Algumas apreciações acerca da proposta de Grelha de Avaliação do Pessoal
Docente.
Face à discussão pública respeitante ao assunto em epígrafe, não posso deixar de tecer
algumas considerações. Assim, e desde logo, numa apreciação global considero que esta
grelha (refiro-me concretamente ao anexo 1) é má, pois não reflecte as realidades e os
constrangimentos inerentes à maior parte dos docentes que trabalham no IPS.
Com efeito, no que respeita à dimensão Técnico-Científica:
1. Não se toma em conta as limitações que muitos sentem em aceder a publicações
nacionais (e muito mais no que concerne às internacionais). Quem não se
encontra inserido nos “circuitos” que representam essas publicações, nas suas
linhas editoriais que proporcionam o acesso à publicação de artigos, dificilmente
conseguirá que um artigo, por muito bom que seja consiga ser publicado.
Também não percebo porque é que um artigo publicado numa revista estrangeira
deverá ter uma ponderação superior ao que seja publicado numa revista
nacional. E mais, aqueles que participam em verdadeiros Centros de
Investigação, para o desenvolvimento específico dos seus interesses específicos
e das suas competências particulares têm oportunidades completamente
diferentes das que são oferecidas no IPS (perdoem-me, mas aquilo que se
designa Unidade de Investigação do IPS, é tudo e, no fim, não é nada pois tenta
“meter no mesmo saco” toda a diversidade de interesses, especialidades
científicas, técnicas e tecnológicas, artísticas, que pouco ou nada têm em comum
e que só fariam sentido em Centros de Investigação consentâneos e específicos,
tal como acontece na maioria dos estabelecimentos de ensino superior
politécnico e universitário).
2. A orientação de estágios pode ser um indicador falacioso. De facto a tendência é
que os alunos solicitem aos professores que leccionam nos últimos anos, de
licenciaturas e mestrados, que sejam seus orientadores em detrimento dos
docentes que leccionam nos anos anteriores. Um docente que só leccione a
primeiros (e segundos) anos dificilmente obterá pontuação besta variável.
No que respeita á dimensão Pedagógica, surgem as seguintes dúvidas:
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1. A quem cabe a articulação com outras disciplinas? A cada docente ou aos
Conselhos Técnico-Científicos e Pedagógicos? Em minha opinião quem deve
promover essa articulação são exactamente estes conselhos. Além do mais, na
prática, sabe-se que nem sempre é possível, por variadas razões, que um docente
consiga articular a(s) sua(s) unidade(s) curricular(es) com as de alguns outros
colegas.
2. O que é que são “processos de regulação do seu desempenho”?
3. O docente “supervisionou com regularidade actividades científicas ou
pedagógicas na sua área”. É dúbio. Entende-se supervisionar as suas próprias
actividades científicas ou as de outrem? Se for as de outrem, pergunto-me a
quem cabe supervisionar? Alguém o pode fazer? Como?
Se for supervisionar as actividades de outrem, tal colidirá com a autonomia
científica e pedagógica consagrada nos Estatutos da Carreira Docente.
4. Expressões tais como (o docente) “É considerado como elemento muito
relevante (na Escola/curso/órgão) pelos seus pares e dirigentes”, ou “Constitui,
de vários pontos de vista, um referência para os colegas com quem trabalha”, e
outras semelhantes querem dizer o quê?! Isto tem a ver com algum complexo
(ou culto) de personalidade?! Confesso que considero tais indicadores, no
mínimo, indescritivelmente ridículos! Eu, pessoalmente, não perderei tempo a
tomar outros como modelos, nem espero que outros me tomem a mim como
modelo. Cabe perguntar: estamos a falar do ensino superior ou de catequese
(sem ofensa para a catequese)?...
No que concerne à dimensão Organizacional, há que tomar em conta a subjectividade
desta dimensão, já que a participação em órgãos de gestão (por exemplo), não depende
somente da vontade de cada docente, mas dos votos que consiga obter.
Finalmente, no que respeita à dimensão de Extensão à Comunidade, considero que há
que tomar em conta as oportunidades oferecidas pelo IPS e pelas suas unidades
orgânicas (as escolas). Sabe-se que é completamente diferente trabalhar numa
instituição que estabelece e dinamiza protocolos que permitam a participação em
actividades científicas, técnicas, artísticas, culturais e outras, em comparação com
aquelas instituições que não possuem tais dinâmicas. O que significa que quem trabalha,
por exemplo, em grandes Universidades ou Politécnicos que, de facto, têm dinâmica e
participam em redes que integram autarquias e outras instituições da “sociedade civil” ,
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tem obviamente maiores possibilidades de realizar iniciativas respeitantes a esta
dimensão.
Como disse no início, e reforço, esta proposta de Grelha de Avaliação do Pessoal
Docente é, em minha opinião, má, pelas razões que apontei e pelas dúvidas que suscita,
quer na sua filosofia de base quer em muitos dos indicadores específicos que apresenta
(e não fui exaustivo, pois muitos outros aspectos seriam merecedores de crítica).
Melhores cumprimentos e as mais cordiais
Saudações Académicas.
Herlânder T. G. Ferreira,
Professor Adjunto
Escola Superior de Gestão e Tecnologia
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