“PURAS, EDUCADAS E DISCIPLINADAS PARA O BEM CASAR”: A
CONGREGAÇÃO DAS FILHAS DO AMOR DIVINO E A EDUCAÇÃO
FEMININA NO SERIDÓ (1925-1962)
Iranilson Buriti de Oliveira/UFRN
Estabelecendo um Diálogo com a História
Durante muito tempo, as mulheres estiveram sem visibilidade na historiografia,
silenciadas enquanto sujeitos, emudecidas enquanto historiadoras. Vários fatores
contribuíram para tal silenciamento, dentre eles a carência de fontes, como também “pelo
fato de lhes ter sido prescrito o espaço da vida privada como de seu domínio, enquanto,
aos homens, coube o da vida pública, esfera privilegiada pela historiografia” (Asano,
2000, p.10).
Mas, com a Terceira Geração dos Annales, em especial após os anos 70, o
sujeito feminino começou a trilhar as linhas dos escritos históricos. Temas como a mulher
enquanto um dos excluídos da história, as teorias de gênero, a educação feminina, dentre
outros, ganharam visibilidade nos escritos de Michele Perrot, Joan Scott, Philippe Ariès,
Michel Foucault, Elizabeth Badinter e, no Brasil, Mary Del Priore, Margareth Rago, Leila
Algranti, Guacira Lopes Louro, Sandra Corazza, etc. Os desdobramentos da historiografia
brasileira dos anos 80 e 90 sobre educação e gênero, sobre o movimento de mulheres e de
homens em diferentes momentos da história, tem sugerido muitas possibilidades de revisão
em interpretações clássicas da história brasileira. Muita releitura de objetos e muitos
olhares sobre a educação feminina emergiram a partir dos anos 80, impulsionados pela
Nova História que suscitou novos temas ao historiador, mas tais pesquisas ainda localizamse nos grandes centros universitários, a exemplo da Unicamp, da USP e da PUC-SP. Na
UFRN, surgem alguns grupos que trabalham a referida temática, principalmente no Curso
de Pedagogia, a exemplo da Base de Pesquisa coordenada pela professora Maria Arisnete
Câmara Morais.
Entre especialistas nestas áreas, a reflexão tem se desenvolvido quase sempre
em caminhos paralelos. Uma breve incursão pela crítica bibliográfica, pode, assim,
iluminar questões relativas ao projeto e clarificar alguns de seus objetivos. Ao pensar
algumas das convergências e divergências que se estabeleceram entre distintas tradições de
pesquisa, podemos estabelecer com mais cuidado de que modo este projeto dialoga com
elas.
Os estudos sobre a história, gênero e educação são, evidentemente, aqueles que
de modo mais explícito debruçaram-se sobre o processo educacional no sentido mais
estrito, ou seja, aqueles que mostraram práticas escolares, prédios escolares e biografias de
professores e professoras que se destacaram enquanto profissionais. Trabalhar as ordens
religiosas e a educação feminina ainda tem sido objeto pouco investigado, conservando
ainda muitos silêncios em torno das estratégias disciplinares usadas pelas freiras e pela
Igreja Católica na educação brasileira e muitas lacunas para a história da educação.
Quanto ao Seridó, os silêncios são muitos e as lacunas visíveis. Até agora
ninguém estudou cientificamente a Ordem das Filhas do Amor Divino e o Colégio Santa
Teresinha do Menino Jesus. Os trabalhos sobre a ordem e o colégio resumem-se em
levantamento de fontes e análises religiosas, de olhares em nada críticos quanto ao
processo educacional. Dentre esses trabalhos, destaca-se A Peregrina do Retorno, escrito
pela Ir. Vilma Lúcia de Oliveira, em 1999, um livro que reúne informações apologéticas à
fundadora do Colégio Santa Teresinha, a Ir. Teresina Werner.
É por isso que elaboramos este projeto de pesquisa, pois objetivamos
problematizar as fontes disponíveis, tais como atas do colégio, cartas, diários de alunas,
depoimentos orais de antigas internas do Colégio, além de outros documentos contidos na
Biblioteca do Colégio Santa Teresina. Este projeto é importante porque visa lançar novos
olhares sobre os saberes escolares, acerca dos espaços e currículos da educação feminina
na primeira metade do século XX, momento em que a chamada “modernidade” exigia um
novo redirecionamento da educação familiar, particularmente a feminina. Que perfil
feminino construir para uma sociedade que repensava os seus lugares, que demarcava
novos espaços para os gêneros? Que dispositivos de poder e de saber eram precisos para a
construção de um sujeito feminino educado, polido e pronto para o casamento? Qual o
perfil da moça desejada para o casamento?
ENTENDENDO OS SILÊNCIOS
Ano de 1925. O sertão do seridó potiguar recebe um grupo de freiras vindas do
sul do Brasil, dentre elas a austríaca Theresina Werner. Do clima gelado da Europa ao sol
quente dos sertões, a austríaca vem decidida a mudar a temperatura da educação regional.
Com a missão de “educar moças para a vida” e “facilitar a instrução a suas filhas”, esse
grupo de freiras se instala em uma casa cedida por um caicoense, mais tarde transformada
em Biblioteca Pública Municipal. Em 11 de outubro de 1925, o solo de Caicó recebe tal
grupo, ora composto por nove freiras, a saber: Ir. Theresina Werner (fundadora do Colégio
Santa Teresinha, em Caicó), Ir. Constantina Resch, Ir. Benjamina Thuma, Ir. Prisca
Hamala, Ir. Berchmana Hardegg, Ir. Josefina Gallas, Ir. Anna Everling, Ir. Martha
Steffense e Ir. Madalena Mumbach.1 Estabelecidas no Centro da Cidade, começam a
arquitetar o projeto de construção de uma escola para as moças da região, objetivando
“prepara-las para a vida”.
Uma das problematizações que fazem parte deste projeto é a escolha de Caicó
como espaço para atuação das Filhas do Amor Divino. Por que Caicó, uma cidade com
pouco menos de 5 mil habitantes, foi palco de instalação de uma escola feminina nos anos
20? Quais as estratégias que impulsionam a Ir. Teresina Werner a deixar Serro Azul, no
Rio Grande do Sul, e vir implantar a Escola Santa Teresinha no interior do Rio Grande do
Norte?
Os questionamentos acerca desse projeto ousado para a época, a procura de
respostas para as mesmas e as reflexões advindas do contato inicial com a literatura
pesquisada – Atas, cartas das irmãs da Congregação, exposições culturais feitas pelos
alunos da Escola Santa Teresinha, diários de ex-alunas da escola, peças teatrais sobre a
vinda das freiras para Caicó – despertaram-nos o desejo de visualizar como se processou a
educação dos corpos femininos, os rituais cotidianos que cercavam o processo pedagógico
e a visibilidade dada pela Igreja Católica à construção natural das diferenças entre os
sexos, ou seja, na mesma cidade que se instaura um internato feminino se instaura,
posteriormente, um internato masculino – o Ginásio Diocesano Seridoense -, fundado em
1942.
Atuando no sentido de ordenamento e disciplinamento do corpo social, as duas
escolas católicas de Caicó promovem a domesticação de rapazes e moças e reforçam a
diferenciação biológica, além de dar visibilidade aos padrões tradicionais de sociabilidade,
conforme vemos nas matérias ensinadas em cada uma das escolas.2 Sobre os processos
escolares como formadores e reprodutores de desigualdades sociais, Guacira Lopes Louro
(1998, p.57) argumenta que:
Diferenças, distinções, desigualdades... A escola entende disso. Na
verdade, a escola produz isso. Desde seus inícios, a instituição
1
Ata de fundação do Colégio Santa Teresina. Fev. 1926.
No Ginásio Diocesano Seridoense, os alunos estudavam matérias consideradas “masculinas”, tais como
matemática e geometria, enquanto no Santa Teresinha as moças estudavam, dentre outras disciplinas, piano,
violino, bandolim, além de prendas domésticas.
2
escolar exerceu uma ação distintiva. Ela se incumbiu de separar os
sujeitos (...) Ela dividiu também, internamente, os que lá estavam,
através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento,
classificação.
Portanto, este projeto objetiva saber muito mais do que a história “oficial” da
educação ministrada pela congregação das Filhas do Amor Divino no Seridó. Ele pretende
contemplar o processo de educação feminina para que compreendamos como se deu a
elaboração dos conceitos de gênero no interior desses espaços de transmissão de saberes e
de poderes. Pretendemos, assim, entender como as ações cotidianas do espaço escolar
respondem pela internalização e subjetivação de princípios e de valores tradicionais,
homogeneização de posturas e comportamentos para o sexo feminino, naturalização das
diferenças elaboradas social e culturalmente para os sexos.
A opção pelo Seridó, especificamente Caicó, como espaço desta pesquisa
decorre da singularidade desta cartografia no contexto potiguar. Na década de 20, Caicó
era uma cidade com uma efervescência cultural que a destacava das circunvizinhas. Com
três jornais em circulação – O Seridoense, O Binóculo e o Jornal das Moças – esta cidade
registrava espaços de lazer e de diversão, a exemplo do Cine-Theatro Avenida e o Café
Comercial. Além disso, clubes e locais de lazer eram requeridos por personalidades, como
Renato Dantas, ansioso por trazer para cá as “agitações modernistas” que encontrava no
Recife, onde estudara Direito.3 Se singular ou diferente das demais cidades do Seridó,
Caicó, como as outras urbes do país, apresentava o traço comum das diferenças de gênero,
já que as mulheres estavam igualmente submissas ao poder formal do pai ou do marido,
conforme registrado nas crônicas do Jornal das Moças.
Portanto, com muita “vontade de saber” arquitetamos esta pesquisa,
objetivando saber como foi elaborado o espaço cartográfico para as moças “puras,
educadas e disciplinadas para o bem casar”. È uma pesquisa que procura entender os
processos de escolarização e de internalização desenvolvidos no interior da Ordem das
Filhas do Amor Divino e da Escola Santa Teresinha do Menino Jesus, em Caicó, quanto à
educação feminina no período de 1925 a 1962. É um desvendar de imagens e de
representações constitutivas dos conceitos de gênero expressos nas doutrinas religiosas e
3
Jornal das Moças, 1926.
nos preceitos educacionais, bem como nas práticas cotidianas tanto das freiras pertencentes
à Ordem quanto dos corpos discente e docente do Colégio Santa Teresinha.
Munidos de um referencial teórico-metodológico ancorado em Michel Foucault
e Félix Guattari, através do qual nos deu suporte para compreendermos o significado das
duas instituições acima supracitadas no tocante à homogeneização de práticas, posturas e
papéis diferenciados segundo o gênero, procuramos estudar a importância da educação
feminina em Caicó como constitutiva de um espaço de divulgação de saberes e de poderes
para o sexo feminino, ou seja, embora houvesse homogeneização de práticas e
comportamentos segundo o gênero, havia também a cristalização de um perfil social
diferenciado para as moças que freqüentassem os espaços escolares do Colégio Santa
Teresinha.
Nessa operação historiográfica de mapear os documentos, é importante,
também, que os localizemos historicamente, atentando para as condições de sua produção e
para os interesses aos quais estavam ligados; a que instituições serviram e que
conseqüências trouxeram para os sujeitos que lhes nomearam, já que estes (os sujeitos) não
existem fora das palavras, embora existam fora dos textos. Para o historiador, os sujeitos
são construções históricas que chegam até nós através das palavras, nos são apresentados
mediante os inúmeros discursos. Conhecemos, portanto, ao pesquisar os arquivos do
Colégio Santa Teresinha do Menino Jesus, a divulgação local do conceito de corpo
educado e preparado para o bem casar através da produção discursiva dos receituários da
Ordem e do corpo docente do Colégio. Participam dessa construção o discurso do docente,
as propagandas de divulgação do colégio, as peças teatrais que são apresentadas pelas
alunas, os relatórios da Ordem e da Escola, as revistas eclesiásticas, dentre outros. Essa
produção discursiva são máquinas que produzem sentido e significados, que produzem e
instauram uma dada verdade. Assim, optamos por um recorte metodológico que leva em
consideração a análise de discursos, interrogando os espaços de produção do saber e os
interesses que se moviam na confecção discursiva.
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