Actas del II Congreso Internacional SEEPLU - Difundir l/a Lusofonia
Cáceres: SEEPLU / CILEM / LEPOLL, 2012.
Língua portuguesa e gêneros textuais como ação
social, prática sociorretórica e sócio-discursiva:
os ex-votos
Doralice Pereira de Santana – [email protected]
Maria João Marçalo – [email protected]
Universidade de Évora
Resumo
A tradição votiva, que tem origem em tempos remotos da história da
humanidade, é vista aqui como fenômeno de linguagem. Os gêneros
selecionados são bilhetes e legendas votivas no Nordeste Brasileiro e no
Alentejo Português. Há ex-votos depositados em diversas igrejas e salas de
milagres no Brasil e em Portugal o que revela um importante conjunto dessa
expressão na lusofonia. O foco deste trabalho é também a natureza
linguística dos ex-votos, porém, entendidos como gêneros discursivos
capazes de expressarem a manifestação coletiva presente nas realizações
individuais. Por outro lado, para alcançar a dimensão sociorretórica dos
gêneros, recorremos a Bazerman para quem os textos são atos de nossa
vontade, motivados pelos nossos desejos e intenções, e os gêneros, formas de vida,
frames para a ação social, lugares onde o sentido é construído.
Abstract
The votive tradition (Ex-votos) is seen here as a phenomenon of language.
The genres are selected tickets and votive subtitles in Northeast Brazil and
the Portuguese Alentejo. There are votive offerings deposited in various
churches and halls of miracles in Brazil and Portugal, which reveals an
important set of expression in the lusophone world. The focus of this work is
the nature of linguistic ex-votos. They are here understood as genres can
express this collective manifestation of individual achievement. Moreover,
to achieve the gender dimension of socio-rethoric we followed Bazerman,
for whom the texts are acts of our will, motivated by our desires and
intentions, and genders, life forms, frames for social action, places where the
sense is built.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
93
Introdução
A tradição votiva, que tem origem em tempos remotos da
história da humanidade, é vista aqui como fenômeno de linguagem.
Os gêneros selecionados são bilhetes e legendas votivas (como iremos
denominar doravante as inscrições nos ex-votos que servem a priori
para explicitar a intenção comunicativa dos autores) encontrados no
Nordeste Brasileiro e no Alentejo Português. Diversos estudos têm
sido realizados, sobretudo nas áreas de Cultura, Comunicação e
História com foco nessa tradição. No entanto, o que propomos aqui é
um estudo dos ex-votos escritos, à luz da teoria de gêneros textuais
como ação social, sociorretórica e sócio-discursiva.
Um antigo costume religioso dos povos ibéricos, que remonta
mesmo ao Cristianismo Medieval e à Antiguidade é o de estabelecer
entre o humano e o sobrenatural um vínculo de dialogicidade que
parte da crença em que a voz humana poderá ser ouvida por
entidades sobrenaturais, e partindo desse princípio dialógico eivado
de alteridade e responsividade (aqui em termos bakhtinianos),
pedidos poderão ser atendidos, considerando que o ser sobrenatural
está investido de poderes sobre-humanos, de atuação nas causas sem
solução material. É a constatação dos limites do homem aliada à sua
fé que impulsiona a tradição votiva. Nesse sentido, como bem lembra
Nogueira (2006), “O ex-voto começa por operar uma projeção da
realidade individual e social na realidade sobrenatural”.
É por meio dos ex-votos, que as promessas feitas ao
sobrenatural em troca da solução para as aflições do homem
religioso, são pagas. Há ex-votos depositados em diversas igrejas e
salas de milagres no Brasil e em Portugal o que revela um importante
conjunto dessa expressão na lusofonia. A transposição geográfica da
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
94
tradição de Portugal para o Brasil, é um relevante dado histórico do
gênero, marcado na relação entre os dois países que pode ser
observada no exemplo retirado do artigo de Carlos Nogueira:
Mandado [...] fazer em Agosto de 1860”: “José Joaquim
Gonçalves, natural da fregª. de S. Bartholomeu da Esperança
deste Concelho, e reziden- / te no Imperio do Brazil, offereceu a
N.Senhora de Porto d’Ave uma avultada esmola, se elle e sua
M.
D. / Maria Gonçalves não fossem acommettidos da Cólera
morbus, e viessem para sua caza libres / de perigo, o que tudo se
verefecou: e dispenderaõ a ditta esmola em um bom vestido para
a / Senhora, em lustre devidro, compor o Orgaõ, e completar a
Capella do menino entre os / Doutores. Mandado este fazer em
Agosto de 1860. (Nogueira 2006: 5)
O Projeto Ex-votos do Brasil, na UFBA1 é um exemplo da
preocupação de pesquisadores de diferentes áreas na preservação do
patrimônio e na organização de um corpus a ser disponibilizado para
outros pesquisadores interessados no tema. Em investigação
linguística sobre o tema, Oliveira (2008) busca as origens do
português popular brasileiro, por meio da análise de ex-votos. O foco
deste trabalho é também a natureza linguística dos ex-votos, porém,
entendidos como gêneros discursivos capazes de expressarem a
manifestação coletiva presente nas realizações individuais, ou seja, ao
tomarmos mais uma vez Nogueira (2006) quando diz que
Ao esquecer-se (despojar-se) de si no interior da relação de
dádiva (graça) divina, o cristão torna-se plenamente presente em
si e nos outros. O pagamento da promessa é a marca da
densidade da sua individualização, dentro da dimensão
comunitária do acto de maravilha e arrebatamento divinos”
(Nogueira 2006: 3).
1
Universidade Federal da Bahia.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
95
Referencial Teórico
Iniciamos com Koch (2001) e Marcuschi ([1983] 2009) para
quem o interesse da Linguística pelo estudo do texto começou
principalmente na década de 1960, na Alemanha, quando tornou-se
um objeto particular de investigação. O texto, não a palavra ou a
frase, torna-se, a partir de então, um objeto particular de
investigação, como uma forma específica de manifestação da
linguagem. A origem da designação Linguística de Texto (LT), no
sentido em que hoje se conhece vem dos trabalhos de Coseriu e de
Weinrich . No Brasil, ganhou expressão a partir da década de 1980,
destacando-se os trabalhos de Koch e Marcuschi entre outros.
Assim, três fases epistemológicas, ou três momentos
fundamentais caracterizam a jornada (não cronológica, e sim
tipológica, como ressalta Conte 1977) rumo à Linguística Textual: a
da Análise transfrástica, a das Gramáticas textuais, e a das Teorias de
Texto.
Quanto ao estudo dos gêneros textuais, ressaltamos a
conceituação bakhtiniana, que consiste em tipos relativamente estáveis
de enunciados. É a intenção discursiva ou vontade discursiva do falante
que determina a escolha da forma de gênero na qual será construído
o enunciado. Gêneros são ainda práticas sociais, como as define
Fairclough (2001). Nesse sentido, Koch (2001) ressalta a releitura da
obra de Bakhtin, especialmente da sua conceituação de gêneros do
discurso, a qual tem fundamentado muitos desses trabalhos, sem
perder de vista autores como os da Escola Norte-Americana (Coe
e Bazerman, Freedman, Miller), da França (Jean-Michel Adam), e de
Genebra (Bronckart, Dolz e Schneuwly), que tem utilizado essa
releitura com finalidades didáticas.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
96
Por outro lado, para alcançar a dimensão sociorretórica dos
gêneros, recorremos a Bazerman (2006) para quem os textos são “atos
de nossa vontade, motivados pelos nossos desejos e intenções”, e os
gêneros, formas de vida, frames para a ação social, lugares onde o
sentido é construído. Eles “moldam os pensamentos que formamos e
as comunicações através das quais interagimos” (BAZERMAN 2006:
23).
Marcuschi (2008) diz que o estudo de gêneros não é algo novo,
relembrando os estudos de Platão e de Aristóteles sobre o tema, o que
também faz Neves (2010), como aquele que sistematizou o estudos
dos gêneros em sua Retórica, sem perder de vista “a linguagem como
instrumento para , acima de tudo, ‘dizer verdade’ (NEVES 2010: 90).
Martinet (1974) define língua com instrumento de comunicação,
e afirma que a experiência humana é sempre comunicada por meio
do discurso. Mais adiante Bakhtin (2003) nos chama a atenção para o
fato de que não há comunicação verbal que não se dê por meio de
gêneros discursivos. Neves (2010) ressalta, no entanto que investigar
gêneros em Linguística é “fazer ciência”, buscando os aspectos do
exercício da linguagem, enquanto para Aristóteles, era “fazer arte” ou
buscar os fins últimos com atenção para os meios.
Mas é de Aristóteles que partem os teóricos da Escola
Americana que com base nas reflexões de Bakhtin e nos estudos da
Análise Crítica do Discurso, mais especificamente de Fairclough,
compreendem os gêneros discursivos como formas de ação social,
prática sócio-discursiva e sociorretórica, sobretudo enquanto ação
recorrente e significante, no dizer de Miller (1984).
Enfim, trazemos a preocupação de Miller (2000) com o
pensamento aristotélico ao revelar o interesse dos atuais estudiosos
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
97
de gêneros nos conceitos da Retórica de Aristóteles. Miller (1994,
1984) define gênero como ação recorrente e significante, e como
artefato cultural, e afirma que “como padrões recorrentes do uso da
língua, os gêneros ajudam a constituir a substância da nossa vida e
cultura” (MILLER 1984: 163)2.
Objetivo
Analisar amostras de ex-votos escritos (bilhetes e legendas)
coletadas em Portugal e no Brasil à luz da teoria de gêneros textuais
na perspectiva sóciorretorica e sócio-discursiva.
Metodologia
Análise do corpus com base na perspectiva teórica adotada,
considerando as características que os constituem enquanto gêneros
textuais e permitem revelar aspectos da identidade linguística e
cultural dos autores, sem perder de vista a relação de alteridade com
o divino.
Analisamos tábuas votivas coletadas em Igrejas do Alentejo
Português, bilhetes e legendas votivas coletados na cidade de
Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, no
Nordeste Brasileiro, registados em fotografia digital. O corpus
composto por peças do século XIX oriundas de Portugal e do século
XXI, do Brasil, demonstram a priori a manutenção da tradição, apesar
de mostrar também uma significativa diferença no modo de
apresentação desses ex-votos, outrora pintados em quadros a óleo,
2
Tradução nossa.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
98
ricamente ilustrados, e hoje simplesmente escritos com caneta
esferográfica em pequenos pedaços de papel, que são depositados
dessa forma ou colados a peças de gesso ou ainda pintados em peças
de madeira, funcionando, nesse caso, como legendas tais como as
legendas encontradas nas antigas tábuas votivas portuguesas.
Interessa-nos aqui, em especial, as produções escritas. Embora
consideremos a importância do aspecto semiológico do gênero, não
tratamos essa questão no presente trabalho.
Tratamento dos dados
Agrupamos os ex-votos por características semelhantes,
categorizando-os, para então observá-los um a um do ponto de vista
discursivo. Desse modo, temos um corpus constituído de cinco
tábuas votivas, quatro bilhetes e duas legendas.
As legendas votivas foram assim designadas pela sua intenção
retórica, ou propósito comunicativo manifesto em seu aspecto formal
por meio de uma relativa padronização. Observamos que o ex-voto
aqui é composto do conjunto escultura de madeira/gesso e texto
escrito. O mesmo ocorre com as tábuas votivas, que a princípio
imaginávamos tratar-se de algo diferente, mas que no momento
iremos atrelar ao mesmo grupo temático, considerando que é da
parte escrita que ora nos ocupamos.
Por sua vez foram nomeados bilhetes votivos, os gêneros que
possuíam as características do gênero bilhete, porém com o propósito
voltado para o pagamento de promessas. Em geral a composição
formal do bilhete orienta para a identificação de um destinatário, um
remetente, uma data, uma saudação final. No entanto, no bilhete
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
99
votivo, a intenção retórica é mais marcante do que a estrutura formal
propriamente dita, para efeito de tipificação do gênero.
Ao tomarmos o corpus, observamos que todos os bilhetes e
legendas são dirigidos a Deus ou a Nossa Senhora, e descrevem o
pagamento de uma promessa e o agradecimento por uma graça
obtida. Nos ex-votos portugueses do Século XIX, aqui tipificados
como legendas votivas, observamos a recorrência da expressão
“Milagre que fez” em três dos quatro examinados. Temos, por
exemplo: “Milagre que fez N. Sra. do Carmo a mulher de Joaquim
Antonio Miges, passando na rua carreta próxima a Sra., a livrou de
prigo. Anno 1847.”3
Por outro lado, já não encontramos nas legendas votivas
brasileiras do século XXI a mesma expressão “Milagre que fez”, mas
o mesmo endereçamento das mensagens a Deus e a Santo Amaro, o
intercessor, como em: “Deus e bom. Obrigado meu Deus.”4
Pelo fato de estar essa legenda votiva pintada em uma casa de
madeira, pode-se depreender que o sentido do agradecimento deve
vir de haver o devoto conseguido construir, ou reformar, ou ainda
comprar uma casa, atribuindo ao fato à intervenção divina.
Nos bilhetes votivos encontramos a mesma referência a Nossa
Senhora ou a Santo Amaro, como interventores nas causas pelas
quais as promessas foram feitas. Desses bilhetes três foram escritos à
Mãe Rainha Três Vezes Admirável, coletados na Igreja do
3
4
Cf. Fig. 7.
Cf. Fig.1.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
100
Livramento em Jaboatão e um a Santo Amaro, também em Jaboatão5.
No exemplo transcrito abaixo observa-se a recorrência de termos
presentes nos ex-votos portugueses a brasileiros anteriormente
analisados.
“ Gloriouzo
Santo Amaro
Eu tereza de agradeço
esta graça alcansada
ter curado o meu pé
Ó Jesus obrigado Senhor
Obrigado por todos
os benefícios que tenho
recebido em toda minha
vida. Santo Amaro
eu coloco em teus
pés todo meu agradecimento colocando em
teu altar meu pedido
de cura que foi para
não deixar de andar
era meu medo e fui atendida
agradeço Jesus, Deus pai
de misericórdia obrigado
Senhor.
Tereza Celestino
Jesus proteja meus filhos
E netos.
Jaboatão dos Guararapes, cidade localizada na Região Metropolitana do Recife em
Pernambuco, no Nordeste Brasileiro, com 644.699 habitantes, segundo dados do
Censo 2010 IBGE.
5
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
101
Resultado
A recorrência de expressões ou palavras que expressam
gratidão ou exprimem o sentimento de quem se encontrava em
perigo ou aflito, e necessitou da intervenção sobrenatural para
solucionar os seus problemas ou minimizar as suas dores é frequente
em todos os ex-votos da amostra analisada, embora na maioria esteja
explícita nas palavras escritas, em duas (figuras I e V) essa
informação seja possível apenas por meio da atribuição de sentido
aos recursos iconográficos e pictóricos.
As legendas presentes nas tábuas votivas, por sua vez, possuem
um dado histórico e etnográfico relevante, à medida que são escritas
não pelo próprio devoto, mas pelo artista que produz os quadros,
reproduzindo, todavia, o desejo do devoto, a sua intencionalidade,
expressa através da voz do pintor.
Apresentamos um resumo quantificado da análise dos dados
no quadro abaixo.
Recorrência de expressões nos ex-votos do Século XIX e XXI em
Portugal e no Brasil
Ideia recorrente
Número de
repetições *
Expressão “Milagre que fez”
03
Oferecimento
01
Data**
04
Referência à entidade sobrenatural (Deus, N. Sra.,
Santos)
09
Agradecimento***
06
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
102
Relato escrito da causa da promessa
08
Relato da causa da promessa por meio de recursos
extralinguísticos
06
*numa amostra de 10 ex-votos
**Apenas os mais antigos
***Apenas os mais recentes
Percebe-se a partir desse corpus, que o gênero textual que
compõe a parte escrita dos ex-votos, seja ele bilhete ou legenda
votiva, neste caso específico, apesar de estarem situados em
diferentes contextos sócio-históricos, demonstra uma relativa
estabilidade. Esta estabilidade é notada na manutenção do propósito
ou da intenção retórica, por meio da indicação da relação do homem
com a divindade de uma forma situada, presente na tradição votiva.
O sujeito estabelece uma relação com o sobrenatural e utiliza a
linguagem como instrumento de comunicação com este. O discurso é
então realizado por meio de um gênero histórica e socialmente
reconhecido como ex-voto, que tem como propósito fazer um
agradecimento por um milagre ou graça obtida.
Por meio das amostras aqui analisadas, observamos que em
Portugal, no século XIX, esse gênero era elaborado em suporte
quadro pintado em folhas de flandres ou madeira, contendo a
descrição pictórica do milagre referido, portando uma legenda onde
encontrava-se escrito o teor da cena retratada ou apenas uma
referência ao santo (a) que realizou o suposto milagre, a data em que
teria acontecido e o nome do beneficiado. Já no Brasil nos séculos XX
e XXI, observa-se por meio das amostras coletadas, uma mudança na
forma de apresentação desse gênero, que mais se assemelha a um
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
103
bilhete, sem, no entanto, perder as características que o identifica
como ex-voto, ou seja, o propósito ou intenção retórica, sobretudo.
Há nesses bilhetes, apesar da ausência de quaisquer elementos
pictóricos, a relação explícita do sujeito com o ser sobrenatural a
quem se dirige, com o propósito de agradecer a intervenção divina na
solução dos seus problemas e socorro nas suas aflições.
Há ainda entre as amostras coletadas no Brasil, produzidas nos
séculos XX e XXI algumas que se apresentam na forma de peças de
cera ou de madeira, representando partes do corpo que foram
curadas ou bens que foram adquiridos pelos devotos, como casas, por
exemplo. Nesse caso foram considerados os textos que assim como
nas amostras portuguesas do século XIX, exercem a função de
legendas, uma vez que explicam o conteúdo semiológico dos ex-votos
aos quais estão atrelados. Isto demonstra uma relativa estabilidade
do gênero, expressa por meio não apenas da forma, como também do
propósito comunicativo.
Considerações finais
A tradição votiva, campo da atividade humana que compõe a
esfera discursiva religiosa constitui gêneros (entre eles os ex-votos)
que mesmo individuais, mantém relativa estabilidade ao longo da
história, assegurado seu aspecto tradicional transmitido de geração a
geração, por meio de características semelhantes as das práticas de
oralidade, histórica, social, geográfica e culturalmente situados nos
espaços onde ocorrem (Portugal e Brasil) de modo a afirmar a
identidade lusófona.
Por meio desta investigação, concluímos que as vozes sociais
conferem aos sujeitos ideológicos, autores desses ex-votos a
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
104
identidade de devotos cristãos católicos, e que o discurso produzido
nessas circunstâncias aponta, independente de localização geográfica
e época para a polifonia (em termos bakhtinianos) como um elemento
inerente aos enunciados, entendendo que as vozes aí são
equipolentes, pois atribuem na mesma medida e por meio dos
mesmos termos, ou termos equivalentes, a autoridade necessária aos
interventores sobrenaturais para que atuem na realidade
modificando-a, além de expressar a gratidão e a humildade do
devoto diante do seu interventor. A dimensão linguística do espaço
lusófono, revela-se ideológica, no espaço abstrato da crença religiosa
e da identidade social. Constatamos que além da dimensão
linguística, uma dimensão dialógica da linguagem pode ser
visualizada por meio do estudo dos ex-votos.
O aspecto sócio-histórico do gênero, aponta para uma antiga
prática social e de linguagem que se realiza enquanto ação social, na
medida em que representa uma crença coletiva, manifesta por meio
de textos escritos, que ao mesmo tempo que funcionam como
instrumento de comunicação com o sobrenatural, serve como registro
para as gerações futuras de como se organizavam essas formas de
dizer a experiência religiosa de sujeitos que se identificam
socialmente e constroem num dado contexto sócio-histórico uma
forma relativamente estável de elaboração sociorretórica para um
determinado fim comunicativo.
Portanto, há muito o que ser estudado sobre esse gênero
discursivo que remonta a práticas sociais pagãs e cristãs que
sobrevivem desde a Antiguidade até os dias atuais, com poucas
modificações de estilo, e que principalmente mantém vivo o diálogo
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
105
entre povos e gerações por meio do universo de vozes que as
compõem.
ANEXOS
1. Legendas
votivas
Fig. 1
Brasil – Século XX
Região Nordeste
Matriz de Santo Amaro
em Jaboatão dos
Guararapes/PE
Casa em madeira com
legenda
Fig. 2
Brasil – Século XX
Região Nordeste
Matriz de Santo Amaro
em Jaboatão dos
Guararapes/ PE
Pé em cera com legenda
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
106
Fig. 3
Portugal – Século
XIX
Região do Alentejo
Ermida de Nossa
Sra do Carmo
Azaruja / Évora
Quadro em madeira
pintado a óleo com
legenda
Fig. 4
Portugal – Século XIX
Região do Alentejo
Ermida de Nossa Sra.
Do Carmo
Azaruja / Évora
Quadro em madeira
pintado a óleo com
legenda
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
107
Fig. 5
Portugal – Século
XIX
Região do Alentejo
Ermida de Nossa
Sra. Do Carmo
Azaruja/Évora
Quadro em
madeira, tipo de
tinta não
identificado com
legenda.
Fig. 6
Portugal – Século
XIX
Região do Alentejo
Ermida de Nossa
Sra. Do Carmo
Azaruja/Évora
Quadro em folha de
flandres
pintado
com
tinta
não
identificada e com
legenda
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
108
2.
Bilhetes
votivos
Fig. 7
Brasil – Século
XXI
Região Nordeste
Matriz de Santo
Amaro
Jaboatão
dos
Guararapes/PE
Fig. 8
Brasil – Século
XXI
Região Nordeste
Igreja do
Livramento
Jaboatão dos
Guararapes/PE
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
109
Fig. 9
Brasil –
Século XXI
Região
Nordeste
Igreja do
Livramento
Jaboatão dos
Guararapes
/PE
Fig. 10
Brasil –
Século XXI
Região
Nordeste
Igreja do
Livramento
Jaboatão
dos
Guararapes
/PE
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
110
Bibliografia
Aristotle. (2004). Rethoric. Mineola, N.Y.: Dover Publications.
Bakhtin, M. (2003). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins
Fontes.
Bazerman, CH. (2005). Gêneros textuais, tipificação e interação. São
Paulo: Cortez.
Bazerman, CH. (2006). Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez.
Bazerman, CH. (2007). Escrita, gêneros e interação social. São Paulo:
Cortez.
Fairclough, N. (2001). Discurso e mudança Social. Brasília: Ed. UNB.
Koch, I. (2001). “Linguística textual: quo vadis?” in DELTA [online].
vol.
17,
n.
spe,
pp.
11-23.
[Disponível
em
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S01024502001000300002&script=sci_arttext - acesso em: 01/06/2009]
Marcuschi, L. A. ([1983] 2009. Linguística de Texto: O que é e como se
faz? Recife: UFPE.
Martinet, A. (1985). Elementos de Linguística Geral. Lisboa: Sá da Costa.
Miller, C. R. (1984). “Genre as Social Action” in Quarterly Journal of
Speech
70,
pp.
51–167.
[Disponível
em
http://www4.ncsu.edu/~crmiller/Publications/MillerQJS84.pdf
- acesso em: 03 abr. 2009]
Miller, C. R. (1994). “Rethoric Community: the cultural basis of
genre” in Genre and the New Rethoric, Taylor and Francis. pp. 67-78.
[Disponível em
http://www4.ncsu.edu/~crmiller/Publications/MillerT&F94.pdf
- acesso em: 03/04/2009]
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
111
Miller, C. R. (2000) “The Aristotelian ‘Topos’: Hunting for Noveltry”
in Rereading Aristotle’s Rethoric, Carbondale & Edwardsville:
Southern Illinois University Press, pp. 130-146. [Disponível em
http://www4.ncsu.edu/~crmiller/Publications/ToposSIUP00.pd
f - acesso em: 03/04/2009]
Neves, M. H. de M. (2010). Ensino de Língua e vivência de linguagem:
temas em confronto. São Paulo: Contexto.
Nogueira, C. (2006). “Aspectos do ex-voto pictórico português”
Culturas populares. Revista Eletrónica 2, mayo-agosto. [Disponível
em
http://www.culturaspopulares.org/textos2/articulos/nogueira1.htm]
Oliveira, J. C. (2007). Ex-votos escritos: a riqueza e a pobreza da gramática
e da ortografia nas salas de milagres do Brasil. Trabalho apresentado
no NP-Intercom Folkcomunicação, no VII Encontro dos Núcleos
de Pesquisa em Comunicação, e no INTERCOM 2007 – XXX
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Santos,
setembro de 2007. [Disponível em
http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R
0069-1.pdf]
Oliveira, K. (2008). “As tábuas votivas: imagem e texto no mesmo
endereço”. [Disponível em
http://www.uff.br/cadernosdeletrasuff/34/artigo3.pdf]
Roncarati, C. (2010). As cadeias do texto – construindo sentidos. São
Paulo: Parábola.
Doralice Santana / Maria João Marçalo. “Língua portuguesa e gêneros textuais como…”.
Actas del II Congreso Internacional SEEPLU, 2012, pp. 93-112
112
Download

Língua portuguesa e gêneros textuais como ação social, prática