o governo do desejo, não seria nada mais do que uma cadeia vazia sem o estofo do imaginário, seria apenas um infinito deslocamento de significantes. Sem o real do corpo, por outro lado, ele 49 Gozo – modalidade de funcionamento do sujeito. O gozo no sentido lacaniano não é o gozo do prazer que se obtém através do orgasmo (sentido tradicional da cultura) . É o gozo obtido através da linguagem e da palavra. O gozo é uma outra satisfação. Uma satisfação obtida através do inconsciente, através da linguagem e da fala, frente a algo onde o sujeito não deveria estar sentindo prazer. É por isso que Lacan fala de uma outra satisfação. Uma satisfação que não serve para nada, mas que mantém o sujeito atado às suas cadeias (MRECH,1999, p. 132). 111 não seria nada mais do que uma maquinaria combinatória, maquinaria desencarnada feita de padrões e regras. Para Lacan os três registros estão amarrados em um nó borromeano, ou seja, existe uma solidariedade constitutiva entre todos os registros. Cada registro corresponde a um círculo (cordão) que se cruza com os demais, de tal forma que se um dos registros for retirado do laço, se desatar um dos cordões, os demais ficam soltos, o nó se desfaz. Real Simbólico Imaginário Figura 1: O nó borromeano. Como o nó borromeano é visto como a estrutura pelas qual as leis do inconsciente determinam o sujeito, a ausência de um dos registros (ou a dissolução do nó) corresponde aos transtornos psíquicos. Ainda para Lacan, a ligação entre os registros (o laço) é determinado pelo significante Nome-do-Pai através da castração teorizada na função paterna. 112 APÊNDICE 6 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO Para entender a constituição do sujeito em psicanálise buscamos as enunciações de Lacan (1998) onde ele formula que a história de uma criança começa então muito antes do seu nascimento e tem relação com o lugar que ela ocupa no imaginário dos pais. Ferreira (2008), reforça que na pré-história do sujeito existe um lugar que foi destinado ao futuro bebê pelos pais e que se manifesta na escolha do nome, nas fantasias dos pais e, principalmente, no discurso que se cria em torno do bebê. Essa teia de relações pré-estabelecidas sobre a criança constitui a cadeia significante familiar que rege a construção do lugar que é reservado ao bebê. Quando este nasce, não significa que também nasceu o sujeito, porque logo após o nascimento o bebê é apenas um corpo que age por reflexos arcaicos e automatismos fisiológicos. A constituição do sujeito se dará progressivamente no tempo, com a passagem por várias fases de desenvolvimento. Para a psicanálise, porém, as fases de desenvolvimento que a criança atravessa, e que começam com o seu nascimento, são de natureza diferente da estabelecida pela psicologia – como as fases de desenvolvimento piagetianas, por exemplo - pois em determinado momento haverá uma ruptura na relação diádica do bebê com a mãe que será intermediada pelo pai, e que se tornará a questão central do complexo de Édipo. Ao nos referirmos à mãe e ao pai estamos nos referindo rigorosamente àqueles que cumprem a função materna e paterna, pois na teoria lacaniana vemos que nas primeiras fases da vida da criança não são realmente os próprios pais da criança que importam, mas as funções – função materna e função paterna - que eles ou quem os substitua desempenham. Sintetizando, a constituição do sujeito implica na passagem pelo complexo de Édipo, inicialmente o bebê passa pelo estádio do espelho até chegar a identificação da imagem de seu corpo refletido pelo espelho, depois 113 temos a identificação do bebê com o desejo da mãe, e por último temos a identificação simbólica com a lei do pai. O estádio do espelho, postulado por Lacan (1998), é caracterizado pelo jogo de identificações que a criança estabelece ao olhar para o espelho e enxergar ali uma imagem. Inicialmente a criança não reconhece seu corpo naquela imagem, pois ela experimenta o seu corpo como algo fragmentado, sem unidade. Ferreira (2008) nos lembra que a conquista de uma imagem corporal demora, já que a criança inicialmente confunde a si e o outro, e é nesse outro que ela se orienta para criar a imagem do seu próprio corpo. O que está acontecendo é um assujeitamento ao registro do imaginário e a imagem apreendida é tida pela criança como a de um outro real. Somente no tempo seguinte do estádio do espelho é que a criança, aos poucos, começa fazer uma discriminação da imagem e a perceber que o outro no espelho não é um outro real, mas uma imagem, até que finalmente, no terceiro tempo do estádio do espelho a criança, além de conseguir diferenciar a imagem, reconhece que aquela é a imagem do seu próprio corpo, que aquela é a sua imagem, o que permite que ela se reconheça e supere a fragmentação do corpo. Nesse estádio do espelho, realiza-se a função materna na analogia da mãe com o espelho, já que o olhar da mãe exerce a mesma função de espelho: reconhece a criança e permite que a criança se reconheça como distinta dela. Mas essa distinção não é imediata porque nessa fase, a criança é mais assujeitada do que sujeito e para agradar a mãe e ser tudo que ela deseja ela quer se colocar no lugar do objeto de desejo da mãe (lugar do falo). A criança se encontra confundida com o desejo da mãe e, fundida com ela, sente-se como um prolongamento da própria mãe, o que a coloca no registro do imaginário. Essa situação é abalada pela figura do pai na fase do complexo de Édipo, quando a criança é inserida no registro da castração e são interditados seus impulsos. 114 A fase do complexo de Édipo introduz o elemento simbólico no psiquismo através da interdição edípica50, ou seja, da função paterna. A mediação paterna intervém sob a forma de privação, ou seja, o pai vai privar a mãe do seu objeto de desejo e também vai privar o filho do seu objeto do desejo. O pai, antes de qualquer coisa, interdita a mãe e aparece como um terceiro na relação mãe-criança, e apresenta-se no imaginário como objeto do desejo da mãe. A função do pai (função paterna) no complexo de Édipo fará a substituição de um significante por outro significante. Então o significante originário do desejo da mãe será recalcado e como conseqüência o significante Nome-do-Pai pode ser introduzido, dando acesso à ordem simbólica. Portanto o significante Nome-do-Pai é produto de uma metáfora porque como significante substitui outro significante, o desejo da mãe. Esse recalcamento faz com que o desejo persista e insista em se representar. O fato de aceitar a interdição faz com que a criança finalmente se inclua no espaço das regras sociais. A metáfora paterna permite que o sujeito tenha acesso ao simbólico, estrutura o sujeito e o coloca na situação de desejante. Em uma fase posterior há um ‘declínio do complexo de Édipo’. Começa a findar a rivalidade fálica com o pai. O aspecto marcante dessa fase é a simbolização da lei. O menino renuncia a ser falo e se empenha no sentido de vir a possuí-lo. Isto acontece porque a instância paterna deixa seu lugar no imaginário para o lugar de Pai simbólico, no qual será investido como aquele que tem o falo. A criança muda a sua problemática de ser o falo para a de ter o falo. A dialética do ser e ter põe em jogo as identificações e o menino passa a identificar-se com o pai que supostamente tem o falo. Como conseqüência, a criança se torna sujeito, não apenas da linguagem, mas do desejo já que não é mais apenas objeto do desejo da mãe ou do pai. Aparece então a possibilidade da criança vivenciar a si mesma como completa e como objeto do desejo do outro, ela identifica a si mesma como um, ou seja, ela é colocada na ‘ordem simbólica’. 50 Na interdição edípica, a criança é levada a abdicar de sua fixação na relação diádica com um dos progenitores. 115