CONHECIMENTO HISTÓRICO COMO SUSTENTÁCULO DO
DESENVOLVIMENTO DO TURISMO CULTURAL
Sandra Aparecida Martins1
Janaína de Paula do Espírito Santo2
RESUMO: Muito se fala em preservação de patrimônio histórico cultural.
Contudo, o trato pedagógico da história local não justifica de forma clara para o
aluno porque é importante preservar. Este trabalho objetiva mediar a
ressignificação da identidade histórica local para o aluno. Para tanto o uso de
diferentes metodologias de pesquisa e construção do conhecimento histórico
foram utilizadas. A reconstrução da própria história realizou-se através de
pesquisa bibliográfica, visita aos locais de memória e seminários envolvendo
alunos e comunidade. A partir dessa nova abordagem didático metodológica,
observou-se uma nova interpretação para as “casas velhas” da cidade. E o que
parecia velho tornou-se histórico e passível de ser aproveitado para o próprio
desenvolvimento da cidade. Os alunos envolvidos no projeto demonstraram
surpresa, interesse e por fim conhecimento, verbalizando a preocupação e o
interesse pelos locais de memória, propondo inclusive formas de
aproveitamento sustentável para o patrimônio histórico local.
Palavras-chave: patrimônio cultural, turismo cultural, cidadania, Castro.
ABSTRACT: Today people talk a lot about preservation of historic cultural
heritage. However, the deal teaching local history not clearly justified to the
student why it’s important to preserve. This paper aims to mediate the
redefinition of local historical identity for the student. For both the use of
different methodologies for research and historical knowledge were used. The
reconstruction of the history took place through a literature review, visits to
places of memory and seminars involving students and community. From this
new approach to teaching methodology, there was a new interpretation to the
"old houses" of the city. And what was old became history and that can be
harnessed to development of the city. Students involved in the project
expressed surprise, interest, and ultimately knowledge, voicing the concern and
interest in local memory, including by proposing ways of sustainable use for the
historic site.
Keywords: cultural heritage, cultural tourism, citizenship, Castro.
1
Professora PDE 2008. Formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa no Curso de
Licenciatura em História. Especialista em Metodologia do Ensino pela Ibpex, atua no Colégio
Major Vespasiano Carneiro de Mello, Ensino Fundamental, Médio e Profissionalizante.
Castro – Paraná e-mail: [email protected]
2
Professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Mestra
em Educação. Orientadora do PDE.
1 INTRODUÇÃO
O presente artigo nasceu da possibilidade conquistada a partir do
trabalho realizado por meio do Programa de Desenvolvimento Educacional
(PDE), de desenvolver um projeto que considerasse a importância da história
da cidade de Castro pelo viés do turismo.
O projeto de intervenção pedagógica, intitulado “Conhecimento Histórico
como Sustentáculo do Desenvolvimento do Turismo Cultural” foi elaborado e
aprovado no ano de 2008 e teve seu desenvolvimento neste ano de 2009,
tendo como participantes os alunos do 1° Ano TTA (Técnico em Turismo),
matutino, diferentemente do proposto inicialmente, quando também se
considerou a participação de turmas da Formação de Docentes, mudança
ocasionada por pura questão prática de distribuição de aulas.
Desde a apresentação do projeto à turma, pode-se contar com alunos
entusiasmados pela possibilidade de colaborarem com uma nova metodologia
de ensino com vistas à melhoria da escola pública, que foi a proposta do
Programa de Desenvolvimento Educacional, idealizado pela atual gestão do
Governo do Paraná.
A partir da apresentação do tema, o qual seja, promover o conhecimento
histórico como sustentáculo do turismo cultural, os estudantes, divididos em
equipes, partiram para a primeira etapa do projeto, selecionando materiais de
diversas naturezas, palpáveis e impalpáveis – livros, guias, depoimentos - para
a elaboração da História dos atrativos turísticos selecionados e distribuídos
entre os grupos, por meio de sorteio.
As apresentações dos trabalhos aconteceram num segundo momento,
quando já foi possível perceber a assimilação do conteúdo por parte dos
estudantes, e conseqüente ligação entre à História local e suas histórias
cotidianas. Nisto, a apresentação do material confeccionado para o PDE,
contribuiu consideravelmente, inclusive, para o entusiasmo dos alunos. Tratouse de material multimídia, com apresentação em flash, priorizando os locais de
memória, sendo eles: Fazenda Capão Alto, Museu do Tropeiro, Igreja Matriz
Sant’Ana, Casa da Praça, Casa de Sinhara e Casa da Cultura Emilia Ericksen.
Contribuiu-se com documentos, textos, livros e fotos, nesta etapa.
O city tour3 aproximou a teoria, prazerosamente construída em sala de
aula, à realidade dos atrativos turísticos e históricos castrenses. Na ocasião os
alunos, divididos em grupos, fizeram a apresentação de seus conhecimentos,
com minha supervisão e acompanhamento de alguns professores da turma, os
quais se valeram da ocasião para repassar dicas fundamentais para a conduta
de um bom técnico em turismo.
O projeto culminou com a realização de um seminário com a presença
de alunos, equipe
pedagógica, representantes
municipais
ligados
ao
Departamento de Turismo, moradores estudiosos da história local e demais
representantes do turismo castrense, o que trouxe à tona a difícil, mas nunca
insuperável, relação entre o conhecimento sistematizado na escola e a sua
aplicabilidade na prática.
Este artigo é o resultado de dois anos de trabalho levado adiante pela
idéia de que é possível criar novas possibilidades de superar o aculturamento
imposto pelo mundo globalizado e criar na população uma identidade histórica
com o meio no qual vive e tira seu sustento, sobretudo, quando existe uma
concreta possibilidade de ver crescer este meio de sustentabilidade pelo
desenvolvimento do turismo histórico-cultural local.
2 ESCOLHA E APRESENTAÇÃO DO TEMA
Partindo do pressuposto que História não é apenas memória, mas a
problematização da memória e que a memória da coletividade se perde
gradativamente na proporção que avançam os interesses do capitalismo
globalizado, torna-se urgente que a educação formal e de modo particular o
ensino da História encontre caminhos para “estimular, nos alunos, o senso de
preservação da memória social coletiva, como condição indispensável à
construção
de
uma
nova
cidadania
e
identidade
nacional
plural.”
(BITTENCOURT (org.), 2009, pg. 130).
Sendo assim, em um momento histórico em que é imprescindível criar
ferramentas igualmente eficientes ou ao menos competitivas diante dos
desafios impostos pela tendência de homogeneização cultural imposta à
3
Visita turística pela cidade.
humanidade, aproveitar oportunidades criadas para fazerem frente ao que está
posto, seja cada qual em seu setor da sociedade, deixa de ser um ato de
vontade e torna-se uma obrigação.
Neste sentido, apoderar-me das armas oferecidas pelo Projeto de
Desenvolvimento
Educacional
(PDE),
transformou-se
numa
naquelas
oportunidades indispensáveis dada, neste caso em particular, à História e a
mim, como cidadã responsável e historiadora, pelas mãos das quais – cidadã e
professora - centenas de alunos já passaram em vinte e três anos de carreira.
Diante da rica possibilidade de desafiar a mim mesma como profissional depois
de tantos anos num esforço ininterrupto de compromisso com a História e com
a interpretação desta mesma História pelos alunos, vi-me irrevogavelmente
absorvida pela escolha de um tema que desse respostas às necessidades
urgentes da Educação e às minhas próprias como profissional crítico.
Esta busca valeu-se, como a própria História, do tempo e foi encontrar
no passado recente o seu tema, especificamente, em dada reunião na sala dos
professores,
quando
se
questionava
a
implantação
de
um
curso
profissionalizante de Técnico em Turismo no colégio. Para meu incômodo e
dos demais professores da área, surgiu na ocasião um comentário que dava
conta de afirmar que o curso seria desnecessário já que em Castro, “não havia
nada para se ver”.
Tal colocação, mais que gerar indignação, pois não há cidade que não
seja um patrimônio histórico-cultural digno de se ver e, tampouco, que não
tenha sido construído sobre o chão marcado com os passos vigorosos de sua
gente e apenas por isso já seja em si de um valor inestimável, mais do que isto,
a colocação causou inquietação. Esta é a palavra. Inquietação. E não existe
nada melhor que este incômodo dentro do peito, para fazer a História seguir
em frente. Foi das inquietações de grandes homens e mulheres da
humanidade que aconteceram as transformações mais importantes do mundo.
Reportando-me àquela fala na sala dos professores, a minha própria
inquietação, mostrou-me a clara e urgente necessidade de trabalhar a
ressignificação da memória cultural local. Afinal, a cidade em questão possui
mais de 300 anos de História e um patrimônio cultural, cuja influência transpôs
os limites do próprio município em diferentes temporalidades históricas.
Com o firme propósito de reverter esse quadro de alienação em relação
à própria identidade dos cidadãos castrenses e, particularmente, promover a
mediação do processo identitário do educando, optou-se por desenvolver esta
temática, buscando aliar o conhecimento histórico local ao desenvolvimento do
turismo cultural, visto que uma coisa está necessariamente ligada à outra.
Afinal, que valor podemos atribuir ao que ignoramos?
Ora, é a memória dos habitantes que faz com que eles percebam, na
fisionomia da cidade, sua própria historia de vida, suas experiências
sociais e lutas cotidianas. A memória é, pois, imprescindível na
medida em que esclarece sobre o vinculo entre a sucessão de
gerações e o tempo histórico que as acompanha. Sem isso, a
população urbana não tem condições de compreender a historia de
sua cidade, como seu espaço urbano foi produzido pelos homens
através dos tempos, nem a origem do processo que a caracterizou.
Enfim, sem a memória não se pode situar na própria cidade, pois
perde-se o elo afetivo que propicia a relação habitante–cidade,
impossibilitando ao morador de se reconhecer enquanto cidadão de
direitos e deveres e sujeito da história. (BITTENCOURT (org.), 2009,
p.139)
3 METODOLOGIA
Relevando uma possível ousadia, arrisco afirmar que o sucesso de uma
empreitada intelectual depende essencialmente dos métodos, dos caminhos
adotados para se chegar aos objetivos propostos. O cuidado na escolha dos
passos a serem dados no desenvolvimento da proposta, determinará, em maior
ou menor grau, dependendo das mudanças avaliativas no seu transcorrer, a
exatidão de seus resultados finais.
Contudo, como se trata de atribuir uma nova significação à identidade
local por parte dos alunos, e mais, por tratar-se da História, dificilmente
podemos falar dela em termos de exatidão, mesmo porque o processo
histórico, como a própria palavra diz, é feito de um caminhar irregular e incerto,
no qual as previsões correm o sério risco de cair no vazio. O aprendizado da
História não acontece pelo mero processo linear de memorização de nomes,
datas e fatos. Neste caso, o que se buscou foi que o aluno se percebesse um
agente construtor da própria História.
Considerando tudo isso, o caminho escolhido para atingir os objetivos
propostos no Projeto de Intervenção balizou-se nas seguintes ações:
levantamento de dados (fontes históricas) dos principais locais de memória da
cidade, considerados pelo Plano Diretor do Departamento de Turismo do
Município como atrativos turísticos; divisão dos alunos do primeiro ano do
curso Técnico em Turismo integrado em equipes para realizar a seleção e
interpretação de documentos, textos, livros, fotos, entre outros; apresentação
para seus pares dos resultados obtidos com a pesquisa de cada local de
memória; apresentação do material didático pela professora, produzido dentro
do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), sobre a temática
adotada; realização de um city tour com os alunos envolvidos, sendo que cada
grupo, de acordo com o atrativo estudado, fez o papel de guia de turismo;
realização de um seminário com os alunos, equipe pedagógica, representantes
do Município ligados ao Departamento de Turismo da prefeitura Municipal,
moradores estudiosos da história local e representantes de outras instituições
ligadas ao turismo no Município.
4 DESENVOLVIMENTO
Desde o início, e mesmo porque todo trabalho de cunho intelectual pede
uma delimitação de seu tema, a proposta do projeto de intervenção foi sugerir
uma
mediação
no
processo
de
ressignificação
da
identidade
local,
considerando essa nova significação um sustentáculo inquebrantável para o
“turismo histórico” da cidade de Castro, ou seja, não se considerou outras
formas de turismo, como o turismo de aventura ou a espeleologia, por uma
simples questão de delimitação temática. É importante colocar que além dos
atrativos
escolhidos
para
este
trabalho
e
que
serão
desenvolvidos
posteriormente, o Plano Diretor do Departamento de Turismo do município de
Castro, considera ainda outros atrativos turísticos como: grutas, como as do
Pinheiro Seco, Abapan e Socavão; seus rios e cachoeiras, como o Rio Iapó,
Salto Cotia, Queda do Pinho e Arco de Pedra; e o Canyon Guartelá, sendo que
o território deste último tem suas terras legalmente divididas entre os
municípios de Castro e Tibagi, entre outros.
Cabe aqui dizer, que Castro, apesar do “peso histórico”, com suas
características tropeiras, e seus mais de 300 anos de existência, não é
tombada pelo Patrimônico Histórico Nacional, entretanto, possui inúmeros
imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, dentre eles,
aqueles que foram considerados para este projeto. São eles: Museu do
Tropeiro, Casa de Sinhara, Casa da Praça, Casa da Cultura Emília Erichsen,
Estação Ferroviária, e ainda, duas casas com funções comerciais, localizadas
no Centro Histórico castrense. E na área rural a Fazenda Capão Alto.
O levantamento das fontes históricas pelos alunos foi relativamente fácil.
Eles perceberam que, embora não divulgadas, existem no Município muitas
produções literárias de grande valor histórico. Além disso, a busca por
informações despertou no seio da família dos próprios alunos muitos “causos”
trazidos de uma memória adormecida. Infelizmente, costumes como sentar-se
à volta de um fogão à lenha e escutar as estórias de nossos avôs, algo tão
comum há apenas poucos anos atrás e que nos trazia a visão vivida de fatos
importantes do passado, como as guerras pelas quais o país passou, hoje em
dia é algo incomum. Para uma geração sem lutas para lutar, este hábito pode
causar as mais diferentes reações, como surpresa ou estranhamento.
A destruição do passado, ou melhor, dos mecanismos sociais que
vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas, é um
dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século
XX.
Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente
continuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da
época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo oficio é lembrar
o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca
no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm
de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores.
(HOBSBAWN Apud BITTENCOURT (org.), 2009, p. 42)
A divisão dos alunos em equipes, além de ser uma ferramenta que
arregimenta o esforço de todos, sem o isolamento de alguns, mostrou ser um
recurso didático bastante eficiente, quando o que se queria era facilitar a troca
de conhecimentos e experiências entre eles. Foi um trabalho visivelmente
prazeroso para os alunos e também se pode dizer, surpreendente, dados os
resultados que a aproximação da história da cidade com suas vidas cotidianas
foram capazes de causar.
Expressões como “eu conheço esse lugar”, ou “nossa, como é bonita
minha cidade” ou ainda “que história interessante”, foram comuns entre eles e
por que não dizer: já revelavam o incrível potencial que existe na idéia de
estreitar os caminhos entre a história local e seus moradores, visto que bastou
aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre ela, para que nascesse nas
pessoas, um certo orgulho de ser quem é e de viver onde vive.
O bom material reunido pelas equipes teve fontes variadas. Tratou-se de
livros de História do Paraná e da cidade de Castro, conseguidos na biblioteca
do Colégio e fora dela; artigos, reportagens e material gráfico adquirido através
da página virtual da Prefeitura Municipal; guias turísticos ilustrados do
município; sem contar as estórias orais e recursos materiais extraídos do rico
seio familiar. Começava, então, o desafio de organizar estas informações,
fazendo-as ganhar um sentido, que, sobretudo, as aproximassem da realidade
dos alunos, e com isso perdesse a pátina do velho e adquirisse o verniz do
surpreendente.
De fato, nunca foi tão fácil e tão difícil fazer a História. Fácil devido
ao reconhecimento da importância que os mecanismos de registro
da memória obtiveram e continuam a obter. Nunca tivemos tantos
arquivos e tanta preocupação com o patrimônio histórico, apesar de
todas as limitações. Difícil porque a tarefa de organizar as
informações com a intenção de dar-lhes alguma inteligibilidade tornase cada vez mais complexa.
Afirmamos isso diante da grande variedade de formas que as fontes
históricas podem assumir á medida que o tempo se aproxima do
nosso presente. E, assim como aos historiadores profissionais, ao
professor de história cabe também o desafio de revelar aos seus
alunos o surpreendente naquilo que aparenta ser banal. (MOREIRA
e VANCONCELOS, 2008, p. 86)
Com todo o material em mãos e sob minha orientação, os alunos
passaram a (re)escrever a história do atrativo turístico, destinado por sorteio a
cada equipe. Escrever a mesma História, mas com outros olhos, me faz ousar
dizer que os alunos a (re)escreveram, não só no papel, mas reinventaram a
mesma História porque dentro de suas mentes, ela havia se tornado diferente e
repleta de legitimidade. A minha mediação da aprendizagem entre as equipes
foi facilitada pela incrível vontade de querer saber mais dos alunos, despertada
pela natural curiosidade que a História desperta nas pessoas. Ainda que se
baseando no senso comum, já existia uma certa apropriação do tema
problematizado por parte dos estudantes. Nada mais gratificante, pois as
“casas velhas” da cidade e os “causos” contados pelos idosos começavam a
ganhar novos contornos, e nesta nova roupagem tornaram-se legítimos
patrimônios culturais imateriais, como a literatura, a música, o folclore, a
linguagem e os costumes de um povo, extrapolando a linha que os separavam
da simples e ignorada existência de tais bens.
Na apresentação dos grupos aos seus pares o aspecto mais relevante
foi a ligação estabelecida entre os conteúdos das apresentações, onde se
tornou possível concretizar a idéia de História como processo. Os alunos
demonstraram habilidade em relacionar ou dialogar passado/presente com seu
cotidiano. Provavelmente, sendo esta a razão maior do papel da História na
vida de cada cidadão. É o que o tornará mais crítico, pois terá conhecimento
para compreender o mundo em que vive e o fará capaz de não repetir os
mesmo equívocos do passado.
No embate entre os grupos o conhecimento histórico construído
favoreceu o confronto ou a comparação dos saberes entre si e destes com o
contexto histórico que os constituiu. Observou-se que o recorte da história local
possibilitou aos alunos a ampliação da compreensão histórica na dimensão
global, levando-os a estabelecer ligações daquilo que lhe é mais próximo e
“real” com estruturas mais complexas.
Ou seja, trata-se de uma abordagem imprescindível se desejamos
fazer de nossas aulas uma oportunidade para a reflexão acerca da
identidade e que permita a incorporação de outras vozes, que a
abordagem macro, via de regra silencia. Alem disso faz da História
algo a que, de fato o aluno pertence, contribuindo verdadeiramente
para a sua percepção enquanto sujeito da História. (MOREIRA e
VANCONCELOS, 2008, p. 27)
Com o intuito de aprofundar e sistematizar o conhecimento elaborado
pelos alunos nesse processo, a etapa seguinte foi marcada pela apresentação
do material didático produzido para o PDE. Tratou-se de um material
multimídia, com apresentação em flash, no total de 47 slides, priorizando os
locais de memória selecionados para o projeto, e que continham fotos, breve
histórico dos locais e como estão sendo utilizados e/ou preservados na
atualidade.
Ainda nesta etapa oportunizou-se uma discussão contemplando as
aproximações possíveis entre história local e turismo cultural, numa abordagem
mais incisiva ao que foi nominado neste trabalho como sendo uma relação de
estreita
ligação,
a
qual
seja,
entre
o conhecimento
histórico
e
o
desenvolvimento do turismo local. Esse novo olhar sobre o município
demonstrou que o patrimônio cultural ali existente é passível de ser aproveitado
para o desenvolvimento da cidade e do próprio aluno como cidadão.
A utilização turística dos bens culturais pressupõe sua valorização,
promoção e a manutenção de sua dinâmica e permanência no tempo como
símbolos de memória e de identidade. Um município que desenvolve o turismo
cultural pode ter como benefícios aumento da urbanização, incremento das
indústrias associadas à indústria do turismo (meios de transporte, alimentos,
hospedagem...), incremento da mão de obra para serviços turísticos, aumento
do comércio para produtos locais desde hortifrutigranjeiros até artesanato,
entre outros.
Considerar o patrimônio intocável é condená-lo ao abandono. Conhecer
os valores ofertados pela História do município leva à preservação e ao
desenvolvimento sustentado. O turismo estimulado por pessoas com
consciência histórica e social vai além da mera exploração econômica e terá
como principal resultado a preservação do patrimônio cultural da comunidade
receptora.
O turismo cultural deve ser considerado como uma atividade em que
o deslocamento ocorre para lugares em que a motivação é a busca
do conhecimento, da interação, da informação, da curiosidade
cultural, dos costumes, da tradição e da identidade. Seus
fundamentos são o elo entre passado e presente, o contato e a
convivência com o legado cultural, com tradições que foram
influenciadas pela dinâmica do tempo, mas que permanecem, com
as formas de arquitetura e construções de referência histórica, como
herança de civilizações, com a busca da identidade, nem sempre
percebida pelas pessoas, pois a modernidade transformou os
padrões de comportamento. Representa a possibilidade de
revitalização do patrimônio, de revigoramento das tradições, da
redescoberta de comportamento que foram suplantados pelo mundo
moderno e da ressignificação da cultura. (REIS, 2003, p.47)
Daí a importância em desenvolver métodos mais eficazes de intervenção
junto à comunidade estudantil, pois se acredita que a partir deles, os alunos,
poder-se-á colaborar na redescoberta e ressignificação da história local e
fortalecer o sentimento de identidade e cidadania. Não se pode esperar que a
população atue na preservação da sua História se ela não foi educada para
isso.
Como penúltima etapa no desenvolvimento do projeto, realizou-se o city
tour, com as mesmas equipes formadas em sala de aula. A ocasião se deu no
primeiro semestre de 2009, numa tarde de quinta-feira e posso dizer que foi o
ponto alto do projeto para os alunos.
Além da presença dos envolvidos diretos com o projeto, contou-se ainda
com a presença da professora orientadora da Universidade Estadual de Ponta
Grossa, professora Janaína de Paula do Espírito Santo, e com outros
turismólogos em trabalho com a turma do primeiro ano e que consideraram a
ocasião como aula prática de guiamento turístico, comum no curso de turismo.
Naquela oportunidade os professores ensinaram os estudantes a como se
posicionarem diante de um grupo de turistas, a prestarem informações
relevantes sobre o roteiro, admoestando-os para quais eram os cuidados para
atravessar uma rua com grupos grandes e a fazerem a verificação dos
presentes para que nenhum se perdesse do grupo. Trabalho interessante e
bastante prático, em contraste, com as entrelinhas da História, ambas
atividades se completando perfeitamente, como se viu, enriquecendo uma à
outra.
Se por um lado, os alunos estavam preparados para a apresentação,
visto que conheciam o local de memória estudado a partir de todo o trabalho
desenvolvido em sala de aula anteriormente, por outro, souberam fazer valer
toda a gama de conhecimentos adquiridos com os demais professores. Por
exemplo, para os turismólogos a interpretação do patrimônio é imprescindível,
ou seja, a comunicação com o turista é uma peça fundamental para o sucesso
de seu guiamento, oferecendo a ele, conforme, sua idade, seus interesses,
enfim, de acordo com suas características, uma forma de apresentar o objeto
turístico, tendo que lembrarem-se sempre que o turista busca o novo, o
diferente, o inusitado, a surpresa, mas também o conforto, que o fará disposto
a ouvir seu guia. É dessa fina sintonia que o visitante conseguirá ampliar seus
conhecimentos a cerca de um local e o fará indicá-lo a outras pessoas,
ampliando o valor histórico-cultural de um atrativo turístico pela sua constante
visitação e conseqüente valorização.
Os métodos do Turismo e do planejamento de atrativos históricoculturais aproximam História e Turismo enquanto disciplinas. Métodos de uma
e de outra inter-relacionam conceitos de patrimônio histórico cultural e
patrimônio memoralístico identitário.
...fazer turismo não é só um bom negócio, mas representa também
um fenômeno social e cultural de grande importância. Respondendo
diretamente á fome insaciável de dramatizações nos imaginários
sociais de pessoas que estão na busca de um relaxamento das suas
rotinas cotidianas, o turismo apela – com seu suspense, sua
excitação, suas possibilidades de identificações lúdicas e seu
divertimento contemplativo – diretamente às necessidades
existenciais da vida social. (DITZEL e SAHR (orgs.), 2001, p. 394.)
Um atrativo turístico não pode ser vendido comercialmente como os
produtos massificados, que são consumidos e esquecidos. O turismo
sustentado acontece pela possibilidade de atribuição de múltiplos significados
ao atrativo. No caso de uma atração histórica a problematização atribuída à
própria História é que irá garantir-lhe a sustentabilidade.
Cabe aqui identificar o espaço onde se realizou o city tour. Trata-se da
cidade de Castro, no Estado do Paraná. Castro está situada a 150 km da
capital do Estado – Curitiba, na região dos Campos Gerais, pertencente à rica
bacia leiteira do Estado, abrigando em seu entorno a Cooperativa Castrolanda,
fundada por holandeses que se estabeleceram na região no início da década
de cinquenta. Sua população gira em torno de 70 mil habitantes.
A origem da povoação de Castro remonta o inicio do século XVIII, com a
doação de uma sesmaria a Pedro Taques de Almeida e sua família, em 1704.
O desenvolvimento do povoado às margens do rio Iapó esta diretamente ligado
ao Tropeirismo.
O Tropeirismo corresponde ao intenso tráfego de muares, eqüinos,
asininos e gado vacum que se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX entre
Viamão no Rio Grande do Sul e a feira de Sorocaba no Estado de São Paulo,
onde os animais eram comercializados, principalmente para os centros de
mineração.
Esta atividade sócio-econômica foi fundamental para o povoamento da
região sul do país. Ao longo do Caminho do Viamão foram surgindo núcleos
urbanos ou “pousos”, locais onde os tropeiros paravam para pernoitar e
descansar a tropa. Em períodos de chuva alguns rios alagavam e o tropeiro era
forçado a permanecer no local por vários dias. Esse era o caso do Pouso do
Iapó, onde ficavam acampados junto ao vau do Capão Alto.
A Fazenda Capão Alto, primeiro atrativo visitado pelo grupo de alunos
participantes desse projeto, fazia parte da primeira sesmaria concedida nos
Campos Gerais, em 1704. Ela pode ser compreendida como um espaço de
produção para o município, tanto nos séculos em que sua atividade esteve
relacionada ao tropeirismo, quanto atualmente, como um espaço histórico
cultural. O conjunto arquitetônico reflete o estilo dos casarões coloniais das
fazendas de café de São Paulo e Rio de Janeiro.
Deve-se considerar que a ocupação das terras da Fazenda é anterior à
construção de sua sede. Nos primeiros tempos suas terras foram amplamente
favoráveis ao descanso dos tropeiros com suas tropas, devido à presença de
água e pastagem para os muares.
As benfeitorias registram um período de exploração econômica com a
criação de gado e algumas lavouras, além da produção de queijos. Atualmente,
seu entorno é ocupado por diferentes proprietários que se dedicam
basicamente à agropecuária.
Na seqüência do city tour os alunos deslocaram-se para o chamado
centro histórico do município, que corresponde ao espaço da Igreja Matriz e
seus arredores, onde visitaram e apresentaram os demais atrativos
selecionados, os quais sejam, a Casa de Sinhara, a Casa da Praça e o Museu
do Tropeiro.
Nesta altura é importante relatar, que a vibração dos grupos superou a
tensão normal dos alunos quando apresentam um trabalho em sala de aula.
Era notório que estavam satisfeitos por estarem no atrativo por eles pesquisado
e falando sobre ele com propriedade e desenvoltura. Ao mesmo tempo
observou-se que, com o estudo prévio do local de memória, a visita suscitou
novas descobertas e inúmeros questionamentos. Os olhos que passavam
agora pelas “casas velhas” não eram mais os mesmos do ir e vir cotidiano
pelas ruas da cidade.
Ao visitar a Casa de Sinhara, o grupo encarregado da apresentação do
atrativo empenhou-se na valorização da mulher e apontou as dificuldades para
se administrar um lar naquela época, estabelecendo comparações com as
diferentes jornadas de trabalho da mulher moderna.
A construção da Casa de Sinhara pertence ao final do século XVIII e
primeira metade do séc. XIX e seu encanto reside no fato de reproduzir o lar da
mulher castrense no período do tropeirismo. A casa retrata o modo de vida e os
costumes das mulheres do séc. XIX. Nela podemos encontrar móveis,
vestuário, talheres, enfeites, objetos, fotos antigas, enfim, um grande número
de peças expostas, em sua maioria, objetos de doações.
O Museu do Tropeiro pode ser considerado um dos ícones de uma visita
à cidade de Castro. No Museu do Tropeiro o visitante encontra um valioso
acervo - cerca de 300 anos de memória do tropeirismo - com peças de
vestuário, montarias, objetos pessoais dos antigos viajantes, mapas da rota,
documentos, utensílios, além de uma pequena coleção de arte sacra e objetos
utilizados no trato com os escravos.
A casa que abriga o Museu do Tropeiro foi construída no século XVIII,
pela família Carneiro Lobo. O Museu é considerado o mais completo do gênero
no país. São muitos os pesquisadores do tema Tropeirismo, que o visitam e
consultam as suas instalações e seu acervo.
É a oportunidade de salientar que a visita a um museu, por si só, nem
sempre corresponde à aprendizagem. Exposições sequenciais, peças em
vitrines devidamente etiquetadas, sem uma proposta de interação, concorrem
para a dispersão e o desinteresse do visitante.
...os objetos devem estar reunidos para produzirem um discurso
museográfico inteligível para os leigos, através dos documentos
materiais ali apresentados.
(...)
O contato com esses documentos materiais, a partir do suporte
comunicativo das exposições, permite-nos inserir questões relativas
à constituição de uma memória e da preservação de um passado.
(...)
...nossa perspectiva é a de que a memória seja entendida enquanto
objeto de conhecimento e que, no caso de um museu histórico, uma
das principais funções seja a de contribuir para o entendimento de
sua construção e de sua representação no momento presente.
(BITTENCOURT (org.), 2009, p. 107.)
O Museu do Tropeiro cumpre sua função educativa, pois permite ao
visitante identificar-se com a produção do homem em seu ambiente. E aos
alunos, essa identificação foi mais contundente, visto que encontraram nas
peças e memória do local, resquícios da memória do próprio espaço de
vivência.
Logo na chegada à Castro, o turista percebe claramente que o prédio da
Igreja Matriz, predomina sobre a geografia da cidade. Em 1827, Debret
registrou o centro histórico da cidade de Castro em sua obra e neste quadro
aparece justamente a praça da atual Matriz de Sant’ Ana, com o inicio da sua
construção, que foi considerada pronta em 1860. A presença de artistas com
tal gabarito, como o foi o pintor e ilustrador francês, apenas comprova a
importância histórica que a cidade já teve e tem o que faz revigorar, ainda que
passageiramente, a indignação gerada pela triste frase que deu conta de dizer
que aqui “não havia nada para se ver”.
É
relativamente
comum
nas
cidades
brasileiras,
que
igrejas
permaneçam abertas à visitação de turistas e de devotos anônimos em seus
instantes de meditação cristã. Momentos com este também podem servir como
oportunidades de apreensão de significados importantes, integrando a
manifestação religiosa cultural e a observação da continuidade do tempo
histórico vivenciado no templo, afinal, todos nós, em todas nossas ações e
pensamentos, somos frutos de um construir histórico e devemos ser
compreendidos a partir dele.
A Matriz de Sant’Ana, na cidade de Castro, destaca-se pela própria
imponência arquitetônica. Entre outras características importantes, merece
menção a presença de lustres doados por D.Pedro II e o sino de bronze
exposto logo à entrada, rachado pelo entusiasmo de suas batidas por ocasião
do anúncio do fim da II Guerra Mundial.
Finalizando o roteiro proposto aos alunos, visitou-se a Casa da Praça.
Trata-se de uma antiga residência, datada de 1870, construída em taipa de
pilão. Esta casa é antes de tudo um exemplo de resistência aos interesses, na
maioria das vezes conflitantes, entre a especulação imobiliária e a preservação
sustentável do patrimônio.
Entende-se que os espaços urbanos são dinâmicos em qualquer lugar
do mundo, contudo, a destruição indiscriminada de casarios antigos pode e
deve ser repensada, de modo especial, em cidades que pretendem ser
turísticas. A preservação equivocada de um bem que não possua mais nenhum
valor identitário para a comunidade onde está inserido, também não se justifica.
O que se propõe “aqui são investimentos no sentido de interpretar essas
estruturas, dar significados e sentidos a elas, informar adequadamente sobre
essas significações e, a partir desse processo, proteger e preservar, se for o
caso.” (MENESES, 2004. p. 69.)
Outra preocupação relevante nos chamados “centros históricos” das
cidades é não transformá-los em elementos excludentes de grande parcela da
população local.
Se proceder como um planejamento inclusivo, a atividade turística
não incorrerá em erros como aqueles que podemos facilmente
observar em alguns “centros históricos” de cidades antigas, onde a
especulação imobiliária expulsou seus moradores para a periferia e
os transformou em verdadeiros centros comerciais que se
desgastaram como atrativo para o turismo. (MENESES, 2004. p.
49.)
Um espaço urbano, ao ser considerado um local de memória e um
atrativo turístico, deve concorrer para a melhoria da qualidade de vida das
populações, para a inclusão social, quer pelos recursos econômicos que possa
promover, mas também e principalmente para elevar a auto-estima,
desenvolvendo o verdadeiro sentimento de pertencimento dos cidadãos, ao se
descobrirem parte importante da construção histórica do seu espaço de
vivência. Sendo o que se buscou o tempo todo com o presente projeto.
Por fim, a última ação prevista para conclusão do projeto foi a realização
de uma palestra envolvendo membros da comunidade e poder público, ligados
ao Turismo, estudiosos da História do município e comunidade escolar.
A palestra oportunizou um momento significativo para que as pessoas
envolvidas tivessem mais clara a difícil relação entre o conhecimento escolar
sistematizado e sua aplicabilidade na vida prática. Durante o evento, os alunos
tiveram a chance de conhecer os desafios para a implementação de políticas
públicas preocupadas com o patrimônio cultural do município aliadas ao
desenvolvimento econômico e geração de divisas.
Foram feitas considerações referentes à preservação das edificações,
resguardando-se a idéia de que esta preservação não seria somente
‘fachadista’, mas envolveria todo um processo de interpretação da edificação
preservada, revelando seu significado sócio-histórico.
A sustentabilidade da atividade turística aliada à valorização e
preservação da história local é um encargo de toda a comunidade. Sem o
envolvimento e o entendimento do espaço de vivência por parte dos munícipes,
nenhum plano de desenvolvimento poderá avançar.
É possível e estimulante pensar em um planejamento diferente, em
uma percepção mais acurada, onde o bem histórico cultural possa
ter tratamento de construção histórica dinâmica e em andamento e
possa propiciar inclusão identitária e social de quem participa
ativamente dessa dinâmica. A experiência turística tem demonstrado
que a participação comunitária sustenta não apenas o atrativo, mas
também a própria estrutura receptiva do turista. (MENESES, 2004. p.
13.)
A sustentabilidade da interpretação patrimonial para uma integração
com o setor turístico depende sobremaneira da interação entre o que se
convencionou chamar de poder público e privado. Tal interação só poderá
ocorrer numa gestão democrática que permita e incentive o engajamento civil
nas decisões sociais e para que este engajamento ocorra é preciso estabelecer
fórmulas que dêem conta de aproximar as populações de sua História. É o que
se procurou fazer por meio deste projeto, que teve numa turma de alunos do
curso Técnico em Turismo seus primeiros bons frutos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O ingresso no Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE),
oferecido pelo governo do Estado do Paraná, oportunizou o reencontro dos
professores do ensino fundamental com as instituições de Ensino Superior e a
possibilidade de buscar junto aos pesquisadores as bases teóricas para o
desenvolvimento de um trabalho com as classes de ensino fundamental, médio
e profissionalizante, que até antão tateavam por carecer justamente de sólida
base teórica e metodologia apropriada para deslanchar.
A muito se fala da rudeza do oficio de professor e isto se aplica com
pertinência ao professor de Historia. A sua formação não se restringe
a um curso de História, engloba ainda áreas das Ciências Humanas,
como Filosofia, Ciências Sociais, etc. Em geral, essa formação
começa e termina no curso de graduação. Formado, o professor de
História, como tantos outros, envolve-se com encargos familiares,
com a luta pela sobrevivência e quase sempre não dispõe de tempo
e nem de dinheiro para investir em qualificação profissional. Seu
cotidiano é preenchido com múltiplas tarefas, seu tempo de viver é
fragmentado, dilacerado pelas preocupações muitas vezes
contraditórias entre sua profissão, família e progresso cultural.
(BITTENCOURT (org.), 2009, p.54).
O professor no seu fazer diário tende a minimizar a importância do seu
próprio trabalho, acreditando que suas iniciativas, suas aspirações, seus
métodos não sejam em nada especiais, dignos de registro, ou mereçam
atenção dos grandes pesquisadores e foi justamente na desconstrução desse
pensamento que o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) foi
fundamental, pois o contato com a academia e as mais diversas produções dos
intelectuais serviu de modo particular, para valorizar o trabalho que vinha
sendo realizado no chão da escola e trouxe segurança para a implementação
de projetos.
Agarrar-se a novas possibilidades de conhecimento e pesquisa é mais
que uma obrigação profissional, deve voltar a ser uma prática sagrada, que
supera as expectativas de melhoria salarial e vai além, como uma flecha em
busca de um alvo certo. Em nossos dias presentes nenhum alvo é mais nítido,
que aquele tomado pelas conseqüências do capitalismo. Não se trata de adotar
posturas retrógradas que no caminhar da História separaram o mundo em
esquerda e direita, em adotar velhas utopias para superar desafios novos. A
humanidade evoluiu com o tempo e as mentes devem evoluir também.
Trata-se de investir em estratégias que amenizem os estragos feitos por
um sistema econômico que não possibilita igualdade de condições a todas as
pessoas, que estimula o consumismo como meio de se auto-sustentar e destrói
o meio-ambiente, que vem aniquilando o bem maior de um povo: sua
identidade cultural em seu sentido mais amplo, homogeneizando a língua, a
música, os comportamentos, as formas de pensamento.
Trazendo a realidade global para o âmbito local, busquei trabalhar um
tema, cujo resultado pudesse dar resposta, ainda que pequena, pois se
considerarmos a dimensão histórica e seu processo, estas são ações
pequeninas, mas fundamentais, respostas para uma problemática castrense,
objeto de minhas preocupações há muito tempo.
Como docente de História, comprometida com minha prática, nunca
pude concordar que os alunos não desenvolvessem uma consciência do
próprio local de vivência. Que passeassem pelas praças, frequentassem clubes
e lanchonetes, visitassem museus de sua cidade, sem compreender que estes
mesmos espaços foram palcos de inúmeros acontecimentos em outras
temporalidades. Era necessário que refletissem que estes locais de memória
orientam situações reais da vida presente.
Somos hoje cidadãos castrenses, herdeiros do tropeirismo, não
existimos por acaso, mas porque somos resultado de todo um processo de
construção histórica que remonta o século XVIII. Há mais de 300 anos pessoas
construíram o que hoje é a cidade de Castro e meus alunos, bem como suas
famílias, são os atuais construtores dessa obra inacabada. Restava fazê-los
identificarem-se com o rico patrimônio que os cercava, atribuindo-lhe
significado, legitimidade.
O projeto nasceu a partir desta necessidade de construir um novo
significado da História para os alunos, fazendo com que fossem capazes de
estreitar a relação entre passado e o seu presente cotidiano. Se isso pôde se
concretizar só o tempo dirá. As transformações ou mudanças na história dos
homens não ocorrem do dia para a noite. Temos em muitos aspectos séculos
de permanências e as rupturas não ocorrem sem longos períodos de transição.
O que precisamos é acreditar que as transformações são possíveis e ter
coragem de ousar diante dos desafios.
Entre alguns pensadores da atualidade prevalece a idéia de que é
através da educação que a mudança é possível, o que reforça o entusiasmo
em fazer a parte que nos cabe como educadores. Se não consigo que todos
compreendam a importância da preservação da memória, os poucos que
compreenderem serão defensores e multiplicadores dessa idéia. Este não é um
projeto de dois anos, que se encerra com o presente artigo. A preservação
cultural da cidade de Castro, do país e, por conseqüência, de todos nós, deve
ser o projeto de toda uma vida.
6 REFERÊNCIAS
BETTO, Frei. Jornal Eletrônico “Correio da Cidadania” , 2000. Disponível em:
www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/neoliberalismo.html (acesso dia 27/06/2008)
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Editora Unesp, 2001.
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Grossa e o Campos Gerais. Editora UEPG, Ponta Grossa. 2001.
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KARNAL, Leandro (org.). História na Sala de Aula. São Paulo: Editora Contexto,
2005.
História / vários autores. – Curitiba: SEED – PR, 2006.
MENESES, José Newton Coelho. História e Turismo Cultural. Autêntica, Belo
Horizonte. 2004.
MONTEIRO, Ana Maria. Ensino de História – sujeitos, saberes e práticas. Rio
de Janeiro: Mauad x Fapers, 2007.
MOREIRA, Claudia Regina Baukat Silveira e VASCONCELOS, José Antônio.
Metodologia do Ensino de História e Geografia. Curitiba, Ibpex, 2007.
PARANÁ, SEDD. Diretrizes curriculares estaduais para a disciplina de
História. Portal da Educação. 2008. Disponível em http://historia.seed.pr.gov.br/
acesso dia 08/04/2008
PELLEGRINI, A. Problemática do Patrimônio Natural/Cultural. In: Turismo em
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REIS, Fábio José Garcia (org.). Turismo – uma Perspectiva Regional. Taubaté:
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SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina.
Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed.
Da USP, 1978.
________________________. Viagem pela comarca de Curitiba. Tradução de
Cassiana Lacerda Carollo. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1995.
WACHOWICZ, Ruy.Historia do Paraná. Imprensa Oficial do Estado, Curitiba. 2002.
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