Saúde Coletiva em Debate, 2(1), 96-106, dez. 2012
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A assistência geriátrica no posto de saúde da família: o idealizado e o realizado a partir
do olhar dos idosos (ocorrências em uma Unidade de Saúde da Família no município de
Serra Talhada - PE)
The geriatric care at the health of the family: designed and made from the look of the
elderly (events in a Family Health Unit in the municipality of Serra Talhada – PE)
Karla Angélica Medeiros de Siqueira1; José Ferreira Júnior1*
1
Faculdade de Integração do Sertão, Serra Talhada – PE
Resumo: Este estudo foi realizado no município de Serra Talhada-PE, no PSF/COHAB I.
Tendo como objeto, as ações desenvolvidas pela equipe de saúde da família, aos idosos
cadastrados, com o objetivo de comparar o que foi idealizado e o que se verifica, no referente
ao tratamento que lhes é dispensado. Investigando os serviços, analisando a representação
social desses idosos, acerca do tratamento recebido e identificando se há negligências e
omissões, quanto aos cuidados que essa equipe dispõe para com a saúde desse grupo. Optouse pela pesquisa descritivo-exploratória, recorrendo às informações pessoais, através de um
questionário semiestruturado com 15 perguntas, realizado durante o mês de novembro de
2011, foram entrevistados 30 idosos, que corresponde a 15% dos cadastrados. Como
resultado, foi possível identificar que as ações realizadas não condizem com o que se
preconiza nas políticas governamentais. Esses dados retratam uma realidade preocupante que
é o envelhecimento sem qualidade e a carência no aspecto político e social que deem suporte
para um envelhecimento saudável, e que há negligencias e omissões quanto ao cuidado com a
saúde desse grupo, por parte daqueles que deveriam estar na linha de frente no tocante à
defesa de seus direitos. As evidências do estudo apontam, ainda, ser necessário atentar para as
questões referentes ao envelhecimento, visando uma melhor assistência, para atender às reais
necessidades dos idosos.
Palavras-chave: Programa de Saúde da Família. Idoso. Políticas de saúde
Abstract: This study was conducted in the municipality of Serra Talhada-PE, in PSF/
COHAB I. With the object, the actions taken by the team of family health, the elderly
registered in order to compare what was planned and what is true in respect to the treatment
accorded to them. Investigating services, analyzing the social representation of the elderly,
about the treatment received and identifying if there is negligence and omission, the care that
this team has for the health of this group. We opted for descriptive and exploratory, using the
personal information through a semi structured questionnaire with 15 questions, held during
the month of November 2011, where 30 elderly people were interviewed, representing 15% of
registrations. As a result, it was observed that the actions undertaken are not consistent with
what is called for government policies. These data portray a disturbing reality that is quality
and aging without grace in the political and social that will support healthy aging, and that
there is neglect and omissions regarding the health care of this group, by those who should be
in front line in terms of defending their rights. The evidence from the study show, still need to
be alert to the issues of aging, to improve assistance to meet the real needs of the elderly.
Key words: Family Health Program. Elderly. Health policies.
*Autor para correspondência: Prof. Me. José Ferreira Junior, Faculdade de Integração do Sertão, 56903-490,
Serra Talhada, PE, Brasil. E-mail: [email protected], fone (87) 3831-1479.
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1 INTRODUÇÃO
O Brasil, nas últimas décadas, vem
conquistando importantes avanços no
campo da saúde. Porém, o modelo
assistencial ainda forte no país é
caracterizado pela prática médica voltada
para uma abordagem curativa e intrahospitalar, apresentando cobertura e
resolubilidade baixas e com elevado custo.
O sistema de saúde brasileiro não tem
considerado o envelhecimento como uma de
suas prioridades, dado à carência de
profissionais
qualificados,
poucas
modalidades assistenciais mais humanizadas
e a escassez de recursos socioeducativos e
de saúde, direcionados ao atendimento às
pessoas idosas (BRASIL, 2002).
Com a emergência da população
idosa em todo país, fazem-se necessárias
estratégias de ações voltadas a esta
clientela, inserida no Posto de Saúde da
Família, pois este aumento implica, em
termos de utilização dos serviços de saúde,
um maior número de problemas de longa
duração, que frequentemente exigem
intervenções
custosas,
envolvendo
tecnologia complexa para um cuidado
adequado. Em menos de 40 anos, o Brasil
passou de um perfil de mortalidade típico
de uma população jovem, para um quadro
caracterizado por enfermidades complexas
e onerosas, próprias das faixas etárias mais
avançadas (LYRA JUNIOR, 2006), fato,
que acarreta crescimento das despesas,
com tratamentos médicos e hospitalares.
Em 1° de outubro de 2003 foi
aprovado o Estatuto do Idoso abrangendo
desde os direitos fundamentais até o
estabelecimento de penas para crimes
cometidos contra a pessoa idosa. Afirma ao
idoso o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, à cultura, ao
esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania,
à liberdade, à dignidade, ao respeito e à
convivência familiar e comunitária. No que
diz respeito ao direito à saúde, é obrigação
do Estado garantir proteção mediante
efetivação de políticas sociais públicas;
assegurar atenção integral à saúde por
intermédio do Sistema Único de Saúde
(SUS), garantindo acesso universal e
igualitário, com ações e serviços para
prevenção,
promoção,
proteção
e
recuperação da saúde e prover os serviços
com profissionais capacitados. Pelo
Estatuto, o idoso tem direito à unidade
geriátrica de referência, atendimento
domiciliar e acompanhamentos, incluindo
internação
com
acompanhante,
fornecimento gratuito de medicamentos e
direito a optar pelo tratamento quando com
domínio de suas faculdades mentais
(BRASIL, 2003a).
Silvestre; Costa; Menezes (2003)
observaram que o grande desafio para o
sistema é conseguir traduzir os avanços
obtidos no campo legal em mudanças
efetivas e resolutivas da prática da atenção à
saúde da população, reconhecendo a saúde
como um direito de cidadania, humanizando
as práticas de saúde e buscando a satisfação
do usuário pelo seu estreito relacionamento
com os profissionais de saúde; prestando
assistência universal, integral, equânime,
contínua e, acima de tudo, resolutiva e de
boa qualidade à população, tanto na unidade
de saúde como também no domicílio;
identificando os fatores de risco aos quais a
população idosa está exposta, e neles
intervir de forma apropriada.
O profissional de saúde deve ser
capaz de perceber a multicausalidade dos
processos mórbidos dos idosos, sejam
físicos, mentais ou sociais, tanto
individuais,
quanto
coletivos,
contextualizando, sempre, o indivíduo em
seu meio ambiente, deve estar voltado à
criação de novos valores, trabalhando mais
a saúde do que a doença. Para tanto, ele
deve buscar conhecer detalhadamente, a
realidade das famílias que moram em sua
área de abrangência, incluindo seus aspectos
físicos e mentais, demográficos e sociais.
Cabe a ele, também, identificar os
problemas de saúde prevalentes na área de
sua abrangência e, construir, junto com as
famílias, um diagnóstico psicossocial que
detecte situações de vulnerabilidade da
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20
população idosa (SILVESTRE; COSTA;
MENEZES, 2003).
A baixa resolutividade do modelo
em curso, a precariedade dos serviços
ambulatoriais, a escassez dos serviços
domiciliares, fazem com que o primeiro
atendimento ao idoso ocorra em estágio
avançado, dentro do hospital, o que não só
aumenta os custos como diminui as
chances de um prognóstico favorável
(MENDES, 2001). Em geral, as doenças
dos idosos são crônicas e múltiplas,
perduram por vários anos e exigem
acompanhamento médico constante e
medicação contínua. Assim, o sistema de
saúde terá que fazer frente a uma crescente
demanda por procedimentos diagnósticos e
terapêuticos das doenças crônicas não
transmissíveis, para isso o objetivo
principal do sistema deve ser a manutenção
da capacidade funcional do idoso,
mantendo- o na comunidade, pelo maior
tempo possível, gozando ao máximo sua
independência (RAMOS, 2003). O
envelhecimento bem-sucedido deve ser a
meta a ser atingida.
Diante do exposto, este estudo
justificou-se pela necessidade de ampliar a
discussão sobre a assistência que a equipe
de saúde da família presta aos idosos, no
PSF/COHAB I, considerando o cuidado
integral e humanizado, tendo como base o
que se preconiza no Estatuto do Idoso e
outras leis. Teve como objetivos,
caracterizar a realidade desse grupo,
identificando se há negligências e omissões
quanto aos cuidados com a saúde dos
idosos, usuários do referido posto,
investigando os serviços dispensados e
analisando a representação social dessa
clientela, a respeito do tratamento
recebido.
semiestruturado, com um total de 15
perguntas, visto que o mesmo viabiliza
uma conversa, que possibilita ao
pesquisador a obtenção de material
empírico para a construção da sua pesquisa
(MINAYO, 2008).
Utilizou-se a análise de um
fenômeno, uma vez que se buscou
apreender as representações dos idosos,
acerca do tratamento que lhes é dispensado
na Unidade de Saúde da Família do bairro
COHAB I, no município de Serra Talhada
- Pernambuco.1
A pesquisa foi desenvolvida na área
de cobertura do Posto de Saúde da Família
(PSF) no bairro COHAB I, cidade de Serra
Talhada - PE, durante o mês de novembro
de 2011. Foram entrevistados 30 idosos, o
que configura um percentual de 15% dos
cadastrados naquela respectiva área.
A
amostra
foi
escolhida
aleatoriamente, usuários dos serviços do
posto de saúde, que voluntariamente se
dispuseram a fazer parte da pesquisa. As
entrevistas foram realizadas nos domicílios
dos
idosos,
devido
ao
reduzido
comparecimento do número desses na
unidade de saúde, e também para que as
respostas dos entrevistados fluíssem o mais
naturalmente possível.
É de suma importância ressaltar que
a pesquisa foi realizada obedecendo aos
aspectos éticos, conforme Resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde,
que trata de pesquisa em seres humanos.
Todos os participantes tiveram sua
identidade preservada e, para tanto,
utilizamos nomes fictícios, garantindo-se,
dessa forma, o anonimato, bem como o
sigilo das informações. Os dados foram
obtidos através da aplicação de um
questionário semiestruturado, preenchido
pelo próprio pesquisador, devido à grande
2 METODOLOGIA
1
Para o alcance dos objetivos
optou-se
pela
pesquisa
descritivoexploratória que se caracterizou pela busca
de dados, recorrendo a informações
pessoais através de um questionário
A unidade possui dois profissionais de enfermagem,
sendo uma enfermeira e uma técnica de enfermagem;
um médico clínico geral, com especialização em
mastologia; um dentista; uma auxiliar de consultório
dentário; uma vacinadora, uma recepcionista e sete
agentes comunitários de saúde.
Saúde Coletiva em Debate, 2(1), 96-106, dez. 2012
21
maioria dos entrevistados não possuírem
escolaridade.
As respostas foram também
gravadas e, posteriormente transcritas na
íntegra, pois, segundo Silverman (2005)
“[...] gravar as entrevistas facilita a análise
dos dados, uma vez que o pesquisador
pode não recordar claramente de detalhes
importantes, além de ser possível
compreender a entrevista como um todo
[...]”.
Os dados das entrevistas foram
ordenados, estudados e apresentados na
forma de relatos individuais. O projeto foi
encaminhado para precedida aprovação
pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP)
das Faculdades Integradas de Patos (FIP),
com o nº de protocolo 081/2011.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Caracterização dos sujeitos
O grupo entrevistado foi
composto por 30 idosos, pertencentes à
área de cobertura do PSF/COHAB I –
Serra Talhada, configurando um percentual
de 15% dos idosos cadastrados e
frequentadores da unidade, selecionados
aleatoriamente. Partindo da análise dos
dados obtidos, dos 30 idosos entrevistados,
20 (97%) são do sexo feminino e 10 (3%)
são do sexo masculino, cujas idades
variaram entre 60 e 90 anos. O resultado
está de acordo com Davim (2004), que
afirma que o sexo feminino se encontra
mais presente em pesquisas com idosos, e
ressalta, ainda, que no Brasil, o número
absoluto de mulheres idosas tem sido
superior quando comparados ao número de
homens de 65 anos ou mais, podendo ser
decorrente da mortalidade diferencial de
sexo, que prevalece na população
brasileira.
Em seguida, os idosos foram
questionados em relação ao nível de
escolaridade, onde 14 (47%) fizeram o
ensino fundamental incompleto (2ª e 3ª
séries), e 16 (53%) são analfabetos. Esses
percentuais apontam o grande número de
pessoas idosas com pouco ou nenhum grau
de escolaridade. O analfabetismo em
idosos representa uma realidade nos países
em desenvolvimento como o Brasil,
principalmente de idosos que viveram sua
infância em época em que o ensino não era
prioridade, principalmente com relação à
mulher que tinha como obrigação cuidar
do lar (DAVIM, 2004).
Ao serem indagados se residiam
com familiares, 05 (17%) relataram morar
sozinhos com seus respectivos parceiros
(as), 13 (43%) informaram que os filhos
ainda residiam com eles, outros 06 (20%)
informaram serem viúvos e residir com os
filhos e netos, 03 (10%) moravam sozinhos
e 03 (10%) residiam com sobrinhos ou
irmãos. Concordando com Teixeira (2000),
esta é uma situação bastante complexa,
pois alguns idosos, por decisão pessoal ou
por falta de alternativas, acabam optando
por morar sozinhos. Isto não é problema
quando o idoso é ativo e independente, o
problema começa a acontecer quando ele
apresenta problemas de saúde que podem
dificultar seu dia-a-dia ou mesmo colocá-lo
em risco. Já com relação às finanças, 20
(73%) recebem aposentadoria e os outros
08 (27%) recebem outros benefícios como
auxílio doença, bolsa família, ou os filhos
os sustentam.
Em relação às condições atuais de
saúde, os entrevistados citaram, quando
indagados, os seguintes problemas:
bronquite, artrose, hipertensão arterial,
diabetes mellitus, visão diminuída ou
prejudicada,
insuficiência
cardíaca,
sequelas
de
AVC,
depressão
e
hiperlipidemias. Houve ainda relatos
isolados de mialgia, insônia, gastrite,
problema neurológico, câncer de pele,
urolitíase e sinusite, Sabe-se que os idosos
convivem mais frequentemente com
problemas crônicos de saúde, os quais
podem afetar a funcionalidade das pessoas,
o que justifica uma maior procura e
utilização de serviços de saúde, o que
conforme diz Erminda (1999, p. 41):
O envelhecimento é como um processo
de diminuição orgânica e funcional, não
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decorrente de doença, e que acontece
inevitavelmente com o passar do tempo.
Considera-se, pois, o envelhecimento um
fenômeno natural, mas que geralmente
evidencia um aumento da fragilidade e
da vulnerabilidade do corpo e mente
devido às influências dos agravos a
saúde durante a estada de vida.
3.2 Análise temática
O material apresentado a seguir é
constituído da síntese extraída dos
conteúdos
das
falas
dos
idosos
participantes da pesquisa, a qual revelou o
tema central desse estudo, que buscou
reconhecer ou não, nos serviços de saúde
pública, mais especificamente aquele
oferecido no PSF/COHAB I - Serra
Talhada, o que foi preconizado pelo
Governo Federal, que é facilitar o acesso
aos serviços de saúde e fornecer um
atendimento personalizado, de forma mais
acolhedora, principalmente aos idosos,
mantendo vínculos diretos com a clientela
e estabelecendo responsabilidades com
relação à manutenção da saúde da
comunidade. Bromberger (2003, p.16)
complementa que:
O Programa de Saúde da Família (PSF) é
uma estratégia de aprimoramento e
consolidação do Sistema Único de Saúde
(SUS) que possibilita a reorientação das
ações ao nível ambulatorial e domiciliar,
focalizando o indivíduo, a família e a
comunidade. Ainda salienta que as ações
do PSF são realizadas através da
educação em saúde, destacando: a
promoção da saúde, a participação da
comunidade, o trabalho interdisciplinar e
intersetorial entre a equipe de saúde,
família e comunidade.
Em janeiro de 1994 foi aprovada a
Lei n° 8.842, que define a Política
Nacional do Idoso, estabelecendo direitos
sociais, garantindo autonomia, integração e
participação efetiva na sociedade com
direito à cidadania, à saúde e à assistência
humanizada (BRASIL, 1994), significando
que a equipe de saúde da família deve ser
responsável pela atenção à saúde da pessoa
idosa pertencente a sua área de
A população idosa apresenta
inúmeras
patologias
crônicas,
degenerativas,
que
trazem
alta
dependência, e que demandam dos
profissionais de saúde um aprofundamento
de
conceitos
como
prevenção,
paliativismo,
suporte
e
apoio.
abrangência. Todos os profissionais devem
oferecer ao idoso e sua família uma maior
atenção, com orientação, acompanhamento
e apoio domiciliar para uma maior
efetivação de uma assistência humanizada.
Partindo
desses
princípios,
passaremos a conhecer a realidade dos
idosos que utilizam os serviços de saúde
do PSF/COHAB I, no município de Serra
Talhada. Diante dos dados coletados, para
preservar a identidade dos idosos
entrevistados, os nomes foram substituídos
por outros fictícios apresentando as suas
falas:
3.2.1 Há satisfação
oferecidos?
nos
serviços
“Às vezes não tem vaga, ou não tem o aparelho de
ver pressão...” (Turmalina, 88 anos);
“Acho ruim, pois precisa de ficar vendo a pressão
em casa e eles não vem, pois não posso andar para
ir lá...”(Jade, 90 anos);
Segundo Costa Neto e Silvestre
(1999), ao profissional da saúde é
requerida uma atenção especial ao idoso e
uma participação ativa na melhoria de sua
qualidade de vida, abordando-o, como
apregoa a estratégia do PSF, com medidas
promocionais de proteção específica, de
identificação precoce de seus agravos mais
frequentes e sua intervenção. Todavia,
contrariando a postura ideal, veja-se o dito
abaixo:
“Acho ruim, eles não explica “as coisa”
direito, a gente vai lá “vê a pressão” e
fazer o teste do dedo e elas diz tá bom,
nem anota nem diz nada a pessoa. Dizem
que não tem mais ficha pro médico, pra
pessoa voltar no outro dia, eu acho que
eles deveriam atender melhor...”( Jaspe,
69 anos).
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23
A necessidade de humanização da
relação profissional-paciente, com base no
desenvolvimento de uma relação empática
e participativa, é uma prioridade. De
acordo com Mendes (1996), não basta nos
preocuparmos com os procedimentos
organizacionais
e
financeiros
das
instituições de saúde, se não mudarmos o
modo como os trabalhadores da saúde se
relacionam com o seu principal objeto de
trabalho: a vida e o sofrimento dos
usuários do serviço. Os depoimentos a
seguir demonstram contrariedade com o
que se espera de um profissional de saúde:
“Muitos dia cheguei lá e não tinha mais
vaga e a mulher disse venha na quinta
que é o dia do idoso... e a gente só vai
adoecer na quinta-feira? (Ônix, 82
anos).
“Eu não estou satisfeito às vezes elas
atendem dando “má resposta”, coloca
outras pessoas na nossa frente...,
deveriam tratar a gente melhor” (Opala,
66 anos).
Observa-se, por exemplo, que
quando perguntados sobre como veem o
atual serviço de assistência à saúde, num
sentido geral, os usuários tendem a
apontar, predominantemente, os aspectos
negativos (reclamação quanto às fichas,
demora e desumanização do atendimento
entre outras).
O Estatuto do Idoso expõe, entre os
direitos fundamentais do idoso, aqueles
relacionados à Saúde, os quais destacamse: atendimento integral pelo SUS;
atendimento geriátrico em ambulatórios;
atendimento
domiciliar;
reabilitação;
fornecimento de medicamentos, próteses e
órtoses; direito de opção pelo tipo de
tratamento; direito a acompanhante;
proibição de discriminação em plano de
saúde; treinamento dos profissionais de
saúde, dos cuidadores e familiares
(BRASIL, 2003a). Para uma maior
efetivação do acolhimento e humanização
no atendimento ao idoso, os profissionais
de saúde devem compreender as
necessidades dessa faixa etária e facilitar o
acesso dos idosos
complexidade da
abaixo mostram
relação ao que se
governamentais:
aos diversos níveis de
atenção. Os discursos
uma contradição, em
preconiza nas políticas
“Acho ruim nunca tem vaga para
ninguém no dentista. Uma vez fui mal
atendida pela técnica que não quis dar a
medicação que o médico passou que era
120 comprimidos de captopril, pra eu
tomar 4 por dia de 25mg, e ela disse era
muito e que ia fazer falta para os outros
da comunidade. Fiquei com tanta raiva
que passei mal e precisei ser internada”
(Ágata, 63 anos).
“Olhe dona eu acho ruim, pois já tive
uns problemas pra pegar ficha. Nesse
dia eu sai de casa quatro e meia da
manha pra pegar vaga e fiquei
horrorizada pelo horário que a
recepcionista chegou. Já era oito e meia
e os pacientes na fila desde madrugada.
Tem um dia certo pra os idosos e eles
mandam agente ir nesse dia e ainda
fazem isso” (Safira 60 anos).
Apesar
de
publicado,
o
cumprimento e o respeito ao Estatuto do
Idoso dependem da cobrança organizada
da sociedade civil, com especial destaque
ao idoso. É preciso reivindicá-lo em todos
os espaços sociais, com participação ativa
do idoso pela melhoria de sua própria
condição de vida. Na relação entre o idoso
e os profissionais de saúde, um dos
aspectos que deverá sempre ser observado
diz respeito à possibilidade de maus-tratos,
quer por parte da família, quer por parte do
cuidador ou mesmo destes profissionais. É
importante que o idoso saiba identificar
posturas e comportamentos que significam
maus-tratos, bem como os fatores de risco,
neles envolvidos. Esses maus-tratos podem
ser por negligência (física, psicológica ou
financeira), por abuso (físico, psicológico
ou financeiro), ou por violação dos direitos
pessoais. É dever da família e também do
idoso, quando houver indícios de maustratos, denunciar a sua suspeita às
autoridades competentes. (MINAYO 2005,
p.18) afirma que:
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Abandono é uma forma de violência que
se manifesta pela ausência ou deserção
dos
responsáveis
governamentais,
institucionais ou familiares de prestarem
socorro a uma pessoa idosa que necessite
de proteção e Negligência refere-se à
recusa ou à omissão de cuidados devidos
e necessários aos idosos, por parte dos
responsáveis familiares ou institucionais.
A negligência é uma das
formas de violência contra os idosos mais
presente no país. Ela se manifesta,
frequentemente, associada a outros abusos
que geram lesões e traumas físicos,
emocionais e sociais, em particular, para as
que se encontram em situação de múltipla
dependência ou incapacidade. Senão
vejamos o relato a seguir:
“Um dia eu tive um infarto, e minha
filha me levou para o posto com muita
com muita dor e ela queria que eu fosse
logo atendida pelo médico, e ele disse
que coração não era urgência, ela saiu
de lá e foi direto pra ‘Hora das
Broncas’2 dar parte, depois disso eles
mudaram um pouco” (Ametista, 68
anos).
No que diz respeito à saúde,
principalmente daqueles que dependem do
atendimento do Sistema Único de Saúde
(SUS), percebemos que os idosos são
bastante sacrificados, visto não possuírem
um atendimento específico para a idade.
Enfrentam filas intermináveis para
conseguir uma consulta médica, e os
medicamentos de que necessitam. Esses
medicamentos não são encontrados com
facilidade na rede pública, o que vai de
encontro ao Estatuto do Idoso que tem
como um dos objetivos principais, garantir
o fornecimento de medicamentos de uso
contínuo, para a população idosa na
Atenção Primária à Saúde.
2
A Hora das Broncas é um programa policial diário
transmitido pela Rádio Líder do Vale FM, que
serve de instrumento de utilidade pública para
denuncia e reivindicação dos direitos da
comunidade
serra-talhadense
e
regiões
circunvizinhas. (Fonte no site da radio Líder do
Vale FM)
Como integrante da área de saúde,
a enfermagem em especial, possui
responsabilidade direta no cumprimento do
item relacionado ao direito à saúde. É,
também, sua responsabilidade assegurar a
atenção integral à saúde do idoso, por
intermédio do Sistema Único de Saúde
(SUS), garantindo-lhe acesso universal e
igualitário. Conforme previsto, suas ações
devem ser pautadas na prevenção de
doenças,
promoção,
proteção
e
recuperação da saúde, incluindo atenção
especial às doenças que afetam a vida
longeva (BRASIL, 2003a). De acordo com
os relatos abaixo isso não acontece:
“Eu já fiz queixa porque elas não
atendem bem, me tratam mal. Quando eu
vou buscar os remédios elas não
informam quando vai chegar, nem vem
na minha casa ver a pressão que é muito
alta” (Rubi, 66 anos).
“Acho ruim, eu espero chegar minha
vez, não sou de reclamar, aguento muita
coisa calado, mas eles não atendem bem
não, falta fazer as coisas pela pessoa,
eles poderiam nos ajudar mais”
(Topázio, 75 anos).
Segundo a Política Nacional de
Humanização, o acolhimento em saúde
envolve dar atenção a todos que procuram
por ajuda, ouvindo suas necessidades e
assumindo o compromisso de acolher,
escutar e oferecer respostas adequadas. É
uma ação que implica mudança na relação
profissional-usuário, compartilhamento de
saberes, necessidades, possibilidades e
angústias (BRASIL, 2003b).
Quando indagados se recebiam
visitas domiciliares de outros profissionais
de saúde da unidade em questão, além dos
agentes
comunitários,
houve
uma
unanimidade nas respostas ao afirmarem
que somente o ACS fazia a visita rotineira.
A maioria dos idosos estava incapacitada
de ir ao posto, devido às múltiplas
enfermidades, como também a distancia de
suas casas em relação ao posto. O que
vemos é que a reorientação do modelo
assistencial proposta pelo PSF, que tem
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como objetivo específico prestar, na
unidade de saúde e no domicílio,
assistência integral, contínua, com
resolubilidade e boa qualidade às
necessidades de saúde da população, com
especialidade o idoso, por suas múltiplas
necessidades, está sendo desrespeitada.
A visita domiciliar tem uma grande
importância na área da saúde visto que,
através dela, podemos avaliar as condições
ambientais e físicas em que vive o
indivíduo e sua família, prestar assistência,
levantar dados sobre condições de
habitação e saneamento e aplicar medidas
de controle, nas doenças transmissíveis ou
parasitárias, e principalmente educar
(KAWAMOTO; SANTOS; MATTOS,
1995). O profissional de saúde conhece as
disponibilidades de saúde de sua
comunidade e, uma vez que trabalha com
população em seus domicílios, identifica
facilmente
suas
necessidades
e
características sociais, econômicas e
culturais, o que lhe permite tomar atitudes
para mobilizar os recursos da comunidade,
incrementar as atividades no propósito de
minimizar os problemas de saúde vigentes
(ARAÚJO, 1983).
A atenção à saúde da pessoa idosa
na Atenção Básica/ Programa de Saúde da
Família, quer por demanda espontânea,
quer por busca ativa (que é identificada por
meio de visitas domiciliares), deve
consistir em um processo diagnóstico
multidimensional. Este diagnóstico é
influenciado por diversos fatores, tais
como o ambiente onde o idoso está
inserido, a relação profissional de saúde/
pessoa idosa/ familiares, a história clínica
(aspectos biológicos, psíquicos, funcionais
e sociais) e o exame físico (BRASIL,
2006a).
Nesse contexto, a equipe de saúde
deve desenvolver estratégias voltadas para
a saúde do idoso, e isso só é possível
através da visita domiciliar, pois, esses
usuários constituem um grupo com
necessidades e características específicas,
estando expostos a maiores riscos. Deste
modo cabe a equipe de saúde, estar atenta
para elaborar seus cuidados dentro da
realidade
da
população,
com
sistematização da assistência e realizar
parcerias com outras organizações
existentes na comunidade.
A equipe de saúde deve estar
preparada, também, para identificar sinais,
sintomas e riscos, associados aos mais
variados aspectos, incluindo a saúde
mental e física do idoso e situações
domiciliares e ambientais, já que é de
responsabilidade da equipe, em conjunto
com a família do idoso, identificar
situações de riscos no domicílio, muitas
delas podendo gerar acidentes, como
quedas, por exemplo. É preciso intervir
sempre que necessário, a fim de não
originar consequências desastrosas para a
autonomia e independência desse idoso.
3.2.2 O idoso e seus direitos
O Estatuto do Idoso, afirma em
seus Artigos. 3º e 4º, que é obrigação da
família, da comunidade, da sociedade e do
Poder Público assegurar ao idoso, com
absoluta prioridade, a efetivação do direito
à vida, à saúde, à alimentação, à educação,
à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho,
à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao
respeito e à convivência familiar e
comunitária. Como também que nenhum
idoso será objeto de qualquer tipo de
negligência, discriminação, violência,
crueldade ou opressão, e todo atentado aos
seus direitos, por ação ou omissão, será
punido na forma da lei. A garantia de
prioridade compreende o atendimento
preferencial imediato e individualizado,
junto aos órgãos públicos e privados,
prestadores de serviços à população;
(BRASIL, 2003a)
Entre as diretrizes da Política
Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, estão:
a promoção do envelhecimento saudável, a
manutenção da capacidade funcional, a
assistência às necessidades de saúde dos
idosos, a reabilitação da capacidade
funcional comprometida, a capacitação de
recursos
humanos,
o
apoio
ao
Saúde Coletiva em Debate, 2(1), 96-106, dez. 2012
26
desenvolvimento de cuidados informais, e
o apoio aos estudos e pesquisas. Evocando
as responsabilidades institucionais, caberá
aos gestores do SUS, de forma articulada e
em conformidade às suas atribuições
comuns e específicas, prover os meios e
atuar de modo a viabilizar o alcance do
propósito desta PNSI (BRASIL, 2006b).
O Pacto pela Vida determina que,
devam ser seguidas algumas diretrizes
norteadoras de suas ações, em relação aos
idosos como: estímulo as ações
intersetoriais, implantação de serviços de
atenção domiciliária, promoção do
envelhecimento
saudável,
atenção
integrada e integral a saúde da pessoa
idosa, fortalecimento da participação
social, acolhimento preferencial em
unidades de saúde, provimento de recursos
capazes de assegurar a qualidade da
atenção à saúde da pessoa idosa e
divulgação e informação sobre a Política
Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, para
profissionais de saúde, gestores e usuários
do SUS (BRASIL, 2006b).
Lançada em 2003, a Política
Nacional de Humanização (PNH) busca
colocar em prática os princípios do SUS,
no cotidiano dos serviços de saúde,
produzindo mudanças nos modos de gerir e
cuidar. Tem como uma de suas diretrizes a
defesa dos direitos dos usuários de saúde
que possuem direitos garantidos por lei. E
que, os serviços de saúde, devem
incentivar o conhecimento desses direitos e
assegurar que eles sejam cumpridos em
todas as fases do cuidado, desde a recepção
até a alta. Todo cidadão, tem direito a uma
equipe que cuide dele, e de ser informado
sobre sua saúde (BRASIL, 2003).
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando o Estatuto do Idoso
no que se refere ao atendimento ao idoso,
esses dados retratam uma realidade
preocupante na vida dessas pessoas, que é
o envelhecimento sem qualidade e a
carência no aspecto político e social, que
deem suporte para um envelhecimento
saudável, como também, negligencias e
omissões, quanto ao cuidado com a saúde
desse grupo populacional, por parte
daqueles que deveriam estar na linha de
frente no tocante à defesa de seus direitos.
Observou-se que a Unidade de
Saúde da Família (USF) no bairro COHAB
I necessita reorganizar o seu processo de
trabalho desenvolvendo e valorizando o
atendimento acolhedor e resolutivo
principalmente aos usuários idosos. Assim,
poderá atender às especificidades desta
faixa etária sem desrespeitar os direitos de
outros grupos populacionais. A USF em
questão deverá ser capaz de desenvolver
ações efetivas para o cuidado do idoso,
promovendo uma avaliação e renovação
educacional, a todos os profissionais de
saúde que a compõe, acerca dos direitos e
deveres dos idosos, buscando reconhecer
também os riscos a que esses idosos estão
expostos, no meio em que estão inseridos,
para então poder proporcionar uma
melhora na qualidade de vida desse grupo
populacional e contribuir para o
cumprimento do exercício de cidadania
desses sujeitos.
Os cuidados para com uma pessoa
idosa devem visar à manutenção de seu
estado de saúde, expectativa de vida ativa,
independência funcional e autonomia
máxima possível, sendo necessária
educação permanente de profissionais,
aprimoramento
de
processos
e
procedimentos e acompanhamento do
idoso e sua família. O objetivo desses
cuidados é não só aumentar o tempo de
vida como a sua qualidade. O idealizado é
a manutenção da independência e da
autonomia de cada idoso pelo maior tempo
possível. O cuidado prestado pelos
profissionais de saúde e em especial o
enfermeiro, no que visa o bem estar do
idoso, não deve ter limites, pois cuidar
traduz a essência da enfermagem.
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