COLÉGIO SANTO ANTÔNIO: CONQUISTANDO ALMAS PARA DEUS FORMANDO CIDADÃOS PARA A PÁTRIA Rogéria Rebello Diegoli/ UDESC A problemática observada por esta pesquisa aborda algumas das estratégias de poder disciplinar que eram utilizadas nas relações escolares do Colégio Santo Antônio1, situado em Blumenau (SC), no período de 1932 a 1942. Os diversos poderes que circularam nas relações entre professores, alunos e dirigentes deste Colégio constituem-se nos principais objetos desta investigação. O recorte da época tem por motivo principal a implantação do Ginásio em 19322 que transformou a escola em Colégio de Ensino Secundário das elites regionais. O recorte do tema permitiu evidenciar quais foram as condições sociais de produção e difusão das estratégias de governo de condutas e de produção de subjetividade que regeram a vida destes sujeitos escolares. Nos primeiros estudos sobre esta instituição foram constatados vários valores que distinguiram este educandário como um dos mais importantes na formação de uma elite catarinense de uma determinada época. Este texto propõe-se a analisar as estratégias disciplinares que foram utilizadas na construção de sujeitos escolares que se transformaram, em sua maioria, em sujeitos responsáveis, sérios, eficientes, rápidos, ordeiros e obedientes. A forte influência na construção de sujeitos tão distintos3 torna o Colégio Santo Antônio alvo de uma pesquisa que esquadrinhe os caminhos dessas poderosas relações de poder que esculpiram esses sujeitos dóceis e úteis. Nesta parte do estudo, as constatações feitas sobre o concreto da organização escolar foram analisadas com o auxílio da concepção sobre o poder disciplinar de Michel Foucault. Neste momento, é oportuno se fazer uma distinção entre a disciplinarização de um aluno de um colégio particular e confissional voltado à formação de uma classe média-alta e a disciplinarização da formação de um aluno de uma escola pública voltada a classe médiabaixa que formava o operariado. As regras são as mesmas, mas as estratégias que põe em funcionamento essas regras são diferentes. Como veremos na análise das regras e estratégias que este Colégio se utilizou para alcançar seus objetivos disciplinares; um corpo dócil e útil do sujeito que manda é diferentemente treinado de um corpo dócil e útil do sujeito que obedece. O que mais auxiliou esta pesquisa na tentativa de compreender a complexidade das relações de poder que produzem o disciplinamento desses corpos escolares foi a concepção positiva de poder, com que Foucault nos surpreende em suas análises. Foucault não tratou de “descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele exclui, ele reprime, ele recalca, ele censura, ele abstrai, ele mascara, ele esconde”, mas sim que “o poder produz; ele produz real, produz domínios de objetos e rituais de verdade”. (Foucault, 2003,p.XVI) São relações de poder que produzem mecanismos que transformam indivíduos, constroem subjetividades, mudam relações, fabricam pessoas. Esta pesquisa está sendo feita sob uma análise criteriosa do Regimento Interno do Colégio Santo Antônio como também nos documentos e correspondências encontrados em seus arquivos4. Na impossibilidade de abordar todas as nuances do tema, a análise, neste texto, se deterá em algumas estratégias disciplinares que foram utilizadas no processo de escolarização no Colégio Santo Antônio nas décadas de 1930 e 1940.5 Através da análise do Regimento Interno contido no Prospecto do Colégio Santo Antônio da década de 1930 esta pesquisa encontrou estratégias de governo de condutas tais como: “distribuir no espaço”, “ordenar no tempo”, “vigiar”, “premiar”, “punir”. Muito embora esses mecanismos estejam ligados com outros que aqui não serão tratados com tanta especificidade. Estratégias que Constroem As disposições do Regimento Interno do Prospecto de 1932 do Colégio Santo Antônio eram austeras enquanto mecanismos de inculcação de comportamentos e formação de hábitos. O Regimento era minucioso na regulamentação das posturas adequadas e incompatíveis ao ambiente escolar. As regras disciplinares sempre se mostraram rígidas no interior e exterior dessa instituição e conseguiam se fazer obedecer com procedimentos mais sutis e eficazes que castigos físicos. Com a análise do Regimento e também de outros documentos do Colégio nota-se que não só o espaço interno é controlado, mas também o espaço externo à instituição era bastante vigiado. Afinal, a lógica escolar da época passava pelo ideal de aluno que se comportasse igualmente dentro e fora da instituição escolar. Esse ideário fica claro nos escritos do Diretor do Colégio Frei Ernesto Emmendoerfer: “Toda escola tem sua história escrita no estilo de vida que seus discípulos adotam”6. Por isso da vigilância nas atitudes fora do colégio, para garantir que a história do colégio fosse contada apenas através de sucesso e brilhantismo. Para que esta vigilância, fora do espaço escolar se efetivasse, o Colégio contava com o apoio da família e das pessoas da comunidade que estavam em concordância com os valores que a instituição apregoava. A preocupação com o estilo de vida de seus alunos ia muito além dos muros do Colégio e do tempo que durava o ano letivo, como se pode notar nos escritos do Frei Ernesto para seus alunos antes de entrarem em férias: Mostrai nas férias a educação e os bons conselhos recebidos no colégio. As férias, a par de seu lado róseo, tem também seu lado escuro: São fontes de perigos. Evitai as más companhias, os maus livros, os divertimentos perniciosos. Não vos esqueçais de que a ociosidade é o vosso grande inimigo, especialmente nas férias. Portai-vos sempre bem. Cumpri escrupulosamente vossos deveres religiosos. Conservai-vos bons. Não desmereçais a honra e as tradições do Colégio. 7 Como demonstra a passagem acima, tudo era devidamente controlado, até mesmo as férias de seus alunos. Tornando o espaço privado um alvo de grande preocupação para os dirigentes do Colégios. Ao analisar o Regulamento pode-se notar que a preocupação com um espaço silencioso que oferecesse condições aos alunos ao estudo sem distrações era tido como um grande benefício: “O colégio acha-se completamente isolado de todas as causas perturbadoras da tranqüilidade indispensável ao estudo sério e proveitoso”.8 As Visitas e Saídas eram organizadas e controladas como mostram as regras do Regulamento: Os alunos podem ser visitados pelos pais e parentes nos domingos, dias santos e feriados, da uma as duas horas e entre as três e meia e cinco e meia. Durante as aulas e refeições, aluno algum poderá ser chamado à sala de visitas. Os alunos internos que têm parentes ou correspondentes nesta cidade, terão permissão de saída cada segundo domingo do mês, sendo esse dia intransferível. A saída é depois do almoço, até às cinco e meia horas. Os alunos são somente entregues as pessoas conhecidas do Diretor. Na volta devem apresentar-se ao Padre Prefeito, mostrando os objetos que trouxerem. Aos que saem é proibido levar objetos, encomendas ou cartas para fora, sem aprovação do Padre Prefeito. Quem sai tem que ficar em companhia de quem o tirou do colégio e não deverá ser encontrado sozinho na rua. O favor das saídas depende das notas de comportamento e aplicação. O uso do uniforme é obrigatório em todas as saídas.9 A análise dessas regras permite inferir que a comunidade religiosa se preocupava muito com a possibilidade dos alunos, ao sair do espaço escolar, fossem contaminados por normas que não estivessem de acordo com as estabelecidas pelo Colégio. Assim, só poderiam sair do Colégio com pessoas que passassem pelo crivo do Diretor e demonstrassem que concordavam com as mesmas. As saídas eram tratadas como um favor, não um direito. Assim, esse favor era dado como um prêmio pelo bom comportamento; e o mau comportamento era castigado com a proibição das saídas. A obrigação do uso do uniforme poderia ser lido como mais um ritual que ajuda a disciplinar o corpo. Também seria uma estratégia mais eficaz de localização do aluno na cidade. As visitas eram controladas para que nada perturbasse os estudos dentro do espaço escolar. Ainda no Prospecto do Colégio, no item que se refere às Disposições Regulamentares para Alunos Externos, as regras deixam claro que um aluno, para ser aceito no Colégio, precisaria morar com uma pessoa de “idoneidade reconhecida pelo Colégio” e em hipótese alguma “não se aceitam alunos de fora que morem em hotéis”10. Demonstrando com isso que o fato de morar sozinho poderia ser algo nefasto para o aluno na formação de seu caráter, de seus bons modos. Afinal, não haveria alguém que vigiasse sua conduta ou um “adulto” que “olhasse” por ele. Outro ponto importante a ressaltar são as regras que tem como objetivo reduzir todas as possibilidades de comunicação com pessoas ou informações que não eram tidas como ressonantes dos mesmos ideais: Cartas, pacotes e outros quaisquer objetos destinados aos alunos ou enviados por eles, devem passar pela mão do Prefeito. Os livros que os alunos possuem, a não serem os de estudos, adotados no Colégio, devem ser apresentados ao Prefeito. Não se admitem jornais. 11 No Relatório do Colégio Santo Antônio12 a direção do Colégio descreve com riqueza de detalhes as disposições espaciais da instituição. Deste relatório podem-se tirar alguns itens que demonstram a preocupação com um espaço organizado, útil e funcional. O formato do edifício permitia a fiscalização e evitava barulhos, comunicações, relações mais íntimas, contatos, desvio de atenção e possíveis manifestações de indisciplina, o que era de grande auxílio para os vigilantes: Da Organização Administrativa: Dois Padres Prefeitos estão encarregados da vigilância sobre os alunos. 13 Instalações para o Internato: No dormitório há dois quartos para os vigilantes.14 Local: O edifício fica de tal maneira localizado que fique afastado das citadas ruas e não tenha vizinho perto de nenhum lado. Está, pois, completamente livre e independente. 15 Ausência de ruídos: Esta é completa, devido ao afastamento das ruas e da vizinhança. Os corredores para as salas de aula e salas especiais são de concreto a prova de ruídos. 16 Perturbação da Atenção: Nada há que possa perturbar ou desviar a atenção dos alunos, como casas de diversões, pregões de anúncios, casas vizinhas cujo interior possa ser devassado pelo estabelecimento.17 Disposição: O edifício tem forma de E, sem o traço do meio. Permite boa fiscalização. 18 Outra estratégia bastante presente no cotidiano da instituição é o controle do tempo dos escolares. Ao analisar o Regimento Interno no que diz respeito ao Sistema Disciplinar, podese observar que um dos itens que determinam o cancelamento da matrícula é a “falta habitual de aplicação aos estudos”19. Isso sugere que o corpo deve estar aplicado inteiramente ao estudo. De que maneira alcançar esse objetivo? Tudo indica que a disciplina dos gestos, hábitos, pensamentos é o melhor caminho, construindo com isso um corpo que funciona como uma máquina. Para isso nada melhor que dividir o tempo de cada atividade, de cada gesto, de cada atitude. Um tempo que fica marcado no corpo. O corpo já não pode mais viver sem horários marcados, divididos. O tempo de cada um precisa ser útil e funcional para que se consiga alcançar a formação do homem ideal. Na parte referente ao controle da atividade, Foucault insere o conceito de horário como forma de controle, e que deve ser útil, ou seja, o corpo tem que seguir um padrão de horário, a fim de se estabelecer prazos e limites para as produções do mesmo. “O tempo medido e pago deve ser também um tempo sem impureza nem defeito, um tempo de boa qualidade, e durante todo o seu transcurso o corpo deve ficar aplicado a seu exercício”. (Foucault, 2004, p.129) Pela elaboração temporal do ato, constrói-se um programa, que divide o tempo em fases, e o comportamento corporal, que passa a ser minuciosamente controlado em função do tempo. Desta forma, “O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles minuciosos do poder”. (Ibid., p.129) Daí surge a relação entre o gesto e a atitude global do corpo, dentro dos princípios de eficácia e rapidez, na qual todo movimento deve pressupor a utilidade de suas partes. “Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente”. (Ibid., p.130) As aulas eram de 50 minutos seguidas de 10 minutos de recreio e compreendiam o horário de 7h30min às 11h50min. No período da tarde, das 14h30min às 16 horas funcionavam as aulas de alemão e de religião. As aulas de religião eram obrigatórias para os alunos católicos e a de alemão era obrigatória para alunos de descendência alemã. Os alunos que não participavam dessas aulas tinham como tarefa estudar durante toda a tarde. Os alunos que faziam alemão e religião iam para as salas de estudo após estas aulas. Duas vezes por semana os alunos que tinham se comportado bem podiam jogar futebol e bola ao cesto. Para que o Colégio funcionasse perfeitamente, havia uma utilização “exaustiva” do tempo pela necessidade em torná-lo sempre útil. Para isto, no internato principalmente, os horários de levantar-se, de tomar banho, da alimentação, da diversão e do estudo eram totalmente normatizados e vigiados pelos Padres Prefeitos. Essa vigilância se exercia principalmente no momento de estudo, das 14 às 18 horas, com uma pausa de 30 minutos para o lanche das 15 horas. Neste momento os alunos deveriam manter toda a atenção voltada aos livros. Ao explicar a utilização máxima do tempo na escola, no exército, no hospital, na prisão, no convento; Focault analisa este procedimento como um mecanismo disciplinar: Já a disciplina organiza uma economia positiva; coloca o princípio de uma utilização teoricamente sempre crescente do tempo: mais exaustão que emprego; importa extrair do tempo sempre mais instantes disponíveis e de cada instante sempre mais forças úteis. O que significa que se deve procurar intensificar o uso do mínimo instante, como se o tempo, em seu próprio fracionamento, fosse inesgotável; ou como se, pelo menos, por uma organização interna cada vez mais detalhada, se pudesse tender para um ponto ideal em que o máximo de rapidez encontra o máximo de eficiência. (Foucault, 2004, p. 131) Para garantir que as regras estabelecidas pelo Regimento fossem cumpridas existiam alguns procedimentos. Os mais utilizados e eficientes demonstram ser a vigilância panóptica20, a premiação e a punição. Prosseguindo com a tarefa de formar o homem ideal o Regulamento usava de medidas as “penas” para controlar o comportamento do aluno. Deixava claro que mesmo tendo uma disciplina rigorosa, esta era baseada, porém, nos princípios da justiça e caridade: “As penas escolares e regulamentares nunca serão tais que possam amesquinhar os brios dos alunos”21. Pode-se pensar que os valores que orientavam tais princípios fossem baseados no objetivo de formar um homem obediente, mas percebe-se que, além disso, desejava-se também um homem altivo. O Colégio aqui analisado trabalhava na formação dos indivíduos que estavam sendo preparados para comandar a política, a economia, as empresas, as indústrias, etc. Este deveria ser um sujeito disciplinado para ser obediente, mas também elevado; para ser dócil, mas também orgulhoso, para ser humilde, mas não insignificante, para ter auto-controle e saber controlar. Acredita-se que para isto eram utilizados mais prêmios que punições, pois “O poder disciplinar atua no sentido de produzir, incitar, estimular, tornando-se repressivo e punitivo excepcionalmente, quando estes mecanismos de incitamento não se mostrarem eficientes”. (Dallabrida, 2001, p. 150) É importante observar que esta pesquisa não encontrou anotações quanto às punições que os alunos sofriam. Acredita-se que haviam, mas eram mais privadas e não tinham a espetacularização da premiação. As sanções eram do conhecimento de todos e o fato de estarem descritas no Regulamento do Colégio permite a compreensão de que havia a possibilidade de cometer as faltas que justificariam os castigos, como também, só o fato de existirem já suscitaria o medo de sofrê-las. Os alunos que desobedecessem as regras contidas no Regulamento estavam sujeitos as seguintes penas: a) advertência; b) suspensão momentânea das aulas; c) más notas de comportamento e aplicação e conseqüente privação de saídas para alunos internos; d) separação temporária dos demais companheiros; e) suspensão de um ou mais dias de aula; f) cancelamento da matrícula.22 As prescrições regimentais eram levadas a sério pelos freis e professores leigos, em sala de aula e em conversas particulares. As regras de bom comportamento, boas maneiras se não cumpridas poderiam ser penalizadas. As condutas inadequadas poderiam determinar o cancelamento da matrícula e estavam previstas no Regulamento Interno: DETERMINAM O CANCELAMENTO DA MATRÍCULA: a) ofensa contra a moralidade ou mesmo conversas e maneiras menos decorosas; b) falta habitual de aplicação aos estudos; c) insubordinação incorrigível ou falta grave de respeito. 23 A premiação dos alunos exemplares era tão enobrecedora que constava no Prospecto do Colégio: “Para estimular os alunos são conferidos prêmios e medalhas, que, para terem valor, devem ser acompanhados do respectivo certificado. As medalhas podem ser usadas nas festas, formaturas, passeios e fotografias, pelo prazo de um ano”. 24 A classificação de cada aluno em relação ao outro da mesma turma constava na caderneta escolar e nas revistas que eram publicadas nas comemorações ao final de cada ano letivo. Nesta revista havia o quadro de honra onde os melhores alunos eram divididos em duas colunas: os melhores em comportamento e os melhores em aplicação. Em muitos casos os nomes se repetiam, demonstrando com isso que o bom comportamento era pré-requisito para conseguir ser aplicado nos estudos ou que a aplicação nos estudos era um comportamento adequado. A partir do exposto acima se pode considerar que a punição já estava implícita na premiação. O fato de não ser premiado carregava em si uma punição. A divisão segundo as classificações ou os graus tem um duplo papel: marcar os desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões; mas também castigar e recompensar. [...] A disciplina recompensa unicamente pelo jogo das promoções que permitem hierarquias e lugares; pune rebaixando e degradando. O próprio sistema de classificação vale como recompensa ou punição. (Foucault, 2004, p.151) A vigilância, então, põe em tela uma nova formatação de revelação de poder, que não precisa mais de castigo físico, mas que tem a sua eficácia na disciplina discreta, mas sempre presente. Atrasos, erros, negligência e insolência são atitudes que são reprimidas por esses micromecanismos de sanção que não são contemplados por leis sociais. Daí a possibilidade da punição desembocar no estabelecimento de normas. “A penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e controla todos os instantes das instituições disciplinares compara, diferencia, hierarquiza, homogeneíza, exclui. Em uma palavra, ela normaliza”. (Foucault, 2004, p. 153) Considerações finais Cultivar nos educandos a disciplina, que seja praticada de tal maneira que se transforme em disposição interna, para conseguir o domínio de si mesmo.25 O Colégio Santo Antônio, visto aqui como um espaço disciplinar, cumpriu seu papel com maestria. Insistiu e conseguiu transformar o educando num sujeito escolarizado, submetido, em muitos momentos, aos comandos e às ordens dos dirigentes, que estavam fundamentados em normas e regras que os legitimavam. Parece que essa operacionalização ocorria, de modo geral, de maneira dócil e submissa. Nem sempre esse processo ocorreu de forma tranqüila, mas em diversos momentos, os dirigentes alcançaram seus objetivos. É possível acreditar que conseguiram esculpir um sujeito dócil e útil, mas também altivo e certo de sua invencibilidade. Este foi um indivíduo alvo de rígido controle sobre si mesmo e suficientemente capaz de controlar o outro. Afinal, este foi um disciplinamento também para o comando, não apenas para a obediência. Isto fica claro no discurso de um ex-aluno: Devemos confessar que não foi inútil nossa passagem por essa casa. Daqui levamos para a vida não só os conhecimentos do mundo exterior, mas também uma força interior, que nos tornou vitoriosos, uma educação que nos fez invencíveis. 26 Enfim, a disciplina escolar acabou gerando e gerindo a vida pessoal, familiar e social deste ser escolarizado de uma forma tão “natural” cujo automatismo dos gestos, a identidade dos comportamentos, a similaridade dos discursos e a reprodução das ações evocaram uma outrora ficção dita científica, resultando em uma encenação potencialmente construtora. 1 O Colégio Santo Antônio considera, como data de sua fundação, o dia 16 de janeiro de 1877, em que o Padre José Maria Jacobs, encarregado, pouco antes “da cura das almas dos católicos dispersos pela vasta zona da colônia de Blumenau”, inaugurava sua modesta escola paroquial, sob o nome de Coleginho São Paulo. Sendo este um dos mais antigos colégios dos atualmente existentes em Santa Catarina. Padre José Maria transferiu o colégio aos Padres Franciscanos da Província da Imaculada Conceição, em abril de 1892. Empreendeu-se novas e amplas construções, e o estabelecimento tomou o nome de Colégio Santo Antônio. 2 É importante ressaltar que até 1932 só havia o Colégio Catarinense, em Florianópolis, que oferecia Ensino Secundário desde 1906. Este Colégio foi analisado em recente estudo do historiador Norberto Dallabrida que serviu como principal referência para a análise do Colégio Santo Antônio, já que os dois colégios possuem muitas características em comum. Este trabalho pode ser encontrado em DALLABRIDA, Norberto. A Fabricação Escolar das Elites: O Ginásio Catarinense na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2001. 3 Entende-se aqui o sujeito distinto não como diferente, mas como uma pessoa com distinção. Isso sugere, neste momento, uma educação esmerada, nobreza de porte, correção de procedimentos. 4 É importante ressaltar que o Colégio Santo Antônio mantém em seus arquivos documentos de todas as espécies, englobando os mais diferentes setores da instituição. A documentação de cada aluno que já passou por esta instituição, desde a sua fundação, é cuidadosamente guardada no arquivo inativo. Desta maneira essa pesquisa utilizou-se de uma vasta documentação para análise, mas neste momento focalizará especificamente o regimento interno do colégio com o intuito de revelar e analisar as normas disciplinares que regeram a vida escolar desses sujeitos que estudaram nas décadas de 1930 e 1940. 5 É preciso deixar claro que este texto se deterá apenas na análise das regras que foram utilizadas como estratégias de disciplinamento pela instituição escolar estudada. Sabe-se que os sujeitos escolares utilizaram-se de várias táticas para subverter estas regras e conseguiram, em muitos momentos, efetivamente burlá-las. Todavia, esse texto não fará referência à elas. 6 Centenário de Blumenau 1850 – 1950. Edição da Comissão de Festejos. p. 298 7 Fonte: Revista “Colégio Santo Antônio”, 1941. p.2 8 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Prospecto de 1932. Item: Natureza e Fim do Estabelecimento, p.2 9 Ibid., p.10 10 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Prospecto de 1932. Item: Natureza e Fim do Estabelecimento, p.12 11 Idem. 12 O objetivo desse relatório é obter a inspeção permanente para o funcionamento do Ginásio, já que o mesmo tinha apenas inspeção preliminar e obteve somente em 1938 a inspeção permanente. 13 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Relatório para obter a Inspeção Permanente, 1935, p.1. 14 Ibid., p.2 15 Ibid., p.4 16 Idem 17 Ibid., p.5 18 Ibid., p. 6 19 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Prospecto de 1932. Item: Sistema Disciplinar, p.6 20 Partindo da caracterização do poder como situação complexa numa dada sociedade, Foucault chega ao conceito de panoptismo, herdado diretamente da teoria do panóptico desenvolvida por Geremy Bentham. O panoptismo é a técnica moderna de dominação, na qual o sujeito introjeta a repressão, e o esquema geral da norma se impõe, tanto subjetivamente quanto no conjunto da sociedade. Para melhor compreensão deste conceito sugere-se a leitura de FOUCAULT, Michel. O Panoptismo. In___: Vigiar e Punir. 28.ed. Petrópolis: Vozes, 2004, p.162-187. 21 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Prospecto de 1932. Item: Sistema Disciplinar, p.5-6 22 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Prospecto de 1932. Item: Sistema Disciplinar, p.6 23 Idem. 24 Idem. 25 Franciscanos na Educação e Comunicação. Composto e Impresso no Departamento Gráfico da Universidade São Francisco. 1995, p. 67 onde se refere aos objetivos do colégio. 26 Fonte: Documentos do Colégio Santo Antônio. Conferência dada por Marcos Konder por ocasião do jubileu de ouro do Colégio Santo Antonio no dia 15 de agosto de 1927. Referências Bibliográficas: BOURDIEU, Pierre. Escritos de Educação. 5. ed. Petrópolis, Rj: Vozes, 2003. CAMARGO, Marilena Aparecida Jorge Guedes de. “Coisas Velhas”: um percurso de investigação sobre cultura escolar (1928-1958). São Paulo: Editora UNESP, 2000. DALLABRIDA, Norberto. A Fabricação Escolar das Elites: O Ginásio Catarinense na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2001. DALLABRIDA, Norberto. (org). Mosaico de Escolas: Modos de educação em Santa Catarina na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2003. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 18.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2003. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 28.ed. Petrópolis: Vozes, 2004. HORTA, José Silvério Baía. O hino, o sermão e a ordem do dia: A educação no Brasil (1930-1945). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. LEAL, Elisabeth J. M. Instituto Estadual de Educação: A Erosão da Ordem Autoritária. Florianópolis: Editora da UFSC, 1989.