Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/
Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos.
Realização Curso de História – ISSN 2178-1281
DIDÁTICA: REFLEXÕES SOBRE O SENTIDO DA EDUCAÇÃO
Alexandre Elias Marim1
Renato Florêncio Pavanelli Ortega2
Wellington Barros de Andrade3
(orientador) Clayton Cardoso Romano4
RESUMO:
O presente trabalho vem discutir a experiência do grupo Pet-História da Universidade Federal
do triângulo Mineiro em dois minicursos realizados para formação de professores. Um dos
minicursos foi realizado numa escola localizada no Bairro Osanâ, na cidade de Uberaba, o
outro, foi produzido na III semana de História da UFTM. O intuito foi discutir o papel da
didática em comunidades populares a partir da pedagogia freiriana. O minicurso desenvolveu
uma análise metodológica de textos relativos a educação e a didática, e concentrou esforços
em realizar pequenos teatros para representar períodos históricos, mas com participação dos
ouvintes, sendo eles, sujeitos/participantes do minicurso. Por fim, o trabalho do grupo PETHistória, estabeleceu uma mesa interativa, que continha vários objetos aleatórios encontrados
na realidade dos alunos de comunidade popular, e através desses objetos, os professores
devem pensar didaticamente a relação com a história.
PALAVRAS-CHAVE:
Didática, Educação, Comunidade Popular, Formação e Docência
A PROPOSTA
O presente trabalho irá discutir a experiência que o grupo PET – História da
Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) teve em duas oficinas, uma destinada a
Escola Norma Sueli Borges, localizada na cidade de Uberaba no bairro Osanã, as margens da
BR-050, e a outra, na III Semana de História da UFTM, que em linhas gerais, fazemos uma
reflexão sobre a educação no país, mas com o enfoque e no conceito de didática.
Cada oficina teve um desenrolar diferente, pois, trata-se de distintos grupos. Na escola
Norma Sueli o público alvo era um grupo de professoras, uma pedagoga e uma diretora,
ligadas ao ensino público. O grupo de professoras lecionavam para o ensino fundamental e
por isso, são profissionais em pleno exercício de suas funções, consequentemente, abarcadas
por todas as dificuldades e vantagens de se lecionar na rede pública de ensino. Já o grupo que
compôs a oficina da III Semana de História, estava mais ligado com a instituição
universitária, sendo mestres e graduandos, logo, são pessoas que estão deslumbrando as
pesquisas e a teoria do campo pedagógico. Dois dos membros desse grupo são mestrandos
1
Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - [email protected].
Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro – [email protected].
3
Graduando do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - [email protected].
4
Professor do curso de história da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.
2
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com ampla experiência no prática pedagógica, sendo assim, um grande fortuito tê-los para
compartilhar de seus caminhos sobre a educação vista pela prática.
O grupo PET5-História tem por sua função três objetivos que se dividem
respectivamente em três núcleos de atuação. O primeiro está responsável pela pesquisa
histórica, com a tarefa de desenvolver um artigo científico sobre os conceitos chaves para o
trabalho do grupo: memória, cotidiano e cultura popular. A função do segundo núcleo se
concentra em pensar a formação de professores e, frente a esta questão, busca no
documentário a forma de se captar e construir um trabalho para a tal finalidade. Por fim, o
terceiro núcleo, é, em suma, o braço de extensão do grupo PET, que tem a função de
reconhecimento de um bairro (objeto/sujeito de pesquisa), conhecimento e produção de um
documentário sobre a memória, cotidiano e cultura popular a partir do relato e da vivência dos
moradores do bairro. O presente trabalho foi desenvolvido pelo Núcleo de Ensino (NUPEPET) e que, através das oficinas, tenta cumprir sua função de reflexão sobre a formação de
professores.
A oficina esta dividida em duas partes; a primeira é o embasamento teórico ,discutido
para nos situarmos sobre o que é a didática durante a história do país e o que significa essa
ferramenta pedagógica para alguns especialistas no tema; a segunda parte está ligada a uma
prática que o NUPE desenvolveu para se pensar didaticamente a possibilidade de se aprender
história, partindo da realidade dos estudantes. Esta parte prática esta imbricada no raciocínio
freiriano de pedagogia e que durante a oficina será discutido e reflexionado pelos
participantes.
I – PARTE – UMA DISCUSSÃO COM A EDUCAÇÃO
No intuito de aprofundar a perspectiva histórica da didática no Brasil, utilizamos o
texto de Ilma Passos AlenCastro Veiga6. O texto traz como ponto central a transformação do
modelo educacional no Brasil desde 1549, assim como o modelo didático, que se divide
principalmente antes de 1930 e todo o período posterior. Tal divisão se dá, segundo a autora,
por conta de todo o período que antecede a inclusão da didática como disciplina no curso de
formação de professores.
5
MÜLLER, Angélica. Qualidade no ensino superior: a luta em defesa do Programa Especial de
Treinamento. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.
6
VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a didática. 21ª ed. ver. e atual. Campinas, SP: Papirus,
2004.
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Desta forma, podemos ter uma ampla compreensão de quase todas as transformações
da educação brasileira, acompanhadas pela didática, ocorreram com base na relação dialética
entre a sociedade e a realidade histórica, como será discutido mais à frente.
Refletindo sobre a forma de se apresentar a discussão que AlenCastro Veiga
desenvolve, o grupo optou por fazer uma exposição sobre o tema em relevância, como por
exemplo, o período educacional Jesuíta, para situar o participante. Na sequência, o método de
pequenos blocos teatrais cômicos, feitos para envolver o ouvinte e torná-lo sujeito criativo da
oficina, pois o mesmo se integra como personagem teatral. Por fim, uma reflexão sobre essas
interpretações que são decorrentes de cada período que a autora nos apresenta. O teatro foi
uma opção que o grupo escolheu na tentativa de torná-la mais atrativa para os diferentes
públicos, como na escola e na oficina ministrada na III Semana de História da UFTM, fugindo
assim de uma apresentação menos envolvente.
Como já dito, Ilma Passos AlenCastro Veiga faz uma discussão sobre diferente
períodos históricos, levando-nos refletir sobre a didática em cada tipo de plano pedagógico
vigente na educação brasileira. Nesse sentido, percebemos que, no início, a educação
brasileira teve um papel civilizatório e de catequese, em que a didática ou metodologia de
ensino tinha um caráter formal:
O enfoque sobre o papel da didática, ou melhor, da metodologia de ensino, como é
denominado no código dos jesuítas, esta centrado em seu caráter meramente formal,
tendo por base o intelecto, o conhecimento, e marcado pela visão essencialista de
homem.7
E a autora prossegue:
A metodologia de ensino (didática)é entendia como um conjunto de regras e normas
prescritas que visam à orientação do ensino e do estudo. Como afirma Paiva (1981,
p. 11). “um conjunto de normas metodológicas referentes à aula, seja na ordem das
questões, no ritmo do desenvolvimento e seja, ainda, no próprio processo de
ensino”.8
Como se nota, a didática no período em questão, o jesuítico, é uma forma de
orientação para o estudo, levando ao professor um conjunto de normas escritas a serem
seguidas e passadas para seus alunos. Logo, o professor é o centro de todo o processo
educacional, fazendo de seu aluno um mero receptor9.
Na leitura deste texto, percebemos o apanhado geral que a autora desenvolve para
mapear as várias didáticas e as políticas educacionais desde os jesuítas, como vimos, até após
7
VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP: Papirus, 2004, p. 34
Ibidem, p. 35.
9
Ibidem, p. 36.
8
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a LDB de 1996. Por um longo período, o Brasil se viu sobre um modelo educacional
unilateral, ou seja, a educação era oferecida para poucos, logo, a falta da educação ou
alfabetização consequentemente mantinha um grande número de civis fora de processos
eleitorais, entre outros direitos civis que hoje detemos. José Murilo de Carvalho, em “A
cidadania no Brasil”10, aponta para uma questão interessante: o único ato de cidadania que
existiu, segundo o autor, foi a abolição da escravatura. Muito pouco para um país que não
conseguiu, ainda hoje, resolver seus problemas étnicos e sociais.
Voltemos ao texto de Ilma Passos AlenCastro Veiga. Com Vargas no poder, o sistema
de ensino passa a ser pensado de outra maneira e os avanços no que se diz respeito a ensino
superior são notórios, conduzidos por Francisco Campos, ou seja, o incentivo ao nível
superior de ensino é valorizado e o Brasil inicia sua transição para o modelo de sociedade
urbana e industrial.
Quanto à didática propriamente dita, esta acaba por ser instituída como curso e
disciplina. Nesse momento, nota-se o início de uma visão mais técnica quanto ao processo de
ensino, pois, o plano de gestão deste período é de industrializar o maior país agrário do
mundo. Vargas investe no ensino técnico o que leva impulsionar e qualificar, minimamente, a
mão-de-obra nacional. Nos termos de Veiga:
A didática é entendia como um conjunto de métodos, privilegiando a dimensão
técnica do processo de ensino, fundamentada nos pressupostos psicológicos,
psicopedagógicos e experimentais, cientificamente validados na experiência e
constituídos em teoria, ignorando o contexto sociopolítico – econômico.11
Como percebemos, a base deste ensino e dessa didática era, prioritariamente, operação
do conhecimento e não emancipação pelo conhecimento. Tendo uma simples finalidade, a
educação técnica, prevê o saber fazer.
Outro debate que fica evidente entre 1945 e 1960 está diretamente ligado ao egresso
de capital externo no Brasil e à renovação do modelo educacional, destacando o modelo
privado de escola e a luta ideológica quanto a sua consolidação em meio ao ensino publico já
consolidado neste período. Tal debate ideológico acaba por ser abandonado a partir 1964, com
o golpe militar e o enrijecimento do modelo de ensino e da própria escola, consolidando de
uma vez o modelo técnico do conhecimento.
10
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 11ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
brasileira, 2008.
11
VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP: Papirus, 2004, p.
43.
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Um projeto de extensão desenvolvido na Universidade Federal de Pernambuco12, com
participação de Paulo Freire, levou à uma nova metodologia de alfabetização, cujos resultados
foram exponencialmente considerados. O método Paulo Freire, como ficou conhecido,
alfabetizava pessoas em 48 horas. Partido da realidade dos alunos, o método considerava toda
a experiência do educando em beneficio de seu próprio aprendizado. Mas com o Regime
Militar brasileiro, muitas pessoas foram proibidas de praticar e ter acesso a esse ensino, pois a
diferença deste método é politizar as pessoas e torná-las críticas de seu tempo. A politica
educacional implantada durante o regime foi um duro golpe para o Brasil.
No fim dos anos 80, com a abertura política, ou seja, a ascensão do governo civil,
percebe-se uma grande mudança no modelo educacional, ainda sobre uma certa influência do
período militar, percebe-se um esforço por parte dos próprios professores em pensar a
criticidade, o refletir sobre a sociedade e a realidade do educando, e neste contexto o modelo
de Pedagogia crítica apresenta-se como um nova forma de educação. Depois da breve
explanação sobre os modelos de didáticas oferecidos pela educação brasileira, e pensando os
anos 90 até os dias atuais, o chamado modelo neoliberal de educação, o grupo chamou para
um diálogo os participantes das oficinas para a exposição de suas considerações. Afinal, os
participantes são mestres, professores formados ainda na década de 1970, alunos de
graduação, entre outros, com diferentes visões, tempos, interpretações e formações
profissionais.
Assim, como contribuição, a Profª. Elidia Terezinha Arduine Antonio, participante da
oficina ministrada na Escola Norma Sueli Borges, aponta os critérios de avaliação externa das
escolas, como impróprio uma vez que não respeita a grande diversidade de nosso pais.
Estas questões foram fontes de grandes discussões, o que deu sentido a toda a reflexão
feita anteriormente sobre os momentos diversos da didática no cenário educacional do nosso
país.
Logo após uma breve discussão sobre os rumos que a educação brasileira tomou, o
grupo se concentrou em pensar e refletir sobre a relação da sociedade com a educação com
base no texto de José Carlos Libâneo: Capítulo 1 – Prática Educativa, Pedagogia e Didática13,
que propõe uma reflexão sobre a origem da educação e até chegar à didática junto ao
12
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire (Coleção Primeiros Passos). São Paulo:
Brasiliense, 1981.
13
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do professor). São Paulo:
Cortez, 1994.
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professor. Neste texto, nos atentamos em perceber a visão do autor na questão Sociedade e
Educação, como que essas duas esferas se relacionam e como se reflete sobre a realidade da
sociedade.
[...] A educação – ou seja, a prática educativa – é um fenômeno social e universal,
sendo uma atividade humana necessária à existência e funcionamento de todas as
sociedades. Cada sociedade precisa cuidar da formação dos indivíduos, auxiliar no
desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, prepará-los para a
participação ativa e transformadora nas várias instâncias da vida social.[...] 14
Libâneo é muito claro com suas definições. Podemos notar que a vida em sociedade
gera uma prática educativa, e na formação dos seus indivíduos é necessário para qualquer
grupo social organizado preparar seus integrantes. Isso nos leva a pensar que a Educação não
existe apenas num órgão específico e responsável para a formação e sim em várias esferas
sociais.
A questão primordial, para a oficina, é perceber que a educação é um fator
determinante e derivado da sociedade, logo, a realidade da mesma será reflexo dessa relação
dialética. Mas como pedagogia e a didática se aplicam nesta relação? Libâneo nos propõe que
a pedagogia é a ciência responsável por fazer a educação, portanto, em realizar o
conhecimento adquirido, fazendo-o aplicável na sociedade.
[...] Para compreendermos a importância do ensino na formação humana, é preciso
considerá-lo no conjunto das tarefas educativas exigidas pela vida em sociedade. A
ciência que investiga a teoria e a prática da educação nos seus vínculos com a prática
social global é a Pedagogia. Sendo a didática uma disciplina que estuda os
conteúdos, os meios e as condições do processo de ensino tendo em vista finalidade
educacionais, que são sempre sociais, ela se fundamenta na Pedagogia; é assim, uma
disciplina pedagógica.15
Isto é, para entendermos o sentido da educação é preciso buscar na sociedade
elementos necessários para que os estudantes realmente percebam que vivem em sociedade. A
didática é a disciplina da pedagogia que busca realizar esse processo, ou seja, ela tenta deixar
aplicável a teoria na prática vivida. Por meio da didática percebemos um caminho mais rápido
para expressar o que queremos, e projetar isso dentro da sala de aula.
Por fim, o autor posiciona brevemente a diferença entre modelos educacionais
vigentes. Em suas palavras:
[...] Na sociedade brasileira atual, a estrutura social se apresenta divida em classes e
grupos sociais com interesses distintos e antagônicos; esse fato repercute tanto na
organização econômica e política quanto na prática educativa. Assim, as finalidades
e meios da educação subordinam-se à estrutura e dinâmica das relações entre as
14
Ibidem, p. 16
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do professor). São Paulo:
Cortez, 1994, p. 17
15
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classes sociais, ou seja, são socialmente determinados. 16
Percebemos isso não só nas classes sociais, mas também na forma de se pensar a
História, pois, houve um debate sobre livros didáticos, em que, na maioria dos diálogos,
percebe-se uma rejeição por parte do livro, por causa da representação dos fatos históricos,
como se fossem simples consequências de desastres bélicos ou por simples mando econômico
ou uma decisão autoritária. Esse tipo de perspectiva, passa aos alunos a impressão de que a
sociedade não é sujeito da história, negando o fato de sua participação.
Tratando da didática, em específico, utilizamos para maior compreensão o texto de
Vera Maria Candau17, em que resolve fazer uma revisão do seu trabalho. Como a própria
autora explica:
Afirma, que nos últimos quinze anos a reflexão, sobre a Didática acadêmica no
Brasil foi fértil, passou por períodos de rupturas de paradigmas, desconstrução e
construção; ela afirma isso por ela não só ter sido umas das autoras do processo mas
também orientadora, supervisora de artigos e TCCs, teses entre outros, mesmo com
todos esses progressos, na sua revisão em 1996, ela inicia com uma perspectiva de
que vários pontos teriam se resolvidos: “[…] Minha primeira tendência foi
considerar que realmente essa contra posição atualmente está superada, situando-se
as principais discussões da área entre as diferentes posições […]” 18
E continua:
No entanto, depoimentos de alunos do curso de licenciatura da PUC-Rio e de
professores de 1°e 2° graus da rede pública e particular, com os quais relacionei-me
em atividades de formação e serviço na área do estado do Rio de Janeiro, tanto no
âmbito urbano quanto rural, fizera-me rever e mudar mina tendência inicial. 19
No inicio do primeiro semestre de 1996, na disciplina de didática da PUC-Rio, foi
perguntado aos alunos o que esperavam dessa disciplina, e a resposta mais frequente foi: “é
como se aprende a dar aula” e, também, “um ensino para formar profissionais que saibam
transmitir seus conhecimentos”. Mediante as circunstâncias que encontrou na academia,
Candau percebeu que a prática instrumental da didática ainda é dominante e que existe uma
enorme distância entre a reflexão acadêmica sobre o tema e as necessidades e a expectativa
dos professores novos (recém formados) da disciplina em si.
Para a autora, existem três temas que são características da didática: o cotidiano
escolar, o saber docente e, por fim, cultura escolar.
16
Ibidem, p. 18
“A formação de professores__ Da exaltação à negação: A busca da relevância” (1982) que, atualmente é
usado em produções acadêmicas, texto esse, que deu origem a organização do Seminário “A Didática em
questão” (PUC-Rio 16 a 19 de novembro de 1982). Esse seminário se tornou um movimento de revisão que
depois foi assumido pelos Encontros Nacionais de Didática e prática de Ensino (Endipe), no qual no 8° encontro
no ano de 1996.
18
CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA.
In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 75
19
Ibidem.
17
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O cotidiano escolar foi todo remodelado a partir da década de 90, que passou a
consistir na nova versão da perspectiva modernizadora, instrumental da educação e da
didática brasileiras, e isso tudo se obteve a partir dos mecanismos de avaliação que estavam
sendo aplicados nos países vizinhos. A educação foi toda reconstruída em cima de processos
avaliativos de alunos e escolas:
Gentili (1996) sintetiza o que pode ser chamado de consenso estratégico entre
tecnocratas, políticos e intelectuais neoliberais sobre como enfrentar a crise educacional atual
em dois objetivos básicos que devem articular e dar coerência às reformas educacionais
implementadas pelas diferentes reformas curriculares em países latino-americanos. Onde dois
objetivos deveriam articular e dar coerência a reforma educacional:
Mecanismo de controle de avaliação da qualidade do ensino em esfera ampla e de
maneira específica no interior das próprias intuições.
Por outro lado a necessidade de articular e subordinar a produção educacional as
necessidades estabelecidas pelo mercado de trabalho.20
Contudo as escolas se tornaram instrumentais e as faculdades também mudaram sua
grade
curricular,
formando
professores
com
uma
perspectiva
instrumental
e,
consequentemente, hoje sentimos isso nas escolas.
Em diálogo com Elidia (coordenadora e pedagógica da escola Norma Sueli Borges)
expôs na oficina ministrada a seguinte fala:
Uma vez a Regiane falou lá na sala lá, eu não concordei com ela e não comentei
com ela, e ai na reunião ela disse que não se sentia como educadora. Gente claro
que nos somos educadores, nos somos formadores de opinião, até o jeito que você
anda os meninos observa, o jeito que você fala que você age, como você atende uma
pessoa, como você atende um celular tudo.21
Diante dessa fala, percebemos a frustação de uma das professoras, ao pensar que não
se sentia uma educadora, pois, não via suas lições sendo levadas em diante por seus alunos,
mas, por outra lado, a coordenadora, demonstra que sim, elas eram educadoras, através de um
simples exemplo, como andar, falar, relacionar, etc. Percebemos que a didática, vai além de
uma teoria universitária e que se encontra na conduta dos professores, pois, esses atos
assimilados pelos alunos vão fazer relação com sua sociedade, nos moldes do que José Carlos
Libânio.
A segunda característica é o saber do professor, que é constituído de saber pluralizado,
estratégico e desvalorizado. Pluralizado por ser não somente os saberes acadêmicos, mas sim
20
CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA.
In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 77
21
Diálogo realizado na oficina da Escola Norma Sueli Borges.
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os saberes do seu cotidiano escolar da sua vivencia. Estratégico por ocupar um local muito
significativo na junção de saberes cultural e na formação de uma cidadão crítico à ser um
exemplo. Desvalorizado porque mesmo ocupando uma posição estratégica dos saberes
sociais, o corpo docente não é valorizado em face dos saberes que possui e transmitem.22
Em suma, a escola hoje em dia é estruturada de uma maneira diversificada, e nesse
sentido temos a cultura escolar, na qual existem uma gama de formas de pensar e agir,
composta por alunos que não sabem se portar dentro de uma sala de aula, que convivem com
o trafico dentro de sua própria casa, pais ausentes e demais problemas familiares muito
presentes em nossa atual sociedade. O conjunto de tais fatores originam uma cultura que o
individuo carrega para a escola e com isso obriga que o professor saiba utilizar das múltiplas
didáticas que venham a ser coerentes para a turma que esta inserido. Isso acontecendo o
professor estará praticando as três dimensões que são a humana, técnica e político cultura.
Nessa época estava dialogando com as diversas abordagens e concepções vigentes
sobre o ensino e o papel da escola. Mais do que a afirmação de três dimensões_
Humanas, técnicas e político-social_, o que pretendia era colocar ênfase na
multidimensionalidade como o “centro configurador” de uma concepção da prática
pedagógica assim como a análise.23
Parte II – Mesa dinâmica: uma relação com a realidade
A segunda parte da oficina é algo prático, em que os participantes demonstrarão a
habilidade criativa. Nesta etapa, existe uma mesa repleta de objetos de todos os tipos (caneta,
camisinha, revolver de plástico, cachimbo de craque, papel, remédio, pulseira, livros de todos
os tipos, revistas, mapa do bairro que é objeto de pesquisa do grupo PET-História, terço
católico, papel higiênico, entre outros), que serviram de principio para se pensar uma matéria
de história, ou seja, os objetos serão alvo de reflexões em história.
Nas oficinas ministradas, existia grupos divididos, que num tempo determinado,
pensariam, através do objeto, uma matéria a ser passada para os alunos. Os grupos se
colocariam a pronunciar suas ideias, justificando o uso de tal objeto, o objetivo da matéria e a
estratégia a ser seguida.
A cargo de exemplos, uma dupla de professoras, uma de matemática e outra a
pedagoga, na escola Norma Sueli Borges, desenvolveram, através do mapa do Bairro Estrela
da Vitória, situado as margens da BR-050, questões sobre matemática (os quarteirões foram
22
CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA.
In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997.
23
CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA DIDÁTICA.
In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP: Papirus. 1997. p. 86
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metricamente construídos na formação do bairro), geografia (existia antes do bairro um aterro
sanitário no local, trazendo problemas ambientais as pessoas) e, por fim, história (as ruas do
bairro são denominadas com grandes personagens da história nacional, como zumbi dos
palmares, entre outros). Notemos que os alunos que frequentam esta escola, aliás, boa parte
deles, são do bairro em questão. Assim, a didática levantada foi a de partir da realidade do
estudante, permitindo que ele veja sentido em estudar as várias matérias escolares.
Uma dupla de mestrandos da Universidade Federal de Uberlândia partiu de uma
revista de beleza para tratar a questão de gêneros e a história da beleza, notando a diferença
entre a idealização do cabelo liso diante da sociedade brasileira, em que, predominantemente,
existe mais mulheres de cabelos crespos. Foi trabalhado, enfim, o impacto disso na realidade
dos alunos. Novamente, percebemos que uma revista é do entendimento do estudante; está em
seu circulo, principalmente das garotas, uma revista de beleza.
Por fim, um último exemplo que foi extraído em meio a tantos, uma dupla de
professoras, sendo uma de história e outra de letras, partiram da bíblia para educar as crianças.
A professora de letras mostrou que pode trabalhar formas de linguagem, metáforas e várias
outras. Já a professora de história tinha um leque de opções enorme, como: o êxodo dos
hebreus do Egito, a primeira diáspora, a segunda; modos de civilizações na mesopotâmia;
culturas diferentes; história do cristianismo; etc. A difusão da religião no Brasil é enorme, não
sendo diferente na cidade de Uberaba e nos bairros periféricos.
Diante de exposto, concluímos que, ao contrário do que pretendíamos na confecção
dessas oficinas, conseguimos extrair uma experiência enriquecedora, que nos nutriu para uma
reflexão maior com a prática educativa, sendo a mesma, um grande problema nos primeiros
anos de profissão docente. Afinal, percebemos na fala das professoras e de todos os
participantes, a dificuldade de aplicar e desenvolver métodos de ensino que ajude o aluno a
compreender a disciplina. Sobre o desenrolar dessa experiência pensamos em difundir essa
contribuição educacional, que parte do que o aluno já conhece, para o conteúdo da disciplina,
mantendo o educando no centro de todo o processo de aprendizagem, ajudando assim, um
melhor entendimento.
Referências:
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é método Paulo Freire (Coleção Primeiros Passos).
São Paulo: Brasiliense, 1981.
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CANDAU, Vera Maria. DA DIDÁTICA FUNDAMENTAL AO FUNDAMENTAL DA
DIDÁTICA. In:______ALTERNATIVAS NO ENSINO DE DIDÁTICA. Campinas, SP:
Papirus. 1997.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 11ª ed. Rio de
Janeiro: Civilização brasileira, 2008.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. (Coleção Magistério. 2º grau. Série formação do
professor). São Paulo: Cortez, 1994.
MÜLLER, Angélica. Qualidade no ensino superior: a luta em defesa do Programa
Especial de Treinamento. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro (coord.). Repensando a Didática. ed. 21. Campinas, SP:
Papirus, 2004.
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