ENGENHARIA/2010
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JOGOS
LÓGICOS
JOGOS LÓGICOS
(Momento cultural: as mulheres, em geral, nos acusam de machismo por não
conseguirmos entendê-las. É? Será? E
quando, como no caso de Noel Rosa, o
compositor assume uma visão feminina
nos versos da canção? Estes, os versos de Pela Primeira Vez: “Joguei meu
cigarro no chão e pisei / sem mais nenhum / aquele mesmo apanhei e fumei /
através da fumaça / neguei minha raça, /
chorando a repetir / ele é o veneno / que
eu escolhi / para morrer sem sentir”.
Quando ouvi Dalva de Oliveira cantando estes versos, me reconciliei com os
cantores e os cantares de uma época
que eu considerava “velharia inútil”)
às vezes interrompido para um chazinho com
brioches. E é assim a reissite:
I) Depois de bem embaralhadas, as cartas são
dispostas em quatro filas de oito cartas, costas
voltadas ao jogador.
II) O jogador escolhe uma carta qualquer ao acaso
e a “abre”. Suponhamos que seja o rei de copas.
O jogador escolhe uma das filas para o naipe de
copas. Nesta fila, o rei ocupa a penúltima posição.
O jogador retira então a carta que ocupa a posição
do rei de copas, a substitui pelo rei, verifica a nova
carta e sua posição nas filas e procede a troca devida. O jogo se interrompe em duas situações:
(1) uma das cartas abertas ocupa o lugar vago pela
primeira carta aberta; neste caso, pode-se abrir,
ao acaso, uma outra carta qualquer e recomeçar
o jogo; (2) a carta virada é a carta deste mesmo
local; neste caso, fica a critério do jogador, partir
para a abertura de uma outra carta ou considerar
que deu tudo errado e encerrar o jogo.
1. Férias infantis em tarde de chuva
Quando você já não aguentar mais o barulho dos
tiros disparados pelo seu pimpolho no videogame
e quando começar a lhe fazer mal a visão dos
personagens ensanguentados pela pancadaria e
pelos tiros de seu pimpolho no mesmo videogame
que ocupa a tela de sua televisão, proponha a ele
um novo/velho passatempo muito mais civilizado
e silencioso – os jogos com baralhos.
Do ócio da corte francesa nos vieram as Réussites
e as Patiences, definidas como, para as réussites
como jogos para um só jogador, que dependem
apenas da sorte. É sim ou não, ou “dão certo” ou
“dão errado”. As patiences são definidas como
jogos que permitem, aos jogadores, escolher a
alternativa que, a cada momento, possa levar o
jogo ao resultado desejado.
Não conheço tradução para réussite; acho que, no
Brasil, réussites e patiences se tornam apenas Paciências; na falta de melhor terminologia, usarei os
termos reissite (fonética de réussite) e paciência.
Pode-se usar baralhos com 32 e com 52 cartas. O
de 32 cartas é composto com as cartas 7 (sete), 8
(oito), 9 (nove), 10 (dez), J (valete), Q (dama), K (rei)
e A (ás) – com oito cartas em cada naipe e, o de 52
cartas é composto com as cartas de A (ás ou um)
a K (rei) – com treze cartas em cada naipe.
b. Robespierre
Eu me divertia, em minhas horas de ócio (que
saudades!) com uma reissite mais complexa que
esta, apesar de usar a mesma estrutura. Na falta
de um nome, chamemo-la de Robespierre, por
motivos que se farão óbvios.
Usa-se o baralho de 52 cartas que, devidamente
embaralhadas, são dispostas em quatro filas de 12
cartas, sobrando quatro que são postas à parte.
As filas devem ser preenchidas com as cartas de
A a Q (de ás a rainha), uma fila para cada um dos
naipes, escolhidos à vontade.
Distribuídas as cartas, abre-se uma das quatro
cartas postas à parte. Que seja um três de ouros;
ela substituirá a terceira carta da fila dos ouros; que
seja a carta substituída o nove de paus; substituirá
a nona carta da fila dos paus e por aí afora.
Quando uma das cartas retiradas das filas for
um rei, ela será posta à parte. Abre-se então a
segunda das quatro cartas separadas no início
do jogo e recomeça-se o jogo.
A reissite dará certa se todas as cartas forem corretamente colocadas em suas posições, ou seja, se
a última carta aberta na mesa for o quarto rei.
Por “guilhotinar” os reis, retirando-os da mesa
é que proponho o nome de Robespierre para
esta reissite.
Reissites de 32 cartas
a. Marie Antoinette
Autores franceses nos asseguram que este era o
passatempo predileto da “guilhotinável” rainha,
em suas longas tardes de ócio em Versalhes,
c. Separando naipes
Esta reissite consiste em se conseguir separar
de um baralho de 32 cartas, em três tentativas,
todas as cartas de um certo naipe, escolhido ao
acaso pelo jogador.
Por Reginaldo Assis de Paiva*
www.brasilengenharia.com.br
“Bate-se” um baralho de 32 cartas e, a seguir,
abrem-se 15 cartas sobre a mesa, recolhendose as que forem do naipe escolhido. “Bate-se”
novamente o baralho, sem as cartas retiradas na
operação, abrem-se, de novo 15 cartas, retirandose as cartas que forem do naipe escolhido e se
recomeça, uma terceira vez o processo.
Se, nesta última abertura, forem recolhidas
as últimas cartas do naipe escolhido a reissite
deu certo.
Desafio
Aos matemáticos de padrão, fica o desafio: qual
a probabilidade de que esta reissite dê certo?
Relembrando os dados:
a. Do baralho de 32 cartas abrem-se 15 cartas
e, dentre estas 15; separam-se as n cartas que
pertencem a um naipe predeterminado (o baralho
possui oito cartas de cada naipe).
b. Do novo baralho, com (32 – n) cartas, abrem-se
novas 15 cartas, separando-se as m cartas que
sejam do naipe anteriormente selecionado.
c. Do novo baralho, com [32 – (n + m)] cartas,
abrem-se novas 15 cartas, separando-se as cartas
que sejam do naipe anteriormente selecionado.
Pergunta-se: qual a probabilidade de que, nestas
três aberturas de 15 cartas, se consiga separar as
oito cartas do naipe escolhido?
PROBLEMAS NEM TANTO
1. Branca Heloisa
Juan Garrido me envia um teste, por ele recebido de Branca Heloisa (seria parente da Rosa
Maria?) proposto nos seguintes termos:
Se,
2+ 3 = 10; 7 + 2 = 63; 6 + 5 = 66; 8 + 4 = 96
Então, 9 + 7 = ?
Para não estragar o prazer de quem possa vir a
recebê-lo pela internet, não apresentarei a resposta. Juan me retransmitiu o teste, afirmando
ter matado a charada; mas, na verdade, não se
trata de uma charada e ela não deve ser motivo
de grosa. O Juan não mentiu; quando se “baixa”
o anexo do teste e nele se digita o resultado
correto, abre-se uma listagem de nomes que
já caminha nos duzentos e lá vai pedrada. Meu
nome, na lista, segue o do Juan; portanto, com o
nome na lista, ele realmente matou a charada. A
ele proponho outra charada: onde, no texto desta
seção, consta uma dica do resultado do teste?
2. Vila Madalena
Vila Madalena, pra quem ainda por lá não esteve, é um bairro de barzinhos e restaurantes, o
frases ilógicas
FRASES ILÓGICAS
1. É conforme I
Expressões há que regionalizam as pessoas; se
ouço “óxente”, sei que falo com baianos, se ouço
“barbaridade” é gaúcho no pedaço, se ouço “seix” é
carioca. E se ouço “uai”, é mineiro nos entôrnos.
E se perguntamos a um mineiro o que é uai, ele,
de pronto, responde:
– “uai é uai, uai!”. Em Berlândia, Uai é posto médico
(é Unidade de Atendimento Intensivo, acho). Mas,
segundo Laff Onzek, um estudioso dinamarquês
que “há muitos anos vive em Berlândia”, na verdade,
“principalmente, nasceu em Berlândia” (pelo plágio,
obrigado ao Drummond) a expressão vem da Inconfidência Mineira. Segundêle, os inconfidentes
conspiravam nos porões de Vila Rica e, meiqui subversivos, meiqui maçons, cuidavam que os acessos
aos porões da inconfidência só fossem permitidos
a quem se identificasse através de uma senha. A
senha, ói, era ansim: o mineirim batia trêisveiz na
porta, e, diládidentro, perguntavam; “quemquié?”
e então a resposta diviadessê: “uai”, que, no gosto e
desgosto dos inconfidentes, seria a versão mineira
da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, significando
“União, Amor, Independência”. Segundo Laff Onzek,
esta versão resultou de uma pesquisa encomendada pelo mais mineiro de nossos políticos, o tal de
JK (de saudosa memória, pois, não é?).
líquido, se fosse sólido, comê-lo-ia”, como frases
de sua lavra. Improváveis, as acredito mais como
folclore) e de Adhemar de Barros, este sim, autor
de gaiatices que estão a merecer um livro. Dele
dizem que, em palanque montado no centro de Jaú,
saudou o “povo de Bauru”. Ao ser discretamente
avisado que não estava em Bauru, mas em Jaú, teria
dito, ao microfone, para todas as orelhas presentes
que “Bauru, Jaú, é tudo a mesma m...”. Teria ele
realmente falado tal asnice? Si non é vero é bene
trovato, alertam-nos os italianos, o fato e a frase
cabem com rigor na imagem de quem o Estadão
chamava de sr. A. de Barros, uma desqualificante
ironia, bem ao estilo do editor do jornal.
3. É conforme III
Segundo Laff Onzek, astrônomos mineiros, em
artigo publicado no Estadão Atrasado (parênteses
para explicação desnecessária: aconteceu com
um amigo, na rodoviária de Belzonte; ele desceu
do ônibus, foi a uma banca de jornal, pediu um
Estadão atrasado – queria o jornal O Estado de São
Paulo, do dia anterior – e recebeu, do jornaleiro, um
exemplar, quentim, do jornal O Estado de Minas),
ou seja, retomando o caso dos astrônomos, que
a desconhecida poeira cósmica é, na verdade,
constituída por polvilho, do que resulta, tendo em
vista que, situada na Via Láctea e tendo a Lua feita
de queijo, que a Terra é, na verdade, um imenso
pão de queijo, que vem sendo assado, lentamente,
no forno solar. Esta história muito circula nas três
cidades com B no Triângulo (Mineiro): em Berlândia, em Beraba e na outra cidade.
2. É conforme II
Falando de JK, que saudades do tempo em que se
fazia política com mais humor e menos bolor.
Lembro-me de JK se fazendo de seresteiro e associando a música Peixe Vivo à sua imagem; Jânio
Quadros, usando seus conhecimentos da língua
como uma peculiar forma de expressão (ainda hoje
fala-se do “fi-lo porque qui-lo” e “bebo porque é
4. É conforme IV
Em ambiente politicamente correto, pode-se afirmar, corretamente político, que o licor Amarula
é uma bebida afrodisíaca.
3. Dos tempos do cursinho
a) No estilo do antigo ginásio (agora sétima série):
suponha-se um dos trens parado e o outro circulando
* Reginaldo Assis de Paiva é engenheiro do setor
de transporte público e conselheiro do Instituto
de Engenharia
E-mail: [email protected]
RESPOSTAS
Se, 1/4G – 19,90 = 4,10, então,
G = 96 reais.
Opa, olha a pegadinha, não se perguntou com quanto
ele invadiu Vila Madalena, mas quanto gastou lá. E a
resposta é: 96,00 – 4,10 = 91,90 reais.
Ou seja, comprova-se que a história realmente se passa
em São Paulo, onde pulula (sem trocadilho) o preço das
“coisas” com dígito 9 na casa dos centavos.
3. Dos tempos do cursinho
Dia do professor de cursinho não tem e já fomos
a República dos Bacharéis e Lula é o único ponto
fora da curva e sabemos que alguns de nossos
legisladores acreditam que sua função é dar nome
a ruas e criar dias de qualquer coisa e então falta
alguém que crie o dia do professor de cursinho.
É falar de cursinho e lembrar de velhos problemas. Pois, não é?
Dois trens correm pela mesma linha, em sentidos contrários (não, não se pretende promover
um choque frontal. Ferroviários nos explicam:
“linha” é “rota”, a diretriz da ferrovia; via são os
dois trilhos por onde o trem circula).
O trem que vai de Campinas para São Paulo
tem 270 metros de comprimento e circula com
velocidade de 60 km/h; o que vinha em sentido
contrário tem 230 metros de comprimento e
circula com velocidade de 40 km/h;
Pergunta-se:
Quanto tempo decorre durante a passagem dos
trens um pelo outro?
2. Vila Madalena
Que seja G o que ele tinha ao “partir pro crime” (G,
de Grana)
a) Gastou 1/3G, no restaurante e ficou com 2/3G.
b) Saiu do cinema com (2/3G – 19,60).
c) Gastou ¼(2/3G – 19,60) com o táxi, ficando com
¾(2/3G – 19,60) = (1/2G – 14,70).
d) Depois do “chopis e dos dois pastel”, ficou com
(1/2G – 37,80).
e) Depois de pagar o táxi, ficou com (1/4G – 18,90) e,
depois da gorgeta de 1,00, ficou com (1/4G – 19,90),
ou seja, conforme explicado, com 4,10.
filho boêmio dos tempos da redemocratização
do país, uma história complexa, mais afeita
a historiadores e urbanistas, fica para outros
escribas mais categorizados.
Interessa-nos, no momento, contar as atribulações de um carioca que, armado de um guia de
São Paulo, aventura-se pelo bairro.
Foi assim:
• jantando na Rua Aspicuelta, gastou 1/3 do
que tinha no bolso;
• foi ao cinema dos “intelecas” da Fradique
Coutinho e gastou, com entrada, pipoca e cocacola, 19,60 reais;
• do cinema pegou um táxi para voltar a um
barzinho da Mourato Coelho, onde rolava um
sonsinho “da hora” e gastou um quarto do que
tinha no bolso, e ali gastou, entre couvert artístico, “um chopis e dois pastel”, 23,10 reais;
• pegou um táxi para o hotel onde estava hospedado, gastou metade do que tinha no bolso e,
“satixfeitiximo” com a noitada, deu 1 real para
o taxista, ficando com 4,10 reais.
Quanto ele gastou em Vila Madalena?
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ENGENHARIA/2010
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problemas nem tanto e
com velocidade igual à soma das velocidades dos
dois trens. Ou seja, o trem percorreria 500 metros
a 100 km/h.
b) No estilo cursinho (ou, se podemos complicar, para
que simplificar?): montam-se duas equações:
- para o primeiro trem, e1(m) = 40 000/3 600 (m/s) t;
- para o segundo trem, e2 (m) = 60 000/3 600 (m/s).
t, medido em segundos, é o mesmo para as duas
estações e (e1 + e2) = 500 m, o resto é “fazeção”
de conta.
Este “probleminha facinho” foi lembrado apenas
para relembrar os tempos de cursinho.
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