SOBRE EDUCAÇÃO E O SEU PAPEL: UMA ANÁLISE À LUZ DO PENSAMENTO DE PAULO FREIRE Luciano Cavalcanti do Nascimento1 José Roberto Rodrigues2 RESUMO: Este artigo discorre sobre o resultado de um questionário aplicado a discentes e a técnicos administrativos de uma instituição de ensino superior a respeito de suas concepções sobre educação e o papel desta. A análise dessas concepções tomou por base o pensamento de Paulo Freire sobre educação. Os resultados indicaram que as concepções dos entrevistados embora guardem certa coerência entre as respostas às duas perguntas, apresentam aspectos que, ao mesmo tempo se aproximam e se distanciam de uma educação freireana Palavra Chave: Educação – Educação freireana - Educação Libertadora Introdução Os seres humanos nascemos INCONCLUSOS, INACABADOS, como nos relembra Paulo Freire (1987). Ele faz dessa idéia a base da sua proposta pedagógica. (SOUZA, 2004, p. 223) Quando falamos em Educação, é esperado que nos remetamos à filosofia na busca de apreender seu sentido primeiro, sua finalidade, em fim, para que serve a educação. Pouco ainda nos preocupamos em saber o que as pessoas pensam “ser educação”. Importantes teóricos da educação, como BRUNNER (1987), FREIRE (1967, 1987, 1979, 1996, 2001) e SAVIANI (1991) apresentaram muito claramente o que para eles é educação. Suas idéias têm influenciado sobremaneira instituições e propostas educativas dos mais diversos matizes: acadêmicos, religiosos, movimentos sociais, dentre outros. Contudo, estudos relacionados ao que as pessoas, pensam sobre o que seja educação ainda têm um espaço significativo a ser explorado. De fato, as 1 2 Professor do Curso de Licenciatura em Pedagogia da UFRPE/UAG Concluinte de Pedagogia do Centro de Educação da UFPE. 2 pessoas são movidas por suas concepções de educação e nelas se apóiam, inconscientes ou não, para interpretar o mundo e tomar decisões seja no âmbito de sua convivência mais particular, como na família, seja nas demais instituições onde atuam. Este artigo busca contribuir nesse campo de investigação, na medida em que analisa concepções que discentes e técnicos administrativos de uma instituição de ensino superior têm sobre educação. Sabedores que somos da amplitude e complexidade do tema e dos diferentes focos e pressupostos que um trabalho como pode ter, optamos em centrar nossa análise, à luz do pensamento educativo que tem suas raízes em Paulo Freire, sobre o que pensam esses sujeitos ser educação. Fizemos esta opção por entendermos ser Paulo Freire um teórico cujo pensamento tem significativa penetração não apenas no meio acadêmico, mas também em diferentes espaços da sociedade como nos movimentos sociais. Além disso, buscamos verificar se o pensamento de Freire de alguma forma faz parte do ideário educativo-formativo dos entrevistados. O caminho metodológico percorrido tomou como ponto de partida duas perguntas sobre educação aplicadas a dez sujeitos, entre alunos funcionários técnico-administrativos da instituição de ensino superior aqui referida: O que é educação? E qual é o papel da educação? A análise procedida buscou identificar se há uma coerência entre as respostas dadas por cada sujeito da pesquisa a cada uma das perguntas, na medida em que a resposta a uma delas deve guardar uma relação de conseqüência. A educação em Paulo Freire Quando se pensa em educação, subentende-se que esta é responsável pela formação de um ser livre, onde esta liberdade se expressa no uso da palavra e, muito principalmente, na práxis. De fato, esse entendimento está de acordo com a etmologia da palavra Educação que significa fazer brotar de dentro. Desse modo, não comporta nada imposto, mas que se faz pelo próprio sujeito, daí sua relação com liberdade. Por isso mesmo podemos afirmar que nascemos e estamos sempre inconclusos e nisto está o sentido da educação: a 3 possibilidade de estarmos sempre sendo. Isto gera em nós a capacidade de sermos cada vez mais, de nos humanizarmos. Quanto a isso, ROSSA (1987) ao tratar sobre Educação Libertadora já afirmava, sustentado em Paulo Freire que O homem desde sempre é chamado a realizar sua vocação de ser mais, de ser sujeito de seu agir e da história; a estar em processo constante de humanização; a lutar contra o que busca transformá-lo em objeto. Por outro lado, isso também significa que somos capazes de nos desumanizarmos, abandonarmos essa vocação para sermos mais. Um exemplo disto está, por exemplo, no que FREIRE (1987) chamou de educação bancária: Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que se julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro. (FREIRE, 1987, p. 58). Nessa mesma direção assenta-se o paradigma neoliberal que em muito tem influenciado projetos educativos, conforme afirma Gentili (1996): A conseqüência é clara: afirmar que a educação deve formar para o mercado de trabalho é aceitar que a educação deve formar para a “competição” em um mercado de trabalho cada vez mais reduzido. Na perspectiva neoliberal, o mercado de trabalho é um dado imodificável. É a educação que deve adaptar-se às demandas deste mercado, o qual formula demandas específicas para uma esfera educacional que deve responder com rapidez e eficácia aos sinais intermitentes que ele emite. O projeto neoliberal de educação, por sua vez, traz à tona um tipo de educação “coisificadora”, um tipo de educação que manipula o educando a se moldar aos padrões de mercado. A partir desta perspectiva a educação torna o “conhecimento” um objeto comercial atrelado aos interesses e a consciência do saber capitalista. Neste contexto, a globalização reprime o diferente em detrimento do “sujeito padrão”, que, em conseqüência, desumaniza-se, tornase selvagem e, assim, passa a ser um reprodutor deste tipo de política educacional violenta e segregadora. Educar, essencialmente, após o 4 tecnicismo, o capitalismo, o neoliberalismo e a todo este processo de globalização, passou a ser um verbo conjugado e interpretado por uma ótica comercial e lucrativa, onde o ser passou de ser – humano para máquina e onde a educação deixou de ser uma ponte de transformação humanizadora e conscientizadora para ser objeto para a reprodução de um modelo de sociedade que reduz o indivíduo a condição de mero consumidor. Esta relação entre educação e neoliberalismo exige um estudo amplo e profundo que não cabe nos limites deste artigo. Mas, Se quisermos compreender as estratégias que o projeto neoliberal no Brasil tem reservadas para a educação, é importante também compreender que este processo é parte de um processo internacional mais amplo. Numa era de globalização e internacionalização, esses projetos nacionais não podem ser compreendidos fora de sua dinâmica internacional. (...) A construção da política como manipulação do afeto e do sentimento, a transformação do espaço de discussão política e estratégias de convencimento publicitário, a celebração da suposta eficiência e produtividade da iniciativa privada em oposição à ineficiência e ao desperdício dos serviços públicos, a redefinição da cidadania pela a qual o agente político se transforma em agente econômico e o cidadão em consumidor, são todos elementos centrais importantes do projeto neoliberal global. (Silva, T. T, 1994, p. 14 apud GERALDI, 2006 p. 123.). Mais do que estratégias, a relação entre educação e neoliberalismo implica num tipo de educação coisificadora. O ser deixa de ser “ser humano” e passa a ser um “ser objeto”, por isso mesmo consumidor. Romper com essa condição imposta impõe uma outra concepção de educação que entende o sujeito humano como transformador, uma educação que está sempre em processo. Uma educação que concebe a pessoas como um ser de relação, sempre aprendendo, construindo e reconstruindo a si mesmo e o mundo, como o próprio FREIRE (2001, p. 54) vai dizer: Ser de relação no e com o mundo e com os outros, o ser humano abre-se ao desconhecido, a aventuras, a correr mundo, para transformá-lo e transformando-se, e, ao fazê-lo, assume sua condição de ser político, de militante, de protagonista, pois já não se satisfaz em assistir. Quer participar. Nesse sentido, baseada em FREIRE, Damke (1995, p. 84), ao tratar sobre o processo do conhecimento na pedagogia da libertação apresenta de forma sucinta e clara como FREIRE pensa a educação: Freire pensa na educação não como algo que “é”, mas como algo que” está sendo”, o que lhe permite refutar duas concepções opostas, mas igualmente falsas, das relações ser humano-mundo. Uma, que 5 isola o sujeito do mundo, permitindo-lhe apenas criá-lo em sua consciência. Outra, que concebe o mundo sem o sujeito humano como transformador do mesmo. (Damke, 1995, p. 84). Enfrentar as conseqüências que um projeto como este impõe à educação e especialmente a escola requer “desmistificar a própria natureza reprodutora da escola. É de ir além dela, é de fazer o contrário disso” (FREIRE, 1988, p. 84). Requer também pensar uma educação em meio à ética, a prudência, ao afeto, à liberdade e ao amor, como essências vitais à formação e à transformação de cada pessoa e da sociedade. Essa visão antagônica de educação em relação à freireana permite distinguir o que vem a ser uma educação enquanto processo de humanização e uma concepção de educação que apresenta o sentido desta fora do indivíduo, como algo a ser incutido, trazido de fora para dentro, imposto. Mais ainda, uma educação que em nada se associa a um processo de “conscientização”, idéia central do pensamento de Paulo Freire (1980, p. 25) sobre educação. A propósito, é o próprio Paulo Freire que afirma isso. Acredita-se geralmente que sou autor desse estranho vocábulo “conscientização” por ser este o conceito central de minhas idéias sobre educação. Essa “conscientização” em Freire está diretamente vinculada ao que ele cunhou como “educação como prática da liberdade”. Ao ouvir pela primeira vez a palavra conscientização, percebi imediatamente a profundidade de seu significado, porque estou absolutamente convencido de que a educação, como prática da liberdade, é um ato de conhecimento, uma aproximação crítica da realidade. Essa idéia de aproximação crítica da realidade está, em Freire, fundada em sua concepção de educação quando afirma que Uma educação que procura desenvolver a tomada de consciência e atitude crítica, graças à qual o homem escolhe e decide, liberta-o em lugar de submetê-lo, de domesticá-lo, de adaptá-lo, como faz com freqüência a educação em vigor num grande número de países do mundo, educação que tende a ajustar o indivíduo à sociedade, em lugar de promovê-lo em sua própria linha. (FREIRE, 1980, p. 35). 6 Diante disso, a análise das posições/concepções dos entrevistados orientar-se-á a partir do entendimento de uma educação que tem por base a conscientização, transformação, a liberdade e o processo de humanização da pessoa que consideramos idéias centrais do pensamento de Paulo Freire. A fala dos entrevistados A fala dos entrevistados está reproduzida no quadro abaixo3: O que é educação? 1. É o processo que visa transmitir conhecimentos ao indivíduo, de forma que o mesmo se torne capaz de conviver em sociedade contribuindo com os seus conhecimentos para o desenvolvimento da mesma. 2. É o processo de transmissão/assimilação, descoberta e criação do conhecimento, sendo este conhecimento escolar ou não, inclusive no contexto social, pois é a educação que faz o ser humano ou não humano na convivência com seus pares. 3. É o mecanismo indispensável ao indivíduo para que ele se desenvolva através do conhecimento e reconhecimento de fatos e atos da vida comum. 4. É todo processo de aprendizagem transmitido ao indivíduo desde o nascimento, que inclui desde as relações pessoais em família, estendendo-se até as escolas e universidades. 5. É a maneira utilizada para as pessoas facilitarem a comunicação, desenvolvendo a aprendizagem e aprofundando o conhecimento em relação ao mundo que vivemos, sejam noções básicas sejam atualidades. 6. É o processo de formação e orientação do homem como homem social. 7. Sistema de troca de informações e 3 Qual o papel da educação? 1. Transmitir conhecimentos necessários para que se estabeleça relação social entre os seres. 2. Formação do indivíduo. Construção da maneira de se organizar para sobreviver e de transmitir perpetuamente essa aprendizagem a respeito da sociabilização e da forma de transmiti-la à geração futura. 3. O papel da educação é facilitar o discernimento, o livre arbítrio, a isonomia entre pessoas, o respeito pelas diferenças e igualdade de oportunidades para todo o indivíduo. 4. Preparar o indivíduo par o convívio em sociedade, através da transmissão de conhecimentos, desenvolvendo nele uma visão crítica. 5. Aperfeiçoar o aluno para que este adquira conhecimentos que irão torná-lo apto ao trabalho na vida social. 6. O de formar seres humanos sociáveis nos moldes pré-estabelecidos pela sociedade, capazes de viver, trocar conhecimentos, seguir normas e costumes e cumprir com seus papéis sociais (profissional, familiar etc). 7. Informar, esclarecer, ensinar a viver A numeração de 1 a 10 corresponde à fala de cada um dos dez entrevistas entrevistados em relação às duas perguntas. 7 experiências, com a finalidade de promover ensinamentos úteis à vida individual e social. 8. É o processo pelo qual o indivíduo se inclui na sociedade, aprendendo e reconstruindo seus conceitos. 9. É o ato pedagógico de construção epistemológica. 10. Educação é a formação do cidadão em geral. Vai da formação do caráter, desperta senso crítico até a formação profissional. em sociedade, ou seja, ajudar os indivíduos a participarem de diversas questões impostas no dia-a-dia, de forma coerente e responsável. 8. Transmitir informações que possam fazer com que o indivíduo consiga ser inserido em todo um processo político e pedagógico. 9. Formar pessoas com um novo olhar para com o outro e com o mundo. 10. Desenvolver atividades que contribuam para a formação das pessoas como cidadãos e profissionais. Uma primeira aproximação das falas dos entrevistados permite afirmar que, em que pesem diferenças quanto ao papel que atribuem à educação, todos eles entendem a educação como algo que não se limita à educação escolar, mas é algo mais amplo, embora inclua esta. Neste sentido, a palavra sociedade, convívio e sociabilização, são algumas palavras que indicam isso. Uma segunda aproximação permite destacar que as falas de alguns entrevistados ligam educação a um processo de transmissão de conhecimento. Isso pode ser identificado claramente nas falas dos entrevistados 1, 2 e 4. Essa idéia de transmissão aparece nas duas respostas desses entrevistados, o que expressa uma coerência na medida em que relacionam o que para eles seja educação e o papel desta. Inicialmente, poderíamos dizer que a concepção desses entrevistados estaria vinculada ao que Freire chamou de “educação bancária”, na medida em esta guarda uma relação de transmissão, ou seja, de alguém que sabe para alguém que não sabe. Entretanto, percebe-se que, embora a idéia de transmissão não seja uma idéia força no pensamento freireano como são, por exemplo, conscientização, liberdade e humanização, os entrevistados superam a idéia de uma mera transmissão e acrescentam elementos que se coadunam com a pedagogia de Paulo Freire quando associam educação ou o papel da educação a palavras e expressões como: “capaz de conviver em sociedade”; “a educação que faz o ser humano ou não humano na convivência com seus pares”; “desenvolvendo nele uma visão crítica”. Especialmente sobre educação como processo de humanização, visão essencial de Freire sobre o que seja educação, este vai afirmar que 8 Se os homens são estes seres da busca e se sua vocação ontológica é a humanização, cedo ou tarde poderão perceber a contribuição na qual a educação escolar procura mantê-los e se comprometerão então na luta por sua libertação. (FREIRE, 1980, p. 80). Uma terceira aproximação permite identificar concepções que estão “mescladas”, ou seja, ora apresentam elementos do pensamento freireano sobre educação, ora deste se distanciam, quando afirmam, por exemplo, que o papel da educação é o “de formar seres humanos sociáveis nos moldes préestabelecidos pela sociedade”. Vê-se aí, claramente, que tal entendimento sobre educação ou seu papel em nada se associa à idéia de transformação, conforme defendido por Freire ao tratar sobre a importância da Palavra (grifo nosso) (1978, p. 78): Mas, se dizer a palavra verdadeira, que é trabalho, que é práxis, é transformar o mundo (grifo nosso), dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens. Precisamente por isto, ninguém pode dizer a palavra verdadeira sozinho, ou dizê-la para os outros, num ato de prescrição, com o qual rouba a palavra aos demais. De fato, a educação deve permitir à pessoa questionar os seus valores e os valores de todo o sistema. O ser se torna livre quando tem o direito da palavra e ao tê-la a usa de forma crítica e política para revelar o seu sentimento e a sua percepção de vida. A liberdade, ao mesmo tempo, consiste na responsabilidade de se assumir a palavra e de tratá-la com equilíbrio e harmonia. Ao falar, conseqüentemente, tornamo-nos comprometidos com esta mesma palavra, palavra esta que nos cobra constantemente cumprimento, coerência, ética. Uma quarta aproximação permite identificar falta de especificidade sobre algumas afirmações. Situam-se aí afirmações do tipo contribuindo com os seus conhecimentos para o desenvolvimento da mesma [sociedade]; É o ato pedagógico de construção epistemológica; É o processo de formação e orientação do homem como homem social; Formar pessoas com um novo olhar para com o outro e com o mundo. Ainda que essas falas estejam referidas a aspectos essenciais da educação (orientação, novo olhar, construção), ainda carecem de explicitação de sentido. A propósito, esse é um cuidado que se deve ter ao enunciar qualquer palavra que se assuma revestida de uma 9 educação freireana. Freire sempre que as anunciou tratou de especificá-las, explicitar seus sentidos. Veja-se, por exemplo, quando se referiu à educação crítica: A educação crítica considera os homens como seres em devir, como seres inacabados, incompletos em sua realidade igualmente inacabada e juntamente com ela. Por oposição a outros, que são inacabados mas não históricos, os homens sabem-se incompletos. Os homens têm consciência de que são incompletos, e assim, nesse estar inacabados e na consciência que disso têm, encontramse as raízes mesmas da educação como fenômeno puramente humano. O caráter inacabado dos homens e o caráter evolutivo da realidade exigem que a educação seja atividade contínua. (FREIRE, 1980, p. 81). O mesmo poderíamos dizer em relação ao que Freire chama de “educação problematizadora”, de “diálogo” e de “educação bancária”, esta última já referida neste artigo. Considerações Finais Quando se fala em educação, busca-se compreender algo que inclui o processo de escolarização, mas que vai além dele. Isso ao mesmo tempo em que aponta a necessidade de se tomar como foco de análise uma das dimensões ou manifestações do processo educativo sugere diferentes possibilidades de investigação. Compreender o pensamento de Paulo Freire é algo que requer um longo e exaustivo estudo, sobretudo em se tratando de Investigar concepções sobre educação e o papel desta, à luz desse pensamento. Se por um lado fica posto o desafio, por outro se tem a importância de investigar o que está por trás do que pessoas pensam ser educação e qual o seu papel. Este foi o objetivo de nosso estudo expresso neste artigo, que bem pode ser ampliado a partir de nova pesquisa que busque identificar se há algum tipo de influência do pensamento de Paulo Freire em determinados projetos de instituições educativas ou de movimentos sociais. Esta é, portanto, uma possibilidade que se abre a partir deste trabalho. 10 Embora sabedores dos limites deste artigo, julgamos importante considerar os resultados que indicaram uma aproximação, ainda que não tão expressiva, do que pensam os entrevistados ser educação e o pensamento freireano sobre educação. Se as respostas ainda oscilaram entre apresentar características ou elementos daquele pensamento ou dele se distanciam, isto pode ser explicado pelo fato de parte dos entrevistados está exercendo funções que não têm ligação direta com a sala de aula ou processos pedagógicos, como é o caso dos técnicos-administrativos. De qualquer modo, fica a possibilidade de novas investigações que busquem entender que concepções ou posicionamentos pessoas têm sobre educação. Investigações que, dada a natureza incompleta do ser humano , abrem a possibilidade de entendermos cada vez mais essa incompletude que nos impulsiona a saber sempre mais, portanto nos humanizando sempre. Afinal, os seres humanos nascemos INCONCLUSOS, INACABADOS, como nos relembra Paulo Freire (1987). Ele faz dessa idéia a base da sua proposta pedagógica. E afirma que a nossa vocação é SER CADA VEZ MAIS HUMANOS. Vamos nos tornando HUMANOS ou nos desumanizando no decorrer da nossa vida, de acordo com as experiências que tivermos, com as condições que construirmos para a nossa vida pessoal e a vida da coletividade. Por isso, devemos nos EDUCAR AO LONGO DA VIDA. (SOUZA, 2004, p. 223). Referência Bibliográfica BUNNER, Jerome, S. O processo da educação. São Paulo: Nacional, 1987. DAMKE, Ilda Righi. O Processo do Conhecimento na pedagogia da libertação: as idéias de Freire, Fiori e Dussel. Petrópolis: Vozes, 1995. FREIRE, Paulo. Política e Educação: Ensaios. São Paulo: Cortez, 1997 (Coleção questões da nossa época; v.23). ______. Quando as idéias e os afetos se cruzam. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2001. 242 p. 11 ______. 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