Universidade de Marília o, da Área de Concentração Mídia e Cultura, da Universidade de Marília, como requisito para obtenção do CLARA BENEDITA BONOME ZEMINIAN TRANSCODIFICAÇÃO INTERTEXTUAL: DA GATA BORRALHEIRA À CINDERELA MIDIÁTICA MARÍLIA 2008 CLARA BENEDITA BONOME ZEMINIAN 2 TRANSCODIFICAÇÃO INTERTEXTUAL: DA GATA BORRALHEIRA À CINDERELA MIDIÁTICA MARÍLIA 2008 CLARA BENEDITA BONOME ZEMINIAN 3 TRANSCODIFICAÇÃO INTERTEXTUAL: DA GATA BORRALHEIRA À CINDERELA MIDIÁTICA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Área de Concentração: Mídia e Cultura, Linha de Pesquisa: Ficção na Mídia, da Universidade de Marília - UNIMAR, para a obtenção do título de Mestre em Comunicação. Data de defesa: 15/12/2008 Banca Examinadora: Profª Drª Lúcia Correia Marques de Miranda Moreira Universidade de Marília Profª Drª Nelyse Aparecida Melro Salzedas UNESP Profª Drª Andreia Cristina Fregate Baraldi Labegalini Universidade de Marília MARÍLIA 2008 4 A meu esposo,Reinaldo, (in memoriam), que onde quer que esteja, deve estar muito feliz por ver mais uma etapa concluída. Nunca me esquecerei de você. 5 AGRADECIMENTOS A Deus, por estar sempre a meu lado, dando força e ânimo, nas horas mais difíceis. À minha orientadora, Profª Drª Lúcia Correia Marques de Miranda Moreira, pelo carinho, apoio e orientação durante todo o trabalho. À Profª Drª Nelyse Aparecida Melro Salzedas, pela amizade e incentivo nesta jornada. À Profª Drª Andreia Cristina Fregate Baraldi Labegalini, membro da Banca Examinadora de Qualificação, por sua fundamental contribuição. À Profª Drª Rosângela Marçolla, minha ex-orientadora, pela paciência e valiosa colaboração nesta caminhada. A todos os meus professores do curso de mestrado, que mesmo indiretamente, contribuíram para o enriquecimento desta dissertação. À minha filha Luciana, meu bem mais precioso, pela dedicação, incentivo e compreensão demonstrados em todos os momentos. A meu pai (in memoriam) e à minha mãe, que sempre me incentivaram e pela transmissão de valores inestimáveis. A André Luís de Oliveira, por sua presteza e dedicação. A Raphael Reis Ribeiro, pelo bom humor e dedicação durante esta jornada. 6 À minha amiga Rosely, companheira no Mestrado, com quem dividi alegrias e tristezas durante todo este percurso. A todos os meus familiares, que sempre me apoiaram durante a realização deste trabalho. À Secretaria de Estado de São Paulo, por fornecer o Projeto Bolsa Mestrado, junto à Coordenadoria De Estudos e Normas Pedagógicas e Diretoria de Ensino de Botucatu, garantindo o sucesso financeiro necessário à realização desta dissertação de mestrado. Agradecimento especial à secretária Renata, sempre amiga e atenciosa. Aos alunos, colegas, funcionários e diretores das escolas E.E. “Dr. Manuel José Chaves” e Instituto Municipal de Ensino Superior De São Manuel “Prof. Dr. Aldo Castaldi”, pela amizade, compreensão e colaboração em todas as horas. À secretária da Pós-Graduação, Rosângela Braga, pelos serviços prestados e palavras de encorajamento. 7 “Os livros que têm resistido ao tempo são os que possuem uma essência de verdade, capaz de satisfazer a inquietação humana, por mais que os séculos passem.” Cecília Meireles 8 ZEMINIAN, Clara B. Bonome. Transcodificação intertextual: da Gata Borralheira à Cinderela midiática. 2008. 112 páginas. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade de Marília (UNIMAR). RESUMO O presente estudo tem como proposta abordar a transcodificação do conto de fadas A Gata Borralheira, escrito pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm e três narrativas audiovisuais: Maid to order (Cinderela às avessas), Only you (Só você) e Ever After (Para sempre Cinderela). Estudamos as inter-relações existentes entre as duas linguagens e examinamos os aspectos significativos relevantes como produtores de sentido no conto de fadas acima citado e em suas atualizações no cinema. A teoria utilizada foi a da intertextualidade, de Julia Kristeva, desenvolvida a partir do dialogismo de Mikail Bakhtin. Palavras-chave: Transcodificação. Intertextualidade. Conto de fadas. Narrativas audiovisuais. Cinema. 9 ZEMINIAN, Clara B. Bonome. Intertextual Transcoding: from Gata Borralheira to the mídia Cinderella. 2008. 112 pages. Dissertation (Masters in Comunication) – University of Marília (UNIMAR). ABSTRACT This study has as its proposal to approach the transcoding of the fairytale Cinderella, written by Jacob and Wilhelm Grimm and three audiovisual narratives: Maid to Order, Only You and Ever After. It was studied the interrelations that exists between the two languages and it was also examined the meaningful aspects as makers of meaning (or sense) in the Cinderella fairytale and its adaptations in the cinema. The used theory was the intertextuality, of Julia Kristeve, developed from the dialoguism from Mikail Bakhtin. Key-words: Transcoding. Intertextuality. Fairytales. Audiovisual narratives. Cinema. 10 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Fig. 1,2,3,4,5 e 6 – Montagem mostrando a deformação nos pés de uma senhora chinesa, provocada pelo enfaixamento Fig. 7 – Capa do videocassete (Ever After) Fig. 8 – Capa do videocassete (Maid to order) Fig. 9 – Capa do videocassete (Only you) Fig. 10 – O sapato de Danielle Fig. 11 – O quadro de Danielle Fig.12 – Danielle conhece Henry, como Nicole Fig. 13 – Os pés de Danielle ao entrar na carruagem Fig. 14 – Danielle conversa com Leonardo antes de ir ao baile Fig. 15 – A carruagem leva Cinderela ao baile Fig. 16 – As asas na roupa de Danielle Fig. 17 – Danielle chega ao baile Fig. 18 – Danielle perde o sapato Fig. 19 – O sapato perdido de Danielle Fig. 20 – O príncipe experimenta o sapato em Danielle Fig. 21 – Henry e Danielle olham-se apaixonados Fig. 22 – Henry e Danielle beijam-se Fig. 23 – O castelo Fig. 24 – Foto de casamento Fig. 25 – A vela cria um clima de mistério Fig. 26 – A lua como símbolo Fig. 27 – Uma consulta à cigana Fig. 28 – Aula de Faith Fig. 29 – Quadro na parede da sala de aula Fig. 30 – Faith vestida de noiva Fig. 31 – Faith e Kate em Veneza Fig. 32 – Sapato perdido por Faith Fig. 33 – Peter experimenta sapato em Faith Fig. 34 – Peter e Faith dançam ao luar Fig. 35 – Faith descendo da carruagem Fig. 36 – Peter revela sua verdadeira identidade Fig. 37 – Faith entrando no quarto Fig. 38 – Caminho para Positano Fig. 39 – Faith descalça no hotel em Positano Fig. 40 – Peter e Faith antes do encontro com “Damon” Fig. 41 – Faith desce as escadas para o encontro Fig. 42 – Faith janta com o falso Damon Fig. 43 – Peter conversa com um velho Fig. 44 – Faith e “Damon” numa festa, em um iate Fig. 45 – Peter e “Damon” brigam Fig. 46 – Faith desmascara o falso Damon Fig. 47 – O plano de Peter falhou Fig. 48 – Faith, Damon e Peter no aeroporto Fig. 49 – Peter sozinho no avião Fig. 50 – O final feliz de Peter e Faith Fig. 51 – O avião leva os dois apaixonados 38 51 56 59 70 71 71 72 72 73 74 74 75 75 76 77 77 78 79 80 80 81 81 82 82 83 84 84 85 85 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 11 Fig. 52 – Apresentação de Maid to order Fig. 53 – Novamente o conto de fadas Fig. 54 – Estrela atende pedido do pai de Jessie Fig. 55 – Jessie descalça Fig. 56 – O sapato perdido de Jessie Fig. 57 – As botas encontradas no lixo Fig. 58 – Anúncio de uma agência de empregos Fig. 59 – Jessie desolada por ter de refazer o serviço Fig. 60 – Jessie e Nick Fig. 61 – Jessie, vestida como criada Fig. 62 – A criada volta a ser princesa Fig. 63 – O carro da fada Fig. 64 – Nick e Jessie Fig. 65 – O final feliz de Nick e Jessie 95 95 96 96 97 97 98 98 99 100 100 101 101 102 12 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.................................................................................................... 13 CAPÍTULO I : BAKHTIN E KRISTEVA: A TEORIA DA INTERTEXTUALIDADE 1. Intertextualidade: Pressupostos teóricos....................................................... 16 2. Seqüências importantes dos textos analisados............................................. 26 CAPÍTULO II: CINDERELA: POR QUE UM CONTO DE FADAS QUE ATRAVESSA OS SÉCULOS? 2.1 A origem dos contos de fadas........................................................................ 33 2.2 Os Irmãos Grimm: um pouco de história........................................................ 39 2.3 Símbolos presentes em “Cinderela”: o conto.................................................. 40 CAPÍTULO III: AS NARRATIVAS AUDIOVISUAIS 3.1 Das narrativas literárias às narrativas audiovisuais........................................ 46 3.2 A evolução dos modos de ver da literatura a partir do cinema....................... 47 3.3 Elementos para a composição de um bom personagem................................ 50 3.4 Literatura e Cinema: dois modos de contar uma história................................ 64 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................104 REFERÊNCIAS.....................................................................................................109 INTRODUÇÃO O hábito de contar histórias surgiu a partir do instante em que o homem sentiu necessidade de buscar explicações para os fatos que aconteciam. Em tempos distantes, os homens não sabiam escrever, assim mantinham as suas experiências na tradição oral, alternando memória e imaginação em suas histórias. Desse modo, enquanto não houve registro escrito, as histórias eram passadas oralmente e, por isso iam sendo acrescidas de pormenores e apresentavam variações, dependendo da cultura do público ouvinte. Então, com o passar do tempo, a essência das histórias de tradição oral foi sendo alterada. O pesquisador Joseph M. Luyten (apud MARÇOLLA, 20_ _?, p.27) afirma que “os contos populares variam na sua expressão de acordo com a época e o público a que são destinados. [...] O que as crianças e nós lemos hoje em dia é uma versão adaptada para os nossos conceitos de moral e cultura”. Assim, os contos de fadas, como literatura infantil, surgiram na Europa, durante a Idade Moderna. São originários das histórias que o povo conta e que foram transmitidas oralmente, através do tempo. (MARÇOLLA, 20_ _?). Atualmente muitos textos midiáticos originam-se de fontes literárias e, dessa forma, o presente estudo pretende dar uma pequena contribuição para desvendar as relações existentes entre diferentes linguagens. Para tanto, estudaremos a intertextualidade que se realiza entre o conto de fadas Cinderela ou A Gata Borralheira, dos irmãos Grimm e três filmes contemporâneos: Maid to order (Cinderela às avessas), Only you (Só você) e Ever After (Para sempre Cinderela). A pesquisa busca detectar, no conto de fadas e suas releituras fílmicas, os aspectos significativos relevantes que produzem os diversos sentidos da(s) história(s). 14 Considerando esses aspectos significativos, temos em diversos elementos que compõem as histórias, a repetição e recorrência de aspectos que configuram o sentido das narrativas audiovisuais apresentadas neste trabalho. Dentre os diversos elementos simbólicos presentes na história original, chamaremos particular atenção para o sapato de Cinderela, que se estabelece como o gancho que fará mudar de condição na história. Esse estudo pretende contemplar como o cinema apropriou-se do conto de fadas Cinderela, em relação ao objeto sapato e também mostrar as relações intertextuais entre o conto e as atualizações midiáticas propostas. No texto de origem, Cinderela, a personagem principal, ao usar o sapato, encontra a felicidade ao lado de seu príncipe encantado e como prêmio ascende socialmente. Desde o início da narrativa, ela está sujeita a humilhações. Suas roupas são recolhidas pela madrasta e, assim, é obrigada a usar trapos, dormir no borralho e fazer serviços pesados na casa. Então o sapato aparece como elemento de transformação, que dá início ao desenlace da trama. Dentre várias mulheres, o sapato é destinado a apenas uma e a escolha é feita desde o princípio da narrativa, pois só serve no pé de Cinderela. O corpus analisado resgatará esse objeto midiático, representando o encontro com a felicidade, com o homem sonhado, imaginado, um sonho da maioria das mulheres. Podemos supor que o cinema dá um tratamento contemporâneo ao objeto sapato que, no texto matriz é tradicional, mas nas variantes intertextuais pode ser uma sandália branca ou um sapato vermelho, como em Only you (1994), um sofisticado sapato preto, em Maid to order(1987) ou ainda um tamanco de cristal, em Ever After(1998). Dessa forma, as variantes intertextuais fílmicas parodiam, parafraseiam ou estilizam o antigo conto, criando novas relações ao apresentar o encontro com a felicidade. O sapato representa a procura, a busca de caminhos para atingir tal felicidade. Para tal análise precisaremos de um suporte teórico, que será a teoria da Intertextualidade, de Julia Kristeva. Essa teoria deriva dos estudos do formalista russo Mikail Bakhtin, sobre o dialogismo da linguagem. Enquanto os estruturalistas, 15 como Saussure, estudavam o sistema abstrato da língua (langue), Bakhtin privilegiava o sistema concreto, embasado no dialogismo.. Esse teórico foi o pioneiro a apresentar um conceito de texto, como sendo toda produção cultural com base na linguagem. Para ele, não se pode conceber o processo de leitura desligado da noção de intertexto, uma vez que o dialogismo permeia a linguagem, dá sentido ao discurso e advém de uma variedade de outros textos. Assim, Kristeva foi quem evidenciou o termo “intertextualidade”. Ela definia “todo texto como mosaico de citações” e dizia que o “texto” passa a ser compreendido como ocorrência situada na história e na sociedade. Então, o autor vive na história e a sociedade escreve-se no texto. Sendo assim, este trabalho fará, num primeiro momento a exposição da teoria da Intertextualidade, relacionando seqüências importantes dos textos analisados, para estabelecer os elementos intertextuais entre o conto de fadas “A gata borralheira” e os três filmes já citados. Depois disso, traçaremos um breve histórico dos contos de fadas e do trabalho dos irmãos Grimm e também analisaremos símbolos importantes presentes no conto, para podermos fazer uma ligação com os filmes analisados. Finalmente, falaremos do código fílmico e estudaremos a inter-relação das narrativas audiovisuais Ever After, Maid to order e Only you, para mostrarmos como foi feita a transcodificação dos símbolos presentes no conto original. Para falar do código fílmico, apresentaremos os elementos necessários para a composição de um bom personagem, segundo Syd Field. Para efeito deste trabalho, a personagem escolhida em todos os textos em análise será “Cinderela”. Desse modo, estudaremos a intertextualidade entre os dois códigos: literário e fílmico e a transcodificação de um código para o outro, levando em conta alguns símbolos. Pretendemos, então, estudar a história de Cinderela por dois meios, a literatura e o cinema, levando em conta as particularidades de cada um deles. São linguagens diferentes, mas que procuram expressar idéias, sentimentos e pensamentos, formando um sistema simbólico de relações humanas. 16 CAPÍTULO I BAKHTIN E KRISTEVA : TEORIA DA INTERTEXTUALIDADE 1. Intertextualidade: Pressupostos teóricos Bakhtin é um dos maiores estudiosos da língua do século XX. Em seus estudos, deu ênfase ao caráter heterogêneo da parole1, em contraposição a outros estudiosos que privilegiavam a langue, como Saussure e os estruturalistas. A parole é o sistema concreto da língua e a langue, o abstrato. A concepção que Bakhtin dá à língua não é só como um sistema abstrato, mas a vê também como um diálogo cumulativo entre o “eu” e o “outro”, entre muitos “eus” e muitos “outros”. No centro de sua obra está a linguagem e ao estudá-la propõe duas direções principais: o subjetivismo idealista e o objetivismo abstrato. Para Bakhtin, essas duas orientações representam um obstáculo a uma assimilação totalizante da linguagem, pois o subjetivismo idealista a reduz à enunciação monológica isolada e o objetivismo abstrato, a um sistema abstrato de formas. O teórico russo diz que a compreensão ampla da natureza da linguagem não se localiza entre essas duas orientações e, sim, além. Para ultrapassar essas posições contrárias, apresenta a interação verbal, que é uma recusa tanto da tese quanto da antítese e constitui uma síntese dialética. A interação da linguagem é a base da teoria bakhtiniana; compreende-se a linguagem partindo de sua natureza social e histórica. Em “Marxismo e filosofia da 1 Saussure (1977) efetua, em sua teorização, uma separação entre langue(língua) e parole(discurso). Para ele, a língua é um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, possui homogeneidade e por isto é o objeto da lingüística propriamente dita. Diferente da parole(discurso) que é um ato individual e está sujeito a fatores externos, muitos desses não lingüísticos e, portanto, não passíveis de análise. (Curso de lingüística Geral) 17 linguagem”, ele afirma o seguinte: “as palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” (BAKHTIN, 2006, p.42). Não podemos considerar a enunciação apenas pelas condições psicofisiológicas do falante, mas também pela sua natureza social e é necessário entender que ela sempre acontece numa interação. Bakhtin observa que a verdadeira substância da língua constitui-se pelo fenômeno social da interação verbal, que se realiza através da enunciação ou das enunciações. Dessa maneira, essa interação é a realidade fundamental da língua. Analisando a enunciação como um produto da interação entre indivíduos socialmente organizados, a palavra terá a direção de um interlocutor real e variará em função desse, em relação ao grupo social a que ele pertence, aos laços sociais, etc. O interlocutor não poderá ser abstrato, senão não teremos linguagem. O diálogo é uma das formas mais importantes de interação social e não é só aquela comunicação face a face, porém toda comunicação verbal. De acordo com Bakhtin (2006, p.128), a língua vive e evolui historicamente na comunicação social concreta. A partir disso, a Língüística não consegue dar conta da língua integrada à vida humana, como um objeto de muitas facetas. Para explicar o caráter dialógico da língua, Bakhtin acrescenta o contexto e propõe uma disciplina, a metalingüística ou translingüística, para poder explicar o enunciado. Essa abordagem proposta por Bakhtin vai além dos limites da lingüística e estuda a própria enunciação, que tem sua estrutura determinada totalmente pelas relações sociais. Embora a enunciação seja produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados, ela não pode avançar as fronteiras de uma classe e de uma época bem definidas. Podemos então dizer que a palavra procede de alguém e se dirige para outro alguém. Ela é produto da interação entre locutor e interlocutor. Conforme Bakhtin (2006, p.117), a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra se apóia sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. 18 Partindo dessa concepção de linguagem, o dialogismo serve de base para estudos posteriores como o discurso interior, o monólogo, a comunicação diária, os vários gêneros do discurso, a literatura e outras manifestações culturais. O princípio dialógico caracteriza as idéias de Bakhtin sobre o homem e a vida. Seu sistema teórico é fundado no dialogismo. O “eu” que ele concebe é dinâmico e está em interação com outros “eus” e personagens. A alteridade marca o ser humano, pois o outro é indispensável para sua constituição. De acordo com Bakhtin, a vida é dialógica por natureza e essa dialogia põe em confronto as entoações e os sistemas de valores que posicionam as mais diversas visões de mundo dentro de um campo de visão. O teórico propõe duas noções de dialogismo: o diálogo entre interlocutores e o diálogo entre discursos. O primeiro é o princípio básico da linguagem, é nessa relação entre sujeitos, isto é, na interpretação e produção de textos que se constrói o sentido do texto, a significação das palavras e os próprios sujeitos. Então podemos dizer que a subjetividade é posterior à intersubjetividade. Como diz Bakhtin, “o ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata” (2006, p.47). Portanto o dialogismo aparece como o princípio constitutivo da linguagem e como condição do sentido do discurso, que não é individual; constrói-se, pelo menos, entre dois interlocutores que são seres sociais, vivem em sociedade. O mais importante, contudo, é que um discurso mantém um diálogo com outros discursos, apresenta-se como um produto híbrido, em que há vozes em concorrência e sentidos em conflito. Em suma, o dialogismo é a constante interação entre os variados discursos que representam uma sociedade, uma comunidade, uma cultura. Assim a linguagem é essencialmente dialógica e complexa, pois nela se imprimem, historicamente e pelo uso, as relações dialógicas dos discursos. A palavra é sempre marcada pela palavra do outro, ou seja, quando um enunciador constrói seu discurso, leva em conta o discurso de outrem, que está sempre presente no seu. Essa breve apresentação do dialogismo de Mikhail Bakhtin tem por objetivo embasar o estudo que será feito neste trabalho, pois ao analisarmos o conto de 19 fadas A gata borralheira2, dos Irmãos Grimm e as narrativas audiovisuais Ever After3, Only you4 e Maid to order5 percebemos nitidamente que esses textos mantém um diálogo, abrindo espaço para o estudo da intertextualidade, que se origina dos estudos desse teórico sobre os romances modernos. Bakhtin os classifica como dialógicos e assim, diante de uma variedade de significados, um texto se aproxima facilmente de outro. Essa aproximação não acontece só entre textos diferentes, mas também entre épocas distintas, colocando a linguagem como uma área permanente de trocas e os textos reelaboram outros textos, mesmo entre códigos distintos. Para esta análise trabalharemos o código literário transpondo-se para o código fílmico. Dessa forma observamos que a palavra é migratória e também elemento de ligação entre textos e dá sustentação ao recurso da intertextualidade. Esse recurso parte do dialogismo de Bakhtin que concebe a palavra literária não com um sentido fixo, mas um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras, do destinatário ou da personagem, do contexto cultural atual ou anterior. (KRISTEVA, 2005, p. 66) Em Introdução à Semanálise, Kristeva (2005) destaca que há três elementos que dialogam no espaço textual: o sujeito da escritura, o destinatário e os textos exteriores. Ela considera que todo texto se constrói como “mosaico de citações”. A intertextualidade insere-se numa teoria totalizante do texto, englobando suas relações com o sujeito, o inconsciente e a ideologia, numa perspectiva semiótica, que leva ao entendimento de que a especificidade do literário, sendo um discurso entre outros, só pode ser pensada no diálogo interdiscursivo. Isso faz que a prática comparativista seja o uso sistemático de estratégias de aproximação e de confronto de textos e discursos. 2 GRIMM, Jacob e Wilhelm. Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. Trad. Íside M. Bonini. São Paulo: Edigraf S.A., vol.II. 3 EVER AFTER (Para sempre Cinderela). Dir. Andy Tennant. EUA. 20th Century Fox. 1998. 4 ONLY YOU (Só você). Dir. Norman Jewison. EUA. TriSTAR. 1994. 5 MAID TO ORDER (Cinderela às avessas). Dir. Amy Jones. EUA. Warner. 1987. 20 Para Kristeva existem dois eixos: horizontal e vertical. No eixo horizontal, temse a palavra no texto que pertence, ao mesmo tempo, ao sujeito da escritura e ao destinatário; e no vertical o par texto-contexto. Assim, a palavra (o texto) é um cruzamento de palavras (textos) onde se lê, pelo menos, uma outra palavra (texto). Todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Então de que forma um texto A pode se relacionar com um texto B e quando um ponto de convergência entre ambos poderá ser, com efeito, apresentado como uma evidência de intertextualidade? Para decifrar essa incógnita, devemos, primeiramente, examinar os conceitos de paródia, paráfrase e estilização, estabelecendo as diferenças entre eles. Para tanto é necessária uma breve história do termo paródia. Ela já despertava interesse desde Aristóteles (1966), que em sua Poética a usava para analisar as epopéias e as apresentações do teatro antigo. Para o filósofo grego, a poesia era a representação em versos das ações humanas, onde se opunham dois tipos de ações que se diferenciavam por seu nível de dignidade moral e/ou social: alto e baixo e dois modos de representação, narrativo e dramático. Na tragédia, ocorrem as ações altas no modo dramático e as ações baixas, na comédia. Já o modo narrativo não foi desenvolvido por Aristóteles, porém Gérard Genette, em Palimpsestes (1982, p.17) identifica-o com a paródia, que deve ter surgido entre os séculos VII e IV a.C., por meio de Hegemon de Thasos, escritor grego, que usou o estilo épico para representar os homens não como superiores ao que são na vida diária, mas como inferiores. Como diz Sant’Anna (1985, p.11), Teria ocorrido, então, uma inversão. A epopéia, gênero que na Antigüidade servia para apresentar os heróis nacionais no mesmo nível dos deuses, sofria agora uma degradação. Essa observação de Aristóteles revela um enfoque marcadamente ético e mostra que os gêneros literários eram tão estratificados quanto as classes sociais. A tragédia e a epopéia eram gêneros reservados a descrições mais nobres, enquanto a comédia era o espaço da representação popular. A paródia, na epopéia, acontecia por intermédio de uma transformação estilística, que a transportaria de um registro mais nobre para um mais familiar, até mesmo vulgar, ocorrência essa que chegou até o século XVI. 21 Genette (1982, p.19) identificou, na Antigüidade clássica, três tipos de paródia e Aristóteles teria trabalhado com o segundo tipo, a “anti-epopéia”, que ele chamou de “Dilíada” ( vem de deilos = frouxo). Nesse tipo, as personagens seriam inferiores aos deuses em contraposição às epopéias tradicionais, em que o sujeito representado tinha que ser superior para servir de modelo para os ouvintes. Já Tynianov e Bakhtin , dois formalistas russos, colocam a paródia dentro de uma certa sinonímia e a definem paralelamente ao conceito de estilização. Tanto um estudioso quanto o outro têm pensamentos que coincidem. Tynianov coloca a estilização próxima da paródia. A diferença é que na paródia o texto original e o parodiado são discordantes. Já na estilização isso não ocorre, havendo, pois, concordância entre os dois textos. Enfim, entre elas há uma pequena distância e se aparecer uma forte motivação cômica na estilização, ela converte-se em paródia. Segundo Bakhtin (apud SANT’ANNA, 1985, p.14), tanto na paródia quanto na estilização, o autor emprega a fala de um outro. Na paródia, a intenção é que essa oponha-se diretamente à fala original, fazendo-a servir a fins opostos, não podendo haver a fusão dessas duas falas, fato que só ocorre na estilização. Então, a criatividade aparece na paródia, pois ao parodiar o estilo de outro, pode-se seguir direções diferentes, o que não ocorre na estilização, que segue uma só direção, já proposta pelo autor original. Observamos então que esses autores estabelecem os conceitos de paródia e estilização, especificamente, para o texto literário. Para o presente trabalho precisamos alargar tais conceitos, já que queremos contrapor o literário ao fílmico. Para tanto podemos também contrapor a paródia à paráfrase. O termo paráfrase não possui uma história porque significa continuidade, repetição. A história interessa-se pela ruptura, pelo corte e pelo acréscimo, porém podemos tomar uma definição de paráfrase que foge à repetição. De acordo com Beckson (apud SANT’ANNA, 1985, p.17) “é a reafirmação, em palavras diferentes, do mesmo sentido de uma obra escrita.” Ao falarmos desses dois conceitos, estamos diante de dois eixos: o eixo parafrásico e o eixo parodístico. Assim percebemos que a paródia representa o novo e o diferente enquanto que a paráfrase representa o semelhante. 22 Para continuarmos o nosso trabalho, há a necessidade de que conceituemos o termo apropriação, que é recente no campo da crítica literária. Segundo Sant’anna (1985), embora seja um conceito relativamente novo, podemos correlacioná-lo à paráfrase, à estilização e à paródia. A origem da apropriação está no Dadaísmo e chegou à literatura pelas artes plásticas. Nos anos 60, com o surgimento da pop art, objetos comuns eram manipulados e transformados em arte, retratando a sociedade industrial da época e apresentando uma crítica da ideologia. Assim, o objeto era retirado de seu uso comum e colocado em uma situação diferente, sendo reapresentado em sua estranheza. Podemos até dividir a apropriação em dois graus: apropriação de 1º grau e apropriação de 2º grau. A primeira dá-se quando o objeto entra em cena e a outra, quando o objeto representa-se, traduzido para um outro código. Tanto uma como a outra apresentam uma simbologia que reúne significados e conceitos. Essa técnica ficou conhecida como arte conceitual, pois a idéia é que importa, a forma vem em segundo plano. O artista está provocando uma ruptura ao intervir no cotidiano chamando a atenção para alguma coisa. Aqueles que vêem a apropriação como uma paródia ao exagero máximo, vão dizer que ela se opõe à paráfrase e diverge da estilização. É um gesto devorador, onde o devorador se alimenta da fome alheia. Ou seja, ela parte de um material já produzido por outro, extornando-lhe o significado.(SANT’ ANNA, 1985, p.46). Podemos situar na paráfrase e na paródia um pró-estilo e um contra-estilo, já que a primeira reafirma o texto de origem, enquanto a segunda inverte-o, tentando inovar. Já na apropriação, o autor apenas faz um agrupamento, uma articulação do texto alheio. O artista que se apropria do texto de outrem sugere uma nova leitura. De acordo com as considerações de Sant’anna (1985), podemos exemplificar citando Maurício de Sousa, que se apropriou da Mona Lisa de da Vinci e colocou em seu lugar a personagem Mônica, com uma aparência sossegada, tranqüila. Ele inverteu um signo cultural, visto que a Mônica não é uma menina boazinha e sim explosiva e dominadora. Quando a sociedade se industrializou, a reprodução de um original tornou-se fácil através de diversos meios como: fotos, disco, cinema, xerox, etc. A obra de arte deixou de ser única e insubstituível. Essa facilidade de reprodução das coisas 23 alterou a relação com a obra de arte. Nota-se, então, uma relação entre a apropriação e a sociedade de consumo. Conforme Sant’ Anna (1985, p.47), nesta sociedade, os objetos assumiram o lugar dos sujeitos. O sujeito não é mais o mesmo. Indivíduos e objetos são descartáveis. Ao trazer o conceito de apropriação para este trabalho, notamos a sua não pertinência diante do texto de origem A Gata Borralheira e dos três filmes analisados, uma vez que o apropriador recorta textos de outrem e os coloca num contexto diferente, fazendo uma releitura do passado e uma leitura do presente. Isso não é o que se observa nos textos citados. Se voltarmos à questão do desvio tolerável (estilização), do desvio mínimo (paráfrase) e do desvio total (paródia), notamos semelhanças e diferenças entre os textos analisados. Sant’Anna (1985) reformula as teorias de Tyanianov e Bakhtin sobre o conceito de estilização e avança propondo três modelos para redefinir esses termos. Esses autores tinham desenvolvido a oposição entre paródia e estilização, utilizando basicamente para estudos na área do romance, privilegiando autores como Dostoiévski e Gogol. No primeiro modelo, o autor aborda o efeito pró-estilo da paráfrase e o efeito contra-estilo da paródia. Segundo ele (1985, p.36) “quando a estilização se dá na mesma direção do texto anterior, transforma-se numa paráfrase; se ela ocorre em sentido contrário, constitui-se numa paródia”. Assim a estilização é uma técnica geral e a paródia e a paráfrase seriam efeitos particulares, ou seja, a estilização é o artifício utilizado pelo autor e a paródia e a paráfrase é o resultado. No segundo modelo, Sant’Anna aborda a noção de desvio, considerando que os jogos estabelecidos nas relações intra e extratextuais são desvios maiores ou menores em relação a um texto original. Nessa concepção, a estilização seria um desvio tolerável, que ocorreria o máximo de inovação sem ser subvertido, pervertido ou invertido seu sentido. A paráfrase trabalharia com o desvio mínimo e a paródia com o desvio total. O autor (1985, p.41) complementa, dizendo que: a paródia deforma o texto original subvertendo sua estrutura ou sentido. Já a paráfrase reafirma o s ingredientes do texto primeiro conformando seu sentido. Enquanto a estilização reforma, esmaecendo, apagando a forma, mas sem modificação essencial da estrutura. 24 Nessa perspectiva, a paráfrase e a estilização fazem parte de um mesmo conjunto em oposição à paródia. No terceiro e último modelo, encadeiam-se os quatro elementos já citados: paráfrase e estilização no conjunto das similaridades e paródia e apropriação no conjunto das diferenças. Paráfrase e estilização no primeiro conjunto mantém uma gradação, já que a paráfrase é o desvio mínimo e a estilização, o desvio tolerável. No segundo conjunto temos paródia e apropriação também numa relação de parentesco, uma vez que, como diz Sant’Anna (1985, p.48) “a paródia é a inversão do significado, que tem o seu exemplo máximo na apropriação.” Por exemplo, no filme Maid to order há uma inversão do conto original A gata borralheira, pois a personagem principal é uma moça rica que mora em uma mansão com seu pai, mas que não valoriza o que tem. Só quer gastar dinheiro e ter uma vida sem objetivos. Ela faz o caminho inverso da gata borralheira. Ora, o que o texto parodístico faz é exatamente uma re-apresentação daquilo que havia sido recalcado. Uma nova e diferente maneira de ler o convencional. É um processo de liberação do discurso. É uma tomada de consciência crítica.(SANT’ ANNA, 1985, p. 31). No filme Ever After, Danielle é a boa moça que ajuda a todos e obedece à madrasta que só a faz sofrer. Ela é a própria gata borralheira, mostrando apenas mais determinação em suas atitudes. A história da boa moça à procura da felicidade é reafirmada, o desvio é mínimo. Portanto, constatamos que paródia e paráfrase tocam-se num efeito de intertextualidade e a estilização é o ponto de contato entre elas. Para exemplificarmos podemos citar o filme Only you que se localiza entre os outros dois já citados, traduzindo-se como uma estilização. Faith é a gata borralheira moderna, desde pequena sonha em ser feliz ao lado do homem idealizado. As inovações admitidas no filme não subvertem, pervertem ou invertem o sentido do original dos Irmãos Grimm, é um desvio tolerável. A leitura para perceber as relações intertextuais necessita de uma certa especialização. A intertextualidade é uma atualização que permite ao receptor encontrar, num texto novo, os ecos de um passado intertextual submerso, mas não 25 escondido. A tarefa do leitor é reconstruir a obra levando em conta, além das relações dialógicas existentes, sua estrutura e sua riqueza semântica. É também de suma importância estar atento ao contexto em que a obra se inscreve e os conhecimentos anteriores do receptor6. Quando pensamos sobre a questão das vozes, vemos que a paródia contradiz o texto original e coloca as coisas fora de seu lugar, propondo a originalidade através da criatividade, da deformação do texto de origem. No filme Maid to order, inaugura-se um novo paradigma, pois a paródia não é um espelho, ela excede os pormenores de tal forma que destrói o texto original e assim busca a diferença. Ao contar a história da borralheira às avessas, essa narrativa audiovisual mostra as fragilidades da moça rica que, ao se ver pobre, canaliza suas forças para o bem e se percebe não mais como o centro das atenções e sim como mediadora dos sonhos de outras pessoas e dessa forma consegue realizar seus próprios anseios. Já a paráfrase é um discurso sem autoria, porque revela a voz de um outro, está mostrando o que alguém já falou. O texto parafraseado e o texto original estão do mesmo lado, é o mesmo jogo, reafirmado em uma nova época. Em Ever After, reafirma-se a situação da moça oprimida, subjugada pela madrasta, que procura, através do príncipe, o caminho para a felicidade. Danielle tenta, durante toda a sua trajetória, livrar-se da dominação da condessa, mas não consegue. Só no final, como no texto dos Irmãos Grimm, ela consegue sua libertação e a madrasta e uma de suas filhas são castigadas e tratadas com “o mesmo respeito” que dispensaram à nossa borralheira. A estilização renova o texto original sem alterar sua estrutura. Isso vemos em Only you, em que Faith, nossa cinderela moderna, procura incansavelmente seu príncipe, seu final feliz. Ela não é a moça simples e resignada do conto da fadas original; é batalhadora, atual, uma mulher que toma a iniciativa e persegue o seu sonho. Entretanto, o romantismo que norteia o texto de origem permanece na trajetória de Faith e pode ser observado em diversas cenas: na perseguição de Faith ao suposto príncipe, situação em que ela perde o sapato; no passeio de nossa heroína e Peter, um comerciante de sapatos, depois que ele se revela o homem dos 6 Como este trabalho trata da produção de textos e não da recepção, a esse respeito seria interessante consultar teóricos que falem da estética da recepção, como Wolfgang Iser e Hans Robert Jauss. 26 sonhos dela. Até mesmo os lugares escolhidos para a filmagem confirmam esse clima romântico: Veneza, Roma e Positano. Por isso podemos afirmar que a estilização produz um desvio tolerável, enquanto a paráfrase, um desvio mínimo e finalmente a paródia surge como um desvio total. Apesar das diferenças entre esses recursos, podemos notar que os efeitos da estilização podem se dar tanto na paráfrase quanto na paródia, já que ela reveste o texto de origem de uma outra roupagem, atualizando-o. Assim dizemos que a estilização é um texto ambíguo, à proporção que carrega um pouco de dois textos; recorre ao texto-base, mas busca inovação e originalidade no seu próprio texto. No filme Only you, encontram-se marcas não-verbais remanescentes do texto dos Irmãos Grimm, só que a atmosfera que os envolve é reformulada, de acordo com a época, a sociedade em questão e a proposta do cineasta. Destacamos , dessa forma, o sapato, o relógio, a escada e a fonte. Esses signos não precisam de palavras e são eficientes no processo de comunicação. Todavia, a percepção dos efeitos da estilização como paródia ou paráfrase dependerá do repertório do leitor, do espectador, que irá perceber ou não tais efeitos no texto. 2. Seqüências importantes dos textos analisados Neste momento, torna-se importante apresentar as seqüências narrativas analisadas para podermos perceber as relações intertextuais entre elas. Em “A Gata Borralheira”, dos Irmãos Grimm, podemos destacar os seguintes acontecimentos que são importantes para o estudo da intertextualidade: a) Moça boa e piedosa perde a mãe muito cedo e passa a viver só com o pai; b) O pai casa-se com uma mulher ambiciosa e má que tem duas filhas igualmente más; c) A moça passa a sofrer nas mãos da madrasta e suas filhas, todos os seus pertences são confiscados e ela se torna a criada da casa; d) As irmãs malvadas são ambiciosas e sempre pedem presentes caros, enquanto a Gata Borralheira é simples e se satisfaz com pouco; e) Uma pomba branca é a conselheira da pobre menina, que vive só e triste; 27 f) Quando o príncipe do reino anuncia três noites de baile para escolher uma esposa, a madrasta vê a oportunidade de casar uma das filhas e ascender socialmente; g) A Gata Borralheira vê nos bailes um meio de encontrar o homem desejado e alcançar a felicidade; h) A menina vai aos bailes e quem a ajuda é a pomba e uma aveleira. Em cada um dos dias ela está mais bonita e bem vestida; i) No último baile, ela perde um dos sapatinhos dourados e o príncipe manda seus mensageiros percorrerem todo o reino em busca da amada desconhecida; j) A madrasta tenta impedir a enteada de experimentar o sapato, mas seu truque não dá certo. A Gata Borralheira é a escolhida, aquela que merece o final feliz, a felicidade por tanto tempo almejada. A madrasta e as irmãs têm os olhos furados pelas pombas como castigo por tanta crueldade praticada contra a jovem. Agora passaremos à seqüência de acontecimentos nos filmes. Em Ever After, os fatos apresentam-se da seguinte forma: a) Danielle é uma menina bonita e órfã de mãe, que mora com o pai e alguns criados; b) O pai casa-se e a madrasta tem duas filhas, uma boa e outra má como a mãe. O pai morre e Danielle é tratada como criada e obrigada a servir a madrasta e as irmãs; c) Um dia, ao tentar libertar Maurice(criado de sua casa), conhece o príncipe Henry. Ela esconde a sua verdadeira identidade e diz ser a Condessa Nicole de Lancret, nome de sua mãe; d) Henry encanta-se por ela e eles passam a se encontrar. O príncipe está apaixonado e cheio de idéias para sua vida, mas Danielle sofre por esconder a sua verdadeira identidade dele; e) No baile que o rei promove para encontrar uma esposa para Henry, Danielle está maravilhosa, usando as roupas e o sapato de cristal da mãe. Não há a presença da fada madrinha, Danielle é ajudada pelos criados e por Leonardo Da Vinci; 28 f) Quando Danielle aparece no baile, o príncipe fica muito feliz, porém essa felicidade dura pouco, já que a madrasta desmascara a moça na frente de todos; g) Henry não deixa que Danielle se explique e aceita se casar com a moça que seu pai escolheu; h) A madrasta troca a enteada pelas coisas que estavam penhoradas a um agiota. Henry desiste do casamento arranjado e vai procurar sua amada; i) A irmã boa diz onde ela está e assim os dois reconciliam-se e se casam. A madrasta e sua filha má são castigadas passando a ser criadas no castelo; j) Essa história é contada pela tataraneta de Danielle aos Irmãos Grimm, remetendo à história original. No próximo filme, Only you, observamos a seguinte seqüência de acontecimentos: a) Faith é uma professora bonita e sonhadora. Desde a infância sonha com o homem ideal e através de uma tábua ouija7 e de uma cigana acredita que esse homem chama-se Damon Bradley; b) Embora esteja de casamento marcado com um médico, não consegue esquecer a previsão que foi feita na infância; c) Ao experimentar o vestido de noiva, recebe um telefonema de um amigo do noivo, pedindo desculpas por não poder estar no casamento. Ele diz que se chama Damon Bradley e deixa Faith transtornada; d) Junto com a cunhada Kate, vai a Veneza para tentar encontrá-lo. Ao chegar lá, descobre que Damon já havia deixado o hotel e seguido para Roma. Remexe o lixo do quarto do rapaz e consegue encontrar um endereço de um loja de roupas, em Roma; e) Já em Roma, vai até a casa de moda e, através de uma funcionária, fica sabendo que Damon estará, à noite, no restaurante Galeassi. As duas amigas arrumam-se e vão até esse local. Faith entra por uma porta e Damon sai por outra. Ela segue-o pelas ruas de Roma e nessa perseguição perde um dos sapatos, que é encontrado por Peter, um vendedor de sapatos; 7 Tábua ouija ou tabuleiro ouija é qualquer superfície plana com letras, números ou outros símbolos em que se coloca um indicador móvel, utilizada supostamente para comunicação com espíritos. (www.wikipedia.org.br) 29 f) Faith perde Damon na multidão e, desiludida, senta-se numa fonte e desabafa com Kate. Peter chega, ajoelha-se para calcar-lhe o sapato e ouve a conversa. Apresenta-se como Damon e a moça desmaia, g) Ao recobrar a consciência, saem para um passeio pela cidade. No quarto de Peter, envoltos em um clima romântico, ele confessa não ser Damon. Faith fica furiosa e o deixa falando sozinho. Ela diz à cunhada que a sua busca terminou e que vai voltar e se casar com o noivo; h) No dia seguinte, quando está de partida, Peter pede perdão e diz ter encontrado o verdadeiro Damon, que está em Positano, um lugar romântico, à beira mar. Faith, Peter, Kate e Giovani, o dono da casa de moda, seguem para esse lugar; i) No hotel, Faith encontra “Damon” e marcam um jantar para aquela noite. Peter a ajuda a se produzir para o encontro e fica muito triste ao vê-la sair. Depois do jantar, todos seguem para um iate, onde está acontecendo uma festa. A professora descobre toda a farsa montada por Peter e abandona a embarcação com Kate; j) Muito decepcionada, resolve partir no dia seguinte. No aeroporto, ouve pelo alto-falante chamarem o nome de Damon Bradley. Peter, que também está de partida, ouve e os dois dirigem-se para o balcão e encontram o verdadeiro Damon. Peter apresenta Damon a Faith, que só assim percebe o absurdo da situação. O rapaz despede-se e deixa Faith diante de um Damon atônito. Ela segue Peter até o avião, declara-se a ele e os dois partem juntos para Boston. No último filme em estudo, Maid to order, os acontecimentos desenrolam-se da seguinte maneira: a) Jessie é uma moça rica e fútil que leva uma vida sem objetivos. Vai a festas e gasta muito dinheiro. É órfã de mãe e vive com o pai em uma mansão em Los Angeles; b) Todas as noites vai a baladas, dança, bebe e gasta muito dinheiro. Não se preocupa com os outros, não ajuda as pessoas, é egoísta e irresponsável; c) O pai, um filantropo, resolve parar de patrocinar seus caprichos e, numa noite, Jessie envolve-se numa confusão e acaba na cadeia. O pai fica tão decepcionado, que deseja nunca ter tido uma filha; 30 d) Nesse momento, entra em cena a fada Stella, que atende o pedido do pai de Jessie, transformando-a numa desconhecida, desempregada e sem um tostão. A moça não tem outra saída a não ser procurar uma agência de empregos; e) Na agência encontra um emprego como arrumadeira em uma mansão em Malibu. Para quem não tem idéia de como se lava um prato, frita um ovo ou liga um aspirador de pó, não poderia haver castigo pior; f) Na mansão, Jessie conhece os empregados: Nick, o motorista, Audrey, uma espécie de governanta e Maria, que cuida da cozinha. Os patrões são dois esnobes: o homem, um produtor musical e a mulher, uma dondoca fútil e sovina. A moça revolta-se com Stella e diz que quer tudo o que é seu de volta. A fada diz que Jessie tem que fazer por merecer; g) Com o passar dos dias, ela interessa-se por Nick e se envolve demais com os outros empregados da casa. Aos poucos, ela vai se humanizando e voltando a sua atenção para as pessoas que estão ao seu redor; h) Na festa que os patrões promovem, ela fica muito triste ao ver o pai e não ser reconhecida por ele. Jessie mostra interesse pelos desejos de seus novos amigos. Audrey já foi cantora e até gravou um disco, Nick compõe canções e há muito tempo tenta que o patrão as ouça; i) O cantor que se apresentaria na festa perde a consciência ao ser atingido por um coco, que Stella faz cair em sua cabeça. Dessa forma, Audrey toma o seu lugar e é acompanhada por Nick, no teclado. Ela interpreta uma canção de Nick e os dois fazem muito sucesso, sendo contratados pelo dono de uma gravadora, que está na festa; j) Jessie fica muito feliz e acompanha Stella até a porta. A fada diz que Jessie mudou e, por isso, merece ter sua vida de volta. Nesse momento, os sapatos brilham e o pai, que está saindo, pede que ela não chegue tarde em casa. Stella despede-se da jovem e seu carro desaparece, envolto em uma bolha, no céu. Jessie emociona-se e termina feliz, ao lado de Nick. Comparando o conto A gata borralheira, dos Irmãos Grimm aos filmes Ever After, Only you e Maid to order, chegamos a algumas observações quanto ao recurso da intertextualidade: 31 O primeiro filme (Ever After) faz referência direta ao conto. A história passa-se no século XVI, portanto a época é muito parecida e assim também o vestuário. Tanto a heroína do conto quanto Danielle são bondosas e mostram preocupação com o destino de outras pessoas. Satisfazem-se com pouco, são órfãs de mãe e os pais casam-se para poder reconstruir suas vidas. As madrastas são más e causam sofrimento às moças que são despojadas de seus pertences e passam à condição de criadas em suas próprias casas. Para saírem de tal situação, elas vêem no príncipe a salvação e o encontro da alma gêmea. No baile, perdem um dos sapatos, o que irá desencadear uma busca em todo o reino. Quando calçam o sapato, concretiza-se o sonho e a felicidade é alcançada. Entre o filme e o conto há pequenas diferenças, portanto o discurso se repete e o desvio é considerado mínimo. Um dos pontos relevantes quanto às diferenças, ao desvio, é o fato de o filme não apresentar o elemento mágico, o que não acontece no texto matriz. No segundo filme (Only you), observamos uma referência temática ao conto dos Irmãos Grimm: a moça que procura sua alma gêmea, o seu príncipe encantado e, conseqüentemente, a felicidade. A época do filme é atual, Faith é uma Cinderela moderna, ousada, decidida. Essa atualização no tempo não nos impede de detectar a presença do conto no filme e levantar as relações intertextuais entre os dois textos. Quando Faith corre pelas ruas de Roma atrás daquele que pensa ser o homem de seus sonhos, perde um dos sapatos e quem o encontra é Peter, o seu verdadeiro príncipe. Apesar do filme modernizar o conto, o romantismo é a tônica dessa história do século XX. O que acontece, então, é que o filme inova o conto e pode ser classificado como um desvio tolerável. Faith pensa que conseguiu uma ajuda do destino, por meio da tábua ouija e da cigana, mas a tábua foi manipulada por Larry, seu irmão, e a cigana também. Ele a contratou para dizer o mesmo nome apresentado pela tábua. O terceiro filme em análise é Maid to order e nele a história da borralheira é invertida, como se fosse colocada diante de um espelho: a moça rica e fútil que, por suas atitudes, acaba perdendo casa, família e dinheiro. Uma fada acompanha a trajetória de Jessie que quer reverter essa situação. No final, ela consegue e tornase uma pessoa melhor, preocupada com o sonho dos outros. Dessa forma, essa narrativa fílmica apresenta-se como desvio total e um modo diferente de leitura do conto, uma forma não convencional. A fada só proporciona a transformação da 32 Jessie rica e fútil em uma criada inexperiente. A real transformação de Jessie é feita por ela mesma, em sua mudança de atitude. Depois dessas observações, percebemos que o cruzamento da narrativa literária dos Irmãos Grimm com as narrativas audiovisuais apresentadas leva-nos a entender que a intertextualidade é inerente à produção humana. O ser humano recorre àquilo que já foi feito em seu processo de produção simbólica. Cada texto, seja ele um filme, uma música, um conto, um romance, uma poesia apresentam uma significação que não está completamente pronta, pois esses mesmos textos estão sujeitos a diferentes olhares e recepções por parte de diferentes leitores. A significação processa-se entre o texto e seu receptor, que é ativo, participa desse jogo intertextual, tanto quanto o autor. De acordo com Kristeva (2005, p.104), a linguagem poética é um diálogo de dois discursos. Um texto estranho entra na rede da escritura: esta o absorve segundo leis específicas que estão por se descobrir. Assim, no paragrama8 de um texto, funcionam todos os textos do espaço lido pelo escritor. Esse aspecto duplo apontado na linguagem literária permite a Kristeva (2005) buscar no contexto saussureano de “paragramática” uma compreensão semiótica para o problema. De acordo com tal conceito, o texto literário deve ser abordado segundo uma tripla compreensão de sua natureza, posto que ele é (a) a única infinidade do código, (b) uma dobra que pressupõe escritura e leitura e (c) uma rede de conexões. Podemos então dizer que ler é uma via de mão dupla, implica na participação ativa do receptor e toda seqüência organiza-se em relação a uma outra. Para Kristeva (2005), a leitura é um processo que se realiza como ato de colher, de tomar, de identificar traços. Como cada texto é originário de outro, cada seqüência é duplamente orientada: para a lembrança de uma outra escrita e, posteriormente, para a modificação dessa escritura. A esse respeito, Aguiar e Silva (1999, p. 625), diz que o texto é sempre, sob modalidades várias, um intercâmbio discursivo, uma tessitura polifônica na qual 8 Saussure teria chegado ao termo paragrama para designar o fenômeno geral em que um nome simples desdobra-se de um modo complexo nas sílabas de um mesmo verso. (CAMPOS, H. A arte no horizonte do provável. SP: Perspectiva, 1976, p.108). 33 confluem, se entrecruzam, se metamorfoseiam, se corroboram ou se contestam outros textos, outras vozes e outras consciências. Por conseguinte entre o texto dos irmãos Grimm e os filmes analisados confirma-se a intertextualidade temática que renova os mitos e as emoções humanas, confirmando que tais textos se complementam e se inter-relacionam. CAPÍTULO II CINDERELA – POR QUE UM CONTO DE FADAS QUE ATRAVESSA OS SÉCULOS? 2.1. A origem dos contos de fadas Neste capítulo estudaremos o texto A Gata Borralheira ou Cinderela, dos irmãos Grimm. Primeiramente, traçaremos um pouco da história do conto de fadas, dos autores desse conto e também levantaremos os símbolos presentes na história que sejam relevantes para a compreensão da intertextualidade desses elementos com os dos filmes analisados. Segundo Cashdan (2000), os contos de fadas, como entretenimento, nos salões e livrarias, era moda na Paris do século XVII. Até o século XVIII eram dramatizados em salões parisienses para a elite mais culta; a partir do século XIX transformaram-se em literatura infantil. Tal transformação deveu-se a ambulantes que viajavam por vários lugares vendendo pequenos volumes com histórias folclóricas e contos de fadas simplificados para poder atrair o grande público. O gosto por essas narrativas orais foi alvo de preconceito e era tido como coisa de menina. Assim os contos sofreram ataques por vários anos. Um deles foi 34 ver a história de Cinderela como um roteiro opressor para a domesticação feminina. Esse entendimento não é o nosso para a história e suas questões femininas. Com esse histórico, os contos de fadas continuam sendo transmitidos e não morrem. Por quê? Isso se deve ao fato de auxiliarem na educação das crianças, ajudando-as a resolverem conflitos internos enfrentados durante o crescimento. Os personagens principais são crianças comuns que criam uma identidade com o público infantil. Os contos de fadas são importantes documentos históricos que nos mostram como era a vida em certos períodos da história. Antigamente, cada dia representava uma batalha pela sobrevivência. Os obstáculos enfrentados pelo herói ou pela heroína ensinavam às crianças que elas podiam ser bem sucedidas no mundo se utilizassem seu potencial, seus recursos internos. Desde o início até hoje, os contos de fadas sofreram muitas transformações e assim adaptaram-se ao avanço tecnológico. Acredita-se que continuarão a mudar, adaptando-se às evoluções do tempo moderno. Os contos de fadas revelam um mundo misterioso das histórias de tradição oral contadas por pessoas iletradas que moravam no campo ou vilas distantes. Esses contos são mágicos, transportam o leitor ou o ouvinte para lugares onde tudo pode acontecer. A palavra fada tem origem no latim (fatum, fata) e faz referência a uma deusa do destino. As fadas costumam fazer previsão do futuro nas histórias em que aparecem. Nos contos de fadas há um herói ou uma heroína que são levados a um lugar diferente onde existe fantasia, magia. A maldade se faz representar sob a figura de uma madrasta, uma bruxa ou outro personagem com má índole. Para que o herói ou heroína cheguem à vitória, ocorrem obstáculos que são transpostos com a ajuda de um elemento mágico. Jolles (1976) diz que a maior parte das histórias para crianças nasceu na Europa, entre os séculos V e XV. Sua difusão fez-se oralmente entre camponeses e originaram diversas versões. Com o surgimento das cidades, as famílias foram se 35 deslocando do meio rural para o urbano e o hábito de contar histórias correu o risco de desaparecer. Para que essas narrativas não se perdessem, coube aos escritores o seu registro no papel. Com a tipografia de Gutemberg, 1445, as histórias de tradição oral passaram à forma escrita e puderam ser impressas em muitas cópias. Dessa maneira, as idéias, nos livros, começaram a se expandir e surgiram outros estilos, como o romance, por exemplo. Na passagem da oralidade à literatura, as histórias, antes destinadas aos adultos, tiveram seus conteúdos suavizados, tornando-se mais românticas e cheias de fantasia. Marçolla (20_ _?, p.36) afirma que: A literatura infantil, propriamente dita, aparece justamente no século XVII, em que ocorrem mudanças na sociedade, conseqüentes da ascensão da família burguesa, da nova posição concedida à infância na sociedade e da reorganização da escola. A ruptura da tradição oral, na sociedade burguesa, dissolveu os grupos que, indiscriminadamente, se reuniam, nas sociedades feudais e patriarcais, para ouvir os contadores. Assim se estabelece o hábito de ler, individualmente ou em grupos distintos, para adultos e para crianças, começando então a levar em consideração a adequação dos textos para crianças. Começa, desse modo, a especificação da literatura infantil, não o seu nascimento. (CARVALHO, apud MARÇOLLA, 20_ _?, p.37). Com isso as histórias passaram a ter o papel de ensinar. As crianças passaram a ser diferenciadas dos adultos e deviam receber uma educação específica para prepará-las para a vida adulta. Até então, elas participavam das mesmas atividades e diversões dos adultos. De acordo com Philippe Ariès (1981), na sociedade medieval européia, a infância era reduzida a seu período mais frágil, pois logo que a criança adquiria alguma autonomia física era misturada aos adultos, devendo partilhar de seus trabalhos e jogos. Cedo afastada da família, sua educação era garantida pelo que Ariès chamou de aprendizagem, que se dava espontaneamente por meio do 36 convívio com os adultos. A família não tinha então a função afetiva que tem hoje, estando tal função identificada com o grupo mais extenso da comunidade9. A preocupação com a infância direciona uma reelaboração do material reunido numa linguagem mais simplificada, com vistas à compreensão por parte da criança. O material resultante passa a fazer parte de seu mundo de aprendizagem, e recreação, fundamentando a criação da literatura infantil. (PASSERINI, apud MARÇOLA, 20_ _?, p.37). Coelho (1987) afirma que o pioneiro dos contos de fadas e precursor da literatura infantil foi Charles Perrault, que nos séculos XVII e XVIII, publicou muitas fábulas. Suas histórias encantaram os adultos por poderem através delas voltar a ser crianças, mergulhando num mundo de magia e encantamento. Para a pesquisadora e escritora Bárbara Vasconcelos de Carvalho (apud MARÇOLLA, 20_ _?, p.39), o seiscentismo barroco, caprichoso e requintado deu à literatura maravilhosa a riqueza de imaginação que tanto agrada às crianças. O preciosismo e as preciosas de então, transitaram nos contos maravilhosos, com a roupagem da fantasia, do jogo lúdico, das fadas e das bruxas, através da incomparável pena de Perrault. No século XIX, a literatura infantil assume mais uma vez posição de destaque com o trabalho de coleta detalhada das histórias, realizado pelos irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm), filólogos e folcloristas alemães, que recolheram do povo a tradição oral e passaram-na para a escrita. Acrescentando às histórias um toque de romantismo e amenizando as situações vividas pelos personagens, conquistaram definitivamente o público infantil. Movidos por diferentes estímulos, foram Perrault e Grimm conduzidos à mesma motivação ao mundo mítico dos contos maravilhosos das fadas e dos gênios encantados. Perrault, buscando um novo gênero, em pleno Classicismo-barroco; os irmãos Grimm, pesquisando as 9 Para maiores informações sobre o assunto, ler História social da infância, de Philippe Ariès. 37 tradições populares, as fontes folclóricas, no culto de seu povo e sua terra, inspirados pelo Romantismo. Assim, mergulhando ambos num reino de infâncias, atingiram o reino da infância. (CARVALHO, apud MARÇOLLA, 20_ _?, p.39). O conto de fadas em estudo tem muitas versões. Marçolla (20_ _?) diz que, provavelmente a versão mais antiga da história de Cinderela é originária da China, por volta de 860 a. C. A Cinderela chinesa é Yeh – hesien. Quando a mãe de Yeh - hesien morre, sendo seguida logo depois pelo pai, a co-esposa deste começa a maltratá-la e a proteger a própria filha. Um peixinho dourado mágico aparece num lago e fica amigo de Yeh-hsien. Quando a madrasta malvada descobre essa fonte de consolo de sua odiada enteada, mata-o, come-o e esconde os ossos “sob a colina de esterco”. Quando Yeh-hsien, sem saber de nada, chama o peixe no dia seguinte como era seu hábito, um feiticeiro desce do céu e lhe diz onde encontrar os ossos. “Pegue-os e esconda-os em seu quarto. Para ter o que desejar, basta rezar e pedir a eles...” Yeh-hsien obedece e percebe que não está mais sofrendo de fome, sede ou frio – os ossos do peixe passaram a cuidar dela. No dia do festival local, a madrasta e a meia-irmã ordenam que fique em casa, mas ela espera que partam e, então, com um manto de penas de martim-pescador e sapatos de ouro, vai ter com elas no festival. Sua irmã a reconhece, Yeh-hsien percebe, foge e perde um sapato de ouro. Alguém o acha e o vende para um comandante local: era uma polegada menor do que o sapato da mulher que, entre elas, tinha os pés mais pequeninos. Ele ordenou que todas as mulheres de seu reino o experimentassem. Mas o sapatinho não serviu em nenhuma delas. Era leve como penugem, e não fazia ruído nem quando pisava sobre pedras. Yeh-hsien se apresenta, levando consigo os ossos de peixe, e torna-se a “principal esposa” na família do rei. Sua madrasta e irmã são apedrejadas até morrerem. Na versão chinesa de Cinderela, percebe-se a importância dos pés pequenos para a cultura da China antiga. Lá era costume exagerar na pequenez dos pés femininos. As mulheres tinham essa parte do corpo enfaixada desde a infância num processo que trazia muita dor às meninas chinesas. A partir dos sete anos, as mães exigiam que as filhas envolvessem os pés numa ligadura especial, com cinco 38 centímetros de largura e três de comprimento, que obrigava os dedos menores a encaracolarem-se para trás e para baixo, deixando livre apenas o dedo grande. À proporção que a ligadura ia sendo apertada, a sola do pé aproximava-se cada vez mais do calcanhar. Com o tempo, esse tratamento deformava o pé comprimindo-o e atrofiando-o, quase como um pequeno casco. Assim, os pés cabiam em pequenos sapatos, ricamente bordados, com apenas alguns centímetros, que eram feitos para as senhoras da alta sociedade. Esse costume chinês, que durou quase um milênio, desde o século X até o início do século XX, originariamente, era aplicado às bailarinas da corte imperial, para impedir o crescimento natural dos pés, conservando-os pequenos para que coubessem em delicados calçados, conhecidos como “lótus chinês”. Depois, foi absorvido pela classe alta como um rito de passagem para as chinesas de boas famílias, tornando-se a marca da dinastia Sung (960 – 1275 d.e). No entanto, os pés das jovens chinesas eram amarrados desde muito cedo e de maneira tão apertada, que as impossibilitava de dançar e mesmo para caminhar era penoso. O pé pequeno, semelhante a um casco, era considerado o máximo de beleza erótica pelos homens chineses. Enquanto faziam amor, eles acariciavam os pés, chegando a colocá-los totalmente na boca. O pé tornava-se, então, não só o núcleo do desejo erótico, mas também um símbolo de estatuto social elevado, já que as mulheres que tinham os pés enfaixados, não podiam executar trabalhos manuais. Essa prática não era aplicada às camponesas, que tinham os pés achatados, ou “pés de pato”, como as chamavam com sarcasmo. Por isso, não é de se admirar que a história de Cinderela, cujas irmãs, muito feias, não conseguiram enfiar os pés enormes no minúsculo sapatinho, seja de origem chinesa. 39 Fig. 1,2,3,4,5 e 6 Montagem mostrando a deformação nos pés de uma senhora chinesa, provocada pelo enfaixamento 2. Os Irmãos Grimm: um pouco de história Não podemos negar o prazer de todo ser humano, independentemente de sexo, raça, credo, idade ou classe social, em ouvir histórias. Muitos afirmam se tratar mesmo de algo constitutivo, estrutural da nossa psique, atávico à natureza humana. Somos seres racionais, mas também seres narrativos. Gostamos de um relato, precisamos de uma história. A seqüência temporal de eventos, com início, meio e fim, com causa e conseqüência, é algo que permeia nossa compreensão do mundo e, portanto, é a forma como o apreendemos, sejam ou não representações artísticas. 40 O nascimento das histórias como conhecemos hoje, em bem elaborados objetos editoriais, além de ricamente ilustradas e de alta qualidade gráfica, está no costume ancestral de se reunir ao redor da fogueira. Ao analisar criticamente o percurso histórico da literatura destinada aos pequenos e jovens leitores, percebemos que dois autores se destacam: Perrault e Grimm e assuntos como contos de fadas e tradição oral. No início do século XIX, dois irmãos apaixonados por contos de fadas tiveram a mesma idéia de Perrault e saíram pesquisando fábulas e adaptando-as à literatura infantil. Foram os irmãos Grimm que revelaram ao mundo personagens como Branca de Neve, Rapunzel, Cinderela e João e Maria. Jacob e Wilhelm Grimm, os irmãos Grimm10, nasceram na localidade alemã de Hanau. Jacob, o segundo de uma família de nove filhos, nasceu em 1785, e Wilhelm, um ano depois. Com a morte do pai, em 1798, ambos foram morar na casa de uma tia, na cidade de Kassel (Alemanha), onde terminaram os estudos secundários e iniciaram o curso de Direito. Por volta de 1806, tiveram acesso a uma coletânea de poesias populares, que leram com grande interesse. Entusiasmados pela ingenuidade daqueles poemas, que foram transmitidos oralmente de geração a geração, começaram a reunir e a escrever os contos tradicionais narrados nos serões familiares, em uma época em que isso era muito comum, porque não existia outra diversão. Em 1812, publicaram uma primeira coletânea com 86 contos, seguida, dois anos depois, por uma outra, que reunia mais setenta contos. Para reunir as histórias, os dois irmãos percorreram a Alemanha conversando com muitas pessoas. Dorothea, casada com um alfaiate em Kassel, encontrou os Grimm – então bibliotecários da cidade – numa feira onde fora levar uma cesta de verduras. E Wihlelm e Jacob, percebendo o quanto ela sabia das histórias populares, ouvidas na cervejaria do pai, quando criança, passaram a convidá-la semanalmente, nos dias de feira, à sua casa, recolhendo assim, os quase 220 contos de seu livro, cujas edições, em 140 línguas, somam mais de trinta milhões de exemplares. 10 As informações, a respeito dos irmãos Grimm, foram pesquisadas em www.wikipedia.org.br. 41 Nessa época, os artistas e intelectuais europeus buscavam recuperar as tradições dos diferentes povos, afastando-se dos cânones clássicos gregos e latinos. Além disso, a descoberta de que a maioria das línguas da Europa derivava de uma antiga língua comum, chamada indo-europeu, fez com que o interesse pelos idiomas não-latinos, como o alemão e o polonês, aumentasse. No caso dos irmãos Grimm, foi o interesse pela tradição oral que os levou a estudar com profundidade a língua alemã e as suas origens. Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, filólogos e folcloristas, são considerados, o primeiro, como o criador da moderna filologia germânica, e o segundo, como o fundador do folclore moderno. Jacob é responsável, também, por uma das primeiras traduções para a língua alemã da Edda Poética. O legado deixado por eles é importantíssimo para a preservação e o estudo da mitologia germânica. Ambos faleceram em Berlim; Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863. 3. Símbolos presentes em “Cinderela”, o conto Apesar de existirem várias versões do conto Cinderela, todas têm alguma semelhança. Cinderela trata de questões fraternas, de modo que as crianças identificam-se com esse conto, porque sempre crêem que seus irmãos recebem um tratamento melhor que elas. Conforme Bruno Bettelheim (1989), Cinderela é uma figura idealizada, representa o retrato da inocência. Ela é uma moça virtuosa, que não sente rancor ou revolta da madrasta e das irmãs. Mesmo sendo maltratada tem o coração bom e piedoso. Sempre é descrita como uma mulher muito bonita. Embora simples e conformada com sua situação humilde, precisou de um vestido bonito e sapatos dourados para o encontro com o príncipe. Para que tal encontro acontecesse, necessitou de uma força sobrenatural, do elemento mágico. Seu romance com o homem sonhado acontece de forma bem rápida, pois o príncipe 42 apaixona-se por ela no momento em que a vê. Entre tantas mulheres, ele se encanta somente por Cinderela. A saída para o fim do sofrimento que passava com a madrasta e as irmãs adotivas é o casamento. Sua história é simples, fala dos seus tormentos devido à rivalidade fraterna, da bondade recompensada e da maldade castigada. A morte da mãe é o problema que se instala no começo da narrativa e que a coloca em uma vida de sofrimento e dor. Podemos dizer que o conto Cinderela contempla três das quatro etapas propostas por Cashdan (2000, p.48) para o caminho da auto descoberta: 1) ENCONTRO: Cinderela confronta-se com a madrasta malévola, 2) CONQUISTA: Nossa heroína mergulha numa luta ferrenha com a madrasta, que leva, inevitavelmente, à destruição dessa última; 3) CELEBRAÇÃO: Acontece um casamento de gala, que representa a vitória sobre a madrasta e assim “todos viveram felizes para sempre”. Portanto, nessa história há símbolos importantes para o estudo da intertextualidade que, agora, passaremos a analisar. O primeiro símbolo que chama a nossa atenção é a aveleira. Cinderela recebe um ramo dessa árvore de presente de seu pai e o enterra no túmulo de sua mãe. Ao chorar, rega a planta que cresce e se transforma em uma linda árvore. A aveleira e seu fruto, a avelã, tiveram relevante papel na simbólica dos povos germânicos e nórdicos. Iduna, deusa da vida e da fertilidade, para os germanos do norte, é libertada por Loki, transformado em falcão, que a leva sob a forma de uma avelã. Num conto da Islândia, uma duquesa estéril passeia num bosque de aveleiras para consultar os deuses que a tornam fecunda. Em todos os textos insulares, elas são consideradas árvores de caráter mágico. Nessa qualidade, são freqüentemente utilizadas pelos druidas e pelos poetas como suportes de encantação. (CHEVALIER ; GHEERBRANT, 1996, p. 103). 43 Podemos concluir que, no conto “Cinderela”, a aveleira é um símbolo de fertilidade e um elemento mágico de encantamento. Essa árvore foi plantada na campa da mãe da borralheira, dá força à moça para que suporte todos os sofrimentos causados pela madrasta e suas filhas malvadas. É como se a mãe estivesse presente, ao seu lado, em todos os momentos. Outro símbolo importante presente no conto são as pombas, que auxiliam Cinderela durante a sua caminhada rumo à felicidade. Ao longo de toda a simbologia judaico-cristã, a pomba – que, com o Novo Testamento, acabará por representar o Espírito Santo – é, fundamentalmente, um símbolo de pureza, de simplicidade... O pombo é tido, em geral, como um ingênuo, mas, mais poeticamente, é um símbolo do amor... O simbolismo do amor se explicita melhor através do casal de pombinhos. (CHEVALIER ; GHEERBRANT, 1996, p. 728). Na história, Cinderela pede à madrasta para ir ao baile, persiste no pedido, embora negado. Tanto insiste que a madrasta lhe impõe tarefas impossíveis de realizar, mas com a ajuda das pombinhas e da aveleira mágica, ela consegue realizá-las, no entanto a permissão lhe é negada. Novamente, as pombas e a aveleira auxiliam Cinderela, que consegue ir ao baile. No final, sai por decisão própria e se esconde do príncipe, que está em seu encalço. As pombas, no conto analisado, representam, então, a pureza, a delicadeza da boa moça, que se mantém assim do começo ao fim da história, mas também são responsáveis por fazerem justiça por tudo que Cinderela sofreu. No final, elas são responsáveis pelo castigo infligido às irmãs de nossa heroína: a maldade é punida exemplarmente e as duas irmãs têm seus olhos furados pelas pombas. A cegueira é o que conseguem por terem sido tão falsas e perversas. Desse modo, o conto Cinderela demonstra que, mesmo quando parece ser dura e difícil, a vida torna-se bela no final. A Cinderela suja e vestida de trapos revela-se lindíssima no desfecho. Suas irmãs, que sempre a trataram como uma criada, são castigadas. A mensagem é otimista e mostra que, apesar das adversidades que a protagonista tem de superar, a conclusão será justa e feliz. 44 Conforme Bruno Bettelheim (1989, p.276), Cinderela guia à criança através de suas maiores decepções, desilusão edipiana, ansiedade de castração, má opinião de si própria devido às más opiniões que acredita que os outros têm de si, ao encontro de sua autonomia, conseguindo uma personalidade própria. O último elemento a se destacar na história de Cinderela é o sapato, que é um dos símbolos vinculados ao complexo de poder, daí a expressão: “vou pisá-lo com meus sapatos”; simboliza, portanto, um ponto de vista da afirmação do ego. Pode simbolizar ainda, o órgão sexual feminino por revestir o pé, que é um conhecido símbolo fálico. O calçado que usamos é a parte do nosso vestuário mais próxima ao chão, o que pode nos levar a fazer uma associação entre sapato e a nossa relação com a realidade. Segundo Chevalier e Gheerbrant, (1996, p. 802), o sapato de Cinderela, na sua primeira versão, que remonta a Elieno, orador e narrador romano do século III, confirma a identificação do sapato com a pessoa. Quando uma cortesã, Rodopis, tomava banho, uma águia roubou-lhe a sandália e levou-a ao faraó. Este, impressionado com a delicadeza do pé, fez com que procurassem a jovem por todo lugar; ela foi encontrada e ele a desposou. Da mesma forma, o sapato que Cinderela abandonou no palácio do príncipe quando fugiu, à meia-noite, se identificava com a moça. Grande foi a surpresa quando Cinderela tirou do bolso o sinal de reconhecimento, a prova irrefutável, o outro sapatinho, que colocou no pé: a prova da identidade da pessoa. O príncipe, apático desde o seu desaparecimento, tendo-a enfim reencontrado, casa-se com ela por sua beleza, apesar de sua pobreza e dos seus farrapos. No conto, Cinderela espera que o príncipe a encontre. Ele tem seu sapatinho e, em algum momento, ele a encontrará e se casará com ela. O símbolo do sapato que calça os pés é um forte símbolo sexual, representa a passagem para a vida adulta e para o encontro da felicidade com o homem amado. Então, percebemos que os contos de fada têm um importante valor no que concerne à investigação dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Sendo superior a qualquer outro material, representam os arquétipos, ou seja, o campo favorável para a criação de determinadas imagens, símbolos e idéias. 45 Dos símbolos presentes no texto dos Grimm, observamos que o sapato é o elemento intertextual que merece destaque porque aparece também nos três filmes analisados. Ever After é uma história intradiegética, refere-se a um tempo passado e é contada aos irmãos Grimm pela rainha da França, que é a tataraneta de Danielle. O sapato aparece já no início da história quando a rainha começa a narração para os Grimm. Ele é um elo de ligação entre o conto original e a história de Danielle. Não é um sapato que surge por magia, mas pertenceu à mãe da moça, é real, simboliza a continuidade, a felicidade que passa de mãe para filha. Ao subir as escadas do palácio com esses sapatinhos, ela vai em busca de um amor que lhe traga felicidade e realização, da mesma forma que um dia foram alcançadas por sua mãe. Apesar das diferenças sociais que a separam do príncipe, ela acredita no sonho e o persegue determinada. No momento da fuga, perde um dos sapatinhos, que é encontrado por Leonardo da Vinci. Então, novamente é por meio desse elemento de encantamento que o príncipe a procura e o coloca em seu pé, pedindo-a em casamento. O famoso pintor renascentista tem um grande destaque na história e o que o aproxima de Danielle é o fato dos dois serem revolucionários e estarem adiante de seu tempo. Em Only you, o elemento “sapato” permeia toda a narrativa. No momento em que Faith perde um dos sapatos vermelhos em Roma, o verdadeiro príncipe o encontra e começa a trajetória da moça à procura de sua alma gêmea. Iludida por falsas pistas, ela não percebe que o seu grande amor está ao seu lado e a acompanha em todas as desilusões. Por coincidência, Peter é um vendedor de sapatos, conhece todos os desejos femininos em relação a esse acessório. Passo a passo, ela se encaminha para o final feliz e o “sapato” é o símbolo dessa busca. No filme, não há madrasta ou fada, e muito menos magia. Faith, ao acreditar que tudo é obra do destino, faz suas próprias escolhas e escreve a sua história. Maid to order, ao inverter o conto original, humaniza a personagem Jessie. A moça fútil, sem objetivos e perdulária transforma-se em uma mulher sensível e preocupada com a felicidade e necessidades daqueles que a acompanharam nessa fase de mudanças. 46 Quando o pai de Jessie, cansado das loucuras da filha, manifesta o desejo de nunca ter tido uma filha, entra em cena “a fada” e o conto de fadas se repete. Na cena, que pode ser vista na Figura 56, o pai de Jessie segura o sapato perdido por ela, ao tentar entrar na mansão. Ele não se lembra da filha e assim a história acontece. No final, não é o príncipe que calça os sapatos nos pés de Jessie, que por sua mudança, recebe o amor e a felicidade nos braços de Nick. Portanto, concluímos, de acordo com Kristeva(2005), que toda seqüência está duplamente orientada até o ato da reminiscência (evocação de uma outra escritura) e até o ato da intimação (a transformação da escritura). Dessa forma, o livro remete a outros livros e, mediante os modos de intimação, dá a esses livros uma nova maneira de ler, elaborando, assim, sua própria significação. CAPÍTULO III AS NARRATIVAS AUDIOVISUAIS 47 1. Das narrativas literárias às narrativas audiovisuais Neste capítulo pretendemos falar do código fílmico e mostrar como os três filmes analisados se relacionam. O foco da análise será mostrar a construção da simbologia do sapato, ao ser transcodificado do conto A gata borralheira, dos Irmãos Grimm, para os filmes Ever After, Only you e Maid to order. Para tanto precisamos, primeiramente, mostrar as mudanças ocorridas nas narrativas literárias desde o surgimento da câmera cinematográfica, pois estamos contrapondo literatura e cinema. Depois pretendemos fazer uma análise, nos três filmes estudados, dos quatro elementos necessários para a composição de um bom personagem, segundo Syd Field. Esses elementos serão explicados mais adiante. Finalmente relacionaremos as três produções cinematográficas, observando os elementos intertextuais. A variedade das obras literárias presentes no cinema fazem-nos pensar sobre a analogia que existe entre as duas linguagens. Antes mesmo da existência da escrita havia os contadores de histórias que viviam nas zonas rurais ou em lugarejos e que, oralmente, difundiram seus contos que mais tarde foram adaptados e colocados em livros. Essas narrativas orais apresentavam um processo narrativo que se solidificou na escrita, fazendo com que elas não se perdessem. No século XVI, Perrault retirou dessas histórias o conteúdo violento e acrescentou a magia, fazendo a mediação dessas narrativas, que eram contadas por camponeses, para os salões da aristocracia. Mais de um século depois, os Irmãos Grimm, a partir de uma seleção dessas histórias, criaram uma coletânea de contos, dentre os quais se destaca Cinderela. No lugar da fada da versão de Perrault, aparecem a árvore( aveleira) e pombos, que facilitam sua ida aos bailes. A mãe, mesmo morta, pode ser vista como fada, que se corporifica nesses elementos da natureza. Essa narrativa também está presente no cinema, que conta suas histórias através da projeção de fotogramas que criam a ilusão ótica do movimento. A narrativa fílmica é um texto construído por imagens, sons e discursos verbais necessários para a compreensão do espectador. Ao adaptarmos um roteiro de um conto literário, surge outro texto, com características próprias, apesar de possuir 48 similaridades com o texto de origem. Essas aproximações entre os dois códigos é o que explicaremos na primeira parte deste capítulo. 2. . A evolução dos modos de ver da literatura a partir do cinema Toda narrativa assenta-se na representação da ação, que se organiza em um enredo evoluindo com o passar do tempo, o que significa que há uma série de enunciados em seqüência que está sujeita à percepção de um narrador. Para que essa evolução de acontecimentos ocorra, há uma condição essencial: o tempo. Assim, as formas narrativas, sejam elas literárias ou audiovisuais, estão articuladas em seqüências de tempo, não importando de que maneira se dá essa articulação. No interesse deste trabalho, é importante dizer que, no cinema, as seqüências se fazem com imagens, enquanto que, na literatura, se realizam com palavras. Isso gera diferenças na forma de representar o tempo nas narrativas modernas e contemporâneas, levando em conta que as primeiras localizam-se no início do século XX e as outras, depois da segunda Guerra Mundial. A evolução dos recursos técnicos por meio de imagens é que determina essas distinções e, paulatinamente, marcou sua influência na narrativa literária. O cinema com suas imagens em movimento mostrou a relatividade entre tempo e espaço, marcando assim a inseparabilidade entre esses dois elementos e preenchendo o invisível com o visível, isto é, o tempo é percebido através de uma série de imagens visíveis, sintetizando o fluxo das coisas. Segundo Pellegrini (2003, p.18), o tempo contém o antes que se prolonga no durante e no depois, significando a passagem, a tensão do próprio movimento representado em imagens dinâmicas, não mais capturado num instante pontual, estático, como na fotografia. Dessa forma já não há distinção entre o visível e o invisível e se percebe claramente a permeabilidade entre os domínios temporal e espacial. Além disso temos que considerar que a câmera fotográfica é um olho mecânico que se move para todos os lados e está livre da imobilidade do ponto de vista 49 humano. Essa conquista do cinema marcou a narrativa literária moderna e adveio do aprimoramento de técnicas cinematográficas que se devem às condições econômico-sociais e culturais a partir do fim do século XIX. O século XIX trouxe a passagem da mecanização à industrialização, alterando a vida das pessoas e isso se refletiu na forma das narrativas realistas, mostrando os efeitos destrutivos do tempo que fazia as coisas mudarem de valor e de significado. Pellegrini (2003, p.20) afirma, que o domínio do instante sobre o permanente, o sentimento de que cada fato é efêmero e transitório, a idéia de que a realidade não é um estado, mas um processo, e de que “não nos podemos banhar duas vezes nas águas do mesmo rio”, transforma a realidade num continuum que assume um caráter de incompletude e inexorabilidade. O que temos então na narrativa literária realista é uma detalhada descrição de fatos, lugares e pessoas, numa linguagem referencial que marca a fugacidade do momento que passa e não mais tornará a se repetir. Para exemplificar, podemos citar Machado de Assis, em sua fase realista, com suas descrições minuciosas, tentando capturar e mostrar todos os instantes da história narrada. O tempo arrastase de acordo com os ponteiros do relógio, quando essas narrativas se prendem a minúcias. A partir do século XX, a narrativa moderna abraça definitivamente o novo conceito de tempo que não se baseia apenas no relógio e passa a entendê-lo como duração, um tempo subjetivo que não se faz com medidas temporais objetivas. As relações temporais alcançam um caráter espacial, pois é o tempo da imagem em movimento que pode fazer a ação deslocar-se para todos os lados. Surge, nesse momento, a simultaneidade e o espaço passa de estático a dinâmico. Os recursos de montagem propiciaram a aproximação de lugares distantes e diferentes e evidencia-se a relação literatura e cinema: a velocidade das imagens em movimento atinge o caráter estático das palavras no papel. Não podemos dizer que o cinema é o único responsável por essa mudança no conceito de tempo e espaço; também o desenvolvimento das artes plásticas, como, por exemplo, o sistema cubista de formas múltiplas, que mostra o diálogo entre as diversas linguagens artísticas. (PELLEGRINI, 2003, p.23). Porém a narrativa literária tem suas limitações e só pode apresentar o conceito de simultaneidade de modo seqüencial devido à linearidade do discurso. Por isso, 50 podemos afirmar que a literatura faz com palavras o que o cinema faz com imagens. Em decorrência disso, o tempo tornou-se a principal personagem das narrativas modernas e liga-se sem questionamentos à imagem em movimento. Toda essa alteração trazida pelo cinema fez as narrativas literárias evoluírem e as contemporâneas representarem a realidade de forma diversa, num universo plural de mundos possíveis no tempo e no espaço. Os textos contemporâneos lançam mão do espaço construído e desconstruído ao mesmo tempo e, assim evoluem em relação às narrativas anteriores (realistas e modernas), que organizavam o espaço ao redor de um sujeito que o percebia. Isso envolve uma série de estratagemas que chegam até os espaços que geograficamente não estão próximos. Resumindo, com o correr do tempo,as narrativas literárias foram mudando por terem incorporado as técnicas visuais. Essa mudança processou-se seguindo um crescimento requintado das técnicas literárias para poder simplificar a linguagem, livrá-la de tantos artifícios qualificadores para tentar igualar-se à representação da imagem visual, que se constrói de forma mais objetiva. Objetivando a linguagem, as narrativas literárias chegam à fragmentação, novo aspecto que evidencia a visão moderna de mundo. Esse processo transforma definitivamente as estruturas narrativas e até o modo de organizar a frase, chegando a renunciar os vínculos lógicos, limitando-se a fragmentos de frases ou palavras que parecem não ter ligação entre si. A partir do século XVI, a noção de perspectiva orientava o campo de visão a partir do olho humano. Com a invenção da câmera, mais propriamente a cinematográfica, tudo mudou e o homem deixou de ser o centro focal. Com essa evolução técnica, o subjetivismo pessoal cedeu terreno a um subjetivismo pluripessoal, que observamos até hoje, fazendo surgir uma voz ou vozes envolvidas de forma direta na narração. Essa evolução vai abranger até a noção de personagem que, aos poucos, deixa de ser central, representativo de uma classe social ou profissão, fazendo-nos lembrar os tipos de Gil Vicente. Passa então a ser um ser comum, mais próximo da vida real e que está inserido num mundo caótico e sem nexo. O que importa realmente são as sensações, as percepções de cada minuto vivido. A personagem vai se moldando às novas técnicas a partir das narrativas modernas e, ao chegarmos às narrativas contemporâneas, é um sujeito urbano, 51 adaptado aos grandes centros e às mídias, um produto que mescla a realidade e os meios de comunicação massivos. Com a chegada dos computadores em rede, percebe-se que não há mais limites espaciais, podemos, em questão de segundos, estar conectados a quaisquer lugares. Todo esse complexo processo alterou profundamente o universo literário e a questão é pensarmos a direção que a literatura tomará a partir dessas transformações. De que forma essas alterações tecnológicas influenciarão os valores que há séculos vêm sendo propagados pela cultura verbal? A presente análise a que se propõe este trabalho ajuda a responder também a esse questionamento, pois mostra que as relações entre literatura e cinema caracterizam-se por uma forte intertextualidade. Os filmes analisados mantêm um diálogo, em maior ou menor grau, com um conto de fadas antigo e dessa forma reafirmam antigos valores e crenças. Na segunda parte deste capítulo analisaremos os elementos para a composição de um bom personagem, de acordo com Syd Field. Essa análise será feita levando em consideração os filmes estudados. 3. Elementos para a composição de um bom personagem Syd Field (2001, p.44) afirma que criar bons personagens é essencial para o sucesso de seu roteiro; sem personagens, não há ação; sem ação, não há conflito; sem conflito, não há história; sem história, não há roteiro. Como, então, o escritor deve agir para criar bons personagens? O escritor tem que conhecer muito bem os seus personagens e para isso, antes de qualquer coisa deve criar um contexto de personagem. Segundo Field (2001, p.45), quatro elementos são necessários para a composição de um bom personagem: necessidade dramática, ponto de vista, mudança e atitude. Passaremos, agora, a abordar cada um dos filmes analisados considerando esses elementos, mas, em primeiro lugar, faremos um breve comentário de cada filme, incluindo sua ficha técnica. 52 Para Sempre Cinderela Filha única de um nobre francês, uma jovem passa a ser tratada como criada por sua madrasta após a morte do seu pai. Mas sua situação começa a mudar quando ela conhece o príncipe do reino onde vive. Com Drew Barrymore, Anjelica Huston e Dougray Scott. Figura 7. capa do videocassete Ficha Técnica Título Original: Ever After Gênero: Romance Tempo de Duração: 120 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1998 Site Oficial: www.foxmovies.com/everafter Estúdio: 20th Century Fox Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation Direção: Andy Tennant Roteiro: Susannah Grant, Andy Tennant e Rick Parks, baseado em história de Charles Perrault Produção: Mireille Soria e Tracey Trench Música: George Fenton Direção de Fotografia: Andrew Dunn Desenho de Produção: Michael Howells Direção de Arte: Stephen Dobric, Martyn John e Damien Lanfranchi 53 Figurino: Jenny Beavan Edição: Roger Bondelli Efeitos Especiais: Cinesite Ltda. Elenco Drew Barrymore (Danielle De Barbarac) Anjelica Huston (Baronesa Rodmilla De Ghent) Dougray Scott (Príncipe Henry) Patrick Godfrey (Leonardo da Vinci) Megan Dodds (Marguerite De Ghent) Melanie Lyndskey (Jacqueline De Ghent) Timothy West (Rei Francis) Judy Parfitt (Rainha Marie) Jeroen Krabbé (Auguste De Barbarac) Lee Ingleby (Gustave) Kate Lansbury (Paulette) Anna Maguire (Jovem Danielle) Ricki Cuttell (Jovem Auguste) O filme Ever After é uma versão de Cinderela mais próxima do real, pois não apresenta o elemento mágico. Com Drew Barrymore, Anjelica Houston e Dougray Scott, a história tem ação, humor, drama, aventura e romance em uma competente reconstituição de época, a França do século XVI. Jeanne Moureau introduz e narra a história, começando por uma conversa com os Irmãos Grimm. Eles reconhecem a existência de diversas versões, como a de Charles Perrault, com abóbora transformada em carruagem e outros elementos fantásticos. Falam sobre os sapatinhos do baile, que seriam de pele, vidro ou cristal. O roteiro criativo e original narra o conto da Gata Borralheira como sendo real; somente com o tempo teria se metamorfoseado em conto de fadas. Enfatiza a leitura como instrumento de conscientização e mostra as dificuldades na busca da alma gêmea. O filme traz magníficas tomadas aéreas registrando com abrangência os cenários naturais, a câmera em movimento mostra panorâmicas verticais e 54 horizontais e diversas cores que fazem lembrar, em alguns momentos, quadros impressionistas11. Vale destacar a fotografia, os cenários externos (propriedades rurais, castelos da França e seus arredores), a trilha sonora de George Fenton, o coro de Magdalen College, Oxford, as ruínas de Amboise, os diálogos e os momentos românticos. Também merece ênfase o personagem Leonardo Da Vinci, que se apresenta como um conselheiro tanto de Danielle (Cinderela), quanto do príncipe Henry. A obra Utopia de Thomas More aparece como um dos livros lidos prediletos de Cinderela e metáfora do filme. Quando se faz um filme, novela ou minissérie que tem como ponto de partida uma narrativa literária, há o seu próprio contexto e temos que entender essas produções como outras obras. A linguagem audiovisual é ágil e isso lhe é peculiar. A interação entre as mídias tornou mais difícil recusar o direito do cineasta à interpretação livre do romance ou peça de teatro, e admitese até que ele pode inverter determinados efeitos, propor outra forma de entender certas passagens, alterar a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência das personagens. A fidelidade ao original deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência que deve ter sua forma, e os sentidos nela implicados, julgados em seu próprio direito. (XAVIER, 2003, p.61). O filme Ever After atualiza um conto de fadas de tradição oral muito antigo e que já teve várias versões. Entre as narrativas literárias e a narrativa audiovisual há um grande distanciamento no tempo, por isso o filme deve manter um diálogo com todas essas histórias e também adaptar-se ao tempo em que está inserido. O texto escrito deve ser tomado como ponto de partida, mas não de chegada. Ao fazer um filme baseado em uma narrativa literária, deve-se levar em conta que há uma maneira de fazer as coisas que é própria da linguagem cinematográfica e que o universo do texto é outro, embora seja análogo ao modo de fazer do cinema. 11 Na pintura impressionista, as cores e tonalidades não são obtidas pela mistura de tintas na paleta do pintor. São puras e dissociadas nos quadros em pequenas pinceladas. Ao admirar a pintura, o espectador combina as várias cores, obtendo o resultado final. Então, a mistura passa a ser óptica e não técnica. É a mesma sensação que temos ao observarmos os cenários naturais do filme Ever After. (www.wikipedia.org.br). 55 Podemos dizer que palavra e imagem têm um eixo comum de operações que é a narrativa e portanto podemos falar de tempo, espaço, tipos de ação e personagens para nos referirmos tanto ao texto literário quanto ao filme. Uma única história pode ser contada de vários modos; ou seja, uma única fábula pode ser construída por meio de inúmeras tramas, com formas distintas de dispor os dados, de organizar o tempo. (XAVIER, 2003, p.65). Sendo assim não podemos atribuir valor maior à narrativa literária ou à narrativa audiovisual e sim entender que são obras distintas, com características próprias. Ever After apresenta o conto de fadas sem a magia presente no texto original, com personagens fortes e reais. “O bom personagem é o coração, a alma e o sistema nervoso do seu roteiro.” (FIELD, 2001, p.44). A necessidade dramática define-se como uma motivação, aquilo que o personagem quer vencer, ganhar, conseguir ou alcançar durante o transcorrer da narrativa. Em Ever After, Danielle é uma jovem que quer ser amada, ser aceita pela madrasta e as irmãs e também encontrar a sua alma gêmea. A determinação da necessidade dramática do personagem assegura a manutenção de seus elementos no lugar certo. Devemos então levantar os obstáculos que impedem o alcance desse primeiro elemento da composição do personagem. No filme, Danielle, após a morte do pai, confronta-se constantemente com a madrasta e se mostra inteligente, amorosa, decidida, amante dos livros, amiga e defensora de seus criados; de natureza trabalhadora, ao invés de realizar suas tarefas somente por imposição da Baronesa; é consciente das injustiças sociais, procura combatê-las dentro de suas possibilidades, mostrando entusiasmo e convicção.. Consegue ultrapassar os obstáculos com coragem e dignidade. O segundo elemento de análise na composição de um bom personagem, o ponto de vista, nada mais é do que o modo como o personagem vê o mundo, como ele o enfrenta. “Todo bom personagem dramatiza um ponto de vista forte, bem definido.” (FIELD, 2001, p.48). 56 Danielle tem um ponto de vista bem definido, ela vê o mundo com os olhos do bem, vive dentro da realidade, sabe que não deve sonhar com o príncipe, pois não está à altura dele. O ponto de vista faz a personagem agir e não simplesmente reagir. Ao longo da narrativa, outro elemento importante na trajetória do personagem é a mudança. Danielle, em Ever After também passa por mudanças. Ela passa de uma postura resignada para outra mais aguerrida, sabe o que quer e vai lutar por sua felicidade. Isso ocorre quando se percebe apaixonada por Henry e sabe que ele é sua alma gêmea, sua oportunidade de ser feliz. Com relação à atitude de nossa heroína, pudemos observar que sua necessidade dramática foi decisiva para esse último elemento. Danielle, no transcorrer da narrativa, tem uma atitude positiva, não se desvia de seu caminho e só se fortalece. Nesse conto de fadas audiovisual não há fada, nem magia, só luta, força e determinação de uma jovem, que por sua bondade, é ajudada por todos que a cercam. No final, ela e o príncipe se casam e o rosto de Danielle é retratado por Da Vinci. O retrato ficou em uma parede da universidade até a revolução e a tataraneta de Danielle (Jeanne Moreau) termina de contar a história aos Irmãos Grimm, falando que essa narrativa foi transformada em um simples conto de fadas. Se Cinderela e seu príncipe viveram felizes para sempre, ela não sabe, mas que o importante é que viveram. Como vimos, a necessidade dramática, o ponto de vista, a mudança e a atitude são elementos importantes para a criação e trajetória dos personagens. Ao fazer essa análise, constatamos que a transposição do texto escrito para o fílmico envolve a contribuição de particularidades da linguagem cinematográfica. “O cinema transforma vidas de papel em algo cada vez mais concreto e verossímil.” (MOREIRA, 2005, p.17). Essa linguagem joga com imagens e isso ajuda a concretização do texto escrito. Nele, as imagens criam-se na cabeça do leitor, de acordo com a recepção de cada um. No cinema há um diretor, um roteirista que nos apresentam imagens prontas que vão cena a cena contando a história com a ajuda 57 das ações dos personagens. “O cinema conta com a tecnologia, trazendo recursos audiovisuais para remodelar a estrutura narrativa.” (MARÇOLLA, 2005, p.137). Cinderela às avessas Figura 8. Capa do videocassete Menina, orfã de mãe, mora em Beverly Hills e é muito mimada pelo pai, que faz estranho pedido aos céus e muda a história da família. Ficha Técnica Título Original: Maid to Order Gênero: Comédia Tempo de Duração: 93 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1987 Estúdio: Warner Bross Direção : Amy Jones Direção de fotografia: Shelly Johnson Música: Georges Delerue Produção: Herb Jaffe e Mort Engelberg Elenco Ally Sheedy (Jessie Montgomery) Beverly D´Angelo (Stella) 58 Dick Shawn (Stan Starkey) Michael Ontkean (Nick Mcguire) Valerie Perrine (Georgette Starkey) No segundo filme analisado Maid to Order (Cinderela às avessas), Jessie é a personagem que merece a nossa atenção quanto aos quatro elementos que ajudam na composição de um bom personagem. Jessie é uma garota mimada, filha de um milionário filantropo, que vive arrumando confusão e gastando dinheiro para provocar o pai. Ela é órfã de mãe e mora em Beverly Hills. Uma noite acaba presa. Seu pai, inconformado com as atitudes da filha, faz um estranho pedido aos céus e muda a história da família. Jessie passa a noite na cadeia, mas durante a madrugada é visitada por Stella, sua fada madrinha, que a transforma numa garota pobre que terá que lutar por sua sobrevivência, trabalhando na mansão de um casal de alpinistas sociais. A moça convive com outros empregados e realiza tarefas que jamais fizera em sua vida. Seu serviço é limpar a casa, de princesa torna-se A gata borralheira. Na mansão, ela conhece Nick, o motorista da família, e se interessa por ele. Então, o famoso conto de fadas é contado às avessas. Jessie era milionária, tinha tudo, mas não tinha um amor, um objetivo. Perde o pai, todos os bens materiais e sua trajetória é a de encontrar um bem maior, é essa a sua necessidade dramática, dar valor às coisas que perdeu. Observamos, então, que Jessie têm uma necessidade dramática que vai definir sua trajetória, vai ajudar a contar sua história. No transcorrer dessa narrativa audiovisual, ela enfrenta muitos obstáculos que vão determinar o seu ponto de vista. Jessie é colocada no outro lado do mundo que conhecia, o mundo dos serviçais. Faz serviços com os quais não estava habituada por um salário semanal muito inferior àquilo que gastava em uma noitada, na sua vida anterior. No começo, não desempenha bem suas funções e por isso é descontada, diminuindo a quantia ganha. Quem a ajuda a se adaptar é Audrey, a governanta da casa, uma cantora dos velhos tempos, que também sonha com a oportunidade do estrelato. O ponto de vista de Jessie, no princípio, é de revolta com o que a fada fez com a sua vida, mas 59 com o passar do tempo vai se humanizando e se torna uma pessoa mais positiva, preocupada em ajudar os outros. Então para que essa personagem continue seu percurso narrativo, há a necessidade da mudança. Jessie, ao se encontrar numa posição desfavorável, muda o seu modo de ver as coisas, passa de uma menina egoísta a uma mulher preocupada com as necessidades daqueles que a rodeiam. Ela cresce aos olhos da fada, que, pouco a pouco, percebe que o desejo do pai de Jessie não foi em vão, ajudou a filha a crescer. Com a mudança vivida por Jessie vem uma nova atitude. Ela tem, assim, uma atitude mais positiva, deixa a revolta de lado e concentra-se em fazer o bem para os outros, como vemos no final do filme, na festa que é dada na mansão para promover um cantor de rock. Stella faz esse músico desmaiar e Cinderela tem uma idéia: fazer a governanta cantar uma canção de Nick, acompanhada por ele, no teclado. Na platéia estão empresários e pessoas ligadas à música. A apresentação é um grande sucesso e os dois são contratados. Jessie vai até a porta e encontra Stella, a fada, que está muito feliz com o desempenho da moça. Diz que ela passou no teste e receberá tudo o que perdeu. Os sapatinhos brilham em seus pés e a fada se despede, transformando-se em uma estrela. O pai, que está saindo da casa, acha estranha sua roupa, sorri e pede que ela não chegue muito tarde em casa. Pai e filha se abraçam e ele parte com seu motorista. Jessie fica parada, com olhar de pura felicidade, e aparece Nick, exultante por ter realizado seu sonho. Os dois terminam juntos, abraçados, como num verdadeiro conto de fadas e na tela aparece “viveram felizes para sempre”. Nesse filme destacam-se mais os cenários internos, com lindas e comoventes cenas. Há referências nítidas ao conto de fadas original de Cinderela: a magia, a fada, os sapatinhos e o príncipe. 60 Only You Desde os 11 anos uma mulher recebe de ciganas e videntes o nome de Damon Bradley como sendo o do homem de sua vida. Às vésperas de se casar, ela recebe um telefonema de um homem com esse nome e decide largar tudo para encontrá-lo. Dirigido por Norman Jewison (Hurricane - O Furacão) e com Marisa Tomei, Robert Downey Jr., Bonnie Hunt e Joaquim de Almeida no elenco. Figura 9. Capa do videocassete Ficha Técnica: Título Original: Only You Gênero: Comédia Romântica Tempo de Duração: 108 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1994 Estúdio: TriStar Pictures / Fried/Woods Films / Yorktown Productions Distribuição: Columbia TriStar Films Distributors International Direção: Norman Jewison Roteiro: Diane Drake Produção: Robert N. Fried, Norman Jewison, Charles Mulvehill e Cary Woods Música: Rachel Portman Fotografia: Sven Nykvist Desenho de Produção: Luciana Arrighi Direção de Arte: Maria Teresa Barbasso, Gary Kosko e Stefano Maria Ortolani Figurino: Milena Canonero 61 Edição: Stephen E. Rivkin Elenco: Marisa Tomei (Faith Corvatch) Robert Downey Jr. (Peter Wright) Bonnie Hunt (Kate Corvatch) Joaquim de Almeida (Giovanni) Fisher Stevens (Larry Corvatch) Billy Zane (Damon Bradley falso) Adam LeFevre (Damon Bradley) John Benjamin Hickey (Dwayne) Siobhan Fallon (Leslie) Antonia Rey (Fortune Teller) Phyllis Newman (mãe de Faith) Denise DuMaurier (mãe de Dwayne) O terceiro e último filme analisado é Only You (Só Você), de 1994, sob a direção de Norman Jewison. Analisaremos o seguinte personagem: Faith, uma professora, personagem da atriz Marisa Tomei. Faith acredita que sua alma gêmea é um homem chamado Damon Bradley. Esse nome apareceu em sua infância através de uma tábua Ouija e também foi predito por uma cigana. O tempo passa e quando ela está prestes a se casar com um médico, atende ao telefonema de um amigo de seu noivo, desculpando-se por não poder comparecer à cerimônia, pois está partindo, naquele instante para Veneza. O nome desse amigo é Damon Bradley, o que faz com que ela não pense duas vezes e decida ir atrás dele. A cunhada Kate acompanha Faith nessa aventura amorosa. 62 O filme tem um roteiro inteligente, uma trilha sonora perfeita e uma fotografia sensacional, mostrando Roma, Veneza e Positano. É uma história leve sobre a busca da alma gêmea e do amor incondicional. Logo no início fica clara a necessidade dramática de Faith: encontrar o seu grande amor, a pessoa que vai completá-la por toda a vida. Para tanto ultrapassará alguns obstáculos. Está a poucos dias de seu casamento e mesmo assim quando está provando o seu vestido de noiva, recebe um telefonema que mudará sua vida. Sai, vestida de noiva e vai ao aeroporto tomar um avião para Veneza. Kate, sua cunhada, acha tudo uma loucura, mas resolve acompanhar Faith para tentar trazê-la à vida real. Nossa heroína tem um ponto de vista definido, vê o mundo de uma forma romântica e fantasiosa, pois se deixa guiar por uma adivinhação de infância feita por uma cigana, que sem ela saber, foi paga por seu irmão como uma simples brincadeira. Essa predição faz a moça passar por uma mudança, deixa de ser equilibrada e vai mundo afora atrás daquele que ela acredita ser seu príncipe encantado. Troca o futuro seguro ao lado de seu noivo por uma aventura da qual ela nem desconfia o final. Sua atitude é positiva, Faith acredita no sonho e vai fazer de tudo para realizálo. Ao chegar a Veneza, é informada no hotel que Damon já partiu para Roma. A professora não pensa duas vezes e parte para lá. Ela e a cunhada hospedam-se em uma pensão e conseguem uma informação de que Bradley estará , à noite, em um restaurante da cidade. Com a ajuda de Kate, escolhe seu traje, que é vermelho, inclusive os sapatos. As duas vão até o lugar e um garçom diz que o suposto homem procurado está em uma das mesas e indica o local. Faith dirige-se até ele, mas ocorre um desencontro, pois o sujeito usa uma outra porta e sai do lugar. Ela corre atrás dele pelas ruas de Roma e perde um dos sapatos. Nesse momento surge Peter, que encontra o calçado e segue a moça. Na cena seguinte, ela está numa praça, sentada no contorno de uma fonte conversando com a cunhada. Peter encanta-se pela dona do sapato vermelho, ouve a conversa e resolve passar-se por Damon Bradley. 63 Depois de tão importante revelação, eles saem para um passeio romântico pela cidade. Vão até o local onde ele está hospedado, porém Peter sente-se incomodado pela mentira e revela para a moça que ele não é Damon e sim um vendedor de sapatos chamado Peter Wright. O encantamento rompe-se e ela vai embora furiosa, deixando-o desconsolado. De volta à pensão, Faith é consolada por Kate. Em sua trajetória, Cinderela (Faith) encontra muitos obstáculos. Após desencantar-se com Peter, resolve voltar para casa e esquecer o seu sonho, mas o nosso herói convence-a de que o verdadeiro Damon está hospedado em um hotel em Positano. Totalmente cega pela vontade de que a predição se realize, deixa-se levar e segue Peter até o local indicado. Além de Veneza, Positano é o cenário natural mais bonito e encantador dessa narrativa. Através do cartão de crédito, Larry, o marido de Kate vai a Positano decidido a recuperar a esposa e salvar a relação dos dois. A essa altura, percebemos que Faith já está apaixonada por Peter, devido à postura do rapaz, seu romantismo, mas ela não quer admitir o fato, pois ele não tem o nome do homem de seu destino, há tanto tempo revelado. No hotel, ela cai na outra farsa criada por Peter e marca um jantar com o rapaz que diz ser Bradley. Para esse encontro, ela é ajudada por nosso herói, que a presenteia com uma sandália para combinar com seu traje. Ele a ajuda a escolher os outros acessórios e ela parte para mais uma decepção. Ao terminar o jantar, todos vão a uma festa em um iate e lá, Peter e o falso Damon são desmascarados. Faith fica furiosa, agride os dois e vai para o hotel. O rapaz, que sempre tinha tido uma atitude positiva e acreditava poder conquistar o amor da professora, sente-se derrotado. Kate, que era mais cética quanto à aventura da amiga, dá-se conta da paixão dos dois e tenta abrir os olhos da cunhada. Faith está magoada e decide partir, deixando Kate e o irmão no hotel. Sente um profundo arrependimento por tudo que fez e então segue para o aeroporto. Lá encontra Peter, que também está para embarcar. Eles ouvem pelo alto-falante um chamado para Damon Bradley comparecer a um determinado guichê. Atendem ao 64 chamado, Peter apresenta Faith a um Damon atônito, que não entende o que está acontecendo. A moça fica sem palavras e Peter embarca, desiludido e magoado. No avião, ele está sentado pensando em tudo que aconteceu, quando ela chega, arrependida e se declara totalmente apaixonada. A última cena retrata o avião decolando, concluindo-se que o casal viveu feliz para sempre. Retornando ao conto A Gata borralheira, podemos dizer que a necessidade dramática da personagem principal (Cinderela) é semelhante às das protagonistas dos filmes: quer abandonar a vida de humilhações, encontrar um amor e ser feliz. No caminho desse sonho, temos a madrasta, o pai e as irmãs, que são seus obstáculos. Ao contrário de Danielle, ao se confrontar com a madrasta, mostra-se obediente e resignada. Chora suas mágoas no túmulo da mãe e é fiel ao que prometeu no leito de morte: ser boa e piedosa. Seu ponto de vista é muito parecido ao de Danielle, pois ela também vê o mundo com bons olhos, mas sonha com o príncipe; ele virá e a libertará da vida de maltratos e desgostos. Sua mudança verifica-se no momento em que ela quer ir ao baile e a madrasta não dá permissão, apesar de ela cumprir, com a ajuda das pombinhas, uma tarefa praticamente impossível. A partir daí, a moça deixa de ser obediente e vai em busca de seu sonho: vai ao baile e para isso conta com o elemento mágico. Dessa forma, notamos que a atitude passiva do início desaparece e Cinderela, mesmo fazendo tudo às escondidas, não acata mais as determinações da madrasta e marca a sua presença nos bailes oferecidos pelo rei. Ao analisarmos os elementos para a composição de personagens nos três filmes propostos e no conto, notamos que tanto a narrativa literária de Cinderela como suas transcodificações e atualizações mostram que no imaginário feminino ainda há a procura pela alma gêmea. “E é justamente por essa razão que podemos compreender e afirmar que as narrativas ficcionais – literárias e audiovisuais – são uma edição da narrativa em estado bruto que é a trajetória humana. (MOREIRA, 2005, p. 20). Talvez por isso haja uma carência de boas narrativas inéditas e as já existentes sejam constantemente remodeladas e atualizadas. As mídias exploram os 65 conteúdos existentes, adaptando-os à televisão ou ao cinema. Atualmente os remakes multiplicam-se mostrando uma atualização e adaptação às novas tecnologias. Tanto o cinema quanto a TV desfilam suas múltiplas possibilidades e recursos. A análise feita permitiu-nos relacionar um conto de fadas tradicional e suas atualizações audiovisuais, mostrando que cada gênero tem suas peculiaridades, mas ambos contam histórias e alimentam o imaginário dos espectadores. 4. Literatura e Cinema: Dois modos de contar uma história Na terceira parte deste capítulo, faremos um recorte para tentarmos aprofundar nossa análise. O nosso propósito é mostrar como os filmes trabalharam a questão do elemento mágico que se apresenta no conto literário dos Irmãos Grimm, para assim solidificarmos as relações intertextuais entre os dois códigos: o literário e o fílmico. Entre literatura e cinema existem diferenças essenciais. Os dois meios trabalham com elementos diferentes. Enquanto a literatura tem a seu dispor a linguagem verbal com toda a sua riqueza de metáforas e figuras, o cinema trabalha com não menos que cinco apetrechos de expressão diferentes: as imagens, a linguagem verbal oral, a linguagem não-verbal, a música e a língua escrita que aparece na tela. Esses elementos podem ser controlados de diversas formas. Tanto a literatura quanto o cinema são criações do imaginário, constroem a cultura e alimentam a fantasia dos leitores e espectadores. Conforme Silva ( 2003, p. 7), “o ser humano é movido pelos imaginários que engendra. O homem só existe no imaginário.” Qualquer que seja a obra artística, deve ser julgada, analisada dentro dos valores do seu próprio campo. Os dois meios analisados neste trabalho (conto literário e filme) diferenciam-se pelas linguagens, épocas em que foram criados e modos de funcionamento. 66 Narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se, e na maioria dos casos, contrastam-se; as características intrínsecas do texto literário não encontram a mesma expressão na narrativa cinematográfica. Apesar das diferenças, as duas narrativas possuem estreitos laços. O livro contém palavras que acionarão os sentidos e que na mente do leitor traduzem-se em imagens, sentimentos, sensações, enfim; o filme traz imagens em movimento que serão decodificadas por meio de palavras pelo espectador. A narratividade é o parentesco entre as duas narrativas, portanto o cinema também conta histórias, apropriando-se da modalidade narrativa tentando legitimar-se. A experiência da leitura do livro é, na maioria das vezes, solitária. O leitor constrói significados durante a leitura graças a experiências anteriores. Já no cinema, o espectador, por meio de imagens, manifesta reações imediatas, que são compartilhadas por outros se eles estiverem em uma sala de projeção. Para o presente trabalho não nos interessam especificamente as diferenças e semelhanças entre narrativa literária e narrativa fílmica e sim como se estabelece o diálogo entre as duas, isto é, como os filmes analisados conectam-se ao texto dos Irmãos Grimm, A Gata Borralheira. Qual a interpretação feita pelo cineasta do conto, em que grau ele se aproxima ou se afasta desse texto? A analogia entre palavra e imagem sugere equivalências estilísticas que estarão apoiadas na observação de um gradiente de ritmos, distâncias, tonalidades, que estão associadas a emoções e experiências, bem como a um uso figurativo da linguagem que permite dizer que palavra e imagem procuram explorar as mesmas relações de semelhança (as metáforas) e as mesmas cadeias de associação e casualidade (as metonímias). (XAVIER, 2003, p.63). Não podemos esquecer de considerar que na transposição do código literário para o código fílmico há uma série de questões práticas e teóricas. O livro e o filme nele baseado são “dois extremos de um processo que comporta alterações de sentido em função do fator tempo, a par de tudo o mais que, em princípio, distingue 67 as imagens, as trilhas sonoras e as encenações da palavra escrita e do silêncio da leitura” (XAVIER, 2003, p.61). Primeiramente podemos apontar duas formas para se conceber um filme: partir de uma idéia original ou de uma fonte já existente. Aqui, o que nos interessa é a segunda forma, produções que, em sua maioria, foram adaptadas, recriadas. Essa recriação será entendida, como já tratamos anteriormente, a partir do dialogismo e da intertextualidade. Então, retomando a relação literatura e cinema, é importante lançar uma questão: como o cinema recria os clássicos da literatura? Para começar a responder a essa questão, vale ressaltar a importância do cinema no processo de ensino da literatura. Na década de 1990, com a invenção e popularização do vídeo, a prática de mostrar a literatura no cinema tornou-se um apoio didático muito forte aos professores, pois funcionou como um incentivo à leitura dos textos escritos. Com a invenção do DVD, essa tarefa ficou ainda mais fácil e as escolas têm melhorado seu acervo cultural no que diz respeito à literatura. Assim, o cinema passou a ser um aliado importante, mas não podemos deixar de lado as diferenças entre os dois meios ao ensinarmos literatura. Ao estudarmos essa relação intertextual entre cinema e literatura, precisamos definir muito bem os dois campos e refletir sobre as variantes culturais, sociais, econômicas e políticas desse processo de transposição de um código para outro. No estudo do conto dos Irmãos Grimm, A Gata Borralheira, a idéia central que serviu de tema para os três filmes analisados é a procura da alma gêmea e conseqüentemente a procura da felicidade. Além do tema, devemos enfocar também a preocupação com os personagens, de que forma estavam descritos no texto de origem e como eles foram corporificados pelos atores nos filmes. Em Ever After, Danielle(Cinderela) é uma moça diferente da borralheira dos Irmãos Grimm, é mais real, ingênua no princípio, mas aos poucos vai ganhando força e garra. Ao conhecer o príncipe e se apaixonar, transforma-se em uma pessoa mais forte e disposta a lutar por seu amor. A borralheira original é resignada e sofre calada pelas maldades praticadas por sua 68 madrasta e filhas. Devemos lembrar que esse conto é do século XIX e o filme Ever After é do século XX, retratando o século XVI. Já nos outros dois filmes analisados. Only you e Maid to order, a produção é do século XX, retratando o mesmo século. Faith e Jessie são mulheres modernas e decididas, vivem em uma época de valorização feminina e não querem ter suas vidas dirigidas por outras pessoas, lutam por seus sonhos e querem conquistar a felicidade. Se analisarmos o príncipe do texto original, veremos que ele só aparece nos bailes e quando experimenta o sapato perdido nas duas filhas da madrasta e na borralheira. Sua atuação é mais incisiva nos filmes, visto que em Ever After, Danielle conhece Henry no início da história, em que ele é uma figura apagada, mas que ganha força ao se apaixonar pela moça. Em Only you, Peter aparece no momento em que Faith está em Roma à procura de Damon Bradley e, a partir daí é decisivo para o desenrolar da história. Jessie, em Maid to order, conhece Nick quando ela fica pobre e consegue emprego de arrumadeira na mansão dos Starkey’s. Ele é personagem importante no processo de humanização da moça. Tanto na narrativa literária quanto na narrativa audiovisual a questão do foco narrativo é relevante. De que ponto de vista são mostrados os acontecimentos e personagens? No conto, a história de Cinderela é contada em 3ª pessoa por um narrador que não participa dos acontecimentos, mas está ciente de todos os fatos. No primeiro filme analisado, Ever After, a narrativa é feita pela tataraneta de Danielle de Barbarac aos irmãos Grimm. A voz da rainha da França inicia a história que, posteriormente, passa a uma sucessão de cenas em continuidade. No final voltamos a ouvir a voz da rainha encerrando a narração. No filme Only you, a história segue um esquema narrativo clássico, feito de uma sucessão de cenas dispostas em continuidade, sem interferências. O mesmo ocorre em Maid to order, no entanto, no início, aparece na tela “Once upon the time” (Era uma vez) e no final, também vemos “and they lived happily ever after” ( E eles viveram felizes para sempre), numa referência direta aos contos de fadas. Há outros elementos de estilo e estrutura que o cinema narrativo usa para criar efeitos de linguagem da obra original: a montagem, a fotografia, o som, que são aspectos que podem construir significados próprios. Algumas técnicas estilísticas do 69 cinema podem também ser muito importantes nesse processo de comparação entre literatura e cinema. Dentre elas podemos citar o tamanho da tela, a imagem em perspectiva, a velocidade do filme, a distância entre a câmera e o objeto filmado, o ângulo e o movimento da câmera, a utilização das cores e do branco e preto num filme, o vestuário, a cenografia e a iluminação. O importante é analisar o sentido desses artifícios na apreensão do texto original. Nos três filmes analisados percebemos a tentativa de reconstrução do clima romântico do conto original, as dificuldades na busca da alma gêmea e a reafirmação de alguns valores que permanecem nos tempos atuais como a bondade e a solidariedade. A análise dessas categorias narratológicas é um importante caminho para conectar literatura e cinema e pode indicar significados intertextuais do processo de transcodificação. Entretanto devemos lançar o nosso olhar para os modos de apresentação de uma história, pois todos os outros elementos citados derivam destes modos de envolvimento. Para o presente estudo o que nos interessa são dois modos: contar uma história (tell) e mostrar uma história (show), segundo Xavier, (2003, p. 73). Contar uma história é um modo que se processa na imaginação, na proporção em que a narrativa vai além das palavras e do papel, e se completa, enquanto história, na cabeça do leitor. Dessa forma, a história contada possui sempre a mediação de um narrador que, através das palavras, envia ao leitor as narrativas e imagens que se tornarão perceptíveis em sua imaginação. O segundo modo de apresentação (show) transfere o envolvimento da imaginação para o plano da percepção direta, também chamado de modo performático, que trabalha as potencialidades do visual e do auditivo não somente construindo uma narrativa, mas também criando associações emotivas e respostas afetivas da platéia. Além do cinema, teatro e televisão vivenciam de forma intensa o modo performático. A afirmação de que a literatura conta (tell) e o cinema mostra (show) é muito pouco, pois a câmera tem prerrogativas de um narrador que faz escolhas ao dar conta de algo: define o ângulo, a distância e as 70 modalidades do olhar que, em seguida, estarão sujeitas a uma outra escolha vinda da montagem que definirá a ordem final das tomadas de cena e, portanto, a natureza da trama construída por um filme . (XAVIER, 2003, p.74). Por isso, os três filmes, ao contar a história da Cinderela, recriam o conto, ressignificando esse texto em um novo meio, um novo contexto, um novo código de representação e também uma nova atitude discursiva. Esse processo de transcodificação é marcado pelo dialogismo que parte de Bakhtin e chega até a teoria da intertextualidade de Julia Kristeva, mostrando como o filme incorpora e digere a fonte original, para, em seguida, produzir algo estético e culturalmente novo. Destacamos nesse processo o elemento intertextual “sapato” e queremos mostrar seu percurso na história original e nos três filmes. Para que isso aconteça, vamos analisar esse elemento no conto dos Irmãos Grimm e em cenas recortadas dos filmes. No conto, quando Cinderela é despojada de seus lindos trajes pela madrasta, recebe roupas velhas e tamancos de madeira para calçar. As duas filhas são ambiciosas e muito vaidosas. Quando o pai de Cinderela vai à feira, elas pedem de presente vestidos e jóias e a humilde borralheira apenas um ramo verde de árvore. O rei oferece uma festa de três dias para que o príncipe escolha uma moça para esposa. No primeiro dia, a gata borralheira tem seus trapos transformados em um lindíssimo vestido de baile e os seus tamancos em luxuosos sapatos bordados a ouro e prata. Quem realiza esse feito é a aveleira, árvore mágica que Cinderela plantou no túmulo de sua mãe. No segundo baile, o vestido é ainda mais lindo e os sapatos parecem de ouro puro. Finalmente, no terceiro dia seu vestido é de sonho, de tule com aplicações de suntuoso brocado e uns sapatos bordados a ouro e também uma capa de veludo bordado. Como vemos, a transformação da Gata borralheira em Cinderela acontece através do elemento mágico, próprio dos contos de fadas. Seu vestido e sapatos tornam-se a cada baile mais lindos e luxuosos. 71 Ao lermos essa narrativa literária, reafirmamos a diferença básica e mais visível entre literatura e cinema: a primeira utiliza a apreensão conceitual e cria imagens mentais enquanto o segundo trabalha a percepção direta através de imagens visuais. O interessante é descobrir como conceitos verbais são transpostos para o cinema e expressos por meios visuais e quais efeitos que são decorrentes dessa mudança de linguagem. Para entendermos esse processo, recortamos algumas cenas dos filmes que julgamos indispensáveis para o entendimento da relação entre os dois códigos. Figura 10. O sapato de Danielle Em Ever After, logo no início, algo nos chama a atenção, quando a metalinguagem se faz presente através da figura dos irmãos Grimm, autores da obra original intitulada A Gata Borralheira. A rainha da França solicita a presença dos escritores em seu castelo e diz que há alguns fatos que foram distorcidos pela história dos dois, apresentando a sua versão como real. Diante do olhar atônito dos dois, a rainha tira de uma caixa os sapatos de cristal de sua tataravó, Danielle de Barbarac. Daí em diante acompanhamos a saga da suposta Cinderela. 72 Figura 11. O quadro de Danielle Esse é o quadro pintado por Leonardo da Vinci, retratando Danielle e a pintura renascentista. A câmera dá um close-up na pintura e aproxima-se cada vez mais, o que nos propicia um mergulho no passado para conhecer o que realmente aconteceu. Figura 12. Danielle conhece Henry, como Nicole 73 A figura acima retrata o encontro de Danielle com o príncipe Henry, que acredita que ela seja da nobreza. A moça vestiu-se com roupas que pertenciam a sua mãe para tentar comprar a liberdade de seu criado Maurice. Nos pés usa os sapatos simples de uma criada, mas seu amigo Gustave tranqüilizou-a dizendo que o comprimento do vestido não deixaria os sapatos à mostra, o que denunciaria a verdadeira condição social da moça. Figura 13. Os pés de Danielle ao entrar na carruagem Essa imagem mostra Danielle saindo de casa para ir ao baile. Ela veste as roupas e calça os sapatos que foram de sua mãe. Os criados e o pintor Leonardo da Vinci são seus ajudantes e incentivadores. Nessa cena, a câmera mostra seus pés com os sapatinhos de cristal. 74 Figura 14. Danielle conversa com Leonardo antes de ir ao baile Nessa cena, Danielle está em dúvida, não sabe se deve ou não ir à festa. A moça reconhece que entre ela e o príncipe há um enorme abismo social e assim diz a Leonardo: “Um pássaro pode amar um peixe, mas onde irão viver?” Ele responde que, então, precisará fazer “asas” para ela. O pintor é o grande incentivador e conselheiro do casal, torce por eles e quer que enxerguem que o verdadeiro amor ultrapassa barreiras, obstáculos e torna-se ainda mais fortalecido. Figura 15. A carruagem leva Cinderela ao baile 75 Os empregados estão acompanhando a saída de Danielle, enquanto Leonardo da Vinci conversa com Gustave, um jovem amigo da moça, que também quer ser pintor. De repente, as duas criadas chamam a atenção dos dois, dizendo: “Olhem, é tradição.” Essa fala remete ao conto original. Figura 16. As asas na roupa de Danielle Quando Danielle chega ao baile, em seu traje esplêndido, vemos as asas em suas costas. Leonardo cumpriu a promessa e não quer que nada atrapalhe a felicidade do casal. 76 Figura 17. Danielle chega ao baile Nessa cena Danielle aparece resplandecente, maravilhosa, chegando à festa. Sobe a escadaria e entra. Leonardo da Vinci fez asas para seu vestido e ela brilha temerosa. Na frente de todos, a madrasta desmascara nossa heroína e arranca uma de suas asas, deixando a moça aos prantos. Figura 18. Danielle perde o sapato 77 Danielle é humilhada e o príncipe não ouve suas explicações. Ela foge e na fuga perde um dos sapatos. Leonardo da Vinci chama-a, mas ela não pára, foge magoada e apavorada. Figura 19. O sapato perdido de Danielle Depois de uma conversa com o príncipe tentando abrir seus olhos para que perdoe Danielle, Leonardo deixa o sapato sobre o muro do castelo, que simboliza o obstáculo, uma barreira entre Henry e Danielle. A câmera fecha a imagem no sapato no momento em que começa a chover. O som que escutamos é dos pingos no cristal. 78 Figura 20. O príncipe experimenta o sapato em Danielle Danielle consegue livrar-se do agiota a quem foi entregue pela madrasta e na saída encontra Henry, que se declara apaixonado, pedindo perdão à moça. Ajoelhase. Pede-a em casamento e calça o sapato em seu pé. Depois os dois abraçam-se felizes e muito apaixonados. Figura 21. Henry e Danielle olham-se emocionados Figura 22. Henry e Danielle beijam-se 79 Nessas duas cenas, concretiza-se o final feliz de Henry e Danielle. Na figura 22, vê-se ao fundo o rosto da moça, pintado por Da Vinci. Assim a rainha termina de contar a história aos Irmãos Grimm. Figura 23. O castelo A última imagem registra a carruagem com os Irmãos Grimm deixando o castelo, na França. Observando essas imagens, constatamos que a base da trama parte basicamente dos mesmos princípios da história de Cinderela que costumávamos ouvir quando crianças. Ever After é uma espécie de conto de fadas moderno, que tem em Danielle uma Cinderela ousada e corajosa. Dessa forma entendemos que livro e filme estão distanciados no tempo (A Gata Borralheira, séc. XIX e Ever After, séc. XX) e que escritor e cineasta não têm exatamente a mesma sensibilidade e perspectiva, portanto é de se esperar que a narrativa fílmica dialogue não só com o texto de origem, mas também com o seu próprio contexto, até mesmo atualizando a pauta do livro, embora reafirme valores nele expressos. 80 A idéia de intertextualidade que o filme Ever After apresenta é de um texto sobre outro, é a transformação e a assimilação de um texto centralizador, que no nosso caso, remete ao conto A Gata Borralheira, dos Irmãos Grimm. Para que essa idéia fique clara, há a necessidade da chamada competência intertextual por parte dos leitores/espectadores. Trata-se, então, de uma intertextualidade baseada em experiências anteriores às quais o leitor teve acesso. Não podemos ler nenhum texto de forma ingênua, a leitura deve ser alicerçada em conhecimentos prévios para que percebamos, como diz Kristeva(2005) que todo texto se constrói como um mosaico de citações. A partir de Kristeva, “texto” passa a ser entendido como o evento situado na história e na sociedade, que não apenas reflete uma situação, mas é essa própria situação, apagando linhas divisórias entre as disciplinas e constituindo um cruzamento entre diferentes superfícies textuais e distintas áreas do saber científico e da esfera artística. No decorrer do próximo filme analisado, Only you, notamos a presença do conto original. Faith é a mulher do século XX, que traz na sua essência a Cinderela que quer ser feliz encontrando a sua alma gêmea. Esse filme proporciona muitas inferências porque é uma narrativa altamente intertextual. Também descobrimos a inserção da realidade do século XX, que é diferente daquela do conto, ambientado no século XIX. Figura 24. Foto de casamento 81 O filme começa e na tela aparecem fotos antigas de casamento, remetendo ao sonho de felicidade que todos procuram nessa instituição. Figura 25. A vela cria um clima de mistério Figura 26. A lua como símbolo A noção de destino amarra toda esta narrativa audiovisual, tanto que em português, ao falar do filme coloca-se “um amor escrito nas estrelas”. Várias referências ao destino são feitas no transcorrer da narrativa. Faith, ao acreditar, no encontro com sua alma gêmea, mostra que crê no destino, ou melhor, tem a certeza de que esse encontro está destinado para ela. Quando ela e o irmão Larry estão 82 tentando adivinhar o futuro através de uma tábua ouija, um nome forma-se (Damon Bradley). A menina fica muito perturbada e credita tal fato ao destino. Nesse momento, a atmosfera que envolve a cena reflete o seu estado de espírito por meio de uma música misteriosa, a lua e uma vela com a chama trêmula. A cena é escura, o que ajuda a criar mais mistério. Figura 27. Uma consulta à cigana Para certificar-se de que o nome que a tábua mostrou é mesmo de sua alma gêmea, Faith consulta uma cigana, em um parque. O que a menina não sabe é que seu irmão pagou para que a mulher dissesse que no caminho dela apareceria um homem, Damon Bradley, ou seja, o elemento que parecia mágico, como no conto de fadas, afinal não é. Ela fica surpresa e mais confiante ainda no destino. A cigana diz a ela que “cada um faz seu próprio destino.” 83 Figura 28. Aula de Faith Quatorze anos se passam e nossa heroína já é uma mulher. Essa cena mostra-a como professora, a aula começa com a palavra “destino” escrita na lousa. Depois de dizer a origem em latim, ela menciona que ele é responsável pela junção das duas metades que foram separadas, pois, segundo Platão, querendo ficar como deuses, fomos punidos por um raio que nos dividiu ao meio. Sendo assim, estamos sempre à procura da outra metade. Figura 29. Quadro na parede da sala de aula 84 A aula termina e a câmera focaliza, na parede, um quadro que retrata um casal apaixonado. Eles estão nas nuvens, sob uma lua e uma estrela, simbolizando, talvez, um encontro que acontece pelas mãos do destino. Figura 30. Faith vestida de noiva Quando Faith está em casa experimentando o vestido de noiva que foi da mãe de seu noivo, o telefone toca. Para sua surpresa, é um amigo do noivo, chamado Damon Bradley. Ele desculpa-se por não poder ir ao casamento, pois está indo a Veneza. A moça fica enlouquecida e sai par ir ao aeroporto, dizendo à cunhada que não é coincidência e sim o destino. 85 Figura 31. Faith e Kate em Veneza Faith e Kate chegam a Veneza ao som de “O sole mio”, canção italiana do século XIX. Para chegarem ao hotel viajam de gôndola; a atmosfera é romântica e Faith está ansiosa para encontrar Damon. Figura 32. Sapato perdido por Faith Ao correr pelas ruas de Roma, Faith perde um dos sapatos. Peter, que está caminhando, recolhe-o e a segue. Ela encontra Kate e sentam numa fonte. Ela perdeu a pista de Damon e está disposta a soluções desesperadas. Peter aproximase e pergunta se o sapato perdido é dela. Nesse momento, refere-se à Faith como “Cinderela”. 86 Figura 33. Peter experimenta sapato em Faith Peter experimenta o sapato em Faith e diz a ela que ele é nosso auto-retrato, através dele conhecemos as pessoas. O sapato serve no pé da professora, mas ela ainda não tem conhecimento de que o rapaz é o seu verdadeiro príncipe. Ele aproveita o fato de Faith dizer o nome de sua alma gêmea e apresenta-se como sendo Damon Bradley. Ela fica pasma e quase desfalece. Nessa hora ouve-se um tilintar e entram em cena a lua e o relógio em uma torre. Figura 34. Peter e Faith dançam ao luar 87 Sob a lua romântica de Roma, os dois apaixonados saem para um passeio. Peter compra flores de uma cigana, que lhes dá uma bênção. Os dois dançam na rua. Figura 35. Faith descendo da carruagem Andam de carruagem, estão se conhecendo melhor, Faith está encantada. Ao descerem, a câmera focaliza os sapatos vermelhos nos pés dela. A cor vermelha simboliza o vínculo afetivo, profundidade nas relações, efervescência, dinamismo, calor, força e agressão. Ela pertence à eternidade dos afetos. Proporciona vitalidade, aumenta a pressão sangüínea sendo excelente para dar mais ânimo e crédito a si mesmo. É a cor que traz em si o poder feminino da sedução. 88 Figura 36. Peter revela sua verdadeira identidade Eles estão no quarto de hotel e Faith diz que o encontro deles é obra do destino. O rapaz sente-se culpado e revela sua verdadeira identidade. Quebra-se o encanto e ela sai furiosa de lá. Figura 37. Faith entrando no quarto Outra cena interessante é essa, que tem o seu início com um close up nos pés de Faith entrando no quarto. Todo o sentido da história está vinculado tanto ao sapato quanto ao destino. 89 Figura 38. Caminho para Positano Essa cena mostra o caminho para Positano, onde Faith irá encontrar-se com o verdadeiro Damon Bradley. Aqui temos a reafirmação do romantismo que perpassa toda essa narrativa. Figura 39. Faith descalça no hotel em Positano Uma das tomadas mais curiosas dessa recriação do antigo conto de fadas está na chegada de Faith ao hotel, em Positano. Ela está descalça, pois ainda não encontrou seu príncipe encantado. 90 Figura 40. Peter e Faith antes do encontro com “Damon” No momento em que Faith está no quarto aprontando-se para o encontro com Damon, Peter vai até ela e lhe dá sapatos brancos, dizendo que é uma bela cor para o encontro que a moça planeja. A cor branca representa limpeza, pureza, perfeição, paz, inocência, dignidade, clareza, consciência e novos começos. O branco pode ser definido como a ausência de todas as cores ou a presença de todas as cores do espectro da luz e pode representar tanto inocência quanto o último objetivo da purificação. É um convite ao altruísmo, a dar sem receber nada em troca. Peter ajuda Faith a se produzir como se fosse sua fada madrinha. No final, dançam e ele declara seu amor e diz: “Vá, a abóbora te espera”, numa referência direta à história original. 91 Figura 41. Faith desce as escadas para o encontro Faith desce as escadas para ir ao restaurante encontrar Damon. Nessa seqüência, a câmera focaliza os pés e ouvem-se as batidas de um relógio. Figura 42. Faith janta com o falso Damon Faith está realizada, pensando que o rapaz à sua frente é Damon Bradley. O encontro parece perfeito: o homem sonhado, uma noite de lua cheia, um clima romântico. Figura 43. Peter conversa com um velho 92 Enquanto Faith janta com “Damon”, Peter conversa com um velho em frente ao restaurante. Ele pergunta ao senhor se ele acredita em destino. O velho responde que todos acreditam em destino, tudo está escrito nas estrelas. Figura 44. Faith e “Damon” numa festa, em um iate O romantismo começa a desaparecer, quando o rapaz torna-se ousado e tenta acariciar os seios de Faith. Ela sente-se extremamente desconfortável e empurra Damon. Peter assiste a tudo e resolve intervir. 93 Figura 45. Peter e “Damon” brigam Peter, enfurecido, agride “Damon” e os dois discutem. Assim, Faith acaba ouvindo e percebendo a trama armada por Peter. “Damon”, na verdade é Harry, amigo de Peter. Figura 46. Faith desmascara o falso Damon Faith fica furiosa ao perceber o engano, não pode crer que foi ludibriada mais uma vez. Figura 47. O plano de Peter falhou 94 Peter sabe que será muito difícil obter o perdão de Faith. Ela, descontrolada, dá-lhe uma surra na frente de todos. Faith e Kate abandonam a embarcação, deixando os rapazes solitários e desiludidos. Figura 48. Faith, Damon e Peter no aeroporto No aeroporto, Faith e Peter estão na fila de embarque, cada um deles vai para um destino diferente. De repente, ouvem pelo alto-falante, um chamado para Damon Bradley. Correm até o guichê e encontram o verdadeiro Damon. Peter apresenta Faith e diz que ela, desde a infância, acredita que o homem de sua vida chama-se Damon Bradley. Diz que está apaixonado por ela, mas, infelizmente não tem o nome correto. Deseja felicidades a ambos e vai embora. Quando Peter afastase, a moça se dá conta do absurdo da situação e corre até o avião de Peter. 95 Figura 49. Peter sozinho no avião Figura 50. O final feliz de Peter e Faith 96 Figura 51. O avião leva os dois apaixonados Nessas três últimas cenas, temos Peter sozinho e deprimido no avião, pois pensa que perdeu Faith para sempre. Em seguida, ela entra e ele percebe amor nos olhos dela, então os dois se beijam e por fim o avião parte a caminho da felicidade. Vimos assim que Only you tem como temática a história de Cinderela com referências diretas a esse conto, atualizando-o. Um telefonema, às vésperas do casamento, tira Faith de sua vida pacata, rumo a uma grande aventura para conquistar a sua alma gêmea. A trama é tecida conjugando sapato e destino, como mostram várias cenas. Se, nessa versão, perde-se a ação da varinha de condão da fada madrinha a auxiliar na modificação da mulher, notamos que a fada continua a existir, já que tanto Kate (cunhada) quanto Peter (príncipe) dão conta desse papel e até mesmo a cigana(fada falsa). O clima de magia fica por conta do romantismo que recheia a história. Maid to order apresenta a narrativa de Cinderela como uma paródia, invertendo o significado do texto original. Jessie não está no borralho e sim freqüentando a alta sociedade de Los Angeles. A narrativa fílmica conta a história às avessas. Como diz a fada Stella a Jessie: “Algumas princesas merecem ser criadas”. Assim as cenas escolhidas ilustram a recriação do conto tendo como elemento simbólico o sapato, que se destaca desde o início de Maid to order. 97 Figura 52. Apresentação de Maid to order Na figura 52, aparece o “sapato” como detalhe significativo essencial à história que será contada. Figura 53. Novamente o conto de fadas Remetendo diretamente aos contos de fadas, vemos na tela “Once upon a time...” (Era uma vez...) e, dessa forma, a história inicia-se. Figura 54. Estrela atende pedido do pai de Jessie 98 Depois de aprontar muito e esbanjar o dinheiro do pai, Jessie é presa e recebe a visita da fada, uma figura atual, que tem até um vício: Stella fuma. Nossa princesa é informada que perdeu tudo, não tem mais família, nem dinheiro e está por sua própria conta. Isso ocorreu porque o pai da moça fez um pedido ao céu: “Gostaria de nunca ter tido uma filha”. Dessa forma, esse pedido é que altera toda a história. Figura 55. Jessie descalça Essa cena traz Jessie desesperada e humilhada, a câmera focaliza seus pés descalços para simbolizar suas perdas. 99 Figura 56. O sapato perdido de Jessie Na antiga mansão de Jessie, seu pai está pensativo em uma das salas, quando Jimmy, o cachorrinho de estimação dela, traz um sapatinho que foi perdido pela moça ao tentar entrar na casa. Figura 57. As botas encontradas no lixo Novamente em cena o “sapato”. Jessie encontra um par de botas brancas no lixo, calça-as e parte para uma nova experiência em sua vida. 100 Figura 58. Anúncio de uma agência de empregos Jessie senta-se na calçada desanimada, antes nunca havia passado por tantas dificuldades. De repente olha e vê do outro lado da calçada um anúncio: “Celebrity – Employment agency”( Agência de empregos Celebridade). Como nasceu rica e não deu valor às coisas, o único emprego que encontra é de arrumadeira, em uma mansão em Malibu. Figura 59. Jessie desolada por ter de refazer o serviço 101 Na mansão dos Starkey’s, Jessie conhece o lado daqueles que lutam, trabalham para conseguir sobreviver. O patrão é um agente musical, vaidoso e oportunista, Sua esposa é uma “perua”, que só se preocupa com mesquinharias. No começo, Jessie não consegue realizar bem suas tarefas e sofre desconto em seu pagamento. Com o tempo e a convivência com os outros empregados da casa, vai aprendendo e tornando-se humilde. Depois de limpar a sala do piano, Jessie está satisfeita pelo serviço bem feito, então a patroa volta de um passeio a cavalo e o chão fica todo sujo novamente. Figura 60. Jessie e Nick Nick é motorista da mansão, é o príncipe de Jessie. Na figura 60, vemos o casal em um encontro em que os dois mostram-se muito apaixonados. 102 Figura 61. Jessie, vestida como criada É noite de festa na mansão. Jessie está com os outros empregados na sacada de um dos quartos observando o movimento dos convidados. Todos têm um desejo. Audrey, a governanta, quer conseguir os estudos da filha Janine; Maria, a cozinheira, gostaria que a cozinha estivesse limpa depois da festa e Nick quer que ouçam suas músicas. Nessa cena, Jessie está assistindo a apresentação de Audrey e Nick, que pela interferência da fada Stella, conseguem realizar seus sonhos. Figura 62. A criada volta a ser princesa 103 Todos os desejos foram satisfeitos e assim Stella aparece e leva Jessie até a porta para despedir-se, pois sua missão está terminada. Nesse momento, o pai de Jessie está no carro para sair e diz à filha para não chegar tarde. A moça fica radiante ao perceber que o encanto se desfez, olha para Stella, que aponta para seus pés e os sapatos brilham. Figura 63. O carro da fada Na figura 63, Stella despede-se em grande estilo, seu carro, envolto em uma bolha sobe ao céu. Lá em cima, uma estrela brilha. Figura 64. Nick e Jessie 104 Figura 65. O final feliz de Nick e Jessie As duas imagens acima são o final feliz de Nick e Jessie. Na tela, os dizeres “They lived happily ever after” ( Eles viveram felizes para sempre), que reafirmam o conto de fadas. Nesses três filmes temos a modernização do conto de fadas A Gata Borralheira. O cinema apresenta a imagem em movimento, com cores, sons, objetos e personagens que aparecem em situações e espaços diversos. Já a literatura usa a palavra escrita que deve dar conta de todos os recursos e efeitos mencionados acima. No livro, nosso imaginário trabalha mais do que no filme. O leitor imagina como são os personagens, os ambientes em que eles aparecem, a disposição dos objetos citados. No filme, as cenas estão prontas e os espectadores recebem-nas sem muito esforço. Devemos também lembrar que o cinema mistura várias linguagens como teatro, dança, música, pintura, fotografia e acaba criando uma linguagem própria que está sempre mudando. Muitos elementos que não estão presentes no livro são usados pela linguagem cinematográfica: os enquadramentos, a música, a cor, os movimentos de câmera, a fotografia. O ponto de contato entre cinema e literatura é a narratividade e 105 por isso notamos as relações intertextuais, mesmo que cada meio tenha sua forma própria de contar histórias. O elemento mágico presente no conto matriz é apresentado de diferentes modos nos filmes. Em Ever After, a conduta de Danielle é que a leva a merecer o final feliz com Henry. São suas atitudes que a conduzem por toda a história. Em sua trajetória, ela é ajudada por pessoas as quais conquistou com sua bondade e solidariedade. O vestido e os sapatos que usa foram de sua mãe. Os criados antigos de sua casa e Leonardo da Vinci completam a cena para que Danielle chegue deslumbrante ao baile. Em Maid to order, há a presença de Stella, que só desempenha seu papel de fada de acordo com as atitudes de Jessie, isto é, o auxílio que a moça recebe da fada-madrinha está em consonância com a sua transformação ao longo da história. O pedido que seu pai faz a uma estrela no céu (“Gostaria de nunca ter tido uma filha”) é que introduz a fada na narrativa. No final, como prêmio por sua transformação, Jessie recebe sua vida de volta, só que, então, ela é uma nova mulher. Em Only you, Faith apóia-se em alguns elementos que julga mágicos para construir sua trajetória em busca do amor e da felicidade: uma tábua ouija e uma cigana. No entanto, tanto a tábua quanto a cigana foram manipulados por seu irmão Larry, que empurra, propositalmente, a tábua e forma o nome “Damon Bradley”. Depois paga uma cigana para dizer o mesmo nome para Faith. Portanto, a moça credita ao destino o que acontece com ela e na realidade é ela mesma que está construindo sua própria história. Quando Faith se dá conta disso, enxerga o verdadeiro príncipe e temos o final feliz. 106 CONSIDERAÇÕES FINAIS No mundo que vivemos, as mídias têm papel importante nesse processo de criação, manutenção e desenvolvimento do simbólico e, conseqüentemente da própria vida social. Elas fazem a mediação social contemporânea, servindo de veículo para formar as consciências e os respectivos comportamentos. (LOPES, 2004) Muitos textos midiáticos originam-se da pintura e da literatura, daí a intertextualidade. Assim posto, a leitura da comunicação midiática não é tão horizontal e torna-se necessária a pesquisa e o diálogo com as várias áreas do conhecimento e com as várias linguagens. Um bom exemplo é o que a mídia fez com o conto de fadas Cinderela, também conhecido como A Gata Borralheira. A realização dessa produção funda-se em relações intertextuais, no confronto de uma determinada época com a cultura contemporânea. Esta pesquisa procurou mostrar esse diálogo entre duas linguagens: a do texto narrativo e a do fílmico. Mesmo pertencendo a sistemas diferentes, observamos que os dois textos concorrem para pontos comuns. Tanto narrativa literária quanto fílmica contam uma história, sendo que o filme o faz através de uma seqüência de ações ocorridas a determinados personagens num determinado tempo e espaço. A narrativa literária é composta por palavras e sua estrutura também envolve enredo, personagens, ações, espaço e tempo, que remetem o leitor a um mundo imaginário que obedece ao contexto histórico, social e cultural vivido por ele. Todos esses movimentos reunidos dão movimento ao texto. A análise feita usou como suporte teórico a teoria da intertextualidade, de Julia Kristeva, que advém dos estudos do formalista russo Mikail Bakhtin sobre o dialogismo da linguagem. Para ele não se pode conceber o processo de leitura desligado da noção de intertexto, uma vez que o dialogismo permeia toda a linguagem e dá sentido ao discurso. A palavra é sempre marcada pela palavra do 107 outro, ou seja, quando um enunciador constrói seu discurso, leva em conta o discurso de outrem, que está sempre presente no seu. Assim, a palavra literária é um diálogo de diversas escrituras. Bakhtin vê o dialogismo sob dois pontos de vista: a) Interação verbal ( enunciador – enunciatário, é o diálogo entre sujeitos); b) Intertextualidade (diálogo entre textos). Para o nosso trabalho, consideramos o segundo ponto de vista, uma vez que o estudo feito contemplou a transcodificação do código literário para o código fílmico. Para Kristeva, no espaço textual, dialogam três elementos: o sujeito da escritura, o destinatário e os textos exteriores, ou seja, a palavra é espacializada em três dimensões (sujeito – destinatário – contexto). Todo texto é absorção e transformação de um outro texto. O conto de fadas aqui analisado, Cinderela, teve origem nas histórias de tradição oral e apresenta muitas versões. Este estudo mostrou a intertextualidade existente entre esse conto, escrito pelos irmãos Grimm e as narrativas fílmicas Ever After, Only you e Maid to order. Como afirma Graham Allen (apud TAKAZAKI, 2004, p.88), “a intertextualidade surge para nos lembrar da verdade chocante de que o que dissermos e pensarmos sempre já foi dito e pensado.” Identificar esses diálogos entre os textos e compreender como se estabelecem essas relações é fundamental para a (re)construção dos sentidos do texto. Assim, apesar de conto e filme apresentarem recursos diferentes, ao analisarmos os símbolos presentes no conto dos irmãos Grimm, destacamos o elemento intertextual sapato, pois aparece tanto na narrativa literária quanto nas narrativas audiovisuais analisadas. Em Ever After, ele se apresenta como um elo de ligação entre o conto e a história de Danielle. Em Only you, simboliza a busca de Faith por sua alma gêmea. Finalmente, em Maid to order, é o símbolo da conquista de novos rumos. 108 Os filmes analisados contam a história de Cinderela recriando o conto, utilizando nova linguagem, porém reafirmam um saber introjetado em nossa cultura: toda jovem quer um príncipe que a torne princesa. Os textos fílmicos apresentam novos personagens, mas não alteram a temática do amor que vence todas as barreiras. No conto Cinderela, a heroína não tem nome e essa condição anônima reforça seu perfil de subalterna e humilhada, uma vez que o nome próprio confere individualidade ao personagem. Ela passa por muita dor e sofrimento, quando seu pai casa-se pela segunda vez. A madrasta e suas filhas impõem a Cinderela uma vida miserável repleta de suplícios, além de ela ter que enfrentar a perda de sua mãe tão querida. Então, entram em cena elementos mágicos para ajudá-la a alcançar a liberdade e a felicidade. No baile, apaixona-se pelo príncipe, perde um dos sapatos, que mais tarde, será seu passaporte para o final feliz. O cinema, ao recontar essa história, apresenta-nos três novas Cinderelas: Danielle, Faith e Jessie. Cada uma delas tem uma maneira peculiar de dialogar com a Cinderela original. Danielle é muito parecida com a Cinderela dos irmãos Grimm. É boa, piedosa e conformada com sua vida de sofrimento. Só reage quando conhece o príncipe Henry e se apaixona por ele. Por intermédio de amigos, chega ao baile e à felicidade tão sonhada. O sapato que usa é de cristal e pertenceu à sua mãe. Ele proporciona a Danielle o reconhecimento , a identificação. Faith é uma professora que, apesar de viver no século XX, é sonhadora e acredita no destino e no encontro com a sua alma gêmea. Para viver esse amor, enfrenta os obstáculos de uma forma muito ousada. Acredita em forças sobrenaturais e deixa-se guiar pela ilusão. Para ela, seu destino foi traçado desde a infância por uma tábua ouija e uma cigana; o que a moça não sabe é que seu irmão Larry manipulou a tábua e pagou a cigana para dar-lhe o nome de seu príncipe. Por isso credita ao destino tudo o que lhe acontece e, quando o verdadeiro príncipe aparece, ela não o reconhece. Ao se dissiparem todos os enganos, a professora 109 encontra a verdadeira felicidade. Mais uma vez o sapato marca toda a trajetória da personagem. Finalmente temos Jessie, que é a Cinderela às avessas, pois de princesa passa a empregada e só consegue sua vida de volta, quando passa por uma transformação: aprende a ser solidária, a se importar com aqueles que a rodeiam. Ao ser despojada de sua riqueza, revolta-se e tenta entrar em sua antiga mansão. Os empregados não a reconhecem e chamam a polícia. Na fuga, perde o sapato. Com a mudança e conseqüente humanização da personagem, recebe sua vida de volta e encontra o príncipe encantado. Nessa hora, os sapatos voltam a brilhar em seus pés. Conclui-se, desse modo, que Ever After mantém com o conto original uma intertextualidade sob a forma de paráfrase, já que reafirma a história de origem e as mudanças que o filme apresenta são mínimas. Já Only you, ao recontar a história, conserva a temática, o elemento intertextual sapato e o romantismo. As transformações ocorridas no filme apresentam-se como um desvio tolerável, apresentando-se como uma estilização. Por último, temos Maid to order, que conta a história da borralheira às avessas, um modo diferente, não convencional da leitura do conto. Dessa forma, caracteriza-se a paródia. Cruzando o conto e as narrativas audiovisuais, percebemos que a intertextualidade é inerente à produção humana, pois o ser humano recorre àquilo que já foi feito em seu processo de produção simbólica. Dessa forma, ao contrapor literatura e cinema, detectamos as diferenças existentes entre os dois meios e constatamos que a narratividade é o elo de ligação entre conto e filme. Os três filmes analisados, ao contar a história de Cinderela, recriam o conto, ressignificando esse texto em um novo meio, um novo contexto, um novo código de representação, uma nova atitude discursiva. Assim, o filme incorpora e digere a fonte original e, em seguida, produz algo estético e culturalmente novo. 110 Esperamos que esse trabalho contribua para abrir caminho para outros estudos que ampliarão conhecimentos e possa tornar os leitores mais dinâmicos para o mundo atual e suas exigências. A análise dos diversos elementos que sustentaram a relação intertextual serviu para mostrar que os contos de fadas são histórias antigas que continuam encantando e ensinando crianças e adultos geração após geração. 111 REFERÊNCIAS AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da Literatura. 8. ed. Vol. I. 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