XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
A INFLUÊNCIA DA MÚSICA NA LÍNGUA PORTUGUESA:
ERROS QUE SE ACARRETAM DEVIDO À LICENÇA POÉTICA
Paula Elisie Madoglio Izidoro
(G - CLCA - UENP/CJ)
Ms Eva Cristina Francisco
(CLCA - UENP/CJ)
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo apresentar o fruto de pesquisas sobre letras de músicas
atuais baseadas em sua licença poética. Os erros gramaticais que encontramos nessas
composições acabam sendo trazidos ao cotidiano levando as pessoas ao erro mesmo que
subliminarmente. Podemos perceber que a música é muito mais acessível e absorvida no
nosso dia a dia do que as próprias regras gramaticais que nos capacitam falar e escrever
dentro da norma culta. Desse modo pretendemos analisar algumas composições musicais
apontando os erros e os comparando à escrita normativa que ali deveria estar ao invés
de tantos equívocos encontrados dentro das letras das músicas que tantas vezes
ouvimos e frequentemente não percebemos a forma coloquial em que são compostas.
Palavras-chave: Música; Licença Poética; Erros.
1 INTRODUÇÃO
Vivemos em uma época na qual a gramática se encontra cada vez mais longe de
ser executada dentre os meios de comunicação. Internet, televisão, músicas são fatores
que contribuem para essa distância entre nós e a língua portuguesa em sua norma culta.
A cada dia esses fatores vão ocupando o lugar do bom português, influenciando-nos ao
afastamento da fala dentro da norma culta.
Como exemplos, temos as músicas que, muitas vezes, apresentam erros
gramaticais. No entanto, não podemos considerá-las erradas, pois além da licença nos
deparamos com questões linguísticas. A licença poética parece confusa, mas se
analisarmos
seu
fundamento
entenderemos.
Ela
protege
o
que
consideramos
gramaticalmente errado em músicas, poemas e quaisquer demonstrações culturais.
Esses erros são aceitos no intuito da musicalidade, rimas, sonoridade, entre outras
finalidades existentes na arte musical.
Cristiana Gomes, para o site InfoEscola, explica:
Como o próprio nome já diz, a licença poética concede uma certa liberdade
ao artista para que ele possa expressar toda a sua criatividade, sem estar preso
às regras gramaticais ou métricas. Quando o artista faz uso da licença poética,
nós leitores, podemos encontrar textos criativos, nos quais o autor pôde usar as
palavras do seu jeito, sem seguir às regras (...)A licença poética está presente
nas propagandas e também em textos literários. (www.infoescola.com.br)
58
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Assim, esses recursos utilizados na música não podem ser considerados errôneos,
pois acontecem para que ela fique clara, para que as palavras entrem em sintonia com a
melodia, embora cause transtornos aos ouvidos dos defensores da gramática normativa.
Não seriam necessários muitos esforços, para saber o quanto a influência da
música supera a influência da gramática em nossas vidas. Podemos chegar a essa
conclusão com a simples situação de nos perguntar quanto tempo levamos para decorar
uma música e uma regra gramatical. Para a realização desse trabalho e corroboração
dessa afirmação contamos com uma pesquisa desenvolvida entre os alunos do Centro de
Letras Comunicação e Artes e Centro de Ciências Humanas e da Educação, da UENP,
Universidade Estadual do Norte do Paraná, campus Jacarezinho.
Ao ouvirmos uma música, com poucas repetições já podemos cantá-las o dia
todo. Essas palavras ficam em nossa mente e quando precisamos escrever algo em que
temos que usar essas mesmas palavras, muitas vezes acabamos escrevendo de forma
errada, pois nosso cérebro de muito ouvi-las, começa a reconhecê-las como a versão
correta, fazendo assim com que cometamos erros inconscientemente.
2 OS “ERROS” COMETIDOS NAS MÚSICAS: UMA BREVE ANÁLISE
Após algumas considerações sobre o uso incorreto da língua portuguesa em sua
norma culta, presentes na arte da música graças à licença poética, vale destacar
algumas letras musicais apontando certos erros e apresentando sua forma correta.
Podemos
perceber
erros
de
regência,
concordância,
entre
outros,
tais
como
apresentamos a seguir:
Na
música
Malandragem,
de
Cazuza
e
Frejat
(anexo
1),
vemos
que
O verso “Quem sabe eu ainda sou uma garotinha” usa o verbo ser de forma inadequada,
pois a expressão quem sabe aponta uma dúvida, uma hipótese, e sou indica um fato,
uma certeza, então essa indicação de dúvida feita pelo verbo ser no tempo presente do
modo subjuntivo seria conjugada como que eu seja. O correto então seria quem sabe eu
ainda seja uma garotinha.
Analisando também a música Equalize, da cantora Pitty (anexo 2), encontramos o
trecho que diz: “Quando tenta me convencer que eu só fiquei aqui...” há a inadequação
de regência verbal, já que para usarmos o verbo convencer devemos usar também a
preposição de, pois quando convencemos alguém, convencemos alguém de algo.
Dizemos, por exemplo, vou convencê-lo de que ele está errado, e não, vou convencê-lo
que ele está errado.
59
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Outro equívoco também é localizado, na mesma letra, no trecho Porque você sabe
o que eu gosto. Neste também encontramos inadequação de regência verbal com o
pronome relativo. O verbo gostar também obriga usarmos a preposição de, já que
gostamos de chocolate, gostamos de viajar, e não, gostamos chocolate, gostamos viajar,
então devemos colocar a preposição antes do pronome relativo que. Sendo assim a
forma correta desta frase seria: porque você sabe do que gosto.
Partindo para próxima análise, veremos agora a música Me chama cantada por
Lobão (anexo 3).Os versos Aonde está você / me telefona / me chama, me chama, me
chama, possui três inadequações gramaticais:
1. O uso de onde, aonde e de onde: Onde significa em algum lugar, por exemplo, não sei
onde meu celular está, o que indica que meu celular está em algum lugar fixo, um lugar
determinado; aonde, a algum lugar, exemplo na frase, aonde você está indo agora?,
indica que alguém está indo a algum lugar, e de onde por sua vez, de algum lugar, ‘de
onde você veio?’ Também indica movimento, a vinda de alguém a algum lugar. Como o
cantor Lobão usa o verbo estar, ele refere-se a algo ou alguém que está em algum lugar,
então deveríamos dizer, onde você está.
2. Não se inicia uma frase com um pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, lhe, nos,
vos, os, as, lhes). Nesta situação seria adequado então, telefona-me / chama-me,
chama-me,
chama-me.
3. Pedido, ordem ou conselho, através de verbo, fazem-se da seguinte forma: se o
interlocutor for tratado pelo pronome tu, coloca-se o verbo diante da frase:
Todos os dias tu... retirando a letra S no verbo.
Todos os dias tu me telefonas; retirando a letra S: telefona-me tu.
Todos os dias tu me chamas; retirando a letra S: chama-me tu.
Caso o interlocutor seja tratado pelo pronome você, coloca-se o verbo diante da
frase: Espero que você..., sem retirar letra alguma:
Espero que você me telefone: telefone-me você;
Espero que você me chame: chame-me você.
Acompanhando o raciocínio desta análise, podemos concluir que esse trecho da
música de Lobão ficaria desta forma: Onde está você / telefone-me / chame-me, chameme, chame-me.
Também podemos destacar erros na música Tenho sede, de Dominguinhos e
Anastácia, gravada por Gilberto Gil (anexo 4):
60
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
No primeiro verso achamos a frase: Traga-me um copo d'água, tenho sede, e nos
últimos, Meu coração só pede o teu amor / Se não me deres posso até morrer.
Desta vez o erro é quanto à inadequação do uso do imperativo. Todos os dias tu
trazes, se retiramos o S: Traze-me o café da manhã. Espero que você traga: Traga-me o
café da manhã. Há, portanto, desuniformidade de tratamento. O correto seria ou mudar
o primeiro verso, usando a segunda pessoa do singular, tu (Traze-me), ou mudar os dois
últimos versos, fazendo concordar com o pronome você, terceira pessoa: Meu coração só
pede
o
seu
amor
/
Se
não
me
der
posso
até
morrer.
Já na música, Eu sei que vou te amar, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. (anexo
5) Quando há dois verbos, sendo que um deles está no infinitivo, ou seja, ainda não
conjugado, no gerúndio (ando, endo, indo) ou no particípio (ado, ido), acontece a
locução verbal.
Com o verbo no infinitivo, há duas formas de se colocar o pronome oblíquo: junto
do primeiro verbo, fazendo com que fique, vou te amar, ou então, depois do infinitivo,
vou amar-te. Mas neste caso, isto não é permitido, já que como antes do primeiro verbo,
há a conjunção que, que sempre atrai o pronome oblíquo para perto de si, as colocações
possíveis do pronome te são as seguintes:
Eu sei que te vou amar.
Eu sei que vou amar-te.
Ainda com as análises, no caso da música: Eu nasci há dez mil anos atrás, de Raul
Seixas e Paulo Coelho (anexo 6), não fica adequado usar o verbo haver, que indica
tempo decorrido com o advérbio atrás, que também indica tempo decorrido, já que são
duas informações exatamente iguais com grafias diferentes.
Com apenas estas informações ainda não é possível esclarecer totalmente nossas
dúvidas, já que são palavras distantes do nosso vocabulário, mas se observarmos a
frase, ‘vou lhe entregar a você’ ou então ‘traga-me pra mim’ tanto o lhe como o me, são
pronomes que indicam a pessoa, então não requer o pronome você e o mim na frase, já
que também indicam a pessoa. Concluímos então que duas palavras que indicam a
mesma coisa, em questão, o tempo decorrido em uma frase, fica de forma inadequada.
As
maneiras
corretas
deste
trecho
da
música
então
seriam:
“Eu nasci há dez mil anos” ou então “Eu nasci dez mil anos atrás”.
Veremos agora, em Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda (anexo 7): Logo nos
primeiros versos já observamos, Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou
morreu. Este é um erro extremamente comum nos dias de hoje, usar o verbo ter, no
sentido de existir. Sabendo que o único verbo que substitui existir, é haver e vice-versa.
Então correto seria, há dias/existe dias, e não, tem dias. Outra inadequação é a falta da
61
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
preposição em antes de pronome relativo que. A gente se sente de algum modo em
algumas vezes, em algumas horas.
Após isto, podemos observar que o correto neste trecho seria, Há dias em que a gente se
sente
como
quem
partiu
ou
morreu.
Agora veremos um erro comum e não muito difícil de ser percebido, na música A
cada dez palavras, do trio KLB, (anexo 8) podemos notar no refrão quando ele diz, a
cada dez palavras que eu falo, onze é você, que há o verbo ser no singular, mas
sabemos que onze é plural, logo notamos que o correto nesta ocasião é dizermos que a
cada dez palavras que eu falo, onze são você.
Um mesmo erro em duas músicas e em outras mais. O cantor Roberto Carlos há
anos embala os apaixonados que mal sabem que estão cantando errado. Em sua música
Eu te amo, eu te amo, eu te amo (anexo 9), ele usa dois pronomes pessoais, o tu e o
você, já que ele diz eu te amo, e logo mais, quase morrendo de saudades de você.
Mesma coisa com Marisa Monte, que em sua música, Amor, I love you, (anexo 10), na
frase deixa eu dizer que te amo, o pronome te é associado a tu, e quando ela diz, deixa
eu gostar de você, ela automaticamente muda a pessoa do pronome, ou seja, fugindo
das normas cultas da língua, já que a língua portuguesa não suporta uma frase em que
se trate de ‘duas pessoas diferentes’.
Partindo agora para a música ‘Samba de volta’, de Vinícius de Moraes, utiliza-se
no verso: “ah, você se derreteu e se atirou, me envolveu, me brincou”. Neste caso,
existe um erro de colocação pronominal, já que não se usa o pronome oblíquo “me”
após a vírgula nem em início de períodos. Além disso, há uma quebra da regência do
verbo
“brincar”,
pois
foi
restringido
da
preposição
com
que
o
acompanha,
transformando o verbo em transitivo direto. O correto seria: brincou comigo, porém, a
intenção não foi dizer que eles brincaram juntos, mas sim que ela fez uso dele como o
seu “brinquedo”.
Observaremos agora a música ‘do lado de cá’ (anexo 11), do grupo Chimarruts,
que logo de início diz, Se a vida às vezes dá uns dias de segundos cinzas
e o tempo tic taca devagar, podemos ver que há o famoso ‘tic e tac’, que se refere ao
ruído provocado pelos relógios, porém na música ele está empregado como se fosse
verbo, sendo que essa palavra não passa de uma figura de linguagem classificada como
onomatopéia na qual pode-se reproduzir sons semelhantes à algumas coisas.
Vejamos agora a música Pratododia do grupo Teatro Mágico (anexo 12):
A começar pelo título, Pratododia, percebemos que existem duas possibilidades
de significado se fôssemos separar o vocábulo: “Prato do dia” e “Pra todo dia”. Ambos
seriam validos na interpretação da música já que o tema é sobre o alimento e o arroz
com feijão é a comida típica brasileira consumida praticamente todos os dias.
62
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Podemos observar que o nome dado à canção não pertence ao grupo de
palavras consideradas pela norma culta, mas os ouvintes conseguem identificar que não
foi inventada uma palavra à toa, é nítido que por trás dela tem o desejo do compositor
de, através da ambigüidade, despertar o raciocínio e até mesmo a curiosidade humana.
E em seus trechos, quando o compositor diz Como feijão e arroz que só se
encontram depois de abandonar a embalagem, aparentemente é um amor entre o arroz
e feijão, coisa impossível que só foi posto ali para que haja uma comparação. Seguindo
com o trecho: Me jogo da panela pra nela eu me perder, me sirvo a vontade, que
vontade de te ver, o dia do prato chegou é quando eu encontro você. Neste trecho
notamos claramente a função da licença poética, pois literalmente, seria um tanto
impossível cozinhar um homem em uma panela, e servi-lo como prato do dia para que
ele encontre sua companheira. Mas podemos entender o que se quer passar para os
ouvintes, o que é o importante. O uso da conotação é muito eficaz nesse sentido.
Na composição dessa última letra de música analisada tivemos a oportunidade
de ver que esses erros, foram intencionais, foram erros que seus compositores fizeram
de caso pensado com uma determinada finalidade e não por um descuido ou pela falta
de conhecimento. Quando há um suposto erro como estes nas músicas, as pessoas
conseguem detectar o intuito do compositor. Muitas delas são capazes de separar o
‘erro’ da linguagem culta.
Agora, erros como na música da cantora Pitty, Lobão, Roberto Carlos, entre
outros citados acima, encontramos algumas dificuldades em detectar se a fuga à norma
culta foi mesmo intencional. Pelo motivo de serem protegidos pela licença poética,
muitos compositores, que em algumas vezes sem conhecimento o suficiente para
escrever determinada música, acabam influenciando o português daquelas pessoas que
as ouvirão. Mesmo não passando de uma forma para reproduzir a arte, acaba sim,
atrapalhando o nosso dia a dia, fazendo com que erremos onde não há licença poética
para cobrir os nossos erros.
Essas foram algumas das infindáveis músicas que fogem da norma culta da
língua, porém não podemos apontá-las como erradas, pois já como já mencionamos
antes há a licença poética que as protegem, fazendo com que essas coisas que nós
chamamos de erro, não passe de uma modificação para que a música e a letra se
encaixem em uma perfeita melodia, ou para que a obra de arte fique mais criativa, ou
que através dela o ‘erro’ seja uma ironia ou uma crítica ao senso comum.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
63
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Com base nas considerações anteriores, podemos detectar que a licença
poética deve ser exercida de maneira consciente, quem vai usá-la deve saber como
fazer, pois fazer valer a licença poética pode ser mais difícil que abrir um dicionário ou
uma gramática e ver como um determinado verbo é escrito e se ele requer preposição ou
não, comprovamos esta afirmação com base nas palavras de Tambelli, que diz acreditar
que “a licença poética é sempre válida, porém o escritor deve conhecê-la para colocá-la
em prática” (TAMBELLI, 2008).
Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Mário de Andrade, Manuel Bandeira,
Raul Bopp e outros poetas modernistas tinham conhecimento completo da criação
poética clássica, porém, viveram em um tempo de ampliação no campo poético: métrica,
rima, ritmo e suas formas fixas de gêneros épicos e líricos. Eles estão inclusos no
modernismo, que tem um olhar diferente à realidade social que estava em construção no
início do Século XX, devido a isso buscavam maneiras de representá-la com maior
verossimilhança na literatura.
E ainda continua sua defesa de que atualmente há muita literatura sem
qualidade, que fizeram uma interpretação errônea dos modernistas. Hoje os poetas que
se classificam como profissionais creem não ser preciso conhecer métrica, rima, ritmo,
versos alexandrinos, heróicos, figuras de linguagens, etc. porque acreditam serem
elementos ultrapassados do poema.
Ou seja, a licença poética foi criada no modernismo, no qual os escritores
queriam revolucionar a escrita e a partir do neologismo isso foi acontecendo. Como a
licença poética persiste até hoje, compositores que cometem erros graves, acabam
sendo protegidos também. Tornando impossível a correção dessas músicas fazendo com
que o ouvinte se adapte a essa maneira de falar/escrever e escreva também, o que lhe
fará escrever errado sem ao menos saber ou perceber.
E para confirmar o quanto a música tem influência sobre nós, e o quanto a
licença poética acaba “estragando” o português, o resultado da pesquisa desenvolvida no
nosso campus mostrou que a freqüência com que esses estudantes ouvem músicas é
muito maior do que a freqüência com que estudam a língua portuguesa ou se interessam
por ler algo escrito na norma culta. Além disso, todos os alunos entrevistados
responderam que ouvem músicas todos os dias, independente do lugar e situação. Em
relação ao tempo consumido para decorar uma música, os entrevistados foram rápidos
nas respostas, dizendo que decoram músicas escutando-as de uma a quatro vezes. Já ao
tentar decorar uma regra ortográfica, alguns preferiram não responder e os que
responderam mostraram dificuldades quanto a decorar a regra. Desse modo, podemos
observar que a música tem muito mais influência em nossas vidas que a própria língua
portuguesa em sua norma culta.
64
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
O que nos resta a fazer a partir daí? Nós como defensores de um bom
português não poderemos ficar de mãos atadas e ver tudo que prezamos sendo diluído
em um mar de erros. Não basta sabermos que a licença poética existe e está tudo bem.
Todos sabem que a licença poética deixa as poesias e músicas deslumbrantes, se bem
aplicada, porém não podemos deixá-la influenciar nossa comunicação escrita na norma
culta.
Desse modo, como a ortografia foi atualizada recentemente para facilitar a
escrita, por que a licença poética não pode sofrer essa reciclagem e estabelecer
parâmetros e limites na escrita? Desta maneira, as músicas hoje, supostamente erradas,
realmente seriam apontadas como erradas e seus compositores se preocupariam mais
em suas próximas composições, fazendo assim com que a música chegue num melhor
estado ortográfico aos ouvidos das pessoas, que cometeriam menos erros em seu dia-adia.
4 REFERÊNCIAS:
A LICENÇA POÉTICA. Disponível em: http://www.webartigos.com - último cesso em 15 de maio de 2011. LICENÇA POÉTICA
E A JUSTIFICATIVA DE DIFERENTES AUTORES publicado em 30/03/2011 por Fernanda Rizzo Sanchez cesso em 15 de
maio de 2011.
LETRAS LÍNGUA PORTUGUESA. www.infoescola.com/literatura/licenca-poetica/ Último acesso em 15 de maio de 2011
LETRAS. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ último acesso em 15 de maio de 2011
A LICENÇA POÉTICA É ATITUDE CONSCIENTE – publicado em 16/06/2008 por Alexandre Tambelli
MÚSICAS EM LÍNGUA PORTUGUES. Músicas disponíveis no site www.vagalume.com.br
ANEXOS:
Anexo 1
Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três-quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança e não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Bobeira é não viver a realidade
E eu ainda tenho uma tarde inteira
Eu ando nas ruas, eu troco um cheque
65
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar
Anexo 2
Às vezes se eu me distraio
Se eu não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
que vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito
Enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho tão de perto
e me balanço devagar
Como quando você me embala
O ritmo rola fácil
Parece que foi ensaiado
E eu acho que eu gosto mesmo de você!!!
Bem do jeito que você é!!
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim
Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tenta me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais
Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar
E o tempo é só meu
Ninguém registra a cena de repente
Vira um filme todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim
Anexo 3
Chove lá fora e aqui, faz tanto frio
Me dá vontade de saber
Aonde está você
Me telefona
Me chama, me chama, me chama
Nem sempre se vê
Lágrimas no escuro, lágrimas no escuro
Lágrimas, cadê você
66
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Tá tudo cinza sem você
Tá tão vazio
E a noite fica sem porque
Aonde está você, me telefona
Me chama, me chama, me chama
Nem sempre se vê
Mágicas no absurdo, mágicas no absurdo
Anexo 4
Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem
O teu olhar
A planta pede chuva quando
Quer brotar
O céu logo escurece quando
Vai chover
Meu coração só pede o teu amor
Se não me deres posso até morrer
Anexo 5
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu Sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar,
Mas cada volta Tua há de apagar
O que essa ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver a espera
De viver ao lado teu
Por Toda a minha vida.
Anexo 6
Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada
Com uma cuia de esmola e uma viola na mão
O povo parou pra ouvir, ele agradeceu as moedas
E cantou essa música, que contava uma história
Que era mais ou menos assim:
Refrão
Eu nasci há dez mil anos atrás
e não tem nada nesse mundo que eu não saiba de mais (2x)
Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados,
Eu vi,
Eu vi Moisés cruzar o mar vermelho
Vi Maomé cair na terra de joelhos
67
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho
Eu vi,
Refrão
Eu vi as velas se acenderem para o Papa
Vi Babilônia ser riscada do mapa
Vi conde Drácula sugando o sangue novo
e se escondendo atrás da capa
Eu vi,
Eu vi a arca de Noé cruzar os mares
Vi Salomão cantar seus salmos pelos ares
Eu vi Zumbi fugir com os negros pra floresta
pro quilombo dos palmares
Eu vi,
Refrão (2x)
Eu vi o sangue que corria da montanha
quando Hitler chamou toda a Alemanha
Vi o soldado que sonhava com a amada numa cama de campanha
Eu li,
Eu li os simbolos sagrados de Umbanda
Eu fui criança pra poder dançar ciranda
E, quando todos praguejavam contra o frio,
eu fiz a cama na varanda
Refrão(4x)
Eu tava junto com os macacos na caverna
Eu bebi vinho com as mulheres na taverna
E quando a pedra despencou da ribanceira
Eu também quebrei a perna
Eu também,
Eu fui testemunha do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu
E praquele que provar que eu tou mentindo
eu tiro o meu chapéu
Refrão
Anexo 7
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
68
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)
Anexo 8
Faz tanto tempo que eu venho te seguindo
conheço passo a passo todos os seus caminhos
sei a hora que acorda e a hora em que vai dormir
sei tudo de você, e você nada sabe sobre mim
Eu descolei pra mim
o seu telefone
e te liguei, mas eu não quis falar meu nome
tive medo e quando ouvi a sua voz, na hora desliguei
e confesso na verdade me faltou coragem pra dizer
A cada dez palavras que eu falo, onze é você
cada rosto que eu olho, em todos vejo você
tentei mil vezes te esquecer mais no fim
Mil vezes desejei você só pra mim.
Dei um tempo
uma hora ou um pouco mais
até criar coragem pra te falar
mas antes de ligar de novo
quis tentar uma vez mais
e assim ter forças pra te encarar ...
(bis)A cada dez palavras que eu falo, onze é você
cada rosto que eu olho, em todos vejo você
tentei mil vezes te esquecer mais no fim
Mil vezes desejei você só pra mim.
Anexo 9
Tanto tempo longe de você
Quero ao menos lhe falar
A distância não vai impedir
Meu amor de lhe encontrar
Cartas já não adiantam mais
Quero ouvir a sua voz
Vou telefonar dizendo
Que eu estou quase morrendo
De saudade de você
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Eu não sei por quanto tempo eu
Tenho ainda que esperar
Quantas vezes eu até chorei
Pois não pude suportar
69
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Para mim não adianta
Tanta coisa sem você
E então me desespero
Por favor meu bem eu quero
Sem demora lhe falar
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Mas o dia que eu puder lhe encontrar
Eu quero contar o quanto sofri
Por todo esse tempo
Que eu quis lhe falar
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Cartas já não adiantam mais
Quero ouvir a sua voz
Vou telefonar dizendo
Que eu estou quase morrendo
De saudade de você
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Mas o dia que eu puder lhe encontrar
Eu quero contar o quanto sofri
Por todo esse tempo
Que eu quis lhe falar
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Eu te amo, eu te amo, eu te amo
Anexo 10
Se a vida às vezes da uns dias de segundos cinzas
e o tempo tic taca devagar
Põe o teu melhor vestido, brilha teu sorriso
Vem pra cá, vem pra cá
Se a vida muitas vezes só chuvisca, só garoa
e tudo não parece funcionar
Deixe esse problema à toa, pra ficar na boa
Vem pra cá
Do lado de cá, a vista é bonita
a maré é boa de provar
Do lado de cá, eu vivo tranquila
E o meu corpo dança sem parar
Do lado de cá, tem música, amigos e alguém para amar
Do lado de cá
Se a vida às vezes da uns dias de segundos cinzas
e o tempo tic taca devagar
Põe o teu melhor vestido, brilha teu sorriso
Vem pra cá, vem pra cá
Se a vida muitas vezes só chuvisca, só garoa
e tudo não parece funcionar
Deixe esse problema à toa, pra ficar na boa
Vem pra cá
Do lado de cá, a vista é bonita
a maré é boa de provar
Do lado de cá, eu vivo tranquila
E o meu corpo dança sem parar
Do lado de cá, tem música, amigos e alguém para amar
Do lado de cá
A vida é agora, vê se não demora,
70
XI C ON G R ES SO D E E D U C AÇ Ã O DO NORT E PI ON EI R O
Educar para a Emancipação:
a Reorganização da Escola e do Espaço Pedagógico
U E NP -C C H E -C L C A– C A M PU S J A C AR E ZI N HO
A N AI S – 2 0 1 1
I SS N – 1 8 0 8 -3 5 7 9
Pra recomeçar é so ter vontade de felicidade pra
pular
Do lado de cá, a vista é bonita
a maré é boa de provar
Do lado de cá, eu vivo tranquila
E o meu corpo dança sem parar
Do lado de cá, tem música, amigos e alguém para amar
Do lado de cá
Anexo 11
Como arroz e feijão,
é feita de grão em grão
Nossa felicidade
Como arroz e feijão
A perfeita combinação
Soma de duas metades
Como feijão e arroz
que só se encontram depois de abandonar a embalagem
Mas como entender que os dois
Por serem feijão e arroz
Se encontram só de passagem
Me jogo da panela
Pra nela eu me perder
Me sirvo a vontade, que vontade de te ver
O dia do prato chegou é quando eu encontro você
Nem me lembro o que foi diferente!
Mas assim como veio acabou e quando eu penso em
você
Choro café e você chora leite
Choro café e você chora leite
Para citar este artigo:
IZIDORO, Paula Elisie Madoglio. A influência da música na língua portuguesa: erros
que se acarretam devido à licença poética. In: XI CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO
NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2011. Anais...UENP – Universidade Estadual do Norte do
Paraná – Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de Letras Comunicação e
Artes. Jacarezinho, 2011. ISSN – 18083579. p. 58- 71.
71
Download

Paula Elisie Madoglio Izidoro