CENTRAL DO BRASIL, TERRA ESTRANGEIRA Alexandre Faria (Doutor em Letras pela PUC – Rio / Professor da UFJF) (Versão reformulada do texto originalmente publicado em Escrita: Revista dos Alunos do Programa de Mestrado e Doutorado em Letras da PUC-Rio, Rio de Janeiro, v.4, p.165-181, 1999) A ilha do Brasil, ou ilha de São Brandão, ou ainda Brasil de São Brandão, era uma das inúmeras ilhas que povoaram a imaginação e a cartografia européias da Idade Média, desde o alvorecer do século XI. Também chamada de "Hy Brazil", essa ilha mitológica, "ressonante de sinos sobre o velho mar", se "afastava no horizonte sempre que os marujos se aproximavam dela. Era, portanto, uma ilha "movediça", o que explica o fato de sua localização variar tanto de mapa para mapa. (...) O nome "Brazil" provem do celta bress, que deu origem ao verbo inglês to bless (abençoar). Hy Brazil, portanto, significa "Terra Abençoada". [Apud: BUENO, Eduardo, A viagem do descobrimento, p. 13] Bye bye Brasil (1979), filme de Carlos Diegues pode ser considerado um dos últimos suspiros do projeto fundamental do Cinema Novo – dar a ver o Brasil aos brasileiros - e já em seu discurso refere-se a uma terra "movediça", que se afasta dos que dela se aproximam, um Brasil que se descaracteriza em função da comunicação de massa, da indústria cultural e da urbanização acelerada. A proposta de Central do Brasil (1998), de Walter Salles, apresenta-se como uma retomada do ideal cinamanovista com alguma perspectiva para refixar marcas identitárias do país. Na apresentação ao roteiro do filme, o cineasta declara que houve o desejo explícito de homenagear os grandes criadores do 2 cinema novo, estes cineastas que colocaram pela primeira vez, de forma visceral, o rosto do Brasil na tela [SALLES: 1998, p. 13]. E, sem dúvida, a despeito da trama ficcional, há, em Central do Brasil, fortes marcas documentárias, conforme atestam várias reportagens sobre o filme: No primeiro dia de filmagem, a mesinha da Dora foi posta na estação. No roteiro havia uma série de cartas já escritas, e os atores, na maioria estreantes, tinham sido preparados para ditálas. O conteúdo da correspondência falava dos laços com regiões ou familiares distantes e tentavam mostrar possíveis razões da migração interna brasileira. Só que, ao ver a mesinha, os próprios usuários da Central começaram a se sentar, a ditar as cartas e a pedir que fossem enviadas. Pouco a pouco fomos substituindo os depoimentos do roteiro pelos depoimentos espontâneos, que tinham uma carga afetiva, uma transparência de sentimentos sem dúvida responsáveis pela voltagem emocional do filme. [SALLES: 1998b] Percebe-se, diante dessa persistência do aspecto documental, que o filme também não idealiza a nação, mas parte da constatação, quase antropológica, do outro que está neste Brasil eternamente redescoberto. No caso do filme, um Brasil místico que tange o exótico, provinciano e redentor das mazelas produzidas na metrópole. A questão que se impõe é saber se o Brasil que Walter Salles, numa pretensa homenagem ao Cinema Novo registra em 1998 é o mesmo do qual Carlos Diegues se despedia em 1979. Aceitar como verdadeira esta idéia lança por terra o prenúncio de modernização e perda de raízes veementemente denunciado em Bye-bye Brasil e torna inócuo o apelo à memória futura registrado na dedicatória do filme de 79: ao povo brasileiro do século XXI, pois como lembrar de algo que não chegou a ser esquecido? Negá-la, por outro lado, seria "tapar o sol com a peneira", não querer ver as contradições nacionais, que, atualmente, a cena urbana amalgama e escamoteia. É acreditar, ingenuamente, que o país se modernizou, mas não deu certo, que a ilha "Hy 2 3 Brazil", como o jovem Josué, simplesmente perdeu os pais que a abençoavam e hoje "toma a bênção a cachorro" nas sarjetas da estação central de um paraíso perdido. Abordar a questão fica sendo, de antemão, uma necessidade de posicionamento diante do fato. Não exatamente sobre o que falar, mas de onde falar. Uma perspectiva evolucionista, racional e cartesiana não nos permitiria ver a "modernização" constatada em Bye-bye Brasil de outra forma que não fosse uma feroz crítica ao anacronismo da progresso promovido de forma autoritária pela dupla ditatura militar/televisiva e, neste caso, adicionaria de bom grado, bem à maneira hollywoodiana, um subtítulo ao segundo filme: Central do Brasil, o resgate, mecanismo ideológico que, através da dicotomia centro/periferia, representaria um empenho para se recolocar as idéias (no lugar). A segunda perspectiva parte exatamente da abolição dos conceitos rígidos de fonte e influência, centro e periferia, numa linha desconstrutivista que vem sendo traçada desde Foucault e Derrida, através do pensamento pós-estruturalista. Nesta linha a fundamentação econômica perde espaço para a de base cultural, e imagens como a da Caravana Rolidey seguindo em direção a Rondônia se redimensionam, passando a representar a cena nacional de um entre-lugar que conjuga num mesmo tempo-espaço discursivo os aspectos modernos e arcaicos do mesmo Brasil, possibilitando temporalidades simultâneas. Ainda, a abordagem dos dois filmes requer um posicionamento não só de quem fala sobre, mas também uma compreensão do lugar de onde falam as imagens. Bye bye Brasil situa-se no momento em que perspectivas utópicas e projetos coletivos já não podiam ser pensados e assumidos como proposta transformadora, no entanto não exclui a esperança, projetando para o próximo século as derrotas desta era pós-utópica que se iniciava. Walter Salles, se tomarmos seus longas anteriores a Central, mantinha um íntimo diálogo com tais questões - A grande arte, prenhe de referências ao gênero policial 3 4 e à cultura de massa e Terra estrangeira, contribuindo para fixar não-lugares, manchar fronteiras, estandardizando a esperança dos anos 90 na superfície de um out-door de calcinhas Hope, que aparece através da janela em que Paco sonha tornar-se ator: Figura 1 - Foto do filme Terra Estrangeira, por Walter Carvalho: a paisagem urbana, vista da janela do quarto de Paco, em que se destaca o out-door com anúncio de calcinhas Hope 90. Por outro lado, o tema do resgate de raízes já podia ser vislumbrado em seu segundo longa: o retorno a San Sebastian desejado por Manuela (e assumido por Paco no momento da morte não apenas da mãe, mas de todos os seus sonhos, numa referência política ao Plano Collor) representa o desejo de restauração de um passado, de uma origem que só passa a fazer sentido na perspectiva linear causal. Meter o pé na estrada like a rolling stone1, o sonho moderno encarnado pela beat generation de se livrar do passado e colonizar o futuro [PAZ: 1984], não está pleno nos road movies de Walter Salles. A própria canção "Vapor barato", ligada originalmente ao sonho libertário da contracultura, é ressemantizada: assume o mesmo sentido de 4 5 "Preciso me encontrar" de Cartola e Elton Medeiros, ao final de Central do Brasil. A viagem não tem mais o risco de não ter volta, mas é, por definição, um retorno: à terra natal da mãe, à terra dos descobridores da própria pátria, autores de um equívoco: Cruzar este mar há 500 anos atrás... É que eles achavam que o paraíso estava ali, ó. Coitados dos portugueses... acabaram descobrindo o Brasil, diz Alex para Paco no cabo Espichel, ponto extremo ocidental da Europa [THOMAS: 1996, p. 67]. Descobrir o outro para afirmar a si mesmo, reatar algum elo perdido na linha temporal, eis o sentido profundo da viagem nos dois filmes de Salles. O motivo das viagens é comumente associado à fixação do discurso que pretenda descobrir ou fundar o ser nacional brasileiro. Na verdade afirmou-se como uma das possíveis maneiras de se resolver a tensão estabelecida entre o universal e o particular, o cosmopolita e o regional, que constitui um dos maiores problemas do nacionalismo na cultura brasileira Há dois tipos da viagem: para o exterior, que tem como modelo Joaquim Nabuco, de espírito eurocêntrico; e para o interior, cujo modelo é Euclides, na minuciosa investigação dos aspectos físicos e humanos do sertão baiano, que o leva à reformulação das teses positivistas importadas [cf. GOMES & CARDOSO: 2002] Este segundo tipo de viagem, diferente do de Terra estrangeira, encontram-se representados em Bye-bye Brasil e Central do Brasil. As viagens dessa espécie associam-se, cada uma à sua maneira, a diversas redescobertas do Brasil, ao longo da trajetória da cultura nacional. A ida para o interior culminará no ambíguo confronto com a alteridade, na medida em que se depara o estranho familiar, unheimlich, aquela categoria do assustador que remete ao que é 1 Verso da canção "Velha roupa colorida", de Belchior. 5 6 conhecido, velho, e há muito familiar [FREUD: 1980, p. 277]. Trata-se no caso específico, do confronto entre cultura européia hegemônica na formação da intelectualidade brasileira e os aspectos arcaicos do interior. Porém, se este confronto durante muito tempo deu-se entre o novo e o arcaico, com a intensificação das redes de comunicação de massa ao longo das últimas três décadas do século, o novo passa a chegar via satélite. É isto que denuncia o filme de Cacá Diagues: os índios sintonizando seus rádios e a população inteira de uma cidade concentrada na praça diante de um capítulo de Dancin’days. Uma das partes do projeto de modernização do Brasil durante a ditadura militar foi exatamente a interligação do país; porém mais do que espacial (a construção da Tansamasônica ou o Projeto Rondon), tal interligação foi ideológica, atuou fortemente sobre o imaginário através teledifusão, contituindo a dimensão geográfica psíquica [SANTOS: 1997] (cf. discussão a esse respeito na Introdução), cujo mapeamento necessariamente passa pela instâncias culturais. Três mapas estatísticos, com a porcentagem de domicílios com televisão por municípios do Brasil em 1970, 1980 e 1991, são imagens que substituem quaisquer palavras e explicam o surgimento de um novo modo de constituição de um imaginário político-social: A televisão, e a telenovela em particular, é emblemática no surgimento de um novo espaço público, na qual o controle da formação e dos repertórios disponíveis mudou de mãos, deixou de ser monopólio dos intelectuais, políticos e governantes titulares dos postos de comando nas diversas instituições estatais. [HAMBURGER: 1998, p. 442] 6 7 Figura 2 – Percentagem de município com televisão por municípios, 1970. Fonte: Censo Demográfico de 1970 (IBGE) e Malha Municipal de 1970 (Papulation Researc Center – Austin). Apud: HAMBURGER, Esther. "Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano", In: Sevcenko, Nicolau (org). História da vida privada no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 7 8 Figura 3 - Percentagem de município com televisão por municípios, 1980. Fonte: Censo Demográfico de 1980 (IBGE) e Malha Municipal de 1980 (Papulation Researc Center – Austin). Apud: HAMBURGER, Esther. "Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano", In: Sevcenko, Nicolau (org). História da vida privada no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 8 9 Figura 4 - Percentagem de município com televisão por municípios, 1991. Fonte: Censo Demográfico de 1991 (IBGE) e Malha Municipal de 1991 (IBGE). Apud: HAMBURGER, Esther. "Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano", In: Sevcenko, Nicolau (org). História da vida privada no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 9 10 Creio que esta constatação visual seja suficiente para comprovar que o Brasil de Walter Salles não é o mesmo do de Cacá Diegues, mas a viagem empreendida em Central do Brasil deixa nítido que a interligação informacional não causou, como se esperava, a superação dos espaços arcaicos. Tomando toda e qualquer nação como um objeto derivado de discursos quer geográfico, social ou literário que alicerçam o imaginário [ANDERSON: 1989] capaz de unificar e estabelecer semelhanças sobre diferenças, esse objeto se constitui pela linguagem. Nomear o outro é torná-lo o mesmo. O afã nomeador, classificatório da civilização ocidental valeu-lhe a própria condição de Civilização, a partir do momento em que os bárbaros puderam ser nomeados: fosse uma tarde de sol, os índios despiriam os portugueses, lembra-nos Oswald. O poder nomeador da câmara escura supera qualquer descrição antropológica tradicional2. No entanto, conforme síntese de Glauber Rocha, cinema não é só uma câmara na mão, mas também uma idéia na cabeça. Essa aspecto ideológico, que era claramente afirmado e definiu os mecanismos estéticos do Cinema Novo, é que vão distanciar os “brasis” narrados pelas câmaras antropológicas de Cacá Diegues e Walter Salles. É neste sentido que o cinema se incorpora à indústria cultural como um dos principais elementos formadores de imaginários nacionais; interagindo com os mecanismos de memória e esquecimento [ANDERSON: 1998] e contribuindo para a fixação das semelhanças, que acabaram atingindo patamares globais, pondo em risco os 2 Ver discussão a este respeito no capítulo 2 A “A cidade não mora mais em mim”. 10 11 limites de cada nação. Até o alargamento das fronteiras econômicas, em épocas de globalização, esbarra com os inconvenientes da indústria cultural. No mundo globalizado, as fronteiras nacionais vão, aos poucos, se redefinindo. As nações tendem com mais facilidade à globalização econômica, mas resistem quando o assunto é produção cultural, como demonstra Néstor Canclini, comentando uma reunião do GATT, em dezembro de 1993, em Bruxelas, na qual 117 países aprovaram a maior liberalização econômica da história. Este acordo esteve a ponto de fracassar por impasses em três áreas: agrícola, têxtil e audiovisual; os desacordos nas duas primeiras se resolveram através de concessões mútuas entre os Estados Unidos e os governos europeus, mas com relação à terceira, os Estados Unidos exigiram livre circulação para os produtos audiovisuais, enquanto os europeus buscaram proteger seus meios de comunicação, sobretudo o cinema. As divergências derivam de duas maneiras de conceber a cultura. Para os EUA, os entretenimentos devem ser tratados como um negócio: não só porque o são de fato, mas porque constituem para este país a segunda fonte de rendimentos entre todas as suas exportações, depois da indústria aeroespacial (...) As associações de trabalhadores do cinema europeu defendem seu emprego, mas também argumentam que os filmes não são unicamente um bem comercial. Constituem um investimento poderoso de registro e auto-afirmação da língua e da cultura próprias, de sua difusão para além das fronteiras. Fazem notar a contradição que existe no fato de os EUA reclamarem livre circulação de suas mensagens nos países estrangeiros, enquanto em seu próprio país impõem restrições aos produtos culturais importados. [CANCLINI: 1997, p.155]. No Brasil, também é possível observar este descompasso entre o discurso político-econômico e o cultural. O país tornou-se palco de produções e atitudes que refletem de forma mais direta as diferenças locais, mas não deixam de ser, também, espaço de circulação de discursos de base unificadora e de auto-afirmação cultural, originários da tradição literária, mas difundidos especialmente pelo cinema. Além disso, como mais um item complicador, não deixa de ser também um dos subúrbios de 11 12 Hollywood (como se refere Canclini aos países da América Latina e da Europa, no mesmo artigo), especialmente pela TV, e pelas rádios. Pode-se constatar que essa espécie tecnoesfera global, ou que Renato Ortiz nomeia o internacional popular [ORTIZ: 1994] é fato consumado. No Tabariz, o som é que nem os Bee Gees, epigrafa a trilha de Bye bye, Brasil. Garantir um espaço para as produções locais acabou sendo uma tarefa política. Para além das ações políticas mais pragmáticas, restariam duas alternativas como resposta enquanto produção cultural. Uma vez que o exterior já está aparentemente exteriorizado (só que a partir de um centro muito bem definido e de uma língua que o nomeia), ao discurso da diferença restaria (além de exigir as politicamente corretas regras de tolerância): a) alargar o alcance de uma produção cultural para além das fronteiras nacionais através de um padrão hollywoodiano, o que não deixa de ser uma atitude política. Eis Central do Brasil, concorrente ao Oscar de melhor filme, estrangeiro, para Ufanismo dos brasileiros que puderam assistir ao filme na tela quente da TV Globo, porém, a imagem produzida na tecnoesfera global pode ser bem deprimente: na Home Page da Sony Pictures, distribuidora do filme nos EUA, a empresa o apresenta como uma produção surgida inesperadamente de um remoto canto do mundo. [apud Jornal do Brasil, 22/10/1998] b) tentar, numa espécie de subversão inerente à própria obra de arte, minar as bases sempre superficiais dessa memória coletiva internacional cunhada pela cultura de massa e resgatar valores que reatem o homem à sua condição demasiadamente humana, num processo de desreificação pela assunção plena da precariedade do presente, uma vez que os projetos para o futuro ou afundaram ou encalharam e apodreceram na praia: 12 13 Paco: Eu nunca pensei que você fosse assim. Alex sorri mais ainda, levanta os ombros. Alex: É, eu era assim... quer dizer, eu sou assim. Alex abre um vasto sorriso e começa a cantarolar um hino dos anos 70: "Vapor Barato" (TERRA ESTRANGEIRA, p. 102-3.) Esta segunda alternativa também foi a da Caravana Rolidey, em dimensão nacional. É sintomático que, no espaço globalizado europeu, Lisboa seja a capital do resgate das formas mais arcaizantes, como resposta ao esgotamento de pressupostos modernos; Wim Wenders, em O céu de Lisboa, corrobora esta tese. Fixa-se não um lugar, mas um percurso; e assim a tensão entre o global e o local resolve-se num entre-lugar [SANTIAGO: 1978]. É justamente este espaço híbrido e intermediário, que parece não ficar evidente na estrutura do filme, que acaba apresentando um visão binária do espaço no Brasil. A estrutura narrativa de Central do Brasil possui dois registros claramente distintos. O da primeira parte, ambientado na estação ferroviária é, necessariamente urbano, hiper-realista, nas tomadas, nos diálogos, na situação, até que um limite é imposto: "Tudo tem limite", diz Irene para Dora, alertando para a possibilidade de Josué ter sido vendido para que se lhe fossem retirados os órgãos. Este limite é uma fronteira para a segunda parte: da aventura - o resgate de Josué, que se desdobra no auto-resgate moral de Dora, e no da família do menino, metonímia de um Brasil possível, distante daquele da Central, onde Josué perdeu a mãe e para onde, por risco de vida, eles não podem retornar. Este segundo registro toma o plano realista apenas como suporte cênico e passa, através das expectativas que cria, a atuar diretamente em regime simbólico no plano do discurso da nação e meta-cinematográfico enquanto tentativa de um resgate que é intencionalmente declarado pelo diretor: Dora representa a cultura da indiferença que vem de mãos dadas com a impunidade. Sua perda de visão moral, no entanto, tem um preço que é a solidão, a incapacidade de se relacionar com o outro. O cinismo de suas condutas faz com que viva uma vida 13 14 mesquinha, apequenada. A descoberta do menino e a culpabilidade que pouco a pouco começa a experimentar quebram sua couraça emocional e a levam a olhar o mundo de maneira diferente. "Central", como mencionei, é um filme sobre o olhar, o que, aliás, fica evidente em seu final. É um filme sobre a necessidade de vermos o outro e descobrirmos o afeto capaz de mudar nossa relação com a vida. (...). Esses valores pareciam totalmente ausentes dos personagens do cinema independente, sobretudo americano, dos anos 90. Veja "Pulp Fiction", do Tarantino. Há um momento no filme em que a arma do personagem feito pelo Travolta dispara acidentalmente, matando um garoto inocente. A reação dos outros personagens em cena é, primeiro, de rirem com o que acabara de acontecer e, em seguida, de se preocuparem com a questão cosmética da limpeza do sangue que se espalhara pelo automóvel. "Central" ia na direção contrária dessa série de "filhotes tarantinescos" dos anos 90, e era realmente possível que a receptividade ao filme fosse nula. Entretanto, ao chegar ao Sundance Festival e depois em Berlim, notamos que de vários lugares do mundo chegavam filmes com a mesma preocupação, ou seja, a questão da fraternidade, da descoberta do afeto, da redenção trazida pela presença significativa do outro. Isto talvez aponte para o ressurgimento de um cinema neo-humanista, como reação ao cinema cínico de Tarantino, de Roberto Rodriguez e de todos os que, nos anos 90, fizeram uma utilização acrítica da violência. [SALLES: 1998 b ] Resta saber como articular este neo-humanismo, enquanto redenção trazida pela presença significativa do outro, com um mecanismo que não se limite a transformar o outro no mesmo, ainda que através da estetização (que nada mais é do que outra forma de nomeação). Antes de tudo, um exercício de tolerância para com o outro, que no plano linear do drama filmado realiza-se plenamente e pode ser percebido no engrandecimento de Dora, mas não em Josué, que passa a reintegrar a família, abençoada pela memória (foto) de pai e mãe, com um novo nome - Geraldo [SALLES:1998, p. 91], como se a estrada lhe permitisse trocar de vida, como ocorreu ao caminhoneiro César [IDEM, IBIDEM, p. (56). Este corte, esta troca de nome - e de vida - reproduz uma descontinuidade que está no âmago do limite estabelecido entre as duas partes do filme. Tudo tem um limite, exceto Dora e o Brasil que o filme descobre, que se apresenta violento e analfabeto, mas também redentor, mítico, religioso. Um Brasil do 14 15 interior que ecoa de certa forma a ideologia do regionalismo romântico. A identificação de um país possível, redentor, em Central do Brasil se dá pela pureza do interior que as metrópoles já não podem proporcionar, reciclando, assim, no dizer de Vera Follain, os mitos que ao longo da nossa história serviram à construção de uma identidade nacional, para propor uma integridade constituída no âmbito individual, cujo núcleo estaria em cada cidadão brasileiro. Lança mão dos simbolismos tradicionais, imprimindo-lhes um sentido adequado aos impasses contemporâneos e talvez, por isso, tenha emocionado tanto o público. Retoma-se a imagem do Brasil menino e, ao contrário da leitura antropofágica ou da leitura do Cinema Novo, trata-se de um menino que não devora nem mata o pai, que sofre as conseqüências dos cortes que são feitos à sua revelia. [FIGUEIREDO: 1999, p. 82]. Não se pode negar a existência de uma ética na proposta de Walter Salles assim entendida como a elaboração cinematográfica a partir de profundos valores afetivos capazes de resgatar um sentimento de nacionalidade que responda à falência dos valores nacionais diante de um processo de globalização neoliberal, iníquo e excludente. Obtémse, dessa forma, ainda seguindo a conclusão do artigo de Vera Follain, a lição de autenticidade decorrente do fato de saber sobreviver ao desamparo, improvisando soluções individuais e grupais sem esperar pelo apoio paterno [IDEM: IBIDEM]. Por outro lado, o resgate desta ética implicou a omissão do cenário político, conforme leitura de Elias Thomé Saliba: Central do Brasil fala dos excluídos e dos enraizados, mas não faz nenhuma menção aos gestos do poder que os excluíram. Daí uma persistente ambigüidade que está no núcleo do filme: este arcaísmo estetizado pelo movimento, que omite as condições reais, correndo o risco de passar ao largo das singularidades temporais, diluindo-as nas generalidades dramáticas, escamoteando os processos sociais, achatando a história. [SALIBA: 2001, p. 254] 15 16 Esta leitura, no entanto, se demonstra tão comprometida com o processo histórico, que não enxerga a dimensão mítica do filme, não se trata de mero resgate de uma ética de fundo emotivo, como quer o autor do artigo, mas de fundo mítico. No entanto, a questão que permanece e faz do interior do Brasil, em que se resgata a ética da sobrevivência, uma outra terra estrangeira é a seguinte: se o caminho da redenção e do encontro implica trocar o centro urbano, supostamente inviável, pelo arcaísmo místico do interior, ou seja, voltar as costas para a cidade, se este é o caminho, reforça-se a crença de que não se verá país nenhum. Por conta do misticismo, o deslocamento espacial abole a temporalidade histórica, assim a verdadeira central do Brasil fica sendo a estação de trem que foi deixada para trás, lugar híbrido, onde transitam pessoas de todas as origens. E pode ser que, um dia, os trens cheguem a Bom Jesus dos Perdões, conforme indicam os princípios de modernidade que se notam em sua descrição pela tomada panorâmica: As duzentas casas pré-fabicadas iguais, parecendo brinquedo, dão a impressão de um cenário construído no nada. Os dois caminham bem devagar como se não estivessem com pressa de chegar a lugar nenhum. [SALLES: 1998, p.87 - grifo meu] O interior do Brasil, como revela esta passagem, é construído a partir de um modelo moderno, racional, padronizado, asseado, funcionalista, construído no meio do nada, como a Brasília onde o sanfoneiro Ciço chega e é amparado pela Casa do Ceará: Pode ser, ainda, que os traficantes (de ógãos?) cheguem à cidade dos netos de Geraldo (ex-Josué). E o que farão as crianças, buscarão o pai em outro território mítico, ou enfrentarão a situação tentando responder a esta pergunta (que talvez seja a mais produtiva do filme de Walter Sales, mas é deixada subliminarmente): não será possível encontrar uma ética urbana? 16 17 A cidade tem um limite, Irene tem um limite, César tem um limite, Josué tem um limite. A tolerância parece também não ser uma característica desse neo-humanismo que se recusa em sua demasiada humanidade e acaba por renegar os episódios iniciais do filme (e cotidianos da Central do Brasil) e trocá-los por uma pátria possível, idealizada e móvel. Inventando um país à flor da pele, sem disposição para voltar à Central do Brasil (deixe-me ir, preciso andar, canta Cartola) ou para olhar-se de fora e por dentro, Walter Salles desvia-se da Terra Móvel, figura bem produtiva, para a Ilha Bendita, em que se plantando tudo dá, das naus que aqui aportaram, há quase 500 anos, conforme aponta Ettore Finazzi-Agró: Existem lugares que se encontram na confluência de dois espaços; existem tempos que se manifestam apenas no cruzamento de cronologias diferentes. Para essas dimensões, atravessando as outras e sendo por elas atravessadas, há só um nome possível e este nome é figuras (...) Uma delas poderá talvez se tornar útil na decifração do sentido histórico-cultural ou, mais ainda, na avaliação do impacto ideológico e mítico-simbólico das descobertas geográficas (a das Américas em particular): esse lugar é a Ilha. [FINAZZI-AGRÓ: 1993, p. 2] O tempo-espaço das confluências é a viagem. Tanto Terra estrangeira quanto Central do Brasil encerram-se com os personagens à-deriva; no caso do segundo filme, Dora pode ser uma boa metáfora para o Brasil. Mas ao se deslocar este tropo para Josué, lê-se um filme neo-romântico que volta a exteriorizar o interior e ignora o entre-lugar, aquele velho navio encalhado na praia que, no entanto, ainda se move. BIBLIOGRAFIA ANDERSON, Benedict. "Memória e esquecimento", in ROUANET, Maria Helena (org.). Nacionalidade em questão. Rio de Janeiro: UERJ, 1998. _______ . Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989. BENTES, Ivana. “Central do Brasil – Sertões e subúrbios no cinema brasileiro contemporâneo”. In: Cinemais – Revista de cinema e outras questões audiovisuais. No. 15 – jan./fev., Rio de Janeiro,1999. 17 18 CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 1998 _______ .. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. CARVALHO, Walter. 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