GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos Flávio Passos Santana1 Resumo Este trabalho tem como base o projeto Pibic 2011-2012 intitulado “O Discurso sobre a escola na voz de seus alunos” (Tfouni, 2011). Nosso plano de trabalho “O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos” tem o objetivo geral de investigar as representações sobre a escola pública dos alunos do primeiro ano do Ensino Médio, de uma escola pública da cidade de Itabaiana-SE, através das formações discursivas nas quais se inserem para falar desse objeto. Adotamos como referencial teórico os pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso de linha francesa, com base em Pêcheux (1993), Orlandi (2002), Tfouni, L. V. & Paula, F. S., Tfouni (2011), dentre outros teóricos. Ainda não possuímos uma conclusão precisa, mas, a partir das discussões, evidenciamos duas Formações Discursivas antagônicas a respeito do enunciado, o que pode levar a análise explorar as formações ideológicas que as tornam possíveis. Palavras-chave: Discurso. Escola. Alunos. Introdução O presente trabalho vai abordar o que desenvolvemos, até o momento, no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), o qual nosso plano de trabalho intitula-se: “O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos”, este, por sua vez, está inserido num projeto mais amplo “O discurso sobre a escola nas vozes de seus alunos”, desenvolvido pelo Prof. Dr. Fábio Tfouni (2011) que tem como objetivo verificar e analisar o discurso de alunos de escolas públicas e privadas acerca do que estes pensam a respeito da escola em geral e no tocante a escola em que estudam. Para tanto, utilizamos como embasamento os pressupostos teórico-metodólogicos da Análise do Discurso (AD) de linha francesa, baseando-se em Pêcheux (1993) e Orlandi (2002). Também fizemos uso dos trabalhos de Tfouni & Tfouni (2007), Paula & Tfouni (2009), Reboul (1975), dentre outros estudiosos. Como se sabe, nas Ciências da Linguagem utiliza-se o termo corpus para de- 1 Estudante de Letras-Português - Bolsista PIBIC (FAPITEC) - Universidade Federal de Sergipe (UFS-Ita) - [email protected] Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 33 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana signar o conjunto de enunciados que serão analisados. Neste artigo, nosso corpus irá consistir de produções escritas, sobre a escola dos alunos da rede pública, a partir do enunciado: entra burro; sai ladrão. Nessa linha, pretendemos fazer recortes efetuados na superfície linguística do corpus obtido, e procuraremos analisar como a ideologia impõe ou interdita zonas de sentido. No texto de Tfouni & Tfouni (2007), “Entra burro; sai ladrão. O Imaginário sobre a escola materializada nos genéricos” foi percebido a partir do slogan (enunciado) “entra burro; sai ladrão” que os alunos de uma determinada escola pública da cidade de Ribeirão Preto-SP possuíam uma visão bastante negativa ao que se refere à instituição de caráter público. A partir daí, vamos buscar investigar as posições dos sujeitos do município da cidade de Itabaiana-SE acerca da escola em geral. Tfouni & Tfouni (2007) argumentaram que este slogan (genérico) poderia ser outro, no entanto, para isso, a realidade da educação brasileira teria que ser diferente da atual. Em contrapartida, se a educação no Brasil fosse tratada com prioridade, a escola estudada não seria vista como o lugar onde se produz a degradação do homem. Claramente, essa visão negativa não surgiu do nada. Pois, segundo a AD, os sentidos não estão prontos para serem utilizados, assim como as palavras se encontram no dicionário. Para a AD, há um processo histórico de determinação do sentido das palavras e dos processos sintáticos, no qual é a partir daí que ocorre a interpretação. Diante do que foi exposto, surgem as perguntas que guiam nosso trabalho: Ao apresentarmos esse slogan, que tipo de discurso os alunos itabaianenses produzirão? Ocorrerão contradições, discordâncias? Análise do Discurso (AD) Na Análise do Discurso busca-se compreender a língua fazendo sentido, bem como se concebe a linguagem enquanto mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social, e também se trabalha a questão da língua no mundo. Dessa forma, para que se encontrem as regularidades da língua é imprescindível que o analista relacione-a a sua exterioridade. A AD parte da ideia de que, a partir de uma análise à sistematicidade da Linguística e das Ciências Sociais, a materialidade específica da ideologia é o discurso, e que a materialidade específica do discurso é a língua. A Análise do Discurso trabalha a relação língua-discurso-ideologia e, para se complementar, o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido (ORLANDI, 2002). Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 34 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana Para a AD, a língua tem ordem própria; a história tem seu real afetado pelo simbólico; o sujeito da linguagem é descentrado, pois este é afetado pelo real da língua e também pelo real da história. Vale ressaltar que a AD é formulada a partir da relação de três regiões de conhecimento: Linguística, Marxismo e Psicanálise. Nesse sentido, a confluência entre esses três domínios disciplinares produz um novo recorte de disciplinas, constituindo um novo objeto: o discurso. Orlandi (2002) destaca que a noção de discurso se distancia do conhecimento de mensagem definida no esquema elementar da comunicação — um emissor transmite uma mensagem para um receptor, mensagem esta formulada em um código, referindose a algum elemento da realidade, o referente. Pode-se dizer que, na AD, não existe uma separação entre emissor e receptor, eles realizam, ao mesmo tempo, o processo de significação. Deste modo, a AD trata de um funcionamento da linguagem que põe em relação sentidos e sujeitos afetados pela história e pela língua, acarretando um complexo processo de produção de sentidos e sujeitos. É, portanto, a partir disso que se define o discurso como efeito de sentido entre interlocutores. Brandão em “Introdução à Análise do Discurso” comenta o conceito de discurso em Foucault (1969). O qual concebe o discurso como uma dispersão: “isto é, como sendo formados por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade. E, cabe à análise do discurso descrever essa dispersão, buscando o estabelecimento de regras capazes de reger a formação dos discursos”. (Foucault apud BRANDÃO, 1995:28). Segundo Orlandi: [...] a Análise do Discurso visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos. Essa compreensão, por sua vez, implica em explicitar como o texto organiza os gestos de interpretação que relacionam sujeito e sentido. Produzem-se assim novas práticas de leitura. (2002: 26) Ou seja, a finalidade da AD é mostrar como os objetos simbólicos produzem sentido, ela não acaba na interpretação, trabalha seus limites como parte de significação. Além disso, tenta mostrar que não há uma verdade oculta atrás do texto, mas há, sim, gesto de interpretação que o constitui, o qual o analista é capaz de compreender a partir de seu dispositivo. Pois, a função do analista de discurso é trabalhar os limites da interpretação e se colocar em posição deslocada que lhe permite contemplar o processo de produção de sentidos em suas condições, ou seja, neutralizando-se para poder Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 35 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana observar a forma de construção de sentidos. Deve-se salientar que a análise feita pelo analista é objetiva e que o objeto analisado não se esgota em uma descrição, uma vez que, todo discurso é parte de um processo discursivo mais amplo sendo este o recorte que determinará o modo da análise e também o dispositivo teórico da interpretação que o analista constrói. Slogan Como vamos trabalhar a questão do enunciado: “entra burro; sai ladrão”, do trabalho de Tfouni & Tfouni (2007), trataremos, neste momento, a respeito dos conceitos e procedimentos acerca dos slogan (genéricos), seguindo a teoria do estudioso Olivier Reboul. Reboul (1975) nos diz que o slogan tem três papéis — fazer aderir (diz-se da função mais antiga e nobre e não cria vínculos com seus destinatários); prender a atenção (induz a ler ou a ouvir) e resumir (o slogan resume de forma curta) — e o conceitua como: [..] quando o enunciado comporta não apenas uma indicação, um conselho ou uma norma, mas uma pressão; quando as palavras não desempenham mais uma função de informar ou prescrever, mas a de mandar fazer; quando a linguagem não serve mais para dizer, mas para produzir coisa diferente do que diz. (REBOUL, 1975:13). O estudioso nos explana dois atos, o ilocutório — designa o que o falante quer dizer; e o perlocutório — o efeito que a sua fala produz. E nos diz que a essência do slogan está no segundo (perlocutório), pois para o teórico “o que conta mesmo não é o seu sentido, mas seu impacto; não está no que ele quer dizer, mas no que ele quer fazer”. (1975, p. 14) Além disso, nos esclarece que os slogans mais curtos são os melhores, pois há um elo entre sua concisão e seu poder. A partir daí, entende-se que o poder do slogan é sua concisão, pois ele é eficaz por aquilo que não diz. Nesse sentido, o seu poder é fazer intervir o que ele chama de “retórica do atalho” e o que torna a fórmula eficiente é uma fórmula sempre um pouco mais curta em relação ao que ele quer dizer. Utilizando estudos de Freud, Reboul explicita que o chiste proporciona prazer e que não é inútil aproximá-lo ao slogan concluindo que nos dois casos “a concisão é uma intervenção que nos encoraja a aceitar um prazer mais profundo, o de uma desforGrupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 36 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana ra do desejo contra a realidade”. (Freud apud REBOUL, 1975:61). Fracasso escolar Tendo em vista que vamos analisar discursos de alunos da rede pública sobre a escola, faz-se necessário abordar os estudos de Paula & Tfouni (2009) sobre o Fracasso Escolar. Esses analistas, à luz de Charlot (2000), analisam que o fracasso escolar, além de ser constituído pela: repetência, evasão, distúrbios de aprendizagem e analfabetismo é constituído também nas interpretações que ocorrem na escola. Afirmam que não se deva considerar o fracasso escolar como evento natural, mas como uma atividade interpretativa, alimentada por diversas teorias e ideologias. Com base nos estudos de Patto (1992), Paula & Tfouni (2009) apresentam diversas formulações sobre o fracasso escolar, desde o século XIX até os dias atuais, com explicações como: oferecem-se oportunidades iguais para todos; vencendo os mais aptos; diferenças entre as crianças (problemas intelectuais, físicos); diferença e carência cultural, onde a primeira está relacionada aos padrões culturais da classe média. Já a segunda é exemplificada pela deficiência ou privação cultural do aluno em decorrência das precárias condições de vida. Em relação à diferença cultural, há uma alteração de responsabilidade para cada escola, empregando sobre a aptidão do professor ter ciência para tratar com as divergências trazidas de casa por cada estudante a determinação do sucesso ou fracasso do aluno. Apresenta ainda outra teoria que aponta as características do indivíduo ou de sua família como motivo pelo fracasso escolar. A denúncia de uma ideologia de classe dominante responsabilizando o Estado pelo fracasso escolar, pois as classes dominadas que são atingidas. Os autores dizem que Medeiros (2003) arrisca afirmar que é na criança que se espera achar tanto a resposta para as dificuldades de aprendizagem quanto para a indisciplina escolar, que são vistos como causa e consequência um do outro. Nesse sentido, pode-se ver que essas dificuldades acontecem porque se espera que o aluno já possua habilidades sociais — conjunto de habilidades que o indivíduo precisa ter para, dessa forma, poder se adaptar aos diversos ambientes sociais obtidas em seu ambiente familiar — portanto, fica subtendida a ideia de que a instituição deve receber crianças que já estejam preparadas, pois, dessa forma, poderiam garantir o bom funcionamento da escola, na espera de haver um treinamento, na ausência dessas habilidades. Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 37 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana Por seu turno, o fracasso escolar tem haver com as diferenças entre classes sociais, quando o grau de escolaridade é utilizado como critério de classificação social. Os teóricos nos afirma que explicar o fracasso escolar seria uma tentativa de “justificar-dissimular” a exploração de tentar justificar a existência da riqueza e da pobreza. Porém, não existe explicação dessa contradição, por isso é necessário essa pesquisa incessante de interpretação. Pode-se dizer que os discursos sobre o fracasso ajudam a equilibrar o sistema, no entanto, mantém desigualdades. Com base em Cohen (2004, 2006), observa-se que essa autora “discute que a educação é sempre o processo singular, no qual o sujeito encontra-se com o Outro na Educação, encarnado na figura da família, da Escola ou do Estado”. Deste modo, o fracasso só pode ser entendido fazendo a análise do encontro entre o sujeito e o Outro da cultura. Cohen (2004) chama a atenção do ineducável que “seria aquilo que resiste em todo processo educativo”. No campo da educação o ineducável pode ser entendido como manifestação do Real. Nessa linha, entende-se que não há uma educação sem falhas, pois interpreta o fracasso escolar como um sintoma das demandas irrespondíveis da sociedade capitalista. Os autores interpretam o fracasso como “um acontecimento que materializa-atualiza a luta de classes e a divisão do trabalho no espaço institucional da Educação”, assim, esse fracasso não deixa construir seus efeitos sobre a escola como um todo. O fracasso escolar se repete na nossa sociedade, esse acontecimento que não deixa de criar efeitos, também não impede de criar novas interpretações. Metodologia Procedimentos de análise A finalidade da Análise do Discurso (AD) é “desvelar os processos discursivos que subjazem os processos sintáticos”. Para isso, a AD efetua recortes na materialidade linguística (lugares, marcas formais) que acusam um modo próprio de se relacionar com a ideologia. Na AD, as formas proibidas que não foram estabelecidas voltam para o analista e são vistas por eles como parte do sentido. A partir daí, o analista recorre à história, à memória para, dessa forma, relacionar a um tipo de discurso. Os recortes podem variar de uma suprassegmental, até um texto inteiro. Vale ressaltar que uma análise nunca esgota um texto. Outras análises do mesmo corpus Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 38 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana são sempre possíveis, pois, o dispositivo de análise e o próprio analista dão direção à análise, direção que pode ser sempre outra. Dessa forma é que os textos oferecem diversas oportunidades de análise, assim como propõe a AD, ou seja, não existe um sentido único, e sim uma multiplicidade de sentidos e, com isso, múltiplas análises são possíveis. O analista faz um percurso de contínuo retorno da análise para a teoria e vice-versa, fazendo com que o processo analítico, assim como os postulados teóricos e a as premissas, esteja em diálogo, alimentando-se uns dos outros. Formação do corpus No plano de trabalho do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) temos o objetivo de analisar o discurso, sobre a escola, de alunos itabaianenses do primeiro ano do Ensino Médio, da rede pública. Para isso, escolhemos uma instituição pública do município de Itabaiana — Se, para que os discursos escritos dos seus alunos compusessem nosso corpus. A interação com os alunos se deu da seguinte maneira: Primeiro escrevemos na lousa a seguinte frase: “entra burro, sai ladrão”, não indicamos de onde ele veio e sobre o que é, a partir daí questionamos os estudantes sobre que lugar era aquele? Quem entra burro e saía ladrão? O que significava burro? O que significava ladrão? O intuito desta dinâmica foi de evidenciar algumas formações imaginárias a respeito da peça discursiva. Em seguida, revelamos que o enunciado era uma crítica à escola e perguntamos o que eles achavam disso. Por fim, pedimos para que os alunos escrevessem três textos: um sobre a escola em que estudam; um sobre a escola privada e outro sobre a escola em geral. Resultados e discussões Devemos esclarecer que os dados coletados ainda não foram analisados, portanto, ainda, não concluímos essa parte do projeto. Porém, a partir da dinâmica feita antes de solicitarmos os textos que irá compor nosso corpus, a qual se deu a partir da menção do enunciado: “entra burro, sai ladrão”, Grupo de pesquisa em Linguagem, Enunciação e Discurso para o ensino da língua portuguesa (LED) - http://led-ufs.net Texto disponível em: http://led-ufs.net/gestra/II/?file=05-Flavio-Passos-Santana 39 GESTRA - Gestão de Trabalhos para o Ensino de Linguagens e suas Tecnologias. Volume 2, 2012. ISSN 2176-8994 O discurso sobre a escola pública na voz de seus alunos - Flávio Passos Santana na lousa, de imediato, uma aluna respondeu que esse lugar era a escola, pois, quando estudava numa escola particular do mesmo município ouvia das pessoas que o colégio onde ela estudava se entrava burro e saía ladrão. Outra aluna respondeu que poderia ser um hospital, mas, neste caso, a pessoa entraria doente e sairia morta. Falaram que poderia ser a favela, pois a pessoa entra burra e, com o convívio com as pessoas que residem lá, tornar-se-iam ladras, não podemos esquecer que abordaram a política, nesse caso, deram como exemplo o Deputado Federal Tiririca, o qual, segundo eles, entrou burro, no entanto, vai sair de lá ladrão, assim como os outros. Diante disso esclarecemos que aquele lugar do enunciado era a escola, e perguntamos se eles concordavam. As respostas foram diversas, concordando e discordando. Os que discordaram alegaram que a escola pública tem potencial sim, e que há muitos alunos capazes. Como exemplo, citaram um aluno na classe que sempre tira notas altas. Já os que concordaram, puseram a culpa nos professores, argumentando que não dão aula de forma correta e isso desmotiva os alunos, também alegaram que veem, ao lado da escola, pessoas fazendo uso de drogas, influenciando os alunos do colégio a seguirem o mesmo caminho. Conclusões Pelo fato de ainda não termos analisado os discursos dos alunos, não possuímos uma conclusão precisa, mas, podemos verificar, a partir do debate em sala de aula, que os alunos se dividem em relação ao que pensam sobre a escola pública, evidenciando pelo menos duas formações discursivas que seriam afetadas por formações ideológicas correspondentes. Parece, portanto, que há duas FDs antagônicas a respeito do enunciado, o que pode levar a análise explorar as formações ideológicas que as tornaram possíveis. Esse será um dos aspectos que pretendemos explorar nas nossas análises. Referências bibliográficas ALTHUSSER, L. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. 3° edição. Lisboa, Portugal. Editora Presença/Martins Fontes. 1980. BRANDÃO, H. H. N. Introdução à Análise do Discurso. 4.ed.—Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1995. 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