Acta Oftalmológica 9-12, 2003 Alterações Oculares 13; em Doentes em Terapêutica com Vigabatrim 9 Alterações Oculares em Doentes em Terapêutica com Vigabatrim Sofia Freitas1, A. Rocha-Sousa2, M. Monteiro3, G. Sousa4, F. Falcão-Reis5 Introdução: O vigabatrim é uma droga anti-epilética usada em terapêutica em mais de 65 países. Está indicado na terapêutica de convulsões parciais complexas, generalizadas secundárias e espasmos infantis. Este fármaco actua por inibição irreversível da enzima GABAtransaminase que condiciona um aumento dos níveis de GABA, exercendo assim a sua acção anticonvulsionante. A concentração de vigabatrim é cinco vezes maior na retina que no cérebro e localiza-se preferencialmente nas camadas mais internas, podendo exercer um papel modulador na fototransdução. Alguns estudos documentaram defeitos do campo visual (aos 30-60º centrais) entre 40 a 50% dos doentes em terapêutica crónica com este fármaco, sendo a patofisiologia destas alterações ainda muito desconhecida. Objectivos: Os objectivos deste estudo foram a avaliação electrofisiológica e psicofísica de doentes submetidos a tratamento de longa duração com vigabatrim, assim como o papel da dose cumulativa deste fármaco e sua correlação com alterações fisiológicas, constrição dos campos visuais e sintomatologia clínica. Material e Métodos: Foram seleccionados 37 doentes que efectuavam terapêutica com vigabatrim há pelo menos 1 ano. A população foi estudada de acordo com a dose cumulativa. Todos os doentes foram submetidos a um protocolo clínico que consistia de exame oftalmológico e neurológico. Em relação aos exames complementares todos os doentes efectuaram perimetria estática computorizada com protocolos Humphey 30.2 e 60.4 e sensibilidade ao contraste cromático nos três eixos de confusão cromática. Os protocolos de electrofisiologia incluíam ERG “full-field”, EOG e PEVP segundo os protocolos estabelecidos pela ISCEV. Resultados: Quase todos os doentes apresentavam alterações na perimetria computorizada 60.4. Uma grande percentagem de doentes assintomáticos com perimetria 30.2 normal tinham alterações electrofisiológicas de amplitude da onda, em particular da onda b escotópica e fotópica e do Flicker 30 Hz, consistente com disfunção retiniana difusa. Palavras-chave Vigabatrim; Defeitos campimétricos; Alterações electrofisiológicas; GABA-transaminase. INTRODUÇÃO O vigabatrim é uma droga anti-epilética usada em terapêutica em mais de 65 países7. Está indicado na terapêutica de convulsões parciais complexas, generalizadas secundárias (em associação com outros anti-epiléticos) e espasmos infantis (em monoterapia)6,10. O vigabatrim actua por inibição irreversível da enzima GABA-transaminase que conduz a um aumento dos níveis de GABA, exercendo assim a sua acção anticonvulsionante. Porém o 1 Interna Complementar de Oftalmologia do H.S. João - Porto Assistente Hospitalar de Oftalmologia do H.S. João - Porto Assistente Hospitalar Graduado de Oftalmologia do H. S. João - Porto 4 Directora do Gabinete de Electrofisiologia do H.S. João - Porto 5 Director do Serviço de Oftalmologia e Professor de Oftalmologia da Faculdade de Medicina do Porto 2 3 papel neurotóxico na neurotransmissão retiniana é importante. A concentração de vigabatrim é cinco vezes maior na retina que no cérebro e localiza-se preferencialmente nas camadas mais internas (células bipolares e amácrinas)2,3. É nestas células que o GABA actua como neurotransmissor inibitório, podendo exercer um papel modulador na fototransdução (dos fototransdutores para as células ganglionares)14. Por isso é possível que distúrbios na transdução estejam relacionados com alterações na concentração de GABA. Alguns estudos documentaram defeitos do campo visual entre 40 a 50% dos doentes em terapêutica crónica com este fármaco, sendo a patofisiologia destas alterações ainda muito desconhecida5. Em regra as alterações surgem uma década após o início dos esquemas terapêuticos com o fármaco, consistindo na sua maioria de constrição concêntrica bilateral12,13,16 (entre os 30º e os 60º centrais). 10 O vigabatrim condiciona discromatopsias adquiridas correlacionadas com a constrição observada no campo visual. Em termos electrofisiológicos alguns autores descrevem alterações do ERG (nas primeiras seis semanas) sugestivas de disfunção cone8,9,13 e traduzidas por perda dos potenciais oscilatórios1,13. Outros estudos registaram reduções na onda b escotópica o que indicia que o vigabatrim pode condicionar uma disfunção retiniana difusa, afectando também o sistema bastonete4. No estudo de Harding e col a diminuição da amplitude do ERG Flicker 30 Hz estava associada com apresença e grau de gravidade dos defeitos campimétricos atribuídos à terapêutica com vigabatrim. As alterações electrofisiológicas podem ainda indiciar uma disfunção da retina externa, afectando inclusivamente o epitélio pigmentado da retina face às reduções observadas no EOG em alguns doentes. OBJECTIVOS Os objectivos deste estudo foram a avaliação electrofisiológica e psicofísica de doentes submetidos a tratamento de longa duração com vigabatrim, assim como o papel da dose cumulativa deste fármaco e sua correlação com alterações fisiológicas, constrição dos campos visuais e sintomatologia clínica. Sofia Freitas, A. Rocha-Sousa, M. Monteiro, G. Sousa, F. Falcão-Reis Moorfields Vision System (Computer-Aided Vision Testing Utility version 1.13). Os protocolos de electrofisiologia incluíam ERG “full-field”, EOG e PEVP registados por um equipamento Lace 2000 (Lace electronics) segundo os protocolos estabelecidos pela ISCEV (International Society of Clinical Electrophysiology of Vision) com dilatação pupilar superior a 7 mm com eléctrodos activos ERG-jet (lente de contacto); ERG escotópico registado após pelo menos trinta minutos de adaptação ao escuro, com luz azul que variava de 0,1 cd/m2 a 2 cd/ m2. Foram registados de seguida o ERG misto com uma luz branca de 20 cd/m2, os potenciais oscilatórios e a resposta fotópica. RESULTADOS Em relação à amostra estudada nenhum doente referiu queixas de alteração da acuidade visual, sendo o exame oftalmológico normal em todos os doentes, assim como a avaliação do limiar de sensibilidade ao contraste cromático e PEV. Quase todos os doentes apresentavam alterações na perimetria computorizada 60.4. Uma grande percentagem de doentes assintomáticos com perimetria 30.2 normal tinham alterações electrofisiológicas de amplitude, em particular da onda b escotópica e fotópica e do Flicker 30 Hz, consistente com disfunção retiniana difusa (figura 1). MATERIAL E MÉTODOS Foram seleccionados 37 doentes que efectuavam terapêutica com vigabatrim há pelo menos 1 (um) ano, sendo 21 homens e 16 mulheres com idade média de 37,6 anos, com doses médias diárias de 2,3 gr ± 0,61. A população foi estudada de acordo com a dose cumulativa e dividida em dois grupos: um grupo com dose cumulativa inferior a 3500gr e outro superior a 3500gr. Todos os doentes foram submetidos a um protocolo clínico que consistia de exame oftalmológico com avaliação acuidade visual corrigida, biomicroscopia do segmento anterior, tonometria de aplanação e fundoscopia com dilatação. Como critério de inclusão o exame oftalmológico tinha de ser normal. O protocolo incluía também exame neurológico que consistia de observação clínica, classificação da epilepsia, electroencefalograma, tomografia computorizada e ressonância magnética cerebrais. Em relação aos exames complementares todos os doentes efectuaram perimetria estática computorizada com protocolos Humphey 30.2 e 60.4 e sensibilidade ao contraste cromático nos três eixos de confusão cromática usando o sistema de limiar Fig. 1 – Percentagem de doentes com alterações electrofisiológicas. ERG escotópico Resposta máxima ERG fotópico Potenciais Oscilatórios Flicker 30 Hz EOG 13% 6,8% 19,1% 19,1% 36,9% 20,5% No que diz respeito às alterações electrofisiológicas de amplitude em relação à dose cumulativa verificou-se uma diferença significativa entre os dois grupos (< 3500gr e > 3500gr) , na onda b fotópica e escotópica, resposta máxima, potenciais oscilatórios, EOG e Flicker 30 Hz, sendo neste estatisticamente significativa (p = 0,027). (figuras 2 e 3) Fig. 2 – Percentagem de doentes com alterações electrofisiológicas de amplitude em relação à dose cumulativa. Dose cumulativa Onda b escotópica Resposta máxima Onda b fotópica Potenciais oscilatórios (OP2) Flicker 30 Hz EOG < 3500 gr 5,76% 0% 15,78% 5,26% 21,05% 5,26% > 3500 gr 17,78% 8,89% 24,44% 16,67% 44, 44% 22,96% 11 Alterações Oculares em Doentes em Terapêutica com Vigabatrim Fig. 3 – Alterações de amplidude: resumo estatístico. Dose cumulativa < 3500 gr > 3500 gr Onda b escotópica 450,29 ± 149,94 380,21 ± 97,74* Resposta máxima 610,38 ± 171,86 546,95 ± 135,46 Onda b fotópica 156,38 ± 60,27 128,60 ± 47,55** Potenciais Oscilatórios 62,75 ± 19,14 53,98 ± 24,95 Flicker 30 Hz 81,28 ± 28,90 65,92 ± 26,70*** EOG 1,85 ± 0,37 1,88 ± 0,40 *p= 0,023 **p= 0,033 ***p= 0,027 (≠ estatisticamente significativa) DISCUSSÃO E CONCLUSÕES Estudos anteriores já demonstraram disfunção no sistema cone em doentes com terapêutica anticonvulsionante com o vigabatrim.8,9 Uma exposição contínua da retina ao g-vinyl-GABA (vigabatrim) em modelos animais provocou alterações bifásicas nos níveis de GABA das células amácrinas.14 Estudos humanos envolvendo população adulta revelaram uma associação entre redução do ERG flicker 30 Hz e defeitos campimétricos,8,9 no entanto, na nossa amostra nem sempre se verificou esta associação, sendo que a diferença de resultados possa estar relacionada com a dose cumulativa. O vigabatrim pode causar uma disfunção retiniana grave com afecção das várias camadas celulares da retina. Esta disfunção estende-se também ao epitélio pigmentado da retina. As alterações mais relevantes na nossa série de doentes verificaram-se ao nível da função fotópica (Flicker 30 Hz) e das células amácrinas (potenciais oscilatórios). As alterações electrofisiológicas ocorreram em doentes que apresentavam constrição do campo visual, mas também naqueles em que não se verificaram alterações campimétricas, sendo estes resultados consistentes com outros estudos publicados.1,4,12 Os resultados sugerem ainda um aumento da prevalência das alterações electrofisiológicas com o aumento da dose cumulativa, também documentada por Manuchehri et al, que refere um risco aumentado de alterações campimétricas para doses cumulativas acima de 1500 gr.11 Apesar de descrita em alguns doentes como a primeira manifestação, a redução do ERG escotópico não é a mais prevalente na nossa série. Pelo contrário, a redução da função cone parece-nos mais evidente. De qualquer das formas nem todos os doentes estavam em monoterapia, e assim sendo, a contaminação por outros fármacos é possível. Das alterações verificadas, quando comparadas com a população normal, podemos inferir que a fisiopatologia da retinopatia do vigabatrim terá duas formas diferentes e complementares. A primeira será consequente da inibição retiniana provocada pelo GABA. Este efeito é agudo e independente da dose. Na nossa série ele repercute-se mais nos componentes escotópicos. Seguidamente o GABA condiciona uma lesão celular que tem no componente fotópico e das células amácrinas asua maior representação. Aqui verifica-se uma maior variação do ERG conforme a dose administrada. É claro que este efeito é dependente da dose, mas não é claro no nosso estudo que seja irreversível. As alterações de campo podem não estar presentes quando avaliamos o doente. A razão deste facto é que o GABA condiciona precocemente alterações electrofisiológicas mas não há uma correlação estabelecida entre Dose/ERG/Perimetria. Baseado nestes resultados recomenda-se avaliação electrofisiológica de rotina em doentes com terapêutica com vigabatrim mesmo que não apresentem alterações campimétricas documentadas. SUMMARY Introduction: Vigabatrin is an antiepileptic drug used in more than 65 countries, proven to be successful in the management of partial seizures and infantile spasms. The anticonvulsant effect is achieved by irreversible inhibition of the enzyme GABA-transminase used to break down GABA. The vigabatrin concentration is five times higher in the retina than in the brain, in the inner layers of the retina and may have a role in the modulation of phototransduction. Visual field defects occur in 40 to 50% of the adult patients on vigabatrin treatment, although its physiophathology is still unknown. Purpose: To investigate the significance of electroretinal dysfunction and the role of cumulative dosage of vigabatrin, its correlation with visual field defects and clinical symptoms, in a group of patients in long-term vigabatrin therapy. Patient and methods: A group of 37 patients in vigabatrin therapy for at least 1 year was selected, divided in two according to cumulative dosage. All patients were submited to ophthalmologic and neurologic evaluations, performed static perimetry (Humphrey 30.2 and 60.4), Colour Contrast Sensivity test, Full-field ERG, EOG, PEVP in accordance with ISCEV standards. Results: Almost all patients had visual field defects in the static perimetry Humphrey 60.4. The global electrophysiologic abnormalities of our study showed that a high percentage of asymptomatic (normal 30.2 static visual fields) patients, had electrophysiologic abnormalities (amplitude wave), in particular scotopic and photopic B wave and 30-Hz Flicker, consistent with diffuse retinal dysfunction. Key Words Vigabatrin; Visual field defects; Electrophysiologic abnormalties; GABA-transaminase. 12 BIBLIOGRAFIA 1. Arndt CF, Derambure P, Defoort-Dhellemmes S, Hache JC. Outer retinal dysfunction in patients treated with vigabatrim. Neurology 1999; 52: 1201-1205. 2. Brecha N, Johnson J, Khuan T et al. Multiple GABA plasma membrane transporters are expresed in the vertebrate retina. Invest Ophthalmol Vis Sci 1995; 36 (Suppl): 214. 3. Crook DK, Pow DV. Analysis of the distribution of glycine and the GABA in amacrine cells of the developing rabbit retina: a comparison with the ontogeny of a functional GABA transport system in retinal neurons. Vis Neurosci 1997; 14: 751-63. 4. 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