8º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política Gramado R/S 01/04 de agosto de 2012 Área Temática - Instituições Políticas “Padrões de carreira política e desempenho eleitoral dos deputados federais em um sistema “Executive-centric” Alvino Oliveira Sanches Filho (UFBa) André Borges de Carvalho (UNB) “Padrões de carreira política e desempenho eleitoral dos deputados federais em um sistema “Executive-centric”1 1. Introdução Os estudos sobre padrões de carreiras, trajetórias e desempenho eleitoral dos candidatos aos diversos cargos legislativos tem sido uma realidade cada vez mais presente na Ciência Política brasileira, apesar de sua ainda relativa incipiência quando comparados à outras temáticas. Desde o clássico livro “Ambitions and Politics” de Schlesinger (1966), precursor e ainda referência internacional sobre decisões de carreiras nos Estados Unidos, muito se caminhou para compreender os fatores que incidem sobre as decisões de carreira, sobre o perfil sócio econômico e profissional dos candidatos, suas trajetórias pessoais, sobre a importância dos partidos políticos e de seus posicionamentos no espectro ideológico, seus padrões de recrutamento dos candidatos, bem como das instituições que estruturam os sistemas políticos.2 Neste trabalho, discutiremos a repercussão do sistema executive centric para a sobrevivência política dos deputados federais. Pretende-se analisar o papelchave desempenhado pelos governadores e pelo executivo federal na estruturação dos processos eleitorais e partidários investigando a importância das nomeações de alto escalão estadual e federal para a reprodução dos padrões de carreiras legislativas. Em um sistema político caracterizado por Executivos fortes, federalismo “robusto” e partidos fracos na arena eleitoral, os chefes do Executivo nas esferas federal e estadual assumem papel central na construção e reconstrução das coalizões eleitorais, diferentemente de sistemas onde os partidos são mais institucionalizados. Ademais, o modelo presidencial adotado 1 Este texto é um dos produtos do projeto de pesquisa “Geografia do Voto e Instituições Políticas Estaduais: um estudo de quatro estados da federação (BA, MG, RN e RS)” coordenado pelo Prof. André Borges com recursos financiados pelo CNPq através de Edital Universal/2009. Participaram da pesquisa os professores Alvino Oliveira Sanches Filho (UFBA) e Carlos Vasconcelos Rocha (PUC-MG) além da pesquisadora Carolina Almeida de Paula (IESP – UERJ). Em que pese a finalização da pesquisa, as questões colocadas neste artigo cumprem o objetivo maior de provocar o debate sobre a importância do sistema executive centric para o desempenho eleitoral dos candidatos do que apresentar resultados conclusivos. 2 Schlesinger constrói uma tipologia baseada nas ambições políticas, examinando as características dos candidatos que concorreram aos vários cargos e conseguiram se reeleger. Nos termos do autor, a ambição estática é o desejo ou tendência de concorrer à reeleição. Avançar para um cargo mais alto é chamado de ambição progressiva. (cf. Leoni, Pereira e Reno;2003). 2 na Constituição de 1988 garante ao chefe do Executivo poderes bastante amplos no que tange à formulação e implementação do orçamento, o monopólio da iniciativa legislativa em matérias de ordem administrativa, financeira e tributária, além da capacidade legislar por medidas provisórias (Figueiredo and Limongi, 1999). A Constituição de 1988 também introduziu uma variante de federalismo em que os governos locais e, especialmente, estaduais, detêm a capacidade de implementar um amplo leque de políticas sociais e econômicas, e ainda influenciam, sob diversas formas, a dinâmica eleitoral e partidária (Abrucio, 1998; Arretche, 2007; Mainwaring, 1999; Samuels, 2003). Nestes termos, assume-se neste trabalho que os padrões de carreira dos deputados são definidos a partir da clivagem entre governo e oposição. Os candidatos à Câmara Federal teriam fortes motivos para buscar o apoio do governador nas suas estratégias de campanha, mas o mesmo se aplica também ao Executivo federal. Quando o governador se encontra na oposição ao governo federal, a oposição local pode contar com o apoio do presidente, o que diminui a vantagem competitiva das forças governistas em nível estadual. Por outro lado, numa situação em que a coalizão estadual reproduz a coalizão nacional, os deputados e partidos governistas encontram-se em situação de máxima vantagem, obtendo acesso a cargos e recursos controlados pelo presidente e pelo governador. Já a oposição estadual estaria excluída do acesso às verbas e nomeações em nível federal e estadual. Dessa forma, assumindo uma dicotomia simples entre situação-oposição no nível federal e estadual, é possível obter o seguinte quadro 4x4: Quadro 1: Matriz de posicionamento dos partidos frente aos governos estadual e federal governo federal Governo estadual Situação oposição Situação I III Oposição II IV Com base nessas definições, o trabalho buscou respostas para as seguintes questões: Como os padrões de carreira dos deputados federais são 3 influenciados pela condição de situação\oposição aos governos federal e estadual? Qual a importância dos critérios de recrutamento dos partidos e da sua posição no espectro ideológico sobre as decisões de carreira e o desempenho eleitoral dos candidatos? A pesquisa foi realizada através de um levantamento dos repertórios biográficos de todos os deputados federais eleitos nos estados da Bahia, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, nas eleições de 1998, 2002 e 2006 recuperando informações relativas ao cargo de entrada na carreira política e carreira eletiva, filiação partidária e número de mandatos. A partir deste banco de dados, foram produzidas tabulações descritivas para mapeamento dos padrões de carreira dos parlamentares segundo os estados e o eixo situação-oposição. A seleção dos quatro casos se justifica tendo em vista o objetivo de maximizar as variações de fatores políticos e sociais relevantes para a pesquisa, quais sejam: o grau de competitividade eleitoral e o nível de desenvolvimento econômico e social. Como demonstrado por Borges (2007), são características dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul elevados níveis de fragmentação partidária, baixos níveis de continuidade política (expressos na alternância de poder entre partidos/coalizões distintas) e um baixo grau de controle exercido pelas elites estaduais sobre a arena partidária e eleitoral. Em contraste, a Bahia e o Rio Grande do Norte integram um grupo de Estados marcados, durante a maior parte do recente período democrático, por um baixo grau de competitividade eleitoral, alto índice de continuidade política e pelo grande controle exercido por alguns poucos chefes políticos sobre a arena eleitoral e partidária. Estes quatro estados também se diferenciam significativamente no que diz respeito ao grau de desenvolvimento econômico e social. Os estados do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais estavam colocados, no ano de 2003, entre os 10 estados de maior PIB per capita. Já a Bahia e o Rio Grande do Norte ocupavam a 16ª e a 18ª posição no ranking estadual, respectivamente. As taxas de pobreza nestes dois últimos estados também eram significativamente mais elevadas que as taxas dos estados de Minas e Rio Grande do Sul, atingindo mais de 50% da população total no ano 2000. Por fim, os dois estados do Nordeste apresentavam uma elevada porcentagem da população vivendo na zona rural, enquanto os estados de Minas Gerais e Rio 4 Grande do Sul faziam parte do grupo de estados mais urbanizados (7º e 8º colocações em 2000, respectivamente). O argumento defendido neste trabalho afirma que os padrões de carreira política dos deputados variam de acordo com o posicionamento dos seus partidos no eixo situação/oposição na esfera estadual e nacional. Parlamentares situados no quadrante I (situação federal e estadual) têm não só os incentivos, mas também melhores condições de perseguir carreiras mais longevas na Câmara Federal valendo-se do acesso a cargos e recursos controlados pelo governador e pelo presidente para ampliar a sua competitividade na arena eleitoral. É de se esperar que estes deputados apresentem padrões de carreira caracterizados pela entrada na vida pública através de postos mais altos na hierarquia política. Isto é, o acesso privilegiado a cargos e verbas públicas permitiria a estes políticos “queimar etapas”, obtendo eleição para a Câmara sem passar necessariamente por postos eletivos locais ou estaduais. De forma análoga, os deputados situados no quadrante IV (oposição federal e estadual) se encontram em situação de desvantagem, uma vez que as suas estratégias de sobrevivência eleitoral são mais limitadas, não lhes sendo possível recorrer, por exemplo, à ocupação de cargos administrativos no Executivo federal ou estadual. A capacidade destes deputados de obter e manter uma cadeira na Câmara estaria, portanto, associada a padrões de carreira mais progressivos, com trajetórias iniciadas na esfera local ou na militância partidária. Não contando com o acesso a recursos de patronagem ou mesmo com a possibilidade de se beneficiar de políticas públicas implementadas pelos governos nacional ou estadual, estes deputados teriam fortes incentivos para cultivar e manter redes locais ou mesmo adotar estratégias mais programáticas calcadas na ideologia partidária ou na tomada de posição sobre determinados issues. 2. Padrões de carreira, recrutamento partidário e desempenho eleitoral dos candidatos ao legislativo: Uma breve revisão Seguindo a linha de análise aberta por Samuels (2003) adotamos o ponto de vista de que no sistema político brasileiro, dadas as características do 5 federalismo e do sistema eleitoral e a preponderância do Poder Executivo nas arenas decisória e eleitoral, a sobrevivência política dos deputados não está diretamente relacionada advantage). Neste aos sentido, privilégios a da transposição incumbência (incumbency do distributivista modelo desenvolvido nos EUA para o Brasil seria problemática, vez que os pressupostos-chave do modelo – a tese de que os parlamentares são motivados basicamente pela reeleição e que a organização interna do Congresso garante aos deputados a capacidade de cultivar o voto em seus distritos via provisão de pork-barrel – não se verificam no caso brasileiro. Nota Samuels (2003, p. 36-37) que no caso norte-americano as taxas de reeleição tendem a ser maiores quanto maior o tempo de carreira no Congresso, graças a uma estrutura de organização do legislativo que recompensa a senioridade e a especialização do trabalho em comissões. Já no Brasil, não apenas as taxas de renovação parlamentar são muito mais elevadas do que nos EUA, mas também a taxa de reeleição não está relacionada ao número de mandatos legislativos. A principal conclusão do trabalho de Samuels é que a busca da reeleição não é a única nem a mais importante motivação dos parlamentares. Para o autor, os deputados buscam cargos no congresso basicamente como um "trampolim" para conseguir cargos de maior prestígio, especialmente no Executivo estadual ou municipal. A estrutura do federalismo brasileiro, além da preponderância do poder executivo no processo de formulação e implementação de políticas públicas, criam fortes incentivos para a busca da ocupação de cargos eletivos e não-eletivos na esfera subnacional, especialmente estadual. As disputas eleitorais para a Câmara Federal são profundamente afetadas pela eleição para governador. Além disso, o federalismo constrói a natureza da representação política. Qualquer que seja a direção das suas ambições de carreira ou das suas bases eleitorais, deputados enfrentam enorme pressão para representar os seus estados na Câmara dos Deputados (Samuels, 2003, p. 5). Uma importante implicação destes fatos é que os parlamentares têm fortes incentivos para buscar o apoio dos governadores e das máquinas partidárias dos estados de modo a garantir recursos fundamentais à sua sobrevivência política, incluindo-se o acesso a postos políticos estaduais. 6 Em trabalho posterior Samuels (2011) recupera suas conclusões sobre os objetivos políticos e eleitorais dos parlamentares brasileiros reafirmando que a reeleição não é o objetivo primordial da maioria dos deputados, os quais tendem a concentrar suas forças na busca de posições nos governos estaduais e municipais. Uma das explicações para este fato encontra-se na frágil institucionalização da carreira legislativa no Brasil, caracterizada pela alta rotatividade e ausência de regras formais para o preenchimento e distribuição dos cargos legislativos. Do ponto de vista do recrutamento partidário, o autor afirma seu caráter aberto e descentralizado, bem como a falta de controle das lideranças partidárias nacionais neste processo. Os políticos mostram pouca lealdade às elites partidárias, desenvolvendo carreiras independentes empreendedoras -, razão pela qual não se pode afirmar a existência de partidos fortes no legislativo. Dessa forma, o autor afirma que os candidatos necessitam desenvolver redes articuladas em nível estadual para o desenvolvimento de suas carreiras, cultivando o voto de base pessoal e a conexão clientelista de base estadual, apesar de as organizações partidárias nacionais também serem importantes para o sucesso eleitoral. Ainda que corroborem o diagnóstico de Samuels (2003) sobre a inviabilidade de aplicação do modelo distributivista ao caso brasileiro, Leoni, Pereira e Reno (2003) discordam sobre uma das teses defendida pelo autor segundo a qual os deputados que concorrem à reeleição seriam aqueles mais vulneráveis eleitoralmente, pois os legisladores com melhores qualificações concorreriam a postos mais altos como os de senador, prefeito e governador. Os autores argumentam que a decisão estratégica ou escolha que os legisladores fazem com relação a qual cargo vão concorrer na próxima eleição é orientada principalmente por uma auto-avaliação do desempenho no cargo e das chances de êxito nas eleições. Dessa forma, as escolhas de carreira no Brasil são fortemente orientadas pelos custos eleitorais. Os deputados tentam concorrer a cargos mais altos somente quando sentem que possuem força eleitoral suficiente acumulada. Em trabalho mais recente, Pereira e Rennó (2007, p.96) incorporam outros elementos à análise, enfatizando a centralidade do Executivo nacional na estruturação das carreiras dos deputados federais. Para os autores, a tese de um predomínio de fatores subnacionais na determinação do voto nas disputas nacionais legislativas não é mais válida, vez 7 que a reeleição presidencial, instituída em 1998, mudou radicalmente a forma como as disputas eleitorais para o legislativo são conduzidas no Brasil. Juntamente com a realização de eleições para presidente e deputado federal de forma concomitante a partir de 1994 a reeleição ampliou a capacidade de o presidente atuar como “puxador” de votos na eleição proporcional (efeito coattails). Os autores enfatizam ainda a influência decisiva do Executivo no cotidiano do Congresso. O presidente não é apenas o principal legislador, mas também é quem define a agenda legislativa ao determinar o ritmo e conteúdo do que é decidido. Neste contexto, o legislativo atua, no máximo, de forma reativa no processo de formulação de políticas públicas (Pereira e Rennó, 2007, p. 670). Diferentemente do modelo norte-americano, onde o orçamento é impositivo, no Brasil, o Executivo possui grande discricionariedade para alterar a peça orçamentária aprovada no Congresso, através de artifícios como o contingenciamento de recursos. O Executivo se utiliza do processo de execução das emendas na lei orçamentária para recompensar ou punir os parlamentares. Assim, apoiar o presidente na Câmara pode permitir acesso a uma ferramenta extremamente importante para o sucesso eleitoral dos deputados (idem, p. 671). Uma importante conclusão dos autores é a de que presidentes populares e diretamente envolvidos no processo eleitoral aumentam as chances de reeleição de seus aliados na Câmara. Participar da coalizão do presidente é, em certas condições, vital para a sobrevivência política dos candidatos à reeleição. Na mesma linha de Samuels (2003), Bourdokan (2006) procura demonstrar que a busca por cargos eletivos e não-eletivos no Executivo, especialmente na esfera subnacional, constitui importante estratégia de sobrevivência política dos parlamentares brasileiros, mesmo entre aqueles que buscam carreiras legislativas mais longevas.3 Neste aspecto, Bourdokan (2006) apresenta diagnóstico distinto daquele defendido por Samuels (2003) ao 3 A pesquisa identificou que cerca de 15.8% dos 513 deputados eleitos em 2002 começaram a carreira em cargos de secretários municipais ou estaduais ou ministros (sendo 7% de secretários estaduais e 8% de secretários municipais). Além disso, dentre os 329 parlamentares que já haviam ocupado o cargo de deputado federal anteriormente, 73 ou 21.2%, licenciaram-se ou renunciaram a algum de seus mandatos anteriores de deputados federais para assumir postos (eletivos ou não) nos Executivos municipal ou estadual, sendo que 46 destes (14%) licenciaram-se para assumir postos em secretarias estaduais (Bourdokan, 2006, p.12). 8 sugerir que a procura por cargos executivos não é necessariamente incompatível com a reeleição. É sintomático dessa tendência o significativo número de parlamentares com mais de um mandato que ocuparam, ao menos uma vez, cargos do alto escalão municipal, estadual ou federal. Outro registro importante encontrado pela pesquisa afirma que o comportamento dos parlamentares da oposição é diferente daquele dos parlamentares do governo. Para a oposição, a busca de cargos no Executivo municipal é mais atraente, visto que não contam com acesso aos recursos de patronagem controlados pelo Presidente. Campanhas ao governo local são menos custosas, e, além disso, a legislação não exige a desincompatibilização do deputado4. A análise revelou, também, que a propensão a concorrer a cargos municipais é sistematicamente maior entre os deputados de esquerda comparativamente aos parlamentares de centro e direita. Este padrão se manteve em 2004, em que pese a passagem do PT e outros partidos de esquerda para o pólo governista após a eleição de Lula em 2002.5 Do ponto de vista das influências partidárias sobre os padrões de carreira dos parlamentares, Marenco e Serna, (2007); e Rodrigues, (2002) afirmam que partidos de esquerda possuem estratégias de recrutamento bastante distintas daquelas adotadas pelos partidos de centro e direita o que, por sua vez, impacta sobre as trajetórias de carreira. Os parlamentares de partidos mais conservadores são recrutados entre proprietários urbanos e rurais, e profissionais liberais dotados de recursos materiais e reputação personalizada com menor dependência da estrutura organizacional partidária. O perfil mais elitista e tradicional do recrutamento destes partidos resulta na promoção de padrões de carreira mais exógenos e descontínuos, com menor lealdade à filiação partidária. Estes padrões de carreira se associam a um perfil organizativo do tipo catchall, que favorece a utilização de recursos e capitais sociais individuais dos candidatos para atingir o poder político. De outra forma, 4 Nas eleições municipais de 2000, de fato, cerca de 30% dos deputados da bancada de oposição na Câmara concorreram a cargos de prefeito e vice-prefeito, contra 14% da bancada governista (Bourdokan, 2006, p. 20). 5 Uma possível explicação para este fato, não explorada por Bourdokan (2006), seria o sólido controle exercido por organizações de centro e direita como o PMDB, PFL e PSDB sobre parcela significativa dos governos estaduais até muito recentemente, o que excluiria, em muitos casos, a busca de cargos do alto escalão estadual como estratégia de sobrevivência política para os parlamentares esquerdistas. 9 os parlamentares de esquerda são normalmente recrutados no setor público, classe média assalariada, profissões intelectuais, sindicalistas e lideranças de movimentos sociais, sendo mais dependentes da estrutura organizacional partidária e associativa para compensar a carência de recursos eleitorais próprios. Assim, os partidos de esquerda adotam perfis organizacionais que incentivam carreiras mais endógenas, com base em trajetórias longas e na fidelidade partidária (Marenco e Serna, 2007, p. 108). Sem desconsiderar os aspectos relativos ao recrutamento partidário, vale relembrar o argumento de Shefter (1994) para quem as estratégias eleitorais dos partidos são fortemente afetadas pelo seu acesso, ou não, aos recursos controlados pelo governo. No caso brasileiro, parece plausível supor que a adoção, pelos parlamentares de esquerda, de estratégias de campanha menos individualistas e mais centradas na reputação partidária (Carvalho, 2003; Ames, Baker e Rennó, 2008), reflete, além dos fatores apontados por Marenco e Serna (2007), o fato de que estas organizações estiveram na oposição ao governo federal (e também aos governos estaduais em muitos casos) durante boa parte do recente período democrático. Santana (2008) aponta para a incidência dos vários arranjos institucionais_ formato político administrativo do Estado (unitário ou federativo), dinâmica do sistema partidário e do sistema eleitoral, bem como, as características dos partidos_ sobre os padrões de carreira dos deputados ao analisar os casos da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai.6 Para a autora, os diferentes sistemas políticos, por serem capazes de produzir resultados distintos no processo político, afetam os padrões de carreiras observados. Os achados da pesquisa indicaram que, no Brasil, a combinação entre federalismo e sistema eleitoral de lista aberta aumenta a liberdade dos parlamentares sobre as escolhas de carreira, visto que, existe um elevado número de cargos disponíveis, sobretudo nas esferas subnacionais, aliado a uma fragilidade no controle dos partidos sobre a lista dos candidatos. Do ponto de vista da ambição de carreira, a autora identificou que a ambição progressiva dos candidatos pode prevalecer sobre a estática no Brasil, mas tornou-se comum também um tipo de ambição mais dinâmica, característica típica do 6 No Brasil foram pesquisados 1659 deputados brasileiros no período 1990-2002. 10 parlamentar que não possui objetivos de carreira na Câmara dos deputados e nem em arenas externas ao legislativo, alternando a ocupação de postos no Executivo e Legislativo (Santana 2009:135).7 Com o objetivo de analisar o perfil dos candidatos a deputado federal na eleição de 2006, Perissinoto e Miríade (2009), buscaram identificar diferenças e semelhanças entre os partidos de direita, centro e esquerda no que diz respeito às características dos candidatos e dos eleitos. O trabalho partiu da premissa de que um estudo sobre recrutamento partidário deve levar em conta não apenas as características dos efetivamente eleitos, mas também as características dos membros dos partidos políticos, dos que buscam ser candidatos e dos que efetivamente são indicados como tais, comparando-os com os atributos da população em geral. O estudo identificou que o pertencimento a alguns partidos políticos, em especial os de centro, produz impactos eleitorais importantes, bem como o pertencimento a partidos fortemente organizados e com alta capacidade de controlar recursos governamentais. Do ponto de vista da análise agregada dos partidos, foram identificadas tendências a uma posição social dos indivíduos mais elevada nos partidos de direita e de centro e uma tendência a posições sociais médias e baixas nos partidos de esquerda. Mas, sem dúvida, o achado mais promissor da pesquisa aponta para o fato de que em todas as posições ideológicas, independente de quaisquer variáveis societais, a condição de ser, ou ter sido político profissional afeta de modo significativo as chances eleitorais, situação que parece indicar a importância do capital político amealhado pelo indivíduo em sua trajetória política.8 Em relação aos partidos de esquerda, especificamente, começar a carreira política nos postos mais baixos é mais importante para se chegar a deputado federal do que nos partidos de direita. Tal condição sugere que o processo de profissionalização da política, bastante adiantado nas três posições ideológicas, será ainda mais profundo entre os partidos de esquerda. 7 À classificação original de Schlesinger, (1966) foram incorporadas a ambição política regressiva, a qual compreende a volta do deputado para cargos de menor prestígio; e a ambição dinâmica, comportamento do parlamentar que não possui objetivos de carreira na Câmara e nem em arenas externas ao legislativo (cf.; Pereira e Leoni, 1999; Santana, 2006) citados por Santana, 2008. 8 Na pesquisa realizada por Perissinoto e Miríade 2009), a variável “Ocupação” identificou as seguintes profissões: advogado, assalariado urbano, comerciante, empresário, engenheiro, funcionário público, médico e político 11 3. Padrões de carreira dos deputados federais nos estados da BA, MG, RS e RN: um panorama geral Para desenvolvimento da pesquisa, coletamos dados de repertórios biográficos para todos os deputados eleitos nos estados da Bahia, Minas Gerais, Rio Grande Sul e Rio Grande do Norte nos anos de 1998, 2002 e 2006. A partir do levantamento nestas fontes, montou-se um banco de dados com informações sobre filiação partidária do parlamentar, número de mandatos, ingresso na carreira política e carreira eletiva, votação percentual e absoluta e posicionamento do partido no eixo situação-oposição. As categorias de classificação para a variável ingresso na carreira política seguiram, em linhas gerais, a mesma estratégia adotada pelo trabalho de Rodrigues (2002) incluindo posições eletivas (vereador, prefeito/viceprefeito, deputado estadual e federal, governador/vice-governador) e não eletivas (cargos do alto escalão estadual, federal e municipal). No entanto, diferentemente deste autor, adotou-se uma categoria adicional, denominada “militância política”, para dar conta de processos de recrutamento endógeno pelos partidos. Esta classificação foi aplicada àqueles parlamentares cujo ingresso na carreira política se deu por meio de filiação ao partido pelo menos dois anos antes da primeira eleição, além de envolver atividades direta ou indiretamente ligadas ao partido (ex. ocupação de cargos na burocracia partidária, atividades de militância em organizações da sociedade civil, a exemplo do movimento estudantil, sindicatos etc.). Para classificação dos partidos no eixo-situação oposição, nos baseamos em informações relativas às coalizões governativas e eleitorais nas esferas nacional e estadual. Inicialmente, estabeleceu-se como critério para classificar os partidos no eixo situação a ocupação de cargos de alto escalão por mais de 50% do período do mandato do presidente ou governador. Este critério mostrou-se deficiente, no entanto, devido à falta de informações confiáveis sobre a duração das coalizões em alguns casos, mas também porque em outros os partidos membros da coalizão governativa estadual não obtiveram secretarias (embora tivessem obtido o direito de realizar nomeações para postos de segundo escalão). Diante dessas dificuldades, adotou-se como critério alternativo o apoio consistente do partido ao Executivo durante todo o 12 mandato. A suposição que adotamos é que os partidos mais fiéis ao governo deveriam ser privilegiados na distribuição de cargos de primeiro ou de segundo escalão. Por outro lado, considerou-se também como “situação” o partido que, apesar de não ter participado da coalizão governativa durante todo ou mais de 50% do mandato, obteve cargos de alto escalão no biênio pré-eleitoral, firmando aliança com o partido governista na eleição seguinte. Neste caso, adotou-se o pressuposto de que estes partidos se beneficiariam da aceleração dos gastos públicos no período pré-eleitoral e da aliança firmada com o partido governista, em que pese o curto tempo de participação efetiva na coalizão de governo. Classificamos como oposição os partidos que não ocuparam nenhum cargo de alto escalão ao longo do mandato do governador/presidente ou ocuparam cargos durante menos de 50% do mandato (sempre considerando o primeiro biênio do mandato para este cômputo) e, além disso, não firmaram aliança eleitoral com o partido governista na eleição seguinte. A oposição consistente à coalizão governista no legislativo também foi adotada como indicador complementar de oposicionismo. Aqui adotou-se raciocínio análogo ao aplicado aos partidos governistas: os partidos que deixam a coalizão governista muito antes da eleição seguinte e, além disso, não firmaram aliança com o governo na eleição seguinte, estão abrindo mão necessariamente de qualquer benefício advindo da participação no governo.Todos aqueles casos em que não foi possível classificar o partido de forma clara nos eixos situação/oposição, tanto na esfera federal como estadual, foram colocados em uma categoria residual de “não classificados”, totalizando 30 de 390 casos no banco de dados. A tabela abaixo mostra a distribuição dos deputados eleitos por ingresso na carreira política em cada um dos estados escolhidos para análise: 13 Tabela 1: R.G. do Sul, Bahia, R. G. do Norte e Minas Gerais: Distribuição dos deputados federais eleitos por estado e tipo de ingresso na carreira política, 1998-2006 Tipo de ingresso vereador prefeito / vice-prefeito deputado estadual deputado federal alto escalão federal alto escalão estadual alto escalão municipal militância política R. G. do Sul Abs % 22 23.70 6 6.50 4 4.30 9 9.70 2 2.20 13 14.00 5 5.40 32 34.40 Bahia Abs 20 12 29 11 0 19 16 10 % 17.10 10.30 24.80 9.40 0.00 16.20 13.70 8.50 R. G. do Norte Abs % 2 8.30 1 4.20 5 20.80 5 20.80 0 0.00 8 33.30 3 12.50 0 0.00 Minas Gerais Abs % 17 11.00 7 4.50 7 4.50 27 17.40 9 5.80 32 20.60 24 15.50 32 20.60 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. A tabela indica diferenças bastante claras nos padrões de carreira dos deputados em cada um dos estados. No Rio Grande do Sul, é evidente a predominância dos deputados cuja carreira se iniciou na militância política (34.4% do total), além de forte presença de parlamentares com padrão localista de carreira (cerca de 30% iniciaram a vida política ocupando cargos locais eletivos e outros 5% em cargos não eletivos). Estes padrões se apresentam invertidos no Rio Grande do Norte, onde não há nenhum caso de entrada via militância política, predominando o ingresso em posições mais elevadas na hierarquia política: cerca de 70% dos parlamentares potiguares no período em análise, iniciaram a carreira como deputados estaduais ou federais, ou ocupando cargos no alto escalão estadual. O mesmo padrão de entrada “pelo alto” se verifica em Minas Gerais, estado onde se verifica o mais elevado percentual de deputados com passagem pelo alto escalão federal ou estadual (26.4% do total). Note-se, porém, que a bancada mineira também apresenta expressivo percentual de parlamentares que iniciam a carreira via militância política, o que reflete o peso da bancada do PT na representação parlamentar do estado. A Bahia é o estado com maior proporção de deputados de origem local (41.1%, somando posições locais eletivas e não eletivas), muito embora a proporção de ingressantes na carreira via posições elevadas (especialmente deputado estadual) seja bem mais significativa relativamente à bancada gaúcha. Obtendo-se a tabulação cruzada das variáveis ingresso na carreira política e ingresso na carreira eletiva (excluindo-se da primeira as posições 14 eletivas) é possível mapear as trajetórias típicas seguidas pelos deputados federais. Para evitar distorções no cálculo dos percentuais, considerou-se apenas a primeira eleição dos deputados no período 1998-2006. Todos os casos de reeleição neste período foram excluídos, evitando dupla contagem. Do ponto de vista analítico, utilizamos o banco de dados completo em todos os casos onde o objetivo era verificar o impacto de determinados fatores sobre a eleição de deputados (ex. a distribuição de deputados eleitos por quadrante na matriz situação-oposição nos dá elementos para inferir se os parlamentares de partidos situacionistas conquistam mais cadeiras, ao longo do tempo, do que parlamentares oposicionistas). Por sua vez, nos casos em que o objetivo era fazer inferências sobre padrões/trajetórias de carreira típicas dos deputados, excluímos os casos de reeleição para evitar dupla contagem9. Tabela 2: R.G. do Sul, Bahia, R. G. do Norte e Minas Gerais: Distribuição dos deputados federais por tipo de ingresso na carreira política x ingresso na carreira eletiva (%), 1998-2006 Ingresso na carreira política Ingresso na carreira eletiva vereador prefeito / vice-prefeito deputado estadual governador / vice-governador deputado federal Total alto escalão federal 0 0 20 0 80 100 alto escalão estadual 12.5 5 15 2.5 65 100 alto escalão municipal 16.7 20 23.3 3.3 36.7 100 militância política 38.5 7.7 12.8 0 41 100 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. Dentre os deputados que iniciam a carreira ocupando cargos no alto escalão federal nada menos que 80% debutam na vida eleitoral como deputados federais. Este percentual é mais baixo, porém ainda bastante significativo, para os parlamentares que iniciam a vida pública à frente de altos cargos estaduais (65%). No caso dos parlamentares com ingresso na carreira política via militância política ou cargos executivos municipais, evidencia-se um padrão de carreira mais progressivo, com percentuais elevados para as 9 Para facilitar a leitura e interpretação das tabelas utilizamos a expressão “deputados federais eleitos” em todas as tabulações obtidas para a amostra completa (N=390), incluindo os casos de reeleição, e “deputados federais” para as tabelas que consideraram apenas a primeira eleição no período 1998-2006 (N=224). 15 posições eletivas locais. O que os dados mostram, portanto, é o alto potencial eleitoral dos cargos de alto escalão federal e estadual. Diferentemente de um secretário municipal, cuja capacidade de alocação de verbas se restringe, via de regra, a um único município, os titulares de pastas do Executivo estadual ou federal têm a possibilidade de implementar políticas governamentais de amplo escopo, cujos impactos se estendem a um grande número de municípios em um mesmo estado. Isto para não falar da capacidade de distribuir centenas, quando não milhares de cargos de livre nomeação, o que constitui elemento importante na costura de alianças locais e obtenção de apoio da máquina partidária. O poder de fogo eleitoral destes cargos possibilita aos seus titulares, em muitos casos, a entrada na carreira eletiva “por cima”, sem passar por posições intermediárias. A tabela a seguir mostra a distribuição dos deputados federais segundo o tipo de entrada na carreira eletiva e o posicionamento na matriz-situação oposição. Esta análise inclui apenas os deputados que obtiveram seu primeiro mandato no período 1998-2006. Partimos do pressuposto de que não é possível fazer inferências acuradas sobre os parlamentares com carreiras mais longevas, vez que não temos informações sobre o posicionamento dos seus partidos no momento da obtenção do primeiro mandato na Câmara. Tabela 3: R.G. do Sul, Bahia, R. G. do Norte e Minas Gerais: Distribuição dos deputados federais em primeiro mandato segundo a entrada na carreira eletiva e matriz situação-oposição (%), 1998-2006 quadrante Tipo de ingresso na carreira eletiva vereador prefeito / vice-prefeito deputado estadual governador / vice-governador deputado federal sem classif. 16.7 16.7 16.7 0 50 I II III IV 23.10 17.30 25 1.90 32.70 48 4 4 0 44 50 15 15 5 15 35.7 14.3 32.1 0 17.9 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. Como seria de se esperar, os deputados de partidos situacionistas no nível federal e/ou estadual iniciam mais frequentemente as suas carreiras eletivas na Câmara Federal, “pulando degraus” na escada de carreiras políticas. Somando os totais para os quadrantes I, II e III obtemos um 16 percentual de 32.67% de deputados (33 de 101) que chegaram a um mandato na Câmara Federal sem passar por nenhum outro cargo eletivo. Já o percentual para os deputados de oposição aos governos federal e estadual é de apenas 18%. No caso dos parlamentares situados no quadrante I, 35% daqueles que começaram a carreira eletiva como deputados federais o fizeram após uma passagem por postos do alto escalão estadual, o que mostra mais uma vez a importância dos cargos no Executivo como “trampolim eleitoral”. Estes resultados sugerem que a participação dos partidos em coalizões de governo nos níveis federal e/ou estadual produz uma vantagem competitiva para os seus candidatos, possibilitando a estes galgar rapidamente posições mais elevadas na hierarquia parlamentar. A clivagem situação-oposição também tem efeitos claros no que diz respeito à longevidade média das carreiras dos deputados. A tabela a seguir mostra a média de mandatos conquistados pelos parlamentares agrupados por quadrante, a partir da legislatura 1999-2002. Para evitar distorções no cálculo das médias, a primeira eleição de cada parlamentar no período 1999-2006 foi codificada como 1º mandato, a primeira reeleição como 2º mandato e a terceira como 3º mandato10. Os parlamentares situacionistas em nível federal e/ou estadual (quadrantes I, II e III) tiveram, em média, um número de mandatos mais elevado que os parlamentares posicionados no quadrante IV, sendo o valor mais alto observado para o quadrante II (situação estadual/ oposição federal). Tabela 4 - Bahia, R. G. do Norte, R.G. do Sul e Minas Gerais, Número médio de mandatos dos deputados federais eleitos no período 1998-2006, segundo a matriz situação oposição Quadrante não classificados I - sit fed/est II - sit. est./op. fed. III - sit. fed/op. est. IV - op. fed/est. Total Média 1.30 1.45 1.82 1.77 1.34 1.55 Abs 30 149 57 95 59 390 Desviopadrão 0.47 0.69 0.83 0.71 0.63 0.72 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. 10 Sem esse procedimento, as médias incorporariam os mandatos obtidos em legislaturas anteriores ao período analisado no estudo, para as quais não temos dados sobre o posicionamento dos partidos no quadrante situação-oposição. 17 Pode-se especular que dois fatores estão por trás das diferenças mostradas na tabela. Primeiro, é de se supor que haja uma desvantagem competitiva dos deputados no quadrante IV frente àqueles posicionados no quadrante I, o que levaria, ao longo do tempo, a uma menor taxa de reeleição do primeiro grupo em relação ao segundo. Segundo, como demonstram os dados de Bourdokan (2006) sobre as trajetórias seguidas após a eleição para o legislativo federal, os parlamentares de oposição têm menores incentivos para buscar a reeleição. Para os parlamentares situados no quadrante IV pode ser mais vantajoso e menos arriscado disputar eleições para o governo local do que tentar a reeleição, vez que estes não contam com acesso aos recursos políticos controlados pelo presidente e/ou pelo governador. Há uma limitação das inferências realizadas a partir da tabela 5 por conta das mudanças de posicionamento dos partidos com respeito aos Executivos federal e estadual ao longo do tempo. Isto é, entre duas eleições um mesmo partido pode, por exemplo, passar da situação federal e estadual (quadrante I) para a oposição estadual ou federal, ou se manter no mesmo quadrante, com impactos distintos sobre a decisão de concorrer ou não à reeleição. É de se esperar também uma lógica cumulativa no tempo: deputados que permanecem por longos períodos na situação com respeito aos Executivos federal e estadual devem apresentar maior competitividade eleitoral com respeito àqueles que passam uma ou mais vezes pela oposição. É possível capturar ao menos em parte estes efeitos calculando as médias de mandatos dos deputados conforme as mudanças de quadrante ocorridas entre as eleições de 1998-2002 e 2002-2006. Para simplificar a análise, definimos como “oposição” apenas aqueles partidos posicionados no quadrante IV (oposição federal e estadual) e “situação” todos os demais partidos. Apresentamos ainda médias em separado para os casos de continuidade nos quadrantes extremos (situação/situação e oposição/oposição). Os resultados estão na tabela abaixo: 18 Tabela 5 - Bahia, R. G. do Norte, R.G. do Sul e Minas Gerais, Número médio de mandatos dos deputados federais eleitos no período 1998-2006, segundo as mudanças na matriz situação oposição entre eleições Quadrante Quadrante I -> Quadrante I Quadrante IV -> Quadrante IV Situação -> Oposição Oposição -> Situação Situação -> Situação (outros) Média 0.60 0.45 0.46 0.46 0.55 Abs 47 11 13 35 123 Desviopadrão 0.50 0.52 0.52 0.51 0.50 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. Como esperado, as médias mais elevadas foram observadas para os deputados cujos partidos se mantiveram no quadrante I entre as eleições consideradas. Deslocamentos da oposição para a situação e da situação para a oposição apresentam médias significativamente mais baixas, e similares às calculadas para os deslocamentos oposição-oposição. A última categoria – situação -> situação – indica todos os deslocamentos entre os quadrantes situacionistas, excluídos os casos de permanência do candidato/partido no quadrante I. Para verificar se o posicionamento dos deputados no eixo situaçãooposição de fato impacta sobre a decisão de concorrer ou não à reeleição, fizemos um levantamento do total de deputados dos quatro estados que se candidataram à reeleição em 2002 e em 2006. Excluímos da análise os casos de deputados que faleceram ou abandonaram a carreira política no período. Como se vê na tabela abaixo, o percentual de deputados que buscaram a reeleição no período é significativamente mais alto para o quadrante I relativamente ao quadrante IV. No entanto, não há diferenças expressivas entre os quadrantes II e IV. A tabela mostra uma clara divisão entre os deputados integrantes das coalizões governativas nacionais (quadrantes I e III) e os parlamentares de oposição ao governo federal (quadrantes II e IV). 19 Tabela 6 - Bahia, R. G. do Norte, R.G. do Sul e Minas Gerais, Número e percentual de deputados que concorreram à reeleição em 2002 e 2006, segundo o quadrante situação-oposição Quadrante não classificados I - sit fed/est II - sit. est./op. fed. III - sit. fed/op. est. IV - op. fed/est. Total não concorreu à reeleição Abs % 1 16.7 23 25.6 16 34 12 14.1 9 33.3 61 31.4 concorreu à reeleição Abs % 5 83.3 67 74.4 31 66 73 85.9 18 66.7 194 68.6 Fonte: Elaboração própria. Dados obtidos no site Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro e o website oficial da Câmara dos Deputados. Uma possível explicação para estes padrões, a ser investigada em futuros trabalhos, é que os parlamentares situados no quadrante II (situação estadual/oposição federal) poderiam ter maiores incentivos e oportunidades para buscar uma carreira subnacional, valendo-se do acesso privilegiado ao Executivo estadual. Por outro lado, a busca da reeleição se configuraria como menos vantajosa, vez que, por não contarem com o apoio do governo federal, teriam menores possibilidades de obter recursos de emendas orçamentárias no plano nacional ou associar sua campanha à presidencial. Já para os parlamentares cujos partidos se encontram na situação frente ao Executivo federal, porém na oposição ao governador, a busca de uma carreira subnacional se apresentaria como menos atrativa. Para estes deputados, a busca da reeleição seria uma alternativa mais viável, tendo em vista a possibilidade de se beneficiar eleitoralmente das políticas públicas e dos recursos de patronagem controlados pelo governo federal. Resta verificar se os deputados governistas nos planos estadual e/ou federal efetivamente possuem uma vantagem competitiva na busca da reeleição. Testamos esta hipótese através de um modelo de regressão logística, que tem como variável dependente a taxa de reeleição dos deputados nas eleições de 2002 e 2006 (reeleito = 1; não-reeleito =0). Os candidatos que não concorreram à reeleição foram excluídos da análise. Embora a exclusão dos candidatos que não concorreram a um novo mandato tenda a enviesar a análise em alguma medida por conta de fatores do tipo “self-selection”, entendemos que essas limitações metodológicas não comprometem a 20 argumentação desenvolvida neste artigo. Um dos vieses identificados por Samuels (2003) é que os deputados federais que concorrem à reeleição no Brasil são, na média, mais competitivos eleitoralmente. Ainda que isso seja verdade, vale observar que este tipo de viés trabalha contra e não a favor da nossa hipótese. Se é verdade que os deputados que escolhem concorrer são os mais competitivos a priori, então esperaríamos que os partidos de oposição aos governos federal e estadual adotassem um “funil” mais apertado de seleção de candidatos, vez que somente um pequeno número de parlamentares de alta competitividade aceitaria correr o risco de concorrer contra os candidatos governistas. Deste modo, o efeito da clivagem governooposição sobre as taxas de reeleição dos deputados seria atenuado, pois a auto-seleção trabalharia no sentido de inflar a probabilidade de sucesso eleitoral dos candidatos oposicionistas a um novo mandato. Neste sentido, este possível viés teria efeito contrário ao esperado pela nossa hipótese básica, qual seja, que o acesso dos partidos aos postos governamentais, especialmente no plano federal, amplia as chances de reeleição dos seus candidatos. Para estimar os efeitos do posicionamento do partido do deputado no quadrante situação-oposição em cada legislatura utilizamos duas dummies para os quadrantes situacionistas em relação ao governo federal (quadrante I e quadrante III). Estabelecemos como categorias de referência os partidos de oposição aos governos federal e estadual (quadrante IV) e de situação estadual/oposição federal (quadrante II). Incluímos também três variáveis relativas a características individuais dos candidatos à reeleição: votação percentual na eleição anterior (vot_perc), como indicador da competitividade eleitoral do candidato à reeleição relativamente aos demais; ingresso na carreira política em cargos locais eletivos e não-eletivos (ing_car_local) e uma dummy para os deputados com mais de dois mandatos no momento da candidatura à reeleição (exp_legislativa). Pressupomos que deputados de melhor performance em eleições passadas teriam maior probabilidade em obter reeleição; já os deputados que iniciaram a carreira em cargos locais tendem a possuir bases de votação mais concentradas e portanto mais vulneráveis (portanto, o efeito esperado é negativo). A última variável independente do modelo é uma dummy que indica mudanças de partido 21 ocorridas entre uma eleição e outra (mudou_partido). Se a reputação partidária importa para o sucesso eleitoral, então o efeito dessa variável deve ser negativo no modelo. Isto é, esperaríamos que deputados infiéis fossem punidos pelos eleitores. Os resultados do modelo são apresentados na tabela abaixo: Tabela 7 – Modelo de regressão para taxa de reeleição x posicionamento dos deputados no eixo situação-oposição Bahia R. G. do Sul Minas Gerais votpercent ing_car_local mudou_partido exp_legislativa quadrante I quadrante III Constant Variável dep.: reeleição B Erro Sig. Exp(B) ***-8.650 2.431 0.000 0.000 ***-7.920 2.385 0.001 0.000 ***-8.766 2.608 0.001 0.000 ***1.480 0.463 0.001 4.392 0.267 0.419 0.524 1.306 *0.887 0.473 0.061 2.427 -0.090 0.426 0.832 0.914 **1.270 0.584 0.030 3.561 *1.033 0.582 0.076 2.811 14 4.467 0.002 % de casos previstos corretamente: 76.7% 2 Pseudo-R 0.164 - 0.249 N 255 * p < 0.010; ** p< 0.050; *** p< 0.001 Como esperado, candidatos cujos partidos integram a coalizão do governo federal tem maiores chances de obter reeleição que os demais. Vale observar que os coeficientes estimados para as variáveis quadrante I e quadrante III expressam a diferença média entre estes quadrantes e os quadrantes de oposição ao governo federal. Note-se ainda que o coeficiente para o quadrante mais situacionista (situação federal e estadual) é ligeiramente maior que o estimado para quadrante III (situação federal/ oposição estadual). Isso indica que o Executivo estadual também influencia a disputa para a Câmara ainda que possivelmente de forma menos intensa que o Executivo federal. A variável que indica mudanças de partido entre uma eleição e outra também tem efeito positivo, contrariamente ao esperado. Uma possível 22 explicação para este fato é que os deputados que trocam de partidos no período pré-eleitoral tem como uma de suas motivações o alinhamento político às forças situacionistas na esfera federal e/ou estadual. Parece ser o caso que estes parlamentares são recompensados pelos eleitores por sua capacidade de se manter alinhados aos governos federal e/ou estadual e obter verbas para os seus redutos, embora não seja possível afirmar com certeza apenas com base nos resultados do modelo. De qualquer sorte, vale notar que dos 46 deputados que mudaram de partido no período considerado, nada menos que 52% (24) escolheram como destino um partido posicionado no quadrante I (situação federal e estadual). Somente 11% (5) destes deputados se filiaram a um partido posicionado no quadrante IV. 4.Conclusões A análise dos padrões de carreira de todos os deputados federais eleitos nos quatro estados da pesquisa, no período 1998-2006, trouxe elementos adicionais para compreender como o Poder Executivo, como instituição dotada de centralidade no presidencialismo brasileiro, condiciona as chances de sobrevivência política dos deputados. As evidências apresentadas mostram que os deputados com acesso ao Executivo federal (quadrantes I e III) desenvolvem carreiras mais longevas, especialmente com respeito aos parlamentares de oposição. Por outro lado, os dados sobre trajetórias de carreira dos deputados indicam a importância da passagem por cargos de alto escalão para a reprodução das elites políticas parlamentares. Dentre os deputados que começaram a vida pública à frente de cargos do alto escalão estadual ou federal, a imensa maioria (65% no caso do alto escalão estadual e 80% para o alto escalão federal) iniciou a carreira eletiva na Câmara Federal, “queimando degraus” na escada de cargos eletivos. Tais condições nos permitem afirmar que a participação dos partidos em coalizões de governo nos níveis federal e/ou estadual produz uma vantagem competitiva para os seus candidatos. De modo geral os achados deste trabalho parecem apontar para uma direção distinta com respeita às análises das eleições proporcionais que enfatizam a conexão eleitoral de políticas distributivas implementadas pelo Poder Legislativo, estabelecendo uma analogia – bastante problemática, diga23 se de passagem – entre o sistema político brasileiro e o norte-americano (Ames, 2001). A força e a importância do Poder Executivo nas arenas eleitoral e decisória do presidencialismo brasileiro colocam em dúvida esta linha interpretativa, vez que a capacidade dos parlamentares de atender às demandas dos seus eleitores irá depender em boa medida de recursos controlados pelo presidente e pelos governadores. Em resumo, ao desvendar a conexão entre a clivagem situação-oposição nos planos federal e estadual e os padrões de carreira dos deputados, este trabalho aponta para um novo caminho interpretativo que leva em conta as especificidades institucionais do nosso presidencialismo. Bibliografia: ABRUCIO, Fernando. L. (1998). Os Barões da Federação: Os Governadores e a Redemocratização Brasileira. São Paulo: Hucitec. AMES, B., BAKER, Amy e Rennó, Lúcio. (2008). "The Quality of Elections in Brazil: Policy, performance, pageantry or pork?" In: P. Kingstone and T. J. Power (Eds.). Democratic Brazil Revisited. Pittsburgh, PA: University of Pittsburgh Press. ARRETCHE, Marta. (2007). 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