Actas del II Congreso Internacional SEEPLU - Difundir l/a Lusofonia Cáceres: SEEPLU / CILEM / LEPOLL, 2012. Língua portuguesa e gêneros textuais como ação social, prática sociorretórica e sócio-discursiva: os ex-votos Doralice Pereira de Santana – [email protected] Maria João Marçalo – [email protected] Universidade de Évora Resumo A tradição votiva, que tem origem em tempos remotos da história da humanidade, é vista aqui como fenômeno de linguagem. Os gêneros selecionados são bilhetes e legendas votivas no Nordeste Brasileiro e no Alentejo Português. Há ex-votos depositados em diversas igrejas e salas de milagres no Brasil e em Portugal o que revela um importante conjunto dessa expressão na lusofonia. O foco deste trabalho é também a natureza linguística dos ex-votos, porém, entendidos como gêneros discursivos capazes de expressarem a manifestação coletiva presente nas realizações individuais. Por outro lado, para alcançar a dimensão sociorretórica dos gêneros, recorremos a Bazerman para quem os textos são atos de nossa vontade, motivados pelos nossos desejos e intenções, e os gêneros, formas de vida, frames para a ação social, lugares onde o sentido é construído. Abstract The votive tradition (Ex-votos) is seen here as a phenomenon of language. The genres are selected tickets and votive subtitles in Northeast Brazil and the Portuguese Alentejo. There are votive offerings deposited in various churches and halls of miracles in Brazil and Portugal, which reveals an important set of expression in the lusophone world. The focus of this work is the nature of linguistic ex-votos. They are here understood as genres can express this collective manifestation of individual achievement. Moreover, to achieve the gender dimension of socio-rethoric we followed Bazerman, for whom the texts are acts of our will, motivated by our desires and intentions, and genders, life forms, frames for social action, places where the sense is built. Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 93 Introdução A tradição votiva, que tem origem em tempos remotos da história da humanidade, é vista aqui como fenômeno de linguagem. Os gêneros selecionados são bilhetes e legendas votivas (como iremos denominar doravante as inscrições nos ex-votos que servem a priori para explicitar a intenção comunicativa dos autores) encontrados no Nordeste Brasileiro e no Alentejo Português. Diversos estudos têm sido realizados, sobretudo nas áreas de Cultura, Comunicação e História com foco nessa tradição. No entanto, o que propomos aqui é um estudo dos ex-votos escritos, à luz da teoria de gêneros textuais como ação social, sociorretórica e sócio-discursiva. Um antigo costume religioso dos povos ibéricos, que remonta mesmo ao Cristianismo Medieval e à Antiguidade é o de estabelecer entre o humano e o sobrenatural um vínculo de dialogicidade que parte da crença em que a voz humana poderá ser ouvida por entidades sobrenaturais, e partindo desse princípio dialógico eivado de alteridade e responsividade (aqui em termos bakhtinianos), pedidos poderão ser atendidos, considerando que o ser sobrenatural está investido de poderes sobre-humanos, de atuação nas causas sem solução material. É a constatação dos limites do homem aliada à sua fé que impulsiona a tradição votiva. Nesse sentido, como bem lembra Nogueira (2006), “O ex-voto começa por operar uma projeção da realidade individual e social na realidade sobrenatural”. É por meio dos ex-votos, que as promessas feitas ao sobrenatural em troca da solução para as aflições do homem religioso, são pagas. Há ex-votos depositados em diversas igrejas e salas de milagres no Brasil e em Portugal o que revela um importante conjunto dessa expressão na lusofonia. A transposição geográfica da Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 94 tradição de Portugal para o Brasil, é um relevante dado histórico do gênero, marcado na relação entre os dois países que pode ser observada no exemplo retirado do artigo de Carlos Nogueira: Mandado [...] fazer em Agosto de 1860”: “José Joaquim Gonçalves, natural da fregª. de S. Bartholomeu da Esperança deste Concelho, e reziden- / te no Imperio do Brazil, offereceu a N.Senhora de Porto d’Ave uma avultada esmola, se elle e sua M. D. / Maria Gonçalves não fossem acommettidos da Cólera morbus, e viessem para sua caza libres / de perigo, o que tudo se verefecou: e dispenderaõ a ditta esmola em um bom vestido para a / Senhora, em lustre devidro, compor o Orgaõ, e completar a Capella do menino entre os / Doutores. Mandado este fazer em Agosto de 1860. (Nogueira 2006: 5) O Projeto Ex-votos do Brasil, na UFBA1 é um exemplo da preocupação de pesquisadores de diferentes áreas na preservação do patrimônio e na organização de um corpus a ser disponibilizado para outros pesquisadores interessados no tema. Em investigação linguística sobre o tema, Oliveira (2008) busca as origens do português popular brasileiro, por meio da análise de ex-votos. O foco deste trabalho é também a natureza linguística dos ex-votos, porém, entendidos como gêneros discursivos capazes de expressarem a manifestação coletiva presente nas realizações individuais, ou seja, ao tomarmos mais uma vez Nogueira (2006) quando diz que Ao esquecer-se (despojar-se) de si no interior da relação de dádiva (graça) divina, o cristão torna-se plenamente presente em si e nos outros. O pagamento da promessa é a marca da densidade da sua individualização, dentro da dimensão comunitária do acto de maravilha e arrebatamento divinos” (Nogueira 2006: 3). 1 Universidade Federal da Bahia. Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 95 Referencial Teórico Iniciamos com Koch (2001) e Marcuschi ([1983] 2009) para quem o interesse da Linguística pelo estudo do texto começou principalmente na década de 1960, na Alemanha, quando tornou-se um objeto particular de investigação. O texto, não a palavra ou a frase, torna-se, a partir de então, um objeto particular de investigação, como uma forma específica de manifestação da linguagem. A origem da designação Linguística de Texto (LT), no sentido em que hoje se conhece vem dos trabalhos de Coseriu e de Weinrich . No Brasil, ganhou expressão a partir da década de 1980, destacando-se os trabalhos de Koch e Marcuschi entre outros. Assim, três fases epistemológicas, ou três momentos fundamentais caracterizam a jornada (não cronológica, e sim tipológica, como ressalta Conte 1977) rumo à Linguística Textual: a da Análise transfrástica, a das Gramáticas textuais, e a das Teorias de Texto. Quanto ao estudo dos gêneros textuais, ressaltamos a conceituação bakhtiniana, que consiste em tipos relativamente estáveis de enunciados. É a intenção discursiva ou vontade discursiva do falante que determina a escolha da forma de gênero na qual será construído o enunciado. Gêneros são ainda práticas sociais, como as define Fairclough (2001). Nesse sentido, Koch (2001) ressalta a releitura da obra de Bakhtin, especialmente da sua conceituação de gêneros do discurso, a qual tem fundamentado muitos desses trabalhos, sem perder de vista autores como os da Escola Norte-Americana (Coe e Bazerman, Freedman, Miller), da França (Jean-Michel Adam), e de Genebra (Bronckart, Dolz e Schneuwly), que tem utilizado essa releitura com finalidades didáticas. Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 96 Por outro lado, para alcançar a dimensão sociorretórica dos gêneros, recorremos a Bazerman (2006) para quem os textos são “atos de nossa vontade, motivados pelos nossos desejos e intenções”, e os gêneros, formas de vida, frames para a ação social, lugares onde o sentido é construído. Eles “moldam os pensamentos que formamos e as comunicações através das quais interagimos” (BAZERMAN 2006: 23). Marcuschi (2008) diz que o estudo de gêneros não é algo novo, relembrando os estudos de Platão e de Aristóteles sobre o tema, o que também faz Neves (2010), como aquele que sistematizou o estudos dos gêneros em sua Retórica, sem perder de vista “a linguagem como instrumento para , acima de tudo, ‘dizer verdade’ (NEVES 2010: 90). Martinet (1974) define língua com instrumento de comunicação, e afirma que a experiência humana é sempre comunicada por meio do discurso. Mais adiante Bakhtin (2003) nos chama a atenção para o fato de que não há comunicação verbal que não se dê por meio de gêneros discursivos. Neves (2010) ressalta, no entanto que investigar gêneros em Linguística é “fazer ciência”, buscando os aspectos do exercício da linguagem, enquanto para Aristóteles, era “fazer arte” ou buscar os fins últimos com atenção para os meios. Mas é de Aristóteles que partem os teóricos da Escola Americana que com base nas reflexões de Bakhtin e nos estudos da Análise Crítica do Discurso, mais especificamente de Fairclough, compreendem os gêneros discursivos como formas de ação social, prática sócio-discursiva e sociorretórica, sobretudo enquanto ação recorrente e significante, no dizer de Miller (1984). Enfim, trazemos a preocupação de Miller (2000) com o pensamento aristotélico ao revelar o interesse dos atuais estudiosos Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 97 de gêneros nos conceitos da Retórica de Aristóteles. Miller (1994, 1984) define gênero como ação recorrente e significante, e como artefato cultural, e afirma que “como padrões recorrentes do uso da língua, os gêneros ajudam a constituir a substância da nossa vida e cultura” (MILLER 1984: 163)2. Objetivo Analisar amostras de ex-votos escritos (bilhetes e legendas) coletadas em Portugal e no Brasil à luz da teoria de gêneros textuais na perspectiva sóciorretorica e sócio-discursiva. Metodologia Análise do corpus com base na perspectiva teórica adotada, considerando as características que os constituem enquanto gêneros textuais e permitem revelar aspectos da identidade linguística e cultural dos autores, sem perder de vista a relação de alteridade com o divino. Analisamos tábuas votivas coletadas em Igrejas do Alentejo Português, bilhetes e legendas votivas coletados na cidade de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, no Nordeste Brasileiro, registados em fotografia digital. O corpus composto por peças do século XIX oriundas de Portugal e do século XXI, do Brasil, demonstram a priori a manutenção da tradição, apesar de mostrar também uma significativa diferença no modo de apresentação desses ex-votos, outrora pintados em quadros a óleo, 2 Tradução nossa. Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 98 ricamente ilustrados, e hoje simplesmente escritos com caneta esferográfica em pequenos pedaços de papel, que são depositados dessa forma ou colados a peças de gesso ou ainda pintados em peças de madeira, funcionando, nesse caso, como legendas tais como as legendas encontradas nas antigas tábuas votivas portuguesas. Interessa-nos aqui, em especial, as produções escritas. Embora consideremos a importância do aspecto semiológico do gênero, não tratamos essa questão no presente trabalho. Tratamento dos dados Agrupamos os ex-votos por características semelhantes, categorizando-os, para então observá-los um a um do ponto de vista discursivo. Desse modo, temos um corpus constituído de cinco tábuas votivas, quatro bilhetes e duas legendas. As legendas votivas foram assim designadas pela sua intenção retórica, ou propósito comunicativo manifesto em seu aspecto formal por meio de uma relativa padronização. Observamos que o ex-voto aqui é composto do conjunto escultura de madeira/gesso e texto escrito. O mesmo ocorre com as tábuas votivas, que a princípio imaginávamos tratar-se de algo diferente, mas que no momento iremos atrelar ao mesmo grupo temático, considerando que é da parte escrita que ora nos ocupamos. Por sua vez foram nomeados bilhetes votivos, os gêneros que possuíam as características do gênero bilhete, porém com o propósito voltado para o pagamento de promessas. Em geral a composição formal do bilhete orienta para a identificação de um destinatário, um remetente, uma data, uma saudação final. No entanto, no bilhete Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 99 votivo, a intenção retórica é mais marcante do que a estrutura formal propriamente dita, para efeito de tipificação do gênero. Ao tomarmos o corpus, observamos que todos os bilhetes e legendas são dirigidos a Deus ou a Nossa Senhora, e descrevem o pagamento de uma promessa e o agradecimento por uma graça obtida. Nos ex-votos portugueses do Século XIX, aqui tipificados como legendas votivas, observamos a recorrência da expressão “Milagre que fez” em três dos quatro examinados. Temos, por exemplo: “Milagre que fez N. Sra. do Carmo a mulher de Joaquim Antonio Miges, passando na rua carreta próxima a Sra., a livrou de prigo. Anno 1847.”3 Por outro lado, já não encontramos nas legendas votivas brasileiras do século XXI a mesma expressão “Milagre que fez”, mas o mesmo endereçamento das mensagens a Deus e a Santo Amaro, o intercessor, como em: “Deus e bom. Obrigado meu Deus.”4 Pelo fato de estar essa legenda votiva pintada em uma casa de madeira, pode-se depreender que o sentido do agradecimento deve vir de haver o devoto conseguido construir, ou reformar, ou ainda comprar uma casa, atribuindo ao fato à intervenção divina. Nos bilhetes votivos encontramos a mesma referência a Nossa Senhora ou a Santo Amaro, como interventores nas causas pelas quais as promessas foram feitas. Desses bilhetes três foram escritos à Mãe Rainha Três Vezes Admirável, coletados na Igreja do 3 4 Cf. Fig. 7. Cf. Fig.1. Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 100 Livramento em Jaboatão e um a Santo Amaro, também em Jaboatão5. No exemplo transcrito abaixo observa-se a recorrência de termos presentes nos ex-votos portugueses a brasileiros anteriormente analisados. “ Gloriouzo Santo Amaro Eu tereza de agradeço esta graça alcansada ter curado o meu pé Ó Jesus obrigado Senhor Obrigado por todos os benefícios que tenho recebido em toda minha vida. Santo Amaro eu coloco em teus pés todo meu agradecimento colocando em teu altar meu pedido de cura que foi para não deixar de andar era meu medo e fui atendida agradeço Jesus, Deus pai de misericórdia obrigado Senhor. Tereza Celestino Jesus proteja meus filhos E netos. Jaboatão dos Guararapes, cidade localizada na Região Metropolitana do Recife em Pernambuco, no Nordeste Brasileiro, com 644.699 habitantes, segundo dados do Censo 2010 IBGE. 5 Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 101 Resultado A recorrência de expressões ou palavras que expressam gratidão ou exprimem o sentimento de quem se encontrava em perigo ou aflito, e necessitou da intervenção sobrenatural para solucionar os seus problemas ou minimizar as suas dores é frequente em todos os ex-votos da amostra analisada, embora na maioria esteja explícita nas palavras escritas, em duas (figuras I e V) essa informação seja possível apenas por meio da atribuição de sentido aos recursos iconográficos e pictóricos. As legendas presentes nas tábuas votivas, por sua vez, possuem um dado histórico e etnográfico relevante, à medida que são escritas não pelo próprio devoto, mas pelo artista que produz os quadros, reproduzindo, todavia, o desejo do devoto, a sua intencionalidade, expressa através da voz do pintor. Apresentamos um resumo quantificado da análise dos dados no quadro abaixo. Recorrência de expressões nos ex-votos do Século XIX e XXI em Portugal e no Brasil Ideia recorrente Número de repetições * Expressão “Milagre que fez” 03 Oferecimento 01 Data** 04 Referência à entidade sobrenatural (Deus, N. Sra., Santos) 09 Agradecimento*** 06 Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 102 Relato escrito da causa da promessa 08 Relato da causa da promessa por meio de recursos extralinguísticos 06 *numa amostra de 10 ex-votos **Apenas os mais antigos ***Apenas os mais recentes Percebe-se a partir desse corpus, que o gênero textual que compõe a parte escrita dos ex-votos, seja ele bilhete ou legenda votiva, neste caso específico, apesar de estarem situados em diferentes contextos sócio-históricos, demonstra uma relativa estabilidade. Esta estabilidade é notada na manutenção do propósito ou da intenção retórica, por meio da indicação da relação do homem com a divindade de uma forma situada, presente na tradição votiva. O sujeito estabelece uma relação com o sobrenatural e utiliza a linguagem como instrumento de comunicação com este. O discurso é então realizado por meio de um gênero histórica e socialmente reconhecido como ex-voto, que tem como propósito fazer um agradecimento por um milagre ou graça obtida. Por meio das amostras aqui analisadas, observamos que em Portugal, no século XIX, esse gênero era elaborado em suporte quadro pintado em folhas de flandres ou madeira, contendo a descrição pictórica do milagre referido, portando uma legenda onde encontrava-se escrito o teor da cena retratada ou apenas uma referência ao santo (a) que realizou o suposto milagre, a data em que teria acontecido e o nome do beneficiado. Já no Brasil nos séculos XX e XXI, observa-se por meio das amostras coletadas, uma mudança na forma de apresentação desse gênero, que mais se assemelha a um Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 103 bilhete, sem, no entanto, perder as características que o identifica como ex-voto, ou seja, o propósito ou intenção retórica, sobretudo. Há nesses bilhetes, apesar da ausência de quaisquer elementos pictóricos, a relação explícita do sujeito com o ser sobrenatural a quem se dirige, com o propósito de agradecer a intervenção divina na solução dos seus problemas e socorro nas suas aflições. Há ainda entre as amostras coletadas no Brasil, produzidas nos séculos XX e XXI algumas que se apresentam na forma de peças de cera ou de madeira, representando partes do corpo que foram curadas ou bens que foram adquiridos pelos devotos, como casas, por exemplo. Nesse caso foram considerados os textos que assim como nas amostras portuguesas do século XIX, exercem a função de legendas, uma vez que explicam o conteúdo semiológico dos ex-votos aos quais estão atrelados. Isto demonstra uma relativa estabilidade do gênero, expressa por meio não apenas da forma, como também do propósito comunicativo. Considerações finais A tradição votiva, campo da atividade humana que compõe a esfera discursiva religiosa constitui gêneros (entre eles os ex-votos) que mesmo individuais, mantém relativa estabilidade ao longo da história, assegurado seu aspecto tradicional transmitido de geração a geração, por meio de características semelhantes as das práticas de oralidade, histórica, social, geográfica e culturalmente situados nos espaços onde ocorrem (Portugal e Brasil) de modo a afirmar a identidade lusófona. Por meio desta investigação, concluímos que as vozes sociais conferem aos sujeitos ideológicos, autores desses ex-votos a Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 104 identidade de devotos cristãos católicos, e que o discurso produzido nessas circunstâncias aponta, independente de localização geográfica e época para a polifonia (em termos bakhtinianos) como um elemento inerente aos enunciados, entendendo que as vozes aí são equipolentes, pois atribuem na mesma medida e por meio dos mesmos termos, ou termos equivalentes, a autoridade necessária aos interventores sobrenaturais para que atuem na realidade modificando-a, além de expressar a gratidão e a humildade do devoto diante do seu interventor. A dimensão linguística do espaço lusófono, revela-se ideológica, no espaço abstrato da crença religiosa e da identidade social. Constatamos que além da dimensão linguística, uma dimensão dialógica da linguagem pode ser visualizada por meio do estudo dos ex-votos. O aspecto sócio-histórico do gênero, aponta para uma antiga prática social e de linguagem que se realiza enquanto ação social, na medida em que representa uma crença coletiva, manifesta por meio de textos escritos, que ao mesmo tempo que funcionam como instrumento de comunicação com o sobrenatural, serve como registro para as gerações futuras de como se organizavam essas formas de dizer a experiência religiosa de sujeitos que se identificam socialmente e constroem num dado contexto sócio-histórico uma forma relativamente estável de elaboração sociorretórica para um determinado fim comunicativo. Portanto, há muito o que ser estudado sobre esse gênero discursivo que remonta a práticas sociais pagãs e cristãs que sobrevivem desde a Antiguidade até os dias atuais, com poucas modificações de estilo, e que principalmente mantém vivo o diálogo Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 105 entre povos e gerações por meio do universo de vozes que as compõem. ANEXOS 1. Legendas votivas Fig. 1 Brasil – Século XX Região Nordeste Matriz de Santo Amaro em Jaboatão dos Guararapes/PE Casa em madeira com legenda Fig. 2 Brasil – Século XX Região Nordeste Matriz de Santo Amaro em Jaboatão dos Guararapes/ PE Pé em cera com legenda Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 106 Fig. 3 Portugal – Século XIX Região do Alentejo Ermida de Nossa Sra do Carmo Azaruja / Évora Quadro em madeira pintado a óleo com legenda Fig. 4 Portugal – Século XIX Região do Alentejo Ermida de Nossa Sra. Do Carmo Azaruja / Évora Quadro em madeira pintado a óleo com legenda Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 107 Fig. 5 Portugal – Século XIX Região do Alentejo Ermida de Nossa Sra. Do Carmo Azaruja/Évora Quadro em madeira, tipo de tinta não identificado com legenda. Fig. 6 Portugal – Século XIX Região do Alentejo Ermida de Nossa Sra. Do Carmo Azaruja/Évora Quadro em folha de flandres pintado com tinta não identificada e com legenda Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 108 2. Bilhetes votivos Fig. 7 Brasil – Século XXI Região Nordeste Matriz de Santo Amaro Jaboatão dos Guararapes/PE Fig. 8 Brasil – Século XXI Região Nordeste Igreja do Livramento Jaboatão dos Guararapes/PE Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 109 Fig. 9 Brasil – Século XXI Região Nordeste Igreja do Livramento Jaboatão dos Guararapes /PE Fig. 10 Brasil – Século XXI Região Nordeste Igreja do Livramento Jaboatão dos Guararapes /PE Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”. Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112 110 Bibliografia Aristotle. (2004). Rethoric. Mineola, N.Y.: Dover Publications. Bakhtin, M. (2003). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes. Bazerman, CH. (2005). Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez. Bazerman, CH. (2006). Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez. 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