Anais do X Seminário de Iniciação Científica SóLetras – CLCA – UENP/CJ - ISSN 18089216
UM RELATO SOBRE A “HISTÓRIA E MELANCOLIA NA LITERATURA
BRASILEIRA”
Carolina dos Santos da Silva
Franciele Aparecida Gonçalves de Oliveira
Karina de Mello Munhóz
Vanessa Varasquim
(G-CLCA-UENP/CJ)
Adenize Aparecida Franco
(Orientadora-CLCA-UENP/CJ)
Introdução
Este artigo tem como objetivo abordar um relato de experiência onde
descreveremos a análise do conteúdo apreendido durante o segundo bimestre, na disciplina de
Literatura Brasileira. O tema abordado foi “História e Melancolia na Literatura Brasileira”, tendo
como material de estudo as obras “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1915), de Lima Barreto e
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), de Machado de Assis.
Foi utilizado como suporte critico – teórico textos de autores como Nicolau
Sevcenko, Silvano Santiago, Ivan Teixeira, Moacyr Scliar e Sergio Paulo Rouanet. Com base em
estudos comparativos das obras e dos textos teóricos, abordaremos o aprendizado obtido através
dessa reflexão e comentaremos os conhecimentos adquiridos após a avaliação aplicada pela
docente.
O objetivo deste novo formato de aprendizagem, o Estudo Comparativo, foi
que, através da leitura das obras de Lima Barreto e Machado de Assis, com os seminários dos
textos teórico-criticos e a avaliação conseguíssemos nos orientar e encontrar os “sintomas” da
melancolia presentes nas obras estudadas. E também compararmos as semelhanças dos
personagens Policarpo Quaresma e Brás Cubas, tendo papel fundamental na construção do
conhecimento para a realização da avaliação final.
Essa experiência foi vivenciada em sala durante o segundo bimestre de 2013,
nas aulas de Literatura Brasileira, no 4º ano A de Letras/Inglês, do CLCA, em UENP/CJ.
As aulas se desenvolveram a partir da leitura dos capítulos de estudos teóricocríticos “Conclusão: História e Literatura” e “Lima Barreto e a República dos Bruzundangas”,
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que pertencem ao livro “Literatura como Missão” (1983), de Nicolau Sevcenko; “Uma
Ferroada no Peito do Pé”, do livro “Vale Quanto Pesa” (1982), de Silviano Santiago; “Brás
Cubas: A Liberdade Conquistada” (1988), de Ivan Teixeira e “Melancolia na Literatura
Brasileira: Machado de Assis e Lima Barreto” (2003), de Moacyr Scliar, que resultaram em
seminários realizados por grupos de toda a turma, utilizados também como forma de avaliação.
Além destes textos, “Riso e Melancolia” (2007), de Sérgio Paulo Rouanet, foi explanado pela
docente. Dos textos utilizados no seminário, cada um deles foi exposto por dois grupos. O
primeiro grupo tinha como quesitos a apresentação, a problematização e a análise crítica em
relação ao texto apresentado. Logo depois, o outro grupo fez a explicitação de elementos que a
outra equipe não apresentou, a ampliação da discussão do texto a outras esferas e o debate com
todos que apresentaram determinado texto.
O primeiro texto “Conclusão: História e Literatura” (1983), exposto pela
docente, Sevcenko aborda as mudanças ocorridas na história e que influenciaram a literatura,
“mudanças que foram registradas pela literatura, mas sobretudo mudanças que se transformaram
em literatura”. (SEVCENKO, 1983, p.237). A visão da típica paisagem brasileira dos autores
José de Alencar e Vicente de Carvalho, também é apontada pelo autor, outros autores citados nos
textos são Lima Barreto e Euclides da Cunha. A literatura é vista como uma instituição, a qual faz
parte da sociedade e está centralizada na figura do escritor. Ainda trabalhando com o livro
“Literatura como Missão” (1983), de Nicolau Sevcenko, no primeiro seminário foi discutido o
capitulo V, que tem como titulo “Lima Barreto e a República dos Bruzundangas”, aqui o autor
faz um apontamento da linguagem, obra e os fundamentos sociais sobre Lima Barreto. Após uma
abordagem sobre esses tópicos, pode-se notar que a vida de Lima Barreto foi também
melancólica. Segundo Sevcenko (1983), Lima Barreto “assistiu ao crescimento do preconceito
social e racial como um discriminado. Sentiu a repressão e o isolamento dos insociáveis como
vítima”. (p.193).
Já no segundo seminário, foi trabalhado o capítulo “Uma Ferroada No Peito do
Pé”, da obra “Vale Quanto Pesa” (1982), de Silviano Santiago. O autor faz uma dupla leitura da
obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, no qual é usada a metáfora para a construção da
identidade nacional, trabalhando também com a comparação da obra de Lima Barreto com a
“Carta de Pero Vaz de Caminha”. Aborda o conceito “gancho”, que é um recurso jornalístico
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para puxar o leitor ao texto, podemos dizer assim. Além disso, Santiago fala das três decepções
do personagem principal e a originalidade na leitura de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.
A partir do terceiro seminário, a obra de Machado de Assis foi estudada. O
texto trabalhado foi “Brás Cubas: a liberdade conquistada” (1988), de Ivan Teixeira. A obra
machadiana tem algo diferente, segundo Teixeira (1988), “o estilo das Memórias póstumas, como
tudo nesse livro, é baseado num paradoxo”. (p.89). É analisado o enredo, a antinarrativa, a sátira
menipéia: carnavalização e a inovação tipográfica feita por Machado de Assis.
O quarto e último seminário foi apresentado por nós, o texto debatido foi um
capítulo do livro “Saturno nos tópicos: a melancolia européia chega ao Brasil” (2003), de
Moacyr Scliar, “Melancolia na Literatura Brasileira: Machado de Assis e Lima Barreto”. Neste,
Scliar fala que a melancolia é uma herança que veio do romantismo europeu. O choro passa a ser
livre, e que o tema tristeza está presente agora na poesia dos brasileiros. O autor, faz um estudo
de dois personagens da literatura brasileira, considerados paradigmáticos, Simão Bacamarte, da
obra “O alienista”, de Machado de Assis e Policarpo Quaresma, de “Triste Fim de Policarpo
Quaresma”, de Lima Barreto. A biografia dos autores também é explanada, vemos que Lima
Barreto não teve uma vida de completa felicidade. Teve que largar os estudos para ajudar a
família, tentou três vezes entrar para a Academia Brasileira de Letras, que tem como fundador
Machado de Assis. Lima Barreto foi internado muitas vezes por causa da doença mental e era
etilista. Machado de Assis também tinha alguns problemas de saúde, gaguejava e era epilético.
O último texto, “Riso e melancolia” (2007), de Sergio Paulo Rouanet também
foi trabalhado pela docente, mas devido ao tempo, foram expostos seus pontos principais.
Rouanet faz um estudo da forma shandiana presente em Sterne, Diderot, Xavier de Maistre,
Almeida Garrett e também em Machado de Assis.
Após a explanação do conteúdo teórico, foi aplicada a avaliação para o
fechamento da nota. O conteúdo presente na prova foram três questões dissertativas. As duas
primeiras questões abordavam as obras de Lima Barreto e Machado de Assis, onde a docente
tirou passagens das obras e tínhamos que relacionar com o tema Melancolia. Já a terceira
questão, dissertamos sobre como a identidade melancólica marcou o romance brasileiro, uma
característica importante nesta época.
Como aprendizado de nossa parte, exemplificamos alguns trechos utilizados em
nossas avaliações. Na primeira pergunta, o trecho destaca a passagem em que o Major Quaresma
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foi suspenso de seu trabalho por ter escrito todo o documento em tupi, devido uma distração sua.
Em seguimento, um trecho do capítulo em que ele caminha para o hospício. O tupi foi motivo de
riso na vida de Quaresma, uma vez que, o personagem chegou a enviar uma carta ao presidente,
solicitando que tornasse o tupi, a língua oficial do Brasil. É então o sinal que o patriotismo do
personagem estava o deixando louco, e o rumo que sua vida tomou por esse motivo torna-se uma
decepção, um estado de melancolia.
Na segunda pergunta da avaliação, um trecho do capítulo “O Delírio”, o qual
Brás Cubas descreve a metáfora da “visão delirante” relacionando-a tanto com a “necessidade da
vida” quanto com a melancolia do desamparo, as antíteses glória e miséria que eram o desejo o
personagem e o nada que obteve, através das memórias contadas no livro, ele vai se lembrando
de forma filosófica e descrevendo seus sentimentos mais profundos, do mal que sentia, de como a
melancolia ia tomando conta de Brás Cubas, seu corpo e seu psicológico lutavam às vezes em
resistir a vida, mas o pesadelo vivido durante esse delírio melancólico só dominavam sua mente.
Na terceira questão, deveríamos comparar as duas obras, os romances
analisados podem ser compreendidos como representantes de uma identidade melancólica que
marca o romance brasileiro, pois os dois tratam da melancolia, e essa não é encontrada somente
nos personagens principais Quaresma e Brás Cubas, mas também nos outros personagens, como a
Ismênia, que após anos de noivado e em vistas de se casar, é abandonada pelo noivo, entrando
então, num estado melancólico. Quaresma tem toda sua vida marcada por decepções, primeiro
com o tupi, depois com a agricultura, com seu patriotismo, que por ser tão extremo, acaba o
levando a pensar e escrever coisas que por fim o levam a prisão e à morte. O mesmo acontece
com Brás Cubas, que até mesmo dedicou seu livro ao primeiro verme que roer a sua carne, uma
vez que ele não teve filhos, não deixou herdeiro e nem ninguém a quem dedica-lo. Brás Cubas
passou toda sua vida atrás da glória, através de cargos políticos ou do emplasto, não casou, não
teve filhos e morre velado por poucos.
Considerações finais
Após um debate feito por nós, os resultados que obtivemos através desse tipo
de estudo comparativo foi que, tivemos mais facilidade ao compreender o tema estudado, a
melancolia. Hoje a leitura das obras é feita com outros olhos, nas entrelinhas, agora analisamos
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diversos pontos presentes na obra, não como era no Ensino Médio, onde nessa fase a leitura era
rápida e muitas vezes considerada chata. Na graduação tivemos um maior contato com a teoria, a
qual ajudou-nos a compreender e ver como determinado livro traz em si vários elementos que
podem ser trabalhados de diferentes maneiras com nossos alunos, não como foi apresentado por
nós na escola.
Esse outro olhar sobre o livro e o modo que os seminários foram aplicados em
sala também nos proporcionou uma partilha de conhecimento entre todos os alunos da sala,
conseguimos discutir pontos de vista diferentes que tivemos, alguns pontos importantes que
foram esquecidos por uns foram lembrados por outros e isso nos deu uma leitura e reflexão
completa das obras e dos textos críticos. O compartilhamento de ideias, a interação da sala, ver
como cada ponto tem interpretações diferentes e como isso enriquece a leitura de uma obra, foi
uma ótima experiência.
Podemos dizer que o estudo comparativo propiciou-nos uma maior assimilação
do tema abordado, a melancolia. Através dos textos teóricos aplicados em sala, conseguimos
relacionar as semelhanças e as diferenças nas obras de Lima Barreto e Machado de Assis e com
os debates entre os grupos confrontamos as nossas ideias. Com esse novo formato de
aprendizagem apresentado para a sala, nossas habilidades em
compreender
a
teoria
foi
aprimorada e proporcionou-nos embasamento em como podemos trabalhar a Literatura com
nossos futuros alunos.
Referências
ROUANET, Sergio Paulo. Riso e Melancolia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa: ensaios sobre questões politico-culturais. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1982.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
SCLIAR, Moacyr. Saturno nos tópicos: a melancolia européia chega ao Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.
TEIXEIRA, Ivan. Brás Cubas: a liberdade conquistada. In: Apresentação Machado de Assis. 2ª
Edição. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
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Para citar este artigo:
SILVA, Carolina dos Santos et al. Um relato sobre a “história e melancolia na literatura
brasileira” In: X SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA SÓLETRAS - Estudos
Linguísticos e Literários. 2013. Anais... UENP – Universidade Estadual do Norte do Paraná –
Centro de Letras, Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2013. ISSN – 18089216. p. 514 – 519.
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Carolina dos Santos da Silva