Ministério da Cultura
e Associação Casa Azul
apresentam
Manual
Flipinha 2013
2
Ministério da Cultura
e Associação Casa Azul
apresentam
Manual
Flipinha 2013
Apresentação5
Introdução ao Manual da Flipinha 7
2
Território dos autores
André Neves
Bia Hetzel
Braulio Tavares
Cris Eich
Eloar Guazzelli
Jean-Claude Alphen
Karen Accioly
Luiz Raul Machado
Mariana Massarani
Meton Joffily
Mirna Pinsky
Ninfa Parreiras
Olívio Jekupé
Regina Machado
Ricardo Azevedo
Ricardo Filho
Ruth Rocha
Sônia Rosa
Stela Barbieri
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Território da literatura
Passeios pelo bosque
da juventude:
poesia, amor e ousadia O imaginário no poder:
crianças e brincadeiras!
Cultura popular,
identidade e ação! Tudo pode ser diferente!
Qual é a cor do seu traço? 54
58
62
Território das editoras
66
46
50
Apresentação
Caro professor,
A Associação Casa Azul acredita em
projetos capazes de ampliar as relações
entre cultura e território, com ênfase
na ação educativa e artística como
meio de transformação social. Assim,
é com enorme satisfação que apresentamos o Manual da Flipinha 2013. Com o objetivo de apoiar os educadores nas atividades de sala de aula
e aprimorar a formação por meio da
literatura, as páginas a seguir são
um convite para que professores e
alunos naveguem por novos mares e
novas palavras, tendo como grandes
guias a criatividade e a imaginação.
Este ano, o manual surge com novo
formato: cada um dos autores participantes ganhou uma entrevista
personalizada, com perguntas relacionadas diretamente à sua obra. Numa
segunda parte, foram estabelecidos
cinco eixos temáticos, a fim de se
criar uma costura entre diferentes
autores e diferentes histórias. Em
torno dos grandes temas Passeios pelo
bosque da juventude: poesia, amor
e ousadia; O imaginário no poder:
crianças e brincadeiras!; Cultura
popular, identidade e ação!; Tudo
pode ser diferente! e Qual é a cor do
seu traço? abrem-se novas frentes de
trabalho, que vêm somar-se às técnicas
próprias — valiosas e insubstituíveis
— de cada educador. Finalmente, uma
terceira seção estabelece sugestões de
leitura cuidadosamente planejadas. O amadurecimento do manual reflete
um período em que a Casa Azul, cheia
de entusiasmo, assiste à multiplicação das bibliotecas comunitárias
na região de Paraty. Já são oito, em
diferentes localidades: Itae, Casa
Escola, Ponta Negra, Vila Oratório,
Cairuçu, Condado e Ilha do Araújo,
além de uma unidade itinerante e
mais três previstas para 2013. Iniciativa da sociedade civil em prol da
literatura, esses novos espaços vêm
somar-se aos 32 acervos montados
em cada uma das escolas municipais
de Paraty, criando uma rede que faz
inveja até mesmo às grandes cidades. Por acreditar na força das manifestações culturais, a Casa Azul investe na
criação e no crescimento de práticas
artísticas, atuando de forma abrangente e transversal nas diferentes
linguagens da arte — do urbanismo à
literatura; da cenografia à preservação
do patrimônio. Nada disso é possível
sem a figura central e transformadora do professor, peça-chave para
todo e qualquer desenvolvimento. Criar as condições para manter
viva as manifestações culturais
locais em diálogo permanente com
a inovação e seu caráter universal
é a diretriz que vem norteando
nosso trabalho nos últimos dez
anos. Nada é tão satisfatório quanto
ver seus frutos se espalhando.
Mauro Munhoz
Diretor-presidente
Associação Casa Azul
Introdução ao Manual da Flipinha
Querido professor,
Este manual foi pensado para ser
um material atraente e diferenciado
na abordagem da literatura sob a
óptica da arte. Nosso sonho era criar
um material que instigasse a leitura
dos livros e fizesse todo mundo
ter vontade de mergulhar na obra
dos autores de texto e de imagem,
despertando diversas manifestações
artísticas em torno da literatura.
Em 2013, o manual não virá mais com
a divisão em três partes: Biografia
lúdica, Conhecendo as histórias e
Navegando pelas histórias. Este ano
cada autor terá o Território do Autor,
com entrevistas personalizadas,
estante de livros e, é claro, uma foto
de cada um. As entrevistas variam um
pouco de tamanho, dependendo do
que cada autor quis contar. O manual
também traz mais uma novidade: o
Território das Editoras, com sugestões de títulos das editoras parceiras
do programa Mar de Leitores. Não
teremos mais projetos de leitura
por autor, mas sim o Território das
Histórias, com eixos temáticos que
serão divididos da seguinte maneira:
Passeios pelo bosque da juventude:
poesia, amor e ousadia; O imaginário no poder: crianças e brincadeiras!; Cultura popular, identidade
e ação!; Tudo pode ser diferente!
e Qual é a cor do seu traço?
imagem e, portanto, cada um apresenta ao leitor sua visão de uma
mesma história. Por isso, é importante
conhecermos não só o texto, mas as
imagens e, principalmente, a interação
texto-imagem, pois certamente desse
encontro podem surgir muitas leituras.
Em cada eixo vamos misturar livros
dos autores, mostrando como pode
existir um diálogo entre livros aparentemente tão diferentes, mas sempre
valorizando as possibilidades de exploração artística das obras. E livros que
não estarão contemplados em um
eixo temático, por exemplo, podem
perfeitamente trocar de lugar se você
achar conveniente. Separamos os livros
dentro de uma proposta, mas seguimos
sempre acreditando que as propostas
apresentadas neste manual não são
“receitas de bolo” que devem ser
seguidas passo a passo, mas sim um
convite para que você, professor-leitor
e mediador de leitura, conheça os
livros e perceba que pode trabalhar a
obra sob diversos aspectos e olhares. E,
sobretudo, que você é o autor de suas
ideias e projetos. Os aqui apresentados
são apenas um convite para despertar
ideias sobre livros e literatura.
Este manual traz diversas possibilidades de trabalho, mas nunca se
esqueça: você é a pessoa que mais
conhece seus alunos e sabe que caminhos trilhar para envolvê-los com
os livros. Eis aqui uma rara oportunidade para professores e alunos se
emocionarem e vivenciarem essas
histórias. Os livros, a leitura e o
encantamento são o ponto de partida.
O ponto de chegada é imprevisível.
Só a imaginação é capaz de saber.
Lembramos que os livros para crianças
e jovens devem ser lidos observando
sempre as histórias contadas pelos
textos e pelas imagens. O autor do
texto muitas vezes não é o autor da
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Anna Claudia Ramos
Verônica Lessa
Atelier Vila das Artes
André Neves
8
a partir de André Neves*
André Neves é escritor e ilustrador (de suas
obras e das de outros autores), é arte-educador
e promove palestras e oficinas sobre Literatura Infantil e Juvenil. Participou do curso de
ilustração para infância em Sarmede, na Itália.
Em 2002, seu trabalho como ilustrador do livro
Sebastiana e Severina foi selecionado para a
mostra itinerante XX Mostra Internazionale
d’Illustrazione per I’Infanzia Stepan Zavrel. Foi
indicado ao Prêmio Jabuti e recebeu o Prêmio Luís
Jardim na categoria Melhor Livro de Imagem com
Seca. Conheça um pouco mais sobre André Neves.
Você se formou em Comunicação Social e hoje trabalha
exclusivamente com literatura e imagens. Quando surgiu
o desejo de contar histórias?
Ao final do curso, quando estagiei
como Relações Públicas no Espaço
Pasárgada, Casa do Manuel Bandeira.
Tive um contato mágico com livros e
com pessoas que amavam literatura.
Ao mesmo tempo, estudava pintura
com uma grande mestra em Recife,
acho que tudo isso me fez perceber
que a minha imagem era narrativa.
Hoje você tem projetos nos quais
assina textos e imagens. Qual
a principal diferença entre os
dois tipos de narrativa? Quando
você começa um projeto autoral
como esse, quem nasce primeiro:
o texto ou a imagem?
Não tem diferença para mim, quando
o livro é autoral, só meu, penso no
livro por inteiro. Nasce primeiro uma
ideia, por imagem ou texto, tanto faz.
Juntas, elas dialogam para estruturar
a criação. O texto forma a imagem
e a imagem estrutura as palavras.
Você nasceu em Recife e hoje
mora em Porto Alegre. Essa
mudança geográfica refletiu na
sua obra? Talvez na mistura de
técnicas das suas ilustrações?
Provavelmente sim. Mas meu fazer
artístico é puramente sentido de
acordo com aquilo que quero contar.
Hoje a maturidade gráfica me ajuda
na composição dos livros. A mistura
técnica, porém, tem mais a ver com
questões estilísticas do que
com questões geográficas. Embora,
confesso e é bastante claro em
meus discursos, as cores e a arte
do Nordeste me encantem e
com certeza apresentem maior
reflexo em minha obra.
Hoje, você tem sua obra reconhecida não só no Brasil como no
exterior. Atualmente, por exemplo,
você dá cursos de ilustração em
Sarmede, na Itália, e é uma referência brasileira por lá. Como tem
sido essa experiência e o que esse
contato com profissionais de outras
partes do mundo acrescentou na sua
forma de representar as histórias?
No exterior, eles têm uma visão diferente do livro ilustrado, do conceito
da imagem. Talvez pela carga de
conhecimento, ou vivência mesmo,
por certo estruturada de forma mais
natural, crescem entre museus e obras
de arte, conceituam mais rapidamente
uma formação do olhar. No Brasil
temos arte criativa, cultural, experimental, aliás, experimentamos muito
nos livros, com grande aceitação dos
editoriais, isso forma outros sentidos
positivos para o livro e a leitura. O que
mais me encanta nessa experiência
com ilustradores estrangeiros e no
contato com outros profissionais é ver
e sentir que a parte cultural no livro
é o que há de mais sensível e original.
Isso tem refletido em meu trabalho.
Você tem ministrado muitas
oficinas, principalmente no exterior.
Passar conhecimento, despertar
no outro o olhar para a leitura
de imagens… isso o fascina? Você
acredita que trabalhar com o
conceito, com a educação, no
futuro, pode ser o seu caminho?
Gosto de sala de aula, de estar junto,
de orientar, de ver um sorriso de
descoberta com as surpresas visuais,
de tentar esclarecer o sentido do livro
e da imagem narrativa. Sim, isso me
fascina. Mais ainda quando alguém
passou por mim e publicou, com
êxito, um bom livro. Meu caminho
tem sido traçado unicamente por
sonho e despertar de afetos. Amo
o que faço e tento mostrar sensibilidades com técnicas. Ser sensível
é entender a vida com o que temos
de mais humano. É dessa forma
que também tento compreender as
dificuldades da leitura literária.
O livro cedeu lugar para outras formas
de ler e isso não é ruim. Muitas
pessoas processam o pensamento com
outros sentidos. A vida contemporânea é caótica e não deixará de ser.
Hoje vejo que a educação e o livro
estão em processo de mudança e
podem, juntamente com a arte, construir essa tal de sensibilidade ampla
que investigo. Esse é meu futuro.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
A resposta ampla, mas focando na
estrutura da pergunta, os próprios pais
e professores. A vida contemporânea
certamente constrói barreiras diante
das inúmeras ofertas de desserviço
social. Para ultrapassá-las a criança
precisa construir sua identidade e
acreditar no seu potencial criativo para
também se encaixar no ambiente leitor.
Isso requer exemplos. Professores que
não leem não encantam, não reconhecem a leitura de raciocínio crítico
e têm dificuldades de romper aspectos
superficiais do livro. Por outro lado,
a educação difusa é essencial, não dá
para delegá-la unicamente à escola. A
leitura faz parte dela. Pais leitores têm
mais êxito nos estímulos dos filhos.
O que você pensa dos livros
digitais para crianças?
Uma outra forma de ler. Também
nova para mim. Estimulante, criativa e requer outro tipo de concentração. Ainda não possui grande
reflexos no meu eu leitor, nem
criador. Mas estou investigando.
Em seu blog, você se define como
“pura imagem. Risco e rabisco. Só
sei ser assim. Como se alma, ilustração fosse. Um borrão desenhado
pelo tempo”. Se você pudesse ter
na cabeceira da cama uma biblioteca André Neves, com os livros que
formaram essa alma-ilustração, que
obras encontraríamos? Por quê?
Teria o que mantenho em minha
cabeceira hoje, catálogos de arte,
catálogos de artistas, livros ilustrados,
para admirar nas últimas pestanejadas
antes de dormir e poder sonhar.
Bia Hetzel
Ambientalista, escritora, fotógrafa, pesquisadora e editora.
Qual dessas Bias ocupa mais
espaço hoje na sua vida?
Grande parte do meu tempo
é dedicado à editora, mas as
outras Bias continuam mais vivas
e atuantes do que nunca.
Alguns de seus livros nasceram
após anos de pesquisa nas baías
de Ilha Grande e Paraty. Navegar,
conhecer novas histórias da terra
e do mar, reais e inventadas, a
rotina dos caiçaras, o nascimento
de novas espécies marinhas... Você
acredita que essa mistura, aliada
a pitadas de fantasia e gotas de
imaginação ajudaram a aproximar
seus livros das crianças? Qual o
ingrediente mágico dos seus livros?
Sem dúvida a mistura das histórias reais e inventadas é o grande
encanto do meu trabalho. Acho que
o ingrediente mágico de qualquer
livro de qualidade é o amor que o
autor imprime ao texto e às imagens.
Não acredito em livros “por encomenda”, só em livros que nascem de
um desejo, de uma experiência, de
uma boa história que alguém tem
muita vontade de compartilhar.
10
a partir de Mariana Massarani*
Escritora, editora, pesquisadora e fotógrafa
profissional, sócia da Editora Manati, as principais
características de seu trabalho são a premiada
produção de livros para crianças e jovens, a especialização em meio ambiente e a colaboração com
projetos de pesquisa e atividades conservacionistas. Recebeu o Prêmio Jabuti de Autor Revelação de Literatura Infantil da CBL e os prêmios
O Melhor para a Criança, Melhor Projeto Editorial
e o Jannart Moutinho Ribeiro, todos da FNLIJ.
Recebeu também várias menções Altamente
Recomendável/ FNLIJ, e o Premium Label White
Ravens da Biblioteca Internacional de Munique.
Conheça um pouco mais sobre Bia Hetzel.
Você se considera um pouco paratiense. Inventou uma “bisbilhoteca”
para o Pouso da Cajaíba com o
pessoal da Casa Azul e com
o escritor e ilustrador Roger
Mello. Em sua opinião, qual é o
maior desafio que o professor hoje
enfrenta na formação do leitor?
Não tenho dúvida de que o maior
desafio que o professor enfrenta para
formar leitores é a questão do valor
social do livro e da leitura. O problema
é que o povo brasileiro, de modo geral,
acha que um bom livro, assim como a
formação dos leitores, não vale quase
nada. Se pensarmos bem, a questão
da falta de material para trabalhar,
de bons livros e bons acervos, que foi
crucial até pouco tempo atrás, está
relativamente bem encaminhada em
vários municípios e escolas, como,
por exemplo, em Paraty. Além disso,
a internet ajuda também no acesso
a bons textos e imagens. Mas pouca
gente está dando a devida importância a isso! É incrível como ainda
tem muita gente dizendo e repetindo
sem nem refletir que “livro é caro”,
por exemplo. Num país em que as
pessoas preferem investir num lanche
de uma cadeia de fast food, ou numa
“escova progressiva” ou num “tênis
de marca”, ou num bibelô eletrônico
qualquer mais do que investiriam em
um bem cultural da grandeza de um
livro, fica muito difícil formar leitores.
Não é só dinheiro que ninguém quer
gastar com livro e leitura, é acima de
tudo tempo. As pessoas têm muitos
outros interesses antes da leitura:
praia, televisão, futebol, churrascaria,
videogame, Facebook... A questão
maior é essa: o valor que damos às
coisas na hora de fazer escolhas. Se
faltam tempo, dinheiro e vontade para
formar leitores no Brasil é porque
o valor social do livro e da leitura
lamentavelmente está beirando o zero.
A Bia Hetzel editora ajuda a escritora a descobrir novas formas
de contar história? Ou é a escritora e pesquisadora que dá à
editora o universo necessário
para aprovar novos títulos?
Essa multidão que me habita
opina em tudo o que faço. Como
várias cabeças pensam melhor do
que uma, eu procuro ouvir todos
os meus eus em cada decisão.
Você ministra palestras sobre
leitura em todo o Brasil. Comprometida com a formação do leitor,
como escritora e editora, acompanha o boom editorial em torno
do meio ambiente, sustentabilidade,
consumo consciente… Como você
avalia essa avalanche de livros
sobre esses temas e o trabalho
que vem sendo feito nas escolas?
Qual seria o melhor caminho para
implementar, nas escolas, uma
política de conscientização?
Acho que a avalanche de livros
sobre sustentabilidade e conservação do meio ambiente refletem a
consciên­cia, as angústias e os valores
do mundo em que vivemos. É como
a história da Ilha de Páscoa: não
estamos destruindo o planeta, e sim
os recursos que o planeta possui e
que propiciam a nossa vida. A Ilha
de Páscoa ainda está lá, quem desapareceu foram seus habitantes e os
recursos que os mantinham vivos...
Quanto mais informação tivermos
sobre isso, melhor, e felizmente há
vários bons livros e bons trabalhos
de reflexão em curso em escolas de
todo o Brasil. Mas eu sempre lembro
que sem leitores críticos e conscientes
não conseguiremos equacionar o
problema da sustentabilidade da vida
humana. E isso a gente não consegue
só metralhando as mentes com informação, mas alimentando-as com
literatura, poesia e imaginação.
O que você pensa dos livros
digitais para crianças?
Adoro livros e todos os suportes me
interessam. A Manati foi pioneira
no lançamento de livros-brinquedos
em suporte digital, e os resultados
que temos visto são incríveis.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Bia
Hetzel, com os livros que mais
marcaram a sua história, que
obras teriam nela? Por quê?
Nossa, acho que só daria para ter
uma biblioteca dessas na minha cabeceira se fosse em meio digital, caso
contrário meu marido iria reclamar
muito de dormir ao lado de uma
montanha de livros de papel (na
verdade, ele já reclama um pouco
das grandes pilhas que estão sempre
rondando meu travesseiro...). Na
infância, os livros que mais me
marcaram, além de todos os contos
dos Irmãos Grimm e de muitos do
Andersen, foram Reinações de Narizinho, A fada que tinha ideias, todos
os Asterix, todas as Mafaldas, centenas
de gibis do Mauricio de Sousa, da
turma da Luluzinha e também da
Disney. Na adolescência, todos os
livros do Machado de Assis, além
das obras completas do Drummond,
da Cecília Meireles, da Adélia Prado,
do Augusto dos Anjos, do Fernando
Pessoa e muitos outros. Eu era tão
voraz nessa época que acho que
entre os 15 e 20 anos li quase tudo
de poesia que existia publicado em
língua portuguesa. Aos 20 descobri
Guimarães Rosa: e isso não foi uma
marca, foi uma revolução na minha
vida. O Grande sertão e o Primeiras
estórias viraram meus livros de
travesseiro (a cabeceira já estava
lotada). Depois disso descobri Euclides
da Cunha, Clarice Lispector, Henfil,
Karen Blixen… Para resumir: livros e
gibis foram sempre tão importantes
na minha vida que acho que daria
para listar um título para cada dia
dos meus 44 anos bem vividos!
Braulio Tavares
Escritor, poeta e compositor brasileiro, Braulio
Tavares também estudou cinema. É pesquisador de literatura fantástica e ficção científica, e compilou a primeira bibliografia de
literatura do gênero na literatura brasileira, o
Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional,
Rio, 1992). Atualmente, é colunista de jornal e
escreve roteiro para shows, cinema e televisão.
Conheça um pouco mais sobre Braulio Tavares.
Você diz que cresceu numa casa
cheia de livros e que seus pais
sempre incentivaram a leitura.
Você acredita que isso influenciou sua escolha profissional?
Acho que sim, mas essas escolhas são individuais. Somos quatro
irmãos, fomos todos criados juntos,
e somente eu e a mais velha,
Clotilde, nos tornamos escritores.
O amor pelos livros e pelo conhecimento é compartilhado por
todos, mas o jeito para escrever eu
acho que uns têm e outros não.
Você estreiou em livro com A
pedra do meio-dia, ou Artur e
Isadora, em 1979, e, depois em
1980, com As baladas de Trupizupe,
ambos de cordel. Fale um pouco
dessa identidade do seu trabalho
com a literatura de cordel.
A pedra do meio-dia foi escrito em
1975, quando eu estudava Ciências Sociais na UFPB e convivia
com os poetas, violeiros e cordelistas de Campina Grande. Li cordel
muito intensamente nessa época,
e decidi escrever um folheto que
fosse parecido com os clássicos do
gênero “maravilhoso”, escritos por
pessoas como Leandro Gomes de
Barros, João Martins de Athayde,
Delarme Monteiro e outros.
As baladas de Trupizupe foi publicado
em forma de folheto, mas, tecnicamente, não é literatura de cordel
— eu usei o formato do folheto para
publicar letras de minhas canções.
Naquela época, eu cantava nos bares,
nas universidades etc., e depois
vendia o folheto com as letras, que
são muito longas e que o pessoal
achava interessantes. Mas meu show
era um show de MPB, voz e violão,
não tinha muito a ver com o cordel.
Você publica diariamente no Jornal
da Paraíba. São artigos sobre literatura, cinema, música etc. voltados
ao público em geral. Mas você
também publica algumas reflexões
sobre literatura infantil, literatura
oral, educação etc. Sua relação
com a música sempre foi muito
estreita, desde trilhas para teatro
até a parceria com Lenine. Para
você, quais as principais diferenças
entre todas essas linguagens (poesia,
literatura, cordel, teatro, música)?
Cada forma de expressão é única.
Certas coisas só se pode dizer com
teatro, outras só se pode dizer com
pintura, outras com poesia, e assim
por diante. Gosto de experimentar
maneiras diferentes de criar, tenho
curiosidade em aprender, e acho
que tudo que aprendo se reflete
nos meus textos, que para mim são
a parte mais importante — meus
contos, poemas, artigos e ensaios.
Você nasceu em Campina Grande,
na Paraíba, e hoje mora no Rio de
Janeiro. Além de poeta, escritor e
compositor, você estudou cinema
na Escola Superior de Cinema da
Universidade Católica de Minas
Gerais, é pesquisador de literatura fantástica, compilou a
primeira bibliografia do gênero na
literatura brasileira, o Fantastic,
Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca
Nacional, Rio, 1992), é colunista
de jornal e escreve roteiro para
shows, cinema e televisão. Você
acredita que essa mudança geográfica lhe deu múltiplos olhares e
o tornou um artista de muitas
inquietações? Como chegou à
literatura infantil e juvenil?
Eu nunca tive projeto de escrever
literatura infantil e juvenil. A pedra
do meio-dia foi escrita para ser um
cordel, e no Nordeste os leitores
de cordel não têm idade. Todo
mundo lê tudo. Adultos que leem
cordel também gostam de histórias de princesas e dragões.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
Eu vejo os jovens, principalmente após
os 12 anos, muito impacientes com a
escola, desinteressados, desmotivados.
Em parte é por preguiça, em parte é
porque os smartphones e computadores lhes trazem estímulos muito mais
divertidos. Mas em parte é porque a
escola está presa a muitos modelos de
ensino que não funcionam. Os jovens
se enchem da escola e vão gastar
sua energia criativa em outras atividades. Já ouvi professores de 50 anos
dizendo: “Eu acho que estou ensinando
tudo de uma maneira errada, mas
eu sou Velha Guarda, só sei ensinar
assim, vai ser preciso descobrir uma
maneira nova, que atraia essa galera”.
Meu livro que ganhou o Prêmio Jabuti
de Literatura Infantil, A invenção do
mundo pelo Deus-curumim, foi escrito
inicialmente para ser o roteiro de um
balé, que não chegou a ser produzido. Só depois chamei o Fernando
Vilela para fazer as ilustrações e
transformar a história em livro.
De que forma você vê a cultura
popular nos tempos atuais de
globalização? O que você pensa
dos livros digitais para crianças?
Deixando de lado as questões de
direitos autorais, remuneração do
autor, pagamento dos livros etc. todo
o quadro produzido pela cultura
digital é muito positivo. Textos em
domínio público podem ser difundidos,
multiplicados, traduzidos, adaptados,
utilizados de mil maneiras por livros,
filmes, peças, programas de TV. A
cultura popular — que pertence a
todos — é o maior manancial de histórias a ser explorado pela internet.
Não penso muito que estou escrevendo para crianças. Penso que
tenho uma história altamente interessante para contar e que devo
contá-la com simplicidade, para que
a história se imponha por si só.
12
a partir de Braulio Tavares*
Essa maneira nova é o grande desafio,
porque os governos de um modo
geral (federal, estaduais e municipais)
não estão nem aí para a educação.
De cada geração de brasileiros que
nasce, metade é jogada no lixo.
Os livros digitais são importantes, mas
não como uma substituição do livro
impresso. Vi um cartum que mostrava
alguém entregando um livro a uma
criança e dizendo: “O nome disto é
‘livro’, e serve para instalar softwares
em seu cérebro”. É um pouco isso.
Quando lemos um livro, não estamos
apenas aprendendo a ler aquele livro,
estamos aprendendo a pensar concentradamente, a correlacionar estímulos verbais e memória, a abstrair,
a imaginar, a visualizar de forma
criativa algo descrito em palavras.
Nenhum GIF animado e nenhum clipe
de imagens pode superar a riqueza
e a importância desse processo.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Braulio Tavares, com os livros que
mais marcaram sua história, que
obras teriam nela? Por quê?
Minha biblioteca é um pouco assim,
tenho cerca de 3 a 4 mil livros.
Metade deles uso para referência e
consulta. E um dos meus passatempos
é encontrar em sebos os livros que
li quando garoto, e estou reconstituindo minha biblioteca daqueles
tempos. Ali estão Monteiro Lobato,
Malba Tahan, Conan Doyle, Maurice
Leblanc, H. G. Wells, Ellery Queen...
Não são os autores mais importantes do mundo, mas são os mais
próximos da minha memória afetiva.
Cris Eich
Pós-graduada em História da Arte, trabalhou como ilustradora em agências de propaganda, colaborou com jornais alternativos
nos anos 1990 e em revistas da editora Abril.
Hoje tem mais de cinquenta títulos ilustrados.
Conheça um pouco mais sobre Cris Eich.
Sua mãe é alfabetizadora e seu pai,
professor de português e literatura.
Você é pós-graduada em História
da Arte e trabalhou em agências
de propaganda. Como começou o
seu interesse pelo trabalho com
imagens e com a literatura infantil e
juvenil? Você acredita que seus pais
influenciaram sua escolha? Quando
surgiu a Cris Eich ilustradora?
Por gostar de ler e desenhar, no dia
em que descobri que seria possível
trabalhar unindo as duas atividades,
fui fisgada sem chance ou vontade
de escapar. Nos meus tempos de
colégio, tive aulas de educacão
artística com um professor que era
também ilustrador (olha a importância da figura do professor, do
mediador) e ali comecei a traçar meus
planos: desde então foi aprimorar
a técnica, o desenho, e amadurecer
como criadora de imagens, até achar
que tinha condições para ilustrar
um texto literário de verdade. Esse
processo durou muito tempo.
Que livros marcaram a sua infância?
Apesar de meus pai serem professores,
havia muitos livros em casa, mas
poucos que pudessem ser chamados
de literatura infantil e juvenil, por
isso era prática comum lê-los e relê-los: Escaravelho do diabo, de Lúcia
Machado de Almeida (o campeão de
releituras); O menino do dedo verde,
de Maurice Druon; Coração de vidro,
de José Mauro de Vasconcelos; tudo o
que Carlos Heitor Cony escreveu para
adolescentes; O tempo e o vento, de
Erico Verissimo; os doze volumes do
Sítio do Picapau Amarelo (edição da
Brasiliense), ilustrados por Manoel
14
a partir de Cris Eich*
Vitor Filho, me fizeram pensar em ser
ilustradora; O gênio do crime, de João
Carlos Marinho. E, desse mesmo autor,
O caneco de prata. Sobre O caneco
de prata, posso afirmar que foi meu
primeiro livro ilustrado: quando li
na adolescência, fiquei tão entusiasmada com a história que eu mesma
peguei lápis e caneta e comecei a
desenhar as personagens e as cenas
no próprio livro. Rabisquei, desenhei
o livro todo para poder lê-lo novamente, agora em edição ilustrada!
(risos). Anos depois, já como profissional, ouvi falar que João Carlos
Marinho não nutre grandes simpatias por ilustração em seus livros…
Você ilustra livros de outros autores,
mas também publicou um livro de
imagem de sua autoria. Como foi
essa experiência? Trabalhar com os
dois tipos de narrativa ao mesmo
tempo foi mais fácil? Quem nasceu
primeiro, o texto ou a imagem?
Pretende continuar desenvolvendo
projetos de texto e imagem?
Para mim, ler imagens parece coisa
natural, um processo comum como
abrir um livro e ler a primeira página.
Descobri que as coisas não são bem
assim, que precisamos ensinar as
pessoas desde muito jovens ou desde
crianças a “se alfabetizar visualmente”, porque existe informação
visual à nossa volta o tempo todo
e é importante que aprendamos a
entender seu significado, para poder
viver melhor. Por isso, passei também
a pensar histórias que pudessem
ser contadas só através de imagens,
que foi o caso desse livro e de
outros que ainda ganharão vida.
Jamais pararei de ilustrar bons
textos de outros autores, porque
também adoro criar os diálogos
entre linguagem verbal e visual,
ainda estou descobrindo as múltiplas possibilidades desse diálogo.
No princípio era o verbo, está
escrito. No princípio era o traço
— faz mais sentido para mim.
Por que trabalhar exclusivamente com aquarelas?
Aquarela é transparência, é o branco
do papel, são os pigmentos diluídos
com goma arábica e um pincel. É a
gota d’água em viagem pelo papel,
viagem imprevisível em que sou
surpreendida e tento tirar proveito
das reações naturais. Aquarela é plena
concentração, é desligar-se de tudo
e ser transportada pela pincelada.
Aquarela é o gesto que fica para
sempre registrado, mesmo que tenha
sido um erro, fica como testemunho
do embate entre quem pinta e os
mistérios e vontades da aguada.
Ainda tenho muito que aprender
para pensar em mudar de técnica.
Você ilustrou diversas reedições
de clássicos da literatura. Teve
dificuldades em dar novas roupagens a personagens tão conhecidos? Por exemplo, sua versão
da Alice (da obra Alice no país
das Maravilhas) é morena. De que
forma essa releitura foi recebida
pelos editores e pelos leitores?
Sente um friozinho na barriga
ao ilustrar clássicos? Como
criar um novo rosto quando a
personagem já tem tantos?
Meu processo é ir lá no início de tudo,
tentar entrar no mundo que cerca o
autor do texto através de leituras e
pesquisa iconográfica (dedico muito
tempo a essa etapa), onde ele vivia,
trabalhava, que pessoas e assuntos
faziam parte de seu dia a dia. Foi assim
com Lewis Carrol, entre gravuras e
fotos (minha Alice é a menina vizinha
do autor). Por exemplo, existe uma
referência muito, muito forte, dos
desenhos animados da Disney, por
isso, uma das funções do trabalho
de ilustrar uma outra Alice é sinalizar que existiram outras versões
para ela, além daquela de cachinhos
dourados do desenho animado.
Também procedi dessa forma com os
contos de Grimm que ilustrei em 2012
(recontados pela Ana Maria Machado).
Mas posso dizer que meu xodó foi
recriar as personagens do Sítio, especialmente minha versão da Emília.
Quais são suas maiores influências?
Imagino que você também carregue
influências de seu período como
estudante de História da Arte…
Se começo a desenhar uma pessoa
e estou assim meio destraída,
pimba! Lá vem o traço com a cara
do Ziraldo. Inevitável, anos lendo o
gibi da Turma do Pererê deixaram
sua marca. Assim como a anatomia
do Manoel Victor (ilustrador dos
Doze trabalhos de Hércules, no
Sítio do Picapau Amarelo).
Procuro sempre transmitir em
minhas ilustrações alguns dos
conceitos e soluções que aprendi
estudando História da Arte. Seja
nas composições das gravuras japonesas, fonte de toda a arte de nosso
tempo, seja nas soluções gráficas
ou na poesia de meus pintores mais
queridos (Anita Malfatti, Lasar
Segall, Nicholas de Staël, De Chirico,
Klimt, Paul Klee e William Turner).
O que você pensa sobre os livros
digitais e os livros para bebês?
Você acredita que são caminhos
para formação do leitor literário?
Espero viver ainda muitas décadas,
tempo o bastante para apreciar para
onde nos levará a experiência de
leitura num livro digital. Acredito que
será completamente diferente do que
o que já temos hoje, inimaginável para
mim, mas diferente do folhear das
páginas. Talvez revolucionária como
foi o cinema há cem anos? Já pensou?
Teremos a versão original, por exemplo,
uma obra que acho que foi muito bem
adaptada, como Morte em Veneza,
em livro, em cinema e… sabe se lá
que outra experiência nos aguarda.
Mas não vamos misturar as coisas,
estou pensando em adultos, porque
bebês ainda precisam aprender que
existe papel, que papel rasga, que
molha, que estraga, que existe pano
(adoro presentear bebês com livros de
pano), que tem gosto, que suja e que
lava, que existem livros de plástico,
que os materiais são diferentes e que
tudo deve ser experimentado e aprendido, até o universo digital, que para
eles é coisa absolutamente natural.
Se você pudesse ter na cabeceira
da cama uma biblioteca Cris Eich,
que livros teriam nela? Por quê?
Eu tenho bem pertinho da cabeceira
alguns livros de estimação, os que
dobrei páginas, marquei frases, capítulos e que estou sempre pegando e
relendo trechos. São histórias e personagens que me acompanham mesmo
depois de eu ter fechado o livro.
Posso listá-los? A duração do dia,
poemas de Adélia Prado (este está
mesmo na cabeceira!); Machado
de Assis, Dom Casmurro ou contos
(como “O Alienista”); Clarice Lispector,
Felicidade Clandestina ou Cidade
Sitiada; Guimarães Rosa, Manuelzão e
Miguilin ou Grande Sertão ou Sagarana (“O burrinho perdês”, “A terceira
margem do rio”); Saramago, Evangelho
segundo Jesus Cristo; Virginia Woolf,
Mrs Dalloway ou As ondas; Robert
Musil, O homem sem qualidades;
Thomas Mann, Dr. Fausto; João Silvério
Trevisan, Anna em Veneza; Hermann
Hesse, Sidarta; Proust, No caminho
de Swann; Tolstói, Anna Karenina;
Dostoiévski, Os irmãos Karamazov,
trecho do grande inquisidor; Tchecov,
Tio Vania ou A gaivota; Gogol, O
capote e outros contos; Marguerite
Yourcenar, Memórias de Adriano;
Oscar Wilde, Retrato de Dorian Gray;
Amin Maalouf, Samarcande; Antologia de contos brasileiros ou Os cem
melhores contos brasileiros do século.
Eloar Guazzelli
Eloar Guazzelli foi premiado no Yomiuri International Cartoon Contest (1991) e no Salão
Internacional de Piracicaba (1991, 1992 e
1994). Seus trabalhos foram publicados na
Argentina, na Fierro e na Lápíz Japonés,
e na Espanha, na El Ojo Clinico. Conheça
um pouco mais sobre Eloar Guazzelli.
Você tem algumas profissões:
professor de artes plásticas, diretor
de arte para animação profissional,
técnico de cinema, ilustrador e
quadrinista. Quais dessas experiências ocupa mais tempo no seu dia a
dia? Foi uma escolha ou uma forma
de entrar no mercado de trabalho?
Venho de uma família que sempre
motivou o interesse pelas artes, sem
fazer distinção. Por conta da convivência com meus irmãos mais velhos,
eu tive contato com a produção
de quadrinhos. Nos anos 1980,
comecei a buscar um lugar para o
meu desenho (entrei na faculdade
de Belas-Artes e também comecei a
trabalhar com desenhos animados).
Surgiu então a possibilidade de trocar
meu papel de leitor pelo de autor
numa linguagem em escala industrial e isso serviu de laboratório para
elaborar minhas primeiras histórias.
Apesar de já cooperar com publicações de São Paulo, Buenos Aires e
Espanha, minha produção nos anos
1990, e até 2005, foi bastante irregular, e minha vida profissional nesse
período ficou mais focada na direção
de arte para cinema de animação.
Porém, o nascimento de minha filha
Flora, em 2004, mudou radicalmente
essa situa­ção. Passei a sentir necessidade de realizar um trabalho autoral,
que logo se traduziu em dois álbuns:
O relógio insano e O primeiro dia.
Começaram a surgir oportunidades
de fazer adaptações de textos literários para quadrinhos: O pagador de
promessas, A escrava Isaura, Demônios, a obra de Fernando Pessoa.
Uma atividade que se desenvolveu
16
a partir de Eloar Guazzelli*
em paralelo com a de direção de
arte para cinema de animação, agora
para longa-metragem, e também
a uma maior inserção no mercado
editorial voltado para o público
infantojuvenil. Portanto, creio que o
transitar entre linguagens (realçado
pela formação acadêmica em Artes
Plásticas) sempre esteve presente de
forma natural nas minhas atividades,
sendo que a “hegemonia” de cada
atividade se dá por períodos, sem
ocorrer nenhum momento em que
eu abandone em definitivo alguma
dessas expressões. Até porque elas se
alimentam, interpenetram e influenciam o tempo todo. E giram sempre
em torno do prazer de desenhar.
Em sua opinião, quais as principais diferenças entre a
linguagem de animação e a
de quadrinhos/ilustração?
Sou pesquisador de quadrinhos
(defendi tese de mestrado sobre
Zé Carioca) e frequentei de 2006
a 2009 o observatório de pesquisa
sobre quadrinhos na USP. Começaria a responder pelas semelhanças,
pois foram estas que estabeleceram
fortes vínculos entre as duas linguagens. Isso porque os quadrinhos são
uma espécie de “gêmeo” do cinema,
infelizmente um par meio maldito,
vítima por muito tempo de forte
preconceito, e considerados artes
menores. Situação que efetivamente
começou a ser debelada a partir de
forte movimento entre intelectuais e
pesquisadores no pós-guerra. Então
os quadrinhos são vistos como uma
arte autônoma e acima de tudo tão
rica e sofisticada quanto as demais, e
deixam de ser vistos como se fossem
apenas um produto comercial para
crianças e adolescentes. Os quadrinhos realmente têm características
narrativas e estruturais que são
comuns ao cinema. O que estabelece
o “corte” entre essas linguagens são as
diferenças estruturais do quadrinho,
que acontece no meio impresso (isso
está mudando) e tem uma leitura
mais ativa por parte do público, ou
o caráter extremamente industrial e
portanto mais coletivo da produção
cinematográfica (mas que também
pode ocorrer nas HQ produzidas em
escala massiva). Mas, felizmente, por
conta das convergências de mídia da
era digital que sinalizam plataformas
de exibição e consumo cada vez mais
hibridas, essa é uma condição que
está sendo superada a cada dia.
O que você pensa do boom editorial em torno dos quadrinhos?
Hoje, muitas editoras optaram
pela publicação de clássicos da
literatura adaptados para quadrinhos. Você acredita que essas
versões atraem novos leitores?
Acho que sempre houve uma variedade de quadrinhos no Brasil, mas
para públicos restritos, em geral com
um caráter de produção independente. O que realmente mudou é que
estamos construindo uma produção
em escala industrial de um tipo de
quadrinho que antes estava restrito
àquelas produções em escala menor.
Hoje em dia — por conta de inovações
técnicas, como o advento do computador pessoal e da rede mundial de
computadores — estão no limiar de
um grande salto qualitativo, em que
deixaremos de ser um país formador
de profissionais qualificados para
nos apresentarmos como um centro
de produção de conteúdo. Ou seja,
estamos no caminho — difícil e cheio
de obstáculos — para construirmos
uma estrutura de produção em escala
industrial. Panorama em que as adaptações e os conteúdos paradidáticos
irão desempenhar importante papel,
por conta das compras em larga
escala para uso na rede escolar.
Como foi adaptar a obra
de Fernando Pessoa?
E A escrava Isaura?
Achei interessante o desafio de
adaptar A escrava Isaura, porque
esse livro teve na sua adaptação para
te­lenovela o maior êxito da teledramaturgia brasileira. Mas Pessoa
foi mais difícil, porque o significado
desse autor é enorme para a nossa
cultura. Por isso, quando aceitei
fazer um álbum sobre esse escritor,
foi com grande entusiasmo que
encarei o trabalho, mas tinha plena
consciência de que, além de uma
grande honra, eu tinha também um
tremendo desafio pela frente, afinal,
eu desenharia a partir de um texto
maravilhoso, de um verdadeiro ícone
da nossa vida cultural. Uma grande
responsabilidade! Ao longo de todos
os meses de trabalho que um álbum
de quadrinhos requer, pairava sobre
mim a figura do Pessoa. Eu sempre
admirei com fervor seu trabalho,
portanto tinha a exata noção do privilégio que representava trazer para o
plano das imagens o seu universo.
Você diz que conhece os livros
da sua infância pelo cheiro
das obras, das coleções... O
que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens?
Ainda é cedo para avaliar e tenho
medo de assumir uma atitude reacionária que sempre condenei na minha
juventude, como o preconceito contra
os quadrinhos e a TV. Mas tenho receio
de duas coisas: uma excessiva predominância do audiovisual, pois essas
plataformas favorecem linguagens
híbridas, e também um caráter lúdico
demais, um excessivo peso no caráter
de entretenimento que algumas obras
parecem carregar. Ainda acho que a
literatura tradicional é a coisa mais
interativa que se inventou, nada é
maior do que a força do imaginário
puro e simples. Mas, como disse, ainda
é cedo e também tenho interesse em
experimentar essas plataformas.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Eloar Guazzelli, com os livros que
mais marcaram sua história, que
obras teriam nela? Por quê?
Por obra de meus pais, os livros
sempre fizeram parte da minha vida.
A eles devo o aprendizado da melhor
forma de estimular o amor pela literatura, através do simples exercício do
exemplo. Acredito que são bastante
válidas as iniciativas de fomento ao
hábito da leitura que hoje abrangem
um amplo conjunto de ações no
ambiente escolar, porém tenho minhas
reservas quanto a sua plena eficácia,
se os estudantes não encontram em
casa um exemplo. Por essas razões, me
sinto realizado em dar continuidade
a um processo mágico que veio lá da
minha infância, quando percorria com
o olhar fascinado as várias estantes da
casa paterna e descobria maravilhado
que os livros eram a “casa” de ilustrações fantásticas, muitas vezes tão
poderosas quanto a magia dos textos
que as haviam inspirado. Numa enciclopédia chamada Trópico, descobri
a Guerra de Troia, meu tema favorito
aos sete anos. Também mergulhei nas
selvas de Tarzan, viajei no Oriente com
as aventuras de Karl May e até voei
com Júlio Verne. E através do gênio
de Monteiro Lobato, encontrei meu
próprio país. Pouco depois, descobri
Gustave Doré! Nunca mais o mundo
seria o mesmo, nem meu desenho, que
deixou de ser um exercício solitário
a partir do momento em que percebi
que eu fazia parte de um grande fluxo
de ideias e sonhos. E os autores se
sucedem e alguns marcam determinados períodos. Mas hoje já tenho
meus clássicos, aqueles recorrentes,
que sobrevivem ao grande crítico
que é o tempo: Dostoiévski, Babel,
Maupassant, Eça, Borges, Malaparte...
Difícil citar, porque sempre serei
injusto. A maior descoberta para mim
foi entender os autores que mais me
tocaram como verdadeiros amigos,
o que de fato são, posto que a literatura na minha vida tem sido apoio
indispensável nos momentos difíceis,
quando tudo parece confuso e sem
perspectiva. Nessas horas, alguns
livros são o lastro que me mantém
no prumo em plena tempestade. Por
outro lado, se não fosse sua poderosa força como motor de propulsão
da criatividade através do exercício
da imaginação, sinto que minha vida
seria pequena, limitada como uma
pequena habitação. Como um quarto
fechado e sem livros nas paredes…
Jean-Claude Alphen
Um carioca com nome francês e que
hoje mora em São Paulo. Esse olhar
múltiplo, que reflete suas diversas
raízes, influencia a sua obra?
Certamente. Como morei onze anos
na França, toda a infância, acho que
há certamente muita influência disto
no meu trabalho. E hoje em dia, devo
sondar estas reminiscências constantemente. Não sei até que ponto poderia
avaliar os limites dessas influências
ou como elas se processam no texto
escrito. É mais fácil constatar isso nas
ilustrações, assim, creio que o estilo
do meu desenho vem de raízes mais
europeias do que brasileiras, copiei
muito quadrinho francês e belga
quando garoto. A minha formação
na obtenção do traço vem mesmo
do quadrinho, da cópia de mestres
dessa arte, como Hergé (Tintin) e
Uderzo (Asterix). Aprendi o manejo
das cores no Brasil e desconfio que
sejam muito mais vibrantes e alegres
por essa razão. Quanto ao humor,
acho que é mesmo uma mescla
desse caldeirão de influências.
Você tem uma irmã escritora
(Pauline Alphen). Acredita que,
de alguma forma, a infância ou
a família, direcionou a escolha
profissional de vocês? Sim, havia muito envolvimento com
literatura e arte em casa. Em casa,
sempre houve uma forte inclinação
para esse lado e foi claramente
incentivado pelos nossos pais.
Você se formou em Comunicação
Social, com habilitação em Propaganda na ESPM. Mas seu primeiro
trabalho foi como caricaturista
18
a partir de Jean-Claude Alphen*
Formado em Comunicação Social, foi laureado
duas vezes como autor com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), recebeu
também o prêmio da Revista Crescer dos 30
melhores livros infantis do ano, o Prêmio Literário Glória Pondé de melhor livro infantil
e juvenil da Fundação Biblioteca Nacional e
foi finalista do Prêmio Jabuti como melhor
ilustrador de literatura infantil. Conheça um
pouco mais sobre Jean-Claude Alphen.
no Jornal da Tarde. Trabalhar com
imagens sempre foi seu desejo?
Também quase me formei em Marketing, mas abandonei o curso no
penúltimo semestre. Sem dúvida,
não me lembro de deixar de desenhar um só dia na minha infância.
Sempre foi meu maior prazer, uma
paixão. Acredito que precisava muito
das imagens, pois minha timidez na
infância me limitava na socialização,
e no desenho tudo era possível. O
desenho era meu melhor amigo. Meus
primeiros trabalhos comerciais foram
caricaturas; trabalhei no Jornal da
Tarde e num jornal literário. Sempre
gostei de distorcer no desenho. Até
hoje, gosto de exagerar num nariz,
numa orelha, numa barriga...
Desde 2007 você deixou de assinar
apenas como ilustrador, publicando também seus textos. E você
diz que hoje enxerga a literatura
infantil como um casamento do
texto com as ilustrações. Em que
momento você desejou colocar
texto nas suas imagens? Ou, em
seu caso, os textos nascem antes
das formas? Ficou mais difícil ilustrar textos que não são seus?
Isso aconteceu quando eu quis dar
meu recado. Falar do que me é
precioso, questões que considero
importantes do meu ponto de vista.
São questionamentos de um adulto e
espero que possam ser com­preendidos
pelas crianças. E ilustrando apenas
textos de outros autores, eu não
podia fazer exatamente isso.
Sim, o texto sempre vem antes de
tudo. É bem simples; escrevo e depois
coloco no papel as imagens que me
ocorrem. Claro que, depois, pode
acontecer o inverso, acrescentar uma
imagem e editar um texto em cima.
Não ficou mais difícil, ficou diferente e é sempre muito bom.
É ótimo poder também ilustrar histórias que eu jamais escreveria, em
estilos diversos. Considero outro
tipo de trabalho, bem distinto do
que pensar um livro inteiro (texto e
imagens). Quando escrevo um texto,
a minha vontade é ver transformados esses dois meios de expressão
aparentemente distintos em uma só
linguagem. Isso até mesmo é verdade
quando o texto e a imagem divergem.
Não importa. Num casamento nem
sempre há concordância o tempo todo.
É isso que pode enriquecer o diálogo.
Quando ilustro um texto de outro
autor, dificilmente posso mudar algo
do texto ou eliminar algum trecho
ou acrescentar texto para uma nova
imagem. Por isso, tenho certas limitações. Talvez devesse haver mais envolvimento entre o autor e o ilustrador,
se houvesse isso, o processo poderia
se assemelhar mais ao que ocorre
quando há um único autor tanto das
imagens quanto do texto. Mas fazer
isso é mais complicado. O editor
continua sendo o melhor mediador.
Você é conhecido por ter um traço
mais voltado para o humor. Considera essa uma característica essencial da sua obra? Você acredita
que por esse viés (o humor) é mais
fácil capturar a atenção do leitor? Sim, até agora acho que sou mais
conhecido por navegar bem com
o humor. É natural para mim.
Tenho comichão para encarar as
questões da vida com humor.
Sim, talvez seja também por isso,
não tinha pensado muito nisso até o
momento. Pode ser que, como pessoa,
eu sempre tenha obtido mais atenção
pelo viés do humor e isso foi sendo
transferido de forma espontânea ao
meu trabalho. O que me move mais
para o traço de humor é o prazer.
Preciso intercalar os estilos, se
trabalho muito tempo com algum
traço mais contido, me sinto mais
preso, e acabo sempre voltando para
o humor. Mas isso não quer dizer que
me limito ao humor, já fiz trabalhos
mais “sérios” (entre aspas porque
não entendo o humor como sendo
algo irresponsável) e mais tristes,
mais reflexivos e gosto muito. Espero
não ser rotulado como autor exclusivo de textos e desenhos de humor.
Isso seria reduzir consideravelmente
minhas possibilidades de temas.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
Acho que é a concorrência dos meios
tecnológicos, em particular das
mídias sociais. Não conheço nenhuma
pesquisa sobre isso com crianças e
adolescentes, sou bem leigo nisso,
mas acho que os livros de papel
já devem estar perdendo espaço.
Espero estar enganado. Aqui em casa,
sempre incentivamos a leitura, mesmo
sabendo que a força do computador
é desproporcional. Quando estamos
numa livraria, sugerimos que nossas
filhas façam uma compra. Os pais
devem incentivar o tempo todo,
conversar sobre a importância da
leitura de bons livros. Para mim, a literatura refina a inteligência e o raciocínio, amplia os horizontes e derruba
muitas fronteiras. Os livros educam o
olhar, para o outro e para o mundo.
O que você pensa dos livros
digitais para crianças?
Bom, este é um assunto complicado para mim. De fato o livro tem
esse concorrente de peso agora.
Ou talvez o fato de poder inserir livros
nele seja uma solução para atingir mais
leitores. Felizmente ou infelizmente
para mim, pertenço a uma outra
geração, que ama o objeto “livro”.
Para as crianças, o que eu tenho visto
tem mais a consistência de brinquedo
do que de livro. São aplicativos. Ainda
não me atraiu, mas acredito que deva
funcionar bem. Certamente ainda
vão achar um justo equilíbrio entre
o que é esse objeto com aparência
de um livro e o objeto próximo do
entretenimento. Não saberia dizer
qual o melhor caminho. Por enquanto,
ele navega sem se decidir entre
essas mutações ou serve apenas
como um suporte para a leitura.
Agora, o que acho muito interessante
relativo à minha área é que agora
as editoras buscam investir mais
na beleza e criatividade do objeto
“livro”. Talvez este seja o verdadeiro
caminho para que ele se sobressaia
em relação à experiência do digital.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Jean-Claude Alphen, que
livros teriam nela? Por quê?
Gosto muito de Hermann Hesse,
Pirandello, Marguerite Yourcenar, Jean
Giono, René Barjavel, Tolkien, Frank
Herbert, Victor Hugo, Émile Zola,
Nikos Kazantzakis, Maurice Druon,
Tolstói, Dumas, Eiji Yoshikawa. São
tantos autores incríveis que seria quase
impossível falar de apenas alguns.
O grande prazer da leitura é fazer
o tempo todo novas descobertas.
Assim sendo, posso falar dos últimos
livros que ficaram um bom tempo
na cabeceira e que me marcaram:
O retrato de Dorian Gray, de Oscar
Wilde, O grande Gatsby de Fitzgerald, O lobo da estepe, de Hesse, A
divina comédia, de Dante Alighieri,
Matias Pascal, de Pirandello, e Minha
querida Sputnik, de Haruki Murakami.
Agora, se eu tivesse que falar de
um único livro que mudou muito
meu ponto de vista sobre a vida, eu
mencionaria de Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche. Porque
toca fundo em todos os aspectos mais
importantes da condição humana.
Nem sempre é um livro confortável,
principalmente para quem está seguro
de suas crenças e verdades. É meio
arrasa-quarteirão. É revelador e,
todas as vezes que o leio, entendo
mais alguma coisa ou não entendo
ou entendo de maneira diferente.
Acho que ainda vou ter que ler muitas
vezes. E é isso que espero de um bom
livro; que ele possa ser transformador, que seja literatura de fato.
Karen Acioly
Autora e diretora teatral, com dez livros publicados, recebeu os principais prêmios do teatro
para crianças e jovens, entre eles o Prêmio
Lúcia Benedetti, o Mambembe, o Sharp, o Coca-Cola, o Maria Clara Machado e o prêmio da
Revista Época de melhor programação de
teatro infantil da cidade do Rio de Janeiro.
Conheça um pouco mais sobre Karen Acioly.
Quem veio primeiro, a diretora teatral ou a escritora?
A primeira peça que escrevi originou
a primeira peça que dirigi. Tudo junto,
em harmonia. E eu nem percebi.
Alguns de seus livros são adaptações de suas obras teatrais ou os
roteiros é que nascem das histórias?
Cada filho é diferente do outro
e veio ao mundo por motivos
e missões diferentes (risos).
Fedegunda, que terá o lançamento
na Flipinha (Editora Rocco), será um
livro inspirado na obra teatral. Já o
Iluminando a História, por exemplo,
partiu do teatro, virou livro em prosa
e novela radiofônica. Fina surgiu em
prosa e depois adaptei para o teatro.
A excêntrica família Silva virou
roteiro cinamatográfico e era
uma opereta. E por aí vai...
Qual a principal diferença
entre essas narrativas?
A linguagem. Fina, por exemplo,
virou série para TV, então o mundo
da Fina cresceu em possibilidades
internas e externas. A literatura cria
a existência de uma história: inteligência, clima, imagens, emoções,
dinâmicas. Depois de tudo isso, fica
mais fácil transpor. As outras linguagens realizam o que já está no imaginário do universo escrito num livro.
20
a partir de Nathalia Sá Cavalcante*
Você também dirigiu a maioria de
suas peças de teatro. A escritora, a
roteirista e a diretora, qual dessas
linguagens deixa você mais próxima
das crianças e jovens e lhe dá mais
elementos na hora de escrever?
Ah... essa resposta é moleza, porque
escrevo tudo sempre com as crianças
por perto (risos). Leio para elas
o que escrevo. Ouço atentamente
suas opiniões. Anoto as que me
tocam fundo na alma e reescrevo,
reescrevo até gostar mais e desapegar
para lançar o livro. Eu me sinto
amiga de infância das crianças
e amiga de aventuras dos jovens.
Os seus múltiplos olhares no
trabalho com crianças e jovens
ajudaram no trabalho como diretora
artística do FIL — Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens?
Sim. É importante abrirmos as múltiplas janelas do pensamento, do imaginário e proporcionar o encontro e o
entendimento do que vimos através
delas. Essa é a missão do FIL; estimular os encontros criativos, artísticos... potencializar os imaginários,
a curiosidade, os intercâmbios.
Quais os maiores desafios ao
escrever para crianças hoje?
O de sempre nos surpreender com o
constante novo olhar que as crianças
têm da percepção do mundo dinâmico de hoje, do tempo presente.
E qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam
hoje na formação do leitor?
Apresentar de forma muito prazerosa e inventiva um mundo maravilhoso de infinitas possibilidades.
Você se apresenta como uma
“inventora de histórias para
livros, peças teatrais e filmes”.
Quando nascem as ideias para
uma nova história, como você
determina a linguagem mais
adequada para contá-la?
Não há uma receita antes do bolo
ficar pronto, pois vou adicionando
os ingredientes conforme saboreio. Geralmente, após a conclusão
da história, ela vai mostrando suas
possibilidades, seus meios de transporte para o imaginário alheio…
Mas só vou mesmo saber no final
do percurso… quando eu penso:
hummm… bem que daria um filme…
Pela natureza diversa do teatro e
da literatura, é mais fácil acompanhar a reação do espectador
a uma peça do que a do leitor a
um livro. Quando uma história é
sucesso no teatro, você fica mais
segura de que será um sucesso no
formato de livro? Ou você acredita
que a diferença dos suportes pode
interferir no sucesso da história?
É engraçado o destino de cada
história… algumas acontecem rapidamente — com grande sucesso, desde
que surgem — como foi com o Tuhu,
o menino Villa-Lobos. Outras vêm aos
poucos, como foi com Fedegunda… As
reações à Fedegunda são colhidas até
hoje, progressivamente… Escuto frases
do tipo: “Você não imagina o bem que
Fedegunda fez à minha filha. Até hoje
ela fala na Fedegunda”… São reações
que vêm como “efeito colateral positivo”… Segurança é uma palavra que
sobe e desce numa gangorra…
Se você pudesse ter na cabeceira da
cama uma biblioteca Karen Acioly,
que livros teriam nela? Por quê?
Dos infantis atuais: A bússola de
ouro, A faca sutil, A luneta âmbar,
da trilogia de Philip Pulmann. Das
coleções antigas: Contos de fadas,
contos de Andersen, toda a obra do
Braguinha, Gabriel García Márquez e
Clarice Lispector para crianças. Além
dos clássicos Lewis Carrol, José Câmara
Cascudo, Perrault, só para citar alguns.
Dos livros para adultos: O que Sócrates
diria a Woody Allen, de José Riviera,
O poder do mito, de Joseph Campbell,
Cem anos de solidão, de Gabriel García
Márquez, Maíra, de Darcy Ribeiro, toda
a obra do Drummond e do Guimarães
Rosa. Além de todas as letras e poesias
das canções de Noel Rosa, Chico
Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil…
Luiz Raul Machado
Escritor e jornalista, Luiz Raul Machado nasceu
no Rio de Janeiro, em 1946. Um dos idealizadores
do projeto Ciranda de Livros, com a Fundação
Roberto Marinho, é autor de vários livros infantis.
Entre eles João Teimoso e Chifre em cabeça de
cavalo, vencedor do Prêmio Orígenes Lessa — O
Melhor para o Jovem —, da Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Conheça
um pouco mais sobre Luiz Raul Machado.
Você estudou Sociologia e Pedagogia, trabalhou como jornalista
e na Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil como técnico
de LIJ. Essa formação mista,
de múltiplos olhares, ajudou na
formação do escritor? Por quê?
Minha bagunçada formação deve,
sim, ter servido para alguma coisa,
mas o que acho fundamental para
me formar como escritor é ter sido
sempre um leitor voraz de tudo o
que me caía nas mãos. É ter sido
sempre rato de biblioteca, de livraria,
de sebo. É sempre estar com livro na
cabeceira. É não saber viver sem ler.
Você disse, em uma entrevista
dada ao Ziraldo, que seu primeiro
livro, o João Teimoso, foi escrito
após a morte da sua madrinha, ou
seja, nasceu de uma história real
da sua vida. Me parece que ele foi
escrito enquanto ia sendo contado
a algumas pessoas próximas a você.
Você costuma usar as suas histórias pessoais para criar seus livros?
22
a partir de Marilda Castanha*
Como nascem as suas histórias?
Tudo é bagagem. A infância volta aos
pedaços quando se escreve para os
pequenos. Mas histórias nascem de
qualquer coisa. Sylvia Orthof dizia
que elas são como as flores marias-sem-vergonha: surgem em qualquer
lugar e a qualquer hora. Uma notícia
de jornal, um poema, uma palavra
esdrúxula, uma pergunta de criança:
tudo é pretexto para o texto.
Me disseram que você é um guardador de papéis compulsivo, e que
o maior desafio é fazê-lo tirar um
texto da gaveta para virar livro.
Essa exigência com seus textos
está ligada ao seu lado editor?
Eu sempre achei intuitivamente que os
textos requerem um tempo de gaveta
(ou banho-maria) para serem revisitados com outro olhar, distante do
calor da criação, mais crítico. Não se
pode publicar qualquer coisa. Andersen
já dizia: para a criança, o melhor.
Quando você está do outro lado
da mesa, como editor, o que acha
mais importante numa obra de LIJ?
Qualidade, originalidade e
um sopro de emoção.
Ainda hoje, você escreve à mão.
O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens?
Nunca achei que houvesse “vilões”
contra a leitura. No meu tempo de
criança eram as histórias em quadrinhos, depois a televisão, hoje são
os games e a internet. Acho que
tudo pode somar. Grandes leitores
começaram lendo HQ. Grandes escritores se exercitam no teclado do
computador. E a leitura continua aí,
em suportes diferentes. O importante é a celebração da palavra.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
É bom que pais e professores, antes
de tudo, sejam leitores. O professor
só contagia sua turma com o “vírus”
da leitura se ele mesmo for portador
da paixão pelos livros. Se a casa
tem um cantinho onde os livros
moram para serem visitados a qualquer hora, se a escola tem uma
biblioteca viva, variada e atualizada,
então, é meio caminho andado.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Luiz
Raul Machado, com os livros que
mais marcaram sua história, que
obras encontraríamos? Por quê?
Poesia, poesia, poesia para alimentar
bem a alma. Drummond, Pessoa,
Bandeira. Cecília, Cora, Adélia. Quintana, Cabral, Manoel de Barros. Um
Lobato para me ensinar como se faz.
Mariana Massarani
Ilustradora de mais de 150 obras, 11 das
quais também escreveu, recebeu quatro
prêmios Jabuti de ilustração. Conheça um
pouco mais sobre Mariana Massarani.
Como surgiu o desejo de
trabalhar com imagens?
Desde de criança gostava demais de
desenhar. Rabiscava o tempo todo,
vendo TV, durante as aulas, nas
paredes, em qualquer lugar mesmo.
Cursei Desenho Industrial e acabei no
MAM, aprendendo gravura em metal
e serigrafia. Pensei em ser gravadora,
mas o que achava bacana mesmo era
aplicar os desenhos em produtos. E um
deles, o meu preferido, era o livro.
Você também trabalhou durante
treze anos num jornal e disse, em
uma entrevista, que quase tinha
que fazer mágica para inventar bem
rápido muitos desenhos.
Como foi essa experiência? De
que forma o trabalho em um
veículo diário modificou sua
forma de lidar com o desenho.
Foi a minha verdadeira escola. Eram
vários ilustradores numa sala, a
gente aprende muito vendo os outros
trabalharem. A improvisação e a
adrenalina viraram um prazer. Adoro
bolar desenhos bem rápido. Éramos
como socorristas do desenho.
Você usa diversas técnicas em
seus trabalhos de ilustração,
como o desenho, a pintura e a
colagem. Você acredita que essa
mistura deixa suas ilustrações mais
próximas do leitor? Por quê?
Não, a técnica não influi na empatia
do desenho com os leitores. O ilustrador pode ter um trabalho com
uma técnica incrível, quase um
Rembrandt e o trabalho não ter
alma nenhuma, zero de borogodó.
Para você, qual a principal diferença entre as histórias contadas
com palavras e as histórias
contadas com imagens?
Nenhuma! Uma história é sempre
uma história. E não querendo
puxar a brasa para minha sardinha,
o texto veio do desenho.
Nos projetos em que texto e
imagens são assinados por você,
como normalmente nasce a
história: pelo texto ou pelas
imagens? Isso é uma regra?
Primeiro bolo tudo desenhando, depois vem o texto.
Além de escrever e ilustrar livros,
você desenvolveu imagens para o
musical A casa de Ruth (canções
compostas por Hélio Ziskind
sobre poemas de Ruth Rocha) e
ilustrou a camiseta do Carnaval
2011 do bloco infantil Gigantes
da Lira. Para você, qual projeto
foi mais desafiador? Por quê?
Esses todos foram moleza. Que
felicidade chegar num bloco com
todo mundo usando a camiseta com meu desenho!
O mais desafiador, instigante, até
agora: os livros-brinquedos para iPad.
Um trabalho multidisciplinar com uma
equipe legal demais. Uma felicidade
mesmo e, como tudo ainda é novidade
nesta área, é como pousar na Lua!
Que artistas influenciaram o seu trabalho?
Eu gosto de um monte de gente,
como Picasso, Matisse, Dufy, Guignard, David Hockney e as pinturas
do antigo Egito. E hoje fico
pasmada com o Roger Mello, Andrés
Sandoval, Geraldo Valério, Beatrice
Alemagna e Kitty Crowther.
24
a partir de Mariana Massarani*
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Mariana Massarani, que
livros teriam nela? Por quê?
Caramba! Acho que o Mania de explicação e o Toda criança gosta, por
causa do texto e pelo prazer que me
deram na hora de ilustrar. Os livros
que nunca canso de ler são o do
Salinger, Nove estórias, os da Jane
Austen (já li umas dez vezes cada
um), as Cartas da Elizabeth Bishop e o
livro de contos dela. Truman Capote!
Também amo qualquer um sobre
viagens, como os do Richard Burton.
Há pouco tempo comprei um sobre os
exploradores da Royal Geographical
Society. Sempre tenho livros para
crianças que garimpo na Amazon.
Acabei de comprar vários ilustrados
pelo Quentin Blake e dois do Planeta
Tangerina: O rapaz que gostava muito
de aves e A ilha. Todo livro que sai
do Agualusa não me escapa. Acabei
de ler o melhor dele até hoje, que
é o Teoria geral do esquecimento.
Traço também todos do Pepetela e do
Ondjaki. E os contos da Isak Dinesen,
John Cheever, F. O’Connor! Outro que
não sai da mesa de cabeceira é Minha
vida de menina, de Helena Morley.
Meton Joffily
Ilustrador e animador, seus filmes foram exibidos
na Mostra Especial Anima Mundi de Filmes
Brasileiros, exibida em diversos países, como
Portugal, França, Suíça, Itália, Grécia, Rússia,
Eslováquia, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela,
Colômbia, Peru, Argentina, Coreia, China e Gana.
Conheça um pouco mais sobre Meton Joffily.
26
Como foi o menino Meton? Desenhava nas paredes da sala de
casa? Sempre soube que habitaria no mundo das imagens?
Sim! Na verdade, eu já habitava o
mundo das imagens, e ao longo do
caminho foi ficando claro que era
isso mesmo que eu queria para o meu
futuro. Minha maior sorte foi ter
muito apoio da minha mãe, lembro
de ela comprar os sprays quando eu
tive vontade de desenhar nas paredes
do meu quarto. Eu tinha várias brincadeiras: desenhava monstros e
dinossauros, criava HQs cheias de
tragédias e sangue, com um humor
negro surreal, também fazia histórias
de terror supermacabras. Na escola,
fazia caricaturas dos colegas e professores, além de flipbooks nos livros
didáticos. Até desenhos eróticos com
as fantasias que vinham na cabeça.
Meton por Meton: “Me jogo na
água, canto, danço, desenho,
pinto, grafito, animo, ando em
lugares e conto histórias do que
fiz depois...”. Sua maneira de viver
é o retrato da sua obra? É no
seu dia a dia que você encontra
inspiração para suas criações?
Atualmente estou trabalhando muito,
e a inspiração tem que vir de dentro,
mas tudo que vivi está lá de uma
forma. Eu me inspiro muito na rua,
no Rio de Janeiro, na natureza, em
outros artistas, é muito importante
estar constantemente me alimentando dessas fontes. O meu estilo de
vida repercute na minha arte, e vice-versa. Por isso eu tenho a maioria das
roupas sujas de tinta e levo sempre um
caderno de desenhos junto comigo,
para registrar ideias, extrair personagens e cenários que observo na vida. O que o curso de Comunicação Visual da PUC trouxe
de mais valioso para você?
O que eu recebi de mais valioso
foi conhecer pessoas e passar por
experiên­cias que ampliaram muito
a minha visão. Logo no primeiro
projeto, a Ana Branco deu uma chacoalhada na cabeça dos calouros, fiz
o projeto no Instituto Santa Lúcia, em
uma aula de bordado para deficientes
mentais, foi uma das experiências mais
enriquecedoras da minha vida. E no
decorrer do curso, como eu já estava
certo do que queria, minha postura
diante dele foi buscar conciliar os
trabalhos com as minhas áreas de interesse, provocando resultados superpositivos. Os curtas de animação que eu
fiz na época foram todos potencializados pelas matérias que eu escolhi.
Você é sócio do estúdio Mimo.
Em seu site, vocês dizem que
“fabricam mundos”. Fabricar
mundos, a partir das imagens, é a
sua maneira de contar histórias?
Fabricar mundos é o nosso negócio,
nós trabalhamos muito com a imaginação, começamos pelas ideias, se
ela não existe ainda, nós mesmos
somos encarregados de criá-las. A
partir dessa base conceitual, desenvolvemos as narrativas utilizando o
desenho como principal ferramenta.
Os primeiros desenhos podem ser
rabiscos que aos poucos vão ganhando
a sensação das ideias que imaginamos.
Usamos “n” formas para chegar às
imagens que queremos, cada caso
vai pedir uma linguagem que potencialize a história. Uma imagem bem-
a partir de Meton Jofilly*
-sucedida é resultado desse processo.
E uma narrativa visual bem-sucedida é
aquela em que todas as imagens colaboram para dar vida a uma história.
Para você, qual a principal diferença entre as histórias contadas
com palavras e as histórias
contadas com imagens?
Na história contada por palavras, as
imagens existem apenas na cabeça
da pessoa que absorve a história.
No caso de uma história contada
com imagens, temos a responsabilidade de fazer essa interpretação
para o público. As imagens como
elementos narrativos não devem
ser apenas bonitas, mas devem ser
“lidas”, precisam ser convincentes
dentro desse contexto, passar emoção,
vida! É importante deixar alguma
coisa para ser descoberta, algum
mistério para que o público possa
usar sua imaginação para revelar. Você transformou o longa Histórias
de amor duram apenas 90 minutos,
do Paulo Halm, em animação, e o
“Poema Sujo”, do Ferreira Gullar, em
painéis de ambientação usando o
grafite. Seus filmes foram exibidos
na Mostra Especial Anima Mundi de
Filmes Brasileiros em diversos países,
como Portugal, França, Suíça,
Itália, Grécia, Rússia, Eslováquia,
México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Colômbia, Peru, Argentina,
Coreia, China e Gana. Ao mesmo
tempo, você ilustrou com o Igor
Machado, seu sócio, três livros da
série 7 Mares, como O Pescador de
Naufrágios e A Nau Catarineta. Qual
a principal diferença entre essas
técnicas? Na sua opinião, o que um
artista precisa ter para trabalhar
com grafites e com animação?
As técnicas, e as formas de trabalhá-las, geram uma linguagem única.
No caso da animação que aparece no
filme de Paulo Halm, ele próprio já
tinha a referência: Sin City, de Frank
Miller, usei a mesma linguagem e
técnica da HQ (nanquim). No caso do
“Poema Sujo”, escolhemos os materiais
para pintar uma escala maior, permitindo também trabalhar a temática
com escorridos de tinta e traços com
pincel seco que trazem à tona sensações que o poema de Ferreira Gullar
nos trouxe. O artista que vai ter êxito
em grandes formatos com grafite,
ou em sucessivos desenhos para criar
uma animação, antes de tudo, deve
dominar o desenho na sua forma mais
comum: papel, lápis e borracha. Só a
partir daí ele vai conseguir expandir
para essas formas mais complexas,
que vão exigir muita prática. No caso
do grafite, o importante é a atitude,
ir para longe da pintura para realmente ver o que está fazendo e pegar
as “manhas” do spray ou do material que escolher. Já na animação,
é preciso estudar, com­preender os
princípios que regem essa arte desde
os anos 1940, e como ela acontece no tempo, é preciso captar o
público e manter seu interesse.
Você tem um projeto chamado Tá
Ligado no Movimento?, que fala
sobre um menino que faz malabares num sinal e sobre a sociedade
consumista em que vivemos. Ele
foi originalmente pensado para ser
animação, mas se desdobrou em um
projeto multiplataformas, misturando grafite com animação. Qual
o principal desafio desse projeto?
O principal desafio é conseguir contar
bem essa história através de uma
mistura de técnicas. Esse projeto
vem se adaptando ao longo de anos,
é muito difícil conseguir reunir a
verba necessária para contar toda a
trajetória do personagem, além da
temática undeground assustar os
patrocinadores. Esse lado pesado tem
a ver com o personagem Ratones,
cujo papel é instigar Zinho a querer
mudar de vida a qualquer custo,
também é minha forma de criticar o
sistema em que vivemos. O Tá Ligado
no Movimento? é uma saga que
acompanha o personagem Zinho até
a velhice. Daí vem o nome do projeto,
o movimento da vida do personagem,
que passa pelo “movimento”, que
na gíria dos morros é o tráfico de
drogas, e também está relacionado
com o movimento da animação. O
“tá ligado” tem o papel de chamar
atenção para a questão do abandono
infantil que ainda é sentido no Rio, e
busca revelar as ligações entre esse
problema e a violência urbana, as
drogas, a inocência e a corrupção. Se você pudesse ocupar os
muros da cidade do Rio de
Janeiro com as imagens desse
projeto, por onde começaria? O Jóquei e a Hípica são sensacionais,
pois têm muita visibilidade. Eu tenho
grafites nesses muros, mas imagine
ocupá-los inteiros contando essa
história! Também gosto da ideia de
espalhar as cenas de acordo com a
localização de cada muro, na Praia do
Diabo ou em uma pilastra, em parceria
com o Profeta Gentileza? Isso muda
tudo. Quem faz grafite sabe e valoriza
uma boa escolha de lugar e a interação que rola entre esses elementos.
Se você pudesse ter na cabeceira da
cama uma biblioteca Meton Joffily,
que livros teriam nela? Por quê?
Uma biblioteca Meton? Teria livros
com ilustrações fantásticas, como as
de Gustave Doré, em Dom Quixote e A
divina comédia, muitos quadrinhos e
mangás, de mestres como Alan Moore
e Osamu Tezuka. Livros que evocam
imagens e emoções, como O retrato de
Dorian Gray, O admirável mundo novo
e Musashi, também teriam o seu lugar.
O Rio é assim e Capitães de areia,
livros que tiveram influên­cia no Tá
Ligado no Movimento? ficariam juntamente com a “bíblia do projeto”… E já
que é para imaginar, essa mesa bem
que poderia ter um galho que sai dela,
de onde brotariam sempre livros novos,
como os que eu já estou pensando em
ler, os que eu preciso ler, os que seriam
boas referências… E obviamente todos
os livros que fizemos no Mimo, como o
mais recente, a versão em quadrinhos
de La balada de Johnny Sosa, e ainda
todos os títulos que vamos fazer!
Mirna Pinsky
Jornalista com mestrado em Teoria Literária,
a escritora Mirna Pinsky tem hoje quase 50
livros publicados (entre infantis e juvenis),
com um total de mais de 3,8 milhões de
exemplares vendidos. Recebeu vários prêmios
de poesia, crônica e contos, entre eles um
INL (1982) e dois Jabuti (1981 e 1995). Três
títulos seus foram publicados fora do Brasil.
Conheça um pouco mais sobre Mirna Pinsky.
Quando a Mirna descobriu que havia
uma escritora na jornalista ou que
havia uma jornalista na escritora?
O fascínio pela palavra escrita surgiu
em mim aos 6, 7 anos, quando me
apaixonei pelas histórias que os livros
traziam. Aos 8 anos comecei um diário
que tenho guardado até hoje, e aos
11, a lápis em papel pautado, ousei
uma novela. Cheguei a redigir umas
50 páginas! Aos 13 anos escrevia
poemas, o que fiz assídua e continua­
mente até minha filha mais velha ter
idade para ouvir histórias. Comecei
então a rabiscar contos para ela. Antes
disso, cursei a faculdade de Jornalismo porque me parecia a profissão
mais condizente com alguém que
gostava de escrever. Mas nunca me
apaixonei pela carreira. O “clima” de
editoras de livros tinha muito mais
a ver comigo do que a urgência
de redações de jornais/revistas.
A jornalista e a escritora ainda
deram a oportunidade para uma
terceira Mirna, a editora. Como foi
essa troca de papéis? Você acredita
que o trabalho como editora lapidou
seu olhar e sua forma de escrever?
28
a partir de Andréa Ramos*
Sim, acho que minha experiência em
editoras foi fundamental para aprimorar a qualidade do meu texto. Mas
não creio que tenha interferido no
meu olhar. O olhar é uma construção
mais antiga e muito complexa, que
mobiliza toda uma experiência de vida,
forma de ser, embates, aconchegos
e alianças com o entorno. Eu diria,
por exemplo, que ao passar de “mãe”
para “avó”, meu “sentir a criança” se
modificou em face de tudo que fui
incorporando no entretempo. E minhas
histórias incorporaram esses ganhos.
O jornalista conta uma história,
mas precisa manter sempre o
compromisso com o fato, com
a verdade. O escritor, por outro
lado, pode dar asas à imaginação e criar fatos, verdades. Já
o editor precisa ter olhar crítico
e atento, além de muita sensibilidade na hora de escolher um título
para publicar. Qual desses papéis
traduz melhor a Mirna? Por quê?
Gostei e gosto muito de trabalhar em
cima do texto de outros. É desafiador
e exige um conhecimento e compromisso com a escrita correta, domínio
da ortografia, sintaxe, concordância.
Além de alargar meus horizontes com
temas que desconhecia ou conhecia
pouco. Mas criar é outra coisa, envolve
outras ferramentas, mobiliza outras
instâncias. Criar é lúdico, aparentado com o brincar da criança que
no adulto muda de nome e redireciona sinapses. E mobiliza vivências
em todas as direções. Além de ser
muito, mas muuuuito mais divertido!
Em 2002, você criou o projeto
Escreva Comigo que visa estimular a aproximação do aluno de
escolas públicas com livros, leitura
e escrita. E desde 2004 desenvolve o projeto Ler com Prazer, um
projeto de alfabetização, com o
objetivo de auxiliar crianças da rede
oficial com problemas em letramento. Em que momento surgiu o
desejo de desenvolver esse trabalho
com a área de educação? Quem
mais influenciou essa iniciativa: a
Mirna jornalista, a escritora ou a
editora? Sua mãe foi uma professora comprometida com sua missão:
isso também influenciou você no
engajamento com a educação?
Desde sempre escrevi para crianças
e jovens respaldada na ideia de que
histórias atraentes e bem escritas
criam automaticamente pencas de
leitores. Pois se fora lendo e me apaixonando pelos livros que cheguei ao
ponto de me embrenhar na escrita,
assim seria com os outros. Com
maior disponibilidade de vida, em
2002 submeti à Diretoria de Ensino
— Regional Sul 1, rede estadual, uma
proposta voluntária de visitar alunos
de 4ª série e escrever histórias com
eles. Imaginava que seria uma atividade divertida e profícua para as
crianças. Não imaginava que encontraria as tais classes de recuperação
de ciclo, 4 as séries com 25, 30 alunos
ainda em estágio pré-silábico.
Revisei então minhas concepções sobre
papel social e resolvi alargar meu
“compromisso”. Realmente não bastava
escrever histórias interessantes para
formar leitores. O buraco era mais
embaixo e talvez eu pudesse intervir
ali. Com a parceria de uma pedagoga
de larga experiência em alfabetização
e formação de alfabetizadores, Lena
Bartman, criei e viabilizei um trabalho
na direção de auxiliar crianças
com defasagem no letramento.
Certamente a figura de minha mãe,
professora primária da rede estadual, foi uma inspiração para mim.
Na época dela, nenhuma criança
sem comprometimento passava da
1ª para 2ª série sem saber ler.
Você publicou seu primeiro livro
para crianças em 1978. Hoje tem
45 livros publicados (entre infantis
e juvenis), vários prêmios de poesia,
crônica e contos, entre eles um
INL (1982) e dois Jabuti (1981
e 1995). Três títulos seus foram
publicados fora do Brasil e aqui
são mais de 3,8 milhões de exemplares vendidos. Mas você ainda
atua como editora, não é?! Como
é avaliar a obra de outros colegas
de profissão? Fica mais fácil ou
mais difícil a escolha dos títulos?
Atualmente sou freelance de
editoras: faço traduções e copidesque para elas. Quando trabalhava
dentro das empresas, fazia coordenação editorial. Não era responsável pela escolha dos títulos.
Se você pudesse ter na cabeceira da
cama uma biblioteca Mirna Pinsky,
que livros teria nela? Por quê?
Foram incontáveis os livros que
me encantaram ao longo da vida.
Elenquei uma dúzia, para ficar num
número redondo, mas certamente
ultrapassaram a casa dos cem.
Eis a lista: Reinações de Narizinho, de
Monteiro Lobato; As aventuras de Tom
Sawyer, de Mark Twain; O apanhador
no campo de centeio, de J. P. Salinger;
Os Maias, de Eça de Queiroz; A legião
estrangeira, Clarice Lispector; O
quarteto de Alexandria, de Lawrence
Durrell; Conversas na Catedral e Tia
Júlia e o escrevinhador, de Mario
Vargas Llosa; A caixa preta, de Amos
Oz; Os papéis de Aspern, de Henry
James; O bom soldado, de Ford Madox
Ford; As brasas, de Sandor Márai.
Mas a verdade é que, para mim, o
encanto da primeira leitura não se
repete, por isso minha cabeceira
está aberta para os novos achados.
Foi assim que encontrei Herzog, de
Saul Bellow; Olhinhos de gato, de
Margaret Artwood; Fazes-me falta,
de Inês Pedrosa; No one belongs here
more than you, de Miranda July; Open
cities, de Alice Munro etc. etc. etc.
Voltando ao ponto de partida: eu
penso que é na infância que se
aprende a voar e se ensaia os primeiros
voos de autonomia. E o domínio
da leitura e da escrita é o passe
para que os voos sejam mais ambiciosos e a autonomia, mais ampla.
Ninfa Parreiras
Quando a Ninfa descobriu que havia
uma escritora na psicanalista ou que
havia uma psicanalista na escritora?
A escritora e a psicanalista andam
juntas há muito tempo: são pessoas
minhas. Sinto que a minha vida é o
curso de um rio, que o tempo ajuda
a fazer o caminho, o desenho, as
curvas, as quedas. Sigo esse curso
de acordo com o que gosto, o que
acredito. Gosto de ouvir, gosto de
ler, gosto de escrever. Preciso disso.
Nunca planejei ser escritora, nem
fazia parte dos meus planos. Escrevia
muito e demorei a abrir as gavetas e
compartilhar os textos. Até hoje isso
acontece: o que é publicado em livro
ou postado nos blogs é bem menos
do que o que crio. Em relação à psicanálise, sim, era meu sonho atender as
pessoas, tentar ajudá-las. Fazer isso
com o envolvimento da palavra e da
escuta (dois instrumentos da psicanálise) foi o encontro com algo que faz
todo sentido para mim. Então, no final
das contas, ser psicanalista, ser escritora: é tudo a mesma coisa. A gente
pode escrever com o olhar, o sentir, o
calar: é a linguagem não verbal, com
a qual costumo trabalhar. E ainda
há coisas que faço e vão ocupando
mais ou menos espaço na minha vida:
fotografar, cozinhar, viajar... Tudo isso
se comunica com o fazer literário e
o clínico. É nossa subjetividade!
Seu pai escrevia diariamente
crônicas, poemas e contos para
publicar em diferentes jornais em
Minas Gerais. Você acredita que
esse ambiente familiar influenciou sua formação literária? Na
sua opinião, o ambiente familiar
30
a partir de Andrea Ebert*
Professora, psicanalista e consultora de programas
de leitura, tem mais de dez obras publicadas para
crianças e jovens, e cinco obras de ensaios sobre
literatura e psicanálise para adultos, além de
textos publicados em jornais e revistas, no Brasil e
em outros países. Foi bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, Alemanha,
com pesquisa sobre o desamparo na literatura.
Conheça um pouco mais sobre Ninfa Parreiras.
ajuda na formação do leitor? Qual
o papel da escola nesse processo?
Eu gostava de acompanhar a produção
do meu pai: ouvir o datilografar, ver
o texto publicado no jornal, apreciar
a leitura que ele fazia de um inédito.
Sem nomear, sabia que uma crônica
era diferente de um poema. E o que
eu mais gostava era de ouvir os casos,
as conversas, as histórias da gente da
roça... O ambiente familiar pode ajudar
na formação do leitor sim. Na minha
cidade, não havia livrarias. Havia uma
biblioteca pública e as bibliotecas das
escolas. Na minha casa, a gente tinha
contato com a palavra falada, escrita,
lida. Isso me encantava. Talvez não
tenha encantado meus irmãos como
encantou a mim. Trabalho com a
palavra. A escola tem um papel importantíssimo na formação do leitor, pois
ela vai ampliar o que a família iniciou.
Ou vai abrir caminhos para a criança e
o adolescente que ainda não puderam
ter contato com a literatura. A família
e a escola são as responsáveis pela
iniciação leitora de uma criança.
lixeira, e ela me pediu para ser
escrita: brotava dali uma história.”
Esse é o seu processo de escrita?
Esse processo tem relação com a sua
formação em Psicanálise? Esses dois
papéis se misturam no momento
em que nasce uma história?
Esse é o meu processo de escrita sim.
Tem mais a ver com a minha formação
familiar. Tive uma avó que seria hoje
uma especialista em sustentabilidade. Na sua casa, as coisas não eram
jogadas fora: se transformavam em
outras. Minha mãe também fazia isso
na nossa casa, com quintal, criação
de bichos, pomar, jardins. A psicanálise chega na minha criação de textos
quando eu me embrenho no silêncio,
na escuta. Chega quando o momento
pede a solidão, o isolamento. Os
papéis não se misturam, não gosto de
anotar nada que escuto num atendimento clínico. E quando escrevo,
deixo a história chegar. Na verdade,
na psicanálise, a gente trabalha pela
mudança. E na literatura também,
nem que seja a mudança de página.
Em Munique, pude conhecer centenas
de livros escritos em línguas diferentes,
publicados em países variados que
apresentavam o desamparo. O que
mudava eram os sotaques, a vestimenta, as línguas. No fundo de cada
história (pesquisei em prosa), o desamparo estava lá: no texto, nas ilustrações. O desamparo é a grande marca
da infância. E da literatura. Basta a
gente pensar nos contos de fadas...
simo, mas o meu prazer é ir lá quando
tenho desejo. E o leitor também deve ir
lá quando tem desejo. Já temos tantas
obrigações na vida, para que mais
uma com a leitura? Não sei precisar
o resultado dos blogs, justamente
porque faço isso por entretenimento.
Ponho lá um poema para um amigo
que mora longe, para uma amiga que
não tenho como ajudar de perto, para
crianças que leram um livro meu…
Você tem um blog onde posta
versos acompanhados de fotografias, o Blog da Ninfa (ninfaparreiras.blogspot.com.br), e
posta resenhas e crônicas no
Blog Canto Crônica (cantocro-
“Tenho um sonho, escuto uma fala,
vejo uma cena, aquilo me acompanha. Não sai de mim. Chega a
me perseguir. Começo a escrever e
um processo de mexer nas palavras
se instala e pode durar anos. Nesse
exercício, me sinto aliviada. Quando
os textos ficam prontos, há alguns
que ficarão guardados, outros eu
retomo com revisões, e poucos seleciono para publicar. Muitas vezes,
abandono o texto, esqueço que ele
existe (nos cadernos, manuscritos,
no computador). Já aconteceu de
eu encontrar uma fotografia numa
Você foi bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique,
na Alemanha, com uma pesquisa
sobre o desamparo na literatura.
Poderia resumir em algumas palavras o tema de sua pesquisa?
O desamparo é um dos sentimentos
inaugurais dos afetos na infância. A
criança vive o desamparo, assim como
o adulto o vive a seu modo. Então, o
desamparo deveria estar na literatura
destinada à infância, pois a literatura
é feita de nossas faltas, nossos vazios.
Para você, o blog hoje é uma ferramenta eficaz para se comunicar
com o leitor? Quais os principais resultados desse trabalho?
Sim, o blog pode ser um veículo de
comunicação para o leitor, para quem
pesquisa, busca mais informações. É
mais uma ferramenta. Também para
o leigo, que não costuma ler. E de
repente, ele pode descobrir algo relacionado à literatura que lhe agrada.
Posto nos blogs sem nenhuma rigidez.
Tenho um blog em que posto pouquís-
Você tem um livro intitulado Do
ventre ao colo, do som à literatura
— livros para bebês e crianças. Na
sua opinião, o que deve ter num
livro para bebês? Como acessar
o imaginário deles? Qual a principal diferença entre livros para
bebês e livros para o pré-leitor?
Um livro para bebês deve ter textos
com sonoridades, com poesia, e
imagens instigantes. Não deve ser
como uma boate cheia de luzes, de
sons, de coisas para fazer. O bebê
precisa conviver também com vazios
e silêncios. Com pouco. Para acessar
o imaginário dos bebês, devemos
resgatar os ritmos, as melodias,
os embalos, os jogos de esconde-esconde: a brincadeira que encanta
os pequenos. Os livros para bebês
podem ser os mesmos para o pré-leitor. Tenho dificuldade em lidar
com faixa etária, porque o livro não
é um remédio que vem acompanhado
de bula, posologia e data de nascimento. Gosto de fazer a diferença
entre livro e literatura: nem tudo que
está publicado em livro é literatura.
Precisa de trabalho estético com a
palavra, com a musicalidade dela.
E trabalho estético com a imagem,
nica.blogspot.com.br). Além disso,
coordena o Blog Encontros Novo
Nicho pra Santa, especialmente
sobre atividades desenvolvidas
na Fundação Cultural Casa Lygia
Bojunga, em Santa Teresa, no
Rio de Janeiro (encontrosnovonichosanta.blogspot.com.br).
que avance as linhas dos textos e
não se prenda ao que está escrito.
A ilustração não pode ser uma mera
legenda do escrito. Ela deve trazer
outros elementos, outros olhares, o
deslocamento dos sentimentos. Então,
um livro para o pré-leitor, para o
bebê, pode ser um livro de poemas
do Drummond. E por que não?
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca, Ninfa Parreiras, que
livros teriam nela? Por quê?
Poucos livros. Cada vez, percebo que
devemos enxugar as nossas ambições,
os nossos planos. É no miudinho, é
no pouco que a gente vive bem. Teria
alguns livros de poesia (de autores
clássicos, coisas do Fernando Pessoa,
do Rainer Maria Rilke; e também
alguns de contemporâneos: Mário
Quintana, Adélia Prado, Bartolomeu
Campos de Queirós). E aquela poesia
que vem em parágrafos, como a que o
Guimarães Rosa escreveu, o Graciliano
Ramos, o Milton Hatoum, o Orhan
Pamuk, a Lygia Bojunga. Para citar
alguns preferidos. Na verdade, já tenho
uma pequena biblioteca na cabeceira
da minha cama. Vez ou outra, entra
um livro diferente e sai um para a
estante. Além de poesia, há um de
ensaios de psicanálise (Winnicott,
Freud ou Ferenczi). Ou de filosofia,
como algum do Giorgio Agamben. E
algo que me surpreende pela edição ou
pela tradução (pode ser antiga). Vamos
ver se tem um livro lá na estante
que pede para ir para a cabeceira…
Olívio Jekupé
Olívio Jekupé nasceu no Paraná, estudou
Filosofia e é presidente da Associação Nhe’e
Porá na aldeia Krukutu, no estado de São
Paulo, onde mora com sua família. Autor de
livros infantis e juvenis, viaja pelo Brasil e
pelo exterior divulgando a cultura guarani.
Conheça um pouco mais sobre Olívio Jekupé.
Você se intitula um “escritor
de literatura nativa”.
Sim, eu me intitulo como escritor
de literatura nativa. Criei essa teoria
porque comecei a ver que nós, índios,
não somos escritores de literatura
indígena, e sim dessa literatura de
que falo. Comecei a refletir que nossa
escrita vem direto de nós, do pensamento do nosso povo, e não de ideias
de fora. Por isso, se nós somos um
povo nativo, então nossa literatura
tem que ser nativa também. Pois nós
aqui na aldeia aprendemos muitas
histórias. Por isso o escritor indígena tem que conhecer o seu povo,
caso contrário, não pode escrever
uma literatura que não seja nativa.
Para você, qual a principal característica dessa cultura nativa?
Que elementos ela possui, no
diálogo com as crianças, que se
diferencia da literatura brasileira contemporânea?
Primeiramente as crianças, além de
conhecer nossas histórias, poderão
ver que nós, índios, também somos
capazes de escrever. As crianças
poderão conhecer diversas histórias que falam muito de animais,
da floresta, dos pássaros, dos rios,
da importância que nós índios
temos com a natureza, dos valores
32
a partir de Fernando Vilela*
e respeito aos grandes sábios etc. E
são histórias que mostrarão como é
aquele povo, isto é, quem é guarani,
escreve na visão guarani; quem é
xavante, escreve na visão dele, e
assim por diante. Pois no Brasil a
gente vê que o povo não consegue
diferenciar os povos indígenas e por
isso pensa que tudo é igual, e não
somos. Por isso a literatura nativa
tem que escrever de maneira que as
crianças entendam melhor as etnias.
Você mora em na aldeia Krukutu,
na região de Parelheiros, em
São Paulo. Por que optou por
isso? Essa convivência diária com
pessoas que carregam os mesmos
valores que você influencia
o seu olhar do mundo?
Sim, eu moro na aldeia Krukutu,
uma comunidade de 300 pessoas, a
língua é o guarani e toda a cultura
é guarani. Bom, eu moro na aldeia e
gosto muito, e muitos acham engraçado, acham que eu devia morar na
cidade, por ser um escritor e por ter
estudado. Primeiro, eu estudei com
essa intenção, para ter conhecimento
e lutar em defesa do nosso povo. Sei
que tem muitos índios no Brasil que
se formam, mas nunca vão morar
numa aldeia, pois seu costume é com
o povo da cidade. Como moro na
aldeia, sou casado com uma guarani
e tenho cinco filhos. Todos moram na
aldeia, falam e escrevem em guarani.
Lutar em defesa do seu próprio ser
começa direto com você, por isso é
que acredito que temos que seguir
nossas raízes, na teoria e na prática.
Você acredita que viver em uma
grande cidade poderia transformar o
seu olhar sobre suas raízes culturais?
No momento, não sonho em morar
na cidade, pois estou acostumado
com essa vida de aldeia. Mas gosto
de ir para passear, pois tem muitas
coisas que podem ser vistas. Quando
um índio mora na cidade (sei que,
por um lado, é bom), culturalmente
ele perde muitas coisas, muitos
casam com mulheres da cidade e seus
filhos aprendem o português. Por
não viverem na aldeia, muitas coisas
deixarão de aprender, como a língua, a
religião, a fazer uma casa tradicional,
a caçar, a viver no meio da floresta, a
fazer artesanatos, a seguir os costumes
do dia a dia. Sei que na cidade tem
grandes bibliotecas e que podem ler
sobre suas raízes, mas sei que ler não
é mesma coisa que viver no dia a dia.
Você começou a escrever em
1984, primeiro com poemas,
depois romance, e mais tarde
contos, sempre sobre a questão
indígena. Como surgiu a necessidade de escrever?
Sim, comecei a escrever em 1984, mas
naquela época eu nunca tinha ouvido
falar se tinha algum índio escritor,
mas eu acreditava que seria interessante que nós, índios, escrevêssemos
também. Mas eu sempre dizia que nós,
índios, somos escritores, porque, desde
o passado, sempre contamos histórias
orais, e isso é o dom de um verdadeiro
escritor. Ele apenas não sabia ler e
escrever. Naquela época, eu gostava
muito de ler e percebi que podia
escrever também, por isso comecei e
nunca mais deixei de escrever. Mas o
que me fez escrever foi que sempre
via alguma matéria na imprensa, televisão e jornais, em que os problemas
índigenas no Brasil eram mostrados,
invasão de terras por sem terras ou por
fazendeiros, muitas vezes com índios
sendo assassinados, crianças morrendo
de fome, índias sendo estupradas, e
isso me deixava revoltado. Por isso,
comecei a escrever só sobre assuntos
críticos, mas não conseguia publicar.
Aí comecei a pensar em escrever literatura infantil, e estou escrevendo
mais nessa área, mas os textos críticos,
espero que um dia eu consiga publicar
também. É preciso que a sociedade
saiba mais sobre os povos indígenas —
como, por exemplo, nossos parentes
guarani kaiowa, que sofrem muito,
e diversas pessoas hoje sabem disso
graças à internet, ao Facebook. Por
isso é interessante que os professores
tentem questionar mais a questão dos
problemas indígenas no Brasil. Muitos
pensam que o dia a dia é um paraíso.
Você é presidente da Associação
Nhe’e Porã, da sua aldeia, foi estudante de Filosofia na USP e é um
dos membros do Nearin (Núcleo
dos Escritores e Artistas Índigenas). Para você, qual o maior
desafio que a literatura nativa
enfrenta nos dias de hoje?
Sim, sou presidente dessa associação,
e através dela lutamos pelos nossos
direitos. Como estudei Filosofia na
USP, aprendi bastante e o conheci-
mento ajuda muito na defesa do nosso
povo. Também faço parte do Nearin
desde o primeiro encontro, em 2004,
na cidade do Rio de Janeiro, no evento
da FNLIJ, com apoio especialmente
da Beth Serra, graças a ela, o Nearin
existe e podemos estar lá todos os
anos e falar com muitos professores.
O maior desafio da literatura nativa
é tentar mostrar ao povo brasileiro
que nossos livros são importantes
não só para nós, mas para todos os
brasileiros também. Sei que é difícil,
mas temos que mostrar nossa cara
através da literatura nativa escrita por
nós mesmos. E um de nossos desafios é mostrar uma boa história, para
que a sociedade possa nos valorizar
mais; e que através de nossa escrita,
a sociedade diminua o preconceito
que tem contra nós, e muitas vezes
por falta de conhecimento, mas
agora poderão nos conhecer...
Você tem algum grande
ídolo na literatura?
Sim, dois grandes escritores me
influenciaram muito quando era novo.
São eles: Jorge Amado e Leonardo
Boff. Já como ídolo, tenho um grande
líder, Ailton Krenak, um grande homem
de história oral. Sempre aprendi com
ele, ouvindo o que falava e lendo suas
entrevistas em jornais e revistas. Quero
dizer que hoje meu ídolo também é
meu filho, Jeguaka Mirim, que aos 8
anos começou a escrever e agora não
para mais. Tem coisa melhor do que
ter seu próprio filho como ídolo?
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Olívio Jekupé, com os livros que
mais marcaram a sua vida, que
obras teriam nela? Por quê?
Se eu pudesse, gostaria de ter o livro
de Jorge Amado, Capitães da areia.
Foi um livro que me emocionou
muito quando eu era garoto e o
li pela primeira vez. Até hoje me
emociono quando lembro, porque
volto ao passado, que foi muito
bom... É um dos melhores livros em
minha mente, pois mostra a realidade
de uma forma fácil de entender...
E também Papillon, um livro
francês que li quando era garoto.
Mas os autores que me levaram
a entender que eu era escritor e
me influenciaram muito foram
Jorge Amado e Leonardo Boff, pois
quando eu era garoto, gostava
muito de ler as obras dos dois...
Regina Machado
Para a contadora de histórias Regina Machado,
as narrativas servem para hidratar a alma.
Formada em Ciência Sociais pela USP, é idealizadora do Boca do Céu, encontro internacional de contadores de histórias. Conheça
um pouco mais sobre Regina Machado.
Você vem de uma família leitora.
Seu pai, professor de Hitória da
Arte; sua mãe, grande incentivadora da leitura. Você se formou na
Faculdade de Ciências Sociais da
USP, mas escolheu como profissão
a arte de contar histórias. Especialmente contos tradicionais de
culturas milenares, que têm sua
força na tradição oral. De onde
nasceu esse desejo. Quais foram
suas principais influências?
Quando eu era menina, em vez
de brincar de escolinha, brincava
de escolinha de arte, distribuindo
papéis, canetas e lápis coloridos para
outras crianças um pouco mais novas
do que eu. E continuei a dar aulas
de artes depois que cresci, inspirada pela Ana Mae Barbosa, minha
professora e amiga desde os meus 18
anos. Eu queria saber por que a arte
é importante na vida das pessoas,
o que podemos aprender com ela.
Mais tarde comecei a querer saber
por que a arte de contar histórias é
importante e o que ela nos ensina.
Aprendi e aprendo sempre com o
Machado de Assis, com o Guimarães
Rosa, com o Manoel de Barros, com
a Amina Shah — uma contadora de
histórias fantástica —, com a dona
Militana — que já morreu e contava
romances cantados — e com todo
mundo que põe uma pitada de poesia
na sua vida, mesmo sem ser artista.
Você faz parte do Boca do Céu, um
encontro internacional de contadores de história que tem como
público-alvo não só a criança,
mas também o adulto. A ideia é
reunir pessoas de diversas partes
do mundo; cada um traz consigo
34
a partir de Joubert*
suas próprias histórias e inventa
modos de contá-las em múltiplos
estilos de atuação. O projeto tem
o objetivo de compartilhar conhecimento, contribuindo para uma
reflexão sobre as raízes brasileiras, nos ensinando a respeitar
nossa identidade cultural. Quais as
experiências mais significativas na
vivência do grupo? Fale um pouco
sobre a experiência de ter adultos
como público-alvo desses encontros.
Um dia eu achei que muita gente
que gosta de contar histórias poderia
trocar suas experiências, seus contos,
poderia aprender com contadores de
outros países, outros estados brasileiros e pensei que eu poderia inventar
um jeito de as pessoas se encontrarem
para isso. E foi então que inventei o
Boca do Céu. O nome me apareceu,
no começo eu não sabia se era um
bom nome, é um jogo de palavras
com céu da boca, (as palavras do
contador saem pela boca, vêm lá do
céu onde elas moram, é por aí mais
ou menos…). O nome ficou e hoje o
Boca do Céu não é mais um sonho
meu, é um nome que já faz parte da
história de muita gente, existe na
vida de muitas pessoas que trabalham
para esse encontro acontecer, que
esperam o próximo Boca do Céu.
O encontro foi projetado para todas
as idades. Como é uma espécie de
curso intensivo no qual acontecem
tantas atividades de fazer, escutar e
pensar sobre histórias, nosso público
é de educadores, estudantes, bibliotecárias e contadores de histórias,
principalmente. E gente grande gosta
também de histórias, só que muitas
pessoas não sabem disso. Mas basta
um bom contador começar a contar
uma boa história que gente adulta
esquece tudo e mergulha nas palavras encantadas. No Boca do Céu,
a gente viu até um segurança dizer
que voltou para casa e começou a
contar para a mulher os contos que
tinha escutado naquele dia e que ela
disse que era a primeira vez que ele
voltava do trabalho mais inteligente!
“Quem conta história, cria um
instante de partilha, segreda os
mistérios da alma e faz surgir no
céu uma estrela.” Essa frase, de
Joana Cavalcanti, mostra quão
importante é compartilhar leituras.
Você acredita que a leitura compartilhada é uma arma importante para
“encantar” crianças e jovens que
não possuem o hábito de leitura, ou
se afastaram dos livros em função
da internet? Em sua opinião, a arte
de contar histórias forma leitor?
A leitura compartilhada pode ser um
momento de grande significado para
crianças e jovens, desde que a situação
seja proposta com paixão, e a gente
já viu algo parecido no livro Como
um romance, do Daniel Pennac. E na
palavra “paixão” estão incluídas outras,
como intenção, pesquisa, experiência,
conhecimento, autoconhecimento,
capacidade de brincar, de arriscar,
de maravilhar-se, de aceitar o erro
e muitas outras que fazem parte da
formação de um bom educador.
Com certeza a arte de contar histórias
pode contribuir muito na formação
de leitores, principalmente por nutrir
a paisagem de imagens internas significativas de cada ouvinte. A vontade
de seguir buscando as palavras
encantadas pode guiar os passos que
tropeçarão nos livros, que poderão ser
abertos com curiosidade legítima, mas
isso já é o começo de uma palestra...
O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens?
De novo, não posso falar genericamente. Acredito na possibilidade que todos os meios têm de
serem fornecedores de asas, mas
ainda não vi nenhum livro digital
que me convidasse a voar.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
O desafio de olharmos para nós
mesmos e perguntarmos como nos
preparar para o encontro com as
crianças e os jovens de hoje. E isso dá
muito trabalho, pois temos que olhar
para dentro, encontrar o que serve e
o que não serve em nós, exercitarmos
nossa percepção, nossa imaginação,
nossa intuição, condicionamentos,
preconceitos, bom, é um trabalhão,
não é todo mundo que tem disposição.
Seu livro Acordais fala sobre a
aprendizagem da arte narrativa, a importância da arte de
contar histórias no mundo de
hoje e sobre a utilização pedagógica dos contos tradicionais por
meio de uma proposta brasileira.
Como surgiu a ideia desse livro?
Escrevi esse livro para educadores,
bibliotecárias e contadores de histórias,
a partir de muitos anos de trabalho
de formação de professores. Nessa
obra, trato dos principais conceitos
e questões ligados à arte de contar
histórias. São fundamentos que chamo
de teórico-poéticos: lembranças,
pensamentos, perguntas, metáforas
e imagens internas se interligam
dentro da experiência de aprender.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Regina Machado, com os livros
que mais marcaram sua história,
que obras teriam nela? Por quê?
Pois já tenho essa biblioteca no
meu quarto, uma seleção que
vivo fazendo entre os que ficam
na minha outra biblioteca.
Nessa estante que fica ao lado da
minha cama, há livros que estão
lá para sempre, outros que vão
mudando a cada semana, outros
que estão na prateleira de prioridades e assim por diante.
Alguns dos que estão para sempre
são: Primeiras Estórias, do Guimarães Rosa; A odalisca e o elefante,
da Pauline Alphen — vivo emprestando para as crianças; Sonhos de
transgressão, da Fatema Mernissi;
A filha de um contador de histórias, da Zaira Shah; Dom Quixote,
de Cervantes; José e seus irmãos, de
Thomas Mann. Não dá para citar toda
a lista, pois é muito, muito grande.
Há livros que guardo desde que sou
criança, como Juca e Chico, livros
que adoro e vivo relendo, outros
que estão lá porque quero ler tudo e
ainda não consegui, como a A divina
comédia, de Dante, outros que ganhei
de presente, outros que comprei
porque gostei do título, mas não
tenho a menor ideia sobre o conteúdo,
outros que preciso ler para estudar.
Ricardo Azevedo
Escritor, ilustrador e pesquisador brasileiro,
publicou mais de cem livros e recebeu diversos
prêmios. Suas obras foram publicadas em países
como Portugal, México, Alemanha e Holanda.
Conheça um pouco mais sobre Ricardo Azevedo.
Você vem de uma família em que
a literatura tem grande valor. Seu
pai era professor universitário e na
sua casa havia muitos livros. Você
acredita que esse ambiente familiar
influenciou sua escolha profissional?
Sem dúvida! Antes de tudo,
meus pais eram leitores e, desde
pequeno, sempre me pareceu
natural ler e consultar livros.
Ainda no colégio, você escreveu
o texto “O homem no sótão”,
em que o protagonista é um
escritor de contos para crianças
que vive recluso, escrevendo
histórias inclusive aos sábados,
domingos e feriados. E os personagens, cheios de vida, discordam
dos caminhos dados pelo escritor
à história. Escrever, para você,
sempre foi um sonho? As idas e
vindas dos personagens demonstram a dificuldade do escritor
que trabalha com a fantasia?
Percebi, fazendo as redações escolares,
que gostava de escrever. Tive a ideia
de escrever o texto ao qual, primeiramente, dei o título de “Um escritor
de contos para crianças” e mandei
bala. As questões foram surgindo
do próprio texto, enquanto escrevia.
Uma delas é a contradição existente
entre realidade e fantasia ou quanto a
ficção pode ser construída a partir de
preconceitos e ideias já prontas. Textos
de ficção, creio, no fundo, são sempre
uma tentativa de autoconhecimento.
A escolha dos assuntos, os conflitos do
enredo, as personagens, a linguagem
utilizada, tudo, ao ser colocado no
papel, de alguma forma vem para
esclarecer questões internas do autor.
36
a partir de Ricardo Azevedo*
Quando era criança, você foi apresentado a uma série de discos em
que poetas como Carlos Drummond de Andrade declamavam
seus próprios poemas. Foi seu
primeiro contado com a literatura? Como isso o influenciou?
Eu amava escutar a voz frágil e firme
de Drummond recitando “O caso do
vestido”, “José” e “A morte do leiteiro”.
Também tínhamos em casa discos de
Os jograis de São Paulo, um grupo de
quatro atores que recitava poemas de
vários autores. Um deles é inesquecível: “Jandira”, de Murilo Mendes.
Acho que foram muitas e muito fortes
as influências desses discos em mim.
Refiro-me ao uso da linguagem, às
imagens inesperadas que os poemas
traziam, aos assuntos tratados. E vale
notar o seguinte: só pude usufruir dos
poemas porque eram ditos em viva
voz. Se fossem lidos por mim, não
haveria condição de me emocionar
ou me identificar com eles. Eu tinha
menos de dez anos quando tive acesso
a essas gravações antológicas.
Como você vê o hábito da leitura
na era digital? Com a informação
cada vez mais resumida e de fácil
acesso, ficou mais difícil seduzir as
crianças por meio da literatura?
Minha tendência é achar que trata-se apenas de uma questão de diferenças entre suportes. É preciso que
as pessoas sejam educadas de modo
a saber diferenciar o que é informação e o que é literatura. Tanto faz
ler “Jandira” num livro, na telinha de
computador ou num e-book. Agora,
vivemos num tempo de excessivo
individualismo, de valorização do
pensamento meramente técnico e
utilitário, de consumismo etc. No
fundo, tudo isso implica certo desinteresse pela cultura humana e isso
tem reflexos. É um mundo que não
valoriza o desenvolvimento da interioridade, da reflexão e do pensamento
crítico. Talvez as pessoas estejam
perdendo o interesse pela literatura
porque têm pouco interesse pela
voz do Outro ou pela busca de seu
autoconhecimento. É uma pena.
Quais livros marcaram sua infância?
Há algum em especial que o fez
se apaixonar pela literatura?
Posso citar vários: a coleção O tesouro
da juventude e o Robin Hood traduzido
por Monteiro Lobato, entre outros. Na
adolescência, li Três contos infantis, do
suíço Peter Bichsel. Entrei em contato
com esses textos por meio da revista
Humboldt, de intercâmbio cultural
Brasil-Alemanha. Nela, autores de
língua portuguesa tinham seus textos
traduzidos para o alemão e vice-versa.
Quando li os contos de Bichsel, disse
para mim mesmo: “quero escrever que
nem esse cara!”. Muito mais tarde, por
minha insistência, a Ática publicou o
livro que, na verdade, tem sete contos:
O homem que não queria mais nada
e outras histórias. Muito bom!
Você também é ilustrador. Quando
uma história nasce, ela normalmente vem primeiro como texto
ou como imagem? Existem
regras no desenvolvimento de
projetos em que textos e imagens
são assinados por você?
No meu caso, com apenas uma
exceção (O peixe que podia cantar),
em todos os meus livros primeiro
vieram os textos, depois as ilustrações.
Mas vale contar que acho muito diferente ilustrar um texto criado inteiramente por mim e um conto popular,
mesmo que a versão seja escrita por
mim. Quando ilustro um texto meu,
estou livre para inventar a linguagem
que me der na telha. O conto popular
traz uma tradição dentro dele, tem
uma espécie de aura, tem marcas
de certa forma, sei lá. Diante dele,
sempre recorro a uma linguagem
marcada pela iconografia popular,
porque ela tem o dom de carregar
essa tradição e essa visão de mundo.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Ricardo Azevedo, que
livros teriam nela? Por quê?
Agora você me pegou. Gosto do
trabalho que eu faço, mas, para
ser sincero, preferia ter na cabeceira livros de outros autores.
Todos os meus livros, de certa
forma, estão dentro de mim.
Acho que ficaria com o Dom Quixote,
de Miguel de Cervantes, a obra
completa de Franz Kafka, Vitória
e Coração das Trevas, de Joseph
Conrad, e as obras completas de
Guimarães Rosa, Carlos Drummond de
Andrade, Murilo Mendes e Fernando
Pessoa. Talvez porque esses grandes
artistas da palavra, com diferentes
posturas e linguagens, tratam de
forma densa e vital de assuntos
humanos que me interessam.
Ricardo Filho
Neto de Graciliano Ramos e filho de Ricardo
Ramos, desde menino viveu intensamente o
universo dos livros, herdou o hábito da leitura e
a intimidade com as palavras. Tem livros publicados no formato tradicional e de e-books. Tem
hoje o trabalho reconhecido pela crítica literária.
Conheça um pouco mais sobre Ricardo Filho.
Você diz que as lembranças de sua
infância são todas relacionadas
com livros, as estantes do seu pai
e todas as aventuras descobertas
nelas. Você acredita que isso te
transformou em um escritor?
Não sei se posso afirmar tão diretamente que isso me transformou em
escritor. Certamente não seria um se
não tivesse lido bastante, pois acho
impossível alguém escrever com
alguma qualidade sem ler. Pensando
sob esse prisma, foi muito importante. Mas existem outros fatores. Ter
visto meu pai escrever, entrado em
contato com o método e a disciplina
dele, convivido com outros escritores em casa, tudo isso somado ao
prazer pela leitura colaborou bastante
para que o interesse em escrever se
manifestasse. Não existe uma razão
isolada. Está mais para uma mistura
de várias coisas. Só não acredito em
genética, conforme gostam tanto
de colocar. Eu não escrevo porque
alguma coisa em meu sangue mandou.
38
a partir de Mariana Newlands*
Ser neto de um dos maiores escritores brasileiros, Graciliano Ramos,
influenciou suas escolhas?
Influenciou, embora não diretamente,
já que não nos conhecemos. Como
nasci depois de sua morte, muita
coisa chegou por meio de meu pai.
Com ele aprendi, e isso certamente
Graciliano ensinou, que o texto
precisa ser bem tratado e as palavras,
escolhidas exaustivamente. O velho
Graça passou para Ricardo Ramos,
e ele para mim, a certeza de que
existe uma forma ideal de se dizer
as coisas. O escritor deve obsessivamente procurar essa qualidade. Tento
ser conciso e exato em meus textos,
essa talvez seja a maior influência.
Na sua memória, quem foi Graciliano Ramos? O que, da sua obra,
mais o toca, o emociona, representa suas memórias de infância?
Já falei sobre isso algumas vezes. Meu
primeiro contato com Graciliano foi
por meio das histórias contadas por
minha avó Heloísa, viúva dele. Era um
relato apaixonado, que o transformou
em um herói muito próximo do que
eu via nos livros. Ele então nasceu
para mim como figura de ficção.
Disse outro dia que parecia um Robin
Hood alagoano e reafirmo. Seu engajamento político reforçou bastante
essa impressão primeira. Só bem mais
tarde, já adulto, entrei em contato
com sua obra. Foi um alumbramento.
Fiquei impressionadíssimo com o fato
de ele ser um escritor que dispensava
assinatura. Eu era capaz de reconhecer
o que ele escrevia, o seu jeito, em
qualquer texto isolado. Pareceu-me
maravilhoso poder ter essa personalidade. Raríssimos escritores têm.
Seu pai, o escritor Ricardo Ramos,
além de escrever, contribuiu
muito para a literatura brasileira,
organizando concursos literários e sendo presidente da UBE
(União Brasileira de Escritores).
Quais são suas memórias afetivas
dessa relação avô-pai-filho?
Graciliano e Ricardo são figuras
importantíssimas em minha formação.
Os dois representam competência,
seriedade, dignidade, amor pela literatura. Se hoje Graciliano é para mim
objeto de estudo, afinal eu o trabalho
em meu mestrado na USP, e torna-se cada vez menos avô e mais autor,
Ricardo é o exemplo, a saudade, o
pai que soube me transmitir a paixão
pelos livros. Os relatos contados por
ele em Graciliano: retrato fragmentado, livro de memórias publicado
pela editora Globo, aproximam-se bastante do que seriam minhas
memórias afetivas envolvendo esse
triângulo avô-pai-filho. Tudo o que
está ali, eu cresci o ouvindo contar.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
Para mim o desafio não mudou,
sempre foi o mesmo. Formar leitores
é mostrar, de alguma forma, a paixão
que temos pelo texto. Basicamente
eu não consigo vender uma ideia se
não acreditar nela. Eu repito a paixão
que vi meu pai e minha mãe terem
pelos livros. Cresci em uma casa onde
se lia muito. Desde muito cedo, pelo
exemplo, eu fui convencido de que
ler era um grande barato. Mais tarde
encontrei professores que possuíam
essa mesma atitude. Falavam com
entusiasmo a respeito de literatura.
Só exibindo naturalmente esse gosto
conseguiremos formar leitores. Eu
nunca fui obrigado a ler. A leitura
para mim era alguma coisa que,
eu percebia, trazia prazer para as
pessoas. Obviamente eu procurei
esse prazer. E, é claro, encontrei.
Fora disso, não existe possibilidade.
Meninos criados por pais não leitores,
e que estudam em escolas com
professores não entusiasmados pelo
texto, dificilmente gostarão de ler.
Você tem e-books publicados. O que você pensa dos
livros digitais para crianças?
Eu gostei muito da experiência de
escrever e-books. Foram livros escritos
com capítulos semanais, sobre os quais
as crianças se manifestavam e ofereciam alternativas para as histórias.
Custei um pouco a me acostumar com
a ideia de sofrer esse tipo de interferência, mas, quando consegui relaxar,
aproveitei bastante a novidade e o
resultado foi muito interessante. Acredito que os livros digitais serão mais
uma alternativa, poderão acomodar
os avanços tecnológicos existentes,
transformando-se em um trabalho
diferente e válido. Neles o texto visual
ganhará cada vez maior importância.
Não acho que substituirão o livro
de papel, mas serão mais um veículo
disponível, capazes de acomodar o
interesse que os jovens têm pelo novo.
Se você pudesse ter na cabeceira
da cama uma biblioteca Ricardo
Ramos Filho, com os livros que
mais marcaram a sua história,
que obras teriam nela? Por quê?
Puxa, fiquei até com vontade de criar
essa biblioteca! Seria uma cabeceira
bem grande. Alguns livros e escritores
teriam papel de destaque. O livro
Saudade, do Tales de Andrade, para
mim o primeiro importante escrito
para crianças no Brasil, não faltaria.
O Cazuza, de Viriato Correa, também
estaria lá. Monteiro Lobato e Francisco
Marins teriam destaque. Monteiro
Lobato ensinou-me a ler aos sete anos,
com o seu Reinações de Narizinho, e
Francisco Marins me deu de presente
o Gafanhotos em Taquara-poca.
Esses livros foram o início, acredito
que com eles criei o hábito de leitura.
Depois vieram muitos outros para
consolidar esse prazer: Moby Dick,
A ilha do tesouro, As aventuras de
Robin Hood, Vinte mil léguas submarinas, Rob Roy, Os três mosqueteiros,
Coração, Tom Sawyer, tantos... Uma
escritora, Laura Ingalls Wilder, teria
um importante espaço reservado.
Viajei com esses pioneiros americanos
nas memórias dela e de sua família.
O pai, a mãe, e as irmãs Laura, Mary,
Carrie Grace ainda são até hoje fonte
de prazer. Frequentemente releio a
coleção, agora em inglês. Anos felizes,
no qual Laura se casa com Almanzo,
provavelmente foi o livro que mais li.
Ia esquecendo da série do cachorrinho
Samba, da Senhora Leandro Dupré,
e da coletânea do Tarzan, de Edgar
Rice Burroughs. Alguns livros mais
recentes, pela temática abordada,
e pela qualidade do texto também
estariam nessa biblioteca: Sapato de
salto, da Lygia Bojunga; O namorado
de papai ronca, de Plínio Camillo;
O cântico dos cânticos, de Angela-Lago; O dia de ver meu pai, de Vivina
de Assis Viana; Meu pai não mora
mais aqui, do Caio Riter; O menino e
o pinto do menino, do Wander Piroli;
Felpo Filva, da Eva Furnari; Ninguém
me entende nessa casa!, do Leo
Cunha. Um livro bastante recente,
de uma autora estreante inglesa, me
chamou a atenção: A vida na porta
da geladeira, de Alice Kuipers. O
delicado Mari e as coisas da vida,
de Tine Mortier e Kaatje Vermeire,
também faria parte da biblioteca. E,
sem dúvida, Nina e o amor, do Oscar
Brenifier, com ilustrações de Delphine
Perret, também se faria notar. Aliás,
na minha biblioteca, a cabeceira teria
que ter prateleiras, haveria uma só
para ilustradores. Sem eles, a literatura
para crianças hoje não existiria. Desde
Gustave Doré e John Tenniel eles vêm
fazendo a diferença. No Brasil, gente
como: Nelson Cruz, Odilon Moraes,
Roger Mello, Fernando Vilela, Rosinha
Campos, Janaina Tokitaka, Angelo
Abu, Mariana Newlands, Jean-Claude
Ramos Alphen, não pode ser esquecida quando falamos de literatura de
alto nível para crianças e jovens.
Ruth Rocha
Membro da Academia Paulista de Letras desde
2007, ocupando a cadeira 38, sua obra mais
conhecida é Marcelo, marmelo, martelo, que
já vendeu mais de um milhão de exemplares.
Hoje, tem mais de 130 títulos publicados, traduzidos em 25 idiomas. Em 1998 foi condecorada
com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural
do Ministério da Cultura. Recebeu os prêmios
Jabuti: de Literatura Infantil, em 1990; de Ilustração e Melhor Produção Editorial, em 1993;
e do Livro do Ano de não ficção, em 2002.
Conheça um pouco mais sobre Ruth Rocha.
Você é autora de mais de uma
centena de títulos para crianças
e jovens e tem uma carreira literária reconhecida pela crítica
e, principalmente, pelos milhões
de leitores de sua obra fartamente premiada. Ainda hoje,
existe “o frio na barriga” na
hora de lançar um título? Existe
ainda a expectativa de como o
leitor vai receber a sua obra?
Minha expectativa não é muito grande,
pois a obra literária demora muito para
ser escrita e editada, então, quando
um livro é lançado, a gente já está
muito separada da escrita. Mas adoro
quando o leitor gosta da minha obra.
40
a partir de Mariana Massarani*
Como foi seu primeiro contato com
a literatura? Como você decidiu
ser escritora e como começou?
Quando eu tinha 13 anos, meu
professor José Aderaldo Castelo pediu
para a classe um trabalho sobre o
livro A cidade e as serras, de Eça
de Queiroz. Como o professor tinha
falado muito do livro, fiz o trabalho
sem ler a obra e eu tive a nota mais
alta da classe. Isso me causou muita
vergonha. Tratei de ler o livro e essa
leitura não foi um encontro com a
literatura, foi uma trombada: percebi
o que era um texto de literatura.
Esse livro, já li mais de cinco vezes
e é importante para mim até hoje.
O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens?
Eu penso que ainda não se sabe o
que vai acontecer com esses livros.
Se vão substituir os de papel, se vão
se transformar em brinquedos ou em
ferramentas educativas. Mas acredito que essa mídia deve se somar
às outras mídias existentes, como
mais uma forma de comunicação.
Você, como uma das autoras para
crianças mais conhecidas do Brasil,
tem um público fiel, que praticamente começou a ler com seus
livros e hoje já atingiu a adolescência. Como é a sensação de fazer
parte da vida desses jovens?
Na verdade, meu público já tem por
volta de 50 anos. Hoje eu vejo muitos
netos de meus leitores lendo meus
livros. Isso me causa muita emoção.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Ruth Rocha, com os livros que
mais marcaram sua história, que
obras encontraríamos? Por quê?
Romeu e Julieta, meu primeiro texto
escrito e publicado; Palavras, muitas
palavras, meu primeiro livro editado;
Marcelo, marmelo, martelo, minha
obra de maior sucesso. Quando eu
comecei a crescer, que é importante na minha vida; Nicolau tinha
uma ideia, que eu gosto muito; O
que os olhos não veem, da série dos
reis, que marca minha obra mais
política, e os Dois idiotas, cada
qual no seu barril, que eu adoro.
Para você, qual o maior desafio que
pais e professores enfrentam na
formação do leitor nos dias de hoje?
A competição com outras mídias,
como TV, games e internet.
Sônia Rosa
Profissionalmente, seu primeiro
contato com a literatura infantil
e juvenil foi como contadora de
histórias da Brinquedoteca, espaço
lúdico situado nos jardins do
Museu da República. Você acredita que de tanto contar histórias de outros autores acabou
inventando as suas próprias e
teve vontade de compartilhar?
Acredito que fui mesmo influenciada
pelas inúmeras histórias que contei
ao longo da minha vida. Na verdade,
sempre gostei de contar histórias.
Quando virei professora, fazia isso
todos os dias para os meus alunos.
Desde menina já fazia poesias e
escrevia nos meus diários. Mas a experiência marcante através da partilha
da leitura do livro infantil foi me
provocando a criar novas ideias e a
estreitar ainda mais a minha intimidade com as palavras. Com o tempo,
fui secretamente inventando minhas
próprias histórias para crianças.
Depois desejei compartilhá-las. E
foi aí então que nasceu a vontade
de virar escritora, desejo que até
então nunca havia se manifestado.
Como professora e pedagoga,
você desenvolve projetos de
promoção da leitura e formação
de leitor. Você acredita que esse
trabalho te ajuda a conhecer
melhor os desejos das crianças
na busca de novas histórias?
Promover a leitura e formar novos
leitores são compromissos fundamentais de todo professor. Alguns
projetos nessa área podem mobilizar uma escola inteira. Sinto-me
42
a partir de Luciana Justiniani Hees*
Sônia Rosa tem em seu currículo quatro bibliotecas escolares batizadas com seu nome, duas
obras com o selo Altamente Recomendável da
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil
(FNLIJ), nas categorias Criança e Informativo,
o diploma Orgulho Carioca, em reconhecimento do desempenho a favor da Educação
Pública Municipal, e alguns de seus títulos
foram incluídos no White Ravens de 2008
(catálogo anual com a seleção dos melhores
livros do mundo) e no catálogo de Bolonha.
Conheça um pouco mais sobre Sônia Rosa.
comprometida com esses trabalhos
que visam, basicamente, fortalecer,
junto aos alunos, os laços de amizade
entre eles e os livros de literatura.
Nos eventos literários, a atividade
Encontro com Autor é sempre bem
recebida e agrada a todas as crianças.
Nessas oportunidades, os autores
conhecem os seus leitores e vice-versa.
Nessas conversas amorosas intermediadas com muitas histórias, sempre
sobra tempo para os pequeninos
leitores expressarem as suas opiniões,
revelarem os seus desejos, fazerem
perguntas ou outras considerações.
Uma temática muito presente em
suas histórias é a diversidade afro-brasileira. Por que você resolveu
abordar o tema em seus livros?
Desde o meu primeiro livro, O menino
Nito, de 1995, que personagens negros
estão confortavelmente presentes
nos meus livros. O que começou
de maneira espontânea, como uma
forma de homenagear amigos e
familiares com variados tons de pele,
se tornou, ao longo do tempo, um
cuidado especial, um compromisso
com a temática afro-brasileira. Para
dar conta desse cuidado, fui estudar
e aprofundar o assunto. E descobri
muitas coisas interessantes e importantes para o fortalecimento do “meu
eu” tão afro-brasileiro. Em 2003, foi
sancionada a lei 10.639, que obriga
esses estudos em todas as escolas
públicas e particulares do país. Hoje
encontramos nas livrarias muitos livros
de literatura que contam histórias
africanas, falam de seus mitos, de
suas lendas. Nossas crianças agradecem a presença dessa diversidade
dentro dos livros destinados a elas!
Você tem quatro salas de leitura
com seu nome em escolas municipais do Rio de Janeiro. Conte um
pouquinho dessa história e de que
forma você acha que essas homenagens marcaram a sua carreira.
Recebi essas homenagens como verdadeiros prêmios. Um reconhecimento
do meu trabalho. Um marco na minha
carreira. Trabalhei, durante muitos
anos, no nível central da Secretaria
Municipal de Educação, num departamento que tinha como principal objetivo de trabalho promover a leitura
e formar novos leitores. Dinamizei
muitas oficinas de contação de histórias para professores. Visitei muitas
escolas para conversar com alunos
sobre meus livros, poesia, outros
autores e literatura. Esses encontros
foram sempre amorosos e ricos de
emoção e encantamentos. Batizar as
salas de leitura com meu nome foi
uma decisão que envolveu alunos e
professores. Essa notícia me deixou
mais feliz ainda. Ao final do ano de
2011, ganhei mais um “prêmio”: uma
escola pública de Cabo Frio ofereceu
uma feijoada com apresentação de
uma roda de Jongo para a inauguração
da biblioteca escolar com o meu nome.
Alguns livros da coleção Lembranças
Africanas: Jongo, Maracatu e
Ca­poeira e O Menino Nito participaram da primeira série do
programa Livros animados, do
canal Futura, como parte do
projeto A Cor da Cultura, veiculado ainda hoje pela televisão ou
pelo site do canal. O mesmo aconteceu com o livro Cadê Clarisse,
que ganhou versão musicada
em uma escola mineira. Quando
escreveu as histórias, imaginou que
esses livros poderiam ser adaptados para outras linguagens?
Quando escrevo um texto e ele vira
livro, sei que ele vai correr o mundo
e, então, perco totalmente o controle
sobre sua vida. Para mim é sempre
uma alegria cheia de emoção quando
aprecio meus livros virarem livros
animados, músicas, peças teatrais.
Seu livro Traços e Tramas teve um
processo de criação diferenciado.
Primeiro nasceram as imagens do
ilustrador Salmo Dansa e em seguida
você criou seis contos distintos.
Como foi essa experiência? Foi mais
fácil criar as histórias já sabendo as
imagens que as representariam?
Gostei muito dessa inversão de ordem.
Eu e Salmo fizemos ao contrário, ele
me enviou os desenhos com históricos
distintos de feitura, e então criei histórias para cada um deles. Dei asas à
minha imaginação. Deixei me levar por
cada desenho. Foi delicioso o processo
criativo, porque me deixou leve
como uma pluma... Quando escrevi
o conto “Porquito”, por exemplo, me
diverti bastante. Era como se todos
os contos morassem dentro da minha
cabeça e aguardassem apenas um
desenho para virar letras, palavras…
Seu livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta
foi baseado numa história real,
ambientada no Piauí em 1770.
Uma escrava alfabetizada teve a
coragem de escrever uma carta
ao governador, contando sobre
a sua triste vida e cobrando
atitudes das autoridades. Como
você teve acesso a essa história?
Recebi um convite da Fundação
Palmares para fazer uma história
infantil sobre a temática afro-brasileira. Tinha um prazo curto para a
entrega e fiquei muita ansiosa com
isso. Depois de três dias pensando
insistentemente sobre a tarefa, tive a
ideia de uma carta. Foi quase como
um sopro no meu ouvido. Era de
manhãzinha e eu estava sonolenta
ainda. Levantei e escrevi uma carta
como se tivesse sido redigida por uma
escrava. Depois, criei o contexto para
dar conta daquela carta e de seus
conteúdos... E foi assim que nasceu
o livro Tesouros de Monifa, que
anos mais tarde a editora Brinque-Book publicou. O curioso disso é que
inventei uma escrava alfabetizada e,
em pesquisa, descobri que existiu de
verdade uma escrava que escreveu
uma carta. E uma carta-petição ao
governador! Muito ousada e corajosa essa escrava piauiense. Fiquei
animada com a descoberta e me senti
com a responsabilidade de contar
a história dessa escrava para todo
mundo. Em junho de 2012, lancei o
livro Quando a escrava Esperança
Garcia escreveu uma carta, obra
muito marcante na minha carreira.
Você costuma dizer que “a leitura
alimenta as ideias e que quem conta
uma história abraça alguém!”. Quais
benefícios você acredita que a literatura pode trazer para a vida das
crianças e dos jovens? Por quê?
A literatura proporciona outras possibilidades de experiência para os leitores.
Quem lê, alimenta as ideias, porque a
leitura aguça o senso crítico e provoca
sonhos. Quem lê com­preende melhor
o mundo e também a si próprio. A
intimidade com as palavras se solidifica ao longo do tempo, enquanto
se constrói o repertório de leitura.
Um leitor nunca fica sem palavras
porque, por ser amigo delas, sabe
como organizá-las para transmitir
uma mensagem, uma opinião, um
sentimento — e, por que não dizer,
uma poesia, um texto literário.
Quem conta uma história abraça
alguém porque contar história é um
ato de amor. Quem se prontifica a
oferecer uma história para o outro
é como se falasse assim: estou aqui,
corpo e alma, para compartilhar
uma história, que contarei especialmente para você. Quanto mais
leitores, histórias contadas e livros
de literatura o mundo tiver, mais
sensível, cordial, humano e respeitoso
ele será, não tenho dúvidas disso.
Se você pudesse ter na cabeceira
da cama uma biblioteca Sônia Rosa,
que livros teriam nela? Por quê?
Tenho sempre na minha cabeceira alguns livros de contos. E,
entre tantos, cito alguns de meus
autores preferidos: Mia Couto,
Clarice Lispector, Conceição Evaristo,
Mario Quintana e Lima Barreto.
Stela Barbieri
Artista plástica, educadora, escritora e contadora de histórias, é curadora do Educativo
da Bienal de Artes de São Paulo desde a 29ª
edição. Em 2011, implementou o educativo
permanente da Fundação Bienal e realizou a
curadoria educativa da exposição Em Nome dos
Artistas. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura e tem mais de dezoito títulos publicados.
Conheça um pouco mais sobre Stela Barbieri.
Artista plástica, educadora, escritora e contadora de histórias. Qual
dessas Stelas nasceu primeiro?
As Stelas contadora de histórias,
educadora e artista plástica nasceram
juntas aos 17 anos. Comecei a dar aula,
contar histórias e a participar de um
coletivo de artistas no mesmo período.
Você é artista plástica e atua como
assessora de artes de educação
infantil e ensino fundamental em
algumas escolas. Em sua opinião,
qual a principal diferença entre as
histórias contadas com palavras e
as contadas por meio de imagens?
As histórias contadas com palavras inventam imagens. As histórias
contadas com imagens inventam
palavras. As imagens alimentam
as palavras e as palavras alimentam as
imagens, aprendi isso com Luis Perez
Oramas, que foi curador da trigésima
Bienal de Artes Visuais de São Paulo.
44
a partir de Fernando Vilela*
Como artista plástica, você trabalha
com diversos materiais, como
látex, vidros, pigmentos, areia,
cera de abelha, argila... Parte de
formas orgânicas que, por meio
de sua ação, vão ganhando outra
natureza corpórea. Você acha
que esse seu trabalho também
é uma maneira de contar histórias por meio das formas?
Os trabalhos catalisam as histórias
numa cápsula sintética de sentidos,
mas podem disparar narrativas que
nem sempre seguirão uma sequência.
É preciso que se criem ambientes para
que a relação com a arte possa ativar
ativar nossas narrativas em nós.
Você realiza narrativas de contos
autorais e da tradição oral. Já se
apresentou na Sala São Paulo com a
Orquestra Popular de Câmara. Além
disso, é assessora em arte educação
para instituições e projetos culturais, como o projeto Escola no
Cinema do Espaço Itaú de Cinema.
Em sua opinião, qual a principal
diferença entre essas linguagens?
E qual delas atinge mais rapidamente a fantasia da criança?
A linguagem é integrada ao conteúdo
que ela expressa, aos conceitos que
cria, aos movimentos que faz. Todas
as linguagens podem ser muito mobilizadoras, depende da qualidade
daquilo que torna visível uma ideia,
uma história. A linguagem não está
mais ou menos próxima da criança,
depende da maneira como ela traz,
como ela toca, como ela desloca. É
estar no mundo de uma outra maneira.
Tudo depende de qual é o filme, qual
é o livro, qual é a música, da qualidade da forma e do conteúdo.
Você é diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake
desde 2002. Para você, qual o
maior desafio dos professores
hoje na formação do leitor?
Primeiro, a formação deles mesmos
como leitores vivos e da vida. Depois,
escutar as crianças, sentir como
cada livro reverbera, que palavras as
crianças trazem para o convívio, que
experiências elas trazem para a vida.
O que você pensa dos livros
digitais para crianças?
Podem ser tão interessantes quanto os
outros. Depende de qual é a história
e de que modo será contada. O livro
digital ainda precisa ser desenvolvido,
porque cada meio tem suas especificidades. Antes de usá-los na sua
maior potência, precisam ser feitos
vários experimentos. Se for usado de
maneira inteligente, o livro digital,
assim como todas as outras linguagens, poderá ter bom proveito. Se
não, terá vida curta e será descartado pelas crianças, que procurarão
algo com potência mais vibrante.
Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca
Stela Barbieri, com os livros que
mais marcaram a sua história,
que obras teriam nela? Por quê?
Livros que li na infância: Histórias de
tia Anastácia, de Monteiro Lobato,
Juca e Chico, Robinson Crusoé e
Histórias que ouvi do Zé Macaco e
do João Felpudo. Na adolescência
e vida adulta: O livro dos seres
imaginários, do Jorge Luis Borges,
Histórias de Cronópios e de Famas
e O Jogo da amarelinha, de Julio
Cortázar, As cidades invisíveis e
Fábulas italianas, de Italo Calvino, e
Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, entre tantos outros.
Passeios pelo bosque da juventude:
poesia, amor, dor e ousadia!
Uma das perguntas mais frequentes feita por
educadores é: como eu faço para o meu aluno
gostar de ler? Ora, a resposta é muito simples:
leia com ele, leia para ele, apresente bons livros
e o deixe ler, sentir, pensar e discutir, sem
amarras ou provas de livro. Provas de livro não
formam leitores apaixonados. Mas o contato
prazeroso com a leitura sim. Acontece que,
quando as crianças se tornam adolescentes,
parece que esquecemos que os jovens também
precisam do contato lúdico com a leitura, e,
muitas vezes, acabamos afastando dos livros
aqueles que já gostavam de ler. Isso acontece porque na maioria dos casos os livros da
escola estão atrelados à obrigação, dever de
casa e não a um contato mais intenso com
a leitura. Um contato que possa despertar
novos olhares para o mundo e para a vida.
A juventude é um momento intenso de buscas,
dúvidas, questionamentos profundos, amores,
dores, perdas, solidão interior, alegria sem
medidas, vontades escondidas, reveladas,
desejos, e um tanto de ousadia para transgredir valores impostos pela sociedade. Mas
também é típico dos jovens mudarem de
humor a cada segundo, de humor e opinião,
uma vez que estão em busca de significados
para suas vidas. No fundo, estamos em eterna
busca de significados para nossa vida, sejamos
jovens ou adultos. E nada melhor do que a
leitura de bons livros de literatura para nos
ajudar a ressignificar a vida a cada momento.
Mas como os jovens gostam de liberdade de
expressão e queremos que eles se apaixonem
pelos livros e se tornem leitores para além dos
muros escolares, deixemos que eles leiam os
livros com possibilidades múltiplas de mergulhar nas histórias, para que estas sejam ponto
de partida para novos voos artísticos. Será que
na sua sala de aula existe um futuro artista?
Separamos para este eixo temático os seguintes livros:
Nó na garganta, de Mirna
Pinsk, ilustrado por Andréa
Ramos — Atual
Contando histórias em versos,
de Braulio Tavares — Editora 34
Demônios em quadrinhos,
Aluíso Azevedo, por Eloar
Guazzelli — Peirópolis
O tesouro de Ana, de Mirna
Pinsk, ilustrado por Rosinha —
Edições SM
Pescador de naufrágios, de
Ana Maria Machado, ilustrado
por Igor Machado e Meton
Joffily — Moderna
Com fio, de Ninfa Parreiras,
ilustrado por Ricardo A. —
Larousse
A árvore dos desejos, de
William Faulkner, ilustrado por
Eloar Guazzelli — Cosac Naify
O pagador de promessas em
graphic novel, de Dias Gomes,
ilustrado por Eloar Guazzelli —
Nova Fronteira
Umbu — Coleção Um pé de
quê? — texto adaptado por
Fabiana Werneck Barcinski,
ilustrado por Eloar Guazzelli —
WMF Martins Fontes
Um dia de chuva, de Eça de
Queiroz, ilustrado por Eloar
Guazzelli — Cosac Naify
Pawana, de J. M. G. Le Clézio,
ilustrado por Eloar Guazzelli —
Cosac Naify
As 17 cores do branco, de Luiz
Raul Machado, ilustrado por
Ana Freitas — Galera Record
46
Nesses livros, temos de tudo um pouco:
busca da identidade, transformações, relações familiares, perdas, afetos, dúvidas,
conflitos sobre o crescer, vazios, poesias, dor
do crescimento, fantasias, sonhos, morte,
vida, meio ambiente, preconceito, questionamentos sobre a vida, sobre famílias, sobre
o estar no mundo, histórias recontadas,
histórias inventadas, histórias em quadrinhos, histórias em versos, graphic novel…
Instigue seus alunos a perceberem que
existem diferentes formas de escrever e ilustrar. Converse com eles sobre a identidade
de cada artista. Leia para eles as entrevistas dos autores convidados. Convide-os
a conhecer a vida e a obra de cada um.
Sugerimos que estes livros sejam levados
para a sala de aula e circulem livremente
entre os alunos. Selecione um ou outro
para ler junto com a turma, por que não?
Não é porque os alunos crescem que não
podemos mais ler com eles! Leitura compartilhada tem outro sabor e pode gerar grandes
debates. Determine um tempo (dois meses?)
para que os alunos leiam o maior número
de livros possível. Ao longo desses meses,
promova rodas de leitura para que possam
compartilhar suas experiên­cias com os
livros. Incentive-os a montar um quadro de
opiniões, onde cada um poderá escrever o
que achou de cada livro, instigando outros
alunos a lerem a história de que gostaram.
Após as leituras e os debates, procure um
espaço na escola onde possa ser criado um
ateliê de criação artística. Poderemos chamá-lo
de Território do Aluno. A primeira etapa será
definir o espaço. Existe uma sala de artes na
escola? Ou, se não existir, será que é possível
usar o pátio? Ou um canto da sala de aula? O
importante é criar um ateliê contendo diversos
materiais, para que os alunos possam criar
alguma coisa a partir das leituras dos livros.
Contos de enganar a
morte, texto e ilustrações de Ricardo
Azevedo — Ática
O livro dentro da
concha, de Ricardo
Filho, ilustrado por Soud
— Globo
João Bolão, de Ricardo
Filho, ilustrado por
Angelo Abu — Editora
Globo
O violino cigano e
outros contos de
mulheres sábias, de
Regina Machado, ilustrado por Jubert — Cia.
das Letras
A Nau Catarineta, de
Ana Maria Machado,
ilustrado por Estúdio
Mimo (Meton Joffily) —
Moderna
O motoqueiro que
virou bicho, de Ricardo
Azevedo — Moderna
Vovó Benuta, de Sônia
Rosa, ilustrado por
Anna Bárbara Simonin e
Marília Bruno — Galera
Record
Para que isso aconteça, disponibilize o máximo
de materiais que conseguir: papel sulfite, lápis,
canetas, tintas, pincéis, pedaços de tecido
branco e/ou telas, papéis coloridos, retalhos, barbante, revistas, jornais, cola, giz de
cera, hidrocor, bolinha de isopor, lã, agulha,
linha, câmera fotográfica ou filmadora e
tudo mais que a imaginação puder alcançar.
É nessa hora que o professor precisa ser
um bom mediador de leitura, incentivando seus alunos a criar algo a partir das
leituras. Pode ser recontando um livro com
imagens, pode ser pegando um dos títulos
que não é em quadrinhos e transformando
a história numa HQ. Pode ser tanta coisa...
Imagine, por exemplo, as histórias do livro O
violino cigano e outros contos de mulheres
sábias sendo pintadas em pedaços de tecido
branco e depois essas partes sendo costuradas
para formar uma grande colcha de patchwork?
Imagine O motoqueiro que virou bicho sendo
grafitado no muro da escola? Ou Demônios
em quadrinhos instigando um aluno a criar a
sua própria história em quadrinhos, contando
algo que “invadiu” sua noite (ou sua vida) ou
mesmo levando-o a escrever um conto fantástico que poderá ser ilustrado por outro aluno?
Podem existir alunos comprometidos com a
questão ambiental e quem sabe eles embarcam
nas leituras de Umbu e O tesouro de Ana
e criam um documentário sobre como vive
a população caiçara de Paraty ou sobre as
árvores dessa cidade? Será que existe alguma
especulação imobiliária em Paraty, como existiu
em Santana (da história O tesouro de Ana)?
Quem sabe surgem ideias para alguns
alunos criarem suas próprias músicas a
partir da leitura de alguns livros, em especial de Contando histórias em versos.
Quem sabe uma banda surge na turma?
Ou quem sabe algum aluno resolve pegar
o livro Um dia de chuva para transformá-lo em uma graphic novel, como fez Eloar
Guazzelli com O pagador de promessas?
Nó na garganta pode virar um projeto
chamado: Você não é preconceituoso?
Tem certeza?! No qual os alunos poderão
criar esquetes com cenas sobre preconceito, questionando o fato de as pessoas
falarem que não são preconceituosas, até
acontecer algo com seus familiares.
João Bolão pode incentivar a criação de
bonecos representando o que cada um
gostaria de mudar em si mesmo. Mas quem
sabe alguém não resolve encenar alguns dos
Contos de enganar a morte, apresentando ao
final um conto de sua autoria sobre a morte,
com base em um fato real paratiense?
48
Quantos alunos conhecem uma vovó parecida com a Vovó Benuta? Uma boa pedida
é a criação de um livro ilustrado contando
histórias de avós. Existem tantas... Pode ser
inclusive uma história sobre as avós que
gostaríamos de ter tido e não tivemos.
As 17 cores do branco é um livro que pode
gerar uma série de quadros em que os alunos
irão pintar a resposta para a pergunta: será o
branco invisível, ou a soma de todas as cores?
Ou quem sabe, depois da leitura de A árvore
dos desejos (debaixo de uma árvore) a turma
não resolve plantar desejos? Que desejos os
alunos querem plantar? Poderão ser revelados? Ilustrados? Musicados? Escritos?
Outra ideia pode ser um passeio até a praia
para uma roda de histórias inventadas, a fim
de descobrir as histórias que uma concha do
mar pode revelar. Tal como o menino Pedro,
de O livro dentro da concha, descobriu. Será
que na turma tem algum filho de pescador? Já
imaginou a criação de uma história de pescador
em HQ? Algum aluno pode querer juntar histórias de pescadores com as histórias dos livros
A Nau Catarineta, O pescador de naufrágios
e Pawana e criar um livro com o título Os
sete mares para além das praias de Paraty.
Quem sabe Com fio inspire a criação de uma
linha do tempo de cada jovem? Para que
possam revisitar sua própria história e contá-la em um blog, com fotos e pensamentos.
As possibilidades são sempre múltiplas quando
falamos de livros, histórias e vida. Veja só
quantas coisas podem ser feitas a partir da
leitura dos livros. Ou quantas outras ideias
você e seus alunos podem ter! O importante é começar a ler e descobrir os caminhos que os livros podem revelar. Surpresas
incríveis podem acontecer nesse percurso,
basta acreditar e dar asas à imaginação!
Um bom debate para ser feito ao final dos
trabalhos é sobre processos criativos: o que
e como cada um criou? Por que teve essa
ideia? Quanto tempo levou para executá-la? Teve inspiração? E transpiração? Ou
seja, teve muito trabalho para conseguir colocar em prática a sua ideia?
Ao final, os alunos podem se autoentrevistar e redigir de forma bem bacana
essas entrevistas, que, juntamente com
os trabalhos, podem gerar uma exposição incrível na escola. Cada um com seu
traço, sua cor, sua maneira singular de se
expressar, sua identidade! Vamos lá!
Crianças, livros e brincadeiras:
o imaginário no poder!
Era uma vez...
... e aí um dragão e uma bruxinha batem à sua
porta e... nhacktplackt... de repente Romeu
e Julieta viraram borboleta e não fazem mais
parte de um conto clássico de Shakespeare. O
amigo do rei agora é uma criança, mãe e pai
agora sabem surfar e andam fazendo a maior
bagunça no mar, e, ai, meu Deus!, cadê Clarisse
que ninguém sabe onde foi parar? Talvez esteja
nas estrelas com Tati, que é pra lá de especial,
mas bem que poderia ser espacial e estar ao
lado de Lua, enquanto o porquinho Lino as
observa brincar montadas em Adamastor, que
um dia fugiu lá para casa do meu avô. Ainda
bem que o cachorro Babucho, meu bichinho
de estimação, não foi junto, ufa! Ainda bem
que a Mel está de bem com a vida e pensando
em escrever uma carta para convidar o João
Teimoso e a Maria Dengosa para encararem
uma maré e um sonho. Mas o problema é
que as cartas quase se perderam, junto com
a carta errante, da avó atrapalhada e da
menina aniversariante. Mas de repente veio
um barulhão lá do quintal do meu avô: tchibumbum… nossa!!! Foi um balde de tintas que
se espatifou bem dentro do balde de chupetas
e dos bichos que andavam pelo jardim. E
ainda sobrou para o gato que vivia cantando
de galo. Não deu outra, todos foram parar
num enorme chuveiro, onde estavam escondidos exatamente um dragão e uma bruxinha,
que nhac… comeram toda a história. Fim!
O que você acabou de ler é o que podemos
chamar de o imaginário no poder. Mas, na
verdade, é uma grande brincadeira com os
títulos dos livros deste eixo temático.
50
De bem com a vida, O balde
das chupetas e Bagunça no
mar, todos escritos por Bia
Hetzel e ilustrados por Mariana
Massarani — Manati
Chuveiro, A tinta e Os bichos,
Coleção Bagunça, de Karen
Acioly, ilustrados por Nathalia
Sá Cavalcante — Rocco Jovens
Leitores
A bruxinha e o dragão, texto
e ilustrações de Jean-Claude
R. Alphen — Companhia das
Letrinhas
Com a maré e o sonho, de
Ninfa Parreias, ilustrado por
André Neves — Editora RHJ
João teimoso, de Luiz Raul
Machado, ilustrado por Graça
Lima — Nova Fronteira
Lino, texto e ilustrações de
André Neves — Callis
Maria dengosa, de Luiz Raul
Machado, ilustrado por Marilda
Castanha — Formato
Agora que você já conhece os livros selecionados, releia o texto inicial. Pronto! Agora
podemos continuar. Crianças, livros e brincadeiras: o imaginário no poder! não existe título
melhor para um eixo temático. Porque para as
crianças o imaginário está sempre no poder,
afinal de contas, no mundo do faz de conta,
tudo é possível e a imaginação sempre fala
mais alto. Mas parte deste título não surgiu
do nada, foi inspirado no livro O imaginário
no poder, de Jacqueline Held, que nos conta
muito sobre o poder da imaginação na vida das
crianças. Esse livro faz parte da coleção Novas
Buscas em Educação, coordenada por Fanny
Abramovich, da Summus Editorial. Outro livro
muito bom dessa coleção se chama Quando
eu voltar a ser criança, de Janusz Korczak,
que conta como é ser criança em um mundo
regido por adultos. Recomendamos a leitura
desses livros para que cada um possa mergulhar neste eixo temático com o olhar mais
aberto para a infância, o livro e a fantasia.
Crianças, livros e brincadeiras. Tudo num
pacote só, porque bons livros têm a mesma
função da brincadeira: fazer a criança entrar
no mundo do faz de conta, no mundo da
imaginação. É como nos conta Umberto Eco,
em seu livro Seis passeios pelo bosque da
ficção, publicado pela Companhia das Letras,
a respeito das narrativas ficcionais e do
brincar: “Entretanto, qualquer passeio pelos
mundos ficcionais tem a mesma função de
um brinquedo infantil. As crianças brincam
com boneca, cavalinho de madeira ou pipa
a fim de se familiarizar com as leis físicas do
universo e com os atos que realizarão um dia.
Da mesma forma, ler ficção significa jogar um
jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao
lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade
que nos assalta quando tentamos dizer algo
verdadeiro a respeito do mundo. Essa é função
consoladora da narrativa — a razão pela qual
as pessoas contam histórias e têm contado
histórias desde o início dos tempos. E sempre
foi a função suprema do mito: encontrar uma
forma no tumulto da experiência humana”.
O cachorro Babucho, de Luiz
Raul Machado, ilustrado por
Sami e Bill — Globo
Adamastor, o pangaré, texto
e ilustrações de Mariana
Massarani — Melhoramentos
Cadê Clarisse?, de Sônia Rosa,
ilustrado por Luna — Editora
DCL
Carta errante, avó atrapalhada, menina aniversariante,
de Mirna Pinsk, ilustrado por
Ionit Zilberman — FTD
Dois títulos da Série Vou Te
Contar, de Ruth Rocha: O
amigo do rei, ilustrado por Cris
Eich, e Romeu e Julieta, ilustrado por Mariana Massarani —
Salamandra
A casa do meu avô, texto e
ilustrações de Ricardo Azevedo
— Ática
Meu bicho de estimação, de
Yolanda Reyes, traduzido por
Marina Colasanti, ilustrado por
Mariana Massarani — FTD
Aula de surfe, texto e ilustrações de Mariana Massarani —
Global Editora
Vamos mergulhar no jogo imaginário da
leitura e criar possibilidades. Comece separando os livros em um canto da sala e crie
momentos de leitura compartilhada, deixe
que os alunos levem os livros para ler em
casa e comece a inventar histórias com eles.
A bruxinha e o dragão; O gato que cantava
de galo; Adamastor, o pangaré; O cachorro
Babucho e Meu bicho de estimação podem
abrir portas para a criação de um zoológico
imaginário, onde cada criança terá um bicho,
que pode ser inventado ou real. Como é esse
bicho? O que come? O que faz? Depois vão
criar os bichos e o zoológico imaginário com
materiais reciclados. Com tudo pronto, imagine
só as novas histórias que podem surgir quando
a bicharada se encontrar? Será que vai ter
confusão? Todos ficarão amigos? Quem sabe
não surge um livro com novas histórias de
bichos escritas e ilustradas pelas crianças? Viu
só como um projeto já dá ideia para um novo?
Paraty tem muitas praias. Que tal um passeio
até um delas para a leitura de Aula de surfe,
Bagunça no mar e Com a maré e o sonho.
Biquíni, sunga, protetor solar, barraca e um
lanchinho para uma manhã ou tarde na
praia. O que será que pode surgir em uma
roda de leitura na praia, com histórias de
sol, mar, areia, surfe, sereias, desejos de
conhecer o mar nunca antes visto, sonhos
e muita diversão? Vamos descobrir?
E que tal um momento poesia em prosa e
versos? A leitura de Maria Dengosa, João
teimoso, A casa do meu avô, Tati é especial e
Lino pode se desdobrar num projeto chamado
Aprendendo a Ouvir os Silêncios, como disse
Luiz Raul em um de seus livros. Como será
que se ouve silêncios? Silêncio pode ser barulhento? Luiz também falou sobre ler as coisas
no livro da vida. Será que Lino leu? E o menino
que foi à casa do avô? E João Teimoso? E
Maria Dengosa? E Tati? Para instigar a criançada sobre o fazer poético e a poesia, faça
algumas perguntas: o que é poesia? Onde
podemos encontrar poesia em nosso dia a
dia? E para que serve a poesia? Será que serve
para alguma coisa? Qual é a diferença entre
poesia em versos e poesia em prosa? Existe
isso ou é só uma invenção? A partir dessas
perguntas, incentive a turma a criar suas
histórias poéticas. Garanto que você vai se
surpreender, porque as crianças estão muito
mais próximas da linguagem poética do que
podemos imaginar. Incentive-as também a criar
poesias com imagens, como tão lindamente
fazem os ilustradores. Junte texto e imagens
e faça uma exposição do material na escola.
Carta errante, avó atrapalhada, menina
aniversariante pode deflagrar um grande
projeto sobre cartas. Leia o livro, bata um
papo com a turma, deixe que os alunos falem
livremente sobre o que pensaram ou sentiram.
Depois inicie uma troca de cartas. Cada aluno
irá escolher para quem vai enviar? Terá um
52
tema específico? Um motivo especial, qual
será? Uma boa pedida é a turma conhecer os
correios e postar as cartas. E que tal entrevistar o carteiro, para que as crianças possam
conhecer o trabalho desse profissional? Quem
sabe as crianças contam para o carteiro a
história da avó atrapalhada e perguntam
se já aconteceu algo parecido com ele?
Chuveiro, A tinta, Os bichos, Cadê Clarisse?, O
balde das chupetas e De bem com a vida são
livros com textos curtos, interação entre texto
e imagem e muita ludicidade. Aqui a sugestão
é deixar a turma explorar os livros de forma
mais sensorial possível. Leia para as crianças
e depois brinque bastante com as histórias.
Brinquem com tinta, com pintura a dedo, por
exemplo, e depois tomem banho de mangueira.
Em De bem com a vida conhecemos os gatinhos da Mel. Junte esse livro com todos os
outros de bichos e descubra que bichos as
crianças têm ou não têm e/ou gostariam de
ter. Já imaginou que boa ideia pode ser cada
criança se pintar de um bicho e depois brincar
de se esconder como a menina Clarice e, ao
final da brincadeira, vir o banho de mangueira
no pátio? Festa completa! E será que nessa
festa no pátio vai ter uma balde das chupetas?
Será que alguém ainda chupa chupeta na sala?
O amigo do rei e Romeu e Julieta fazem
parte da série Vou Te Contar, que foi toda
escrita entre os anos 1969 e 1981. Muitas
dessas histórias foram publicadas na antiga
Revista Recreio e vinham acompanhadas de
jogos lúdicos. Essa série e todos os livros
de Ruth Rocha estão reunidos na Biblioteca
Ruth Rocha. A dica é que leiam não só esses
dois títulos, mas todos com os quais você se
encantar e que desejar compartilhar. Será que
na biblioteca da escola não tem uma Revista
Recreio? Seria muito bacana a turma conhecer
o que era feito naquela época. Depois das
leituras e troca de ideias, que tal dividir a
turma em grupos e cada grupo inventar jogos
criativos a partir das histórias. As crianças
podem confeccionar os jogos e compartilhar com a turma e depois montar na sala de
aula um cantinho das brincadeiras de livros.
Esse cantinho pode virar um sucesso, que
terá a essência deste eixo temático: crianças,
livros e brincadeiras, tudo misturado!
Cultura popular, identidade e ação!
Este eixo temático reúne livros que abordam
questões referentes à cultura popular
brasileira, literatura de cordel, histórias de
origem indiana, indígenas, africanas, orientais, personagens originários do folclore
da Turquia, do Japão e de diversos pontos
do mundo. Será uma grande oportunidade
de visitarmos diferentes culturas, países,
mitos, lendas e personagens incríveis.
Armazém do folclore e Meu
livro de folclore, um punhado
de literatura popular, textos e
ilustrações de Ricardo Azevedo
— Ática
As queixadas e outros contos
guaranis, escrito por vários
autores, organizado por Olívio
Jekupé, ilustrado por Fernando
Vilela — FTD
Os livros selecionados para este eixo são:
Capoeira, Maracatu, Jongo,
Feijoada e O tabuleiro da
baiana, Coleção Lembranças
Africanas, de Sônia Rosa, ilustrados por Rosinha Campos —
Pallas Editora
Iarandu, o cão falante, de
Olívio Jekupé, ilustrado por
Olavo Ricardo — Peirópolis
A invenção do mundo pelo Deuscurumim, de Braulio Tavares, ilustrado por
Fernando Vilela — Editora 34
Os tesouros de Monifa, de Sônia Rosa,
ilustrado por Rosinha — Brinque-Book
Quando a escrava Esperança Garcia
escreveu uma carta, de Sônia Rosa, ilustrado por Luciana Justiniani Hees — Pallas
Editora
O bicho Manjaréu, O boi Leição
e A onça e o bode, Coleção O
Brinquedo Faz a História, de
Stela Barbieri, ilustrados por
Fernando Vilela — Scipione
54
Recorremos a um trecho de Ricardo
Azevedo, em seu Armazém do folclore,
para iniciar uma reflexão:
“Acredito que os contos, ditados, quadras, brincadeiras e adivinhas populares sejam não algo
para ser conservado só por ser antigo ou tradicional, mas muito mais que isso: um riquíssimo
depósito de conhecimento humano a respeito
da vida e do mundo, criado a partir de uma
forma de pensar, ao mesmo tempo pragmática, intuitiva, lúdica e corporal, sempre atual
e em permanente estado de recriação. Nesse
sentido, a cultura popular brasileira, mesclando
as influências europeia, indígena e africana, é
sempre valiosa, complexa e patrimônio único”.
É! Estamos diante de “um riquíssimo depósito de conhecimento humano a respeito da
vida e do mundo”. Tantos conhecimentos nas
páginas dos livros selecionados... Tantas histórias diferentes, caminhos e possibilidades...
Mas o que fazer com tudo isso? A primeira
coisa é ler e descobrir o que as histórias podem
nos contar. Quem sabe a leitura desses livros
traz alguma inspiração para a criação de um
projeto? Iremos sugerir alguns caminhos, mas
como gostamos de dizer desde o primeiro
manual, cada professor precisa ter autonomia
e criatividade para inventar seus próprios
projetos de leitura e saber o que pode dar
certo com sua turma. Estamos dando apenas
sugestões, abrindo o olhar para algumas
nuances dos livros, mas cabe a cada professor
escolher como e o que fazer com os livros.
Para este eixo temático, pensamos na criação
do projeto Conhecendo o Mundo e dividimos os livros em cinco grupos. São eles:
Conhecendo o mundo pelo olhar da cultura
africana: Coleção Lembranças Africanas;
Quando a escrava Esperança Garcia escreveu
uma carta e Os tesouros de Monifa.
Conhecendo o mundo pelo olhar de
algumas culturas que poucos conhecem:
ABC do Japão; O livro das cobras; Simbad,
o marujo; A formiga Aurélia e outros
jeitos de ver o mundo e Nasrudin.
Conhecendo o mundo pelo olhar da
cultura indígena: Tekoa, conhecendo uma
aldeia indígena; Iarandu, o cão falante;
A ajuda do Saci; Kamba’i e A invenção
do mundo pelo Deus-curumim.
Conhecendo o mundo pelo olhar da literatura de cordel: A pedra do meio-dia ou
Artur e Isadora, literatura de cordel.
Conhecendo o mundo pelo olhar da cultura
brasileira: Armazém do folclore; Meu livro de
folclore; Coleção O Brinquedo Faz a História.
Comece apresentando os livros. Peça a cada
aluno para escolher um dos cinco grupos.
Com os alunos divididos, instigue-os a ler e
conhecer mais profundamente a cultura e a
identidade de cada um dos povos. Os alunos
podem explorar os livros através de diferentes
linguagens artísticas. A turma poderá montar
uma grande feira de cultura para apresentar
o resultado do projeto Conhecendo o Mundo.
Pode ter comidas de diversos pontos do Brasil
e do mundo. Cartas inventadas contando
sobre personagens da época da escravatura.
Brinquedos criados pela turma a partir da
coleção O Brinquedo Faz a História. Roda de
leitura. Pinturas de temáticas indígenas que
poderão ser feitas em telas ou no próprio
corpo, utilizando tintas específicas. Textos
em cordel a partir de histórias da cultura
paratiense. Ou quem sabe uma adaptação
de Nasrudin ou A formiga Aurélia e outros
jeitos de ver o mundo para o cordel?
O professor de Educação Física pode
entrar no projeto usando o livro Ca­poeira.
Quem sabe alguns alunos inventam uma
história a partir da capoeira e contam
essa história jogando capoei­ra e representando uma narrativa corporal?
O professor de História pode embarcar no
projeto trazendo novas histórias da cultura
de cada um dos povos. O professor de Artes
pode montar com os alunos alguns painéis
56
ilustrados representando a pintura desses
povos. Mas para que as pinturas tenham
qualidade artística, recomendamos que o
professor apresente técnicas diferenciadas
aos alunos, que estude com a turma a
melhor maneira de representar em imagens
a história de cada cultura. Vale mergulhar
nas ilustrações dos livros, mostrando que
existe um leque diferenciado de ilustrações,
e levantar a seguinte questão: por que será
que esse ilustrador utilizou essa técnica e não
outra? Essas cores e não outras? Cada aluno
poderá escolher como vai criar a sua pintura.
Quem sabe os alunos criam xilogravuras?
Conforme nos conta o site www.paratyvirtual.
com.br/indios.asp, em Paraty existem duas
reservas tupi-guaranis. Que tal os alunos
visitarem essas reservas para conhecer como
vivem esses indígenas e conhecer um pouco
da cultura. Será que existe alguma relação
entre a aldeia desses indígenas e a aldeia de
Olívio Jekupé, que também é guarani? Que tal
o grupo responsável por esse tema mergulhar
na pesquisa e apresentar algum resultado do
encontro com esses indígenas de Paraty.
Os jovens de hoje estão totalmente conectados.
Precisamos também oferecer a eles a possibilidade de criação de alguma releitura das
histórias utilizando os recursos audiovisuais,
virtuais, tecnológicos. Quem sabe os alunos
podem criar um vídeo sobre A invenção do
mundo por um curumim paratiense? Ou um
booktrailer de Simbad e suas aventuras? Ou
um blog inventando um Armazém do folclore
paratiense? Ou uma comunidade virtual
chamada Para Além das Fronteiras, apresentando histórias a partir de O ABC do Japão ou
de qualquer um dos livros de outras culturas?
A formiga Aurélia e outros
jeitos de ver o mundo e
Nasrudin, de Regina Machado,
ilustrados por Angela-Lago —
Companhia das Letrinhas
A ajuda do Saci, Kamba’I, de
Olívio Jekupé, ilustrado por
Rodrigo Abrahim — Editora DCL
Simbad, o marujo, de Stela
Barbieri, ilustrado por
Fernando Vilela — Cosac Naify
A pedra do meio-dia ou Artur e
Isadora, literatura de cordel, de
Braulio Tavares, ilustrado por
Cecilia Esteves — Editora 34
ABC do Japão, de Stela
Barbieri, ilustrado por
Fernando Vilela — Edições SM
Tekoa, conhecendo uma aldeia
indígena, de Olívio Jekupé,
ilustrado por Maurício Negro
— Global
O livro das cobras, de Stela
Barbieri, ilustrado por
Fernando Vilela — Editora DCL
Quem sabe os jovens não começam a perceber
que as diferenças entre os povos também estão
repleta de igualdades? Um excelente trabalho
pode ser a criação de um documentário sobre
a cultura africana, contando sobre a escravatura e suas nuances. Mas o grande barato
desse documentário será fazer um paralelo
entre os livros lidos e os acontecimentos do
tempo em que os escravos viveram em Paraty.
Quem sabe uma visita à comunidade quilombola do Campinho da Independência (projetonegrosenegras.blogspot.com.br/2008/07/
comunidade-quilombola-de-paraty-rj-une.
html) não seja um caminho para essas descobertas e outras que certamente virão?
O livro das cobras pode inspirar a criação de
histórias a partir do olhar da cidade de Paraty
e seus arredores. Quem sabe a inspiração
não venha com histórias de origem indígena,
africana, caiçara, ou mesmo com histórias de
folclore contadas através dos tempos pelos
avôs ou pelos contadores de histórias locais? A
criação de livro virtual contando essas histórias
pode gerar um resultado muito interessante.
Acreditamos que ficou claro que cada livro
pode abrir muitos caminhos e que o papel
do professor mediador de leitura nunca
deve ser o de fechar os caminhos, mas
sim o de abrir novos horizontes, para que
livros e vida se entrelacem trazendo novos
olhares para a história de cada um. Estes
livros podem mexer muito com o imaginário dos alunos. E reconhecer que temos
olhares diferenciados é muito bom. Conhecer
novas culturas, revisitar as culturas com
um novo olhar, pode ser maravilhoso.
Terminaremos com algumas palavras que Ailton
Krenak usou na apresentação do livro Tekoa.
Ailton nos coloca como viajantes de mundos
imaginários. “Atravessamos fronteiras para
capturar histórias, imagens, seres, memórias.”
Temos poesia, vento nos olhares e olhares
abertos para o deslumbramento do tempo.
Vamos então nos abrir para esse deslumbramento do tempo, das histórias e permitir que
elas nos levem a conhecer outras terras, outras
culturas, nossa própria cultura, que tantas
vezes mal conhecemos... Sejamos viajantes
do tempo e dos livros! E deixemos que tudo
isso nos conte novas histórias, nos reinventando a cada momento um pouco mais.
Tudo pode ser diferente!
Vento entende de tempo? O que o
vento sabe inventar se só ele sabe
quanto sentimento o tempo tem?
Pode um lago morar num cartão-postal? E dentro desse cartão pode
morar uma fada? E menino? Pode morar
num cartão-postal? E pode alguém com
tanta liberdade sentir tanta tristeza?
Você sabe como alguém pode ter o olhar
parado no tempo? O menino Tom sabe...
Você conhece alguma criança que ame
fazer perguntas? Ruth Rocha conhece.
Marcelo vivia perguntando por onde a chuva
cai, por que o mar não derrama, por que
cachorro tem quatro patas e muito mais.
Será que chegadas e partidas possuem
cores e cheiros? E sentimentos?
Existe um artista em cada um de nós? E
um quê de preguiçoso, solitário e guloso?
E será que temos ou não qualidades?
Será que um só menino pode
empinar a travessia do tempo?
O que pode acontecer quando uma velha perde
sua mala e seus cocos numa viagem de ônibus?
O pai partiu levando uma enorme mala.
Para onde será que foi? Fazer o quê?
Com quem? Será que vai voltar? O que
será que levou na mala? E por que fez
a mãe chorar, se ela nunca chorava?
Pode o céu ser teto de alguma coisa? E
será que o sempre pode acabar? Pode
existir chuva num cartão-postal?
Será mesmo que o que os olhos não veem o
coração não sente? E o que será que pode
acontecer quando um rei adoece e não
consegue mais enxergar o seu povo, quer dizer,
só consegue enxergar os grandes e fortes e
esquece os pequeninos que falam baixinho?
58
Quantas mães cabem em uma única mãe?
Complexa essa pergunta, você não acha? E
será que avó sabe contar lorotas? Ou desde
quando um cachorro tem um balde na cabeça?
Pode cair do céu uma chuva de flores?
Obax sabe que sim, mas será que vão
acreditar na menina? Só que todos se
perguntam: como pode chover flores
onde pouco chove água? Como se pode
provar que uma história é verdadeira?
Rostos e máscaras? Para que servem? Uma
farra pode virar bloco? Uma rima pode
virar música, com tambor e zabumba?
Como nasce o carnaval? Ah! Pergunte ao Zé
Pereira. E como será que um menino reinventa a sua própria história? Pergunte ao
Tuhu, o menino Villa-Lobos. E você consegue
imaginar o que vai acontecer quando Júlio
Verne encontrar Santos Dumont? Só para
adiantar, contamos que os dois juntos descobrem como dar asas ao homem e fazer
voar o coração e o pensamento através dos
ventos e inventos com os seus balões.
Um pé de vento, escrito e
ilustrado por André Neves —
Editora Projeto
Um sujeito sem qualidades,
escrito e ilustrado por JeanClaude R. Alphen — Scipione
Cartão-Postal, de Luiz Raul
Machado, ilustrado por André
Neves — Editora DCL
O menino do beco da pipa, de
Ninfa Parreiras, ilustrado por
Andrea Ebert — Larousse
Tom, escrito e ilustrado por
André Neves — Editora Projeto
A velha dos cocos, de Ninfa
Parreiras, ilustrado por Marcelo
Ribeiro — Global Editora
Bem, comecemos agora a explicar de onde
surgiram essas perguntas. Já imaginou, não é
mesmo? Dos livros deste eixo temático, é claro!
Vamos agora colocar os títulos referentes às perguntas e depois pensar como
Tudo pode ser diferente! Como podemos
inventar o avesso das coisas e descobrir
o que mora nos vazios e nos sonhos.
Marcelo, marmelo, martelo
e outras histórias, Biblioteca
Ruth Rocha, Série Marcelo,
marmelo, martelo, de Ruth
Rocha, ilustrado por Mariana
Massarani — Salamandra
A mala do meu pai, de Mirna
Pinsky, ilustrado por Patrícia
Lima — Scipione
Um teto de céu, de Ninfa
Parreiras, ilustrado por André
Neves — Editora DCL
Este eixo temático agrupou livros que podem
nos mostrar novos olhares sobre cada um
dos temas que abordam. O mais gostoso
aqui será ler todos os livros e descobrir o
que pode ser diferente, seja na linguagem,
na abordagem do tema, nas entrelinhas
das histórias. Com que livro será que cada
aluno irá se identificar mais? Por quê?
Seguindo a linha do imaginário no poder,
que é um pouco a tônica do manual
deste ano, crie coisas mágicas com seus
alunos, faça inventos imaginados, deixe
que eles usem todo o potencial criativo
para viajar ao máximo com as histórias.
Para dar asas à imaginação, crie o Território
do possível, onde Tudo pode ser diferente!
Invente um pé de vento e descubra o que pode
nascer dessa árvore. Mergulhe com a fada
no cartão-postal e confeccionem cartões-postais para serem trocados entre os alunos,
contando sobre tristezas, liberdade e sonhos.
Pense com a turma como podemos ter o
olhar parado no tempo, o que será isso? E
o que será que quem tem esse tipo de olhar
consegue ver? Crie um painel com ilustrações
de quem tem o olhar parado no tempo ou
pequenos vídeos com os alunos entrevistando
pessoas e fazendo esta pergunta: você sabe
o que é ter o olhar parado no tempo? Ao
final das entrevistas, um aluno pode contar a
história do livro Tom, no vídeo, deixando no
ar a possível resposta para essa pergunta.
Crie uma sala das palavras pelo avesso,
onde tudo pode ganhar novas possibilidades, reinventando a linguagem
e o nome das coisas e dos alunos.
O que será que chega e parte na vida da cada
um? Crie um álbum ilustrado com As coisas
que chegam... e as coisas que partem... Cada
aluno irá contar com palavras e imagens
o que chega e o que parte em sua vida.
Confeccionem pipas com mensagens de amor
e esperança e soltem em algum lugar bem
bonito e seguro. Confeccionem cartões-postais com sonhos que podem ser libertados e enviem para alguém especial.
60
Descubram juntos um jeito especial de
contar aos adultos que uma história inventada pode ser verdadeira. Você sabe
como e onde isso acontece? Quem sabe
o sujeito sem qualidades pode ajudar!
Quantas mães cabem nas mães de cada um?
Crie um inventário sobre as mães. Pense
em uma maneira criativa de registrar esse
inventário. Pode ser em um livro, um álbum
ilustrado, em vídeos, blogs, fotos das mães
em diferentes momentos. Use a imaginação, mas permita que cada aluno registre
o inventário de sua mãe (ou mesmo da
ausência dela, se for o caso) à sua maneira.
O que cabe na mala de quem parte? E
o que será que quem fica sente com as
partidas? Leve uma mala vazia para a sala
de aula e deixe que cada aluno guarde
nessa mala suas dores e tristezas, para
que fiquem morando lá para sempre.
Que tal criar músicas ou poesias contando
o que os olhos não veem: o que os olhos
dos seus alunos não veem? O que os seus
olhos não veem? O que os olhos dos políticos não veem? E por aí vai... Pode-se fazer
um sarau para a apresentação do resultado
dos trabalhos. Paraty é uma cidade tão
convidativa para saraus musicais poéticos.
Que tal a criação da Companhia de Teatro
Caras e Máscaras para dar asas ao homem e
fazer voar o coração e o pensamento através
dos ventos e inventos? Que inventos serão
esses? Como o coração pode voar? Como se
alcança os limites dos sonhos? Como se inventa
algo nunca antes inventado? Como podemos
fazer tudo ser diferente? O que precisamos
alçar voo (ou seja, o que precisamos ousar
ou fazer diferente) em nós para ver o mundo
com o olhar renovado? Será que o cientista é
também um artista? Os alunos que integrarem
essa companhia teatral podem criar um espetáculo contando tudo isso e mais um pouco.
Para terminar este eixo temático, recorremos
a dois autores, para que suas palavras sirvam
de reflexão para você, professor, entender
que as coisas podem sim ser diferentes e que
muitas vezes as crianças possuem olhares
para o mundo que nós, adultos, desconhecemos ou negligenciamos. Que possamos
entender as alegrias, os vazios e as tristezas
das crianças. Que possamos dar asas à imaginação dessas crianças, para que possam de
fato reinventar seu mundo e suas histórias a partir do que a leitura destes livros
poderá provocar em cada uma. Fiquemos
então com a fala dos dois autores.
O que os olhos não veem,
Biblioteca Ruth Rocha, Série
Reizinho Mandão, de Ruth
Rocha, ilustrado por Carlos
Brito — Salamandra
OBAX, escrito e ilustrado por
André Neves — Brinque-Book
As muitas mães de Ariel e
outras histórias, Coleção
Mindinho e seu Vizinho, de
Mirna Pinsky, diversos ilustradores — Atual
Coisas que chegam, coisas que
partem, de Ninfa Parreiras,
ilustrado por Claudia Ramos
— Cortez
Viva o Zé Pereira!; Tuhu, o
menino Villa-Lobos e Os meus
balões, o incrível encontro
de Júlio Verne com Santos
Dumont, Coleção Caras e
Máscaras, de Karen Acioly,
projeto gráfico original de
Marcelo Martinez/Laboratório
Secreto — Rocco Jovens
Leitores
Janusz Korczak, em seu livro Quando
eu voltar a ser criança:
“Fico sentado, pensando. Eu e milhares de
crianças em milhares de quartos pensando,
ao anoitecer, nos milagres e nas tristezas
da vida. Naquilo que acontece dentro e em
volta de nós. Os adultos desconhecem estes
nossos pensamentos. No máximo: O que é
que você está aprontando aí? Por que não
está brincando? Por que está tão calado?
Acontece que a criança, depois de um pouco
de bagunça, correria e descobertas de coisas
novas, sente desejo de conversar em silêncio
consigo mesma. Mas só uma, em cada mil,
encontrará apoio num adulto. Ou num amigo.”
E Fayga Ostrower, em seu livro
Acasos e criação artística:
“Basta ver a alegria contagiante das crianças,
inteiramente absorvidas em seu fazer, para
se ter uma idéia da grande aventura que é
criar. Aventura, entrega e conquista; rumo
a novas experiências e novos mundos. É
como se as crianças desde sempre soubessem
colher a essência do ser. E em nós, adultos,
perdeu-se o olhar aberto das crianças? Terá
cessado para sempre o senso da aventura do
viver, a curiosidade ou a coragem de tentar
com­preender? O potencial criador não é outra
coisa senão esta disponibilidade interior,
esta plena entrega de si e a presença total
naquilo que se faz. Ela vem acompanhada
do senso do maravilhoso, da eterna surpresa
com as coisas que se renovam no cotidiano,
ante cada manhã que ainda não existiu e que
não existirá mais de modo igual, ante cada
forma que, ao ser criada, começa a dialogar
conosco. É nossa sensibilidade viva, vibrante.”
Dito isso, vamos então mergulhar no mundo
das histórias e embarcar ludicamente no Território do possível, onde Tudo pode ser diferente!
Qual é a cor do seu traço?
Este eixo temático é focado no trabalho dos
ilustradores. Os livros selecionados para o
manual são lindamente ilustrados e poucos
são os leitores que leem as imagens dos livros
com o devido valor que merecem. Precisamos
aprender a ler as imagens, sobretudo nos livros
para crianças, nos quais existe uma grande
interação entre texto e ilustração. Muitas vezes
a história está sendo contada exatamente
na interseção entre essas duas linguagens.
Não sei se você já reparou, mas é muito
comum escutarmos crianças, jovens e adultos
falarem: ah! Eu não sei desenhar... Mas o
que será não saber desenhar? O que será que
nos impede de desenhar e experimentar usar
lápis, pincel, tinta, papel para criar imagens?
Muitas vezes o medo e a insegurança nos
impedem. Ou o fato de não sabermos desenhar alguma coisa específica ou acharmos
que todos precisam seguir um padrão de
desenho. O fato é que todos, alunos e professores, podem resgatar a cor do seu traço.
Não para virarem ilustradores! Se alguém
quiser virar ilustrador, vai precisar estudar,
se aprofundar, mergulhar cada vez mais nas
questões que envolvem a arte da imagem, as
técnicas e tudo o mais que for necessário. Mas
podemos perfeitamente usar os materiais de
artes visuais apenas para nos expressarmos e
resgatarmos a cor do nosso traço e dos nossos
desenhos. Daqueles que sabíamos fazer tão
livremente quando éramos pequenos, antes de
nos depararmos com uma censura imensa.
Por isso, sugerimos que, antes de mergulhar
nos livros deste eixo temático, você crie um
trabalho com os alunos, mostrando diversos
livros sobre a vida e obra dos grandes pintores.
Para que eles percebam que existe uma diferença imensa entre o trabalho de cada um.
Não só pela época em que viveram, mas
também pelas tendências e pela maneira de
se expressar artisticamente. Existem tantos
livros sobre História da Arte e boas biografias, como as de Picasso, Monet, Van Gogh,
Modigliani, Paul Klee, Michelangelo, Da Vinci,
Miró e tantos outros. Certamente na biblioteca da Casa Azul há alguns livros com a
história desses artistas para jovens leitores.
Pegue emprestado alguns, leve para a escola
e compartilhe com seus alunos. Mostre como
cada um dos pintores tinha um jeito de se
expressar. Isso pode fazer com que cada
aluno entenda que não somos iguais, não
nos expressamos de forma igual e que toda
criação artística é realmente muito singular.
Leiam os livros e discutam sobre traços, cores,
formas, estilos. Só depois mostre os livros
selecionados para este eixo, para que possam
ver como cada ilustrador também tem seu
próprio traço, sua cor, sua identidade visual.
Vic, de Cristiane Dantas, ilustrado por
Jean-Claude Alphen, Coleção Barco a
Vapor, Série Laranja — Edições SM
As crianças vão ficar doidas!, de
Tino Freitas, ilustrado por Mariana
Massarani — Manati
Do outro lado da rua, escrito e ilustrado por Cris Eich — Editora Positivo
O menino que caiu no buraco, de Ivan
Jaf, ilustrado por Cris Eich e JeanClaude Alphen, Coleção Barco a Vapor,
Série Laranja — Edições SM
A cabeça de Sol, de Pauline Alphen,
ilustrado por Jean-Claude Alphen —
Rocco, Selo Fio
O vampiro Argemiro, de Dilan
Camargo, ilustrado por Eloar Filho
(agora assinando Eloar Guazzelli) —
Editora Projeto
Os pescadores e as suas filhas, de
Cecília Meireles, ilustrado por Cris
Eich — Global Editora
A troca, de Bia Hetzel, ilustrado por
Jean-Claude Alphen — Manati
Os doze trabalhos de Hércules, de
Monteiro Lobato, ilustrado por Cris
Eich — Editora Globo/Globinho
Vamos então aos livros selecionados para este eixo temático:
As orelhas de Mariposa, de Luisa
Aguiar, ilustrado por André Neves —
Callis
Casulos, de André Neves —
Global Editora
Diário de um guri, de Carlos Urbim,
ilustrado por Eloar Filho (agora assinando Eloar Guazzelli) — Editora
Projeto
Vizinho, vizinha, de Roger Mello,
ilustrado por Graça Lima, Mariana
Massarani e Roger Mello — Companhia
das Letrinhas
62
Pescador de naufrágios, de
Ana Maria Machado, ilustrado
por Igor Machado e Meton
Joffily — Moderna
A Nau Catarineta, de Ana
Maria Machado, ilustrado por
Estúdio Mimo (Meton Joffily)
— Moderna
Um dia de chuva, de Eça de
Queiroz; A árvore dos desejos,
de William Faulkner, e Pawana,
de J. M. G. Le Clézio, ilustrados
por Eloar Guazzelli, Cosac
Naify
Meu bicho de estimação, de
Yolanda Reyes, traduzido por
Marina Colasanti, ilustrado por
Mariana Massarani — FTD
O pagador de promessas em
graphic novel, de Dias Gomes,
ilustrado por Eloar Guazzelli —
Nova Fronteira
Umbu, Coleção Um pé de quê?,
texto adaptado por Fabiana
Werneck Barcinski, ilustrado
por Eloar Guazzelli — WMF
Martins Fontes
Demônios em quadrinhos,
de Aluíso Azevedo, por Eloar
Guazzelli — Peirópolis
Os livros nesta página também estão
presentes no eixo temático Passeios pelo
bosque da juventude: poesia, amor, dor
e ousadia!, mas estão neste eixo temático por conta de seus ilustradores.
64
Leiam os livros, promovam debates sobre
as ilustrações. Façam uma análise de cada
livro, cada traço, cada estilo dos ilustradores.
Anotem os nomes dos ilustradores desse eixo
temático e procurem outros livros deles nos
outros eixos. Descubram se possuem semelhanças de traço de um livro para outro (do
mesmo ilustrador) ou se são muito diferentes.
Pensem e discutam se a diferença de traço
de cada ilustrador tem a ver com o texto
que ele está ilustrando. Percebam todas as
nuances que envolvem a relação texto-imagem
em cada livro. Observem o projeto gráfico de
cada livro, a escolha do papel, do formato, se
as capas possuem uma orelha diferenciada,
alguma textura. Por que será que cada um
desses livros foi pensado dessa maneira e não
de outra? Por que será que algumas ilustrações
são em preto e branco e outras são coloridas?
Leiam as imagens e descubram o que elas
têm para contar. Com quais ilustradores os
alunos se identificam mais? Por quê? Depois,
“mergulhem” nos livros, nas ilustrações e
vejam o que elas podem contar. A partir daí
montem um grande ateliê de artes na escola,
seja transformando a sala de aula num ateliê
ou, se a escola tiver sala de artes, incrementando ainda mais esse espaço. Como se a
escola por alguns dias pudesse virar um grande
ateliê e as artes andassem em pé de igualdade com as ciências. A partir daí, comecem a
criar pinturas, desenhos, grafites, fotografias,
enfim, tudo que a imaginação puder alcançar.
Quem sabe a partir dos livros lidos, os alunos
não resolvem criar pinturas em telas ou
tecidos? Ou quem sabe não preferem grafitar
os muros da escola, se for possível e permitido? Ou criar uma graphic novel ou um livro
de imagens? Ou uma exposição de fotografias? Quem sabe resolvem pegar textos
clássicos e adaptar para os quadrinhos?
São tantas as possibilidades… mas o mais
importante neste eixo é permitir que cada
aluno se expresse por imagens, descobrindo, ou resgatando (caso um dia tenham
perdido), a cor do seu traço e da sua identidade visual (que pode ser bem diferente
da de seu colega de turma). Por isso, insistimos que o mais importante é que os livros
permitam esse mergulho na busca de uma
identidade visual, para que cada um possa
criar suas próprias histórias com imagens.
Então vamos lá: vamos brincar de pintar
o sete com a moçada? Mãos à obra
para criar um ateliê de artes supertransado e deixar que os alunos criem suas
imagens livremente a partir dos livros.
Edições SM
Ática / Scipione
Evocação
Marcia Kupstas
Aperte aqui
Hervé Tullet
Magda decide narrar sua primeira experiência com o sobrenatural, ocorrida seis
anos antes em uma viagem à praia com
uns amigos e a avó. Durante o passeio, a
convivência e o ciúme a fizeram alimentar
ódio por Bárbara, e ela resolveu pregar
uma peça na colega. Aproveitando a
história sobre a morte de um adolescente
surfista, Magda propôs que tentassem
se comunicar com ele. Mas a brincadeira
ganha contornos de realidade quando elas
começam a vivenciar eventos sobrenaturais.
Tudo começa com uma bola amarela no centro
de uma página branca e um convite: aperte
a bola e vire a página... Como num passe
de mágica, surgem duas bolas na página
seguinte. A partir daí, novos convites e novas
surpresas se descortinam a cada página. Hervé
Tullet criou um universo visual simples
e convidativo, em que bolas coloridas se
multiplicam, mu­dam de lugar, se iluminam,
se apagam, mu­dam de tamanho... Para
que isso aconteça, a criança precisa interagir com o livro, esfregando, soprando,
apertando ou batendo palmas. Uma
brincadeira deliciosa para pais e filhos
compartilharem muitas e muitas vezes.
Companhia das Letrinhas
O menino Fabrício, de 7 anos, passa férias
com o avô enquanto seus pais tentam se
reconciliar após várias brigas. Durante a
visita do neto, o avô conta a história de
Votupira, criatura temível: rápida como
onça, enganadora como cobra, pior que
fantasma. Feito moleque, Votupira brinca
de esconde-esconde, assusta crianças,
mas também cria o eco, faz bolhas de
sabão, acaricia o rosto dos ciclistas e,
como o amor, está por toda parte.
Bichos da cidade
Heitor Ferraz Mello — ilustração Béa Meira
Desde cedo, quando o dia começa, até a
noite, na hora de dormir, eles passeiam
soltos e barulhentos. Guarda-chuvas, celulares, guindastes, aviões, carros, motos...
Mas que bichos esquisitos são esses? É
tamanduá ou aspirador de pó? É besouro
ou helicóptero? É cobra ou parede? Bichos
domésticos, bichos de rua, há um monte
deles por aí e outros bem debaixo do nosso
nariz! Basta prestar atenção, como mostra
este divertido livro de poemas e desenhos.
Editora 34
Quem soltou o pum?
Blandina Franco
João e o bicho-papão
Sinval Medina
Felizes quase sempre
Antonio Prata — ilustrações de Laerte
A história é simples, mas a sacada é das
boas: imagine um cachorrinho de estimação que se chama Pum! Disso dá
para tirar diversos trocadilhos, criando
frases e situações realmente hilárias.
É um tal de não conseguir segurar o Pum,
que é barulhento e atrapalha os adultos,
de dizer que o Pum molhado, em dia
de chuva, fica mais fedido ainda, o que
faz o menino passar muita vergonha.
Pobre Pum. E pobre dono do Pum!
Mas não tem jeito, com o Pum é
assim mesmo: simplesmente ninguém
consegue evitar que ele escape e
cause certos inconvenientes.
João quer virar um caçador conhecido e, para
isso, nada melhor do que encontrar o horripilante bicho-papão! Assim, cheio de coragem,
mas sem muita certeza de que o monstro existe
de verdade, o garoto começa a sua jornada.
Pelo caminho, cruza com índios, macacos,
cegos e outros seres, que o ajudam — ou o
atrapalham — a chegar mais perto do bichano
misterioso. Será que ele vai conseguir? O final
da história é surpreendente… Escrito em versos,
o livro reproduz a estética do cordel, assim
como as ilustrações de Renata Bueno, que
mostram os mapas que o garoto desenha ao
longo de sua viagem. Ao final da história, um
texto explica as origens da literatura de cordel.
Todo mundo sabe que um bom conto de
fadas acaba com a princesa e seu príncipe
encantado vivendo felizes para sempre. Mas
o que pouca gente sabe é o que acontece
ou deixa de acontecer quando a história
termina. Antonio Prata e Laerte mostram
em Felizes quase sempre, em deliciosos
detalhes, como é essa tal vida perfeita e
como a felicidade “para sempre” pode se
transformar num problemão. E provam,
com muita graça, que até no mundo
encantado uma infelicidadezinha de vez
em quando não faz mal a ninguém.
Cosac Naify
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Votupira, o vento doido da esquina
Fabrício Carpinejar –
ilustração Elizabeth Teixeira
Animais
Arnaldo Antunes e Zaba Moreau —
ilustrações do Grupo Xiloceasa
O que as palavras e os bichos têm em
comum? Acima de tudo, uma grande
vontade de se divertir. Foi isso que Arnaldo
Antunes e Zaba Moreau descobriram quando
começaram a compor os micropoe­mas
deste livro. Em Animais, cada página traz
uma palavra inventada que condensa uma
multiplicidade de sentidos. Acompanhando
a brincadeira, os jovens artistas do Grupo
Xiloceasa realizaram cerca de trinta gravuras
em madeira e combinaram letras de formas
e tamanhos diferentes para ilustrar poeticamente esse zoológico fantástico.
Editora do Brasil
Uma princesa nada boba
Luiz Antonio — ilustração Biel Carpenter
Cafundó da infância
Carlos Lébeis — ilustração Anita Malfatti
Adivinha só!
Rosinha
E algo aconteceu naquele dia…
Jonas Ribeiro — ilustração Lúcia Brandão
“Por que eu não podia ser igual a uma princesa?”, é a pergunta da protagonista deste
livro e de muitas meninas reais que aparentemente não se encaixam nos padrões de
beleza que veem na televisão e nos livros:
cachos dourados, rosto fino, pele clara...
Quando vai até a casa da avó com esse questionamento na ponta da língua, a menina vive
uma transformação ao descobrir a história de
princesas africanas que existiram de verdade
e até vieram para o Brasil. Explorando
elementos poucos conhecidos da cultura
africana, Luiz Antonio fala de busca da identidade. Para princesas de todas as etnias.
Uma obra rara em todos os sentidos:
Cafundó da infância traz um texto nunca
publicado de Carlos Lébeis, ilustrado com
seis aquarelas também inéditas de Anita
Malfatti. No livro há a mesma inquietação
que vemos em Monteiro Lobato — contemporâneo e amigo de Lébeis —, um ideal de
literatura moderna para crianças. Datado
de 1936, trata, também, de algo bastante
atual: a preservação do meio ambiente.
Charadas são legais, claro, mas João
gosta delas até demais. Ele só pensa por
meio de enigmas. Além disso, é apaixonado por uma linda princesa, que, por
sua vez, é muito complicada. Um dia,
porém, a princesa é raptada, e ele, apaixonado, decide fazer o que for preciso para
salvá-la. No caminho, João irá resolver
várias adivinhas difíceis para alcançar
seu objetivo. Será que ele conseguirá?
Você também participará dessa aventura ajudando João a resolver os enigmas
dessa história divertida e surpreendente.
Esta história, aparentemente singela,
revela como pequenos gestos podem fazer
a diferença na vida das pessoas. Um ato
de honestidade, uma palavra amiga, um
cuidado especial, uma atitude generosa,
um voto de confiança… Em apenas um dia,
várias pessoas e situações vão se cruzar para
nos mostrar como na vida não podemos,
nunca, perder a fé nem a esperança.
As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul
Editora Globo
Escala Educacional / Editora Lafonte
Reinações de Narizinho
Monteiro Lobato
O picapau amarelo
Monteiro Lobato
O canto do uirapuru
Marcelo Cipis
O amigo dos animais
Stela Barbieri e Fernando Vilela
Reinações de Narizinho, um clássico da literatura infantil brasileira, foi publicado originalmente em 1931. O livro narra as primeiras
aventuras no Sítio do Picapau Amarelo e
apresenta Emília, a boneca de pano tagarela,
Tia Nastácia, famosa por seus deliciosos
bolinhos, Dona Benta, uma avó muito especial, e sua neta Lúcia, a menina do nariz
arrebitado. Lúcia, mais conhecida como
Narizinho, é quem transporta os leitores a
incríveis viagens pelo mundo da fantasia.
Com este livro, Lobato inventou um jeito
especial de escrever para as crianças que até
hoje serve de inspiração aos autores infantis.
Depois de receber uma carta do Pequeno
Polegar, Dona Benta aceita ter os habitantes
do País das Maravilhas como moradores do
Sítio do Picapau Amarelo. Com a presença
de Peter Pan, Dom Quixote, Branca de Neve,
Aladim, Gata Borralheira, o Sítio se torna
palco de grandes aventuras, como quando
o Mar dos Piratas transbordou e alagou o
castelo da Branca de Neve, causando medo
na princesa e nos anões. Essa e muitas
outras reinações estão em Picapau Amarelo,
o incrível sítio onde tudo pode acontecer.
Quase o ano todo, o uirapuru fica quieto no
seu canto. É quase, e não o ano todo, porque
tem um dia, só um dia, que ele resolve
cantar e espalhar pelos cantos o seu canto...
Será que é hoje? Canta uirapuru! Neste
livro, brincando com o canto da ave e os
cantos nos quais se vive, sempre com muito
humor, Marcelo Cipis apresenta o uirapuru
— ave característica da região amazônica.
Cauã era um sábio indiozinho que, quando
sonhava, encontrava os animais da floresta
e com eles conversava de igual para
igual. Como a ação do homem branco
provocou um grande desequilíbrio na cadeia
alimentar da tribo, a sabedoria do pajé
da tribo e os sonhos de Cauã ajudaram
a restaurar o equilíbrio da natureza.
Editora Projeto
Melhoramentos
A princesa desejosa
Cristina Biazetto
Museu desmiolado
Alexandre Brito — ilustração Graça Lima
Narrativa infantil que marca a estreia da
ilustradora como autora. É a história de
uma princesa, que nasceu numa manhã
de cores fortes e perfumes intensos, e de
um príncipe, que chegou tempos depois,
cheio de curiosidades de viajante. Mas
antes desse encontro, muita coisa acontece... Desde que nascera, a Desejosa Princesa queria tudo o que via. À medida que
crescia, cresciam também suas ambições
e o medo de seus súditos, que acabam
por fugir do reino. Sozinha, um dia ela
se vê tomada por um desejo diferente e
descobre algo que importa mais que tudo.
Poemas que falam de divertidos e intrigantes museus: museu do silêncio, museu
do fim do mundo, museu das palavras
esquecidas, museu do chulé, entre outros.
Através das brincadeiras com o sentido das
palavras e das imagens que surpreen­dem,
poeta e ilustrador nos fazem pensar para
que servem, afinal, os museus. Ao mesmo
tempo que brinca com a ideia de museus
tão estapafúrdios, o autor o faz de um
modo muito a sério: com uma linguagem
bastante requintada, apostando na inteligência e na curiosidade do leitor.
Editora Saraiva / Selo Formato
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Teimosinha
Fabricio Carpinejar —
ilustração Guto Lins
Em primeira pessoa, a personagem Lucila
nos conta por que o aniversário é o
dia mais triste da vida dela. Um relato
poético e envolvente, vestido com ilustrações lúdicas e inusitadas, que revela,
página a página, emoções escondidas por
trás de belíssimas decorações de festa.
O cravo brigou com a rosa
Ricardo Filho — ilustração Tatiana Móes
Uma das cantigas mais populares do
nosso país, O cravo brigou com a rosa
está sempre presente no cotidiano e no
imaginário de toda criança. Ricardo Filho
se viu às voltas com essa ciranda e, em
meio ao jardim de nossa infância, recontou
a história. Tatiana Móes chegou com
seu traço e suas cores, revelando o seu
canto. Foi um encontro de muitos caminhos, para nova brincadeira de roda.
Moderna / Salamandra
A menina e o sol
Madalena Freire e Constança Lucas
Cores em cordel
Maria Augusta de Medeiros
A menina e o sol retrata, de maneira
sensível e poética, os “porquês” das crianças.
Perguntas simples, e, por isso mesmo tão
profundas, sobre a existência, o mundo, os
afetos e a vida. Muitas das perguntas que as
crianças se fazem, têm a possibilidade de um
aprofundamento bem lapidado e sensível,
dentro de um curto diálogo na essência que
o fio da pergunta lança. É um diálogo que
instiga o “desembrulhar” da menina para
outras e mais outras perguntas... sendo fiel
às inquietações das crianças ao se debruçarem, curiosas, para conhecer o mundo.
As cores são presentes oferecidos ao
nosso olhar. Porém, é o dom da palavra
que permite dar a cada cor um nome que
faz com que ganhe alma e significado
tão certeiros. Isso nos permite enxergar
as cores e, mesmo sem vê-las, apenas
com os olhos do coração. Em Cores em
cordel, do selo Formato, Maria Augusta de
Medeiros contempla os leitores com uma
singela descrição das cores, começando
por aquela que é a ausência de todas elas,
o branco, viajando pelas cores primárias
e as composições que formam as secundárias e terciárias, aliando o cordel às
belíssimas ilustrações de Gilberto Tomé.
As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul
Os miseráveis
de Victor Hugo — tradução e adaptação Walcyr Carrasco
Após cumprir pena de trabalhos forçados
por quase vinte anos, Jean Valjean é
posto em liberdade. Seu coração está
cheio de ódio e rancor. Sem ser aceito em
nenhum lugar, encontra abrigo na casa
do bispo, que lhe oferece comida e pouso.
Mas a amargura e a revolta que traz no
coração fazem com que Jean Valjean não
reconheça a generosidade recebida.
A partir desse acontecimento, Jean Valjean
vai descobrir uma fé que julgava morta
dentro dele, e qualidades que também
desconhecia haver em si próprio.
Quem tem medo de quê?
Ruth Rocha
Todo mundo tem medo — e isso pode
ser bom. O que a gente não precisa é
ter medo das coisas que não existem.
Nos livros desta série, você vai
conversar com Ruth Rocha sobre seus
medos... E descobrir outros que nem
imaginava que existiam. E, principalmente, vai aprender que o humor é a
melhor maneira de enfrentá-los!
Fundação SM
Paulinas
Rita distraída
Armando Antenore e Rita Taraborelli
Mestre gato e comadre onça
Carolina Cunha
Rita deseja se distrair, esse é o jeito que
encontrou para “escapar das garras do
chão”. Como é uma menina muito criativa,
consegue fazer isso de formas incríveis:
flutua no vapor de uma chaleira, varre o
espaço numa banana zepelim e até atravessa um céu de frutas com sua bicicleta-balão. Assim, percorre lugares inusitados,
cheios de novos sabores, texturas e cores.
Mestre gato, exímio capoeirista, se aventura no mundo com seu berimbau. Toma
um caminho nunca antes trilhado no meio
da mata e se depara com uma clareira boa
para botar capoeira. Instala-se ali, coloca
uma placa no pau-pereira oferecendo aulas
e logo chegam vários animais. “Venham
vadiar, vamos jogar capoeira!”, convida o
Mestre. Mas os bichos temem a onça que
anda pela área. E se estiverem jogando,
distraídos, e a danada aproveitar para
abocanhar todos de uma vez? Ca­poeira
é jogo mandingueiro, com ela nenhuma
onça pode, diz Mestre gato. E não é que
ela aparece, pedindo aulas de capoeira?
Nova Fronteira
Maroca e Deolindo e outros
personagens em festas
André Neves
Uma menina encontrou um livro nada
comum, com apenas uma frase: “Era uma
vez…“ Intrigada, ficou imaginando que
história poderia ser contada. Passou uma
cigarra, uma princesa de carruagem, dois
irmãos jogando migalhas, um gato de botas,
um menino do tamanho de um polegar...
Personagens que caberiam naquele livro,
não fosse o seu desejo de contar a SUA
história. O livro é quase uma metalinguagem dos contos de fadas clássicos.
Maroca e Deolindo, de André Neves, é uma
viagem pelo Brasil através das festas regionais. São 12 festas que servem de palco para
os contos: Senhor do Bonfim (BA); Carnaval
(PE); Procissão do Fogaréu (GO); Marabaixo (AM); Cavalhada (GO); São João (PB);
Sairé (PA); Romaria (BA); Farroupilha (RS);
Círio (PA); São Benedito (Paraty/RJ) e Nossa
Senhora do Rosário (RN). Na obra, André
Neves costura poesia e reflexões, ancoradas no barco das tradições folclóricas
e as reveste com ilustrações mágicas que
confirmam seu estilo singular e talentoso.
Record
Nana pestana
Sylvia Orthof —
ilustração Rosinha
As margens da alegria
João Guimarães Rosa —
ilustração Nelson Cruz
Não tem cantiga de ninar? Que ajuda a
gente a deslizar do acordado para o sonho?
Aqui, a avó Sylvia Orthof faz poesia de ninar.
E a gente aprende que sonho escorrega
igual casca de banana, que a noite é pastora
que conta carneiros, que no mar dos sonhos
tem navio e sereia, tem fada e cavalo que
voa, vassoura, pudins e purpurinas. Duvida?
Mergulhe na poesia de Sylvia e veja
se não é um sonho. Dos bons.
“As margens da alegria”, um dos contos
do clássico Primeiras estórias, ganha
ilustrações de Nelson Cruz e projeto
editorial diferenciado para conquistar
outras gerações de leitores e possibilitar
novas leituras. As margens da alegria
desenrola-se numa re­gião não especificada, mas reconhecível, embora o seu
cenário seja apenas esboçado. Em Guimarães Rosa, o cenário, os personagens, o
mundo, o sertão e a cidade são míticos,
mesmo quando revelam suas facetas.
O fio da palavra
Bartolomeu Campos de Queirós
Biscoitinho chinês
Antonio Skarmeta
Em O fio da palavra, com palavras cheias
de musicalidade: fio, novelo, sonho, pedra,
fruto, miolo, o autor nos faz pensar sobre
a nossa existência, cujo fio é mais fino do
que a teia da aranha. Como uma metáfora
da vida, seu texto dirige-se para todas
as idades, pela força poética, pelos jogos
de palavras e pelo trabalho com questões
tão universais: a vida, a morte, o amor, o
brincar, o desenhar, o inscrever-se na literatura. Ser sujeito que lê e que escreve.
A padaria de Jorge da Silva tem um ótimo
ajudante! Nas horas livres, Pedro Amaro
adora fazer pães ao lado dos pais, que
trabalham na Borboleta Branca. Com
as boas vendas, Jorge convida a família
do menino e a caixa Maria do Socorro
para jantar no restaurante Hong Kong.
É lá que os funcionários conhecem os
famosos biscoitinhos chineses e onde
Pedro recebe uma mensagem inspiradora capaz de mudar seu futuro.
Rocco
Pallas
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Era uma vez…
Cacau Vilardo —
ilustração Bruna Assis Brasil
A bicicleta que tinha bigodes
Ondjaki
Falando tupi
Yaguarê Yamã
O leão de tanto urrar desanimou
Paulo valente
O tapete voador
Caulos
Este livro é um verdadeiro abraço de
amizade e de solidariedade. A Rádio Nacional
de Angola promove um concurso e oferece
como grande prêmio uma bicicleta para a
criança que escrever a melhor história. Esse
é o pano de fundo para a ficção emocionante de Ondjaki, que nos remete à fantasia
presente na infância — amizade, ternura,
descobertas —, mas também ao reflexo nas
crianças do processo político do país. Nos
damos conta de que a busca por algo pode
ser mais valiosa que a própria conquista.
E que viver boas histórias pode ser tão ou
mais emocionante que saber inventá-las.
Estima-se em mais de dez mil palavras a
contribuição da língua tupi para o português falado no Brasil. Nomes de lugares,
rios, montanhas, plantas e frutas hoje
fazem parte da cultura brasileira por todo
o território do país. E essa mistura supera
as influên­cias de todas as outras línguas
faladas no mundo em nosso dia a dia.
Falando tupi é uma iniciação ao universo
da língua que falavam os que habitavam
Pindorama antes de sua descoberta pelos
portugueses. Uma forma divertida de apresentar às crianças um pouco da origem das
palavras faladas e escritas pelo nosso povo.
Inspirado na peça musical Carnaval dos
animais, do francês Camille Saint-Saens,
O leão de tanto urrar desanimou é uma
divertida fábula que aborda questões
como política e democracia de forma bem-humorada. O livro mostra o rei da selva
cansado das preocupações e compromissos
que o trono real lhe reserva. Mas a busca
de um sucessor não é tão simples quanto
parece, e em meio aos prós e contras de
cada espécie, e aos puxa-sacos e interesseiros de plantão, a convocação de uma
eleição entre os animais para escolher
seu novo rei mostra-se o melhor caminho
para o merecido descanso do leão.
Que criança nunca sonhou em passear por aí
num tapete voador? Pois em seu novo livro,
o artista plástico, escritor e ilustrador Caulos
convida os pequenos a embarcar numa divertida aventura a bordo de um deles. Com seu
novo livro, O tapete voador. Com seu traço
inconfundível — simples, preciso e bem-humorado —, Caulos percorre diferentes
mundos e revisita histórias que fazem parte
do imaginário infantil há várias gerações.
Um passeio lúdico que dispensa palavras,
e ainda assim oferece inúmeras possibilidades de leitura, e que é também uma bela
homenagem a todos os livros do mundo.
As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul
72
Manual da Flipinha 2013
Associação Casa Azul
Diretor-Presidente
Mauro Munhoz
Direção Executiva
Izabel Costa Cermelli
(Belita)
Núcleo de Educação
e Cultura
Cristina Maseda
supervisão
Gabriela Gibrail
curadoria
Andréa Maseda
produção e mobilização
comunitária
Zulmira Gibrail Costa
voluntária
Núcleo de Literatura
Joana Fernandes
supervisão
Miguel Conde
curadoria
Núcleo do Território
André Leirner
supervisão
Juliana Antunes
gestão
Antônia Moscoso
Fernanda Sophia
Frederico Teixeira
Marina Canhadas
Penelope Casal de Rey
arquitetura
Alexandre Benoit
Marcela Souza
design
Desenvolvimento
Institucional
André Leirner
planejamento
Paloma Cavalcanti
gestão
Bernadete Passos
Pauline Hartmann
relações institucionais
Lucia Rodrigues
parcerias privadas
Christopher Mathi
Antonia Moura
assistentes
Produção
Sueleni de Freitas
produção executiva
Roberta Val
produção
Administrativo-Financeiro
André Kim
coordenação geral
Andrea Marcondes dos
Santos
Andressa Prado
Luciene Silva
Priscila Zacharias
Roberta Monsalles
Thamires Deornellas
Wellington Leal Assessoria
Mauro Munhoz
direção de criação
Atelier Vila das Artes
Anna Claudia Ramos
Verônica Lessa
concepção de conteúdo e
produção de textos
Vivian Miwa Matsushita
revisão
Alexandre Benoit
Marcela Souza
design
Dárkon Roque
identidade visual
André Conti
Horácio Moreira
Nelson Kon
Nelson Toledo
Fotos dos autores nas
páginas 8 a 45: ©divulgação
* As imagens utilizadas
nas páginas 8 a 45 são
adaptações de ilustrações
dos artistas citados no
rodapé de cada página
As sugestões de leitura
das páginas 66 a 71 deste
manual foram feitas
pelas editoras parceiras
da Flipinha, que apoiam
o programa permanente
de incentivo à leitura da
Associação Casa Azul.
Entre as ações desse
programa estão a criação
de bibliotecas e espaços
de leitura em mais de
40 escolas paratienses.
Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo
CTP, impressão
e acabamento
Agradecimentos
Agradecemos aos autores e a
todos os educadores da rede
escolar de Paraty.
Associação Casa Azul
Paraty
Rua João Aires Martins 14
Ilha das Cobras
23970-000 Paraty RJ
T +24 3371-7082
F +24 3371-7084
São Paulo
R Capitão Antônio Rosa 376
conjunto 91
01443-900 São Paulo SP
T +11 3081-6331
F +11 3081-6331
Apoio
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[email protected]
Realização
74
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