BARBRA CANDICE SOUTHERN TRANSPORTE INTER-URBANO E CONSEQÜÊNCIAS NA ESTRUTURAÇÃO RECENTE DO MUNICÍPIO DE PETRÓPOLIS: o caso da rodovia Washington Luiz – BR040. Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Orientador: Prof. Dr. Rainer Randolph Doutor em Ciências Econômicas e Sociais/UEN Rio de Janeiro 2007 BARBRA CANDICE SOUTHERN TRANSPORTE INTER-URBANO E CONSEQÜÊNCIAS NA ESTRUTURAÇÃO RECENTE DO MUNICÍPIO DE PETRÓPOLIS: o caso da rodovia Washington Luiz – BR040. Dissertação submetida ao corpo docente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Aprovado em: __________________________________ Prof. Dr. Rainer Randolph – Orientador Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - UFRJ __________________________________ Prof. Dr. Mauro Kleiman Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - UFRJ __________________________________ Dr. Ricardo Esteves Universidade Federal do Rio de Janeiro DEDICATÓRIA Para meus queridos Leo e Sophia, pelo apoio de sempre e compreensão das horas a frente do computador. Para minha mãe Marilene (in memoriun) por acreditar que eu poderia, e meu pai Denis pela minha formação. Para Mut e Séchat, companheiras de sempre. AGRADECIMENTOS À Rainer Randolph pela orientação, apoio e amizade durante a realização deste trabalho. À Leo, pela enorme ajuda, amor e carinho, principalmente nas horas difíceis. Aos meus pais, pela minha formação, tão fundamental para este trabalho. Às amigas Andréa e Luciana pela amizade, pelos valiosos papos e momentos de descontração, além de grande incentivo neste período. Aos professores Mauro Kleiman e Ricardo Esteves pela valiosa ajuda para a conclusão deste trabalho. Aos funcionários Ana Lúcia, Maria Luiza, Kátia, Paulo, Cláudia Regina, Zuleica, João Carlos, Alberico, Vera, PC e Pedro, pelo apoio e grande ajuda neste período. Ao CNPq, pela bolsa de estudos. A todos que de alguma forma colaboraram para a realização deste trabalho. EPÍGRAFE O objetivo da humanidade é a felicidade, a concretização do melhor que somos capazes. (Aristóteles) SUMÁRIO INTRODUÇÃO 12 CAPÍTULO 1 22 CIRCULAÇÃO E CIDADE: ESTRUTURAÇÃO URBANA. O PAPEL DOS TRANSPORTES NA 1.1 Algumas considerações sobre acessibilidade 29 1.2 O processo de urbanização e o fenômeno da metropolização, a conformação de uma rede? 33 1.2.1 Peri-metropolização ou expansão da metrópole? 38 1.2.2 Transporte e processo de peri- metropolização no Rio de Janeiro 42 CAPÍTULO 2 48 A FORMAÇÃO DE UMA REDE URBANA 2.1 O que é rede? 49 2.2 Problematização da rede urbana 52 2.3 A formação de uma rede urbana brasileira 59 CAPÍTULO 3 69 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DE PETRÓPOLIS 3.1 Constituição da rede viária fluminense 70 3.2 Petrópolis e seus caminhos 73 3.3 Breve histórico da BR 040 80 CAPÍTULO 4 O PAPEL TRANSFORMADOR PETRÓPOLIS 87 DO SISTEMA DE TRANSPORTES EM CONCLUSÃO 102 REFERÊNCIAS 103 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1- Mapa da Estrada Real 68 Figura 2 - Petrópolis e Arredores 69 Figura 3- Principais caminhos de Petrópolis 76 Figura 4 - Mapa da rodovia BR 040 da página da Concer 83 Figura 5 - Foto da Rodovia BR 040 - trecho próximo a REDUC 84 Figura 6 - Pedágio no km 104 em Duque de Caxias 84 Figura 7 - Distritos de Petrópolis 86 Gráfico 1 - Taxa de crescimento da população residente 88 Gráfico 2 - Volume médio mensal em trecho da BR 040 95 Gráfico 3 - Diferença de volume entre pedágios Km 104 e 45 95 Figura 8 - Terminal de Integração Corrêas 97 Figura 9 - Novo terminal rodoviário de Petrópolis na rodovia Br 040 98 Figura 10 - Movimento na nova Rodoviária 98 Figura 11 - Condomínio Granja Brasil 101 Figura 12 - Condomínio Quinta do Lago 101 ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Taxa de Crescimento da População Residente na Década de 90 – Petrópolis Tabela.2 - Expansão Imobiliária no Município de Petrópolis – quantidade de condomínios ou loteamentos por período Tabela 3 - Expansão imobiliária no Município de Petrópolis Tabela 4 - Volume Médio mensal de Veículos que passam entre o km 104 (Duque de Caxias) e o km 45 (Areal) no ano de 2006. SIGLAS ○ BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ○ CIAM - Congresso Internacional de Arquitetura Moderna ○ CIDE - Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro ○ CNT - Confederação Nacional dos Transportes ○ COREDES - Conselhos Regionais de Desenvolvimento ○ CONCER - Companhia de Concessão Rodoviária Juiz de Fora - Rio ○ CPTRANS - Companhia Petropolitana de Transportes ○ ERJ - Estado do Rio de Janeiro ○ FIBGE . Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ○ FUNDREM - Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro ○ IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ○ IDH - Índice de Desenvolvimento Humano ○ IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada ○ IPPUR - Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional ○ Lab.Ore - Laboratório Oficina Redes ○ MRJ - Município do Rio de Janeiro ○ NTIC - Novas Tecnologias de Informação e Comunicação ○ PEA - População Economicamente Ativa ○ RJ - Rio de Janeiro ○ RM . Região Metropolitana ○ RM.s . Regiões Metropolitanas ○ RMRJ - Região Metropolitana do Rio de Janeiro RESUMO . SOUTHERN, Barbra Candice. Transporte inter-urbano e mudanças recentes na estruturação do município de Petrópolis: o caso da rodovia Washignton Luiz BR040. xxx f. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007. A presente dissertação analisa as interações entre circulação, transporte, e o processo de estruturação do espaço presente na faixa peri-metropolitana do Rio de Janeiro, mais especificamente no município de Petrópolis, após a privatização da rodovia BR 040 em 1996, considerando, notadamente, as dimensões econômicas e demográficas desse processo. Tem como marco teórico a crítica aos modelos das teorias clássicas de rede urbana e de acessibilidade que, ao se fundamentarem, mostram como a acessibilidade pode vir a ser produtora de uma nova forma espacial. Formada não apenas a partir de uma demanda do mercado imobiliário, mas sim, através da mobilidade propiciada pela acessibilidade de circulação na via. A partir da avaliação dos resultados da análise empírica, foi possível concluir que uma infra-estrutura de transportes da magnitude da BR 040 vêm conseguindo alterar a lógica geral da produção do espaço da região peri-metropolitana do Rio de Janeiro, o município de Petrópolis. Palavras-Chave: rede urbana, peri-metropolização, BR 040, Petrópolis e acessibilidade. ABSTRACT SOUTHERN, Barbra Candice. Transporte inter-urbano e mudanças recentes na estruturação do município de Petrópolis: o caso da rodovia Washignton Luiz BR040. xxx f. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007. The present dissertation analyzes the interactions between circulation, transport, and the structurating process of the present space in the peri-metropolitan region of Rio de Janeiro more specifically in the city of Petrópolis, after the privatization of the BR 040 highway in 1996, considering the economic and demographic dimensions of this process. It has, as theoretical landmark a critical view of the classic theories of urban net, and accessibility models that shows how accessibility can be a producer of a new space form. Constituted not only from a demand of the real estate market, but from the mobility propitiated by the accessibility of circulation in the highway. From the evaluation of the results of the empirical analysis, it was possible to conclude that an infrastructure of transports of the magnitude of BR 040 is modifying the general logic of production of the space in the peri-metropolitan region of Rio de Janeiro, the city of Petrópolis Key-Words: urban net, peri-metropolization, BR040, Petrópolis and accessibility. Introdução O interesse pelo tema dos transportes vem desde a graduação em Arquitetura e Urbanismo. Dentro da formação do arquiteto e urbanista, o transporte remete, na verdade ao Planejamento Urbano e Regional. Este tema tão relevante é muitas vezes tratado como norma a cumprir da legislação, ou apenas uma parte do conjunto de equipamentos que contribui para a formação do mobiliário urbano. Na época da graduação, era oferecida uma única disciplina que tratava do planejamento urbano e do transporte, na qual o transporte tinha um papel central como ordenador ou desagregador dos espaços. Esta disciplina, que tive a oportunidade de cursar e que promovia um debate sobre essa área e suas interfaces estreitas com a questão do planejamento, mostrava desta forma, como os caminhos, a infra-estrutura e os meios que utilizamos para percorrer estes caminhos podem definir o comportamento de uma determinada aglomeração urbana. O tema dos transportes sempre foi de considerável importância tanto para planejadores urbanos brasileiros como para aqueles na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, por exemplo, Lúcio Costa, ao projetar Brasília, primeiro se baseou nas vias de circulação. Mesmo Pereira Passos quando idealizou a Avenida Central, atual Rio Branco, no Rio de Janeiro, tinha como preocupação a questão da circulação, um fator determinante para o crescimento e desenvolvimento da cidade. Mais do que nunca, nas últimas décadas, a questão da circulação ligada aos transportes vem sendo cada vez mais posta em pauta por parte dos agentes públicos, devido a um crescimento das aglomerações urbanas sem controle. O transporte e consequentemente a infra-estrutura que o acarreta estão ligados de maneira única e indissociável ao processo de criação de aglomerações populacionais. Isto é mesmo antes do surgimento das cidades tanto em relação à locomoção de bens como de pessoas de um ponto de origem até outro ponto de 12 destino. O transporte em suas diferentes expressões permite e estabelece a ligação entre pontos diferentes, dentro e fora de cidades, entre uma área de produção da mercadoria e sua respectiva área de consumo, por exemplo. Com a evolução logística das cidades políticas para as mercantis e as industriais nos séculos XIX e XX, o sistema de transportes se tornou um dos serviços essenciais para o funcionamento de uma cidade na medida em que sustenta uma boa parte da circulação de bens, serviços, pessoas e nos dias de hoje, também de informações. Assim, a forma deste sistema caracteriza um determinado estágio de desenvolvimento de uma aglomeração urbana na medida em que garante uma acessibilidade mais ou menos rápida e eficiente aos diferentes locais. A forma do sistema de transportes inclusive determina, até certo ponto, os padrões de qualidade de vida. Se usássemos uma metáfora e observássemos os grandes aglomerados urbanos como organismos vivos, poderíamos identificar neles uma dinâmica própria que lhes são conferidos, em boa parte, pela vida de seus habitantes e usuários em movimento (circulação), o que faz com que eles estejam em constante transformação. Neste sentido, pode se dizer que uma cidade nunca está pronta e acabada, ela expande conforme “suas necessidades” e pode até mesmo permanecer estagnada. O sucesso funcional das grandes cidades traduz-se necessariamente na extensão do espaço que elas utilizam. Vários fatores, dentre eles destaco aqui a questão da infra-estrutura dos transportes, que eram caracterizadas por tentáculos contínuos a partir da circulação, modificam as formas tradicionais de crescimento espacial das grandes cidades. Hoje, as novas técnicas de comunicação e de informação favorecem as implantações mais dispersas dos centros de atividades e das zonas de urbanização residencial. Na organização interna dos espaços metropolitanos, o fluxo de novos habitantes suscita formas específicas características da peri-metropolização. Os primeiros momentos do crescimento das grandes cidades – metrópoles ou megalópoles – se traduzem na multiplicação das zonas de habitação precárias, ou ainda, na transferência para áreas mais 13 longínquas, parcela da população que pode arcar com os custos de uma melhor qualidade de vida que os grandes aglomerados urbanos já não podem mais oferecer. É cada vez maior o número de pessoas que, em busca de melhor qualidade de vida a um menor custo, se mudam para áreas mais longínquas, ou se deslocam para a chamada faixa peri-metropolitana e, diariamente, se deslocam para a capital utilizando-se de meios de transporte mais eficazes ou rápidos, ou se valendo da infra-estrutura das próprias vias. Fatos como esses são reflexos do processo de dispersão que vem ocorrendo no sistema urbano do Brasil. O processo de conurbação que ocorre quando uma cidade passa a absorver núcleos urbanos localizados à sua volta, pertençam eles ou não a outros municípios, fazendo com que uma cidade comece a absorver outra quando passa a desenvolver com ela relações de intensa vinculação socioeconômica. Este processo irá envolver uma série de transformações tanto no núcleo absorvido quanto no núcleo principal. Para uma maior clareza nestes vínculos, devem ser destacados principalmente os deslocamentos espaciais que caracterizam o espaço intra-urbano e os deslocamentos inter-urbanos que viriam posteriormente a formar a chamada rede urbana - conceito que é mais utilizado para mostrar os fluxos de toda natureza existentes entre os diversos pontos do território. A constituição de uma rede urbana e sua influência no desenvolvimento de determinadas regiões, faz com que as cidades deixem de ser objetos dispostos no espaço para mostrar como a acessibilidade promovida por uma determinada via, na medida em que ela recebe influências de dinâmicas próprias, pode transformar a qualidade e o desenvolvimento (processos de expansão/estagnação) de uma cidade e até mesmo de uma sociedade. Hoje, com a tendência do deslocamento de uma parcela da população urbana para a peri-metropolitana, estão crescendo os lançamentos imobiliários em 14 loteamentos fechados e condomínios destinados à classe média em cidades próximas a grandes metrópoles. Não se trata de um acontecimento restrito às metrópoles brasileiras, mas de um processo generalizado, que atinge os países mais industrializados e urbanizados de todo o mundo. Esta dispersão tem sido vista como um processo, complexo e diversificado, que questiona os conceitos de cidade e campo como existiram ao longo de milênios. No Brasil, ela pode ser vista como um processo contínuo e crescente, que teve início em 1950 e ganhou importância na década de 1970. Como conseqüência disso, destaca-se a formação de áreas de urbanização dispersa separadas no espaço, mas mantendo estreitos vínculos entre si; a adoção de novos modos de vida pela população, o surgimento de outras modalidades de gestão dos espaços urbanos, com formas condominiais diversificadas, as alterações nas relações entre espaços públicos e privados, as novas formas de organização do mercado imobiliário e a aplicação de diferentes padrões de projeto, com novas formas de conjuntos urbanísticos. A escolha de políticas estruturantes e as próprias condições, geográficas, fazem com que a acessibilidade possa vir a ser produtora de uma nova forma espacial, que não parece estar apenas sendo formada a partir de uma demanda do mercado imobiliário, mas sim, através da mobilidade propiciada pela acessibilidade de circulação na via. Neste sentido podemos perceber que em muitos casos, esta expansão da metrópole é articulada pelo transporte, por sua infra-estrutura espacial ou econômica, que vem a formar o que os estudiosos chamam de rede urbana. Como mencionado acima, este processo não acontece apenas dentro da própria metrópole, mas fora dela – que estão suportados e dão origem, ao mesmo tempo, a formas de circulação distintas: não mais apenas os fluxos entre periferia e centro dentro da metrópole (no sentido também de “commuting” – processo de 15 viajar entre um lugar de residência e um lugar do trabalho); mas fluxos regulares sobre distâncias maiores. A nossa investigação inscreve-se na problemática da expansão metropolitana pra além das suas fronteiras tradicionais. A mobilidade residencial intra-urbana, mesmo a inter-urbana, geralmente está associada a necessidades habitacionais dos indivíduos por uma busca de melhor qualidade de vida, como foi anteriormente dito. Em última instância para perceber esse potencial de uma “nova mobilidade”, começamos a estudar um dos vetores de expansão metropolitana do Rio de Janeiro: aquele dirigido a Serra de Petrópolis. O primeiro passo consiste, portanto, na investigação da situação em determinados distritos desse município – próximos ao principal corredor de transporte para o Rio – a BR 040 – levantando a trajetória da ocupação dessas áreas por empreendimentos imobiliários, suas características e as de seu entorno etc. O caso que serve aqui como referência: a metrópole do Rio de Janeiro e sua área peri-metropolitana.O foco da investigação é a contribuição da infra-estrutura do transporte como promotora das novas formas de urbanização acima mencionadas. O referencial empírico (o estudo de caso) é Região Metropolitana do Rio de Janeiro e sua espacialização em direção a Serra. Neste sentido, o recorte espacial deste estudo se delimita aos distritos pertencentes ao município de Petrópolis no Rio de Janeiro, nos quais fazem fronteiras, ou são cortados pela Rodovia BR 040, num eixo temporal que vai desde a abertura dos primeiros caminhos para as Minas até a atualidade. De certa forma, podemos levantar a hipótese de que um novo modo de desenvolvimento já vem sendo posto em prática. Pouco a pouco, os chamados movimentos pendulares, deslocamento da população para ir trabalhar ou ter lazer em um local diferente de onde tem a sua residência, começam a diminuir. É cada vez mais comum, por um lado, ver pessoas optando por trabalhar próximas ao seu 16 local de trabalho ou vice-versa, fugindo assim dos congestionamentos e ganhando tempo para praticar exercícios e outras atividades, procurando uma melhor qualidade de vida Trazendo um novo caráter de mobilidade que para Randolph e Gomes (2007) “irão ser superadas por novas articulações e, também, novos espaços do exercício das respectivas atividades”. Por outro lado, há uma tendência que, com o avanço da tecnologia e o advento da Internet, torna possível também um outro tipo de relação onde não é tão mais necessário deslocamentos para trabalho, permitindo assim, a escolha do local de moradia, onde o indivíduo possa ter mais qualidade de vida mesmo longe do local de trabalho. Há também uma mudança em determinadas profissões – ainda relativamente poucas – que admite superar aquela separação entre lugar de moradia e lugar de trabalho que o capitalismo industrial gerou com suas grandes fábricas e zonas de comércio. È difícil reconhecer essas transformações, que, em tese, “geram novas formas de urbanização e circulação, porque os instrumentos teóricos analíticos usados atualmente nos estudos urbanos e regionais não facilitam a identificação e caracterização dessa nova realidade” (LÈFBVRE, 1999). A aplicação de certas afirmações elaborada em outros contextos, seja no exterior seja no Brasil em relação ao crescimento metropolitano e segregação sócio-espacial em áreas também metropolitanas, pode não ser apropriada quando a escala não parece ser a mesma como no caso do surgimento de uma nova forma de extensão da metrópole. Petrópolis é uma cidade média, que entre os anos 70 e 90 do século XX fez parte da região metropolitana do Rio de Janeiro e hoje é cortada por uma das principais rodovias do país que se consiste em um eixo econômico de vital importância. 17 Como pólo turístico, o município de Petrópolis chega ao século XXI visando se tornar também um pólo tecnológico. No entanto, esta cidade passa por problemas urbanos e sociais que atingem grandes aglomerados urbanos. O município tem uma formação especifica de vocação turística natural que o levou à realidade atual, onde há um interesse dos administradores públicos em levar essas potencialidades à frente. A proximidade com a cidade do Rio de Janeiro proporciona e reafirma essa vocação. Esta realidade de novas formas espaciais é o ponto de partida. A organização do município, sua configuração espacial e o surgimento de um “novo” modelo de ocupação do espaço são os elementos específicos desta realidade que serão examinados neste trabalho. Desta forma, estudar o município é recuperar questões que geralmente são muito comuns nos grandes centros. Portanto, encarar desafios de soluções e políticas que somente serão bem sucedidas na medida em que se tenham diagnósticos apurados da forma como a cidade se expande e se modifica através do crescimento intra-urbano.Assim como através de suas novas periferias, representadas por seus distritos e pelas cidades vizinhas, ou parte delas, que de algum modo acabam “assimilando” parte dos problemas dentro do espaço intraurbano de Petrópolis. Através de uma breve pesquisa nos distritos de Petrópolis é possível observar, principalmente em Itaipava, que eles apresentam um crescimento cada vez mais significativo de moradores residentes. Não só de residências de segunda residência através de uma clara e gradual alteração em sua dinâmica migratória devido ao incremento populacional com questões consideradas, por nós, prioritárias neste deslocamento efetuado por esta população. Esta observação traz junto com ela uma pergunta fundamental para os questionamentos aqui expostos: serão essas pessoas realmente oriundas da cidade do Rio de Janeiro? A busca por uma melhor qualidade de vida é o único fator determinante para o deslocamento desta população, ou é mesmo a qualidade da infra-estrutura de transportes que viabiliza esta situação? 18 O objeto do presente estudo é a influência do sistema de transportes, o conjunto de elementos (que incluem modalidades e infra-estrutura) em meio urbano, na formação dos espaços urbanos das cidades. Portanto, o que se pretende neste trabalho é tratar não de um determinado modal de transporte, nem da circulação por si só, mas do processo de criação de espaços (novas ou velhas formas espaciais), da articulação entre eles, formando uma rede integrada, em diferentes escalas regionais, como a intra-urbana e inter-urbana. Ou seja, o caso específico das conseqüências de uma auto estrada interurbana (regional - BR 040) em relação às transformações intra-urbanas em um determinado município (Petrópolis), e como a acessibilidade promovida pela rodovia pode alterar as formas e funções da circulação na cidade, através da formação de uma rede urbana na medida em que a articulação entre estas cidades formadoras da rede, é vital para o desenvolvimento de uma determinada localidade. Não apenas identificando o transporte como uma das determinações importantes neste processo de formação de uma rede urbana, mas, para elaborar uma reflexão acerca da interface entre transporte e os processos de urbanização e as relações intra e inter-urbanas causadas pela rodovia BR040 em um contexto que transcende as fronteiras metropolitanas. Para este estudo foi feita uma revisão bibliográfica de análises de categorias como rede urbana, e acessibilidade, assim como do que o processo de expansão da metrópole ou peri-metropolização representa para o município de Petrópolis. Estas análises contribuíram para determinar a área de influência da região metropolitana ou mesmo da região expandida na BR040, verificando, qual é a região de influência desta rodovia não só pelo fato de cortar vários municípios de uma grande área da Baixada Fluminense, onde predomina uma política clientelista sem projetos articulados, mas que, no entanto leva à uma outra área, que cresce favorecendo um determinado tipo de classe social. 19 Através de dados fornecidos pela Companhia Petropolitana de Transportes – Cptrans, dados estatísticos do IBGE, das empresas de transporte de passageiros e da Companhia de Concessão Rodoviária Juiz de Fora - Rio CONCER, concessionária que administra a rodovia BR040, foi possível quantificar os fluxos existentes na rodovia. E determinar a principal característica de utilização da mesma. No primeiro capítulo mostramos como é tratada a questão da circulação na cidade e o papel desempenhado pelo sistema de transportes na estruturação urbana. Foi necessário rever as origens das cidades no passado e seu processo de vida no presente para o sistema de transporte urbano verificar a existência da criação de uma rede urbana, que foi tratada mais apropriadamente no segundo capitulo. Para tanto, foi feita uma pesquisa acerca dos processos históricos de formação das cidades a partir de uma perspectiva dos transportes e do termo acessibilidade e de sua atuação dentro do espaço da metrópole. O segundo capítulo é dedicado a uma revisão da literatura sobre o conceito de rede e de rede urbana, já mencionado no capítulo anterior anteriormente e sobre a formação de uma rede urbana no Rio de Janeiro, que junto com o crescimento e desenvolvimento urbano vincula infra-estrutura, à demanda e à oferta para esta última. Este capítulo trata da relação entre as vias regionais e o crescimento físico das cidades através do transportes cuja principal hipótese é de que o crescimento e o desenvolvimento podem estar altamente influenciados pelas vias, rodovias e ferrovias o que se confirma nas origens da história. Destacamos também a existência de uma rede urbana desde as origens da formação da cidade de Petrópolis. Assim, o terceiro capítulo destaca a contextualização histórica da rede viária fluminense e de Petrópolis comprovando e ressaltando através das origens da cidade a importância histórica do caminho em que hoje encontra-se a rodovia BR040 para a formação desta rede urbana. 20 O último capítulo desta dissertação é dedicado as pesquisas de natureza empírica secundária respectivamente, como consulta a dados estatísticos do IBGE, levantamentos na Prefeitura municipal de Petrópolis e dados da concessionária que administra a BR040, comprovando a existência de um fluxo de entrada na rodovia, que se insere entre o primeiro e o segundo pedágio, analisando o processo de configuração e expansão do município e seus rebatimentos nas questões referentes às transformações das características dos subespaços (através do caso emblemático da transferência do terminal rodoviário de Petrópolis e de alterações na circulação do espaço intra-urbano do centro histórico). 21 1. Circulação e cidade: o papel dos transportes na estruturação urbana. Nos últimos anos, muita atenção se tem dado à questão do desenvolvimento urbano, principalmente nos grandes centros que a cada dia sofrem mais com os problemas gerados pelo descaso com que a prática do urbanismo tem sido tratada. Como compreender então o processo de criação ou até mesmo de desenvolvimento de organismos urbanos? Ou seja, o fenômeno para além da metrópole - que se dá paralelamente com a continuação das formas do passado, através de uma forma de ocupação urbana que parece não se encaixar nos “modelos tradicionais”? O processo de estruturação do espaço esta presente também na faixa peri-metropolitana em torno de centros médios não dotados de funções metropolitanas. Seria a existência de uma rede de transportes o ponto chave para o entendimento deste processo? Que tipo de fenômeno urbano vem acontecendo no Brasil? Os sistemas de transporte apresentam duas funções fundamentais, que são o movimento e o acesso às atividades baseadas no solo. O padrão de movimentos ou de circulação está relacionado com a tendência de orientação do sistema urbano. A divisão social do trabalho ajuda, portanto, a setorizar as atividades em determinados pontos no espaço, a organização do tecido urbano em seus espaços públicos pode permitir a convivência das pessoas separadas pela setorização. Pensar a cidade significava, portanto pensar seu desenho? Ao descrever uma cidade geralmente, identificamos primeiramente sua forma. Para Aldo Rossi (BENEVOLO, 2001), “a forma de uma cidade se resume a partir de sua arquitetura”. No entanto, foram os caminhos que primeiramente promoveram a expansão das cidades. Mesmo antes da arquitetura, estes caminhos existiam e arquitetura, ao contrário, representava para estes caminhos, um marco, uma forma, até mesmo uma paisagem, caminhos que ligavam diversas formas de arquitetura e contribuíam para a formação destes espaços. 22 As vias aquáticas foram o primeiro meio eficiente de transporte de massa. O transporte tornou possível equilibrar os excedentes e dar acesso a especialidades distantes (primeiro transporte “urbano” de mercadorias). O controle do rio para o cultivo das plantações, transporte, comunicação, higienização e provisão de alimentos era de extrema importância. Os rios foram as primeiras auto-estradas, tão logo se desenvolvia a navegação. Fornecimento, armazenagem e distribuição eram, e ainda são funções do mercado, segundo uma visão weberiana, elementos para a configuração do “urbano”. Com os demais componentes da cidade o mercado pode e passou a existir como uma entidade separada, onde seu desenvolvimento e ampla distribuição de seus produtos tem paralelo com o desenvolvimento das comunicações (e isto não continua acontecendo hoje?). Os transportes eram o elemento mais dinâmico na cidade, a falta ou a facilidade com que eles poderiam ser interrompidos era uma ameaça ao crescimento de qualquer aglomeração. A mobilização de produtos para o rápido intercâmbio e distribuição foi o grande feito da economia de mercado. No processo, como desenvolvimento original da cidade antiga, as vias aquáticas serviam de principal meio de transporte e comunicação. Ao passo que centros comerciais mais antigos como Florença e Burges começaram a decair no século XVI, os principais portos marítimos e fluviais das rotas de comércio floresceram. A construção de vias adequadas para ligar o porto à cidade veio depois, ou seja, a degradação de áreas existe desde o início dos tempos. A rua larga apareceu antes da roda, para que a circulassem procissões e soldados. O transporte e o intercâmbio de bens estimularam a vida quotidiana da cidade mesopotâmica, e entre 480 e 430 a.C. houve o surgimento da primeira polis. No Renascimento entre os séculos XV e XVI, houve a clarificação geométrica do espírito com a rua reta. Neste período podemos observar também a supressão 23 dos mercados: com o desenvolvimento da arte da fortificação, transferiu-se a ênfase da arquitetura para a engenharia, alterando o quadro urbano. No antigo esquema medieval, a cidade crescia horizontalmente: as fortificações eram verticais. Os espaços geralmente eram retangulares com a forma sendo definida pelas construções que eram feitas na periferia, ou seja, um crescimento por agregação. O espaço da circulação era o conector, assim, as edificações eram ordenadas segundo um eixo relacionado com as construções já existentes, e criavam, portanto volumes de espaços angulares que determinariam os caminhos. No início do barroco, o estabelecimento de linhas de força ordenando o princípio de crescimento (a rua) de Roma (onde eram assim definidas as tensões de mercado) tornou-se o elemento definidor dos espaços. “As cidades confinadas só podiam crescer para cima, em altas moradias coletivas, novas classes mercantis determinavam o hábito” (MUMFORD, 1982). A história da organização de vias de circulação se confunde com a história arquitetônica. O que era até o medievo apenas meio de comunicação, via de articulação, passou a ser considerado nas construções arquitetônicas. Assim, a avenida que é o símbolo mais importante da cidade barroca, era a generalizadora da geometrização do espaço, facilitadora do tráfego e dos transportes. Foi no século XVI que os carros e carroças tiveram o uso mais generalizado dentro das cidades. Embora existissem movimentos resistentes à entrada dos transportes nas cidades, a aceleração do movimento e a conquista do espaço eram mais fortes. O movimento em linha reta ao longo de uma avenida não era meramente uma economia, mas um prazer especial, que trouxe para dentro da cidade, o movimento rápido, até então conhecido somente pelos cavaleiros. A avenida uniforme levou o movimento e a confusão a partes da cidade que tinham sido 24 tranqüilas e contidas em si mesmas, tendiam a estender o mercado ao longo das linhas de tráfego, ao invés de prover pontos locais de concentração de vizinhanças. O tráfego e a geometria têm prioridade. As revoluções inglesas, americanas e francesas mudaram o paradigma do poder centralizador baseado num sistema monarquista absoluto. E em 1777, L’Enfant sacrificou as funções da cidade e do espaço em razão do movimento, na construção de Washington, onde a cidade foi planejada como uma série de teias de aranha de tráfego entrelaçadas com avenidas principais de dimensões generosas. “A cidade, ou antes, a região da cidade, é o maior e mais importante entre os edifícios públicos” (MUMFORD,1982). Já no século XIX a expansão da cidade comercial se deu de forma mais horizontal, tendo como arquétipo, a cidade industrial. No período pós-Revolução Industrial, a Inglaterra foi palco de transformações científicas e sociais, acompanhadas por inovações da morfologia urbana. A nova sintaxe dos espaços passou a organizar o relacionamento entre seus ocupantes com o mundo exterior. Gradativamente, configuram-se modelos que dividem funções, classificam atividades e categorias as organizam hierarquicamente no espaço (TURKIENICZ,1984). Assim, até hoje, estruturas urbanas vêm sendo definidas como uma articulação particular de espaços adaptados, definidos em grande parte pelos eixos de circulação de fluxos (hoje, de qualquer natureza). Como vimos anteriormente, a criação de vias não são nenhuma novidade, e os problemas de transporte nas cidades muito menos, fenômenos contemporâneos. No século I Roma foi forçada a restringir o tráfego de veículos nas ruas para um horário noturno. Já naquela época então os congestionamentos eram um problema. Mas foi apenas com o processo de industrialização no século 25 XIX que o tráfego de veículos começou a apresentar um sério problema para as cidades. No Brasil entre os anos 30 e 60, os trabalhos consistiam de intervenções práticas como: A construção de Belo Horizonte, Goiânia e Brasília; A expansão de grandes centros urbanos A implementação de planos urbanísticos de renovação urbana como o Plano Agache no Rio de Janeiro A partir de 1950, os problemas urbanos se desviaram da cidade e adotaram os modelos de uso do solo e transportes. Hoje, a descrição do problema dos transportes pode ser expressa ainda em congestionamentos, falta de planejamento, etc... Com a consolidação das megacidades, a revolução tecnológica e o novo conceito de habitar e trabalhar, os problemas são muito mais complexos do que as dificuldades enfrentadas pelos romanos. A expansão do uso do automóvel levou a problemas como a sobrecarga das estradas, trajetos demasiadamente longos, a irregularidade e inconveniência dos serviços públicos e dificuldades de estacionamento em determinados locais, que decorrem também de uma organização imprópria dos usos do solo, dos ritmos das atividades e da não conciliação dos serviços públicos com os direitos privados de acesso e movimento. Não existe um problema isolado de “transportes”, existem sim, problemas de organização espacial das atividades humanas, de adaptação de facilidades e investimentos existentes, e das necessidades e aspirações dos cidadãos na questão do seu transporte e de seus bens. Ainda assim, permanece para muitos, o problema do tráfego. Esta é uma visão que não privilegia o planejamento, não só o do tráfego em si, mas das outras atividades que o envolvem. 26 As origens dos problemas dos transportes encontram-se na própria industrialização. O trajeto para o local de trabalho que representa ou ao menos representava (já que hoje temos o tele-trabalho) uma grande parte dos problemas no que concerne ao congestionamento do tráfego, e é o produto de uma possibilidade relativamente grande de escolha do local de residência e trabalho (ou da falta de escolha). Nos primeiros centros industriais dos países ocidentais, os trabalhadores eram agrupados em casa próximas aos respectivos locais de trabalho, hoje, os diferentes padrões de qualidade de vida têm contribuído quase tanto como o crescimento das cidades para as condições do tráfego urbano contemporâneo. As possibilidades de maior conforto como decorrência de maior capacidade aquisitiva, ou a falta dela, afetam tanto na escolha do local de residência (afastando do centro, os com menor poder aquisitivo, ou gerando surgimento de favelas nos mesmos) como no modal de transporte. A afirmação elementar de que a tarefa de um sistema de transportes é deslocar bens e pessoas, relembra que a localização dos pontos terminais assim como dos canais de movimento são problemas de conformação e planejamento junto com a tecnologia do transporte (BARAT, 1978). Geralmente para os estudiosos do tema transporte, duas visões prevalecem. Uma, de definição das funções e necessidades do sistema, e outra, de propostas sócio econômicas válidas para atingir estes objetivos. Isto depende, no entanto, de estudos básicos dos usos do solo nas cidades de maneira a relacionar estes usos com as necessidades de transporte. Este tipo de circulação pode ter muitas formas, com objetivos dos mais variados, como por exemplo, para compras e recreação que são totalmente distintas de outras formas de circulação como as feitas para deslocamento de trabalho, assim como as destinadas à circulação de mercadorias dentro da cidade. 27 As contribuições dos aprofundamentos dos estudos de transporte como um sistema integrado de atividades correlatas, o reconhecimento da importância do zoneamento, das características demográficas e sociais e da preferência do usuário como fator determinante das necessidades dos transportes e uma apreciação da própria importância do transporte na formulação do desenvolvimento das cidades e das áreas metropolitanas levam à aceitação da inevitável escala metropolitana do planejamento de transportes. Da logística existente nele em uma sociedade na qual as atividades cotidianas ocasionam uma locomoção cada vez maior, tornando o tema da acessibilidade de extrema importância para entender este processo de expansão da área metropolitana através de uma possível transformação do uso da segunda habitação. O tripé (tempo-custo-distância) pode, em alguns casos, definir a localização da segunda residência na zona urbana ou rural e influenciar na concentração deste tipo de construções em determinadas áreas. A disponibilidade de renda e de tempo livre influencia na escolha da localização da segunda residência, pois, quanto mais distante da residência permanente, maior é o tempo e o custo de acesso a este domicílio de uso ocasional. A propriedade de uma segunda residência em áreas muito distantes da residência principal inviabiliza a sua freqüência assídua nos finais de semana, levando o proprietário a usá-la, principalmente, nas temporadas de férias nas quais pode se dispor de um tempo maior de estadia. Porém, atualmente, com a melhoria da qualidade das vias de acesso e com o avanço tecnológico dos meios de transportes (sobretudo, dos automóveis particulares), o fator distância, em alguns casos, pode se tornar secundário ou irrelevante na escolha da localização da residência secundária. O desenho do meio ambiente, do planejamento urbano e da própria paisagem arquitetônica das cidades ou regiões são fundamentais para um bom funcionamento do sistema de transportes. As cidades são criadas como sistemas 28 de forças, sejam elas, por exemplo, econômicas, políticas, militares, sociais, culturais e naturais. A configuração da cidade resulta do impacto dessas forças na estrutura existente e das relações entre elas. 1.1 Algumas considerações sobre acessibilidade Percebemos, portanto que as formas das cidades são dadas pelas forças de movimentos que chegam a elas. A grande diferença entre as cidades antigas e as atuais, é a aplicação do poder de movimento do homem no espaço (físico mental e social). A cidade efetuou uma mobilização de potencial humano, um domínio sobre os transportes entre lugares distantes, uma intensificação da comunicação por longas distâncias no espaço e no tempo, uma explosão de inventividade, a partir de um desenvolvimento em grande escala da engenharia civil, e, o que não é menos importante, promoveu uma nova elevação da produtividade agrícola. Com a ascensão das cidades muitas funções até então dispersas e desorganizadas, ajuntam-se dentro de uma área limitada, não necessariamente as organizando O automóvel, grande vilão, criador dos congestionamentos, destruidor dos espaços, do ar e da cidade, é também o responsável pelas facilidades comerciais, da distribuição das mercadorias e por promover principalmente nos dias de hoje além de mobilidade, o que estudaremos a seguir, a acessibilidade. Para o entendimento deste assunto, há a necessidade de esclarecimentos sobre as terminologias “acessibilidade” e “mobilidade”. Algumas variações desses conceitos podem ser observadas devido ao enfoque principal de cada trabalho como, por exemplo, a discussão de acessibilidade tendo como referência a questão dos transportes. Neste enfoque pode-se entender que as possibilidades de se transitar pelos espaços das vias públicas definem a acessibilidade viária. 29 Segundo a. NBR 9.050/2004, acessibilidade pode ser a condição de alcance, percepção e entendimento para utilização com segurança e autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elementos, ou conforme o ESTATUTO DA MOBILIDADE URBANA/2005, a facilidade, em distância, tempo e custo, de se alcançar fisicamente, a partir de um ponto específico no espaço urbano, os destinos desejados. Tanto a melhoria das condições de mobilidade quanto a mudança da distribuição no espaço urbano das atividades econômicas e sociais, reduzindo as distâncias a serem percorridas, são meios de se aumentar a acessibilidade. Já mobilidade é possibilidade de se mover, característica do que é móvel ou do que é capaz de se movimentar, facilidade para andar ou a condição necessária de um indivíduo para que possa usufruir as ofertas do espaço de uso comum com autonomia e equiparação de oportunidades (HOUAISS, 2001). No caso da mobilidade urbana, este seria um atributo da cidade, correspondendo à facilidade de deslocamento das pessoas e bens no espaço urbano, tendo em vista a complexidade das atividades econômicas e sociais nele desenvolvidas. O acesso, no entanto, é uma pré-condição para a satisfação de quase todas as necessidades e uma certeza para necessidades físicas. Procurando assim entender como o conceito de acessibilidade pode influenciar nesta “nova ordem sócio-espacial” verificamos que este possui diferentes definições fundamentais, e pode ser definido como a medida do esforço para transpor uma separação espacial, caracterizada pelas oportunidades apresentadas ao indivíduo ou grupo de indivíduos para que possa exercer suas atividades a partir do sistema de transportes. Tornando possível assim, o acesso aos locais de emprego, lazer, estudo, equipamentos urbanos, e é função tanto do uso do solo quanto dos sistemas de transporte. 30 Acessibilidade tem uma dimensão social, econômica e ambiental e pode ser tanto uma pressão nos recursos naturais quanto um fator chave no processo do desenvolvimento. Ou seja, a acessibilidade é a habilidade de alcançar, e no sentido espacial, significa basicamente, uma localização mais próxima entre dois pontos. Então, esta acessibilidade espacial pode ser expressa como várias formas de distâncias, onde lugares com menos acessibilidade são aqueles mais distantes espacialmente de um certo ponto de referência. Em sistemas sociais, existem vária maneiras de cobrir distâncias, dependendo do desenvolvimento de áreas e do sistema de transporte existente que produz o efeito de convergência do espaço-tempo. Procurando assegurar oportunidades individuais igualitárias em termos de acessibilidade espacial necessidades, várias para pontos concepções onde são eles postas podem adiante satisfazer acerca se suas suas organizações espaciais. Acessibilidade espacial pode ser tratada como um gerador do processo de reorganização espacial que é definido como o processo de acordo com as localizações individuais que adotam sua funcionalidade social, econômica e política, regras num sistema de lugares de acordo com suas funções de relativa maneira de conectividade e acessibilidade ao sistema como um todo. A acessibilidade oferecida pelo meio urbano reflete a qualidade de vida da sociedade, pois é o meio físico, mais precisamente o meio urbano, que determina o efeito seja da idade, seja da deficiência, sobre as atividades da vida diária de uma pessoa, impondo restrições e limitações. Ela é a possibilidade que tem um indivíduo de compreender e integrar-se ao espaço urbano, bem como de comunicar-se com outros cidadãos, tendo ou não limitações de mobilidade ou de percepção sensorial. A acessibilidade integral implica em acessibilidade às edificações, ao meio urbano, aos transportes, à comunicação e aos serviços. 31 A separação espacial dos locais de atividade demanda mobilidade para uma cidade funcionar, ou seja, há a necessidade de deslocamentos para o funcionamento da cidade. Tais deslocamentos demandam um sistema de transportes que vise diminuir as distancias e minimizar o tempo de percurso. Para tanto, se faz necessário um contínuo investimento na infra-estrutura de transportes de uma cidade, seja com o predomínio de um modal (rodoviário, por exemplo) ou com uma intermodalidade eficiente que integre, diversos modais diferentes. A acessibilidade é definida como sendo: para lugares, a facilidade de acesso a certos lugares e, para pessoas: como a facilidade com que uma pessoa ou grupo pode alcançar locais de atividade, isso se converte em menor tempo e custo nas viagens que são necessárias para realização de tarefas (Lynch, 1984). É geralmente comprovada a dificuldade de identificar a natureza precisa do vínculo entre a infra-estrutura de transportes e o desenvolvimento regional. Isto envolve dois tipos de efeitos que podem ser determinados em impactos não espaciais e espaciais. Os não espaciais são os efeitos dos investimentos em infra-estrutura no nível agregado da atividade econômica, e os espaciais consideram de que maneira a infra-estrutura pode levar a performances diferenciais em diferentes localidades, entre regiões ou dentro das regiões. As implicações espaciais da infra-estrutura tem sido desenvolvidas mais em relação aos impactos dos projetos. O que a infra-estrutura faz primeiramente é uma mudança na acessibilidade e mudanças na acessibilidade levam a mudanças no valor do potencial econômico d uma região. A acessibilidade é um conceito chave na política de uso do solo e do transporte. Entretanto, este conceito é freqüentemente uma construção mal entendida, medida e definida. Os estudos da acessibilidade prestam freqüentemente pouca atenção ao uso do solo, ao transporte e aos enlaces da acessibilidade. 32 Acessibilidade tem uma dimensão social, econômica e ambiental e pode ser tanto uma pressão nos recursos naturais quanto um fator chave no processo do desenvolvimento. Acessibilidade neste estudo será entendida como uma précondição para a satisfação de quase todas as necessidades e uma certeza para a promoção da possibilidade do fenômeno de expansão da metrópole ou como chamamos inicialmente das transformações intra-urbanas do município de Petrópolis. 1.2. O processo de urbanização e o fenômeno da metropolização, a conformação de uma rede? O processo de urbanização tem sua expressão máxima segundo Bernardes (1976), na formação dos grandes aglomerados urbanos, onde uma cidade central agrega outros núcleos urbanos pelo próprio processo de espraiamento da mancha urbana. O desenvolvimento econômico, desde a revolução industrial, com a difusão do modo de produção capitalista, e, de forma mais intensa, no período do pós-guerra, vem se manifestando, espacialmente, através de uma crescente concentração de homens e atividades produtivas em espaços cada vez mais urbanizados. No Brasil, o modelo urbano-industrial de crescimento econômico, com suas implicações na estruturação urbana, não poderia fugir a esse padrão, que começa a tomar forma, na década de 30, com as grandes migrações internas, principalmente direcionadas para as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, que lideravam o incipiente processo de industrialização via substituição de importações. Tinha, assim, início, um processo que, somente ao final da década de sessenta, levaria a população urbana a ultrapassar a rural, fazendo do Brasil um país eminentemente urbano. 33 Ao longo do século XX surgiram um grande número de cidades, que cresceram e se desenvolveram. Foi nesse período que o país mais se urbanizou, e em decorrência houve um significativo aumento da população urbana. Hoje, o país possui aproximadamente 180 milhões de habitantes, com 81% deles vivendo em cidades. Muitas foram as conseqüências deste rápido e descontrolado processo de urbanização, que se caracterizou nas últimas décadas, pela expansão desordenada. As já densas cidades se expandiram formando regiões metropolitanas, com extensas periferias ocupadas por população pobre expulsa das áreas centrais ou atraídas de outros locais do território brasileiro em busca de trabalho, renda, acesso a bens, serviços e equipamentos urbanos. Os moradores das periferias continuam desprovidos de infra-estrutura básica, cada dia mais distantes dos centros urbanos e ainda têm de enfrentar, em seus obrigatórios deslocamentos para as áreas centrais, o insuficiente e caro sistema de transporte. O fenômeno da urbanização provocou o agravamento do histórico quadro de exclusão social, evidenciando a marginalização e a violência urbana, que ameaçam a vida nos centros urbanos. O que ocorre nas grandes cidades, reflete-se nas médias e menores, onde as diferenças podem ser expressas através da proporção com que os problemas se apresentam, geralmente todos eles demandando complexa solução. Esses problemas não são novos, e continuam se avolumando no nosso cotidiano: periferias longínquas e desprovidas de serviços e equipamentos essenciais; favelas, invasões, vilas e alagados nascem e se expandem; a retenção especulativa de terrenos é constante; o adensamento e a verticalização podem ser verificados com freqüência; a poluição de águas, do solo e do ar assume grandes proporções; dentre outros variados e negativos aspectos. No processo de urbanização, historicamente os benefícios foram e são sempre voltados para alguns setores da cidade, resultando em décadas de descaso, incompreensão e preconceito para com a maioria da população. Ações 34 sucessivas, porém pontuais, não foram suficientes para diminuir ou resolver os problemas mais graves e urgentes da maioria dos habitantes das nossas cidades, pobres, e que se encontram vivendo precariamente. É natural, diante do predomínio rural dos séculos anteriores, desde o descobrimento, que o fenômeno da urbanização tenha sido percebido como altamente perturbador o que de certa maneira até hoje se reflete nas dificuldades de um melhor encaminhamento da questão urbana. Este processo de urbanização que formou os grandes aglomerados urbanos criou a chamada área metropolitana. Dentro desta área metropolitana, dois elementos estão presentes, a metrópole e os atributos metropolitanos, estruturados funcionalmente por uma cidade-metrópole nela contida. Uma ambigüidade deste conceito é que o seu alcance pode ser tão vasto quanto seu espaço de influência. Segundo Bernardes (1976), a literatura restringe o âmbito da área metropolitana a uma cidade ou aglomeração urbana onde numa faixa periférica se faz sentir o papel do núcleo metropolitano, traduzido pela progressiva integração do espaço periférico ao seu núcleo, refletindo em aumento da população urbana e das atividades secundarias e terciárias e dos usos residenciais e, conseqüente retração das atividades agrícolas. Essa integração se faz no plano social e econômico e, principalmente nos movimentos pendulares para as jornadas de trabalho e de outras atividades uma inter-relação entre as partes e o núcleo, possui características bem definidas onde os critérios buscam medir uma incorporação de uma periferia imediata ao núcleo (onde o processo é sentido mais intensamente), mas, cujos limites são difíceis de estabelecer. Então, o que é metropolitano? É o que se refere à metrópole? O processo de estruturação do espaço está presente também na faixa periurbana em torno de centros médios dinâmicos não dotados de funções metropolitanas. Qual o critério que deve prevalecer para definir a que corresponde 35 a área metropolitana? Dimensão e complexidade das funções de uma cidade? Ou ocorrência de processo de expansão periférica, dotado de determinadas características? Constatação de unidades urbanas complexas que tenham promovido a integração de vários centros urbanos? Bernardes (1976) “diz que surgem então dois tipos de áreas metropolitanas: um primeiro estruturado em torno de cidades reconhecidas como metrópoles e um segundo que surge em decorrência da aglutinação de áreas periféricas a um núcleo central que não se qualifica como metrópole”. Nos dois casos tem-se o mesmo processo de integração periférica cujo processo interfere na organização funcional e na estruturação espacial de mais de uma unidade administrativa, a limitação do conceito de área metropolitana cujo processo de metropolização interfere nas outras unidades administrativas que não a cidade núcleo tem origem na própria expressão de área metropolitana, onde todo um complexo integrado que deve ser considerado como unidade. São áreas metropolitanas aquelas unidades complexas que em decorrência da integração de áreas urbanizadas englobam varias circunscrições administrativas. Um estudo e administração desses conjuntos visando o fornecimento de serviços, controle e crescimento comuns aos de interesse metropolitano ao ser delimitada uma área metropolitana deve incluir as unidades administrativas locais que sejam nelas integradas. As áreas metropolitanas no Brasil se apóiam nos conceitos e critérios da Standart Metropolitan Statistical Áreas - SMSA que dizem respeito a: massa da população; estrutura profissional e, grau de integração com a metrópole. 36 Assim, compreenderiam as formações urbanas complexas geradas pelas grandes metrópoles pelas constituídas a partir de núcleos centrais menores ou pela simples conurbação de duas áreas vizinhas. Uma segunda maneira de conceituar seria a de incluir nestas unidades somente aqueles conjuntos urbanos estruturados a partir de uma cidade central que aglomere população muito mais numerosa, para definir o caráter metropolitano do ponto de vista econômico e social pode-se fazer a partir de análises de suas funções, ou se fixar critérios de caráter metropolitano através de um mínimo de população aglomerada (400.000 hab) e de complexidade de equipamentos e funções acima de um determinado tamanho (este é o mais adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE) afinal grande parte do crescimento brasileiro se reflete pela repulsão do meio rural. A existência de tais unidades metropolitanas deve conduzir ao equacionamento de seus problemas a nível metropolitano e para Bernardes (1976) dois tipos de problema surgem desta expansão gerada pela metrópole os característicos dos grandes centros (insuficiência da rede de equipamentos básicos urbanos, etc..) agravado pela incapacidade das grandes cidades de absorverem plenamente a massa dos migrantes, por recobrirem vários municípios, agrava-se no âmbito da atuação da autoridade local (criação de um governo metropolitano?) ou o de reformulação de áreas administrativas com aceitação mútua de uma autoridade multi-municipal. Ou ainda, a criação de uma entidade no governo estadual para executar o papel de coordenadora das políticas setoriais? No inicio da década de 70 do século passado, são instituídas, no Brasil, as regiões metropolitanas, medida político-administrativa adotada através de legislação federal. As regiões metropolitanas tinham como fundamentação teórica, mesmo que implicitamente, os conceitos de “pólos de crescimento” e “região de planejamento”, associados a uma conjuntura política e econômica que preconizava a concentração de investimentos no espaço urbano-industrial, como parte da estratégia de desenvolvimento econômico nacional, tal como sustentado 37 por algumas correntes do planejamento regional, apoiadas, entre outros, nos trabalhos de Perroux (1964), Boudeville (1968) e Hilhorst (1971). No Brasil ainda não foi formulada uma política abrangente que defina as diretrizes do planejamento metropolitano em função de um modelo ideal da organização urbano-espacial do país, por isso existem diferentes perspectivas espaciais para o planejamento metropolitano, uma estritamente local (tratada como fenômeno individual autônomo) cujo instrumento é o controle do uso da terra, outra, num contexto mais macro, de âmbito espacial nacional. Objeto principal de nossa investigação, o município de Petrópolis em 1993 deixou de fazer parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro criada pela Lei Complementar nº20, de 1º de julho de 1974, após a fusão dos antigos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, tornando-se hoje, parte integrante de uma articulada rede urbana existente no Rio de Janeiro, e propiciada principalmente pelas rodovias BR040, BR 116 e BR101. Ao longo desse processo de urbanização acelerada, surgiram extensas áreas metropolitanas, formadas por um núcleo central mais dinâmico economicamente, ao qual se ancora uma rede de cidades, caracteristicamente dependentes desse centro. Essa rede urbana se expressa, pelo intercâmbio de fluxos de bens, serviços, pessoas e informações, entre as cidades que a compõem, e, principalmente, com o núcleo metropolitano. A intensidade e a consistência desses fluxos configuram o aglomerado metropolitano. A reprodução dessa lógica, no espaço e no tempo, determina o processo - ou fenômeno– para além da metrópole, chamado de metropolização, ou peri-metropolização. 1.2.1 - Peri-metropolização ou expansão da metrópole? Embora a reprodução do fenômeno da metropolização se dê com certa freqüência, não existe um modelo geral de estruturação metropolitana, dado que o 38 processo de evolução urbana, com toda a sua complexidade, não se apresenta de forma homogênea nos países centrais e nos países em desenvolvimento, nem se aplica igualmente entre países em estágios de desenvolvimento similares, e, nem mesmo, quando se comparam os aglomerados metropolitanos de um mesmo país. A análise dos novos fenômenos de urbanização nos últimos 20 anos evidencia fatos como o aparecimento de novas atividades econômicas e novas lógicas de localização, multiplicando, agregando e alterando os territórios, enquanto os recursos naturais e ambientais se degradam ou são consumidos por novas funções e atividades. Surgem novas formas espaciais, tanto ao nível intra quanto no inter-metropolitano. Durante as duas últimas décadas, os processos de urbanização sofreram uma alteração fundamental. Os limites das cidades deixaram de ser claros, a cidade cresce e se espalha se confundindo com o território circundante; o campo e os limites urbanos da cidade perdem as suas características específicas e a continuidade dos espaços naturais ou agrícolas é interrompida pela disseminação de urbanizações, pelas infra-estruturas e pelas atividades econômicas. A cidade, se modifica, expandindo seus limites, tornando as relações funcionais locais mais complexas. A peri-metropolização se acentua, miscigenando os espaços antes definidos como campo e cidade, e mesmo o critério demográfico amplamente utilizado para classificar os centros urbanos mundiais, o tamanho das cidades não cabe mais como o único instrumento de medida do processo de definição do que é metropolitano. O fenômeno da peri-metropolização ganhou novas proporções com a elevação do nível de vida e o acesso progressivo das diferentes classes sociais ao automóvel, cuja generalização nos países industrializados contribuiu profundamente para as transformações sofridas pelas grandes cidades (DUPUY, 1995). Naquela época, o objetivo já era procurar melhor qualidade de vida fora das 39 grandes cidades, que apresentariam disfunções que afetariam o quotidiano da população, como o tempo de deslocamento gasto nos engarrafamentos, o crescimento da violência, poluição, preço elevado dos aluguéis etc. Este processo foi impulsionado pelo progresso nos transportes, que alimentava as novas formas de movimentos pendulares, pela evolução das telecomunicações. Nos países em desenvolvimento, o processo de perimetropolização é mais recente do que nos países desenvolvidos. Esta diferença advém do fato da classe média representarem uma parte bem menos expressiva da população urbana, enquanto as camadas mais privilegiadas da população podem-se instalar em bairros localizados fora dos centros tradicionais, mas exclusivos. Um exemplo desse fenômeno pode ser observado em grandes aglomerações latino-americanas como por exemplo a região da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro onde se desenvolvem novas formas de pensar, organizar e viver a cidade em condomínios exclusivos e segregados. Conforme observa Villaça (1998) a estrutura urbana metrópoles brasileiras se explica muito mais pela estrutura e funcionamento tradicional da sociedade brasileira enquanto distribuição de renda e poder do que pelas transformações do capitalismo no país e no mundo. Segundo ele, nas metrópoles brasileiras, são os bairros residenciais das classes de renda alta que efetivamente desenham a cidade. Ele afirma que este processo não é uma particularidade das décadas recentes e de uma eventual atuação do capital imobiliário ou das leis de zoneamento contemporâneo, mas vem se constituindo no Brasil há mais de um século. Já no século XIX podia se observar que as classes com maior poder aquisitivo tendiam a se segregar em uma única região geral da metrópole (a zona sul no Rio e Belo Horizonte, o quadrante sudoeste em São Paulo) e, fazendo com que houvesse tendencialmente um crescimento do núcleo central principal na sua mesma 40 direção. Assim, observa o autor que um modelo celular de rede vêm se constituindo nas princiapais áreas metropolitanas. Existe uma revalorização do novo papel que estas áreas exercem através da recuperação de seu crescimento e expansão, e uma grande transformação, baseada, por um lado, em uma ampla dispersão territorial dos nós das redes enquanto que por outro lado há uma na concentração. “Por outro lado, Rosa Moura (2004) acredita que as cidades integrantes da periferia metropolitana continuam a crescer, em termos demográficos, a taxas bem maiores que seus núcleos, passando de uma configuração de rede de cidades bem delimitadas para eixos de cidades intrametropolitanos, alguns conurbados, geralmente nas proximidades do núcleo”. Geralmente o que ocorre é um crescimento populacional dos municípios periféricos em desacordo com os padrões de crescimento econômico, impedindo a transferência das atividades econômicas do núcleo para a periferia, reproduzindo assim, a mesma lógica do início do processo de metropolização, ou seja, mantendo as cidades periféricas basicamente na condição de local de residência da mão-de-obra. O caso das regiões metropolitanas brasileiras é caracterizado por uma grande heterogeneidade e complexidade espacial cujas redes urbanas se encontram em diferentes estágios de configuração, abarcando desde redes de cidades consolidadas, com alguns eixos intrametropolitanos já conurbados, formadas nos séculos anteriores, muito antes do processo de industrialização (o caso do eixo que liga o Rio de Janeiro à Petrópolis) e os de novas redes formadas no entorno de aglomerados não-metropolitanos. 41 1.2.2 Transporte e processo de peri- metropolização no Rio de Janeiro O sistema de transporte é observado como um dos vetores para a compreensão da expansão da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, principalmente no que tange aos processos de concentração/desconcentração econômica e demográfica do núcleo metropolitano e do crescimento das cidades periféricas. Assim, a partir da análise da relação entre a dinâmica demográfica dos deslocamentos e do sistema de transporte – no caso, o rodoviário - ao longo da rodovia BR040, observamos uma lógica cumulativa de segregação urbana, que parece apontar para a manutenção da “distância social”, não só na confrontação entre núcleo e periferia, como no interior da periferia metropolitana no Rio de Janeiro e em Petrópolis, mas ao mesmo tempo da “diminuição” da distância em termos inter-metropolitanos, o que nos força a considerar que o aumento da qualidade de vida nos aglomerados metropolitanos demanda um esforço de planejamento integrado que vai muito além de apenas prover acessibilidade e mobilidade aos usuários do sistema de transporte, preocupados com a situação urbana e com o direito de todos os cidadãos. Os transportes urbanos brasileiros passaram por grandes transformações na década de 70, entre as quais, a inauguração dos metrôs de São Paulo e do Rio de Janeiro, a fundação da AGÊNCIA Nacional de Transportes Terrestres - ANTP, contribuindo para uma expansão desse movimento de expansão da metrópole. No entanto, se por um lado é reforçada a centralidade metropolitana, a presença das rodovias, favorecendo fluxos de pessoas e cargas e reduzindo a importância das distâncias, induz à expansão e à articulação espacial das aglomerações, contribuindo para afirmar uma morfologia territorial de tipo tentacular na maioria dessas cidades e para fortalecer a tendência , mais uma vez, a já citada metropolização expandida ou dilatada” (MATTOS, 2004, p.170). Dentre todas as regiões metropolitanas brasileiras, a do Rio de Janeiro (Região Metropolitana do rio de Janeiro - RMRJ) - que abrange 17 municípios ao 42 longo de seus 4.686km² - é a que tem a maior concentração econômica e demográfica, apresentando uma população de 10.710.515 habitantes, a maior densidade demográfica - 2.285,5 hab/km² - e, ainda, a maior taxa de urbanização – 99,5%. Essa grande concentração tem sua explicação na importância histórica da RMRJ e, notadamente, do seu núcleo – a cidade do Rio de Janeiro - que foi capital do território brasileiro por 197 anos – de 1763 (capital Colonial) até 1960, quando a capital foi transferida para Brasília. No Rio de Janeiro, e mais precisamente em seu núcleo metropolitano, se destaca ao lado do processo de industrialização, uma precoce, terceirização de sua economia, alicerçada tanto na sua capacidade polarizadora de serviços e infra-estruturas públicas, como na liderança da integração do comércio nacional com o mundial. Como a evolução do setor de serviços está historicamente ligada à intensificação do processo de urbanização, pode-se inferir que essa concentração no terciário teve, ao lado do setor industrial, um destacado papel no incipiente processo de metropolização do Rio de Janeiro. Em termos espaciais esse fenômeno se reflete na rede de cidades da RMRJ que se conecta à capital estadual, que, por sua vez, faz parte de uma rede de cidades globais que se interligam pelos fluxos do comércio exterior. Em correspondência com o pano de fundo da formação econômica brasileira e da RMRJ, vamos encontrar os principais eixos de expansão metropolitanos, grosso modo, sobrepostos ao traçado das vias da região, primeiramente das ferrovias e posteriormente dos grandes eixos rodoviários, que, à exceção de algumas novas ramificações, estabeleceram-se, de maneira geral ao longo dos mesmos trajetos das ferrovias. A construção da malha ferroviária na segunda metade do século XIX, inserida no modelo agro-exportador, se voltou, inicialmente, para o transporte de mercadorias, marcando o início da expansão do que hoje se percebe como a RMRJ. 43 “A tecnologia ferroviária ajustava-se perfeitamente a essa lógica econômica tanto pela sua natureza de modal eficiente para ligação de pontos distantes, como pelo mecanismo de garantia governamental da remuneração do capital investido (inglês), na construção e operação da rede ferroviária, o que parece ter se constituído no interesse predominante da sua constituição ao longo de quase todo o território nacional, com exceção de São Paulo, onde o montante e a rentabilidade da produção do café justificava o alto custo de implantação das ferrovias” (Natal, 2003). . A essa estrutura de transporte correspondia uma população de presença dominante no meio rural, enquanto os centros exportadores sediavam as elites administrativa, financeira e comercial. Nessas condições, toda a estrutura logística nacional, montada, em sua maior parte, por capitais ingleses, orientava-se para a constituição de “corredores de exportação”, ligando as regiões produtoras aos centros exportadores, sem maiores preocupações com a integração do espaço e do mercado nacional, o que acabou por transformar esses centros exportadores em verdadeiros “arquipélagos de cidades”. Posteriormente, com o aproveitamento e expansão da malha ferroviária para o transporte de passageiros (tornando-a a maior malha urbana do país), observa-se um processo de sub-urbanização, expressa pelo crescimento dos pequenos núcleos residenciais que se fixaram no entorno das estações ferroviárias, formando eixos radiais de cidades ao longo da ferrovia, em direção à estação D. Pedro II, na capital. No entanto, no entorno da passagem do século XIX para o século XX, a modificação das relações internacionais agro-exportadoras da economia brasileira em torno dos fluxos complementares de mercadorias e de capitais, ficou bastante evidente após a segunda guerra mundial, trazendo como principal conseqüência uma grande transformação do ambiente internacional que se pode situar o processo de industrialização brasileira, ao qual corresponderia o intenso processo de urbanização do século XX e a opção pela tecnologia rodoviária de transporte. 44 Nesse sentido, o modelo econômico de cunho desenvolvimentista, orientado, dentre outros, já no governo Juscelino Kubistchek, pela participação estratégica da indústria automobilística, acaba por priorizar, principalmente a partir do Plano de Metas (1956/1961), o modelo rodoviário de transporte. Observa-se, desde então, a desativação de grande parte dos ramais ferroviários urbanos, e a construção de uma estrutura rodoviária que, no caso do Rio de Janeiro, acompanhou, na sua maioria, a direção dos eixos ferroviários, se bem que com padrões diferenciados em função da alta capilaridade do sistema de transporte rodoviário. Portanto, desde a fase ferroviária voltada apenas para o transporte de cargas, e, logo após, incluindo o transporte de passageiros, até o modelo rodoviário, o sistema de transportes vem tendo um papel fundamental na configuração da RMRJ. Percebe-se, assim, que as distintas fases da evolução do sistema de transporte são fortemente correlacionadas com o modo de acumulação capitalista vigente em cada fase. No modelo agro-exportador, as ferrovias tiveram um papel essencial ao propiciar a ligação das fazendas produtoras (principalmente de café) do interior ao porto localizado na capital. Com o início do processo de industrialização e, mais destacadamente, a partir da segunda metade do século XX, o modelo urbano-industrial de crescimento econômico, ao demandar uma maior integração e fortalecimento do mercado nacional, associado à função estratégica da indústria automobilística, aponta o modelo rodoviário como o mais capaz de suprir, com menores custos e num menor prazo, os requisitos demandados pela conjuntura político-econômica vigente, de maneira que o Brasil apresenta, na atualidade, a terceira maior malha rodoviária do mundo, atrás apenas dos EUA e Índia. Essas distintas fases e intensidades de acumulação capitalista imprimiram diversas particularidades ao sistema de transporte, nas suas dimensões geográficas e econômicas, o que possibilitou uma superposição de camadas de 45 territórios formados em lógicas de acumulação distintas. No caso do transporte na RMRJ, a expressão maior desse fenômeno pode ser vista na simultaneidade de uma extensa malha ferroviária desativada ou subutilizada, ao lado de rodovias saturadas de automóveis. As rodovias tiveram, portanto, um papel destacado na expansão da RMRJ ao conferir maior acessibilidade aos municípios da periferia metropolitana, potencializando as alterações no padrão de uso e ocupação do solo. Porém a alteração dos padrões de uso e ocupação do solo não implicou, necessariamente, na alteração dos padrões de desenvolvimento nos territórios do entorno das rodovias. Essa concepção determinística da relação entre transporte e desenvolvimento econômico tem sustentação teórica nos modelos clássicos, que dominaram a economia espacial na primeira metade do século XX. Os limites dessas abordagens residem, principalmente, nessa consideração do espaço como um elemento estático. Ao considerar o espaço somente nas dimensões distância tempo e, conseqüentemente, como custo de transporte, se relevam todos os outros atributos socioeconômicos do espaço. A relação transporte – espaço – desenvolvimento é suprimida pela análise direta transporte – desenvolvimento (MEUNIER, 1999). O que se pretende destacar, de forma resumida, é que para cada fase e intensidade no processo de acumulação capitalista, na sua expressão espacial, há um sistema de transporte diferenciado, adaptado aos requisitos de interação do capital com o território, com suas dimensões sociais, econômicas, políticas, culturais. Assim, o sistema de transporte, de maneira geral, é parte integrante da lógica – e dos interesses - da acumulação capitalista, em suas distintas fases, em termos históricos e de intensidade de penetração no território (DURAN, 1984; NATAL, 2003; MARTINS, 1991; OFFNER, 1993; PLASSARD, 1977). Com efeito, observa-se que as principais rodovias que cortam a RMRJ e definem os eixos de expansão metropolitana (BR-101S, BR-101N, BR-116 e BR- 46 040), se apresentam como um dos requisitos locacionais de integração interestadual (RJ-SP-MG-ES) que buscam proporcionar um maior eficiência econômica para atração de atividades para regiões que já possuam alguma vantagem comparativa, no caso a região sudeste do país, que responde por mais da metade do PIB nacional. De forma esquemática podemos ser observar na RMRJ quatro grandes eixos que, ao longo do tempo, se evidenciaram no processo de expansão do tecido metropolitano, apresentando, portanto, uma maior expressão nos deslocamentos pendulares. o ao longo da BR-101S (Rio – Santos). o ao longo da BR -116 (Rio –São Paulo). o pela BR-101N (Rio – Vitória). o ao longo da BR-040 (Rio – Belo Horizonte). Os quatro grandes eixos apresentam, ao longo de quase quatro décadas, uma estrutura de expansão urbana preponderantemente radial, que denota uma tendência de um maior dinamismo econômico no núcleo metropolitano e de uma maior concentração relativa das moradias em sua periferia. Essa configuração da mancha urbana geralmente está associada a um padrão de deslocamentos pendulares do tipo periferia - núcleo, que convergem para o núcleo quando o motivo do deslocamento é o trabalho, e se dispersam pela periferia, quando o motivo é a volta para casa. (RICHARDSON,1975). Esta malha rodoviária formada por estes quatro eixos, portanto, que une as aglomerações urbanas corrobora para a conformação do que podemos chamar de uma rede de cidades, articulando através da acessibilidade promovida pelas vias, algumas das principais metrópoles do país. 47 2. A formação de uma rede urbana Nem sempre o crescimento espacial urbano é contínuo. A partir de um certo tamanho, as cidades tanto crescem contínuas, como descontinuamente, ou ela gera núcleos a sua volta, ou faz crescer núcleos antigos até então estagnados. A questão do crescimento e desenvolvimento urbano está ligado à infraestrutura, à demanda e à oferta para esta última. A hipótese que o crescimento e o desenvolvimento podem estar altamente influenciados pelas vias, rodovias e ferrovias se confirma nas origens da história. Há uma relação entre as vias regionais e o crescimento físico das cidades. Os transportes não provocam crescimento urbano, apenas atuam sobre o arranjo territorial de um tecido urbano em crescimento, de maneira boa ou ruim. O primeiro efeito que uma via regional ou terminal provoca nos terrenos adjacentes é a melhoria da sua acessibilidade, e, por conseguinte, a sua valorização. Por outro lado, ela também pode piorar a acessibilidade e desvalorizar o que há em seu entorno. No entanto, o valor específico do espaço urbano, ou seja, sua localização não se confunde com os valores da estrutura arquitetônica, redes ou estradas que o constituem. Em virtude do aumento de acessibilidade, por exemplo, a um determinado centro urbano, aqueles terrenos adjacentes e seus eventuais ocupantes, terão uma economia no transporte alterando os valores destes terrenos e gerando lucros para os proprietários. Existem também os casos de vias e terminais que não exercem nenhuma atração sobre a urbanização, precisamente porque não oferecem acesso ao transporte intra-urbano, mesmo que se localizem dentro de cidades. Alguns exemplos destes casos são os portos, aeroportos, hidrovias e aerovias. Eles podem até fazer surgir uma cidade em torno de si, mas não pelos transportes que oferecem, e sim pelos empregos que geram, que vêm a gerar 48 uma demanda por transporte. No entanto, o oposto ocorre com a rodovia que ao longo de seu percurso oferece possibilidade de concretização de transporte urbano de passageiros, e nas ferrovias, onde a acessibilidade se concretiza nas estações. Desta relação tão importante entre o sistema de transportes e as características da estrutura urbana é que destacaremos a formação de uma rede articulada e urbana . 2.1. O que é rede? As análises das redes são feitas e difundidas pelas mais diversas disciplinas, mas numa formação de conceitos, é ao mesmo tempo importante unir e separar, para que a síntese venha a se combinar com a análise. Para tanto, através de uma primeira aproximação, esta análise começará pelo que diversos autores definiram como rede, depois será buscado, a partir da visão dos especialistas, delimitar neste estudo o que será utilizado como conceito de rede urbana. Então, afinal, o que é uma rede? Uma rede pode ser considerada como um conjunto de pontos, representado por nós de inter-conexão, com uma estrutura independente da função do equipamento representado por ela, através de interligações de relações que podem ser de vários tipos. Uma rede é simplesmente o meio mais eficaz de compartilhar. A rede é um conjunto dinâmico de elementos que mantém entre si relações isonômicas. É uma estrutura com um padrão organizacional que prima pela flexibilidade e pelo dinamismo de sua estrutura, pela democracia e descentralização na tomada de decisão, pelo alto grau de autonomia de seus membros, pela horizontalidade das relações entre os seus elementos. Ao contrário dos tipos tradicionais de organização social (que geralmente são uma variação da forma da 49 pirâmide), nos quais o poder está sempre concentrado em apenas um ou em alguns poucos pontos, a rede opera por meio de um processo de radical desconcentração de poder. A morfologia da rede (...) é uma fonte de drástica reorganização das relações de poder, afirma Castells (1999). Todos partilham o mesmo grau de poder e é isso o que confere natureza de rede à rede. “Redes são estruturas abertas que tendem a se expandir, gerando novos nós, que compartilham os mesmos códigos de comunicação (valores ou objetivos de desempenho)” (CASTELLS, 1999). Como pode haver rede com concentração de poder? O processo de desenvolvimento precisa ser democrático, e horizontal, não mascarado por uma estrutura hierarquizada, no entanto, como pressupor uma rede urbana sem haver hierarquia dentro de uma estrutura regional? Neste caso então se falando de cidades, diríamos que é apenas uma estrutura tentacular? Para Santos e Silveira (2001) “as redes têm o compromisso de ocupar áreas preocupando-se em ativar pontos e linhas”, determinando assim, como a estrutura dos fluxos funcionam, aqui no caso o que interessa são os fluxos propiciados pelo sistema de transportes. Para Randolph (1999), “rede significa além da sua compreensão, uma forma de integração da diversidade [...] Ou seja, articulações que transcendem as formas tradicionais de sistemas [...] estruturas e mesmo morfologias aparentemente homogêneas”. Como fator primordial do trabalho, os fluxos proporcionados pelas conexões entre os nós das redes (seus diversos pontos – no caso de uma região, as diversas cidades) são formas de circulação - a circulação é este fluxo, um elemento fundamental para a integração e gestão do território. Toda e qualquer circulação pressupõe a noção de rede que é muito mais que a infra-estrutura, é 50 também social e política, em virtude das pessoas, mensagens e valores que a freqüentam. Esse comportamento da rede de centros remete a outras questões. A começar pelos pequenos centros, estariam eles subordinados a uma lógica distinta da que induz à concentração? Ou, organizados sob a mesma ordem, estariam sendo incapazes de cumprir as exigências de uma produção que se opera sob racionalidades externas? O que leva à discussão de que esses não podem ser considerados “urbanos”? Suas características quanto à dimensão e inserção no processo produtivo implicariam de fato a necessária nova conceituação do urbano? O que singulariza o urbano: a densidade, a proximidade, o desenho físico de cidade, a presença de grandes contingentes populacionais? Ou um padrão específico de realização, oferta e consumo de bens e serviços, estes, sim, densos, complexos, diversos, e alcançáveis nos mais recônditos lugares, graças às possibilidades do meio técnico-científico-informacional? No processo de urbanização no Brasil que pode ser entendido como a expressão histórica concreta, da organizada no espaço, da evolução e da mudança social, definida, hoje, pela globalização e seus desdobramentos espaciais, tem como uma das principais características a gestação e expansão do meio técnico-científico-informacional, como aponta Santos (1985). A globalização, juntamente com suas transformações estruturais, impôs novas marcas ao processo brasileiro de urbanização, visto que a cidade e a rede urbana foram reatualizadas por meio de determinações gestadas em diversas escalas e por intermédio da ação de agentes políticos, econômicos e sociais. Principais cidades se formaram ao longo dos estuários de rios e mares , fazendo dos nós das redes os portos e o campo, não as cidades. Com a Revolução industrial, as cidades e a economia mundial assente na exploração de matérias-primas e produção em massa, as cidades passam a constituir os pontos centrais da produção de riqueza e do comércio. 51 Nos anos 80 do século XX os meios financeiros e os serviços especializados emergem como os principais componentes das transações internacionais; cujos locais cruciais para estas transações são os principais mercados financeiros, com os serviços avançados das grandes corporações empresariais, bancos e as sedes das multinacionais Estes centros de comando e controle da economia global se transformaram em localizações-chave e áreas de mercado para as atuais indústrias de ponta e para os principais sítios de produção para essas indústrias, incluindo a inovação e investigação aplicadas, formando o que poderíamos chamar de rede urbana. 2.2 Problematização da rede urbana Podemos observar que as cidades possuem tamanhos diferentes, há cidades pequenas, médias, grandes e metrópoles. Do mesmo modo, não é difícil perceber que a quantidade de cidades pequenas é maior que a de cidades médias, que a quantidade de cidades médias é maior do que a quantidade de cidades grandes, e assim por diante. Outro aspecto que podemos observar é que as cidades cumprem papéis diferentes: umas são eminentemente agrícolas, outras são industriais, outras são centros de comércio e outras, pólos turísticos ou tecnológicos. As cidades também não estão isoladas, mantêm relações entre si, sobretudo econômicas. Uma cidade, principalmente as menores, não consegue em geral prover todos os bens e serviços necessários à vida de sua população. Freqüentemente temos que nos deslocar de nossas cidades para uma maior, a fim de obter serviços ou bens de consumo que não encontramos em nossa cidade (serviços mais sofisticados, bens importados, etc.), e muitos habitantes de cidades menores que a nossa procuram nossa cidade com a mesma finalidade. Esse fluxo de relações econômicas cria laços de interdependência entre as cidades, que podem ser chamados de redes urbanas. 52 Visto que entendemos por rede como sendo “uma forma de integração das diversidades”, podemos perceber que existem diversos tipos de redes urbanas. As principais diferenças decorrem de três fatores: importância relativa de cada uma das aglomerações, avaliada tanto do ponto de vista demográfico como funcional; extensão e intensidade das respectivas áreas de influência; grau de internacionalização. Do ponto de vista dos primeiros critérios, é possível identificar dois tipos opostos de redes urbanas. Num extremo, colocam-se as redes urbanas fortemente centralizadas e rigidamente hierarquizadas, em que a aglomeração principal se destaca não só pela elevada população que possui, mas, sobretudo pelo leque diversificado e qualificado de atividade, recursos e funções de nível nacional que concentra. No entanto, a expressão rede urbana é mais usada para mostrar os fluxos de toda natureza existentes entre os diversos pontos do território, ela pode apresentar características associadas a vários momentos de formação em que se encontra inserida. Já o conceito de “sistema de cidades”, vem também sendo muito utilizado, por propiciar um caráter mais dinâmico às redes urbanas transformadas, devido às mudanças do sistema produtivo em todas as escalas geográficas, que tem uma estrutura hierarquizada dos centros urbanos e varia, sobretudo, em razão do tamanho, da qualidade funcional e da extensão da zona de influência espacial destas aglomerações. O conceito de rede urbana, ou de um conjunto de centros funcionalmente articulados, deriva de um processo onde o significado da urbanização passa a ter interesse especial a partir do século XIX, com a expansão capitalista ao produzir os reflexos das mudanças sociais, e uma difusão do sistema de planejamento em sua dimensão espacial. 53 Corrêa, diz que, para haver uma rede urbana, é necessário haver uma economia de mercado com uma produção que é negociada por outra que não é produzida local ou regionalmente, com a existência de pontos fixos no território onde estes negócios são realizados, e articulados no âmbito da circulação, para que os produtos possam ser importados ou exportados. A rede urbana constitui-se simultaneamente em um reflexo e uma condição para a divisão territorial do trabalho. É um reflexo a medida que, em razão das vantagens locacionais diferenciadas, verificam-se um hierarquia urbana e uma especialização funcional definidora de uma complexa tipologia de centros urbanos. (CORRÊA, 1989, p. 41). Ainda para CORRÊA (2001, p.360), até a década de 1970, a rede urbana caracterizava-se por uma "pequena complexidade funcional de seus centros urbanos", por um "pequeno grau de articulação" entre estes referidos centros e pela "existência de padrões espaciais simples com que a rede urbana estava construída”. Esta articulação resultante da circulação é que reforça e origina a diferenciação entre os diversos núcleos gerando uma hierarquia. Assim, a geografia que no início do século XX ganhou status de disciplina acadêmica, emerge com esta temática classificando as cidades por suas funções para mais tarde considerar também as características sociais, econômicas e políticas, apenas posteriormente é que se considera a rede urbana como um todo, estabelecendo uma relação entre o tamanho e posição por elas ocupadas em um determinado centro urbano e seus aspectos sociais, econômicos e políticos. Com o capitalismo, o processo de diferenciação das cidades se acentua, e o questionamento sobre o número, o tamanho e a distribuição das cidades, e, sobretudo, a compreensão da natureza da rede urbana através da hierarquia de seus centros, se faz presente. 54 Nas análises neoclássicas, época marcada por profundas transformações no sistema produtivo e pela passagem de uma sociedade rural para urbana a relação entre o centro urbano e sua área de influencia (antes cidade e campo) definem a posição hierárquica dos centros urbanos. Na concepção de Thunnen (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001), fundamentador do campo teórico sobre hierarquia urbana ou a chamada “teoria dos lugares centrais” (anéis concêntricos), onde a relação campo-cidade se basearia na lógica da economia marginal, e a distância do mercado seria o principal fator de organização do território, estes se constituiriam em elementos para a segregação sócio-espacial nas cidades. Já para Kayser (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001), as cidades nasceriam e cresceriam isoladas com poucas trocas entre elas, fazendo assim do mercado, uma entidade temporária e móvel, que se constitui como a principal forma de socialização entre os membros da sociedade; Em 1933 surgem as proposições de Christaller (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001), que constituem a mais conhecida base teórica sobre o tema, ou seja, a “Teoria das Localidades Centrais”, ou princípios que regulam o número, tamanho e distribuição dos núcleos, dotados de funções centrais e de uma região de influência, onde bens, serviços e transporte (custos) possibilitariam determinar a natureza da hierarquia urbana, que corresponde também a idéia de Wallerstein (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001) na qual a ordem espacial manifesta as determinações tributárias do Estado e a pequena divisão territorial e social do trabalho. 55 Portanto, a hierarquia das localidades centrais expressa um padrão sistemático e acumulativo de funções centrais, população, região de influência, ao mesmo tempo em que quanto maior for este nível hierárquico, menores serão os números de centros do mesmo nível e maiores serão as distancias entre eles. Nesta teoria, o principio do transporte ofereceria uma rede com tamanha organização espacial, que existiria um mínimo de número de vias de circulação, mas um aumento do número de centros. Uma outra abordagem complementar à “Teoria dos Lugares Centrais” seria a da especialização das cidades por suas funções urbanas numa determinada divisão territorial do trabalho, onde as atividades representariam apenas uma parte dos empregos e das atividades urbanas, não trabalhando possivelmente para o mercado local, mas sim, produzindo bens ou serviços para áreas bem mais abrangentes que a região de influência. Este caráter de especialização funcional de uma região pode ser pouco dinâmico, já que ela pode ser profundamente transformada em alguns anos, como por exemplo, no caso de uma crise econômica, para manter a posição dentro de uma hierarquia, neste sentido é necessário capacidade de inovação. Estes estudos objetivavam proporcionar uma compreensão da localização no espaço e no tempo, da economia e da população considerando a configuração regional e urbana como resultantes do processo de acumulação capitalista, as formas como são determinadas e distribuídas a produção, circulação e consumo, necessários a acumulação de capital numa economia de mercado. No entanto, estas abordagens de natureza positivista e funcionalista tratam a cidade e, por conseguinte a rede urbana, como um objeto destituído de vida social, cuja gênese evolutiva do processo histórico, muitas vezes é colocado em segundo plano, mas como introduz Hirchman (1958), este é um outro elementochave que confere o caráter mutável da rede urbana. A dinâmica do processo de acumulação e produção do espaço em sociedades capitalistas e a forma como se 56 articulam os diferentes fatores de produção para a geração de valor pode auxiliar na explicação para os diferentes estágios de desenvolvimento entre as cidades e regiões, bem como as relações que elas estabelecem. Como argumenta Harvey (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001), as condições para o surgimento das cidades, ou da rede urbana, é a forma espacial através da qual, no capitalismo se dá a criação, apropriação e circulação do valor excedente, constituindo assim, as condições para o desenvolvimento urbano. Esta corrente defendida por Hirschman (1958) e Harvey (apud Série Caracterização e tendências da Rede Urbana do Brasil: Configuração atual e tendências da Rede Urbana. Vol 1, 2001) ampliou o entendimento do processo de formação dos centros urbanos e dos conjuntos que os constituem, ao articularem as relações de produção, troca e de comunicação. Este entendimento do espaço como lugar da ação ou produto material de uma formação social é que propiciou a compreensão da rede urbana como uma forma espacial privilegiada. A hierarquia urbana hoje, cada vez mais se apresenta num contexto internacional que transforma a natureza das relações entre as cidades e suas regiões de influência, possibilitada pelas facilidades propiciadas pelas novas formas de comunicação e das condições cada vez melhores para a mobilidade das pessoas e bens. A intensificação das relações se dá mais de forma horizontal do que vertical, ou seja, as relações centro-periferia, alimentadas pela intervenção do Estado persistem em todos os níveis urbanos, mas as relações nas regiões integradas aos fluxos financeiros e de produção globalizados não param de crescer. 57 Este processo de mundialização não implica, porém que deixe de existir uma estrutura hierarquizada de relações e articulações entre os diversos centros dentro do território nacional, não significando que a redução de barreiras espaciais implicará num decréscimo da significação do espaço, muito pelo contrário, esta diminuição de barreiras favorece imensamente os investimentos de grandes corporações ao explorar minúsculas diferenciações espaciais. Estas ações são de extrema importância para entender a territorialidade da economia e da rede urbana brasileira, já que, por exemplo, investimentos em infraestrutura, tentam compensar a crescente desconexão entre os pólos metropolitanos. O simplismo de uma definição da importância de uma cidade na hierarquia urbana apenas pelo seu tamanho demográfico. Aqui será utilizada da tecnologia como a grande receita do sucesso que está por trás do crescimento econômico e desenvolvimento de Petrópolis enquanto pólo regional para toda a região serrana. Revisada a tradição teórica nos estudos sobre a rede urbana, o estudo a seguir é baseado na identificação da dinâmica da economia brasileira em processo de integração com uma economia mundial transformada e no próprio processo de urbanização do país. O estudo teve como referência territorial, a divisão em grandes regiões do Brasil (definida pelo IBGE). A delimitação geográfica torna-se então problemática devido à correlação e interdependência econômica e urbana de espaços localizados em regiões geográficas distintas. 58 2.3. A formação de uma rede urbana brasileira A formação de uma rede urbana no Rio de Janeiro remete a formação das primeiras vilas e cidades do período colonial. A hipótese de que a criação e recriação de cidades na principal região do Rio de Janeiro e a integração destas a uma rede de circulação, estava relacionado ao processo de penetração de mecanismos de controle do uso da terra nos diferentes espaços da Província fluminense. Consideramos, portanto, que os projetos e planos viários e de administração pública elaborados neste contexto constituiram-se em estratégias de articulação política e econômica visando o fortalecimento do Estado Imperial. A forma e as funções adquiridas por estes núcleos expressariam, a nosso ver, o jogo de interesses das elites locais e o governo central. A descoberta dos minerais preciosos durante o século XVIII foi o principal agente urbanizador e responsável pela ocupação desta área, que tinha como interesse maior, segundo Reis Filho (1968), um projeto de criação de uma nação, cujo principal sentido era o de servir à Metrópole. Considerando estes aspectos e ressaltando o papel político e econômico da cidade do Rio de Janeiro, que no século XIX incorpora o sertão, as propostas dos políticos fluminenses promoveram o fortalecimento de um espaço econômico na Província do Rio de Janeiro, se desprendendo da orla do país, cujos aglomerados obedeciam a um propósito deliberado pela metrópole, de controle do território, afinal, estas cidades não sobreviveriam isoladas, este padrão de regularidade ditado pelo regime das capitanias hereditárias visava atender objetivos civis e militares. Outro fator importante foi o parcelamento das terras que propiciou o desenvolvimento das atividades e a proliferação de novos aglomerados de concentração urbana, digo urbana nos tempos coloniais porque seguindo a definição de mercado de Weber, espaço este marcado por forte diferenciação interna. 59 Reis Filho em “Evolução urbana do Brasil” (1968), introduz o conceito de rede urbana “ a rede como conjunto ordenado dos elementos espaciais” mostrando nesta linha, a conformação de uma rede urbana com a criação de vilas e cidades para um fim maior de ocupação territorial organizada e articulada que materializou a complexa vida social e política deste século e, neste quadro, todo o entrave representado pela dificuldade de transformar a estrutura fundiária prevalecente seja nas vilas e cidades, seja no campo. Os fluxos de qualquer natureza entre estas aglomerações eram o elo que permitiam através dos caminhos, a circulação da informação e da produção econômica. No Brasil, a emergência das cidades médias coincide com a fase de expansão do meio técnicocientífico- informacional, que impôs um novo patamar ao movimento de urbanização, sendo, portanto, salutar considerar tais características quando da análise dessas cidades. O modelo de urbanização brasileiro produziu nas últimas décadas do século XX, cidades caracterizadas pela fragmentação do espaço e pela exclusão social e territorial. O desordenamento do crescimento periférico associado à profunda desigualdade entre áreas pobres, desprovidas de toda a urbanidade, e áreas ricas, nas quais os equipamentos urbanos e infraestruturas se concentram, aprofunda essas características, reforçando a injustiça social de nossas cidades e inviabilizando a cidade para todos. Grande parcela das cidades brasileiras abriga algum tipo de assentamento precário, normalmente distante, sem acesso, desprovido de infra-estruturas e equipamentos mínimos. Na totalidade das grandes cidades essa é a realidade de milhares de brasileiros, entre eles os excluídos dos sistemas financeiros formais da habitação e do acesso à terra regularizada e urbanizada, brasileiros que acabam ocupando as chamadas áreas de risco, como encostas e locais inundáveis. Por outro lado, em muitas cidades, principalmente em suas áreas centrais, uma massa enorme de imóveis se encontra ociosa ou subtilizada, reforçando a exclusão e a criação de guetos – tanto de pobres que não dispõem de meios para se deslocar, quanto de ricos que temem os espaços públicos –, 60 realidade que contribui para a violência, para a impossibilidade de surgimento da cidadania. A rede urbana do país é resultado dos processos econômicos gerais e regionais que estão na base da sua estruturação, bem como dos processos que são característicos da tipologia urbana, tais como o tamanho, a função, e a forma urbana.Três referenciais básicos configuram a rede urbana do país: i) a hierarquia dos centros urbanos; ii) os sistemas urbano-regionais e iii) as aglomerações urbanas. Nos anos 70, quando houve a institucionalização das nove regiões metropolitanas no país e a implementação de vários programas de apoio ao desenvolvimento das cidades médias no Brasil, diversos estudos foram realizados com a finalidade de caracterizar estes grupos de centros urbanos dos pontos de vista econômico e social. Estes estudos forneceram importantes subsídios para a definição das intervenções públicas consideradas essenciais para diminuir as carências de infraestrutura, as quais limitavam não apenas o acesso das populações aos serviços sociais básicos, como também restringiam a capacidade dos centros urbanos em atraírem investimentos para o seu território. É a partir desta década, que a rede urbana brasileira sofre profundas transformações, que, conforme Corrêa (2001), são determinadas por mudanças ocorridas na organização sócio-espacial. Dentre as muitas mudanças, destacam-se: a desconcentração, a ampliação e diversificação das atividades industriais, com o surgimento de centros industriais diversificados e especializados; a modernização e subseqüente industrialização e capitalização do campo, com ênfase na constituição de complexos agroindustriais; as inovações organizacionais junto aos setores industriais, comerciais e de serviços, com destaque para a terceirização e para a constituição de grandes corporações empresariais; a ampliação de uma base técnica associada, primordialmente, aos transportes e às comunicações, que possibilitou a diversificação das interações espaciais, e também associada à produção e 61 distribuição de energia; a incorporação de novas áreas ao processo produtivo global e a uma nova funcionalização de outras áreas, com destaque para as especializações regionais das atividades; os novos padrões de mobilidade espacial da população; o aumento quantitativo e qualitativo da urbanização; e uma estratificação social mas ampla e complexa, gerando maior fragmentação social, ampliação das classes médias e aumento do consumo. Trata-se, portanto, de uma nova geografia, como apontou Santos (1994), com mudanças no contexto, no conteúdo e nas formas de uso do espaço, cujos resultados combinados configuram um novo Brasil urbano, no qual se destaca um complexo e variado processo de reestruturação da rede urbana, a partir da redefinição dos conteúdos e dos papéis das cidades, sejam elas metrópoles, grandes cidades, cidades médias ou cidades pequenas. A rede urbana brasileira, até a década de 1970, caracterizava-se, de acordo com Corrêa (2001, p.360), por uma [...] relativamente pequena complexidade funcional dos seus centros urbanos, por um [...] pequeno grau de articulação entre estes referidos centros, com interações espaciais predominantemente regionais, e pela [...] existência de padrões espaciais simples com que a rede urbana estava construída. Corrêa (2001a, p.428) ressalta que, a partir desse período, as modificações que sobretudo vão caracterizar a rede urbana brasileira são [...] a continuidade da criação de novos núcleos urbanos, a crescente complexidade funcional dos centros urbanos, a mais intensa articulação entre centros e regiões, a complexidade dos padrões espaciais da rede e as novas formas de urbanização. Tais mudanças constituem expressão continuada e atualizada de uma estrutura social crescentemente diferenciada e complexa, visto que as relações sociais, seja por meio de fatores internos ou externos, estruturam o processo de urbanização, que, no caso brasileiro, traduz-se em uma maior complexidade da rede urbana, uma vez que se constitui em um reflexo, um meio e uma condição social, como orienta Corrêa (2004). A rede urbana reflete e reforça as características dos contextos políticos, econômicos e sócio-culturais do território, 62 sendo, portanto, uma dimensão sócio-espacial, ou seja, um elemento integrante da própria realidade em sua complexidade. Nesse contexto de reestruturação da rede urbana, cabe reconhecer, portanto, os novos papéis e valores desempenhados pelas cidades e suas respectivas regiões, assim como importa identificar as novas funções urbanas e as novas interações espaciais que delas derivam, particularmente, as relações cidade-região e as relações interurbanas. Essas mudanças determinam os novos modos de inserção das cidades na rede urbana, e alteram os seus aspectos estruturais, os dimensionais, os funcionais e os espaciais. Nesse novo contexto, interessa questionar que novas formas a rede urbana brasileira assume, em sua totalidade ou em seus segmentos particulares, e, igualmente importante, cabe indagar o que há de novo nas redes urbanas reatualizadas, salientando, inclusive, o caráter mutável dessa rede. A configuração da rede urbana do país compreende 111 centros urbanos que são comandados pelas 13 metrópoles: São Paulo, Rio de Janeiro (metrópoles globais), Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Curitiba, Recife, Porto Alegre (metrópoles nacionais), Manaus, Belém, Goiânia e Campinas (metrópoles regionais). Esses centros urbanos reúnem 440 municípios e concentram mais da metade da população brasileira, cerca de 56%. A rede urbana do Brasil é formada também por 16 centros regionais, que reúnem a maioria das capitais. Em conjunto, as aglomerações urbanas metropolitanas e não metropolitanas concentram, cerca de 47% do total da população do país, atingindo 73,3 milhões de habitantes em 1996. As 12 aglomerações urbanas metropolitanas são constituídas por 200 municípios e atingiram cerca de 33,6% do total da população brasileira, cerca de 52,7 milhões de habitantes. As 37 aglomerações urbanas não metropolitanas reúnem cerca de 180 municípios envolvendo um total de 20 milhões de habitantes, a estas, somam-se outros importantes centros urbanos de grande porte. 63 A rede urbana brasileira tem se tornado mais complexa e é reflexo de distintas articulações sócio-espaciais que se formaram entre as cidades. Essa complexidade, que expressa a desconcentração das atividades produtivas e o surgimento de novos espaços economicamente dinâmicos, configura-se em função das peculiaridades da estrutura produtiva e de especificidades físicoespaciais que modelam distintamente o território. Como diz Motta (2004): “As aglomerações urbanas metropolitanas do Sudeste/Sul do país, onde a produção industrial tem um peso significativo na estrutura produtiva, têm mudado suas feições, com redução da participação da indústria, e com a ampliação das funções de alta gestão na participação do setor de serviços” As cidades de porte médio como Petrópolis, têm sido consideradas como alternativa à inchação dos grandes centros urbanos, capazes de atrair investimentos produtivos que se beneficiem das suas economias de aglomeração, se eliminados alguns obstáculos que limitam a sua infra-estrutura, funcionando como diques aos fluxos migratórios. Além disso, em função da sua capacidade de dominar o espaço econômico em seu entorno, as cidades médias podem ser instrumentos da difusão do crescimento econômico regional para áreas selecionadas, reforçando as inter-relações entre os componentes do sistema de cidades e abrindo alternativas de localização de atividades produtivas. Neste sentido, em “O Brasil é menos urbano do que se calcula”, Veiga (2003), quando diz que: “ A vigente definição de “cidade” é obra do Estado Novo. Foi o Decreto-Lei 311, de 1938, que transformou em cidades todas as sedes municipais existentes, independentemente de suas características estruturais e funcionais. Da noite para o dia, ínfimos povoados, ou simples vilarejos, viraram cidades por norma que continua em vigor, apesar de todas as posteriores evoluções institucionais.” 64 Os centros com população urbana superior a 50 mil habitantes são fundamentais na organização da rede urbana regional. Os municípios urbanos de média e grande dimensão, com população superior a 50 mil habitantes e grau de urbanização superior a 75%, com atividades centradas principalmente na indústria, comércio e serviços, são os pólos da rede urbana e os principais integrantes das aglomerações. Ao longo desse eixo, situam-se os municípios com as maiores taxas de crescimento populacional, nas últimas décadas, constituindo extensa área de forte concentração econômica e demográfica., cuja definição do IBGE em 1991 define três categorias de áreas urbanas (urbanizadas, nãourbanizadas, e urbanas-isoladas) e quatro tipos de aglomerados rurais (extensão urbana, povoado, núcleo e outros), fortalecendo a idéia de que segundo Veiga (2003)“toda sede de município é necessariamente espaço urbano, seja qual for sua função, dimensão, ou situação”. Os investimentos em infra-estrutura e serviços que reorganizam esses espaços para adequá-los às exigências urbanas de grandes projetos e então qualificá-los para concorrer na atração de atividades econômicas decorrentes dos novos circuitos de produção beneficiam apenas poucos centros, que oferecem melhores vantagens comparativas, aprofundando o desnível na capacidade financeira dos municípios. Muitos dos municípios periféricos, preteridos pela escolha da alocação, tem dificuldades em atender às demandas sociais deterioradas pelo afluxo populacional. Assim, a elevação dos investimentos modernizadores das áreas nobres configura áreas diferenciadas e cria externalidades incorporadas ao valor dos imóveis, definindo a seletividade do mercado fundiário no acesso e localização espacial da ocupação. Ao mesmo tempo, a retração na oferta de moradia nas áreas centrais e dos lotes populares nas áreas periféricas provocam a favelização e intensificam os processos de ocupação irregulares nas áreas públicas e privadas. Decorrente do mesmo processo de mudança do perfil econômico e da valorização do solo dos centros, permanecerão intensos os deslocamentos dos segmentos de renda 65 média, e mesmo alta, para a periferia. A “modernização” das periferias, seja pela presença de atividades comerciais de grande porte, como shoppings e supermercados, seja por ocupações residenciais em condomínios de luxo, funcionando como fortificações, passando a concorrer em termos de localização com ocupações precárias, impulsionando um efeito de valorização do solo. Conseqüentemente, as periferias se expandem para regiões ainda mais longínquas das áreas de trabalho ou se adensam em áreas ambientalmente impróprias, desvalorizadas. A carência de infra-estrutura, as limitações na oferta de serviços sociais essenciais, o custo do transporte e a precariedade em termos de acesso para o trabalho aumentam as dificuldades que a população periférica enfrenta. A formação desse modelo de periferias urbanas conforma e acentua a exclusão social. Dito isso, não é difícil concluir que existe alguma lógica na organização e distribuição geográfica das cidades, ou seja, que as cidades não se distribuem aleatoriamente no espaço, tampouco, são centros isolados. As cidades comunicam-se e interagem umas com as outras estruturando e organizando o espaço geográfico, formando aquilo que chamamos de rede urbana. Nessa rede, as cidades cumprem o papel principal de serem centros distribuidores de bens e serviços e é essa função que define a sua posição na rede urbana. Neste sentido, podemos definir a rede urbana como um conjunto de centros urbanos interligados por fluxos de bens, serviços, informações e pessoas, formando um sistema hierarquizado. Essa hierarquia se dá em função da dependência dos centros secundários em relação aos centros principais na provisão dos bens e serviços necessários à sua população. As cidades que possuem bens e serviços de maior raridade e de maior valor ocuparão uma posição proporcionalmente mais elevada na hierarquia da rede urbana e essa hierarquia, dentro de uma mesma rede urbana, está freqüentemente associada ao tamanho (população) de uma cidade. 66 Petrópolis com a sua Estrada Real entra nesse contexto, pois ela atravessa 170 municípios sendo 156 em Minas, sete no Estado do Rio e sete em São Paulo, atingindo 9,5 milhões de habitantes, sem contabilizar as capitais. As relações deste município com a metrópole do Rio de Janeiro, caracterizam uma relação antiga e articulada como exposto acima da formação de uma rede. Na página seguinte encontra-se o mapa da Estrada Real, mostrando a localização do atual do município de Petrópolis no estado do Rio de Janeiro. O poder polarizador da metrópole do Rio de Janeiro é dado pela soma de todos os fluxos diretos e indiretos de movimento pendular subordinados à cidade num total de 876.9627 pessoas em todo o Estado do Rio de Janeiro.(CASTELO BRANCO, 2006) Em seu trabalho Castelo Branco(2006), destaca que existem no Rio de Janeiro centros de polarização de poder, sendo o segundo e mais relevante o de e pólos intra-metropolitanos, segundo os níveis de fluxos: onde se destaca o município de Duque de Caxias centro, apresenta uma rede de centros, a ele vinculados, no entorno metropolitano. A rede de Duque de Caxias é composta por São João do Meriti, Magé, Nova Iguaçu e Petrópolis mas o que chama a tenção no estudo da autora é o fato de Petrópolis estar vinculado à Duque de Caxias por fluxos de movimento pendular, onde Petrópolis se acha diretamente vinculado à metrópole carioca para onde se dirige a maior parte dos seus fluxos. 67 Figura 1 – Mapa da Estrada Real Fonte: www.estradareal.org.br/mapa_press.pdf 68 3. Contextualização histórica de Petrópolis A história da fundação da cidade de Petrópolis começou há mais de 150 anos e se confunde com a história da descoberta do ouro em Minas Gerais, Caminho? Passagem? Rede? Qual a importância em especial, desta cidade durante mais de um século? O capítulo a seguir trata de uma breve investigação acerca da importância remota desta cidade para a o tema central deste trabalho: a formação de uma rede viária e sua relevância para as transformações ocorridas no espaço intra-urbano. O mapa abaixo mostra os círculos de distâncias entre Petrópolis e os diversos municípios do Rio de Janeiro. Figura 2 – Petrópolis e Arredores 69 3.1. Constituição da rede viária fluminense Tendo sido fundada em 1º de março de 1565 com o intuito primordial de garantir a posse do território constantemente invadido por estrangeiros, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro já nasceu sob o signo da luta pelo domínio do seu território, e da tentativa de afirmação do poder de Portugal sobre esta parte do Brasil. Ainda no século XVI, o núcleo original da cidade fundada pelos portugueses consistia apenas em uma pequena área próxima ao Morro Cara de Cão na entrada da Baía de Guanabara. A idéia básica que norteou a sua fundação foi a de impedir o acesso dos invasores estrangeiros, principalmente os franceses, que ocupavam a região. Com a expulsão definitiva dos invasores franceses em 1567, houve a necessidade de se ampliar as estruturas urbanas da cidade e, portanto foi efetuada a transferência daquele núcleo pioneiro para o Morro do Castelo, no interior da Baía de Guanabara, onde a cidade estaria melhor guardada das investidas dos invasores. À maneira das cidades portuguesas, o Rio de Janeiro se formou com ladeiras estreitas e sinuosas, com uma preocupação defensiva bastante acentuada e dominada pela visão geral do Morro do Castelo. Ao final do século XVI, com a diminuição dos ciclos das invasões estrangeiras, quando o Rio de Janeiro começa a experimentar um gradativo crescimento populacional, ocorre a descida para a várzea e também o início da tentativa de aproximar fisicamente a cidade da sua extensa costa litorânea A partir da segunda metade do século XVIII, a cidade começa a experimentar um crescimento populacional bem mais intenso em relação aos períodos anteriores. Além disso, com a descoberta de ouro e pedras preciosas no interior de Minas Gerais, dando início a um novo ciclo econômico da época colonial que propiciou a transferência da capital do Vice-Reinado para o Rio de Janeiro em 1763. O objetivo era o de possibilitar um maior controle do 70 escoamento da produção do ouro, e dar uma maior proteção à cidade em caso de possíveis ataques. No final do século XVIII, as cidades brasileiras evoluíram rapidamente. O Rio de Janeiro, sede da Colônia possuía 50 mil habitantes e era por onde se exportava a produção das minas de ouro. Salvador, antiga capital contava com 45 mil habitantes. Outras cidades bem populosas na época eram Recife, com 30 mil habitantes, São Luís com 22 mil e São Paulo, com 15 mil habitantes. Na Região das Minas, surgiram mais cidades graças à mineração, como Mariana, Vila Rica, Sabará e São João del Rei. As cidades criadas com as riquezas trazidas pelo ouro foram sendo abandonadas quando as minas se esgotaram. Não houve na época, outra atividade econômica que desse continuidade ao progresso e à modernização dessa região. O século XVIII, com um início conturbado, caracteriza-se como um período de lutas e invasões, das quais as mais importantes são as invasões francesas de 1710. No entanto, o desenvolvimento, crescimento e enriquecimento da cidade atraem a atenção de Portugal. Do ponto de vista urbano, o progresso da cidade se dá de forma bastante lenta, porém surgem importantes realizações no campo da infraestrutura. O governador da cidade, Ayres Saldanha (que governou de 1719 a 1725), melhora os meios da intercomunicação, promove o calçamento de várias ruas centrais, melhora as fortificações e conclui os trabalhos de canalização do Rio Carioca.). No Largo do Carmo (Praça Quinze), o Palácio dos Vice-Reis abriga D. João, transformando-se no Paço Real. No início do século XIX o Rio de Janeiro era a mais importante cidade surgida no território da América do Sul colonizado pelos portugueses. Entretanto, foi somente a partir do início do século XIX, que a cidade do Rio de Janeiro começou a se expandir de forma mais rápida e constante, conseguindo 71 ultrapassar pela primeira vez e de maneira irreversível os limites de seu tecido urbano colonial pioneiro. Com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, a cidade do Rio de Janeiro passou a ser a sede do governo português no Novo Mundo Então são tomadas as seguintes medidas: abertura dos portos, integrando o Brasil ao mercado mundial, e elevação da cidade à condição de Capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve (1815). Entre 1808 e 1821, período em que D. João permaneceu na administração do país, a cidade do Rio prosperou e se expandiu. Em 1822, o Brasil torna-se independente de Portugal. O Rio de Janeiro passa então de sede do Reino Unido à capital do Império, tendo D. Pedro I como primeiro imperador. No século XIX acelerou-se o processo de desenvolvimento do Rio. Investiu-se no transporte, substituíram-se as carruagens e as carroças pelos transportes coletivos, implantou-se o sistema de bondes puxados por burros, que se tornou sinônimo de progresso. Por onde o bonde passava o local prosperava. Em 1855 foi lançada a primeira pedra da Estação Inicial da Estrada de Ferro D. Pedro II, hoje Central do Brasil. De meados do século XIX ao fim da Monarquia, em 1889, implantam-se melhoramentos tais como: a iluminação a gás; o encanamento do Rio Maracanã; a instalação do Tribunal do Comércio, no Paço da Cidade, hoje Paço Imperial; tem início o serviço de telégrafo; cria-se o Corpo de Bombeiros; durante 10 anos é feito o replantio da Floresta da Tijuca; aprovam-se os serviços de esgoto; cria-se a Companhia Docas; a construção civil tem um rápido avanço e erguem-se prédios, igrejas, conventos, casas comerciais; são inaugurados o telefone e a iluminação elétrica. Do ponto de vista urbano, as últimas décadas do século XIX são as mais marcantes para a história da Cidade do Rio de Janeiro, com mudanças políticas, sociais e econômicas que podem ser consideradas como o início de um processo de modernização, que vem a ocorrer no século seguinte. 72 3.2. Petrópolis e seus caminhos Desde o descobrimento do Brasil em 1500 e até 1700, a Serra Estrela, era desconhecida dos portugueses por causa do enorme paredão montanhoso de 1000m de altura que tinha que ser vencido e também pela presença de índios que habitavam serra acima. Somente quando os bandeirantes paulistas descobriram ouro nas Minas Gerais é que foi aberto o Caminho Novo, em 1704 para facilitar a viagem até as vilas mineradoras. O caminho era “novo” porque havia um outro, o “velho”, desde 1630, constituído de trilhas e picadas, muito longo e de difícil trânsito, aberto pelos bandeirantes, saindo de São Paulo e levava 60 a 70 dias de viagem até lá, o triplo do tempo necessário, passando pelo Caminho Novo e seguindo pelo vale do Rio Paraíba. O Caminho Novo foi aberto por Garcia Rodrigues Paes, bandeirante que conhecia muito bem a região e subia a serra por onde hoje é a vila de Xerém, na Baixada Fluminense, seguindo por ali em direção a Paraíba do Sul e depois Juiz de Fora e chegando à região de Ouro Preto, antiga Vila Rica. Mas havia tanto ouro sendo explorado em Minas Gerais que o Governador Geral Artur de Sá e Meneses, fez a viagem em 1699, para avaliar as possibilidades da exploração do ouro. Foi por causa dessa viagem que ficou decidida a abertura de um caminho oficial por onde pudesse ser transportado sob controle, o ouro extraído nas minas e fosse feito todo o suprimento das dezenas de arraiais e vilas que iam surgindo em torno da mineração. Então, em l724, foi aberta por Bernardo Proença, um rico fazendeiro de Suruí, na Baixada Fluminense, a Variante do Caminho Novo para subir a Serra da Estrela evitando a perigosa e acidentada passagem por Xerém. Proença escolheu a atual Serra Velha pelo bairro do Alto da Serra, de trânsito muito mais fácil e seguro. Se Bernardo Proença não tivesse aberto a Variante do Caminho Novo, todo o desenvolvimento da região teria acontecido no eixo Xerém - Paty do Alferes Miguel Pereira -Paraíba do Sul, que era o traçado original daquela via. O Porto da 73 Estrela onde hoje é a Praia de Mauá, era o início da variante do Caminho Novo uma pequena, mas movimentada e importante vila no fundo da Baía da Guanabara, que subia a Serra do Mar atravessando a Serra Velha, a partir da Raiz da Serra. Chegando ao Alto da Serra, a variante de Proença ia para a atual Rodoviária de Petrópolis. Dali os tropeiros seguiam então para as Minas Gerais pelas ruas Silva Jardim, Quissamã, Correias e Secretário, até encontrar o Caminho Novo em Paraíba do Sul. Até hoje existe uma Estrada Mineira, em Correias e um bairro Caminho Novo com a rua Caminho Novo, em Barbacena. Segundo o Registro de Paraíba do Sul, existia um tipo do nosso pedágio de hoje, em 1824, a cada dia, indo e vindo do interior, passavam em média pelo Caminho Novo 143 mulas dos tropeiros e 302 pessoas. Bernardo Proença recebeu pelo seu trabalho uma sesmaria no Alto da Serra, onde hoje está quase toda a cidade de Petrópolis. Outras sesmarias foram distribuídas ao longo do Caminho Novo e logo a região se desenvolveu muito. O Caminho Novo faz parte de uma rede de importantes caminhos do Brasil Colonial é dado o nome de Estrada Real. Muitos desses caminhos eram antigas trilhas e veredas abertas pelos bandeirantes que se embrenhavam pelo sertão, na direção de Minas Gerais e Goiás, a procura de ouro e pedras preciosas. O mais antigo deles, conhecido como Caminho Velho, ia de São Paulo de Piratininga até Taubaté, subia a Serra da Mantiqueira, passava por São João del Rey e ia para Vila Rica, Caetés, Sabará. Dali havia extensões para Tijuco (Diamantina), Jaguará, até a região onde hoje é Pirenópolis, Goiás. Mas quem vinha do Rio tinha que ir de barco até Paraty, subir e descer a Serra do Mar até Taubaté para encontrar o Caminho Velho e seguir adiante. Nas condições da época, a abertura dos caminhos da Estrada Real foi uma providência proveitosa para a colônia e para a metrópole. Na época, ao longo desse caminho não havia nenhuma atividade econômica, mas o governo português foi distribuindo sesmarias para pessoas que se destacavam na vida política e na segurança da Colônia de tal modo que, 74 quando Petrópolis foi fundado 130 anos depois, já havia um grande número de fazendas entre a baia da Guanabara e Vila Rica e o trânsito pelo Caminho Novo era muito grande. Na região onde seria fundada Petrópolis as fazendas eram: Fazenda do Rio da Cidade, na Estrada do Contorno, Fazenda do Pe. Correia, em Correias, Fazenda do Córrego Seco, cuja sede era onde hoje está o Ed. Pio XII (Rua Marechal Deodoro), Fazendas Quitandinha, Samambaia, Retiro, Itamaraty, Secretário, que depois deram seus nomes aos bairros que conhecemos, Fazenda Engenhoca, onde hoje está a estação de Corrêas, Fazenda Mangalarga e Fazenda das Arcas, em Itaipava, Fazenda Sumidouro, em Pedro do Rio, e Fazenda Santo Antônio, na estrada para Teresópolis. Entre essas fazendas havia diversos caminhos menores sendo o mais importante o Caminho Novo. Marcando o início do crescimento da Província do Rio de Janeiro e, em especial, o desenvolvimento de Petrópolis. As fazendas do Pe. Correia e do Córrego Seco são as mais significativas para a História de Petrópolis. A do Córrego Seco, no alto da Serra da Estrela era muito simples e muito pobre. A do Pe. Correia era a mais importante da região. O mapa a seguir apresenta os principais caminhos citados e as fazendas da região. 75 Figura 3- Principais caminhos de Petrópolis 76 A fundação da cidade de Petrópolis está intimamente ligada ao Imperador D. Pedro I que, de passagem por essa região, seguindo o “Caminho do Ouro” que o levaria às Minas Gerais, pernoitou na fazenda do Padre Correia e se encantou com a exuberância e amenidade do clima. Seu desejo era adquirir a propriedade para seu uso e, em especial, para o tratamento de sua filha, Princesa Dona Paula de cinco anos, sempre muito doente e, construir um palácio fora do Rio de Janeiro para receber visitas da Europa não habituadas ao calor tropical. Construir um palácio no Córrego Seco seria muito adequado devido ao excelente clima da região que deveria agradar aos visitantes estrangeiros. Com a abdicação e morte de seu pai, D. Pedro II herda essas terras que passaram por vários arrendamentos até que Paulo Barbosa da Silva, Mordomo da Casa Imperial, teve a iniciativa de retornar aos planos de Pedro I, o que demandava uma vultuosa empreitada que iria consumir consideráveis investimentos públicos, e privados nos anos seguintes. Mas a economia, passava por um período de prosperidade principalmente com o ‘boom”do café. Para tanto, foi escolhido para construir a Estrada Normal da Serra da Estrela para tornar possível o acesso de carruagens à Fazenda do Córrego Seco, uma vez que o Caminho Novo era apenas para tropas de mulas, o engenheiro alemão Júlio Frederico Koeler. Paulo Barbosa e Koeler elaboram um plano para fundar o que ele denominou “Povoação Palácio de Petrópolis”, que compreendia a doação de terras da fazenda imperial a colonos livres, que seriam os construtores da nova povoação mas também, produtores agrícolas. Assim nasce a cidade com mentalidade de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre. D. Pedro II assina em 1843, um decreto que arrenda as terras da fazenda do Córrego Seco ao Major Koeler, para a fundação da “Povoação Palácio de Petrópolis”, com as seguintes exigências: 1- Construção do Palácio Imperial 2- Urbanização de uma Vila Imperial com quarteirões imperiais 3- Edificação da igreja de São Pedro de Alcântara 77 4- Instalação de um cemitério. O Major Koeler fez a planta geral da Povoação-palácio, o projeto do Palácio Imperial e, em janeiro de 1845, colocou na Bolsa de Valores as ações da Companhia de Petrópolis, criada por ele para a execução de seus planos e projetos. As ações da Companhia foram vendidas em quatro meses e dois meses depois chegaram os imigrantes alemães para o trabalho. Com recursos financeiros e mão de obra livre, a construção da povoação-palácio estava assegurada. Além disso, os governos provinciais de Caldas Vianna em 1843 e Aureliano Coutinho em 1845 deram integral apoio ao plano traçado por Koeler. Durante todo o 2° Reinado, a presença de D. Pedro II em Petrópolis se destaca, acima de qualquer outra personalidade, por sua influência, pela constância da sua presença e do seu amor à cidade. Sua temporada de verão na Serra da Estrela durava até seis meses, de novembro a maio, quando então, a sua atuação governamental era transferida para Petrópolis. Com isso, a cidade se tornava a capital do Império, centro da atenção nacional. Assim, passou de vila a cidade em onze anos. Como todo povoado, a cidade nasceu um curato em 1845 e um ano depois, devido ao seu constante desenvolvimento, se transformou vila, na condição de freguesia de São Pedro de Alcântara de Petrópolis. Em 1857, onze anos após, foi elevada à condição de município e cidade, sem passar pela categoria de vila, o que era, na ocasião, um fato inédito. Assim, com sua animada vida social, Petrópolis competia com o Rio de Janeiro durante todo um semestre do ano, levando a grande vantagem de oferecer um clima ameno aos seus visitantes. Em conseqüência, a cidade ostentava um grande número de primeiros lugares como a primeira estrada de 78 rodagem de montanha, a Estrada Normal da Estrela, a primeira estrada macadamizada, a União e Indústria, o primeiro trem a subir uma montanha e a primeira cidade totalmente planejada antes de ser iniciada a sua construção. Com a Proclamação da República em 1889 e, como conseqüência, o exílio da Família Imperial, temia-se que a cidade fosse ameaçada por retaliações republicanas Significativos para a cidade foram os oito anos em que ela se transformou na capital do Estado do Rio de Janeiro. O prof. Aloysio Bade(1993) assim descreve essa fase: Em 6 de setembro de 1893, ocorre uma Revolta Armada em Niterói, sob o comando de Custódio José de Melo. Os navios de guerra, que estavam na Baía de Guanabara, revoltaram-se contra o governo do Marechal Floriano Peixoto. E, devido a esse acontecimento, foram cortadas todas as comunicações entre o Rio de Janeiro e Niterói. Diante desse acontecimento, Petrópolis passa a ser capital provisória do Estado do Rio de Janeiro. A mudança ocorreu no dia 20 de fevereiro de 1894, permanecendo até 04 de agosto de 1902. A condução era feita pelos bondes puxados a burros, sem trilhos, cujo trajeto começava na Estação Leopoldina e ia até Pic-Nic, pela atual rua Barão do Rio Branco. Existiam também os tílburis, condução puxada por um cavalo, que carregava uma ou duas pessoas, sendo muito procurada pelos vendedores e médicos. O passageiro ia ao lado do condutor. Os republicanos também se renderam aos encantos da Serra da Estrela. De 1894 a 1903, o Ministério das Relações Exteriores praticamente funcionou em Petrópolis, decidindo questões vitais como a assinatura do Tratado de Petrópolis, que anexou o Acre à Federação. Nos anos seguintes, a maioria dos presidentes da República, desde Deodoro da Fonseca até Costa e Silva, veraneou em Petrópolis. A cidade que antes se transformava em capital do Império, agora tornava-se capital da República, preservando o seu ambiente aristocrático e refinado. 79 No final da década de 1920, foi construída a primeira rodovia asfaltada do país que ligava o Rio a Petrópolis, que recebeu o nome de Washington Luiz, o presidente que teve essa iniciativa.Com a transferência da capital federal para Brasília, iniciada em 1962, com as mudanças sociais e tecnológicas decorrentes do início do processo de industrialização do país, com as intensas migrações internas de populações marginalizadas, a cidade se viu envolvida em um processo político populista que permitiu que diversas áreas, inclusive as encostas dos morros, fossem ocupadas de modo inadequado. Como conseqüência, ocorreu um violento crescimento da população sem um planejamento urbano e paisagístico que permitisse a manutenção das condições anteriores da cidade, o que modificou em profundidade o ambiente e a sua aparência. O Brasil, antes desses caminhos, não existia como unidade geopolítica e administrativa. Esses caminhos, durante o período colonial, integraram o interior ao litoral, promovendo uma unificação cultural e de esforços que resultou na ocupação e no desenvolvimento de uma vasta região. Data daí também o início da atividade administrativa pública organizada, com o emprego de funcionários para controle da zona mineira, criação dos “Registros” ao longo dos caminhos, monetarização da economia com a criação da Casa da Moeda, das Casas de Fundição e formação enfim, de uma classe média mais sólida, ao lado de outras como a dos mineradores, artesãos, administradores etc. 3.3. Breve histórico da BR 040 Em 1841, o major engenheiro alemão Júlio Frederico Koëler foi encarregado pelo Imperador, D. Pedro II, de construir um melhor caminho de Porto da Estrela, no Rio de Janeiro a Petrópolis, onde a família imperial costumava passar temporadas na Fazenda Córrego Seco, atual Petrópolis. A estrada era o principal elo de ligação para chegar às Minas Gerais e tinha grande importância econômica. Surgia, assim, a estrada Normal da Serra da Estrela, que pode ser percorrida até hoje. Naquela época, era preciso seguir de barco até Porto 80 Mauá, depois por estrada precária até Raiz da Serra e, então, ir pela nova estrada, num percurso de 14 km até Petrópolis. Em 1854, era inaugurada a primeira estrada de ferro brasileira, Porto Mauá à Raiz da Serra, por iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, reduzindo o tempo de viagem em quatro horas, percorrendo em apenas 23 minutos o trecho. Portanto, a viagem a Petrópolis começava por via marítima, até Porto Mauá, depois por trem até Raiz da Serra e seguia por diligência, na estrada Normal da Serra da Estrela. Em 1854, o Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage recebeu a concessão, por 50 anos, para a construção de custeio de uma estrada que, partindo de Petrópolis, se dirigisse à margem do Paraíba. Nascia assim, a estrada União e Indústria, cujo nome é o mesmo da empresa que havia sido criada e cuja receita provinha da cobrança de pedágio por mercadoria, mais precisamente por burro carregado. Em 23 de junho de 1861, D. Pedro II, sua família e vários representantes ilustres da Corte e da Cia. União e Indústria inauguravam a primeira rodovia brasileira de saibro de macadame, unindo Petrópolis a Juiz de Fora, percorrendo seus 144 km, à fantástica velocidade de 20 km/h nas diligências da época. A estrada original foi sendo alterada, e absorvida em alguns trechos pela atual BR 040, obrigando o motorista a alternar trechos da antiga estrada com a nova, para percorrer a União e Indústria. Em 1928 foi inaugurada a Rodovia Washington Luís, a primeira rodovia asfaltada do Brasil e, posteriormente, incorporada pela atual BR 040, que liga o Rio de Janeiro a Belo Horizonte e Brasília, cujo trecho inicial vai do Rio de Janeiro até Juiz de Fora, foi concedido à iniciativa privada, em 1996. Pelos idos de 1926, o presidente da República, Washington Luís, declarava à Nação que "governar é abrir estradas”, num país em que, em 1927, tinha 93.682 automóveis e 38.075 caminhões. Naquela época, o Distrito Federal e o Estado do Rio de Janeiro somavam 13.252 automóveis e 5.452 caminhões. A estrada Rio-Petrópolis constituiu-se 81 numa das prioridades, notadamente pelo fato de a imprensa fazer pesadas críticas pelo abandono do caminho à Cidade Imperial. Não era para menos: as enxurradas de dois verões levaram a areia e o saibro de macadame da serra, enquanto a tabatinga da Baixada abria-se em sulcos intransitáveis. Com oito metros de largura de plataforma, a Rio-Petrópolis era inaugurada pelo presidente Washington Luís, em 25 de agosto de 1928, ao lado de seis ministros e de autoridades regionais. Três anos adiante, os 22 km da serra começavam a receber revestimentos de concreto. Três viadutos venceram as profundas grotas existentes, pela ousadia com que conduziram o concreto desfiladeiro abaixo.A antiga Rio-Petrópolis foi considerada, por muito tempo, a melhor rodovia da América do Sul. De Petrópolis a Juiz de Fora, a rodovia BR 040 corta cinco municípios, num percurso de 138 quilômetros, com volume de tráfego de sete mil veículos/dia e menor índice de cargas, em relação a Rio-Bahia, segundo informação do DNER. Suas obras tiveram início em 1975 e foram concluídas cinco anos depois, seguindo longo percurso em região montanhosa, plana, ondulada, com trechos de pista simples (7,20 m) e duplas (14,40 m), de largura. No dia 1º de março de 1996 foi privatizada, pelo prazo de 25 anos. A Concer, empresa ganhadora da licitação assegura o investimento de US$ 760 milhões, durante o contrato, sendo US$ 300 milhões em obras de recuperação, melhoramentos e ampliação da capacidade de tráfego e o restante na operação da rodovia. Das três praças de pedágio, duas se localizam em território fluminense - km 104 (Duque de Caxias), 45 (Pedro do Rio) e um em Minas - 814 (Simão Pereira). Abaixo se encontra um mapa da rodovia BR 040 e seus principais pedágios. 82 Figura 4 - Mapa da rodovia BR 040 da página da Concer 83 Figura 5 – Foto da Rodovia BR 040 - trecho próximo a REDUC Figura 6 - Pedágio no km 104 em Duque de Caxias 84 O estudo da viação ligando o Rio de Janeiro às regiões das minas, a partir do século XVII, tem sido objeto de muitos estudos e grandes historiadores ainda não chegaram a conclusões definitivas sobre o assunto. Em torno do eixo construído, pelo caminho margeando o Rio Piabanha, foi se desenvolvendo a malha viária, constituída pelos atalhos vicinais, unindo as fazendas e criando, por sua vez, novas ramificações, dando origem às atuais estradas que interligam todo o município. Essas terras, cuja produtividade era baixa devido a sua composição pobre e à topografia muito acidentada, apresentavam, contudo, duas grandes vantagens: a proximidade da Capital e um clima de excepcional salubridade, e por isso mesmo, a tendência era desenvolver uma urbanização crescente. As terras dos descendentes de Manuel Correya entraram em decadência acelerada depois de 1888 e se fragmentaram nos distritos que hoje ali se instalaram: 2o Distrito: Correias, Bonfim, Calembe, Nogueira, Araras, Malta. 3o Distrito: Benfica, Boa-Esperança, Serra das Araras, Itaipava, Pedra Negra, Cuiabá, Cantagalo. No entorno desse núcleo inicial, foi se desenvolvendo a colonização desse território e a partir de meados do século passado, com a abertura da Estrada União e Indústria, novos centros de povoamento foram se formando, como São José do Vale do Rio Preto, hoje emancipado do Município de Petrópolis. Os últimos distritos constituídos compreendem as localidades de: 4o Distrito: Augusto Silva, Pedro do Rio, Secretário, Cachoeira, Taquaril, Vale das Videiras. 5o Distrito: Brejal, Posse, Alberto Torres e Tristão Câmara. 85 Figura 7 – Distritos de Petrópolis 86 4. O papel transformador do sistema de transportes em Petrópolis Durante os três primeiros capítulos pretendeu-se demonstrar a importância do papel da circulação e dos sistemas de transportes na formação dos espaços das cidades como também a formação de uma rede urbana ao longo do eixo rodoviário Rio-Petrópolis. Para tanto, foram realizadas pesquisas de natureza empírica que estão demonstradas neste último capítulo. Apresentaremos portanto dados do IBGE, Concer, entre outros, que demonstram como a melhoria da rodovia BR 040 e a articulação através da sua rede urbana formada principalmente com a metrópole do Rio de Janeiro, trouxe para o município de Petrópolis uma nova dinâmica, tanto econômica quanto imobiliária, transformadora do espaço urbano. Feita a contextualização histórica e analisando a real existência de uma rede urbana que se desenvolve ao longo dos séculos entre a cidade do Rio de Janeiro e a cidade de Petrópolis, passaremos então a pesquisa empírica que comprova a hipótese de um deslocamento que acontece desde o início do século por uma busca de melhor qualidade de vida. Petrópolis deixa assim de ser somente um caminho, uma passagem que liga diversos pontos economicamente importantes no país para ser hoje uma cidade que passa a atrair cada vez mais indivíduos, devido a seus atributos naturais e construídos de uma grande parcela de pessoas que se deslocam do Rio de Janeiro, atraídas pelos mesmos objetivos de fins do século XIX. Segundo dados do último censo do IBGE em 2000, o município de Petrópolis hoje conta com uma população residente de 286.537 habitantes, correspondentes a 38,1% do contingente de toda a região serrana. O municio apresentou também uma taxa média geométrica de crescimento, no período de 1991 a 2000, de 1,28% ao ano, taxa quase equiparada ao crescimento em todo o Estado do Rio de Janeiro. Este número é representativo quando comparados com 87 os dados do crescimento do município ao longo do século XX, conforme o gráfico 1 abaixo. Gráfico 1: Valor (%) Taxa de Crescimento da População Residente 4,00 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 Petrópolis Rio de Janeiro 19401950 19501960 19601970 19701980 19801991 19912000 Períodos Este gráfico demonstra que durante o século XX houve algumas mudanças significativas de aumento populacional, principalmente durante as décadas de5060, 70-80 e 90-2000, quando comparadas ao município do Rio de Janeiro. Este fator isolado não bastaria para reforçar nossas hipóteses, se não fosse pelo fato da tabela 1 mostrar o crescimento da população residente na década de 90 (período de grande expansão imobiliária conforme demonstrado na tabela 2 sobre o aumento significativo do número de condomínios/loteamentos existentes principalmente em bairros situados ou com acesso muito próximo a rodovia BR 040 88 Tabela 1 -Taxa de Crescimento da População Residente na Década de 90 – Petrópolis Período 1990 – 1996 1996 – 2000 Valor (%) 1,09 1,51 Fonte: IBGE Tabela 2 - Expansão Imobiliária no Município de Petrópolis – quantidade de condomínios ou loteamentos por período Década 40 50 60 70 80 90 2000-2003 Quantidade 10 11 7 15 14 25 2 Fonte: Lab.Ore. Como foi dito anteriormente, a localização destes condomínios é fator relevante para entender o processo de expansão imobiliária que está ocorrendo em bairros que fazem fronteira com a rodovia. Sendo estes: Fazenda Inglesa, Itaipava/Bonsucesso, Araras, Secretário e Pedro do Rio. A tabela 3, a seguir foi feita com base em levantamentos realizados pelo grupo Lab.Ore durante os anos de 2002, 2003 e 2004. 89 Tabela 3 – Expansão imobiliária no município de Petrópolis Localização dentro do Nome do condomínio ou loteamento município Ano "Condomínio Vale dos Pinheiros Bonsucesso X Quinta do Lago Bonsucesso 1997 Nucleo Residencial "A" Quinta do Lago Bonsucesso 1997 Agropecuária LTDA Bonsucesso 1997 Condomínio Silva Costa Itaipava 1990 Condomínio Vargem Alegre x 1979 Condomínio Parque Boa Vista Itaipava X Itaipava" Itaipava 1989 Sumidouro x X Condomínio Pegra Negra Itaipava 1995 Condomínio da Divisa Itaipava 1985 Condomínio Granja Santa Lúcia Sumidouro 1985 Condomínio Porteira Azul Itaipava 1992 Condomínio Rancho Campo Belo Itaipava 1996 Chamonix Itaipava 1978 Condomínio Vila Verde do Cuiabá Itaipava 1993 Serravile II Itaipava X Serravile I Itaipava X Chalelet's Serraville Itaipava X Quintas do Cantagalo Itaipava X Vivendas Vale da Lua Itaipava X Cvondomínio Sítio Queluz Itaipava 1991 Condomínio Bosque das Cabiúnas Itaipava 1992 Condomínio dos Alpes Itaipava 1988 Itaipava 1980 Condomínio Quinta do Lago Parque da boa Vista "Condados de Condomínio Village Itaipava(aolado do 90 loteamento "Dandy Rach" lot. Esq. Km 5,5 Condomínio Residencial do Vale Itaipava 1994 CEHAB-RJ Itaipava 1988 Jardim Itaipava Itaipava 1978 dos Sabias) Itaipava 1991 Condomínio Mirante do Sol Nascente Itaipava 1988 Parque Santa Maria Itaipava 1960 Emar Canedo de Persia Itaipava 1958 Gerais S.A Itaipava 1953 Loteamento Fazenda do Vale Lot. Faz Vale S. Luiz 1984 Fazenda Vale São Luiz Itaipava X x Itaipava 1949 x Itaipava 1944/1942 Loteamento Retiro do Ribeirão Grande Itaipava 1945 x Itaipava 1948 x Itaipava 1951 Vale Santa Mônica(não registrado) Itaipava 1977 Condomínio Guararema Itaipava 1957 Jardim Aclimação Itaipava 1979 Loteamento Vale dos Marmelos Itaipava 1976 Parque Sta Edwiges Pedro do Rio 1988 Condado da Serra Pedro do Rio 1984 Highland Places Pedro do Rio 1993 Condom[inio dos Ipês Fagundes X Condomínio Pedra Rosa Secretário X Cachoeiras do Capim Roxo Secretário X Chácara de Secretário Secretário X Cond. Industrial Oswaldo Cruz(Parque Massa Falida do Banco de Operações 91 Alto do Pegado Secretário 1990 Condomínio Estrela Dalva Secretário X Condomínio Chacaras da Lagoa Secretário 1982 Allamandas do Campo Pedro do Rio 1995 Rock Valley Araras 1999 Pedra dos Amarylis Araras 1994 Condomínio Village das Araras Araras 1998/1993 Condomínio Parque Fazenda Cachoeira Araras 1986 Residencial Araras Araras 2000 Condomínio Vale de São Fernando Araras 1994/2000 Condomínio Moradas da Pedra Azul Araras 1991 Condomínio ... ??? Araras 1992 Cachoeira Secretário 1949 Espólio Emílio Zanata Pedro do Rio 1952 Colônia de Férias Universal EMOOFE Pedro do Rio 1954 Fazenda Sto Antônio de Piabanha Pedro do Rio 1960 Fazenda Jacubá Pedro do Rio 1953 Loteamento Sítio Serra Morena Pedro do Rio 1967 Sarisa S.A Pedro do Rio 1955 Vale das Estrelas Pedro do Rio X Lot. Anápolis Country Club Pedro do Rio 1970 Condomínio Fazenda Capim Roxo Pedro do Rio 1989 Sítio Santa Rita de Cássia Fazenda Inglesa 1963 Loteamento Itaporã Fazenda Inglesa X Bângalos da Mata/Grupamento Loteam. da Vila do Secretário - Faz. da Condomínio Floríade(Mimosas + Araras) Fazenda Inglesa 1974 Loteamento Vargem Grande Fazenda Inglesa 1971/1977 Condomínio Mata Cavalo Fazenda Inglesa X x Fazenda Inglesa 1998/2000 92 Pedra Bonita - Cond. Estrela D'Alva Fazenda Inglesa 1981 x Fazenda Inglesa 1998 Condomínio Casari Fazenda Inglesa 1994 Conomínio Village II Fazenda Inglesa 1986 Lot. Bairro Jardim Araras Araras 1947 Vale da União Araras 1977/80 Jardim São Guilherme Araras 1979 Lot. do Sítio Moçamba Araras 1976 Cachoeira) Araras 1957/59 Vale da Cascata Araras 1969/74 Fazenda das Perobas Araras 1978 Parque Maria Comprida Araras 1944 Parque Maria Comprida Araras 1952 Lot. Sítio Cachoeira(Faz Reunidas da Pode-se perceber durante o período de melhoria das condições da rodovia BR040 - na fase inicial da concessão houve um aumento do número de empreendimentos, além é claro de uma parceria com o órgão gestor que nos últimos anos vêm estimulando projetos que geram oportunidades para quem precisa trabalhar como é o caso do Tecnopólo. Embora haja em Petrópolis também um forte perfil de uso ocasional, ou de segunda residência, o município vem demonstrando um aumento das exportações e crescimento do nível de empregos como conseqüência de um trabalho realizado pelo órgão gestor municipal em favor do desenvolvimento. Petrópolis vive uma fase de plena recuperação econômica. Desde setembro de 2003, quando foi criada a Lei 6.018, 75 (de incentivos fiscais) empresas foram beneficiadas, o investimento total chega a R$ 345 milhões. Há muito tempo a cidade não vivia um momento tão favorável. A Lei de Incentivos foi ampliada também para as 93 empresas da construção civil e do mercado imobiliário cujo setor cresce a olhos vistos nas últimas décadas. Para reforçar este aspecto de uma mudança no uso residencial em Petrópolis, foi feito um levantamento junto a Concer que forneceu dados apresentados na tabela 4. Estes dados demonstram durante o ano de 2006, através do volume médio mensal, a existência de um fluxo de entrada na rodovia, que se insere entre o primeiro e o segundo pedágio. Estes dados mostram, portanto a existência de um fluxo que parte do Rio para Petrópolis e que caracterizam a entrada ou permanência dos veículos nos 5 distritos. Seja por aumento da atividade econômica da Região como dito anteriormente, pela criação e ampliação do Tecnopólo nos últimos anos ou pela mudança do perfil do uso dos espaços destinados à segunda residência. Tabela 4 - Volume Médio mensal de Veículos que passam entre o km 104 (Duque de Caxias) e o km 45 (Areal) no ano de 2006. Ano de 2006s km 104 (Duque de Caxias) km 45 (Areal) Janeiro 706.687 267.682 Fevereiro 595.923 214.385 Março 660.119 221.204 Abril 660.227 226.310 Maio 646.810 212.451 Junho 616.827 201.842 Julho 684.105 245.661 Agosto 632.457 217.032 Setembro 623.812 222.804 Outubro 633.442 232.055 Novembro 638.827 229.148 Dezembro 724.129 227.701 Fonte: Ouvidoria-Concer. 94 O gráfico2 abaixo permite uma melhor visualização entre os dois pedágios Gráfico2: 800,000 600,000 400,000 200,000 dez nov out set ago jul jun mai abr mar Km 104 fev 0 jan número de veículos Volume médio mensal em trecho da BR-040 2006 Km 45 Outro dado interessante é a diferença de volume entre os pedágios do Km 104 e do Km 45, demonstrado no gráfico 3 abaixo. Embora seja percebido um aumento no fluxo de veículos durante os principais meses de férias, este não é tão significativo, pois a quase linearidade desta diferença entre os outros meses do ano é latente. Gráfico 3: 600,000 400,000 200,000 de z ou t no v se t ju l ag o fe v m ar ab r m ai ju n 0 ja n número de veículos Diferença de volume entre pedágios Km 104 e 45 2006 95 A confirmação destas informações pode ser vista não somente nas mudanças de caráter interurbanas, mas também nas mudanças intra-urbanas. Através de dados da CPTRANS a Companhia Petropolitana de Trânsito e Transportes - órgão responsável pelo gerenciamento do transporte coletivo em Petrópolis desde 1990, pode ser verificado que a gestão do município preocupada ao observar a distribuição da população, constatou uma concentração bastante acentuada de habitantes no primeiro Distrito (sede), representado 66 % do total de habitantes do município. Em virtude da instalação de indústrias, estabelecimentos comerciais e serviços essa região se tornou o principal foco atrativo de população Assim como no distrito de Itaipava em franca expansão imobiliária de caráter voltado para classes mais abastadas da população. A CPTRANS percebeu que o deslocamento de habitantes do distrito sede para os demais cresceu com isso o transporte passou a ser encarado, certamente como indutor da política de descentralização da rodoviária. Para evitar então um problema similar ao encontrado nas grandes metrópoles o de que a grande maioria dos usuários de ônibus que correspondem a população de baixa renda se situa nas áreas mais distantes da região onde, por exemplo, no quinto distrito os custos tarifários de operação do transporte intraurbano eram quase 5 vezes maior do que no distrito sede e pela demanda crescente nos condomínios dos distritos, principalmente de Itaipava, implantou a tarifa única. Estimulando o desenvolvimento habitacional nos outros distritos, favorecendo uma ocupação ordenada ao longo da rodovia, o que hoje segundo levantamento feito pela Concer, 300 famílias ocupam a faixa de domínio da BR040 no trecho de Petrópolis. A construção dos Terminais de Integração e da construção da nova Rodoviária de Petrópolis viabilizou a implantação desta tarifa única no município, reduziu a quilometragem das linhas, aumentou a freqüência de horários nos 96 bairros, e melhorou o aproveitamento nos deslocamentos, baixando os custos das ligações. Com este novo sistema situado em localidades estratégicas, Itaipava e Corrêas, o acesso a todos os distritos do município ficou mais fácil e conseguiu-se também reduzir o número de coletivos em circulação no Centro Histórico, pagando-se, independente do n° de ônibus utilizado, esta tarifa única, desde que o usuário não saia do sistema. Figura 8 – Terminal de Integração Corrêas 97 Figura 9 - Novo terminal rodoviário de Petrópolis na rodovia Br 040 Figura 10 - Movimento na nova Rodoviária. Sendo assim, percebemos que o aumento do número de condomínios no município revela o quanto o mercado imobiliário vem crescendo e através da 98 tabela 3 podemos ver a expansão imobiliária nos últimos anos através do número de condomínios e loteamentos que surgiram no município. Mas permanece a pergunta feita no início deste trabalho. Estas pessoas são mesmo oriundas da cidade do Rio de Janeiro? A busca por uma melhor qualidade de vida é o único fator determinante para esta população que atravessa mais de 65 km de subida e descida para trabalhar na metrópole? A qualidade da infra-estrutura de transportes realmente viabiliza esta situação? Notamos que houve uma maior quantidade de condomínios e loteamentos formados a partir da década de 1970, fato que pode estar ligado a duplicação da Br 040 e uma nova expansão imobiliária nos finais da década de 1990, coincidindo também com a privatização da rodovia. Em Itaipava, área que mais cresce em Petrópolis em termos populacionais e econômicos, notamos a criação centralidades e influencia a ocupação do seu entorno. Itaipava (vale do Bonsucesso) apresenta o maior adensamento de loteamentos e condomínios residenciais. Abaixo se encontram fotos dos condomínios nesta área do corredor da BR 040 e depoimentos retirados do site do condomínio Lagos de Itaipava, que ressaltam a hipótese de uma busca por uma melhor qualidade de vida. Abaixo temos os depoimentos de alguns dos proprietários do condomínio Lagos de Itaipava: "Estamos iniciando uma nova etapa, realizando um sonho há muito tempo desejado. O lagos de Itaipava foi a concretização desse sonho." Adriana S. da Silva (ass. social) e Levi B. da Silva (comerciante) "Investimos no verde da serra como garantia de uma melhor qualidade de vida para nossa família." Lúcia da S. Ferreira (dentista) e Roger V. Ancillotti (médico) "Aqui no Lagos de Itaipava encontramos nossa esperança de paz, moradia e lazer." Maria Lúcia (profª) e Cleber Ramos (gerente de sistemas) 99 “A união da liberdade com a segurança, regada ao convívio da natureza.” Luana Wayand Freire (Psicóloga) e João Vitor e Daniel (filhos) "Quero paz e tranqüilidade para mim e para a minha família." Cledson Pimenta (engenheiro) e Cláudia de Oliveira Pimenta "Aqui reunimos boa localização, segurança, tranqüilidade, lazer e local aprazível...”. Maria de L. Zamatta (secretária) e Augusto C. de Melo (advogado) "Aqui as crianças podem viver como crianças...”. Marcia X. Machado (médica) e José Mauro Xavier (cirurgião dentista) “Privacidade, ambiente e principalmente zelo da construtora e seus corretores com os seus futuros proprietários; concluindo o que todos almejamos paz.” Daniela Machado (advogada) e Marco A. M. Oliveira (comerciante) “Fugindo da agitação carioca, vamos morar na tranqüilidade de Itaipava.” Áurea de Farias (procuradora federal) e Max Pinheiro Jr. (médico). "Descobri que o paraíso é possível, mesmo dentro de uma cidade movimentada." Ana Lúcia de Vasconcelos Abrantes (consultora de empresas). Anúncio do condomínio Granja Brasil: 100 Imagens de outros condomínios da região: Figura 11 - Condomínio Granja Brasil Figura 12 - Condomínio Quinta do Lago 101 CONCLUSÃO Conseguimos, portanto, dentro da nossa pesquisa, responder a uma parte das perguntas feitas inicialmente. Através das análises sobre rede urbana, perimetropolização e acessibilidade podemos hoje caracterizar o município de Petrópolis como uma cidade cujos distritos o incluem, como sendo uma área: • Peri-metropolitana, por que continua através das suas relações econômicas a manter estreitos vínculos com a metrópole do Rio de Janeiro formando uma articulada, • Rede urbana, cujos fluxos das mais diversas natureza, • Acessibilidade promovida entre outras características das inovações tecnológicas, principalmente, pela melhoria das condições da rodovia. A cidade do século XXI torna-se cada vez mais difícil de discernir, porque as atividades humanas, que se localizavam nas cidades, se estenderam e espraiaram para os espaços que as rodeiam, alastrando-se para os espaços rurais e espaços anteriormente naturais. As redes de transporte e outras infra-estruturas construídas para ligar estas atividades dispersas fragmentam e degradam o espaço – o principal recurso natural não renovável. Lenta, mas inexoravelmente, novas redes complexas ligam pequenas e grandes cidades entre si, criando contínuos urbanos já perceptíveis em inúmeras partes da Europa, onde as cidades clássicas se transformam em simples componentes de novas redes informais. Os efeitos prejudiciais de uma tendência devem ser inevitavelmente abordados numa visão de futuro para a cidade (mais um desafio à inovação) Percebemos assim, que o processo de configuração e expansão do município e seus rebatimentos nas questões referentes às transformações das características dos subespaços através do caso emblemático da transferência do terminal rodoviário de Petrópolis e de alterações na circulação do espaço intraurbano do centro histórico, que a rodovia contribui e muito para o desenvolvimento do município. 102 REFERÊNCIAS ABNT-NBR 9.050/2004. AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do Brasil Colonial; ensaio de geografia urbana retrospectiva. São Paulo: USP/ Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1956. 96p. 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