UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Deborah Kemmer Futlik Mariani AÇÕES PROJETUAIS COM LIXO COMPUTACIONAL EM SÃO PAULO: UMA QUESTÃO DE DESIGN DISSERTAÇÃO DE MESTRADO MESTRADO EM DESIGN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU SÃO PAULO Janeiro/2012 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Deborah Kemmer Futlik Mariani AÇÕES PROJETUAIS COM LIXO COMPUTACIONAL EM SÃO PAULO: UMA QUESTÃO DE DESIGN DISSERTAÇÃO DE MESTRADO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. Orientadora: Profa. Dra. Gisela Belluzzo de Campos. São Paulo Janeiro/2012 Todos os direitos reservados. reprodução total ou parcial do autorização da Universidade, É proibida trabalho do autor orientador. M286a Mariani, Deborah Kemmer Futlik Ações projetuais com lixo computacional em São Paulo: uma questão de design / Deborah Kemmer Futlik Mariani. – 2012. 143f.: il.; 30 cm. Orientadora: Profa. Dra. Gisela Belluzzo de Campos. Dissertação (Mestrado em Design) – Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, 2012. Bibliografia: f.104-110. 1. Design. 2. Lixo computacional. 3. Sustentabilidade. 4. Ações sociais. I. Título. CDD 741.6 a sem e do UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Deborah Kemmer Futlik Mariani AÇÕES PROJETUAIS COM LIXO COMPUTACIONAL EM SÃO PAULO: UMA QUESTÃO DE DESIGN Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. ______________________________________ Prof. Dra. Gisela Belluzzo de Campos Orientadora Mestrado em Design Anhembi Morumbi ______________________________________ Prof. Dra. Rachel Zuanon Examinadora Interna Universidade Anhembi Morumbi ______________________________________ Prof. Dra. Nara Silvia Marcondes Martins Examinadora Externa Universidade Presbiteriana Machenzie DEBORAH KEMMER FUTLIK MARIANI Pós-Graduada no Ensino da Arte SOET – MGÁ Graduada e Licenciada em Pedagogia e Educação artística (Artes Visuais) pela UEM – MGÁ e Claretiano – Ctba Dedico este trabalho ao meu pai Jayme Futlik in memoriam, fonte inspiradora. E à minha família, marido, filhos que sempre me apoiam e incentivam. AGRADECIMENTOS O primeiro agradecimento vai para a Coordenação do Mestrado em Design da Universidade Anhembi Morumbi, configurada no Prof. Dr. Jofre Silva, pela confiança e carinho dispensados. Gostaria de registrar minha satisfação em trabalhar sob a orientação da Profa. Dra. Gisela Belluzzo de Campos que acolheu este projeto com esmero, apontou a bibliografia teórica que fundamentou as questões propostas no trabalho e ajudou a construir a rede sobre a qual minhas ideias puderam se mover livremente. Agradeço imensamente ao Prof. Dr Marcus Bastos, que me auxiliou com orientação em um período de trabalho. Muito obrigada pela oportunidade de conhecer materiais e ações diferentes que antes não tinha contato. Durante a realização deste Mestrado, convivi com pessoas interessantes que atuam em áreas, muitas vezes desconhecidas para mim, que enriqueceram meu repertório cultural. Aos colegas da Turma 2009/10, deixo o meu sincero voto de felicidade a cada um. Quero externar, também, minha gratidão à professora Rachel Zuanon pelas referências importantes e dicas fundamentais pertinentes a esta pesquisa, desde o contato da qualificação. Agradeço por ter me auxiliado com seu conhecimento na área de tecnologia e sustentabilidade, indicando bibliografia e direcionando ao caminho percorrido. Foi de extrema importância a contribuição da mesma. Agradeço às boas amigas de Maringá - PR, sempre presentes comigo no meu trabalho na universidade. À querida Rachel de Maya Brotherhood, a qual não mediu esforços para ler e emitir opinião de um assunto completamente divergente da sua área, quando leu em um domingo minha dissertação. À Maria Cristina de Brito Cunha e à Sandra de Cássia Franchini, que sempre me animaram e deram apoio. À Vera Lúcia Scortecci Hilst, que chegou a pouco na instituição, agradeço a compreensão dos momentos difíceis de tribulação. Todas sempre me apoiaram com palavras e ações de conforto, compartilhando dificuldades no mundo do trabalho ao qual vivemos e amparando umas às outras de todas as formas, nos momentos difíceis, sobretudo os quais vivi nestes últimos dois anos, quando meu filho fez cirurgia e tive momentos de preocupação, também por ocasião da morte do meu pai e sua doença durante todo ano de 2011. Um agradecimento especial ao Magnifico Reitor do Centro Universitário de Maringá (Cesumar), Wilson de Matos Silva, que apoiou financeiramente o mestrado e o incentivou, proporcionando-me a ganhar mais conhecimento. Quero lembrar aqui outra ação da mesma instituição que teve extrema importância para os estudos de casos, que foi o projeto de pesquisa e implantação de uma sede de um Centro de Reaproveitamento e Reciclagem de Equipamentos de Informática, o chamado RECICLATEC. Uma iniciativa do Cesumar Empresarial em parceria com a Associação de Municípios do Setentrião Paranaense o AMUSEP, com apoio da Fundação Araucária. Como eles estavam em processo de investigação para implantação de um centro de reciclagem, viajamos a São Paulo e visitamos quatro dos estudos de casos apresentados aqui, o que oportunizou e engrandeceu a minha pesquisa. Nominando: obrigada Sr. Freud Oliveira, Maria Antônia da Silva ambos Cesumar empresarial e Sr. Claudecir da Silva, representante AMUSEP. Faço um agradecimento especial à minha filha Beatriz Mariani, uma futura designer e uma benção na minha vida. Ajudou-me com tradução no livro Cradle to Cradle, fez a leitura da dissertação durante o período de escrita aproximadamente dois anos, emitindo opiniões e revisão. Sei que perdeu horas de sua vida lendo, o que talvez não quisesse, mas, para me ajudar, fez tal esforço. Ela é pequena de tamanho, mas valente, uma gigante no que faz! Ao meu filho Bruno Mariani, que de sua forma, me ajudou, respeitando os momentos nos quais me sentava diante de meu Notebook, e ao meu marido Arnaldo Mariani, por respeitar minhas opções de lutas e objetivos e aguentar tantas horas de leitura e estudo, viagens, gastos, chatice, mau humor e tensão. Obrigada pelo apoio. Agradeço à minha mãe Leonor Kemmer e irmãs Denise Kemmer e Miriam Kemmer por me ajudarem com compreensão nos momentos difíceis que passamos com a doença de meu pai até sua morte. Foram momentos complicados nos quais acreditava que não iria dar conta, com tantos compromissos assumidos, problemas particulares por entremeio, o que me deixou muito doente, mas graças a Deus superei e tenho certeza de que meu pai ficaria orgulhoso pelo que conquistei! Na verdade, quero fazer uma menção ao meu pai que foi a grande inspiração de quando comecei a minha pesquisa. Quando escutei em aulas sobre a dinâmica do “efeito Gambiarra em trabalhos artísticos”, logo me lembrei dele. Sempre foi um “gambiarrista” de primeira e por isso tive vontade de iniciar a pesquisa, a qual não ficou só nesse assunto, acabou sendo ampliada. Mas vale lembrar que por isso comecei a investigação, para ter conhecimento desta forma de trabalho, a qual sempre considerei ser “uma arte do improviso”, pois, ele sempre transformava tudo com sucatas que achava, minha mãe é que não gostava muito! Meu pai chegou até a montar uma indústria de invenções, quando eu era pequena, por isso ele sempre foi minha inspiração, muito criativo. Agradeço à Antônia, assistente do Mestrado em Design, que sempre me atendeu com gentileza e me ajudou no que precisei. Deixo um abraço cordial final aos amigos de mestrado que me fizeram companhia durante este período solitário, angustiante e sedentário da escrita, acompanhando minhas aflições, pensamentos, lendo, curtindo, comentando, trocando informações importantes, inspirando, torcendo, elogiando e criticando. Deborah Kemmer O cérebro não começa o dia como uma tábua rasa. O cérebro está animado desde o início da sua vida com um enorme repertório de sabedoria que diz respeito à forma como o organismo deve ser gerido, isto é, à forma como a vida deve ser organizada e como o organismo deve responder a certos acontecimentos exteriores. Uma enorme variedade de locais de mapeamento e das respectivas ligações neuronais está presente à hora do nascimento. (DAMÁSIO, 2004, p. 217) “Assim se faz a vida, cérebros conectados, pessoas criativas e envolvidas em ações. Vale acreditar e pesquisar ideias que transformam o mundo.” (DEBORAH KEMMER) RESUMO O termo design sustentável foi largamente difundido nas últimas décadas concomitante à demasiada quantidade de resíduos com a possibilidade de reaproveitamento. Esse índice é ainda mais crescente no tocante ao lixo computacional, tendo em vista a obsolescência programada desse tipo de produto. O presente trabalho trata essencialmente do problema do lixo computacional e das suas possíveis soluções, considerando os adventos tecnológicos crescentes e as suas consequências. Sob o prisma da sustentabilidade, são discutidas ações que tratam de minimizar o problema do lixo computacional, considerando aspectos sociais e econômicos. Com isso, a pesquisa identifica espaços no mundo contemporâneo que transformam suas vivências em ações capazes de dar um novo rumo à atividade projetual no design e aponta as metodologias utilizadas pela sociedade civil reinventora e criadora de espaços que favorecem e ativam novas formas de coexistir e de habitar, contribuindo de forma positiva para o problema do lixo computacional. Palavras-chave: Lixo computacional. Sustentabilidade. Ações sociais. Metodologias. Design. ABSTRACT The term sustainable design has been largely disseminated over the last decades concomitant of the exceeding raise of residues with the possibility of reuse. This index is even more crescent when related to the computational garbage, considering the scheduled obsolescence of this kind of product. The present work treats essentially with the problem of the computational garbage and its possible solutions, considering the growing technological advents and its consequences. Under the prism of sustainability, actions that treats of minimizing the problem of the computational garbage are discussed, considering social and economic aspects. Herewith, the research identifies spaces in the contemporary world that transform their living into actions that are able of giving a new way to the project activity and points the methodologies used by the civil society that reinvents and creates spaces that favors and activates new ways of coexisting and living, contributing in a positive way to the problem of the computational garbage. Key-words: Computational garbage. Sustainability. Social actions. Methodologies. Design LISTA DE FIGURAS Figura 1: Vertentes do desenvolvimento sustentável ............................................22 Figura 2: Modelo linear de produção .....................................................................24 Figura 3: Modelo circular de produção ..................................................................25 Figura 4: Diagrama do design ...............................................................................29 Figura 5: Lixo acumulado no depósito de Guiyu....................................................35 Figura 6: Computadores em uso no Brasil ............................................................36 Figura 7: Sacola biodegradável 60 Bag.................................................................46 Figura 8: Modelo disponível da sacola biodegradável 60 Bag...............................46 Figura 9: Vasos feitos com casca de ovo ..............................................................47 Figura 10: Vasos feitos com casca de ovo – detalhe ...........................................47 Figura 11: Desempenho dos ventos em diferentes ambientes..............................50 Figura 12: Teoria transdisciplinar do design ..........................................................56 Figura 13: Foto do interior do CEDIR-1 .................................................................72 Figura 14: Foto do interior do CEDIR-2 .................................................................72 Figura 15: Foto do interior do CEDIR-3 .................................................................73 Figura 16: Foto do interior do CEDIR-4 .................................................................73 Figura 17: Fluxograma da gestão de resíduos eletrônicos do CEDIR-USP ..........74 Figura 18: Foto do centro de descarte...................................................................78 Figura 19: Lista de discussão Projeto Metáfora.....................................................88 Figura 20: Foto do coletivo de designer fazendo gambiologia em uma caixa de charutos ...............................................................................................91 Figura 21: Foto de espaço do movimento MetaReciclagem que transforma doações de computadores sem uso em novas máquinas, robôs ou peças de artesanato e de arte..............................................................92 Figura 22: Imagem de cartaz do MetaReciclagem ................................................95 Figura 23: Página do site Reciclo Metais ..............................................................98 Figura 24: Carta do segundo Natal da Eletrorreciclagem......................................99 Figura 25: Vista da Área de Reciclagem em Jundiaí.............................................137 Figura 26: Coletores seletivos instalados em área externa da empresa ...............137 Figura 27: Vista interna da Área de Reciclagem. Ao lado esquerdo as prensas enfardadeiras .......................................................................................138 Figura 28: Foto de fardos de papelão....................................................................138 Figura 29: Geração de resíduos recicláveis e não recicláveis em tonelada ..........139 Figura 30: Percentual de resíduos recicláveis e não recicláveis ...........................139 Figura 31: Porcentagem mensal da geração de resíduos recicláveis e não recicláveis.............................................................................................140 Figura 32: Classificação dos resíduos recicláveis gerados na empresa ...............140 Figura 33: Resíduos recicláveis gerados na produção (kg/produto produzido).....141 Figura 34: Ciclo de descaracterização de um desktop ..........................................142 Figura 35: Resíduos gerados são colocados separadamente em caixas coletoras .. 143 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Características do Sistema produto-serviço...........................................60 Tabela 2: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................67 Tabela 3: Total de empréstimo de equipamentos tratados pelo CEDIR-USP em 2010..70 Tabela 4: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................71 Tabela 5: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................85 Tabela 6: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................90 Tabela 7: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................93 Tabela 8: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso...........................97 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................15 1 O LIXO COMPUTACIONAL E O DESIGN NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA..20 1.1 O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, O HOMEM E A INDÚSTRIA.........20 1.2 A PRODUÇÃO E O DESIGN ...........................................................................28 1.3 A OBSOLESCÊNCIA TECNOLÓGICA ............................................................32 1.4 O LIXO COMPUTACIONAL, UM PROBLEMA AMBIENTAL............................38 1.5 O DESIGN COMO ATIVIDADE PROJETUAL..................................................41 2 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO PROJETUAL PARA UM DESIGN SUSTENTÁVEL..................................................................................................44 2.1 ATIVIDADES E ELEMENTOS PROJETUAIS NO DESIGN .............................44 2.2 METODOLOGIAS PROJETUAIS PARA O DESIGN SUSTENTÁVEL.............54 2.2.1 Sistema produto-serviço ............................................................................57 2.2.2 Comunidades criativas ...............................................................................60 2.2.3 Inteligências coletivas e auto-organização...............................................62 3 O DESIGN EM ESTUDOS DE CASOS SOBRE AÇÕES DE LIXO COMPUTACIONAL EM SÃO PAULO................................................................66 3.1 A EXPERIÊNCIA DA USP: CEDIR ..................................................................69 3.2 CONHECENDO A REALIDADE DA INDÚSTRIA ITAUTEC EM JUNDIAÍ .......79 3.2.1 Caso de descarte e reciclagem: logística reversa....................................82 3.3 CASO METARECICLAGEM.............................................................................86 3.4 CASO EMPRESA PARTICULAR: RECICLO METAIS .....................................96 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................101 REFERÊNCIAS......................................................................................................104 APÊNDICES ..........................................................................................................111 ANEXOS ...............................................................................................................131 15 INTRODUÇÃO O homem está inserido em uma sociedade repleta de anseios e necessidades. Para saná-los, é necessário que se interfira na natureza (LOBACH, 2001). Frutos dessa interferência desenfreada são, por exemplo, as demasiadas catástrofes ambientais, que, segundo Manzini e Vezzoli (2008), formaram o contexto para o surgimento do termo “sustentabilidade ambiental”. É nesse sentido que atualmente se considera imprescindível pensar acerca da questão da sustentabilidade. Embora, no início da pesquisa, a intenção fosse pesquisar assuntos concernentes à arte com sucata, a sustentabilidade demonstrou sua relevância, principalmente a partir do estudo da obra de Mcdonough e Braungart, no livro Cradle to Cradle (2002). Para abordar essa questão, foram analisadas ações que estão sendo implantadas visando um design inventivo e transformador, em que a sociedade demonstra que é colaborativa e tem aprimorado soluções inovadoras para novos modos de vida, a partir da recombinação de elementos existentes – o que pode ser considerado criativo1. O lixo computacional é alvo de frequente obsolescência devido à grande atualização tecnológica da indústria que estimula a substituição constante de equipamentos. Devido a essa obsolescência, esse tipo de lixo é escopo de muitas ações sociais que levaram, portanto, a ser este o assunto principal desta pesquisa. Analisar as ações que a sociedade tem buscado diante do problema do lixo computacional é de extrema importância, já que se tratam de estratégias metodológicas que têm resolvido, pelo menos parcialmente, o problema da obsolescência. É imprescindível atualmente discutir e avaliar a viabilidade desse modo de produção que gera constantemente lixo, bem como a questão de outros destinos apresentados como possíveis ao lixo computacional. Segundo Jacobi e Teixeira (1998), o design precisa ser pensado em relação à ideia de responsabilidade, ou seja, buscando agir com sustentabilidade e desempenhando um papel articulador entre discursos e práticas. Essa responsabilidade do design leva em conta os modos 1 De acordo com Manzini e Vezzoli (2008), a sociedade se organiza de forma colaborativa e essa capacidade de reorganização de novas e significativas combinações é uma das possíveis definições de criatividade. 16 de produção e o fato de terem gerado crises ambientais, econômicas e também sociais, o que, sem dúvida qualifica a necessidade de refletir e encontrar ações que revertam esses problemas instaurados na sociedade. Sendo assim, um dos grandes pontos de relevância desta pesquisa é avaliar quais as destinações possíveis desse tipo de lixo, além de verificar sua validade e formas de utilização na sociedade. Essas ações fazem com que esta pesquisa auxilie a reunir o escasso conhecimento existente sobre este assunto. É importante ressaltar que o design, além de projetar um produto, tem a responsabilidade de pensar no ciclo de vida do mesmo. Deve considerar, ainda, os produtos já instaurados na dinâmica da sociedade, entendendo quais metodologias podem ser buscadas para resolver o problema da obsolescência, que é um fato crucial diante da grande quantidade de produtos inseridos no mercado. As metodologias sustentáveis vem ao encontro de tais responsabilidades na concepção dos produtos, dentre elas convém destacar como exemplo o sistema produtoserviço; as comunidades criativas. as inteligências coletivas; e a auto-organização. Tais metodologias são desenvolvidas pela sociedade – pessoas físicas e jurídicas – bem como por entidades com fins sociais que encontram formas de lidar com o lixo computacional na sociedade. Essas metodologias estão desenvolvidas no corpo deste trabalho e, apesar de serem limitadas e não resolverem completamente o problema ambiental, são válidas e atuais, até porque os estudos de casos são de brasileiros que relatam como a sociedade contemporânea tem tratado o problema da obsolescência do lixo computacional. Por isso, entende-se que essas ações sejam muito bem-vindas à sociedade, por estarem cuidando do problema ambiental, mesmo que algumas delas não ajam plenamente com esse intuito. A fim de analisar a fundo essas ações, este trabalho optou pela pesquisa de campo por sua relação à observação de ações e fenômenos reais e atuais, à coleta de dados referentes aos mesmos e, finalmente, à análise e interpretação desses dados. Para atingir esse objetivo, a investigação dos casos partiu dos seguintes materiais: publicações em sites relacionadas às ações referentes ao problema pesquisado; publicações de redes (como MetaReciclagem); entrevistas com pessoas envolvidas e interessadas no assunto. A partir da pesquisa de campo buscou-se uma fundamentação teórica que priorizasse as metodologias projetuais que objetivam compreender e explicar o 17 problema pesquisado. Da relação entre a pesquisa de campo e a fundamentação foram geradas discussões a fim de desenvolver conteúdos para essa área – tão carente de material bibliográfico específico e condizente com a realidade do nosso país. O que se verificou é que muitas das publicações disponíveis concentram-se em aspectos conceituais do processo ou mesmo no produto final resultante. Contudo, o processo em si – a atividade processual e as metodologias encontradas pelas pessoas interessadas no assunto – ainda é pouco explorado. Essas metodologias encontradas pela sociedade civil, entre outras situações, geram ações projetuais capazes de minimizar o problema do lixo. Por isso, primeiramente será abordada a questão do consumo do homem e do descarte na natureza como uma ação de interesse global que deve buscar soluções locais, pois o desenvolvimento sustentável é um processo contínuo de melhoria das condições de vida. Dessa forma, será discutido como o design deve estar voltado à sustentabilidade e como carece encontrar um equilíbrio entre o homem e a natureza. Por isso, a pesquisa levou a entender que diversas faces da sociedade devem ser movimentadas em razão de ações sustentáveis e mobilizadas com a questão da obsolescência, pois os avanços tecnológicos fazem parte do desenvolvimento atual da sociedade e exigem inovação e organização em metodologias. Esta deve ser a visão contemporânea de um designer – o que reforça a importância da atividade projetual – sobretudo, em sua busca de maneiras de compor, criar e organizar ambientalmente seus projetos de forma correta. Após essa discussão, o enfoque é a situação do produto após o descarte, quando se torna lixo, e a busca de compreender quais são as metodologias desenvolvidas com o objetivo de resolver a obsolescência programada, usando resíduos como recursos, como indicam Mcdonough e Braungart (2002). Serão analisadas atividades que se relacionem com as metodologias: sistema de produtos e serviços; comunidades criativas e a cooperação entre grupos que interagem com atividades culturais; formas organizadas e modelos econômicos que intercedem entre dimensões locais e globais. É perceptível que para resolver parte do problema da destinação do descarte, a sociedade pode intervir junto ao designer, apresentando formas de minimizar o lixo, adotando soluções sustentáveis e indicando metodologias, o que poderá ser observado nos estudos de caso 18 analisados em seguida. Estas ações isoladas, mas organizadas, são formas contemporâneas de a sociedade auxiliar o designer. A disposição do homem para criar respostas e resolver problemas, diante do acúmulo de lixo computacional, é de extrema importância. São soluções criadas e disseminadas que encontram formas de desenvolvimento sustentável, que, embora fossem responsabilidade da indústria, estão sendo desenvolvidas pela sociedade civil. Essas soluções foram analisadas em estudos de casos, que podem se apoiar numa orientação teórica, como também seguir uma perspectiva interpretativa, procurando compreender como é o mundo do ponto de vista dos participantes. Esta foi a forma escolhida para a pesquisa, objetivando proporcionar uma perspectiva ao mesmo tempo local e global, completa e coerente do objeto de estudo. Entre os estudos de casos, encontram-se naturalmente ações com características muito semelhantes à forma de pensar no desenvolvimento sustentável, desenvolvendo atividades projetuais. Um dos estudos apresentados relata as experiências da Indústria Itautec de Jundiaí que tem encontrado formas de minimizar a situação do lixo computacional por meio de um centro de descarte e de normas estabelecidas. A Indústria Itautec enquadra-se na metodologia de Ciclo de Vida de Produtos por se preocupar com a fabricação dos mesmos e atentar ao problema do descarte, que são encaminhados a centros adequados para sua reutilização. Também é analisado o caso do CEDIR (centro de descarte organizado pela Universidade de São Paulo), o qual, sentindo o problema da obsolescência computacional, buscou uma posição diante do fato, adotando a metodologia de Sistema produto-serviço. O centro arrecada, separa e encaminha a centros de Reciclagem e fornece empréstimo a grupos necessitados por tempo determinado. Outro caso analisado de grupo social, que busca ações para solucionar o problema do lixo computacional, foi o da MetaReciclagem. Trata-se de um coletivo de pessoas que trocam informações on-line em todo o Brasil, compartilhando experiências como apropriação, remontagem de computadores, gambiarra, entre outras ações. A MetaReciclagem se encaixa na metodologia de comunidades criativas, de inteligências coletivas e de auto-organização de sociedades que intervêm em todo o processo. O estudo avançou também para um caso da Reciclo Metais, empresa particular que, embora vise o lucro por meio do lixo computacional, respeita a 19 questão ambiental, seguindo normas que resolvem, em parte, a obsolescência computacional, obtendo sucesso com a metodologia de ciclo de vida de produtos. O que se observa é que a sociedade tem buscado formas de minimizar a situação do lixo existente. A posição dos design diante dessas novas ações se alterou, não ficando apenas na responsabilidade de executar o projeto do produto, mas, sim, analisar todo o processo, desde o nascimento até a morte do produto, ou seja, desde a extração de matérias-primas até o descarte. Desta forma, o design assume direções distintas na contemporaneidade, as quais se confrontam com a complexidade da sociedade organizada que intervém e desenvolve fenômenos de criatividade inseridos no contexto de vida atual. Assim, o resultado global acontece por meio de ações elaboradas em sociedades locais inseridas no mundo e o design torna-se parte ativa nos processos de transformação em ação e naqueles que estão por vir, diante de tantos e complexos desafios que o futuro nos reserva. No entanto, é necessária uma transformação não só na esfera tecnológica, mas, sobretudo, na social – nos comportamentos, hábitos e modos de viver. 20 1 O LIXO COMPUTACIONAL E O DESIGN NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 1.1 O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, O HOMEM E A INDÚSTRIA O homem tem buscado soluções para o problema ambiental, mas somente reconhecer e compreender não são atitudes suficientes para esgotar e solucionar os problemas existentes. É necessário buscar ações que revertam o quadro de crise ambiental instaurado na sociedade. Por esta razão, atualmente se debate o termo desenvolvimento sustentável2. Este conceito surgiu a partir de estudos da Organização das Nações Unidas (ONU)3 sobre as mudanças climáticas, como um retorno para a humanidade perante a crise social e ambiental pela qual o mundo começou a passar na segunda metade do século XX. Na conferência das Nações 2 O conceito de desenvolvimento sustentável, segundo Jacobi (1999), surgiu com a publicação do relatório “Nosso Futuro Comum” em 1987, e ganhou, ao longo dos anos, crescente importância nas políticas nacionais, internacionais e corporativas. 3 A Organização das Nações Unidas, também conhecida pela sigla ONU, é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundial. <http://www.suapesquisa.com/geografia/onu.htm>. Acesso em: 15 nov. 2011. 21 Unidas – também chamada de Eco Rio 924 – foi desenvolvido um relatório que se tornou conhecido como “Nosso Futuro Comum”5. Neste relatório, difundiu-se o conceito de desenvolvimento sustentável que Jacobi (1999) aponta como: “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras atendendo suas próprias necessidades”. Manzini e Vezzoli (2008) enfatizam que no sistema local e global em que as atividades humanas acontecem, o homem não deve interferir nos ciclos naturais, promovendo e permitindo o equilíbrio do planeta, sem destruir o que será delegado às gerações futuras. A partir dessa visão de desenvolvimento sustentável, é importante ressaltar que nenhuma ação isolada é capaz de resolver uma situação tão complexa como essa, que envolve desenvolvimento econômico, produção, consumo e descarte na natureza, ocasionado pela troca de um bem por outro mais atualizado. Diversas faces da sociedade devem ser movimentadas em prol de ações sustentáveis e mobilizadas com a questão da obsolescência. Nesse sentindo, Jacobi e Teixeira (1998, p. 60), sugerem uma solução: O momento atual exige que a sociedade esteja mais motivada e mobilizada para assumir um caráter mais propositivo, para questionar de forma concreta a falta de iniciativa dos governos em programar políticas pautadas no binômio de sustentabilidade e desenvolvimento. Desde que a sociedade resolveu discutir a questão desenvolvimento sustentável, o design passou a ser repensado, segundo Jacobi e Teixeira (1998), como uma ideia de força integradora, ou seja, o designer é responsável pelo produto de maneira totalizadora. Dessa forma, nesse novo enfoque da busca pela sustentabilidade, ele tem um papel articulador de discursos e de práticas e segue uma matriz única originada pela existência de uma crise ambiental, econômica e também social o que qualifica a necessidade de refletir e encontrar ações que revertam o problema instaurado na sociedade. É importante lembrar que o 4 5 O Eco Rio92 foi uma Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada entre 3 e 14 de junho de 1992, no Rio de Janeiro. O seu objetivo principal era buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Foi nessa conferência que surgiu o termo desenvolvimento sustentável. <http://pt.wikipedia.org/wiki/ECO-92>. Acesso em: 15 nov. 2011. Segundo Jacobi (1999), o relatório Nosso Futuro Comum é o resultado de uma comissão da ONU e parte da abordagem da complexidade das causas que originam os problemas sociais e econômicos da sociedade global. 22 desenvolvimento sustentável não se opõe ao desenvolvimento econômico6, até porque o fator econômico é indispensável para o atendimento das necessidades da sociedade. O desenvolvimento sustentável deve surgir como um facilitador de integração de valor a novos produtos e serviços no momento em que reduz o consumo de recursos e de energia. Assim, ele aparece como uma forma de equilibrar ganhos econômicos, sociais e ambientais da sociedade. Na figura 1, ICLEI7 e IDRC8 (1996) desenvolveram o gráfico dos três processos de desenvolvimento sustentáveis necessários às reais necessidades da sociedade e suas atribuições, o que gera a conexão entre sociedade, economia e o meio ambiente. Figura 1: Vertentes do desenvolvimento sustentável Fonte: ICLEI e IDRC (1996 – adaptado). O que se percebe ao analisar esse diagrama é que a relação entre o desenvolvimento nos âmbitos econômico, social e ambiental é essencial para o desenvolvimento sustentável. Manter as engrenagens do capitalismo funcionando, 6 7 8 Segundo Souza (2005), o desenvolvimento econômico envolve, além da melhoria de indicadores econômicos e sociais, a questão da preservação do meio ambiente. ICLEI – Conselho Internacional de Iniciativas Internacionais Locais promove encontros e formas sustentáveis. O ICLEI desenvolveu uma estrutura para orientar os governos e as comunidades locais nos seus planos de ação para o desenvolvimento sustentável, de acordo com resultados de projetospiloto criados e aplicados pelo próprio ICLEI. <http://www.agenda21local.com.br/nap2.htm>. Acesso em: 15 nov. 2011. IDRC – Modelo comunidade programada, uma espécie de supervisor das ações que envolvem a sustentabilidade. <http://www.agenda21local.com.br/nap2.htm>. Acesso em: 15 nov. 2011. 23 concomitante ao respeito à natureza e ao bem-estar social é o que caracteriza o desenvolvimento sustentável. É imprescindível, portanto, que todos os fatores sejam considerados, até porque o desenvolvimento econômico sustenta a economia, maximiza o lucro, expande mercados e revê custos. Já o desenvolvimento social, além de satisfazer as necessidades humanas e aumentar a autoconfiança do indivíduo, oferece um aumento de equidade, garantia de participação, responsabilidade e uso de tecnologias apropriadas. Por outro lado, o desenvolvimento ambiental está relacionado ao respeito pela qualidade de carga, conservação e reciclagem de recursos e redução da produção de resíduos. A ausência de qualquer um desses fatores é fatal para o sistema em termos de sustentabilidade – basta recordar a Revolução Industrial em que somente o fator econômico foi priorizado. É impossível imaginar, porém, uma sociedade que não seja movida por fatores econômicos. Nesse sentido, o diagrama demonstra que um sistema que não considere o fator econômico é uma utopia. Assim, ao considerar esses três fatores, o sistema pode funcionar de forma sincronizada e interligada rumo à sustentabilidade. Convém destacar que o avanço das tecnologias e dos meios de comunicação é parte essencial do contexto da busca pela sustentabilidade, Essas tecnologias envolvem as pessoas e alteram traços de comportamento profissional e pessoal, responsáveis por aumentar experiências de colaboração, interatividade e autonomia na participação ativa da construção de conhecimentos e projetos. O designer está inserido nessas mudanças já que é o criador dos produtos adquiridos pelas pessoas – os consumidores – e, nesse sentido, pode agir aproximando o homem do consumo consciente, ético, responsável e sustentável. A sociedade necessita de um consumo mais responsável9 e que respeite o meio ambiente. Para isso, precisa estar consciente do impacto que o consumo diário provoca no ambiente e saber qual é a sua responsabilidade tanto individual quanto social na preservação dos recursos naturais. Para saber o que está consumindo de forma correta, o homem pode exigir garantias em relação ao produto adquirido. Entre elas: a verificação da procedência; da forma de produção; e o selo de garantia 9 Segundo Della Giustina (2004, p. 160) fala-se muito em consumo mais sustentável, mas o autor acredita não ser o meio ambiente natural que se encontra em crise. Hoje o homem vive uma crise de valores, que gera outras crises em diferentes setores de nossa sociedade, como o consumo que gera ameaça ao meio ambiente. 24 e qualidade final. Para isso, a ABNT ISO 14020 (2002) explicita que rótulos e declarações ambientais fornecem informações sobre um produto ou serviço em termos de suas características ambientais gerais, ou de um ou mais aspectos ambientais específicos. Além disso, o homem deve questionar sobre o destino de descarte do produto quando não for mais útil, informação que poderia estar no rótulo no momento da compra. Essa atitude para com a conservação dos recursos naturais e minimização de impactos ambientais deve ser discutida e exigida pelo consumidor e faz parte da nova dinâmica que a contemporaneidade propõe sobre o desenvolvimento sustentável, como demostrou o diagrama da Figura 1. Segundo Rolim (2003), o assunto meio ambiente vem se tornando uma preocupação crescente da sociedade que visa o desenvolvimento sustentável – principalmente o setor empresarial. Nesse sentido, é necessário que a empresa adote medidas que alterem o seu comportamento e que sejam estabelecidas, como sugere Barata (1995), por metas e produtividade, acompanhadas de indicadores de qualidade no processo produtivo, na prestação de serviço, no produto e nas condições ambientais. Esse desenvolvimento sustentável buscado pela sociedade e pelas empresas deve seguir o modelo não-linear. Para Giacomini Filho (2008, p. 6), é preciso “disseminar um sistema econômico que saia do modelo linear, fundamentado no consumo e descarte, para circular do berço ao berço (Cradle to Cradle), baseado no reaproveitamento”. Entende-se o modelo linear de produção errado por sua insustentabilidade e é representado pela Figura 2: Figura 2: Modelo linear de produção Fonte: Kazazian (2005, p. 52). 25 Esse modelo linear é também chamado de Cradle to Grave (do berço à sepultura) pelos autores Mcdonough e Braungart (2002), já que o destino final dos produtos é o aterro sanitário e suas potencialidades não são aproveitadas. Esse é o modelo atual empregado, de forma linear, que começa com um esgotamento de recursos da natureza e termina no aumento de resíduos a serem descartados, o que demonstra ser insustentável. Atualmente, refletir a situação do mercado global quanto à questão ambiental torna-se fundamental em termos de design, buscando uma nova geração de produtos e serviços baseados em novos valores e novos padrões de qualidade. Kazazian (2005) aponta que o modelo sustentável que deve ser adotado atualmente é o circular, representado pela Figura 3: Figura 3: Modelo circular de produção Fonte: Kazazian (2005, p. 53). Conforme aponta o autor na Figura 3, o desenvolvimento de produtos é sustentável quando gera um ciclo de vida para os mesmos e que não inclua o descarte. Os autores Mcdonough e Braungart (2002) nomeiam esse ciclo de vida como Cradle to Cradle (do berço ao berço), já que as matérias-primas oriundas do “berço” serão reutilizadas ao fim de um ciclo de vida, como se saíssem do “berço” outra vez. Os autores consideram esse modelo imprescindível à sociedade10. Este modelo, se seguido, passa a ser um exemplo de sustentabilidade em design, e, se implantado, pode provocar uma mudança de paradigma na sociedade. Atualmente, 10 William McDonough, arquiteto e designer, e Michael Braungart, químico e ex-ativista do Greenpeace, autores do livro Cradle to Cradle (2002), o qual defende que os resíduos não podem ser considerados lixo e trazem outra forma de pensar os resíduos, qualificada por eles como “berço ao berço”. 26 criou-se uma cultura ambiental quanto ao descarte, que acredita no potencial da reciclagem. Apesar da geração de empregos benéfica à sociedade, em termos ambientais, a reciclagem é equivocada, por demandar mais energia e não retirar as matérias-primas de circulação. Porém, até que se adotem tecnologias que recuperem resíduos e que sejam capazes de aproveitar ao máximo a matéria-prima (obtendo ganhos ambientais e econômicos, evitando o descarte), a reciclagem será usada como solução temporária. De qualquer forma, convém ressaltar que é mais eficiente diminuir a geração de resíduos. Para isso, a indústria deve ser reformulada, o que não é uma tarefa simples. Os autores Mcdonough e Braungart (2002, p. 20)11 enfatizam a complexidade necessária para a reformulação da indústria e afirmam: “como qualquer mudança de paradigma12, essa encontrou resistência”. Eles relatam que: “os projetos do berço ao túmulo (Cradle to Grave) dominam a manufatura moderna” (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2002, p. 27)13, e apontam que isso é característico do modo de produção atual: “de fato, muitos produtos são feitos já predestinados a ficarem obsoletos, para durarem apenas certo período de tempo, para permitir e encorajar o cliente a ficar longe dele, e comprar um modelo novo” (MCDONOUGH; BRAUNGART, 2002, p. 28)14. Manzini e Vezzoli (2008, p. 182) reiteram a ideia do problema da geração de novos produtos seguida da necessidade da obsolescência dos produtos antigos: Um produto que é mais durável que outro, exercendo a mesma função, determina geralmente um impacto ambiental menor. Se um produto dura menos, ele de fato não só gera precocemente mais lixo, mas determina também outros impactos indiretos, como a necessidade de ter que substituí-lo. Essa questão do consumo e descarte na natureza tem sido discutida, além de haver um interesse global pela busca de soluções. Rattner (1994, p. 4) enfatiza que 11 12 13 14 Tradução nossa a partir de: As it happens in any change of paradigm, the one foun resistance. Segundo Kuhn (1975), “paradigmas são realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, oferecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”. Traduzido nossa a partir de: Cradle-to-grave designs dominate modern manufacturing. Tradução nossa a partir de: In fact, many products are designed with “built-in obsolescence”, to last only for a certain period of time, to allow – to encourage – the costumer to get rid of the thing and buy a new model. 27 o entendimento do “desenvolvimento sustentável não é uma finalidade a se alcançar, mas um processo contínuo de melhoria das condições de vida”. Desta forma, o design, para a sustentabilidade atual, assim como outras vertentes da sociedade, deve encontrar um equilíbrio entre o homem e a natureza. Segundo Manzini (2008, p. 27): A transição rumo à sustentabilidade é um processo de aprendizagem a que seremos, gradualmente, submetidos e que consiste em viver melhor consumindo menos e regenerando a qualidade do ecossistema global e dos contextos locais em que estamos inseridos. Embora de épocas diferentes, Rattner (1994) e Manzini (2008) entendem a sustentabilidade como uma continuidade, uma aprendizagem constante, que objetiva a melhoria de qualidade de vida. Manzini e Vezzoli (2008, p. 27) a definem da seguinte forma: O conceito de sustentabilidade ambiental refere-se às condições sistêmicas segundo as quais, em nível regional e planetário, as atividades humanas não devem interferir nos ciclos naturais em que se baseia tudo o que a resiliência do planeta permite e, ao mesmo tempo, não devem empobrecer seu capital natural, que será transmitido às gerações futuras. Hoje o designer não trabalha mais sozinho, são diversos atores envolvidos no processo. Segundo Manzini (2004, p. 17), é necessário pensar “o design em um mundo fluido”. O que significa que os designers têm que se transformar em profissionais que atuam dentro de uma organização, assumindo o papel de fornecer um processo de inovação. “[...] Ao tratar de soluções sustentáveis, a atividade de design que impulsiona o processo de inovação deve ser facilitada pelos designers, ao invés de ser diretamente realizada por eles” (MANZINI, 2004, p. 20). Essa afirmação do autor enfatiza a função projetual do designer – esse profissional deve desenvolver ideias por meio de projetos que devem ser realizados por outros profissionais dedicados à produção. Neste sentido, é fato que o design é uma atividade que envolve diversos atores, e Niemeyer (2000, p. 22) confirma essa questão dizendo que: “projeto é o meio profissional, equacionando, de forma sistêmica, dados da natureza ergonômica, tecnológica, econômica, social, cultural e 28 estética e respondendo concreta e racionalmente às necessidades humanas”. O design, portanto, deve atuar na produção como uma atividade projetual focada no desenvolvimento sustentável, como forma de equilibrar a natureza e os aspectos econômicos, sociais e ambientais, buscando, portanto, ações sustentáveis para resolver o problema da obsolescência. 1.2 A PRODUÇÃO E O DESIGN O modelo em série que a indústria vem utilizando desde o século XIX trouxe impactos positivos e negativos para a estrutura da sociedade. Gerou desenvolvimento, porém acabou visando exclusivamente o aspecto econômico deixando a preocupação ambiental em segundo plano. Isso causou danos que se refletem na atualidade. Desde o início da Revolução Industrial, a produção cresceu com a quantidade de produtos diversificados em sua composição que não foram devidamente planejados, o que evitaria o descarte. Nesse aspecto, Margolin e Margolin (2004, p. 43) afirmam que “desde a Revolução Industrial, o paradigma do design dominante tem sido o de desenhar para o mercado”, isto é, são considerados, sobretudo os fatores econômicos e não os ambientais na geração de produtos. Diferentemente do que se pensou naquele período, o design enquanto área de conhecimento e também de produção atualmente deve levar em conta diversos fatores além dos econômicos, entre eles, os fatores ambientais. Papanek (1997, p. 31) afirma que o design deve servir de “ponte entre as necessidades humanas, a cultura e a ecologia”15 (o termo ecologia tratado nesse momento, diz respeito ao aspecto ambiental). O design enquanto área de conhecimento, é formado por saberes de outras áreas – tais como: arte, ciência e filosofia. Niemeyer (2000, p. 23) corrobora esta opinião revelando que o design é a “[...] atividade científica de projetar, integrando várias áreas de conhecimento, estabelecendo relações múltiplas para a solução de produção de objetos que tem por alvo final atender às necessidades do homem e da comunidade”. Monat, Campos e Lima (2008) apontam esta ideia no esquema da Figura 4: 15 Tradução nossa a partir de: puente entre las necesidades humanas, la cultura y la ecología. 29 Figura 4: Diagrama do design Fonte: Monat, Campos e Lima (2008). O diagrama revela o objetivo do design em compreender os conhecimentos específicos gerados por outras áreas de conhecimento e fundi-los de modo a modelá-los para construir um conhecimento específico em design. É possível, dessa forma, criar objetos de uso para a sociedade e observar que a produção não acontece de forma isolada – são considerados outros fatores. Parte-se de um contexto social e não apenas de um contexto econômico, como aconteceu na Revolução Industrial. As diversas áreas do conhecimento podem, portanto, contribuir atualmente para a função inovadora que o design possui, evitando o descarte. Além disso, Verganti (2009) enfatiza que se o homem fizer a fusão de conhecimentos específicos gerados por outras áreas do saber, pode proporcionar uma inovação dirigida pelo design, baseada na capacidade do designer de atuar em organizações na sociedade, revendo materiais, tecnologias, significados e linguagens. Se isto acontecer, provocará mudanças na sociedade e não só a produção será focada, como todo o processo do produto no mercado será revisto para que não ocorram resíduos na natureza. Segundo Manzini (1986, p. 2), o desenvolvimento das diferentes áreas da sociedade e o acelerado progresso de novos materiais vieram contribuir para que o designer “compreendesse cada vez menos a matéria-prima em todos os seus aspectos possíveis, técnicos e sensoriais”. Sob esta afirmação, entende-se que o homem planeja e executa, pensando no fator econômico, sem contabilizar os efeitos que o material utilizado pode causar à natureza no futuro, quando descartado. Esse é o modelo usado atualmente, o que é um erro. O designer tem a responsabilidade de pensar em projetos que visem o ciclo de vida de um produto, para evitar a geração de lixo, afinal, de acordo com Papanek (1997, 30 p. 17), “[...] o design está diretamente ligado às questões ambientais”16, e o designer não pode se esquecer disso, pois é o gerador de produtos e o responsável direto pelo futuro deles. Pensar na matéria-prima e seu subsequente descarte são funções imprescindíveis do design. Almeida et al. (1999, p. 95) enfatizam a necessidade dos designers repensarem os produtos, desenvolvendo ações pautadas nos aspectos ambientais, para que os danos ocorridos no passado não se repitam. Além disso, destacam que: Enfeitiçados pela ilusão do progresso, deixamo-nos enganar pelo aumento indiscriminado da produção econômica, que prometeu trazer a felicidade e o bem-estar coletivo. Durante as quatro últimas décadas, entretanto, a degradação ambiental em macro escala e os efeitos cumulativos decorrentes da perda de 24 bilhões de toneladas de solo fértil, foram mais do que evidências suficientes para o esclarecimento de que tudo não passou de um grande engano. Atualmente, considerar uma fábrica desenvolvida pelos seus feitos de produção, não é o suficiente. Os autores ressaltam a necessidade de considerar o meio-ambiente: “os modelos de desenvolvimento que não contemplam o meio ambiente nas suas diretrizes e metas, provaram a sua insustentabilidade” (ALMEIDA et al., 1999, p. 80). A insustentabilidade, no entanto, é reflexo de um período histórico, já que, desde o primeiro período da Revolução Industrial, o meio ambiente era visto como acessório do desenvolvimento e não como parte intrínseca a ele. Jacobi (1997) afirma que, para haver a sustentabilidade, é necessário uma interrelação necessária de justiça social, qualidade de vida, equilíbrio ambiental e a ruptura com o atual padrão de desenvolvimento. Acredita-se que esse fator esteja sendo implantado aos poucos pelo homem, mas ainda caminha a curtos passos. Observa-se que os recursos naturais são extraídos atualmente sem nenhum planejamento com relação à sustentabilidade e sem um pensamento futuro sobre a continuidade desses recursos em longo prazo. Este ainda é, porém, um desafio no presente que está sendo implantado aos poucos e o designer tem o papel de pensar em maneiras de projetar que visem todo processo de produção e a vida útil do produto. Da mesma forma, não deve considerar apenas o produto que sai da fábrica, 16 Tradução nossa a partir de: “[...] el diseño está directamente relacionado con las cuestiones ambientales”. 31 mas também adotar ações que resolvam a obsolescência dos produtos que hoje se encontram sem solução no mercado. Bezerra (2008, p. 42) confirma este aspecto: O que antes era percebido como um processo para se chegar a uma única solução, agora é percebido como dependente do contexto e capaz de produzir múltiplas soluções. O que entendíamos como problemas técnicos, são agora entendidos como problemas éticos, ambientais e até políticos. O processo que antes estava centrado em apenas um agente, na maioria das vezes o criador ou designer, tem agora foco em um complexo sistema de agentes adaptativos, tais como os usuários, o meio ambiente, a cultura, a tecnologia, os mercados e outros. O design deve atuar, considerando aspectos éticos, ambientais e políticos. Dessa forma, é imprescindível avaliar o mercado que atingirá o tipo de cultura em que ele está inserido e o tipo de descarte que o produto terá. Nesse sentido, Mcdonough e Braungart (2002, p. 18-19) chamam a atenção para o modelo utilizado, desde a Revolução Industrial: Na verdade, a Revolução Industrial num todo não foi realmente projetada. Ela tomou forma gradualmente, enquanto os industriais, engenheiros e designers tentavam resolver problemas e tirar vantagem imediatamente do que eles consideravam ser a oportunidade em um período sem precedentes de mudança rápida e massiva.17 Os autores Mcdonough e Braungart (2002) revelam a fragilidade com que a Revolução Industrial foi constituída. Segundo eles, o berço (cradle) está nas matérias-primas extraídas do ambiente terrestre e a sepultura (grave) são lixeiras, aterros, incineradoras que ainda ocorrem até nossos dias e que acumulam lixo no meio ambiente. Essa é a forma de desenvolvimento de produção atual, os materiais produzidos saem do berço e seguem até a sepultura, no modelo “Cradle to Grave”. O designer tem uma responsabilidade com relação a isso e deve tomar providências. Carson (1964, p. 8) afirma: “Afinal a escolha é nossa [...] Não podemos mais aceitar os conselhos daqueles que dizem que deveríamos atulhar nosso 17 Tradução nossa a partir de: In fact, the Industrial Revolution as a whole was not really designed. It took shape gradually, as industrialists, engineers, and designers tried to solve problems and to take immediate advantage of what they considered to be opportunities in an unprecedented period of massive and rapid change. 32 mundo com produtos químicos venenosos, temos que olhar à nossa volta e procurar um novo caminho”. O principal alerta é para que a sociedade desperte e desenvolva atitudes ambientais que busquem um novo caminho diferente daquele adotado de forma equivocada. Desta forma, o design deve trabalhar no processo enquanto projeto para estabelecer metas, conceitos e desenvolver metodologias capazes de mudar os rumos do desenvolvimento sustentável. A indústria deve rever seus métodos de produção, primando para que o produto desenvolvido tenha vida útil e destinação pós-vida, ou seja, preocupando-se com o descarte de lixo depositado na natureza, mas enquanto isso não ocorre, ações sustentáveis e mobilizadas com a questão da obsolescência é o caminho para o design. Bonsiepe (1997, p. 141) confirma esse pensamento relatando que: “Um país que pretenda ser um ator e não um espectador marginalizado terá que fazer do design um pilar para suas atividades tecnológicas e comerciais”. Esta citação ordena uma reorganização urgente do sistema atual, tendo o design a responsabilidade de encontrar soluções ao desenvolvimento de produtos evitando problemas ambientais na sociedade. Atualmente, deve-se entender como o design pode agir e desenvolver projetos pautados na realidade em que se vive. O design deve colaborar para que se evite ou que se desenvolva alguma ação com o descarte e não prime apenas pela estrutura estética como referencial, mas que vise atividades processuais revendo fatores econômicos, tecnológicos, ambientais e humanos em busca da sustentabilidade. O avanço tecnológico será discutido a seguir, pois é de suma importância entender a obsolescência de produtos industriais colocados no mercado, inclusive no âmbito do lixo computacional que é o foco da pesquisa, visto que foram analisados estudos de caso de ações da sociedade com lixo computacional como um problema ambiental para o design. 1.3 A OBSOLESCÊNCIA TECNOLÓGICA A tecnologia vem se desenvolvendo em níveis incomparáveis. Um exemplo disso é um dado da ABINEE 18 , referente ao aumento da venda de notebooks, que apresentou um crescimento de 186% no primeiro semestre de 2008, resultando em 18 Dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE). Avaliação Setorial - 2º Trimestre 2008. Disponível em: <http://www.abinee.org.br/abinee/decon/decon11.htm>. Acesso em: 2 dez. 2011. 33 1,09 milhões de notebooks vendidos. Este fenômeno por meio do crescimento positivo da economia brasileira (através de emprego e renda) e a queda dos preços desta tecnologia em relação aos computadores. Em 2010, o mercado de computadores no Brasil atingiu 14 milhões de unidades, superando em 17% o observado no ano anterior (12 milhões). Observa-se que o computador, como um bem tecnológico, passa por constantes inovações, o que proporciona ao mercado novas máquinas mais potentes que surgem diariamente para consumo. Porém, esse é um grande problema para o meio ambiente. Com novos produtos tecnológicos, aquilo que não é mais novidade, torna-se obsoleto e é descartado pelo homem. Sendo assim, discorrer sobre o lixo gerado pela tecnologia, em específico o computador, considerado um dos mais representativos avanços da sociedade contemporânea, é de suma importância visto que o designer é também gerador de produtos para o mercado. Esta obsolescência gerada é constante. A indústria se esforça para criar, gerando cada vez mais produtos atualizados e oferece ao consumidor possibilidades de ampliação de opções, o que faz com que, em um espaço curto de tempo, o homem troque a máquina usada por tecnologias mais avançadas. Atualmente, é necessário pensar o design como uma atividade processual – responsável por projetar, nesse caso, o objeto de pesquisa: computadores. O designer deve buscar uma matéria-prima que respeite os impactos ambientais e que complete o ciclo de vida19, inclusive, prevendo quando este artefato não mais servir ao consumidor. Barros (1993) afirma que a indiferença com esse fato, de produção e descarte, gera o lixo computacional. O autor explica que sempre há perda de materiais e energia na produção o que acarreta descarte na natureza, isto já é hábito nos processos desenvolvidos desde a fábrica. Por isso é relevante entender o que fazer com a sobra existente de lixo computacional no mercado. Nesse sentido, a indústria e os designers devem pensar no descarte do produto e, já que é do homem o poder de compra, deve pensar no bem adquirido e no bem descartado e se é viável fazer a reciclagem. Muitas vezes há perda durante o processo, por isso devese compreender quais são as possibilidades oferecidas pelos materiais, para compreender se a reciclagem é importante e benéfica à questão ambiental. O 19 Ciclo de vida do produto compreende desde a extração dos recursos naturais ou matérias-primas, necessários à sua produção, até a disposição final do produto ao fim de sua vida útil (VALLE, 2004, p. 145). 34 homem e a tecnologia andam juntos num processo cada vez mais dinâmico. Leite (2003, p. 21) afirma que ações com relação a questões ambientais, estão sendo repensadas por empresas e governos que visam minimizar problemas ambientais: O crescimento da sensibilidade ecológica tem sido acompanhado por ações de empresas e governos, de maneira reativa ou proativa e com visão estratégica variada, visando amenizar os efeitos mais visíveis dos diversos tipos de impacto ao meio ambiente, protegendo a sociedade e seus próprios interesses. Essas ações devem ser implantadas gradativamente, e, segundo Mcdonough e Braungart (2002, p. 27-28), ainda há muito que desenvolver, já que a dinâmica da indústria é ampliar produtos. Os autores acreditam que se deve pensar de outra forma o design, com uma preocupação na minimização do lixo, além de entenderem que o modelo adotado pela sociedade atualmente não funciona nesse sentido: De acordo com algumas contas, mais de 90 por cento dos materiais extraídos para fazer bens duráveis nos EUA são gastos quase imediatamente. Às vezes, o próprio produto dificilmente dura muito. É geralmente mais barato comprar uma nova versão do produto mais caro que contratar alguém para consertar o item que você tinha.20 Com o exemplo dos Estados Unidos, os autores afirmam que os produtos são criados predestinados à obsolescência já no momento de produção, e, conforme isso vai acontecendo, novos produtos são comprados e um ciclo se instala, gerando o lixo, mas vale ressaltar que se trata de algo que ocorre em todo o mundo. Segundo a ONU21, atualmente, o planeta descarta por ano 50 milhões de toneladas de resíduos de produtos tecnológicos no ambiente. Isso é um desastre. Materiais que levam séculos para se decompor na natureza, como metais tóxicos e pesados, 20 21 Tradução nossa a partir de: According to some accounts more than 90 percent of materials extracted to make durable goods in the United States become waste almost immediately. Sometimes the product itself scarcely lasts longer. It is often cheaper to buy a new version of even the most expensive appliance than to track down someone to repair the original item. Organização das Nações Unidas (ONU), ou simplesmente Nações Unidas (NU), é uma organização internacional cujo objetivo declarado é facilitar a cooperação em matéria de direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento econômico, progresso social, direitos humanos e a realização da paz mundial. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza% C3%A7%C3%A3o_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas>. Acesso em: 17 jan.2012. 35 acabam comprometendo o solo e a saúde do meio ambiente. Produtos tecnológicos possuem vida média muito curta, de dois a cinco anos, e depois viram lixo. Os metais neles empregados, em geral tóxicos, precisam de aproximadamente 500 anos para serem absorvidos pela natureza, conforme a Secretaria do Meio Ambiente22. Uma reportagem da revista Veja (Agosto, 2007)23 ressalta a periculosidade das toxinas presentes nos metais do lixo computacional, ao citar o exemplo da cidade de Guiyu ─ situada no litoral chinês e que está completamente contaminada – só é possível encontrar água potável a 50 quilômetros. A razão disso é que em média 70% desse tipo de resíduo, proveniente dos EUA e Europa, são depositadas naquela cidade. A Figura 5, a seguir, mostra o lixo eletrônico acumulado em um depósito da cidade que tem seu problema agravado pelo fato de que 80% da população depende dessa atividade para sobreviver: Figura 5: Lixo acumulado no depósito de Guiyu Fonte: Revista Veja (ago. 2007). A produção ─ cada vez mais crescente ─ de componentes eletrônicos a preços mais acessíveis, proporciona o crescimento da demanda por novas tecnologias. Com a inovação tecnológica, a vida média de um computador passa a ser de menos de dois anos. Contudo, o que se pretende questionar é a destinação dos diferentes tipos de materiais que um computador possui. Atualmente, menos de 22 23 Disponível em: <http://www.ambiente.sp.gov.br/>. Acesso em: 21 dez. 2011. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/especiais/tecnologia_2007/p_074.html>. Acesso em: 21 dez. 2011. 36 um terço de tudo que é produzido é reaproveitado, como se afirmou anteriormente é mais barato comprar um computador novo do que fazer um upgrade24. A fim de ilustrar o crescimento do consumo de computadores, dados da 20ª Pesquisa anual realizada pela FGV25, demonstram que em maio de 2009 a sociedade possuía 60 milhões de computadores em uso no Brasil, uma proporção de um computador para cada três habitantes. Já em 2012, conforme projeção do gráfico espera-se 100 milhões de computadores em uso, o que significará uma proporção de um computador para cada dois habitantes. A seguir, esse crescimento pode ser constatado no gráfico (Figura 6): Figura 6: Computadores em uso no Brasil Fonte: Meirelles (2009). Esse fenômeno ilustra a crescente obsolescência de computadores ocasionada pela compra excessiva de modelos mais recentes. Essa situação é oriunda das necessidades do homem de adquirir novos produtos. Plaza (1986, p. 17) enfatiza essa relação do homem com o objeto tecnológico: 24 25 Upgrade é um termo em inglês para se referir à troca de algumas peças do computador para melhorar o seu desempenho. Segundo dados da 20ª Pesquisa anual realizada pelo Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV). Disponível em: <http://disciplinas.dcc.ufba.br/pub/MATA67/TrabalhosSemestre 20091/Monografia_Jader_Macedo_20091.pdf>. Acesso em: 21 dez. 2011. 37 Nenhuma tecnologia nasce impunemente, muito pelo contrário, cada invenção tecnológica aparece quase sempre como produto de novos fatores e das novas condições materiais de produção e, sobretudo, pela inter-relação e entrecruzamento dos diversos sistemas ou canais existentes. Este fato retratado por Plaza (1986) reitera que a tecnologia surge como uma mediadora de processos que, com formas diferenciadas de utilização, faz parte do modo de desenvolvimento da própria necessidade do homem contemporâneo. Essa intermediação de diversos sistemas e canais existentes geram novas tecnologias – novos computadores prestes a serem descartados em curto intervalo de tempo, o que aumenta o problema relacionado ao lixo computacional. É necessário compreender que o computador é, atualmente, essencial à sociedade, porém seu descarte não pode existir de modo irresponsável. Manzini (1986, p. 91) 26 afirma que “o design assume um papel de interface entre a tecnologia e a sociedade, e meio ambiente”, indo além, ainda relata que: O design é um instrumento para a conexão do que é tecnicamente possível no campo das tecnologias limpas com aquilo que é culturalmente desejável no campo da crescente preocupação com o meio ambiente. Com essa capacidade de perceber e interpretar potenciais técnicos e expectativas sociais e projetá-los em novas soluções, o design pode, por conseguinte, acelerar positivamente a mudança nos processos de produção e consumo. O autor destaca a importância do design para o desenvolvimento adequado de produtos e processos, possibilitando à sociedade utilizar de forma consciente os artefatos, compreendendo as inovações tecnológicas nela inseridas e encontrando formas ou metodologias que foquem o lixo computacional no meio ambiente. Margolin (1998, p. 47) corrobora e complementa essa argumentação, afirmando que: “O design é a atividade que gera planos, projetos e produtos. É uma atividade que produz resultados tangíveis, os quais podem funcionar como demonstrações ou como discussões dos modos de vida”. Dessa forma, a indústria da informática 26 Ezio Manzini (1991) analisa amplamente e de forma muito clara e objetiva a questão da sustentabilidade e dos processos produtivos, sob o ponto de vista de um designer. Para o autor, o ciclo de vida de um produto se refere às trocas que acontecem entre o próprio produto e todo o ambiente a sua volta e deve ser interpretado em relação à movimentação dos fluxos de matéria, energia e emissões, durante toda sua vida. 38 necessita pensar sobre o que fazer com a realidade do lixo computacional presente nas residências, escolas, comércio e nas próprias indústrias tendo em vista o peso da responsabilidade no destino daquilo que produz de forma compulsória. Nesse sentido, a indústria carece de medidas que enfoquem a pesquisa de ações e alternativas como um novo caminho para o design sustentável do século XXI, facilitando a busca da sustentabilidade e investimentos em profissionais capacitados e da instauração de metodologias capazes de evitar que o resíduo transforme-se em lixo na natureza. 1.4 LIXO COMPUTACIONAL, UM PROBLEMA AMBIENTAL Os problemas com relação ao lixo, embora sempre tenham existido no cotidiano da sociedade, são fruto tanto das atividades residenciais quanto das públicas e industriais. E, conforme explicitado anteriormente, Magera (2005), afirma que o acúmulo de lixo é um processo histórico – o homem sempre o produziu. Apesar disso, os problemas relacionados ao descarte são recentes e estão relacionados com o processo de industrialização. Com o desenvolvimento advindo da primeira Revolução Industrial, a produção aumentou e, consequentemente, a quantidade de produtos descartados também. Magera (2005) enfatiza que, nesse contexto, o crescimento populacional e a forte industrialização ocasionaram mais opções de consumo, o que gerou mais resíduo, e, portanto criou sérias dificuldades à sociedade no aspecto do descarte do lixo na natureza. Além disso, segundo este autor, o desenvolvimento e a crescente industrialização estão acompanhados da oferta de produtos com aspectos estéticos diversificados que, em longo prazo, são o ponto de partida para a obsolescência principalmente nos itens tecnológicos descartados rapidamente. O computador se encaixa nessa definição, já que é um grande exemplo de item tecnológico frequentemente descartado. A geração de lixo computacional é crescente e a maior razão disso é o fato de que o computador respeita regras e também atende a determinados formatos. Segundo Laudon e Laudon (1998), são incessantemente gerados pela indústria novos softwares que, 39 por vezes, são mais desenvolvidos que o próprio hardware. Este artefato27 torna-se, portanto, obsoleto devido às necessidades humanas de se adequar às inovações. Sendo assim, o velho computador – o hardware ─ não mais serve para o homem devido à existência de tecnologias mais atuais, e, será inevitavelmente descartado. Com isso, um problema ambiental é gerado e repetido constantemente, o que acelera o processo de uso e desuso caracterizado pela troca veloz de artefatos. Isso pode ser observado no cotidiano, na dinâmica do ser humano de adquirir e adequarse ao produto – como, no caso, o computador – e às suas necessidades. Diante dessa situação, a sociedade começa a questionar-se sobre o que fazer com o lixo computacional. A chave para esse questionamento faz parte do design e isso é refletido por Ryn e Cown (1996, p. 4), ao afirmarem que: “nós estamos tardiamente tendo conhecimento de que a crise ambiental é também uma crise do design”28, afinal, o design, como atividade com foco no planejamento e desenvolvimento de produtos tem contribuído para a aceleração do processo de obsolescência ao projetar sem prever o ciclo de vida· do produto, gerando o descarte. Dessa forma, o design deve servir como intercessor do lixo existente a caminho do seu destino final, com projetos de reaproveitamento ou, então, deve projetar produtos de forma planejada para serem reaproveitados após sua primeira fase de uso. Corroborando a necessidade de planejamento, Papaneck29 faz um alerta à sociedade revelando que o design deve abordar métodos e ideias que visem a questão ambiental. É importante lembrar que este autor já alertava a sociedade sobre a relação entre meio ambiente e design em 1970. Tendo em vista os aspectos levantados, é possível perceber que o lixo é um grande problema na atualidade, já que o homem o descarta na natureza gerando acúmulo. Jardim e Wells (1995, p. 23) definem lixo como: “[...] restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis, ou descartáveis”. A sociedade atualmente objetiva o consumo que é seguido do descarte. No entanto, o destino dos produtos poderia ser outro, ou seja, as 27 28 29 “Artefatos são agentes especiais produzidos por necessidades culturais” (KAPTELININ; NARDI, 2006, p. 248). Tradução nossa a partir de: “We have been late to acknowledge that the environmental crisis is also a crisis of design”. Victor Papaneck (1985) escreveu o livro "Design for the real world", onde já expressava desesperadamente essa preocupação com a relação homem-natureza e o papel do design em essa relação como produtor de artefatos. 40 empresas poderiam reduzir a quantidade de lixo gerado, utilizando produtos fabricados com planejamento do seu ciclo de vida30, ou ainda pensando em prolongar o tempo de vida útil do produto por meio da reciclagem31. Com relação ao planejamento, os autores Clark e Fujimoto (1991) chamam a atenção para o fato de que o ciclo de vida do produto deve ser planejado nas fases iniciais do projeto, pois se forem formuladas alterações após esse período, pode restar lixo que acabará em um aterro ou, no máximo, revivido em processos da supracitada reciclagem que, embora seja uma forma de solução, não é a mais eficaz. Nesse sentido, os autores Mcdonough e Braungart (2002)32 confirmam que a fim de evitar o lixo, as sobras na produção não devem existir e, por isso, não aprovam o reaproveitamento, ou seja, a reciclagem como solução, e indicam a implantação do modelo berço ao berço (Cradle to Cradle), que consiste na elaboração de produtos visando a continuação do seu ciclo de vida ou sua volta à natureza, sem prejudicá-la. Esses teóricos enfatizam, portanto, que a reciclagem é uma atitude equivocada do homem, pelo fato de que somente adia o destino dos produtos em um ou dois ciclos de vida. Além disso, apontam que o processo de reciclagem pode produzir ainda mais aditivos prejudiciais do que aconteceria no processo de produção de um produto convencional, assim como pode liberar uma maior quantidade de gases – o que envolve mais poluição ambiental. Para exemplificar essa situação, Mcdonough e Braungart (2002, p. 4) citam um tapete feito de garrafa pet e comentam que o consumidor pensa estar agindo corretamente ao comprá-lo, porém, explicam a validade dessa aquisição: “Seu tapete é feito de coisas que nunca foram planejadas para este fim [...]” e, portanto, foi gasta uma quantidade de energia superior à de produção de um tapete comum. Além disso, segundo Mcdonough e Braungart (2002, p. 4.), “o tapete continua a caminho do aterro, sua casa é apenas uma parada”33. Tomando o exemplo como ponto de 30 31 32 33 De acordo com Fiksel (1997, p. 73), ciclo de vida é uma sequência de fases relacionadas com um produto é uma sequência de atividades na qual se incluem a concepção do produto, seu desenvolvimento, lançamento, fabricação, manutenção, reavaliação e renovação que implica uma nova geração do produto. Eigenheer et al. (2005) a reciclagem é hoje um procedimento industrial de reaproveitamento da matéria-prima para a produção de novos produtos. William McDonough e Michael Braungart (2002), o primeiro arquiteto e o segundo químico, que instituíram o conceito “Berço ao Berço” (Cradle to Cradle). Eles defendem a ideia de se fazer um design que respeite a natureza. Tradução nossa a partir de: The rug is still on its way to a landfill; Your house is just a stop off on the route. 41 partida, os autores afirmam que buscar ações que minimizem o problema não é a solução. Diante disso, é possível perceber a dimensão do problema ambiental em tempos modernos. Hobsbawn (1995) enfatiza que hoje se vive um momento de crise histórica e há necessidade de mudança em relação ao modo de produção e seus efeitos contra o meio ambiente. O autor acredita que o futuro não pode ser uma continuidade dos erros do passado e alerta que o mundo pode explodir ou implodir, se o homem não atentar para os problemas existentes. Além disso (e felizmente), o que se percebe é que existe um anseio de mudança no comportamento da sociedade em geral com relação ao meio ambiente que pode ser visto em ações isoladas e coletivas realizadas pela sociedade. Essa mudança será melhor abordada no terceiro capítulo nos estudos de caso. No contexto do design, o processo de produção deve estar alerta à crise ambiental e histórica que vem se arrastando há algum tempo e deve tomar atitudes sustentáveis34. Assim, é necessária uma reorganização quanto ao que fazer com as sobras do lixo, principalmente computacional, bem como a questão da sustentabilidade em toda a sua complexidade. 1.5 DESIGN COMO ATIVIDADE PROJETUAL Hoje o foco projetual do design é alcançar uma perspectiva organizada e global, não apenas de forma local, individual ou isolada. O resultado global é um reflexo das tendências e escolhas feitas em sociedades locais no mundo. O desenvolvimento sustentável deve partir da tarefa de ações ao projetar. Este deve ser o foco da economia global para um país sustentável. No caso do Brasil, são necessárias melhorias para seu crescimento, pois como cita Denis (2000, p. 223) “O país está carente de sistemas de organização coletiva, de clareza na difusão de informações, de planejamento estratégico da produção, de soluções criativas para problemas aparentemente insuperáveis”. Nesse sentido, a aliada do crescimento 34 Atitudes sustentáveis referem-se às condições sistêmicas segundo as quais, em nível regional e planetário, as atividades humanas não devem interferir nos ciclos naturais em que se baseia tudo o que a resiliência do planeta permite e, ao mesmo tempo, não devem empobrecer seu capital natural, que será transmitido às gerações futuras” (MANZINI; VEZZOLI, 2004, p. 18). 42 econômico e sustentável é a atividade de projetar do designer. Magalhães (1998, p. 12) afirma, ainda, que a atividade projetual está intrinsecamente ligada ao contexto em que se encontra a sociedade: Assim, da postura inicial de uma visão imediatista e inevitavelmente consumista de produzir novos bens de consumo, o desenhista industrial passa a ter, nos países em desenvolvimento, o seu horizonte alargado pela presença de problemas que recuam desde situações, formas de fazer e de usar basicamente primitivas e préindustriais, até a convivência com tecnologias mais sofisticadas e ditas ‘de ponta’. Já não há mais lugar para o velho conceito de forma e função do produto como tarefa prioritária da atividade. A globalização e os avanços da tecnologia fazem parte do desenvolvimento atual da sociedade que, ao buscar abranger necessidades e padrões de produção e consumo sustentável, exige uma maior capacidade de abstração, de inovação e de flexibilidade nos projetos entre o meio ambiente e o usuário. E, segundo Denis (2000, p. 223), o papel do designer é fundamental nesse contexto: “O design tem tudo para realizar uma contribuição importante para a construção de um país e um mundo melhor”. Hoje o design tem a função de mediar o projeto atendendo a necessidades como produção e consumo, como também deve entender como esses produtos se comportam durante seu ciclo de vida. Esta deve ser a visão contemporânea de um designer e, por isso, a importância da atividade projetual. Maldonado (1997, p. 16) reitera a relevância e a conexão do design com diversas tarefas e revela que o designer hoje deve “mediar dialeticamente entre necessidades e objetos, entre produção e consumo”. Nesse sentido, Bonsiepe (1997, p. 31) aponta que: O design industrial é uma atividade projetual que consiste em determinar as características formais de produtos fabricados com métodos industriais. Características formais não são só os atributos externos, mas sim e sobretudo as relações funcionais e estruturais que dão coerência a um objeto tanto do ponto de vista do produto quanto do usuário. Desta forma, o design deve agir como condutor da mudança em curso e da quebra do paradigma da extração e conservação de recursos naturais. Ele deve ser 43 norteador de processos mais evoluídos e sustentáveis, que busquem o equilíbrio ambiental em todas as esferas da sociedade. É necessário tratar o design de forma ampla, ao mesmo tempo analisando de forma minuciosa e sustentável, que envolva diferentes faces e ações relacionadas aos problemas ambientais. Na atualidade, as indústrias têm a responsabilidade de gerar produtos para serem consumidos, objetivando a sustentabilidade ambiental e a conservação de recursos naturais na produção de produtos ecologicamente corretos, levantando a capacidade de reciclagem, uso, reuso, ciclo de vida dos materiais, escolha de materiais e técnicas de confecção que tenham princípios ambientais e, por fim, uma normatização na identificação dos diversos tipos de materiais, a fim de facilitar sua identificação. Essa deveria ser uma forma de buscar a sustentabilidade. O que acontece é que atualmente a sociedade tem buscado outras formas de ações colaborativas, e o design tem surgido como ferramenta para mover o processo de inovação social rumo à sustentabilidade. 44 2 DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO PROJETUAL PARA UM DESIGN SUSTENTÁVEL 2.1 ATIVIDADES E ELEMENTOS PROJETUAIS NO DESIGN A atividade projetual em design implica no compromisso do desenvolvimento de um produto visando os seus impactos na sociedade, no que diz respeito à produção, consumo e descarte. Além disso, como enfatiza Bonsiepe (1997), o design é uma atividade processual que determina funções, estruturas estéticas e sistemas de produtos, que estabelece exigências técnicas funcionais e econômicas. Segundo este autor, o design ainda tem o compromisso de orientar seus atos projetuais para as necessidades do homem. E, embora essa atividade possa parecer inédita, não é. Os homens projetavam artefatos, moradias e cidades muito 45 antes das Revoluções Industriais35. Sabe-se que hoje o campo do design é muito mais exigente, já que as ações de produção, consumo e descarte devem estar no pensamento projetual do designer concomitantemente à questão ambiental. Complementando o sentido da atividade projetual, Maldonado (apud BONFIM, 1995, p. 10) afirma que esta: Consiste em determinar as propriedades formais dos objetos produzidos industrialmente. Por propriedades formais não se entende apenas as características exteriores, senão, sobretudo, as relações funcionais e estruturais que fazem com que um produto tenha uma unidade coerente do ponto de vista, tanto do produtor, como do consumidor. Nesse sentido, um projeto deve se preocupar prioritariamente com questões de função e estrutura unindo as intenções do produtor e os anseios de quem vai consumir. Isso define o design como uma atividade de planejamento em que, consumidor e produtor, reveem e delineiam a forma de minimizar perdas e prejuízos para ambos os lados – o que se relaciona também à questão ambiental. A ideia de que o homem é a única espécie que produz lixo e que, na natureza, o que é sujeira para uma espécie, para outra serve de alimento. Um exemplo dessa ideia na prática, é a sacola 60Bag, que é biodegradável, naturalmente decomposta em aproximadamente dois meses (60 dias). Ela é elaborada de um material resistente o que a torna eficaz no dia-a-dia e também foi testada cientificamente para que possa servir de adubo tão logo perca o uso. A Figura 7 ilustra a referida sacola: 35 Há muitas cronologias para as Revoluções Industriais. Segundo Tunzelmann (2003), a primeira Revolução Industrial foi na Inglaterra, aproximadamente entre 1750 e 1815; a segunda Revolução Industrial foi nos Estados Unidos e na Alemanha, por volta de 1870 e 1914; a terceira Revolução Industrial se deu no Extremo Oriente e nos Estados Unidos, a partir do início dos anos 1970. 46 Figura 7: Sacola biodegradável 60 Bag Fonte: Disponível em: <http://www.60bag.com>. Acesso em: 15 jan. 2012. A sacola ainda apresenta mais uma vantagem: além do modelo apresentado acima, são oferecidos outros três que podem satisfazer de diferentes formas as necessidades do consumidor. São dois modelos com alças que podem ser colocadas nos ombros e dois feitos para serem levados nas mãos, conforme ilustra a Figura 8. Figura 8: Modelos disponíveis da Sacola Biodegradável 60 Bag Fonte: Disponível em: <http://www.60bag.com>. Acesso em: 15 jan. 2012. 47 Outro exemplo de ação sustentável foi criado por Hatch Nosigner, de acordo com Schleifer (2010). O designer japonês desenvolveu vasos naturais, como apresenta a figura abaixo, feitos com cascas de ovo, conforme ilustram as Figuras 9 e 10: Figura 9: Vasos feitos com casca de ovo Fonte: Schleifer (2010). Figura 10: Vasos feitos com casca de ovo – detalhe Fonte: Schleifer (2010). 48 Nesse exemplo, enquanto as plantas crescem elas recebem os nutrientes das cascas de ovos que, podem ser enterradas com a planta quando for transferida ao vaso e, além disso, se degradam com o tempo. Outro ponto é que o produto é interessante esteticamente uma vez que Nosigner passa a impressão de que as plantas estão nascendo dos próprios ovos. Os modelos acima apresentados demonstram que esta forma de desenvolvimento de produtos, não deixam resíduos na natureza, o que seria ideal, mas nem sempre isso acontece, os produtos são desenvolvidos gerando o descarte. Para produzir produtos que atendam a essas novas exigências, é necessário que o designer possua conhecimento teórico e técnico voltado à questão ambiental, que esteja preparado para a criação de produtos, que considere aspectos ambientais e ainda assim atenda às necessidades almejadas. Nesse sentido, Manzini (1993, p. 17) afirma que “todos os objetos feitos pelo homem são a personificação do que é ao mesmo tempo pensável e possível.” De forma mais abrangente, o designer deve entender qual deve ser o tratamento e o destino do lixo, compreender qual é o papel do design nesta tarefa de tornar o descarte menos nocivo e mais reaproveitável (não no sentido de reciclagem, mas, sim, de continuar o ciclo de vida). O futuro do produto após o descarte, quando se torna resíduo, deve ser considerado prioridade. Afinal, a disponibilidade de matérias-primas futuras para o desenvolvimento de produtos depende desse tipo de pensamento, já que é impossível imaginar uma sociedade futura que não seja também sustentável, conforme endossam Manzini e Vezzoli (2008). Além disso, uma parcela dos consumidores, preocupada com os problemas ambientais, busca produtos sustentáveis. Sob este aspecto, Mcdonough e Braungart (2002) sugerem que se faça um design focado no homem e na natureza, que respeite a diversidade, utilize resíduos como recursos e aproveite a energia solar da natureza. Para demonstrar como utilizar o modelo de recursos e energia solar, os autores relatam a experiência da construção de uma casa aquecida por sol na Irlanda. Na época, encontraram dificuldades em aplicar soluções universais a circunstâncias locais. Entre as estratégias para construção e pesquisa com moradores locais, Mcdonough e Braungart (2002, p. 8) fizeram algumas descobertas: 49 [...] experts sugeriram construir uma rocha gigante, um silo de armazenamento para reter calor. Eu descobri – depois de arrastar toneladas de rochas – que isso seria redundante numa casa Irlandesa, feita de grossas paredes de alvenaria.36 Mesmo após o mal-entendido na Irlanda, sabe-se que essa é uma solução local sustentável que pode ser transformada e ganhar novas formas de ação do homem em relação ao meio ambiente, mantendo uma harmonia entre o desempenho econômico e ambiental. Independentemente da abrangência em que são abordadas as questões, sejam locais ou globais, é necessário entender que existem alternativas desejáveis, diante da degradação ambiental. Por meio deste modelo, como o exemplo da Irlanda, entende-se que é possível aproveitar recursos da natureza, o que tem sido estudado e experimentado em vários locais do mundo. Um exemplo é a energia eólica37, considerada uma das mais promissoras fontes naturais de energia, principalmente por ser renovável, isto é, não se esgota. Ela é originada pela radiação solar, porque os ventos são gerados devido ao aquecimento não uniforme da superfície terrestre, como altura, obstáculos, rugosidade do terreno e relevo que acabam influenciando no escoamento do ar, causando aceleração ou desaceleração, é como demostra a Figura 11, o desempenho do vento com os aspectos que acabaram de ser considerados. 36 37 Tradução nossa a partir de: Experts suggested building a giant rock, a storage silo for holding heat. I found out – after dragging tons of rocks – that it would be redundant in an Irish house, which is made of thick masonry walls. Segundo Camargo (2005), a Energia Eólica origina-se a partir do vento, atmosfera em movimento, e é considerada como uma fonte inesgotável. É fruto da associação entre a energia solar e a rotação planetária. A circulação atmosférica constitui-se de um mecanismo solar-planetário permanente. Sua duração é da ordem de bilhões de anos. 50 Figura 11: Desempenho dos ventos em diferentes ambientes Fonte: Atlas Eólico do Brasil (1998 apud DUTRA, 2001). As turbinas eólicas são máquinas que utilizam a energia dos ventos e conseguem convertê-las em energia mecânica. Uma turbina eólica encaixada a um gerador por meio de um eixo transforma a energia mecânica em energia elétrica. Segundo a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (COPEL), a utilização mais antiga da força dos ventos aconteceu em meados de 3500 a.C., com as embarcações com velas feitas de tecido que transportavam mercadorias ao longo do rio Nilo, no antigo Egito. Foram também, há 2.200 anos, utilizados moinhos de vento na China e moinhos de vento de eixo vertical para a moagem de grão na Pérsia, por volta do ano 200 a.C. O que significa que a ideia dos autores de usar os recursos naturais – como o vento – não é uma atitude inovadora e sim muito antiga, mas ainda válida. Em países como o Brasil, a utilização de recursos naturais para a geração de energias tem sido possível. Contudo, o impacto ambiental gerado durante a obtenção de energia é um problema que vem sendo discutido mundialmente, mediante a conscientização da gravidade da questão. A busca da sustentabilidade requer planejamento e inserção de novas fontes de energia, que sejam renováveis e impactem o mínimo possível no meio ambiente. Outra solução local, que pode ser global, apontada pelos autores Mcdonough e Braungart (2002) é a utilização de resíduos como recursos, a fim de gerar menos impacto na natureza. Manzini e Vezzoli (2008) pensam da mesma forma e criam o 51 termo “Ciclo de vida” de um produto ─ Life Cycle Design38 ─ por meio do qual, buscam desenvolver ambientalmente produtos que visem todas as fases de produção, tanto acerca do uso quanto do descarte. Essa linha de desenvolvimento aproxima-se dos biociclos, que se entendem à produção e ao consumo integrado a ciclos naturais, seja em termos de materiais e energia empregados, seja no que se refere à capacidade do ecossistema de absorver e biodegradar os resíduos e lixos. O processo não interfere nos tecnociclos que são ações incutidas de um sistema de produção e consumo fechado em si mesmos, pois reutilizam e reciclam materiais, formando assim ciclos tecnológicos, que buscam formas de reduzir a zero as entradas e saídas entre o sistema tecnológico e o sistema natural. Isso significa acreditar que a produção e consumo devem partir de ciclos naturais e se houver resíduo, que sejam encontradas formas de reutilizá-lo a fim de não se alterarem as leis da natureza. Uma alternativa que tem sido aplicada, e que hoje em dia é considerada por leigos a melhor forma de reaproveitar o lixo, é a reciclagem. Apesar de ser considerada pelo INMETRO (2002)39 como capaz de reduzir o consumo de recursos naturais, energia e o volume do lixo, Mcdonough e Braungart (2002) a repudiam como forma de reaproveitamento, nomeando-a como downcycling40 por não proporcionar tantos benefícios quanto o esperado. McDonough e Braungart (2002, p. 42) ainda enfatizam que, apesar dos benefícios econômicos, há problemas com o processo industrial no qual a reciclagem está incluída e afirmam: “A infraestrutura industrial atual é projetada para seguir o crescimento econômico. Isso é feito a custo de outras preocupações vitais, particularmente a saúde humana e ambiental, a riqueza cultural e natural, e até mesmo de divertimento e prazer”41. Segundo Roaf (2006), só há coerência em reciclar, no sentido ambiental, se isso puder ser feito naturalmente, sem que seja necessário o dispêndio de muita energia, pois quanto maior o número de processos pelos quais um material ou um conjunto de componentes tiver que passar, maior será a energia incorporada e o número de 38 39 40 41 Segundo Manzini e Vezzoli (2002, p. 91) “em Life Cycle Design considera-se o produto desde a extração dos recursos necessários para a produção dos materiais que o compõem (nascimento) até o último tratamento (morte) desses materiais após o uso do produto”. Instituto nacional de meteorologia, normatização e qualidade industrial–INMETRO. Segundo Roaf (2006) downcycling é o processo de recuperação de um material para reuso em um produto com menor valor, ou seja, a integridade do material é de certa forma comprometida com o processo de recuperação. Tradução nossa a partir de: The current infra-structure is designed to follow the economic growth. This is made in place of other vital concerns, particularly human and environmental health, the cultural and natural wealth, and even entertainment and pleasure. 52 resíduos associados. Desta forma, o design assume um papel fundamental na sociedade contemporânea, tendo como responsabilidade criar, desenvolver e colocar produtos no mercado atual, de uma forma que o mesmo não seja um novo problema de descarte e poluição do meio ambiente, como tem ocorrido atualmente. A sustentabilidade aplicada ao desenvolvimento de produtos deve ser, portanto, plena e não um remedeio, como acontece no caso da reciclagem. Uma sugestão para as empresas é dar ênfase à Eco eficiência, ou, como sugerem Mcdonough e Braungart (2002, p. 51), “fazer mais com menos”42. Eles afirmam que esse termo foi cunhado no encontro Nosso Futuro Comum43 já referido: [...] Nosso futuro comum alertou que se o controle da poluição não fosse intensificado, a saúde humana, os bens e os ecossistemas seriam seriamente ameaçados, e a existência urbana se tornaria intolerável. As indústrias e as operações industriais deveriam ser incentivadas a serem mais eficientes em termos de uso de recursos, a gerar menos poluição e gasto, a serem baseadas no uso de recursos renováveis ao invés de não renováveis e a minimizar impactos prejudiciais irreversíveis na saúde humana e no meio ambiente.44 Desde esse encontro, o conceito de ecoeficiência45 vem sendo intensamente estudado e debatido. Essa nova postura, voltada para a defesa ambiental, requer empenho, inovação e, acima de tudo, mudança. É neste sentido que os designers precisam pensar projetualmente, rever modelos de produção, buscando outras maneiras de constituir e criar ambientalmente de forma correta. Com esse objetivo, Mcdonough e Braunguart (2002) desenvolveram princípios relacionados ao 42 43 44 45 Tradução nossa a partir de: Doing more with less. Nosso futuro comum também conhecido como Relatório Brundtland. ONU. Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1988. Tradução nossa a partir de: Our common future alerted that if the pollution control weren’t intensified, the human health, the goods and the ecosystems would be seriously threatened, and the urban existence would get unbearable. The industries and the industrial operations should be encouraged to be more efficient in terms of resources using, to generate less pollution and waste, to be based on the use of renewable resources in stead of not renewable and to minimize harmful impacts. A ecoeficiência é alcançada mediante o fornecimento de bens e serviços a preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida, ao mesmo tempo em que reduzam progressivamente o impacto ambiental e o consumo de recursos ao longo do ciclo de vida, a um nível, no mínimo, equivalente à capacidade de sustentação estimada da Terra” (World Business Council for Sustainable Development – WBCSD, 1992). Disponível em: <http//www. wbcsd.org/>. Acesso em: 15 jan. 2012. 53 pensamento e à criação de produtos e processos dentro do conceito berço ao berço, pontuando possíveis soluções para o planeta, tais como: assegurar que todo o material e energia utilizados ou produzidos não gerem riscos ambientais e nem resíduos; planejar operações de separação e purificação que minimizem o consumo de energia e uso de materiais renováveis e não descartáveis. Em linhas gerais, essa é a proposta da ecoeficiência, que deve considerar metas de durabilidade e não de mortalidade. Os projetos não devem possuir atributos ou capacidades desnecessários visando o término de seu ciclo de vida útil “afterlife”. Com esses princípios, os autores ressaltam que, concomitante à preocupação ambiental, deve haver respeito por quem cria, desenvolve e projeta, isto é, pelo o designer, bem como por quem produz – a indústria. É importante respeitar também quem vive no entorno da fábrica, as pessoas que transportam os produtos e, por fim, os consumidores. O pensar sustentável hoje atende a uma necessidade de sobrevivência do mundo. Para que isso aconteça, Bonsiepe (2011) sugere investir na pesquisa em design para gerar conhecimentos e, então, melhorar a prática projetual atual que, com planejamento, pode garantir a continuidade de matérias-primas e da produção. A razão disso é que no processo de busca e descoberta são levantados dados que se transformam em informação, o que resulta em conhecimento que pode buscar novas relações entre conhecimentos pré-existentes para determinado fim. Contudo, sabe-se que a pesquisa tem um custo elevado para qualquer empresa que busque investir em um produto. De qualquer forma, não é possível desconsiderar a extrema relevância das pesquisas. Nesse sentido, segundo Bürdek (2006), a complexidade dos problemas de projeto, percebidas com o produto instaurado no mercado, provocou a necessidade da pesquisa e da inserção de metodologias de projeto na área do design. Isso fez com que os problemas deixassem de ser tratados intuitivamente ou de ser baseados apenas na experiência anterior do designer que gerenciava sozinho o processo todo. Com isso, a escolha da técnica ou metodologia ideal para cada situação passou a ser definida diante do objeto proposto, como será aprofundado a seguir com exemplos de metodologias projetuais que surgiram para tratar o problema da obsolescência de produtos existentes na contemporaneidade. 54 2.2 METODOLOGIAS PROJETUAIS PARA O DESIGN SUSTENTÁVEL Com a produção industrial, a atividade projetual se torna cada vez mais necessária, já que o número de variáveis exigidas é crescente para o desenvolvimento de produtos. Para organizar e aperfeiçoar o desenvolvimento de produtos, surgiram diversas metodologias de projeto, que procuram delinear de forma específica diferentes maneiras mais convenientes de desenvolvimento dos projetos, de forma a facilitar o controle de suas diversas variáveis. Medeiros (1981) destaca que estas metodologias podem ser definidas como sistemáticas ou intuitivas, sendo utilizadas de acordo com o nível de complexidade do problema a ser resolvido. O autor enfatiza o fato de que soluções podem ser encontradas, considerando-se a experiência de um maior número de pessoas, inclusive pessoas não pertencentes à equipe de projeto, acelerando-se assim as soluções e o tempo gasto à procura de soluções de problemas. Bonfim (1994) declara que as metodologias não devem ser confundidas como regras para se chegar a um resultado, mas como o encontro de caminhos e soluções. Para cada situação há um procedimento de solução, logo entende-se que não existe um método geral que se aplique a qualquer tipo de solução de problema, seja na atividade projetual ou na atividade diária. Pensar em Metodologias subentende-se estabelecer normas e procedimentos para abordar uma questão e buscar respostas a elas. O design, como organizador do processo projetual, deve apontar propostas de solução, além de outros aspectos mais sustentáveis dependentes de técnicas que desacelerem, com eficiência, a deterioração do meio ambiente. É inegável que são muitas as preocupações que têm ocorrido com relação à produção e o descarte no meio ambiente. No entanto, se o problema da escolha de uma metodologia for abordado e tratado sob um único ponto de vista, qualquer solução revelar-se-á insuficiente para sustentar o quadro de ocorrências negativas que se sucedem com vários produtos no mercado, no caso específico deste trabalho, o material computacional. Analisar métodos e técnicas que ajudem o designer a desenvolver conhecimentos capazes de solucionar problemas, é fundamental para o desenvolvimento de produtos – até mesmo para aqueles já implantados no mercado. Bonfim (1995) e Munari (1998) concordam ao ponderar 55 que métodos e técnicas são instrumentos de ordenação e organização e, consequentemente, suportes lógicos ao desenvolvimento de um projeto. Hoje é necessário realizar pesquisa em design a fim de desenvolvê-lo de forma organizada e fundamentada. Contudo, é muito comum que ações aleatórias realizadas por atores capazes de criar suas próprias metodologias assumam o título de design. Convém destacar que a sociedade civil organizada, indústrias, governo e consumidores de uma maneira informal realizam ações também consideradas como válidas, mesmo que não sejam sistematizadas. É nesse sentido que se configura o foco a ser pesquisado: diferentes metodologias que a sociedade tem encontrado como soluções para o problema ambiental existente e quanto à produção do lixo computacional. A ampla contribuição desta pesquisa é entender a prática e a teoria adotadas por esses diferentes atores buscando inovações, técnicas e metodologias criadas, muitas vezes em caráter experimental, mas que podem estar resolvendo o problema da obsolescência na sociedade, inclusive a do lixo computacional – outro foco da pesquisa. Bonsiepe (1984, p. 32) afirma que “a metodologia não tem finalidade em si mesma, é só uma ajuda no processo projetual, dando uma orientação no procedimento do processo e oferecendo técnicas e métodos que podem ser usados em certas etapas”. Dessa forma, ele diz que o designer deve ter o controle e a decisão de inovar, escolher e também compartilhar qual a melhor alternativa a ser investida. Esses atores têm sido capazes de, além de criar, compartilhar as metodologias criadas, tendo em vista sua eficiência e validade. Nas últimas décadas do Século XX, as transformações econômicas, aliadas aos avanços tecnológicos, mudaram as profissões ligadas à inovação. Segundo Manzini e Vezzoli (2008), o design passou a assumir a responsabilidade como projeto do ciclo de vida dos produtos, passando a ter que pensar em ações voltadas à sustentabilidade ambiental. O que significa, segundo a ABNT (2001)46, analisar o CVP (Ciclo de Vida dos Produtos) – como uma técnica para a compilação e a avaliação das entradas, saídas e impactos ambientais de um sistema de produto, entendendo as necessidades e estruturas produtivas – a produção, os produtos e os serviços, bem como a interação com o meio natural e a possibilidade de degradação 46 O sistema de produto é o conjunto de unidades de processo, conectadas, material e energeticamente, que realiza uma ou mais funções definidas. O termo “produto” usado isoladamente não inclui somente sistemas de produto, mas pode incluir sistemas de serviço (ABNT, 2001). 56 ambiental. Esta é uma forma de o designer pensar projetualmente. Existem diferentes ações que o designer pode trabalhar, inclusive dentro da abordagem transdisciplinar, pois, de acordo com Bonfim (2002, p. 15), “o design não é um campo estável de saberes”, e sim gira em torno de diferentes disciplinas, dependendo da natureza do problema tratado, como ilustra o seguinte a Figura 12: Figura 12: Teoria transdisciplinar do design Fonte: Bonfim (2002, p. 15). Moura (2003) corrobora o conteúdo deste gráfico afirmando que o design faz parte de uma esfera multidisciplinar47 que se desenvolveu para a esfera interdisciplinar48 cuja ampliação leva à transdisciplinaridade49. Desta forma, esse campo de ampliação que transpõe barreiras é enriquecedor não só para o profissional designer, mas para a sociedade como um todo. É importante ressaltar que o design não apenas analisa o ciclo de vida de um produto, mas, também, considera aspectos mais abrangentes para que se entendam os problemas, entre eles, o da geração do lixo e, mais especificamente, do lixo computacional. Segundo Brown (2008, p. 88), a inserção de várias atividades à atividade projetual é imprescindível: 47 48 49 Moran et al. (2000) destaca que a multidisciplinaridade é o método que envolve integração de conteúdos. O método apresenta uma concepção unitária e não mais fragmentada do conhecimento, ponderando sobre o estudo e a pesquisa. Moran et al. (2000) afirma que a multidisciplinaridade são disciplinas a serem simultaneamente trabalhadas. Moran et al. (2000) propõe a transdisciplinaridade como uma espera, na qual a humildade, o respeito, a coerência e o desapego tornam real o sentido de encontro da educação voltada à transdisciplinaridade. 57 O processo de design é mais bem descrito metaforicamente como um sistema de espaço do que como uma série pré-definida de passos ordenados. Os espaços demarcam diferentes tipos de atividades relacionadas que conjuntamente formam o continuo da inovação. O pensamento projetual pode parecer caótico para aqueles que o experimentam pela primeira vez. Mas, ao longo de um projeto, os participantes percebem [...] que o processo faz sentido e alcança resultados. O envolvimento de diversas atividades e a consideração de vários aspectos no desenvolvimento de produtos é uma característica da ação projetual, a qual permite as ações informais, ou, sem uma sistematização pré-definida, mas capazes de minimizar o problema do lixo. Esses aspectos serão abordados nos próximos tópicos como Sistema produto-serviço, comunidades criativas e a cooperação entre pares que inventam atividades culturais, formas de organização e modelos econômicos que intercedem entre duas estratégias: a interação equilibrada entre as dimensões local e global e o crescimento sustentável de recursos locais (físico e sociocultural). Para isso, a sociedade pode intervir junto ao designer, apresentando formas de minimizar o lixo e adotando soluções sustentáveis, práticas que foram observadas nos estudos de caso e que serão desenvolvidas no terceiro capítulo. Estas ações são isoladas, mas ocorrem organizadamente, e se configuram como maneiras atuais encontradas pela sociedade para perpetrar o design. 2.2.1 Sistema produto-serviço O design deve atuar sobre processos, produtos, serviços e diversos modelos de consumo, a fim de intervir de forma preventiva na questão da sustentabilidade. Papaneck (1995) corrobora essa ideia afirmando que o papel do designer também é direcionar o desenvolvimento industrial para a sustentabilidade ambiental, já que cabe a ele a função de definir as interações entre o produto, o homem e o ambiente. O design deve buscar soluções originais de função, de uso de materiais e tecnologias, de produtividade e sustentabilidade. A UNEP (2002)50 demonstra uma metodologia que aponta a troca da venda de produtos para a de sistemas de 50 UNEP. Product-Service Systems and Sustainability. Opportunities for Sustainable Solutions. Paris: UNEP, 2002. 58 produtos e serviços, desestabilizando o consumo exacerbado do homem. A ideia pauta-se no problema da obsolescência e, para buscar solucioná-lo, é sugerida a compra de um produto por horas pré-determinadas – como se fosse um aluguel – que terminam quando esse produto se tornar ultrapassado. Nesse momento, ele deve retornar à empresa que o irá reformular para voltar ao mercado, sob o mesmo sistema, mas de forma atualizada. Para tanto, a UNEP (2002) acredita que a empresa que vende o serviço deve assegurar que o usuário não adquira o produto, mas o serviço. Dessa forma, a relação com o consumidor é caracterizada por uma contínua interação na fase de uso por meio da aquisição e entrega de suprimentos, manutenção e qualidade de serviço. Soma-se a isso, o potencial da companhia a desempenhar um papel específico no fim da vida do produto a fim de reutilizar seus materiais, economizando recursos. Esse modelo é capaz de atender às necessidades dos clientes, minimizando os problemas ambientais. Partindo-se desta definição, o Sistema produto-serviço é uma tendência para soluções direcionadas ao consumo sustentável de recursos. A International Council of Societies of Industrial Design (ICSID)51 acredita que o design é uma atividade criativa com o propósito de estabelecer as qualidades multifacetadas de objetos, processos, serviços e seus sistemas, compreendendo todo seu ciclo de vida. Isso pode ser seguido por meio das propostas de Mcdonough e Braungart (2002), já anteriormente citadas e que foram estudadas pela UNEP. Mais detalhadamente, a ideia é que a indústria, ou as lojas afiliadas aluguem dez, 50 ou 100 mil horas, de um serviço de televisão, computador entre outros. Ao final das horas de uso, a fábrica retira o produto do consumidor, desmonta, reaproveita as mesmas peças e atribui a outro produto, reinventando-o e modernizando, essa é uma solução atual para o lixo computacional existente. Desta forma, não ocorreriam perdas nem insatisfação entre as partes. Outros autores que apontam a mesma ideia de design de produtos e serviços são Manzini e Vezzoli (2008) os quais acreditam que produtos não mais precisam ser projetados para serem possuídos pelos consumidores, mas que é importante vigorar o Sistema produto-serviço rumo à sustentabilidade. Essa forma de entender o design de serviços vem, então, integrar produtos, processos e pontos de contato, a uma abordagem centrada nas pessoas, essa também é uma forma metodológica de 51 Disponível em: <http://www.icsid.org>. Acesso em: 27 set. 2011. 59 se fazer design. Após essa integração, segue o projeto conceitual, que se inicia no processo de criação efetiva do produto para o Sistema Produto-Serviço. Nessa etapa, é importante considerar a ligação direta com o futuro usuário, o qual deve participar da criação do produto, assim como todos os envolvidos no negócio, para que todos apresentem suas viabilidades de desenvolvimento e estejam envolvidos no projeto durante todo o seu ciclo de vida. Segundo a UNEP (2002), o Sistema produto-serviço, se implantado, possibilita ganhos para produtores/fornecedores, usuários e meio ambiente, de três formas. A primeira fornece adição de valor ao ciclo de vida do produto, a indústria fornece serviços adicionais a fim de garantir a funcionalidade e a duração da vida do produto. Um contrato de serviço pode incluir manutenção, reparo, atualização e substituição durante um determinado período. Quando o contrato expirar, o fornecedor recolhe o produto reinventando-o para outro consumidor. A segunda fornece resultados finais aos clientes, ou seja, cria uma gama de serviços customizados, substituindo a compra e uso de produtos. Os serviços criados para o cliente deixam o produtor sendo o mantenedor do mesmo e o consumidor pagando apenas pelos resultados combinados. A terceira possibilita plataformas aos consumidores. A indústria oferece acesso a produtos, ferramentas e oportunidades que possibilitam ao consumidor alcançar os resultados pretendidos. O cliente paga apenas o tempo que realmente utilizou o equipamento. O designer passa, a partir das propostas, a se envolver no projeto do processo de entrega de valor para os usuários. Essa é uma forma inovadora de fazer design. Muda-se o foco da produção e consumo de produtos para a venda de serviços onde se vende resultados e soluções ao invés de um produto físico. O percurso apontado por Manzini (2002) acerca do design de serviços indica investimentos na mudança de curso, o que faz com que a demanda acabe sendo atendida pela venda da satisfação ao invés de um produto. A Tabela 1 exemplifica tais características segundo a visão de Sistema produto-serviço, sugerindo como tratar o lixo computacional. 60 Tabela 1: Características do Sistema produto-serviço Venda de um bem: produto. Ex.: computador O consumidor compra um computador para a residência ou escritório. O consumidor possui, usa e detém seu próprio computador. O consumidor é responsável pela manutenção e pela qualidade da limpeza e zelo pelo equipamento. Investimento inicial pelo consumidor pode ser considerável. Consumidores descartam o computador e renovam com uma opção mais potente para atender às suas necessidades. Alternativas inovadoras: Sistemas produto-serviço O consumidor aluga um computador que atenda às suas necessidades para uso em sua casa ou escritório. A empresa determina os melhores equipamentos e métodos baseados nas necessidades dos consumidores. A empresa possui a propriedade do computador e é responsável pela manutenção. O consumidor é responsável pelo uso e pela qualidade da conservação. A empresa possui, mantêm e estoca peças de computador para reposição e remontagem. A empresa é também responsável pela qualidade. Os custos do consumidor são diluídos ao longo do tempo. As empresas são responsáveis pelo descarte e têm incentivos para prolongar o uso e a reutilização do equipamento. Fonte: UNEP (2002 – adaptado e baseado). O que se observa nessa visão de Sistema produto-serviço é que, com a inversão das funções dos produtores e consumidores, o fabricante é o proprietário do produto e, assim, tem responsabilidades e obrigações durante toda a vida do mesmo. Com isso, a questão do lixo computacional é minimizada e fases de vida do produto de uso e descarte são respeitadas. Dessa forma, é reduzido o consumo de energia por meio da adoção da remanufatura, o que também reduz os custos relacionados à produção. Essa é uma solução sustentável. 2.2.2 Comunidades criativas Existem outras formas metodológicas no processo do produto que visam a inovação social como um motor sustentável para a inovação tecnológica e de produção. Manzini (2007) aponta o que vem acontecendo naturalmente na sociedade e denomina esse fenômeno como comunidades criativas. Esta denominação é fortalecida pela era tecnológica em que a sociedade civil organizada inova em serviços fundamentados no apoio mútuo, auto-organização, confiança e interação, em que as principais características são as qualidades interpessoais, sociais e ambientais. Indivíduos ou comunidades agem para resolver problemas ou 61 criar oportunidades. Como afirma Manzini (2008), tais inovações, se guiadas antes por mudanças de comportamento do que por mudanças tecnológicas ou de mercado, geralmente emergem através de processos organizacionais como bottomup, que significa de baixo para cima, no qual as pessoas interessadas participam. Já inovar de cima para baixo, ou seja, top down significa que instituições externas estão intervindo. Há ainda o peer-to-peer, expressão usada para qualificar a ação entre pares, ou seja, é a troca de elementos entre organizações parecidas. Esta, segundo o autor, é uma forma que a sociedade encontra para lidar não só com o lixo computacional, mas também com outras interações que agregam valores econômicos, sociais e ambientais. O que chama atenção é que esses fenômenos, com características que se fundem e se auto-organizam, são comunidades criativas. Bonsiepe (1997) aponta que fazer design é desenvolver um potencial ao qual cada um desenvolve, adquire, busca novas práticas da vida cotidiana. Dessa forma, o design contribui para diferentes objetivos em diversos contextos. Assim, de acordo com Manzini (2008, p. 96), a sociedade se mostra: [...] Como uma trama de redes projetuais: um complexo e entrelaçado sistema de processos de design que envolve indivíduos, empreendimentos, organizações não lucrativas, instituições locais e globais que imaginam e colocam em prática soluções para uma variedade de problemas sociais e individuais. A afirmação do autor abre a possibilidade para entender quais processos do design envolvem atores e coletivos organizados, podendo estabelecer benefícios sociais, como é o caso de ONGs, ativistas que defendem causas, entre outros grupos da sociedade, como empresas e sociedade civil que se auto-organizam. Manzini (2008) aponta que essa forma espontânea pode ser uma solução para o problema do lixo computacional existente, pois estas inovações – as metodologias inovadoras – surgem espontaneamente e podem mudar o rumo de acontecimentos que tendem a conduzir o planeta a fins catastróficos. O autor vê esse fenômeno das comunidades criativas como um molde de trabalho para atitudes de vida mais sustentáveis geradas por indivíduos inventivos. Práticas desse tipo tornaram-se comuns, como relata Kranenburg (2008), que usou o termo Bricolabs52 para 52 Bricolabs é real, um laboratório com o espírito de rede (BASTOS, 2009). 62 significar narrativas colaborativas que podem ser escritas por muitas vozes. Sobre isto, Bastos (2009, p. 29) revela “são experiências que serviram como inspiração para a política de criação de pontos de cultura do governo brasileiro, tornando-se parte da equação uma demanda quantitativa”. Ações como essas de ativismo, inclusão e sustentabilidade trabalhadas e criadas por coletivos, são classificadas como metodologia de comunidades criativas. Caracterizam-se como ações voltadas a uma forma de design de reapropriação tecnológica para transformação social e se relacionam ao lixo computacional, estudado neste trabalho. Grupos que estabelecem experiências partilham conversas e programas em laboratórios experimentais de tecnologias espalhados pelo Brasil. Eles têm assumido um papel de destaque, em especial pelo uso e suporte a tecnologias livres e abertas. Essas experiências indicam que laboratórios são de fato desejáveis – menos por uma suposta carência de acesso a tecnologias do que pela necessidade de socialização, o que dinamiza a criatividade aplicada. Ou seja, o mais importante é que os laboratórios experimentais espalhados pelo mundo possibilitam a troca de conhecimento e oportunidades, fomentando o aprendizado e distribuindoo, incentivando a descoberta e até mesmo o erro, parte fundamental e inerente ao processo. Um laboratório experimental deve estar baseado na disponibilização de metodologias, materiais e produtos com licenças livres. Deve buscar o desenvolvimento de economias baseadas na abundância e na generosidade do conhecimento livre. Deve incentivar a circulação e o enredamento, bem como buscar maneiras de financiar a criatividade aplicada que se alimenta da experimentação. 2.2.3 Inteligências coletivas e auto-organização O termo em inglês “swarm intelligence”53, que significa inteligência coletiva (IC), foi introduzido em 1989 e se caracteriza pelo estudo de coletivos organizados de animais, que se formam sem um líder e se comportam de forma a aumentar suas chances de sobrevivência. Este tipo de comportamento em grupo é atualmente estudado em sistemas naturais de espécies como: colônias de formigas e abelhas, bando de pássaros, crescimento de bactérias ou amebas, cardumes ou mesmo 53 Swarm intelligence significa inteligência coletiva (IC) (BONABEAU et al., 1999, p. 1). 63 multidões de seres humanos. Conforme Johnson (2003, p. 10), um estudo feito por pesquisadores da área de matemática aplicada, com “Dictyostelium discoideum”54, organismo semelhante a uma ameba, contribuíram para “transformar a nossa compreensão não apenas da evolução biológica, mas também de mundos tão diversos como a ciência do cérebro, o design de software e os estudos urbanos”. Percebeu-se que o discoideum tem uma vida, ora ele é um, ora ele é muitos, dependendo das condições ambientais favoráveis ou desfavoráveis que se lhe apresentem. Segundo o mesmo autor, “quando o ambiente é mais hostil, o discoideum age como um organismo único; quando o clima refresca e existe uma oferta maior de alimento, ‘ele’ se transforma em ‘eles’. O discoideum oscila entre ser uma criatura única e uma multidão” (JOHNSON, 2003, p. 10). Trata-se de um comportamento de grupo coordenado, pois se costuma pensar em termos topdown55, sempre com a existência de um líder. Assim, a resposta predominante foi, durante longo tempo, a de que células líderes liberariam efeitos de ondas no ar, a fim de fazerem as outras células se agregarem. O processo observado acerca do discóide um acontece com os seres humanos, grupos se organizam, trocam experiências, muitas vezes sem que haja um líder, todos emitem opiniões, trocam experiências. No pensamento de Lévy (1999, p. 28)56, vê-se com clareza que inteligência coletiva “é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta uma mobilização efetiva das competências”. O autor enfatiza que uma inteligência, quando distribuída por toda parte, é significativa da existência de pessoas com diferentes níveis de conhecimento. Por isso, ainda de acordo com o autor, não existe um conhecimento pronto, acabado, que seja o único a ser correto, pois em todas as partes, e em cada uma das pessoas, concentra-se algum tipo de 54 55 56 Dictyostelium discoideum é um organismo semelhante a uma ameba. Ora ele é um, ora ele é muitos. Tudo dependendo das condições ambientais favoráveis ou desfavoráveis que se lhe apresentem Johnson (2003). Top-down é uma metodologia que começa no nível mais alto de um conceito de design e prossegue em direção ao nível mais baixo. Começa com a especificação ampla de projeto em mente e coloca informações em um local centralizado. Então você progride a partir dessas informações para as partes individuais. Isto torna mais fácil projetar e gerenciar conjuntos de produtos de grande porte. Você pode fazer alterações a partir de uma localização central, que vai propagar a todos os níveis do design, segundo Johnson (2003). Pierre Lévy foi um filosofo que estudou especialmente na área da cibernética e da inteligência artificial. Disponível em: <http://www.infoescola.com/biografias/pierre-levy/>. Acesso em: 15 jan. 2012. 64 saber. Existe uma inteligência distribuída por toda parte e há troca de informações e saberes. Lévy (1999, p. 167) ainda afirma “[...] mas sim a inteligência coletiva, a saber, a valorização, a utilização otimizada e a criação de sinergia entre as competências, as imaginações e as energias intelectuais, qualquer que seja sua diversidade qualitativa e onde quer que esta se situe”. É relevante destacar que inteligências coletivas e auto-organização são distintas em relação às comunidades criativas. Todavia, em um determinado momento de ação elas podem compartilhar e fundir experiências entre pares. Este autor propõe a construção de inteligências organizadas pela própria coletividade, isto é, pelos próprios homens. Assim, nessa interação, o acúmulo de experiências e de diversos conhecimentos pode desenvolver a criatividade do indivíduo, o que pode ser aumentando pelo trabalho coletivo e pela própria interação com os outros. O que demonstra que o processo opinativo e as trocas entre pares, são essenciais para o design. A conexão entre pessoas de forma colaborativa constitui as comunidades colaborativas. Por sua vez, tais comunidades devem adotar a inovação social que, segundo Manzini (2008, p. 61), “refere-se à mudança no modo como indivíduos ou comunidades agem para resolver seus problemas ou criar oportunidades”. Essas comunidades têm tido o desprendimento de inventar, aprimorar e gerenciar soluções de forma criativa, focadas nos novos modos de vida. Manzini (2008) reforça que essas ações são realizadas por comunidades criativas. O designer pode, a partir de experiências sociais como estas, compreender as necessidades dos consumidores e convertê-las em valores para consumidores e oportunidades para o mercado. Além do que essa socialização pode ser classificada como inteligência coletiva, auto-organização e colaboração. Ainda segundo Manzini (2008), essa forma de organização coletiva não pode ser imposta, pois é formada geralmente por sujeitos que possuem valores e culturas comuns e que qualquer intervenção externa de agrupamento, coloca em risco a harmonia das relações interpessoais. Pode-se afirmar, a partir dessas considerações, que os homens se reúnem e se auto-organizam espontaneamente por meio de um contexto cultural específico, capitalizam as capacidades dos membros da equipe de forma eficaz, num fluido conjunto interdependente, que ocorre por meio da rede de equipe, no sentido da organização, que reforça a 65 responsabilidade de cada um pelo todo, para criar estruturas, culturas e práticas participativas com objetivo comum (BEYERLEIN et al., 2003). Manzini (2008) reforça a importância do designer como agente facilitador da inovação social, através de sua aproximação com os problemas reais do usuário e seu contato com os agentes locais. O termo inovação social, segundo Manzini (2008), refere-se a mudanças no modo como indivíduos ou comunidades agem para resolver seus problemas ou criar novas oportunidades e são guiadas mais por mudanças de comportamento do que por mudanças tecnológicas ou de mercado, geralmente através de processos organizacionais “de baixo para cima”, em vez daqueles “de cima para baixo”, como já abordado anteriormente. O autor enfoca ainda que a inovação social deve encontrar energia dentro das iniciativas locais e que o papel do designer reside em construir uma ponte entre as condições internas e as condições externas da mudança para criar experiências locais que mostrem conhecimentos e possibilidades inovadoras. Esse é um papel estratégico do designer. O acúmulo de diferentes experiências tem como resultado a multiplicação de resultados, as fontes de ideias multiplicam-se, o medo de falhar é partilhado, a motivação é maior e o processo criativo instigado pela coletividade. 66 3 O DESIGN EM ESTUDOS DE CASOS SOBRE AÇÕES DE LIXO COMPUTACIONAL EM SÃO PAULO Este capítulo aborda os estudos de casos relacionados a ações de descarte, bem como as metodologias aplicadas por grupos sociais que criam respostas para resolver problemas relacionados ao descarte de lixo computacional na sociedade. No que concerne à implicação das pessoas nas ações de descarte o que é normalmente esperado desta pesquisa é que as ações e os resultados investigados tivessem como foco a questão ambiental. Contudo, é preciso referir que algumas ações acontecem naturalmente sem objetivo ambiental. O que não significa que não contribuam para a questão da sustentabilidade da atividade projetual. Isso é demonstrado em um trecho da entrevista feita com Felipe Fonseca do MetaReciclagem: 67 [...] nossos contextos são específicos para os problemas que precisamos resolver. As formas do mutirão, como sociabilidade dinâmica de rede e da gambiarra como criatividade cotidiana, surgiram como respostas. Não sei se se aplicam a outros campos. Nesse caso especifico, Fonseca deixa claro que nem tem ideia se as ações deles se aplicam a outros campos como o ambiental. Essas respostas são buscadas nos estudos de casos, com a definição de cada metodologia ou atividade projetual utilizada por cada um. Esse problema é atual, entender as atividades de pessoas que se auto-organizam em busca de um mesmo fim significa perceber os diferentes modos de ação isolados que o fazer humano encontra para problema lixo computacional. Segundo Manzini: “Pessoas que, de forma colaborativa, inventam, aprimoraram e gerenciam soluções inovadoras para novos modos de vida, a partir da recombinação de elementos existentes, considerando que a capacidade de reorganizar estes elementos em novas e significativas combinações, seria uma das possíveis definições de criatividade” (MANZINI, 2008, p. 64). A disposição do homem para criar respostas e resolver problemas diante do acúmulo de lixo computacional são soluções pensadas isoladamente ou disseminadas por determinados grupos sociais, cujo objetivo é encontrar possibilidades de desenvolvimento sustentável. A indústria não tem dado conta do lixo, tampouco do desenvolvimento sustentável diante da enorme obsolescência existente, o que causa um problema ambiental. A Tabela 2 demostra as ações investigadas que serão discorridas nesse capítulo se encaixam nas seguintes metodologias: Tabela 2: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Ações investigadas CEDIR Realidade individual Metodologia utilizada Universidade Sistema produto-serviço Sociedade Civil Comunidades Criativas, inteligências coletivas e auto-organização Itautec Indústria Ciclo de vida do produto Reciclo Metais Empresa particular Ciclo de vida do produto MetaReciclagem Fonte: A autora. 68 Cada caso será abordado por meio das experiências. Dentre eles, a Indústria Itautec de Jundiaí, que tem encontrado formas de minimizar a situação do lixo computacional com centro de descarte e normas estabelecidas. O CEDIR que é um centro de descarte organizado pela USP57, que sentiu o problema da obsolescência computacional e tomou posição diante deste fato. Um caso específico de grupo social que se mobilizou em prol do lixo computacional é o MetaReciclagem, seus integrantes trocam informações on-line, mobilizando-se por todo Brasil, trocando experiências. Finalmente o caso da empresa particular Reciclo Metais, cujo proprietário é um empreendedor que trata a questão ambiental como normas a seguir, resolvendo em parte a obsolescência computacional e visando o lucro por meio do lixo computacional. Em todos os casos, o que se observa é que a sociedade tem buscado formas de minimizar a situação do lixo existente. Logo, a posição dos designers, diante dessas novas ações, mudou, não ficando apenas na responsabilidade de criar e sim em executar todo o processo, desde o nascimento até a morte do produto ou a não morte do mesmo. Segundo o autor Manzini (2008, p. 28): [...] para os designers,..., a possibilidade de ação recai na capacidade de dar uma orientação estratégica às próprias atividades [...], o que implica numa considerável habilidade de design: habilidade de gerar visões de um sistema sócio técnico sustentável, organizá-las num sistema coerente de produtos e serviços regenerativos, e comunicar tais visões e sistemas, adequadamente, para que sejam reconhecidos e avaliados por um público suficientemente amplo, capaz de aplicá-las efetivamente. Essa preocupação e a interação do designer à questão ambiental e ao problema existente requerem atitude, inovação e empenho de tempo, compreensão da dinâmica empregada, além de esforço em muitos sentidos. Para isso, é necessário que o designer sinalize sua intenção no sentido de que as transformações não se manifestem apenas fisicamente, com novos produtos e serviços. Mas, ao contrário, ele deve buscar a interação entre as diferentes manifestações de valores da sociedade, pois tais manifestações preocupam-se com as ações propostas para solucionar o problema existente. É importante que o 57 USP. Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://www5.usp.br/>. Acesso em: 15 jan. 2012. 69 designer pense em ideias e reformule projetos que atendam às necessidades da sociedade e que respeite e dê apoio a ações que o homem tem proporcionado ao problema, pois assim ele pode melhorar a qualidade de vida. É necessário pensar em estratégias projetuais que solucionem o lixo computacional existente. Essa é a motivação pessoal da pesquisadora. 3.1 A EXPERIÊNCIA DA USP: CEDIR A experiência da USP serve como estudo de caso e exemplificação, por tratar de lixo eletrônico, no qual o computacional se encaixa. A Universidade de São Paulo (USP) instaurou o Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática, denominado de CEDIR58, que atua desde 2009 e garante que resíduos de informática da própria universidade passem por processos que impeçam o seu descarte na natureza e possibilitem o seu reaproveitamento na cadeia produtiva59. Neste projeto organizado pela USP, os equipamentos e peças que ainda estiverem em condições de uso são avaliados e enviados para projetos sociais, atendendo, assim, à população carente, no acesso à informação e educação, através do blog <http://stoa.usp.br/neucib/weblog/90500.html> (entrevista Nelci Bicov – CEDIR), o qual permite acesso e cadastro dos interessados. Constatou-se no estudo uma preocupação evidente para o estímulo às relações sociais e atividades fora da universidade visando à conscientização ambiental da sociedade. De acordo com os depoimentos das entrevistas, não só o CEDIR, mas outras ações investigadas focam esse ponto: [...] Os equipamentos e peças que ainda estiverem em condições de uso serão avaliados e enviados para projetos sociais. (Entrevista Nelci Bicov – CEDIR) 58 59 Os equipamentos e peças que tenham condições de uso são encaminhados para projetos sociais, atendendo, assim, a população carente no acesso à informação e educação. No final de sua vida útil, tais equipamentos deverão ser devolvidos pelos projetos sociais à USP, para que possam lhes dar uma destinação sustentável (CEDIR, 2001). Cadeia produtiva é um conjunto de etapas consecutivas, ao longo das quais os diversos insumos sofrem algum tipo de transformação, até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua colocação no mercado. Trata-se, portanto, de uma sucessão de operações (ou de estágios técnicos de produção e de distribuição) integradas, realizadas por diversas unidades interligadas como uma corrente, desde a extração e manuseio da matéria-prima até a distribuição do produto. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cadeia_produtiva>. Acesso em: 15 jan. 2012. 70 [...] Damos suporte a projetos sociais, maior conscientização da população, sensibilização da área política e oportunidade de emprego e renda. (Entrevista Marcus Oliveira – Reciclo Metais) [...] A empresa tem sempre grande preocupação em estabelecer programas de conscientização e comunicação com boas práticas ambientais, não só para funcionários, mas também para a comunidade. (Entrevista Andréia Maffeis – Itautec Jundiaí) O processamento do material eletroeletrônico pelo CEDIR-USP, ao longo de 2010, resultou no remanufaturamento de equipamentos que beneficiaram 25 entidades externas à USP (ONGs) e 20 unidades da própria USP com equipamentos emprestados. Esses dados constam na Tabela 3 e foram extraídos do ano de 2010 (a entrevista se fez no ano de 2011 e os dados do ano não estavam terminados). Tabela 3: Total de empréstimo de equipamentos tratados pelo CEDIR-USP em 2010 Equipamentos emprestados Ano Monitores CPUs Impressoras Scanners Outros* Total 2010 141 129 11 3 45 339 *Outros: dispositivos acessórios: mouses, autofalantes, cabos etc. Fonte: Autora em visita in loco – CEDIR-USP, 2011. A reciclagem que o CEDIR executa, no sentido de desmonte e reuso do material, encaixa-se na metodologia de Sistema produto-serviço. De uma forma geral, a universidade tem uma filosofia comum de atuação quanto ao reaproveitamento e empréstimo, o que é uma solução adequada para o enfrentamento da problemática do excesso de lixo existente dentro da USP e que pode ser uma solução ambiental que sirva como exemplo a outras empresas. O Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática da Universidade de São Paulo (CEDIR-USP) é uma iniciativa responsável, alinhando a universidade com os interesses da sociedade na gestão adequada dos resíduos eletroeletrônicos, colaborando, assim, para a sustentabilidade. Não se deve deixar de ressaltar que a visão deles, além de ambiental ao evitar o descarte indevido, é assistencialista, visando proporcionar às classes menos desfavorecidas a oportunidade de manusear 71 o instrumento tecnológico advindo do lixo computacional arrecadado e remontado para novo uso. A dinâmica é emprestar durante um tempo, com data para devolução, o que reforça a metodologia de Sistema produto-serviço utilizada pelo CEDIR. A Tabela 4 mostra como o CEDIR se enquadra nesta metodologia: Tabela 4: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Sistemas produto-serviço Por que se aplica ao CEDIR (USP) Aluguel do produto (em substituição à compra) Os computadores remontados no centro são emprestados a comunidades carentes por tempo determinado. A empresa dona do produto fornece a manutenção necessária O centro está disponível para possíveis reparos. O produto retorna à empresa para a reinvenção Após o tempo determinado, o produto retorna à empresa e pode ser reformulado para atender outras pessoas carentes, com fins solidários. As peças que não forem válidas na montagem dos computadores são encaminhadas a outros centros de reutilização. Fonte: A autora. Sobre essa atividade projetual de empréstimo e montagem é necessário considerar a ligação direta com o futuro usuário, ou seja, o mesmo participa da montagem do computador, para que indique suas viabilidades de desenvolvimento e futura utilização. Para os itens que não forem reaproveitáveis por projetos sociais, a destinação é a reciclagem e envio dos mesmos a centros de descarte específicos para cada material, situados no Brasil e no exterior. No entanto, isso não resolve o problema totalmente, pois não existem centros de descarte que aproveitem todas as peças sem desperdício, o que acarreta em sobras de materiais no próprio CEDIR na USP. No local, existem pilhas de materiais sem destino, aguardando solução, como registra a foto tirada em visita: 72 Figura 13: Foto do interior do CEDIR-1 Fonte: Autora em Visita ao CEDIR- USP. Figura 14: Foto do interior do CEDIR-2 Fonte: Autora em Visita ao CEDIR- USP 73 Figura 15: Foto do interior do CEDIR-3 Fonte: Autora em Visita ao CEDIR- USP Figura 16: Foto do interior do CEDIR-4 Fonte: Autora em Visita ao CEDIR- USP O CEDIR também executa um papel de segregação e envio de diferentes itens, dependendo de suas especializações, a outros centros de reciclagem que descartam o restante dos componentes. De acordo com Manzini (2008, p. 28), “os desafios com os quais se depara o design que busca contribuir para a sustentabilidade do planeta, ancoram-se, fundamentalmente, na geração, 74 organização e comunicação de visões de mundo mais sustentáveis”. Essa é a visão do CEDIR, organizar e sistematizar uma forma de trabalho que programe a metodologia Sistema produto-serviço no sentido de resolver o problema do lixo computacional, oferecendo benefícios tanto aos usuários quanto às empresas, e ainda ao meio ambiente, no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, pois todos devem se conscientizar a fim de não esgotar os recursos naturais. A dinâmica do CEDIR (2001) funciona com uma infraestrutura construída de 400m², instalada em um galpão com acesso para carga e descarga de resíduos, área com depósito para categorização, triagem e destinação de 500 a 1000 equipamentos por mês. O projeto tem como conclusão a melhoria no uso sustentável do lixo eletrônico gerado pelo corpo docente, discente e profissional da Universidade. No local, observou-se que o enfoque é arrecadar, sistematizar, separar enviar a projetos sociais ou enviar a centros de descarte, dando um fim ao problema lixo computacional, como se observa no fluxograma organizado pela USP, representado na Figura 17: Figura 17: Fluxograma da gestão de resíduos eletrônicos do CEDIR-USP Fonte: Autora no CEDIR-USP, 2011 – Visita em loco. 75 O centro de descarte, no qual trabalham integrantes da USP, adota metodologias projetuais, como arrecadar, separar e remontar novos computadores com velhas peças doando de forma consignada a entidades, como pode ser observado no fluxograma. As ONGs obedecem a uma fila de doação, com adendo de empréstimo retornável. É uma atitude sustentável que lida com a obsolescência do lixo computacional, já que a demanda da própria universidade é imensa. A repórter Valéria Dias, da Agência USP60, relata: Apenas entre janeiro e junho de 2011, o Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática (CEDIR) da USP recebeu quase 42 toneladas de equipamentos descartados pela comunidade uspiana e por pessoas físicas, como CPUs, monitores, teclados, mouses, estabilizadores, no-breaks, impressoras, telefones, celulares, fios e cabos, CDs, DVDs, além de pequenos objetos como câmeras fotográficas, pilhas, baterias e cartuchos. Somente neste período, foram descartados 1439 monitores, 1202 CPUs e 511 impressoras. A principal contribuição do CEDIR para a sociedade é garantir que os equipamentos eletroeletrônicos da USP tenham destinação correta e que a maioria do material descartado possa retornar à cadeia produtiva. A forma como trabalham envolve projetos sociais que organizam e remontam equipamentos e os emprestam às ONG’s ou a projetos educativos cadastrados. Com esse projeto, a USP acredita que contribui para que os equipamentos reaproveitados tenham outro destino diferente de um aterro sanitário. Mcdonough e Braungart (2002, p. 25) chamam a atenção para o fato de que esta atitude é decorrente com relação ao meio ambiente desde o século XIX: [...] no século XIX, quando essas práticas começaram, a natureza e suas características não traziam nenhuma preocupação. Os recursos pareciam inacabáveis. A natureza era vista como uma “mãe terra” que, eternamente de forma regenerativa, iria absorver todas as coisas e continuar a crescer. 61 60 61 Disponível em: <http://www5.usp.br/de-janeiro-a-junho-CEDIR-recebeu-quase-42-toneladas-dedescarte-de-eletronico/>. Acesso em: 9 dez. 2011. Tradução nossa a partir de: In the nineteenth century, when these practices began, the subtle qualities of the environment were not a widespread concern. Resources seemed immeasurably vast. Nature itself was perceived as a “mother” who, perpetually regenerative, would absord all things and continue to grow. 76 Enquanto no século XIX os recursos pareciam inesgotáveis, em contrapartida, hoje, a preservação e a preocupação com o meio ambiente é considerada uma primazia de toda nação e também um grande desafio que o mundo todo enfrenta. Mcdonough e Braungart (2002, p. 26) afirmam que: [...] o entendimento da natureza mudou drasticamente. Novos estudos indicam que os oceanos, o ar, as montanhas e as plantas e animais que os habitam são mais vulneráveis do que se pensava. As indústrias modernas, no entanto, ainda operam de acordo com paradigmas que se desenvolveram quando a visão de mundo humana era bem diferente.62 Um fato recorrente é que a indústria tem colocado uma enorme quantidade de produtos no mercado e que o consumidor não sabe onde descartar. O modelo de descarte de produtos e materiais é adotado atualmente. Com o surgimento de atitudes como a observada na da Universidade de São Paulo, que organiza e estabelece uma metodologia atuando sobre Sistema de produtos-serviços, ocorre o direcionamento do desenvolvimento para a sustentabilidade ambiental, já que cabe ao design a função de definir as interações entre o produto, o homem e o ambiente. A Universidade de São Paulo é um exemplo de IES a outras instituições que desejem tornar-se mais proativas na redução ambiental, pois respeita e define a destinação de grandes quantidades de e-lixo63, proporcionando possibilidades para um mundo mais sustentável. 3.2 CONHECENDO A REALIDADE DA INDÚSTRIA ITAUTEC EM JUNDIAÍ O Centro de Reciclagem da Itautec do Grupo Itautec – Jundiaí é especializado na prestação de serviços de gestão e reciclagem de eletrônicos e de 62 63 Tradução nossa a partir de: understanding of nature has dramatically changed. New studies indicate that the oceans, the air, the mountains, and the plants and animals that inhabit them are more vulnerable than early innovators ever imagined. But modern industries still operate according to paradigms that developed when humans had a very different sense of the world. E-lixo inclui metais pesados como chumbo, cádmio e mercúrio, além de outros elementos tóxicos. Por este motivo, esses resíduos precisam de tratamento adequado para não causar danos à saúde e ao meio ambiente. Disponível em: <http://www.institutogea.org.br/elixo.html>. Acesso em: 15 jan. 2012. 77 produtos gerados pelo mercado corporativo, buscando, com isso, ser referência ambiental em seu segmento, de forma sustentável. Observou-se, neste estudo de caso, uma preocupação com a preservação do meio ambiente, evidenciada pelo aumento da rigidez das leis e fiscalização ambiental, bem como pela adesão às normas ISO 14.00064 de gestão ambiental. A entrevistada Andréia Maffeis, da Itautec, pronuncia-se acerca desta conquista e da adesão às normas: [...] buscando excelência ambiental, levou a implementar um Sistema de Gestão Ambiental em conformidade com a Norma ISO 14001, primeiro na unidade de São Paulo. A conquista da certificação aconteceu em novembro de 2003. Em 2007 migramos o nosso sistema para nova planta construída e instalada em Jundiaí, e conseguimos manter a nossa certificação ambiental e de qualidade. [...] As boas práticas ambientais fazem parte da política interna da empresa, e a certificação é o reconhecimento desse ideal e do trabalho realizado por todos os colaboradores, que se comprometeram de fato com a redução dos impactos ambientais em suas atividades. A adoção das práticas ambientais proporciona às equipes uma reflexão quanto ao desperdício e racionamento de recursos. A empresa ganha, então, a otimização dos recursos e a economia em setores produtivos e de apoio (Case cedido pela Itautec). Contudo, ficou claro em entrevista que é extremamente importante que todos os agentes estejam envolvidos na estrutura e nos cuidados sobre todas as áreas da empresa. Somente com o comprometimento num processo responsável, com normas e regras a serem cumpridas, alinhados à filosofia da organização, foi possível a conquista da certificação. A partir de tecnologias voltadas à remediação, reaproveitamento, redução e monitoramento de resíduos foi montado um centro de descarte na própria indústria. É o que se observa na Figura 18, retirada do case desenvolvido pela Itautec, fornecido por Andréia Maffeis, uma das responsáveis pelo projeto: 64 ISO 14.000 é um conjunto de normas que definem parâmetros e diretrizes para a gestão ambiental para as empresas (privadas e públicas). Estas normas foram definidas pela International Organization for Standardization – ISO (Organização Internacional para Padronização). Para conseguir e manter o certificado, a empresa precisa seguir a legislação ambiental do país, treinar e qualificar os funcionários para seguirem as normas, diagnosticar os impactos ambientais que está causando e aplicar procedimentos para diminuir os danos ao meio ambiente. Disponível em: <http://www.suapesquisa.com/o_que_e/iso_14000.htm>. Acesso em: 15 jan. 2012. 78 Figura 18: Foto do centro de descarte Fonte: Case cedido em visita à Itautec – Jundiaí. Conforme a entrevistada, neste centro de descarte, montado em Jundiaí, há vários equipamentos específicos para a linha de desmonte, triagem e encaminhamento, organizados pelo próprio sistema fabril da Itautec: [...] todo equipamento eletrônico descartado das próprias empresas que a Itautec fornece, ou mesmo usa em seus domínios, são enviados para a Área de Reciclagem. É descaracterizado, separado e enviado para destino ambientalmente adequado. Os equipamentos recebidos pela área são desktops, notebooks, servidores e caixas eletrônicas. Quando o equipamento chega, é desmontado e colocado em separado a caixas coletoras com destinos a reciclagem. Deste modo, é extremamente importante observar que a indústria é preocupada com ciclo de vida do produto, elaborando um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) dentro da própria empresa. A utilização de tecnologia proporcionou ganhos significativos e fortaleceu os compromissos ambientais, como relatou a entrevistada. Entre os pontos considerados relevantes, são enumerados os seguintes, segundo o resultado do case cedido por Andréia Maffeis da Itautec: 79 • Diminuição de resíduos em aterros; • Destinação correta de resíduos; • Emprego de colaboradores (próprios e terceiros) para descaracterização dos equipamentos e separação dos resíduos; • Fomento, direto e indireto, da cadeia de empresas recicladores; • Geração de receita. Neste case, a empresa demonstra atitude no segmento de negócios em que atua, resolvendo problemas ambientais por meio de ações e reciclagem de resíduo, cuidando do ciclo de vida do produto e tendo como referência o compromisso com a sustentabilidade. Verificou-se em visita ao local que a indústria instaurou ações simples, porém sustentáveis, como por exemplo, a substituição de equipamentos obsoletos por modernos com menor consumo de energia, objetivando alcançar metas de redução do consumo tanto de energia quanto de água. Para isso, houve participação dos colaboradores com ações simples, como desligar os computadores e a iluminação quando estiverem ausentes ou no final de cada expediente. A indústria também desenvolveu ações de homologação e qualificação de fornecedores, o que proporcionou um processo facilitador da qualidade e produtividade nas organizações, reduzindo custos com inspeção, maior segurança e confiabilidade nos fornecimentos. No SGA não basta à busca de fornecedores de produtos e/ou serviços, mas de parceiros que busquem soluções criativas que possam oferecer vantagens competitivas e melhoria ambiental para ambas as partes. Uma vez que a Indústria desenvolve um SGA e adota a certificação como meta, a intervenção neste domínio deve basear-se no respeito pela organização desde a produção, tendo como ponto de partida essencial produzir de acordo com a diretiva europeia, que restringe o uso de chumbo e outras substâncias tóxicas na produção de equipamentos, o que é um ganho ambiental. Apesar de não haver legislações específicas no Brasil acerca do tema, as diretrizes europeias já influenciaram a forma de produção das empresas. Aquelas que vendem seus produtos na Europa devem seguir normas técnicas de produção para a diminuição 80 do impacto ambiental dos produtos eletrônicos. Segundo depoimento de Andréia Maffeis, a Itautec além de preocupar-se com todas essas questões, ainda investe em ações de economia de energia, matéria-prima e diminuição da produção de resíduos gerados na sua fábrica, bem como se preocupa com diferentes componentes, dado à preciosidade de alguns deles, contidos em seus equipamentos, separando-os por item: [...] No barracão é feita uma triagem daquilo que ainda funciona, além de separar os diferentes tipos de cabos, plásticos e metais, entre outros elementos que compõem um computador. As placas têm diferentes quantidades de metais (alguns deles preciosos), o que torna seu valor de mercado variável, por isso, são exportados. Já os cabos podem conter cobre zinco, alumínio e até vidro, dependendo da função para a qual foram fabricados. [...] Após a descaracterização do equipamento, os resíduos gerados são colocados separadamente em caixas coletoras e destinados a centros de descarte com fornecimento de certificado de destinação. Constatou-se no local que, das peças separadas, algumas são enviadas ou negociadas com firmas específicas que as reciclam. O que não é reciclado, como placas de computador, é enviado para Cingapura e Bélgica. A indústria toma o cuidado de moer as placas dos computadores para envio ao exterior onde são recicladas. A fase da descaracterização é realizada pelo temor de que produtos obsoletos, mas ainda em condições de uso, sejam encaminhados para o chamado “mercado cinza” – o mercado paralelo. Essas vendas a centros de reciclagem geram uma excelente receita para a indústria, segundo os dados mostrados na entrevista Andréia Maffeis da Itautec: [...] A receita no ano de estudo gerada pela venda resíduos recicláveis foi de R$ 179.552,00. Este valor refere-se à diferença entre a venda de resíduos e a despesa para tratamento de alguns resíduos. As análises de processos antigos tendo como premissa critérios ambientais atuais podem levar a ganhos operacionais significativos, e essa dinâmica de atitudes alinhadas com a estratégia corporativa apresenta-se como um caminho sustentável para os negócios. A adoção de pequenas práticas ambientais prova que a indústria 81 ganha com a otimização de recursos e economia diminuindo o desperdício, o que é importante para a questão ambiental. Vale constatar que Itautec tem procurado formas de atenuar o problema da obsolescência atual. A empresa mostra-se preocupada com a preservação do meio ambiente, uma prova disso é que não somente os produtos produzidos por ela são reciclados, mas também todo o lixo interno gerado, como papelão, plástico, papel etc. Até o momento, a empresa obedeceu à sua função: produzir. Mas opta pela resolução de problemas, ao observar os equipamentos obsoletos expostos no meio ambiente, devido a designs de fabricação cada dia mais novos e mais atuais, criados diariamente pelo mercado. Segundo Sudjic (2010, p. 49)65, “o design, em todas as suas manifestações, é o DNA de uma sociedade industrial – ou pós-industrial, se isso é o que temos hoje. É o código que precisamos explorar se quisermos ter uma chance de entender a natureza do mundo moderno”. Conforme o autor, explorar valores emocionais e culturais com relação ao produto, torna a visão do design imprescindível. Por outro lado, o que não pode ser esquecido é onde descartar os produtos quando não mais tiverem utilidade ao consumidor. Essa é a grande preocupação. Uma sugestão ao problema é que as indústrias e também o poder público elaborem uma legislação específica que cubra o ciclo de vida completo – da fabricação de computadores ao descarte – com postos de coletas de lixo eletrônico, em todas as cidades. Além disso, seria necessário que a indústria se responsabilizasse em dar uma destinação definitiva, ou reaproveitar tais produtos, pois esse deve ser seu compromisso: responsabilizar-se pelo que põe no mercado. Fechar o ciclo de vida de um produto ou parte dele dentro da própria indústria é um processo de logística reversa ─ um ideal que deve ser perseguido com responsabilidade, por trazer benefícios socioambientais e por reduzir a necessidade de aquisição de matérias-primas. Sendo o lixo uma das questões mais complexas quando se fala em sustentabilidade, gerir resíduos de forma adequada e inseri-los novamente no processo produtivo tornou-se uma solução eficiente e inovadora. Neste cenário, pode-se constatar a relevância que a logística reversa assume. Essa modalidade de logística é entendida como o processo de planejamento e controle da 65 Sudjic (2010) aponta para o quão paradoxal essa aproximação se revela num primeiro momento, pois o design se configurou em torno da ideia de fornecer respostas para problemas apresentados, vinculando-se a noções de funcionalidade e de seriação. 82 eficiência, do custo efetivo do fluxo de matérias-primas, estoques em processo, produtos acabados e estabelecimento do ponto de consumo ao ponto de origem com objetivo de reagregar valor ou efetuar o descarte adequadamente. A indústria Itautec chamou atenção por se preocupar com essa questão do ciclo de vida do produto, detectada como uma metodologia adotada e ao qual será abordado no próximo tópico (ciclo de vida do produto), que trata de um exemplo constatado em visita ao local, no caso, o do processo do barro de solda executado pela empresa. Existem outros equipamentos que a empresa procura encaminhar para todo o ciclo e se observa a dificuldade de locomoção para logística reversa, como veremos no caso dos monitores à espera de reciclagem. 3.2.1 Caso de descarte e reciclagem: logística reversa Nos últimos anos, os temas logística reversa66, meio ambiente e sustentabilidade ganharam visibilidade e vem sendo divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O programa classifica o Brasil como o maior produtor de lixo eletrônico do mundo. Em 2010, houve aprovação e sanção da lei presidencial que cria a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) com a Lei nº 12.305, de 2 de agosto. Essa lei veio alterar a dinâmica de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes responsabilizando-os pelo descarte e reciclagem correta. O processo logístico envolvido no ciclo reverso é a chamada logística reversa que precisa ser entendida como uma oportunidade de adicionar valor, quer pela imagem da empresa junto à sociedade com relação aos aspectos ambientais e a sua responsabilidade social, quer pela oportunidade de agregar serviços criando diferenciais competitivos, e pela gestão integrada do ciclo do produto e dos custos envolvidos ao longo da vida do mesmo, possibilitando a redução de custos e gerando vantagem competitiva. 66 Logística reversa define-se como uma área que planeja, opera e controla o fluxo, e as informações logísticas correspondentes ao retorno dos bens de pós-venda e de pós-consumo ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo, através dos Canais de Distribuição Reversos, agregando-lhes valor de diversas naturezas: econômico, ecológico, legal, competitivo, de imagem corporativa, dentre outros segundo, Rogers e Tibem-Lembke (1999). 83 Mcdonough e Braungart (2002, p. 42) trazem a questão da “infra-estrutura industrial atual, projetada para seguir o crescimento econômico”67, pois é possível perceber que a maioria da produção industrial, projeta um produto no mercado sem se preocupar com a logística reversa. Muitos produtos terminam sua vida de uso e assim o consumidor compra outro, levando a mais consumo. Contudo, nesse processo, não há planejamento acerca do que fazer com o descarte do produto não utilizado. Segundo Mcdonough e Braungart (2002), o saldo de detritos é erro de design e não deveria existir. A partir do momento em que pessoas compram um produto, o que querem é o contato ou a utilidade que aquele produto proporciona e não pensar o que fazer com o mesmo quando este não mais servir. A preocupação da logística reversa (LR) é fazer com que o material, sem condições de ser reutilizado, retorne ao seu ciclo produtivo ou para o de outra indústria como insumo, evitando uma nova busca por recursos na natureza e permitindo um descarte ambientalmente correto, ação que foi observada na indústria Itautec. Parece simples e inteligente, mas o processo ainda não está bem elaborado, tendo muito a avançar. Em visita à Itautec, em Jundiaí, detectou-se que os barros de solda, um método altamente eficaz para a remoção dos óxidos, como estanho e chumbo, dos equipamentos eletrônicos, aumentam a viscosidade da solda e é realizado como uma forma de logística reversa, fazendo com que o produto volte a seu ciclo sem ser descartado. Os equipamentos entram na máquina, que derrete o chumbo e outros componentes da peça, produzindo novamente a barra e o produto novo, devolvendo-os à indústria, configurando-se um ciclo produtivo. As indústrias chamam esta forma de ciclo fechado e a Itautec tem feito isso de maneira satisfatória. Observou-se que a Itautec tem o barro de solda, como uma ação isolada e correta, que atende à proposta de Mcdonough e Braungart (2002) de criar um produto que volte ao seu ciclo para que não ocorra o descarte. Geralmente, esse processo não acontece desde a indústria, o produto não é elaborado para ser reaproveitado. Mcdonough e Braungart (2002, p. 27) ainda afirmam que a indústria projeta sem pensar no destino final do produto e consumidores devem ter claro onde descartar o mesmo quando esse não mais servir. Nesse sentido, os autores defendem a ideia de que: 67 Tradução nossa a partir de: Today’s industrial infrastructure is designed to chase economic growth. 84 Eles são os produtos finais de um sistema industrial projetado de forma linear, de “mão única”, de um modo do berço à sepultura (Cradle to Grave). Recursos são extraídos, transformados em produtos, vendidos e eventualmente dispostos em um “túmulo” de algum tipo, geralmente um aterro ou incinerador. Você provavelmente está familiarizado com o fim desse processo, por que você, consumidor, é responsável por lidar com esses detritos.68 Percebe-se a responsabilidade não só da indústria, mas também do consumidor ao adquirir um produto. Em entrevista, Andréia Maffeis revelou que a indústria está sofrendo as consequências, como demonstra o dado da Itautec que: [...] Mantém um estoque de quase mil monitores à espera de reciclagem[...] No passado, a indústria possuía um acordo com a produtora dos monitores, LG Philips, através do qual um cinescópio velho era transformado em um cinescópio novo graças a uma metodologia que moía o vidro e o transformava em matéria-prima novamente. Porém, quando a LG Philips mudou sua planta para Manaus, a Itautec perdeu sua parceira, pois os custos de transporte desses materiais até Manaus inviabilizariam o projeto. Até hoje a empresa aguarda o desenvolvimento de um novo projeto para que seja possível reciclar esses monitores armazenados. Uma das formas para que essas situações não aconteçam mais é que a logística reversa realmente fosse utilizada, pois se trata de uma importante ferramenta para a atividade econômica. Desta forma, a Itautec está inserida na metodologia de ciclo de vida dos produtos, conforme mostra a Tabela 5 a seguir: 68 Tradução nossa a partir de: They are the ultimate products of an industrial system that is designed on a linear, one-way cradle-to-cradle model. Resources are extracted, shaped into products, sold, and eventually disposed of in a grave of some kind, usually a landfill or incinerator. You are probably familiar with the end of this process because you, the customer, are responsible for dealing with its detritus. 85 Tabela 5: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Ciclo de vida dos produtos (CVP) Por que se aplica à Itautec Recolhimento de matérias-primas A Itautec utiliza diversos tipos de matérias-primas para o desenvolvimento de produtos (exceto chumbo e outras substâncias tóxicas, de acordo com a diretiva europeia). Fabricação Após o recolhimento das matérias-primas, elas passam pela linha de produção - que é monitorada para o gasto consciente de energia. Distribuição Quando prontos, os produtos vão para as lojas à disposição da compra do consumidor, acompanhados de uma cartilha de auxílio. Utilização O usuário utiliza o produto até que lhe seja útil. Valorização Após o uso, a empresa oferece a possibilidade de recolher o produto para a reutilização adequada. Além disso, o barro de solda é um exemplo ímpar do CVP, pois os resíduos são completamente reutilizados na forma de logística reversa. Fonte: A autora. Observou-se que a Itautec reconhece sua responsabilidade ao longo do ciclo de vida do produto e se compromete a reduzir ou evitar o impacto ambiental de seus produtos e embalagens, em suas diversas etapas, a saber: projeto, fabricação, utilização e disposição final. Vale ressaltar que a indústria tem que repensar sua produção a partir de um design bem estudado no projeto, não só vendo a estética do produto como também o seu ciclo final. Nota-se que existe uma preocupação com as questões ambientais que englobam a geração de resíduos, porém pouco se discute sobre a sustentabilidade de um empreendimento voltado totalmente ao conceito de logística reversa. Enquanto os resíduos não forem entendidos como materiais em potencial e a sua utilização como negócio rentável, ações de reaproveitamento, descarte e reposição final serão vistas sempre como paliativas. No entanto, é importante ressaltar que ações tomadas que levem à metodologia do ciclo de vida de produtos na indústria já são bem-vindas e são um começo promissor que pode ser desenvolvido com mais pesquisas sobre assunto. Vale lembrar que não há mais como se pensar que apenas tecnologias ambientalmente corretas possam vir a garantir a sustentabilidade pretendida. Faz-se necessário agora a presença de uma forma de equilibrar ganhos econômicos, sociais e ambientais. 86 Segundo Andréia Maffeis, a Itautec atua desta forma: [...] Foi criado um sistema Triple Bottom Line envolvendo os aspectos econômico e social, com a função de armazenar resíduos que recebíamos da coleta seletiva e a descaracterização e segregação de equipamentos eletrônicos. Assim, o desafio torna-se bem mais amplo. A sustentabilidade é formalmente aberta de modo a incluir não somente as dimensões econômicas e ambientais, mas também as sociais, sendo este o chamado Triple Bottom Line do desenvolvimento sustentável no qual a Itautec está inserida. Assim, denota-se a existência de uma filosofia de gestão humanista, e de profundo respeito pela questão ambiental levado a cabo pelos funcionários e pela indústria, configurando um trabalho coletivo. Em suma, verifica-se um modelo de gestão que promove a iniciativa, reconhecendo objetivos ambientais e princípios da empresa, que valorizam e respeitam também as pessoas que constituem a equipe. 3.3 CASO METARECICLAGEM Certas indústrias, como observado no estudo de caso anterior, trabalham coletivamente em razão de um objetivo comum. A MetaReciclagem se encaixa nesse aspecto já que se trata de um metodologia que envolve pessoas com atividades comuns, que interagem, trocando ideias em prol da formulação de uma tecnologia. Vale afirmar que estas formas ocorrem espontaneamente, como sugere Manzini (2008) revelando que ações de grupos como essas são comunidades criativas que se relacionam, formando blocos construtores para uma nova visão: a de uma sociedade sustentável que pode ser definida como uma sociedade multilocal. Um exemplo é a rede de comunidades interconectadas e locais que é, ao mesmo tempo, aberta e localizada. Esse é o caso averiguado na MetaReciclagem, que não se configura como uma organização, tampouco como uma ONG, mas um coletivo organizado de ativistas e pessoas interessadas, que se organizam e trocam experiências. Esse processo a diferencia do exemplo do CEDIR (que são ações 87 ocorridas em uma universidade, promovendo o descarte ecologicamente correto dos resíduos eletrônicos, prestando e locando serviços com cuidado ambiental e com fins sociais) ou da Itautec (uma indústria preocupada com a sua imagem, certificações e metas a serem cumpridas ambientalmente). Nesse sentido, o MetaReciclagem instaurou-se como um movimento de apropriação de tecnologia social69 que teve início em 2002 através de uma lista de discussão na Internet e que envolveu a participação de programadores, ativistas, filósofos, designers, mas, principalmente, de pessoas comuns interessadas em aprender e discutir a inclusão digital no Brasil. A questão ambiental nunca foi o foco das conversas, compartilhamento de experiências e discussões. Mas, ao desenvolver uma metodologia que tinha como finalidade a troca, o grupo, de certa forma, resolveu o problema da obsolescência programada de lixo computacional. Na verdade, começaram trocando conhecimento através do Projeto Metáfora70, como se observa na lista de discussão a seguir: 69 70 Apropriação da tecnologia social: termo comum quando se fala em inclusão digital que significa apropriar-se de produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social (FONSECA, 2009). O projeto Metáfora começou com uma simples lista de discussão e muita vontade de compartilhar o conhecimento. Um grupo de pessoas, numa conversa descompromissada na Internet, com o objetivo de criar de um canal de pesquisa sobre comunicação, Internet, filosofia e cibercultura. Um projeto aberto. Baseado nos conceitos do software livre e dos códigos abertos. Disponível em: http://www.marketinghacker.com.br/index.php?itemid=2367 Acesso em: 12 dez. 2011. 88 Figura 19: Lista de discussão Projeto Metáfora Fonte: Disponível em: <http://rede.metareciclagem.org/wiki/ProjetoMetaFora->. Acesso em: 15 jan. 2012. Com essa lista, estabeleceram-se tópicos para discussão, como a própria mensagem se refere. A ideia era atrair pessoas que, trocassem experiências num ambiente de interação em torno de ideias que contextualizassem as novas tecnologias, seus efeitos e impactos sociais, uma forma coletiva de tradução e interpretação de novas ideias e possibilidades. Fonseca do MetaReciclagem afirma em entrevista: Nós tínhamos noção de quem eram as pessoas que participavam da lista de discussão do projeto Metáfora, onde essas ideias surgiram. É uma distinção importante: a MetaReciclagem não é anônima, é coletiva. No começo, nós chegamos a nos chamar de coletivo, mas com o tempo evoluímos para uma rede – com laços mais fracos, mas muito mais aberta. [...] o surgimento das pessoas se deu de forma espontânea e por isso utilizavam o nome MetaReciclagem sem pedir permissão para ninguém. Essa forma de pensar para o grupo não era um problema e sim justamente uma das intenções, por isso a chamam de aberta. Iniciava-se, dessa forma, o projeto 89 Metáfora e dele veio a ideia da MetaReciclagem, como relata Fonseca em uma entrevista na revista Cultura Digital: Em 2002 tinha um grupo rede chamado projeto Metáfora onde tinha gente do Brasil inteiro que se juntaram para trabalhar com tecnologia, comunicação, cultura, arte e educação, daí começamos a bolar uns projetos de eventos, de sites que tinham a ver com tecnologia e cultura, e passamos a ter a necessidade de termos equipamentos, queríamos fazer redes wi-fi isso em 2002 quando esse assunto era totalmente abstrato, ninguém nem tinha internet sem fio, nem equipamento e nós pensávamos em fazer redes livres para a comunidade usando hardwares metareciclados. [...] pedimos para as empresas do Brasil, e começamos a instalar software livre e fazer usos experimentais e sociais, em uma das conversas falei, ora o nome disso que estamos fazendo é Metareciclagem! E em entrevista, ele revela: [...] Na verdade, a MetaReciclagem veio como uma forma de reinventar e recriar utilizando de tecnologia, criando arte, realizando uma metodologia aberta, elaborada por diferentes pessoas imbuídas do mesmo intuito de reapropriar tecnologia como meio de desenvolvimento e criação, uma alternativa para utilizar o lixo computacional existente. Contudo é importante entender como isso acontece. Fonseca (2009)71 afirma que a MetaReciclagem, formou-se a partir de “[...] um movimento coletivo, que começou com a descoberta, estruturou-se numa prática, depois virou capacitação e mais tarde começou a brincar com experimentação” (FONSECA, 2009, p. 8)72. No Brasil, esse movimento surgiu com a ideia de reciclagem de lixo eletrônico para a transformação social. O grupo originou-se em São Paulo e atualmente está presente em todo o Brasil, de forma descentralizada e auto-organizada, inclusive tendo uma 71 72 Felipe Fonseca Pesquisador e articulador de projetos de cultura digital, tecnologias livres de produção cultural, redes colaborativas de inovação e mídia independente. É um dos fundadores (2002) e integrante chave da MetaReciclagem que atua na apropriação crítica de tecnologias com centenas de pessoas e organizações em todo o Brasil. Disponível em: <http://rede. metareciclagem.org>. Acesso em: 15 jan. 2012. Histórias de MetaReciclagem, Histórias de Meta Reciclagem. Disponível em: <http://mutgamb.org/ livro/Hist%C3%B3ria-da-MetaReciclagem-Hist%C3%B3rias-de-MetaReciclagem>. Acesso em: 15 jan. 2012. 90 forte atuação no Ministério da Cultura e Ciência e Tecnologia com questões pertinentes a tudo que perpasse pelo computador, redes, equipamentos tecnológicos, cibercultura e sociedade. Eles conseguiram se desenvolver, ganhar prêmios de Mídias Livres do Ministério da Cultura, além de terem recebido menção honrosa no Prix Ars Electronica 2006 (Áustria) e no Prêmio APC Betinho de Comunicações 2005 (Uruguai). Na verdade, a ação voluntária destes integrantes é apenas para proporcionar a aplicação das ideias planejadas. É como afirma Freire et al. (2005), as pessoas se organizaram sem qualquer comprometimento com o governo, apenas por um esforço coletivo e por suas ideologias, o que não significa que não considerem o projeto como essencialmente de natureza política e até revolucionária, mas agem como uma invasão hacker dentro do sistema, com gestão própria e objetivos bem definidos. Segundo Fonseca, em entrevista: [...] O projeto funciona como pontos de cultura organizados em rede, autônomos e sustentáveis, distribuídos pelo país, colaborando e compartilhando sua produção cultural livre. Este movimento, tratado então nesta pesquisa como comunidade criativa, pode ser definido pela Tabela 6 a seguir: Tabela 6: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Comunidades criativas Por que se aplica à MetaReciclagem Reunião de pessoas interessadas em prol de um objetivo comum É um coletivo de pessoas que, por meio de uma metodologia aberta, buscam reinventar e recriar utilizando-se de tecnologia e criando arte como forma de reaproveitar o lixo ambiental existente. Tomada de ações que possam ser efetivas para alcançar esse objetivo A ideia do problema do lixo computacional é propagada por meio de redes sociais, blogs, softwares livres e movimentos sociais. Além disso, as peças inutilizadas são reinventadas para outros fins que não computacionais, por exemplo, artísticos. Fonte: A autora. 91 Compreende-se que essa forma de trabalho é instituída por um grupo e é chamada nesta pesquisa de comunidades criativas ou também de inteligências coletivas e auto-organização, conforme relata o integrante da Rede MetaReciclagem, Felipe Fonseca: [...] tem representações de ações humanas, como a tecnologia social e a inclusão digital, gerando e criando com o efeito gambiarra, utilizando-se de reconstrução de peças descartadas, fazendo apropriações tecnológicas. É como registra as fotos em eventos produzidos pelo grupo: Figura 20: Foto do coletivo de designer fazendo Gambiologia em uma caixa de charutos Fonte: Nascimento (2010). 92 Figura 21: Foto de espaço do movimento MetaReciclagem que transforma doações de computadores sem uso em novas máquinas, robôs ou peças de artesanato e de arte Fonte: Nascimento (2010). Os exemplos demonstram que o material agrega conceitos e práticas da gambiarra e suas implicações na tecnologia e no design. Além disso, de certa forma, caracteriza o improviso e a impermanência não como atraso, mas como habilidade essencial para o mundo contemporâneo. Ou seja, a vontade de transformar criativamente o que se quer ou precisa, explorando quaisquer recursos disponíveis. Segundo Borges e Etlin (2004 apud BRUNET, 2008, p. 117), “[...] da reciclagem, da reutilização de práticas e conceitos estão em todos os planos da vida cotidiana e se faz muito importantes para os processos imersivos dessa rede específica e de tudo o mais”. Segundo Manzini (2008), pessoas que, de forma colaborativa, inventam, aprimoram e gerenciam soluções inovadoras para novos modos de vida, a partir da recombinação de elementos existentes, considerando a capacidade de reorganizar estes elementos em novas e significativas combinações, seria uma das possíveis definições de criatividade. 93 É com afirma Fonseca em entrevista: A troca de saberes na rede reforça, enquanto comunidade coletiva, o compartilhamento de arquivos multimídia, as colagens e remixes, apropriações, reinvenção de máquinas como robôs. Na verdade, são inúmeras práticas que esses pares organizam e promovem. O que fica como resultado é que o desejo por mudança social está lançado na rede pelo uso criativo na produção de um trabalho imaterial, cuja importância se deve ao compartilhamento, que só fortalece a rede enquanto um rizoma, um conjunto de multiplicidades. Essa união de pessoas, em prol do projeto, também o enquadra na metodologia de inteligências coletivas e auto-organização, conforme a Tabela 7 a seguir: Tabela 7: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Inteligências coletivas e auto-organização Por que se aplica à MetaReciclagem Não há imposições Não há líderes. Todas as pessoas envolvidas colaboram da mesma forma e se organizam naturalmente sem a ajuda de outra instituição. Os saberes são múltiplos e individuais Cada integrante contribui com um tipo de conhecimento, há uma troca de informações e saberes e capacidade de reorganizar e recombinar elementos existentes. Fonte: A autora. Essa é a ideia da MetaReciclagem, troca de experiências em todos os lugares, por meio tecnológico e inteligências coletivas, que são inteligências distribuídas por toda a parte, valorizadas e coordenadas em tempo real, o que resulta em uma mobilização efetiva de competências. Essa conversas em grupos, segundo Mattozo e Specialski (2000): As redes, além de servir como via de discussões formais, logo se transformam em canais de interação social, para diversão e batepapo informal. Toda comunicação implica um laço mínimo de entendimento; logo, além das informações, que circulam pelo ciberespaço, são atos de linguagem, que propiciam a formação 94 metafórica de comunidades virtuais, grupos de pessoas que, por afinidade ou interesses comuns, desenvolvem laços de sociabilidade, sob restrições e as possibilidades a que estão expostos. Na verdade, a sociedade e a rede são conceitos indissociáveis. As pessoas vêm se organizando em redes colaborativas permitindo que sejamos capazes de transformar o mundo ao nosso redor, criando conhecimento e cultura de maneira coletiva. Não há sociedade, se não houver redes, seja de amigos, famílias, tios, primas, sobrinhos por pessoas com afinidades que se conectam por um algum fator que combina os anseios, interesses e desejos das pessoas. Entretanto, as redes não são novidades, a tecnologia fornece novas formas de acesso à informação através da navegação, pesquisas e trocas. Essa integração são formas que a sociedade encontrou de sociabilizar conversas em rede, o que se enquadra na atividade projetual da Rede MetaReciclagem, pois foi por meio dessas redes interconectadas que esse grupo se formou e se autogestou. Desta forma, trocavam e encontravam formas de lidar com a obsolescência programada, aguçando a inventividade e criando condições favoráveis para diversos processos criativos. O coletivo MetaReciclagem, segundo Fonseca em entrevista a autora: [...] é uma rede que troca saberes entre pessoas que favorecem processos artísticos colaborativos – que se fundamentam no Software Livre na produção de experiências artísticas, criando diálogos entre arte, ciência e tecnologia e como elas sensibilizam para vivências mais construtivas e colaborativas. Buscar estruturas e modelos para operar na fronteira entre arte, ciência, tecnologia e educação é a forma de inovação que a MetaReciclagem utiliza. O Grupo acredita que enquanto ficarmos limitados à inovação industrial, orientada somente por critérios de geração e exploração comercial, estamos desperdiçando um potencial criativo enorme. É importante estimular a inovação que tenha relevância social e educacional, para que, por meio de experimentação, agentes criativos incorporarem descobertas. Desta forma, a MetaReciclagem autogerida com experiências da sociedade civil (as pessoas que compõe o grupo) aparece como uma alternativa aberta aos problemas sociais e à reelaboração de novas formas 95 coletivas de pensar em problemas e construir soluções, como observa-se nas ações contidas no cartaz: Figura 22: Imagem de cartaz do MetaReciclagem Fonte: Cartaz elaborado pelo grupo do projeto Metareciclagem (adaptado do Manual do Oficineiro da Casa Brasil. Na verdade, com a cultura do desperdício, a sociedade está se movimentando e encontrando novas formas de lidar com a obsolescência que faz parte deste tempo, e a sociedade deve ser despertada e repensar fazer com que essa idéia retroceda. Sudjic (2010, p. 5) afirma: “[...] nunca possuímos tantas coisas como hoje, mesmo que as utilizemos cada vez menos” e ainda relata que cada casa possui muitos objetos e exemplifica “[...] temos uma tela de plasma em cada aposento, substituindo televisores de raios catódicos que há cinco anos eram de última geração” (SUDJIC, 2010, p. 5). Ou ainda “[...] a classe média tem cozinhas 96 repletas de aparelhos elétricos comprados na esperança de que nos tragam a sonhada realização doméstica”. A ideia de que tudo que se possui reflete o nosso tempo é real. Existe uma relação de vazio com o novo bem possuído. Ao comprar, a atração se esvai tão logo o objeto adquirido fique velho. E o que fazer com esse objeto velho, talvez devolvê-lo à indústria, ou doá-lo para um centro de descarte? Talvez montar outro fazendo gambiarra de equipamentos, como é o caso de muitos integrantes da MetaReciclagem seja uma possibilidade. Essa é a grande questão da atualidade: a obsolescência de objetos é fato. O descarte computacional e as ações em prol do que fazer são muitas, tanto de empresas, como de pessoas físicas. Discussões e iniciativas em rede, como o caso da MetaReciclagem, que adota metodologias projetuais, como soluções criativas ao problema do lixo computacional revelam o espaço que essa questão vem ganhando. 3.4 CASO EMPRESA PARTICULAR: RECICLO METAIS Outra visita in loco serviu para o estudo de caso da empresa particular Reciclo Metais em São Paulo que faz reciclagem de lixo eletrônico com foco em peças computacionais. Analisa-se esta outra ação, agora na visão de um empreendedor. No local, foi obtida a informação de que Marcus Wilian M. de Oliveira, um analista ambiental, é o sócio-proprietário da empresa e fez dela o seu negócio. O mesmo afirmou em entrevista: [...] sou uma constituição jurídica de empresa com finalidades lucrativas. Possuo licenciamento ambiental fornecido pela CETESB ao qual descaracterizo equipamentos atendendo ao processo de logística reversa, de acordo com o especificado em legislação nacional e internacional. Nessa visão de empresa, o lixo computacional não está mais servindo como agregador social, como foi visto no CEDIR, e sim, visa o lucro do empreendedor. A visita técnica serviu para entender o conhecimento sobre os procedimentos empresariais de recebimento de compra e venda interna e externa de sucatas de equipamentos eletrônicos. Além disso, a empresa usa a consultoria como suporte empresarial. Marcus Wilian M. de Oliveira afirma: 97 [...] sou biomédico, mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, trabalhei como pesquisador na School of Biochemistry and Immunology e Institute of Neuroscience na Universidade de Dublin, Trinity College, portanto tenho conhecimento na área, por isso presto consultorias. A questão ambiental é muito delicada, existe grande estoque de material com componentes sem aproveitamento para a reciclagem, devem-se tomar cuidados com rejeitos tóxicos e descartar da maneira correta. O que acontece muitas vezes, na perspectiva do entrevistado responsável pela Reciclo Metais, é que a formação do mesmo facilita e traz mais conhecimento para lidar com os problemas da área. A empresa oferece pacote para o gerenciamento e destinação social e ambiental de resíduos eletrônicos (faz isso com finalidades lucrativas), possui licenciamento ambiental fornecido pela CETESB 73 , realiza a descaracterização dos equipamentos atendendo ao processo de logística reversa, de acordo com o especificado em legislação nacional e internacional. Isso faz com que a metodologia utilizada pela empresa, de certa forma, relacione-se ao ciclo de vida dos produtos, conforme comprova a Tabela 8 a seguir: Tabela 8: Comparação entre a metodologia e o estudo de caso Ciclo de vida dos produtos (CVP) Por que se aplica à Reciclo Metais* Recolhimento de matérias-primas / Fabricação / Distribuição / Utilização Nem todas essas fases não são realizadas pela empresa. Os produtos chegam à ela após terem passado pelo processo de fabricação e utilização de diferentes usuários. Valorização Os produtos chegam à empresa, onde são descaracterizados, desmontados e destinados de forma ecologicamente responsável a empresas nacionais e estrangeiras para a reutilização. Essa empresa foi enquadrada na metodologia CVP por ser uma alternativa ao retorno dos resíduos à natureza. Fonte: A autora. 73 CETESB. Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Disponível em: <http://www.cetesb. sp.gov.br/institucional/institucional/1-A-Nova-CETESB>. Acesso em: 15 jan. 2012. 98 No que foi possivel constatar, a empresa Reciclo metais é responsavel na questão ambiental, enquadrando-se na metodologia do ciclo de vida do produto e trabalhando de forma reversa, evitando assim danos ambientais. De acordo com Manzini e Vezzoli (2008), as atividades humanas trazem impactos sobre a natureza que podem determinar efeitos positivos ou negativos sobre o meio ambiente. Desta forma, a empresa trabalha com ações positivas, como é o caso do site da empresa, destinado à orientação para o descarte de resíduos da forma correta, como demonstra a Figura 23: Figura 23: Página do site Reciclo Metais Fonte: Disponível em: <http://www.reciclometais.com.br>. Acesso em: 15 jan. 2012. Existe uma área específica no site dedicada a eletroeletrônicos, indicando todas as peças que a empresa recicla. A Reciclo Metais disponibiliza um blog com endereço do Twiter e Facebook para contato com as pessoas que demonstrem interesse em utilizar seus serviços. No blog, verificaram-se ações implementadas de caráter educativo e ambientalmente corretas, como se verifica no cartaz a seguir: 99 Figura 24: Carta do segundo Natal da Eletrorreciclagem Fonte: Disponível em: <http://reciclandoconceitos.blogspot.com/2011_12_01_archive. html>. Acesso em: 15 jan. 2012. Essa ação da empresa em parceria entre o Governo do Estado do Rio de Janeiro, a Reciclo Ambiental, a Reciclo Metais e a Tetrapack no Natal da Eletroreciclagem tem como meta coletar lixo eletrônico da população do Rio de Janeiro e demonstra a importância da reciclagem correta, da destinação dos equipamentos e onde os mesmos podem ser entregues, o que é de suma importância para a sociedade poder lidar com o problema. Além disso demonstra o demonstra o que Marcus Wilian M. de Oliveira relatou em entrevista: [...] damos suporte a projetos sociais, maior conscientização da população, sensibilização da área política e oportunidade de emprego e renda. 100 A visão desta empresa efetivamente demonstra uma preocupação também em valorizar e conscientizar a população, dando suporte a projetos sociais. Essa é uma forma de trabalhar a conscientização ambiental. Manzini e Vezzoli (2008) dividem o ato de refugar em duas categorias: pré-consumo e o pós-consumo. O préconsumo está ligado ao processo produtivo, são mais limpos e podem ser chamados de refugos do ciclo produtivo, reciclados dentro do mesmo processo. É o que a empresa Reciclo Metais faz, executa o produto ate o final do seu ciclo, só que de forma empresarial, vendendo e repassando tais resíduos. Os materiais de pósconsumo estão relacionados àqueles eliminados pelo consumidor final, por isso é importante o fato da empresa Reciclo Metais trabalhar a conscientização com projetos que envolvam e conscientizem as pessoas da importância de não descartar na natureza. Segundo Andrade (2002), o potencial de reaproveitamento que os resíduos representam, somado a um fator de interesse mundial que é a preservação ambiental, impulsiona a necessidade de reverter essa situação. Desta forma, a empresa Reciclo Metais trabalha o ciclo de vida do produto, recolhendo a matériaprima do mercado e a vende a centros de descarte específicos que reaproveitam os resíduos. Observou-se que a empresa está trabalhando corretamente do ponto de vista legar. Empregam com registro em carteira cerca de sete trabalhadores em seu quadro de pessoal, todos passaram por treinamento para o desempenho de suas funções. O proprietário tem experiência nacional e internacional no setor de reciclagem de resíduos eletrônicos e demonstra preocupação com a questão ambiental. 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa demonstra a importância do design, como o reconhecimento de metodologias projetuais. Essas atividades projetuais encontradas pela sociedade civil, indústria, universidade geram ações projetuais sustentáveis que são capazes de minimizar o problema obsolescência de lixo computacional. Acredita-se que atualmente há uma tendência de as empresas se tornarem ou se mostrarem cada vez mais responsáveis por todo o ciclo de vida do produto. Além disso, buscam manter uma logística apurada, considerando o consumidor final, pensando assim no impacto causado ao meio ambiente. Isso foi visto na indústria Itautec, com a preocupação em estabelecer um centro de reciclagem para encaminhamento correto das peças descartadas e também de criar uma cartilha para situar o consumidor antes da compra. Vimos ainda a Empresa Reciclo Metais, que mesmo tendo a visão do lucro, de certa forma, proporciona e evita que esse lixo seja descartado na natureza. Estas ações se dão basicamente por dois motivos: as empresas estão cada dia mais preocupadas com a imagem que seus clientes tem de seus produtos e estão preocupadas com a sobrevivência e longevidade do negócio e, portanto, passa a existir uma preocupação com o fortalecimento da cadeia de suprimentos a que pertencem. O CEDIR, centro de descarte da USP, demonstra uma preocupação social em informar e realizar ações, como publicação de boletins educativos, periódicos que tratam sobre as melhores práticas sustentáveis, promoção de eventos voltados para educação ambiental, adotam, ainda, a atividade projetual Sistema Produto-Serviço o que proporciona à sociedade, entidades e pessoas afins, uma maior comodidade, emprestando o computador montado, evitando o desperdício de materiais descartados na natureza. Isso está relacionado à responsabilidade social que, conforme Donaire (1999) comenta, implica um sentido de obrigação para com a sociedade. Esta forma responsável tem o caráter de atingir diversos âmbitos como: a proteção ambiental, projetos filantrópicos e educacionais, planejamento da comunidade, equidade nas oportunidades de emprego, serviços sociais em geral, em conformidade com o interesse público. A empresa pode atuar de diferentes formas, no que diz respeito à responsabilidade social. Ficou claro que também existem outras metodologias utilizadas pela sociedade como: comunidades criativas 102 ou inteligências coletivas e auto-organizadas, como é o caso da MetaReciclagem. Essas ações da sociedade civil são bem-vindas à sociedade porque, além contribuírem criativamente, são formas de evitar que o lixo computacional termine em aterros prejudicando o meio ambiente. Percorrendo o itinerário proposto na introdução, foi possível primeiro delinear o problema do lixo computacional e suas possíveis soluções já existentes. Reconhecer a natureza como um patrimônio de toda a humanidade e perceber que uso de recursos naturais deve estar sujeito a formas de respeito às condições básicas da vida no planeta, dentre elas a qualidade de vida dos seres vivos que dependem desses bens e também do meio do qual são extraídos ou processados. Esse reconhecimento foi imprescindível para a definição de conceitos, tais como sustentabilidade e design sustentável, norteadores dessa pesquisa. Esses termos foram abordados no contexto do lixo computacional, que tem sido um problema ambiental para a sociedade, consequência dos padrões de produção e consumo desenfreados da sociedade atual. Assim, a busca por metodologias projetuais em ações identificadas como sustentáveis no âmbito de produtos já existentes, tem sido uma solução, mesmo que temporária, para o problema da obsolescência. Isso vem avançando, chegando a níveis de desmaterialização da propriedade e do bem material em si para o fornecimento de resultados e soluções baseados em ações que a sociedade civil e algumas instituições têm tomado como soluções momentâneas para o problema. O que se percebeu é que os profissionais da área do design devem estar envolvidos nesta mudança de foco comercial e projetual, desenvolvendo estudos e criando mecanismos favoráveis e sustentáveis para sua concretização, de forma que os impactos ambientais provenientes de suas atividades sejam reduzidos. A questão de pesquisa, portanto, permanece válida e atual, já que, implica em como lidar com produtos já existentes de maneira correta, sem gerar maiores problemas ambientais, por meio de formas sustentáveis e criativas desenvolvidas pela sociedade, e que tratem do assunto da obsolescência. Este ainda é um tema que deve ser discutido e pesquisado, exigindo a elaboração de novos paradigmas, pois esta pesquisa apontou algumas metodologias projetuais que a sociedade tem encontrado para resolver o problema ambiental. A pesquisa enfatiza a necessidade de se criar novas soluções sustentáveis para o século XXI e indica a necessidade de 103 se pensar na diversidade de sociedades sustentáveis, com opções econômicas e tecnológicas diferenciadas, voltadas principalmente para o desenvolvimento harmonioso das pessoas e de suas relações com o conjunto do mundo natural. Diante deste problema de degradação ambiental, principalmente na questão do lixo computacional, a sociedade deve intervir de modo engajado em ideias coletivas, repensando a relação com a natureza. Representando esse tipo de pensamento, McDonough e Braungart (2002, p. 1) citam uma frase de Oren Lyons, Guardião da fé de Onondaga, “o que o seu povo chama de recursos naturais, o nosso povo chama de parentes”74. Esta é na verdade uma sugestão fundamental dos autores que chamam atenção para um novo paradigma no design, evocando a mudança, a reinvenção da indústria, a articulação da sociedade para um futuro de prosperidade sustentável. Desta forma, o design merece ser pensado sob as lentes da simplicidade e da inovação. E é esse o grande ponto: fazer design com conceitos de sustentabilidade de processos, respeitando o ciclo de vida e adotando a ideia do “berço ao berço”, unindo a economia à questão ambiental. A alteração no modo de ver e compreender os problemas do lixo advindos da produção na sociedade transforma o projeto de design na reformulação da tradicional abordagem de projeto na busca por novas maneiras de conceber e analisar metodologias projetuais. Dessa forma, é importante indicar possibilidades de expansão para esta pesquisa como: entender as formas possíveis de uso de metodologias projetuais em ações locais entendendo que podem ser compartilhadas para ampliar o conhecimento sobre a relação entre design e sustentabilidade em um contexto global. Segundo Manzini (2004), a sustentabilidade é uma revolução. O designer será mais um ator dentro desse grande plano, conduzindo a sociedade na direção correta, no seu papel de facilitar as inovações sociais. A partir dessa visão, acredita-se no poder dessas inovações que surgem para amenizar o problema do lixo computacional existente. 74 Tradução nossa a partir de: What you people call your natural resources our people call our relatives. 104 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Josimar et al. Planejamento Ambiental: caminho para participação popular e gestão ambiental para o nosso futuro comum – uma necessidade, um desafio. Rio de Janeiro: Thex Editora, 1999. ANDRADE, Renata. Caracterização e Classificação de Placas de Circuito Impresso de Computadores como Resíduos Sólidos. 2002. 185 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Mecânica) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14040. Gestão Ambiental: Avaliação do ciclo de vida – Princípios e estrutura. Brasília, DF: ABNT, nov. 2001. ______ . NBR ISO 14020. Rótulos e declarações ambientais: princípios gerais. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. BARATA, Martha Macedo de Lima. 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O que é a MetaReciclagem e como a enquadra em seu aspecto: “união de pessoas”? 2. Como precursor da MetaReciclagem, vê a evolução da mesma de que maneira? 3. O que é a MetaReciclagem? 4. A MetaReciclagem não é do governo, são de pessoas físicas com o mesmo propósito. Como fica a relação com o governo? 5. Como você vê outros movimentos com tecnologias? 6. Qual é o sentido de movimentos como a MetaReciclagem? 7. A MetaReciclagem visa a inclusão digital? 8. Como vê a gambiarra a apropriação tecnológica dentro do MetaReciclagem? 9. Na atualidade, a MetaReciclgem é uma solução para o problema ambiental? 10. Trabalhos artísticos de apropriação e de experimentação coletiva se parecem com ações da MetaReciclagem? 114 Aplicada a gestora ambiental da ITAUTEC – Jundiaí-SP – Andréia Maffeis Campbell. Objetivo: Detectar metodologia projetual empregada na ação da empresa. 1. Você trabalha na empresa Itautec as, do Grupo Itautec, desde que época e qual sua formação acadêmica? 2. Desde 2004, você trabalha na Itautec como supervisora Gestão Ambiental, quais as atribuições da sua função? 3. Como aconteceu o sistema de Certificação e programa ambiental da empresa? 4. Como se dá o processo de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA)? 5. Sobre a implantação do SGA na empresa. De que forma a utilização da tecnologia é importante? 6. Qual a relação da empresa com boas práticas ambientais e material humano? 7. Quais as medidas que vocês construíram para resolver o problema da obsolescência ocasionada pela empresa? 8. Na área de reciclagem muitos resíduos são gerados. Tem dados de quanto se arrecada? 9. Os equipamentos eletrônicos são descaracterizados e enviados a centros de reciclagem. Você concorda que a empresa tem a preocupação com o ciclo de vida do produto? 115 Aplicada ao responsável técnica pelos trabalhos desenvolvidos na reciclagem, reuso e logística reversa dos equipamentos inservíveis da USP- CEDIR- Neuci Bicov. Objetivo: Detectar metodologia projetual empregada na ação da Universidade. 1. Qual o objetivo do CEDIR em uma universidade como a USP ? 2. Qual é a capacidade de caracterização e triagem que o CEDIR suporta ao mês? 3. Vocês têm uma organização no processo de gestão do lixo eletrônico/digital? 4. Existe algum tipo de modelo e exigência para cadastramento de entidades? 5. Qual o comprometimento das indústrias em relação ao lixo tecnológico? 6. Existe alguma vantagem para a indústria, fora, é lógico, a questão ambiental da mesma aceitar seu produto de volta? Como vê esta questão? 7. Qual é a relação do CEDIR enquanto Universidade primando com a questão ambiental em relação a Industria? 8. Qual é o comprometimento do CEDIR com o Sistema produto-serviço? 116 Aplicada ao proprietário da Reciclo Metais – Diretor de Sustentabilidade – Marcus Willian Oliveira. Objetivo: Detectar metodologia projetual empregada na ação da empresa particular. 1. O que a Empresa Reciclo Metais faz? 2. Qual é o objetivo de uma empresa que comercializa lixo eletrônico? 3. Qual é a estrutura que uma empresa necessita ter para tratar de os descartes de forma ambientalmente correta? 4. E quanto ao retorno ciclo produtivo, econômico e ambiental? 5. E vocês desempenham projetos sociais, inclusivos visando a questão ambiental? 6. Quais os riscos que uma empresa tem em lidar com esse lixo específico? 7. Sua formação é nesta área específica? Pergunto, pois tem a questão ambiental que necessita ter conhecimento. 8. Você tem licenciamento ambiental? 117 118 Entrevista com Felipe Fonseca - MetaReciclagem Dia 24 de maio de 2011. Duração: 1 hora e 57 minutos. Local: na cidade de São Paulo, na Universidade Anhembi Morumbi - Av. Roque Petroni Jr., 630 – Morumbi, e questionamentos e respostas por e-mail. Elementos presentes: Entrevistadora e Prof. Marcus Bastos, Felipe Fonseca. Entrevista com Felipe Fonseca, ativista de mídia brasileiro e pesquisador independente, que trabalha nos domínios da apropriação tecnológica, de experimentação de baixa tecnologia, free (livre) e software de multimídia de código aberto, licenciamento aberto, distribuídos de aprendizagem e colaboração online. Ele é articulador em projetos como MetaReciclagem.org, um movimento emergente brasileiro sobre laboratórios de baixa tecnologia e projetos ligados a obsolescência computacional, ao qual, nos interessa nessa entrevista. 1. O que é a MetaReciclagem e como a enquadra em seu aspecto: “união de pessoas”? Felipe Fonseca: Eu não diria que a MetaReciclagem se desenvolveu “sem perceber quem eram as pessoas”. Na verdade, foi uma ideia desenvolvida coletivamente, por muitas pessoas. Nós tínhamos noção de quem eram as pessoas que participavam da lista de discussão do projeto MetáFora, onde essas ideias surgiram. É uma distinção importante: a MetaReciclagem não é anônima, é coletiva. No começo, nós chegamos a nos chamar de coletivo, mas com o tempo evoluímos para uma rede – com laços mais fracos, mas muito mais aberta. Nesse sentido, o surgimento espontâneo de pessoas que usam o nome MetaReciclagem (sem pedir permissão para ninguém) não é um problema, mas justamente uma de nossas intenções. 119 2. Como precursor da MetaReciclagem, vê a evolução da mesma, de que maneira? F.F: A MetaReciclagem nasceu sem muita pretensão: pessoas que queriam fazer coisas juntas. Estávamos, dentro do projeto MetáFora, debatendo possibilidades de projetos colaborativos envolvendo tecnologias. Em determinado momento surgiu à demanda por equipamentos para colocar esses projetos em prática. Daí a articular uma ação que recebesse doações de computadores usados e os recondicionasse foi um passo natural. 3. O que é a MetaReciclagem? F.F: Faz parte da metodologia, sim. E não se trata somente de “reutilizar” computadores – fazendo-os funcionar novamente como computadores. Temos também diversas linhas de pesquisa que tratam da transformação de computadores em outras coisas – kits de robótica educacional, suporte para artes plásticas, material para artesanato etc. O mais importante não é o reuso em si, mas a apropriação crítica, o incentivo ao desenvolvimento da sensibilidade associada ao ato de abrir as tecnologias. Quebrar as caixas pretas, propor novos usos e significados para elas. 4. A MetaReciclagem não é do governo, são de pessoas físicas com o mesmo propósito. Como fica a relação com o governo? F.F: O governo, em especial durante o mandato do presidente Lula, deu bastante apoio ao uso de software livre – com programas de migração, implementação de novos projetos, bastante apoio conceitual e até um nível sem precedentes no mundo de debate sobre o papel cultural das tecnologias livres. Faltou dar um passo adiante, e investir também no desenvolvimento efetivo dessas tecnologias. O Brasil despontou como usuário de softwares livres no setor público e em projetos de cunho social, mas ainda está longe de ser significativo em termos de desenvolvimento. 5. Como você vê outros movimentos com tecnologias? F.F: O tema “cultura digital” entrou no Ministério da Cultura por dois caminhos: diretamente pelo Gilberto Gil, a partir de sua aproximação com teóricos envolvidos com as tecnologias de informação como John Perry Barlow e Hermano Vianna; e através de Claudio Prado, que reuniu dezenas de ativistas e pesquisadores que tinham um trabalho de vanguarda em coletivos e redes brasileiras para elaborar um plano de cultura digital para projetos do Minc. Inicialmente, essa ação do Claudio Prado se dirigia às BACs, projeto que foi abortado ainda em 2003. Posteriormente, a perspectiva de cultura digital baseada na apropriação de tecnologias, na generosidade intelectual com tecnologias livres e do uso da rede como ferramenta de organização e mobilização foi incorporada pelo projeto Pontos de Cultura, coordenado por Celio Turino. Eu fui uma das pessoas arregimentadas por Claudio Prado para elaborar, planejar e implementar as ações de cultura digital dentro do cenário dos Pontos de Cultura. 120 6. Qual é o sentido de outros movimentos com a MetaReciclagem? F.F: Não sei se diria que a MetaReciclagem e a plataforma Rede//Labs têm o mesmo sentido, mas certamente têm algumas coisas em comum. Em essência, tratam da tentativa de promover o diálogo entre referências de novas tecnologias do mundo inteiro com as realidades brasileiras. Mas se a MetaReciclagem busca o diálogo com comunidades, projetos sociais e as ideias de sustentabilidade e participação, a Rede//Labs investe mais no desenvolvimento de novas tecnologias e a articulação delas com o imaginário coletivo, em termos mais simbólicos. A MetaReciclagem está mais ligada ao uso efetivo de tecnologias para transformar a realidade cotidiana – a Rede//Labs quer saber quais são as maneiras de desenvolver as tecnologias do futuro, dialogando com as artes, a ciência, as comunicações, a pesquisa. 7. A MetaReciclagem visa a Inclusão digital? F.F: A MetaReciclagem não tem foco definido ou objetivos claros. É uma rede emergente de pessoas que compartilham algumas referências e interesses, mas de maneira muito mais solta. A inclusão digital é um dos muitos campos com os quais os projetos de MetaReciclagem se relacionam. Eu, pessoalmente, tenho uma visão crítica sobre isso: http://mutgamb.org/livro/O-fantasma-da-inclus%C3%A3o-digital 8. Como vê a MetaReciclagem? gambiarra e a apropriação tecnológica dentro do F.F: A partir das nossas vivências de laboratórios, em que muitas vezes a precariedade impõe limites, apelamos frequentemente para o improviso, para o desvio de função de objetos e ferramentas, aos processos de tentativa e erro para solucionar problemas. A gambiarra emergiu nesse contexto, como uma linguagem em si, muito presente nas culturas brasileiras, e que tem o potencial de se transformar em vantagem competitiva em um mundo tomado pela comercialização de saberes cotidianos. 9. Na atualidade, a MetaReciclgem é uma solução para o problema ambiental? F.F: Não sei sobre atualidade. Não acredito em soluções abrangentes e hegemônicas. Nos nossos contextos específicos, para os problemas que precisamos resolver, as formas do mutirão como sociabilidade dinâmica de rede e da gambiarra como criatividade cotidiana surgiram como respostas. Não sei se se aplicam a outros campos. 10. Trabalhos artísticos de apropriação e de experimentação coletiva se parecem com ações do MetaReciclagem? F.F: Concordo. Muito do que a gente faz pode parecer “reinventar a roda”, se analisado em termos objetivos. Mas nos interessam muito mais os processos, a descoberta, o estímulo à imaginação e a exploração da indeterminação das tecnologias. Alguns dos nossos experimentos não têm nenhum valor artístico ou prático, mas as pessoas envolvidas aprendem muito com eles, e daí vem o valor deles. 121 Entrevista com Andréia Maffeis Campbell, Gestora Ambiental – Grupo Itautec – Jundiaí, São Paulo. Dia: 4 de Novembro de 2010. Duração: 4 horas e 33 minutos de entrevista. Local: na Rua Wlhelm Winter, 301- Dist. Industrial – Jundiai-SP – Sede Itautec e Centro de Reciclagem. Elementos presentes: Entrevistadora, Andréia Maffeis Campbell e integrantes do Cesumar Empresarial Maringá75 e Amusep.76 1. Você trabalha na empresa Itautec, do Grupo Itautec, desde que época e qual sua formação acadêmica? Andréia Maffeis Campbell: Estou no grupo Itautec desde 2004. Formei-me em Graduação em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” / USP, depois fiz Especialização em Gestão Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública, Mestrado em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT / USP e MBA em Gestão da Sustentabilidade pela FGV. 75 76 Cesumar empresarial o Cesumar Empresarial é um programa integrante da política de Extensão Universitária do Cesumar, que promove o fortalecimento da relação Academia-Mercado. Disponivel em: <http://www.cesumar.br/empresarial/index.php>. Acesso em: 15 jan. 2012. A Associação de Municípios do Setentrião Paranaense (Amusep) iniciou o projeto em parceria com o Cesumar empresarial pesquisando a possibilidade para a criação de um centro de reaproveitamento e reciclagem de equipamentos de informática nos municípios da região de Maringá. Disponível em: <http://Www.Gazetamaringa.Com.Br/Online/Conteudo.Phtml?Id= 1029452>. Acesso em: 15 jan.; 2012. 122 2. Desde 2004, você trabalha na Itautec como supervisora Gestão Ambiental, quais as atribuições da sua função? A.M.C: Sou Responsável pelo desenvolvimento de projetos ligados a sustentabilidade, em consonância com o triple botton line. Responsável, em conjunto com a área de desenvolvimento, pela implementação de melhorias ambientais nos produtos Itautec. Responsável, em conjunto com a Gerência de Sustentabilidade do Grupo Itau S/A Industrial, pela implementação da logística reversa de produtos Itautec; pela operacionalização da ISO 14001 na empresa; Responsável pela área operacional de reciclagem/segregação de resíduos; pela homologação, contratação e controle de documentos (Licença de Operação Cetesb, Cadastro Ibama, Cadris, etc.) de empresas recicladoras; pelo licenciamento ambiental da Itautec perante órgãos ambientais municipais, estaduais e federais. 3. Como aconteceu o sistema de certificação e programa ambiental da empresa? A.M.C: A empresa possui um sistema de qualidade, implantado e certificado com base na norma ISO9001, desde 1993 e Sistema de Gestão Ambiental (SGA) norma ISO14001 certificado desde 2003. A empresa adotou como estratégia a adoção dos sistemas de gestão e certificações. Estes sistemas se baseiam na visão de processos internos, com estratégias de crescimento sustentável, equilibrando as necessidades econômicas, sociais e ambientais. Esta forma de ver da empresa veio contribuir para um trabalho alinhado com práticas do mercado na gestão de processos e melhoria contínua das atividades nos diversos níveis de atuação, buscando principalmente a excelência ambiental, o que a levou a implementar um Sistema de Gestão Ambiental em conformidade com a Norma ISO 14001 primeiro na unidade de São Paulo. A conquista da certificação aconteceu em novembro de 2003. Em 2007 migramos o nosso sistema para nova planta construída e instalada em Jundiaí, e conseguimos manter a nossa certificação ambiental e de qualidade. 4. Você falou programar um Sistema de Gestão Ambiental (SGA). Como se dá esse processo? A.M.C: Não foi uma tarefa fácil. A empresa investiu em um período de dois anos, no ponto material financeiro, em torno de R$ 1,2 milhão, dos quais cerca de 75% foi repassado para os setores de infra-estrutura operacional da unidade. Além do pensamento de investimento material, foi preciso investimento no material humano, a fim de desenvolver trabalhos de treinamento e conscientização dos colaboradores. Em outro momento, ter um plano de continuidade pós-certificação é importante, pois a melhoria contínua em cada atividade da empresa torna-se uma exigência. Além do que, outros aspectos influenciam como verificar a questão da embalagem de forma econômica, sem desperdício, redução do consumo energia e água, bem como, substituir processos que gerem menos resíduos. Tudo engloba o processo. 5, Você falou sobre a implantação do SGA na empresa. De que forma a utilização da tecnologia foi importante? A.M.C: Em todo processo de comunicação, a internet teve valor essencial, pois foi por meio dela que desenvolvemos e disponibilizamos por meio virtual a todas as 123 unidades as mudanças necessárias, como: documentação do SGA, legislações e normas aplicáveis. O que foi fundamental para a agilização, o controle e a atualização dos procedimentos e controles. Outro dado foi à substituição de equipamentos obsoletos por equipamentos modernos com menor consumo de energia. Isso também foi decisivo para alcançar as metas de redução do consumo de energia e água, o que veio acarretar, sobra de equipamentos descartados como um problema a ser resolvido. Sobre esse problema, houve o desenvolvimento e homologação de fornecedores e processos para a reciclagem de computadores obsoletos. Essa união de implantação de novos métodos de economia, como desligar a iluminação e computadores quando não estivessem mais presentes, foram ações que tiveram resultado. 6. Falamos sobre a implantação da SGA na empresa, e como se efetivou. Notamos que esse trabalho efetivado, começa também por boas práticas inseridas ao material humano. Esse fato teve real importância, você concorda? A.M.C: A empresa tem sempre grande preocupação em estabelecer programas de conscientização e comunicação com boas práticas ambientais, não só para funcionários, mas também para a comunidade. Esse trabalho de comunicação é permanente, sendo proferido sempre, com temas diferentes sobre meio ambiente, que fica disponível a todos. Também possuímos um canal de interativo on-line que se estende a qualquer parte interessada, por meio de um e-mail e uma linha direta para o público interno. Essas práticas ambientais estão inseridas na política interna da empresa, e a certificação é o premio concedido ao ideal e o esforço realizado por todos no trabalho. Adotar boas práticas ambientais é importante, pois torna as pessoas uma reflexão na questão desperdício e racionamento de recursos. A empresa ganha, com redução de recursos e economias em setores produtivos e de apoio. 7. Voltando agora a questão do lixo eletrônico descartado, você afirmou a pouco, que a substituição de equipamentos obsoletos por equipamentos modernos com menor consumo de energia foi realizada, mas gostaríamos de saber quais as medidas que vocês construíram para resolver o problema da obsolescência ocasionada? A.M.C: Foi criado um sistema triple bottom line que envolve aspecto econômico e social, com a função de armazenar resíduos que recebíamos da coleta seletiva e a descaracterização e segregação de equipamentos eletrônicos. Foi resolvido então, construir, em 2001, uma área de reciclagem com 700m². A empresa, especificamente a área de reciclagem, mudou-se para Jundiaí. Foi constituída como a estrutura original, construída na fábrica em São Paulo. Todos os resíduos levados para área de reciclagem é separado e armazenado para formação de carga. Passam por uma separação mais refinada, enfardamento e armazenamento para formação de carga, ou a serem incluídos na coleta seletiva. 8. Muitos resíduos devem ser gerados nessa área de reciclagem construída. Você tem uma noção de quanto se arrecada? A.M.C: Um exemplo foi no ano de 2009. A geração de resíduos foi 1.299 toneladas, sendo 1.088 toneladas resíduos recicláveis. Os resíduos recicláveis são 124 encaminhados para reciclagem, beneficiamento ou coprocessamento e representam 84% do total gerado. 9. E sobre a descaracterização de equipamentos eletrônicos e sua venda, pósdesmontagem? A.M.C: Bom essa questão se caracteriza desta forma: todo equipamento eletrônico descartado das próprias empresas, que a Itautec fornece ou mesmo usa em seus domínios, são enviados para a Área de Reciclagem. É descaracterizado, separado e enviado para destino ambientalmente adequado. Os equipamentos recebidos pela área são desktops, notebooks, servidores e caixas eletrônicos. Quando o equipamento chega é desmontado e colocado em separado a caixas coletoras com destinos a reciclagem. Em 2009, por exemplo, tivemos uma receita gerada pela venda resíduos recicláveis de R$ 179.552,00. Este valor refere-se à diferença entre a venda de resíduos e a despesa para tratamento de alguns resíduos. 125 Entrevista com Neuci Bicov, responsável técnico pelos trabalhos desenvolvidos na reciclagem, reuso e logística reversa dos equipamentos inservíveis da USP- CEDIR. Dia: 4 de Novembro de 2010. Duração: 2horas e 15 minutos de entrevista. Local: USP/SP Av. Profº. Luciano Gualberto, 71 TV3- Cidade Universitária ButantãSP. Elementos presentes: Entrevistadora, Neuci Bicov, Irã Margarido e integrantes do Cesumar Empresarial Maringá. 1. Qual o objetivo do CEDIR em uma universidade como a USP ? Neuci Bicov: O Centro de Descarte e Reuso de Lixo Eletrônico (CEDIR) da USP inaugurado em 17 de dezembro de 2009, é subordinado ao Centro de Computação Eletrônica (CCE) da universidade e tem como objetivo executar práticas de reuso, descarte e reciclagem de bens de informática e telecomunicações que ficam ultrapassados nas unidades da USP, em todos os seus campi, na capital e no interior. 2. Qual é a capacidade de caracterização e triagem que o CEDIR suporta ao mês? N.B: O CEDIR faz caracterização, triagem e destinação de 500 a 1000 equipamentos por mês e está instalado em uma área de 400m² localizada no Campus da Cidade Universitária, em São Paulo. 126 3. Vocês têm uma eletrônico/digital? organização no processo de gestão do lixo N.B: Vou lhe passar o modelo de fluxograma que utilizamos. 4. Existe algum tipo de modelo e exigência para cadastramento de entidades? N.B: Tem um blog que as pessoas podem entrar e se cadastrar nesse endereço: <http://stoa.usp.br/neucib/weblog/90500.html>. Acesso em: 17 jan. 2012. Como demonstra o registro a seguir: 127 5. Qual o comprometimento das indústrias com o lixo tecnológico? N.B: Atualmente, as empresas AOC (monitores), Philips (todos os equipamentos), 3M (fitas magnéticas e Xerox do Brasil (copiadoras e tonner) já fazem parte dos “Parceiros Ambientalmente Comprometidos” para onde o CEDIR/CCE já enviou equipamentos aos quais foram dados tratamento adequado. A Itautec já se comprometeu também em receber os equipamentos e fornecer certificado de destinação. Outras grandes empresas produtoras de eletro-eletrônicos que foram procuradas pelo CEDIR através de suas centrais de atendimento disseram não ter comprometimento com os equipamentos após o término da garantia e não irão recebê-los de volta de forma gratuita, a menos quando forem obrigados por lei regulamentada. Fato preocupante, pois com certeza estas não estarão comprometidas com a destinação adequada de resíduos, muitas vezes perigosos e contaminantes. 6. Existe alguma vantagem para a empresa, fora é lógico da questão ambiental da mesma aceitar seu produto de volta? Como vê esta questão? N.B: A iniciativa de criar uma certificação de empresas parceiras do CEDIR, nos moldes do Selo Verde, que certifica as empresas que vendem equipamentos sustentáveis à USP, partiu do diretor do CEDIR Mauro Bernardes e está sendo desenvolvida por Irã Margarido, chefe da seção do CEDIR e Neuci Bicov, pósgraduada em Gestão Ambiental e por funcionários do CEDIR. Nossa intenção é alertar o consumidor quanto a necessidade de adquirir um produto pelo qual o fabricante se responsabilize desde a produção até o descarte final (logística 128 reversa), pois somente aí ele irá realmente produzir equipamentos que não contaminem o meio ambiente, e investir em novas tecnologias de produção. 7. Qual é a relação do CEDIR enquanto Universidade com a indústria, por exemplo? N.B: Excelente, estamos sempre abertos a conversas, basta querer trabalhar e fazer parcerias juntos. Um exemplo é a Itautec que entregou à USP o certificado de destinação para reciclagem dos 37 monitores encaminhados pela Universidade, em cerimônia que contou com a presença de representantes do CEDIR. Essa parceria foi formada com o apoio técnico fornecido pela Itautec e baseado no Centro de Reciclagem que a empresa mantém em Jundiaí. A reciclagem de monitores CRT (que usam tubos de raios catódicos) é mais trabalhosa do que outros resíduos eletrônicos pela dificuldade em dispor de processos de destinação sustentáveis do ponto de vista econômico. Esta dificuldade fez com um número elevado de monitores se acumulasse nas instalações do CEDIR, uma vez que os demais materiais já eram devidamente separados e destinados para reciclagem. Ao destinar os 37 monitores para destinação final, a Itautec firma seu compromisso com a reciclagem e com o apoio às atividades do CEDIR. 8. Qual é o comprometimento do CEDIR com o Sistema produto-serviço? N.B: É total. Os equipamentos e peças que ainda estiverem em condições de uso serão avaliados e enviados para projetos sociais, atendendo, assim, a população carente no acesso à informação e educação. No final de sua vida útil, tais equipamentos deverão ser devolvidos pelos projetos sociais à USP, para que possamos lhes dar uma destinação sustentável, via CEDIR. Esta é a metodologia utilizada. Nosso projeto está alinhado com as diretrizes de sustentabilidade definidas pela ONU, satisfazendo requisitos ambientais, sociais e econômicos. Numa primeira etapa, atende apenas as escolas, faculdades e institutos dos diversos campi da Universidade de São Paulo e numa segunda etapa envia a centros de descarte. 129 Entrevista com Marcus Wilian M. de Oliveira, sócio-proprietário da empresa, Analista Ambiental. Dia: 4 de Novembro de 2010. Duração: 1hora e 30minutos de entrevista. Local: Rua Serra das Divisões, 426- Jardim Bandeirante - SP. Elementos presentes: Entrevistadora, Marcus de Oliveira, e integrantes do Cesumar Empresarial Maringá. 1. O que faz a Empresa Reciclo Metais? Marcus Wilian M. de Oliveira: Procedimentos empresariais, recebimento de compra e venda interna e externa de sucatas de equipamentos eletrônicos. 2. Qual é o objetivo de uma empresa que comercializa lixo eletrônico. M.W.O: A empresa, como toda e qualquer empresa, visa lucro, mas oferece também pacote para o gerenciamento e destinação social e ambiental de resíduos eletrônicos. 3. Qual é a estrutura que uma empresa necessita ter para tratar ambientalmente correta de descartes? M.W.O: Em primeiro lugar, infraestrutura, uma ampla área de armazenamento prévio para o desmonte e classificação do material por tipologia para a destinação, seja 130 para reciclagem, seja para aterro sanitário e aquisição de vários equipamentos específicos, como: enfardadeira, carro hidráulico, balança mecânica, rodoviária, eletrônica e de plataforma, tesoura crocodilo, descascadora de fios, moinho para fios e cabos, compressor de ar, caminhões transportadores, ou seja, há um grande investimento. 4. E quanto ao retorno ciclo produtivo, econômico e ambiental? M.W.O: É um investimento de aproximadamente cinco anos para haver retorno financeiro, ocorre retorno ao ciclo produtivo de matéria-prima já manufaturada e na questão ambiental contribuímos para redução do lixo-eletrônico encaminhado que antes não tinha um destino sustentável, bem como trabalhamos a redução de recursos extraídos do meio ambiente. 5. E vocês desempenham projetos sociais, inclusivos visando a questão ambiental? M.W.O: Sim, damos suporte a projetos sociais, maior conscientização da população, sensibilização da área política e oportunidade de emprego e renda. 6. Quais os riscos que uma empresa tem em lidar com esse lixo específico? M.W.O: Primeiro tem que ter um amplo espaço físico, a desgastes dos equipamentos encargos para a manutenção como aluguel, impostos, custos operacionais, água, energia, custos de mão de obra, encargos trabalhistas, custos pela aquisição dos eletrônicos em desuso, encargos sociais, tudo envolve custos, afinal é uma empresa. E tem também a questão econômica que é a flutuação de preços, mercado incerto, especulação dos vários setores como instituições, pessoas físicas e jurídicas etc. 7. Sua formação é nesta área especifica? Pergunto, pois tem a questão ambiental que necessita ter conhecimento. M.W.O: Sim, sou biomédico, mestre em Toxicologia e Análises Toxicológicas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, trabalhei como pesquisador na School of Biochemistry and Immunology e Institute of Neuroscience na Universidade de Dublin, Trinity College, portanto tenho conhecimento na área, por isso presto consultorias. A questão ambiental é muito delicada, existe grande estoque de material com componentes sem aproveitamento para a reciclagem, devem-se tomar cuidados com rejeitos tóxicos e descartar da maneira correta. 8. Você tem licenciamento ambiental? M.W.O: Sim, sou uma constituição jurídica de empresa com finalidades lucrativas. Possuo licenciamento ambiental fornecido pela CETESB ao qual descaracterizo equipamentos atendendo ao processo de logística reversa, de acordo com o especificado em legislação nacional e internacional. 131 ANEXOS 132 Case: reciclagem de eletrônicos – aspectos ambientais, sociais e econômicos. Material enviado via e-mail por: Andréia Maffeis Campbell, a autora, com autorização para publicação. Andréia é gestora ambiental do Grupo Itautec em Jundiaí, São Paulo. 1. Descrição da empresa Empresa 100% brasileira, especializada no desenvolvimento de produtos e soluções em informática, automações e serviços. Atua nos mercado corporativo e doméstico por meio das seguintes áreas de negócios: Informática - Microcomputadores, notebooks e servidores, comercializados com sua marca; Automações - Bancária, com máquinas de auto-atendimento (ATMs) e terminais caixa; e Comercial, com terminais de ponto-de-venda (PDV), impressoras fiscais, terminais de auto-atendimento, e softwares, como Sistema de Automação Comercial (Siac), Soluções Completas para Pagamento Eletrônico (Scope) e Sistema de Gestão do Atendimento (Siga); Serviços - Outsourcing, assistência técnica, infra-estrutura e instalações. Sua sede está localizada na cidade de São Paulo e sua unidade fabril foi transferida em 2007 para o município de Jundiaí, a 49 quilômetros da capital. Com a mudança, houve ampliação de 35% na capacidade de produção de microcomputadores e de 150% em equipamentos de automação, além do início da fabricação de cofres que equipam máquinas de auto-atendimento bancário. A Empresa possui cinco subsidiárias no exterior (Argentina, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal), para revenda de produtos e prestação de serviços de assistência técnica e suporte. Também atua por meio de suas 133 subsidiárias localizadas no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador, nos Estados Unidos, no México e na Venezuela, com capacidade para atender a toda a América Latina e países da Europa e África. A Empresa figura como a empresa brasileira de TI que mais investe no exterior, segundo o ranking das Transnacionais Brasileiras 2007, elaborado pela Fundação Dom Cabral e pela Columbia University. Com mais 6.000 funcionários, 34 unidades de serviços e 7 laboratórios de suporte no Brasil, abrange 2,7 mil cidades brasileiras, capilaridade que assegura agilidade e eficiência na prestação de serviços. Para manter-se alinhada às mais avançadas tecnologias e atender com excelência às necessidades dos clientes, investe em Pesquisa e Desenvolvimento e na modernização de suas unidades e linhas de produção. Detém as certificações de qualidade ISO 9001 e ambiental ISO 14001 e segue diretrizes internacionais na fabricação dos produtos, como as normas ambientais Restriction of Hazardous Substances (RoHS) e Waste Electrical and Electronic Equipment (Weee). 2. Descrição do Projeto Em 2001 quando a empresa decidiu pela adoção do sistema de gestão ambiental baseado na NBR ISO 14001, houve, de fato, um longo período de desafios para realizar as mudanças que esse novo conceito exigia. Mudar processos sob o mais rigoroso controle é até possível, mas tornar as práticas naturais e sustentáveis é um desafio maior, pois afinal, é necessário mudar cultura e a peçachave é o ser humano motivado para provocar mudanças. Nesses nove anos de trabalho a empresa promoveu mudanças consideráveis e os benefícios foram percebidos pelo público interno e reconhecidos pelo público externo. Um dos grandes desafios – sob a ótica do triple bottom line - da equipe que coordena as operações foi definir metas e promover as ações para alcançá-las. • Tripé ambiental: meta principal é a redução de resíduos sólidos enviados para aterro sanitário. O aumento do percentual de resíduos recicláveis é objetivo principal deste tripé, com isto, novos fornecedores foram desenvolvidos e homologados para resíduos até então considerados não recicláveis. • Tripé social: o emprego de colaboradores, forma indireta, na Área de Reciclagem que possuem idade acima de 40 anos e que possuíam dificuldade de recolocação no mercado de trabalho. A principal meta é o aumento de contratações – diretas e indiretas – relacionadas com o aumento da reciclagem de eletrônicos. • Tripé Econômico: A geração de receita proveniente da venda de resíduos é ganho para a empresa, já que seu bussiness core é fabricação de eletrônicos. Em 2009, a Área de Reciclagem da empresa se manteve em 72% da receita versus despesa. A meta principal é o aumento do percentual de manutenção da área, ou seja, aumento da receita versus despesa. 134 A operação produtiva, apesar de ser ambientalmente limpa, possui uma geração significativa de diversos resíduos, quer sejam metais, papéis, papelões, plásticos, etc., e grande parte desses resíduos são oriundos dos processos de proteção aos delicados componentes de alta tecnologia, que normalmente viajam milhares de quilômetros até o parque industrial. Em 2009, a geração total de resíduos foi de 1.299 toneladas, sendo que 84% dos resíduos foram reciclados externamente por meio de empresas especializadas nos diversos materiais. O case mostra o desempenho da equipe ambiental em conduzir esforços para aliar a responsabilidade social com a destinação adequada de resíduos e a obtenção de receita. Certificações e programa ambiental - A empresa possui sistema de qualidade implantado e certificado com base na norma ISO9001 desde 1993 e Sistema de Gestão Ambiental (SGA) norma ISO14001 certificado desde 2003. A definição estratégia da empresa para adoção dos sistemas de gestão e certificações está baseada na visão de aprimoramento contínuo de processos e sistemas internos, estando assim alinhados com a estratégia de crescimento sustentável, equilibrando as necessidades econômicas, sociais e ambientais. Esta visão contribuiu para o desenvolvimento de um trabalho alinhado com as melhores práticas do mercado na gestão de processos e melhoria contínua de suas atividades nos diversos níveis de atuação, buscando principalmente a excelência ambiental, o que a levou a implementar um Sistema de Gestão Ambiental em conformidade com a Norma ISO 14001 na unidade de São Paulo e, recentemente, na nova planta no município de Jundiaí. O processo de implantação da norma teve início em 2001, quando a empresa efetuou diversas reformas nas áreas de apoio e produção na unidade localizada em São Paulo. Em 2002, após o levantamento dos investimentos necessários, tiveram início as atividades de certificação, que envolveram cerca de cinco mil colaboradores e comunidades locais em diversos projetos de conscientização e boas práticas ambientais. Os trabalhos de adequação à norma foram realizados em um ano e oito meses, desconsiderando as obras de reforma e adequação. A conquista da certificação aconteceu em novembro de 2003. Em 2007 migramos o nosso sistema para nova planta instalada em Jundiaí, e conseguimos manter a nossa certificação ambiental e de qualidade. Os investimentos voltados para a implementação do SGA, no período de dois anos, ficaram em torno de R$ 1,2 milhão, dos quais cerca de 75% foi repassado para os setores de infra-estrutura operacional da unidade, além dos trabalhos de treinamento e conscientização dos colaboradores. Num segundo momento, o plano de investimentos pós-certificação passou a considerar o trabalho de melhoria contínua que está presente em cada atividade da empresa, envolvendo o desenvolvimento de alternativas para embalagens recicláveis, soluções técnicas para redução do consumo de energia e água, bem como a substituição de processos por outros que gerem menos resíduos. A utilização de tecnologia foi uma constante ao longo do processo de implantação do SGA na empresa. Entre os pontos considerados relevantes, são enumerados os seguintes: 135 • Todo processo de comunicação foi desenvolvido em meio eletrônico e disponibilizado através da Intranet para todas as unidades. Nesse meio estão a documentação do SGA, as legislações e normas aplicáveis, o que foi fundamental para a agilização, o controle e a atualização dos procedimentos e controles; • A substituição de equipamentos obsoletos por equipamentos modernos com menor consumo de energia também foi decisivo para alcançar as metas de redução do consumo de energia e água. Isso foi possível com a implantação de métodos e equipamentos de gerenciamento do consumo, além da participação dos colaboradores com ações simples, como desligar os computadores e a iluminação quando estiverem ausentes ou no final de cada expediente. • Houve o desenvolvimento e homologação de fornecedores e processos para a reciclagem de computadores obsoletos. Os programas de conscientização e comunicação das boas práticas ambientais exercidas pela empresa compreendem tanto a comunidade interna, quanto à comunidade que vive em torno da empresa. O trabalho de comunicação é contínuo, sendo que semanalmente é apresentado um tema diferente que fica disponível a todos. Nessa comunicação, são abordados temas como a preservação dos recursos naturais, a redução da geração de resíduos, os cuidados com o solo, água e ar e palestras para educação ambiental. Há um canal de comunicação que se estende a qualquer parte interessada por meio de um e-mail dedicado e uma linha direta para o público interno. Para a empresa, o SGA agregou produtividade e racionamento nas atividades operacionais da fábrica e nas áreas de apoio. As boas práticas ambientais fazem parte da política interna da empresa, e a certificação é o reconhecimento desse ideal e do trabalho realizado por todos os colaboradores, que se comprometeram de fato com a redução dos impactos ambientais em suas atividades. A adoção das práticas ambientais proporciona às equipes uma reflexão quanto ao desperdício e racionamento de recursos. A empresa ganha então, a otimização dos recursos e economia em setores produtivos e de apoio. 3. Responsáveis Abaixo seguem os dados dos profissionais que coordenaram os trabalhos: Nome: Andréia Maffeis Campbell Área: Gestão Ambiental Nome: Mario Célio Lozano Área: Gestão Ambiental Nome: Ricardo Perez C. Oliveira Área: Qualidade Industrial e Gestão Ambiental 136 4. Duração do projeto O objetivo do projeto foi desenvolver uma área de descaracterização e segregação de equipamentos eletrônicos na qual se aplicou o conceito do tripple bottom line. Após o processo de segregação, os resíduos gerados são encaminhados para reciclagem, co-processamento ou beneficiamento. A receita gerada é revertida para pagamento das despesas da área. O projeto não teve um período de duração específico, ele foi implantado em 2001 e se estende até os dias atuais. Pesquisa para implantação da área: 90 dias Fase importante para avaliação do investimento. Desenvolvimento dos fornecedores: 120 dias Avaliação na planta dos fornecedores, auditoria ambiental de 2ª parte e homologação. Treinamentos internos: 90 dias Treinamento dos colaboradores conscientização ambiental e social (próprios e terceiros) e ações de Implantação: 120 dias Efetivo início da operação e controle das documentações 5. Participação Todas as áreas da empresa foram envolvidas direta ou indiretamente neste projeto, pois desenvolvemos as figuras de gestores e multiplicadores ambientais visando à disseminação das informações entre os colaboradores. Também, os gestores e multiplicadores ambientais foram os canais de sugestões e reclamações dos aspectos ambientais e sociais. 6. Continuidade A referência são os compromissos formalizados para atender ao triplle bottom line, os quais estão mencionados no item Descrição do Projeto. Todo o processo teve uma análise ambiental, social e econômica as quais foram inseridas em todas as etapas de desenvolvimento do projeto. 7. Resultados A seguir são detalhados todos os resultados alcançados de forma a abordar os principais itens. Os critérios utilizados para a análise a seguir visam demonstrar que a sustentabilidade é um universo não linear e que é possível extrapolar os benefícios dependendo da ótica em que o tema é considerado. 137 7.1 Construção Área de Reciclagem Triple bottom line – aspectos econômico e social Com o objetivo de armazenar os resíduos provenientes da coleta seletiva e a descaracterização e segregação de equipamentos eletrônicos, construiu-se, em 2001, a Área de Reciclagem com 700m². Com a mudança da empresa para Jundiaí a Área de Reciclagem foi replicada igual a estrutura original (construída na fábrica em São Paulo). Figura 25: Vista da Área de Reciclagem em Jundiaí 7.2 Programa Coleta Seletiva Triple bottom line – aspectos ambiental, social e econômico O programa de coleta seletiva foi implantado na empresa em 2001 e os coletores foram instalados nas áreas internas e externas da empresa. Figura 26: Coletores seletivos instalados em área externa da empresa 138 Para a implantação da coleta seletiva investiu-se em treinamento e conscientização dos colaboradores, pois diretivas de educação ambiental foram inseridas no material de treinamento visando a conscientização e replicação das práticas ambientais. 7.3 Quantificação dos resíduos gerados Triple Bottom Line – aspectos econômico Todos os resíduos enviados para a Área de Reciclagem passam por uma separação mais refinada, enfardamendo e armazenamento para formação de carga. Os resíduos eletrônicos são descaracterizados, na Área de Reciclagem, separados e incluídos com os resíduos de coleta seletiva. Figura 27: Vista interna da Área de Reciclagem. Ao lado esquerdo as prensas enfardadeiras Figura 28: Foto de fardos de papelão 139 Em 2009, a geração de resíduos foi 1.299 toneladas, sendo 1.088 toneladas resíduos recicláveis. Os resíduos recicláveis são encaminhados para reciclagem, beneficiamento ou coprocessamento. Os resíduos recicláveis representou 84% do total gerado. Geração de resíduos recicláveis x não recicláveis (toneladas)- 2009 1.200,00 1.000,00 800,00 600,00 1088,10 400,00 210,88 200,00 0,00 Recicláveis Não Recicláveis Figura 29: Geração de resíduos recicláveis e não recicláveis em tonelada Recicláveis x Não Recicláveis - 2009 16% 84% Recicláveis Não Recicláveis Figura 30: Percentual de resíduos recicláveis e não recicláveis 140 Comparativo (total gerado) de resíduos recicláveis e não recicláveis - 2009 140 16,2% 120 Toneladas 100 5,9% 19,5% 18,8% 80 16,1% 18,6% 9,3% 93,6% 24,5% 60 40 14,4% 14,2% 16,3% 31,5% 94,1% 80,5% 20 75,5% 85,6% 90,7% 81,4% 83,7% 83,7% 85,8% 83,9% 81,2% te m br o O ut ub ro N ov em br o D ez em br o os to Se Ag Ju lh o Ju nh o ril M ai o Ab ço M ar Ja ne i ro Fe ve re i ro 0 Reciclaveis Não Recicláveis Figura 31: Porcentagem mensal da geração de resíduos recicláveis e não recicláveis Resíduos recicláveis gerados em 2009 2% 6% 1% 2% 1%1% 2% 33% 40% 12% 0% Cinescópios Classe I Isopor/Espuma Fios e Cabos Madeira Metais Ferrosos Metais Não Ferrosos Pallets madeira Papelão Placas Eletrônicas Plásticos Figura 32: Classificação dos resíduos recicláveis gerados na empresa 141 Geração de resíduos recicláveis / produto produzido 3,50 Kg/produto produzido 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 recicláveis/produto Jan Ferv Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez 2,28 1,40 2,84 2,95 3,29 2,40 1,88 2,49 2,36 2,03 1,71 2,14 Figura 33: Resíduos recicláveis gerados na produção (kg/produto produzido) 7.4 Descaracterização de equipamentos eletrônicos Triple bottom line: econômico, ambiental e social Todo equipamento eletrônico enviado para a Área de Reciclagem é descaracterizado, separado e enviado para destino ambientalmente adequado. Os equipamentos recebidos pela Área são desktops, notebooks, servidores e caixas eletrônicos. A Figura 6 retrata o ciclo de descaracterização de um desktop. 142 Etapa 2: Desmontagem do monitor Etapa 1: equipamento a ser descaracterizado Etapa 3: Desmontagem da CPU Etapa 4: Desmontagem do teclado Figura 34: Ciclo de descaracterização de um desktop Após a descaracterização do equipamento, os resíduos gerados são colocados separadamente em caixas coletoras e destinados para reciclagem. 143 Figura 35: Resíduos gerados são colocados separadamente em caixas coletoras 7.5 Venda de resíduos Triple bottom line: econômico Em 2009 a receita gerada pela venda resíduos recicláveis foi de R$ 179.552,00. Este valor refere-se a diferença entre a venda de resíduos e a despesa para tratamento de alguns resíduos. 8. Recomendações / Conclusões O trabalho de reciclagem dos resíduos é um fator significativo para empresa, que busca ser referência ambiental em seu segmento, de forma sustentável. Os itens relacionados abaixo e detalhados anteriormente foram os que tiveram destaque neste case, com ganhos significativos e fortalecendo os compromissos ambientais: Diminuição de resíduos em aterros; Destinação correta de resíduos; Emprego de colaboradores (próprios e terceiros) para descaracterização dos equipamentos e separação dos resíduos; Fomento, direto e indireto, da cadeia de empresas recicladores; Geração de receita. Neste case, a empresa reforça o objetivo de evoluir nos segmentos de negócios em que atua, tendo como referência o compromisso com a sustentabilidade.