Universidade Comunitária Regional de Chapecó Coordenadoria de Educação a Distância PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Disciplina na Modalidade de Educação a Distância Roberto Deitos UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ UNOCHAPECÓ PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Roberto Deitos UnochapecóVirtual Chapecó-SC, 2008 ________________________________________________ 370.15 D325p Deitos, Roberto Psicologia da educação / Roberto Deitos. -- Chapecó : Unochapecó : Coordenadoria de Educação a Distância , 2008 112 p. 1. Psicologia educacional. I. Título. CDD 370.15 ________________________________________________ Catalogação Biblioteca Central da Unochapecó Reitor Prof. Odilon Luiz Poli V ice-R eitora de Graduação ice-Reitora Profa. Maria Luiza de Souza Lajus Vice-R eitor de P esquisa, Extensão e Pósice-Reitor Pesquisa, Graduação Prof. Claudio Alcides Jacoski Vice-R eitor de A ice-Reitor Administração dministração Prof. Sady Mazzioni Coordenadora Geral Prof a. Roberta Pasqualli Equipe Multidisciplinar a Prof . Marcia Ione Surdi Prof a. Monica de Toni Pereira Prof a. Roberta Pasqualli Revisão Juliane Fernanda Kuhn Assistente A dministrativo Ad Luana Carina Benetti Au x i l i a r d e S e c r e t a r i a Kátia Caon Capa e Diagramação Marcela do Prado Av. Sen. Attílio Fontana, 591-E - Bairro Efapi - Chapecó (SC) CEP 89809-000 - Caixa Postal 1141 - Fone: (49) 3321 8088 E-mail: [email protected] Home Page: www.unochapeco.edu.br/virtual Nenhuma parte desse material pode ser reproduzido ou duplicado sem autorização expressa do autor e da UnochapecóV irtual UnochapecóVirtual ÍCONES ORGANIZADORES Anote: Conceitos ou idéias que merecem destaque Reflita: Pensamento aprofundado de pontos importantes Dúvida: questionamento sobre o assunto Saiba mais ou Curiosidade: recomanda a leitura de uma obra para aprofundamento do estudo, ou, até menos uma curiosidade. Atividade: para consolidar e aprofundar a aprendizagem Psicologia da Educação APRESENT AÇÃO APRESENTAÇÃO Seja bem-vindo! Você está recebendo o livro do componente curricular de Psicologia da Educação Educação. Este material didático foi elaborado para este curso, que tem como princípio a responsabilidade e o desafio de oferecer uma formação de qualidade. Para tanto, a cada novo material, você está convidado a encaminhar sugestões de melhoria para nossa equipe, sempre que julgar relevante. Ressaltamos a importância de, antes de iniciar os estudos, ler o Manual do Aluno e do Curso para se apropriar das informações pertinentes ao bom andamento do curso. Lembre sempre: a equipe da UnochapecóVirtual estará à disposição sempre que necessitar de um auxílio, pois assumimos um compromisso com você e com o conhecimento. Acreditamos no seu sucesso! Equipe UnochapecóV irtual UnochapecóVirtual Psicologia da Educação CRONOGRAMA Observe a data de entrega das atividades e avaliações, disponíveis no Ambiente V irtual de Virtual Aprendizagem - T elEduc TelEduc Psicologia da Educação PROFESSOR PESQUISADOR Roberto Deitos Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1990), graduando em Psicologia pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Mestrado em Educação pelo Instituto Pedagógico Latinoamericano e Caribenho (2000)/FURB, Pós-Graduação em Educação e Ética e Filosofia Política. Graduando em Psicologia. Atualmente é professor da Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Tem experiência na área de Educação, com ênfase nos fundamentos da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: formação - epistemologia - prática pedagógica, docência, capacitação, metodologia, cognição, epistemologia, educação, educação e sociedade, concepção e formação, educando, mediação e infância. Psicologia da Educação SUMÁRIO APRESENT AÇÃO ................................................................................................................ 1 1 APRESENTAÇÃO UNIDADE 1. A PSICOLOGIA NA HISTÓRIA ......................................................... 1 2 1 NA ANTIGUIDADE GREGA ................................................................................... 1 2 GREGA................................................................................... 1.1 A dmiração e curiosidade: o preâmbulo da busca pela compreensão da eexisxisAdmiração tência de si e do cosmo ................................................................................................. 1 2 1.2 A P sicologia subjacente ao embate entre a visão mitológica e a cosmológica Psicologia no período pré-socrático .............................................................................................. 1 2 1.3 Sócrates, Platão e Aristóteles: o antropocentrismo clássico e sua relação com a psiqué (Alma) ..................................................................................................... 1 5 2 PSICOLOGIA SUBJACENTE À VISÃO TEOCÊNTRICA NA IDADE MÉDIA ...................................................................................................................................... 1 6 3 PSICOLOGIA NA MODERNIDADE: ENTRE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA ....................................................................................................................................... 1 7 4 CONSOLIDAÇÃO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA: ESCOLAS, MÉTODOS E OBJETOS DE INVESTIGAÇÃO .................................................................. 2 0 4.1 R elação com a Neurologia e F isiologia .............................................................. 2 0 Relação Fisiologia 4.2 Escolas em P sicologia do início do século XX ................................................. 2 1 Psicologia 4.3 Método, Objeto e T eorias em P sicologia ........................................................... 2 2 Teorias Psicologia REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 2 3 UNIDADE 2. INFÂNCIA E ESCOLARIZAÇÃO: INSERÇÃO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA NO CAMPO DA EDUCAÇÃO .................................................... 2 5 1 JEAN-JACQUES ROUSSEAU E FRIEDRICH FROEBEL: PREÂMBULO DA PSICOLOGIA D A APRENDIZA GEM E DO DESENV OL VIMENTO DA APRENDIZAGEM DESENVOL OLVIMENTO CONTEMPORÂNEA ..................................................................................................... 2 5 1.1 Entre o não-eu e o eu: origem da especificidade da infância ......................... 2 5 infância......................... 1.2 O processo educativo e a constr ução do ser criança em F roebel ................... 2 7 construção Froebel 1.3 A infância no Brasil: desvalida ou na R oda dos Expostos ............................... 3 2 Roda 2 RELAÇÃO PSICOLOGIA E PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO ....................... 3 4 EDUCAÇÃO....................... 3 HISTORICIZANDO O ESTUDO DA CRIANÇA PELA PSICOLOGIA ..... 3 5 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 3 7 UNID ADE 3. MA TRIZES EPISTEMOLÓGICAS D A PSICOLOGIA E SU A UNIDADE MATRIZES DA SUA RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO ESCOLAR .............................................................. 3 9 1 A CONCEPÇÃO IDEALIST A E SU A INFL UÊNCIA NO DESENV OL VIIDEALISTA SUA INFLUÊNCIA DESENVOL OLVIMENTO E APRENDIZA GEM ESCOLAR ORD AGEM INA TIST A – APRENDIZAGEM ESCOLAR:: AB ABORD ORDA INATIST TISTA MA TURA CIONIST A ...................................................................................................... 3 9 MATURA TURACIONIST CIONISTA 1.1 Aptidão, Inteligência e T estes na P sicologia de Alfred Binet ........................ 4 3 Testes Psicologia Binet........................ Psicologia da Educação 9 1.2 Escalas do desenvolvimento na perspectiva de Gesell ..................................... 4 5 1.3 Alguns apontamentos educação na perspectiva inatista-maturacionista ...... 4 6 1.4 Implicações pedagógicas do desenvolvimento e aprendizagem ...................... 4 7 2 A CONCEPÇÃO EMPIRIST A E SU A INFL UÊNCIA NO DESENV OL VIEMPIRISTA SUA INFLUÊNCIA DESENVOL OLVIMENTO E APRENDIZAGEM ESCOLAR: ABORDAGEM COMPOR TAMENT ALIST A ........................................................................................ 4 8 COMPORT AMENTALIST ALISTA 2.1 A P sicologia segundo P avlov: R efle xos Condicionados ................................... 4 8 Psicologia Pavlov: Refle eflexos 2.2 A aprendizagem segundo o behaviorismo de W atson ....................................... 4 9 Watson 2.3 Skinner e o comportamento aprendido ............................................................... 5 1 2.4 Condicionamento Clássico e Operante na Aprendizagem .............................. 5 2 2.5 Implicações da Abordagem Comportamentalista na prática pedagógica ..... 5 3 3 A CONCEPÇÃO MA TERIALIST A E SU A INFL UÊNCIA NO DESENMATERIALIST TERIALISTA SUA INFLUÊNCIA VOL VIMENTO E APRENDIZA GEM ESCOLAR ORD AGEM HISTÓRIOLVIMENTO APRENDIZAGEM ESCOLAR:: AB ABORD ORDA CO CUL TURAL .............................................................................................................. 53 CO- CULTURAL 3.1 Conceitos fundamentais do materialismo histórico .......................................... 5 4 3.2 A concepção de homem na Abordagem Histórico-Cultural ........................... 5 6 3.3 Mediação simbólica como canalizadora da atividade consciente ................... 5 6 3.4 F unções P sicológicas Superiores na aprendizagem social ............................... 5 8 Funções Psicológicas 3.5 R elação P ensamento e Linguagem no desenvolvimento e na aprendizagem 6 0 Relação Pensamento 3.6 Relação entre aprendizagem e desenvolvimento e a Zona de Desenvolvimento P ro ximal ..................................................................................................................... 6 1 Pro roximal 3.7 Implicações dessa abordagem na prática pedagógica ...................................... 6 3 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 6 3 UNID ADE 4. TEORIAS PSICOGENÉTICAS EM W ALLON E PIA GET ......... 6 6 UNIDADE WALLON PIAGET 1 A PSICOGÊNESE DO DESENV OL VIMENTO INF ANTIL EM HENRI DESENVOL OLVIMENTO INFANTIL WALLON ........................................................................................................................... 6 6 1.1 Influência filosófica na teoria walloniana .......................................................... 6 6 1.2 P rincípios epistemológicos da psicogênese walloniana .................................... 6 6 Princípios 1.3 A emoção e o movimento na psicogênese walloniana ....................................... 6 7 1.4 Os estágios do desenvolvimento infantil na formação da personalidade na teoria de W allon ............................................................................................................. 6 8 Wallon 1.5 Estágios do desenvolvimento infantil da criança na psicogênese walloniana ... .......................................................................................................................................... 7 0 1.6 P assagem da inteligência prática a teórica na teoria walloniana ................... 7 4 Passagem 1.7 EUOUTRO EU-OUTRO OUTRO:: conflito necessário na formação da personalidade da criança nos ambientes socioeducativos .................................................................................... 7 5 2 A TEORIA PSICOGENÉTICA EM JEAN PIAGET .......................................... 7 9 2.1 Origem F ilosófica da psicogênese do conhecimento ........................................ 7 9 Filosófica 2.2 P rocessos do desenvolvimento cognitivo em P iaget ......................................... 8 0 Processos Piaget 2.3 Noção de esquema na teoria piagetiana ............................................................. 8 1 2.4 Noção de equilibração na teoria piagetiana ....................................................... 8 2 piagetiana....................................................... 2.5 Estágios do desenvolvimento cognitivo na teoria piagetiana .......................... 8 3 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 8 9 Psicologia da Educação 10 UNID ADE 5. A ADOLESCÊNCIA: CONDUT AS E MANIFEST AÇÕES A P ARUNIDADE CONDUTAS MANIFESTAÇÕES PARTIR DO ENFOQUE PSICANALÍTICO ....................................................................... 9 1 1 SIGNIFICADO DE ADOLESCÊNCIA NA TEORIA PSICANALÍTICA .... 9 2 1.1 Etapas da adolescência: transformações que assustam ................................... 9 2 1.2 As crises na etapa puberal: identidade, autoridade e sexual ......................... 9 7 1.3 As crises na etapa nuclear: identidade, autoridade e sexual ........................ 103 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 112 Psicologia da Educação APRESENT AÇÃO APRESENTAÇÃO Seja bem-vindo! Falar sobre criança, infância e adolescência é um desafio e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade, pois abarcar essas especificidades e dimensões é uma tarefa árdua e, ao mesmo tempo, prazerosa. Isso implica um constante voltar às origens do psiquismo humano, o que nos provoca prazer assim como preocupações face ao contexto sociocultural e econômico em que vive o mundo. Este material apresenta uma reflexão sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente, embora escrito de uma forma singular e didática, na sua constituição da pessoa desde a mais tenra idade até a adolescência, objetivando evidenciar algumas características plausíveis e generalizáveis em torno do processo do desenvolvimento e aprendizagem nos ambientes sociais. O texto a seguir está dividido em cinco partes: na primeira, “A História da Psicologia”, serão abordados alguns aspectos sobre o desenvolvimento do conhecimento desde os gregos até os modernos, enfatizando os eventos que mais repercutiram em relação à ciência psicológica. No segundo, apresentamos uma reflexão, embora sucinta e didática, a respeito da infância e escolarização, destacando a inserção da psicologia científica no campo da educação. No terceiro, versaremos sobre as matrizes epistemológicas da psicologia e sua relação com a educação escolar. No quarto, apresentaremos uma reflexão sobre as teorias psicogenéticas em Wallon e Piaget. E no quinto, uma reflexão sobre conflitos e crises na adolescência para a psicanálise contemporânea. Ao final do estudo dessas unidades esperamos que você possa ter aprofundado a questão da formação humana segundo os aspectos sociais e psicológicos ao longo da história da humanidade. Além de observar as contribuições dessas evoluções nos conceitos do saber no campo da educação. Leia o material com atenção e lembre-se de olhar as orientações sobre as atividades a serem realizadas no final de cada unidade. Esperamos que esse componente curricular seja mais um aporte ao desenvolvimento de seus conhecimentos. Bons estudos! Psicologia da Educação UNIDADE 1. A PSICOLOGIA NA HISTÓRIA 1 NA ANTIGUIDADE GREGA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1.1 A dmiração e curiosidade: o preâmbulo da busca pela compreensão da eexistência xistência Admiração de si e do cosmo ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O constante buscar, imaginar, fantasiar e inventar foi a mola e a gênese do desenvolvimento das faculdades e potencialidades humanas na dinâmica da vida social. Do estado de agrupamento entre os seres humanos, originaram-se dois componentes altamente revolucionários na filogênese, os quais teceriam, para todo o sempre, a liberdade e a autonomia do ser humano sobre a sua condição primária. À medida que o ser humano transformou a natureza, segundo suas necessidades primárias, ocorreram mudanças no meio físico e social pelo trabalho: ferramenta que se interpõe entre o homem e a matéria-prima para atender as suas necessidades. Da reflexão da sua própria ação, foi adquirindo habilidades e capacidades cada vez mais complexas: potencialidade de imaginar, fantasiar e recriar a todo instante face aos desafios postos a si. Do agir originou-se a memória, a intuição, o pensar e a fala. O mundo humano transformarase incrivelmente e foi preciso, de formas diferenciadas, compartilhar e perpetuar saberes extraídos das vivências. Do criar e recriar o seu modo de existência, segundo interesses e necessidades, resultou o processo de educar-se em consonância com o meio – a natureza. Pela constância do agir do adulto e pela necessidade de absorção do trabalho, o homem criou uma forma peculiar de perpetuar suas ações: articulação entre linguagem, pensamento, emoções e movimento. Desse ponto em diante, os fatos e os feitos seriam conhecidos pelas gerações futuras. Os mais instruídos e com habilidades de comunicação oral tornaram-se exímios narradores, responsáveis por transmitir a história humana e a sua relação com a natureza. Pelo próprio processo do transformar instrumentos materiais e não-materiais em ferramentas, o adulto tornou-se o centro de si mesmo. Por milênios, a visão adultocêntrica foi objeto de narradores e historiadores. Assim, o ser adulto tornou-se, nessa época, símbolo e o fim último da pessoa desde a mais tenra idade. 1.2 A P sicologia subjacente ao embate entre a visão mitológica e a cosmológica no Psicologia período pré-socrático ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Pode-se dizer que a cultura grega se torna, ao longo da existência humana, o expoente de civilização do Ocidente, justamente pela vontade humana de conhecer a natureza e a si mesma. Segundo Aranha (2003, p. 83), Psicologia da Educação 13 Os primeiros pensadores centraram sua atenção na natureza e elaboraram diversas concepções de cosmologia, procurando a racionalidade constitutiva do Universo. Ao perguntarem como seria possível emergir o cosmos do caos - ou seja, como a confusão inicial surge o mundo ordenado -, os pré-socráticos buscam o princípio arché) de todas as coisas, entendido não como aquilo que antecede ao tempo, mas como fundamento do ser. Buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas. Os filósofos pré-socráticos questionavam as leis estabelecidas, os mitos e as mais variadas crenças, em síntese queriam entender o funcionamento de todas as coisas. A essa busca deu-se o nome de elementismo, atomismo, monismo, que é utilizado ainda hoje pelas ciências. Segundo Freire (1997, p. 25), para os filósofos pré-socráticos “[...] tudo o que era complexo construía o mundo das aparências, enquanto a verdadeira realidade era a unidade simples, que era a fonte dos mundos, das estrelas, dos planetas, dos animais e dos homens”. Por essa razão, muitos dos pensadores gregos dedicaram seus estudos a reflexão sobre a base de todas as relações humanas, que refletem em dúvidas sobre o fundamento da interação entre os homens. Os filósofos pré-socráticos, expoentes da reflexão sobre a formação da psiqué humana, constituem-se como pensadores propedêuticos da Psicologia científica do século XIX, pois ao refletirem sobre o cosmo buscaram conhecer a si mesmos, como sujeitos ativos na construção social da subjetividade humana; mesmo vivendo num contexto no qual a visão mítica predominava nos discursos dos oradores, responsáveis pela perpetuação da formação humana. Ousaram, cada um a seu modo e a seu tempo, buscar compreender e interpretar a gênese da existência do cosmo e do ser humano, bem como a relação entre ambos na formação da psiqué. Alguns merecem ser mencionado pelas contribuições que trouxeram à Psicologia Científica Moderna e Contemporânea. Dentre eles, destacamos o pensamento de Tales de Mileto, Heráclito, Pitágoras, Anaxágoras e Demócrito de Abdera. Tales de Mileto (640 - 562 a.C.), filósofo, matemático e astrônomo, nascido na ilha de Mileto (antiga colônia grega), juntamente com Anaxímenes e Anaximandro fundam a Escola Jônica e Mileto, que tem como núcleo central as reflexões da física, da matemática e da astronomia, que se traduzem numa nova forma de indagar sobre o universo. Tales é considerado o marco inicial da filosofia no ocidente e primeiro expoente do período cosmológico. Tales buscava conhecer o princípio natural das coisas. Para ele, água era considerada como sendo a origem de todas as coisas: a “substância primordial”. Seu olhar e reflexão focavam a questão do movimento e transformação das coisas (Água, Okéanos, pai do mundo). A água era o elemento principal, porque grande parte das coisas do reino animal, vegetal e mineral era composta de água. No entanto, encontrara dificuldade de sustentar tal visão diante do universo. Heráclito nasceu em Éfeso (540 a.C. - 475 a.C.). Na filosofia é considerado um importante pensador pré-socrático pelo seu rigor e amor ao saber, pois era rigoroso na formulação do problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, “como a do arco e da lira”. Segundo Émile Bréhier (1977), Heráclito foi o primeiro filósofo a sistematizar em uma obra, “Do Universo”, uma reflexão voltada para a busca de uma concepção do sentido da vida humana a partir da compreensão cosmológica. Por viver em um período truculento, reflete um pouco do pessimismo do contexto onde vivia. Em suas observações, percebera que o mundo estava em constante Psicologia da Educação 14 mudança. Tudo no universo se transformava com o tempo em seus opostos (fogo, mutação, dialética). É dele o pensamento: o homem não entra no rio duas vezes, pois na segunda não é o mesmo homem e nem as mesmas águas (BRÉHIER, 1977). A dialética no pensamento heraclitiano é a demonstração viva de seu rigor nas suas formulações, a ponto de confundir os oponentes em meio a tantos paradoxos (BRÉHIER, 1977). Tudo é semelhante, sendo diferente; tudo é idêntico, sendo diverso; tudo está em relação e sem relação; tudo é inteligente e sem inteligência. Para Heráclito, o princípio primeiro é que tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo. O pensamento de Heráclito irá influenciar muitas correntes teóricas da Psicologia Moderna e Contemporânea, especialmente as de cunho sociais e fenomenológicas. Pitágoras nasceu em Samos (571 - 496 a.C.). Fundou a Escola Pitagórica: associação “científicoético-política” que aspirava fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma em política. Segundo Bréhier (1977, p. 46), “O pitagorismo é não apenas um movimento intelectual, mas um movimento religioso, moral e político, tendendo à formação de uma confraria interessada em fazer propaganda e apoderar-se do poder nas cidades da magna Grécia”. Esse movimento, como os demais correlatos, tinha como missão ensinar métodos de purificação, os quais eram proibidos de divulgar aos impuros. Levantando oposições de todas as facções, Pitágoras se vê obrigado a deixar Cretona. Pitágoras, como seus seguidores, acreditava que o equilíbrio do universo encontrava-se no número, ou seja, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas é o número. Para ele, o número é a essência de todas as coisas, pois tudo é regulado segundo relações numéricas. Anaxágoras nasceu em Clazômenas, Jônia (499 - 428 a.C.). Fundou a primeira escola filosófica, na qual procurou explicar o universo a partir da ideia de que o universo se constitui pela ação do espírito ou inteligência (½¿æÂ - nous). De acordo com Anaxágoras, ao contrário da grande maioria, não foi elementista e acreditava na diversidade de elementos: Tudo está em tudo, pois em cada coisa há uma parte de todas as outras. Segundo Bréhier (1977, p. 41), “[...] o homem é o mais inteligente dos animais, porque possui mãos, e a mão é o utensílio por excelência e o modelo de todos os utensílios”. Anaxágoras afirmava que deveria haver um espírito ordenador do universo - razão divina (nous) - que impulsionaria o mundo para sair da inércia (diversidade, relação, espacial. ordenador). Ou seja, defendia a ideia de que o Cosmos obedecia a um princípio ordenador da matéria, chamado de “nous” ou “inteligência”. Suas reflexões terão repercussão na modernidade na ciência psicológica, pois questiona o reducionismo ou o elementismo, valorizando a disposição dos elementos no todo. Demócrito nasceu em Abdera (460 - 370 a.C.), era filósofo, astrônomo e matemático. Defendeu a teoria atomista, ou seja, tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos (e é daí que vem a palavra átomo, que em grego significa “a”, negação e “tomo”, divisível. Átomo = indivisível). Foi o verdadeiro e último elementista do período cosmológico. Considerava que o universo era composto por átomos materiais indivisíveis. As pessoas eram constituídas de átomos de alma e de átomos de corpo. Ao mesmo tempo em que a visão cosmológica seguia seu curso na civilização grega entre aqueles que admiravam, contemplavam e questionavam a origem do universo, do ser humano e de todos os seres vivos animados e inanimados; entrava em cena o período mitológico, como uma forma paralela de explicação da origem de todas as coisas, com uma substancial diferença: o mito era a forma encontrada de perpetuar valores éticos e modelo de homem na sociedade humana. Dessas duas visões, origina-se uma nova, denominada de antropocêntrica, cuja matriz epistemológica influenciará o surgimento das ciências, especialmente a sociologia e a psicologia no crepúsculo da modernidade: Como conhecemos? O que é conhecimento? Como podem conhecer? Que é sociedade? Psicologia da Educação 15 1.3 Sócrates, Platão e Aristóteles: o antropocentrismo clássico e sua relação com a psiqué (Alma) ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.) foi um dos filósofos mais importantes da cultura grega. Acreditava que o conhecimento era a única forma do homem levar uma vida virtuosa, o que o leva a desenvolver os métodos de maiêutica e de introspecção. Em relação ao primeiro, consistia em forçar o interlocutor ou oponente a desenvolver seu pensamento sobre uma questão que ele pensa conhecer e evidenciar a contradição. Neste particular, afirma Aranha (2003, p. 121): [...] seu método começa pela frase considerada ‘destrutiva’, a ironia, termo que em grego significa ‘perguntar’. Diante do oponente que se diz conhecedor de determinado assunto, Sócrates afirma inicialmente nada saber. Com hábeis perguntas, desmonta as certezas até que o outro reconhece a própria ignorância. A segunda etapa do método Chama-se maiêutica (em grego, ‘parto’), nome dado em homenagem a sua mãe, que era parteira: segundo Sócrates, se ela fazia parto de corpos, ele ‘dava a luz’ idéias novas. Dessa forma, por meio de perguntas, destrói o saber constituído para reconstruí-lo na procura da definição do conceito. Para Bréhier (1977, p. 82), seguindo o método de Sócrates, o ponto de partida de qualquer análise é a consciência de sua própria ignorância: saber que nada sabe sabe. Sócrates acreditava que seu método consistia em conhecer a essência das coisas, não mais calcado em impressões, e sim na busca lúcida e clara dos pilares que fundamentam todo e qualquer conceito. Por sua didática e prazer na busca de conhecimento que resultasse da análise exaustiva da razão, Sócrates proporcionou à Filosofia e à Psicologia científica, especialmente as de cunho existencialista fenomenológica, fundamentos epistemológicos para a compreensão da psiqué humana. Platão (428 a.C. - 347 a.C.) nasceu em Atenas. Segundo historiadores, seu nome verdadeiro era Aristócles de Ariston. E mais, Platão é tido como um importante filósofo do pensamento ocidental pela sua sistematização da teoria da ideias, uma vez que compartilhava de seu mestre Sócrates o mesmo postulado: o mundo sensível, que advém dos sentidos e por isso é imperfeito; e o mundo inteligível, que advém das ideias por ser permanente e o perfeito. Para Marilena Chauí (2002, p. 51), O ponto de partida da Filosofia é a confiança no pensamento ou no homem como um ser racional, capaz de conhecer-se a si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Reflexão é a volta que o pensamento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a consciência conhecendose a si mesma como capacidade para conhecer as coisas, alcançando o conceito ou a essência delas. Platão afirmava que o homem era um ser dualista por compor-se de mente e corpo. Essa proposição terá inúmeros desdobramentos. Para ele, tudo o que se relacionava à mente, a sentimentos, às emoções, à consciência era entendido como alma (mundo inteligível – das idéias). O que se relacionava à mente identificava-se com o belo, enquanto a matéria (mundo sensível – dos fenômenos) representava a parte inferior do homem – os sentidos. Em inúmeras passagens de sua obra, inclusive em A República, versa sobre a faculdade da alma, da qual derivariam três categorias de homem: a dos servos, a dos soldados e a intelectual. Essa última reside a sua tese do filósofo-rei – o qual governaria a pólis com sabedoria, justiça e equidade. Psicologia da Educação 16 As principais características da filosofia platônica: tendência à racionalidade, somente a razão, com seus princípios e regras, é o critério da explicação de alguma coisa; tendência a oferecer respostas conclusivas, que são submetidas à análise; exigência de que se apresente o fundamento do pensamento. Para Platão, não pode haver contradição; exigência de que, para cada problema, seja investigada e encontrada a solução; tendência à generalização, isto é, mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes. Aristóteles (384 - 322 a. C.) nasceu na Macedônia. Filho de Nicômaco, médico da corte da Macedônia, Aristóteles conviveu com a ciência e as artes ao participar do círculo dos médicos amigos de seu pai. Aos 17 anos transferiu-se para Atenas, a fim de atender a sua vocação filosófica, o que o motivou a aperfeiçoar a espiritualidade. Assim como seu mestre Platão, o pensamento de Aristóteles influenciou o Ocidente, principalmente no que diz respeito ao pensamento lógico. Além de influenciar a educação, Aristóteles influenciou a teologia medieval, especialmente São Tomás de Aquino. Uma de suas contribuições à Filosofia e ao pensamento ocidental foi a sua altivez em valorizar a inteligência humana, pois, segundo ele, era a única forma de alcançar a verdade. Aristóteles ocupouse com os temas filosóficos: política, lógica, moral, ética, teologia, pedagogia, metafísica, didática, poética, retórica, física, antropologia, psicologia e biologia. Sua intensa reflexão sobre essas áreas do conhecimento humano levou-o a uma vasta publicação de obras de cunho didático. Aristóteles discordava de Platão em relação ao dualismo, especialmente no que diz respeito à tese platônica, segundo a qual a matéria não tem uma realidade duradoura e que deveríamos nos preocupar com as ideias. Para Aristóteles, um estudo adequado da matéria iria levar-nos a ideias melhores e mais claras, isto é, quanto mais profundamente examinarmos a matéria, mais somos conduzidos à reflexão do mundo, da consciência e das coisas. Aristóteles valorizava a educação e a considerava uma das formas de crescimento intelectual e humano. Afirmava que o corpo era meio pelo qual as informações viriam a nós pela percepção dos sentidos. Os dados não-processados da percepção são organizados pelo raciocínio da mente. E mais: a matéria e forma não são dois tipos diferentes de ser, mas aspectos fundamentais da mesma coisa. A forma está na matéria; matéria sem forma é uma noção falsa, não uma realidade, pois ela está em movimento e em direção a algum fim. Segundo essa acepção, a matéria tem quatro causas: causa material (madeira), formal (projeto), eficiente (carpinteiro) e final (casa). O pensamento dos pré-socráticos, de Sócrates, Platão e Aristóteles propiciam contribuições à compreensão dos processos de formação da psiqué na Psicologia Científica, isto porque ao afirmarem que os seres humanos são racionais, que realizam seu propósito quanto mais pensam, mais delineiam a constituição do ser humano enquanto humano. 2 PSICOLOGIA SUBJACENTE À VISÃO TEOCÊNTRICA NA IDADE MÉDIA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com o declínio do pensamento grego no fim da Idade Antiga, uma nova ordem se estabelece juntamente com a ascensão do Cristianismo no Ocidente. Segundo Freire (1997, p. 44), “A filosofia cristã, tendo Jesus Cristo como modelo e a Sagrada Escritura como paradigma de todas as verdades, espalhava-se e dominava, pouco a pouco, todos os impérios da época”. A visão teocêntrica abarcava o conhecimento de todas as áreas do conhecimento humano, especialmente as consideradas humanas (Filosofia, Psicologia, Sociologia, Educação, Artes, Arquitetura, entre outras), pois preconizava que Deus ao criar o homem o fez em sua forma definitiva. Psicologia da Educação 17 Com o domínio do conhecimento, adquiridos ao longo de toda a Idade Média, os padres exerceram a função de psicólogos das massas, ora por meio de práticas eclesiásticas – ato da confissão, como a oração, ora por meio de sermões e aconselhamentos. A prática do aconselhamento da religião gerava duas situações contraditórias, embora válidas para os contextos sob o domínio do cristianismo: amparo e constrangimento. A primeira, pelo conhecimento e decisão sobre as ações humanas que detinha exercia “processo terapêutico”, amparando e aconselhando nas dúvidas e incertezas, quer do grupo familiar, quer do ser individual. A segunda, o constrangimento, sob a égide do saber eclesiástico, subtraía do grupo ou da pessoa a capacidade de construir suas próprias referências internas. Através de algumas práticas a Igreja detinha um certo poder na sociedade da época. A prática da confissão, além de ser uma prática religiosa, servia como processo terápico, pois ao confessar-se diante de um padre a pessoa recebia palavras de conforto psíquicoemocional, advertências e regras de ajustamento de comportamento moral, ético e político. Isto acontecia por duas razões básicas: uma pelos padres serem exímios conselheiros de ordem espiritual, moral e ético; outra por conhecerem alguns mecanismos de defesa do psiquismo humano. Por assim dizer, foram os primeiros terapeutas de família, de relações conjugais e de ajustamentos das crianças em relação ao ambiente social. Nesse período, a Psicologia, assim no como na Antiguidade Grega, era tratada como sinônimo de “Alma”. Isto explica certas práticas de diagnósticos e exorcismos que os padres exerciam sobre as pessoas supostamente com algum tipo de sintomas de doença mental. Destacam-se dois padres por seu brilhantismo intelectual e vigor teórico: Santo Agostinho (354 – 430 d. C.) e São Tomás de Aquino (1225 d.C. – 1274 d. C.). O primeiro afirmava que a alma, além de ser morada da razão, representava a manifestação divina no ser humano. O segundo, a busca da perfeição pelo homem é a busca de Deus, pois somente Deus é capaz de reunir a essência e a existência em termos de igualdade. 3 PSICOLOGIA NA MODERNIDADE: ENTRE A CIÊNCIA E A FILOSOFIA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com a Renascença, muitos acontecimentos levaram a sociedade a reelaborar as estruturas sociais, políticas e econômicas, bem como a educação e os valores. Já eram notórios os conflitos ideológicos, científicos, econômicos e religiosos que se instauravam no seio da sociedade(s) transitória(O Renascimento representa a transição da concepção teocêntrica à concepção antropocêntrica. O mundo ocidental passa por uma das mais profundas revoluções em todos os âmbitos da sociedade. O Humanismo enfoca as várias faces do homem: valores, capacidades, virtudes, convicções, sentimentos e desejo de conhecer as leis que regem o universo e tudo o que há nele. O período Renascentista dos séculos XV e XVI foi mais do que um movimento humanista de oposição ao dogmatismo da Igreja Católica da Idade Média que, através da Escolástica, tenta conciliar razão e fé, com o intuito de não perder a hegemonia sobre a educação do grande grupo; senão como forma de salvaguardar seus interesses clericais e da aristocracia feudal decadente. Alguns fatos tornaram possível a transição: grandes navegações intercontinentais, descobertas da América por Colombo, renascimento artístico italiano, criação da imprensa, descobrimento do Brasil, formação das monarquias nacionais, reforma protestante, revolução copernicana (heliocentrismo), a morte de Giordano Bruno pela Santa Inquisição, comércio entre Oriente e Ocidente, criação de mapas geográficos, entre outros. Tal transição denominou-se “Século das Luzes” por serem introduzidos nas ciências vários métodos científicos denominados de empíricos, como a observação, a experimentação, mensuração e generalização na construção de conhecimentos. Psicologia da Educação 18 O humanismo, enquanto concepção filosófica, artística e literária, além de contrapor-se à visão sócio-religiosa, conferia ao homem a possibilidade e o livre-arbítrio de redescobrir, mediante reflexão científica e filosófica, a natureza humana e o seu novo lugar no cosmos (Antropocentrismo). O movimento renascentista foi responsável pela conquista do homem por meio da ciência, devolvendo ao homem a liberdade e autonomia em relação ao seu próprio desenvolvimento e “destino”. Antropocentrismo, do grego Antropos (homem) centrismo (centro), significa o homem como o centro de suas ações e valores. O humanismo, antes de ser livre, sofria estreito controle pela igreja por meio da Santa Inquisição. Com o advento do Movimento Renascentista, a ciência ganha status e credibilidade, à medida que cria e aprimora os métodos de investigação, produzindo mudanças basicamente em todas as áreas do conhecimento. Segundo Freire (1997), à medida que o tomismo e o elementismo foram retomados, preconizavam as condições favoráveis ao surgimento da Psicologia, ainda mais com o fortalecimento das ciências: astronomia, física, química e biologia, agora sem qualquer vínculo com o teocentrismo. As ciências evoluíram em seus métodos e conteúdos a ponto de desvendar relações causais que até então tinham sido ignoradas em função do poder de decisão da religião. Para Freire (1997, p. 53), Com o desenvolvimento do método científico, da criação dos laboratórios e por conseqüência do desenvolvimento das ciências físicas, o campo estava preparado para o desabrochar da psicologia científica, experimental. O seu aparecimento, [...], é um prolongamento do aparecimento do método científico. Francis Bacon (1561 – 1626) inaugura o Renascimento Científico sob a égide do direito do homem de conhecer a natureza a partir de métodos desenvolvidos pela ciência; e não mais pela revelação divina proferida pela Igreja. Para ele, a ciência tinha a missão de tirar o homem das trevas, segundo o entendimento de que o mundo poderia ser conhecido por meio do desenvolvimento de métodos de investigação rigorosos. Cabia à ciência decidir quais ideias são verdadeiras e verificá-las através de experiências. Dentre os métodos experimentais que mais contribuíram para o desenvolvimento do conhecimento científico, de acordo com a ciência específica ao qual era empregado, destaca-se a observação sistemática, a mensuração e a generalização. Isso representou a possibilidade, no limiar do século XIX, à ascensão da tese segundo a qual as ideias e os fatos essenciais podem ser aprendidos e estudados de acordo com métodos experimentais empregados na pesquisa, para extrair conclusões plausíveis e algumas certezas sobre os fatos e fenômenos humanos. Na medida que se indagava: como se dá o conhecimento? Como é possível ao homem conhecer algo? É realmente possível? A cientificização da Psicologia despontava como uma necessidade diante das dificuldades epistemológicas de afirmações plausíveis. Os métodos e escolas em Psicologia, que apareceriam no século seguinte (XX) se inspirariam em uma ou outra destas cinco tendências filosóficas: O realismo científico, que dá origem ao empirismo crítico, desejava saber de que era feito o mundo e como era possível, ao homem, conhecê-lo. A partir desse ponto, abre a possibilidade de se Psicologia da Educação 19 investigar os fenômenos psíquicos em relação aos objetos de aprendizagens. Sem embargo, questionamentos como esses propiciaram constitutivamente para o surgimento e a consolidação da mais nova ciência no final do século XIX: a Psicologia científica. Descartes (1596-1650) foi o principal filósofo da escola francesa, atribuindo à dúvida o ponto penso, logo de partida de toda e qualquer possibilidade de conhecimento e verdade. A sua máxima “penso, existo xisto” influenciou o pensamento moderno. A grande contribuição à Psicologia advém da ideia de que a mente é o que pensa. Quanto à questão das ideias matemáticas e religiosas, assevera que são inatas, as demais seriam adquiridas pelo exercício da ciência. Apesar de ter “pensado” algo muito além de seu tempo, Descartes foi criticado severamente pelos seus opositores por duas razões: primeiro, por considerar que as ideias universais são inatas; segundo, por comparar o homem ao funcionamento de uma máquina – relógio. Todo o pensamento de Descartes irá convergir na crença da capacidade do intelecto humano para compreender a realidade. Em relação à escola britânica, quase todos os representantes partem do mesmo princípio: “o conhecimento é o resultado da sensação e se fundamenta na experiência sensível” (FREIRE, 1997, p. 59). Tal como Skinner, a escola britânica afirma que o ser humano tem a tendência de buscar maximizar aquilo que lhe dá prazer e minimizar aquilo que lhe causa dor. John Locke (1632-1704) é o principal representante do empirismo inglês assevera que nascemos tábula rasa”, rasa na qual as experiências práticas se encarregarão de inscrever na mente os como uma “tábula conhecimentos através das experiências e da reflexão. Geoge Berkeley (1685-1753) afirma que todo conhecimento advém dos sentidos nas experiências práticas do dia-a-dia. O ponto alto de sua filosofia era o princípio de que “ser é perceber”. David Hume (1711-1776), cético, advoga que só acredita naquilo que vê: “só se pode conhecer aquilo que é passível de observação e experimentação. Elimina qualquer natureza da alma e do absoluto” (FREIRE, 1997, p. 63). Logo, pode ser caracterizado como empirista, porque admite que todas as coisas provêm da experiência sensível. Da mesma forma, é um associacionista porque afirma que a mente possui ideias simples e complexas. As ideias complexas são formadas pela associação das ideias simples. Laibniz (1646-1716) afirma que o que existe é uma harmonia preestabelecida ou um paralelismo psicofísico entre as mudanças verificadas numa mônoda e noutra. Suas pesquisas e reflexões contribuíram muito para a Psicologia, especialmente no que diz respeito à influência da sensação nos processos perceptuais. Kant (1724-1804) situa-se entre o empirismo e o inatismo, isto porque defendia a ideia de que “[...] não se pode conhecer a natureza de uma forma direta, também não se pode conhecer a alma que a percebe. O conhecimento só poderá advir através de suas manifestações, ou seja, em termos de causa e efeitos” (FREIRE, 1997, p. 65). O associacionismo britânico tem como ponto de partida a associação das ideias. Um dos representantes mais expressivos foi Jonh Stuart Mill (1806-1873), que concebia as ideias como uma “química mental” em que a composição se dava a partir da associação de ideias. No entanto, Darwin (1809-1882) foi o que mais divulgou a ideia do associacionismo, o qual influenciou a ciência experimental no século XIX e XX. Segundo o olhar de Darwin, “sobrevivem, na natureza, os mais aptos, aqueles que conseguem melhor se ajustar ao ambiente, os bem sucedidos” (FREIRE, 1997, p. 74). O associacionismo irá influenciar a Psicologia porque auxilia na busca de solução aos problemas relacionados à psique humana no ambiente onde vive e se desenvolve. Essa corrente possibilitou também compreendermos como a mente é afetada pelo ambiente. Psicologia da Educação 20 Em muitas situações, a pessoa chega a ser manipulada pelo som, pelo cheiro ou pelo visual, entre outras manifestações externas. Por exemplo, muitas pessoas ao pedir refrigerante pedem Coca-Cola porque a mente foi manipulada, associando refrigerante à marca Coca-Cola. O materialismo científico origina-se na concepção de matéria em Aristóteles e no realismo científico de Bacon. É uma tendência que busca o princípio gerador e causa de todas as coisas da natureza. Logo, essa tendência procurou reduzir os fenômenos mentais e do comportamento a fenômenos naturais. O romantismo, visão humanista, afirma que o homem é o essencialmente bom, a sociedade o corrompe. Isto é, ao nascer a alma é livre de toda e qualquer forma de preconceito; porém o contato com uma sociedade decadente e imoral a desvirtuará de sua natureza. Rousseau é um dos mais atuantes dessa corrente, o qual afirma que o homem nasce livre e por toda a parte encontra-se acorrentado: “Mito do Bom Selvagem”. Por fim, a corrente fenomenológica, desenvolvida por Husserl, defende que o todo é diferente da soma de suas partes e que uma parte num todo não é a mesma coisa que esta mesma parte isolada ou inclusa num outro todo. Segundo a perspectiva fenomenológica, a vivência imediata e subjetiva de cada sujeito compreende o “aqui e agora” (GINGER, 2007, p. 25). A repercussão advém dos métodos por ela empregados, especialmente o denominado de introspecção. 4 CONSOLIDAÇÃO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA: ESCOLAS, MÉTODOS E OBJETOS DE INVESTIGAÇÃO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 4.1 R elação com a Neurologia e F isiologia Relação Fisiologia ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Na segunda metade do século XIX, com o avanço do capitalismo, as ciências conseguem desenvolver seus métodos de estudos a partir das novas tecnologias à disposição no campo de investigação dos fenômenos tanto naturais quanto sociais. O conhecimento científico, não mais atrelado aos dogmas da religião, alcança cada vez mais sua expressividade, à medida que consegue dar conta das necessidades emergentes e novas demandas do mundo da produção do modo capitalista e existencial. Segundo Bock (2002, p. 39), [...] os problemas e temas da Psicologia, até então estudados exclusivamente por filósofos, passam a ser, também, investigados pela Fisiologia e pela Neurofisiologia em particular. Os avanços que atingiram também essa área levaram à formulação de tórias sobre o sistema nervoso central, demonstrando que o pensamento, as percepções e os sentimentos humanos eram produtos desse sistema. À medida que as dificuldades se apresentavam, a nova ordem de produção material e existencial precisou conhecer e compreender a estrutura e o funcionamento psíquico do ser humano, uma vez que surgiam sintomas e doenças cada vez mais complexas em decorrência do contexto do ambiente e do modelo urbano-industrial. Os estudos da Neurologia e da Fisiologia permitiram à ciência conhecer a influência direta do ambiente em células cerebrais em pessoas que apresentavam algum tipo de doença mental. Outro Psicologia da Educação 21 ponto importante diz respeito à formulação da lei de Fechner-Weber, em 1860, sobre a relação entre estímulo e sensação. Em 1879, a Psicologia definitivamente se torna uma ciência autônoma a partir dos estudos e pesquisas de Wilhelm Wundt (1832 – 1920), o qual criou o primeiro laboratório experimental psicológico na Universidade de Leipzig. Juntamente com Fechner, Weber, na Alemanha; e William James, Estados Unidos, a Psicologia alcança seu status de ciência à medida que se desvencilha da Filosofia e, ao mesmo tempo, atrai novos pesquisadores interessados em estudar a estrutura e o funcionamento do psiquismo humano. Com a nova ciência, é necessário instituir padrões de produção de conhecimento, a partir de metodologias científicas, que possam dar conta de inúmeras problemáticas emergentes do novo modelo de produção de bens e da existência humana. Para Bock (2002, p. 41), passam a - definir seu objeto de estudo (o comportamento, a vida psíquica, a consciência); - delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas de conhecimento, como a Filosofia e a Fisiologia; - formular métodos de estudo desse objeto; - formular teorias enquanto um corpo consistente de conhecimentos na área. Esse padrão de conhecimento, que buscava formular teorias consistentes, com precisão e validade, deu origem a três escolas: Associacionismo, Estruturalismo e Funcionalismo, cada qual apresentando posições teóricas, de acordo com os referências epistemológicos segundo a natureza do(s) objeto(s) de investigação. 4.2 Escolas em P sicologia do início do século XX Psicologia ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com a preocupação de garantir o padrão de conhecimento, demonstrado anteriormente, as pesquisas desenvolvidas na Alemanha e nos Estados Unidos buscam produzir teorias que tenham como pressupostos os critérios de precisão e validade, para a cientificidade de qualquer pesquisa. Segundo Bock (2002, p. 41): Essas teorias devem obedecer aos critérios da metodologia científica, isto é, deve-se buscar a neutralidade do conhecimento científico, os dados devem ser passíveis de comprovação, e o conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para outros experimentos e pesquisas na área. As necessidades da nova ordem do modo de produção material e existencial propiciam avanços nas pesquisas em relação ao psiquismo humano. O surgimento da Psicologia Científica decorre de três escolas: Associacionismo, Estruturalismo e Funcionalismo. a) Associacionismo: parte do pressuposto de que a aprendizagem ocorre por meio da associação de ideias, indo das ideias mais simples às mais complexas. Inicia-se com os estudos de Locke e é aprimorada por Hume. Para eles, o associacionismo consiste na combinação de ideias. Para Hume, o conhecimento humano está constituído exclusivamente por impressões e ideias. A relação de causa-efeito aconteceria quando uma ideia associa-se a outra, seguindo os padrões de semelhança. Deste modo, pode-se perceber que, como o próprio nome diz, o Associacionismo tratase de uma corrente de ideias encadeadas, a remissão de algo levará a outras lembranças semelhantes, seguindo uma linha de raciocínio. Psicologia da Educação 22 No entanto, a teoria é desenvolvida por Edward Thorndike (1874 – 1949), segundo o qual a aprendizagem ocorre por meio de associação de ideias - lei do Efeito. b) Estruturalismo: escola fundada por Wilhelm Wundt na Alemanha na segunda metade do século XIX. Wundt preconizava que para estudar a consciência deveria, necessariamente, partir da relação consciência-ambiente para determinar os estados de consciência produzidos pelos estímulos ambientais. Assim como Wundt, Titchner (1867 – 1927) parte do método introspectivo, que significa “olhar para dentro”, com vistas a descrever as sensações em função das características dos estímulos submetidas. A estrutura da consciência humana constitui-se pelos vínculos e estímulos que recebe do exterior. c) Funcionalismo: desenvolveu-se nos Estados Unidos, no início do século XX, sendo William James (1842 -1910), depois de Watson, o principal expoente dessa teoria. James preconizava a necessidade de se conhecer o funcionamento da consciência como forma de dar conta das seguintes indagações: “o que fazem os homens” e “por que o fazem”. Tal como Watson, James concebe o cérebro humano como um órgão responsável pela coordenação dos estímulos provenientes dos sentidos e dos reflexos condicionados. Fonte: Disponível em:http//:www.wikipedia.org. Cada escola psicológica enfoca o objeto homem - a subjetividade humana: seu mundo interno e suas manifestações - de um modo particular, de acordo com a concepção de mundo que a orienta (paradigma). 4.3 Método, Objeto e T eorias em P sicologia Teorias Psicologia ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Pode-se dizer que as ciências consolidam seus objetos de estudos a partir de métodos de investigação, que vão da hipótese à teoria. Os métodos mais empregados são: observação, experimentação, mensuração, verificação, quantificação, generalização e teorização. Logo, para que uma ciência seja considerada como tal precisa pautar-se em métodos científicos que lhe deem segurança nos resultados alcançados com a pesquisa, condição “sine qua non” para almejar o status de ciência. Com a Psicologia não foi diferente, ela precisou encontrar métodos e objetos de investigação para consolidar-se como uma ciência. Por método científico entende-se “caminho para chegar a determinado fim”. Nesse sentido, a Psicologia precisou desenvolver métodos científicos ao estudo do psiquismo humano, de acordo com o objetivo que se pretendeu alcançar. Isto significa dizer que a produção de conhecimento passa por um processo que vai da formulação da hipótese até a comprovação da teoria. Por essa razão, de modo geral, a construção de novos conhecimentos parte-se do já conhecido. Psicologia da Educação 23 Os métodos mais utilizados pela Psicologia são: introspectivo e experimental. O primeiro baseia-se na observação sistemática do objeto. Geralmente, aplica-se ao estudo da consciência. O segundo baseia-se na relação causa-efeito, isto é, são concebidas como uma relação entre variáveis, numa dada situação controlada. Pode-se dizer que Psicologia significa o estudo científico do comportamento e processos mentais. Pela diversidade e concepções de homem, mundo e sociedade, cada área da Psicologia tem seu objeto de estudo (comportamento, a consciência, a personalidade, o inconsciente..). Segundo Ana M. Bock (2002), as principais teorias do século XX são: o Behaviorismo, de Watson (1878), que estuda o comportamento da criança, concluindo que o comportamento humano era, sob muitos aspectos, semelhante ao comportamento animal. A Psicanálise apresentada por Freud (1856 – 1939) introduz no debate das ciências humanas e da saúde a teoria do aparelho psíquico (Id, Ego e Superego) e do inconsciente. Por fim, a Gestalt que, resumidamente, significa forma ou, ainda, teoria da forma”. forma Essa teoria objetiva uma forma estruturada, completa e pode ser referida como “teoria que tenha algum sentido, visando a totalidade e o contexto global do sujeito, a partir de uma visão sintética. A Psicologia precisou percorrer um longo caminho antes de se tornar uma ciência. Pode-se dizer que três pontos foram decisivos para que a Psicologia alcançasse o status de ciência: uso de procedimentos científicos sistemáticos que permitissem a verificação de sua validade; a compreensão de que o saber podia ser transmitido, verificado, utilizado e desenvolvido, segundo os contextos e necessidades emergentes; e, por fim, a dinâmica do conhecimento: o novo surge a partir do anteriormente desenvolvido.. Portanto, mesmo que tenha surgido de uma base experimental, a Psicologia contemporânea diversificou as especialidades e o campo de atuação. tividades e desenvolva a Após a leitura dessa unidade, vá até o Caderno de A Atividades Atividade 1. REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Lúcia A. Filosofando ilosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2003. sicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, BOCK, Ana Maria B. et al. Psicologias 2002. ilosofia BRÉHIER, Émile. História da F Filosofia ilosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977. ilosofia CHAUÍ, Marilena. Convite à F Filosofia ilosofia. São Paulo: Ática, 2002. FREIRE, Izabel Ribeiro. Raízes da Psicologia. Petrópolis: Vozes, 1997. GINGER, Serge. Gestalt Gestalt: a arte do contato: nova abordagem otimista das relações humanas. Petrópolis-RJ, Vozes, 2007. Psicologia da Educação 24 Anotações _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 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INFÂNCIA E ESCOLARIZAÇÃO: INSERÇÃO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA NO CAMPO DA EDUCAÇÃO 1 JEAN-JACQUES ROUSSEAU E FRIEDRICH FROEBEL: PREÂMBULO DA PSICOLOGIA D A APRENDIZA GEM E DO DESENV OL VIMENTO DA APRENDIZAGEM DESENVOL OLVIMENTO CONTEMPORÂNEA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 1.1 Entre o não-eu e o eu: origem da especificidade da infância ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Até meados do século XIX, as grandes questões de pesquisa tinham como foco de investigação epistemológica as leis naturais, sua lógica e regularidade. Talvez os motivos fossem mais pela questão de dar respostas as complexificações sócio-políticas, que sucediam-se à medida que crescia e se desenvolvia o processo de produção material de bens de consumo, do que propriamente a natureza humana e social. Com a derrocada do imperialismo intelectual sociorreligioso no ocidente, pelo Movimento Renascentista,, o humanismo moderno exerce forte influência nas diretrizes das ciências naturais e sociais. A ciência se torna a deusa da humanidade moderna (os positivistas proclamaram a ciência positiva como a “religião da Humanidade”). O movimento renascentista rompeu com a visão estática e fragmentada da sociedade medieval, outorgando ao homem o direito de conhecer outras fontes de conhecimento segundo as necessidades e ambições. No entanto, até por volta da segunda metade do século XVIII a pessoa da criança era praticamente ignorada, mesclada à pessoa do adulto. A criança era um não-eu e, por isso, precisava do adulto para tornar-se um ser social. Pelas lentes do olhar rousseauniano, a especificidade da infância ganha novos contornos, ou seja, passa a ser objeto de reflexão da filosofia e da educação, evidentemente, contrariando quase toda a tradição da época, cujas bases se fundamentavam na doutrina sensualista de Locke e Condilac, doutrina esta que auxiliará o Estado a organizar, pelo menos inicialmente, os objetivos e métodos a serem empregados na emergente instituição escolar. Contrariando a doutrina lockeniana, Rousseau advoga que a criança não é um adulto em miniatura; é, sobretudo, um ser que precisa ser educado e cuidado. O Emílio de Rousseau se torna um marco na educação da criança, sua infância e desenvolvimento passam a ser objeto de estudo de filósofos e educadores. O não-eu da criança, paulatinamente, passa a ser objeto de interesse: como a criança se constitui? Como ela aprende? Quais são os estágios de seu desenvolvimento? Que necessidades permeiam a trama complexa de sua personalidade? Psicologia da Educação 26 O Emílio provocou um mal-estar no meio acadêmico da época porque, mesmo em meio a tantos paradoxos, questionava a singularidade, a subjetividade e as especificidades do eu da criança. Por vezes, os registros sobre algo similar na história eram fatos raros, pois, boa parte dos adultos embrenhava-se em suas atividades, que pouco tempo e percepção tinham para olhar a criança como um ser diferente de si, que precisaria ser compreendida, educada e cuidada para que tivesse oportunidade de desenvolver sua subjetividade e, consequentemente, sua personalidade. Infância é um termo recente na história social da criança, isto porque, segundo Sandra Corazza (2002, p. 81), As crianças são as grandes ausentes da história simplesmente porque, no chamado ‘passado’ – da Antigüidade à Idade Média -, não existia este objeto discursivo a que chamamos ‘infância’, nem essa figura social e cultural chamada criança, já que o dispositivo de infantilidade não operava para, especificamente, criar ‘o infantil’, embora já maquinasse como máquina, que vinha operativamente funcionando. Não é que não existissem seres humanos pequenos, gestados, paridos, nascidos, amamentados, crescidos – a maioria deles mortos, antes de crescerem -, mas é que a eles era atribuída a mesma significação social e subjetiva; nem com eles eram realizadas as práticas discursivas e não-discursivas que somente fizeram o século XVIII, na plenitude, o XIX e até os meados do século XX: nem a infância, nem a criança, nem o infantil foram considerados, em qualquer medida, sequer problemas. Então, o que dizer da personalidade da criança no percurso da sua vida psíquica? Por essa razão é que se atribui, mesmo sob inúmeras contrariedades de opiniões de teóricos da educação da infância na contemporaneidade, para Rousseau a preocupação com a vida psíquica se torno tema central em suas reflexões, assim como outros que o sucederam, da especificidade da criança. É importante ressaltar que Rousseau não sistematizou uma teoria da personalidade, mas suas inferências no campo da educação da infância abriram espaços para novos postulados teóricos que influenciaram pensadores do século XIX e XX. Nos dois primeiros capítulos do Emílio evidenciase a reflexão de Rousseau sobre a criança de 0 a 12 anos, os cuidados primordiais necessários ao bom desenvolvimento do bebê, chamando atenção às suas especificidades em termos de cuidados, educação, afeto, temperamento, caráter e personalidade. A obra de Rousseau, além de inaugurar um novo olhar sobre a subjetividade infantil, que constitui a personalidade, se propõe a, filosoficamente, refletir o papel dos adultos, das instituições e das educadoras na arte de cuidar-educar a criança. Para ele, a infância não era apenas um período de preparação para a vida adulta (não concebia a criança como um adulto em miniatura), mas tinha valor em si mesma, e, portanto, caberia ao educador afastar tudo o que pudesse impedir a criança de viver plenamente sua condição. Rousseau (1995, p. 10) atribui uma especificidade da criança que contrariava a visão da época, afirmando que: “Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é-nos dado pela educação”. Rousseau era contrário à visão de que a criança era um adulto em miniatura – adultocentrismo -, da mesma forma em relação ao disciplinamento por meio de castigos físicos, propunha que a educação seguisse a liberdade e o ritmo da natureza, contrariando os dogmas religiosos da época, que preconizavam o controle da criança pelos adultos. Afirma que a criança é um ser com características próprias em suas necessidades e interesses, diferentemente do adulto. A respeito da infância Rousseau (1995, p. 15) preconiza: Psicologia da Educação 27 Viver é o ofício que lhe quero ensinar. Saindo de minhas mãos, ele não será, concordo, nem magistrado, nem soldado, nem padre; será primeiramente um homem. Tudo o que um homem deve ser, ele o saberá, se necessário, tão bem quanto quem quer que seja; e por mais que o destino o faça mudar de situação, ele estará sempre em seu lugar. Dessa forma, ele atribui à criança uma categoria social: a personalidade subjacente às especificidades da infância da criança. Um dos princípios estabelecidos por Rousseau é que a verdadeira finalidade da educação era ensinar a criança a viver e a aprender a exercer a liberdade O autor assevera que o mundo da criança tem uma especificidade diferente do mundo do adulto e precisa ser compreendida em sua dimensão ontológica, para que não se cometam incursões na natureza da infância que a ela não pertence. Para Rousseau (1995, p. 10), Se o homem fosse grande e forte, seu porte e sua força seriam inúteis até que tivesse aprendido a deles servir-se. Ser-lhe-iam prejudiciais, impedindo os outros de pensar em assisti-lo e, abandonado a si mesmo, ele morreria de miséria antes de ter conhecido suas necessidades. Portanto, em Rousseau, do não-eu emerge o eu, com especificidade própria, que precisa ser conhecida em seus mais íntimos detalhes, amada e trabalhada de tal forma que não se tenha outro objetivo que não a autonomia do sujeito em seu processo de construção. Enquanto que o pano de fundo da maioria das teorias pedagógicas modernas que preconizavam o disciplinamento, empregando até mesmo os castigos físicos para obtenção de comportamentos desejados pelo adulto, e algumas habilidades intelectuais, Rousseau propõe um olhar no qual a criança seja o centro de uma nova educação da infância, sua natureza, necessidades e interesses. Ou seja, uma infância que precisa ser estudada minuciosamente para uma compreensão de seu desenvolvimento e características específicas de sua natureza, e não um olhar vicioso e permeado pela visão adultocêntrica. Rousseau advoga que faz parte da formação do caráter e do autocontrole do temperamento a criança passar por pequenas frustrações na mais tenra idade, pois, assim, construirá uma personalidade na qual, quando adulto, poderá enfrentar as turbulências da vida. Por essa razão, afirma constantemente que a criança já não é mais um não-eu e sim um eu antropológico, ontológico e filosófico que precisa ser amada, estudada e compreendida em todo o seu processo educativo. 1.2 O processo educativo e a constr ução do ser criança em F roebel construção Froebel ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Assim como Rousseau e Pestalozzi, Froebel (1782-1852) apresentou um olhar diferenciado em relação à educação convencional sobre a educação da criança, na perspectiva do “aprender fazendo”, cuja finalidade é a unidade vital da tríade Homem-Natureza-Deus, como respeito à infância [...] expressar de maneira intuitiva seu interior, exteriorizando-se nesses materiais, para que assim pudesse, digamos, reinteriorizar aquilo que fora exteriorizado, sendo que nesse processo a essência do indivíduo, da criança, ao ser reinteriorizada, torna-se conscientizada pelo sujeito, porque somente após a realização deste processo a criança seria capaz de descobrir sua essência divina e suas potencialidades (ARCE, 2002, p. 59). Froebel sabia da importância de buscar um caminho novo que vislumbrasse um horizonte no qual brilhasse a luz da criança na sua máxima expressão: a liberdade de ser e saber pensar. O narcisismo Psicologia da Educação 28 adultocêntrico moderno não propiciava que fosse vista a criança e sua infância com uma identidade própria, necessidades, interesses e um potencial para realizar a divindade em si. É interessante que depois do Emílio de Rousseau, das propostas pedagógicas de Pestalozzi, a questão da infância ainda era tema negligenciado pelo Estado, pois era muito presente a ideia da sociedade de classe: os filhos de operários aprendiam os poucos ensinamentos no trabalho na indústria e no comércio; os filhos das elites estudavam em ginásios e/ou escolas confeccionais. A base da personalidade da criança das elites formava-se a partir dos preceitos morais da família, em primeira instância, e do trabalho, em segunda instância. O temperamento, o caráter, a consciência e a subjetividade carregavam as marcas da divisão do processo educativo e da formação da personalidade por meio da sociedade dividida em classes na ascensão do capitalismo entre os séculos XVIII e XIX. O pensar uma proposta de educação da infância sem descontextualizá-la de seu tempo e espaço era uma tarefa árdua e, sobretudo, um ato de coragem e ousadia. Assim como Rousseau e Pestalozzi, Froebel irá pensar uma educação da infância, bem como o processo da formação da personalidade, de modo diferente de seus antecessores, para os quais a proposta educativa estará subjacente à unidade da tríade Homem-Natureza-Deus. Influenciado pelo pensamento “pré-romântico” e paradoxal de Rousseau e de Pestalozzi, Froebel irá além de ambos. Em relação ao primeiro, distanciou-se à medida que não encontramos a separação entre o indivíduo e a sociedade, tal como Rousseau; pelo contrário, reforçará que o livre pensar exige que as unidades Homem-Natureza-Deus estejam em processo de inteireza, que não se dicotomize as unidades que compõe um todo entrelaçado e constitutivo da ação divina no ser humano. A ação divina no desenvolvimento humano está imbricada no modo como Froebel pensa a infância. O “aprender fazendo” irá unir o ser da criança, a natureza e Deus, de forma tal que o resultado é a expressão livre e verdadeira dessa unidade por meio da educação. O primaz da tarefa da educação integral é levar o ser humano a conhecer a si próprio, a viver em sintonia com a natureza e com Deus. Froebel dividirá a infância em fases e atribuirá a cada etapa uma educação peculiar: primeira infância, infância e idade escolar. Froebel enfatiza, na sua obra “A educação do Homem”, princípios norteadores do processo da educação da criança e personalidade os quais deverão ser compreendidos pela família, pela escola e pelo educador, garantindo, dessa forma, que se revele na criança todo seu potencial humano em conformidade com a natureza e Deus. Segundo Arce, os princípios basilares de sua proposta são: Primeiro, compreender a natureza e a dignidade do educando, pois ele representa o símbolo da obra do espírito divino – Deus. A natureza é um símbolo do espírito divino, é uma exteriorização desse espírito. Conhecer o simbolismo da natureza é conhecer o espírito divino. Sendo o homem também uma criação divina, a criança contém dentro de si os germes de tudo o que de melhor existe na natureza humana e que une o homem à natureza e a Deus, seu criador (ARCE, 2002, p. 39). Essa concepção permeará todo o arcabouço teórico de Froebel que acreditava na congruência entre a religião e a ciência. Entretanto, percebe-se que, no que diz respeito a essa congruência, há que se esclarecer: primeiro, a religião para Froebel, salvo engano, é um meio, assim como a natureza, do ser humano alcançar a manifestação do espírito divino, exteriorizando, pela atividade, o germe da divindade que traz em sua natureza. Por essa razão, a dignidade do educando precisa ser compreendida e respeitada a sua liberdade. Psicologia da Educação 29 Segundo, respeitar a integridade do educando para que a consciência atinja o seu grau mais elevado de humanização por meio da harmonia da tríade Homem-natureza-Deus. Por essa razão, segundo Arce (2002, p. 40), a natureza é exaltada na obra educativa froebeliana por representar a ligação entre o ser humano e Deus: A natureza possui uma unidade que é Deus, todo o ser vivo possui dentro de si a consciência desta unidade e a necessidade de torná-la cada vez maior. Aqui reside a diferença entre o mestre que percebe e aceita esta unidade procurando alcançá-la em sua educação e o professor que se perde em fragmentos isolados e acidentais. Respeitar e internalizar esse princípio é deixar manifestar, por meio de uma educação concreta na infância, o germe e a fonte do espírito divino. Este princípio custou a Froebel alguns dissabores com a Igreja Católica, que detinha a hegemonia do ensino. Foi criticado e acusado, pelos seus opositores religiosos e leigos, de panteísta porque praticamente dispensava a institucionalização da religião. Terceiro, todo educador-adulto constitui-se em um observador, guia e orientador ativo no processo educativo, tendo na atividade e liberdade o meio pelo qual as crianças podem expressar a sua riqueza interior: dom e talentos. Para Froebel, [...] ‘observar, apenas observar, pois a criança mesma te ensinará’, eis a máxima que deve reger a educação, pois só assim o professor será capaz de conhecer realmente seu aluno, entendendo sua dinâmica interna e externa e descobrindo sua essência humana, seu potencial, seu talento (ARCE, 2002, p.47). Esses são os princípios basilares da filosofia da proposta pedagógica de Froebel, que na medida de sua disseminação por toda Europa, até mesmo no Brasil, influenciou outros teóricos da educação do século XIX e XX. Proposta esta que desencadeará, depois de sua morte, com Rousseau e Pestalozzi, matéria de intensos debates no campo da educação e da psicologia do desenvolvimento, importante e fundamental aos educadores que deram origem ao movimento de Escola Nova, em contraposição ao processo educativo convencional de sua época. Segundo Arce (2002, p. 49), “[...] o objetivo principal dessa pedagogia centra-se na orientação e no despertar da atividade espontânea da criança, disseminando qualidades e aniquilando defeitos, através do desenvolvimento pleno da harmonia entre homem, Deus e a natureza”. Para Arce, no livro “Friedrich Froebel: O Pedagogo dos Jardins de Infância”, os princípios educativos norteadores da proposta de Froebel são: a unidade dos processos de interiorização e exteriorização, educação do homem livre, respeito à espontaneidade da criança, início da educação da criança com materiais concretos, especialmente o brinquedo, e o currículo baseado em atividades de interesse da criança em cada fase do seu desenvolvimento. Froebel desenvolve uma metodologia própria para efetivar os princípios educativos: primeiro, para tornar a aprendizagem viva e com sentido ao educando a atitude do educador é primordial, no sentido de compreender a unidade vital: “[...] a liberdade humana deveria ser preservada na busca do desenvolvimento de seus talentos” (ARCE, 2002, p. 48). À medida que o educador conhece e compreende essa unidade, terá em Jesus a referência de busca da realização divina em cada ser. Segundo, o processo da educação deve estar conectado com a realidade na busca do autoconhecimento e da tríade Homem-natureza-Deus: “[...]educar é despertar no educando a consciência dessa realidade, orientando-o para uma vida pura e santa” (ARCE, 2002, p. 48). Para Froebel, a função permanente do educador é [...] respeitar a natureza, a ação de Deus e a manifestação espontânea do educando, a educação deve seguir o livre desenvolvimento, não podendo ser prescritiva, determinista Psicologia da Educação 30 e interventora, pois assim destrói a origem pura da natureza do educando (ARCE, 2002, p. 49). Froebel chama a atenção de pais e educadores para as tarefas cabíveis a cada fase do desenvolvimento da infância da criança, tanto no que diz respeito aos talentos quanto aos valores humanos a serem alcançados pela educação. Elementos esses que influenciarão, assim pensa, a psicologia do desenvolvimento do século XIX, especialmente a psicanálise e a psicogênese. Alguns conceitos da proposta sócioeducativa de Froebel apareceram, cada uma com seu olhar, nas psicologias do desenvolvimento infantil posteriores: Assim que a atividade dos sentidos, do corpo e dos membros é desenvolvida a tal grau que a criança começa a representar o interno externamente, o estágio da primeira infância no desenvolvimento humano acaba e o estágio da infância propriamente dito começa. Até este estágio, o ser interno do homem ainda está desorganizado, indiferenciado. Com a linguagem, a expressão e a representação do começa; com a linguagem, a organização ou diferenciação com referência a meios e modos ocorre. O interno é organizado, diferenciado, e luta pelo seu próprio poder ativo para representar seu interno externamente, de forma permanente e com material sólido. Neste estágio da infância – quando aí se torna manifesta a tendência e esforços para representar o interno através do externo, e para unir os dois encontrando a unidade que os liga – a educação verdadeira do homem começa e a atenção e o cuidado são direcionados menos para o corpo e mais para a mente. (ARCE, 2002, p. 46-47, grifo meu). O denominado estágio em que o ser interno do homem ainda está desorganizado, aparece na psicogênese walloniana, na fase entre a impulsivo-emocional e a personalista, na qual a criança progressivamente substitui o sincretismo da personalidade pelo conhecimento do seu eu à medida que aprende a nomear-se a si mesmo: o Eu é eu e não é o Outro. Isto é, à medida que reduz-se o sincretismo pela inteligência prática. É altamente revolucionária a sua visão pedagógica para uma época e um contexto repleto de narcisismo da elite burguesa européia. O encantamento pela máquina, pela possibilidade de acumular riqueza, extraindo ao máximo as energias dos trabalhadores e sua prole, faziam com que a criança das classes menos favorecidas fosse vista apenas como uma possibilidade de manutenção da força de trabalho futura, a ponto de haver mais preocupação com a mortalidade infantil do que propriamente com o seu ser, sua natureza, desenvolvimento e aprendizagem de acordo com seus talentos. Ao definir os fins da educação, as fases da infância e as características intrínsecas a elas, Froebel procurar materializar o “aprender fazendo” por meio das ações, assevera que a educação da infância se realiza através de três tipos de operações extremamente importantes: a ação, o jogo e o trabalho. O conceito de atividade pressupõe, na pedagogia de Froebel, o ser ativo em potência na criança. O movimento e o agir farão com que a criança aprenda a pensar, a raciocinar, a estabelecer hipóteses, a abstrair e propor: Froebel entendia que, ao contrário do que Pestalozzi, as crianças deveriam ser deixadas livres para expressarem toda a sua riqueza interior, fruto de sua essência humana. Essa exteriorização deveria ocorrer preferencialmente através das artes plásticas e do jogo, pois este seria uma atividade naturalmente infantil e fonte de expressão natural da criança (ARCE, 2002, p. 43). O movimento de exteriorização e interiorização representa um importante instrumento de percepção e observação, pois propicia ao educador perceber o potencial ativo da criança, não impor e inculcar coisas estranhas a ela significa respeitar e deixar que a natureza e a divindade se manifestem em seu mais alto nível. Na primeira infância deveria ser privilegiada a atividade de percepção da criança, assim, ela desenvolveria dois componentes importantíssimos na pedagogia: o processo da interiorização-exteriorização, fundamental nas fases seguintes, e a observação: Psicologia da Educação 31 A criança precisa ter uma mente ativa e livre para poder abrir as portas do conhecimento, ela deve ser livre para explorar, escolher, questionar e agir, a aprendizagem deve sempre partir do que o indivíduo possui. Este ouvir o conhecimento da criança é o principal requisito para o acesso da educação (ARCE, 2002, p. 55). Fica claro nessa visão que não só a criança precisa desenvolver a percepção para apreender e comunicar-se com a dinâmica da natureza, como também o educador precisa desenvolver a observação e percepção para contribuir nessa jornada educativa da criança, afastando dela aquilo que é estranho e que poderia prejudicar o emergir dos talentos. A liberdade é o grande marco nessa jornada, pois, ao não impor coisas estranhas à criança, propicia que a criança entre em sintonia com a natureza interiorizando e exteriorizando a aprendizagem. [...] a criança neste [...] revela a cada coisa a faculdade da vida, sentimento e fala. De todas as coisas ela imagina poder ouvir algo. Porque a própria criança começa a representar seu ser interno externamente, ela atribui a mesma atividade a tudo que está a seu redor, para a pedrinha e a lasca de madeira, para a planta, a flor e o animal (FROEBEL, apud ARCE, 2002, p. 54). Por que são necessários os processos de interiorização - exteriorização e observação na educação da infância? Assim como para a psicanálise contemporânea a fala, o gesto e o brincar exteriorizam os sentimentos e as emoções que envolvem a criança, e pelo qual o adulto tem acesso à representação de necessidades e impulsos, em Froebel, a liberdade de manifestação evidencia as características não só da fase do desenvolvimento da criança, sobretudo, a plenitude de sua essência. Por essa razão, Froebel atribuiu ao jogo o principal instrumento pedagógico pelo qual a criança aprende desde cedo a dinâmica da vida e da natureza, desenvolvendo imaginativa e criativamente segundo suas potencialidades. A liberdade e a determinação no brincar propiciam que ela alcance o autoconhecimento, ou seja, a forma como interpretam o mundo, as relações, suas necessidades e interesses na promoção de si e do outro. A brincadeira como uma das formas lúdicas vai além do entretenimento, pois congrega em si a possibilidade de apreender a dinâmica da natureza e evidencia na sua forma mais elevada a divindade em si, emanada pela força do criador. Ao contrário do que se pensa na contemporaneidade, em termos de senso comum, a brincadeira para Froebel significa, além da sensação do prazer, que é inerente à própria atividade, a autodeterminação na promoção de si. Por essa atividade livre a criança é capaz de compreender a dinâmica da natureza e da divindade para interagir com o outro, pois para além da sensação de prazer, encontra-se a liberdade ativa de aprender e sintonizar-se com a energia vital que impulsiona a buscar para além da fadiga e do empreendimento. Em Froebel, os materiais e a ação do brincar eram formas da criança externar os dons, a inteligência e a essência humana – o que para Froebel era o mesmo que essência divina. Da mesma forma em relação ao trabalho. Acreditava que a criança ao exercer um tipo de trabalho manual representa: [...] a externalização do divino no homem, ao realizá-lo o homem imita Deus no ato de criação do mundo. Quando o homem é levado a ter consciência desta imitação, nada do que ele produz para a sua sobrevivência torna-se mais importante do que o trabalho que ele deve realizar de purificação de seu interior, o reino dos céus torna-se alvo do trabalho árduo e a providência divina é compreendida em sua plenitude. As necessidades terrenas passam a ser de ordem superior e reconhece-se que Deus fornece todas as ferramentas, juntamente com a natureza, para a satisfação orgânica, que não deve ser o fim da vida humana. Portanto, a harmonia entre o trabalho e o cultivo interior através da religião é fundamental para que o homem não se perca nas mesquinharias terrenas, a criança deve ser preparada para ambos desde cedo, para desenvolvê-los de forma harmônica (ARCE, 2002, p. 57-58). Psicologia da Educação 32 Ao contrário da proposta pedagógica de Pestalozzi, a proposta pedagógica de Froebel foi intensamente combatida pelos opositores porque os princípios pedagógicos não estão articulados com a política e sim com a religiosidade. No entanto, há que se ressaltar que nela não há distinção de classes sociais e que a plenitude não se dá pelo sangue e sim pelos talentos. O Jardim de Infância (Kindergarten) planejado por Froebel evidencia uma educação sensorial na primeira infância, com a utilização de materiais concretos. Ele acredita que a criança desenvolve-se melhor nas atividades que propiciam ir do concreto ao abstrato; contrariando largamente as metodologias das escolas convencionais, que centralizavam todo o processo educativo na assimilação de conceitos, que por serem abstratos acabavam, com raras exceções, por aniquilar o sopro divino da essência humana. Mesmo assim, em 23 de agosto de 1851, foram fechados todos os Jardins de Infância na Alemanha e Froebel foi condenado por exercer ideais socialistas. Em 1852, Froebel morre antes de ver a reabertura de seus Jardins de Infância. 1.3 A infância no Brasil: desvalida ou na R oda dos Expostos Roda ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Quando falamos de criança e infância somos levados, quase que subitamente, a pensá-la em termos universais; o que de fato não ocorreu em qualquer parte do mundo e em qualquer tempo. A criança e a especificidade da infância do Brasil europeizado é recente, no que diz respeito as suas necessidades e interesses de acordo com as fases as quais irão se constituir ao longo do processo da formação da personalidade. Antes da formação da República no limiar do século XIX, a infância não se constituía em uma pré-ocupação do Estado nascente, nem das elites que compunham o sistema de produção de bens no Brasil. Mesmo no Brasil Colônia, depois monárquico, a criança ainda era tema de pouca relevância em termos de política pública de atendimento. As classes sociais estavam quase consolidadas: filhos das elites econômicas recebiam ensinamentos de diversos modos e tempo; os filhos de operários, pequenos comerciantes, imigrantes e negros nascidos depois da lei do Ventre-Livre seguiam o percurso do trabalho como uma das únicas formas de processo educativo e formativo de sua personalidade. Com exceção às escolas organizadas junto às comunidades de colonos alemães, principalmente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Enquanto na Europa as reflexões de Rousseau, Pestalozzi e Froebel ganhavam prioridades nos debates, prós ou contras, no Brasil a situação era infinitamente diferente. Uma grande massa de crianças de 0 a 12 anos entregues a sua própria sorte, enquanto que os filhos das elites iam para os jardins e educação primária recém-implantados no Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife – a grande maioria dos desvalidos dela se afastavam. Se há um pesar na história da infância brasileira, diz respeito à total e absoluta ausência de políticas para infância desvalida no fim do período colonial e início da República. Muitas crianças eram abandonadas devido à falta de condições financeiras dos pais e se acrescentavam aos números dos desvalidos pelo sistema capitalista. As realidades urbana e rural eram muito diferentes durante essa transição no Brasil. Apenas em algumas capitais haviam as Rodas dos Expostos, instituição geralmente religiosa que recebia os Psicologia da Educação 33 desvalidos e expropriados do direito à dignidade e à infância, escola e desenvolvimento das aptidões. A Roda dos Expostos representa na história da infância brasileira a negligência, a crueldade e a indiferença do sistema capitalista que preconiza a miséria de muitos, a bonança de poucos. Por mais paradoxal que seja a Roda dos Expostos, ela representou para muitas crianças o fim de um começo, ou o começo de um fim, ainda mais as pobres e miseráveis da República. Parte considerável deles acabava por morrer, logo após o abandono, por fome, frio ou comidos por animais, antes de poderem encontrar uma alma caridosa que os recolhesse dos caminhos, portas de igrejas ou casas, praças públicas ou até em monturos de lixos (MARCILIO, 1997, p. 67). Nas últimas décadas do Brasil Imperial surgem em algumas capitais (Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Depois se estendeu por Belo Horizonte, Bahia, São Luiz do Maranhão, Belém e Porto Alegre ), entre 1870 a 1900, políticas para a educação da infância de 0 a 7 anos e, na seqüência, instrução primária dos 7 aos 12 anos. Tais políticas mantêm a hierarquia das políticas reformadoras e conservadoras do Gabinete do Império, cuja finalidade dessa educação era de controle sobre as camadas pobres da sociedade que, na visão do Gabinete do Império e da Câmara Municipal de Vereadores do Rio de Janeiro, poderiam ser influenciadas por políticas utópicas e contrárias à coroa. A formação da pessoa da criança brasileira era diferenciada de acordo com os mesmos rigores da sociedade de classe, crianças das elites ingressavam nos Jardins de Infância que foram criados a partir de 1870, como o Jardim de Crianças anexo ao Colégio Menezes Vieira, em 1875, no Rio de Janeiro, e o Jardim de Infância em São Paulo, anexo à escola Normal de São Paulo, em 1897. Mas ambos mantinham a estrutura da sociedade de classe, tal como grande parte da Europa. Esses Jardins atendiam aos filhos das elites cariocas e paulistas do final do século XIX, ao passo que as demais crianças desvalidas (negras, caboclas, imigrantes, sitiantes, sertanejas e retirantes) estavam entregues a sua própria sorte, pois as poucas escolas de instrução primárias existentes localizavam-se nos centros urbanos, enquanto que as crianças da área rural ou eram analfabetos ou se alfabetizavam como podiam. Os Jardins de Infância criados no final do século XIX, com materiais froebelianos produzidos nos Estados Unidos e trazidos ao Brasil, tinham por objetivo “[...] servir uma clientela de elite, atendendo crianças do sexo masculino, de 3 a 6 anos, que se iniciavam em atividades relacionadas à ginástica, à pintura, ao desenho, aos exercícios de linguagem e de cálculo, escrita, leitura, história, geografia e religião” (BASTOS, 2003, p. 31-32). Jardins de Infância e/ou Criança para os desvalidos não havia, pelo menos não registrados em documentos. Frente a isso, a disparidade e a negligência era tamanha que a maioria das crianças brasileiras desvalidas morriam por falta de assistência. Segundo Freitas (1999), a mortalidade infantil era uma realidade triste e caótica. No entanto, no Brasil esse fato só chamou a atenção do Estado no final do século XIX e início do XX, entretanto, a morte pesava mais pela perda da mão-de-obra do que propriamente pelo ser da criança. As Rodas de Expostos no Brasil, que funcionaram até final de 1950, corroboram com o descaso com as infâncias das crianças brasileiras, que sem perspectivas futuras, ficavam à espera de uma alma piedosa que os devolvesse o direito de viver. Embora a Roda dos Expostos represente uma vergonha à nação brasileira e um débito do Estado para com as crianças, a roda significou para muitas crianças a sua existência. A corrupção assolava esse sistema, duas situações mais comuns eram: primeiro, mães entregavam seus filhos e, em seguida, colocavam-se a disposição para amamentarem as crianças, inclusive o seu, para ganhar dinheiro em troca de seus serviços de ama-de-leite. Além da razão de que esse era o meio pelo qual se libertava uma criança escrava, entregava-se a criança à instituição, depois a mãe solicitava adoção a mando dos fazendeiros, que eram os pais dessas crianças. Psicologia da Educação 34 Por essas razões, chamamos a atenção quando se fala em infância da criança brasileira, é prudente que se pontue de que criança se trata, pois a infância não é a mesma para todas as crianças. O que dizer de uma formação de caráter, de consciência de valores de uma pessoa que só conheceu miséria, abandono de toda a natureza, perdas dos sonhos de meninice, como é o caso de grande parte das crianças sertanejas e sitiantes? Na obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, há uma pequena amostra do que é a vida da criança no sertão do Brasil. A exemplo disso, a escola só aparece no cenário no fim do romance, e em outros romances nos quais evidencia a vil e cruel exploração da mão-de-obra infantil a partir dos 7 anos para ajudar na manutenção da família. Há inclusive, um fato chega a ser revoltante, quando se fala em sociedade de classe e a formação da personalidade da criança, em famílias empregadas nas fazendas, até mesmo em terras da Igreja, se tivessem crianças em idade de trabalho o preço da mãode-obra do adulto caía. Se olharmos atentamente a literatura brasileira, como mostra Tozoni-Reis, em sua obra “Escola, Infância e Pobreza: ficção e realidade”, ver-se-á que grande parte da infância da criança brasileira é marcada pela vida miserável e pela exploração do trabalho infantil; a escola e o aprender a ler e escrever é um sonho que para muitos não será realizado, ou, se ocorrer, será na fase adulta em programas de educação de jovens e adultos. Educadores que ficarem somente na leitura do livro “História Social da Criança e da Família”, de Philippe Ariès, poderão ter uma visão ingênua sobre a infância em qualquer parte do planeta. O livro é uma referência na questão da infância burguesa, mas, sem sombra de dúvida, não é a única. Por que não é? Porque retrata uma das infâncias diagnosticadas: da criança burguesa. A da criança brasileira está, e continua nos dias atuais, distante desse padrão de infância universalizante. Embora há muito que se pesquisar e dizer a respeito da infância, de 0 a 12 anos, no Brasil do século XIX e XX, uma pergunta permanece inquietando: o que diferencia as infâncias de crianças brasileiras das europeias? 2 RELAÇÃO PSICOLOGIA E PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Do século XVI ao XVIII, a laicização dos processos socioculturais, político e econômico representa a base da emancipação do homem em relação a si e ao cosmos, não mais divinizado. O universo, a natureza e as pessoas não são mais filtrados pelos dogmas da igreja; a ciência baconiana, cartesiana e newtoniana buscou iluminar o pensamento humano na emancipação do homem das amarras que o mantinham presos ao solo. A fascinação pelo conhecimento conduzira o espírito científico para além das probabilidades. Tudo poderia ser explicado pela ciência, com métodos precisos na análise da natureza, da sociedade e do homem. A ciência renascentista e moderna projeta uma sociedade estruturada em Estados nacionais, em oposição ao monopolismo do saber e da economia da velha ordem (concepção de mundo baseada no modelo Teocêntrico postulado e tutelada pela Igreja por mais de mil anos). Das explicações científicas para eventos da natureza resultam conhecimentos, e sua difusão através do livro e da alfabetização gera mudanças nas condições de vida e no surgimento do capitalismo. Paulatinamente, do novo perfil intelectual, nasce o homem/indivíduo: novo sujeito social. A ciência moderna exercerá, mesmo num contexto de muitas contradições e posições antagônicas, grande influência na ascensão da burguesia ao poder e na secularização da educação. Sob os grilhões Psicologia da Educação 35 da emancipação humana criam escolas públicas, laicas e universais, com propostas pedagógicas que se opõem à escolástica e à escola humanista tradicional. Esse é o cenário do surgimento da escola pública, da ascensão e consolidação da Psicologia enquanto ciência do comportamento humano na sua relação com os processos educativos, especialmente relacionados às dificuldades de aprendizagem. Era crescente a preocupação com os processos cognitivos de aprendizagem e o trabalho do psicólogo, segundo Patto (1997, p.13), consistia “[...] ajudar a aumentar a qualidade e a eficiência do processo educacional através da aplicação dos conhecimentos psicológicos”. Paradoxalmente, tal como as ciências da natureza, a Psicologia pretendia dar respostas aos fenômenos relacionados à aprendizagem, ao mesmo tempo utilizava-se de testes padronizados e se aplicava aos alunos de realidades e contextos socioeconômicos diferentes. A crença de que a escola iria redimir as maselas da sociedade cai em contradição a partir da primeira guerra mundial. Segundo os interesses da classe burguesa, ela fora instituída, enquanto estabelecimento de ensino, com a finalidade de dar um mínimo de conhecimento e regras de comportamento ao futuro trabalhador. Com respeito ao processo educativo, quase todo o século XX foi permeado pela idéia de que a compreensão dos fundamentos do agir era essencial aos profissionais da educação, cabendo a Psicologia subsidiar essa compreensão do processo educativo. Na medida em que a Psicologia contribui na compreensão da subjetividade humana e nos processos da aprendizagem escolar, quer utilizando-se de referenciais experimentais, quer de introspectivos, há ligação entre ela e a Pedagogia. A Psicologia da Educação consiste em propiciar subsídios teórico-práticos aos profissionais da educação para compreender a dimensão do ser humano em seu processo de desenvolvimento e aprendizagem nos ambientes sócio-educativos, desde a mais tenra idade até a fase adulta. E mais, a Psicologia da Educação tem por meta orientar o profissional da educação não só em relação à prática pedagógica no cotidiano das atividades sócioeducativas, mas, sobretudo, na investigação da realidade, conhecendo as principais características do psiquismo humano e seu processo de subjetivação. Outro ponto importante que ela propicia, digno de ressaltar, é a possibilidade da construção da reflexão do saber fazer e saber ser na construção de conhecimentos e nas relações interpessoais dos sujeitos envolvidos no processo educativo. A partir da compreensão das especificidades da prática pedagógica, como função mediadora do desenvolvimento e da aprendizagem, pergunta-se: quem é o sujeito que se apresenta diante do profissional da educação? Como ocorre o processo de subjetivação dos sujeitos no processo educativo? Por fim, como o sujeito se desenvolve e aprende desde a mais tenra idade? 3 HISTORICIZANDO O ESTUDO DA CRIANÇA PELA PSICOLOGIA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Em se tratando de Brasil, as realidades socioculturais de crianças e alunos da Educação Básica, bem como de professores, são muito diversificadas e contraditórias em muitos aspectos, especialmente no que diz respeito ao econômico. A realidade da Educação Básica comprova que grande parte das crianças a procuram por duas razões básicas: primeira, após a promulgação da Constituição Brasileira de 1988 e do Estatuto da Criança do Adolescente (ECA) o Ministério Público, através da Vara da Criança e do Adolescente, tem sido mais atuante para fazer valer os direitos da criança e do adolescente, responsabilizando o Estado e a família para que ela tenha acesso aos bens culturais propiciados pelo processo educativo escolar. Segunda, em sua maioria, especialmente da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental, encontra nesses espaços a única alimentação adequada para seu desenvolvimento, crianças da mesma idade para brincar, sorrir e chorar de forma coletiva. Psicologia da Educação 36 É interessante ressaltar que muitas crianças, oriundas de famílias de baixa renda que frequentam os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, têm a responsabilidade de cuidar de irmãos mais novos, assumindo o papel de “cuidadora” enquanto o pai e a mãe estão trabalhando. O espaço escolar, para muitas crianças brasileiras, é uma forma de vivenciar a alegria, a brincadeira, o correr, a disputa e o direito de se alimentar. É nesses espaços que se constrói parte importante da subjetividade. Por subjetividade, segundo Bock (2002, p. 23), entende-se A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciadas no campo comum da objetividade social. Esta síntese – a subjetividade – é o mundo de idéias, significados e emoções construídos internamente pelo sujeito a partir de suas relações vivenciais e de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais. É nos espaços escolares que elas terão, além da merenda, das brincadeiras, das amizades, das disputas mais variadas; a oportunidade de aprender e ensinar. Por aprender entende-se toda ação que resulta em compreensão intencional dos objetos de aprendizagem. Sabemos a respeito de algo, na medida em que atribuirmos um sentido e um significado sobre o objeto e o internalizamos. Por ensinar entende-se a ação intencional do professor, fundamentada em metodologias de ensino, transmição de conhecimentos culturalmente produzidos pelas ciências e que se fazem necessários às novas gerações para o desenvolvimento do espírito investigativo, imaginativo e criativo do ser humano. A Psicologia e Psicologia da Educação se encontram, na medida em que dialogam sobre o processo do ensinar e do aprender: afetividade, cognição, psicomotricidade, relações interpessoais, saúde mental, desenvolvimento da criança, dificuldades de aprendizagem e relacionamentos, entre outras. No Brasil, os estudos e pesquisas com crianças em idade escolar pela Psicologia, segundo Bock (2002, p. 08), ocorrem a partir de três eventos: 1) da criação do primeiro laboratório de pedagogia junto à Escola Normal de São Paulo. Este laboratório tinha como finalidade examinar, por meio de métodos e técnicas específicas, reações psicofísicas das crianças (discriminações visuais, auditivas, entre outras). 2) Dois anos depois, em 1916, é criado o laboratório de psicologia pedagógica, destinada a medir e avaliar as capacidades e habilidades infantis, sob a orientação de Alfred Binet. 3) Estudos realizados no campo da leitura por Lourenço Filho na Escola Normal de Piracicaba/SP. No entanto, é com o advento da LDB (nº 9394/96) no Brasil que aumenta o interesse pelas questões do desenvolvimento e da aprendizagem. Pesquisas são realizadas intensamente, até porque de 1964 a 1989 viveu-se um período de policiamento e cerceamento nas pesquisas científicas realizadas por universidades e institutos de pesquisas brasileiras nas mais variadas áreas do conhecimento humano. Portanto, a Psicologia tem trazido importantes contribuições ao processo pedagógico, na medida em que aprofunda as relações entre desenvolvimento e aprendizagem escolar e social. Há que se fazer uma importante ressalva: enquanto que a Psicologia Científica tem como foco o ser humano (comportamento, a consciência, a personalidade, o inconsciente, a subjetividade, entre outras); a Psicologia da Educação se ocupa do processo educativo na relação entre desenvolvimento e aprendizagem no cotidiano da prática pedagógica. Psicologia da Educação 37 Após a leitura desta unidade, vá até o Caderno de Atividades no Ambiente Virtual de Aprendizagem e desenvolva as atividades referentes à Unidade 2. REFERÊNCIAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ roebel ARCE, Alessandra. Friedrich F Froebel roebel: O Pedagogo dos Jardins de Infância. Petrópolis: Vozes, 2002. ução da P essoa em W allon e a Constituição do BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. A Constr Construção Pessoa Wallon Lacan Petrópolis: Vozes, 2003. Sujeito em Lacan. BOCK, Ana Maria B. et al. Psicologias sicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002. CORAZA, Sandra M. Infância e Educação – Era uma vez – quer que conte outra vez? Petrópolis (RJ): Vozes, 2002. FREITAS, Marcos Cezar de (Org.). História Social da Infância no Brasil. São Paulo: Cortez, 1999. sicologia Escolar PATTO, Maria Helena Souza. Introdução à P Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997. Anotações _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 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MA TRIZES EPISTEMOLÓGICAS D A PSICOLOGIA E UNIDADE MATRIZES DA SU A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO ESCOLAR SUA É praticamente consensual de que o papel social da escola está em atender as necessidades sociais demandadas pelo contexto econômico e social. Cada vez que há mudanças no primeiro, acarretará mudanças no segundo, sendo a escola o espaço responsável para promover a adaptação dos sujeitos sociais. Aliás, o ensino laico, estatal e universal surge somente em meados do século XIX, com o surgimento dos Estados nacionais, que passam a ter a função de organizar os setores da sociedade, regulamentar e regular as leis, proteger os interesses do sistema capitalista. Frente às ideias expansionistas, surgem concomitante e progressivamente novas exigências de mudanças de comportamento do homem europeu, agora urbanizado, frente aos desafios do sistema de produção de bens para atender a demanda de consumo e das relações sociais nas cidades industrializadas. Em cada contexto histórico e econômico. a busca para reaparelhar a mão de obra do setor produtivo é uma tarefa eminentemente socioeducativa, cujo local destinado primordialmente é a escola. Diante dos desafios do modelo econômico e social, o processo educativo busca abordagens no ensino para dar conta desse papel social a ele atribuído. 1 A CONCEPÇÃO IDEALIST A E SU A INFL UÊNCIA NO IDEALISTA SUA INFLUÊNCIA DESENV OL VIMENTO E APRENDIZA GEM ESCOLAR ORD AGEM DESENVOL OLVIMENTO APRENDIZAGEM ESCOLAR:: AB ABORD ORDA INA TIST A –MA TURA CIONIST A INATIST TISTA –MATURA TURACIONIST CIONISTA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ a) O Inatismo - Origem filosófica: A palavra Inatismo do latim (innatu + ismo), significa existência de princípios e idéias inatas, independentes da experiência. Essa abordagem deriva da corrente filosófica chamada de idealismo, especialmente de três vertentes: do idealismo platônico, do idealismo cristão e do racionalismo cartesiano. Em relação à primeira, o Mito da Caverna e a Teoria da Reminiscência da Alma constituem a base do idealismo filosófico platônico, segundo o qual as ideias e a razão já existem em nós. Ao nascermos trazemos conosco a razão e as ideias verdadeiras, cabe a Filosofia e a Educação a tarefa de fazer relembrar essas ideias. Para Chauí (2002, p. 70), Conhecer, [...], é recordar a verdade que já existe em nós; é despertar a razão para que ela se exerça por si mesma. Por isso, Sócrates fazia perguntas, pois, através delas, as pessoas poderiam lembrar-se da verdade e do uso da razão. Se não nascêssemos com a razão e com a verdade verdade, [...], como saberíamos que temos uma idéia verdadeira ao encontrá-la? Como poderíamos distinguir o verdadeiro do falso, se não nascêssemos conhecendo essa diferença? Essa teoria parte do pressuposto de que apenas existe a consciência, a ideia, a razão. Psicologia da Educação 40 Para a abordagem Inatista o conhecimento é anterior à experiência e encontra-se no sujeito ao nascer. Isso explica a diferenciação que faz Platão entre o Mundo Inteligível – mundo das ideias e da razão – e o Mundo Sensível – mundo das sensações. Desse modo, nascemos com a inteligência e ideias verdadeiras - ideias inatas. De Platão a Descartes as ideias inatas foram matéria de intenso debate entre posições antagônicas em relação à origem das ideias inatas no ser humano. Chauí (2002, p. 71) afirma que a tese central dos inatistas é: [...] se não possuímos em nosso espírito a razão e a verdade, nunca teremos como saber se um conhecimento é verdadeiro ou falso, isto é, nunca saberemos se uma idéia corresponde ou não à realidade a que ela se refere. Não teremos um critério seguro para avaliar nossos conhecimentos. Em relação à segunda, o idealismo na vertente religiosa, especialmente a teológica, Deus, em um só ato, criou cada homem em sua forma definitiva. Isto é, a humanidade é resultante da graça divina. A terceira vertente, a proferida por René Descartes, o racionalismo inatista, assevera que o espírito possui três tipos de idéias que se diferenciam segundo sua origem e qualidade: 1) Idéias Adventícias: que se originam de nossas sensações, percepções, lembranças. 2) Idéias Fictícias: ocorrem por meio da nossa fantasia e imaginação. 3) Ideias Inatas: que já se encontram contidas na nossa memória desde o nascimento. Descartes apud Chauí (2002, p. 71), por ideias inatas entende-se “[...] aquelas que não poderiam vir de nossa experiência sensorial porque não há objetos sensoriais ou sensíveis para elas, nem poderiam vir de nossa fantasia, pois não tivemos experiência sensorial para compô-las a partir de nossa memória”. Pergunta-se: quais são as ideias inatas? Para Descartes, as ideias inatas são aquelas que já se encontram no espírito humano, pois advém a partir da ‘assinatura do Criador’. Isto porque, para Descartes apud Chauí (2002, p. 71 ), “Por serem simples, as idéias inatas são conhecidas por intuição e são elas o ponto de partida da dedução racional e da indução, que conhecem as ideias complexas ou compostas”. - Teoria da seleção natural das espécies (Darwin) Pode-se afirmar indubitavelmente que a Teoria da Seleção das Espécies de Darwin (1809 – 1882) trouxe importantes contribuições ao conhecimento das inúmeras espécies de animais e plantas. As ideias de Darwin, além de contribuir com o conhecimento científico, propiciaram novas pesquisas a partir dos dados por ele apresentados. No entanto, houve interpretação equivocada, por parte de alguns seguidores da epistemologia positivista moderna, da teoria quando aplicada à compreensão do desenvolvimento humano, porque resultou na crença de que os fatores ambientais eram incapazes de exercer efeito direto, tanto na espécie quanto no organismo. - Estudos da Embriologia e Genética Os avanços da Embriologia e da Genética, no final do século XIX e XX, trouxeram significativos avanços na compreensão do desenvolvimento orgânico do ser humano. No entanto, resultados de pesquisas nessa área levaram a proposição de que a evolução psicológica da criança seria determinada biologicamente, do mesmo modo que o crescimento do feto no útero materno. Logo, defendia-se a idéia de que as capacidades básicas do ser humano, tais como personalidade, potencial, valores, formas Psicologia da Educação 41 de pensar e de conhecer, comportamentos; encontram-se prontas desde o nascimento ou potencialmente determinadas a priori. Dessa forma, pode-se entender o inatismo como a perspectiva teórica em Psicologia; postula que conhecimentos, ideias, razão, personalidade e potencialidade de desenvolvimento e aprendizagem já se encontram no sujeito desde quando nasce. As experiências cotidianas da vida social poderão fazer com que recorde ou não do que já traz consigo. b)Inatismo-Maturacionismo Tradicionalmente, essa abordagem ancora-se nos postulados biologistas segundo os quais maturidade, aptidão e inteligência ocupam papel central no desenvolvimento da criança desde a mais tenra idade. Fontana (1997, p. 11) afirma que essa abordagem tem como princípio “[...] fatores hereditários ou de maturação são mais importantes para o desenvolvimento da criança e para a determinação de suas capacidades do que os fatores, relacionados à aprendizagem e à experiência”. Desse modo, a abordagem enfatiza fatores maturacionais e hereditários. Se olharmos atentamente para a história humana, ver-se-á que esse modo de conceber o desenvolvimento existia nos comportamentos sociais, mesmo antes dos estudos científicos da Psicofísica, Fisiologia, Neurologia, da Genética, entre outros. Exemplo dessa visão encontra-se na forma de organização dos grupos, começando pelas sociedades primitivas, perpassando a Antigüidade, a medieval, moderna até os dias atuais, especialmente as sociedades monárquicas e nas sociedades com padrões sociais com base no patriarcalismo, onde os filhos do gênero masculino (varões) tinham predominância sobre o gênero feminino. E ainda, em relação ao gênero masculino, os primogênitos (primeiros filhos a nascer) recebem a maior parte ou exclusivamente todos os privilégios de herança. Por obra do espírito humano, os estudos e pesquisas científicas, desenvolvidas nos últimos dois séculos, permitiram conhecer esse padrão que se encontrava não só na cultura humana, como também em outras espécies de animais. Os estudos da biologia, por exemplo, permitiram conhecer a tendência dos fatores genéticos que se transmitiam de pai para filho, em ordem decrescente de idade, de uma geração para a seguinte, que determinavam características individuais dos sujeitos (cor dos olhos, da pele, do cabelo, a estatura, fisionomias, atitudes, entre outras). Você sabe o que significa hereditariedade? Hereditariedade em genética significa a tendência de se transmitir características individuais, inclusive a predisposições ou traços de caráter ou morais dos pais aos descendentes (filhos, netos, bisnetos...). Psicologia da Educação 42 Segundo Fontana (1997, p. 11), “Hereditariedade pode ser entendida como um conjunto de qualidades ou características que estão fixadas na criança, já ao nascimento. [...], herança genética individual que a criança recebe dos pais”. Essa concepção é muito forte não só na visão de uma gama de professores, especialmente nas verbalizações que ocorre em depoimentos como: veja de quem é filho; os irmãos mais velhos também eram lentos para aprender; é agressivo como o pai; aquela criança tem o dom para cantar, puxou o pai ou a mãe, entre outros depoimentos. Visão também disseminada na concepção de muitos sujeitos na vida social contemporânea, por exemplo, no esporte, na música, na arte, na dramatização, entre outras atividades humanas. A Teoria do Dom era muito presente em concepções de pais e professores, pensava-se que a criança já nasce com aquela habilidade, o meio pode no máximo melhorar o que já está presente em potência. Você sabe o que é maturação? Por maturação, do latim maturitate, entende-se o processo de desenvolvimento compartilhado com os membros da espécie. Ou seja, “[...] na perspectiva inatistamaturacionista supõem que, do mesmo modo que a cor dos olhos, aptidões individuais e a inteligência são características herdadas dos pais e, portanto, já estão determinadas biologicamente quando acriança nasce. Ou então que, à maneira do crescimento das partes do corpo, o desenvolvimento do comportamento e das habilidades da criança é governado por um processo de maturação biológica, independentemente da aprendizagem e da experiência.” (FONTANA, 1997, p.12) Aqui é clara a perspectiva de que a criança precisa atingir a maturação biológica para que possa ter predisposição na aprendizagem; fatores ambientais e sociais são irrelevantes no processo ensino-aprendizagem, ela irá aprender quando estiver apta. Essa visão não se refere somente em parte ao orgânico (órgãos), como também ao sistema neurológico, responsável pelos processos do sistema nervoso. É comum na vida cotidiana a pessoa chamar de imaturo a pessoa que ainda não corresponde ao padrão do grupo social. Da mesma forma, ocorre no processo educativo onde se diz que a criança ainda não está pronta para ter determinada compreensão do conteúdo e/ou sobre determinada atitude axiológica. No ensino superior, isso também tem seus reflexos nos chamados pré-requisitos das disciplinas acadêmicas. Isso corrobora com o racionalismo cartesiano: Importa lidar unicamente com aqueles objectos para cujo conhecimento certo e indubitável os nossos espíritos parecem ser suficientes (DESCATES, 1985, Regra II, p. 14). É preciso dirigir toda a acuidade do espírito para as coisas menos importantes e mais fáceis e nelas nos determos tempo suficiente até nos habituarmos a ver a verdade por intuição de uma maneira distinta e clara (DESCARTES, 1985, Regra IX, p. 53).. Essas duas regras cartesianas, embora haja outras no livro “Regras Para a Direção do Espírito”, são suficientes para perceber que elas embasam muitas concepções e práticas no processo educativo, pois subjacentes à concepção encontram-se, também, os métodos indutivos e dedutivos de aprendizagem, que subsidiam o aprendizado e o entendimento dos aspectos do desenvolvimento do ser humano. Da mesma forma, ocorre com as práticas sociais quando se questiona as diferenças individuais, bem como da aptidão e da inteligência. Psicologia da Educação 43 Segundo Fontana (2002, p. 12), há uma indagação que se faz tanto no campo da ciência psicológica, como na vida cotidiana: Por que as pessoas são diferentes umas das outras? A primeira vista, essa indagação parece ser tão simples, no entanto exige da pessoa pensar e refletir sobre o que se assemelhava e o que não se assemelha. Por exemplo, dois irmãos foram criados a partir dos mesmos axiomas e das regras de condutas sociais. No entanto, um se torna bem diferente do outro. O que mudou? Foram os filhos? Os pais? Ou ambos? Por que algumas crianças parecem mais inclinadas para atividades artísticas, enquanto outras se saem melhor com os números? Nota-se que questões como essas, encontradas às parcas na cotidianidade da vida privada, mobilizaram a ciência psicológica no início do século XX, a ponto de originar inúmeras pesquisas no campo do desenvolvimento e da aprendizagem nos ambientes escolares. O interesse emerge da necessidade de compreender o processo da hereditariedade, como isso ocorria, o que era verossímil e o que os diferenciava e por que havia tanta semelhança entre gêmeos, especialmente no aspecto intelectual, ao passo em que irmãos não gêmeos esse padrão era mais insipiente. Da mesma forma entre os gêneros homem, mulher e raças diferentes. Nesse particular, pode-se dizer que a Psicologia encontrava seu campo de atuação mais profícuo, justificando à comunidade científica e social o status de ciência da psique humana. Os campos de estudos variaram, de acordo com as necessidades emergentes do contexto socioeconômico e cultural do início do século XX. Temas da educação escolar como consciência, comportamento, personalidade, inconsciente, subjetividade, afetividade, relações interpessoais, aprendizagem, desenvolvimento neuromotor, deficiência mental, dificuldades de aprendizagem, entre outros, constituíram o centro de interesses da Psicologia Escolar. 1.1 Aptidão, Inteligência e T estes na P Psicologia Testes sicologia de Alfred Binet ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Como você define aptidão e inteligência? O centro de interesse das pesquisas do francês Alfred Binet (1857 – 1911) era a problemática da natureza da hereditariedade, das aptidões e da inteligência. Uma das constatações de Binet foi que a experiência, o ambiente social e a educação não preponderavam nas determinações das aptidões individuais e no grau de desenvolvimento destas, mas sim os fatores inatos. E mais, partindo desse pressuposto, Binet acreditava que era possível analisar a evolução e a inteligência da raça humana por meio de testes desenvolvidos para esse fim. No cotidiano da vida social ouve-se, inclusive na escola, que determinada criança está ou não apta para desenvolver certas atividades práticas e/ou abstratas. Diante desse fato, pergunta-se: o que é aptidão? Ou estar apto a...? Para Binet, aptidão significa uma propensão (música, dança, pintura, canto, recorte...) contida no indivíduo desde o nascimento, inclusive os graus de desenvolvimento desta em cada um. Na educação escolar, os fatores inatos preponderam sobre as experiências, o ambiente social e a educação. Psicologia da Educação 44 Subjacente a essa propensão está a teoria do Dom para... Binet, ao afirmar que o dom é um indicador da aptidão inata na criança, procura justificar as diferenças individuais pela herança genética em detrimento de qualquer outro fator empírico ou cultural. Isto é, “[...] crianças brancas e negras apresentam diferenças no desempenho de determinadas tarefas em razão da herança genética de suas raças, e não de diferenças culturais ou de oportunidades” (FONTANA, 2002, p. 13). Além das diferenças individuais, Binet focava sua atenção à evolução e avaliação da inteligência. Fascinado pela possibilidade de mensurar a inteligência, desenvolve testes de QI, visando mapear as principais características da inteligência. O que significa inteligência? Como se caracteriza uma pessoa inteligente? Por inteligência entende-se, segundo Binet, faculdade da inteligência de adaptar-se a novas situações. As características da inteligência seriam julgamento, compreensão e adaptação. É interessante destacar como Binet chega a essa constatação. A pedido do governo francês, Binet desenvolveu uma intensa pesquisa na qual o foco era detectar fatores que influenciavam no baixo rendimento e na reprovação escolar. Desenvolveu uma bateria de testes padronizados, tendo como pressuposto a observação e o raciocínio, a fim de identificar crianças com baixo rendimento escolar. O mais conhecido e que se tornou mundialmente utilizado, especialmente nos Estados Unidos, foi o Quociente de Inteligência (QI). No que consiste os testes de Quociente de Inteligência? Binet desenvolveu a seguinte fórmula: Q. I = Quociente de Inteligência I.M.= Idade mental I.C.= Idade cronológica Por meio dessa fórmula, como nas ciências experimentais, o nível de inteligência, para Binet, poderia ser demonstrado cientificamente à capacidade da criança ou dos alunos. A fórmula e seus desdobramentos foram adotados em muitos países, inclusive no Brasil. Segundo Teles (1977, p. 20), a tabela dos Quocientes de Inteligência era: Psicologia da Educação 45 A tabela acima representa anos de observação e experimentação de atividades, as quais as crianças desenvolviam nas mais variadas idades para comparar a idade metal com a idade cronológica, a fim de determinar a capacidade intelectual de cada criança. Desse trabalho, Binet desenvolveu técnicas combinadas com graus de dificuldades, começando das mais simples às mais complexa, tal como preconiza o método cartesiano, para estabelecer um padrão de características da inteligência, como mecanismo de medição da capacidade da criança/aluno. Inúmeras tarefas foram propostas a grupos de crianças. Segundo Fontana (2002, p. 16), [...] se todas ou quase todas as crianças de 6 anos fossem capazes de comparar dois pesos, essa tarefa era considerada muitos fácil para essa idade; se 60% a 90% das crianças de 5 anos estudadas resolvessem o problema de maneira correta, ele era aceito como adequado para essa faixa etária. Do mesmo modo, se quase nenhuma das crianças de 4 anos estudadas conseguisse copiar um quadrado, essa tarefa era considerada difícil demais para essa idade. O método adotado por Binet nas experiências e observações das atividades desenvolvidas pelas crianças é o mesmo empregado nas ciências naturais. Há que se ressaltar, os testes de Quociente de Inteligência de Binet mensuravam as habilidades lingüísticas, o raciocínio lógico matemático, o pensamento analítico, a capacidade de abstração e a erudição. Logo, a mensuração diz respeito a lógica formal aplicada ao conhecimento num contexto escolar. É importante salientar que, para Binet, se a aptidão é inata, herdada geneticamente, as experiências, os ambientes sociais e a educação não terão preponderância sobre a inteligência. Isto significa dizer que a capacidade de atenção, julgar, compreender e raciocinar não será aprendida na escola ou em qualquer outro ambiente social. 1.2 Escalas do desenvolvimento na perspectiva de Gesell ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Outro representante da abordagem inatista-maturacionista é o norte-americano Arnold Gesell (1880 – 1961). Compartilhava da tese da preponderância dos fatores maturacionais sobre os de aprendizagem. Ao centrar a atenção nos padrões típicos de desenvolvimento em crianças, constata que há uma sequência de comportamentos que tendem a se repetirem na maioria das crianças: sentar, engatinhar, caminhar, aprender a falar, entre outras. Ao observar o comportamento de bebês, Gesell constatou que existem muitas semelhanças no desenvolvimento desde a tenra idade. Tanto Binet quanto Gesell ocupavam-se em definir os comportamentos típicos de cada faixa-etária, embora a partir de perspectivas diferentes. Sabe-se que a ciência moderna tem como pressuposto básico o rigor na utilização dos métodos de investigação científica, de qualquer área, na aplicação ao estudo do objeto. Os métodos mais empregados, até mesmo na Psicologia científica, são: observar, experimentar e comprovar teorias. Gesell irá utilizar mais intensamente a observação. Ele tinha como foco determinar os comportamentos típicos de cada faixa-etária para mapear características endógenas de cada comportamento infantil. Segundo Cole (2003, p. 56), por características endógenas na perspectiva inatismo-maturacionista significa que: [...] a mudança vem de dentro do organismo como uma conseqüência dos genes que o organismo herda. Desse ponto de vista, a principal causa de desenvolvimento é a maturação, uma seqüência de mudanças geneticamente determinadas que ocorrem desde o ponto inicial imaturo, na concepção, até a plena idade adulta. Psicologia da Educação 46 As características dos comportamentos típicos já se encontram praticamente prontas no momento do nascimento ou, potencialmente, determinadas na dependência do amadurecimento para se manifestar, assim há comportamentos padrões para cada idade. Como forma de mapear essas características endógenas para estabelecer certos comportamentos, Gesell instala câmeras cinematográficas numa sala, com intuito de observar, a partir de uma bateria de testes aplicado às crianças, o que elas eram capazes de fazer em cada idade. Com as filmagens, foi possível mapear alguns dos comportamentos típicos do desenvolvimento segundo a faixa etária. Gesell (apud COLE, 2003, p. 56) conclui que: O ambiente [...] determina a ocasião, a intensidade e a correlação de muitos aspectos do comportamento, mas não engendra as progressões básicas do desenvolvimento do comportamento. Estas são determinadas por mecanismos inerentes à maturação. Para Gesell, o meio social é secundário no desenvolvimento, pois as influências externas apenas podem facilitar ou dificultar o processo endógeno de maturação, o que levou às escalas de desenvolvimento e aos padrões típicos de comportamentos das pessoas, pois estes são resultantes do processo de desenvolvimento que funciona numa seqüência específica, segundo cada faixa etária. Segundo Fontana (1997, p. 20), além dessa confirmação, introduz uma outra idéia, até então não veiculada; diz respeito ao desenvolvimento normal ou não: Se o ritmo e a seqüência do desenvolvimento são biologicamente determinados, esperase que certos comportamentos apareçam sempre na mesma seqüência e na mesma idade, quer se trate de crianças européias de classe média, quer de crianças do interior do Nordeste brasileiro. Por fim, Binet e Gesell apresentam a novidade científica na aurora do século XX; as teses sobre padrões de comportamento e inteligência, com determinados grupos de crianças francesas e americanas, o que foi questionado pelos autores que discordaram de suas teses, por estes relegarem os fatores socioculturais como, também, determinante no desenvolvimento de comportamentos. 1.3 Alguns apontamentos educação na perspectiva inatista-maturacionista ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Pode-se dizer que esta abordagem tem como foco na aprendizagem o processo contínuo do desenvolvimento da pessoa, isto porque: [...] favorece ao estudante ser o centro do projeto educacional, orientando-se ao desenvolvimento e aa auto-realização de suas possibilidades e potencialidades psicossomáticas, selecionando atividades adequadas e favoráveis ao seu desen-volvimento global e engajamento sócio-cultural (BRITTO, 1989, p. 64). No Brasil, essa abordagem foi apresentada a partir do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, encabeçado por Anísio Teixeira. Encontrava-se subjacente à proposta de uma educação pública, gratuita, mista, laica e obrigatória, o princípio dos diferentes níveis da educação entre si. Psicologia da Educação 47 Segundo Britto (1989, p. 67), a proposta da Educação centrada no aluno objetiva alcançar: · Auto-Iniciativa Responsável: participação consciente e ativa do aluno em todas as ações educativas, promovendo o desenvolvimento de seu potencial. · Reflexão crítica: a auto-iniciativa responsável tem como objetivo levar o aluno a conquistar a reflexão crítica comprometida na perspectiva da sua auto-realização, no sentido de “[...] valorizar mais suas próprias idéias e a dos outros” (BRITTO, 1989, p. 68). · Intersubjetividade e o Contexto Cultural: consiste em instigar o aluno a buscar soluções apropriadas, de acordo com as necessidades e interesses em resolver problemas presentes e futuros. · Desenvolvimento da Criatividade: proporcionar atividades que envolvam os processos criativos é um dos principais objetivos do processo educacional centrado no aluno, isto porque é fundamental ao seu desenvolvimento como pessoa. 1.4 Implicações pedagógicas do desenvolvimento e aprendizagem ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ É interessante destacar que ambos os autores, ao investigarem sobre maturação e inteligência, não tinham a perspectiva de versar sobre o processo educativo, embora tenham partido da preocupação com as crianças francesas e americanas que apresentavam baixo rendimento escolar, especialmente as consideradas mentalmente deficientes. Com essa ressalva, apresentaremos algumas das implicações dessa abordagem no processo educativo. A ideia nuclear da perspectiva inatista-maturacionista é: o desenvolvimento é prérequisito para o aprendizado; e o desenvolvimento mental é visto de modo retrospectivo . Logo, o nível de maturação e de inteligência da criança é quem determina o que ela é ou não capaz de aprender. O ensino se realiza na medida em que o aluno estiver pronto para aprender. O papel do meio social se restringe a impedir ou permitir que as aptidões se manifestem no decorrer do seu desenvolvimento. Essa idéia encontra-se no bojo da visão maturacionista de Gesell (1999, p. 13) : Tanto quanto sabemos hoje, enriquecer o ambiente da criança e oferecer-lhe as maiores oportunidades possíveis permitem-lhe dar melhor de si própria, mas não a tornam ‘melhores’, nem inteligentes ou mais ágil de espírito do que, ao nascimento, estava destinada a ser. Logo, a educação pouco ou quase nada altera as determinações inatas. A prática escolar se restringe ao que ele já sabe, isso é, ela não desafia, não amplia e nem instrumentaliza o desenvolvimento do sujeito porque se limita àquilo que ele já desenvolveu. A educação tem papel limitado porque não consegue alterar as determinações inatas. Isto significa que as diferenças não são superáveis pela educação, pois considera o desempenho do aluno fruto de suas capacidades inatas. A compreensão de que as características comportamentais dos alunos não podem ser modificadas, pois já se encontram em sua natureza ao nascer. Psicologia da Educação 48 2 A CONCEPÇÃO EMPIRIST A E SU A INFL UÊNCIA NO EMPIRISTA SUA INFLUÊNCIA DESENV OL VIMENTO E APRENDIZA GEM ESCOLAR ORD AGEM DESENVOL OLVIMENTO APRENDIZAGEM ESCOLAR:: AB ABORD ORDA COMPOR TAMENT ALIST A COMPORT AMENTALIST ALISTA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ - Origem filosófica Esta abordagem tem como embasamento epistemológico das ciências naturais, especialmente do empirismo positivista e do mecanicismo de Descartes, a possibilidade de prever e controlar o comportamento de todo e qualquer indivíduo. Os teóricos de maior relevância são: Pavlov (1846 – 1936), Watson (1878 – 1958), Skinner (1904 – 1990) e Thonrdike (1874 – 1946), cada um apresentando um corpo teórico sobre o comportamento humano. Em linhas gerais, o Behaviorismo, do termo inglês behavior, significa comportamento. O principal objeto de estudo do comportamento humano é a relação do indivíduo com o ambiente – interações. a) Behaviorismo/comportamentalismo Quase totalmente as duas primeiras décadas do século XX são marcadas por grandes eventos: a implantação da linha de produção fordista nos Estados Unidos, a notoriedade das teorias sociológicas de Durkheim e Weber, a Primeira Guerra Mundial, os embates teóricos entre funcionalistas e estruturalistas, entre outras. Esses eventos agitam o cenário das ciências naturais e sociais em busca de respostas a inúmeros desafios e problemáticas cada vez mais complexas, tanto no que diz respeito ao ser humano quanto a sua forma de organização nos contextos sociais. Com esses eventos, a Psicologia científica também passará por revisões teóricas entre defensores de outros pontos de vistas para além das posições teóricas mentalistas (introspecção), especialmente de Wundt. Segundo Schultz (1996, p. 210), O movimento na direção do funcionalismo era menos revolucionário que evolutivo. Os funcionalistas não procuravam deliberadamente destruir as posições de Wundt e Tichener. Em vez disso, eles as modificaram, acrescentando um pouco aqui, mudando uma coisinha ali, de modo que gradativamente, ao longo dos anos, surgiu uma nova forma de psicologia. Nesse cenário de embates teóricos, surge a escola behaviorista, tendo como principais fundadores do movimento da ciência comportamentalista o russo Ivan Pavlov (1849 – 1936), os americanos Watson (1878 – 1958) e Thonrdike (1874 – 1946), ambos tinham como pressuposto o comportamento humano: a aprendizagem é sinônimo de desenvolvimento porque é ela quem determina as mudanças de comportamento e, portanto, o grau de desenvolvimento do ser humano. efle xos Condicionados 2.1 A P sicologia segundo P avlov: R Refle eflexos Psicologia Pavlov: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Na revisão dos postulados da Psicologia científica, nas duas primeiras décadas do século XX, permitiu aos pesquisadores avaliar o alcance dos métodos, especialmente os das ciências naturais (observação, mensuração, quantificação, comparação, verificação, genera-lização, teorização, entre Psicologia da Educação 49 outros), empregados pelas escolas psicológicas até então. Watson defendia a tese de que o emprego de métodos experimentais à ciência psicológica poderia prever e controlar respostas provocadas pelos estímulos. Pavlov ocupou-se intensivamente com uma pesquisa, a qual o consagraria como um dos mais notáveis pesquisadores no campo da ciência do comportamento humano. Ao ocupar-se de compreender o funcionamento dos centros nervosos superiores do cérebro, Pavlov descobre acidentalmente os reflexos condicionados. Na pesquisa com cães, amplamente difundida no Ocidente, chega a conclusão de que qualquer estímulo podia produzir uma resposta condicionada. Nas primeiras experiências de Pavlov com cães, ele descobre a relação entre estímulo e reflexo natural do sistema digestivo : Ele mostrava ao cão um pedaço de pão que tinha nas mãos antes de dá-lo ao animal para que comesse. Com o tempo, a salivação começava assim que o cão via o pão. A resposta da salivação, quando o pão era colocado na boca do animal, era uma resposta reflexa natural do sistema digestivo; não há necessidade de aprendizagem para que isso ocorra (SCHULTZ, 1996, p. 226). Até chegar a confirmação dos reflexos condicionados, Pavlov realizou inúmeras experiências com o cão, a fim de descobrir a associação (associacionismo) entre o estímulo e a resposta. Ele acreditava que por associação poderia desencadear vários comportamentos, pois cada estímulo age sobre o ser humano, produzindo novas respostas (hábitos e costumes) que determinarão seu modo de ser. Nas pesquisas posteriores, a fim de evidenciar o alcance do condicionamento, Pavlov realiza novas experiências associativas: O estímulo condicionado (uma luz, por exemplo) é apresentado (neste caso, acesa). Imediatamente se apresenta o estímulo não condicionado (o alimento). Depois de algumas apresentações pareadas de luz e alimento, o animal saliva ao ver a luz. O animal está então condicionado a responder ao estímulo condicionado. Está formada uma associação ou vínculo entre a luz e o alimento. A aprendizagem ou condicionamento só ocorre se a luz for seguida pelo alimento algumas vezes. Logo, o reforço (ser alimentado) é necessário para que a aprendizagem aconteça (SCHULTZ, 1996, p. 227). No tocante à aprendizagem, Pavlov esforça-se para demonstrar que os processo, mentais podem ser estudados com métodos experimentais análogo aos estudos fisiológicos. Pavlov acreditava que reduzindo unidades complexas do comportamento poderia estudar experimentalmente. Essa ideia será retomada por Watson. 2.2 A aprendizagem segundo o behaviorismo de W Watson atson ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A escola comportamentalista de Watson e colaboradores partem do pressuposto de que para haver aprendizagem deve, necessariamente, estimular para obter respostas condicionadas. Segundo Britto (1989, p. 14), Psicologia da Educação 50 Consideravam como irrelevantes todos os processos mentais (pensamento, memória, percepção, sentimentos, etc.), definindo o organismo como um mecanismo de automanutenção, que, a determinada estimulação, associando uma ou mais reações orgânicas, a ação daquela sobre esta redunda em respostas associadas ao estímulo, resultando em comportamento respondentes condicionados. Este por sua vez ‘podem associar-se a outros, de tal forma que, em um se dando, solicite o outro’. É evidente, portanto, que a efetivação da aprendizagem depende de dupla estimulação. Para Watson, toda a aprendizagem significa um estímulo do ambiente, é um comportamento aprendido, tal como o medo, a cólera e o amor. Logo, enfatiza que o ambiente exerce influência decisiva na aprendizagem, pois assevera que o papel do ambiente é mais importante do que a maturação biológica – aferida pelo inatismo-maturacionismo. Ou seja, o comportamento é sempre uma resposta de um estímulo do ambiente. Para Watson, comportamento é uma resposta do organismo (humano ou animal) a algum estímulo presente no meio. Por Estímulos entende-se, nessa perspectiva, toda modificação do ambiente que pode ser captada pelo organismo por meio dos sentidos. Ao passo que Resposta são as modificações que ocorrem no organismo em decorrência desses estímulos. No tocante ao método experimental, fica evidente que Watson expurga da psicologia experimental qualquer conceito mentalista, pois advoga que o comportamento pode ser estudado empiricamente a partir das respostas emitidas pelo organismo a qualquer mudança de ambiente. E mais, não descarta a existência de processos internos (mentalista e consciência), mas estes devem ser estudados pela fisiologia. Segundo Watson, haverá reações as quais o organismo responde a um estímulo do ambiente de forma instintiva. Por exemplo, um animal está bebendo água e ouve um ruído forte longe de seu campo visual e reage correndo. Isto representa uma ação instintiva, pois representa uma ação natural pela defesa da vida. Agora, quando alguém aponta uma arma carregada para uma pessoa pode atentar contra a vida. Esse comportamento de esquivar-se é aprendido, na medida em que souber que uma arma carregada pode ser disparada e ocasionar em morte. Esse comportamento de esquivar é aprendido. Neste sentido, segundo Watson, o comportamento, então, é uma propensão para responder a certos estímulos de uma forma determinada. Nesta perspectiva, Watson explica todas as formas de aprendizagens que ocorrem com o homem ou com o animal, pois, segundo ele, com o uso de estímulos é possível controlar o comportamento e a aprendizagem. Isso se faz através do reforço ou da punição. Segundo Fontana (1997, p. 25), “[...] prever a resposta, quando se conhece o estímulo, e identificar o estímulo, quando se conhece a resposta. [...], o estudo do comportamentalismo deve possibilitar o conhecimento das relações estímulo-respota, das quais ele é resultado”. Por assim dizer, segundo Watson, uma vez aprendido a resposta é porque ela foi condicionada. Quando um professor espera que o aluno responda a certas situações, é seu compromisso propiciar os estímulos para que ele responda a situação desejada. Quando isso ocorre, afirma-se que ele aprendeu. Segundo Watson, isso se aplica em relação ao medo, à cólera e ao amor: são comportamentos aprendidos no meio social. Psicologia da Educação 51 2.3 Skinner e o comportamento aprendido ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Primeiramente, há que se ressaltar a postura de Skinner (1904 – 1990) diante da teoria comportamentalista apresentada por Watson. Skinner é influenciado pela teoria do condicionamento de Pavlov e Thorndike. No entanto, Skinner centra seus estudos nas aprendizagens de comportamentos tanto do homem como do animal. Este último é protagonista de suas mais intensas pesquisas, nas quais assevera que as experiências são fatores determinantes no comportamento de qualquer ser vivo, seja humano, seja animal. Skinner introduz um novo conceito (o condicionamento operante) em relação ao conceito de Pavlov. Assim como seus antecessores, Skinner não se interessa por aquilo que ocorre no interior do organismo, isso cabe a fisiologia e a anatomia, mas somente das forças do ambiente: “[...] uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’ por meio de perguntas que lhe foram feitas está em melhores condições de prever e controlar seu próprio comportamento” (SKINNER, 1999, p. 31), isso porque um reflexo tem apenas força descritiva, não é uma explicação. Na análise do comportamento, seja do homem ou do animal, Skinner parte da premissa de que o indivíduo procura maximizar aquilo que lhe dá prazer e minimizar aquilo que lhe causa dor. Dessa forma, um comportamento socialmente determinado é reforçado cada vez que o sujeito produz ou emite espontaneamente, desse modo, o elogio reforçado tem grande probabilidade de se repetir o comportamento premiado/elogiado e/ou inibir condutas inapropriadas. Por essa razão, a aprendizagem é um tema central em sua concepção, pois numa sociedade há que se regular atitudes e comportamentos a fim de que se possa viver em grupo. Logo, comportamentos sociais positivos tendem a ser reforçados, os negativos, rechaçados. Essa é basicamente a diferença entre ele e Watson, pois introduz na psicologia experimental a possibilidade da aprendizagem de comportamentos. Talvez esse seja o ponto central da aprendizagem desde a primitividade do ser humano que, por necessidades mais do que instintivas, precisou aprender para sobreviver, o que individualmente seria praticamente impossível. Por instinto entende-se as reações fisiológicas do organismo a um estímulo do ambiente. Por exemplo: o piscar, desmaiar diante de um estrondo, correr por um barulho que não se encontra no campo visual, entre outros. Para distinguir-se de Pavlov e Watson, Skinner diferencia reflexo simples de reflexo condicionado. O primeiro, reflexo simples, é uma ação espontânea, irrefletida e involuntária do organismo a um estímulo do ambiente. O segundo, reflexo condicionado, segundo Telles (1977, p. 93), “condicionar é uma forma de aprendizagem, na qual a capacidade de eliciar uma resposta é transferida de um estímulo para outro”. Psicologia da Educação 52 2.4 Condicionamento Clássico e Operante na Aprendizagem ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Para Skinner, toda a aprendizagem significava mudança de comportamento, ainda quando se utiliza reforçador positivo ou negativo. Em relação à aprendizagem Skinner definiu dois tipos de condicionamento: Clássico: Por condicionamento clássico entende-se uma resposta do a) Condicionamento Clássico organismo a um estímulo apresentado, quer por associação, quer diretamente. E mais, condicionamento clássico é “[...] um tipo de comportamento determinado, que é sempre provocado por um estímulo também determinado. Ela envolve uma reação do organismo ao meio e não uma reação dele sobre o meio” (FONTANA, 1997, 26). Operante Para Skinner, o condicionamento operante é o processo de b) Condicionamento Operante: aprendizagem pelo qual uma resposta torna-se mais freqüente. Apoia-se não em reações provocadas por estímulos, mas em comportamentos emitidos pelo próprio organismo que são seguidos por algum tipo de conseqüência. Ou seja, [...], a idéia básica é que do condicionamento operante é que os organismos tenderão a repetir os comportamentos quem conduzem a recompensas e tenderão a abandonar os comportamentos, que deixam de produzir recompensas ou que conduzem à punições. [...]. Uma conseqüência [...] que aumenta a probabilidade de um comportamento ser repetido é chamado de reforço (COLLE, 2003. p. 180). Assim, uma aprendizagem operante é aquela que exige um comportamento operante antes mesmo do reforço: abanar-se quando está calor, girar o espelho interno do carro para evitar o reflexo da luz nos olhos, entres outras situações. O que significa reforço na teoria da aprendizagem em Skinner? Por reforço entende-se a probabilidade da repetição de resposta almejada. As pesquisas de Skinner teriam comprovado a possibilidade de modelar o comportamento humano que seria obtida proporcionando-se reforçadores após respostas que, gradativamente, se aproximam da resposta que se espera do sujeito. E mais, a resposta do sujeito na direção esperada é o próprio instrumento da recompensa: elogio. Para Fontana (1997, p. 27), Se o comportamento é seguido por uma seqüência agradável, ele tende a se repetir. Ao contrário, se a seqüência for desagradável, o comportamento tem menos probabilidade de se repetir. Essas conseqüências, chamada pelos compor-tamentalistas de reforçadores, ‘modelam’ o comportamento dos indivíduos, sendo responsáveis pela criação dos hábitos. Skinner define dois tipos de reforçador positivo e negativo. O primeiro tende a fortalecer e reforçar o comportamento operante. O segundo tende a eliminar um comportamento operante inadequado. A teoria de Skinner apresenta uma nova dimensão na psicologia científica do início do século XX. Através da pesquisa com ratos Skinner procura demonstrar que os efeitos de programas de reforço provocam comportamentos, isto é, uma conduta do rato era reforçada à medida que o animal pressionava a barra que liberava água. Esse hábito de pressionar a barra é reforçado com a liberação da água. Da mesma forma em sentido oposto, quando se deseja extinguir um comportamento operante inadequado. Um outro conceito apresentado por Skinner diz respeito à punição. Ele observou nas experiências que quando o rato era punido por um comportamento indesejável, ele não se repetia. No entanto, Psicologia da Educação 53 sendo a punição um processo de enfraquecimento da resposta, Skinner observa que a punição age com prejuízo tanto para aquele que sofre como para aquele que pune. Outro conceito diz respeito à extinção que, para Skinner, é um processo demorado quando se deseja extinguir um comportamento operante, isto porque, com o processo de extinção, a resposta condicionada não será reforçada. Ex: quando o rato está condicionado a tomar água após apertar a barra, a extinção desse comportamento operante ocorre quando ele pressiona a barra e a água não é liberada. Sucessivas vezes provocara a extinção desse comportamento porque a resposta não é reforçada. Skinner acreditava que estímulos antecedentes provocavam certas respostas ao indivíduo. Na aprendizagem, o comportamento é modificado como resultado da experiência. O comportamento caracteriza, segundo Skinner, grande parte das interações do indivíduo com o ambiente, já que suas variações interferem nos comportamentos. No reforçador positivo toda vez que um comportamento positivo for realizado a criança recebe estímulos como “ parabéns, você foi muito bem na prova, continue assim”. Na punição o comportamento rechassado não é mais repetido. Já a extinção é um processo mais lento, pois a resposta condicionada não é reforçada. Por fim, por atribuir maior importância ao ambiente, o planejamento de ensino se torna, nessa abordagem, uma peça central na aprendizagem (preparar o ambiente, os objetivos, os materiais). No comportamentalismo cabe ao professor a responsabilidade de organizar, selecionar e dirigir as atividades, reforçando o que é positivo, rechaçando o que é negativo. 2.5 Implicações da Abordagem Comportamentalista na prática pedagógica ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Algumas implicações dessa abordagem para a educação: · O professor é o centro do processo de aprendizagem e detentor do saber escolar. Ele deve promover situações propícias para o uso de estímulos e respostas que visam garantir a “modelagem” do comportamento. · As relações interpessoais devem ser controladas na escola, porque valoriza-se o trabalho individual, a atenção, a concentração, o esforço e a disciplina como comportamentos desejáveis para garantir a apreensão dos conteúdos. · A função da escola é a preparação moral e intelectual do aluno para assumir seu papel na sociedade. À escola cabe “transmitir a cultura” e “modelar o comportamento”. · Os conteúdos não precisam ter relação com o cotidiano dos alunos ou com as realidades sociais. · Os procedimentos didáticos enfatizam a repetição, a cópia e a memorização de conceitos e o método é a exposição verbal pelo professor. 3 A CONCEPÇÃO MA TERIALIST A E SU A INFL UÊNCIA NO MATERIALIST TERIALISTA SUA INFLUÊNCIA DESENV OL VIMENTO E APRENDIZA GEM ESCOLAR ORD AGEM DESENVOL OLVIMENTO APRENDIZAGEM ESCOLAR:: AB ABORD ORDA HISTÓRICO TURAL HISTÓRICO-- CUL CULTURAL ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ a) Origem filosófica A abordagem Histórico-Cultural tem como fundamento epistemológico da análise da psiqué humana o Materialismo Histórico-Dialético. Psicologia da Educação 54 O materialismo é posição filosófica que considera a matéria como à única realidade oposta ao idealismo platônico, ao idealismo cristão e ao racionalismo cartesiano em relação ao conceito de idéias inatas. O materialismo se opõe à concepção Idealista de mundo, pois essa coloca a natureza e o homem como criação de um ser transcendente e eterno, para o qual determina o papel que os indivíduos devem representar no mundo. O que significa Materialismo Histórico? Por Materialismo Histórico entende-se a concepção filosófica formulada por Marx, na qual procura saber de que modo o ser humano se constitui historicamente: ao produzirse a si mesmo produz história. De outra forma, segundo Bottomore (1988, p. 255), “[...] afirma o primado causal do modo de produção dos homens (e das mulheres) e de reprodução de seu ser natural (físico), ou, de um modo mais geral, do processo de trabalho no desenvolvimento da história humana”. Marx é um dos filósofos modernos que procura exaustivamente explicar a constituição das sociedades, em todas as épocas, por meio de fatos materiais, especialmente econômicos e técnicos. 3.1 Conceitos fundamentais do materialismo histórico ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Vejamos alguns conceitos introduzidos por Marx e que são fundamentais tanto para a psicologia no estudo do psiquismo humano, como para a educação - especialmente em relação à aprendizagem. Marx (1987-1988) introduz um novo conceito: Modos de produção, são para ele, os modos pelos quais cada ser humano se constituiu na e pela história: o ser humano precisou comer, vestir-se, beber, comunicar-se, reproduzir suas condições materiais de vida. Ao fazer isso, desenvolveu em cada contexto o modo de produção de sua existência. Força produtiva significa, na teoria marxista, a posição do ser humano em relação às coisas e às forças da natureza utilizadas para a criação dos bens materiais. Isso significa dizer que o desenvolvimento das forças produtivas e dos instrumentos de trabalho constitui a base da evolução do modo de produção capitalista. Relações de produção, por assim dizer, significam as relações que se estabelecem entre a força de trabalho (o ser humano) e os meios de produção (o proprietário). Das relações de produção dependem as leis econômicas de cada modo de produção, as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores e outros fatores que influem sobre o desenvolvimento das forças produtivas. Psicologia da Educação 55 O que é dialética? A palavra Dialética vem, segundo Chauí (2002), do termo grego ´¹±»µºÄ¹º®, que significa “arte do diálogo”, da contraposição e contradição de ideias que leva a outras ideias, como fazia Sócrates em praça pública. Na perspectiva marxista, a dialética é um método de análise que possibilita refletir os aspectos de uma dada realidade, considerando todos os elementos constitutivos da dinâmica social, essencialmente a contradição: princípio básico do movimento pelo qual os seres existem. Assim, a realidade é contraditória, dinâmica e está em constante transformação. Logo, na perspectiva do materialismo marxista, a contradição supera-se na síntese que é a “verdade” dos momentos superados da tese e da antítese. As leis da dialética mostram a interrelação existente entre todas as coisas - natureza-homem, homem-natureza -, pois o ser humano não se limita a contemplar o mundo em que vive, mas o transforma e, concomitantemente, sofre os efeitos dessas transformações. Por essa razão que Lênin afirmava que a dialética não é só pensamento: é pensamento e realidade a um só tempo. O que é método dialético? Método dialético significa instrumento de análise pelo qual se aborda a realidade, estudando os fenômenos da natureza e da sociedade. Segundo essa concepção, o método só é correto quando reflete as leis objetivas da própria realidade: Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Justamente quando parecem empenhados em revolucionarse a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhe emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentarse nessa linguagem emprestada. (MARX, 1987-1988, p. 07). O conhecimento dessas leis permite estudar cientificamente os fenômenos da natureza e da sociedade, considerando o processo contínuo de mudanças, da transformação de todas as coisas. As leis da dialética são: a) Unidade e Luta dos Contrários: aborda o desenvolvimento da natureza, da sociedade e do pensamento humano. Isso significa que para o materialismo a realidade está em perpétuo movimento - transformação – gerado pelas constantes contradições internas. b) Transformação da quantidade em qualidade: na análise de qualquer fenômeno não se deve separar o aspecto qualitativo do quantitativo, pois ambos são inerentes ao próprio processo de desenvolvimento da natureza e da sociedade. O velho dá lugar ao novo. O novo se tornará velho que, novamente será negado por algo qualitativamente e quantitativamente, ocasionando a síntese – o novo. c) Negação da negação: no processo do desenvolvimento o novo nega o velho que, ao envelhecer, será negado por outro novo que lhe sucede. Nessa direção, a mudança provoca desenvolvimento, algumas vezes mais rápido, outras mais lentas e de formas diferenciadas em cada ser humano. Psicologia da Educação 56 3.2 A concepção de homem na Abordagem Histórico-Cultural ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A sucinta explanação sobre alguns conceitos fundamentais do Materialismo Histórico e Dialético, na perspectiva de Marx, é importante e salutar para entendermos como Vygotsky (18961934) e colaboradores formulam uma nova perspectiva de estudo em relação à dimensão sócio-histórica do psiquismo. De acordo com Fontana (1997, p. 57), [...] tudo o que é especificamente humano e distingue o homem de outras espécies origina-se de sua vida em sociedade. Seus modos de perceber, de representar, de explicar e de atuar sobre o meio, seus sentimentos em relação ao mundo, ao outro e a si mesmo, enfim, seu funcionamento psicológico, vão se constituindo nas suas relações sociais. O ser humano é um ser que pertence à natureza e à sociedade na relação com o outro, isso porque ele nasce e se constitui na relação primeira com seus pais, depois se amplia à medida que adentra outros espaços sociais. Se quisermos conhecer um ser humano concreto, torna-se necessário compreender as condições socioculturais e as relações que se estabelecem em cada tempo e contexto na sua produção material e existencial. Desde a tenra idade, na perspectiva Histórico-Cultural, o ser produz sua existência na interação com o outro, sobretudo, porque é um ser social e historicamente determinado; ao contrário das abordagens maturacionista e behaviorista, que preconizam o desenvolvimento e a aprendizagem ou como decorrência dos fatores biológicos internos (hereditariedade e maturação), ou do determinismo biológico (estimulação ambiental). Tanto em uma como na outra, o social exerce insignificante influência na aprendizagem, sobretudo em ambas pressupõe certa passividade do sujeito em relação à história humana em sociedade. Vygotsky (1998) e Wallon (1975) compartilham da tese segundo a qual o orgânico e o social são interdependentes e complementares na aprendizagem e na constituição do sujeito. Segundo Teixeira (2002), a evolução do psiquismo está além do que foi colocado anteriormente, no processo de humanização. É, desse modo, na atividade prática, nas interações entre o ser humano e a natureza que ocorre a humanização do sujeito, não de forma universal, mas de acordo com as especificidades históricas e das experiências de cada sujeito nas vivências sociais cotidianas em cada contexto econômico, social e cultural. 3.3 Mediação simbólica como canalizadora da atividade consciente ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Até o momento fica claro que, para Vygotsky, só é possível se tornar humano nas relações sociais interpessoais nas quais desenvolve-se a comunicação, o pensamento e a linguagem, o que implica em mecanismos psicológicos complexos tanto na sofisticação quanto na articulação entre os elementos constitutivos dessas funções com os elementos socioculturais nos quais o sujeito está inserido. Os processos elementares dizem respeito a ação de comportamento simples, ao passo que os superiores exigem um grau de complexidade cada vez mais apurada e sofisticada. A mediação simbólica é um conceito introduzido por Vygotsky na análise do funcionamento psicológico. Psicologia da Educação 57 Por mediação entende-se o processo de intervenção entre o homem e o meio de forma intencional e voluntária. Ou seja, a “Mediação [...] é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então de ser direta e passa a ser mediada por elemento” (OLIVEIRA, 1997, p. 26). Nesses termos, a mediação é todo objeto que se interpõe na relação sujeito-objeto no desenvolvimento e na aprendizagem. Há dois tipos de elementos mediadores: instrumentos e signos. O homem ao buscar a manutenção da vida cria o trabalho, instrumentos e signos que o possibilitam agir e pensar em o que e como fazer diante das circunstâncias sócio-históricas com as quais se depara no contexto. A maioria das atividades desenvolvidas pelo ser humano será mediada, outras serão diretas. Exemplo de uma ação direta: a criança põe a mão na chama da vela, e retira após sentir a dor. Em experiências vindouras há grande probabilidade dela não mais por a mão na chama da vela porque aprendeu que o fogo queima. Logo, a experiência foi direta. Ao passo que as experiências mediadas, que são a maioria no processo de aprendizagem, constituem de um elemento interposto entre o sujeito e o objeto de aprendizagem. Um exemplo é a atividade socioeducativa do professor nos ambientes de aprendizagem: ele propicia a mediação entre os conhecimentos científicos e as experiências sócio-históricas dos alunos, os quais pela mediação do professor poderão chegar à síntese. Eis, portanto, na Abordagem Histórico-Cultural, o caráter epistemológico do materialismo históricodialético. O trabalho significa a ação consciente – intencional – do pensar e agir sobre algo, gerando novos planos de ação face às circunstâncias do contexto histórico. Esses planos podem gerar instrumentos, por instrumentos entende-se os artefatos criados pela mente humana para a transformação da natureza mediante às necessidades (machado, arado, cabanas, entre outros), ou seja, é todo objeto que se interpõe entre o sujeito e o mundo (OLIVEIRA, 1997). Por signos entende-se elementos que representam ou expressam outros objetos, eventos ou situações (palavra, símbolo, desenho) de dentro para fora. De acordo com Fontana (1997, p. 59), “enquanto o instrumento está orientado externamente, ou seja, para a modificação do ambiente, o signo é internamente orientado, modificando o funcionamento psicológico do homem”. Outro conceito dessa abordagem, extremamente importante na aprendizagem, diz respeito ao sistema simbólico e o processo de internalização. Por internalização entende-se a apropriação ativa de instrumentos e signos na relação com o outro. Segundo Wallon (1995) e Fontana (1997), a criança desde a mais tenra idade aprende a dar significado as coisas por meio dos ensinamentos dos adultos: “A partir das relações com o outro a criança reconstrói internamente as formas culturais de ação e pensamento, assim como as significações e os usos da palavra que foram com ela compartilhados”(FONTANA, 1997, p. 61). Psicologia da Educação 58 O sistema simbólico é extremamente importante na constituição das representações mentais no processo de aprendizagem da cultura em geral, porque permite que a criança desenvolva, desde cedo, a capacidade de organizar o seu conhecimento sobre o mundo, as coisas e as relações sociais que estabelece com o meio sociocultural. A internalização, assim como os sistemas simbólicos (instrumentos e signos), configura-se como processo fundamental na aprendizagem e no desenvolvimento das funções psíquicas superiores, pois é pelo uso de mediadores (representações mentais) que a criança reconstrói os objetos ausentes do mundo real. Vale dizer, nas palavras de Fontana (1997, p. 61): É na sua relação com o outro que a criança vai se apropriando das significações socialmente construídas. Desse modo, é o grupo social que, por meio da linguagem e das significações, possibilita o acesso a formas culturais de perceber e estruturar a realidade. Do que foi exposto, cabe indagar o que são Funções Psíquicas Superiores para Vygotsky na Abordagem Histórico-Cultural? 3.4 F unções P sicológicas Superiores na aprendizagem social Funções Psicológicas ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Tanto Oliveira como Fontana assinalam que funções psicológicas superiores são representações mentais, altamente complexas, que diferenciam funções primárias (choro, fome, dor...) de funções superiores (atenção voluntária, percepção, memória, pensamento, linguagem, raciocínio...). Com a preocupação de dar um caráter científico às pesquisas sobre o psiquismo humano, Vygotsky procura compreender a gênese, função e estrutura dos processos psicológicos superiores mantendo-se fiel aos referenciais epistemológicos do materialismo histórico-dialético. Por percepção entende-se um processo complexo que vai além de simples sensações fisiológicas. Segundo Oliveira (1997, p. 73), A visão humana, por exemplo, está organizada para perceber luz, que revelará pontos, linhas, cores, movimentos, profundidade; a audição permite a percepção de sons em diferentes timbres, alturas e intensidade; o tato permite perceber pressão, temperatura, textura. Os limites dessas e das demais sensações são definidas pelas características do aparato perceptivo da espécie humana: não escutamos ultra-sons, como o morcego e o golfinho; não percebemos movimentos na água com a sutileza dos peixes; não somos capazes de nos orientar no espaço a partir de informações sobre temperatura, como as cobras. A percepção requer do sujeito discernimento para, gradativamente, distinguir imagens visuais, sons, texturas e dimensões da realidade e nela poder interferir segundo os conhecimentos adquiridos. Toda percepção consiste em percepções categorizadas ao invés de isoladas. Assim, a percepção age e necessita de outras funções para que possa apreender conhecimentos sobre o meio social no qual vive. Isto é, “percebo o objeto como um todo, como uma realidade completa, articulada, e não como um amontoado de informações sensoriais” (OLIVEIRA, 1997, p. 75). Por atenção entende-se domínios neurológicos inatos, porém passa por processos de controle voluntário, a fim de selecionar as impressões e informações advindas do meio. Essa seleção realizada pelo sujeito, o que justifica ser socialmente um processo voluntário, possibilita, segundo Vygotsky, ao bebê aprender a selecionar as impressões do ambiente para, Psicologia da Educação 59 progressivamente, dirigir voluntariamente a atenção a tudo que se passa a seu redor, atribuindo desde a tenra idade significado aos objetos em que interage. Das experiências no campo da psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem diferenciamse as práticas entre Binet, Gesell, Watson e Skinner da perspectiva vygotskyana ao longo das duas primeiras décadas do século XX. A abordagem Histórico-Cultural, propõe uma série de atividades á criança com intuito de desenvolver a atenção voluntária com cartões coloridos: Os cartões coloridos, fornecidos pelo experimentador como auxílio à tarefa, serviram de instrumento para ajudar a criança a, voluntariamente, focalizar sua atenção nos elementos relevantes da tarefa [...]. Como vimos na descrição desse experimento, a ajuda externa para a organização da atenção voluntária é substituída, com a passagem para níveis mais avançados do desenvolvimento individual, por instrumentos internos: os adultos podiam dispensar os cartões coloridos porque já haviam internalizado formas de controle de sua atenção. (VYGOTSKY apud OLIVEIRA, 1997, p. 76). No que diz respeito à memória, essa é um elemento chave na teoria vygotskyana porque atrela em si, entre outras, a diferenciação entre memorial “natural” – não mediada – e memória mediada por signos. A primeira refere-se à experiência não-voluntária, tal como a atenção involuntária. Ao passo que a memória mediada, segundo Oliveira, diz respeito aquela que encontra respaldo na mediação para a construção significativa de conhecimentos de seu entorno social, a fim de interagir e interferir na realidade social. Nos dizeres de Oliveira (1997 p. 77): “A memória mediada permite ao indivíduo controlar seu próprio comportamento, por meio da utilização de instrumentos e signos que provoquem a lembrança do conteúdo a ser recuperado, de forma deliberada”. Uma ação intencional pressupõe certos domínios e habilidades que são aprendidas nas interações sociais do sujeito, em contato com os elementos socioculturais, em relação com o outro (WALLON, 1995), pois vivemos num mundo que está organizado em sistemas de crenças, valores, regras sociais. Logo, necessitamos ser socializados pelo outro que conhece os signos e seus significados. Essa ação intencional do sujeito, baseada na perspectiva Histórico-Cultural, significa, segundo Vygotsky, quatro pontos importantes: controle consciente e voluntário do comportamento, capacidade de planejar, capacidade de pensar sobre objetos ausentes e capacidade de atenção voluntária e de memória. No entanto, essas capacidades não são herdadas e nem inscritas no sujeito; são apropriadas e internalizadas pelo sujeito em consonância com o contexto sociocultural em que vive. Ao contrário de outras abordagens, Vygotsky afirma que a apropriação e a internalização dos elementos sócio-culturais ocorre segundo o modo de produção e a estrutura social a qual pertence o sujeito. Para Rego (1997, p.100), Vygotsky entendia que a compreensão do ser humano dependia do estudo do processo de internalização das formas culturalmente dadas de funcionamento psicológico. Foi a partir dessa premissa que tentou explicar a transformação dos processos psicológicos elementares, relacionados aos fatores biológicos do desenvolvimento, em processos superiores, resultantes da inserção do homem num determinado contexto sócio-histórico. O processo de internalização ocorre de forma particular em cada sujeito, tanto no que diz respeitos às aprendizagens de elementos sócio-culturais, como os conteúdos científicos apresentados na escola. Esse conceito propicia, segundo Vygotsky, a apropriação dos elementos da cultura, de modo geral, e os conteúdos científicos, de modo particular, produzindo significados culturalmente situados com o grupo social. Psicologia da Educação 60 3.5 R elação P ensamento e Linguagem no desenvolvimento e na aprendizagem Relação Pensamento ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Normalmente, acompanhamos a criança desde a mais tenra idade e observamos o modo como ela vai adquirindo a linguagem e o pensamento. Para leigos fica difícil observar que a linguagem e o pensamento ocorrem em momentos diferentes, e mais, quando ambas se intercalam. É compreensível tal confusão, pois o processo da aquisição da linguagem e do pensamento na abordagem HistóricoCultural ocorre no âmbito da espécie humana e no âmbito do indivíduo. Vê-se que de balbucios desconexos vai surgindo, paulatinamente, a fase pré-linguística do Pensamento e a fase pré-intelectual da Linguagem. De acordo com Oliveira (1997, p. 42), [...] pensamento e a linguagem têm origens diferentes e desenvolvem-se segundo trajetórias diferentes e independentes, antes que ocorra a estreita ligação entre esses dois fenômenos. Vygotsky trabalha com o desenvolvimento da espécie humana e com o desenvolvimento do indivíduo humano, buscando compreender a origem e a trajetória desses dois fenômenos. Antes que a criança desenvolva a conexão entre pensamento e linguagem em seu meio social, ela passa por momentos de necessidade de exteriorizar sentimentos, emoções e vontades. Da mesma forma, o adulto precisa decifrar a intencionalidade da criança por meio de referências entre o sentido e o significado dos gestos e balbucios da criança, de forma a orientá-la, por meio da conexão do uso da língua, a nomeação apropriada dos objetos, dos sentimentos e emoções. Para Vygotsky, só foi possível o surgimento da linguagem e do pensamento na medida que: A necessidade de intercâmbio entre homens no processo de trabalho possibilitou o aparecimento da linguagem como veículo de comunicação e apropriação do conhecimento historicamente construído pela espécie humana. Sendo assim, o desenvolvimento de sua consciência não se limita a sua experiência pessoal, pois seu pensamento passa a ser mediado pela linguagem. Diferentemente dos animais, o produto da atividade (o trabalho) humana existe antes da mente do sujeito como imagens psíquicas (conteúdo de sua consciência), que mediatizam a sua realização. (REGO, 1997, 97) Sobre isso, afirma Oliveira (1997, p. 45): Para agir coletivamente e de formas cada vez mais sofisticadas, o grupo humano teve de criar um sistema de comunicação que permitisse troca de informações específicas, e a ação no mundo com base em significados compartilhados pelos vários indivíduos empenhados no projeto coletivo. O surgimento do pensamento verbal e da linguagem como sistema de signos é um momento crucial no desenvolvimento da espécie humana, momento em que o biológico transforma-se no sócio-histórico. O desenvolvimento do pensamento e da linguagem ocorre da seguinte forma nessa abordagem: a)Fase pré-verbal do desenvolvimento do pensamento: é o modo pelo qual o ser humano, desde a tenra idade, se apropria de ferramentas psicológicas para resolver situações nas quais não envolva o raciocínio generalizante e abstrato. Esse modo é denominado por Vygotsky como inteligência prática b)Fase pré-intelectual do desenvolvimento da linguagem: é modo pelo qual o ser humano exterioriza sua situação emocional: dor, fome, desconforto. Por exemplo, o choro é a manifestação de algo para a criança, mesmo que não haja uma ação intencional de comunicação: significados específicos. Psicologia da Educação 61 Oliveira (1997, p. 47), apresenta o seguinte esquema: Quando esses processos se unem exigem cada vez mais um sofisticado processo de comunicação: intencional, voluntária e controlada. Essa capacidade desenvolvida, segundo Vygotsky, tipicamente humana no seio das relações sociais e dos elementos socioculturais do contexto, é que diferencia o ser humano de outro animal. E mais, o aprimoramento das funções psicológicas em níveis cada vez mais complexos em decorrência das relações e interações entre o ser e o meio propicia o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, dando origem à união entre o pensamento verbal e a linguagem racional. 3.6 Relação entre aprendizagem e desenvolvimento e a Zona de Desenvolvimento Pro ximal roximal ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Na análise vygotskyana entre desenvolvimento e aprendizagem fica claro a tese de que é o aprendizado que impulsiona o desenvolvimento, justamente o oposto das duas abordagens anteriores. No entanto, não significa que Vygotsky tenha negligenciado os fatores biológicos na espécie humana, até porque afirma que as funções primárias são vitais para o desenvolvimento das superiores. Vygotsky (1998, p. 110) afirma que “[...] o aprendizado das crianças começa muito antes de elas frequentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia”. Em consonância com Vygotsky, Rego (1998, p. 71) preconiza que “[...] o desenvolvimento pleno do ser humano depende do aprendizado que realiza num determinado grupo cultural, a partir da interação com outros indivíduos da sua espécie”. O aprendizado ocorre à medida que o sujeito interage com o meio social e com os elementos da cultura na qual está inserido. Vygotsky é enfático nos seus postulados: o sujeito e suas interações com os elementos da cultura propiciam o aprendizado e, por consequência, o desenvolvimento. Psicologia da Educação 62 Para Vygotsky, há necessariamente que se combinar aprendizado com nível de desenvolvimento da criança, pois é a forma pela qual se chega ao processo do aprendizado e do desenvolvimento. Segundo Vygotsky, “[...] não podemos limitar-nos meramente à determinação de níveis de desenvolvimento, se o que queremos é descobrir as relações reais entre o processo de desenvolvimento e a capacidade de aprendizado” (1998, p. 111). Nesses termos, Vygotsky identifica dois níveis de desenvolvimento: real e potencial. Por desenvolvimento real entende-se as “[...] conquistas que já estão consolidadas na criança, aquelas funções ou capacidades que ela já aprendeu e domina, pois já consegue utilizar sozinha, sem assistência de alguém mais experiente da cultura” (REGO, 1998, p. 72). Nesse nível ela já consegue realizar determinadas atividades por si mesma, de forma retrospectiva, corresponde ao desenvolvimento real. Desenvolvimento mental retrospectivo significa, na perspectiva Histórico-Cultural, aquilo que a criança é capaz de realizar independentemente e que já se encontra estabelecida na criança ao longo do processo de formação das funções psicológicas superiores. O nível de desenvolvimento real de uma criança, segundo Vygotsky (1998, p. 113), “[...] define funções que já amadureceram, ou seja, os produtos finais do desenvolvimento. Se uma criança pode fazer tal e tal coisa, independentemente, isso significa que as funções para tal e tal coisa já amadureceram nela”. Por desenvolvimento potencial ou proximal entende-se aquelas atividades que a criança ainda não consegue realizar sozinhas porém, poderão ser alcançadas com a mediação do outro, potencializando o processo maturacional para aquela determinada atividade. Ou seja, “A zona do desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário” (VYGOTSKY, 1998, p. 113). Desenvolvimento mental prospectivo significa aquelas funções que ainda não amadureceram, mas com mediação do outro poderão ser alcanças – amadurecidas. Por essa razão, Vygotsky afirma que a zona de desenvolvimento potencial ou proximal possibilita aos profissionais da educação perceber, por intermédio das atividades socioeducativas no cotidiano das aprendizagens, o curso interno do desenvolvimento da criança. Nas palavras de Vygotsky (1997, p. 112), Quando se demonstrou que a capacidade de crianças de iguais níveis de desenvolvimento mental, para aprender sob orientação de um professor, variava enormemente, tornou-se evidente que aquelas crianças não tinham a mesma idade mental, e que o curso subseqüente de seu aprendizado seria, obviamente, diferente. Vygotsky afirma que outras abordagens clássicas sobre o desenvolvimento mental utilizam-se de testes que avaliam aquilo que a criança é capaz de realizar independentemente da ajuda do outro. Já para a abordagem Histórico-Cultural as funções psicológicas superiores se desenvolvem a partir da mediação da criança com os elementos da cultura na interação com o outro: “É, portanto, na relação dialética com o mundo que o sujeito se constitui e se liberta” (REGO, 1997, p. 94). Logo, sujeito e objeto (do conhecimento) se relacionam de modo recíproco e se constituem pelo processo histórico – cultural porque o biológico e social não estão dissociados, exercem influência recíproca na aprendizagem e no desenvolvimento do ser humano, seja na escola seja em qualquer ambiente sociocultural. Psicologia da Educação 63 3.7 Implicações dessa abordagem na prática pedagógica ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Algumas implicações dessa abordagem para a educação: · A peculiaridade dessa abordagem possibilita a análise de questões pontuais relacionadas ao ensino, mais precisamente a interação entre ensino, aprendizagem e desenvolvimento. · Valorização do papel da escola: Vygotsky valoriza o processo educativo considerando todas as variáveis que interferem e influenciam no aprendizado e no desenvolvimento de habilidades de pensamento e linguagem e sua relação com a realidade sócio-histórica. · Reflexão permanente sobre avaliação da função socioeducativa da escola em consonância com o aprendizado e o desenvolvimento do ser humano. · Todo o ensino deve, necessariamente, contemplar a interação entre aprendizagem e desenvolvimento do ser humano dialeticamente contextualizado. Para Vygotsky, o bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento. · Assim como Wallon (1995), Vygotsky preconiza que é insubstituível o outro no processo de construção de conhecimento. Numa conferência de Educação em 2000, na Unochapecó - Campus de São Lourenço do Oeste - SC, a Profª Tizuko M. Kishimoto relatou uma experiência que presenciou em uma escola municipal no Japão, como consultora da ONU. A direção havia mandado fazer as mesas das salas de educação infantil em madeira espessa e bem pesada. Assim, quando havia brincadeiras que necessitassem de espaço as crianças tinham que se reunir em grupo para removê-las. Essa foi a forma que a professora encontrou para diminuir os efeitos do individualismo como consequência do modelo econômico e social vivido no Japão. Logo, se uma criança propusesse uma brincadeira teria que pedir ajuda a outra criança para remover os obstáculos; “[...] o indivíduo se constitui como tal não somente devido aos processos de maturação orgânica, mas, principalmente, através de suas interações sociais, a partir das trocas estabelecidas com seus semelhantes” (REGO, 1997, p.109). · O papel na imitação é essencial à criança, pois ao fazê-la ultrapassa suas próprias limitações, interagindo com o mundo sócio-histórico. · Requer do professor capacidades, conhecimentos e metodologias de ensino que potencializem as zonas de desenvolvimento da criança. Após a leitura desta unidade, vá até o Caderno de Atividades no Ambiente Virtual de Aprendizagem e desenvolva as atividades referentes à Unidade 3. REFERÊNCIAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ensamento Mar xista BOTTOMORE, Tom. Dicionário do P Pensamento Marxista xista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983. BRITTO, Sulami Pereira. 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As Origens do P Pensamento Anotações _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 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_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Psicologia da Educação UNID ADE 4. TEORIAS PSICOGENÉTICAS EM W ALLON E UNIDADE WALLON PIAGET 1 A PSICOGÊNESE DO DESENV OL VIMENTO INF ANTIL EM HENRI DESENVOL OLVIMENTO INFANTIL WALLON ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Muito tempo se passou para que chegássemos onde chegamos, para entendermos que a escola pode ser lugar de sínteses entre a experiência da criança e os saberes produzidos e sistematizados por aqueles que nos antecederam. Outro tanto, para identificarmos que o educando é movido pelo afetivo e pelo cognitivo. Buscar compreender o ser humano, sua consciência, sua mente, suas emoções, seu caráter e sua aprendizagem é algo um tanto complexo, sobretudo na dinâmica da formação da personalidade, pois há muitos fatores endógenos e exógenos que dependem basicamente do contexto cultural e do grupo social a que cada ser está inserido. Por assim dizer, em proposições universalizantes muitas vezes escapa aquilo que há de subjetividade em um grupo e que não se aplica a outro em decorrência da mudança de contexto. 1.1 Influência filosófica na teoria walloniana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Henri Wallon buscou investigar a psicogênese para compreender a evolução da criança, sua formação e transformação. Assim como Vygotsky, Wallon considera que o homem é determinado fisiológica e socialmente, sujeito às disposições internas e às situações do contexto social. Desse modo, toda a investigação da psicogênese da pessoa tem como fundamento epistemológico o Materialismo Histórico e Dialético, pois compreende que o ser humano se constrói na relação com o outro. Wallon preconiza o organismo como condição primeira do pensamento, pois toda a função psíquica supõe um componente orgânico. No entanto, considera que não é condição suficiente, já que o objeto de ação mental vem do contexto social no qual o sujeito está inserido, ou seja, externo. 1.2 P rincípios epistemológicos da psicogênese walloniana Princípios ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Ao estudar o desenvolvimento infantil Wallon busca compreender o processo da construção da pessoa humana, ele parte do materialismo histórico-dialético objetivando explicar, com rigor científico, os fundamentos da Psicologia como ciência, seus aspectos epistemológicos, objetivos e métodos. Por essa preocupação com o rigor de ciência, Wallon fundamenta sua análise e observação a partir de quatro princípios epistemológicos: devir, trama, conflito-contradição e materialidade da realidade. Psicologia da Educação 67 O primeiro princípio, o devir, refere-se à ideia de que para compreender o sujeito é preciso conhecer sua história. Por essa razão, Wallon (1975) preconiza que para compreender o adulto é preciso conhecer a criança e, portanto, para compreender uma função é preciso conhecer a sua gênese. Subjacente a esse princípio do devir reside a fundamentação do método dialético, assegurando que a construção da pessoa ocorre na íntima relação com o contexto sócio-histórico. Nos dizeres de Wallon, só podemos compreender uma pessoa se compreendermos que a sua constituição não ocorre à base de somas; e sim da dialética inerente do próprio processo de constituição entre o ser individual e o ser social. O segundo princípio, a trama, parte do pressuposto de que tudo está relacionado. Nessa perpectiva, toda função deve ser analisada dentro de uma trama de interdependência entre os elementos. Para Wallon, ao estudar uma função do desenvolvimento humano busca-se compreender as funções que estabelecem com esse um jogo de anterioridade, incompatibilidade e, dialeticamente, de paternidade. O fato de uma função ser anterior à outra não assume uma conotação de causalidade, até porque no bojo de sua constituição encontra-se o princípio da contradição. O terceiro princípio é denominado conflito-contradição na constituição da pessoa. Wallon assevera que os conflitos, crises, contradições na trajetória humana são os pontos fecundos para o trabalho e a compreensão da pessoa humana. O quarto princípio, materialidade da realidade, pressupõe que a realidade tem uma existência anterior e exterior à consciência que a conhece. Ou seja, não é produto da mente humana; ela é, antes de tudo, processual, explosiva e requer uma posição epistemológica que se afasta do inatismo e/ou do empirismo positivista. A apreensão da realidade é um esforço contínuo do sujeito com o objeto, no qual o objeto resiste ao sujeito e o obriga a se modificar. Por esses princípios a realidade para Wallon está organizada em níveis: o inorgânico, o orgânico e o consciente-pensante. Fica evidente que o psicológico é uma intersecção entre o biológico e o social que produz novas sínteses. Esse social é constituído de dois níveis:: o interpessoal e o cultural. 1.3 A emoção e o movimento na psicogênese walloniana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Falar em emoção como elemento constitutivo da pessoa na Psicologia do início do século XX não era vista com bons olhos pelo grau de subjetividade inerente ao próprio conceito, uma vez que a psicologia científica procurava consolidar-se como ciência objetiva a partir de métodos empíricos das ciências naturais: observação, experimentação e acúmulo de dados. Contrariando essa posição, Wallon Psicologia da Educação 68 inclui em seus estudos os objetos até então não-tangenciáveis na análise psicológica da pessoa: emoção e movimento. Falar de emoção nas duas primeiras décadas era contrariar a tradição da própria Psicologia. No entanto, Wallon justificava a importância de considerá-la no estudo da pessoa tanto quanto as manifestações da inteligência. Por isso, se justifica falar de uma psicogênese da pessoa em Wallon e de uma psicogenética da inteligência em Piaget. Como elemento intrínseco à pessoa Wallon considera o estudo das emoções pelo seu caráter fundamentalmente social. O comportamento emocional constitui o primeiro modo de comunicação da criança e ponto de partida do psiquismo, de consciência e de ordem social. Por meio da emoção a criança estabelece sua relação com o mundo. É importante ressaltar que emoção não é a mesma coisa que afetivo. O emocional é fugaz e transitório, visível corporalmente (GALVÃO, 1995), a situação afetiva é mais permanente e implica uma carga de atração e repulsão de um objeto de amor e ódio. Wallon compreende que, mesmo tendo uma natureza biológica, a emoção é a forma pela qual a criança mobiliza o outro para atendê-la em seus desejos e necessidades. Outra característica importante da emoção é seu poder de contágio, por meio do qual o contato é estabelecido. Através dos meios de expressão, a criança será parte de contato com o meio ambiente e sua cultura. E quanto ao movimento, que razões teria Wallon para considerar no conjunto da obra da psicogênese da pessoa? Wallon preconiza que, por meio das emoções, é que se estabelecem as primeiras interações entre o cuidador e o bebê. Segundo Galvão (1995, p. 60): O meio das pessoas próximas (mãe, pai ou outro responsável) acolhe e interpreta as reações do bebê, agindo de acordo com o significado que atribui a elas: mudam-no de posição, dão-lhe de mamar, soltam-lhe as roupas. O outro age visando atender às necessidades do recém-nascido, mas também simplesmente para comunicar-se com ele: o adulto sorri, conversa com o bebê, canta para ele. Desenvolve-se, entre o bebê e o adulto que lhe cuida, uma intensa comunicação afetiva, um diálogo baseado em componentes corporais e expressivos. Wallon procurar demonstrar a relação entre emoção e movimento e a contribuição desta nas atividades cognitivas. Para ele, o sistema nervoso tem, entre outras, a função de coordenar todos os movimentos tônicos musculares do corpo. Sendo assim, uma emoção só atinge a exterioridade por meio da manifestação do corpo através da função postural. Isso ocorre da mesma forma com a atividade intelectual: “As variações tônicas refletem o curso do pensamento”. (GALVÃO, 1995, p. 71). 1.4 Os estágios do desenvolvimento infantil na formação da personalidade na teoria de W allon Wallon ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A reflexão acerca do desenvolvimento infantil tem como objetivo explicitar a teoria psicogenética em Henri Wallon, do nascimento aos 14 anos: do estágio impulsivo-emocional ao estágio categorial, a fim de compreender alguns eventos subjacentes à unidade do afetivo e cognitivo na formação da personalidade da criança, procurando ao máximo não cair na tentação da linearidade da formação da personalidade e, muitos menos ainda, em um relativismo psíquico. Assim justificado, a base argumentativa terá como pano de fundo a teoria da construção da pessoa em Wallon. Psicologia da Educação 69 Às vezes, não temos a clareza e a simplicidade de nos perguntar sobre: Como a criança, desde a tenra idade, se torna um ser social? Como ela aprende a ser pelo seu nome? Quem diz a ela quem é ela? Tais questões impulsionaram as pesquisas de Wallon no campo do desenvolvimento infantil. Assim como nos ambientes sociais e do grupo familiar a criança aprende a ser um sujeito social, ganha um nome e por meio dele a sua identidade – subjetivação. Da mesma forma, a subjetivação ocorre nos ambientes de aprendizagens na escola: a criança aprende nas relações conflitivas que estabelece com o meio e o outro e se constitui em sujeito de conhecimentos, mediados pela ação docente educativa, pela cultura e pela ideologia inerentes às classes sociais. Por isso, Wallon frisa constantemente em suas obras o ser imbricado no contexto sociocultural do qual emerge seu psiquismo e constrói, nas relações que permeiam suas ações, sua consciência, sua mente e seu caráter que darão a tonalidade de sua personalidade, não como algo predeterminado, mas em uma trama complexa de signo e significado decorrente da cultura e do contexto político no qual está imersa. Para compreender a psicogênese, (origem do psiquismo e a formação da pessoa enquanto ser biológico) da pessoa, segundo Wallon, necessita-se conhecer a trama que se desenrola por intermédio da história humana, quer no sentido privado, no âmbito das relações no grupo familiar, quer no sentido público, no âmbito da coletividade da cultura. Ao longo de todo o século XIX importantes reflexões sobre a especificidade da infância, especialmente as contribuições de Froebel. Froebel nasceu em 1782 em Oberweibach, faleceu em 1852. Foi o criador dos Jardins de Infância na Alemanha. Em 1837, Froebel abriu o primeiro Jardim de Infância, onde as crianças eram consideradas como plantinhas de um jardim, do qual o professor seria o jardineiro. Nessa época, no campo da infância, surgiram aliadas as novas ciências emergentes: a Psicologia e a Sociologia. Cada qual focava a criança, seu desenvolvimento e sua infância de acordo com seus postulados teóricos. Pode-se dizer que a partir do final desse mesmo século o não-eu (o não-eu na linguagem moderna significa a criança que não é um adulto. Portanto, se é diferente do adulto é vista como algo insignificante diante do mundo adultocêntrico) da criança, paulatinamente, vai cedendo lugar a um eu ontológico, antropológico, psicológico e sociológico. Evidentemente, o postulado sobre o desenvolvimento psíquico e a especificidade da infância está subjacente aos referenciais do paradigma do olhar do adulto em relação ao eu da criança. Esse ser que emerge do artificialismo do adultocentrismo, que instiga e intriga o adulto, já não se constitui mais como um ser meramente imbricado nos moldes de comportamento proclamado pela tradição e desejável pelo adulto; pelo contrário, é um eu que precisa ser estudado, desvendado, compreendido e interpretado em suas manifestações. À medida que a personalidade da criança passa a fazer parte das reflexões nos salões, nas reuniões e na academia a vida psíquica da criança interessa à ciência. Wallon, em 1925, inicia um profundo estudo acerca do desenvolvimento da criança, onde buscou compreender a origem do psiquismo a partir do estudo da criança em seu mundo concreto, a fim de conhecer a gênese da psique em suas múltiplas relações com o meio natural e social. Como instrumento de análise adotou o método dialético (somente o conhecimento das leis permite estudar cientificamente os fenômenos da natureza e da sociedade, considerando o processo contínuo de mudanças, da transformação de todas as coisas. As leis da dialética mostram a inter-relação estreita existente entre todas as coisas, natureza-homem, homem-homem, pois os homens não se limitam a contemplar o mundo em que vivem, mas o transformam e concomitantemente, sofrem os efeitos dessa transformação), pois assevera que: Psicologia da Educação 70 a) é a única maneira de superar as antinomias da compreensão da realidade; b) que as contradições são constitutivas do sujeito e do objeto; c) deve-se considerar a indissociabilidade do biológico e social na formação do eu como pessoa e d) é possível conhecer o desenvolvimento da criança a partir das características que cada estágio apresenta. Para tanto, dividiu os estágios em: impulsivo-emocional (0 a 1 ano); sensório-motor (1 a 3 anos); personalismo (3 a 6 anos) ; categorial (6 a 11 anos) e estágio da adolescência (11 anos em diante). Ressalta Wallon que essa forma de estágios permite captar as características internas e externas da personalidade, porque as mudanças que ocorrem no interior de cada estágio podem proporcionar uma compreensão dos principais períodos de formação da personalidade da criança. Antes de continuar a leitura reflita sobre a indagação do que significa dizer, segundo Wallon, que em cada fase do desenvolvimento infantil há características próprias que a criança apresenta? 1.5 Estágios do desenvolvimento infantil da criança na psicogênese walloniana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ a) Estágio impulsivo-emocional (0 a 1 ano) O marco fundamental do estágio impulsivo-emocional é o sincretismo, (significa que neste estágio a criança não distingue o ser dela do de outra pessoa. Ela percebe o meio de forma global e indistinta), marcado por dependência do bebê à mãe. O bebê comunica-se com o adulto através da afetividade, domínio funcional importante no estudo da psicogênese da pessoa. Até por volta do primeiro ano de vida são intensas as relações afetivas, na interação com o meio e com o adulto pelos sentimentos, paixões e emoções. Por essa dependência em relação ao meio externo e ao adulto é que a mediação do segundo é fundamental para a construção da personalidade, porque é por meio das interações bebêmãe e bebê-meio que surgem e se efetivam as primeiras manifestações psíquicas sobre as quais se edificará a personalidade do indivíduo. A afetividade é o termo utilizado por Wallon para identificar o domínio funcional abrangente e nesse domínio funcional aparecem diferentes manifestações: as primeiras manifestações do bebê em relação ao meio e aos membros da família acontecem basicamente de forma orgânica - bem-estar e mal-estar -, depois ela será gradativamente aprendida até que possa diferenciar, num grau cada vez mais complexo, as emoções, os sentimentos e as paixões. Percebe-se que, nesse particular, além da emoção servir de elo entre o eu-outro, o externo-interno, bebê-mãe, o fisiológico-psíquico e orgânicosocial propicia que ações espontâneas tornem-se intencionais. Afetividade e cognição constituem uma dualidade indissolúvel desde a mais tenra idade, embora sejam interdependentes no domínio funcional na formação da personalidade, especialmente nos dois primeiros anos de vida, em que a afetividade e cognição, implícitas nas reações da criança, apresentam-se misturadas, entrelaçadas e confundidas a todo instante. Isso porque, segundo Wallon (1975), a consciência está em processo inicial de formação, o eu do bebê não se identifica ainda como um eu distinto dos objetos e do outro de seu grupo social. Psicologia da Educação 71 Pense na seguinte indagação: por que Wallon busca como ferramenta de análise o materialismo dialético, como método de abordagem do psiquismo? Wallon assevera que o estudo do desenvolvimento infantil deve ser centrado na criança contextualizada, onde o ritmo no qual se sucedem as etapas do desenvolvimento é descontínuo marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas, provocando, em cada etapa, profundas mudanças nas anteriores. Logo, o estudo do desenvolvimento deve considerar o sujeito como geneticamente social e a criança contextualizada, nas suas relações com o meio. Segundo Galvão (1995, p. 30), A existência do homem, ser indissociavelmente biológico e social, se dá entre as exigências do organismo e as da sociedade, entre os mundos contraditórios da matéria viva e da consciência. O estudo do psiquismo não deve, portanto, desconsiderar nenhum desses fatores, nem tampouco tratá-los como termos independentes; deve ser situado entre o campo das ciências naturais e sociais. Para Wallon, o bebê quando nasce passa a fazer parte de um contexto social, no qual aprenderá a ser sujeito. Nos primeiros dois anos de vida ela aprenderá a dar nomes às coisas através da fala do adulto, pela relação com o outro ela, a criança, constitue sua personalidade, pois: “Os meios onde a criança vive e os que ambiciona são o molde que dá o cunho à sua pessoa. Não se trata de um cunho passivamente suportado. O meio de que depende começa certamente por dirigir as suas condutas e o hábito precede a escolha, mas a escolha pode impor-se quer para resolver discordâncias quer por comparação dos seus próprios meios com outros.” (WALLON, 1975, p. 167). Essa importante dualidade, a qual irá influenciar seu caráter e personalidade, a consciência estará sedimentando o processo de formação da identidade do eu. Wallon afirma que, ao nascer, o bebê apresenta algumas estruturas primitivas que consistem na preparação das condições sensório-motoras (olhar, pegar e andar) e que, a partir dessas, se desenvolvem progressivamente outras cada vez mais complexas. As primeiras ações e reações da criança são constitutivas do domínio funcional primitivo: O recém-nascido no seu comportamento só tem reações descontínuas, esporádicas e sem outro resultado que não seja o de liquidar pelas vias então disponíveis quer tensões de origem orgânica quer as suscitadas pelas excitações exteriores. As gesticulações não têm para ele nenhuma utilidade prática. Elas não lhe serviriam mesmo para modificar uma posição incómoda [sic] ou perigosa. É-lhe indispensável uma assistência de todos os instantes. Ele é um ser cujas reacções [sic] precisam de/ser completadas, compensadas, interpretadas. Ele próprio incapaz de fazer qualquer coisa, é manipulado pelos outros, e é nos movimentos dos outros que as suas primeiras atitudes vão tomar forma. (WALLON, 1975, p. 153). Entretanto, à medida que as ações espontâneas sejam convertidas em intencionais, produzindo sentido à ela, a relação com o adulto e com o meio se torna cada vez mais significativa, pois as Psicologia da Educação 72 experiências nos primeiros anos de vida é, segundo Wallon, um pressuposto básico para o desenvolvimento do processo simbólico da representação e da linguagem, fundamental para compreender as diferenciações em relação a si e ao outro. Portanto, no estágio impulsivo-emocional o eu enquanto identidade subjetivada, descolada do meio e do outro, inexiste no sentido lato atribuído por Wallon. Prevalece a relação afetiva por meio das emoções que representa, progressivamente, um [...] instrumento privilegiado de interação da criança com o meio. Resposta ao seu estado de imperícia, a predominância da afetividade orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, as quais intermediam sua relação com o mundo físico; a exuberância de suas manifestações afetivas é diretamente proporcional a sua inaptidão para agir diretamente sobre a realidade exterior. (GALVÃO, 1995, p. 43). Do conjunto das interações afetivas no estágio impulsivo-emocional resultará, nos estágios subseqüentes, em fusão do afetivo e do cognitivo estabelecendo novos conflitos são desafios na construção da personalidade, mediados pela ação do adulto. b) Estágio sensório-motor e projetivo (1 a 3 anos) No estágio sensório-motor e projetivo, que vai de 1 a 3 anos, predominam as relações cognitivas com o meio (inteligência prática e simbólica). As diferenciações começam a se fazer presentes nas ações da criança, ela procura interferir em seu meio de forma intencional para conhecer o seu meio social. O traço característico são os jogos de alternância nos quais a criança almeja atividades que lhe permitam interagir com o meio através da representação, ora o sujeito passivo ora o ativo. Isso ocorre porque, segundo Bastos (2003, p. 50), [...] as relações da criança com o espaço, com os objetos, com o corpo, com a percepção das coisas e com o jeito de pensar o mundo se alteram significativamente. Se antes precisava da presença dos objetos para saber de sua existência, a criança agora consegue localizá-los e distribuí-los no espaço; se antes ordenavam seu pensamento pelos acontecimentos, agora o elabora mentalmente, pois já dispõe de uma ordem abstrata que sobrepõe à sucessão empírica. Sobre o conceito de alternância a partir da seguinte indagação: o que Wallon quer dizer com jogo de alternância em relação ao eu e o outro? Para Wallon, se uma das características muito comum do estágio anterior é a latência das emoções, sob um forte sincretismo, no sensório-motor e projetivo o marco são as atitudes intencionais, justamente pela ocorrência, progressivamente, de novos eventos. As interações intencionais são extremamente importantes na estruturação inicial da personalidade: os jogos de alternância, a representação simbólica e a linguagem. Por projetiva entende-se que “o pensamento precisa do auxílio dos gestos para exteriorizar, o ato mental ‘projeta-se’ em atos motores” (GALVÃO, 1995, p. 44). De acordo com Bastos (2003, p. 51), [...] operar as necessárias diferenciações em sua experiência real, no sentido de caminhar para uma melhor diferenciação de si e construir sua personalidade, os jogos de alternância são utilizados pela criança como possibilidade de distinguir os dois pólos de uma mesma situação – o passivo e o ativo. Nesses jogos, a repetição de uma mesma ação favorece a alternância de papel de sujeito e objeto – de quem age e de quem sofre a ação – possibilitando, assim, o progressivo conhecimento de si. O jogo de alternância propicia o posicionamento do eu em relação ao outro, no qual a criança vai adquirindo a noção de espaço e do seu próprio corpo. A imitação é um instrumento muito utilizado Psicologia da Educação 73 pela criança, na qual a imitação ao mesmo tempo em que assume o papel do outro e dele vai, progressivamente, num grau cada vez mais complexo, se distanciando, assimilando a gênese da diferenciação. Essa é uma das razões atribuídas por Wallon ao jogo de alternância para processar a construção da personalidade. Já a representação simbólica constitui na teoria walloniana uma importante etapa de preparação do eu na aquisição da representação corporal e da linguagem. Pela representação simbólica a linguagem assume ao mesmo tempo a função de comunicação da criança com o mundo externo e o processo de formação das ideias simbolizadas por meio da fala. As atividades são cada vez mais intencionais e desvinculadas da simbiose afetiva que estabelecera com o adulto no estágio anterior. c) Estágio P ersonalista (3 a 6 anos) Personalista O estágio personalista configura-se como um dos momentos mais importantes para a formação da consciência do eu e sua diferenciação em relação ao mundo externo e ao outro, definindo o retorno da predominância das relações afetivas. Basicamente aos 3 anos ocorre a crise da oposição, na qual o meu é um sintoma da crise e uma das características psíquicas da passagem sincrética a diferenciação personal. Para Wallon (1975, p. 393), A criança só consegue constituir a sua própria personalidade através das suas relações com os outros. A sua personalidade é apenas contrapartida das outras personalidades. Ela não pode atribuir a si própria uma personalidade e manifestá-la se não tiver identificado as personalidades distintas da sua. Enfatiza a importância do grupo familiar na primeira etapa da socialização da criança, pois “[...] é indispensável à criança não só para a sua aprendizagem social, mas também para o desenvolvimento da sua personalidade e para a consciência que pode tomar dela” (WALLON, 1975, p.174). Os eventos que a criança vivencia em seu contexto sociocultural têm como pano de fundo a sua autonomia em relação aos demais, haja vista as variações e oportunidades de diferenciação do seu eu em relação ao outro. Wallon assinala que nesse estágio pelo fato da criança buscar pela sua maior independência, autonomia, diferenciação e enriquecimento do seu eu é muito comum haverem entre as crianças “brigas” por objetos e/ou atenção do adulto. Na verdade, o objeto é apenas um meio para saciar os impulsos do desejo, ou seja, necessidade de tornar meu o teu, Este primeiro desejo de propriedade baseia-se num sentimento de competição. Trata-se de se apropriar do que é reconhecido como pertencendo aos outros. Pela violência, pela astúcia, pela mentira, a criança tenta transformar o teu em meu. Ela apenas está satisfeita na medida em que o rapto é flagrante, isto é, que implica uma diferenciação perfeitamente nítida do meu e do teu. (WALLON, 1975, p. 157). Quando a criança ingressa em centros de educação infantil o leque de interações com outro grupo social aumenta, possibilitando novas experiências sensoriais e psíquicas, completamente diferentes das quais estava habituado na família. Terão outras crianças, educadores e, certamente, uma variedade de brincadeiras e jogos lúdicos, influenciando na personalidade. Nesse estágio, há uma crise de personalidade, segundo Galvão (1995, p. 119), “marcada por um novo movimento de alternância, por um ensimesmamento da criança, para um novo esforço de libertação. Esforço voluntarista, idade negativista do NÃO, do EU, do MEU”. A crise é instaurada em função da necessidade de autoafirmação, de colocar-se diante do outro lhe impondo seu ponto de vista e chamando para si a atenção. Esse momento importante na formação da personalidade, será abordado com maior profundidade mais adiante. Psicologia da Educação 74 Wallon salienta em suas obras, especialmente em “Psicologia e Educação da Infância”, que as crises que ocorrem na formação da personalidade, característica do desenvolvimento infantil do nascimento à adolescência, praticamente foram objeto de pesquisa de muitas teorias da personalidade, especialmente às teorias cognitivistas, dentre elas a perspectiva piagetiana e as empiristas, especialmente as sensualistas de Locke e Condilac. d) Estágio Categorial (6 a 11 anos) No estágio categorial ocorrem avanços significativos na personalidade da criança, ela intensifica as suas relações com o meio, há preponderância do aspecto cognitivo. O plano intelectual será acentuado à medida que a criança intensificar suas relações na escola, pois novas oportunidades emergirão dos conflitos que ela irá passar, tanto em relação a si como em relação ao outro e aos novos ambientes de aprendizagens. A redução do sincretismo do pensamento ocorre basicamente pelo processo de diferenciação e pela função simbólica. A criança já está apta a iniciar a organização do pensamento e enquadrar os dados da realidade em categorias. Enquanto que, no estágio do personalismo, esse mesmo mecanismo contribui para redução do sincretismo da personalidade, no categorial ele propiciará ao domínio afetivo e cognitivo estruturar em categorias, por meio da percepção, os dados da realidade. Para Galvão (1995, p. 84), “Trata-se da capacidade de formar categorias, ou seja, de organizar o real em séries, classes, apoiadas sobre um fundo simbólico estável. É uma função de diferenciação que favorece a objetivação do real”. Isso significa dizer que o amadurecimento da função nervosa permite perceber a diversidade e agrupá-la segundo o objeto e a qualidade desse. Exemplo muito comum na pré-escola é quando uma criança cita um nome, referindo-se a sua mãe, e que, por eventualidade, seja o mesmo nome da mãe de outra criança, essa, imediatamente, fala que é sua mãe. Isso ocorre porque o pensamento dessa criança ainda se encontra sincrético. Com o auxílio da educadora da Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental a criança aprenderá a ajustar o pensamento à realidade, diferenciando o objeto de seu atributo, pois “na gênese do pensamento, o mais importante é explicar a diferenciação interna, e não o acordo entre dois termos distintos” (BASTOS, 2003, p. 71). Wallon assevera que, por intermédio da função simbólica, a criança tem possibilidade de mentalmente operar sobre significações e distribuir os objetos no espaço e no tempo, diferenciando a qualidade e o objeto. Para Bastos, a representação, que está inserida na função simbólica, permite a análise e a síntese, a generalização e a comparação. 1.6 P assagem da inteligência prática a teórica na teoria walloniana Passagem ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ É comum nessa passagem a confusão no pensamento, porque a linguagem ainda está na fase da produção de significados dos signos que se apresentam à mente por intermédio da percepção. A função discriminadora terá um papel fundamental na elaboração do pensamento discursivo: ajudará a mente, progressivamente, a evitar a contaminação e desvios de signos. A criança passará por muitas dificuldades até que possa transpor esse nível de confusão, pois “ao interagir com o conhecimento formal, o pensamento se apropria das diferenciações já feitas pela cultura, as quais contribuem para a realização das diferenciações que devem ser realizadas pelo próprio indivíduo” (GALVÃO, 1995, p. 86). Logo, a passagem se dará à medida que a criança desenvolve aquilo que Wallon chama de função integradora, que é a capacidade de diferenciação e de integração do espaço e do tempo, e mais, pelas diversidades de relações que estabelecem nos ambientes sociais. Segundo Bastos (2003, p. 73), Psicologia da Educação 75 A passagem de uma para a outra se dá pela noção de espaço, independentemente dos movimentos e do próprio corpo. Enquanto a inteligência discursiva opera no plano da representação e dos símbolos, a inteligência prática opera no plano sensório-motor, mas ambas pressupõem a intuição de relação que tem como condição o espaço. Na verdade, muitos equívocos ocorrem no cotidiano, seja no grupo familiar, seja em instituições socioeducativas, em relação à inteligência, advindo mais de pré-juízos dos adultos do que propriamente pela sua natureza na relação entre pensamento e linguagem, consciência e mente, signo e significado. Portanto, “a função da inteligência consiste na explicação da realidade, e explicar, nesta teoria, é determinar as condições de existência” (BASTOS, 2003, p. 74). Entretanto, assinala Galvão (1995, p. 87) que o sincretismo proporciona aspectos positivos ao pensamento racional, porque “[...] ao misturar e confundir idéias, possibilita o surgimento de relações inéditas. Necessário ao ato criador, o sincretismo é essencial à invenção verdadeiramente nova”. A análise e exploração dos fatores do meio e do social na educação da criança em cada estágio permitem ao adulto, especialmente aos profissionais vinculados à formação humana e social, compreender as ações e reações da criança em seu contexto concreto, seja na família, seja na escola maternal, nome atribuído por Wallon da instituição responsável pelo processo de individuação por meio da coletividade, e outros ambientes coletivizados. Uma riqueza da teorização walloniana é justamente o tratamento, o cuidado e a ênfase que atribui aos aspectos do meio físico e social na formação da personalidade: “O meio começa por ser, para todos os seres vivos, um meio físico. Mas o que caracteriza a espécie humana é o facto de ela ter substituído ou sobreposto ao meio físico um meio social” (WALLON, 1975, p. 203). 1.7 EUOUTRO EU-OUTRO OUTRO:: conflito necessário na formação da personalidade da criança nos ambientes socioeducativos ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Diferentemente das abordagens inatista e empirista, Wallon analisa a criança e o psiquismo a partir do contexto no qual ela está inserida e imbricada, considerando as emoções, a afetividade, a motricidade e a inteligência como um todo complexo na formação da personalidade. A passagem dos estágios de desenvolvimento não se dá linearmente, por ampliação ou justaposição, mas por reformulação, instalando-se no momento da passagem de uma etapa a outra crises e conflitos que afetam a conduta da criança. Ao contrário do que se pensa no senso comum os elementos crise/conflito são extremamente necessários na formação da personalidade para Wallon, pois congrega em si uma dinâmica entre o eu e o outro, para o qual o eu aprende e apreende-se por meio da posição e oposição do outro em relação ao seu eu. Algumas questões pontuais emergem da leitura da teoria da personalidade de Wallon tais como: O que ocorre com a criança aos três anos e que será extremamente importante à personalidade nos estágios posteriores? Existem razões de ordem emotiva quando as crianças brigam tanto com outra criança por algum objeto e depois largam? Por que em um dado momento elas chamam pelo seu nome, em outro colocam o pronome pessoal eu e possessivo meu-teu? O que de fato representa o outro para o eu? Psicologia da Educação 76 Alguns conceitos são chave na teoria walloniana, eles dizem respeito à crise da personalidade que ocorre no estágio do personalismo, especialmente aos três anos de idade, e terá desdobramentos em estágios posteriores. Dentre eles: diferenciação, oposição, sedução, imitação. A diferenciação é um elemento chave para compreender a crise e o conflito entre o eu e o outro na teoria walloniana. O próprio termo diferenciação quer dizer: diferenciar uma coisa da outra na mesma categoria e, assim, em categorias diferentes. Nos primeiros anos de vida a criança está imersa em um mundo de indiferenciação, na vida psíquica predomina a simbiose afetiva, na qual, progressivamente, irá descobrir-se conhecendo a si em oposição ao meio – inclusive o outro. O contínuo exercício de apreender seu corpo propicia à criança conhecer seu eu corporal, fundamental para adquirir a consciência de si. Ao observar as situações mais comuns na vida de um bebê percebe-se que é comum nessa fase: gesticular os braços, tentar pegar as mãos, chorar, gritar ao morder as mãos. Isso ilustra a indiferenciação que o bebê tem de seu próprio eu corporal. O choro é seu principal artifício de comunicação com o adulto. À medida que vai apreendendo e conhecendo o seu eu corporal por meio da interação com objetos e com seu próprio corpo vai adquirindo, em uma evolução progressiva e complexa, consciência de si. Nota-se como um bebê interage com o mundo externo – mãos ou pés -, lançando-se e projetandose, interagindo e conhecendo, estabelecendo relações entre os movimentos e as sensações. Para Galvão (1995, p. 51), É pela interação com os objetos e com seu próprio corpo – em atitudes como colocar o dedo nas orelhas, pegar os pés, segurar uma mão com a outra – que a criança estabelece relações entre seus movimentos e suas sensações e experimentam, sistematicamente, a diferença de sensibilidade existente entre o que pertence ao mundo exterior e o que pertence ao seu próprio corpo. Por essas experiências torna-se capaz de reconhecer, no plano das sensações, os limites de seu corpo, isto é, constrói-se o recorte corporal. Por volta do primeiro ano de vida, segundo Wallon, a criança começa a diferenciar o espaço objetivo e subjetivo que culminará com a integração: a criança sente seu próprio corpo e percebe sua imagem como é vista pelo outro. No conceito oposição, mesmo sendo antagônico, o conflito Eu e o Outro se completa na integração entre o Eu corporal e Eu psíquico por intermédio das experiências advindas do meio social. A aquisição da consciência de si é, sobretudo, do coletivo para o individual vice-versa; ao contrário dos postulados de Piaget, Wallon (1975, p. 149) surpreende quando afirma que: Em Psicologia é corrente supor-se que o sujeito deve tomar consciência do seu “eu” antes de poder imaginar o dos outros, que é conhecido por intuição ou experiência directa e o outro por simples analogia, que constituem dois objectos inicialmente distintos e que pode haver quando muito projecção do primeiro no segundo. Assim concebendo, Wallon advoga que a construção do eu advém da relação da criança com o meio e consigo mesma, das conquistas, dos conflitos e das crises as quais ela é submetida ao longo dos estágios do desenvolvimento. Como já foi afirmado em outro momento, é importante o adulto, e o profissional da educação, saber que a crise e o conflito de oposição são extremamente necessários à formação do eu psíquico. Na fase da oposição o que está em jogo não é só a posse do objeto do outro, mas também a autoafirmação, como uma necessidade de identificar-se e subjetivar-se na disputa. De acordo com Bastos (2003, p. 66), [...] a criança já reconhece o direito dos outros, mas, na partilha, procura mostrar-se superior. Ela aprende também como se portar na frente do outro, como simular uma Psicologia da Educação 77 coisa para alcançar outra, começando a ser capaz de simulação, por exemplo, quando oferece seus brinquedos como estratégia para se apossar dos do outro. Assim, é fundamental que a criança se conheça e firme a sua imagem corporal concomitante a do objeto, para depois firmar-se como sujeito subjetivado e objetivado, e desse para a construção do eu psíquico. A partir da fase da oposição vem a da sedução (idade da graça), na qual procurará seduzir o outro para ser admirada. Bastos (2003) assevera que a criança se revestirá de graça, leveza e exuberância, esperando do outro aprovação e admiração, ela mesma, pela admiração do outro, aprenderá a admirar-se. Essa fase é uma mais positiva da personalidade: “Ao mesmo tempo em que se afirma perante o outro, se opõe a ele e mostra um claro desejo de apego às pessoas que a cercam e com as quais passa a se identificar”(BASTOS, 2003, p. 66). Do conflito gerado pela crise da personalidade nasce o ciúme que, segundo Wallon (1975, p. 211), é um [...] estado ainda mal diferenciado da sensibilidade. Consiste ao mesmo tempo numa espécie de alienação de si frente ao rival e na pretensão de substituir-se a ele. [...]. É a impossibilidade de atribuir aos outros o que pertence aos outros e a ela própria o que lhe pertence. Por essa via, a criança busca a admiração do outro para ela mesma sentir-se admirada, prestigiada e amada. No poder da admiração ela admira a si própria: eu corporal e eu psíquico. Nessa atividade de conhecimento, ou seja, consciência de si, reside o método dialético walloniano, no conflito que se instaura na personalidade da criança: ao negar o outro o eu precisa de sua existência e aprovação para conhecer-se a si mesma. O conceito de imitação na teoria walloniana representa o terceiro momento do estágio do personalismo, no qual a imitação de personagens significa a representação da vontade de apropriação das qualidades do outro. Nos dizeres de Bastos (2003, p. 66) “ela não se basta mais com suas próprias qualidades e passa a cobiçar as dos outros, querendo-os como modelos”. Os conflitos interpessoais impõem, de forma alternada, a expulsão e incorporação do outro, necessária à formação do eu. Nos cursos de licenciatura, especialmente em Pedagogia, é constante a seguinte pergunta: Como diferenciar em uma briga esse movimento alternado de oposição, sedução e imitação de forma que sua ação não acirre sentimentos de rivalidade, ciúme, ansiedade e frustração? Para Wallon, cabe ao adulto e ao profissional da educação observar o que ocorre em uma disputa, ouvir o que os envolvidos dizem a respeito para saber e poder intervir de forma que propicie o menor prejuízo possível. Quanto mais o adulto e o profissional compreendem sobre a formação da personalidade terão, embora isso não assegure resultados, como uma receita, ferramentas psicopedagógicas para contribuir no conflito, proporcionando desenvolvimento mental, da consciência e da personalidade. O conflito desencadeado pela crise personalista é fundamental à psicogênese walloniana, o ser aprende a propriedade de algo pela comparação dual: sabe-se que é noite pela ausência da luz (dianoite), sabe-se que é amargo pela ausência do doce (doce-amargo), sabe-se que eu sou eu porque aprendi que eu não sou o outro (Eu-Outro), entre outras inúmeras dualidades existentes no meio orgânico e social. Psicologia da Educação 78 Um fato que chama atenção no cotidiano, e sobre o qual muito pouco se pergunta: por que em um dado momento às crianças chamam pelo seu nome, em outro colocam o pronome pessoal eu e possessivo meu-teu? Em Wallon o grande marco do estágio personalista na vida da criança é quando ela se identifica ao usar o pronome pessoal eu e os possessivos meu-teu. Isso representa não só o domínio da articulação entre pensamento e linguagem, mas, concomitante o personológico. Quando a criança diz: “Ana vai passear”, significa que ela ainda não construiu a consciência de si. Ao passo que, se ela diz: “eu vou passear”, significa que a posse do pronome é uma das características da consciência de si, do eu personal diferente do outro. O meio e o outro já não se configuram à consciência como sincrético, preso a um emaranhado de signos indiferenciáveis. As relações que estabelece em seu meio passam a ter uma variedade de significados articulando interno-externo, afeto-cognição, sentimento-emoção. Portanto, a consciência corporal é a condição fundamental para o início da consciência de si. Na teoria walloniana da psicogênese, as dimensões afetiva, cognitiva, motora e social se articulam e se entrelaçam nas aprendizagens socioculturais e escolares, mantém uma certa unidade para que o movimento de alternância possa dinamizar a construção do eu em cada momento, em cada nova variedade de relações que se apresenta à criança e em cada grau dos estágios do desenvolvimento a fim de que ocorra a evolução em níveis mais complexos. A natureza do conflito eu-outro é a busca da autoafirmação e sua autonomia personológica, permeada pela dinâmica da alternância do sincrético e da consciência, é o espaço da ausência e do conteúdo mental, é a construção do sujeito no tempo e no espaço contextualizado em suas ínfimas significações socioculturais, do qual não há predominância entre interno e externo, mas uma dinâmica necessariamente conflitiva. O conflito eu-outro, que permeia a crise no estágio personalista, é propedêutico a muitas funções psíquicas em estágios ulteriores. Wallon advoga que o conflito é o meio para a busca da autonomia. Se, por ventura, uma criança for tolhida em demasia na busca de autonomia do seu eu e fica muito presa à tutela do adulto, especialmente no grupo familiar, poderá tornar-se excessivamente dependente em relação à aprovação do outro, quer na infância e adolescência, quer na fase adulta. Daí resulta o fundamento de se conhecer e compreender a gênese dos conflitos que a criança passa para que tanto o adulto como o profissional das humanidades, incluso o da educação, possam ter elementos para intervir em no sentido de contribuir na formação da personalidade da criança/educando. Para Wallon (1975, p. 211-212), [...] todos os períodos por que passa a criança é preciso saber preparar o período seguinte. [...] para evitar as crises difíceis pelas quais a maturação da criança, do seu ser psicológico, a pode fazer passar colocando-a perante novas situações às quais já não se adapta como anteriormente. Portanto, a construção da pessoa em Wallon é um processo dinâmico, conflitivo e contraditório ao longo da existência humana. Na escola, a criança e o adolescente podem ter a oportunidade de ampliar o processo de subjetivação à media que estabelecem relações quantitativas e qualitativas com o outro. Psicologia da Educação 79 2 A TEORIA PSICOGENÉTICA EM JEAN PIAGET ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Jean Piaget (1896-1980) inicia os estudos da psicogênese do conhecimento na criança a partir do problema filosófico “como se produz conhecimento científico”, para compreender como se estabelece à continuidade entre o desenvolvimento biológico e o desenvolvimento psicológico. Para tanto, utilizouse da observação sistemática na qual as crianças resolviam situações problemas introduzidas por Piaget, um método que denominou de “método clínico”. Queria compreender que tanto as ações como os processos de pensamento implicavam uma organização lógica. 2.1 Origem F ilosófica da psicogênese do conhecimento Filosófica ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Com o intuito de responder à questão da origem e desenvolvimento do conhecimento, Piaget busca nas ciências naturais, na filosofia e na biologia, suporte teórico-metodológico para fundamentar sua concepção epistemológica, especialmente as áreas que mais se aproximavam de seu objeto e objetivo de estudo. Além da base epistemológica da biologia, Piaget recebe influências do: - Estruturalismo: para fundamentar a concepção de desenvolvimento cognitivo Piaget busca no método estruturalista a noção de estrutura dos processos cognitivos. Segundo Piaget, à medida que se interiorizam ações, novas estruturas cognitivas se formam em níveis cada vez mais complexos, implicando uma organização lógica do pensamento na construção do conhecimento. - Da filosofia de Emmanuel Kant (1724 – 1804) Piaget incorpora o conceito de a priori, conhecimento intuído pela razão e, também, na interação entre sujeito e objeto. Ou seja, “Apesar de Piaget enfatizar constantemente, em sua teoria, o importante papel desempenhado pela interação entre sujeito e objeto na construção do conhecimento, é sabido que ele admite a existência de estratégias (condições) inatas – próprias do sujeito – por meio das quais tem início o processo de interação e conseqüentemente o desenvolvimento da estrutura cognitiva.” (PALANGANA, 1998, p. 39). - Da Fenomenologia de Edmund Husserl (1859-1938) Piaget empresta a noção de intencionalidade, ou seja, na construção de conhecimento não há sobreposição do sujeito em relação ao objeto de conhecimento, como preconiza o idealismo, nem tampouco a preponderância do objeto de conhecimento sobre o sujeito que conhece. Para Piaget, segundo Palangana (1998, p. 47): [...] a interação entre sujeito e objeto pode ser analisada sobre dois pontos de vista partindo-se da história, quer dizer, dos fatos tal como eles se apresentam, sem no entanto, desejar transcendê-los de imediato; o que significa entender essa interação como um momento da história (do indivíduo ou das idéias), buscando retraçar as fases da interação e, conseqüentemente, sua psicogênese. Do Evolucionismo de Henri Bergson (1859-1941) Piaget incorpora a noção da intuição bergsoniana “[...] como produto de uma inteligência refinada cujo modelo, infinitamente elaborado, é construído por agrupamentos, dissociações, deduções e abstrações, mas tendo sempre como base a experiência, o fato empírico (PALANGANA, 1998, p. 57). Essas são algumas das influências subjacentes à teoria psicogenética de Piaget, que vai das ciências naturais, a filosofia e à biologia, que dão consistência a sua teoria epistemológica. Ou seja, por Epistemologia entende-se a teoria desenvolvida por Piaget segundo a qual o conhecimento ocorre na interação entre sujeito que conhece e objeto a ser conhecido, construindo estruturas cognitivas Psicologia da Educação 80 nessa relação e interação. Por Genética entende-se as condições necessárias para que a criança chegue na fase adulta com conhecimentos possíveis a ela. Portanto, para Piaget, a estrutura de maturação do indivíduo sofre um processo genético e a gênese depende de uma estrutura de maturação. Ou seja, o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo, se puder agir sobre o objeto de conhecimento para inseri-lo num sistema de relações. 2.2 P rocessos do desenvolvimento cognitivo em P iaget Processos Piaget ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Piaget faz uma análise sistemática da gênese das noções básicas do pensamento racional (espaço, tempo, causalidade, movimento, lógica das classes, lógica das relações, entre outras), abordando, prioritariamente, a questão: como se dá o desenvolvimento e aprendizagem. Na abordagem piagetiana, a criança somente conhece a realidade atuando sobre ela, por isso ele estabelece intercâmbio com o meio pelos esquemas de ação e pelos esquemas de representação. A partir de resultados de suas pesquisas biológicas, Piaget concluiu que todas as espécies herdam duas tendências básicas: organização e adaptação. É a assimilação e a acomodação que possibilitam a nossa adaptação ao meio, aprendendo, assim, a interagir com ele. Por organização entende-se combinação, ordenação, recombinação, reordenação de comportamentos e pensamentos em sistemas coerentes. Ou seja, “[...], habilidade de integrar estruturas físicas e psicológicas em sistemas coerentes” (PULASKI, 1986, p. 23). Por adaptação entende-se a tendência das pessoas, bem como os organismos de modo geral, de se adaptarem ao seu meio ambiente: “habilidade de adaptar-se a novas situações através da autoregulação é o elo comum entre todos os seres vivos e a base da teoria biológica do conhecimento de Piaget” (PULASKI, 1986, p. 22). A adaptação engloba dois processos básicos: assimilação e acomodação. O primeiro, é o processo de entrada: sensações, alimentos e experiências. O indivíduo assimila as coisas a partir do momento em que age sobre o meio, incorporando elementos pertencentes a ele. Segundo Pulaski (1986, p. 23), a assimilação: [...] é o processo pelo qual as coisas, as pessoas, idéias, costumes e preferências são incorporadas à atividade de um indivíduo. Por exemplo, ouvindo as pessoas falarem ao seu redor, a criança aprende as inflexões, a construção das frases e o sentido da linguagem, muito antes de ser, ela própria, capaz de falar. Está assimilando tudo o que ouve e gradualmente transformando-o em algo seu. O segundo, a acomodação, é realizada quando há modificações no nosso pensamento no processo de assimilação, que incorporados ao que ele já sabe. Por essa razão, “este processo de modificação que se opera nas estruturas de pensamento do indivíduo é chamado por Piaget de acomodação” (FONTANA, 1997, p. 46). Logo, para Piaget, a inteligência é o mecanismo de adaptação do organismo a uma situação nova e, como tal, implica a construção contínua de novas estruturas. Essa adaptação refere-se ao meio exterior. Podemos, portanto, pensar que a inteligência é “[...] É assimilação por acomodação, pois os novos dados incorporados acabam por produzir modificações no funcionamento cognitivo da pessoa” (FONTANA, 1997, p. 46). Psicologia da Educação 81 2.3 Noção de esquema na teoria piagetiana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Os indivíduos, segundo Piaget, se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio em que vivem. O comportamento de cada um de nós é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Por esquema, na teoria piagetiana, entende-se o momento no qual damos um significado a nossa ação frente a um objeto. Se aplicarmos um esquema específico a uma determinada situação e esse funcionar, então existe tal equilíbrio, mas se o esquema não produzir um resultado satisfatório, então existe o desequilíbrio. Por isso, estamos em constante processo de assimilação e acomodação e, com isso, nosso pensamento muda e progride continuamente. Para Piaget, entende-se por equilibração ato de autorregular uma ação, visando superar dificuldades, compensar resistência e adaptar-se ao meio. Fica evidente que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, o bebê ao nascer já traz consigo uma série de estruturas biológicas sobre as quais desenvolverão outras, a partir da sua relação interativa com o mundo. Nesses termos, a ação da criança se efetivará à medida que ela puder agir sobre o objeto de conhecimento para inseri-lo num sistema de relações. As estruturas herdadas são limitativas, porém, à medida que a criança se relaciona com o mundo que o cerca a atividade da razão se expande, criando novas estruturas cognitivas na interação com o mundo e com os objetos, conhecendo, distinguindo, classificando e diferenciando as dimensões qualitativas e quantitativas dos objetos com que se relaciona. As interações permitem que as estruturas se ampliem em diferentes níveis a partir das intervenções do sujeito sobre o objeto. Por exemplo, uma criança pequena não diferencia os diferentes tipos de cães até que sua atividade racional não haja sobre as diferentes raças de cães: tamanho, forma, cor, pelagem, manso, bravo, entre outras. Segundo Piaget (2002, p. 21) “a assimilação apropriada dos conceitos em seu estado final envolve essencialmente os objetos a eles subordinados e suas características”. Isso significa que ao interagir com essa categoria animal e exercitando o raciocínio, assimilando novos conceitos e ideias, a atividade desafiadora irá propiciar novos esquemas, sobretudo, de modo peculiar em cada indivíduo, que, além de percebê-las interage agindo sobre o objeto, culminando em novas estruturas cognitivas. Por esquema entende-se, na teoria piagetiana, um tipo de conduta estruturada na qual o indivíduo, ao agir sobre o objeto percebe-o e apropria-se do seu conceito. A assimilação permitirá nova organização entre o esquema já conhecido, o modificando. A atividade só será efetivada, ou seja, interiorizada, à medida que o objeto percebido, e o conceito desse, produza no sujeito, por vontade do sujeito, um significado. Nesse particular, Fontana (1997, p. 47) afirma que, É por meio dos esquemas de ação que a criança começa a conhecer a realidade, assimilando-a e atribuindo-lhe significações. Quando pega na mamadeira, ela a relaciona a seu esquema ‘pegar’ e atribui-lhe o sentido de um objeto ‘que se pega’. Mas a criança também aplica à mamadeira o esquema ‘sugar’. Essas assimilações provocam transformações nos esquemas ‘pegar’ e sugar, à medida que elas são acomodadas ao objeto mamadeiras. Os esquemas ‘pegar’ e ‘sugar’ acabam então por se coordenar. Nessa direção, na teoria piagetiana, os esquemas têm a função de coordenar, atuar e incorporar o objeto “para pegar”, “para sugar”, “para pegar e sugar”, entre outros, para que a criança possa realizar atividade assimiladora, organizando e acomodando os diferentes significados para interiorizar, o que vai propiciar o surgimento de novos esquemas mediante processo de acomodação: origem do pensamento. Isso implica dizer que a ação da criança sobre os objetos passa a constituir-se, juntamente com a maturação biológica, os fatores essenciais na estruturação do pensamento (PALANGANA, Psicologia da Educação 82 1998, p. 16). Dessa forma, a criança constrói uma representação simbólica da realidade ao mesmo tempo em que age sobre ela. 2.4 Noção de equilibração na teoria piagetiana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Outro processo do desenvolvimento cognitivo, descrito por Piaget, refere-se à noção de equilibração. Por equilibração entende-se o ato de autorregular uma ação, com finalidade de adaptarse ao meio. A equilibração depende de outros dois fatores essenciais para o desenvolvimento cognitivo: a maturação e interação social.. O primeiro, refere-se às estruturas primárias pelas quais, por meio das ações da criança, agem sobre o meio, dando origem a outras estruturas diferenciadas e em níveis cada vez mais complexas, possibilitando o desenvolvimento cognitivo e da inteligência. O segundo refere-se às relações e as trocas de ideias entre criança-adulto, criança-criança e criança em seu entorno social, questionando tudo aquilo que entra em conflito e/ou contradição com seus pensamentos. Por essa razão, ao questionar o meio imediato a criança aprimorará a função do pensamento lógicomatemático. Isso implica dizer que, segundo Fontana (1998, p. 47- 48), [...] a equilibração é uma propriedade intrínseca e constitutiva da vida mental. Por meio dela é que se mantém um estado de equilíbrio ou adaptação em relação ao meio. Toda vez que, em nossa relação com o meio, surgem conflitos, contradições e outros tipos de dificuldades, nossa capacidade de auto-regulação ou equilibração entra em ação, no sentido de superá-los. Desse modo, a inteligência ocupa um papel central na teoria piagetiana uma vez que ele preconiza que nos processos psíquicos existe uma continuidade entre os processos superiores e a organização biológica. Nessa perspectiva, o que se pode perceber é uma estruturação cognitiva progressiva subjacente às ações da criança, traduzida em classificações ou seriações empíricas. Quando a criança começa a coordenar seus esquemas, organizando suas ações no espaço e no tempo, está surgindo o que Piaget chama de ‘lógica das ações’, quer dizer, as noções de causalidade, constância de objeto, velocidade, conservação, relatividade e outras, donde deriva a construção do real. Esse funcionamento, que implica a capacidade de estabelecer relações de inclusão, de ordem, de correspondência, etc, permite à criança construir capacidade lógica na medida em que atribui significados ao real, primeiramente no plano concreto e, em seguida, no plano abstrato. Daí que a organização funcional das estruturas mentais não se transmite hereditariamente: é um mecanismo que se desenvolve graças à ação do indivíduo sobre o meio e das trocas decorrentes desta interação. (PALANGANA, 2002, p. 21 - 22). O organismo é essencialmente ativo e é através de sua atividade que constrói suas próprias estruturas (padrões de ação física e mental intrínsecos a atos específicos de inteligência e correspondem a estágios do desenvolvimento infantil), tanto as biológicas como as mentais. A construção da inteligência dá-se, portanto, em etapas sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras. A isso Piaget chamou de “construtivismo sequencial”. O desenvolvimento cognitivo pode ser representado da seguinte forma: Assimilação → acomodação → esquema → equilibração = maneiras de agir e pensar cada vez mais complexas! Assim, o desenvolvimento e a aprendizagem em Piaget pressupõem que o indivíduo só recebe um determinado conhecimento se estiver preparado para recebê-lo. Ou seja, se na interação puder agir sobre o objeto de conhecimento para inseri-lo num sistema de relações. Quanto mais complexa for esta interação, mais inteligente será o indivíduo. Psicologia da Educação 83 2.5 Estágios do desenvolvimento cognitivo na teoria piagetiana ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O desenvolvimento do indivíduo inicia-se no período intrauterino e vai até aos 15 ou 16 anos. Piaget diz que a embriologia humana evolui também após o nascimento, criando estruturas cada vez mais complexas. Os indivíduos, segundo Piaget, se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos oferecidos pelo meio em que vivem. O comportamento de cada um de nós é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Os estágios são caracterizados pela nova forma de organização mental da criança. Descreveremos algumas características apontadas por Piaget em cada estágio, sem, contudo, pretender universalizálos: sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório. É importante frisar que, em cada estágio do desenvolvimento cognitivo, a centralidade do conceito de atividade construtiva pressupõe a interação entre sujeito e objeto na construção de conhecimentos. Segundo Palangana (2002, p. 23 – 24): Cada período define um momento do desenvolvimento como um todo, ao longo do qual a criança constrói estruturas cognitivas. Um novo estágio se define pelas evidências, no comportamento, de que a criança dispõe de novos esquemas, contendo prioridades funcionais diferentes daquelas observadas nos esquemas anteriores. Diante disso, indaga-se: por que é essencial o professor conhecer os estágios do desenvolvimento e aprendizagem em Piaget? A partir dos modelos biológicos e de pressupostos filosóficos (o Apriorismo kantiano, o Estruturalismo, a Fenomenologia de Husserl e o Intucionismo de Bergson) Piaget buscou explicar a gênese do desenvolvimento cognitivo da criança. No desenvolvimento e na aprendizagem reiterou a necessidade de considerar as quatro etapas do desenvolvimento cognitivo como ferramenta epistemológica para planejar ações educativas: É baseado nelas que o professor saberá qual(is) são as atividade(s) mais adequada (s) para cada idade. -Motor - (0 a 2 anos) a) P eríodo Sensório Período Sensório-Motor Tal como Wallon (1975), Piaget afirma que ao nascer a criança passa por um período sincrético, no qual ela, a criança, não tem ainda a possibilidade de diferenciar-se do ambiente ao qual está imerso. Gradativamente, seus reflexos inatos, não intencionais, passam a interagir com o ambiente, aprimorando o processo de esquemas primários, o que leva a pequenas alterações de acordo com os estímulos do meio. Entretanto, mesmo não se caracterizando com um ato intencional, pois depende de uma rede complexa de desejos, vontades e necessidades de interagir, a ação da criança não é passiva na relação com os objetos estimuladores. A criança explora o meio físico através de seus esquemas motores. O pensamento da criança envolve apenas ver, ouvir, tocar, mover-se, provar e assim por diante. Exemplo disso é a ação da mãe ao amamentar o bebê recém nascido, na qual ela leva o bebê ao seio para alimentá-lo. Por ainda não ter consciência de si e da intencionalidade, que são fatores de alta complexidade, o bebê age pelos reflexos inatos: sugar. Os reflexos primários, segundo Piaget, irão se transformar em esquemas de ação à medida que o bebê adaptar-se a uma posição melhor para o melhor ângulo de encaixe da boca no bico do seio (FARIA, 2002). O aprendizado parece simples, mas encontrar a melhor posição da cabeça em relação à anatomia do seio e do bico é uma tarefa na qual o bebê aprende conforme age sobre o objeto. O mesmo pode ser dito em relação às mãos e aos olhos. Nesse momento do desenvolvimento, “o bebê só Psicologia da Educação 84 toma conhecimento de um objeto levado à sua boca em função das sensações gustativas ou cinestésicas experimentadas” (FARIA, 2002, p. 24). Ao mesmo tempo em que mama, saciando a fome, o bebê experimenta uma relação cinestésica com a mãe (cuidadora), desenvolvendo gradativamente relações afetivas. Aos poucos, “o reflexo inato de sugar assimila, incorpora novos elementos do meio (o dedo, a roupa) e ao mesmo tempo vai sendo transformado por eles (acomodação), pois sugar o seio é diferente de chupar o dedo, que também é diferente de sugar a própria roupa” (FONTANA, 1997, p. 49). O funcionamento dos reflexos inatos vai sendo aprimorado em esquemas e a criança passa a organizar perceptivamente e motoramente os fenômenos que a rodeiam. De acordo com Faria (2002), as sucessivas mudanças de estádios fazem com que a criança modifique o comportamento em relação ao objeto de conhecimento. Uma criança, entre 0 a 2 anos, desenvolve a percepção espacial e temporal na medida que vivencia experiências de aprendizagens. Tomemos como exemplo a relação de uma criança com o objeto bola. Um adulto atira uma bola pequena e ela cai atrás do armário, a criança de 0 a 8 meses não procura objetos desaparecidos, ou seja, que saem de seu campo visual perceptivo. De 8 a 12 meses: gênese de uma intencionalidade, quando procura os objetos perdidos que saíram do seu campo visual perceptivo. Nesse estádio, além de progressos na área cognitiva ocorrem, concomitantemente, avanços sociais e afetivos. De 12 a 24 meses: além de haver uma intencionalidade, a criança inicia algumas ações que envolvem a imaginação para atingir os fins desejados, contornando obstáculos para pegar o objeto. Acima dos 18 meses, como a criança já tem interiorizado a diferenciação entre ela e o objeto, procura de forma inventiva vencer desafios do meio para pegar o objeto “bola”, que caiu atrás do armário. Corroborando com o exemplo dado, Piaget (2002, p. 10) afirma que: [...] a indiferenciação e a centração das ações primitivas relacionam-se ambas com uma terceira característica que lhes é geral: elas ainda não estão coordenadas entre si, e cada uma constitui um pequeno todo isolável, ligando diretamente o próprio corpo ao objeto (chupar, olhar, agarrar, etc.). Segue-se então uma falta de diferenciação, pois o sujeito só se afirmará quando, posteriormente, coordenar livremente suas ações e o objeto só se constituirá ao submeter-se ou ao resistir às coordenações de movimentos ou de posições num sistema coerente. Em cada um desses momentos, segundo Faria (2002), há progressos em relação aos estádios anteriores. Por isso, a maturação biológica e a interação social são, segundo Piaget, essenciais no processo de desenvolvimento e aprendizagem infantil. Em relação ao egocentrismo nessa etapa de 0 a 2 anos, diminui à medida que a criança começa a fazer diferenciação entre ela e o meio, entre ela e os objetos. Em relação à afetividade, assevera Faria (2002), que nas aprendizagens a criança angaria aquisições afetivas e sociais por meio da interação com os objetos. Isso implica dizer que: Para Piaget, um hábito transforma-se em regra quando há consciência da regularidade na sucessão de ações, acompanhada do sentimento de obrigatoriedade. Isto só ocorre quando existe uma oposição à realização das seqüências de ações e, especialmente, quando o indivíduo sai de si mesmo para conviver com o outro. (grifo meu) Psicologia da Educação 85 Faria (2002, p. 35) apresenta a seguinte síntese dos estádios do desenvolvimento: Portanto, nesse estágio a criança começa a estabelecer inúmeras relações e diferenciações que serão fundamentais tanto para a aquisição da linguagem quanto do pensamento, pois “o indivíduo e os objetos diferenciam-se e organizam-se no plano das ações exteriores, e a permanência dos objetos vai sendo construída. [...] A criança começa a perceber que os objetos, as pessoas, continuam existindo mesmo quando estão fora do campo da visão” (FONTANA, 1997, p. 49). réOperatório (2 a 7 anos) b) P Período Préré-Operatório eríodo P Também denominado de inteligência simbólica, na qual os conhecimentos são intuídos e inacabados, pois a aquisição da linguagem envolve ordenações mais complexas para atribuir adjetivos e substantivos a objetos que se relacionam, esboçando uma imagem particular. Logo, a criança não domina, ainda, as operações mentais. Nesse período a criança se torna capaz de tratar os objetos como símbolos, adquire a linguagem, cria noção de permanência dos objetos, mas ainda não é capaz de se colocar no lugar do outro, considera apenas um aspecto dos problemas e não faz mais de um raciocínio. Segundo Piaget, o primeiro passo na passagem da ação para o pensamento é a internalização da ação, realizar uma ação mentalmente em vez de fisicamente.. Isso representa, em termos cognitivos, Psicologia da Educação 86 a capacidade de trabalhar com símbolos ou palavras no lugar do objeto concreto: denominada função semiótica. Ou seja, a criança começa a proceder, pelas experiências vivenciadas, a diferenciação entre o seu eu e o mundo. Entretanto, “centrada no seu próprio ponto de vista, a criança ainda não é capaz de se colocar no lugar do outro nem avaliar seu próprio pensamento” (FONTANA, 1997, p. 50). Isso tem como pressuposto a noção, ainda não desenvolvida, de desprender-se de si para fazer o movimento em sentido oposto. Isso ocorre, segundo Piaget, pelo fato da criança ainda não dispor de esquemas que lhe possibilitem transcender o imediato, considerando apenas uma dimensão do problema. O clássico exemplo do copo, elucidado por Piaget, corrobora essa conclusão: quando um refrigerante é repartido em dois vasilhames ela observa a igualdade no nível; entretanto, ainda não tem formado o esquema que lhe permite comparar a altura e a espessura dos vasilhames. Isso significa dizer que numa ação há várias dimensões a serem consideradas, as quais requerem preparo da percepção do sujeito que percebe. Isso é uma relação lógica que a criança irá construir a partir da interação com os objetos. A criança começa a desenvolver a linguagem correlacionando com os fatos em seu entorno social, ela começa a dar alma aos objetos (conversa, sentencia, dialoga, pune). Porém, ainda não se faz presente o processo de diferenciação e de reversibilidade: pensar “de trás para frente”, ou imaginar como reverter os passos de uma tarefa. A reversibilidade do pensamento possibilita à criança construir noções de conservação de massa, volume, [...]. O pensamento reversível pode ser definido como a capacidade de levar em consideração uma série de operações que, revestidas, conduzem ao estado inicial. (FONTANA, 1997, p. 51). O processo de reversibilidade permite ao desenvolvimento cognitivo que a criança perceba, não apenas intuitivamente, o global dos objetos, mas que possa, além de pensar de trás para frente, discriminar detalhes do objeto como tamanho, forma, volume, espessura, quantidade presente dos objetos. Segundo Piaget (2002, p. 18 - 19), A razão essencial dessa defasagem entre as ações sensoriomotoras e a ação interiorizada ou conceitualizada é que as primeiras constituem, mesmo no nível em que existe coordenação entre vários esquemas, uma série de mediadores dos quais permanece puramente atual; ela já se faz acompanhar, é verdade, de uma diferenciação entre esse sujeito e os objetos, mas nem aquele nem estes são pensados como revestidos de quaisquer outras características a não ser as do momento presente. No nível da ação conceitualizada, pelo contrário, o sujeito da ação [...] é pensado com suas características duradouras (predicado ou relações), os objetos da ação, também, e a própria ação é conceitualizada como transformação particular no âmbito de muitas representáveis entre termos dados ou entre termos análogos. Isso implica dizer que, na acepção piagetiana do desenvolvimento e aprendizagem, a criança não dispõe do esquema de percepção dedutiva, a qual lhe permite perceber relações e predicados imbricados no objeto, uma vez que a compreensão da conservação de matéria é ainda um processo abstrato para as crianças nesse estágio. Outras características desse estágio de desenvolvimento e aprendizagem apontadas por Piaget, são: construção do esquema simbólico e o aparecimento do pensamento egocêntrico (FARIA, 2002). Em relação à primeira, a característica marcante é a noção do acaso. Ou seja, quando a criança pergunta “por que” de um determinado objeto ou evento ser da forma que se apresenta à sua percepção, significa que ela não aceita a idéia do acaso, pois entende que tudo deve ter uma explicação: um Psicologia da Educação 87 encadeamento lógico que permite extrair conclusões plausíveis. Para Piaget, é por meio do exercício dessa atividade inteligente que o pensamento indutivo. Por pensamento indutivo entende-se quando a criança age por simulação “como se...”, que tem como pressuposto o encadeamento dos esquemas mais simples até alcançar os mais complexos (um exemplo de pensamento indutivo que se observa na criança é quando age por simulação “como se...”), que a criança vai construindo a base para o pensamento dedutivo que é, segundo Piaget (2002), a capacidade de diferenciação dos objetos da percepção. Em relação ao pensamento egocêntrico, Piaget afirma que, nesse estágio, por volta de 5 a 6 anos, pelo fato de limitar-se a sua própria experiência, tendo como base seu próprio corpo, ela não consegue ter outro referencial sem ser ela própria. O pensamento egocêntrico na teoria piagetiana significa que a criança ainda encontra-se limitada a indiferenciação porque os seus conceitos ainda são vagos. Ou seja, [...] a criança a tendência de sentir e compreender tudo através dela mesma, é difícil para ela distinguir o que pertence ao mundo exterior e a outras pessoas e o que pertence a sua visão subjetiva; e, por esta mesma razão, pelo fato de que separa mal o que é seu do alheio, terá dificuldade em ter consciência de seu próprio pensamento. O mecanismo é, portanto, único, embora possa manifestar-se de maneira e âmbitos diferentes (PALÁCIOS, 1995, p. 144). Portanto, à medida que experiencia atividades desafiadoras, além de ceder o pensamento egocêntrico, pode chegar à função semiótica: capacidade de trabalhar com símbolos ou palavras no lugar do objeto concreto. c) P eríodo Operatório Concreto (7 a 11 anos) Período Quando a criança começa os anos escolares o seu universo amplia-se fantasticamente, porque ela adentra o reino das possibilidades: novas aprendizagens, novas condutas sociais e as relações intensificam-se. Em termo cognitivo, ela desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade. Em termo de conduta, pelo fato de compartilhar do mesmo espaço e do professor com o outro começa a emergir das próprias necessidades interativas a capacidade da criança de estabelecer relações e coordenar pontos de vista diferentes. Por esse novo universo de relações da criança, segundo Piaget, emergirão capacidades que serão responsáveis pela inteligência intelectual e o conhecimento lógico, isso ocorre, segundo Piaget (2002, p. 30): Na idade de 7 – 8 anos em média assinala um momento decisivo na construção dos instrumentos do conhecimento – ações interiorizadas ou conceitualizadas com que o sujeito deveria até agora contentar-se adquirem a categoria de operações, enquanto transformações reversíveis modificam certas variáveis e conservam outras a título de invariantes. Piaget assinala que ao ceder o egocentrismo intelectual e social, característica do período sensório-motor, emergirão mudanças decisivas no desenvolvimento cognitivo e social da criança que a tornará capaz de estabelecer adequações, progressivamente, entre pensamento e linguagem e a conservação da diferenciação entre objetos. Percebe-se nesse período o início da capacidade de utilizar a lógica e a matemática nas operações (número, conservação de massa e noção de volume). O pensamento se torna coerente à medida que ao vivenciar novas experiências, seja no campo do conhecimento intelectual, social ou moral, produz ação sobre os objetos e a interioriza, dando origem a novos esquemas cognitivos, essenciais à construção do pensamento lógico. Psicologia da Educação 88 Um elemento novo aparece nesse período que era praticamente ausente no período sensóriomotor: capacidade de coordenar e interiorizar as ações. Ou seja, “[...] ação interiorizada, que se torna reversível para se coordenar com outras na forma de estruturas operatórias” (FARIA, 2002, p. 48). Além do exposto, há uma capacidade extremamente importante, que se constrói conjuntamente com as citadas anteriormente, na qual Piaget fundamenta o aparecimento do pensamento lógicomatemático: a reversibilidade. Por reversibilidade entende-se a “[...] capacidade de levar em consideração uma série de operações que, revertidas, conduzem ao estado inicial” (FONTANA, 1997, p. 51). Isso significa dizer que ela começa a realizar operações mentalmente sem necessariamente por meio de ações físicas. O professor que trabalha nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental percebe o surgimento dessa capacidade no aluno quando ele realiza uma operação matemática sem precisar recorrer a objetos concretos (para fazer uma operação que envolva a soma recorrer a tampinhas de garrafa para realizar a atividade), ele passa a fazer mentalmente. Da mesma forma, em relação à reversibilidade do pensamento: 2 + 2 = 4 é a mesma que 4 – 2 = 2 (PULASKI, 1986, p. 67). Para um adulto pode parecer simples, mas em termos cognitivo e social representa o marco das operações concretas, tanto em relação ao pensamento como na linguagem. Por operação entende-se a “[...] capacidade de raciocinar logicamente, organizar os pensamentos em estruturas coerentes e totais e dispô-las em relações hierárquicas ou seqüenciais” (PULASKI, 1986, p. 65). Da mesma forma que ocorre com a inteligência intelectual na construção das estruturas operatórias concretas - capacidade de coordenar, interiorizar e reverter um pensamento e expressálo adequadamente por meio da linguagem – a criança desenvolverá esquemas em relação à moral: possibilidade de compreensão dos próprios erros, compreensão do ponto de vista e necessidades do outro, perdoar uma ação inadequada do amigo ou colega quando percebe que não foi intencional. Nesse período, o pensamento lógico se consolida concomitantemente à linguagem, a aprendizagem ocorre de forma gradual e objetiva. Ou seja, À medida que o indivíduo constrói estruturas operatórias, conceitos e relações espontâneas, toma consciência das mesmas e designa-as por meio de palavras, ou seja, o pensamento torna-se verbalizado e os contatos sociais são facilitados. (FARIA, 2002, p. 50). Desse modo, o período operatório concreto é a fase na qual o pensamento e a linguagem expressam os progressos do desenvolvimento e da aprendizagem da criança, quer no âmbito social familiar, quer nos espaços sociais – escola, igreja, clubes, entre outros. Portanto, segundo Piaget, nesse período a criança passa a compreender o ponto de vista das outras pessoas e passa também a conceitualizar algumas relações, da mesma forma em relação ao pensamento reversível. Diante disso, ela alcança importantes progressos na construção do conhecimento e de si própria nas atividades socioeducativas, que serão extremamente importantes na construção de novas estruturas no processo de assimilação e acomodação na adolescência. d) P eríodo Operatório F ormal (11 a 15 anos) Período Formal A adolescência é considerada uma etapa da vida na qual o sujeito passa por crises de identidade e de oposição ao adulto, especificamente, às normas de conduta. No entanto, em Piaget, representa o período no qual se formam aspectos importantes do desenvolvimento cognitivo do adolescente. O pensamento dedutivo-hipotético é a aquisição central nesta fase porque, além de propiciar ao adolescente pensar sobre acontecimentos que envolvam hipóteses, representa o campo das possibilidades. Para Fontana, (1997, p. 52), O adolescente torna-se, enfim, capaz de pensar sobre o seu próprio pensamento, ficando cada vez mais consciente das operações mentais que realiza ou que pode ou deve realizar diante dos mais variados problemas. Essa consciência a propósito do próprio pensamento Psicologia da Educação 89 ‘pode ser presumida pelo seguinte tipo, muito citado, de perguntas de adolescentes: ‘ Eu me surpreendi pensando acerca do meu futuro e então comecei a pensar por que estava pensando no futuro, e aí comecei a pensar por que eu estava pensando sobre por que eu estava pensando no meu futuro’. Isso implica dizer que, nesse período, o adolescente torna-se capaz de raciocinar corretamente sobre hipóteses, o que, em períodos anteriores, era praticamente inexistente. Ou seja, além de pensar sobre as conseqüências e a capacidade de manipular e organizar idéias, consolida os processos formais do raciocínio (processo hipotético– dedutivo – indutivo, lógico – formal ou lógico-matemático). Nesse nível de desenvolvimento, o adolescente já tem capacidade para construir sistemas e teorias abstratos, para formar e entender conceitos abstratos, como os conceitos de amor, justiça, democracia, entre outros. Pulaski (1986, p. 84) afirma que: Piaget reitera aqui sua posição no sentido de que as estruturas formais não são nem inatas e ‘antecipadamente inscritas’ no sistema nervoso, nem tampouco criadas por uma sociedade que as imponha ao indivíduo de fora para dentro. São antes formas de equilíbrio elaboradas no intercambio entre os adolescentes e as outras pessoas, assim como entre eles e o mundo físico no qual se desenvolvem. Portanto, a criança/adolescente passa a refletir de maneira lógica, procurando estabelecer possibilidades de resoluções dos problemas/desafios e, por essa razão, fica cada vez mais consciente das operações mentais que realiza. E mais, a criança/adolescente irá construir e constituir estruturas cognitivas ao mesmo tempo das de ordem moral: valores, sentimentos e afetividade. Assim, fica evidente na teoria piagetiana, que perpassa todos os períodos do desenvolvimento e aprendizagem, a presença de quatros fatores essenciais que estão relacionados ao desenvolvimento cognitivo: maturação, experiência ativa, interação social e equilibração. Após a leitura desta unidade, vá até o Caderno de Atividades no Ambiente Virtual de Aprendizagem e desenvolva as atividades referentes à Unidade 4. REFERÊNCIAS ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ução da P essoa em W allon e a Constituição do BASTOS, Alice Beatriz B. Izique. A Constr Construção Pessoa Wallon Lacan Petrópolis: Vozes, 2003. Sujeito em Lacan. pedagógico São Paulo: Atual, 1997. FONTANA, Roseli. Psicologia e trabalho pedagógico. GALVÃO, I. Henr Henryy W Wallon allon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: allon Vozes, 1995. iaget e V ygotsk PALANGANA, Isilda C. Desenvolvimento & Aprendizagem em P Piaget Vygotsk ygotskyy (a relevância do social). São Paulo: Plexus, 1998. Genética São Paulo: Martins Fontes, 2002. PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. iaget PULASKI, Mary Ann Spencer. Compreendendo P Piaget iaget: uma introdução ao desenvolvimento cognitivo da criança. Rio de Janeiro-RJ: LTC, 1986. WALLON, Henri. Psicologia e educação da infância infância. Lisboa: Estampa, 1975. Psicologia da Educação 90 Anotações _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 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A ADOLESCÊNCIA: CONDUT AS E UNIDADE CONDUTAS MANIFEST AÇÕES A P AR TIR DO ENFOQUE PSICANALÍTICO MANIFESTAÇÕES PAR ARTIR Falar sobre a adolescência e/ou a condição de ser adolescente nos dias de hoje é, ao mesmo tempo, desafio e prazer, porque na história nunca se debruçou tanto em compreender esse importante momento da vida psíquica e social; ainda mais quando se procura conhecê-la a partir da própria manifestação do ser adolescente. Não pretendo estabelecer um discurso psicologizante, em voga nos dias atuais, mas trazer à luz da psicanálise contemporânea, especialmente contribuições de Carvajal, Melanie Kleim e Winnicott, sobre características dessa etapa da vida da pessoa, que não é criança e nem adulto. Outro cuidado a ser tomado nessa exposição sucinta diz respeito àquilo que, normalmente, se denomina de “crise” da adolescência, como normalmente se vincula na mídia hoje, como se tudo fosse redutível e universal. Pode-se dizer, do ponto de vista psicanalítico, que a constituição do ser do adolescente, nesse período, é a disfunção entre o eu criança do eu adulto que ainda não se concretizou. Vale lembrar que, ao contrário do senso comum, essa disfunção é extremamente necessária e fundamental na constituição do sujeito: [...] a busca de uma identidade própria [...] alguém em busca de sentidos e significados, que procura encontrar não apenas o significado do mundo que o rodeia mas também o de sua própria existência. Essa procura de significações, que é importante durante todo o desenvolvimento do ser humano, adquire uma força especial durante a adolescência (CARVAJAL, 1998, p. 12). Ao contrário do que se possa pensar, alguns aspectos complexos que envolvem o se tornar adolescente na contemporaneidade é, muitas vezes, um desafio latente a pais e professores. Logo, evidenciar esses aspectos é, acima de tudo, refletir a partir de suas condutas e suas manifestações para que se possa compreender, o tanto quanto possível, a complexidade, não meramente a transição do mundo infantil para um mundo adulto, como uma fase nebulosa e tempestuosa que acorrenta o adolescente até que a maturidade o livre desse fardo; mas como uma fase própria e necessária ao seu desenvolvimento, bio-psico-social. Nesse particular, Palácios (1995, p. 290), embora tenha uma outra perspectiva teórica, faz uma importante colocação em relação à adolescência, segundo a qual essa fase [...] constitui um período e um processo: a) de ativa desconstrução de um passado pessoal, em parte tomado e mantido e, por outro, abandonado e definitivamente preterido; b) de projeto e de construção do futuro, a partir de um enorme potencial e acervo de possibilidades ativas que o adolescente possui e tem consciência de possuir. Palácios tece crítica a Jean-Jacques Rousseau, por ter introduzido pela primeira vez o termo adolescência. Deve-se considerar que Rousseau é um dos importantes teóricos da infância e da adolescência, pois inspirou estudos e pesquisas das mais variadas correntes psicológicas do Ocidente. Psicologia da Educação 92 Como não é a intenção demonstrar os conflitos teóricos sobre a adolescência, e sim refletir sobre condutas e manifestações a partir de Carvajal, ousemos indagar, como se faz amiúde em qualquer ambiente familiar e escolar: o que significa adolescência? 1 SIGNIFICADO DE ADOLESCÊNCIA NA TEORIA PSICANALÍTICA ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ No entendimento de Carvajal (1998, p. 11), adolescência é “O ciclo vital do ser humano [...] constituído por uma seqüência complexa de períodos de uma relativa tranqüilidade e períodos de grandes mudanças, freqüentemente acompanhados de crises”. Essas mudanças físicas e psíquicas são acompanhadas de condutas e manifestações específicas em cada etapa do seu desenvolvimento intrapsíquico, considerando também as relações que estabelece em seu entorno social. Por essa razão, ao contrário de um enfoque determinista ou pelo biológico ou pelo ambiente, Carvajal assevera que cada cultura tem um modo específico de tratar o adolescente e o fenômeno adolescência, quando inicia e quando termina, pelo menos do ponto de vista teórico do ritual a ela destinado. No entanto, Carvajal (1998, p. 67), salienta que A adolescência deve ser abordada do ponto de vista de suas condutas e de suas manifestações. Trata-se [...] de um grupo de fenômenos que eclode num momento da vida e que tem um processo e um desenvolvimento até desaparecer (teoricamente pelo menos), para dar lugar a comportamentos, condutas e fenômenos característicos da idade adulta. 1.1 Etapas da adolescência: transformações que assustam A exposição a seguir, sucinta e didática, terá como foco central as etapas da adolescência dos estudos realizados por Guillermo Carvajal (1998), sobre algumas características de condutas e manifestações que perpassam na constituição do ser adolescente. No entanto, há uma importante ressalva: as características de condutas podem sofrer variações segundo o contexto no qual está inserido. Carvajal classifica a adolescência em três etapas: puberal, nuclear e juvenil. Cada etapa apresenta algumas características que o adolescente vivencia, em seu processo de constituição psíquica, movidas pelas mudanças biológicas. a) Etapa P uberal (10 – 13 anos): transição turbulenta Puberal A etapa puberal representa a transição do corpo de criança para o corpo de adulto. Na menina, as primeiras transformações ocorrem com a primeira menstruação, ns meninos a primeira ejaculação. Essa etapa consiste no aparecimento de características próprias que podem ser compreendidas como eventos biológicos e psíquicos, que a ocorrem a partir da segunda década de vida, independentemente da vontade humana. Carvajal cita algumas dessas características, as quais apresentarei sucintamente a seguir, elas são pertinentes à compreensão do fenômeno adolescência por pais e professores. No tocante à educação, no âmbito geral, entendê-las em sua dimensão genética e psíquica representa não só uma necessidade, como também uma importante ferramenta pedagógica para que se possa mediar as exigências do mundo social. Psicologia da Educação 93 No aspecto psíquico, é visível nesse momento de transição o aparecimento de condutas e manifestações que vão dos sintomas de rompimento da dependência infantil à contrariedade da conduta dos pais. Algumas condutas alteram-se significativamente, tais como: mudanças de hábitos, esquecimentos com frequência, descolamento dos horários, reivindicação de liberdade e intimidade. Assevera Carvajal (1998, p. 72), que essas manifestações pré-adolescentes são mais frequentes nos meninos, embora menos firmes. Os tremores noturnos e o medo da morte parecem rondar constantemente a mente do pré-adolescente. Medo de dormir sozinho à noite, medo exacerbado da morte, ansiedade acentuada e a simbolização do desaparecimento da centralidade da imagem dos pais para si, tal como a produção simbólica na infância, são condutas e manifestações típicas do ingresso na adolescência. Carvajal preconiza que as mudanças corporais devem estar relacionadas com as mudanças psíquicas, quando isso não ocorre paralelamente é um sinal de alerta a pais e professores, pois tal sintoma pode significar uma defasagem físico-psíquica. Evidentemente, fixar tais mudanças à idade cronológica pode soar como um determinismo biológico, pretensamente iguais a todos os adolescentes. No entanto, são características balizadoras das mudanças físico-psíquicas que permitem ao adulto observar ausências de condutas do adolescente, que são próprias das mudanças nessa etapa. Desse modo, “sabemos que uma patologia importante da pré-adolescência ou elementos traumáticos no seu transcurso podem ser gatilhos que disparem um aborto da adolescência” (CARVAJAL, 1998, p. 73). Nos dias de hoje, por circunstâncias históricas e econômicas, é notória a reação angustiante de pais e professores diante da conduta púbere. É certo que, em muitos casos, a falta de conhecimento e bom senso leva-os a se sentirem impotentes manifestações de isolamento, corte na comunicação e nas relações afetivas com seus pares. Alguns chegam a pensar que ele, o púbere, [...] está selvagem, explosivo, suscetível, de mau humor, irascível, dorminhoco, está se fechando no quarto ou no banheiro por longos períodos. Se batem à porta, não abre. Não permite que se intrometam no seu espaço que considera seu. O mesmo acontece com o grupo de amigos com quem convivia, ou mesmo com seus irmãos. Parou de brincar (CARVAJAL, 1998, p. 73 – 74). Outro fato notório dessa etapa é que, ao apresentar alguns “sintomas” de crescimento e desenvolvimento psicológico, o adolescente repudia ao ser chamado de criança, ainda mais quando solicita um espaço privativo só para ele: o quarto é seu território e sua trincheira. A comunicação é abreviada por expressões monossílabas “bem”, “mal”, “não”, “sim”, “talvez”, entre outros códigos lingüísticos próprios do contexto ao qual pertence. No entanto, o que mais assusta aos pais, segundo Carvajal, é a rejeição do púbere a ações afetivas características da relação cuidador-cuidado na infância, como abraço, sair de mãos dadas, carícias, mimos. Diante disso, os pais ficam aterrorizados com essa mudança brusca de comportamento. Na escola, seu rendimento cai assustadoramente. Exigir do púbere concentração e atenção nas aulas é algo que nem sempre é possível, porque a ação genética em seu corpo influi na variação do temperamento. Atitudes de indisciplina, sonolência e queixa de ensimesmamento são constantes na conduta púbere. Segundo Carvajal (1998, p. 75), [...] aparecem os ‘mecanismos de esturpidificação’, que impedem um rendimento egóico adequado e, portanto, a aprendizagem. As escolas não têm paciência com ele, não o respeitam, fazem exigências, o apressam, o confundem com pedidos escolares e pessoais absurdos. Desperta repúdio nas pessoas devido à sua confusão, já que gera angústia no adulto, que se sente incapaz de compreendê-lo e manejá-lo, ou seja, não consegue contêlo. O manejo inadequado da escola o lança com freqüência a uma aversão e fobia escolares. Psicologia da Educação 94 Carvajal afirma que nessa etapa o púbere sente um dos paradoxos mais triviais do início da adolescência: O novo lhe agrada e ao mesmo tempo lhe inspira temor. Busca incessantemente por iguais a si, uma vez que os objetos parentais devem ser substituídos. Ou seja, todo aquele arcabouço que via e sentia nos pais e cuidadores, característica de espelhamento na infância, não faz mais sentido. É nessa busca, por um lado, e afastamento, por outro, que faz o adolescente construir novas relações grupais para além das relações parentais. A nova relação com o amigo íntimo, o qual será o confidente e conselheiro, representa a busca pela aceitação do outro e do grupo, uma vez que não reconhece mais a família como o núcleo e dono da verdade. As mudanças que seguem no início da adolescência muitas vezes são confundidas com as influências do ambiente e dos amigos no púbere. Isso aparece como pano de fundo das discussões entre adultos e púberes em relação às bruscas mudanças na conduta. Tanto pais como professores atribuem, na maioria das vezes, ao(s) amigo(s) íntimo(s) a responsabilidade por tais mudanças. Para Carvajal, o que assusta o púbere é a densidade da metamorfose que se passa com ele nos pais. Alguns sintomas geralmente denunciam essa metamorfose, tais como: transtornos no púbere que, na maioria das vezes, se manifestam nos pesadelos ou no deslocamento do conflito para outros ambientes sociais como a escola, o clube, as relações parentais. Outro sintoma bastante forte é a desobediência e a oposição sistemática aos pais e professores diante da possibilidade de contradição, questionam até a mais ínfima atitude dos pais como forma de busca do investimento de significados do seu próprio ego. Para Carvajal (1998, p. 78), Se isto vier seguido de uma ação reativa e irracional por parte deles diante de sua mudança, o jovem comprova definitivamente que eles não têm razão, que não servem para nada, que não eram perfeitos como acreditava, que são apenas um estorvo na sua vida pessoal, o que o leva a denegri-los e desvalorizá-los. [...], isto é conseqüência da necessária retirada de investimento ou interesses desses objetos, para deslocá-los para a nova organização egóica centrada em seu sefl, na busca de uma identidade. O púbere começa a desempenhar o papel mais importante do adolescente: aquele que busca uma identidade. Logo, o adolescente percebe que os pais não são donos da verdade, que não é tudo verdadeiro o que ele projetava anteriormente a respeito da significação onipotência e onipresença dos pais. Em algumas situações chamam a atenção dos pais porque seu corpo apresenta padrões para além do que ele julga ser politicamente adequado. Isso é sintoma de que o olhar estético do adolescente apresenta um fundo narcíseo. Carvajal (1998, p. 78) comenta que “a adolescência do primeiro filho desencadeia com freqüência a crise da idade adulta nos pais e a apreensão de sua condição de não jovens”. O manejo inadequado por parte de pais e professores, além de fomentar a agressão característica dessa nova vivência, pois as mudanças hormonais estão fervilhando, levam a uma constante e interminável batalha de identificação e contra-identificação. Os pais e professores vêem a agressão e a rebeldia do adolescente como uma provocação e risco à autoridade, o que pode acarretar, e na maioria das vezes acarreta, o desequilíbrio na estrutura familiar. Os pais começam a hostilizá-lo, a proibir e a manejá-lo autoritariamente com falsas razões e motivos. Os professores mudam os castigos e põem-no a pensar em níveis nos quais não é capaz de responder. Enchem-no de exigências pessoais e curriculares; chantageiam-no e o maltratam com as notas e freqüentemente acabam expulsando-o dos colégios, num ato de absurda retaliação, e cheios de falsas razões deixam o púbere no ar, abatido, maltratado sem causa real, incompreendido, abortado, culpabilizado e confrontado com um ambiente familiar que subitamente está no mesmo jogo (CARVAJAL, 1998, p. 79). Psicologia da Educação 95 pais. Nesses termos, por sua vez, os adolescentes reagem ao fato de terem que ser submissos a seus Na verdade, é bom que se tenha claro, do ponto de vista da psicanálise contemporânea, mesmo que ocorra um desdobramento não-previsível, a relação de desiguais tendo como pressuposto a prerrogativa da lei da autoridade inquestionável não produzirá, por parte dos adultos, as condutas desejáveis no jovem e no adulto de amanhã. Para que ocorra diálogo não pode existir a submissão total por parte do púbere, mas sim uma relação de reciprocidade. É certo afirmar que condutas errôneas por parte dos pais e professores podem fazer com que se desencadeie uma infindável guerra psicológica e axiológica. Aliás, subjacente à autoridade incondicional do adulto permeia a ideia de como ele ainda é imaturo, não sabe o que faz. Em relação à ideia de imaturidade Winnicott (1975, p. 198), pontua que: A imaturidade é uma parte preciosa da adolescência. Nesta estão contidos os aspectos mais excitantes do pensamento criador, sentimentos novos e diferentes, idéias de um novo viver. A sociedade precisa ser abalada pelas aspirações daqueles que não são responsáveis. Se os adultos abdicam, o adolescente torna-se prematuramente, e por falso processo, adulto. O conselho à sociedade poderia ser: por amor aos adolescentes, e à sua imaturidade, não lhes permitem crescer e atingir uma fala de maturidade, mantendolhes uma responsabilidade que ainda não é deles, mesmo que possam lutar por ela. Por isso, Carvajal preconiza que algumas coisas que devemos saber para lidar com os filhos não são tarefas muito fáceis aos adultos e professores, uma vez que em cada conflito haverá sempre uma reação, pois o que envolve não é somente a experiência, senão diferentes perspectivas de olhares vivenciais. Nesses termos, poder-se-ia perguntar, sem pestanejar, que significados assume o conflito entre o adolescente e o adulto? E o que representa o conflito na gênese do psiquismo do adolescente? Talvez, mesmo do ponto de vista psicanalítico não seja fácil responder adequadamente, mesmo com toda a historicidade envolvida na vida de cada ser, mas pelos menos pode-se afirmar que, segundo Carvajal (1998, p. 79), A desilusão com os pais exige que o púbere ‘fabrique’ novos progenitores dentro de sua mente. Se a atitude dos pais é madura e racional, se estão em condições de compreender sabiamente o que ocorre com seu filho, esta nova imagem vai ser carregada de respeito e admiração e não de onipotência e incondicionalidade, como no caso da criança. Assim, nascerá uma visão mais realista de um adulto adequado e protetor. Ao contrário do que se possa supor, a psicanálise contemporânea possibilita a pais e professores novas abordagens em relação à metamorfose do filho e do aluno, na medida que possibilita a compreensão de alguns mecanismos de funcionamento da complexidade do ser humano. Quando se diz que a presença do pai e/ou cuidador é fundamental para o desenvolvimento bio-psíquico do adolescente, pretende-se dizer que, dialeticamente, o pai vai ser uma espécie de muro protetor onde o púbere vai se apoiar, se debater e se opor inúmeras vezes. Isso é pertinente e necessário para o desenvolvimento do psiquismo do adolescente. Contrariando o senso comum, até porque muitos adultos projetam nos filhos conflitos seus, o conflito é crucial na vida psíquica do adolescente, já que ele espera essa oposição latente do adulto. Em termos simbólicos, essa oposição é a energia que o adolescente precisa para vencer “simbolicamente” o adulto na constituição de sua identidade própria. Por essa razão que o “não” do adulto, é claro, de forma comedida, é fundamental na constituição psíquica do adolescente. Segundo Carvajal (1998, p. 80), Psicologia da Educação 96 Na adolescência, o pai é alguém contra quem lutar: alguém que se tenta vencer e derrotar dentro da mente. Todo adolescente é um ‘parricida intrapsquico’. O importante é que o pai não permita que o seja na realidade. Ele [o pai] é alguém a que se deve destruir, em sua concepção infantil de dependência, onipotência e continuidade simbiótica. Se isso não ocorrer, não haverá crescimento. Um pai adequado deve estar, antes de mais nada, presente e deve permitir que tudo isso ocorra na fantasia. Deve ser uma ‘ave fênix’, que logo depois de ser aniquilada nasce com mais força e beleza dentro do adolescente. É prudente que os pais e/ou cuidadores não se abalem nas investidas do adolescente, pois, paradoxalmente, os adolescentes ao mesmo tempo que querem aniquilar, em termos psíquicos, os pais deles esperam a oposição para que aprendam as vicitudes da vida. Vale lembrar que, segundo a psicanálise contemporânea, Os pais, que estão realmente perdidos sem obter em contrapartida algo gratificante, devem se preparar para a aceitação da metamorfose de seu filho, recebendo, assimilando e elaborando o novo produto. Devem, antes de mais nada, ser conscientes e pensantes ante a agressão gerada por esta nova dimensão psíquica do púbere. Delas só nos salvam o amor e a maturidade (CARVAJAL, 1998, p. 81). Outro ponto importante, muitas vezes desconhecido por uma gama de pais e professores, diz respeito à confusão e à ambivalência nessa etapa da vida, muitas vezes fútil para o adulto, mas extremamente necessária aos adolescentes. Por ambivalência entende-se na psicanálise “Presença simultânea, na relação com um mesmo objeto, de tendências, de e atitudes e de sentimentos opostos, fundamentalmente o amor e o ódio” (LAPLANCHE, 1992, p. 17). Podemos perceber que a visão das coisas começa a ser diferente nessa fase, pois surgem sensações de despersonalização concomitante à ansiedade confusional. Isso ocorre porque o adolescente começa a perceber a mudança de seu próprio corpo, antes infantil, agora outra coisa que não sabe bem o que seja. No tocante à sexualidade, há uma brusca mudança na acepção do adolescente: os pais deixam de ser o objeto do erotismo de seu filho. Isso representa, em termos psicanalíticos, mudanças na vida psíquica do adolescente em relação à sua sexualidade: as atenções estão voltadas à metamorfose que se processa em seu corpo em relação a qualquer objeto fora de si. Ou seja, Isso pode produzir sensações de despersonalização com a concomitante ansiedade confusional, ao observar diluição da criança num corpo crescido. Quando a mudança corporal é muito abrupta, a sensação de confusão pode ser muito angustiante. Seus valores e crenças anteriores são questionados de maneira muito crítica. Começa a duvidar sobre o que é bom e o que é mau. Essa situação confusional irá desembocar em novas representações ao adolescente: seu próprio corpo percebido e sentido produz novas sensações antes desconhecidas. Começam as excitações genitais e a masturbação das gônadas. Com a primeira polução o púbere é tomado de surpresa e angústia. O primeiro sonho erótico e orgástico da menina gera grande comoção interna. No entanto, abre-se a ‘caixa de Pandora’ da sexualidade, com um enorme e compulsivo atrativo. Começa a atividade auto-erótica de tocar os genitais, que desemboca numa masturbação plena. (CARVAJAL, 1998, p. 82 – 83). Por essa razão, há que se considerar que a autoerotização é um fenômeno que busca aliviar as excitações provocadas pelas mudanças internas de ordem genética, que provocam sensações adversas Psicologia da Educação 97 nos púberes: “O que é claro, sim, é que o auto-erotismo é uma preparação ou treino para a sexualidade integrada, total e madura do adulto. Também concordamos com a consideração de que existe uma maior tendência à masturbação compulsiva no homem” (CARVAJAL,1998, p. 83). Por essas condutas sexuais se explicam a tendência do adolescente ao isolamento, a reivindicação de um espaço privado, os banhos demorados e o afastamento em relação aos cuidadores. Esse turbilhão de mudanças chega a sala de aula manifestado pelo estado de sonolência, preguiça e, de certo modo, desconectado com seu entorno social. Às vezes, isso é verbalizado pelos professores na seguinte fala: “parecem que estão no mundo da lua”. Podemos pensar que essas mudanças de condutas e manifestações na etapa puberal, considerando sempre o histórico de vida social do adolescente, são indicadores das necessidades e deveres dos adultos e professores conhecerem melhor esse fenômeno para mediar uma metamorfose, possibilitando que a identidade do adolescente se inicie em bases as mais sólidas possíveis. 1.2 As crises na etapa puberal: identidade, autoridade e sexual ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ I) Crise de identidade Na etapa puberal, os adolescentes enfrentam algumas crises que serão cruciais na sua constituição personológica: crise sexual, crise de identidade e crise de autoridade. É prudente salientar que, muitas vezes, essas são originadas pelas transformações biológicas. No entanto, as transformações biológicas, na maioria das vezes, são acompanhadas de transformações psíquicas, perceptíveis por meio das condutas e manifestações do adolescente. Cada etapa consiste em três tipos de crises: crise sexual, crise de identidade e crise de autoridade. Cada uma das crises revela características de condutas e manifestações específicas. Para Carvajal (1998, p. 69), a crise significa “[...] uma explicação de características dinâmicas, em que há forças, movimentos e um obscuro e desconhecido mundo para o adolescente e seus observadores. Ou seja, paralelo à conduta visível há um processo de ordem inconsciente”. A crise de identidade identidade, segundo Carvajal (1998, p. 103), significa “[...] a crise central da adolescência, pilar da mudança, essência da metamorfose. É uma situação intrapsíquica complexa, em sua maior parte inconsciente e, portanto, dever ser concebida de maneira teórica e metapsicológica”. No entanto, ele assevera que podem ocorrer variantes do processo de crise de identidade. Por identidade entende-se “[...] a vivência ou a sensação que nós, seres humanos, temos de ser nós mesmos, assim, como tudo o que nos permite ser distintos aos olhos dos outros” (CARVAJAL, 1998, p. 104). Para a psicanálise, de modo especial à contemporânea, o nascimento do self (“Simesmo. No modelo objetal é o centro da mente. É tudo aquilo que consideramos próprio e que nos identifica dentro de nós mesmos” (CARVAJAL, 1998, p. 185)), ocorre à medida que o bebê nasce e se relaciona com os pais (objetos parentais). Ou seja, O self se forma à medida que adquire experiência com o meio social, os elementos da cultura e de sua identidade. Pela necessidade de conhecer-se pelo outro e dele se diferenciar, para constituir a sua identidade, a transição da infância para a adolescência representa um tempo de muita turbulência para o púbere. Ele vai, progressivamente, diferenciando o que é de seu self e o que é do objeto por meio das sensações, internalizando as representações, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, precisa negar os objetos parentais na consciência para propiciar a afirmação de sua identidade. A esse respeito, Winnicott (1975, p. 202), afirma que: Psicologia da Educação 98 [...] é emocionante que a adolescência se tenha tornado vocal e ativa, mas a luta do adolescente que hoje se faz sentir no mundo inteiro tem de ser enfrentada. A confrontação tem de ser pessoal. Se é que os adolescentes querem ter vida e vitalidade, os adultos são necessários. A confrontação é própria da contenção que não é retaliatória, nem vindicatória, mas possui sua própria força. No entanto, isso só será possível em termos de consciente e inconsciente, se houver uma oposição sistemática dos pais para que a independência seja sentida, preterida e alcançada pelo púbere mais como uma conquista subjetiva do que pela anuência, superproteção ou permissividade dos pais. Para Carvajal, o processo de identidade e as identificações na adolescência propiciam, apesar das confusões características desse momento de crise, a independência em relação aos objetos parentais (valores, regras, normas, autoridade, entre outras), especialmente no que diz respeito à dependência infantil. Nesse momento, a ambivalência é um estado constante na vida do adolescente. Pelo movimento de rompimento do self do adolescente da onipotente figura dos pais propicia o complexo processo da identidade do adolescente: atitude anti-adulto. O self desprende-se dos pais para assumir sua condição de identidade, gerando aquilo que se comumente, tem sido dito: crise da adolescência. Essa crise representa o movimento de separação do self na psique em oposição ao objeto intrapsíquico. Para Carvajal (1998, 111), A dependência começa a se romper produzindo um complexo processo na identidade, que consiste no aparecimento de um duplo modelo de referência: o infantil e o novo e necessário ‘anti-adulto’, já que o infantil e o adulto se confundem num só bloco para serem rejeitados. Ser criança [...] é algo que angustia de maneira aterradora o púbere. Como precisa se opor a toda forma de infantilidade e a figura parental, o amigo se torna o mediador e confidente no processo identificatório. Por essa razão, numa querela entre filho e pai e/ou cuidador em que seja mencionado o nome do amigo, por uma razão qualquer, o adolescente busca defender-se defendendo o amigo. Carvajal afirma que o amigo íntimo funciona, de forma inconsciente, como espelho de seu próprio “eu”. O próximo estágio de investimento do adolescente será o grupo, sendo esse tão importante quanto o amigo íntimo. II) Crise de autoridade Na crise de autoridade, segundo Carvajal, duas características são predominantes e marcantes: o isolamento e a desobediência. O adolescente ao voltar toda sua atenção e libido (energia – desejo) para o investimento de si se oporá, como já foi mencionado na crise anterior, a qualquer prescrição normativa do adulto, pois o processo do superego, em curso, faz com que o adolescente isole-se constantemente. É salutar expor, embora sucinto, o conceito de aparelho psíquico (Id, Ego, Superego) da personalidade freudiana para entendermos o que significam algumas das mudanças psíquicas pelas quais o adolescente passa nesse momento de crise de isolamento e desobediência aos pais e/ou cuidadores. Por Id entende-se a dimensão psíquica pulsional da personalidade (LAPLANCHE, 1992, p. 219). Ou seja, o Id é a dimensão psíquica que, pela pulsão, busca satisfazer, de forma imediata, as necessidades desde a tenra idade. Por Ego entende-se a dimensão psíquica que tem a função de mediar o Id e o mundo externo. O Ego aprende a decidir quais impulsos do Id serão satisfeitos e o momento em que irá ocorrer. Por Superego entende-se o mecanismo psíquico com a função de censurar toda e qualquer manifestação pulsional descomedida. Nestes termos, “[...] o seu papel é assimilável Psicologia da Educação 99 ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego. O Superego age como ‘tribunal’ para censurar a impulsividade”(LAPNACHE,1992, p. 497). Mediante esse esclarecimento, o adolescente nesse momento de crise, volta-se para o investimento de self (si-mesmo), introjetará regras e normas de acordo com suas pulsões libidinais. Por libido entende-se, tomado do conceito freudiano, vontade e desejo – energia. Nesse caso, significa toda a energia libidinal que o adolescente emprega para a produção de si-mesmo. Para Carvajal (1998, p. 131 - 132), o isolamento é o momento em que o “[...] adolescente púbere só aceita as normas deste superego internalizado e começa a lutar contra os pais, já que representam o resto das coisas superegóicas que ele não pode aceitar. Isto fica claro em seu comportamento. A introjeção libidinal ou superinvestimento do self levam-no inevitavelmente a um fenômeno de isolamento.” A outra característica dessa crise diz respeito à desobediência. Desobedecer aos pais representa para o adolescente uma necessidade de oposição sistemática inerente ao processo de identidade e identificação. Ou seja, “neste período, isto se manifesta por um oposicionismo em geral passivo e uma desobediência persistente. São ostensivas, além disso, a prepotência, a zombaria, o ultraje, o denegrimento e a mudança de caráter” (CARVAJAL, 1998, p. 132). Essa crise de autoridade do adolescente também ocorre no meio escolar quando o púbere manifesta “mecanismos de esturpidificação”: não estuda, esquece com frequência de fazer os temas e/ou atividades extraclasse, zomba de qualquer norma que vai contra suas expectativas, mostra-se indisciplinado e tem condutas anti-adultas. Pelas razões expostas até aqui, essa crise de autoridade do adolescente é um momento necessário na constituição psíquica do púbere. É salutar que os pais e professores saibam que a crise de autoridade constitui-se numa função importante na etapa da formação psíquica do adolescente. Por isso, a função e a responsabilidade de pais e professores são, também, encontrar, mediante conhecimento, formas de mediar a relação do adolescente com o mundo e consigo mesmo. Compreender o que eles estão passando, dizendo e sentindo é um compromisso de amor e respeito ao outro. Quando isso não ocorre alguém sai perdendo, se for o adolescente, pode significar uma adolescência abortada. III) Crise sexual Na crise sexual existem algumas características peculiares ao processo de transformação genética e psíquica que ocorre no adolescente, tais como introversão libidinal, auto-erotismo e amizade íntima, entre outras. As mudanças genéticas e psíquicas que ocorrem na passagem da infância para a adolescência, muitas vezes de forma turbulenta, provocam novas sensações no púbere na medida que começa o investimento corporal: ao tocar o corpo sente sensações estranhas que envolvem sentimentos ambíguos, como prazer ao se tocar e culpa por sentir a sensação do prazer. Na verdade, a crise sexual é a mais angustiante e complexa para o adolescente, pois, segundo Carvajal (1998, p. 134), “[...] está baseada na reorganização do erotismo sob novas leis estruturais. Trata-se de transformar uma estrutura infantil de funcionamento erótico em uma estrutura adulta”. Por introversão libidinal entende-se a mudança de estrutura que provoca sensações de prazer no adolescente ao tocar seu corpo. O que difere a libido da infância para a adolescência? A primeira, a libido é dirigida ao mundo externo especialmente aos pais, em alguns casos a objetos. Na segunda, a libido é dirigida ao próprio corpo do adolescente: A maturidade das gônodas e a conseqüente mudança genital (aumento de possibilidades de excitação por mielinização e crescimento físico das ‘zonas erógenas’), fazem com que Psicologia da Educação 100 o sistema transborde em sensações incomuns, agudas, peremptórias, e avassaladoras, francamente traumáticas para o self, encontrando um ego pouco preparado para esse evento. A irrupção no corpo (e em sua concomitante representação mental) deste novo erotismo, cria uma situação de severo desequilíbrio que provoca surpresa, ambivalência, confusão, altos níveis de excitação contida concomitante angústia (CARVAJAL, 1992, p. 136). Por essa razão, o adolescente busca mecanismos de defesa para agir diante daquilo que se passa consigo, sem saber o que o origina. Logo, segundo Carvajal (1998, p. 136), O púbere precisa se defender deste ‘ataque’ e o faz regredindo, recalcando, negando, dissociando, isolando-se, todas estas, manobras que se traduzem em condutas psíquicas e comportamentais: angústias, ensimesmamento, infantilização, passividade motora, indisciplina, irritabilidade, agressão, afetos desencontrados, fantasias invasivas e ambivalentes de procura e rejeição do gozo erótico etc. Outra característica que surge a partir das mudanças genéticas e psíquicas é o auto-erotismo, que consiste em conhecer zonas erógenas do corpo que provocam sensações excitantes. Ao contrário do que se preconiza no senso comum, A masturbação é também uma conduta de treino físico e mental para a integração, a maturação e o manejo da atividade orgástica e genital em geral. [...] É o começo de uma eclosão de excitação genital que invade e assusta o latente-púbere. Não quer ficar com seu próprio corpo em ebulição e por isso requer companhia. Lentamente a curiosidade e a pressão do instinto vencem as fobias e temores, filhos da ‘pureza infantil. (CARVAJAL, 1998, p. 138 – 139). A autoerotismo através da masturbação é uma atividade que o adolescente procura conhecer e estimular para que ocorram novas sensações. As coisas mudam um pouco quando ocorre a primeira menstruação na moça e a primeira ejaculação no rapaz. Embora a sensação ocorra de modo diferente para meninas e meninos, esse evento representa ao mesmo tempo um novo conhecimento e uma porta para novos conflitos advindos de sensações agradáveis e desagradáveis. O amigo íntimo tem a função justamente de deslocar a atividade solipsista autoerótica para uma atividade grupal. Ou seja, o amigo íntimo propicia que o adolescente passe a investir mais no mundo real e menos nas fantasias, o que leva ao restabelecimento do equilíbrio. b) Etapa Nuclear (13 – 17 anos): aparecimentos das principais características do adolescente A etapa nuclear corresponde à fase do centro de seus interesses e do aparecimento do grupo, ou seja, o aparecimento do grupo como necessidade de compartilhar, em oposição à rejeição e exclusão: “aparece uma necessidade compulsiva de compartilhar tudo, assim como a rivalidade e a tentativa de buscar a preferência e a liderança. O lema é não ser rejeitado e estar incluído em todas as atividades grupais” (CARVAJAL, 1998, p. 85). As principais características dessa etapa são: o grupo, a gangue, moda e meios de comunicação, os afetos e as relações, luta contra a autoridade, moralismo e caráter, o erotismo nuclear, a importância do continente escolar e familiar, presença do pai. O grupo aparece em oposição à rejeição e exclusão. Toda a atividade desenvolvida no grupo tem como pressuposto o reconhecimento e a aceitação, a partir disso, criam-se códigos de comportamento que deve ser seguido por todos os membros do grupo. Na hipótese de descumprimento Psicologia da Educação 101 do código o ostracismo é o maior castigo, ele pode desencadear atitudes de agressividade, angústias, depressão, suicídio ou tentativas de autodestruição (CARVAJAL, 1998). A atividade desenvolvida no grupo é fundamental na constituição do adolescente porque, além de sentir-se aceito, aprende a ser admirado, aceito, idealizado e respeitado, são desenvolvidas várias relações afetivas. Para Carvajal (1998, p. 86), “o grupo é o centro da atividade psicológica do adolescente nuclear e, portanto, epicentro que dá coesão à sua mesmidade”. Grande parte dos interesses está relacionada aos pares do mesmo sexo. O surgimento da gangue representa a deformação do fenômeno do grupo: enfretamento violento às normas estabelecidas – origina-se no terreno das proibições sociais. A gangue se espelha no líder, geralmente negativo, sendo que a principal atitude dele é semear o caos a partir de suas próprias regras. A gangue, segundo Carvajal (1998, p. 86), “emerge sempre em torno de um líder negativo, paradigma da ação destrutiva, da valentia sem temores, que aceita o risco mortal, que se move numa situação limite entre a vida e a morte, entre a inadaptção social e o direito. Uma pessoa irreverente, sem ninguém acima de sua cabeça, que dá a sensação de não ter amo nem lei, que não obedece ou se dobra diante de ninguém. Com frequência é alguém iluminado por concepções filosóficas e valores próprios que transmite a seus adeptos. Estes o acompanham cegamente.” O grupo dá uma sensação de poder destemido, por essa razão, suas ações têm como pano de fundo espalhar a discórdia sem limite, pois age sempre no limite e sem contenção. Na maioria das vezes, suas atividades têm como entorno a delinqüência e condutas antissociais. Quando um membro é excluído corre o risco de ser eliminado. Mas o que leva ao surgimento da gangue? Na nossa cultura ocidental, o trabalho das mães, a decomposição familiar, as regras de jogo social pouco rígidas, o abandono, e o abuso dos meios de comunicação ao oferecerem modelos de comportamento de tipo escandaloso ou violento, são alguns fatores que propiciam este fenômeno. (CARVAJAL, 1998, p. 88). Ao contrário da gangue, o grupo aceita as normas sociais, mesmo que se oponha em sua maioria, fortalece as relações afetivas e o respeito pelo outro, desenvolver atividades que proporcionem crescimento individual e ao mesmo tempo grupal. Ao buscar um comportamento que é rejeitado pelo adulto e a ele se opor sistematicamente, como uma necessidade de autoafirmação do seu eu, o adolescente nuclear pode cair na manipulação publicitária do fenômeno da moda e dos meios de comunicação. Quando os meios de comunicação capturam as necessidades do adolescente nuclear, segundo Carvajal, (1998, p. 88), Torna-se assim facilmente manipulável. Aquele que lhe oferecer coisas que lhe permitam levar a cabo suas necessidades, estará fazendo grande negócio. Nasce então o trabalho dos meios de comunicação manipulados pela publicidade, oferecendo todo o tipo de modelos identificatórios anticultura, com o único objetivo de promover o consumo e obter lucro. Carvajal preconiza que os meios de comunicação ao vender moda manipulam os processos identificatórios do adolescente. Da mesma forma em relação à música e outros produtos midiáticos, para se diferenciarem dos padrões e normas dos adultos acabam sendo capturados pelos modelos oferecidos. Psicologia da Educação 102 O que preocupa hoje não é o surgimento das inevitáveis crises mas a irresponsável manipulação que delas se faz e as suas conseqüências dessa manipulação na produção de uma aventura adolescente, que pode confrontar nossos jovens com situações limite, de conseqüências irreparáveis, como são todas aquelas geradas pelas gangues delinqüências (CARVAJAL, 1998, p. 89). Para o adolescente nuclear, a atividade grupal acaba sendo o modelo de relacionamento que interiorizará em seu self. No entanto, mesmo no grupo os afetos e as relações passam por momentos de instabilidade em função de conflitos que ocorrem com seus pares, ainda mais quando o centro do conflito envolve pessoas do sexo oposto. Relações amorosas entre adolescentes são pouco estáveis, pois ele ainda encontra-se em processo de descoberta. Para um adolescente nuclear as relações amorosas ocorrem mais no nível da idealização (amor platônico) do que propriamente com o objeto real externo. Progressivamente, o amigo íntimo é substituído pelo amigo íntimo do sexo oposto, que muitas vezes por serem relações intensas acabam em namoro, constituindo, assim, a heterossexualidade. Tal como na etapa puberal, o adolescente nuclear também luta contra a autoridade só que nessa etapa de forma mais ativa e organizada. Tudo aquilo que lembra o passado e a infantilidade é rechaçado com todas as forças. Para Carvajal (1998, p. 92), a própria moda é uma forma de conduta de oposição aos símbolos de autoridade. Assim, “é a época do surgimento de um modelo antiadulto desafiador. Este se manifesta na moda mutativa de forma acelerada”. O moralismo e caráter é outra característica presente no adolescente nuclear e está subjacente a manifestação e rejeição a tudo que considera infantil. Chamá-lo ou compará-lo à criança é uma ofensa grave, contra a qual logo reage bravamente, a partir daí começa a desenvolver a capacidade de autocrítica. Afirma Carvajal (1998, p. 93) que “suas crenças e convicções são extremamente rígidas. Sua capacidade de crítica é demolidora e dada à idealização, não permitindo que nada nem ninguém cometa erros, sendo perseguidor obstinado da moral e da ética dos pais”. No erotismo nuclear a sexualidade é latente em relação à heterossexualidade, a atividade erótica é efervescente e consideravelmente ativa. Por essa razão, o adolescente sente curiosidade pelo corpo do sexo oposto, o que acaba levando em sua maioria a “[...] afeição pela pornografia, pelos espetáculos eróticos, pelo álcool e pelas drogas. A atividade sexual ainda está baseada no auto-erótico e na masturbação, mas com características diferentes” (CARVAJAL, 1998, p. 93). É extremamente oportuno frisar que a internalização das funções de aprendizagem do self é fundamental para que o adolescente tenha um bom rendimento escolar e uma convivência familiar o tanto quanto possível equilibrada e ponderada. Nesses termos, quanto mais próxima for a relação escola e família maior serão as possibilidades de se trabalhar as condutas e manifestações do fenômeno adolescência. Por não fazer parte de suas atividades prioritárias o estudo pode se tornar um fardo na vida do adolescente; não que ele não queira aprender, mas talvez muitos métodos de ensino precisem ser adequados para atrair a atenção e, progressivamente, converter o centro de interesses do adolescente. É bom lembrar que na etapa “uma das situações mais preocupantes do adolescente nuclear urbano é a falta de respaldo escolar” (CARVAJAL, 1998, p. 94). Outra consideração fundamental é que tenhamos clareza que o adolescente de hoje não é o mesmo da década de 70. Isso implica dizer que se torna necessário a pais e professores conhecerem o que significa o fenômeno adolescência, em seus aspectos dinâmicos biológicos e psíquicos, na constituição do sujeito. Condutas e manifestações de indisciplina e esquecimentos na vida escolar e oposição e relutância na vida familiar fazem parte do repertório de atividades nesse momento da vida do adolescente. Porém, não se deve cometer equívocos em nome desse fenômeno abandonar o “não” e deixar o adolescente entregue a sua própria sorte. Psicologia da Educação 103 Tanto na escola como na família a exclusão e/ou o abandono, pode ser a mensagem fatal para o adolescente, para o qual a gangue, o alcoolismo e a droga podem ser o porto da próxima aventura. Vários estudos realizados nas últimas duas décadas evidenciam que, geralmente em casos excessivos, as gangues recrutam esse adolescente; pois tanto a escola como a família perdeu o significado da oposição sistemática em relação ao adolescente. Por exemplo, para a psicanálise, especialmente a contemporânea, o momento que vive a sociedade brasileira tem levado ao surgimento de inúmeras “tribos urbanas” como sinal de protesto às lacunas nas relações parentais e escolares. Evidentemente, como foi colocado em outro momento, essa questão não é tão simples e redutível somente à ausência parental e/ou da compreensão do professor, senão, também, pelos meios de comunicação midiáticos que desenvolveram mecanismos sofisticados para capturarem o adolescente (moda, música, dança). A presença do pai e/ou cuidador, mesmo sob a oposição sistemática em relação às normas, em termos psíquicos, representa a possibilidade de espelhamento e internalização da importância das normas para a constituição do self do adolescente. Por outro lado, é prudente observar e considerar que os pais e/ou cuidadores, assim como professores, representam o “espelho” para a interiorização dos elementos da cultura imprescindíveis para a vida adulta. A esse respeito, Carvajal (1998, p. 95), salienta que nessa fase aparece como algo altamente positivo a época da: [...] originalidade, da criatividade, do otimismo, da exigência de norma justa e flexível, dos maiores desejos e da busca do bem-estar comunitário, da mudança, da justiça social, da luta contra o inautêntico e pacato, do progresso, da felicidade transbordante, do início de atividades desportivas ou de preferências que podem dar um sentido agradável à vida. O adolescente nuclear é uma pessoa tenaz, generosa, aguerrida, lutadora e convicta de que pode transformar o mundo com seu esforço pessoal. Portanto, paradoxalmente, é fundamental para o adolescente a presença do pai, mesmo sob a égide da oposição do filho, pois precisa de um guia no qual se espelhar enquanto identidade de subjetivação. Pela oposição do pai o adolescente constrói seu processo de identificação e a aprendizagem de valores como: respeito, compromisso, liderança e, sobretudo, amor. 1.3 As crises na etapa nuclear: identidade, autoridade e sexual ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ I) Crise de identidade Para Melanie Klein (1997), a realidade é sempre a interação entre os aspectos internos e os externos no processo identificatório. A crise de identidade reside justamente na confusão que se estabelece na mente do adolescente, pois precisa interiorizar aspectos da relação parental para produzir a sua identidade ao mesmo tempo em que dela quer se afastar. As características da crise de identidade do adolescente nuclear se manifesta pelas condutas que projeta: agressividade, confronto com a autoridade, a moda e o grupo, entre outras. Vale ressaltar que essas características são produtos das transformações genéticas e psíquicas intensas e num período relativamente curto, comparando com outras fases da vida. O processo identificatório na infância tem como objeto principal os pais, estes servem de modelo na sua constituição infantil, seja pela imitação, seja pelos laços afetuosos que vivencia. De acordo com Carvajal e Klein, quanto mais uma criança vivencia uma relação familiar que tenha como pressuposto Psicologia da Educação 104 o diálogo, a afetividade, a compreensão, a justiça mais a criança terá oportunidade de organizar o caos interior na fase inicial da vida, pois ao brincar de imitar uma ação altamente positiva, por exemplo, o relacionamento afetivo entre o pai e a mãe, internaliza esses elementos afetivos que passam a organizar a estrutura interna do seu self. Evidentemente, isso também ocorre na adolescência só que de modo diferente e inconsciente. A diferença é que haverá outros fatores externos que agirão como pressão na mente do adolescente nuclear ao mesmo tempo que a mudança genética. Se antes ele assumia os pais como modelos identificatórios, por meio das imitações no brincar, agora substitui o self-pais pelo self-grupo. Uma conduta que mostra a mudança de vínculo em relação a tudo o que vem do adulto se chama agressividade. Por agressividade entende-se, no contexto de crise nuclear, a busca pela autonomia em relação à imposição e/ou submissão aos pais. No entanto, o adolescente enfrenta outro conflito interno no processo: o luto. Ou seja, o rompimento com tudo aquilo que o identificava com a infância e o desligamento com a autoridade dos pais. Winnicott (1975), por exemplo, ressalta que os adolescentes quando transgridem as leis parecem tentar encontrar alguma resposta para seus conflitos inconscientes. Outra característica da crise de identidade diz respeito à moda e ao grupo que por falta de conhecimento por parte do adulto, pode tornar ainda mais aguda a crise do adolescente. Às vezes, de forma inconsciente, segundo Carvajal, o adulto reage com atitudes de ciúme em relação a transladação do vínculo objeto-pai para o objeto-grupo, encarando como uma afronta. Na verdade, o que precisa ser compreendido é que o adolescente luta na consciência pela independência parental. Quando há pressão do ambiente social, especialmente dos pais, o adolescente na ânsia de ser diferente, como já foi colocado, procura criar seus próprios códigos, usar uma linguagem que seja indecifrável pelo adulto e roupas segundo o seu estilo e/ou ao do grupo que pertence. Para Carvajal (1998, p. 115), “há um forte propósito na publicidade de não permitir uma completude do self, deixando sempre aberta uma brecha por onde se possa produzir angústia de não-completude e, portanto, se possa oferecer um produto e vendê-lo. O adolescente nuclear é alguém em busca de identidade e, portanto, um possível consumidor insaciável. É suscetível de manipulações e controles por parte dessas estruturas que o conduzem a seu bel-prazer.” Voltamos agora ao ponto extremamente importante: além de a crise de identidade ser um produto de transformações genéticas e psíquicas, para além da vontade subjetiva do adolescente, há outra de ordem social: o grupo e os meios de comunicação. Por essa razão, quando se tratar de crise da adolescência não se pode ignorar o fato de que o grupo e os meios de comunicação exercem, também, considerável influência no processo identificatório do adolescente nuclear. Eis um assunto para pais e professores dialogarem nos mais variados âmbitos sociais, pois, senão, pode-se facilmente cair na tentação de atribuir à crise somente a falta de atenção e compreensão de pais e professores, mas, sobretudo, do meio social. Como afirma Carvajal (1998, p. 115): “Infelizmente, o rito e o mito das culturas tradicionais foram substituídas, em seu modelo de identidade e de controle, por uma cultura de consumo irreparável, cujo único objetivo é vender através da oferta de modelos de identidade rápidos e em constante mudança, com fins de lucro”. II) Crise de autoridade nuclear Ao contrário do que o adulto possa imaginar, o grupo pode ser um mediador altamente positivo no auxílio para o adolescente nuclear internalizar normas superegóicas. Ou seja, “[...] bons amigos o arrastam ou servem de modelo para que internalize em seu self, pelo fenômeno do self compartilhado, novas normas superegóicas”(CARVAJAL, 1998, p. 132). Psicologia da Educação 105 Cabe uma indagação relevante: e quando o adolescente se “espelha” no líder do grupo, o que pode ocorrer em termos de processo identificatório com o adolescente nuclear? No processo identificatório podem ocorrer duas situações. Uma delas já foi descrita anteriormente, ou seja, aquela em que o líder do grupo tem um superego internalizado pode ser “espelho” para os demais membros do grupo, a outra é quando há uma dupla situação: pobreza de normas internalizadas do grupo e do líder. Nesse particular, Carvajal (1998, p. 132), assevera que [...] quando a maioria do grupo tem pobreza de superego internalizado ou não tem certas normas em seu si-mesmo [self] que o adolescente isolado possui, este jovem facilmente inibe suas próprias normas internalizadas, reprime-as, abandonando-as e se identifica com os que não têm normas internalizadas, sendo vítima do objeto líder grupal destrutivo, daninho e perverso. Compreender o que se passa com o adolescente nas crises que passa não é uma tarefa fácil para pais e professores, ainda mais quando não depende somente destes para que o adolescente internalize normas superegóicas. Para além do senso comum, a “boa companhia”, como preconiza Carvajal, significa o aporte do adolescente na construção da identidade de seu “eu”. Outra consideração importante aos pais diz respeito ao cuidados e manejos com condutas exacerbadas de “egoísmo”, provenientes do “narcisismo” do adolescente, pois como ele encontra-se em processo identificatório exigirá espaços familiares só para ele: quarto, televisão, computador, entre outros. É comum não querer repartir certos objetos e espaços com o grupo familiar. Nas palavras de Carvajal (1998, p. 133): “O adolescente nuclear exuberante é o maior desafio que os progenitores têm para calibrar o nível de racionalidade e maturidade por eles alcançado em relação ao manejo de seus filhos”. III) Crise da sexualidade nuclear O erotismo nuclear é um passo importante na sexualidade do adolescente, pois começa a manejar com mais propriedade os impulsos libidinais ao mesmo tempo qualitativos, ou seja, de objetos ilusórios “o objeto ilusório vai sendo representado por um objeto real e, portanto, a relação intrapsíquica vai dando com a representação mental de objetos cada vez mais reais [...]” (CARVAJAL, 1998, p. 141). Seu interesse desloca-se do da relação especular narcísica para uma relação realista heterossexual. As fantasias agora se defrontam com a realidade na qual o adolescente irá se deparar com mais intensidade. Quanto maior for a internalização superegoica por parte do adolescente nuclear tanto mais conseguirá enfrentar as crises que decorrem das representações objetais idealizadas e internalizadas com as novas representações reais que advém do mundo externo. E quanto menor for a internalização superegóica maior serão as dificuldades para integralizar seu self. Outra característica é “quanto mais carente for o self em suas vivências reais de satisfação das necessidades primárias, mais forte é a paixão e mais dramática a consequência da queda ante a realidade frustrante, e a perda objetal” (CARVAJAL, 1998, p. 142). O embate entre fantasias projetivas e a realidade objetal produzirá muitas ansiedades, angústias e frustrações. No entanto, para a psicanálise, de modo geral, é salutar que se tenha pequenas frustrações nessa etapa da vida porque é a partir delas, também, que o adolescente identificará o seu self. Para Klein, as fantasias são representantes mentais das pulsões instintivas que defronta com a realidade. A crise da sexualidade na adolescência nuclear implica em paradoxos e contradições em função do processo da organização do self, pois envolve muitos temores que geram sentimentos antagônicos, pois, ao mesmo tempo em que deseja uma experiência sexual real, além do processo masturbatório fantasioso, sente temores por aquilo que pode acontecer, tanto com as moças como com os rapazes. Psicologia da Educação 106 Elas sonham em ter sua primeira atividade sexual num clima de romance, sensibilidade e acolhimento, algo semelhante ao conto de fadas, ao “príncipe encantado”, quando isso não acontece pode levar a frustrações, sentimento de culpa, raiva, indignação consigo mesma. Com os rapazes acontece isso e mais a possibilidade de uma ejaculação precoce ou o pensamento aterrorizante da síndrome da impotência. A sexualidade na adolescência nuclear provoca, como mencionado anteriormente, inúmeras sensações paradoxais: desejo-culpa, fantasia-realidade, narcisismo-denegrimento do objeto (parceira), entre outras. É certo que “a experiência sexual com o objeto real produz muitas vezes grande desilusão, quando se compara o coito com a experiência masturbatória” (CARVAJAL, 1998, p. 143). Pode ocorrer a experiência evasiva quando o adolescente diz: “Então era isso?!” No entanto, é bom que se diga que a experiência não seja de todo ruim. O que pode vir a complicar o sentimento de evasão da expectativa, tornando o ato meramente mecânico e fisiológico, tenha sido o grau exacerbado de ansiedade que o envolvia no ato ou pelo excesso de fantasia que se cria entre este e a situação real, ainda mais quando alguém do grupo relata experiências dando ênfase à expectativa de um orgasmo transcendental. Há que se dizer que em relação às moças a pressão para a iniciação sexual na adolescência nuclear em relação ao grupo é tamanha que se ela se opor pode ser relegada ao ostracismo, o que pode ser penoso para muitas moças e rapazes. A esse respeito, Carvajal (1998, p. 144), afirma que “a mulher busca uma integração em torno da sexualidade. O homem lhe dá um coito veloz e uma retirada: ‘bate e sai correndo’, dizem os adolescentes fazendo um chiste de suas angústias sexuais”. b) Etapa Juvenil (17 – 20 anos): transição entre a fase adolescente à fase adulta A etapa juvenil se aproxima mais do modelo adulto quando o jovem começa a focar suas atenções em si, no convívio familiar e, fundamentalmente, na sua independência em relação aos pais, especialmente no que diz respeito ao financeiro. Sente-se mais responsável pelas suas condutas, toma decisões, embora sinta insegurança e ansiedade, pois tem medo de que não seja a mais adequada. Algumas características dessa etapa são: ruptura com a psicologia grupal e a retomada ao modelo adulto, a busca pelo auto-sustento, relações e afetos, o ingresso no modelo social, o parceiro como integrador e as dependências prolongadas. Em cada etapa da adolescência há modos de compreensão inerentes aos relacionamentos familiar e escolar. Em cada etapa o adolescente age e reage de acordo com as manifestações genéticas e psíquicas em um determinado entorno social. Isso significa dizer que são características plausíveis em cada etapa, a intensidade e o entendimento vão depender de inúmeros fatores para além dos genéticos, psíquicos: os sociais. Em relação à retomada ao modelo adulto dois eventos se destacam nessa etapa: a individualização e a reaproximação com os pais. O processo de individualização inicia-se à medida que o adolescente rompe com a mesmidade em grupo e assumindo atitudes psíquicas e condutas mais próximas do grupo parental. Os pais são vistos não mais como algo a ser vencido, mas um adulto com o qual pode compartilhar experiências, normas e proposições de justiça. A reaproximação acontece progressivamente em meio a sentimentos de pertencimento ao grupo familiar. O Namoro agora se torna sério, estável e cresce o sonho de casar-se e ter filhos. No âmbito escolar, cresce a preocupação com a carreira profissional a seguir. Ele dialoga com pais e professores sobre problemas sociais e econômicos com maior dedicação. Preocupa-se com o rendimento escolar, mesmo apresentando algumas resistências em relação aos encaminhamentos metodológicos de cada professor, se aproxima daquele com quem se identifica. Até mesmo na escola vai, progressivamente, desaparecendo a rebelião e as condutas indisciplinares. Psicologia da Educação 107 Embora no contexto em que vive o Brasil é possível que a juventude se torne completa mais tardiamente do que duas ou três décadas atrás, é possível que se tenha inúmeros jovens dependendo financeiramente dos pais, haja vista a exigência e competitividade do modelo econômico, que exige do jovem trabalhador habilidades e experiência. Mesmo assim, é grande unânime a busca pela independência financeira. Afirma Carvajal (1998, p. 98), que A cada dia é mais complicado conseguir o auto-sustento e, portanto, é mais intensa e exigente a preparação e funcionamento dos adultos. A competição no trabalho e a necessidade cada vez mais imperiosa de buscar a sobrevivência antes da felicidade, faz com que o adolescente juvenil prolongue esta etapa mais do que antes. Nota-se que esse prolongamento advém mais do modelo estrutural econômico do que propriamente genético e psíquico. Isso significa dizer que até mesmo a possibilidade de assumir sua vida psíquica depende de fatores históricos e sociais. Em relação ao auto-sustento, é um dos momentos mais importantes para a integração do self juvenil e pode levar à ruptura da vida grupal, assim como o ingresso na universidade. Novas atividades e relacionamentos irão fazer parte de seu cotidiano. No entanto, isso por si só não garante o ingresso na terceira etapa juvenil se suas condutas não o levarem ao que Carvajal chama de “rito de iniciação”. Por outro lado, há que se ter um ambiente familiar baseado na compreensão, na paciência, no carinho e, principalmente, no amor. Estes sim, mais a disposição de romper com as dependências infantis e a vontade de auto-suficiência, são importantes para o ingresso na vida adulta. Outro fato que evidencia o ingresso na juventude são as relações de afeto com os membros do grupo familiar, pessoas de convivências diárias e professores. Com as relações afetivas mais alargadas surgem o ciúme e a tendência de exibir o parceiro(a) aos pais e à sociedade. O adolescente passa a ter grupo de amigos mais estáveis e que apresentam condutas próximas a sua, diferente de condutas de gangues e os menos estáveis, como também demonstra vergonha a certas condutas anteriores. Quando o jovem começa a respeitar as regras sociais percebe-se que deseja adentrar ao mundo social, com frequência demonstra interesse e preocupação com os acontecimentos sociais. Se tiver irmão adolescente procurará recriminar atos e atitudes hostis, assumindo a figura parental, pois se vê na possibilidade de mediador entre ele e o adulto, alguém que já passou por situações semelhantes há pouco tempo. Em cada etapa da adolescência (puberal, nuclear e juvenil) há um objeto (parceiro) integrador, o qual se busca para dividir necessidades, anseios, angústias e temores. Na juvenil o parceiro é aquele que está sempre disposto a ouvi-lo. Assevera Carvajal (1998, p.101), A necessidade de uma companhia para dividir sua vida em geral e seu erotismo em particular é imperiosa e sempre presente, seja tácita ou abertamente. Sua ausência ou a de um objeto compensatório converte-os em solitários, amargurados e com freqüência deprimidos. Atividade compensatória na juventude congrega em si um paradoxo, é necessário que o adulto, especialmente pais e professores, observe sistematicamente as buscas realizadas pelo adolescente como saída a situações de ansiedade e angústia, pois, para além do que é inerente a esse momento, pode estar se instalar-se nele o sentimento de incompletude. Alguns sinais disso são o isolamento, a solidão, o ostracismo, uso de álcool e drogas, entretanto, todas essas saídas compensatórias são falsas. Esse é um momento terrível para o jovem, pois ele “[...] ainda precisa de um ambiente que preencha, em parte e de maneira transitória, suas demandas afetivas carenciais” (CARVAJAL, 1998, p. 102). Ou seja, ele ainda precisa de um ambiente afetivo para integrar seu self. Psicologia da Educação 108 O jovem atinge maturidade quando, progressivamente, integraliza seu self em consonância com seu tempo e contexto e a vivência interdependente com os pais, tanto do ponto de vista psíquico como financeiro. A maturidade em processo, segundo Winnicott (1975, p. 198), representa “o triunfo [...] a essa consecução de maturidade através do processo de crescimento, não à falsa maturidade baseada na fácil personificação do adulto. Fatos terríveis estão encerrados nessa afirmação”. Essa afirmação corrobora com o pensamento de Carvajal (1998, p. 102), segundo o qual “vemos mais uma vez a enorme responsabilidade que temos, ante a civilização e a espécie, de preparar nosso adolescente para assumir a vida adulta”. I) Crise de identidade juvenil Já foi comentado em outro momento que a adolescência é uma etapa evolutiva da espécie humana, com características específicas do seu processo identificatório a partir do seu meio relacional. É a luta constante com forças internas, de origem biológica, e os aspectos da dimensionalidade do ser jovem, constituição da sua identidade. Nesse período, surgem algumas características com mais frequência, tais como: renúncias a modelos anteriores, relações interpessoais mais estáveis e o aparecimento de uma moral e uma ética profissional. Como o jovem caminha em busca de uma interdependência, quer grupal, quer parental, aos poucos abandona modelos psicológicos dos períodos anteriores, começando pelo desprendimento inconsciente e pela reconciliação com o adulto. Da mesma forma que na etapa anterior, a nuclear, o jovem passará por novos desafios no processo identificatório, rompendo e se constituíndo concomitantemente. Nesse terceiro período, a crise de identidade é menos inconsciente que nas etapas anteriores, pois o jovem já internalizou no self modelos psicológicos mais próximos do adulto, por isso, lhe parece mais familiar, porque, progressivamente, constitui sua identidade a partir de constantes internalizações do self adulto no seu, o que lhe proporciona atitudes cada vez mais próximas do adulto até que sinta que lhe são próprias. A renúncia a modelos anteriores lhe propicia o aparecimento de sentimentos de culpa, mas ao mesmo tempo de reparação a qualquer tipo de agressão ocorrida anteriormente. Às vezes, o pedido de reparação ocorre inconscientemente a partir de atitudes singelas de respeito e admiração, o que não se tinha na etapa anterior, e condutas com traços de atitudes adultas. Basta o adulto observar gestos e falas atentamente e poderá, com leituras sobre projeção, perceber algumas atitudes que remontem à reconciliação parental, seja por gestos (abraços e carinhos), seja por brincadeiras nas quais a figura parental represente, simbolicamente, o modelo de adulto a ser seguido. Conforme Carvajal (1998, p. 117), “A mudança interna é radical. Aparece uma sensação de ter vivido ou sentido a rebelião da adolescência, sentimentos de culpa para com o pai agredido e destruído, assim como a necessidade e os desejos de reparação. É o começo do processo de recalque da adolescência no adulto.” Embora abandone as condutas antiadulto, o narcisismo ainda prevalece. Mesmo que assuma condutas mais próximas dos pais, que incluem vestimentas, linguagem e atitudes, ainda assim continua embrenhado no narcisismo. Ou seja, “O modelo de relação interpessoal e a inter-relação social têm características narcisistas e não amorosas, e a escolha do companheiro [...] ainda é de intensa autocomplacência, de idealização, de paixão sem limites” (CARVAJAL, 1998, p. 117). É interessante notar que as propagandas publicitárias buscam incessantemente capturar o jovem, tal como na etapa anterior, a partir da idéia e significado de narcisismo para o jovem, tal como a propaganda da marca de cigarro Malboro para os adultos na década de 70 e 80. E o que isso tem a ver com o processo de identificação do jovem? Psicologia da Educação 109 As propagandas ao inflarem o narcisismo do jovem criam-lhe dificuldades de idealização e vínculos com seus pares. “Se há prazer, a relação perdura. A menor frustração acaba com tudo” (CARVAJAL, 1998, p. 118). Entre outras, essa é uma razão suficiente para que pais e professores mantenham sempre o diálogo com temas que possam diminuir os efeitos do mundo capitalista na criação de responsabilidades, as quais, em breve, necessitará para constituir uma família; embora isso não seja tarefa das mais fáceis a pais e professores. Como se não bastasse o bombardeio de propagandas querendo capturar o jovem, as novelas trazem em si um efeito nefasto tanto quanto a propaganda: o modelo de relacionamento interpessoal. A “moda” de relacionamentos apresentados, além de inflar o narcisismo, pode trazer-lhe dificuldades de afetos no casamento, assumir compromissos com o outro de forma responsável e madura. Para os que lograrem êxito no vestibular e adentrarem ao ensino superior, embora isso venha acontecendo lentamente, terão a possibilidade de cambiar a moral e a ética profissional se a universidade primar pela formação humana e científica; e não somente prepará-los tecnicamente para o exercício de uma profissão, para a fama e para ganhar dinheiro. É fundamental que saibamos, tanto quanto o conteúdo específico, que na universidade, O jovem universitário deve sofrer um processo interno no qual comece a primar o eminentemente social sobre o pessoal narcísico. Trata-se de uma importante tarefa da formação universitária. Se a direção e os professores não tiverem plena consciência disso, irão predominar facilmente os padrões narcisistas. O futuro profissional começará a falhar na aplicação social de sua aprendizagem (CARVAJAL, 1998, p. 119). II) Crise de autoridade juvenil Assevera Carvajal que nesta etapa o centro da crise de autoridade diz respeito ao reaparecimento da figura parental destruída na etapa anterior, agora passa ser o momento de reconstruir o modelo parental para se preparar para a vida adulta. Isto porque o self juvenil já se encontra mais bem definido e sem dependências infantis. Por meio da forma de oposição o jovem começa a recalcar condutas rebeldes. Ou seja, “O movimento interno de ruptura com o self grupal e o aparecimento de um self mais definido, sem fortes dependências infantis com as figuras parentais, faz com que a crise de autoridade de características oposicionistas ceda” (CARVAJAL, 1998, p. 133). O jovem agora começa a recalcar condutas e manifestações da adolescência, assim terá possibilidade de internalizar novas idealizações de self adulto. Se por ventura sentir alguma carga agressiva contra figuras parentais procurará recalcálas ou canalizar a energia para outras atividades. Nessa etapa, a crise de autoridade juvenil é menos complexa que nas etapas anteriores, pois além de tratar a agressividade com certo grau de consciência recalcando-a, começa a compreender a importância das figuras parentais para assumir atitudes de adulto. O pai e o professor são modelos de self adulto. III) Crise da sexualidade juvenil Na crise da sexualidade juvenil algumas características se apresentam à nova constelação de interesses do jovem, diferentes das etapas anteriores: desaparecimento do erotismo juvenil, a masturbação e Édipo e adolescência. No erotismo juvenil o erotismo grupal dá lugar ao erotismo heterossexual íntimo, ao mesmo tempo em que o investimento narcisista especular diminui progressivamente. Da mesma forma em Psicologia da Educação 110 relação à paixão, na medida que substitui o grupo cria vínculo com o “outro amado”, aos poucos vai se voltando menos para si, narcisismo especular, e mais para as necessidades do outro, objeto da sua paixão. Para muitos jovens essa passagem não é tão tranquila, mas necessária ao seu ingresso no mundo da responsabilidade e do adulto. Como ocorre essa transição do ponto de vista psíquico? Segundo Carvajal (1998, p. 147), ocorrem mudanças intrapsíquicas porque, entre outros eventos concomitantes, a libido é centralizada a um objeto heterossexual. Ou seja, A libido foi retraída no ego para um objeto único e heterossexual e menos projetivo. O interesse do adolescente juvenil já é por um ‘objeto-ego’ e não por um ‘objeto-self’. O investimento narcísico especular é menor, e o outro começa a ser considera-do como diferente e mais real, e não como uma projeção do ideal. Como a idealização é latente, sente intenso ciúme e medo de perda da (o) namorado (a), pois o vínculo se centraliza no objeto da paixão. Concomitante, o grupo vai desaparecendo de sua constelação de atividades projetivas. O processo de integralização de seu self possibilita esse deslocamento do grupo para o interesse heterossexual. Quando isso não acontece, o centro de interesse permanece relacionado ao grupo. Aos poucos volta sua atenção a cultuar a figura parental como modelo ideal a ser seguido. Em relação ao sexo, com o self integralizado, a idealização passa a ter um novo componente: menos dissociação entre o projetivo e o real. Ou seja, O erotismo está mais organizado e funciona mais sob a égide do compartilhar, do início de um gozo mais tranquilo e prazeroso, já que a confusão objetal cedeu e o erotismo é menos ambivalente. A sexualidade genital está mais integrada, com menos tendência à dissociação e, portanto, com menos elementos ligados à castração. Isso faz com que o adolescente juvenil desfrute mais sua genitalidade, integre mais o orgasmo a um erotismo compartilhado e comece a se preocupar, neste terreno, com o outro. (CARVAJAL, 1998, p. 148). Em decorrência dessa organização e amadurecimento, a atividade masturbatória tende a diminuir quando o jovem integraliza a relação e começa a melhor trabalhar a dissociação entre a idealização e a realidade. Normalmente, tende a culpar-se por masturbar-se, ainda mais quando o aspecto religioso está internalizado em seu self. Já entende que a masturbação é uma etapa a ser vencida, uma vez que começa a integralizar a sexualidade, sentindo o gozo orgástico a partir das experiências compartilhadas, e não a partir de idealizações fantasiosas características do final da segunda etapa e início desta. Carvajal assevera que é necessário que o jovem compreenda o erotismo e sua sexualidade para integralizar modelos de educação sexual mais adequada, a partir do amor autêntico, sabendo das responsabilidades com o outro e com a gravidez. Desse modo, poderá construir um modelo psicológico que tenha como pano de fundo o sentido da vida compartilhada. No tocante ao Édipo erótico e Édipo parricida, Carvajal afirma que as sociedades ocidentais atribuíram excessivo sentido ao edípico erótico na triangulação familiar na adolescência. Afirma que é mais uma necessidade da manifestação da sexualidade do que propriamente como uma necessidade pulsional voltada aos pais. Psicologia da Educação 111 Na luta pela identificação, o adolescente procurará destruir o modelo de relação na infância, na qual a criança vive na dependência dos pais, para criar a sua própria identidade, livre de qualquer verossimilhança com o modelo de inter-relação infantil com o progenitor. A princípio, podemos nos assustar com a necessidade do adolescente de cometer parricídio, no entanto, vale destacar que isso ocorre inconscientemente. É compreensível esse edípico parricídio porque o adolescente precisa eliminar qualquer norma infantilizada para que possa criar sua identidade, mesmo que isso signifique destruir o pai internamente, apenas no plano inconsciente de tudo aquilo que provoque infantilidade e dependência, para alcançar a sua identidade ideal sem quaisquer contaminações parentais. Por drama edípico parricídio entende-se, segundo Carvajal (1998, p. 149), Para o adolescente ser ele mesmo, o objeto parental ligado ao self deve desaparecer, não ter presença ativa na constelação dos objetos do self (intra-self ) e permitir assim sua identidade profundamente ideal, sem contaminações parentais. Essa necessidade implica uma forte dose de agressividade parricida que, vinculada ao afeto que se tem pela figura parental, configura a base da dinâmica da relação ambivalente com os pais da adolescência. A integralização do self é uma tarefa das mais árduas na adolescência e na juventude, pois representa uma busca identificatória que começa com a mãe, pai e membros familiares, tendo que deles se afastarem e se oporem psicologicamente para depois deles se aproximarem. É um movimento intenso de oposição às normas infantilizadas para processar a sua identidade em meio a tantas crises e ambivalências que, sob a égide do seu self, causa seguidos confrontos com modelos parentais infantilizados. Assim, O Édipo, portanto, não é Édipo erótico mas um Édipo parricida. Não está centrado no ciúme do rival e nos temores de perda e abandono como se vê na infância, mas na necessidade de não ter em mente a referência paterna que o constrange e submete. O central não é se unir à mãe mas sair do pai. (CARVAJAL, 1998, p. 149). Portanto, o jovem alcança seu modelo psíquico adulto à medida que vivencia as experiências desde a primeira etapa até a juventude, em meio a tanta turbulência. Quando algumas dessas etapas são abortadas, afirma Carvajal, o adolescente encontrará dificuldades futuras para a integralização de seu self, o que poderá lhe trazer, dependendo do meio em que vive, prejuízos à constituição da sua identidade. Após a leitura desta unidade, vá até o Caderno de Atividades no Ambiente Virtual de Aprendizagem e desenvolva as atividades referentes à Unidade 5. Psicologia da Educação 112 REFERÊNCIAS -se A dolescente CARVAJAL, Guillermo. Tornar ornar-se Adolescente dolescente: uma aventura de uma metamorfose: uma visão psicanalítica da adolescência. São Paulo: Cortez, 1998. sicanálise de crianças KLEIN, Melanie. A P Psicanálise crianças. Rio de janeiro: Imago, 1997. sicanálise LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de P Psicanálise sicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992. PALÁCIOS, Jesús; COOL, César; MARCHESI, Álvaro (Orgs.). Desenvolvimento psicológico e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. ealidade WINNICOTT, D. W. O Brincar e a R Realidade ealidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Anotações _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 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