UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ HELENA MARIA SCAVAZINI SALVADOR PRODUÇÃO DIDÁTICO-PEDAGÓGICA LEITURA ICONOGRÁFICA MARINGÁ 2008 HELENA MARIA SCAVAZINI SALVADOR LEITURA ICONOGRÁFICA Produção didático-pedagógica apresentada à SEED – Secretaria de Estado da Educação, como parte integrante do PDE – Programa de Desenvolvimento Educacional, sob a orientação da Profª. Drª. Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso MARINGÁ 2008 Produção didático-pedagógica NRE: Loanda Município: Loanda Professora: Helena Maria Scavazini Salvador e-mail: [email protected] Disciplina: Língua Portuguesa Série: 7ª EF Conteúdo da disciplina: Prática de Leitura Iconográfica IES: UEM Orientadora: Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso Relacionado às disciplinas: Arte e Ciências Título: Leitura Iconográfica Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor brasileiro, diz que “cada um lê com os olhos que têm e interpreta a partir de onde os pés pisam, pois todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Pensando nisso, propomos a seguinte reflexão: o que determina que tenhamos olhares diferentes sobre os mesmos objetos? Para início de conversa... Observe o quadro Ceci n’est pas une pipe, de René Magritte O que você vê? O que lhe sugere a imagem do quadro? Que percepções, sensações ou lembranças ela poderia despertar? Por que podemos pensar em diferentes coisas quando observamos a mesma imagem? Repare no quadro. Há uma inscrição nele: Ceci n’est pas une pipe, que significa “Isto não é um cachimbo”. Se não é um cachimbo, pense: o que é um cachimbo? Que forma tem? De que cor pode ser? Tem cheiro? Sabor? Que textura possui? De que tamanho pode ser? Para que serve? Você consegue responder a todas essas questões apenas observando o quadro? Então, cabe ainda a indagação: se isso não é um cachimbo, o que é isso? O cachimbo é um objeto, que reúne características específicas. Ele pode ser representado. A sua representação, porém, apenas sugere um significado que já temos construído desse objeto para que nos lembremos dele. No quadro acima, o objeto está representado na obra de arte. O que é uma obra de arte? As professoras Mirian Celeste Martins, Gisa Psicosque e Terezinha Telles Guerra, no livro A Língua do Mundo: Poetizar, fruir e conhecer arte, afirmam que “A arte não imita objetos, idéias, conceitos. Ela cria algo novo, porque não é cópia ou pura reprodução, mas a representação simbólica de objetos e idéias presentificados em uma nova realidade, sob um outro ponto de vista.[...] O modo de representação sempre é uma escolha, uma interpretação”. Podemos considerar, assim, que talvez o pintor Magritte não tenha tentado pintar a realidade, mas representá-la a partir de sua interpretação... Mas, todo mundo interpretaria essa imagem da mesma forma? O que é interpretar? Para o dicionário on line Michaeli, interpretar é... in.ter.pre.tar (lat interpretari) vtd 1 Aclarar, explicar o sentido de: Interpretar leis, textos etc. Interpretamos termos obscuros pelos contextos. 2 Tirar de (alguma coisa) uma indução ou presságio: Interpretar sonhos. "E Faraó contou-lhe os seus sonhos, mas ninguém havia que os interpretasse a Faraó" (Gênesis, 41, 8 — trad. de João Ferreira de Almeida). 3 Ajuizar da intenção, do sentido de: Não sei como interpretar o seu sorriso. 4 Traduzir ou verter de língua estrangeira ou antiga: Interpretara Homero em português. 5 Reproduzir ou exprimir a intenção ou o pensamento de: Interpretar a natureza, as paixões, os costumes. Interpretava nesse dia a sátira de um poeta cômico. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=interpretar Interpretar é produzir sentidos sobre determinado objeto. Para conhecer os sentidos da obra é importante que conheçamos as condições sob as quais ela foi produzida. Mesmo assim, podemos buscar essas informações com diferentes objetivos e atentar para diferentes características do objeto que desejamos conhecer. Como interpretamos, então? É possível que nossas interpretações sejam diferentes? Todos nós olhamos a realidade da mesma forma? É possível olhar para um mesmo objeto e vê-lo sob perspectivas diferentes? Nossas experiências colaboram para a observação de certos traços característicos que nos permitem produzir sentidos e, como temos diferentes experiências, nem sempre observamos os mesmos aspectos... Nossos olhares podem se voltar para pontos diferentes do objeto a que nos dirigimos. Podemos nos dirigir ao mesmo objeto e vê-lo sob diferentes pontos de vista... O que nos permite enxergar? Como os nossos olhos vêem? Isso interfere na forma como interpretamos? O que nos diz a Ciência? Como os olhos enxergam? A capacidade de enxergar é proporcionada aos animais pela interação da luz com os receptores especializados que se encontram na retina. Esta é um "filme inteligente" situado dentro de um órgão - o olho - que otimiza a formação de imagens focalizadas e precisas dos objetos do mundo exterior. O olho é uma câmera superautomática capaz de posicionar-se na direção do objeto de interesse, focalizá-lo precisamente e regular a sensibilidade do "filme" automaticamente de acordo com a iluminação do ambiente. LENT, Roberto. Cem bilhões de Neurônios, conceitos fundamentais de Neurociência. Editora Atheneu, 2005. Embora o olho seja um órgão sensorial da visão, a visão inclui não só a habilidade de detectar a luz (as ondas electromagnéticas no espectro visível) e as imagens, mas também a de interpretá-las (ou seja, ver). Por isso, no sentido mais amplo da palavra visão (de percepção visual), esta requer a intervenção de zonas especializadas do cérebro (o córtex visual) que analisam e sintetizam a informação recolhida em termos de forma, cor, textura, relevo, etc. A visão é por isso a percepção das radiações luminosas, compreendendo todo o conjunto de mecanismos fisiológicos e psicológicos pelos quais estas radiações determinam impressões sensoriais de natureza variada, como as cores, as formas, o movimento, a distância e o relevo. O olho é o primeiro componente deste sistema sensorial e é no seu interior que está a retina, composta de cones e bastonetes, onde se realizam os primeiros passos do processo perceptivo. A retina transmite os dados visuais, através do nervo óptico e do núcleo geniculado lateral, para o córtex cerebral. No cérebro tem então início o processo de análise e interpretação que nos permite reconstruir as distâncias, cores, movimentos e formas dos objetos que nos rodeiam. http://pt.wikipedia.org/wiki/Vis%C3%A3o#Seres_humanos E como vemos num espelho? O processo é o mesmo? Leia o texto de Ricardo Azevedo e reflita um pouco mais sobre esse assunto... O caso do espelho (Ricardo Azevedo) Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata. Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos. Depois gritou, com o espelho nas mãos: - Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui? - Isso é um espelho - explicou o dono da loja. - Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai. Os olhos do homem ficaram molhados. - O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante. O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira. - É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito? O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho. Naquele dia, o homem que não sabia quase nada entrou em casa todo contente. Guardou, cuidadoso, o espelho embrulhado na gaveta da penteadeira. A mulher ficou só olhando. No outro dia, esperou o marido sair para trabalhar e correu para o quarto. Abrindo a gaveta da penteadeira, desembrulhou o espelho, olhou e deu um passo atrás. Fez o sinal da cruz tapando a boca com as mãos. Em seguida, guardou o espelho na gaveta e saiu chorando. - Ah, meu Deus! — gritava ela desnorteada. - É o retrato de outra mulher! Meu marido não gosta mais de mim! A outra é linda demais! Que olhos bonitos! Que cabeleira solta! Que pele macia! A diaba é mil vezes mais bonita e mais moça do que eu! - Quando o homem voltou, no fim do dia, achou a casa toda desarrumada. A mulher, chorando sentada no chão, não tinha feito nem a comida. - Que foi isso, mulher? - Ah, seu traidor de uma figa! Quem é aquela jararaca lá no retrato? - Que retrato? - perguntou o marido, surpreso. - Aquele mesmo que você escondeu na gaveta da penteadeira! O homem não estava entendendo nada. - Mas aquilo é o retrato do meu pai! Indignada, a mulher colocou as mãos no peito: - Cachorro sem-vergonha, miserável! Pensa que eu não sei a diferença entre um velho lazarento e uma jabiraca safada e horrorosa? A discussão fervia feito água na chaleira. - Velho lazarento coisa nenhuma! - gritou o homem, ofendido. A mãe da moça morava perto, escutou a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. Encontrou a filha chorando feito criança que se perdeu e não consegue mais voltar pra casa. - Que é isso, menina? - Aquele cafajeste arranjou outra! - Ela ficou maluca - berrou o homem, de cara amarrada. - Ontem eu vi ele escondendo um pacote na gaveta lá do quarto, mãe! Hoje, depois que ele saiu, fui ver o que era. Tá lá! É o retrato de outra mulher! A boa senhora resolveu, ela mesma, verificar o tal retrato. Entrando no quarto, abriu a gaveta, desembrulhou o pacote e espiou. Arregalou os olhos. Olhou de novo. Soltou uma sonora gargalhada. - Só se for o retrato da bisavó dele! A tal fulana é a coisa mais enrugada, feia, velha, cacarenta, murcha, arruinada, desengonçada, capenga, careca, caduca, torta e desdentada que eu já vi até hoje! E completou, feliz, abraçando a filha: - Fica tranqüila. A bruaca do retrato já está com os dois pés na cova! (Versão de conto popular de origem chinesa) Fonte: revista Nova Escola (maio de 1999) http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/122_mai99/html/era.htm 1. No início do texto, quando conhece o espelho, o homem afirma ver nele a imagem do pai. O que ele estava vendo? Por que dizia ser a imagem do pai? 2. A imagem que vemos no espelho plano, comum, é real? Por quê? 3. Há diferença entre observar uma imagem real e observar uma imagem virtual? Que aspectos caracterizam cada um desses olhares? 4. A imagem que vemos num espelho é sempre a mesma? O que poderia alterála? Olhando para o espelho Num espelho plano comum, vemos nossa imagem com a mesma forma e tamanho, que parece encontrar-se atrás do espelho à mesma distância do objeto ao espelho. Os raios que partem de um objeto, diante de um espelho plano, refletem-se no espelho e atingem nossos olhos. Assim, recebemos raios luminosos que descreveram uma trajetória angular e temos a impressão de que são provenientes de um objeto atrás do espelho, em linha reta, isto é, mentalmente prolongamos os raios refletidos, em sentido oposto, para trás do espelho. http://pt.wikipedia.org/wiki/Espelho http://www.diaadia.pr.gov.br/tvpendrive/arquivos/Fil e/imagens/3filosofia/4narciso.jpg Brincando com olhar... O que você vê? http://www.npdbrasil.com.br/portugues/curiosidades.htm Todas as pessoas, quando miram um objeto, vêem-no da mesma forma? Existem diferentes formas de ver? Diferentes formas de se enxergar um objeto A identificação da forma de um objeto depende de neurônios que sinalizam as características das bordas dos objetos, especialmente o contraste e a sua orientação no espaço, além de suas características tridimensionais. Na vida real, os objetos não possuem apenas uma forma bidimensional, como se estivessem todos desenhados ou fotografados em papel. Possuem consistência sólida, conferida pela terceira dimensão do espaço, a profundidade. A detecção de profundidade, também chamada visão tridimensional (3D), é uma submodalidade visual relacionada à detecção de formas, que depende de inúmeros fatores. - Binocularidade. Temos dois olhos afastados cerca de 6 cm um do outro, e a conseqüência disso é que cada um vê um mesmo objeto tridimensional a partir de ângulos ligeiramente diferentes. Podemos nos dar conta disso fixando um objeto e fechando alternadamente um olho, depois o outro, e assim repetidamente. A imagem que vemos com um olho é diferente da que vemos com o outro olho. - Além da binocularidade, nosso cérebro utiliza outras pistas para a visão 3D, algumas delas possivelmente de natureza cultural. Por essa razão, somos capazes de perceber a terceira dimensão de objetos fotografados ou desenhados, mesmo sabendo que eles estão representados sobre o único plano do papel. Interpretamos linhas retas convergentes (por exemplo, os trilhos de uma ferrovia) como linhas paralelas que se afastam de nós. Do mesmo modo, se observarmos uma longa fila de pessoas sabemos que algumas formam imagens pequenas na retina porque estão distantes, não porque sejam anãs! O tamanho relativo das imagens retinianas produzidas por objetos conhecidos nos dá indicações do quanto eles estão afastados de nós. Igualmente, os objetos que estão em perfeito foco quando observamos uma cena são aqueles situados no plano de nossa atenção, ficando fora de foco os mais distantes e os mais próximos. LENT, Roberto. Cem bilhões de Neurônios, conceitos fundamentais de Neurociência. Editora Atheneu, 2005. O autor nos fala que alguns aspectos culturais podem interferir na forma como olhamos o objeto, isso porque as experiências que vamos acumulando no decorrer da nossa história nos permitem associar os sentidos que conhecemos a aspectos do objeto que observamos. A nossa forma de perceber o objeto está relacionada com os sentidos que já produzimos para esse objeto em outras situações. Cada um de nós tem uma forma particular de interpretar o mundo, porque cada um de nós possui experiências únicas guardadas em nossa memória. Cada vez que interpretamos algo, acionamos os sentidos colhidos em outras experiências com o objeto. Observe a história a seguir. Você a conhece? Em que ela se relaciona com nossas reflexões? O VELHO, O MENINO E O BURRO Um velho resolveu vender seu burro na feira da cidade. Como iria retornar andando, chamou seu neto para acompanhá-lo. Montaram os dois no animal e seguiram viagem. Passando por umas barracas de escoteiros, escutaram os comentários críticos; - Como é que pode, duas pessoas em cima deste pobre animal! Resolveram então que o menino desceria, e o velho permaneceria montado. Prosseguiram... Mais na frente tinha uma lagoa e algumas velhas estavam lavando roupa. Quando viram a cena, puseram-se a reclamar: - Que absurdo! Explorando a pobre criança, podendo deixá-la em cima do animal. Constrangidos com o ocorrido, trocaram as posições, ou seja, o menino montou e o velho desceu. Tinham caminhado alguns metros, quando algumas jovens sentadas na calçada externaram seu espanto com o que presenciaram: - Que menino preguiçoso! Enquanto este velho senhor caminha, ele fica todo prazeroso em cima do animal. Tenha vergonha! Diante disto, o menino desceu e desta vez o velho não subiu. Ambos resolveram caminhar, puxando o burro. Já acreditavam ter encontrado a fórmula mais correta quando passaram em frente a um bar. Alguns homens que ali estavam começaram a dar gargalhadas, fazendo chacota da cena: - São mesmo uns idiotas! Ficam andando a pé, enquanto puxam um animal tão jovem e forte! O avô e o neto olharam um para o outro, como que tentando encontrar a maneira correta de agir. Então ambos pegaram o burro e o carregaram nas costas !!! ROCHA, Ruth. O velho, o menino e o burro e outras histórias caipiras. São Paulo: FTD, 1993. 1. Por que o velho e o menino não conseguiram corresponder à opinião das pessoas que encontraram pelo caminho? 2. Em sua opinião, a atitude deles foi correta? O que faria se você estivesse em seu lugar? Vamos estudar agora a letra de uma canção. Observe como a sua organização nos revela diferentes formas de olhar... Chico Buarque – Construção Amou daquela vez Como se fosse a última Beijou sua mulher Como se fosse a última E cada filho seu Como se fosse o único E atravessou a rua Com seu passo tímido Subiu a construção Como se fosse máquina Ergueu no patamar Quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo Num desenho mágico Seus olhos embotados De cimento e lágrima Sentou prá descansar Como se fosse sábado Comeu feijão com arroz Como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou Como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou Como se ouvisse música E tropeçou no céu Como se fosse um bêbado E flutuou no ar Como se fosse um pássaro E se acabou no chão Feito um pacote flácido Agonizou no meio Do passeio público Morreu na contramão Atrapalhando o tráfego... Amou daquela vez Como se fosse o último Beijou sua mulher Como se fosse a única E cada filho seu Como se fosse o pródigo E atravessou a rua Com seu passo bêbado Subiu a construção Como se fosse sólido Ergueu no patamar Quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo Num desenho lógico Seus olhos embotados De cimento e tráfego Sentou prá descansar Como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz Como se fosse o máximo Bebeu e soluçou Como se fosse máquina Dançou e gargalhou Como se fosse o próximo E tropeçou no céu Como se ouvisse música E flutuou no ar Como se fosse sábado E se acabou no chão Feito um pacote tímido Agonizou no meio Do passeio náufrago Morreu na contramão Atrapalhando o público... Como se fosse máquina Beijou sua mulher Como se fosse lógico Ergueu no patamar Quatro paredes flácidas Sentou prá descansar Como se fosse um pássaro E flutuou no ar Como se fosse um príncipe E se acabou no chão Feito um pacote bêbado Morreu na contramão Atrapalhando o sábado... [...] http://www.zap-letras.com/letra/135413/ Amou daquela vez 1. Que imagem a letra da canção de Chico Buarque permite construir? 2. Que fatos compõem o acontecimento sobre o qual a narrativa é focada? 3. Observe os versos abaixo e comente: O que poderia determinar diferentes formas em tratar a morte do operário? Morreu na contramão Atrapalhando o tráfego... Morreu na contramão Atrapalhando o público... Morreu na contramão Atrapalhando o sábado... 4. Atente para outras cenas descritas na canção que permitem constatar esses diferentes pontos de vista. Perspectivas... Você notou como a posição do observador pode focar diferentes pontos de vista ao contemplar um fato? Isso nos faz pensar que cada um de nós pode assumir diferentes posicionamentos para observar a realidade e nos permite criar diferentes perspectivas na análise dos acontecimentos, já que estamos sempre nos transformando... Vamos refletir um pouquinho mais sobre isso estudando a obra Las Meninas. La Familia de Felipe IV, também conhecida como Las Meninas, é o nome de um famoso quadro pintado em 1656 pelo pintor espanhol Diego Velázquez. A obra está hoje no Museu do Prado. Nesse quadro, ao centro pode-se ver a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha de Felipe IV, acompanhada de suas damas de companhia, de seus criados, de uma anã e uma criança que mexe com um cão. Já no canto esquerdo, vê-se um auto-retrato de Velázquez. Os reflexos do rei e da rainha da Espanha surgem num espelho atrás da infanta. Acima do retrato há dois quadros do acervo do palácio e, mais ao fundo, um homem entra em cena e movimenta a cortina, trazendo mais luminosidade à tela. Nomeada originalmente como A Família, a tela foi salva de um incêndio que atingiu o Palacio Real de Madrid em 1750, passando ao Museu do Prado em 1819 e recebendo, posteriormente, o título de Las Meninas. Embora "menina" seja uma palavra da língua portuguesa, era usada na corte espanhola com o sentido de "dama de companhia". http://pt.wikipedia.org/wiki/La_Familia_de_Felipe_IV Conhecendo a obra... É importante lembrar que a reprodução da obra no papel faz perder traços da sua originalidade. A pintura na tela reserva características que contribuem para a atenção a detalhes, nem sempre visíveis, quando estudamos uma cópia, uma vez que alteramos o suporte, o tamanho e a intensidade das cores, por exemplo. Vamos ver o que conseguimos perceber nessa reprodução? Las Meninas Diego Velázquez, 1656 óleo sobre tela 310 × 276 cm Museu do Prado (Madrid) http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a4/Velazquez-Meninas.jpg 1. O que o título da obra “Las meninas” nos revela sobre a pintura? 2. Observe a organização dos elementos no espaço. Como os personagens e os objetos estão distribuídos na composição da cena? Existem recursos que dão uma ilusão de profundidade (sobreposição, transparência, iluminação, dimensão, proporção)? 3. Como o jogo de luz e sombra determina o foco da pintura? Para quem seria dado maior enfoque? 4. Lembre-se do início deste capítulo: uma imagem não é a realidade; ela representa a realidade. Essa representação nem sempre é fiel, pois mistura as impressões do pintor, seu ponto de vista em relação ao elemento retratado. No caso da obra de Velazquez, observe as pessoas retratadas. Por que fariam um retrato? O que é um retrato? Por que as pessoas retratam-se? 5. Repare na aparência das personagens, suas vestimentas, sua posição na cena, suas expressões. O que esses dados podem revelar sobre eles, sobre seu tempo, seu modo de viver? 6. Para que público Velazquez teria criado essa obra? O que ela representa? 7. Percebe-se, também, que o pintor retrata a si mesmo, registra a sua presença na cena. De que forma isso se torna possível? Esse recurso por ele utilizado teria uma finalidade, uma vez que ele prestava serviço ao Rei? 8. Repare, também, no fundo do quadro. Há um espelho onde são retratados o rei e a rainha. Como poderiam aparecer nesse espelho? Onde eles estariam para serem refletidos pelo espelho? Difícil responder? Realmente, pois nisso reside um enigma que tornou esse quadro alvo de muitas análises! Talvez a história do pintor possa nos ajudar a desvendar esse mistério... Diego Velázquez 06/06/1599, Sevilha, Espanha 06/08/1660, Madri, Espanha Diego Rodríguez de Silva Velázquez pintou cerca de cem quadros, obras de grande valor. O seu naturalismo barroco permitiu-lhe captar, como ninguém, o que via. Atingiu um conjunto de conquistas que não encontraria semelhança até ao século 19. Altivo, inteligente, conhecedor da história da arte, retratista da família real, alcançou as honras de cavaleiro da Ordem de Santiago por sua fidelidade à Coroa. Os pais de Velázquez chegaram a Sevilha no final do século 16. Seu pai era um fidalgo de origem portuguesa e logo percebeu a aptidão do filho para a pintura. Velázquez teve como mestres Francisco Herrera, o Velho, e em 1610 entrou para o ateliê de Francisco Pacheco. Ali permaneceu por muitos anos, obtendo, em 1617, o diploma de pintor e, no ano seguinte, desposando Joana, filha de seu mestre. Nessa época, suas obras mostram influências do naturalismo de Caravaggio e Pieter de Aertsen. Em 1622 Velázquez foi chamado a Madri para pintar o monarca Felipe IV após a coroação, pois já eram famosas as suas obras "Velha fritando ovos", "Adoração dos Magos" e "O aguadeiro de Sevilha". Quando o pintor flamengo Rubens visitou a corte madrilena, o único pintor que desejou conhecer foi Velázquez. Os dois tornaram-se próximos e chegaram a viajar juntos. Rubens estimulou-o a viajar para a Itália, onde permaneceu de 1629 a 1631. Lá descobriu a escola veneziana, e estudou Ticiano, Tintoretto e Veronese. Pintou "A forja de Vulcano" e "A túnica ensangüentada de José levada a Jacó" (ambas as telas com a influência de El Greco). Regressando a Espanha em 1631, Velázquez deu início à sua fase mais produtiva. Para o palácio de Bom Retiro fez retratos eqüestres de Felipe IV e pintou "A rendição de Breda"(1634-1635). Em 1649 retornou à Itália em missão oficial, para adquirir peças para a coleção real espanhola. Antes de voltar a Madri, pintou o retrato do papa Inocêncio X (1650), que lhe valeu celebridade internacional, e duas paisagens, ou seja, duas vistas da Vila Médici em Roma. Em Madri foi encarregado da decoração dos palácios reais. Nessa época pintou os retratos da rainha Mariana e da infanta Maria Teresa (que posteriormente se tornaria rainha da França). Por volta de 1655 pintou "As Fiandeiras" e, no ano seguinte, concluiu "As Meninas", composição que os críticos consideram sua obraprima, síntese de seu realismo e de seu idealismo. http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u479.jhtm Vamos retomar o quadro “Las meninas””? ü Atente para os recursos utilizados pelo pintor e explique de que forma eles cooperam para a composição da cena. ü Quais os aspectos culturais, sociais, políticos e artísticos podem ser destacados da obra-prima em questão? Qual a importância dessa pintura para a França e para a Humanidade? O que ela contempla sobre a história daquelas pessoas? ü Os dados da história dessa imagem pictórica possibilitaram a produção de determinados sentidos e não de outros, contribuindo para que pudéssemos compreender o modo de ser da realeza em um tempo e lugar determinados e o modo como construíam a história de seus reinos, razões que podem explicar a forma como essas personagens encontram-se ali representadas. E, para nós brasileiros o que essa tela representa? ATIVIDADE COMPLEMENTAR O filósofo grego Heráclito defendia que “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, porque tanto a água como o homem mudam incessantemente”. Dessa forma, cada vez que registramos uma imagem, captamos um momento único, irrepetível. A imagem de uma fotografia, por exemplo, é o congelamento de um acontecimento, marcado no tempo e no espaço. Quando registramos nossa imagem num retrato, seja através da fotografia ou da pintura, algo de nós permanece intocável e nós mesmos jamais poderemos repetir a mesma cena registrada. Vamos retomar um pedacinho da sua história? Para isso, trabalharemos com duas fotografias suas. A primeira deve ter registrado um momento do seu passado e a segunda um momento mais próximo possível da atualidade. 1. Observe a fotografia mais antiga. Você conseguiria falar desse tempo e desse lugar? O que essa imagem representa na sua história? O que ela é capaz de revelar sobre você? 2. Compare-a, agora com a foto do presente. Que traços da imagem anterior permanecem evidentes na sua imagem atual? O que mudou? O que você gostaria que tivesse mudado? O que poderia permanecer mais evidente? Por quê? O que essa imagem evidencia da história que você vive hoje? Que marcas deste momento ela deverá guardar? 3. Você seria capaz de imaginar essa imagem no futuro? Como ela seria? Que alterações o tempo poderia lhe trazer? O que você mais deseja que permaneça? O que gostaria que mudasse? O que você pode fazer para preservar os traços que mais valoriza na sua imagem? O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás… E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto [...] Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914 http://www.pessoa.art.br/?p=484 REFERÊNCIAS AZEVEDO, Ricardo. O caso do espelho (Versão de conto popular de origem chinesa) Fonte: revista Nova Escola (maio de 1999). Disponível em <http://novaescola.abril.uol.com.br/ed/122_mai99/html/era.htm>. Acesso em 20/11/2008 CAEIRO, Alberto. O Guardador de Rebanhos. Disponível em: <http://www.pessoa.art.br/?p=484>. Acesso em 10/12/2008. CALABRESE, Omar. A linguagem da arte. Rio de janeiro: Globo, 1995. Apud. MARTINS, Mirian Celeste Ferreira Dias; PSICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. terezinha Telles. Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. Espelho. Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/Espelho>. Acesso em 20/11/2008. HOLANDA, Chico Buarque de. Construção. Disponível em <http://www.zapletras.com/letra/135413/>. Acesso em 20/11/2008. Ilusão de Ótica. Disponível em <http://www.npdbrasil.com.br/portugues/curiosidades.htm>. Acesso em 10/12/2008. La Familia de Felipe IV. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/La_Familia_de_Felipe_IV>. 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