CONHECIMENTO HISTÓRICO COMO SUSTENTÁCULO DO DESENVOLVIMENTO DO TURISMO CULTURAL Sandra Aparecida Martins1 Janaína de Paula do Espírito Santo2 RESUMO: Muito se fala em preservação de patrimônio histórico cultural. Contudo, o trato pedagógico da história local não justifica de forma clara para o aluno porque é importante preservar. Este trabalho objetiva mediar a ressignificação da identidade histórica local para o aluno. Para tanto o uso de diferentes metodologias de pesquisa e construção do conhecimento histórico foram utilizadas. A reconstrução da própria história realizou-se através de pesquisa bibliográfica, visita aos locais de memória e seminários envolvendo alunos e comunidade. A partir dessa nova abordagem didático metodológica, observou-se uma nova interpretação para as “casas velhas” da cidade. E o que parecia velho tornou-se histórico e passível de ser aproveitado para o próprio desenvolvimento da cidade. Os alunos envolvidos no projeto demonstraram surpresa, interesse e por fim conhecimento, verbalizando a preocupação e o interesse pelos locais de memória, propondo inclusive formas de aproveitamento sustentável para o patrimônio histórico local. Palavras-chave: patrimônio cultural, turismo cultural, cidadania, Castro. ABSTRACT: Today people talk a lot about preservation of historic cultural heritage. However, the deal teaching local history not clearly justified to the student why it’s important to preserve. This paper aims to mediate the redefinition of local historical identity for the student. For both the use of different methodologies for research and historical knowledge were used. The reconstruction of the history took place through a literature review, visits to places of memory and seminars involving students and community. From this new approach to teaching methodology, there was a new interpretation to the "old houses" of the city. And what was old became history and that can be harnessed to development of the city. Students involved in the project expressed surprise, interest, and ultimately knowledge, voicing the concern and interest in local memory, including by proposing ways of sustainable use for the historic site. Keywords: cultural heritage, cultural tourism, citizenship, Castro. 1 Professora PDE 2008. Formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa no Curso de Licenciatura em História. Especialista em Metodologia do Ensino pela Ibpex, atua no Colégio Major Vespasiano Carneiro de Mello, Ensino Fundamental, Médio e Profissionalizante. Castro – Paraná e-mail: [email protected] 2 Professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Mestra em Educação. Orientadora do PDE. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo nasceu da possibilidade conquistada a partir do trabalho realizado por meio do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), de desenvolver um projeto que considerasse a importância da história da cidade de Castro pelo viés do turismo. O projeto de intervenção pedagógica, intitulado “Conhecimento Histórico como Sustentáculo do Desenvolvimento do Turismo Cultural” foi elaborado e aprovado no ano de 2008 e teve seu desenvolvimento neste ano de 2009, tendo como participantes os alunos do 1° Ano TTA (Técnico em Turismo), matutino, diferentemente do proposto inicialmente, quando também se considerou a participação de turmas da Formação de Docentes, mudança ocasionada por pura questão prática de distribuição de aulas. Desde a apresentação do projeto à turma, pode-se contar com alunos entusiasmados pela possibilidade de colaborarem com uma nova metodologia de ensino com vistas à melhoria da escola pública, que foi a proposta do Programa de Desenvolvimento Educacional, idealizado pela atual gestão do Governo do Paraná. A partir da apresentação do tema, o qual seja, promover o conhecimento histórico como sustentáculo do turismo cultural, os estudantes, divididos em equipes, partiram para a primeira etapa do projeto, selecionando materiais de diversas naturezas, palpáveis e impalpáveis – livros, guias, depoimentos - para a elaboração da História dos atrativos turísticos selecionados e distribuídos entre os grupos, por meio de sorteio. As apresentações dos trabalhos aconteceram num segundo momento, quando já foi possível perceber a assimilação do conteúdo por parte dos estudantes, e conseqüente ligação entre à História local e suas histórias cotidianas. Nisto, a apresentação do material confeccionado para o PDE, contribuiu consideravelmente, inclusive, para o entusiasmo dos alunos. Tratouse de material multimídia, com apresentação em flash, priorizando os locais de memória, sendo eles: Fazenda Capão Alto, Museu do Tropeiro, Igreja Matriz Sant’Ana, Casa da Praça, Casa de Sinhara e Casa da Cultura Emilia Ericksen. Contribuiu-se com documentos, textos, livros e fotos, nesta etapa. O city tour3 aproximou a teoria, prazerosamente construída em sala de aula, à realidade dos atrativos turísticos e históricos castrenses. Na ocasião os alunos, divididos em grupos, fizeram a apresentação de seus conhecimentos, com minha supervisão e acompanhamento de alguns professores da turma, os quais se valeram da ocasião para repassar dicas fundamentais para a conduta de um bom técnico em turismo. O projeto culminou com a realização de um seminário com a presença de alunos, equipe pedagógica, representantes municipais ligados ao Departamento de Turismo, moradores estudiosos da história local e demais representantes do turismo castrense, o que trouxe à tona a difícil, mas nunca insuperável, relação entre o conhecimento sistematizado na escola e a sua aplicabilidade na prática. Este artigo é o resultado de dois anos de trabalho levado adiante pela idéia de que é possível criar novas possibilidades de superar o aculturamento imposto pelo mundo globalizado e criar na população uma identidade histórica com o meio no qual vive e tira seu sustento, sobretudo, quando existe uma concreta possibilidade de ver crescer este meio de sustentabilidade pelo desenvolvimento do turismo histórico-cultural local. 2 ESCOLHA E APRESENTAÇÃO DO TEMA Partindo do pressuposto que História não é apenas memória, mas a problematização da memória e que a memória da coletividade se perde gradativamente na proporção que avançam os interesses do capitalismo globalizado, torna-se urgente que a educação formal e de modo particular o ensino da História encontre caminhos para “estimular, nos alunos, o senso de preservação da memória social coletiva, como condição indispensável à construção de uma nova cidadania e identidade nacional plural.” (BITTENCOURT (org.), 2009, pg. 130). Sendo assim, em um momento histórico em que é imprescindível criar ferramentas igualmente eficientes ou ao menos competitivas diante dos desafios impostos pela tendência de homogeneização cultural imposta à 3 Visita turística pela cidade. humanidade, aproveitar oportunidades criadas para fazerem frente ao que está posto, seja cada qual em seu setor da sociedade, deixa de ser um ato de vontade e torna-se uma obrigação. Neste sentido, apoderar-me das armas oferecidas pelo Projeto de Desenvolvimento Educacional (PDE), transformou-se numa naquelas oportunidades indispensáveis dada, neste caso em particular, à História e a mim, como cidadã responsável e historiadora, pelas mãos das quais – cidadã e professora - centenas de alunos já passaram em vinte e três anos de carreira. Diante da rica possibilidade de desafiar a mim mesma como profissional depois de tantos anos num esforço ininterrupto de compromisso com a História e com a interpretação desta mesma História pelos alunos, vi-me irrevogavelmente absorvida pela escolha de um tema que desse respostas às necessidades urgentes da Educação e às minhas próprias como profissional crítico. Esta busca valeu-se, como a própria História, do tempo e foi encontrar no passado recente o seu tema, especificamente, em dada reunião na sala dos professores, quando se questionava a implantação de um curso profissionalizante de Técnico em Turismo no colégio. Para meu incômodo e dos demais professores da área, surgiu na ocasião um comentário que dava conta de afirmar que o curso seria desnecessário já que em Castro, “não havia nada para se ver”. Tal colocação, mais que gerar indignação, pois não há cidade que não seja um patrimônio histórico-cultural digno de se ver e, tampouco, que não tenha sido construído sobre o chão marcado com os passos vigorosos de sua gente e apenas por isso já seja em si de um valor inestimável, mais do que isto, a colocação causou inquietação. Esta é a palavra. Inquietação. E não existe nada melhor que este incômodo dentro do peito, para fazer a História seguir em frente. Foi das inquietações de grandes homens e mulheres da humanidade que aconteceram as transformações mais importantes do mundo. Reportando-me àquela fala na sala dos professores, a minha própria inquietação, mostrou-me a clara e urgente necessidade de trabalhar a ressignificação da memória cultural local. Afinal, a cidade em questão possui mais de 300 anos de História e um patrimônio cultural, cuja influência transpôs os limites do próprio município em diferentes temporalidades históricas. Com o firme propósito de reverter esse quadro de alienação em relação à própria identidade dos cidadãos castrenses e, particularmente, promover a mediação do processo identitário do educando, optou-se por desenvolver esta temática, buscando aliar o conhecimento histórico local ao desenvolvimento do turismo cultural, visto que uma coisa está necessariamente ligada à outra. Afinal, que valor podemos atribuir ao que ignoramos? Ora, é a memória dos habitantes que faz com que eles percebam, na fisionomia da cidade, sua própria historia de vida, suas experiências sociais e lutas cotidianas. A memória é, pois, imprescindível na medida em que esclarece sobre o vinculo entre a sucessão de gerações e o tempo histórico que as acompanha. Sem isso, a população urbana não tem condições de compreender a historia de sua cidade, como seu espaço urbano foi produzido pelos homens através dos tempos, nem a origem do processo que a caracterizou. Enfim, sem a memória não se pode situar na própria cidade, pois perde-se o elo afetivo que propicia a relação habitante–cidade, impossibilitando ao morador de se reconhecer enquanto cidadão de direitos e deveres e sujeito da história. (BITTENCOURT (org.), 2009, p.139) 3 METODOLOGIA Relevando uma possível ousadia, arrisco afirmar que o sucesso de uma empreitada intelectual depende essencialmente dos métodos, dos caminhos adotados para se chegar aos objetivos propostos. O cuidado na escolha dos passos a serem dados no desenvolvimento da proposta, determinará, em maior ou menor grau, dependendo das mudanças avaliativas no seu transcorrer, a exatidão de seus resultados finais. Contudo, como se trata de atribuir uma nova significação à identidade local por parte dos alunos, e mais, por tratar-se da História, dificilmente podemos falar dela em termos de exatidão, mesmo porque o processo histórico, como a própria palavra diz, é feito de um caminhar irregular e incerto, no qual as previsões correm o sério risco de cair no vazio. O aprendizado da História não acontece pelo mero processo linear de memorização de nomes, datas e fatos. Neste caso, o que se buscou foi que o aluno se percebesse um agente construtor da própria História. Considerando tudo isso, o caminho escolhido para atingir os objetivos propostos no Projeto de Intervenção balizou-se nas seguintes ações: levantamento de dados (fontes históricas) dos principais locais de memória da cidade, considerados pelo Plano Diretor do Departamento de Turismo do Município como atrativos turísticos; divisão dos alunos do primeiro ano do curso Técnico em Turismo integrado em equipes para realizar a seleção e interpretação de documentos, textos, livros, fotos, entre outros; apresentação para seus pares dos resultados obtidos com a pesquisa de cada local de memória; apresentação do material didático pela professora, produzido dentro do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), sobre a temática adotada; realização de um city tour com os alunos envolvidos, sendo que cada grupo, de acordo com o atrativo estudado, fez o papel de guia de turismo; realização de um seminário com os alunos, equipe pedagógica, representantes do Município ligados ao Departamento de Turismo da prefeitura Municipal, moradores estudiosos da história local e representantes de outras instituições ligadas ao turismo no Município. 4 DESENVOLVIMENTO Desde o início, e mesmo porque todo trabalho de cunho intelectual pede uma delimitação de seu tema, a proposta do projeto de intervenção foi sugerir uma mediação no processo de ressignificação da identidade local, considerando essa nova significação um sustentáculo inquebrantável para o “turismo histórico” da cidade de Castro, ou seja, não se considerou outras formas de turismo, como o turismo de aventura ou a espeleologia, por uma simples questão de delimitação temática. É importante colocar que além dos atrativos escolhidos para este trabalho e que serão desenvolvidos posteriormente, o Plano Diretor do Departamento de Turismo do município de Castro, considera ainda outros atrativos turísticos como: grutas, como as do Pinheiro Seco, Abapan e Socavão; seus rios e cachoeiras, como o Rio Iapó, Salto Cotia, Queda do Pinho e Arco de Pedra; e o Canyon Guartelá, sendo que o território deste último tem suas terras legalmente divididas entre os municípios de Castro e Tibagi, entre outros. Cabe aqui dizer, que Castro, apesar do “peso histórico”, com suas características tropeiras, e seus mais de 300 anos de existência, não é tombada pelo Patrimônico Histórico Nacional, entretanto, possui inúmeros imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, dentre eles, aqueles que foram considerados para este projeto. São eles: Museu do Tropeiro, Casa de Sinhara, Casa da Praça, Casa da Cultura Emília Erichsen, Estação Ferroviária, e ainda, duas casas com funções comerciais, localizadas no Centro Histórico castrense. E na área rural a Fazenda Capão Alto. O levantamento das fontes históricas pelos alunos foi relativamente fácil. Eles perceberam que, embora não divulgadas, existem no Município muitas produções literárias de grande valor histórico. Além disso, a busca por informações despertou no seio da família dos próprios alunos muitos “causos” trazidos de uma memória adormecida. Infelizmente, costumes como sentar-se à volta de um fogão à lenha e escutar as estórias de nossos avôs, algo tão comum há apenas poucos anos atrás e que nos trazia a visão vivida de fatos importantes do passado, como as guerras pelas quais o país passou, hoje em dia é algo incomum. Para uma geração sem lutas para lutar, este hábito pode causar as mais diferentes reações, como surpresa ou estranhamento. A destruição do passado, ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas, é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente continuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo oficio é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores. (HOBSBAWN Apud BITTENCOURT (org.), 2009, p. 42) A divisão dos alunos em equipes, além de ser uma ferramenta que arregimenta o esforço de todos, sem o isolamento de alguns, mostrou ser um recurso didático bastante eficiente, quando o que se queria era facilitar a troca de conhecimentos e experiências entre eles. Foi um trabalho visivelmente prazeroso para os alunos e também se pode dizer, surpreendente, dados os resultados que a aproximação da história da cidade com suas vidas cotidianas foram capazes de causar. Expressões como “eu conheço esse lugar”, ou “nossa, como é bonita minha cidade” ou ainda “que história interessante”, foram comuns entre eles e por que não dizer: já revelavam o incrível potencial que existe na idéia de estreitar os caminhos entre a história local e seus moradores, visto que bastou aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre ela, para que nascesse nas pessoas, um certo orgulho de ser quem é e de viver onde vive. O bom material reunido pelas equipes teve fontes variadas. Tratou-se de livros de História do Paraná e da cidade de Castro, conseguidos na biblioteca do Colégio e fora dela; artigos, reportagens e material gráfico adquirido através da página virtual da Prefeitura Municipal; guias turísticos ilustrados do município; sem contar as estórias orais e recursos materiais extraídos do rico seio familiar. Começava, então, o desafio de organizar estas informações, fazendo-as ganhar um sentido, que, sobretudo, as aproximassem da realidade dos alunos, e com isso perdesse a pátina do velho e adquirisse o verniz do surpreendente. De fato, nunca foi tão fácil e tão difícil fazer a História. Fácil devido ao reconhecimento da importância que os mecanismos de registro da memória obtiveram e continuam a obter. Nunca tivemos tantos arquivos e tanta preocupação com o patrimônio histórico, apesar de todas as limitações. Difícil porque a tarefa de organizar as informações com a intenção de dar-lhes alguma inteligibilidade tornase cada vez mais complexa. Afirmamos isso diante da grande variedade de formas que as fontes históricas podem assumir á medida que o tempo se aproxima do nosso presente. E, assim como aos historiadores profissionais, ao professor de história cabe também o desafio de revelar aos seus alunos o surpreendente naquilo que aparenta ser banal. (MOREIRA e VANCONCELOS, 2008, p. 86) Com todo o material em mãos e sob minha orientação, os alunos passaram a (re)escrever a história do atrativo turístico, destinado por sorteio a cada equipe. Escrever a mesma História, mas com outros olhos, me faz ousar dizer que os alunos a (re)escreveram, não só no papel, mas reinventaram a mesma História porque dentro de suas mentes, ela havia se tornado diferente e repleta de legitimidade. A minha mediação da aprendizagem entre as equipes foi facilitada pela incrível vontade de querer saber mais dos alunos, despertada pela natural curiosidade que a História desperta nas pessoas. Ainda que se baseando no senso comum, já existia uma certa apropriação do tema problematizado por parte dos estudantes. Nada mais gratificante, pois as “casas velhas” da cidade e os “causos” contados pelos idosos começavam a ganhar novos contornos, e nesta nova roupagem tornaram-se legítimos patrimônios culturais imateriais, como a literatura, a música, o folclore, a linguagem e os costumes de um povo, extrapolando a linha que os separavam da simples e ignorada existência de tais bens. Na apresentação dos grupos aos seus pares o aspecto mais relevante foi a ligação estabelecida entre os conteúdos das apresentações, onde se tornou possível concretizar a idéia de História como processo. Os alunos demonstraram habilidade em relacionar ou dialogar passado/presente com seu cotidiano. Provavelmente, sendo esta a razão maior do papel da História na vida de cada cidadão. É o que o tornará mais crítico, pois terá conhecimento para compreender o mundo em que vive e o fará capaz de não repetir os mesmo equívocos do passado. No embate entre os grupos o conhecimento histórico construído favoreceu o confronto ou a comparação dos saberes entre si e destes com o contexto histórico que os constituiu. Observou-se que o recorte da história local possibilitou aos alunos a ampliação da compreensão histórica na dimensão global, levando-os a estabelecer ligações daquilo que lhe é mais próximo e “real” com estruturas mais complexas. Ou seja, trata-se de uma abordagem imprescindível se desejamos fazer de nossas aulas uma oportunidade para a reflexão acerca da identidade e que permita a incorporação de outras vozes, que a abordagem macro, via de regra silencia. Alem disso faz da História algo a que, de fato o aluno pertence, contribuindo verdadeiramente para a sua percepção enquanto sujeito da História. (MOREIRA e VANCONCELOS, 2008, p. 27) Com o intuito de aprofundar e sistematizar o conhecimento elaborado pelos alunos nesse processo, a etapa seguinte foi marcada pela apresentação do material didático produzido para o PDE. Tratou-se de um material multimídia, com apresentação em flash, no total de 47 slides, priorizando os locais de memória selecionados para o projeto, e que continham fotos, breve histórico dos locais e como estão sendo utilizados e/ou preservados na atualidade. Ainda nesta etapa oportunizou-se uma discussão contemplando as aproximações possíveis entre história local e turismo cultural, numa abordagem mais incisiva ao que foi nominado neste trabalho como sendo uma relação de estreita ligação, a qual seja, entre o conhecimento histórico e o desenvolvimento do turismo local. Esse novo olhar sobre o município demonstrou que o patrimônio cultural ali existente é passível de ser aproveitado para o desenvolvimento da cidade e do próprio aluno como cidadão. A utilização turística dos bens culturais pressupõe sua valorização, promoção e a manutenção de sua dinâmica e permanência no tempo como símbolos de memória e de identidade. Um município que desenvolve o turismo cultural pode ter como benefícios aumento da urbanização, incremento das indústrias associadas à indústria do turismo (meios de transporte, alimentos, hospedagem...), incremento da mão de obra para serviços turísticos, aumento do comércio para produtos locais desde hortifrutigranjeiros até artesanato, entre outros. Considerar o patrimônio intocável é condená-lo ao abandono. Conhecer os valores ofertados pela História do município leva à preservação e ao desenvolvimento sustentado. O turismo estimulado por pessoas com consciência histórica e social vai além da mera exploração econômica e terá como principal resultado a preservação do patrimônio cultural da comunidade receptora. O turismo cultural deve ser considerado como uma atividade em que o deslocamento ocorre para lugares em que a motivação é a busca do conhecimento, da interação, da informação, da curiosidade cultural, dos costumes, da tradição e da identidade. Seus fundamentos são o elo entre passado e presente, o contato e a convivência com o legado cultural, com tradições que foram influenciadas pela dinâmica do tempo, mas que permanecem, com as formas de arquitetura e construções de referência histórica, como herança de civilizações, com a busca da identidade, nem sempre percebida pelas pessoas, pois a modernidade transformou os padrões de comportamento. Representa a possibilidade de revitalização do patrimônio, de revigoramento das tradições, da redescoberta de comportamento que foram suplantados pelo mundo moderno e da ressignificação da cultura. (REIS, 2003, p.47) Daí a importância em desenvolver métodos mais eficazes de intervenção junto à comunidade estudantil, pois se acredita que a partir deles, os alunos, poder-se-á colaborar na redescoberta e ressignificação da história local e fortalecer o sentimento de identidade e cidadania. Não se pode esperar que a população atue na preservação da sua História se ela não foi educada para isso. Como penúltima etapa no desenvolvimento do projeto, realizou-se o city tour, com as mesmas equipes formadas em sala de aula. A ocasião se deu no primeiro semestre de 2009, numa tarde de quinta-feira e posso dizer que foi o ponto alto do projeto para os alunos. Além da presença dos envolvidos diretos com o projeto, contou-se ainda com a presença da professora orientadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa, professora Janaína de Paula do Espírito Santo, e com outros turismólogos em trabalho com a turma do primeiro ano e que consideraram a ocasião como aula prática de guiamento turístico, comum no curso de turismo. Naquela oportunidade os professores ensinaram os estudantes a como se posicionarem diante de um grupo de turistas, a prestarem informações relevantes sobre o roteiro, admoestando-os para quais eram os cuidados para atravessar uma rua com grupos grandes e a fazerem a verificação dos presentes para que nenhum se perdesse do grupo. Trabalho interessante e bastante prático, em contraste, com as entrelinhas da História, ambas atividades se completando perfeitamente, como se viu, enriquecendo uma à outra. Se por um lado, os alunos estavam preparados para a apresentação, visto que conheciam o local de memória estudado a partir de todo o trabalho desenvolvido em sala de aula anteriormente, por outro, souberam fazer valer toda a gama de conhecimentos adquiridos com os demais professores. Por exemplo, para os turismólogos a interpretação do patrimônio é imprescindível, ou seja, a comunicação com o turista é uma peça fundamental para o sucesso de seu guiamento, oferecendo a ele, conforme, sua idade, seus interesses, enfim, de acordo com suas características, uma forma de apresentar o objeto turístico, tendo que lembrarem-se sempre que o turista busca o novo, o diferente, o inusitado, a surpresa, mas também o conforto, que o fará disposto a ouvir seu guia. É dessa fina sintonia que o visitante conseguirá ampliar seus conhecimentos a cerca de um local e o fará indicá-lo a outras pessoas, ampliando o valor histórico-cultural de um atrativo turístico pela sua constante visitação e conseqüente valorização. Os métodos do Turismo e do planejamento de atrativos históricoculturais aproximam História e Turismo enquanto disciplinas. Métodos de uma e de outra inter-relacionam conceitos de patrimônio histórico cultural e patrimônio memoralístico identitário. ...fazer turismo não é só um bom negócio, mas representa também um fenômeno social e cultural de grande importância. Respondendo diretamente á fome insaciável de dramatizações nos imaginários sociais de pessoas que estão na busca de um relaxamento das suas rotinas cotidianas, o turismo apela – com seu suspense, sua excitação, suas possibilidades de identificações lúdicas e seu divertimento contemplativo – diretamente às necessidades existenciais da vida social. (DITZEL e SAHR (orgs.), 2001, p. 394.) Um atrativo turístico não pode ser vendido comercialmente como os produtos massificados, que são consumidos e esquecidos. O turismo sustentado acontece pela possibilidade de atribuição de múltiplos significados ao atrativo. No caso de uma atração histórica a problematização atribuída à própria História é que irá garantir-lhe a sustentabilidade. Cabe aqui identificar o espaço onde se realizou o city tour. Trata-se da cidade de Castro, no Estado do Paraná. Castro está situada a 150 km da capital do Estado – Curitiba, na região dos Campos Gerais, pertencente à rica bacia leiteira do Estado, abrigando em seu entorno a Cooperativa Castrolanda, fundada por holandeses que se estabeleceram na região no início da década de cinquenta. Sua população gira em torno de 70 mil habitantes. A origem da povoação de Castro remonta o inicio do século XVIII, com a doação de uma sesmaria a Pedro Taques de Almeida e sua família, em 1704. O desenvolvimento do povoado às margens do rio Iapó esta diretamente ligado ao Tropeirismo. O Tropeirismo corresponde ao intenso tráfego de muares, eqüinos, asininos e gado vacum que se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX entre Viamão no Rio Grande do Sul e a feira de Sorocaba no Estado de São Paulo, onde os animais eram comercializados, principalmente para os centros de mineração. Esta atividade sócio-econômica foi fundamental para o povoamento da região sul do país. Ao longo do Caminho do Viamão foram surgindo núcleos urbanos ou “pousos”, locais onde os tropeiros paravam para pernoitar e descansar a tropa. Em períodos de chuva alguns rios alagavam e o tropeiro era forçado a permanecer no local por vários dias. Esse era o caso do Pouso do Iapó, onde ficavam acampados junto ao vau do Capão Alto. A Fazenda Capão Alto, primeiro atrativo visitado pelo grupo de alunos participantes desse projeto, fazia parte da primeira sesmaria concedida nos Campos Gerais, em 1704. Ela pode ser compreendida como um espaço de produção para o município, tanto nos séculos em que sua atividade esteve relacionada ao tropeirismo, quanto atualmente, como um espaço histórico cultural. O conjunto arquitetônico reflete o estilo dos casarões coloniais das fazendas de café de São Paulo e Rio de Janeiro. Deve-se considerar que a ocupação das terras da Fazenda é anterior à construção de sua sede. Nos primeiros tempos suas terras foram amplamente favoráveis ao descanso dos tropeiros com suas tropas, devido à presença de água e pastagem para os muares. As benfeitorias registram um período de exploração econômica com a criação de gado e algumas lavouras, além da produção de queijos. Atualmente, seu entorno é ocupado por diferentes proprietários que se dedicam basicamente à agropecuária. Na seqüência do city tour os alunos deslocaram-se para o chamado centro histórico do município, que corresponde ao espaço da Igreja Matriz e seus arredores, onde visitaram e apresentaram os demais atrativos selecionados, os quais sejam, a Casa de Sinhara, a Casa da Praça e o Museu do Tropeiro. Nesta altura é importante relatar, que a vibração dos grupos superou a tensão normal dos alunos quando apresentam um trabalho em sala de aula. Era notório que estavam satisfeitos por estarem no atrativo por eles pesquisado e falando sobre ele com propriedade e desenvoltura. Ao mesmo tempo observou-se que, com o estudo prévio do local de memória, a visita suscitou novas descobertas e inúmeros questionamentos. Os olhos que passavam agora pelas “casas velhas” não eram mais os mesmos do ir e vir cotidiano pelas ruas da cidade. Ao visitar a Casa de Sinhara, o grupo encarregado da apresentação do atrativo empenhou-se na valorização da mulher e apontou as dificuldades para se administrar um lar naquela época, estabelecendo comparações com as diferentes jornadas de trabalho da mulher moderna. A construção da Casa de Sinhara pertence ao final do século XVIII e primeira metade do séc. XIX e seu encanto reside no fato de reproduzir o lar da mulher castrense no período do tropeirismo. A casa retrata o modo de vida e os costumes das mulheres do séc. XIX. Nela podemos encontrar móveis, vestuário, talheres, enfeites, objetos, fotos antigas, enfim, um grande número de peças expostas, em sua maioria, objetos de doações. O Museu do Tropeiro pode ser considerado um dos ícones de uma visita à cidade de Castro. No Museu do Tropeiro o visitante encontra um valioso acervo - cerca de 300 anos de memória do tropeirismo - com peças de vestuário, montarias, objetos pessoais dos antigos viajantes, mapas da rota, documentos, utensílios, além de uma pequena coleção de arte sacra e objetos utilizados no trato com os escravos. A casa que abriga o Museu do Tropeiro foi construída no século XVIII, pela família Carneiro Lobo. O Museu é considerado o mais completo do gênero no país. São muitos os pesquisadores do tema Tropeirismo, que o visitam e consultam as suas instalações e seu acervo. É a oportunidade de salientar que a visita a um museu, por si só, nem sempre corresponde à aprendizagem. Exposições sequenciais, peças em vitrines devidamente etiquetadas, sem uma proposta de interação, concorrem para a dispersão e o desinteresse do visitante. ...os objetos devem estar reunidos para produzirem um discurso museográfico inteligível para os leigos, através dos documentos materiais ali apresentados. (...) O contato com esses documentos materiais, a partir do suporte comunicativo das exposições, permite-nos inserir questões relativas à constituição de uma memória e da preservação de um passado. (...) ...nossa perspectiva é a de que a memória seja entendida enquanto objeto de conhecimento e que, no caso de um museu histórico, uma das principais funções seja a de contribuir para o entendimento de sua construção e de sua representação no momento presente. (BITTENCOURT (org.), 2009, p. 107.) O Museu do Tropeiro cumpre sua função educativa, pois permite ao visitante identificar-se com a produção do homem em seu ambiente. E aos alunos, essa identificação foi mais contundente, visto que encontraram nas peças e memória do local, resquícios da memória do próprio espaço de vivência. Logo na chegada à Castro, o turista percebe claramente que o prédio da Igreja Matriz, predomina sobre a geografia da cidade. Em 1827, Debret registrou o centro histórico da cidade de Castro em sua obra e neste quadro aparece justamente a praça da atual Matriz de Sant’ Ana, com o inicio da sua construção, que foi considerada pronta em 1860. A presença de artistas com tal gabarito, como o foi o pintor e ilustrador francês, apenas comprova a importância histórica que a cidade já teve e tem o que faz revigorar, ainda que passageiramente, a indignação gerada pela triste frase que deu conta de dizer que aqui “não havia nada para se ver”. É relativamente comum nas cidades brasileiras, que igrejas permaneçam abertas à visitação de turistas e de devotos anônimos em seus instantes de meditação cristã. Momentos com este também podem servir como oportunidades de apreensão de significados importantes, integrando a manifestação religiosa cultural e a observação da continuidade do tempo histórico vivenciado no templo, afinal, todos nós, em todas nossas ações e pensamentos, somos frutos de um construir histórico e devemos ser compreendidos a partir dele. A Matriz de Sant’Ana, na cidade de Castro, destaca-se pela própria imponência arquitetônica. Entre outras características importantes, merece menção a presença de lustres doados por D.Pedro II e o sino de bronze exposto logo à entrada, rachado pelo entusiasmo de suas batidas por ocasião do anúncio do fim da II Guerra Mundial. Finalizando o roteiro proposto aos alunos, visitou-se a Casa da Praça. Trata-se de uma antiga residência, datada de 1870, construída em taipa de pilão. Esta casa é antes de tudo um exemplo de resistência aos interesses, na maioria das vezes conflitantes, entre a especulação imobiliária e a preservação sustentável do patrimônio. Entende-se que os espaços urbanos são dinâmicos em qualquer lugar do mundo, contudo, a destruição indiscriminada de casarios antigos pode e deve ser repensada, de modo especial, em cidades que pretendem ser turísticas. A preservação equivocada de um bem que não possua mais nenhum valor identitário para a comunidade onde está inserido, também não se justifica. O que se propõe “aqui são investimentos no sentido de interpretar essas estruturas, dar significados e sentidos a elas, informar adequadamente sobre essas significações e, a partir desse processo, proteger e preservar, se for o caso.” (MENESES, 2004. p. 69.) Outra preocupação relevante nos chamados “centros históricos” das cidades é não transformá-los em elementos excludentes de grande parcela da população local. Se proceder como um planejamento inclusivo, a atividade turística não incorrerá em erros como aqueles que podemos facilmente observar em alguns “centros históricos” de cidades antigas, onde a especulação imobiliária expulsou seus moradores para a periferia e os transformou em verdadeiros centros comerciais que se desgastaram como atrativo para o turismo. (MENESES, 2004. p. 49.) Um espaço urbano, ao ser considerado um local de memória e um atrativo turístico, deve concorrer para a melhoria da qualidade de vida das populações, para a inclusão social, quer pelos recursos econômicos que possa promover, mas também e principalmente para elevar a auto-estima, desenvolvendo o verdadeiro sentimento de pertencimento dos cidadãos, ao se descobrirem parte importante da construção histórica do seu espaço de vivência. Sendo o que se buscou o tempo todo com o presente projeto. Por fim, a última ação prevista para conclusão do projeto foi a realização de uma palestra envolvendo membros da comunidade e poder público, ligados ao Turismo, estudiosos da História do município e comunidade escolar. A palestra oportunizou um momento significativo para que as pessoas envolvidas tivessem mais clara a difícil relação entre o conhecimento escolar sistematizado e sua aplicabilidade na vida prática. Durante o evento, os alunos tiveram a chance de conhecer os desafios para a implementação de políticas públicas preocupadas com o patrimônio cultural do município aliadas ao desenvolvimento econômico e geração de divisas. Foram feitas considerações referentes à preservação das edificações, resguardando-se a idéia de que esta preservação não seria somente ‘fachadista’, mas envolveria todo um processo de interpretação da edificação preservada, revelando seu significado sócio-histórico. A sustentabilidade da atividade turística aliada à valorização e preservação da história local é um encargo de toda a comunidade. Sem o envolvimento e o entendimento do espaço de vivência por parte dos munícipes, nenhum plano de desenvolvimento poderá avançar. É possível e estimulante pensar em um planejamento diferente, em uma percepção mais acurada, onde o bem histórico cultural possa ter tratamento de construção histórica dinâmica e em andamento e possa propiciar inclusão identitária e social de quem participa ativamente dessa dinâmica. A experiência turística tem demonstrado que a participação comunitária sustenta não apenas o atrativo, mas também a própria estrutura receptiva do turista. (MENESES, 2004. p. 13.) A sustentabilidade da interpretação patrimonial para uma integração com o setor turístico depende sobremaneira da interação entre o que se convencionou chamar de poder público e privado. Tal interação só poderá ocorrer numa gestão democrática que permita e incentive o engajamento civil nas decisões sociais e para que este engajamento ocorra é preciso estabelecer fórmulas que dêem conta de aproximar as populações de sua História. É o que se procurou fazer por meio deste projeto, que teve numa turma de alunos do curso Técnico em Turismo seus primeiros bons frutos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O ingresso no Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), oferecido pelo governo do Estado do Paraná, oportunizou o reencontro dos professores do ensino fundamental com as instituições de Ensino Superior e a possibilidade de buscar junto aos pesquisadores as bases teóricas para o desenvolvimento de um trabalho com as classes de ensino fundamental, médio e profissionalizante, que até antão tateavam por carecer justamente de sólida base teórica e metodologia apropriada para deslanchar. A muito se fala da rudeza do oficio de professor e isto se aplica com pertinência ao professor de Historia. A sua formação não se restringe a um curso de História, engloba ainda áreas das Ciências Humanas, como Filosofia, Ciências Sociais, etc. Em geral, essa formação começa e termina no curso de graduação. Formado, o professor de História, como tantos outros, envolve-se com encargos familiares, com a luta pela sobrevivência e quase sempre não dispõe de tempo e nem de dinheiro para investir em qualificação profissional. Seu cotidiano é preenchido com múltiplas tarefas, seu tempo de viver é fragmentado, dilacerado pelas preocupações muitas vezes contraditórias entre sua profissão, família e progresso cultural. (BITTENCOURT (org.), 2009, p.54). O professor no seu fazer diário tende a minimizar a importância do seu próprio trabalho, acreditando que suas iniciativas, suas aspirações, seus métodos não sejam em nada especiais, dignos de registro, ou mereçam atenção dos grandes pesquisadores e foi justamente na desconstrução desse pensamento que o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) foi fundamental, pois o contato com a academia e as mais diversas produções dos intelectuais serviu de modo particular, para valorizar o trabalho que vinha sendo realizado no chão da escola e trouxe segurança para a implementação de projetos. Agarrar-se a novas possibilidades de conhecimento e pesquisa é mais que uma obrigação profissional, deve voltar a ser uma prática sagrada, que supera as expectativas de melhoria salarial e vai além, como uma flecha em busca de um alvo certo. Em nossos dias presentes nenhum alvo é mais nítido, que aquele tomado pelas conseqüências do capitalismo. Não se trata de adotar posturas retrógradas que no caminhar da História separaram o mundo em esquerda e direita, em adotar velhas utopias para superar desafios novos. A humanidade evoluiu com o tempo e as mentes devem evoluir também. Trata-se de investir em estratégias que amenizem os estragos feitos por um sistema econômico que não possibilita igualdade de condições a todas as pessoas, que estimula o consumismo como meio de se auto-sustentar e destrói o meio-ambiente, que vem aniquilando o bem maior de um povo: sua identidade cultural em seu sentido mais amplo, homogeneizando a língua, a música, os comportamentos, as formas de pensamento. Trazendo a realidade global para o âmbito local, busquei trabalhar um tema, cujo resultado pudesse dar resposta, ainda que pequena, pois se considerarmos a dimensão histórica e seu processo, estas são ações pequeninas, mas fundamentais, respostas para uma problemática castrense, objeto de minhas preocupações há muito tempo. Como docente de História, comprometida com minha prática, nunca pude concordar que os alunos não desenvolvessem uma consciência do próprio local de vivência. Que passeassem pelas praças, frequentassem clubes e lanchonetes, visitassem museus de sua cidade, sem compreender que estes mesmos espaços foram palcos de inúmeros acontecimentos em outras temporalidades. Era necessário que refletissem que estes locais de memória orientam situações reais da vida presente. Somos hoje cidadãos castrenses, herdeiros do tropeirismo, não existimos por acaso, mas porque somos resultado de todo um processo de construção histórica que remonta o século XVIII. Há mais de 300 anos pessoas construíram o que hoje é a cidade de Castro e meus alunos, bem como suas famílias, são os atuais construtores dessa obra inacabada. Restava fazê-los identificarem-se com o rico patrimônio que os cercava, atribuindo-lhe significado, legitimidade. O projeto nasceu a partir desta necessidade de construir um novo significado da História para os alunos, fazendo com que fossem capazes de estreitar a relação entre passado e o seu presente cotidiano. Se isso pôde se concretizar só o tempo dirá. As transformações ou mudanças na história dos homens não ocorrem do dia para a noite. Temos em muitos aspectos séculos de permanências e as rupturas não ocorrem sem longos períodos de transição. O que precisamos é acreditar que as transformações são possíveis e ter coragem de ousar diante dos desafios. Entre alguns pensadores da atualidade prevalece a idéia de que é através da educação que a mudança é possível, o que reforça o entusiasmo em fazer a parte que nos cabe como educadores. Se não consigo que todos compreendam a importância da preservação da memória, os poucos que compreenderem serão defensores e multiplicadores dessa idéia. Este não é um projeto de dois anos, que se encerra com o presente artigo. A preservação cultural da cidade de Castro, do país e, por conseqüência, de todos nós, deve ser o projeto de toda uma vida. 6 REFERÊNCIAS BETTO, Frei. Jornal Eletrônico “Correio da Cidadania” , 2000. Disponível em: www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/neoliberalismo.html (acesso dia 27/06/2008) BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. São Paulo, Editora Contexto, 2009. CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade e Editora Unesp, 2001. DITZEL & SAHR, Carmencita H.M. e Cicilian L.L. (org).Espaço e Cultura; Ponta Grossa e o Campos Gerais. Editora UEPG, Ponta Grossa. 2001. Fazenda Capão Alto. Curitiba, SECE,1985. (cadernos do patrimônio. Série Estudos, 1) KARNAL, Leandro (org.). História na Sala de Aula. São Paulo: Editora Contexto, 2005. História / vários autores. – Curitiba: SEED – PR, 2006. MENESES, José Newton Coelho. História e Turismo Cultural. Autêntica, Belo Horizonte. 2004. MONTEIRO, Ana Maria. 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