PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS VERNÁCULAS: LITERATURA BRASILEIRA VOZES E SABERES DA CULTURA POPULAR EM HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, DE GRACILIANO RAMOS: do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes CARLOS BENITES DE AZEVEDO Rio de Janeiro 2014 CARLOS BENITES DE AZEVEDO VOZES E SABERES DA CULTURA POPULAR EM HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, DE GRACILIANO RAMOS: do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) Orientador: Prof. Dr. Godofredo de Oliveira Neto Rio de Janeiro 2014 R175haa Azevedo, Carlos Benites de Vozes e saberes da cultura popular em Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes / Carlos Benites de Azevedo. - Rio de Janeiro: UFRJ, 2014. 181 f. : il. (algumas color.); 30 cm. Orientador: Godofredo de Oliveira Neto. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, 2014 Bibliografia: f. 163-172. 1. Ramos, Graciliano, 1892-1953. Histórias de Alexandre – Crítica e interpretação. 2. Ramos, Graciliano, 1892-1953 – Crítica e interpretação. 3. Cultura popular. 4. Folclore. 5. Folclore – Brasil, Nordeste. 6. Literatura infantojuvenil brasileira – História e crítica. I. Oliveira Neto, Godofredo de, 1951- . II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras. III. Título. CDD B869.35 DEDICATÓRIA À minha mãe, Vera, que levou sua gargalhada mais gostosa onde os arcanjos cantam e que soube ser aconchego toda vez que foi preciso. Porque ela me ensinou a ler na palavra carinho o sentido proteção. E assim eu digo que só com essa proteção foi possível hoje estar aqui. Foi minha primeira professora sem saber que era. Dotada de uma cultura que ela não tinha noção de seu alcance. Agradeço, principalmente, por seu exemplo. Esse trabalho é, sem dúvida, também sua vitória. Ao meu pai, Benito, por estar sempre presente, pelo carinho e por pensar sempre na educação de seus filhos. À minha esposa, Sílvia, pelo amor e companheirismo e por me dar forças para vencer essa e outras batalhas. Aos meus filhos Júlia, Matheus e Pedro, razão de tudo em minha vida. Essa vitória é para vocês, que certamente terão muito mais pela frente. Aos meus irmãos, Carlos Eduardo, Anna Maria e Anna Cláudia, pelo fraterno amor de sempre. AGRADECIMENTOS Ao Professor Godofredo de Oliveira Neto, pela orientação calma e precisa, sempre com uma palavra de estímulo e por ter sido mais um elo para a literatura do Mestre Graça. À Professora Sonia Monnerat, pelo acompanhamento desde a Graduação, em todos momentos acadêmicos, compartilhando sua vasta cultura e generosidade com seus alunos. Por estar sempre presente, nada mais justo que você estivesse também nesse momento. Aos professores Anélia Pietrani, Maria Teresa Salgado, Dau Bastos, Fred Góes, Carmen Tindó e Ronaldes de Melo, pela fundamental participação em meu crescimento acadêmico. Aos meus cunhados, Genilson, Fabiano, Carmen, Dayse, Ilse, Elba, Inácio e Cláudia, alguns se tornaram tão próximos que são hoje praticamente irmãos. Extensivo aos meus queridos sobrinhos, em especial a meus afilhados Ana Clara e João, e sua irmã Clarinha, e também Maíra, que me ajudou no contato com a biblioteca da USP e conseguir a cópia da tese de Ricardo Azevedo, constante das referências bibliográficas desta dissertação. Às minhas tias Dayse, Cordélia e Lecy, elos de ligação à minha amada mãe e por terem dado apoio quando foi preciso. Também aos meus primos, alguns são quase irmãos. Aos amigos funcionários da Faculdade de Educação da UFF por terem sempre uma palavra de apoio. Aos professores da UFF Jorge Najjar ,Marcos Barreto, Alice, Tania Müller e Cristina Delou pelo importante suporte nesse projeto. Ao amigo Benito pelo apoio, pelas conversas culturais sempre de muita valia, e pela generosidade para ajudar os amigos quando preciso À família Merçon, representada pelo Professor Geraldo, pelo apoio, carinho e amizade em todas as ocasiões, mesmo nos períodos mais difíceis. À amiga Lilian, exemplo de ética em todos os momentos. Obrigado por tudo. Às amigas Karinna, Alexandra, Laudicéia, Renata, Maria, Vera, Aline, Fátima, Luciana, Kátia e Raquel, que formaram a melhor turma do curso de Literatura Infantojuvenil, presentes desde 2008. A Consuelo, Jacqueline, Fábio, Flavia, Nonô, Sylvinha, Luciana, Ivone, Edson e demais amigos do grupo Pampulha, parceiros do mundo das corridas que sempre me incentivaram. À amiga Suelen, por sempre ter uma palavra de carinho, apoio e amizade. Aos amigos do Clube de Leitura Icaraí, parceiros de grandes leituras. Aos amigos do Curso de Letras da UFF, grande turma que se formou em 2007. Aos amigos mestrandos e doutorandos em Letras da UFRJ, por compartilharem comigo conhecimento de suas pesquisas. Cada um foi importante nessa caminhada. Às jornalistas Ana Vale e Babi Marcolini, pelo apoio à pesquisa no acervo de O Globo. À bibliotecária Maria Inez Maia Oliveto, da Biblioteca José de Alencar, da Faculdade de Letras da UFRJ, não só pela ajuda, mas também por ensinar cada ponto da ficha catalográfica deste trabalho. Aos inúmeros livreiros de sebos, físicos e virtuais, espalhados por todo o Brasil, fundamentais para que eu conseguisse várias edições de obras de Graciliano Ramos. Graciliano Ramos Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca: de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto de cicatriz clara. * Falo somente do que falo: do seco e de suas paisagens, Nordeste, debaixo de um sol ali do mais quente vinagre: que reduz tudo ao espinhaço, cresta o simplesmente folhagem, folha prolixa, folharada, onde possa esconder-se a fraude. * Falo somente por quem falo: por quem existe nesses climas condicionados pelo sol, pelo gavião e outras rapinas: e onde estão os solos inertes de tantas condições caatinga em que só cabe cultivar o que é sinônimo da míngua. * Falo somente para quem falo: quem padece sono de morto e precisa um despertador acre, como o sol sobre o olho: que é quando o sol é estridente a contrapelo, imperioso, e bate nas pálpebras como se bate numa porta a socos. (João Cabral de Melo Neto) “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos, em entrevista a Joel Silveira, 1948) AZEVEDO, Carlos Benites de. Vozes e saberes da cultura popular em Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes. Rio e Janeiro, 2014. Dissertação de Mestrado em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014. RESUMO O presente trabalho estuda as vozes do universo popular que ecoam nos contos do livro que originalmente recebeu o título de Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, publicado inicialmente em 1944 e que em 1962 passou a ter incorporado a ele duas outras obras do autor, Pequena história da República e Terra dos meninos pelados, sendo denominado então de Alexandre e outros heróis. Para efetuar essa análise, parte-se do estudo histórico das formas de cultura popular, com especial atenção à nordestina, por se tratar da região que serviu como pano de fundo para os contos estudados. Na análise de Histórias de Alexandre, enfocamos inicialmente seu caráter popular, que aparece não só nas próprias histórias, com características do folclore nordestino, mas também no formato como elas foram contadas, em seus personagens, que são autênticos representantes da cultura popular nordestina, e em todo universo panorâmico que o envolve. Também analisamos as particularidades ligadas a sua comicidade, com um estudo de seus personagens, da questão da narrativa e da linguagem utilizada. Nessa análise, examinamos o imaginário popular na voz do contador com uma linguagem imaginativa e como se dá a recepção dos ouvintes com os possíveis dissensos na questão da verossimilhança das histórias. Demos também especial atenção ao discurso dos personagens, que possuem pleno domínio do vocabulário, fato percebido em outras obras do autor. Usamos como aporte para essa discussão algumas obras como “O narrador”, de Walter Benjamin, Literatura infantil, de Nelly Novaes Coelho, Literatura infantil brasileira – história e histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, Comicidade e riso, de V. Propp, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, de Bakhtin, O conto brasileiro contemporâneo, de Alfredo Bosi, Céu e inferno, de Alfredo Bosi, Estruturas, de Rui Mourão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, de Fernando Alves Cristóvão e Ficção e confissão, de Antonio Candido. Palavras-chave: Histórias de Alexandre, Graciliano Ramos, Cultura popular, Literatura infantojuvenil, Folclore. AZEVEDO, Carlos Benites de. Vozes e saberes da cultura popular em Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes. Rio e Janeiro, 2014. Dissertação de Mestrado em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014. ABSTRACT The present work studies the voices of the popular universe that echo in the tales of the book which originally was named Histórias de Alexandre (Alexandre’s Tales), by Graciliano Ramos, published in 1944 and in 1962 became part of Graciliano‟s collection Alexandre e outros heróis (Alexandre and the other heroes) with two other works Pequena História da República (Short Republic Story) and Terra dos meninos pelados (Land of the naked boys). To conduct this analysis, we started from the historical study of the forms of popular culture, with a special attention to the Brazilian Northeast, because it is the region that served as the backdrop for the studied stories. In the analysis of Histórias de Alexandre, we initially focused on their popular nature, that appears not only in the stories, with characteristics of northeastern folklore, but also in the format as they were told, in their characters which are authentic representatives of northeastern popular culture, and in the milieus that surrounds them. We also analyze the characteristics linked to its comedy, with a study of its characters, the question of narrative and used language. In this analysis, we examined the popular imagery in the storyteller‟s voice with an imaginative language and how is the reception of listeners with possible disagreements on the issue of likelihood of the stories. We also gave special attention to the speech of the characters that have full mastery of the vocabulary, a fact noticed in other Graciliano‟s books. We used as contribution to this discussion some studies as “The Storryteller”, by Walter Benjamin, Literatura infantil, by Nelly Novaes Coelho, Literatura infantil brasileira – história e histórias, by Marisa Lajolo and Regina Zilberman, Problems of comedy and laughter, by V. Propp, Rabelais and folk culture of the Middle Ages and Renaissance, by Bakhtin, O conto brasileiro contemporâneo, by Alfredo Bosi, Céu e inferno, by Alfredo Bosi, Estruturas, by Rui Mourão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, by Fernando Alves Cristóvão, and Ficção e confissão, by Antonio Candido. Keywords: Alexandre’s Tales; Graciliano Ramos; Popular Culture; Juvenile literature, Folklore LISTA DE ILUSTRAÇÕES Pág. FIG. 1: Histórias de Alexandre – 1ª.Edição – 1944 .............................................. 174 FIG. 2: Histórias de Alexandre – 2007 ................................................................. 174 FIG. 3: Alexandre e outros heróis – 1ª edição – 1962 ......................................... 175 FIG. 4: Alexandre e outros heróis – 10ª edição – 1973 ....................................... 175 (de 1972 a 1974) FIG. 5: Alexandre e outros heróis – 12ª edição – 1975 ....................................... 176 (até 1990) FIG. 6: Alexandre e outros heróis – 19ª edição – 1980 ....................................... 176 (de 1977 a 1986) FIG. 7: Alexandre e outros heróis – 32ª edição - 1991 (até 2001) ....................... 177 FIG. 8: Alexandre e outros heróis – Edição do Círculo do Livro – 1994 .............. 177 FIG. 9: Alexandre e outros heróis – 49ª edição – 2006 ....................................... 178 (de 2002 a 2014) FIG. 10: Histórias de Alexandre – Audiolivro .......................................................... 178 FIG. 11: Histórias agrestes – 1960 ......................................................................... 179 FIG. 12: Ilustração de Moraes para “História de um bode” ................................... 180 FIG. 13: Ilustração de Silvio Vitorino para “História de um bode” .......................... 181 SUMÁRIO Pág. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 12 Capítulo 1 A Cultura de origem popular .............................................................. 30 1.1 As histórias orais e suas manifestações ......................................................... 30 1.2 O folclore e a literatura infantojuvenil ............................................................. .42 Capítulo 2 O olhar da crítica e a atenção recebida da imprensa ........................... 59 Capítulo 3 Histórias de Alexandre: a relação dialógica entre as histórias e sua aproximação com o popular ................................................................ 77 Capítulo 4 As narrativas de Alexandre: suas características e estratégias de convencimento .................................................................................. 106 Capítulo 5 O processo narrativo de Histórias de Alexandre ............................. 118 Capítulo 6 A classificação por ciclos temáticos na literatura popular nordestina e as Histórias de Alexandre ............................................................ 126 Capítulo 7 A linguagem utilizada por Graciliano Ramos .................................... 132 Capítulo 8 O legado de Graciliano Ramos na literatura brasileira contemporânea ................................................................................ 142 Conclusões ............................................................................................................ 158 Referências ............................................................................................................ 163 ANEXO .................................................................................................................. 173 ANEXO 1 Capas de livros e ilustrações ................................................................. 174 INTRODUÇÃO O presente trabalho pretende estudar as vozes do universo popular que ecoam nos contos do livro que originalmente recebeu o título de Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, escrito entre 1938 e 19391, publicado inicialmente em 1944 e que em 1962 passou a ter incorporado a ele duas outras obras do autor, Pequena história da República e Terra dos Meninos Pelados, sendo denominado então de Alexandre e outros heróis. Em 2007 a obra Histórias de Alexandre foi novamente publicada sozinha, dessa vez pela Editora Record. Alguns dos contos presentes no livro foram inicialmente publicados nos jornais do Rio Diário de Notícias e O Jornal, entre dezembro de 1938 e novembro de 1939, sem receber atenção alguma da crítica e sem nenhuma menção de que seriam parte de um futuro livro, como foi o caso da publicação em jornais de capítulos de Infância, que teve várias notas na imprensa, desde março de 19412 apontando para uma futura publicação de Graciliano, que o publicou quase ao mesmo tempo que Histórias de Alexandre. Chegamos ao estudo de uma obra de Graciliano Ramos, que não tem grande repercussão no meio literário, na época de nossos estudos no Curso de Especialização em Literatura Infantojuvenil na Universidade Federal Fluminense. Naquela oportunidade, procuramos estudar a presença da cultura popular em obras 1 O primeiro conto do livro, “Apresentação de Alexandre e Cesária”, conforme manuscritos guardados no Arquivo Graciliano Ramos, na USP, é de 10 de julho de 1938. Porém, essa apresentação não consta da primeira publicação da obra, em 1944. Ela só veio a aparecer quando saiu a primeira edição em que as histórias de Alexandre aparecem no mesmo livro juntamente com Terra dos Meninos pelados e Pequena História da República, em 1962. Segundo informação do escritor Ricardo Ramos só um dos contos das Histórias de Alexandre não foi escrito na mesma época das outras: “O missionário”, escrito em 1952. 2 O Diário de Notícias publicou em sua página 14, da edição de 02 de março de 1941, uma nota informando que “o Sr. Graciliano Ramos está trabalhando um livro do maior interesse humano e literário: as suas memórias. No Brasil, onde os escritores não escrevem cartas nem têm arquivo, um livro como esse assume importância excepcional. E é fácil de imaginar a curiosidade com que toda gente o espera”. 13 da literatura brasileira, em particular nas voltadas ao público infantojuvenil. Além da obra que serve como corpus do presente estudo, encontramos traços de nossa cultura popular em livros como Histórias da Velha Totônia, de José Lins do Rego e Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato. As citadas obras têm em comum com Histórias de Alexandre a presença de um elemento que serve como transmissor de histórias presentes no imaginário popular. Na obra de José Lins do Rego, o autor recorre às memórias de sua infância no engenho do avô em que a velha Totônia contava histórias que tanto o marcaram. Totônia, dotada do conhecimento da cultura popular, fazia uso da tradição oral, que também foi utilizada para que aquelas histórias tivessem chegado até ela. Assim, ela não deixava que aquele conhecimento morresse com ela, conhecimento esse que fora transmitido através de várias gerações. Na obra de Monteiro Lobato, temos a velha cozinheira Tia Nastácia no Sítio do Picapau Amarelo, contando histórias de nosso folclore e que sempre aparecem em livros de recolhas de contos populares. Em Histórias de Alexandre, Graciliano Ramos deixa já no início da obra uma nota de advertência contando que “As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas”. Rui Mourão comenta que essa nota é irônica e traz uma cortina de fumaça para enganar o leitor quanto à veracidade das histórias que seriam contadas depois, já que não haveria menção dessas histórias no Nordeste: “mal esconde a sua carga de ironia, quando sabemos que não existe qualquer referência a tais lendas em arrolamentos sobre o folclórico da mencionada região, ninguém viu sequer uma delas sendo transmitida no domínio da oralidade [...]” (MOURÃO, 2003: p.139). Embora também tenhamos efetuado uma vasta pesquisa por vários locais especializados no folclore do Nordeste, na qual não encontramos registro sequer de traços de uma só das histórias contadas pelo velho major Alexandre em livros de recolhas de contos populares nordestinos e cordéis, tal fato não caracteriza que elas não pertençam ao folclore nordestino. Primeiramente, tanto nossa procura por registros quanto a que levou à afirmação de Mourão pode ter sido incompleta. Temos ainda o fato de que o sertão nordestino é uma vasta região e elementos da cultura popular podem se perder e se modificar ao longo dos anos. E ainda temos que lembrar que o caráter mentiroso das histórias por si só já nos leva ao folclore nordestino, pois um dos mais famosos tipos de histórias populares não só do Nordeste brasileiro, mas de várias partes do mundo, são as 14 histórias de mentirosos. Mas podemos afirmar, diante de dados biográficos do autor, que ele sempre tomou conhecimento de várias histórias populares e talvez delas tenha se alimentado, mesmo que as narrativas transmitidas por Alexandre não tragam vestígios aparentes de nenhuma das narrativas populares mais conhecidas. Se essa hipótese for um dia confirmada, isto é, se Graciliano tiver recriado a partir de elementos de narrativas populares, esse traço só nos leva a reconhecê-lo como um grande escritor, capaz de recolher e transformar elementos de narrativas tradicionais. No decorrer de nosso estudo veremos que Graciliano faz uso sim de elementos da cultura popular, na voz do major Alexandre, para contar as histórias do livro. Essa busca por traços semelhantes das histórias contadas no livro em contos do folclore nordestino, seja de histórias contadas oralmente através dos tempos pelo sertão, seja das histórias que foram impressas em cordéis, foi feita em sites especializados no folclore do Nordeste do Brasil, bibliotecas com livros de recolhas de contos populares do Nordeste, além de várias bibliotecas especializadas em cordéis, como no Museu da República no Catete, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ Campus São Gonçalo e na sede da Associação Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC, localizada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Com relação a esse último local, a ABLC, entrevistamos seu presidente, o cordelista Gonçalo Ferreira da Silva, que nos deu um panorama do cordel na cidade do Rio de Janeiro e no Nordeste. Gonçalo ainda nos auxiliou a situar os modelos e tipos de cordel mais presentes historicamente, o que talvez possa confirmar a não existência das histórias usadas por Graciliano nos inúmeros cordéis já produzidos. Esclarecemos que o motivo de termos procurado pesquisar também em cordéis é que, além da literatura de cordel ser um importante meio de difusão da cultura popular, também passa pelo fato de que ela é citada diversas vezes durante as histórias de Alexandre, o que demonstra mais uma aproximação da narrativa de Graciliano Ramos com a cultura popular. Outro componente que liga a obra à cultura popular é a preocupação do autor em colocar no livro, e dar voz a eles, personagens representantes de diferentes modalidades dessa cultura, como cantadores de emboladas, violeiros, benzedeiras, curandeiros e contadores de histórias de cordel. Essa escolha é totalmente proposital. Na audiência de Alexandre não se encontravam políticos, homens ricos, 15 policiais, ou qualquer um que poderia explorar ou subjugar os pobres moradores do sofrido sertão nordestino. Em nossa pesquisa procuraremos falar sobre cada um desses personagens e sobre as passagens mais marcantes em cada história em que estão presentes. E dentre os personagens, o mais importante, o Major Alexandre, patente dada a pessoas de respeito no sertão nordestino, que recebe seus amigos, todos os domingos e dias santos, em sua casa de gente pobre e simples, para contar suas histórias maravilhosas, o que nos leva a mais um típico representante da cultura popular, o contador de causos populares. E Alexandre é concebido por Graciliano como os grandes contadores de histórias populares, dotado de criatividade, com um desempenho digno de um ator, no gestual, no tom da voz, falando mais baixo ou mais alto de acordo com a narrativa, para não só chamar a atenção dos presentes sobre ele, como também para tentar dar veracidade às suas palavras. Mas as principais características de suas histórias são as ligadas ao seu exagero, de se afastarem da realidade, ou seja, mentirosas, e por trazerem o riso para quem as lê, com o desmascaramento do exagero. A obra de Graciliano Ramos sempre foi caracterizada pela concisão e pelo fino trato com o léxico. Frente a um livro do Mestre Graça, o leitor tem sempre noção de que o autor trabalhou à exaustão na escolha de cada palavra do texto. Mas, além da beleza de sua arte, seus livros são reconhecidos por uma forte ação social. Graciliano tinha que mostrar as injustiças sociais, de falar sobre o sofrimento da gente humilde e de contar sobre os mais diversos tipos, principalmente sobre os que viviam no sertão nordestino. Essa junção entre trato com a palavra e preocupação em falar sobre personagens populares e sem voz na sociedade fez com que sua literatura ganhasse bastante notoriedade. É sempre importante ressaltar que Graciliano mesclava os aspectos literários e sociológicos, acrescentando também uma boa dose de análise psicológica, mas a questão literária era a mais importante. Enfatizamos isso, para que não se pensasse nos livros de Graciliano como uma obra puramente política. Assim, Graciliano conseguia desenhar um perfeito quadro social brasileiro das décadas de 1930 e 1940. Rui Mourão, um dos especialistas da obra de Graciliano Ramos, comenta assim sobre esse assunto: a riqueza integral da obra de Graciliano Ramos só pode ser entrevista na medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama social da época. [...] O quadro brasileiro denunciado é aquele que vinha se delineando desde os primeiros dias da República. (Mourão, 2003: p.163) 16 Essa aproximação de Graciliano com o cenário social da primeira metade do século passado enfatizava um dos escritores de mais rica biografia ligada à ética e ao combate por uma sociedade mais justa. E esse foi mais um ponto a nos atrair para estudar Graciliano Ramos. Teríamos assim um vasto material em sua obra e sua vida que nos aproximou, num convite sedutor para esse estudo. Um olhar reflexivo, por um viés cheio de humor em Histórias de Alexandre pôde amenizar seu modo incisivo, mas não o impediu de efetuar a crítica, assim como deu forças a seus personagens que naturalmente não receberiam voz da sociedade. O autor trouxe uma visão do contexto em que viviam seus personagens sem que fosse preciso fazer disso uma causa panfletária. E esse outro tipo de olhar crítico não se repete nas outras obras do autor que não carregam essa dose de humor, como, por exemplo, em São Bernardo. Segundo o professor Godofredo Oliveira Neto, uma análise em que se privilegie “a visão apenas sociológica de São Bernardo empobrece a obra e vai contra a diretiva que lhe imprimiu o autor”. (OLIVEIRA NETO, 1990, p.65) Porém, o sociológico não é descartado no romance, já que o lado social serve de cenário para que sejam traçados os perfis psicológicos dos personagens. Assim, com uma linguagem enxuta e eficiente, Graciliano impõe uma análise em que se fundem as visões sociológica e psicológica, “que desde o início se impõe”. Para Oliveira Neto, a leitura psicológica subjuga a panfletária: Mas ver em São Bernardo, como alguns, influenciados pela biografia do autor, o fizeram, uma obra apenas política, é diminuir a obra. É desconhecer (de propósito) a luta que o autor (Graciliano e Paulo Honório) travou com a sua consciência, para tentar atingir a isenção nas suas análises. São Bernardo é ficção. A luta política não tem aí a sua arena. Graciliano sabia disso (OLIVEIRA NETO, 1990, p. 91). O olhar crítico de Graciliano já se mostrava desde os primeiros textos, como as crônicas que escrevia sob pseudônimo nos jornais de Alagoas com pouco mais de vinte anos de idade. Como exemplo, temos a que ele escreveu em março de 1915, no Jornal de Alagoas, com o pseudônimo de R.O., ao falar sobre a Constituição da República: Está aqui um deputado que é um poço de manha, papagueador quando parola com o eleitorado, mudo na câmara, gênero peru; ali está um presidente de estado que outra coisa não tem feito senão apregoar pelas trombetas oficiais as maravilhas que ninguém vê, mas que ele teve o louvável intuito de realizar; temos acolá um advogado ventoinha, equilibrista emérito, camaleão legítimo; vem depois o comerciante voraz, enriquecido com os favores clandestinos, negociatas escusas e contrabandos; mais distante, avulta a majestade rotunda do industrial insatisfeito, empanturrado pelas propinas que a guerra lhe meteu no bucho. [...] São os donos de todos 17 os municípios destes remotos rincões que o estrangeiro ignora, que as cidades do litoral conhecem vagamente, através dos despachos da Agência Americana. [...] Mandatários do governo, forjadores de eleições, mais ou menos coronéis, caciques em miniatura, têm frequentemente para infundir respeito, uma espada da Guarda Nacional, um boné sebento, um lenço de tabaco e um par de socos. [...] Peguemos o chefe político, agitemo-lo no ar e berremos o estribilho com que a imprensa, há tempos, nos anda a amolar – A Constituição da República precisa de uma revisão. (RAMOS,1962b: pp.9-10) Esse olhar crítico de Graciliano enfatizava por vezes o sofrimento, a angústia e humilhações que o homem sofria, como se o homem do povo pouco ou nada pudesse fazer diante das injustiças sofridas, por sentir-se paralisado e sem forças. Podemos ver esses aspectos em toda sua obra, crônicas, contos e também em seus romances. Segundo Alfredo Bosi, a perspectiva em Graciliano é “do céu desejado para o inferno real.” (BOSI, 2010: p.50) E não só o adulto sente essa ação em sua obra. Para Bosi, nos capítulos “O menino mais novo” e “O menino mais velho” vemos o autor mostrar “passagens que narram a frustração da criança perante o universo do adulto nas condições precisas da vida sertaneja.” (idem, p.26) Em Angústia temos o homem sob uma ação que o reprime, subjuga e o sufoca, tornando-o incapaz de reagir e sentindo-se um nada na sociedade: Mas a voz do chefe da revisão estava colada aos meus ouvidos: - Suspenso por cinco dias, seu Silva. [...] Vida de cachorro. Como iria pagar a pensão? - D. Aurora, tenha paciência. [...] Os tempos andam safados, d. Aurora. As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roia-me por dentro. [...] Lá fui eu com elas, capiongo, pagar bonde, sorvetes e três cadeiras. Tipo besta. - Aguenta, maluco, trouxa, filho de uma puta. E contava mentalmente o dinheiro suado e mesquinho. [...] O que eu estava era indignado. E calculava. Três passagens de bonde – mil e duzentos. Três sorvetes – três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema. [...] Lá ia, de cabeça baixa, beber um copo de caldo de cana e comer um pastel. Os níqueis amarrados como dinheiro de matuto. [...] Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas enfim valor. (RAMOS, 2011: pp.48,50) Em Caetés, o personagem João Valério em certo momento acusa o Promotor de Justiça da cidade, Dr. Castro, de ter posto em liberdade Manuel Tavares, “um assassino, um bandido da pior espécie!”. O Promotor se defende da acusação com a justificativa de que não fora ele o responsável pela soltura do assassino e sim os jurados. E como João Valério insiste exaltado na interpelação, lembrando que o Promotor poderia ter apelado da decisão, e que esquecera de fazê-lo, ele afirma que tudo que fizera tinha sido feito de acordo com sua consciência, sem burlar a lei. 18 Então João Valério dá o veredicto sobre a postura do Promotor: “Qual consciência! Soltou Manuel Tavares porque lhe mandaram que não apelasse. Ora consciência!” (RAMOS,1978: p. 173). Em Vidas secas, Graciliano mostra na passagem do capítulo “Cadeia” as agruras porque passa o personagem Fabiano, ao ser preso injustamente por conta do abuso de autoridade de um soldado, por pura antipatia e por não ter se despedido após um malfadado jogo de cartas. Assim, Fabiano se indignava com aquela situação: - Safado, mofino, escarro de gente. Por mor de uma peste daquela, maltratava-se um pai de família. Pensou na mulher, nos filhos e na cachorrinha. [...] Quem não ficaria azuretado com semelhante despropósito? Então porque um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-se pancada nele? Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no tronco e agüentavam cipó de boi oferecia consolações: - “Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita.” (RAMOS, 2000: pp.30-33) É importante destacar que esse tema envolvendo o cotidiano nas cadeias e a injustiça imposta pelos poderosos aos mais fracos ou a quem lhes causa incômodo, aparece em outras obras do autor, como Memórias do cárcere (obra póstuma de 1953). Mas, em especial, o episódio citado de Caetés pode ser considerado uma remontagem de crônica datada de fevereiro de 1921 no Jornal O Índio, de Palmeiras dos Índios-AL, sob o pseudônimo de João Calisto. A crônica, em forma de carta, traz no título “(Carta de um jurado a um cavalheiro de importância)”. Nela, Graciliano coloca uma veia irônica, já demonstrando traços de um cuidado perfeito no uso da linguagem. Destaca-se também por criar efeitos literários que já mostravam a grandiosidade de um escritor de renome em nossa literatura: Particularizemos, tomemos um caso concreto, para maior comodidade na demonstração. Manuel Tavares assassinou um homem dormindo, segundo consta. É gravíssimo! dirão. Pois não, senhor. Não acho ali motivo para condenar-se uma criatura. Vejo apenas duas proposições duvidosas, que nada de positivo afirmam a respeito da culpabilidade do indigitado autor do homicídio em questão. [...] Tomemos a segunda proposição. “Manuel Tavares assassinou um homem dormindo.” Quanta incerteza! Quanta ambigüidade! [...] Aceitemos, entretanto, que Manuel Tavares seja um criminoso, o que não está demonstrado; concedamos que ele estivesse acordado na hora do crime, o que é duvidoso. (RAMOS,1962b, pp.64-65) 19 Após o fechamento da carta, o cronista coloca uma nota de advertência, apontando sobre a origem da correspondência: “- Esta carta foi-nos confiada por um cavalheiro de influência, que nos deu autorização para publicá-la. O original encontra-se em nosso poder.” (idem: p.66) Também em suas cartas, Graciliano demonstrava essa linguagem irônica, com boa dose de humor, com os mesmos dotes literários de seus livros. Por exemplo, em uma de suas inúmeras cartas para sua segunda esposa, Heloisa, ele demonstra o bom trato com a língua, fazendo metalinguagem ao comentar sobre sua forma de escrever e sobre S. Bernardo, tratando os personagens do livro como pessoas de seu cotidiano: Julgo que aqui neste quarto, sozinho, vou ficando safado. Tem-me aparecido ideias vermelhas. Anteontem abrequei a Germana num canto de parede e sapequei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Não tem importância. Isto passa. Vai sair obra-prima em língua de sertanejo, cheia de termos descabelados. O pior é que cada vez que leio aquilo corto um pedaço. Suponho que acabarei cortando tudo. (RAMOS, 1981: p.121) Vemos também esses traços, de forma mais leve, com uma veia cômica e num livro voltado ao público infantojuvenil, em Histórias de Alexandre, obra que escolhemos como corpus de nossa pesquisa justamente por ter uma característica especial em relação aos outros livros do autor, a proximidade com o folclore nordestino. Em meio às histórias, Alexandre relembra momentos em que ele e sua esposa desfrutavam de melhor situação financeira e conta passagens em que a relação com as pessoas detentoras de poder pendia sempre a prejudicar os mais pobres. A forma como é feita a conexão com a cultura popular é nítida e única dentre as obras de Graciliano. E é nossa tarefa estudar a proximidade entre essa importante cultura e o livro de Graciliano Ramos. É nas histórias daquele major do olho torto que vivia no sertão nordestino, com uma roupagem diferente da até então presente na obra do autor e que não veio a se repetir posteriormente, com um livro infantojuvenil, categoria literária deixada de lado e vista com preconceito por boa parte dos meios literários, e com uma boa dose de humor, que Graciliano consegue ser fiel a muitas de suas tendências, como “a solidão interior do homem e sua luta pela afirmação da própria individualidade” (COELHO, 1978: 61). E assim se dão as histórias, tendo como cenário a realidade cruel do sertão nordestino e o sofrimento causado a seu povo, mas nitidamente 20 moldado e retratado por Graciliano, através de registros da cultura popular nordestina. Ao provocar uma mudança bem marcada em relação às obras produzidas anteriormente, críticos tradicionais e amantes de sua obra, tiveram reações distintas. A própria forma como a imprensa tratou ao publicar algumas das histórias dá ideia disso. Enquanto os capítulos de Infância, que foram escritos e também publicados em periódicos com diferença de poucos meses para Histórias de Alexandre, receberam comentários de que seriam parte de um futuro livro de memórias do autor e os críticos da imprensa se mostravam ansiosos pela obra, cada causo contado pelo major Alexandre apenas recebia a indicação de que se tratava de “conto para crianças”, sem a menção de que a história faria parte de um livro. Também na ocasião da publicação do livro, a imprensa deu pouco espaço à notícia. Enquanto, por exemplo, Vidas secas, S. Bernardo e Caetés tiveram amplo destaque desde algumas semanas e até meses antes das publicações, só foram encontradas duas pequenas notas no jornal A Manhã, nas edições de 23 de maio de 1944 e 20 de março de 1945. Nesta última foram reservadas somente três linhas: “A Editora Leitura, na coleção „Menino Homem‟, acaba de lançar „Histórias de Alexandre‟, de Graciliano Ramos. Ilustrações e capa de Santa Rosa”. Na primeira menção, embora tenham dedicado um espaço maior, ainda assim não passaram de seis linhas. Assim, em meio a várias notícias sobre II Guerra Mundial, com algumas notas sobre a participação brasileira, desfiles da FEB e sobre o racionamento de carne e do preço exorbitante da alimentação, se achava a seguinte indicação: A Editora Leitura anuncia um livro de Graciliano Ramos: “Histórias de Alexandre”. História folclórica sobre dois tipos característicos do Norte. O que parecerá estranho, porém, - sobretudo aos que resolveram transformar a literatura em arma de guerra – é o romancista publicar um livro assim, de divertidas histórias, em momento de tanta luta.(A MANHÃ: 1944, p.3) Além das notas citadas acima, houve duas outras menções a Histórias de Alexandre, ambas no jornal carioca A Noite. A primeira ocorreu em uma entrevista dada por Graciliano ao jornal carioca em 19 de dezembro de 1944 3, e publicada na coluna “As celebridades, suas manias e predileções”. Na citada entrevista, dada ao jornalista José Oliveira Teixeira, ao ser perguntado se gostaria de escrever melhor e 3 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&PagFis=31090 e http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&PagFis=31098 . Acessado em 13 de dezembro de 2013. 21 de tentar outros gêneros literários, Graciliano diz, como de outras vezes, que não gostava do que escrevia. Porém, disse que sentia prazer em escrever e que continuaria “a rabiscar romances e contos”. O entrevistador o interrompeu dizendo que, no entanto, ele teria fugido para as memórias. Graciliano, então, complementou o que o seu entrevistador dizia: - E para o folc-lore também. A minha História de Alexandre sairá dentro em pouco, por sinal, que com lindas ilustrações de Santa Rosa. Graciliano então mostra alguns desenhos que foram classificados pelo jornalista como “dignos de uma citação e mostram mais uma vez a pujança e o talento de Santa Rosa. Então complementou, se referindo ao novo livro de Graciliano com as seguintes palavras: “Resta explicar que História de Alexandre é puro folc-lore nordestino para as crianças do Brasil”. Imaginamos que a menção ao livro com o título no singular se deveu a erro do jornalista e não a erro de informação de Graciliano, pois o livro já estava pronto na época da entrevista com o título que até hoje é usado – Histórias de Alexandre. Porém, caso Graciliano tenha realmente usado a expressão “História de Alexandre” para se referir ao livro, indica, mesmo que de forma inconsciente, uma intenção a fazer um romance do livro. Importante de registro também é o termo usado pelo jornalista ao fazer o breve comentário sobre o livro como “puro folc-lore nordestino para as crianças”, que dá uma ideia de tornar menor a obra por ser ligada ao folclore. A segunda menção em A Noite ocorreu em uma nota de três linhas, publicada no mesmo dia em que A Manhã, em 20 de março de 1945, e com as mesmas palavras deste, informando que “A Editora Leitura, na Coleção „Menino-Homem‟, acaba de lançar: „Histórias de Alexandre‟, de Graciliano Ramos. Ilustrações e capa de Santa Rosa”. Não encontramos outras menções ao livro na pesquisa que realizamos. Uma questão que percebemos acerca das datas de publicações das notas de A Noite e A Manhã, informando o lançamento do livro com a expressão “acaba de lançar”, complementando com a entrevista no final de 1944, tendo Graciliano informando que Histórias de Alexandre sairia “dentro em pouco”, indicam que, a despeito do livro ter em sua folha de rosto a data de 1944, deduzimos que essa foi somente a data em que o livro foi impresso e que o ano da publicação foi 22 1945. Possivelmente houve algum problema na logística da editora que acabou atrasando a publicação ou mesmo só a questão de distribuição dos exemplares. A obra recebeu diversas edições, com aparências diferentes, não somente em termos de ilustrações, mas também na forma. A Editora Leitura, que publicou a primeira edição do livro em 1944, não tinha muito prestígio na época e depois se mostrou que ela não fora uma boa escolha para lançamento do livro, pois a própria forma como foi feita a divulgação pela editora junto à imprensa pode ter influenciado o modo como a crítica o tratou e também no desconhecimento do público sobre o livro. Depois da publicação de algumas das histórias entre dezembro de 1938 e novembro de 1939 pelos jornais Diário de Notícias e O Jornal, ambos do Rio de Janeiro, Graciliano pegou essas histórias e juntou com outras que foram escritas na mesma época, totalizando 13 histórias para fazerem parte do livro. Desse livro não fazia parte a “Apresentação de Alexandre e Cesária”, que embora tenha sido escritaisv na mesma época das outras histórias, só foi reaparecer na edição póstuma da Editora Martins em que as histórias do major do olho torto passaram a fazer parte, em 1962, de uma coletânea com outras duas obras voltadas para o público infantojuvenil, Terra dos meninos pelados – que fora premiado pelo Ministério de Educação em 1939 - e Pequena História da República. Essa coletânea recebeu o título de Alexandre e outros heróis. A partir de meados da década de 70, essa obra passou a ser propagada pela Editora Record, que passou a publicar as diversas reedições das obras de Graciliano Ramos. Dessa coletânea também passou a fazer parte, entre as histórias do major, o conto “O missionário”, que foi a única das histórias que não foi escrita no mesmo período das outras. Um dado importante de registro sobre Alexandre e outros heróis é que, a partir de sua publicação, ele passou a ser o terceiro título com maior venda entre os livros de Graciliano Ramos, só perdendo para S.Bernardo e Vidas secas, o que parecia ser impensável, quando as histórias foram publicadas em separado em 1944, pois sua primeira edição com 1000 exemplares demorou muito para se esgotar e nos anos seguintes à publicação era normal ver seu título entre vários outros em anúncios classificados de jornais como Diário de Notícias, Correio da Manhã e O Jornal, de livros sendo vendidos em promoção – “de Cr$12,00 por Cr$ 6,00”. Esse dado, somado ao fato de que a publicação de Histórias de Alexandre, que saiu em 2007, já está na sua décima edição, indica que mesmo um livro de um autor que não 23 produzia com interesse puramente mercadológico, que dava valor primeiramente a suas preocupações artísticas, podia ser também uma mercadoria aceita pelo público leitor. Assim, percebemos a grande importância dessa edição para que tanto Histórias de Alexandre, como Terra dos meninos pelados, em maior escala, e Pequena história da República se tornassem conhecidas pelos leitores, jovens e adultos. Antes dessa citada edição póstuma, foi publicado, ainda em vida do autor, em 1951, pela Editorial Vitória, um livro que Graciliano selecionou sete das histórias do major Alexandre, formando o 7 histórias verdadeiras. Cabe lembrar que a Editorial Vitória tinha se transformado, na época da publicação, na principal divulgadora do Partido Comunista do Brasil. Nesse livro, não percebemos nenhuma razão para a escolha das sete histórias e não das outras seis que saíram na edição de Histórias de Alexandre de 1944. Todo o material de divulgação do livro publicado nos jornais mencionava somente que o livro ganhara um formato adequado ao público jovem. Acreditamos que ao se referir ao formato indicava a tão somente às ilustrações de Percy Deane e material que acompanhava o livro, um cartão convite às crianças para uma reunião com o autor, enquanto que a edição de 1944 trazia ilustrações de Santa Rosa que não se assemelhavam às que normalmente encontramos em livros para crianças e jovens, pois suas características se aproximavam das presentes nos livros de Graciliano classificados como destinados ao público adulto. Quanto às histórias, não eram nem mais nem menos indicadas aos jovens que as histórias de Alexandre e Cesária não incluídas no livro. Da mesma forma, havia tantas ligações entre as histórias quanto entre elas e as que foram excluídas. Exemplo disso foi o fato de ter no livro a história “Uma canoa furada”, e nela Alexandre cita fatos presentes em “História de um bode” e “O marquezão da jaqueira”, histórias que não foram selecionadas em 7 histórias verdadeiras. Nos pareceu que a editora desejou diminuir o número de histórias, como se treze histórias fosse um número elevado para as crianças lerem, e o autor escolheu as que ele tinha mais gosto. Outra obra póstuma foi a coletânea de contos Histórias agrestes, publicada em 1955, incluindo alguns dos contos de Histórias de Alexandre e capítulos de Vidas secas (que também teve publicação de alguns capítulos em jornais, em ordem diversa da que consta do livro, como contos independentes), Infância e Memórias do cárcere. A seleção dos textos para Histórias foi feita pelo filho de Graciliano, Ricardo 24 Ramos. Por fim, em 2007, a Record publicou, tal qual a Editora Leitura em 1944, uma edição só com as Histórias de Alexandre, porém com as mesmas histórias que já apareciam em Alexandre e outros heróis. Ou seja, ao contrário da primeira, a última edição traz a “Apresentação de Alexandre e Cesária” e “O missionário”. Importante de registro é a crítica que Fernando Alves Cristóvão fez sobre a edição da obra póstuma Alexandre e outros heróis, que juntou Histórias de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena história da República em 1962 pela Editora Martins: 4 Tal reedição, além de inserir a nova história , apresenta inovações não muito felizes: o título e o critério da compilação, acrescentando A Terra dos meninos pelados e Pequena História da República às Histórias de Alexandre. O título além de alterar um outro dado por Graciliano às histórias, tem a desvantagem de englobar matéria muito díspar: histórias do folclore cheias de maravilhoso popular e uma visão crítica da história do Brasil na “Pequena História da República”, que, primitivamente destinada a um concurso de História do Brasil para adolescentes, lançado por Diretrizes, Graciliano acabou por retirá-la desse contexto, por entender que era demasiado crítica para um público tão jovem. Daí que só postumamente fosse publicada, na revista SR, em março e abril de 1960, apesar de o manuscrito autógrafo ter sido terminado em 13 de janeiro de 1940. Parecenos que Alexandre e outros heróis não devia ser mais reeditado, regressando às histórias de Alexandre ao seu título primitivo e autêntico e o volume à elaboração que o autor lhes deu. (CRISTÓVÃO, 1975: p.186) Nas edições de 1962, 1964 e 1966 de Alexandre e outros heróis, a obra não possuía prefácio nem posfácio. A partir da quarta edição, em 1968, a obra recebe prefácio de José Geraldo Vieira com o título “A dioptria de Alexandre”. Esse prefácio aparece até a 10ª edição, em 1973. Nesse prefácio, Vieira se diz amigo e profundo admirador da obra de Graciliano, mas lembra que ironicamente não sabia da existência do lançamento das Histórias de Alexandre em 1944 (ele confunde as datas, possivelmente por informação errada que recebera, e cita que a edição desconhecida era de 1954). No texto, ele destaca que é nas histórias contadas por Xandu que Graciliano Ramos, o incomparável romancista brasileiro e um dos maiores de nossa língua [...] sai da singularidade incisiva do seu repertório para ampliar por conta própria as baterias de radar do conto oral, em cujos estribos trabalharam outrora outros técnicos chamados Andersen, Keller, Melander, Quevedo e Poggio. (VIEIRA apud RAMOS,1973:pp.18-19) 4 Cristóvão se refere a “O Missionário”, que como já citado, não aparecera na primeira edição das Histórias de Alexandre e que Ricardo Ramos afirma que fora escrito em 1952. Dessa história não havia manuscrito autógrafo do autor. Dona Heloisa, segunda esposa de Graciliano, em depoimento ao estudioso da obra de seu marido, sugeriu que ela não tinha sido aproveitada porque possivelmente Graciliano não gostava dela. 25 Em 1974, que foi o ano da última edição do livro pela Editora Martins, a 11ª, o prefácio passa a ser de Osman Lins com o texto "O mundo recusado, o mundo aceito e o mundo enfrentado”. A partir da 12ª edição, em 1975, o livro passa a ser publicado pela Record e nas primeiras edições o texto de Osman Lins continua sendo apresentado como prefácio, o que acontece até a 15ª edição, em 1978. Também em 1978 é publicada a 16ª. edição, e a partir daí até 2001, a obra passa a ter o texto de Osman Lins como posfácio. Desse texto, destacamos a seguinte passagem: As histórias de Alexandre, se não são originais e se pertencem ao folclore do nordeste, obedecem, pela coerência temática, a um objetivo definido e salientado pela análise: este homem que fala a ouvintes obscuros, mantém, através da imaginação, a capacidade de evocar, sob uma forma mítica, a existência de bens que ele e o cantador, o curandeiro, a benzedeira, o cego, deveriam compartir. (LINS apud RAMOS, 1982, pp.191-192) Em 1990, o Círculo do Livro publica uma edição especial com posfácio de Osman Lins e com ilustrações com traços bem distintos de todas as outras figuras presentes nas outras edições. Talvez essa noção sobre as ilustrações tenha ocorrido apenas por uma impressão errada, influenciada pelo colorido da capa, com o fundo azul e letras vermelhas, fora as outras cores nas roupas e animais, enquanto nas outras edições, com vários ilustradores, só víamos uma ou duas cores na capa, que marcava mais o sofrimento do homem sertanejo que um tom de aventuras mentirosas. As ilustrações internas estavam em preto e branco, mas ainda assim, era facilmente perceptível a diferença dessa ilustração para as das demais edições. A partir de 2002, a obra tem como única imagem a que aparece na capa com uma figura de Santa Rosa, que constava da primeira edição de Histórias de Alexandre, em 1944. Nessa edição, o livro passa a ter posfácio de Rui Mourão, com o texto “Procura de caminho”, subdividido com análises das três obras que compõem a coletânea, acrescida de listagem de bibliografia sobre Graciliano Ramos, lista de antologias, entrevistas e obras em colaboração e lista de obras traduzidas. Do posfácio de Mourão, destacamos o seguinte trecho: [...] podemos dizer que a evolução do ficcionista – que não se repetia nunca, sempre estava à procura de saída por novos caminhos – se fez dentro de dois parâmetros fundamentais. A busca de uma expressão cada vez mais efetiva da realidade nordestina e o aprimoramento da linguagem, tanto no aspecto lingüístico quanto no estrutural. A partir de certa altura, passaria a utilizar elementos da vivência histórica pessoal, na ânsia de conferir maior autenticidade ao testemunho do universo retratado. (MOURÃO apud RAMOS, 2006, p.189) 26 Verificamos também que só a partir dessa edição, é citada a edição de 1944 de Histórias de Alexandre entre as obras de Graciliano. Em todas as outras ela não é citada, o que se repete também quando suas obras são listadas dentro dos outros livros de Graciliano. Porém, há uma informação errada nessa edição, já que nessa lista de obras do autor, Alexandre e outros heróis aparece como publicado pela Record só a partir de 1978, quando na verdade a Record já publicava o livro desde 1975. Os livros 7 histórias verdadeiras e Histórias agrestes aparecem na parte de “Antologias” e não entre as obras do autor. Em relação às ilustrações que as diversas edições que Histórias de Alexandre e Alexandre e outros heróis receberam nestes 70 anos, cada uma tinha um traço característico de seu ilustrador, mas o que predominava sempre era a ligação da ilustração com o sertão, envolvendo a gente sertaneja e as coisas que o cercam, como os bichos, a vegetação e a cultura. O mais famoso de todos, sem dúvida alguma, foi Tomás Santa Rosa, um autodidata que se tornou especialista em diversas atividades ligadas à pintura e que, por trabalhar diretamente com Cândido Portinari por vários anos, acabou tendo seus traços com certa semelhança com os do artista plástico paulista. Santa Rosa, que assinava suas pinturas com as iniciais SR, era muito amigo de grandes nomes da literatura brasileira, como o próprio Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Também tinha livre tráfego entre outros nomes ligados à nossa cultura, como o editor José Olympio. Santa Rosa também era responsável pelas ilustrações de vários periódicos da primeira metade do século XX, como Diretrizes, importante periódico carioca que funcionou nos anos 30 e 40 do século passado, inicialmente como revista e depois como jornal diário, em que Graciliano Ramos também era importante colaborador, e o Diário de Notícias. Assim, Santa Rosa se responsabilizou por boa parte da ilustração e todo projeto gráfico da obra de Graciliano Ramos por um bom tempo. Recentemente, algumas edições das obras do Mestre Graça voltaram a receber as mesmas imagens que Santa Rosa fizera em suas primeiras edições. Outros ilustradores, como Floriano Teixeira, Moraes e Poty, nomes de destaque das artes plásticas do Brasil por várias décadas, também passaram a trabalhar em alguns livros de Graciliano Ramos a partir dos anos 60. Um nome que apareceu em uma única edição de Alexandre e outros heróis, em 1990, para o Círculo do Livro, foi o ilustrador e designer Silvio Vitorino, que se notabilizou pelo uso de retratos de 27 personalidades em tons de cinza ou monocromáticos e de imagens de bichos, e também com muitas cores em algumas ilustrações de livros, sendo que a capa dessa edição traz esse aspecto multicor. Foi também o único ilustrador que retratou os bichos e as pessoas com mais semelhança ao real, como se fossem desenhos a partir de fotos. Assim, percebemos que grandes nomes de nossas artes plásticas eram chamados para ilustrar os livros de famosos escritores brasileiros, mostrando uma característica do mercado editorial brasileiro na época. Nas ultimas décadas é mais fácil encontrarmos artistas que se notabilizam por serem especialistas na ilustração de livros, e se tornam famosos unicamente por isso ou, ao menos, que tiveram quase toda sua fama devida a essa atividade, principalmente entre os ilustradores de livros infantojuvenis, como, por exemplo, Roger Melo, Marilda Castanha e André Neves. Hoje os ilustradores brasileiros de livros para jovens leitores participam inclusive de uma associação de classe juntamente com os escritores, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ. A última edição de Histórias de Alexandre recebeu a ilustração do premiado ilustrador e escritor de livros infantis André Neves, que procurou marcar a ideia de pobreza e penúria no sertão, porém não deixando de mostrar um misto de companheirismo e felicidade repartida entre os donos da casa e a platéia para as histórias do major Alexandre. Por ter sido ilustrada por um profissional que se especializou em livros para crianças, essa edição nos pareceu a que melhor tratamento recebeu, em termos de ilustração dentre todas as outras, inclusive as de Alexandre e outros heróis. Também podemos citar as ilustrações das últimas edições de Terra dos meninos pelados, que continuou a ser publicada em separado, e atualmente encontra-se na 43ª edição. Essas edições trazem imagens feitas por ilustradores como Jean-Claude Ramos Alphen e Roger Mello, que trabalham exclusivamente com livros infantojuvenis. Esse último recebeu em 2014 o conceituadíssimo Prêmio Hanns Christian Andersen, que é considerado o “Prêmio Nobel” da literatura infantojuvenil, de melhor ilustrador. Para efetuar a análise proposta nesta dissertação, partimos de estudo histórico das formas de cultura popular, com especial atenção à nordestina, por se tratar da região que serviu como pano de fundo para os contos examinados. Na análise das Histórias de Alexandre, enfocamos inicialmente seu caráter popular, que aparece não só nas próprias histórias, com marcas oriundas do folclore nordestino, 28 como o próprio livro atesta, mas também no formato como elas eram contadas, em seus personagens, que são autênticos representantes da cultura popular nordestina, e em todo universo panorâmico que os envolve. Esse enfoque nos ajudou a localizar as vozes e saberes da cultura popular presentes na citada obra, como também em outros livros de Graciliano Ramos. Junto com a análise das histórias, efetuamos uma pesquisa sobre a recepção pelo público leitor e por jornais e revistas da época em que as obras de Graciliano Ramos foram inicialmente publicadas, tanto de Histórias de Alexandre como das demais produções do autor alagoano e da própria figura de Graciliano. Para isso, contamos com o valioso acervo da Biblioteca Nacional e também o do Jornal O Globo, que recentemente o colocou à disposição, primeiramente de forma temporária para todos os leitores e depois somente para seus assinantes da versão digital. Assim, além de O Globo, pesquisamos os periódicos Diretrizes (RJ), O Jornal (RJ), Correio da Manhã (RJ), Revista da Semana (RJ), Novidade (AL), A Manhã (RJ), A Noite (RJ), Diário de Notícias (RJ), Imprensa Popular (RJ) e Jornal do Brasil (RJ). Também analisamos as particularidades ligadas à comicidade dos contos, com um estudo de seus personagens, da questão da narrativa e da linguagem utilizada. Nessa análise, tratamos da questão de concisão e excesso nas obras de Graciliano. Daremos também especial atenção ao discurso dos personagens, que possuem pleno domínio do vocabulário, fato percebido também em outras obras do autor. Nessa análise, examinamos o imaginário popular na voz do contador, com uma linguagem inventiva e como se dá a recepção dos ouvintes com os possíveis dissensos na questão da verossimilhança das histórias. Destacamos também o caráter literário da obra, voltada ao público infantojuvenil e assim fizemos um estudo que enfoca as ligações da cultura popular com a literatura infantojuvenil. Por fim, estudamos o legado deixado pela obra e pela figura pública de Graciliano Ramos na literatura e sociedade contemporânea. Usaremos como aporte para essa discussão algumas obras como As formas simples, de André Jolles, Teoria do Conto, de Nadia Gotlib, O narrador, de Walter Benjamin, História e narração em Walter Benjamin, de Jeanne Gagnebin, Literatura infantil, de Nelly Novaes Coelho, O riso, de Henri 29 Bergson, Comicidade e riso, de W. Propp, Marxismo e filosofia da linguagem, de Bakhtin e A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, de Bakhtin. Para estudo da obra de Graciliano Ramos, contamos com as biografias O Velho Graça, de Denis de Moraes e Graciliano – Retrato fragmentado, de Ricardo Ramos, do capítulo “Graciliano Ramos, aos cinqüenta anos” do livro Achados ao vento, de Francisco de Assis Barbosa, dos livros Ficção e confissão – ensaios sobre Graciliano Ramos, de Antonio Candido, Entre a literatura e a história, de Alfredo Bosi, Ensaio de literatura brasileira – ideologia e realidade em Graciliano Ramos, de Leticia Malard, Estruturas, de Rui Mourão, Céu, Inferno, de Alfredo Bosi, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, de Fernando Alves Cristóvão e ainda diversos prefácios e posfácios constantes de várias edições da obra corpus de nosso estudo e das outras obras de Graciliano Ramos. Destacamos também a utilização de dissertações e teses que tratam sobre a obra de Graciliano Ramos e algumas em particular da obra Histórias de Alexandre. Por fim, dentre alguns artigos e ensaios sobre Graciliano Ramos e Histórias de Alexandre, destacamos o ensaio “O olho torto de Alexandre”, de Erwin Torralbo Giménez, publicado em 2004 na Revista USP. Como possuímos várias edições da coletânea Alexandre e outros heróis, assim como uma do livro Histórias de Alexandre, por conta de diferentes prefácios, posfácios e de algumas características de cada uma delas que merecem destaque, decidimos escolher a edição mais recente em que Histórias de Alexandre foi publicada separadamente, com ilustrações de André Neves, pela Editora Record em 2007 para as citações textuais da obra. As edições de Alexandre e outros heróis só serão utilizadas para citações de seus prefácios e posfácios. Além disso, essas diferentes edições possuíam diferenças pontuais em algumas características que mereceram ser citadas para fins de comparação entre elas. 30 Capítulo 1 A cultura de origem popular: 1.1 As histórias orais e suas manifestações Desde o início da História, o homem sentia a necessidade de contar histórias, com várias finalidades, tentando explicar a seus pares, ou ao menos tentar entender, tudo o que se passava em sua volta. Do mesmo modo, ele também contava suas histórias como uma forma de repassar a seus descendentes o que entendia e achava importante para a comunidade. Assim, a narrativa tanto servia para dominar como multiplicar os medos diante dos mistérios com que o homem a toda hora se deparava, como também para transmitir conhecimento aos outros. No livro Volta ao mundo dos contos nas asas de um pássaro, uma coletânea de antigas histórias populares de todos os continentes, um mito reinventado pelos autores segundo temas tradicionais diz que “as narrativas nasceram porque Deus se cansou das solicitações dos homens e lhes ofereceu, então, histórias que distraíam as crianças.” (RABELLO apud GENDRIN, 2007: p.8)5 Para Bakhtin, as “expressões populares, coletivas e espontâneas” obedeceriam a uma determinada percepção de mundo que tinha como base os costumes coletivos de vida, visão de mundo chamada de “cosmovisão carnavalesca”. Segundo Bakhtin, esse espírito popular apresentaria características importantes, dentre as quais apontaremos algumas delas. A primeira seria o 5 Guia de leitura, que serve como material de apoio ao livro, elaborado pela professora doutora Ivone Daré Rabello da FFCLH-USP. 31 princípio de existência de algo que possa ser considerado superior, acima da vida cotidiana para nos levar ao “mundo dos ideais”. Nesse mundo dos ideais, se conjectura a existência de deuses, do bem, que sempre trazem justiça a tudo, e sempre sabem o certo a ser feito, acreditando que, no fim, tudo acabará bem. O pensador russo descreve esse mundo como o “reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância”. (BAKHTIN, 1987: p.8) Uma segunda característica leva o espírito popular a apresentar a ideia de recriação e renovação do mundo, ou seja, tudo que é fecundado no mundo, cresce, amadurece, morre, apodrece e depois renasce, formando um ciclo perene. A terceira característica apresenta a ideia de inexistência de relações hierárquicas. Esse ponto pode ser representado pelo Carnaval, em que, pelo menos a princípio, todos tornam-se iguais, independente da posição social, raça ou cultura que a pessoa ocupe. Nesse ponto temos um importante comentário de Bakhtin: “o autêntico humanismo que caracterizava essas relações não era em absoluto fruto da imaginação ou do pensamento abstrato, mas experimentava-se concretamente nesse contato vivo, material e sensível”. (idem, p.9) Nessa relação em que todos estariam em pé de igualdade, pobres e ricos, cultos e analfabetos, nobres e plebeus, estariam juntos podendo formar o “ideal utópico popular”, mesmo que fosse por um tempo limitado. Sem distâncias que separassem os homens, nem por questão social, cultural ou qualquer outra, Bakhtin chamava essa situação de “livre contato familiar entre os homens”. Esse ponto é bastante representativo das reuniões de amigos na casa do casal Alexandre e Cesária. A quarta característica, segundo Bakhtin, leva o espírito popular a apresentar uma noção de alternância, mostrando que tudo na vida é efêmero, o que um dia está por baixo, certamente passará a estar por cima, assim como o contrário também ocorre. Nesse ponto, Bakhtin lembra as paródias, a ironia, mas as que causam um riso sério e crítico. A quinta característica do espírito popular está relacionada à alegria, à comemoração coletiva e brincalhona, ou seja, o riso festivo. Nesse riso, “o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso”. O mundo seria capaz de rir de si mesmo, de forma sarcástica. A sexta característica aponta para a utilização de imagens cômicas ligadas ao grotesco e ao desarmonioso, ao exagero das formas corporais. Essa característica é bastante vista em Pantagruel e Gargantula, sobressaindo o grotesco e até a escatologia. Esse ponto indica que o espírito popular foge de qualquer coisa que 32 possa ser considerado como modelo, de uma regra que lhe impõe. A sétima característica indica a utilização de combinações que possam ser consideradas esdrúxulas, inusitadas e impossíveis, ou seja, contrárias a uma ordem estabelecida. Bakhtin apontou ainda outras características, mas selecionamos essas, pois percebemos que, embora elas tenham sido detectadas pelo pensador russo num contexto de reflexão que teve por base a obra de François Rabelais e a Idade Média, nossa cultura popular contemporânea ainda carrega ao menos parte dessas características. Quando não havia ainda a escrita, a tarefa de contar as histórias ficava em geral a cargo de uma pessoa que fosse de alta representatividade na sociedade. Já após o nascimento da escrita, quando poucas eram as pessoas que tinham esse domínio, eram formados círculos em torno do detentor da leitura para ouvir as histórias. Essa estratégia de fazer com que alguém alfabetizado representasse o papel de leitor das histórias para o resto do grupo se manteve até pouco tempo, e em alguns lugares com bastante significância, como no Nordeste brasileiro até metade do século passado.6 Essas reuniões tanto podiam ser em ambientes fechados, como ao ar livre, como festas públicas. Como, durante séculos e séculos, a parcela alfabetizada de todos os povos era ínfima, a comunicação oral era um instrumento de difusão literária, tanto a erudita quanto a popular. Na literatura mundial, há vários registros do hábito de contação de histórias entre pessoas das mais variadas regiões ou níveis sociais. Em Don Quixote de la Mancha, ao menos em duas passagens, temos exemplo disso: “[...] havia Cardêmio pegado na novela, e começado a lê-la; [...] rogou-lhe que a lesse de modo que todos ouvissem” (CERVANTES, 1978: p.190); “Aqui chegou Dom Quixote com o seu canto, que estavam escutando o duque e a duquesa Altisidora e quase toda a gente do castelo” (idem: p. 493). Para Benjamin (apud RAMOS ,2011: p.30), os camponeses, os viajantes e comerciantes foram os principais agentes da preservação da cultura popular e das histórias orais, pois extraíam de suas vivências e saberes o que por eles era 6 Cf SILVA, Joana Angélica de Souza. Álbum de leitura de Rachel de Queiroz. (Dissertação). Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, Universidade Federal do Pará. Belém, 2011.101 fls.; BITTENCOURT, Anna Ribeiro de Goes. Longos serões do campo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, v.II, p.33.; LITERAFRO. Conceição Evaristo. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/43/dadosatualizados3.pdf. Acessado em 21 de junho de 2014. 33 contado. Pelo caráter do homem na história da humanidade, sempre viajando, seja fugindo de guerras ou procurando por elas, conquistando novos territórios ou deixando para trás a terra natal por contingências várias, ele acabava por carregar junto com ele aquilo que não é sólido, mas que a ele pertence: sua cultura, sua história. Desse jeito, as histórias populares também o acompanhavam, ganhando novos formatos, numa espécie de uma primitiva antropofagia em que as narrativas do povo iam sendo remodeladas e se adequando a um novo contexto. E assim, as histórias permanecem vivas, imortais que são, e vão se modificando, viajando de uma cultura a outra, em variados idiomas, nos dando a chance de conhecer diversas terras que acabam por ficar bem perto do mais longínquo dos povos. Por isso, é comum ver a mesma história que era contada há vários séculos em povos árabes aparecer no continente americano a partir do século XVIII, com um formato diferente, mas com enredo basicamente igual, mostrando que ele era adequado tanto a um povo quanto ao outro, modificando somente o que era importante de se mudar. Esse percurso que é feito desde o nascimento da história até seu aparecimento em outras regiões é anônimo e ao mesmo tempo coletivo. No livro de recolha de histórias populares brasileiras Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, temos vários exemplos desse compartilhamento de temas e histórias, como o do conto “O menino e o burrinho”, recolhido no estado da Paraíba, mas que há registros de ser contado não só em outro estado brasileiro (Rio Grande do Norte), como aparece também em La Fontaine no século XVII com o mesmo título e nas Mil e uma Noites, na história de Noureddin Ali e Bedredin. O mesmo tema ainda é visto em Portugal nas Histórias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Trancoso e no Auto da Mofina Mendes, de Gil Vicente, ambos no no século XVI, na Espanha no século XVI em Las Azitunas de Lope de Rueda e ainda num dos contos dos Irmãos Grimm. (CASCUDO: 2010, 239-240) Esses contos, assim como todas as outras formas populares de cultura, carregam uma memória do imaginário popular, e toda uma gama de interferências recebidas de outras culturas. Essa memória se alimenta de todo o contexto que se forma em torno dela, desde acontecimentos locais, que podem ser até imaginários, até a chegada daquelas citadas interferências através de elementos pertencentes à outra cultura. Esses elementos vão deixando sua marca, sua “impressão digital”, ou usando outra figura metafórica, o seu gene, fazendo nascer algo que tem 34 características do antes e do depois do contato. Em sociedades mais fechadas, percebemos menos mudanças ao longo de várias épocas. Já sociedades que receberam o contato, forçado ou não, de inúmeras culturas de outras regiões, acabaram refletindo todas essas interferências em sua cultura. Abrimos um leque para uma discussão sobre um tema ligado à cultura popular não ligado diretamente ao nosso estudo, mas cujo exemplo pode ilustrar a variação que uma forma de cultura pode ter em função de várias influências ao longo dos anos e em locais onde ela é levada. Essa forma é o samba, traduzido por suas letras, seu ritmo e música e formas como ele se expressa. Inicialmente, deixamos claro que seria pretensioso de nossa parte querer recontar a história do samba e de nossa música popular, principalmente porque já existem vários estudiosos que se dedicam a esse assunto, e que inclusive podem apresentar visões diferentes. Destacamos dentre esses estudiosos José Ramos Tinhorão, Hermano Vianna, Carlos Sandroni, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ricardo Cravo Albin e Fred Góes. Segundo alguns estudiosos, há citações à palavra samba, ou algumas variações como “cemba” não só no Brasil, como por alguns países da América Latina e até na América Central, como em Cuba, sempre com alusões a culturas africanas ou a costumes de negros. (SANDRONI, 2001: p.84 apud AZEVEDO, 2004: p.54) Segundo Ricardo Azevedo, no Brasil o termo “samba” foi publicado pela primeira vez, pelo que se sabe, em 1838 em um texto do frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, na revista pernambucana Carapuceiro, referindo-se a “um tipo de dança ou folguedo popular de negros”. (idem, p.54) Para alguns estudiosos, o samba que chegou ao Brasil tem raízes africanas, e teve seus primeiros registros na Bahia, e depois, com o intenso movimento interno de escravos, assim como de outros que chegavam para vários estados brasileiros, essa dança foi se espalhando e ganhando contornos e características próprias em cada região, não só em termos de ritmo como na própria dança. Entre alguns desses estudiosos que defendem a tese da origem africana, a palavra “samba” veria de semba – umbigada – termo de uma língua do grupo banto, falada em Angola chamada quimbundo. Esse termo seria empregado para designar um tipo de dança de roda, onde os dançarinos em determinado momento batiam contra o umbigo ou peito do outro dançarino. (ENCICLOPÉDIA, 2003) Já outros estudiosos defendem que a origem também é angolana, mas com um significado diferente, “cabriolar, 35 brincar, divertir-se como cabrito”, pois o termo viria de outra parte de Angola, onde viviam os quiocos. (LOPES, 2003, p.14) Ainda há outros que falam que a palavra samba tem origem indígena, pois viria do dialeto kiriri, índios do sertão nordestino. (SODRÉ,1998: p.107) Porém, mesmo com essas distintas possíveis origens, um fator comum é que ela estava associada a “um momento de encontro para tocar e cantar, a um lugar, a uma festa ou baile popular, pagode, folia, fuzuê, mafuá, forró, forrobodó ou arrastapé. (AZEVEDO, op.cit., 2004: p.55) É também comum a noção de que foram se notando variações da expressão da dança pela população. Tais variações estavam sujeitas ao contexto de cada região, e, dependendo de que origem tenha, essa mudança pode representar, no caso da origem ser africana, como a que parte da África vinham os escravos, da presença grande ou pequena de brancos ou mestiços que tivessem contato com os escravos, e até de assimilação do samba por outra cultura como a cabocla, que se apoderou do samba em São Paulo. No caso de ser de origem indígena, essas mudanças poderiam ter se dado por conta de deslocamentos de pessoas que mantiveram contato com os índios. Debater hoje sobre samba nos leva a variações do samba que aqui chegou e que foram se configurando ao longo dos tempos em contato com nossa terra. Essas variações nos transportam a descobrir “uma infinidade de formas artísticas populares e rurais como xiba e cateretê” (ROMERO apud SANDRONI, 2001: p.87), ou ainda outras formas como o “batuque, jongo, caxambu, chula, samba-de-roda, [...], samba-trançado, samba-de-parada, samba-de-matuto, samba-de-viola, samba-de-coco, samba-deparelha e samba-de-lenço”. (AZEVEDO, op.cit., 2004: p.55) Com a popularização do samba, logo foram aparecendo letras para as músicas, e não demorou muito para ganhar as ruas através das rádios e dos desfiles de escolas de samba. Nesse percurso de mais de um século, várias mudanças foram sentidas e hoje notamos essa diversidade que foi destacada no início. Assim, hoje podemos encontrar desde sambas mais ligados à sua origem, alguns com nítidas marcas africanas, até outras formas de samba que foram se adaptando ao meio, com influências de várias origens, seja do próprio ritmo como de assuntos tratados nas letras. Como exemplo, já pôde ser visto no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro de 1987, a Unidos de Vila Isabel apresentar um desfile com um enredo totalmente africano, e um samba-enredo de título Raízes, de autoria 36 de Martinho da Vila, que carrega em sua letra um mundo com uma energia fortemente africana, com seus deuses e lendas. Da mesma forma, algumas escolas de samba, como a Unidos do Viradouro e a Acadêmicos do Salgueiro, vem mostrando em alguns desfiles nos últimos dez anos uma bateria que mistura seu samba, com outros ritmos, inclusive do funk carioca. Nessa mesma linha, o samba carioca passou a apresentar como variedade o pagode, que inicialmente se baseou nas festas de bairro de fundos de quintal, que envolviam samba, alegria, comida e bebida, e assim ficou conhecido e popularizado por um longo tempo. Porém, recentemente, o desconhecimento de um lado junto com a oportunidade de popularização de alguns grupos musicais com a “criação” de um “novo” termo ligado ao ritmo e aos próprios grupos, acabou dando ao pagode um outro significado bem diferente da sua origem. E assim, ao longo de décadas, o samba foi recebendo um maior número de variações, além das já citadas anteriormente, como o sambacanção, samba de breque, samba de partido-alto, samba de gafieira, e até o sambarock e o samba-reggae, cada uma com maior ou menor aceitação, ou maior ou menor qualidade musical, dependendo do autor e/ou da audiência. Retornando à discussão sobre a literatura popular, percebemos que passando por várias épocas, desde quando só havia a forma oral, até as diversas formas de registros escritos, chegando à literatura moderna, temos exemplos de narrativas orais oriundas da tradição popular que vão sendo repetidas e retransmitidas por várias gerações, fazendo um desenho dos costumes e da cultura de seus povos. “É um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e julgamentos”. (CASCUDO, 2010, p. 12) Podemos assim concluir que essas narrativas orais representam uma fonte rica de tradução de costumes, ideias e mentalidades de um povo. Para Câmara Cascudo, “é preciso que o conto seja velho na memória do povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos repertórios orais. Que seja omisso nos nomes próprios, localizações geográficas e datas fixadoras do caso no tempo.” (ibid., p. 13) Câmara Cascudo, além de importante estudioso sobre o folclore brasileiro, fez um grande trabalho de recolha de contos da tradição oral do Nordeste brasileiro. Nesse trabalho ele também entrou em contato, não só com contos tradicionais, mas também com outras variadas formas de cultura popular, como o cordel, repentes, 37 desafios, emboladas e diversas festividades. A partir desse contato, ele percebia o quanto essas formas representavam para o mundo ao qual pertenciam. Ele poderia conhecer “o espírito, o trabalho, a tendência, o instinto, tudo quanto de habitual existe no homem.” (ibid, p.8.) Os versos abaixo mostram uma importante marca dos cordéis e canções de emboladas cantadas nas feiras populares do Nordeste: a transmissão de geração em geração da sabedoria popular: Meus leitores essa história que vosso poeta fez o meu bisavô contava meu avô disse uma vez o meu pai contou a mim eu hoje conto a vocês 7 (ROCHA, [s.d.]) Porém, é essencial assinalar que a transmissão de geração em geração da sabedoria popular é só uma das importantes marcas dessas histórias orais. Não deixamos de afirmar que ela é fundamental por passar a história do povo, fatos importantes, suas tradições, suas lendas, suas crenças etc. Porém, como já dissemos anteriormente, ela tem a tarefa de também transmitir e carregar algo que não é passado somente no ato de contar uma história que já tinha ouvido antes. Esse algo é a memória, a imaginação do povo, é o que está no ar, no não palpável, mas que pode definir uma população com uma característica. Para entender melhor, podemos exemplificar com uma história tradicional no nordeste brasileiro, a da “Raposa furta e a onça paga”, colhida por Câmara Cascudo (ibid., p. 200) no Rio Grande do Norte. Essa história fala de uma raposa que fingiu-se de morta para poder comer mel do caminhão de um viajante que a levara em seu veículo, e posteriormente encontra uma onça e a convence de também fingir-se de morta para ela também conseguir o mesmo feito. Logicamente, a ideia da raposa não era essa, e ocorreu justamente o que ela imaginara: a onça acaba sendo morta pelo condutor do caminhão. Essa mesma história foi trazida por europeus, e há registros dela na Espanha e em outros países europeus, sempre com a presença da raposa esperta. Porém, a onça é incluída no conto ouvido no nosso nordeste por ser bastante tradicional em nosso interior, por estar sempre presente no imaginário popular 7 Parte final do texto do folheto A festa dos cachorros, do cordelista alagoano José Pacheco da Rocha, falecido em 1954. Trata-se de um clássico da Literatura de Cordel. In Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Disponível em http://www.camarabrasileira.com/cordel5.htm. Acessado em 05 de setembro de 2012. 38 brasileiro, possivelmente por vários encontros que os primeiros europeus que aqui chegaram tiveram ao se aventurarem por uma terra quase virgem e desconhecida para eles. Já na Europa, o animal a ser enganado é o lobo, justamente por ser mais tradicional naquelas paragens. Assim, percebemos que as histórias que vão sendo contadas pelo povo possuem vários motivos, que vão sendo repetidos ou não, alguns combinados, divididos, de acordo com cada ambiente em que são transmitidas/ouvidas. Da mesma forma, podemos dizer que as histórias são inúmeras, mas, como afirma Câmara Cascudo (ibid., p. 22), “os fios são os mesmos. A ciência popular vai dispondo-os diferentemente.” Dessa maneira, a aparente originalidade de um conto acaba sendo desmontada ao olharmos nas entranhas das histórias e verificarmos as mesmas entranhas em locais bem distantes através de outros contos. No entanto, essas histórias que viajam não possuem características fechadas, ou seja, não são limitadas ao perímetro local. Todas elas possuem elementos formadores de caráter universal. Assim, nos certificamos que a tradição não significa fechar uma cultura em volta de si mesma. Para finalizar, mais uma vez citando Câmara Cascudo: “O conto tanto mais tradicional, conhecido e querido numa região, mais universal nos seus elementos constitutivos.” (ibid, p.22) Muitos estudos sobre literatura de origem popular marcam que o seu início está ligado à divulgação de histórias tradicionais de velhas épocas que a memória do povo foi conservando e transmitindo. Em muitas comunidades, onde marcas da história de seus povos são mais visíveis, como em aldeias africanas, entre os índios, ou em alguns povos asiáticos, há provas da existência há vários séculos de seus “escritores verbais”, contadores de histórias. Na pesquisa que serviu como base para a criação do romance histórico-ficcional Negras raízes, de Alex Haley, foram usadas testemunhas que detinham esse conhecimento histórico de uma aldeia africana. Nessa obra é citada a importância das velhas negras da aldeia que tinham a incumbência de contar aos mais jovens histórias que envolviam sempre antepassados que tiveram feitos gloriosos dentro do seu povo. Câmara Cascudo, em um de seus estudos, recorda que “toda África ainda mantém seus escritores verbais, oradores das crônicas antigas, cantores das glórias guerreiras e sociais, antigas e modernas, proclamadas das genealogias ilustres” (CASCUDO, apud PROENÇA, 39 1973: p.11). Em visita à África na década de 1970, o mesmo estudioso registrou que essa tradição ainda se mantinha viva. Essa tradição africana, pela presença de muitos escravos trabalhando nos engenhos e plantações, em conjunto com a colonização portuguesa, foi responsável pelo surgimento e crescimento do hábito dos contadores de histórias, em todas as suas formas, no Nordeste Brasileiro. No romance Menino do Engenho, de José Lins do Rego, há uma passagem em que aparecem velhas negras que iam de engenho em engenho narrando seus contos, como é o caso da figura que marcou a infância desse mesmo autor, que lhe rendeu homenagem ao intitular os recontos que compõem uma de suas obras, voltada para o público infantil, Histórias da velha Totônia. Assim, o Nordeste, que foi o ambiente escolhido por Graciliano Ramos não só no livro Histórias de Alexandre, como em grande parte de suas obras, foi um ambiente ideal para que surgisse forte a literatura popular. A própria poesia popular, que é citada diversas vezes em Histórias de Alexandre, marca hoje a presença nordestina não só nos estados de origem como também nas cidades que receberam grande massa de imigrantes nordestinos. As feiras nordestinas em São Paulo, e a de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, são exemplos dessa marca. Além da formação cultural, em que citamos a presença africana e portuguesa, o Nordeste possui aspectos geográficos, físicos e sociais, que dão um perfil à região e facilitaram essa formação cultural. Lá se estabeleceu uma forte organização de sociedade patriarcal. Ao mesmo tempo, o surgimento de manifestações messiânicas, num local castigado com intempéries climáticas, com longas secas e também com o inverso, grandes cheias, que empobreciam mais ainda uma população já sofrida, aumentavam os desequilíbrios econômicos e sociais. Também podemos citar o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos, que passaram a ser parte do cotidiano do sertão nordestino. Desse jeito, não foi surpresa surgirem grupos de cantadores e/ou contadores de histórias, “como instrumentos do pensamento coletivo, das manifestações da memória popular”. (PROENÇA, p. 14). Esses contadores e cantadores levavam para sua arte o cotidiano do povo, assim como muito do que estava no seu imaginário. Em suas obras, cantadas, contadas, e mesmo escritas em livretos, se viam a seca, os cangaceiros, críticas aos donos do poder, e outros que faziam apologia a esses mesmos nomes, homenagens aos santos da Igreja Católica, e a outras que eram santos para os nordestinos, como o 40 Padre Cícero, o temor à figura do Diabo, e também temor a alguns animais, e reverência a outros, e muito mais, mas sempre fatores familiarizados ao povo nordestino. Além de presentes nas feiras populares já citadas, as manifestações orais, sejam elas cantadas ou declamadas, também eram vistas em festas particulares, mais restritas, dentro de casas ou nos quintais. As histórias, como as do livro Histórias de Alexandre, também eram contadas em feiras e em casas. No caso destas, elas aconteciam nos chamados serões. A própria vida familiar no Nordeste contribuiu para isso. Sem luz elétrica, em volta do candeeiro, depois do jantar, era onde e quando familiares e amigos se reuniam. Nessas reuniões, surgiam histórias com temas dos mais variados, como os citados no parágrafo anterior, desde contos sobre fatos relevantes para o local até lendas, fábulas e contos tradicionais da região, sendo alguns deles importados de outros países, mas que ao serem contadas passavam a se apresentar para aqueles que as ouviam como parte do local. Desse jeito, eram ouvidas façanhas de cangaceiros, casos de raptos de moças, e histórias fantásticas, com o aparecimento de mitos, entre outras. Para traçarmos um paralelo com as grandes cidades de hoje, esses serões podiam ser comparados com as reuniões em volta da televisão para assistir às novelas ou telejornais, servindo como elemento aglutinador da família. Em algumas épocas em que a televisão era algo raro na sociedade brasileira, ela serviu também para juntar todo um grupo que morasse em volta da família, pois todos queriam conhecer a novidade. O interesse estava na inovação e não nos programas que eram mostrados. É importante marcar que é naquele tipo de serão familiar, reunido em torno de narradores orais, que Alexandre conta suas histórias a seus amigos. Sua casa servia como ponto de encontro, em todos os domingos e dias santos, para os visitantes da casa ouvirem os relatos fantásticos, como algo rotineiro para eles. Como já dissemos, as histórias populares também eram difundidas em praça pública, principalmente em feiras populares, para onde convergia a população do sertão nordestino em busca de pequenos negócios. As feiras, além de terem servido como local de comércio, eram verdadeiras festas, com a presença de cantadores, poetas populares, violeiros, sanfoneiros. Lá também era o local preferido para a venda dos chamados cordéis. As histórias que lá eram contadas eram de dois tipos: o tradicional, que está sempre na memória dos cantadores, as chamadas obras 41 feitas; o outro tipo é o improvisado, o repente, o verso do momento, que conta sobre um feito momentâneo, como nos desafios e seus jogos de palavras. A apropriação de contos populares de tradição oral pela literatura de cordel, assim como por outros contadores sempre foi muito comum no nordeste brasileiro, principalmente na época em que as Histórias de Alexandre foram escritas. Da mesma forma, a própria cultura popular de um local se apropria de outros contos de outras culturas, efetuando modificações, como já citamos entre contos recolhidos por Luis Câmara Cascudo e publicados em seu livro Contos tradicionais do Brasil. Esse empréstimo também é feito pelos contadores orais, cantadores e poetas do cordel, ao se utilizarem de elementos de outras estórias. Alexandre, assim como Graciliano, se apropriava da autoria dessas façanhas, possivelmente de estórias que ele teria ouvido em suas andanças. Essa apropriação que Alexandre faz de outras estórias marcas nas modificações ao longo da trama de algumas narrativas quando elas eram contadas novamente. Essas formas de transmissão da cultura popular são citadas nas Histórias de Alexandre, tanto na referência à presença de um cantador de emboladas nos serões da casa de Alexandre, que é o caso do personagem seu Libório, como naquelas que dizem respeito a algumas das histórias contadas pelo major que teriam sido já cantadas e/ou publicadas nas feiras populares e ainda na tentativa do cantador, Seu Libório, de compor uma embolada no início do conto “O olho torto de Alexandre” para a história contada em “Primeira aventura de Alexandre”. 42 1.2 O folclore e a literatura infantojuvenil O processo de ingresso do folclore na literatura intensificou-se quando a sociedade passou a preocupar-se mais com o desenvolvimento moral e intelectual das crianças, e acreditando-se que uma literatura voltada especialmente para os infantes seria de extrema serventia. Ao mesmo tempo, vários elementos dos contos populares começaram a ser importados pela literatura infantojuvenil, como a moralidade e a exemplaridade. Desse modo, vários clássicos da literatura infantojuvenil tiveram origem em contos folclóricos que foram coletados no meio popular e depois transformados numa linguagem considerada apropriada para a publicação. É importante ressaltar que muitos desses clássicos não foram escritos especificamente para o público infantil, e podiam ser taxados como literatura popular, mas o uso os fez posteriormente serem categorizados como literatura infantojuvenil. A principal razão para tal residia no fato de que essas obras continham sempre uma mensagem que indicava valores e exemplos a serem seguidos, o que era extremamente apropriado ao que se exigia de um livro voltado para os bem jovens leitores. Nelly Novaes Coelho explica perfeitamente essa conexão entre o infantil e o popular: No povo (ou no homem primitivo) e na criança, o conhecimento da realidade se dá através do sensível, do emotivo, da intuição... e não através do racional ou da inteligência intelectiva, como acontece com a mente adulta e culta. Em ambos predomina o pensamento mágico, com sua lógica própria. Daí que o popular e o infantil se sintam atraídos pelas mesmas realidades. (COELHO, 1997, p. 36) O grande escritor paraibano José Lins do Rego, amigo de Graciliano Ramos, destacou a importância que a Velha Totônia teve para sua formação literária. A velha foi, por assim dizer, a biblioteca infantil que o menino Zélins não tinha quando criança. Totônia chamava-se Antônia e era cunhada do mestre Agda, marceneiro do engenho onde o escritor viveu sua infância. Magra, pobre, sem dentes e analfabeta, 43 a cabocla tinha um talento especial para contar histórias de trancoso para o menino. Além de ser personagem do livro Menino do engenho, na passagem em que José Lins narra o episódio da velha contando histórias que tanto marcaram sua infância, Totônia e suas histórias acabaram inspirando o autor a escrever seu livro infantojuvenil Histórias da velha Totônia.8 Na literatura infantojuvenil brasileira contemporânea temos um exemplo num livro recém-lançado, da curitibana Consuelo Ramos Sozzi e seu Zé das Penas, que usando o mote “quem conta um conto aumenta um ponto”, ao mesmo tempo que faz uso da cultura popular para criar um livro voltado ao público infantojuvenil, se aproxima por um dos vieses de Histórias de Alexandre, a contação fantasiosa de histórias, mesmo que por via indireta já que, ao contrário da que há no livro de Graciliano, a fantasia não parte do participante das histórias. Nesse livro, partimos do simples desejo do personagem Zé que, precisando colocar comida na casa, foi na venda tentando trocar sua galinha por um saco de arroz. E o simples fato de contar que não conseguira dormir devido ao piar incessante da coruja e ao ronco da fome que o incomodava acabou transformando a galinha, nas vozes dos outros personagens da localidade em que vivia, num animal com mais e mais poderes extraordinários, fazendo com que todos passassem a se interessar por sua compra. E é esse pensamento mágico, com uma lógica própria, que está presente no popular e no infantil. Alexandre conta suas histórias, nas quais, com exceção do personagem Firmino, o cego que enxerga as incongruências das histórias, todos os outros amigos presentes acreditam, por conta de uma lógica “alexandrina” que justifica cada fantasia criada por ele. Embora o escopo do presente trabalho seja o da presença da cultura popular em nossa literatura, é importante lembrar que tal fato se deu em todos os povos da sociedade moderna. Podemos encontrar na literatura mundial a presença de vários traços do folclore, e não somente na chamada literatura infantojuvenil, como Robson Crusoé, de Daniel Defoe, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift e As aventuras 8 Reportagem de Francisco de Assis Barbosa para a revista Diretrizes, de 18 de dezembro de 1941, nas páginas 2, 34 e 35, sob o título “Foi a Velha Totônia quem me ensinou a contar histórias”. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=163880&PagFis=3388. Acessado em 05 de fevereiro de 2014. 44 de Huckleberry Finn, de Mark Twain9, mas também em clássicos da dramaturgia como os shakespeareanos Rei Lear e Sonho de uma noite de verão. Como já comentamos, na literatura brasileira, além de Histórias de Alexandre, podemos citar Histórias de tia Nastácia, de Monteiro Lobato, onde a cozinheira de Dona Benta conta histórias que ela ouviu quando criança para os netos de Dona Benta e para a boneca Emília, o boneco de milho Visconde de Sabugosa e o porco Rabicó. No livro de Lobato, são contadas, dentre outras, algumas das histórias que aparecem no livro Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo. O que se percebe nesse livro é que após cada história, tanto nas contadas pela personagem Tia Nastácia como nas contadas por Dona Benta, temos os comentários dos personagens, em geral com caráter “didatizante”, para explicar a origem dos contos e de outros locais em que elas já haviam aparecido. Também percebemos muitas vezes comentários bastante críticos da personagem Emília em relação à qualidade das histórias, considerando que as outras versões de autores como Perrault e Irmãos Grimm seriam melhores que as contadas pelo povo. Também notamos nesses comentários certa dose de preconceito em relação à própria cultura popular como um todo. Porém, ao criticar as histórias contadas por Tia Nastácia e defender as histórias mais conhecidas por virem aos olhos dos leitores infantis por livros publicados por célebres autores estrangeiros, como Perrault e Irmãos Grimm, por exemplo, a boneca Emília se contradizia, pois essas últimas também eram histórias provindas da cultura popular. Por outro lado, se a boneca Emília defendesse a ideia de que o que vinha de fora (por exemplo, as histórias de Perrault) era melhor do que as histórias populares do interior do Brasil contadas pelas velhas pretas como Tia Nastácia, também se contradiria, pois muitas das histórias tradicionais brasileiras têm origem na Europa e Ásia. Tirando as histórias de origem predominantemente indígena e outras que acabaram surgindo pela necessidade de contar fatos do cotidiano do interior brasileiro, todas as outras foram trazidas pela cultura estrangeira que aqui chegou, para então receber adaptações ao nosso mundo, com ideias sobre religião, tipos humanos, animais, paisagem e o próprio imaginário popular. Esse assunto, que aparece em todo o livro de Lobato, sempre após o término do ato de contar as histórias, seja por Dona Benta, seja por Tia Nastácia, nos leva a 9 Ressaltamos que os dois primeiros títulos , de Defoe e Swift, não surgiram como produção direcionada a crianças. 45 discutir mais profundamente sobre a cultura popular e sua relação com a dita cultura moderna e escolarizada. Ricardo Azevedo discute profundamente esse tema, afirmando que vivemos às voltas com pelo menos dois modelos culturais: a visão de mundo moderna, oficial e escolarizada e a visão de mundo tradicional e popular. São diferentes hábitos mentais, padrões sociais, culturais, éticos e estéticos, diferentes maneiras de enxergar os homens, a vida e o mundo. 10 Tais modelos implicam diferentes discursos. (AZEVEDO, site do autor ) Dessa afirmação, podemos inferir que, assim como a cultura popular, a literatura popular e tradicional não pode ser considerada inferior ou superior à literatura moderna, considerada culta. Muitos intelectuais relevam que “ambas são criadas a partir de princípios diferentes e que isso tem implicações [...] e que não há qualquer „evolução‟ em jogo mas, sim, diferentes padrões culturais e procedimentos criativos”. (AZEVEDO, site do autor)11. Essa percepção de levar em conta a questão da diferença de padrões culturais e procedimentos criativos e não de que uma cultura seja melhor que a outra pelo fato de uma usar recursos linguísticos da norma culta e outra da linguagem popular nos leva a uma discussão mais séria e pertinente sobre cultura popular. Desprezar todo esse fértil terreno que é o da cultura popular, que é capaz de dar frutos que não somente essas histórias, como também um campo de produção de conhecimento em várias áreas, tanto nas relacionadas à própria cultura narrativa, como nas festividades, e também naquelas ligadas ao maior contato com elementos da natureza e um maior poder de observação de seus elementos. Desse jeito, vemos que dessa cultura popular pode surgir um conhecimento dos fenômenos da natureza e de elementos ligados a ela, dando aos homens e mulheres que travam esse contato um conhecimento que erroneamente é desprezado pela cultura escolarizada. Não percebem que desprezando esse conhecimento estarão também desprezando que célebres homens que foram importantes para o crescimento de nossa ciência também se apoiaram em observação firme de elementos naturais, como as fases da lua, posição e movimento de estrelas, planetas e outros elementos celestes. Assim, não há razão para que o conhecimento de um matuto do interior, que se mostra capaz de opinar sobre metereologia, pela observação do vento, do ar quente ou frio, circular, para frente ou para trás, para baixo ou para cima, nas 10 11 http://www.ricardoazevedo.com.br/ . Acessado em 05 de maio de 2012. Idem. 46 nuvens, nos pássaros e insetos e tudo o que a natureza lhe dá de sinais, seja considerado de menor importância do que o de um engravatado que aparece nos telejornais noturnos. E mesmo se o compararmos com aqueles que se apóiam no conhecimento adquirido em livros e em anos sentados nas cadeiras de ricas universidades e dispõem de computadores e de toda uma parafernália tecnológica, não há razão para desprezo do conhecimento popular, pois existe uma diferença de procedimentos na produção de conhecimento. Da mesma forma que existe essa diferença de procedimentos de produção de conhecimento, existe uma de produção de cultura, e é por existir essa diferença, e por entender que os procedimentos populares são também importantes que fomos levados a fazer a defesa da cultura popular e, especificamente nesse trabalho, da literatura de tradição popular. É necessário dizer que, não obstante tenhamos decidido dar mais ênfase à região nordestina por razões já explicitadas, a cultura popular não está presente somente nas regiões mais pobres do país, mas em toda parte, todas as cidades, de norte a sul. Nosso país é marcado por uma diversidade cultural bem grande oriunda de várias influências, com marcas de todo tipo em nossa literatura popular. E os recursos dessa literatura são bastante marcados pela oralidade, o que pode ser notado nos diversos livros de recolha de contos e nas mais variadas formas de literatura popular, como a dos cordéis, por exemplo. Um dos mais famosos poetas populares nordestinos do século passado, Leandro Gomes de Barros, criou vários cordéis e em seus versos sempre estava presente a questão do sofrimento do povo nordestino, com seu empobrecimento, em função da seca e também das ações dos maus políticos, em nível nacional e regional, como veremos a seguir. Essa era a forma que vários poetas populares encontravam de colocar o cotidiano do povo nordestino, utilizando sua arte. Não se pode afirmar que, mesmo com uma linguagem que não atendia às exigências da intelectualidade, esses versos não tinham importância: O brasileiro se torce Mais do que um parafuso, A secca aperta do norte, Do sul aperta o abuso, O imposto bota na prensa, O sorteio acocha o fuso. 47 (O tempo de hoje/O Sorteio Militar, Leandro Gomes de Barros) 12 E se não houver inverno, Como o povo todo espera, De Pernambuco não fica Nem os esteios da trapera, Parahyba fica em nada Rio Grande desespera. 13 (O povo na cruz) Secca a terra, as folhas caem Morre o gado sai o povo O vento varre a campina, Rebenta a secca de novo; Cinco, seis mil emigrantes Flagellados, retirantes Vagam mendigando o pão. Acabam-se os animaes Ficando limpo os curraes Onde houve a creação. [...] Alteia o dia o sol cresce Deixando a terra abrazada E tudo á fome morrendo Amargos prantos descendo Como uma grande enxorrada. 14 (A seca no Ceará) A não preocupação com o anteriormente aludido juízo de valor é importante para que se conheça bem a fundo nossa cultura. Nos versos do poeta cordelista, recheados de desacordos às normas gramaticais vigentes ou nos do poeta João Cabral de Melo Neto, ou na prosa de Raquel de Queiroz, Graciliano e Jorge Amado, só para citar alguns nomes, estão muitos dados que indicam quem somos nós, como foi nossa história e de que forma vivíamos e vivemos. Como já foi dito inicialmente sobre os contos, a cultura popular também serve para ajudar a contar a história de um povo, e conhecer a história de sua gente é fundamental para a identidade de uma sociedade. Deixamos claro que não defendemos a predominância de um ou outro tipo de cultura e/ou abandono de uma ou outra. De acordo com Ricardo Azevedo, é preciso conhecer e reconhecer diferenças entre a cultura oficial e a cultura popular, aceitando que ambas, e não apenas a oficial, sejam relevantes, é uma questão de auto-conhecimento social, pode ampliar nossa visão de mundo e permitir que a gente consiga pensar melhor sobre nossa sociedade, sobre 12 BARROS, apud MAYA, 2006, p. 69. Idem, p. 84. 14 Idem, p. 97-98. 13 48 nossa arte, sobre nossa literatura, sobre nossa educação e sobre nós 15 mesmos. (AZEVEDO, site do autor) Essa ligação do popular com o infantil justifica o forte preconceito que existe nos meios acadêmicos em relação à literatura infantojuvenil. Explicando melhor, o preconceito que inicialmente recai sobre tudo que provém da cultura popular acaba por atingir igualmente a literatura infantojuvenil por terem uma forte identificação, como foi explicado anteriormente por Nelly Novaes Coelho. E, assim, esse preconceito acabou por resvalar, mesmo que de forma inconsciente, também em Graciliano Ramos, quando ele decidiu por produzir para o público infantojuvenil em Histórias de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena História da República. Graciliano talvez não soubesse, mas ao se decidir pelo ingresso em um campo em que até então ele só passava em termos de discussões que envolviam nossa literatura, ou seja, o de livros para jovens e, ao mesmo tempo, que tivessem ligação com o folclore, acabou sentenciando-o a ser alvo duplo de preconceito, principalmente por parte da crítica, mas também do mercado editorial e de parte dos leitores. Erwin Tobaldo Giménez, em seu artigo “O olho torto de Alexandre”, opinou a esse respeito: As Histórias de Alexandre, por exemplo, repousam na sombra dos títulos centrais da obra (de Graciliano Ramos). Contudo, se não merecem compor o núcleo primeiro, não deixam de o apontar como satélite intrinsecamente ligado ao projeto do autor. Essas breves narrativas sofrem ainda, para as lançar à margem, dois preconceitos: literatura infantojuvenil e recolha de folclore nordestino. Tais selos se convertem em prejuízos à sua interpretação, pois levam a ignorar o trabalho de recriação desses gêneros, e pior, desviam o leitor de Graciliano Ramos de ver aí firmada, em chave metafórica, a sua marca autoral. (GIMÉNEZ, 2004: pp.187-188) Graciliano Ramos desde cedo já se demonstrava incomodado com o tema da literatura para crianças. Aquele seu jeito que muitos taxavam como carrancudo e mal humorado, mas que escondia uma pessoa amabilíssima, sempre pensava sobre os livros infantis. Em entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa16, ele conta 15 Ver Nota 10, p. 45. O texto dessa entrevista está no livro Achados ao vento, em que Francisco de Assis Barbosa publica reportagens produzidas por ele sobre Lima Barreto, Manuel Barreto, José de Alencar, Hipólito José da Costa, Domingos Caldas Barbosa e Graciliano Ramos. A reportagem sobre Graciliano Ramos foi produzida por ocasião das comemorações pelo aniversário de 50 anos de Graciliano. Não por acaso o título do texto é “Graciliano Ramos, aos cinqüenta anos. Além de estar nesse livro, foi publicado também na coletânea de discursos proferidos por ocasião do evento que homenageou o escritor alagoano em 1942 por seus 50 anos, com a qual tivemos contato com sua primeira edição. E, 16 49 que leu o primeiro livro numa semana, mas no segundo livro, segundo suas palavras, encrencou: “no começo do volume antipático, a história besta dum Miguelzinho que recebia lições dos passarinhos, fechou-me, por algum tempo, o caminho das letras”. (BARBOSA: 1958, p.58). Graciliano passou a tomar gosto pela leitura e estudos com uma prima chamada Emília, “um verdadeiro anjo”, que lhe contava histórias. A prima certa vez foi lhe ensinar o significado da palavra “astrônomo”, que ela pronunciava “astronômo”: “São homens que conhecem o céu. Sabem tudo o que existe lá em cima. Sabem o nome de todas as estrelas...” (idem, p.59). Aquelas palavras da prima, contando de jeito simples, sem palavras rebuscadas, sobre o significado de algo que ele desconhecia até então, nunca foram esquecidas por Graciliano, tanto que ele as repetiu na citada entrevista ao jornalista. Ganhando gosto pela leitura, ainda moço se apaixona pelos romances, o que o tornou amigo do tabelião e do agente de correio o qual, além de lhe trazer livros, contava-lhe sobre sua admiração por Coelho Neto. Foi inevitável que Graciliano logo se aventurasse nas letras, primeiramente escrevendo um soneto ainda na adolescência. Graciliano resolveu colocar no papel sua preocupação com o tema dos livros infantis quando escrevia crônicas sob diversos pseudônimos para jornais de Alagoas. Ele considerava que a maioria desses livros trazia sofrimento para as crianças, pois apresentava uma linguagem entediante, parecendo ser feita para que o leitor não compreendesse nada do que estava escrito. E esse incômodo não se restringia à literatura infantojuvenil, mas também aos livros didáticos que as crianças eram obrigadas a ler, como as gramáticas e livros de história: A gramática pedantesca, cheia de nomes gregos, de sutilezas que o leitor não compreende; a história do Brasil de perguntas e respostas, feita especialmente para que o estudante só responda ao mestre quando o quesito seja formulado com as mesmas palavras que estão no livro; a geografia presumida, a exibir uma erudição fácil, recheada de termos como estereografia, hipsografia, vulcanografia, potamografia e outras grafias de má sorte; todas as letras inodoras, incolores, desenxabidas, enjoativas, perfeita literatura de água morna. [...] Leva-se a melhor parte da vida a ler aquilo e fica-se sem saber coisa alguma. Na idade em que a inteligência começa a despertar, confusa, obrigá-la a embrenhar-se pelas complicadas asperezas dos lusos clássicos – que horror, santo Deus! (O Índio: março de 1921 apud RAMOS,1962b: p. 67) pesquisando no acervo digital da Biblioteca Nacional, vimos que ele fora publicado inicialmente na revista Diretrizes em 29 de outubro de 1942 sob o título “A vida de Graciliano Ramos”. 50 Essa crônica, escrita aos 29 anos de idade no Jornal O Índio, de Palmeiras dos Índios, sob o pseudônimo de J. Calisto, nos leva ao que Graciliano sentia ao ouvir sua prima contar sobre o significado da palavra “astrônomo”, com palavras simples. Amo as crianças. E, porque as amo, entristece-me a ideia de que serão grandes um dia, terão barbas ou cabelos compridos, como toda a gente. [...] Sofro com o sofrimento delas. E é por isso que detesto o livro infantil. Detesto-o cordialmente. Aquelas coisas maçadoras, pesadas, estopantes, xaroposas, feitas como que expressamente com o fim de provocar bocejos, revoltam-me. Espantame que escritores componham para a infância pedantices rebuscadas, que as livrarias se encarregam de fornecer ao público em edições que, à primeira vista, causam repugnância ao leitor pequenino; embasbaca-me que professores reproduzam fonograficamente aqueles textos indigestos; assombra-me ver aquilo adotado oficialmente. Odeio o livro infantil. E odeio-o porque sei que a criança o não compreende. Abram uma dessas famosas seletas clássicas que por aí andam espalhadas. Ainda guardo com rancor a lembrança de uma delas, pançuda, tediosa, soporífera, que me obrigaram a deletrear aos nove anos de idade. Li aquilo de cabo a rabo, e no fim só me ficou a desagradável impressão de haver absorvido coisas estafantes, cheirando a mofo, em uma língua desconhecida, falada há quatrocentos anos por gente de outra raça e de um país muito diferente do meu. (idem, pp. 66-67) A crônica acima mostra exatamente o pensamento de Graciliano sobre o livro infantil e nos parece que exibe o motivo que o levou a produzir suas três obras voltadas ao público infantojuvenil - Histórias de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena História da República. Essa última, que fecha a coletânea Alexandre e outros heróis, nasceu de um concurso literário promovido pela revista Diretrizes, e que ele mesmo divulgara em crônica em agosto de 1939. Teve a ideia de dar uma resposta irônica ao concurso, pois ele já imaginava que as obras que seriam enviadas ao concurso teriam exatamente o perfil que ele tanto criticava nos livros voltados às crianças. Porém, não há registro se Graciliano enviou o texto à Comissão que iria avaliar as obras ou se ele foi recusado pela forma irônica com que foi tratada a história. Dele, apenas podemos afirmar que só foi publicado na edição póstuma de 1962, como parte de Alexandre e outros heróis. Sobre esse episódio do concurso literário, Osman Lins escreveu no prefácio de Alexandre e outros heróis: Sua História da República, constante do presente volume, data, segundo vimos, de 13 de janeiro de 1940. É, pois, esse concurso que sugere ao escritor a ideia um tanto sacrílega de ordenar à sua maneira os fatos de nossa República. Mesmo uma leitura apressada ou fragmentária evidencia que o propósito de concorrer ao concurso instituído pela revista Diretrizes estava fora de cogitação. A História da República, de Graciliano Ramos, é exatamente uma espécie de resposta, desabusada e ferina, às muitas 51 outras histórias – todas, decerto, convencionais – que seriam enviadas à Comissão Julgadora. (LINS apud RAMOS, 1982: p.196) Mauricio Rosemblat, da Livraria do Globo, em reportagem de Adhemar Nóbrega para a Revista da Semana17, em que foram entrevistados editores de livros infantojuvenis e o autor de livros didáticos juvenis Hildebrando Lima, emite a seguinte opinião, que inclui o Graciliano autor de livros infantojuvenis: Temos, dentre as nossas edições, algumas obras de grande sucesso, de Lewis Carroll, Johanna Spyri, Lúcia Miguel Pereira, Dante Costa e Graciliano Ramos. Graciliano, entretanto, não é o autor ideal para as crianças. É um tanto agressivo, tem uma linguagem bem mais apropriada ao terreno dentro do qual é um grande escritor: o romance do gênero “Vidas secas”. (NÓBREGA, in Revista da Semana: 1946, p.14) Mesmo não relevando a opinião de um editor sobre o tema, não podemos deixar de citar que a Livraria do Globo havia publicado em 1939 Terra dos meninos pelados, que, embora não tenha sido citado textualmente, era dele que o editor falava. Entretanto, Terra dos meninos pelados recebeu o Prêmio de Literatura Infantil, no ano de sua publicação, do Ministério de Educação e Cultura. Mas também percebemos que a opinião de Rosemblat não só se referia a Terra dos meninos pelados e sim ao autor Graciliano Ramos como escritor, que não seria apropriado ao gênero, e essa opinião era compartilhada por outras pessoas, ou pelo menos muitos não colocavam sua publicação para o público jovem no mesmo patamar de suas obras mais famosas. Ainda sobre a questão dos livros infantis, em 1951 Graciliano teve o livro 7 histórias verdadeiras publicado pela Ed. Vitória. As histórias selecionadas para fazerem parte da coletânea, que estavam no livro Histórias de Alexandre publicado em 1944, foram as seguintes: “Primeira história verdadeira” (“Primeira aventura de Alexandre”), “O olho torto de Alexandre”, “O estribo de prata”, “A safra dos tatus”, “História de uma bota”, “Uma canoa furada” e “Moqueca”. Em 16 de dezembro de 1951, o jornal semanal Imprensa popular, do Rio de Janeiro, em sua página 9, publicou a seguinte nota intitulada “7 Histórias Verdadeiras”: 17 Lançada em 20 de maio de 1900 por Alvaro Teffé, como suplemento do Jornal do Brasil, a Revista da Semana representou um dos primeiros sucessos comerciais no mercado brasileiro de revista no século XX. Em dois anos, a tiragem da publicação saltou de 50 mil exemplares para 62 mil, sendo considerada a grande vedete do mercado editorial brasileiro até, pelo menos, a década de 1940, quando a revista O Cruzeiro – que, aliás, teve o seu projeto inspirado neste suplemento – assume esta posição. A fotorreportagem foi o elemento pelo qual a revista se tornou mais conhecida, e que foi bastante utilizada na reportagem citada no trecho ao qual essa nota é ligada. 52 Pela primeira vez o grande romancista brasileiro Graciliano Ramos publica um volume de contos para crianças: 7 Histórias Verdadeiras, que acaba de 18 ser lançado pela Editorial , em primorosa edição com ilustrações de Percy Deane. O ano se encerra assim com um notável acontecimento literário, e as crianças poderão ter nele o seu melhor presente de Natal. Um fato inédito será a conversa que os leitores mirins do livro terão com Graciliano Ramos, dentro em breve, a propósito de suas histórias. Cada livro é acompanhado de um cartão-convite para essa palestra, que será oportunamente marcada”. (apud SALLA (org), 2012: p.331) A reunião do autor com as crianças, citada na nota, e que não encontramos outras referências que garantam que ela tenha ocorrido, é novamente mencionada na edição seguinte, em 23 de dezembro de 1951, em carta escrita pelo autor, direcionada às crianças, com os seguintes termos: Leitor amigo, Com certeza você compreende, meu pequeno leitor, que o escritor vive quase sempre afastado do seu público. Por isso, nem sempre sabe para quem escreve, como são recebidos os seus livros, quais as suas falhas, como melhorar as suas histórias, os seus romances. Pensando nisso resolvi ter com vocês em fevereiro ou março uma conversa sobre as 7 Histórias Verdadeiras em que eu conto as aventuras de Alexandre. Nessa conversa nós nos tornaremos conhecidos. Vocês farão críticas e sugestões, que me servirão de ensinamento para outras histórias. Sei que você gostará dessa reunião para a qual poderá convidar também os seus amigos. Para receber o seu convite, preencha o cupão abaixo e remeta-o até 31 de janeiro à editora deste livro a fim de ser avisado do dia e lugar dessa conversa. Muito obrigado, Graciliano Ramos (idem, p.331) Essa carta nos leva a perceber a atenção que o autor dava ao fato de produzir uma obra para o público infantojuvenil, que já havia sido mostrada em crônica publicada no Jornal O Índio, de Alagoas, em 192119. Também podemos deduzir, pela decisão do autor em usar novamente alguns contos do livro Histórias de Alexandre em nova obra, que Graciliano mantinha-se convicto da importância não só do tema para o público jovem, como da própria cultura popular. O fato de o livro ter sido mantido escondido no fundo de livrarias, com pouca vendagem e sem visibilidade na imprensa, não foi suficiente para o autor esquecer suas histórias. A 18 A Editorial Vitória, era também conhecida pelo nome abreviado “Editorial”,. Tanto a editora quanto o jornal serviam como meios de divulgação do Partido Comunista Brasileiro. A página em que a nota foi publicada está disponível no seguinte endereço: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=108081&PagFis=1786. Acessado em 04 de dezembro de 2013. 19 Crônica já citada nas páginas 49 e 50. 53 nova obra ganhou um formato mais adequado ao público jovem e a própria carta e a reunião com as crianças são prova dessa opção. Nas duas edições do jornal Imprensa Popular, nas quais tivemos as já citadas nota e carta aludindo à obra de Graciliano, foram publicadas matérias que envolviam o tema da literatura infantojuvenil. Na primeira, focou-se a reunião da Associação Brasileira dos Escritores – ABDE – no IV Congresso Brasileiro de Escritores, realizado de 25 a 30 de setembro de 1951 em Porto Alegre, em especial sobre a mesa redonda em que foi debatida especificamente a literatura infantojuvenil, e da qual Graciliano participou. Na segunda, na coluna “Literatura e Arte”, tivemos a matéria “Revistas Juvenis”. Essa segunda matéria aludia ao que fora discutido na mesa redonda da ABDE, ou seja, a preocupação com uma espécie de “moralização” da criança, que estava sob forte influência de um número grande de revistas em quadrinhos com personagens ligados aos Estados Unidos, tanto os super heróis, como Capitão Marvel e Superman, como os caubóis das revistas de faroeste, que difundiriam de forma sistemática e persistente junto à nossa juventude “histórias que cultuam violência e brutalidade”. Foi criticada também uma revista nacional chamada Xuxá, que trazia um personagem brasileiro que, no entanto, trabalhava como espião das tropas norte-americanas. Temos que levar em questão o contexto da época, pois era forte o clima de conflito entre Estados Unidos X União Soviética, capitalismo x comunismo, e esse clima resvalava aqui no Brasil, principalmente se formos pensar na imprensa que tanto poderia estar de um lado quanto de outro. No caso da Imprensa Popular, órgão de divulgação do Partido Comunista do Brasil, logicamente influenciaria suas opiniões por seu posicionamento político. Porém, é importante de registro que, mesmo que levemos em conta a influência política nessa opinião, seu conteúdo era verdadeiro quando citava a grande quantidade de produção infantojuvenil proveniente dos Estados Unidos, e todas elas com boa dose de violência. O que deixou de ser focado, no entanto, foi se a produção tinha qualidade ou não. Essa discussão foi levada por Rachel de Queiroz, em crônica sobre a Literatura Infantil, publicada na página 2 do Diário de Notícias, de 21 de setembro de 1947, e sobre a qual vamos comentar mais adiante. O quadro da literatura infantil da época foi mostrado também pelas estudiosas da literatura infantojuvenil Marisa Lajolo e Regina Zilberman, no livro assinado por elas intitulado Literatura infantil brasileira – história e histórias. Nesse livro, as 54 autoras citam o grande número de obras traduzidas e adaptadas da Europa e voltadas ao público infantil que dominavam o mercado editorial. Os poucos autores nacionais que produziam para esse público se preocupavam com produções com aplicações mais didáticas, como os destinados ao ensino de história e geografia. Na reportagem da Revista da Semana de 14/09/1946, sob o título “Leitores de calças curtas”, já citada nesta dissertação, era confirmada essa tendência, pois só naquela época que aparecia um autor que iniciava um movimento de reação a essa invasão: Monteiro Lobato. Graciliano, que tivera Terra dos meninos pelados publicado em 1939, não recebia a atenção e o devido valor como autor também de produções para o público infante, inclusive da editora que publicou seu livro, a Livraria do Globo, de Porto Alegre. Graciliano, que já tivera um parco trabalho de divulgação, tanto da parte da editora Leitura quanto da imprensa, quando ocorreu o lançamento de Histórias de Alexandre em 1944, nessa época também recebia um tratamento dúbio de outra editora para o seu premiado livro. Ao mesmo tempo que Terra dos meninos pelados passou a receber melhor atenção da imprensa em relação a Histórias de Alexandre, com várias citações, tanto na época do lançamento, como posteriormente, com análises, tanto sobre o livro quanto sobre a decisão de Graciliano escrever para o público infantojuvenil, e um melhor trabalho de divulgação da obra por parte da editora, o próprio editor da obra dizia que Graciliano não era um autor que se encaixava na literatura para crianças, que ele deveria continuar nos livros como Vidas secas e São Bernardo. Porém, dentro da imprensa houve quem reconhecesse em Graciliano um importante escritor também na literatura para os jovens. Uma voz que, além de detectar o movimento de reação que Zilberman e Lajolo citam em seu livro, percebeu o valor que Graciliano tinha também na literatura infantojuvenil foi a de Osório Borba. Em reportagens intituladas “Sobre Literatura Infantil”20 e “O livro infantil”21, publicadas no Diário de Notícias, respectivamente, em 05 de janeiro de 1941 e 07 de dezembro de 1941, Borba já notara um movimento de reação da literatura infantil nacional, mesmo com o grande número de traduções. Ele preconizava que o mercado editorial brasileiro não podia questionar o grande 20 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093718_02&PagFis=4058. Acessado em 05 de janeiro de 2014. 21 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093718_02&PagFis=8018. Acessado em 05 de janeiro de 2014. 55 sucesso de alguns best sellers internacionais, pois muitos tratavam-se de obras clássicas no gênero, como, por exemplo, Pinocchio, Gulliver e As aventuras de Tom Sawyer. No entanto, Borba ressaltava as produções que apareciam na época, de autores como Graciliano Ramos, Lucia Miguel Pereira, Érico Veríssimo e José Lins do Rego, que se mostravam preocupados em produzir literatura de boa qualidade para o público infantojuvenil. Uma das razões apontadas para esse movimento foi a promoção de muitos concursos literários, alguns impulsionados pelo próprio Estado. Outra voz que apareceu na imprensa e cita Graciliano Ramos como bom autor de livros para jovens foi a escritora Rachel de Queiroz, ma já mencionada crônica sobre a Literatura Infantil em setembro de 1947. Nessa crônica, Rachel de Queiroz cita Monteiro Lobato como o grande nome do gênero, que, assim, estaria dividido entre pré e pós-Monteiro Lobato. Raquel de Queiroz coloca Graciliano Ramos junto com nomes como Lúcia Miguel Pereira, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Viriato Correia e Jorge de Lima, entre os escritores que não deixaram Lobato sozinho na tarefa de defender a literatura infantojuvenil nacional: “grandes nomes das letras nacionais têm contribuído para o enriquecimento da nossa literatura de meninos”. Rachel de Queiroz lembra ainda que os citados escritores dedicaram às crianças um ou mais volumes e, nesses livros, eles “não puseram apenas uma parte mínima de seu talento. Neles, como nos romances para gente grande, sente-se sempre a mão de mestre que os escreveu”. (QUEIROZ, 1947: p.2)”.22 De qualquer forma, mesmo sem muito apoio, Graciliano manteve seu posicionamento de que a literatura infantojuvenil carecia de uma mudança de rumo e que ele poderia ser também instrumento desse movimento. Lajolo e Zilberman reconheciam Graciliano como o principal aliado de Lobato nessa luta da literatura infantil brasileira. Eles capitanearam um movimento que levou à produção de livros nacionais infantojuvenis, no qual se destacavam três aspectos – o nacionalismo, a exploração da tradição popular consolidada em lendas e histórias e a inclinação educativa. Os autores que conseguiram levar esses aspectos a termo sem engessar a imaginação puderam “construir um mundo de fantasia, possível plataforma de lançamento para uma crítica à sociedade ou ao ambiente real experimentado pelo leitor. [...] a criatividade desses momentos deu alento e continuidade ao gênero”. (LAJOLO e ZILBERMAN, 2007: p.54). 22 QUEIROZ, Rachel de. Literatura infantil. In Diário de Notícias. Rio, 21/09/1947, p.2. 56 Assim, Graciliano se impõe num campo até então novo para ele, mas que já havia demonstrado preocupação, com sua produção voltada ao público juvenil, sem deixar de mostrar cuidado a diversos aspectos que trazia nas obras voltadas ao público adulto, com um esmero no tratamento da língua e preocupação com as injustiças e o sofrimento dos mais pobres. Dessa forma, consideramos que Histórias de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena História da República formavam um tipo especial de literatura infantojuvenil, pois são livros voltados ao público jovem, mas que podem perfeitamente serem lidos pelo público adulto sem causarem estranhamento. Desse jeito, sua obra trilha um caminho de mão dupla que lembra o que aconteceu com algumas obras clássicas da literatura juvenil, como Robson Crusoé, de Daniel Defoe e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, que originariamente não eram destinadas ao público juvenil. Em Terra dos meninos pelados temos um menino vítima de constante discriminação por ter a cabeça pelada e os olhos de cores diferentes, tendo que conviver com essa diferença, mas suporta bravamente sem que isso lhe traga infelicidade, dando uma mensagem importante para o leitor. Na mesma época de Terra dos meninos pelados, Lúcia Miguel Pereira publicara Fada menina, outro livro infantojuvenil com importância e características semelhantes ao de Graciliano, com personagens lutando contra discriminações. Para Lajolo e Zilberman, “nos textos de Graciliano e Lúcia Miguel Pereira, o imaginário se mescla ao ideal a que almejam os heróis, mas como sua realização implica luta, ele acaba por configurar um projeto político”. (idem, p.66). No aspecto indicado do aproveitamento da cultura popular por parte de nossa literatura, que na realidade é uma característica da literatura infantojuvenil no mundo todo, Graciliano se faz presente nas Histórias de Alexandre valendo-se do folclore nordestino. Ao contrário de personagens de Lobato e outros autores, “Alexandre foge ao estereótipo dos pretos velhos e cozinheiras negras que falam a crianças geralmente de um meio urbano ou moderno: ele é meio caçador e meio vaqueiro e a platéia constitui-se de adultos.” (idem, p.74) Não somente a declaração inicial do autor, constante da nota de advertência, indica a ligação das histórias ao folclore nacional, “mas o fato de que são encontradas em outros escritores que se valeram, igualmente, da fonte popular.” (idem, p.74) Elas trazem grandes semelhanças com as histórias do livro de João Simões Lopes Neto, Casos de Romualdo. Alexandre e Romualdo “compensam, por meio da atividade narrativa, sua pequena importância 57 social. Por isso, Alexandre, que é remediado, como se percebe na apresentação, fala constantemente da época em que era rico e poderoso.” (idem, p.75) Também na questão da cultura popular, percebemos que Graciliano ia além dos outros escritores que fizeram uso dessa cultura em seus livros. Assim como Lobato em Histórias de Tia Nastácia e José Lins do Rego em Histórias da Velha Totônia, Graciliano usa Histórias de Alexandre como instrumento de valorização da cultura popular, tomando emprestado temas ligados a ela e repetindo características dessa cultura. Mas Graciliano foi mais longe, primeiro que ele não deu voz somente aos elementos transmissores da cultura popular, os contadores, mas a uma sociedade de injustiçados, representados pelos convidados do casal Alexandre e Cesária e, assim, ela serviu também como instrumento de denúncia e combate às injustiças. E é preciso registrar que ele faz isso com uma boa dose de humor. Deste modo, Graciliano antecedeu outro movimento que só ficou mais forte na década de 70, de autores de obras para crianças e jovens, que se faziam valer de temas até então só usados em livros ditos da literatura adulta. Ele percebeu que sua obra podia ser, não só para os adultos, mas também para os jovens, um meio efetivo e essencial para expor a realidade da vida e, mesmo sem dar aspecto panfletário, inconscientemente dava um tratamento ideológico. Além disso, Graciliano, de modo lúdico e fácil, e mantendo várias características já utilizadas na sua obra anterior aos livros ditos infantojuvenis, antecipou o que os autores que produziram livros para o público jovem a partir dos anos 70, que passaram a levar seus leitores de calças curtas “a perceberem e interrogarem a si mesmos e ao mundo que os rodeia, orientando seus interesses, aspirações, sua necessidade de auto-afirmação”, ao lhes proporem “objetivos, ideais ou formas possíveis ou desejáveis de participação social”. (COELHO apud SANDRONI in PONDÉ (org.) e outros, 1980: p.15) Essa nova direção veio em reação a um panorama do livro juvenil que era alicerçado em valores de uma sociedade bastante tradicional que imperavam e ainda imperam no mercado editorial. Esse panorama nos faz recordar mais uma vez a crônica de Graciliano quando ele dizia que odiava o livro infantil. Os valores, contra os quais Graciliano lutava, tinham alguns fundamentos que, de acordo com Sandroni, seriam: o individualismo, base da sociedade capitalista; a autoridade representante do saber absoluto; a moral dogmática de base religiosa; o sistema 58 social que dá prioridade às minorias privilegiadas; a sexologia que valoriza a castidade como virtude maior; a linguagem literária padronizada em convenções; o racismo que valoriza nitidamente a raça branca sobre as demais e o sentimentalismo predominando sobre a objetividade e a razão. (SANDRONI in PONDÉ, 1980: p.15) Assim, Graciliano reafirma, nessa sua obra destinada aos jovens, que ele seguia um caminho que vários estudiosos da literatura infantojuvenil, como Laura Sandroni, Nelly Novaes Coelho e Regina Zilbermann, posteriormente observaram. Nesse caminho, para uma literatura que se queira transformadora da realidade, ela precisa seguir valores opostos aos acima listados. 59 Capítulo 2 O olhar da crítica e a atenção recebida da imprensa Merecedor e dotado de boa receptividade do público leitor e crítico, a obra de Graciliano sempre recebeu boas críticas e bom espaço de divulgação, desde que seus relatórios de prestação de contas durante sua gestão como prefeito de Palmeiras dos Índios se tornaram famosos por descobrirem valor literário por trás de documentos técnicos23. Depois que o governador alagoano elogiou publicamente os relatórios, a notícia chegou ao poeta e editor Augusto Schmidt, que sabendo que Graciliano estava escrevendo um romance – no caso Caetés – passou a sondá-lo, enviando-lhe diversas cartas para que ele publicasse seu livro. Assim, o livro recebeu algumas notas, como a lançada no Diário de Notícias de 14 de janeiro de 1934, que divulgava sua publicação, recebendo um espaço de tamanho médio e comentando sobre o livro recém-editado. Em 17 de março daquele ano o mesmo jornal voltou a divulgar Caetés, nos “Apontamentos” de Valdemar Cavalcanti. Antes disso, em 25 de fevereiro, o escritor e amigo de Graciliano, José Lins do Rego, escreveu uma matéria, sobre “O Romancista Graciliano Ramos”, que ocupava 23 O Correio da Manhã (RJ) publicou em 12 de maio de 1929 a notícia com o título de “Bom Humor Oficial”: “O Diário Oficial de Maceió publicou um curioso documento oficial: é o relatório do prefeito de Palmeiras dos Índios, Sr. Graciliano Ramos. Aqui vão alguns trechos: „Encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis.[...] Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos.: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem a sua obrigação e, sobretudo, não se enganam em contas. [...] Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe isto aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1556 d. Pedro Sardinha foi comido pelos Cahetés. Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis. [...] Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram erros de inteligência que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estadia na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.‟” 60 quatro colunas e cerca de um oitavo da página, com direito a também uma foto do escritor para ilustrar a citada matéria. A amizade dos dois escritores deve ter influenciado o senso crítico de José Lins do Rego, não que Graciliano não merecesse elogios, mas ele fez uma crítica como se Graciliano já tivesse uma vasta obra naquela data, quando na verdade Graciliano só tinha publicado Caetés e S. Bernardo estava ainda no prelo. De qualquer forma, a crítica veio a se confirmar, pois Graciliano mereceu cada uma das palavras da crítica de José Lins do Rego, que assim escreveu: Os seus romances são desses de humanidade tão grande que a gente os sente como a própria vida. São livros dolorosos com todo o lado amargo da vida. Neles não sentimos um poeta, um lírico se entusiasmando com as paixões deste mundo. Têm a força do raio X que penetra nas profundidades o olho deste romancista que só conta a história de gente infeliz. Eu faço bem em falar em olho de raio X em relação a Graciliano Ramos porque ninguém como ele para só ver das coisas a sua nudez. Ele vê as entranhas e a gente sente o ranger dos ossos do seu processo de escrever. Mas é um grande escritor porque o grande escritor será sempre o que sabe ver as coisas com profundidade. E não é esta a sua exatidão de observar um processo crítico, uma conquista literária. Graciliano Ramos é, pessoalmente, na sua conversa, o mesmo de seus livros. Simples e verdadeiro. (REGO in Diário de Notícias, 25/02/1934, p. 19) Também no Diário de Notícias, de 12 de junho de 1938, o escritor e jornalista Emil Farhat fez uma matéria crítica sobre Vidas secas, tecendo-lhe muitos elogios: Vidas secas, romance geométrico. Não há uma palavra demais nem falta nenhuma nesse livro de Graciliano Ramos. Quem não conhece os métodos literários do autor diria que ele estabeleceu anteriormente um esquema com o material do romance, tal qual o Sr. José Américo anuncia que faz. “Vidas secas” se apresenta com tanta medida, justamente por ser o romance de vidas que não se alteiam nem se abaixam mais além do baixo nível comum do animal-homem Fabiano. Escrito quase sem adjetivos, Vidas secas adquire tons impressionantes, arte do autor aproveitando o absoluto primitivismo de seus personagens. Graciliano consegue o que há de difícil em romance: fixar a existência de tipos vulgares, cuja vida transcorre sem um gesto que possa revelá-los meras e monótonas planícies humanas que são. É muito árido o Fabiano, e Graciliano faz um romance cheio e rico com a personalidade vazia dessa figura pobre. (FARHAT, 1938, Primeiro Suplemento, p.1) Outras críticas foram escritas, sempre elogiosas, a Graciliano e sua obra, como no mesmo jornal, em 03 de julho de 1938, por Rosário Fusco, sob o título “Modernos e modernistas”: Subjetivismo que faz supor tratar-se esse Vidas secas de um grande diálogo interior do romancista com a vida dessa gente que ele conhece e ama porque sofre como ele. [...] O romancista só descreve o que eles sentem. São os sentimentos, as impressões interiores e não as ações que importam nessa narrativa [...]. O Sr. Graciliano é, portanto, desses para os quais a beleza conta sempre na obra de arte apesar do real [...] com os recursos 61 extraordinários de romancista que é, por vocação irresistível, afirma a sua personalidade e consegue ser moderno, novo, original. O que não é a mesma coisa que ser “modernista”, anacrônico e forçado. (FUSCO, 1938, 1º.Supl, p.2) A escritora e também pertencente ao círculo de amizade de Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, fez mais tarde uma crítica sobre a obra do escritor alagoano, publicada no Diário de Notícias de 09 de outubro de 1938. Mas não nos pareceu que fora o laço de amizade que impulsionou a escritora a tecer as seguintes palavras, pois Graciliano mereceu os elogios: Os livros de Graciliano Ramos são todos diferentíssimos uns dos outros, parecem escritos cada um por um homem diverso, vivendo em mundos opostos. E é interessante notar que o estilo a prosa do escritor se modifica também em cada volume, acompanhando como um modelado o contorno geral do livro, apreendendo-lhe o espírito, mudando, conforme as mudanças do tema, de tom e de colorido. [...] Um escritor que não parou de crescer. (QUEIROZ,1938: pp.1-2) No período de preparação de S. Bernardo até o momento em que a obra encontrava-se no prelo, sua publicação já era aguardada com ansiedade, com várias notas sendo publicadas no Diário de Notícias, Diretrizes e Correio da Manhã. Após o lançamento, a maior parte da crítica foi positiva, como a de Dias da Costa, na coluna “Literatura e Romance”, do Diário de Notícias de 31 de março de 1935. “De Caetés, primeiro livro do Sr. Graciliano Ramos, ótimo livro, embora um tanto antiquado, para o novo romance, há uma evolução salutar, um aperfeiçoamento de técnica, uma segurança na dosagem de emoção que chega às vezes ao irrepreensível.” (COSTA, 1935: Terceira Seção, p.18) Os dois livros de Graciliano que receberam as maiores atenções da imprensa foram, sem dúvida alguma, Vidas secas e Infância. O primeiro foi bastante saudado pela crítica. Percebemos em todos os periódicos pesquisados que, mesmo quando o objeto da crônica ou reportagem dos jornais ou revistas era outro livro do autor, ele era citado e recebia nem que fosse uma pequena observação, porém sempre com tom positivo. Vidas secas foi publicado em 1938, mas mesmo no final da década de 40 os críticos ainda produziam textos na imprensa sobre ele. Podemos perceber que até hoje esse sucesso se reflete, basta ver o número de estudos que se debruçam sobre essa obra e o total de 124 edições. Já Infância conseguiu o grande feito de já ser citado diversas vezes em jornais como o livro de memórias que o autor estaria preparando desde a publicação nos jornais de capítulos da obra. Por exemplo, o capítulo “Samuel Smiles” foi publicado em 13 de novembro de 1938 no Diário de 62 Notícias; o capítulo “Os astrônomos” foi publicado no mesmo ano e no mesmo jornal24; “O menino da mata e seu Cão Piloto” saiu em O Jornal em 23 de novembro de 1938 e “O cinturão” em 21 de maio de 1939, também em O Jornal. Os jornais já apontavam na época que os textos publicados seriam parte de um futuro livro. Em 30 de maio de 1944 o jornal A Manhã publica, enfim, a nota informando que Graciliano acabara de concluir seu livro de memórias. A partir daí a expectativa era do livro ser entregue para publicação. Com tantas citações e com livros bastante elogiados, vários considerados entre os clássicos de nossa literatura, seria lógico querer descobrir qual a razão de Graciliano não ter entrado na Academia Brasileira de Letras. Diversos depoimentos dão conta que o próprio autor odiava a ideia de fazer parte da Academia, primeiramente pelo fato de ter que visitar e bajular os acadêmicos imortais “mendingando votos”: “Se não me conhecem, é pura bobagem. E eu não sou de beijar mão.” Esse depoimento foi dado ao filho Ricardo Ramos que contou, com humor, em seu livro Retrato fragmentado, e complementa a conversa falando que o outro motivo pelo qual não se via na Academia era de ter que usar o fardão: “- Me lembra folclore, fantasia de guerreiro ou Mateus, sujeito todo enfeitado de espelhos, vidrilhos e miçangas. Quando querem afastar esse modelo, falam em tradição. [...] Ao vestir aquilo, eu me sentiria um século mais velho.” (RAMOS, 2011b: p.156) Mas Graciliano foi lembrado algumas vezes para ocupar uma das cadeiras da ABL quando uma vaga era aberta. Em reunião ocorrida em final de outubro ou início de novembro de 1942 na Livraria José Olimpio, onde estiveram vários literatos, conta o jornalista Francisco de Assis Barbosa, em sua coluna na revista Diretrizes de 5 de novembro de 1942, que o nome de Graciliano Ramos fora mencionado várias vezes entre eles para ocupar a cadeira de número 23, vaga após a morte de Xavier de Marques. Também em Diretrizes, em 29 de abril de 1943, na reportagem de Joel Silveira sob o título “Minha lira só tem uma corda”, com uma longa entrevista com o poeta Olegário Mariano, este lançou também o nome de Graciliano para a Academia: 24 Não há informação no livro Catálogo de manuscritos do arquivo Graciliano Ramos sobre a data da publicação no Diário de Notícias desse capítulo de Infância, porém verificamos no acervo digital da Biblioteca Nacional que a publicação no periódico se deu em 27/11/1938, na página 1 do 1º Suplemento, conforme se pode ver aqui: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=093718_01&PagFis=38132 . Acessado em 16 de dezembro de 2013. 63 - Graciliano é o maior escritor do Brasil. Que escritor! [...] Se o Graciliano se candidatasse e ele só recebesse um voto, pode ter certeza que esse voto seria o meu. (e com um volume de Vidas secas na mão) Neste livro, seu moço, há uma página do que de melhor já se fez na nossa literatura: é aquela passagem sobre a morte de “Baleia”. Você sabe como eu gosto de cachorros. [...] Pois bem, não posso ler aquela página de Graciliano Ramos sem que as lágrimas me venham para os olhos. É formidável! (MARIANO apud SILVEIRA in Diretrizes, 1943,pp.13,22) Alvaro Lins escreveu duas críticas sobre Graciliano Ramos para o jornal Correio da Manhã: a primeira sobre Infância e citando o restante da obra de Graciliano, com o título “A Infância de um romancista”, publicada em 07 de julho de 1945; a segunda foi uma análise bem extensa sobre a obra do autor, com o título “Visão geral de um ficcionista”, publicada em 04 de julho de 1947, mas mesmo tratando de toda obra de Graciliano, ele não mencionou Histórias de Alexandre, que fora publicado com diferença de meses para Infância. Entre a crítica literária, ao longo do presente trabalho, já citamos vários nomes e citaremos ainda outros, que se debruçaram em estudar sobre a obra de Graciliano Ramos. São nomes como Álvaro Lins, Rachel de Queiroz, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Alves Cristóvão, Carlos Alberto dos Santos Abel, Alfredo Bosi, Wilson Martins, Godofredo de Oliveira Neto, José Lins do Rego, Letícia Malard, Rui Mourão e muitos outros, alguns da época em que Graciliano ainda estava vivo e outros que passaram a estudá-lo só depois de sua morte. Porém, o nome de maior relevância nos estudos de Graciliano Ramos, possivelmente o mais respeitado entre os críticos literários nacionais é Antonio Candido, autor do importante livro de ensaios Ficção e Confissão, de 1956, que abraça quase que na totalidade a obra de Graciliano, com cinco artigos, que foram publicados no jornal Diário de São Paulo onde era crítico titular. Eu apontei como quase totalidade, pois os estudos foram somente sobre os livros Caetés, S. Bernardo, Vidas secas, Angústia, Infância e Memórias do cárcere. Sobre a publicação de contos e a voltada ao público infantojuvenil pouco ou nada falou. A respeito dos contos, Candido declara que entre as publicações de Vidas secas e Infância, Graciliano escreveu alguns contos e Vidas secas. Os primeiros são, no geral, medíocres. Constrangidos e dúbios, mais parecem fragmentos. Falta-lhes certa gratuidade artística e a capacidade de afundar-se sinceramente numa situação limitada, esquecendo possíveis desenvolvimentos, sem o que dificilmente se manipulia um bom conto. (CANDIDO, 2012:p.61) Na crítica acima, Candido se referia a Insônia que fora o único livro, fora os já citados anteriormente, sobre o qual ele se dedicou a escrever nos ensaios 64 publicados na obra, que ele citou textualmente. Mesmo assim a única análise mais profunda aconteceu nessas poucas linhas e para incluí-lo entre as obras escritas em terceira pessoa. Em relação a Dois dedos, Histórias de Alexandre e Terra dos meninos pelados nenhuma linha foi destinada. Mas como ocorreu no caso, já citado no presente trabalho, de José Geraldo Vieira, que escreveu no prefácio de Alexandre e outros heróis que desconhecia que o livro Histórias de Alexandre tinha já sido publicado na década de 40, fica sempre a dúvida se Candido também tomou conhecimento ou não da obra. Em relação aos livros analisados, Candido foi praticamente só elogios. Ele, que é conhecido por escrever suas críticas com uma linguagem extremamente clara e elegante, com pleno domínio da técnica do ensaio, mostra nessa obra que os louvores que Graciliano recebe são totalmente merecidos. A crítica é também honesta, mostrando que Candido analisa friamente, sem qualquer envolvimento, mesmo sendo Graciliano um de seus escritores preferidos. Por exemplo, em relação a Memórias do cárcere, escreveu: O livro é desigual. [...] O diálogo, antes tão perfeito entre os personagens fictícios, é insatisfatório, por vezes constrangido, entre os personagens reais, e às vezes parece faltar discernimento para manipular episódios e cenas. [...] sua estética de poupança foi talvez um pouco longe, sacrificando não raro (por exemplo) a fluência e o equilíbrio [...] (CANDIDO, 2012: p.122) Essa crítica honesta que Antonio Candido tão bem fazia o tornava possivelmente o mais respeitado por Graciliano e outros escritores. Tal respeito fez com que Graciliano lhe enviasse uma carta, que depois foi publicada dentro de Ficção e confissão25, mostrando que não só concordava com algumas críticas feitas por Candido e, para manter seu jeito “graciliânico”, discordando de alguns elogios, ele providenciou algumas modificações em reedições de seus livros baseadas na crítica de Candido: Onde nossas opiniões se coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios concedidos a este alguns, verdadeiros disparates. [...] Por que é que Angústia saiu ruim? Diversas pessoas procuraram razões, que não me satisfizeram. Olivio Montenegro usou frases ingênuas e pedantes, misturando ética e estética. João Gaspar Simões afirmou que o americano é incapaz de introspecção – e com esta premissa arrasou-me. [...] Alvaro Lins veio com aquele negócio de tempo metafísico. Se eu constituísse uma exceção à regra de João Gaspar Simões e contentasse 25 Essa carta foi também publicada na edição comemorativa dos 75 anos de Angústia em 2011. 65 Olívio Montenegro e Alvaro Lins, Angústia não deixaria de ser um mau livro, apesar de haver nele páginas legíveis. Por que é mau? Devemos afastar a ideia de o terem prejudicado as reminiscências pessoais, que não prejudicaram Infância, como V. afirma. Pego-me a esta razão, velha e clara. Angústia é um livro mal escrito. Ao reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas, desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem examinadas no seu terceiro artigo. É preciso dizermos isto e até exagerarmos as falhas: de outro modo o nosso trabalho seria inútil.[...] (RAMOS apud CANDIDO, 2012: pp.10-11) Candido ainda reproduziu dedicatórias de Graciliano que lhe foram enviadas em alguns de seus livros. Em Caetés: “Antonio Candido: a culpa não é apenas minha: é também sua. Se não existisse aquele rodapé, talvez não se reeditasse isto.” Em Angústia: “Antonio Candido: Além das partes rudes, já corrompidas, vão aqui alguns erros e pastéis, que as tipografias estão uma lástima.” E em Insônia: “A Antonio Candido, esta coleção de encrencas, algumas bem chinfrins.” (idem, p.12) Como já dissemos, Histórias de Alexandre não teve muita divulgação nem antes nem depois de seu lançamento. Depois de duas pequenas notas no jornal carioca A Manhã e uma no também carioca A Noite informando seu lançamento26, com diferença de 10 meses entre elas, e uma entrevista para o jornal A Noite, na qual Graciliano cita que um livro de sua autoria ligado ao folclore estava para sair, pouco se leu sobre a obra nos periódicos de grande circulação. Por exemplo, no período entre os anos de 1944 e 1949, no Jornal O Globo não houve uma só citação ao livro e o mesmo se deu no Jornal do Brasil. O autor recebia diversas citações, tanto em relação a seus livros quanto à participação em eventos diversos, mas nenhuma envolvendo a obra das histórias do major Alexandre. Mesmo em Diretrizes, periódico que iniciou em forma de revista semanal para depois tornar-se jornal diário, e no qual Graciliano fazia parte da equipe de colaboradores, o livro não recebeu sequer notícia de seu lançamento. Pesquisando nos periódicos citados acima e também no Diário de Notícias, O Jornal (RJ), Correio da Manhã e Correio Paulistano, Histórias de Alexandre só foi citado, entre 1944 e 1949, em propagandas de livrarias entre os livros vendidos em promoção. E uma vez ele apareceu citado, no meio de uma pequena biografia do autor, dentre as obras de Graciliano Ramos, quando o Diário de Notícias de 25 de maio de 1947, na seção “O Conto da Semana”, publicou o conto “Minsk”, que faz parte do livro de contos Insônia, lançado 26 Ver a “Introdução” da dissertação, página 9. 66 naquele mesmo ano. Outro ponto que indica essa falta de atenção da mídia impressa ao livro estudado por nós é que o Correio da Manhã, em sua edição de 28 de julho de 1944, abriu uma coluna inteira para comentar sobre o livro de Leda Maria de Albuquerque “Sobre o Quilombo dos Palmares e a verdade”, lançado pela Editora Leitura, que também publicou Histórias de Alexandre, e que fazia parte da coleção “Menino Homem”, a mesma da qual fazia parte o livro de Graciliano Ramos, que nem chegou a ser citado sequer como parte da coleção. Os periódicos Diretrizes, Diário de Notícias e O Jornal, todos do Rio de Janeiro, são casos especiais que merecem citação em relação a Histórias de Alexandre e à divulgação da obra, pois foram órgãos que publicaram capítulos de livros e contos de Graciliano Ramos, e inclusive algumas das histórias do major Alexandre e, no entanto, não publicaram nada sobre o livro, nem pouco antes e nem depois de seu lançamento. Diretrizes tinha Graciliano como um de seus mais importantes colaboradores, escrevendo em alguns números. Também foi um dos responsáveis pela publicação, em várias semanas seguidas, quando em cada número era publicada parte de um capítulo, do livro escrito coletivamente por Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aníbal Machado, José Lins do Rego e Jorge Amado27, tornando-se famoso por publicar “a primeira novela coletiva da literatura moderna do Brasil”. A novela Brandão entre o mar e o amor, que fora anunciada em 31 de julho de 1941, começou a ser publicada em 28 de agosto de 1941, e a cada número apresentava um cupom, onde o leitor era convidado a responder à pergunta de quem seria o autor daquele capítulo. O último capítulo foi publicado em 26 de fevereiro de 1942. A publicação só foi interrompida duas vezes: no dia 06 de novembro de 1941, por ocasião de uma edição que dedicou quase todas as páginas a uma extensa reportagem, na qual se destacou a famosa entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa, do Coronel Dilermando de Assis, que assassinara o escritor Euclides da Cunha; e no dia 18 de dezembro de 1941, edição que também 27 Em 31 de julho de 1941, Diretrizes anuncia entre os autores da novela, além dos 4 primeiros nomes citados, o nome de Jorge Amado. Porém, nos números posteriores onde as partes da novela foram publicadas, o nome do escritor baiano não mais apareceu. Porém, depois de toda a novela ser publicada, há a informação de que Jorge Amado escrevera o primeiro capítulo. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=2823, http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=2891, http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=3779 e http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=4375. Acessados em 01/12/2013. 67 teve a maioria de suas páginas dedicadas a uma reportagem especial, dessa vez sobre a II Guerra Mundial. No entanto, Diretrizes nunca publicou nota alguma sobre Histórias de Alexandre, como se Graciliano não tivesse escrito o livro. O Jornal, que também não divulgou em suas páginas o livro Histórias de Alexandre, foi responsável pela publicação de três histórias do livro: em 01 de janeiro de 1939, publicou “História de um bode”; em 10 de setembro de 1939 publicou “O estribo de prata”; e em 19 de novembro de 1939, publicou “O marquesão da jaqueira”. E o Diário de Notícias, que publicara em 30 de outubro de 1938 “Ciúmes”, conto do livro Insônia e “Os astrônomos”, capítulo do livro Infância em 27 de novembro de 1938, foi responsável pela publicação de quatro histórias do livro Histórias de Alexandre: “Um papagaio falador”, em 25 de dezembro de 1938, “Primeira aventura de Alexandre”, em 22 de janeiro de 1939, “Moqueca”, em 03 de setembro de 1939 e “História de uma guariba”, em 12 de novembro de 1939. Em relação ao conto “Um papagaio falador”, acabamos por descobrir que ele fora publicado também no Correio da Manhã em 27 de outubro de 195128, na coluna Antologia de Contos, com seleção de Marina Amaral Brandão. Da mesma forma, o Correio da Manhã, na mesma coluna em que foi divulgado o conto do papagaio falador, publicou em 8 de novembro de 1952 o conto “História de uma guariba” 29. Essas duas publicações no Correio da Manhã não aparecem citadas em nenhum estudo sobre o autor, inclusive no Catálogo de Manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos, que fez um trabalho incansável de pesquisa, citando todas as publicações de cada conto ou capítulo de seus livros. No entanto, o mesmo periódico que publicou esses dois últimos contos, por ocasião da reportagem sobre a morte do autor, ocorrida 4 meses e meio depois, listou a obra do autor da seguinte forma: Caetés(1933), o romance de estréia [...]; São Bernardo (1934), um dos maiores acontecimentos literários desses últimos vinte anos; Angústia (1936), a obra-prima. Depois, Vidas secas (1938) foi considerado como o mais perfeito dos romances da vida do sertão. Outros preferem Infância (1945), estranho livro de reminiscências. Os contos do volume Insônia 30 (1947) completam a obra, até agora publicada. 28 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=12842. Acessado em 02 de fevereiro de 2014. 29 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=21674, Acessado em 02 de fevereiro de 2014. 30 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=24926. Acessado em 02 de fevereiro de 2014. 68 Assim, percebemos que também o Correio da Manhã não citou Histórias de Alexandre (1944) e nem 7 Histórias verdadeiras (1951), em que os contos foram publicados, assim como Terra dos meninos pelados (1939) e Dois dedos (1945). Retornando aos comentários sobre o Diário de Notícias, o livro Histórias de Alexandre só foi mencionado como parte da obra de Graciliano, uma vez, em 25 de maio de 1947, num texto de apresentação ao conto “Minsk”, que fazia parte da coletânea de contos Insônia, publicada naquele ano. E naquele mesmo ano, o jornal só mencionou a obra mais uma vez, mas não para uma crítica, positiva ou negativa, e sim num anúncio classificado da Empresa Editora Ltda., entre livros que encontravam-se em promoção. Importante mencionar que a citação ao livro no texto de apresentação do conto “Minsk” foi a primeira vez que Histórias de Alexandre apareceu como parte de uma lista de obras de Graciliano. No discurso proferido por Francisco de Assis Barbosa31, por ocasião do jantar em homenagem aos 50 anos de Graciliano Ramos, o jornalista menciona a publicação de Terra dos meninos pelados e Histórias de Alexandre: Para Graciliano Ramos, o tema da meninice é permanente, uma espécie de obsessão. É como se explica, de resto, a incursão do romancista nos mundos da literatura infantil, com a publicação de A terra dos meninos pelados e das Histórias de Alexandre, estas colhidas na tradição oral do Nordeste e que formam uma série de narrativas de um casal de mentirosos. (BARBOSA in LINS, SCHMIDT et al., 1943: pp.38-39) Como a entrevista que motivou esse texto se deu em 1942, ou seja, dois anos antes da publicação das Histórias de Alexandre, deduzimos que durante o evento com o jornalista, Graciliano informou sobre seu desejo de publicar as histórias em livro. O fato de Francisco de Assis Barbosa usar no texto o nome exato do livro, que só sairia dois anos depois, torna impensável que ele tenha mencionado as histórias baseado nas sete histórias que já tinham sido publicadas no Diário de Notícias e em O Jornal, pois na época das publicações das histórias nos periódicos não havia menção de que elas viriam a fazer parte de um livro. No volume Insônia, e em todas as edições dos outros livros do autor, lançadas entre 1945 e 1947, fato que se prolongou até a edição de 2006 de Alexandre e outros heróis, quando eram citadas as obras de Graciliano e eram 31 Publicado em Achados ao vento, de BARBOSA, na revista Diretrizes e no livro Homenagem a Graciliano Ramos, com os textos de discursos que foram entregues à comissão organizadora do evento em homenagem ao escritor alagoano. 69 enumeradas as edições e os anos de cada uma, Histórias de Alexandre não era citada. Embora não tenhamos declarações do autor ou de pessoas ligadas às editoras que publicaram livros de Graciliano desde aquela época, para saber se essas listas eram feitas sem que o autor as supervisionasse, por depoimentos a que tivemos acesso em dissertações sobre e em biografias de Graciliano, deduzimos que o autor não participava dessa parte do processo de publicação de seus livros, ou que ao menos não dava muita atenção ao referido processo, se preocupando apenas com o texto da obra. Segundo seu filho Ricardo Ramos, o pai tinha sempre um extremo cuidado e apreço na seleção daquilo que gostava de ver publicado e deu mostras diversas vezes de que ele não considerava Histórias de Alexandre uma obra de má qualidade. Qualquer discurso do autor em sentido contrário não pode ser tratado como verdade absoluta, pois era costume do autor depreciar toda sua obra, inclusive os livros mais aclamados pela crítica. Entre as tentativas de autodepreciação por parte de Graciliano, é famosa a passagem em que ele, quando dá um depoimento ao jornalista Homero Senna na que tem sido considerada como sua última grande entrevista, perguntado sobre a perenidade de sua obra, responde no melhor modo “graciliânico”: “- Não vale nada; a rigor até já desapareceu.”32 Ou quando, na entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa, diz que não suportava Caetés, que considerava São Bernardo e Angústia apenas toleráveis, que não considerava Vidas secas um romance, e que de seus contos, apenas um ou dois se salvavam. (BARBOSA, 1958: 56-57). Portanto, era esperado que o mesmo acontecesse em relação às Histórias de Alexandre. Em seu livro Graciliano - Retrato fragmentado, Ricardo Ramos cita que Graciliano repetia insistentemente, sempre que encontrava o amigo Aurélio Buarque de Holanda, que considerava o livro das histórias de Alexandre “uma obra menor, um simples aproveitamento de temas folclóricos, insignificante”. De tanto que Graciliano repetiu essa afirmação, quase como se estivesse forçando seu amigo a concordar com ele, Aurélio, de forma inadvertida, acabou por ceder à pressão de Mestre Graça e concordou com ele. Foi o suficiente para Graciliano sentir-se ofendido e chateado com Aurélio. Assim, sempre que se referia a Histórias de 32 “A Última Entrevista de Graciliano Ramos”, publicada no jornal goiano Opção, edição 1944, semana de 7 a 13 de outubro de 2012, no caderno “Opção Cultural” - “Textos Clássicos”. Disponível em http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos. Acessado em 15 de dezembro de 2013. 70 Alexandre, Graciliano simplesmente repetia: “Aurélio não gosta”. (RAMOS, 2011b: pp.143 e 145). Por ter ficado sentido com o amigo, mostrava que na verdade ele gostava do livro. E a própria orientação ao filho quanto à obra juvenil e avulsa, dada pouco antes de sua morte, de que todo seu material que contasse com sua assinatura poderia ser publicado, indica que o autor atestava qualidade às narrativas de Alexandre. (RAMOS, 2011b: p.196) Isto porque, verificando o catálogo de manuscritos de Graciliano, organizado por Yêda Dias Lima e Zenir Campos Reis, temos a informação de que, com exceção de “O missionário”, do qual não se tem um manuscrito guardado, ele assinou e anotou os manuscritos de todas as histórias, com diversas marcações de que foram efetuadas diversas modificações desde a primeira versão manuscrita até a publicação em jornal e depois em livro, mostrando o cuidado que tinha com suas histórias. Um autor que não gostasse de seu livro, não teria todo esse cuidado com os originais. E isso desqualifica a possibilidade de que a obra não fosse citada entre suas obras porque o próprio autor a desmerecia. (LIMA e REIS, 1992: pp.35-41) A publicação em 1951 de 7 histórias verdadeiras, com a participação de Graciliano em todo o processo, utilizando um formato reduzido do livro com os causos do major de olho torto, com menos histórias, e procurando se adequar ao mercado jovem, incluindo o convite a uma reunião do autor com os jovens leitores e uma carta publicada no jornal Imprensa Popular acabou demonstrando um cuidado do autor com as histórias do casal Alexandre e Cesária. A Editorial Vitória, responsável pela publicação, se não conseguiu uma divulgação tão grande quanto a dos livros Vidas secas, S.Bernardo e Infância, ao menos foi bem maior que a que fora feita pela Editora Leitura para Histórias de Alexandre em 1944 e nos anos posteriores. Para começar, o jornal Imprensa Popular, durante várias semanas seguidas publicou anúncios sobre o livro, que seria um ótimo presente para as crianças. O mesmo anúncio aparecia em outros jornais, como Diário de Notícias e Correio da Manhã. Em 2013, durante as mesas do Festival Literário de Paraty, que teve Graciliano Ramos como tema, o escritor Fernando Morais contou que esse livro foi o primeiro livro que ele leu, quando tinha sete ou oito anos de idade. Na dissertação de Edmar Monteiro Filho (2013 p.141), que teve contato com o acervo pessoal de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano, há uma informação que mostra o sentimento que Graciliano nutria por Histórias de Alexandre. Nesse acervo 71 havia três exemplares da primeira edição do livro, e cada um com a respectiva dedicatória a um membro da família. No exemplar reservado à Dona Heloisa, segunda esposa do escritor, Graciliano autografou-o com os seguintes dizeres: "À comadre Sinha Heloísa, esta lembrancinha de Cezária. Ribeira do Navio, 19 de Sant'Ana de 45." O segundo exemplar foi dedicado a seu filho Ricardo Ramos, com as seguintes palavras: "Ao amigo e colega Major Ricardo, lembrança de Alexandre 19 de São-João de 45." O último exemplar foi autografado para uma das filhas de Graciliano, Luiza: "A Sinha Luizinha, lembrança de Dasdores." Percebemos, nesses exemplares, algo bem maior do que dedicatórias em uma brincadeira familiar. Ao escolher personagens do livro para que “eles” autografassem livros como presentes para sua esposa e dois filhos, Graciliano dava uma prova cabal do carinho que ele tinha pelos personagens de seu livro. Se Graciliano não gostasse do livro, ele não teria usado personagem algum da obra nessa brincadeira com seus entes queridos. A edição comemorativa dos 75 anos de Angústia recebeu uma lista com 158 publicações acadêmicas sobre a obra de Graciliano33 e só temos três que tratam de Histórias de Alexandre, sendo que um desses estudos é um capítulo de um livro e não um livro, como são as outras 157 obras presentes na lista. É importante ressaltar que nessa produção acadêmica, que vai até o ano de 2005, o romance de maior interesse é Vidas secas. Infância é o segundo romance mais procurado por críticos e acadêmicos, mostrando que há um interesse bem grande não só pelo aspecto literário da obra, como também pelo período da infância do autor visto que boa parte desses estudos aborda esse tema ao tratar sobre a obra. S.Bernardo, que é considerado por muitos críticos como a principal obra de Graciliano, também é bastante estudado, mas mesmo assim não atingiu o nível de Infância. Também muito estudados são os livros Angústia e Memórias do cárcere. Dentre os romances de Graciliano, Caetés é o que tem recebido menos interesse da academia, com apenas seis estudos individuais. Há, porém, um número bem maior de estudos que tratam de toda a produção de Graciliano e da vida do autor do que os próprios que abordam particularmente cada obra. Nessa produção sobre sua obra são privilegiados os romances, com pouco ou nenhum destaque aos livros de contos e os voltados ao público infantojuvenil. Os estudos sobre a vida do autor em geral 33 Essa lista é a mesma que acompanhava a edição de 2005 de S.Bernardo e de 2006 de Alexandre e outros heróis, ambas da Record assim como todas as outras do autor na editora carioca nos últimos anos. 72 tratam também de sua obra, mostrando que a biografia de Graciliano motiva muito interesse do público e é bastante respeitada, por seu exemplo de luta e de ética. O premiado Terra dos meninos pelados e o outro livro voltado ao público infantojuvenil, Pequena história da República não tiveram, nessa lista, estudos acadêmicos a ele consagrados, sendo citados em poucas obras acadêmicas apenas como parte dos livros de Graciliano. Já a produção de contos não ligados ao público infantojuvenil – Insônia, Dois dedos e Histórias incompletas - teve igual atenção que Histórias de Alexandre com apenas três estudos. Há que se registrar que essa lista de produções está desatualizada, pois o último ano das produções é de 2005, sendo que ela saiu na edição comemorativa de 2011 de Angústia publicada pela Record e continua saindo nas obras reeditadas do autor até a presente data sem atualização de seu conteúdo. Nessa lista há também casos de estudiosos da obra de Graciliano que não desprezaram a obra infantojuvenil, como Rui Mourão e seu livro Estruturas, que dedicou um capítulo a Alexandre e outros heróis na reedição de 2003, e Fernando Alves Cristóvão. Esses estudos reconhecem a importância literária dessa produção e ressaltam o caráter ligado à cultura popular do nordeste de Histórias de Alexandre. Percebemos também que esse aumento dos estudos sobre a obra infantojuvenil de Graciliano se deu depois do lançamento de Alexandre e outros heróis. Esse fato mostra que mesmo com as críticas que Fernando Alves Cristóvão fizera sobre a publicação em um só volume das obras que compõem o livro, ela mostrou-se muito importante para a divulgação da produção voltada ao público infantil de Graciliano. Cristóvão mostrouse favorável que as obras que formam Alexandre e outros heróis fossem publicadas individualmente, já que considerara que a publicação em forma de coletânea descaracterizara as três obras. O que essa lista de produções acadêmicas não detecta é uma tendência na academia de um interesse crescente pela produção esquecida de outrora do Mestre Graça - aquela voltada ao público infantojuvenil. Possivelmente essa tendência decorre do grande sucesso junto ao público leitor de Alexandre e outros heróis, terceiro maior título de Graciliano em índice de vendagem. Assim, notamos a produção de alguns estudos sobre Histórias de Alexandre de dez anos para cá, principalmente nos últimos cinco anos. Por exemplo, em 2004, ou seja, antes do término do período coberto pela listagem das produções, que aparece nos livros de Graciliano na Record a partir de 2005, houve uma 73 dissertação tratando especificamente de Histórias de Alexandre e seu caráter derrisório, de autoria de Sandra Marques Parracho Sant‟Anna, da área de concentração em Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob o título Despropósitos na caatinga: olhar e derrisão em “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos. Em 2006, na Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio Antonio Silva produziu uma tese de Doutorado em Letras intitulada Papel, penas e tinta – a memória da escrita em Graciliano Ramos, na qual foram privilegiados os romances S.Bernardo, Angústia e Caetés, mas foi dedicado um capítulo chamado “O olho torto de Graciliano”, que teve como apoio Histórias de Alexandre e Infância por apresentarem questões envolvendo a imagem do olhar, que é disseminada pela obra do autor. Já em 2008, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Wagner da Matta Pereira defendeu dissertação com o título Um olho torto na literatura de Graciliano Ramos, privilegiando as narrativas de Histórias de Alexandre e Infância, pois ambos falam de um mesmo tema: o olho ferido. E recentemente, fomos informados sobre dois outros trabalhos envolvendo obras infantojuvenis de Graciliano Ramos. Em depoimento dado ao jornalista e doutorando em Letras da UFRJ Marcelo Bortoloti, quando este fazia uma reportagem para a Revista Época sobre a polêmica envolvendo os originais de Memórias do cárcere, o escritor de livros infantojuvenis Ricardo Ramos Filho – neto de Graciliano e filho do escritor Ricardo Ramos informou que em outubro de 2013 foi defendida dissertação no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, de autoria de Edmar Monteiro Filho, sob o título O major esquecido: “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos. Essa dissertação trata sobre o esquecimento, por parte da crítica e imprensa, da obra citada em seu título. Posteriormente, entramos em contato com Ricardo Ramos Filho e confirmamos a informação de que ele também defendera na Universidade de São Paulo (USP) uma dissertação em 2013 intitulada Arte literária em dois ramos graciliânicos: adulto e infantil, tendo como tema Terra dos meninos pelados e São Bernardo. Entre as biografias, Denis de Moraes citou mais sobre Histórias de Alexandre que os próprios filhos, Clara Ramos e Ricardo Ramos, que também escreveram sobre a vida do pai. Algumas citações do livro de Ricardo Ramos sobre as histórias do major nós apresentamos no presente trabalho, como a que trata da insistência de 74 Graciliano para que o amigo Aurélio Buarque de Holanda confirmasse que as histórias eram de um nível bem mais baixo do que o dos romances de Graciliano. Denis de Moraes citou o livro, usando um espaço de pouco menos de uma página, junto com menções a Dois dedos, Infância, Vidas secas, destacando que o livro girava em torno de um casal, sendo que o marido é um “contador de lorotas e invoca a cumplicidade de Cesária para „autenticá-las‟” (MORAES, 2012: p.214) Outro ponto que Moraes destacou foi “a conexão de Histórias de Alexandre com a fabulação regionalista presente em Vidas secas” e que sua originalidade “reside na recuperação de histórias transmitidas, de geração em geração, pela memória oral do folclore nordestino”. (idem) Entre os críticos, os primeiros que se dedicaram a estudar toda a obra voltada ao público infantojuvenil de Graciliano foram Osman Lins, José Geraldo Vieira e Rui Mourão, que não coincidentemente escreveram prefácios ao livro Alexandre e outros heróis. Osman Lins ainda tem um ensaio, cujo título é “Graciliano, Alexandre e outros”, que foi publicado na obra Vitral ao sol, organizada pela Professora Ermelinda Ferreira, e que aparece na “Bibliografia sobre Graciliano Ramos”, que faz parte das edições publicadas pela Record de livros do autor a partir de 2005. Não tivemos condições de ler o referido ensaio, pois a obra encontra-se esgotada nas livrarias, na editora e no Programa de Pós-Graduação da UFPE, que coordenou o trabalho de seleção de textos. Como Osman Lins escreveu um prefácio para as edições a partir de 2002 de Alexandre e outros heróis, fica a dúvida se o texto é o mesmo nas duas obras ou se um faz parte do outro. Esse é o caso do posfácio de Rui Mourão para a mesma obra, que é o mesmo que foi publicado na edição de 2003, revista e ampliada de seu livro publicado originalmente em 1969 Estruturas. Porém, Rui Mourão, em função de Histórias de Alexandre, não se limitou a somente incluir o texto que depois foi usado como posfácio, mas ainda ampliou as discussões em um dos capítulos do livro – “As estruturas e o contexto” – e incluiu outro capítulo – “As estruturas e a personalidade”, que dedica parte de seu conteúdo a Alexandre e outros heróis. Outro estudioso que foi um dos primeiros a estudar a obra foi Fernando Alves Cristóvão, que, na sua obra Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, dedicou algumas páginas ao estudo de Histórias de Alexandre, mostrando que, inclusive, ele teve contato com os manuscritos das histórias. Da crítica contemporânea, quem talvez tenha sido o primeiro a dar início a 75 um movimento de maior procura por Histórias de Alexandre foi Erwin Torralbo Giménez, que escreveu em 2004 um artigo na Revista da USP sob o título “O olho torto de Alexandre”. Fora da academia as histórias do major do olho torto também têm recebido maior interesse. No final de 2013 a TV Globo produziu um programa especial de fim de ano sob o título “Alexandre e outros heróis”, na qual foi feita uma adaptação de três histórias de Alexandre – “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de Alexandre” e “A doença de Alexandre”. A emissora anunciara nos jornais que inicialmente seria uma série com todas as histórias, e perto da exibição, os jornais corrigiram a matéria, comunicando que seria um só episódio, porém, com uma informação errada, de que o programa traria duas histórias e não três – “O olho torto de Alexandre” e “A doença de Alexandre”, se esquecendo que havia cenas relacionadas à história “A primeira aventura de Alexandre”. Esse trabalho foi dirigido por Luiz Fernando Carvalho, que produzira anos antes outra adaptação de um livro para a TV, Dom Casmurro, de Machado de Assis. Já a adaptação para a TV das Histórias de Alexandre, respeitou quase que na totalidade o texto e ambiente as histórias escolhidas, pecando somente ao mostrar uma dose de erotismo, entre Alexandre e Cesária e também entre Gaudêncio e Das Dores, que não existe no livro. A mesma emissora já havia produzido em 2003 um musical adaptando Terra dos meninos pelados. Esta última obra vem recebendo algumas adaptações para o teatro. Em Pernambuco, ela tem sido apresentada há dez anos pela companhia teatral Arte em Foco, dirigida por Samuel Santos, e pela longevidade, podemos deduzir que a aceitação do público é muito boa. Também apresentada em igual período é a produção do grupo Furunfunfum, de Marcelo Zurawski e Paula Zurawski, de São Paulo, que já a apresentou em teatros do Brasil inteiro e também no exterior,q tendo recebido indicações e prêmios nesse período. E ainda temos a Companhia Manoel Kobachuk, de Curitiba, que apresenta uma adaptação para teatro de bonecos, com muitos elogios da crítica. Esse interesse crescente também pode ser visto pela própria decisão da Record de ter feito uma edição em separado das Histórias de Alexandre em 2007, e que Alexandre e outros heróis em 2006 estava na sua 49ª. Edição pela Record. Assim, mesmo com o já citado preconceito, enraizado desde seu nascimento, a literatura popular foi crescendo. Da mesma forma, a obra infantojuvenil de 76 Graciliano Ramos resistiu aos efeitos desse mesmo preconceito, e tem reagido, mesmo após mais de 60 anos de seu falecimento, mostrando força para crescer em interesse entre leitores e estudiosos. Este trabalho é mais uma das várias evidências desse fôlego recente que o livro Histórias de Alexandre ganhou. 77 Capítulo 3 Histórias de Alexandre: a relação dialógica entre as histórias e sua aproximação com o popular “As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas.” (RAMOS, 2007: p. 5). A citação acima, já mencionada no presente trabalho, é a nota de advertência que está presente no princípio do livro Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, que marca, assim, a origem das histórias contadas por Alexandre, um homem de poucas posses, mas que tem o respeito de sua platéia, formada de outras pessoas simples que sempre vão a sua casa para ouvir seus relatos extraordinários. Nas Histórias de Alexandre temos uma obra que engloba vários contos que não perdem o sentido de unidade. Segundo Cristóvão, esse esquemaenquadramento, tão do agrado da novelística pós-medieval, é típico das coleções de histórias que se organizam inspirando-se no Decameron de Bocaccio, modelo clássico do gênero. Consiste, sobretudo, no estabelecimento da situação e na forma de começar e terminar as histórias, que lhes permite grande liberdade embora salvaguardando a unidade. (WEINRICH apud CRISTÓVÃO, 1975: p. 148)34 Esse sentido de unidade entre as histórias acabou levando à interpretação por parte de Rui Mourão de que a obra não seria um livro de contos, mas sim com aspectos de um romance. Vidas secas já havia recebido uma análise semelhante por conta da forma como fora escrito, com capítulos independentes, mas que ganharam unidade de romance. Nas palavras de Rubem Braga, o livro assumiu características de um “romance desmontável”. (apud MONTEIRO FILHO, 2013: 34 WEINRICH, Harold. Estrutura y función de los tiempos. Madrid: Gredos, 1968, p. 264. 78 p.30). O próprio Graciliano deu munição para essa análise numa crônica de agosto de 1939, publicada na obra póstuma Linhas tortas. Na crônica, diz Graciliano: Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olímpio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação. (RAMOS, 1962: P.199) A forma da publicação dos capítulos nos jornais como contos, tal qual ocorreu com os causos de Histórias de Alexandre, também aproxima as duas obras. A justificativa sobre essa unidade passa pelo fato de que, inicialmente, temos os mesmos personagens participando de todas as histórias. Além disso, há uma linearidade temporal entre os fatos, não somente entre as reuniões, mas também entre os fatos narrados nas histórias. Desses aspectos que aproximam o livro a um romance, trataremos mais adiante. Mas apesar desse sentido de unidade, e respeitando as opiniões que classificam a obra como um romance, em nossa análise, percebemos que a classificação mais adequada é de uma coletânea de contos. De qualquer forma, não podemos classificar o livro do mesmo modo como os livros de contos de Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Antonio ou Rubens Figueiredo, pois os contos desses não possuem o sentido de unidade que as narrativas de Alexandre possuem. Também temos que levar em conta que as narrativas do major Alexandre trazem o aspecto folclórico, ligado à comicidade e à cultura popular. A principal razão para classificá-los como contos é pelo caráter independente. As narrativas podem dialogar entre elas, mas não há obrigatoriedade de leitura de uma para o entendimento de outra, a não ser por pequenos detalhes, como quando ocorre no início de “O olho torto de Alexandre” e seu Libório pensa em fazer uma canção na viola sobre o caso ocorrido na história imediatamente anterior, “Primeira aventura de Alexandre”, na qual Alexandre acabou montando numa onça achando que fosse uma égua pampa. A relação dessas duas histórias, muito embora seja dito no conto do “olho torto” que a história da onça já fora contada outras três vezes no mínimo, parecem ter sido contadas no mesmo dia, pois seu Libório fala como se a outra história, tal qual aparece no livro, tivesse acabado de ser contada: “- Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, seu Alexandre, opinou seu Libório. E eu fiquei pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na 79 viola”. Essa característica temporal, que aproxima essas duas narrativas, é bem diferente das outras, que possuem uma marca forte de distanciamento no tempo da enunciação, pois cada uma é contada em um dia diferente. Mas excluindo esses detalhes que fazem uma história citar uma ou mais histórias, elas são histórias que, mesmo que sejam lidas sozinhas, o leitor não terá dificuldade alguma de entendimento. Mas como comentamos no parágrafo anterior, não desprezaremos a classificação como romance. Rui Mourão é quem mais defende essa tese. Vejamos o que ele diz no capítulo dedicado às Histórias na terceira edição, revista e ampliada, de seu livro Estruturas: A declaração de que o conteúdo das falas do personagem seria resultado de coleta regional, como vimos, não chega a convencer. Graciliano apenas adotou a forma das manifestações populares como elemento estruturador da sua composição. Alexandre, ao lado da companheira que lhe dá assistência – às vezes tomando a iniciativa de começar certos relatos -, e o cortejo completo dos vizinhos reunidos na varanda estão dentro é de um romance. [...] a composição evolui monótona, mas no conjunto possui princípio, meio e fim. Uma estória vai encaminhando outra, como se vê na leitura de “Primeira aventura de Alexandre” seguida de “O olho torto de Alexandre”, depois de “História de um bode”. Quando isso não ocorre, surge o caso de “Um papagaio falador”, que terá continuidade capítulos adiante em “Um missionário”. Há freqüentes referências de uma história para outra, [...] e o leitor, de tempos em tempos, é apresentado a um advogado, dr. Silva, que atua na cidade, e acaba passando para dentro da última invenção de Alexandre, ao figurar em pesadelo. (RAMOS, 2007: p.147) Para Alfredo Bosi (1987: p.8), o conto tem exercido, e sempre exerceu, “o papel de lugar privilegiado em que se dizem situações exemplares vividas pelo homem contemporâneo. O crítico afirma ainda que “se o romance é um trançado de eventos, o conto tende a cumprir-se na visada intensa de uma situação, real ou imaginária, para a qual convergem signos de pessoas e de ações e um discurso que os amarra.”(idem, p.8) Ainda sobre o conto, Bosi analisa que: A invenção do contista se faz pelo achamento (invenire achar, inventar) de uma situação que atraia, mediante um ou mais pontos de vista, espaço e tempo, personagens e trama. Daí não ser tão aleatória ou inocente, como às vezes se supõe, a escolha que o contista faz do seu universo. (idem, p.8) Bosi ainda resume sobre o conto em nossa ficção contemporânea com as seguintes palavras: O conto cumpre a seu modo o destino da ficção contemporânea. Posto entre as exigências da narração realista, os apelos da fantasia e as seduções do jogo verbal, ele tem assumido formas de surpreendente variedade. Ora é o quase-documento folclórico, ora o quase-drama do 80 cotidiano burguês, ora o quase-poema do imaginário às soltas, ora, enfim, grafia brilhante e preciosa votada às festas da linguagem. (idem, p.7) Sem ter a pretensão de procurar definições para justificar o uso da classificação das histórias como conto, percebemos que as palavras de Bosi estão em consonância com os contos de Histórias de Alexandre. O que nos parece que também pode ser aceito é que o conjunto dos contos assume aspectos semelhantes aos de um romance, ou de uma novela, pela relação dialógica entre eles, mas que, porém, pelo caráter independente em relação aos demais, não deixam de ser contos populares. Para Propp, os contos populares “jogam com uma espécie de cumplicidade cultural secundária e encantam na medida que neles identificamos e sobre eles projetamos arquétipos profundos que a narrativa conta sob o pretexto duma intriga factual e variável.” (PROPP, 1983: p.24) No livro temos inicialmente a apresentação de Alexandre, “um homem cheio de conversas, meio caçador e meio vaqueiro, alto, magro, já velho, [...] tinha um olho torto e falava cuspindo a gente, espumando como um sapo-cururu”, e sua esposa Cesária, que “fazia renda e adivinhava os pensamentos do marido”. (RAMOS, 2007: p.9) Nessa apresentação, tomamos conhecimento que o casal vive numa casa pequena, que aos domingos e dias santos a casa se enchia de gente para ouvir as histórias de Alexandre. A esposa também sabia de cor as histórias do marido e estava sempre pronta para ajudá-lo no caso de lembrar de algum fato ou para confirmar sua palavra no caso de haver uma pergunta inconveniente. Esse casal admirável não brigava, não discutia. Alexandre estava sempre de acordo com Cesária, Cesária estava sempre de acordo com Alexandre. O que um dizia, o outro achava certo. E assim, tudo se combinando, descobriram casos interessantes que se enfeitavam e pareciam tão verdadeiros como a espingarda lazarina, o curral, o chiqueiro das cabras e a casa onde eles moravam. (idem, p.10) Na história inicial, “Primeira Aventura de Alexandre”, que no livro 7 histórias verdadeiras (1951) recebeu o título de “Primeira história verdadeira”, além da própria aventura, temos a apresentação dos outros personagens que estarão presentes, como a audiência de todas as outras histórias contadas na pequena sala de Alexandre. São eles: Seu Libório, um cantador de emboladas, o cego preto Firmino, o curandeiro Mestre Gaudêncio, Das Dores, afilhada do casal e benzedeira de quebranto. A aventura, da qual a história trata, se dá quando Alexandre é criança e 81 acaba montando uma onça ao confundi-la com a égua pampa que havia sumido do curral da família. As outras histórias que se seguem são: “O olho torto de Alexandre”, “História de um bode”, “Um papagaio falador”, “O estribo de prata”, “O marquesão de jaqueira”, “A safra dos Tatus”, “História de uma bota”, “Um missionário”, “Uma canoa furada”, “História de uma guariba”, “A espingarda de Alexandre”, “Moqueca” e “A doença de Alexandre”. Essa coletânea de histórias que, exceto “Um missionário” (1952), foram escritas na mesma época de Terra dos meninos pelados e Pequena história da República35, e por se dirigirem ao mesmo público no que se refere à faixa etária, estão no mesmo volume das edições de Alexandre e outros heróis a partir de 1962, embora pouco se assemelhem quanto à temática e estrutura dos relatos. Essa coletânea vem fazendo muito sucesso, como já se destacou, tendo atingido o terceiro posto entre os livros de Graciliano em volume de vendagem. Tal sucesso fez com que a editora Record, responsável pela publicação dos livros do autor desde 1978, decidisse publicar em 2007 uma edição bem acabada, somente com as histórias de Alexandre e Cesária, que recebeu o título de Histórias de Alexandre, o mesmo da primeira edição, de 1944. Na segunda história - “O olho torto de Alexandre” – o leitor é apresentado à razão de Alexandre ter um olho torto, que enxerga melhor que o olho bom. Ela complementa a história anterior, na qual Alexandre monta uma onça. Depois do cego Firmino apresentar desconfiança sobre o aparecimento de um espinheiro na história, que ele não teria ouvido nas outras vezes que a mesma história fora contada, Alexandre explica que o espinheiro fora o responsável pelo defeito no olho, pois o mesmo ficara preso justamente na planta, para ser recolocado posteriormente no lugar pelo próprio Alexandre, fazendo com que sua vista milagrosamente passasse a enxergar muito melhor do que antes. Na narrativa de “História de um bode”, Alexandre revive a infância outra vez e conta sobre um bode tão grande que parecia um cavalo, pronto para ser montado. Em “O papagaio falador” temos um papagaio que não só fala como gente, mas raciocina e conversa com as pessoas. Na história do “Estribo de prata”, Alexandre conta sobre um estribo que o protegia contra mordeduras de cobras. Já no conto “O Marquesão da jaqueira”, Alexandre conta sobre um móvel feito com o tronco de uma jaqueira que tinha sido deixado em uma casa e depois de muitos anos da casa estar 35 Cf nota 1, página 12. 82 fechada, os pés do móvel se transformaram em quatro pés de jaqueira carregados de jacas. O conto “A safra dos tatus” apresenta uma plantação com mais de trinta mil pés de mandioca e que Alexandre descobre, ao começar a colheita que as raízes estavam ocas e por dentro de cada uma delas tinha um ou mais de um tatu - “porque nos pés de mandioca fornidos moravam às vezes casais” (RAMOS, 2007: p.62) – totalizando “uns quarenta milheiros de tatus”. Alexandre perde a plantação, mas lucra com a venda da carne dos tatus. Em “História de uma bota”, Alexandre assusta seus convidados contando que confundiu uma cobra com sua bota, ao tentar calçá-la numa noite bem escura sem perceber a diferença, mas nada lhe aconteceu, pois a cobra também se assustara e acabou fugindo após Alexandre “descalçá-la”. “O missionário” é a próxima história do livro. Segundo o depoimento de Ricardo Ramos, ela foi a única que não foi escrita na mesma época que as outras e também é a única da qual não foi encontrado o manuscrito. Dona Heloisa, esposa do escritor, em depoimento que aparece no livro de Fernando Alves Cristóvão, deixa uma dúvida se a história não foi mesmo escrita na mesma época das outras, pois diz que é possível que ela não tenha sido incluída com as outras histórias simplesmente porque Graciliano talvez não gostasse dela, mas não explicita se ela se referia à versão reduzida do livro em 7 Histórias verdadeiras ou se também à edição de 1944, visto que a história foi publicada no Jornal de Alagoas em 8 de junho de 1952 (LIMA e REIS, 1992: p.35), um ano depois da publicação de 7 histórias verdadeiras. A história do missionário apresenta outro papagaio que, além de falar como o da história do papagaio falador, tem o dom da oratória dos advogados e que era “capaz de fazer defesa no júri, citando os poréns da lei”. (idem, p.73). Na história “Uma canoa furada” Alexandre aparece como herói, salvando todos em uma canoa, que depois de estar já no meio do rio São Francisco, descobriu-se estar furada, prestes a afundar. Alexandre, demonstrando uma inteligência inconteste para os presentes que ouviam sua história, visto que a solução apresentada não foi objetada por ninguém, resolveu fazer outro furo na canoa, no lado oposto ao primeiro. Assim, pela lógica de Alexandre, a água entrava por um buraco e saía pelo outro, permitindo que a canoa seguisse seu rumo. No conto “História de uma guariba, que além de fazer troça com Alexandre, usando roupas humanas e rindo do major, no final ainda mostra que é outro animal que fala nas narrativas de Alexandre, e lhe propõe um acordo, onde cada um iria para casa 83 cuidar de seus filhos. Na história “A espingarda de Alexandre”, mais uma vez Alexandre prima pelos exageros, dessa vez em distâncias que todos perdem a noção, para que o major consiga convencer a todos que conseguiu acertar um veado, com um só tiro a uma distância que tanto podia ser de meia légua, duas ou até cinqüenta, mas que depois decidiram fazer a média aritmética, transformando em “mais ou menos dezessete léguas”. E tudo isso graças ao olho torto do major, capaz de enxergar longe. Temos ainda a história “Moqueca”, nome da cachorra tão inteligente que além de tão inteligente e hábil, fazia as compras do casal, sem se deixar enganar pelos comerciantes na hora do troco. O livro fecha com “A doença de Alexandre”, onde o personagem principal de tão doente, com uma febre altíssima, que tem um delírio e começa a juntar personagens e histórias. O narrador Alexandre tem um olho bom e um olho torto, enviesado. Enquanto o olho bom o faz enxergar a realidade, o mundo que ele recusa a aceitar, seu olho torto o leva para um mundo de que ele se acha merecedor, que toda gente pobre como ele deveria viver. O olho torto o transforma em herói, derrota as injustiças e dificuldades, incapaz de ser atacado por cobras e onças, mas o olho bom o transfere para sua triste realidade. Ação semelhante faz o cego Firmino, logo ele um cego, que enxerga as discrepâncias da narrativa de Alexandre e tenta fazer com que Alexandre perceba a real situação. Alexandre e Cesária percebem a realidade, mas se negam a aceitá-la e sempre encontram justificativas para qualquer questão apontada pelo cego. Pelo resumo que apresentamos das histórias, podemos perceber que elas primam por contar fatos inverossímeis para uma platéia que, com exceção do cego Firmino, acredita em suas palavras. Trata-se de um tipo bastante comum entre as histórias populares, as chamadas histórias de mentirosos. No folclore brasileiro, elas se aproximam das chamadas histórias de Pedro Malazarte, figura oriunda de Portugal, mas que se popularizou também no interior do Brasil, ganhando uma feição mais apropriada a nossa cultura. Porém, pelo caráter exagerado e mentiroso das histórias, elas se aproximam bastante das famosas histórias do Barão de Munchausen, que também tinha o costume de receber amigos e hóspedes para contar suas histórias, cheias de aventuras de guerra, caçadas e viagens, todas com perfeitos retoques de mentira, mas que conseguiam convencer a todos os ouvintes. Não se sabe se algumas das histórias realmente aconteceram com o Barão, mas é 84 sabido que muitas delas eram de origem folclórica e já eram contadas antes mesmo de seu nascimento. Mesmo que Graciliano não tenha se inspirado nas histórias do Barão, é certo que há uma ligação bem forte entre elas por tantas características semelhantes. Rui Mourão, Graciliano Ramos foi buscar nas Aventuras do Barão de Münchhausen, do alemão Gottfried August Buerger, o modelo para os racontos de uma saga que chama a atenção para características psicológicas invariáveis do ser humano e exprime certos padrões universais de comportamento. [...] Na tradição brasileira, Alexandre guarda semelhança com as estórias de Pedro Malazarte, que animavam os serões da família patriarcal na calmaria de uma oralidade cedo derrotada pelos ruídos da era eletrônica, o que significa uma adesão ao folclore. (MOURÃO, 2003: p.147) As Histórias de Alexandre são narrativas que, embora tenham tramas diversas, trazem vários pontos comuns entre elas, além do fato de serem contadas pelo mesmo narrador para a mesma platéia. Cada uma dialoga ao menos com uma das outras histórias, sendo que a última cumpre esse papel com todas as histórias anteriores, numa espécie de delírio do personagem Alexandre. As histórias podem ser lidas separadamente, sem perder boa parte do entendimento, pois elas são narrativas independentes. O principal fato disso é que cada uma delas tem matéria narrativa um conjunto de conhecimentos específico que se articula em particular com elementos da tradição popular no folclore de modo desassociado e não num conjunto com as outras histórias de Alexandre. Porém, o autor deu um toque pessoal que as une, deixando-as com um formato homogêneo. A ordem escolhida pelo autor para que o narrador Alexandre contasse suas histórias já nos leva à ideia de que elas são um todo. Já na “Apresentação de Alexandre e Cesária”, o narrador antecipa algumas das histórias que serão contadas pelo anfitrião da casa, assim como o jeito exagerado de suas histórias e também a atitude de Cesária como parceira e cúmplice em todas as narrativas. Conferindo o catálogo dos manuscritos da obra de Graciliano, descobrimos que a ordem da Apresentação e das quatro primeiras histórias seguiu a cronologia que Graciliano as escrevia. A apresentação foi escrita em 10 de julho de 1938, “Primeira aventura de Alexandre” em 11 de julho de 1938, “O olho torto de Alexandre” (que na primeira versão manuscrita é chamada de “História de um espinho”, só tendo o título alterado em julho do ano seguinte quando Graciliano a reescreveu com algumas modificações) em 13 de julho de 1938; “História de um bode” em 31 de julho de 1938, “Um papagaio falador” em 01 de agosto de 1938. Nessas histórias, percebemos que Alexandre e Cesária apontam a 85 existência de vários sinais de riqueza que o casal possuía, contrastando com a pobreza que o casal apresentava no momento em que as histórias eram contadas. Entretanto, não fica para o leitor a convicção de que esse momento de riqueza realmente ocorreu, em função do caráter mentiroso do restante de cada história. - Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa [...] nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira. Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se sentava: - Hoje é isto. (RAMOS, 2007: pp.13-14) Depois dessas histórias, Graciliano só voltou a escrever em 31 de julho de 1939, “A espingarda de Alexandre”, mas essa não seguiu a ordem do livro e nem a cronologia dos acontecimentos, pois já mostrava o casal em sinal de bastante penúria. A história que segue no livro é “O estribo de prata”, que foi escrita logo a seguir, em 05 de agosto de 1939, cujos acontecimentos narrados ainda mostram Alexandre em boa situação financeira, vestindo boa roupa e com muitos empregados. Depois já não há mais relação entre a ordem em que a história foi escrita e a que aparece no livro. A próxima do livro é “O Marquesão da jaqueira”, em que aparece, depois de receber uma grande herança em dinheiro e terra, começa a ter um princípio de perda grande de dinheiro do casal, em função de gastos com remédios para Cesária que adoeceu seriamente. Cesária afirma que “aquela macacoa estragou o nosso cabedal. [...] ficamos na tira e você teve que começar tudo de novo,” (idem, pp. 51-52) Mas na mesma história, Alexandre conta que conseguiu se reerguer por ter um bom nome na praça e “rolos de notas graúdas forraram os fundos das arcas.” Há um fato digno de nota nesse conto, pois a história cita o aparecimento de uma guariba como protagonista, que, no livro, só surgiria cinco histórias depois. Possivelmente a escolha dessa ordem se deu, pois na “História da guariba”, o casal já está bem mais velho e com dificuldades financeiras. Imaginamos que a citação à guariba ocorreu nesse conto, pois a história que aparece a guariba foi escrita em agosto de 1939 e a do marquesão imediatamente depois, em setembro de 1939. Mas como as mesmas histórias são contadas por Alexandre diversas vezes para os amigos, nada impede que Alexandre cite um fato de outra história, mesmo que ela não tenha ainda aparecido no livro. 86 Como já dissemos, a ordem em que as histórias aparecem no livro dão ideia cronológica do avanço da idade de Alexandre e da transposição da riqueza para a penúria. As lembranças dos tempos de fartura apareceram nas primeiras histórias, diminuindo aos poucos no decorrer das narrativas. A última história em que aparecia ainda um resquício de uma vida boa do casal foi no conto “Uma canoa furada”. Nela Alexandre ainda demonstra ter vigor físico, mostrando-se disposto a nadar o rio São Francisco, caso fosse necessário, e de ainda dar “uma meia dúzia de trompaços” no canoeiro por tratá-lo mal e não dar segurança ao povo que ele carregava. (idem, p.84) A partir da narrativa seguinte, “História de uma guariba”, Alexandre mostra-se cansado e já vivendo em estado degradante, semelhante ao que ele e Cesária vivem quando contam as histórias: “Eu, homem de família, nascido na grandeza, criado na fartura, tendo o que precisava, do bom e do melhor, estava por baixo, muito por baixo: deitado em garranchos e folhas secas, a cabeça num travesseiro de couros dobrados.” (idem, p.85) No conto seguinte, “A espingarda de Alexandre”, percebemos que a história ocorrera próximo de quando ocorrem os serões: “- Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia?” (idem, p.91) Nessa história também há antecipação de um fato que só será contado em história posterior, no caso do porco brabo e da cachorra, que ocorre em “Moqueca”. Isso é mais uma marca de que a história da Moqueca já havia sido contada anteriormente, possivelmente mais de uma vez. Portanto, o fato de a história da cachorra aparecer no livro depois da história da espingarda é somente uma escolha do autor de marcar cronologicamente o que ocorre nas histórias e não a cronologia dos serões que são narrados no livro. Entretanto, o autor dirime qualquer dúvida, pois na abertura da história “Moqueca” Alexandre cita que já havia falado da Moqueca antes. O próprio personagem Alexandre, ao adotar uma metalinguagem alexandrina, tentando explicar o seu modo de narrar e o porquê de uma história dar origem a outra, acaba deixando a marca intertextual do livro: - Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto é de cacetear ninguém. (RAMOS, 2007: p. 14) Essa metalinguagem que Alexandre usou nessa passagem é recorrente em outras histórias, como em “A safra dos tatus”: “Mestre Gaudêncio curandeiro, seu 87 Libório cantador, o cego preto e Das Dores exigiram a história dos tatus, que saiu deste modo” (RAMOS, 2007: p. 58). Ou nesse modo especial em que ele cita seu jeito de contar em “Uma canoa furada”: O acontecido foi coisa muito curta, que eu podia embrulhar num instante. E se converso demais, é porque a gente precisa matar tempo, não sapecar tudo logo de uma vez. Se não fosse assim, a história perdia a graça. Por isso espichei diante dos amigos a cidade grande, os teatros, os bondes, os ovos e a roupa nova, o corte de pano fino e o frasco de cheiro que ofereci a Cesária. Ela vestiu o pano fino e botou o frasco de cheiro de lenço, mas isto não adianta. Sem cheiro e sem pano, a história da canoa seria a mesma, um pouco mais encolhida. (RAMOS, 2007: p 81). Notamos na citação acima que a metalinguagem não trata somente do modo como Alexandre contava suas histórias. Podemos também tirar dela a discussão sobre a forma que em geral Graciliano escrevia seus contos e romances em contradição como as Histórias de Alexandre foram escritas. Enquanto, por exemplo, em Vidas secas e São Bernardo Graciliano escrevia de forma concisa e enxuta, com personagens que pouco falavam, nas histórias do major o autor se prolonga, com muitos adjetivos, parágrafos enormes, compondo um homem bastante falador e que adorava exagerar, mas que contraditoriamente diz detestar exageros. Curiosamente, Alexandre conta aos presentes que algumas de suas histórias foram recontadas por outras pessoas, e que estas acrescentaram alguns itens a elas, e que isso não o agradava, pois ele “detestava exageros”. Esse lema, que não era levado em conta pelo próprio Alexandre que o enuncia, é seguido por Graciliano em suas outras obras. Essa aparente contradição do autor nas Histórias de Alexandre pode ser encarada como um modo digressivo que Graciliano se permitiu. A própria atmosfera das histórias e a aspiração de causar riso nas situações justifica esse exagero. A citada passagem nos ajuda nessa conclusão ao ler que Alexandre diz que sem os acréscimos a história seria a mesma, mas não teria graça. E não é só nas Histórias de Alexandre que a metalinguagem está presente. Ela está praticamente em toda a obra de Graciliano Ramos, como em São Bernardo e Angústia. “Em quase todos os seus romances, o protagonista é um escritor e ocorre o fenômeno do livro dentro do livro, do texto dentro do texto, mostrando-se sob diversas nuances.” (BULHÕES apud OLIVEIRA, 2003)36. 36 Cf. BULHÕES, Marcelo Magalhães. In Literatura em campo minado – a metalinguagem em Graciliano Ramos e a tradição literária brasileira.São Paulo: Annablume/FAPESP, 1999. apud OLIVEIRA, Ana Maria Abrahão dos Santos (Mestre em Literatura Brasileira e Teorias da Literatura pela UFF). A literatura em xeque: a metalinguagem em São Bernardo e Angústia. Disponível em 88 Em Caetés, seu romance de estréia, Graciliano já dava mostras sobre o uso da metalinguagem. Por exemplo, quando João Valério se via em frente ao romance que começara e não conseguia inspiração para seguir com sua escrita. Graciliano mostrava as dificuldades da escrita. Ao mesmo tempo, João Valério fazia o que Graciliano constantemente fazia em relação a seus trabalhos, sempre insatisfeito e crítico severo de seus textos: [...] sentei-me à banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a última tira. Prosa chata, imensamente chata, com erros. Fazia semanas que não metia ali uma palavra. Quanta dificuldade! [...] Folha hoje, folha amanhã, largos intervalos de embrutecimento e preguiça – um capítulo desde aquele tempo. (RAMOS, 1978:p.21) Ou então, no mesmo romance, quando o autor põe, nas palavras do personagem-autor, as preocupações que ele mesmo tinha, as dificuldades de escrever seu romance. Ao mesmo tempo, temos também no trecho abaixo a questão que Graciliano sempre utiliza em suas obras, de obter o máximo de significado com o mínimo de palavras: De mais a mais a dificuldade era grande, as ideias minguadas recalcitravam, agora que eu ia tentar descrever a impressão produzida no rude espírito da minha gente pelo galeão de D. Pêro Sardinha. Em todo o caso apinhei os índios em alvoroço no centro da ocara, aterrorizados, gritando por Tupã, e afoguei um bando de marujos portugueses. Mas não os achei bem afogados, nem achei a bulha dos caetés suficientemente desenvolvida. Com a pena irresoluta, muito tempo contemplei destroços flutuantes. Eu tinha confiado naquele naufrágio, idealizara um grande naufrágio cheio de adjetivos enérgicos, e por fim me parecia um pequenino naufrágio inexpressivo, um naufrágio reles. E curto: dezoito linhas de letra espichada, com emendas... (RAMOS, 1976, p. 45 – grifo nosso). No que diz respeito à ordenação das Histórias de Alexandre, quando são lidas num só livro, podemos perceber melhor a genialidade do autor nas relações dialógicas entre as aventuras do major. Como exemplo da relação intertextual existente entre os contos da coletânea, temos em “O olho torto de Alexandre”, o personagem Seu Firmino contestando parte da história anterior, em que aparece uma onça que é domesticada ao ser confundida por Alexandre com um cavalo, pois na mesma história, que já teria sido contada outras vezes, não teria aparecido o espinheiro em que Alexandre se machuca em meio à montaria: - [...] Essa história da onça era diferente a semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no princípio não falou no espinheiro. http://www.portuguesdobrasil.net/pdf/a_literatura_em_xeque.pdf. Acessado em 29 de novembro de 2013. 89 - Seu Firmino, eu moro nesta ribeira há um bando de anos, todo o mundo me conhece, e nunca ninguém pôs em dúvida a minha palavra. - Não se aperreie não, seu Alexandre. É que há umas novidades na conversa. A moita de espinho apareceu agora. - Mas, Seu Firmino, replicou Alexandre, é exatamente o espinheiro que tem importância. Como é que eu me iria esquecer do espinheiro? A onça não vale nada, Seu Firmino, a onça é coisa à-toa. (RAMOS, 2007: pp 19-20) Quando um autor faz uso da intertextualidade, ele pode ter várias intenções, como de fundo poético, de homenagem a um determinado autor ou obra, etc. No caso das Histórias de Alexandre, percebemos claramente a intenção de trazer humor ao texto, ao mesmo tempo de ocasionar um sentido de unicidade entre as histórias. Essa intertextualidade acarreta uma relação de diálogo entre as histórias e personagens, não só os que estão presentes no serão, como os próprios animais que participam das façanhas que são contadas pelo major. Essa relação de diálogo também há entre a cultura popular e as histórias, assim como temos entre os personagens e o meio social e físico em que vivem. Para Bakhtin: O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra „diálogo‟ num sentido mais amplo, [...] O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal. Ele é objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior, sem contar as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que exercem influência sobre trabalhos posteriores, etc.). Além disso, o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. Assim, o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc (BAKHTIN, 1992: p.123) As duas histórias onde mais se marca essa relação de dialógica entre os contos são “Uma canoa furada” e “A doença de Alexandre”. Na história da canoa, quando o narrador Alexandre se refere à diferença de sua fama na cidade e no sertão, menciona o conhecimento de várias de suas histórias pelo povo do sertão, citando também personagens que participaram da narrativa de uma delas, no caso o Dr. Silva, quando fala sobre o marquesão da jaqueira. 90 A história da onça, a do bode, o estribo de prata, este olho torto, que ficou muitas horas espetado num espinho, roído pelas formigas, circulam como dinheiro de cobre, tudo exagerado. É o que me aborrece, não gosto de exageros. [...] Exatamente o que sucedeu com o marquesão. Lembram-se? Dr. Silva pegou o marquesão de jaqueira e fez dele o que entendeu, encheu a casa de cortiços. Não era o meu marquesão, que só deu quatro pés de jaca. (RAMOS, 2007: p 81) Já em “A doença de Alexandre”, as histórias se entrelaçam na mente de Alexandre. Sua doença o faz delirar e nesse delírio ele conta um sonho em que fatos verdadeiros, ou que ele afirma como verdadeiros, se misturam no sonho narrado. Nesse delírio, Alexandre antecipa um caso semelhante ocorrido no romance Tia Julia e o escrevinhador37, de Mário Vargas Llosa, em que, após uma sobrecarga de trabalho, a mente do personagem Pedro Camacho, um autor de novelas radiofônicas, passa a não funcionar perfeitamente e, então, começa a misturar personagens e fatos de várias rádio-novelas que ele escrevia para uma emissora peruana. Esses dois delírios deslocam e condensam memórias. É importante se registrar que Graciliano também usou o tema do delírio de seus personagens em outras obras, como no conto “O relógio do hospital”, integrante do livro Insônia (1947), e em Memórias do cárcere (1953). No citado conto, temos um protagonista convalescendo numa cama de hospital após uma operação e, sob o efeito da anestesia, passa a sofrer de constantes delírios. Assim, as percepções do personagem, confundidas pelos efeitos dos delírios, criam, numa lógica própria, alucinações que parecem ter um sentido plenamente organizado. Já em Memórias do cárcere, Graciliano cita fatos de quando ele estava doente num hospital e lá tinha delírios freqüentes e, de suas alucinações vieram a inspiração para escrever dois contos que fariam parte de Insônia, “Paulo” e o citado “O relógio do hospital”. Com essa aproximação temática, no conto sobre a doença de Alexandre, no delírio do major, os casos já narrados aparecem misturados, com personagens de um conto assumindo funções que outro personagem tinha em outra história, e todas numa só seqüência, dando espaço para que todas as façanhas do major apareçam numa só narrativa, assumindo papéis diferentes. Primeiro foi um bode. Montei-me nele. [...] Segurava-me desesperadamente, com receio de me despencar lá de cima e esbagaçar-me. O infeliz saltava como se tivesse o diabo no couro, [...] Num dos pulos desaprumei-me e caí. Caí escanchado numa onça-pintada, que se atirou pelo mundo correndo, um pé-de-vento. Andou, virou, mexeu, atravessou um espinheiro (lá deixei o 37 LLOSA, Mario Vargas. Tia Julia e o escrevinhador. Trad. Remy Gorga, Filho. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. 91 olho esquerdo num garrancho), meteu-se num mato cheio de marquesões cobertos de jacas maduras, parou na beira de um rio que, pelos modos, era o S. Francisco. Vai senão quando uma coisa me bateu no estribo. Levantei o rebenque, saltei no chão, mas aí notei que estava com a perna metida na goela de uma jibóia, até a coxa. [...] Nessa altura a cachorra Moqueca apareceu e começou a latir. A cobra assustou-se e livrei-me dela devagarinho, saí atrás de uma guariba que fumava cachimbo e usava gibão e guarda-peito. [...] mas um papagaio, com um olho de gente no bico[...]: Está aqui o olho que eu achei estrepado num garrancho, coberto de moscas e formigas. [...] achei-me de novo no S. Francisco, ouvindo as lorotas do papagaio, que me acompanhava em vôos curtos. [...] Avistei de supetão uma canoa que se largava para a outra banda, carregada de tatus. – Entre para dentro, Major Alexandre. Convidou-me o Dr. Silva, que era o canoeiro [...] (RAMOS, 2007: pp. 105-107) Podemos notar que, também no sonho, Alexandre usa dos exageros - “e o bicho cresceu, passou as nuvens, chegou ao céu, ficou tão alto que eu não enxergava a terra. [...] espetava as estrelas com as pontas, dava marradas na Lua e sapecava os cabelos do focinho no Sol.” (RAMOS, 2007: p 105). Também é recorrente no sonho de Alexandre, o aparecimento de animais falantes – “[...] mas um papagaio, com um olho de gente no bico, chegava junto de mim arrastando os pés apalhetados: - „Está aqui, Seu Major. [...] o olho que eu achei estrepado num garrancho, coberto de moscas e formigas. Bote o olho na cara.‟” (RAMOS, 2007: p. 106). Parte dessas ocorrências, em diferentes arranjos, já aparecia nas histórias originais contadas por Alexandre. Na narrativa do sonho também há o pedido de confirmação de Cesária, assim como o crivo do cego Firmino. “Foi ou não foi, Cesária? [...] Foi Alexandre, confirmou Cesária.” (ibid.); “- [...] Já andou perto de fornalha de engenho? Sinhá Terta sentiu o calor no fim do pátio. [...] - Não é muito não? Perguntou o cego.” (ibid.). Nesse conto final, dedicado à doença do major Alexandre, seu estado febril não é suficiente para que ele emende ao final mais um de seus causos, dizendo que o suadouro resultante de sua febre foi suficiente para inundar a casa, sempre com a intervenção cuidadosa e respeitosa do cego Firmino, que zela pela verossimilhança narrativa. Seguindo essa linha de encaixe, em que fios vão sendo desenrolados, ao mesmo tempo em que são deixadas pistas no labirinto narrativo entre as histórias, temos as citações do papagaio falador, cujas incongruências monetárias que o cercam durante as histórias, serão demonstradas posteriormente com mais detalhes neste trabalho. As citações aparecem em várias histórias, e o encaixe aparece não só para os personagens do livro que participam ouvindo as narrativas e dialogando 92 com Alexandre, mas também para os leitores que com elas interagem e dialogam, ao perceberem que elas fazem sentido num contexto global, ao relembrá-las todas as vezes em que elas aparecem. A história sobre o olho de Alexandre acaba por servir como aporte para outras histórias onde o seu olho torto é relembrado. A atitude questionadora do cego Firmino é melhor entendida quando percebemos que ela é recorrente em quase todas as histórias. Da mesma forma, a atitude do casal durante todo o livro demonstra que o encaixe entre os apartes de Cesária e a narrativa de Alexandre forma um todo. A relação com a tradição e cultura populares está também na representação da audiência de Alexandre, assim como no próprio evento das reuniões em que Alexandre conta suas histórias. Porém, assim como em autores como o português Carlos de Oliveira, que também importa valores populares para sua obra, a tradição em Graciliano Ramos, e especificamente nas Histórias de Alexandre, não é incorporada diretamente, mas por um viés alternativo em que aparecem a crítica, a ironia, o riso e a comicidade. Esses temas também são importantes em uma modalidade ligada à cultura popular, em alguns de seus subgêneros, bastante presente em Histórias de Alexandre, a literatura de cordel. Algumas histórias contadas no cordel trazem características semelhantes aos contos do citado livro de Graciliano, como as ligadas a atos de heroísmo, “histórias de animais, calcadas nas velhas fábulas em que o riso brota espontâneo nos lábios de quem as lê ou as escuta. É a magia da literatura oral preservada no bom cordel, que dela deriva”. (HAURÉLIO, 2012: p.12) Marco Haurélio, na sua Antologia do cordel brasileiro nos expõe que “comicidade e riso são marcas de alguns personagens consagrados do cordel, conhecidos por sua peraltice, originários também dos contos populares”. (idem, p.12) Essa relação tão próxima entre os contos populares de tradição oral e a literatura de cordel foi primordial para que o cordel se fizesse presente em algumas das histórias do major Alexandre. Todo o ambiente que cerca Alexandre e Cesária marca um cenário que indica profunda carência. Já na apresentação do casal, temos noção que Alexandre “tinha uma casa pequena, meia dúzia de vacas no curral, um chiqueiro de cabras e roça de milho na vazante do rio” (RAMOS, 2007: p 9) e que ele acendia o cigarro ao candeeiro de folha. Mestre Gaudêncio acomodava-se num cepo que servia de cadeira e Seu Libório sentava-se sobre uma mala de couro cru. Os amigos que se 93 encontram na pequena sala da casa de Alexandre são, além de gente do povo, representantes de certos papéis sociais que indicam a importância que o autor dá a eles como signos de uma cultura popular tradicional. Segundo Osman Lins, esses amigos “formam o constante e limitado auditório. Todos, [...], na orla da mendicância declarada, flutuando entre a magia e a arte popular sem preço, indivíduos marginais, inofensivos, não integrados em nenhuma atividade produtiva” (LINS, apud RAMOS, 1981, p. 189). Mestre Gaudêncio é um curandeiro, “que rezava contra mordedura de cobras”, e outras tantas doenças. Das Dores, afilhada do casal, era benzedeira de quebranto. O curandeiro no interior é uma pessoa bastante procurada pelo povo, independendo de seu credo religioso. A benzedeira igualmente é uma pessoa que possui respaldo junto ao povo diante de seus poderes de cura. O próprio narrador do livro acaba emprestando sua voz ao pensamento de Alexandre, e por tabela ao povo do interior nordestino, ao mostrar simpatia pela sabedoria do curandeiro: “Mestre Gaudêncio curandeiro, homem sabido, explicou uma noite aos amigos que a Terra se move, é redonda e fica longe do Sol umas cem léguas.” (RAMOS, 2007: p. 79). O Mestre Gaudêncio também era chamado por Alexandre a opinar em certas ocasiões em assuntos que ele achava que o curandeiro era a pessoa certa: “Digame uma coisa, Mestre Gaudêncio, com franqueza: o senhor acredita em artes do diabo?” (RAMOS, 2007: p. 99). Para Alexandre só fatos especiais escapavam do poder de curandeiros e benzedeiras: “Baixei a cabeça, triste, assuntando na infelicidade e procurando um jeito de me curar. Não havia curandeiro nem rezador que me endireitasse, pois mezinha e reza servem pouco a uma criatura sem olho, não é verdade, Seu Gaudêncio?” (RAMOS, 2007: p 23). Ou, em outra passagem, em que entram também conhecimentos populares de Cesária e da Sinhá Terta na cura de uma enfermidade de Alexandre: - Arreado, meu amigo, queixou-se. A princípio era uma gastura, o estômago embrulhado e a vista escurecendo. Botei para o interior a purga de pinhão de Mestre Gaudêncio e a garrafada que Cesária fez. Das Dores rezou uma oração forte. Depois veio Sinhá Terta. Ai! (RAMOS, 2007: p. 104) Temos ainda um fato interessante que representa o sincretismo religioso do povo brasileiro, em que religiões se misturam, e pessoas mostram fidelidade a mais de um credo, não se mostram subordinados aos ditames de seus chefes religosos, está na relação de Alexandre e Cesária que são padrinhos de Das Dores. Ou seja, 94 ela possivelmente foi batizada no catolicismo pelo casal, mas isso não impediu que ela seja uma benzedeira. E durante várias passagens do livro, a religião cristã se mistura com aspectos ligados às religiões africanas, com a mesma naturalidade com que o povo trata sua conjunção, se nisso se envolve o bem do cidadão e não o bem de uma religião. “Das Dores rezando a oração forte, Cesária no cós da saia de Nossa Senhora” (RAMOS, 2007: p. 106). “- Sem dúvida, Seu Alexandre, respondeu o curandeiro. Quem não acredita? Tenho tirado com reza muito espírito mau do couro de cristão” (RAMOS, 2007: p. 99). Mas o mais importante nessa questão é que usam de conhecimentos provindos da sabedoria popular para exercerem suas práticas. O cantador de emboladas, como Seu Libório, até hoje é encontrado e desfruta de respeito nas camadas populares nordestinas pela sua habilidade e criatividade artística. As emboladas sempre foram muito usadas nos engenhos de Pernambuco e Alagoas, este último o estado natural do autor do livro. A embolada é invariavelmente composta em combinações de dois versos, cada um de doze sílabas, com a sucessão de sílabas agudas e breves, de duas em duas, formando um ritmo convidativo a dançar. Ela ocorre nas estrofes de cocos e desafios, caracterizada por textos declamados rapidamente sobre notas repetidas. As canções populares eram também usadas para difundir histórias e aventuras, como as de Alexandre, e muitas das vezes inseriam histórias do imaginário popular. Seu Libório, desse jeito, também procurava musicar os feitos de Alexandre: “- Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, Seu Alexandre, opinou Seu Libório. E eu fiquei pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na viola.” (RAMOS, 2007: p. 19). “Muito bem, Seu Alexandre, o senhor é um bicho. Vou botar essas coisas em cantoria. O olho esquerdo melhor que o direito, não é, Seu Alexandre?” (RAMOS, 2007: p. 25) Muitos cantadores eram também cordelistas e acompanhavam a leitura das histórias do cordel com sua viola. Desse jeito, havia vários tipos de artistas que participavam dessas performances. O cantador poderia ser também o autor ou adaptador da história que originava na canção, assim como poderia também ser quem tocava a viola. Da mesma forma, poderíamos ter um violeiro e um cantador/contador. Essa diferenciação entre cantador e contador é necessária, pois a história, mesmo com uma viola ao lado, poderia ser somente recitada como um 95 poema ou contada em forma de prosa, servindo a viola (podendo ser esta acompanhada ou substituída por acordeon ou pandeiro) para chamar mais a atenção do público. Também havia autores de folhetos que pagavam cantadores para atuarem na performance e após o ato, passavam a vender sua arte. O narrador Alexandre deixa marcado, além da já citada nota de advertência do autor no início do livro, que algumas de suas histórias também estariam em folhetos de cordel e na cantoria dos cantadores com suas violas, como podemos ver abaixo, respectivamente, em citações dos contos “O marquesão da jaqueira” e “Uma canoa furada”. E vimos uma parte das coisas aproveitadas depois pelo Silva e desenvolvidas num escrito que se vendeu muito nas feiras e agradou. [...] Mas confesso a vossemecês que no folheto dele, publicado em letra de forma, há algum exagero. Silva não se refere ao marquesão nem fala em jaqueiras. [...] Ficam, portanto, os amigos avisados de que na história do Silva há uns floreios. Acho que ele procedeu com acerto: quando um cidadão escreve, estira o negócio, inventa, precisa encher papel. (RAMOS, 2007: pp. 55-56) A história da onça, a do bode, o estribo de prata, este olho torto, que ficou muitas horas espetado num espinho, roído pelas formigas, circulam como dinheiro de cobre, tudo exagerado. É o que me aborrece, não gosto de exageros. Quero que digam só o que eu fiz. Esse negócio da canoa entrou num folheto e hoje se canta na viola, mas com tantos acréscimos que, francamente, não me responsabilizo pelo que escreveram. [...] O caso da canoa também foi muito aumentado. É bom prevenir. Se vossemecês ouvirem falar nele em cantoria, fiquem sabendo que as nove-horas são astúcias do poeta. (RAMOS, 2007: p. 81) Na história da canoa furada, quando Alexandre critica as mudanças que teriam sido operadas em suas façanhas quando transpostas para o papel, também estaria lutando pelo seu papel de contador, que ele fosse a única fonte, temendo que a palavra escrita suplantasse a história oral. Mesmo que inconscientemente, ele estaria defendendo a própria cultural popular e a tradição oral de se contar as histórias. Mais adiante, no capítulo 5, voltaremos a tocar nesse assunto, quando falarmos sobre o narrador de Walter Benjamin. Na mesma história, quando ele conta sobre a tentativa de mudança do campo para a cidade, ele reclama das transformações operadas pela modernidade, do espírito de competição, e que lá na cidade ele não tinha representatividade, enquanto que no sertão ele tinha voz e suas façanhas eram conhecidas por toda gente: Matuto, quando sai do mato, perde o jeito. Quem é do chão não se trepa. Ninguém me conhecia na cidade cheia como um ovo. [...] Não me aprumo 96 nessas ruas grandes, onde gente da nossa marca dá topadas no calçamento liso e os homens passam uns pelos outros calados, [...] Nunca vi tanta falta de educação. [...] Nos meus pastos a coisa era diferente. Lá eu tinha prestígio [...] Na capital só viam em mim um sujeito que vendia gado. Mas se quiserem saber a minha fama no sertão, dêem um salto à ribeira do Navio e falem no major Alexandre. Cinqüenta léguas em redor, de vante a ré, todo o bichinho dará notícia das minhas estrepolias. (idem, pp.80-81) Nessa citada tentativa de mudança do campo para a cidade por parte de Alexandre, na qual ele se depara com uma realidade que não lhe agrada e à qual não se adapta, temos reforçado um sentimento que Graciliano já apresentara em seus romances, pois ele mostrava justamente a fase de transição do sertão para a sociedade industrial e urbana, e para a qual o homem sertanejo pobre e sofrido não se sentiu preparado. Sonia Brayner assinala que o cenário dos romances de Graciliano era formado pela "pressão trituradora exercida pelas máquinas de um novo consumo sobre seres despreparados e frágeis, a seca, a miséria do lavrador". (BRAYNER, 1978: p.11) Sobre o mesmo assunto, Rui Mourão, em seu livro Estruturas, focaliza o contexto social que predomina obras de Graciliano, ressaltando as estruturais arcaicas do sertão e as forças modernizadoras, do ambiente urbano e da industrialização: Animando ambientes rurais e urbanos em seus romances, Graciliano Ramos levantou uma obra extremamente representativa desse período da vida brasileira, em que os pratos da balança oscilavam entre a cidade e o campo, sem se definir nesse ou naquele sentido, pois o estabelecimento da nova estrutura não implicou na derrocada completa da antiga, que continuou resistindo dentro do tempo (MOURÃO, 1969, p.136). O cego preto Firmino era um homem bastante humilde, sem posses, que tinha nas visitas a Seu Alexandre sua única distração. Reforce-se que quem ouvia as histórias não eram fazendeiros, homens ricos e nem autoridades, prefeitos ou mesmo policiais, e sim só gente pobre, do povo. E quem essa platéia procurava para ouvir histórias tinha que ser um igual, alguém que entendesse seu sofrimento. O cego, embora tivesse bastante respeito por Alexandre, era o único que sempre se levantava quando discordava de alguma parte da história ao notar algo que não encaixava ou que parecia ter uma versão diferente em relação a outras vezes em que o major já havia contado, mas quando fazia isso, era sempre com muita humildade e respeito ao dono da casa, para não ofendê-lo e também por sentir uma diferença de posição social na relação dos dois. Esse posicionamento de Firmino mostrava uma relação à semântica de seu nome, pois, mesmo com sua 97 simplicidade, mostrava-se firme em suas opiniões. Ele poderia também ser considerado uma espécie de consciência crítica do narrador, para não deixar que ele entrasse por um caminho e nele se perdesse. Também tem valor expressivo especial o fato de ser um cego aquele que via e cobrava o respeito à coerência, à verossimilhança, àquilo que pudesse de fato ter sido comprovado (e visto) por alguém que não o próprio Alexandre, narrador autodiegético. Na história “O olho torto de Alexandre”, o cego observa que na história da onça pintada que, confundida na escuridão com uma égua, fora amansada por Alexandre, aparece um fato diferente que não tinha sido referido nas outras três vezes em que fora contada: - [...] Mas aí, se me dão licença... Não é por querer falar mal, não senhor. [...] Pois é, tornou o cego. Vossemecê não se ofenda, eu não gosto de ofender ninguém. Mas nasci com o coração perto da goela. [...] Então, como o dono da casa manda, lá vai tempo. Essa história da onça era diferente a semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no princípio não falou no espinheiro. (RAMOS, 2007: p. 35) Luiz Fernando Carvalho, responsável pela direção do programa que adaptou para a televisão três das histórias de Alexandre (embora a emissora tenha anunciasse que eram duas) – “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de Alexandre” e “A doença de Alexandre” – classificou, assim, a platéia de Alexandre: [...] com seu bloco de sujos, sua audiência de excluídos: um cantador de emboladas, um cigano sertanejo, uma benzedeira, um cego. Excluídos do mundo da produção e do trabalho, parecem adquirir, assim, com o estigma da marginalidade, uma aura sagrada. (CARVALHO apud O Globo – Prosa e Verso, 14 de dezembro de 2013, p.6) No livro Retrato fragmentado, escrito por Ricardo Ramos, filho de Graciliano, aparece uma declaração de Mestre Graça acerca da construção de seus personagens: “Minhas personagens não são seres idealizados e sim homens que eu conheci”. Essa afirmação é confirmada em vários de seus livros. Caetés se passa em Palmeiras dos Índios, onde ele viveu durante alguns anos e onde inclusive exerceu o cargo de prefeito. Em Angústia temos várias passagens que nos levam a passagens da vida do autor em Alagoas e no Rio de Janeiro. Temos ainda as obras memorialistas Infância e Memórias do cárcere. Em sua dissertação, Monteiro Filho (2013) comenta sobre traços da vida do autor em seus livros, fato que Antonio Candido também apontara: O personagem Seu Ribeiro, de São Bernardo, reaparece de forma nítida na figura do avô do escritor, em Infância. O ceticismo de João Valério surge retratado posteriormente entre as marcas da existência sofrida relatada 98 como autobiografia pelo escritor Graciliano. (MONTEIRO FILHO: 2013, p.31) E para nós não há diferença alguma entre seu Ribeiro de São Bernardo e o avô do narrador em Infância: ambos têm a consistência autêntica de seus personagens criados. [...] A ficção, neste caso, explica a vida do autor, ao contrário do que se dá geralmente. (CANDIDO, 2012: 70) O próprio Graciliano já dera mostras dessas marcas de sua vida em sua obra ao falar sobre a procedência e confecção de seus personagens de Vidas secas na Revista O Cruzeiro de abril de 1953: [...] utilizei num conto a lembrança de um cachorro sacrificado na Maniçoba, interior de Pernambuco, há muitos anos. Transformei o velho Pedro Ferro, meu avô, no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinhá Vitória; meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois meninos... Aí me veio a ideia de juntar os cinco personagens (o bicho, o matuto, a mulher e os garotos) numa novela miúda – um casal, duas crianças e um cachorro – todos brutos [...] (ABEL, 1999, p.257) Da mesma forma, havia alguns indícios de que Alexandre fora inspirado em José Baía, personagem de Angústia e Infância, e que sempre aparece como de grande importância em sua infância e lhe contava histórias de onças e grandes aventuras. Alexandre se assemelha também a José Baía por suas grandes qualidades como vaqueiro, excelente montador de cavalos, o que o aproxima também a Amaro de Angústia e Infância, Fabiano, de Vidas secas. Monteiro Filho lembra também da aproximação de Alexandre com Paulo Honório, de São Bernardo, “como astuto negociante, ainda que sem a falta de escrúpulos deste”. (MONTEIRO FILHO, 2013, p. 35) Sobre a procedência e inspiração de Graciliano Ramos para construir o personagem Alexandre, além da citada acima acerca de José Baía, temos o Barão de Münchausen e suas aventuras maravilhosas, que muito se assemelham às façanhas de Alexandre, pelo seu caráter fantasioso e voltado à cultura popular. Essa relação de Alexandre com o Barão alemão é também citada por Rui Mourão e pelo mestre Edmar Monteiro Filho, que defendeu dissertação sobre as Histórias de Alexandre e também por Clara Ramos. (MONTEIRO FILHO, 2013: p.110). Outra possível inspiração é com tipo folclórico Pedro Malazartes, que tem origem ibérica e depois sofreu uma adaptação em outras histórias do interior do Brasil, principalmente do nordeste. Essa relação eu acredito que seja a que menor influência teve, pois o caráter de Malazarte muitas vezes prima pela desonestidade e trapaça e não só por mentiras e exageros, sendo só estes dois últimos relacionados 99 a Alexandre. Uma outra inspiração para Alexandre foi citada por Ricardo Ramos, não por ele defender, e sim por ironizá-la. Em seu livro Retrato fragmentado, Ricardo Ramos conta que alguns detratores de Graciliano quiseram relacionar o personagem Alexandre a Getúlio Vargas, o que nos pareceu absurdo. O interesse dessa ligação para os que levantaram essa teoria seria o de acusar Graciliano de ter sido cooptado por Getúlio e assim quis homenageá-lo com um personagem que, embora mentiroso, tinha o carinho do público leitor. Por último, verificamos que, ao menos uma vez, Graciliano pensou no seu Alexandre como um personagem heróico da antiguidade. Analisando o catálogo dos manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos no tocante aos contos de Histórias de Alexandre, verificamos que, na “Apresentação de Alexandre e Cesária”, que foi escrita originalmente como texto introdutório ao livro 7 Histórias Verdadeiras, Graciliano colocou a expressão “o conquistador macedônio”, que depois foi suprimida. (LIMA & REIS,1992: p.36) Essa intenção inicial nos levou ao texto do prefácio de José Geraldo Vieira: Pensei comigo que, [...] também Graciliano tivesse em determinado hiato de sua vida tentado uma síntese biográfica de Alexandre, o Grande [...] Mas em casa, [...] se desfez o equívoco. Não, meus amigos, o Alexandre de Graciliano Ramos não é o rei da Macedônia, o mais famoso capitão da Antiguidade[...] (VIEIRA apud RAMOS, 1973: pp.16-17) As histórias de Alexandre seguem uma característica comum de exaltar seus feitos, exagerar no tamanho de animais e objetos, incluir animais que não só falam como raciocinam e têm opiniões. Os animais dessas histórias possuem outras capacidades próprias de humanos, além de habilidades específicas de animais da mesma espécie, com toques alexandrinos esperadamente exagerados, e outras, além de habilidades próprias de outros de espécies diferentes. Elas pertencem a um universo muito comum no interior, o dos famosos contos de mentiroso, que são predominantes nas histórias de caçadores e pescadores. Essas marcas são características do folclore nordestino, para além de serem uma vertente narrativa que atravessou muitas fronteiras, difundindo-se na tradição oral e na escrita, como é o caso das famosas Aventuras do Barão de Münchausen. Tal pode ser detectado pelo número grande de vezes em que aparecem casos de mentirosos nas histórias tradicionais recolhidas por Câmara Cascudo e Manuel Ambrosio. Nelas há figuras de onças, papagaios, caçadores com façanhas extraordinárias, homens que exageram na medida de contar os seus feitos, a presença do diabo e dos santos no imaginário 100 dos personagens, dentre muitas outras que também encontramos nas aventuras de Alexandre. Consultando o livro Histórias, lendas e folclore de nossos bichos, de Eurico Santos, não localizamos menção a histórias parecidas com as de Alexandre, porém vemos algumas poucas aproximações. Nos capítulos “Os literatos e a fauna” e “A inteligência dos animais”, o autor conta sobre a existência de histórias com macacos, cachorros e aves em geral dotados de extraordinária inteligência. Isso nos levaria à história da cachorra Moqueca, que faz compras para os donos e inclusive sabe se o comerciante dá troco certo ou não e às duas histórias livro com papagaios, que não só falam como raciocinam e até servem como advogados. E temos também à história da guariba, que depois de fazer pilhérias com Alexandre, mostra que tinha o dom da fala e ainda propõe um acordo ao major. Em relação aos papagaios, o autor aponta que tem havido uma tendência no interior do Brasil a termos histórias em que o pássaro é apresentado sempre com maus hábitos, e que isso possivelmente se deve ao clamor que se deu no interior para que se extinguissem os papagaios, porque contava-se que “se o lavrador não é diligente, não chega a colher a roça, porque eles comem-na toda [...] Pode dizer-se que estas aves comem a quarta parte das roças”. (SANTOS, 1957: p.281) As histórias com onças em geral aparecem com o felino sendo trapaceado por outro animal. Em Histórias de Alexandre, temos a história do marquesão que se transforma numa jaqueira, porque os pés do móvel tinham sido feitos com madeira da árvore. No livro de Santos, é apontada a existência de história de bichos que viram plantas, mas são bichos pequenos, como vermes e lagartas. Como o nordeste brasileiro, assim como o país inteiro, foi colonizado com a presença de inúmeras culturas, há uma grande diversidade nessa parte. São tantos, desde portugueses que vieram com as caravelas de Cabral e milhares de outros que vieram depois, além de espanhóis, franceses, holandeses e outros europeus, assim como de africanos que foram trazidos forçados para trabalharem como escravos, que nossa cultura foi sofrendo interferências diversas que resultaram numa linha com traços de variados povos. Desse jeito o folclore nordestino mostra histórias populares cujos temas possuem registros em outros países europeus. Isso mostra que essas histórias, mesmo sem um registro físico, ficam no inconsciente do povo que já as ouviu, e vão sendo passadas de geração em geração mesmo quando 101 saem de uma região para outra. Embora não haja condições de se afirmar, as histórias de Alexandre podem não ter tido sua origem somente nas terras nordestinas, mas o fato é que elas carregam aspectos regionais. Mesmo que sua origem tenha sido de algum povo europeu, os bravos nordestinos trataram de dar toques que pintam um quadro físico e social do nosso nordeste e de integrantes de seu povo. Nesse sentido, no plano dos registros culturais e no das seleções de itens léxicos, pode-se apontar um conjunto de exemplos que indicam uma “identidade” nordestina presente nos relatos da obra de Graciliano Ramos aqui considerados. José Geraldo Vieira, no prefácio de Histórias de Alexandre, expõe algo que marca com exatidão todo esse processo que faz com que as histórias fiquem borbulhando pelo ar nordestino por séculos e vão sendo repetidas pelo seu povo: Não é a memória, encravada no cérebro arcaico (dos modernos anatomistas) ou inserida no tálamo e no hipotálamo, que nos faz captar histórias ouvidas, herdadas, seculares, folclóricas, ecológicas, internacionais, antípodas. Não. Elas esvoaçam pelo ar, revestem a Terra, rodeiam-na como algo mais translúcido do que a atmosfera [...] Lá na terra de Graciliano, elas se dependuram como trapos hialinos nas arestas dos mandacarus e dos muçambês, nos flocos de algodão, nas noras dos poços, nas penas e nos bicos das gurinhatãs; diluem-se no orvalho, pulverizam-se nas estradas, engrossam as cordas das violas, intrometem-se nos grumos dos travesseiros. E deve ter sido obedecendo a uma espécie de cacoete generalizado que o antigo Prefeito de Palmeiras dos Índios, muito tempo depois já em Maceió, ou no Rio, como um sacristão que faz rol de roupas litúrgicas ou inventário de safras de ex-votos, reconstituiu o milagre da onça humilhada à condição doméstica de bode de quintal; ou sem saber da existência de Tuti Name (O 38 Livro do Papagaio) , recompôs aquela história do louro que após um curso oral de catecismo e rezas foi para plena caatinga ensinar o gradual canônico do rosário (com ave-marias, padre-nossos, salve-rainhas) aos bandos estridentes dos seus irmãos nômades. (VIEIRA, apud RAMOS, 1973, p. 19) Em algumas das histórias, como já acima observado, Alexandre cita a existência de versões de suas aventuras em folhetos e em rodas de viola, dando a 38 Tuti-Nâme é o nome dado para a versão persa da obra sânscrita Sukasaptati (70 contos de papagaio. Tuti-Nâme é uma coleção de fábulas e contos de moral contidos por uma estória molde que mostra uma mulher de um mercador que quer viajar para se encontrar com seu amante enquanto o seu marido, que havia a presenteado com um papagaio, viaja a trabalho. Para evitar que a esposa se encontre com o amante, o papagaio a aconselha a somente ir após terminar uma história. Como nas Mil e uma Noites, a história contada pelo papagaio não termina no final da noite, fazendo com que a mulher tenha que adiar sua saída, e assim ele vai contando uma história que se encaixa com outra seguidamente, só devendo concluir quando o marido retorne de viagem. A obra original em sânscrito data provavelmente do século X. Uma versão dessa história aparece no nordeste Brasileiro e está no livro de recolhas de Câmara Cascudo, Contos Tradicionais do Brasil (folclore) com o título “A História do Papagaio” (PESSOA apud CASCUDO,2010: pp.149-154) 102 entender que, visto o perfil de mentiroso do protagonista, na verdade Alexandre se apropriava das histórias populares e se encarregava de colocar-se sempre no centro das aventuras. Nessa apropriação, Alexandre criava uma paródia própria das histórias orais já existentes, incluindo-se nas histórias. Nessa paródia das histórias, ele cria uma nova, misturando-a com fatos que ele teria vivido e com outros fantasiados. Mal percebe Alexandre que ele se torna uma paródia de um herói imaginado, com suas roupas esfarrapadas, sua espingarda que antes era capaz de atingir um veado a léguas de distância, na verdade não passa de uma velha arma enferrujada. A antiga arca que, nas palavras do dono da casa, teria servido para guardar moedas de ouro, acaba servindo para que seus convidados se sentem, pois não há cadeira para sua platéia. Cada história narrada por Alexandre, que prima pelo tom mentiroso e exagerado, forma um conto em cima de outro conto, no caso desse último, cada história narrada. Bella Josef, em seu artigo sobre “O espaço da paródia, o problema da intertextualidade e a carnavalização” assim comenta: O conto propriamente dito é introduzido na narrativa do narrador implícito, encaixado no conto que parodia. Quando um se fecha, fechando o outro, a obra se explica por si mesma, criando um sistema à medida que se realiza como texto. O essencial da “história na história” está em que é sempre uma 39 “leitura na leitura” [...] (JOSEF, 1980:63) Alexandre utilizava em quase todas as histórias um termo somente utilizado no interior do Nordeste, que acabava denotando o tom exagerado de suas histórias: “despotismo”. “Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo [...]” (RAMOS, 2007: p. 33); “Mamou e cresceu, ficou um despotismo de cabrito.” (idem: p.43); “ [...] o estribo estava grande que era um despotismo, sim senhores.” (ibid: p. 61); “A princípio não atinei com a causa daquele despotismo e pensei num milagre.” (ibid: p. 75). Esse termo fora já utilizado por Graciliano em outras obras, algumas vezes no sentido só adotado no nordeste brasileiro, significando exagero ou excesso, e outras no sentido ligado à pessoa déspota. Por exemplo, em Vidas secas, no capítulo “Inverno”, no trecho a seguir, fala-se sobre o excesso de chuva que estaria para terminar: “Dentro em pouco o despotismo de água ia acabar”. (RAMOS,2000: p.65). No capítulo “Verão” de Infância, já temos a mesma palavra no outro sentido: “Na rua examinei o ente sólido, áspero como os trabalhadores, garboso nas cavalhadas. Vi-o arrogante, submisso, agitado, apreensivo – um 39 In DIAS, Angela, LYRA, Pedro (editores). Tempo Brasileiro, 62. Sobre a paródia. Jul./set., 1980. pp.53-70. 103 despotismo que às vezes se encolhia imponente e lacrimoso” (RAMOS, 1995: p. 26). No capítulo “Nuvens” da mesma obra, a palavra se refere ao excesso de chuva que talvez chegasse: A vazante das abóboras, por exemplo, ficava longe. Sozinho, não me seria possível atingi-la. Dez ou vinte aboboreiras na terra de aluvião. Amaro havia dito que uma bastava. Se o inverno viesse, aquele despotismo seria estrago; chegando a seca, não se colheria um fruto, ainda que enterrassem na lama todas as sementes. (idem, p.12) Em Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos questionava, da prisão, se as prisioneiras seriam realmente levadas para terras alemãs e queria entender o porquê delas serem entregues às mãos dos nazistas. Nessa passagem de Memórias do cárcere, Graciliano utiliza a palavra “despotismo” no sentido mais usual fora do Nordeste: Mas porque, na horrível ignomínia, haviam dado preferência a duas criaturas débeis? Elisa Berger, presa, era tão inofensiva quanto o marido, preso também. [...] Olga Prestes, casada com brasileiro, estava grávida. Teria filho entre inimigos, numa cadeia. Ou talvez morresse antes do parto. A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchiame de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à ditadura ignóbil. (RAMOS, 1954: p.113-v.4) Outras características no modo de Alexandre contar, e mesmo do autor escolher contar suas histórias utilizando um contador de causos, acabam nos dando mais sinais da presença da cultura popular em seu livro. Na época em que as histórias foram escritas – no final da década de 30 do século passado (com exceção de “O missionário” que foi escrita em 1952) – o rádio ainda não era muito presente no cotidiano dos nordestinos, principalmente entre os mais pobres. A eletricidade só havia chegado a poucas casas, e mesmo assim nos grandes centros ou nas fazendas dos grandes latifundiários, o que em nenhum dos casos era o de Alexandre e Cesária. Desse jeito, facilitava-se a manutenção da reunião de familiares ou amigos para ouvirem histórias. Quando havia alguém alfabetizado na família, esse poderia ser o leitor de histórias escritas, e quando não havia esse elemento, as reuniões se davam com histórias orais. 40 Só a partir da popularização do rádio, essas reuniões ficaram mais raras, pois a família passou a se reunir em torno do rádio, em função de sua novidade, para ouvir notícias, músicas, histórias, e até anúncios comerciais e os preços dos produtos. Com a introdução dos aparelhos 40 Sobre esse assunto, tivemos o aporte do subitem “O Nordeste como ambiente sociocultural” do livro Literatura popular em verso – Tomo I, organizado por Manoel Cavalcante Proença, pp. 13-16. 104 menores, houve uma dispersão das reuniões de família, pois os membros passaram a ter mais opções de encontro. Além de termos um narrador de histórias orais, temos descritas características do ato de narrar explorado e destacado no livro. Por exemplo, temos a importância do gestual para aumentar a capacidade de dizer pela ação do narrador Alexandre. Alexandre “falava cuspindo a gente, espumando como um sapocururu” (RAMOS, 2007: p. 9) Alexandre costumava contar suas histórias “escachando-se na rede” e, para finalizar a história de sua primeira aventura, ele “levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando”. (idem: p. 34) Esse gestual faz com que a criatividade do narrador das histórias seja exercitada, fazendo com que ele entre em sintonia com sua audiência, que reage, tal qual ocorre nas apresentações das feiras nordestinas, onde populares interagem com os artistas. Essas e outras marcas são características da literatura oral, e popular, e são incorporadas à literatura escrita, e popular, de Graciliano Ramos. Essa interação entre contador e ouvintes é um dos códigos do sistema semiótico presente na literatura oral, o chamado código cinésico, onde movimentos corporais do contador podem ser acompanhados ou não por seus ouvintes. Desse código, podemos exemplificar com essa passagem da “Primeira Aventura de Alexandre”: “A benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas costas do animal:” (ibid: p. 16). Outro exemplo é encontrado em “O olho torto de Alexandre”: “Alexandre bocejou, estirou os braços e esperou a aprovação dos ouvintes. Cesária balançou a cabeça, Das Dores bateu palmas [...]” (ibid: p. 25). Também temos outro código da literatura oral mostrado em algumas das histórias, o musical, mostrando que as histórias podem ser contadas ou acompanhadas de música. Anteriormente já falamos sobre o Seu Libório, o cantador de emboladas, assim como passagens em que esse aspecto é mostrado. Outro código presente na literatura oral, e marcado no livro, é o paralinguístico, com fatores vocais que importam na emissão das histórias, tais como a entoação e qualidade da voz de Alexandre, riso e outras reações de seus amigos. Desse último código, podemos citar essa passagem de “O olho torto de Alexandre”: “[...] e o cego preto Firmino desculpou-se rosnando.” (ibid: p. 22). E ainda sobre o código paralinguístico, a última história, “A doença de Alexandre”, outros exemplos estão presentes: “- Sei 105 não, Seu Firmino, respondeu mole o dono da casa.” (ibid: p. 104); “- Esteja quieto, Seu Alexandre, murmurou o negro.” (Ibid: p.104.) 106 Capítulo 4 As narrativas de Alexandre: suas características e estratégias de convencimento Em todos os contos de Histórias de Alexandre, Alexandre apresenta uma postura na qual ele se indigna por alguém duvidar de sua palavra. Nessa indignação, Alexandre em geral coloca um poder de convencimento que é característico dos narradores tradicionais, porém com uma característica própria, pois se irrita e monta estratégias para que a audiência, em especial o cego Firmino, acredite no fato narrado. Mas o cego mantém sua postura. Alexandre indignou-se, engasgou-se, e quando tomou fôlego, desejou torcer o pescoço do negro: - Seu Firmino, eu moro nesta ribeira há um bando de anos, todo o mundo me conhece, e nunca ninguém pôs em dúvida a minha palavra. - Não se aperreie não, Seu Alexandre. É que há umas novidades na conversa. A moita de espinho apareceu agora. (RAMOS, 2007: op. cit., p. 20) E não foi somente dessa vez que o cego interpelou Alexandre ao notar algo que não chegava bem a seus ouvidos. Em “A história de um bode”, ele interrompe Alexandre quando percebe que a história não tinha sido totalmente costurada, e como sempre, Alexandre se irrita com a interrupção: Nesse ponto o cego preto Firmino fez uma pergunta: - O bode tinha descido com o senhor ou tinha ficado na ribanceira? - Não me interrompa, Seu Firmino, resmungou Alexandre. Assim a gente não pode contar. (idem: p. 48) Em “O estribo de prata” ocorre o mesmo: 107 – Dois metros, Seu Alexandre? Inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja muito. - Espere, Seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o senhor ou fui eu? - Foi o senhor, confessou o negro. - Então escute. O senhor, que não vê, quer enxergar mais que os que têm vista. Assim é difícil a gente se entender, Seu Firmino. Ouça calado, pelo amor de Deus. Se achar falha na história, fale depois e me xingue de potoqueiro. - Perdoe, rosnou o preto. É que eu gosto de saber as coisas por miúdo. (RAMOS, 2007: p. 58-59) Ao perceber a postura do cego, Alexandre passou a se antecipar a ele e explicava sempre que ele via que algo poderia ser alvo de perguntas. Em “A História de um Bode”, temos essa passagem que exemplifica essa postura de Alexandre: “Para Seu Firmino é preciso que a gente diga tudo, palavra por palavra. Se eu não escorresse tantas miudezas, talvez Seu Firmino pensasse que eu tinha viajado com um pé no estribo e outro no chão.” (idem: p. 49). O mesmo ocorre em “A safra de tatus”: “Seu Firmino esta aí fala não fala, com a pergunta na boca, não é Seu Firmino? Tenha paciência e escute o resto. [...] Estarei errado, seu Firmino? Pode ser que esteja, mas parece que foi o que se deu.” (ibid: pp. 74-75). Essa última situação é importante, pois foi a única em que o narrador dos causos dá a entender de que possa ter se enganado em relação a algo contado e/ou teorizado. Em todas as vezes em que o cego desconfia de algo, Alexandre usa o seu citado poder de convencimento, por vezes autoritário e até desaforado, e ao final de tudo, o cego acaba dando razão ao major. Podemos imaginar que essa atitude final do cego seja por respeito à posição hierárquica que Alexandre tinha, principalmente por ele ser o narrador dos casos, mas podemos supor também que ele agisse assim também por querer ouvir mais histórias. De qualquer jeito, Alexandre não deixa de exercer seu poder de persuasão, seja de forma mais difícil, quando trata com Firmino, ou mais fácil, quando o alvo é um dos outros convidados, como Seu Libório, que dessa vez confirma seu convencimento: “Essa história está muito bem amarrada. E a palavra de Seu Alexandre é um evangelho”. (ibid: p. 41) Em mais uma das interrupções do preto cego Firmino, em “A espingarda de Alexandre”, percebemos não somente a irritação de Alexandre, mas agora a participação decisiva, e salvadora para o major, de Cesária, que o socorre ao perceber que o marido não conseguia explicar o que acabara de contar: 108 - Que está dizendo, Seu Alexandre? Exclamou o cego. O senhor garante que o veado tinha um caroço na cabeça, outro no pé? - Que pergunta, Seu Firmino! Pois se eu tirei o couro dele e mandei fazer aquele gibão que está ali dentro, pendurado no torno! - Mas Seu Alexandre, insistiu o negro, o senhor não disse que a espingarda junta o chumbo? Se a espingarda junta o chumbo, como é que os dois caroços estavam tão separados? Creio que houve engano. Alexandre baixou os olhos, tirou do aió um rolo de fumo e palha de milho, desembainhou a faca de ponta e fabrIcou lentamente um cigarro, procurando a resposta, que não veio. - Seu Firmino, o senhor duvida da minha palavra? - Deus me livre, Seu Alexandre. Quem é que duvida? Estou só perguntando. - E pergunta muito bem, gritou Cesária, salvando o marido. Seu Firmino gosta de explicações. Está certo, cada qual como Deus o fez. Quer saber por que o chumbo se espalhou? Não se espalhou não, Seu Firmino: o veado estava coçando a orelha com o pé. (RAMOS, 2007: p. 106-107) Cesária, possivelmente pelo papel de esposa, de ser solidária ao marido em qualquer situação, acaba cumprindo um papel de testemunha das aventuras do marido, e muitas das vezes, como na passagem acima, da história sobre a espingarda de Alexandre, serve como a última prova da verossimilhança da história. E não somente as falas de Cesária servem para dar prova de que Alexandre contava histórias verdadeiras, mas também sua própria atitude poderia servir para tal fim. E como as histórias eram contadas diversas vezes, com Cesária sabendo tudo o que esperar do marido, é pertinente afirmar que a atuação do casal apontava para um enredo em que ambos sabiam o papel a cumprir. Por exemplo, em “O estribo de prata”, em certo momento, Alexandre pede a Cesária que procurasse o chocalho da cascavel que ele havia machucado com o salto de sua bota. Cesária obedece, sai e, convenientemente, ao voltar diz que não encontrou o chocalho, e diz que ele poderia estar escondido em algum buraco: Vá buscar o cachimbo, Cesária. E procure o chocalho da cascavel, que você guardou. Cesária levantou-se da esteira e desapareceu. [...] Passados alguns minutos, Cesária voltou com uma garrafa e uma xícara. - Preparei o cachimbo. Aguardente não falta, e as abelhas trabalham de graça. Mas o chocalho sumiu-se. Estava no girau, misturado com balaios e combucos: provavelmente anda escondido num buraco de ratos. (RAMOS, 2007: p. 60). Assim, por diversas vezes, Alexandre chama o testemunho de Cesária como já previsse alguma contestação que pudesse aparecer ao que contara. Na “História 109 de um bode” temos um claro exemplo disso: “[...] Montei-me de novo e uma hora depois estava no pátio da fazenda, conversando com os vaqueiros. Cesária pode confirmar o que eu digo. [...] - Perfeitamente, Alexandre, exclamou Cesária. Conte o resto.” (idem: p. 50). Muitas vezes, além de solicitar a confirmação de sua esposa, Alexandre se utilizava de outra estratégia para escapar de qualquer dúvida sobre a veracidade de suas aventuras, que era a de fazer desaparecer os participantes das histórias, só sobrando para dar testemunho ele próprio e Cesária. Desse jeito, a onça da primeira aventura de Alexandre definha por desgosto de não fazer temer mais ninguém até morrer no mesmo chiqueiro das cabras e do bode velho: Firmino interrompeu-o: - E a onça? Que fim levou a onça que ficou presa no mourão, Seu Alexandre? Alexandre enxugou a testa suada na varanda da rede e explicou-se: - É verdade, Seu Firmino, falta a onça. Ia-me esquecendo dela. [...] A onça misturou-se com o gado, no curral, mas começou a entristecer e nunca mais fez ação. [...] Por fim ninguém tinha medo dela. [...] Viveu pouco. Finou-se devagarinho, no chiqueiro das cabras, junto do bode velho, que fez boa camaradagem com a infeliz. Tive pena, Seu Firmino, e mandei curtir o couro dela, que meu irmão tenente levou quando entrou na polícia. Perguntem a Cesária. (ibid: p.40-1) Continuando a série de desaparecimento de personagens de suas histórias, temos o bode que, após questionamento, como sempre, de Seu Firmino, teve seu paradeiro explicado, por Alexandre com a contumaz impaciência com o cego: “Ora essa! rosnou Alexandre. O bode se finou como todos os viventes. Se fosse vivo, tinha trinta anos, e nunca houve bode que vivesse tanto. Morreu, sim senhor.” (ibid: p. 50). Ainda tivemos o papagaio que morreu ao final, não antes de dar lição de moral em Alexandre por esquecer-se dele sem água e alimento dentro de uma sacola. Temos ainda o já citado chocalho da cobra que sumiu e o estribo de prata que se desinchou e virou um estribo comum, e a cobra que foi confundida com uma bota também fugiu. Mesmo fim teve a guariba que fizera traquinagens com as roupas de Alexandre. A brava cachorra Moqueca e seus filhotes igualmente bravos, tiveram os seus desaparecimentos anunciados, logo quando o cego Firmino havia pedido um dos filhotes para servir como guia. 110 De tanto que Alexandre contava suas histórias, citando muitas vezes alguns dos elementos de uma história em outra, e levando a máxima popular de que “quem conta um conto aumenta um ponto”, era previsível que ele não raramente mudasse os dados de uma história para outra. Fato pontual nesse sentido é o caso do papagaio da história “O papagaio falador”, que aparecia custando 554.700 réis (RAMOS, 2007: p. 54). Em “O estribo de prata”, mestre Gaudêncio confirma o valor aproximado, “por quinhentos e tantos mil réis”, e não é corrigido por Alexandre (idem: p.57). Na “História de uma bota” ele aparece como tendo custado 625.300 réis, justamente quando Seu Firmino havia dito que ouvira Alexandre contar que ele valia 1 conto de réis (ibid: p. 78). Na história “Um missionário” ele recebe dois valores, 622.500 réis (p. 85) e 500.000 réis (ibid: p. 88). Notamos que em todas as vezes em que os valores eram citados, Alexandre falava de forma categórica, tentando não dar margem a desconfianças. “Detesto exageros. Guardo as minhas conversas na memória, tudo direito. [...] por que haveria de aumentar o preço dele?” (ibid. pp. 78-79). A afirmação de que ele não era dado a exageros foi repetida outras vezes, como no conto do marquesão de jaqueira, pois ele queria deixar claro que as versões em folheto contando sobre o móvel que acabou gerando 4 grandes jaqueiras com muitos frutos não condizia com a verdade. Assim como qualquer contador de histórias, Alexandre tem a liberdade de proceder mudanças em suas narrativas. Desse jeito, ele realiza ampliações, substituições ou inclusão de elementos, mudanças de valores sejam monetários ou simplesmente referentes ao tamanho de objetos ou animais, geralmente para mais. E isso ele pode realizar tanto se a história é contada pela primeira vez como quando ela é recontada por ele ou quando ela é apropriada por ele (o que a obra mostra muitos indícios) e assim ganhando uma feição própria. Voltando a abordar as questões do exagero, das mentiras e “invencionices”, percebemos que elas são constantes nas histórias de Alexandre. O efeito que surte no leitor é de grande comicidade, de forma inteligente, inclusive usando tipos comuns da região nordestina, contudo sem a utilização de estereótipos forçados para os personagens. O enredo inicial da obra também aponta para algo comum, um casal que, devido a intempéries físicas e sociais da região sertaneja, vive numa visível decadência financeira e que recebe regularmente, como muitas outras famílias nordestinas do interior, amigos da região para contar histórias, reuniões 111 essas regadas a cantoria e bebidas locais. Mas que artifícios o autor usa para causar esse efeito? Falemos inicialmente sobre o efeito causado, no caso o riso, que surge no leitor. O historiador russo da comédia cinematográfica R. Iurêniev (1964, apud PROPP, 1992: pp. 27-28) escreveu que o riso pode ser alegre ou triste, bom e indignado, inteligente e tolo, soberbo e cordial, indulgente e insinuante, depreciativo e tímido, amigável e hostil, irônico e sincero, sarcástico e ingênuo, terno e grosseiro, significativo e gratuito, triunfante e justificativo, despudorado e embaraçado. [...] divertido, melancólico, nervoso, histérico, gozador, fisiológico, animalesco. Pode ser até um riso tétrico!. Pela leitura das histórias contadas pelo major Alexandre, notamos que o riso causado não é depreciativo, nem hostil, gratuito ou grosseiro. Ao contrário, o autor não trata Alexandre de forma que seja ridicularizado. Para Propp, o riso ocorre em presença de um objeto ridículo e de um sujeito que ri, o homem. O sujeito que ri é o leitor, e na verdade o objeto ridículo são as situações narradas pelo próprio Alexandre. Ainda segundo Propp (1992, p. 37), a natureza que nos cerca não pode ser ridícula. “Não existem florestas, campos, montanhas, mares ou flores, ervas gramíneas etc., que sejam ridículos.” Porém, a forma como Alexandre coloca a natureza, como no conto do marquesão de jaqueira ou naquele sobre a safra dos tatus, ou o do estribo de prata, pode nos trazer o riso. É importante ressaltar que não é somente o fato dos pés do marquesão terem se transformado em quatro jaqueiras frondosas, mas principalmente pela forma como o fato é contado, querendo fazer crer a seus ouvintes que o fantástico acontecimento ocorrera e, mais ainda, que não gostava que outros inventassem outros fatos sobre o ocorrido, tudo porque ele, Alexandre, “detestava exageros”. O riso ocorre em função do absurdo e o irreal de cada situação. Tchernichévski41 (1863, apud PROPP, 1992, op. cit., p. 37) tem posição semelhante a de Propp, dizendo que “na natureza inorgânica e vegetal não há lugar para o cômico” , deixando claro que não falava da natureza em geral, ou seja, ele não citava o reino animal. Ele explicava que os animais podiam ser parecidos com os homens. “Nós rimos dos animais, porque eles nos lembram os homens e seus movimentos”. Essa questão parece se adequar a algumas das 41 Nikolai Gavrílovitch Tchernichévski (1828-1889). Escritor populista russo, colaborador da revista O contemporâneo, famoso por seu romance Que fazer?, escrito na prisão em 1863. 112 histórias do major Alexandre, já que por vezes alguns animais de suas histórias aparecem com características humanas, como a guariba e os papagaios. Propp também apresenta no mesmo estudo sobre comicidade e riso um capítulo no qual ele trata sobre a natureza física do homem. Nele, ele mostra que na literatura, no teatro, nas esculturas, alguns aspectos físicos que inicialmente podem parecer grotescos e que poderiam dar a impressão de ridicularizar o indivíduo mostrado, acabam não tendo esse efeito, simplesmente porque o modo como é tratada a figura não tem essa intenção. Em Histórias de Alexandre, nós temos o major com um olho torto. Em nenhum momento esse olho torto é usado para trazer o riso fácil do leitor, assim como o cego Firmino não é tratado de forma pejorativa. Em outra obra, um outro autor poderia apresentar um personagem cego que tropeça nas coisas, derrubando objetos, sendo enganado por indivíduos que se aproveitariam do fato dele não enxergar; o mesmo autor poderia também utilizar um personagem vesgo, que causasse confusão nas pessoas que olhassem para ele, que visse duas imagens e que a toda hora provocasse confusões em função de seu aspecto físico. Já Graciliano não criou um personagem cego e outro de olho torto para serem objeto de escárnio. Porém, esse fato não impede que os dois protagonizem situações de riso, justamente pelos seus aspectos físicos. Como veremos mais adiante, o olho torto de Alexandre era o olho bom, capaz de enxergar a uma longa distância, permitindo que ele tivesse uma mira de dar inveja a qualquer campeão de tiro. Outras questões acerca desse fato também serão mostradas quando formos tratar sobre o uso do exagero em algumas das histórias. Sobre o cego Firmino, a curiosidade reside no fato marcante de que ele era o único dos convivas das contações de histórias que “enxergava” as incongruências narrativas de Alexandre. Outro artifício usado, e talvez não percebido por Alexandre, é o do exagero. Alguns teóricos trataram dessa questão. Z. Podskálski (1954, apud PROPP, p. 88) afirma que “a questão do exagero cômico é a questão-chave para caracterizar tanto as representações da imagem cômica quanto a situação cômica.” Iu. Bóriev (1957, apud PROPP, 1992, p. 88) segue uma linha semelhante, afirmando que “na sátira, o exagero e a ênfase constituem a manifestação de uma lei mais geral: a deformação tendenciosa do material da vida, que serve para revelar o vício mais essencial entre os fenômenos dignos de ridicularização satírica”. E N. Hartmann (1958, apud PROPP, p. 88) afirma que “a comicidade tem sempre a ver com o exagero”. De 113 acordo com Propp, todas essas afirmações citadas anteriormente são corretas, mas não atendem a todos os pressupostos acerca do exagero, pois o exagero é cômico apenas quando desnuda um defeito. Não havendo um defeito a ser desnudado, o exagero deixa de ser enquadrado no domínio da comicidade. Isso é demonstrado em Histórias de Alexandre em várias situações em que o exagero não é cômico pelo grau do exagero, mas sim por toda conjuntura que o envolve. Há seu uso para Alexandre exaltar mais ainda os seus feitos, por exemplo. Como já mencionamos, na sua primeira aventura da coletânea, Alexandre conta que dominou uma onça tão grande como uma égua, e o fato de que ele a domina e a domestica amplia o tamanho de sua façanha, mas também passa pela invenção de uma onça ser montada por um homem, que mostra ser mais bravo e forte que ela, que ainda se sente humilhada por ser deixada como um animal doméstico, dentro de uma cerca e em meio às cabras. Outro exagero no tamanho de animais para ampliar uma façanha de Alexandre, está na história de um bode, que além de ser do tamanho de um cavalo, cavalga como um e participa de competições próprias de cavalos. A facécia também passa pela extensão de tempo com que o bode corria com Alexandre no lombo atrás da novilha. Diante de mais essa façanha, não satisfeito, Alexandre ainda incrementa sua história com o aparecimento de outra onça que ataca a novilha capturada mas que é morta por ele usando o seu facão num ato de extrema bravura. Em outra história em que os feitos de Alexandre são expandidos, mostrando seus dotes de caçador, com uma visão extremamente ampla, e justamente com o auxílio de seu olho torto, Alexandre consegue enxergar e acertar animais a uma distância que claramente parece ser superdimensionada por ele. Mas como qualquer bom caçador também consegue acertar animais que estejam bem distantes, ele procura rechear sua história com tons que o tornem melhor ainda, sempre tentando mostrar a seus ouvintes uma suposta humildade e reforçando que não gosta de exageros. Desse jeito, dois pássaros, em altitudes diferentes, são atingidos por um único tiro da espingarda lazarina do major Alexandre. Não satisfeito com o efeito da façanha nos amigos da roda de histórias, Alexandre faz com que um veado seja atingido também por um único tiro em duas partes bastante distantes de seu corpo. Mas aí, quando ele mostrava que perdia a noção de sua própria lógica, que permitia que ele conseguisse se safar das enrascadas narrativas em que ele se metia, 114 aparece a Cesária e lhe salva, com uma saída simples, porém totalmente inverossímil, mas que no universo dos amigos de Alexandre acabou sendo aceita, mas que desnuda, para o leitor, o exagero como mentira. Dessa forma, Cesária faz com que o veado seja capaz de elevar sua pata e coçar sua orelha e, por esse motivo, ser atingida pela única bala da espingarda de Alexandre, que além disso encontrava-se muito distante do animal. E mostrando o exagero, os ouvintes se envolviam no exagero de Alexandre e calcularam a distância para o animal de cerca de 17 léguas, o que resulta aproximadamente em 75 quilômetros. Para tecer os fios narrativos de suas histórias, Alexandre não tinha compromisso de contar um episódio vivido por ele. Mas era claro que havia uma preocupação de sua parte de ter a atenção de seus amigos e, por vezes, carecia da atenção de outros. Tal fato é mostrado num momento em que ele, para pensar no prosseguimento da narrativa e, com o olho bom, no seu caso, o torto, olhava para o horizonte do sertão procurando por outros ouvintes que nunca chegavam e para isso precisava de um cuidado para unir os elos que surgiam. Alexandre queria ter atenção, gostava de ser ouvido, mas não de ser confrontado. Quando Seu Firmino levantava alguma questão que o incomodava, logo se irritava, fazia birra e até prometia parar a história, esperando claramente um pronto pedido de desculpas do visitante. Muitas das vezes, Alexandre parecia encontrar-se em um labirinto, e pensava em qual saída ele tinha que seguir. Ainda usando a metáfora do labirinto, podemos pensar que o nosso herói do interior nordestino procurava os fios deixados por sua Ariadne, ali chamada de Cesária, para encontrar a saída para prosseguir sua história. E a Ariadne do sertão prontamente estendia o fio para o herói. Na tarefa de desenrolar os fios do novelo narrativo, Alexandre, não somente na questão de exagerar tamanhos, números e fatos, fazia uso de invencionices, ou seja, simplesmente mentiras. A forma como ele as usava era bastante engenhosa, mostrando que ele tinha muita criatividade. Propp afirma que há dois tipos de mentira cômica, uma em que o narrador procura enganar quem o ouve, fazendo a mentira passar por verdade e o segundo que pensa em apenas divertir seu interlocutor. No caso de Alexandre, podemos afirmar que ele transita pelos dois tipos. De um lado, ele procura enganar sua audiência, por mais inocente que ela seja, sem intenção de algum mal, por outro, ele quer divertir seus amigos, que sempre o procuram para ouvir suas histórias. Como no caso do exagero, a mentira 115 não é cômica por si só. Uma pessoa contando uma mentira pode até ser triste. Se formos analisar a necessidade de Alexandre em contar seus causos como forma de compensação de sua decadência, a situação poderia nos parecer triste. Porém, ele mesmo não se deixava cair ao ponto de se entristecer. Ele sempre se colocava numa posição altiva, e suas mentiras iam sendo construídas de forma espontânea e instintiva, fazendo uso das histórias populares. Para Propp (1992, p. 115), “a mentira enganadora nem sempre é cômica. Para sê-lo, tal como os outros vícios humanos, ela deve ser de pequena monta e não levar a consequências trágicas. Além disso, ela precisa ser desmascarada.”.. Alexandre não é desmascarado diante de sua plateia totalmente, mas o cego Firmino sempre deixa uma suspeita de que consegue captar todas as balelas contadas pelo major. Porém, os outros ouvintes parecem apenas se divertir (o cego também se diverte, que fique bem claro), alegram-se. Alexandre também sente prazer naqueles momentos, por conseguir passar suas histórias adiante e ter a máxima atenção de todos. Quando Seu Firmino interpela Alexandre, cria-se um clima cômico não somente pela possibilidade do desmascaramento, mas principalmente pela reação do major e seu exercício de convencimento através de outra mentira. Para convencer Seu Firmino e os outros amigos, Alexandre passava por cima de qualquer impeditivo racional, criando assim uma lógica própria, que dava mais graça a suas facécias. Não havia para ele uma fronteira entre o real e o fantástico, tudo era real e possível. O seu olho poderia ficar preso a um espinheiro e ser recolocado apenas limpando-o na camisa para retirar a poeira do sertão. Questionamento não houve, provavelmente porque a platéia achava aquela solução bem plausível. Tão plausível quanto, na falta de um olho, a pessoa enxergar só metade das pessoas, como se um olho fosse responsável pela visão da metade do campo visual em frente a ele, e o outro pela outra metade. Desse jeito, Alexandre e sua platéia realmente acreditavam no que era contado. Alexandre acreditava que era possível ocorrer. Já a platéia, quando não havia o questionamento do cego Firmino, acreditava realmente na possibilidade de ocorrência de cada fato citado. Para os amigos do casal a narrativa ganhava mais ares de verdade pelo alto grau de respeito que o major Alexandre tinha naquelas paragens. Para o major, era mais fácil ainda porque não havia preocupação alguma em contar a verdade porque não fora um episódio vivido por ele. A fronteira de verdade/mentira, para Alexandre, só 116 existia na razão de que não tinha tido aquela experiência que ele contava, porque a sua lógica dava a entender que era plausível de acontecer. Usando a mesma lógica alexandrina, se um olho é responsável só por uma metade por ele estar virado para uma só direção, então também seria possível de que o olho, se estivesse virado para trás, enxergasse as entranhas de sua cabeça. O crédito a essa passagem é tanto que, até o cego Seu Firmino, curiosamente o único que enxergava os exageros do major, talvez por ser cego e por não saber como funciona o olhar, não questionou nada na história do olho perdido e recolocado no lugar. Sem conhecimentos médicos e anatômicos que lhes mostrassem a impossibilidade do narrado, sobrava à platéia o conhecimento mais próximo a eles, identificado com a autoridade reconhecida do major, que lhes dizia que era possível, não havendo lugar para questionamentos. A mesma linha lógica é usada nas duas histórias envolvendo papagaios, pois se um papagaio é capaz de falar, eles não entenderiam que o animal apenas repete e imita o som que ouve e, mais ainda, que o mesmo não está habilitado a raciocinar, emitir opiniões e até a filosofar. Desse jeito, também não haveria razão para reclamarem da veracidade da história em que um papagaio oferece água a um visitante e reclama do homem que o comprara de não tê-lo alimentado. Da mesma forma, também não há justificativa para duvidarem da história do outro papagaio que, de tanto ouvir advogados e beatas, sabe defender presos e também fazer todo o tipo de rezas, culminando com a decisão de tornar-se um missionário com a tarefa de ensinar outros papagaios a rezarem e seguirem sua religião. Numa linha que passa tangenciando parte da lógica das histórias dos papagaios, há a história da guariba, que repete um mote bastante usado nas histórias populares, de dar características humanas a animais e, no caso da guariba, até tentando imitar o ser humano com suas roupas. Essa história fica diferente da dos papagaios no sentido de que uma guariba não consegue repetir sons de fala, como fazem os papagaios, mas ao vestir as roupas do major Alexandre, para tentar imitá-lo, e encontrando-se encurralada, acaba também falando e faz uma proposta de acordo com Alexandre de não matá-la. Nessa história, o major reconhece o extraordinário do fato narrado e diz que ficara assombrado com o ocorrido. Desse jeito, ele ficou livre para contar a mentira, pois mostrara que também não acreditaria até se deparar com o bicho falando, julgando que o fato fosse devido a uma obra do 117 diabo, o que no interior é assunto tratado com muito cuidado, sendo esses casos de artes do demo objeto de inúmeros livretos que contam histórias envolvendo o poder do diabo. Nesse episódio, Alexandre solicita o depoimento de Mestre Gaudêncio por ser ele uma autoridade no assunto nas redondezas. Seguindo ainda as facécias envolvendo animais, Alexandre conta a história dos tatus que ficam presos na raiz de toda a plantação de mandiocas. Nessa história não há tatu que fale como humano, que reze nem discuta com humanos. O primordial na narrativa que traz o riso ao leitor está no fato do exagero, do enorme número de tatus que aparecem concorrendo com a teoria proposta por Alexandre de que um dos tatus teria descoberto a plantação e daí conta aos outros que resolveram invadir o local. O fato culminante que encaixa o exagero com a teoria de Alexandre acontece quando todos os tatus ficam presos às raízes. Desse jeito, ao lermos as histórias do major Alexandre, notamos que o efeito cômico de suas narrativas, com exageros, invenções, incongruências, detectadas ou não pelo cego Firmino, seguia paralelo ao poder persuasivo do contador. Suas histórias apresentavam uma lógica própria que, junto com seus dotes inventivos e criativos de um narrador oral, era capaz de, no final de cada história, convencer seus ouvintes. 118 Capítulo 5 O processo narrativo de Histórias de Alexandre E é assim, através da sua lógica, que carrega conhecimentos alexandrinos de medicina e anatomia (“O olho torto”), física e pressão d‟água (no caso da canoa furada), geografia (também no caso da canoa furada, quando fala sobre a grandiosidade do rio São Francisco), botânica (do marquesão da jaqueira), psicologia do comportamento animal (a safra dos tatus, papagaio falador e o papagaio missionário) e até um misto de zoologia com conhecimentos do metal argênteo (o estribo de prata), dentre outros, com que Alexandre tece suas deliciosas histórias, que atraem seus amigos na casa velha no sertão alagoano, mas que também o distraem, ganhando tons de um herói que gostaria de ser. Esse herói era igual a outros heróis, que eram capazes de enormes façanhas, a respeito dos quais Alexandre sempre ouvia nas feiras e nas longas viagens que fazia desde criança, em repentes, emboladas, cordéis e mesmo em outras rodas como a que ele passou a protagonizar quase todas as noites. E, assim, eles foram ganhando vida em sua mente, recebendo contornos próprios, desenhados e retocados com seu pincel bastante criativo. Alexandre se aproxima do narrador de Walter Benjamin, pois ele gosta de não só contar suas histórias, mas fazer delas experiências próprias. O narrador de Benjamin é o narrador anônimo, o contador de histórias, o camponês, o comerciante, ou seja, seu narrador é o homem comum. Assim, Alexandre assume a postura de um narrador benjaminiano ao se reunir com seus amigos para contar seus causos. Sua matéria prima da narrativa é a experiência e sua fala. Para Benjamin, a narrativa é da dimensão oral, como mostram seus gêneros precedentes, como a epopeia grega, a historiografia clássica e a crônica medieval. 119 Para Benjamin, cada vez mais as pessoas comunicam menos suas experiências, pois elas estariam deixando de ser comunicáveis. Todavia, o raciocínio de Benjamin se faz num processo no qual aquilo que se esgota enche-se de beleza. Temos, pois, no jogo daquele raciocínio uma “tensão paradoxal entre o reconhecimento lúcido do fim das formas seculares de transmissão e de comunicação, do fim da narração em particular, e a afirmação enfática da necessidade política e ética da rememoração”. (Gagnebin, 2013) Por isso, podemos dizer que, essas reuniões entre Alexandre, Cesária e seus amigos, além de serem uma forma de manterem vivas as histórias e a cultura, conservavam também o próprio ato em si de se reunirem para contar e ouvir histórias, que também faz parte da cultura popular. Ele também mantém vivo o próprio narrador. Percebemos, tanto entre Alexandre e Cesária, como entre os convidados, uma atitude que ultrapassa o prazer de estarem naqueles serões. Como as histórias e as reuniões naquela casa pobre são representativas para a cultura popular nordestina, a atitude de todos os presentes representava a sustentação da cultura local. Porém, Benjamin não somente lamenta o desaparecimento da narrativa oral. Ele imagina que com a inevitável chegada da modernidade, seria preciso uma forma que soubesse interagir com o novo sem enterrar o passado, ou seja, uma narrativa que soubesse rememorar e recontar o passado sem, no entanto, adotar uma forma considerada obsoleta de narração. Benjamin (2008, p.215) agrega o fato de existir a narrativa associada ao trabalho artesanal e coletivo e à sapiência e vivência do narrador e do conhecimento coletivo. A platéia de Alexandre, formada por elementos representativos da cultura popular, influenciam no processo de continuidade das narrativas, por conta de toda interatividade que dá poder ao narrador, e até mesmo com os apartes do cego Firmino, de um excelente elemento transmissor da tradição oral. Benjamin defende que, com a chegada da modernidade, devido às transformações sofridas pelas forças produtivas, desaparecem as condições propícias para que a narrativa oral se mantivesse como um discurso vivo, perdendo assim a qualidade especial de sabedoria compartilhada. Voltamos a lembrar que na época em que as histórias foram escritas, o rádio ainda não tinha tanta força, principalmente num meio tão pobre e, assim, as reuniões para as contações de histórias tinham grande importância. A chegada dos meios 120 modernos de comunicação teve então grande influência no declínio da transmissão oral e assim dando origem a novas formas de comunicação, inconciliáveis, não somente com os serões de Alexandre, como também com outras tradições populares que envolvessem a oralidade. Há duas coisas a serem descobertas pelo leitor: a primeira, mais lógica, é sobre a veracidade das histórias. A segunda é se as histórias foram contadas a Alexandre, ou ele as ouviu em suas andanças, ou ainda se ocorreram com outra pessoa. Mas ao contar esses causos, Alexandre assume uma postura do narrador tradicional de que trata Benjamin, agindo como um sábio, que pode recorrer não só a sua própria experiência, mas também à experiência alheia, ao transportar essa experiência para as histórias que ele conta para seus amigos. Na maior parte do livro, o narrador extradiegético pouco participa das narrativas, ficando praticamente quase a integridade dos contos por conta da fala de Seu Alexandre, segundo narrador, e, em muito menor parte, e, dependendo de sua anuência, ou necessidade, havia também a interferência de Dona Cesária. O narrador extradiegético, logo depois de apresentar o casal, sai de cena e deixa o palco para Alexandre, que fica com todo o foco. Giménez aponta essa passagem como a do herói que “salta da fábula para nos contar ele próprio as suas façanhas”. (GIMÉNEZ, 2004, p.188) Na história da guariba, Alexandre desenrola toda a narrativa num só fôlego, sem a interferência de nenhum dos convidados. Essa narração ininterrupta por parte de Alexandre traz uma marca da oralidade, pois os contadores de histórias em geral não são interrompidos; eles começam a falar e não param. E com participação semelhante à de Cesária, havia diálogos com as participações de mestre Gaudêncio, Seu Libório e, principalmente, Seu Firmino. O narrador interfere pouco ou quase nada na narrativa, procurando somente contar as ações de Alexandre, Cesária e seus amigos. Naquela noite de Lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: Seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de cobras. Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachavase na esteira cochichando com Cesária. (RAMOS, 2007: op. cit., p. 27) Restituiu o cachimbo a Cesária e foi sentar-se na rede. Mestre Gaudêncio curandeiro, Seu Libório cantador, o cego preto Firmino e Das Dores exigiram a história dos tatus, que saiu deste modo. (idem: p. 72). Os visitantes acomodaram-se, Das Dores e Cesária vieram da cozinha e arrumaram-se na esteira. (ibid: p. 77). 121 Curiosamente, em alguns momentos do livro, o narrador conta não só as ações das pessoas presentes na sala de Alexandre, mas também sobre as emoções do dono da casa. Essa constatação é interessante, pois o narrador só se mostra onisciente em relação a Alexandre, e mesmo assim em poucas situações, tornandose testemunha dos pensamentos de Alexandre, principalmente quando ele se defrontava com uma situação em que o cego preto Seu Firmino questionava alguma parte de suas histórias. Isso dava uma noção de que, embora o narrador não coadunasse com as peripécias narrativas das aventuras de Alexandre, de certa forma havia uma solidariedade a ele, que o entendia. “Alexandre indignou-se, engasgou-se, e quando tomou fôlego, desejou torcer o pescoço do negro:” (ibid: p. 35); “Aí Alexandre, magoado com a objeção do negro [...]” (ibid: p. 36). Em uma situação, no entanto, ele usa um disfarçado discurso indireto que numa leitura menos atenta poderíamos deduzir que dava sua voz a Alexandre como se afiançasse suas peripécias, e que realmente Alexandre “detestava exageros”. Mas na verdade ele apenas representa sua fala de forma diferente. Um segundo caminho na interpretação dessa técnica nos leva a concluir que o narrador ironizava Alexandre que sempre afirmava que detestava exageros, quando os fatos mostravam justamente o contrário. Na mesma passagem, o narrador usa um já claro discurso indireto para as falas e ações de mestre Gaudêncio e Seu Libório: Alexandre declarou aos amigos que ia calar-se. Detestava exageros, só dizia o que se tinha passado, mas como na sala havia quem duvidasse dele, metia a viola no saco. Mestre Gaudêncio curandeiro e Seu Libório cantador procuraram com bons modos resolver a questão, juraram que a palavra de Seu Alexandre era uma escritura, e o cego preto Firmino desculpou-se [...] (ibid: p. 36). Na “Apresentação de Alexandre e Cesária”, além de ser o único capítulo do livro onde o narrador tem participação total, e onde anuncia algumas das histórias que serão contadas, é onde ele dá as primeiras pistas sobre a “veracidade” das histórias de Alexandre: Alexandre tinha realizado ações notáveis e falava bonito, mas guardava muitas coisas no espírito e sucedia misturá-las. Cesária escutava e aprovava balançando a cabeça [...] E quando o homem se calava ou algum ouvinte fazia perguntas inconvenientes, levantava os olhos miúdos por cima dos óculos e completava a narração. [...] E assim, tudo se combinando, descobriam casos interessantes que se enfeitavam e pareciam tão verdadeiros como a espingarda lazarina. [...] Alexandre tinha um olho torto [...] Alexandre via até demais por aquele olho. Não se lembrava do veado que estava no monte? [...] Alexandre ficou satisfeito e começou a referir-se ao olho enviesado com orgulho. O defeito desapareceu, e a história do 122 espinho foi nascendo, como tinham nascido todas as histórias dele, com a colaboração de Cesária. (RAMOS, 2007: p. 25-26) A aceitação das narrativas pela platéia das rodas de histórias era facilitada pelo respeito que a platéia tinha por Alexandre, respeito esse ligado a um certo status social que o casal tinha em relação a seus amigos, que mostravam ter menos ainda que o casal em visível processo de decadência. Ao falar sobre a época pomposa, o narrador Alexandre faz também menção que suas posses não seriam suficientes para uma vida tão boa, e se assustava com fatos que ocorriam nas cidades grandes, onde pessoas com mais bens viviam. Assim, ele cita traços sociais e características das pessoas que tinham mais posses, diferindo das que não tinham, dando sempre importância maior ao jeito simples. Também mostra que para se ter prestígio, podia ser necessário estar ao lado dos que detinham o poder, marcando forte o posicionamento do autor Graciliano que assim se confunde com o narrador Alexandre, como nessa longa passagem a seguir: Ganhei uns cobres, mandei fazer roupa no alfaiate, comprei um corte de pano fino e um frasco de cheiro para Cesária. [...] Aí fiz tenção de vender a fazenda e os cacarecos, mudar-me, dar boa vida à pobre mulher, que trabalhava no pesado, ir com ela aos teatros e rodar nos bondes. Refletindo, afastei do pensamento essas bobagens. Matuto, quando sai do mato, perde o jeito. [...] Ninguém me conhecia na cidade, cheia como um ovo. A propósito, sabem que um ovo custa lá cinco tostões? Não me aprumo 42 nessas ruas grandes, onde gente da nossa marca dá topadas no calçamento liso e os homens passam uns pelos outros calados, como se não se enxergassem. Nunca vi tanta falta de educação. Vossemecê mora numa casa dois ou três anos e os vizinhos nem sabem o seu nome. Nos meus pastos a coisa era diferente. Lá eu tinha prestígio: votava com o Governo, hospedava o intendente, não pagava imposto e tirava presos da cadeia, no júri. Vivia de grande. E quando aparecia na feira, o cavalo em pisada baixa, riscando nas portas, os arreios de prata alumiando, o comandante do destacamento levava a mão ao boné e me perguntava pela família. [...] os amigos vão pensar que estou aqui arrotando importância. É engano, detesto pabulagem. Na capital só viam em mim um sujeito que vendia gado. Mas se quiserem saber a minha fama no sertão, dêem um salto à ribeira do Navio e falem no Major Alexandre, [...] todo o bichinho dará notícia das minhas estrepolias. (RAMOS, 2007: pp. 80-81) Essa mudança, em relação ao seu nível de vida, não era escondida de seus amigos pelo casal, mas eles sabiam usar esse fato para mostrar que o seu modo de vida era bom ao ponto de representar uma justificativa para que eles tivessem o respeito dos amigos, pois já haviam tido muita opulência. Mas, como já expusemos 42 Em Angústia, Luis da Silva recorrentemente usa essa expressão: “Um passo em falso, topada na sarjeta, e os dois corpos se chocavam” (RAMOS,2011: p.105); “A gente vai, vem, faz curvas e ziguezagues, e dá topadas de arrancar as unhas”.(idem, p.113) 123 anteriormente e mais adiante retornaremos ao assunto, essa referência a um modo de vida com mais riqueza também pode ser mais um fingimento, uma fantasia, tais quais as histórias contadas por Alexandre, pois não há provas nem testemunhos que comprovem o fato. A única pessoa que poderia confirmar, além do próprio casal, era a afilhada do casal, Das Dores, mas mesmo ela não sanciona nem nega os relatos quando seus padrinhos citam esse antigo estilo de vida. Temos que levar em conta também que o fato de Das Dores ser afilhada não a transforma obrigatoriamente em testemunha de todos os passos da vida do casal. Um típico exemplo de citações dessas possíveis passagens da riqueza para a pobreza está na seguinte passagem: Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram. A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era cama de gato. Não era, Cesária? -Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro. Sumiu-se tudo. Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde Seu Libório se sentava: - Hoje é isto. (RAMOS, 2007: p. 14) Quando remontavam à época em que tinham mais posses, eles demonstravam certa tristeza, principalmente por compararem com o modo como viviam enquanto as histórias eram contadas. Nesses casos, não raro notamos um tom melancólico nas falas tanto de Alexandre quanto na de Cesária:.”Botas com esporas de prata e de ouro, penduradas no torno. Agora é a desgraça que se vê: um pedaço de sola amarrado no casco, espinhos, rachaduras no calcanhar. Não somos nada não, Seu Libório.” (RAMOS, 2007: p. 66) Sobre essa questão de períodos distintos em que Alexandre e Cesária mostram mudanças no nível de vida, pelo perfil de suas histórias, o leitor pode se perguntar se realmente em algum dia ele chegou a ter um nível de vida tão bom, ou seja, que isso possa ser mais um desejo de que isso pudesse ter ocorrido a ele do que um fato. Dessa discussão, podemos nos levar a questionar também o estado de melancolia que ambos demonstram ao citar, ou lembrar, o tal período de fartura do casal. Seria melancolia por algo que já tiveram e não tinham mais ou por algo que gostariam de ter tido, mas nunca tiveram? Destaca-se a relação heroísmo/sucesso de suas aventuras em contraponto com a decadência/fracasso da condição de vida de Alexandre. Caso fosse possível, 124 Alexandre certamente manipularia também sua realidade, por se achar merecedor de uma vida melhor. Porém, o herói Alexandre que venceu onças, era capaz de enxergar a 17 léguas e salvar pessoas de afundarem no rio São Francisco, não foi capaz de derrotar as forças que o afligem, da mesma forma que afligem o sofrido povo sertanejo. Giménez (2004) também aponta para essa direção: Ao ironizar o heroísmo enquanto ação bem-sucedida no embate com a realidade, o autor prova que o mundo já não se curva ao homem, antes se impõe a ele como força arrasadora – portanto, todo valor heróico se esboroa diante da análise objetiva do mundo prosaico, e o sucesso se converte em fracasso. [...] ao examinar a decadência dos valores através de personagens fracassadas, parece que Graciliano Ramos procurou desvendar o aspecto anacrônico e falsificador do testemunho positivo – no fundo, este não é senão vontade de despistar a circunstância adversa por meio do logro. (GIMÉNEZ, 2004: pp. 188-189) Nessa questão também podemos lembrar do poder crítico de Graciliano em relação à realidade dos mais sofridos, mas que, no entanto, não se deixa levar pela literatura panfletária. Assim, ao mesmo tempo que Graciliano dá ares de heroísmo a um personagem simples, que mora numa das regiões mais pobres do nordeste brasileiro, ele o representa de forma cômica, como um mentiroso contumaz. Em outra instância, o autor também tampouco acredita nas promessas da época moderna. Na visão crítica da nossa história, Graciliano Ramos bem enxerga o ciclo de perseverança que desenha as mãos da classe dominante; a sua descrença na política progressista não advém de apego à velha ordem, muito ao contrário, ela se confirma na certeza de que a velha ordem não cessou de dirigir as coisas, tendo apenas assimilado do seu jeito certos aspectos da modernidade. Essa consciência amarga do processo histórico se traduz em sentimento do fracasso – que vasculha passado e presente como quem se bate entre as paredes de um labirinto [...] (idem, p.190) Porém, se o perfil fantasioso do major pode trazer desconfianças sobre esse antigo nível de vida, a história dos meados do século passado de nosso Nordeste aponta muitos problemas que seus moradores enfrentaram, principalmente em função de causas climáticas. Os próprios romances de Graciliano Ramos, como Vidas secas, ou de outros autores famosos, como Raquel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado, e poesias de João Cabral de Melo Neto apontam isso. A poesia popular do Nordeste também foi importante fonte de relato dos flagelos da seca, assim como satirizava o próprio sistema político que, na região, era dominado pelos chamados “coronéis”. Todas essas obras mostravam dados importantes que apontavam para o empobrecimento do povo, o mesmo que Alexandre e Cesária contavam. A pesquisadora Ivone da Silva Ramos Maya, em sua dissertação sobre O 125 poeta de cordel e a Primeira República: a voz visível do popular, aponta que nas obras de muitos cordelistas: a penúria social estava associada à escassez de alimentos, causada pela seca e pela tributação excessiva de quase todos os produtos, alguns típicos da cesta básica da população. Mas o que se releva é a desigualdade de acesso nessa sociedade àqueles que não pertencem aos esteios da oligarquia. (MAYA, 2006, p. 93) Desse jeito, assim como a fantasia e o exagero demonstrados em todas as histórias nos levam a desconfiar da veracidade também dessa informação de uma antiga fartura, temos, na literatura e também em fatos históricos, dados que nos levam a pensar que o autor pretendia mostrar esse quadro de empobrecimento da região, que seria retratado no casal Alexandre/Cesária. Porém, como temos aqui figuras ficcionais, nem sempre é possível transpor dados do real para a ficção. Graciliano mesmo faz isso em Histórias de Alexandre ao dar voz em total acordo com a norma gramatical, a indivíduos sem instrução e em S.Bernardo ao transformar um indivíduo rústico como Paulo Honório em autor de um livro. Da mesma forma, percebemos que o autor propositalmente deixa em aberto essa questão para interpretação dos leitores, visto que, como já foi dito anteriormente neste trabalho, além do próprio casal, a única possível testemunha do antigo modo de vida de Alexandre e Cesária seria Das Dores, pois ela é afilhada dos dois, mas o autor preferiu deixá-la calada quanto ao fato. Assim, temos nesse caso, mais uma vez, a construção ficcional dando margem a uma ambigüidade na produção de sentidos pelos leitores. 126 Capítulo 6 A classificação por ciclos temáticos na literatura popular nordestina e as Histórias de Alexandre Nos últimos parágrafos do quarto capítulo, de certa forma, esboçamos uma espécie de separação dos contos, pelo tipo de lógica da narrativa de Alexandre, pelo motivo do riso, pelo exagero, pelo heroísmo e outras características já enfocadas. Osman Lins, no posfácio de Alexandre e outros heróis, cujo título é “O mundo recusado, o mundo aceito e o mundo enfrentado”, separa as histórias em outro esquema, que, mesmo diferente, acaba também tangenciando alguns pontos já apresentados neste trabalho. O primeiro tema das histórias, de acordo com Osman Lins, é o da “Superioridade e Imunidade de Alexandre”, dele fazem parte “A primeira aventura de Alexandre”, “História de uma bota”, “A Canoa Furada” e “A Doença de Alexandre”. Ele ainda adverte que, em menor tom, “O olho torto de Alexandre” também poderia ser incluído nesse tema. O segundo tema é o do “Animal Excepcional”, e nele estão “História de um bode”, “Um papagaio falador”, “O Missionário”, “História de uma guariba” e “Moqueca”. Nesse tema, os animais são separados, respectivamente, seguindo a lista de histórias acima, como o animal utilizado, o animal perdido, o animal libertado, o animal fora do alcance e o animal que, por heroísmo, faz um sacrifício e sofre multiplicação através de seus filhotes. Similar a esse tema, há o terceiro, o do “Objeto excepcional”, onde estão as histórias de “O estribo de prata”, “O Marquesão de jaqueira” e “A espingarda de Alexandre”. Nesse tema, há uma polêmica, pois o estribo e o marquesão tornam-se excepcionais pela ação que os fazem crescer assustadoramente. O primeiro é mordido pela cobra, e assim o veneno passa a agir como uma espécie de 127 provocador de um efeito de crescimento. Com o segundo, temos o marquesão que, por ter pés feitos da madeira de uma jaqueira, pela narrativa do major, motivou, pela sua memória genética, a volta às origens e sua transformação em quatro enormes jaqueiras. No entanto, a espingarda de Alexandre só é extraordinária porque está nas mãos do major. Se ela estivesse nas mãos de outro sertanejo não passaria de “mais uma” espingarda. O extraordinário é muito mais o major do que a espingarda, mesmo imaginando que uma espingarda lazarina comum não seja capaz de atingir longas distâncias. Pela tipologia das histórias criada por Osman Lins, a única narrativa que não tem encaixe imediato em nenhum desses temas, mas que se aproxima levemente nos dois últimos, é “A safra dos tatus”. Essa separação por temas das histórias contadas por Alexandre nos conduz à separação por Ciclos na literatura popular que é feita por diversos pesquisadores. Alguns preferem produzir essa classificação somente para a Literatura popular em verso (ou Literatura Oral, como pretende chamar Câmara Cascudo), e outros para toda produção relacionada à cultura popular. Dentre esses estudiosos temos nomes como Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Manuel Cavalcanti Proença, Yvonne Bradesco-Goudemand, Mario de Andrade (que fez a separação mais curta, o desafio e o romance), Orígenes Lessa, Ariano Suassuna, Manuel Diegues Junior, dentre outros. Dificilmente essas classificações coincidem e alguns estudiosos inclusive se colocam contrários a essa separação por ciclos temáticos ou, no mínimo, criticam o modo como a maioria dos pesquisadores do tema têm atuado nessa tarefa, como o professor Eduardo Diatahy de Menezes (2007, p. 77), que afirma que esse é um procedimento equivocado, antes de tudo, na sua própria lógica interna e também na exigência não atendida de conhecimento extensivo do universo do „corpus‟ dessa literatura. Nele se nota muito mais a perspectiva de cada classificador do que o conteúdo narrativo dos materiais. É preciso que se analise na narrativa a dimensão histórico-cultural essencial no seu processo de produção. A classificação por ciclos foi adotada imensamente no estudo da produção dos cordéis nordestinos, mas alguns pesquisadores preferem fazer essa distinção para toda produção que tem origem popular. Vamos nos restringir somente a algumas. Por exemplo, Manuel Diegues Junior faz uma classificação simples, porém bem abrangente, a saber: 128 Na análise de Diegues Junior, o primeiro ciclo se refere aos temas tradicionais. Nesse item, temos romances e novelas, contos maravilhosos, histórias de animais, anti-heróis/peripécias/diabruras, tradição religiosa. Entre os exemplos desse ciclo estão desde as Proezas de Carlos Magno, Histórias dos Doze Pares de França, Helena de Tróia, e outros de origem bíblica, como José do Egito, Sansão e Dalila. No Catálogo de Estudos da Fundação Casa Rui Barbosa, constam também contos maravilhosos como Ali Babá e os 40 Ladrões, as Proezas de Malasartes, Branca de Neve, A Bela Adormecida, O Ladrão de Bagdá e outros. O segundo ciclo se refere aos “fatos circunstanciais ou acontecidos”. Nele temos contos de relatos sobre a natureza física, como enchentes, cheias, secas etc.; os de repercussão social, como festas, e competições diversas; os sobre a cidade e vida urbana; os de crítica e sátira; os que se ligam ao elemento humano, por exemplo, os sobre figuras atuais ou atualizadas; e ainda os que tratam do fanatismo e misticismo, como os que falam sobre os cangaceiros, sobre tipos étnicos ou regionais, etc. O último ciclo categorizado por Manuel Diegues Junior trata das cantorias e pelejas. São poemas que nascem oralmente, no ritmo dos “desafios” e repentes entre dois ou mais cantadores. Essas produções, na época em que começaram a ficar mais popularizadas em geral se perdiam, pois não havia a preocupação de registro, a não ser as mais famosas, ou que eram de autores com mais bens financeiros, que podiam imprimi-las em cordéis. Ao verem que os cordéis tinham grande alcance, devido ao baixo custo de produção, e que poderiam alcançar um bom público, mesmo onde a miséria imperava, passou-se a investir mais nessas pelejas. Essa popularização foi ajudada devido à memória fantástica de grandes cantadores, ou mesmo ouvintes, que passaram a registrá-las. Outro autor que pensou em classificar essa produção popular foi Ariano Suassuna, que criou dois tipos de categorizações, o primeiro chamado de erudito e o segundo de popular. Basicamente, sua classificação da literatura popular se dava em nove ciclos: Ciclo heróico, trágico e épico; Ciclo do fantástico e do maravilhoso; Ciclo religioso e de moralidades; Ciclo cômico, satírico e picaresco; Ciclo histórico e circunstancial; Ciclo de amor e de fidelidade; Ciclo erótico e obsceno; Ciclo político e social; e, por fim, o Ciclo de pelejas e desafios. Essa classificação recebeu algumas críticas, como a do pesquisador Eduardo Diatahy de Menezes (2007, op. cit., p. 82) 129 que suscita a questão de que a tipologia de Suassuna “comete omissões e acrescenta o equívoco de misturar numa mesma tipologia pelejas e romances, que são produções de gênero bem diverso.” Podemos observar que em todas as categorizações, encontramos algumas similaridades, pois realmente algumas temáticas se repetem. Porém, várias produções apresentam características que podem fazer com que elas possam ser encaixadas em mais de um tema ou ciclo. Essas categorizações também possuem, pelo menos nas analisadas, uma tendência de visão subjetiva de cada estudioso, e sempre se baseando num corpus que se limita apenas a parte do acervo não somente de toda a literatura popular, como também dos autores analisados. Percebemos também que não atentam, além da possibilidade já citada de uma obra poder ser classificada em mais de um tema/ciclo, para o fato de que a literatura é mutável, vive em eterno processo de mudança. A própria literatura popular é um sinônimo disso, pois ela, através de suas histórias orais que viajam por vários países, se adequa às especificidades de cada sociedade e passa a ter, mesmo com os mesmos fios narrativos, uma diferente roupagem. No livro Antologia do cordel brasileiro, selecionado por Marco Haurélio, temos exemplos de histórias que podem atender a mais de uma categorização. Para começar, existe uma categoria que se refere às cantorias e pelejas, mas mesmo essas podem se encaixar em outras, pois muitas das histórias que são cantadas e contadas pelos poetas e cantadores populares possuem origem nas histórias orais: “O conto popular, predominantemente o conto maravilhoso, conto de fadas, é, ainda hoje, fonte de inspiração para alguns poetas.” (HAURÉLIO, 2012: p.12) Podemos notar que, ao analisarmos as aventuras de Alexandre, tivemos uma visão específica para uma única obra, mas se resolvêssemos ampliar aqueles parâmetros para outras obras, mesmo que só de autores brasileiros, talvez não conseguíssemos encontrar onde incluir alguns contos. Ainda nas Histórias de Alexandre, tivemos exemplos de histórias que tinham mais de um ponto característico mais evidente. Como exemplo, podemos citar a história sobre A espingarda de Alexandre, onde encontramos a característica de elevar o nome de Alexandre por ser um grande caçador, dotado de uma excelente mira; temos também o fato de termos um objeto excepcional, a espingarda, que junto com o homem com excelente mira, consegue atingir um animal a uma longa distância, 130 podendo “juntar” ou “espalhar” a pólvora, dependendo da ocasião; a questão do exagero nas distâncias citadas; e, por fim, a questão da própria mentira em si no todo da narrativa. Reafirmamos que os temas se repetem, e estão presentes em várias obras, muitas vezes ao longo de séculos e até em várias sociedades, mas elas obedecem a uma lógica que depende de vários contextos, como os geográficos, os sociais e os históricos. Porém, a tentativa de uma classificação global, em geral esbarra em questões que a tornam até contraditória quando passamos a olhar essa mesma classificação sob um novo prisma. Nas Histórias de Alexandre, por exemplo, temos o uso de um tema, que aparece em várias classificações, a do ciclo dos animais. Nas narrativas do major aparecem animais falantes e/ou extraordinários, como onças que são amansadas, bodes grandes como cavalo e que agem como tal, papagaios que falam, mas que não repetem as falas dos homens como os papagaios comuns, mas são dotados de oratória e raciocínio, além de cobras, guariba e tatus. Porém, o aparecimento desses animais obedece a uma questão que envolve uma lógica própria relativa às próprias histórias do major, e também a um imaginário popular local, e não a uma norma geral, envolvendo toda uma produção oral. A onça que é amansada recebe uma abordagem própria. Nas histórias nordestinas, a onça é uma figura bastante presente, e até o modo como o major narrou sua reação ao ver que era uma onça e não uma égua que montara dá a dimensão exata dessa presença e do pensamento que se tem em geral sobre esse animal. Porém, sua história não trata somente na onça, há questões como a da coragem, da força do herói (e aí poderíamos encaixar a história no ciclo dos heróis?), dos exageros nas distâncias percorridas pelo major sobre a onça (que em sua cabeça era uma égua) além do tempo igualmente exagerado e, como sempre, da mentira que paira sobre toda a história, isso sem contar sobre o riso que vem ao rosto do leitor nessa e em todas as outras histórias de Alexandre. A própria tipologia elaborada por Osman Lins, e abordada no princípio deste capítulo, serve somente para as Histórias de Alexandre. Mesmo se tivéssemos outra obra com características semelhantes, dificilmente aquela tipologia serviria para classificar seus contos. Seria o caso de pretendermos ampliar para os “causos” de Pantaleão, personagem de um programa humorístico de televisão nos anos 70 e 80 do comediante Chico Anísio, que depois levou esses 131 causos para o livro É mentira, Terta?, que muito deve à tradição literária em que Graciliano Ramos e suas Histórias de Alexandre se entroncam. As Histórias de Alexandre estão apoiadas no imaginário popular, no folclore nordestino, na cultura nordestina, além de também no próprio povo simples do Nordeste. No entanto, elas não se ajustam, nem individualmente cada história, nem no total das histórias do major Alexandre, num modelo global, nordestino ou mesmo brasileiro, em que possam ser classificadas por ciclos temáticos. 132 Capítulo 7 A linguagem utilizada por Graciliano Ramos O editor Augusto Frederico Schmidt, que tinha sido o primeiro editor que procurou Graciliano Ramos para publicar Caetés, na edição de 16/12/1934 do Diário de Notícias, teceu as seguintes palavras sobre São Bernardo: O processo de romance de São Bernardo tem, a meu ver, alguns defeitos, dos quais o principal é a forma por que o autor nos conta sua história, fazendo com que o seu personagem, de um momento para outro, tenha a absurda ideia de fazer de sua vida um romance, ele um ser inteiramente inculto e bárbaro, prático e utilitário. Acho isso positivamente arbitrário e em flagrante contraste com o equilíbrio psicológico em que o livro transcorre todo. (SCHMIDT apud DN: 16/12/1934, pp.17 e 20) Crítica semelhante a S.Bernardo fez Álvaro Lins43, que mesmo elogiando o autor por considerá-lo “um dos escritores que melhor manejam atualmente a língua portuguesa”, disse que O principal defeito de São Bernardo já tem sido apontado por mais de uma vez: é a inverossimilhança de Paulo Honório como narrador, é o contraste entre o livro e seu imaginário escritor, o que já se verificara em Caetés. De certo modo, em todos os romances escritos na primeira pessoa, concede-se uma margem para a inverossimilhança. Contudo, em São Bernardo ela é excessiva e inaceitável. Uma novela de tanta densidade psicológica, elaborada com tantos requintes de arte literária, não suporta o artifício de ser apresentada como escrita por um personagem primário, rústico, grosseiro, ordinário, da espécie de Paulo Honório. Mesmo com um narrador impessoal, aliás, ainda subsistiria alguma inverossimilhança, pois aquele personagem, como aparece no romance, não podia ter a vida interior que lhe atribui o romancista. (LINS, 1947: p.2) Na mesma crônica, Álvaro Lins expõe que lhe desagradava também justamente um ponto tão característico na linguagem de Graciliano, por sua “secura e dureza, como pela ausência de vibração e dinamismo [...]”. 43 “Visão geral de um ficcionista”. Crônica escrita por Álvaro Lins e publicada no jornal carioca Correio da Manhã, de 27 de junho de 1947, página 2. 133 O principal foco das críticas de Schmidt e Lins, o fato de ter um personagem inculto escrever um livro de memórias, tem sido alvo de muita discussão no grupo de pesquisa do Professor Godofredo de Oliveira Netto na Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando debate sobre o legado que Graciliano Ramos deixou para a literatura brasileira contemporânea44. Embora tais críticas não tenham sido levadas para o grupo, percebemos que não há concordância com as afirmações de Schmidt e Lins, que nos parecram precipitadas, sem pensar no que poderia estar por trás de Paulo Honório escrever um livro sobre sua vida. Essa opção nos parece logicamente proposital. Não seria lógico que um escritor como Graciliano se esqueceria que Paulo Honório era um personagem “inculto e bárbaro”, ou seja, incapacitado para a tarefa de escrever um livro. O processo da escrita é desencadeado após o pio da coruja. O Professor Benjamin Abdala Junior, da Universidade de São Paulo, trata sobre a decisão de Graciliano por usar esse tipo de personagem para escrever sua autobiografia: É a partir desse ângulo restrito, estranho ao âmbito de um intelectual cosmopolita, que ele vai procurar apresentar uma imagem nova do campo. Trata-se de uma opção consciente, por não se submeter à linguagem cristalizada nas academias citadinas, o que lhe permite afastar-se do senso comum da cultura letrada das elites intelectuais urbanas. Situado no cruzamento entre o rural e o urbano, Paulo Honório é um narrador complexo, em vários níveis. Troca a obsessão de ampliar a fazenda São Bernardo pela escrita do romance São Bernardo, espaço de efetiva transmissão da experiência. (ABDALA apud Princípios: 2003, pp. 70-74) A nosso ver, esse fato se aproxima de algo que é usado pelo autor ao escrever as falas dos personagens de Hístórias de Alexandre, ao colocar o discurso desses personagens com um linguajar característico da região, porém sem descumprir o padrão da norma culta. Graciliano Ramos, assim como Guimarães Rosa e o português José Saramago, sempre se notabilizou por ouvir a voz do povo e, assim, levá-la para seus livros. Guimarães Rosa, quando estava de férias no gabinete ministerial em que trabalhava em 1952, chegou a conduzir uma boiada, anotando nomes de plantas, bichos e histórias ouvidas do povo simples por onde passava, para depois incorporálas a sua obra. José Saramago fez algo semelhante com os trabalhadores do Alentejo. Osman Lins, no prefácio à edição publicada em 1982, fala que Graciliano 44 Cf. anotações de aulas do Professor Godofredo de Oliveira Neto, durante o segundo semestre letivo de 2012 e primeiro e segundo semestres letivos de 2013 no Curso de Mestrado em Letras Vernáculas da UFRJ. 134 Ramos fez um “trabalho de pesquisador, pondo em letra de forma alguns contos ouvidos no sertão do nordeste [...]”. (LINS, apud RAMOS, 1982, p.188 ). Percebemos nas falas dos personagens a predominância da linguagem coloquial, simples: “- [...] Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando as unhas com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:” (RAMOS, 2007: p. 14), mas, nas poucas passagens em que o narrador interferia, a linguagem, embora contendo termos regionais, mostrava, por vezes, termos que dificilmente algum dos personagens, por sua formação, faria uso normalmente. Espiando a Lua que branqueava o pátio, Seu Libório pinicava a prima da viola, gemendo baixinho uns versos de embolada. Alexandre, com ar de entendido, aprovava a cantoria. Mestre Gaudêncio curandeiro gingava, como se quisesse dançar. Os bilros da almofada de Cesária tocavam castanholas na esteira. Um canado bateu no copiar: (idem, p. 49) Estava na cama de varas, a testa enrolada num lenço vermelho, a camisa de algodão aberta mostrando os pelos do peito e o rosário de contas brancas e azuis. Cesária e Das Dores levaram para o quarto a mobília da sala: a pedra de amolar, a esteira, a mala de couro cru e o cepo. Mestre Gaudêncio baixou-se, encolheu-se na passagem estreita e escorregou da treva do corredor para a meia luz que a candeia de azeite espalhava. Seu Libório acompanhou-o. O cego preto Firmino sondou a abertura com o cajado, arriscou alguns passos e, tateando a parede, acercou-se da cama: (ibid, p. 117). Essa característica que privilegia o uso de um linguajar próximo do que era falado pelo homem simples, não é isolada em toda obra de Graciliano. Era uma marca que vinha desde Caetés e São Bernardo. Não havia necessidade de usar palavras rebuscadas, e de difícil entendimento para a maioria do povo, quando ele narrava fatos comuns de pessoas comuns. Em uma de suas inúmeras cartas enviadas a sua segunda esposa, Heloisa, Graciliano dá o tom dessa sua opção por essa linguagem simples, próxima da utilizada pelo nordestino: Encontrei muitas coisas boas da língua do nordeste que nunca foram publicadas e meti tudo no livro. Julgo que produzirão bom efeito, (RAMOS, 1981:p. 124) O S.Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários. O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não 135 serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S.Bernardo, cochilando, e procurarão nos monólogos de seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem. (idem, pp.130-131) Em Histórias de Alexandre, o personagem principal, mesmo quando falava daqueles fatos extraordinários de suas histórias, essa linguagem era mantida, apenas com uma predominância de termos que denotassem exagero, abundância, ou espanto por algo inesperado. E assim, tanto Alexandre como seus convidados mantinham esse linguajar. Alexandre, ao finalizar sua primeira aventura, de quando montou uma onça, pensando que fosse a égua pampa que estava perdida, contou para os amigos: Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa. (RAMOS,2007: p. 18) O mesmo se dá na fala de seu Libório, a respeito da citada aventura com a onça: “Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, seu Alexandre. E eu fiquei pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na viola.” (idem, p.19). Seu Firmino também aparece sem descumprir a norma padrão da língua, em um de seus apartes ao Major Alexandre, no início da história “O olho torto de Alexandre”, se referindo ao fato narrado na história anterior, “A primeira aventura de Alexandre”: “Vossemecê não se ofenda, eu não gosto de ofender ninguém. Mas nasci com o coração perto da goela. Tenho culpa de ter nascido assim? Quando acerto num caminho, vou até topar”. E como Alexandre insiste que o cego conclua seu pensamento, ele atende: “Então, como o dono da casa manda, lá vai tempo. Essa história da onça era diferente a semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no princípio não falou no espinheiro”. (ibid, p. 19). Também temos exemplo, na mesma história, na fala de Cesária: “A opinião de seu Firmino mostra que ele não é traquejado. Quando a gente conta um caso, conta o principal, não vai esmiuçar tudo”. (ibid, p.20) Nos trechos mostrados acima, assim como no restante da obra, podemos notar que a fala de Alexandre e dos demais personagens é repleta de regionalismos, porém, mesmo com personagens iletrados, que viviam num local em que não era dada a devida importância à educação da população, e onde até os mais ricos precisavam levar seus filhos para a cidade grande para estudar, não se percebe desacordo às normas gramaticais. Esse é um dado importante de nota, dado à 136 praticamente irrealizabilidade de que tal fato ocorresse naquele local, naquela época, com aqueles tipos de personagens. Dados estatísticos do IBGE45 relativos aos anos 30/40 indicavam um índice de analfabetismo no Nordeste em torno de 75%, sendo que em Alagoas, estado natal de Graciliano, esse índice beirava 80%. Esses dados podem ser mais alarmantes quando pensamos que neles estão incluídos todos os habitantes com mais de 10 anos de idade, incluídos os moradores das grandes cidades que tinham, ainda que também altos, índices menores de analfabetismo. Ou seja, o percentual de analfabetos adultos na região sertaneja de Alagoas era quase total, dando uma ideia de que para encontrar um velho cantador ou curandeiro naquela região que soubesse falar em acordo com o registro padrão escolarizado seria praticamente impossível. A preferência do autor em não reproduzir integralmente a verdadeira fala de personagens da zona sertaneja de nosso nordeste é uma característica sua. Ele representa a oralidade e principalmente a simplicidade dos personagens, com um vocabulário com diversos termos que são bastante usados na região. Porém, não percebemos registros normais de concordância ou de conjugação de verbos presentes em sujeitos com pouco contato com o uso padrão dito “culto” numa época em que uma pequena minoria da região não era analfabeta. Essa característica pode ser vista igualmente em todas as obras de Graciliano Ramos, como São Bernardo, Vidas secas e Infância. No entanto, o autor prefere reproduzir outras características orais da região. Essa opção pode estar no desejo do autor de não representar seus personagens de forma caricatural, pejorativa, mesmo que ele estivesse somente representando fielmente suas falas. No romance São Bernardo, o personagem Gondim, após ouvir reclamação do personagem Paulo Honório de que o seu modo de escrever um livro como no jornal, tem uma fala emblemática: “Se eu fosse escrever como eu falo ninguém me lia”. (RAMOS, 1995: p. 9) A reclamação de Paulo Honório que levou a essa fala do Gondim se referia justamente ao modo empolado, cheio de palavras rebuscadas dos jornalistas. Enquanto isso, Paulo Honório preferia usar palavras simples, próprias do uso normal de um povo, que poderiam ser lidas por qualquer um. A opção de Paulo Honório foi a mesma de 45 http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tendencia_demografica/analise_populacao/1940_2000/comentarios.pdf . Acessado em 05 de maio de 2012. 137 Graciliano, que preferia um linguajar simples, bem próximo ao usado pela gente pobre. A questão envolvendo a opção do autor em não reproduzir fielmente a fala dos personagens sempre levantou discussões de diversos autores que trabalham a questão da transcrição de contos com origem na linguagem oral para os livros. Em uma mesa-redonda realizada em 1948, Câmara Cascudo fez a seguinte proposição: “Nas publicações de literatura oral, isto é, recolhido o material do povo, conservar-se-á a prosódia do narrador? Ou apenas sua sintaxe? Ou estilo simples e preciso, com ou sem modismo?” (CASCUDO apud NEVES, 2008, p.8). O mesmo autor, no livro Contos tradicionais do Brasil, publicado inicialmente em 1946, já afirmava que, nos seus contos, “a linguagem dos narradores foi respeitada noventa por cento. Nenhum vocábulo foi substituído” (idem, p.8). Entretanto, ele advertia: “apenas não julguei indispensável grafar muié, prinspo, prinspa, timive, terrive. Conservei a coloração do vocabulário individual, as imagens, perífrases, intercorrências” (ibid, p.8.). Porém, não há homogeneidade nesse quesito, nem regras gerais que norteiem os autores de obras ligadas a contos de tradição oral. Vejamos a mesma fala de um trecho de Ao som da viola, de Gustavo Barroso, na fala de um “embaixador”, representado em duas formas, para vermos como muda: (1) É o Sultão da Mauritânia, rei-senhor de meio mundo, de meio sol e meia lua, que só por mim manda embaixada! Ouve-me, general, e atende este ilustre embaixador que em tua presença espera!”; (2) “É o surtão da Maritânia rei sinhô de meio mundo de meio solo e meia lunha que só pru mim manda embaxada ouve-me generá e atende este ilustre imbaxadô que in tua presença espera. (BARROSO apud NEVES, 2008, op. cit. p. 8) Gustavo Barroso, em nota, na mesma obra dá a explicação para o fato de ter optado pela forma (1), para depois colocar como ficaria o mesmo trecho tal qual ele é falado pelos “fandangueiros”, o que é mostrado em (2): Os diálogos em prosa estão aí como são no auto popular. Parecerão, no entanto, um pouco acima do nível do povo rude, porque, para evitar confusões e tornar o seu conhecimento mais acessível, ponho-lhe pontuação e grafia comum em vez da sua prosódia popular. (ibid.) Vejamos agora Mário de Andrade, que sempre mostrou muito interesse pelas manifestações populares, referindo-se a trechos das embaixadas em seu estudo “Os 138 congos”46, grafa-as fielmente como foram faladas, tanto na variante normativa dos falantes como em sua fonética, em verso e em prosa: Oh princ‟po eu nun ti dixe, Ai, que tu não fostes à guerra! Mais o princ‟po, de ateimoso, Virô-se im pó, im cinza, im terra! Em prosa: “S‟nhô! Eu sou um hôme monstro e trono sem iguá; e quem fêiz novo calibre lá crué, juda farso, traidô, crué im crime, foi aqueles que siguiram os caso mortá. (ANDRADE apud NEVES, 2008,op. cit., p. 8) Já o folclorista goiano José Teixeira apresentou transcrições de falas de caboclos de cancioneiros da região pantaneira em que notamos similaridades com a fonética transcrita por Mário de Andrade. O goiano procurou se aproximar ao máximo do falar dos moradores locais, certificando-se se a fonética estava correta, pedindo que o contador que repetisse com a alegação de que não ouvira bem. Um exemplo do resultado desse trabalho foi o seguinte: Nois cantanu cá na terra Us anju nu céu tamém, Padi Filhu Ispritu Santu Na hora de Deus amém. (TEIXEIRA apud NEVES, 2008, op. cit. p. 10) Diante de todos esses exemplos, verificamos que esses últimos autores procedem de forma diferente da usada por Graciliano Ramos. Porém, esses autores citados neste capitulo utilizam essa forma em função do trabalho que desenvolveram, de recolha, de pesquisa e estudo de aspectos da cultura popular, de nosso folclore. Porém, entre os romancistas não é comum termos esse mesmo tipo de representação. Há que se marcar que Graciliano Ramos, e sua forma de narrar, sem palavras muito rebuscadas, simples, bem próximo do jeito de falar das pessoas do povo, com as diferenças já citadas, representava uma quebra na forma da narrativa que era usada. A citação feita anteriormente, relativa ao romance São Bernardo, em que o personagem Paulo Honório reclamava da forma como o personagem Paulo Gondim havia escrito parte de suas memórias, mostra essa decisão de Graciliano pelo falar simples. Da mesma forma, ela também marca como a própria imprensa na época costumava escrever seus artigos, já que o personagem Gondim era um jornalista. 46 Lanterna Verde, 2, Rio, fevereiro de 1935, apud NEVES, 2008, p. 8. 139 Esse tema é outro que vem sendo um dos pontos principais de discussões que nós temos levado e que o Professor Godofredo de Oliveira Neto tem encampado junto a seu já citado grupo de pesquisa sobre a Literatura Contemporânea47. O professor Godofredo cita, em relação a São Bernardo, a questão de ter um personagem que possui poucos recursos literários e que pouco estudou ter a capacidade de escrever um livro. A esse fato nós somamos a questão do discurso oral dos personagens de Histórias de Alexandre ser gramaticalmente tão perfeito, o que também é repetido em S.Bernardo. Se formos analisar o discurso dos personagens de outras obras de Graciliano, como Caetés e Vidas secas, também temos falas com total respeito à norma culta de nossa língua, mesmo se fazendo valer de uma linguagem simples. Por exemplo, em Vidas secas as falas eram quase sempre curtas, muitas vezes o personagem dizia uma só palavra para expressar seu estado de secura, mas ainda assim podemos perceber a característica citada nos registros orais dos personagens. No capítulo “Cadeia”, quando o soldado amarelo convida Fabiano para jogar um trinta-e-um, respondeu meio atrapalhado: “Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.” (RAMOS,2000: 27) Em outro capítulo, “O mundo coberto de penas”, Fabiano reflete sobre a desgraça de sua vida e pensa com raiva sobre o soldado amarelo, se considerando um covarde por não fazer nada: “Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha, Fabiano. Mata o soldado amarelo. Os soldados amarelos são uns desgraçados que precisam morrer. Mata o soldado amarelo e os que mandam nele”. (idem, p.111) Como essa questão não tem sido levantada em outras academias, e logicamente, não tem sido objeto de pesquisa, cremos que podemos prolongar esse debate, pois entendemos que ele tem importância para o estudo da obra de Graciliano Ramos. Temos que levar em conta o interesse de Graciliano Ramos, além de não marcar os personagens populares de forma caricata e estereotipada com todos os vícios de fala, nos quais se incluem a não preocupação com a norma gramatical correta, o desejo de não provocar uma distinção muito marcada entre narrador e personagens. Ou seja, não queria ele ter um narrador com linguagem culta, preocupação com o apego ao linguajar correto, mesmo que com o uso de palavras do uso comum do povo, contrastando fortemente com personagens que descumprissem todas as normas gramaticais. Desse jeito ele evitaria que aqueles 47 Notas de Aula, idem nota 44. 140 que pertenciam a uma classe pela qual ele muito lutava, aparecessem em sua obra de forma que os diminuísse e sofressem o preconceito daqueles que fossem o ler. Sua obra não se tornou menos popular, assim como seus personagens não deixaram de pertencer às camadas populares mais sofridas do Nordeste em função de um linguajar simples, popular, regionalizado e sem desatender regras do registro padrão escolarizado (norma dita culta). As histórias de Alexandre não deixaram de ser relacionadas ao folclore presente no inconsciente coletivo do nordestino com a adoção de uma linguagem que não confere inteiramente com o falar do povo sertanejo. Para afirmar-se a adesão de Graciliano ao popular não são necessárias provas, pois prova dessa opção há em tudo o que ele era e em tudo que ele escrevia. O popular estava em sua biografia, de homem sempre preocupado pelas causas sociais. Da mesma forma, esse popular também estava em sua literatura, em que era destacado o ser humano, suas dores, alegrias e anseios em harmonia com os fatos do dia-a-dia e fenômenos sociais da época. Ao colocar personagens pobres, sem que fosse necessário dispor de todo um vocabulário para descrever essa realidade, mas com uma linguagem que mostrava a simpatia que o autor nutria por eles, Graciliano colocou-se ao lado desses representantes da camada mais sofrida do povo. Ele dava voz àquele que normalmente não tem. Segundo o poeta americano, integrante da chamada lost generation, Ezra Pound, “o bom escritor é o que mantém a linguagem eficiente”. (POUND apud LINS, p. 193). E Graciliano seguia esse preceito, mesmo seguindo uma elegância que contraria o conceito que se generalizava na época, do que apuro que matava a eficiência da escrita. Segundo Osman Lins, “a eficiência pode coincidir com a elegância; mas também pode prescindir dessa virtude ou estorvo.” (LINS apud RAMOS, 1982, p. 193). Ainda segundo Osman Lins, Alexandre tem uma linguagem que mesmo disciplinada e precisa, nada tem de elegante, e diz que encontramos nas suas narrativas, expressões correntes entre nordestinos sem instrução e a própria sintaxe é acentuadamente popular. Nelas perpassam o pulsar e a sonoridade do Português ouvido nos mercados e estradas do nordeste. [...] sejam as histórias de Alexandre, [...] onde um recenseamento de natureza léxica iria encontrar talvez o maior coeficiente de expressões regionais, o modo como Alexandre se exprime é literário. Uma estilização processa-se. O autor Graciliano Ramos, vigilante ao nível do enredo, confirma a mesma vigilância. Alexandre e sua histórias são moldadas com o mesmo rigor e a mesma plasticidade que encontramos na linguagem. Delineia-se como um todo coerente, regido por convicções estilísticas precisas e por uma visão realista, compreensiva – e não 141 destituída de compaixão – aos seus personagens e do meio onde vivem. (ibid., p. 193) Segundo Rui Mourão, “a língua, nas mãos do autor, é forçada a adquirir a contundência dos objetos cortantes e a tensão em que ela se mantém é a do próprio pensamento. A se policiar contra os riscos do entorpecimento” (MOURÃO, 2003, p. 173). O modo de escrever de Graciliano, com sua opção pelo simples, enxuto, e o exemplo usado, das lavadeiras de Alagoas, para mostrar como era sua linguagem, dão o tom desse seu posicionamento ao lado da gente pobre: Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; 48 a palavra foi feita para dizer. (RAMOS, 1948 apud BICALHO, 2007) 48 Entrevista concedida por Graciliano Ramos em 1948, publicada na dissertação de Ana Maria Bicalho, disponível em http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1363, p. 51. Acessado em 01 de dezembro de 2012. 142 Capítulo 8 O legado de Graciliano Ramos na literatura brasileira contemporânea No ano de 1948, em entrevista a Homero Senna49, dez anos após a publicação do romance Vidas secas, ao ser perguntado se acreditava na permanência de sua obra, Graciliano diz: “- Não vale nada; a rigor até já desapareceu.” (OPÇÃO, 2012) Por ocasião das comemorações de seus 50 anos, concordou em dar uma entrevista a Francisco de Assis Barbosa, mas não sem antes desconfiar do convite, desdenhando dele, e por tabela, de sua obra: “- Falar de mim! Acha que vale a pena?”. Na referida entrevista, mostra-se um crítico duro, austero, acirrado em relação a suas obras, inclusive as mais conhecidas até então: Mas que importância se dará Graciliano a si mesmo? Muito pouca, com toda a certeza. Para uso externo, pelo menos. Consciente do seu valor, do que sabe e do que pode fazer, o romancista está sempre insatisfeito com o que realiza. Juiz implacável dos próprios trabalhos, não suporta Caetés e considera São Bernardo e Angústia simplesmente toleráveis. Quanto a Vidas secas, não é romance. E dos contos, apenas um ou dois se salvam. (BARBOSA, 1958: pp.56-57) Diante de um escritor que nutria um conceito de sua obra dessa maneira, é de se pensar que sua obra não teria valor e, assim, suas letras teriam uma vida curta e efêmera. Uma palavra que hoje tem se tornado moda em função das obras para grandes eventos, como Jogos Panamericanos, Jornada da Juventude, Copa do 49 “A Última Entrevista de Graciliano Ramos”, publicada no jornal goiano Opção, edição 1944, semana de 7 a 13 de outubro de 2012, no caderno “Opção Cultural” - “Textos Clássicos”. Disponível em http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos. Acessado em 15 de dezembro de 2013. 143 Mundo e Jogos Olímpicos, é o “legado”. Ou seja, qual o legado desses eventos para a cidade e seus cidadãos? Desse jeito, de acordo com a análise cruel de seu autor, poderíamos imaginar que as obras de Graciliano teriam um legado mínimo ou até inexistente. Porém, sabemos que isso não corresponde à realidade. Primeiro, temos que deixar registrado que essas mensagens ditas pelo mestre Graça são resultantes do temperamento do escritor. Graciliano, como o próprio Barbosa registrou, é um crítico implacável de seus trabalhos. Porém, sua crítica, que desvalorizava suas obras representava sentimentos dissimulados. Em entrevista ao jornal cearense O Povo50, Denis de Moraes reforça este pensamento ao lembrar que ele representava o típico sertanejo, tímido e desconfiado. “Ocultava-se na timidez e no excesso de autocobranças, que nada mais eram senão a evidência de sua férrea determinação de aprimorar-se e superar-se como escritor”. (O POVO, 2012) Lendo algumas de suas cartas podemos também afirmar que o romancista tinha plena noção de sua competência literária e que, mesmo quando ele apontava problemas em seus livros, ele apontava para a questão de que ele sabia que era capaz de dar mais de si, o seu melhor. Diante de sua persistência e inquietação em sempre corrigir, tinha-se a impressão de que ele procurava a perfeição artística. A mais famosa dessas cartas a ilustrar essa busca pela perfeição é a que ele enviou ao crítico Antonio Candido, e que aparece publicada tanto na edição comemorativa dos 75 anos de publicação de Angústia quanto na obra do crítico intitulada Ficção e confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos. Nessa carta, Graciliano agradece a Candido por ter falado de pontos merecedores de críticas, com os quais ele concordava, mas que nenhum outro crítico ou amigo chegara a comentar. Graciliano discorreu e explicou o porquê de sua opinião de que o livro carecia de ser reescrito. O único ponto discordante era que, mesmo com essas observações críticas, Antonio Candido reconhecia a grandiosidade e importância de Angústia, enquanto Graciliano insistia em destacar que ele fora mal escrito. O rigor que fazia com que ele trabalhasse com tal afinco suas obras, que o levava a revisar inúmeras vezes o texto, mesmo que tivesse que cortar mais da metade do que tivesse escrito inicialmente, até que se sentisse satisfeito, persistia após a publicação. Desse jeito, ele mantinha uma atitude crítica 50 Entrevista publicada na Seção VIDA & ARTE do Jornal O Povo, em 27/10/2012. Disponível em http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/10/27/noticiasjornalvidaearte,2943850/confiraentrevista-na-integra-com-o-biografo-de-graciliano-ramos-deni.shtml e em http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/10/27/noticiasjornalvidaearte,2943333/outrosgracilianos.shtml. Acessos em 05 de março de 2014. 144 sobre o que escrevera, o que fazia com que procedesse várias modificações nas edições seguintes. Sua esposa Heloisa brincava com ele por conta da concepção de que, para chegar ao texto ideal, teria que enxugá-lo. Certa vez, ao vê-lo cortar várias palavras na preparação da segunda edição de Vidas secas, ela afirmou: “Grace, você corta tanto que, na quinta edição, o livro vai sair em branco...” (MORAES, 2012: 200) Em uma das mesas literárias do Festival Literário de Paraty de 2013, que teve Graciliano como tema, o Professor Lourival Holanda, da Universidade Federal de Pernambuco, comparou a literatura feita por Graciliano Ramos com o que a rede social twitter impõe, com um limite de caracteres para enviar uma mensagem, isto é, o de dizer o máximo pelo mínimo. Tal figura se deve ao reconhecido modo como Graciliano escrevia, de forma enxuta, sem rodeios e palavras de difícil entendimento do grande público, de forma que, com poucas palavras o autor alcançava um grande sentido e eloqüência. Carlos Drummond de Andrade, depois de ler Infância, enviou uma carta a Graciliano dizendo que o livro era uma obra de arte e completou com a seguinte definição: Nada lhe falta, nada lhe sobra. A palavra justa exprimindo sempre uma realidade psicológica ou ambiente; a notação precisa, a dosagem sábia, a economia absoluta de efeitos, notações, recursos. Enfim, um desses livros que a gente desejaria ter tutano para escrever, e que lê com uma admiração misturada de raiva pelo danado que conseguiu compô-la: raiva que é o maior louvor, tanto vem ela impregnada de entusiasmo e prazer. (MORAES: 2012, 216) Percebemos nas palavras de Drummond o enfoque de Graciliano na precisão e na escolha das palavras, sempre na dose certa, sem retoques desnecessários e que, no entanto, não impede que o texto mostre com extrema perfeição a realidade social e psicológica. Essa característica indica um imperativo que o mestre Graça leva a sua escrita, sendo capaz de angariar grande admiração de outros literatos. Mas não só sua obra estava à mercê de seu sentido crítico. Acostumado a ler manuscritos de obras que seriam lançadas, ele analisava-os pormenorizadamente, com cuidado extremo. Suas reações, porém, variavam do temperamento explosivo ao amistoso e cordial. Por exemplo, certa vez ele se deparou com um “selvícula” ao invés de “silvícola” por conta de uma revisão tipográfica num texto que ele mesmo já havia copidescado anteriormente. Irritado, procurou o autor da tal “monstruosidade” com a língua. Ao encontrar o jovem suplente de revisor Luciano de Moraes, que 145 posteriormente transformou-se num dos melhores da área, e que se apresentara como o responsável pelo fato, Graciliano logo o repreendeu: “- O senhor é muito ignorante. Pensou que silvícola viesse da selva, e por isso emendou errado a palavra. Se o senhor soubesse latim, saberia que silvícola, com i, vem de silvícola.” (MORAES, 2012: 235) Por outro lado, também se mostrava justo, educado e elogioso. Certa vez, ao receber originais do romance Trinta anos sem paisagem, de Guilherme Figueiredo, Graciliano, que o lera e recomendara, recebeu o autor no Rio de Janeiro: - Pensei que você fosse mais velho – disse Graciliano, fitando o jovem de 23 anos. - Por que, mestre? - Por que seu livro é de uma pessoa mais velha. - Então é ruim assim? - Não, não. É muito bom. Velha no sentido de uma experiência que eu não imaginava que você tivesse. O romance parece ter sido escrito por um bacharel criminalista. (MORAES, op.cit.: 193) Depois desse diálogo, conversaram sobre literatura e Graciliano admirou-se pelo conhecimento do jovem escritor. Guilherme Figueiredo também ficou admirado por ter descoberto uma pessoa tão afável, completamente diferente da fama que Graciliano tinha. Essa atenção e cuidado ao texto, que autores que iniciavam a carreira de escritores com seus livros recebendo boa acolhida do mestre Graça acabaram vendo suas estréias não passando despercebidas do público e da crítica. Mas as críticas também podiam funcionar para corrigir defeitos, que outros críticos não enxergavam, provocando um aprimoramento do escritor que recebeu essas críticas. Por exemplo, a escritora Yvone Jean agradeceu assim a Graciliano: Ele foi franco comigo, dizendo que meus primeiros artigos não prestavam, não valiam nada, eram muito mal escritos. Mas explicou por que, corrigiu, discutiu. Foi a primeira ajuda positiva que recebi do mundo das letras, porque, até então, cada vez que mostrava meus rabiscos a um entendido só ouvia que eram formidáveis, magníficos, esplêndidos. (op.cit.: 193) Um ponto importante a ser apontado é que o escritor Graciliano andava junto com o homem Graciliano, o ser político Graciliano. Esse termo, ser político, não está sendo aqui usado somente por ele ter sido Prefeito de Palmeiras dos Índios e, posteriormente, membro do Partido Comunista Brasileiro. Sua obra foi sempre impregnada do homem Graciliano. Para Otávio Tarquínio, ao tecer elogios a Infância, “nos livros de Graciliano Ramos, o homem que ele foi está presente e nenhum ajudará melhor a restituí-lo à pureza de suas linhas estruturais do que 146 Infância, obra-prima de um grande mestre”. (MORAES, 2012: p.215) O biógrafo Denis Moraes, autor de O Velho Graça, nota a estreita conexão de Histórias de Alexandre com a fabulação regionalista 51 presente em Vidas secas, em Infância e nas crônicas de Cultura Política . Graciliano extrai da memória a sua matéria ficcional, resgatando tanto suas raízes existenciais quanto um conjunto de tradições e heranças místicas do Nordeste. Como se ele estivesse polindo a sua identidade cultural através do testemunho direto. (MORAES, op.cit.: 214) Assim, Graciliano sentia a necessidade pungente de retratar o mundo vivido. Defendia que a arte devia interligar-se ao meio social como expressão de anseios, principalmente, das camadas oprimidas. Graciliano não chegou a ver seus livros serem sucesso de vendas. Por exemplo, a primeira edição de Vidas secas, de cerca de 1.000 exemplares demorou quase dez anos para zerar o estoque. São Bernardo e Angústia foram as edições mais lidas até sua morte, com quatro e cinco edições respectivamente, seguidos de Vidas secas e Caetés com três cada, Infância e Insônia com duas, enquanto Histórias de Alexandre, Histórias incompletas, Dois dedos e Terra dos meninos pelados estavam ainda na primeira edição. Porém, em vida ele já tinha um grande reconhecimento como grande escritor, não somente por parte da crítica, mas também de seus leitores. Prêmios lhe foram concedidos por sua obra, artigos eram publicados sobre seus livros, jornalistas e críticos o procuravam (muitas vezes infrutiferamente) para entrevistá-lo e descobrir mais sobre sua vida e sua arte literária e, como já dissemos, escritores que “engatinhavam” na literatura estavam sempre em busca de seus conselhos. Entre os que ouviram esses conselhos está um dos grandes nomes de nossa literatura. Em 1938, o mineiro Guimarães Rosa, com o pseudônimo de Viator, havia participado de um concurso literário no qual Graciliano fora um dos jurados, inscrevendo o livro de contos Sagarana. O livro de Rosa não foi o vencedor do prêmio, mas Graciliano, mesmo não tendo votado no livro, reconhecera seu valor literário, tanto que escreveu dois artigos em que defendia que, fora os excessos, os contos dariam um ótimo livro. Seis anos depois, Graciliano, apresentado por Ildefonso Falcão, se encontra com Guimarães Rosa, que diz ao Mestre Graça que ele fora membro de um júri que julgou um de seus livros. Quando Rosa disse qual 51 Revista publicada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, no Estado Novo, para a qual Graciliano Ramos escreveu crônicas entre 1941 e 1944. 147 era seu pseudônimo, Graciliano disse que andara o procurando e perguntou a ele se sabia que tinha votado contra Sagarana. Rosa respondeu afirmativamente, mas sem ressentimento algum. Ao recordar a conversa, Graciliano mostra como ela terminou: “Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, entendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e crítica”. (MORAES, op.cit.: 170). Dois anos após essa conversa, Guimarães Rosa publica um Sagarana mais enxuto, resultado da retirada de três contos e com menos 135 páginas, todas impecáveis. Definitivamente, Graciliano havia acertado em cheio. Essa preocupação com o ofício de escrever levava Graciliano a também exprimir esse cuidado como tema em alguns de seus livros, como em S. Bernardo. Nesse livro, ele não só pensava na melhor forma para se escrever um livro e ser entendido pelo leitor, como também refletia a todo momento sobre o ofício que acabou abraçando ao decidir contar sua história e das dificuldades que porventura ele enfrentava. O jornalista Francisco de Assis Barbosa, responsável por algumas das poucas entrevistas que Graciliano concedeu, depois de checar manuscritos de algumas de suas obras, descreveu assim como era a escrita do Mestre Graça: Via de regra, Graciliano escreve em papel sem pautas, de um só golpe, ao calor da composição. A forma definitiva vem depois. Emenda muito. E até mesmo quando passa a limpo, com a sua letra explicativa de escrevente de cartório, corta muita coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes, risca linhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta de uma igualdade assombrosa, como feito à régua. (BARBOSA, op.cit.: pp.70-71) Seu filho Ricardo Ramos também dá testemunho sobre a falsa impressão, que muito se deveu a seu estilo de escrita seco e com alguns personagens grosseiros, de que Graciliano fosse um eterno mal humorado. “Não digo que não fosse aqui ou acolá meio intempestivo, muito eventualmente rude. Com mulher era de uma delicadeza extrema, a ponto de beijar as mãos e ceder lugar no bonde. Agora, qualquer coisa que o irritasse ele descia os pés. Fora disso, conversa amigavelmente, era muito de contar histórias, de lembrar coisas, aquele tipo de conversa de coronel do interior. (RAMOS apud op.cit. MORAES, 2012: p. 200) A imagem de Graciliano, como pessimista inveterado, mal humorado, sisudo não é verdadeira. José Paulo Paes, em Cartas de amor a Heloísa, prefaciando o livro afirma que: Para quem ainda acredite na verdade global do mito Graciliano Ramos, a leitura das suas cartas de amor à noiva, Heloísa Medeiros, há de ser no mínimo desconcertante. O derramamento sentimental delas obedece ao pé 148 da letra os cânones tradicionais da epistolografia do amor-paixão, a qual costuma ser tanto mais hiperbólica nos seus arroubos quanto casta nos seus propósitos confessos. Mas, uma vez admitida a homologia entre criador e criação, como conciliar a sentimentalidade dessas cartas com a desencantada e\ou cínica visão do amor que, na primeira pessoa da experiência vivida, nos propõem João Valério, Paulo Honório e Luís da Silva em Caetés, S. Bernardo e Angústia, respectivamente? (PAES in RAMOS, 1996: p. 11) Após sua morte, em 1953, com a publicação de Memórias do cárcere, que manteve a unanimidade crítica de quase toda sua obra, enfim Graciliano foi sucesso de vendas, alcançando o incrível número de 10.000 exemplares vendidos em apenas 45 dias. Lúcia Miguel Pereira comparava Graciliano ao russo Dostoiévski e seu clássico Recordações da casa dos mortos, afirmando que Memórias do cárcere não se revelava inferior ao russo. Gilberto Freyre destacou a sinceridade com que o mestre Graça expusera a dor de sua passagem pela cadeia. Oswald de Andrade ressaltou o depoimento cristalino que mostrou todas as abjeções e injustiças cometidas com Graciliano. Já José Lins do Rego prognosticou que sua repercussão seria maior na medida em que o tempo passasse. E, por fim, Antonio Candido, um dos maiores estudiosos da obra de Graciliano, afirmou que o conjunto da obra era irretocável. Mas não foram só suas obras, o fruto deixado por Graciliano. Também não podemos nos limitar a citar a vasta literatura crítica, composta de diversos ensaios, alguns já citados neste trabalho, biografias, dissertações e teses, não só no Brasil, mas em todo mundo, resultado de um interesse cada vez maior de leitores de vários países, com centro de estudos literários sobre nossa literatura espalhados em todos os continentes. Só isso já seria suficiente para registrar a grandiosidade de Graciliano Ramos. Várias pessoas também citam como um dos legados do Mestre Graça a sua integridade moral, sua ética, sua noção de justiça e preocupação com os pobres, com aquela população que não tem voz, marcas essas que apareciam não só na sua vida pública como na própria obra. Denis de Moraes, por ocasião do Festival Literário de Paraty de 2013, disse que Graciliano Ramos certamente apoiaria os protestos que ocorreram em várias cidades brasileiras no ano de 2013. O pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, Erwin Torralbo Giménez, numa das mesas da Flip, cujo tema foi “Graciliano Ramos: políticas da escrita”, usando uma expressão atual que classifica uma pessoa de confiança, que lutaria pelos seus direitos, falou sobre o caráter do grande escritor 149 alagoano: “Graciliano, sim, nos representa”. E podemos afirmar que Graciliano conseguiu deixar esse sentimento sobre ele e sua obra, porém registre-se que sua escrita era política, mas não panfletária. Graciliano fazia uso de temas políticos e sociais em sua literatura, porém, não permitia que eles sobrepujassem os aspectos literários de sua obra. Ele não utilizava a literatura com o único propósito de fazer política. Os temas trazidos pelo autor sempre carregavam também outros aspectos, às vezes uma análise psicológica, outras vezes, concomitantemente ou não, os aspectos culturais e, em outras, como no caso de Histórias de Alexandre, a comicidade. O aspecto político servia como instrumento de reflexão, para engrandecimento do homem e, reforça-se, sempre em alta relevância os aspectos literários relativos à obra do autor. Assim, tendo espalhado essas sementes por toda sua vida, era de se esperar que outros escritores procurassem seguir os seus passos. Já citamos alguns exemplos de escritores que estavam iniciando a carreira e ouviram atentamente os conselhos de Graciliano, mas também temos os que vieram após sua morte. Todos os escritores que procuraram seguir os passos de Graciliano têm em comum a profunda admiração por ele. Podemos citar como um dos escritores brasileiros pósGraciliano cuja obra mais se aproximou de Graciliano o paulista João Antonio. Como um intérprete das vozes das ruas, João Antonio, tal qual Graciliano, deu voz a personagens que usualmente são marginalizados pela sociedade. O escritor paulista, que foi um grande amigo de Ricardo Ramos, um dos filhos de Graciliano, nutria uma paixão pelas obras de grandes escritores, tanto nacionais quanto estrangeiros, como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Dostoiévski, Eça de Queiroz, Jack London, Hemingway, entre outros. E era normal que um autor que lia tantos autores clássicos, acabasse recebendo a influência de algum deles. Alguns estudos, como a tese de doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP de Bruno Gonçalves Zeni (2012), citam uma relação entre os contos de João Antonio com Alcântara Machado, Guimarães Rosa, Rubens Fonseca, Lima Barreto e Graciliano Ramos. Mas são os dois últimos que se sobressaem. Lima Barreto, pela declarada dívida literária e insistentes homenagens em epígrafes e dedicatórias, além de um livro sobre o autor, intitulado Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1977). Já Graciliano foi sempre declarado por ele como seu autor predileto. Sempre se referia aos livros do Mestre Graça como leitura 150 indispensável, principalmente para os escritores. No próprio já citado livro sobre Lima Barreto, João Antonio utiliza no título uma metáfora para atribuí-la a Lima Barreto, metáfora essa que foi diversas vezes utilizada pelo escritor para se referir a seus personagens marginalizados e sofredores, como na reportagem “Pingentes”, que fala sobre os trabalhadores que viajam pendurados nas portas dos trens cariocas da Central do Brasil, e presente no livro Malhação do Judas carioca (1975). Essa mesma forma lexical é também localizada na crônica “Os passageiros pingentes”, publicada no livro Linhas tortas, de Graciliano Ramos. João Antonio também carrega a característica de economizar palavras e ao mesmo tempo demonstrar uma carga intensa de significação para os sentimentos de seus personagens. Ao comentar a linguagem lírico-popular das histórias de Malagueta, Perus e Bacanaço, Alfredo Bosi diz que “tudo nelas é breve, intenso e sintético como o narrador imagina ser o andamento vital daquelas criaturas apertadas entre a urgência pícara de vencer a fome e o medo agudo da polícia ou do malandro mais forte”. (BOSI, 1987: p.19). Bosi cita o conto “Frio”, incluído no citado livro de João Antonio, reforçando essa pungência da palavra, a mesma da linguagem utilizada por Graciliano: cada frase, traz uma sensação premente, uma experiência doída, uma angústia a mais. A palavra diz a espera, a pena do corpo; raramente o sonho, doce intervalo entre momentos de desconforto. É um signo pesado de vida e, no entanto, caminha depressa e sem estorvos, tocado pela simpatia do narrador. (op cit: 19) Já, no conto “Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha”, do livro Dedo duro, o autor traz, na parte intitulada “Ave Noturna”, o mesmo tom emocional presente no capítulo II de S. Bernardo, sendo que em ambas as partes os dois autores se utilizam da metalinguagem, ao mencionarem as agruras que o ato de escrever pode ter, mas que também podem servir de impulso para a produção da escrita: UMA AVE NOTURNA Vive-se. Se se é uma chaga viva, nervo exposto, tontice. Ninguém vê. Meu trabalho tem sido, quando presta, disfarçar isso. Meu pecado é que as manhãs foram feitas para a meditação. As tardes para a contemplação. E as noites, estas sim, para a concentração e a construção. Nelas, expludo. (ANTONIO, 1982: 87) * II 151 Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja – e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta. [...] Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita para a horta. [...] Volto a sentar-me, releio estes períodos chinfrins. Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoirava isto brincando. (RAMOS, 2005: pp.11-12) Godofredo de Oliveira Neto (1990), em seu estudo A ficção na realidade em São Bernardo, pontua essa variação de sentimentos em relação ao elemento noturno no livro de Graciliano, mas que também pode ser aplicado ao conto de João Antonio. Esse elemento, que significa no imaginário popular algo temeroso, inebriante e assustador, pode também desencadear a construção e a criação, como aparece no conto de João Antonio. Para o professor Godofredo, o impulso para a escrita é determinado por um elemento exterior: o pio da coruja [...] numa atmosfera noturna, onde o homem perde um pouco as fronteiras do cotidiano e do racional, e se torna mais permeável aos signos da natureza. Agora, Paulo Honório já não faz cálculos ligados à escrita, mas é antes a força da pulsão para a escrita. (OLIVEIRA NETO, 1990:p.38) Outros escritores, além de João Antonio, também se aproximaram da obra de Graciliano Ramos. Como já foi dito, esses escritores sempre exprimiram profunda admiração por Graciliano. Tivemos também o caso do professor e escritor Silviano Santiago, grande estudioso de nossa literatura, que escreveu Em liberdade, obra publicada em 1981 em que o autor reproduz a voz de Graciliano pretendendo recuperar memórias inéditas do Mestre Graça. Jacques do Prado Brandão, na aba da capa da segunda edição (1985) de Em liberdade resume o livro em poucas linhas: “No intervalo entre sua saída da cadeia e a instauração do Estado Novo, Graciliano Ramos, o mais difícil e mais torturado dos romancistas brasileiros da década de trinta, escreve um diário, ao qual dá o título de Em liberdade”. (BRANDÃO apud SANTIAGO, 1985). Silviano se empenha em transcrever um suposto diário, que Graciliano teria escrito logo após deixar o cárcere, e avisa após o título: “ficção de Silviano Santiago”. Assim, Santiago faz referências claras ao passado, porém, trazendo luz para eventos cotidianos, mostrando que não só a obra, mas também o exemplo dado em vida por Graciliano é atemporal. Quanto a 152 essa reflexão sobre passado e presente, no mesmo texto citado anteriormente, Brandão define assim: A reconstituição de um momento na História, que proporciona Em liberdade, dá nova amplitude à própria obra e vida do romancista de Vidas secas e surge como meditação paralela sobre o Brasil e o mundo de hoje, em metáfora magnífica de inúmeras e complexas interpretações . [...] Não lhe basta vê-lo do exterior, penetra-o e se torna ele mesmo Graciliano Ramos [...] Querendo diminuir a névoa entre ele e o mundo, [...] serve-se de seus poderes de criação como de focos de luz para encenar a história e enquadrar o personagem num fascinante jogo de espelhos múltiplos, tornando redivivo o romancista de Angústia e o seu mundo, transformando-o em outro, trazendo-o até hoje, para, finalmente, desfeita a ilusão, nos deixar com um grande escritor que é o próprio Silviano Santiago.” (op.cit.). Outro escritor e admirador de Graciliano Ramos é o amazonense Milton Hatoum. Milton foi o responsável pela conferência de abertura do Festival Literário de Parati de 2013, falando sobre o autor de S. Bernardo. Nessa conferência sobre o tema “Aspereza do mundo, concisão de linguagem”, Hatoum destacou a ética de Graciliano, que o tornava uma referência para o momento atual. Destacou também que seu livro de memórias Infância foi de grande importância para sua vida de leitor e escritor. Sobre a influência recebida de Graciliano, Milton contou que vários escritores brasileiros foram influenciados por Graciliano, como ele próprio, Érico Veríssimo e Guimarães Rosa. Em entrevista à Rádio Batuta, pertencente ao Instituto Moreira Sales, Milton contou que essa importância de Infância para ele foi tanta, que ele gostaria de escrever um prefácio para a obra. Em tese de doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, de Maria da Luz Pinheiro de Cristo, a autora trabalha com manuscritos dos romances Relato de um certo oriente e Dois Irmãos, de Milton Hatoum, evidenciando que o escritor chegava a fazer diversos textos modificados antes da edição que foi levada para publicação, sendo que no caso de Dois Irmãos, o autor entregou a autora 20 versões diferentes do livro. Essa preocupação em trabalhar o texto exaustivamente até encontrar a sua forma ideal e definitiva também era apresentada por Graciliano Ramos. Esse trabalho detalhado de Milton Hatoum com o texto resulta numa produção bem espaçada, num total de somente quatro romances. Também da literatura contemporânea, temos o escritor e tradutor Rubens Figueiredo, que vem se destacando no cenário literário brasileiro, ao receber alguns prêmios de destaque da literatura brasileira, e que também demonstra ter recebido influências de Graciliano Ramos. 153 Rubens Figueiredo nasceu em 1956, no Rio de Janeiro. Formado em Letras, na habilitação português-russo, é também tradutor, principalmente de obras em russo. Essa atividade de tradutor já foi mencionada pelo autor como uma das razões por produzir tão espaçadamente, já que seu primeiro livro, O mistério da samambaia bailarina,foi publicado em 1986 e depois disso Rubens Figueiredo publicou mais sete livros. Seus seis últimos livros foram escritos em intervalos de quatro anos cada um. Embora essa justificativa tenha razões para ser levada em conta, visto que Rubens Figueiredo tem um grande volume de traduções (o próprio autor não sabe ao certo quantos livros traduziu, afirmando apenas, em recente entrevista para o portal brasileiro do jornal Pravda, que traduziu “uns 70 livros”). Só para a editora Companhia das Letras foram mais de 40 livros. No entanto, o professor Flavio Carneiro, da UERJ, levanta outra hipótese: “a busca por uma expressão justa e trabalhada”. Fiori (2009) lembra que o leitor, quando toma contato com a obra de Rubens Figueiredo, tem “a impressão de trabalho intenso com a linguagem, no sentido de buscar as palavras, as expressões, as imagens mais adequadas à configuração de seu universo ficcional” (FIORI, 2009: p. 337). Tal hipótese pode ser justificada pelo rigor que o autor tem no manejo com a palavra. Tal rigor fez com que alguns pesquisadores, como Roberto Lota, Mestre em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em Letras na mesma universidade, lembrem de grandes nomes de nossa literatura: No que tange à estruturação textual, o diálogo com a escrita de Graciliano Ramos e com a de João Cabral de Melo Neto será observado, desenvolvendo uma forma peculiar de Educação, em que a concisão, a secura, a objetividade, a literatura desprovida de sentimentalismo serão os caminhos percorridos (mais ou menos vigorosamente) desde os primeiros momentos de sua produção. (LOTA, 2011:p. 10) O próprio Rubens Figueiredo dá pistas de uma predileção por Graciliano Ramos, quando, em uma entrevista, diz que “a prosa que mais tenho admirado é a de Graciliano Ramos”. Lota afirma que uma das maiores influências do estilo de Graciliano Ramos aparece quando Rubens Figueiredo fala pelos silêncios, pois “nesse silêncio que se anuncia agudo e reverberado, somos convidados a penetrar além das oralizações, para dentro do que se vê, para do dentro do ser que vive. Tal é a forma com que Rubens Figueiredo conduz sua narrativa”. (idem, p.21) 154 Tanto Rubens Figueiredo como Graciliano seguem o preceito do poeta americano americano Ezra Pound, citado no capítulo anterior, de que “o bom escritor é o que mantém a linguagem eficiente”. (POUND apud LINS, p. 193). A busca pela precisão na escrita, trabalhando o texto à exaustão, lapidandoo, pode também ter sido resultada pela forma como Figueiredo trabalha a tradução de seus livros, já que procura dar ao texto traduzido um rigor que garanta a fidelidade ao texto original. A própria forma como Rubens Figueiredo chegou a ser tradutor do russo para o português pode mostrar uma aproximação ao menos temática e de escolhas, entre ele e Graciliano. O autor carioca, aos 17 anos, já era leitor de autores russos, e fez opção pela habilitação Português-Russo no Curso de Letras no Vestibular: “O que pode ter passado na cabeça de um garoto de 17 anos? Fazer uma coisa diferente, estranha... era a época da ditadura militar, a Rússia era um lugar comunista, tinha esse lado contestador. Tudo isso era atraente.”52 Graciliano Ramos já chegou a ser chamado de um “alagoano de alma russa”53, num trabalho de dissertação em que a mestra Cristiane Arteaga discute a aproximação e influência que o Mestre Graça teve do russo Dostoiévski, com a predileção por temas sociais e pelas camadas mais sofridas. O trabalho de tradutor de obras russas conforta a alma de Rubens Figueiredo, já que a tradução de livros de língua inglesa, tarefa que também exerce, o incomoda por sentir que, de alguma forma, poderia estar participando do que chama de processo de colonização, em que um idioma acaba engolindo outros, numa relação “desigual entre os países”. Quando traduz do russo, ele sente como se estivesse enfrentando o sistema, porque a literatura russa clássica é caracterizada pelo questionamento da vida social. Mas, assim como Graciliano, Rubens Figueiredo não se deixa levar pelo uso do social como uma literatura de panfletismo barato. Em entrevista ao Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, ele tratou desse assunto: A pobreza, as injustiças, a brutalidade, em suas variadas formas, são inescapáveis e centrais. Resta, no entanto, determinar o que se entende por “social”. A literatura talvez possa dar uma contribuição especial quando se trata de ampliar o alcance do que classificamos como social, em 52 SCARPIN, Paula. Nossos três russos.In PIAUÍ, 47. Agosto de 2010. Questões literárias. Arteaga, Cristiane Guimarães. A alma russa de um nordestino: Graciliano Ramos leitor de Dostoiévski. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Letras. Programa de PósGraduação em Letras. Dissertação de Mestrado, 2005. 53 155 contraposição ao pessoal, ou ao cultural. Por exemplo, as matrizes de uma narrativa, a sua composição e seus pressupostos abrigam um potencial crítico que pode ter grande relevância social. Mas isso não é automático. Depende da consciência e do sentimento do escritor ao manejar esse material.(2012, p.194) Essa questão foi usada, por exemplo, em um dos contos do livro Contos de Pedro, “De forno a forno”, em que é mostrada, entre outros fatos, a forma com que a sociedade pode reagir frente aos pedintes que vivem nas ruas. Nos demais contos do livro, também há esse traço de denúncia e crítica, mas não se limitando a isso, pois o importante é a palavra e o trato que se faz com ela. E assim se dá também no conto “Uma questão de lógica”, do mesmo livro, com o autor, usando uma linguagem contida, concisa e objetiva, tal qual Graciliano, tratando das agruras de gente simples, que normalmente não tem voz, como de ter que viver numa casa apertada, sem ter como saber se dará para os filhos terem o que comer e vestir e lutando para conseguir até mesmo ir a uma entrevista de emprego por não ter como pagar alguém para ficar com os filhos pequenos. Hoje, 61 anos após a morte de Graciliano Ramos, sua obra continua atual e viva e talvez esse seja seu maior legado. O reconhecimento cresceu e seus livros receberam várias outras edições. Na atual editora de seus livros, a Record, Graciliano é o autor nacional de maior vendagem. Seus livros também receberam adaptações para o cinema e televisão, como os filmes Vidas secas, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1963, São Bernardo, dirigido por Leon Hirszman em 1971 e Memórias do cárcere, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1984, além da série Terra dos meninos pelados, adaptada por Claudio Lobato e dirigida por Márcio Trigo, e do recente especial Alexandre e outros heróis, baseado em três das Histórias de Alexandre, exibido em dezembro de 2013 e dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Terra dos meninos pelados também vem recebendo, aproximadamente nos últimos dez anos, algumas adaptações para o teatro em Curitiba, Pernambuco e São Paulo. No tocante às Histórias de Alexandre, a obra já tinha deixado outro legado, quando um quadro do programa do humorista Chico Anysio foi produzido nos anos 70 e 80 para a televisão e depois para o livro. Mesmo percebendo que o referido quadro algumas vezes tenha apresentado uma certa dose de vulgarização, ele acabou levando ao grande público essa modalidade narrativa, com transmissão oral, numa outra esfera de popularização, no âmbito da indústria cultural de massas. 156 Embora no texto de Ivan Cavalcanti Proença, que aparece na “orelha” do livro publicado por Chico Anysio – É mentira, Terta? – não tenha referência a Histórias de Alexandre, alguns jornalistas e leitores de Graciliano fora do âmbito da imprensa, citaram a aproximação entre o personagem “Pantaleão” de Chico Anysio e Alexandre, popularizando a obra. Mesmo papel teve o especial Alexandre e outros heróis, citado anteriormente, pois valorizou a narrativa oral e a obra, aumentando sua procura. Além disso, o interesse pelo autor e sua obra cresceu consideravelmente, alcançando patamares de um grande escritor, o que ele foi. Exemplo disto são os numerosos estudos de críticos literários como Alfredo Bosi e Antonio Candido ou de diversas dissertações e teses que se debruçaram sobre a obra deste escritor alagoano. Mesmo com outros escritores tendo aparecido desde 1953, ele continua sendo considerado como um dos maiores nomes de nossa literatura. Invariavelmente, quando críticos de nossa literatura são chamados a citar os maiores escritores da literatura brasileira, Graciliano está em todas as listas. Por isso a numerosa fortuna crítica do autor. Em especial aos estudos sobre Histórias de Alexandre, como já vimos nesta dissertação, nos últimos anos, temos notado um movimento crescente pela procura de críticos e de alunos de Mestrado e Doutorado que tem trabalhado no estudo da obra. Também resulta desse grande interesse o grande número de edições de Alexandre e outros heróis, atualmente na 60ª edição, indicando o índice de mais de uma edição por ano desde 1962, com uma vendagem tal que o leva ao terceiro posto entre os títulos de Graciliano. Soma-se a isso o fato de que a edição de Histórias de Alexandre, publicada em 2007, com ilustrações de André Neves, já atingiu a 10ª edição, também apontando para um índice de mais de uma edição por ano. Também como reflexo desse interesse, temos, por exemplo, as biografias de Denis de Moraes (O Velho Graça) e as de seus filhos Clara Ramos (Mestre Graciliano: confirmação de uma obra) e Ricardo Ramos (Graciliano: retrato fragmentado). Essas biografias, junto com as poucas entrevistas concedidas pelo escritor, nos ajudam a melhor compreender que o escritor caminhava junto com o homem Graciliano. A atualidade de sua obra pode ser considerada o principal legado deixado por Graciliano, sem contar com sua retidão e sua ética, que são sempre citadas por quem o conheceu como um exemplo para as gerações posteriores. Com relação a 157 essa atualidade, Wander Melo Miranda, no prefácio da obra Estruturas – ensaio sobre o romance de Graciliano, de Rui Mourão, diz que Por um lado, a permanência da obra do autor revela, em virtude dos problemas que aborda, certa imobilidade da história social brasileira, que não parece avançar muito ou não sair do lugar por outro, algo nessa obra delineia uma linha de fuga em relação à precariedade comum ao texto literário [...]. Talvez resida no que escapa à leitura de Graciliano Ramos, qualquer que seja a perspectiva crítica adotada, a justificativa mais convincente para a perenidade – paradoxal – de seus textos. Quanto mais perto da experiência histórica que lhe coube expressar, mais longe da limitação temporal que essa mesma experiência poderia acarretar. (MIRANDA apud MOURÃO, 2003: p.8) Diante de todos esses pontos, acreditamos que podemos resumir Graciliano nos seguintes versos do poema epígrafe desta dissertação, “Graciliano Ramos”54, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto: Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol que as limpa do que não é faca: de toda uma crosta viscosa, resto de janta abaianada, que fica na lâmina e cega seu gosto da cicatriz clara. (MELO NETO, 1986:p. 75) 54 Poema presente no livro Poesias Completas (1986), de João Cabral de Melo Neto. 158 Conclusões Ao nos decidirmos pesquisar formas populares de cultura – antes de atentarmos especificamente para a sua presença na literatura brasileira - nos deparamos com diversos termos que também se adequariam ao tema proposto, como cultura popular ou folclore. Dependendo do local em que fôssemos investigar, teríamos que ter noção exata do “chão onde estávamos pisando” para poder distinguir o que era uma opinião fundada ou apenas algo carregado de préconceitos. Porém, seria necessário que nós também nos distanciássemos, para que conhecimentos do senso comum que carregávamos não influenciassem nosso estudo. Assim, analisamos alguns aspectos históricos da formação da cultura popular, seguindo a trajetória percorrida desde as primeiras histórias que eram contadas por humanos há milhares de anos, passando pela transição entre as histórias orais e as escritas, chegando à modernidade. Feito esse trabalho, não poderíamos chegar a uma conclusão diferente daquela que reconhecesse a grande importância dessas formas, desde as primitivas que surgiram há séculos atrás até as contadas pelo povo do sertão nordestino, como as contidas nas Histórias de Alexandre. Já eram importantes quando registravam as descobertas do homem ou daquilo que eles começaram a entender como o mundo em que viviam. Da mesma forma, tínhamos que reconhecer sua significância ao manter em poder da sociedade em que viviam através das diversas gerações, ou mesmo de levá-las para outras terras, outros mares na bagagem cultural que carregavam. Essa bagagem continha aspectos que tanto podiam ser em termos artísticos, como religiosos, sociais, políticos ou de qualquer outra ordem que ajudasse a definir um perfil daquela sociedade em que viviam e das outras com que entravam em contato. Também percebemos o valor para o estudo do desenvolvimento e/ou mudança de nossas 159 sociedades através dos tempos, do que influiu em mudanças para melhor ou para pior na qualidade de vida. Tudo isso está presente nessa cultura. No quesito relacionado à qualidade dessa produção reside o principal ponto de conflito quando alguém decide estudá-la. Muito se fala de que esse produto é pobre, acompanhando a pobreza de quem o cria, ou seja, o povo. Para realmente estudarmos esse assunto, temos que entender que não podemos pretender analisar a qualidade de um produto como a cultura popular se não nos basearmos em concepções e fundamentos que só fazem sentido num mundo em que essas bases são realmente importantes. Precisamos ter em mente que o conhecimento obtido nos livros pode não ser (e na maioria das vezes não é mesmo) essencial para alguém que vive numa região em que não há livros, jornais, revistas, ou sequer são feitas divulgações através da escrita. Nesses locais, o verdadeiro conhecimento provém da prática, da observação, do fato contado ou narrado, da intuição, da criatividade etc. Como bem diz Ricardo Azevedo55, isso não quer dizer que devemos desvalorizar o pensamento abstrato e teórico, mas sim compreender algumas de suas características e ressaltar que a visão de mundo popular obedece a outros paradigmas. Da mesma forma, não podemos cair na armadilha de fazer o contrário, de achar que tudo o que é popular é perfeito, bonito e de alta qualidade, e que o importa é ter vindo do povo, vir “da raiz”. O conhecimento e entendimento em geral de cada cultura passam por padrões sociais, éticos e estéticos próprios. Desse jeito, a própria cultura popular acabaria por enfrentar um embate dentro de seus domínios. O que seria cultura popular? O que seria considerado popular? O que é popular em uma sociedade não o é em outra. Então uma seria mais popular que a outra? A que cultura seria dado maior valor? Uma forma cultural vinda do Japão é mais importante do que uma que venha da América Central ou do nordeste brasileiro? Ainda poderíamos cair numa cilada em que a opinião individual poderia ser valorizada em detrimento da coletiva. Da mesma forma como a dita cultura letrada tem diferenças de modelos, de visão de mundo, de hábitos mentais, de padrões sociais, culturais, éticos e estéticos e também de maneiras de enxergar o outro e o mundo em relação 55 AZEVEDO, Ricardo. O abençoado e o danado do samba. Caixas com Letras – Cultura popular, artesanato de tradição e livros afins. Cadernos Arte Sol 2, Publicação ArteSol, 2006, pp 53-70. Disponível em http://www.ricardoazevedo.com.br/wp/wp-content/uploads/Abencoado-e-danado-dosamba.pdf. Acessado em 23 de setembro de 2013. 160 à cultura popular, esta tem subdivisões internas quando analisamos as várias culturas populares existentes por todo o mundo. Muitas das vezes essas subdivisões não são somente de um país para outro, mas sim de um estado para outro, uma cidade para outra. Assim, com essa vasta percepção do assunto, podemos concluir que há relevância tanto na cultura tradicional e letrada quanto na popular, e que elas implicam diferentes produtos, ou diferentes discursos. Concluímos também que, tendo noção dessa relevância de ambas, podemos entender melhor nossa sociedade, arte, literatura e, porque não dizer, nós mesmos. Estudando as formas populares em toda cultura brasileira, notamos que ela é de uma grande variedade, traduzida pela diversidade de influências culturais estrangeiras que aqui foram introduzidas, além da própria cultura nativa dos índios que já aqui viviam. A diversidade também é representada pelo grande número de meios que representam essa cultura. Assim, há várias contribuições da cultura popular que se manifestam por todo o Brasil, como festas, danças, cantos e contos. Cada uma dessas manifestações acaba recebendo maior importância e atenção, dependendo da região onde ela esteja sendo apresentada, da audiência e da relação que tenha essa audiência tanto com a cultura popular como com a cultura erudita. Da mesma forma, cada uma dessas formas também apresenta variações internas. Na literatura com motivos populares tivemos um fenômeno de diferenciação amplo, com uma enormidade de fontes que deram origem à nossa atual literatura. Essas fontes representam histórias orais desde os nativos indígenas como de escravos africanos das mais diversas nações e várias nações européias que aqui chegaram, e até asiáticas que posteriormente imigraram para nosso país. Há que se firmar que muitas das histórias, mesmo sendo trazidas por portugueses, já tinham registros que marcavam que tinham origem e presença em muitos outros países. Aqui chegando, essas histórias orais foram adquirindo uma “roupagem” própria, aclimatadas a nosso país multicultural. Na passagem do oral para a literatura escrita, essa cultura popular teve igualmente uma diversidade tanto de fontes como de meios representativos, como poemas, cantos e contos, e também alguns romances. No estudo sobre a obra Histórias de Alexandre, com toda noção relacionada à cultura popular, pudemos ter uma visão melhor sobre ela. O popular está em todas as narrativas daquele major com um olho vesgo que se reunia nas noites de 161 domingos e dias santos com amigos da redondeza para contar suas histórias recheadas de elementos fantásticos, exagerados e engraçados. Esse popular também é identificado na platéia de Alexandre, formada de personagens pobres do esquecido sertão nordestino. Esses personagens que não recebem voz na sociedade e são subjugados pelos poderosos, de Graciliano recebem voz e por ele são tratados com o devido respeito, transformando-se em vozes transmissoras do saber popular. A valorização desses elementos sofridos, que já é uma marca em toda obra de Graciliano, em Histórias de Alexandre ganha um contorno maior, pois não somente eles são valorizados, mas também a cultura popular que representam. Outro fato importante é o de que os saberes desses personagens desprestigiados lhes foram transmitidos por outros elementos detentores dessa cultura, o que assinala, assim, que esses saberes se mantenham e estejam em constante movimento, permanecendo sempre em evidência. Da mesma forma, o elemento popular das histórias pode ser relacionado às formas populares de criação e de divulgação da cultura, como cordéis, emboladas e o próprio serão utilizado por Alexandre. E vimos a presença dessas vozes e saberes populares na obra analisada também como um produto do inconsciente coletivo do nordestino, que soprava no ar aquelas histórias que acabaram primeiro por parar nos ouvidos de Graciliano Ramos desde sua infância e que ele guardou na memória, e a ela deu contornos próprios. Posteriormente, aquelas histórias do imaginário popular foram parar, pela pena de Graciliano, nos ouvidos daquele homem simples, o personagem narrador, mas que tinha a mania de “surrupiar” aquelas histórias e proceder a adaptações para que assim delas se apropriasse e a partir dali pudesse ditar o rumo que quisesse lhes dar. A análise colocou em destaque o status do narrador, mesmo entre populações pequenas, distanciadas da cultura letrada, o reconhecimento da palavra (inquestionável) do contador e a valorização dos saberes/conhecimento de um mundo que vai além dos saberes e conhecimentos dos ouvintes que aprendem e se entretêm ouvindo as histórias. Histórias de Alexandre é bem diferente de Terra dos Meninos Pelados, de Pequena História da República (escritas na mesma época e que foram posteriormente incluídas num mesmo volume), de Vidas Secas, de São Bernardo e de todas as outras obras de Graciliano Ramos, mas o autor continua sendo visto, como em todas essas obras, tanto por sua marca enxuta de escrever, mesmo com 162 um narrador bastante falador como Alexandre, como por seu apego à terra, ao povo e às coisas do povo. Graciliano, que sempre primou pela secura, de enxugar ao máximo, tem um narrador como Alexandre, que é o inverso da economia “graciliânica”. Ele é um narrador em que Graciliano se exercita no gênero do humor, no humor do exagero e das histórias tradicionais de mentiroso. Graciliano tem em Alexandre um personagem que trafega do real para o fantasioso e, fazendo uso de elementos da cultura popular, consegue produzir com que sua linguagem consiga coexistir entre a tradição oral e o erudito. Nessa obra, Graciliano mostra que, mesmo um escritor super conceituado, conhecido também por sua elegância, manejo com o idioma, com a língua, poderia usar elementos populares, não só em termos de linguagem, como da própria cultura em si. Numa espécie de antropofagia diversa da preconizada por Oswald de Andrade, Graciliano, ao invés de digerir elementos da cultura do exterior e interior, prefere usar apenas aqueles que já estão amalgamados e reconhecidos como cultura de seu país, como cultura popular nacional, e os aproveita de forma magnífica, transformando os causos de matuto do sertão numa grande obra. 163 Referências 7 HISTÓRIAS Verdadeiras – Graciliano Ramos (Nota). In Imprensa Popular, edição número 948. Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1951, p.9. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=108081&PagFis=1748. Acessado em 04 de dezembro de 2013. ABEL, Carlos Alberto dos Santos. Graciliano Ramos: cidadão e artista. Brasília: Editora da UNB, 1999. 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