UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO BRASILEIRA CAROLINA VIEIRA SILVA TEATRO E CURRÍCULO EM CONTRACENA: SENTIDOS PARA A PROPOSTA PEDAGÓGICA DO CURSO DE TEATRO-LICENCIATURA/ICA/UFC Fortaleza 2014 CAROLINA VIEIRA SILVA TEATRO E CURRÍCULO EM CONTRACENA: SENTIDOS PARA A PROPOSTA PEDAGÓGICA DO CURSO DE TEATRO-LICENCIATURA/ICA/UFC Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutora em Educação. Orientadora: Profa. Dra. Silvia Elizabeth Miranda de Moraes. Fortaleza 2014 Silva, Carolina Vieira. Teatro e currículo em contracena: sentidos para a proposta pedagógica do Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC / Carolina Vieira Silva. – 2014. 248 f. il. Orientadora: Profa. Dra. Silvia Elizabeth Miranda de Moraes. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Educação, Fortaleza, 2014. 1. Teatro – Estudo e ensino (Superior). 2. Currículos. 3. Professores de representação teatral – Formação. I. Moraes, Silvia Elizabeth Miranda de. II. Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Educação. III. Título. CDD 792.02807– 23. ed. CAROLINA VIEIRA SILVA TEATRO E CURRÍCULO EM CONTRACENA: SENTIDOS PARA A PROPOSTA PEDAGÓGICA DO CURSO DE TEATRO-LICENCIATURA/ICA/UFC Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutora em Educação. Fortaleza, 30 de maio 2014. BANCA EXAMINADORA Antônia Pereira Bezerra __________________________________________________ Doutora em Letras Modernas pela Université de Toulouse II, Le Mirail, UTM, França Universidade Federal da Bahia José Álbio Moreira Sales _________________________________________________ Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Brasil. Universidade Estadual do Ceará Luiz Botelho Albuquerque ________________________________________________ Doutor em Sociologia da Educação pela University of Iowa, Iowa, USA. Universidade Federal do Ceará Pedro Rogério __________________________________________________________ Doutor em Educação pela Universidade Federal do Ceará, UFC, Brasil Universidade Federal do Ceará Silvia Elizabeth Miranda de Moraes - Orientadora______________________________ Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, Brasil. Universidade Federal do Ceará À minha filha, Helena. Por ela, a experiência de ser mãe e o sentido de educar. AGRADECIMENTOS À Deus, agradeço pelo espírito que anima a minha vida e a de todos aqueles que construíram comigo esta tese: família, amigos, alunos. Ao meu marido, amigo e professor Pedro Henriques, sou grata pela dedicação que tem à nossa família, pela paixão que o move e pelo carinho e atenção que empreendeu na leitura deste trabalho. À minha filha, Helena, agradeço por ela ter transformado cada página em um ato de amor. À minha mãe, Mena Vieira, para a qual não há título de Mestre que a possa ter ensinado ser incansável em atenção aos seus. Ao meu pai, Carlos, que equilibrou tantos malabares quantos possíveis para permitir aos filhos a possibilidade de ter autonomia em suas escolhas. Ao Pedro, meu irmão, cuja juventude e engajamento em trabalhos sociais me atentam para as necessidades mais urgentes da vida. À Rosa, Pedro, Patrícia, Fábio, Fernanda, Maria Helena e Maria, pelas palavras de incentivo e conforto, pelas orações dedicadas ao êxito deste trabalho. À Francisca (Tita), por ter me dado condições de trabalhar nesta tese cuidando da minha filha e da minha casa como se fossem suas. À minha orientadora Profa. Dra. Silvia Elizabeth Miranda de Moraes pela confiança que depositou em mim e pela aventura de orientar um trabalho que habita uma zona de fronteira nem sempre conhecida. Ao querido amigo e professor José Sávio Oliveira de Araújo que tanto contribuiu para nortear esta pesquisa e para refletir sobre o equilíbrio entre a família e a profissão docente. À banca examinadora por se mostrar sensível a este espaço de construção de conhecimento que é alimentado por diferentes áreas do saber. Aos alunos do Curso de Teatro-licenciatura ICA/UFC, principalmente àqueles que me concederam entrevistas e que mergulharam nos projetos curriculares: SDTE, Aplauso Festival de Teatro, Pibid-Teatro e Montagem. Ao Gilvamberto Felix, agradeço, especialmente, pela colaboração na organização dos dados desta pesquisa e pela participação no rito da defesa. Aos jovens que, nos mais diversos ambientes educacionais, escolheram experimentar o Teatro através da regência dos nossos artistas-docentes. À Lilian Santos e Sônia Vieira pela compreensão dos prazos, competência e carinho na correção desta tese. A todos aqueles que torceram pelo êxito deste trabalho. Se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então a experiência é uma paixão. O sujeito apaixonado não é outra coisa e não quer ser outra coisa que não a paixão. (LARROSA, 2002, p. 19) Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto[...]. (ALVES, 1999) SILVA, Carolina Vieira. Teatro e currículo em contracena: sentidos para a proposta pedagógica do Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC. 2014. 248 f. il. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira,Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2014. RESUMO O objeto de estudo desta tese reporta-se a uma questão comum a diversos cursos de licenciatura em Teatro: a preocupação com os percursos formativos dos futuros professores de Teatro. O campo de análise é o currículo do Curso de Teatro-Licenciatura, Instituto de Cultura e Arte (ICA), Universidade Federal do Ceará (UFC). Inferiu-se que a identidade profissional dos discentes é construída a partir dos sentidos que através de suas experiências eles atribuem à proposta pedagógica do curso. Desta forma, a questão que se busca responder é como eles avaliam esta proposta pedagógica a partir da relação que estabelecem entre ela e o perfil do egresso, o artista-pesquisador-docente. O foco desta pesquisa é, portanto, o que se pode considerar como currículo com quem, ou seja, o perscrutar de um currículo através da compreensão de quem o afeta e é afetado por ele. O conceito e a análise do currículo são construídos em diálogo com os discentes por meio de entrevistas, questionários, cartas, projetos de cenas e relatórios por eles elaborados em diversas etapas de sua formação. Conclui-se que, no que diz respeito à relação entre o currículo e o perfil do egresso, a crítica do discente e o desafio dos agentes curriculares recaem sobre as disciplinas que necessitam estabelecer maior ligação entre si, a fim de prepararem, cada uma em sua especificidade mas de maneira integrada, um profissional plural. Neste caso, a interdisciplinaridade pode se apresentar como uma alternativa possível para suscitar experiências que sejam capazes de agregar a arte, a pesquisa e a docência. Palavras-chave: Teatro. Currículo. Artista-pesquisador-docente. SILVA, Carolina Vieira. Theatre and curriculum in contrascene: senses for pedagogical proposal of the Theater Teacher Education Course, Institute of Culture and Art (ICA), Federal University of Ceará (UFC). 2014. 248 f. il. Thesis (Doctor’s Degree) – Post Graduate Program in Brazilian Education, Federal University of Ceará, Fortaleza, 2014. ABSTRACT The object of study of this thesis refers to a common issue to many undergraduate courses in Theater: a concern with education courses for prospective teachers of Theater. The field of analysis is the curriculum of the Theater Teacher Education Course, Institute of Culture and Art ( ICA ), Federal University of Ceará (UFC). It was inferred that the professional identity of the students is built from the senses they attribute through their experiences to the course proposal. Thus, the question that seeks to answer is how they evaluate this pedagogical proposal from the relationship established between it and the egress profile, the artistresearcher- teacher. The focus of this research is what may be regarded as a curriculum with whom, ie, the analysis of a curriculum through the understanding of who affects it and is affected by it. The concept and analysis of the curriculum are constructed in dialogue with the students through interviews, questionnaires, letters, project scenes and reports prepared by them at various stages of their education. We conclude that, with regard to the relationship between the curriculum and the egress profile, the critical challenge of the curriculum and student agentsfalls on the disciplines that need to establish greater links between them in order to prepare, each in its specificity but in an integrated manner, a professional that isplural. In this case, interdisciplinarity can be presented as a possible alternative to elicit experiences that are capable of adding art, research and teaching. Key-Words: Theatre. Curriculum. Artist-researcher- teacher. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABRACE Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas AC Atividades Complementares ANFOPE Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação CAD Curso de Artes Dramáticas CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEFET Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará CENOTEC Laboratório de Cenografia e Tecnologias da Cena CNE Conselho Nacional de Educação CONFAEB Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil CP Conselho Pleno CTO Centro de Teatro do Oprimido DCN Diretrizes Curriculares Nacionais ECA Escola de Comunicação ENEM Exame Nacional do Ensino Médio ES Estágio Supervisionado ETUFBA Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia FACED Faculdade de Educação FAEB Federação de Arte Educadores do Brasil FCC Fundação Carlos Chagas FCD Formulários de Criação de Disciplina FVC Fundação Victor Civita ICA Instituto de Cultura e Arte IFCE Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará IES Instituições de Ensino de Superior LCC Liceu do Conjunto Ceará LIBRAS Língua Brasileira de Sinais MEA Movimentos de Escolinhas de Arte MEC Ministério de Educação MINC Ministério da Cultura NDE Núcleo Docente Estruturante ONG Organização não governamental PAPEU Programa de Apoio Psicopedagógico ao Estudante Universitário PIBIC Programa de Bolsa de Iniciação Científica PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PDI Plano de Desenvolvimento Institucional PIBID Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência PID Programa de Iniciação à Docência PP Projeto Pedagógico PPP Projeto Político Pedagógico PPC Projeto Pedagógico do Curso PNC Plano Nacional de Cultura PNE Plano Nacional de Educação PRAE Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis PRODOCÊNCIA Programa de Incentivo à Docência do MEC/Governo Federal PROGRAD Pró-Reitoria de Graduação REUNI RTD Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Realização Teatral em Docência SDTE Seminário Dança Teatro Educação TCC Trabalho de Conclusão de Curso THE Testes de Habilidades Especificas TO Teatro do Oprimido UFC Universidade Federal do Ceará UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte UNB Universidade de Brasília UNICAMP Universidade Estadual de Campinas USP Universidade de São Paulo LISTA DE DIAGRAMA E GRÁFICOS Diagrama 1 Representação gráfica dos sujeitos entrevistados................................... Gráfico 1 Gráfico 2 Gráfico 3 Gráfico 4 Gráfico 5 Percentual de jovens do ensino médio em comparação ao números de espetáculos assistidos............................................................................... Percentual de respostas para a questão: Por que você optou por cursar Teatro-licenciatura na UFC?................................................................... Percentual de respostas para a questão: Após formados, em quais locais pretendem trabalhar?.................................................................... Percentual de alunos do Curso de Teatro em comparação ao números de espetáculos assistidos.......................................................................... Percentual de respostas para a questão: Como você se mantém na Universidade durante a graduação?......................................................... 43 114 117 118 119 120 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Comparação da integralização curricular (2010.1) com a média da estrutura curricular dos cursos de formação de professores...................... 95 Quadro 2 Resumo das horas totais para formatura (integralização curricular 2012.1)....................................................................................................... 103 Quadro 3 Comparação da integralização curricular (2012.1) com a média da estrutura curricular dos cursos de formação de professores e com a integralização curricular (2010.1)............................................................. 109 Quadro 4 Síntese de hora da integralização curricular (2012.1) por área de conhecimento............................................................................................. 111 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................... 15 2 2.1 2.2 UM CURRÍCULO PARA A EXPERIÊNCIA................................................. PERCURSO FORMATIVO: EXPERIÊNCIAS E SENTIDOS........................... O SUJEITO, O LUGAR E O TEMPO DA EXPERIÊNCIA NO CURRÍCULO........................................................................................................ O sujeito da experiência...................................................................................... O par informação/opinião................................................................................... A falta de tempo................................................................................................... O excesso de trabalho……………………………………………...…………... IDENTIDADE E NARRATIVA: RECONSTRUÇÃO DA EXPERIÊNCIA...... Os sujeitos das narrativas............................................................…………........ Entrevistas, cartas e relatórios: modos de narrar…………............................. 25 26 O CURRÍCULO É COMO O TEATRO............................................................ ELLIOT EISNER E MADELEINE GRUMET: O QUE DIZ A LITERATURA ESPECIALIZADA................................................................................................. 3.2 CURRÍCULO PARA ATORES E NÃO ATORES............................................... 3.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS: AÇÃO, ATOR, ESPECTADOR E TEXTO................................................................................................................... 3.3.1 Ação....................................................................................................................... 3.3.2 Ator e Espectador................................................................................................. 3.3.3 Texto………………………..............……….................……………………....... 48 2.2.1 2.2.2 2.2.3 2.2.4 2.3 2.3.1 2.3.2 3 3.1 29 30 31 34 37 41 42 45 50 54 65 65 67 69 4 4.1 4.2 4.3 4.4 ANÁLISES E CONTEXTOS.............................................................................. 77 SOBRE O ENSINO DE ARTE NO BRASIL........................................................ 77 CURSO DE TEATRO-LICENCIATURA............................................................. 81 INSTITUTO DE CULTURA E ARTE.................................................................. 90 PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO (INTEGRALIZAÇÃO CURRÍCULAR 2010.1)......................................................................................... 92 4.5 PRIMEIRA REFORMA (INTEGRALIZAÇÃO CURRÍCULAR 2012.1)........... 97 4.5.1 Motivações para a reforma.................................................................................. 99 4.5.2 Análise normativa do PPC (currículo 2012.1)................................................... 102 5 5.1 5.1.1 5.1.2 5.2 5.2.1 5.2.2 5.2.3 5.2.4 O CORPO DISCENTE E SUAS RELAÇÕES COM O PERCURSO........... ANÁLISES PRELIMINARES.............................................................................. Alunos com potencial a futuros discentes do curso........................................... Amostra do corpo discente.................................................................................. AÇÕES REPRESENTATIVAS (CURRÍCULO EM AÇÃO).............................. Pibid-Teatro......................................................................................................... Seminário Dança Teatro Educação.................................................................... Atividade de Montagem…………………………............................................... Aplauso Festival de Teatro.................................................................................. 6 O ARTISTA-PESQUISADOR-DOCENTE E A QUESTÃO DA PESQUISA........................................................................................................... 140 O ARTISTA-DOCENTE E O PESQUISADOR................................................... 142 6.1 112 112 113 115 124 126 133 135 137 6.2 POÉTICAS POLÍTICAS E PEDAGOGICAS CRÍTICAS......................……..... 153 6.3 A CONSIDERAÇÕES DOS DISCENTES.............................................................. 159 7 CONCLUSÕES.................................................................................................... 165 . REFERÊNCIAS................................................................................................... 169 ANEXO A - Projeto Político Pedagógico do Curso de Teatro-licenciatura ICA/UFC (integralização curricular 2010.1)................................ 179 ANEXO B - Parecer do colegiado do curso de Licenciatura em Teatro/ICA/UFC sobre a necessidade de modificações na Integralização do curricular do curso......................................... 224 15 1 INTRODUÇÃO Esta tese foi escrita para construir sentidos, principalmente com os educandos na área das Artes Cênicas. Sentidos no que concerne à formação de professores de Teatro. Os sentidos de ser este profissional. Os sentidos desse professor na sociedade. Qual o sentido do que aprendemos? Os sentidos do que se ensina e do que se aprende na perspectiva do discente. Adotar como caminho de análise do currículo a perspectiva do discente é valorizar a aprendizagem que, por sua vez, é um processo de mudança obtido através das experiências dos sujeitos. Assim, o conhecimento é construído continuamente através dos sentidos que os discentes, sujeitos da aprendizagem, atribuem ao seu percurso. Contudo, ao se abordar o currículo pelo ponto de vista dos discentes, não se pretende negar a importância do professor, nem mesmo do especialista nos processos construção/ação das propostas pedagógicas e nos estudos curriculares. Isto porque o trabalho do especialista, de elevado conhecimento prático e teórico, constitui um alicerce fundamental para a área do conhecimento na qual atua e se modifica com os desdobramentos de suas pesquisas. Necessário se faz salientar, também, sobre a consciência de que as propostas curriculares estarão sempre subordinadas a um planejamento organizado por órgãos superiores (Ministério da Educação e do Desporto, Secretarias de Educação do Estado e do Município, Universidades, etc). Sendo assim, docentes e discentes não podem idealizar currículos obstantes desta circunstância. Contudo, mesmo diante desta realidade, reforça-se que o currículo se processa por e naqueles que atuam nele, transpondo o entendimento de que currículo é algo externo àqueles que o colocam em ação. Nota-se, portanto, que revelar as propostas pedagógicas auxilia o discente a tomar consciência de sua aprendizagem. Acredita-se que especialmente em um curso de formação de professores, é salutar oferecer ao aluno a possibilidade de compreender as relações intrínsecas ao âmbito das ações curriculares. Isto porque esclarecer os lugares que os discentes ocupam no currículo auxilia nos processos de ensino e aprendizagem. Pretende-se com isso que, quando o discente se torne professor, ele tenha maior consciência de que seu papel extrapola a sala de aula, ou seja, de que pensar e agir no currículo da escola, de modo a ouvir os discentes envolvidos nas ações curriculares, também é função de um professor. Acredita-se que despertar o interesse dos alunos pelo currículo do seu curso, os esclarecerá sobre a 16 necessidade de, enquanto professores, promoverem críticas e reestruturações nos currículos dos cursos nos quais lecionam (ou lecionarão). Mais especificamente, valorizar o papel do discente no currículo mostra-se como um modo de colaborar com um currículo em constante (re)elaboração, o qual seja pautado em propostas interdisciplinares, construído através de processos dialógicos e ancorado no dia-adia da escola básica, bem como nas intempéries dos ambientes de ensino e na busca de soluções para problemas que insurgem dos processos de ensino e aprendizagem. Por isso, intenciona-se também que este estudo alimente a próxima reforma curricular do curso de Teatro-licenciatura do Instituto de Cultura e Arte (ICA) da Universidade Federal do Ceará (UFC) – a qual já está sendo aventada pelo seu colegiado – e desperte ações voltadas para que as discussões não fiquem circunscritas ao corpo docente. Aquilo que é considerado uma problemática e um desafio para as teorias e práticas curriculares e que se reflete no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Universidade Federal do Ceará, no âmbito das metodologias de ensino-aprendizagem: “[...] estimular a mudança, inovação curricular e reformulação dos projetos pedagógicos dos cursos de graduação”. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2013, p. 90); pode ser impulsionado a partir da compreensão de que o envolvimento dos estudantes na (re)construção de seus currículos é condição sine qua non (e uma estratégia de ação) para atribuir ao currículo sentidos que, uma vez advindos das experiências dos sujeitos, serão capazes de torná-los protagonistas de seus processos de aprendizagem. Para este estudo, portanto, investiu-se em prover uma interpretação do currículo, enquanto prática social, com vistas em acessar os sentidos que os sujeitos atribuem às ações pedagógicas, através de suas experiências. O conceito de currículo nesta tese, bem como sua análise, é construído em dialogicidade com os discentes porque se entende que os sentidos que emergem das interpretações destes sujeitos são fundamentais para buscar estratégias capazes de colaborar para transpor uma noção de currículo enquanto prática e modo estabelecido e idealizadoapenas por terceiros. Quanto ao protagonismo discente, nota-se que ele está diretamente relacionado à capacidade do aluno experienciar e, com isso, atribuir sentido ao seu percurso. Nesta direção, faz-se uso das palavras de Gadotti (2003, p. 16): “[...] o aluno precisa construir e reconstruir conhecimento a partir do que faz. Para isso o professor também precisa ser curioso, buscar sentido para o que faz e apontar novos sentidos para o que fazer dos seus alunos.” 17 Foca-se, portanto, em perscrutar os sentidos que os sujeitos investigados nesta pesquisa atribuem ao seu currículo. Para tanto, toma-se como base o seguinte pressuposto: “[…] não é possível responder o que é currículo? apontando para algo que lhe é intrinsecamente característico, mas apenas para acordos sobre os sentidos de tal termo, sempre parciais e localizados historicamente.” (LOPES; MACEDO, 2011, p. 19) Quando se fala em sentido, está-se diante da inegabilidade da interpretação e, portanto, do intérprete. O intérprete1, por sua vez, é um indivíduo contextual, sócio, histórico e cronologicamente situado. Assim, é seu, e de direito, que carregue elementos socioculturais, biológicos e psicológicos, para as suas respostas, suas interpretações, suas construções de sentidos. Sobre os sentidos, Eco (2012, p.48) diz que: [...] um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação (e consequentemente, de seu referente intencionado), flutua (por assim dizer) no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis. Por analogia, propõe-se forjar uma compreensão de currículo aproximando-o de um texto dramático, ou seja, subordinado aos seus leitores, dentro de um rol de interpretações possíveis. Isto é, o Projeto Pedagógico do Curso (PPC), entendido como o currículo enquanto documento prescritivo e comparado a uma obra dramática, é potencialmente gerador de sentidos àqueles que o colocam em ação. O currículo, portanto, contempla também as ações (e reações) provocadas por estes entendimentos (interpretações) gerados a partir do texto. Assim como um texto, o currículo também está ligado a um contexto, que é colocado de antemão, no qual se inserem seus autores. Ainda dentro desta comparação, torna-se possível observar que, assim como um texto dramático à primeira vista pode ser entendido apenas como a junção das falas das personagens e das rubricas, a ideia de currículo pode denotar um sentido apenas de organização de conteúdos. De fato, parece que este é o senso comum2 sobre currículo. 1 2 A palavra intérprete está no singular apenas por estilo de escrita. Nota-se, portanto, que durante a pesquisa foram realizadas diversas entrevistas e, portanto, fala-se de diferentes intérpretes e interpretações de um mesmo Conjunto de opiniões e modos de sentir que, por serem impostos pela tradição aos indivíduos de uma determinada época, local ou grupo social, são geralmente aceitos de modo acrítico como verdades e comportamentos próprios da natureza humana. (FERREIRA, 2009, p. 1829) 18 Diante do exposto, vale esclarecer que esta analogia é um mote de aproximação entre os estudos curriculares e os interessados em Teatro. Isto porque, para mergulhar no currículo deste curso, necessário se fez enveredar pelas linhas duras (SANTANA, 2010) das teorias da educação, dentre elas as teorias do currículo. Estas teorias, por sua vez, são distantes dos estudiosos do Teatro e, portanto, é fato que são raros os estudos de currículo que concernem à formação de profissionais de Teatro, seja no bacharelado ou na licenciatura. Sendo assim, em uma perspectiva interdisciplinar, a Educação, o Teatro e a Filosofia, enquanto campos de conhecimento, se complementam para responder a questões que tangem um currículo de formação de professores de Teatro. Para alcançar tal intento, o enredo, as situações dramáticas, as peripécias3 desta tese giram em torno do exercício do artistapesquisador-docente4, associando-o criticamente aos percursos formativos preconizados pelo currículo deste referido curso. Assim, sequencialmente os capítulos se organizam da seguinte maneira: explora-se conceitos como experiência, sentido e percurso formativo; busca-se uma compreensão sobre currículo comparando-o ao Teatro; aborda-se a história da criação e implementação do curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC; coloca-se em análise o seu Projeto Pedagógico; verifica-se o perfil do discente deste curso; e, por fim, traz-se as experiências vivenciadas pelos discentes, sujeitos desta pesquisa, para discutir o perfil do egresso do curso: o artista-pesquisadordocente. A tese, portanto, gira em torno da visão dos discentes deste curso sobre modos de compreender os atributos do artista-pesquisador-docente, bem como sobre possibilidades de atuação deste profissional. Por isso, os sujeitos desta pesquisa foram selecionados porque, de alguma forma, já puderam enfrentar o mercado de trabalho no ensino formal e/ou não-formal, através de suas experiências com o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência da subárea Teatro (Pibid-Teatro)5 e/ou com as atividades curriculares de Estágio Supervisionado. 3“A peripécia situa-se no momento em que o destino do herói dá uma virada inesperada. Segundo Aristóteles, é a passagem da felicidade para a infelicidade ou o contrário.” (PAVIS, 2005, p. 285) 4 Perfil do egresso do Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC. 5 O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) é um programa do Governo Federal que vem ao encontro de melhorias destas condições. Visa o aperfeiçoamento de professores e a valorização da carreira docente. “Incentivar a formação de professores em nível superior; contribuir para a valorização do magistério; elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura[…]”; (BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2010) estão entre seus principais objetivos. 19 Metodologicamente, a pesquisa se processou com base em entrevistas semidiretivas, questionários e grupos focais. Esclarece-se, portanto que se utilizou da entrevista em dois momentos da pesquisa. No primeiro momento objetivou-se levantar aspectos que fizeram parte da historia da criação deste curso. Entremeios e peripécias desta história não estão registradas em documentos e só poderiam ser levantados através de conversas com seus partícipes. No segundo momento, as entrevistas semidiretivas foram utilizadas para nortear a pesquisa junto aos discentes. Utilizou-se, também, de dados coletados através de questionários, cartas, resumos, projetos de cenas e relatórios construídos por eles em diversas etapas de suas formações. Os dados foram comparados com os resultados da pesquisa realizada por Santana (2000) e analisados segundos a perspectiva de Bardin (2009). Assim, através destas abordagens metodológicas, intenciona-se responder à seguinte questão: como os discentes relacionam a proposta curricular deste curso aos sentidos que, através de suas experiências, atribuem ao perfil do egresso, o artista-pesquisador-docente? Organiza-se, a seguir, uma prévia dos capítulos e procura-se entender melhor os procedimentos metodológicos utilizados na busca de cada um dos objetivos e da resposta para a pergunta da pesquisa. Um currículo para a experiência intitula o segundo capítulo, o qual busca esclarecer a expressão percurso formativo estabelecendo uma relação entre experiência e sentido. Para tanto, adota-se como principal referencial teórico os escritos sobre a experiência do filósofo Jorge Larossa Bondia. Contribuindo para uma revisão teórica do tema, traz-se os autores da área da educação Henry Giroux e Paulo Freire, bem como a teatróloga Viola Spolin. Buscase, também, situar a entrevista como um modode narrativa, justificando o uso deste procedimento metodológico na reconstituição das experiências e, portanto, espaço propício para (re)construção de identidades. O terceiro capítulo, O currículo é como o Teatro, busca construir um sentido de currículo traçando comparações entre ele e o Teatro. A intenção é compreender o currículo inserido no horizonte de expectativas dos interessados em Teatro. Pode-se ainda dizer que se procura, através destas analogias, compartilhar melhor os resultados desta pesquisa com aqueles para quem e com quem esta tese foi construída. Com este intento, retoma-se outras abordagens que, ao longo dos estudos curriculares, utilizaram-se do Teatro para compreender o currículo. Em seguida, apoia-se, principalmente no Teatro do Oprimido (TO) de Augusto Boal para a aprofundar possíveis comparações entre 20 Teatro e currículo. Por fim, estabelece-se esta analogia tomando a ação, o ator, o espectador e o texto como elementos do Teatro e também do currículo. Já o quarto capítulo, intitulado Análises e Contextos, reúne inferências sobre as análises documentais e os resultados alcançados no primeiro momento de utilização das entrevistas semidiretivas. O objetivo é remontar a história deste curso desde sua criação até a sua primeira reforma curricular. Para tanto, aborda-se as transformações ocorridas nesta proposta pedagógica durante os primeiros anos de sua implementação, as quais geraram a integralização curricular 2012.1, hoje em vigor. Assim, é possível observar que o grupo de professores precursores do curso, responsáveis pela elaboração do Projeto Pedagógico do Curso (2010.1), possui uma formação heterogênea. Consequentemente, as regiões epistemológicas onde cada um se constitui enquanto pertencimento teórico são diferentes e, também por isso, foram vigorosas as dificuldades de se estabelecer uma proposta curricular quando do embate entre múltiplos campos de saberes. Portanto, todo o embate gerado para a criação do curso, bem com nos primeiros anos de sua implementação, não é o ponto nevrálgico desta investigação. Isto porque o foco não recai em reconhecer este currículo como uma obra autoral, nestes casos, cada qual assume o lugar da crítica e defende-se com justificativas do porque daquele currículo não contemplar os seus interesses. Permanece, portanto, evidente que o foco desta pesquisa é o que se pode considerar como: currículo com quem. Ou seja, o perscrutar de um currículo através da compreensão de quem o afeta e é afetado por ele. A perspectiva, em primazia, é da aprendizagem visando um processo de educação construído pelos sujeitos através de sua ação no e através do currículo. É salutar esclarecer, ainda, que esta abordagem e a análise dos documentos prescritivos6 pretende ancorar historicamente a pesquisa e dar voz a um acervo vivo que refletiu os anseios e desejos de um grupo de entusiastas da Arte e da educação, bem como ação da UFC em abarcar as graduações em Arte7 no rol de suas licenciaturas e bacharelados. 6 O Projeto Pedagógico do Curso de Teatro-licenciatura/UFC é compreendido como documento prescritivo do currículo. Por isso, o PPC é analisado levando em consideração todos os seus aditivos e anexos. 7 A Universidade Federal do Ceará, criada em 1954, veio implementar o ensino superior em Arte com a criação do Curso de Educação Musical (hoje denominado Música-licenciatura) em 2005, em seguia do Curso de Artes Cênicas (atualmente Teatro-licenciatura) e o Curso de Cinema e Audiovisual em 2010, e por último, em 2011, os Cursos de licenciatura e bacharelado em Dança. 21 Há casos em que o autor ainda está vivo, os críticos fizeram suas interpretações do texto e pode ser interessante perguntar ao autor o quanto e em que medida ele, enquanto pessoa empírica, tinha consciência das múltiplas interpretações que seu texto comportava. A esta altura, a resposta do autor não deve ser usada para validar as interpretações de seu texto, mas para mostrar as discrepâncias entre a intenção do autor e a intenção do texto. O objetivo do experimento não é crítico, e sim teórico. (ECO, 2012, p. 86) Portanto, dedica-se o quarto capítulo ao processo de construção, implementação e primeiras transformações ocorridas no âmbito do currículo do Curso de Licenciatura em Teatro ICA/UFC, bem como suas relações com a legislação vigente. A investigação histórica que nele se inscreve foi metodologicamente pautada, também, na análise dos documentos prescritivos8 que embasam o Projeto Pedagógico do Curso: resoluções, pareceres e diretrizes; e entrevistas sobre seu processo de implementação. Para finalizá-lo, analisa-se a integralização curricular 2012.2, buscando descrever a relação das disciplinas, suas alocações nos semestres, as propostas de interdisciplinaridade, as atividades nele imbricadas, dentre outros elementos que o tangem. Esse capítulo é como uma dissecação que objetiva dar a conhecer com mais clareza a proposta pedagógica da qual esta tese trata. Ainda como parte dos procedimentos metodológicos, foram aplicados dois tipos de questionários, dirigidos a três grupos diferentes. O primeiro questionário foi aplicado aos visitantes do stand do curso de Teatro-licenciatura na Feira nas Profissões da UFC9 durante quatro anos consecutivos (2010 à 2013). As perguntas objetivavam saber o que os alunos do ensino médio, que visitavam a feira, entendiam por Teatro, por que se interessavam em visitar o stand do curso, por que se interessavam pelo curso. Este questionário abria e ao mesmo tempo fechava um ciclo investigações. Isto porque, de forma mais abrangente, buscava dar a conhecer o público potencialmente candidato a uma vaga no Curso de Teatro (início de ciclo) e, da mesma forma, o futuro aluno (fim de ciclo) do professor que estávamos formando em nosso curso. 8 9 A relação dos documentos consultados para a construção desta tese encontra-se nas referências bibliográficas. “A Feira das Profissões é uma ferramenta da Universidade Federal do Ceará (UFC) que auxilia os estudantes do ensino médio na sua escolha profissional. As informações que são prestadas a esses estudantes ajudam no esclarecimento de suas dúvidas, permitindo uma opção mais consciente de qual profissão seguir. Nesse processo devem, ainda, pesar as aptidões e interesses pessoais, além do aconselhamento que venha a ser dado por familiares, educadores, psicólogos e orientadores.” Disponível em :<http://www.prograd.ufc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=326:v-feira-das-profissoes-daufc-2013-2526-e-27-de-setembro-de-2013&catid=1:latest-news&Itemid=50>. Acesso em: 23 out. 2013. 22 Um segundo questionário foi aplicado de forma aleatória10 a um percentual de discentes do curso e buscava conhecer alguns dados importantes, a saber: como e onde pretendiam exercer a profissão; se tinham feito Teatro-licenciatura como primeira opção; quais conteúdos gostariam de ter no curso e que este não contempla; entre outros. Este questionário foi aplicado para compreender quem são os discentes do curso, como e o que eles entendem sobre seu currículo. Os resultados encontram-se registrados, principalmente no quinto capítulo, O corpo discente e suas relações com o percurso. Os resultados destes questionários, portanto, não pretendem ser generalizados ou transportados para outros casos. A legitimidade das visões destes sujeitos é dada por sua relação com o tempo e o espaço, uma vez que estes grupos estão sendo protagonistas de seus percursos formativos e tiveram a oportunidade de analisá-los enquanto o percorriam. Por isso, este capítulo visa perscrutar o perfil dos discentes deste curso de graduação em questão. Retomando a entrevista semidiretiva, explica-se que, em um segundo momento, ela foi utilizada para auxiliar na condução de uma conversa com os alunos pertencentes ao grupo da intercessão. Este grupo foi formado pelos alunos que foram (ou ainda eram) bolsistas do Pibid-Teatro (2011-2013) e, também, estavam matriculados na atividade de Estágio Supervisionado IV (2013.2). Os seja, todos deste grupo da intercessão, cada qual em um momento distinto, participaram das entrevistas semidiretivas. O grupo focal, portanto, foi utilizado como método de entrevista junto ao grupo dos alunos de Estágio Supervisionado IV, bem como ao grupo dos alunos do Pibid-Teatro. As perguntas que nortearam as conversas com estes grupos focais emergiram das entrevistas realizadas previamente com os alunos pertencentes ao grupo da intercessão. Já o sexto capítulo, O artista-pesquisador-docente e a questão da pesquisa, inicialmente é dedicado à análise desta categoria através da literatura especializada. A categoria artista-docente (MARQUES, 2010), mais comum às áreas que compõem a educação em Arte, traz em si dois significados: pode-se entender o artista que também é docente, ou seja, docente na escola e artista fora dela ou, por outro lado, como o docente que se utiliza de suas afinidades e habilidades artísticas para construir estratégias metodológicas para o ensino de Arte, compartilhando com os alunos experiências estéticas e, com isso, pode 10 Esta foi uma amostragem aleatória simples porque todos os sujeitos (discentes) tinham igual probabilidade de serem escolhidos para a amostra. Neste caso, o questionário foi aplicado ao final de uma reunião para a qual todos os discentes do curso foram convocados. Portanto, todos os discentes presentes que se mostraram dispostos responderam ao questionário. No capítulo 05, esclarece-se melhor este processo. 23 se realizar artisticamente dentro ou fora da escola. Esta questão está presente nas preocupações dos discentes do curso, conforme revela a seguinte fala: “Não dá para se fechar artisticamente para dar aula na escola.” (SP11) Da mesma forma, a categoria de pesquisador vem acrescentar uma configuração que agrega as pontas do sistema produtivo em Arte. Deste modo, o artista mantém a escola em contato com as produções teatrais, não alijando os conteúdos abordados pelos sistemas e métodos de ensino e codificados em livros os quais tendem a esvaziar-se se não forem (re)significados. O pesquisador que se alimenta das práticas artísticas e docentes contribui significativamente em ambas as áreas, retroalimentando-as. O capítulo discute, portanto, formas de intercambiar os termos deste trinômio. Ao fim do capítulo, aborda-se através da análises das entrevistas, os sentidos que os discentes atribuem ao artista-pesquisador-docente. A guisa de conclusão confronta-se as relações que os grupos pesquisados estabelecem com a proposta curricular deste curso através dos sentidos que atribuem ao perfil do egresso do curso. Com isso, busca-se responder à questão inicial reunindo os dados anteriormente apresentados para construir o sentido primordial da tese: pensar um currículo com e não para os discentes. A tese pretende discutir os temas através de uma abordagem local a qual pode ser transportada a outros contextos e realidades contemporâneas. O objeto de estudo tratado de forma particularizada reporta-se a uma preocupação comum a diversos cursos de licenciatura em Teatro: a preocupação com os percursos formativos dos futuros professores de Teatro. Pretende-se, também, que esse trabalho oportunize o curso de Teatro-licenciatura/UFC a entender seus problemas, no âmbito curricular, e a partir daí possa levantar alternativas que venham de encontro às suas necessidades. Sendo esta tese proveniente de uma pesquisa de doutorado realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, por uma docente do curso de Teatrolicenciatura/UFC, pode-se considerar que se faz aqui, também, uma oportunidade da Universidade rever a si mesma. Como pesquisadora e participante dos processos de transformação curricular do referido curso, legitima-se o objeto circunscrito, mesmo porque se realiza comparações críticas com outras propostas pedagógicas de cursos de Teatro, através do resultado da 11 Vide nota de rodapé 24. 24 pesquisa realizada pelo prof. Arão Paranaguá Santana12, bem como se respalda teoricamente a pesquisa, trazendo outros autores para a discussão dos temas propostos. No atual contexto, pensar num currículo em movimento é especializar os professores, agregar experiências diversas, dialogar com outros saberes para não compartimentar demasiadamente os conhecimentos, mas conjugá-los de maneira a pensar as especificidades das linguagens artísticas relacionando-as com a condição humana e com os desafios de nossa época. Assim, a pesquisa procura, também, suscitar mais questionamentos que possam colaborar teórica e praticamente no sentido de clarificar modos de se posicionar diante das novas gerações que estarão se formando. 12 Pesquisa desenvolvida em âmbito de doutorado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), intitulada Formação de professores: origens dos cursos, situação atual e perspectivas de estruturação, posteriormente publicada em livro como Teatro e Formação de Professores. (SANTANA, 2000) 25 2 UM CURRÍCULO PARA A EXPERIÊNCIA Currículo é uma conversa complicada de cada indivíduo com o mundo e consigo mesmo. (LOPES; MACEDO, 2011, p. 35) A epígrafe inaugura o pensamento principal que embasa a escrita deste capítulo: a noção de currículo, mesmo que ancorada em uma ou outra teoria, pertence a cada indivíduo porque o currículo se processa em cada um de maneira particular. A questão que justifica esse aporte é o sentido atribuído por cada indivíduo às suas experiências de ensino e aprendizagem e tal questão, por sua vez, é ponto estruturante das teorias críticas.13 Portanto, as teorias críticas do currículo embasam os princípios que nortearam esta pesquisa e a escrita desta tese. Uma vez que a experiência é pessoal e subjetiva, os sentidos, gerados pelos sujeitos das experiências levam em consideração os processos individuais de construção de conhecimento. Mesmo que estes processos sejam deflagrados por propostas curriculares, é o discente que os vivenciará e lhe atribuirá sentidos através das suas experiências.14 Logo, Um currículo para a experiência é um capítulo que pretende situar as diferenças existentes entre significado e sentido, bem como a importância da experiência nas e para as propostas curriculares em Teatro. O capítulo finaliza abordando as metodologias adotadas nesta pesquisa enquanto modos de narrar, bem como estabelecendo relações entre os conceitos de identidade e narrativa e suas implicações na reconstrução da experiência. Na busca de tal intento, optou-se por utilizar como fundamentos, escritos de teóricos do Teatro, da Educação e da Filosofia. Esclarecer os limites e as imbricações destes conceitos é fundamental para compreender o porquê da escolha de diversas questões que perpassam esta tese. “A pedagogia crítica surgiu de uma necessidade de se dar nome à contradição entre o que as escolas dizem fazer e o que elas realmente fazem. Esta posição tem pontos fortes e fracos.” (GIROUX, 1999, p. 177) 14 Como se procura entender o currículo para além da integralização curricular, chamar-se-á de percurso toda proposta curricular (proposta pedagógica) que foi, de fato, percorrida pelo discente, evitando utilizar a palavra currículo como sinônimo tanto desta proposta pedagógica, como daquela que foi integralizada pelo discente. 13 26 2.1 PERCURSO FORMATIVO: EXPERIÊNCIAS E SENTIDOS Para iniciar esta abordagem, necessário se faz esclarecer que o significado é expressamente de ordem denotativa; já o sentido pertence à ordem do pessoal. Segundo Abbagnano (2007), para a filosofia moderna o sentido é frequentemente chamado de sentido interno ou reflexão. Neste contexto, sentido é, segundo a tradição filosófica, “[...] tanto a capacidade de receber sensações quanto a consciência que se tem das sensações e, em geral, das próprias ações [...]”. (ABBAGNANO, 2007, p. 1039) O significado é da ordem do comum, do habitual. Denotar segundo o dicionário Aurélio é “significar, exprimir, simbolizar.”15 (FERREIRA, 2009, p. 618) A questão do sentido e do significado também ocupa lugar de destaque nos pensamentos de educadores como Henry Giroux e Paulo Freire. A educação, neste caso, deve privilegiar que o discente construa significados. “Devemos nos preocupar com a maneira pela qual os alunos realmente constroem significados, quais são as categorias do significado e que ideologias os estudantes trazem para seus encontros conosco.” (GIROUX, 1999, p. 180) Nesta acepção, a palavra significado está sendo usada como sinônimo de sentido, entendimento do senso comum. Percebe-se, portanto, que Giroux trata de construção, de processo de interação, ou seja, de algo pessoal e subjetivo que se aproxima do que aqui foi descrito como sentido. Observa-se nas teorias de Vygotsky (2001), por exemplo, que o conceito de sentido aparece como ponto fundamental da sua investigação sobre a relação entre pensamento e linguagem. A questão recai, novamente, no pressuposto de que o sentido sempre é construído em uma concepção particular, contextualizada histórica e culturalmente. O sentido de uma palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma destas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme, exata. (VYGOTSKY, 2001, p. 465) Deste modo, ressalta-se que pensar sobre os sentidos atribuídos pelos sujeitos ao seu percurso é o ponto estruturante desta tese. Investigar um currículo construído com os 15 O símbolo, por sua vez, se constitui pela força da convenção, ou seja, é compreendido por todos os pares, dentro de um mesmo contexto, da mesma forma. 27 discentes é, portanto, investigar os diversos sentidos que emergem da relação entre o sujeito da experiência e o seu percurso. “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca.” (LARROSA, 2002, p. 21) Ainda segundo o autor, a experiência é sempre de alguém, é subjetiva, reflexiva e transformadora. O sujeito da experiência é um sujeito aberto à sua própria transformação, sensível, vulnerável, exposto. Este sujeito não é um sujeito da passividade, é um agente receptivo e ativo. Experiência é da ordem do pertencimento, ou seja, cada indivíduo reconhece a sua, ao mesmo tempo, tal condição de pessoalidade não determina que ele aprenda sozinho. Diante de tal pressuposto, Larrosa (2002) coloca como ponto fundamental o fato de que é necessário compreender que aprendemos colocando a nossa experiência em relação à experiência dos demais. Aqui está o ponto fundamental de ligação entre a educação e a experiência: o sujeito que já passou pela experiência ajuda o outro a elaborar a sua. Portanto, quando se organiza uma proposta curricular, pensa-se em como organizar as possíveis experiências dos sujeitos que virão. Esta questão torna-se fundamental, pois construir Projetos Pedagógicos demanda reconhecer que estes somente podem se realizar em plenitude, buscando sua verdadeira eficácia, a partir da experiência de cada sujeito nele envolvido. Desvendar diversos sentidos atribuídos pelos discentes aos seus percursos pode revelar questões que não foram vislumbradas pelo corpo docente quando da elaboração da proposta; e, assim, oferecer balizares para novas propostas pedagógicas. Segundo Passos (2007, p. 27-32), [...] se os sujeitos envolvidos não perceberem o sentido e não acreditarem na proposta, os passos seguintes serão inviabilizados. Com isso, o corpo docente, e em certa medida o discente, reflete sobre o PPC a partir do instante que elabora discursos sobre o perfil do profissional a ser formado; os princípios e valores que nortearão as ações do curso; as condições necessárias para a efetivação da proposta. Nesse caso, perceber os sentidos que os discentes atribuem à proposta pedagógica, torna-se tão importante para viabilizá-la quanto perceber os sentidos atribuídos pelos docentes. 28 Desta forma, pode-se visualizar com clareza a responsabilidade do educador com as experiências dos educandos, uma vez que a experiência só se passa uma vez, é única. A experiência, portanto, tem valor fundamental nos processos de ensino e aprendizagem. Para os autores da matriz das teorias críticas, os docentes devem ser ativos em seus processos educacionais, discutindo-os e os analisando, pois somente deste modo pode-se implementar uma atitude crítica diante da responsabilidade consciente de serem atuantes e responsáveis por tais processos. É possível observar na citação abaixo, como a experiência possui singular importância para a pedagogia: Giroux sabe muito bem que estar no mundo e com o mundo significa exatamente experienciar continuamente a dialética entre subjetividade e objetividade. Ele também sabe que uma das coisas mais difíceis é viver no mundo sem cair na tentação, seja de sobrestimar a subjetividade em detrimento da objetividade, seja de sobrestimar a última em favor da primeira. Sua paixão e a minha própria não é nem o idealismo subjetivista nem o objetivismo mecanicista, mas uma imersão crítica na história. Essa é a razão de ser da pedagogia que ele propõe. (FREIRE, 1986, p. 10) Do mesmo modo, pensar um currículo em Teatro pressupõe entender a experiência como aquilo que faz parte do repertório adquirido pelo sujeito. Por isso, a teatróloga Spolin16 (2008) reforça que o substantivo experiência precisa ser revestido de um caráter verbal. Neste caso, a experiência se torna ação, ou seja, fala-se de um sujeito que é capaz de experienciar. Para a autora, experienciar é parte fundamental do trabalho de quem manipula a matéria cênica, teatral, e condição para o trabalho com a improvisação.17 Portanto, em Teatro, faz-se necessário buscar propostas curriculares que valorizem o lugar da experiência como condição primaz para que, de fato, o discente seja ator de seu percurso formativo. Contudo, após tais embasamentos, uma pergunta insiste em permanecer: o que se entende por percurso formativo? Qual a sua relação com o sentido e a experiência? Percurso é o espaço percorrido, o caminho. Formativo é um adjetivo que qualifica o sujeito que dá forma. Ou seja, um percurso, preconizado por uma proposta curricular, será o espaço que um 16 17 Viola Spolin (1906-1994) foi autora e diretora de Teatro norte Americana. Sistematizou uma metodologia de trabalho através dos jogos dramáticos e teatrais visando, especialmente, o improviso. Improvisação é uma “técnica do trabalho do ator que interpreta algo imprevisto, não preparado antecipadamente e ‘inventado’ no calor da ação.” (PAVIS, 2005, p. 205) O mesmo autor faz as seguintes distinções quanto ao uso da improvisação no Teatro: a- como instrumento para a construção de um espetáculo; b- como instrumento para a formação do ator; c- como espetáculo. 29 sujeito percorre, o qual dá forma ao seu perfil profissional, o perfil do egresso. Portanto, o percurso estará intrinsecamente relacionado à compreensão de currículo. É válido ressaltar que proposta pedagógica (proposta curricular) não é o mesmo que percurso. Proposta pedagógica é tudo o que está colocado no Projeto Pedagógico ou mesmo aquilo que estando fora dele se efetiva como possibilidade de formação para o aluno. Contudo, de modo mais ou menos incisivo, o discente pode fazer escolhas, como por exemplo: disciplinas optativas e eletivas18, atividades complementares, faltar ou participar de determinada atividade. Portanto, o percurso será o caminho, de fato, percorrido pelo discente. A partir deste entendimento, busca-se perscrutar o sentido que o discente pode atribuir ao seu percurso através de suas experiências. Os percursos formativos são gerados em uma zona de entrelaçamento entre as experiências dos sujeitos e seus percursos. Ou seja, o que confere o adjetivo de formativo ao percurso é o sentido que cada sujeito o atribui através das experiências que teve quando percorreu o caminho. A relação entre o percurso e a experiência, de fato, é o que se pode considerar como percurso formativo. Importante salientar, ainda, que “[...] experienciar um currículo não é chegar a um determinado destino, mas ter viajado com uma visão diferente. É na jornada e em suas experiências que um currículo é realizado, não no ato de descer do trem.” (MCKERNAN, 2009, p. 35) 2.2 O SUJEITO, O LUGAR E O TEMPO DA EXPERIÊNCIA NO CURRÍCULO Larrosa (2002) propõe pensar a educação através do par experiência/sentido. Para tanto, nesta subdivisão, intenta-se seguir com a reflexão sobre a relação entre currículo e experiência, especificamente no que tange ao ensino do Teatro. A partir dos originais de Jorge Larrosa, foram selecionados quatro pontos que estruturam tal reflexão, são eles: 1) O sujeito da experiência; 2) O par informação/opinião; 3) A falta de tempo; 4) O excesso de trabalho. 18 As disciplinas eletivas, também chamadas de disciplinas livres, podem ser cursadas pelo aluno em qualquer curso de graduação da UFC, desde que seja devidamente aceito pelo departamento ou curso ao qual pertence a disciplina que deseja integralizar 30 2.2.1 O sujeito da experiência Um currículo para a experiência deveria pensar em formar sujeitos da experiência. (LAROSSA, 2002) Isto porque quando se supõe que a função do currículo é organizar a experiência do sujeito, pode se supor, também, que o sujeito ingressante no curso já seja dotado da capacidade de experienciar. Seria mais desafiador, portanto, pensar que o currículo de um curso de Teatro poderia vir a ser um lugar onde se forma o sujeito da experiência, ou seja, se propicia ao sujeito a possibilidade de aprender a experienciar. Deste modo, acredita-se que experienciar se aprende, ou seja, seria uma faculdade adquirida e não inata. No caso do currículo, fala-se de experienciar acontecimentos que se passam no percurso de um sujeito e, por conta da experiência, tornam formativo esse percurso. O currículo consegue, em certa medida, garantir que o discente percorra um caminho. Mas, talvez seja maior e mais importante o desafio de formar esses sujeitos que irão percorrer o caminho, ou seja, prepará-los para o caminho e não somente organizar o caminho. Solidifica-se este pensamento quando se retoma a importância da experiência para quem manipula a matéria cênica (SPOLIN, 2008); ou mesmo a experiência como condição para se estar no mundo, para viver um sentido de pedagogia, qual seja, uma imersão crítica na história. (FREIRE, 2008) Portanto, se o sujeito não sabe, ou não aprende a experienciar, deveria ser questionada a validade do caminho. Para tanto, seria necessário pensar quem vem a ser o sujeito da experiência. É possível enumerar, segundo Larrosa (2002), certas características que são inerentes a um sujeito da experiência. Este sujeito seria algo como: um território de passagem; uma superfície sensível; um ponto de chegada; um espaço onde tem lugar os acontecimentos; um ser passivo, receptivo, disponível e aberto; um sujeito ex-posto.19 O sujeito da experiência, portanto, não é algo concreto, palpável pela objetividade. Torna-se ainda mais complexa a questão quando se pensa que um mesmo sujeito não é sempre um sujeito da experiência. Logo, organizar conteúdos visando habilidades a serem trabalhadas e competências a serem adquiridas, não garante formar um sujeito da experiência. 19 “O sujeito da experiência é um sujeito ‘ex-posto’. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a ‘o-posição’ (nossa maneira de opormos), nem a ‘im-posição’ (nossa maneira de impormos), nem a ‘pro-posição’ (nossa maneira de propormos), mas a ‘ex-posição’, nossa maneira de ‘ex-pormos’, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se ‘ex-põe’. É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre.” (LARROSA, 2002, p. 25) 31 2.2.2 O par informação/opinião Quando um grupo de pessoas, devidamente competentes, se reúne para organizar uma proposta curricular, fatalmente irá se deparar com a necessidade de escolher, dentre uma gama de conteúdos, aqueles com os quais os alunos deverão travar contato. Assim, tal grupo questiona-se sobre quais conteúdos seriam mais importantes e quais critérios validariam tais escolhas. Escolher quais conteúdos devem ocupar a carga-horária curricular é uma tarefa complexa que demanda profundas reflexões e discussões entre os pares. Corre-se, portanto, o risco de se organizar currículos inchados. Currículos nos quais se prioriza uma grande quantidade de conteúdos em detrimento aos espaços previstos para que o discente possa efetivamente se apropriar deles. Um currículo que, por estar muito cheio de conteúdos, acabe por determinar que os professores ministrem aulas de maneira econômica, sem profundidade, se enquadra no que foi designado como um currículo inchado, um currículo de informação. [...] a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades de experiência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça. (LARROSA, 2002, p. 22) A informação, por sua vez, não é conhecimento. Ao menos não o conhecimento que se constrói pela experiência. A informação possui uma natureza passageira, se multiplica a cada momento. Se ser bem informado fosse sinônimo de ter conhecimento, bastaria ao sujeito ter boa memória. Chama-se de conhecimento o que Larrosa (2002) nomina de saber da experiência. Para o autor, o saber da experiência é diferente do conhecimento do senso comum. É um saber concreto ao indivíduo que o encarna, ou seja, ao sujeito da experiência. O saber da experiência é o sentido que se atribui ao que nos acontece, nos toca, nos passa. Ou seja, é da ordem do individual; já a informação, por sua vez, da ordem do coletivo. Portanto, a informação é possível para todos os sujeitos que tenham acesso a ela, mas o conhecimento (ou o saber da experiência) obrigatoriamente se vinculará ao sujeito da experiência. E qual o sujeito que se pretende como discente de um curso de Teatro senão o 32 sujeito da experiência? Assim, se o que é pretendido é o sujeito da experiência, dever-se-ia organizar um currículo que privilegiasse a possibilidade da construção do conhecimento, do saber da experiência, e não da transmissão da informação. Ressalta-se, por sua vez, que não se subjuga o valor e a necessidade da informação; importante, inclusive, para se elaborar a experiência. Nota-se que se afirma a importância de elaborar e agir no currículo privilegiando espaços (e tempo) para as experiências, ou seja, pensar em currículos que forjem sujeitos da experiência. A informação pode tomar o tempo da experiência ou colaborar para organizá-la. Por isso, é desafiadora a tarefa de elaborar o tempo das propostas curriculares pensando no que viria a ser um equilíbrio entre a informação e a experiência. Este equilíbrio, provavelmente inconstante e variável, (des)orgazina-se durante o percurso do discente, ao passo que com seu amadurecimento pessoal e acadêmico, ele deveria ser capaz, também, de encontrar uma interação ideal que resultasse em conhecimento. É válido ressaltar que não se entende experiência como sinônimo de prática. O par informação/experiência não está para o par teoria/prática. A informação pode se dar pela prática, bem como a experiência pela teoria. A experiência não é prática, mas a prática pode ser lugar da experiência. A diferença recai, portanto, no sentido conferido a algo que acontece ao sujeito através da experiência. A informação não privilegia o sentido. Para se obter informação não é necessário que ela faça sentido ao sujeito que a obtém. Quando, por sua vez, o sujeito se transforma por aquilo que passa, que acontece ou pela informação que obtém, isto é experiência. A informação, de certa forma, concede ao sujeito a condição de opinar. Esta afirmativa poderia causar um certo conflito porque “O par informação/opinião é muito geral e permeia também, por exemplo, nossa ideia de aprendizagem, inclusive do que os pedagogos e psicopedagogos chamam de ‘aprendizagem significativa’.” (LARROSA, 2002, p. 24) Contudo, a opinião do sujeito gerada meramente pela informação que ele obtém, não é própria. Para ser própria, uma opinião deve possuir a qualidade de uma informação da qual o sujeito se apropriou. Neste caso, esta apropriação advém da experiência, e, como já foi visto, ter informação não garante a experiência. Com isso, poderia se pensar que informação própria seria um paradoxo, bem como experiência própria uma redundância. A opinião significativa para a aprendizagem deveria ser, portanto, aquela é elaborada pela experiência do sujeito. É procedente questionar o excesso de opinião como contrário à 33 experiência porque para elaborar uma opinião, pela experiência, demanda-se tempo. A opinião, por sua vez, virá em excesso e esvaziada de sentido quando for elaborada somente pela informação, a qual se multiplica a cada segundo na nossa sociedade. Coloca-se em questão os processos de ensino e aprendizagem que tornam recorrente a necessidade do discente ter que opinar sobre a informação sem que lhe tenha sido oferecida a condição da experiência sobre ela. Com isso, acredita-se que essa sequência – informação/opinião – deva ser transformada na tríade informação/experiência/opinião, pois “[...] a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também, faz com que nada nos aconteça.” (LARROSA, 2002, p. 23) O autor sublinha que estas opiniões, geralmente, restringem-se a se colocar a favor ou contra a informação. Não raro pode-se recorrer a qualquer experiência de fruição para abordar a questão da opinião e observar que na condição de espectador, mais ou menos experimentado, opina-se sobre a obra. Ter/emitir opinião é quase uma condição para o espectador. Importante ressaltar, portanto, que a fruição de uma obra de arte está na ordem da experiência. Fruir é diferente de ver ou, simplesmente, observar. O fruir requer a experiência, portanto, a opinião do espectador fruidor, neste caso, não está na ordem da informação, mas da experiência. A opinião do fruidor parte do sujeito que se transforma em contato com a obra artística e atribui sentido a ela através da sua experiência. Contudo, nada garante que um sujeito, ao se deparar com uma obra artística, deflagrará um processo de fruição. Sendo assim, não é possível afirmar se uma opinião que parte de um espectador é da ordem da experiência ou da informação. Este limite entre a opinião da informação e a opinião da fruição (da experiência), no caso da Arte, sublinha a necessidade de se pensar o lugar da opinião do discente nos processos de ensino e aprendizagem. Não raro, o percurso prevê, como condição formativa para o discente de Teatro, que ele assista a espetáculos teatrais e/ou entre em contato como diferentes obras artísticas. A fruição é posta como condição para o sujeito aprendiz em Teatro. Portanto, deveria se pensar com cautela em uma aprendizagem significativa em Teatro, cuja opinião advém da experiência. Seria desafiador cuidar para que o currículo não forje sujeitos dotados de informações, opiniões e vazios de experiências. Elaborar um currículo para a experiência, ao contrário do que seria um currículo para a informação, seria pensar em privilegiar a formação de sujeitos sensíveis, receptivos, capazes 34 de conferir sentido à informação através da sua experiência. Poderia se pensar na pluralidade de conhecimentos e nas singularidades das experiências; não obstante isto seria trabalhar com um grau de incerteza no resultado, uma vez que o resultado da experiência não se pode antecipar. Estas questões pretendem ser fontes de reflexão para se pensar em propostas curriculares em Teatro. Respostas sobre como seriam estas propostas, seus desafios, entraves ou vicissitudes estão na ordem da experiência, na qual não se pode ter garantia de um resultado específico. Contudo, primordial se faz lembrar que, no campo do Teatro, não é possível falar em formação dissociado da experiência. 2.2.3 A falta de tempo A experiência necessita de tempo. Portanto, a falta de tempo da qual fala Larrosa (2002) é uma questão de escolha, de prioridades. Parece, portanto, que para se tornar sujeito da experiência é necessário privilegiar o tempo de modo diferente do que se nota comum aos sujeitos hodiernos. Isto porque “A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos.” (LARROSA, 2002, p. 22) A falta de tempo vem em decorrência da necessidade que o sujeito possui do estímulo, da excitação, de participar de alguma forma de tudo que lhe atravessa. Esta questão se torna cara ao se elaborar uma proposta curricular na perspectiva de abarcar tantas questões quantas possíveis em um curto período de tempo, em sucessivas abordagens quantitativas, sem privilegiar o tempo necessário do sujeito desacelerar para experienciar os acontecimentos. Neste sentido, a questão do tempo relaciona-se diretamente com a problemática dos currículos inchados. Nota-se que o tempo parece ser sempre insuficiente. Durante as entrevistas, os alunos, com recorrência, reclamavam da falta de tempo. As ausências em determinadas atividades, o trabalho entregue inacabado, a cena mal preparada no dia da apresentação, dentre tantas outras questões, eram quase sempre justificadas pela falta de tempo. Os discentes tocaram na questão do tempo, também, quando revisitaram a proposta curricular do curso e se questionaram sobre a possibilidade de mais tempo para determinadas 35 disciplinas ou atividades. Contudo, quando refletiam sobre o tempo de permanência no curso, contemporizavam sobre a necessidade de fazer escolhas e a certeza de que sempre privilegiar o tempo em determinadas disciplinas se daria em detrimento de outras. Um exemplo que é possível trazer para retratar a questão do tempo diz respeito a uma consulta feita com os alunos ingressos em 2010 e 2011, quando da reforma curricular. O colegiado convocou o corpo discente para discutir sobre as mudanças na proposta curricular e, dentre outras questões, explicou-se aos alunos que o currículo vigente – o qual possuía mais de três mil horas – não poderia ser integralizado20 em oito semestres. Isto porque as aulas eram previstas de segunda à sexta-feira, de dezoito às vinte e duas horas, conforme o PPC, o que estava sendo executado. Deste modo, somente poderiam ser contemplados 20 créditos por semestre, ou seja, 160 créditos ao final de oito semestres, que equivalem a 2560 horas. Assim, os discentes deveriam escolher entre três opções: a primeira seria iniciar as aula mais cedo; a segunda, ter aulas aos sábados, ambas propostas acrescentariam cinco horas-aula na semana (o mesmo que cinco créditos no semestre); a terceira, seria aumentar o tempo de formação de oito para nove semestres. A grande maioria optou por começar a aula mais cedo. Ou seja, aumentar o tempo de estada no curso de graduação ou investir os sábados não foram vistas como opções interessantes. Essa lógica faz parte da vida de um sujeito que acredita na possibilidade de uma formação acelerada, que tem necessidade e ansiedade pelo diploma e a inserção no mercado de trabalho. O tempo do qual necessita a experiência, portanto, não é somente um tempo que cabe de forma organizada em uma agenda. O tempo, neste caso, é também um tempo subjetivo, elastecido segundo as necessidades de cada sujeito da experiência. A experiência trata de tudo aquilo que nos acontece e os acontecimentos se sucedem a todo instante; desta forma, o sujeito da experiência é aquele que para o seu tempo para se deixar tocar pelos acontecimentos. Contudo, os sujeitos vivem um dilema, pois ao passo que a experiência precisa elastecer o tempo, se o sujeito se dedica a experienciar, outro acontecimento passa e, por estar ainda vinculado ao acontecimento anterior, ele não o consegue alcançar. Como “[...] o sujeito 20 A carga horária prevista para a formatura (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2009) é de mais de 3.000, ao passo que a carga horária mínima prevista pelo MEC para os cursos de licenciatura é de 2.800 horas. Contudo, a quantidade de horas aulas possíveis de serem integralizadas em um curso noturno que prevê aulas de segunda à sexta-feira em oito semestres é de 2.560 horas. 36 moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito.” (LARROSA, 2002, p. 23), torna-se difícil escolher parar e experienciar em detrimento de estar cada vez mais bem informado. Pensar a questão do tempo em um currículo de Teatro torna a questão ainda mais delicada porque, quando se trata desta arte, confere-se um lugar imprescindível para a experiência. Poderia se pensar, retomando a questão do percurso formativo, que cada sujeito se colocaria diante da formação quando se permite parar o seu tempo, mergulhar em um determinado acontecimento, fazer escolhas e determinar as prioridades, deixando-se tocar e elaborar sentidos. Portanto, a questão do tempo do currículo é cronológica, organizacional, mas também subjetiva e pessoal. Organizar uma proposta curricular não escapa de escolher quanto tempo deve ser dedicado à determinada atividade/disciplina. Ainda neste âmbito, o professor, quando organiza a sua aula, periodiza o tempo entre os conteúdos previstos para aquela disciplina/atividade. Nestes casos, o desafio recai na necessidade de se integralizar conteúdos pensando, também, em abrir brechas temporais que viriam a ser espaços propícios para a experiência. Redobra-se a atenção para esta questão porque estas brechas temporais não são cronológicas, mas subjetivas, mesmo estando previstas na estrutura curricular. A atenção aos espaços destinados à experiência seria uma espécie de princípio norteador da proposta curricular e, portanto, um desafio a ser enfrentado por docentes e discentes. Porém, quem irá constantemente decidir sobre as pausas e os momentos de elastecer o tempo será o discente. Ele irá escolher mergulhar mais a fundo em um determinado acontecimento/conteúdo, o que o faria talvez atribuir caráter de informação a outro. Nestes casos, retoma-se, inclusive, questões concernentes à avaliação. Realizar uma avaliação em um currículo para a experiência seria privilegiar os sentidos que os discentes atribuem ao seu percurso, ao contrário de buscar conferir aquilo lhe passa apenas como informação/opinião. 37 2.2.4 O excesso de trabalho O primeiro ponto discutido por Larrosa (2002) quanto à questão do excesso de trabalho diz respeito a tentar anular a dicotomia entre o currículo como lugar do conteúdo e o trabalho como o lugar da experiência. Entende-se que “[...] o trabalho, essa modalidade de relação com as pessoas, com as palavras e com as coisas que chamamos trabalho, é igualmente inimiga mortal da experiência.” (LARROSA, 2002, p. 24) Desta forma, questionase o trabalho como lugar da experiência, bem como as formas de quantificar as ditas experiências de trabalho em créditos para o currículo. Nota-se que trabalho possui uma relação com o fazer algo para alcançar determinado objetivo. Trabalho não está relacionado com emprego, podendo ser este um modo de trabalho, mas não o único. Entende-se o trabalho como “Atividade destinada a utilizar as coisas naturais ou modificar o ambiente para satisfação das necessidades humanas.” (ABBAGNANO, 2007, p. 1147) Por sua vez, poderia se pensar que ao elaborar propostas curriculares decide-se sobre o tipo, o tempo e o valor dos trabalhados que devem vir a ser desenvolvidos pelos discentes ao longo do curso. O trabalho no currículo aparece na forma de provas, trabalhos escritos, seminários, criação de cenas, estágios, resenhas, fruições, festivais, congressos, painéis, planos de aula/estágio, relatórios, projetos, portfólios, croquis, maquetes, entre tantas outras. Para o autor, a relação que o sujeito moderno estabelece com o trabalho está relacionado ao seu constante estado de ação, de movimento, bem como seu afã pelo fazer, pela necessidade de mudar as coisas. Este excesso de movimento, por sua vez, não nos possibilita parar, elastecer o tempo, ou seja, nos priva a possibilidade da experiência. Mesmo ciente desta noção ampliada de trabalho, intentar-se-á aprofundar esta questão, ressaltando duas atividades curriculares que se relacionam diretamente, e de certa forma sublinham, com a questão da dicotomia entre currículo e trabalho, são elas: as Atividades Complementares (AC) e o Estágio Supervisionado (ES). As atividades complementares, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do Curso de Graduação em Teatro (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2004), são 38 [...] componentes curriculares que possibilitam o reconhecimento, por avaliação, de habilidades, conhecimentos e competências do aluno, inclusive adquiridas fora do ambiente escolar, incluindo a prática de estudos e atividades independentes, opcionais, de interdisciplinaridade, especialmente nas relações com o mundo do trabalho e com as diferentes manifestações e expressões culturais e artísticas, com as inovações tecnológicas, incluindo ações de extensão junto à comunidade. Nota-se na resolução uma especial atenção dada para a relação entre as atividades complementares e o mundo do trabalho (DCN). Como se o mundo do trabalho não pertencesse à estrutura curricular e houvesse a necessidade de garantir, de alguma forma, um aproveitamento, através de créditos e horas, desta experiência do discente com o trabalho. Neste caso, o mundo do trabalho é o mundo da profissão, do mercado, é tomado com um conhecimento externo ao saber acadêmico e, portanto, a Diretriz frisa a necessidade e a importância de se estabelecer relações entre estes universos, o currículo e o mundo do trabalho e, ao mesmo tempo, acentua essa dicotomia quando reforça o mundo do trabalho como lugar de adquirir experiência. Uma vez estabelecida pela Resolução CNE/CP 2 (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2002c), o total de “duzentas horas para outras atividades acadêmico-científicoculturais”, Curso de Teatro-licenciatura do Instituto de Cultura e Arte da UFC organizou uma regulamentação a qual valida e quantifica as atividades complementares21. O curso entende que O leque de possibilidades de atividades complementares é amplo, na intenção de contemplar as iniciativas e interesses dos estudantes do Curso de Teatro-licenciatura, que em diálogo com ambientes artísticos, acadêmicos, educativos e culturais dentro e fora da universidade, redimensionam as relações de ensino e aprendizagem.22 Na regulamentação escrita pelo curso, são consideradas Atividades Complementares: Atividades de Iniciação à Docência, Pesquisa e Extensão; Atividades Artístico-Culturais e 21 Esta ação de regulamentar as Atividades Complementares é comum a todos os cursos de graduação da UFC, uma vez que estes possuem autonomia para organizá-las. Esta regulamentação deve ser um documento anexo aos Projetos Pedagógicos dos cursos de graduação. 22 Documento de circulação interna na Universidade Federal do Ceará, redigido pelo Colegiado do Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC para preenchimento do formulário eletrônico do E-MEC por ocasião do reconhecimento do curso pelo Ministério da Educação e do Desporto. 39 Esportivas Participação e/ou organização de eventos; Experiências profissionais ligadas à formação profissional e/ou correlatas; Produção técnica ou científica; Vivências de Gestão. Contudo, ao mesmo tempo em que se vislumbra os princípios das atividades complementares como um exemplo de dicotomia entre trabalho e currículo, elas figuram uma forma de validar, como curricular, ações advindas de atividades profissionais, bem como de outros tipos de trabalhos realizados em ambientes externos à academia. Estas atividades ressaltam, também, a importância de um protagonismo discente quanto à escolha dos trabalhos que serão desenvolvidos durante o seu percurso. O que se pretende conquistar com esta reflexão é a ampliação do entendimento de trabalho considerando que em alguns momentos das ações curriculares pode-se, talvez sem consciência, enfatizar a sua dicotomia com o currículo. Isso significa que perceber o lugar e o tempo do trabalho no currículo é importante para pensar um currículo para a experiência. O Estágio Supervisionado, por sua vez, viria a ser o espaço curricular com maior capacidade de relacionar, ou até mesmo inserir, o mundo do trabalho (DCN) na estrutura curricular. As disciplinas de Estágio Obrigatório Supervisionado contribuem significativamente no processo de formação dos estudantes, na medida em que possibilitam o exercício qualitativo das experiências adquiridas no decorrer do curso de graduação. É neste espaço, dialógico de construção do conhecimento, que os estudantes têm a oportunidade de perceber, de forma mais veemente, as particularidades do campo de atuação profissional, podendo, assim, perceber as dificuldades e as habilidades da profissão e seus impactos diante da sociedade. Assim, pensando na experiência processual – ética, estética, política dos estudantes e professores – o Curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal do Ceará se propõe ao desenvolvimento qualitativo dos conteúdos dessa área de saber, articulando os conhecimentos teóricos e práticos em teatro nos possíveis espaços de atuação profissional, tendo como referência a lei nº 11.788 de 25 de Setembro de 2008 que regulamenta a prática do estágio no Brasil.23 Da mesma forma como com as Atividades Complementares, o curso elaborou uma regulamentação que pretende organizar, através de parâmetros de execução, acompanhamento e avaliação do trabalho discente, as quatrocentas horas de Estágio Curricular Supervisionado, 23 Informação contida no documento de circulação interna da Universidade Federal do Ceará, redigida pelo Colegiado do Curso de Teatro-licenciatura/ICA?UFC para preenchimento do formulário eletrônico do E-MEC por ocasião do reconhecimento do curso pelo Ministério da Educação e do Desporto. 40 conforme prevê a resolução CNE/CP 2. (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2002c) Dá-se, portanto, especial atenção ao parágrafo único do artigo primeiro da citada resolução que diz: “Os alunos que exerçam atividade docente regular na educação básica poderão ter redução da carga horária do estágio curricular supervisionado até o máximo de 200 (duzentas) horas.” (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2002c) Este parágrafo valida, portanto, a atividade profissional do discente como atividade curricular. Logo, como a atividade de Estágio Supervisionado não prevê somente a inserção do licenciando na escola, mas a relação desta experiência (uma vez que se intenta e se pressupõe que esta atividade gerou uma experiência) com àquelas obtidas pelos saberes acadêmicos, deve-se pensar – com alto grau de criticidade – a forma de organizar a validade destas atividades profissionais. Assim, como nenhum acontecimento pode garantir uma experiência ao sujeito, a atividade profissional também não o garante. Neste mesmo pressuposto, nem mesmo as atividades curriculares garantem. Contudo, está-se diante de um modo de se pensar um currículo para a experiência, ou seja, um currículo com brechas temporais, elastecimento, equilíbrio das informações. Neste sentido, há de se pensar se poderia haver modos de, em incorporando essas atividades docentes à estrutura curricular, estabelecer relações entre elas e outros conhecimentos construídos de forma que esse abatimento de horas ao qual o aluno tem direito, pudesse ser formativo em seu percurso. Concomitantemente, um currículo que pensa a sua relação com o trabalho, analisa e avalia todas as relações das pessoas, ou seja, todo o trabalho que é sugerido pela estrutura curricular. Esta análise e avaliação do currículo quanto ao trabalho poderia contribuir para que o currículo fosse um espaço de experiência, ou seja, de [...] parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LARROSA, 2002, p. 25) 41 Até este momento, o capítulo procurou esclarecer o porquê de se perguntar sobre os sentidos que os discentes do curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC atribuem ao seu perfil profissional, o artista-pesquisador-docente, e a relação que estabelecem entre este perfil e seu percurso formativo. Para tanto, buscou-se a compreender as relações entre sentido e experiência, bem como suas implicações para se entender percurso formativo. Já na última subseção deste capítulo, parte-se do pressuposto de que a narrativa é um modo de resgate das experiências e construção de identidades, com o intuito de justificar e embasar a escolha dos métodos e fontes documentais desta pesquisa. Entrevistas semidiretivas, produção de relatórios e cartas, mostraram-se potentes na produção de narrativas e, portanto, no resgate das experiências dos sujeitos e na (re)construção de suas identidades profissionais. 2.3 IDENTIDADE E NARRATIVA: RECONSTRUÇÃO DA EXPERIÊNCIA “O próprio conceito com o qual estamos lidando, ‘identidade’, é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova.” (HALL, 2006, p. 8) Contudo, de acordo com uma visão sociológica, a identidade se constrói através de uma relação entre o interior do sujeito e a sociedade. O interior seria algo que está na essência, no núcleo do sujeito, e a sociedade o mundo exterior. A questão da identidade vem sendo amplamente discutida. Estudos encampados, principalmente, pela linha de pensamento pós-críticos, pós-estruturalista e culturalista apontam para o fato de estarmos vivendo um momento de construção de novas identidades. Hall (2006) quando explora o conceito de identidade cultural e questiona sobre uma possível crise de identidade, nos defronta com a noção de um sujeito pós-moderno descentrado, fragmentado e instável. Por sua vez, a narrativa compreendida enquanto processo de contar e (re)contextualizar as experiências pessoais, surge como espaço possível para construção destas novas identidades. A identidade, portanto, não é fixa, mas é um processo contínuo de construção, o qual se modifica de acordo com os processos de interação entre o sujeito a sociedade. “A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, "sutura") o sujeito à estrutura.” (HALL, 2006, p. 12) Sendo assim, torna-se possível pensar que o processo de construção das 42 identidades está diretamente relacionado às experiências dos sujeitos. Já a narrativa, enquanto prática social, é um processo que permite a (re)elaboração de experiências e, sendo assim, torna-se uma situação potente de (re)construção identitária. Narrar, ato que está diretamente vinculado a fatos passados, é um modo de retomar as experiências através da organização dos fatos e inferir sobre eles. “O relato de histórias revela, na prática de narrar, as identidades pessoais dos interlocutores. É a partir de nossas narrativas que dizemos quem somos, o que desejamos ou acreditamos, sempre nos reconstruindo a cada relato narrativo.” (NOBREGA; MAGALHÃES, 2012, p. 71) Com base neste pressuposto, a narrativa foi um método utilizado nesta pesquisa com intenção de que através dos relatos os discentes pudessem (re)constituir suas experiências para inferir sobre o perfil do egresso através da (re)construção de sua identidade profissional. A seguir, se esclarecerá sobre os sujeitos das narrativas e serão abordados três instrumentos, produzidos por estes sujeitos, que foram selecionados como insumos desta pesquisa: entrevistas, cartas e relatórios. Estes instrumentos se mostraram espaços nos quais as narrativas neles presentes foram fonte de reflexão sobre as experiências dos sujeitos e suas identidades profissionais. 2.3.1 Os sujeitos das narrativas As entrevistas foram realizas em duas etapas distintas e cujos objetivos diferiam. A identidade destes sujeitos serão preservadas, por isso este sub-tópico procura esclarecer o porquê da escolha destes sujeitos através da sua contextualização. Inicialmente, objetivou-se complementar dados documentais para remontar a história da criação do curso superior em Teatro da UFC. Em um segundo momento, intentando responder à questão que se apresenta nesta tese, entrevistou-se parte dos discentes do curso, cujos critérios de seleção serão explicados mais adiante. Sendo assim, o primeiro sujeito entrevistado foi um professor cuja escolha se deu porque sua participação abarca todas as etapas vivenciadas por este curso até o presente momento. O professor entrevistado foi aluno e professor do Curso de Artes Dramáticas (CAD), que antecedeu o curso superior de Teatro; é diretor, ator, escritor, ou seja, profundamente engajado nas Artes Cênicas cearenses desde a década de setenta; foi mentor e 43 fomentador da criação deste curso, além de criador de seu anteprojeto.24 Ademais, é professor do Curso de Teatro, atuando principalmente nas cadeiras de História e Cultura Popular. Essa entrevista foi de fundamental importância para a remontagem da história do curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC. Como o objetivo é contextualizar o curso, retrocedese desde sua criação, partindo do seu ideário na perspectivas dos professores precursores, até as últimas transformações realizadas em seu Projeto Pedagógico, responsáveis por sua vez pelo currículo escrito que o curso possui hoje e com ele formou a sua primeira turma, no ano de 2013. Em uma segunda etapa de entrevistas, selecionou-se, formando três grupos distintos: 1- todos os alunos que participaram do Pibid-Teatro; 2- todos os alunos que estavam regularmente matriculados na atividade de Estágio Supervisionado IV; 3- Na intercessão, portanto, encontram-se alunos que foram bolsistas Pibid e também alunos de Estágio IV, conforme representa pelo diagrama. Diagrama 1 - Representação gráfica dos sujeitos entrevistados25 É válido salientar que estes alunos foram selecionados porque a amostragem teve como foco aqueles que, de alguma forma, já se depararam com o chão da escola e já puderam observar ou intervir no seu dia-a-dia, enfrentar situações problemas e utilizar de suas competências para tentar solucioná-los. Portanto, nesta pesquisa foi possível revelar, através da análise de suas experiências destes sujeitos com a docência, potencialidades e lacunas que existem no PPC. O entrevistado assim define todo o trabalho de discussão e material levantado para dar escopo ao Projeto Pedagógico que deu abertura ao curso. Contudo, não há um documento denominado de anteprojeto. 25 Legenda: amarelo - alunos de Estagio Supervisionado IV, denominados de agora em diante de SE (Sujeitos do Estágio); azul – alunos participantes do Pibid-Teatro, denominados de agora em diante de SP (Sujeitos do Pibid-Teatro); verde – alunos que foram tanto participantes do Pibid-Teatro como alunos de Estágio Supervisionado IV, denominados de agora em diante de SI (Sujeitos da Intercessão). Ademais, o professor entrevistado será denominado, doravante, apenas de Professor; e os demais discentes que alimentaram esta pesquisa através dos seus projetos de encenação, relatórios, resumos e outros documentos serão chamados se SD (Sujeitos Discentes) . 24 44 Assim, ao longo destas entrevistas, pode-se conversar com os discentes em torno de algumas questões, a saber: como o currículo deste curso contribui para a formação deste profissional? É possível vê-lo em ação ou ele somente existe num plano ideal? Quais os entraves e os desafios da atuação deste profissional no ambiente de ensino? Em que ou como ele contribui com o ensino do Teatro na escola? Antes de adentrar a estas questões, sempre se iniciava a conversa perguntando a eles o que entendiam por currículo. Nota-se que suas compreensões sobre o tema eram fundamentais para prosseguir com a entrevista. Para terminar, lançava-se a proposição: o currículo é como o Teatro (ator, texto, ação e público), para que discorressem sobre o tema. Pôde-se comprovar que, conforme pensavam sobre a dada analogia e construíam sentidos para ela, ficava cada vez mais clara a noção de currículo como um processo do qual faziam parte e atuavam como protagonistas. Esta e outras questões que surgiram durante as entrevistas serão, de alguma maneira, respondidas ao longo dos capítulos. Os primeiros sujeitos entrevistados faziam parte do grupo da intercessão (verde). A metodologia foi a mesma utilizada com o professor citado acima, ou seja, entrevistas semidiretivas. Da análise dessas entrevistas, portanto, foram elaborados diversos pressupostos que serviram como uma lista de questões norteadoras para prosseguir com a pesquisa. Após entrevistados os sujeitos da intercessão, foram formados dois grupos focais, um com o grupo do Pibid-Teatro (azul) e outro com o grupo do Estágio Supervisionado IV (amarelo). O grupo focal, enquanto técnica aplicada à pesquisas exploratórias, reúne pequenos grupos de pessoas para investigar sobre determinadas questões, objetos de um pesquisador, o qual normalmente é, em ciências humanas, o moderador do grupo. Então, reuniu-se os alunos de Estágio Supervisionado IV e os bolsistas do PibidTeatro, cada grupo em um momento distinto, e foram colocadas seis questões que nortearam a conversa, são elas: 1- O que você entende por currículo?; 2- Fale sobre o perfil do egresso do curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC; 3- Como relacionar o perfil do egresso com o currículo do curso?; 4- Tudo que você viveu (aprendeu) no curso faz sentido para você? 5Você se considera um artista-pesquisador-docente?; 6- O currículo é como o Teatro: ator, texto, ação e público. É válido ressaltar que estas questões foram reelaboradas a partir da análise das entrevistas semidiretivas realizadas com o grupo da intercessão. Para além das entrevistas semidiretivas, foram aplicadas outras técnicas de narrativas com o grupo do Pibid-Teatro, as quais geraram novos documentos que foram fonte de análise, 45 quais sejam: o relatório final (2011-2014) e as cartas de avaliação parcial, conforme já citado nesta tese. Neste momento, entra em cena o segundo grupo de sujeitos investigados nesta pesquisa: o Estágio Supervisionado IV, um espaço de construção da identidade do profissional através da aproximação com a realidade da escola. Assim, a escolha deste espaço gerou a possibilidade de selecionar discentes externos ao Pibid-Teatro, mas que já possuíssem uma experiência que pudesse os ter tornado capazes de refletir sobre a proposta curricular do curso com base na sua prática docente. Pode-se verificar, portanto, que alguns os alunos que vêm ao encontro deste desejo – formação artística, calcada principalmente na profissão do ator – se frustram com o currículo do curso. Por outro lado, os discentes revelaram que, mesmo tendo ido ao encontro de uma formação exclusivamente artística, se identificaram com a carreira docente durante o seu percurso formativo. Por isso, salienta-se, mais uma vez, a importância do currículo ser construído e colocado em ação juntamente com os discentes e não para os discentes, alheio aos seus anseios e expectativas. Com isso, é importante que o currículo seja claro em seus objetivos e convoque os discentes a superar seus desafios. 2.3.2 Entrevistas, cartas e relatórios: modos de narrar Todas as formas de abordagem, entrevistas semidiretivas e grupos focais, geraram trocas a partir das quais foi possível notar os discentes confortáveis em expressar suas interpretações sobre o tema, uma vez que não foi atribuído juízo de valor. Os discentes puderam discorrer livremente sobre questões que foram colocadas em pauta pelo pesquisador. As perguntas, previamente elaboradas, portanto, buscaram não os deixar fugir ao objeto em questão – o currículo do curso – uma vez que o tom dado ao encontro, de descontração e confiança, foi um terreno fértil para algumas digressões. Nestes momentos de conversa, diversos eventos foram narrados, e, durante suas narrativas, os discentes refletiam sobre suas experiências para inferir sobre as questões propostas. Portanto, foram estas oportunidades que auxiliaram na reflexão sobre seu percurso formativo, consequentemente sobre suas práticas docentes. Este movimento de ouvir e contar histórias que intentava explorar os temas propostos revelou um caráter formativo inerente a estas entrevistas. 46 Cartas Durante os meses de fevereiro e março de 2013, a Universidade Federal do Ceará vivia um período de férias. O Pibid-Teatro decidiu, então, realizar uma dinâmica que consistia trocar cartas entre os membros do grupo. O teor das cartas, portanto, teria como mote uma avaliação parcial das atividades, na qual cada membro deveria contribuir com suas impressões pessoais e deixar registradas justificativas quanto à importância da docência como condição para um ensino de excelência. Esta atividade foi iniciada com a leitura do texto A narrativa como estratégia de formação e de reflexão sobre a prática docente. (SANTOS, S., 2008) Através deste estudo, o grupo concluiu que as cartas poderiam ser um recurso de aprendizagem, na qual poderiam problematizar interesses, necessidades e percepções sobre a prática docente, como é possível verificar no trecho abaixo retirado de uma das referidas cartas: Concluo então esta carta carregada da ideia de que novos pensamentos, discursos, conhecimentos e metodologias podem ser gerados e refletidos a cada dia. E em cada um deles iremos no deparar com problematizações que nos levarão a isso. E se estivermos sempre dispostos a refletir, sabendo que a teoria poderá nos amparar e abrir caminhos, poderemos fazer com que o processo que estamos conduzindo seja transformador e gerador de novos olhares. E só conseguiremos fazer o outro refletir e criar algo se antes, nós mesmos já tenhamos passado por esta experiência. (SP) Relatório final – Pibid Já em fevereiro de dois mil e quatorze, a dinâmica escolhida para avaliação das atividades foi uma reflexão que teve como suporte o livro Boniteza de um Sonho: ensiar-eaprender com sentido. (GADOTTI, 2003) Esta avaliação, por sua vez, teve um caráter de finalização das atividades, já que o Pibid, a nível nacional, passou por uma reformulação, tendo sido encerrado neste período para recomeçar em abril do mesmo ano, mediante a submissão de novas propostas das instituições de ensino superior interessadas.26 Diante deste novo quadro, o Pibid-Teatro realizou uma avaliação final do período que foi de julho de dois mil e onze à fevereiro de dois mil e quatorze. 26 Especialmente no caso do Pibid-Teatro/UFC, ele atualmente possui uma nova coordenação, passou de seis para doze bolsistas e atende agora a duas escolas. 47 Após a leitura do livro proposto, o grupo se reuniu durante uma tarde inteira para discutir sobre os temas que dele emergiram. A discussão preliminar que se deu a partir de pontos levantados por cada um dos membros gerou cinco questões, são elas: 1- Por que eu quero ser professor?; 2- Por que escolhi ser professor de Teatro?; 3- Ser professor é dom, talento, vocação ou técnica?; 4- O que eu penso sobre a frase “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”?; 5- A educação precisa fazer sentido? No segundo momento, então, todos os bolsistas de graduação responderam individualmente a cada uma das questões. As respostas foram organizadas pela supervisora de área, gerando uma resposta única para cada questão. O texto final foi lido em voz alta pelo grupo, que consentiu o resultado como o relatório final das atividades. No entanto, para finalizar, ressalta-se um trecho deste relatório, o qual retoma a questão do significado e do sentido na educação: Acredito na palavra “sentido“ não apenas enquanto significado, mas enquanto caminho, busca e, mais uma vez, acredito na vontade. Penso que despertar a vontade em si e nos alunos, para que os alunos lhe provoquem vontade e entre em um movimento de retroalimentação é fundamental para o acontecimento da educação.27 27 Relatório final das atividades do Pibid-Teatro (gestão 2011-2013), escrito em fevereiro de 2014. 48 3 O CURRÍCULO É COMO O TEATRO O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por sua vez uma ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo). (LARROSA, 2002, p. 27) Este capítulo parte do pressuposto de que entender o currículo através do Teatro é uma estratégia para que as propostas pedagógicas, às quais os sujeitos envolvidos nesta pesquisa estiveram expostos, possam lhes fazer sentido. Ao mesmo tempo, nutre-se a esperança de que o leitor, que já esteve na condição de fruidor de Teatro, possa acompanhar a analogia proposta. Como já foi dito, o ato de fruir exige uma experiência, portanto, o fruidor de Teatro encarna um saber. Assim, para que o currículo seja um espaço de construção do saber da experiência, deve ser, como mostra a epígrafe, um espaço singular, de um saber encarnado; ou seja, que está dentro do sujeito da experiência, como o saber do fruidor. Esta tese possui como remetentes principais os leitores da área de Teatro. Assim, para buscar uma compreensão de currículo junto a este público específico, faz-se necessário refletir sobre o Teatro e sobre o percurso28. Com isso, para que este texto possa tornar-se mais próximo do horizonte de referência deste público, colocam-seas seguintes questões: Quando se discute a linguagem deve-se considerar o público a que se está dirigindo. Há um público? Qual é o relacionamento entre os intelectuais e a esfera pública? Há um padrão de linguagem universalizado que se torna um referente para todos os outros? Como se começa a formular essa pergunta de maneira a permanecer consciente da possibilidade de, por um lado, criar “gueto”, mas também reconhecer diferentes públicos em diferentes contextos? Você deve considerar esses múltiplas públicos e suas múltiplas políticas. Acho essa questão muito importante. (GIROUX, 1999, p. 177) É válido ressaltar que a analogia que intitula este capítulo – o currículo é como o Teatro – somente foi apresentada aos alunos participantes desta pesquisa ao final das entrevistas. Ou seja, após serem instigados a refletir sobre a noção que possuíam sobre: o 28 No que se refere ao percurso (da proposta curricular do curso) que pode vir a ser formativo através da experiência do sujeito. 49 currículo, o perfil do egresso do seu curso, os componentes curriculares, bem como sobre a relação destes com o perfil profissional almejado; a analogia vinha a brindar, conclusivamente, a construção de uma noção de currículo que parte de um interesse comum a estes sujeitos: o Teatro. Com isso, as inferências trazidas nesta tese possuem como norte, também, as impressões dadas por eles sobre as questões levantadas. Portanto, diversas reflexões que surgiram durante as entrevistas inauguraram essa conversa complicada (LOPES; MACEDO, 2011) e tornaram-se substratos para a escrita deste capítulo. De modo que o que se propõe é pensar um currículo junto com o discente e não para o discente; assim, este capítulo que, de certa maneira, foi escrito por muitas mãos, integra uma tese que foi escrita com os alunos. As reflexões dos alunos a respeito de currículo foram molas propulsoras das inferências trazidas nesta tese. Como o currículo é uma noção abstrata, entendê-lo pressupõe contextualizá-lo. Para estes discentes, uma certa noção sobre foi sendo construída durante as entrevistas. Com isso, trabalhou-se uma noção de currículo a partir da dada analogia: No sentido de que é extremante pessoal, é íntimo, por mais que tenha uma base que todo mundo vá dizer: é uma oficina de teatro; mas, a experiência de cada um, ela se torna diferente. Então, é como se fosse subjetivo o currículo. Neste aspecto que eu acho que, por mais que eu assista uma peça de teatro e ela esteja dentro dos moldes tradicionais, vão ter expectativas e influências diferentes em cada espectador. E aí, quando eu penso no currículo com esta analogia, eu penso: não tem como ser totalmente objetivo, ele passa pelo subjetivo, ele passa pela produção de subjetividade porque nós somos assim, é intrínseco do ser humano. (SI) De fato, outras acepções, para além das que serão aqui expostas, poderão ocorrer para cada um que processar a leitura desta tese. Este capítulo, portanto, busca abrir possibilidades de compreensões que caminham para além do senso comum sobre currículo. Do mesmo modo, o estudo também objetiva ultrapassar as noções sobre a arte teatral enquanto suas estéticas, seus elementos ou políticas da cena. Com isso, as reflexões trazidas aqui pretendem alcançar um nível de leitura que perpassa por conhecimentos comuns para as pessoas de Teatro. Pretende-se, em uma leitura comparada do currículo com Teatro, aproximar estas duas áreas – Teatro e currículo – do saber através de possíveis pontos de convergência entre elas. A compreensão de currículo extrapola a noção de junção de componentes curriculares, os quais, por sua vez, são entendidos como o elenco de disciplinas obrigatórias, optativas, eletivas e atividades indispensáveis para a formação discente. Da mesma forma, não podemos 50 entender o Teatro como a junção dos seus elementos − figurino, cenário, iluminação, texto, etc −, mas como um acontecimento, um espetáculo, uma prática social e política. A noção de currículo, assim como a de Teatro, pertence a um momento histórico e precisa ser apropriado pelos professores e estudantes para ser avaliado e repensado constantemente. Assim, é possível entender que o currículo está em movimento e depende do caminhar coletivo do corpos docente e discente, técnicos e gestores. 3.1 ELLIOT EISNER E MADELEINE GRUMET: O QUE DIZ A LITERATURA ESPECIALIZADA That is, the curriculum comes to form as art does, as a complex mediation and reconstruction of experience.29 (PINAR et al., 2000, p. 567) Nesta subseção, objetiva-se revisitar dois textos que embasam a analogia proposta, são eles: Understanding curriculum as aestheticText, de Willian Pinar (2000) e Curriculum as Theater, de Madeleine Grumet (1978). Portanto, a analogia é ancorada na história dos estudos curriculares, bem como destaca a singularidade da abordagem aqui proposta. Pinar (2000) no capítulo Understanding curriculum as aesthetic text evoca diversos teóricos que se utilizam da Arte para melhor compreender o currículo. O principal desdobramento desta questão está em pressupor que a Arte poderia suscitar um modo de pensar o currículo como um espaço da experiência em desenvolvimento. Uma vez que a experiência estética envolveria os sujeitos na busca de sentidos, um modo de pensar o currículo como texto estético, seria um modo de pensar no qual o currículo também seria um espaço de atribuição de sentidos através da experiência. Assim, dentre as diversas abordagens do currículo como um objeto estético, duas delas serão destacadas por sua proximidade com a analogia que embasa este capítulo. A primeira abordagem, diz respeito aos estudos do filósofo da educação Elliot Eisner, os quais ficaram internacionalmente conhecidos por levantar pressupostos que tratam o ofício de ensinar como uma Arte. A relação que Eisner faz entre a Arte e o ensino merece destaque porque o filósofo traz para discussão a expressão professor-artista. Contudo, Eisner (apud 29 Isto é, o currículo vem para formar assim como a arte, como uma complexa mediação e reconstrução da experiência. (Tradução nossa) 51 PINAR et al., 2000) considera a docência, de modo geral, como uma atividade artística30 e justifica a sua premissa da seguinte maneira: First, there is the sense in which a teacher is sufficiently accomplished in his or her craft, that for the student as well as the teacher, the classroom is an aesthetic experience. Second, teachers-as do painters, dancers and so onmake judgments during the teaching process based on qualities discerned during the course of the process. Pace, tone, and tempo are among the qualitative features of teaching that are selected and reselected by the teacher as she ‘reads’ or decodes students‘ responses. Third, artistry in teaching requires routines or repertoires upon which the individual teacher calls. Eisner affirms a tension and a balance between automaticity and inventiveness. Fourth, teaching like art achieves ends sometimes unanticipated at the start, but which are desirable, even welcomed.31(PINAR, 2000, p. 581) Então, Eisner, através da identificação destes quatro pontos – 1) a sala de aula é uma experiência estética; 2) os professores, assim, como os artistas, fazem julgamentos durante o processo (de ensino); 3) presença de uma tensão e uma harmonia entre automatismo e inventividade; 4) tanto a Arte como o ensino atingem fins inesperados – nos quais relaciona a docência com a Arte, trata todo professor como um artista porque a sala de aula seria um espaço propositor de experiência estética, ou seja, uma experiência que busca atribuir sentidos. Em complemento a esta premissa, necessário se faz trazer as palavras da pesquisadora em Arte-educação, Ana Mae Barbosa (2005b, p. 12): Para ambos [Eisner e Freire], a educação é mediatizada pelo mundo em que se vive, formatada pela cultura, influenciada por linguagens, impactada por crenças, clarificada pela necessidade, afetada por valores e moderada pela individualidade. Trata-se de uma experiência com o mundo empírico, com a cultura e a sociedade personalizada pelo processo de gerar significados, pelas leituras pessoais auto-sonorizadas do mundo fenomênico e das “paisagens interiores”. 30 Já esta tese considera, mais especificamente, a docência de professores de Teatro, conforme será desdobrado nos capítulos vindouros. 31 Primeiro, há o sentido em que um professor é suficientemente realizado (ou talentoso) em seu ofício, que para o aluno, bem como o professor, a sala de aula é uma experiência estética. Em segundo lugar, os professores como fazem os pintores, dançarinos e assim por diante - fazem julgamentos durante o processo de ensino com base em qualidades constatadas durante o andamento do processo. Passo, tom e ritmo estão entre as características qualitativas do ensino que são selecionadas e reconduzidas pelo professor como ele "lê" ou decodifica as respostas dos alunos. Em terceiro lugar, a Arte no ensino requer rotinas ou repertórios sobre o qual o professor em questão se remete. Eisner identifica uma tensão e uma harmonia entre o automatismo e a inventividade. Em quarto lugar, o ensino como a Arte alcançam o final algumas vezes inesperadamente no inicio, mas estes resultados são convenientes, até mesmo bem-vindos. (Tradução nossa) 52 Portanto, quando Eisner (2008) aproxima a Arte da educação, tomando ambas como espaço de mediar experiências, ele coloca que objetivo da educação deveria ser, então, preparar artistas. Entretanto, salienta-se que ao utilizar a expressão artista, o que o filósofo quer dizer é: [...] indivíduos que desenvolveram as ideias, as sensações, as habilidades e a imaginação para criar um trabalho que está bem proporcionado, habilmente executado e imaginativo que é independente do domínio em que um indivíduo trabalha. O maior elogio que podemos dar a alguém é dizer que ele ou ela é um artista, seja como carpinteiro, cirurgião, cozinheiro, engenheiro, físico ou professor. (EISNER, 2008, p. 9) Para ele, a Arte privilegia que aluno aprenda a julgar sem estar delimitado às regras, ou seja, a fazer, analisar e julgar suas escolhas confiando nos sentimentos. Para tanto, as atividades do currículo deveriam ser “[...] atividades que refinam a percepção em cada um dos campos que ensinamos. Isto vai requerer mais atividades que abrandem a percepção do que a acelerem.” (EISNER, 2008, p. 10)32 Como segunda abordagem, será dada uma especial atenção ao texto Curriculum as theater, de Margaret Grumet (1978). Nele, Grumet compara o currículo com o Teatro, sobretudo, através do elemento da ação. Em seu intento, a autora ressalta os sentidos da expressão ação, tanto como a ação cênica, como o elemento dramatúrgico, como o ato de interpretar e como parte integrante de todo ritual. Sua analogia parte do entendimento de que o currículo é uma forma de ação pública e comunitária, e o Teatro é a forma pública que fornece acesso à ação à distância, mediada. A ação, por sua vez, faz parte do caráter do jogo. O Teatro como o jogo é composto de regras, mas não é por causa das regras que se assiste ao jogo e sim pelo suspense gerado na expectativa do resultado da ação dos jogadores. Em comparação, “That is to say, that curriculum is not the world, just as character is not the person, and the rules are not the game. What is real is the student’s own experience of these forms.”33(GRUMET, 1978, p. 43) Ressalta-se também que a autora compreende que o teatro contemporâneo é organizado em torno de dois temas principais e contraditórios: engajamento e distanciamento. O primeiro 32 O pensamento de Eisner (2002) em muito se aproxima com as discussões sobre a relação entre o tempo e o espaço no currículo, trazidas no primeiro capítulo. Isto porque, para se refinar eabrandar a percepção faz-se necessário uma desaceleração; até mesmo uma revisão na quantidade de conteúdos para se permitir um tempo elastecido do qual necessita a experiência. 33 Isto quer dizer que o currículo não é o mundo, assim como o personagem não é a pessoa, e as regras não são o jogo. O que é autentico é a própria experiência do estudante desses modelos.(Tradução nossa) 53 tem suas raízes no Teatro Ritual de Antonin Artaud e o segundo, no Teatro Épico de Bertolt Brecht.34 Em 1932, Antonin Artaud publicou o primeiro Manifesto do Teatro da Crueldade, no qual defendia uma visão que combatia o Teatro como entretenimento. O Teatro da Crueldade valorizava, dentre outros aspectos, uma maior interação entre o palco e a plateia através, principalmente, de uma experiência ritualística. Alcançar esta experiência ritualística através deste novo teatro estaria relacionado a uma série de estratégias de encenação que o autor aborda em outras publicações. Posteriormente, a partir da década de sessenta, Jerzy Grotowski defenderá um Teatro Pobre, o qual parte da necessidade de se eliminar tudo o que ele considerava supérfluo ao fenômeno cênico, como por exemplo: excesso de cenário, figurino, iluminação, etc. Seu objetivo era fortalecer a ação teatral através da essência da linguagem do Teatro, ou seja, a relação entre atores e espectadores. Diante destas acepções de Teatro, Grumet sinaliza para um currículo que deve se fundamentar na essência da ação educacional, ou seja, na experiência do aluno. Segundo a autora, It is a harsh and voluntary poverty, an asceticism that William Pinar and l (1976) have required for curriculum as well, where the proliferation of kits, media, and materials threaten to obscure. Rather than enhance, the student’s experience.35 (GRUMET, 1978, p. 49) Em seus escritos, Grumet também se inspira nas formas do teatro brechtiano e ressalta que o modo de agir do professor e do aluno deveria ter como parâmetro a ação do ator e do público na estética brechtiana. Isto porque, no Teatro Épico de Bertolt Brecht (2006, p. 89), Por meio de uma técnica que de forma alguma era fácil, o ator distanciava-se da personagem que representava e colocava as situações da peça sob um tal ângulo que sobre elas vinha infalivelmente a incidir a crítica do espectador. 34 Cabe aqui salientar que não será realizado um estudo sobre os Teatros de Artaud, Grotowski e Brecht, dos quais Grumet utiliza para esboçar sua analogia. Isto porque esta tese pretende se deter à própria comparação proposta pela autora e não situá-la no campo da literatura especializada. 35 É uma pobreza severa e voluntária, bem como um asceticismo que William Pinar e eu (1976) temos exigido para o currículo, onde a proliferação de kits, mídia e materiais correm o risco de obscurecer, ao invés de melhorar a experiência do aluno. (Tradução nossa) 54 Portanto, professor e aluno deveriam se distanciar com a finalidade de conhecer e transformar a situação que se apresenta. “O objetivo desta técnica do efeito do distanciamento era conferir ao espectador uma atitude analítica e crítica perante o desenrolar dos acontecimentos.” (BRECHT, 2006, p. 103) Para finalizar as comparações de Grumet, bem como seguindo com outras possíveis maneiras de entender o currículo através do Teatro, sublinha-se a necessidade de entender que assim como o Teatro, o currículo é um artifício, ou seja, “We must shape it, use it. We must not let it bury us, intimidated by its authority, modeled in its image, confusing its words with the primary silence from which they spring.”36 (GRUMET, 1978, p. 49) 3.2 CURRÍCULO PARA ATORES E NÃO ATORES Nesta subseção, Currículo para atores e não atores, estabelece-se uma comparação entre o Teatro do Oprimido de Augusto Boal e o currículo. Este recorte parte da necessidade de responder à seguinte questão: de qual Teatro estamos falando? Posto que inúmeros sentidos podem ser atribuídos a esta analogia, dentre outras razões, porque também são inúmeras as formas teatrais hoje existentes. Para tanto, inspirada na pedagogia freiriana e no teatro de Boal, a analogia põe em revista as práticas curriculares do Curso de Teatro-licenciatura, cujo currículo se investiga nesta pesquisa. Procura-se entender o discente como parte integrante do currículo assim como Boal o fez com os espectadores em seu teatro. Todo mundo atua, age, interpreta. Somos todos atores. Até mesmo os atores! Teatro é algo que existe dentro de cada ser humano, e pode ser praticado na solidão de um elevador, em frente a um espelho, no Maracanã ou em praça pública para milhares de espectadores. Em qualquer lugar... até mesmo dentro dos teatros. (BOAL, 2005a, p. ix) 36 Devemos moldá-lo, usá-lo. Não podemos deixar que ele nos enterre, intimidados por sua autoridade, modelada à sua imagem, confundindo suas palavras com o silêncio original a partir do qual elas brotam. (Tradução nossa) 55 Este pensamento emblemático do teatrólogo Augusto Boal37 representa uma proposta de teatro que retira dos profissionais das Artes Cênicas a primazia e a excelência de se fazer Teatro. As técnicas do Teatro do Oprimido38 convidam o espectador a interferir diretamente na cena, e, mais do que comumente se entende, não dão ao espectador apenas o poder de interferir na obra, mas consideram a sua ação parte constituinte da encenação. Este teatro não valida a ação do público como quem, por educação, escuta a opinião do outro. O espectador, que se faz ator, é parte do espetáculo e os sentidos atribuídos e construídos por ele em cena são parte igualmente integrante como todos os outros elementos da cena. O Teatro do Oprimido, cujo termo é inspirado na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, é um método que surgiu a partir de verificações constatadas em experiências concretas; ou seja, é resultado de análises de processos teatrais empregados durante décadas como meio de educação popular. Tanto Boal quanto Freire propuseram ações éticas, estéticas, políticas e pedagógicas em prol dos oprimidos visando uma transformação social. Ambos, em suas propostas, estimulam a discussão e a problematização de questões a partir do cotidiano dos integrantes dos processos (artísticos e/ou pedagógicos). É importante destacar que Boal (2005b, p. 23) deixou claro que “oprimidos e opressores não podem ser candidamente confundidos com anjos e demônios. Quase não existem em estado puro.” Sobre a filosofia da pedagogia crítica e as relações de poder entre opressores e oprimidos, é preciso destacar que: No cerne desta filosofia está uma crença na centralidade da educação na determinação das relações políticas e sociais. Praticadas por Freire em países de terceiro mundo, as doutrinas da pedagogia crítica foram usadas pelos cidadãos colonizados para analisar seus papéis nas relações e opressão e criar programas para a mudança revolucionária. (TREND, 1999, p. 175-176) 37 Augusto Boal (1931-2009) foi diretor, autor teatral e criador do Teatro do Oprimido. Teatrólogo de expressividade mundial foi indicado ao prêmio Nobel da Paz em 2008 e nomeado em 2009, pela Unesco, embaixador mundial do Teatro. 38 Teatro do Oprimido, que poderia ser chamado de Teatro do Diálogo que, partindo da encenação de uma situação real, estimula a troca de experiências entre atores e espectadores, através da intervenção direta na ação teatral, visando à análise e a compreensão da estrutura representada e a busca de meios concretos para ações efetivas que levem à transformação daquela realidade. Disponível em:<http://ctorio.org.br/novosite/arvore-do-to/teatro-do-oprimido/>. Acesso em: 9 jan. 2014. 56 Compartilhando desta filosofia, o Teatro do Oprimido – através de seus exercícios, jogos e técnicas teatrais – estimula a criatividade, a reflexão e a capacidade de ação para propor alternativas de desopressão para situações que atravessam o cotidiano. Contribui, também, como forma de democratização da cultura, uma vez que fornece meios possíveis para a produção artística, bem como valoriza o potencial artístico daqueles que não possuem acesso à arte produzida pela cultura dominante. A noção de cultura dominante, hegemônica, é fundamental para a pedagogia crítica. A educação deve cuidar para não ser mera reprodutora de uma cultura hegemônica dominante, mas deve ocupar-se de formar sujeitos capazes de questionar e interferir nelas. Por hegemonia, pode-se entender que: […] a hegemonia atua para “saturar” nossa própria consciência, de maneira que o mundo educacional, econômico e social que vemos e com o qual interagimos, bem como as interpretações do senso comum que a ela atribuímos, se torna um mundo tout court, o único mundo. (APPLE, 2006, p. 39) Também por isso, é possível afirmar que o Teatro do Oprimido é uma estratégia contra-hegemônica de educação, a qual pretende questionar as relações entre opressor e oprimido presentes nas ações humanas em todas as classes sociais. Para isso, o Teatro do Oprimido coloca em questão as relações entre espectador e ator, palco e plateia, denotando, também neste lugar, uma relação de opressão, na qual propõe transformar o espectador, passivo e depositário, em protagonista da ação dramática impulsionando-o a protagonizar a própria vida. Da mesma forma, a pedagogia de Paulo Freire coloca em cheque as estruturas de poder intrínsecas aos processos educativos. Para Freire (1996), um educador dialógico encontra muitas dificuldades de atuação porque a atual estrutura dos espaços educacionais não privilegia o diálogo. Tanto para Boal quanto para Freire, o diálogo exerce um papel fundamental. O diálogo possui um caráter formativo e constitui uma relação entre seres humanos que buscam a construção de conhecimentos e a transformação do mundo. Considerar o diálogo, nestes casos, é valorizar os sujeitos e acreditar no seu potencial de renovar as estruturas da sociedade. Assim, o principal papel da educação seria o decolaborar para a construção do 57 conhecimento com e pelos oprimidos e, com isso, envolvê-los na construção de significados culturais. Da mesma forma, Boal entendia que seu método de trabalho proporcionava uma preparação do indivíduo para que ele pudesse ter condições, ou coragem, para engendrar ações reais com vista na libertação da sua condição de oprimido. Com isso, os temas, os diálogos e os personagens que insurgem da prática do Teatro do Oprimido, normalmente, refletem a realidade da comunidade que o pratica: relações entre patrões e empregados, professores e alunos, todos os tipos de discriminação, questões de gênero, racismo, prevenção de doenças, uso de drogas, entre outros. O Teatro do Oprimido prima por sua multiplicação para que possa ser utilizado por qualquer grupo, sem distinção, realizando um processo de democratização dos meios de produção da cultura. Através de processos de multiplicação das suas técnicas e método de trabalho, o Teatro do Oprimido oferece a cada comunidade que participa de seus processos formativos, a ferramenta do Teatro como possibilidade de transformação social e pessoal; mas, também, de uma alfabetização estética na linguagem do Teatro. Como o grupo se envolve com todo o processo de construção do espetáculo − desde a escolha do tema a ensaios, elaboração de cenário, figurino e outros elementos que compõem a cena −, os resultados são frutos da participação coletiva. Por isso, as discussões geradas publicamente, através da apresentação dos espetáculos, sensibilizam a comunidade a respeito do tema escolhido e a estimula a manifestar suas ideias diante da plateia. Da mesma forma, a ação educativa e libertadora proposta por Paulo Freire propõe a troca de saberes através de uma relação de horizontalidade, na qual educador e educando agem em prol da transformação da sua condição social. Estes processos, artísticos e/ou educacionais, são conscientizadores e aprofundam o conhecimento dos envolvidos na ação sobre o objeto posto em questão. Entre as técnicas do Teatro do Oprimido estão: Teatro Imagem, Teatro Jornal, Teatro Invisível, Teatro Legislativo e Teatro-Fórum. Contudo, “[...] essa diversidade não é feita de técnicas isoladas, independentes, mas guardam estreita relação entre si, e têm a mesma origem no solo fértil da Ética e da Política, da História e da Filosofia [...]” (BOAL, 2005a, p. 15) Destaca-se, portanto, a noção de que a ética alimenta este teatro, assim como deve alimentar o currículo. Neste sentido, um currículo para atores e não atores, justifica-se ao passo que 58 A necessidade da ética é, então, a busca de soluções que transcendem a esfera das ciências particulares e das ideologias específicas. A ética para o nosso tempo tem que considerar uma rede universal de comunicação, uma teia linguística que pode conduzir ao entendimento de pessoas sobre fatos e coisas, sem jamais perder de vista a dignidade do outro, que pode ser demostrada reflexivamente, à medida que se considera o outro como sujeito de comunicação, com que se pode dialogar. Pressupor diálogo é pressupor a dignidade do outro e negar a arbitrariedade, o autoritarismo. É acreditar no entendimento. [...] Dessa forma é que a ética pode ser pensada no currículo. E como o currículo poderá desempenhar uma função ética é uma questão fundamental que se coloca, e é uma tarefa muito importante para os debates educacionais. (ALMEIDA, 1995, p. 42) Não por acaso, os parágrafos seguintes serão restritos às técnicas referentes ao TeatroFórum, pois o Fórum é a técnica mais emblemática do Teatro do Oprimido, principalmente porque é a mais difundida e utilizada pelos grupos e comunidades. O Teatro-Fórum consiste na apresentação de uma célula cênica, onde se deixa clara a situação de opressão a qual é, normalmente, configurada pelas ações dos personagens oprimido e opressor. Nesta ação dramática, chamada de anti-modelo39, o oprimido não consegue alcançar seus objetivos, ou seja, o oprimido quer alguma coisa e não consegue alcançar pela ação do opressor. Ao final da apresentação desta célula cênica, o espect-ator40 deve ser capaz de identificar o conflito e os personagens: opressor e oprimido. O jogo cênico instaurado no Fórum consiste em: após a apresentação do anti-modelo, repete-se a célula apresentada e, quando o espect-ator julga necessário, ele para a apresentação dizendo stop!, substituindo o ator que faz o papel do oprimido (protagonista) e, em cena, assumindo este papel, propõe uma alternativa que ele considera possível para que o oprimido deixe a situação de opressão e alcance seus objetivos. 39 O anti-modelo (mantém-se a grafia com bases nos originais) é o nome que se dá ao drama ou ao conflito do Teatro-Fórum. O protagonista – oprimido – é vencido pelo antagonista – opressor. Nesta estrutura deve ficar claro ao publico quem é o oprimido e o que ele deseja. As ações do antagonista opressor impede a realização do desejo do protagonista. Nota-se que esta estrutura é uma das mais antigas que existe no Teatro: alguém quer alguma coisa e não consegue por culta do outro. Chama-se de anti-modelo porque, para o autor, ao contrario do que seria o ideal (o modelo), aqui o protagonista sempre perde no final ele nunca tem seu desejo satisfeito. 40 Boal cunha o termo espect-ator para designar o espectador de seu teatro. O espect-ator é o espectador que age em função da cena, que constrói textos, propõem alternativas e tem uma atitude crítica e ativa diante do espetáculo. Portanto, não vou trazer para esta analogia a noção de espectador passivo e inerte na poltrona de uma sala de espetáculo, mas sim este espectador que compartilha dos códigos da linguagem teatral e alcança um lugar onde pode experimentar suas propostas e exprimir suas opiniões. “A atitude do espectador não será menos artística por ser crítica.” (BRECHT, 2006, p. 110). 59 Colaborando com uma compreensão sobre qual seria a função do oprimido, ressalta-se que [...] o oprimido não é aquele que perdeu a batalha e resignou- se; oprimido é o sujeito que está sempre em luta, em conflito com o opressor, mas não atingirá êxito por não ter condições de visualizar/implementar possíveis estratégias para resolver o problema tratado. (CANDA, 2012, p. 123) No Teatro-Fórum, o espetáculo, no entanto, não se configura com a apresentação da primeira célula cênica. Ele necessita das interferências advindas da plateia para se configurar como encenação. Neste sentido, o anti-modelo é apenas um mote para análise e discussão crítica sobre os acontecimentos (situação de opressão) apresentados no palco. Estas análises e discussões, portanto, são realizadas através de um processo de interação entre palco e plateia, no qual o espect-ator manifesta suas opiniões agindo/interferindo na cena. O espect-ator, então, gerará esta discussão através da sua intervenção direta, uma intervenção política e estética. O espect-ator, neste caso, é um sujeito de ação política porque age efetivamente na cena e na sociedade, posiciona-se em prol da desopressão, julga, decide, opina. Sua ação também é estética porque é da ordem da percepção, da sensação, da emoção e destina-se, inclusive, a procurar, mesmo que ainda de forma insólita, seguir maneiras usuais de se manifestar através da linguagem do Teatro. Importante, também, ressaltar que neste jogo cênico há uma outra função crucial para o desenvolvimento do espetáculo: a função do curinga. O curinga age como mediador, explicando as regras do jogo, auxiliando e encorajando a plateia a entrar no espaço da cena para contracenar com os atores e realizar o que Boal chamava de ensaio para a realidade. O curinga exerce, também, um papel pedagógico no Teatro-Fórum, pois ele tem a função de coordenar grupos, ministrar oficinas, realizar atividades de mediação e produção cultural. Ele deve ser capaz de coordenar processos de aprendizagem e, muitas vezes, é o responsável por conduzir o primeiro contato do sujeito (atores e espect-atores) com a linguagem teatral. Boal não ignorava que o Teatro-Fórum precisava, também, ser um bom teatro. Como diretor de teatro prezava pelo valor estético da obra, pela qualidade dos elementos da cena e da interpretação dos atores. As técnicas do Teatro do Oprimido não pretendem ser, apenas, meio de discussão política, mas fonte de educação estética para os que o praticam. [...] o importante é que o Teatro-Fórum seja um bom teatro, antes de mais nada. Que a apresentação do modelo seja, em si, fonte de prazer estético. 60 Deve ser um bom e belo espetáculo, antes de ter início a parte do fórum, isto é, a discussão dramática, teatral, do tema proposto. (BOAL, 2005a, p. 323) Assim, Boal, também, não ignora a importância do papel do especialista nos processos teatrais, inclusive no Fórum. Com isso, durante o período de multiplicação das técnicas do Teatro do Oprimido pelo mundo, mantém-se um grupo de formação e trabalhos continuados, denominado Centro de Teatro do Oprimido41. Inicialmente este grupo reunia-se com regularidade para ações como experimentar e sistematizar jogos, ensaiar e apresentar espetáculos teatrais. Com rigor estético, muitos espetáculos realizados pelo CTO, alguns ainda em repertório, apresentam-se em eventos esporádicos, temporadas e/ou festivais, inclusive arrebatando prêmios. Neste caso, entende-se que, mesmo abrindo espaço para as intervenções na cena, reforçando a importância do papel do espect-ator, não se exclui o lugar que o especialista ocupa na construção da cena e nos processos de educação estéticas deflagrados pelo Teatro do Oprimido. Da mesma forma, é possível compreender que um processo que valoriza o lugar do discente no currículo, No entanto, não nega o papel dos especialistas para organizar os temas de forma interdisciplinar. Os conteúdos são definidos junto com os educandos e na realidade em que estão situados. Freire (2003) elimina a diferença entre cultura popular e cultura erudita e permite que a primeira também seja considerada conhecimento que legitimamente faz parte do currículo. (HORNBURG; SILVA, 2007) A cena apresentada antes da intervenção do espectador, ou seja, a encenação do antimodelo, deve ser um bom teatro. Da mesma forma, o currículo não deve ser preparado de qualquer jeito porque será passível de intervenções, transformações e mudanças. O ato de construção de uma proposta curricular deve ser feita por quem domina meios e tem sensibilidade para escutar todos os envolvidos no processo. Boal inaugurou uma proposta estética e política de teatro que tem suas bases no Teatro Épico e Didático de Brecht, o qual, por sua vez, é embasado pelas ideias marxistas que constituem um dos referenciais teóricos mais significativos para as teorias críticas do 41 O Centro de Teatro do Oprimido – CTO-Rio – é um centro de estudos e aperfeiçoamento das técnicas do Teatro do Oprimido […]. É um centro de pesquisa e difusão que desenvolve a metodologia específica do Teatro do Oprimido em laboratórios e em seminários, ambos de caráter permanente, para revisão, experimentação, análise e sistematização de exercícios e técnicas teatrais. (SILVA, C., 2009, p. 33) 61 currículo. Pela descrição dos referenciais que compõem o arsenal teórico desta tese, percebese que mesmo estando cada qual em sua área de saber, todos partem de um referencial filosófico comum. Para Augusto Boal, todos podiam atuar, até mesmo os atores. Seguindo este pensamento, todos os agentes envolvidos em propostas curriculares são atores de um currículo. Mais ainda, o currículo não acontece somente dentro do Teatro, mas em cada espaço no qual os atores, sozinhos ou rodeados de espectadores ou outros atores, são sujeitos da experiência. Pensar em um currículo para atores e não atores seria reivindicar o espaço de ação daquele que é protagonista do percurso, ou seja, de cada discente que se torna autor e ator do seu percurso formativo. Estabelecendo relações entre o Teatro e o currículo para atores e não atores, parte-se de um recorte: o espect-ator e a questão da intervenção. Mesmo considerando que “[...] a partir das técnicas de distanciamento desenvolvidas por Bertolt Brecht, seria incorreto dizer que a principal característica (e exclusiva!) do Teatro-fórum é o diálogo efetivo entre palco e plateia.” (CANDA, 2012, p. 122), o ato do espectador, por assim dizer, invadir a cena, merece destaque para compreensão das práticas desta poética-política. Desta forma, um currículo para atores e não atores, seria um currículo centrado em uma prática na qual especialistas (educadores e curriculistas) e discentes agiriam juntos, cada um a seu modo, interferindo na construção da cena, o currículo, em busca de alternativas que poderiam fazer da proposta pedagógica um espaço para a formação de professores dialógicos, democráticos, política e esteticamente comprometidos com uma educação significativa. A comunidade que faria uso das técnicas do Teatro do Oprimido, ou seja, que constituiria o grupo gerador do anti-modelo e do espetáculo seria, nesta analogia, formada por docentes, discentes e técnicos envolvidos na melhoria de suas condições de ensino, e consequentemente das propostas curriculares. Contudo, há algo que merece uma atenção especial: assim como nos espetáculosfórum, não se deve colocar em cena adjuvantes e oponentes (opressores), os quais não sejam identificados ou personificados; o mesmo ocorreria com o grupo gerador das propostas curriculares, o qual não deveria isolar-se em suas funções, mas privilegiar o diálogo entre todos os envolvidos nas ações curriculares. Explica-se: na cena do fórum, quando o oprimido precisa lutar para transformar sua realidade, ele necessita ter com quem lutar (opressor). Nesta estética, a figura do opressor não 62 pode ser o sistema, a comunidade, a igreja, a escola, o currículo, etc. Isto porque tais exemplos revelam instituições ou entidades abstratas e não pessoas e, por isso, não podem agir. Os personagens opressores devem ser, portanto, os representantes destas instâncias, com os quais pode se estabelecer diálogo, destinar ações e propostas, bem como reacomodar as alternativas em prol das (contra)proposições por eles trazidas ao longo do improviso que se estabelece em cena durante a atuação do espect-ator. No caso do currículo, como nas cenas de fórum, não se deve colocar de um lado os discentes e de outro os docentes; de um lado os curriculistas e de outro os professores; de um lado os discentes e docentes e do outro os técnicos e gestores. O processo curricular é dinâmico: quando cada qual se coloca na condição do protagonista (oprimido), fazendo a análise da cena (ação curricular), pode-se encontrar integrantes dos diversos grupos (gestores, docentes, discentes, etc) representando várias funções dramatúrgicas ao longo da cena. Ou seja, discentes no papel do opressor ou oprimido; técnicos no papel de adjuvante ou opressores; docentes representados pelo opressor ou protagonista, entre todas as outras combinações possíveis. Portanto, é importante cuidar para não reduzir o potencial de uma proposta pedagógica a uma luta maniqueísta de classes. Outro desdobramento possível é o de compreender o currículo como um anti-modelo ou seja, como um modelo passível de análises, sugestões e mudanças. O currículo pode ser visto como anti-modelo no momento em que não se encerra na apresentação da primeira célula cênica, mas se põe em processo de revisão constante. O currículo, enquanto proposta pedagógica, poderia ser como um anti-modelo que se apresenta ao público na condição de ser modificado através de alternativas que visam sua melhoria. O mais importante para esta analogia é perceber que este processo de revisão da proposta pedagógica faz parte do currículo, assim como a revisão do anti-modelo faz parte do espetáculo; ou seja, processa-se no cotidiano das ações curriculares. As intervenções no currículo, como no Teatro-Fórum, deveriam ultrapassar o âmbito das discussões geradas em reuniões e seminários para avançar em direção a atitudes concretas visando novas alternativas de organização curricular. Neste momento, traz-se para a reflexão a ação do curinga, figura que tem como função privilegiar a ação em detrimento ao discurso. No Fórum, quando o espectador inicia a sua proposta de alternativa através do discurso (buscando se explicar apenas utilizando-se das palavras) e não se desloca da sua cadeira em direção ao palco, o curinga o interrompe, 63 reforçando as regras do jogo cênico que dispõem que no Fórum as proposições devem ser ativas, experimentadas, vivenciadas na cena. Tal princípio reafirma a importância da participação ativa de toda a comunidade no processo de organização e ação curricular. Convidar os envolvidos neste espetáculo, currículo, para agir é, de alguma forma, deslocar os discursos para o âmbito da proposição e afirmar a responsabilidade e o compromisso de cada um com este processo. Da mesma forma, deixa claro que as opiniões e sugestões não partem de um lugar inequívoco e, portanto, são passíveis de serem testadas, contestadas e aprimoradas. Isso significa que as ações destes espect-atores devem ser ativas e corajosas, advindas do âmbito das ideias ou da experiência (como as intervenções no espetáculo fórum). Assim, poderão ser implementadas – com cautela e consciência –, colocadas em teste e não em tese, para serem susceptíveis de novas análises e reformulações da proposta. Contudo, assim como há riscos na intervenção da plateia em um espetáculo-fórum, o mesmo pode ocorrer com uma abordagem boaliana para o currículo. Estes riscos recaem, fundamentalmente, sobre os tipos intervenção realizadas pelos espect-atores. Isto porque o palco é naturalmente um espaço de exibição. Logo, são recorrentes intervenções completamente desconexas da sua função primeira: a proposição de uma alternativas que transforme a realidade apresentada na cena. Mesmo com as regras do jogo sendo expostas de maneira igual pelo curinga para toda a plateia, muitos são os espect-atores que agem infringindo as regras estabelecidas, por exemplo: não substituindo o protagonista (oprimido), inventando novos personagens, agredindo os atores em cena, reforçando a situação de opressão ou, até mesmo, agindo, apenas, para satisfazer seu desejo de estar se exibindo para uma plateia. Todo Teatro é um jogo e todo jogo tem regras. A regra principal do Teatro é que o espectador se posiciona consciente diante de uma organização sígnica artificial42, que é o espetáculo, e intenciona espectar. As regras do Teatro-Fórum ultrapassam esta condição e o espectador é convidado a atuar na própria cena, investido da condição de personagem (oprimido), obedecendo outras regras previamente expostas. Isto porque, 42 “A praxis teatral reclama atualmente que quem a exerce saiba como se organiza a significação no Teatro, independentemente de qualquer método de representação em particular, do estilo da peça, do tom que se queira dar ao espetáculo, etc. Independentemente de uma série de variantes, existe uma estrutura da significação no Teatro a que só pode chegar através do conhecimento dos tipos de signos de que serve o espetáculo, das leis que regem sua combinação dos problemas de decodificação desses signos por parte do espectador.” (COELHO NETO, 2003, p. 13) 64 O Teatro-Fórum é um tipo de luta ou jogo, e, como tal, tem suas regras. Elas podem ser modificadas, mas sempre existirão, para que todos participem e uma discussão profunda e fecunda possa nascer. Devemos evitar o fórum selvagem, em que cada um faz o que quer e substitui quem bem entende. (BOAL, 2005a, p.28) Igualmente, nas ações curriculares não é raro observar atitudes como as dos espectatores do Fórum que não obedecem as regras do jogo e privilegiam propósitos pessoais e não coletivos. São exemplos desta natureza no que concerne ao corpo discente: pensar na retirada de determinadas disciplinas porque já havia cursado em outra graduação, por desinteresse ou dificuldade; propor alterações no horário de funcionamento do curso, exclusivamente, por questões de ordem pessoal; sentir-se no direito de ter mais de vinte e cinco por cento de falta porque trabalha ou porque considera já conhecer o conteúdo dado na disciplina; faltar a seminários, festivais, congressos propostos como ação formativa porque não era aula, ou seja, não compreendendo que tais ações são atividades curriculares. Além destes exemplos, outras atitudes, infelizmente, também se mostram comuns, tais como: trabalhos copiados, atrasos, uso de celular em sala de aula, desrespeito ao colega e à autoridade do professor. Todas estas situações são correlatas às condutas de espect-atores que não seguem as regras do Teatro-Fórum e, muitas vezes, ignoram a ação e instrução do curinga ao longo do espetáculo. Quanto aos docentes, pode-se destacar exemplos de atitudes de natureza semelhante: faltar às aulas e reuniões, não cumprir horário, não entregar os Planos de Ensino, atrasar a correção e devolução de trabalhos, não realizar avaliações processuais ou qualitativas, desacreditar na capacidade intelectual/artística do discente, ou mesmo não atualizar em suas propostas pedagógicas, as referências bibliográficas das suas disciplinas. Neste sentido, retoma-se a noção de que a informação não é suficiente, porém é imprescindível. Todas estas são ações que não coadunam com as regras do jogo deste espetáculo-fórum, o currículo. O trabalho dos educadores precisa ajudar na reflexão da própria proposta pedagógica, envidando esforços para a formação de espect-atores do currículo, não de meros espectadores passivos. Almeja-se discentes ativos e interventivos, que não estejam somente preocupados em cumprir as obrigações mínimas do percurso, mas cônscios de todo processo formativo. Contudo, a construção desta prerrogativa não é algo que surge instantaneamente. Por isso, também não seria de se estranhar se durante um longo período de ações e proposições 65 curriculares não se encontrassem alternativas possíveis para ajustes e mudanças. Pois, assim como no Teatro-Fórum, cada comunidade envolvida em seus processos curriculares precisa de um amadurecimento para encontrar seu anti-modelo, seus personagens e, por fim, deflagrar intervenções estéticas e políticas em busca de melhores condições para o ensino e a aprendizagem. Portanto, do mesmo modo que nos espetáculos-fórum, os espect-atores do currículo podem ficar tímidos ou confusos nos momentos de intervenção. Muitas vezes, durante várias sessões do espetáculo-fórum, pode-se ficar sem qualquer proposição que o público considere possível de ser aplicada na vida real. Isto não impede a busca por alternativas. O que importa é continuar fazendo, currículo/teatro, e democratizando os meios de produção para que as discussões possam estar cada vez mais embasadas e as soluções mais próximas. 3.3 ELEMENTOS ESSENCIAIS: AÇÃO, ATOR, ESPECTADOR E TEXTO Partindo da premissa que os elementos ação, ator, espectador e texto podem ser considerados como essenciais para o Teatro e para o currículo, continua-se desenvolvendo esta analogia. Nesta direção, busca-se esclarecer estes conceitos no Teatro para os encontrar no âmbito do currículo. 3.3.1 Ação Currículo é ação e pode-se entender que aqueles que o movem são os seus atores. “Ação no teatro pode ser definida como: sequência de acontecimentos cênicos essenciais produzidos em função do comportamento das personagens.” (PAVIS, 2005, p. 2) Em Teatro, ação é um conceito complexo. Suas definições derivam de aplicações diversas, tais como: na interpretação, na encenação e na dramaturgia. Este conceito será abordado, portanto, apenas nos âmbitos da dramaturgia e da encenação. No primeiro, a ação constitui um elemento do texto dramático, a qual pode ser entendida como uma série de acontecimentos, deflagrados pelos personagens, de modo a impulsionar uma sequência lógica, 66 causal43 ou não. Deste modo, a sequência dos fatos descritos em um texto dramático constitui a intriga da peça, a qual é impulsionada pela ação. A intriga é o resultado da dinâmica das ações organizadas em uma ordem que pode ser percebida no nível dos acontecimentos ou da história da peça. A ação dramática é um recurso utilizado pelo dramaturgo, que se estabelece na intriga através da ação das personagens. A ação, portanto, pode ser entendida, também, como tudo o que fazem as personagens, descrita pelo autor do texto dramático através das réplicas e das rubricas. Deste modo, a ação será conhecida através da leitura da obra dramática. Essas assertivas se embasam em definições mais tradicionais de ação, trazidas em primeira instância por Aristóteles na Poética e, por sua vez, aplicadas mais propriamente a dramaturgias cujas narrativas se processam de forma causal e lógica. Não obstante, tais definições foram salientadas porque o currículo também é organizado enquanto texto. O texto do currículo, no entanto, muitas vezes parece desorganizar uma lógica de previsibilidade e comunicabilidade, intentando objetivos que não pressupõem um entendimento uníssono do enredo, seja ele por empatia, crítica e/ou reflexão. Adentra-se agora ao conceito de ação no plano da encenação. Quando se encena um texto dramático é possível realizar a ação, no palco, de diversas maneiras. Isto ocorre, pois a ação cênica será determinada a partir da interpretação que o grupo de artistas, que se coloca a representar determinada peça, atribui ao discurso do autor. Com isso, no âmbito da encenação, a ação é toda a estrutura posta em cena através da ação das personagens interpretadas pelos atores. A ação no palco não é simplesmente o movimento gerado pelas personagens, posto que ela pode estar acontecendo mesmo na ausência de movimentação ou apenas calcada na fala de cada personagem. A fala da personagem revela um movimento interior – reflexões, decisões – que constituem, também, ação na peça. Assim como a ação cênica, um currículo também é ação porque é resultado de uma vivência gerada a partir do discernimento, interpretação e participação de seus atores nas ideologias nele imbricadas. Partindo deste entendimento, pode-se traçar uma relação entre ação como elemento essencial do Teatro e currículo em ação. Portanto, torna-se necessário 43 O termo causalidade é usado na dramaturgia para caracterizar textos cuja sucessão de fatos de forma tal que o evento B ocorre em função do A. Há uma lógica de causa e consequência que liga os acontecimentos cênicos. 67 entender o currículo como ação porque “Ação é o próprio ato de construção, criação, construção do currículo que é tanto no macro quanto a nossa construção quando a gente está vivenciando o currículo.” (SI). Para a teoria crítica, o currículo em ação permite que se perceba o papel político da escola, através das ações dos agentes nela imbricados, os quais não devem se pautar por uma educação determinada pelos interesses da estrutura social dominante, mas, sim, atribuir poder à totalidade dos seres humanos e das sociedades. É importante esta tomada de consciência para que, mais uma vez, seja possível aproximar todos os envolvidos em uma ação curricular socialmente responsável, na qual os atores estão implicados em todas as etapas do percurso formativo. E onde estariam o ator e o público no currículo? Que lugar eles ocupam e como se comportam? O currículo se destina ao aluno como o espetáculo a um público? 3.3.2 Ator e Espectador Inicia-se esta abordagem esclarecendo que em Teatro, a noção de público (plateia) centra-se no coletivo e de espectador no individual. Ou seja, um grupo de espectadores forma um público, uma plateia. Nota-se que, de fato, aos olhos do espectador, o que interessa mesmo é a obra sendo realizada diante dele. Portanto, considerar o discente como espectador do currículo, é colocálo diante de uma passividade que pode não despertar nele o interesse pelo seu curso, tampouco pela compreensão mais amiúde dos processos pedagógicos que lhes estão sendo propostos. Com isso, é salutar considerar que o ator e o espectador no currículo se complementam tal como no Teatro do Oprimido de Augusto Boal. Como já aqui abordado, o Teatro do Oprimido é uma poética política que privilegia o papel crítico e ativo do espectador no espetáculo. Portanto, para que se alcance responsabilidade e compromisso, deve-se considerar o discente como um espect-ator do currículo. Isto porque “[...] o espetáculo é o início de uma transformação social necessária e não um momento de equilíbrio e repouso. O fim é o começo.” (BOAL, 2005a, p. 19) É a partir desta ideia que se pensa o currículo como o início de uma transformação pessoal e social. 68 Na busca de uma mistura de papéis, pode-se entender os discentes, também, como atores dos seus currículos. Neste caso, não se trata de negar o fato de que docentes, técnicos e gestores também colocam o currículo em ação através de seus personagens, logo, por este prisma, os discentes também são espectadores do currículo. Mas, um espectador que age crítica e ativamente na cena, o espect-ator. Para Boal (2005a) todos somos atores porque temos o Teatro dentro de nós mesmos, ou seja, a capacidade de agir e nos observamos em ação. Neste sentido, Pode-se também dar o nome de “teatro” às ações repetitivas da vida cotidiana: nós encenamos a peça do café da manhã, a cena de ir para o trabalho, o ato de trabalhar, o epílogo do jantar, o almoço épico com toda a família no domingo etc. Nestes casos procedemos como atores numa longa temporada de sucesso, que repetem sempre o mesmo texto, com o mesmos parceiros, executando os mesmos movimentos, nas mesmas horas, por milhares de vezes. (BOAL, 2005a, p. xiv) Pensando nestes rituais profanos e nestas máscaras sociais que se veste a todo instante, é possível situar os agentes do currículo como personagens que, conforme o pensamento acima, podem também ser considerados como um teatro das ações cotidianas. Neste espetáculo, interpreta-se cotidianamente os personagens professor e aluno, somos capazes de transformar nossas ações porque nos vemos em ação e a colocamos em análise. Tomando ainda como base para estas reflexões o Teatro do Oprimido e o espetáculo como ensaio para a vida, é válido trazer outro questionamento proposto por um dos discentes do curso: “Muitas vezes o público pode ser a escola, muitas vezes o público sou eu, o aluno da graduação. Muitas vezes o ator é o próprio professor, mas aí já sou eu. É muito complexo isso. Como o teatro é complexo. Como é difícil compreender estes lugares no teatro.” (SI) Parece interessante pensar que o público no currículo pode estar situado nos espaços educacionais nos quais o discente vai trabalhar enquanto professor. Deste modo, o público estaria na escola básica, nas Ong’s, nas associações, ou seja, nos espaços onde o currículo se apresenta ordinariamente como espetáculo para conseguir o agrado de quem o assiste e interage com ele. “Tem público que não gosta do seu espetáculo, assim como tem aluno que não gosta da tua disciplina”. (SI) A fala deste discente desperta uma discussão a respeito do espetáculo e do currículo como mercadoria. Para isso, é necessário estar atento para a seguinte reflexão: 69 A aprendizagem que conhecemos da escola, da preparação profissional etc., é indubitavelmente penosa. Mas, deve ter-se em conta em que circunstâncias e para que objetivo ela se processa. Trata-se, na realidade, de uma compra. A instrução é mera mercadoria, adquirida com o objetivo de revenda. (BRECHT, 2006, p. 68) Neste caso, tratar o currículo e o Teatro como mercadoria é retirar dele o sentido primeiro: provocar uma experiência estética. É cauteloso, portanto, cuidar para que a partir do momento em que o sujeito se posiciona como ator de seu currículo, não fique totalmente subordinado à plateia. O artista, mesmo ponderando as críticas, conhece a sua obra e domina os meios de sua realização. 3.3.3 Texto Adentra-se agora a outro elemento essencial do Teatro e do currículo, o texto. Muito já foi dito sobre este elemento quando da compreensão do elemento da ação. Contudo, outros sentidos são buscados nesta nova abordagem. Nela, o texto, também, será tomado sob dois aspectos: como texto dramático e texto cênico. Todo texto é teatralizável a partir do momento que o usam em cena [...]. O que até o século XX passava pela marca do dramático – diálogos, conflitos e situação dramática, noção de personagem – não é mais condição sine qua non do texto destinado à cena ou nela usado (PAVIS, 2005, p. 404) O texto dramático, por sua vez, assumirá aqui nesta tese a compreensão de que foi escrito para ser encenado, colocado em cena. Parte-se do entendimento de que houve, num momento antes da ação em cena, o exercício artístico de um dramaturgo que elaborou um texto que se concretiza mediante a ação das personagens. Assim, o texto dramático, por conta de sua estrutura enquanto literatura dramática, tem sua fruição através da leitura, porém é escrito com a intenção de completar seus sentidos através da cena. Da mesma forma é o currículo. O Projeto Pedagógico é como o texto dramático do currículo. O currículo, portanto, é o modo através do qual o Projeto Pedagógico de um curso se materializa em cena. Assim como o Teatro, no sentido de encenação e na acepção de transposição de linguagem, é o texto em cena. 70 O Projeto Pedagógico é a maneira como se registra o currículo no seu sentido formal. Para as teorias do currículo, o currículo formal são as orientações curriculares escritas em diretrizes, parâmetros e projetos pedagógicos, ou seja, são documentos prescritivos oriundos de escolas, governos e outras instâncias educacionais. Assim, o Projeto Pedagógico [...] traz os princípios norteadores do curso, o perfil do profissional que pretende formar e a matriz curricular, certamente, não expressa no seu texto os processos interacionais que o produziram, mas estes foram decisivos na definição das características que ele adquiriu. (PASSOS, 2007, p. 40) Tais processos interacionais, dos quais fala Passos, podem ser associados ao que comumente chamamos em Teatro de subtexto. O subtexto, no Teatro, contém um sentido que não pode ser lido literalmente no texto, mas é dado pelo ator através da interpretação de sua personagem. O subtexto é um conceito cunhado por Stanislaviski44 (1996) que revela aquilo que se esconde nas entrelinhas das palavras do dramaturgo. “É o subtexto que nos faz dizer as palavras que dizemos numa peça. [...] Quando são faladas as palavras vem do autor, o subtexto vem do ator”. (STANISLAVISKI, 1996, p. 137-138) O subtexto, de alguma forma, norteia a encenação, pois as ações colocadas em cena, através da movimentação ou fala dos personagens, são deflagradas por esta noção de que há um significante entre o que é dito e a forma como é dito. Sendo que o que é dito é o texto a forma como é dito denota o subtexto. Muitas vezes, o subtexto vem indicado pelo autor nas rubricas de ação e/ou emoção, auxiliando o ator no trabalho da interpretação. Outras vezes, apenas um estudo esmiuçado da obra dramática em questão pode revelar o subtexto por traz do texto. Esse pensamento justifica, de certa forma, o levantamento histórico realizado no próximo capítulo. O estudo empreendido no sentido de compreender o processo de construção deste currículo auxilia, assim como a um ator, a encontrar nos meandros das réplicas e rubricas do Projeto Pedagógico, os significantes que residem nos sentidos mais profundos do que vem sendo dito pelo autor através das personagens. 44 Constantin Stanislaviski (1863-1938) um dos principais diretores-pedagogos do século XX desenvolveu um sistema, ou método, de interpretação registrado em três obras: A preparação do ator, A construção da personagem e A criação de um papel. 71 No dia-a-dia do seu curso de graduação, as relações que o discente trava com os outros personagens do currículo dão-se, substancialmente, através dos seus subtextos. É possível entender, portanto, que a noção de subtexto assemelha-se à noção de currículo oculto. O currículo oculto não constitui propriamente uma teoria, mas está presente nas relações sociais da escola (Universidade). O currículo oculto compreende tudo aquilo que acontece, mas não está explicitado no currículo formal (escrito, prescritivo). “O currículo oculto é constituído por aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazerem parte do currículo oficial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes.” (SILVA, T., 2003, p. 78) Ele compreende valores, comportamentos, ações, às vezes implícitas e não organizadas na proposta curricular. Podem, portanto interferir de forma positiva ou não no percurso. Nem sempre o currículo oculto é possível de ser descortinado, como requer a teoria crítica. Neste sentido, é possível questionar se a interpretação destes valores ocultos, transmitidos pelos comportamentos, não seriam passíveis de significação produzida pelas subjetividades dos sujeitos envolvidos. A partir de tal entendimento, haveria várias interpretações possíveis sobre o que está oculto no currículo, bem como o julgamento que se faz na ordem moral de cada sujeito. Retomando a analogia, da mesma forma que um texto dramático, o Projeto Pedagógico do curso foi escrito para ser colocado em ação, encenado. Esse documento não foi elaborado para ocupar as prateleiras, ser lido e devolvido ao acervo. É um texto que se destina a completar os seus sentidos em cena. Com isso, o PP prevê interferências, ajustes, reformas, adaptações que vão sendo construídas ao longo da temporada em que o currículo permanece em cena. Currículos compreendem planos, atividades e materiais que têm por finalidade influenciar a experiência de quem aprende. Como estes planos são elaborados, que materiais devem ser empregados, são resultados da tomada de decisão educacional contingente aos valores que subscrevemos e às opções que fazemos. (EISNER, 2002, p. 86) Deve-se atentar, portanto, para que o PP do curso não seja tomado como um pretexto, ou seja, aquilo que é colocado em ação, ou encenado, não é o texto em si. Nestes casos, do texto como pretexto, constrói-se um espetáculo no qual o texto dramático serviu apenas como fonte de inspiração, podendo-se até criar um outro texto a partir do primeiro, muitas vezes redundando em uma subversão daquele. Nota-se o que um dos discentes entrevistados fala sobre o tema: 72 E eu acho que o texto do currículo é essa coisa de: o currículo pode ser dinâmico, aberto. Mas em compensação, ele não pode ser muito solto no sentido de: eu faço o que eu quero. Existe uma filosofia por trás deste currículo, existe um pensamento político por trás deste currículo, um pensamento ideológico por trás do currículo. Então, por mais que eu possa dar a minha cara ao currículo, ao mesmo tempo, de certo modo respeito este pensamento comum que eu vejo como essa analogia do texto – o pensamento comum – mas, que a gente dá a nossa cara para este pensamento, mas respeitando esta ideologia comum. (SI) O discente faz um alerta norteador para o perigo de se tomar o PP apenas como um pretexto do currículo. Não se pretende com esta analogia invalidar ou minorar processos artísticos que se utilizam do texto como pretexto. Nestes caso, conclama-se, apenas, a ética de esclarecer ao público que o espetáculo que se apresenta não é a encenação do texto dramático escolhido, mas sim uma livre adaptação a partir deste. Já no caso do currículo, o que se organiza em cena é o Projeto Pedagógico, ou seja, é este texto que é divulgado ao público enquanto espetáculo. O currículo em ação é como um espetáculo que se entrega ao público, neste sentido: Há ainda outra questão a abordar: a entrega ao público do que se preparou nos ensaios. É necessário que o gesto de entregar algo já concluído esteja sempre subjacente à representação propriamente dita. Perante o espectador, surge, agora, tudo o que não foi rejeitado e que foi submetido a múltiplas repetições; as reproduções concluídas devem, pois, ser apresentadas em absoluta lucidez, para que possam ser recebidas com lucidez. (BRECHT, 2006, p. 165) Portanto, é necessário atenção para que os ajustes e as adaptações no PP sejam deflagrados dentro de uma margem de interpretações possíveis e, assim, não se altere os seus sentidos primeiros em busca de novas proposições para o ensino e a aprendizagem. Este limite, às vezes tênue, entre o texto e o texto como pretexto, pode gerar um embate refletido na ideia de um textocentrismo, o qual pode ser definido como uma tendência de respeitar, ao pé da letra, o que o autor coloca em sua obra dramática. O textocentrismo advém de um período na história do Teatro no qual o autor dramático era o grande poeta da cena. Assim, todo espetáculo teatral tem como obrigação respeitar e enaltecer as palavras do poeta. Neste sentido, vale trazer o complemento da reflexão do citado discente. Da mesma forma em que se deve cuidar para que no currículo o texto não vire pretexto, também, não cabe uma encenação textocêntrica do PP. Não precisa ser um espetáculo textocentrista, ele pode se basear nele, como aquilo que conduz, o ponto inicial. (SI) 73 Outra noção que precisa ser ressaltada é a de que quando se toma conhecimento do texto através da encenação, já não se está mais o lendo enquanto literatura, pois já é enunciado e ganha conotações trazidas pela cena. Ou seja, o público trava contato com o texto cênico que é o resultado da transposição de um texto dramático em outra linguagem, a linguagem teatral. Partindo desta reflexão, seria interessante pensar sobre a necessidade do discente conhecer o texto do currículo através da sua leitura, para somente depois colocá-lo em cena. Uma vez que estamos tomando o discente, também, como atores do currículo, é necessário que ele faça leitura e análise da obra, para, somente depois, colocá-la em ação. Mas, como será que um curso pode dar ao discente a oportunidade de conhecer a obra, o texto do currículo? Neste sentido, responde-se esta questão a partir da experiência deste Curso de Teatro. Um dos modos encontrados para apresentar o texto do currículo aos alunos, foi reunir os discentes a cada início de semestre para lhes falar sobre a proposta curricular, bem como incentivar a sua leitura. Quando se pensa na leitura do texto do currículo, comparando-o a uma obra dramatúrgica, faz-se interessante pensar neste texto como uma obra aberta. Este conceito, que valoriza o fruidor e o ato da interpretação, é assim explicado: A poética da obra “aberta” tende [...] a promover no intérprete “atos de liberdade consciente”, pô-lo em centro ativo de uma rede de relações inesgotáveis, entre as quais ele instaura sua própria forma, sem ser determinado por uma necessidade que lhe prescreva os modos definitivos de organização da obra fruída; [...] poder-se-ia objetivar que qualquer obra de arte, embora não se entregue materialmente inacabada, exige uma resposta livre e inventiva, mesmo porque não poderá ser realmente compreendida se o intérprete não a reinventar num ato de congenialidade com o autor. (ECO, 2010, p. 41) Assimcomo uma obra de arte é passível de diversas interpretações, o currículo pode se processar de diversas maneiras a depender de como os seus agentes preenchem as lacunas de sentido deixadas pelo(s) autor(es) do texto. Para contribuir com a reflexão sobre o currículo como uma obra aberta, traz-se outra fala de um discente do curso: 74 É uma obra que está aberta para momentos de concepção, criação. [..] O teatro tem um pouco disso, quando você pega um texto tem essa questão de você dar asas no momento da criação do ator para que a ação venha [...] existe o texto, porém este texto lhe dá argumento para que você possa criar. Existe também o currículo proposto, porém esse currículo vai acontecendo desta experiência, deste processo que vai sendo executado e durante o processo vai se tendo muita informação do que funciona, do que não funciona. Não pode ser aquela coisa fechada. (SE) Potencialmente, a (re)escrita do texto do currículo pode ser iniciada assim como um texto dramático que é objeto de um trabalho de mesa. O trabalho de mesa é uma técnica na qual o texto é destrinchado pela direção e pelo elenco que buscam compreender melhor as intenções do autor, encontrar entonações, objetivos de personagens, entre outros procedimentos comuns a uma encenação que lança mão desse trabalho. Nesse momento, também se inicia, muitas vezes, os cortes de texto, as substituições de palavras e as atualizações. No caso do Projeto Pedagógico, as atualizações se dão através dos Programas de Disciplina e Planos de Ensino, os quais não só permitem, mas abrem espaços que fomentam uma atualização constante do currículo. Quando o PP é criado, redige-se, também, Formulários de Criação de Disciplina (FCD), os quais contemplam: a unidade acadêmica a qual pertence a disciplina; o departamento e o curso que ofertam; nome e código; prérequisitos ou correquisitos; regime (semestral, anual ou modular); turno e semestre em que é ofertada; justificativa; objetivo; ementa; descrição de carga-horária; bibliografia; e campos para assinatura dos órgãos competentes. O FCD é redigido, apenas, conjuntamente ao PP ou quando se deseja uma mudança em alguns destes caráteres, listados acima, na disciplina. Ou seja, fazem parte de um documento prescritivo que serve de suporte para a ação que se desenrola no dia-a-dia do currículo. Para embasar esta ação, existe o Plano de Ensino que deve ser redigido pelo professor para cada disciplina que ele vai ministrar a cada semestre. No Plano de Ensino, que deve ser apresentado ao aluno no começo do semestre, o professor tem espaço para descrever sua metodologia de ensino, as atividades discentes e especificar seu processo de avaliação que, claro, deve estar em consonância com o formulário acima citado. Por outro lado, podemos entender o currículo como o próprio texto, o texto cênico. No espetáculo teatral o texto cênico é aquilo que é colocado em cena, pois todos os elementos organizados em uma encenação são passíveis de leitura (interpretação) para o espectador. 75 [...] é a relação de todos os sistemas significantes usados na representação e cujo arranjo e interação formam a encenação. O texto espetacular é portanto uma noção abstrata e teórica, e não empírica e prática. Ela considera o espetáculo como um modelo reduzido onde se observa a produção de sentido. (PAVIS, 2005, p. 409) Nota-se, então, que compreender o currículo como texto cênico é buscar traçar relações que se aproximam da ideia de currículo em ação e de currículo oculto, ou seja, é compreender o currículo como produtor de sentidos. Concluindo esta abordagem, retorna-se ao início deste capítulo e reflete-se sobre o quanto mais poderia ter sido explorado nesta analogia. Tanto no que concerne às práticas dos teatrólogos quanto dos educadores postos em questão, bem como quanto às análises comparativas com o campo do currículo. Contudo, encerra-se o capítulo na certeza de que o estudo realizado, motivado pela analogia raiz do currículo como Teatro, levantou comparações que podem ser capazes de impulsionar propostas curriculares transformadoras. Cabe ainda dizer que esta tese não pretende um status salvacionista. Não se procura deixar uma receita de sucesso. Considera-se, no entanto, que estas reflexões podem servir para suscitar alternativas, como no Teatro-Fórum, para uma educação pautada em processos éticos, democráticos, dialógicos e estéticos. Tem-se como finalidade, portanto, considerar que em um processo educativo, todas as questões pertinentes às teorias curriculares – geralmente trazidas pelos especialistas neste campo de saber – serão insuficientemente significativas se negligenciarem os conhecimentos dos discentes e não refletirem, com sinceridade, sobre suas considerações feitas à respeito de seus processos formativos. Processos educativos que abrem espaço para que os discentes reflitam e ajam em seus currículos contribuem para a formação de sujeitos conscientes de que são os únicos responsáveis por atribuir sentido às suas experiências e, assim, entendem que seu lugar no processo educativo não pode revelar a passividade dos espectadores em uma plateia escura. Para finalizar, faz-se necessário lembrar que como o PP é elaborado para ser analisado constantemente e tais análises vislumbram necessidades de alterações em sua matéria. O currículo deve estar atualizado para seu tempo, e como o Teatro, comunicar ao público do seu tempo. Dentro do período de vida de um curso, o currículo pode ser atualizado ou substituído 76 por outro através da escrita de um novo Projeto Pedagógico. Assim, será um novo texto que gerará uma nova encenação realizada por novos atores integrantes de um novo mundo.45 45 Importante salientar que as atualizações no PP nem sempre decorrem da escrita de um novo projeto. Documentos aditivos podem cumprir a função de atualizá-lo. Uma nova integralização curricular com alterações que não decorram na mudança da carga horária total do curso ou quando não se pretende alterar o perfil do egresso, por exemplo, são ajustes que não necessitam da escrita de um novo PP. 77 4 ANÁLISES E CONTEXTOS Este capítulo pretende realizar uma abordagem histórica do curso de Teatrolicenciatura da UFC. Para tanto, remonta-se o surgimento do curso nesta Universidade, bem como se coloca em análise o seu Projeto Pedagógico. Tem-se, como objetivo contextualizar os movimentos de implantação e reforma das propostas curriculares do curso. Com tal intento, inicia-se fazendo uma retrospectiva sobre o ensino de Arte no Brasil, especialmente no século XX, permitindo, assim, entender melhor as circunstâncias que favoreceram a implantação desta licenciatura. Em seguida, foca-se nas situações que precederam o surgimento deste curso, em específico na cidade de Fortaleza-CE. Assim, como o surgimento do curso coincide temporalmente com a implantação do Instituto de Cultura e Arte, enquanto unidade acadêmica, dedica-se uma subseção a entender as propostas político-pedagógicas que norteiam o Instituto. Por fim, analisa-se o PPC, enfatizando as duas propostas curriculares que estiveram (e estão) em vigor deste sua implantação até o presente momento (2011-2013). 4.1 SOBRE O ENSINO DE ARTE NO BRASIL É relevante para esta abordagem compreender que apenas no século XX, com o movimento do Modernismo46, foi que a área da educação passou a entender a Arte como expressão. Isto porque, como esta tese pretende tratar de um professor de Teatro que seja docente e também artista, pode-se considerar que esta mudança de paradigma do ensino de Arte nas escolas foi embrionária de um novo modo de pensar sobre uma formação artística para professores de Arte. Entende-se que neste momento, o ensino de Arte era um projeto embrionário porque, mesmo sob a influência das ideias do filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey e a Escola Nova47, a Educação Artística no currículo do ensino formal trazia consigo um sentido 46 O Modernismo foi um movimento artístico e literário do início do século XX que visava romper com as tendências estéticas que o precederam. Para tanto evocava-se, principalmente, a liberdade estética e a experimentação. Seu marco foi a semana da Arte Moderna realizada em 1922 na cidade de São Paulo. 47 Escola Nova foi um movimento de reforma no ensino inserido no Brasil por Rui Barbosa (1849-1923) em 1882, tomou forças na década de 1930 e teve o filósofo John Dewey com a grande influência de seu ideário. 78 tecnicista herdado das experiências americanas com o ensino do desenho aplicado à indústria. Quanto a este tema, pode-se notar que: A Arte aplicada às indústrias, vista não apenas como uma técnica, mas como possuindo qualidades artísticas capazes de “elevar a alma às etéreas regiões do Belo”, foi ainda mais ardosamente defendida como parte do currículo das escolas primária e secundária. [...] O assombroso progresso industrial dos EUA foi atribuído à precoce iniciação da juventude americana no estudo do Desenho e à boa organização naquele país do ensino da Arte aplicada à indústria [...]. (BARBOSA, 2005b, p. 38-40) Contudo, dois principais movimentos de reforma na educação foram responsáveis por divulgar e consolidar as ideias de John Dewey para o ensino de Arte. O primeiro movimento ocorreu no Rio de Janeiro (1929) e foi de autoria de Fernando Azevedo. O segundo, ocorreu em Minas Gerais (1927-1929), sob a condução de Francisco Campos. Em seguida, pode ser verificada uma tendência do ensino de Arte como atividade extracurricular. Neste período, o Brasil conta com o método art nouveau48 de Theodoro Braga na Escola Brasileira de Arte, bem como com os cursos mantidos por Anita Malfati para crianças e jovens em seu ateliê e na Escola Mackenzie. Mário de Andrade também deu uma significativa contribuição para o ensino de Arte através de seus estudos que valorizavam a produção pictórica da criança que foram divulgados pelo seu curso de Filosofia e História da Arte na Universidade do Distrito Federal e por suas publicações em jornais. Contudo, o Estado Novo49 (1937-1945) interrompeu o progresso da Escola Nova e consequentemente o desenvolvimento do ensino de Arte na escola. Este momento marcou, portanto, [...] o início da pedagogização da arte na escola. Não veremos, a partir daí, por alguns anos, uma reflexão acerca da arte/educação vinculada à especificidade da arte, como fizera Mário de Andrade, e que só o pósmodernismo voltaria a fazer, mas uma utilização instrumental da arte na escola para treinar o olho e a visão ou seu uso para liberação emocional e para o desenvolvimento da originalidade vanguardista e da criatividade, esta considerada como beleza ou novidade. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p.22) 48 Método art nouveau48de Theodoro Braga é um método de ensino de desenho, influenciado pela renovação da arte decorativa, que influenciou o ensino das Artes Plásticas no início do século XX. 49 Regime de governo oriundo de um golpe político dado por Getúlio Vargas em 1937 e durou até 1945. 79 Com a queda do regime do Estado Novo, o ensino de Arte deflagrou o surgimento de inúmeros ateliês voltados para crianças. Neste período, o ensino de Arte objetivava a liberação da livre expressão da criança. Em 1948, a Escolinha de Arte do Brasil50, iniciou um processo de formação de professores de Arte o que influenciou consideravelmente na criação dos citados ateliês, os quais se uniram em um Movimento de Escolinhas de Arte (MEA). O MEA, por sua vez, “[...] tentou convencer a escola comum da necessidade de deixar a criança se expressar livremente usando lápis, pincel, tinta, argila etc.” (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p.23) A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1961 foi a finalização de um período de luta em prol da Arte-educação. Este processo de luta passava pela tentativa da renovação dos Parâmetros Curriculares Nacionais; pela oficialização do programa de desenho de Lúcio Costa51 pelo Ministério da Educação, bem como pela regulamentação das classes experimentais que visavam investigar alternativas para o ensino curricular de Arte. A LDB de 1961 permitiu uma maior flexibilização dos currículos, mas, mesmo assim, o ensino de Arte na escola ainda não se institucionalizara. O golpe militar de 1964 reduziu o ensino de Arte na escola a desenhos alusivos a datas de comemoração cívica, religiosa e outras manifestações sazonais. Neste período, houve um descompasso entre as escolas públicas e privadas. Ao passo que as escolas públicas valorizavam o desenho geométrico quase como um retorno ao ensino de Arte do começo do século, as escolas privadas incluíam o ensino de Arte em seus currículos metodologicamente pautadas na variação de técnicas. Portanto, as escolas especializadas em ensino de Arte continuaram suas experiências recebendo influências de educadores como Paulo Freire, por exemplo. Estas escolas formaram os primeiros professores que assumiram o ensino obrigatório de Arte nas escolas, instituído pela nova Lei de Diretrizes e Bases de 1971. A partir de então, surgiram os primeiros cursos de licenciaturas em Arte. No que concerne especificamente aos currículos dos cursos de formação de professores, Santana (2000) aponta que as propostas pedagógicas das licenciaturas se baseavam no currículo conhecido como 3+1, ou seja, era um curso de bacharelado em três 50 A Escolinha de Arte no Brasil foi criada pelo pernambucano Augusto Rodrigues e, 1948 e funcionava, inicialmente, na biblioteca infantil do Rio de Janeiro. 51 O programa de desenho de Lúcio Costa (1940) foi encomendado pelo ministro Capanema e visava a reformulação do ensino do desenho nos cursos secundários. 80 anos e mais um ano dedicado a disciplinas pedagógicas. Dentre várias reformas ocorridas no âmbito curricular das licenciaturas, pode-se ressaltar que: “[...] o educador assume o papel de técnico, propositor de caminhos de aprendizagem, em detrimento ao poder pedagógico e da cultura que é portador. (SANTANA, 2000, p. 52-53) Assim, até o aparecimento da disciplina de Educação Artística, o perfil dos cursos de interpretação nortearam os cursos de formação de professores de Teatro. Seguindo esta trajetória, muitas universidades do Ocidente criaram núcleos e grupos e teatros que aos poucos foram transformando-se em cursos superiores. No Brasil esse fenômeno ocorreu principalmente na década de 60, com a criação de grupos teatrais amadores em muitos lugares do país e a profissionalização que lhe foi decorrente; a realização de festivais em todos os ramos das artes; a multiplicação das escolas de arte dramática, muitas das quais foram federalizadas e, em alguns casos, incorporadas às universidades. (SANTANA, 2000, p. 66) É neste contexto que começa a trajetória da criação do Curso de Artes Dramáticas da UFC, cujo percurso histórico deu origem ao curso superior de formação de professores de Teatro nesta Universidade. Portanto, processa-se na próxima subseção retomar a história dos movimentos curriculares do CAD. Sobre o processo de implementação dos primeiros cursos superiores para formação de professores de Arte, é possível considerar que [...] cursos universitários de dois anos foram criados para preparar professores aligeirados, que ensinassem todas as artes ao mesmo tempo, tornando a arte na escola uma ineficiência a mais no currículo. A Reforma Educacional de 1971 estabeleceu um novo conceito de ensino de arte: a prática da polivalência. Segundo esta reforma, as artes plásticas, a música e as artes cênicas (teatro e dança) deveriam ser ensinadas conjuntamente por um mesmo professor da primeira à oitava séries do primeiro grau. (BARBOSA; COUTINHO, 2011, p. 28) Assim, os cursos superiores formavam professores polivalentes em um curso com duração básica de dois anos, a chamada licenciatura curta. Após a conclusão deste ciclo inicial o professor poderia continuar seus estudos em direção à licenciatura plena, escolhendo uma linguagem específica: Artes Plásticas, Desenho, Artes Cênicas (Teatro e Dança) ou Música. Durante a década de setenta e o início dos anos oitenta foram realizados três encontros 81 de Arte-educação. O Primeiro Encontro de Especialistas de Arte e Educação foi organizado pelo MEC junto com a UnB e foi realizado em Brasília em 1973; o segundo foi um encontro Latino Americano de Arte Educação, que se realizou no Rio de Janeiro em 1977; e o terceiro foi a Semana de Arte e Ensino organizada pela Universidade de São Paulo. Estes espaços, denotaram, entre outras questões, a insuficiência de pesquisa e produção acadêmica na área do ensino de Arte. Neste panorama foi inaugurada a primeira linha de pesquisa em arte/educação em uma Pós-Graduação em Artes (ECA/USP) e outras sucederam. Então, a década de oitenta foi próspera na criação de associações de professores; na realização de encontros nacionais e internacionais sobre arte/educação; na implementação de reformas nos cursos superiores de formação de professores de Arte; e na inauguração de linhas de pesquisa em arte/educação nas principais programas de Pós-Graduações em Artes do País. Outros grandes marcos da história do ensino de Arte no Brasil e que encerram o século XX foram a incorporação da Proposta Triangular de Ana Mae Barbosa e a publicação de novos Parâmetros curriculares nacionais, que mesmo passíveis de críticas, consideravam a Arte como conhecimento. O movimento curricular da Arte-educação no Brasil contempla duas vertentes principais, são elas: as implementações e transformações ocorridas no âmbito da escola básica e do ensino não formal e a criação dos cursos de formação de professores para atuarem nestes ambientes educacionais. Neste caso, esta revisão histórica vem respaldar a necessidade da criação de cursos superiores de professores de Arte, interessando-se, especialmente, pelos movimentos ocorridos no âmbito do ensino superior. 4.2 O CURSO DE TEATRO-LICENCIATURA O curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciaturada Universidade Federal do Ceará52 foi proposto e constituído com base no patrimônio histórico e cultural do Curso de Artes Dramática (CAD/UFC). Por isso, com objetivo de compreender 52 O Curso de Teatro-licenciatura nasce com o nome de Curso de Arte Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura. O projeto foi idealizado para que outros cursos relativos às Artes Cênicas, que pudessem vir a ser criados no Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA/UFC), se abrigassem sob este grande guarda-chuva léxico que se refere ao que “tem relação com a cena”. (PAVIS, 2005, p. 44) Contudo, a posterior aprovação dos Cursos de bacharelado e licenciatura em Dança, desvinculados do projeto original das Artes Cênicas, não atendeu plenamente os objetivos iniciais do curso. Da mesma forma, no ano de 2010, o Ministério da Educação (MEC) do Governo Federal empreendeu a iniciativa de homogeneizar os nomes dos cursos de nível técnicos e superior. Assim, o curso passou a se chamar Teatro-licenciatura. 82 criticamente os processos sócio-culturais que deram origem ao Curso de Teatro-licenciatura, tomou-se como instrumento de pesquisa uma entrevista realizada com um dos professores do curso53, bem como a historiografia do CAD54. Nestes documentos que fazem a historiografia do CAD foi possível encontrar algumas narrativas sobre o percurso do ensino do Teatro na UFC, que compreende o período que antecede a criação CAD e vai até a criação do curso superior de Artes Cênicas. Para insumos deste trabalho foram selecionados trechos que tratam especificamente de temas concernentes aos movimentos curriculares que o CAD sofreu até dar lugar ao curso superior de Artes Cênicas. Desta forma, a Universidade Federal do Ceará e o Instituto de Cultura e Arte ao acolherem o curso de Artes Cênicas como ensino superior, o qual teve enquanto professores e idealizadores alguns docentes do CAD, incluem em sua primeira proposta pedagógica os cinquenta anos de experiência em avaliação e transformação curricular para o ensino do Teatro vivenciados na UFC. O CAD foi inaugurado no final dos anos cinquenta sob o incentivo do Reitor Antônio Martins Filho para criar espaços de produção artística na Universidade do Ceará (posteriormente chamada de Universidade Federal do Ceará). A convite do citado Reitor, José B. de Paiva, homem de Teatro55 cearense radicado no Rio de Janeiro-RJ, passou conduzir o CAD em Fortaleza-CE. Contudo, anteriormente a este fato, data de 1949 a formação do Grupo de Teatro Universitário, com os chamados acadêmicos de direito da UFC, criado por Waldemar Garcia.56 Segundo o entrevistado, o CAD foi responsável por sustentar a ideia e o projeto de uma sistematização do estudo do Teatro em Fortaleza-CE, tendo sido responsável pela formação de duas gerações de atores na cidade. Segundo ele, antes do CAD o estudo e a prática do Teatro eram realizados por grupos e ações isoladas. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foi o primeiro espetáculo do CAD, datado de julho de 1960. Até a década de setenta, o CAD funcionou vinculado ao curso de 53 Referencias a este professor entrevistado na pesquisa foram feitas no capítulo 2. Curso de Artes Dramáticas. Curso técnico de formação de atores inicia suas atividades em 15 de março de 1960. 55 No vocabulário informal, chama-se de homem de Teatro aquelas pessoas que exercem ou exerceram diversas funções na atividade teatral – dramaturgos, ator, diretor, crítico, etc – dedicando a sua vida ao ofício de artista do Teatro. 56 Waldemar Garcia, pintor e homem de Teatro, dirigiu o Teatro Universitário da Faculdade de Direito da UFC. 54 83 Arquitetura e posteriormente integrou o organograma da Pró-Reitoria de Extensão (PROEXTUFC). A primeira integralização curricular do CAD contava com seis semestres de duração e os seguintes componentes curriculares: História Geral do Teatro; Voz; Música e Ritmo; Interpretação; Expressão Corporal; Estética; e Introdução à Linguagem de Televisão. Na década seguinte, os dois últimos componentes citados foram excluídos e somam-se Introdução à Comunicação e Improvisação. É possível observar que, na historiografia do CAD, muitas das transformações ocorridas em sua integralização curricular deram-se em virtude da transição de professores no curso. Cada professor que vinha integrar a equipe trazia consigo uma gama de conhecimentos e ideais arraigados em experiências que propunham novas formulações para o currículo do curso, o qual estava em constante movimento. Assim, No final dos anos 1970, já com quatro semestres, o curso se reestrutura. Betânia Montenegro assume a cadeira de Expressão Corporal (19782006) e Edilson Soares se efetiva como professor de Interpretação (até 2005). Em 1979, são criadas duas matérias: História da Cultura Brasileira e História do Teatro Brasileiro, ministradas respectivamente por José Carlos Matos (1979-1982) e Ricardo Guilherme. Este último (também professor de Elementos de Direção e Teoria do Teatro durante as décadas 1980 e 1990). [...] Com a morte de Gracinha Soares (Voz) em 1982, Glória Martins a substitui até meados da década 1990, período em que Ivonilson Borges rege esta disciplina e Elvis Matos, substituindo Dalva Stela, assume as aulas de Música e Ritmo, matéria que a partir da segunda metade dos anos noventa passa a ser ministrada pelo maestro Poti Fontenele. Valéria Albuquerque começa a lecionar a recém-criada Caracterização Teatral, em 1995. No ano seguinte, Gil Brandão passa a ser professor de História Geral do Teatro. (GUILHERME, 2010)57 Uma nova alteração na carga horária do CAD veio a ocorrer durante a década de 1990, reduzindo sua conclusão para o período de três semestres. Contudo, segundo o entrevistado, o curso permaneceu reconhecido pelo Ministério da Educação e do Trabalho como local de formação de atores. 57 Nota-se que os três últimos professores citados pelo autor, juntamente com ele, são atualmente professores do curso superior em Teatro-Licenciatura. Da mesma forma, o professor Elvis Matos, atualmente preside a Secult-Arte/UFC57 e é professor do curso de Música-Licenciatura/UFC. 84 No início dos anos 2000, concomitante aos anseios e discussões sobre a reformulação do CAD, um grupo professores redatores58 preparava o Projeto Pedagógico do Curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura (currículo 2010.1) para aprovação da criação do curso superior. Os professores do CAD acreditavam que este novo momento histórico traria profundas e inovadoras repercussões ao curso e apostavam na formulação de um novo modelo curricular que não abarcasse apenas a inclusão/exclusão de disciplinas ou alteração de carga horária. O corpo docente buscava uma nova proposta: “[...] o CAD não deveria ser um cursinho pré-universitário [...] ou uma miniatura de um curso em terceiro grau.” (Professor). Uma das propostas seria, aproveitando os benefícios de ser um curso livre – que não possuía as amarras de um curso de graduação –, organizá-lo de forma tal que as disciplinas fossem ministradas mediante uma proposta de pesquisa/montagem. Assim, os conteúdos dos componentes curriculares se organizariam de modo interdisciplinar em função da montagem de um espetáculo teatral. A proposta se completaria com os alunos sendo propositores de um projeto de montagem de espetáculos cênicos, nos quais os professores assumiriam a função de orientálos na execução destes projetos. A expectativa existia também em função de tornar o CAD um espaço possível para o estágio dos alunos da graduação em Teatro. O pensamento vigente era de que a estrutura dos cursos de graduação das Instituições de Ensino Superior (IES) não atendia à complexidade do ensino de Arte, e sobretudo do Teatro, porque seus enquadramentos acadêmicos vinham se mostrando incompatíveis com as atividades teatrais. A crítica aos enquadramentos acadêmicos, os quais são comuns aos cursos de nível superior, advinha da compreensão de que, como as possibilidades pedagógicas para o ensino do Teatro se inscrevem na viabilidade estética da obra de arte, um currículo subordinado à normatizações rígidas de carga horária e avaliação quantitativa, por exemplo, nem sempre atenderiam às necessidades de uma formação artística. Neste sentido, buscou-se construir uma proposta curricular baseada no pressuposto de que pensar o currículo da licenciatura em Teatro é pensar que o ensino do Teatro se manifesta através da interseção de saberes concernentes ao fenômeno teatral com saberes didático-pedagógicos. 58 A equipe de elaboração deste projeto é formada pelos seguintes professores: Ricardo Guilherme, Gilson Brandão Costa, Elvis Matos, Ângela Bessa Linhares e Orlando Luiz de Araújo. 85 A viabilidade estética é a expressão artística, a qual é pertinente a cada época e reflete a capacidade do artista em dar conta da experiência do seu tempo. Como as transformações na vida social geram alterações nos valores éticos e estéticos, isto faz com que o Teatro reveja suas propostas, ou seja, seu modo de dialogar com a sociedade. As relações entre o Teatro e a sociedade implicam, de certa forma, em modificações nos currículos dos cursos de Teatro – cursos livres, bacharelados e licenciaturas. A necessidade destas modificações poderia vir a ocorrer em descompasso à tramitação dos processos de reformulação curricular de um curso de nível superior. Segundo Bornhein (2004), a consciência histórica acompanha a montagem de cada texto. Analisando as ações pedagógicas a partir deste pensamento, é possível perceber que as noções históricas fundamentam as práticas artísticas, mas também os encaminhamentos curriculares. Com isso, tal abordagem histórica abre caminhos para que se compreenda como as transformações sociais impulsionaram mudanças nos pressupostos artísticos e pedagógicos do ensino do Teatro na UFC. No dia 18 de fevereiro de 2010, com a aula-espetáculo No Ato, de Ricardo Guilherme, iniciavam-se as atividades do Curso Superior em Artes Cênicas da UFC e, na mesma ocasião, comemorava-se o cinquentenário de criação do Curso de Artes Dramática (1960-2010) e os quarenta e cinco anos de fundação do Teatro Universitário (1965-2010). A despeito da primeira turma de Teatro tendo ingressado apenas em 2010, a luta no que concerne à mobilização de ideias é bem mais antiga. O período data aproximadamente de 2004 e antecede, inclusive, a criação do ICA enquanto Unidade Acadêmica.59 Portanto, diante da ausência de uma unidade acadêmica que pudesse receber tal demanda artística, a possibilidade inicial seria vincular o curso superior de Teatro à Faculdade de Educação (FACED/UFC). Assim, seria, num primeiro momento, um curso de Educação Teatral, tomando como exemplo o curso de Educação Musical que havia sido criado em 2006 e funcionava vinculado ao Departamento de Teoria e Prática de Ensino da Faculdade de Educação. 59 Criado em 2003, o ICA era inicialmente um órgão administrativo com a função de congregar e gerenciar os equipamentos culturais da UFC e ascendeu, à condição de Unidade Acadêmica em 2008.Inicialmente o ICA congregava os seguintes cursos: Comunicação Social (habilitações em Jornalismo e Publicidade de Propaganda), atualmente suas habilitações constituem cursos separados; Estilismo e Moda (atualmente Design de Moda); Filosofia e Educação Musical (atualmente Música-Licenciatura). Todos estes cursos pertenciam a outras unidades da Universidade e vieram compor o primeiro quadro de graduações do ICA. Posteriormente, já gestados dentro do Instituto, vieram os cursos de Gastronomia, Artes Cênicas (hoje Teatro-licenciatura); Dança (com habilitações em Licenciatura e Bacharelado). 86 Porém, havia um forte desejo de muitos professores envolvidos na criação do curso superior, principalmente aqueles oriundos do CAD, de que o investimento fosse feito na criação de um curso de bacharelado. Por outro lado, a própria classe artística se perguntava se um curso superior em Teatro não engessaria a atividade teatral, porque, como já foi dito, este fato poderia limitar as experiências artísticas e pedagógicas do curso às diretrizes curriculares estabelecidas pelo MEC. Perguntavam-se, por exemplo, se seria realmente recomendável a sua criação, bem como se essa ação não acabaria resultando em um curso sobre Teatro e não de Teatro. Santana (2000) considera a questão da dicotomia entre o bacharelado e a licenciatura um jargão das discussões sobre curso de formação de professores. Sobre este tema, a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) analisa a versão preliminar da proposta de diretrizes para a formação inicial de professores da educação básica, em curso de nível superior apresentada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em 2001, e se posiciona com o seguinte texto: Nos aspectos concernentes à Organização Institucional da formação inicial, o Documento reforça a dicotomia Bacharelado x Licenciatura quando reafirma que a formação de professores deva ser realizada como um processo autônomo, numa estrutura com identidade própria, distinta dos cursos de bacharelado e dos programas ou cursos de formação de especialistas em educação. Essa separação entre cursos de formação de professores (Licenciaturas) e cursos de bacharelado vai gerar indesejável hipertrofia da aprendizagem pelas competências nos primeiros e uma hipotrofia na produção teórica do conhecimento educacional no segundo caso, risco que devemos evitar, sob pena de cair no saber-fazer das disciplinas básicas descontextualizado do objeto de estudo da educação. A esse respeito, é oportuno ressaltar que várias universidades vêm construindo uma Base Comum para a formação dos profissionais no espaço dos Fóruns de Licenciaturas ou Programas de Licenciatura. (ASSOCIAÇÃO NACIONAL PELA FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃo, 2001, p. 2) Não obstante, este curso foi criado pela UFC como parte integrante do projeto do REUNI60, sob um contexto político que apontava para uma efervescência de estratégias e ações do Governo Federal em prol da melhoria da educação básica, dentre elas a criação de 60 O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), instituído pelo Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007. “[...] Este programa pretende congregar esforços para a consolidação de uma política nacional de expansão da educação superior pública, pela qual o Ministério da Educação cumpre o papel atribuído pelo Plano Nacional de Educação (Lei nº 10.172/2001) quando estabelece o provimento da oferta de educação superior para, pelo menos, 30% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos, até o final da década.” (BRASIL, 2007, p. 4) 87 mais cursos superiores para formação de professores. É válido ressaltar que a cidade de Fortaleza-CE já contava com um curso superior de formação de atores, o curso de tecnólogo em interpretação no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET61) o qual posteriormente, em 2008, tornou-se curso de Teatro-licenciatura. Diante de tantas questões que perpassam a elaboração de uma proposta pedagógica para a criação de um curso superior, discutia-se, também, sobre o perfil do egresso e o mercado de trabalho. A responsabilidade seria, então, de colaborar com a formação de novas gerações que atuariam nas escolas básicas, através da intervenção de um professor artista, partindo do princípio de que só pode ensinar Teatro quem domina a sua artesania62. Quando a discussão girava em torno da integralização curricular, buscava-se uma organização que, mesmo com sólida formação artística, não alijasse os saberes pedagógicos para um rol de disciplinas isoladas a serem ministradas ao final do percurso, ou seja, nos últimos semestres. Neste caso, o curso partia da superação do modelo de currículo conhecido como 3+1. Dentre as habilidades que se buscava para o egresso deste curso, aquela que mais se sobressaiu na fala do entrevistado, enquanto ele rememorava o processo de criação do curso, foi a liderança. Segundo ele, a proposta pedagógica deveria primar pela formação de um discente que fosse um líder pela sua cultura e criatividade; ou seja, um propositor e criador que pudesse estimular outros criadores na escola, com a capacidade de liderar processos artísticos, fazer crescer os interesses dos alunos pelo Teatro e despertar as vocações. Para tanto, o discente precisaria percorrer uma proposta curricular que lhe proporcionasse formação em três dimensões, quais sejam: do artista, do docente e da pesquisa. Através da dimensão do artista, o professor egresso do curso deveria ser conhecedor da linguagem e da artesania do Teatro, ou seja, capaz de atuar, dirigir, ter noções de luz, figurino, cenário. Já a dimensão docente estaria vinculada à sua competência em coordenar processos de criação na escola. E enquanto pesquisador, o egresso deveria ser capaz de refletir, analisar e transformar seus processos artísticos e pedagógicos. Assim, surge, pela primeira vez na história do curso, o perfil artista-pesquisador-docente. Desde então, busca-se 61 Hoje, Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), congrega os extintos Centros Federais de Educação Tecnológica do Ceará (Cefets/CE) e as Escolas Agrotécnicas Federais dos municípios de Crato e de Iguatu. Disponível em: <http://www.cefetce.br/instituicao/sobre-nos.html>. Acesso em: 19 ago. 2013. 62 Quando fala da artesania do Teatro, o professor tem a intenção de frisar a importância do fazer teatral. Um ofício que, apesar de seu caráter intrinsecamente coletivo, é individual, um ofício manual, de labor, de prática que se conquista com o dia a dia das salas de ensaio e espetáculos. 88 delinear as curvas do caminho que seria percorrido pelos discentes durante seu processo formativo. É válido ressaltar que este perfil, grafado como artista-pesquisador-docente, mesmo recorrente na fala do entrevistado, não aparece no PPC (integralização curricular 2010.1). Este PPC delineia algumas características que seriam concernentes a um artista-pesquisadordocente, mas não o denomina desta forma. Esta dissonância pode se dever ao fato de ter sido um segundo grupo de professores, do qual o entrevistado não fez parte, o responsável pela redação final deste PPC: "Depois deste anteprojeto, veio o projeto em si. [...] Então, tem dois momentos históricos, um é o anteprojeto, que nós chamávamos de projeto, mas depois, pela realidade, descobrimos que era um ante: [...] a ideia, o conceito deste pesquisador-artista e pedagogo." (Professor) Ainda quanto ao perfil do egresso, é válido destacar que em diversos momentos o PPC toma o profissional enquanto artista educador em Teatro (educador teatral). O caráter da pesquisa, e do pesquisador, não sofre ênfase neste currículo. Nota-se, portanto, uma preocupação com a formação de profissionais que exercerão uma docência artista. (MARQUES, 2010) Esta categoria, docente artista, visa colocar o professor no lugar daquele que compartilha dos códigos da linguagem, no caso do Teatro, tornando propositor de experiências artísticas dentro da escola. Neste contexto, acredita-se que seja fundamental para a vivência destes currículos que os docentes de nível superior sejam exemplos de educadores capazes de prover uma educação em Teatro. Para tanto, é necessário tomar o discente (licenciando) como partícipe de processos criativos, instigando-o como artista e educador em seus processos de ensino-aprendizagem. Reflete-se, portanto, no PPC, um cuidado para que a ideia de Teatro-educação não forje um perfil de egresso ligado ao contextualismo no Teatro. Busca-se formar professores que atuem nas escolas não para formar cidadãos através do Teatro, mas para deflagrar ações artísticas e agenciar processos de ensino e aprendizagem cujo foco seja os conteúdos específicos da linguagem teatral. Com isso, este cuidado aponta para um embate gerado pelo contextualismo versus essencialismo em Arte. Para a corrente essencialista, as linguagens artísticas possuem conteúdos específicos e, portanto, ela se opõe à visão do ensino de Arte enquanto momento de relaxamento, formação para cidadania, adornos de festas sazonais. Já 89 para a corrente contextualista, a Arte é como um meio para alcançar outros objetivos de ordem psicossocial. Diversos autores abordam a questão do contextualismo e do essencialismo em Arte. Para Eisner (2002), em uma abordagem essencialista, a Arte não deve ser auxiliar de outras disciplinas e sim ser vista com seus conteúdos próprios. A corrente essencialista defende, por exemplo, a inclusão das linguagens artísticas no currículo do ensino básico, como qualquer outra disciplina; ou seja, sem diferenciação de avaliação ou carga-horária. No entanto, pesquisas mais recentes no campo da Pedagogia do Teatro apontam para a superação deste embate em prol de experiências que priorizem avançar na descoberta e sistematização de novas metodologias para o ensino de Teatro nas escolas. Outra questão tocante à época da criação do curso girava em torno dos tradicionais testes de aptidão ou teste habilidades específicas (THE), como são chamados. Para a UFC, “A ideologia do dom é uma derivação ideologizada do inatismo em educação e tem sido responsável pela justificativa do elitismo na arte” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2009, p. 20); sendo assim, a inexistência do THE foi colocada como condição sine qua non para a criação do curso. Não realizar um THE como parte do processo seletivo parecia impensado para a maioria dos artistas de Teatro envolvidos direta ou indiretamente na construção deste Projeto Pedagógico. O paradigma dominante, portanto, estava sendo colocado em discussão e a Universidade considerava que não poderia determinar, a priori, quem teria vocação ou habilidade para frequentar determinado curso de graduação. Esta atitude seletiva que colocava em pauta a exclusão de um candidato, por deficiência física ou por (in)habilidades consideradas próprias a uma pessoa de Teatro, estava sendo considerada pelos gestores acadêmicos como um tipo de discriminação. Em resumo, pode-se considerar que foram três as grandes linhas de discussão durante o período de formatação deste curso: 1) a escolha entre um curso de licenciatura ou bacharelado; 2) a delineação do perfil do egresso; 3) os desdobramentos gerados pela inexistência do teste habilidades específicas. Portanto, diante da definição destes principais temas, redigiu-se o Projeto Pedagógico do Curso, cuja aprovação ocorreu em 2009 quando se iniciaram os processos de contratação dos primeiros professores e a solução de outras querelas administrativas para colocar o curso em pleno funcionamento no primeiro semestre de 2010. 90 4.3 INSTITUTO DE CULTURA E ARTE No panorama no qual se instalava o curso, o Instituto de Cultura e Arte passava por um processo de elaboração do seu Projeto Político Pedagógico, bem como de estrutura de organograma. Para tanto, foram promovidos diversos seminários, para os quais o Conselho Pleno63 era convocado, que visaram oportunizar discussões sobre as propostas erigidas pelo PPP do ICA. Diante dos novos desafios apresentados pela Direção Geral do Instituto, o PP do Curso de Teatro se colocava mais uma vez em análise. Uma possível, e urgente, reforma curricular, a qual já estava sendo aventada pelo corpo docente, deveria atender às expectativas do Instituto e se construir em consonância com suas proposições. “O ICA, enquanto Unidade Acadêmica, busca promover uma abordagem inter e transdisciplinar dos saberes, práticas e linguagens científicas, artísticas e filosóficas.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2011, p. 12) O ICA desafia as estruturas curriculares de seus cursos e propõe currículos mais flexíveis; transversalidade de dinâmicas entre graduação e pós-graduação; produções artísticas e científicas concernentes ao universo artístico contemporâneo; integração com as demais unidades acadêmicas da UFC, com vistas em permanentes atualizações. O PPP do ICA pauta suas bases políticas e pedagógicas nos novos desafios e exigências para as Universidades no século XXI. Aposta-se, portanto, na extrapolação do pensamento disciplinar que se enraíza em uma estrutura universitária tradicional: departamentos, grande número de pré-requisitos64, baixa possibilidade de mobilidade interna, insuficiência de disciplinas optativas, por exemplo. Esta estrutura valida uma base que vai de encontro a um pensamento fragmentado, o qual dificulta a integração entre áreas de saberes e mostra-se inadequado para o modus operandi deste Instituto que agrega Arte, Filosofia e Ciência. Não obstante, há os compromissos em aumentar o acesso ao ensino superior, mantendo a qualidade da formação; respeitar a diversidade racial e cultural, as quais implicam 63 O Conselho Pleno é um órgão colegiado consultivo, composto por todos os professores efetivos e funcionários técnico-administrativos lotados no ICA e pela representação de estudantes de cada curso de graduação e de programa de pós-graduação, com direito a voz e com voto paritário. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2011, p. 20) 64 O aluno só pode cursar disciplinas que possuem pré-requisitos caso tenha sido aprovado em outras disciplinas, cujos conteúdos são considerados fundamentais para o prosseguimento da aprendizagem. 91 em pluralidade nas expressões das diversas linguagens artísticas; incentivar o protagonismo discente; implementar programas e projetos de cooperação internacional; entre outros. Assim, a missão do ICA é Constituir espaços de criação, invenção e reflexão que fomentem processos de subjetivação, visando a formação cidadã, tecnicamente competente e radicada no humanismo, potencializando capacidades de observar e atuar de maneira efetiva na constituição de um mundo justo, livre e plural, mediante a produção e a difusão de conhecimentos nos diversos campos do saber e de linguagens artísticas e culturais pelo ensino, pesquisa e extensão. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2011, p. 11) Para tanto, o Instituto se estrutura na articulação de três eixos temáticos estratégicos que devem, inclusive, nortear os Projetos Pedagógicos dos cursos de graduação que o integram: 1) Desenvolvimento Humano; 2) Ética, Estética e Conhecimento; 3) Integração Social. As dimensões ética e estética que integram o eixo do desenvolvimento humano estão atreladas à concepção do saber65 ser, o qual se revela nos Referenciais para Elaboração de Projetos Pedagógicos – documento da Coordenação das Disciplinas Pedagógicas das Licenciaturas / UFC – e no PP do curso de Teatro. O saber ser direciona os currículos a se pautarem em princípios éticos como justiça, diálogo e alteridade, por exemplo. O eixo ética, estética e conhecimento fundamenta-se na dimensão do saber pensar, o qual posiciona o ICA como um espaço de proposição, difusão e aglutinação de ideias e experiências estéticas diversificadas. Por sua vez, requer do indivíduo a contextualização e a reflexão crítica a partir de um pensamento integrado e não fragmentado. As dimensões técnica, científica e pedagógica do saber intervir apoia o último eixo, a integração social. “Esta dimensão requer que o currículo seja a organização de experiências onde se pensa transformando a própria prática, propondo soluções, atuando critica e criativamente.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2009, p. 21) O Instituto busca implementar um modo de gestão que insira os docentes e discentes no cotidiano da vida acadêmica e curricular. Assim, seus atores são convidados a integrar órgãos colegiados, deliberativo e/ou consultivo, e de gestão que exigem 65 “Saber: conhecimento específico que envolve os seguintes âmbitos da formação: o específico e o integrador.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2009, p. 20) 92 compromisso com o curso, o Instituto e a Universidade, tornando-os mais comprometidos e conscientes dos impactos de suas ações nos âmbitos ético, estético e político. Observa-se que, enquanto Instituto, o ICA possui uma preocupação central com as propostas curriculares de seus cursos e, considerando suas singularidades, fomenta a atualização permanente dos currículos pautada nos referencias éticos, estéticos e políticos expressos nos eixos acima expostos. 4.4 PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO (INTEGRALIZAÇÃO CURRÍCULAR 2010.1) Como o PP do Curso de Teatro finalizou-se antes do PPP do ICA, bem como suas implantações ocorreram quase que simultaneamente, a integralização curricular (2010.1) não se apresenta muito de acordo com os parâmetros do Instituto. Nesta subseção, portanto, dá-se a conhecer a proposta pedagógica que iniciou este curso, ou seja, o PPC, tendo como recorte a integralização curricular 2010.1 (ANEXO A). De início, faz-se necessário ressaltar a pertinência do Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Teatro quanto às propostas de reforma educacional apontadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais do Ministério da Educação do Governo Federal, bem como sua adequação aos termos e desafios elencados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), nestes termos: Aceitemos o desafio: implantemos o Curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura – no contexto do Instituto de Cultura e Arte, no seio de uma visão omnilateral66, que comporte uma nova concepção dos sujeitos humanos, capaz de ver a dimensão artística como fundamental na educação das gerações e no fazer universidade. Uma visão consentânea com os Parâmetros Curriculares Nacionais, que hoje exige que se trate a especificidade de cada modalidade de arte como forma do conhecimento, superando a aligeirada colagem de técnicas e atividades multifacetadas, sem o rigor que as artes exigem como linguagem. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2009, p. 10) De fato, poderia se afirmar que a preocupação central do Curso de Artes Cênicas (CAC) seria formar profissionais críticos e capazes de decodificar mensagens midiáticas 66 Refere-se a total, todas as pares, todos os lados. 93 sejam elas de natureza musical, visual ou corporal - para tonar possível fazer uma leitura de mundo mais significativa. Portanto, para alcançar tal intento o PPC organiza um elenco de disciplinas distribuídas em oito semestres. Assim, traça-se um recorte na integralização curricular (2010.1), parte deste PPC, para realizar a sua análise tomando como parâmetro os critérios elencados por Santana (2000) em sua pesquisa que analisou a estrutura e a organização curricular dos cursos de formação de professores de Teatro.67 Nota-se que, à época desta pesquisa, o curso de Teatro-licenciatura da UFC ainda não existia e, portanto, não foi objeto desta investigação que analisou os 19 cursos de licenciatura em Teatro em funcionamento no Brasil entre 1997-1998. Intentado aproximar este estudo dos resultados obtidos por Santana (2000), realiza-se uma análise das integralizações curriculares de 2010.1 e de 2012.1 do curso de Teatrolicenciatura/ICA/UFC , cujas categorias tomarão como norte os seguintes parâmetros: i)carga horária total – número de horas previstas para integralização dos créditos e conclusão do curso; ii) carga horária de teatro – número de horas relativas aos conteúdos teóricos e práticos da linguagem teatral; iii) carga horária de teatro-educação e arte-educação – número de horas dedicadas aos conteúdos específicos das disciplinas integradoras do currículo, voltadas para o ensino da arte em geral e principalmente para o ensino de teatro; iv) carga horária de artes – número de horas voltadas para o conhecimento em artes de maneira genérica, incluindo as disciplinas de áreas tais como Música, Artes Plásticas, Dança, Desenho, Estética, etc; v) carga horária de educação – duração das disciplinas reservadas para a formação pedagógica, desde que a abordagem trate da educação genericamente; vi) carga horária complementar – número de horas/aula destinadas à complementação da formação do professor de teatro, incluindo disciplinas como Filosofia, História, Sociologia, Física, Língua Portuguesa, Metodologia Científica, etc. (SANTANA, 2000, p. 136) Mesmo cientes de que lógica do currículo não está pautada apenas nas disciplinas, a estrutura disciplinar ainda é a principal forma de organização curricular. Portanto, as fontes de análise das integralizações curriculares deste curso foram os fluxogramas, os programas e os formulários de criação das disciplinas. Os fluxogramas, por sua vez, compreendem o grupo de 67 Este estudo foi realizado como pesquisa de doutorado que resultou no livro Teatro e Formação de Professores. “Para analisar a realidade da escolarização brasileira e a formação de professores que lhe é consequente – em termos do ensino do Teatro – a pesquisa orientou-se pela noção de história enquanto possibilidade de transformação qualitativa da cultura e da educação, com ênfase na abordagem curricular advinda da teoria crítica pós-moderna.” (SANTANA, 2000, p. 12) Importante frisar que a pesquisa do professor Arão Paranaguá de Santana foi processada 1997-1999, ou seja, antecedeu a novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), que datam de 8 de março de 2004, as quais estão em vigor e embasaram o PPC do Curso de licenciatura em Teatro da UFC. 94 disciplinas obrigatórias, suas cargas horárias e alocações nos semestres. Já os programas e formulários e criação das disciplinas possuem informações que precisam ser levadas em consideração para categorizar adequadamente as disciplinas. Ainda em complemento a este processo de análise, toma-se a carga horária total do curso, que por sua vez, subdivide-se em: disciplinas (obrigatórias e optativas) e atividades (Montagem68; Estágio Supervisionado e Atividades Complementares69). Assim, esclarece-se que o referido currículo se organiza da seguinte maneira: 2.176 horas de disciplinas obrigatórias, 400 horas de atividade de estágio supervisionado, 200 horas de atividades complementares, 480 horas de carga horária optativa, 480 horas de disciplinas livres, totalizando 3.196 horas70 para a formatura, conforme descrito no Projeto Pedagógico do Curso.71 O Quadro 1 demonstra os resultados da análise da integralização curricular (2010.1) do Curso de Teatro-licenciatura ICA/UFC em comparação com a média da estrutura curricular dos cursos de formação de professores em Teatro analisados na pesquisa de Santana (2000). 68 Montagem torna-se atividade no currículo 2012.1, antes possuía o caráter de disciplina. Mais adiante esta mudança será discutida. 69 Atividades complementares compreendem a participação do aluno em congressos, festivais, bolsas de iniciação à docência e/ou científica, trabalhos como ator, diretor, cenógrafo, etc. Todas as atividades aceitas pelo Curso de Teatro como complementares estão em um regimento próprio anexo ao Projeto Pedagógico do Curso. 70 Cada crédito equivale a 16 horas-aula. Cada hora-aula é composta por 50 minutos a título de organização dos intervalos entre as disciplinas. Contudo, no cômpito final de carga-horária do estudante, ela é contada como hora cheia, ou seja, 60 minutos. 71 Nota-se que as horas para a formatura requeridas pelo PPC não conferem com o somatório real que seria de 3.256 horas , uma vez que entendamos que as 480 horas de disciplinas livres (ou 30 créditos livres, como é grafado do PPC) e as 480 horas de disciplinas optativas, computam-se apenas uma vez. Essa lógica parte do princípio de de que os créditos livres possuem natureza de disciplinas optativas, podendo ser ou não integralizados pelo discente através de disciplinas que não pertencem ao rol de optativas de seu curo, ou seja, livres. 95 Quadro 1 – Comparação da integralização curricular (2010.1) com a média da estrutura curricular dos cursos de formação de professores Áreas do Conhecimento Outras IEs Currículo 2010.1 Teatro-licenciatura/ICA/UFC Teatro 1301 1408 Artes 560 96 Teatro-educação Arte-educação 377 432 Educação Outras 318 261 320 256 Optativas não consta 480 Atividades complemetares não consta 200 TCC não consta Total 2817 Fonte: Pesquisa da autora, junho de 2013. 64 3.256 Integram as disciplinas da primeira categoria, carga horária da área de conhecimento Teatro: Técnica Vocal I e II, Oficina de Improvisação, Preparação Corporal I e II, Teorias da Interpretação, História do Teatro e da Literatura Dramática I, II e III, Interpretação I, II e III, História do Teatro Brasileiro, Caracterização I e II, Fundamentos da Direção Teatral, Laboratório de Práticas Teatrais, Projeto de Pesquisa e Montagem, Análise do Texto e do Espetáculo, Montagem: processo de criação e construção cênica, Prática Cênica e Produção Cênica. Por sua vez, foram categorizadas como carga horária de Teatro-educação e Arteeducação: Educação Teatral: metodologias e tendências e as 400 horas de Estágio Supervisionado. Na carga horária de Artesincluí-se: Voz e Canto I e II. Já as disciplinas reservadas para a formação pedagógica, categoria Educação, são: Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação, Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência, Didática, Estrutura Política e Gestão Educacional e Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Como carga horária complementar, foram consideradas as seguintes disciplinas: Introdução às Teorias da Comunicação, Culturas Populares, Estética, Ética, Metodologia do Trabalho Científico. É válido ressaltar que as 64 horas dedicadas ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foram categorizadas separadamente por se tratar de uma atividade e não de uma disciplina, bem como porque sua natureza está intrinsecamente relacionada com o tema 96 tratado pelo aluno em seu trabalho monográfico. Sendo assim, não seria possível adequá-la a uma ou outra categoria. Santana (2000) ressalta as enormes variações que houve em torno das médias gerais e analisa cada categoria em si, sinalizando, caso a caso, as Universidades que se destacaram da média. Nota-se que mesmo sob as novas DCNs, o currículo deste curso de Teatro encontra-se bastante aproximado da média de outras instituições. Destaca-se, portanto, porém a categoria Artes, na qual a quantidade de horas se mostra bem menor do que a média. Segundo Santana (2000, p. 139), Considerando que a maioria dos curso de licenciatura em Educação Artística estruturou seus currículos segundo o modelo padronizado pela legislação, e também o fato de que poucos estabelecimentos tinham alguma tradição no ramo das artes e do teatro, as grades curriculares incorporaram um conjunto expressivo de disciplinas vindas de múltiplas áreas artísticas, principalmente das Artes Plásticas. A Universidade Federal do Ceará enquadra-se no segundo caso: pouca tradição no ramo das linguagens artísticas, porém, com uma grande ressalva, pois como já foi visto ao início deste capítulo, a experiência do CAD fazia história na Universidade há quase cinquenta anos. Portanto, esta pouca tradição singulariza-se no ensino superior e, principalmente, no que concerne à modalidade da licenciatura em Arte. Assim, a comparação realizada acima ratifica a premissa de que o Curso de Teatrolicenciatura constrói seu currículo a partir da tradição do referido curso técnico de formação de atores. Esta premissa se reflete, portanto, na diferença entre os números da categoria Artes e as significativas quase 100 horas a mais na categoria Teatro, por exemplo. É válido dar destaque, também, à categoria Teatro-educação e Arte-educação, na qual observa-se que o somatório das horas compreende o resultado de apenas uma disciplina (Educação Teatral: metodologias e tendências) e uma atividade de 400 horas (Estágio Supervisionado.72 No que concerne à organização das disciplinas nos semestres, constata-se que o primeiro e o segundo semestres são inteiramente dedicados à categoria Teatro. A única disciplina da categoria Teatro-educação encontra-se no quarto semestre, bem como a 72 As novas DCNs trouxeram a obrigatoriedade do Estágio Supervisionado ocupar 400 horas e ser alocado somente a partir da segunda metade do curso. 97 disciplina Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação está no terceiro semestre. Assim, seguindo esta integralização curricular, no primeiro ano de curso o aluno não travava contato algum com disciplinas relacionadas às metodologias do ensino do Teatro ou às questões pedagógicas. Neste cenário, o novo grupo de professores, apropriando-se do PPC, colocou em ação o primeiro semestre do Curso de Teatro-licenciatura em 2010. Ao se depararem com novos posicionamentos pedagógicos, esforçaram-se em amenizar a heterogeneidade da turma ingressa, a ausência de repertório teatral dos alunos, a insuficiência de horas-aula semanais. 4.5 PRIMEIRA REFORMA (INTEGRALIZAÇÃO CURRICULAR 2012.1) Encampa-se nesta subseção um estudo semelhante ao acima exposto, analisando a integralização curricular 2012.2 (ANEXO B), a qual vem a ser, de fato, o objeto de investigação desta tese. Esta análise, portanto, será mais esmiuçada e contará com adicionais categorias de análise, as quais permitirão uma melhor compreensão desta proposta pedagógica que visa a formação do artista-pesquisador-docente. O colegiado do curso de Teatro-licenciatura se debruçou sobre a necessidade de uma reforma curricular, sistematicamente, de março de 2010 à julho de 2011. Neste período, o primeiro grupo de professores concursados buscou se apropriar do PPC visando contribuir com sua reestruturação e implementação. Neste período, foram realizadas reuniões periódicas que objetivavam discussão de uma nova de integralização, bem como a apresentação das propostas de reforma tanto para o corpo discente, quanto para a direção do Instituto de Cultura e Arte. A proposta de modificações, no âmbito da integralização curricular, justificava-se pela clara impossibilidade do corpo discente integralizar os créditos originalmente previstos (currículo 2010.1) dentro do período reservado para a conclusão do curso. Ressalta-se que nesta ação se encontra, justamente, o embrião do Núcleo Docente Estruturante (NDE), o qual “[...] constitui-se num grupo permanente de professores, com atribuições de formulação de acompanhamento de curso”. (COMISSÃO NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR, 2010) 98 Assim, ao se ampliar a noção de currículo para uma compreensão que extrapola o sentido de junção de componentes curriculares, vislumbra-se que o currículo pertence a um momento histórico e que precisa ser apropriado pelos agentes que atualmente o colocam em ação, permitindo, somente desta forma, que o Projeto Pedagógico possa ser avaliado e repensado constantemente. O corpo docente do Curso de Teatro foi se constituindo da seguinte maneira: quatro professores atuavam no CAD, sendo dois por vinte horas, outro por quarenta horas e um último com dedicação exclusiva, todos bacharéis. Estes professores atuavam nos seguintes setores de estudo: Canto, Caracterização (maquiagem e figurino), Formas Animadas, História e Teorias do Teatro. Já no primeiro concurso para provimento de cargo de professor no magistério superior no ano de 2009 (com posse em 2010), ingressaram mais quatro professores bacharéis dedicação exclusiva, os quais atuavam nos setores de estudo de Corpo e Interpretação; Direção Teatral; Interpretação Teatral; Voz e Interpretação. Com isso, o primeiro elenco que colocou o currículo deste curso em ação foi composto por: um grupo de oito professores, um técnico em iluminação e um técnico administrativo. Ainda em 2010, ingressaram por concurso mais dois professores com dedicação exclusiva, um licenciado e um bacharel, para os seguintes setores de estudo: Teatro-educação e Interpretação. Em seguida, no ano de 2011, houve a alocação do professor do setor de estudo Corpo e Interpretação nos cursos de Dança (Bacharelado e Licenciatura) do ICA/UFC, bem como o ingresso de mais um bacharel com dedicação exclusiva para o setor de estudo de Interpretação. No seu segundo ano de existência, portanto, o curso passou a contar com dez professores. Já em 2013, o único professor licenciado que compunha o colegiado do curso foi redistribuído para outra IES e, logo em seguida, ingressaram por concurso mais três professores graduados em um curso de licenciatura em Teatro. Destes três professores, dois tomaram posse em 2013 e o terceiro em 2014, sendo que todos ingressaram para atuar no setor de estudo Teatro-educação. Portanto, neste momento o curso dispõe de doze professores efetivos. Todo esse movimento de docentes provocou transformações no curso trazendo novos posicionamentos que se reacomodavam com a entrada e saída destes professores, bem como a partir da análise dos resultados obtidos com as primeiras ações curriculares. Apesar de duas integralizações curriculares (2010.1 inativa e 2012.1 hoje em vigor), o curso não perpetrou pois Projetos Pedagógicos. A reforma se restringiu ao âmbito da 99 integralização curricular e não impôs a necessidade da redação de um novo PPC. Contudo, foi gerado um documento, fonte de análise desta pesquisa, denominado: Parecer do colegiado do curso de Licenciatura em Teatro/ICA/UFC sobre a necessidade de modificações na Integralização do curricular do curso. Este parecer traz a grande maioria dos professores que compunham o quadro de efetivos do curso à época como integrantes da comissão responsável por sua redação. Neste sentido, a elaboração coletiva colabora, também, para que todos se sintam responsáveis pela execução do projeto. O envolvimento do corpo docente no movimento de reforma da integralização curricular deu-se porque docentes e discentes entendiam que o PPC é um instrumento passível de melhoria e, portanto, necessita de revisão e avaliação constantes. Logo, a integralização curricular 2012.1 deve ser considerada fruto do resultado do esforço coletivo dos professores envolvidos na ação da primeira reforma do PPC. Já se podia prever que, com a entrada de novos docentes, discentes e técnicos, mudanças aconteceriam porque o currículo estaria suscetível às novas práticas educativas dos sujeitos envolvidos na ação. Isto em razão de O conhecimento corporificado no currículo não é apenas um conjunto de informações tecnicamente organizadas, um conteúdo estático, imanente e neutro. Muito mais que isso, esse conhecimento expressa valores, constitui significados, veicula concepções, formas de pensar e agir que, se por um lado privilegia a perspectiva cultural dominante, de outra parte é um território de contestação e disputas, tanto na sua elaboração (currículo formal) quanto na sua execução (currículo real). (PASSOS, 2007, p. 35) Neste sentido, o currículo, que é uma construção social e, por isso, é uma área contestada que se materializa através dos conhecimentos a ele vinculados, das atividades previstas e realizadas, da organização do tempo e do espaço, dos materiais utilizados e das relações pessoais. 4.5.1 Motivações para reforma É possível traçar quatro aspectos principais que geraram entraves para a integralização deste currículo: a opção pelo período noturno, a integralização de disciplinas optativas, o estágio supervisionado e a Prática como Componente Curricular (PCC). Segue-se abordando cada um destes aspectos citados. 100 Um dos principais problemas enfrentados para colocar este currículo em ação foi a opção inicial do curso pelo período noturno. Esta opção visava propiciar que estudantes que trabalhassem durante o dia pudessem ter acesso ao curso. Contudo, havia (ainda há) uma demanda de trabalhadores do Teatro que intentam ingressar nesta licenciatura em Teatro. É sabido que pela dificuldade de prover sustento unicamente com o fazer artístico, muitos artistas trabalham exercendo outras profissões durante o dia e se dedicam aos seus grupos ou espetáculos durante a noite. Sendo assim, a opção pelo noturno não privilegiava os artistas que já trabalhavam com o Teatro e buscavam sua (re)qualificação ou seu (re)posicionamento no mercado através da licença para ensinar. Outras questões que tangem a problemática do curso ocorrer no período noturno, podem ser assim destacadas: não privilegia que os discentes acompanhem outras produções artísticas e/ou grupos teatrais em exercício na cidade; atrapalha a fruição de espetáculos em cartaz; dificulta que o aluno circule, por exemplo, com os resultados cênicos alcançados nas próprias disciplinas do curso; impede, muitas vezes, que os discentes façam cursos livres e oficinas como formação complementar. Já a integralização de disciplinas de caráter optativo relaciona-se diretamente com a opção do curso pelo período noturno. O PPC (integralização curricular 2010.1) não previu tempo para a integralização de disciplinas optativas. Desta forma, o aluno que pretendia concluir sua graduação em oito semestres, obrigava-se a cursar disciplinas optativas em turno oposto, fato que naturalmente vai de encontro a um dos pressupostos que alicerçaram a criação deste curso. Além disso, apenas dois cursos do ICA funcionavam à noite, Teatro e Filosofia e, com isso, tornava-se mais difícil a tarefa de integralizar disciplinas optativas que estivessem vinculadas aos demais cursos do Instituto, conforme estava sendo recomendado pelo PPP do ICA. Ainda vinculado à problemática do curso funcionar à noite, fazia-se necessário oferecer a possibilidade do aluno cursar o Estágio Supervisionado neste período. Neste sentido, a primeira questão relacionava-se à dificuldade de se estabelecer parcerias para que todos os alunos pudessem estar na escola básica no período noturno. Já a segunda questão estava vinculada ao fato de que a carga horária de 400 horas de Estágio Supervisionado, estabelecida pela Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002 (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2002c), ocupava um espaço significativo em um curso que se permite integralizar apenas 2560 horas, em oito semestres, com aulas de 18 às 22 horas. 101 De acordo com a Resolução supracitada, [...] a carga horária dos cursos de Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, será efetivada mediante a integralização de, no mínimo, 2800 (duas mil e oitocentas) horas [...]. (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2002c, p. 1) O quarto aspecto que precisa ser ponderado nesta análise refere-se à noção de Prática como Componente Curricular.73 À primeira vista, pode parecer estranho se preocupar com o lugar da prática em um currículo que prima pela formação de um artista-docente. Isto porque, como reflete José Sávio de Araújo (2005): para a formação de professores de Teatro, o campo artístico e o campo pedagógico são indissociáveis. Neste sentido, as propostas pedagógicas devem se concentrar para que as práticas artísticas teatrais sejam atos pedagógicos sistematizados. No entanto, é válido ressaltar que ambas as propostas curriculares (2010.1 e 2012.1) buscavam equilíbrio entre teoria e prática. Neste sentido, as integralizações previam práticas de interpretação e direção teatral ao longo de toda a passagem do estudante pelo curso, bem como a realização de montagens e apresentações cênicas. Contudo, a Prática como Componente Curricular, também estabelecida pela mesma resolução, obriga que 400 horas das atividades curriculares sejam dedicadas a propiciar ao futuro professor o contato com situações de ensino, dissolvendo, assim, a dicotomia entre disciplinas pedagógicas e específicas. Neste sentido, esta a integralização 2012.1 se alimenta de novas disciplinas como: Ação Cultural e Mediação Teatral; e Iniciativas em Teatro Educação, as quais se configuravam como espaços primordiais para se pensar a relação deste profissional com a sociedade e instigar a intervenção dos mesmos em ambiente formais e não formais de ensino. 73 “[...] a prática como componente curricular é o conjunto de atividades formativas que proporcionam experiências de aplicação de conhecimentos ou de desenvolvimento de procedimentos próprios ao exercício da docência. Por meio destas atividades, são colocados em uso, no âmbito do ensino, os conhecimentos, as competências e as habilidades adquiridos nas diversas atividades formativas que compõem o currículo do curso. As atividades caracterizadas como prática como componente curricular podem ser desenvolvidas como núcleo ou como parte de disciplinas ou de outras atividades formativas. Isto inclui as disciplinas de caráter prático relacionadas à formação pedagógica, mas não aquelas relacionadas aos fundamentos técnicocientíficos correspondentes a uma determinada área do conhecimento.” (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2005) 102 O PPC trazia, também, a repetição de algumas ementas o que, somado à ausência dos programas das disciplinas, dificultava a compreensão adequada dos conteúdos referentes à cada componente curricular. Da mesma forma, para os novos padrões do ICA e da UFC, ainda eram altos os números de pré-requisitos e insuficientes o número de optativas. Diante de todas estas questões, elaborou-se a integralização curricular 2012.1. Finalmente, ressalta-se que, principalmente devida à alteração na carga horária total do curso, o que o colegiado inicialmente pensava que seria um ajuste no PPC tornou-se uma reforma curricular. 4.5.2 Análise normativa do PPC (currículo 2012.1) Inicialmente, salienta-se que, para a continuação destas análises, foi utilizado, também, o Protocolo de Reconhecimento do MEC. Este protocolo foi redigido porque no ano de 2013 o curso passou pelo reconhecimento do MEC e, para tanto, o colegiado se reuniu para o preenchimento de todos os formulários solicitados, os quais sintetizam o currículo do curso abordando questões pertinentes aos procedimentos de ensino aprendizagem, integralização curricular, ações e pesquisa e extensão, entre outros. Com isso, este momento acabou sendo oportuno para a revisão da escrita de alguns itens do PPC e para finalizar os regimentos concernentes ao Trabalho de Conclusão de Curso e ao Estágio Supervisionado, bem como agilizar a aprovação da normatização das Atividades Complementares, junto aos órgãos competentes. Diante da realidade desta nova integralização curricular (2012.1), a estrutura curricular do Curso de Teatro-licenciatura é composta atualmente de 2.952 horas totais, assim distribuídas: 1616 horas de disciplinas obrigatórias; 352 horas de disciplinas optativas, 128 horas em disciplinas livres, que podem ser integralizadas em qualquer curso da Universidade Federal do Ceará, e 856 horas de atividades. As 856 horas de atividades correspondem a 192 horas de Atividade de Montagem, 64 horas de Trabalho de Conclusão de Curso, 200 horas de Atividades Complementares e 400 horas de Estágio Curricular Supervisionado. Abaixo segue o novo Quadro 2 que resume as horas que devem ser integralizadas para a formatura, o qual passou a reger o percurso dos estudantes. 103 Quadro 2 – Resumo das horas totais para formatura (integralização curricular 2012.1) Disciplinas e Atividades Horas Disciplinas Obrigatórias (Eixo Comum) 1616 h/a 912 horas teóricas 704 horas práticas Disciplinas Optativas 352 h/a Disciplinas Livres 128 h/a Atividade de Montagem 192 horas (práticas) Atividade de Estágio Supervisionado 400 horas Atividade de TCC 64 horas (teóricas) Atividades Complementares 200 horas Quantidade de horas totais para formatura 2952 Fonte: Pesquisa da autora, junho de 2013. Para a continuidade desta análise, faz-se necessário retomar a noção da Prática como Componente Curricular. Com esta nova integralização, o colegiado do curso ratifica que a formação de um professor de Teatro não pode prescindir de atividades de caráter prático, nas quais o estudante manipula a matéria cênica. Isto porque nestes processos o estudante desenvolve sua capacidade de compreensão, análise e expressão cênica. O trabalho prático, portanto, visa que o estudante seja capaz de desenvolver metodologias de ensino de Teatro para aplicar onde atua como pesquisador-artista-docente. Então, no rol das disciplinas obrigatórias pode-se verificar mais de 500 horas de Prática como Componente Curricular, dentre elas destacam-se: Voz e Educação, Corpo e Educação, Improvisação, Educação Teatral Metodologias e Tendências, Prática Educacional em Interpretação. O curso possui atualmente 28 disciplinas optativas que podem ser ofertadas dentro da integralização curricular e/ou em módulos. Os módulos, por sua vez, funcionam como disciplinas intensivas, com carga horária distribuída em um período de duas a quatro semanas. Segundo o PPC, no caso dos módulos, poderá haver uma reserva de vagas para alunos de outros cursos que queiram integralizá-los como atividade complementar, bem como para a comunidade como atividade de extensão universitária. Assim, é importante salientar que a disciplina optativa intensiva (modular) poderá funcionar como uma via de articulação do curso com a comunidade, sempre tão ávida por cursos relativos ao conhecimento em Artes Cênicas. 104 Das 29 disciplinas obrigatórias apenas 12 possuem pré-requisito. O baixo número de pré-requisito permite ao discente realizar uma integralização mais flexível, sem, contanto, avançar na construção de conhecimento donde se entende primordial um encadeamento de conteúdos. Como exemplo, pode-se citar a atividade de Montagem que possui como prérequisitos as disciplinas Ator: Texto e Ator: Corpo/Voz, as quais não constituem pré-requisito entre si. Faz-se necessária uma reflexão a respeito da tendência em se organizar currículos cada vez mais flexíveis e em aumentar a possibilidade do aluno escolher quais disciplinas deseja cursar. Segundo Lopes e Macedo (2011), esta tendência veio em resposta a um novo mundo que está cada vez mais volátil e transitório, no qual as fronteiras estão se dissipando. Nestes termos, a autora explica como as propostas curriculares têm tentado dar conta deste novo mundo: Também é na perspectiva dessa adequação que se inserem propostas curriculares que buscam abrir mais espaço para o aluno selecionar o que deseja estudar, muitas vezes caracterizando-o como um consumidor que tem a liberdade de escolher, entre diferentes mercadorias, a mais adequada aos seus interesses. As disciplinas são cada vez mais não lugares que deixam de ter identidades fixas, ficando ao sabor da volatilidade dos tempos pósmodernos. (LOPES; MACEDO, 2011, p.137) Assim, diante deste novo modo de se organizar a integralização curricular, necessário se faz que docentes e discentes estejam atentos para perceber se está havendo uma exploração das relações de consumo ou, de fato, uma contribuição para o ensino e a aprendizagem. Dando seguimento à análise deste currículo, ressaltam-se algumas propostas de interdisciplinaridade que o compõem. No segundo semestre, quando são oferecidas as disciplinas Análise de Texto e Ator: Texto, bem como no semestre subsequente com Pesquisa de Voz para Cena, Pesquisa de Corpo para Cena e Ator: Corpo/Voz, dentre outros exemplos que podem ser encontrados no PPC, estimula-se um trabalho mais coletivo em prol de uma visão menos fragmentada do conhecimento. A pesquisa, enquanto área de conhecimento, encontra-se para além das disciplinas e atividades a ela dedicadas, quais sejam: Trabalho de Conclusão de Curso, Introdução ao TCC e Metodologia da Pesquisa em Arte, Filosofia e Ciência. O caráter da pesquisa deve ser como uma condição que atravessa a maioria das disciplinas práticas e/ou teóricas do curso. Este 105 atravessamento vem favorecer a formação do artista-pesquisador-docente, o qual procura entender a pesquisa como condição para sua docência artista na sociedade. Dentre às 1616 horas de disciplinas obrigatórias, 916 horas são teóricas e 704 práticas. Esta divisão, portanto, não corresponde à separação entre disciplinas teóricas e práticas, 07 disciplinas possuem caráter teórico-prático auxiliando para que não se reforce esta dicotomia entre teoria e prática. Como já foi visto, esta separação, muitas vezes, denota somente a prática como lugar para construção da experiência. Da mesma forma, as propostas de trabalho interdisciplinar auxiliam na articulação destes saberes fazendo com que disciplinas de caráter eminentemente teórico ofereçam suporte a uma prática concomitantemente construída e viceversa. O curso integra também disciplinas de fundamentação e aprofundamento sobre as questões educacionais, as quais são ofertadas pela Faculdade de Educação. Entende-se que os conteúdos abordados pelas disciplinas ofertadas pela FACED são fundamentais para que o discente se reconheça e se forme como um trabalhador da educação. Nesse sentido, é salutar que o estudante se inteire dos debates atuais em torno das questões educacionais do país, contextualizados em ambientes reais de ensino e aprendizagem. Ainda quanto a importâncias destas disciplinas para a formação docente, pode-se destacar que: A formação inicial será tanto mais importante para a carreira do futuro professor quanto mais próximo ele estiver da conquista identitária desse sujeito. E isso passa pela sua organização coletiva. Além da academia, esses cursos têm que estar em relação muito estreita com o meio escolar de atuação desses futuros ensinantes. Significa dizer que será preciso um curso com matérias mais sensíveis às verdadeiras necessidades desse sujeito. [...] a Didática tem um papel na iniciação destes sujeitos na busca de sua identidade [...]. (D’ÁVILA, 2009, p.139) Ademais, o egresso deste curso deverá ser capaz de trabalhar a expressão cênica em sala de aula ou outras situações de ensino e aprendizagem, através das habilidades e competências comuns ao ator e/ou diretor de teatro. Assim, é possível verificar no currículo do curso dois ciclos subsequentes que balizam a formação deste profissional enquanto artista: o primeiro calcado na formação do ator e o segundo, do diretor. Ambos os ciclos são realizados juntos com disciplinas que fundamentam, através do cruzamento entre teoria e prática, o trabalho do educador e, da mesma forma, diversas as disciplinas evidenciam o caráter da pesquisa como condição para a atuação do artista-pesquisador-docente. 106 A prática teatral, focada no trabalho do discente enquanto ator, professor e pesquisador em formação inicia-se, assim, no primeiro semestre, através das disciplinas Improvisação; Corpo e Educação; e Voz e Educação; soma-se também as disciplinas Fundamentos da Arte da Educação, Teorias da Interpretação e Apreciação Cênica que visam a fundamentação da relação entre Arte e educação, bem como o desenvolvimento e a ampliação da percepção dos estudantes quanto aos fenômenos cênicos. Este ciclo, portanto, sequencia-se com as disciplinas Ator: texto; Ator: corpo/voz; Pesquisa de Voz para Cena; Pesquisa de Corpo para Cena; e a atividade de Montagem. Juntamente com a atividade de Montagem, a qual prevê a montagem de um espetáculo teatral sob a orientação de um professor-diretor, as disciplinas Ator: texto e Ator: corpo/voz podem prever a realização de resultados cênicos com apresentações abertas ao público, evidenciando o caráter de extensão intrínseco às disciplinas. Importante ressaltar que a culminância destas disciplinas em apresentações públicas salienta que o Teatro só se realiza na presença de um espectador. Sob esta perspectiva, mesmo parecendo redundante, é importante refletir que um curso de Teatro deveria privilegiar espaços para que o Teatro aconteça e, com isso, o discente se reconheça parte do fenômeno cênico. Já a partir da segunda metade do curso, as disciplinas Fundamentos da Direção Teatral, Prática Educacional em Interpretação, Metodologia e Prática da Encenação e Realização Teatral em Docência, compõem o segundo ciclo: formação do artista-pesquisadordocente através do exercício prático da relação entre professor e diretor, processo e resultado espetacular almejado. Singularmente na disciplina Realização Teatral em Docência, sugere-se um trabalho interdisciplinar com Estágio Supervisionado IV. Neste caso, almeja-se que o aluno seja capaz que conduzir um processo de ensino aprendizagem em Teatro, em ambientes de ensino formal ou não-formal, o qual resulte na construção e apresentação de peças curtas, cenas e/ou esquetes. Salienta-se, também, que nenhuma prática docente deve acontecer sem que o professor e seus alunos adquiram a postura de investigador. Para tanto, propõe-se as disciplinas relativas à pesquisa: Metodologia da Pesquisa em Arte, Filosofia e Ciência e Introdução ao Trabalho de Conclusão de Curso (de caráter optativo) e Trabalho de Conclusão de Curso. Ao rol de disciplinas somam-se História do Teatro: Prototeatro ao Neoclassicismo; História do Teatro: Romantismo ao Teatro Moderno; História do Teatro Brasileiro; Aspectos Visuais da Cena; e Ética e Prática Teatral. 107 É por tal caminho que esta proposta de integralização curricular tenta contemplar a expectativa de formar um profissional preparado para o exercício do ensino de Teatro, o qual seja detentor de um rigoroso cabedal de conhecimentos teatrais que lhe propicie uma atuação crítica e criativa diante de uma sociedade em constante transformação. Intenta-se que professor de Teatro formado na UFC desenvolva a criatividade e seu senso profissional baseado nos pressupostos da autonomia. Nesse sentido, uma postura ética, crítica e reflexiva sobre os procedimentos didáticos empregados no curso deverá ser o fundamento da ação dos docentes formadores e dos docentes em formação. Outro destaque que pode ser dado à análise deste currículo diz respeito aos processos de ensino e aprendizagem que baseiam em três eixos principais: 1) A prática da pesquisa junto aos fundamentos teóricos e práticos; 2) A prática teatral como eixo de um saber acadêmico que legitima ações educacionais inter e transdisciplinares; 3) A extensão como eixo de encontro da universidade com as diversas manifestações culturais da sociedade. Diante destes três eixos, nota-se que a proposta de ação deste curso caminha em consonância com um pensamento integrado e fluido através do qual ensinar e aprender Teatro se tornam processos interpenetrantes baseados em uma fundamentação teórica e prática sob o olhar do pesquisador-artista-docente. A busca pela formação de um profissional que integra a arte, a pesquisa e a docência não pode se processar através de um currículo fragmentado e apenas estruturado em disciplinas, mas precisa de um currículo coeso que venha integrar as áreas de conhecimento. Com isso, a prática como eixo central torna possível o cruzamento destas áreas de saber em torno do fenômeno teatral e dos processos educativos. Da mesma forma, as ações de extensão efetivam o contato da Universidade com outras instâncias educacionais e artísticas da sociedade, fazendo com essas experiências práticas não fiquem alijadas do universo acadêmico. Quanto ao Trabalho de Conclusão de Curso, é possível dizer que ele pode contemplar pesquisas de caráter teórico ou prático-teórico ou teórico-prático. O TCC pode ser melhor compreendido através do texto abaixo: a) Teórico: Estudo que procura pensar aspectos de uma determinada temática, derivada de produções teóricas ou práticas, no âmbito das artes teatrais em qualquer uma de suas dimensões: interpretação, encenação, dramaturgia, cenografia, produção, recepção; bem como metodologias de criação e ensino: processos colaborativos, etnocenologia, antropologia teatral etc; assim como suas relações e/ou hibridizações 108 com outras artes. Este trabalho deverá contar com um texto de no mínimo cinquenta páginas. b) Prático-Teórico: Estudo que procura pensar aspectos de uma determinada temática técnica, seja do ator e/ou da cena, envolvendo um processo de criação artístico-teatral do próprio discente ou prática artístico-formativa, o qual deve ocorrer de maneira paralela à sua pesquisa. c) Teórico-Prático: Estudo que procura pensar aspectos de uma determinada temática teórica (conceito poético, político, filosófico), que impulsione um processo de criação artísticoteatral do próprio discente prática artístico-formativa, a qual deve ocorrer de maneira paralela à sua pesquisa. Nestas duas últimas modalidades, a pesquisa poderá abranger qualquer uma das dimensões da prática teatral: interpretação, encenação, dramaturgia, cenografia, produção, recepção, crítica, etc; assim como suas relações e/ou hibridizações com outras artes. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2011) Desta forma, oportuniza-se aos discentes abordarem metodologicamente as suas experiências, tenham sido elas através do ensino ou pesquisa ou extensão. Já quanto ao Estágio Supervisionado, o colegiado considera que, enquanto campo de conhecimento, ele relaciona teoria e prática e contribui para a melhor qualidade da formação do professor. O Estágio Supervisionado é, portanto, um “Campo de conhecimento que se produz na interação entre cursos de formação e o campo social no qual se desenvolvem as práticas educativas, o estágio pode se constituir em atividade de pesquisa.” (PIMENTA; LIMA, 2011, p. 29) Assim, as atividades de Estágio Supervisionado I, II e III possuem 80 horas dividas em encontros de orientação e atividades de campo. Suas naturezas são respectivamente de Observação; Observação e regência; e Regência. Singulariza-se Estágio Supervisionado IV que propõe um caráter interdisciplinar com Realização Teatral em Docência. No último semestre, portanto, o aluno possui 160 horas dedicadas a esta atividade, dentre as quais 50h de encontros de orientação; e 110h de atividades de campo: 30h no mínimo que contemplem atividades de regência em sala de aula da linguagem artística Teatro e 80h no mínimo que contemplem atividades de Realização Teatral em Docência (RTD). Ressaltar a interdisciplinaridade “[...] pressupõe considerar a organização disciplinar e, ao mesmo tempo, conceber formas de inter-relacionar as disciplinas a partir de problemas e temas comuns situados nas disciplinas de referência.” (LOPES; MACEDO, 2010, p. 131) É necessário, portanto, retirar um possível caráter salvacionista da interdisciplinaridade e compreender que, para além da dicotomia entre currículo disciplinar e integrado, estão imbricados os desejos dos sujeitos envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem. 109 Antes de tudo, torna-se necessário que seres humanos desejem e vejam sentido em problematizar suas zonas de conforto em busca de novos significados das experiências. Para finalizar esta análise, volta-se a estabelecer uma comparação através da categorização apresentada por Santana (2000). Desta vez, insere-se em mais uma coluna, em rosa (QUADRO 3), os números referentes ao currículo 2012.1 para compará-lo com os dados referentes a outras IES, bem como com currículo 2010.1. Quadro 3 – Comparação da integralização curricular (2012.1) com a média da estrutura curricular dos cursos de formação de professores e com a integralização curricular (2010.1) Áreas do Outras IEs Currículo 2010.1 Currículo 2012.1 Conhecimento TeatroTeatroIEs licenciatura/ICA/UFC licenciatura/ICA/UFC Teatro 1301 1408 1.040 Artes 560 96 64 Teatro-educação 377 432 560 Educação 318 320 320 Outras 261 256 32 Optativas não consta 480 480 Atividades Complementares não consta 200 200 TCC não consta 64 64 Montagem não consta não se aplica 192 2817 3256 2952 Arte-educação Total Fonte: Pesquisa da autora, junho de 2013. Assim, na primeira categoria, Teatro, integram as seguintes disciplinas: Voz e Educação; Corpo e Educação; Improvisação; Teorias da Interpretação; Apreciação Cênica; Ator: Texto; Análise de Texto; História do Teatro: Prototeatro ao Neoclassicismo; Pesquisa de Voz para Cena; Pesquisa de Corpo para Cena; Ator: corpo/voz; História do Teatro: Romantismo ao Teatro Moderno; História do Teatro Brasileiro; Fundamentos da Direção Teatral; Prática Educacional em Interpretação; Metodologia e Prática da Encenação; Aspectos Visuais da Cena; e Realização Teatral em Docência. Por sua vez, foram categorizadas como carga horária de Teatro-educação e Arteeducação: Fundamentos da Arte na Educação; Educação Teatral: metodologias e tendências; e Iniciativas em Teatro Educação. Já na carga horária da categoria Artes não há nenhuma 110 disciplina obrigatória. As disciplinas reservadas para a formação pedagógica permanecem as mesmas: Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação; Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência; Didática; Estrutura Política e Gestão Educacional; e LIBRAS. É válido ressaltar que a Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará oferta a todos os cursos de licenciatura este conjunto de disciplinas que integram o eixo comum da formação docente. Na categoria Outras, encontram-se situadas a disciplina Ética e Prática Teatral e Metodologia da Pesquisa em Arte, Filosofia e Ciência. O caso desta última disciplina merece destaque porque ela foi elaborada para integrar os currículos de todos os cursos do ICA. No caso do Curso de Teatro, esta disciplina veio substituir Metodologia do Trabalho Científico. A disciplina, por sua vez, pretende ser um polo integrador de discentes e docentes dos diversos cursos do ICA, engendrando discussões sobre a pesquisa na Arte, na Filosofia e nas Ciências. Continuando a categorização das disciplinas, portanto, finaliza-se salientando que, sob a mesma perspectiva anteriormente descrita, foram contabilizadas separadamente as 64 horas dedicadas ao Trabalho de Conclusão de Curso, bem como as 192 horas dedicadas à atividade de Montagem. Neste sentido, outra mudança que precisa ser ressaltada ocorreu na disciplina de Montagem. Isto porque, o colegiado considerou fundamental para a formação do docente enquanto artista a sua imersão em um processo de montagem de um espetáculo teatral. Para tanto, o colegiado transformou a disciplina Montagem em uma atividade, igualando sua condição à do Estágio Supervisionado. Isto significa que, em situação regulamentar e estatutária, a atividade tem um caráter diferente da disciplina e permite ao estudante apenas 10% de faltas, ao contrário de 25% permitidas nas disciplinas74. É necessário destacar que algumas das disciplinas citadas foram incluídas nas categorias descritas acima na tentativa de sintetizar a análise do currículo estabelecendo uma comparação. Contudo, diante das novas diretrizes e das recentes pesquisas no âmbito do ensino do Teatro, considera-se pertinente nomear a categoria Teatro-educação de Pedagogias do Teatro, bem como separá-la da categoria Arte-educação, singularizando as disciplinas de saberes específicos do ensino do Teatro. Justifica-se esta proposição porque quando se fala em Pedagogias do Teatro, termo cunhado em pesquisas mais recentes nesta área de conhecimento, sugere-se um estado de reflexão sobre os processos de ensino e aprendizagem em Teatro, tomando esta linguagem artística como campo de conhecimento. 74 Ressalta-se que a presença dos alunos/atores em um processo de montagem de um espetáculo cênicoé condição para a sua realização. 111 Sob este novo modo de pensar o ensino do Teatro, passaram a integrar esta categoria, Pedagogia do Teatro, as disciplinas: Voz e Educação; Improvisação; e Realização Teatral em Docência. Estas disciplinas apresentam em seus formulários de criação, programas abordagens expressas quanto à orientar ou instrumentar o discente para pesquisar metodologias de ensino de Teatro. A síntese deste resultado em horas apresenta-se no Quadro 4 Quadro 4 – Síntese de hora da integralização curricular (2012.1) por área de conhecimento Áreas do Conhecimento IEs Teatro Currículo 2012.1 Teatro-licenciatura/ICA/UFC 1.027 Arte-educação 77 Pedagogias do Teatro 560 Educação 320 Outras 32 Optativas 480 Atividades Complementares 200 TCC 64 Montagem 192 Total 2952 Fonte: Pesquisa da autora, junho de 2013. Portanto, sob o pressuposto de que o Teatro, tal como o currículo, é uma construção histórico-social, ou seja, está diretamente vinculado a um momento histórico, contextos e relações com o conhecimento. O Teatro que possui uma episteme própria, metodologias e fundamentos; e esta compreensão não gera apenas uma mudança de nomenclatura ou uma realocação das disciplinas nas dadas categorias. Antes, esta nova organização curricular corrobora com “[...] a noção de teatro como pedagogia, a qual pretende acentuar que o fazer teatral, em si, ensina sobre relacionamentos, expectativas, conflitos e emoções humanas, e é a atmosfera do trabalho e a vivência em grupo, que tornam significante a experiência.” (CABRAL, 2007, p.2) 112 5 O CORPO DISCENTE E SUAS RELAÇÕES COM O PERCURSO Este capítulo pretende investigar relações entre o corpo discente e algumas ações curriculares. Para tanto, inicialmente, retrata-se o perfil do aluno do ensino médio, público potencial para ingressar neste curso e que, ao mesmo tempo, representa as salas de aula, nas quais atuarão os egressos deste curso. Da mesma forma, se investiga o perfil dos discentes do curso intentando perceber, principalmente, as motivações que o levaram a escolher a carreira do magistério em Teatro. Quanto às ações curriculares destacadas neste capítulo, justifica-se a escolha porque todas foram citadas pelos discentes nas entrevistas como espaços onde foi possível verificar a atuação do artista-pesquisador-docente. Nota-se, portanto, uma forte adesão dos discentes cujas participações são a principal fonte de análise. Assim, tais participações serão analisadas com base nos seguintes documentos: relatórios, resumos submetidos, artigos publicados, projetos de encenação, espetáculos e cenas realizadas. 5.1 ANÁLISES PRELIMINARES Nota-se, nas salas de aula deste curso de formação de professores de Teatro, alguns alunos que não desejam seguir a carreira docente, mas frequentam este curso de formação de professores pela necessidade de um diploma em Teatro. Singularmente, o diploma da licenciatura os habilita a lecionar e os possibilita conseguir um emprego regulamentado. Observa-se, também, que jovens que gostariam de se dedicar a outras profissões na área do Teatro (ator, diretor, dramaturgo, iluminador, cenógrafo, figurinista) e que não desejam lecionar, frequentam estas salas de aulas. Partido destas observações, ensejou-se investigar melhor estes dois grupos de estudantes: os alunos do ensino médio e os alunos matriculados no curso de graduação em Teatro. Entende-se, pois, que para propor um currículo com os estudantes é necessário compreender melhor quem eles são. Com tal intento, foram aplicados dois questionários distintos, um a cada grupo de alunos. Assim, simultaneamente aos resultados, são apresentados, em comparação, outros estudos realizados na área. Da mesma forma, utiliza-se de um terceiro questionário aplicado 113 pela Seção de Atenção Psicossocial através do Programa de Apoio Psicopedagógico ao Estudante Universitário (PAPEU) da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) da UFC aos discentes do Curso de Teatro. 5.1.1 Alunos com potencial a futuros discentes do curso A fim de investigar os alunos do ensino médio, foi feito um recorte de amostragem no qual responderam o questionário os alunos que visitaram o stand do Curso de Teatrolicenciatura na Feira das Profissões. Sobre a aplicação do questionário, pode-se dizer que 510 alunos do ensino médio, provenientes de escolas públicas na sua maioria, responderam à 8 questões durante três dias de realização da Feira das Profissões entre os anos de 2010 e 2013. A saber, a Feira das Profissões motiva e produz um espaço no qual todos os cursos da UFC são representados em stands que podem ser visitados pela comunidade. As ações e a organização destes stands ficam sob responsabilidade de cada curso e, normalmente, são os discentes que protagonizam esta ação. Os jovens ambientam os espaços, distribuem panfletos, fazem experimentos, realizam performances e tiram as dúvidas dos alunos que procuram este espaço como uma possibilidade de conhecer melhor os cursos e as profissões que pretendem seguir. Os resultados mais relevantes obtidos através da análise dos dados dos questionários podem ser conferidos nesta subseção. O primeiro dado que merece destaque é que apenas 16.47% dos alunos responderam que queriam ser professores de Teatro (alternativa c) para a pergunta: Por que você cursaria Teatro-licenciatura na UFC?. Os demais subdividiram-se de forma equivalente nas alternativas: a) Quero ser ator de teatro; b) Quero ser ator de televisão, cinema e propaganda; c) Outros. Este resultado caminha em consonância com a reportagem intitulada O Brasil não pode mais perder bons professores (2013) apresentada pela revista Nova Escola, a qual debate dados da pesquisa realizada pela Teacher Status Index da Fundação Varkey Gems. Segundo a reportagem, a desvalorização do magistério, as precárias condições de trabalho e as cargas horárias exaustivas são os principais pontos que ainda afastam os jovens da busca pela carreira docente. Ademais, esta mesma reportagem traz, ainda, que uma pesquisa realizada pela Fundação Victor Civita (FVC) e pela Fundação Carlos Chagas (FCC), revela que o percentual 114 de matrículas em cursos de graduação em geral cresceu 4.4%, mas nos cursos de Licenciatura o percentual foi de 0.8%. (O BRASIL..., 2013) Apenas 2% dos alunos entrevistados pela FCC indicam graduações ligadas à escola como primeira opção no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Destacam-se, também, os resultados da pergunta 2 do questionário aplicado na Freira das Profissões, qual seja: sua visita neste stand foi por.... Neste caso, a maioria dos alunos, representada por 59.6%, respondeu que havia sido por interesse pelo curso. Ademais, quando perguntados (pergunta 5) se o Curso de Licenciatura em Teatro seria a sua primeira opção no ENEM, 28.23% responderam que sim. Contudo, o questionário revela, conforme o Gráfico 1 abaixo, que 12% dos jovens nunca assistiram a um espetáculo teatral; 15%, assistiram a apenas um; 35% assistiram de 02 a 05; 18% assistiram de 06 a 10; e 20%, acima de dez. Gráfico 1 – Percentual de jovens do ensino médio em comparação aos números de espetáculos assistidos Fonte: Pesquisa da autora, dezembro de 2014 Torna-se importante o questionamento sobre como trazer estes fatos para pensar o currículo do Curso de Teatro. Neste sentido, é relevante e preocupante para as ações curriculares a realidade de que uma parte dos futuros discentes do curso pode nunca ter assistido a uma peça de teatro e, ao mesmo tempo, que a maioria tenha assistido a apenas cinco espetáculos. Ao mesmo tempo, revela-se como condição manter os discentes motivados pela carreira docente mesmo diante da desvalorização do magistério e do desrespeito ao professor. Ainda neste tema, segundo a reportagem O Brasil é um dos países que menos 115 respeita o professor, publicado pelo portal de notícias G1.globo.com75, o Brasil ficou em penúltimo lugar em uma pesquisa quantitativa realizada pela fundação ValeryGems que avaliou o status do professor. Assim, parte-se deste quadro para buscar entender agora o grupo que compõe, de fato, o corpo discente do Curso de Teatro/ICA/UFC. O intento é construir um panorama que auxilie na compreensão deste alunado porque será a partir de suas análises sobre o currículo do curso que serão traçadas futuras considerações. 5.1.2 Amostra do corpo discente Trata-se, a partir de então, de buscar compreender melhor quem são os discentes do Curso de Teatro-licenciatura/UFC e como eles se relacionam com a proposta pedagógica do curso. Neste anseio, os questionários76 foram organizados com a finalidade de entender o que levou estes jovens a escolher cursar licenciatura em Teatro e como eles têm trabalhado suas expectativas dentro do curso. Para tanto, algumas perguntas foram levantadas: Quais seriam suas motivações para estar neste curso? O que eles observam sobre o lugar que o professor ocupa hoje na sociedade? O que eles almejam para as suas condições de trabalho? Então, os resultados que corroboram com as reflexões acima podem ser conferidos no decorrer deste capítulo. Foi realizada uma análise por amostragem de todo o corpo discente do curso. Para tanto, todos os alunos presentes em uma reunião realizada no dia 27 de agosto de 2013 responderam ao questionário. Esta reunião, por sua vez, foi convocada pela coordenação do Curso de Teatro, com vistas na explanação do PPC e explicações sobre a visita do MEC, conforme já enunciado na introdução deste capítulo. Os dados abaixo foram colhidos através de um questionário aplicado de forma aleatória a um grupo de 61 estudantes presentes na reunião. O número de estudantes presentes representou um percentual de 55.44% dos estudantes do curso que possuía, à época da pesquisa, 110 alunos regularmente matriculados. É importante ressaltar que o número de 110 alunos regularmente matriculados atesta uma evasão de 31.25% no curso. Nota-se, também, que este índice está um pouco acima da 75 Matéria disponível em:<http://g1.globo.com/educacao/noticia/2013/10/brasil-e-um-dos-paises-que-menosrespeita-professor-diz-estudo.html>. Acesso em: 18 mar. 2014. 76 Deve-se explicar que em algumas questões o discente podia escolher mais de uma opção como resposta, por isso, os resultados não revelam um percentual sobre o número absoluto de alunos, mas sobre a quantidade de respostas. 116 média da Universidade, cuja evasão gira em torno de 20% e 28%. Neste sentido, indicadores que aparecem como principais motivos de evasão são: “[...] insatisfação com o curso, dificuldades financeiras e despreparo para fazer escolhas.” (SILVA, L. et al., 2002, p. 396) Reflete-se neste caso sobre a preocupação da Universidade frente ao fenômeno da evasão, bem como suas ações de prevenção, como por exemplo: o aumento do número de bolsas, o aprimoramento qualitativo do atendimento ao estudante na Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, o investimento em residências universitárias e incentivo para que os cursos revisem constantemente seus projetos pedagógicos. Retomando, portanto, o número dos estudantes presentes na referida reunião pode ser analisado sob dois pontos de vista. O primeiro considera que houve uma boa adesão, uma vez que eventos desta e de outras naturezas têm representado um esvaziamento muito maior por parte dos alunos (e dos professores). Por outro lado, a ausência de quase metade dos alunos também se mostra um sintoma de desinteresse pelas questões curriculares, uma vez que somado à pertinência do tema, o curso se aproximava da data marcada para visita in loco da avaliação do MEC. Adentrando, então, ao histórico de formação deste corpo discente, salienta-se que o curso que abrigou, em sua primeira turma, 40 alunos, conta hoje com 12 egressos, cujas realidades serão agora descritas. Quatro egressos estão aprovados em concurso público para professor de Arte do Ensino Médio do Governo Estado do Ceará; um ingressou no Programa de Pós-Graduação em Artes/ICA/UFC e três são professores temporários da rede estadual de ensino. Outro egresso está aprovado em concurso público para professor de Arte no município de Maracanaú-CE. Três egressos atuam no terceiro setor, dos quais dois são integrantes/fundadores de suas companhias de teatro, ambas estáveis na cidade de FortalezaCE há mais dez anos. Dois trabalham em escolas profissionalizantes do Estado em tempo integral; um trabalha na rede particular de ensino e um termina uma graduação em Publicidade e Propaganda, faz um curso de audiovisual e é estagiário em uma produtora de cinema. Por último, um egresso trabalha exclusivamente como ator e participa atualmente de três montagens profissionais. Adentrando aos resultados obtidos com a aplicação do questionário, situa-se a primeira questão que perguntava: Por que você optou por cursar Teatro-licenciatura na UFC? Em resposta a esta questão se obteve os seguintes dados, expressos no Gráfico 2: 117 Gráfico 2 – Percentual de respostas para a questão: Por que você optou por cursar Teatro-licenciatura na UFC? Fonte: Pesquisa da autora, dezembro de 2014 Diante desta realidade, nota-se que mesmo no grupo de alunos matriculados no curso, o percentual de respostas vinculados à opção B (Quero ser ator de Teatro) foi maior que à opção A (Quero ser professor de Teatro). Assim, no que concerne às questões curriculares, procura-se pensar sobre possíveis maneiras de se formar um professor de Teatro, sem deixar de reconhecer as individualidades dos sujeitos e seus desejos de se tornarem artistas do Teatro, atuando nas diversas esferas sociais. Sendo assim, estas questões reverberam no âmbito curricular, ao passo que se seria desafiador pensar em uma proposta curricular que não alijasse as afinidades artística dos discentes. Ou seja, pensar em uma proposta curricular que possa contribuir para forjar um perfil profissional que atenda às necessidades do mercado e, ao mesmo tempo, faça sentido àqueles que a percorrem. Em contraponto, quando questionados sobre os locais onde pretendiam trabalhar, o maior percentual de respostas se concentrou na opção Escolas. Assim, somando os 30% de respostas relativas à opção Escolas com os 13% relativas às ONGs, entendendo que estes espaços educacionais acabam por absorver os profissionais da licenciatura em Teatro, o percentual de 43% (30%+13%) se reflete maior do que os 26% que escolheram a opção Teatros, como demonstra o próximo Gráfico 3. 118 Gráfico 3 –Percentual de respostas para a questão: Após formados, em quais locais pretendem trabalhar? Fonte: Pesquisa da autora, dezembro de 2014 Certamente, neste último caso as respostas refletem uma lógica de mercado. Isto porque as escolas e o terceiro setor são, em grande maioria, os espaços da sociedade que absorvem estes trabalhadores. Portanto, poderia se pensar nos entraves e nos avanços de uma proposta curricular que enfrentando esta lógica equacione o desejo do estudante em se tornar ator e a necessidade que ele mesmo observa de trabalhar em ambientes formais e não formais de ensino. Para corroborar com esta discussão, a questão 3 perguntou aos discentes sobre qual postura teria caso fosse inaugurado um curso de bacharelado. As opções eram: a) mudaria de curso; b) não mudaria de curso; c) cursaria os dois. Como resultado, as respostas C e B somam 81.35%. Ou seja, a ampla maioria optaria em obter a licença para ensinar. Diante das análises das duas questões expostas acima, seria coerente pensar que a opção por permanecer em um curso de licenciatura se daria em virtude dos discentes já conhecerem a realidade do mercado de trabalho do artista e do professor de Teatro. Já a questão 4 averiguou que 82% dos respondentes assinalaram que o Curso de Teatro havia sido a sua primeira opção no vestibular/ENEM77. É importante ressaltar, portanto, que este grupo se revela como um grupo comprometido e interessado nas questões de seu curso, uma vez que se fez presente na citada reunião. Em complementaridade a esta premissa, a questão 5 revelou que 45 respondentes (73.77%) não cursaria outra graduação ao mesmo tempo em que cursa Teatro-licenciatura. É válido ressaltar que esta questão possuía um 77 A primeira turma, ingressa em 2010, ainda passou pelo processo seletivo interno da UFC. 119 espaço para que justificassem suas respostas. Então, estas justificativas se dividiram da seguinte maneira: 24 discentes responderam que o Teatro é sua única opção para curso de graduação ou que querem se dedicar ao curso e 15 consideram que não possuem tempo e/ou condições financeiras para cursar outra graduação; os demais se dividiram de forma equivalente em outras justificativas diversas. O questionário analisou, também, o número de espetáculos que os alunos já haviam assistido. Os dados estão representados no seguinte Gráfico 4. Gráfico 4 - Percentual de alunos do Curso de Teatro em comparação aos números de espetáculos assistidos Fonte: Pesquisa da autora, dezembro de 2014 O fenômeno cênico é a matéria de trabalho do licenciado em Teatro. Os referenciais adquiridos ao longo da trajetória do discente enquanto espectador faz parte da formação, ou seja, é construção de repertório estético e político. Portanto, as propostas curriculares também precisam se preocupar com espaços de fruição estética, mediadas ou não, que alimentem artisticamente os discentes do curso. Por fim, os alunos puderam se expressar livremente quando às disciplinas (temas ou conteúdos) que gostariam de estudar e a integralização curricular não contempla. Expressivamente obteve-se Nenhuma como a principal resposta. Isso significa que a grande maioria dos estudantes acredita que não há conteúdos a serem incorporados na integralização curricular, ou seja, que ela contempla os seus anseios de formação. Contudo, Produção Cultural e Teatro de Rua seguiram como as disciplinas mais requisitadas pelos alunos. Neste rol também apareceram com mais de duas solicitações: Interpretação para cinema e vídeo; Mais disciplinas de interpretação; Iluminação; Dança (práticas corporais); Sonoplastia; Cinema; Teatro Infantil; Cinesiologia; Básico de outras linguagens artísticas. Esta última 120 solicitação foi justificada porque, segundo eles, havia uma necessidade de subsidiar minimamente a prática do professor em sala de aula quando demandados a ministrar aulas sobre as demais linguagens artísticas. Outro dado preponderante foi revelado na questão 6: Como você se mantém na Universidade durante a graduação? O resultado pode ser assim exposto no Gráfico 5: Gráfico 5 - Percentual de respostas para a questão: Como você se mantém na universidade durante a graduação? Fonte: Pesquisa da autora, dezembro de 2014 Os dados corroboram com uma política da UFC que vem aumentando gradativamente o número de bolsas. A UFC possui diversas modalidades de bolsas78, as quais se mostraram preponderantes para este curso recém-criado. Observa-se que 40% dos entrevistados são bolsistas na Universidade. Este resultado reafirma como as políticas de bolsas são importantes para manter o aluno na Universidade, torná-lo parte integrante do seu curso, responsável por ações e protagonista de projetos. Para a UFC, garantir a permanência e a conclusão dos alunos nos cursos de graduação deve ser um dos focos de atuação do corpo docente e dos gestores. Assim, em direção a este entendimento e com vistas na implementação de uma efetiva proposta de orientação discente, colegiado do Curso de Teatro realizou, em parceria com a Seção de Atenção Psicossocial da Divisão do PAPEU/ PRAE-UFC, uma pesquisa para levantar dados sobre a postura do discente em relação ao curso. Então, o colegiado se reuniu com a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) para a construção de um instrumento para coleta e análise dos dados. Esta 78 Programa de Aprendizagem Cooperativa em Células Estudantis (PROGRAD-UFC); Ciência sem Fronteiras (Governo Federal); Programa de Iniciação à Docência (PID-PROGRAD/UFC); Projeto Pibid-Teatro (CAPES); O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid/CAPES); INICIART (PRAE-UFC). 121 pesquisa resultou num relatório descritivo, construído pela PRAE, o qual será utilizado em complemento aos dados acima. A pesquisa realizada pela PRAE se constituiu de questões abertas e fechadas, cujos resultados foram organizados conforme os sete temas abordados no questionário, a saber: “Motivação, Expectativa Acadêmica, Envolvimento, Satisfação, Inserção, Expectativa Profissional e Postura em relação ao curso”. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 4) Assim, no dia 22 de maio de 2012, o questionário da PRAE foi aplicado pela primeira vez em sala de aula e contou com 51 alunos respondentes. Em seguida, outros 5 estudantes responderam o mesmo questionário que ficou à disposição na secretaria do curso. O primeiro tema, Motivação, foi avaliado através de respostas subjetivas, nas quais o estudante pode escrever sobre o assunto. Então, as respostas foram organizadas em cinco categorias: 1) escolha do curso por afinidade; 2) acessibilidade: como uma forma alternativa e viável de ingressar em uma universidade pública; 3) por realização pessoal ou profissional; 4) por já ter tido alguma experiência com o campo das artes e/ou teatro; 5) pelo desejo de cursar uma faculdade de teatro. (identifica-se aqui a importância da representação social que curso promove). Vale ressaltar que algumas respostas foram agrupadas em mais de uma categoria. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 5) Neste caso, redobra-se a atenção para as respostas agrupadas na categoria 2, acessibilidade. Ou seja, os casos de estudantes que afirmam ter escolhido o curso como meio de entrar na universidade pública. Nota-se este caso em uma das respostas transcritas na íntegra no relatório da PRAE: “Possibilidade de estudar em uma faculdade reconhecida e sem outras alternativas para ingressar.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 9) Para a PRAE, portanto, esse fator não desacompanha certo interesse pela área, mesmo em caráter secundário, como pode ser verificado na seguinte fala: “Além da maior facilidade em ingressar em uma universidade pública, o interesse pela área artística”. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 9) O relatório aponta, também, que o novo modelo de acesso à Universidade, o ENEM, colabora com o quadro. Portanto, esta questão da acessibilidade parece ser de uma grandeza inalcançável para as propostas curriculares. Isto porque os cursos de graduação estão submetidos aos entraves gerados pelo novo sistema de acesso à Universidade. Mesmo assim, deve-se pensar em modos 122 de gerenciar tais casos para que estes estudantes possam construir sua identidades profissionais e refletir se realmente desejam ser sujeitos da experiência em Teatro. Contudo, o resultado é imprevisível porque ele possui um caráter totalmente subjetivo que perpassa o desejo do estudante. Portanto, esta questão pode gerar uma instabilidade no curso que se reflete, principalmente, nos modos de avaliação dos discentes. Já no segundo tema, Expectativa acadêmica, que tratou também de um item dissertativo, as respostas foram agrupadas em três categorias: qualificação, experiência e realização. Destaca-se, portanto, que na categoria Experiência, mais uma vez, faz-se notar o conflito existente com a modalidade do curso, licenciatura. Na fala seguinte, um discente que deixa explícito que sua estada no curso deve-se ao fato de não haver um bacharelado em teatro na cidade: “Eu espero sair formado, porém não me interessa a licenciatura, só irei fazer por conta de não existir um bacharelado. Ou irei transferir para outra universidade federal onde haja bacharelado em teatro ou artes.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 10) Já o terceiro tema abordou de forma objetiva o Envolvimento do aluno com o curso. Os alunos apontaram, com maior número de respostas, que o fator do envolvimento com o curso está diretamente ligado ao fato deles perceberem e relacionarem os saberes das disciplinas práticas e teóricas, bem como buscarem trocar experiências. Dentre as opções menos marcadas está a participação na construção do PPC. Esta opção toca diretamente em uma das preocupações desta tese, ou seja, o baixo envolvimento dos estudantes com as propostas pedagógicas. Neste sentido, quanto ao tema 4, que buscou mensurar o grau de satisfação do estudante com o curso, o relatório aponta que a relação com os professores foi o índice que obteve maior satisfação. Seguiram-se os índices relacionados a: conteúdo abordado; relação com técnicos administrativos; quantidade de atividades teóricas; currículo do curso; instalações e equipamentos; quantidade de atividades práticas; e perspectivas para o futuro profissional. Já os indicadores mais baixos denotaram suas insatisfações com as iniciativas dos estudantes nas decisões do curso e com sua falta de abertura para a participação dos estudantes nas decisões, bem como com a modalidade do curso. A Inserção, o quinto tema do relatório da PRAE, é considerado o mais preponderante para esta tese porque buscava constatar se o estudante via a proposta de formação do artistapesquisador-docente na integralização do curso. Este tema contou com uma primeira parte 123 objetiva, na qual o estudante marcava sim ou não, e uma segunda parte subjetiva, na qual ele justificava a sua resposta. Para tal questão, 89.3% dos estudantes responderam que sim, ou seja, que viam a proposta da formação do artista-pesquisador-docente na integralização do curso. A seguinte fala, de um aluno do primeiro semestre, contribui para o entendimento de tal tema: “A grade curricular do curso abre oportunidade para o aluno ser artista/docente/pesquisador, e tudo isso bem equilibrado.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 18) Quanto aos estudantes que optaram pelo não em suas respostas, pode-se destacar que suas justificativas apresentam uma série de diferenças e divergências. No tema que pretendeu mensurar a Expectativa profissional do estudante, no qual se poderia marcar mais de uma resposta, observou-se que o item mais marcado (por 40 dos 56 respondentes) foi: pretendo ser ator de Teatro. Na sequência, 35 marcaram que pretendem integrar um grupo teatro e o mesmo número marcou que deseja trabalhar no campo do Teatro e da educação. Já a opção de seguir a carreira acadêmica foi marcada por 28 alunos. A mesma marca obteve a opção por ser professor de Teatro. Segundo este relatório, não houve uma significativa diferença entre os itens marcados quando o quadro foi analisado por semestre. Contudo, diferente desta conclusão, considera-se muito preponderante uma crescente diferença que se nota quanto aos seguintes itens: a) pretendo seguir a carreira acadêmica e c) pretendo ser ator de televisão/cinema/audiovisual. No primeiro item, seguir a carreira acadêmica, há um aumento gradativo de 37.5% de respostas vinculadas a alunos do primeiro semestre, para 52.6% do terceiro até chegar a 69.2% do quinto. Acredita-se que estes índices revelam que o fazer Universitário amplia os horizontes dos estudantes, desvelando possibilidades de atuação na carreira do magistério superior e na pesquisa acadêmica. Considera-se, também, bastante relevante o fato da diferença encontrada no item c, pretendo ser ator de televisão/cinema/audiovisual. Neste caso, nota-se um decréscimo de 54.2% no primeiro para 36.8% no terceiro e 23.1% no quinto semestre. Não seria leviano concluir que a vivência neste Curso de Teatro desmistifica a função do ator, revelando as vicissitudes do fazer teatral e abrindo outras possibilidades de atuação que antes eram desconhecidas pelos alunos. Por último, no tema Postura, a pesquisa da PRAE buscou analisar o sentimento do aluno em relação ao curso. Este tema foi composto de questões abertas cujas respostas foram 124 dividas em dois grupos. No primeiro grupo, concentram-se apontamentos de elogios, sugestões, falhas, satisfações ou insatisfações. No segundo grupo, agrupam-se considerações sobre espaço físico, acesso, instalação, modalidade do curso, intercâmbio. Neste lugar, podese destacar a seguinte consideração de um dos discentes respondentes: A abertura dos professores (do colegiado em geral) para os alunos nas questões do curso é muito pequena, o diálogo é restrito (embora pareça aberto); em contrapartida, os conteúdos (tanto práticos quanto teóricos, tanto voltados ao artista quanto à docência), as aulas e as atividades, são muito bons, atingem (em sua maioria) o objetivo esperado e conseguem ingressar (superficialmente) o aluno tanto no universo teatral quanto no pedagógico. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 26) Como considerações finais, o relatório aponta dois pontos principais. O primeiro aborda o fato de que alguns estudantes utilizaram os itens abertos para questionar a licenciatura como modalidade oficial do curso, reivindicando o bacharelado. E o segundo ponto diz respeito à “[…] necessidade de que se promova o intercâmbio acadêmico e cultural no curso parece ser consenso entre os estudantes.” (UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, 2012, p. 47) Diante das análises trazidas nesta subseção, considera-se que há um melhor conhecimento a respeito dos estudantes do curso. Com isso, espera-se que futuras considerações possam estar mais arraigadas e contextualizadas. 5.2 AÇÕES REPRESENTATIVAS (CURRÍCULO EM AÇÃO) Preocupados em estimular a formação de professores, o corpo docente do Curso de Licenciatura em Teatro iniciou no ano de 2010 algumas ações de valorização do magistério incentivando os estudantes pela carreira docente. São exemplos de atividades realizadas com este propósito: formação e participação em mesa redonda na Semana de Humanidades e nos Encontros Universitários; realização de palestra sobre Currículo e Interdisciplinaridade em parceria com a FACED/UFC; implantação do Pibid-Teatro; realização do I e II Seminários 125 Dança Teatro Educação (SDTE); criação da Semana de Mostras79; aprimoramento da disciplina (atividade) Montagem; criação do Laboratório de Cenografia e Tecnologias e da Cena (CENOTEC)80; Aplauso Festival de Teatro81; dentre outras. Assim, com a intenção de solidificar a análise do envolvimento do discente com o currículo do seu curso, estabelece-se um recorte em quatro destas ações curriculares, quais sejam: Pibid-Teatro; SDTE; Atividade de Montagem; e Aplauso Festival de Teatro. A partir deste recorte, realizado indiretamente pelos próprios discentes, buscou-se documentos que registravam a atuação deles em cada uma destas ações. Com isso, as inferências, que nos capítulos subsequentes visarão responder à questão central da tese, contaram com os seguintes insumos: relatórios, resumos, artigos e projetos de encenação diretamente relacionados a estas ações. Assim, pretende-se dar a conhecer cada uma destas ações, mas, principalmente, analisar o envolvimento do discente em cada uma delas. 79 A Semana de Mostra concentra os resultados artísticos gerados nas disciplinas práticas do Curso de Teatro durante o semestre corrente. Portanto, é uma semana que concentra uma série de apresentações abertas ao público e com entrada franca. Esta iniciativa tem como objetivo a realização plena da atividade teatral diante de um público, bem como dar visibilidade aos resultados artísticos alcançados pelos discentes do curso. 80 O CENOTEC surgiu também por iniciativa pessoal de um dos professores do Curso de Teatro, incentivado pela visita do Prof. Dr. José Sávio de Araújo (UFRN) quando de sua participação no I Seminário Dança Teatro Educação. Isto porque o CENOTEC é um laboratório homônimo ao existente no Curso de licenciatura em Teatro da UFRN idealizado e coordenado por este professor. Então, instalado na sala dezessete da sede Carapinima do Instituto de Cultura e Arte, o laboratório promoveu, também, planejamentos estruturais, acompanhamento de obras e controle de equipamentos no curso. O Laboratório acolheu até o momento 12 bolsistas de graduação, dentre eles 7 remunerados e 5 voluntários. Da estreia, em setembro de 2013 até dezembro de 2014, o projeto acolheu 10 cenas nas quais estavam vinculados 18 alunos desenvolvendo as mais diversas atividades artísticas das quais necessitam os espetáculos teatrais. O AtoAntes é um projeto de apresentação de cenas desenvolvidas e executadas pelos alunos do Curso de Teatro. Assim, como uma ação de ensino, pesquisa e extensão universitárias, possibilita o acesso do público externo às realizações cênicas dos alunos do curso. Este projeto é um trabalho de formação de plateia que movimenta culturalmente o ICA através da apresentação de cenas curtas todos os sábados pela tarde na Sala XIV de Experimentações Cênicas do Curso de Teatro. Cada cena tem duração média de15 minutos e a cada mês entra em cartaz um repertório novo. Para participar, as cenas devem ter, prioritariamente, um aluno do Curso de Teatro envolvido nos seus processos artísticos. O espaço do AtoAntes, por sua vez, instiga a autonomia dos discentes nos processos de criação cênica. Assim, valoriza suas potencialidades artísticas enquanto ator, encenador, pesquisador, cenógrafo, figurinista, iluminador, etc. Com isso, possibilita ao aluno travar contato com todas as etapas de um projeto de montagem. Ou seja, é um espaço de investigação e experimentação teatral. O AtoAntes é um dos projetos do Laboratório de Cenografia e Tecnologias da Cena (CENOTEC), cuja equipe de alunos bolsistas e voluntários é responsável por toda a logística necessárias para a apresentação das cenas e recepção do público. 81 O Aplauso Festival de Teatro foi realizado nos dias 02,03, 04 de dezembro de 2013 na Caixa Cultural da cidade de Fortaleza-CE e reuniu os espetáculos dirigidos pelos alunos como resultado do referido trabalho interdisciplinar. 126 5.2.1 Pibid-Teatro Esta exposição pretende situar os espaços nos quais os discentes desenvolveram suas práticas de docência artista. Então, faz-se necessário esclarecer as bases metodológicas que deram suporte para o projeto do Pibid-Teatro se desenvolver privilegiavam a autonomia dos discentes e o labor de um artista-pesquisador-docente. Inicia-se, então, situando o período que compreendeu de julho de 2011 a fevereiro de 2014, quando o Curso de Teatro contou com o primeiro grupo de bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência na sub-área Teatro. O Pibid-Teatro se mostra como uma das principais pontes entre o Curso de Teatro e a escola básica. As atividades desenvolvidas pelo Pibid-Teatro já alcançaram um público aproximado de 1200 pessoas, entre estudantes, professores e comunidade em geral. Suas ações aconteceram majoritariamente na Escola de Ensino Médio Liceu do Conjunto Ceará (LCC) e todo o processo se baseou nos moldes de uma pesquisa colaborativa. No que concerne à movimentação dos bolsistas neste programa, ressalta-se que foram abertas 5 vagas para as quais somente 4 alunos se candidataram. Porém, este primeiro edital (2011.1) contemplava apenas a turma ingressa no ano de 2010 porque um dos requisitos para se candidatar a uma bolsa era estar cursando o terceiro semestre. Com isso, a quinta vaga foi preenchida no semestre seguinte (2011.2), quando o edital ampliou a possibilidade de acesso ao programa para alunos do segundo semestre. Já no ano de 2012, houve a ampliação do número de vagas de 5 para 6 e a seleção de mais um bolsista de graduação. Outra movimentação ocorreu em 2013.1 quando houve a substituição de três bolsistas. Esta substituição, por sua vez, ocorreu devido ao excesso de trabalho para estes discentes no ano de conclusão do curso, e, portanto, três alunos que integraram a primeira equipe (2011.1) foram substituídos por outros três, todos da turma ingressa em 2011. Com isso, ao todo, nove alunos da graduação integraram o Pibid-Teatro entre junho de 2011 e fevereiro de 2014, mais uma supervisora e uma coordenadora de área totalizando 10 bolsistas. O Pibid-Teatro possuía, portanto, a missão de colaborar com a formação do licenciando em Teatro através do incentivo e da valorização da carreira docente. Para tanto, ele se propunha a incentivar o aluno para sua qualificação profissional. Neste sentido, a metodologia do Pibid-Teatro se baseou na criação e implementação do projeto Teatro na Escola. Importante salientar, portanto, que os bolsistas estavam inseridos em todas as etapas 127 do trabalho, ou seja, da elaboração do projeto à análise dos resultados. Assim, esse projeto foi elaborado pelos alunos bolsistas (licenciandos), juntamente com a supervisora e a coordenadora de área nos meses de junho e julho de 2011. Quando da elaboração do projeto Pibid-Teatro, decidiu-se fazer desta ação uma experiência através da pesquisa colaborativa. Isto porque a pesquisa colaborativa é uma pesquisa ação que aumenta a responsabilidade dos pesquisadores com o grupo de pesquisa e com o ambiente no qual atuam. Em concordância com tal premissa, segue um trecho do resumo intitulado Ação-reflexão-ação: a pesquisa colaborativa sobre a ótica do licenciando em Teatro, submetido aos Encontros Universitários por um dos bolsistas do Pibid-Teatro: O programa Institucional de Iniciação a docência – PIBID, vinculado à Próreitoria de graduação – PROGRAD da Universidade Federal do Ceará, propõe ações que promovam o fortalecimento dos cursos de licenciatura, que entre outros aspectos, possibilita o estreitamento da relação teoria e prática, bem como a inserção e, por conseguinte, o contato ainda na graduação, dos licenciandos com ambiente escolar. O seguinte trabalho vem discutir as ações pertencentes ao sub-projeto de Teatro, com ênfase na vinculação dessas ações a uma proposta de pesquisa-ação colaborativa que segundo Ibiapina (2008), se configura em uma das formas de pesquisa-ação calcada na co-produção de conhecimento, na própria prática da pesquisa como estratégia de formação e na mudança das práticas educativas anteriormente engessadas a partir da mediação do pesquisador, bem como da participação reflexiva dos professores que participam ativamente da pesquisa, criando com isso práticas emancipatórias e a quebra das relações opressoras de poder e da ditadura do cientificismo que resume a teoria e as técnicas préestabelecidas como soluções para os problemas oriundos da docência. Nesse sentido, o trabalho se propõe a discutir, sobre a ótica, não do pesquisador, mas dos demais partícipes, as propostas de ações a serem desenvolvidas no Colégio Liceu do Conjunto Ceará, sobretudo no aspecto de como essas ações estão e estarão, uma vez que a pesquisa encontra-se no seu início, promovendo o desenvolvimento de práticas emancipatórias e inovadoras, que no caso específico do sub-projeto em questão, proporcionarão novas reflexões e, consequentemente, mudanças na forma de encarar a docência de Teatro no ambiente escolar. (FONSECA, 2011) Salienta-se, pois, que no plano de ação do projeto Teatro na Escola havia espaços previstos para revisões e reelaborações permanentes. As necessárias e constantes reelaborações do projeto foram frutos de avaliações dos resultados efetivos e esperados. Para tanto, leituras sobre educação e mais especificamente sobre as pedagogias do Teatro alimentaram e balizaram tais avaliações, bem como a elaboração das novas estratégias de atuação. Assim, a análise e o replanejamento das ações foram fundamentais para nortear o projeto no intuito de alcançar um aprimoramento contínuo através da imersão do estudante na realidade da escola e da participação efetiva do supervisor na mediação desse processo. 128 Desta forma, no primeiro momento, o projeto priorizou aproximar os licenciandos da realidade escolar e seu contexto, através de estratégias como por exemplo: participação em reuniões pedagógica, de planejamento e de pais; observações de atividades curriculares e extracurriculares; estudos do Projeto Político Pedagógico da Escola. É importante ressaltar que esta, assim como as outras ações deste projeto, não ocorreu em ordem cronológica; desta maneira, os bolsistas participaram destas ações ao longo de toda sua estada no Pibid-Teatro. Outra etapa prevista visava realizar um trabalho de mediação teatral. O trabalho de mediação foi realizado através da ida dos alunos do ensino médio ao teatro, bem como a espetáculos teatrais que foram encenados nas dependências da própria escola, envolvendo toda a comunidade escolar (alunos, professores, familiares, vizinhança). Privilegiou-se, portanto, as duas formas de mediação intentando não negligenciar a comunidade escolar e ampliar o alcance destas mediações, uma vez que a ida dos alunos ao teatro contempla um número muito menor de espectadores do que quando o teatro vai até a escola. O projeto que levou espetáculos teatrais para a escola foi chamado de Sábado com Arte e realizou cinco apresentações teatrais e uma apresentação de dança. Acredita-se, que o Pibid-Teatro colaborou com o envolvimento dos pais e da comunidade na produção de eventos de exibição de espetáculos teatrais. Da mesma forma, os Sábados com Arte frutificaram-se em debates e ações a respeito do tema dos espetáculos apresentados e/ou das estéticas trabalhadas. Porém, para a grande maioria dos espetáculos que se apresentaram no Sábado com Arte, não havia recursos ideais de iluminação, cenografia, sonoplastia, por exemplo, o que prejudicava a sua execução. Com isso, levar os alunos ao teatro possibilitou uma experiência estética diferenciada, a qual se realizou, também, através do encontro com todo o aparato teatral. A ida ao teatro, enquanto espaço físico, colabora também para criar uma cultura de fruição artística que, conforme pudemos observar, não faz mais parte do dia-a-dia dos alunos e seus familiares. Cuidou-se, também, para que após assistir a cada espetáculo, o professor de Teatro pudesse explorar os elementos da peça de modo a privilegiar a construção de valores estéticos e o conhecimento da linguagem teatral. Importante ressaltar que, durante a ação do Pibid-Teatro na escola, três bolsistas de graduação foram aprovados em processo seletivo para professor temporário de Arte do Estado do Ceará e dois deles passaram a atuar como docentes nesta mesma escola. Este fato, bem peculiar auxiliou para que ações como às descritas acima, de fato, se efetivassem nas 129 salas de aula. Mas, por outro lado, houve uma delicada relação entre o corpo docente e os dirigentes da escola por confundir as ações que ora estavam sendo realizadas pelo professor temporário, ora pelo bolsista do Pibid-Teatro, mas desenvolvidas pelas mesmas pessoas. A vivência que estes três bolsistas tiveram em salas de aula curriculares instigou-os a sugerir ao grupo a elaboração de um material didático para as aulas de Teatro. Após algumas sessões de estudos sobre o tema, decidiu-se fazer um projeto piloto de material didático, o qual teria como recorte o planejamento da escola na qual o Pibid-Teatro atuava. Para entender melhor esta ação, faz-se necessário ressaltar que o ensino curricular da disciplina Artes no LCC, restringe-se ao primeiro ano do Ensino Médio, com uma hora-aula semanal e é estruturada em torno de dois eixos: o primeiro contempla toda a História Geral da Arte e o segundo dedica um bimestre a cada uma das quatro linguagens artísticas (Teatro, Dança, Música e Artes Visuais). Para o semestre no qual o projeto piloto do material didático seria aplicado estava previsto como conteúdo programático da História Geral da Arte: a Arte Antiga (egípcia, grega e romana), mais a História da Arte I (medieval, renascentista, barroca e neoclássica), bem como o Teatro como linguagem artística. Diante de tal realidade, o resultado efetivo do projeto piloto do material didático foi: um livro do discente, um livro do professor, um caderno de jogos e exercícios e um portal virtual. Este portal, portanto, possuía espaço para a interação dos alunos, bem como eram postados textos dramáticos, trechos de peças, vídeos de espetáculos, etc. O material foi aplicado por um bolsista/professor temporário nesta escola e por outro ex-bolsista/professor temporário em uma segunda escola. Todos os exemplares foram recolhidos ao final desta experiência com o objetivo de realizar sua segunda edição revisada. Em outra dimensão da ação do professor de Teatro, o projeto previu e deu vazão ao momento da criação – o jogo do faz de conta. Neste espaço, o educador privilegiou aspectos e temas transversais adotados pela instituição, buscando trabalhar em consonância com as orientações do Projeto Político Pedagógico da escola. A principal metodologia utilizada foram as oficinas de iniciação ao Teatro. Para cada oficina que os bolsistas desenvolviam, procurava-se que produzissem um projeto no qual expusessem os principais objetivos, motivações e metodologias que seriam utilizadas. Da mesma forma, valorizava-se a singularidade do aluno, incentivando-os a elaborar ações próximas de suas afinidades estéticas, pedagógicas, éticas e políticas. 130 Embasando esta proposta, Japiassu (2001) considera que as experimentações de propostas estéticas teatrais contemporâneas influenciaram e continuam influenciando as diferentes abordagens do Teatro na educação. Esta premissa se confirma quando observamos o Raboxes e o View Point82, por exemplo, sendo utilizados pelos bolsistas do Pibid-Teatro como metodologias de ensino de Teatro na escola. Inicialmente, tais oficinas foram realizadas durante a semana, nos turnos da manhã e da tarde, e nas manhãs dos sábados. Contudo, a experiência trouxe a certeza de que era necessário concentrá-las somente aos sábados. Assim, cada dupla de bolsistas se revezou para durante dois meses ministrar as oficinas. Aqueles que não estavam ministrando, participavam das oficinas junto com os alunos da escola. Então, esse processo propiciou um debate sobre as formas de abordagem e condução dos alunos bolsistas. Nota-se, ainda, que algumas oficinas geraram peças e cenas curtas que foram apresentadas na escola, bem como nas Semanas de Mostras e na Recepção dos Calouros do Curso de Teatro. Ainda no rol das ações realizadas pelo Pibid-Teatro, salienta-se o Interlúdio. Este, por sua vez, acontecia quinzenalmente às quartas-feiras nos turnos da manhã e da tarde. Nos Interlúdios os bolsistas coordenavam jogos teatrais e ações performáticas para os quais todos os transeuntes eram convidados a participar. A escolha das ações que seriam realizadas nos Interlúdios era realizada ao final das oficinas em todos os sábados que antecediam o Interlúdio. Assim, os alunos propunham o jogo que gostariam de realizar durante o intervalo da semana e eram responsáveis, sob a supervisão de um bolsista, pela produção desta ação. Somadas às ações que foram desenvolvidas na escola, buscou-se promover e incentivar a participação do supervisor e gestores educacionais nos principais eventos que pretendiam discutir temas de interesse da pedagogia do Teatro. Esses momentos foram previstos, principalmente, como oportunidade de formação continuada para esses educadores. Ressalta-se que a supervisora de área esteve presente, junto com os bolsistas de graduação, no I Encontro Nacional do Pibid-Teatro, realizado em Belo Horizonte-MG, em abril de 2012, bem como a direção da escola e outros professores se fizeram presentes no Aplauso Festival de Teatro, em dezembro de 2013. 82 Rasaboxes é uma técnica utilizada no Teatro para o treinamento de atores visando trabalhar os estados emocionais os quais podem servir para criação de personagens e/ou partituras cênicas. Já o Viewpoints são pontos de atenção utilizados para criação de cenas ou para treinamento dos atores. 131 Os bolsistas de graduação também participaram através de apresentações artísticas, orais e de posters nos seguintes eventos que promovem a troca de experiências docentes: I e II Seminários Dança Teatro Educação; Encontros de Práticas Docentes-UFC; e Encontros Universitários. Ressalta-se, inclusive, que os alunos do ensino médio participaram de algumas edições destes eventos através da apresentação de peças curtas e esquetes, propiciando o seu contato com o ambiente acadêmico. No segundo semestre de 2013, a última ação desenvolvida pelos bolsistas foi a criação e coordenação do grupo de teatro da escola. Para tanto, dois bolsistas foram designados para coordenar um processo de seleção de alunos, bem como a construção de um espetáculo teatral. A criação deste grupo de teatro foi muito solicitada pelos próprios alunos da escola e veio reavivar este espaço de criação artística que estava adormecido, pois em outra época a escola já havia tido um grupo de teatro. O fato peculiar a ser considerado é que faziam parte do antigo grupo de teatro da escola tanto o diretor que estava na escola à época da implementação do Pibid-Teatro quanto a supervisora de área, ambos ex-alunos desta instituição e da Universidade Federal do Ceará. Neste sentindo, o Pibid-Teatro veio ao encontro da necessidade de especializar os futuros docentes em Teatro, agregar experiências diversas, dialogar com outros saberes, para não compartimentar demasiadamente os conhecimentos, mas conjugá-los de maneira a pensar as especificidades de linguagens artísticas relacionando-as com a condição humana e com os desafios de nossa época. É válido ressaltar, ainda, que a dificuldade mais significativa encontrada para o desenvolvimento das atividades do Pibid-Teatro foi a ausência de compreensão do corpo docente, pedagógico e administrativo quanto a importância do ensino de Arte na escola. Isto porque a atual abordagem do Teatro na educação – hoje, mas desde há muito – não se constitui de forma instrumental (Teatro como ferramenta para o ensino de conteúdos extrateatrais), mas sob uma perspectiva estética, ou seja, que enxerga a especificidade da linguagem teatral e seus princípios pedagógicos, bem como compreende o Teatro como sistema de representação e forma de expressão artística e linguagem acessível a todo ser humano. Portanto, superar as generalizações atribuídas ao Teatro enquanto prática educacional exige definir melhor o campo de atuação do professor de Teatro, produzir novas interações entre o Teatro e as demais áreas do conhecimento, redimensionando o próprio Teatro e seu 132 diálogo com os diferentes setores da Arte e da Ciência. Com isso, o professor de Teatro deve ser fundamentalmente formado nos conhecimentos específicos da área e ser capaz de adaptar a materialidade teatral às particularidades e necessidades de seus diversos grupos de alunos. Consequentemente, há a necessidade de formar professores plurais, capazes de lidar com vivências diferenciadas, de perceber e aceitar a diferença para evitar a reprodução cultural e social de um modelo específico. Neste sentido, o professor também precisa ser capaz de se questionar sobre as propostas pedagógicas para o ensino de Teatro na escola e se questionar: De quem é o capital cultural, tanto aberto quanto oculto, colocado ‘dentro’ do currículo escolar? De quem é a visão da realidade econômica, racial e sexual? De quem são os princípios de realidade econômica? De quem são os princípios de justiça social engastados no conteúdo da escolarização? Essas questões lidam com poder, recursos econômicos e controle (também com a ideologia e a economia de industrial corporativa editorial). (APPLE, 2006, p. 212) Essas questões não podem desaparecer das preocupações de um artista-docente, correndo o risco de tornar-se um educador burocrata e fazer com que a Arte tome um lugar menor diante de questões que podem parecer mais importantes. Diante deste quadro, é possível afirmar que o professor de Teatro deve ser capaz, também, de observar e criticar o modo de preservação, produção e disseminação cultural nas escolas. Neste contexto, ao se assumir a tarefa de formador de professores de Teatro, envolve-se na tarefa de colaborar com a formação de agentes sociais que poderão intervir na sociedade através desta linguagem artística. Isto porque o educador em Teatro é um educador crítico e o fato de sua ação educativa se materializar pela linguagem teatral já traz consigo a noção de que a educação, e a educação em Teatro, é um ato político, ético e estético. Todas as atividades previstas no projeto foram realizadas. Mesmo diante do esvaziamento de algumas oficinas, de um público menor do que o esperado em alguns Sábados com Arte, bem como de problemas estruturais na escola, continuou-se a buscar estratégias de aproximação com os alunos, comunidade e corpo docente e administrativo da escola. Pode-se observar, portanto, uma maior familiarização da escola com as atividades de Teatro que estavam constantemente sendo realizadas. O Pibid-Teatro, por sua vez, situa-se como um local de realização, donde se efetiva a ação do profissional calcado no tripé artista-pesquisador-docente. Ou seja, percebe-se o PibidTeatro como um espaço no qual o currículo está sendo testado no âmbito da escola básica. 133 Considerando, ainda, que o Pibid-Teatro foi desenvolvido na perspectiva da pesquisa colaborativa, cuja natureza é tornar o professor investigador de sua prática docente, este programa se mostrou como um espaço de reflexão sobre os percursos formativos preconizados pelo currículo do referido curso, podendo apontar para novas perspectivas curriculares de formação dos profissionais do Teatro. 5.2.2 Seminário Dança Teatro Educação O Seminário Dança Teatro Educação (SDTE)83 é uma iniciativa que partiu de professores vinculados às licenciaturas em Dança e Teatro do ICA/UFC. A primeira edição ocorreu em Agosto de 2011 e a segunda em Maio de 2012. Inicialmente, este Seminário foi proposto como uma ação do Programa de Incentivo à Docência do MEC/Governo Federal (PRODEOCENCIA-2010). Na sequência, desvinculou-se deste Programa e buscou apoio para sua realização em outros órgãos do Estado do Ceará e do Município de Fortaleza-CE. É válido ressaltar que o SDTE é uma ação que não está prevista no Projeto Pedagógico do Curso de Teatro. Com isso, configura-se como um movimento de inquietação pessoal dos seus propositores, o qual caminha ao encontro das bases éticas, políticas, filosóficas e artísticas das propostas curriculares do curso. Assim, consolida-se como um exemplo de modos de ampliação das propostas curriculares cujos resultados acabam por sugerir proposições voltadas para o próprio PPC. Por isso, este Seminário também é um espaço para se pensar sobre a formação de professores de Teatro e Dança. Assim, propõe-se refletir sobre os aspectos da experiência estética nas propostas pedagógicas destes cursos de licenciatura. O objetivo primeiro desta ação é tornar o Seminário um espaço de discussões sobre o ensino destas linguagens artísticas. Neste sentido, refletir sobre as práticas pedagógicas em Teatro e Dança que tomam lugar nas escolas de ensino básico. Assim, como o Seminário possui enquanto público alvo professores destas linguagens artísticas no ensino básico, professores do ensino superior, graduandos e pesquisadores da área, as ações por ele engendradas se configuram também na perspectiva da formação continuada para professores de Teatro e Dança. Neste intento, a primeira edição do Seminário teve como tema As políticas de inserção dos licenciando em Dança e Teatro nas escolas. Assim, na intenção de provocar uma 83 Disponível em:<http://www.seminariodte.ufc.br>. Acesso em: 8 mar. 2013 134 aproximação e fortalecer o diálogo da Universidade com as instâncias governamentais, foram convidados os representantes das Secretarias de Educação e Cultura do Estado e do Município. Como palestrantes estiveram presentes o Prof. Dr. José Sávio de Araújo (UFRN) com a conferência Tecnologias da cena e as relações com a economia da cultura; e a Profa. Dra. Márcia Strazzacappa (UNICAMP) com a conferência intitulada A formação do professor de Dança. Já a segunda edição teve como tema Invenções do ensino em arte... eu artisto, tu artista, ele artista. O Seminário teve início com a conferência e apresentação do espetáculo Coreológica Ludus da Profa. Dra. Isabel Marques da Caleidos Cia. de Dança (Campinas/SP). Também proferiu conferência o professor Dr. José Mauro (Universidade de Brasília - UNB) com o tema Assim no Teatro como na Vida: experiência estética, leitura de mundo e consciência cidadã. Todos os conferencistas das duas edições também ministraram oficinas de formação. O debate intitulado Plano Nacional de Educação (PNE) e Plano Nacional de Cultura (PNC): diálogos e aproximações, encerrou o II SDTE, contando com a participação de representante da Comissão de Educação e Cultura MEC-MINC, Sra. Verena Santiago Ferreira de Castro (Coordenação Geral de Comunicação da Secretaria de Políticas Culturais); Representantes dos Colegiados Setoriais de Teatro e Dança no CNPC/Conselho Nacional de Políticas Culturais, respectivamente Virginia Meneses e Rosa Coimbra; bem como do exsecretário de Educação da cidade de Fortaleza e professor da Faculdade de Educação da UFC Prof. Dr. Idevaldo Bodião (FACED/UFC). Dentre as ações formativas propostas pelo SDTE estão: palestras; oficinas; mesas redondas; exposição de pôster; exibição de espetáculos teatrais e de dança; comunicações orais, artísticas e híbridas; publicação de livros. Em todas as edições dos Seminários houve adesão de parte do corpo discente do Curso de Teatro em todas as ações propostas. A saber, no livro intitulado A docência artista do artista docente84 foram publicados dois artigos dos discentes do curso. Assim, ainda na primeira edição houve seis inscrições dos discentes do Curso de Teatro-licenciatura, que abarcavam os seguintes temas: Experiências com o Pibid-Teatro no LCC; Estímulos sensoriais para formação do ator; A noção de animador cultural no Projeto 84 Primeiro livro publicado sob o selo Artistarias, que reuniu artigos dos palestrantes, professores e alunos que participaram deste seminário e artistas convidados. 135 Jornada Ampliada85 (Russas-CE); Fruição em Arte como processo formativo de atores; Problemática dos professores não habilitados que ministram aulas de Arte; A construção de metáforas no Laboratório de Poéticas Cênicas e Audiovisuais/ICA/UFC. Todos tiveram seus resumos aprovados e participaram das mesas temáticas apresentando seus trabalhos. Já no segundo SDTE, cinco alunos tiveram seus resumos aprovados para comunicação oral, um para comunicação no formato artístico e um no formato híbrido (artístico/oral). Os temas propostos por eles foram: Educação de idosos junto à dança; Objetos como estímulo da criação em Teatro; Teatro e crianças na rua; Jogo como processo de investigação coletiva; Desenvolvimento do olhar estético na educação teatral. Observa-se pelas temáticas apresentadas a diversidade de temas propostos pelos discentes do Curso de Teatro. De alguma forma, isto denota a liberdade que eles possuem para investigar diferentes processos artísticos e de docência, ou mesmo trazer experiências externas à Universidade para serem discutidas no âmbito acadêmico. O SDTE, portanto, mostra-se um espaço de integração entre discentes e docentes numa perspectiva dialógica e de democratização dos espaços de ensino, pesquisa e extensão. Desta maneira, na tentativa de se fazer um espaço constante de encontros de artistas, professores e pesquisadores da área das Artes Cênicas, o III SDTE está previsto para agosto de 2014, trará o tema O corpo do corpo no corpo. 5.2.3 Atividade de Montagem O primeiro resultado cênico oriundo da disciplina de Montagem do Curso de Teatro foi o espetáculo Um lugar para ficar em pé – Últimas peças e Outros fragmentos de Samuel Beckett. Vale ressaltar, portanto, que esta montagem não inaugurou o repertório de espetáculos de caráter profissional do curso. Antes, outros espetáculos, originados em indisciplinas de interpretação, já haviam realizado temporada e participado de diversos festivais de teatro, dentre eles, pode-se citar: Pequenas criaturas, Tem que andar para ver, Quando as máquinas param, As suplicantes, Coriolano. 85 Projeto desenvolvido pelo município de Russas-CE vinculado ao Programa Mais Educação do Governo Federal. O Mais Educação vem ampliar a jornada escolar na perspectiva da Educação Integral. Assim, as escolas que aderem ao Programa desenvolvem atividades em turno oposto. Estas atividades abrangem áreas do conhecimento como: esporte, Artes, cultura digital, direitos humanos, etc. Importante ressaltar que o Mais Educação tem se mostrado espaço de trabalho e renda para os alunos do Curso de Teatro. 136 Contudo, para a disciplina de Montagem estava previsto mais tempo e portanto, possibilidade de maior aprofundamento nas questões inerentes à interpretação e à encenação. Ressalta-se também que, quando da primeira vez que foi ofertada (proposta curricular 2010.1), Montagem ainda possuía caráter de disciplina. Assim, em decorrências dos problemas causados pela falta de comprometimento e ausências dos alunos nos processos de ensaio, o colegiado considerou pertinente enquadrá-la como Atividade, conforme já foi explicado no capítulo 4. Em relação ao espetáculo Um lugar para ficar em pé, considerado pelos discente como o espetáculo da primeira turma, explica-se que o elenco era composto por alunos que ingressaram no ano de 2010. Portanto, compôs o espetáculo e trabalhou como figurinista uma aluna ingressa nesta turma, mas que havia sido transferida para o Curso de Design de Moda. Ademais, ao fim da disciplina, o espetáculo continuou se apresentando em curtas temporadas e em festivais. Para tanto, alguns alunos que compunham o elenco optaram por não continuar com o espetáculo e outros deixaram o grupo por motivos diversos. Quanto à participação dos discentes na concepção do espetáculo, o projeto de Um lugar para ficar em pé aponta que A construção da teia de sua dramaturgia se deu em laboratórios orientados pelo Diretor, onde os resultados apontaram o caminho cênico potencial para ser traçado. Feito isso, os alunos-‐‑atores propuseram percursos criativos, linhas interpretativas, atmosferas cênicas e adaptações textuais que foram culminando na formação do roteiro a ser ensaiado, sempre com orientação precisa do Diretor.86 O espetáculo teve uma repercussão muito positiva na cidade de Fortaleza-CE, sendo alvo de críticas trazidas pelos jornais locais, bem como objeto de estudo de um trabalho monográfico de conclusão de curso de um aluno do Curso de Comunicação Social da UFC. Outro espetáculo que também contou com uma repercussão na mídia cearense foi o segundo espetáculo resultante da atividade Montagem, Como Representar os Negros? Em uma análise preliminar quanto à participação e o envolvimento dos discentes na atividade, ressalta-se que foram 15 alunos matriculados, dos quais 3 foram reprovados por falta, antes da metade do processo. Então, dois outros alunos do curso foram convidados pelo 86 Projeto do espetáculo Um lugar para ficar em pé. Este projeto foi escrito pelos alunos que atuavam também na produção do espetáculo sob a orientação do professor e diretor na Montagem. 137 professor que dirigia a montagem para integrar o elenco. Depois de concluída a atividade, inclusive com as notas atribuídas, outro aluno deixou o espetáculo e o figurinista, que não possuía vínculo com o curso, veio também a integrar o elenco e o grupo. A montagem deste espetáculo, por sua vez, veio fortalecer o grupo de teatro coletivo Escambau. É válido salientar que o coletivo Escambau surgiu por iniciativa dos alunos durante a temporada do espetáculo As Suplicantes, cujo elenco se constitua pela maioria dos alunos que integrou a montagem de Como Representar os Negros? No projeto que define o coletivo Escambau, escrito pelos alunos, faz-se a seguinte consideração sobre a montagem de Como representar os Negros?: “É o trabalho que mais define o coletivo como tal, por conta do atravessamento do trabalho de diferentes artistas que trabalham através de diferentes linguagens.”87 5.2.4 Aplauso Festival de Teatro O Aplauso Festival de Teatro reuniu os resultados cênicos dos trabalhos que foram realizados sob a direção dos alunos formandos na disciplina Realização Teatral em Docência (RDT). Esta disciplina, por sua vez, prevê na sua ementa que o discente seja sujeito de uma “[...] experiência prática da relação professor-diretor, aluno-ator e espectador. Estudo da relação entre o processo de ensaio e o resultado espetacular almejado. Construção de peças, cenas ou esquetes no contexto da escola.”88 Neste sentido, o Curso de Teatro trabalha para que o aluno possa refletir e manipular a matéria cênica, teatral, bem como ser propositor de metodologias para o ensino do Teatro em ambientes educacionais. Como já pôde ser observado em capítulos anteriores, no primeiro ciclo (os quatro semestres iniciais de sua formação), o aluno se experimenta enquanto ator. Já o segundo ciclo, no qual se enfatiza a sua formação enquanto diretor, culmina com a disciplina Realização Teatral em Docência, na qual o aluno dirige um processo artístico/teatral, em ambientes educacionais. Toda esta proposta pedagógica é engendrada pela pesquisa na busca da formação de um sujeito propositor de novos saberes. Da mesma forma, 87 88 Projeto do coletivo Escambau, escrito pelos alunos integrantes do grupo. Parecer do colegiado do Curso de licenciatura em Teatro /ICA/UFC sobre a necessidade de modificações na integralização curricular do curso. 138 os conhecimentos do campo pedagógico, muitas vezes inerentes ao fazer artístico, são trabalhados com vistas em uma sólida formação docente. Este Festival, portanto, foi resultado de um processo deflagrado por um trabalho interdisciplinar entre os componentes curriculares: Realização Teatral em Docência e Estágio Supervisionado IV. É válido ressaltar que tal ação estava prevista, também, na ementa do Estágio, como pode ser observado: “Processo de caráter interdisciplinar com Realização Teatral em Docência direcionado à elaboração de um resultado cênico. Potencialidades do estágio como possível campo de investigação para o trabalho de conclusão de curso.”89 Desta forma, o aluno estava sob a orientação de dois professores, o primeiro dedicava-se à orientação/supervisão das atividades de regência previstas para as ações discentes do estágio e o segundo à orientação/supervisão do processo artístico do estudante. Explica-se, portanto, que não necessariamente as duas ações foram realizadas no mesmo ambiente. Importante ressaltar que esta ação também foi uma iniciativa pessoal e não colegiada. Contudo, após análise dos processos e resultados obtidos através desta proposta de interdisciplinaridade e, portanto do Festival, a principal crítica se constitui em torno no excesso de trabalho gerado para o aluno no semestre de conclusão do seu curso, período dedicado também à escrita monográfica. Outra questão gira em torno de uma possível confusão conceitual gerada pela imbricação destas ações. Isto porque, como os discentes estiveram muito envolvidos com a montagem de suas células cênicas, entende-se que pode ter havido uma supervalorização da montagem de espetáculos teatrais como proposta pedagógica para o ensino do Teatro. Mesmo assim, o Festival Aplauso foi uma ação cultural que abarcou mediação, formação de plateia e apresentações de realizações cênicas. Nesta primeira edição, o Festival apresentou doze resultados cênicos de RTD, um espetáculo oriundo da atividade de Montagem desta mesma turma em questão e dois resultados/processos de trabalhos práticoteóricos de TCC. Como conclusão, houve a realização de uma mesa redonda que se fez espaço de discussão e reflexão sobre o ensino do Teatro. O Aplauso aconteceu na Caixa Cultural (Fortaleza-CE) oportunizando aos alunos do Ensino Médio da rede estadual e de outros espaços educacionais adentrar a este lugar na condição de espectador e de artista. Portanto, foi uma ação que democratizou o acesso a este 89 Documento de circulação interna na Universidade Federal do Ceará, redigido pelo Colegiado do Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC para preenchimento do formulário eletrônico do E-MEC por ocasião do reconhecimento do curso pelo Ministério da Educação e do Desporto. 139 espaço cultural da cidade. Neste sentido, o Festival teve como objetivos: colaborar com o ensino do Teatro na escola; divulgar e facilitar o acesso dos alunos aos espaços culturais da cidade de Fortaleza CE; aproximar da sociedade as ações de ensino, pesquisa e extensão universitária. A ação proposta neste Festival visou dar valor e visibilidade à esta docência artista, sensível e qualitativamente pautada em uma formação sócio-política, ética e estética, privilegiada pelo Curso de Teatro. O Festival desvelou o que é naturalmente do humano e reconheceu o lugar da arte teatral no universo cultural. Com isso, caminhou em consonância com ações do Governo Federal que visam estimular a formação de professores e valorizar o magistério. Da mesma forma, apoiou o caráter de pesquisador do discente em Teatro, através de reflexões constantes, individuais e coletivas de sua prática profissional. Portanto, foi diante destas premissas que o Aplauso Festival de Teatro foi observado pelos discentes como um espaço de síntese das ações do currículo deste curso. Uma vez que foi em torno do fenômeno cênico que se organizaram as práticas artísticas e de docência dos alunos formandos, cujos resultados são frutos de pesquisas sobre modos de fazer e ensinar Teatro. Alguns alunos, os quais optaram pelo caráter prático-teórico, escolheram fazer desta realização a parte prática de seu TCC. Com isso, realizaram uma pesquisa, também, em âmbito monográfico, relacionando a disciplina de RTD, as atividades de Estágio e TCC como partes de um único processo no qual os saberes do artista-pesquisador-docente se tornaram integrados e promotores de uma ação extensionista cujas reverberações não são passíveis de serem mensuradas. 140 6 O ARTISTA-PESQUISADOR-DOCENTE E A QUESTÃO DA PESQUISA Este capítulo objetiva compreender possíveis sentidos atribuídos ao perfil do egresso do Curso de Teatro, o artista-pesquisador-docente. Para tanto, foi realizada uma revisão bibliográfica90, constituindo como lócus da pesquisa os anais dos dois principais eventos em Arte e Arte-educação do país e as mais qualificadas revistas da área de interesse desta tese. Isto porque estes congressos há décadas vêm alimentando a pesquisa em educação e em Artes Cênicas, bem como produzindo um acervo documental bastante significativo para este estudo. Ademais, registra-se a escassez de livros que tratam do perfil em questão, especialmente, no âmbito da escola básica. Nesta investigação, portanto, foram selecionados trabalhos que traziam no texto a expressão artista-pesquisador-docente e/ou qualquer um dos binômios possíveis (artistapesquisador, artista-docente, pesquisador-docente), considerando seus sinônimos e a ordem inversa das palavras. O resultado mostrou que apenas o trabalho de Martins (2010) traz a expressão na sua forma triádica, ou seja, o artista-pesquisador-pedagogo. Por sua vez, outros trabalhos abordam questões relativas ao artista-docente. O conceito de artista-docente também é abordado por Marques (1999) gerando uma discussão que pretende entender o papel do artista-docente como aquele que engendra processos artísticos que são tomados, também, como processos educacionais. Quanto às temáticas abordadas nos referidos trabalhos, elas variam em torno de dois eixos principais, quais sejam: 1) as práticas, ou seja, as ações deflagradas pelo docente artista nos mais diversos contextos educacionais; 2) a formação do artista-docente. A primeira temática trata, principalmente, de metodologias de ensino de Arte; já na segunda temática, encontram-se trabalhos acerca do artista-docente no âmbito do ensino superior, ou seja, estratégias de ações curriculares que visam privilegiar a formação deste perfil de profissional. A relevância do caráter da pesquisa, enquanto ciência, na formação de professores de Arte é tema bastante recorrente, mas não foi identificada a categoria de pesquisador como parte do perfil do egresso dos cursos de licenciatura em Arte. Fica a cargo deste capítulo, no entanto, ponderar as ressonâncias para as propostas curriculares, da palavra pesquisador estar 90 Os congressos são: da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (ABRACE) e da Federação de Arte Educadores do Brasil (FAEB), o CONFAEB nos quais Foram pesquisados todos os anais disponíveis online em http://faeb.com.br e http://portalabrace.org/1/.E as revistas, das quais também foram pesquisados seus acervos eletrônicos são: Sala Preta, Moringa, Urdimento, Percevejo, Repertório e Currículo sem fronteiras. 141 grafada no perfil do egresso. Isto porque, inserir a palavra pesquisador no centro da expressão artista-docente faz com que o ato de pesquisar tenha a mesma importância que educar e manipular a linguagem teatral. Com isso, torna a pesquisa uma condição para o exercício do artista e do professor. Assim, artista-pesquisador-docente é a categoria em análise neste capítulo. Conforme Abbagnano (2007, p. 50), análise é Em geral descrição ou interpretação de uma situação ou de um objeto qualquer nos termos dos elementos mais simples pertencentes à situação ou ao objeto em questão. A finalidade deste processo é decompor (ou resolver) a situação ou o objeto nos seus elementos, de tal modo que um processo analítico é considerado bem sucedido quando tal decomposição é realizada. A principal intenção, portanto, é decompor esta categoria contextualizando a interpretação das palavras que o compõem. Contudo, nunca distantes das circunstâncias que giram em torno da atuação deste profissional. Isto porque, segundo Martins (2010, p. 3). É nessa perspectiva que surge o perfil do aluno como a composição de um trinômio: artista-pesquisador-pedagogo. Os termos intercambiáveis deste trinômio se organizam pela gravitação em torno de um pólo, gerando-se três possibilidades: o artista, com atributos de pesquisador e pedagogo; o pedagogo, com atributos de pesquisador e de artista; e o pesquisador, com atributos de artista e pedagogo. Agrupando-se essas possibilidades, podemos escrever os seguintes binômios, em que o primeiro termo é o pólo e o segundo, um atributo – notemos que a ordem dos termos é importante: • artista-pesquisador • pesquisador-artista • artista-pedagogo • pedagogo-artista • pedagogo-pesquisador • pesquisador-pedagogo. Do artista-pesquisador, espera-se a construção processos artísticos, baseados na experimentação e no risco, atrelados a projetos de pesquisa, que, pela definição de um método, provoquem reflexão crítica e avaliação continuada. Por outro lado, o pesquisador-artista formula e realiza seus projetos, em perspectiva artística. Para um e outro, é pertinente a questão: não será poética a linguagem do artista-pesquisador e do pesquisador-artista? O artista-pedagogo valoriza os percursos teatrais, a construção de uma escuta, as relações intragrupais, a troca de saberes e fazeres, e a proposição de uma ação cultural no âmbito da sociedade. O pedagogo-artista formula com precisão questões sobre o sentido, a natureza e as modalidades de sua intervenção pedagógica e artística. O pedagogo-pesquisador articula suas intervenções a projetos de pesquisa, enquanto o pesquisador-pedagogo agrega à sua pesquisa a passagem do conhecimento. 142 Martins (2010) trata em seu texto de uma Reformulação Curricular realizada pelo Departamento de Artes da Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP) nos cursos de bacharelado e licenciatura em Teatro. Portanto, este trabalho se enquadra no grupo de trabalhos de tratam de estratégias curriculares, uma vez que pensa o artista-pesquisadordocente como o perfil do egresso que se pretende formar. Contudo, considera-se de fundamental importância para o currículo que o perfil do egresso seja compreendido para além de suas funções práticas no mercado de trabalho. Então, traz-se as pedagogias culturais e a pedagogia crítica para compreender este profissional para além dos exercícios das funções de artista, de pesquisador e de docente. Mas, em busca de bases ideológicas, políticas e estéticas que devem pautar a sua atuação. Assim, encontram-se nos conceitos de Trabalhadores Culturais e de Pedagogia Crítica de Henry Giroux (1999), as bases teóricas que fundamentam a compreensão que se intenta neste capítulo. Entende-se que “O trabalho de Giroux é de particular interesse para os artistas, pela maneira que ele atrai os trabalhadores culturais para o círculo da pedagogia, quer exerçam sua atividade da sala de aula, na galeria ou na rua.” (TREND, 1999, p. 175) Para além das relações que Giroux (1999) estabelece entre os trabalhadores culturais e a educação, é de fundamental importância para a pedagogia crítica a questão da construção dos significados e das ideologias neles imbricadas. Estas questões enriquecem a discussões deste capítulo questionando as práticas artísticas e pedagógicas do artista-pesquisadordocente. 6.1 O ARTISTA-DOCENTE E O PESQUISADOR Sabe-se que o professor de Teatro deve ser fundamentalmente formado nos conhecimentos específicos da sua área de atuação e ser capaz de adaptar a materialidade teatral às particularidades e necessidades de seus diversos grupos de alunos. Assim, as propostas pedagógicas deste curso pretendem formar profissionais capazes de lidar com vivências diferenciadas para evitar a reprodução cultural e social de um modelo tradicional, hegemônico e específico. Para tanto, faz-se necessário superar as generalizações atribuídas ao Teatro enquanto prática educacional e definir melhor seu campo de atuação. Com isso, produz-se novas interações entre o Teatro e as demais áreas do conhecimento, 143 redimensionando o próprio Teatro e seu diálogo com os diferentes setores da Arte e da Ciência. Neste sentido, não cabe discutir acerca da dicotomia entre ser artista ou ser professor. Isto porque no âmbito desta discussão é possível, ainda, se observar o jargão comum de que aquele que não serviu para ser artista virou professor. É o que se poderia deduzir de uma frase que se tornou popular, qual seja: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina.” (GADOTTI, 2003, p. 12) Ao contrário, defende-se que seria salutar para o professor de Teatro ser um talentoso artista e ter consciência plena de que para ser professor é preciso ter talento docente. Contudo, quando se fala de talento não se aborda somente o sentido aureliano91 da palavra, mas também o sentido spoliano92. Neste intuito, faz-se aqui um parêntese para situar a teatróloga Viola Spolin (2008) no contexto do que vem sendo dito. Assim, para teatróloga, talento é a capacidade de experienciar-se. Experienciar-se intelectual, física e intuitivamente. Ainda se faz necessário compreender que para ela a intuição, tão necessária aos processos criativos, caminha para além do plano intelectual, mas é uma dádiva no momento da espontaneidade, do momento de liberdade pessoal, do momento de descoberta, da experiência e da expressão criativa. O artista-docente, então, precisa se colocar como sujeito da experiência estética e pedagógica, ou seja, comungar das práticas de ensino como quem participa do processo. Para tanto, ele precisa estar ciente de que para se exercer uma docência artista não é possível se colocar do lado de fora do processo, ou seja, como quem o propõe e se exime dele. Se para ter talento é necessário estar aberto às experiências, para ter talento de artista-docente é necessário propor e vivenciar experiências artístico-pedagógicas porque o ensino do Teatro deveria se dar, principalmente, através da vivência dos sujeitos em processos criativos. Neste sentido, o professor em Teatro deve ser um educador que instiga a construção de um conhecimento e não o acúmulo de informações, ou seja, que suscita a capacidade e o desejo de cada estudante em fazer e refletir sobre processos teatrais. Conforme elucida Imbernón (2009), os professores devem ser capazes de ajudar os alunos a se tornarem pessoas mais livres, menos dependentes do poder econômico, político e social. Desta forma, segundo o autor, é preciso considerar o professor como um agente que atua na dinâmica cultural, social e curricular, uma vez que está apto a tomar decisões nesses âmbitos. 91 92 Neologismo que se refere ao dicionário Aurélio, ou seja, ao sentido denotativo das palavras. Neologismo que se refere ao sentido conotativo dado pela teatróloga Viola Spolin à palavra talento. 144 O artista-pesquisador-docente que, por sua vez, deve manter pulsante seu contato com as mais diversas manifestações artísticas, através do fazer e/ou do fruir, contribui para manter vivas e renovadas as discussões em sala de aula. Pesquisar e manipular a matéria cênica são ações fundamentais para que o professor de Teatro não esmoreça diante das dificuldades e, ao mesmo tempo, não desmotive os alunos com teorias distanciadas do seu cotidiano e que negligenciam as suas experiências. Por isso, ser artista-pesquisador-docente, pressupõe considerar os ambientes educacionais como locais potentes para se fazer e manter pulsante a atividade teatral. Porém, Muitas escolas também não compreendem totalmente as necessidades desta prática e do profissional que o realiza. Estas constatações contribuem para que algumas instituições de ensino ainda não sejam compreendidas como espaços que possibilitam processos artísticos e criativos consistentes. (DEBORTOLI, 2011, p. 92) Este profissional, portanto, vem aproximar o Teatro da escola, bem como inseri-la como local de produção cultural. Para tanto, ele precisa conferir ao aluno o lugar de agente de processos criativos, discutir os valores estéticos de suas ações contribuindo para a formação artística do indivíduo. Segundo Marques (1999, p. 113), “[...] o artista-docente passa a ser a fonte do conhecimento da arte e não somente uma ponte entre o aluno e o mundo da arte.” Portanto, a formação do professor de Teatro enquanto artista da cena é fundamental para a escola. Com isso, um artista-docente não valora suas ações na escola como menores do que as produções que ocorrem fora da escola. Assim, ele não dissocia a Arte da pedagogia e se mostra capaz de equacionar a aprendizagem que se efetiva no fazer artístico. Neste sentido, afirma-se que não somente no fazer, mas no sentido que aluno atribui ao fazer artístico, no juízo estético e no rigor metodológico que os processos artísticos exigem. Salienta-se, então, que não se trata de fazer por fazer ou fazer de qualquer jeito, mas orientar os processos de criação para que o aluno se aproprie do Teatro enquanto conhecimento e este passe a fazer sentido em suas vidas. Portanto, são muitos os desafios para que o artista-docente aja de maneira tão contundente e completa na escola e em outros ambientes produtores de arte. Assim, entendese que são diversos os modos de atuação deste profissional. Contudo, intenta-se a sua formação acreditando que seria salutar para a sociedade o trabalho de professores éticos e comprometidos com uma educação artística de qualidade. 145 Neste sentido, Vidor (2008, p. 2) discute a concretização da condição de artista do professor na sala de aula. A segunda questão trata de considerar, da mesma forma, a possibilidade de o professor de teatro, dentro da instituição de ensino, transitar pelo papel de pedagogo e artista na própria instituição, o que parece óbvio, porém na prática, pouco se efetiva. As exigências da instituição, a estrutura das aulas ou mesmo a própria imagem construída sobre o papel do professor, podem ser algumas das razões que fazem com que o mesmo não ‘cruze as fronteiras’ e, assim, acabe por dissociar a prática pedagógica da artística dentro da escola é o pedagogo e fora dela é o artista ou, o que é mais provável, acaba se afastando da arte e atuando apenas como pedagogo. Será que não dá pra ser artista na sala de aula, junto com os alunos, dentro da instituição escolar? No mesmo artigo, Vidor também aborda a noção de professor como trabalhador cultural e, com isso, reflete também sobre a escola como um espaço de fronteira cultural sinalizando a importância de se formar professores críticos e politicamente engajados, conforme defende Giroux (1999) em sua proposta de pedagogia e política culturais. Neste sentido, a autora expande a compreensão do exercício da docência-artista para além de possíveis metodologias de ensino de Teatro que fazem uso dos atributos artísticos dos professores. Já Valéria Araújo (2012) travou uma investigação em busca dos diversos significados da expressão artista-docente, e suas variações, atribuídas por diversos pensadores da área. Segundo sua pesquisa, embora haja uma grande variação em torno desta definição, encontram-se importantes pontos de ressonância sobre o que seria necessário ultrapassar para melhor compreender este binômio. Assim, podem-se elencar a partir de seus estudos, quatro principais questões que necessitam ser trabalhadas, ou superadas, visando a formação de um docente-artista: 1) a hierarquização entre o fazer artístico e o fazer pedagógico; 2) o status diferenciado entre bacharelado e licenciatura; 3) o vício popular quem sabe faz, quem não sabe ensina; 4) a separação entre o objetivo da ação (produção em arte) e a possibilidade financeira (docência). Para aprimorar esta discussão, acrescenta-se uma quinta categorias: 5) o professor de Teatro que não frequenta Teatro. Intenta-se, a partir de agora, refletir sobre estes pontos levantados. A hierarquização entre o fazer artístico e o fazer pedagógico se encontra em diversos âmbitos: no curricular, na educação básica, nos espaços culturais. Assim, revendo a história 146 da criação deste curso é possível recordar as citadas discussões sobre como deveria se dar a grafia do perfil do egresso do curso: pesquisador, artista ou docente. Lembra-se, portanto, que os intelectuais da educação defendiam que a palavra docente deveria vir por primeiro, enquanto os artistas de Teatro defendiam ser a palavra artista. Então, esta faceta da história traduz uma inquietação presente nas pesquisas e no dia-a-dia de quem vive a licenciatura em Teatro. Ainda neste tema, no que concerne às propostas curriculares, questiona-se o lugar das disciplinas artísticas e pedagógicas. Neste sentido, poderia se questionar se a Universidade incentiva esta hierarquização colocando sob a custódia da FACED/UFC (Faculdade de Educação) as disciplinas de caráter pedagógicos, as quais são comuns a todos cursos de licenciatura. O status diferenciado entre bacharelado e licenciatura convive com o universo acadêmico. Sabe-se que não é pequena a literatura que trata do desprestígio que a profissão docente alcançou nas últimas décadas devido a inúmeros fatores como: baixos salários; escolas com pouca ou nenhuma infraestrutura; os excessos burocráticos que tomam o tempo do professor em sala de aula (cadernetas, formulários eletrônicos); salas lotadas que não permitem uma atenção mais individualizada aos alunos. Ainda neste lugar, nota-se que as propostas das Diretrizes Curriculares Nacionais, também, acabam por reforçar esta diferenciação de status. Isto porque a diferença do tempo total para a formatura de um licenciado para um bacharel em Teatro é de 400 horas. Ou seja, este é o tempo previsto para inserir no currículo da licenciatura as horas destinadas ao Estágio Supervisionado. Sobre esta questão, entende-se que as Diretrizes propõem que a formação de um bacharel e de um licenciado se processe em um mesmo período de tempo. Diante desta situação, faz-se necessário que algumas disciplinas de caráter artístico, presentes nas propostas pedagógicas dos cursos de bacharelado cedam lugar a outras de caráter pedagógico, obrigatórias para a licenciatura. Assim, esta opção denotaria, principalmente para os discentes, que o bacharel é melhor formado artisticamente porque possui uma proposta pedagógica que o possibilita a se experimentar mais enquanto artista. Certamente, esta questão da integralização curricular traz outras reflexões, principalmente para a pedagogia do Teatro. Contudo, por este ponto de vista, que pertence ao senso comum, o status de artista bacharel será sempre maior do que do artista licenciado. 147 Ressalta-se, contudo, que o fato das disciplinas pedagógicas ocuparem lugar no currículo em detrimento das artísticas não significa que o licenciado é menos artista que o bacharel. É necessário ressaltar que mais importante é a intensidade e a seriedade das experiências e não a quantidade delas. De fato há uma questão quantitativa no currículo da licenciatura em Teatro que precisa ser revista. Foram muitas as entrevistas nas quais os discentes queixaram-se sobre a necessidade de mais tempo para a integralização, bem como a falta de algumas disciplinas que não integram o currículo. Ao mesmo tempo, como já foi visto, os discentes não aprovaram o aumento do tempo previsto para formatura de 8 para 9 semestres. Diante disso, é um desafio pensar sobre intensidade com a qual o aluno deve vivenciar cada experiência e não a quantidade delas. Portanto, o vício popular quem sabe faz, quem não sabe ensina está diretamente relacionado à hierarquização entre o fazer artístico e o fazer pedagógico, bem como ao status diferenciado entre bacharelado e licenciatura. Considerar, portanto, que aquele que ensina Arte não sabe fazer arte minora tanto em quantidade quanto em qualidade as práticas artísticas nos cursos de licenciatura. Diante destas reflexões, seria importante cuidar para que as práticas avaliativas não sejam minadas por este pensamento desagregador e preconceituoso. É válido salientar que a avaliação é muito cara para qualquer processo de ensino. No caso do curso de licenciatura em Teatro, ela também ocupa um lugar de afirmação da identidade do sujeito enquanto artista-docente. Pretende-se, então, refletir que o pressuposto preconceito que segrega o artista do professor, pode ser danoso para o currículo da licenciatura, uma vez que diminui a responsabilidade artística, ou seja, o rigor estético das experiências dos licenciandos. Pode-se, para ilustrar este tema, narrar algumas conversas de bastidores que figuram o currículo em ação deste curso e são fundamentais para se observar as práticas formativas do artista-pesquisador-docente quando influenciadas pelo pensamento do quem sabe faz, quem não sabe ensina. Então, tais conversas podem ser textualmente representadas com as seguintes falas: 1) Se fosse em um curso de bacharelado um aluno com este desempenho cênico não seria aprovado; 2) Só aceito a cena desta forma, com tantas fragilidades, porque ele não está se formando diretor; 3) Ele é excelente na cena, pena que tem uma escrita tão comprometida, ele deveria estar em um curso de bacharelado; 4) A situação de ‘fulano’ é desesperadora, ele é muito ruim: não sabe nem falar, se movimentar, andar em cena; se houvesse teste de habilidade específica, ele nunca teria entrado. 148 Todos esses pensamentos e comportamentos contribuem tanto para o desmerecimento do bacharel como profissional capaz de pensar pedagogicamente seus processos, pesquisar e pautar metodologicamente a cena como o desmerecimento do licenciado como um artista da cena que atua, também, na escola. Refletir sobre artista-pesquisador-docente eleva as ações curriculares para além destas dicotomias históricas. Pensar um currículo para este profissional é buscar um espaço de comunhão de saberes que está sempre em trânsito com a produção artística vigente. Outra questão relevante é a separação entre o objetivo da ação (produção em arte) e a possibilidade financeira (docência). Neste sentido, pode-se dizer que não é distante do conhecimento daqueles que circundam o meio artístico que os financiamentos públicos são insuficientes para atender à demanda, bem como as bilheterias não mantém as produções em circulação. Esta questão faz com que muitos artistas procurem a docência como uma possibilidade de geração de renda provocando a dita separação entre a arte que produz e a docência. Esta questão inclui fatores de ordem governamental, mas também humana. Pensa-se, portanto, que uma proposta curricular não pode garantir que a prática dos seus egressos em sala de aula terá como motivação o desejo e o prazer pela docência. Da mesma forma, não seria questionável a atitude de um artista que busca a sala de aula para prover a sua subsistência. Porém, considera-se que as práticas curriculares devem se questionar sobre estas questões. Já para iniciar a reflexão sobre a questão do professor de Teatro que não vai ao Teatro, é possível notar que: Josette Féral: […]as novas pedagogias são indissociáveis de novas visões de Teatro. Mas para isso, é preciso que nós frequentemos assiduamente o teatro; porém, as entrevistas que fiz provam que os encenadores assim como os atores vão muito pouco ao teatro. Aura Cunha: Os professores também... Josette Féral: Como eles podem, então, seguir as novas formas? Ou mesmo simplesmente estar informados? Como eles podem então modificar sua visão de teatro e, acima de tudo, sua pedagogia? O teatro que se faz e o teatro que se ensina devem estar ligados. Um informa o outro, modifica o outro, de onde vem a necessidade de seguir tudo o que se faz em sua época e estar alerta, vigilante, curioso. Então, para voltar à sua pergunta, sim, é claro, o papel do pedagogo é importante, mesmo que às vezes trate-se de um papel ingrato, pois repetimos as mesmas coisas o tempo todo, mas é um papel estimulante e provedor. E para ser verdadeiramente eficaz, é preciso permanecer vigilante e saber manter-se informado. E para permanecer 149 informado das práticas e das formas artísticas, é preciso desenvolver as mesmas qualidades do ator: isto é, saber continuar sendo curioso e manter o espírito aberto e em relação com o mundo. (FÉRAL, 2010, p. 256-260) Pode-se dizer que esta questão não é distante dos profissionais do Teatro e, quase sempre, a culpa é do tempo. Com isso, a falta de tempo é muitas vezes a responsável pelos profissionais do Teatro não frequentarem o teatro. Contudo, questiona-se a culpabilidade do tempo quando nota-se a falta de referência dos discentes que ingressam no Curso de Teatro. Neste sentido, questiona-se, ainda, modos do currículo prever tempo para a fruição de espetáculos. Por outro lado, intenta-se que o artista-pesquisador-docente seja um artista-docente porque, também, é produtor de arte fora da escola. Mesmo ciente dos entraves de uma docência artista na escola, seria salutar ser artista na sala de aula e fora dela como fazeres complementares. Neste sentido, o professor de Teatro renova suas práticas artísticas se colocando como sujeito de outras experiências e mantém vivo seu contato com um público externo à escola. Assim, oxigena seu repertório pessoal e a escola na qual atua. Da mesma forma, a escola o retroalimenta as atividades por ele desenvolvidas fora dela. Isto porque, A própria condição instável da profissão do ator exige que o mesmo ministre oficinas, realize palestras, de modo a garantir sua sobrevivência e garantir a possibilidade de dialoga com a política cultural nacional atual, que exige contrapartidas sociais para o financiamento de projetos artísticos. Desta forma, me parece que a aproximação entre o fazer e o ensinar é um caminho sem volta e que pode, cada vez mais, ajudar a definir o perfil de um profissional que abarca em sua prática o binômio professor-artista. (VIDOR, 2008, p. 1) Considera-se, portanto, esta questão fundamental para se pensar currículo. Neste sentido, o distanciamento dos currículos do bacharelado e da licenciatura precisa ser superado quando se pensa na formação de um licenciado. Por outro lado, pode-se entender que esta superação também deve acontecer quando se pensa em na formação de um bacharel por uma necessidade prática de mercado. Um esclarecimento que se deve fazer, também, é sobre a diferença notada entre as expressões professor-artista e artista-docente. Para a bibliografia comparada nesta tese, o termo professor-artista se refere, normalmente, a professores do ensino superior. Por sua vez, o artista-docente é tomado, na maioria das vezes, como um profissional do ensino básico. Então o termo professor-artista, de alguma forma, é herança dos artistas que compuseram os 150 primeiros corpos docentes das escolas superiores em Arte. Nota-se, então, que o fato dos professores de cursos superiores de Arte serem chamados de professores-artistas dá-se em decorrência, também, de um fato histórico. Isto porque, como não havia formação em Arte em nível de graduação e/ou pós-graduação, compuseram os quadros docentes das primeiras escolas superiores de Teatro do Brasil artistas de notório saber. Sobre esta questão, pode-se que o mesmo ocorreu com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): Seguindo o procedimento utilizado para as demais unidades acadêmicas da Unicamp (GOMES, 2007), o corpo docente foi inicialmente composto por professores convidados – nesse caso artistas reconhecidos –, para que apresentassem e ensinassem as técnicas da arte, possibilitando, assim, a produção e o ensino na área. (ARRUDA, 2011, p. 53) A questão da pesquisa e do pesquisador Entende-se que a pesquisa é uma ação inerente a atividade do artista e do docente. Para o artista-pesquisador-docente, o objeto de suas pesquisas deve compreender as práticas artísticas e de docência, permitindo a articulação do trinômio e contribuindo para os avanços da Arte, da docência e, consequentemente, de uma docência artista. Antes de tudo, pesquisar prevê o desejo de investigar, categorizar, explorar um objeto específico através de meios rigorosos de observação e experimentação. Portanto, pesquisar se aprende. Ensina-se pesquisa levando o aluno ao conhecimento de técnicas exploratórias, suscitando nele a curiosidade e consequentemente o desejo pela investigação; e, também, neste caso específico, deixando clara a importância do ato de pesquisar para o exercício de uma artista-docente. A pesquisa no currículo do artista-pesquisador-docente ocupa dois lugares principais: como método e como condição. No primeiro, encontram-se as disciplinas voltadas, especificamente, para a aprendizagem de metodologias de pesquisa, ou seja: definição do objeto, delimitação do corpus, bases teórico-metodológicas, o problema da pesquisa e outros. Assim, aborda-se, também, a bases teóricas e filosóficas que dão suporte aos métodos de pesquisa em Arte, Filosofia e Ciências. Já no segundo, reside toda e qualquer ação curricular voltada ao ato de pesquisar como parte inerente da atividade do professor e do artista. Assim, 151 como a pesquisa enquanto disciplina não ocupa um lugar privilegiado no currículo deste curso em questão, a sua compreensão enquanto parte do exercício do docente-artista é fundamental para uma prática curricular que corrobore com manipulação dos meios da pesquisa, tornandoa natural, salutar e significativa para a vida acadêmica e profissional do aluno. Neste segundo caso, não há disciplinas específicas, ementas ou programas que norteiam a pesquisa enquanto campo de conhecimento ou prática do artista-docente. Assim, é um lugar no qual residem as ações voltadas para a reflexão e a sistematização dos processos de ensino e aprendizagem deflagradas em sala de aula e/ou fora dela. São exemplos destas ações: os resumos e as resenhas, os diários de bordo, observações conduzidas para criação de personagens, busca de referencias estéticos políticos e/ou metodológicos para construção de cenas, registro de aulas de campo, proposição de novas metodologias para o ensino de Teatro – desde a reformulação ou invenção de jogos teatrais e dramáticos até a elaboração de materiais didáticos, por exemplo. Retomando aos resultados da revisão da bibliografia especializada, pode-se dizer que já é mais comum se encontrar trabalhos que abordam a questão da pesquisa na formação de professores de Teatro. Contudo, estes trabalhos não são necessariamente relacionados à uma docência artista ou tratam da pesquisa como área de conhecimento. Portanto, são trabalhos, geralmente, resultantes de pesquisas acadêmicas, principalmente realizados por grupos participantes de Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC) e Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBID). Estes trabalhos, por sua vez, trazem para a discussão a importância da pesquisa na reflexão crítica, sistematização e busca por novas metodologias do ensino do Teatro. Destaca-se, portanto, [...] a importância inequívoca do desenvolvimento da capacidade reflexiva do professor de teatro acerca das suas próprias ações pedagógicas. Em síntese, trata-se de evidenciar uma pedagogia comprometida com a transformação do conhecimento em teatro no seu mais amplo sentido. E aqui se entenda não apenas os aspectos da aquisição de conhecimentos relativos ao teatro, no sentido meramente cognitivista, mas aqueles que dizem respeito à invenção, que envolvem os domínios da criação, responsáveis pela produção da novidade, que mobilizam a totalidade do seu sujeito e afetam o seu mundo de modo definitivo. (SANTOS, V., 2008, p. 4) Uma vez que a docência artista é uma atividade relativamente nova que conjuga 152 diversas áreas do conhecimento e pressupõe um olhar de crítica diante do mundo em que vivemos, a pesquisa, neste caso, se processa numa região epistemológica complexa e interdisciplinar. Portanto, faz-se necessário pensar a pesquisa tomando como base o paradigma da complexidade que se opõe ao paradigma clássico no qual se circunscreve os parâmetros da ciência moderna. Isto porque, em meados do século vinte, a ciência passa a analisar os fenômenos embasado no conceito de interdisciplinaridade, o qual se fundamenta na ciência dos sistemas complexos. Para Edgar Morin (2009), os princípios de separação e redução irão reger a consciência científica. Contudo, o autor salienta que cada vez mais estes princípios mostramse ineficazes e limitadores para os estudos dos fenômenos, fazendo emergir uma concepção sistêmica na qual o todo não é redutível às partes. Neste sentido, [...] a problemática epistemológica baseia-se nas noções de pluralidade e complexidade dos sistemas físicos, biológicos e antropossociológicos, cuja compreensão requer um outro paradigma – o da complexidade – o que, por sua vez, funda-se numa outra razão – razão aberta –, que se caracteriza por ser evolutiva,residual, complexa e dialógica. (ESTRADA, 2009, p. 86) Portanto, é nesta região epistemológica interdisciplinar e complexa que se processa a pesquisa do artista-docente. Com isso, a pesquisa é o hífen entre o docente e o artista. Isto porque é a pesquisa que torna possível encontrar modos de ser artista na escola. Podem-se observar duas funções do hífen as quais tornam esta comparação possível, quais sejam: 1) é um sinal de pontuação utilizado para unir palavras compostas; 2) liga os valores extremos: (A-Z), (1-5), etc. Então, a pesquisa une a palavra composta artista-docente, afirmando que seu sentido é diferente das palavras separadas. Assim como por exemplo, as palavras beija e flor, separadamente, não significam a mesma coisa quando hifenizadas, ou seja, beija-flor. Contudo, para a palavra artista-docente, a pesquisa se torna condição para atribuir um sentido à união do artista com o docente. Por segundo, pode-se entender que a pesquisa vem a ligar dois valores extremos: a Arte e a docência. Extremos, portanto, não no sentido de opostos, mas corroborando com a noção histórica da luta política da inserção da Arte na escola. Ainda sobre compreensão da grafia da expressão artista-pesquisador-docente, uma vez explicado o sentido da palavra pesquisa se encontrar entre as palavras artista e docente, observa-se a necessidade de considerar o porquê da palavra artista preceder a palavra docente. 153 Sabe-se, pois, que a proposta curricular deste curso enseja uma docência artista. Contudo, de modo geral, nada garante que para ser professor de Teatro seja necessário ser artista de Teatro. Assim, a docência artista do artista-pesquisador-docente é uma premissa deste curso de Teatro, mesmo podendo ser localizado em outros territórios. Neste sentido, a palavra artista abre a expressão para sublinhar a necessidade de um professor Teatro que seja artista da cena atuando na e com a escola. Isto porque se acredita que a busca por uma educação teatral que passe pelas experiências dos sujeitos em processos criativos só pode ser deflagrada por professores que também são sujeitos de experiências estéticas. 6.2 POÉTICAS POLÍTICAS E PEDAGOGIAS CRÍTICAS Nesta época da nossa história, é especialmente importante que artistas, educadores e outros trabalhadores culturais desenvolvam uma definição mais ampla da instrução e da prática pedagógica como forma de política cultural. (GIROUX, 1999, p. 277) Tanto a região epistemológica quanto o campo de atuação no qual se situa o artistapesquisador-docente são zonas de fronteira. Nestes lugares, encontram-se fluxos de diferentes áreas de saber, principalmente do Teatro e da educação. São regiões nas quais não há predominância de conhecimentos, mas ações que se articulam na intenção de, localizadas problemáticas, posicionar-se na busca de soluções possíveis. Uma das primeiras dificuldades encontradas pelo artista-pesquisador-docente, portanto, é o próprio discernimento diário que ele precisa fazer quanto aos tipos de ação das quais está sendo propositor. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, as dificuldades encontradas nas instituições de ensino em que atua o artista-pesquisador-docente, vêm à reboque de uma reflexão constante, que ele mesmo deve fazer, quanto aos lugares que ocupa na sociedade. Não cabe aqui situar ou restringir a ação deste profissional enquanto artista, pesquisador ou docente. Para além dos aspectos formativos que estão envolvidos neste profissional – professor de Teatro no caso do objeto de estudo desta tese –, quando se lança para ele um olhar de síntese, torna-se possível compreender a complexidade de sua composição e, portanto, de sua atuação. 154 É salutar perceber e intencionar que este profissional ocupe os mais diversos setores da Arte e da educação. Contudo, é importante que em seus aspectos formativos lhes sejam propiciadas as condições necessárias para que ele se reconheça e se posicione nestas fronteiras. Portanto, para agir na promoção de políticas culturais é necessário tomar consciência sobre a necessidade de fazer escolhas estéticas, políticas e ideologicamente comprometidas, ou seja, refletir sobre a sua prática pedagógica. As práticas pedagógicas, as quais neste caso possuem, muitas vezes, natureza artística, exigem escolhas estéticas e políticas que organizam as formas através das quais o outro irá experienciar. A prática pedagógica envolve o ato de pensar no outro, na experiência do sujeito. Ou seja, enquanto o artista é o sujeito da experiência estética, a prática pedagógica do artista-pesquisador-docente pensa na experiência do sujeito. Assim, pensar esta experiência exige que analisar e propor sejam aspectos inerentes a este profissional. Isto porque a educação e a Arte, mais uma vez imbricadas, estariam validando uma fronteira entre experienciar e propor a experiência. O artista-pesquisador-docente seria deflagrador de propostas pedagógicas para construção de sentidos através da experiência estética. Assim, é possível compreender que: Como prática cultural, a pedagogia ao mesmo tempo contesta e refigura a construção, a apresentação e o envolvimento de várias formas de imagens, texto, fala e ação que resultam na produção de significado, que informam os alunos e outros a respeito de seus futuros individuais e coletivos. Nesse sentido, a pedagogia representa tanto um discurso de crítica quanto um projeto de possibilidade. (GIROUX, 1999, p. 286) A Política Cultural, principalmente no âmbito governamental, tem como objetivo executar ações, como por exemplo: a conservação de patrimônios, acesso aos bens culturais, fomentos às atividades artísticas. Normalmente estas ações intentam que a cultura esteja ao alcance de todos, mas quase nunca preocupam-se em dar acesso os meios de produção cultural. Neste cenário, o artista-pesquisador-docente cumpre um papel fundamental de democratizar os instrumentos para que os sujeitos sejam autores e fruidores. Ou seja, ele atua no sentido de mediar a experiência do sujeito para que este possa vir a ser efetivamente ativo na experiência, no âmbito do fruir e do fazer artístico. Este profissional, com suas bases na pedagogia crítica e independente de seu local de ação, engendra políticas culturais através de seus processos pedagógicos. 155 A pedagogia crítica como forma de política cultural, se refere neste caso a uma tentativa deliberada por parte dos trabalhadores culturais de influenciar o tipo de conhecimento e subjetividades produzidos dentro de conjuntos particulares de relações sociais e a maneira como isso acontece. (GIROUX, 1999, p. 277) Pressupõe-se que o artista-pesquisador-docente está envolvido na promoção da materialidade da obra artística e está, também, consciente das transformações que serão acarretadas em cada sujeito que direta ou indiretamente entrar em contato ela. Sendo assim, sua produção artística deve ser direcionada para uma ação cultural que naturalmente possui impactos sociais. A ação cultural nutre o Desejo de fazer da arte e da cultura, instrumentos deliberados de mudança do homem e do mundo. [...] Ao mesmo tempo, um outro grupo, por ignorância ou descuido, confunde cultura com educação e quer transformar o teatro, o cinema, a biblioteca ou o centro de cultura em substitutivos para um sistema educacional que, neste país, faliu por cumplicidade de quase todos e desejo de vários. [...] a ação cultural surge assim para responder à pergunta” ‘o que fazer?’ com a cultura e a arte hoje, neste tipo de sociedade a que chegamos. (COELHO NETO, 2001, p. 8-11) Neste espaço de fluxos e fronteiras não há resposta inequívoca para esta questão – o que fazer? Contudo, é uma pergunta que o pesquisador-artista-docente deve se colocar a cada instante, não para dissociar a cultura da educação, mas para, através do planejamento de ações culturais consistentes, direcionar suas práticas artísticas a um sentido de educação que “através da transmissão das técnicas já em poder na sociedade, se propõe formar nos indivíduos a capacidade de aperfeiçoar e corrigir essas mesmas técnicas” (ABBAGNANO, 2007, p. 358) Esta transmissão de técnicas em nada se aproxima de uma educação depositária, mas nutre e resgata o sentido de educação, também, como modo de garantir que todo o legado da humanidade seja transmitido, para ser aperfeiçoado, de geração para geração. Neste aspecto, a educação parte do aperfeiçoamento do indivíduo, dura a vida inteira e não está restrito aos ambientes educacionais. Com isso, torna-se responsabilidade do artista-pesquisador-docente legitimar suas ações como culturais, educativas e, consequentemente, sociais. Neste aspecto, segundo Abbagnano (2007, p. 261), a cultura tem dois significados básicos: No primeiro e mais antigo, significa a formação do homem, sua melhoria e seu refinamento. [...] no segundo significado, indica o produto desta 156 formação, ou seja, o conjunto de modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados como civilização. Perceptível nestas definições como são sutis os limites entre educação e cultura. Os seus conceitos mudam com tempo e, atualmente, encontra-se uma dificuldade em se delimitar os seus espaços. Da mesma forma, é complexa a tarefa de demarcar limites para as ações do ator, do pesquisador e do docente quando se trata do ensino do Teatro. Assim, nestes tempos de hibridizações e complexidades que ultrapassam a disciplinaridade, ganha-se e, ao mesmo tempo, corre-se riscos em ocupar estas fronteiras. Para a pedagogia crítica, portanto, torna-se imprescindível compreender que tanto a educação como a cultura são terrenos de lutas políticas e ideológicas. É necessário, pois, posicionar-se nestas lutas porque “Como trabalhadores culturais, devemos estar conscientes da natureza parcial de nossas próprias opiniões”. (GIROUX, 1999, p. 184) Pertinente trazer para este estudo, portanto, a noção de artista-pesquisador-docente como trabalhador cultural. Segundo Vidor (2008, p. 3) O conceito de trabalhadores culturais é originalmente entendido como se referindo a artistas, escritores e produtores da mídia. Na abordagem de Giroux (1999), ele é estendido a pessoas que trabalham em profissões como direito, assistência social, arquitetura, medicina, teologia, educação e literatura, com a intenção de reescrevê-lo de modo que a prática do trabalho cultural insira a primazia do político e do pedagógico. Importante salientar que esta noção de trabalhador cultural independe dele trabalhar com Arte, mas é todo aquele que através de seu ofício está implicado na “produção de narrativas e identidades”. (GIROUX, 1999, p. 269) Nestes termos é possível pensar no artistapesquisador-docente que ocupa espaços de gestão e administração, por exemplo. Mesmo não estando em sala de aula, suas ações tanto administrativas quanto pedagógicas colaboram para a construção de novas identidades destes sujeitos em formação. Portanto, a pedagogia crítica reconhece a escola como um local cultural, na qual não se privilegia somente o ensino voltado para o mercado de trabalho e/ou para o ingresso na Universidade. Reconhece-se, pois, a escola como um espaço que abriga práticas que visam formar sujeitos emancipados. Neste sentido, espera-se que o artista-pesquisador-docente organize propostas pedagógicas e/ou administrativas nesta direção. Seria possível compreendê-lo, então, como um profissional que sintetiza o que Giroux (1999) vai chamar de forma de solidariedade entre artistas, educadores, e outros trabalhadores culturais. 157 Nesta direção, mais do que múltiplas competências, ele possui a consciência da necessidade da comunhão da educação com a cultura. Da mesma forma, deve possuir condições de liderar processos que agregam diferentes profissionais, os quais intentam tornar o conhecimento significativo através de práticas artísticas e pedagógicas que ensinam, mas também legitimam as experiências que os alunos trazem para a escola. Considera-se, portanto, que este profissional avalia constantemente as formas de produção cultural e as ideologias nela implicadas. Deste modo, ele busca resgatar o valor da produção dos alunos muitas vezes subordinadas a currículos que lhes são indiferentes. A pedagogia crítica rediscute as relações entre professor e aluno, e, com isso, desafia e estimula professor e aluno a repensarem seus lugares no processo de ensino aprendizagem. Segundo Vidor (2008, p. 3) O professor como intelectual, mais do que argumentar sobre a importância do teatro na escola, pode lançar mão da própria arte como instrumento de conscientização e valorização da atividade que desenvolve. Esta pode ser uma alternativa eficaz e prazerosa. Qualquer que seja a opção de sua prática, próxima ao encenador, dramaturgo ou ator, a centralidade de seu papel é incontestável, o que exige do mesmo uma tomada de decisão, pois depois que se pisa no palco, algo tem que ser feito. Assim, resgatando novamente o Teatro do Oprimido para ajudar a compreender melhor esta questão, é válido considerar que “somos o nosso centro e nele estamos: não devemos temer invadir e pisar o meio do palco, mesmo vivendo na periferia das cidades, nos guetos dos excluídos e longe da arte oficial à qual não devemos obediência”. (BOAL, 2007, p. 19) Neste sentido, retoma-se as pontes entre o Teatro e o currículo, traduzidas nas analogias do segundo capítulo, e, com isso, pode-se rever as práticas do Teatro do Oprimido como prática de uma pedagogia teatral crítica. Deste modo, O Teatro do Oprimido tem por objetivo resgatar, desenvolver e redimensionar a vocação teatral humana e visa passar os meios de produção de teatro para os indivíduos que são, em potencial, produtores de cultura e devem ser livres no direito de escolher serem agentes criadores e/ou fruidores destes produtos artísticos. (SILVA, C., 2009, p. 39) Vale lembrar que esta premissa do TO não invalida a necessidade de uma alfabetização estética, muitas vezes tarefa hercúlea dos professores de Teatro. Dividir com os alunos os meios de produção de Teatro, não significa negar o fato de que o Teatro é uma área 158 de conhecimento que deve ser passível de estudos como todas as outras áreas. Significa, sim, alertar para que o Teatro possui em si mesmo a condição de se ensinar fazendo e por isso deveria ter como princípio educativo salvaguardar as manifestações artísticas dos sujeitos envolvidos nos processos artísticos-pedagógicos. O que está sendo defendido aqui é que os professores e outros trabalhadores culturais aprendam a confirmar as experiências e as vozes dos alunos, para que estes sejam legitimados e apoiados como pessoas que importam, como pessoas que podem participar da produção e aquisição da sua própria aprendizagem, e como pessoas que, ao fazê-lo, possam falar com uma voz que está enraizada em seu senso de história e lugar. [...] é também imperativo examinar a origens culturais e as experiências sociais dos alunos para que eles possam entender tanto as potencialidade quanto as fraquezas que constituem suas vozes muitas vezes múltiplas e contraditórias. (GIROUX, 1999, p. 284) Com isso, ressalta-se um sentido de artista-pesquisador-docente enraizado em bases políticas e poéticas críticas. Nesta perspectiva, suas ações e propostas pedagógicas deveriam apontar para um lugar que possui estrutura, pensamento e ação política. Isto porque, conforme nos aponta Apple (2006), a educação é uma ação política e todo educador participa de atos políticos. Por isso, os educadores devem ser participativos nas decisões das atividades educacionais e não devem considerá-las distintas de suas atividades docentes. Faz-se necessário, portanto, pensar que tipo de conhecimento está sendo gerado pela proposta pedagógica deste curso. Nesta direção, uma série de questionamentos podem ser considerados fundamentais: ‘De quem é este conhecimento? Por que está sendo ensinado a este grupo particular, desta maneira particular? Quais são as funções reais ou latentes das complexas relações entre poder cultural e controle dos modos de produção e distribuição de bens e serviços em uma economia industrial avançada como a nossa?’ – é feita antes daquelas que geralmente se faz sobre o sucesso e o fracasso nas escolas – ‘os alunos atingiram tal e tal nível de conhecimento?’. São perguntas diferentes em torno de lógica e política, e somente quando pudermos responder a elas fará sentido incluir sobre nosso relativo sucesso na promoção da aquisição de determinadas formas de capital cultural. (APPLE, 2006, p. 210) Assim, defrontar os discentes com as propostas curriculares de seu curso, ajuda-os a compreender que seu papel também é intervir no modo de estruturação dos currículos nas escolas. Isto porque há questões de hegemonia e de dominação que se escondem no rótulo da tradição. Assim, uma criticidade responsável deve gerar investigações e resultados no modo 159 de observar e agir na sociedade que se estabiliza baseada na manutenção de fórmulas econômicas e educacionais. 6.3 CONSIDERAÇÕES DOS DISCENTES Nesta subseção, intenciona-se perscrutar sentidos para o artista-pesquisador-docente, bem como adentrar aos aspectos que tangem a relação que os discentes estabelecem entre ele e a proposta curricular do curso. Com tal intento, toma-se como base de análise os posicionamentos dos discentes diante das questões que cercam este profissional. Notou-se que, apesar de muito próximos, os sentidos atribuídos pelos discentes ao artista-pesquisadordocente revelaram que o entendimento que eles trazem sobre este profissional advém mais da experiência de cada um do que da literatura especializada ou de um possível posicionamento do Curso de Teatro. Inicialmente, ressalta-se que os discentes trouxeram para as entrevistas as suas práticas docentes, no ensino formal ou não, o que evidenciou uma análise do artista-pesquisadordocente através de um aspecto mais voltado para as possibilidades ou dificuldades de uma docência artista. Contudo, pode-se observar que há muitas divergências em suas falas quanto da efetiva ação deste profissional, principalmente, em se tratando da escola básica. Nesta direção, as respostas denotam que, segundo os discentes, o artista-pesquisadordocente tem espaço para trabalhar na escola, mas não no âmbito curricular. Por exemplo, nas duas falas abaixo os discentes trazem a experiência do Pibid-Teatro para afirmar que há espaço para se trabalhar uma docência artista na escola. Sabe-se, pois, que as atividades do Pibid-Teatro foram desenvolvidas em âmbito extracurricular e no contraturno. Neste sentido, pode-se verificar: O Pibid é a prova de que se tem espaço para trabalhar. Mas, a vida é feita de escolhas. Tem pessoas que optam por negligenciar uma das pernas do tripé. Tem espaço sim, as escolas estão aí, não tem professores de arte. [...] Então, a escola se torna um local de estabelecimento do tripé, eminente. Se há um canto para se estabelecer este tripé, é a escola. [...] E pesquisando. Porque eu acho que o artista é pesquisador do seu próprio fazer, sempre. (SI) Eu tive a oportunidade de experimentar isso no Pibid. Mas, o Pibid é muito mais vantajoso que uma escola. Eu tenho três horas na semana, para trabalhar com alunos que vem quem quer. (SP) 160 Ademais, reforçando o posicionamento acima, discutiu-se sobre a dinâmica da escola básica e a carga horária dos professores, as quais não favorecem o trabalho do artistapesquisador-docente na escola. Para o discente abaixo, o professor não consegue ser artista na escola porque não há tempo para desenvolver ações em direção a uma alfabetização estética e uma educação sensível. Dentro da estrutura que a gente tem aqui em Fortaleza, não. Não porque se você tem duzentas horas e você tem que ter duzentas de sala de aula. Duzentas horas de sala de aula é muito tempo. O restante do tempo que tu tem, 1/3 é do planejamento, você tem que planejar aula, corrigir prova, corrigir trabalho. Aí é outra problemática, as avaliações dentro da escola, da forma como elas estão estabelecidas, elas, no meu entendimento, é um processo falido, não deveria ser assim a avaliação. (SI) Mas, como eles querem defender uma política cultural se dentro da escola não existe algo voltado, e fortemente, e bem formatado em direção a esta educação estética, educação cultural. Quando começa na base ele vai desaguar em profissionais e cidadãos bem formados. O problemas destas políticas culturais e de um analfabetismo estético, com certeza é por conta desta defasagem da escola. Não é simplesmente se voltar para a escola e esquecer os outros ambientes, eles são muito importantes também. (SI) Contudo, também houve falas que afirmaram que há condição deste profissional atuar na escola básica. Sobretudo, como um espaço de luta política que se consolida pela afirmação da necessidade de um ensino de Teatro na escola através de processos artísticos. Pode-se observar, nos próximos posicionamentos, discursos que se encaminham para esta direção: Tem como você fazer as três coisas num ambiente só. Não necessariamente uma prática artística vai estar necessariamente ligada ao ambiente não formal, fora da escola. É uma visão preconceituosa mesmo. (SE) É buscar um espaço de ruptura. É muito difícil, mas é possível. (SP) Outra questão muito importante também aparece para esta análise, qual seja: uma visão sectária da prática do artista-pesquisador-docente. Ressalta-se que, neste aspecto, parte dos discentes possui uma noção de que a prática deste profissional funciona como uma gangorra; ou seja, ora pendendo mais para o lado do artista e ora para o lado do educador. Por exemplo, as falas abaixo revelam um entendimento de que este (des)equilíbrio se dá em virtude do seu espaço de atuação: Práticas totalmente imbricadas. Mesmo que, em alguns momentos, uma delas seja evidenciada. Escola evidencia o lado docente. O palco evidencia o lado artista. (SI) 161 Eu tenho umas dúvidas. Eu posso estar tendo uma visão muito limitada. [...] Quando eu estou na academia, isso está funcionando completamente para mim. Eu tô viajando com um espetáculo, tô me apresentando lá fora; tô ganhando dinheiro; tô trabalhando como professora, tô ganhando dinheiro com isso; tô pesquisando [...] Mas eu tenho muitas dúvidas: será que isso realmente funciona simultaneamente quando eu sair daqui e me formar? Será que eu vou conseguir, por exemplo, estar num grupo e dar aulas de teatro? Como é que é isso? Porque a pesquisa pode muito se dar naqueles dois ambientes. (SE) Neste sentido, o artista-pesquisador-docente ainda é visto pelos discentes em partes separadas. A compreensão de que este profissional habitaria um espaço de fronteira e sua atuação se daria em constante movimento de fluxo entre saberes, não apareceu presente nas suas falas. Ao contrário, pode-se verificar nos trechos abaixo, uma compreensão de que sua ação se processa em momentos diferentes de acordo com a ênfase em cada uma de suas partes. Ainda nesta direção, pode-se verificar: Eu sinto que em momentos diferentes sempre pende mais para um deles. (SP) Acima de tudo um educador. Eu poderia começar dizendo: acima de tudo um artista, mas eu acho que é muito forte essa coisa do educador. E um educador que tem uma particularidade que é um educador pela arte. Um educador em nível estético, em nível de arte. (SI) Com o mesmo entendimento, porém partindo de uma prévia rejeição do conceito, destaca-se uma fala que questiona este perfil de profissional a partir do entendimento do discente sobre o que viria a ser um artista. Observa-se: Pelo que eu entendo enquanto artista, eu nego este trinômio. [...] Porque eu não acho que apenas montar um espetáculo com a minha turma de arte no ensino fundamental ou no médio, vai me transformar em um artista. Eu acho que a conceituação, o experimento, enquanto artista vai para além disso. Bem além disso. Eu não acho que só isso é ser artista. Eu acho que dar uma aula espetacular não é ser artista dentro de uma escola. Eu acho que tem algo mais, acima. O pesquisador é até redundante, porque eu não consigo imaginar uma pessoa que é docente, é artista e que não seja pesquisador. No fundo a gente tem sempre um projeto de pesquisa. (SI) Contudo, apenas um discente se posicionou contrário aos demais no momento do grupo focal. Para ele, o artista-pesquisador-docente é um construto real, mas que precisa ser encarnado. Para tanto, ele não se permite separar em partes, mas funciona como uma noção de conjunto. Sobre isso, o discente aponta que: “Funciona esse negócio. Funciona mesmo. [...] Não tem como eu sair na rua e dizer: agora eu sou atriz, agora eu sou professora... não, é 162 direto. Por mais que uma hora uma coisa pulse mais do que a outra, mas está aqui. É carne. Eu acho que funciona muito bem em mim.” (SE) Neste sentido, esta disparidade de conclusões vem confirmar a importância da experiência para o percurso formativo do discente. Mesmo que este perfil exista delimitado em uma proposta pedagógica, seus sentidos são diferentes para cada sujeito e podem variar ao longo do tempo. Assim, podem-se reunir, também, suposições quanto à atuação deste profissional no terceiro setor. Tais suposições caminham em direção a um forte questionamento sobre o espaço que haveria, de fato, para este profissional no mercado de trabalho. Deste modo, podese observar que: “A questão do terceiro setor é muito forte, essa coisa dos programas sociais, Ongs, que desenvolver trabalhos de arte que muitas vezes suprem a função da escola.” (SI) Questionou-se, também, a qualidade do ensino de arte da escola: “Por que este termo: teatro de escola? O que se vem ensinando sobre teatro na escola?” (SE) Neste sentido, colocou-se em cheque o despreparo por parte dos gestores das escolas para manejar o ensino de Teatro. Notou-se que o ensino de Teatro se processa sem a intervenção do profissional devidamente preparado. A fala do discente, transcrita abaixo, veio responder a questão: Você acha que a atuação do artista-pesquisador-docente na escola é viável? Este perfil é viável.Existe a necessidade de estes profissionais estarem dentro da escola. Existe uma carência destes profissionais dentro da escola. [...] Está tão mal formatado esse pensamento da escola e nos gestores da escola que, por exemplo, em alguns programas como o Mais Educação, são outras viagens diferentes do que deveria ser um atendimento de educação teatral mesmo dentro da escola. (SI) Contudo, pode-se afirmar que, mesmo diante de críticas, os discentes avaliam positivamente a proposta pedagógica do curso e as ações geradas nestes quatro anos. Logo, destaca-se a fala de um dos entrevistados: “Eu acredito que no curso, em particular, também tem um foco muito grande neste indivíduo enquanto formação artística, também, de excelência. Eu vejo por estes dois âmbitos: educador por excelência, com excelência, e cuidado na excelência artística.” (SI) Porém, frequentemente, os discentes apontaram durante suas falas que a própria inconsistência ou disparidade de compreensões sobre o artista-pesquisador-docente dificulta as ações curriculares. Eles entendem que este perfil de egresso ainda é nebuloso para discentes e docentes. Por este motivo, eles consideram, também, que há uma ausência de foco 163 e objetivo quanto às metodologias de ensino e aprendizagem, o que influencia no envolvimento dos alunos com as propostas curriculares e, portanto, na suas experiências. Sobre esta questão, pode-se verificar o trecho abaixo: Apresar de que eu acho que ainda existe dificuldade de entendimento de como isso pode acontecer (Por parte de quem?) Acho que de todo mundo. Professores e alunos. Eu não generalizo também. Acho que existem professores que entendem, que compreendem isso, mas que ao mesmo tempo não concordam com isso. Professores que não compreendem. Professores que compreendem e concordam com isso. E a mesma coisa com alunos. Mas eu acho que existem só alunos que compreendem e que não compreendem. (SI) Algumas considerações também apontaram para um aspecto de contínua formação do artista-pesquisador-docente, inclusive durante sua vida acadêmica. Neste sentido, os discentes entendem que este perfil vai se construindo e se processando ao longo do curso, ou seja, não seria o fato de se ter percorrido todo o percurso que os iria tornar artistas-pesquisadoresdocentes. Esta, visão, por sua vez, contribui para reforçar o caráter singular de cada experiência vivida durante a graduação, conforme afirma o discente nesta fala: “Não é um perfil que se efetiva quando a gente se forma, mas ele vem se construindo a cada disciplina, desde improvisação, ao longo do curso.” (SI) Ainda neste sentido, frequentemente, eles retiraram da proposta curricular a exclusividade quanto à responsabilidade formativa deste profissional. Notou-se uma clareza quanto à importância do envolvimento do aluno com o curso. Logo, houve muitas críticas em relação ao fato de que, segundo eles, muitos alunos desejam o status de artista acreditando que o diploma lhes conferiria esta condição. Ao contrário, os discentes entrevistados, demonstraram uma comunhão sobre pensamento de que a graduação não garante formar um artista. O discente reflete sobre tal questão, no trecho abaixo: [...] acho que não é a sua formação, a sua graduação que vai lhe definir enquanto profissional, aí isso reitera mais ainda a minha ideia: não é porque o cara está terminando o curso de teatro que ele vai ser artista-pesquisador-docente, nem docente por ser licenciatura. Mas eu me pego muito na questão do artista, porque dar aula qualquer bicho de orelha pode dar. Mas eu acho que enquanto ser artista o buraco é mais embaixo. Tem um diferencial. (SI) A última questão diz respeito a um espectro de sectarização existente neste currículo. Sobre este tema, os discentes apontaram que a proposta curricular colabora para formar ora o pesquisador, ora o docente e ora o artista. Neste sentido, perceberam que as disciplinas trabalham, cada uma a seu modo, uma das partes do trinômino. 164 No trecho abaixo, o discente mesmo imbuído do desejo de fazer um elogio ao curso, acaba por fazer um alerta sobre tal questão: Eu acho que o curso, por mais que a gente saiba que ele tem suas deficiências, mas ele consegue, pelo menos, deixar isso muito delimitado, muito claro, sobre esses campos: de eu estar pesquisando, de eu estar sendo artista e de eu ser docente. (SE) Mesmo que as reflexões sobre o tema durante as entrevistas tenham sido profícuas, traz-se um dado que merece destaque: quando questionados se eles se consideravam artistaspesquisadores-docentes, obteve-se somente uma resposta pontual: “Eu diria que sim por uma questão de teimosia, por uma questão ideológica, por uma questão de vontade.” (SI) Todos os outros discentes entrevistados não responderam a esta questão desviando o foco da pergunta. Diante disso, pode-se considerar precoce para o discente afirmar-se enquanto tal. Contudo, faz-se necessário pensar sobre o porquê de, ao final de seu percurso, o discente não afirmar o artista-pesquisador-docente como a sua identidade profissional. 165 7 CONCLUSÕES Os resultados preliminares que se apresentaram ao longo dos capítulos, colaboram para a compreensão dos sentidos que, através de suas experiências, os discentes atribuem ao artista-pesquisador-docente e como eles o relacionam à proposta curricular deste curso. Neste sentido, ressalta-se que o recorte que singulariza a questão da tese consiste na relação estabelecida pelos discentes entre a proposta pedagógica do curso e o perfil do egresso. Portanto, os capítulos foram escritos de forma que cada um compusesse uma parte necessária para a compreensão do todo. Isto porque a questão da tese passa por compreensões que tangem esferas como: as experiências e os sentidos; o currículo e o Teatro; a proposta curricular do Curso de Teatro/ICA/UFC; os discentes; e o artista-pesquisador-docente. Logo, nestas conclusões serão revisitados os principais pontos abordados nos capítulos anteriores. Assim, o segundo capítulo demonstra que as experiências dos discentes enquanto artistas-docentes balizaram as suas considerações a respeito de suas identidades profissionais. Da mesma forma, os sentidos que eles atribuíram à proposta pedagógica do curso foram deflagrados a partir da reconstrução destas experiências através de suas narrativas. Portanto, quando se intenta responder à questão da tese, toca-se nas subjetividades dos sujeitos e nas suas inferências quanto à relação entre proposta pedagógica do curso e o perfil do egresso. Uma vez que se reporta a estas experiências, tomam-se os discentes como sujeitos das experiências. Estas experiências de docência artista podem ser comparadas a uma experiência teatral, no sentido de que ela não acontece se atores e espectadores, ambos, não se encontrarem mergulhados em seus papéis, em suas diferentes configurações, esforçando-se para produzir um sentido. Por isso, não se pode deixar convencer pelo argumento falacioso de que o Teatro é território de ninguém, local privilegiado onde cada um fala e entende o que quer. O espetáculo teatral é, antes de tudo, uma vivência intencional e quem participa dele pretende uma experiência que lhe estabeleça sentido. Da mesma forma ocorre com o currículo, ou seja, aqueles que se colocam a percorrer um caminho intencionam esta experiência na busca contínua de sentidos que irão corroborar com a construção de suas identidades profissionais. Sequencialmente, no capítulo terceiro, pode-se concluir, também, que diante da tarefa de encontrar uma definição para currículo, a analogia entre ele e o Teatro, foi fundamental para que os discentes pudessem refletir sobre a proposta pedagógica do curso. Isto porque, ao 166 refletirem sobre a proposta curricular do curso, tomando como base esta analogia, os discentes avançaram na compreensão de currículo como organização de conteúdos. Assim, refletiram sobre sua condição de espectadores ou atores nas ações curriculares chamando para si a responsabilidade nos processos de ensino e aprendizagem. Neste capítulo, salienta-se, ainda, a importância de compreender que uma docência artista caminha para além de seus aportes estéticos. Pois, ao se buscar forjar um artistapesquisador-docente a partir das bases do Teatro do Oprimido, nota-se preponderante que este professor de Teatro reflita sobre os modos de se posicionar ética e politicamente diante da docência e da arte. Já o capítulo quarto torna claro o vínculo embrionário do Curso de Teatrolicenciatura/ICA/UFC com o Curso de Artes Dramáticas, cujo histórico de reformulações curriculares retira da graduação a primazia do estudo sistemático do Teatro. Comparando, ainda, as duas integralizações curriculares que vigoraram deste sua implementação com o estudo de Santana (2000), notam-se aproximações e diferenças entre estas e as dos demais cursos de licenciatura em Teatro. Uma das razões destas diferenças recai sobre a implementação do curso ter se dado após a DCN de 2004 e as integralizações curriculares analisadas por Santana (2000) precederem a implementação desta Diretriz. Deduz-se, também, que outra razão possível seria a herança curricular do Curso de Artes Dramáticas. Isto porque, como o CAD foi um curso de formação de atores, ele pode ter influenciado para uma maior carga-horária destinada a disciplinas de formação artística. Ademais, o próprio perfil do egresso, pouco comum a outras propostas pedagógicas, colabora para os desvios que singularizam este currículo da média dos outros cursos. Ao mesmo tempo, o principal ponto que aproxima a integralização deste curso com as demais é a carga-horária destinada às disciplinas de fundamentação didático-pedagógica. Neste caso, pode-se considerar que um mesmo conjunto de conteúdos compõe o que se considera como conhecimento fundamental para formar o licenciado. Assim, para o Curso de Teatro-licenciatura/ICA/UFC estes conhecimentos são articulados através de cinco disciplinas ministradas pela Faculdade de Educação (FACED/UFC) para todos os cursos de licenciatura desta Universidade, quais sejam: Psicologia da Aprendizagem na Adolescência; Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação; Didática; Estrutura Política e Gestão Educacional; e LIBRAS. 167 Ao analisar o corpo discente e o histórico de suas relações com o curso, no quinto capítulo, infere-se que frequentam esta licenciatura dois grupos de alunos: aqueles que desejam ser artistas e também professores, e aqueles que só desejam a formação artística. Este quadro, por sua vez, gera uma multiplicidade de posicionamentos diante do curso. Pois, o modo de experienciar o currículo passa pelo desejo e pela expectativa de formação do sujeito. Os sentidos que os discentes continuamente atribuem ao seu percurso partem de um ponto de vista a respeito do que vislumbram e almejam profissionalmente. Neste caso, é válido salientar que de quatro ações curriculares apontadas pelo discente como espaços nos quais se poderia ver o artista-pesquisador-docente em ação, apenas uma delas refere-se a uma atividade, que possui caráter de disciplina: Montagem. Todas as outras ações (SDTE, PIBID-Teatro e Aplauso Festival de Teatro) foram deflagradas por iniciativas pessoais dos professores. Este aspecto salienta a importância de se compreender o currículo para além do seu documento prescritivo. Importante frisar, também, que este dado ressalta o engajamento de todos os sujeitos envolvidos no ensino e na aprendizagem. A questão do artista-pesquisador-docente, abordada no capítulo seis, evidencia a ausência de referências sobre este perfil de profissional. Ao mesmo tempo, busca-se atribuir um sentido ao artista-pesquisador-docente através de uma revisão bibliográfica sobre a docência artista e a questão da pesquisa em Arte. Assim, o sexto capítulo também é propositivo quanto às bases políticas e ideológicas que podem pautar o percurso dos sujeitos e, com isso, sedimentar a construção de suas identidades profissionais. Donde se pode concluir que o pensar sobre este profissional, e, portanto, sobre as ações formativas neste currículo, não recai somente sobre questões estéticas e pedagógicas, mas, também, éticas, políticas e ideológicas. No entanto, quando este capítulo dedica-se a analisar o perfil de profissional com base nas inferências dos sujeitos investigados, é possível levantar pouquíssimas questões que tangem preocupações dos discentes no campo da ética ou da política. Os discentes pautaram suas considerações principalmente nos desafios que observaram de uma docência artista na escola. As suas narrativas evocavam, principalmente, questões estéticas e pedagógicas. As raras abordagens políticas e ideológicas pautavam-se sobre a necessidade de, mesmo diante das dificuldades enfrentadas, o docente artista se fazer cada vez mais presente na escola, transformando este espaço em um local onde é possível encontrar Arte. 168 Conclui-se que, mesmo passível de críticas, os discentes avaliaram que a proposta pedagógica do curso prima por um ensino de excelência, tanto na formação do artista quanto do discente. As principais críticas recaem sobre dois pontos centrais, quais sejam: 1Multiplicidade de compreensões sobre o que seria o artista-pesquisador-docente dificultaria as ações curriculares; 2- Sectarização existente no currículo que ora forma o artista, ora o docente, ora o pesquisador. Nota-se, portanto, que no que diz respeito à relação entre o currículo e o perfil do egresso, esta é a grande questão que desafia os atores deste curso: disciplinas que preparam, em suas singularidades, um profissional que é plural, ainda pouco definido pelos seus atores, e que habita uma zona de fronteira. Neste caso, a interdisciplinaridade pode se apresentar como uma alternativa possível para suscitar experiências que sejam capazes de agregar a arte, a pesquisa e a docência. Logo, a responsabilidade recai, mais uma vez, sobre os sujeitos envolvidos nas ações curriculares. Por exemplo, através da proposição de projetos integradores que possam vir a habitar esta zona de fronteira na qual se forma o artista-pesquisador-docente. Para isto, é necessário que discentes e docentes avaliem constantemente o currículo do curso e estejam comprometidos, cada qual com as suas diferentes responsabilidades, com o ensino e a aprendizagem em Teatro. 169 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, Nicola. 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(Psicologia e pedagogia) 179 ANEXO A- Projeto Político Pedagógico do Curso de Teatro-licenciatura ICA/UFC (integralização curricular 2010.1) 180 UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ INSTITUTO DE CULTURA E ARTE CURSO DE ARTE DRAMÁTICA CURSO DE ARTES CÊNICAS – TEATRO Licenciatura em Teatro Equipe de Elaboração do Projeto: Ricardo Guilherme – Curso de Arte Dramática Gilson Brandão Costa – Curso de Arte Dramática Elvis Matos - Instituto de Cultura e Arte Ângela Bessa Linhares: Faculdade de Educação - UFC Orlando Luiz de Araújo: Núcleo de Estudos Clássicos - UFC Fortaleza Abril de 2009 181 SUMÁRIO 1. Apresentação 2. Justificativa 3. Histórico do Curso 4. Princípios Norteadores 5. Objetivos do Curso 6. Competências e Habilidades a serem Desenvolvidas 7. Perfil do Profissional a ser Formado (Perfil do Egresso) 8. Áreas de Atuação 9. Metodologias de Ensino e de Aprendizagem 10. Organização Curricular 10.1 Estrutura do Currículo 10.2 Unidades Curriculares 10.3 Disciplinas por Departamento 10.4 Ementário das Disciplinas 10.5 Estágio Supervisionado 10.6 Trabalho de Conclusão de Curso ou Monografia 10.7Atividades Complementares 11. Integralização Curricular 12. Acompanhamento e Avaliação 12.1. Do Projeto pedagógico 12.2. Dos Processos de Ensino e de Aprendizagem 13. Condições Atuais de Oferta do Curso 14. Acompanhamento e Avaliação do Projeto Pedagógico 15. Projeto de Melhoria das Condições de Oferta do Curso 182 1. Apresentação A arte cênica é um conhecimento universal: em seu centro, a figura humana e suas tramas, seu movimento e gestualidade, no mundo ficcional da arte, adquire sentido diverso do mundo real. Quando cumpre seu papel histórico, a arte atinge não apenas o ser humano individualmente, mas transforma as formas de existência humana partilhadas, modificando suas visões de realidades e configurando devires. Construindo configurações críticas e criativas sobre as realidades dos contextos culturais de onde emergem, as artes cênicas produzem elementos capazes de alimentar os ideais formativos das gerações e seus horizontes utópicos. Composta de formas significantes da experiência humana, a arte realiza a crítica do existente, em seu solo de utopias em gestação e torna visível e possível de ser reflexionado o que, nas culturas humanas, pode ser recriado com tradição e preservação da memória coletiva. As artes cênicas trazem, dessa forma, o sentimento cristalizado e o imaginário das culturas nas formas significantes do movimento e dos gestos, ínsito nas situações de representação organizadas, tendo como fulgor fundamental o corpo vivo do ator dançarino em presença, em um construto complexo que se nomeia de encenação. Organicamente ligados, os sonhos e o mundo vivido em interação apontam para uma das tarefas fundamentais da condição humana: o vínculo com o existente e, ao mesmo tempo, o inexpugnável compromisso com sua transcendência. Os núcleos da vida e sonho das culturas, ao se expressarem em obras, nas situações de representação organizadas (espetaculares) acumulam séculos de saber em sua materialidade significante. Tradições e movimentos no tecido das culturas alimentam, assim, a pulsação de vida nos celeiros das artes cênicas e compõem um conjunto complexo de conhecimentos que foram criados por todo o corpo social e que se devem vincular ao contexto formador das gerações. Dessa forma, onde o cotidiano se converte em história e cena ancestral das culturas, mistura memória e criação em diálogo permanente. Como pensar educação alijando a necessidade desse saber sistematizado vincularse à formação humana e social do fazer universidade? Por que não seria a universidade lugar de fomento e também de gestão da sistematização permanente do corpo de saberes que envolve as artes cênicas como agência formadora de gerações? É dentro desse sentido de necessidade e de presteza que nos obriga a reflexão histórica sobre as Artes Cênicas no Ceará e no contexto da reflexão sobre a função formadora e educacional da universidade, que nos deteremos na possibilidade de formação do profissional em Artes Cênicas - área de concentração Teatro (licenciatura). 183 A tentativa de adequar as afirmações normativas como afirmações científicas e de afirmar a neutralidade da ciência, tentando pôr as afirmações científicas como afirmações normativas, ter feito a razão falar a língua da ciência e, esta, a do poder do capitalismo nos moldes que temos visto. Alçado a paradigma, o pilar da regulação tem excluído o da emancipação e, dessa forma, a dimensão estético-expressiva, que traz a pergunta pelas utopias e pela solidariedade entre os membros das culturas humanas. É que o pensamento crítico e utópico da arte, ao desocultar os dilemas políticos e humanos e os modos de desenvolvimento contraditórios que vicejam no corpo social, põe em questão a promessa de progresso feita pela modernidade e refaz a pergunta pela justiça e autonomia, solidariedade e liberdade, humanidade e igualdade. Resulta, também, por questionar a racionalidade cognitivo-instrumental da ciência e da tecnologia, como também a ausência de uma racionalidade ética - espiritual como dimensões fundamentais do humano e da vida social. Uma espécie de tentativa de tornar científica a práxis social das gentes se fez, às expensas de se tomar a ciência do ponto de vista do projeto acumulador e regulador da sociedade capitalista. A razão instrumental, assim ao tentar erigir-se como única forma de conhecimento legítimo, dominante no império do positivismo e do experimentalismo em ciências, se arvorou como excludente de outras formas de conhecer, como a arte. Operando com o real sem perguntar pelas finalidades e pela justiça social, a razão instrumental ergueu-se como braço para domínio. Atrelada unicamente às estruturas de produção que tentam perpetuar o idêntico, dessa forma negando a função crítica da ciência enquanto ultrapassagem do existente que mantém a forma de sociabilidade excludente que vige, faz-se mister retomar a pergunta pela arte como lugar de construção de uma razão emancipadora. O corpo do ator-dançarino tem sido transformado em objeto midiático, acrítico, em uma deturpação das formas pujantes das culturas que passam a serem silenciadas, calando-se, em muito, as vozes plurais da rica estética popular e a resistência feita pela crítica da cultura. Pasolini chega a dizer que as esferas do consumo têm alcançado o mundo desejante dos sujeitos e que está ocorrendo como que uma mutação na alma humana, a partir dessa devastadora hipertrofia do ter. – Como não se erguer buscar a resistência a este processo de reprodução e domínio que se dá no âmago mesmo das subjetividades e que se (re)produz como linha de montagem e estetização da vida e do cotidiano? Rever os processos de desumanização que expulsam a ética e outras dimensões do ser, como a arte, do corpo dos conhecimentos válidos socialmente, será negar essa produção do idêntico e a função redutoramente reguladora do Estado, que se faz de modo vertiginoso, na conformação do 184 processo acumulador de riquezas que o capital mundializado quer manter como paradigma. Desfamiliarizando esse bloqueio das dimensões de humanização das culturas, a arte situa a necessidade de uma transição paradigmática ser feita a braços com um retomar da razão emancipadora. Como deixar que a mídia, com seu vínculo interessado junto aos mecanismos reprodutivos de acumulação do capital mundializado, colonize e evite de um modo impensável até há bem pouco tempo, as regiões do sentir e suas formas significantes, expressas nas obras de artes cênicas? Como permitir essa serialização das subjetividades, sem tentar articular a resistência a essa produção maquínica, organizando e propondo uma crítica da cultura como tarefa educacional? A produção de sentido para a vida é fruto do trabalho entre o que é sentido (vivido) e simbolizado (refletido por meio de linguagens) – é o resultado da interação entre a experiência e os símbolos. E é esse processo de elaboração de sentidos e de crítica da cultura que foi esquecido nas formas reprodutoras e acríticas de se pensar educação. A ação educativa, portanto, envolve uma dimensão subjetiva inequívoca, que ao longo da história da educação ressentiu-se de considerações que lhes suprimiram seus componentes artísticos. Quando se passou a compreender o mundo (de um modo dominante) em sua existência materializada, em uma reação ao dogmatismo medieval, a vara curvou-se para o outro lado e a razão instrumental e passou a assumir um caráter de absoluta manipulação e, mesmo, degradação da natureza e do humano, reduzindo-se educação a essa sujeição à imediatez do dado como ordem social: ao mercado. A superação desse vinculo do ter, em educação, não se faz de modo espontaneísta. É necessário que as dimensões mutiladas, como a artística, sejam trabalhadas na construção de um sujeito mais inteiro e que se possa fazer com a arte a crítica da cultura, mantendo os espaços possíveis da esperança utópica como tocha que ilumina o trabalho de reconstrução da humanização. Na verdade, a arte historicamente sempre, em alguma medida, manteve-se como antena utópica do tempo. Desafiando os processos culturais de reprodução da mesmice e da injustiça social, sabe-se hoje, inclusive, que o âmbito cultural não flutua livremente e que há uma unidade entre o cultural e as esferas de produção, antes chamadas de infra-estrutura. E é por saber que a cultura tem fraquezas que são invadidas pela ideologia (WILLIS; 1991 EAGLETON; 1993; AMESON;1996,1995 GIROUX; 1986; ENGUITA, 1989; HAUSER, 1998), mas possui potenciais imensos de resistência, que nos propomos a tratar não como um epifenômeno, essa apropriação transformadora da realidade feita pela via artística, mas considerar, por exemplo, as Artes Cênicas um solo fértil do dizer crítico e criativo das culturas, no contexto do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará. 185 A arte, se tem parte com o instituído, é prenhe de material instituinte; no entanto, os saberes e suas memórias necessitam de um movimento formador para os acolher, de modo a se tornarem críticos e criativos, tornando-se base da sistematização de sua geração em educação. Ao dar corpo ao movimento de sistematização do saber, acumulação pelo corpo social, a arte necessita constituir-se patrimônio a ser trabalhado pelo conhecer em universidade. A formação em Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura -, pois, é urgente: O Instituto de Cultura e Arte não pode deixar de caminhar no sentido de cumprir o que é proposto pela LDB – o tratamento aos particulares da arte como modalidade de conhecimento que tem sua especificidade. Praticamente a maior parte da reflexão educacional do nosso tempo e, também, a reflexão sobre a arte na modalidade (MAE:1985; KOUDELA: 1991; ROCHLITZ: 2003 OSTROWER: 1990,1991; ARNHEIM; LANGER: 1980,1991 GARDNER: 1994,1996,1997; SHAFER: 1989) reconhece que o conhecimento de cada linguagem artística possui seu caráter específico: por isso o assim foi posto nos parâmetros curriculares nacionais e é evidente que se deve caminhar para cumpri-los. Assim é que o curso de Arte Cênicas, que neste momento histórico principia com a área de concentração que é o Teatro, deve ser contemplado na Universidade, partindo-se do patrimônio material e cultural construído pelo Curso de Arte Dramática (CAD) da UFC: não se visa a extingui-lo, mas se implantar uma Licenciatura em Teatro no período diurno. Por sua vez, a modalidade de estudos proposta pelo CAD, será mantida e ampliada, no período noturno, em seu caráter de extensão, uma vez que temos estudos e uma história nesse sentido, que mostram a função social dessa modalidade de curso. Dessa forma, revigora-se um patrimônio, visando alcançar uma totalidade da formação que deve ser contemplada pelo Instituto de Cultura e Arte. Após décadas de lutas se conseguiu materializar nos parâmetros curriculares da LDB a inserção da arte como um campo do conhecimento, como as ciências, em uma superação do “backtobasic” americano (“a volta ao básico” era uma regressão no pensamento educacional americano, vinda com o fechamento que se deu após a derrocada com o Vietnã, que expulsava a arte do ensino escolar e se impôs desde a década de sessenta, influenciando nosso país). Desvendadas estas questões, que adquiriram importância e tiveram mais visibilidade a partir das pesquisas acadêmicas de Ana Mae Barbosa, os artistas que são educadores desobscureceram a necessidade da vigência, no currículo do ensino fundamental e médio da idéia das principais modalidades de arte serem contempladas como conhecimento legítimo. Deixava-se de lado a visão instrumental e redutora que colocava a arte na escola como “técnica, sempre a serviço de uma outra área de estudos (exemplo: o teatro era visto apenas como “veículo” para fixar os 186 conhecimentos de matérias como historia etc.), sem o valor que é sabido possuir como uma forma específica de conhecimento, fundamental no processo formador de sujeitos que se educam e estruturante na direção do imaginário das culturas. Admitiu-se também – e para esse desiderato muito contribuíram o avanço do conhecimento e a profundidade das pesquisas na área – ser necessária uma superação da lei 5692/71 que, sob o nome de educação artística, reproduzia de modo mais ou menos mecânico – conforme os estudos dos pesquisadores configuram hoje: sem contextualização teóricoprática – técnicas e atividades, em uma mistura aligeirada, pulverizando o conhecimento particular de cada modalidade artística e seu necessário domínio para o trabalho com a arte em educação. Os novos parâmetros curriculares refletem décadas de história sobre a relação entre a arte e a educação, seu sentido e função sociais, sua potência para amalgamar as solidariedades complexas e a formação de uma verdadeira liberdade política da humanidade. A nossa tradição cultural acumulada, presente no Curso de Arte Dramática da UFC, berço da vida teatral, em particular, do nosso Estado, unida à função social da Universidade, também, torna uma obrigação nossa a implantação do Curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro, modalidade licenciatura. O fenômeno teatral, portanto, esse construto semiológico que torna íntima a mistura entre dança, música, mímica, circo, texto, canto e gesto, é âmbito das artes sobre o qual nos debruçamos no presente projeto, que visa a implantação de um Curso de Artes Cênicas, área de concentração Teatro – modalidade licenciatura - curso que se propõe funcionar vinculado ao Instituo de Cultura e Arte. 2. Justificativa A intensidade dramática da vida das culturas, que abarca, em extremos, o trágico e o espectro das celebrações, bem como a crítica do cotidiano tem nas artes cênicas sua inscrição semiótica fundamental. Nas situações de representação organizada, em que se pode mirar o fenômeno cênico em sua complexidade, pode-se compreender o imaginário do que a cultura expõe e a sua crítica rejeita. Entendendo cultura também com o conceito gramsciano de modelo de direção agregado do social, podemos dizer que a dimensão dramática, que se explicita nas Artes Cênicas, observa o que nas culturas solapa o instituído e realiza, com suas formas imaginantes, a demolição do que já não cabe como vida na experiência coletiva. Os modos dissolventes que se refratam nas formas das artes cênicas irrompem como utopia social e desejo de demolição 187 do que é tirano e obsoleto. Instaura-se a ascensão do novo e o tensionamento do que no tecido da cultura é contraditório. O movimento que construiu a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira já percebe e preceitua as Artes Cênicas como uma forma de conhecimento que deve ser parte de todo processo formador, em toda a rede pública nacional. Como descumprir o que orienta o texto maior que rege a formação humana em termos de escolarização, no Brasil? Como deixar uma Universidade à margem dessa esfera de conhecimento que necessita de uma agência formadora para sistematizá-lo como saber profissional? Como situá-lo com a dignidade e a profundidade teórico-prática que merece no contexto da formação universitária, que tem a função precípua de sistematizar e socializar o conjunto dos saberes socialmente válidos? Dando consciência às vozes plurais que tentam expressar o que seria o amor, ao nível de toda sociedade, as artes cênicas, mesmo desvelando o que ficou como (des)natureza no humano, aponta em educação para a construção de um sujeito em retomada da sua inteireza, que tenta refazer, a cada momento histórico, a herança das experiências humanizadoras acumuladas pelas culturas. Aceitemos o desafio: implantemos o Curso de Arte Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura – no contexto do Instituto de Cultura e Arte, no seio de uma visão omnilateral, que comporte uma nova concepção dos sujeitos humanos, capaz de ver a dimensão artística como fundamental na educação das gerações e no fazer universidade. Uma visão consentânea com os Parâmetros Curriculares Nacionais, que hoje exige que se trate a especificidade de cada modalidade de arte como forma do conhecimento, superando a aligeirada colagem de técnicas e atividades multifacetadas, sem o rigor que as artes exigem como linguagem. 3. Histórico do Curso de Arte Dramática da UFC 3.1 Da Função Social do Teatro Universitário Situarmos o fenômeno teatral e sua função social junto ao contexto do Teatro Universitário da UFC é colocarmos a função da arte como transformação e crítica social no contexto das múltiplas e complexas relações que estabelece com o fazer teatral. Os processos históricos estabelecidos pelo Teatro Universitário da UFC reencenam a própria função da universidade, enquanto alimento de crítica social e reflexão capaz de impulsionar as coletividades a reverem permanentemente seus sentimentos de pertencimento à suas matrizes culturais e, também, laborar a ação de responsabilizar-se por transformar as conjunturas que causam o desamor, a desagregação humana e a espoliação das classes populares. Trazendo à tona o modo de funcionar dos espaços internos das pessoas e elaborando a subjetividade humana em seu processo de 188 desenvolvimento humano e, também reflexionando sobre o percurso de busca das culturas em seu anseio de amalgamar o coletivo das gentes e diferençarse em suas singularidades, o Curso de Arte Dramática da UFC criticizou momentos, antecipou devires, procedeu ao diálogo constante com as matrizes de nossa cultura, acompanhando o próprio movimento da cidade enquanto experiência coletiva. Tecendo suas falas e gestos em meio à hibridez dos cruzamentos culturais que fazem as cidades, o Curso de Arte Dramática da UFC, com seu Teatro Universitário, ao longo dos anos furdiu uma relação co-evolutiva entre o fenômeno teatral cearense que aqui se dizia e o ambiente da cidade. Sabemos que as subjetividades não se formam à parte das práticas sociais. Região do ser que responde a uma articulação polifônica de forças vivas, em dado concerto, a subjetividade está em reorganização constante e se recoloca no interior das práticas sociais onde viceja. Elas inauguram ou reafirmam suas interpretações do mundo no seio mesmo das tramas da história social das quais emergem. Assim é que as singularidades das pessoas e das artes espelha e refrata, nas produções artísticas como ensaios de subjetividades, essa ordem de forças que às vezes se faz invisível nas linhas de ações vivas do mundo. Para pensarmos o humano devemos situá-lo em seus contextos sóciopolíticos. Isso significa que a história das mentalidades, a nossa história social, constitui e é construída pela cena teatral cearense, que o Teatro Universitário expôs e recriou, ao fazer os universos da arte. Contar a história das gentes de modo não linear e não hierárquico envolve buscar formas de existir pessoais e coletivas que foram postas à margem ou interditas: ao teatro coube retomar estes extratos da experiência humana em suas riquezas como diferença e possibilidade e, com eles fazer o devir humano dialogar. É que o teatro, enquanto fenômeno social que lida com os padrões do sentir da experiência humana, está permeado de valores diversos e linguagens várias que se orquestram para produzir o fenômeno múltiplo da narratividade em situações de representação organizada. Sediou e alimentou o Museu Cearense de Teatro, criado e dirigido por Ricardo Guilherme, o Teatro Universitário tem dado às artes cênicas sua função observadora e analítica como crítica da cultura. Alcançando o altiplano de suas dimensões nacionais, o teatro românico de José de Alencar; o do poeta cearense Juvenal Galeno, com sua comédia “Quem com ferro fere será Ferido”, as obras teatrais “A Bailarina”, “O Casamento da Peraldiana”, “O Zé Fidélis”, “A Alvorada” e “O Calu”, entre tantas do grande dramaturgo cearense Carlos Câmara, as de Eduardo Campos, com “Morro do Ouro”, etc.,´Pápi Júnior, com “O Corisco”. A significativa experiementação com a dramaturgia de Nelson Rodrigues, através das montagens: Senhora dos Afogados, Viúva Porém Honesta, A Serpente e Vestido de Noiva, Ricardo Guilherme com @, e mais recentemente Curral 189 Grande, de Marcos Barbosa, cuja montagem teve uma expressiva recepção ao abordar os campos de concentração construídos em Fortaleza, durante a seca de 1932. Dentre outras obras, entre tantos outros expoentes da nossa teatralidade, constituíram o solo fundante e mantenedor da estética local que no Teatro Universitário encontrou franco vigor e expansão. Proporcionando e fomentando a formação e a oportunidade de encenação e expressividade a várias gerações de artistas cênicos e pesquisadores do fenômeno teatral – como Emiliano Queirós, Marcelo Costa, Ricardo Guilherme, Gracinha e Edilson Soares, Cristiano Câmara, Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez), Oswald Barroso, Ilclemar Nunes, Marcos Miranda, Aroldo e Hiramiza Serra, Orlando Leite, Moreira Campos, Aderbal Junior, Lourdinha Falcão, Agenor Vieira, Silvano Serra, Glória Fiterman, Newton Gonçalves, Letícia Câmara, Zilda Sepúlveda, Atháde Cavalcante, Aristófanes Bezerra, Eurico Pinto, B. de Paiva, Gérson Faria, Pápi Júnior, Marialice de Almeida, Vicente Gondim, Carlos Severo, Pedro Domingues, João Andrade Joca, karloKardozo, Eugênia Siebra, Suzi Élida, Tutti Gonçalves, Carri Costa, Adauto Fernandes, o Grupo de poetas Siriará, apenas para mencionar alguns, já que são inúmeros os expoentes que deram vida ao fazer teatral local, o que seria impraticável arrolar, dada a extensão de sua importância e abrangência de suas ações. O Teatro Universitário esteve junto de todo esse percurso de construção da dramaturgia e da cena teatral cearense. Sendo parte do Patrimônio cultural da cidade de Fortaleza e do Estado do Ceará, âmbito do fenômeno teatral, uma vez que com a capital dialogam ou acorrem as manifestações culturais de todo o estado, em seus diversos matrizes, o Teatro Universitário e o Curso de Arte Dramática que nele se inscreve já se tornaram emblemáticos dos processos de recepção e produção em teatro. Ao pensar no aspecto formador em artes cênicas, o Curso de Arte Dramática da UFC, vinculado ao espaço físico e ao fazer teatral da história do Teatro Universitário, teve seu papel constante e ímpar junto a todas as gerações de atores e atuantes nos vários âmbitos do fenômeno teatral desde Instituído pelo reitor fundador Antônio Martins Filho, em fevereiro de 1961, o Curso de Arte Dramática da UFC foi subordinado à faculdade de Arquitetura, ao final dos anos sessenta e, depois, inserido o universo da Extensão. Atendendo historicamente à necessidade de uma formação cultural e artística no âmbito do Ensino Médio, como também, precipuamente, capacitando e pesquisando visualidades, gestualidades e expressividade na área, o Curso de Arte Dramática da UFC agora se faz maduro, pensa-se como extensão e requer a qualidade e atenção da formação profissional em teatro no universo atendido pelas organizações de ensino superior. O Instituto de Cultura e Arte ao acolher essa demanda, a situa como compromisso histórico que sedimenta as Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura -, como ensino do terceiro grau, aproveitando as conquistas 190 acumuladas com o curso de extensão (CAD), e as colocando em um contexto de integralização curricular. Se as rupturas e ultrapassagens da arte contemporânea resultaram por interrogar permanentemente as formas e funções do ato encenador e da comunidade do corpo-pensamento do ator, centro do fenômeno teatral, em suas conexões com a educação, é certo, contudo, que não se pode desconhecer a potência da arte no processo formador das gerações. O Curso de Arte Dramática, assumindo e tomando a si uma tarefa que não era feita, de modo sistemático, por outras agências formadoras, conseguiu manter e aprofundar experimentações e estudos na prática formadora em artes cênicas que levou a efeito desde sua construção. Agora, a nova Lei de Diretriz da Educação Nacional (LDB), de 9.394/99 orienta as instituições de nível superior para a criação de cursos que venham a suprir as necessidades formadoras das gerações, em nível de graduação e de pós-graduação. O patrimônio físico e cultural do Teatro Universitário é emblemático da construção social vivida no contexto do fazer universitário e que nos desafia agora a ampliar sua capacidade formadora mediante a efetivação do Curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura. O Teatro Universitário Pascoal Carlos Magno, chamado com simplicidade pela população fortalezense de Teatro Universitário – para compreender como ele é emblemático do desafio que agora nos impulsiona na direção do terceiro grau junto ao Instituo de Cultura e Arte da UFC. Vejamos como sua história representa as acumulações e demandas em arte suscitadas pelo fazer universitário e, como este acúmulo de saberes é impulso de crescimento, no sentido da universidade continuar sua tarefa de formação educacional, aproveitando legados da história. No local onde hoje está o Teatro Universitário Pascoal Carlos Magno, o Curso de Arte Dramática da UFC e o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno existia na década de 1930 e até 1963 uma escola particular – o Educandário Santa Maria, depois Ginásio Santa Maria, colégio dirigido por Laís Ferreira Lima e suas irmãs, também professoras. Nas dependências da escola, surgiu uma casa de espetáculo que passou a ser chamada de Teatro Santa Maria. A primeira referência de que se tem notícia na imprensa acerca de apresentações no Teatro Santa Maria é de 17 de janeiro de 1937, com a peça O Paraíso, de Carlos Câmara. Neste teatro que se fez denominar Teatro Santa Maria, durante quase trinta anos, se apresentou peças dramáticas em datas festivas, com as alunas do Ginásio Santa Maria e, também, com atores de Fortaleza, em temporadas às famílias do então bairro residencial Benfica. No repertório, de cunho ético com tentativa de acento educacional marcado e peças de caráter religioso, sobretudo na tradicional encenação da Semana Santa, a peça sacraO Mártir do Gólgota.A própria denominação do Teatro, homenagem à mãe de Jesus, 191 reflete a formação religiosa católica que as diretoras, as irmãs Ferreira lima, imprimiam à diretriz artística. Os critérios da seleção dos repertórios das temporadas teatrais e dos folguedos populares que ocuparam a pauta do Teatro Santa Maria, nas décadas de 30 a 50, portanto, vinham de uma tradição educacional, que trazia as marcas da matriz religiosa do ensino, nos contexto de um escolanovismo nascente. Em 1954, a Universidade do Ceará (que depois se transformaria em Universidade Federal do Ceará) principiou a demarcação de seu espaço local, na gestão do professor Martins Filho, seu primeiro Reitor. O Magnífico Reitor que assumira a Universidade decidiu, então, comprar não apenas a casa em que instalaria a Reitoria (antiga chácara da família do banqueiro João Gentil), mas também outras residências ao derredor, que foram configurando o campus de estudos universitários. O Benfica começava, assim, a partir do início de 1950, a se constituir não mais como um bairro residencial, apena, mas sua vida social e comunitária passou a compor a ebulição e efervescência cultural de um campus universitário. A principal rua do bairro, que da Avenida 13 de Maio até a Avenida Duque Caxias se chamava Visconde de Cauípe, passou a se denominar, durante os anos 60, Avenida da Universidade, em um emblemático processo que tipificava a transformação urbana local, já que muitos imóveis se transmudavam em espaço e prédios públicos, vinculados ao patrimônio da UFC que se erguia. Em fins dos anos 50, impressionado com as atividades artísticas que testemunhara em viagem aos Estados Unidos e fornecendo espaço ao clamor social que se erigia no campus nascente, Martins Filho cria espaços e atividades de arte. Inaugura nas dependências da Reitoria, em 1959 a Concha Acústica e em 1960 cria o Curso de Arte Dramática. Por sugestão de Edmundo Moniz, então diretor do Serviço Nacional do Teatro (órgão federal sediado no Rio de Janeiro), Martins Filho convida, para organizar e dirigir o Curso de Arte Dramática (CAD), o teatrólogo José Maria B. de Paiva, cearense que desde 1954 se radicara no Rio de Janeiro, onde integrara a equipe do Teatro Duse, sob a liderança de Paschoal Carlos Magno. O Curso de Arte Dramática (CAD) abriu seu primeiro processo de seleção em janeiro de 1960 e a princípio funcionava no Teatro José de Alencar. Em agosto de 1960, é instalado em uma casa situada à rua Guilherme Rocha, 946 nas proximidades da praça em que se situa o Liceu do Ceará, no bairro Jacarecanga. Na sede provisória de Jacarecanga, em uma tablado improvisado, ministram aulas B. de Paiva (Interpretação), Tereza Bittencourt (Expressão Corporal) e J. Figueiredo (Cenografia). Da primeira turma fazem parte Edílson Soares, Ilclemar Nunes, Gracinha Figueiredo (depois Gracinha Soares) e Emiliano Queiroz, dentre outros. 192 O cinqüentenário de fundação do Teatro José de Alencar aconteceu em junho de 1969 e o Curso de Arte Dramática, na programação comemorativa deste marco artístico da cidade, apresentou sua primeira montagem: O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Em fevereiro de 1961, por uma resolução do Conselho Universitário da UFC, o Curso de Arte Dramática é formalmente criado. Para sediar o Curso de Arte Dramática o Reitor Martins Filho comprou em 1963 o espaço que abrigava o então Ginásio Santa Maria. Começaram, assim, em julho de 1964, as reformas, com projeto arquitetônico de autoria de Liberal de Castro e Neudson Braga. Na concepção técnica, sob a coordenação de B. de Paiva, colaboram o cenotécnico Hélder Ramos e o técnico de luz Lamartine. As máscaras da Tragédia e da Comédia que decoram a sala de espetáculo são trabalhos de J. Figueiredo e Breno Felício. É, assim, uma vez adaptado o antigo Teatro Santa Maria, em atividade desde 1937, se transforma no Teatro Universitário cuja inauguração ocorreu em 26 de junho de 1965. A primeira peça apresentada foi O Demônio Famíliar, de José de Alencar, sob a direção de B. de Paiva, tendo no elenco alunos e atores convidados Depois de Demônio Familiar, de José de Alencar, em 1965, vieram inúmeras temporadas de peças teatrais, cujas montagens se faziam sobretudo em épocas de conclusão de curso (pelos concludentes de Curso de Arte Dramática, que prosseguia) e, também, por grupos da cidade que, motivados essencialmente pelo revolucionário posicionamento expressivo-estético e pela resistência político-cultural das décadas de 60 e 70, ficaram em cartaz no Teatro Universitário. Em 29 de agosto de 1980, após uma reforma que ampliou o palco e aperfeiçoou o sistema de refrigeração, o Teatro Universitário adotou o nome de Teatro Pascoal Carlos Magno. Outra reforma significava que se faz mister anotar é a de 2001, que eleva e dá inclinação à platéia, objetivando uma melhor visibilidade do que acontece no palco de feição arquitetônica nos moldes italiano. Também por esta ocasião a praça fronteiriça ao Teatro foi transformada, para instalar o chamado Teatro ao Ar Livre Gracinha Soares. Em 2006, durante a gestão de coordenação do Professor Gil Brandão, há uma nova intervenção arquitetônica, discutida com os segmentos que compunham o Curso de Arte Dramática: ampliou-se mais uma vez o palco e foi realizada a transposição do teatro Gracinha Soares para uma das salas do CAD, fazendo nascer em seu lugar um espaço de circulação e convívio. Hoje, o Curso de Arte Dramática (CAD) prossegue em suas atividades, tendo como espaço fundamental de suas práticas teatrais este teatro de setenta anos que, há quarenta e dois anos é o Teatro Universitário. Responsabilizar-se por este legado histórico do Teatro Pascoal Carlos Magno, comumente chamado Teatro Universitário, significa sedimentar, aprofundar e dar expansão aos estudos teatrais que desde décadas aí se realizam, aproveitando o patrimônio cultural e físico (as dependências do teatro 193 e das salas de aulas e demais espaço que envolvem sua estrutura física) para dar cumprimento à tarefa da Universidade de formar gerações, agora em nível de graduação em Artes Cênicas, área de concentração Teatro – modalidade licenciatura. 4. Princípios Norteadores Duvignaud (1983) sublinha nas Artes Cênicas seu poder de ruptura, de radicalização das condições geradoras do individualismo com caráter anômico. A anomia, essa ausência de uma norma e uma ética que regule o individualismo e a violência com que ele é tentado no capitalismo, como também a insurreição que ela excita, resulta por funcionar como o pathos dramático fundamental na irrupção do novo; o trabalho do sentido que as Artes Cênicas instigam e trazem, repõe a liberdade e analisa contextos, põe crítica e criativamente utopias, funda, pois, a racionalidade dentro dos acúmulos da história e da inteireza do humano. Nos contextos da experiência coletiva, ínsitos nas Artes Cênicas, vicejam movimentos “obscurecidos”, o inconsciente dramático fazendo vir à tona energias profundas que necessitam “fazer experiências com as palavras”, com a mente consciente como se diria na linguagem junguiana. O inconsciente dramático das gentes, fazendo seu passeio na forma da dança, do teatro, do circo, da mímica e do canto, no âmbito dessa junção sígnica que caracteriza o fenômeno teatral, desborda o que vige nas normas coercitivas do capitalismo, acordando sulcos de desejos e infinito e justiça mais profundos. As situações cênicas, no contexto educacional, sementeira da inventividade que nas crises da cultura apontam para o que há de mais vigoroso e inventivo na experiência coletiva, guardam padrões de vida coletiva nas culturas e do sentimento humano em especial. Como alijar esses possíveis da reflexão educacional do fazer universidade? Questionar a lógica da mercadoria e trabalhar na direção de construirmos um sujeito autodiretivo, que reconceitue sua humanidade na síntese do que Walter Benjamin, o frankfurtiano, chamava de “narrativas dos despossuídos”, e do que ficou calado como esperança utópica na história, seria uma das funções das Artes Cênicas – que se faz premente dar voz em uma concepção formadora. Se não vivermos de maneira que a livre auto-realização seja atingida na livre auto-realização de todos, estamos ameaçando a nossa humanidade diz Eagleton (1993) – e as artes cênicas têm essa função de clarificar o que ficou aviltado e obscurecido pelas formas do consumismo, da massificação, da transformação do corpo–mídia em objeto e da ideologização da vida, feitas pelo estágio de acumulação do capital do modo como se tem hoje. Sabemos, outrossim, que o conhecimento possui sua dimensão desiderativa e inteligente. E que ao estudar o mundo, transformando esse 194 olhar em experiências objetivas e formadoras, os sujeitos estruturam também suas realidades subjetivas. Como assevera Pain (1993), “a aprendizagem é um ato de transvazamento de conhecimento, e esse conhecimento é sempre de outro. Não se pode conhecer algo que não seja sabido para outro.” Assim é que a arte nos traz um sujeito que tem sua dimensão desejante, esse lugar de trabalho por excelência, que a arte chama a si. As Artes Cênicas, ao trabalharem os padrões de sentir das culturas, obrigam-nos a considerar um sujeito social de um modo mais inteiro. Atualmente, após excessos de uma visão educacional que via cognição como raciocínio lógico-verbal, extirpando corpo, estética, ética e outras dimensões do humano, já se instaura uma revisão do conceito de cognição e já se propõe a idéia de devolver a multidimensionalidade dos sujeitos que se educam como uma tarefa fundamental da educação. Temos nos tornado objeto de nossa própria civilização e a palavra e a cena ficam sendo esvaziadas de significação, manipuladas pela fragmentação e pelo projeto excludente e acumulador de riquezas do capitalismo. É que em uma época de reprodutibilidade técnica, o condicionamento do pensamento coloniza as dimensões do ser que o poderiam humanizar. Com a forma mais inteira de tomar os sujeitos sociais, as Artes Cênicas nos ajudam a construir uma formação que devolva a inteireza dos sujeitos humanos e sua consciência como ser social e histórico. Tendo por base uma concepção mais totalizadora da razão e que abarque corpo, movimento, música, gesto, cor, luz e cena no trabalho semiótico que se materializa no construto complexo das artes cênicas. O teatro requer um caminho de formação para sistematizar os saberes que a riqueza das culturas produz e decanta. Habermas já nos ensinava, ao analisar as “Cartas sobre a Educação Estética da Humanidade”, de Schiller, que a utopia estética, na verdade, é um revolucionamento das relações de entendimento. Tecendo a gramática das culturas em seus processos de comunicação humana, o teatro ao trazer o pensamento ao corpo e cena com o ator vivo, examina as simbolizações que se está a fazer enquanto coletividade, trazendo universos simbólicos de vida que se põem e se recompõem e que passam a constituir o fenômeno artístico como uma realidade singular e, ao mesmo tempo, como discurso sobre as realidades, em um tecido meta-narrativo que curiosamente faz-se um outro de si mesmo, ao mesmo tempo em que se faz. As Artes Cênicas, no caso especial do Teatro, como vimos, lidam com o sentimento cristalizado e o imaginário das culturas nas formas significantes do movimento e dos gestos, existentes nas situações de representação organizadas, tendo como cena fulgor fundamental o corpo vivo do atordançarino em presença. Em um construto complexo que se nomeia de encenação. 195 Na perspectiva de lidar com este construto complexo que se nomeia de encenação e que envolve o contexto inter-semiótico dos diversos sistemas geradores de signos do fenômeno teatral, é que formar o licenciado em Artes Cênicas – área de concentração Teatro, requer um currículo cujo centro seja a prática teatral, na perspectiva de construção do educador no qual o trabalho do docente (ator e encenador), junto ao seu corpo-voz-pensamento, se expanda em suas múltiplas faces, leituras e atuações. Em vista disso, nosso currículo sublinha um esforço de articular as disciplinas teóricas com pesquisa, de modo que haja sempre um campo da prática teatral que é tocado e investigado, junto à reflexividade teórica necessária. Os avanços nas pesquisas sobre a estética do trabalho docente, sobre saber docente e o fazer universidade nos seus vários âmbitos, têm reconhecido a importância do saber de experiência como estruturante dos saberes de formação. Também muito se tem estudado sobre a importância de sermos pesquisadores de nossa prática pedagógica; sabe-se que o bom profissional, sobretudo dos ensinos nas diversas área é um estudioso que se coloca, na prática, permanentemente problemas de pesquisa. Nessa medida é que os processos formativos na universidade devem se caracterizar por uma experimentação demorada, inserção nas realidades que se estuda, sob um olhar de pesquisador – como organiza Marilena Chauí, na sua conferência da ANPED, sobre a universidade brasileira e a pesquisa hoje. Estes âmbitos de desenvolvimento do fazer universidade nos situam a necessária vinculação do arcabouço teórico (das disciplinas teóricas) com a prática de pesquisa - que se vai, inclusive, adensando, quanto mais o estudante adentra no curso. Formar o licenciado em Artes Cênicas, área de concentração Teatro – modalidade licenciatura, como um profissional para exercer a função de educador e pesquisador exige que situemos uma concepção de saber no patamar das recentes discussões sobre formação de professores nos cursos de licenciatura, realizados na UFC. Neste sentido é que buscamos contemplar os saberes essenciais para a formação docente de acordo com documento da Coordenação das Disciplinas Pedagógicas das licenciaturas - Referenciais para Elaboração dos Projetos Pedagógicos das Licenciaturas, quais sejam: ii) Saber: conhecimento que envolve os seguintes âmbitos dos conteúdos de formação: o específico, o integrador; iii) Saber ser – que exige o currículo, no fazer universidade, pautar-se por princípios éticos (democracia, justiça, diálogo, sensibilidade, solidariedade, respeito à diversidade, compromisso); iv) Saber pensar – que propõe a contextualização, a problematização, a crítica, o questionamento e a reflexão permanente sobre a prática ou as realidades que se está a estudar; 196 v) Saber intervir: requer que o currículo seja a organização de experiências onde se pensa transformando a própria prática, propondo soluções, atuando crítica e criativamente. 5. Objetivos do curso 5.1 Objetivo geral • Formar o licenciado em Artes Cênicas, área de concentração Teatro, modalidade licenciatura, como um profissional preparado para exercer, sobretudo, a função de educador em Arte cênica, categoria Teatro. 5.2 Específicos • • • • • • Oferecer formação artística e educacional em Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura – como modo de implementar o desenvolvimento da atuação do fenômeno teatral nos contextos sócio-ambientais das populações, realizando e expandindo novas linguagens e metodologias, equipamentos, procedimentos teóricopráticos e didáticos nas artes cênicas e correlatas. Contribuir como agência formadora universitária para o desenvolvimento dos estudos e práticas que envolvem o fenômeno teatral, intervindo na evolução artística, cultural, social, econômica e política do país, de modo a realizar a idéia de que todo paradigma científico e artístico deva ser também paradigma social e humano. Construir o fazer universidade no âmbito da pesquisa, ensino e extensão, no contexto formador do Curso de Graduação em Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura – visa à também formar o licenciado em artes cênicas como profissional que se apropria dos repertórios das linguagens teatrais, como dos diversos sistemas geradores de signos do fenômeno teatral. Criar um centro gerador de estudos e pesquisas transdisciplinares sobre as situações de representação organizadas, tendo como núcleo o trabalho do ator e os fenômenos educativos que envolvem a teatralidade como fenômeno artístico e cultural. Estimular pesquisas e ações educacionais e culturais que envolvem processos de criação artística no âmbito das Artes Cênicas, em especial fomentando o estudo dialógico do conjunto cênico, em “visão orquestral”, inserida em um contexto poético e estético. Formar os educadores que atuarão com Teatro na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e Médio da rede de escolas públicas, em especial, uma vez que atualmente os Parâmetros Curriculares Nacionais orientam 197 que as Artes Cênicas – área de concentração Teatro - é uma área do conhecimento fundante do ensino fundamental e médio, o que para efetivar-se necessita pessoal qualificado nesta especificidade artística 6. Competências e habilidades a serem desenvolvidas Conhecimento teórico-prático das técnicas, métodos do fazer teatral, como modo de atuar criticamente junto às realidades sociais e educacionais, em uma perspectiva transformadora dos quadros de opressão social, propiciando o estudo e o domínio de práticas capazes de problematizar, preservando e (re)criando as tradições culturais brasileiras, no contexto dialógico das culturas. Desenvolver a expressividade e a consciência artística, no campo contextual da cultura brasileira, a partir de elementos teórico-práticos, no campo inter-semiótico das realidades do fenômeno teatral, de modo a realizar leituras críticas e criativas das configurações do imaginário brasileiro mediatizadas pelo fazer em Teatro. Nessa perspectiva, então, preparar o profissional pedagogo que atuará no âmbito das Artes Cênicas – modalidade teatro, para assumir as tarefas da arte-educação nas situações formadoras diversas, vinculadas ao fenômeno educacional, em particular na escola pública. Possuirá, portanto, o licenciado em Artes Cênicas – modalidade teatro, conhecimentos teórico-práticos do fenômeno teatral, no âmbito de sua recepção e de sua produção, como também de sua socialização, o que inclui o domínio de métodos e técnicas do trabalho do ator e do encenador, junto ao seu corpo- voz- pensamento em suas múltiplas faces e atuações. Aliada as estas competências estará uma gama de conhecimentos sobre o fenômeno educativo, conhecimentos esses que serão construídos ao longo do curso através de leituras, reflexões e especialmente através da inserção do estudante no espaço escolar por via do estágio supervisionado. 7. Perfil do Profissional a ser formado: Licenciado em Artes Cênicas – área de concentração - teatro O Licenciado em Artes Cênicas – área de concentração Teatro -, é o profissional educador que compreende e atua junto ao teatro, em situações de representação organizada, lidando com o contexto inter-semiótico dos diversos sistemas geradores de signos do fenômeno teatral, especialmente no espaço escolar. É profissional preparado para atuar como educador, pesquisador e profissional em Artes Cênicas, nos diversos campos da realidade sóciocultural e educacional do país. Poderá atuar também como professor universitário nesta área e em áreas correlatas. 198 O aluno egresso do Curso de Licenciatura em Artes Cênicas – área de concentração Teatro, da Universidade Federal do Ceará, deverá ser capaz de trabalhar a própria expressividade da prática teatral, em suas múltiplas faces e deverá articular este fazer como ensino nas coletividades como as escolas públicas e os movimentos sociais. A inserção na educação como pedagogo da arte teatral poderá se dar na educação infantil, juvenil e adulta, em situações de ensino formais, como nos contextos de escolarização básico ou ensino médio e nas situações menos estruturadas onde o teatro viceja. A Prática Teatral – deve ser o centro irradiador da formação do educador que trata deste contexto intersemiótico que é o fenômeno teatral. Ao ingressar no Curso de Licenciatura em Artes Cênicas – área de concentração Teatro, da Universidade Federal do Ceará, o estudante, pois, encontrará a possibilidade de compreender as várias interfaces do fenômeno teatral, o que será importante para ele tanto como profissional criador e atuante junto às coletividades quando como educador no exercício da docência. Supera-se, com o curso de Artes Cênicas – modalidade Teatro, a atuação do pedagogo em teatro (arte-educador) que se restringia ao empiricismo da atividade artística, vivida com acento instrumental redutor, aligeirando-se os vários âmbitos das linguagens artísticas e diluindo suas especificidades como linguagens – que colocava a arte na escola como “técnica”, sempre a serviço de uma outra área de estudos (exemplo: o teatro era apenas como “veículo” para fixar os conhecimentos de matérias como história etc.), sem o valor que é sabido possuir como uma forma específica de conhecimento, fundamental no processo formador de sujeitos que se educam e estruturante na direção do imaginário das culturas. 8. Áreas de atuação Na perspectiva de formar o licenciado em Artes Cênicas – área de concentração Teatro - como profissional capaz de lidar o contexto intersemiótico dos diversos sistemas geradores de signos do fenômeno teatral é que esta graduação deverá envolver o âmbito da educação, da encenação e da prática teatral, pois, como centro do seu ensino teatral, o que inclui o domínio de métodos e técnicas do trabalho do ator e do encenador, junto ao seu corpo voz-pensamento em suas múltiplas faces e atuações. É mister observar que este profissional a ser formado em Artes Cênicas – área de concentração Teatro – modalidade licenciatura -, deve estar preparado para atuar sobretudo como educador, não impedindo mas complementando sua atuação como ator, encenador e pesquisador em Artes Cênicas, atuando com o fenômeno teatral nos diversos campos da realidade sócio-cultural do país, podendo atuar também como professor universitário nesta área e em áreas correlatas. 199 Em vista dessa amplitude de atuação e pela complexidade do contexto inter-semiótico do fenômeno teatral é que não se pedirá ao candidato ou candidata que se submeta a um exame específico antes do vestibular. Além do aspecto de que o fenômeno teatral é complexo, lida com semioses diversas e possui vários âmbitos de atuação, sabe-se hoje que a ideologia do dom tem sido responsável pelo elitismo e pela exclusão de grandes contingentes de alunos em cursos artísticos, alijando, ainda, expressões novas, que se antecipam no tempo e resultam por criar escolas e correntes na arte que só muito depois são conhecidas. Como se tem estudado, a ideologia do dom é uma derivação ideologizada do inatismo em educação e tem sido responsável pela justificativa do elitismo na arte – em vista de nos posicionarmos pela socialização da arte e por pensarmos o sujeito da educação como um sujeito complexo, multidimensional, que possui a dimensão artística como parte inerente de seu desenvolvimento educacional, como orienta os parâmetros curriculares, atualmente, em nosso país, é que nos posicionamos contra os testes de aptidão que são acrescidos ao vestibular. 9. Metodologias de ensino e aprendizagem Visamos uma experiência transdisciplinar e multirreferenciada, na partilha de processos de formação, pesquisa e criação que envolvem a semiose teatral e sua pedagogia, a partir de núcleos de estudos, pesquisa e extensão, com ênfase no ensino e na Prática Teatral. É, portanto, a partir da ênfase na Prática Teatral, que se expandem núcleos de estudos, pesquisa e extensão, de cunho transdisciplinar e multirreferencial, capazes de lidar com a complexidade da semiose teatral e sua pedagogia. As experiências do ensino das artes no terceiro grau assinalam que o fazer universidade põe o percurso formativo em outro patamar de profundidade, socialização e sistematização do saber em teatro. Inclusive porque junto a aspectos de formação mais sistemáticos, no que concerne ao ensino, se conecta a pesquisa e a extensão. A perspectiva do curso de Artes Cênicas – área de concentração Teatro, modalidade licenciatura, encontra amparo no posicionamento construído no Curso de Arte Dramática, pela socialização da arte – o saber intervir, nessa perspectiva, tomando a dianteira como posição de transformação das estruturas sociais. Romper com a reificação das pessoas e o fetichismo da mercadoria é uma das funções da arte, quando se situa na perspectiva de crítica social e transformação dos processos de aviltamento do trabalho e do humano. A experiência do Curso de Arte Dramática, que se vincula à do Teatro Universitário Pascoal Carlos Magno, com sua inegável história que consubstancia em grande medida o pensamento e a práxis artística da 200 Universidade Federal do Ceará, quando se volta mais estreitamente para as comunidades, agora se exige ser ampliada, tornada visível enquanto saber formativo, por meio do curso de terceiro grau que se deseja implementar. Desenvolvendo capacidades atentas a responder pela formação de significativa parcela de teatrólogos cearenses, que atuam no cenário nacional e local, como também movimentando a cena teatral e suas interfaces com outras linguagens artísticas, o CAD e o Teatro Universitário deram frutos: a eles e medrando em seu seio, é que se gestou a proposta do Curso de Artes Cênicas – Teatro, modalidade licenciatura, que tem como abrigo o Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará. A formação artística e educacional em Artes Cênicas – área de concentração Teatro, por se pensar como licenciatura como modo de implementar o desenvolvimento da atuação do fenômeno teatral nos contextos sócio-ambientais das populações, irá requerer o vigilante cuidado com a prática e a pesquisa, como dissemos, dois veios que se articulam por todo o curso, uma vez que a preparação para a docência em Teatro mantémse sobre a articulação entre prática cotidiana e labor investigativo. Ainda, ao buscar a cena ancestral, o mundo da pesquisa do folclore e da etnocena (as situações de representação organizadas, que evidenciam sua diversidade como cultura) – temos de tentar a abertura para a realização e expansão de novas linguagens e metodologias, equipamentos, procedimentos teórico-práticos e didáticos nas artes cênicas. A partir dos estudos sobre arte e educação, também devido ao avanço das pesquisas na área, pensa-se, pois, em cada modalidade artística como tendo seu valor como conhecimento – o que aumenta a necessidade de uma contextualização teórico-prática, sobretudo no que concerne ao trabalho da arte em educação. Os novos parâmetros curriculares são uma construção de décadas de história sobre a relação entre a arte e a educação, seu sentido e função, sua potência para amalgamar as solidariedades complexas e a formação de uma verdadeira liberdade política da humanidade – daí a urgência do preparo dos que assumirão esta formação na escolarização de crianças, jovens e adultos, em especial na escola pública. É importante assinalar que a formação universitária que se busca contemplar com o desenvolvimento dos estudos e práticas que envolvem o fenômeno teatral, ao intervir na evolução artística, social, econômica e política das culturas, sob uma perspectiva de transformação das estruturas de exclusão social, está a realizar a idéia de que todo paradigma científico e artístico deva ser também um paradigma social e humano. Construir este fazer universidade no âmbito da pesquisa, ensino e extensão, no contexto formador do Curso de Graduação em Artes Cênicas – área de concentração Teatro, modalidade licenciatura -, objetivando também formar o licenciado em artes cênicas como profissional que se apropria dos repertório das linguagens teatrais, como dos diversos sistemas geradores de 201 signos do fenômeno teatral, inclusive sendo também pedagogo na área, é trabalho que nos leva à mutirreferencialidade, nas pesquisas que se desenvolverão desde a graduação, ainda que como exercitação inicial. No Curso de Licenciatura em Teatro, todas as atividades pedagógicas desenvolver-se-ão a partir dos conhecimentos vivenciados na realidade do aluno e por eles trazidos aos espaços de encontros pedagógicos: salas de aula e laboratórios de prática cênica. Como não haverá necessidade de teste de habilidade específica para o ingresso do estudante no curso, o desenvolvimento, ampliação, do “conhecimento cênico”, deverá ser rigoroso, acompanhado por um professor que, ao longo de quatro semestres, conduzirá tal processo respeitando os saberes e experiências que os estudantes trarão para o curso. As reflexões, sistematizações, experiências criativas, aprendizagens e práticas coletivas, assim como a apreensão de conhecimentos filosóficos e científicos – construídos e gestados a partir de aulas, revisões bibliográficas, pesquisa em campo, exercício da sensibilidade criativa, enriquecidos pelos saberes teatrais (eruditos, populares, folclóricos ou religiosos) experienciados nos diversos processos de ensino, nas práticas do Curso e no entorno da Universidade – significarão o desvelar das tramas do espírito criativo-artístico a serviço da artesania da arte cênica. Tudo entendido, compreendido e apreendido como elemento de formação humana. Os Estágios comporão o mais importante movimento de experiência didático-pedagógica e de avaliação dos conhecimentos adquiridos ou construídos no Curso. Este será pois um momento privilegiado, quando os estudantes aprofundarão seus estudos sobre educação, teatro e formação humana a partir de intervenções em Escolas Públicas de Ensino Fundamental e Médio As duzentas horas de atividades de caráter complementar integrarão a formação do artista educador teatral, através de uma diversidade de atividades e ações que o estudante elencará em função dos seus interesses e habilidades, reiterando a compreensão da realidade vivida. Caberá à Universidade estimular e fornecer possibilidades para que tais atividades de caráter complementar representem um real enriquecimento da vida acadêmica dos estudantes, através da promoção de encontros, seminários, simpósios etc. As praticas coletivas (de montagens cênicas e apresentações), para além dos processos de ensino aprendizagem instalados no Curso, serão paradigmáticas nas ações de formação de platéias, que ampliarão as práticas pedagógicas em direção às ações de extensão e pesquisa. 202 10. Organização curricular 10. 1.Estrutura do currículo: fundamentação e sinopse da proposta curricular A compreensão de que o fazer artístico não é algo restrito a pessoas que têm dom e já nascem com ele, nos leva a pensar contextos de formação em que o conhecimento possa medrar a partir de processos formativos, também como compromisso com as coletividades e a transformação das situações que causam o sofrimento pessoal e social. Isso, certamente, não exclui a expansão das singularidades dos sujeitos humanos e do concerto de suas diferenças, nelas deve vicejar o espaço para o fortalecimento das identidades críticas e criativas dos educandos. A estrutura curricular do Curso de Artes Cênicas, Licenciatura em Teatro é composta de 2.176 horas para disciplinas obrigatórias perfazendo um total de 136 créditos obrigatórios. 480 horas serão destinadas para as disciplinas optativas, 30 créditos livres e 200 horas para as atividades de caráter complementar. Nesta estrutura, um crédito equivale a dezesseis horas/aula. As disciplinas optativas podem ser ofertadas dentro da integralização curricular e/ou em módulos. Os módulos funcionarão como disciplinas intensivas, com carga horária distribuída em um período de duas a quatro semanas. No caso dos módulos poderá haver uma reserva de vagas para alunos de outros cursos que queiram cursá-los como atividade complementar e para a comunidade que terá acesso aos mesmos, como atividade de extensão universitária. Além das disciplinas optativas o estudante poderá cursar até 30 créditos livres em qualquer curso da Universidade Federal do Ceará, desde que haja vaga nas disciplinas pleiteadas, ouvidas, neste processo, as coordenações de cursos. A cada semestre será ofertada pelo menos uma disciplina optativa por semestre. É importante salientar que a disciplina optativa intensiva (modular) poderá funcionar como uma via de articulação do curso com a comunidade sempre tão ávida por cursos relativos ao conhecimento em Artes Cênicas. 10.2. O corpo-voz como instrumento essencial de trabalho do professor A prática, focada no corpo-voz do educador em Teatro é o eixo condutor da formação do Licenciado em Educação Cênica. Além das razões históricas aqui, já, apontadas, é importante perceber que o corpo-voz é um instrumento natural e complexo, sendo, portanto, um aspecto do estudante que deverá ser aprimorado ao mesmo tempo em que este desenvolverá suas capacidades de leitura e escrita através dos signos a serem estudados no universo da linguagem teatral. 203 No primeiro semestre, através da disciplina Oficina Básica de Improvisação Teatral, o aluno será estimulado ao exercício prático da cena. Aliaremos a essa disciplina com foco no corpo, a de voz, fundamental para a compreensão do todo do corpo-voz que será dilatado e aprofundado ao longo do curso, visto que em nossa formação teatral no ocidente e no contexto brasileiro corpo e voz caminham juntos, na perspectiva da construção orgânica do educador em Teatro. 10.3. As práticas cênicas como exercício da docência O aluno egresso do Curso deverá ser capaz de trabalhar a expressão cênica através do corpo-voz em contextos de coletividade: salas de aula ou grupos teatrais. Tais grupos poderão ser infantis, juvenis e/ou adultos e, para tanto, a solidificação dos saberes inerentes ao corpo-voz é uma das metas principais da formação do educador. Por se tratar de um curso de formação de professores, o Curso integra, em sua estrutura curricular, disciplinas de fundamentação e aprofundamento sobre as questões educacionais. Para o aluno do curso de licenciatura em Teatro tais matérias serão fundamentais para que este se reconheça e se instrumentalize como um trabalhador da educação e não como um ator que dá aulas. Nesse sentido é fundamental que o estudante se inteire dos debates atuais em torno das questões educacionais do nosso país, contextualizados em ambientes reais de ensino-aprendizagem. Complementando e reforçando a identidade do estudante como um futuro professor de teatro, propomos as disciplinas Pesquisa em Artes Cênicas, além daquelas que estão previstas nos documentos do Ministério da Educação. Mesmo não sendo um ator que dá aulas, mas um professor de teatro formado por uma instituição ciosa da qualidade dos profissionais que forma, ainda az parte da formação desse profissional, disciplinas como, representação para cinema e vídeo. Tais campos de saberes tentarão consolidar os conhecimentos teatrais adquiridos ao longo do curso e, ao mesmo tempo, apontarão para novas possibilidades de intervenção docente, ou, pelo menos, lhes propiciarão uma visão introdutória de questões como as que se relacionam ao caráter transdisciplinar da atividade cênica ou as possibilidades das novas tecnologias para a democratização do conhecimento teatral. Finalmente sendo este um curso de graduação que pode dar estímulo para aqueles que desejam prosseguir com seus estudos na academia, propomos as disciplinas relativas à pesquisa, salientando também que nenhuma prática docente pode acontecer sem que o professor e seus alunos adquiram a postura de investigador. Tal concepção estará presente na 204 disciplina Teoria da Interpretação, a ser realizado na abertura do ano letivo, e será aprofundada nas disciplinas de Projeto de Pesquisa e Introdução à Pesquisa em Teatro, bem como na orientação para os Trabalhos de Conclusão de Curso. Esta proposta tenta contemplar a expectativa de formação de um profissional para o exercício do ensino de teatro que seja detentor de rigoroso cabedal de conhecimentos teatrais que lhe propicie uma atuação crítica e criativa diante de uma sociedade em constante processo de transformação. 10.4. A prática como componente curricular A formação de um educador em teatro, seja este criador-atorperformer, encenador ou professor, não pode prescindir de atividades de caráter prático, nas quais o estudante manipula a matéria cênica. Nestes processos o estudante se familiariza com as relações que os corpo-voz estabelecem entre si, desenvolvendo capacidades de compreensão e expressão cênica. O trabalho prático, consolidado em 1072 (hum mil setenta e duas) horas, estará sempre visando o desenvolvimento de uma metodologia de trabalho didático que o estudante empregará quando do exercício profissional da docência. Nesse sentido uma postura crítica e reflexiva sobre os procedimentos didáticos empregados no curso será o fundamento da ação dos docentes formadores e dos docentes em formação. Tornar-se-ão, pois, caminhos imprescindíveis através dos quais o professor de teatro formado na UFC desenvolverá a criatividade pedagógico-cênica e seu senso profissional baseado nos pressupostos da autonomia e da ação ética e conseqüente. 10.5. Unidades curriculares O Curso que tem na prática cênica seu grande mote de aprendizagem, que tem o corpo-voz humana como escolha e prioridade de ação pedagógica, que encontra no ensino e tem nas opções de estudo (por disciplinas – obrigatórias e optativas –, estágio curricular, trabalho de término de curso e atividades complementares) a organização de seu currículo terá, nas unidades curriculares o encontro com a forma que o personalizará: ser Curso de Educação Teatral para formar artistas educadores cênicos, incentivadores e compartilhadores de uma postura inclusiva, democrática, solidária, crítica, participativa e utópica, porque encara, percebe e compreende o Teatro como uma atividade fundamental para o desenvolvimento do ser humano em todas as suas dimensões Para alcançar seus objetivos e metas, o currículo terá três áreas de estudos, compreendidas aqui como Unidades Curriculares 205 • Unidade Curricular de Teorias e Práticas; • Unidade Curricular de Ações Pedagógicas; • Unidade Curricular de Estudos sobre Educação, Ética e Estética. A Área das Teorias e Práticas abrigará os estudos de Poéticas, Teorias e Práticas de Encenação ( Corpo, Voz , Teorias e Práticas da Cena). A Área das Ações Pedagógicas abrigará os estudos e Práticas Cênicas ligados à expressão corporal e vocal, numa perspectiva da educação em teatro (Estudos do Corpo,Técnica Vocal, Direção Cênica, Indumentárias, etc e todas os daí consequentes estudos e práticas pedagógicas, em especial aqueles legalmente determinados para os cursos de licenciatura). A Área dos Estudos sobre Ética e Estética abrigará os fundamentos éticos, filosóficos, sociológicos, históricos e antropológicos do Teatro para compreender epistemologicamente como o teatro, como criação humana, tem história em todos os tempos e culturas. Estas Áreas, bem definidas, tornarão visível o sentido da unidade curricular, tão necessária à organicidade do Curso, e justificarão as divisões setoriais que integralizarão o Currículo: 1.Setor de Teoria, Poéticas e História do Teatro 2.Setor de Interpretação: Corpo e Voz 3.Setor de Práticas de Encenação: Criação, Montagem, Figurino e Produção 4.Setor de Prática e Ensino, com estudos sobre Educação, Teatro e prática docente. A Matriz Curricular poderá, assim, abranger programas e disciplinas que contemplem as especificidades dos estudos, das práticas, dos ensinos e dos fundamentos do Teatro, sempre na perspectiva de que o Teatro é relevante em todo e qualquer processo, projetos e ações voltados para a formação humana e o Currículo do Curso se configurará sempre no anseio de formar artistas educadores que saberão atuar nesta perspectiva. 10.6. Horário e locais de funcionamento do curso de licenciatura em Artes Cênicas – área de concentração teatro O Curso será implantado no período vespertino, com aulas acontecendo no horário compreendido entre quatorze (14) e dezoito (18) horas, a serem realizadas inicialmente nas próprias dependências do Teatro Universitário (que, pois, será ocupado manhã e tarde com o curso de graduação que pretende-se implantar), depois sendo deslocado para o Instituto de Cultura e Arte. Podendo também dispor de outras dependências do Campus do Benfica, onde se dá a ambiência dos outros cursos de 206 licenciatura, como a Faculdade de Educação, por este espaço dispor de algumas salas particularmente propícias às artes cênicas, e, eventualmente, poderá contar com o auditório, o acervo bibliográfico da Biblioteca do Centro de Humanidades. 10.7. Ementário 10.7.1 Disciplinas Obrigatórias Primeiro Semestre: Técnica Vocal I _ Compreensão da anatomia e fisiologia do aparelho fonador. Atributos e possibilidades da voz. Exercícios de relaxamento,respiração, apoio ( diafragmático, intercostal e torácico ) e impostação ( articulação ) da voz em contextos individuais e coletivos, na perspectiva do educador e ator. Oficina de Improvisação – Predisposição orgânica para o jogo teatral. Aplicação da criatividade de modo espontâneo. Atividades a partir de jogos teatrais. Dinâmicas da cena a partir do improviso. Desenvolvimento de noções de tempo, espaço e ritmo para a criação da cena teatral Preparação Corporal I – Consciência e preparação corporal no trabalho do ator/bailarino. Introdução e discussão de técnicas corporais e sua aplicação nas artes cênicas. Estudo do aparelho locomotor. Pesquisa prática-teórica das qualidades do movimento expressivo e sua elaboração para a cena. Teorias da Interpretação – Tendências. Estudo da Poética de Stanilawsky. O Teatro Épico de Brechet, O Teatro da Crueldade de Artaud. O Teatro ritualístico de Grotowsky. O Teatro Antropológico de Barba. A Performance. História do Teatro e da Literatura Dramática I – Introdução à História do Teatro. Elementos essenciais do Teatro. Início do teatro na Grécia. Os trágicos. As origens da Comédia. Evolução da Comédia, sua estrutura e seus autores. A Poética de Aristóteles. Origens do teatro popular latino. O Drama Litúrgico na Idade Média. A Comédia Dellarte. O Século de Ouro espanhol. A Renascença Italiana. O Teatro Neoclássico Francês. O Teatro Elisabetano. Teorias da Comunicação – Conceitos e definições. Processos de comunicação. Sistemas de significação, o Signo e os méis de comunicação. As diversas correntes teóricas, comunicação e mídia. Indústria Cultural. Segundo Semestre: Técnica Vocal lI - A utilização da voz na educação e reeducação vocal do ator. Fundamentação e estruturação de exercícios de técnica vocal. Junção de aspectos técnicos interpretativos de emissão vocal através da prática de canto solo e em grupo. Interpretação I – Estudo de princípios e métodos que subsidiam a prática de exercícios dramáticos. Construção de personagens, tipos e personas. 207 Preparação Corporal II – Estudo do corpo na perspectiva da composição cênica. Análise da dança contemporânea e sua interface com o teatro. História do Teatro e da Literatura Dramática II – Evolução do Teatro contemporâneo. Estudo Histórico da dramaturgia no Séc XX.Análise e Interpretar do texto teatral contemporâneo de Brechet, Becket, Ionesco e Jean Genet. História do Teatro Brasileiro I – Estudo das referências históricas e teóricas, em que se fundamentam a dramaturgia e a encenação brasileiras do século XVI à pós modernidade. Terceiro Semestre: Interpretação II: Treinamento do ator e seus personagens. Técnica para a representação épica: Narração, literalização da cena, historicização. Efeito V: o estranhamento brechtiano. O Gestus social. O ator épico. A dramaturgia épica: modelo de ação e ato artístico coletivo. A cena épica. Voz e Canto I: Técnicas básicas de relaxamento e respiração. Noções básicas de teoria musical, uso da caixa de ressonância. Profilaxia vocal. Técnicas de impostação vocal para o canto solo ou em grupo. Exercício de apreciação musical. História do Teatro e da Literatura Dramática III: Análise do Texto e do Espetáculo. Estrutura, os conteúdos, os signos, o espaço, o tempo, as personagens. Relação dramaturgia e espetáculo. Estudo do texto na perspectiva da construção cênica.Estudo do teatro no Século XX. Teatro do Absurdo e dramaturgia. Estudo da performance na pós modernidade. Estudo de textos curtos, sketes. Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação – Conceitos fundamentais à Sociologia, História e Antropologia para a compreensão da relação entre Educação e Sociedade. A interdisciplinaridade do pensamento pedagógico. Multiculturalismo e ação afirmativa. Culturas Populares: – Conceito de Cultura. Noção de Culturas Populares. Conhecimento sobre passos, figuras e coreografias de cada época. Aplicação na interpretação de personagens diversos. Danças dramáticas brasileiras e cearenses. A dança social como forma de contextualizar personagens quanto aos aspectos históricos e sentido de lugar. Prática de vários ritmos das danças dramáticas. Quarto Semestre: Interpretação III – Estudos técnicos dos princípios e conceitos que envolvem a encenação. Definição do papel de direção teatral. Processos e modos de formação do ator e suas ferramentas de composição. Procedimentos 208 criativos. Técnicas de direção teatral. Definição do território do diretor: direção de cena e direção de ator. Voz e Canto II: Introdução à organologia. Técnica vocal. Laboratório coral, profilaxia vocal. Técnicas de canto solo e em grupo. Acústica e música eletrônica aplicada ao teatro. Caracterização I: Figurino – História do figurino no teatro ocidental. O figurino como signo cênico. O figurino e a composição do personagem no teatro. Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem na Adolescência – Concepções básicas sobre o desenvolvimento e aprendizagem do ser humano. Conceito e características da adolescência. Desenvolvimento sócioafetivo e cognitivo. Crises na adolescência. Fatores psicológicos no processo ensino/aprendizagem: percepção, atenção, motivação, memória e inteligência. Distúrbios na aprendizagem. Avaliação da aprendizagem. Estética – Introdução ao mundo conceitual e teórico da filosofia estética - A arte como experiência da expressão humana. O belo como categoria da ação humana. Definições da obra de arte. A função estética da arte na educação. Fundamentos da Arte na Educação: Metodologias e Tendências – Estudo de teorias e práticas educativas em arte. A relação Educação e Arte no contexto brasileiro. Panorama atual das investigações feitas em Arte e Educação. Quinto Semestre: Fundamentos da Direção Teatral – A figura do diretor; O conceito de encenação; encenadores contemporâneos, a noção de encenação didática no contexto da sala de aula. Laboratório de Práticas Teatrais I – Construção de cenas e sketes; a relação professor, ator e espectador, prática das cenas no contexto da escola. Caracterização Teatral II: Máscaras e Adereços – Os significados da máscara.Estudo e uso das máscaras teatrais, nas culturas oriental e ocidental. Uso da máscara nas diversas linguagens de teatro. Caracterização com máscaras e adereços nas práticas populares. Criação,Confecção e uso de máscaras e adereços. Didática – Educação e didática na realidade contemporânea: o Professor, O estudante, o Conhecimento; a Natureza do trabalho docente. Concepções de Ensino; A sala de aula e seus eventos, Planejamento e Gestão do Processo de Ensino-Aprendizagem. Estágio Supervisionado I – Análise e avaliação de uma experiência do ensino teatral, efetivamente realizada, envolvendo investigação sobre aspectos do cotidiano escolar. Reflexão em torno das políticas educacionais e 209 sobre a organização do trabalho na escola e sobre a prática pedagógica e o teatro. Sexto Semestre: Prática de Ensino: Laboratório de Práticas Teatrais II – O processo de construção de montagem; Estudo do espaço e do tempo cênico; prática de cenas em múltiplos contextos. Estrutura Política e Gestão Educacional – A educação no contexto sócio, econômico, histórico e legal brasileiro; Conceito de Sistema e organização escolar o Sistema Educacional Brasileiro; A legislação educacional; As políticas públicas para a Educação; Gestão educacional; financiamento da Educação; formação do profissional de Educação; a Estrutura política para a educação no Estado do Ceará. Estágio Supervisionado II – Programação, execução, avaliação de uma proposta de estágio compreendendo: diagnóstico da realidade escolar, participação nas atividades culturais da unidade escolar e direção do processo de ensino-aprendizagem. Análise e avaliação das experiências de ensino teatral realizadas. Análise do Texto e do Espetáculo - Estudo do texto teatral, a estrutura, o conteúdos, os signos, o espaço, o tempo, as personagens. Relação dramaturgia e espetáculo. Estudo do texto na perspectiva da construção cênica. Ética – Conceitos, Noções fundamentais, A ética e as teorias sobre os princípios éticos. Ética,Estética, Educação e Teatro.Ética e meio ambiente. Sétimo Semestre: Montagem: Processo de criação e construção cênica – Processo de construção de uma montagem cênica em suas diversas etapas tanto teóricas quanto práticas. Estudo do espaço, da construção de personagens, estudo do texto no processo de montagem. Estágio Supervisionado III – Aprofundamento da experiência vivida em estágio supervisionado I e II, incluindo uma intervenção na formação de professores no contexto urbano e rural. Metodologia do trabalho científico – Compreensão do significado de pesquisa em artes cênicas. Métodos e técnicas de pesquisa científica. A pesquisa em artes cênicas. Elaboração de projeto científico em artes cênicas. Trabalho de Conclusão de Curso - Finalização do trabalho de conclusão (relatório de estágio, trabalho monográfico, para apresentação pública perante comissão composta por três professores.Elaboração teórica e prática da montagem. 210 Língua Brasileira de Sinais: LIBRAS – Desenvolvimento da expressão visual e espacial para comunicação através da Língua Brasileira de Sinais. Introdução ao léxico, fonologia, morfologia e sintaxe da Língua Brasileira de Sinais. Oitavo Semestre: Prática de Encenação – Processos de apresentação de espetáculo; Perspectiva da relação com o público. Estágio Supervisionado IV – Intervenção pedagógica concatenada com as vivências realizadas nas disciplinas de estágio I, II, III,, buscando um aprofundamento do trabalho realizado e uma avaliação deste como um todo: pesquisa sobre aspectos didáticos, sociais e políticos da prática escolar. Produção Cênica – Estudo das leis municipal, estadual federal de incentivo às Artes Cênica;criação de projetos;procedimentos no processo de produção de montagem e circulação de espetáculos. Representação para cinema e televisão – Introdução à linguagem do cinema e da televisão; diferenças de estilos de representação para o teatro, cinema e televisão; construção de cenas. 10.7.2 Disciplinas Optativas História do Teatro Cearense – A presença do teatro cearense na cena cultural do Ceará. Atores, encenadores e espetáculos. A dramaturgia cearense. O teatro cearense na cena contemporânea. Arte da Performance – Estudo do conceito de performance;Surgimento da performance no Brasil no campo das Artes Cênicas;Características da Performance;Prática da performance em múltiplos contextos. Teatro com Bonecos – História do teatro com bonecos no Brasil. A relação ator e boneco. Construção de bonecos. Criação de cenas com bonecos. O uso do boneco em práticas pedagógicas cênicas. Etnocenologia – Conceito de Etnocenologia. Aplicação do conceito. Estudo das práticas populares organizadas no Ceará: Maracatu, Bumba-meu-boi, pastoril, etc. Antropologia da Cultura Brasileira – Genealogia do Conceito de Cultura; Cultura e Civilização; Culturas Populares; As múltiplas manifestações culturais brasileiras, nordestina e cearense Oficina de Percussão I – Estudo da estrutura acústica ( física) e cultural do instrumental tradicional brasileiro de percussão e suas práticas musicais. Técnica e execução dos instrumentos de perscussão. Prática de execução musical em conjunto Oficina de Percussão II – Desenvolvimento da percussão no século XX. Instrumento de percussão de outras culturas. Pesquisa e prática de novos 211 meios de expressão instrumental percussiva. Percussão corporal. Técnicas de execução em conjunto. Semiótica Teatral - Conceito de Semiótica. A Semiótica aplicada ao teatro. Estudos dos signos no teatro. Análise teórica dos signos num espetáculo assistido. Educação Popular – Conceito de educação popular;o método Paulo Freire, A educação popular no contexto indígena, dos grupos quilombolas e dos grupos de atuação cênica. Mitologia Grega - Cosmogonia, Estudo dos mitos. Mito e rito A relação mitologia, tragédia e comédia. O mito na produção dramatúrgica grega. Educação Para Uma Cultura de Paz – Abordagem interdisciplinar sobre as questões da paz e sua ausência no mundo contemporâneo. Estudo sobre a contribuição do professor, da música e do músico para o desenvolvimento de uma consciência holística, integradora e humana. Mitologia e Práticas Musicais dos Povos Indígenas Brasileiros - estudo sobre o legado da cultura musical indígena brasileira: o corpo-som-do-ser, os instrumentos e a musicidade da cultura indígena brasileira. Mitologia e Práticas Musicais Afro-descendentes – Estudo sobre o legado da Cultura Africana para a Cultura Brasileira, em especial para a musica. Compreensão do sagrado através da musica nos ritos afro-descendentes. Dança Contemporânea – História da dança no século XX. Principais tendências. Prática da dança contemporânea. Pedagogia de Paulo Freire – Estudo do pensamento pedagógico e do método Paulo Freire e de suas implicações para a relação educadoreducando em ambientes democráticos de formação humana. Educação Sexual na Escola – Reflexão sobre a sexualidade e sua diversidade no cotidiano escolar. Estudo das implicações pedagógicas advindas da intolerância e da repressão da sexualidade de adolescentes. Educação Ambiental -A atuação do educador frente aos problemas advindos da degradação do planeta. Reflexões sobre o papel da escola e do professor nos processos de conscientização para a sobrevivência planetária. 10.8 Estágio supervisionado Para que o estudante, a partir do quinto semestre do curso, passe a tomar contato com a realidade escolar na qual deverá trabalhar, será necessário que a UFC firme convênios de parcerias com as escolas, prioritariamente públicas de ensino fundamental e médio, através das Secretarias de Educação, para que os estudantes de Licenciatura em Teatro tenham um campo de estágio fértil, reiterando assim a prática como componente curricular. Numa perspectiva ideal o estudante deverá permanecer durante todo o período de estágio na mesma escola e nesta deverá implantar um projeto 212 de teatro que será acompanhado e avaliado pelos docentes da escola e no qual o mesmo se desenvolve em conjunto com os docentes do Curso de Licenciatura em Teatro. Um relato consistente da experiência de estágio poderá a vir a ser uma possibilidade de Trabalho de Conclusão de Curso. Os convênios e a permanência por longo prazo de estudantes de Licenciatura em Teatro em uma instituição escolar pública visará o incremento da vida teatral dos estudantes de baixa renda e ao mesmo tempo contribuirá para o reconhecimento por parte da sociedade do valor do educador em teatro, das artes cênicas e dos professores que são responsáveis pela democratização do conhecimento cênico. Os Estágios serão, em todo seu processo de desenvolvimento, supervisionados pelo Professor Orientador de Estágio e cada experiência individual será relatada pelo estudante estagiário. Ao final do Estágio, do Seminário de Estudos sobre os Estágios surgirão avaliações das experiências que poderão ser sistematizada para publicação e apresentação em eventos relativos à educação cênica. Os estágios curriculares cumprem com a carga horária especificada pela resolução CNE/CP 2/2002, de 19 de fevereiro de 2002, fundamentada no Parecer CNE/CP 28/2001, homologado em 17/01/2002: 400 horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso. De acordo com a maioria dos cursos de Licenciatura em teatro brasileiros, concentramos as 400 horas obrigatórias para os estágios em quatro semestres: 10.9. Trabalho de conclusão de curso e monografia O trabalho e conclusão e curso coletivo consiste, nesta proposta, na montagem e circulação de um espetáculo, bem como na produção de um memorial. Este trabalho deve ser orientado por um professor de interpretação ou direção teatral, todavia terá a participação de professores de teoria teatral, provocando o diálogo de saberes. A responsabilidade cabe ao professor-orientador e ao grupo de estudantes concludentes. Nesse exercício coletivo o estudante pode reunir e praticar o conhecimento adquirido ao longo do curso, realizando os projetos relacionados à prática da encenação e produção teatral (iluminação,cenografia,sonoplastia, caracterização). Um consistente relato crítico da experiência de Estágio Superviosionado também poderá ser creditado como Trabalho de Conclusão de Curso, desde que tal relato expresse, além do vivido, reflexões teoricamente alicerçadas. 213 10.10. Atividades complementares O leque de possibilidades de atividades complementares será amplo, na intenção de contemplar as iniciativas e interesses dos alunos do Curso de Licenciatura em Artes Cênicas - teatro. Todavia, elencamos algumas atividades que poderão ser consideradas pela coordenação de Curso como atividades complementares e de caráter não disciplinar, regidas pela Resolução 07 de 17 de Junho de 2005, do CEPE: Curso de Arte Dramática: Formação de Atores; Coral da UFC; Semana de Humanidades; Projeto “Bolsa Arte” e Monitoria. A ampliação dessas atividades no espaço universitário (PICI, BENFICA e PORANGABUSSU), dar-se-á durante a implementação do Curso Artes Cênicas – teatro, que criará cotidianamente, espaços culturais dentro e fora da UFC – redimensionando o ambiente acadêmico da docência Universitária. Participação nos Festivais de Teatro local e regional como: Festival de Teatro em Fortaleza, Festival Nordestino de Teatro, Mostra Cariri das Artes, bem como em oficinas, seminários e simpósios promovidos pelo Theatro José de Alencar, Instituto Dragão do Mar, etc. 11. Integralização curricular: Curso de Artes Cênicas - Licenciatura 1º Período Disciplinas Obrigatórias Técnica vocal I Oficina de Improvisação Preparação Corporal I Teorias da Interpretação Hist. do Teatro e da Lit. Dramática I Introdução às Teorias da Comunicação Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Cód. Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 32 02 32 16 48 04 64 16 48 04 64 64 04 64 64 04 64 32 02 32 20 Pré-requisito 320 Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina Cód. 2º Período Disciplinas Obrigatórias Técnica vocal II Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 32 02 32 - Interpretação I - 96 06 96 - Preparação Corporal II - 64 04 64 - Hist do Teatro e da Lit. Dramática II 64 - 04 64 64 - 04 20 64 320 História do Teatro Brasileiro Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Pré-requisito Técnica Vocal 1 Oficina de Improvisação Preparação Corporal 1 Hist do T e da LitDram I Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina 214 Cód. - 3º Período Disciplinas Obrigatórias Interpretação II Voz e Canto I Hist. Do Teatro e da Lit. Dramática III Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 96 06 96 64 04 64 64 04 64 - Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação Culturas populares Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre 64 - 04 64 32 - 02 20 32 320 Pré-requisito Interpretação I Hist do T e da LitDram II Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina 4º Período Disciplinas Obrigatórias Interpretação III Voz e Canto II Caracterização I: Figurino Educação Teatral: Metodologias e Tendências Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência Estética Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Cód. - Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 64 04 64 32 02 32 32 32 04 64 32 02 32 64 - 64 04 64 04 20 64 320 Pré-requisito Interpretação II Voz e Canto I Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina 5º Período Disciplinas Obrigatórias Fundamentos da Direção Teatral Laboratório de Práticas Teatrais Caracterização II: Máscaras Adereços Didática Estágio Supervisionado I Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Cód. - e Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 32 32 04 64 32 32 04 64 32 02 32 32 32 100 04 6,25 20,25 Pré-requisito Caracterização I 64 100 324 Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina Cód. - 6º Período Disciplinas Obrigatórias Estágio Supervisionado II Projeto de Pesquisa e Montagem Estrutura Política e Gestão Educacional Análise do texto e do espetáculo Ética Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 100 6,25 100 32 64 32 64 32 02 04 32 64 04 04 20,25 64 64 324 Pré-requisito Estágio Supervisonado I Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina 215 7º Período Disciplinas Obrigatórias Estágio Supervisionado III: Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 100 6,25 100 - Montagem: processo de criação e construção cênica I 32 32 04 64 - Metodologia do trabalho científico Trabalho de Conclusão de Curso I 64 32 32 04 04 64 64 32 32 04 22,25 64 356 Cód. - Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Pré-requisito Estágio Supervisionado II Projeto de Pesquisa e Montagem Projeto de Pesquisa e Montagem Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina Cód - 8º Período Disciplinas Obrigatórias e Opt Prática Cênica – Encenação Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 16 48 06 96 Representação para cinema e Vídeo Produção Cênica Estágio Supervisionado IV 32 32 Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre 32 32 100 04 04 6,25 64 64 100 20,25 292 Pré-requisito Montagem I Estágio Supervisionado III Legenda: AT – Aulas Teóricas; AP – Aulas Práticas; EST- Estágio;TOT – Total de horas da disciplina Carga Horária Obrigatória – Hora / Aula Teórica: 1.072 Prática 1.104 (136 créditos obrigatórios) Estágio Curricular: 400 Atividade Acadêmica Complementar: 200 Carga Horária Optativa: 480 (30 créditos optativos) Carga Horária Total do Curso Hora/Aula: 3.192 Quantidade de Horas para Formatura: 3.196 Créditos Livres: 30 Número de Disciplinas Obrigatórias: 41 216 Ao longo do curso serão ofertadas disciplinas optativas. Um estudo inicial aponta o seguinte elenco de disciplinas optativas desta natureza, podendo outras, virem a ser criadas depois da implantação do curso. -‐ -‐ -‐ -‐ Disciplinas Optativas História do Teatro Cearense Mitologia Grega Antropologia da Cultura Brasileira Etnocenologia Carga Horária Semanal AT AP CR. Total Pré-‐requisito 32 32 32 32 32 32 32 Mitologia e Práticas Musicais dos Indígenas Brasileiros Educação Popular Percussão I Percussão II Arte da Performance Educação Ambiental Educação Sexual Língua Brasileira de Sinais Dança Contemporânea Semiótica e Teatro Teatro com Bonecos Educação por uma Cultura de Paz Mitologia e Práticas Musicais Afro-‐ descendentes Pedagogia Paulo Freire Dança Contemporânea 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 32 64 32 32 64 64 64 64 64 64 64 32 32 32 32 64 64 12. Acompanhamento e avaliação 12.1. Princípios Básicos A metodologia de avaliação dos processos de ensino e aprendizagem devem, sobretudo, ter um caráter criativo no qual o estudante seja avaliado no início do processo (avaliação diagnóstica) e durante o mesmo (avaliação processual) sempre através da produção e da apreciação critica e reflexiva de material cênico: corpo-voz. Os estudantes durante o processo de estudo serão estimulados a criar performances, cenas, montagens, utilizando técnicas de improvisação, interpretação e direção cênica que deverão ser discutidos em sala de aula. Deverão também adquirir desenvoltura na condução de criação cênica de seus próprios colegas principalmente nas disciplinas de improvisação, interpretação e corpo, voz e práticas de montagens. As discussões sobre o fenômeno cênico e sua inserção nos processos de formação humana deverá ser uma constante nos processos avaliativos e 217 em tais discussões os estudantes deverão expressar aprofundamento teórico adquirido ao longo do curso. Os estudantes também serão avaliados por suas produção como artistas de teatro, através de performances, sketes e espetáculos, bem como através de suas produções de caráter acadêmico que serão apresentadas em encontros, seminários e simpósios. A vida artística e intelectual intensamente produtiva dirá como os estudantes estão transformando os estudos em produção significativa para suas vidas e para o cotidiano da comunidade no qual estão inseridos. Toda a prática docente deverá sempre estar baseada no pressuposto de que a aprendizagem em Teatro é, ao contrário de toda a mitificação que existe no seio da sociedade brasileira com relação a esta forma de comunicação e expressão humana, algo não apenas viável, mas, sobretudo, algo que precisa ser implementado, com urgência, nas escolas brasileiras. Assim, o docente do curso de Licenciatura em Teatro deverá primar pela prática pedagógica rigorosa, criativa e ética que eleve a auto-estima do estudante, incutindo nesses o espírito criador e investigador e o desejo essencial de socializar o teatro no seio da comunidade em que vive. 12.2.Avaliação do projeto pedagógico A proposta de Acompanhamento e de Avaliação deste Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Teatro terá como objetivo acompanhar as ações e as atividades do projeto pedagógico por meio dos segmentos docente, técnico e discente envolvidos. Aqui, coloca-se algo, na maioria das vezes, imponderável: o sentimento comum de compromisso político-pedagógico. Algo imprescindível quando se trata de por em prática um projeto como o que é, aqui, apresentado. Será possível, já, agora, prever formas de acompanhamento e avaliação destes sentimentos? O acompanhamento e avaliação do projeto pedagógico que propomos, visa ampliar os momentos de interlocução, a construção coletiva do conhecimento, a descentralização das decisões, a construção e a revitalização de espaços políticos. É aí que se poderá prefigurar o ponderável. O alcance desses objetivos leva ao entendimento de que esse acompanhamento e avaliação não pode constar de atos solitários e isolados. Qualquer instrumento neste sentido não renderia qualquer resultado, pois invalidaria as formulações e as iniciativas aqui apresentadas e outras que poderão surgir ao longo do processo de implantação deste projeto. Assim, entendemos o Projeto pedagógico e o seu acompanhamento como um instrumento coletivo que legitimará as ações de implantação e as 218 transformações e inovações que, certamente, poderão surgir durante o processo, sendo válido deixar margem para estas previsões. Desse modo, a avaliação do Projeto Pedagógico deve contemplar, antes de tudo, a conscientização e a disponibilidade por parte de todos os que fazem o curso, ou seja, o docente, o técnico e o discente. Esta participação será relevante e poderá prefigurar, configurar, contemplar e acrescentar as novas lógicas de atuações que pretendemos instalar. Poderá favorecer a intensificação de laços afetivos, a valorização do papel de cada um dos segmentos, o estabelecimento dos compromissos pedagógicos e artísticocênicos aqui previstos, tanto entre as partes como no desempenho de cada função e papel e, até, através de estudos comparativos entre outros cursos afins. Portanto, o acompanhamento das ações do Projeto Pedagógico é a maneira mais ampla e pertinente na avaliação de sua atuação. As características desta atuação será a transparência, no sentido de incentivar as manifestações construtivas e as novas iniciativas que visam o enriquecimento pedagógico do curso. Cada proposta de acompanhamento e de avaliação deverá ser idealizada a partir da realidade em que o projeto pedagógico se realiza: o espaço de atuação na sala de aula, os estágios dos estudantes (e as análises e respostas das partes envolvidas no espaço de atuação dos estágios), os seminários de estudos e ações, as atividades complementares, as defesas e apresentações de trabalhos de término de curso, as práticas cênicas, as relações entre docentes, discentes e técnicos envolvidos e as ações particulares e individuais. Portanto, o curso e o seu respectivo projeto pedagógico terá uma avaliação em consonância com suas peculiaridades e as singularidades de sua ação pedagógica – ser formadora de profissionais artistas educadores em teatro, onde docentes, estudantes e técnicos aliarão suas competências e criatividade a serviço da futura formação das crianças e jovens cidadãs brasileiras ou de outros segmentos da população. Os meios e instrumentos serão variados – questionários, entrevistas, auto-avaliações, análises de representações, análise de momentos de culminâncias e de apresentações de trabalhos artísticos, pedagógicos e acadêmicos – públicos ou internos –, seminários de avaliação, dados estatísticos e tantos outros. O importante é que o instrumento usado seja um elemento de mensuração de ações, de sentimentos expressos e de produções que apontem os caminhos positivos – ou negativos - do Projeto do Curso de Licenciatura em Artes Cênicas - Teatro e sejam propostas de novos encaminhamentos ou certeza dos ganhos adquiridos. Importante será avaliar o alcance dos objetivos e de sua proposta pedagógica. Imprescindível que se possam destacar os caminhos da formação profissional do artista educador teatral, estudante do curso, sua competência criativa e que as ponderações 219 vislumbrem encontros e caminhos, sobre suas ações, as atividades didáticopedagógicas do curso e dos docentes e técnicos envolvidos no projeto. É Importante também que este acompanhamento e avaliação sejam permanentes, sistemáticos e contínuos. Individualizados e coletivos, conduzindo a momentos de trocas semestrais, num grande encontro coletivo e que estes encontros sejam como festas de colheitas, onde todos possam sentir o resultado de seus feitos e frutos. É fundamental que os anais destes encontros de avaliação sejam publicados e que as publicações sejam distribuídas entre os envolvidos e interessados. Importante que a característica deste todo de acompanhamento e avaliação seja sempre conseqüente de discussões e diálogos, construídos dentro de princípios democráticos, qualitativamente humanos e rigorosamente técnicos. 12.3 Dos processos de ensino e de aprendizagem 12.3.1 A prática da pesquisa junto aos fundamentos teóricos do curso de Artes Cênicas A prática de pesquisa que percorre e singulariza o curso torna os vários âmbitos teóricos que dão sustentação ao Curso de Artes Cênicas, fundamento e via de aprofundamento da prática teatral. Nas diversas avaliações das experiências de Artes em nível de terceiro grau, sobretudo vistas também sob o ângulo das discussões feitas em encontros da ANPED, que tivemos oportunidade de participar, como professores da UFC da área de Arte, vê-se que o modelo clássico de apartamento teoria e prática que ainda molda muito do fazer universidade, na área artística compromete os possíveis do aprendizado. Para caminhar na direção de sua modificação, pensamos que os fundamentos teóricos devam ser trabalhados mediante um olhar pesquisador que vai se adensando à medida que o estudante avança no curso. Também partimos da idéia de que é preciso que as várias disciplinas, em cada semestre, devam ser unidas em uma prática disciplinar que seja pesquisa, capaz de nuclear olhares e se pôr perguntas sobre a prática do fenômeno teatral, que, desde então, deve ser investigada. 12.3.2 A prática teatral como centro e eixo que percorre todo o curso; as lições da complexidade e os núcleos de estudos teórico-prático continuados como modo de ação educacional transdisciplinar. Pensamos que a articulação entre várias disciplinas, a ser feita sobretudo por meio dos Projetos de Pesquisa e montagem, como também por meio de pesquisa nucleadora que deverá acontecer a cada um dos três 220 semestres, quando não temos ainda a disciplina de Projetos de Pesquisa e Montagem, permite que em cada semestre se possa ter núcleos disciplinares – que podemos definir como este amálgama de disciplinas em torno da prática teatral (que pode envolver a extensão e o fazer educacional ) e da pesquisa ( que exige teoria que a informa ). Temos a idéia de que mediante esta articulação teoria e prática podese caminhar para construirmos superações da fragmentação disciplinar, na ambiência formadora em Arte, no âmbito do fazer universidade. 12.3.3. A extensão como eixo de encontro da universidade com as situações de representação organizadas, manifestas nas culturas populares As facetas diversas e complexas do fenômeno teatral se vão desvendando com mais rigor e profundidade quanto mais no fazer universidade se articula intimamente teoria e prática. Por percebermos que a prática teatral também necessita comportar o vigor, a multiplicidade e o dinamismo do fenômeno teatral acontecendo de fato na vida social, é que a Extensão, no caso do Curso de Licenciatura em Arte Cênicas - Teatro, é parte da própria completude do fazer, que necessita da categoria do espectador (que também pode ser atuante) para realizar-se, efetivamente. A encenação é uma construção estética da prática teatral que, para realizar-se necessita do Outro que é o espectador, ainda que ele possa interagir de diversos modos com o ator e/ou encenador. Considerar esta relação que se instaura na realização do fenômeno teatral, de modo mais sistemático e dentro de um contexto formador, é aspecto basilar de um pensamento em extensão, que envolva as práticas artísticas na universidade. Também pelo fato de considerarmos a Extensão um modo de comportar a interação do fazer universidade no seio das manifestações das culturas populares, se faz vital que ela seja pensada como um modo da prática teatral, vincular-se ao dinamismo e pujança das realidades sociais e suas criações artísticas. Nesse quadro de interações é que o Teatro na Educação tem seu lugar valioso. Pelo fato do nosso curso realizar-se como licenciatura, a extensão deve ampliar-se para abranger as várias faces do fenômeno educacional. Resultante das lutas sociais em evolução nas ciências antroposociais e artísticas, os parâmetros curriculares nacionais para a escolarização de crianças, jovens e adultos preceituam as artes, em suas especificidades, como – assim como o conhecimento matemático ou a linguagem, os estudos sociais e as ciências – e, dessa forma, por ser matéria imprescindível à formação de toda pessoa e cidadão brasileiro, faz-se obrigatória a formação de arte-educadores que assumam cada modalidade de arte preceituada pela nova LDB. 221 A Extensão na Universidade, pois, pode ampliar consideravelmente o contato imprescindível do fazer universitário com a Escola e com as manifestações populares, nessa medida, tornando mais profícuo o Teatro na Educação. É que a Extensão assume, nesse cometimento, a tarefa de situar o estudo da prática teatral nos espaços sociais diversos e, em particular, nos espaços educacionais da Escola, em suas categorias várias: educação préescola, educação indígena, educação de jovens e adultos, educação especial e ensino fundamental e médio. 13. Condições atuais de oferta do curso 13.1. Recursos humanos: 13.1.1 Professores efetivos * Ricardo Guilherme Vieira dos Santos – professor efetivo Disciplina: História do Teatro Brasileiro Titulação: Especialização em Comunicação pela Universidade de Brasília Regime de trabalho – 40 horas * Valéria Albuquerque – professora efetiva, Disciplina: Caracterização, figurino, adereços, máscara e educação Titulação: Especialização em Educação Regime de trabalho – 20 horas * Potiguar Fontenelle – Professor efetivo, Disciplina: Voz e Canto Titulação: Especialização Regime de trabalho: 20 horas * Gilson Brandão Costa – professor efetivo Disciplina: Teoria e História Geral do Teatro Titulação: mestrando em História Social Regime de trabalho: Dedicação exclusiva (DE) 13.1.2 Técnicos * José Fernando lima Pereira Atuação: Assistente administrativo * Álvaro de Alencar Neto Brasil Atuação: Iluminador do Teatro Universitário * Edmilson Monteiro Pereira Função: Eletricista 222 13.2. Infra-Estrutura: 13.2.1. Ambientes Didáticos: * Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno (em reforma) Capacidade para 100 pessoas, com palco, camarins, iluminação arrefrigerado * Sala de Teatro Gracinha Soares Capacidade par 30 pessoas * Sala de Aula 1 Capacidade para 30 pessoas * Sala de corpo, estrutura do piso em madeira e espelho Capacidade para 20 pessoas * 04 salas pequenas para uso da coordenação, secretaria e biblioteca * Sala de depósito para figurinos e adereços * 02 banheiros, 13.2.2. Recursos Materiais * 03 televisores, 01 DVD, 02 computadores,02 impressoras a laser,01 copiadora, 03 ares-condicionados, acervo com material histórico do curso: folders, reportagens, fotografias, etc. 14. Projeto de melhoria das condições de oferta do curso Para que ocorra uma expansão e melhoria das atividades do Curso de Artes Cênicas, Licenciatura em Teatro, será necessário que no todo do corpo docente, novos professores efetivos sejam contratados, visto que no momento dispomos apenas de quatro, conforme exposto no tópico 12.1, e que estes tenham gabinetes de trabalho.Ossetores de estudo necessários, conforme levantamento são: • • • • Interpretação e Prática Teatral Direção Cênica Voz e Interpretação Teatral Corpo e Movimento Um laboratório de informática com computares para pesquisa dos estudantes. A ampliação da estrutura física inicial também será necessária para que o curso disponha de salas de ensaio mais amplas, visto que as salas têm capacidade para apenas 25 pessoas. Um dos pontos relevantes é 223 que dispomos de um teatro com capacidade para 100 pessoas que atuamente está em reforma, com previsão de término em julho de 2009. De suma importância será a aquisição de material bibliográfico para que os estudantes possam realizar estudos e consultas. A aquisição deste material é imprescindível para o reconhecimento do curso junto ao MEC. Livros de Teoria, e História Teatro, Dramaturgia que possam ser comprados para estruração de uma biblioteca. Como dispomos de apenas um assistente administrativo, o qual cumpre essa função no curso noturno, torna-se-á necessário que a universidade disponibilize 1 (um) funcionário com competências nessa área para que possamos dinamizar e tornar viável o funcionamento do Curso. A instalação de Internet, é outro componente fundamental para a dinâmica de informação e comunicação com os setores internos e extenos à UFC. 15. Documentos que subsidiaram a elaboração deste projeto Lei 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei 11.769/08 – Altera a lei 9.394/96, de 20 de novembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino de música na Educação Básica. • Parecer CNE/CP 009/2001 – Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena.Parecer CNE/CP 027/2001 – Dá nova redação ao item 3.6., alínea c, do Parecer CNE/CP 009/2001. • Resolução CNE/CP 1/2002 – Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. • Resolução NEE/CP – Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em Nível Superior. • Resolução 07 de 17 de Junho de 2005, do CEPE/UFC – Dispõe sobre as atividades complementares nos cursos de graduação da UFC. • Parecer CNE/CES 195/2003 – Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Música, Dança, Teatro e Design. • • 224 ANEXO B - Parecer do colegiado do curso de Licenciatura em Teatro/ICA/UFC sobre a necessidade de modificações na Integralização do curricular do curso 225 1. Introdução Antes mesmo do corpo docente se encontrar em Fortaleza/CE, em fevereiro de 2010, os mesmo já haviam tomado ciência do Projeto Político Pedagógico do curso e, antecipadamente, questionava-se sobre o quê ensinar e/ou o porquê de certas escolhas disciplinares. De fato, parece que este é o senso comum sobre currículo. Este tema, hoje foco de diversas discussões no âmbito da educação e outras ciências, tornou-se, em alguma medida, a preocupação de todos aqueles que ensinam e aprendem. Torna-se necessário, ainda que em poucas linhas, esclarecer o entendimento que adotamos sobre currículo e Projeto Político Pedagógico. Acreditamos que as definições destes conceitos já configuram, de alguma maneira, certos os pressupostos que proporcionam condições para refletir sobre possíveis propostas curriculares que cercam o curso de licenciatura em teatro. Compreendemos que o Projeto Político Pedagógico é a maneira como se registra o currículo no seu sentido formal. O currículo formal, no entanto, é entendido aqui como o currículo escrito, ou seja, o conjunto de informações organizadas nas quais podemos incluir propostas, regimentos, diretrizes e, no nosso caso, o Projeto Político Pedagógico. Este, por sua vez, [...] traz os princípios norteadores do curso, o perfil do profissional que pretende formar e a matriz curricular, certamente, não expressa no seu texto os processos interacionais que o produziram, mas estes foram decisivos na definição das características que ele adquiriu. (PASSOS, 2007, p. 40) Um currículo, portanto, é resultado de uma vivência gerada a partir do discernimento, interpretação e participação de seus atores principais e coadjuvantes sobre as ideologias nele imbricadas. James Mckerman (2009, p.32), cita a definição de currículo de Stenhouse: “Um currículo é uma tentativa de comunicar os princípios essenciais e as características de uma proposta educacional de forma que seja aberta ao escrutínio crítico e capaz de ser traduzido numa prática”. Essa definição permite-nos entender o papel dos agentes do currículo, professores e alunos, como protagonistas responsáveis por uma investigação constante que objetive melhorar a prática curricular. Ao ampliarmos a noção de currículo para uma compreensão que extrapola da noção de junção de componentes curriculares os quais, por sua vez, são entendidos como o 226 elenco de disciplinas obrigatórias, optativas, eletivas e atividades complementarem que são eleitas como indispensáveis para a formação discente, vislumbramos a noção de que o currículo pertence a um momento histórico e precisa ser apropriado pelos agentes que atualmente o colocam em ação, permitindo, somente desta forma, que o mesmo possa ser avaliado e repensado constantemente. Assim, é possível entender que o currículo está em movimento e depende do caminhar coletivo do corpo docente, discente, técnicos e gestores. Com isso, podemos afirmar que o corpo discente encontra-se muito motivado, principalmente, pela opção do curso, desde seu nascedouro, por um currículo de licenciatura que equilibra a teoria com as práticas de interpretação e direção teatral ao longo de toda a passagem do estudante pelo curso, bem como pela realização de montagens e apresentação cênicas. 1.1 Objetivo das modificações propostas Mesmo podendo parecer precoce – para quem emprega um olhar externo às problemáticas que nos são latentes – pleitear modificações no PPP de um curso que possui sua primeira turma encaminhando-se para o quarto semestre, este colegiado salienta que estas modificações restringem-se ao âmbito da integralização curricular. Ressalta-se, portanto, que esta restrição nos é imposta pela situação emergencial que se apresenta, em vista, principalmente, da impossibilidade de integralizar os créditos originalmente previstos no período reservado para a conclusão do curso pelo discente. Contudo, quando ressaltamos que a proposta de modificações encaminha-se âmbito da integralização, reforça-se a idéia de que continuamos imbuídos da formação de um profissional que desempenhe um papel social. Conforme aponta APPLE (2006): o papel dos educadores não é olhar a sociedade de forma crítica, mas atuar como secretários dos povos que têm atuado contra estes poderes em todo mundo. Após um ano de reuniões do corpo de professores em torno do PPP, acreditamos que seja possível apontar a consonância deste coletivo com o pensamento do autor que reafirma o perfil do profissional pretendido pelo curso. Ao assumirmos a missão de formadores de professores de teatro, estamos envolvidos na tarefa de colaborar com a formação de agentes sociais que devem pretender intervir 227 no seu meio através desta linguagem artística, fazendo-se necessário observar o modo de preservação, produção e disseminação cultural nas escolas. O fato da ação educativa materializar-se pela linguagem teatral já traz consigo a noção de que aeducação, e a educação em teatro, é um ato político, ético e estético. Essas questões não podem desaparecer das preocupações de um artista docente correndo o risco do mesmo tornar-se um educador burocrata e fazer com que a arte desapareça diante de questões que falaciosamente podem parecer mais importantes. Buscamos, então, nos próximos parágrafos explicitar, pontualmente, todas as incongruências causadas pela relação carga horária versus tempo de conclusão de curso, bem como todos os seus desdobramentos como: flexibilização curricular, quebra de pré-requisito, correção nas ementas de algumas disciplinas, oferta de disciplinas optativas e turno para realização do estágios supervisionado. Para concluir esta introdução, é mister lembrar que o colegiado tem se debruçado neste tema, sistematicamente, desde fevereiro de 2010, quando o primeiro grupo de professores aprovados para ministrar aulas neste curso buscou apropriar-se deste Projeto para contribuir com sua implementação. Desde então, nos deparamos com questões que hoje urgem pois, a cada semestre que se integraliza, a condição torna-se menos favorável para se efetivar as modificações necessárias. 2. Detalhamento 2.1 Carga Horária vs. Tempo para Integralização A carga horária dos cursos de Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, será efetivada mediante a integralização de, no mínimo, 2800 (duas mil e oitocentas) horas [...]. (BRASIL, 2002, p.01). Em primeira instância podemos afirmar que, quando subtraímos 200 horas de atividade complementar – as quais são realizadas como atividades acadêmicocientífico-culturais fora do horário regular – o curso precisa garantir que o aluno integralize, no mínimo, 2600 horas em período noturno. Então, se oito semestres comportam somente 2560 horas – 20 créditos por semestre que é igual a 160 horas 228 multiplicadas por 1693 totaliza 2560 –, atesta-se que o curso não pode contemplar, no tempo inicialmente previsto94 o número mínio de horas estabelecido por lei para a formação deste profissional. Ademais, como pode ser notado no quadro abaixo95, o PPP prevê a integralização de 136 créditos, que correspondem a 2176 horas, correspondentes a aulas teóricas e práticas obrigatórias que somadas a 400 horas de estágio supervisionado mais 480 horas de carga horária optativa totalizam 3056 horas. Este número supera em 496 a carga horária máxima que suportaria um curso previsto para ser ministrado em oito semestres de 20 créditos cada, conforme explicado acima. Carga Horária Obrigatória – Hora / Aula Teórica: 1.072 Prática 1.104 (136 créditos obrigatórios) Estágio Curricular: 400 Atividade Acadêmica Complementar: 200 Carga Horária Optativa: 480 (30 créditos optativos) Carga Horária Total do Curso Hora / Aula: 3.192 Quantidade de Horas para Formatura: 3.196 Créditos Livres: 30 Número de Disciplinas Obrigatórias: 41 Através de uma leitura mais detalhada, nota-se, ainda, que os semestres 5, 6 e 8, superam a carga horária de 20 créditos semestrais em 0,25 e o semestre 7 em 2,25, o que significa respectivamente 4 e 36 horas semestrais96. Diante deste quadro, como solucionar tal equação, senão com mudanças significativas na carga horária? Mudanças que implicam diretamente em decisões de cunho didáticopedagógico refletidas na integralização curricular. Perante esta situação, o colegiado traz na presente proposta mudanças que pretendem preencher todas estas lacunas. 93 Valor da Hora/Aula. O Curso será implantado no período noturno, com aulas acontecendo no horário compreendido entre dezoito (18) e vinte e duas (22) horas. (UFC, 2009, p.34) 95 As informações do quadro abaixo foram retiradas das páginas 43 e 44 do PPP do curso de licenciatura em teatro. 96 Esta informação pode ser verificada na página 42 do PPP original do Curso de Licenciatura em Teatro 94 229 Integralização das disciplinas optativas no turno da noite O PPP do curso não contempla em sua integralização noturna as disciplinas de caráter optativo, obrigando, desta forma, o aluno que pretende concluir sua graduação em oito semestres a cursar disciplinas em turno oposto. A integralização curricular, apresentada no item 11 na página 41 do PPP, contempla um elenco de disciplinas obrigatórias que ocupa, e excede em 40 horas, toda a carga horária prevista para ser integralizada no período noturno. Assim, torna-se obrigatória a integralização de 30 créditos em turno oposto ao aluno que pretende se formar em oito semestres. Estágio Supervisionado Além da dificuldade que se atesta em estabelecer parcerias para que todos os alunos possam estar em sala de aula – ou oferecendo atividades de turno oposto – em escolas municipais e/ou estaduais no período noturno, a carga horária de 400 horas, estabelecida pela Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002,ocupa um espaço significativo em um curso que se permite integralizar apenas 2560 horas em oito semestres. Portanto, a tarefa de retificar a integralização deste curso, passa também pela necessidade de atender as exigências legais para o cumprimento do estágio supervisionado em consonância com as condições da cidade de alocar este contingente nas escolas estando em concordância com o horário de funcionamento do curso. Para concluir este item, pontuamos que como o curso de licenciatura em teatro encontra-se institucional e pedagogicamente vinculado ao Instituto de Cultura e Arte – o qual abriga outros nove cursos97, apenas outros dois em período noturno – torna-se dificultosa nossa tarefa de integralizar disciplinas optativas, vinculadas aos demais cursos, em nosso quadro de ofertas permanentes. Tal fato dificultará a proposta de reforma curricular,que atualmente vem sendo incentivada pelo ICA, prevista para os próximos semestres. Neste ponto, salientamos que o colegiado continuará 97 Filosofia Licenciatura, Cinema, Música Licenciatura, Design de Moda, Gastronomia, Publicidade e Propaganda, Jornalismo, Dançam Licenciatura e Dança Bacharelado. 230 acompanhando o movimento de reforma curricular do ICA, bem como já traz nesta nova proposta pressupostos de um curso mais integrado, interdisciplinar e transversal. 2.2 Opção pelo vespertino/noturno Com base nas explicações acima, após consultas com a COPAC / PROGRAD, bem como diante de assembléia consultiva, o colegiado propõem que o curso passe a ser vespertino/noturno. Contudo, como pode ser verificado na tabela de distribuição de horários, em anexo neste documento,é possível observar que a proposta contempla aulas iniciando, quando necessário, somente às 17:30h98. Essa sugestão veio sanar a necessidade de mais horas para integralização, bem como buscar alternativa para não aumentar em um semestre tempo de conclusão do curso, fato que concluímos ser mais prejudicial aos alunos. Vale ressaltar, ainda, que a opção de tornar o curso vespertino/noturno dá-se, principalmente pela problemática do estágio supervisionado, já explicada no item anterior. Mesmo assim, é importante deixar claro que nosso compromisso permanece em ofertar as disciplinas majoritariamente no período noturno e, conforme previsto, alunos que, em exceção, precisem cumprir o estágio à noite, ainda, terão a oportunidade de fazê-lo. Isso se explica devido ao fato de que a nova integralização proposta comporta, em 8 semestres de 25 créditos, todas as disciplinas obrigatórias, optativas e estágio supervisionado. Para tanto, consta em anexo deste parecer uma cópia do documento gerado em assembléia consultiva na qual a maioria dos discentes manifesta-se favorável à mudança de turno. 2.3 Quebra de pré-requisito Das 41 disciplinas elegidas no PPP como obrigatórias, 15 exigem pré-requisito, ou seja, 36,58%. Desta forma, algumas delas como Interpretação, Técnica Vocal, Técnica Corporal, Voz e Canto, História e Dramaturgia, carregam um sufixo numérico que 98 Observemos: um semestre que ocorre de 18 às 22h, conforme se configura hoje o curso, comporta 20 créditos. Já um semestre que inicie às 17:30h comporta, no máximo, 25 créditos. 231 indica as sucessões. Assim, ao sugerirmos alterações para a quebra de pré-requisito, automaticamente, anunciamos novos nomes para as disciplinas e, com isso, procuramos que seus enunciados, de alguma forma, já propusessem o conteúdo abordado. Acreditamos, portanto, que alguns destes pré-requisitos podem ser quebrados tornando mais fácil para o aluno dar andamento à sua integralização curricular quando da ocasião do não cumprimento de uma disciplina seqüenciada no semestre anterior. Ratifica-se, portanto, que há uma estrutura verticalizada na oferta das disciplinas. Com isso, a quebra de pré-requisitos proposta deve evitar o represamento do estudante, mas o mesmo será orientado a seguir a estrutura elaborada. 2.4 Ementas Conforme podemos verificar nas páginas 36 e 42 do PPP, há um desencontro na nominação de uma disciplina. No item 10.7 Ementário encontramos: Fundamentos da Arte na Educação: Metodologias e Tendências: Estudo de teorias e práticas educativas em arte. A relação Educação e Arte no contexto brasileiro. Panorama atual das investigações feitas em Arte e Educação (UFC, 2009, p.36) No quadro abaixo, retirado do item 11. Integralização curricular: Curso de Artes Cênicas – Licenciatura, vemos esta disciplina com o nome Educação Teatral: metodologia e tendências. 4º Período Disciplinas Obrigatórias Interpretação III Voz e Canto II Caracterização I: Figurino Educação Teatral: Metodologias e Tendências Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência Estética Horas totais obrigatórias do período Horas necessárias para o semestre Cód. - Carga Horária Semanal AT AP CR. TOT 64 04 64 32 02 32 32 32 04 64 32 02 32 64 64 - 04 64 04 20 64 320 Pré-requisito Interpretação II Voz e Canto I Nota-se que a ementa contempla mais adequadamente a primeira disciplina Fundamentos da Arte na Educação. Contudo, consideramos que a disciplina Educação Teatral: metodologias e tendências é de fundamental importância para a formação do teatro-educador. Da mesma forma, o ICA e a PROGRAD, cientes do 232 problema, autorizaram a oferta da disciplina citada já para o semestre de 2011.2, precisando esta ser regularizada enquanto ementa e carga horária. Podemos apontar também as ementas das disciplinas História do Teatro e da Literatura Dramática II e III, nota-se: História do Teatro e da Literatura Dramática II – Evolução do Teatro contemporâneo. Estudo Histórico da dramaturgia no Séc XX. Análise e Interpretar do texto teatral contemporâneo de Brecht, Becket, Ionesco e Jean Genet. História do Teatro e da Literatura Dramática III: Análise do Texto e do Espetáculo. Estrutura, os conteúdos, os signos, o espaço, o tempo, as personagens. Relação dramaturgia e espetáculo. Estudo do texto na perspectiva da construção cênica. Estudo do teatro no Século XX. Teatro do Absurdo e dramaturgia. Estudo da performance na pós modernidade. Estudo de textos curtos, sketes. (UFC, 2009, p.3435) Observamos que, para além dos questionamentos quanto ao vasto conteúdo atribuído a estas disciplinas, Teatro do Absurdo e Dramaturgia, aparece textualmente em História do Teatro e da Literatura Dramática III, portanto os dramaturgos representantes máximos deste período, Becket, Ionesco e Jean Genet,são citados em História do Teatro e da Literatura Dramática II. A partir destes exemplos, tornou-se necessária uma revisão nas ementas das disciplinas. Fato este que contribuiu, em muito, para uma análise pormenorizada deste projeto e resultou em sugestões acordadas para o aprimoramento e a adequação dos conteúdos de cada disciplina ofertada. 3. Considerações conclusivas Diante de tantas necessidades de mudanças, nos questionamos: quais os cunhos didático-pedagógicos são por nós elegidos? Quem somos nós que construímos hoje o currículo do curso de licenciatura em teatro da UFC? Quais conhecimentos avaliamos como primordiais? Qual a visão do discente e do docente sobre o Projeto Político Pedagógico do Curso? Como eles (nós) se (nos) posiciona (mos) política e ideologicamente? 233 Para refletir sobre estes questionamentos, Apple (2006, p.212) sugere pensarmos: De quem é o capital cultural, tanto aberto quanto oculto, colocado ‘dentro’ do currículo escolar? De quem é a visão da realidade econômica, racial e sexual? De quem são os princípios de realidade econômica? De quem são os princípios de justiça social engastados no conteúdo da escolarização? Essas questões lidam com poder, recursos econômicos e controle (também com a ideologia e a economia de industrial corporativa editorial). Atualmente, o corpo docente do referido curso concorda com a argumentação de que o professor de teatro deve ser fundamentalmente formado nos conhecimentos específicos do teatro e ser capaz de adaptar a materialidade teatral às particularidades e necessidades de seus diversos grupos de alunos. Por isso, faz-se necessário pensar em formar profissionais plurais, capazes de lidar com vivências diferenciadas, capazes de perceber e aceitar a diferença para evitar a reprodução cultural e social de um modelo tradicional, hegemônico e específico. Sustentamos o discurso de que se faz necessário superar as generalizações atribuídas ao teatro enquanto prática educacional e buscamos definir melhor nosso campo de atuação, produzir novas interações entre o teatro e as demais áreas do conhecimento, redimensionando o próprio teatro e seu diálogo com os diferentes setores da arte e da ciência. O projeto político-pedagógico não pode se limitar a um documento a ser encaminhado aos órgãos gestores e depois arquivado, como se cumprisse apenas uma função burocrática. (PASSOS, 2007, p.28). Com isso, o corpo docente, e em certa medida o discente, reflete sobre o PPP a partir do instante que elabora discursos sobre o perfil do profissional a ser formado; os princípios e valores que nortearão as ações do curso; as condições necessárias para a efetivação da proposta. (ibidem, p.32) Assim pretendemos superar o fato que: [...] se os sujeitos envolvidos não perceberem o sentido e não acreditarem na proposta, os passos seguintes serão inviabilizados. [...] Muitas vezes são elaborados por pequenos grupos, sem o aval dos demais segmentos da comunidade. (ibdem, p.27) Consideramos que este trabalho é de suma importância para ajustar o PPP às exigências legais do MEC e às orientações da Pró-Reitoria de Graduação em tempo hábil de formar a primeira turma (a qual já se encontra no quarto semestre), dentro de um currículo normatizado. 234 Para concluir, gostaríamos de ressaltar que as filosofias da arte e da educação que servem de pressupostos para este projeto mantêm-se inalteradas, pois o colegiado deste curso posiciona-se favoravelmente ao fato de que devemos trabalhar em prol da implementação deste projeto e manter-se vigilante quanto aos seus desdobramentos. Continuaremos, portanto, com a intenção de suscitar mais questionamentos que possam colaborar teórica e praticamente em clarificar o modo de nos posicionarmos diante das novas gerações que estarão se formando sob a égide de um discurso por nós erigido. 4. Nova organização curricular A estrutura curricular do curso de Licenciatura em Teatro passa para 2952 horas, assim divididas: 1872 horas de disciplinas obrigatórias, sendo 117 créditos dos quais 61 são teóricos e 56 práticos; 352 horas de disciplinas optativas, que perfazem 22 créditos; 200 horas de atividades complementares; 400 horas de estágio supervisionado e 128 horas de disciplinas livres que correspondem a 8 créditos. Nesta estrutura um crédito equivale a dezesseis hora/aula. O curso oferecerá um rol de disciplinas optativas sempre em maior quantidade do que a mínima necessária a ser integralizada pelo estudante. Assim, o mesmo poderá escolher, ao longo de oito semestres, quais disciplinas optativas deseja cursar. Com isso, pretendemos cada vez mais dar ao discente o protagonismo de sua formação.Continuamos enfatizando que as disciplinas optativas podem ser ofertadas dentro da integralização curricular ou em módulos, conforme previsto na página 30 do PPP. 4.1 Ementário Primeiro Semestre Voz e Educação - Princípios do trabalho vocal: aprendizado corpóreo-vocal via sensibilização e percepção dos parâmetros da voz (respiração, sonorização, ressonância e articulação). Criação e imaginário corpóreo-vocal. O brincar com a voz 235 e os sons. Jogos de criação sonora de forma individual e grupal. Reflexões pedagógicas sobre o trabalho vocal com crianças, jovens e adultos. Pedagogia, construção de linguagem e voz. Improvisação – O jogo na criação da cena teatral: teoria e prática. Improvisação: conceitos e abordagem histórica. Técnicas de improvisação. Jogos Teatrais e Jogos Dramáticos. Criação de textos, personagens e situações dramáticas. Noções de tempo, espaço e ritmo. Processos de criação. Corpo e Educação – Consciência e percepção corporal. Introdução e discussão de técnicas corporais e sua aplicação nas artes cênicas. Estudo do aparelho locomotor. Pesquisa prática-teórica das qualidades do movimento expressivo e sua elaboração para a cena. Teorias da Interpretação – Análise dos pressupostos que fundamentam as teorias mais representativas sobre a formação do ator e sua relação com os elementos que compõem a cena teatral: o sistema de Stanislavski, Craig, Meierhold, Kantor, Brecht, Augusto Boal, Artaud, Grotowski, Barba, dentre outros. Apreciação Cênica – Desenvolvimento e ampliação no aluno de sua percepção cênico-teatral. Exame de referências da cena contemporânea e poéticas cênicas que a inspiraram (Appia, Craig, Bauhaus, Meyerhold, entre outros). Reflexão sobre a imagem, o som e corpo, onde a noção de dramaturgia se amplia do corpo-texto ao corpo-cena e/ou vice-versa. Fundamentos da Arte na Educação – Estudo de teorias e práticas educativas em arte. A relação Educação e Arte no contexto brasileiro. Panorama atual das investigações feitas em Arte e Educação. Segundo Semestre Ator: Texto - O texto dramático como fonte principal para a interpretação.Leitura dramática e análise do texto dramático sob a ótica da Interpretação Teatral. Procedimentos e rotinas específicos do ator para a criação/interpretação de personagens. Composição de cenas individuais e em grupo, a partir de textos. Educação Teatral: Metodologias e Tendências - Teoria e práticas de jogos teatrais sistematizados e desenvolvidos para atividades de teatro na educação. Processos de aprendizagem teatral em escolas do ensino fundamental e médio. Possibilidades que as experiências teatrais contemporâneas oferecem ao ensino de teatro no sistema 236 educacional formal. A instância da teatralidade e da ludicidade. Sistemas de jogos teatrais, suas estruturas e versões: Peter Slade, Viola Spolin, Augusto Boal, Ricardo Japiassú, Richard Courtney, Ingrid Koudela, Jean-Pierre Ryngaert. O condutor nos processos educacionais em teatro. Plano de aula. Análise de texto – Gêneros Literários: lírico, épico e dramático. Dramaturgia: o modo particular de construir a ação – o modo dramático. Teoria da Forma Dramática: estrutura do Texto Dramático e elementos da Obra Dramática. A personagem no drama. A análise do texto dramático: tempo/espaço/elementos simbólicos ou imaginários. Exercícios de análise de texto específicos ao ator: ações da personagem / informações externas / idéias próprias / características físicas e exteriores. Objetivos da personagem por cena, blocos ou unidades, sub-unidades e bits / superobjetivo. Análise actancial. História do Teatro: Prototeatro ao Neoclassicismo – Estudo histórico de práticas teatrais (poéticas, atuação, dramaturgia, modos cênicos, entre outros), abordando: manifestações primitivas do teatro; Grécia Antiga; Roma; Medieval; Elisabetano; Século de Ouro Espanhol; Comedia dell’Arte; Neoclassicismo. Metodologia do Trabalho Cientifico – Ciência, arte e produção e difusão do conhecimento. Ética e estética na produção acadêmica. Procedimentos de estudo e aprendizagem – resumo, sinopse, resenha, fichamento, seminários. Tipos e estruturas constitutivas de trabalhos acadêmicos e científicos: tese, dissertação, monografia, TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), artigo científico, comunicação científica. Modalidades de pesquisa, métodos e procedimentos. Terceiro Semestre Pesquisa de Corpo para Cena – Composição e análise da corporeidade cênica. Espacialidade e temporalidade do corpo em movimento e sua aplicação nas artes cênicas. Estudo da matéria corporal e suas relações de forças. Pesquisa práticateórica do corpo movente e sua elaboração para a cena. Pesquisa de Voz para a Cena – Pesquisa e criação vocal a partir das relações vozação física-palavra na cena teatral. Corporificação vocal do texto escrito. Imaginário sonoro: relação som x imagem x sensação. Estudo de dinâmicas da voz (variação de intensidade, ressonância, extensão, acento) e da fala a partir do texto (pontuações, pausas, palavra de valor, variação de velocidade, curva melódica, 237 dicção). Relação voz x espaço (interno, parcial e global). Composição de partituras vocais para a cena. Ator: Corpo/Voz – Treinamento técnico e energético do ator. Experimentação do corpo enquanto potência cênica. Abordagens da realidade do corpo nos métodos do século XX. Voz enquanto extensão do corpo e suas possibilidades fisiológicas de sensação. Codificação de matrizes; Composição de partituras cênicas a partir das experimentações do corpo/voz. História do Teatro: Romantismo ao Teatro Moderno – Estudo histórico de práticas teatrais (poéticas, atuação, dramaturgia, composições cênicas, encenadores, entre outros), abordando: Romantismo; Teatro Total de Wagner; Naturalismo; Realismo; Simbolismo; Vanguardas; Agit-Prop; Teatro Épico de Bertolt Brecht; Teatro do Absurdo. Iniciativas em Teatro Educação - Estudos prático-teóricos - enfocando diversos setores da sociedade e diversas faixas etárias - de abordagens teóricas e propostas de docência teatral em âmbitos externos ao contexto escolar formal. Os papéis do condutor em uma aula de teatro e em processos grupais teatrais. Estudos de caso de prática de docência teatral, enfatizando seu teor político-social. Estudos Sócio-históricos e Culturais da Educação – Conceitos fundamentais da Sociologia, História e Antropologia para a compreensão da relação entre Educação e Sociedade. A interdisciplinaridade do pensamento pedagógico. Multiculturalismo e ação afirmativa. Quarto Semestre História do Teatro Brasileiro – Estudo das referências históricas e teóricas que fundamentam a encenação e a literatura dramática brasileiras do século XVI à atualidade. Montagem – Montagem de um espetáculo teatral, sob a orientação de um professordiretor em espaço convencional ou alternativo. Temáticas, textos e processos de encenação de escolha da direção. A montagem deverá ser estruturada visando a aplicação de seu processo criativo em metodologias de ensino-aprendizagem na linguagem teatral. Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem na Adolescência – Concepções básicas sobre o desenvolvimento e aprendizagem do ser humano. Conceito e 238 características da adolescência. Desenvolvimento sócio-afetivo e cognitivo. Crises na adolescência. Fatores psicológicos no processo ensino/aprendizagem: percepção, atenção, motivação, memória e inteligência. Distúrbios na aprendizagem. Avaliação da aprendizagem. Quinto Semestre Didática – Educação e didática na realidade contemporânea: o Professor, o Estudante, o Conhecimento; a Natureza do trabalho docente; Concepções de Ensino; A sala de aula e seus eventos; Planejamento e Gestão do Processo de Ensino-Aprendizagem. Fundamentos da Direção Teatral – Os elementos, as habilidades artísticas e técnicas envolvidas na realização do espetáculo teatral enquanto linguagem específica. A função da direção ao longo da história do teatro. O encenador e o conceito de encenação. Exercícios práticos de direção teatral: introdução aos fundamentos e técnicas de direção teatral no processo de criação cênica. A noção de encenação didática no contexto da sala de aula. Língua Brasileira de Sinais: LIBRAS – Desenvolvimento da expressão visual e espacial para comunicação através da Língua Brasileira de Sinais. Introdução ao léxico, fonologia, morfologia e sintaxe da Língua Brasileira de Sinais. Estágio Supervisionado I – Análise e avaliação de uma experiência do ensino teatral efetivamente realizada, envolvendo investigação sobre aspectos do cotidiano escolar. Reflexão em torno das políticas educacionais, sobre a organização do trabalho na escola e sobre a prática pedagógica com o teatro. Sexto Semestre Aspectos Visuais da Cena - A visualidade como signo cênico. Estudo dos elementos estruturais da linguagem visual e sua aplicação ao espetáculo teatral. Estudo de cores e expressividade. Princípios básicos de cenografia, figurino, iluminação e maquiagem. Exploração criativa de materiais convencionais, alternativos e recicláveis na composição de cenários, figurinos e adereços aplicados à educação. Prática Educacional em Interpretação - Estudo teórico e prático da direção de atores entre os participantes da disciplina. A relação diretor e atores. Processos de ensino-aprendizagemda interpretação teatral. 239 Estrutura Política e Gestão Educacional – A educação no contexto sócio, econômico, histórico e legal brasileiro; Conceito de Sistema e organização escolar o Sistema Educacional Brasileiro; A legislação educacional; As políticas públicas para a Educação; Gestão educacional; financiamento da Educação; Formação do profissional de Educação; A estrutura política para a educação no Estado do Ceará. Estágio Supervisionado II – Programação, execução e avaliação de uma proposta de estágio compreendendo: diagnóstico da realidade escolar, participação nas atividades pedagógicas da unidade escolar e direção do processo de ensino-aprendizagem. Análise e avaliação das experiências de ensino teatral realizadas. Sétimo Semestre Ética e Prática Teatral: A problemática da ética. O estudo de comportamentos humanos (costumes). A ética como reflexão teórica. Conceitos de physis / ethos / polis. A ética e a moral. Estudo de questões éticas pertinentes ao exercício da atividade teatral e ao artista enquanto cidadão. Estudo do trabalho de atores, diretores e grupos: o teatro visto sob a ótica do seu significado social e profissional. Metodologia e Prática da Encenação: Metodologias de encenação: teoria e prática. Processo de construção e apresentação de cena ou peça curta, acompanhado de seu respectivo projeto. Análise e avaliação do processo de construção cênica utilizado e seus reflexos na relação entre o processo e produto. Estágio Supervisionado III – Aprofundamento da experiência vivida em Estágio Supervisionado I e II. Práticas de caráter investigativo no ensino do teatro e seus possíveis resultados cênicos individuais ou coletivos. Oitavo Semestre Realização Teatral em Docência – Experiência prática da relação professor-diretor, aluno-ator e espectador. Estudo da relação entre o processo de ensaio e o resultado espetacular almejado. Construção de peças, cenas ou esquetes no contexto da escola. Estágio Supervisionado IV – Intervenção pedagógica concatenada com as vivências realizadas nas disciplinas de Estágio I, II, III, buscando um aprofundamento do trabalho realizado e uma avaliação deste como um todo: pesquisa sobre aspectos didáticos, sociais e políticos da prática escolar. Processo de caráter interdisciplinar com Realização Teatral em Docência direcionado à elaboração de um resultado 240 cênico. Potencialidades do estágio como possível campo de investigação para o trabalho de conclusão de curso. Trabalho de Conclusão de Curso - A elaboração da pesquisa em teatro e educação: orientação e análise. Elaboração da pesquisa sob a forma de monografia ou outros trabalhos acadêmicos similares. Finalização do trabalho de conclusão para apresentação pública perante comissão composta por três professores. OPTATIVAS Teorias da Comunicação – Processos de comunicação. Teorias do signo e os meios de comunicação. As diversas correntes teóricas sobre comunicação e mídia: conceitos e definições. História do Teatro Cearense – A presença do teatro cearense na cena cultural do Ceará. Atores, encenadores e espetáculos. A dramaturgia cearense. O teatro cearense na cena contemporânea. Ação Cultural e Mediação Teatral – Estratégias de disseminação da teatralidade em diversos segmentos da sociedade: terceiro setor, ONGs, Estado, OSCIPs, e outras formas de organização civil. A formação de público. As alternativas de docência encontradas por grupos teatrais no Brasil. Ação sociocultural em teatro. Indústria Cultural Produção em Artes Cênicas – Estudo das leis municipal, estadual e federal de incentivo às Artes Cênicas. Procedimentos para criação de projetos de produção, montagem e circulação de espetáculos. Estudo da legislação específica e dos institutos sociais que fundamentam o exercício profissional do teatro. Formas Animadas – Estudo da história e dos conceitos teóricos relativos ao teatro com formas animadas: Oriente, Ocidente e Brasil. A relação entre ator, manipulador e objetos manipulados. Experimentação prática com formas animadas: confecção, manipulação e encenação. Criação de cenas e práticas pedagógicas cênicas com formas animadas. Ator: Espaço – A relação do ator com o espaço que o cerca: o vazio, objetos, acessórios, figurinos, cenário, multimídias, iluminação, arquitetura, espectadores, outros atores. Espaço: tamanho, ocupação ou preenchimento, separação ou proximidade com a platéia e suas implicações no trabalho do ator. 241 Performance – Introdução prática e teórica da arte da performance: desconstrução da representação, desfronteirização entre arte e vida, dramaturgias pessoais e/ou autobiográficas, dramaturgias do corpo, políticas de identidade, a presença do performer, relações entre performer e espectador e entre espetacularidade e performatividade, a irreprodutibilidade e suas consequências, questões políticas da performance. Prática da performance em contextos diversos da sociedade e na educação. Pesquisa em Artes Cênicas - Compreensão de especificidades e questões teóricometodológicas da pesquisa em artes cênicas. Métodos, técnicas, planejamento, projeto de pesquisa e orientação. Pesquisa Científica e Social. Análise da pesquisa como princípio estético-educativo na formação do professor de Teatro. Elaboração e apresentação de um projeto de pesquisa em Artes Cênicas e Educação. Cena e Dramaturgia Contemporâneas – O estudo da história do teatro e da literatura dramática na segunda metade do século XX. Evolução do teatro contemporâneo: a relação entre dramaturgia e espetáculo. Estudo de textos dramáticos contemporâneos. Estudo da performance na pós-modernidade. Estética – Introdução ao mundo conceitual e teórico da filosofia estética. Platão e a recusa da arte enquanto cópia falsa do real. A Poética de Aristóteles e seus desdobramentos históricos. O Belo e o Sublime em Kant. Hegel e a manifestação sensível da Idéia. Schopenhauer: o mundo como Vontade e Representação. Nietzsche e a função extra-estética da arte. Introdução ao TCC – Planejamento, projeto de pesquisa e orientação. A elaboração da pesquisa em teatro e educação: orientação e análise. Possibilidades de campos de investigação e modalidades de pesquisa que contemplem a trajetória acadêmica do aluno. Exploração de perspectivas investigativas, produção de dados e produção textual que componham material direcionado ao Trabalho de Conclusão de Curso. Iniciação à Prática Teatral -Noções básicas de corpo e voz. Exercícios práticos de criação de cenas. Noção de espaço-tempo da cena. Improvisação. Leitura dramática de textos dramáticos, poéticos, literários. Tópicos Especiais Artes Cênicas I - Programa definido a partir de pesquisas que se realizam no Instituto de Cultura e Arte sobre temas relacionados com o Teatro, Teatralidade, Espetacularidade e Artes Cênicas em geral. Interfaces possíveis da Arte com a filosofia, política, ciências humanas e outras áreas do saber. 242 Tópicos especiais Artes Cênicas II - Programa definido a partir de pesquisas que se realizam no Instituto de Cultura e Arte sobre temas relacionados com o Teatro, Teatralidade, Espetacularidade e Artes Cênicas em geral. Interfaces possíveis da Arte com a filosofia, política, ciências humanas e outras áreas do saber. Máscaras e Maquiagem – Os significados da máscara. Estudo e uso das máscaras teatrais nas culturas oriental e ocidental. Uso da máscara nas diversas linguagens de teatro. Caracterização com máscaras e adereços nas práticas populares. Criação, confecção e uso de máscaras. Técnicas de maquiagem a partir do projeto de cena. Figurino e Adereços – História do figurino no teatro ocidental. O figurino e a composição do personagem no teatro. Iniciação ao estudo do traje. O figurino como signo cênico. Figurino vs. moda no contexto econômico e social. Processo e criação de figurino com seus significados simbólicos e psicológicos, texturas, formas e composições. Exploração das potencialidades lúdicas da indumentária e do adereço como estímulo à imaginação e fantasia cênica. Possibilidades de adaptação e/ou reciclagem de materiais. Composição, criação e construção de figurino e adereço a partir do projeto de cena. Iluminação: Limites e potencialidades da cena a partir da inclusão da luz como elemento poético e narrativo. A distribuição da luz pelo espaço. A natureza física da luz e da visão humana. Escolha, manuseio e utilização adequada dos refletores e demais equipamentos de iluminação. Iluminação de formas e atores. Eletricidade básica. Roteiro e mapa de operação. Estudo dos elementos da iluminação para aplicação em situações educacionais. Reutilização, reciclagem e adaptação de materiais. Cenografia: A espacialidade como potência cênica. Estudo do espaço teatral (cenografia e arquitetura) e seus significados históricos. Tipos de arquitetura teatral. Análise da relação palco/platéia. Estudo dos elementos técnicos cenográficos de uma produção teatral. Identificação e análise dos elementos cenográficos do espetáculo a partir de referências contidas no texto dramático. Estudo dos elementos da cenografia para aplicação em situações educacionais. Reutilização, reciclagem e adaptação de materiais. Linguagem Áudio-visual em Educação - Estudo teórico e prático da relação das mídias audiovisuais aplicadas à cena teatral, intervenções urbanas e artes telemáticas. Processo de criação teatral com elementos tecnológicos do cotidiano tais como: 243 webcams, celulares, mp3, internet, entre outras possibilidades. Processo de ensinoaprendizagem onde os seus futuros alunos possam materializar artisticamente suas inquietações e temas de interesse a partir destes elementos. Culturas Populares – Conceito de Cultura. Noção de Culturas Populares. Conhecimento sobre passos, figuras e coreografias de cada época. Aplicação na interpretação de personagens diversos. Danças dramáticas brasileiras e cearenses. A dança social como forma de contextualizar personagens quanto aos aspectos históricos e sentido de lugar. Prática de vários ritmos das danças dramáticas. Voz e Canto I: Técnicas básicas de relaxamento e respiração. Noções básicas de teoria musical, uso da caixa de ressonância. Profilaxia vocal. Técnicas de impostação vocal para o canto solo ou em grupo. Exercício de apreciação musical. Voz e Canto II: Introdução à organologia. Técnica vocal. Laboratório coral, profilaxia vocal. Técnicas de canto solo e em grupo. Acústica e música eletrônica aplicada ao teatro. 4.2 Matriz curricular Matriz curricular – disciplinas obrigatórias Sem 01 Nome da Disciplina P TT Voz e Educação 1 3 4 Corpo e Educação 1 3 4 Improvisação 1 5 6 Teorias da Intepretação 2 0 2 Apreciação Cênica 2 0 2 Fundamentos da Arte na Educação 2 0 2 09 11 20 Nome da Disciplina Créditos Pré-requisitos T P TT Ator: Texto Educação Teatral: Metodologias e Tendências 0 6 6 Improvisação 2 2 4 Improvisação Análise de Texto História do Teatro: Prototeatro ao Neoclassicismo 2 0 2 4 0 4 Metodologia do Trabalho Científico 4 0 4 Optativa Total Pré-requisitos T Total Sem 02 Créditos 2 12 08 22 244 Sem 03 Nome da Disciplina T P TT 0 2 2 Pesquisa de Corpo para Cena 0 2 2 Ator: Corpo/Voz História do Teatro: Romantismo ao Teatro Moderno 0 6 6 4 0 4 Iniciativas em Teatro Educação Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação 2 2 4 4 0 4 10 12 22 Nome da Disciplina Créditos T P TT 4 0 4 Montagem 0 12 12 História do Teatro Brasileiro 2 0 2 06 12 2 20 Optativa Nome da Disciplina Créditos T P TT 0 3 3 Didática 4 0 4 Língua Brasileira de Sinais: LIBRAS 2 2 4 Sem 06 06 Nome da Disciplina 05 Créditos P TT 0 3 3 Aspectos Visuais da Cena 4 0 4 Estrutura Política e Gestão Educacional 4 0 4 08 Nome da Disciplina Montagem 4 Estágio Supervisionado II 03 5 20 Créditos Estágio Supervisionado I Pré-requisitos T P TT Metodologia e Prática da Encenação 1 5 6 Ética e Prática Teatral 2 0 2 Optativas Prática Educacional em Interpretação ou Fundamentos da Direção Teatral Montagem 6 Estágio Supervisionado III Total Pré-requisitos T Optativa Sem 07 Montagem 5 20 Prática Educacional em Interpretação Total Ator: Corpo/Voz e Ator: Texto 4 Estágio Supervisionado I Total Improvisação Pré-requisitos Fundamentos da Direção Teatral Optativa Improvisação Pré-requisitos Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Adolescência Total Sem 05 Pré-requisitos Pesquisa de Voz para Cena Total Sem 04 Créditos 03 05 5 19 Estágio Supervisionado II 245 Sem 08 Nome da Disciplina Créditos Pré-requisitos T P TT Trabalho de Conclusão de Curso 4 0 4 Realização Teatral em Docência 3 0 3 Optativa Metodologia do Trabalho Científico Prática Educacional em Interpretação ou Fundamentos da Direção Teatral 4 Estágio Supervisionado IV 10 Total 07 0 T 6 1 Disciplinas Obrigatórias Disciplinas Optativas Atividades Complementares Estágio Supervisionado Disciplinas Livres Quantidade de Horas para Formatura Estágio Supervisionado III 21 P TOTAL Horas 56 117 1872 22 352 Prazo Mínimo para Integralização Curricular Prazo Máximo para Integralização Curricular 200 25 400 8 128 2952 8 semestres – 4 anos 12 semestres – 6 anos Matriz Curricular – disciplinas optativas Sem 01 Nome da Disciplina Créditos T P TOTAIS Semestre Sugestão Pré-requisito Ação Cultural e Mediação Teatral 2 0 2 4 Performance 1 3 4 5 Ator: Espaço 0 4 4 5 Improvisação Cena e Dramaturgia Contemporâneas 2 0 2 6 Cenografia 0 4 4 8 Culturas Populares 2 0 2 Ímpar/par Estética 2 0 2 6 Figurino e Adereços 0 4 4 7 Formas Animadas 1 3 4 5 História do Teatro Cearense 2 0 2 2 Iluminação 0 4 4 7 Iniciação à Prática Teatral 0 4 4 Ímpar/par (ICA) Introdução ao TCC 2 0 2 7 Metodologia do Trabalho Científico Linguagem Áudio-‐visual em Educação 0 4 4 7 Máscaras e Maquiagem 0 4 4 8 Pesquisa em Artes Cênicas 2 0 2 6 Produção em Artes Cênicas 2 0 2 4 Teorias da Comunicação 2 0 2 2 Tópicos Especiais em Artes Cênicas I 2 0 2 ímpar Tópicos Especiais em Artes Cênicas II 2 0 2 par Voz e Canto I 0 4 4 ímpar Voz e Canto II 0 4 4 par Voz e Canto I 246 4.3 Fluxograma 4.4 Trabalho de Conclusão de curso O Trabalho de Conclusão de Curso deve consistir, portanto, na produção de um material de cunho acadêmico-científico. Poderá possuir caráter monográfico ou de pré-projeto de pesquisa, caso o aluno tenha vistas na inserção em um Programa de Pós-Graduação. Este trabalho deve ser orientado por um professor e deve ter a participação de outros dois professores, podendo ser um deles externo ao curso de licenciatura em teatro, para a defesa do trabalho, item indispensável à sua formação. Assim, registra-se que relatos de experiência de estágio, bem como montagem e circulação de espetáculos não configuram Trabalho de Conclusão de Curso, sendo ambos os casos resultados relacionados às disciplinas de Estágio Supervisionado e disciplinas práticas, respectivamente. 247 4.5 A prática como componente curricular Uma série de disciplinas que compõem a matriz curricular contempla a noção da “prática como componente curricular”, perfazendo um total de 544 horas, em disciplinas obrigatórias, ao longo da formação dos licenciandos. Estas disciplinas contemplam aspectos pedagógicos e se configuram como espaços primordiais para se pensar a relação do professor de teatro com a sociedade, bem como instigar a intervenção dos mesmos em diversos locaisde atuação de um artista-docente. Podemos destacar: Voz e Educação Corpo e Educação Improvisação Educação Teatral: Metodologias e Tendências Iniciativas em Teatro Educação Prática Educacional em Interpretação Metodologia e Prática da Encenação Realização Teatral em Docência Total de Créditos Total de Horas 4 4 6 4 4 3 6 3 34 544 248 5. Referências APPLE, Michael. Ideologia e currículo. Porto Alegre: Artmed, 2006. BRASIL. Ministério da Educação. REUNI: reconstrução e expansão – diretrizes gerais. Brasília, DF: MEC/CNE, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/diretrizesreuni.pdf. Acesso em 25 de maio de 2011. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP 2. Brasília, DF: MEC/CNE, 2002. PASSOS, Carmensita. Novos projetos pedagógicos para formação de professores: registros de um percurso. 2007. Tese (doutorado). Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2007. UFC. Projeto Político Pedagógico do Curso de Artes Cênicas – modalidade teatro, licenciatura. Coordenação do Curso de Licenciatura em Teatro. Fortaleza, 2009.