PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS VERNÁCULAS:
LITERATURA BRASILEIRA
VOZES E SABERES DA CULTURA POPULAR EM
HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, DE GRACILIANO RAMOS:
do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes
CARLOS BENITES DE AZEVEDO
Rio de Janeiro
2014
CARLOS BENITES DE AZEVEDO
VOZES E SABERES DA CULTURA POPULAR EM
HISTÓRIAS DE ALEXANDRE, DE GRACILIANO RAMOS:
do imaginário do contador à recepção de seus ouvintes
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em Letras
Vernáculas, da Faculdade de Letras da
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como requisito parcial à obtenção do título
de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura
Brasileira)
Orientador: Prof. Dr. Godofredo de Oliveira
Neto
Rio de Janeiro
2014
R175haa
Azevedo, Carlos Benites de
Vozes e saberes da cultura popular em Histórias de
Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à
recepção de seus ouvintes / Carlos Benites de Azevedo. - Rio
de Janeiro: UFRJ, 2014.
181 f. : il. (algumas color.); 30 cm.
Orientador: Godofredo de Oliveira Neto.
Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em
Letras Vernáculas, 2014
Bibliografia: f. 163-172.
1. Ramos, Graciliano, 1892-1953. Histórias de Alexandre –
Crítica e interpretação. 2. Ramos, Graciliano, 1892-1953 –
Crítica e interpretação. 3. Cultura popular. 4. Folclore. 5.
Folclore – Brasil, Nordeste. 6. Literatura infantojuvenil
brasileira – História e crítica. I. Oliveira Neto, Godofredo de,
1951- . II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade
de Letras. III. Título.
CDD B869.35
DEDICATÓRIA
À minha mãe, Vera, que levou sua gargalhada mais gostosa onde os arcanjos
cantam e que soube ser aconchego toda vez que foi preciso. Porque ela me ensinou
a ler na palavra carinho o sentido proteção. E assim eu digo que só com essa
proteção foi possível hoje estar aqui. Foi minha primeira professora sem saber que
era. Dotada de uma cultura que ela não tinha noção de seu alcance. Agradeço,
principalmente, por seu exemplo. Esse trabalho é, sem dúvida, também sua vitória.
Ao meu pai, Benito, por estar sempre presente, pelo carinho e por pensar sempre na
educação de seus filhos.
À minha esposa, Sílvia, pelo amor e companheirismo e por me dar forças para
vencer essa e outras batalhas.
Aos meus filhos Júlia, Matheus e Pedro, razão de tudo em minha vida. Essa vitória é
para vocês, que certamente terão muito mais pela frente.
Aos meus irmãos, Carlos Eduardo, Anna Maria e Anna Cláudia, pelo fraterno amor
de sempre.
AGRADECIMENTOS
Ao Professor Godofredo de Oliveira Neto, pela orientação calma e precisa, sempre
com uma palavra de estímulo e por ter sido mais um elo para a literatura do Mestre
Graça.
À Professora Sonia Monnerat, pelo acompanhamento desde a Graduação, em todos
momentos acadêmicos, compartilhando sua vasta cultura e generosidade com seus
alunos. Por estar sempre presente, nada mais justo que você estivesse também
nesse momento.
Aos professores Anélia Pietrani, Maria Teresa Salgado, Dau Bastos, Fred Góes,
Carmen Tindó e Ronaldes de Melo, pela fundamental participação em meu
crescimento acadêmico.
Aos meus cunhados, Genilson, Fabiano, Carmen, Dayse, Ilse, Elba, Inácio e
Cláudia, alguns se tornaram tão próximos que são hoje praticamente irmãos.
Extensivo aos meus queridos sobrinhos, em especial a meus afilhados Ana Clara e
João, e sua irmã Clarinha, e também Maíra, que me ajudou no contato com a
biblioteca da USP e conseguir a cópia da tese de Ricardo Azevedo, constante das
referências bibliográficas desta dissertação.
Às minhas tias Dayse, Cordélia e Lecy, elos de ligação à minha amada mãe e por
terem dado apoio quando foi preciso. Também aos meus primos, alguns são quase
irmãos.
Aos amigos funcionários da Faculdade de Educação da UFF por terem sempre uma
palavra de apoio.
Aos professores da UFF Jorge Najjar ,Marcos Barreto, Alice, Tania Müller e Cristina
Delou pelo importante suporte nesse projeto.
Ao amigo Benito pelo apoio, pelas conversas culturais sempre de muita valia, e pela
generosidade para ajudar os amigos quando preciso
À família Merçon, representada pelo Professor Geraldo, pelo apoio, carinho e
amizade em todas as ocasiões, mesmo nos períodos mais difíceis.
À amiga Lilian, exemplo de ética em todos os momentos. Obrigado por tudo.
Às amigas Karinna, Alexandra, Laudicéia, Renata, Maria, Vera, Aline, Fátima,
Luciana, Kátia e Raquel, que formaram a melhor turma do curso de Literatura
Infantojuvenil, presentes desde 2008.
A Consuelo, Jacqueline, Fábio, Flavia, Nonô, Sylvinha, Luciana, Ivone, Edson e
demais amigos do grupo Pampulha, parceiros do mundo das corridas que sempre
me incentivaram.
À amiga Suelen, por sempre ter uma palavra de carinho, apoio e amizade.
Aos amigos do Clube de Leitura Icaraí, parceiros de grandes leituras.
Aos amigos do Curso de Letras da UFF, grande turma que se formou em 2007.
Aos amigos mestrandos e doutorandos em Letras da UFRJ, por compartilharem
comigo conhecimento de suas pesquisas. Cada um foi importante nessa caminhada.
Às jornalistas Ana Vale e Babi Marcolini, pelo apoio à pesquisa no acervo de O
Globo.
À bibliotecária Maria Inez Maia Oliveto, da Biblioteca José de Alencar, da Faculdade
de Letras da UFRJ, não só pela ajuda, mas também por ensinar cada ponto da ficha
catalográfica deste trabalho.
Aos inúmeros livreiros de sebos, físicos e virtuais, espalhados por todo o Brasil,
fundamentais para que eu conseguisse várias edições de obras de Graciliano
Ramos.
Graciliano Ramos
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto de cicatriz clara.
*
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordeste, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
*
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
*
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.
(João Cabral de Melo Neto)
“A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso.
A palavra foi feita para dizer.”
(Graciliano Ramos, em entrevista a Joel Silveira, 1948)
AZEVEDO, Carlos Benites de. Vozes e saberes da cultura popular em Histórias
de Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à recepção de
seus ouvintes. Rio e Janeiro, 2014. Dissertação de Mestrado em Letras Vernáculas
(Literatura Brasileira). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2014.
RESUMO
O presente trabalho estuda as vozes do universo popular que ecoam nos
contos do livro que originalmente recebeu o título de Histórias de Alexandre, de
Graciliano Ramos, publicado inicialmente em 1944 e que em 1962 passou a ter
incorporado a ele duas outras obras do autor, Pequena história da República e Terra
dos meninos pelados, sendo denominado então de Alexandre e outros heróis. Para
efetuar essa análise, parte-se do estudo histórico das formas de cultura popular, com
especial atenção à nordestina, por se tratar da região que serviu como pano de
fundo para os contos estudados. Na análise de Histórias de Alexandre, enfocamos
inicialmente seu caráter popular, que aparece não só nas próprias histórias, com
características do folclore nordestino, mas também no formato como elas foram
contadas, em seus personagens, que são autênticos representantes da cultura
popular nordestina, e em todo universo panorâmico que o envolve. Também
analisamos as particularidades ligadas a sua comicidade, com um estudo de seus
personagens, da questão da narrativa e da linguagem utilizada. Nessa análise,
examinamos o imaginário popular na voz do contador com uma linguagem
imaginativa e como se dá a recepção dos ouvintes com os possíveis dissensos na
questão da verossimilhança das histórias. Demos também especial atenção ao
discurso dos personagens, que possuem pleno domínio do vocabulário, fato
percebido em outras obras do autor. Usamos como aporte para essa discussão
algumas obras como “O narrador”, de Walter Benjamin, Literatura infantil, de Nelly
Novaes Coelho, Literatura infantil brasileira – história e histórias, de Marisa Lajolo e
Regina Zilberman, Comicidade e riso, de V. Propp, A cultura popular na Idade Média
e no Renascimento, de Bakhtin, O conto brasileiro contemporâneo, de Alfredo Bosi,
Céu e inferno, de Alfredo Bosi, Estruturas, de Rui Mourão, Graciliano Ramos:
estrutura e valores de um modo de narrar, de Fernando Alves Cristóvão e Ficção e
confissão, de Antonio Candido.
Palavras-chave: Histórias de Alexandre, Graciliano Ramos, Cultura popular,
Literatura infantojuvenil, Folclore.
AZEVEDO, Carlos Benites de. Vozes e saberes da cultura popular em Histórias
de Alexandre, de Graciliano Ramos: do imaginário do contador à recepção de
seus ouvintes. Rio e Janeiro, 2014. Dissertação de Mestrado em Letras Vernáculas
(Literatura Brasileira). Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2014.
ABSTRACT
The present work studies the voices of the popular universe that echo in the
tales of the book which originally was named Histórias de Alexandre (Alexandre’s
Tales), by Graciliano Ramos, published in 1944 and in 1962 became part of
Graciliano‟s collection Alexandre e outros heróis (Alexandre and the other heroes)
with two other works Pequena História da República (Short Republic Story) and
Terra dos meninos pelados (Land of the naked boys). To conduct this analysis, we
started from the historical study of the forms of popular culture, with a special
attention to the Brazilian Northeast, because it is the region that served as the
backdrop for the studied stories. In the analysis of Histórias de Alexandre, we initially
focused on their popular nature, that appears not only in the stories, with
characteristics of northeastern folklore, but also in the format as they were told, in
their characters which are authentic representatives of northeastern popular culture,
and in the milieus that surrounds them. We also analyze the characteristics linked to
its comedy, with a study of its characters, the question of narrative and used
language. In this analysis, we examined the popular imagery in the storyteller‟s voice
with an imaginative language and how is the reception of listeners with possible
disagreements on the issue of likelihood of the stories. We also gave special
attention to the speech of the characters that have full mastery of the vocabulary, a
fact noticed in other Graciliano‟s books. We used as contribution to this discussion
some studies as “The Storryteller”, by Walter Benjamin, Literatura infantil, by Nelly
Novaes Coelho, Literatura infantil brasileira – história e histórias, by Marisa Lajolo
and Regina Zilberman, Problems of comedy and laughter, by V. Propp, Rabelais and
folk culture of the Middle Ages and Renaissance, by Bakhtin, O conto brasileiro
contemporâneo, by Alfredo Bosi, Céu e inferno, by Alfredo Bosi, Estruturas, by Rui
Mourão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, by Fernando
Alves Cristóvão, and Ficção e confissão, by Antonio Candido.
Keywords: Alexandre’s Tales; Graciliano Ramos; Popular Culture; Juvenile literature,
Folklore
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Pág.
FIG. 1: Histórias de Alexandre – 1ª.Edição – 1944 .............................................. 174
FIG. 2: Histórias de Alexandre – 2007 ................................................................. 174
FIG. 3: Alexandre e outros heróis – 1ª edição – 1962 ......................................... 175
FIG. 4: Alexandre e outros heróis – 10ª edição – 1973 ....................................... 175
(de 1972 a 1974)
FIG. 5: Alexandre e outros heróis – 12ª edição – 1975 ....................................... 176
(até 1990)
FIG. 6: Alexandre e outros heróis – 19ª edição – 1980 ....................................... 176
(de 1977 a 1986)
FIG. 7: Alexandre e outros heróis – 32ª edição - 1991 (até 2001) ....................... 177
FIG. 8: Alexandre e outros heróis – Edição do Círculo do Livro – 1994 .............. 177
FIG. 9: Alexandre e outros heróis – 49ª edição – 2006 ....................................... 178
(de 2002 a 2014)
FIG. 10: Histórias de Alexandre – Audiolivro .......................................................... 178
FIG. 11: Histórias agrestes – 1960 ......................................................................... 179
FIG. 12: Ilustração de Moraes para “História de um bode” ................................... 180
FIG. 13: Ilustração de Silvio Vitorino para “História de um bode” .......................... 181
SUMÁRIO
Pág.
INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 12
Capítulo 1
A Cultura de origem popular .............................................................. 30
1.1 As histórias orais e suas manifestações ......................................................... 30
1.2 O folclore e a literatura infantojuvenil ............................................................. .42
Capítulo 2
O olhar da crítica e a atenção recebida da imprensa ........................... 59
Capítulo 3
Histórias de Alexandre: a relação dialógica entre as histórias e sua
aproximação com o popular ................................................................ 77
Capítulo 4
As narrativas de Alexandre: suas características e estratégias de
convencimento .................................................................................. 106
Capítulo 5
O processo narrativo de Histórias de Alexandre ............................. 118
Capítulo 6
A classificação por ciclos temáticos na literatura popular nordestina
e as Histórias de Alexandre ............................................................ 126
Capítulo 7
A linguagem utilizada por Graciliano Ramos .................................... 132
Capítulo 8
O legado de Graciliano Ramos na literatura brasileira
contemporânea ................................................................................ 142
Conclusões ............................................................................................................ 158
Referências ............................................................................................................ 163
ANEXO .................................................................................................................. 173
ANEXO 1 Capas de livros e ilustrações ................................................................. 174
INTRODUÇÃO
O presente trabalho pretende estudar as vozes do universo popular que
ecoam nos contos do livro que originalmente recebeu o título de Histórias de
Alexandre, de Graciliano Ramos, escrito entre 1938 e 19391, publicado inicialmente
em 1944 e que em 1962 passou a ter incorporado a ele duas outras obras do autor,
Pequena história da República e Terra dos Meninos Pelados, sendo denominado
então de Alexandre e outros heróis. Em 2007 a obra Histórias de Alexandre foi
novamente publicada sozinha, dessa vez pela Editora Record. Alguns dos contos
presentes no livro foram inicialmente publicados nos jornais do Rio Diário de Notícias
e O Jornal, entre dezembro de 1938 e novembro de 1939, sem receber atenção
alguma da crítica e sem nenhuma menção de que seriam parte de um futuro livro,
como foi o caso da publicação em jornais de capítulos de Infância, que teve várias
notas na imprensa, desde março de 19412 apontando para uma futura publicação de
Graciliano, que o publicou quase ao mesmo tempo que Histórias de Alexandre.
Chegamos ao estudo de uma obra de Graciliano Ramos, que não tem grande
repercussão no meio literário, na época de nossos estudos no Curso de
Especialização em Literatura Infantojuvenil na Universidade Federal Fluminense.
Naquela oportunidade, procuramos estudar a presença da cultura popular em obras
1
O primeiro conto do livro, “Apresentação de Alexandre e Cesária”, conforme manuscritos guardados
no Arquivo Graciliano Ramos, na USP, é de 10 de julho de 1938. Porém, essa apresentação não
consta da primeira publicação da obra, em 1944. Ela só veio a aparecer quando saiu a primeira
edição em que as histórias de Alexandre aparecem no mesmo livro juntamente com Terra dos
Meninos pelados e Pequena História da República, em 1962. Segundo informação do escritor
Ricardo Ramos só um dos contos das Histórias de Alexandre não foi escrito na mesma época das
outras: “O missionário”, escrito em 1952.
2
O Diário de Notícias publicou em sua página 14, da edição de 02 de março de 1941, uma nota
informando que “o Sr. Graciliano Ramos está trabalhando um livro do maior interesse humano e
literário: as suas memórias. No Brasil, onde os escritores não escrevem cartas nem têm arquivo, um
livro como esse assume importância excepcional. E é fácil de imaginar a curiosidade com que toda
gente o espera”.
13
da literatura brasileira, em particular nas voltadas ao público infantojuvenil. Além da
obra que serve como corpus do presente estudo, encontramos traços de nossa
cultura popular em livros como Histórias da Velha Totônia, de José Lins do Rego e
Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato. As citadas obras têm em comum com
Histórias de Alexandre a presença de um elemento que serve como transmissor de
histórias presentes no imaginário popular. Na obra de José Lins do Rego, o autor
recorre às memórias de sua infância no engenho do avô em que a velha Totônia
contava histórias que tanto o marcaram. Totônia, dotada do conhecimento da cultura
popular, fazia uso da tradição oral, que também foi utilizada para que aquelas
histórias tivessem chegado até ela. Assim, ela não deixava que aquele
conhecimento morresse com ela, conhecimento esse que fora transmitido através de
várias gerações. Na obra de Monteiro Lobato, temos a velha cozinheira Tia Nastácia
no Sítio do Picapau Amarelo, contando histórias de nosso folclore e que sempre
aparecem em livros de recolhas de contos populares. Em Histórias de Alexandre,
Graciliano Ramos deixa já no início da obra uma nota de advertência contando que
“As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do Nordeste, e é
possível que algumas tenham sido escritas”. Rui Mourão comenta que essa nota é
irônica e traz uma cortina de fumaça para enganar o leitor quanto à veracidade das
histórias que seriam contadas depois, já que não haveria menção dessas histórias
no Nordeste: “mal esconde a sua carga de ironia, quando sabemos que não existe
qualquer referência a tais lendas em arrolamentos sobre o folclórico da mencionada
região, ninguém viu sequer uma delas sendo transmitida no domínio da oralidade
[...]” (MOURÃO, 2003: p.139). Embora também tenhamos efetuado uma vasta
pesquisa por vários locais especializados no folclore do Nordeste, na qual não
encontramos registro sequer de traços de uma só das histórias contadas pelo velho
major Alexandre em livros de recolhas de contos populares nordestinos e cordéis, tal
fato não caracteriza que elas não pertençam ao folclore nordestino. Primeiramente,
tanto nossa procura por registros quanto a que levou à afirmação de Mourão pode
ter sido incompleta. Temos ainda o fato de que o sertão nordestino é uma vasta
região e elementos da cultura popular podem se perder e se modificar ao longo dos
anos. E ainda temos que lembrar que o caráter mentiroso das histórias por si só já
nos leva ao folclore nordestino, pois um dos mais famosos tipos de histórias
populares não só do Nordeste brasileiro, mas de várias partes do mundo, são as
14
histórias de mentirosos. Mas podemos afirmar, diante de dados biográficos do autor,
que ele sempre tomou conhecimento de várias histórias populares e talvez delas
tenha se alimentado, mesmo que as narrativas transmitidas por Alexandre não
tragam vestígios aparentes de nenhuma das narrativas populares mais conhecidas.
Se essa hipótese for um dia confirmada, isto é, se Graciliano tiver recriado a partir de
elementos de narrativas populares, esse traço só nos leva a reconhecê-lo como um
grande escritor, capaz de recolher e transformar elementos de narrativas
tradicionais. No decorrer de nosso estudo veremos que Graciliano faz uso sim de
elementos da cultura popular, na voz do major Alexandre, para contar as histórias do
livro.
Essa busca por traços semelhantes das histórias contadas no livro em contos
do folclore nordestino, seja de histórias contadas oralmente através dos tempos pelo
sertão, seja das histórias que foram impressas em cordéis, foi feita em sites
especializados no folclore do Nordeste do Brasil, bibliotecas com livros de recolhas
de contos populares do Nordeste, além de várias bibliotecas especializadas em
cordéis, como no Museu da República no Catete, na Faculdade de Formação de
Professores da UERJ Campus São Gonçalo e na sede da Associação Brasileira de
Literatura de Cordel - ABLC, localizada no bairro de Santa Teresa, no Rio de
Janeiro. Com relação a esse último local, a ABLC, entrevistamos seu presidente, o
cordelista Gonçalo Ferreira da Silva, que nos deu um panorama do cordel na cidade
do Rio de Janeiro e no Nordeste. Gonçalo ainda nos auxiliou a situar os modelos e
tipos de cordel mais presentes historicamente, o que talvez possa confirmar a não
existência das histórias usadas por Graciliano nos inúmeros cordéis já produzidos.
Esclarecemos que o motivo de termos procurado pesquisar também em cordéis é
que, além da literatura de cordel ser um importante meio de difusão da cultura
popular, também passa pelo fato de que ela é citada diversas vezes durante as
histórias de Alexandre, o que demonstra mais uma aproximação da narrativa de
Graciliano Ramos com a cultura popular.
Outro componente que liga a obra à cultura popular é a preocupação do autor
em colocar no livro, e dar voz a eles, personagens representantes de diferentes
modalidades dessa cultura, como cantadores de emboladas, violeiros, benzedeiras,
curandeiros e contadores de histórias de cordel. Essa escolha é totalmente
proposital. Na audiência de Alexandre não se encontravam políticos, homens ricos,
15
policiais, ou qualquer um que poderia explorar ou subjugar os pobres moradores do
sofrido sertão nordestino. Em nossa pesquisa procuraremos falar sobre cada um
desses personagens e sobre as passagens mais marcantes em cada história em
que estão presentes. E dentre os personagens, o mais importante, o Major
Alexandre, patente dada a pessoas de respeito no sertão nordestino, que recebe
seus amigos, todos os domingos e dias santos, em sua casa de gente pobre e
simples, para contar suas histórias maravilhosas, o que nos leva a mais um típico
representante da cultura popular, o contador de causos populares. E Alexandre é
concebido por Graciliano como os grandes contadores de histórias populares,
dotado de criatividade, com um desempenho digno de um ator, no gestual, no tom
da voz, falando mais baixo ou mais alto de acordo com a narrativa, para não só
chamar a atenção dos presentes sobre ele, como também para tentar dar
veracidade às suas palavras. Mas as principais características de suas histórias são
as ligadas ao seu exagero, de se afastarem da realidade, ou seja, mentirosas, e por
trazerem o riso para quem as lê, com o desmascaramento do exagero.
A obra de Graciliano Ramos sempre foi caracterizada pela concisão e pelo
fino trato com o léxico. Frente a um livro do Mestre Graça, o leitor tem sempre noção
de que o autor trabalhou à exaustão na escolha de cada palavra do texto. Mas, além
da beleza de sua arte, seus livros são reconhecidos por uma forte ação social.
Graciliano tinha que mostrar as injustiças sociais, de falar sobre o sofrimento da
gente humilde e de contar sobre os mais diversos tipos, principalmente sobre os que
viviam no sertão nordestino. Essa junção entre trato com a palavra e preocupação
em falar sobre personagens populares e sem voz na sociedade fez com que sua
literatura ganhasse bastante notoriedade. É sempre importante ressaltar que
Graciliano mesclava os aspectos literários e sociológicos, acrescentando também
uma boa dose de análise psicológica, mas a questão literária era a mais importante.
Enfatizamos isso, para que não se pensasse nos livros de Graciliano como uma obra
puramente política. Assim, Graciliano conseguia desenhar um perfeito quadro social
brasileiro das décadas de 1930 e 1940. Rui Mourão, um dos especialistas da obra
de Graciliano Ramos, comenta assim sobre esse assunto:
a riqueza integral da obra de Graciliano Ramos só pode ser entrevista na
medida em que verificamos a sua íntima relação com o panorama social da
época. [...] O quadro brasileiro denunciado é aquele que vinha se
delineando desde os primeiros dias da República. (Mourão, 2003: p.163)
16
Essa aproximação de Graciliano com o cenário social da primeira metade do
século passado enfatizava um dos escritores de mais rica biografia ligada à ética e
ao combate por uma sociedade mais justa. E esse foi mais um ponto a nos atrair
para estudar Graciliano Ramos. Teríamos assim um vasto material em sua obra e
sua vida que nos aproximou, num convite sedutor para esse estudo.
Um olhar reflexivo, por um viés cheio de humor em Histórias de Alexandre
pôde amenizar seu modo incisivo, mas não o impediu de efetuar a crítica, assim
como deu forças a seus personagens que naturalmente não receberiam voz da
sociedade. O autor trouxe uma visão do contexto em que viviam seus personagens
sem que fosse preciso fazer disso uma causa panfletária. E esse outro tipo de olhar
crítico não se repete nas outras obras do autor que não carregam essa dose de
humor, como, por exemplo, em São Bernardo. Segundo o professor Godofredo
Oliveira Neto, uma análise em que se privilegie “a visão apenas sociológica de São
Bernardo empobrece a obra e vai contra a diretiva que lhe imprimiu o autor”.
(OLIVEIRA NETO, 1990, p.65) Porém, o sociológico não é descartado no romance,
já que o lado social serve de cenário para que sejam traçados os perfis psicológicos
dos personagens. Assim, com uma linguagem enxuta e eficiente, Graciliano impõe
uma análise em que se fundem as visões sociológica e psicológica, “que desde o
início se impõe”. Para Oliveira Neto, a leitura psicológica subjuga a panfletária:
Mas ver em São Bernardo, como alguns, influenciados pela biografia do
autor, o fizeram, uma obra apenas política, é diminuir a obra. É desconhecer
(de propósito) a luta que o autor (Graciliano e Paulo Honório) travou com a
sua consciência, para tentar atingir a isenção nas suas análises. São
Bernardo é ficção. A luta política não tem aí a sua arena. Graciliano sabia
disso (OLIVEIRA NETO, 1990, p. 91).
O olhar crítico de Graciliano já se mostrava desde os primeiros textos, como
as crônicas que escrevia sob pseudônimo nos jornais de Alagoas com pouco mais
de vinte anos de idade. Como exemplo, temos a que ele escreveu em março de
1915, no Jornal de Alagoas, com o pseudônimo de R.O., ao falar sobre a
Constituição da República:
Está aqui um deputado que é um poço de manha, papagueador quando
parola com o eleitorado, mudo na câmara, gênero peru; ali está um
presidente de estado que outra coisa não tem feito senão apregoar pelas
trombetas oficiais as maravilhas que ninguém vê, mas que ele teve o
louvável intuito de realizar; temos acolá um advogado ventoinha, equilibrista
emérito, camaleão legítimo; vem depois o comerciante voraz, enriquecido
com os favores clandestinos, negociatas escusas e contrabandos; mais
distante, avulta a majestade rotunda do industrial insatisfeito, empanturrado
pelas propinas que a guerra lhe meteu no bucho. [...] São os donos de todos
17
os municípios destes remotos rincões que o estrangeiro ignora, que as
cidades do litoral conhecem vagamente, através dos despachos da Agência
Americana. [...] Mandatários do governo, forjadores de eleições, mais ou
menos coronéis, caciques em miniatura, têm frequentemente para infundir
respeito, uma espada da Guarda Nacional, um boné sebento, um lenço de
tabaco e um par de socos. [...] Peguemos o chefe político, agitemo-lo no ar
e berremos o estribilho com que a imprensa, há tempos, nos anda a amolar
– A Constituição da República precisa de uma revisão. (RAMOS,1962b:
pp.9-10)
Esse olhar crítico de Graciliano enfatizava por vezes o sofrimento, a angústia
e humilhações que o homem sofria, como se o homem do povo pouco ou nada
pudesse fazer diante das injustiças sofridas, por sentir-se paralisado e sem forças.
Podemos ver esses aspectos em toda sua obra, crônicas, contos e também em seus
romances. Segundo Alfredo Bosi, a perspectiva em Graciliano é “do céu desejado
para o inferno real.” (BOSI, 2010: p.50) E não só o adulto sente essa ação em sua
obra. Para Bosi, nos capítulos “O menino mais novo” e “O menino mais velho”
vemos o autor mostrar “passagens que narram a frustração da criança perante o
universo do adulto nas condições precisas da vida sertaneja.” (idem, p.26) Em
Angústia temos o homem sob uma ação que o reprime, subjuga e o sufoca,
tornando-o incapaz de reagir e sentindo-se um nada na sociedade:
Mas a voz do chefe da revisão estava colada aos meus ouvidos:
- Suspenso por cinco dias, seu Silva.
[...] Vida de cachorro. Como iria pagar a pensão?
- D. Aurora, tenha paciência. [...] Os tempos andam safados, d. Aurora.
As ruas estavam cheias de mulheres. E o rato roia-me por dentro.
[...] Lá fui eu com elas, capiongo, pagar bonde, sorvetes e três cadeiras.
Tipo besta.
- Aguenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.
E contava mentalmente o dinheiro suado e mesquinho. [...] O que eu estava
era indignado. E calculava. Três passagens de bonde – mil e duzentos. Três
sorvetes – três vezes cinco, quinze. E entradas no cinema.
[...]
Lá ia, de cabeça baixa, beber um copo de caldo de cana e comer um pastel.
Os níqueis amarrados como dinheiro de matuto.
[...]
Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas
enfim valor. (RAMOS, 2011: pp.48,50)
Em Caetés, o personagem João Valério em certo momento acusa o Promotor
de Justiça da cidade, Dr. Castro, de ter posto em liberdade Manuel Tavares, “um
assassino, um bandido da pior espécie!”. O Promotor se defende da acusação com a
justificativa de que não fora ele o responsável pela soltura do assassino e sim os
jurados. E como João Valério insiste exaltado na interpelação, lembrando que o
Promotor poderia ter apelado da decisão, e que esquecera de fazê-lo, ele afirma que
tudo que fizera tinha sido feito de acordo com sua consciência, sem burlar a lei.
18
Então João Valério dá o veredicto sobre a postura do Promotor: “Qual consciência!
Soltou Manuel Tavares porque lhe mandaram que não apelasse. Ora consciência!”
(RAMOS,1978: p. 173). Em Vidas secas, Graciliano mostra na passagem do capítulo
“Cadeia” as agruras porque passa o personagem Fabiano, ao ser preso injustamente
por conta do abuso de autoridade de um soldado, por pura antipatia e por não ter se
despedido após um malfadado jogo de cartas. Assim, Fabiano se indignava com
aquela situação:
- Safado, mofino, escarro de gente.
Por mor de uma peste daquela, maltratava-se um pai de família. Pensou na
mulher, nos filhos e na cachorrinha. [...]
Quem não ficaria azuretado com semelhante despropósito?
Então porque um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na
cadeia, dá-se pancada nele? Sabia perfeitamente que era assim,
acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças. E aos
conhecidos que dormiam no tronco e agüentavam cipó de boi oferecia
consolações: - “Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita.”
(RAMOS, 2000: pp.30-33)
É importante destacar que esse tema envolvendo o cotidiano nas cadeias e a
injustiça imposta pelos poderosos aos mais fracos ou a quem lhes causa incômodo,
aparece em outras obras do autor, como Memórias do cárcere (obra póstuma de
1953). Mas, em especial, o episódio citado de Caetés pode ser considerado uma
remontagem de crônica datada de fevereiro de 1921 no Jornal O Índio, de Palmeiras
dos Índios-AL, sob o pseudônimo de João Calisto. A crônica, em forma de carta, traz
no título “(Carta de um jurado a um cavalheiro de importância)”. Nela, Graciliano
coloca uma veia irônica, já demonstrando traços de um cuidado perfeito no uso da
linguagem. Destaca-se também por criar efeitos literários que já mostravam a
grandiosidade de um escritor de renome em nossa literatura:
Particularizemos, tomemos um caso concreto, para maior comodidade na
demonstração.
Manuel Tavares assassinou um homem dormindo, segundo consta. É
gravíssimo! dirão.
Pois não, senhor. Não acho ali motivo para condenar-se uma criatura. Vejo
apenas duas proposições duvidosas, que nada de positivo afirmam a
respeito da culpabilidade do indigitado autor do homicídio em questão. [...]
Tomemos a segunda proposição.
“Manuel Tavares assassinou um homem dormindo.” Quanta incerteza!
Quanta ambigüidade! [...] Aceitemos, entretanto, que Manuel Tavares seja
um criminoso, o que não está demonstrado; concedamos que ele estivesse
acordado na hora do crime, o que é duvidoso. (RAMOS,1962b, pp.64-65)
19
Após o fechamento da carta, o cronista coloca uma nota de advertência,
apontando sobre a origem da correspondência: “- Esta carta foi-nos confiada por um
cavalheiro de influência, que nos deu autorização para publicá-la. O original
encontra-se em nosso poder.” (idem: p.66)
Também em suas cartas, Graciliano demonstrava essa linguagem irônica,
com boa dose de humor, com os mesmos dotes literários de seus livros. Por
exemplo, em uma de suas inúmeras cartas para sua segunda esposa, Heloisa, ele
demonstra o bom trato com a língua, fazendo metalinguagem ao comentar sobre sua
forma de escrever e sobre S. Bernardo, tratando os personagens do livro como
pessoas de seu cotidiano:
Julgo que aqui neste quarto, sozinho, vou ficando safado. Tem-me
aparecido ideias vermelhas. Anteontem abrequei a Germana num canto de
parede e sapequei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda. Não tem
importância. Isto passa. Vai sair obra-prima em língua de sertanejo, cheia
de termos descabelados. O pior é que cada vez que leio aquilo corto um
pedaço. Suponho que acabarei cortando tudo. (RAMOS, 1981: p.121)
Vemos também esses traços, de forma mais leve, com uma veia cômica e
num livro voltado ao público infantojuvenil, em Histórias de Alexandre, obra que
escolhemos como corpus de nossa pesquisa justamente por ter uma característica
especial em relação aos outros livros do autor, a proximidade com o folclore
nordestino. Em meio às histórias, Alexandre relembra momentos em que ele e sua
esposa desfrutavam de melhor situação financeira e conta passagens em que a
relação com as pessoas detentoras de poder pendia sempre a prejudicar os mais
pobres. A forma como é feita a conexão com a cultura popular é nítida e única dentre
as obras de Graciliano. E é nossa tarefa estudar a proximidade entre essa
importante cultura e o livro de Graciliano Ramos.
É nas histórias daquele major do olho torto que vivia no sertão nordestino,
com uma roupagem diferente da até então presente na obra do autor e que não veio
a se repetir posteriormente, com um livro infantojuvenil, categoria literária deixada de
lado e vista com preconceito por boa parte dos meios literários, e com uma boa dose
de humor, que Graciliano consegue ser fiel a muitas de suas tendências, como “a
solidão interior do homem e sua luta pela afirmação da própria individualidade”
(COELHO, 1978: 61). E assim se dão as histórias, tendo como cenário a realidade
cruel do sertão nordestino e o sofrimento causado a seu povo, mas nitidamente
20
moldado e retratado por Graciliano, através de registros da cultura popular
nordestina.
Ao provocar uma mudança bem marcada em relação às obras produzidas
anteriormente, críticos tradicionais e amantes de sua obra, tiveram reações distintas.
A própria forma como a imprensa tratou ao publicar algumas das histórias dá ideia
disso. Enquanto os capítulos de Infância, que foram escritos e também publicados
em periódicos com diferença de poucos meses para Histórias de Alexandre,
receberam comentários de que seriam parte de um futuro livro de memórias do autor
e os críticos da imprensa se mostravam ansiosos pela obra, cada causo contado
pelo major Alexandre apenas recebia a indicação de que se tratava de “conto para
crianças”, sem a menção de que a história faria parte de um livro. Também na
ocasião da publicação do livro, a imprensa deu pouco espaço à notícia. Enquanto,
por exemplo, Vidas secas, S. Bernardo e Caetés tiveram amplo destaque desde
algumas semanas e até meses antes das publicações, só foram encontradas duas
pequenas notas no jornal A Manhã, nas edições de 23 de maio de 1944 e 20 de
março de 1945. Nesta última foram reservadas somente três linhas: “A Editora
Leitura, na coleção „Menino Homem‟, acaba de lançar „Histórias de Alexandre‟, de
Graciliano Ramos. Ilustrações e capa de Santa Rosa”. Na primeira menção, embora
tenham dedicado um espaço maior, ainda assim não passaram de seis linhas.
Assim, em meio a várias notícias sobre II Guerra Mundial, com algumas notas sobre
a participação brasileira, desfiles da FEB e sobre o racionamento de carne e do
preço exorbitante da alimentação, se achava a seguinte indicação:
A Editora Leitura anuncia um livro de Graciliano Ramos: “Histórias de
Alexandre”. História folclórica sobre dois tipos característicos do Norte. O
que parecerá estranho, porém, - sobretudo aos que resolveram transformar
a literatura em arma de guerra – é o romancista publicar um livro assim, de
divertidas histórias, em momento de tanta luta.(A MANHÃ: 1944, p.3)
Além das notas citadas acima, houve duas outras menções a Histórias de
Alexandre, ambas no jornal carioca A Noite. A primeira ocorreu em uma entrevista
dada por Graciliano ao jornal carioca em 19 de dezembro de 1944 3, e publicada na
coluna “As celebridades, suas manias e predileções”. Na citada entrevista, dada ao
jornalista José Oliveira Teixeira, ao ser perguntado se gostaria de escrever melhor e
3
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&PagFis=31090 e
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_04&PagFis=31098 . Acessado em 13
de dezembro de 2013.
21
de tentar outros gêneros literários, Graciliano diz, como de outras vezes, que não
gostava do que escrevia. Porém, disse que sentia prazer em escrever e que
continuaria “a rabiscar romances e contos”. O entrevistador o interrompeu dizendo
que, no entanto, ele teria fugido para as memórias. Graciliano, então, complementou
o que o seu entrevistador dizia:
- E para o folc-lore também. A minha História de Alexandre sairá dentro em
pouco, por sinal, que com lindas ilustrações de Santa Rosa.
Graciliano então mostra alguns desenhos que foram classificados pelo
jornalista como “dignos de uma citação e mostram mais uma vez a pujança e o
talento de Santa Rosa. Então complementou, se referindo ao novo livro de
Graciliano com as seguintes palavras: “Resta explicar que História de Alexandre é
puro folc-lore nordestino para as crianças do Brasil”.
Imaginamos que a menção ao livro com o título no singular se deveu a erro do
jornalista e não a erro de informação de Graciliano, pois o livro já estava pronto na
época da entrevista com o título que até hoje é usado – Histórias de Alexandre.
Porém, caso Graciliano tenha realmente usado a expressão “História de Alexandre”
para se referir ao livro, indica, mesmo que de forma inconsciente, uma intenção a
fazer um romance do livro. Importante de registro também é o termo usado pelo
jornalista ao fazer o breve comentário sobre o livro como “puro folc-lore nordestino
para as crianças”, que dá uma ideia de tornar menor a obra por ser ligada ao
folclore.
A segunda menção em A Noite ocorreu em uma nota de três linhas, publicada
no mesmo dia em que A Manhã, em 20 de março de 1945, e com as mesmas
palavras deste, informando que “A Editora Leitura, na Coleção „Menino-Homem‟,
acaba de lançar: „Histórias de Alexandre‟, de Graciliano Ramos. Ilustrações e capa
de Santa Rosa”. Não encontramos outras menções ao livro na pesquisa que
realizamos. Uma questão que percebemos acerca das datas de publicações das
notas de A Noite e A Manhã, informando o lançamento do livro com a expressão
“acaba de lançar”, complementando com a entrevista no final de 1944, tendo
Graciliano informando que Histórias de Alexandre sairia “dentro em pouco”, indicam
que, a despeito do livro ter em sua folha de rosto a data de 1944, deduzimos que
essa foi somente a data em que o livro foi impresso e que o ano da publicação foi
22
1945. Possivelmente houve algum problema na logística da editora que acabou
atrasando a publicação ou mesmo só a questão de distribuição dos exemplares.
A obra recebeu diversas edições, com aparências diferentes, não somente
em termos de ilustrações, mas também na forma. A Editora Leitura, que publicou a
primeira edição do livro em 1944, não tinha muito prestígio na época e depois se
mostrou que ela não fora uma boa escolha para lançamento do livro, pois a própria
forma como foi feita a divulgação pela editora junto à imprensa pode ter influenciado
o modo como a crítica o tratou e também no desconhecimento do público sobre o
livro. Depois da publicação de algumas das histórias entre dezembro de 1938 e
novembro de 1939 pelos jornais Diário de Notícias e O Jornal, ambos do Rio de
Janeiro, Graciliano pegou essas histórias e juntou com outras que foram escritas na
mesma época, totalizando 13 histórias para fazerem parte do livro. Desse livro não
fazia parte a “Apresentação de Alexandre e Cesária”, que embora tenha sido
escritaisv na mesma época das outras histórias, só foi reaparecer na edição
póstuma da Editora Martins em que as histórias do major do olho torto passaram a
fazer parte, em 1962, de uma coletânea com outras duas obras voltadas para o
público infantojuvenil, Terra dos meninos pelados – que fora premiado pelo
Ministério de Educação em 1939 - e Pequena História da República. Essa coletânea
recebeu o título de Alexandre e outros heróis. A partir de meados da década de 70,
essa obra passou a ser propagada pela Editora Record, que passou a publicar as
diversas reedições das obras de Graciliano Ramos. Dessa coletânea também
passou a fazer parte, entre as histórias do major, o conto “O missionário”, que foi a
única das histórias que não foi escrita no mesmo período das outras. Um dado
importante de registro sobre Alexandre e outros heróis é que, a partir de sua
publicação, ele passou a ser o terceiro título com maior venda entre os livros de
Graciliano Ramos, só perdendo para S.Bernardo e Vidas secas, o que parecia ser
impensável, quando as histórias foram publicadas em separado em 1944, pois sua
primeira edição com 1000 exemplares demorou muito para se esgotar e nos anos
seguintes à publicação era normal ver seu título entre vários outros em anúncios
classificados de jornais como Diário de Notícias, Correio da Manhã e O Jornal, de
livros sendo vendidos em promoção – “de Cr$12,00 por Cr$ 6,00”. Esse dado,
somado ao fato de que a publicação de Histórias de Alexandre, que saiu em 2007, já
está na sua décima edição, indica que mesmo um livro de um autor que não
23
produzia com interesse puramente mercadológico, que dava valor primeiramente a
suas preocupações artísticas, podia ser também uma mercadoria aceita pelo público
leitor. Assim, percebemos a grande importância dessa edição para que tanto
Histórias de Alexandre, como Terra dos meninos pelados, em maior escala, e
Pequena história da República se tornassem conhecidas pelos leitores, jovens e
adultos.
Antes dessa citada edição póstuma, foi publicado, ainda em vida do autor, em
1951, pela Editorial Vitória, um livro que Graciliano selecionou sete das histórias do
major Alexandre, formando o 7 histórias verdadeiras. Cabe lembrar que a Editorial
Vitória tinha se transformado, na época da publicação, na principal divulgadora do
Partido Comunista do Brasil. Nesse livro, não percebemos nenhuma razão para a
escolha das sete histórias e não das outras seis que saíram na edição de Histórias
de Alexandre de 1944. Todo o material de divulgação do livro publicado nos jornais
mencionava somente que o livro ganhara um formato adequado ao público jovem.
Acreditamos que ao se referir ao formato indicava a tão somente às ilustrações de
Percy Deane e material que acompanhava o livro, um cartão convite às crianças
para uma reunião com o autor, enquanto que a edição de 1944 trazia ilustrações de
Santa Rosa que não se assemelhavam às que normalmente encontramos em livros
para crianças e jovens, pois suas características se aproximavam das presentes nos
livros de Graciliano classificados como destinados ao público adulto. Quanto às
histórias, não eram nem mais nem menos indicadas aos jovens que as histórias de
Alexandre e Cesária não incluídas no livro. Da mesma forma, havia tantas ligações
entre as histórias quanto entre elas e as que foram excluídas. Exemplo disso foi o
fato de ter no livro a história “Uma canoa furada”, e nela Alexandre cita fatos
presentes em “História de um bode” e “O marquezão da jaqueira”, histórias que não
foram selecionadas em 7 histórias verdadeiras. Nos pareceu que a editora desejou
diminuir o número de histórias, como se treze histórias fosse um número elevado
para as crianças lerem, e o autor escolheu as que ele tinha mais gosto.
Outra obra póstuma foi a coletânea de contos Histórias agrestes, publicada
em 1955, incluindo alguns dos contos de Histórias de Alexandre e capítulos de Vidas
secas (que também teve publicação de alguns capítulos em jornais, em ordem
diversa da que consta do livro, como contos independentes), Infância e Memórias do
cárcere. A seleção dos textos para Histórias foi feita pelo filho de Graciliano, Ricardo
24
Ramos. Por fim, em 2007, a Record publicou, tal qual a Editora Leitura em 1944,
uma edição só com as Histórias de Alexandre, porém com as mesmas histórias que
já apareciam em Alexandre e outros heróis. Ou seja, ao contrário da primeira, a
última edição traz a “Apresentação de Alexandre e Cesária” e “O missionário”.
Importante de registro é a crítica que Fernando Alves Cristóvão fez sobre a
edição da obra póstuma Alexandre e outros heróis, que juntou Histórias de
Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena história da República em 1962
pela Editora Martins:
4
Tal reedição, além de inserir a nova história , apresenta inovações não
muito felizes: o título e o critério da compilação, acrescentando A Terra dos
meninos pelados e Pequena História da República às Histórias de
Alexandre. O título além de alterar um outro dado por Graciliano às
histórias, tem a desvantagem de englobar matéria muito díspar: histórias do
folclore cheias de maravilhoso popular e uma visão crítica da história do
Brasil na “Pequena História da República”, que, primitivamente destinada a
um concurso de História do Brasil para adolescentes, lançado por Diretrizes,
Graciliano acabou por retirá-la desse contexto, por entender que era
demasiado crítica para um público tão jovem. Daí que só postumamente
fosse publicada, na revista SR, em março e abril de 1960, apesar de o
manuscrito autógrafo ter sido terminado em 13 de janeiro de 1940. Parecenos que Alexandre e outros heróis não devia ser mais reeditado,
regressando às histórias de Alexandre ao seu título primitivo e autêntico e o
volume à elaboração que o autor lhes deu. (CRISTÓVÃO, 1975: p.186)
Nas edições de 1962, 1964 e 1966 de Alexandre e outros heróis, a obra não
possuía prefácio nem posfácio. A partir da quarta edição, em 1968, a obra recebe
prefácio de José Geraldo Vieira com o título “A dioptria de Alexandre”. Esse prefácio
aparece até a 10ª edição, em 1973. Nesse prefácio, Vieira se diz amigo e profundo
admirador da obra de Graciliano, mas lembra que ironicamente não sabia da
existência do lançamento das Histórias de Alexandre em 1944 (ele confunde as
datas, possivelmente por informação errada que recebera, e cita que a edição
desconhecida era de 1954). No texto, ele destaca que
é nas histórias contadas por Xandu que Graciliano Ramos, o incomparável
romancista brasileiro e um dos maiores de nossa língua [...] sai da
singularidade incisiva do seu repertório para ampliar por conta própria as
baterias de radar do conto oral, em cujos estribos trabalharam outrora
outros técnicos chamados Andersen, Keller, Melander, Quevedo e Poggio.
(VIEIRA apud RAMOS,1973:pp.18-19)
4
Cristóvão se refere a “O Missionário”, que como já citado, não aparecera na primeira edição das
Histórias de Alexandre e que Ricardo Ramos afirma que fora escrito em 1952. Dessa história não
havia manuscrito autógrafo do autor. Dona Heloisa, segunda esposa de Graciliano, em depoimento
ao estudioso da obra de seu marido, sugeriu que ela não tinha sido aproveitada porque
possivelmente Graciliano não gostava dela.
25
Em 1974, que foi o ano da última edição do livro pela Editora Martins, a 11ª, o
prefácio passa a ser de Osman Lins com o texto "O mundo recusado, o mundo
aceito e o mundo enfrentado”. A partir da 12ª edição, em 1975, o livro passa a ser
publicado pela Record e nas primeiras edições o texto de Osman Lins continua
sendo apresentado como prefácio, o que acontece até a 15ª edição, em 1978.
Também em 1978 é publicada a 16ª. edição, e a partir daí até 2001, a obra passa a
ter o texto de Osman Lins como posfácio. Desse texto, destacamos a seguinte
passagem:
As histórias de Alexandre, se não são originais e se pertencem ao folclore
do nordeste, obedecem, pela coerência temática, a um objetivo definido e
salientado pela análise: este homem que fala a ouvintes obscuros, mantém,
através da imaginação, a capacidade de evocar, sob uma forma mítica, a
existência de bens que ele e o cantador, o curandeiro, a benzedeira, o cego,
deveriam compartir. (LINS apud RAMOS, 1982, pp.191-192)
Em 1990, o Círculo do Livro publica uma edição especial com posfácio de
Osman Lins e com ilustrações com traços bem distintos de todas as outras figuras
presentes nas outras edições.
Talvez essa noção sobre as ilustrações tenha
ocorrido apenas por uma impressão errada, influenciada pelo colorido da capa, com
o fundo azul e letras vermelhas, fora as outras cores nas roupas e animais, enquanto
nas outras edições, com vários ilustradores, só víamos uma ou duas cores na capa,
que marcava mais o sofrimento do homem sertanejo que um tom de aventuras
mentirosas. As ilustrações internas estavam em preto e branco, mas ainda assim,
era facilmente perceptível a diferença dessa ilustração para as das demais edições.
A partir de 2002, a obra tem como única imagem a que aparece na capa com uma
figura de Santa Rosa, que constava da primeira edição de Histórias de Alexandre,
em 1944. Nessa edição, o livro passa a ter posfácio de Rui Mourão, com o texto
“Procura de caminho”, subdividido com análises das três obras que compõem a
coletânea, acrescida de listagem de bibliografia sobre Graciliano Ramos, lista de
antologias, entrevistas e obras em colaboração e lista de obras traduzidas. Do
posfácio de Mourão, destacamos o seguinte trecho:
[...] podemos dizer que a evolução do ficcionista – que não se repetia
nunca, sempre estava à procura de saída por novos caminhos – se fez
dentro de dois parâmetros fundamentais. A busca de uma expressão cada
vez mais efetiva da realidade nordestina e o aprimoramento da linguagem,
tanto no aspecto lingüístico quanto no estrutural. A partir de certa altura,
passaria a utilizar elementos da vivência histórica pessoal, na ânsia de
conferir maior autenticidade ao testemunho do universo retratado.
(MOURÃO apud RAMOS, 2006, p.189)
26
Verificamos também que só a partir dessa edição, é citada a edição de 1944
de Histórias de Alexandre entre as obras de Graciliano. Em todas as outras ela não
é citada, o que se repete também quando suas obras são listadas dentro dos outros
livros de Graciliano. Porém, há uma informação errada nessa edição, já que nessa
lista de obras do autor, Alexandre e outros heróis aparece como publicado pela
Record só a partir de 1978, quando na verdade a Record já publicava o livro desde
1975. Os livros 7 histórias verdadeiras e Histórias agrestes aparecem na parte de
“Antologias” e não entre as obras do autor.
Em relação às ilustrações que as diversas edições que Histórias de Alexandre
e Alexandre e outros heróis receberam nestes 70 anos, cada uma tinha um traço
característico de seu ilustrador, mas o que predominava sempre era a ligação da
ilustração com o sertão, envolvendo a gente sertaneja e as coisas que o cercam,
como os bichos, a vegetação e a cultura. O mais famoso de todos, sem dúvida
alguma, foi Tomás Santa Rosa, um autodidata que se tornou especialista em
diversas atividades ligadas à pintura e que, por trabalhar diretamente com Cândido
Portinari por vários anos, acabou tendo seus traços com certa semelhança com os
do artista plástico paulista. Santa Rosa, que assinava suas pinturas com as iniciais
SR, era muito amigo de grandes nomes da literatura brasileira, como o próprio
Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Também tinha livre tráfego
entre outros nomes ligados à nossa cultura, como o editor José Olympio. Santa
Rosa também era responsável pelas ilustrações de vários periódicos da primeira
metade do século XX, como Diretrizes, importante periódico carioca que funcionou
nos anos 30 e 40 do século passado, inicialmente como revista e depois como jornal
diário, em que Graciliano Ramos também era importante colaborador, e o Diário de
Notícias. Assim, Santa Rosa se responsabilizou por boa parte da ilustração e todo
projeto gráfico da obra de Graciliano Ramos por um bom tempo. Recentemente,
algumas edições das obras do Mestre Graça voltaram a receber as mesmas
imagens que Santa Rosa fizera em suas primeiras edições. Outros ilustradores,
como Floriano Teixeira, Moraes e Poty, nomes de destaque das artes plásticas do
Brasil por várias décadas, também passaram a trabalhar em alguns livros de
Graciliano Ramos a partir dos anos 60. Um nome que apareceu em uma única
edição de Alexandre e outros heróis, em 1990, para o Círculo do Livro, foi o
ilustrador e designer Silvio Vitorino, que se notabilizou pelo uso de retratos de
27
personalidades em tons de cinza ou monocromáticos e de imagens de bichos, e
também com muitas cores em algumas ilustrações de livros, sendo que a capa
dessa edição traz esse aspecto multicor. Foi também o único ilustrador que retratou
os bichos e as pessoas com mais semelhança ao real, como se fossem desenhos a
partir de fotos. Assim, percebemos que grandes nomes de nossas artes plásticas
eram chamados para ilustrar os livros de famosos escritores brasileiros, mostrando
uma característica do mercado editorial brasileiro na época. Nas ultimas décadas é
mais fácil encontrarmos artistas que se notabilizam por serem especialistas na
ilustração de livros, e se tornam famosos unicamente por isso ou, ao menos, que
tiveram quase toda sua fama devida a essa atividade, principalmente entre os
ilustradores de livros infantojuvenis, como, por exemplo, Roger Melo, Marilda
Castanha e André Neves. Hoje os ilustradores brasileiros de livros para jovens
leitores participam inclusive de uma associação de classe juntamente com os
escritores, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil –
AEILIJ. A última edição de Histórias de Alexandre recebeu a ilustração do premiado
ilustrador e escritor de livros infantis André Neves, que procurou marcar a ideia de
pobreza e penúria no sertão, porém não deixando de mostrar um misto de
companheirismo e felicidade repartida entre os donos da casa e a platéia para as
histórias do major Alexandre. Por ter sido ilustrada por um profissional que se
especializou em livros para crianças, essa edição nos pareceu a que melhor
tratamento recebeu, em termos de ilustração dentre todas as outras, inclusive as de
Alexandre e outros heróis. Também podemos citar as ilustrações das últimas
edições de Terra dos meninos pelados, que continuou a ser publicada em separado,
e atualmente encontra-se na 43ª edição. Essas edições trazem imagens feitas por
ilustradores como Jean-Claude Ramos Alphen e Roger Mello, que trabalham
exclusivamente com livros infantojuvenis. Esse último recebeu em 2014 o
conceituadíssimo Prêmio Hanns Christian Andersen, que é considerado o “Prêmio
Nobel” da literatura infantojuvenil, de melhor ilustrador.
Para efetuar a análise proposta nesta dissertação, partimos de estudo
histórico das formas de cultura popular, com especial atenção à nordestina, por se
tratar da região que serviu como pano de fundo para os contos examinados. Na
análise das Histórias de Alexandre, enfocamos inicialmente seu caráter popular, que
aparece não só nas próprias histórias, com marcas oriundas do folclore nordestino,
28
como o próprio livro atesta, mas também no formato como elas eram contadas, em
seus personagens, que são autênticos representantes da cultura popular nordestina,
e em todo universo panorâmico que os envolve. Esse enfoque nos ajudou a localizar
as vozes e saberes da cultura popular presentes na citada obra, como também em
outros livros de Graciliano Ramos.
Junto com a análise das histórias, efetuamos uma pesquisa sobre a recepção
pelo público leitor e por jornais e revistas da época em que as obras de Graciliano
Ramos foram inicialmente publicadas, tanto de Histórias de Alexandre como das
demais produções do autor alagoano e da própria figura de Graciliano. Para isso,
contamos com o valioso acervo da Biblioteca Nacional e também o do Jornal O
Globo, que recentemente o colocou à disposição, primeiramente de forma
temporária para todos os leitores e depois somente para seus assinantes da versão
digital. Assim, além de O Globo, pesquisamos os periódicos Diretrizes (RJ), O Jornal
(RJ), Correio da Manhã (RJ), Revista da Semana (RJ), Novidade (AL), A Manhã
(RJ), A Noite (RJ), Diário de Notícias (RJ), Imprensa Popular (RJ) e Jornal do Brasil
(RJ).
Também analisamos as particularidades ligadas à comicidade dos contos,
com um estudo de seus personagens, da questão da narrativa e da linguagem
utilizada. Nessa análise, tratamos da questão de concisão e excesso nas obras de
Graciliano. Daremos também especial atenção ao discurso dos personagens, que
possuem pleno domínio do vocabulário, fato percebido também em outras obras do
autor.
Nessa análise, examinamos o imaginário popular na voz do contador, com
uma linguagem inventiva e como se dá a recepção dos ouvintes com os possíveis
dissensos na questão da verossimilhança das histórias. Destacamos também o
caráter literário da obra, voltada ao público infantojuvenil e assim fizemos um estudo
que enfoca as ligações da cultura popular com a literatura infantojuvenil. Por fim,
estudamos o legado deixado pela obra e pela figura pública de Graciliano Ramos na
literatura e sociedade contemporânea. Usaremos como aporte para essa discussão
algumas obras como As formas simples, de André Jolles, Teoria do Conto, de Nadia
Gotlib, O narrador, de Walter Benjamin, História e narração em Walter Benjamin, de
Jeanne Gagnebin, Literatura infantil, de Nelly Novaes Coelho, O riso, de Henri
29
Bergson, Comicidade e riso, de W. Propp, Marxismo e filosofia da linguagem, de
Bakhtin e A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, de Bakhtin. Para
estudo da obra de Graciliano Ramos, contamos com as biografias O Velho Graça,
de Denis de Moraes e Graciliano – Retrato fragmentado, de Ricardo Ramos, do
capítulo “Graciliano Ramos, aos cinqüenta anos” do livro Achados ao vento, de
Francisco de Assis Barbosa, dos livros Ficção e confissão – ensaios sobre
Graciliano Ramos, de Antonio Candido, Entre a literatura e a história, de Alfredo
Bosi, Ensaio de literatura brasileira – ideologia e realidade em Graciliano Ramos, de
Leticia Malard, Estruturas, de Rui Mourão, Céu, Inferno, de Alfredo Bosi, Graciliano
Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, de Fernando Alves Cristóvão e
ainda diversos prefácios e posfácios constantes de várias edições da obra corpus de
nosso estudo e das outras obras de Graciliano Ramos. Destacamos também a
utilização de dissertações e teses que tratam sobre a obra de Graciliano Ramos e
algumas em particular da obra Histórias de Alexandre. Por fim, dentre alguns artigos
e ensaios sobre Graciliano Ramos e Histórias de Alexandre, destacamos o ensaio
“O olho torto de Alexandre”, de Erwin Torralbo Giménez, publicado em 2004 na
Revista USP.
Como possuímos várias edições da coletânea Alexandre e outros heróis,
assim como uma do livro Histórias de Alexandre, por conta de diferentes prefácios,
posfácios e de algumas características de cada uma delas que merecem destaque,
decidimos escolher a edição mais recente em que Histórias de Alexandre foi
publicada separadamente, com ilustrações de André Neves, pela Editora Record em
2007 para as citações textuais da obra. As edições de Alexandre e outros heróis só
serão utilizadas para citações de seus prefácios e posfácios. Além disso, essas
diferentes edições possuíam diferenças pontuais em algumas características que
mereceram ser citadas para fins de comparação entre elas.
30
Capítulo 1
A cultura de origem popular:
1.1 As histórias orais e suas manifestações
Desde o início da História, o homem sentia a necessidade de contar histórias,
com várias finalidades, tentando explicar a seus pares, ou ao menos tentar entender,
tudo o que se passava em sua volta. Do mesmo modo, ele também contava suas
histórias como uma forma de repassar a seus descendentes o que entendia e
achava importante para a comunidade. Assim, a narrativa tanto servia para dominar
como multiplicar os medos diante dos mistérios com que o homem a toda hora se
deparava, como também para transmitir conhecimento aos outros. No livro Volta ao
mundo dos contos nas asas de um pássaro, uma coletânea de antigas histórias
populares de todos os continentes, um mito reinventado pelos autores segundo
temas tradicionais diz que “as narrativas nasceram porque Deus se cansou das
solicitações dos homens e lhes ofereceu, então, histórias que distraíam as crianças.”
(RABELLO apud GENDRIN, 2007: p.8)5
Para
Bakhtin,
as
“expressões
populares,
coletivas
e
espontâneas”
obedeceriam a uma determinada percepção de mundo que tinha como base os
costumes
coletivos de
vida,
visão
de
mundo
chamada de
“cosmovisão
carnavalesca”. Segundo Bakhtin, esse espírito popular apresentaria características
importantes, dentre as quais apontaremos algumas delas. A primeira seria o
5
Guia de leitura, que serve como material de apoio ao livro, elaborado pela professora doutora Ivone
Daré Rabello da FFCLH-USP.
31
princípio de existência de algo que possa ser considerado superior, acima da vida
cotidiana para nos levar ao “mundo dos ideais”. Nesse mundo dos ideais, se
conjectura a existência de deuses, do bem, que sempre trazem justiça a tudo, e
sempre sabem o certo a ser feito, acreditando que, no fim, tudo acabará bem. O
pensador russo descreve esse mundo como o “reino utópico da universalidade,
liberdade, igualdade e abundância”. (BAKHTIN, 1987: p.8) Uma segunda
característica leva o espírito popular a apresentar a ideia de recriação e renovação
do mundo, ou seja, tudo que é fecundado no mundo, cresce, amadurece, morre,
apodrece e depois renasce, formando um ciclo perene. A terceira característica
apresenta a ideia de inexistência de relações hierárquicas. Esse ponto pode ser
representado pelo Carnaval, em que, pelo menos a princípio, todos tornam-se iguais,
independente da posição social, raça ou cultura que a pessoa ocupe. Nesse ponto
temos um importante comentário de Bakhtin: “o autêntico humanismo que
caracterizava essas relações não era em absoluto fruto da imaginação ou do
pensamento abstrato, mas experimentava-se concretamente nesse contato vivo,
material e sensível”. (idem, p.9) Nessa relação em que todos estariam em pé de
igualdade, pobres e ricos, cultos e analfabetos, nobres e plebeus, estariam juntos
podendo formar o “ideal utópico popular”, mesmo que fosse por um tempo limitado.
Sem distâncias que separassem os homens, nem por questão social, cultural ou
qualquer outra, Bakhtin chamava essa situação de “livre contato familiar entre os
homens”. Esse ponto é bastante representativo das reuniões de amigos na casa do
casal Alexandre e Cesária. A quarta característica, segundo Bakhtin, leva o espírito
popular a apresentar uma noção de alternância, mostrando que tudo na vida é
efêmero, o que um dia está por baixo, certamente passará a estar por cima, assim
como o contrário também ocorre. Nesse ponto, Bakhtin lembra as paródias, a ironia,
mas as que causam um riso sério e crítico. A quinta característica do espírito popular
está relacionada à alegria, à comemoração coletiva e brincalhona, ou seja, o riso
festivo. Nesse riso, “o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no
seu aspecto jocoso”. O mundo seria capaz de rir de si mesmo, de forma sarcástica.
A sexta característica aponta para a utilização de imagens cômicas ligadas ao
grotesco e ao desarmonioso, ao exagero das formas corporais. Essa característica
é bastante vista em Pantagruel e Gargantula, sobressaindo o grotesco e até a
escatologia. Esse ponto indica que o espírito popular foge de qualquer coisa que
32
possa ser considerado como modelo, de uma regra que lhe impõe.
A sétima
característica indica a utilização de combinações que possam ser consideradas
esdrúxulas, inusitadas e impossíveis, ou seja, contrárias a uma ordem estabelecida.
Bakhtin apontou ainda outras características, mas selecionamos essas, pois
percebemos que, embora elas tenham sido detectadas pelo pensador russo num
contexto de reflexão que teve por base a obra de François Rabelais e a Idade
Média, nossa cultura popular contemporânea ainda carrega ao menos parte dessas
características.
Quando não havia ainda a escrita, a tarefa de contar as histórias ficava em
geral a cargo de uma pessoa que fosse de alta representatividade na sociedade. Já
após o nascimento da escrita, quando poucas eram as pessoas que tinham esse
domínio, eram formados círculos em torno do detentor da leitura para ouvir as
histórias. Essa estratégia de fazer com que alguém alfabetizado representasse o
papel de leitor das histórias para o resto do grupo se manteve até pouco tempo, e
em alguns lugares com bastante significância, como no Nordeste brasileiro até
metade do século passado.6 Essas reuniões tanto podiam ser em ambientes
fechados, como ao ar livre, como festas públicas. Como, durante séculos e séculos,
a parcela alfabetizada de todos os povos era ínfima, a comunicação oral era um
instrumento de difusão literária, tanto a erudita quanto a popular. Na literatura
mundial, há vários registros do hábito de contação de histórias entre pessoas das
mais variadas regiões ou níveis sociais. Em Don Quixote de la Mancha, ao menos
em duas passagens, temos exemplo disso: “[...] havia Cardêmio pegado na novela, e
começado a lê-la; [...] rogou-lhe que a lesse de modo que todos ouvissem”
(CERVANTES, 1978: p.190); “Aqui chegou Dom Quixote com o seu canto, que
estavam escutando o duque e a duquesa Altisidora e quase toda a gente do castelo”
(idem: p. 493).
Para Benjamin (apud RAMOS ,2011: p.30), os camponeses, os viajantes e
comerciantes foram os principais agentes da preservação da cultura popular e das
histórias orais, pois extraíam de suas vivências e saberes o que por eles era
6
Cf SILVA, Joana Angélica de Souza. Álbum de leitura de Rachel de Queiroz. (Dissertação).
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, Universidade Federal do Pará. Belém, 2011.101
fls.; BITTENCOURT, Anna Ribeiro de Goes. Longos serões do campo. Rio de Janeiro: Companhia
das
Letras,
v.II,
p.33.;
LITERAFRO.
Conceição
Evaristo.
Disponível
em
http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/43/dadosatualizados3.pdf. Acessado em 21 de junho
de 2014.
33
contado. Pelo caráter do homem na história da humanidade, sempre viajando, seja
fugindo de guerras ou procurando por elas, conquistando novos territórios ou
deixando para trás a terra natal por contingências várias, ele acabava por carregar
junto com ele aquilo que não é sólido, mas que a ele pertence: sua cultura, sua
história. Desse jeito, as histórias populares também o acompanhavam, ganhando
novos formatos, numa espécie de uma primitiva antropofagia em que as narrativas
do povo iam sendo remodeladas e se adequando a um novo contexto. E assim, as
histórias permanecem vivas, imortais que são, e vão se modificando, viajando de
uma cultura a outra, em variados idiomas, nos dando a chance de conhecer diversas
terras que acabam por ficar bem perto do mais longínquo dos povos. Por isso, é
comum ver a mesma história que era contada há vários séculos em povos árabes
aparecer no continente americano a partir do século XVIII, com um formato diferente,
mas com enredo basicamente igual, mostrando que ele era adequado tanto a um
povo quanto ao outro, modificando somente o que era importante de se mudar. Esse
percurso que é feito desde o nascimento da história até seu aparecimento em outras
regiões é anônimo e ao mesmo tempo coletivo. No livro de recolha de histórias
populares brasileiras Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, temos
vários exemplos desse compartilhamento de temas e histórias, como o do conto “O
menino e o burrinho”, recolhido no estado da Paraíba, mas que há registros de ser
contado não só em outro estado brasileiro (Rio Grande do Norte), como aparece
também em La Fontaine no século XVII com o mesmo título e nas Mil e uma Noites,
na história de Noureddin Ali e Bedredin. O mesmo tema ainda é visto em Portugal
nas Histórias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Trancoso e no Auto da Mofina
Mendes, de Gil Vicente, ambos no no século XVI, na Espanha no século XVI em Las
Azitunas de Lope de Rueda e ainda num dos contos dos Irmãos Grimm.
(CASCUDO: 2010, 239-240)
Esses contos, assim como todas as outras formas populares de cultura,
carregam uma memória do imaginário popular, e toda uma gama de interferências
recebidas de outras culturas. Essa memória se alimenta de todo o contexto que se
forma em torno dela, desde acontecimentos locais, que podem ser até imaginários,
até a chegada daquelas citadas interferências através de elementos pertencentes à
outra cultura. Esses elementos vão deixando sua marca, sua “impressão digital”, ou
usando outra figura metafórica, o seu gene, fazendo nascer algo que tem
34
características do antes e do depois do contato. Em sociedades mais fechadas,
percebemos menos mudanças ao longo de várias épocas. Já sociedades que
receberam o contato, forçado ou não, de inúmeras culturas de outras regiões,
acabaram refletindo todas essas interferências em sua cultura.
Abrimos um leque para uma discussão sobre um tema ligado à cultura
popular não ligado diretamente ao nosso estudo, mas cujo exemplo pode ilustrar a
variação que uma forma de cultura pode ter em função de várias influências ao
longo dos anos e em locais onde ela é levada. Essa forma é o samba, traduzido por
suas letras, seu ritmo e música e formas como ele se expressa. Inicialmente,
deixamos claro que seria pretensioso de nossa parte querer recontar a história do
samba e de nossa música popular, principalmente porque já existem vários
estudiosos que se dedicam a esse assunto, e que inclusive podem apresentar
visões diferentes. Destacamos dentre esses estudiosos José Ramos Tinhorão,
Hermano Vianna, Carlos Sandroni, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ricardo Cravo Albin e
Fred Góes. Segundo alguns estudiosos, há citações à palavra samba, ou algumas
variações como “cemba” não só no Brasil, como por alguns países da América
Latina e até na América Central, como em Cuba, sempre com alusões a culturas
africanas ou a costumes de negros. (SANDRONI, 2001: p.84 apud AZEVEDO, 2004:
p.54) Segundo Ricardo Azevedo, no Brasil o termo “samba” foi publicado pela
primeira vez, pelo que se sabe, em 1838 em um texto do frei Miguel do Sacramento
Lopes Gama, na revista pernambucana Carapuceiro, referindo-se a “um tipo de
dança ou folguedo popular de negros”. (idem, p.54)
Para alguns estudiosos, o samba que chegou ao Brasil tem raízes africanas,
e teve seus primeiros registros na Bahia, e depois, com o intenso movimento interno
de escravos, assim como de outros que chegavam para vários estados brasileiros,
essa dança foi se espalhando e ganhando contornos e características próprias em
cada região, não só em termos de ritmo como na própria dança. Entre alguns desses
estudiosos que defendem a tese da origem africana, a palavra “samba” veria de
semba – umbigada – termo de uma língua do grupo banto, falada em Angola
chamada quimbundo. Esse termo seria empregado para designar um tipo de dança
de roda, onde os dançarinos em determinado momento batiam contra o umbigo ou
peito do outro dançarino. (ENCICLOPÉDIA, 2003) Já outros estudiosos defendem
que a origem também é angolana, mas com um significado diferente, “cabriolar,
35
brincar, divertir-se como cabrito”, pois o termo viria de outra parte de Angola, onde
viviam os quiocos. (LOPES, 2003, p.14) Ainda há outros que falam que a palavra
samba tem origem indígena, pois viria do dialeto kiriri, índios do sertão nordestino.
(SODRÉ,1998: p.107)
Porém, mesmo com essas distintas possíveis origens, um fator comum é que
ela estava associada a “um momento de encontro para tocar e cantar, a um lugar, a
uma festa ou baile popular, pagode, folia, fuzuê, mafuá, forró, forrobodó ou arrastapé. (AZEVEDO, op.cit., 2004: p.55) É também comum a noção de que foram se
notando variações da expressão da dança pela população. Tais variações estavam
sujeitas ao contexto de cada região, e, dependendo de que origem tenha, essa
mudança pode representar, no caso da origem ser africana, como a que parte da
África vinham os escravos, da presença grande ou pequena de brancos ou mestiços
que tivessem contato com os escravos, e até de assimilação do samba por outra
cultura como a cabocla, que se apoderou do samba em São Paulo. No caso de ser
de origem indígena, essas mudanças poderiam ter se dado por conta de
deslocamentos de pessoas que mantiveram contato com os índios. Debater hoje
sobre samba nos leva a variações do samba que aqui chegou e que foram se
configurando ao longo dos tempos em contato com nossa terra. Essas variações nos
transportam a descobrir “uma infinidade de formas artísticas populares e rurais como
xiba e cateretê” (ROMERO apud SANDRONI, 2001: p.87), ou ainda outras formas
como o “batuque, jongo, caxambu, chula, samba-de-roda, [...], samba-trançado,
samba-de-parada, samba-de-matuto, samba-de-viola, samba-de-coco, samba-deparelha e samba-de-lenço”. (AZEVEDO, op.cit., 2004: p.55)
Com a popularização do samba, logo foram aparecendo letras para as
músicas, e não demorou muito para ganhar as ruas através das rádios e dos desfiles
de escolas de samba. Nesse percurso de mais de um século, várias mudanças
foram sentidas e hoje notamos essa diversidade que foi destacada no início. Assim,
hoje podemos encontrar desde sambas mais ligados à sua origem, alguns com
nítidas marcas africanas, até outras formas de samba que foram se adaptando ao
meio, com influências de várias origens, seja do próprio ritmo como de assuntos
tratados nas letras. Como exemplo, já pôde ser visto no desfile das escolas de
samba do Rio de Janeiro de 1987, a Unidos de Vila Isabel apresentar um desfile
com um enredo totalmente africano, e um samba-enredo de título Raízes, de autoria
36
de Martinho da Vila, que carrega em sua letra um mundo com uma energia
fortemente africana, com seus deuses e lendas. Da mesma forma, algumas escolas
de samba, como a Unidos do Viradouro e a Acadêmicos do Salgueiro, vem
mostrando em alguns desfiles nos últimos dez anos uma bateria que mistura seu
samba, com outros ritmos, inclusive do funk carioca. Nessa mesma linha, o samba
carioca passou a apresentar como variedade o pagode, que inicialmente se baseou
nas festas de bairro de fundos de quintal, que envolviam samba, alegria, comida e
bebida, e assim ficou conhecido e popularizado por um longo tempo. Porém,
recentemente, o desconhecimento de um lado junto com a oportunidade de
popularização de alguns grupos musicais com a “criação” de um “novo” termo ligado
ao ritmo e aos próprios grupos, acabou dando ao pagode um outro significado bem
diferente da sua origem. E assim, ao longo de décadas, o samba foi recebendo um
maior número de variações, além das já citadas anteriormente, como o sambacanção, samba de breque, samba de partido-alto, samba de gafieira, e até o sambarock e o samba-reggae, cada uma com maior ou menor aceitação, ou maior ou
menor qualidade musical, dependendo do autor e/ou da audiência.
Retornando à discussão sobre a literatura popular, percebemos que passando
por várias épocas, desde quando só havia a forma oral, até as diversas formas de
registros escritos, chegando à literatura moderna, temos exemplos de narrativas
orais oriundas da tradição popular que vão sendo repetidas e retransmitidas por
várias gerações, fazendo um desenho dos costumes e da cultura de seus povos. “É
um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e
julgamentos”. (CASCUDO, 2010, p. 12) Podemos assim concluir que essas
narrativas orais representam uma fonte rica de tradução de costumes, ideias e
mentalidades de um povo.
Para Câmara Cascudo, “é preciso que o conto seja velho na memória do
povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos
repertórios orais. Que seja omisso nos nomes próprios, localizações geográficas e
datas fixadoras do caso no tempo.” (ibid., p. 13)
Câmara Cascudo, além de importante estudioso sobre o folclore brasileiro, fez
um grande trabalho de recolha de contos da tradição oral do Nordeste brasileiro.
Nesse trabalho ele também entrou em contato, não só com contos tradicionais, mas
também com outras variadas formas de cultura popular, como o cordel, repentes,
37
desafios, emboladas e diversas festividades. A partir desse contato, ele percebia o
quanto essas formas representavam para o mundo ao qual pertenciam. Ele poderia
conhecer “o espírito, o trabalho, a tendência, o instinto, tudo quanto de habitual
existe no homem.” (ibid, p.8.) Os versos abaixo mostram uma importante marca dos
cordéis e canções de emboladas cantadas nas feiras populares do Nordeste: a
transmissão de geração em geração da sabedoria popular:
Meus leitores essa história
que vosso poeta fez
o meu bisavô contava
meu avô disse uma vez
o meu pai contou a mim
eu hoje conto a vocês
7
(ROCHA, [s.d.])
Porém, é essencial assinalar que a transmissão de geração em geração da
sabedoria popular é só uma das importantes marcas dessas histórias orais. Não
deixamos de afirmar que ela é fundamental por passar a história do povo, fatos
importantes, suas tradições, suas lendas, suas crenças etc. Porém, como já
dissemos anteriormente, ela tem a tarefa de também transmitir e carregar algo que
não é passado somente no ato de contar uma história que já tinha ouvido antes.
Esse algo é a memória, a imaginação do povo, é o que está no ar, no não palpável,
mas que pode definir uma população com uma característica. Para entender melhor,
podemos exemplificar com uma história tradicional no nordeste brasileiro, a da
“Raposa furta e a onça paga”, colhida por Câmara Cascudo (ibid., p. 200) no Rio
Grande do Norte. Essa história fala de uma raposa que fingiu-se de morta para
poder comer mel do caminhão de um viajante que a levara em seu veículo, e
posteriormente encontra uma onça e a convence de também fingir-se de morta para
ela também conseguir o mesmo feito. Logicamente, a ideia da raposa não era essa,
e ocorreu justamente o que ela imaginara: a onça acaba sendo morta pelo condutor
do caminhão. Essa mesma história foi trazida por europeus, e há registros dela na
Espanha e em outros países europeus, sempre com a presença da raposa esperta.
Porém, a onça é incluída no conto ouvido no nosso nordeste por ser bastante
tradicional em nosso interior, por estar sempre presente no imaginário popular
7
Parte final do texto do folheto A festa dos cachorros, do cordelista alagoano José Pacheco da
Rocha, falecido em 1954. Trata-se de um clássico da Literatura de Cordel. In Câmara Brasileira de
Jovens Escritores. Disponível em http://www.camarabrasileira.com/cordel5.htm. Acessado em 05 de
setembro de 2012.
38
brasileiro, possivelmente por vários encontros que os primeiros europeus que aqui
chegaram tiveram ao se aventurarem por uma terra quase virgem e desconhecida
para eles. Já na Europa, o animal a ser enganado é o lobo, justamente por ser mais
tradicional naquelas paragens.
Assim, percebemos que as histórias que vão sendo contadas pelo povo
possuem vários motivos, que vão sendo repetidos ou não, alguns combinados,
divididos, de acordo com cada ambiente em que são transmitidas/ouvidas. Da
mesma forma, podemos dizer que as histórias são inúmeras, mas, como afirma
Câmara Cascudo (ibid., p. 22), “os fios são os mesmos. A ciência popular vai
dispondo-os diferentemente.” Dessa maneira, a aparente originalidade de um conto
acaba sendo desmontada ao olharmos nas entranhas das histórias e verificarmos as
mesmas entranhas em locais bem distantes através de outros contos. No entanto,
essas histórias que viajam não possuem características fechadas, ou seja, não são
limitadas ao perímetro local. Todas elas possuem elementos formadores de caráter
universal. Assim, nos certificamos que a tradição não significa fechar uma cultura em
volta de si mesma. Para finalizar, mais uma vez citando Câmara Cascudo: “O conto
tanto mais tradicional, conhecido e querido numa região, mais universal nos seus
elementos constitutivos.” (ibid, p.22)
Muitos estudos sobre literatura de origem popular marcam que o seu início
está ligado à divulgação de histórias tradicionais de velhas épocas que a memória
do povo foi conservando e transmitindo. Em muitas comunidades, onde marcas da
história de seus povos são mais visíveis, como em aldeias africanas, entre os índios,
ou em alguns povos asiáticos, há provas da existência há vários séculos de seus
“escritores verbais”, contadores de histórias. Na pesquisa que serviu como base
para a criação do romance histórico-ficcional Negras raízes, de Alex Haley, foram
usadas testemunhas que detinham esse conhecimento histórico de uma aldeia
africana. Nessa obra é citada a importância das velhas negras da aldeia que tinham
a incumbência de contar aos mais jovens histórias que envolviam sempre
antepassados que tiveram feitos gloriosos dentro do seu povo. Câmara Cascudo, em
um de seus estudos, recorda que “toda África ainda mantém seus escritores verbais,
oradores das crônicas antigas, cantores das glórias guerreiras e sociais, antigas e
modernas, proclamadas das genealogias ilustres” (CASCUDO, apud PROENÇA,
39
1973: p.11). Em visita à África na década de 1970, o mesmo estudioso registrou que
essa tradição ainda se mantinha viva.
Essa tradição africana, pela presença de muitos escravos trabalhando nos
engenhos e plantações, em conjunto com a colonização portuguesa, foi responsável
pelo surgimento e crescimento do hábito dos contadores de histórias, em todas as
suas formas, no Nordeste Brasileiro. No romance Menino do Engenho, de José Lins
do Rego, há uma passagem em que aparecem velhas negras que iam de engenho
em engenho narrando seus contos, como é o caso da figura que marcou a infância
desse mesmo autor, que lhe rendeu homenagem ao intitular os recontos que
compõem uma de suas obras, voltada para o público infantil, Histórias da velha
Totônia. Assim, o Nordeste, que foi o ambiente escolhido por Graciliano Ramos não
só no livro Histórias de Alexandre, como em grande parte de suas obras, foi um
ambiente ideal para que surgisse forte a literatura popular. A própria poesia popular,
que é citada diversas vezes em Histórias de Alexandre, marca hoje a presença
nordestina não só nos estados de origem como também nas cidades que receberam
grande massa de imigrantes nordestinos. As feiras nordestinas em São Paulo, e a
de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, são exemplos dessa marca.
Além da formação cultural, em que citamos a presença africana e portuguesa,
o Nordeste possui aspectos geográficos, físicos e sociais, que dão um perfil à região
e facilitaram essa formação cultural. Lá se estabeleceu uma forte organização de
sociedade
patriarcal.
Ao
mesmo
tempo,
o
surgimento
de
manifestações
messiânicas, num local castigado com intempéries climáticas, com longas secas e
também com o inverso, grandes cheias, que empobreciam mais ainda uma
população já sofrida, aumentavam os desequilíbrios econômicos e sociais. Também
podemos citar o aparecimento de bandos de cangaceiros ou bandidos, que
passaram a ser parte do cotidiano do sertão nordestino. Desse jeito, não foi surpresa
surgirem grupos de cantadores e/ou contadores de histórias, “como instrumentos do
pensamento coletivo, das manifestações da memória popular”. (PROENÇA, p. 14).
Esses contadores e cantadores levavam para sua arte o cotidiano do povo, assim
como muito do que estava no seu imaginário. Em suas obras, cantadas, contadas, e
mesmo escritas em livretos, se viam a seca, os cangaceiros, críticas aos donos do
poder, e outros que faziam apologia a esses mesmos nomes, homenagens aos
santos da Igreja Católica, e a outras que eram santos para os nordestinos, como o
40
Padre Cícero, o temor à figura do Diabo, e também temor a alguns animais, e
reverência a outros, e muito mais, mas sempre fatores familiarizados ao povo
nordestino.
Além de presentes nas feiras populares já citadas, as manifestações orais,
sejam elas cantadas ou declamadas, também eram vistas em festas particulares,
mais restritas, dentro de casas ou nos quintais.
As histórias, como as do livro
Histórias de Alexandre, também eram contadas em feiras e em casas. No caso
destas, elas aconteciam nos chamados serões. A própria vida familiar no Nordeste
contribuiu para isso. Sem luz elétrica, em volta do candeeiro, depois do jantar, era
onde e quando familiares e amigos se reuniam. Nessas reuniões, surgiam histórias
com temas dos mais variados, como os citados no parágrafo anterior, desde contos
sobre fatos relevantes para o local até lendas, fábulas e contos tradicionais da
região, sendo alguns deles importados de outros países, mas que ao serem
contadas passavam a se apresentar para aqueles que as ouviam como parte do
local. Desse jeito, eram ouvidas façanhas de cangaceiros, casos de raptos de
moças, e histórias fantásticas, com o aparecimento de mitos, entre outras. Para
traçarmos um paralelo com as grandes cidades de hoje, esses serões podiam ser
comparados com as reuniões em volta da televisão para assistir às novelas ou
telejornais, servindo como elemento aglutinador da família. Em algumas épocas em
que a televisão era algo raro na sociedade brasileira, ela serviu também para juntar
todo um grupo que morasse em volta da família, pois todos queriam conhecer a
novidade.
O interesse estava na inovação e não nos programas que eram
mostrados. É importante marcar que é naquele tipo de serão familiar, reunido em
torno de narradores orais, que Alexandre conta suas histórias a seus amigos. Sua
casa servia como ponto de encontro, em todos os domingos e dias santos, para os
visitantes da casa ouvirem os relatos fantásticos, como algo rotineiro para eles.
Como já dissemos, as histórias populares também eram difundidas em praça
pública, principalmente em feiras populares, para onde convergia a população do
sertão nordestino em busca de pequenos negócios. As feiras, além de terem servido
como local de comércio, eram verdadeiras festas, com a presença de cantadores,
poetas populares, violeiros, sanfoneiros. Lá também era o local preferido para a
venda dos chamados cordéis. As histórias que lá eram contadas eram de dois tipos:
o tradicional, que está sempre na memória dos cantadores, as chamadas obras
41
feitas; o outro tipo é o improvisado, o repente, o verso do momento, que conta sobre
um feito momentâneo, como nos desafios e seus jogos de palavras. A apropriação
de contos populares de tradição oral pela literatura de cordel, assim como por outros
contadores sempre foi muito comum no nordeste brasileiro, principalmente na época
em que as Histórias de Alexandre foram escritas. Da mesma forma, a própria cultura
popular de um local se apropria de outros contos de outras culturas, efetuando
modificações, como já citamos entre contos recolhidos por Luis Câmara Cascudo e
publicados em seu livro Contos tradicionais do Brasil. Esse empréstimo também é
feito pelos contadores orais, cantadores e poetas do cordel, ao se utilizarem de
elementos de outras estórias. Alexandre, assim como Graciliano, se apropriava da
autoria dessas façanhas, possivelmente de estórias que ele teria ouvido em suas
andanças. Essa apropriação que Alexandre faz de outras estórias marcas nas
modificações ao longo da trama de algumas narrativas quando elas eram contadas
novamente.
Essas formas de transmissão da cultura popular são citadas nas Histórias de
Alexandre, tanto na referência à presença de um cantador de emboladas nos serões
da casa de Alexandre, que é o caso do personagem seu Libório, como naquelas que
dizem respeito a algumas das histórias contadas pelo major que teriam sido já
cantadas e/ou publicadas nas feiras populares e ainda na tentativa do cantador, Seu
Libório, de compor uma embolada no início do conto “O olho torto de Alexandre”
para a história contada em “Primeira aventura de Alexandre”.
42
1.2 O folclore e a literatura infantojuvenil
O processo de ingresso do folclore na literatura intensificou-se quando a
sociedade passou a preocupar-se mais com o desenvolvimento moral e intelectual
das crianças, e acreditando-se que uma literatura voltada especialmente para os
infantes seria de extrema serventia. Ao mesmo tempo, vários elementos dos contos
populares começaram a ser importados pela literatura infantojuvenil, como a
moralidade e a exemplaridade. Desse modo, vários clássicos da literatura
infantojuvenil tiveram origem em contos folclóricos que foram coletados no meio
popular e depois transformados numa linguagem considerada apropriada para a
publicação. É importante ressaltar que muitos desses clássicos não foram escritos
especificamente para o público infantil, e podiam ser taxados como literatura
popular, mas o uso os fez posteriormente serem categorizados como literatura
infantojuvenil. A principal razão para tal residia no fato de que essas obras
continham sempre uma mensagem que indicava valores e exemplos a serem
seguidos, o que era extremamente apropriado ao que se exigia de um livro voltado
para os bem jovens leitores. Nelly Novaes Coelho explica perfeitamente essa
conexão entre o infantil e o popular:
No povo (ou no homem primitivo) e na criança, o conhecimento da realidade
se dá através do sensível, do emotivo, da intuição... e não através do
racional ou da inteligência intelectiva, como acontece com a mente adulta e
culta. Em ambos predomina o pensamento mágico, com sua lógica própria.
Daí que o popular e o infantil se sintam atraídos pelas mesmas realidades.
(COELHO, 1997, p. 36)
O grande escritor paraibano José Lins do Rego, amigo de Graciliano Ramos,
destacou a importância que a Velha Totônia teve para sua formação literária. A velha
foi, por assim dizer, a biblioteca infantil que o menino Zélins não tinha quando
criança. Totônia chamava-se Antônia e era cunhada do mestre Agda, marceneiro do
engenho onde o escritor viveu sua infância. Magra, pobre, sem dentes e analfabeta,
43
a cabocla tinha um talento especial para contar histórias de trancoso para o menino.
Além de ser personagem do livro Menino do engenho, na passagem em que José
Lins narra o episódio da velha contando histórias que tanto marcaram sua infância,
Totônia e suas histórias acabaram inspirando o autor a escrever seu livro
infantojuvenil Histórias da velha Totônia.8
Na literatura infantojuvenil brasileira contemporânea temos um exemplo num
livro recém-lançado, da curitibana Consuelo Ramos Sozzi e seu Zé das Penas, que
usando o mote “quem conta um conto aumenta um ponto”, ao mesmo tempo que faz
uso da cultura popular para criar um livro voltado ao público infantojuvenil, se
aproxima por um dos vieses de Histórias de Alexandre, a contação fantasiosa de
histórias, mesmo que por via indireta já que, ao contrário da que há no livro de
Graciliano, a fantasia não parte do participante das histórias. Nesse livro, partimos
do simples desejo do personagem Zé que, precisando colocar comida na casa, foi
na venda tentando trocar sua galinha por um saco de arroz. E o simples fato de
contar que não conseguira dormir devido ao piar incessante da coruja e ao ronco da
fome que o incomodava acabou transformando a galinha, nas vozes dos outros
personagens da localidade em que vivia, num animal com mais e mais poderes
extraordinários, fazendo com que todos passassem a se interessar por sua compra.
E é esse pensamento mágico, com uma lógica própria, que está presente no popular
e no infantil. Alexandre conta suas histórias, nas quais, com exceção do personagem
Firmino, o cego que enxerga as incongruências das histórias, todos os outros
amigos presentes acreditam, por conta de uma lógica “alexandrina” que justifica
cada fantasia criada por ele.
Embora o escopo do presente trabalho seja o da presença da cultura popular
em nossa literatura, é importante lembrar que tal fato se deu em todos os povos da
sociedade moderna. Podemos encontrar na literatura mundial a presença de vários
traços do folclore, e não somente na chamada literatura infantojuvenil, como Robson
Crusoé, de Daniel Defoe, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift e As aventuras
8
Reportagem de Francisco de Assis Barbosa para a revista Diretrizes, de 18 de dezembro de 1941,
nas páginas 2, 34 e 35, sob o título “Foi a Velha Totônia quem me ensinou a contar histórias”.
Disponível
em
http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=163880&PagFis=3388.
Acessado em 05 de fevereiro de 2014.
44
de Huckleberry Finn, de Mark Twain9, mas também em clássicos da dramaturgia
como os shakespeareanos Rei Lear e Sonho de uma noite de verão.
Como já comentamos, na literatura brasileira, além de Histórias de Alexandre,
podemos citar Histórias de tia Nastácia, de Monteiro Lobato, onde a cozinheira de
Dona Benta conta histórias que ela ouviu quando criança para os netos de Dona
Benta e para a boneca Emília, o boneco de milho Visconde de Sabugosa e o porco
Rabicó. No livro de Lobato, são contadas, dentre outras, algumas das histórias que
aparecem no livro Contos tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo. O que se
percebe nesse livro é que após cada história, tanto nas contadas pela personagem
Tia Nastácia como nas contadas por Dona Benta, temos os comentários dos
personagens, em geral com caráter “didatizante”, para explicar a origem dos contos
e de outros locais em que elas já haviam aparecido. Também percebemos muitas
vezes comentários bastante críticos da personagem Emília em relação à qualidade
das histórias, considerando que as outras versões de autores como Perrault e
Irmãos Grimm seriam melhores que as contadas pelo povo.
Também notamos
nesses comentários certa dose de preconceito em relação à própria cultura popular
como um todo. Porém, ao criticar as histórias contadas por Tia Nastácia e defender
as histórias mais conhecidas por virem aos olhos dos leitores infantis por livros
publicados por célebres autores estrangeiros, como Perrault e Irmãos Grimm, por
exemplo, a boneca Emília se contradizia, pois essas últimas também eram histórias
provindas da cultura popular. Por outro lado, se a boneca Emília defendesse a ideia
de que o que vinha de fora (por exemplo, as histórias de Perrault) era melhor do que
as histórias populares do interior do Brasil contadas pelas velhas pretas como Tia
Nastácia, também se contradiria, pois muitas das histórias tradicionais brasileiras
têm origem na Europa e Ásia. Tirando as histórias de origem predominantemente
indígena e outras que acabaram surgindo pela necessidade de contar fatos do
cotidiano do interior brasileiro, todas as outras foram trazidas pela cultura estrangeira
que aqui chegou, para então receber adaptações ao nosso mundo, com ideias sobre
religião, tipos humanos, animais, paisagem e o próprio imaginário popular.
Esse assunto, que aparece em todo o livro de Lobato, sempre após o término
do ato de contar as histórias, seja por Dona Benta, seja por Tia Nastácia, nos leva a
9
Ressaltamos que os dois primeiros títulos , de Defoe e Swift, não surgiram como produção
direcionada a crianças.
45
discutir mais profundamente sobre a cultura popular e sua relação com a dita cultura
moderna e escolarizada. Ricardo Azevedo discute profundamente esse tema,
afirmando que
vivemos às voltas com pelo menos dois modelos culturais: a visão de
mundo moderna, oficial e escolarizada e a visão de mundo tradicional e
popular. São diferentes hábitos mentais, padrões sociais, culturais, éticos e
estéticos, diferentes maneiras de enxergar os homens, a vida e o mundo.
10
Tais modelos implicam diferentes discursos. (AZEVEDO, site do autor )
Dessa afirmação, podemos inferir que, assim como a cultura popular, a
literatura popular e tradicional não pode ser considerada inferior ou superior à
literatura moderna, considerada culta. Muitos intelectuais relevam que “ambas são
criadas a partir de princípios diferentes e que isso tem implicações [...] e que não há
qualquer „evolução‟ em jogo mas, sim, diferentes padrões culturais e procedimentos
criativos”. (AZEVEDO, site do autor)11. Essa percepção de levar em conta a questão
da diferença de padrões culturais e procedimentos criativos e não de que uma
cultura seja melhor que a outra pelo fato de uma usar recursos linguísticos da norma
culta e outra da linguagem popular nos leva a uma discussão mais séria e pertinente
sobre cultura popular.
Desprezar todo esse fértil terreno que é o da cultura popular, que é capaz de
dar frutos que não somente essas histórias, como também um campo de produção
de conhecimento em várias áreas, tanto nas relacionadas à própria cultura narrativa,
como nas festividades, e também naquelas ligadas ao maior contato com elementos
da natureza e um maior poder de observação de seus elementos. Desse jeito,
vemos que dessa cultura popular pode surgir um conhecimento dos fenômenos da
natureza e de elementos ligados a ela, dando aos homens e mulheres que travam
esse contato um conhecimento que erroneamente é desprezado pela cultura
escolarizada. Não percebem que desprezando esse conhecimento estarão também
desprezando que célebres homens que foram importantes para o crescimento de
nossa ciência também se apoiaram em observação firme de elementos naturais,
como as fases da lua, posição e movimento de estrelas, planetas e outros elementos
celestes. Assim, não há razão para que o conhecimento de um matuto do interior,
que se mostra capaz de opinar sobre metereologia, pela observação do vento, do ar
quente ou frio, circular, para frente ou para trás, para baixo ou para cima, nas
10
11
http://www.ricardoazevedo.com.br/ . Acessado em 05 de maio de 2012.
Idem.
46
nuvens, nos pássaros e insetos e tudo o que a natureza lhe dá de sinais, seja
considerado de menor importância do que o de um engravatado que aparece nos
telejornais noturnos. E mesmo se o compararmos com aqueles que se apóiam no
conhecimento adquirido em livros e em anos sentados nas cadeiras de ricas
universidades e dispõem de computadores e de toda uma parafernália tecnológica,
não há razão para desprezo do conhecimento popular, pois existe uma diferença de
procedimentos na produção de conhecimento.
Da mesma forma que existe essa diferença de procedimentos de produção de
conhecimento, existe uma de produção de cultura, e é por existir essa diferença, e
por entender que os procedimentos populares são também importantes que fomos
levados a fazer a defesa da cultura popular e, especificamente nesse trabalho, da
literatura de tradição popular.
É necessário dizer que, não obstante tenhamos decidido dar mais ênfase à
região nordestina por razões já explicitadas, a cultura popular não está presente
somente nas regiões mais pobres do país, mas em toda parte, todas as cidades, de
norte a sul. Nosso país é marcado por uma diversidade cultural bem grande oriunda
de várias influências, com marcas de todo tipo em nossa literatura popular. E os
recursos dessa literatura são bastante marcados pela oralidade, o que pode ser
notado nos diversos livros de recolha de contos e nas mais variadas formas de
literatura popular, como a dos cordéis, por exemplo.
Um dos mais famosos poetas populares nordestinos do século passado,
Leandro Gomes de Barros, criou vários cordéis e em seus versos sempre estava
presente a questão do sofrimento do povo nordestino, com seu empobrecimento, em
função da seca e também das ações dos maus políticos, em nível nacional e
regional, como veremos a seguir. Essa era a forma que vários poetas populares
encontravam de colocar o cotidiano do povo nordestino, utilizando sua arte. Não se
pode afirmar que, mesmo com uma linguagem que não atendia às exigências da
intelectualidade, esses versos não tinham importância:
O brasileiro se torce
Mais do que um parafuso,
A secca aperta do norte,
Do sul aperta o abuso,
O imposto bota na prensa,
O sorteio acocha o fuso.
47
(O tempo de hoje/O Sorteio Militar, Leandro Gomes de Barros)
12
E se não houver inverno,
Como o povo todo espera,
De Pernambuco não fica
Nem os esteios da trapera,
Parahyba fica em nada
Rio Grande desespera.
13
(O povo na cruz)
Secca a terra, as folhas caem
Morre o gado sai o povo
O vento varre a campina,
Rebenta a secca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagellados, retirantes
Vagam mendigando o pão.
Acabam-se os animaes
Ficando limpo os curraes
Onde houve a creação.
[...]
Alteia o dia o sol cresce
Deixando a terra abrazada
E tudo á fome morrendo
Amargos prantos descendo
Como uma grande enxorrada.
14
(A seca no Ceará)
A não preocupação com o anteriormente aludido juízo de valor é importante
para que se conheça bem a fundo nossa cultura. Nos versos do poeta cordelista,
recheados de desacordos às normas gramaticais vigentes ou nos do poeta João
Cabral de Melo Neto, ou na prosa de Raquel de Queiroz, Graciliano e Jorge Amado,
só para citar alguns nomes, estão muitos dados que indicam quem somos nós, como
foi nossa história e de que forma vivíamos e vivemos. Como já foi dito inicialmente
sobre os contos, a cultura popular também serve para ajudar a contar a história de
um povo, e conhecer a história de sua gente é fundamental para a identidade de uma
sociedade. Deixamos claro que não defendemos a predominância de um ou outro
tipo de cultura e/ou abandono de uma ou outra. De acordo com Ricardo Azevedo, é
preciso
conhecer e reconhecer diferenças entre a cultura oficial e a cultura popular,
aceitando que ambas, e não apenas a oficial, sejam relevantes, é uma
questão de auto-conhecimento social, pode ampliar nossa visão de mundo
e permitir que a gente consiga pensar melhor sobre nossa sociedade, sobre
12
BARROS, apud MAYA, 2006, p. 69.
Idem, p. 84.
14
Idem, p. 97-98.
13
48
nossa arte, sobre nossa literatura, sobre nossa educação e sobre nós
15
mesmos. (AZEVEDO, site do autor)
Essa ligação do popular com o infantil justifica o forte preconceito que existe
nos meios acadêmicos em relação à literatura infantojuvenil. Explicando melhor, o
preconceito que inicialmente recai sobre tudo que provém da cultura popular acaba
por atingir igualmente a literatura infantojuvenil por terem uma forte identificação,
como foi explicado anteriormente por Nelly Novaes Coelho. E, assim, esse
preconceito acabou por resvalar, mesmo que de forma inconsciente, também em
Graciliano Ramos, quando ele decidiu por produzir para o público infantojuvenil em
Histórias de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena História da
República.
Graciliano talvez não soubesse, mas ao se decidir pelo ingresso em um
campo em que até então ele só passava em termos de discussões que envolviam
nossa literatura, ou seja, o de livros para jovens e, ao mesmo tempo, que tivessem
ligação com o folclore, acabou sentenciando-o a ser alvo duplo de preconceito,
principalmente por parte da crítica, mas também do mercado editorial e de parte dos
leitores. Erwin Tobaldo Giménez, em seu artigo “O olho torto de Alexandre”, opinou a
esse respeito:
As Histórias de Alexandre, por exemplo, repousam na sombra dos títulos
centrais da obra (de Graciliano Ramos). Contudo, se não merecem compor
o núcleo primeiro, não deixam de o apontar como satélite intrinsecamente
ligado ao projeto do autor. Essas breves narrativas sofrem ainda, para as
lançar à margem, dois preconceitos: literatura infantojuvenil e recolha de
folclore nordestino. Tais selos se convertem em prejuízos à sua
interpretação, pois levam a ignorar o trabalho de recriação desses gêneros,
e pior, desviam o leitor de Graciliano Ramos de ver aí firmada, em chave
metafórica, a sua marca autoral. (GIMÉNEZ, 2004: pp.187-188)
Graciliano Ramos desde cedo já se demonstrava incomodado com o tema da
literatura para crianças. Aquele seu jeito que muitos taxavam como carrancudo e mal
humorado, mas que escondia uma pessoa amabilíssima, sempre pensava sobre os
livros infantis. Em entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa16, ele conta
15
Ver Nota 10, p. 45.
O texto dessa entrevista está no livro Achados ao vento, em que Francisco de Assis Barbosa
publica reportagens produzidas por ele sobre Lima Barreto, Manuel Barreto, José de Alencar, Hipólito
José da Costa, Domingos Caldas Barbosa e Graciliano Ramos. A reportagem sobre Graciliano
Ramos foi produzida por ocasião das comemorações pelo aniversário de 50 anos de Graciliano. Não
por acaso o título do texto é “Graciliano Ramos, aos cinqüenta anos. Além de estar nesse livro, foi
publicado também na coletânea de discursos proferidos por ocasião do evento que homenageou o
escritor alagoano em 1942 por seus 50 anos, com a qual tivemos contato com sua primeira edição. E,
16
49
que leu o primeiro livro numa semana, mas no segundo livro, segundo suas
palavras, encrencou: “no começo do volume antipático, a história besta dum
Miguelzinho que recebia lições dos passarinhos, fechou-me, por algum tempo, o
caminho das letras”. (BARBOSA: 1958, p.58). Graciliano passou a tomar gosto pela
leitura e estudos com uma prima chamada Emília, “um verdadeiro anjo”, que lhe
contava histórias. A prima certa vez foi lhe ensinar o significado da palavra
“astrônomo”, que ela pronunciava “astronômo”: “São homens que conhecem o céu.
Sabem tudo o que existe lá em cima. Sabem o nome de todas as estrelas...” (idem,
p.59).
Aquelas palavras da prima, contando de jeito simples, sem palavras
rebuscadas, sobre o significado de algo que ele desconhecia até então, nunca foram
esquecidas por Graciliano, tanto que ele as repetiu na citada entrevista ao jornalista.
Ganhando gosto pela leitura, ainda moço se apaixona pelos romances, o que o
tornou amigo do tabelião e do agente de correio o qual, além de lhe trazer livros,
contava-lhe sobre sua admiração por Coelho Neto. Foi inevitável que Graciliano logo
se aventurasse nas letras, primeiramente escrevendo um soneto ainda na
adolescência.
Graciliano resolveu colocar no papel sua preocupação com o tema dos livros
infantis quando escrevia crônicas sob diversos pseudônimos para jornais de
Alagoas. Ele considerava que a maioria desses livros trazia sofrimento para as
crianças, pois apresentava uma linguagem entediante, parecendo ser feita para que
o leitor não compreendesse nada do que estava escrito. E esse incômodo não se
restringia à literatura infantojuvenil, mas também aos livros didáticos que as crianças
eram obrigadas a ler, como as gramáticas e livros de história:
A gramática pedantesca, cheia de nomes gregos, de sutilezas que o leitor
não compreende; a história do Brasil de perguntas e respostas, feita
especialmente para que o estudante só responda ao mestre quando o
quesito seja formulado com as mesmas palavras que estão no livro; a
geografia presumida, a exibir uma erudição fácil, recheada de termos como
estereografia, hipsografia, vulcanografia, potamografia e outras grafias de
má sorte; todas as letras inodoras, incolores, desenxabidas, enjoativas,
perfeita literatura de água morna. [...] Leva-se a melhor parte da vida a ler
aquilo e fica-se sem saber coisa alguma. Na idade em que a inteligência
começa a despertar, confusa, obrigá-la a embrenhar-se pelas complicadas
asperezas dos lusos clássicos – que horror, santo Deus! (O Índio: março de
1921 apud RAMOS,1962b: p. 67)
pesquisando no acervo digital da Biblioteca Nacional, vimos que ele fora publicado inicialmente na
revista Diretrizes em 29 de outubro de 1942 sob o título “A vida de Graciliano Ramos”.
50
Essa crônica, escrita aos 29 anos de idade no Jornal O Índio, de Palmeiras
dos Índios, sob o pseudônimo de J. Calisto, nos leva ao que Graciliano sentia ao
ouvir sua prima contar sobre o significado da palavra “astrônomo”, com palavras
simples.
Amo as crianças. E, porque as amo, entristece-me a ideia de que serão
grandes um dia, terão barbas ou cabelos compridos, como toda a gente. [...]
Sofro com o sofrimento delas. E é por isso que detesto o livro infantil.
Detesto-o cordialmente.
Aquelas coisas maçadoras, pesadas, estopantes, xaroposas, feitas como
que expressamente com o fim de provocar bocejos, revoltam-me. Espantame que escritores componham para a infância pedantices rebuscadas, que
as livrarias se encarregam de fornecer ao público em edições que, à
primeira vista, causam repugnância ao leitor pequenino; embasbaca-me que
professores reproduzam fonograficamente aqueles textos indigestos;
assombra-me ver aquilo adotado oficialmente.
Odeio o livro infantil. E odeio-o porque sei que a criança o não compreende.
Abram uma dessas famosas seletas clássicas que por aí andam
espalhadas. Ainda guardo com rancor a lembrança de uma delas, pançuda,
tediosa, soporífera, que me obrigaram a deletrear aos nove anos de idade.
Li aquilo de cabo a rabo, e no fim só me ficou a desagradável impressão de
haver absorvido coisas estafantes, cheirando a mofo, em uma língua
desconhecida, falada há quatrocentos anos por gente de outra raça e de um
país muito diferente do meu. (idem, pp. 66-67)
A crônica acima mostra exatamente o pensamento de Graciliano sobre o livro
infantil e nos parece que exibe o motivo que o levou a produzir suas três obras
voltadas ao público infantojuvenil - Histórias de Alexandre, Terra dos meninos
pelados e Pequena História da República. Essa última, que fecha a coletânea
Alexandre e outros heróis, nasceu de um concurso literário promovido pela revista
Diretrizes, e que ele mesmo divulgara em crônica em agosto de 1939. Teve a ideia
de dar uma resposta irônica ao concurso, pois ele já imaginava que as obras que
seriam enviadas ao concurso teriam exatamente o perfil que ele tanto criticava nos
livros voltados às crianças. Porém, não há registro se Graciliano enviou o texto à
Comissão que iria avaliar as obras ou se ele foi recusado pela forma irônica com que
foi tratada a história. Dele, apenas podemos afirmar que só foi publicado na edição
póstuma de 1962, como parte de Alexandre e outros heróis. Sobre esse episódio do
concurso literário, Osman Lins escreveu no prefácio de Alexandre e outros heróis:
Sua História da República, constante do presente volume, data, segundo
vimos, de 13 de janeiro de 1940. É, pois, esse concurso que sugere ao
escritor a ideia um tanto sacrílega de ordenar à sua maneira os fatos de
nossa República. Mesmo uma leitura apressada ou fragmentária evidencia
que o propósito de concorrer ao concurso instituído pela revista Diretrizes
estava fora de cogitação. A História da República, de Graciliano Ramos, é
exatamente uma espécie de resposta, desabusada e ferina, às muitas
51
outras histórias – todas, decerto, convencionais – que seriam enviadas à
Comissão Julgadora. (LINS apud RAMOS, 1982: p.196)
Mauricio Rosemblat, da Livraria do Globo, em reportagem de Adhemar
Nóbrega para a Revista da Semana17, em que foram entrevistados editores de livros
infantojuvenis e o autor de livros didáticos juvenis Hildebrando Lima, emite a
seguinte opinião, que inclui o Graciliano autor de livros infantojuvenis:
Temos, dentre as nossas edições, algumas obras de grande sucesso, de
Lewis Carroll, Johanna Spyri, Lúcia Miguel Pereira, Dante Costa e
Graciliano Ramos. Graciliano, entretanto, não é o autor ideal para as
crianças. É um tanto agressivo, tem uma linguagem bem mais apropriada
ao terreno dentro do qual é um grande escritor: o romance do gênero “Vidas
secas”. (NÓBREGA, in Revista da Semana: 1946, p.14)
Mesmo não relevando a opinião de um editor sobre o tema, não podemos
deixar de citar que a Livraria do Globo havia publicado em 1939 Terra dos meninos
pelados, que, embora não tenha sido citado textualmente, era dele que o editor
falava. Entretanto, Terra dos meninos pelados recebeu o Prêmio de Literatura
Infantil, no ano de sua publicação, do Ministério de Educação e Cultura. Mas
também percebemos que a opinião de Rosemblat não só se referia a Terra dos
meninos pelados e sim ao autor Graciliano Ramos como escritor, que não seria
apropriado ao gênero, e essa opinião era compartilhada por outras pessoas, ou pelo
menos muitos não colocavam sua publicação para o público jovem no mesmo
patamar de suas obras mais famosas.
Ainda sobre a questão dos livros infantis, em 1951 Graciliano teve o livro 7
histórias verdadeiras publicado pela Ed. Vitória. As histórias selecionadas para
fazerem parte da coletânea, que estavam no livro Histórias de Alexandre publicado
em 1944, foram as seguintes: “Primeira história verdadeira” (“Primeira aventura de
Alexandre”), “O olho torto de Alexandre”, “O estribo de prata”, “A safra dos tatus”,
“História de uma bota”, “Uma canoa furada” e “Moqueca”. Em 16 de dezembro de
1951, o jornal semanal Imprensa popular, do Rio de Janeiro, em sua página 9,
publicou a seguinte nota intitulada “7 Histórias Verdadeiras”:
17
Lançada em 20 de maio de 1900 por Alvaro Teffé, como suplemento do Jornal do Brasil, a Revista
da Semana representou um dos primeiros sucessos comerciais no mercado brasileiro de revista no
século XX. Em dois anos, a tiragem da publicação saltou de 50 mil exemplares para 62 mil, sendo
considerada a grande vedete do mercado editorial brasileiro até, pelo menos, a década de 1940,
quando a revista O Cruzeiro – que, aliás, teve o seu projeto inspirado neste suplemento – assume
esta posição. A fotorreportagem foi o elemento pelo qual a revista se tornou mais conhecida, e que foi
bastante utilizada na reportagem citada no trecho ao qual essa nota é ligada.
52
Pela primeira vez o grande romancista brasileiro Graciliano Ramos publica
um volume de contos para crianças: 7 Histórias Verdadeiras, que acaba de
18
ser lançado pela Editorial , em primorosa edição com ilustrações de Percy
Deane. O ano se encerra assim com um notável acontecimento literário, e
as crianças poderão ter nele o seu melhor presente de Natal. Um fato
inédito será a conversa que os leitores mirins do livro terão com Graciliano
Ramos, dentro em breve, a propósito de suas histórias. Cada livro é
acompanhado de um cartão-convite para essa palestra, que será
oportunamente marcada”. (apud SALLA (org), 2012: p.331)
A reunião do autor com as crianças, citada na nota, e que não encontramos
outras referências que garantam que ela tenha ocorrido, é novamente mencionada
na edição seguinte, em 23 de dezembro de 1951, em carta escrita pelo autor,
direcionada às crianças, com os seguintes termos:
Leitor amigo,
Com certeza você compreende, meu pequeno leitor, que o escritor vive
quase sempre afastado do seu público. Por isso, nem sempre sabe para
quem escreve, como são recebidos os seus livros, quais as suas falhas,
como melhorar as suas histórias, os seus romances.
Pensando nisso resolvi ter com vocês em fevereiro ou março uma conversa
sobre as 7 Histórias Verdadeiras em que eu conto as aventuras de
Alexandre. Nessa conversa nós nos tornaremos conhecidos. Vocês farão
críticas e sugestões, que me servirão de ensinamento para outras histórias.
Sei que você gostará dessa reunião para a qual poderá convidar também os
seus amigos.
Para receber o seu convite, preencha o cupão abaixo e remeta-o até 31 de
janeiro à editora deste livro a fim de ser avisado do dia e lugar dessa
conversa.
Muito obrigado,
Graciliano Ramos (idem, p.331)
Essa carta nos leva a perceber a atenção que o autor dava ao fato de
produzir uma obra para o público infantojuvenil, que já havia sido mostrada em
crônica publicada no Jornal O Índio, de Alagoas, em 192119. Também podemos
deduzir, pela decisão do autor em usar novamente alguns contos do livro Histórias
de Alexandre em nova obra, que Graciliano mantinha-se convicto da importância não
só do tema para o público jovem, como da própria cultura popular. O fato de o livro
ter sido mantido escondido no fundo de livrarias, com pouca vendagem e sem
visibilidade na imprensa, não foi suficiente para o autor esquecer suas histórias. A
18
A Editorial Vitória, era também conhecida pelo nome abreviado “Editorial”,. Tanto a editora quanto o
jornal serviam como meios de divulgação do Partido Comunista Brasileiro. A página em que a nota foi
publicada
está
disponível
no
seguinte
endereço:
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=108081&PagFis=1786. Acessado em 04 de
dezembro de 2013.
19
Crônica já citada nas páginas 49 e 50.
53
nova obra ganhou um formato mais adequado ao público jovem e a própria carta e a
reunião com as crianças são prova dessa opção.
Nas duas edições do jornal Imprensa Popular, nas quais tivemos as já citadas
nota e carta aludindo à obra de Graciliano, foram publicadas matérias que envolviam
o tema da literatura infantojuvenil. Na primeira, focou-se a reunião da Associação
Brasileira dos Escritores – ABDE – no IV Congresso Brasileiro de Escritores,
realizado de 25 a 30 de setembro de 1951 em Porto Alegre, em especial sobre a
mesa redonda em que foi debatida especificamente a literatura infantojuvenil, e da
qual Graciliano participou. Na segunda, na coluna “Literatura e Arte”, tivemos a
matéria “Revistas Juvenis”. Essa segunda matéria aludia ao que fora discutido na
mesa redonda da ABDE, ou seja, a preocupação com uma espécie de “moralização”
da criança, que estava sob forte influência de um número grande de revistas em
quadrinhos com personagens ligados aos Estados Unidos, tanto os super heróis,
como Capitão Marvel e Superman, como os caubóis das revistas de faroeste, que
difundiriam de forma sistemática e persistente junto à nossa juventude “histórias que
cultuam violência e brutalidade”. Foi criticada também uma revista nacional chamada
Xuxá, que trazia um personagem brasileiro que, no entanto, trabalhava como espião
das tropas norte-americanas. Temos que levar em questão o contexto da época,
pois era forte o clima de conflito entre Estados Unidos X União Soviética, capitalismo
x comunismo, e esse clima resvalava aqui no Brasil, principalmente se formos
pensar na imprensa que tanto poderia estar de um lado quanto de outro. No caso da
Imprensa Popular, órgão de divulgação do Partido Comunista do Brasil, logicamente
influenciaria suas opiniões por seu posicionamento político. Porém, é importante de
registro que, mesmo que levemos em conta a influência política nessa opinião, seu
conteúdo era verdadeiro quando citava a grande quantidade de produção
infantojuvenil proveniente dos Estados Unidos, e todas elas com boa dose de
violência. O que deixou de ser focado, no entanto, foi se a produção tinha qualidade
ou não. Essa discussão foi levada por Rachel de Queiroz, em crônica sobre a
Literatura Infantil, publicada na página 2 do Diário de Notícias, de 21 de setembro de
1947, e sobre a qual vamos comentar mais adiante.
O quadro da literatura infantil da época foi mostrado também pelas estudiosas
da literatura infantojuvenil Marisa Lajolo e Regina Zilberman, no livro assinado por
elas intitulado Literatura infantil brasileira – história e histórias. Nesse livro, as
54
autoras citam o grande número de obras traduzidas e adaptadas da Europa e
voltadas ao público infantil que dominavam o mercado editorial. Os poucos autores
nacionais que produziam para esse público se preocupavam com produções com
aplicações mais didáticas, como os destinados ao ensino de história e geografia. Na
reportagem da Revista da Semana de 14/09/1946, sob o título “Leitores de calças
curtas”, já citada nesta dissertação, era confirmada essa tendência, pois só naquela
época que aparecia um autor que iniciava um movimento de reação a essa invasão:
Monteiro Lobato. Graciliano, que tivera Terra dos meninos pelados publicado em
1939, não recebia a atenção e o devido valor como autor também de produções
para o público infante, inclusive da editora que publicou seu livro, a Livraria do
Globo, de Porto Alegre. Graciliano, que já tivera um parco trabalho de divulgação,
tanto da parte da editora Leitura quanto da imprensa, quando ocorreu o lançamento
de Histórias de Alexandre em 1944, nessa época também recebia um tratamento
dúbio de outra editora para o seu premiado livro. Ao mesmo tempo que Terra dos
meninos pelados passou a receber melhor atenção da imprensa em relação a
Histórias de Alexandre, com várias citações, tanto na época do lançamento, como
posteriormente, com análises, tanto sobre o livro quanto sobre a decisão de
Graciliano escrever para o público infantojuvenil, e um melhor trabalho de divulgação
da obra por parte da editora, o próprio editor da obra dizia que Graciliano não era um
autor que se encaixava na literatura para crianças, que ele deveria continuar nos
livros como Vidas secas e São Bernardo.
Porém, dentro da imprensa houve quem reconhecesse em Graciliano um
importante escritor também na literatura para os jovens. Uma voz que, além de
detectar o movimento de reação que Zilberman e Lajolo citam em seu livro,
percebeu o valor que Graciliano tinha também na literatura infantojuvenil foi a de
Osório Borba. Em reportagens intituladas “Sobre Literatura Infantil”20 e “O livro
infantil”21, publicadas no Diário de Notícias, respectivamente, em 05 de janeiro de
1941 e 07 de dezembro de 1941, Borba já notara um movimento de reação da
literatura infantil nacional, mesmo com o grande número de traduções. Ele
preconizava que o mercado editorial brasileiro não podia questionar o grande
20
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093718_02&PagFis=4058.
Acessado em 05 de janeiro de 2014.
21
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093718_02&PagFis=8018.
Acessado em 05 de janeiro de 2014.
55
sucesso de alguns best sellers internacionais, pois muitos tratavam-se de obras
clássicas no gênero, como, por exemplo, Pinocchio, Gulliver e As aventuras de Tom
Sawyer. No entanto, Borba ressaltava as produções que apareciam na época, de
autores como Graciliano Ramos, Lucia Miguel Pereira, Érico Veríssimo e José Lins
do Rego, que se mostravam preocupados em produzir literatura de boa qualidade
para o público infantojuvenil. Uma das razões apontadas para esse movimento foi a
promoção de muitos concursos literários, alguns impulsionados pelo próprio Estado.
Outra voz que apareceu na imprensa e cita Graciliano Ramos como bom autor de
livros para jovens foi a escritora Rachel de Queiroz, ma já mencionada crônica sobre
a Literatura Infantil em setembro de 1947. Nessa crônica, Rachel de Queiroz cita
Monteiro Lobato como o grande nome do gênero, que, assim, estaria dividido entre
pré e pós-Monteiro Lobato. Raquel de Queiroz coloca Graciliano Ramos junto com
nomes como Lúcia Miguel Pereira, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Viriato Correia e
Jorge de Lima, entre os escritores que não deixaram Lobato sozinho na tarefa de
defender a literatura infantojuvenil nacional: “grandes nomes das letras nacionais
têm contribuído para o enriquecimento da nossa literatura de meninos”. Rachel de
Queiroz lembra ainda que os citados escritores dedicaram às crianças um ou mais
volumes e, nesses livros, eles “não puseram apenas uma parte mínima de seu
talento. Neles, como nos romances para gente grande, sente-se sempre a mão de
mestre que os escreveu”. (QUEIROZ, 1947: p.2)”.22
De qualquer forma, mesmo sem muito apoio, Graciliano manteve seu
posicionamento de que a literatura infantojuvenil carecia de uma mudança de rumo e
que ele poderia ser também instrumento desse movimento. Lajolo e Zilberman
reconheciam Graciliano como o principal aliado de Lobato nessa luta da literatura
infantil brasileira. Eles capitanearam um movimento que levou à produção de livros
nacionais infantojuvenis, no qual se destacavam três aspectos – o nacionalismo, a
exploração da tradição popular consolidada em lendas e histórias e a inclinação
educativa. Os autores que conseguiram levar esses aspectos a termo sem engessar
a imaginação puderam “construir um mundo de fantasia, possível plataforma de
lançamento para uma crítica à sociedade ou ao ambiente real experimentado pelo
leitor. [...] a criatividade desses momentos deu alento e continuidade ao gênero”.
(LAJOLO e ZILBERMAN, 2007: p.54).
22
QUEIROZ, Rachel de. Literatura infantil. In Diário de Notícias. Rio, 21/09/1947, p.2.
56
Assim, Graciliano se impõe num campo até então novo para ele, mas que já
havia demonstrado preocupação, com sua produção voltada ao público juvenil, sem
deixar de mostrar cuidado a diversos aspectos que trazia nas obras voltadas ao
público adulto, com um esmero no tratamento da língua e preocupação com as
injustiças e o sofrimento dos mais pobres. Dessa forma, consideramos que Histórias
de Alexandre, Terra dos meninos pelados e Pequena História da República
formavam um tipo especial de literatura infantojuvenil, pois são livros voltados ao
público jovem, mas que podem perfeitamente serem lidos pelo público adulto sem
causarem estranhamento. Desse jeito, sua obra trilha um caminho de mão dupla que
lembra o que aconteceu com algumas obras clássicas da literatura juvenil, como
Robson Crusoé, de Daniel Defoe e As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, que
originariamente não eram destinadas ao público juvenil.
Em Terra dos meninos
pelados temos um menino vítima de constante discriminação por ter a cabeça
pelada e os olhos de cores diferentes, tendo que conviver com essa diferença, mas
suporta bravamente sem que isso lhe traga infelicidade, dando uma mensagem
importante para o leitor. Na mesma época de Terra dos meninos pelados, Lúcia
Miguel Pereira publicara Fada menina, outro livro infantojuvenil com importância e
características semelhantes ao de Graciliano, com personagens lutando contra
discriminações. Para Lajolo e Zilberman, “nos textos de Graciliano e Lúcia Miguel
Pereira, o imaginário se mescla ao ideal a que almejam os heróis, mas como sua
realização implica luta, ele acaba por configurar um projeto político”. (idem, p.66).
No aspecto indicado do aproveitamento da cultura popular por parte de nossa
literatura, que na realidade é uma característica da literatura infantojuvenil no mundo
todo, Graciliano se faz presente nas Histórias de Alexandre valendo-se do folclore
nordestino. Ao contrário de personagens de Lobato e outros autores, “Alexandre
foge ao estereótipo dos pretos velhos e cozinheiras negras que falam a crianças
geralmente de um meio urbano ou moderno: ele é meio caçador e meio vaqueiro e a
platéia constitui-se de adultos.” (idem, p.74) Não somente a declaração inicial do
autor, constante da nota de advertência, indica a ligação das histórias ao folclore
nacional, “mas o fato de que são encontradas em outros escritores que se valeram,
igualmente, da fonte popular.” (idem, p.74) Elas trazem grandes semelhanças com
as histórias do livro de João Simões Lopes Neto, Casos de Romualdo. Alexandre e
Romualdo “compensam, por meio da atividade narrativa, sua pequena importância
57
social. Por isso, Alexandre, que é remediado, como se percebe na apresentação,
fala constantemente da época em que era rico e poderoso.” (idem, p.75)
Também na questão da cultura popular, percebemos que Graciliano ia além
dos outros escritores que fizeram uso dessa cultura em seus livros. Assim como
Lobato em Histórias de Tia Nastácia e José Lins do Rego em Histórias da Velha
Totônia, Graciliano usa Histórias de Alexandre como instrumento de valorização da
cultura popular, tomando emprestado temas ligados a ela e repetindo características
dessa cultura. Mas Graciliano foi mais longe, primeiro que ele não deu voz somente
aos elementos transmissores da cultura popular, os contadores, mas a uma
sociedade de injustiçados, representados pelos convidados do casal Alexandre e
Cesária e, assim, ela serviu também como instrumento de denúncia e combate às
injustiças. E é preciso registrar que ele faz isso com uma boa dose de humor.
Deste modo, Graciliano antecedeu outro movimento que só ficou mais forte
na década de 70, de autores de obras para crianças e jovens, que se faziam valer
de temas até então só usados em livros ditos da literatura adulta. Ele percebeu que
sua obra podia ser, não só para os adultos, mas também para os jovens, um meio
efetivo e essencial para expor a realidade da vida e, mesmo sem dar aspecto
panfletário, inconscientemente dava um tratamento ideológico. Além disso,
Graciliano, de modo lúdico e fácil, e mantendo várias características já utilizadas na
sua obra anterior aos livros ditos infantojuvenis, antecipou o que os autores que
produziram livros para o público jovem a partir dos anos 70, que passaram a levar
seus leitores de calças curtas “a perceberem e interrogarem a si mesmos e ao
mundo que os rodeia, orientando seus interesses, aspirações, sua necessidade de
auto-afirmação”, ao lhes proporem “objetivos, ideais ou formas possíveis ou
desejáveis de participação social”. (COELHO apud SANDRONI in PONDÉ (org.) e
outros, 1980: p.15)
Essa nova direção veio em reação a um panorama do livro juvenil que era
alicerçado em valores de uma sociedade bastante tradicional que imperavam e
ainda imperam no mercado editorial. Esse panorama nos faz recordar mais uma vez
a crônica de Graciliano quando ele dizia que odiava o livro infantil. Os valores, contra
os quais Graciliano lutava, tinham alguns fundamentos que, de acordo com
Sandroni, seriam: o individualismo, base da sociedade capitalista; a autoridade
representante do saber absoluto; a moral dogmática de base religiosa; o sistema
58
social que dá prioridade às minorias privilegiadas; a sexologia que valoriza a
castidade como virtude maior; a linguagem literária padronizada em convenções; o
racismo que valoriza nitidamente a raça branca sobre as demais e o sentimentalismo
predominando sobre a objetividade e a razão. (SANDRONI in PONDÉ, 1980: p.15)
Assim, Graciliano reafirma, nessa sua obra destinada aos jovens, que ele seguia um
caminho que vários estudiosos da literatura infantojuvenil, como Laura Sandroni,
Nelly Novaes Coelho e Regina Zilbermann, posteriormente observaram. Nesse
caminho, para uma literatura que se queira transformadora da realidade, ela precisa
seguir valores opostos aos acima listados.
59
Capítulo 2
O olhar da crítica e a atenção recebida da imprensa
Merecedor e dotado de boa receptividade do público leitor e crítico, a obra de
Graciliano sempre recebeu boas críticas e bom espaço de divulgação, desde que
seus relatórios de prestação de contas durante sua gestão como prefeito de
Palmeiras dos Índios se tornaram famosos por descobrirem valor literário por trás de
documentos técnicos23. Depois que o governador alagoano elogiou publicamente os
relatórios, a notícia chegou ao poeta e editor Augusto Schmidt, que sabendo que
Graciliano estava escrevendo um romance – no caso Caetés – passou a sondá-lo,
enviando-lhe diversas cartas para que ele publicasse seu livro. Assim, o livro
recebeu algumas notas, como a lançada no Diário de Notícias de 14 de janeiro de
1934, que divulgava sua publicação, recebendo um espaço de tamanho médio e
comentando sobre o livro recém-editado. Em 17 de março daquele ano o mesmo
jornal voltou a divulgar Caetés, nos “Apontamentos” de Valdemar Cavalcanti. Antes
disso, em 25 de fevereiro, o escritor e amigo de Graciliano, José Lins do Rego,
escreveu uma matéria, sobre “O Romancista Graciliano Ramos”, que ocupava
23
O Correio da Manhã (RJ) publicou em 12 de maio de 1929 a notícia com o título de “Bom Humor
Oficial”: “O Diário Oficial de Maceió publicou um curioso documento oficial: é o relatório do prefeito de
Palmeiras dos Índios, Sr. Graciliano Ramos. Aqui vão alguns trechos: „Encontrei obstáculos dentro da
Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma
campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis.[...] Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano
passado restam poucos.: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os
atuais não se metem onde não são necessários, cumprem a sua obrigação e, sobretudo, não se
enganam em contas. [...] Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra
na rua – um telegrama; porque o deputado esticou a canela – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a
gente sabe isto aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1556 d. Pedro
Sardinha foi comido pelos Cahetés. Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se
abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis. [...] Não favoreci ninguém. Devo
ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram erros de inteligência que é
fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há
descontentamento. Se a minha estadia na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um
plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.‟”
60
quatro colunas e cerca de um oitavo da página, com direito a também uma foto do
escritor para ilustrar a citada matéria. A amizade dos dois escritores deve ter
influenciado o senso crítico de José Lins do Rego, não que Graciliano não
merecesse elogios, mas ele fez uma crítica como se Graciliano já tivesse uma vasta
obra naquela data, quando na verdade Graciliano só tinha publicado Caetés e S.
Bernardo estava ainda no prelo. De qualquer forma, a crítica veio a se confirmar,
pois Graciliano mereceu cada uma das palavras da crítica de José Lins do Rego,
que assim escreveu:
Os seus romances são desses de humanidade tão grande que a gente os
sente como a própria vida. São livros dolorosos com todo o lado amargo da
vida. Neles não sentimos um poeta, um lírico se entusiasmando com as
paixões deste mundo. Têm a força do raio X que penetra nas profundidades
o olho deste romancista que só conta a história de gente infeliz. Eu faço
bem em falar em olho de raio X em relação a Graciliano Ramos porque
ninguém como ele para só ver das coisas a sua nudez. Ele vê as entranhas
e a gente sente o ranger dos ossos do seu processo de escrever. Mas é um
grande escritor porque o grande escritor será sempre o que sabe ver as
coisas com profundidade. E não é esta a sua exatidão de observar um
processo crítico, uma conquista literária. Graciliano Ramos é, pessoalmente,
na sua conversa, o mesmo de seus livros. Simples e verdadeiro. (REGO in
Diário de Notícias, 25/02/1934, p. 19)
Também no Diário de Notícias, de 12 de junho de 1938, o escritor e jornalista
Emil Farhat fez uma matéria crítica sobre Vidas secas, tecendo-lhe muitos elogios:
Vidas secas, romance geométrico. Não há uma palavra demais nem falta
nenhuma nesse livro de Graciliano Ramos. Quem não conhece os métodos
literários do autor diria que ele estabeleceu anteriormente um esquema com
o material do romance, tal qual o Sr. José Américo anuncia que faz. “Vidas
secas” se apresenta com tanta medida, justamente por ser o romance de
vidas que não se alteiam nem se abaixam mais além do baixo nível comum
do animal-homem Fabiano. Escrito quase sem adjetivos, Vidas secas
adquire tons impressionantes, arte do autor aproveitando o absoluto
primitivismo de seus personagens. Graciliano consegue o que há de difícil
em romance: fixar a existência de tipos vulgares, cuja vida transcorre sem
um gesto que possa revelá-los meras e monótonas planícies humanas que
são. É muito árido o Fabiano, e Graciliano faz um romance cheio e rico com
a personalidade vazia dessa figura pobre. (FARHAT, 1938, Primeiro
Suplemento, p.1)
Outras críticas foram escritas, sempre elogiosas, a Graciliano e sua obra,
como no mesmo jornal, em 03 de julho de 1938, por Rosário Fusco, sob o título
“Modernos e modernistas”:
Subjetivismo que faz supor tratar-se esse Vidas secas de um grande diálogo
interior do romancista com a vida dessa gente que ele conhece e ama
porque sofre como ele. [...] O romancista só descreve o que eles sentem.
São os sentimentos, as impressões interiores e não as ações que importam
nessa narrativa [...]. O Sr. Graciliano é, portanto, desses para os quais a
beleza conta sempre na obra de arte apesar do real [...] com os recursos
61
extraordinários de romancista que é, por vocação irresistível, afirma a sua
personalidade e consegue ser moderno, novo, original. O que não é a
mesma coisa que ser “modernista”, anacrônico e forçado. (FUSCO, 1938,
1º.Supl, p.2)
A escritora e também pertencente ao círculo de amizade de Graciliano
Ramos, Raquel de Queiroz, fez mais tarde uma crítica sobre a obra do escritor
alagoano, publicada no Diário de Notícias de 09 de outubro de 1938. Mas não nos
pareceu que fora o laço de amizade que impulsionou a escritora a tecer as seguintes
palavras, pois Graciliano mereceu os elogios:
Os livros de Graciliano Ramos são todos diferentíssimos uns dos outros,
parecem escritos cada um por um homem diverso, vivendo em mundos
opostos. E é interessante notar que o estilo a prosa do escritor se modifica
também em cada volume, acompanhando como um modelado o contorno
geral do livro, apreendendo-lhe o espírito, mudando, conforme as mudanças
do tema, de tom e de colorido. [...] Um escritor que não parou de crescer.
(QUEIROZ,1938: pp.1-2)
No período de preparação de S. Bernardo até o momento em que a obra
encontrava-se no prelo, sua publicação já era aguardada com ansiedade, com várias
notas sendo publicadas no Diário de Notícias, Diretrizes e Correio da Manhã. Após o
lançamento, a maior parte da crítica foi positiva, como a de Dias da Costa, na coluna
“Literatura e Romance”, do Diário de Notícias de 31 de março de 1935. “De Caetés,
primeiro livro do Sr. Graciliano Ramos, ótimo livro, embora um tanto antiquado, para
o novo romance, há uma evolução salutar, um aperfeiçoamento de técnica, uma
segurança na dosagem de emoção que chega às vezes ao irrepreensível.” (COSTA,
1935: Terceira Seção, p.18)
Os dois livros de Graciliano que receberam as maiores atenções da imprensa
foram, sem dúvida alguma, Vidas secas e Infância. O primeiro foi bastante saudado
pela crítica. Percebemos em todos os periódicos pesquisados que, mesmo quando o
objeto da crônica ou reportagem dos jornais ou revistas era outro livro do autor, ele
era citado e recebia nem que fosse uma pequena observação, porém sempre com
tom positivo. Vidas secas foi publicado em 1938, mas mesmo no final da década de
40 os críticos ainda produziam textos na imprensa sobre ele. Podemos perceber que
até hoje esse sucesso se reflete, basta ver o número de estudos que se debruçam
sobre essa obra e o total de 124 edições. Já Infância conseguiu o grande feito de já
ser citado diversas vezes em jornais como o livro de memórias que o autor estaria
preparando desde a publicação nos jornais de capítulos da obra. Por exemplo, o
capítulo “Samuel Smiles” foi publicado em 13 de novembro de 1938 no Diário de
62
Notícias; o capítulo “Os astrônomos” foi publicado no mesmo ano e no mesmo
jornal24; “O menino da mata e seu Cão Piloto” saiu em O Jornal em 23 de novembro
de 1938 e “O cinturão” em 21 de maio de 1939, também em O Jornal. Os jornais já
apontavam na época que os textos publicados seriam parte de um futuro livro. Em
30 de maio de 1944 o jornal A Manhã publica, enfim, a nota informando que
Graciliano acabara de concluir seu livro de memórias. A partir daí a expectativa era
do livro ser entregue para publicação.
Com tantas citações e com livros bastante elogiados, vários considerados
entre os clássicos de nossa literatura, seria lógico querer descobrir qual a razão de
Graciliano não ter entrado na Academia Brasileira de Letras. Diversos depoimentos
dão conta que o próprio autor odiava a ideia de fazer parte da Academia,
primeiramente pelo fato de ter que visitar e bajular os acadêmicos imortais
“mendingando votos”: “Se não me conhecem, é pura bobagem. E eu não sou de
beijar mão.” Esse depoimento foi dado ao filho Ricardo Ramos que contou, com
humor, em seu livro Retrato fragmentado, e complementa a conversa falando que o
outro motivo pelo qual não se via na Academia era de ter que usar o fardão: “- Me
lembra folclore, fantasia de guerreiro ou Mateus, sujeito todo enfeitado de espelhos,
vidrilhos e miçangas. Quando querem afastar esse modelo, falam em tradição. [...]
Ao vestir aquilo, eu me sentiria um século mais velho.” (RAMOS, 2011b: p.156)
Mas Graciliano foi lembrado algumas vezes para ocupar uma das cadeiras da
ABL quando uma vaga era aberta. Em reunião ocorrida em final de outubro ou início
de novembro de 1942 na Livraria José Olimpio, onde estiveram vários literatos,
conta o jornalista Francisco de Assis Barbosa, em sua coluna na revista Diretrizes de
5 de novembro de 1942, que o nome de Graciliano Ramos fora mencionado várias
vezes entre eles para ocupar a cadeira de número 23, vaga após a morte de Xavier
de Marques. Também em Diretrizes, em 29 de abril de 1943, na reportagem de Joel
Silveira sob o título “Minha lira só tem uma corda”, com uma longa entrevista com o
poeta Olegário Mariano, este lançou também o nome de Graciliano para a
Academia:
24
Não há informação no livro Catálogo de manuscritos do arquivo Graciliano Ramos sobre a data da
publicação no Diário de Notícias desse capítulo de Infância, porém verificamos no acervo digital da
Biblioteca Nacional que a publicação no periódico se deu em 27/11/1938, na página 1 do 1º
Suplemento,
conforme
se
pode
ver
aqui:
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=093718_01&PagFis=38132 . Acessado em 16
de dezembro de 2013.
63
- Graciliano é o maior escritor do Brasil. Que escritor! [...] Se o Graciliano se
candidatasse e ele só recebesse um voto, pode ter certeza que esse voto
seria o meu. (e com um volume de Vidas secas na mão) Neste livro, seu
moço, há uma página do que de melhor já se fez na nossa literatura: é
aquela passagem sobre a morte de “Baleia”. Você sabe como eu gosto de
cachorros. [...] Pois bem, não posso ler aquela página de Graciliano Ramos
sem que as lágrimas me venham para os olhos. É formidável! (MARIANO
apud SILVEIRA in Diretrizes, 1943,pp.13,22)
Alvaro Lins escreveu duas críticas sobre Graciliano Ramos para o jornal
Correio da Manhã: a primeira sobre Infância e citando o restante da obra de
Graciliano, com o título “A Infância de um romancista”, publicada em 07 de julho de
1945; a segunda foi uma análise bem extensa sobre a obra do autor, com o título
“Visão geral de um ficcionista”, publicada em 04 de julho de 1947, mas mesmo
tratando de toda obra de Graciliano, ele não mencionou Histórias de Alexandre, que
fora publicado com diferença de meses para Infância.
Entre a crítica literária, ao longo do presente trabalho, já citamos vários
nomes e citaremos ainda outros, que se debruçaram em estudar sobre a obra de
Graciliano Ramos. São nomes como Álvaro Lins, Rachel de Queiroz, Augusto
Frederico Schmidt, Fernando Alves Cristóvão, Carlos Alberto dos Santos Abel,
Alfredo Bosi, Wilson Martins, Godofredo de Oliveira Neto, José Lins do Rego, Letícia
Malard, Rui Mourão e muitos outros, alguns da época em que Graciliano ainda
estava vivo e outros que passaram a estudá-lo só depois de sua morte. Porém, o
nome de maior relevância nos estudos de Graciliano Ramos, possivelmente o mais
respeitado entre os críticos literários nacionais é Antonio Candido, autor do
importante livro de ensaios Ficção e Confissão, de 1956, que abraça quase que na
totalidade a obra de Graciliano, com cinco artigos, que foram publicados no jornal
Diário de São Paulo onde era crítico titular. Eu apontei como quase totalidade, pois
os estudos foram somente sobre os livros Caetés, S. Bernardo, Vidas secas,
Angústia, Infância e Memórias do cárcere. Sobre a publicação de contos e a voltada
ao público infantojuvenil pouco ou nada falou. A respeito dos contos, Candido
declara que entre as publicações de Vidas secas e Infância, Graciliano escreveu
alguns contos e Vidas secas. Os primeiros são, no geral, medíocres.
Constrangidos e dúbios, mais parecem fragmentos. Falta-lhes certa
gratuidade artística e a capacidade de afundar-se sinceramente numa
situação limitada, esquecendo possíveis desenvolvimentos, sem o que
dificilmente se manipulia um bom conto. (CANDIDO, 2012:p.61)
Na crítica acima, Candido se referia a Insônia que fora o único livro, fora os já
citados anteriormente, sobre o qual ele se dedicou a escrever nos ensaios
64
publicados na obra, que ele citou textualmente. Mesmo assim a única análise mais
profunda aconteceu nessas poucas linhas e para incluí-lo entre as obras escritas em
terceira pessoa. Em relação a Dois dedos, Histórias de Alexandre e Terra dos
meninos pelados nenhuma linha foi destinada. Mas como ocorreu no caso, já citado
no presente trabalho, de José Geraldo Vieira, que escreveu no prefácio de
Alexandre e outros heróis que desconhecia que o livro Histórias de Alexandre tinha
já sido publicado na década de 40, fica sempre a dúvida se Candido também tomou
conhecimento ou não da obra.
Em relação aos livros analisados, Candido foi praticamente só elogios. Ele,
que é conhecido por escrever suas críticas com uma linguagem extremamente clara
e elegante, com pleno domínio da técnica do ensaio, mostra nessa obra que os
louvores que Graciliano recebe são totalmente merecidos. A crítica é também
honesta, mostrando que Candido analisa friamente, sem qualquer envolvimento,
mesmo sendo Graciliano um de seus escritores preferidos. Por exemplo, em relação
a Memórias do cárcere, escreveu:
O livro é desigual. [...] O diálogo, antes tão perfeito entre os personagens
fictícios, é insatisfatório, por vezes constrangido, entre os personagens
reais, e às vezes parece faltar discernimento para manipular episódios e
cenas. [...] sua estética de poupança foi talvez um pouco longe, sacrificando
não raro (por exemplo) a fluência e o equilíbrio [...] (CANDIDO, 2012: p.122)
Essa crítica honesta que Antonio Candido tão bem fazia o tornava
possivelmente o mais respeitado por Graciliano e outros escritores. Tal respeito fez
com que Graciliano lhe enviasse uma carta, que depois foi publicada dentro de
Ficção e confissão25, mostrando que não só concordava com algumas críticas feitas
por Candido e, para manter seu jeito “graciliânico”, discordando de alguns elogios,
ele providenciou algumas modificações em reedições de seus livros baseadas na
crítica de Candido:
Onde nossas opiniões se coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre
achei absurdos os elogios concedidos a este alguns, verdadeiros
disparates. [...]
Por que é que Angústia saiu ruim? Diversas pessoas procuraram razões,
que não me satisfizeram. Olivio Montenegro usou frases ingênuas e
pedantes, misturando ética e estética. João Gaspar Simões afirmou que o
americano é incapaz de introspecção – e com esta premissa arrasou-me.
[...] Alvaro Lins veio com aquele negócio de tempo metafísico. Se eu
constituísse uma exceção à regra de João Gaspar Simões e contentasse
25
Essa carta foi também publicada na edição comemorativa dos 75 anos de Angústia em 2011.
65
Olívio Montenegro e Alvaro Lins, Angústia não deixaria de ser um mau livro,
apesar de haver nele páginas legíveis.
Por que é mau? Devemos afastar a ideia de o terem prejudicado as
reminiscências pessoais, que não prejudicaram Infância, como V. afirma.
Pego-me a esta razão, velha e clara. Angústia é um livro mal escrito. Ao
reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita
repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas,
desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem
examinadas no seu terceiro artigo. É preciso dizermos isto e até
exagerarmos as falhas: de outro modo o nosso trabalho seria inútil.[...]
(RAMOS apud CANDIDO, 2012: pp.10-11)
Candido ainda reproduziu dedicatórias de Graciliano que lhe foram enviadas
em alguns de seus livros. Em Caetés: “Antonio Candido: a culpa não é apenas
minha: é também sua. Se não existisse aquele rodapé, talvez não se reeditasse
isto.” Em Angústia: “Antonio Candido: Além das partes rudes, já corrompidas, vão
aqui alguns erros e pastéis, que as tipografias estão uma lástima.” E em Insônia: “A
Antonio Candido, esta coleção de encrencas, algumas bem chinfrins.” (idem, p.12)
Como já dissemos, Histórias de Alexandre não teve muita divulgação nem
antes nem depois de seu lançamento. Depois de duas pequenas notas no jornal
carioca A Manhã e uma no também carioca A Noite informando seu lançamento26,
com diferença de 10 meses entre elas, e uma entrevista para o jornal A Noite, na
qual Graciliano cita que um livro de sua autoria ligado ao folclore estava para sair,
pouco se leu sobre a obra nos periódicos de grande circulação. Por exemplo, no
período entre os anos de 1944 e 1949, no Jornal O Globo não houve uma só citação
ao livro e o mesmo se deu no Jornal do Brasil. O autor recebia diversas citações,
tanto em relação a seus livros quanto à participação em eventos diversos, mas
nenhuma envolvendo a obra das histórias do major Alexandre.
Mesmo em
Diretrizes, periódico que iniciou em forma de revista semanal para depois tornar-se
jornal diário, e no qual Graciliano fazia parte da equipe de colaboradores, o livro não
recebeu sequer notícia de seu lançamento. Pesquisando nos periódicos citados
acima e também no Diário de Notícias, O Jornal (RJ), Correio da Manhã e Correio
Paulistano, Histórias de Alexandre só foi citado, entre 1944 e 1949, em propagandas
de livrarias entre os livros vendidos em promoção. E uma vez ele apareceu citado,
no meio de uma pequena biografia do autor, dentre as obras de Graciliano Ramos,
quando o Diário de Notícias de 25 de maio de 1947, na seção “O Conto da
Semana”, publicou o conto “Minsk”, que faz parte do livro de contos Insônia, lançado
26
Ver a “Introdução” da dissertação, página 9.
66
naquele mesmo ano. Outro ponto que indica essa falta de atenção da mídia
impressa ao livro estudado por nós é que o Correio da Manhã, em sua edição de 28
de julho de 1944, abriu uma coluna inteira para comentar sobre o livro de Leda Maria
de Albuquerque “Sobre o Quilombo dos Palmares e a verdade”, lançado pela Editora
Leitura, que também publicou Histórias de Alexandre, e que fazia parte da coleção
“Menino Homem”, a mesma da qual fazia parte o livro de Graciliano Ramos, que
nem chegou a ser citado sequer como parte da coleção.
Os periódicos Diretrizes, Diário de Notícias e O Jornal, todos do Rio de
Janeiro, são casos especiais que merecem citação em relação a Histórias de
Alexandre e à divulgação da obra, pois foram órgãos que publicaram capítulos de
livros e contos de Graciliano Ramos, e inclusive algumas das histórias do major
Alexandre e, no entanto, não publicaram nada sobre o livro, nem pouco antes e nem
depois de seu lançamento. Diretrizes tinha Graciliano como um de seus mais
importantes colaboradores, escrevendo em alguns números. Também foi um dos
responsáveis pela publicação, em várias semanas seguidas, quando em cada
número era publicada parte de um capítulo, do livro escrito coletivamente por
Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aníbal Machado, José Lins do Rego e Jorge
Amado27, tornando-se famoso por publicar “a primeira novela coletiva da literatura
moderna do Brasil”. A novela Brandão entre o mar e o amor, que fora anunciada em
31 de julho de 1941, começou a ser publicada em 28 de agosto de 1941, e a cada
número apresentava um cupom, onde o leitor era convidado a responder à pergunta
de quem seria o autor daquele capítulo. O último capítulo foi publicado em 26 de
fevereiro de 1942. A publicação só foi interrompida duas vezes: no dia 06 de
novembro de 1941, por ocasião de uma edição que dedicou quase todas as páginas
a uma extensa reportagem, na qual se destacou a famosa entrevista ao jornalista
Francisco de Assis Barbosa, do Coronel Dilermando de Assis, que assassinara o
escritor Euclides da Cunha; e no dia 18 de dezembro de 1941, edição que também
27
Em 31 de julho de 1941, Diretrizes anuncia entre os autores da novela, além dos 4 primeiros nomes
citados, o nome de Jorge Amado. Porém, nos números posteriores onde as partes da novela foram
publicadas, o nome do escritor baiano não mais apareceu. Porém, depois de toda a novela ser
publicada, há a informação de que Jorge Amado escrevera o primeiro capítulo.
Disponível
em
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=2823,
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=2891,
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=3779
e
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=163880&PagFis=4375.
Acessados
em
01/12/2013.
67
teve a maioria de suas páginas dedicadas a uma reportagem especial, dessa vez
sobre a II Guerra Mundial. No entanto, Diretrizes nunca publicou nota alguma sobre
Histórias de Alexandre, como se Graciliano não tivesse escrito o livro.
O Jornal, que também não divulgou em suas páginas o livro Histórias de
Alexandre, foi responsável pela publicação de três histórias do livro: em 01 de
janeiro de 1939, publicou “História de um bode”; em 10 de setembro de 1939
publicou “O estribo de prata”; e em 19 de novembro de 1939, publicou “O marquesão
da jaqueira”. E o Diário de Notícias, que publicara em 30 de outubro de 1938
“Ciúmes”, conto do livro Insônia e “Os astrônomos”, capítulo do livro Infância em 27
de novembro de 1938, foi responsável pela publicação de quatro histórias do livro
Histórias de Alexandre: “Um papagaio falador”, em 25 de dezembro de 1938,
“Primeira aventura de Alexandre”, em 22 de janeiro de 1939, “Moqueca”, em 03 de
setembro de 1939 e “História de uma guariba”, em 12 de novembro de 1939. Em
relação ao conto “Um papagaio falador”, acabamos por descobrir que ele fora
publicado também no Correio da Manhã em 27 de outubro de 195128, na coluna
Antologia de Contos, com seleção de Marina Amaral Brandão. Da mesma forma, o
Correio da Manhã, na mesma coluna em que foi divulgado o conto do papagaio
falador, publicou em 8 de novembro de 1952 o conto “História de uma guariba” 29.
Essas duas publicações no Correio da Manhã não aparecem citadas em nenhum
estudo sobre o autor, inclusive no Catálogo de Manuscritos do Arquivo Graciliano
Ramos, que fez um trabalho incansável de pesquisa, citando todas as publicações
de cada conto ou capítulo de seus livros. No entanto, o mesmo periódico que
publicou esses dois últimos contos, por ocasião da reportagem sobre a morte do
autor, ocorrida 4 meses e meio depois, listou a obra do autor da seguinte forma:
Caetés(1933), o romance de estréia [...]; São Bernardo (1934), um dos
maiores acontecimentos literários desses últimos vinte anos; Angústia
(1936), a obra-prima. Depois, Vidas secas (1938) foi considerado como o
mais perfeito dos romances da vida do sertão. Outros preferem Infância
(1945), estranho livro de reminiscências. Os contos do volume Insônia
30
(1947) completam a obra, até agora publicada.
28
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=12842.
Acessado em 02 de fevereiro de 2014.
29
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=21674,
Acessado em 02 de fevereiro de 2014.
30
Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_06&PagFis=24926.
Acessado em 02 de fevereiro de 2014.
68
Assim, percebemos que também o Correio da Manhã não citou Histórias de
Alexandre (1944) e nem 7 Histórias verdadeiras (1951), em que os contos foram
publicados, assim como Terra dos meninos pelados (1939) e Dois dedos (1945).
Retornando aos comentários sobre o Diário de Notícias, o livro Histórias de
Alexandre só foi mencionado como parte da obra de Graciliano, uma vez, em 25 de
maio de 1947, num texto de apresentação ao conto “Minsk”, que fazia parte da
coletânea de contos Insônia, publicada naquele ano. E naquele mesmo ano, o jornal
só mencionou a obra mais uma vez, mas não para uma crítica, positiva ou negativa,
e sim num anúncio classificado da Empresa Editora Ltda., entre livros que
encontravam-se em promoção. Importante mencionar que a citação ao livro no texto
de apresentação do conto “Minsk” foi a primeira vez que Histórias de Alexandre
apareceu como parte de uma lista de obras de Graciliano.
No discurso proferido por Francisco de Assis Barbosa31, por ocasião do jantar
em homenagem aos 50 anos de Graciliano Ramos, o jornalista menciona a
publicação de Terra dos meninos pelados e Histórias de Alexandre:
Para Graciliano Ramos, o tema da meninice é permanente, uma espécie de
obsessão. É como se explica, de resto, a incursão do romancista nos
mundos da literatura infantil, com a publicação de A terra dos meninos
pelados e das Histórias de Alexandre, estas colhidas na tradição oral do
Nordeste e que formam uma série de narrativas de um casal de mentirosos.
(BARBOSA in LINS, SCHMIDT et al., 1943: pp.38-39)
Como a entrevista que motivou esse texto se deu em 1942, ou seja, dois anos
antes da publicação das Histórias de Alexandre, deduzimos que durante o evento
com o jornalista, Graciliano informou sobre seu desejo de publicar as histórias em
livro. O fato de Francisco de Assis Barbosa usar no texto o nome exato do livro, que
só sairia dois anos depois, torna impensável que ele tenha mencionado as histórias
baseado nas sete histórias que já tinham sido publicadas no Diário de Notícias e em
O Jornal, pois na época das publicações das histórias nos periódicos não havia
menção de que elas viriam a fazer parte de um livro.
No volume Insônia, e em todas as edições dos outros livros do autor,
lançadas entre 1945 e 1947, fato que se prolongou até a edição de 2006 de
Alexandre e outros heróis, quando eram citadas as obras de Graciliano e eram
31
Publicado em Achados ao vento, de BARBOSA, na revista Diretrizes e no livro Homenagem a
Graciliano Ramos, com os textos de discursos que foram entregues à comissão organizadora do
evento em homenagem ao escritor alagoano.
69
enumeradas as edições e os anos de cada uma, Histórias de Alexandre não era
citada. Embora não tenhamos declarações do autor ou de pessoas ligadas às
editoras que publicaram livros de Graciliano desde aquela época, para saber se
essas listas eram feitas sem que o autor as supervisionasse, por depoimentos a que
tivemos acesso em dissertações sobre e em biografias de Graciliano, deduzimos
que o autor não participava dessa parte do processo de publicação de seus livros,
ou que ao menos não dava muita atenção ao referido processo, se preocupando
apenas com o texto da obra. Segundo seu filho Ricardo Ramos, o pai tinha sempre
um extremo cuidado e apreço na seleção daquilo que gostava de ver publicado e
deu mostras diversas vezes de que ele não considerava Histórias de Alexandre uma
obra de má qualidade. Qualquer discurso do autor em sentido contrário não pode ser
tratado como verdade absoluta, pois era costume do autor depreciar toda sua obra,
inclusive os livros mais aclamados pela crítica.
Entre as tentativas de autodepreciação por parte de Graciliano, é famosa a
passagem em que ele, quando dá um depoimento ao jornalista Homero Senna na
que tem sido considerada como sua última grande entrevista, perguntado sobre a
perenidade de sua obra, responde no melhor modo “graciliânico”: “- Não vale nada;
a rigor até já desapareceu.”32 Ou quando, na entrevista ao jornalista Francisco de
Assis Barbosa, diz que não suportava Caetés, que considerava São Bernardo e
Angústia apenas toleráveis, que não considerava Vidas secas um romance, e que
de seus contos, apenas um ou dois se salvavam. (BARBOSA, 1958: 56-57).
Portanto, era esperado que o mesmo acontecesse em relação às Histórias de
Alexandre. Em seu livro Graciliano - Retrato fragmentado, Ricardo Ramos cita que
Graciliano repetia insistentemente, sempre que encontrava o amigo Aurélio Buarque
de Holanda, que considerava o livro das histórias de Alexandre “uma obra menor,
um simples aproveitamento de temas folclóricos, insignificante”. De tanto que
Graciliano repetiu essa afirmação, quase como se estivesse forçando seu amigo a
concordar com ele, Aurélio, de forma inadvertida, acabou por ceder à pressão de
Mestre Graça e concordou com ele. Foi o suficiente para Graciliano sentir-se
ofendido e chateado com Aurélio. Assim, sempre que se referia a Histórias de
32
“A Última Entrevista de Graciliano Ramos”, publicada no jornal goiano Opção, edição 1944, semana
de 7 a 13 de outubro de 2012, no caderno “Opção Cultural” - “Textos Clássicos”. Disponível em
http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos. Acessado
em 15 de dezembro de 2013.
70
Alexandre, Graciliano simplesmente repetia: “Aurélio não gosta”. (RAMOS, 2011b:
pp.143 e 145).
Por ter ficado sentido com o amigo, mostrava que na verdade ele
gostava do livro. E a própria orientação ao filho quanto à obra juvenil e avulsa, dada
pouco antes de sua morte, de que todo seu material que contasse com sua
assinatura poderia ser publicado, indica que o autor atestava qualidade às narrativas
de Alexandre. (RAMOS, 2011b: p.196) Isto porque, verificando o catálogo de
manuscritos de Graciliano, organizado por Yêda Dias Lima e Zenir Campos Reis,
temos a informação de que, com exceção de “O missionário”, do qual não se tem um
manuscrito guardado, ele assinou e anotou os manuscritos de todas as histórias,
com diversas marcações de que foram efetuadas diversas modificações desde a
primeira versão manuscrita até a publicação em jornal e depois em livro, mostrando
o cuidado que tinha com suas histórias. Um autor que não gostasse de seu livro, não
teria todo esse cuidado com os originais. E isso desqualifica a possibilidade de que a
obra não fosse citada entre suas obras porque o próprio autor a desmerecia. (LIMA e
REIS, 1992: pp.35-41)
A publicação em 1951 de 7 histórias verdadeiras, com a participação de
Graciliano em todo o processo, utilizando um formato reduzido do livro com os
causos do major de olho torto, com menos histórias, e procurando se adequar ao
mercado jovem, incluindo o convite a uma reunião do autor com os jovens leitores e
uma carta publicada no jornal Imprensa Popular acabou demonstrando um cuidado
do autor com as histórias do casal Alexandre e Cesária. A Editorial Vitória,
responsável pela publicação, se não conseguiu uma divulgação tão grande quanto a
dos livros Vidas secas, S.Bernardo e Infância, ao menos foi bem maior que a que
fora feita pela Editora Leitura para Histórias de Alexandre em 1944 e nos anos
posteriores. Para começar, o jornal Imprensa Popular, durante várias semanas
seguidas publicou anúncios sobre o livro, que seria um ótimo presente para as
crianças. O mesmo anúncio aparecia em outros jornais, como Diário de Notícias e
Correio da Manhã. Em 2013, durante as mesas do Festival Literário de Paraty, que
teve Graciliano Ramos como tema, o escritor Fernando Morais contou que esse livro
foi o primeiro livro que ele leu, quando tinha sete ou oito anos de idade.
Na dissertação de Edmar Monteiro Filho (2013 p.141), que teve contato com o
acervo pessoal de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano, há uma informação que
mostra o sentimento que Graciliano nutria por Histórias de Alexandre. Nesse acervo
71
havia três exemplares da primeira edição do livro, e cada um com a respectiva
dedicatória a um membro da família. No exemplar reservado à Dona Heloisa,
segunda esposa do escritor, Graciliano autografou-o com os seguintes dizeres: "À
comadre Sinha Heloísa, esta lembrancinha de Cezária. Ribeira do Navio, 19 de
Sant'Ana de 45." O segundo exemplar foi dedicado a seu filho Ricardo Ramos, com
as seguintes palavras: "Ao amigo e colega Major Ricardo, lembrança de Alexandre
19 de São-João de 45." O último exemplar foi autografado para uma das filhas de
Graciliano, Luiza: "A Sinha Luizinha, lembrança de Dasdores." Percebemos, nesses
exemplares, algo bem maior do que dedicatórias em uma brincadeira familiar. Ao
escolher personagens do livro para que “eles” autografassem livros como presentes
para sua esposa e dois filhos, Graciliano dava uma prova cabal do carinho que ele
tinha pelos personagens de seu livro. Se Graciliano não gostasse do livro, ele não
teria usado personagem algum da obra nessa brincadeira com seus entes queridos.
A edição comemorativa dos 75 anos de Angústia recebeu uma lista com 158
publicações acadêmicas sobre a obra de Graciliano33 e só temos três que tratam de
Histórias de Alexandre, sendo que um desses estudos é um capítulo de um livro e
não um livro, como são as outras 157 obras presentes na lista. É importante
ressaltar que nessa produção acadêmica, que vai até o ano de 2005, o romance de
maior interesse é Vidas secas. Infância é o segundo romance mais procurado por
críticos e acadêmicos, mostrando que há um interesse bem grande não só pelo
aspecto literário da obra, como também pelo período da infância do autor visto que
boa parte desses estudos aborda esse tema ao tratar sobre a obra. S.Bernardo, que
é considerado por muitos críticos como a principal obra de Graciliano, também é
bastante estudado, mas mesmo assim não atingiu o nível de Infância. Também
muito estudados são os livros Angústia e Memórias do cárcere. Dentre os romances
de Graciliano, Caetés é o que tem recebido menos interesse da academia, com
apenas seis estudos individuais. Há, porém, um número bem maior de estudos que
tratam de toda a produção de Graciliano e da vida do autor do que os próprios que
abordam particularmente cada obra. Nessa produção sobre sua obra são
privilegiados os romances, com pouco ou nenhum destaque aos livros de contos e
os voltados ao público infantojuvenil. Os estudos sobre a vida do autor em geral
33
Essa lista é a mesma que acompanhava a edição de 2005 de S.Bernardo e de 2006 de Alexandre
e outros heróis, ambas da Record assim como todas as outras do autor na editora carioca nos últimos
anos.
72
tratam também de sua obra, mostrando que a biografia de Graciliano motiva muito
interesse do público e é bastante respeitada, por seu exemplo de luta e de ética. O
premiado Terra dos meninos pelados e o outro livro voltado ao público infantojuvenil,
Pequena história da República não tiveram, nessa lista, estudos acadêmicos a ele
consagrados, sendo citados em poucas obras acadêmicas apenas como parte dos
livros de Graciliano. Já a produção de contos não ligados ao público infantojuvenil –
Insônia, Dois dedos e Histórias incompletas - teve igual atenção que Histórias de
Alexandre com apenas três estudos.
Há que se registrar que essa lista de produções está desatualizada, pois o
último ano das produções é de 2005, sendo que ela saiu na edição comemorativa de
2011 de Angústia publicada pela Record e continua saindo nas obras reeditadas do
autor até a presente data sem atualização de seu conteúdo. Nessa lista há também
casos de estudiosos da obra de Graciliano que não desprezaram a obra
infantojuvenil, como Rui Mourão e seu livro Estruturas, que dedicou um capítulo a
Alexandre e outros heróis na reedição de 2003, e Fernando Alves Cristóvão. Esses
estudos reconhecem a importância literária dessa produção e ressaltam o caráter
ligado à cultura popular do nordeste de Histórias de Alexandre. Percebemos também
que esse aumento dos estudos sobre a obra infantojuvenil de Graciliano se deu
depois do lançamento de Alexandre e outros heróis. Esse fato mostra que mesmo
com as críticas que Fernando Alves Cristóvão fizera sobre a publicação em um só
volume das obras que compõem o livro, ela mostrou-se muito importante para a
divulgação da produção voltada ao público infantil de Graciliano. Cristóvão mostrouse favorável que as obras que formam Alexandre e outros heróis fossem publicadas
individualmente, já que considerara que a publicação em forma de coletânea
descaracterizara as três obras. O que essa lista de produções acadêmicas não
detecta é uma tendência na academia de um interesse crescente pela produção
esquecida de outrora do Mestre Graça - aquela voltada ao público infantojuvenil.
Possivelmente essa tendência decorre do grande sucesso junto ao público leitor de
Alexandre e outros heróis, terceiro maior título de Graciliano em índice de
vendagem. Assim, notamos a produção de alguns estudos sobre Histórias de
Alexandre de dez anos para cá, principalmente nos últimos cinco anos. Por exemplo,
em 2004, ou seja, antes do término do período coberto pela listagem das produções,
que aparece nos livros de Graciliano na Record a partir de 2005, houve uma
73
dissertação tratando especificamente de Histórias de Alexandre e seu caráter
derrisório, de autoria de Sandra Marques Parracho Sant‟Anna, da área de
concentração em Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
sob o título Despropósitos na caatinga: olhar e derrisão em “Histórias de Alexandre”,
de Graciliano Ramos. Em 2006, na Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio
Antonio Silva produziu uma tese de Doutorado em Letras intitulada Papel, penas e
tinta – a memória da escrita em Graciliano Ramos, na qual foram privilegiados os
romances S.Bernardo, Angústia e Caetés, mas foi dedicado um capítulo chamado “O
olho torto de Graciliano”, que teve como apoio Histórias de Alexandre e Infância por
apresentarem questões envolvendo a imagem do olhar, que é disseminada pela
obra do autor. Já em 2008, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da
Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Wagner da Matta
Pereira defendeu dissertação com o título Um olho torto na literatura de Graciliano
Ramos, privilegiando as narrativas de Histórias de Alexandre e Infância, pois ambos
falam de um mesmo tema: o olho ferido. E recentemente, fomos informados sobre
dois outros trabalhos envolvendo obras infantojuvenis de Graciliano Ramos. Em
depoimento dado ao jornalista e doutorando em Letras da UFRJ Marcelo Bortoloti,
quando este fazia uma reportagem para a Revista Época sobre a polêmica
envolvendo os originais de Memórias do cárcere, o escritor de livros infantojuvenis
Ricardo Ramos Filho – neto de Graciliano e filho do escritor Ricardo Ramos informou que em outubro de 2013 foi defendida dissertação no Instituto de Estudos
da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, de autoria de
Edmar Monteiro Filho, sob o título O major esquecido: “Histórias de Alexandre”, de
Graciliano Ramos. Essa dissertação trata sobre o esquecimento, por parte da crítica
e imprensa, da obra citada em seu título. Posteriormente, entramos em contato com
Ricardo Ramos Filho e confirmamos a informação de que ele também defendera na
Universidade de São Paulo (USP) uma dissertação em 2013 intitulada Arte literária
em dois ramos graciliânicos: adulto e infantil, tendo como tema Terra dos meninos
pelados e São Bernardo.
Entre as biografias, Denis de Moraes citou mais sobre Histórias de Alexandre
que os próprios filhos, Clara Ramos e Ricardo Ramos, que também escreveram
sobre a vida do pai. Algumas citações do livro de Ricardo Ramos sobre as histórias
do major nós apresentamos no presente trabalho, como a que trata da insistência de
74
Graciliano para que o amigo Aurélio Buarque de Holanda confirmasse que as
histórias eram de um nível bem mais baixo do que o dos romances de Graciliano.
Denis de Moraes citou o livro, usando um espaço de pouco menos de uma página,
junto com menções a Dois dedos, Infância, Vidas secas, destacando que o livro
girava em torno de um casal, sendo que o marido é um “contador de lorotas e invoca
a cumplicidade de Cesária para „autenticá-las‟” (MORAES, 2012: p.214) Outro ponto
que Moraes destacou foi “a conexão de Histórias de Alexandre com a fabulação
regionalista presente em Vidas secas” e que sua originalidade “reside na
recuperação de histórias transmitidas, de geração em geração, pela memória oral do
folclore nordestino”. (idem)
Entre os críticos, os primeiros que se dedicaram a estudar toda a obra voltada
ao público infantojuvenil de Graciliano foram Osman Lins, José Geraldo Vieira e Rui
Mourão, que não coincidentemente escreveram prefácios ao livro Alexandre e outros
heróis. Osman Lins ainda tem um ensaio, cujo título é “Graciliano, Alexandre e
outros”, que foi publicado na obra Vitral ao sol, organizada pela Professora
Ermelinda Ferreira, e que aparece na “Bibliografia sobre Graciliano Ramos”, que faz
parte das edições publicadas pela Record de livros do autor a partir de 2005. Não
tivemos condições de ler o referido ensaio, pois a obra encontra-se esgotada nas
livrarias, na editora e no Programa de Pós-Graduação da UFPE, que coordenou o
trabalho de seleção de textos. Como Osman Lins escreveu um prefácio para as
edições a partir de 2002 de Alexandre e outros heróis, fica a dúvida se o texto é o
mesmo nas duas obras ou se um faz parte do outro. Esse é o caso do posfácio de
Rui Mourão para a mesma obra, que é o mesmo que foi publicado na edição de
2003, revista e ampliada de seu livro publicado originalmente em 1969 Estruturas.
Porém, Rui Mourão, em função de Histórias de Alexandre, não se limitou a somente
incluir o texto que depois foi usado como posfácio, mas ainda ampliou as discussões
em um dos capítulos do livro – “As estruturas e o contexto” – e incluiu outro capítulo
– “As estruturas e a personalidade”, que dedica parte de seu conteúdo a Alexandre e
outros heróis. Outro estudioso que foi um dos primeiros a estudar a obra foi
Fernando Alves Cristóvão, que, na sua obra Graciliano Ramos: estrutura e valores
de um modo de narrar, dedicou algumas páginas ao estudo de Histórias de
Alexandre, mostrando que, inclusive, ele teve contato com os manuscritos das
histórias. Da crítica contemporânea, quem talvez tenha sido o primeiro a dar início a
75
um movimento de maior procura por Histórias de Alexandre foi Erwin Torralbo
Giménez, que escreveu em 2004 um artigo na Revista da USP sob o título “O olho
torto de Alexandre”.
Fora da academia as histórias do major do olho torto também têm recebido
maior interesse. No final de 2013 a TV Globo produziu um programa especial de fim
de ano sob o título “Alexandre e outros heróis”, na qual foi feita uma adaptação de
três histórias de Alexandre – “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de
Alexandre” e “A doença de Alexandre”. A emissora anunciara nos jornais que
inicialmente seria uma série com todas as histórias, e perto da exibição, os jornais
corrigiram a matéria, comunicando que seria um só episódio, porém, com uma
informação errada, de que o programa traria duas histórias e não três – “O olho torto
de Alexandre” e “A doença de Alexandre”, se esquecendo que havia cenas
relacionadas à história “A primeira aventura de Alexandre”. Esse trabalho foi dirigido
por Luiz Fernando Carvalho, que produzira anos antes outra adaptação de um livro
para a TV, Dom Casmurro, de Machado de Assis. Já a adaptação para a TV das
Histórias de Alexandre, respeitou quase que na totalidade o texto e ambiente as
histórias escolhidas, pecando somente ao mostrar uma dose de erotismo, entre
Alexandre e Cesária e também entre Gaudêncio e Das Dores, que não existe no
livro. A mesma emissora já havia produzido em 2003 um musical adaptando Terra
dos meninos pelados. Esta última obra vem recebendo algumas adaptações para o
teatro. Em Pernambuco, ela tem sido apresentada há dez anos pela companhia
teatral Arte em Foco, dirigida por Samuel Santos, e pela longevidade, podemos
deduzir que a aceitação do público é muito boa. Também apresentada em igual
período é a produção do grupo Furunfunfum, de Marcelo Zurawski e Paula Zurawski,
de São Paulo, que já a apresentou em teatros do Brasil inteiro e também no
exterior,q tendo recebido indicações e prêmios nesse período. E ainda temos a
Companhia Manoel Kobachuk, de Curitiba, que apresenta uma adaptação para
teatro de bonecos, com muitos elogios da crítica. Esse interesse crescente também
pode ser visto pela própria decisão da Record de ter feito uma edição em separado
das Histórias de Alexandre em 2007, e que Alexandre e outros heróis em 2006
estava na sua 49ª. Edição pela Record.
Assim, mesmo com o já citado preconceito, enraizado desde seu nascimento,
a literatura popular foi crescendo. Da mesma forma, a obra infantojuvenil de
76
Graciliano Ramos resistiu aos efeitos desse mesmo preconceito, e tem reagido,
mesmo após mais de 60 anos de seu falecimento, mostrando força para crescer em
interesse entre leitores e estudiosos. Este trabalho é mais uma das várias evidências
desse fôlego recente que o livro Histórias de Alexandre ganhou.
77
Capítulo 3
Histórias de Alexandre:
a relação dialógica entre as histórias e sua aproximação com o popular
“As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do
Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas.” (RAMOS, 2007: p. 5). A
citação acima, já mencionada no presente trabalho, é a nota de advertência que está
presente no princípio do livro Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, que
marca, assim, a origem das histórias contadas por Alexandre, um homem de poucas
posses, mas que tem o respeito de sua platéia, formada de outras pessoas simples
que sempre vão a sua casa para ouvir seus relatos extraordinários.
Nas Histórias de Alexandre temos uma obra que engloba vários contos que
não perdem o sentido de unidade. Segundo Cristóvão, esse esquemaenquadramento, tão do agrado da novelística pós-medieval, é típico das coleções de
histórias que se organizam inspirando-se no Decameron de Bocaccio, modelo
clássico do gênero. Consiste, sobretudo, no estabelecimento da situação e na forma
de começar e terminar as histórias, que lhes permite grande liberdade embora
salvaguardando a unidade. (WEINRICH apud CRISTÓVÃO, 1975: p. 148)34
Esse sentido de unidade entre as histórias acabou levando à interpretação
por parte de Rui Mourão de que a obra não seria um livro de contos, mas sim com
aspectos de um romance. Vidas secas já havia recebido uma análise semelhante
por conta da forma como fora escrito, com capítulos independentes, mas que
ganharam unidade de romance. Nas palavras de Rubem Braga, o livro assumiu
características de um “romance desmontável”. (apud MONTEIRO FILHO, 2013:
34
WEINRICH, Harold. Estrutura y función de los tiempos. Madrid: Gredos, 1968, p. 264.
78
p.30). O próprio Graciliano deu munição para essa análise numa crônica de agosto
de 1939, publicada na obra póstuma Linhas tortas. Na crônica, diz Graciliano:
Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho
que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos
meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal.
Essas coisas foram vendidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José
Olímpio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras
narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim
nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas
criaturas que pus em circulação. (RAMOS, 1962: P.199)
A forma da publicação dos capítulos nos jornais como contos, tal qual ocorreu
com os causos de Histórias de Alexandre, também aproxima as duas obras. A
justificativa sobre essa unidade passa pelo fato de que, inicialmente, temos os
mesmos personagens participando de todas as histórias. Além disso, há uma
linearidade temporal entre os fatos, não somente entre as reuniões, mas também
entre os fatos narrados nas histórias. Desses aspectos que aproximam o livro a um
romance, trataremos mais adiante. Mas apesar desse sentido de unidade, e
respeitando as opiniões que classificam a obra como um romance, em nossa
análise, percebemos que a classificação mais adequada é de uma coletânea de
contos. De qualquer forma, não podemos classificar o livro do mesmo modo como os
livros de contos de Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Antonio ou Rubens
Figueiredo, pois os contos desses não possuem o sentido de unidade que as
narrativas de Alexandre possuem. Também temos que levar em conta que as
narrativas do major Alexandre trazem o aspecto folclórico, ligado à comicidade e à
cultura popular. A principal razão para classificá-los como contos é pelo caráter
independente. As narrativas podem dialogar entre elas, mas não há obrigatoriedade
de leitura de uma para o entendimento de outra, a não ser por pequenos detalhes,
como quando ocorre no início de “O olho torto de Alexandre” e seu Libório pensa em
fazer uma canção na viola sobre o caso ocorrido na história imediatamente anterior,
“Primeira aventura de Alexandre”, na qual Alexandre acabou montando numa onça
achando que fosse uma égua pampa. A relação dessas duas histórias, muito
embora seja dito no conto do “olho torto” que a história da onça já fora contada
outras três vezes no mínimo, parecem ter sido contadas no mesmo dia, pois seu
Libório fala como se a outra história, tal qual aparece no livro, tivesse acabado de
ser contada: “- Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, seu Alexandre,
opinou seu Libório. E eu fiquei pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na
79
viola”. Essa característica temporal, que aproxima essas duas narrativas, é bem
diferente das outras, que possuem uma marca forte de distanciamento no tempo da
enunciação, pois cada uma é contada em um dia diferente. Mas excluindo esses
detalhes que fazem uma história citar uma ou mais histórias, elas são histórias que,
mesmo que sejam lidas sozinhas, o leitor não terá dificuldade alguma de
entendimento.
Mas como comentamos no parágrafo anterior, não desprezaremos a
classificação como romance. Rui Mourão é quem mais defende essa tese. Vejamos
o que ele diz no capítulo dedicado às Histórias na terceira edição, revista e
ampliada, de seu livro Estruturas:
A declaração de que o conteúdo das falas do personagem seria resultado
de coleta regional, como vimos, não chega a convencer. Graciliano apenas
adotou a forma das manifestações populares como elemento estruturador
da sua composição. Alexandre, ao lado da companheira que lhe dá
assistência – às vezes tomando a iniciativa de começar certos relatos -, e o
cortejo completo dos vizinhos reunidos na varanda estão dentro é de um
romance. [...] a composição evolui monótona, mas no conjunto possui
princípio, meio e fim. Uma estória vai encaminhando outra, como se vê na
leitura de “Primeira aventura de Alexandre” seguida de “O olho torto de
Alexandre”, depois de “História de um bode”. Quando isso não ocorre, surge
o caso de “Um papagaio falador”, que terá continuidade capítulos adiante
em “Um missionário”. Há freqüentes referências de uma história para outra,
[...] e o leitor, de tempos em tempos, é apresentado a um advogado, dr.
Silva, que atua na cidade, e acaba passando para dentro da última invenção
de Alexandre, ao figurar em pesadelo. (RAMOS, 2007: p.147)
Para Alfredo Bosi (1987: p.8), o conto tem exercido, e sempre exerceu, “o
papel de lugar privilegiado em que se dizem situações exemplares vividas pelo
homem contemporâneo. O crítico afirma ainda que “se o romance é um trançado de
eventos, o conto tende a cumprir-se na visada intensa de uma situação, real ou
imaginária, para a qual convergem signos de pessoas e de ações e um discurso que
os amarra.”(idem, p.8) Ainda sobre o conto, Bosi analisa que:
A invenção do contista se faz pelo achamento (invenire  achar, inventar)
de uma situação que atraia, mediante um ou mais pontos de vista, espaço e
tempo, personagens e trama. Daí não ser tão aleatória ou inocente, como
às vezes se supõe, a escolha que o contista faz do seu universo. (idem, p.8)
Bosi ainda resume sobre o conto em nossa ficção contemporânea com as
seguintes palavras:
O conto cumpre a seu modo o destino da ficção contemporânea. Posto
entre as exigências da narração realista, os apelos da fantasia e as
seduções do jogo verbal, ele tem assumido formas de surpreendente
variedade. Ora é o quase-documento folclórico, ora o quase-drama do
80
cotidiano burguês, ora o quase-poema do imaginário às soltas, ora, enfim,
grafia brilhante e preciosa votada às festas da linguagem. (idem, p.7)
Sem ter a pretensão de procurar definições para justificar o uso da
classificação das histórias como conto, percebemos que as palavras de Bosi estão
em consonância com os contos de Histórias de Alexandre. O que nos parece que
também pode ser aceito é que o conjunto dos contos assume aspectos semelhantes
aos de um romance, ou de uma novela, pela relação dialógica entre eles, mas que,
porém, pelo caráter independente em relação aos demais, não deixam de ser contos
populares.
Para Propp, os contos populares “jogam com uma espécie de cumplicidade
cultural secundária e encantam na medida que neles identificamos e sobre eles
projetamos arquétipos profundos que a narrativa conta sob o pretexto duma intriga
factual e variável.” (PROPP, 1983: p.24)
No livro temos inicialmente a apresentação de Alexandre, “um homem cheio
de conversas, meio caçador e meio vaqueiro, alto, magro, já velho, [...] tinha um olho
torto e falava cuspindo a gente, espumando como um sapo-cururu”, e sua esposa
Cesária, que “fazia renda e adivinhava os pensamentos do marido”. (RAMOS, 2007:
p.9) Nessa
apresentação, tomamos conhecimento que o casal vive numa casa
pequena, que aos domingos e dias santos a casa se enchia de gente para ouvir as
histórias de Alexandre. A esposa também sabia de cor as histórias do marido e
estava sempre pronta para ajudá-lo no caso de lembrar de algum fato ou para
confirmar sua palavra no caso de haver uma pergunta inconveniente.
Esse casal admirável não brigava, não discutia. Alexandre estava sempre
de acordo com Cesária, Cesária estava sempre de acordo com Alexandre.
O que um dizia, o outro achava certo. E assim, tudo se combinando,
descobriram casos interessantes que se enfeitavam e pareciam tão
verdadeiros como a espingarda lazarina, o curral, o chiqueiro das cabras e a
casa onde eles moravam. (idem, p.10)
Na história inicial, “Primeira Aventura de Alexandre”, que no livro 7 histórias
verdadeiras (1951) recebeu o título de “Primeira história verdadeira”, além da própria
aventura, temos a apresentação dos outros personagens que estarão presentes,
como a audiência de todas as outras histórias contadas na pequena sala de
Alexandre. São eles: Seu Libório, um cantador de emboladas, o cego preto Firmino,
o curandeiro Mestre Gaudêncio, Das Dores, afilhada do casal e benzedeira de
quebranto. A aventura, da qual a história trata, se dá quando Alexandre é criança e
81
acaba montando uma onça ao confundi-la com a égua pampa que havia sumido do
curral da família. As outras histórias que se seguem são: “O olho torto de Alexandre”,
“História de um bode”, “Um papagaio falador”, “O estribo de prata”, “O marquesão de
jaqueira”, “A safra dos Tatus”, “História de uma bota”, “Um missionário”, “Uma canoa
furada”, “História de uma guariba”, “A espingarda de Alexandre”, “Moqueca” e “A
doença de Alexandre”. Essa coletânea de histórias que, exceto “Um missionário”
(1952), foram escritas na mesma época de Terra dos meninos pelados e Pequena
história da República35, e por se dirigirem ao mesmo público no que se refere à faixa
etária, estão no mesmo volume das edições de Alexandre e outros heróis a partir de
1962, embora pouco se assemelhem quanto à temática e estrutura dos relatos. Essa
coletânea vem fazendo muito sucesso, como já se destacou, tendo atingido o
terceiro posto entre os livros de Graciliano em volume de vendagem. Tal sucesso fez
com que a editora Record, responsável pela publicação dos livros do autor desde
1978, decidisse publicar em 2007 uma edição bem acabada, somente com as
histórias de Alexandre e Cesária, que recebeu o título de Histórias de Alexandre, o
mesmo da primeira edição, de 1944.
Na segunda história - “O olho torto de Alexandre” – o leitor é apresentado à
razão de Alexandre ter um olho torto, que enxerga melhor que o olho bom. Ela
complementa a história anterior, na qual Alexandre monta uma onça. Depois do
cego Firmino apresentar desconfiança sobre o aparecimento de um espinheiro na
história, que ele não teria ouvido nas outras vezes que a mesma história fora
contada, Alexandre explica que o espinheiro fora o responsável pelo defeito no olho,
pois o mesmo ficara preso justamente na planta, para ser recolocado posteriormente
no lugar pelo próprio Alexandre, fazendo com que sua vista milagrosamente
passasse a enxergar muito melhor do que antes.
Na narrativa de “História de um bode”, Alexandre revive a infância outra vez e
conta sobre um bode tão grande que parecia um cavalo, pronto para ser montado.
Em “O papagaio falador” temos um papagaio que não só fala como gente, mas
raciocina e conversa com as pessoas. Na história do “Estribo de prata”, Alexandre
conta sobre um estribo que o protegia contra mordeduras de cobras. Já no conto “O
Marquesão da jaqueira”, Alexandre conta sobre um móvel feito com o tronco de uma
jaqueira que tinha sido deixado em uma casa e depois de muitos anos da casa estar
35
Cf nota 1, página 12.
82
fechada, os pés do móvel se transformaram em quatro pés de jaqueira carregados
de jacas. O conto “A safra dos tatus” apresenta uma plantação com mais de trinta mil
pés de mandioca e que Alexandre descobre, ao começar a colheita que as raízes
estavam ocas e por dentro de cada uma delas tinha um ou mais de um tatu - “porque
nos pés de mandioca fornidos moravam às vezes casais” (RAMOS, 2007: p.62) –
totalizando “uns quarenta milheiros de tatus”. Alexandre perde a plantação, mas
lucra com a venda da carne dos tatus.
Em “História de uma bota”, Alexandre
assusta seus convidados contando que confundiu uma cobra com sua bota, ao
tentar calçá-la numa noite bem escura sem perceber a diferença, mas nada lhe
aconteceu, pois a cobra também se assustara e acabou fugindo após Alexandre
“descalçá-la”. “O missionário” é a próxima história do livro. Segundo o depoimento
de Ricardo Ramos, ela foi a única que não foi escrita na mesma época que as outras
e também é a única da qual não foi encontrado o manuscrito. Dona Heloisa, esposa
do escritor, em depoimento que aparece no livro de Fernando Alves Cristóvão, deixa
uma dúvida se a história não foi mesmo escrita na mesma época das outras, pois diz
que é possível que ela não tenha sido incluída com as outras histórias simplesmente
porque Graciliano talvez não gostasse dela, mas não explicita se ela se referia à
versão reduzida do livro em 7 Histórias verdadeiras ou se também à edição de 1944,
visto que a história foi publicada no Jornal de Alagoas em 8 de junho de 1952 (LIMA
e REIS, 1992: p.35), um ano depois da publicação de 7 histórias verdadeiras. A
história do missionário apresenta outro papagaio que, além de falar como o da
história do papagaio falador, tem o dom da oratória dos advogados e que era “capaz
de fazer defesa no júri, citando os poréns da lei”. (idem, p.73).
Na história “Uma canoa furada” Alexandre aparece como herói, salvando
todos em uma canoa, que depois de estar já no meio do rio São Francisco,
descobriu-se estar furada, prestes a afundar. Alexandre, demonstrando uma
inteligência inconteste para os presentes que ouviam sua história, visto que a
solução apresentada não foi objetada por ninguém, resolveu fazer outro furo na
canoa, no lado oposto ao primeiro. Assim, pela lógica de Alexandre, a água entrava
por um buraco e saía pelo outro, permitindo que a canoa seguisse seu rumo. No
conto “História de uma guariba, que além de fazer troça com Alexandre, usando
roupas humanas e rindo do major, no final ainda mostra que é outro animal que fala
nas narrativas de Alexandre, e lhe propõe um acordo, onde cada um iria para casa
83
cuidar de seus filhos. Na história “A espingarda de Alexandre”, mais uma vez
Alexandre prima pelos exageros, dessa vez em distâncias que todos perdem a
noção, para que o major consiga convencer a todos que conseguiu acertar um
veado, com um só tiro a uma distância que tanto podia ser de meia légua, duas ou
até cinqüenta, mas que depois decidiram fazer a média aritmética, transformando
em “mais ou menos dezessete léguas”. E tudo isso graças ao olho torto do major,
capaz de enxergar longe. Temos ainda a história “Moqueca”, nome da cachorra tão
inteligente que além de tão inteligente e hábil, fazia as compras do casal, sem se
deixar enganar pelos comerciantes na hora do troco. O livro fecha com “A doença de
Alexandre”, onde o personagem principal de tão doente, com uma febre altíssima,
que tem um delírio e começa a juntar personagens e histórias.
O narrador Alexandre tem um olho bom e um olho torto, enviesado. Enquanto
o olho bom o faz enxergar a realidade, o mundo que ele recusa a aceitar, seu olho
torto o leva para um mundo de que ele se acha merecedor, que toda gente pobre
como ele deveria viver. O olho torto o transforma em herói, derrota as injustiças e
dificuldades, incapaz de ser atacado por cobras e onças, mas o olho bom o transfere
para sua triste realidade. Ação semelhante faz o cego Firmino, logo ele um cego,
que enxerga as discrepâncias da narrativa de Alexandre e tenta fazer com que
Alexandre perceba a real situação. Alexandre e Cesária percebem a realidade, mas
se negam a aceitá-la e sempre encontram justificativas para qualquer questão
apontada pelo cego.
Pelo resumo que apresentamos das histórias, podemos perceber que elas
primam por contar fatos inverossímeis para uma platéia que, com exceção do cego
Firmino, acredita em suas palavras. Trata-se de um tipo bastante comum entre as
histórias populares, as chamadas histórias de mentirosos. No folclore brasileiro, elas
se aproximam das chamadas histórias de Pedro Malazarte, figura oriunda de
Portugal, mas que se popularizou também no interior do Brasil, ganhando uma
feição mais apropriada a nossa cultura. Porém, pelo caráter exagerado e mentiroso
das histórias, elas se aproximam bastante das famosas histórias do Barão de
Munchausen, que também tinha o costume de receber amigos e hóspedes para
contar suas histórias, cheias de aventuras de guerra, caçadas e viagens, todas com
perfeitos retoques de mentira, mas que conseguiam convencer a todos os ouvintes.
Não se sabe se algumas das histórias realmente aconteceram com o Barão, mas é
84
sabido que muitas delas eram de origem folclórica e já eram contadas antes mesmo
de seu nascimento. Mesmo que Graciliano não tenha se inspirado nas histórias do
Barão, é certo que há uma ligação bem forte entre elas por tantas características
semelhantes. Rui Mourão,
Graciliano Ramos foi buscar nas Aventuras do Barão de Münchhausen, do
alemão Gottfried August Buerger, o modelo para os racontos de uma saga
que chama a atenção para características psicológicas invariáveis do ser
humano e exprime certos padrões universais de comportamento. [...] Na
tradição brasileira, Alexandre guarda semelhança com as estórias de Pedro
Malazarte, que animavam os serões da família patriarcal na calmaria de
uma oralidade cedo derrotada pelos ruídos da era eletrônica, o que significa
uma adesão ao folclore. (MOURÃO, 2003: p.147)
As Histórias de Alexandre são narrativas que, embora tenham tramas
diversas, trazem vários pontos comuns entre elas, além do fato de serem contadas
pelo mesmo narrador para a mesma platéia. Cada uma dialoga ao menos com uma
das outras histórias, sendo que a última cumpre esse papel com todas as histórias
anteriores, numa espécie de delírio do personagem Alexandre. As histórias podem
ser lidas separadamente, sem perder boa parte do entendimento, pois elas são
narrativas independentes. O principal fato disso é que cada uma delas tem matéria
narrativa um conjunto de conhecimentos específico que se articula em particular com
elementos da tradição popular no folclore de modo desassociado e não num
conjunto com as outras histórias de Alexandre. Porém, o autor deu um toque pessoal
que as une, deixando-as com um formato homogêneo. A ordem escolhida pelo autor
para que o narrador Alexandre contasse suas histórias já nos leva à ideia de que
elas são um todo. Já na “Apresentação de Alexandre e Cesária”, o narrador antecipa
algumas das histórias que serão contadas pelo anfitrião da casa, assim como o jeito
exagerado de suas histórias e também a atitude de Cesária como parceira e
cúmplice em todas as narrativas. Conferindo o catálogo dos manuscritos da obra de
Graciliano, descobrimos que a ordem da Apresentação e das quatro primeiras
histórias seguiu a cronologia que Graciliano as escrevia. A apresentação foi escrita
em 10 de julho de 1938, “Primeira aventura de Alexandre” em 11 de julho de 1938,
“O olho torto de Alexandre” (que na primeira versão manuscrita é chamada de
“História de um espinho”, só tendo o título alterado em julho do ano seguinte quando
Graciliano a reescreveu com algumas modificações) em 13 de julho de 1938;
“História de um bode” em 31 de julho de 1938, “Um papagaio falador” em 01 de
agosto de 1938. Nessas histórias, percebemos que Alexandre e Cesária apontam a
85
existência de vários sinais de riqueza que o casal possuía, contrastando com a
pobreza que o casal apresentava no momento em que as histórias eram contadas.
Entretanto, não fica para o leitor a convicção de que esse momento de riqueza
realmente ocorreu, em função do caráter mentiroso do restante de cada história.
- Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa [...] nossa fazenda
ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá em casa era
cama de gato.
Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que
servia de cadeira.
Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde seu Libório se
sentava: - Hoje é isto. (RAMOS, 2007: pp.13-14)
Depois dessas histórias, Graciliano só voltou a escrever em 31 de julho de
1939, “A espingarda de Alexandre”, mas essa não seguiu a ordem do livro e nem a
cronologia dos acontecimentos, pois já mostrava o casal em sinal de bastante
penúria. A história que segue no livro é “O estribo de prata”, que foi escrita logo a
seguir, em 05 de agosto de 1939, cujos acontecimentos narrados ainda mostram
Alexandre em boa situação financeira, vestindo boa roupa e com muitos
empregados. Depois já não há mais relação entre a ordem em que a história foi
escrita e a que aparece no livro. A próxima do livro é “O Marquesão da jaqueira”, em
que aparece, depois de receber uma grande herança em dinheiro e terra, começa a
ter um princípio de perda grande de dinheiro do casal, em função de gastos com
remédios para Cesária que adoeceu seriamente. Cesária afirma que “aquela
macacoa estragou o nosso cabedal. [...] ficamos na tira e você teve que começar
tudo de novo,” (idem, pp. 51-52) Mas na mesma história, Alexandre conta que
conseguiu se reerguer por ter um bom nome na praça e “rolos de notas graúdas
forraram os fundos das arcas.” Há um fato digno de nota nesse conto, pois a história
cita o aparecimento de uma guariba como protagonista, que, no livro, só surgiria
cinco histórias depois. Possivelmente a escolha dessa ordem se deu, pois na
“História da guariba”, o casal já está bem mais velho e com dificuldades financeiras.
Imaginamos que a citação à guariba ocorreu nesse conto, pois a história que
aparece a guariba foi escrita em agosto de 1939 e a do marquesão imediatamente
depois, em setembro de 1939. Mas como as mesmas histórias são contadas por
Alexandre diversas vezes para os amigos, nada impede que Alexandre cite um fato
de outra história, mesmo que ela não tenha ainda aparecido no livro.
86
Como já dissemos, a ordem em que as histórias aparecem no livro dão ideia
cronológica do avanço da idade de Alexandre e da transposição da riqueza para a
penúria. As lembranças dos tempos de fartura apareceram nas primeiras histórias,
diminuindo aos poucos no decorrer das narrativas. A última história em que aparecia
ainda um resquício de uma vida boa do casal foi no conto “Uma canoa furada”. Nela
Alexandre ainda demonstra ter vigor físico, mostrando-se disposto a nadar o rio São
Francisco, caso fosse necessário, e de ainda dar “uma meia dúzia de trompaços” no
canoeiro por tratá-lo mal e não dar segurança ao povo que ele carregava. (idem,
p.84) A partir da narrativa seguinte, “História de uma guariba”, Alexandre mostra-se
cansado e já vivendo em estado degradante, semelhante ao que ele e Cesária
vivem quando contam as histórias: “Eu, homem de família, nascido na grandeza,
criado na fartura, tendo o que precisava, do bom e do melhor, estava por baixo,
muito por baixo: deitado em garranchos e folhas secas, a cabeça num travesseiro de
couros dobrados.” (idem, p.85) No conto seguinte, “A espingarda de Alexandre”,
percebemos que a história ocorrera próximo de quando ocorrem os serões: “- Os
senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei
outro dia?” (idem, p.91) Nessa história também há antecipação de um fato que só
será contado em história posterior, no caso do porco brabo e da cachorra, que
ocorre em “Moqueca”. Isso é mais uma marca de que a história da Moqueca já havia
sido contada anteriormente, possivelmente mais de uma vez. Portanto, o fato de a
história da cachorra aparecer no livro depois da história da espingarda é somente
uma escolha do autor de marcar cronologicamente o que ocorre nas histórias e não
a cronologia dos serões que são narrados no livro.
Entretanto, o autor dirime
qualquer dúvida, pois na abertura da história “Moqueca” Alexandre cita que já havia
falado da Moqueca antes.
O próprio personagem Alexandre, ao adotar uma metalinguagem alexandrina,
tentando explicar o seu modo de narrar e o porquê de uma história dar origem a
outra, acaba deixando a marca intertextual do livro:
- Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo
hoje, porque essa história nasce de outra, e é preciso encaixar as coisas
direito. Querem ouvir? Se não querem, sejam francos: não gosto é de
cacetear ninguém. (RAMOS, 2007: p. 14)
Essa metalinguagem que Alexandre usou nessa passagem é recorrente em
outras histórias, como em “A safra dos tatus”: “Mestre Gaudêncio curandeiro, seu
87
Libório cantador, o cego preto e Das Dores exigiram a história dos tatus, que saiu
deste modo” (RAMOS, 2007: p. 58). Ou nesse modo especial em que ele cita seu
jeito de contar em “Uma canoa furada”:
O acontecido foi coisa muito curta, que eu podia embrulhar num instante. E
se converso demais, é porque a gente precisa matar tempo, não sapecar
tudo logo de uma vez. Se não fosse assim, a história perdia a graça. Por
isso espichei diante dos amigos a cidade grande, os teatros, os bondes, os
ovos e a roupa nova, o corte de pano fino e o frasco de cheiro que ofereci a
Cesária. Ela vestiu o pano fino e botou o frasco de cheiro de lenço, mas isto
não adianta. Sem cheiro e sem pano, a história da canoa seria a mesma,
um pouco mais encolhida. (RAMOS, 2007: p 81).
Notamos na citação acima que a metalinguagem não trata somente do modo
como Alexandre contava suas histórias. Podemos também tirar dela a discussão
sobre a forma que em geral Graciliano escrevia seus contos e romances em
contradição como as Histórias de Alexandre foram escritas. Enquanto, por exemplo,
em Vidas secas e São Bernardo Graciliano escrevia de forma concisa e enxuta, com
personagens que pouco falavam, nas histórias do major o autor se prolonga, com
muitos adjetivos, parágrafos enormes, compondo um homem bastante falador e que
adorava exagerar, mas que contraditoriamente diz detestar exageros. Curiosamente,
Alexandre conta aos presentes que algumas de suas histórias foram recontadas por
outras pessoas, e que estas acrescentaram alguns itens a elas, e que isso não o
agradava, pois ele “detestava exageros”. Esse lema, que não era levado em conta
pelo próprio Alexandre que o enuncia, é seguido por Graciliano em suas outras
obras. Essa aparente contradição do autor nas Histórias de Alexandre pode ser
encarada como um modo digressivo que Graciliano se permitiu. A própria atmosfera
das histórias e a aspiração de causar riso nas situações justifica esse exagero. A
citada passagem nos ajuda nessa conclusão ao ler que Alexandre diz que sem os
acréscimos a história seria a mesma, mas não teria graça.
E não é só nas Histórias de Alexandre que a metalinguagem está presente.
Ela está praticamente em toda a obra de Graciliano Ramos, como em São Bernardo
e Angústia. “Em quase todos os seus romances, o protagonista é um escritor e
ocorre o fenômeno do livro dentro do livro, do texto dentro do texto, mostrando-se
sob diversas nuances.” (BULHÕES apud OLIVEIRA, 2003)36.
36
Cf. BULHÕES, Marcelo Magalhães. In Literatura em campo minado – a metalinguagem em
Graciliano Ramos e a tradição literária brasileira.São Paulo: Annablume/FAPESP, 1999. apud
OLIVEIRA, Ana Maria Abrahão dos Santos (Mestre em Literatura Brasileira e Teorias da Literatura
pela UFF). A literatura em xeque: a metalinguagem em São Bernardo e Angústia. Disponível em
88
Em Caetés, seu romance de estréia, Graciliano já dava mostras sobre o uso
da metalinguagem. Por exemplo, quando João Valério se via em frente ao romance
que começara e não conseguia inspiração para seguir com sua escrita. Graciliano
mostrava as dificuldades da escrita. Ao mesmo tempo, João Valério fazia o que
Graciliano constantemente fazia em relação a seus trabalhos, sempre insatisfeito e
crítico severo de seus textos:
[...] sentei-me à banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a última tira.
Prosa chata, imensamente chata, com erros. Fazia semanas que não metia
ali uma palavra. Quanta dificuldade! [...] Folha hoje, folha amanhã, largos
intervalos de embrutecimento e preguiça – um capítulo desde aquele tempo.
(RAMOS, 1978:p.21)
Ou então, no mesmo romance, quando o autor põe, nas palavras do
personagem-autor, as preocupações que ele mesmo tinha, as dificuldades de
escrever seu romance. Ao mesmo tempo, temos também no trecho abaixo a questão
que Graciliano sempre utiliza em suas obras, de obter o máximo de significado com
o mínimo de palavras:
De mais a mais a dificuldade era grande, as ideias minguadas
recalcitravam, agora que eu ia tentar descrever a impressão produzida no
rude espírito da minha gente pelo galeão de D. Pêro Sardinha. Em todo o
caso apinhei os índios em alvoroço no centro da ocara, aterrorizados,
gritando por Tupã, e afoguei um bando de marujos portugueses. Mas não
os achei bem afogados, nem achei a bulha dos caetés suficientemente
desenvolvida. Com a pena irresoluta, muito tempo contemplei destroços
flutuantes. Eu tinha confiado naquele naufrágio, idealizara um grande
naufrágio cheio de adjetivos enérgicos, e por fim me parecia um pequenino
naufrágio inexpressivo, um naufrágio reles. E curto: dezoito linhas de letra
espichada, com emendas... (RAMOS, 1976, p. 45 – grifo nosso).
No que diz respeito à ordenação das Histórias de Alexandre, quando são lidas
num só livro, podemos perceber melhor a genialidade do autor nas relações
dialógicas entre as aventuras do major. Como exemplo da relação intertextual
existente entre os contos da coletânea, temos em “O olho torto de Alexandre”, o
personagem Seu Firmino contestando parte da história anterior, em que aparece
uma onça que é domesticada ao ser confundida por Alexandre com um cavalo, pois
na mesma história, que já teria sido contada outras vezes, não teria aparecido o
espinheiro em que Alexandre se machuca em meio à montaria:
- [...] Essa história da onça era diferente a semana passada. Seu Alexandre
já montou na onça três vezes, e no princípio não falou no espinheiro.
http://www.portuguesdobrasil.net/pdf/a_literatura_em_xeque.pdf. Acessado em 29 de novembro de
2013.
89
- Seu Firmino, eu moro nesta ribeira há um bando de anos, todo o mundo
me conhece, e nunca ninguém pôs em dúvida a minha palavra.
- Não se aperreie não, seu Alexandre. É que há umas novidades na
conversa. A moita de espinho apareceu agora.
- Mas, Seu Firmino, replicou Alexandre, é exatamente o espinheiro que tem
importância. Como é que eu me iria esquecer do espinheiro? A onça não
vale nada, Seu Firmino, a onça é coisa à-toa. (RAMOS, 2007: pp 19-20)
Quando um autor faz uso da intertextualidade, ele pode ter várias intenções,
como de fundo poético, de homenagem a um determinado autor ou obra, etc. No
caso das Histórias de Alexandre, percebemos claramente a intenção de trazer
humor ao texto, ao mesmo tempo de ocasionar um sentido de unicidade entre as
histórias.
Essa intertextualidade acarreta uma relação de diálogo entre as histórias e
personagens, não só os que estão presentes no serão, como os próprios animais
que participam das façanhas que são contadas pelo major. Essa relação de diálogo
também há entre a cultura popular e as histórias, assim como temos entre os
personagens e o meio social e físico em que vivem. Para Bakhtin:
O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das
formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas
pode-se compreender a palavra „diálogo‟ num sentido mais amplo, [...] O
livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da
comunicação verbal. Ele é objeto de discussões ativas sob a forma de
diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser
estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior,
sem contar as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram
nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que
exercem influência sobre trabalhos posteriores, etc.). Além disso, o ato de
fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções
anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as
de outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um
problema científico ou de um estilo de produção literária. Assim, o discurso
escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em
grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as
respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc (BAKHTIN, 1992: p.123)
As duas histórias onde mais se marca essa relação de dialógica entre os
contos são “Uma canoa furada” e “A doença de Alexandre”. Na história da canoa,
quando o narrador Alexandre se refere à diferença de sua fama na cidade e no
sertão, menciona o conhecimento de várias de suas histórias pelo povo do sertão,
citando também personagens que participaram da narrativa de uma delas, no caso o
Dr. Silva, quando fala sobre o marquesão da jaqueira.
90
A história da onça, a do bode, o estribo de prata, este olho torto, que ficou
muitas horas espetado num espinho, roído pelas formigas, circulam como
dinheiro de cobre, tudo exagerado. É o que me aborrece, não gosto de
exageros. [...] Exatamente o que sucedeu com o marquesão. Lembram-se?
Dr. Silva pegou o marquesão de jaqueira e fez dele o que entendeu, encheu
a casa de cortiços. Não era o meu marquesão, que só deu quatro pés de
jaca. (RAMOS, 2007: p 81)
Já em “A doença de Alexandre”, as histórias se entrelaçam na mente de
Alexandre. Sua doença o faz delirar e nesse delírio ele conta um sonho em que fatos
verdadeiros, ou que ele afirma como verdadeiros, se misturam no sonho narrado.
Nesse delírio, Alexandre antecipa um caso semelhante ocorrido no romance Tia
Julia e o escrevinhador37, de Mário Vargas Llosa, em que, após uma sobrecarga de
trabalho, a mente do personagem Pedro Camacho, um autor de novelas
radiofônicas, passa a não funcionar perfeitamente e, então, começa a misturar
personagens e fatos de várias rádio-novelas que ele escrevia para uma emissora
peruana. Esses dois delírios deslocam e condensam memórias. É importante se
registrar que Graciliano também usou o tema do delírio de seus personagens em
outras obras, como no conto “O relógio do hospital”, integrante do livro Insônia
(1947), e em Memórias do cárcere (1953). No citado conto, temos um protagonista
convalescendo numa cama de hospital
após uma operação e, sob o efeito da
anestesia, passa a sofrer de constantes delírios.
Assim, as percepções do
personagem, confundidas pelos efeitos dos delírios, criam, numa lógica própria,
alucinações que parecem ter um sentido plenamente organizado. Já em Memórias
do cárcere, Graciliano cita fatos de quando ele estava doente num hospital e lá tinha
delírios freqüentes e, de suas alucinações vieram a inspiração para escrever dois
contos que fariam parte de Insônia, “Paulo” e o citado “O relógio do hospital”. Com
essa aproximação temática, no conto sobre a doença de Alexandre, no delírio do
major, os casos já narrados aparecem misturados, com personagens de um conto
assumindo funções que outro personagem tinha em outra história, e todas numa só
seqüência, dando espaço para que todas as façanhas do major apareçam numa só
narrativa, assumindo papéis diferentes.
Primeiro foi um bode. Montei-me nele. [...] Segurava-me desesperadamente,
com receio de me despencar lá de cima e esbagaçar-me. O infeliz saltava
como se tivesse o diabo no couro, [...] Num dos pulos desaprumei-me e caí.
Caí escanchado numa onça-pintada, que se atirou pelo mundo correndo,
um pé-de-vento. Andou, virou, mexeu, atravessou um espinheiro (lá deixei o
37
LLOSA, Mario Vargas. Tia Julia e o escrevinhador. Trad. Remy Gorga, Filho. São Paulo: Círculo do
Livro, 1977.
91
olho esquerdo num garrancho), meteu-se num mato cheio de marquesões
cobertos de jacas maduras, parou na beira de um rio que, pelos modos, era
o S. Francisco. Vai senão quando uma coisa me bateu no estribo. Levantei
o rebenque, saltei no chão, mas aí notei que estava com a perna metida na
goela de uma jibóia, até a coxa. [...] Nessa altura a cachorra Moqueca
apareceu e começou a latir. A cobra assustou-se e livrei-me dela
devagarinho, saí atrás de uma guariba que fumava cachimbo e usava gibão
e guarda-peito. [...] mas um papagaio, com um olho de gente no bico[...]: Está aqui o olho que eu achei estrepado num garrancho, coberto de moscas
e formigas. [...] achei-me de novo no S. Francisco, ouvindo as lorotas do
papagaio, que me acompanhava em vôos curtos. [...] Avistei de supetão
uma canoa que se largava para a outra banda, carregada de tatus. – Entre
para dentro, Major Alexandre. Convidou-me o Dr. Silva, que era o canoeiro
[...] (RAMOS, 2007: pp. 105-107)
Podemos notar que, também no sonho, Alexandre usa dos exageros - “e o
bicho cresceu, passou as nuvens, chegou ao céu, ficou tão alto que eu não
enxergava a terra. [...] espetava as estrelas com as pontas, dava marradas na Lua e
sapecava os cabelos do focinho no Sol.” (RAMOS, 2007: p 105). Também é
recorrente no sonho de Alexandre, o aparecimento de animais falantes – “[...] mas
um papagaio, com um olho de gente no bico, chegava junto de mim arrastando os
pés apalhetados: - „Está aqui, Seu Major. [...] o olho que eu achei estrepado num
garrancho, coberto de moscas e formigas. Bote o olho na cara.‟” (RAMOS, 2007: p.
106). Parte dessas ocorrências, em diferentes arranjos, já aparecia nas histórias
originais contadas por Alexandre. Na narrativa do sonho também há o pedido de
confirmação de Cesária, assim como o crivo do cego Firmino. “Foi ou não foi,
Cesária? [...] Foi Alexandre, confirmou Cesária.” (ibid.); “- [...] Já andou perto de
fornalha de engenho? Sinhá Terta sentiu o calor no fim do pátio. [...] - Não é muito
não? Perguntou o cego.” (ibid.).
Nesse conto final, dedicado à doença do major Alexandre, seu estado febril
não é suficiente para que ele emende ao final mais um de seus causos, dizendo que
o suadouro resultante de sua febre foi suficiente para inundar a casa, sempre com a
intervenção cuidadosa e respeitosa do cego Firmino, que zela pela verossimilhança
narrativa.
Seguindo essa linha de encaixe, em que fios vão sendo desenrolados, ao
mesmo tempo em que são deixadas pistas no labirinto narrativo entre as histórias,
temos as citações do papagaio falador, cujas incongruências monetárias que o
cercam durante as histórias, serão demonstradas posteriormente com mais detalhes
neste trabalho. As citações aparecem em várias histórias, e o encaixe aparece não
só para os personagens do livro que participam ouvindo as narrativas e dialogando
92
com Alexandre, mas também para os leitores que com elas interagem e dialogam,
ao perceberem que elas fazem sentido num contexto global, ao relembrá-las todas
as vezes em que elas aparecem. A história sobre o olho de Alexandre acaba por
servir como aporte para outras histórias onde o seu olho torto é relembrado. A
atitude questionadora do cego Firmino é melhor entendida quando percebemos que
ela é recorrente em quase todas as histórias. Da mesma forma, a atitude do casal
durante todo o livro demonstra que o encaixe entre os apartes de Cesária e a
narrativa de Alexandre forma um todo.
A relação com a tradição e cultura populares está também na representação
da audiência de Alexandre, assim como no próprio evento das reuniões em que
Alexandre conta suas histórias. Porém, assim como em autores como o português
Carlos de Oliveira, que também importa valores populares para sua obra, a tradição
em Graciliano Ramos, e especificamente nas Histórias de Alexandre, não é
incorporada diretamente, mas por um viés alternativo em que aparecem a crítica, a
ironia, o riso e a comicidade. Esses temas também são importantes em uma
modalidade ligada à cultura popular, em alguns de seus subgêneros, bastante
presente em Histórias de Alexandre, a literatura de cordel. Algumas histórias
contadas no cordel trazem características semelhantes aos contos do citado livro de
Graciliano, como as ligadas a atos de heroísmo, “histórias de animais, calcadas nas
velhas fábulas em que o riso brota espontâneo nos lábios de quem as lê ou as
escuta. É a magia da literatura oral preservada no bom cordel, que dela deriva”.
(HAURÉLIO, 2012: p.12) Marco Haurélio, na sua Antologia do cordel brasileiro nos
expõe que “comicidade e riso são marcas de alguns personagens consagrados do
cordel, conhecidos por sua peraltice, originários também dos contos populares”.
(idem, p.12) Essa relação tão próxima entre os contos populares de tradição oral e a
literatura de cordel foi primordial para que o cordel se fizesse presente em algumas
das histórias do major Alexandre.
Todo o ambiente que cerca Alexandre e Cesária marca um cenário que indica
profunda carência. Já na apresentação do casal, temos noção que Alexandre “tinha
uma casa pequena, meia dúzia de vacas no curral, um chiqueiro de cabras e roça de
milho na vazante do rio” (RAMOS, 2007: p 9) e que ele acendia o cigarro ao
candeeiro de folha. Mestre Gaudêncio acomodava-se num cepo que servia de
cadeira e Seu Libório sentava-se sobre uma mala de couro cru. Os amigos que se
93
encontram na pequena sala da casa de Alexandre são, além de gente do povo,
representantes de certos papéis sociais que indicam a importância que o autor dá a
eles como signos de uma cultura popular tradicional. Segundo Osman Lins, esses
amigos “formam o constante e limitado auditório. Todos, [...], na orla da mendicância
declarada, flutuando entre a magia e a arte popular sem preço, indivíduos marginais,
inofensivos, não integrados em nenhuma atividade produtiva” (LINS, apud RAMOS,
1981, p. 189).
Mestre Gaudêncio é um curandeiro, “que rezava contra mordedura de
cobras”, e outras tantas doenças. Das Dores, afilhada do casal, era benzedeira de
quebranto. O curandeiro no interior é uma pessoa bastante procurada pelo povo,
independendo de seu credo religioso. A benzedeira igualmente é uma pessoa que
possui respaldo junto ao povo diante de seus poderes de cura. O próprio narrador do
livro acaba emprestando sua voz ao pensamento de Alexandre, e por tabela ao povo
do interior nordestino, ao mostrar simpatia pela sabedoria do curandeiro: “Mestre
Gaudêncio curandeiro, homem sabido, explicou uma noite aos amigos que a Terra
se move, é redonda e fica longe do Sol umas cem léguas.” (RAMOS, 2007: p. 79).
O Mestre Gaudêncio também era chamado por Alexandre a opinar em certas
ocasiões em assuntos que ele achava que o curandeiro era a pessoa certa: “Digame uma coisa, Mestre Gaudêncio, com franqueza: o senhor acredita em artes do
diabo?” (RAMOS, 2007: p. 99). Para Alexandre só fatos especiais escapavam do
poder de curandeiros e benzedeiras: “Baixei a cabeça, triste, assuntando na
infelicidade e procurando um jeito de me curar. Não havia curandeiro nem rezador
que me endireitasse, pois mezinha e reza servem pouco a uma criatura sem olho,
não é verdade, Seu Gaudêncio?” (RAMOS, 2007: p 23). Ou, em outra passagem,
em que entram também conhecimentos populares de Cesária e da Sinhá Terta na
cura de uma enfermidade de Alexandre:
- Arreado, meu amigo, queixou-se. A princípio era uma gastura, o
estômago embrulhado e a vista escurecendo. Botei para o interior a purga
de pinhão de Mestre Gaudêncio e a garrafada que Cesária fez. Das Dores
rezou uma oração forte. Depois veio Sinhá Terta. Ai! (RAMOS, 2007: p. 104)
Temos ainda um fato interessante que representa o sincretismo religioso do
povo brasileiro, em que religiões se misturam, e pessoas mostram fidelidade a mais
de um credo, não se mostram subordinados aos ditames de seus chefes religosos,
está na relação de Alexandre e Cesária que são padrinhos de Das Dores. Ou seja,
94
ela possivelmente foi batizada no catolicismo pelo casal, mas isso não impediu que
ela seja uma benzedeira. E durante várias passagens do livro, a religião cristã se
mistura com aspectos ligados às religiões africanas, com a mesma naturalidade com
que o povo trata sua conjunção, se nisso se envolve o bem do cidadão e não o bem
de uma religião. “Das Dores rezando a oração forte, Cesária no cós da saia de
Nossa Senhora” (RAMOS, 2007: p. 106). “- Sem dúvida, Seu Alexandre, respondeu
o curandeiro. Quem não acredita? Tenho tirado com reza muito espírito mau do
couro de cristão” (RAMOS, 2007: p. 99). Mas o mais importante nessa questão é
que usam de conhecimentos provindos da sabedoria popular para exercerem suas
práticas.
O cantador de emboladas, como Seu Libório, até hoje é encontrado e
desfruta de respeito nas camadas populares nordestinas pela sua habilidade e
criatividade artística. As emboladas sempre foram muito usadas nos engenhos de
Pernambuco e Alagoas, este último o estado natural do autor do livro. A embolada é
invariavelmente composta em combinações de dois versos, cada um de doze
sílabas, com a sucessão de sílabas agudas e breves, de duas em duas, formando
um ritmo convidativo a dançar. Ela ocorre nas estrofes de cocos e desafios,
caracterizada por textos declamados rapidamente sobre notas repetidas. As canções
populares eram também usadas para difundir histórias e aventuras, como as de
Alexandre, e muitas das vezes inseriam histórias do imaginário popular. Seu Libório,
desse jeito, também procurava musicar os feitos de Alexandre: “- Esse caso que
vossemecê escorreu é uma beleza, Seu Alexandre, opinou Seu Libório. E eu fiquei
pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na viola.” (RAMOS, 2007: p. 19). “Muito bem, Seu Alexandre, o senhor é um bicho. Vou botar essas coisas em
cantoria. O olho esquerdo melhor que o direito, não é, Seu Alexandre?” (RAMOS,
2007: p. 25)
Muitos cantadores eram também cordelistas e acompanhavam a leitura das
histórias do cordel com sua viola. Desse jeito, havia vários tipos de artistas que
participavam dessas performances. O cantador poderia ser também o autor ou
adaptador da história que originava na canção, assim como poderia também ser
quem tocava a viola. Da mesma forma, poderíamos ter um violeiro e um
cantador/contador. Essa diferenciação entre cantador e contador é necessária, pois
a história, mesmo com uma viola ao lado, poderia ser somente recitada como um
95
poema ou contada em forma de prosa, servindo a viola (podendo ser esta
acompanhada ou substituída por acordeon ou pandeiro) para chamar mais a
atenção do público. Também havia autores de folhetos que pagavam cantadores
para atuarem na performance e após o ato, passavam a vender sua arte. O narrador
Alexandre deixa marcado, além da já citada nota de advertência do autor no início
do livro, que algumas de suas histórias também estariam em folhetos de cordel e na
cantoria
dos
cantadores
com
suas
violas,
como
podemos
ver
abaixo,
respectivamente, em citações dos contos “O marquesão da jaqueira” e “Uma canoa
furada”.
E vimos uma parte das coisas aproveitadas depois pelo Silva e
desenvolvidas num escrito que se vendeu muito nas feiras e agradou. [...]
Mas confesso a vossemecês que no folheto dele, publicado em letra de
forma, há algum exagero. Silva não se refere ao marquesão nem fala em
jaqueiras. [...] Ficam, portanto, os amigos avisados de que na história do
Silva há uns floreios. Acho que ele procedeu com acerto: quando um
cidadão escreve, estira o negócio, inventa, precisa encher papel. (RAMOS,
2007: pp. 55-56)
A história da onça, a do bode, o estribo de prata, este olho torto, que ficou
muitas horas espetado num espinho, roído pelas formigas, circulam como
dinheiro de cobre, tudo exagerado. É o que me aborrece, não gosto de
exageros. Quero que digam só o que eu fiz. Esse negócio da canoa entrou
num folheto e hoje se canta na viola, mas com tantos acréscimos que,
francamente, não me responsabilizo pelo que escreveram. [...] O caso da
canoa também foi muito aumentado. É bom prevenir. Se vossemecês
ouvirem falar nele em cantoria, fiquem sabendo que as nove-horas são
astúcias do poeta. (RAMOS, 2007: p. 81)
Na história da canoa furada, quando Alexandre critica as mudanças que
teriam sido operadas em suas façanhas quando transpostas para o papel, também
estaria lutando pelo seu papel de contador, que ele fosse a única fonte, temendo
que a palavra escrita suplantasse a história oral. Mesmo que inconscientemente, ele
estaria defendendo a própria cultural popular e a tradição oral de se contar as
histórias. Mais adiante, no capítulo 5, voltaremos a tocar nesse assunto, quando
falarmos sobre o narrador de Walter Benjamin.
Na mesma história, quando ele conta sobre a tentativa de mudança do campo
para a cidade, ele reclama das transformações operadas pela modernidade, do
espírito de competição, e que lá na cidade ele não tinha representatividade,
enquanto que no sertão ele tinha voz e suas façanhas eram conhecidas por toda
gente:
Matuto, quando sai do mato, perde o jeito. Quem é do chão não se trepa.
Ninguém me conhecia na cidade cheia como um ovo. [...] Não me aprumo
96
nessas ruas grandes, onde gente da nossa marca dá topadas no
calçamento liso e os homens passam uns pelos outros calados, [...] Nunca
vi tanta falta de educação. [...] Nos meus pastos a coisa era diferente. Lá eu
tinha prestígio [...] Na capital só viam em mim um sujeito que vendia gado.
Mas se quiserem saber a minha fama no sertão, dêem um salto à ribeira do
Navio e falem no major Alexandre. Cinqüenta léguas em redor, de vante a
ré, todo o bichinho dará notícia das minhas estrepolias. (idem, pp.80-81)
Nessa citada tentativa de mudança do campo para a cidade por parte de
Alexandre, na qual ele se depara com uma realidade que não lhe agrada e à qual
não se adapta, temos reforçado um sentimento que Graciliano já apresentara em
seus romances, pois ele mostrava justamente a fase de transição do sertão para a
sociedade industrial e urbana, e para a qual o homem sertanejo pobre e sofrido não
se sentiu preparado. Sonia Brayner assinala que o cenário dos romances de
Graciliano era formado pela "pressão trituradora exercida pelas máquinas de um
novo consumo sobre seres despreparados e frágeis, a seca, a miséria do lavrador".
(BRAYNER, 1978: p.11)
Sobre o mesmo assunto, Rui Mourão, em seu livro Estruturas, focaliza o
contexto social que predomina obras de Graciliano, ressaltando as estruturais
arcaicas do sertão e as forças modernizadoras, do ambiente urbano e da
industrialização:
Animando ambientes rurais e urbanos em seus romances, Graciliano
Ramos levantou uma obra extremamente representativa desse período da
vida brasileira, em que os pratos da balança oscilavam entre a cidade e o
campo, sem se definir nesse ou naquele sentido, pois o estabelecimento da
nova estrutura não implicou na derrocada completa da antiga, que
continuou resistindo dentro do tempo (MOURÃO, 1969, p.136).
O cego preto Firmino era um homem bastante humilde, sem posses, que
tinha nas visitas a Seu Alexandre sua única distração. Reforce-se que quem ouvia
as histórias não eram fazendeiros, homens ricos e nem autoridades, prefeitos ou
mesmo policiais, e sim só gente pobre, do povo. E quem essa platéia procurava para
ouvir histórias tinha que ser um igual, alguém que entendesse seu sofrimento. O
cego, embora tivesse bastante respeito por Alexandre, era o único que sempre se
levantava quando discordava de alguma parte da história ao notar algo que não
encaixava ou que parecia ter uma versão diferente em relação a outras vezes em
que o major já havia contado, mas quando fazia isso, era sempre com muita
humildade e respeito ao dono da casa, para não ofendê-lo e também por sentir uma
diferença de posição social na relação dos dois. Esse posicionamento de Firmino
mostrava uma relação à semântica de seu nome, pois, mesmo com sua
97
simplicidade, mostrava-se firme em suas opiniões. Ele poderia também ser
considerado uma espécie de consciência crítica do narrador, para não deixar que ele
entrasse por um caminho e nele se perdesse. Também tem valor expressivo
especial o fato de ser um cego aquele que via e cobrava o respeito à coerência, à
verossimilhança, àquilo que pudesse de fato ter sido comprovado (e visto) por
alguém que não o próprio Alexandre, narrador autodiegético. Na história “O olho
torto de Alexandre”, o cego observa que na história da onça pintada que, confundida
na escuridão com uma égua, fora amansada por Alexandre, aparece um fato
diferente que não tinha sido referido nas outras três vezes em que fora contada:
- [...] Mas aí, se me dão licença... Não é por querer falar mal, não senhor.
[...] Pois é, tornou o cego. Vossemecê não se ofenda, eu não gosto de
ofender ninguém. Mas nasci com o coração perto da goela. [...] Então, como
o dono da casa manda, lá vai tempo. Essa história da onça era diferente a
semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no
princípio não falou no espinheiro. (RAMOS, 2007: p. 35)
Luiz Fernando Carvalho, responsável pela direção do programa que adaptou
para a televisão três das histórias de Alexandre (embora a emissora tenha
anunciasse que eram duas) – “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de
Alexandre” e “A doença de Alexandre” – classificou, assim, a platéia de Alexandre:
[...] com seu bloco de sujos, sua audiência de excluídos: um cantador de
emboladas, um cigano sertanejo, uma benzedeira, um cego. Excluídos do
mundo da produção e do trabalho, parecem adquirir, assim, com o estigma
da marginalidade, uma aura sagrada. (CARVALHO apud O Globo – Prosa e
Verso, 14 de dezembro de 2013, p.6)
No livro Retrato fragmentado, escrito por Ricardo Ramos, filho de Graciliano,
aparece uma declaração de Mestre Graça acerca da construção de seus
personagens: “Minhas personagens não são seres idealizados e sim homens que eu
conheci”. Essa afirmação é confirmada em vários de seus livros. Caetés se passa
em Palmeiras dos Índios, onde ele viveu durante alguns anos e onde inclusive
exerceu o cargo de prefeito. Em Angústia temos várias passagens que nos levam a
passagens da vida do autor em Alagoas e no Rio de Janeiro. Temos ainda as obras
memorialistas Infância e Memórias do cárcere. Em sua dissertação, Monteiro Filho
(2013) comenta sobre traços da vida do autor em seus livros, fato que Antonio
Candido também apontara:
O personagem Seu Ribeiro, de São Bernardo, reaparece de forma nítida na
figura do avô do escritor, em Infância. O ceticismo de João Valério surge
retratado posteriormente entre as marcas da existência sofrida relatada
98
como autobiografia pelo escritor Graciliano. (MONTEIRO FILHO: 2013,
p.31)
E para nós não há diferença alguma entre seu Ribeiro de São Bernardo e o
avô do narrador em Infância: ambos têm a consistência autêntica de seus
personagens criados. [...] A ficção, neste caso, explica a vida do autor, ao
contrário do que se dá geralmente. (CANDIDO, 2012: 70)
O próprio Graciliano já dera mostras dessas marcas de sua vida em sua obra
ao falar sobre a procedência e confecção de seus personagens de Vidas secas na
Revista O Cruzeiro de abril de 1953:
[...] utilizei num conto a lembrança de um cachorro sacrificado na Maniçoba,
interior de Pernambuco, há muitos anos. Transformei o velho Pedro Ferro,
meu avô, no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinhá Vitória;
meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois meninos... Aí
me veio a ideia de juntar os cinco personagens (o bicho, o matuto, a mulher
e os garotos) numa novela miúda – um casal, duas crianças e um cachorro
– todos brutos [...] (ABEL, 1999, p.257)
Da mesma forma, havia alguns indícios de que Alexandre fora inspirado em
José Baía, personagem de Angústia e Infância, e que sempre aparece como de
grande importância em sua infância e lhe contava histórias de onças e grandes
aventuras. Alexandre se assemelha também a José Baía por suas grandes
qualidades como vaqueiro, excelente montador de cavalos, o que o aproxima
também a Amaro de Angústia e Infância, Fabiano, de Vidas secas. Monteiro Filho
lembra também da aproximação de Alexandre com Paulo Honório, de São Bernardo,
“como astuto negociante, ainda que sem a falta de escrúpulos deste”. (MONTEIRO
FILHO, 2013, p. 35)
Sobre a procedência e inspiração de Graciliano Ramos para construir o
personagem Alexandre, além da citada acima acerca de José Baía, temos o Barão
de Münchausen e suas aventuras maravilhosas, que muito se assemelham às
façanhas de Alexandre, pelo seu caráter fantasioso e voltado à cultura popular. Essa
relação de Alexandre com o Barão alemão é também citada por Rui Mourão e pelo
mestre Edmar Monteiro Filho, que defendeu dissertação sobre as Histórias de
Alexandre e também por Clara Ramos. (MONTEIRO FILHO, 2013: p.110). Outra
possível inspiração é com tipo folclórico Pedro Malazartes, que tem origem ibérica e
depois sofreu uma adaptação em outras histórias do interior do Brasil,
principalmente do nordeste. Essa relação eu acredito que seja a que menor
influência teve, pois o caráter de Malazarte muitas vezes prima pela desonestidade e
trapaça e não só por mentiras e exageros, sendo só estes dois últimos relacionados
99
a Alexandre. Uma outra inspiração para Alexandre foi citada por Ricardo Ramos,
não por ele defender, e sim por ironizá-la.
Em seu livro Retrato fragmentado,
Ricardo Ramos conta que alguns detratores de Graciliano quiseram relacionar o
personagem Alexandre a Getúlio Vargas, o que nos pareceu absurdo. O interesse
dessa ligação para os que levantaram essa teoria seria o de acusar Graciliano de ter
sido cooptado por Getúlio e assim quis homenageá-lo com um personagem que,
embora mentiroso, tinha o carinho do público leitor. Por último, verificamos que, ao
menos uma vez, Graciliano pensou no seu Alexandre como um personagem heróico
da antiguidade. Analisando o catálogo dos manuscritos do Arquivo Graciliano
Ramos no tocante aos contos de Histórias de Alexandre, verificamos que, na
“Apresentação de Alexandre e Cesária”, que foi escrita originalmente como texto
introdutório ao livro 7 Histórias Verdadeiras, Graciliano colocou a expressão “o
conquistador macedônio”, que depois foi suprimida. (LIMA & REIS,1992: p.36) Essa
intenção inicial nos levou ao texto do prefácio de José Geraldo Vieira:
Pensei comigo que, [...] também Graciliano tivesse em determinado hiato de
sua vida tentado uma síntese biográfica de Alexandre, o Grande [...] Mas
em casa, [...] se desfez o equívoco. Não, meus amigos, o Alexandre de
Graciliano Ramos não é o rei da Macedônia, o mais famoso capitão da
Antiguidade[...] (VIEIRA apud RAMOS, 1973: pp.16-17)
As histórias de Alexandre seguem uma característica comum de exaltar seus
feitos, exagerar no tamanho de animais e objetos, incluir animais que não só falam
como raciocinam e têm opiniões. Os animais dessas histórias possuem outras
capacidades próprias de humanos, além de habilidades específicas de animais da
mesma espécie, com toques alexandrinos esperadamente exagerados, e outras,
além de habilidades próprias de outros de espécies diferentes. Elas pertencem a um
universo muito comum no interior, o dos famosos contos de mentiroso, que são
predominantes nas histórias de caçadores e pescadores. Essas marcas são
características do folclore nordestino, para além de serem uma vertente narrativa
que atravessou muitas fronteiras, difundindo-se na tradição oral e na escrita, como é
o caso das famosas Aventuras do Barão de Münchausen. Tal pode ser detectado
pelo número grande de vezes em que aparecem casos de mentirosos nas histórias
tradicionais recolhidas por Câmara Cascudo e Manuel Ambrosio. Nelas há figuras de
onças, papagaios, caçadores com façanhas extraordinárias, homens que exageram
na medida de contar os seus feitos, a presença do diabo e dos santos no imaginário
100
dos personagens, dentre muitas outras que também encontramos nas aventuras de
Alexandre.
Consultando o livro Histórias, lendas e folclore de nossos bichos, de Eurico
Santos, não localizamos menção a histórias parecidas com as de Alexandre, porém
vemos algumas poucas aproximações. Nos capítulos “Os literatos e a fauna” e “A
inteligência dos animais”, o autor conta sobre a existência de histórias com macacos,
cachorros e aves em geral dotados de extraordinária inteligência. Isso nos levaria à
história da cachorra Moqueca, que faz compras para os donos e inclusive sabe se o
comerciante dá troco certo ou não e às duas histórias livro com papagaios, que não
só falam como raciocinam e até servem como advogados. E temos também à
história da guariba, que depois de fazer pilhérias com Alexandre, mostra que tinha o
dom da fala e ainda propõe um acordo ao major. Em relação aos papagaios, o autor
aponta que tem havido uma tendência no interior do Brasil a termos histórias em que
o pássaro é apresentado sempre com maus hábitos, e que isso possivelmente se
deve ao clamor que se deu no interior para que se extinguissem os papagaios,
porque contava-se que “se o lavrador não é diligente, não chega a colher a roça,
porque eles comem-na toda [...] Pode dizer-se que estas aves comem a quarta parte
das roças”. (SANTOS, 1957: p.281) As histórias com onças em geral aparecem com
o felino sendo trapaceado por outro animal. Em Histórias de Alexandre, temos a
história do marquesão que se transforma numa jaqueira, porque os pés do móvel
tinham sido feitos com madeira da árvore. No livro de Santos, é apontada a
existência de história de bichos que viram plantas, mas são bichos pequenos, como
vermes e lagartas.
Como o nordeste brasileiro, assim como o país inteiro, foi colonizado com a
presença de inúmeras culturas, há uma grande diversidade nessa parte. São tantos,
desde portugueses que vieram com as caravelas de Cabral e milhares de outros que
vieram depois, além de espanhóis, franceses, holandeses e outros europeus, assim
como de africanos que foram trazidos forçados para trabalharem como escravos,
que nossa cultura foi sofrendo interferências diversas que resultaram numa linha
com traços de variados povos. Desse jeito o folclore nordestino mostra histórias
populares cujos temas possuem registros em outros países europeus. Isso mostra
que essas histórias, mesmo sem um registro físico, ficam no inconsciente do povo
que já as ouviu, e vão sendo passadas de geração em geração mesmo quando
101
saem de uma região para outra. Embora não haja condições de se afirmar, as
histórias de Alexandre podem não ter tido sua origem somente nas terras
nordestinas, mas o fato é que elas carregam aspectos regionais. Mesmo que sua
origem tenha sido de algum povo europeu, os bravos nordestinos trataram de dar
toques que pintam um quadro físico e social do nosso nordeste e de integrantes de
seu povo.
Nesse sentido, no plano dos registros culturais e no das seleções de itens
léxicos, pode-se apontar um conjunto de exemplos que indicam uma “identidade”
nordestina presente nos relatos da obra de Graciliano Ramos aqui considerados.
José Geraldo Vieira, no prefácio de Histórias de Alexandre, expõe algo que marca
com exatidão todo esse processo que faz com que as histórias fiquem borbulhando
pelo ar nordestino por séculos e vão sendo repetidas pelo seu povo:
Não é a memória, encravada no cérebro arcaico (dos modernos
anatomistas) ou inserida no tálamo e no hipotálamo, que nos faz captar
histórias
ouvidas,
herdadas,
seculares,
folclóricas,
ecológicas,
internacionais, antípodas. Não. Elas esvoaçam pelo ar, revestem a Terra,
rodeiam-na como algo mais translúcido do que a atmosfera [...] Lá na terra
de Graciliano, elas se dependuram como trapos hialinos nas arestas dos
mandacarus e dos muçambês, nos flocos de algodão, nas noras dos poços,
nas penas e nos bicos das gurinhatãs; diluem-se no orvalho, pulverizam-se
nas estradas, engrossam as cordas das violas, intrometem-se nos grumos
dos travesseiros.
E deve ter sido obedecendo a uma espécie de cacoete generalizado que o
antigo Prefeito de Palmeiras dos Índios, muito tempo depois já em Maceió,
ou no Rio, como um sacristão que faz rol de roupas litúrgicas ou inventário
de safras de ex-votos, reconstituiu o milagre da onça humilhada à condição
doméstica de bode de quintal; ou sem saber da existência de Tuti Name (O
38
Livro do Papagaio) , recompôs aquela história do louro que após um curso
oral de catecismo e rezas foi para plena caatinga ensinar o gradual
canônico do rosário (com ave-marias, padre-nossos, salve-rainhas) aos
bandos estridentes dos seus irmãos nômades. (VIEIRA, apud RAMOS,
1973, p. 19)
Em algumas das histórias, como já acima observado, Alexandre cita a
existência de versões de suas aventuras em folhetos e em rodas de viola, dando a
38
Tuti-Nâme é o nome dado para a versão persa da obra sânscrita Sukasaptati (70 contos de
papagaio. Tuti-Nâme é uma coleção de fábulas e contos de moral contidos por uma estória molde
que mostra uma mulher de um mercador que quer viajar para se encontrar com seu amante enquanto
o seu marido, que havia a presenteado com um papagaio, viaja a trabalho. Para evitar que a esposa
se encontre com o amante, o papagaio a aconselha a somente ir após terminar uma história. Como
nas Mil e uma Noites, a história contada pelo papagaio não termina no final da noite, fazendo com
que a mulher tenha que adiar sua saída, e assim ele vai contando uma história que se encaixa com
outra seguidamente, só devendo concluir quando o marido retorne de viagem. A obra original em
sânscrito data provavelmente do século X. Uma versão dessa história aparece no nordeste Brasileiro
e está no livro de recolhas de Câmara Cascudo, Contos Tradicionais do Brasil (folclore) com o título
“A História do Papagaio” (PESSOA apud CASCUDO,2010: pp.149-154)
102
entender que, visto o perfil de mentiroso do protagonista, na verdade Alexandre se
apropriava das histórias populares e se encarregava de colocar-se sempre no centro
das aventuras. Nessa apropriação, Alexandre criava uma paródia própria das
histórias orais já existentes, incluindo-se nas histórias. Nessa paródia das histórias,
ele cria uma nova, misturando-a com fatos que ele teria vivido e com outros
fantasiados. Mal percebe Alexandre que ele se torna uma paródia de um herói
imaginado, com suas roupas esfarrapadas, sua espingarda que antes era capaz de
atingir um veado a léguas de distância, na verdade não passa de uma velha arma
enferrujada. A antiga arca que, nas palavras do dono da casa, teria servido para
guardar moedas de ouro, acaba servindo para que seus convidados se sentem, pois
não há cadeira para sua platéia. Cada história narrada por Alexandre, que prima
pelo tom mentiroso e exagerado, forma um conto em cima de outro conto, no caso
desse último, cada história narrada. Bella Josef, em seu artigo sobre “O espaço da
paródia, o problema da intertextualidade e a carnavalização” assim comenta:
O conto propriamente dito é introduzido na narrativa do narrador implícito,
encaixado no conto que parodia. Quando um se fecha, fechando o outro, a
obra se explica por si mesma, criando um sistema à medida que se realiza
como texto. O essencial da “história na história” está em que é sempre uma
39
“leitura na leitura” [...] (JOSEF, 1980:63)
Alexandre utilizava em quase todas as histórias um termo somente utilizado
no interior do Nordeste, que acabava denotando o tom exagerado de suas histórias:
“despotismo”. “Zoada tão grande, um despotismo de quem quer derrubar o mundo
[...]” (RAMOS, 2007: p. 33); “Mamou e cresceu, ficou um despotismo de cabrito.”
(idem: p.43); “ [...] o estribo estava grande que era um despotismo, sim senhores.”
(ibid: p. 61); “A princípio não atinei com a causa daquele despotismo e pensei num
milagre.” (ibid: p. 75). Esse termo fora já utilizado por Graciliano em outras obras,
algumas vezes no sentido só adotado no nordeste brasileiro, significando exagero
ou excesso, e outras no sentido ligado à pessoa déspota. Por exemplo, em Vidas
secas, no capítulo “Inverno”, no trecho a seguir, fala-se sobre o excesso de chuva
que estaria para terminar: “Dentro em pouco o despotismo de água ia acabar”.
(RAMOS,2000: p.65). No capítulo “Verão” de Infância, já temos a mesma palavra no
outro sentido: “Na rua examinei o ente sólido, áspero como os trabalhadores,
garboso nas cavalhadas. Vi-o arrogante, submisso, agitado, apreensivo – um
39
In DIAS, Angela, LYRA, Pedro (editores). Tempo Brasileiro, 62. Sobre a paródia. Jul./set., 1980.
pp.53-70.
103
despotismo que às vezes se encolhia imponente e lacrimoso” (RAMOS, 1995: p.
26). No capítulo “Nuvens” da mesma obra, a palavra se refere ao excesso de chuva
que talvez chegasse:
A vazante das abóboras, por exemplo, ficava longe. Sozinho, não me seria
possível atingi-la. Dez ou vinte aboboreiras na terra de aluvião. Amaro havia
dito que uma bastava. Se o inverno viesse, aquele despotismo seria
estrago; chegando a seca, não se colheria um fruto, ainda que enterrassem
na lama todas as sementes. (idem, p.12)
Em Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos questionava, da prisão, se as
prisioneiras seriam realmente levadas para terras alemãs e queria entender o porquê
delas serem entregues às mãos dos nazistas. Nessa passagem de Memórias do
cárcere, Graciliano utiliza a palavra “despotismo” no sentido mais usual fora do
Nordeste:
Mas porque, na horrível ignomínia, haviam dado preferência a duas
criaturas débeis? Elisa Berger, presa, era tão inofensiva quanto o marido,
preso também. [...] Olga Prestes, casada com brasileiro, estava grávida.
Teria filho entre inimigos, numa cadeia. Ou talvez morresse antes do parto.
A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchiame de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à
ditadura ignóbil. (RAMOS, 1954: p.113-v.4)
Outras características no modo de Alexandre contar, e mesmo do autor
escolher contar suas histórias utilizando um contador de causos, acabam nos dando
mais sinais da presença da cultura popular em seu livro. Na época em que as
histórias foram escritas – no final da década de 30 do século passado (com exceção
de “O missionário” que foi escrita em 1952) – o rádio ainda não era muito presente
no cotidiano dos nordestinos, principalmente entre os mais pobres. A eletricidade só
havia chegado a poucas casas, e mesmo assim nos grandes centros ou nas
fazendas dos grandes latifundiários, o que em nenhum dos casos era o de
Alexandre e Cesária. Desse jeito, facilitava-se a manutenção da reunião de
familiares ou amigos para ouvirem histórias. Quando havia alguém alfabetizado na
família, esse poderia ser o leitor de histórias escritas, e quando não havia esse
elemento, as reuniões se davam com histórias orais.
40
Só a partir da popularização
do rádio, essas reuniões ficaram mais raras, pois a família passou a se reunir em
torno do rádio, em função de sua novidade, para ouvir notícias, músicas, histórias, e
até anúncios comerciais e os preços dos produtos. Com a introdução dos aparelhos
40
Sobre esse assunto, tivemos o aporte do subitem “O Nordeste como ambiente sociocultural” do
livro Literatura popular em verso – Tomo I, organizado por Manoel Cavalcante Proença, pp. 13-16.
104
menores, houve uma dispersão das reuniões de família, pois os membros passaram
a ter mais opções de encontro.
Além
de
termos
um
narrador
de
histórias
orais,
temos
descritas
características do ato de narrar explorado e destacado no livro. Por exemplo, temos
a importância do gestual para aumentar a capacidade de dizer pela ação do
narrador Alexandre. Alexandre “falava cuspindo a gente, espumando como um sapocururu” (RAMOS, 2007: p. 9) Alexandre costumava contar suas histórias
“escachando-se na rede” e, para finalizar a história de sua primeira aventura, ele
“levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre
Gaudêncio, falando alto, gesticulando”. (idem: p. 34) Esse gestual faz com que a
criatividade do narrador das histórias seja exercitada, fazendo com que ele entre em
sintonia com sua audiência, que reage, tal qual ocorre nas apresentações das feiras
nordestinas, onde populares interagem com os artistas.
Essas e outras marcas são características da literatura oral, e popular, e são
incorporadas à literatura escrita, e popular, de Graciliano Ramos. Essa interação
entre contador e ouvintes é um dos códigos do sistema semiótico presente na
literatura oral, o chamado código cinésico, onde movimentos corporais do contador
podem ser acompanhados ou não por seus ouvintes. Desse código, podemos
exemplificar com essa passagem da “Primeira Aventura de Alexandre”: “A
benzedeira de quebranto não deu palpite, e Alexandre mentalmente pulou nas
costas do animal:” (ibid: p. 16). Outro exemplo é encontrado em “O olho torto de
Alexandre”: “Alexandre bocejou, estirou os braços e esperou a aprovação dos
ouvintes. Cesária balançou a cabeça, Das Dores bateu palmas [...]” (ibid: p. 25).
Também temos outro código da literatura oral mostrado em algumas das histórias, o
musical, mostrando que as histórias podem ser contadas ou acompanhadas de
música. Anteriormente já falamos sobre o Seu Libório, o cantador de emboladas,
assim como passagens em que esse aspecto é mostrado. Outro código presente na
literatura oral, e marcado no livro, é o paralinguístico, com fatores vocais que
importam na emissão das histórias, tais como a entoação e qualidade da voz de
Alexandre, riso e outras reações de seus amigos. Desse último código, podemos
citar essa passagem de “O olho torto de Alexandre”: “[...] e o cego preto Firmino
desculpou-se rosnando.” (ibid: p. 22). E ainda sobre o código paralinguístico, a
última história, “A doença de Alexandre”, outros exemplos estão presentes: “- Sei
105
não, Seu Firmino, respondeu mole o dono da casa.” (ibid: p. 104); “- Esteja quieto,
Seu Alexandre, murmurou o negro.” (Ibid: p.104.)
106
Capítulo 4
As narrativas de Alexandre: suas características e estratégias
de convencimento
Em todos os contos de Histórias de Alexandre, Alexandre apresenta uma
postura na qual ele se indigna por alguém duvidar de sua palavra. Nessa
indignação, Alexandre em geral coloca um poder de convencimento que é
característico dos narradores tradicionais, porém com uma característica própria,
pois se irrita e monta estratégias para que a audiência, em especial o cego Firmino,
acredite no fato narrado. Mas o cego mantém sua postura.
Alexandre indignou-se, engasgou-se, e quando tomou fôlego, desejou
torcer o pescoço do negro:
- Seu Firmino, eu moro nesta ribeira há um bando de anos, todo o mundo
me conhece, e nunca ninguém pôs em dúvida a minha palavra.
- Não se aperreie não, Seu Alexandre. É que há umas novidades na
conversa. A moita de espinho apareceu agora. (RAMOS, 2007: op. cit., p.
20)
E não foi somente dessa vez que o cego interpelou Alexandre ao notar algo
que não chegava bem a seus ouvidos. Em “A história de um bode”, ele interrompe
Alexandre quando percebe que a história não tinha sido totalmente costurada, e
como sempre, Alexandre se irrita com a interrupção:
Nesse ponto o cego preto Firmino fez uma pergunta:
- O bode tinha descido com o senhor ou tinha ficado na ribanceira?
- Não me interrompa, Seu Firmino, resmungou Alexandre. Assim a gente
não pode contar. (idem: p. 48)
Em “O estribo de prata” ocorre o mesmo:
107
– Dois metros, Seu Alexandre? Inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja
muito.
- Espere, Seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o
senhor ou fui eu?
- Foi o senhor, confessou o negro.
- Então escute. O senhor, que não vê, quer enxergar mais que os que têm
vista. Assim é difícil a gente se entender, Seu Firmino. Ouça calado, pelo
amor de Deus. Se achar falha na história, fale depois e me xingue de
potoqueiro.
- Perdoe, rosnou o preto. É que eu gosto de saber as coisas por miúdo.
(RAMOS, 2007: p. 58-59)
Ao perceber a postura do cego, Alexandre passou a se antecipar a ele e
explicava sempre que ele via que algo poderia ser alvo de perguntas. Em “A História
de um Bode”, temos essa passagem que exemplifica essa postura de Alexandre:
“Para Seu Firmino é preciso que a gente diga tudo, palavra por palavra. Se eu não
escorresse tantas miudezas, talvez Seu Firmino pensasse que eu tinha viajado com
um pé no estribo e outro no chão.” (idem: p. 49). O mesmo ocorre em “A safra de
tatus”: “Seu Firmino esta aí fala não fala, com a pergunta na boca, não é Seu
Firmino? Tenha paciência e escute o resto. [...] Estarei errado, seu Firmino? Pode
ser que esteja, mas parece que foi o que se deu.” (ibid: pp. 74-75). Essa última
situação é importante, pois foi a única em que o narrador dos causos dá a entender
de que possa ter se enganado em relação a algo contado e/ou teorizado.
Em todas as vezes em que o cego desconfia de algo, Alexandre usa o seu
citado poder de convencimento, por vezes autoritário e até desaforado, e ao final de
tudo, o cego acaba dando razão ao major. Podemos imaginar que essa atitude final
do cego seja por respeito à posição hierárquica que Alexandre tinha, principalmente
por ele ser o narrador dos casos, mas podemos supor também que ele agisse assim
também por querer ouvir mais histórias. De qualquer jeito, Alexandre não deixa de
exercer seu poder de persuasão, seja de forma mais difícil, quando trata com
Firmino, ou mais fácil, quando o alvo é um dos outros convidados, como Seu Libório,
que dessa vez confirma seu convencimento: “Essa história está muito bem
amarrada. E a palavra de Seu Alexandre é um evangelho”. (ibid: p. 41)
Em mais uma das interrupções do preto cego Firmino, em “A espingarda de
Alexandre”, percebemos não somente a irritação de Alexandre, mas agora a
participação decisiva, e salvadora para o major, de Cesária, que o socorre ao
perceber que o marido não conseguia explicar o que acabara de contar:
108
- Que está dizendo, Seu Alexandre? Exclamou o cego. O senhor garante
que o veado tinha um caroço na cabeça, outro no pé?
- Que pergunta, Seu Firmino! Pois se eu tirei o couro dele e mandei fazer
aquele gibão que está ali dentro, pendurado no torno!
- Mas Seu Alexandre, insistiu o negro, o senhor não disse que a espingarda
junta o chumbo? Se a espingarda junta o chumbo, como é que os dois
caroços estavam tão separados? Creio que houve engano.
Alexandre baixou os olhos, tirou do aió um rolo de fumo e palha de milho,
desembainhou a faca de ponta e fabrIcou lentamente um cigarro,
procurando a resposta, que não veio.
- Seu Firmino, o senhor duvida da minha palavra?
- Deus me livre, Seu Alexandre. Quem é que duvida? Estou só perguntando.
- E pergunta muito bem, gritou Cesária, salvando o marido. Seu Firmino
gosta de explicações. Está certo, cada qual como Deus o fez. Quer saber
por que o chumbo se espalhou? Não se espalhou não, Seu Firmino: o
veado estava coçando a orelha com o pé. (RAMOS, 2007: p. 106-107)
Cesária, possivelmente pelo papel de esposa, de ser solidária ao marido em
qualquer situação, acaba cumprindo um papel de testemunha das aventuras do
marido, e muitas das vezes, como na passagem acima, da história sobre a
espingarda de Alexandre, serve como a última prova da verossimilhança da história.
E não somente as falas de Cesária servem para dar prova de que Alexandre contava
histórias verdadeiras, mas também sua própria atitude poderia servir para tal fim. E
como as histórias eram contadas diversas vezes, com Cesária sabendo tudo o que
esperar do marido, é pertinente afirmar que a atuação do casal apontava para um
enredo em que ambos sabiam o papel a cumprir. Por exemplo, em “O estribo de
prata”, em certo momento, Alexandre pede a Cesária que procurasse o chocalho da
cascavel que ele havia machucado com o salto de sua bota. Cesária obedece, sai e,
convenientemente, ao voltar diz que não encontrou o chocalho, e diz que ele poderia
estar escondido em algum buraco:
Vá buscar o cachimbo, Cesária. E procure o chocalho da cascavel, que
você guardou.
Cesária levantou-se da esteira e desapareceu. [...] Passados alguns
minutos, Cesária voltou com uma garrafa e uma xícara.
- Preparei o cachimbo. Aguardente não falta, e as abelhas trabalham de
graça. Mas o chocalho sumiu-se. Estava no girau, misturado com balaios e
combucos: provavelmente anda escondido num buraco de ratos. (RAMOS,
2007: p. 60).
Assim, por diversas vezes, Alexandre chama o testemunho de Cesária como
já previsse alguma contestação que pudesse aparecer ao que contara. Na “História
109
de um bode” temos um claro exemplo disso: “[...] Montei-me de novo e uma hora
depois estava no pátio da fazenda, conversando com os vaqueiros. Cesária pode
confirmar o que eu digo. [...] - Perfeitamente, Alexandre, exclamou Cesária. Conte o
resto.” (idem: p. 50).
Muitas vezes, além de solicitar a confirmação de sua esposa, Alexandre se
utilizava de outra estratégia para escapar de qualquer dúvida sobre a veracidade de
suas aventuras, que era a de fazer desaparecer os participantes das histórias, só
sobrando para dar testemunho ele próprio e Cesária. Desse jeito, a onça da primeira
aventura de Alexandre definha por desgosto de não fazer temer mais ninguém até
morrer no mesmo chiqueiro das cabras e do bode velho:
Firmino interrompeu-o:
- E a onça? Que fim levou a onça que ficou presa no mourão, Seu
Alexandre?
Alexandre enxugou a testa suada na varanda da rede e explicou-se:
- É verdade, Seu Firmino, falta a onça. Ia-me esquecendo dela. [...] A onça
misturou-se com o gado, no curral, mas começou a entristecer e nunca mais
fez ação. [...] Por fim ninguém tinha medo dela. [...] Viveu pouco. Finou-se
devagarinho, no chiqueiro das cabras, junto do bode velho, que fez boa
camaradagem com a infeliz. Tive pena, Seu Firmino, e mandei curtir o couro
dela, que meu irmão tenente levou quando entrou na polícia. Perguntem a
Cesária. (ibid: p.40-1)
Continuando a série de desaparecimento de personagens de suas histórias,
temos o bode que, após questionamento, como sempre, de Seu Firmino, teve seu
paradeiro explicado, por Alexandre com a contumaz impaciência com o cego: “Ora
essa! rosnou Alexandre. O bode se finou como todos os viventes. Se fosse vivo,
tinha trinta anos, e nunca houve bode que vivesse tanto. Morreu, sim senhor.” (ibid:
p. 50). Ainda tivemos o papagaio que morreu ao final, não antes de dar lição de
moral em Alexandre por esquecer-se dele sem água e alimento dentro de uma
sacola. Temos ainda o já citado chocalho da cobra que sumiu e o estribo de prata
que se desinchou e virou um estribo comum, e a cobra que foi confundida com uma
bota também fugiu. Mesmo fim teve a guariba que fizera traquinagens com as
roupas de Alexandre. A brava cachorra Moqueca e seus filhotes igualmente bravos,
tiveram os seus desaparecimentos anunciados, logo quando o cego Firmino havia
pedido um dos filhotes para servir como guia.
110
De tanto que Alexandre contava suas histórias, citando muitas vezes alguns
dos elementos de uma história em outra, e levando a máxima popular de que “quem
conta um conto aumenta um ponto”, era previsível que ele não raramente mudasse
os dados de uma história para outra. Fato pontual nesse sentido é o caso do
papagaio da história “O papagaio falador”, que aparecia custando 554.700 réis
(RAMOS, 2007: p. 54). Em “O estribo de prata”, mestre Gaudêncio confirma o valor
aproximado, “por quinhentos e tantos mil réis”, e não é corrigido por Alexandre
(idem: p.57). Na “História de uma bota” ele aparece como tendo custado 625.300
réis, justamente quando Seu Firmino havia dito que ouvira Alexandre contar que ele
valia 1 conto de réis (ibid: p. 78). Na história “Um missionário” ele recebe dois
valores, 622.500 réis (p. 85) e 500.000 réis (ibid: p. 88). Notamos que em todas as
vezes em que os valores eram citados, Alexandre falava de forma categórica,
tentando não dar margem a desconfianças. “Detesto exageros. Guardo as minhas
conversas na memória, tudo direito. [...] por que haveria de aumentar o preço dele?”
(ibid. pp. 78-79). A afirmação de que ele não era dado a exageros foi repetida outras
vezes, como no conto do marquesão de jaqueira, pois ele queria deixar claro que as
versões em folheto contando sobre o móvel que acabou gerando 4 grandes
jaqueiras com muitos frutos não condizia com a verdade.
Assim como qualquer contador de histórias, Alexandre tem a liberdade de
proceder mudanças em suas narrativas. Desse jeito, ele realiza ampliações,
substituições ou inclusão de elementos, mudanças de valores sejam monetários ou
simplesmente referentes ao tamanho de objetos ou animais, geralmente para mais.
E isso ele pode realizar tanto se a história é contada pela primeira vez como quando
ela é recontada por ele ou quando ela é apropriada por ele (o que a obra mostra
muitos indícios) e assim ganhando uma feição própria.
Voltando a abordar as questões do exagero, das mentiras e “invencionices”,
percebemos que elas são constantes nas histórias de Alexandre. O efeito que surte
no leitor é de grande comicidade, de forma inteligente, inclusive usando tipos
comuns da região nordestina, contudo sem a utilização de estereótipos forçados
para os personagens. O enredo inicial da obra também aponta para algo comum, um
casal que, devido a intempéries físicas e sociais da região sertaneja, vive numa
visível decadência financeira e que recebe regularmente, como muitas outras
famílias nordestinas do interior, amigos da região para contar histórias, reuniões
111
essas regadas a cantoria e bebidas locais. Mas que artifícios o autor usa para
causar esse efeito?
Falemos inicialmente sobre o efeito causado, no caso o riso, que surge no
leitor. O historiador russo da comédia cinematográfica R. Iurêniev (1964, apud
PROPP, 1992: pp. 27-28) escreveu que
o riso pode ser alegre ou triste, bom e indignado, inteligente e tolo, soberbo
e cordial, indulgente e insinuante, depreciativo e tímido, amigável e hostil,
irônico e sincero, sarcástico e ingênuo, terno e grosseiro, significativo e
gratuito, triunfante e justificativo, despudorado e embaraçado. [...] divertido,
melancólico, nervoso, histérico, gozador, fisiológico, animalesco. Pode ser
até um riso tétrico!.
Pela leitura das histórias contadas pelo major Alexandre, notamos que o riso
causado não é depreciativo, nem hostil, gratuito ou grosseiro. Ao contrário, o autor
não trata Alexandre de forma que seja ridicularizado. Para Propp, o riso ocorre em
presença de um objeto ridículo e de um sujeito que ri, o homem. O sujeito que ri é o
leitor, e na verdade o objeto ridículo são as situações narradas pelo próprio
Alexandre. Ainda segundo Propp (1992, p. 37), a natureza que nos cerca não pode
ser ridícula. “Não existem florestas, campos, montanhas, mares ou flores, ervas
gramíneas etc., que sejam ridículos.” Porém, a forma como Alexandre coloca a
natureza, como no conto do marquesão de jaqueira ou naquele sobre a safra dos
tatus, ou o do estribo de prata, pode nos trazer o riso. É importante ressaltar que não
é somente o fato dos pés do marquesão terem se transformado em quatro jaqueiras
frondosas, mas principalmente pela forma como o fato é contado, querendo fazer
crer a seus ouvintes que o fantástico acontecimento ocorrera e, mais ainda, que não
gostava que outros inventassem outros fatos sobre o ocorrido, tudo porque ele,
Alexandre, “detestava exageros”. O riso ocorre em função do absurdo e o irreal de
cada situação. Tchernichévski41 (1863, apud PROPP, 1992, op. cit., p. 37) tem
posição semelhante a de Propp, dizendo que “na natureza inorgânica e vegetal não
há lugar para o cômico” , deixando claro que não falava da natureza em geral, ou
seja, ele não citava o reino animal. Ele explicava que os animais podiam ser
parecidos com os homens. “Nós rimos dos animais, porque eles nos lembram os
homens e seus movimentos”. Essa questão parece se adequar a algumas das
41
Nikolai Gavrílovitch Tchernichévski (1828-1889). Escritor populista russo, colaborador da revista O
contemporâneo, famoso por seu romance Que fazer?, escrito na prisão em 1863.
112
histórias do major Alexandre, já que por vezes alguns animais de suas histórias
aparecem com características humanas, como a guariba e os papagaios.
Propp também apresenta no mesmo estudo sobre comicidade e riso um
capítulo no qual ele trata sobre a natureza física do homem. Nele, ele mostra que na
literatura, no teatro, nas esculturas, alguns aspectos físicos que inicialmente podem
parecer grotescos e que poderiam dar a impressão de ridicularizar o indivíduo
mostrado, acabam não tendo esse efeito, simplesmente porque o modo como é
tratada a figura não tem essa intenção. Em Histórias de Alexandre, nós temos o
major com um olho torto. Em nenhum momento esse olho torto é usado para trazer o
riso fácil do leitor, assim como o cego Firmino não é tratado de forma pejorativa. Em
outra obra, um outro autor poderia apresentar um personagem cego que tropeça nas
coisas, derrubando objetos, sendo enganado por indivíduos que se aproveitariam do
fato dele não enxergar; o mesmo autor poderia também utilizar um personagem
vesgo, que causasse confusão nas pessoas que olhassem para ele, que visse duas
imagens e que a toda hora provocasse confusões em função de seu aspecto físico.
Já Graciliano não criou um personagem cego e outro de olho torto para serem objeto
de escárnio. Porém, esse fato não impede que os dois protagonizem situações de
riso, justamente pelos seus aspectos físicos. Como veremos mais adiante, o olho
torto de Alexandre era o olho bom, capaz de enxergar a uma longa distância,
permitindo que ele tivesse uma mira de dar inveja a qualquer campeão de tiro.
Outras questões acerca desse fato também serão mostradas quando formos tratar
sobre o uso do exagero em algumas das histórias. Sobre o cego Firmino, a
curiosidade reside no fato marcante de que ele era o único dos convivas das
contações de histórias que “enxergava” as incongruências narrativas de Alexandre.
Outro artifício usado, e talvez não percebido por Alexandre, é o do exagero.
Alguns teóricos trataram dessa questão. Z. Podskálski (1954, apud PROPP, p. 88)
afirma que “a questão do exagero cômico é a questão-chave para caracterizar tanto
as representações da imagem cômica quanto a situação cômica.” Iu. Bóriev (1957,
apud PROPP, 1992, p. 88) segue uma linha semelhante, afirmando que “na sátira, o
exagero e a ênfase constituem a manifestação de uma lei mais geral: a deformação
tendenciosa do material da vida, que serve para revelar o vício mais essencial entre
os fenômenos dignos de ridicularização satírica”. E N. Hartmann (1958, apud
PROPP, p. 88) afirma que “a comicidade tem sempre a ver com o exagero”. De
113
acordo com Propp, todas essas afirmações citadas anteriormente são corretas, mas
não atendem a todos os pressupostos acerca do exagero, pois o exagero é cômico
apenas quando desnuda um defeito. Não havendo um defeito a ser desnudado, o
exagero deixa de ser enquadrado no domínio da comicidade. Isso é demonstrado
em Histórias de Alexandre em várias situações em que o exagero não é cômico pelo
grau do exagero, mas sim por toda conjuntura que o envolve. Há seu uso para
Alexandre exaltar mais ainda os seus feitos, por exemplo. Como já mencionamos, na
sua primeira aventura da coletânea, Alexandre conta que dominou uma onça tão
grande como uma égua, e o fato de que ele a domina e a domestica amplia o
tamanho de sua façanha, mas também passa pela invenção de uma onça ser
montada por um homem, que mostra ser mais bravo e forte que ela, que ainda se
sente humilhada por ser deixada como um animal doméstico, dentro de uma cerca e
em meio às cabras.
Outro exagero no tamanho de animais para ampliar uma façanha de
Alexandre, está na história de um bode, que além de ser do tamanho de um cavalo,
cavalga como um e participa de competições próprias de cavalos. A facécia também
passa pela extensão de tempo com que o bode corria com Alexandre no lombo atrás
da novilha. Diante de mais essa façanha, não satisfeito, Alexandre ainda incrementa
sua história com o aparecimento de outra onça que ataca a novilha capturada mas
que é morta por ele usando o seu facão num ato de extrema bravura.
Em outra história em que os feitos de Alexandre são expandidos, mostrando
seus dotes de caçador, com uma visão extremamente ampla, e justamente com o
auxílio de seu olho torto, Alexandre consegue enxergar e acertar animais a uma
distância que claramente parece ser superdimensionada por ele. Mas como qualquer
bom caçador também consegue acertar animais que estejam bem distantes, ele
procura rechear sua história com tons que o tornem melhor ainda, sempre tentando
mostrar a seus ouvintes uma suposta humildade e reforçando que não gosta de
exageros. Desse jeito, dois pássaros, em altitudes diferentes, são atingidos por um
único tiro da espingarda lazarina do major Alexandre. Não satisfeito com o efeito da
façanha nos amigos da roda de histórias, Alexandre faz com que um veado seja
atingido também por um único tiro em duas partes bastante distantes de seu corpo.
Mas aí, quando ele mostrava que perdia a noção de sua própria lógica, que permitia
que ele conseguisse se safar das enrascadas narrativas em que ele se metia,
114
aparece a Cesária e lhe salva, com uma saída simples, porém totalmente
inverossímil, mas que no universo dos amigos de Alexandre acabou sendo aceita,
mas que desnuda, para o leitor, o exagero como mentira. Dessa forma, Cesária faz
com que o veado seja capaz de elevar sua pata e coçar sua orelha e, por esse
motivo, ser atingida pela única bala da espingarda de Alexandre, que além disso
encontrava-se muito distante do animal. E mostrando o exagero, os ouvintes se
envolviam no exagero de Alexandre e calcularam a distância para o animal de cerca
de 17 léguas, o que resulta aproximadamente em 75 quilômetros.
Para tecer os fios narrativos de suas histórias, Alexandre não tinha
compromisso de contar um episódio vivido por ele. Mas era claro que havia uma
preocupação de sua parte de ter a atenção de seus amigos e, por vezes, carecia da
atenção de outros. Tal fato é mostrado num momento em que ele, para pensar no
prosseguimento da narrativa e, com o olho bom, no seu caso, o torto, olhava para o
horizonte do sertão procurando por outros ouvintes que nunca chegavam e para isso
precisava de um cuidado para unir os elos que surgiam. Alexandre queria ter
atenção, gostava de ser ouvido, mas não de ser confrontado. Quando Seu Firmino
levantava alguma questão que o incomodava, logo se irritava, fazia birra e até
prometia parar a história, esperando claramente um pronto pedido de desculpas do
visitante. Muitas das vezes, Alexandre parecia encontrar-se em um labirinto, e
pensava em qual saída ele tinha que seguir. Ainda usando a metáfora do labirinto,
podemos pensar que o nosso herói do interior nordestino procurava os fios deixados
por sua Ariadne, ali chamada de Cesária, para encontrar a saída para prosseguir
sua história. E a Ariadne do sertão prontamente estendia o fio para o herói.
Na tarefa de desenrolar os fios do novelo narrativo, Alexandre, não somente
na questão de exagerar tamanhos, números e fatos, fazia uso de invencionices, ou
seja, simplesmente mentiras. A forma como ele as usava era bastante engenhosa,
mostrando que ele tinha muita criatividade.
Propp afirma que há dois tipos de
mentira cômica, uma em que o narrador procura enganar quem o ouve, fazendo a
mentira passar por verdade e o segundo que pensa em apenas divertir seu
interlocutor. No caso de Alexandre, podemos afirmar que ele transita pelos dois
tipos. De um lado, ele procura enganar sua audiência, por mais inocente que ela
seja, sem intenção de algum mal, por outro, ele quer divertir seus amigos, que
sempre o procuram para ouvir suas histórias. Como no caso do exagero, a mentira
115
não é cômica por si só. Uma pessoa contando uma mentira pode até ser triste. Se
formos analisar a necessidade de Alexandre em contar seus causos como forma de
compensação de sua decadência, a situação poderia nos parecer triste. Porém, ele
mesmo não se deixava cair ao ponto de se entristecer. Ele sempre se colocava
numa posição altiva, e suas mentiras iam sendo construídas de forma espontânea e
instintiva, fazendo uso das histórias populares.
Para Propp (1992, p. 115), “a
mentira enganadora nem sempre é cômica. Para sê-lo, tal como os outros vícios
humanos, ela deve ser de pequena monta e não levar a consequências trágicas.
Além disso, ela precisa ser desmascarada.”.. Alexandre não é desmascarado diante
de sua plateia totalmente, mas o cego Firmino sempre deixa uma suspeita de que
consegue captar todas as balelas contadas pelo major. Porém, os outros ouvintes
parecem apenas se divertir (o cego também se diverte, que fique bem claro),
alegram-se. Alexandre também sente prazer naqueles momentos, por conseguir
passar suas histórias adiante e ter a máxima atenção de todos. Quando Seu Firmino
interpela Alexandre, cria-se um clima cômico não somente pela possibilidade do
desmascaramento, mas principalmente pela reação do major e seu exercício de
convencimento através de outra mentira.
Para convencer Seu Firmino e os outros amigos, Alexandre passava por cima
de qualquer impeditivo racional, criando assim uma lógica própria, que dava mais
graça a suas facécias. Não havia para ele uma fronteira entre o real e o fantástico,
tudo era real e possível. O seu olho poderia ficar preso a um espinheiro e ser
recolocado apenas limpando-o na camisa para retirar a poeira do sertão.
Questionamento não houve, provavelmente porque a platéia achava aquela solução
bem plausível. Tão plausível quanto, na falta de um olho, a pessoa enxergar só
metade das pessoas, como se um olho fosse responsável pela visão da metade do
campo visual em frente a ele, e o outro pela outra metade. Desse jeito, Alexandre e
sua platéia realmente acreditavam no que era contado. Alexandre acreditava que
era possível ocorrer. Já a platéia, quando não havia o questionamento do cego
Firmino, acreditava realmente na possibilidade de ocorrência de cada fato citado.
Para os amigos do casal a narrativa ganhava mais ares de verdade pelo alto grau de
respeito que o major Alexandre tinha naquelas paragens. Para o major, era mais
fácil ainda porque não havia preocupação alguma em contar a verdade porque não
fora um episódio vivido por ele. A fronteira de verdade/mentira, para Alexandre, só
116
existia na razão de que não tinha tido aquela experiência que ele contava, porque a
sua lógica dava a entender que era plausível de acontecer. Usando a mesma lógica
alexandrina, se um olho é responsável só por uma metade por ele estar virado para
uma só direção, então também seria possível de que o olho, se estivesse virado
para trás, enxergasse as entranhas de sua cabeça. O crédito a essa passagem é
tanto que, até o cego Seu Firmino, curiosamente o único que enxergava os exageros
do major, talvez por ser cego e por não saber como funciona o olhar, não questionou
nada na história do olho perdido e recolocado no lugar. Sem conhecimentos
médicos e anatômicos que lhes mostrassem a impossibilidade do narrado, sobrava à
platéia o conhecimento mais próximo a eles, identificado com a autoridade
reconhecida do major, que lhes dizia que era possível, não havendo lugar para
questionamentos.
A mesma linha lógica é usada nas duas histórias envolvendo papagaios, pois
se um papagaio é capaz de falar, eles não entenderiam que o animal apenas repete
e imita o som que ouve e, mais ainda, que o mesmo não está habilitado a raciocinar,
emitir opiniões e até a filosofar. Desse jeito, também não haveria razão para
reclamarem da veracidade da história em que um papagaio oferece água a um
visitante e reclama do homem que o comprara de não tê-lo alimentado. Da mesma
forma, também não há justificativa para duvidarem da história do outro papagaio
que, de tanto ouvir advogados e beatas, sabe defender presos e também fazer todo
o tipo de rezas, culminando com a decisão de tornar-se um missionário com a tarefa
de ensinar outros papagaios a rezarem e seguirem sua religião.
Numa linha que passa tangenciando parte da lógica das histórias dos
papagaios, há a história da guariba, que repete um mote bastante usado nas
histórias populares, de dar características humanas a animais e, no caso da guariba,
até tentando imitar o ser humano com suas roupas. Essa história fica diferente da
dos papagaios no sentido de que uma guariba não consegue repetir sons de fala,
como fazem os papagaios, mas ao vestir as roupas do major Alexandre, para tentar
imitá-lo, e encontrando-se encurralada, acaba também falando e faz uma proposta
de acordo com Alexandre de não matá-la. Nessa história, o major reconhece o
extraordinário do fato narrado e diz que ficara assombrado com o ocorrido. Desse
jeito, ele ficou livre para contar a mentira, pois mostrara que também não acreditaria
até se deparar com o bicho falando, julgando que o fato fosse devido a uma obra do
117
diabo, o que no interior é assunto tratado com muito cuidado, sendo esses casos de
artes do demo objeto de inúmeros livretos que contam histórias envolvendo o poder
do diabo. Nesse episódio, Alexandre solicita o depoimento de Mestre Gaudêncio por
ser ele uma autoridade no assunto nas redondezas.
Seguindo ainda as facécias envolvendo animais, Alexandre conta a história
dos tatus que ficam presos na raiz de toda a plantação de mandiocas. Nessa história
não há tatu que fale como humano, que reze nem discuta com humanos. O
primordial na narrativa que traz o riso ao leitor está no fato do exagero, do enorme
número de tatus que aparecem concorrendo com a teoria proposta por Alexandre de
que um dos tatus teria descoberto a plantação e daí conta aos outros que
resolveram invadir o local. O fato culminante que encaixa o exagero com a teoria de
Alexandre acontece quando todos os tatus ficam presos às raízes.
Desse jeito, ao lermos as histórias do major Alexandre, notamos que o efeito
cômico de suas narrativas, com exageros, invenções, incongruências, detectadas ou
não pelo cego Firmino, seguia paralelo ao poder persuasivo do contador. Suas
histórias apresentavam uma lógica própria que, junto com seus dotes inventivos e
criativos de um narrador oral, era capaz de, no final de cada história, convencer seus
ouvintes.
118
Capítulo 5
O processo narrativo de Histórias de Alexandre
E é assim, através da sua lógica, que carrega conhecimentos alexandrinos de
medicina e anatomia (“O olho torto”), física e pressão d‟água (no caso da canoa
furada), geografia (também no caso da canoa furada, quando fala sobre a
grandiosidade do rio São Francisco), botânica (do marquesão da jaqueira),
psicologia do comportamento animal (a safra dos tatus, papagaio falador e o
papagaio missionário) e até um misto de zoologia com conhecimentos do metal
argênteo (o estribo de prata), dentre outros, com que Alexandre tece suas deliciosas
histórias, que atraem seus amigos na casa velha no sertão alagoano, mas que
também o distraem, ganhando tons de um herói que gostaria de ser. Esse herói era
igual a outros heróis, que eram capazes de enormes façanhas, a respeito dos quais
Alexandre sempre ouvia nas feiras e nas longas viagens que fazia desde criança,
em repentes, emboladas, cordéis e mesmo em outras rodas como a que ele passou
a protagonizar quase todas as noites. E, assim, eles foram ganhando vida em sua
mente, recebendo contornos próprios, desenhados e retocados com seu pincel
bastante criativo.
Alexandre se aproxima do narrador de Walter Benjamin, pois ele gosta de não
só contar suas histórias, mas fazer delas experiências próprias. O narrador de
Benjamin é o narrador anônimo, o contador de histórias, o camponês, o comerciante,
ou seja, seu narrador é o homem comum. Assim, Alexandre assume a postura de
um narrador benjaminiano ao se reunir com seus amigos para contar seus causos.
Sua matéria prima da narrativa é a experiência e sua fala. Para Benjamin, a narrativa
é da dimensão oral, como mostram seus gêneros precedentes, como a epopeia
grega, a historiografia clássica e a crônica medieval.
119
Para Benjamin, cada vez mais as pessoas comunicam menos suas
experiências, pois elas estariam deixando de ser comunicáveis. Todavia, o raciocínio
de Benjamin se faz num processo no qual aquilo que se esgota enche-se de beleza.
Temos, pois, no jogo daquele raciocínio uma “tensão paradoxal entre o
reconhecimento lúcido do fim das formas seculares de transmissão e de
comunicação, do fim da narração em particular, e a afirmação enfática da
necessidade política e ética da rememoração”. (Gagnebin, 2013) Por isso, podemos
dizer que, essas reuniões entre Alexandre, Cesária e seus amigos, além de serem
uma forma de manterem vivas as histórias e a cultura, conservavam também o
próprio ato em si de se reunirem para contar e ouvir histórias, que também faz parte
da cultura popular. Ele também mantém vivo o próprio narrador. Percebemos, tanto
entre Alexandre e Cesária, como entre os convidados, uma atitude que ultrapassa o
prazer de estarem naqueles serões. Como as histórias e as reuniões naquela casa
pobre são representativas para a cultura popular nordestina, a atitude de todos os
presentes representava a sustentação da cultura local. Porém, Benjamin não
somente lamenta o desaparecimento da narrativa oral. Ele imagina que com a
inevitável chegada da modernidade, seria preciso uma forma que soubesse interagir
com o novo sem enterrar o passado, ou seja, uma narrativa que soubesse
rememorar e recontar o passado sem, no entanto, adotar uma forma considerada
obsoleta de narração.
Benjamin (2008, p.215) agrega o fato de existir a narrativa associada ao
trabalho artesanal e coletivo e à sapiência e vivência do narrador e do conhecimento
coletivo. A platéia de Alexandre, formada por elementos representativos da cultura
popular, influenciam no processo de continuidade das narrativas, por conta de toda
interatividade que dá poder ao narrador, e até mesmo com os apartes do cego
Firmino, de um excelente elemento transmissor da tradição oral. Benjamin defende
que, com a chegada da modernidade, devido às transformações sofridas pelas
forças produtivas, desaparecem as condições propícias para que a narrativa oral se
mantivesse como um discurso vivo, perdendo assim a qualidade especial de
sabedoria compartilhada.
Voltamos a lembrar que na época em que as histórias foram escritas, o rádio
ainda não tinha tanta força, principalmente num meio tão pobre e, assim, as reuniões
para as contações de histórias tinham grande importância. A chegada dos meios
120
modernos de comunicação teve então grande influência no declínio da transmissão
oral e assim dando origem a novas formas de comunicação, inconciliáveis, não
somente com os serões de Alexandre, como também com outras tradições
populares que envolvessem a oralidade.
Há duas coisas a serem descobertas pelo leitor: a primeira, mais lógica, é
sobre a veracidade das histórias. A segunda é se as histórias foram contadas a
Alexandre, ou ele as ouviu em suas andanças, ou ainda se ocorreram com outra
pessoa. Mas ao contar esses causos, Alexandre assume uma postura do narrador
tradicional de que trata Benjamin, agindo como um sábio, que pode recorrer não só
a sua própria experiência, mas também à experiência alheia, ao transportar essa
experiência para as histórias que ele conta para seus amigos.
Na maior parte do livro, o narrador extradiegético pouco participa das
narrativas, ficando praticamente quase a integridade dos contos por conta da fala de
Seu Alexandre, segundo narrador, e, em muito menor parte, e, dependendo de sua
anuência, ou necessidade, havia também a interferência de Dona Cesária. O
narrador extradiegético, logo depois de apresentar o casal, sai de cena e deixa o
palco para Alexandre, que fica com todo o foco. Giménez aponta essa passagem
como a do herói que “salta da fábula para nos contar ele próprio as suas façanhas”.
(GIMÉNEZ, 2004, p.188) Na história da guariba, Alexandre desenrola toda a
narrativa num só fôlego, sem a interferência de nenhum dos convidados. Essa
narração ininterrupta por parte de Alexandre traz uma marca da oralidade, pois os
contadores de histórias em geral não são interrompidos; eles começam a falar e não
param. E com participação semelhante à de Cesária, havia diálogos com as
participações de mestre Gaudêncio, Seu Libório e, principalmente, Seu Firmino. O
narrador interfere pouco ou quase nada na narrativa, procurando somente contar as
ações de Alexandre, Cesária e seus amigos.
Naquela noite de Lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala
pequena de Alexandre: Seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto
Firmino e Mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordedura de
cobras. Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachavase na esteira cochichando com Cesária. (RAMOS, 2007: op. cit., p. 27)
Restituiu o cachimbo a Cesária e foi sentar-se na rede. Mestre Gaudêncio
curandeiro, Seu Libório cantador, o cego preto Firmino e Das Dores
exigiram a história dos tatus, que saiu deste modo. (idem: p. 72).
Os visitantes acomodaram-se, Das Dores e Cesária vieram da cozinha e
arrumaram-se na esteira. (ibid: p. 77).
121
Curiosamente, em alguns momentos do livro, o narrador conta não só as
ações das pessoas presentes na sala de Alexandre, mas também sobre as emoções
do dono da casa. Essa constatação é interessante, pois o narrador só se mostra
onisciente em relação a Alexandre, e mesmo assim em poucas situações, tornandose testemunha dos pensamentos de Alexandre, principalmente quando ele se
defrontava com uma situação em que o cego preto Seu Firmino questionava alguma
parte de suas histórias. Isso dava uma noção de que, embora o narrador não
coadunasse com as peripécias narrativas das aventuras de Alexandre, de certa
forma havia uma solidariedade a ele, que o entendia. “Alexandre indignou-se,
engasgou-se, e quando tomou fôlego, desejou torcer o pescoço do negro:” (ibid:
p. 35); “Aí Alexandre, magoado com a objeção do negro [...]” (ibid: p. 36). Em uma
situação, no entanto, ele usa um disfarçado discurso indireto que numa leitura
menos atenta poderíamos deduzir que dava sua voz a Alexandre como se
afiançasse suas peripécias, e que realmente Alexandre “detestava exageros”. Mas
na verdade ele apenas representa sua fala de forma diferente. Um segundo caminho
na interpretação dessa técnica nos leva a concluir que o narrador ironizava
Alexandre que sempre afirmava que detestava exageros, quando os fatos
mostravam justamente o contrário. Na mesma passagem, o narrador usa um já claro
discurso indireto para as falas e ações de mestre Gaudêncio e Seu Libório:
Alexandre declarou aos amigos que ia calar-se. Detestava exageros, só
dizia o que se tinha passado, mas como na sala havia quem duvidasse
dele, metia a viola no saco. Mestre Gaudêncio curandeiro e Seu Libório
cantador procuraram com bons modos resolver a questão, juraram que a
palavra de Seu Alexandre era uma escritura, e o cego preto Firmino
desculpou-se [...] (ibid: p. 36).
Na “Apresentação de Alexandre e Cesária”, além de ser o único capítulo do
livro onde o narrador tem participação total, e onde anuncia algumas das histórias
que serão contadas, é onde ele dá as primeiras pistas sobre a “veracidade” das
histórias de Alexandre:
Alexandre tinha realizado ações notáveis e falava bonito, mas guardava
muitas coisas no espírito e sucedia misturá-las. Cesária escutava e
aprovava balançando a cabeça [...] E quando o homem se calava ou algum
ouvinte fazia perguntas inconvenientes, levantava os olhos miúdos por cima
dos óculos e completava a narração. [...] E assim, tudo se combinando,
descobriam casos interessantes que se enfeitavam e pareciam tão
verdadeiros como a espingarda lazarina. [...] Alexandre tinha um olho torto
[...] Alexandre via até demais por aquele olho. Não se lembrava do veado
que estava no monte? [...] Alexandre ficou satisfeito e começou a referir-se
ao olho enviesado com orgulho. O defeito desapareceu, e a história do
122
espinho foi nascendo, como tinham nascido todas as histórias dele, com a
colaboração de Cesária. (RAMOS, 2007: p. 25-26)
A aceitação das narrativas pela platéia das rodas de histórias era facilitada
pelo respeito que a platéia tinha por Alexandre, respeito esse ligado a um certo
status social que o casal tinha em relação a seus amigos, que mostravam ter menos
ainda que o casal em visível processo de decadência. Ao falar sobre a época
pomposa, o narrador Alexandre faz também menção que suas posses não seriam
suficientes para uma vida tão boa, e se assustava com fatos que ocorriam nas
cidades grandes, onde pessoas com mais bens viviam. Assim, ele cita traços sociais
e características das pessoas que tinham mais posses, diferindo das que não
tinham, dando sempre importância maior ao jeito simples. Também mostra que para
se ter prestígio, podia ser necessário estar ao lado dos que detinham o poder,
marcando forte o posicionamento do autor Graciliano que assim se confunde com o
narrador Alexandre, como nessa longa passagem a seguir:
Ganhei uns cobres, mandei fazer roupa no alfaiate, comprei um corte de
pano fino e um frasco de cheiro para Cesária. [...] Aí fiz tenção de vender a
fazenda e os cacarecos, mudar-me, dar boa vida à pobre mulher, que
trabalhava no pesado, ir com ela aos teatros e rodar nos bondes. Refletindo,
afastei do pensamento essas bobagens. Matuto, quando sai do mato, perde
o jeito. [...] Ninguém me conhecia na cidade, cheia como um ovo. A
propósito, sabem que um ovo custa lá cinco tostões? Não me aprumo
42
nessas ruas grandes, onde gente da nossa marca dá topadas no
calçamento liso e os homens passam uns pelos outros calados, como se
não se enxergassem. Nunca vi tanta falta de educação. Vossemecê mora
numa casa dois ou três anos e os vizinhos nem sabem o seu nome. Nos
meus pastos a coisa era diferente. Lá eu tinha prestígio: votava com o
Governo, hospedava o intendente, não pagava imposto e tirava presos da
cadeia, no júri. Vivia de grande. E quando aparecia na feira, o cavalo em
pisada baixa, riscando nas portas, os arreios de prata alumiando, o
comandante do destacamento levava a mão ao boné e me perguntava pela
família. [...] os amigos vão pensar que estou aqui arrotando importância. É
engano, detesto pabulagem. Na capital só viam em mim um sujeito que
vendia gado. Mas se quiserem saber a minha fama no sertão, dêem um
salto à ribeira do Navio e falem no Major Alexandre, [...] todo o bichinho dará
notícia das minhas estrepolias. (RAMOS, 2007: pp. 80-81)
Essa mudança, em relação ao seu nível de vida, não era escondida de seus
amigos pelo casal, mas eles sabiam usar esse fato para mostrar que o seu modo de
vida era bom ao ponto de representar uma justificativa para que eles tivessem o
respeito dos amigos, pois já haviam tido muita opulência. Mas, como já expusemos
42
Em Angústia, Luis da Silva recorrentemente usa essa expressão: “Um passo em falso, topada na
sarjeta, e os dois corpos se chocavam” (RAMOS,2011: p.105); “A gente vai, vem, faz curvas e
ziguezagues, e dá topadas de arrancar as unhas”.(idem, p.113)
123
anteriormente e mais adiante retornaremos ao assunto, essa referência a um modo
de vida com mais riqueza também pode ser mais um fingimento, uma fantasia, tais
quais as histórias contadas por Alexandre, pois não há provas nem testemunhos que
comprovem o fato. A única pessoa que poderia confirmar, além do próprio casal, era
a afilhada do casal, Das Dores, mas mesmo ela não sanciona nem nega os relatos
quando seus padrinhos citam esse antigo estilo de vida. Temos que levar em conta
também que o fato de Das Dores ser afilhada não a transforma obrigatoriamente em
testemunha de todos os passos da vida do casal. Um típico exemplo de citações
dessas possíveis passagens da riqueza para a pobreza está na seguinte passagem:
Meu pai, homem de boa família, possuía fortuna grossa, como não ignoram.
A nossa fazenda ia de ribeira a ribeira, o gado não tinha conta e dinheiro lá
em casa era cama de gato. Não era, Cesária?
-Era, Alexandre, concordou Cesária. Quando os escravos se forraram, foi
um desmantelo, mas ainda sobraram alguns baús com moedas de ouro.
Sumiu-se tudo.
Suspirou e apontou desgostosa a mala de couro cru onde Seu Libório se
sentava:
- Hoje é isto. (RAMOS, 2007: p. 14)
Quando
remontavam à
época
em
que
tinham mais posses,
eles
demonstravam certa tristeza, principalmente por compararem com o modo como
viviam enquanto as histórias eram contadas. Nesses casos, não raro notamos um
tom melancólico nas falas tanto de Alexandre quanto na de Cesária:.”Botas com
esporas de prata e de ouro, penduradas no torno. Agora é a desgraça que se vê: um
pedaço de sola amarrado no casco, espinhos, rachaduras no calcanhar. Não somos
nada não, Seu Libório.” (RAMOS, 2007: p. 66)
Sobre essa questão de períodos distintos em que Alexandre e Cesária
mostram mudanças no nível de vida, pelo perfil de suas histórias, o leitor pode se
perguntar se realmente em algum dia ele chegou a ter um nível de vida tão bom, ou
seja, que isso possa ser mais um desejo de que isso pudesse ter ocorrido a ele do
que um fato. Dessa discussão, podemos nos levar a questionar também o estado de
melancolia que ambos demonstram ao citar, ou lembrar, o tal período de fartura do
casal. Seria melancolia por algo que já tiveram e não tinham mais ou por algo que
gostariam de ter tido, mas nunca tiveram?
Destaca-se a relação heroísmo/sucesso de suas aventuras em contraponto
com a decadência/fracasso da condição de vida de Alexandre. Caso fosse possível,
124
Alexandre certamente manipularia também sua realidade, por se achar merecedor
de uma vida melhor. Porém, o herói Alexandre que venceu onças, era capaz de
enxergar a 17 léguas e salvar pessoas de afundarem no rio São Francisco, não foi
capaz de derrotar as forças que o afligem, da mesma forma que afligem o sofrido
povo sertanejo. Giménez (2004) também aponta para essa direção:
Ao ironizar o heroísmo enquanto ação bem-sucedida no embate com a
realidade, o autor prova que o mundo já não se curva ao homem, antes se
impõe a ele como força arrasadora – portanto, todo valor heróico se esboroa
diante da análise objetiva do mundo prosaico, e o sucesso se converte em
fracasso. [...] ao examinar a decadência dos valores através de
personagens fracassadas, parece que Graciliano Ramos procurou
desvendar o aspecto anacrônico e falsificador do testemunho positivo – no
fundo, este não é senão vontade de despistar a circunstância adversa por
meio do logro. (GIMÉNEZ, 2004: pp. 188-189)
Nessa questão também podemos lembrar do poder crítico de Graciliano em
relação à realidade dos mais sofridos, mas que, no entanto, não se deixa levar pela
literatura panfletária. Assim, ao mesmo tempo que Graciliano dá ares de heroísmo a
um personagem simples, que mora numa das regiões mais pobres do nordeste
brasileiro, ele o representa de forma cômica, como um mentiroso contumaz. Em
outra instância, o autor também
tampouco acredita nas promessas da época moderna. Na visão crítica da
nossa história, Graciliano Ramos bem enxerga o ciclo de perseverança que
desenha as mãos da classe dominante; a sua descrença na política
progressista não advém de apego à velha ordem, muito ao contrário, ela se
confirma na certeza de que a velha ordem não cessou de dirigir as coisas,
tendo apenas assimilado do seu jeito certos aspectos da modernidade.
Essa consciência amarga do processo histórico se traduz em sentimento do
fracasso – que vasculha passado e presente como quem se bate entre as
paredes de um labirinto [...] (idem, p.190)
Porém, se o perfil fantasioso do major pode trazer desconfianças sobre esse
antigo nível de vida, a história dos meados do século passado de nosso Nordeste
aponta muitos problemas que seus moradores enfrentaram, principalmente em
função de causas climáticas. Os próprios romances de Graciliano Ramos, como
Vidas secas, ou de outros autores famosos, como Raquel de Queiroz, José Lins do
Rego e Jorge Amado, e poesias de João Cabral de Melo Neto apontam isso. A
poesia popular do Nordeste também foi importante fonte de relato dos flagelos da
seca, assim como satirizava o próprio sistema político que, na região, era dominado
pelos chamados “coronéis”. Todas essas obras mostravam dados importantes que
apontavam para o empobrecimento do povo, o mesmo que Alexandre e Cesária
contavam. A pesquisadora Ivone da Silva Ramos Maya, em sua dissertação sobre O
125
poeta de cordel e a Primeira República: a voz visível do popular, aponta que nas
obras de muitos cordelistas:
a penúria social estava associada à escassez de alimentos, causada pela
seca e pela tributação excessiva de quase todos os produtos, alguns típicos
da cesta básica da população. Mas o que se releva é a desigualdade de
acesso nessa sociedade àqueles que não pertencem aos esteios da
oligarquia. (MAYA, 2006, p. 93)
Desse jeito, assim como a fantasia e o exagero demonstrados em todas as
histórias nos levam a desconfiar da veracidade também dessa informação de uma
antiga fartura, temos, na literatura e também em fatos históricos, dados que nos
levam a pensar que o autor pretendia mostrar esse quadro de empobrecimento da
região, que seria retratado no casal Alexandre/Cesária. Porém, como temos aqui
figuras ficcionais, nem sempre é possível transpor dados do real para a ficção.
Graciliano mesmo faz isso em Histórias de Alexandre ao dar voz em total acordo
com a norma gramatical, a indivíduos sem instrução e em S.Bernardo ao transformar
um indivíduo rústico como Paulo Honório em autor de um livro. Da mesma forma,
percebemos que o autor propositalmente deixa em aberto essa questão para
interpretação dos leitores, visto que, como já foi dito anteriormente neste trabalho,
além do próprio casal, a única possível testemunha do antigo modo de vida de
Alexandre e Cesária seria Das Dores, pois ela é afilhada dos dois, mas o autor
preferiu deixá-la calada quanto ao fato. Assim, temos nesse caso, mais uma vez, a
construção ficcional dando margem a uma ambigüidade na produção de sentidos
pelos leitores.
126
Capítulo 6
A classificação por ciclos temáticos na literatura popular
nordestina e as Histórias de Alexandre
Nos últimos parágrafos do quarto capítulo, de certa forma, esboçamos uma
espécie de separação dos contos, pelo tipo de lógica da narrativa de Alexandre, pelo
motivo do riso, pelo exagero, pelo heroísmo e outras características já enfocadas.
Osman Lins, no posfácio de Alexandre e outros heróis, cujo título é “O mundo
recusado, o mundo aceito e o mundo enfrentado”, separa as histórias em outro
esquema, que, mesmo diferente, acaba também tangenciando alguns pontos já
apresentados neste trabalho. O primeiro tema das histórias, de acordo com Osman
Lins, é o da “Superioridade e Imunidade de Alexandre”, dele fazem parte “A primeira
aventura de Alexandre”, “História de uma bota”, “A Canoa Furada” e “A Doença de
Alexandre”. Ele ainda adverte que, em menor tom, “O olho torto de Alexandre”
também poderia ser incluído nesse tema.
O segundo tema é o do “Animal Excepcional”, e nele estão “História de um
bode”, “Um papagaio falador”, “O Missionário”, “História de uma guariba” e
“Moqueca”. Nesse tema, os animais são separados, respectivamente, seguindo a
lista de histórias acima, como o animal utilizado, o animal perdido, o animal libertado,
o animal fora do alcance e o animal que, por heroísmo, faz um sacrifício e sofre
multiplicação através de seus filhotes.
Similar a esse tema, há o terceiro, o do “Objeto excepcional”, onde estão as
histórias de “O estribo de prata”, “O Marquesão de jaqueira” e “A espingarda de
Alexandre”. Nesse tema, há uma polêmica, pois o estribo e o marquesão tornam-se
excepcionais pela ação que os fazem crescer assustadoramente. O primeiro é
mordido pela cobra, e assim o veneno passa a agir como uma espécie de
127
provocador de um efeito de crescimento. Com o segundo, temos o marquesão que,
por ter pés feitos da madeira de uma jaqueira, pela narrativa do major, motivou, pela
sua memória genética, a volta às origens e sua transformação em quatro enormes
jaqueiras. No entanto, a espingarda de Alexandre só é extraordinária porque está
nas mãos do major. Se ela estivesse nas mãos de outro sertanejo não passaria de
“mais uma” espingarda. O extraordinário é muito mais o major do que a espingarda,
mesmo imaginando que uma espingarda lazarina comum não seja capaz de atingir
longas distâncias.
Pela tipologia das histórias criada por Osman Lins, a única narrativa que não
tem encaixe imediato em nenhum desses temas, mas que se aproxima levemente
nos dois últimos, é “A safra dos tatus”.
Essa separação por temas das histórias contadas por Alexandre nos conduz
à separação por Ciclos na literatura popular que é feita por diversos pesquisadores.
Alguns preferem produzir essa classificação somente para a Literatura popular em
verso (ou Literatura Oral, como pretende chamar Câmara Cascudo), e outros para
toda produção relacionada à cultura popular. Dentre esses estudiosos temos nomes
como Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Manuel Cavalcanti Proença, Yvonne
Bradesco-Goudemand, Mario de Andrade (que fez a separação mais curta, o desafio
e o romance), Orígenes Lessa, Ariano Suassuna, Manuel Diegues Junior, dentre
outros. Dificilmente essas classificações coincidem e alguns estudiosos inclusive se
colocam contrários a essa separação por ciclos temáticos ou, no mínimo, criticam o
modo como a maioria dos pesquisadores do tema têm atuado nessa tarefa, como o
professor Eduardo Diatahy de Menezes (2007, p. 77), que afirma que
esse é um procedimento equivocado, antes de tudo, na sua própria lógica
interna e também na exigência não atendida de conhecimento extensivo do
universo do „corpus‟ dessa literatura. Nele se nota muito mais a perspectiva
de cada classificador do que o conteúdo narrativo dos materiais. É preciso
que se analise na narrativa a dimensão histórico-cultural essencial no seu
processo de produção.
A classificação por ciclos foi adotada imensamente no estudo da produção
dos cordéis nordestinos, mas alguns pesquisadores preferem fazer essa distinção
para toda produção que tem origem popular. Vamos nos restringir somente a
algumas. Por exemplo, Manuel Diegues Junior faz uma classificação simples, porém
bem abrangente, a saber:
128
Na análise de Diegues Junior, o primeiro ciclo se refere aos temas
tradicionais. Nesse item, temos romances e novelas, contos maravilhosos, histórias
de animais, anti-heróis/peripécias/diabruras, tradição religiosa. Entre os exemplos
desse ciclo estão desde as Proezas de Carlos Magno, Histórias dos Doze Pares de
França, Helena de Tróia, e outros de origem bíblica, como José do Egito, Sansão e
Dalila. No Catálogo de Estudos da Fundação Casa Rui Barbosa, constam também
contos maravilhosos como Ali Babá e os 40 Ladrões, as Proezas de Malasartes,
Branca de Neve, A Bela Adormecida, O Ladrão de Bagdá e outros.
O segundo ciclo se refere aos “fatos circunstanciais ou acontecidos”. Nele
temos contos de relatos sobre a natureza física, como enchentes, cheias, secas etc.;
os de repercussão social, como festas, e competições diversas; os sobre a cidade e
vida urbana; os de crítica e sátira; os que se ligam ao elemento humano, por
exemplo, os sobre figuras atuais ou atualizadas; e ainda os que tratam do fanatismo
e misticismo, como os que falam sobre os cangaceiros, sobre tipos étnicos ou
regionais, etc.
O último ciclo categorizado por Manuel Diegues Junior trata das cantorias e
pelejas. São poemas que nascem oralmente, no ritmo dos “desafios” e repentes
entre dois ou mais cantadores. Essas produções, na época em que começaram a
ficar mais popularizadas em geral se perdiam, pois não havia a preocupação de
registro, a não ser as mais famosas, ou que eram de autores com mais bens
financeiros, que podiam imprimi-las em cordéis. Ao verem que os cordéis tinham
grande alcance, devido ao baixo custo de produção, e que poderiam alcançar um
bom público, mesmo onde a miséria imperava, passou-se a investir mais nessas
pelejas. Essa popularização foi ajudada devido à memória fantástica de grandes
cantadores, ou mesmo ouvintes, que passaram a registrá-las.
Outro autor que pensou em classificar essa produção popular foi Ariano
Suassuna, que criou dois tipos de categorizações, o primeiro chamado de erudito e
o segundo de popular. Basicamente, sua classificação da literatura popular se dava
em nove ciclos: Ciclo heróico, trágico e épico; Ciclo do fantástico e do maravilhoso;
Ciclo religioso e de moralidades; Ciclo cômico, satírico e picaresco; Ciclo histórico e
circunstancial; Ciclo de amor e de fidelidade; Ciclo erótico e obsceno; Ciclo político e
social; e, por fim, o Ciclo de pelejas e desafios. Essa classificação recebeu algumas
críticas, como a do pesquisador Eduardo Diatahy de Menezes (2007, op. cit., p. 82)
129
que suscita a questão de que a tipologia de Suassuna “comete omissões e
acrescenta o equívoco de misturar numa mesma tipologia pelejas e romances, que
são produções de gênero bem diverso.”
Podemos observar que em todas as categorizações, encontramos algumas
similaridades, pois realmente algumas temáticas se repetem. Porém, várias
produções apresentam características que podem fazer com que elas possam ser
encaixadas em mais de um tema ou ciclo. Essas categorizações também possuem,
pelo menos nas analisadas, uma tendência de visão subjetiva de cada estudioso, e
sempre se baseando num corpus que se limita apenas a parte do acervo não
somente de toda a literatura popular, como também dos autores analisados.
Percebemos também que não atentam, além da possibilidade já citada de uma obra
poder ser classificada em mais de um tema/ciclo, para o fato de que a literatura é
mutável, vive em eterno processo de mudança. A própria literatura popular é um
sinônimo disso, pois ela, através de suas histórias orais que viajam por vários
países, se adequa às especificidades de cada sociedade e passa a ter, mesmo com
os mesmos fios narrativos, uma diferente roupagem. No livro Antologia do cordel
brasileiro, selecionado por Marco Haurélio, temos exemplos de histórias que podem
atender a mais de uma categorização. Para começar, existe uma categoria que se
refere às cantorias e pelejas, mas mesmo essas podem se encaixar em outras, pois
muitas das histórias que são cantadas e contadas pelos poetas e cantadores
populares
possuem
origem
nas
histórias
orais:
“O
conto
popular,
predominantemente o conto maravilhoso, conto de fadas, é, ainda hoje, fonte de
inspiração para alguns poetas.” (HAURÉLIO, 2012: p.12)
Podemos notar que, ao analisarmos as aventuras de Alexandre, tivemos uma
visão específica para uma única obra, mas se resolvêssemos ampliar aqueles
parâmetros para outras obras, mesmo que só de autores brasileiros, talvez não
conseguíssemos encontrar onde incluir alguns contos. Ainda nas Histórias de
Alexandre, tivemos exemplos de histórias que tinham mais de um ponto
característico mais evidente.
Como exemplo, podemos citar a história sobre A
espingarda de Alexandre, onde encontramos a característica de elevar o nome de
Alexandre por ser um grande caçador, dotado de uma excelente mira; temos
também o fato de termos um objeto excepcional, a espingarda, que junto com o
homem com excelente mira, consegue atingir um animal a uma longa distância,
130
podendo “juntar” ou “espalhar” a pólvora, dependendo da ocasião; a questão do
exagero nas distâncias citadas; e, por fim, a questão da própria mentira em si no
todo da narrativa.
Reafirmamos que os temas se repetem, e estão presentes em várias obras,
muitas vezes ao longo de séculos e até em várias sociedades, mas elas obedecem a
uma lógica que depende de vários contextos, como os geográficos, os sociais e os
históricos. Porém, a tentativa de uma classificação global, em geral esbarra em
questões que a tornam até contraditória quando passamos a olhar essa mesma
classificação sob um novo prisma. Nas Histórias de Alexandre, por exemplo, temos o
uso de um tema, que aparece em várias classificações, a do ciclo dos animais. Nas
narrativas do major aparecem animais falantes e/ou extraordinários, como onças que
são amansadas, bodes grandes como cavalo e que agem como tal, papagaios que
falam, mas que não repetem as falas dos homens como os papagaios comuns, mas
são dotados de oratória e raciocínio, além de cobras, guariba e tatus. Porém, o
aparecimento desses animais obedece a uma questão que envolve uma lógica
própria relativa às próprias histórias do major, e também a um imaginário popular
local, e não a uma norma geral, envolvendo toda uma produção oral. A onça que é
amansada recebe uma abordagem própria. Nas histórias nordestinas, a onça é uma
figura bastante presente, e até o modo como o major narrou sua reação ao ver que
era uma onça e não uma égua que montara dá a dimensão exata dessa presença e
do pensamento que se tem em geral sobre esse animal. Porém, sua história não
trata somente na onça, há questões como a da coragem, da força do herói (e aí
poderíamos encaixar a história no ciclo dos heróis?), dos exageros nas distâncias
percorridas pelo major sobre a onça (que em sua cabeça era uma égua) além do
tempo igualmente exagerado e, como sempre, da mentira que paira sobre toda a
história, isso sem contar sobre o riso que vem ao rosto do leitor nessa e em todas as
outras histórias de Alexandre. A própria tipologia elaborada por Osman Lins, e
abordada no princípio deste capítulo, serve somente para as Histórias de Alexandre.
Mesmo se tivéssemos outra obra com características semelhantes, dificilmente
aquela tipologia serviria para classificar seus contos. Seria o caso de pretendermos
ampliar para os “causos” de Pantaleão, personagem de um programa humorístico de
televisão nos anos 70 e 80 do comediante Chico Anísio, que depois levou esses
131
causos para o livro É mentira, Terta?, que muito deve à tradição literária em que
Graciliano Ramos e suas Histórias de Alexandre se entroncam.
As Histórias de Alexandre estão apoiadas no imaginário popular, no folclore
nordestino, na cultura nordestina, além de também no próprio povo simples do
Nordeste. No entanto, elas não se ajustam, nem individualmente cada história, nem
no total das histórias do major Alexandre, num modelo global, nordestino ou mesmo
brasileiro, em que possam ser classificadas por ciclos temáticos.
132
Capítulo 7
A linguagem utilizada por Graciliano Ramos
O editor Augusto Frederico Schmidt, que tinha sido o primeiro editor que
procurou Graciliano Ramos para publicar Caetés, na edição de 16/12/1934 do Diário
de Notícias, teceu as seguintes palavras sobre São Bernardo:
O processo de romance de São Bernardo tem, a meu ver, alguns defeitos,
dos quais o principal é a forma por que o autor nos conta sua história,
fazendo com que o seu personagem, de um momento para outro, tenha a
absurda ideia de fazer de sua vida um romance, ele um ser inteiramente
inculto e bárbaro, prático e utilitário. Acho isso positivamente arbitrário e em
flagrante contraste com o equilíbrio psicológico em que o livro transcorre
todo. (SCHMIDT apud DN: 16/12/1934, pp.17 e 20)
Crítica semelhante a S.Bernardo fez Álvaro Lins43, que mesmo elogiando o
autor por considerá-lo “um dos escritores que melhor manejam atualmente a língua
portuguesa”, disse que
O principal defeito de São Bernardo já tem sido apontado por mais de uma
vez: é a inverossimilhança de Paulo Honório como narrador, é o contraste
entre o livro e seu imaginário escritor, o que já se verificara em Caetés. De
certo modo, em todos os romances escritos na primeira pessoa, concede-se
uma margem para a inverossimilhança. Contudo, em São Bernardo ela é
excessiva e inaceitável. Uma novela de tanta densidade psicológica,
elaborada com tantos requintes de arte literária, não suporta o artifício de
ser apresentada como escrita por um personagem primário, rústico,
grosseiro, ordinário, da espécie de Paulo Honório. Mesmo com um narrador
impessoal, aliás, ainda subsistiria alguma inverossimilhança, pois aquele
personagem, como aparece no romance, não podia ter a vida interior que
lhe atribui o romancista. (LINS, 1947: p.2)
Na mesma crônica, Álvaro Lins expõe que lhe desagradava também
justamente um ponto tão característico na linguagem de Graciliano, por sua “secura
e dureza, como pela ausência de vibração e dinamismo [...]”.
43
“Visão geral de um ficcionista”. Crônica escrita por Álvaro Lins e publicada no jornal carioca Correio
da Manhã, de 27 de junho de 1947, página 2.
133
O principal foco das críticas de Schmidt e Lins, o fato de ter um personagem
inculto escrever um livro de memórias, tem sido alvo de muita discussão no grupo de
pesquisa do Professor Godofredo de Oliveira Netto na Universidade Federal do Rio
de Janeiro, quando debate sobre o legado que Graciliano Ramos deixou para a
literatura brasileira contemporânea44. Embora tais críticas não tenham sido levadas
para o grupo, percebemos que não há concordância com as afirmações de Schmidt
e Lins, que nos parecram precipitadas, sem pensar no que poderia estar por trás de
Paulo Honório escrever um livro sobre sua vida. Essa opção nos parece logicamente
proposital. Não seria lógico que um escritor como Graciliano se esqueceria que
Paulo Honório era um personagem “inculto e bárbaro”, ou seja, incapacitado para a
tarefa de escrever um livro. O processo da escrita é desencadeado após o pio da
coruja. O Professor Benjamin Abdala Junior, da Universidade de São Paulo, trata
sobre a decisão de Graciliano por usar esse tipo de personagem para escrever sua
autobiografia:
É a partir desse ângulo restrito, estranho ao âmbito de um intelectual
cosmopolita, que ele vai procurar apresentar uma imagem nova do campo.
Trata-se de uma opção consciente, por não se submeter à linguagem
cristalizada nas academias citadinas, o que lhe permite afastar-se do senso
comum da cultura letrada das elites intelectuais urbanas. Situado no
cruzamento entre o rural e o urbano, Paulo Honório é um narrador
complexo, em vários níveis. Troca a obsessão de ampliar a fazenda São
Bernardo pela escrita do romance São Bernardo, espaço de efetiva
transmissão da experiência. (ABDALA apud Princípios: 2003, pp. 70-74)
A nosso ver, esse fato se aproxima de algo que é usado pelo autor ao
escrever as falas dos personagens de Hístórias de Alexandre, ao colocar o discurso
desses personagens com um linguajar característico da região, porém sem
descumprir o padrão da norma culta.
Graciliano Ramos, assim como Guimarães Rosa e o português José
Saramago, sempre se notabilizou por ouvir a voz do povo e, assim, levá-la para seus
livros. Guimarães Rosa, quando estava de férias no gabinete ministerial em que
trabalhava em 1952, chegou a conduzir uma boiada, anotando nomes de plantas,
bichos e histórias ouvidas do povo simples por onde passava, para depois incorporálas a sua obra. José Saramago fez algo semelhante com os trabalhadores do
Alentejo. Osman Lins, no prefácio à edição publicada em 1982, fala que Graciliano
44
Cf. anotações de aulas do Professor Godofredo de Oliveira Neto, durante o segundo semestre
letivo de 2012 e primeiro e segundo semestres letivos de 2013 no Curso de Mestrado em Letras
Vernáculas da UFRJ.
134
Ramos fez um “trabalho de pesquisador, pondo em letra de forma alguns contos
ouvidos no sertão do nordeste [...]”. (LINS, apud RAMOS, 1982, p.188 ).
Percebemos nas falas dos personagens a predominância da linguagem
coloquial, simples: “- [...] Um domingo eu estava no copiar, esgaravatando as unhas
com a faca de ponta, quando meu pai chegou e disse:” (RAMOS, 2007: p. 14), mas,
nas poucas passagens em que o narrador interferia, a linguagem, embora contendo
termos regionais, mostrava, por vezes, termos que dificilmente algum dos
personagens, por sua formação, faria uso normalmente.
Espiando a Lua que branqueava o pátio, Seu Libório pinicava a prima da
viola, gemendo baixinho uns versos de embolada. Alexandre, com ar de
entendido, aprovava a cantoria. Mestre Gaudêncio curandeiro gingava,
como se quisesse dançar. Os bilros da almofada de Cesária tocavam
castanholas na esteira. Um canado bateu no copiar: (idem, p. 49)
Estava na cama de varas, a testa enrolada num lenço vermelho, a camisa
de algodão aberta mostrando os pelos do peito e o rosário de contas
brancas e azuis. Cesária e Das Dores levaram para o quarto a mobília da
sala: a pedra de amolar, a esteira, a mala de couro cru e o cepo. Mestre
Gaudêncio baixou-se, encolheu-se na passagem estreita e escorregou da
treva do corredor para a meia luz que a candeia de azeite espalhava. Seu
Libório acompanhou-o. O cego preto Firmino sondou a abertura com o
cajado, arriscou alguns passos e, tateando a parede, acercou-se da cama:
(ibid, p. 117).
Essa característica que privilegia o uso de um linguajar próximo do que era
falado pelo homem simples, não é isolada em toda obra de Graciliano. Era uma
marca que vinha desde Caetés e São Bernardo. Não havia necessidade de usar
palavras rebuscadas, e de difícil entendimento para a maioria do povo, quando ele
narrava fatos comuns de pessoas comuns. Em uma de suas inúmeras cartas
enviadas a sua segunda esposa, Heloisa, Graciliano dá o tom dessa sua opção por
essa linguagem simples, próxima da utilizada pelo nordestino:
Encontrei muitas coisas boas da língua do nordeste que nunca foram
publicadas e meti tudo no livro. Julgo que produzirão bom efeito, (RAMOS,
1981:p. 124)
O S.Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como
você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro
encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da
cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de
expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que
existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que
vou passando para o papel. O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite
me servem de dicionários. O resultado é que a coisa tem períodos
absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos
cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a
fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não
135
serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S.Bernardo,
cochilando, e procurarão nos monólogos de seu Paulo Honório exemplos de
boa linguagem. (idem, pp.130-131)
Em Histórias de Alexandre, o personagem principal, mesmo quando falava
daqueles fatos extraordinários de suas histórias, essa linguagem era mantida,
apenas com uma predominância de termos que denotassem exagero, abundância,
ou espanto por algo inesperado. E assim, tanto Alexandre como seus convidados
mantinham esse linguajar. Alexandre, ao finalizar sua primeira aventura, de quando
montou uma onça, pensando que fosse a égua pampa que estava perdida, contou
para os amigos:
Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que
estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um
cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela
desgraçada pela égua pampa. (RAMOS,2007: p. 18)
O mesmo se dá na fala de seu Libório, a respeito da citada aventura com a
onça: “Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, seu Alexandre. E eu fiquei
pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na viola.” (idem, p.19). Seu Firmino
também aparece sem descumprir a norma padrão da língua, em um de seus apartes
ao Major Alexandre, no início da história “O olho torto de Alexandre”, se referindo ao
fato narrado na história anterior, “A primeira aventura de Alexandre”: “Vossemecê
não se ofenda, eu não gosto de ofender ninguém. Mas nasci com o coração perto da
goela. Tenho culpa de ter nascido assim? Quando acerto num caminho, vou até
topar”. E como Alexandre insiste que o cego conclua seu pensamento, ele atende:
“Então, como o dono da casa manda, lá vai tempo. Essa história da onça era
diferente a semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no
princípio não falou no espinheiro”. (ibid, p. 19). Também temos exemplo, na mesma
história, na fala de Cesária: “A opinião de seu Firmino mostra que ele não é
traquejado. Quando a gente conta um caso, conta o principal, não vai esmiuçar
tudo”. (ibid, p.20)
Nos trechos mostrados acima, assim como no restante da obra, podemos
notar que a fala de Alexandre e dos demais personagens é repleta de regionalismos,
porém, mesmo com personagens iletrados, que viviam num local em que não era
dada a devida importância à educação da população, e onde até os mais ricos
precisavam levar seus filhos para a cidade grande para estudar, não se percebe
desacordo às normas gramaticais. Esse é um dado importante de nota, dado à
136
praticamente irrealizabilidade de que tal fato ocorresse naquele local, naquela
época, com aqueles tipos de personagens.
Dados estatísticos do IBGE45 relativos aos anos 30/40 indicavam um índice
de analfabetismo no Nordeste em torno de 75%, sendo que em Alagoas, estado
natal de Graciliano, esse índice beirava 80%. Esses dados podem ser mais
alarmantes quando pensamos que neles estão incluídos todos os habitantes com
mais de 10 anos de idade, incluídos os moradores das grandes cidades que tinham,
ainda que também altos, índices menores de analfabetismo. Ou seja, o percentual
de analfabetos adultos na região sertaneja de Alagoas era quase total, dando uma
ideia de que para encontrar um velho cantador ou curandeiro naquela região que
soubesse falar em acordo com o registro padrão escolarizado seria praticamente
impossível.
A preferência do autor em não reproduzir integralmente a verdadeira fala de
personagens da zona sertaneja de nosso nordeste é uma característica sua. Ele
representa a oralidade e principalmente a simplicidade dos personagens, com um
vocabulário com diversos termos que são bastante usados na região. Porém, não
percebemos registros normais de concordância ou de conjugação de verbos
presentes em sujeitos com pouco contato com o uso padrão dito “culto” numa época
em que uma pequena minoria da região não era analfabeta. Essa característica
pode ser vista igualmente em todas as obras de Graciliano Ramos, como São
Bernardo, Vidas secas e Infância. No entanto, o autor prefere reproduzir outras
características orais da região. Essa opção pode estar no desejo do autor de não
representar seus personagens de forma caricatural, pejorativa, mesmo que ele
estivesse somente representando fielmente suas falas. No romance São Bernardo, o
personagem Gondim, após ouvir reclamação do personagem Paulo Honório de que
o seu modo de escrever um livro como no jornal, tem uma fala emblemática: “Se eu
fosse escrever como eu falo ninguém me lia”. (RAMOS, 1995: p. 9) A reclamação de
Paulo Honório que levou a essa fala do Gondim se referia justamente ao modo
empolado, cheio de palavras rebuscadas dos jornalistas. Enquanto isso, Paulo
Honório preferia usar palavras simples, próprias do uso normal de um povo, que
poderiam ser lidas por qualquer um. A opção de Paulo Honório foi a mesma de
45
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tendencia_demografica/analise_populacao/1940_2000/comentarios.pdf .
Acessado em 05 de maio de 2012.
137
Graciliano, que preferia um linguajar simples, bem próximo ao usado pela gente
pobre. A questão envolvendo a opção do autor em não reproduzir fielmente a fala
dos personagens sempre levantou discussões de diversos autores que trabalham a
questão da transcrição de contos com origem na linguagem oral para os livros.
Em uma mesa-redonda realizada em 1948, Câmara Cascudo fez a seguinte
proposição: “Nas publicações de literatura oral, isto é, recolhido o material do povo,
conservar-se-á a prosódia do narrador? Ou apenas sua sintaxe? Ou estilo simples e
preciso, com ou sem modismo?” (CASCUDO apud NEVES, 2008, p.8). O mesmo
autor, no livro Contos tradicionais do Brasil, publicado inicialmente em 1946, já
afirmava que, nos seus contos, “a linguagem dos narradores foi respeitada noventa
por cento. Nenhum vocábulo foi substituído” (idem, p.8). Entretanto, ele advertia:
“apenas não julguei indispensável grafar muié, prinspo, prinspa, timive, terrive.
Conservei a coloração do vocabulário individual, as imagens, perífrases,
intercorrências” (ibid, p.8.).
Porém, não há homogeneidade nesse quesito, nem regras gerais que
norteiem os autores de obras ligadas a contos de tradição oral. Vejamos a mesma
fala de um trecho de Ao som da viola, de Gustavo Barroso, na fala de um
“embaixador”, representado em duas formas, para vermos como muda:
(1) É o Sultão da Mauritânia, rei-senhor de meio mundo, de meio sol e meia
lua, que só por mim manda embaixada! Ouve-me, general, e atende este
ilustre embaixador que em tua presença espera!”; (2) “É o surtão da
Maritânia rei sinhô de meio mundo de meio solo e meia lunha que só pru
mim manda embaxada ouve-me generá e atende este ilustre imbaxadô que
in tua presença espera. (BARROSO apud NEVES, 2008, op. cit. p. 8)
Gustavo Barroso, em nota, na mesma obra dá a explicação para o fato de ter
optado pela forma (1), para depois colocar como ficaria o mesmo trecho tal qual ele
é falado pelos “fandangueiros”, o que é mostrado em (2):
Os diálogos em prosa estão aí como são no auto popular. Parecerão, no
entanto, um pouco acima do nível do povo rude, porque, para evitar
confusões e tornar o seu conhecimento mais acessível, ponho-lhe
pontuação e grafia comum em vez da sua prosódia popular. (ibid.)
Vejamos agora Mário de Andrade, que sempre mostrou muito interesse pelas
manifestações populares, referindo-se a trechos das embaixadas em seu estudo “Os
138
congos”46, grafa-as fielmente como foram faladas, tanto na variante normativa dos
falantes como em sua fonética, em verso e em prosa:
Oh princ‟po eu nun ti dixe,
Ai, que tu não fostes à guerra!
Mais o princ‟po, de ateimoso,
Virô-se im pó, im cinza, im terra!
Em prosa: “S‟nhô! Eu sou um hôme monstro e trono sem iguá; e quem fêiz
novo calibre lá crué, juda farso, traidô, crué im crime, foi aqueles que
siguiram os caso mortá. (ANDRADE apud NEVES, 2008,op. cit., p. 8)
Já o folclorista goiano José Teixeira apresentou transcrições de falas de
caboclos de cancioneiros da região pantaneira em que notamos similaridades com a
fonética transcrita por Mário de Andrade. O goiano procurou se aproximar ao
máximo do falar dos moradores locais, certificando-se se a fonética estava correta,
pedindo que o contador que repetisse com a alegação de que não ouvira bem. Um
exemplo do resultado desse trabalho foi o seguinte:
Nois cantanu cá na terra
Us anju nu céu tamém,
Padi Filhu Ispritu Santu
Na hora de Deus amém.
(TEIXEIRA apud NEVES, 2008, op. cit. p. 10)
Diante de todos esses exemplos, verificamos que esses últimos autores
procedem de forma diferente da usada por Graciliano Ramos. Porém, esses autores
citados neste capitulo utilizam essa forma em função do trabalho que
desenvolveram, de recolha, de pesquisa e estudo de aspectos da cultura popular, de
nosso folclore. Porém, entre os romancistas não é comum termos esse mesmo tipo
de representação. Há que se marcar que Graciliano Ramos, e sua forma de narrar,
sem palavras muito rebuscadas, simples, bem próximo do jeito de falar das pessoas
do povo, com as diferenças já citadas, representava uma quebra na forma da
narrativa que era usada. A citação feita anteriormente, relativa ao romance São
Bernardo, em que o personagem Paulo Honório reclamava da forma como o
personagem Paulo Gondim havia escrito parte de suas memórias, mostra essa
decisão de Graciliano pelo falar simples. Da mesma forma, ela também marca como
a própria imprensa na época costumava escrever seus artigos, já que o personagem
Gondim era um jornalista.
46
Lanterna Verde, 2, Rio, fevereiro de 1935, apud NEVES, 2008, p. 8.
139
Esse tema é outro que vem sendo um dos pontos principais de discussões
que nós temos levado e que o Professor Godofredo de Oliveira Neto tem
encampado junto a seu já citado grupo de pesquisa sobre a Literatura
Contemporânea47. O professor Godofredo cita, em relação a São Bernardo, a
questão de ter um personagem que possui poucos recursos literários e que pouco
estudou ter a capacidade de escrever um livro. A esse fato nós somamos a questão
do discurso oral dos personagens de Histórias de Alexandre ser gramaticalmente tão
perfeito, o que também é repetido em S.Bernardo. Se formos analisar o discurso dos
personagens de outras obras de Graciliano, como Caetés e Vidas secas, também
temos falas com total respeito à norma culta de nossa língua, mesmo se fazendo
valer de uma linguagem simples. Por exemplo, em Vidas secas as falas eram quase
sempre curtas, muitas vezes o personagem dizia uma só palavra para expressar seu
estado de secura, mas ainda assim podemos perceber a característica citada nos
registros orais dos personagens. No capítulo “Cadeia”, quando o soldado amarelo
convida Fabiano para jogar um trinta-e-um, respondeu meio atrapalhado: “Isto é.
Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.” (RAMOS,2000:
27) Em outro capítulo, “O mundo coberto de penas”, Fabiano reflete sobre a
desgraça de sua vida e pensa com raiva sobre o soldado amarelo, se considerando
um covarde por não fazer nada: “Fabiano, meu filho, tem coragem. Tem vergonha,
Fabiano. Mata o soldado amarelo. Os soldados amarelos são uns desgraçados que
precisam morrer. Mata o soldado amarelo e os que mandam nele”. (idem, p.111)
Como essa questão não tem sido levantada em outras academias, e logicamente,
não tem sido objeto de pesquisa, cremos que podemos prolongar esse debate, pois
entendemos que ele tem importância para o estudo da obra de Graciliano Ramos.
Temos que levar em conta o interesse de Graciliano Ramos, além de não
marcar os personagens populares de forma caricata e estereotipada com todos os
vícios de fala, nos quais se incluem a não preocupação com a norma gramatical
correta, o desejo de não provocar uma distinção muito marcada entre narrador e
personagens. Ou seja, não queria ele ter um narrador com linguagem culta,
preocupação com o apego ao linguajar correto, mesmo que com o uso de palavras
do uso comum do povo, contrastando fortemente com personagens que
descumprissem todas as normas gramaticais. Desse jeito ele evitaria que aqueles
47
Notas de Aula, idem nota 44.
140
que pertenciam a uma classe pela qual ele muito lutava, aparecessem em sua obra
de forma que os diminuísse e sofressem o preconceito daqueles que fossem o ler.
Sua obra não se tornou menos popular, assim como seus personagens não
deixaram de pertencer às camadas populares mais sofridas do Nordeste em função
de um linguajar simples, popular, regionalizado e sem desatender regras do registro
padrão escolarizado (norma dita culta). As histórias de Alexandre não deixaram de
ser relacionadas ao folclore presente no inconsciente coletivo do nordestino com a
adoção de uma linguagem que não confere inteiramente com o falar do povo
sertanejo.
Para afirmar-se a adesão de Graciliano ao popular não são necessárias
provas, pois prova dessa opção há em tudo o que ele era e em tudo que ele
escrevia. O popular estava em sua biografia, de homem sempre preocupado pelas
causas sociais. Da mesma forma, esse popular também estava em sua literatura, em
que era destacado o ser humano, suas dores, alegrias e anseios em harmonia com
os fatos do dia-a-dia e fenômenos sociais da época. Ao colocar personagens
pobres, sem que fosse necessário dispor de todo um vocabulário para descrever
essa realidade, mas com uma linguagem que mostrava a simpatia que o autor nutria
por eles, Graciliano colocou-se ao lado desses representantes da camada mais
sofrida do povo. Ele dava voz àquele que normalmente não tem.
Segundo o poeta americano, integrante da chamada lost generation, Ezra
Pound, “o bom escritor é o que mantém a linguagem eficiente”. (POUND apud LINS,
p. 193). E Graciliano seguia esse preceito, mesmo seguindo uma elegância que
contraria o conceito que se generalizava na época, do que apuro que matava a
eficiência da escrita.
Segundo Osman Lins, “a eficiência pode coincidir com a
elegância; mas também pode prescindir dessa virtude ou estorvo.” (LINS apud
RAMOS, 1982, p. 193). Ainda segundo Osman Lins, Alexandre tem uma linguagem
que mesmo disciplinada e precisa, nada tem de elegante, e diz que
encontramos nas suas narrativas, expressões correntes entre nordestinos
sem instrução e a própria sintaxe é acentuadamente popular. Nelas
perpassam o pulsar e a sonoridade do Português ouvido nos mercados e
estradas do nordeste. [...] sejam as histórias de Alexandre, [...] onde um
recenseamento de natureza léxica iria encontrar talvez o maior coeficiente
de expressões regionais, o modo como Alexandre se exprime é literário.
Uma estilização processa-se. O autor Graciliano Ramos, vigilante ao nível
do enredo, confirma a mesma vigilância. Alexandre e sua histórias são
moldadas com o mesmo rigor e a mesma plasticidade que encontramos na
linguagem. Delineia-se como um todo coerente, regido por convicções
estilísticas precisas e por uma visão realista, compreensiva – e não
141
destituída de compaixão – aos seus personagens e do meio onde vivem.
(ibid., p. 193)
Segundo Rui Mourão, “a língua, nas mãos do autor, é forçada a adquirir a
contundência dos objetos cortantes e a tensão em que ela se mantém é a do próprio
pensamento. A se policiar contra os riscos do entorpecimento” (MOURÃO, 2003, p.
173). O modo de escrever de Graciliano, com sua opção pelo simples, enxuto, e o
exemplo usado, das lavadeiras de Alagoas, para mostrar como era sua linguagem,
dão o tom desse seu posicionamento ao lado da gente pobre:
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas
fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa
suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente,
voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a
mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e
mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada
na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer
a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso;
48
a palavra foi feita para dizer. (RAMOS, 1948 apud BICALHO, 2007)
48
Entrevista concedida por Graciliano Ramos em 1948, publicada na dissertação de Ana Maria
Bicalho, disponível em http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1363,
p. 51. Acessado em 01 de dezembro de 2012.
142
Capítulo 8
O legado de Graciliano Ramos na literatura brasileira
contemporânea
No ano de 1948, em entrevista a Homero Senna49, dez anos após a
publicação do romance Vidas secas, ao ser perguntado se acreditava na
permanência de sua obra, Graciliano diz:
“- Não vale nada; a rigor até já desapareceu.” (OPÇÃO, 2012)
Por ocasião das comemorações de seus 50 anos, concordou em dar uma
entrevista a Francisco de Assis Barbosa, mas não sem antes desconfiar do convite,
desdenhando dele, e por tabela, de sua obra:
“- Falar de mim! Acha que vale a pena?”.
Na referida entrevista, mostra-se um crítico duro, austero, acirrado em relação
a suas obras, inclusive as mais conhecidas até então:
Mas que importância se dará Graciliano a si mesmo? Muito pouca, com toda
a certeza. Para uso externo, pelo menos. Consciente do seu valor, do que
sabe e do que pode fazer, o romancista está sempre insatisfeito com o que
realiza. Juiz implacável dos próprios trabalhos, não suporta Caetés e
considera São Bernardo e Angústia simplesmente toleráveis. Quanto a
Vidas secas, não é romance. E dos contos, apenas um ou dois se salvam.
(BARBOSA, 1958: pp.56-57)
Diante de um escritor que nutria um conceito de sua obra dessa maneira, é de
se pensar que sua obra não teria valor e, assim, suas letras teriam uma vida curta e
efêmera. Uma palavra que hoje tem se tornado moda em função das obras para
grandes eventos, como Jogos Panamericanos, Jornada da Juventude, Copa do
49
“A Última Entrevista de Graciliano Ramos”, publicada no jornal goiano Opção, edição 1944, semana
de 7 a 13 de outubro de 2012, no caderno “Opção Cultural” - “Textos Clássicos”. Disponível em
http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos. Acessado
em 15 de dezembro de 2013.
143
Mundo e Jogos Olímpicos, é o “legado”. Ou seja, qual o legado desses eventos para
a cidade e seus cidadãos? Desse jeito, de acordo com a análise cruel de seu autor,
poderíamos imaginar que as obras de Graciliano teriam um legado mínimo ou até
inexistente. Porém, sabemos que isso não corresponde à realidade. Primeiro, temos
que deixar registrado que essas mensagens ditas pelo mestre Graça são resultantes
do temperamento do escritor. Graciliano, como o próprio Barbosa registrou, é um
crítico implacável de seus trabalhos. Porém, sua crítica, que desvalorizava suas
obras representava sentimentos dissimulados. Em entrevista ao jornal cearense O
Povo50, Denis de Moraes reforça este pensamento ao lembrar que ele representava
o típico sertanejo, tímido e desconfiado. “Ocultava-se na timidez e no excesso de
autocobranças, que nada mais eram senão a evidência de sua férrea determinação
de aprimorar-se e superar-se como escritor”. (O POVO, 2012) Lendo algumas de
suas cartas podemos também afirmar que o romancista tinha plena noção de sua
competência literária e que, mesmo quando ele apontava problemas em seus livros,
ele apontava para a questão de que ele sabia que era capaz de dar mais de si, o
seu melhor. Diante de sua persistência e inquietação em sempre corrigir, tinha-se a
impressão de que ele procurava a perfeição artística. A mais famosa dessas cartas
a ilustrar essa busca pela perfeição é a que ele enviou ao crítico Antonio Candido, e
que aparece publicada tanto na edição comemorativa dos 75 anos de publicação de
Angústia quanto na obra do crítico intitulada Ficção e confissão – Ensaios sobre
Graciliano Ramos. Nessa carta, Graciliano agradece a Candido por ter falado de
pontos merecedores de críticas, com os quais ele concordava, mas que nenhum
outro crítico ou amigo chegara a comentar. Graciliano discorreu e explicou o porquê
de sua opinião de que o livro carecia de ser reescrito. O único ponto discordante era
que, mesmo com essas observações críticas, Antonio Candido reconhecia a
grandiosidade e importância de Angústia, enquanto Graciliano insistia em destacar
que ele fora mal escrito. O rigor que fazia com que ele trabalhasse com tal afinco
suas obras, que o levava a revisar inúmeras vezes o texto, mesmo que tivesse que
cortar mais da metade do que tivesse escrito inicialmente, até que se sentisse
satisfeito, persistia após a publicação. Desse jeito, ele mantinha uma atitude crítica
50
Entrevista publicada na Seção VIDA & ARTE do Jornal O Povo, em 27/10/2012. Disponível em
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/10/27/noticiasjornalvidaearte,2943850/confiraentrevista-na-integra-com-o-biografo-de-graciliano-ramos-deni.shtml
e
em
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/10/27/noticiasjornalvidaearte,2943333/outrosgracilianos.shtml. Acessos em 05 de março de 2014.
144
sobre o que escrevera, o que fazia com que procedesse várias modificações nas
edições seguintes. Sua esposa Heloisa brincava com ele por conta da concepção de
que, para chegar ao texto ideal, teria que enxugá-lo. Certa vez, ao vê-lo cortar várias
palavras na preparação da segunda edição de Vidas secas, ela afirmou: “Grace,
você corta tanto que, na quinta edição, o livro vai sair em branco...” (MORAES, 2012:
200)
Em uma das mesas literárias do Festival Literário de Paraty de 2013, que teve
Graciliano como tema, o Professor Lourival Holanda, da Universidade Federal de
Pernambuco, comparou a literatura feita por Graciliano Ramos com o que a rede
social twitter impõe, com um limite de caracteres para enviar uma mensagem, isto é,
o de dizer o máximo pelo mínimo. Tal figura se deve ao reconhecido modo como
Graciliano escrevia, de forma enxuta, sem rodeios e palavras de difícil entendimento
do grande público, de forma que, com poucas palavras o autor alcançava um grande
sentido e eloqüência. Carlos Drummond de Andrade, depois de ler Infância, enviou
uma carta a Graciliano dizendo que o livro era uma obra de arte e completou com a
seguinte definição:
Nada lhe falta, nada lhe sobra. A palavra justa exprimindo sempre uma
realidade psicológica ou ambiente; a notação precisa, a dosagem sábia, a
economia absoluta de efeitos, notações, recursos. Enfim, um desses livros
que a gente desejaria ter tutano para escrever, e que lê com uma admiração
misturada de raiva pelo danado que conseguiu compô-la: raiva que é o
maior louvor, tanto vem ela impregnada de entusiasmo e prazer. (MORAES:
2012, 216)
Percebemos nas palavras de Drummond o enfoque de Graciliano na precisão
e na escolha das palavras, sempre na dose certa, sem retoques desnecessários e
que, no entanto, não impede que o texto mostre com extrema perfeição a realidade
social e psicológica. Essa característica indica um imperativo que o mestre Graça
leva a sua escrita, sendo capaz de angariar grande admiração de outros literatos.
Mas não só sua obra estava à mercê de seu sentido crítico. Acostumado a ler
manuscritos de obras que seriam lançadas, ele analisava-os pormenorizadamente,
com cuidado extremo. Suas reações, porém, variavam do temperamento explosivo
ao amistoso e cordial. Por exemplo, certa vez ele se deparou com um “selvícula” ao
invés de “silvícola” por conta de uma revisão tipográfica num texto que ele mesmo já
havia copidescado anteriormente. Irritado, procurou o autor da tal “monstruosidade”
com a língua. Ao encontrar o jovem suplente de revisor Luciano de Moraes, que
145
posteriormente transformou-se num dos melhores da área, e que se apresentara
como o responsável pelo fato, Graciliano logo o repreendeu: “- O senhor é muito
ignorante. Pensou que silvícola viesse da selva, e por isso emendou errado a
palavra. Se o senhor soubesse latim, saberia que silvícola, com i, vem de silvícola.”
(MORAES, 2012: 235)
Por outro lado, também se mostrava justo, educado e elogioso. Certa vez, ao
receber originais do romance Trinta anos sem paisagem, de Guilherme Figueiredo,
Graciliano, que o lera e recomendara, recebeu o autor no Rio de Janeiro:
- Pensei que você fosse mais velho – disse Graciliano, fitando o jovem de
23 anos.
- Por que, mestre?
- Por que seu livro é de uma pessoa mais velha.
- Então é ruim assim?
- Não, não. É muito bom. Velha no sentido de uma experiência que eu não
imaginava que você tivesse. O romance parece ter sido escrito por um
bacharel criminalista. (MORAES, op.cit.: 193)
Depois desse diálogo, conversaram sobre literatura e Graciliano admirou-se
pelo conhecimento do jovem escritor. Guilherme Figueiredo também ficou admirado
por ter descoberto uma pessoa tão afável, completamente diferente da fama que
Graciliano tinha. Essa atenção e cuidado ao texto, que autores que iniciavam a
carreira de escritores com seus livros recebendo boa acolhida do mestre Graça
acabaram vendo suas estréias não passando despercebidas do público e da crítica.
Mas as críticas também podiam funcionar para corrigir defeitos, que outros
críticos não enxergavam, provocando um aprimoramento do escritor que recebeu
essas críticas. Por exemplo, a escritora Yvone Jean agradeceu assim a Graciliano:
Ele foi franco comigo, dizendo que meus primeiros artigos não prestavam,
não valiam nada, eram muito mal escritos. Mas explicou por que, corrigiu,
discutiu. Foi a primeira ajuda positiva que recebi do mundo das letras,
porque, até então, cada vez que mostrava meus rabiscos a um entendido só
ouvia que eram formidáveis, magníficos, esplêndidos. (op.cit.: 193)
Um ponto importante a ser apontado é que o escritor Graciliano andava junto
com o homem Graciliano, o ser político Graciliano. Esse termo, ser político, não está
sendo aqui usado somente por ele ter sido Prefeito de Palmeiras dos Índios e,
posteriormente, membro do Partido Comunista Brasileiro. Sua obra foi sempre
impregnada do homem Graciliano. Para Otávio Tarquínio, ao tecer elogios a
Infância, “nos livros de Graciliano Ramos, o homem que ele foi está presente e
nenhum ajudará melhor a restituí-lo à pureza de suas linhas estruturais do que
146
Infância, obra-prima de um grande mestre”. (MORAES, 2012: p.215) O biógrafo
Denis Moraes, autor de O Velho Graça, nota
a estreita conexão de Histórias de Alexandre com a fabulação regionalista
51
presente em Vidas secas, em Infância e nas crônicas de Cultura Política .
Graciliano extrai da memória a sua matéria ficcional, resgatando tanto suas
raízes existenciais quanto um conjunto de tradições e heranças místicas do
Nordeste. Como se ele estivesse polindo a sua identidade cultural através
do testemunho direto. (MORAES, op.cit.: 214)
Assim, Graciliano sentia a necessidade pungente de retratar o mundo vivido.
Defendia que a arte devia interligar-se ao meio social como expressão de anseios,
principalmente, das camadas oprimidas.
Graciliano não chegou a ver seus livros serem sucesso de vendas. Por
exemplo, a primeira edição de Vidas secas, de cerca de 1.000 exemplares demorou
quase dez anos para zerar o estoque. São Bernardo e Angústia foram as edições
mais lidas até sua morte, com quatro e cinco edições respectivamente, seguidos de
Vidas secas e Caetés com três cada, Infância e Insônia com duas, enquanto
Histórias de Alexandre, Histórias incompletas, Dois dedos e Terra dos meninos
pelados estavam ainda na primeira edição. Porém, em vida ele já tinha um grande
reconhecimento como grande escritor, não somente por parte da crítica, mas
também de seus leitores. Prêmios lhe foram concedidos por sua obra, artigos eram
publicados sobre seus livros, jornalistas e críticos o procuravam (muitas vezes
infrutiferamente) para entrevistá-lo e descobrir mais sobre sua vida e sua arte
literária e, como já dissemos, escritores que “engatinhavam” na literatura estavam
sempre em busca de seus conselhos.
Entre os que ouviram esses conselhos está um dos grandes nomes de nossa
literatura. Em 1938, o mineiro Guimarães Rosa, com o pseudônimo de Viator, havia
participado de um concurso literário no qual Graciliano fora um dos jurados,
inscrevendo o livro de contos Sagarana. O livro de Rosa não foi o vencedor do
prêmio, mas Graciliano, mesmo não tendo votado no livro, reconhecera seu valor
literário, tanto que escreveu dois artigos em que defendia que, fora os excessos, os
contos dariam um ótimo livro. Seis anos depois, Graciliano, apresentado por
Ildefonso Falcão, se encontra com Guimarães Rosa, que diz ao Mestre Graça que
ele fora membro de um júri que julgou um de seus livros. Quando Rosa disse qual
51
Revista publicada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, no Estado Novo, para a qual
Graciliano Ramos escreveu crônicas entre 1941 e 1944.
147
era seu pseudônimo, Graciliano disse que andara o procurando e perguntou a ele se
sabia que tinha votado contra Sagarana. Rosa respondeu afirmativamente, mas sem
ressentimento algum. Ao recordar a conversa, Graciliano mostra como ela terminou:
“Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, entendi-me sobre os
defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os
contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e
crítica”. (MORAES, op.cit.: 170). Dois anos após essa conversa, Guimarães Rosa
publica um Sagarana mais enxuto, resultado da retirada de três contos e com menos
135 páginas, todas impecáveis. Definitivamente, Graciliano havia acertado em cheio.
Essa preocupação com o ofício de escrever levava Graciliano a também
exprimir esse cuidado como tema em alguns de seus livros, como em S. Bernardo.
Nesse livro, ele não só pensava na melhor forma para se escrever um livro e ser
entendido pelo leitor, como também refletia a todo momento sobre o ofício que
acabou abraçando ao decidir contar sua história e das dificuldades que porventura
ele enfrentava. O jornalista Francisco de Assis Barbosa, responsável por algumas
das poucas entrevistas que Graciliano concedeu, depois de checar manuscritos de
algumas de suas obras, descreveu assim como era a escrita do Mestre Graça:
Via de regra, Graciliano escreve em papel sem pautas, de um só golpe, ao
calor da composição. A forma definitiva vem depois. Emenda muito. E até
mesmo quando passa a limpo, com a sua letra explicativa de escrevente de
cartório, corta muita coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes,
risca linhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta de uma
igualdade assombrosa, como feito à régua. (BARBOSA, op.cit.: pp.70-71)
Seu filho Ricardo Ramos também dá testemunho sobre a falsa impressão,
que muito se deveu a seu estilo de escrita seco e com alguns personagens
grosseiros, de que Graciliano fosse um eterno mal humorado.
“Não digo que não fosse aqui ou acolá meio intempestivo, muito
eventualmente rude. Com mulher era de uma delicadeza extrema, a ponto
de beijar as mãos e ceder lugar no bonde. Agora, qualquer coisa que o
irritasse ele descia os pés. Fora disso, conversa amigavelmente, era muito
de contar histórias, de lembrar coisas, aquele tipo de conversa de coronel
do interior. (RAMOS apud op.cit. MORAES, 2012: p. 200)
A imagem de Graciliano, como pessimista inveterado, mal humorado, sisudo
não é verdadeira. José Paulo Paes, em Cartas de amor a Heloísa, prefaciando o
livro afirma que:
Para quem ainda acredite na verdade global do mito Graciliano Ramos, a
leitura das suas cartas de amor à noiva, Heloísa Medeiros, há de ser no
mínimo desconcertante. O derramamento sentimental delas obedece ao pé
148
da letra os cânones tradicionais da epistolografia do amor-paixão, a qual
costuma ser tanto mais hiperbólica nos seus arroubos quanto casta nos
seus propósitos confessos. Mas, uma vez admitida a homologia entre
criador e criação, como conciliar a sentimentalidade dessas cartas com a
desencantada e\ou cínica visão do amor que, na primeira pessoa da
experiência vivida, nos propõem João Valério, Paulo Honório e Luís da Silva
em Caetés, S. Bernardo e Angústia, respectivamente? (PAES in RAMOS,
1996: p. 11)
Após sua morte, em 1953, com a publicação de Memórias do cárcere, que
manteve a unanimidade crítica de quase toda sua obra, enfim Graciliano foi sucesso
de vendas, alcançando o incrível número de 10.000 exemplares vendidos em
apenas 45 dias. Lúcia Miguel Pereira comparava Graciliano ao russo Dostoiévski e
seu clássico Recordações da casa dos mortos, afirmando que Memórias do cárcere
não se revelava inferior ao russo. Gilberto Freyre destacou a sinceridade com que o
mestre Graça expusera a dor de sua passagem pela cadeia. Oswald de Andrade
ressaltou o depoimento cristalino que mostrou todas as abjeções e injustiças
cometidas com Graciliano. Já José Lins do Rego prognosticou que sua repercussão
seria maior na medida em que o tempo passasse. E, por fim, Antonio Candido, um
dos maiores estudiosos da obra de Graciliano, afirmou que o conjunto da obra era
irretocável.
Mas não foram só suas obras, o fruto deixado por Graciliano. Também não
podemos nos limitar a citar a vasta literatura crítica, composta de diversos ensaios,
alguns já citados neste trabalho, biografias, dissertações e teses, não só no Brasil,
mas em todo mundo, resultado de um interesse cada vez maior de leitores de vários
países, com centro de estudos literários sobre nossa literatura espalhados em todos
os continentes. Só isso já seria suficiente para registrar a grandiosidade de
Graciliano Ramos. Várias pessoas também citam como um dos legados do Mestre
Graça a sua integridade moral, sua ética, sua noção de justiça e preocupação com
os pobres, com aquela população que não tem voz, marcas essas que apareciam
não só na sua vida pública como na própria obra. Denis de Moraes, por ocasião do
Festival Literário de Paraty de 2013, disse que Graciliano Ramos certamente
apoiaria os protestos que ocorreram em várias cidades brasileiras no ano de 2013. O
pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo,
Erwin Torralbo Giménez, numa das mesas da Flip, cujo tema foi “Graciliano Ramos:
políticas da escrita”, usando uma expressão atual que classifica uma pessoa de
confiança, que lutaria pelos seus direitos, falou sobre o caráter do grande escritor
149
alagoano: “Graciliano, sim, nos representa”. E podemos afirmar que Graciliano
conseguiu deixar esse sentimento sobre ele e sua obra, porém registre-se que sua
escrita era política, mas não panfletária. Graciliano fazia uso de temas políticos e
sociais em sua literatura, porém, não permitia que eles sobrepujassem os aspectos
literários de sua obra. Ele não utilizava a literatura com o único propósito de fazer
política. Os temas trazidos pelo autor sempre carregavam também outros aspectos,
às vezes uma análise psicológica, outras vezes, concomitantemente ou não, os
aspectos culturais e, em outras, como no caso de Histórias de Alexandre, a
comicidade. O aspecto político servia como instrumento de reflexão, para
engrandecimento do homem e, reforça-se, sempre em alta relevância os aspectos
literários relativos à obra do autor.
Assim, tendo espalhado essas sementes por toda sua vida, era de se esperar
que outros escritores procurassem seguir os seus passos. Já citamos alguns
exemplos de escritores que estavam iniciando a carreira e ouviram atentamente os
conselhos de Graciliano, mas também temos os que vieram após sua morte. Todos
os escritores que procuraram seguir os passos de Graciliano têm em comum a
profunda admiração por ele. Podemos citar como um dos escritores brasileiros pósGraciliano cuja obra mais se aproximou de Graciliano o paulista João Antonio. Como
um intérprete das vozes das ruas, João Antonio, tal qual Graciliano, deu voz a
personagens que usualmente são marginalizados pela sociedade. O escritor
paulista, que foi um grande amigo de Ricardo Ramos, um dos filhos de Graciliano,
nutria uma paixão pelas obras de grandes escritores, tanto nacionais quanto
estrangeiros, como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Dostoiévski, Eça de
Queiroz, Jack London, Hemingway, entre outros. E era normal que um autor que lia
tantos autores clássicos, acabasse recebendo a influência de algum deles. Alguns
estudos, como a tese de doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada da
USP de Bruno Gonçalves Zeni (2012), citam uma relação entre os contos de João
Antonio com Alcântara Machado, Guimarães Rosa, Rubens Fonseca, Lima Barreto e
Graciliano Ramos. Mas são os dois últimos que se sobressaem. Lima Barreto, pela
declarada dívida literária e insistentes homenagens em epígrafes e dedicatórias,
além de um livro sobre o autor, intitulado Calvário e porres do pingente Afonso
Henriques de Lima Barreto (1977). Já Graciliano foi sempre declarado por ele como
seu autor predileto. Sempre se referia aos livros do Mestre Graça como leitura
150
indispensável, principalmente para os escritores. No próprio já citado livro sobre
Lima Barreto, João Antonio utiliza no título uma metáfora para atribuí-la a Lima
Barreto, metáfora essa que foi diversas vezes utilizada pelo escritor para se referir a
seus personagens marginalizados e sofredores, como na reportagem “Pingentes”,
que fala sobre os trabalhadores que viajam pendurados nas portas dos trens
cariocas da Central do Brasil, e presente no livro Malhação do Judas carioca (1975).
Essa mesma forma lexical é também localizada na crônica “Os passageiros
pingentes”, publicada no livro Linhas tortas, de Graciliano Ramos.
João Antonio também carrega a característica de economizar palavras e ao
mesmo tempo demonstrar uma carga intensa de significação para os sentimentos de
seus personagens. Ao comentar a linguagem lírico-popular das histórias de
Malagueta, Perus e Bacanaço, Alfredo Bosi diz que “tudo nelas é breve, intenso e
sintético como o narrador imagina ser o andamento vital daquelas criaturas
apertadas entre a urgência pícara de vencer a fome e o medo agudo da polícia ou
do malandro mais forte”. (BOSI, 1987: p.19). Bosi cita o conto “Frio”, incluído no
citado livro de João Antonio, reforçando essa pungência da palavra, a mesma da
linguagem utilizada por Graciliano:
cada frase, traz uma sensação premente, uma experiência doída, uma
angústia a mais. A palavra diz a espera, a pena do corpo; raramente o
sonho, doce intervalo entre momentos de desconforto. É um signo pesado
de vida e, no entanto, caminha depressa e sem estorvos, tocado pela
simpatia do narrador. (op cit: 19)
Já, no conto “Paulo Melado do Chapéu Mangueira Serralha”, do livro Dedo
duro, o autor traz, na parte intitulada “Ave Noturna”, o mesmo tom emocional
presente no capítulo II de S. Bernardo, sendo que em ambas as partes os dois
autores se utilizam da metalinguagem, ao mencionarem as agruras que o ato de
escrever pode ter, mas que também podem servir de impulso para a produção da
escrita:
UMA AVE NOTURNA
Vive-se.
Se se é uma chaga viva, nervo exposto, tontice. Ninguém vê. Meu trabalho
tem sido, quando presta, disfarçar isso.
Meu pecado é que as manhãs foram feitas para a meditação. As tardes para
a contemplação. E as noites, estas sim, para a concentração e a
construção. Nelas, expludo. (ANTONIO, 1982: 87)
*
II
151
Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja – e iniciei
a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem
indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.
[...]
Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café,
suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que
a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado.
Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita
para a horta. [...]
Volto a sentar-me, releio estes períodos chinfrins.
Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoirava
isto brincando. (RAMOS, 2005: pp.11-12)
Godofredo de Oliveira Neto (1990), em seu estudo A ficção na realidade em
São Bernardo, pontua essa variação de sentimentos em relação ao elemento
noturno no livro de Graciliano, mas que também pode ser aplicado ao conto de João
Antonio. Esse elemento, que significa no imaginário popular algo temeroso,
inebriante e assustador, pode também desencadear a construção e a criação, como
aparece no conto de João Antonio. Para o professor Godofredo,
o impulso para a escrita é determinado por um elemento exterior: o pio da
coruja [...] numa atmosfera noturna, onde o homem perde um pouco as
fronteiras do cotidiano e do racional, e se torna mais permeável aos signos
da natureza. Agora, Paulo Honório já não faz cálculos ligados à escrita, mas
é antes a força da pulsão para a escrita. (OLIVEIRA NETO, 1990:p.38)
Outros escritores, além de João Antonio, também se aproximaram da obra de
Graciliano Ramos. Como já foi dito, esses escritores sempre exprimiram profunda
admiração por Graciliano. Tivemos também o caso do professor e escritor Silviano
Santiago, grande estudioso de nossa literatura, que escreveu Em liberdade, obra
publicada em 1981 em que o autor reproduz a voz de Graciliano pretendendo
recuperar memórias inéditas do Mestre Graça. Jacques do Prado Brandão, na aba
da capa da segunda edição (1985) de Em liberdade resume o livro em poucas
linhas: “No intervalo entre sua saída da cadeia e a instauração do Estado Novo,
Graciliano Ramos, o mais difícil e mais torturado dos romancistas brasileiros da
década de trinta, escreve um diário, ao qual dá o título de Em liberdade”.
(BRANDÃO apud SANTIAGO, 1985).
Silviano se empenha em transcrever um
suposto diário, que Graciliano teria escrito logo após deixar o cárcere, e avisa após o
título: “ficção de Silviano Santiago”. Assim, Santiago faz referências claras ao
passado, porém, trazendo luz para eventos cotidianos, mostrando que não só a
obra, mas também o exemplo dado em vida por Graciliano é atemporal. Quanto a
152
essa reflexão sobre passado e presente, no mesmo texto citado anteriormente,
Brandão define assim:
A reconstituição de um momento na História, que proporciona Em liberdade,
dá nova amplitude à própria obra e vida do romancista de Vidas secas e
surge como meditação paralela sobre o Brasil e o mundo de hoje, em
metáfora magnífica de inúmeras e complexas interpretações . [...] Não lhe
basta vê-lo do exterior, penetra-o e se torna ele mesmo Graciliano Ramos
[...] Querendo diminuir a névoa entre ele e o mundo, [...] serve-se de seus
poderes de criação como de focos de luz para encenar a história e
enquadrar o personagem num fascinante jogo de espelhos múltiplos,
tornando redivivo o romancista de Angústia e o seu mundo, transformando-o
em outro, trazendo-o até hoje, para, finalmente, desfeita a ilusão, nos deixar
com um grande escritor que é o próprio Silviano Santiago.” (op.cit.).
Outro escritor e admirador de Graciliano Ramos é o amazonense Milton
Hatoum. Milton foi o responsável pela conferência de abertura do Festival Literário
de Parati de 2013, falando sobre o autor de S. Bernardo. Nessa conferência sobre o
tema “Aspereza do mundo, concisão de linguagem”, Hatoum destacou a ética de
Graciliano, que o tornava uma referência para o momento atual. Destacou também
que seu livro de memórias Infância foi de grande importância para sua vida de leitor
e escritor. Sobre a influência recebida de Graciliano, Milton contou que vários
escritores brasileiros foram influenciados por Graciliano, como ele próprio, Érico
Veríssimo e Guimarães Rosa. Em entrevista à Rádio Batuta, pertencente ao Instituto
Moreira Sales, Milton contou que essa importância de Infância para ele foi tanta, que
ele gostaria de escrever um prefácio para a obra. Em tese de doutorado em Teoria
Literária e Literatura Comparada da USP, de Maria da Luz Pinheiro de Cristo, a
autora trabalha com manuscritos dos romances Relato de um certo oriente e Dois
Irmãos, de Milton Hatoum, evidenciando que o escritor chegava a fazer diversos
textos modificados antes da edição que foi levada para publicação, sendo que no
caso de Dois Irmãos, o autor entregou a autora 20 versões diferentes do livro. Essa
preocupação em trabalhar o texto exaustivamente até encontrar a sua forma ideal e
definitiva também era apresentada por Graciliano Ramos. Esse trabalho detalhado
de Milton Hatoum com o texto resulta numa produção bem espaçada, num total de
somente quatro romances.
Também da literatura contemporânea, temos o escritor e tradutor Rubens
Figueiredo, que vem se destacando no cenário literário brasileiro, ao receber alguns
prêmios de destaque da literatura brasileira, e que também demonstra ter recebido
influências de Graciliano Ramos.
153
Rubens Figueiredo nasceu em 1956, no Rio de Janeiro. Formado em Letras,
na habilitação português-russo, é também tradutor, principalmente de obras em
russo.
Essa atividade de tradutor já foi mencionada pelo autor como uma das
razões por produzir tão espaçadamente, já que seu primeiro livro, O mistério da
samambaia bailarina,foi publicado em 1986 e depois disso Rubens Figueiredo
publicou mais sete livros. Seus seis últimos livros foram escritos em intervalos de
quatro anos cada um. Embora essa justificativa tenha razões para ser levada em
conta, visto que Rubens Figueiredo tem um grande volume de traduções (o próprio
autor não sabe ao certo quantos livros traduziu, afirmando apenas, em recente
entrevista para o portal brasileiro do jornal Pravda, que traduziu “uns 70 livros”). Só
para a editora Companhia das Letras foram mais de 40 livros. No entanto, o
professor Flavio Carneiro, da UERJ, levanta outra hipótese: “a busca por uma
expressão justa e trabalhada”. Fiori (2009) lembra que o leitor, quando toma contato
com a obra de Rubens Figueiredo, tem “a impressão de trabalho intenso com a
linguagem, no sentido de buscar as palavras, as expressões, as imagens mais
adequadas à configuração de seu universo ficcional” (FIORI, 2009: p. 337). Tal
hipótese pode ser justificada pelo rigor que o autor tem no manejo com a palavra.
Tal rigor fez com que alguns pesquisadores, como Roberto Lota, Mestre em Letras
Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em Letras na
mesma universidade, lembrem de grandes nomes de nossa literatura:
No que tange à estruturação textual, o diálogo com a escrita de Graciliano
Ramos e com a de João Cabral de Melo Neto será observado,
desenvolvendo uma forma peculiar de Educação, em que a concisão, a
secura, a objetividade, a literatura desprovida de sentimentalismo serão os
caminhos percorridos (mais ou menos vigorosamente) desde os primeiros
momentos de sua produção. (LOTA, 2011:p. 10)
O próprio Rubens Figueiredo dá pistas de uma predileção por Graciliano
Ramos, quando, em uma entrevista, diz que “a prosa que mais tenho admirado é a
de Graciliano Ramos”. Lota afirma que uma das maiores influências do estilo de
Graciliano Ramos aparece quando Rubens Figueiredo fala pelos silêncios, pois
“nesse silêncio que se anuncia agudo e reverberado, somos convidados a penetrar
além das oralizações, para dentro do que se vê, para do dentro do ser que vive. Tal
é a forma com que Rubens Figueiredo conduz sua narrativa”. (idem, p.21)
154
Tanto Rubens Figueiredo como Graciliano seguem o preceito do poeta
americano americano Ezra Pound, citado no capítulo anterior, de que “o bom escritor
é o que mantém a linguagem eficiente”. (POUND apud LINS, p. 193).
A busca pela precisão na escrita, trabalhando o texto à exaustão, lapidandoo, pode também ter sido resultada pela forma como Figueiredo trabalha a tradução
de seus livros, já que procura dar ao texto traduzido um rigor que garanta a
fidelidade ao texto original.
A própria forma como Rubens Figueiredo chegou a ser tradutor do russo para
o português pode mostrar uma aproximação ao menos temática e de escolhas, entre
ele e Graciliano. O autor carioca, aos 17 anos, já era leitor de autores russos, e fez
opção pela habilitação Português-Russo no Curso de Letras no Vestibular: “O que
pode ter passado na cabeça de um garoto de 17 anos? Fazer uma coisa diferente,
estranha... era a época da ditadura militar, a Rússia era um lugar comunista, tinha
esse lado contestador. Tudo isso era atraente.”52 Graciliano Ramos já chegou a ser
chamado de um “alagoano de alma russa”53, num trabalho de dissertação em que a
mestra Cristiane Arteaga discute a aproximação e influência que o Mestre Graça
teve do russo Dostoiévski, com a predileção por temas sociais e pelas camadas
mais sofridas. O trabalho de tradutor de obras russas conforta a alma de Rubens
Figueiredo, já que a tradução de livros de língua inglesa, tarefa que também exerce,
o incomoda por sentir que, de alguma forma, poderia estar participando do que
chama de processo de colonização, em que um idioma acaba engolindo outros,
numa relação “desigual entre os países”. Quando traduz do russo, ele sente como se
estivesse enfrentando o sistema, porque a literatura russa clássica é caracterizada
pelo questionamento da vida social. Mas, assim como Graciliano, Rubens Figueiredo
não se deixa levar pelo uso do social como uma literatura de panfletismo barato. Em
entrevista ao Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, ele tratou desse
assunto:
A pobreza, as injustiças, a brutalidade, em suas variadas formas, são
inescapáveis e centrais. Resta, no entanto, determinar o que se entende por
“social”. A literatura talvez possa dar uma contribuição especial quando se
trata de ampliar o alcance do que classificamos como social, em
52
SCARPIN, Paula. Nossos três russos.In PIAUÍ, 47. Agosto de 2010. Questões literárias.
Arteaga, Cristiane Guimarães. A alma russa de um nordestino: Graciliano Ramos leitor de
Dostoiévski. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Letras. Programa de PósGraduação em Letras. Dissertação de Mestrado, 2005.
53
155
contraposição ao pessoal, ou ao cultural. Por exemplo, as matrizes de uma
narrativa, a sua composição e seus pressupostos abrigam um potencial
crítico que pode ter grande relevância social. Mas isso não é automático.
Depende da consciência e do sentimento do escritor ao manejar esse
material.(2012, p.194)
Essa questão foi usada, por exemplo, em um dos contos do livro Contos de
Pedro, “De forno a forno”, em que é mostrada, entre outros fatos, a forma com que a
sociedade pode reagir frente aos pedintes que vivem nas ruas. Nos demais contos
do livro, também há esse traço de denúncia e crítica, mas não se limitando a isso,
pois o importante é a palavra e o trato que se faz com ela. E assim se dá também no
conto “Uma questão de lógica”, do mesmo livro, com o autor, usando uma linguagem
contida, concisa e objetiva, tal qual Graciliano, tratando das agruras de gente
simples, que normalmente não tem voz, como de ter que viver numa casa apertada,
sem ter como saber se dará para os filhos terem o que comer e vestir e lutando para
conseguir até mesmo ir a uma entrevista de emprego por não ter como pagar
alguém para ficar com os filhos pequenos.
Hoje, 61 anos após a morte de Graciliano Ramos, sua obra continua atual e
viva e talvez esse seja seu maior legado. O reconhecimento cresceu e seus livros
receberam várias outras edições. Na atual editora de seus livros, a Record,
Graciliano é o autor nacional de maior vendagem. Seus livros também receberam
adaptações para o cinema e televisão, como os filmes Vidas secas, dirigido por
Nelson Pereira dos Santos em 1963, São Bernardo, dirigido por Leon Hirszman em
1971 e Memórias do cárcere, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1984, além
da série Terra dos meninos pelados, adaptada por Claudio Lobato e dirigida por
Márcio Trigo, e do recente especial Alexandre e outros heróis, baseado em três das
Histórias de Alexandre, exibido em dezembro de 2013 e dirigido por Luiz Fernando
Carvalho. Terra dos meninos pelados também vem recebendo, aproximadamente
nos últimos dez anos, algumas adaptações para o teatro em Curitiba, Pernambuco
e São Paulo. No tocante às Histórias de Alexandre, a obra já tinha deixado outro
legado, quando um quadro do programa do humorista Chico Anysio foi produzido
nos anos 70 e 80 para a televisão e depois para o livro. Mesmo percebendo que o
referido quadro algumas vezes tenha apresentado uma certa dose de vulgarização,
ele acabou levando ao grande público essa modalidade narrativa, com transmissão
oral, numa outra esfera de popularização, no âmbito da indústria cultural de massas.
156
Embora no texto de Ivan Cavalcanti Proença, que aparece na “orelha” do livro
publicado por Chico Anysio – É mentira, Terta? – não tenha referência a Histórias de
Alexandre, alguns jornalistas e leitores de Graciliano fora do âmbito da imprensa,
citaram a aproximação entre o personagem “Pantaleão” de Chico Anysio e
Alexandre, popularizando a obra. Mesmo papel teve o especial Alexandre e outros
heróis, citado anteriormente, pois valorizou a narrativa oral e a obra, aumentando
sua
procura.
Além
disso,
o
interesse
pelo
autor
e
sua
obra
cresceu
consideravelmente, alcançando patamares de um grande escritor, o que ele foi.
Exemplo disto são os numerosos estudos de críticos literários como Alfredo Bosi e
Antonio Candido ou de diversas dissertações e teses que se debruçaram sobre a
obra deste escritor alagoano. Mesmo com outros escritores tendo aparecido desde
1953, ele continua sendo considerado como um dos maiores nomes de nossa
literatura. Invariavelmente, quando críticos de nossa literatura são chamados a citar
os maiores escritores da literatura brasileira, Graciliano está em todas as listas. Por
isso a numerosa fortuna crítica do autor. Em especial aos estudos sobre Histórias de
Alexandre, como já vimos nesta dissertação, nos últimos anos, temos notado um
movimento crescente pela procura de críticos e de alunos de Mestrado e Doutorado
que tem trabalhado no estudo da obra. Também resulta desse grande interesse o
grande número de edições de Alexandre e outros heróis, atualmente na 60ª edição,
indicando o índice de mais de uma edição por ano desde 1962, com uma vendagem
tal que o leva ao terceiro posto entre os títulos de Graciliano. Soma-se a isso o fato
de que a edição de Histórias de Alexandre, publicada em 2007, com ilustrações de
André Neves, já atingiu a 10ª edição, também apontando para um índice de mais de
uma edição por ano.
Também como reflexo desse interesse, temos, por exemplo, as biografias de
Denis de Moraes (O Velho Graça) e as de seus filhos Clara Ramos (Mestre
Graciliano: confirmação de uma obra) e Ricardo Ramos (Graciliano: retrato
fragmentado). Essas biografias, junto com as poucas entrevistas concedidas pelo
escritor, nos ajudam a melhor compreender que o escritor caminhava junto com o
homem Graciliano.
A atualidade de sua obra pode ser considerada o principal legado deixado por
Graciliano, sem contar com sua retidão e sua ética, que são sempre citadas por
quem o conheceu como um exemplo para as gerações posteriores. Com relação a
157
essa atualidade, Wander Melo Miranda, no prefácio da obra Estruturas – ensaio
sobre o romance de Graciliano, de Rui Mourão, diz que
Por um lado, a permanência da obra do autor revela, em virtude dos
problemas que aborda, certa imobilidade da história social brasileira, que
não parece avançar muito ou não sair do lugar por outro, algo nessa obra
delineia uma linha de fuga em relação à precariedade comum ao texto
literário [...]. Talvez resida no que escapa à leitura de Graciliano Ramos,
qualquer que seja a perspectiva crítica adotada, a justificativa mais
convincente para a perenidade – paradoxal – de seus textos. Quanto mais
perto da experiência histórica que lhe coube expressar, mais longe da
limitação temporal que essa mesma experiência poderia acarretar.
(MIRANDA apud MOURÃO, 2003: p.8)
Diante de todos esses pontos, acreditamos que podemos resumir Graciliano
nos seguintes versos do poema epígrafe desta dissertação, “Graciliano Ramos”54, do
poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto:
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara. (MELO NETO, 1986:p. 75)
54
Poema presente no livro Poesias Completas (1986), de João Cabral de Melo Neto.
158
Conclusões
Ao nos decidirmos pesquisar formas populares de cultura – antes de
atentarmos especificamente para a sua presença na literatura brasileira - nos
deparamos com diversos termos que também se adequariam ao tema proposto,
como cultura popular ou folclore. Dependendo do local em que fôssemos investigar,
teríamos que ter noção exata do “chão onde estávamos pisando” para poder
distinguir o que era uma opinião fundada ou apenas algo carregado de préconceitos. Porém, seria necessário que nós também nos distanciássemos, para que
conhecimentos do senso comum que carregávamos não influenciassem nosso
estudo.
Assim, analisamos alguns aspectos históricos da formação da cultura popular,
seguindo a trajetória percorrida desde as primeiras histórias que eram contadas por
humanos há milhares de anos, passando pela transição entre as histórias orais e as
escritas, chegando à modernidade. Feito esse trabalho, não poderíamos chegar a
uma conclusão diferente daquela que reconhecesse a grande importância dessas
formas, desde as primitivas que surgiram há séculos atrás até as contadas pelo povo
do sertão nordestino, como as contidas nas Histórias de Alexandre.
Já eram importantes quando registravam as descobertas do homem ou
daquilo que eles começaram a entender como o mundo em que viviam. Da mesma
forma, tínhamos que reconhecer sua significância ao manter em poder da sociedade
em que viviam através das diversas gerações, ou mesmo de levá-las para outras
terras, outros mares na bagagem cultural que carregavam. Essa bagagem continha
aspectos que tanto podiam ser em termos artísticos, como religiosos, sociais,
políticos ou de qualquer outra ordem que ajudasse a definir um perfil daquela
sociedade em que viviam e das outras com que entravam em contato. Também
percebemos o valor para o estudo do desenvolvimento e/ou mudança de nossas
159
sociedades através dos tempos, do que influiu em mudanças para melhor ou para
pior na qualidade de vida. Tudo isso está presente nessa cultura.
No quesito relacionado à qualidade dessa produção reside o principal ponto
de conflito quando alguém decide estudá-la. Muito se fala de que esse produto é
pobre, acompanhando a pobreza de quem o cria, ou seja, o povo. Para realmente
estudarmos esse assunto, temos que entender que não podemos pretender analisar
a qualidade de um produto como a cultura popular se não nos basearmos em
concepções e fundamentos que só fazem sentido num mundo em que essas bases
são realmente importantes. Precisamos ter em mente que o conhecimento obtido
nos livros pode não ser (e na maioria das vezes não é mesmo) essencial para
alguém que vive numa região em que não há livros, jornais, revistas, ou sequer são
feitas divulgações através da escrita. Nesses locais, o verdadeiro conhecimento
provém da prática, da observação, do fato contado ou narrado, da intuição, da
criatividade etc. Como bem diz Ricardo Azevedo55, isso não quer dizer que devemos
desvalorizar o pensamento abstrato e teórico, mas sim compreender algumas de
suas características e ressaltar que a visão de mundo popular obedece a outros
paradigmas.
Da mesma forma, não podemos cair na armadilha de fazer o contrário, de
achar que tudo o que é popular é perfeito, bonito e de alta qualidade, e que o
importa é ter vindo do povo, vir “da raiz”. O conhecimento e entendimento em geral
de cada cultura passam por padrões sociais, éticos e estéticos próprios. Desse jeito,
a própria cultura popular acabaria por enfrentar um embate dentro de seus domínios.
O que seria cultura popular? O que seria considerado popular? O que é popular em
uma sociedade não o é em outra. Então uma seria mais popular que a outra? A que
cultura seria dado maior valor? Uma forma cultural vinda do Japão é mais importante
do que uma que venha da América Central ou do nordeste brasileiro? Ainda
poderíamos cair numa cilada em que a opinião individual poderia ser valorizada em
detrimento da coletiva. Da mesma forma como a dita cultura letrada tem diferenças
de modelos, de visão de mundo, de hábitos mentais, de padrões sociais, culturais,
éticos e estéticos e também de maneiras de enxergar o outro e o mundo em relação
55
AZEVEDO, Ricardo. O abençoado e o danado do samba. Caixas com Letras – Cultura popular,
artesanato de tradição e livros afins. Cadernos Arte Sol 2, Publicação ArteSol, 2006, pp 53-70.
Disponível em http://www.ricardoazevedo.com.br/wp/wp-content/uploads/Abencoado-e-danado-dosamba.pdf. Acessado em 23 de setembro de 2013.
160
à cultura popular, esta tem subdivisões internas quando analisamos as várias
culturas populares existentes por todo o mundo. Muitas das vezes essas subdivisões
não são somente de um país para outro, mas sim de um estado para outro, uma
cidade para outra. Assim, com essa vasta percepção do assunto, podemos concluir
que há relevância tanto na cultura tradicional e letrada quanto na popular, e que elas
implicam diferentes produtos, ou diferentes discursos. Concluímos também que,
tendo noção dessa relevância de ambas, podemos entender melhor nossa
sociedade, arte, literatura e, porque não dizer, nós mesmos.
Estudando as formas populares em toda cultura brasileira, notamos que ela é
de uma grande variedade, traduzida pela diversidade de influências culturais
estrangeiras que aqui foram introduzidas, além da própria cultura nativa dos índios
que já aqui viviam. A diversidade também é representada pelo grande número de
meios que representam essa cultura. Assim, há várias contribuições da cultura
popular que se manifestam por todo o Brasil, como festas, danças, cantos e contos.
Cada uma dessas manifestações acaba recebendo maior importância e atenção,
dependendo da região onde ela esteja sendo apresentada, da audiência e da
relação que tenha essa audiência tanto com a cultura popular como com a cultura
erudita. Da mesma forma, cada uma dessas formas também apresenta variações
internas.
Na literatura com motivos populares tivemos um fenômeno de diferenciação
amplo, com uma enormidade de fontes que deram origem à nossa atual literatura.
Essas fontes representam histórias orais desde os nativos indígenas como de
escravos africanos das mais diversas nações e várias nações européias que aqui
chegaram, e até asiáticas que posteriormente imigraram para nosso país. Há que se
firmar que muitas das histórias, mesmo sendo trazidas por portugueses, já tinham
registros que marcavam que tinham origem e presença em muitos outros países.
Aqui chegando, essas histórias orais foram adquirindo uma “roupagem” própria,
aclimatadas a nosso país multicultural. Na passagem do oral para a literatura escrita,
essa cultura popular teve igualmente uma diversidade tanto de fontes como de
meios representativos, como poemas, cantos e contos, e também alguns romances.
No estudo sobre a obra Histórias de Alexandre, com toda noção relacionada à
cultura popular, pudemos ter uma visão melhor sobre ela. O popular está em todas
as narrativas daquele major com um olho vesgo que se reunia nas noites de
161
domingos e dias santos com amigos da redondeza para contar suas histórias
recheadas de elementos fantásticos, exagerados e engraçados. Esse popular
também é identificado na platéia de Alexandre, formada de personagens pobres do
esquecido sertão nordestino. Esses personagens que não recebem voz na
sociedade e são subjugados pelos poderosos, de Graciliano recebem voz e por ele
são tratados com o devido respeito, transformando-se em vozes transmissoras do
saber popular. A valorização desses elementos sofridos, que já é uma marca em
toda obra de Graciliano, em Histórias de Alexandre ganha um contorno maior, pois
não somente eles são valorizados, mas também a cultura popular que representam.
Outro fato importante é o de que os saberes desses personagens desprestigiados
lhes foram transmitidos por outros elementos detentores dessa cultura, o que
assinala, assim, que esses saberes se mantenham e estejam em constante
movimento, permanecendo sempre em evidência.
Da mesma forma, o elemento popular das histórias pode ser relacionado às
formas populares de criação e de divulgação da cultura, como cordéis, emboladas e
o próprio serão utilizado por Alexandre. E vimos a presença dessas vozes e saberes
populares na obra analisada também como um produto do inconsciente coletivo do
nordestino, que soprava no ar aquelas histórias que acabaram primeiro por parar
nos ouvidos de Graciliano Ramos desde sua infância e que ele guardou na memória,
e a ela deu contornos próprios. Posteriormente, aquelas histórias do imaginário
popular foram parar, pela pena de Graciliano, nos ouvidos daquele homem simples,
o personagem narrador, mas que tinha a mania de “surrupiar” aquelas histórias e
proceder a adaptações para que assim delas se apropriasse e a partir dali pudesse
ditar o rumo que quisesse lhes dar. A análise colocou em destaque o status do
narrador, mesmo entre populações pequenas, distanciadas da cultura letrada, o
reconhecimento da palavra (inquestionável) do contador e a valorização dos
saberes/conhecimento de um mundo que vai além dos saberes e conhecimentos
dos ouvintes que aprendem e se entretêm ouvindo as histórias.
Histórias de Alexandre é bem diferente de Terra dos Meninos Pelados, de
Pequena História da República (escritas na mesma época e que foram
posteriormente incluídas num mesmo volume), de Vidas Secas, de São Bernardo e
de todas as outras obras de Graciliano Ramos, mas o autor continua sendo visto,
como em todas essas obras, tanto por sua marca enxuta de escrever, mesmo com
162
um narrador bastante falador como Alexandre, como por seu apego à terra, ao povo
e às coisas do povo. Graciliano, que sempre primou pela secura, de enxugar ao
máximo, tem um narrador como Alexandre, que é o inverso da economia
“graciliânica”. Ele é um narrador em que Graciliano se exercita no gênero do humor,
no humor do exagero e das histórias tradicionais de mentiroso. Graciliano tem em
Alexandre um personagem que trafega do real para o fantasioso e, fazendo uso de
elementos da cultura popular, consegue produzir com que sua linguagem consiga
coexistir entre a tradição oral e o erudito. Nessa obra, Graciliano mostra que, mesmo
um escritor super conceituado, conhecido também por sua elegância, manejo com o
idioma, com a língua, poderia usar elementos populares, não só em termos de
linguagem, como da própria cultura em si. Numa espécie de antropofagia diversa da
preconizada por Oswald de Andrade, Graciliano, ao invés de digerir elementos da
cultura do exterior e interior, prefere usar apenas aqueles que já estão amalgamados
e reconhecidos como cultura de seu país, como cultura popular nacional, e os
aproveita de forma magnífica, transformando os causos de matuto do sertão numa
grande obra.
163
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VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 1995.
WEINRICH, Harold. Estrutura y función de los tiempos. Madrid: Gredos, 1968, p.
264.
173
ANEXO
174
CAPAS DE LIVROS E ILUSTRAÇÕES
FIG.1: Histórias de Alexandre – 1ª.Edição - 1944
Fig. 2: Histórias de Alexandre – 2007
175
FIG. 3: Alexandre e outros heróis – 1ª edição – 1962
FIG. 4: Alexandre e outros heróis – 10ª edição – 1973 (de 1972 a 1974)
176
FIG. 5: Alexandre e outros heróis – 12ª edição – 1975 (até 1990)
FIG. 6: Alexandre e outros heróis – 19ª edição – 1980
(de 1977 a 1986)
177
FIG. 7: Alexandre e outros heróis – 32ª edição - 1991 (até 2001)
FIG. 8: Alexandre e outros heróis – Edição especial do Círculo do Livro – 1994
178
FIG.9: Alexandre e outros heróis – 49ª edição – 2006 (de 2002 a 2014)
FIG. 10: Histórias de Alexandre – Audiolivro
179
FIG.11: Histórias agrestes – 1960
180
FIG. 12 – Ilustração de Moraes para “História de um bode”
181
FIG.13: Ilustração de Silvio Vitorino para “História de um bode”
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