O PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA: UMA AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO NO MUNICÍPIO DE BOTUCATU 1 FAMILY HEALTH PROGRAM: A PERFORMANCE EVALUATION IN BOTUCATU. Geraldo Galendi Júnior Mestre em Educação, Administração e Comunicação José Américo Martelli Tristão Doutor em Administração de Empresas pela EAESP-FGV e professor da Universidade São Marcos Regiane Aparecida Cardoso de Paula Doutora em Ciências Aplicadas à Saúde e professora da Universidade São Marcos 1 Parte da dissertação de mestrado do primeiro autor. Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Resumo Este artigo descreve a trajetória de construção e desenvolvimento das políticas públicas de saúde, tendo como principal eixo de análise o Sistema Único de Saúde – SUS e o Programa de Saúde da Família - PSF como estratégia de descentralização do sistema de atendimento á saúde e conseqüentemente a expansão e reorientação da atenção básica à saúde no país. Os dados utilizados no estudo foram coletados a partir de fontes de dados secundários e entrevistas. A pesquisa bibliográfica foi feita a partir de livros, revistas, periódicos, teses e dissertações, os quais foram utilizados como fundamentos teóricos com o objetivo de compreender e descrever as políticas de saúde, situando a gestão pública municipal em relação ao contexto da reforma do Estado, identificando os principais elementos da gestão municipal da política de saúde. Palavras-chave: Programa Saúde da Família, Sistema Único de Saúde, Botucatu. Abstract This article describes the path of reconstruction and development of public health policies, with the main centers on the Health System - SUS, and the Family Health Program - FHP as a strategy of decentralization of the health care system and therefore will expansion and reorientation of primary health care in the country. The data used in the study were collected from secondary data sources and interviews. The literature search was done from books, magazines, journals, theses and dissertations, which were used as theoretical foundations in order to understand and describe the policies health, placing the municipal public administration in relation to reforming the state, identifying the main elements of the municipal management of health policy. Keywords: Programa Saúde da Família, Sistema Único de Saúde, Botucatu. 2 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Introdução O Programa Saúde da Família teve início no Brasil em junho de 1991, com a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. A partir daí, começou-se a enfocar a família como unidade de ação programática de saúde e não mais o indivíduo. Todavia, foi a experiência realizada em Niterói, em 1992, com o nome de Programa Médico da Família, numa parceria com o Ministério da Saúde Pública de Cuba, que trouxe o esboço do que, atualmente, se discute em termos de Programa de Saúde da Família, pela incorporação de médicos e enfermeiros ao Programa de Agentes Comunitários de Saúde. O Programa de Saúde da Família veio contribuir para: reorientar o modelo de assistência do município, ampliar a cobertura de áreas desassistidas pelos serviços de saúde e rearticular a proposta de hierarquização da rede.2 Em 1993, o Ministério da Saúde iniciou a implantação do PSF no Brasil, por meio da Portaria nº 692. Nela pode-se observar que: O Programa de Saúde da Família – PSF tem como propósito colaborar decisivamente na organização do SUS e na municipalização da integralidade e participação da comunidade. Em 1994, o PSF foi, finalmente, assumido pelo Ministério da Saúde, com o objetivo, também, de reorientação do modelo assistencial, mediante: Uma nova dinâmica para a estruturação dos serviços de saúde, bem como para sua relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade assistencial. Assume o compromisso de prestar assistência universal, integral, equânime, contínua e, acima de tudo, resolutiva à população, na unidade de saúde e no município, sempre de acordo com suas necessidades, identificando fatores de riscos aos quais ela está exposta e neles intervindo de forma apropriada. 3 No mesmo ano de implantação, já havia 328 equipes de PSF por todo o país e com a implantação efetiva da NOB 01/96, cresceu ainda mais o número de equipes de PSF no país, conforme dados do Ministério da Saúde referido na figura 1. 2 M.T.M Mascarenhas; A.C. Pires; G.S. Oliveira. Os redesenhos do Estado e das agendas políticas – O programa de médico da família de Niterói e a construção de um novo modelo de atenção à saude. Congresso de Saúde Pública. Anais. São Paulo, 2000. v. 2, p. 137-138. 3 BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde da Família. Brasília, 1994. 3 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Figura 1. Evolução histórica da implantação do programa de saúde da família, de acordo com o número de municípios, Brasil, 1994 a 2005. Fonte: Ministério da Saúde, 2006. Em 1997, o PSF passou a ser entendido pelo Ministério da Saúde como: continuidade ao processo iniciado com as Ações Integradas de Saúde, o qual foi seguido pelo movimento denominado Reforma Sanitária, amplamente debatido por ocasião da VII Conferência Nacional de Saúde, cujas repercussões culminaram na redação do artigo 196 da Constituição de 1988.4 A partir de 1997, o Ministério da Saúde compreendeu que a reversão do modelo assistencial tradicional curativo só seria possível por meio da mudança do objeto de atenção, da forma de atuação e da organização geral dos serviços, reorganizando a prática assistencial em novas bases e critérios.5 Propunha o Ministério da Saúde que, mesmo rotulado como programa, o PSF não fosse visto como uma intervenção vertical e paralela às atividades dos serviços de saúde, mas, sim representando uma estratégia que visava à integração e a organização das atividades em um território definido, com o propósito de propiciar o enfrentamento e a resolução dos problemas previamente identificados, com objetivos de: 4 5 BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde da Família. Brasília, 1997. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde da Família. Brasília, 2001. 4 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Prestar, na unidade de saúde e no domicílio, assistência integral, contínua, com resolutividade e boa qualidade às necessidades de saúde da população adscrita; Intervir sobre os fatores de riscos aos quais a população está exposta; Humanizar as práticas de saúde mediante estabelecimento de parcerias por intermédio do desenvolvimento de ações intersetoriais; Contribuir para a democratização do conhecimento do processo saúde/doença, da organização dos serviços e da produção social de saúde; Fazer com que a saúde seja reconhecida como um direito de cidadania e, portanto, expressão da qualidade de vida; Estimular a organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social. 6 Todavia, em 1998, o Ministério da Saúde, descaracterizou a atuação de cunho preventivo ao propor que cada equipe do PSF pudesse atender até 4.500 pessoas e, cada agente comunitário de saúde, cerca de 450 a 750 pessoas. 7 O Programa de Saúde da Família em Cuba Em Cuba, a atual estrutura do sistema de saúde teve início a partir de 1959, com a Revolução Socialista, pelo surgimento de políticas de saúde e de governo, dispostas a modificar as condições então existentes e agravadas pela perda de cerca de 3.000 médicos (50% do total) por emigração e pelo fato de que a maioria dos restantes estava radicada em Havana (em torno de 2.000 médicos) e nas capitais das províncias. 8 Em decorrência dessa situação, o nascimento do modelo sanitário cubano se baseou, inicialmente, na aplicação dos cuidados ao dano à saúde de modo “hospitalocêntrico”, apesar de este tipo de atendimento ainda muito incipiente. Tal circunstância, embora muito distante de modelo atual, permitiu o crescimento das 6 BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde da Família. Brasília, 2001. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Saúde da Família. Brasília, 1998. 8 F.P. Ares. O Programa Saúde da Família em Cuba. In: Seminário de Experiências internacionais em saúde da família. Brasília, 1999. Departamento de atenção básica. P. 37-38. 7 5 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula faculdades de medicina, das unidades hospitalares e das unidades de atenção primária, com melhoria na qualidade e na quantidade dos recursos humanos disponíveis. 9 Em 1973 foram elaborados “Los Programas Básicos de Área de Salud”, que passaram a ser aplicados em todas as policlínicas e hospitais rurais do país, por intermédio de um documento nacionalmente conhecido com “Livro Rojo”, contendo inclusive, um capítulo sobre a organização do trabalho nessas instituições.10 Introduziu-se, nessa época, o atendimento à população por equipes compostas de um médico e um enfermeiro, alocadas dentro das diversas policlínicas do país, e executando atividades de promoção de saúde. Cabiam, a cada uma delas, em média, 5.000 pessoas. A partir de 1975, as policlínicas foram reconfiguradas como unidades sanitárias e de ensino, passando cada equipe a atender cerca de 2.500 pessoas, dando início à intensificação das ações preventivas e de promoção à saúde. 11 Em janeiro de 1984, surgiu o modelo de medicina familiar, destinado à integralidade entre a prática, os serviços e o ensino médico, mediante a instalação de 10 equipes do Programa de Medicina Familiar, no bairro Lawton, na cidade de Havana, e o início da residência de medicina familiar na capital com 19 médicos. Valendo-se do sucesso dessa experiência, o governo cubano decidiu ampliar o número de equipes, chegando a 200 no final de 1985, em consultórios modulares de dois andares, sendo o primeiro destinado às atividades de saúde e o segundo, para moradia do médico. O Programa de Medicina Familiar propiciou a mudança administrativa e organizativa do sistema de saúde cubano, uma vez que o consultório do médico da família passou a ser considerado como base de entrada e base estrutural do sistema nacional de saúde de Cuba. Cada consultório, com a configuração estabelecida de um médico e um enfermeiro, passou a ter como referência a policlínica, a qual continha os especialistas (nível de atenção secundária). As diversas policlínicas por sua vez, faziam referência aos hospitais regionais (nível de atenção terciária) e estes, quando necessário, a um dos cinco hospitais nacionais (nível de atenção quaternária). 9 F.P.Ares, Op. Cit. P. 37-38 CUBA. Ministério de Salud Publica de Cuba. Libro rojo. La Habana, 1992. 11 CUBA. Ministério de Salud Publica de Cuba. Op. Cit. 10 6 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Tal transformação permitiu que, em 1997, a mortalidade infantil cubana estivesse em 7,2 por mil nascidos vivos e que 50% dos óbitos ocorressem acima dos 60 anos de idade, com uma resolutibilidade, nos consultórios de família de 95%. Em 2000, o Programa de Medicina da Família atingiu a cobertura de 97% da população cubana (11,4 milhões de pessoas), com cerca de 30.000 equipes. 12 Programa de Saúde da Família em Botucatu A partir de dezembro de 2001, a Secretaria Municipal de Saúde de Botucatu começou a discutir a proposta de implantação do PSF incluindo a participação de profissionais de saúde e de lideranças comunitárias. O objetivo inicial do grupo foi estabelecer áreas prioritárias para a implantação do Programa. Após alguns encontros, o objetivo foi ampliado para ações de divulgação do PSF junto às populações-alvo e definição das características necessárias aos agentes comunitários de saúde. Elaborou-se o perfil dos agentes comunitários de saúde pensando nas atividades que a eles seriam atribuídas, reduzindo o foco àquelas consideradas “muito importantes” e, por conseqüência, as habilidades que seriam priorizadas nos critérios de seleção. No início do ano de 2002 lideranças comunitárias foram convidadas para discussões sobre o PSF/PACS, ficando definida a importância de sua implantação. Com o objetivo de esclarecer à comunidade sobre o PSF e debater as possíveis alterações a partir da implantação do novo modelo assistencial foram realizadas reuniões com as comunidades de algumas áreas pré-selecionadas. A partir desses encontros, acordou-se a respeito dos editais e datas para o início do processo seletivo para contratação das equipes e dos Agentes Comunitários de Saúde. Com prioridade na agenda de saúde, em maio de 2003 o PSF teve início efetivo no município de Botucatu, com as contratações e as composições das oito equipes planejadas na etapa I, em regiões com dificuldade de acesso à rede municipal de saúde. Trata-se de bairros ainda não assistidos por outras unidades de saúde em virtude de constituírem áreas de expansão urbana e áreas rurais. (BOTUCATU, 2001) Em 2006, tendo em vista o Projeto de Expansão do Programa Saúde da Família, o município amplia suas equipes para um total de oito até o momento (etapa II), conforme a tabela 1. 12 F. P. Ares, Op. Cit. P. 37-38 7 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Tabela 1. Cobertura populacional de bairros atendidos pelo Programa de Saúde da Família em relação ao total de habitantes em 2000, Botucatu, 2006. Localidades Ano de implantação População atendida % 2003 2003 2003 2003 2003 2003 2003 2006 4.666 906 3.244 2.663 4.000 1.544 3.677 7.914 28.614 4,31 0,84 3,00 2,46 3,69 1,43 3,40 7,31 26,44 Jardim Aeroporto Bairro César Neto Rubião Júnior Vitoriana Parque Marajoara Jardim Santa Elisa Jardim Iolanda Jardim Peabiru I e II Total Fonte: Secretaria Municipal de Saúde de Botucatu, 2006. A Gestão do Programa de Saúde da Família em Botucatu Na arena de estudos da gerência na Atenção Básica/Saúde da Família, o enfermeiro tem sido amplamente requisitado a ocupar espaços estratégicos para a implementação de políticas sociais e de saúde e, em especial, coordenar equipe multiprofissional no âmbito do PSF. Nas unidades do Programa de Saúde da Família no município de Botucatu, a coordenação das equipes multiprofissionais, ou seja, equipes de Saúde da Família, de Saúde Bucal e de Agentes Comunitários de Saúde é atribuída ao profissional de enfermagem, o qual possui as seguintes atribuições 13: Realizar assistência integral (promoção e proteção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde) aos indivíduos e famílias na USF e, quando indicado ou necessário, no domicílio e/ou nos demais espaços comunitários (escolas, associações, etc.), em todas as fases do desenvolvimento humano: infância, adolescência, idade adulta e terceira idade; Conforme protocolos ou outras normativas técnicas estabelecidas pelo gestor municipal ou do Distrito Federal, observadas as disposições legais da 13 Ministério da Saúde. Portaria nº 648, 28de março de 2006, edição nº61. 8 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula profissão, realizar consulta de enfermagem, solicitar exames complementares e prescrever medicações; Planejar, gerenciar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelos ACS; Supervisionar, coordenar e realizar atividades de educação permanente dos ACS e da equipe de enfermagem; Contribuir e participar das atividades de Educação permanente do auxiliar de enfermagem, ACD (auxiliar de cirurgião dentista) e THD (técnico de higiene dental); Participar do gerenciamento dos insumos necessários para o adequado funcionamento da USF. Como podemos observar, as atribuições dos enfermeiros que atuam na ESF são bastante amplas, possibilitando ações muito variadas que se completam na visão da integralidade, apontando para práticas interdisciplinares, constituindo dessa forma, na visão do autor, um grande desafio, pois, existem algumas atribuições referentes ao campo da administração como planejamento, gestão de pessoas, que muitas vezes, não condiz com a formação do profissional de enfermagem, resultando uma dificuldade de gestão das unidades de saúde da família, permitindo vários debates, estudos sobre a necessidade de inserção de um administrador em cada unidade de saúde da família, ou então, aprimorar a formação do profissional de enfermagem num contexto que privilegie á área de administração. Não podemos deixar de enfatizar que a enfermagem, profissão historicamente marcada pelo compromisso com a saúde pública, tem grande capilaridade social, estando presente na maioria das ações desenvolvidas na Atenção Básica/Saúde da Família do Sistema Único de Saúde (SUS). A Saúde Pública tem se constituído em um importante campo de conhecimento de diversas áreas do saber: epidemiologia, antropologia, ciências humanas e sociais, administração, entre outras, para, compreender os determinantes sociais do processo saúde-doença, bem como compreender as práticas de gestão dos serviços14. 14 C. A. Spagnol. Da gerência clássica à gerência contemporânea: compreendendo novos conceitos para subsidiar a prática administrativa da enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, v.23, nº1, p.114-131, 2002. 9 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Indicadores de desempenho A mudança de foco para resultados da administração pública está refletida não somente na concepção moderna do orçamento, como também na utilização de indicadores sociais e de desempenho. A utilização de indicadores auxilia a gestão pública de saúde no atendimento das demandas da comunidade pela qual é responsável, tanto na fase de diagnóstico da situação econômica e social quanto na avaliação dos programas implementados. Considerando, ainda, o processo de redemocratização do país em que é ressaltada a importância da participação e controle social, os indicadores têm sido avaliados como uma forma de promover a transparência e a gestão. No setor público, podem ser observadas diversas iniciativas e experiência de uso de indicadores sociais. A mais conhecida delas é a da Organização das Nações Unidas – ONU que, na década de 90, criou o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, apresentando uma inovação ao introduzir, em sua concepção, as variáveis longevidade e educação, além da renda, para comparar o grau de desenvolvimento dos países. Para o cálculo do IDH são utilizados três índices, aos quais são atribuídos pesos iguais: longevidade (esperança de vida ao nascer), educação (número médio de anos de estudo e taxa de analfabetismo) e renda (Produto Interno Bruto – PIB per capita). O IDH varia entre 0 e 1 e classifica os países segundo três níveis de desenvolvimento humano: países com baixo desenvolvimento humano (IDH até 0,5); países com médio desenvolvimento humano (IDH entre 0,5 e 0,8) e países com alto desenvolvimento humano (IDH acima de 0,8). Outras experiências surgiram a partir do IDH, sendo o caso do Índice de Desenvolvimento Municipal – IDHM, Índice de Condições de Vida – ICV e do Índice Paulista de Responsabilidade Social – IPRS. O IDHM é semelhante ao IDH, mas não idêntico. Inclui as três dimensões mencionadas (renda, longevidade e educação, com pesos iguais), mas com algumas adaptações metodológicas para adequação dos indicadores básicos (por exemplo, substituição do PIB per capita pela Renda Familiar per capita) com o intuito de ajustar o índice (concebido para comparar países) à unidade de análise que é o município 15. 15 PNUD et al. Desenvolvimento humano e condições de vida: indicadores brasileiros. Brasília: PNDU,1998. 10 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula O ICV, por sua vez, utiliza metodologia básica idêntica à do IDH, mas incorpora um conjunto maior de indicadores que retratam realidades sociais, econômicas e ambientais, de modo a captar o processo de desenvolvimento humano sustentável de forma mais abrangente possível. Para isso, ampliou-se o número de indicadores que compõem as dimensões renda, educação e longevidade e introduziram-se duas novas dimensões com o objetivo de retratar a situação da infância e da habitação. O Índice Paulista de Responsabilidade Social – IPRS foi construído pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE em resposta à solicitação dos líderes e conselheiros do Fórum São Paulo – Século XXI para construção de índices que permitissem captar continuamente o progresso ou não do desenvolvimento dos municípios paulistas. O IPRS tem como objetivo a classificação dos municípios do Estado de São Paulo segundo a qualidade de vida dos seus habitantes. Para isso, foram consideradas as três dimensões abrangidas pelo IDH (renda, longevidade e escolaridade), mas utilizando-se outras variáveis mais condizentes com a realidade municipal. A idéia inicial era usar indicadores que permitissem a avaliação não somente dos resultados e esforços empreendidos pelo poder público em prol do desenvolvimento em âmbito local, mas também a mensuração do grau de participação e controle da sociedade civil sobre tais ações. Os municípios do Estado de São Paulo foram classificados em grupos com características similares de riquezas, longevidade e escolaridade por meio de agrupamentos, com as seguintes denominações: 1) Municípios-pólo; 2) economicamente dinâmico e de baixo desenvolvimento social; 3) saudáveis e de baixo desenvolvimento econômico; 4) de baixo desenvolvimento econômico e em transição social e 5) de baixo desenvolvimento econômico e social. A avaliação de programas e projetos sociais é um tema presente. De maneira implícita ou explícita, os indivíduos sempre realizam algum tipo de avaliação ou julgamento de valor em relação aos programas sociais. Entretanto, no contexto das entidades públicas, a avaliação deve ser entendida como um exercício permanente de comparação entre o planejado e o executado com a finalidade de contribuir para tomada de decisão em relação aos programas e melhorar planejamento futuros. 11 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Para quem está trabalhando em programas e/ou serviço de saúde, a avaliação é um processo técnico-administrativo destinado à tomada de decisão que envolve momentos de medir, comparar e emitir juízo de valor.16 O cerne da avaliação é a expressão “juízo de valor”. Para medir esse juízo e preciso buscar parâmetros, como optimum desejável para cada objeto a ser avaliado. A escolha desse parâmetro pode ficar na subjetividade individual do avaliador ou na consensualidade dos peritos e entendidos em cada objeto a ser avaliado. 17 A avaliação dos projetos sociais tem como objetivo maximizar a eficácia dos programas na obtenção de seus fins e a eficiência na alocação de recursos para consecução dos mesmos. Os conceitos utilizados em avaliação foram desenvolvidos pela economia e estão associados à função de produção que vincula recursos, insumos, processos e produtos.18 Os indicadores sociais podem ser classificados em três tipologias relevantes para análise e formulação de políticas sociais segundo as diversas aplicações a que se destinam: quanto à natureza do ente indicado (indicadores insumo, processo e produto), quanto à temporalidade do processo analisado (indicadores de estoque e de fluxos ou perfomance) e quanto aos três aspectos relevantes da avaliação de programas sociais (eficiência, eficácia e efetividade). 19 Na classificação quanto à natureza, os indicadores-insumo correspondem as medidas associadas à alocação de recursos financeiros, humanos e equipamentos empregados em um processo ou programa, por exemplo, número de leitos por mil habitantes. Os indicadores-processo são a tradução em medidas quantitativas dos esforços operacionais de alocação insumos para a obtenção dos objetivos dos programas, por exemplo, numero de consultas pediátricas por mil crianças na faixa etária entre 0 e 14 anos. Os indicadores-produto são medidas indicativas da presença, ausência, avanços ou retrocessos das políticas sociais formuladas, estando vinculados ás dimensões empíricas da realidade social, por exemplo, diminuição da mortalidade 16 Oswaldo Y. Tanaka e Cristina Melo. Avaliação de programas de saúde do adolescente: um modo de fazer. São Paulo: EDUSP – Editora Universidade de São Paulo, 2001. 17 Gilson Carvalho et al. Avaliação de ações e serviços de saúde. O mundo da saúde. São Paulo. V.24. p.72. fev.2000. 18 Ernesto Cohen e Rolando Franco. A avaliação de projetos sociais. 6ª ed. Petrópolis-RJ. Ed. Vozes, 2004. 19 Paulo de Martino Jannuzzi. Considerações sobre o uso, mau uso e abuso dos indicadores sociais na formulação e avaliação de políticas públicas municipais. Revista de Administração Pública. Rio de Janeiro, v. 36, n.1, p.51-72, Jan./Fev. 2002. 12 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula infantil. Em alguns contextos, os indicadores de insumo e processo costumam ser chamados de indicadores de esforços, e os indicadores de produtos de indicadores de resultados. A classificação quanto à temporalidade do processo analisado separa as medidas referentes a uma dimensão social em um momento específico (indicadores de estoque) das relativas a mudanças entre dois momentos distintos (indicadores de performance ou fluxo). Como exemplo do primeiro caso tem-se números de óbitos infantis e do segundo caso diminuição de óbitos infantis. 20 A avaliação de produtos ou resultados analisa a eficácia do sistema em atingir seus objetivos finais e propiciar, no caso da saúde, melhora das condições de saúde da clientela. A avaliação de impacto é vista enquanto um desdobramento da avaliação de resultados, cujo surgimento se dá quando se trabalha com um conceito mais amplo de saúde do que o de simples ausência de doença, abrangendo aspectos de bem-estar do indivíduo no desempenho de suas funções e vivência em seu meio ambiente. Nesse sentido, avaliar saúde é avaliar o conjunto de políticas sociais ao mesmo tempo, tornando mais complexo o estabelecimento de indicadores para o processo de avaliação.21 O fluxograma abaixo (Figura 2) sintetiza o referencial teórico-conceitual concernente ao uso de indicadores sociais na determinação e avaliação de políticas públicas, sobretudo as setoriais (saúde, educação, assistência e meio ambiente). 20 21 Jannuzzi. p. 60. Gilson Carvalho, p. 80. 13 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Figura 2. Fluxograma Teórico-Conceitual de Referência 1. Diagnóstico da realidade: Indicadores de produtos sobre diferentes aspectos sociais. 2. Formulação de soluções: Indicadores de insumos referentes a recursos a empregar. 3. Implementação de soluções: Indicadores de processos referentes ao uso de recursos alocados (eficiência e eficácia). 4. Avaliação de resultados: indicadores de produtos referentes às mudanças observadas na sociedade (efetividade). Adaptado de Januzzi, 200b. Os programas e ações de governo, neste trabalho, o Programa de Saúde da Família, são delineados em conformidade com os objetivos estratégicos de médio prazo definidos pelo Plano Plurianual – PPA. Este plano constitui o ponto de partida para o cadastro dos programas e ações da proposta orçamentária, de acordo com a indicação do que será desenvolvido no período. O levantamento das informações concentra-se na identificação dos atributos que permitem traçar o perfil característico dos projetos, atividades e operações especiais que os tornam singulares no universo da programação. Além disso, as informações provenientes das propostas orçamentárias setoriais centram- 14 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula se nos aspectos de quantificação física e financeira das ações no exercício de referência, no grau de importância das demandas, em sua priorização e nos resultados operados.22 Em relação especificamente às medidas que proporcionam a avaliação, foi estabelecido que cada programa deve conter indicador que quantifica a situação que o programa tenha por fim modificar, os valores e metas das atividades e projetos componentes do programa. Definiu-se que a cada atividade e projeto só poderá estar associado um produto, cuja quantificação pela sua unidade de medida dará origem à meta. O indicador do programa é definido como elemento capaz de medir a evolução do problema, geralmente apresentado como uma relação ou taxa entre as variáveis relevantes, a qual permite a mensuração dos resultados alcançados com a execução do programa. Por exemplo, para um programa que tenha como objetivos reduzir a mortalidade infantil, o indicador correspondente é “Taxa de Mortalidade Infantil” (relação ente o número de óbitos em menores de um ano e o número de nascidos vivos). A meta física de atividade ou projeto é a quantidade de produto a ser ofertada num determinado período, de forma regionalizada quando for o caso. Considera-se como produto o bem ou serviço que resulta da ação, destinado ao público alvo ou o investimento para produção deste bem ou serviço. Em situações especiais, expressa a quantidade de beneficiários atendidos pela ação.23 No Plano de Gestão do PPA 2004-2007, diante da tendência do Estado em orientar sua atuação para resultados diretos na sociedade, foi colocado como relevante a necessidade de incorporar a cultura dos controles gerenciais e de avaliação em três dimensões das ações governamentais: 1. Efetividade: Grau de alcance do objetivo do programa; 2. Eficácia: Capacidade de alcance das metas previstas nas ações do programa; 3. Eficiência: Uso otimizado, com economia e qualidade, dos bens e recursos empregados na execução das ações.24 22 BRASIL. Ministério do Planejamento e Gestão – MPOG. Manual Técnico de Orçamento – MTO 02. Brasília-DF, 2003. 23 BRASIL. Ministério do Planejamento e Gestão – MPOG. Gestão pública para um Brasil de todos: plano de gestão do governo Lula. Brasília, 2003. 24 BRASIL. Ministério do Planejamento e Gestão – MPOG. Gestão pública para um Brasil de todos: plano de gestão do governo Lula. Brasília, 2003. 15 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula A figura 3, a seguir, mostra de forma estruturada a inserção do processo de avaliação na gestão pública: Figura 3 – Modelo Integrado Plano/Orçamento/Execução/Avaliação. REVISÃO VISÃO / OBJETIVOS: IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMAS PLANO, ORÇAMENTO Objetivos e Indicadores PROGRAMAS, AÇÕES EFETIVIDADE Produtos e Metas EFICÁCIA Produtos e Custos EFICIÊNCIA EXECUÇÃO AVALIAÇÃO Fonte: Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão – MPOG, 2006. Como visto na figura 3, o programa é o elemento de integração entre o plano e o orçamento, sendo assim, as ações governamentais são organizadas em programas, cujo objetivo é resolver algum problema identificado na sociedade, como no caso, o Programa de Saúde da Família, a necessidade de expandir o acesso aos serviços de atenção básica da saúde da população, e consolidar a descentralização, integralidade com a incorporação efetiva do controle social no Sistema Único de Saúde. 16 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula O impacto do PSF como indicador de processo e resultado no município de Botucatu Acredita-se que a atenção básica é uma estratégia eficaz de melhoria dos resultados de saúde em virtude do aumento do acesso aos serviços básicos, pelo impacto resultante sob a justiça social e no processo de empoderamento das comunidades-alvo. Entretanto, para serem efetivos, os sistemas de atenção básica devem ser baseados em conhecimento científico acumulado e devem utilizar métodos social e culturalmente aceitos, que possam estar disponíveis para os indivíduos e as famílias nas comunidades onde elas residem, de modo que os programas estejam alinhados com os princípios ideológicos, organizativos e de filosofia de atenção à saúde que norteiam esse sistema. 25 Para que um modelo de impacto do PSF na saúde da população brasileira pudesse facilitar as abordagens científico-avaliativas futuras, desenvolveu-se um modelo que teoriza dois níveis de ação positiva do PSF sob a saúde da população, um intermediário (de processo) e um final (de resultado), que estariam hierarquicamente associados, na medida em que, para que se possa alcançar uma mudança nos indicadores de resultados, o PSF teria que necessariamente exercer algum tipo de influência sob os indicadores de processo. Esse modelo sugere que o PSF tenha uma influência positiva na saúde da população não só de curto prazo, com uma expansão inicial de acesso à atenção básica, mas também sustentada quando se criam garantias para uma gestão alinhada com o sistema em o PSF está integrado e uma transferência de recursos, autonomia de gestão e de poder de decisão para as comunidades, mais especificamente quando são criados mecanismos diretos e indiretos de participação comunitária efetiva 26. O alinhamento e a consolidação com os princípios de descentralização, integralidade e controle social garantem uma perspectiva de integração do PSF com o resto do sistema e possibilitam uma atenção à saúde dos indivíduos e famílias, completa, integrada e responsiva às demandas identificadas localmente. Já o empoderamento permite o fortalecimento das comunidades no processo de reconhecimento daquilo que as afeta e na capacidade de ter acesso ao poder e aos 25 Luiz Odorico Monteiro de Andrade. Sistemas Locais de saúde em municípios de pequeno porte: a experiência de Icapuí. Fortaleza, 1992. 26 Luiz Odorico Monteiro de Andrade. 17 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula mecanismos que possam transformar suas realidades, assim permitindo a sustentabilidade de programas e políticas considerados efetivos e geração de estratégias próprias aos problemas identificados27. Figura 4. Modelo lógico proposto para o impacto do PSF sob os indicadores de processo e resultado de saúde. Consolidação dos princípios do SUS: Descentralização, Integralidade e Controle Social Programa de Saúde da Família: Aumento de acesso aos serviços de atenção básica de saúde da população. Melhoria de Resultados Empoderamento da Comunidade: Educação/Informação a respeito das condições de saúde; Participação nos processos decisórios de saúde; Ação comunitária organizada Fonte: Bezerra, 2004. Esse modelo tem por intenção uma explicação teórica dos mecanismos sociais que moderam a ação do PSF sobre a saúde das comunidades em que as equipes estão inseridas. A busca dessa modelação teórica é fundamental para nortear as futuras expedições avaliativas de larga escala, quantitativas e qualitativas, especialmente aquelas que permitam uma compreensão adicional às informações descritivas 27 N. Goya. Promoção da saúde, poder local e saúde da família. P. 51-56, 2003. 18 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula disponíveis atualmente, que servem mais como ilustração do que mesmo verdade científica. A análise dos dados permite observar que embora seja prematura a implementação do Programa de Saúde da Família no município de Botucatu que se iniciou em 2003, e não apresentar um impacto absoluto, constatamos uma tímida mudança de perfil da saúde dos munícipes de Botucatu, que coincide com o período de implementação do PSF no município. Destacamos para o número de mortalidade materna que apresentava uma evolução acentuada e após a inserção do PSF diminui significativamente, não apresentando nenhum óbito materno no ano de 2003 e 2004, como apresentado no gráfico nº 03, devido conscientização e ações das equipes do PSF para as gestantes sobre a importância de se realizar consultas de pré-natal, e que conseqüentemente, apresentou uma redução nos números de óbito infantis. A cobertura vacinal na população manteve uma estabilidade, demonstrando sinais de que necessita de acompanhamentos constantes de campanhas e ações de vacinação. Ressaltamos também para o declínio do número de nascidos vivos que apresentou uma ligeira queda, provavelmente pelas campanhas de prevenção à gravidez na adolescência realizadas pelas equipes do PSF. Com relação ao número geral de óbitos, praticamente o mesmo por todo o período, sugerem o desvio da época pelo envelhecimento da população, uma vez que morreram menos crianças. Considerando a história e os resultados obtidos do Programa de Saúde da Família como estratégia de atenção à saúde do Sistema Único de Saúde, no município de Botucatu, é possível afirmar que sua continuidade e aperfeiçoamento são essenciais para que o município caminhe na implementação de sua política de saúde nos níveis municipais, estaduais e federais, com vistas a conquistar a atenção universal, integral e equânime à saúde de sua população. Considerações finais A presente pesquisa voltou-se para uma abordagem empírico-analítica com a condução de um Estudo de Caso da gestão da política de saúde do município de Botucatu. Adotou-se, como referencial teórico de análise, as concepções de reforma do 19 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula aparelho do Estado, das últimas décadas. Isso porque se entendeu que é relevante tratar o tema “Inserção Municipal no Sistema Único de Saúde”, considerando os aspectos contemporâneos da administração pública brasileira, pois a compreensão das realidades municipais depende do conhecimento das mudanças que estão sendo implementadas, o que, normalmente se inicia no governo federal. Os debates acerca da descentralização, um dos argumentos utilizados contra a municipalização é o de que teria conseqüências negativas, tais como desperdício ou má utilização de recursos, ou ainda baixa qualidade dos serviços prestados à população devido à falta de capacitação de gestores dos pequenos municípios. A proposta de descentralização, num primeiro momento, surgiu como uma dimensão essencial do processo de redemocratização com a abertura política, após um longo período de centralização política e fiscal típica dos governos militares. A agenda democrática têm reivindicados novos direitos sociais e políticos, equidade nos resultados das políticas públicas, participação social e transparência. Os municípios pós Constituição Federal de 1988, passaram a possuir maior autonomia política e administrativa e, ao mesmo tempo, tiveram que assumir novos encargos na área social, a promoção do desenvolvimento econômico dentro de sua área de abrangência e o desafio de estabelecer novas formas de relacionamento com a sociedade civil com o intuito de aprofundar a democracia. O contexto da redemocratização e reforma do Estado geram impactos diferentes na condução. Na implantação do Sistema Único de Saúde – SUS, observam-se ações voltadas para a garantia do acesso integral e universal a todos os cidadãos e promoção da participação social, e contraditoriamente, políticas de financiamento restritivas inerentes ao ajuste fiscal. A descentralização foi adotada como um dos eixos condutores de consolidação do Sistema Único de Saúde – SUS. A transferência de poder é o elemento central na caracterização desse processo. A abdicação de poder pelo governo central, por sua vez, implica na redefinição de atribuições e redistribuição de recurso entre as esferas do governo. A decisão política de se reorganizar a rede de assistência à saúde com uma política que apontasse para a universalização do acesso da população brasileira à atenção básica e consolidasse o recente processo de descentralização implantado no 20 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula Sistema Único de Saúde, resultou-se na implementação do Programa de Saúde da Família – PSF nos mais diversos municípios brasileiros. A experiência inovadora do Programa de Saúde da Família – PSF no nível municipal proporcionou inegavelmente a expansão de acesso da população brasileira às ações de saúde primária no município de Botucatu-SP, à medida que houve um comprometimento de recursos federais para a expansão da rede assistencial local e uma autonomia municipal na orientação do programa, entretanto é inegável que o Programa de Saúde da Família – PSF também impôs novas responsabilidades de gestão e demanda por profissionais qualificados e comprometidos com a filosofia inovadora inaugurada por essa política. Das análises realizadas nota-se que o ideal buscado acerca do trabalho em equipe, mostra uma convergência ao destacar a dimensão dos problemas e dificuldades intrínsecas ao trabalho em equipe em relação ao exercício de sua coordenação. As coordenadoras reforçam as dificuldades encontradas no trabalho do PSF, a dificuldade da população em entender e aceitar a ideologia da PSF e, também, a aceitação da própria enfermeira na assistência, especialmente quando fazem consulta de enfermagem, solicitação de exames complementares e prescrição de medicações segundo protocolo da Sistematização da Assistência de Enfermagem implantado neste município. Para os gestores das esferas federal, municipal e estadual, fica nossa contribuição no enfrentamento desse desafio que é o trabalho em equipe enquanto fio condutor do Programa Saúde da Família: proporcionar uma gestão mais participativa, compartilhada, através da formação de colegiados multiprofissionais representativos que possam auxiliar os conflitos existentes desde a implantação de uma nova equipe, seja em substituição ao modelo tradicional, seja uma nova equipe no modelo de Unidade de Saúde da Família, pois notamos a existência de um sofrimento emocional inter-equipes que tem prejudicado a implantação e o desenvolvimento do novo modelo de atenção em saúde no município de Botucatu; utilizar o trabalho de supervisionar equipes do PSF como um importante dispositivo a seu favor, pois, proporciona se bem realizado, o discernimento das condições de trabalho, quais as condições em que se tem trabalhado, proporciona a possibilidade de analisar os conflitos, os sentimentos de impotência, os mal-entendidos, os ditos e não-ditos, os sentimentos de frustração 21 Pesquisa em Debate, edição especial, 2009 ISSN 1808-978X Geraldo Galendi Júnior, José Américo Martelli Tristão, Regiane Aparecida Cardoso de Paula presentes no interior do processo de trabalho, não os tomando mais como naturais ou do campo dos conflitos pessoais. Neste ponto de vista, pode o gestor intervir de forma eficaz no processo de trabalho, sendo um agente facilitador para ação e criação de múltiplas possibilidades de crescimento e amadurecimento do trabalho em equipe multiprofissional a partir da desconstrução das próprias matrizes sobre as quais também foi formado, viabilizando a produção de cuidados nesse novo modelo que está sendo construído. As modificações ocorridas no sistema de saúde de Botucatu permitiram a evolução positiva dos indicadores de saúde do município inclusive com melhora dos indicadores da cobertura vacinal, diminuição dos óbitos maternos e da mortalidade infantil. Apesar do desconhecimento da população em torno da ideologia do Programa de Saúde da Família em Botucatu, gerando muita insegurança pela mudança do modelo de Unidade Básica de Saúde pela Unidade de Saúde da Família há de se concordar que o novo modelo de atenção à saúde básica ampliou consideravelmente o acesso às pessoas de menor poder aquisitivo a terem maior acesso aos serviços de saúde. Bibliografia ALMEIDA, Eurivaldo Sampaio de. et alli. Políticas públicas e organização do sistema de saúde: antecedentes, reforma sanitária e o SUS. In WESTPHAL, Márcia Faria, ALMEIDA, Eurivaldo (Orgs.). Gestão de Serviços de Saúde. São Paulo: EDUSP – Editora da Universidade de São Paulo, 2001. ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. Sistemas locais de saúde em municípios de pequeno porte: A experiência de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica, 1992. ARRETCHE, Maria Teresa da Silva. Mitos da descentralização: mais democracia e eficiência nas políticas públicas? 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