Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 DIDÁTICA: REFLEXÕES SOBRE O SENTIDO DA EDUCAÇÃO Alexandre Elias Marim1 Renato Florêncio Pavanelli Ortega2 Wellington Barros de Andrade3 (orientador) Clayton Cardoso Romano4 RESUMO: O presente trabalho vem discutir a experiência do grupo Pet-História da Universidade Federal do triângulo Mineiro em dois minicursos realizados para formação de professores. Um dos minicursos foi realizado numa escola localizada no Bairro Osanâ, na cidade de Uberaba, o outro, foi produzido na III semana de História da UFTM. O intuito foi discutir o papel da didática em comunidades populares a partir da pedagogia freiriana. O minicurso desenvolveu uma análise metodológica de textos relativos a educação e a didática, e concentrou esforços em realizar pequenos teatros para representar períodos históricos, mas com participação dos ouvintes, sendo eles, sujeitos/participantes do minicurso. Por fim, o trabalho do grupo PETHistória, estabeleceu uma mesa interativa, que continha vários objetos aleatórios encontrados na realidade dos alunos de comunidade popular, e através desses objetos, os professores devem pensar didaticamente a relação com a história. PALAVRAS-CHAVE: Didática, Educação, Comunidade Popular, Formação e Docência A PROPOSTA O presente trabalho irá discutir a experiência que o grupo PET – História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) teve em duas oficinas, uma destinada a Escola Norma Sueli Borges, localizada na cidade de Uberaba no bairro Osanã, as margens da BR-050, e a outra, na III Semana de História da UFTM, que em linhas gerais, fazemos uma reflexão sobre a educação no país, mas com o enfoque e no conceito de didática. Cada oficina teve um desenrolar diferente, pois, trata-se de distintos grupos. Na escola Norma Sueli o público alvo era um grupo de professoras, uma pedagoga e uma diretora, ligadas ao ensino público. O grupo de professoras lecionavam para o ensino fundamental e por isso, são profissionais em pleno exercício de suas funções, consequentemente, abarcadas por todas as dificuldades e vantagens de se lecionar na rede pública de ensino. Já o grupo que compôs a oficina da III Semana de História, estava mais ligado com a instituição universitária, sendo mestres e graduandos, logo, são pessoas que estão deslumbrando as pesquisas e a teoria do campo pedagógico. Dois dos membros desse grupo são mestrandos 1 Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - [email protected]. Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro – [email protected]. 3 Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - [email protected]. 4 Professor do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. 2 Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 com ampla experiência no prática pedagógica, sendo assim, um grande fortuito tê-los para compartilhar de seus caminhos sobre a educação vista pela prática. O grupo PET5-História tem por sua função três objetivos que se dividem respectivamente em três núcleos de atuação. O primeiro está responsável pela pesquisa histórica, com a tarefa de desenvolver um artigo científico sobre os conceitos chaves para o trabalho do grupo: memória, cotidiano e cultura popular. A função do segundo núcleo se concentra em pensar a formação de professores e, frente a esta questão, busca no documentário a forma de se captar e construir um trabalho para a tal finalidade. Por fim, o terceiro núcleo, é, em suma, o braço de extensão do grupo PET, que tem a função de reconhecimento de um bairro (objeto/sujeito de pesquisa), conhecimento e produção de um documentário sobre a memória, cotidiano e cultura popular a partir do relato e da vivência dos moradores do bairro. O presente trabalho foi desenvolvido pelo Núcleo de Ensino (NUPEPET) e que, através das oficinas, tenta cumprir sua função de reflexão sobre a formação de professores. A oficina esta dividida em duas partes; a primeira é o embasamento teórico ,discutido para nos situarmos sobre o que é a didática durante a história do país e o que significa essa ferramenta pedagógica para alguns especialistas no tema; a segunda parte está ligada a uma prática que o NUPE desenvolveu para se pensar didaticamente a possibilidade de se aprender história, partindo da realidade dos estudantes. Esta parte prática esta imbricada no raciocínio freiriano de pedagogia e que durante a oficina será discutido e reflexionado pelos participantes. I – PARTE – UMA DISCUSSÃO COM A EDUCAÇÃO No intuito de aprofundar a perspectiva histórica da didática no Brasil, utilizamos o texto de Ilma Passos AlenCastro Veiga6. O texto traz como ponto central a transformação do modelo educacional no Brasil desde 1549, assim como o modelo didático, que se divide principalmente antes de 1930 e todo o período posterior. Tal divisão se dá, segundo a autora, por conta de todo o período que antecede a inclusão da didática como disciplina no curso de formação de professores. 5 MÜLLER, Angélica. Qualidade no ensino superior: a luta em defesa do Programa Especial de Treinamento. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. 6 VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a didática. 21ª ed. ver. e atual. Campinas, SP: Papirus, 2004. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 Desta forma, podemos ter uma ampla compreensão de quase todas as transformações da educação brasileira, acompanhadas pela didática, ocorreram com base na relação dialética entre a sociedade e a realidade histórica, como será discutido mais à frente. Refletindo sobre a forma de se apresentar a discussão que AlenCastro Veiga desenvolve, o grupo optou por fazer uma exposição sobre o tema em relevância, como por exemplo, o período educacional Jesuíta, para situar o participante. Na sequência, o método de pequenos blocos teatrais cômicos, feitos para envolver o ouvinte e torná-lo sujeito criativo da oficina, pois o mesmo se integra como personagem teatral. Por fim, uma reflexão sobre essas interpretações que são decorrentes de cada período que a autora nos apresenta. O teatro foi uma opção que o grupo escolheu na tentativa de torná-la mais atrativa para os diferentes públicos, como na escola e na oficina ministrada na III Semana de História da UFTM, fugindo assim de uma apresentação menos envolvente. Como já dito, Ilma Passos AlenCastro Veiga faz uma discussão sobre diferente períodos históricos, levando-nos refletir sobre a didática em cada tipo de plano pedagógico vigente na educação brasileira. Nesse sentido, percebemos que, no início, a educação brasileira teve um papel civilizatório e de catequese, em que a didática ou metodologia de ensino tinha um caráter formal: O enfoque sobre o papel da didática, ou melhor, da metodologia de ensino, como é denominado no código dos jesuítas, esta centrado em seu caráter meramente formal, tendo por base o intelecto, o conhecimento, e marcado pela visão essencialista de homem.7 E a autora prossegue: A metodologia de ensino (didática)é entendia como um conjunto de regras e normas prescritas que visam à orientação do ensino e do estudo. Como afirma Paiva (1981, p. 11). “um conjunto de normas metodológicas referentes à aula, seja na ordem das questões, no ritmo do desenvolvimento e seja, ainda, no próprio processo de ensino”.8 Como se nota, a didática no período em questão, o jesuítico, é uma forma de orientação para o estudo, levando ao professor um conjunto de normas escritas a serem seguidas e passadas para seus alunos. Logo, o professor é o centro de todo o processo educacional, fazendo de seu aluno um mero receptor9. Na leitura deste texto, percebemos o apanhado geral que a autora desenvolve para mapear as várias didáticas e as políticas educacionais desde os jesuítas, como vimos, até após 7 VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP: Papirus, 2004, p. 34 Ibidem, p. 35. 9 Ibidem, p. 36. 8 Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 a LDB de 1996. Por um longo período, o Brasil se viu sobre um modelo educacional unilateral, ou seja, a educação era oferecida para poucos, logo, a falta da educação ou alfabetização consequentemente mantinha um grande número de civis fora de processos eleitorais, entre outros direitos civis que hoje detemos. José Murilo de Carvalho, em “A cidadania no Brasil”10, aponta para uma questão interessante: o único ato de cidadania que existiu, segundo o autor, foi a abolição da escravatura. Muito pouco para um país que não conseguiu, ainda hoje, resolver seus problemas étnicos e sociais. Voltemos ao texto de Ilma Passos AlenCastro Veiga. Com Vargas no poder, o sistema de ensino passa a ser pensado de outra maneira e os avanços no que se diz respeito a ensino superior são notórios, conduzidos por Francisco Campos, ou seja, o incentivo ao nível superior de ensino é valorizado e o Brasil inicia sua transição para o modelo de sociedade urbana e industrial. Quanto à didática propriamente dita, esta acaba por ser instituída como curso e disciplina. Nesse momento, nota-se o início de uma visão mais técnica quanto ao processo de ensino, pois, o plano de gestão deste período é de industrializar o maior país agrário do mundo. Vargas investe no ensino técnico o que leva impulsionar e qualificar, minimamente, a mão-de-obra nacional. Nos termos de Veiga: A didática é entendia como um conjunto de métodos, privilegiando a dimensão técnica do processo de ensino, fundamentada nos pressupostos psicológicos, psicopedagógicos e experimentais, cientificamente validados na experiência e constituídos em teoria, ignorando o contexto sociopolítico – econômico.11 Como percebemos, a base deste ensino e dessa didática era, prioritariamente, operação do conhecimento e não emancipação pelo conhecimento. Tendo uma simples finalidade, a educação técnica, prevê o saber fazer. Outro debate que fica evidente entre 1945 e 1960 está diretamente ligado ao egresso de capital externo no Brasil e à renovação do modelo educacional, destacando o modelo privado de escola e a luta ideológica quanto a sua consolidação em meio ao ensino publico já consolidado neste período. Tal debate ideológico acaba por ser abandonado a partir 1964, com o golpe militar e o enrijecimento do modelo de ensino e da própria escola, consolidando de uma vez o modelo técnico do conhecimento. 10 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 11ª ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2008. 11 VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP: Papirus, 2004, p. 43. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 Um projeto de extensão desenvolvido na Universidade Federal de Pernambuco12, com participação de Paulo Freire, levou à uma nova metodologia de alfabetização, cujos resultados foram exponencialmente considerados. O método Paulo Freire, como ficou conhecido, alfabetizava pessoas em 48 horas. Partido da realidade dos alunos, o método considerava toda a experiência do educando em beneficio de seu próprio aprendizado. Mas com o Regime Militar brasileiro, muitas pessoas foram proibidas de praticar e ter acesso a esse ensino, pois a diferença deste método é politizar as pessoas e torná-las críticas de seu tempo. A politica educacional implantada durante o regime foi um duro golpe para o Brasil. No fim dos anos 80, com a abertura política, ou seja, a ascensão do governo civil, percebe-se uma grande mudança no modelo educacional, ainda sobre uma certa influência do período militar, percebe-se um esforço por parte dos próprios professores em pensar a criticidade, o refletir sobre a sociedade e a realidade do educando, e neste contexto o modelo de Pedagogia crítica apresenta-se como um nova forma de educação. Depois da breve explanação sobre os modelos de didáticas oferecidos pela educação brasileira, e pensando os anos 90 até os dias atuais, o chamado modelo neoliberal de educação, o grupo chamou para um diálogo os participantes das oficinas para a exposição de suas considerações. Afinal, os participantes são mestres, professores formados ainda na década de 1970, alunos de graduação, entre outros, com diferentes visões, tempos, interpretações e formações profissionais. Assim, como contribuição, a Profª. Elidia Terezinha Arduine Antonio, participante da oficina ministrada na Escola Norma Sueli Borges, aponta os critérios de avaliação externa das escolas, como impróprio uma vez que não respeita a grande diversidade de nosso pais. Estas questões foram fontes de grandes discussões, o que deu sentido a toda a reflexão feita anteriormente sobre os momentos diversos da didática no cenário educacional do nosso país. Logo após uma breve discussão sobre os rumos que a educação brasileira tomou, o grupo se concentrou em pensar e refletir sobre a relação da sociedade com a educação com base no texto de José Carlos Libâneo: Capítulo 1 – Prática Educativa, Pedagogia e Didática13, que propõe uma reflexão sobre a origem da educação e até chegar à didática junto ao 12 BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire (Coleção Primeiros Passos). São Paulo: Brasiliense, 1981. 13 LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do professor). São Paulo: Cortez, 1994. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 professor. Neste texto, nos atentamos em perceber a visão do autor na questão Sociedade e Educação, como que essas duas esferas se relacionam e como se reflete sobre a realidade da sociedade. [...] A educação – ou seja, a prática educativa – é um fenômeno social e universal, sendo uma atividade humana necessária à existência e funcionamento de todas as sociedades. Cada sociedade precisa cuidar da formação dos indivíduos, auxiliar no desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, prepará-los para a participação ativa e transformadora nas várias instâncias da vida social.[...] 14 Libâneo é muito claro com suas definições. Podemos notar que a vida em sociedade gera uma prática educativa, e na formação dos seus indivíduos é necessário para qualquer grupo social organizado preparar seus integrantes. Isso nos leva a pensar que a Educação não existe apenas num órgão específico e responsável para a formação e sim em várias esferas sociais. A questão primordial, para a oficina, é perceber que a educação é um fator determinante e derivado da sociedade, logo, a realidade da mesma será reflexo dessa relação dialética. Mas como pedagogia e a didática se aplicam nesta relação? Libâneo nos propõe que a pedagogia é a ciência responsável por fazer a educação, portanto, em realizar o conhecimento adquirido, fazendo-o aplicável na sociedade. [...] Para compreendermos a importância do ensino na formação humana, é preciso considerá-lo no conjunto das tarefas educativas exigidas pela vida em sociedade. A ciência que investiga a teoria e a prática da educação nos seus vínculos com a prática social global é a Pedagogia. Sendo a didática uma disciplina que estuda os conteúdos, os meios e as condições do processo de ensino tendo em vista finalidade educacionais, que são sempre sociais, ela se fundamenta na Pedagogia; é assim, uma disciplina pedagógica.15 Isto é, para entendermos o sentido da educação é preciso buscar na sociedade elementos necessários para que os estudantes realmente percebam que vivem em sociedade. A didática é a disciplina da pedagogia que busca realizar esse processo, ou seja, ela tenta deixar aplicável a teoria na prática vivida. Por meio da didática percebemos um caminho mais rápido para expressar o que queremos, e projetar isso dentro da sala de aula. Por fim, o autor posiciona brevemente a diferença entre modelos educacionais vigentes. Em suas palavras: [...] Na sociedade brasileira atual, a estrutura social se apresenta divida em classes e grupos sociais com interesses distintos e antagônicos; esse fato repercute tanto na organização econômica e política quanto na prática educativa. Assim, as finalidades e meios da educação subordinam-se à estrutura e dinâmica das relações entre as 14 Ibidem, p. 16 LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do professor). São Paulo: Cortez, 1994, p. 17 15 Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 classes sociais, ou seja, são socialmente determinados. 16 Percebemos isso não só nas classes sociais, mas também na forma de se pensar a História, pois, houve um debate sobre livros didáticos, em que, na maioria dos diálogos, percebe-se uma rejeição por parte do livro, por causa da representação dos fatos históricos, como se fossem simples consequências de desastres bélicos ou por simples mando econômico ou uma decisão autoritária. Esse tipo de perspectiva, passa aos alunos a impressão de que a sociedade não é sujeito da história, negando o fato de sua participação. Tratando da didática, em específico, utilizamos para maior compreensão o texto de Vera Maria Candau17, em que resolve fazer uma revisão do seu trabalho. Como a própria autora explica: Afirma, que nos últimos quinze anos a reflexão, sobre a Didática acadêmica no Brasil foi fértil, passou por períodos de rupturas de paradigmas, desconstrução e construção; ela afirma isso por ela não só ter sido umas das autoras do processo mas também orientadora, supervisora de artigos e TCCs, teses entre outros, mesmo com todos esses progressos, na sua revisão em 1996, ela inicia com uma perspectiva de que vários pontos teriam se resolvidos: “[…] Minha primeira tendência foi considerar que realmente essa contra posição atualmente está superada, situando-se as principais discussões da área entre as diferentes posições […]” 18 E continua: No entanto, depoimentos de alunos do curso de licenciatura da PUC-Rio e de professores de 1°e 2° graus da rede pública e particular, com os quais relacionei-me em atividades de formação e serviço na área do estado do Rio de Janeiro, tanto no âmbito urbano quanto rural, fizera-me rever e mudar mina tendência inicial. 19 No inicio do primeiro semestre de 1996, na disciplina de didática da PUC-Rio, foi perguntado aos alunos o que esperavam dessa disciplina, e a resposta mais frequente foi: “é como se aprende a dar aula” e, também, “um ensino para formar profissionais que saibam transmitir seus conhecimentos”. Mediante as circunstâncias que encontrou na academia, Candau percebeu que a prática instrumental da didática ainda é dominante e que existe uma enorme distância entre a reflexão acadêmica sobre o tema e as necessidades e a expectativa dos professores novos (recém formados) da disciplina em si. Para a autora, existem três temas que são características da didática: o cotidiano escolar, o saber docente e, por fim, cultura escolar. 16 Ibidem, p. 18 “A formação de professores__ Da exaltação à negação: A busca da relevância” (1982) que, atualmente é usado em produções acadêmicas, texto esse, que deu origem a organização do Seminário “A Didática em questão” (PUC-Rio 16 a 19 de novembro de 1982). Esse seminário se tornou um movimento de revisão que depois foi assumido pelos Encontros Nacionais de Didática e prática de Ensino (Endipe), no qual no 8° encontro no ano de 1996. 18 CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 75 19 Ibidem. 17 Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 O cotidiano escolar foi todo remodelado a partir da década de 90, que passou a consistir na nova versão da perspectiva modernizadora, instrumental da educação e da didática brasileiras, e isso tudo se obteve a partir dos mecanismos de avaliação que estavam sendo aplicados nos países vizinhos. A educação foi toda reconstruída em cima de processos avaliativos de alunos e escolas: Gentili (1996) sintetiza o que pode ser chamado de consenso estratégico entre tecnocratas, políticos e intelectuais neoliberais sobre como enfrentar a crise educacional atual em dois objetivos básicos que devem articular e dar coerência às reformas educacionais implementadas pelas diferentes reformas curriculares em países latino-americanos. Onde dois objetivos deveriam articular e dar coerência a reforma educacional: Mecanismo de controle de avaliação da qualidade do ensino em esfera ampla e de maneira específica no interior das próprias intuições. Por outro lado a necessidade de articular e subordinar a produção educacional as necessidades estabelecidas pelo mercado de trabalho.20 Contudo as escolas se tornaram instrumentais e as faculdades também mudaram sua grade curricular, formando professores com uma perspectiva instrumental e, consequentemente, hoje sentimos isso nas escolas. Em diálogo com Elidia (coordenadora e pedagógica da escola Norma Sueli Borges) expôs na oficina ministrada a seguinte fala: Uma vez a Regiane falou lá na sala lá, eu não concordei com ela e não comentei com ela, e ai na reunião ela disse que não se sentia como educadora. Gente claro que nos somos educadores, nos somos formadores de opinião, até o jeito que você anda os meninos observa, o jeito que você fala que você age, como você atende uma pessoa, como você atende um celular tudo.21 Diante dessa fala, percebemos a frustação de uma das professoras, ao pensar que não se sentia uma educadora, pois, não via suas lições sendo levadas em diante por seus alunos, mas, por outra lado, a coordenadora, demonstra que sim, elas eram educadoras, através de um simples exemplo, como andar, falar, relacionar, etc. Percebemos que a didática, vai além de uma teoria universitária e que se encontra na conduta dos professores, pois, esses atos assimilados pelos alunos vão fazer relação com sua sociedade, nos moldes do que José Carlos Libânio. A segunda característica é o saber do professor, que é constituído de saber pluralizado, estratégico e desvalorizado. Pluralizado por ser não somente os saberes acadêmicos, mas sim 20 CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 77 21 Diálogo realizado na oficina da Escola Norma Sueli Borges. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 os saberes do seu cotidiano escolar da sua vivencia. Estratégico por ocupar um local muito significativo na junção de saberes cultural e na formação de uma cidadão crítico à ser um exemplo. Desvalorizado porque mesmo ocupando uma posição estratégica dos saberes sociais, o corpo docente não é valorizado em face dos saberes que possui e transmitem.22 Em suma, a escola hoje em dia é estruturada de uma maneira diversificada, e nesse sentido temos a cultura escolar, na qual existem uma gama de formas de pensar e agir, composta por alunos que não sabem se portar dentro de uma sala de aula, que convivem com o trafico dentro de sua própria casa, pais ausentes e demais problemas familiares muito presentes em nossa atual sociedade. O conjunto de tais fatores originam uma cultura que o individuo carrega para a escola e com isso obriga que o professor saiba utilizar das múltiplas didáticas que venham a ser coerentes para a turma que esta inserido. Isso acontecendo o professor estará praticando as três dimensões que são a humana, técnica e político cultura. Nessa época estava dialogando com as diversas abordagens e concepções vigentes sobre o ensino e o papel da escola. Mais do que a afirmação de três dimensões_ Humanas, técnicas e político-social_, o que pretendia era colocar ênfase na multidimensionalidade como o “centro configurador” de uma concepção da prática pedagógica assim como a análise.23 Parte II – Mesa dinâmica: uma relação com a realidade A segunda parte da oficina é algo prático, em que os participantes demonstrarão a habilidade criativa. Nesta etapa, existe uma mesa repleta de objetos de todos os tipos (caneta, camisinha, revolver de plástico, cachimbo de craque, papel, remédio, pulseira, livros de todos os tipos, revistas, mapa do bairro que é objeto de pesquisa do grupo PET-História, terço católico, papel higiênico, entre outros), que serviram de principio para se pensar uma matéria de história, ou seja, os objetos serão alvo de reflexões em história. Nas oficinas ministradas, existia grupos divididos, que num tempo determinado, pensariam, através do objeto, uma matéria a ser passada para os alunos. Os grupos se colocariam a pronunciar suas ideias, justificando o uso de tal objeto, o objetivo da matéria e a estratégia a ser seguida. A cargo de exemplos, uma dupla de professoras, uma de matemática e outra a pedagoga, na escola Norma Sueli Borges, desenvolveram, através do mapa do Bairro Estrela da Vitória, situado as margens da BR-050, questões sobre matemática (os quarteirões foram 22 CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. 23 CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 86 Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 metricamente construídos na formação do bairro), geografia (existia antes do bairro um aterro sanitário no local, trazendo problemas ambientais as pessoas) e, por fim, história (as ruas do bairro são denominadas com grandes personagens da história nacional, como zumbi dos palmares, entre outros). Notemos que os alunos que frequentam esta escola, aliás, boa parte deles, são do bairro em questão. Assim, a didática levantada foi a de partir da realidade do estudante, permitindo que ele veja sentido em estudar as várias matérias escolares. Uma dupla de mestrandos da Universidade Federal de Uberlândia partiu de uma revista de beleza para tratar a questão de gêneros e a história da beleza, notando a diferença entre a idealização do cabelo liso diante da sociedade brasileira, em que, predominantemente, existe mais mulheres de cabelos crespos. Foi trabalhado, enfim, o impacto disso na realidade dos alunos. Novamente, percebemos que uma revista é do entendimento do estudante; está em seu circulo, principalmente das garotas, uma revista de beleza. Por fim, um último exemplo que foi extraído em meio a tantos, uma dupla de professoras, sendo uma de história e outra de letras, partiram da bíblia para educar as crianças. A professora de letras mostrou que pode trabalhar formas de linguagem, metáforas e várias outras. Já a professora de história tinha um leque de opções enorme, como: o êxodo dos hebreus do Egito, a primeira diáspora, a segunda; modos de civilizações na mesopotâmia; culturas diferentes; história do cristianismo; etc. A difusão da religião no Brasil é enorme, não sendo diferente na cidade de Uberaba e nos bairros periféricos. Diante de exposto, concluímos que, ao contrário do que pretendíamos na confecção dessas oficinas, conseguimos extrair uma experiência enriquecedora, que nos nutriu para uma reflexão maior com a prática educativa, sendo a mesma, um grande problema nos primeiros anos de profissão docente. Afinal, percebemos na fala das professoras e de todos os participantes, a dificuldade de aplicar e desenvolver métodos de ensino que ajude o aluno a compreender a disciplina. Sobre o desenrolar dessa experiência pensamos em difundir essa contribuição educacional, que parte do que o aluno já conhece, para o conteúdo da disciplina, mantendo o educando no centro de todo o processo de aprendizagem, ajudando assim, um melhor entendimento. Referências: BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire (Coleção Primeiros Passos). São Paulo: Brasiliense, 1981. Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História – ISSN 2178-1281 CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 11ª ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2008. LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do professor). São Paulo: Cortez, 1994. MÜLLER, Angélica. Qualidade no ensino superior: a luta em defesa do Programa Especial de Treinamento. Rio de Janeiro: Garamond, 2003. VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP: Papirus, 2004.