PUBLICAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DISTRIBUIDORES VOLKSWAGEN ANO 29 • Nº 236 S E T E M B RO 2 0 0 6 O Tempo de cada um Os carros da estação Lá no fim do mundo; lá na PATAGÔNIA ALBERTO SARAIVA, ” O “DR. HABIB´S Recado C SOBRE O TEMPO E O FIM DO MUNDO aro leitor, não se impressione. As mudanças de Showroom não chegam a tanto. Esta mensagem não é um texto esotérico ou catastrófico. Ela apenas revela dois dos principais temas desta edição. O primeiro, sobre o tempo, está longe de ser um estudo climático, mas sim uma rápida análise a respeito do ritmo - e daí a palavra tempo - de cada um. A intenção foi abordar a individualidade do ser humano e o fato de cada um de nós ter horários produtivos diferentes. Hoje já não é mal visto o trabalhador das madrugadas, assim como já merece respeito, mais do que compreensão, o funcionário meticuloso, que trabalha mais lentamente mas com grande precisão. Nesse rol de tipos e personalidades, são citados ainda os acelerados e os atrasados crônicos, aqueles que apesar de ostentarem um belo relógio de pulso nunca conseguem chegar no horário. A matéria, enfim, diz respeito ao comportamento humano, que por ser humano é falho e precisa de particular atenção, principalmente das empresas. Já o outro assunto referido no título diz respeito a um dos lugares mais bonitos e inóspitos do Planeta, a Patagônia, popularmente conhecida como “o fim do mundo”. Como se sabe, a Patagônia é o ponto mais “austral” da Terra e só por isso já desperta grande interesse. Mas o mais fantástico dessa geleira é a quantidade de belezas naturais que reúne. Cada vez mais visitada por adeptos dos esportes de aventura, a Patagônia começa a ser um destino viável para o turista médio. Mesmo sendo pouquíssimo povoada, ela oferece conforto para os hóspedes, boa gastronomia e surpresas incomparáveis. Mas para não ficar o “tempo” todo falando do “fim do mundo”, esta edição traz ainda uma simpática entrevista com Alberto Saraiva, presidente da Rede Habib´s, que fala sem problemas sobre o sucesso do seu empreendimento e sua vontade de crescer ainda mais, e as novas colunas de Joel Leite, conhecido jornalista do setor automotivo, nestas páginas em versão free ou, como ele mesmo diz, “com o freio solto” e do presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, Arthur Azevedo. Por fim e não por último falamos sobre o mercado de veículos e as novidades que vão estrear no Salão do Automóvel de São Paulo, em outubro. Boa leitura. CONSELHO EDITORIAL Cartas Expediente PUBLICAÇÃO MENSAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DISTRIBUIDORES VOLKSWAGEN Ano 29 – Edição 236 – Setembro de 2006 Conselho Editorial Antonio Francischinelli Jr. , Carlos Alberto Riquena, Evaldo Ouriques, Juan Carlos Escorza Dominguez, Mauro I.C. Imperatori e Silvia Teresa Bella Ramunno. Bens intangíveis Que bom saber que há no mundo gente investindo mais em idéias, ciência e pessoas do que em máquinas. A matéria “Durabilidade dos intangíveis” (Edição 234 Julho 2006) desta revista me animou bastante. Talvez, como professor de adolescentes possa, enfim, fazer com que me ouçam e entendam que a área de Humanas continua em alta, aliás, desde a Grécia antiga. JOÃO R. MARCIOSIDE PROFESSOR - SÃO PAULO - SP Os dois jeitos de trabalhar Parabéns, a nova Showroom entrou belíssima. Nestes sete anos em que a Revista participa conosco, fazendo parte do nosso dia-adia, ela traz idéias e reflexões principalmente voltadas aos nossos negócios e práticas altamente educativas, eficazes e motivadoras, importantes para a tomada de decisões não só na empresa, mas também em nossa vida pessoal. Nesta edição de agosto (nº 235), particularmente, adorei a entrevista com Roberto Shinyashiki. Parece que ele viveu todo esse tempo dentro de nossas empresas, tão verdadeiras foram suas declarações. Quando diz: “há dois jeitos de trabalhar: um para ganhar mercado e outro para manter o emprego”, não há verdade mais crua... Também achei extremamente simpática a seção Quem Passou Por Aqui, uma forma singela de prestigiar quem nos visitou e de mostrar ao público a importância da Assobrav e do GrupoDisal. Enfim, desejo a todos os envolvidos no processo de produção de Showroom muito sucesso e que a publicação continue com essa força. SHIRLEY L. O. LEAL VW BELCAR - GOIÂNIA - GO 4 Mais leve Desejo parabenizar a nova cara da revista Showroom. Pude perceber na última edição alguns aspectos interessantes: leveza sobre os assuntos tratados, tornando-a ainda mais convidativa à leitura. Não obstante, senti maior seriedade aliada a tal leveza. E a diversidade de assuntos continua estimulante e informativa. ARMANDO CORREA DE SIQUEIRA NETO PSICÓLOGO - MOGI MIRIM - SP Surpresa Confesso que fiquei surpreendido ao ver a nova Showroom. Não sei bem como avaliá-la por enquanto. Preciso de mais edições para fazer um julgamento, mas posso adiantar que os temas da Capa e entrevista (Edição 235 – Agosto 2006) foram bons e ficaram bem resolvidos. RICARDO MOREIRA EMPRESÁRIO - SÃO PAULO - SP Editoria e Redação Trade AT Once - Comunicação e Websites Ltda. Rua Itápolis, 815 – CEP 01245-000 – São Paulo – SP Tel (11) 5078-5427 / 3825–1980 [email protected] Editora e Jornalista Responsável Silvia Teresa Bella Ramunno (13.452/MT) Redação - Rosângela Lotfi (23.254/MT) Projeto Gráfico e Direção de Arte Azevedo Publicidade - Marcelo Azevedo [email protected] Publicidade Disal Serviços Maria Marta Mello Guimarães Tel (11) 5078-5480 [email protected] Impressão Gráfica Itú Tiragem 6.000 exemplares Revista filiada à ABERJ Permitida a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte. As matérias assinadas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição da Assobrav. Registro nº 137.785 – 3º Cartório Civil de Pessoas Jurídicas da Capital de São Paulo. Assobrav Av. José Maria Whitaker, 603 CEP 04057-900 São Paulo – SP Tel: (11) 5078-5400 [email protected] Diretoria Executiva Presidente: Elias dos Santos Monteiro Vice-presidentes: Carlos Roberto Franco de Mattos Jr., Evandro Cesar Garms, Heloisa Souza Ribeiro Ferreira, Luiz Sérgio de Oliveira Maia, Mauro Pinto de Moraes Filho, Mauro Saddi, Nilo Augusto Moraes Coelho Filho, Rogério Wink e Walter Keiti Yaginuma. Presidentes dos Conselhos Regionais Região I: Rodrigo Gaspar de Faria Região II: Luiz Alberto Reze Região III: Roberto Petersen Região IV: Carlos Francisco Restier Região V: João França Neto Região VI: Ignacy Goldfeld Região VII: André Luiz Cortez Martins Conselho de Ex-Presidentes Sérgio Antonio Reze, Paulo Pires Simões, João Cláudio Pentagna Guimarães, Orlando S. Álvares de Moura, Amaury Rodrigues de Amorim, Carlos Roberto Franco de Mattos, Roberto Torres Neves Osório, Elmano Moisés Nigri e Rui Flávio Chúfalo Guião. Foto de capa: stock.xchng stock.xchng CAPA A PASSEIO OUTLOOK Sumário 3 RECADO 28 A PASSEIO A mensagem do Conselho Editorial. Viagem ao fim do mundo. A Patagônia, suas belezas, riquezas e curiosidades. 6 QUEM PASSOU POR AQUI Amigos e personalidades que visitaram a Assobrav e o Grupo Disal. 33 REDENEWS O que acontece na Rede Volkswagen. 8 CONSULTA SEBRAE 34 SUCESSÃO As recomendações dos consultores do SEBRAE. O eterno dilema de pais e filhos em empresas familiares. 10 GENTE 35 FREIO SOLTO Entrevista com Alberto Saraiva, fundador e presidente do Habib´s. O médico que em apenas 18 anos transformou uma padaria acanhada e sem recursos na maior rede franqueada de comida árabe no mundo e na maior de capital nacional no segmento fast food. Simples, simpático, acessível e divertido, Saraiva fala, sem pestanejar, que é possível ter lucro vendendo esfihas a R$ 0,39 a unidade. O jornalista Joel Leite fala sobre tudo, inclusive sobre carros, utilitários, motocicletas... 14 OUTLOOK 36 NOVIDADES O que há de novo em eletrônica digital, periféricos de informática e outras “utilidades”. 37 LIVROS&AFINS Novidades, comentários e lançamentos do setor automotivo. O recomendado “O novo Jogo dos Negócios – Por que as empresas estão decepcionando as pessoas e a próxima etapa do capitalismo”, de Shoshana Zuboff e James Maxmin. 20 CAPA 38 VINHOS&VIDEIRAS Tempo. Preocupação intrínseca do Homem. “Quanto tempo tenho” é a pergunta que ressoa em nossa mente sem parar, seja em momentos de reflexão com relação à duração de nossa vida na Terra, seja no dia-a-dia, nas rotinas mais prosaicas a que estamos sujeitos. Se com o tempo não é possível negociar, só há uma alternativa: administrá-lo bem e vivê-lo da melhor e mais feliz forma possível. A coluna de Arthur Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers – SP, editor da Wine Style e consultor da Artwine. 38 MESA POSTA Histórias de receitas e de cozinheiros. 5 Quem passou po r aqui Pedro Henrique Gomes, diretor da Dale Carnegie Training, no solário da sede do Consórcio dos Concessionários Volkswagen, para apresentar novidades em treinamento... Leonardo Palmeira Sampaio, superintendente geral da Mapel de Maceió, que trocou por 48 horas a água de côco de Alagoas por um chá com os amigos paulistanos... Timothy Geoffrey Copley, diretor da Itacuã, de Ribeirão Preto, do alto de sua simpatia, para reunião do Conselho Regional II... 6 Em pausa para o café, Leandro Cardoso, do Marketing de P&A da VWB, para dar prosseguimento ao novo Protocolo de Peças e Acessórios... Paulo Sérgio Kakinoff, diretor de Vendas e Marketing da VWB, para ajustar algumas coisas... Guilherme Afif Domingos, presidente da Indiana Seguros, e sua ousada elegância em gravata de camelos, para o relançamento do Seguro dos Concessionários Volkswagen... Canevo Cavano, diretor de cinema, em demonstração de Tae Kwon Do, para checar locações para futuros vídeos... Paulo Lima, superintendente da área comercial da Bradesco Seguros, para apontar diretrizes do Seguro de Vida Prestamista... Andrea Furuichi Maia, do Planejamento e Programas de Marketing - Pós-venda da VWB, para conhecer bem de perto o ambiente da Assobrav... 7 Co nsulta SEBRAE O QUE É MAIS CUSTOSO: DEIXAR DE ATENDER UM CLIENTE PELA FALTA DE PRODUTOS OU ARRISCAR FAZER UM ESTOQUE MAIOR E ACABAR GERANDO O TEMIDO ENCALHE? ESTOQUE É DINHEIRO O Por Júlio Tadeu Alencar que é preciso para ter sucesso no comércio? Um bom ponto-de-venda, um ótimo atendimento, produtos variados e de qualidade! Se você tem tudo isso, mas quando chega ao final do mês nem sempre conta com resultados financeiros satisfatórios, pode ter certeza que uma das causas mais prováveis é que boa parte de seu rico dinheirinho está repousando no estoque. Nesse ponto talvez resida a questão que mais atormenta os empresários do comércio. Afinal, o que se deve fazer para administrar os estoques? O que é mais custoso: deixar de atender um cliente pela falta de produtos ou arriscar fazer um estoque maior e acabar gerando o temido encalhe? Para enfrentar este problema, existem diversos sistemas informatizados acessíveis aos donos de pequenos negócios que podem ser utilizados como ferramentas para a realização de uma boa administração e manutenção de estoques. Estes sistemas aplicam técnicas e conceitos de gestão de estoques, possibilitando o planejamento dos recursos financeiros investidos no estoque de forma metódica e analítica, levando-se em conta o volume de vendas passadas, o volume disponível na loja para venda imediata e o que se espera vender no período futuro. 8 Estas técnicas de gestão buscam reduzir ou eliminar as faltas e excessos de produtos. As faltas geram perdas nas vendas, descontentamento nos clientes e enfraquecimento do negócio; já os excessos trazem transtornos e perdas por vencimento do prazo de validade, além de complicar o fluxo de caixa do negócio. Um dos principais erros cometidos pelas empresas começa na formação do primeiro estoque, onde o empresário deveria se perguntar constantemente: • qual é a demanda esperada de vendas? Vou comprar por experiência ou intuição? • quanto tempo leva sua reposição? Conheço todos os meus fornecedores? • quanto custa perder um cliente por falta de um produto? • quanto custa manter o estoque? (lembre-se: estoque é dinheiro!) • existe área suficiente para o estoque dos produtos? Partindo do princípio que estoque é dinheiro, nenhuma empresa gosta e nem deve mantê-lo parado. Saber administrá-lo corretamente é uma forma de evitar o comprometimento de recursos financeiros da empresa, além de atingir o ponto de equilíbrio entre as compras, vendas, recebimento e estoques. Júlio Tadeu Alencar é consultor do Sebrae-SP O utloo k 14 O LEITOR UM POUCO MAIS MADURO CERTAMENTE LEMBRA QUE ATÉ MEADOS DA DÉCADA DE 1990, A ÉPOCA DE LANÇAMENTOS DAS MONTADORAS ERA NO FIM DE CADA ANO. OUTUBRO ERA UM MÊS ESPERADO POR AFICIONADOS, AINDA MAIS A CADA DOIS ANOS, COM A REALIZAÇÃO DO SALÃO INTERNACIONAL DO AUTOMÓVEL QUE EXIBIA AS NOVIDADES. PROFUSÃO DE LANÇAMENTOS Por Rosângela Lotfi A abertura do mercado, a maior competitividade entre as marcas, o ciclo de vida menor dos produtos e a rápida evolução tecnológica mudou esse calendário. Hoje, todo mês é tempo de lançamentos. Estratégia que agrada a alguns, mas não a todos. Na última década tornou-se mais comum as montadoras anteciparem os lançamentos, e o mercado passou a conviver com uma variedade de combinações entre o ano de produção e os modelos. A Resolução N.º 498/75 do CONTRAN (Conselho Nacional de Trânsito), que antes obrigava apenas o registro do ano/fabricação no Certificado de Propriedade do Veículo, passou a exigir também o ano/modelo. O Denatran autoriza que os fabricantes estabeleçam o ano/modelo igual, imediatamente anterior ou posterior ao ano de fabricação. Assim, um veículo produzido em 2006 poderá ser 2006/2005, 2006/2006 ou 2006/2007, que é o que constará na Nota Fiscal e no CRV. O ano/fabricação tem validade apenas nas questões tributárias, como para a cobrança de IPVA, por exemplo. José Rinaldo Caporal Filho, diretor e sócio da Megadealer, uma consultoria dedicada ao negócio de concessionárias de veículos, lembra que a percursora dessa tendência foi a General Motors, quando em abril de 1993 lançou a primeira geração do Vectra com o ano/modelo 1994. A Fiat seguiu à risca, lançando os Fiat Tipo e Tempra. E de lá para cá, em maior ou menor grau, a estratégia contagiou todas as montadoras. O mercado de usados teve que se adaptar à nova realidade e criar regras para a avaliação e comercialização dos veículos. Vítor Meizikas, gerente de avaliação da Molicar, explica que os comerciantes de veículos usados compravam o carro pelo ano/fabricação e vendiam pelo ano/modelo, o que causava distorções no mercado e muitas queixas de consumidores, que se sentiam lesados. O primeiro dono do carro pagou mais pelo produto, que traz inovações e atualizações, e ao revendê-lo tende a exigir que esta diferença seja recompensada. Para dar transparência às negociações, estabeleceu-se uma praxe, não uma regra: as avaliações são feitas sempre pelo ano/modelo. “Na prática, para a avaliação na loja, um carro 07/07 recém saído da concessionária vai ter seu valor calculado no mesmo patamar de um veículo 06/07 com alguns meses de uso”, explica. A aparente desvantagem para o consumidor só ocorre em trocas muito rápidas e freqüentes. Com maior tempo de uso essa depreciação tende a se igualar. “CARRO É UM BEM DE CONSUMO COMO UMA TV OU GELADEIRA” A redução do valor de um carro depende dessa e de muitas outras variáveis, que vão desde o estado em que o veículo se encontra, passando pela cor e a que segmento pertence. Veículos básicos, também chamados veículos de entrada, como 15 O utloo k Marcos Alves o Gol, Palio, Mille, Celta e Fox, que responderam por 38% das vendas no primeiro semestre de 2006 depreciam, em média, 6% ao ano. Compactos premium e sedãs médios têm depreciação maior, cerca de 15%. Quem determina é a lei do mercado. O consumidor de zero quilômetro, além de confuso, fica irado quando acabou de comprar um modelo e, logo depois, as montadoras antecipam o Caporal, da Megadealer ano seguinte. Teoricamente, tem um carro novo já desatualizado. “O consumidor olha o ano/modelo e o fato de ser do ano seguinte é um atrativo extra”, diz Meizikas. Parte do problema está na percepção antiga, que vê o carro como investimento e ao comprá-lo já pensa na revenda. “Isso não vale mais. Carro é um bem de consumo, tal qual um aparelho de TV ou uma geladeira”, diz Caporal. Se o cliente não for afeito a novidades, não tiver pressa de ser o primeiro a comprar a nova linha, não se importar com pequenas mudanças de estilo e acabamento – a maioria das alterações é superficial –, pode se beneficiar da estratégia de marketing das montadoras e da abundância de lançamentos. O preço fica convidativo e os descontos crescem na mesma proporção que os estoques das concessionárias convivem com a variedade de versões do mesmo modelo. O valor fica mais baixo em decorrência dos bônus das montadoras, das promoções e das condições facilitadas de pagamento. São artifícios para desovar os estoques, mas há outras vantagens: dependendo do 16 ano/modelo, pode-se pagar IPVA mais baixo no ano seguinte, já que o primeiro licenciamento tem alíquota fixa, independentemente do ano de fabricação. Por fim, as novas linhas chegam sem abatimento para segurar o preço da novidade e para não queimar a versão antiga. “O consumidor precisa ficar atento, pois essas práticas (promoções e facilidades), quando o mercado está aquecido, podem ser o indício de que vêm modificações por aí. Se o desconto não for muito atraente, vale a pena esperar a linha nova, no caso a 06/07”, aconselha o gerente da Molicar. “O MONOCOMBUSTÍVEL FICA NO ESTOQUE” Para as montadoras e concessionárias, só o fato de ser anunciado como lançamento já é um apelo que impulsiona as vendas. “É saudável e estimula as vendas”, afirma Caporal. O marketing tende a tornar obsoleto o que já existe, mas há outros apelos para colocar essa estratégia em ação: em um mercado competitivo como o brasileiro, campanhas publicitárias, lançamento para a mídia especializada (que gera propaganda espontânea e gratuita) destacam o modelo em relação aos concorrentes e chamam a atenção do consumidor. Por isso, muitas vezes, antes mesmo do carro estar disponível, informações e imagens disputam a atenção da imprensa, despertando o desejo de compra em alguns e adiando – à espera da novidade – a decisão de compra de outros. Pesam nessa estratégia volumes de venda, o segmento de mercado em que o carro está inserido, a atualização tecnológica e outros. A adequação dos motores monocombustíveis para flex fuel, por exemplo, inaugurou o calendário 2006. As montadoras Marcos Alves correram para atualizar os modelos que não contavam com esta opção. Na metade de fevereiro, a Citroën apresentou seu lançamento mais importante do ano: o C3 1.4i Flex, com motor bicombustível. Em março foi a vez da Volkswagen lançar o Meizikas, da Molicar Golf 1.6 Total Flex. Os flex, em julho passado, respondiam por 76,6% de participação de mercado. “Hoje, modelos monocombustíveis encalham nos estoques”, explica o gerente da Molicar. Novidades, carros inéditos de fato, movimentam seus segmentos, como aconteceu com o lançamento do novo Vectra (linha 2006), em outubro do ano passado. Depois dele, o mercado brasileiro de sedãs médios e grandes ganhou vida nova. A Honda começou a importar o Accord do México, depois atualizou o Civic, provocando a dança das cadeiras da liderança no segmento. Com eles concorrem, ainda, o Toyota Corolla e as novidades Peugeot 307 Sedan, Renault Mégane, Ford Fusion e os Volkwagen Jetta e Bora. “Consumidores de carros básicos são sensíveis a preço (R$ 200,00 no preço final pode motivar até mudança de marca) e gostam que os veículos sejam consagrados. Já quem compra carros médios e de luxo gosta que sejam atualizados em relação a design e tecnologia. Apreciam o status e, como trocam de carro a cada um ou dois anos de uso, compram novidade”, analisa Meizikas. Na outra ponta, as montadoras pensam (ou deveriam pensar) muito antes de tornar obsoletos veículos de entrada. “Inovações custam e têm que ser repassadas ao preço. Em um país onde 80% da população não têm acesso a veículos 0KM, será que os carros populares têm que se tornar obsoletos o tempo todo ou deveriam ganhar escala e, assim, ser acessíveis a mais pessoas?”, questiona Caporal. O QUE VAI TER NO SALÃO Com o calendário às avessas, até outubro as montadoras põem o pé no breque e guardam as novidades esperando pelo Salão Internacional do Automóvel. O 24º Salão acontecerá entre 19 a 29 de outubro, no Anhembi, em São Paulo. Trata-se de um megaevento que contará com 400 veículos expostos, de 31 marcas. Mas com tantos lançamentos sobram novidades para mostrar? Os especialistas ouvidos acreditam que, neste cenário, o Salão perde e deixa de ser atrativo para o público. “Continua a ser uma ferramenta de marketing importante para os fabricantes, mas sem novidades diminui a importância para o público”, analisa Rinaldo Caporal. Nos Salões internacionais, de relevância mundial, as matrizes das montadoras mostram show cars, protótipos futuristas que o público gosta de ver, e que raramente chegam ao Brasil. Para as montadoras o evento não perde a importância, pois há muito é utilizado para trabalhar a imagem institucional da marca, para aproximar-se do consumidor, testar a aceitação de novas cores e componentes e mostrar novas tecnologias que agreguem valor. Por isso as especulações continuam. O que as montadoras vão exibir? A Volks já anunciou o Polo reestilizado, o cupê Eos que é a grande sensação do momento na Alemanha e, entre outros, o Passat e o Passat Variant com motor 2.0 FSI Turbo de 200 cavalos de potência e transmissão automática Tiptronic com 6 velocidades. Produzido em Endem, na Alemanha, tem design reformulado com as características da nova identidade da marca. Já o Eos, produzido em Portugal, é resultado do carro-conceito Concept C e tem capacidade de se transformar de cupê em cabriolet em segundos. Ambos devem chegar ao Brasil em 2007. 17 Capa “ NÃO HÁ NADA COMO O TEMPO ” PARA PASSAR 20 stock.xchng “VINÍCIUS DE MORAES” Por Francesca Tortoriello O dos tempos, o homem começou a construir medidores do tempo. O primeiro relógio de que se tem notícia remonta ao século XXXI aC (3.000 a.C). Era um relógio de Sol, o primeiro Gnomon. Relógios são tão importantes para o Homem que ele os recria sobre o mesmo princípio milenar continuamente. Luxuosos, esportivos, práticos, grandes, redondos ou quadrados, com mais ou menos funções, eles são, sim, um objeto de adorno, uma demonstração de status, mas jamais perderam sua função original: medir o tempo.Tempo que merece rápidas olhadas ao pulso quando estamos ansiosos, e espaçadas quando gostaríamos que aquele tempo, aquele momento em particular, não terminasse nunca. Sobre isso, resumiu o impagável Einstein, gênio da Física, ao tentar explicar em palavras pobres sua Teoria da Relatividade: “Quando você está cortejando uma moça simpática, uma hora parece um segundo. Quando você se senta sobre carvão em brasa, um segundo parece uma hora. Isso é a relatividade.” “A Teoria da Relatividade demonstra que próximo a um corpo material o tempo e o espaço são deformados. Quanto maior for a massa desse objeto mais deformados estarão o espaço e o tempo, isto é, ambos, espaço e tempo, são relativos ao observador e às condições do universo”, explica o professor da Universidade Mackenzie, Sérgio Szpigel, doutor em Física e pós–doutorado pela Universidade de Ohio, EUA. VIAJAR NO TEMPO CONTRA O RELÓGIO É por certo a fugacidade da vida, o fim do tempo de cada indivíduo, que faz do tempo uma preocupação constante para todos nós. Já disse Santo Agostinho (354 – 430), doutor da Igreja Católica, em sua obra “As Confissões”, que discutir sobre o tempo é algo muito complicado, pois o tempo parece ser, quando não tentamos discorrer sobre ele, algo simples, que todo o mundo conhece, porém basta tentar teorizar sobre ele Marcos Alves O verso do poema “O dia da Criação”, também conhecido passar do tempo e o como “Porque hoje tempo futuro atormentam o ser humano praticamente é sábado”, do multimídia Vinícius desde que ele se viu no de Moraes, é apenas mundo e constatou os mais uma reflexão movimentos cíclicos do sol, sobre o tempo e sua que, de tanto em tanto, nascia e morria, ininterruptamente. democrática e Tanto é que desde o início implacável força. para que nos vejamos diante de uma grande confusão. E assim é. Para o esportista, segundos fazem a diferença entre o pódio e o segundo lugar. Para os pensadores, a contemplação e a reflexão podem durar dias até que um conceito ou pensamento acabado venha à tona. Para a mulher bonita de meia-idade, o alento é que as mais jovens, um dia, terão a mesma idade que ela. O tempo, inexorável, passa para todos, ricos e pobres, jovens e velhos, felizes e infelizes, do mesmo jeito, no mesmo tempo. A única coisa que não sabemos é qual é o tempo que teremos aqui na Terra. Isto é, quanto de vida terrestre o acaso, o destino ou o Criador nos deu. E é por saber de nossa finitude que nos debatemos contra o tempo que passa e nos interessamos por novas teorias da Física que apontam outras dimensões onde o tempo seja “compreensível” e não mais apenas uma flecha que corre para frente. “Define-se o tempo em Física a partir da medida do tempo. A Teoria da Relatividade Geral e mais 21 stock.xchng stock.xchng Capa tarde a Mecânica Quântica quebraram os paradigmas da Física Clássica, elaborada por Newton, que diz: espaço e tempo são absolutos, existem independentemente. A Mecânica Quântica abole o conceito de trajetória dos objetos deslocados no espaço. Para ela, na estrutura microscópica da realidade encontram-se partículas de energia que aparecem e desaparecem alucinadamente e a medida desse fenômeno é o que aparece para nós. Por isso, o tempo para a Quântica é completamente diferente. Não há distinção entre o tempo ir para frente ou para trás. A concepção de que o tempo é uma seta que segue sempre em frente é um condicionamento aceito pela nossa compleição mamífera, seres não aparelhados biologicamente para perceber uma realidade diferente das três dimensões – altura, largura e profundidade – e o tempo que flui, definidos por Newton e a Física Clássica”, diz Szpigel. O FIM DOS TEMPOS É também para suplantar nosso tempo de vida que depositamos todas as esperanças numa outra vida após a terrena e nos preocupamos em conhecer a História, porque, afinal, é mais fácil aceitar e entender a glória e a queda do Império Romano do que o começo, o meio e o fim da nossa própria história. “É mais fácil pensar no fim dos Tempos do que no nosso fim, porque por mais que tentemos não temos a experiência da morte”, diz o psicanalista lacaniano, Marco Antonio de Araújo Bueno, doutorando em Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte pela Unicamp. Estudar, criar, construir, viajar, transcender. Tudo isso que move o Homem, que o faz acordar de manhã e sair 22 da cama, esquecendo-se dos inúmeros riscos a que está exposto e do fato que “para morrer basta estar vivo”, é a necessidade que ele tem de fazer parte do Todo, de pertencer efetivamente a este misterioso universo, de dar sua contribuição à História da humanidade, de sobreviver à própria morte. “A única fusão possível entre o tempo histórico – que é o tempo que corre apesar da gente – e o tempo subjetivo, que é o nosso tempo, é a arte, porque ela sobrevive aos autores. O Homem fica imortal quando opera sobre a realidade, até mesmo na tentativa de aliviar a opressão de estar condenado ao tempo. Esse é o grande motor da existência humana, e o conjunto do Todo sublimado é a cultura”, referenda Bueno. A DITADURA DO RELÓGIO: UMA CONVENÇÃO Ironicamente, para fazer jus ao tempo, que acaba sendo sempre exíguo, o homem perde tempo. Se estressa, desperdiça energia, é pouco produtivo, ansioso, atrasado crônico, notívago, ou, de outro lado, mas igualmente problemático, acelerado, centralizador, workalcoholic. Um sem fim de adjetivos complementam diferentes personalidades e personagens que todos nós conhecemos. Todo mundo tem um amigo que apesar de usar relógio não consegue chegar no horário a nenhum compromisso. E todo mundo conhece alguém que prefere trabalhar à noite. Há também aqueles altamente produtivos, que excedem suas funções, adotam as tarefas dos outros, obcecados, atemorizados constantemente com o fato de que “não vai dar tempo” e se dilaceram varando madrugadas para entregar o trabalho no prazo, quando, Celso de Meneses stock.xchng de repente, o chefe diz: “Ok, pode ficar para a semana que vem”. É aí que o altamente produtivo, que também não prima pelo equilíbrio emocional, desabafa: “perdi tempo; trabalhar em equipe e depender dos outros é mesmo uma....”. Mas, afinal, o que o leva a correr tanto, a ser o certinho do escritório, o cdf do MBA? Se o tempo, entendido como segundos, minutos, horas, dias, meses e anos é uma convenção acordada entre os homens, ela pode ser mudada conforme a necessidade Marco Bueno: e a conveniência. Tanto o físico, quanto o "Para a psicanálise, psicanalista e o historiador são unânimes o tempo não existe". em concordar que esse tempo dos homens é uma convenção, e que de certa forma somos todos escravos do relógio. “Estamos presos à ditadura do relógio, que é uma herança flexibilidade em relação aos horários que os funcionários da era industrial”, ironiza o professor Sergio Szpigel, para devem cumprir. Esta nova ordem tem a ver, quem, como físico, definir o tempo é mais ou menos como evidentemente, com as vantagens e desvantagens trazidas perguntar a um peixe o que é a água. “Para o peixe que pela internet, já que a tarefa de responder e-mails e as nasceu na água e sempre viveu circundado por ela é muito freqüentes conference calls com as matrizes no exterior difícil perceber esse ambiente. Assim é para a Física a implicam em trocar o dia pela noite para um crescente descrição do tempo. O que é o tempo a Física não número de profissionais. Além disso, já é mais bem responde. A Física é capaz de fazer uma descrição muito aceita, seja pelo RH das empresas, seja pelos colegas, a boa do que está acontecendo e por isso é impossível para ela irregularidade de horários dos profissionais que dissociar o tempo do espaço. Eles vêm juntos”. trabalham em campo como contatos e vendedores ou os chamados criativos – publicitários, jornalistas e marqueteiros. “O INCONSCIENTE NÃO CONHECE Mas não só os executivos têm a permissão de subverter o TEMPO NEM NEGAÇÃO” tempo convencionado. O atraso — traço nem sempre “O tempo é uma convenção judaico-cristã, tanto que justamente outorgado aos brasileiros — começa a ser quando a gente sonha, sonha apenas segundos, mas quando tolerado nas grandes capitais, onde o trânsito quase vamos contar o sonho a alguém, esse relato pode durar sempre é o causador de atrasos horas e ser riquíssimo de detalhes. Não involuntários, porque ao já exagerado há nenhuma relação entre o tempo do volume de carros e acidentes que relógio e o tempo do sonho. Por isso, congestionam as ruas, somam-se ainda para a psicanálise a questão do tempo as greves do transporte coletivo e não existe, já que o inconsciente não manifestações públicas nas principais conhece tempo nem negação”, avenidas, transformando tudo num acrescenta o psicanalista Marco Bueno. verdadeiro caos. E lá se vêem os Talvez tenha chegado o tempo de a trabalhadores nas intermináveis filas dos sociedade mudar mais algumas pontos de ônibus, que não chegam, e convenções, e as premissas do tempo caminhando pelas ruas em grupos, útil, do tempo produtivo, podem ser empreendendo a jornada para o algumas delas. Depois de terem trabalho a pé. Resignados afinal, porque aderido aos horários estendidos, não há nada a fazer diante do caos. trabalhando inclusive aos domingos, já se percebe nas empresas maior 23 Capa O HORÁRIO BIOLÓGICO DE CADA UM Marcos Alves stock.xchng O caos nos tira a culpa pelo atraso, pela procrastinação, palavra feia que significa adiar, transferir para outro dia, característica comum a todos os seres humanos e que acaba comprometendo ainda mais o nosso tempo. Por fim, sem mais elucubrações filosóficas, cabe dizer que, convenção cultural ou não, o tempo de que hoje dispomos precisa ser administrado, sob pena de não termos tempo para fazer tudo o que precisamos. E, como o dito popular “tempo é dinheiro” é bem verdadeiro, os administradores versados em produtividade alertam que administrar o tempo não é programar as tarefas pessoais e profissionais nos mínimos detalhes, mas ter o controle sobre elas. É preciso, sim, planejar a execução das coisas conforme sua importância, mas é fundamental ser flexível a ponto de interromper uma tarefa e dedicar-se a outra quando a emergência aparece. Uma coisa importante é diferente de uma coisa urgente. Para ser o mais produtivo possível, o melhor é descobrir qual é nosso horário biológico, isto é, quando estamos mais dispostos, mais alertas, mais “a fins“ de trabalhar. Identificando a duração desse período, que podem ser três ou quatro horas, pela manhã, à tarde, à noite ou na madrugada, a recomendação dos consultores é que a pessoa se dedique de corpo e alma ao que precisar fazer, sem interrupções. Naturalmente, 24 Szpigel: "Para a Física, o tempo é como a água para o peixe". estamos falando da tarefa mais importante a seu encargo. Coisas rotineiras, como correspondência, telefonemas, e-mails e recados devem ser feitos em uma hora, no máximo, fora do seu “horário biológico”. O problema é que quando temos algo bem importante para fazer, em geral ele é difícil, demorado e tem prazo de entrega. Nossa tendência natural é adiar essa tarefa e ocupar nosso horário biológico para lidar com a rotina, algo que estamos acostumados a tirar de letra. Porque inconscientemente temos medo de encarar o trabalhão, que precisa ser bem feito, e que no caso dos perfeccionistas torna-se um verdadeiro pesadelo, já que nunca se sentem suficientemente bem informados e capacitados para realizar a tarefa. No fundo, trata-se de ter horror ao fracasso, que para evitá-lo só há duas maneiras. Ou partimos para ação – e os estudos demonstram que as pessoas de maior sucesso são as que tratam o mais rápido possível das tarefas difíceis ou desagradáveis - ou para a imobilidade. Se não fizer nada, não vou errar. É o caso típico do funcionário que passa totalmente despercebido na empresa, mimetizando-se nas paredes e esgueirando-se por corredores, mas que mais dia, menos dia, acaba puxando o próprio tapete. É como diz o célebre ditado, a propósito, sobre o tempo: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo...” A Passeio Um pedaço belo e frio do planeta. À primeira vista, um lugar inospitaleiro e árido cuja luz transparente contorna, de modo sutil, colinas arredondadas, picos pontiagudos e glaciais azuis anis. Um lugar que convida à paz e à reflexão até que um vento inclemente nos chama a sair desse torpor e caminhar. stock.xchng VIAGEM AO FIM DO MUNDO 28 stock.xchng Quem anda vê o que há de mais belo nos cenários naturais: vastas planícies verdes das estepes, os rios e lagos de água azulada formados pelo derretimento da neve das montanhas e, principalmente, glaciares. Estamos falando da Patagônia, ao sul do continente americano, quase no fim do mundo. O lugar que foi fundamental para Charles Darwin formular a Teoria da Evolução das Espécies, no século 19. A Passeio Disputa por rochedos gelados A imensa área de 800.000 km2, ao sul da Cordilheira dos Andes, encravada nos territórios da Argentina e do Chile, limitada ao norte pelo Rio Colorado, ao sul pelo Estreito de Magalhães, a oeste pelo Oceano Pacífico (daí os fortes ventos que caracterizam a região), e a leste pelo Oceano Atlântico, a Patagônia é um lugar para todos os estilos, gostos e bolsos. Para os aficionados por esportes de aventura - adrenalina pura – as paisagens surreais e exuberantes são o cenário perfeito. Recebem na alta temporada – de novembro a março – uma quantidade imensa de visitantes que praticam trekking. Entre maio a outubro, na temporada fria, as caminhadas são restritas aos mais determinados e preparados, pois tornam-se um severo desafio diante da hostilidade da natureza. As opções não se restringem a esta modalidade: escalada, mountain bike, rafting, canoagem, cavalgada, expedições off road e esqui. Para casais enamorados, simpatizantes do sossego, amantes da leitura à beira da lareira e os fãs da boa mesa, há outras tantas atrações. Esses encontram na Patagônia cidades bem estruturadas, estações de inverno de nível internacional, pousadas charmosas e estâncias – antigas fazendas produtoras de lã de ovelha que exploram o turismo rural – simplesmente encantadoras. 30 Próximas entre si, as “Patagônias” Argentina e Chilena são diferentes e isoladas do resto do mundo. Em comum formam uma das regiões menos densamente povoadas do planeta: menos de dois habitantes por km2. O lado argentino é dividido em três regiões: Patagônia Andina, que é a área montanhosa, Patagônia Central, dominada pelas planícies, e Patagônia Atlântica, uma costa marcada por penhascos. O lado chileno é dividido, ao Norte, na província de Aisén, onde fica a Laguna San Rafael e a estrada Carretera Austral, e ao Sul, na província de Magalhães, onde fica o Parque Nacional Torres del Paine. Ambas formadas por uma região montanhosa coberta por campos de gelo e uma costa bastante entrecortada, composta por inúmeros canais, fiordes e ilhas. A porção mais famosa fica na Argentina. Cidades como Bariloche, San Martin de Los Andes e Pucón, próximas a lagos e vulcões, ideais para a prática dos esportes de neve, assim como a igualmente celebre Terra do Fogo, estão entre as mais badaladas. Já a Patagônia chilena é diferente, e isto graças ao seu isolamento geográfico, no extremo do território. Encravada entre os campos de gelo da Cordilheira dos Andes e o gelado Mar de Drake – que separa a América do Sul da Antártida – essa porção, em termos geológicos é uma espécie de ilha. O isolamento garante paisagens raras, cultura e meio-ambiente preservados. Em dezembro de 1978, Chile e Argentina quase se envolveram em uma guerra. Disputavam três pequenas ilhas – Lennox, Picton e Nueva –, na realidade, três rochedos estéreis no Canal de Beagle (batizado com o nome da embarcação que levou Darwin à região), cuja posse era considerada estratégica. Uma tempestade, comum na região do Cabo Horn, impediu que os navios saíssem dos portos para guerrear e deu tempo para que uma negociação mediada pelo Papa João Paulo II evitasse o conflito. As tropas se desarmaram, mas até hoje, no extremo sul dos dois países, existem campos minados instalados por ambos os exércitos nas áreas de fronteira. Na intimidade cotidiana, ambos os povos deixaram a rivalidade de lado e transformaram o limite dos países em mera formalidade. Há rusgas e pequenas disputas entre os dois lados. Uma delas envolve o sugestivo título de “o lugar habitado mais austral do planeta”. O ponto extremo Nesta disputa, estão pelo lado argentino, Ushuaia e, no lado chileno, Puerto Williams. A cidade chilena é uma base naval, com menos de 2 mil habitantes e certamente foi declarada município pelo governo para vencer a contenda geográfica. Já Ushuaia, no lado argentino, é uma elegante cidade de quase 80 mil habitantes e muitas atrações turísticas. Independente das paixões de um lado e do outro, o lugar habitado mais austral do mundo – com exceção da Antártida e suas bases de pesquisa – é chileno, sim, e está ainda mais ao sul de Ushuaia e Puerto Williams. É o Cabo Horn, o ponto extremo da Patagônia e de toda a América do Sul. Com os Andes pelas costas, o Oceano Pacífico de um lado, o Atlântico do outro e a Antártica à frente, o Cabo Horn abriga apenas um farol, o chamado “farol do fim do mundo”. Além dele, existe a natureza selvagem e a família do militar da Marinha chilena que cuida do lugar. É um belo monumento de aço em forma de albatroz, utilizado para orientar os navegantes. No passado, antes do GPS e de toda a tecnologia, o clima e os ventos de até 200 quilômetros por hora açoitavam os aventureiros. Há mais de 100 navios naufragados naquelas águas. A bordo de um navio, o Mare Australis, de bandeira chilena é possível conhecer o belo e temível Horn. Há cruzeiros que partem de Punta Arenas a Ushuaia, e vice-versa, avançando pelo estreito de Magalhães (passagem que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, batizada com o nome de Fernão de Magalhães, o primeiro navegante que descobriu o estreito e circunavegou o mundo) e passando pelo cabo Horn. No passeio, os turistas podem observar enseadas, baías, fiordes e bancos de areia. Frio mesmo no verão Ushuaia é a capital administrativa e executiva da Ilha Grande da Terra do Fogo, assim batizada pelos primeiros exploradores que ao aproximar-se da terra avistavam as fogueiras acessas pelos índios. Está localizada no extremo sul do continente americano separado da massa continental pelo Estreito de Magalhães. Não é a cidade mais austral do Planeta, embora ostente o título de “Cidade do Fim do Mundo” por vaidade dos argentinos. De qualquer forma, é o orgulho dos locais, com sua estação de esqui, uma das mais modernas dos Andes. No inverno, os vales cobertos de neve convidam à prática de esqui de fundo, snowshoeing (caminhada na neve utilizando uma espécie de raquete sob o calçado para impedir que se afunde na neve), e também a passeios com trenós de cachorros, motos especiais e até escaladas em cachoeiras congeladas. Para completar a diversão, existem ainda os cassinos, hotéis de luxo, um bom centro de compras, aeroporto e, por ser o ponto de partida para o Parque Nacional da Terra do Fogo, uma rica área natural protegida e o único Parque Nacional com litoral marítimo. Por sua latitude e proximidade com a Antártida, Ushuaia é um lugar frio. No verão, as temperaturas variam entre 12 a -2 º C. A cidade fica aos pés de um grupo de montanhas, invariavelmente, cobertas de neve e à sua frente o canal de Beagle, que separa a Argentina das ilhas chilenas. Ali o turista poderá conhecer e caminhar por um bosque de Lengas – árvores de tronco retorcido e esbranquiçados que vivem cheias de cipós. O trekking é comum nas trilhas que percorrem a cordilheira que cerca a cidade. Um dos passeios vai até o Glaciar Martial, a 4 Km do centro. Através de um sinuoso caminho, chega-se ao cordão Martial e ao teleférico. Após um percurso de 1.100 metros, alcança-se a estação base. A partir desse ponto, avista-se, de um lado, o Canal Beagle, do outro, a geleira. Continuando a pé, por quase 2 horas, chega-se à massa de gelo propriamente dita. Na alta temporada, de novembro a março, é possível fazer um cruzeiro de catamarã para conhecer o Canal de Beagle, a cordilheira Darwin e o farol de Ushuaia. Além disso, pode-se visitar a colônia de Pingüins de Magalhães na ilha Martillo e outras ilhas, sem desembarque, para observar lobos marinhos e cormoranes. Mas se toda essa contemplação deixar o visitante cansado, é possível partir em expedições com veículos off road através da cordilheira Darwin e visitar os lagos Fagnano e Escondido em uma trilha que inclui a travessia de trechos alagados. A montanha que fuma Ainda na Patagônia Argentina, vale a pena visitar as cidades de El Calafate e El Chaltén, na província de Santa Cruz. Em El Calafete está o gigantesco Parque Nacional Los Glaciares, e a 80 km da cidade, o mais famoso deles, o Perito Moreno, com 5 km de frente e 60 m de altura, um dos únicos que não pára de se mover e protagoniza estrondosos espetáculos diários de desmoronamento. Além de ver (e ouvir) o “show”, o turista pode fazer uma caminhada sobre o gelo do glaciar. El Calafete é uma aconchegante cidade turística. Ali chegam os vôos que partem de Buenos Aires, por isso há muitas opções de hospedarias e restaurantes. Distante dali, 40 km, o visitante pega uma embarcação para Porto Bandera e passa pelo glaciar Upsala, o maior da região, com 600 km2, e por vários icebergs, branquíssimos pedaços de gelo que se soltaram dos glaciares e bóiam sobre o lago. Vale visitar também a Península Valdes (Puerto Madryn), uma das reservas ecológicas mais procuradas na Argentina. A 220 km de El Calafate, já em terra firme, os ambientes selvagens mais surpreendentes estão em El Chaltén, uma pequena cidade recém descoberta por turistas, com opções de albergues para mochileiros e hotéis requintados. El Chaltén significa “montanha que fuma” na língua dos índios telhuelches. Era assim que eles chamavam o Fitz Roy (nome do capitão da embarcação HMS Beagle que levou Charles Darwin à região). A montanha de 3.445 metros se destaca na cordilheira que rodeia a cidadezinha e que vive com fumaça em volta do pico. Para chegar ao mirante próximo de sua base é preciso caminhar por um ou mais dias. As trilhas beiram lagos e rios e cruzam as florestas de Lengas. Na temporada fria, os mais determinados são premiados com uma bela luz de inverno que doura as árvores cobertas de neve e os lagos congelados. Nesse caso, a caminhada exige o uso de grampos especiais que ajudam as botas a grudar no gelo. 31 A Passeio A PATAGÔNIA QUE EU VI Por Paulo Altenfelder Santos A decisão foi rápida, mas planejada. Em dezembro de 2002, O lugar mais bonito do mundo No Chile, um dos lugares mais belos é o Parque Nacional de Torres del Paine, criado em 1959 e declarado “Reserva da Biosfera” pela UNESCO. O parque é considerado um paraíso para os amantes da fauna e flora, com seus lagos azul-turquesa e o imponente maciço de Paine, que esconde uma das maiores reservas de condores da América. Ali é possível cruzar, em um bote, o lago Pehue com destino ao acampamento do mesmo nome, caminhar de três a quatro horas no gelo por entre as fendas da geleira Grey e hospedar-se em um acampamento com toda infra-estrutura e completamente integrado à natureza. O parque situa-se na pequena e pacata cidade de Puerto Natales, no extremo sul do Chile. Mas o entorno de Natales oferece muitos mais destinos além de Torres del Paine. Trilha leves, como a que se faz entre Puerto Prat e a estância Consuelo, contornando o canal Señoret, ou mais pesadas, que exigem preparo físico como a trilha dos Alacalufes. Mas a caminhada mais famosa da região é mesmo o circuito ao redor de Torres del Paine, que requer bom preparo físico e planejamento responsável. São sete dias a pé, pernoitando nos refúgios franciscanos. Ao redor de Puerto Natales, as montanhas, os fiordes e as geleiras dominam a natureza. Há pelo menos uma dezena dessas massas de gelo que há milhões de anos, com seu movimento de vaivém, esculpem a topografia da região com o esmero de um artista. Tudo isso faz de Puerto Natales e do Torres del Paine o lugar mais bonito do mundo, de acordo com uma pesquisa internacional de turismo ecológico realizada nos anos 90. 32 Serviço e fotos: Pisa Trekking Viagens e Turismo Al. Dos Tupiniquins, 202 – Moema – SP Tel. (11) 5052- 4085 www.pisatrekking.com.br reuni meus três filhos e convidei duas sobrinhas. Com minha mulher, éramos sete na Toyota SW 4. Malas, barraca e alimentos foram acomodados na capota. Tudo armado, saímos para a aventura. Percorremos 12 mil quilômetros em 30 dias, entre ir e voltar. Partimos de São Paulo e fomos descendo em direção à Argentina. O espetáculo de acompanhar a Cordilheira dos Andes é indescritível. A região é belíssima, cheia de lagos, geleiras e parques. Aliás foram os parques nossas moradas. Conhecemos todos os parques nacionais, e ali acampávamos para recuperar energias. Durante esse trajeto que percorre os parques é freqüente encontrar grupos de pessoas fazendo caminhadas, e por isso a região torna-se ainda mais interessante. Chegamos a Bariloche no dia 31 de dezembro e festejamos lá o ano novo, com tudo o que tínhamos direito. Foi nossa única parada com grande conforto. Logo depois retomamos a estrada e seguimos para Ushuaia. Essa região que vai em direção ao Oceano Atlântico é um grande platô desértico. São quilômetros e quilômetros no meio do nada, mas mesmo assim impressionante. Há algo de inóspito e misterioso nos desertos que nos encanta também. Na volta, beirando o Atlântico, a estrada permite ver paisagens e freqüentadores inusitados. São ilhotas repletas de animais marinhos, como é o caso da Península Valdez com seus leões e elefantes marinhos, e outras que abrigam focas e simpáticos pingüins. Para as crianças foi uma diversão única. Tanto que ao chegar ao Brasil foram convidadas a escrever suas impressões sobre a Patagônia para a Folhinha, do jornal Folha de São Paulo. A matéria, assinada por meus filhos Flávia e Fernando, à época com 12 e 9 anos, mostra o quanto ficaram impressionados. Eles falam dos fortes ventos que dificultavam a montagem da barraca e faziam a gente dobrar o corpo para trás, mas principalmente da oportunidade que tiveram de ver animais diferentes como o pica-pau-de-cabeça-vermelha, o condor, os guanacos – um tipo de lhama - e até um puma, além de todos os animais marinhos que reinam absolutos naquela paisagem. Enfim, a viagem, além de fascinante do ponto de vista turístico e cultural, foi também emocionante, enfrentando estradas de pedra com ventos fortíssimos e longos trechos desérticos. Sem dúvida, um aprendizado para os mais jovens e uma recordação inesquecível para todos. Paulo Altenfelder Santos VW ALTA - São Paulo - SP No v idades “O SACA-ROLHAS” Se você é daqueles que não tem um sabre bem DVD PLAYER M obilidade, conforto e funcionalidade. Três atributos que definem o DVD player portátil com tela de LCD da Philips. O PET 725 possui tela de 7 polegadas no formato widescreen que, segundo informa a empresa, possui tecnologia de tolerância zero a pontos brilhantes e imperfeições comuns em telas desse tipo. Leve, pesa apenas 850 gramas, tem design moderno e contemporâneo, na cor preta e tampa brancomarfim. Prático, reproduz arquivos multiformatos de áudio, imagem e vídeo. A conveniência e mobilidade são traduzidas pelo adaptador para carro, controle remoto, fone de ouvido, caixas acústicas estéreo embutidas e bolsa de viagem, que além da função de transporte, serve como um suporte para utilizar o DVD Player dentro do carro. A isso somam-se quatro horas de reprodução independente e bateria recarregável. Preço sugerido: R$ 999,00. SAC: (11) 2121-0203 (grande São Paulo) e 0800-701-0203 (demais regiões).Ou acesse www.philips.com.br. 36 afiado e nem a habilidade de abrir uma garrafa de vinho desse modo milenar, isso não quer dizer que o ritual ficará desprovido de charme. A Screwpull, empresa do grupo francês Le Creuset, líder na fabricação de panelas de ferro fundido e esmaltados utensílios de cozinha que são ícones e sonho de consumo de muitos gourmets -, traz ao mercado brasileiro o LM-400: um sacarolhas nada prosaico. A tecnologia é espacial. Seu inventor, um engenheiro americano, fabricava máquinas para indústria petrolífera e espacial. O design é futurista, privilegiando a ergonomia. Fabricado com uma liga de metais (cobre, zinco e alumínio) tem espiral revestida em teflon que desliza ao penetrar a rolha, sem machucá-la, removendo-a intacta. Dentes que se fixam à rolha facilitam ainda mais a extração. Para baixo e para cima. Com esses dois movimentos da alavanca é possível tirar qualquer tipo de rolha, inclusive as sintéticas. Ajustase a todos os tipos de gargalo, reduzindo o risco de danos e o contato com o vinho. Conta ainda com um corta-cápsula acoplado. Um modo fácil, prático, charmoso e elegante de se extrair uma rolha. Disponível nas cores preto-metalizado e cromo-satinado. Preço sugerido: R$ 593,00 Onde encontrar: Raul’s (Shopping Iguatemi SP) e www.screwpull.com.br/lojas.htm LANÇAMENTO: O NOVO MACBOOK DA APPLE Aguardado por uma legião de macmaníacos e aspirantes, já está nas lojas o novo notebook da Apple, o MacBook: o equivalente ao Porsche dos computadores portáteis, com processador Intel Core Duo. Em linguagem leiga: cinco vezes mais rápido que o iBook anterior. Com o MacBook se divertir ou trabalhar com aplicativos gráficos, além de ágil, é fácil graças ao iLife '06, um pacote de recursos para criar e compartilhar fotos em alta resolução; DVDs, músicas e podcasts. Para colocar tudo na web é só arrastar e colar. Como todos os produtos da Apple, o design é um capítulo à parte: ele é fino – 2,57 cm de espessura – tem capa de policarbonato e o teclado é encaixado no gabinete, proporcionando um toque firme. E não se preocupe caso tropece no fio. Ele possui uma conexão magnética ao invés de física e o fio simplesmente se desconecta. A tela é widescreen (diagonal) mais brilhante e a área 30% maior. O tamanho:13,3”. Quando cansar de utilizar os aplicativos da Apple é só acessar o BootCamp e usar o Windows. A conexão é wirelless. Preço sugerido: entre R$ 4.999 a 6.599 (dependendo da configuração). Disponível nas cores preto e branca. Onde encontrar: Fnac; saraiva.com.br Liv ro s&Afins UMA ANÁLISE CRÍTICA DO CAPITALISMO GERENCIAL O “ Novo Jogo dos Negócios”, de Shoshana Zuboff e James Maxmin (Editora Campus) é considerado um livro visionário, fundamental para entender os anseios dos consumidores, a nova natureza do consumo e o novo mercado que surgirá daí. Shoshana é catedrática da Harvard Business School, e Maxmin foi CEO da Volvo. Casados, empreenderam a aventura comum de compreender a questão expressa no subtítulo do livro: “Por que as empresas estão decepcionando as pessoas e a próxima etapa do capitalismo”. Para isso, mergulharam fundo em diversas áreas do conhecimento como história, psicologia, sociologia e economia. Partindo da premissa que as pessoas mudaram mais do que as empresas das quais depende seu bem-estar (consumo e renda), os autores descrevem o abismo, o estresse, a frustração e a fúria que advém dessa relação. Para eles, nos últimos 100 anos, desde que Henry Ford descobriu a possibilidade de um novo tipo de convergência entre os desejos dos consumidores, os recursos tecnológicos, as inovações organizacionais e criou a produção em massa, as empresas trabalham com os mesmos pressupostos. “Essa lógica empresarial, baseada no capitalismo gerencial, foi inventada para a produção e distribuição de bens. Não foi facilmente adaptada à oferta de serviços. Porém, nem as mercadorias nem os serviços suprem adequadamente as necessidades dos mercados atuais”. Não espere a proposta de vários outros livros de negócios: soluções para os sintomas e não para as causas. “O Novo Jogo dos Negócios” é um estudo profundo, abrangente. Com linguagem agradável e instigante, examina uma profusão de pesquisas, estudos acadêmicos, fornece números e estatísticas e, com esses dados, realiza uma análise crítica do capitalismo gerencial. Não um manifesto contra, mas a favor de uma nova ordem nos negócios e na sociedade. Também não é um livro de consultor que aponta os problemas e pronto. O leitor disposto a destrinchar seu conteúdo, inclusive notas de rodapé, é exposto a idéias novas, oportunidades e, de quebra, saberá mais sobre o papel das mulheres como força para as mudanças econômicas. “O NOVO JOGO NEGÓCIOS - POR QUE AS EMPRESAS ESTÃO DECEPCIONANDO AS PESSOAS E A PRÓXIMA ETAPA DO CAPITALISMO” DE SHOSHANA ZUBOFF E JAMES MAXMIN EDITORA CAMPUS (WWW.CAMPUS.COM.BR) PREÇO SUGERIDO: R$ 60,90 DOS XEQUE-MATE, A JOGADA CERTA PARA VER U m filme para ser visto na tela grande. Assim é Xeque-Mate, que estreou 15 de setembro nos cinemas. Com um grande elenco e personagens fortes, o filme é um thriller na acepção do gênero. Mistura comédia, muita ação e um bizarro suspense onde nada é o que parece. A trama se desenrola no submundo criminal de Nova York, onde uns caras muito maus encontram um mocinho bem legal mas com um lado obscuro (Josh Hartnett ) cujo maior pecado é estar no lugar errado, na hora errada. Incrivelmente azarado, ele é confundido com alguém que deve muita grana para o Chefe (Morgan Freeman). Para ter a dívida quitada, ele deve matar o filho do maior rival do Chefe, o Rabino interpretado por Ben Kingsley. Dois atores premiados, Freeman e Kingsley partilham a tela pela primeira vez e protagonizam uma cena memorável em que a guerra de forças entre eles é explicitada apenas por expressões faciais já que ficam amarrados, costas com costas, e atuam somente do pescoço para cima. TÍTULO ORIGINAL: LUCKY NUMBER SLEVIN DIRETOR: JASON SMILOVIC ELENCO: JOSH HARTNETT, MORGAN FREEMAN, LUCY LIU, BEN KINGSLEY, BRUCE WILLIS DISTRIBUIDORA: IMAGEM FILMES 37 Redenews FOCO NO CLIENTE TOP 10 EM DUBAI J á está valendo a Campanha TOP 10 da Volkswagen. E neste segundo ano em que ela acontece, os prêmios são ainda melhores. Os 10 titulares com a melhor performance ganharão, em viagem prevista para abril de 2007, um curso de pilotagem em uma Lamborghini no autódromo de Duabai, um Safári 4X4 em um Touareg no deserto de Dubai e, naturalmente, hospedagem no Burj al Arab, hoje, o hotel mais luxuoso do mundo. A Campanha TOP 10 tem como objetivo incentivar os concessionários a cumprir seus objetivos, fortalecendo, ao mesmo tempo, a imagem da Rede Volkswagen. Os critérios qualitativos levados em conta para a premiação são: rentabilidade, SIQ, Best-drive, CRM, CarDisplay completo, Market Sare, Profissionais 5 Estrelas e Identificação Padrão. Já os pontos quantitativos consideram as vendas, as vendas especiais e a comercialização de peças. O período de avaliação dos concessionários começou agora em setembro e termina em fevereiro do ano que vem TREINAMENTO 1ª Turma formada E sta é a primeira turma formada pelo curso “Formação de Vendedores – ITC”, desenvolvido nos moldes do ITC VWAG (International Trainning Concept / Alemanha) e adequado pelo departamento de Treinamento de Pessoal da Rede da Volkswagen do Brasil. O público-alvo são os vendedores da Rede VW, recém admitidos ou com até seis meses de contratação, independente de qualquer experiência profissional em vendas. São 15 dias de treinamento, em três módulos de cinco dias cada um. Entre um módulo e outro existe um intervalo de dois meses que garante aos participantes a oportunidade de praticar os conhecimentos adquiridos. Após a conclusão do 3º módulo, é aplicada uma avaliação em caráter de fixação e mensuração de conteúdo adquirido e, atingido a média/nota 7, o participante recebe o “Certificado de Vendedor VW – ITC”. Caso a média não seja atingida, o participante será aconselhado e orientado pela equipe do Treinamento a participar de outros cursos ofertados pelo setor da fábrica. O intuito, evidentemente, é o de sanar a deficiência apontada em sua avaliação e reforçar o conteúdo que não foi suficientemente assimilado. 33 Freio solto A DOMINAÇÃO PELAS PALAVRAS CHAME O DESIGNER DE DESENHISTA; ELE FICARÁ OFENDIDO. O Por Joel Silveira Leite s governos controlam a sociedade pela conversa ou à bala. Antigamente, o domínio era feito pela força: a não obediência era paga com a vida. A ousadia, a coragem, a rebeldia, custavam caro aos seus autores. Com a conquista da democracia e dos direitos humanos, as sociedades foram ganhando novo perfil, o cidadão passou a reivindicar liberdade. Os governantes tiveram que aceitar essa nova situação, evitando eliminar fisicamente os inimigos. Como fazer então para exercer o domínio, o controle do Estado sobre a sociedade? Ora, optando pela forma mais eficiente depois do derramamento de sangue: a palavra. O poder passou a controlar a mídia, a impor a cultura, com uma vantagem de, em caso de necessidade, ainda ter o Exército de reserva. A submissão de um povo na sociedade moderna passa pela submissão cultural, que se dá quase sempre sem resistência, pois sem consciência. Vamos falar diretamente sobre o mal que nos aflige, nós escribas, profissionais ou amadores. Já pensaram como somos instrumentos eficazes de disseminação da cultura de dominação? Eles nos enfiam goela abaixo termos e expressões nas línguas dos dominadores, e nós reproduzimos, sem cerimônia, sem culpa. Muitos sem percepção do que fazem. Palavras e expressões usadas no setor automobilístico são bons exemplos. Eu disse setor automobilístico? Perdão, senhores: quis dizer automotivo. Mas qual é a diferença? Automotivo – diz, quem usa essa palavra – é um conceito “mais amplo” de indústria automobilística. Inclui todos os setores e processos e não apenas as montadoras. Falácia! Automotivo vem de automotive, que é automobilístico em inglês. Assim como designer. Chame o designer de desenhista; ele ficará ofendido. Em relação à estrutura da língua já nos submetemos ao inglês: assim como eles, colocamos o adjetivo antes do subjuntivo: “O novo Passat tem duplo comando de válvulas”. A forma denotativa dessa frase em português é “o Passat novo tem comando de válvulas duplo”. A palavra condutor é outra que está se disseminando. Em pouco tempo vai substituir motorista. Terá um “sentido mais amplo”, dirão. E “motorista”, escrita assim, em português, terá um significado “menor”, designará, talvez, o profissional do volante. Não pretendo defender aqui a rigidez semântica, o purismo da língua. Viva, a língua está em constante modificação. As palavras ganham novos significados com o uso, transformamse e transformam. É o processo semiótico. Apenas constato, tristemente, que por trás dessa postura está a submissão cultural, a idéia de que o que vem de fora é melhor, o que tem sotaque estrangeiro é mais “chique”. A baixa auto-estima faz o brasileiro aceitar sem críticas tudo o que vem do chamado Primeiro Mundo. Se o estadunidense faz, eu quero fazer igual. Ops! Opa, opa!!! Estadunidense? Que palavrão é esse? Ora, e não está correto? Que culpa tenho eu se aquele país não tem nome próprio? Nem por isso devemos aceitar que eles (os estadunidenses) nos roubem o título de americano. Pois americanos somos todos nós, brasileiros, argentinos, hondurenhos, canadenses, estadunidenses. Nem mesmo a palavra norte-americano está correta para designar “dos Estados Unidos”, pois também norte-americanos são os mexicanos e canadenses. A palavra não é neutra. Ela é a expressão da cultura de um povo, reflexo das Joel Silveira Leite é relações sociais, da jornalista, formado pela Faculdade Cásper Líbero, com dominação. Representa pós-graduação em Semiótica, as relações de poder na Comunicação Visual e Meio Ambiente. Diretor da Agência sociedade. Não sejamos AutoInforme, assina colunas radicais, os neologismos em jornais, revistas rádio, TV são bem-vindos, e internet. Sempre se pautou pela independência a influência estrangeira jornalística, mas faz questão enriquece nossa língua de destacar que “não existe jornalismo imparcial..... como e nossa cultura. Mas não existe pessoa imparcial”. também não sejamos Não tem nenhum livro inocentes: é um tiro da editado e nunca ganhou nenhum prêmio de nossa cultura. jornalismo. Nem se inscreveu. 35 Sucessão DESTRUIDORES DE SONHOS com seu físico. Era muito severo e exigente com meu irmão mais velho, e obrigara-o a seguir um caminho universitário rigoroso. Agora, estava prestes a revelar o futuro de suas filhas trigêmeas. Uma sensação de suspense envolveu-me quando ele começou dizendo a Erika, a mais frágil das três, que ela seguiria um curso universitário. Depois disse a Eva, a menos motivada, que ela receberia uma educação não-especializada. Finalmente, seus olhos voltaram-se para mim e rezei para que ele me permitisse realizar o sonho de tornar-me médica, que ele certamente não ignorava. Mas nunca esquecerei o momento que se seguiu. – Elizabeth, você vai trabalhar na minha empresa – disse ele – preciso de uma secretária eficiente e inteligente. É o lugar certo para você. - Não, muito obrigada! – retruquei bruscamente. - Se não quer trabalhar comigo, então pode passar o resto da sua vida como criada! – gritou, e entrou furioso no escritório. - Para mim está bom – respondi com aspereza -, e estava sendo sincera. Preferia trabalhar como criada e aferrar-me à minha independência do que deixar que qualquer pessoa, até mesmo meu pai, me condenasse a trabalhar como guarda-livros ou secretária para o resto da vida. Seria o mesmo que ir para a prisão”. Este depoimento de uma adolescente nascida na Suíça em 1926 ainda continua, infelizmente, digno de divulgação porque não perdeu atualidade. Resta-me apenas uma recomendação aos pais brilhantes, famosos e que obtiveram sucesso em suas vidas pessoais e profissionais: permitam aos seus filhos a Renato Bernhoeft é manifestação mais genuína presidente da Bernhoeftdos seus sonhos e Consultoria, autor de 12 aspirações. E saibam, ser livros, conferencista e filho de pais brilhantes consultor de empresas nas não é fácil. Mesmo áreas de profissionalização e sucessão de empresas quando os pais, familiares e formação de conscientemente, não sucessores. exercem nenhuma www.bernhoeft.com pressão, seu sucesso já é pesado o suficiente. RARAS SÃO AS FAMÍLIAS DE EMPRESÁRIOS, PROFISSIONAIS LIBERAIS, ARTISTAS, EXECUTIVOS E TANTAS OUTRAS ATIVIDADES, ONDE O SUCESSO DOS PAIS NÃO TERMINA TORNANDO-SE UMA REFERÊNCIA QUE DIFICULTA AOS FILHOS DESCOBRIR SEUS PRÓPRIOS SONHOS. Por Renato Bernhoeft E 34 mais ainda, sem necessariamente serem pressionados a percorrer os mesmos caminhos e obter sucesso da mesma forma. Para a realidade brasileira este tema ainda é tabu. Muitos pais partem da premissa – equivocada – que seus filhos não possuem todo instrumental e informações que lhes permitam caminhar pelas próprias pernas. Mesmo que seja para errar e reconsiderar suas escolhas. Por lidar constantemente com situações como estas é que fiquei sensibilizado pela leitura do livro “A roda da vida” de Elizabeth Kubler-Ross, M.D (Ed. Sextante), que se tornou uma reconhecida médica especialista no tratamento de pacientes terminais. O que importa é a descrição que ela faz do primeiro confronto que teve com seu pai para abordar sua opção de vida e trabalho. Diz ela que “ao longo da vida surgem pistas que nos indicam para que direção devemos seguir. Se não damos atenção a essas pistas, fazemos opções erradas e acabamos levando uma vida infeliz. Se ficamos atentos, aprendemos nossas lições e temos uma vida plena e boa, assim como uma boa morte. O maior dom que Deus nos concedeu foi o livre-arbítrio. O livre-arbítrio põe sobre nossos ombros a responsabilidade por fazer as melhores escolhas possíveis.” Mais adiante, a autora relembra um jantar onde seu pai fez uma declaração importante para toda a família: “Ele era um homem forte e rijo, com opiniões coerentes Vinhos & Videiras O vinho é uma bebida que se comporta como um ser vivo, tendo infância, juventude, maturidade, velhice e morte. Por Arthur Azevedo O interesse pelos vinhos vem crescendo de forma extraordinária em todo o mundo. Este é um fato incontestável e pode ter várias explicações. Talvez o homem finalmente tenha se dado conta desse amigo muito particular, que freqüenta sua mesa desde 5.400 a.C., segundo recentes pesquisas arqueológicas, e tenha resolvido conhecê-lo mais profundamente. Desde o seu nascimento, na Enotria, uma região que corresponde hoje à Turquia, ao sul do Mar Negro, o vinho desperta a curiosidade por suas características únicas. Só para citar a mais intrigante de todas, o vinho é uma bebida que se comporta como um ser vivo, tendo infância, juventude, maturidade, velhice e morte. Ao longo de sua vida, no entanto, pode dar muitas alegrias a quem o consome, marcando de forma indelével momentos inesquecíveis. O VINHO É TURCO Mesa Posta N Arthur Azevedo é presidente da Associação Brasileira de Sommeliers - SP (www.abs-sp.com.br), jornalista, editor da revista Wine Style e consultor da Artwine (www.artwine.com.br) DE GROSSETO, NA TOSCANA, “IL CONIGLIO IN DOLCEFORTE” ão é exagero dizer que a cozinha tradicional da Toscana remonta a três mil anos, pois amplas evidências da dieta Etrusca foram encontradas em inúmeros sítios arqueológicos, cujos achados confirmam que os hábitos alimentares da Toscana foram continuamente mantidos através dos séculos. Firenze, Siena, Lucca, Arezzo, Livorno e Grosseto, destacam-se como fontes de receitas memoráveis desse povo, que faz das cores de suas casas e palácios e das suas estupendas paisagens, o caminho para trazer à mesa magníficos pratos, inspirados em seu amor por três elementos básicos: o vinho generoso, o azeite perfumado extraído sob pressão e o saboroso pão, feito com o trigo recentemente moído. Deste cenário e de Grosseto, nos vem o “Coniglio in dolceforte" 38 Desde o início da década de 1990, quando a importação de vinhos foi liberada no Brasil, uma avalanche de rótulos invadiu as prateleiras de lojas e supermercados, criando a necessidade por parte do consumidor brasileiro de saber mais sobre vinhos. A partir desta edição vamos conversar sobre o vinho e sua cultura, indicando caminhos e tendências, descobrindo segredos e novos sabores. Vamos percorrer juntos as principais regiões, conhecendo os melhores produtores e seus vinhos. Bem-vindo ao fascinante mundo do vinho! Por Isabel Caldeira Para seis pessoas você vai precisar de 1,8 kg de coelho já cortado em pedaços do tamanho para servir, colocados em marinada no refrigerador por 24 horas, assim preparada: 1 garrafa de “cabernet suvignon” ou “merlot”chileno; 2 cebolas médias cortadas em quartos; 2 cenouras cortadas em rodelas; 2 talos de salsão sem as nervuras, picados; 2 folhas de louro rasgadas; 1 colher de sopa de bagas de zimbro; e 2 cravos da Índia. Duas horas antes de iniciar a preparação, retirar o coelho do refrigerador e da marinada, para trazer a carne à temperatura ambiente, enxugando-o bem com papel toalha. Aquecer numa panela de fundo grosso 3 colheres de sopa de azeite extra virgem e fritar os pedaços de coelho até que fiquem dourados em todos os lados. Coar a marinada, reservando os ingredientes e o líquido. Uma vez dourados os pedaços de coelho, juntar os ingredientes sólidos da marinada e um copo do líquido reservado, temperando com sal e pimenta do reino preta, moída. Cozinhar em fogo bem baixo por duas horas, juntando sempre e aos poucos o restante do líquido da marinada. Em separado, numa pequena panela, colocar 60 gramas de açúcar cristal juntamente com dois dentes de alho amassados e levar ao fogo baixo para derreter e formar um caramelo. Retirar do fogo, juntar 250 ml de vinagre de vinho tinto e mexer até que o caramelo esteja todo dissolvido. Quando o coelho estiver cozido, juntar esse molho, cozinhar por mais 10 minutos em fogo baixo. Transferir tudo para uma travessa bem aquecida e servir acompanhado de uma polenta com consistência média, ou, se preferir, de um purê de batatas. Isabel Caldeira é cozinheira, estudiosa e especialista em receitas e cardápios especiais. Contato: [email protected] COMIDA PRA BRASILEIRO Tomei o título emprestado do vice-presidente da Assobrav, Walter Keiti Yaginuma. Foi como ele definiu o cardápio do Habib´s, quando falávamos sobre esse case do fast food - a maior rede franqueada de comida árabe do mundo e a maior no segmento do Brasil - e o seu fundador e presidente, Alberto Saraiva, médico de formação, filantropo e autor do best seller Os Mandamentos da Lucratividade. S 10 Por Silvia Bella imples, farto, variado e, claro, barato, comer no Habib´s é sempre uma festa. Geralmente cheias, as lanchonetes são animadas por um coral de vozes onde se identificam todas as idades. É um lugar para todos, desde o pai de família que pede um whisky, uma taça de vinho ou uma dose de vodca – todos nacionais -, até a senhora que se contenta com uma salada ou as crianças que preferem a famosa combinação hamburger – batata frita. Mas onde estão afinal as especialidades árabes que dão nome ao restaurante? Ali mesmo naquele cardápio, tudo misturado. Com medo de me perder, cheguei meia hora adiantada para entrevistar Alberto Saraiva, lá no quartel general da empresa na Av. Interlagos. Com tempo, fui almoçar no Habib´s em frente, uma das lanchonetes não franqueadas da rede. Àquela hora da tarde não havia muita gente, mas fui recebida por uma moça muito amável que me indicou “uma boa mesa”, relativamente distante do salão de festas, onde uma classe de “pré” com 35 crianças fazia a maior farra. Na minha frente, dois homens de meia-idade discutiam sobre negócios enquanto saboreavam charutinhos de uva com pão árabe e coalhada e uma cerveja “no ponto”. Logo o garçom se aproximou de mim e perguntou o que queria. Pedi só uma esfiha de ricota e um refrigerante light para poder comer um Pastel de Belém de sobremesa, sem remorso. Enquanto analisava o cardápio - para dizer o mínimo, multicolorido -, fui surpreendida pela voz grave de um rapagão, do tipo sarado e tatuado, que chegou ao balcão e pediu: - Me vê 25 esfihas de carne e um litro de suco de laranja? O atendente perguntou: - Pra viagem, né? - Não, vou comer aqui mesmo, disse normalmente, e foi sentando por ali. Devo ter olhado para ele um tanto surpresa (e não sem inveja) porque, sorrindo, me disse: — O único problema do Habib´s é que a gente come muito. Naquele rápido almoço pude entender o que é o Habib´s e por que, desde a sua fundação, há 18 anos, nunca deixou de ser lucrativo e não pára de crescer. Todo o clima do Habib´s está focado no cliente. Ele oferece preço baixo, diversificação de produtos e atendimento: gente amável, ambiente arejado, banheiros perfumados e nada de mesquinharia. Em cada mesa há um kit de temperos e um porta-guardanapos cheio, coisa rara na concorrência que atua nesse segmento. E o Habib´s não tem preconceito. Não importa a que classe social você aparente pertencer, o tratamento é o mesmo: respeita a ordem de chegada, todo mundo é acompanhado à mesa pela recepcionista e os garçons anotam os pedidos com atenção, sem se importar de repetir várias vezes a mesma explicação. São particularmente gentis com as crianças e não pressionam Marcos Alves Gente os clientes para consumir mais alguma coisa ou liberar as mesas. Quando chamei o garçom para pedir a sobremesa, ele simplesmente perguntou: — Já vai, moça? Respondi que tinha uma hora marcada com o Dr. Alberto Saraiva no prédio em frente, e que não queria me atrasar já que ele era um homem muito ocupado. – Ah!, não se preocupe, não, o Dr. Alberto é muito gente boa. Ele não é metido, ele é assim, como a gente..., disse, com toda a naturalidade. Minha única frustração no Habib´s foi não ter tomado um café “espresso” puro, sem açúcar e sem adoçante, para acompanhar o delicioso Pastel de Belém, quentinho, feito na hora. – Desculpe, não temos café, disse o garçom. Sem entender o porquê não havia café em um restaurante tão eclético, com uma infinidade de pratos e bebidas, decidi que esta seria minha primeira pergunta a Alberto Saraiva. Revista Showroom O seu restaurante não tem café. Certamente o senhor tem uma explicação baseada em pesquisas sobre as preferências do seu público-alvo, porque sempre soube que o café dá lucro... Alberto Saraiva (sorrindo) Não, não. Alguns restaurantes têm, outros não. O café é uma das decisões dos franqueados. Pessoalmente acho que o café não combina muito em lanchonetes de fast food, porque ele não tem a mesma “rapidez” que os outros alimentos. O café após a refeição convida os clientes a permanecerem mais nas mesas, então, conforme o tamanho das lojas e do movimento que elas têm, o café pode atrapalhar um pouco o fluxo e as nossas lojas, felizmente, costumam ser bem cheias. Showroom O Habib´s quebra boa parte das regras de marketing e de comunicação...É um negócio aparentemente sem foco, que em teoria se diz árabe, mas tem um cardápio que oferece de tudo um pouco... Saraiva (continua sorrindo) Eu tenho nos meus restaurantes o que o público gosta de comer. Há um atrativo inicial que é a comida árabe, mas isso não significa que lá você não possa encontrar batata frita, hamburger, whisky e Pastel de Belém. Aliás, quando decidi fabricar o Pastel de Belém recebi todos os contras que você possa imaginar. Nem o meu diretor de Marketing que está comigo há anos nem a agência de propaganda queriam isso. Diziam que não tinha nada a ver ter um doce português no restaurante árabe. Mas o que eu observei em uma de minhas viagens à minha terra, Portugal, é que franceses, iugoslavos, dinamarqueses, brasileiros, chineses, todo mundo comia Pastel de Belém e achava uma delícia. Ora, se o doce é bom, não importa se é japonês, holandês ou português. Fui atrás da receita original, demorei seis meses para desenvolvê-la e poder produzi-la a custo adequado e com qualidade. Ele é feito na hora e servido quentinho. Uma delícia. Showroom Sem dúvida, o senhor é um gourmet... Saraiva Certamente, gosto de comer e de cozinhar, mas principalmente sou um observador de pessoas. Tenho a sensibilidade de ver o que as pessoas gostam de comer e o que não gostam. Por exemplo, nós não temos comidas sofisticadas, elaboradas, tudo é simples. Nunca inventei de colocar no nosso cardápio uma perna de carneiro, que é um prato eminentemente árabe. Showroom Preço baixo é o seu ponto forte. Mas como consegue associar qualidade vendendo tão barato? Saraiva Barato com qualidade parece um binômio antagônico, não? Mas é possível vender um produto bom a preço baixo. Só que nessa equação entram alguns fatores: o controle rigoroso de despesas é um deles. É preciso andar com o mapa de despesas no bolso. E por que no bolso? Porque o bolso está à mão, você o consulta sempre. Além disso, há outros mandamentos importantes: um deles é a folha de pagamentos e o outro é o conhecimento dos valores individuais de cada item. Ou seja, não pode haver desperdício, não pode haver regalias. Administrar uma loja Habib´s é agir como uma boa dona de casa: ela sabe que tem R$ 100,00 para gastar na feira, então prioriza o básico e abandona o supérfluo. Não se excede em nada, porque a gastança começa de pouco em pouco. Showroom Mas como o senhor consegue ter boa lucratividade vendendo a preços tão baixos? Saraiva Outro item fundamental é o relacionado a vendas: tem que ter qualificação de vendas, e daí saem mais três mandamentos importantes: começo pensando ”o que vou vender”; depois, quais são os produtos que posso vender mais, por sua facilidade, por sua simpatia pelo publico, enfim, quais são os que podem vir a tem mais saída. Por exemplo, bebidas. Há maneiras de vender uma ou duas bebidas para o mesmo cliente ou uma bebida e meia para um e meia para outro, mas é preciso ter este plano de vendas agregadas. Também é o caso das sobremesas: como vendo mais sobremesa? Como faço, enfim, para aumentar o meu ticket médio? E, claro, outro ponto fundamental para ter lucro nesse binômio preçoqualidade são as pessoas. O grau de produtividade das pessoas está diretamente relacionado ao grau de motivação que têm. Motivação que deve ser financeira, de incentivo, de reconhecimento, de treinamento, de perspectiva de progresso. Com isso quero dizer que para qualquer negócio ter sucesso é preciso investir em qualificação do pessoal constantemente. Quando recebo uma reclamação de que tal restaurante não está dando certo vou ver e confirmo que o problema está na pessoa ou nas pessoas. Mudamos as pessoas e a coisa dá lucro, e olha que é o mesmo restaurante, no mesmo local, com os mesmos produtos, o mesmo preço e a mesma filosofia de gestão. Showroom O senhor pode revelar o quanto a Rede Habib´s é lucrativa? Saraiva Nossa rede tem uma lucratividade em torno de 19% a 20% contra 5% a 7% das redes de fast food concorrentes. Isto é, no mesmo segmento, nós lucramos de duas a três vezes mais, e vendendo a que preços, a esses aí: esfiha a R$ 0,39. Porque o lucro na minha vida nunca foi prioridade. Nunca fiz nada pensando em quanto ia ganhar, se era muito ou pouco, mas o lucro sempre veio como conseqüência do meu negócio estar sempre focado no bem-estar do cliente, na busca incessante de atender cada vez melhor o cliente e de atrair mais clientes. Quanto mais eu qualifico, quanto mais eu invisto no cliente, mais o lucro me aparece. Showroom O senhor se inspirou em alguém para adotar a equação preço baixo, qualidade e atendimento? Saraiva Olha, eu aprendi com a necessidade. Costumo dizer que se você não estudou na escola um assunto profundamente para tornar-se um expert nesse assunto, a outra via é a dificuldade. Este foi o meu caso. Eu precisei aprender na 11 Marcos Alves Gente 12 prática, mas não é prerrogativa minha vender barato e ter lucro. Veja a Gol, companhia aérea. Ela fez uma promoção onde você voava pelo mesmo preço de uma passagem de ônibus para a mesma localidade. Na oportunidade, ele aumentou de 50% para 80% a ocupação de suas aeronaves. E existem outros casos, como o de uma vinícola norte-americana que produz um excelente vinho na Califórnia e decidiu vender a garrafa a U$ 1,99, enquanto seu concorrente direto, produtor na mesma região, portanto, com o mesmo tipo de uvas, solo e condições climáticas, vendia a garrafa a US$ 70,00. Ora, imagine o resultado: o cara vendeu 72 milhões de garrafas de vinho e teve o maior lucro da história da vida dele. Showroom Bem, suponho que a promoção da esfiha a R$ 0,39 também tenha dado lucro, já que ela continuou além do mês de fevereiro... Saraiva (entusiasmado) Foi um desafio. Nossa expectativa para fevereiro era ter uma queda de 10% nas vendas, como é normal em todo o comércio nesse mês. A explicação é que, além de ser um mês mais curto, as pessoas estão sem dinheiro porque saíram de férias, gastaram no carnaval, tem a matrícula da escola, IPVA etc. Então, partindo do princípio que fevereiro não daria mais do que 12% de média, fiz uma planificação em toda a rede com boa campanha publicitária e decidi colocar a esfiha a R$ 0,39. Antes custava R$ 0,59 - há quatro anos sem aumento -, que já era barato, mas, Nossa!, a R$ 0,39 começou a chover gente. Vendemos tanto que o mês de fevereiro superou o mês de dezembro – o melhor de todos – o que nos permitiu estender a promoção por mais seis meses. Foi a retribuição à clientela fiel que compareceu em massa aos nossos restaurantes. Tivemos 40% a mais de clientes nas lojas com essa promoção... Showroom O senhor gosta bem de promoções, não? Saraiva Eu costumo dizer que tem gente que faz promoção de verão, promoção de Natal, eu faço promoção o tempo todo. A promoção é uma coisa muito interessante. Vocês, quando fazem aqueles feirões, não vendem, proporcionalmente, bem mais num fim de semana do que no mês inteiro? Então, por que não fazem feirões sempre? Showroom O senhor é um caso típico de sucessão não planejada que acabou dando muito certo. Na verdade sua intenção era exercer a medicina, não é? Saraiva Às vezes a gente tem uma planificação teórica muito bem elaborada e ela não dá certo. Outras vezes, as coisas acontecem meio ao acaso e funcionam. A minha história se encaixa na segunda opção. Eu saí da fase de estudante de Medicina para ser dono de padaria sem ter a menor noção de como administrar aquele negócio, e isso se deu em cima de uma tragédia. Dezenove dias depois de ter comprado a padaria meu pai foi assassinado em um assalto. Como filho mais velho, larguei o primeiro ano da faculdade e fui tocar aquilo, que era a nossa única fonte de sustento. Foi muito difícil porque eu tinha o sonho de ser médico desde menino e precisei estudar muito para entrar na Santa Casa, já que vinha com uma base fraca da escola pública do Paraná. Mas foi também no meio da tragédia que eu trouxe à tona a melhor herança que meu pai me deixou, que é a garra, a determinação, a persistência, a esperança e a vontade de vencer. Ele próprio já havia feito isso quando se mudou de Portugal para o Brasil e depois do Paraná para São Paulo. Então, eu assumi aquela padaria, que era velha, sem recursos, sem tradição, no meio de muitas outras bem-sucedidas, disposto a mudá-la. A primeira coisa que fiz foi aprender a fazer pão. Vi que havia poucos padeiros realmente bons, caprichosos, então, eu me especializei em fazer pão, que é a linha mestra das padarias. Depois coloquei o preço do pãozinho, à época tabelado pela Sunab e motivo de queixa de todos os patrícios que diziam que o pãozinho não dava lucro, 30% mais barato que toda a concorrência. Conclusão: comecei a vender pão assustadoramente, inclusive para os padeiros que vendiam na rua. E mais, criei uma promoção para quem comprasse 10 pãezinhos pudesse levar 12. Com isso fiz escala de volume e essa padaria passou a ser a melhor da região. Um ano e meio depois eu a vendi com um lucro exorbitante. E foi essa padaria que despertou em mim o desejo de ser um grande comerciante e a certeza de que em qualquer negócio é preciso ter um diferencial. Showroom Depois disso o senhor voltou para a Faculdade, se formou, mas nunca exerceu a Medicina porque se realizou como grande comerciante. É isso? Saraiva Exatamente. Eu não vou dizer que não lamento o fato de nunca ter exercido a Medicina, porque, como disse, era um sonho Marcos Alves antigo. Minha experiência na profissão não foi além da Residência na Santa Casa, mas por outro lado, durante os seis anos do curso tive paralelamente outros negócios no ramo da alimentação: lanchonetes, pastelarias, churrascarias...Agora, o Habib´s mesmo só nasceu depois da Faculdade. Showroom Hoje, 18 anos depois, a experiência Habib´s daria certo? Saraiva Sim. Eu passei por todas as fases e todas as crises sempre tendo lucro. Vivi a inflação de 70% ao mês, passei por períodos de forte desemprego da classe trabalhadora — minha clientelaalvo — e desde o primeiro dia de funcionamento da primeira loja Habib´s tive lucro. Nunca houve um período de baixa, nunca precisamos tomar medidas radicais. Claro que temos a vantagem de atuar numa faixa grande de público, que é a base da pirâmide, onde nossa concorrência é fraca (riscando com energia o desenho que faz no papel), mas vender pelo menor preço possível vale para qualquer produto: pode ser esfiha, cadeira ou carro. É uma filosofia que sempre dá certo no comércio. O problema é que os empresários, em média, pensam: se já estou dando preço baixo por que vou dar conforto, ar-condicionado, organização, limpeza, atendimento com recepcionista? Aí é que está o erro. É fundamental oferecer atendimento, porque é disto que as pessoas gostam e por isso elas voltam. Esse investimento é significativo só no começo do negócio, depois, ele se dilui no dia-a-dia e a rentabilidade aparece no final. Showroom O senhor exige essa postura dos seus franqueados, mesmo sendo uma franquia cara (em torno de R$1milhão)? Saraiva Sem sombra de dúvida. Se o interessado já começa perguntando quanto é a média de rentabilidade de uma lanchonete Habib´s, ele já está descartado. Essa pessoa certamente é um investidor e o negócio Habib´s precisa de um outro perfil de empresário. Nosso franqueado é alguém que trabalha com afinco, que dá empregos (na média, cada loja começa com 50 funcionários), que dá o primeiro emprego (o Habib´s é uma das poucas redes a adotar essa política), que tem prazer em administrar um negócio de sucesso, com a casa sempre cheia. Showroom Pelo visto eles estão satisfeitos, já que hoje a maioria das lojas é franqueada... Saraiva Muito, inclusive boa parte de nossos franqueados tem mais de um ponto Habib´s e muitos deles são ex-funcionários, o que é motivo de grande orgulho para nós. Hoje temos 284 lojas no Brasil e 55% delas são franqueadas, empregamos 14 mil funcionários e a previsão até o fim deste ano é termos vendido 800 milhões de bib´sfihas, o produto mais vendido no segmento de fast food. Showroom Soube que o senhor é contra a terceirização... Saraiva Totalmente contra. Não posso comparar o preço do sorvete que eu faço com qualidade, e até melhor, com o preço do sorvete da concorrência. Para a concorrência eu tenho que pagar os salários dos executivos, o nome da marca, a propaganda que ela faz, enfim, tenho que pagar um monte de coisas. Tudo o que eu posso fazer – e as exceções são a farinha e a carne – eu faço em casa. O problema é que a verticalização dá trabalho. Você tem que ter estrutura, diretores, gerentes, funcionários... e, como eu tenho, posso ter a mesma qualidade e vender 50% mais barato para as minhas lojas e de conseqüência para os clientes. O meu pão de hamburger, por exemplo, chega às nossas lojas a 60% do valor do pão que chega às lojas da concorrência, então, para o nosso cliente ele pode ser vendido 40% mais barato. O mesmo ocorre com a minha pizza, que leva 300 gramas de mozzarella, tem uma massa fina deliciosa e custa R$ 8,90, enquanto os menores preços da concorrência ficam entre R$ 15,00 e R$ 17,00. Isto porque temos nosso próprio laticínio. Showroom O senhor acaba de inaugurar o primeiro restaurante da Rede Ragazzo, sua mais recente iniciativa. Ela segue o mesmo princípio do Habib´s? Saraiva Sim, chegou a hora de expandir a rede Ragazzo porque foi a alternativa encontrada para montar novas lanchonetes de fast food que não concorressem diretamente com as lojas Habib´s, que são muitas e localizadas nos melhores pontos. Já temos toda a estrutura montada: a central de produção, as equipes e o plano de gestão que é o mesmo do Habib´s. No dia da inauguração do Ragazzo do Morumbi tivemos três horas de fila na porta. Não há prazer maior que esse para um empresário. Ver que a sua idéia deu certo é muito mais gratificante que o retorno financeiro que ela possa trazer. Showroom Quer dizer que a Rede Ragazzo tem nome italiano, uma base de pratos da cozinha italiana, mas o cardápio é igualmente variado como o do Habib´s? Saraiva Exatamente. O princípio é o mesmo: preço baixo, qualidade, variedade e atendimento diferenciado. Veja: (com o cardápio na mão) Ravioli de mozzarella de búfalo – R$ 5,90, Gnocchi – R$ 4,90, Capelletti – R$ 5,50. Temos também as saladas a R$ 4,90, com quatro molhos e o diferencial que podem ser montadas pelo cliente com sete ingredientes entre mais de 20 oferecidos. Tudo fresquinho. Para jovens e crianças temos os sanduíches, mas também diferenciados, pois são oferecidos com cinco tipos de carne e podem ser servidos no pão ou no prato. Depois, temos uma linha de salgados e a pizza com uma massa diferente, fina, cuja aceitação é total. As sobremesas têm algo de italiano, claro, como o tiramissu, mas a há outras também. Ou seja, é um cardápio que não tem rejeição. Veja as redes norteamericanas que entraram só para vender frango frito ou rosbife. Quem não gosta disso, não vai, então elas fecharam. Quando você abre o leque, você tem mais clientes. 13