Agricultor 2000 JULHO DE 2014 A Evolução genética da raça Holstein Frísia na ilha de São Miguel Páginas 8e9 DIRETOR: Eng.º NUNO SOUSA II SÉRIE Nº 96 http://www.aasm-cua.com.pt Direção da Associação Agrícola de São Miguel termina mandato já a pensar nos próximos três anos O novo parque de exposições vai ficar como uma obra emblemática deste mandato da direção da Associação Agrícola de São Miguel que elege a fábrica de rações como uma obra marcante para a melhoria do setor. O presidente da direção da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, faz um balanço positivo de mais um mandato mas garante que ainda há muito a fazer. Com eleições a 25 de Julho e com mais um mandato em perspetiva, Jorge Rita elege o novo Quadro Comunitário de Apoio e a abolição das quotas leiteiras como as questões mais preocupantes Páginas 2a5 Jorge Rita convicto que agricultura será grande ajuda para sair da crise Páginas 6e7 Evolução do melhoramento bovino em São Miguel Página 11 Editorial Jorge Alberto Serpa da Costa Rita Eleições do dia 25 de julho devem ser uma demonstração da vitalidade da Agricultura Micaelense A s eleições para os corpos sociais da Associação Agrícola de São Miguel e da Cooperativa União Agrícola, CRL, decorrem no próximo dia 25 de Julho e serão muito importantes e fundamentais para a afirmação destas Instituições na Agricultura de São Miguel e dos Açores. Estas Instituições têm sofrido nos últimos anos transformações significativas, mas têm de ser sempre o reflexo das pretensões e das necessidades dos seus associados, pelo que, é imprescindível a sua participação nas atividades associativas desenvolvidas, nomeadamente, nos atos eleitorais que são sempre a manifestação máxima da democracia. A crise que vivemos tem sido transversal a todos os setores económicos, mas mesmo com as dificuldades existentes, o nosso setor tem sido capaz de olhar para o futuro com esperança e fé, porque os agricultores têm sido capazes de investir, utilizando os meios que estão ao seu dispor, mesmo num período muito desfavorável e pouco propício ao risco. A Agricultura continua e continuará a ser a principal atividade económica da região, porque a sua contribuição para a economia regional é insubstituível e a recente alteração de denominação da Secretaria Regional de Recursos Naturais (designação nunca aceite pela Associação Agrícola de São Miguel) para Agricultura e Ambiente, só vem reconhecer e realçar mais uma vez, a importância do nosso setor no contexto regional. A consolidação e sustentabilidade da Associação Agrícola de São Miguel e da Cooperativa União Agrícola, CRL, é da responsabilidade dos seus associados que devem envolver-se e preocupar-se com o seu funcionamento, por isso, a participação nas eleições, constituí uma demonstração de vontade e de empenho dos sócios. Temos de acreditar no setor, mesmo, sabendo que existirão sempre obstáculos pela frente que terão de ser ultrapassados, e para isso, precisamos duma Associação Agrícola de São Miguel forte e capaz de reivindicar com firmeza e convicção em prole dos rendimentos dos agricultores e das suas famílias. 2 Agricultor 2000 JULHO DE 2014 Direção da Associação Agrícola de São Miguel termina mandato já a pensar nos próximos três anos >> O novo parque de exposições vai ficar como uma obra emblemática deste mandato da direção da Associação Agrícola de São Miguel que elege a fábrica de rações como uma obra marcante para a melhoria do setor. O presidente da direção da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, faz um balanço positivo de mais um mandato mas garante que ainda há muito a fazer. Com eleições a 25 de Julho e com mais um mandato em perspetiva, Jorge Rita elege o novo Quadro Comunitário de Apoio e a abolição das quotas leiteiras como as questões mais preocupantes “A reivindicação tem de ser persistente, constante e firme, e estes anos foram difíceis e exigentes em que fomos capazes de demonstrar a credibilidade que a Associação Agrícola de São Miguel tem” - Os últimos três anos de mandato foram de crescimento e consolidação da Associação e da Cooperativa. Como vê esta realidade? Jorge Rita - Vejo com muito agrado, porque resultou do querer e ambição destes órgãos sociais que sempre acreditaram que era possível, com moderação e ponderação, fazer com que estas Instituições fossem cada vez mais sólidas e viáveis e assim, foram desenvolvidas um conjunto de obras essenciais para o futuro desta casa que é de todos os associados. Nós não prometemos aquilo que não podemos fazer. Prometemos a realização de uma obra que é emblemática para o setor que é a construção da fábrica de rações e que está no fim, “Houve um crescimento substancial no volume de vendas e no aumento de empregos que num momento difícil para a Região e para o País, é muito importante” além de termos aumentado a capacidade de armazenagem que é bem visível na Canada da Meca, tal como, a nova loja de produtos agrícolas, a secção dos pneus e fertilizantes, a bomba de gasóleo ou a oficina. Em termos de obras fica como marca, obviamente, o novo parque de exposições que é uma obra de grande importância para a agricultura micaelense. Era uma pretensão nossa de há uns anos a esta parte e está conseguida. No armazém do Nordeste melhorámos as condições existentes através de obras de remodelação e distribuição, criamos uma secção de pneus, o que levou ao aumento do volume de vendas, proporcionando a contratação de mais dois funcionários. Queria também dizer que foram feitos dezenas de protocolos com empresas com vantagens específicas para os associados e funcionários, além dos realizados com a banca, que permitiu a muitas explorações, criar meios de financiamento que foram imprescindíveis. Em tempo de crise e de dificuldade como o incêndio que tivemos na fábrica de rações, penso que demos um impulso na Associação Agrícola de São Miguel que é visível, ao mesmo tempo que temos uma situação estável, tal como as demonstrações de resultados o provam. Houve um crescimento substancial no volume de vendas e no aumento de empregos que num momento difícil para a Região e para o País, é muito importante. - Além das obras, a Associação Agrícola de São Miguel também tem conseguido reivindicar melhorias para os agricultores... J. R. - Estas são obras que deixam a sua marca, mas o objetivo da Associação Agrícola de São Miguel e da Cooperativa União Agrícola tem a ver principalmente com o rendimento do agricultor, que assenta essencialmente naquilo que são as reivindicações que temos na área do leite, da carne, da diversificação agrícola ou das próprias políticas comunitárias. A reivindicação tem de ser persistente, constante e firme, e estes anos foram difíceis e exigentes em que fomos capazes de demonstrar a credibilidade que a Associação Agrícola de São Miguel tem. No caso do leite, a sazonalidade que era um problema devastador na economia dos agricultores, acabou e agora os mercados dos produtos Agricultor 2000 3 JULHO DE 2014 Inauguração do Parque de Exposições de São Miguel Parque de Exposições de São Miguel Primeiro-ministro Pedro Passos Coelho comprimenta Jorge Rita na Feira Nacional de Agricultura em Santarém Protocolo com a Caixa Económica da Misericordia de Angra do Heroísmo Santd da Associação Agrícola de São Miguel na Feira Nacional de Agricultura em Santarém Protocolo com a CCAM - Açores “A liderança da Federação Agrícola dos Açores é uma forma de reconhecimento da dimensão e da importância que as restantes organizações de produtores dos Açores têm da Associação Agrícola de São Miguel” lácteos é que ditam as alterações do preço do leite, sendo esta uma situação mais justa e que os lavradores poderão perceber melhor. Felizmente que as instituições ligadas ao setor têm tido um comportamento melhor do que tiveram no passado e as indústrias perceberam que a fileira do leite só tem futuro se também mudassem os seus pressupostos. Hoje existe uma grande aproximação do preço do leite regional e a nível nacional, não só pelas subidas a nível regional mas muito também pelas descidas a nível nacional. Gostaria também de relembrar a realização do resgate leiteiro em 2012 que foi devido à reivindicação da Associação Agrícola de São Miguel e que a proporcionou a saída digna do setor para 78 produtores. - No leite ainda é preciso investir muito? J. R. - Há muito investimento Protocolo com o BES - Açores para fazer ainda na área do leite. Falo de forma transversal, não ao nível das indústrias, que estão bem apetrechadas e que devem continuar a criar produtos de valor acrescentado que sejam uma mais valia para a região, mas existe ainda muito investimento que ainda é preciso fazer ao nível das infraestruturas agrícolas, caminhos, abastecimento de água e luz às explorações, na contínua reestrutu- ração do setor, na entrada de jovens agricultores que têm de ser apoiados e acarinhados. Há todo um trabalho que tem de ser feito e temos de aproveitar o próximo Quadro Comunitário de Apoio para encurtar distâncias em relações aos outros produtores nacionais e europeus. - Em relação à carne também muito foi feito... J. R. - Na área da carne têmse dado passos muito importantes na exportação devido á intervenção da Cooperativa União Agrícola, CRL, que apostou na raça Aberdeen Angus, e também devido ao escoamento que é feito de novilhos, através das parcerias estabelecidas. A carne IGP também tem crescido na Região. Também existem novos operadores comerciais que entraram no circuito comercial e que têm feito um bom trabalho. Existe a necessidade de reformular e reestruturar os matadouros para que a exportação da carne com qualidade aumente e seja cada vez mais, uma mais-valia na Região. Temos matadouros que já não estão a trabalhar conforme as exigências dos mercados. Está-se a inverter a situação do setor, diminuindo a exportação dos animais em vivo e aumentando o abate dos animais na região, mas para isso, temos de melhorar as infraestruturas existentes, nomeadamente, as salas de desmancha que têm aptidões para exportação, e também, necessitamos de melhorar o local onde se faz a receção dos animais para abate e aumentar o número de câmaras de frio. >> 4 Agricultor 2000 JULHO DE 2014 Jorge Rita reconduzido como Presidente da Federação Agrícola dos Açores Contraste leiteiro e entrega de Certificados de Formação >> É fundamental que o Governo Regional tenha a atenção que para termos alguma capacidade de exportação, tem de haver capacidade de concentração, para homogeneização das carcaças e para isso é preciso criar infraestruturas próprias para que os privados e as cooperativas possam criar parques de acabamentos, para que a carne vá em conformidade com aquilo que são as exigências do mercado atualmente. Vendemos aquilo que o mercado quer absorver e não o que queremos vender. - O próximo Quadro Comunitário de Apoio vai valorizar a exportação... J. R. - Existem mais-valias no próximo Quadro Comunitário de Apoio especialmente para a exportação ao nível do Competir+, com apoios que são interessantes e devem ser bem aproveitados e que podem ajudar a resolver o problema dos transportes entre e para fora das ilhas, que tem sido sempre uma reivindicação da Federação Agrícola dos Açores. Por outro lado, ao nível do Posei irão haver alterações nas produções animais, nomeadamente no leite e na carne, que vêm ao encontro das nossas pretensões, permitindo uma melhor e maior flexibilização e aplicação do Posei, e uma desburocratização deste programa que era o que todos desejávamos. O Posei irá resultar numa concentração de várias medidas e vários apoios que são diretamente direcionados para as produções, que é o que faz sentido. Porque valemos por aquilo que exportamos e temos todo o interesse em ter cada vez mais níveis de exportações e apoios diretamente relacionados com isso. Quanto ao Prorural+, aguardamos que algumas das nossas preocupações sejam aprovadas em Bruxelas e que seja também um instrumento que privilegie o aumento da capacidade de exportação da região, nomeadamente na criação de melhores condições que sejam capazes de ir de encontro às necessidades da produção. - Neste mandato houve outras situações marcantes... J. R. - Foi um mandato em que tivemos muitas dificuldades. Não concordámos por exemplo com muitas situações do Posei e Secretário de Estado da Agricultura Participação na Feira Agrícola Açores 2013 no Faial Novas instalações da Cooperativa União Agrícola em Santana Concurso Juvenil no novo Parque de Exposições “Há muita necessidade de reformular e reestruturar os matadouros para que a exportação da carne com qualidade seja uma mais-valia na Região. Temos matadouros que já não estão a trabalhar conforme são as exigências necessárias” do Prorural, que têm-se alterado de forma substancial e muitas delas vêm ao encontro das nossas pretensões. Temos também a questão da abolição das quotas leiteiras, onde ainda não estão salvaguardados apoios discriminatórios para a Região Autónoma dos Açores, já que as medidas englobadas no pacote de leite criado pela União Euro- peia, não são satisfatórios, por isso, fomos várias vezes a Bruxelas em defesa dos interesses dos Agricultores Açorianos, além da sensibilização permanente que é feita junto dos responsáveis do Governo da República. A expetativa é que todos nós continuemos a trabalhar para que em qualquer situação de alerta ou de dificuldades no rendimento dos Agricultor 2000 5 JULHO DE 2014 Agricultura Açoriana presente em Bruxelas Federação Agrícola dos Açores reuniu com a ministra Assunção Cristas Nova Fábrica de Rações Santana Seminário sobre a reforma da PAC “Acabou a sazonalidade que era um problema na economia dos agricultores” agricultores, por via de baixas do preço do leite derivado aos mercados e aos excedentes de produções que pode haver na Europa, seja logo assinalado no sentido de precavermos o futuro da região. Também não gostaria de deixar de referir o nosso empenho junto do Governo Regional e da República para que exista uma solução satisfatória nas contribuições para a segurança social dos jovens agricultores e dos agricultores que se instalaram após 2011, que é injusta e que pode ser um entrave ao desenvolvimento do setor agrícola e estamos, esperançados, que tal como aconteceu no regime de bens em circulação e na baixa do IVA na prestação de serviços na agricultura, seja possível encontrar uma resolução para este grave problema. - A Associação Agrícola de São Miguel mantem a liderança da Federação Agrícola dos Açores. É uma forma de reconhecer o mérito desta direção? J. R. - Sem dúvida, é uma forma de reconhecimento da dimensão e da importância que as restantes organizações de produtores dos Açores têm da Associação Agrícola de São Miguel, e sabem, que quando defendemos os agricultores, independente- Viagem da Direção da CAP a São Miguel “Temos uma relação franca e aberta com todos, quer com o Ministério da Agricultura, quer com a Secretaria Regional da Agricultura e Ambiente, quer com os eurodeputados, quer com grupos de pressão que temos ao nível da Comunidade Europeia e a quem estamos associados” mente dos problemas particulares de cada ilha, estamos a defender os interesses de todos os agricultores dos Açores. Atualmente o setor, apesar das grandes dificuldades que tem, é o melhor setor de atividade económica e social da região e se há atividade na Região que tem capacidade de crescer é a agricultura, o que nem sempre é valorizado. - Tem sido uma luta constante na defesa dos interesses dos Agricultores Açorianos… J. R. - É para isso que somos eleitos e temos constantemente de estar alerta face às situações que vão ocorrendo, como por exemplo, em relação à luta desnecessária que houve em relação ao gasóleo agrícola, que no fim veio resolver-se conforme tínhamos pretendido desde o início. Tivemos também anos em que as condições climatéricas foram adversas para a agricultura, nomeadamente para a produção de forragens, no entanto, conseguimos arranjar apoios para a importação dos alimentos e para a fibra. Numa luta constante com o Governo Regional também conseguimos o Safiagri que foi uma boa ajuda para os agricultores em que serão no final do processo, atribuídos apoios de 2,6 milhões de euros. Temos uma boa execução do Quadro Comunitário de Apoio e a expetativa é que o próximo venha na mesma linha e estão sempre em cima da mesa dossiers que precisam de acompanhamento e de proximidade com os eurodeputados, quer com os do passado, do presente, e os do futuro, com o Governo Regional e com o Governo Central. Felizmente temos uma relação franca e aberta com todos, quer com o Ministério da Agricultura, quer com a Secretaria Regional da Agricultura e Ambiente, quer com os eurodeputados, quer com grupos de pressão que temos ao nível da Comunidade Europeia e a quem estamos associados. Obviamente que é preciso manter a reivindicação e oxalá que seja criado um lobby em Bruxelas porque grande parte das verbas que chegam à Região são de origem europeia. 6 Agricultor 2000 JULHO DE 2014 Jorge Rita convicto que agricultura será grande ajuda para sair da crise >> No seminário sobre “agricultura familiar versus agricultura sustentável” o presidente da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, defendeu que o peso que a agricultura tem na Região, especialmente ao nível da empregabilidade, é uma mais-valia que pode ajudar em situação de crise. Aquele que é o maior e melhor setor de atividade na região, sofreu uma grande reestruturação através das reformas antecipadas e da entrada de jovens agricultores e que foram fundamentais para a continuidade da agricultura familiar sustentada na Região. Sobre o novo Quadro Comunitário de Apoio, Jorge Rita entende que os fundos europeus não devem ser desperdiçados e que existem projetos de grande valor na Região N o atual contexto de crise o setor agrícola pode ser uma maisvalia e pode ajudar a região e o país a inverter a situação menos positiva. Esta é a convicção do presidente da Associação Agrícola de São Miguel, da Federação Agrícola dos Açores e representante da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Jorge Rita, que destaca que o setor "tem dado uma grande alavancagem, não só em termos económicos mas também no aumento da empregabilidade". Jorge Rita, que falava no seminário "agricultura familiar versus agricultura sustentável", organizado pela Secretaria Re- gional da Agricultura e Ambiente no âmbito do Ano Internacional da Agricultura Familiar, salientou que só o setor agrícola "ajudará de certeza a que a crise seja ultrapassada o mais rapidamente possível, pois produzimos bens essenciais para a alimentação da população. As pessoas podem dispensar outros bens, mas a alimentação ninguém dispensa". A propósito do seminário, o presidente da Associação Agrícola de São Miguel afirmou que a agricultura na Europa assenta sempre em bases familiares e que nos Açores essa situação é ainda mais notória já que a tradição da agricultura se faz através da transmissão de geração em geração. Além disso, "ser agricultor normalmente depende sempre muito de toda a família, envolvida direta ou indiretamente na exploração. A nossa agricultura assenta tradicionalmente na transmissão de pais para filhos", embora distinguindo que a agricultura familiar não é uma agricultura de subsistência como já aconteceu no passado. A agricultura na região carateriza-se por uma agricultura familiar que em todas as ilhas se torna vital não apenas para a economia mas também para a coesão social já que "uma agricultura familiar em todas as ilhas faz e fará sempre com que a fixação das pessoas aos meios rurais seja um princípio básico e essencial para o “A nível nacional e regional, um setor que tem dado uma grande alavancagem, não só em termos económicos mas também de aumento de empregabilidade tem sido o setor agrícola” desenvolvimento harmónico e sustentado da Região Autónoma dos Açores". Neste sentido, Jorge Rita referiu que a agricultura na Região representa mais de 45% da economia, mais de 12% da população ativa trabalha diretamente na agricultura, mais de 50% da população trabalha direta e indiretamente no setor. Além disso, diretamente a agricultura tem um peso de 9% no PIB, mas se juntarmos o que se transforma e exporta no setor pode representar 12% e se a isso adicionarmos o peso da banca e dos seguros, "representa certamente 20% ou até mais". Jorge Rita salientou por isso que o setor agrícola "é o maior e melhor setor de atividade na Região, é aquele que dá garante de sustentabilidade económica, é aquele que dá garante de emprego e com maior possibilidade de crescimento em termos de emprego. Nomeadamente ao nível de exportações em que a Região é exportadora exclusivamente do setor primário, nomeadamente, leite e seus derivados, da carne, mas também de outras produções tradicionais na área da diversificação agrícola, algumas que têm capacidade de exportação para nichos de mercado de excelência", disse. O presidente da Associação Agrícola de São Miguel destacou por isso que a balança comercial na Região "não é muito mais deficitária" porque tem um setor vital para a economia que tem dado "indicações de crescimento em todas as vertentes". Perante a plateia, Jorge Rita lembrou que o número de produtores na Região tem vindo a diminuir substancialmente, situação que ficou a dever-se à "necessidade de dimensão de algumas explorações" e também à questão das quotas que "foi um estrangulamento às produções e fez com que houvesse necessidade na Região de Agricultor 2000 7 JULHO DE 2014 “A balança comercial não é muito mais deficitária na região porque o setor agrícola tem dado indicações de crescimento em todas as vertentes” “Os agricultores para além de terem um trabalho árduo, têm de ter a consciência que fazem um trabalho excecional para a Região que é manter a paisagem e produzir bens essenciais” se reestruturar o setor com resgates leiteiros que foram muitos importantes". Jorge Rita entende que a saída de muitos agricultores ficou a dever-se a "dificuldades, à falta de dimensão ou por questões de saúde mas que saíram com a dignidade que foi justa". Além disso essa quota foi depois redistribuída perante todos os agricultores jovens e séniores "que tiveram possibilidade de crescer as suas explorações e redimensioná-las para poderem ser mais eficientes e competitivas". Jorge Rita não tem dúvidas que "um dos melhores instrumentos que tivemos foi a reestruturação do setor, associado a outro que foi importantíssimo na economia familiar das empresas agrícolas de cariz familiar, e que teve a ver com as reformas antecipadas". Reformas antecipadas acompanhadas por projetos de primeira instalação e entrada de jovens agricultores no setor que foram "fundamentais para a continuidade da agricultura familiar de forma gradual e sustentada", afirmou Jorge Rita mas que não terão seguimento no âmbito do novo Quadro Comunitário de Apoio para o período 2014-2020, demonstrando alguma "preocupação" no sentido que as reformas antecipadas "não terão seguimento" no próximo Quadro Comunitário de Apoio. Também ao nível da entrada de jovens agricultores no setor a situação é preocupante já que apesar "do grande entusiasmo e do incremento que houve em chamar os jovens para o setor, há entraves económicos" que vão condicionar a entrada de novos agricultores. Por exemplo, as comparticipações à segurança social que aumentaram bastante para os agricultores coletados desde 2011 "o que pode estrangular muitos dos jovens agricultores e o seguimento de uma agricultura familiar que queremos na Região". Reconhecendo que se trata de uma legislação nacional, Jorge Rita elogiou o trabalho do Ministério da Agricultura que "tem demonstrado grande disponibilidade para ajudar a resolver os problemas dos agricultores nos Açores" e que "foi o melhor que tivemos até hoje", mostrando-se expetante que "continue a dar continuidade à resolução dos nossos problemas mais prementes e que dependem do Ministério da Agricultura, da Região e do nosso empenho, dedicação e habilidade", disse. Falando sobre o anterior Quadro Comunitário de Apoio, Jorge Rita salientou a boa execução do mesmo ao nível dos Açores, ficando a dever-se a três vertentes: "apetência, vontade e investimento dos agricultores, a disponibilização de meios por parte do Governo Regional e as verbas vindas de Bruxelas". No entanto, ressalvou que grande parte das medidas de Bruxelas "terminaram com muita antecedência e temos a expetativa que os projetos saiam o mais rapidamente possível" no novo Quadro Comunitário de Apoio que apesar de ter "uma deficiência que são as reformas antecipadas, vai ao encontro do que queríamos. Temos de limar arestas, mas temos um programa do Posei mais bem estruturado, temos um bom documento que foi trabalhado por todas as associações de produtores", lembrou. O presidente da Associação Agrícola de São Miguel apelou a que se aproveite ao máximo os fundos comunitários disponíveis pois existem na Região projetos interessantes, não só na área do leite, mas também na carne e na diversificação agrícola, "projetos com futuro que são essenciais para atenuar a importação de muitos produtos". Mas reconheceu que o novo Quadro Comunitário de Apoio "não é perfeito" e, devido às condições climatéricas adversas que por vezes se fazem sentir na região, Jorge Rita destacou a necessidade de haver seguros para a produção pois "se não houver seguros para as produções regionais ao ar livre e em estufas, o crescimento dessas produções pode estar limitado no tempo". Por fim Jorge Rita destacou o "excelente trabalho dos agricultores e suas famílias na Região" que além de terem um "trabalho árduo, têm de ter consciência que fazem um trabalho excecional para a Região que é manter a paisagem e produzir bens essenciais", concluiu. Para o presidente da Associação Agrícola de São Miguel os agricultores dos Açores salvaguardam as questões ambientais, trabalham de forma persistente com o grande objetivo da qualidade que, no fundo, acaba por dar reconhecimento aos produtos da Região. Visita às instalações AASM, do Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, no âmbito da visita aos Açores para o colóquio sobre a Agricultura Familiar “A agricultura assenta sempre numa raiz familiar porque ser agricultor normalmente depende sempre muito de toda a família envolvida direta ou indiretamente” 8 Agricultor 2000 JULHO DE 2014 A Evolução genética da raça Holstein Frísia na ilha de São Miguel A primeira referência em território nacional a vacas pretas e brancas provenientes do norte da Europa, mais propriamente da foz do Reno, surgiu no Ribatejo em meados do século XVIII. No entanto fruto de uma melhor climatização, acabou por ser na foz do rio Vouga que os animais da raça Frísia melhor se adaptaram, sendo o Baixo Vouga considerado o solar da raça Frísia portuguesa. Nos Açores embora se reporte apenas aos finais do século XIX a existência de animais desta raça, a forma surpreendente com que se adaptaram à região, leva que tenhamos de considerar também os Açores como parte do solar desta raça impar para a produção de leite. Foi a partir do fim dos anos noventa do século passado que se iniciou o registo de animais açorianos no Livro Genealógico português da raça, primeiro na ilha de S. Miguel, fruto do protocolo estabelecido entre a APCRF e a Associação Agrícola de S. Miguel, tendo mais tarde estendido o registo aos animais das ilhas Terceira, Pico e ao Faial. Nessa altura, quando os classificadores do Livro Genealógico começaram a classificar os animais de São Miguel era ainda possível diferenciar em algumas explorações, animais pertencentes ao tronco Frísio, o chamado Holando Micaelense de animais totalmente Holsteinizados. A existência de animais já marcadamente Holstein devia-se não apenas ao facto dos Açores terem sido a primeira região do país a usar sémen proveniente da América do Norte, mas também à aplicação na década de noventa de embriões originários do Canadá. Nos últimos quinze anos assistimos a um esforço enorme em prole do melhoramento da raça por parte dos criadores micaelen- Caracter Leiteiro ses. É certo que a este incremento não é alheio a grande importância que o setor tem para a região, bem como a relação de proximidade existente entre os criadores e as suas estruturas associativas. No caso particular de São Miguel, deve-se destacar a Asso- Pernas & Pés ciação Agrícola de São Miguel, e o esforço notório efetuado por ela na formação dos criadores e jovens criadores, organizando cursos técnicos ligados à raça, bem como colocando à disposição dos criadores associados serviços ligados ao melhoramento, como o emparelha- mento corretivo ou o acesso facilitado à tecnologia de transplantes de embriões. Uma observação atenta dos gráficos com as médias por grande região das classificações morfológicas realizadas nos últimos quinze anos em S. Miguel, permite concluir que Capacidade embora se tenha observado um ligeiro recuo nos dois primeiros anos, a partir daí assistiu-se a um crescimento constante do valor fenotípico dos animais, que se traduziu também no melhoramento genético do efetivo, no que respeita ao Tipo. Uma nota interessante Agricultor 2000 9 JULHO DE 2014 a ressalvar, é que embora a Região Autónoma dos Açores represente cerca de 16,7% das classificações morfológicas realizadas anualmente para o Livro Genealógico, a percentagem de vacas da região com a classificação Excelente (EX) no todo nacional é de 70%. Úbere “No caso particular de São Miguel, deve-se destacar a Associação Agrícola de São Miguel, e o esforço notório efetuado por ela na formação dos criadores e jovens criadores, organizando cursos técnicos ligados à raça (...)” Estatura apresentado nos melhores concursos europeus. Nos tempos difíceis que se aproximam para o setor leiteiro nacional, com a liberalização da produção no espaço comunitário, possuir animais mais funcionais será seguramente uma mais valia. Espero que para os Açores em geral e para a ilha de S. Miguel em particular, o esforço efetuado nos últimos vinte anos em prole do melhoramento da raça Holstein Frísia frutifique, tornando mais competitiva a produção de leite, naquela que é seguramente uma das regiões com maior aptidão em toda a Europa. Para melhor compreender a evolução que o efetivo Holstein Frísio teve nesta ilha ao longo da última década, basta observar os excelentes exemplares presentes no concurso que anualmente se realiza nesta ilha. As campeãs bem como os animais melhores classificados em pista, estão ao nível do que é ENG.º SAMUEL PINTO SECRETÁRIO TÉCNICO DA APCRF Alerta Fotossensibilidade ou Doença de Pelar De forma recorrente, todos os anos no período compreendido entre Julho e Setembro, são criadas condições climatéricas (temperatura e humidade elevadas) para o desenvolvimento de um fungo (Pithomyces chartarum) na erva das nossas pastagens. Este fungo produz uma potente toxina (Esporodesmina) que quando ingerida, exerce uma importante ação tóxica sobre o fígado provocando-lhe lesões que o impedem de libertar os produtos tóxicos do organismo, nomeadamente o pigmento existente na erva verde a Filoeritrina. Se esta não é eliminada, mantêm-se na circulação sanguínea, atinge a pele, onde desencadeia reações fotoquímicas que se manifestam sobre a forma de prurido intenso, seguido de queimaduras mais ou menos intensas nas zonas claras e glabras da pele. Esta patologia, conhecida como fotossensibilidade ou Doença de Pelar, tem sido responsável por avultadas perdas económicas nas explorações devido a, quebras acentuadas na produção de leite e carne, abortos, retenção placentária, doenças metabólicas (nomeadamente cetoses), gastos com veterinários e medicamentos, abate prematuro de animais com elevado potencial genético e por fim mortes. Alerta-se os produtores para protegerem os seus animais durante os períodos críticos, quer através da utilização de um maneio alimentar adequado, ou da administração de zinco. O zinco pode ser administrado de três formas diferentes: - Incorporado na agua da bebida, sobre a forma de Sulfato de Zinco, modalidade que só deve ser utilizada em animais que não estão a produzir leite, por este transmitir um sabor desagradável, factor limitante á sua natural ingestão, situação que não se pretende em vacas em produção; - Incorporado no concentrado, ou em Bolus (Cápsulas de libertação lenta) sobre a forma de Óxido de Zinco. Solicita-se aos agricultores que contactem o seu médico veterinário assistente, de modo a informarem-se sobre qual a forma mais eficaz de actuação. DR. JOÃO VIDAL 10 Agricultor 2000 JULHO DE 2014 Agricultor 2000 11 JULHO DE 2014 Evolução do melhoramento bovino em São Miguel D esde sempre se verificou a preocupação por parte de qualquer criador, independentemente da espécie animal, em selecionar os seus melhores exemplares para serem utilizados posteriormente como reprodutores. Este facto sustenta a regra que só utilizando os melhores, se obtêm melhores performances. Logicamente na bovinicultura acontece exactamente o mesmo. Foi prática comum ao longo dos tempos, os agricultores seleccionarem os vitelos filhos das suas melhores vacas para serem os futuros reprodutores, ou então, recorrerem às explorações consideradas de elite, para adquirirem futuros reprodutores no sentido de uma aproximação do ponto de vista genético. Embora já fosse utilizada em alguns países, nomeadamente nos Estados Unidos da América, só no final da década de sessenta, foi adotada nos Açores a técnica que veio revolucionar todo o melhoramento genético a nível global, a Inseminação Artificial (IA). Inicialmente executada por técnicos dos serviços de desenvolvimento agrário ( junta pecuária de então), limitada apenas a um número relativamente reduzido de animais e de explorações. Depois da fundação da AASM, a partir de 1988 o serviço de IA passou a ser executado por esta organização. Os técnicos de então (dos quais alguns ainda se mantêm neste serviço), foram distribuídos por diferentes pontos da ilha, criando zonas que lhes ficavam adstritas. Para além do trabalho de inseminação, estes exerceram um importantíssimo papel de divulgação, alertando para os benefícios que esta traria para as explorações e seus proprietários. De forma gradual foram aumentando o número de explorações que aderiram ao projecto, até ser globalmente aceite que a IA é de facto o caminho mais correcto e que menores custos e riscos comporta. A prevalência de algumas doenças infecciosas (nomeadamente a Brucelose), foi motivo para chamadas de atenção por parte dos técnicos, no sentido de alertar os agricultores para o risco que comportava a utilização dos reprodutores masculinos na perpetuação destas, contribuindo positivamente para a implementação da IA. Com o aparecimento posterior de nova tecnologia na área da reprodução nomeadamente a transferência de embriões (TE), bem como a sexagem do sémen, “Ao longo de todos estes anos, foi preocupação constante por parte da Associação Agrícola de São Miguel disponibilizar sempre os melhores e mais adequados reprodutores, de acordo com as nossas necessidades” o melhoramento tornou-se muito mais rápido devido a um considerável encurtamento entre gerações. Efectivamente com a TE, pode ser aproveitado o elevado potencial genético de uma vaca, para obter um número considerável de embriões, que depois serão implantados em outras vacas de menor potencial, conseguindo-se assim um elevado número de filhas em apenas um ano, bem como um enorme contributo no património genético da comunidade bovina. Durante muitos anos os emparelhamentos foram feitos de forma empírica, assentes na experiencia e perícia conjunta dos agricultores e técnicos da IA, de forma a beneficiar das características positivas de cada reprodutor, bem como corrigir os defeitos existentes. Nesta altura quando a qualidade genética das manadas ainda não era tão evidente, optou-se por selecionar sémen proveniente de reprodutores muito equilibrados, tanto do ponto vista morfológico como produtivo, com o propósito de se obter uma rápida homogeneidade dos efectivos. De forma voluntária, a escolha recaiu em reprodutores que apresentavam boas características especialmente para úberes e patas, por se verificar défice a este nível nos animais de então. Em poucos anos assistiu-se a uma revolução na qualidade genética das nossas manadas. Na comparação que era feita entre as manadas que aderiram à IA e, as que não aderiram, nomeadamente na componente produtiva e morfológica, a diferença era tal, que levou ao aumento do número de adesões a tal ponto, que mais de 85% das nossas vacas passaram a beneficiar desta técnica. Alguns reprodutores, considerados hoje lendas da indústria da IA exerceram um impacto tremendo no melhoramento das nossas manadas. Podiam-se citar muitos nomes, mas seria injusto não realçar touros como o Blackstar, Chief Mark e Starbuck, quer através dos seus contributos directos, quer através dos seus inúmeros descendentes que entraram como reprodutores de top no circuito da IA. Ao longo de todos estes anos, foi preocupação constante por parte da AASM disponibilizar sempre os melhores e mais adequados reprodutores, de acordo com as nossas necessidades, independentemente da nacionalidade ou proveniência, estando sempre na qualidade o motivo da escolha. Independentemente de poderem ter sido cometidos eventuais erros, o certo é que se conseguiu uma melhoria genética impressionante, capaz de orgulhar todos os agentes envolvidos neste projecto. Mais recentemente, utilizando todos os recursos informáticos disponíveis, optou-se por trabalhar de uma forma mais orientada ou mais cientifica se quisermos, no sentido de escolher o emparelhamento mais adequado para cada animal. Com a criação do serviço de emparelhamento, conseguimos escolher o melhor sémen disponível, para manter ou melhorar os caracteres desejáveis que o animal já possui bem como corrigir os eventuais defeitos, excluindo sempre aqueles cruzamentos que iriam aumentar a consanguinidade. É do conhecimento geral que a consanguinidade representa um enorme problema para qualquer comunidade, sendo particularmente evidente nas vacas Holstein, fruto de um melhoramento muito intenso e rápido. Quando elevada, os animais podem apresentar menor resistência a um sem número de doenças, bem como uma acentuada redução da fertilidade, daí a importância de um bom programa de emparelhamento que elimine esta possibilidade, contribuindo simultaneamente para a obtenção de vacas mais resistentes, mais férteis, com maior durabilidade e melhor uniformidade. O melhoramento animal é um processo activo e dinâmico, que se adapta ao longo do tempo às necessidades dos produtores. É fundamental que os produtores continuem a insistir nele, porque como já foi largamente demonstrado só assim se conseguem obter animais de excelência, factos facilmente comprováveis quer através da observação directa das nossas explorações, nos concursos realizados ano após ano, bem como nos volumes e qualidade de leite produzido. Como nota final e título informativo, os gastos com o melhoramento genético numa exploração bovina leiteira representam uma percentagem muita baixa dos custos totais, devendo ser interpretados como investimento no futuro e não somente como um custo. DR. JOÃO VIDAL 12 Agricultor 2000 JULHO DE 2014