Breve Panorama do Romance Histórico Brasileiro O romance histórico no Brasil tem seu efetivo início no século XIX a partir do afã dos românticos em se documentar todo o processo histórico que estava sendo vivenciado e, estabelecer uma pesquisa minuciosa nesses documentos. Flávio Loureiro Chaves (1991, p. 17) salienta: O Romantismo visava intencionalmente à documentação direta da realidade e, por outro lado, idealizava-a na concepção do homem americano, mestiço e colonizado, que precisava ser nobilitado com a aura do mito. Indianismo, regionalismo e nacionalismo operam na convergência de um mesmo processo. Chaves, retomando Aderaldo Castello, aponta que o romance brasileiro se define como romance histórico a partir de sua própria criação. O romance brasileiro definiu-se assim como romance histórico no momento decisivo de sua estruturação. Concluirá José Aderaldo Castello: “Reconhecida a posição de Alencar na cultura brasileira, é preciso então que se entenda que os componentes da sua obra não são apenas literários e estéticos, são também linguísticos e, sobretudo, históricos no sentido social, político e econômico, ou do ponto de vista particular da nossa realidade”.(CHAVES, 1991, p.17). José A. Pereira Ribeiro, por sua vez, diz que a necessidade de desvencilhamento da literatura local da metrópole proposta pela Independência e pelo Romantismo brasileiro, formulam o surgimento do Romance Histórico a fim de “louvarem e sondarem nossos quadros da História Nacional e os heróis formadores da nacionalidade” (RIBEIRO, 1976, p.18) Para Chaves, “Alencar provocou a confluência entre a História e a Literatura, justamente no território da ficção e ao fazê-lo, traçou em linha reta o objetivo final do romance histórico, recém-nascido e já acionado subterraneamente pela força poderosa da ideologia” (CHAVES, 1991, p. 18). Porém, antes mesmo de Alencar, o romance histórico brasileiro já dava seus primeiros passos, e, de acordo com o estudo de José A. Pereira Ribeiro em O romance histórico na literatura brasileira o primeiro romance abordando as relações entre a Literatura e a História foi Um roubo na Pavuna de Azambuja Suzano, publicado em 1843, ainda baseado nos estudos de Ribeiro, o segundo romance histórico é Gonzaga ou a Conjuração de Tiradentes, de Teixeira e Sousa, publicado em 1848. O autor ainda problematiza o fato de que, cronologicamente, Pereira da Silva seria o primeiro escritor a tratar do tema, mas por retratar uma figura portuguesa com a ação em terras lusas e publicado em Portugal, o livro Jeronymo Cortereal de 1840, não é considerado o primeiro romance histórico tipicamente brasileiro: Verifica-se assim já naquela época a tendência de Pereira da Silva de mesclar os fatos vestutos da História à ficção do romance. Ele, contudo não pode ser considerado o nosso primeiro romancista histórico. E o Prof. Antônio Cândido explica por quê: “como os seus ensaios romanescos iniciais se passavam em Portugal, considerou-se o primeiro romance histórico brasileiro: Um Roubo na Pavuna, de Azambuja Suzano (1843)”. (RIBEIRO, 1976, p. 28) Ribeiro prossegue seu estudo levantando, cronologicamente, os romances históricos brasileiros, na sequência, ele aponta A Cabeça de Tiradentes de Joaquim Norberto (1856) O Guarani, publicado em 1857 seguido de As Minas de Prata de 186265, Iracema (1865) e A Guerra dos Mascastes (1874) todos de José de Alencar, Os Farrapos de Oliveira Bello, publicado em 1877. A sua grande obra de admirável fundo histórico é As Minas de Prata, a qual Otto Maria Carpeaux diz ser um “romance scottiano”. Logo após a fama e a glória conseguida com O Guarani, nessa mesma época começa Alencar a escrever As Minas de Prata. É ainda outra vez M. Cavalcanti Proença que nos explica como nasceu o romance. “Nessa época nasceram As Minas de Prata, só o começo. Influência de amigo. Quintino Bocaiúva fundara uma editora, “A Biblioteca Brasileira”, reservando para Alencar um dos títulos. O romance foi, assim, iniciado sob encomenda, mas apenas os capítulos inicias, em dois volumezinhos de impressão de impressão pobre e feia. (RIBEIRO, 1976, pp. 66-67) A partir de Alencar, o romance histórico também foi cultivado por outros romancistas em diferentes épocas da literatura brasileira. Dentro de um panorama, podese destacar: Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Érico Veríssimo. Flávio Loureiro Chaves aponta que Machado de Assis, na sequência de Alencar, ocupa uma posição de destaque dentro da produção do romance histórico brasileiro: Em Esaú e Jacó ele atingiu a metáfora da nossa vida política, transfigurando-a literalmente na sequência de contrastes e paradoxos que orientam a narrativa, tudo desembocando numa desordem essencial sob a aparência da normalidade. (CHAVES, 1991, p.21) Ainda na linha do romance histórico do século XIX, também contribuíram para o gênero, segundo Ribeiro, Joaquim Manoel de Macedo com as obras: A Moreninha e O Moço Loiro, A história da conjuração de Joaquim Norberto (1860) e Júlio Ribeiro com Padre Belchior de Pontes (1876): Prova de que Padre Belchior de Pontes é realmente romance histórico nos dá Manoel Bandeira, quando, ao analisar a obra, vê nela: “monstruosa falsificação da verdade histórica” e acrescenta às suas observações: “sendo o autor católico de criação, a leitura da Bíblia fizera-o presbiteriano, como a razão mais tarde o faria ateu. E era protestante ao tempo em que escreveu Padre Belchior de Pontes, daí as objurgatórias à Companhia de Jesus. (RIBEIRO, 1976, p. 76) Continuando seu estudo, Ribeiro aponta as obras de Franklin Távora O Matuto (1878) e Lourenço (1881) na esteira cronológica do romance histórico brasileiro, seguidas por O Encilhamento de Visconde de Taunay (1894) que não é considerado, por alguns, romance histórico: Taunay descreve, assim, com seu estilo maduro e com sua ironia, estas cenas contemporâneas da Bolsa, em 1890, 1891 e 1892, em que a febre de especulação foi como que uma grande epidemia que se alastrou pelo Rio de Janeiro. Este livro também por alguns é considerado romance histórico. Há contudo os que veem nele um romance sócio-político, de vez que narra a crise financeira – a primeira que a República enfrentou. Mas considerando-se que os fatos sociais e financeiros influem também na História e nela se integram, não está mal colocado o livro “como romance histórico”. (RIBEIRO, 1976, p. 83) O estudo de Ribeiro dá alto relevo à produção literária de Paulo Setúbal, fazendo um grande trabalho de levantamento historiográfico do autor que se dedicou à confecção do romance histórico. Paulo Setúbal “fez na nossa literatura ‘do romance histórico um motivo constante de pesquisa e preocupação”. (RIBEIRO, 1976, p. 74) O primeiro romance histórico de Setúbal foi A Marquesa de Santos de 1925: Embora não se tenha declaradamente filiado à nova corrente literária, não se pode negar que Paulo Setúbal, com o seu forte apego às coisas brasileiras, foi no fundo um modernista, sem, contudo, aqueles exageros que caracterizaram os que então à liça saíam numa ânsia incontida de renovação. Poucos nesse particular terão sido tão nacionalistas, tão novos, tão autênticos. Foi, certamente, movido pelo amor à terra brasileira, que desenterrou os nossos heróis e as nossas figuras célebres e as trouxe de novo à realidade, vivas, palpitantes, numa exaltação admirável dos nossos quadros históricos. Das páginas do passado trouxe para o romance histórico a sua primeira heroína, “D. Domitila de Castro” - A marquesa de Santos, o seu primeiro grande sucesso, a sua estréia vitoriosa como romancista histórico. (RIBEIRO, 1976, p. 104) Logo em seguida, Setúbal lança As maluquices do Imperador (1927); O Príncipe de Nassau (1928); Um Sarau no Paço de São Cristóvam; A Bandeira de Fernão Dias (1928); El-Dorado; O sonho das Esmeraldas; Romance de Prata; Os irmãos Leme; Ouro de Cuiabá e Capitão Jagunço esses sete últimos todos do ciclo dos Bandeirantes, fonte de profunda inspiração para Setúbal. Contemporâneo a Setúbal, Viriato Corrêa também se dedicou ao gênero romance histórico e nos dá A Balaiada – Romance do tempo da Regência de 1927 e Francisco de Assis Cintra nos deixa As amantes do Imperador e Os escândalos de Carlota Joaquina. Ainda na mesma época que Setúbal escrevia, João Felício dos Santos publica Carlota Joaquina – rainha devassa, João Abade e Major Calabar e Pedro Calmon o seu O Rei Cavaleiro. Na sequência, Alfredo Ellis Júnior publica O Tesouro de Cavendish (juntamente com Menotti Del Picchia); O Tigre Ruivo; Amador Bueno – O Rei de São Paulo e Jaraguá. Virgílio Várzea com Santa Catarina; O Falcão; Episódios Heróicos e George Marcial. Nuto Sant’Anna com Santa Cruz dos Enforcados. Posteriores a Setúbal estão Érico Veríssimo com o seu O Tempo e o Vento, Agripa Vasconcelos com Fome em Canaã; Vida em flor de Dona Beja; Gongo Soco; Chica da Silva e Chico-Rei e Haroldo Prestes Miramontes com O Medalhão de Ouro. Retomando o estudo de Flávio Loureiro Chaves, inegável também é o papel de Os Sertões no âmbito do romance histórico, embora o próprio autor preferisse chamá-lo de “livro de vingança”. Uma tentativa de enquadramento da obra num determinado gênero literário fica um tanto prejudicada, porém, há de se perceber a importância no tratamento histórico que Euclides da Cunha dá ao momento e às personagens, transformando um ex-cêntrico (no sentido que Hutcheon usou): Antônio Conselheiro em, talvez, numa das figuras mais controversas de nossas letras. Segundo Chaves, Antônio Conselheiro “veio, impelido por uma potência superior bater de encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o hospício” (CHAVES, 1991, p.22). É pela primeira vez que, numa obra da literatura nacional, deu-se voz aos dominados e não aos dominadores, representantes da ideologia em voga na época. Chaves (1991) ainda apontam que o processo de dominação apaga a consciência da própria miséria. Ainda, de acordo com Chaves, Lima Barreto também se dedicou à feitura do romance histórico em nossa literatura, produzindo três excelentes exemplos: O triste fim de Policarpo Quaresma (1916), Numa e a ninfa (1917) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). Sua visão caricatural e satirizante da época em que vivia levaram-o a tornar-se, posteriormente, referencial no projeto modernista de nacionalismo: O autor d’O triste fim de Policarpo Quaresma trouxe para dentro da ficção a problemática histórica que já pertence aos nossos dias. O romance contemporâneo, nascido na vertente do Modernismo, definiu um projeto “social” porque a chamada geração de 30, em parte caudatária do regionalismo e em parte herdeira da tradição realista, se propôs à documentação de nossa realidade rural e urbana. Mas não só por isto. Nas sucessivas crises políticas que finalmente levaram à eliminação da democracia, esse romance assumiu também a tarefa de explicar e interpretar o circuito histórico, adiantando-se muitas vezes em relação à palavra dos próprios historiadores. (CHAVES, 1991, p.25) Durante a ditadura de Getúlio Vargas surgiram três bons romances históricos de acordo com Chaves: Os subterrâneos da liberdade de Jorge Amado, onde a literatura de denúncia adquire sua força máxima, fazendo ecoar novamente a voz dos dominados, aqueles que foram sacrificados nas prisões e câmaras de tortura do Estado Novo, [...] e em 1953, Graciliano Ramos inicia a publicação de Memórias do cárcere, ampliando a cadente acusação de Jorge Amado, pois alcança dimensioná-la num discurso psicológico que sem se afastar da realidade circunstancial, desmascarada com rigoroso realismo, infunde a essa mesma circunstância um alto grau de universalidade. [...]. A revisão histórica prossegue quando Erico Veríssimo finaliza, em 1962, a trilogia O tempo e o vento, reconstituindo a formação do Rio Grande do Sul através da saga de duas famílias pioneiras, Terras e Cambarás, acompanhando sua evolução do século XVIII até 1945, precisamente o ano da deposição de Getúlio Vargas. O romance é manifestamente histórico e, na medida em que sua ação se aproxima dos dias atuais, inscreve a crítica ao Estado Novo como preocupação itinerante. (CHAVES, 1991, pp. 25-26) Chaves (1991) finaliza seu estudo assumindo o inegável papel do romance na construção da historicidade na literatura e no desvelamento da realidade brasileira: O romance ofereceu, pois à literatura a dimensão de sua historicidade. Trata-se de momentos privilegiados em que a ficção assume a consciência política da sociedade. Tanto mais importante se registrarmos que, instaurando a metáfora da tirania ou sugerindo a fronteira da liberdade, do Romantismo até aqui, História e Literatura reuniram-se no mesmo processo de sondagem e revelação da realidade brasileira. (CHAVES, 1991, p.26). Faltam-nos estudos para relacionar as obras pós-modernas que inserir-se-iam neste panorama do romance histórico brasileiro. Bibliografia ABDALA JR, Benjamin e CAMPEDELLI, Samira Youssef. Tempos da Literatura Brasileira. São Paulo: Ática, 2001. AMORA, Soares Antônio. O Romantismo (1833-1838/1878-1881). São Paulo: Cultrix, 1967. ANTUNES, Letizia Zini. Teoria da narrativa: o romance como epopéia burguesa. In: ANTUNES, Letizia Zini (org.). Estudos de literatura e lingüística. UNESP. Assis/São Paulo: Arte e Ciência, 1998. ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Ediouro, 1990. BARTHES, Roland. “O discurso da História”. In: O Rumor na Língua. São Paulo, Brasiliense: 1988. 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